sábado, 29 de junho de 2013

Rezá é bão, neinho, dá conforto, esperança

Ensaio 8B
baitasar
Larguei os pensamentos do tiuzin Manoel longe dos preparativos de dormir. Tomei o banho que faz o descarrego do dia e enfiei o sono embaixo das cobertas, Neinho, ocê sabe qual o costume qui os preto e os branco, os pobre e os rico, tem igualzinho, Não sei, avó, Qué sabê, Por que a avó pergunta, se a avó vai dizer de um jeito ou de outro, Ocê, então, presta atenção no jeito de escutá, To escutando, A estupidez, Será, Isso é coisa qui só os home tem, bicho não tem.

Fechei os olhos, queria ser recebido com sossego pelo adormecimento, mas a voz da avó chegava de longe até mais perto, o bafo do desassossego entrava como sussurro de cantoria abafada, No começo a estupidez chega com modo, depois, ocê queira ou não queira, ela fica forte e durativa, até que o estúpido começa perdê domínio sobre a quantidade da tontice qui engoliu e fica desorientado, o coração si perde da cabeça qui si perde do corpo, Eu rezo para não perder o mando do meu pensamento, Rezá é bão, neinho, dá conforto, esperança, mais é preciso praticá o entendimento contra burrice, transformá o cavalgadura em sabedô, como um pai-velho qui conhece o amô de vivê.

Rezei pra avó se aquietar, mas ela foi mais um tempinho conversando. Fiquei com sono rápido. Disse boa noite, revirei na cama. Dormi. Sonhava que deitava no colo da avó, ela enfiava os dedos no meu cabelo até me adormecer. Rezava e cantava. Logo, chegou a hora marcada pra levantar, uma pequena dormida entre empurrar e tirar o sono das cobertas quentinhas. Na hora do toque de levantar, não conseguia abrir os olhos para os assuntos do tiuzin Batata. As vistas estavam grudadas

—        Acorda, moleque... tem que desaninhá!

Os olhos dormentes, parados, inchados, com vontade de não abrir, o apetite da soneira não tava saciado, na verdade, eu tava esfomeado de sono

—        Fumaça!

—        O que foi, tia? — a tia não tinha o costume de deixar os seus assuntos de interesse sem resposta, nem tinha motivo de alegria com a minha desobediência de dar mais importância e atenção pra Viação Anônima, não deixava passar dia ou noite sem comentar que a escola da universidade estava esperando pelo negrinho

—        Os dente... não esquece a escovação... precisa fazê brilhá! — resmunguei qualquer coisa e revirei para o outro lado, todo retorcido

—        Fumaça! — o chamado do tiuzin parecia toque de corneteiro no quartel, convocação de ascensão. Não tinha jeito de não escutar. O susto levantou primeiro, depois o fantasminha do corpo, o último que se desfiou das cobertas foi o hálito dos espíritos. Todos no tempo de reunião no quarto higiênico. Um anão sonâmbulo. Um espírito fantasminha. Água fria. Café preto, forte e amargo. O gorro. Calça de brim. Botina militar, presente do tiuzin Manoel. Casaco de lona, por cima de tudo: da camisa azul, dos ombros, do café, dos milicos

—        Estou pronto, tiuzin. — levava a guia da roleta Anônima num dos bolsos, a outra, no pescoço.

A madrugada amanhecia desembestada. Eu galopava ao lado do tiuzin, dois passos meus e um dele. Até que reduziu a fome e o feitio de comer o caminho das ruas, cada caminhada se parecia com a mordida no pão, o destino de chegada já ia na boca, traçado um passo antes, então, quando acabou de manducar com a sola da botina o chão da estrada, encostamos na garagem da Anônima. Antes, de cada um ir para o seu canto, o tiuzin cochichou sobre os seus planos

—        Fumaça, vô puxá o corujão...

—        Por que, tiuzin? — ele virou o nariz de batata e me ficou de frente, vi que o tiuzin tinha experimentado o gosto do dinheiro e não tinha intenção nenhuma de queimar aquela esperança de ganhar uma lasquinha do mais

—        Mais hora, mais dinheiro...

O dinheiro come tudo, tem mais fome que a vida descontrolada, come a vida, lambe os dedos e bate os beiços até que a doença vira morte, É bem assim, fioneto, ocê nunca tem o dinheiro, ele é qui tem ocê e ninguém gosta de sabê qui a vida é ilusória, então esconde a vida no dinheiro, Avó, agora não é hora de assombração aparecer, Bobagem, si ocê esperá pela hora certa, nunca faz nada, ta sempre esperando a hora certa, ocê sabe quem é qui acerta a hora certa do zanzo da vida, sabia que ocê não sabe, E a avó sabe, O neinho diz qui não é hora de assombração aparecê... essa conversa continua numa hora mais certa

—        ... e o pedido do largado novo, uma mão ajuda a outra, hoje é ele qui precisa, amanhã, pode sê eu. — o tiuzin se parou sério, depois fez o anúncio — O Manoel se ofereceu pra buscá ocê, neinho.

—        O tiuzin Manoel não obrigação nem a necessidade.

O tiuzin Batata ergueu a mão aberta e balançou na frente do rosto, sacudiu a cabeça de lado para o outro — É decisão decidida, ainda mais, si ocê não tem lembrança, hoje é dia do pagamento.

Se é assim que tinha que ser, assim é que seria, meu primeiro dia do pagamento.

Descobri que no dia do pagamento os carros reservas não se mexiam. Ninguém faltava, não tinha carro quebrado. O movimento na garagem era quase nenhum. Não havia nem um entra e sai.

Aproveitei para dormir até o intervalo do tiuzin. Depois que encostou o 22 na garagem, saímos para o almoço. A comida do nosso gosto: arroz, feijão, aipim, carne assada, tomate e cebola no vinagre e batata assada, só na pensão da tia Amora, ali, na volta da garagem, qualidade e quantidade.

Aí, veio o alívio da fome e a vontade do um cochilo passageiro. Uma pequena siesta. Sentei na sala de espera dos reservistas. Olhava às paredes, palavras cruzadas, o caso dos dez negrinhos. O João torto dormia o sono que facilitava a soltura do hálito dos espíritos. Roncava a solto. O quartel calmo.

Lá, pelo meio da tarde, o tiuzin saiu do esconderijo e voltou para sua rota. Era só esperar o dia se acabando. A noitecendo a malha das camas. Mais cruzadas, negrinhos nas paredes, os dez casos e a corneta, o final da tarde com o céu avermelhado e o corneteiro corno

—        João Torto do 69!

—        Sim, senhor... — o largador se aproximou com a sua planilha, deu a ordem de cumprimento imediato

—        O 69 vai puxá a rota da boa Esperança, o 171 do Chico da baiana quebrou. Vão lá, recolham os passageiros e terminem a viagem.

—        É pra já! Batatinha!

—        To aqui... — sempre confiei nas conversas que se tem só de olhar as aparências das pessoas, basta colocar os sentidos do olho na correnteza da atenção, e pronto, a história já foi quase toda contada

—        Ah, soldado no quartel...

—        Soldado do exército para os outros.

—        Que seja! Vamos!

Subimos no 69.

O João Torto deixava o caminhão estacionado encarando o portão, tudo provocação do quebrante.
A cavalaria pronta, o motor roncando

—        Pronto, guri?

—        Pronto! — saímos no socorro, dois cavaleiros sem exércitos, desenferrujando as marchas, os freios, acelerador. Um cavalo de ferro-velho, ferraduras pneumáticas, nenhum cérebro, o estribo recolhido, as portas fechadas, por dentro da uma armadura velha e corroída, João Torto comandava os pedais e o enfronte. Eu seguia, ao lado, seu fiel escudeiro, cantando hinos, rindo das piadas sujas, pedindo, gritando, sorrindo, tirando o chapéu para as senhoras, cobrando as passagens, recolhendo os lucros da Anônima, a fortuna do patrão.

Peguei o saquinho das moedas e distribui no caixa. Depois, puxei do bolso os cruzados: 10, 50 e 100. O trânsito estava arrastado. A estrada era uma arrastadura de difamar qualquer um, se movia lenta e pausada sob os cascos pneumáticos do Rocinante. Nossa rota iniciava a partir da transformação dos provisórios do 171 para o 69

—        Falta muito, João?

—        Quase lá... quase lá.

Quando chegamos no local do sinistro, os passageiros do 171 estavam na beirada do fio da calçada. Adivinhavam onde o João Torto iria estacionar. Paramos atrás do 171, junto a parada dos ônibus — Chegamos, Batatinha!

—        Mãos à obra!

—        Ta pronto, guri?

Respirei fundo, não foi nenhum suspiro. Não queria ficar atônito nem confuso, precisava da alma serena, era mais um mosquito brotando da pedra para viver seu ciclo, um querubim

—        Pode abrir as portas, João!

Os passageiros subiam reclamando, Onde se viu isso, onde se viu aquilo, Uma pouca vergonha, Falta de respeito. E eu, com tudo isso, só estava ali para levar todos a salvo para algum fim de mundo, Neinho, a gentileza não custa nada, tenta prová o gosto, Se a avó tem certeza, Ensaia antes, Não tem tempo

—        Senhores... senhoras... — ninguém ouvia, olhei o lado da avó, ela piscou o olho e sorriu, Não desisti, neinho, o silêncio não qué dizê qui tudo ta bão!

Fiquei em pé, na pontinha dos dedos, no meu assento de cobrador, agarrado no corrimão aéreo — Eu e o meu colega João viemos socorrer os passageiros do 171, desejamos que ao chegarem em suas casas, todos possam sentir o cheiro do café no coador, a água na chaleira chiando, o bule, Haiti, Haiti, Haiti... tá fazendo na cozinha, tá cheirando aqui...

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sábado, 22 de junho de 2013

Neinho, fazê o desamô é uma escolha... odiá é um gosto

Ensaio 7B

baitasar

Desgraça pouca é bobagem, basta uma bem pequena para arrancar o bem-estar do seu conforto, e fazer o sonho virar pesadelo, o povo emborcar na esquina como uma turba de linchamento, tão viva como a morte carregando flores, as mãos perfumadas com o sangue dos gritos, o castelo das cartas ruindo com o hálito do assopro, a hesitação convertendo as certezas, assim, quando a palavra some entre os grunhidos, furiosos e tempestuosos, a vida que se agitou com ruído desinquieto ganha a força da correnteza estúpida. Parece que é anônima, finge que revela, jura que faz denúncias, mas odeia as vidas que não são vidas, vidas escorrendo seu sem destino do ralo até o esgoto, não são pouca bobagem, são o adubo que floresce em lindas flores, em outros jardins com vida colorida que parece vida. Vidas desiguais da vida foram desistidas de compartilhar pão e amor, desde a meninice. Até que descubro que a não vida não tem o rosto que é o seu, tem o rosto que é o meu, Neinho, ocê ta com medo do quê, Medo dos gritos, avó, Bobagem, o silêncio não qué dizê qui tudo ta bão, pode querê dizê qui tudo ta morto, Quando isso termina, Ninguém sabe, neinho, nem os espírito tão sossegado, Depois das eleições, Nem depois, se ganhá quem tem qui ganhá.

Nestas duas semanas da reserva, João Torto do 69 e eu, recém-vindo ao conjunto homem-máquina, fizemos todas as rotas da Anônima. Ônibus velhos quebram fácil, pelo menos, mais vezes retornam das oficinas, não cumprem seus horários. Nossa missão: recolher os passageiros, finalizar o percurso e, se necessário, fazer as viagens de ida e volta do conjunto avariado. Os titulares da reserva. Os estágios da desconfiança e insatisfação com a Anônima aumentando a cada avaria.

O 69 era o décimo segundo jogador.

Um emprego sem maiores dificuldades, pelo menos, até essa viagem: cobrador. Sentado. Contando. Olhando. Conversando. Sem arrependimentos. O banco do 69 foi feito para mim. Faltava alguma coisa, um pequeno detalhe: sair da reserva. João Torto do 69 e eu com uma rota fixa. Um casamento. Filhos. Mulheres. Homens.

O João Torto já teve percurso de motorista titular, o nome cravado no quadro do horário. O desvio dele foi causo parecido com o tiuzin Jorge. Jogatina. Pediu emprestado, não pagou. Foi quando o largador passou o seu caso para o setor da disciplina na Anônima. Os enfreadores se reuniram com o João na sala fechada da correição. Não se sabe com certeza, o que aconteceu lá dentro, o João nunca quis falar, mas parece que levou uns tapas na cara. O sovaco da ditadura com suas práticas amenas. Faroeste. Os índios selvagens em extinção. O patrão manda além do emprego. Saiu dali, para a reserva indígena, longe dos brancos e do banco de horários. Nem a reserva dos índios. Foi enfiado na empresa de mineração do patrão. Anônima.

Mas como o João Torto tem protetor forte, o largador, para quem o Torto devia da jogatina, morreu de atropelo — Meu fioneto, sempre se tem o que recorrê. — é isso avó, o sujeito trancando o caminho dos outros precisa ter reforço de força forte para enfrentar o vigor do exército contrário. O largador antigo não teve ajuda atlética, se perdeu da vida.

O novo largador começou trazendo o João Torto, aos poucos, sentava no banco dos reservas, vez que outra, saia fazendo socorro. Foi quando entrei como cobrador das passagens do 69. Logo, passamos ao número um da reserva, o primeiro time a ser chamado, o mais valente, o mais forte, o mais rápido, a esmola do patrão para os outros.

Eu já me sentia quase titular. O João torto amansava minha euforia

—        Calma, moleque. A mão que dá é a mesma que tira.

Retruquei que só tinha preocupação com o cacete carregado deitado, dormindo embaixo do banco do João, aquilo mais se parecia com alguma marreta

—        Não é nada, Batatinha, apenas uma cautela de resguardo, uma maneira de conquistar corações e mentes.

—        Já usou?

—        Nunca foi preciso desembalar do pacote.

—        Assim... fique.

—        Amém.

O humor do João Torto estava de volta, era o comentário na garagem.

Queria que a vocação da tia Vanda de achar graça em tudo tivesse um jeito qualquer de voltar, na feição que parece havia voltado no Torto. Aquele jeitão sisudo não lhe pertencia. Até o tiuzin Manoel, que muito pouco vinha no casarão, tinha feito anotação do novo feitio da irmã

—        O qui se dá com a Vanda?

—        Desembestou-se... — tão de pronto respondi mais depressa arrependi

—        Bobagem da nêga, qué se colocá no lugá da mãe. A força não é boa conselheira, o tempo ensina melhó.

O tiuzin Manoel parecia engasgado com alguma coisa que pressentia de dizer, mas não se decidia, estava impertinente de não parar em nenhum lugar. Fazia vistoria na senzala, lugar dos meus festejos com a geografia, voltava na cozinha. Não falava do seu gosto. Sair por aí, dizendo aos outros, o que é bom e o que não é bom, é melhor, é mais fácil, o mais difícil é praticar a prática do que se diz. Ler os livros, escrever os livros, não é uma loteria, não é premio, é escolha. Saber ler não é uma escolha, pode ser um gosto, nem é suficiente, o bom humano enche a boca até se mostrar como pensa, nos livros, na vida, nas escolhas, não é uma loteria. Tinha vez que ouvia a avó, ela entrava sussurrando, vinha como um assopro, o hálito dos espíritos é lé com cré se você não sabe escutar os assopros da continuação da vida, Neinho, fazê o desamô é uma escolha... odiá é um gosto.

Rezava pra não parar de escutar os espíritos e a avó, Não pula nesse caminho da ofensa, o ódio afunda tudo e ocê junto, tem o gosto amargo da correnteza da morte

—        O moleque já recebeu o primeiro pagamento?

—        O tiuzin Manoel quer saber o quê?

O tiuzin respirou fundo, arreganhou os dentes e esfregou as mãos, deu uma olhadinha para trás, pareceu escutar algum chamamento, ou assopro do vento, fechou os olhos e, com um pequeno estremecimento, como um arrepio de medo, tentou espantar alguma assombração de aviso, depois da formalidade, seguiu em frente com as perguntas

—        Isso: se o moleque já provô do gosto do metal... já sabe o tamanho do numerário?

Tanto volteio com muitas idas e vindas, me preparei para o pedido de algum favor, ajutório de emergência

—        Não, ainda não provei do gosto, parece que amanhã...

—        E a folga?

—        Domingo.

Bateu as mãos com satisfação e girou o corpo sobre os calcanhares

—        Perfeito!

Não entendia da perfeição de receber o pagamento no sábado e folgar no domingo, nem quis perder meu tempo de dormir com aquela conversa, sem pé nem cabeça, Meu fioneto, tem qui tê cuidado com as conversa fácil, as palavra esconde a vontade escondida, o Capitão só foi achá o valô da nêga Laetitia quando já tava nas corrente levado pra longe

—        Boa noite, tiuzin.

—        Até amanhã, moleque...

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sexta-feira, 21 de junho de 2013

O uapé

Contos e Lendas de Amor - Argentina

O uapé





Pitá e Moroti amavam-se muito; e se ele era o mais esforçado dos guerreiros da tribo, ela era a mais gentil e formosa das donzelas. Porém Nhandé Iara não queria que eles fossem felizes; por isso, encheu a cabeça da jovem de maus pensamentos e instigou a sua vaidade.

Uma tarde, na hora do pôr-do-sol, quando vários guerreiros e donzelas passeavam pelas margens do rio Paraná, Moroti disse:

—     Querem ver o que este guerreiro é capaz de fazer por mim? Olhem só!

E, dizendo isso, tirou um de seus braceletes e atirou-o na água. Depois, voltando-se para Pitá, que como bom guerreiro guarani era um excelente nadador, pediu-lhe que mergulhasse para buscar o bracelete. E assim foi.

Em vão esperaram que Pitá retornasse à superfície. Moroti e seus acompanhantes, alarmados, puseram-se a gritar... Mas era inútil, o guerreiro não aparecia.

A desolação logo tomou conta de toda tribo. As mulheres choravam e se lamentavam, enquanto os anciãos faziam preces para que o guerreiro voltasse. Só Moroti, muda de dor e de arrependimento, como que alheia a tudo, não chorava.

O pajé da tribo, Pegcoé, explicou então o que ocorria. Disse ele, com certeza de quem já tivesse visto tudo:

—     Agora Pitá é prisioneiro de I Cunhã Pajé. No fundo das águas, Pitá foi preso pela própria feiticeira e conduzido ao seu palácio. Lá Pitá esqueceu-se de toda a sua vida anterior, esqueceu-se de Moroti e aceitou o amor da feiticeira; por isso não volta. É preciso ir buscá-lo. Encontra-se agora no mais rico dos quartos do palácio de I Cunhã Pajé. E se o palácio é todo de ouro, o quarto onde Pitá se encontra agora, nos braços da feiticeira, é todo feito de diamantes. E dos lábios da formosa I Cunhã Pajé, que tantos belos guerreiros nos tem roubado, ele sorve esquecimento. É por isso que Pitá não volta. É preciso ir buscá-lo.

—     Eu vou! — exclamou Moroti. — Eu vou buscar Pitá!

—     Você deve ir, sim. — disse Pegcoé — Só você pode resgatá-lo do amor da feiticeira. Você é a única, se de fato o ama, capaz de vencer, com esse amor humano, o amor maléfico da feiticeira. Vá, Moroti, e traga Pitá de volta!

Moroti amarrou uma pedra aos seus pés e atirou-se no rio.

Durante toda noite, a tribo esperou que os jovens aparecessem — as mulheres chorando, os guerreiros cantando e os anciãos esconjurando o mal.




Com os primeiros raios da aurora, viram flutuar sobre as águas as folhas de uma planta desconhecida: era o uapé. E viram aparecer uma flor muito linda e diferente, tão grande, bela e perfumada como jamais se vira outra na região. As pétalas do meio eram brancas e as de fora vermelhas. Brancas como o nome do guerreiro: Pitá. A bela flor exalou um suspiro e submergiu nas águas.



Então Pegcoé explicou aos seus desolados companheiros o que ocorria:

—     Alegria, meu povo! Pitá foi resgatado por Moroti! Eles se amam de verdade! A malévola feiticeira, que tantos homens já roubou de nós para satisfazer o seu amor, foi vencida pelo amor humano de Moroti. Nessa flor que acaba de aparecer sobre as águas, eu vi Moroti nas pétalas brancas que eram abraçadas e beijadas, como num rapto de amor, pelas pétalas vermelhas. Estas representam Pitá.




E são descendentes de Pitá e Moroti estes belos uapés que enfeitam as águas dos grandes rios. No instante do amor, as belas flores brancas e vermelhas do uapé aparecem sobre as águas, beijam-se e voltam a submergir. Elas surgem para lembrar aos homens que, se para satisfazer um capricho da mulher amada um homem se sacrificou, essa mulher soube recuperá-lo, sacrificando-se também por seu amor. E se a flor do uapé é tão bela e perfumada, isso se deve ao fato de ter nascido do amor e do arrependimento.

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Contos e Lendas de Amor

Co-edição Latino-americana. Editora Ática. 1986. São Paulo




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quarta-feira, 19 de junho de 2013

69

Obrigado, Chico!






Roda Viva
Chico Buarque


Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...(4x)

Composição: Chico Buarque
















Paratodos
Chico Buarque


O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Meu maestro soberano
Foi Antonio Brasileiro

Foi Antonio Brasileiro
Quem soprou esta toada
Que cobri de redondilhas
Pra seguir minha jornada
E com a vista enevoada
Ver o inferno e maravilhas

Nessas tortuosas trilhas
A viola me redime
Creia, ilustre cavalheiro
Contra fel, moléstia, crime
Use Dorival Caymmi
Vá de Jackson do Pandeiro

Vi cidades, vi dinheiro
Bandoleiros, vi hospícios
Moças feito passarinho
Avoando de edifícios
Fume Ari, cheire Vinícius
Beba Nelson Cavaquinho

Para um coração mesquinho
Contra a solidão agreste
Luiz Gonzaga é tiro certo
Pixinguinha é inconteste
Tome Noel, Cartola, Orestes
Caetano e João Gilberto

Viva Erasmo, Ben, Roberto
Gil e Hermeto, palmas para
Todos os instrumentistas
Salve Edu, Bituca, Nara
Gal, Bethania, Rita, Clara
Evoé, jovens à vista

O meu pai era paulista
Meu avô, pernambucano
O meu bisavô, mineiro
Meu tataravô, baiano
Vou na estrada há muitos anos
Sou um artista brasileiro

Composição: Chico Buarque

domingo, 16 de junho de 2013

Ágora

Alexandria

Quantos tolos indagam a si mesmos?




E assim começava a Idade Média...






sábado, 15 de junho de 2013

Ocê vai se enterrá sentado, enriquecendo o patrão da Viação Anônima

Ensaio 06B

baitasar



O redemoinho da vida é incontrolável, rompe resistências, tanto pode acagaçar bravos, como acabaçar covardes, encanta-se nas encruzilhadas com as oferendas, trouxas e carregos, não faz perguntas, nem procura respeito ou submissão, a sua fome come todos, é uma fome sem tamanho.

Arrumei o passo à passo, entrei com o pé direito na empresa, afinal, toda ajuda sempre é bem-vinda. O tiuzin Batata do lado. O rodamoinho me atraindo como o novo contratado temporário da Viação Anônima, o cobrador das passagens. Era o fim da vida de fartura com a miséria. Tinha um emprego de respeito. Minha primeira missão de importância fora do casarão Canela Preta. Começava viver o turbilhão dos ventos contra e a favor, uma tarefa de gente grande.

Ainda não aprendia, nessas horas a prudência é um consenso.

Naquela madrugada, durante o caminho até a garagem da empresa dos ônibus, o tiuzin Batata enunciava suas últimas recomendações. Sussurrava pequenos conselhos, perguntei se ele estava arrependido

— Preocupado, sobrinho... só preocupado.

Alguns passos em silêncio e mais recomendações, avisos que achava mais importantes, as lembranças que lhe vinham com as preocupações. Queria ter todas as certezas de não estar me levando para uma luta de morte. Caminhava temendo o caminho à sua direita e o outro à sua esquerda

— Moleque, trabalha certinho... dá conta da féria do dia... cuida o troco, se precisá contá de novo, é só contá, até ficá com certeza... no fim tem as conta do dinheiro e da roleta, elas tem qui chegá junta, pode até sobrá, mais se faltá dinheiro vai saí do bolso do moleque, até a conta fechá.. se trabalhá direitinho, logo, logo, o moleque recebe os benefício do patrão.

— O tiuzin pode botá confiança.

— Eu sei... eu sei...

Na primeira semana, fiquei na reserva, entrava na falta de algum colega cobrador. O reservista fica no alcance do largador, o sujeito que organiza as saídas tem uma planilha, um telefone e uma cara de poucos amigos. Mandou, está mandado

— João Torto!

— Pronto, chefe...

— Pega o 69 e faz a rota do Paulão... acabou de quebrar. O Fumacinha vai no poleiro.

— Já to embarcando... Moleque!... Você mesmo... soldado no quartel quer trabalho, esse é pra nóis! Qué?

— Já to indo!

O coração subiu pela boca, corri atrás do João Torto, o saquinho com o troco numa das mãos, a guia de controle na outra. O largador subiu no ônibus, pediu a guia e anotou o número do último passageiro na roleta — Podem ir.

— A cavalaria está saindo! — gritou o Torto.

Depois da primeira viagem, a afobação diminuiu, o troco ficou mais fácil de calcular, acostumei com o poleiro, quase sobrava tempo para olhar às ruas com suas casas e pessoas incógnitas ficando para trás, um passado que podia ver de longe, desaparecendo, um passado que nunca vi de perto, desconhecidos. Havia tanto para ser visto do poleiro, pessoas, ruas, esquinas, carros, buracos, curvas, freios, lugares por onde só passamos... nunca descemos.

Meus novos heróis eram grandes, bebiam, falavam aos gritos, tinham sempre uma piada suja e indecente escorregando no canto da boca, a barriga crescendo, engravidando da cerveja, a bunda sumindo. Já perceberam? O motorista tem muita barriga e pouca bunda, quase nenhuma. O cigarro amarelando os dedos, os dentes, a tosse, o pigarro, o perfume, eu continuava me forjando na fumaça cinza dos meus heróis. Saia com o tiuzin Batata às 4 horas da manhã, chegava à garagem pontualmente, 4 e meia. Recebia o troco, às vezes embarcava, outras esperava pelos infortúnios. A primeira viagem saia às 4 e 45 minutos. Para e anda. Sobe e desce. Todas as luzes animadas. O dia acordando as ruas, as casas espreguiçando. A minha confiança aumentando, Um passinho mais pra frente, por favor. Não tinha muitos arrependimentos, esse não seria um remorso a mais, era um bom emprego, Segura João, ta subindo... feeecha! É isso, vamos levando todos, ninguém fica para trás, como um rodo puxando a água derramada. Limpando as ruas das paradas, derramando no curral das fábricas.

A minha missão era cobrar as passagens, se possível, sendo gentil, Bom dia, senhora. Nem tudo é tão bom que não possa melhorar, Um passinho mais à frente, por favor, feeecha! É isso, ninguém fica para trás. Amontoadinhos.

O largador fixava a tabela com os horários às 4 e meia. Os soldados rasos tocavam o horário até às 11 horas, com intervalo até às 4 da tarde, depois finalizamo às 10 horas da noite. Os peixes do patrão – peixe é o empregado com serviço de importância que só o patrão reconhece – saiam às 8 da noite. Perguntei ao tiuzin como se explica esse grande companheirismo entre o patrão com um ou outro funcionário, O moleque já ouviu falá sobre o acontecido do favô qui se paga com outro favô

— Uma mão lava a outra.

— Isso, mais também pode acontecê qui a mão suja emporcalha a outra.

Entendi o recado: preciso ficar com os olhos e ouvidos atentos, boca fechada, as moscas não entram e não saem palavras de arrependimento. Quase não carrego nas lembranças remorsos de muito peso, uma ou outra coisinha, o tempo dos sonhos com a geografia, o cabelo nas mãos, o beijo no galego, essa boquinha me atrasou mais que podia imaginar, a primeira comunhão, não quis ser coroinha, nem apeteceu o lugar do Tigão no tráfico, não queria minha boca cheia de ouro ou de terra, melhor não arriscar... se arrependimento pudesse matar, hoje seria bispo ou patrão, preto ou alemão, ninguém notava diferença no rabo daquela sereia.

Na segunda semana continuava na reserva. Queria um itinerário fixo antes de terminar o contrato de temporário. Um feito muito difícil, nunca dantes feito. Repetir o caminho e as pessoas. Conhecido. Famoso.

A tia Vanda ficava acordada, esperando. Não estava perdida da razão, desconfiava daquele prodígio sem desafio, Eita emprego de cobrar sem graça. Eu não queria nenhuma guerra na família, mas pareceu que a tia vivia enciumada porque o tiuzin fez o arranjo do emprego. Continuava parada até me ver entrar no quarto. Não tinha o que a curasse. Continuava me repreendendo na porta, só deixava passar quando percebia que nem toda água da torneira da chuva ia me afogar. Voltava as baterias aéreas para o tiuzin

— Batata, com esse horário maluco, o moleque não vai estudá!

– É tudo temporário...

Depois da primeira semana de serviço, o largador espalhou na garagem que o pequeno Batatinha era competente no ofício de cobrador, não dava para ficar bem de vida, mas já tinha emprego, logo, recebia o dinheiro

— Tia Vanda...

— Fumaça, não tem escola qui ensina no meio-dia até metade da tarde. Tudo tem jeito certo de fazê.

— Tia, aprendi com a avó que não tem um jeito certo, apenas. Tem o jeito certo da pessoa que os outros precisam escutar com a atenção do coração... é temporário... depois, é só ficar conhecido como o tiuzin.

A tia pareceu perder a sua paciência, eu também estava no mesmo ponto do desencontro, queria que ela num pequeno esforço pudesse me entender, mesmo que fosse uma compreensão aos frangalhos, com os trancos e barrancos da incompetência que temos para enxergar os outros: os egoístas estão lá fora, nunca estão dentro

— O teu tio é o caso do famoso qui é desconhecido. O preto com preparo na corrida, qui tem um treinadô ditadô: o motorista branco do caminhão do lixo. Ninguém pode sê mais malvado no cumprimento do horário. Não para o caminhão, só sê fô cruzamento ou perigo da pessoa na frente. Os preto lá atrás, pega no latão, vira no caminhão, corre pra devolvê, pega outro latão, vira e corre pra devolvê. Tudo sem perdê a imundícia dos outro pra fora do caminhão. Se perdê tem qui voltá e ajuntá, se não voltá vai escutá reclamação, se repetí, pega gancho. Vai pra reserva. O Batata não perdia nem farelo do latão. Corria mais qui o caminhão. Nos torneio, ganhô sempre. Era melhó qui os outro. Abriu os caminho correndo. Fez conhecido bão. Um ajuda daqui, outro dali, saiu do caminhão e virô cobradô das passagem. Num outro pulo já ficô de motorista. O carregadô de gente. E ocê, moleque? Vai corrê? Chutá bola? — me olhava de um jeito sem pena, sem dó, media a minha força, o tamanho da minha vontade, queria me fazer ver o que ela pressentia, o medo de não dar certo, mirar no alvo errado — Ocê vai se enterrá sentado, adormecido da bunda, enriquecendo o patrão da Anônima.



A tia falava a verdade, como se a verdade só fosse aquela verdade, até a mentira pode virar verdade, a lorota só precisa encontrar algum ouvido desatento, ou com maldade, e pronto, vira uma verdade verdadeira. Não tem empregado rico, só fica rico se roubar do patrão, que roubou do patrão. É isso, o dinheiro é incontrolável, corrompe as resistências, não faz perguntas, não responde perguntas, a sua fome come todos, come a fome. O empregado morre. O patrão morre. O homem morre. A mulher morre. O doutor morre. O traficante morre. O dinheiro continua comendo. O dinheiro come a morte e cospe na nossa cara, continua comendo até que a vida morre — Merda!

— O que foi moleque?

— Esqueci a guia no bolso...



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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quando comecei desconfiar que tinha mais alguma coisa... por lá

2001 Uma Odisseia no Espaço






... para muitos é difícil pensar, então, imaginem esse carinha aqui embaixo... pensando! e foi filmado! que furo! que gênio! que arma!

... por que paramos de pensar?


 para quem não viu... 

Não canso de ouvir e lembrar o mundo do futuro

Blade Runner-Love
Vangelis




Minha primeira visão futurista do amor!


















quarta-feira, 12 de junho de 2013

As lágrimas de Potira

Contos e Lendas de Amor - Brasil

As lágrimas de Potira

Muito antes de os brancos atingirem os sertões de Goiás, em busca de pedras preciosas, existiam por aquelas partes do Brasil muitas tribos indígenas, vivendo em paz ou em guerra e segundo suas crenças e hábitos.
Numa dessas tribos, que por muito tempo manteve harmonia com seus vizinhos, viviam Potira, menina contemplada por Tupã com a formosura das flores, e Itagibá, jovem forte e valente.
Era costume na tribo as mulheres se casarem cedo e os homens, assim que se tornassem guerreiros. Quando Potira chegou à idade do casamento, Itagibá atingiu sua condição de guerreiro. Não havia como negar que se amavam e que tinham escolhido um ao outro. Embora outros jovens quisessem o amor da indiazinha, nenhum ainda possuía a condição para as bodas, de modo que não houve disputa, e Potira e Itagibá se uniram com muita festa. 
Corria o tempo tranquilamente, sem que nada perturbasse a vida do apaixonado casal. Os curtos períodos de separação, quando Itagibá saía com os demais para caçar, tornavam os dois ainda mais unidos. Era admirável a alegria do reencontro.
Um dia, no entanto, o território da tribo foi invadido por vizinhos cobiçosos, devido à abundante caça que ali havia, e Itagibá teve que partir com os outros homens para a guerra.
Potira ficou contemplando as canoas que desciam rio abaixo, levando sua gente em armas, sem saber exatamente o que sentia, além da tristeza de se separar de seu amado por um tempo não previsto. Não chorou como as mulheres mais velhas, talvez porque nunca houvesse visto ou vivido o que sucede numa guerra.
Mas todas as tardes ia sentar-se à beira do rio, numa espera paciente e calma. Alheia aos afazeres de suas irmãs e à algazarra constante das crianças, ficava atenta, querendo ouvir o som de um remo batendo na água e ver uma canoa despontar na curva do rio, trazendo de volta seu amado. Somente retornava à taba quando o Sol se punha e depois de olhar uma última vez, tentando distinguir no entardecer o perfil de Itagibá.
Foram muitas tardes iguais, com a dor da saudade aumentando pouco a pouco. Até que o canto da araponga ressoou na floresta, desta vez não para anunciar a chuva mas para prenunciar que Itagibá não voltaria, pois tinha morrido na batalha.
E pela primeira vez Potira chorou. Sem dizer palavra, como não haveria de fazer nunca mais, ficou à beira do rio para o resto de sua vida, soluçando tristemente. E as lágrimas que desciam pelo seu rosto sem cessar foram-se tornando sólidas e brilhantes no ar, antes de submergir na água e bater no cascalho do fundo.


Dizem que Tupã, condoído com tanto sofrimento, transformou suas lágrimas em diamantes, para perpetuar a lembrança daquele amor.

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Contos e Lendas de Amor
Co-edição Latino-americana. Editora Ática. 1986. São Paulo



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O uapé (Argentina)

sábado, 8 de junho de 2013

Ele não é bicho, neinho, é meu fio

Ensaio 5B
baitasar
O tiuzin João saiu da intimidade do casarão. Desapareceu. Nenhuma palavra. Não deixou nenhum aclaramento. Ficou a falta da explicação para o sumiço. Sobraram suspeitas e suposições. No meu jeito preocupado de ver, o tiuzin não ficou conformado com o dinheiro cravado nas pedras do casarão, tinha e não tinha um dinheiro que não lhe existia. Não podia vender o casarão no contrário da vontade dos manos. Ele não existia, tinha e não tinha um nome, ninguém lhe via ou sabia. Nunca quis o Canela Preta, preferia as ruas.
Fui o último que viu o tiuzin naquele final de tarde, a última vez vestido de cavalo. Embaixo do céu vermelho ele foi atingido pelo fogo, arrancou o casco da tartaruga, largou a carroça e os arreios jogados no chão, saltou a cerca do curral, parecia uma lebre. Agora, ele era uma lebre. Continuou caminhando, não parou mais. O andarilho. Entre as paredes do casarão surgiu o primeiro comentário conhecido sobre aquela demência, Se é pra sê desse jeito destrambelhado qui fosse bem longe.
Maltrapilho, sujo, mijando e caminhando, não comendo e caminhando, não dormindo e caminhando, desprezado. Um errante com andadura de marcha. Anônimo, abandonado da sua ambição de homem, mais um, entre tantos outros. Sentia pena de mim mesmo, sentia raiva do tiuzin: um homem daquele tamanho se desperdiçando
—        O senhor quis vender a memória da nossa gente... da família...
—        Bosta de lembrança qui não tem serventia. — também fui o último que ouviu a voz do tiuzin João endereçada na família, a suposição mais aceita para o mutismo do tiuzin com os parente: voto de mudez até o casarão ser vendido, Depois de vendê... depois de vendê...
O tiuzin não tem uma organização convencional, não sabe onde caminha, é como enxerga o mundo: uma estrada, uma rua, um beco sem saída. O caminho não está por dentro do tiuzin
—        Moleque, deus não existe, e se acaso existi, ele não tem cuidado de cuidá dos preto, ele tem o padre pra cuidá pra ele... e padre não é a mesma coisa.
—        Deus não precisa de cuidado, Ele cuida da vida de todo mundo.
—        De um qui outro... até pode sê.
Fiz o sinal da cruz e resmunguei, pedi aos espíritos dos mais velhos intercedência pelo tiuzin, Neinho, deixa o João, ele ta sincero no desejo de andá sem preocupação de religião. Não ta com interesse em ninguém, não tem plano de ajudá nem atrapalhá
—        Ele perdeu a esperança, avó?
—        Ta sem um lugá de chegada. Não vê futuro. Escolheu vivê separado do seu prestígio de cavalgadura. Não qué esse caminho de bicho.
Entendi a avó: a mãe entende o filho que o mundo não aprende. O tiuzin não quer mais se ajustar aos arreios da carroça que recolhe garrafa vazia, ferro velho, junta osso e vidro quebrado, Ele não é bicho, neinho, é meu fio
—        Mas ele quer vender o casarão...
—        E daí?
—        A avó viveu no casarão, aqui tem as histórias dos preto...
—        Bobagem, moleque, os preto tem qui encontrá jeito de vivê melhó, se os branco qué pagá pelo casarão, e as memória qui tem dentro, vai tê qui trazê muito dinheiro. Si fô muito dinheiro, ocês leva as lembrança pra outro lugá.
—        A avó acha que é preciso vender? — antes da resposta, o palheiro com o fumo de corda é puxado num suspiro firme até que a brasa voltava com jeito de acendida, depois ficava entretida, saboreando o próprio entupimento daquela fumação. A avó é tão esperta para alcançar o conhecimento da nação dos preto, e tão ignorante com outras coisas
—        Se fô preciso... pode vendê.
—        Mas avó e todas as histórias que tão aqui?
—        Não vejo mistério nem segredo, é só o compradô aceitá os dois preço.
—        Os dois preços? Quê dois preços é esse?
O fumo da corda queima mais um pouco. Olho a avó, quero vê se ela brinca com essa ideia fixa do tiuzin João, mas não ta com jeito de brincadeira, não ta com jeito de tristeza, a avó sabe o tamanho do valor dele
—        São duas casas, essa qui ocê vê com as vista da cara, a outra, ocê só vê se fechá as vista e enchê o coração com as história do espírito dos mais velho. As história dos mais velho continua aqui. O compradô precisa pagá pelo serviço de discontá essas história, esvaziá o casarão, fecha o poço da nêga Laetitia.
—        Não tem comprador pra comprar o que não vê.
—        Neinho, não é dinheiro o problema do compradô, é as história qui ele conhece de ouvi falá, aqui e ali, não credita, mas não descredita. Não qué perdê dinheiro de pagá pra abri as corrente. Pagô pra apertá as corrente nas canela preta, mais não qué pagá pra soltá o Canela Preta das corrente. Se querê muito o casarão, vai tê qui indenizá as tortura e pagá pra abri as corrente dos mais velho qui continua agarrada nos mais novo.
A conversa resmungada com a avó nunca me deixa perder a confiança nas palavras. Tinha certeza que era preciso resistir a tentação de vender, mas era o caso de esperar a avó aclarar as ideias, depois voltava no assunto. O que se vende fica na mercê da vontade do comprador, se ele põe tudo abaixo, o casarão acaba, nunca mais existe. Isso não tinha que acontecer.
Essa vontade do tiuzin vender tem sua razão porque ele perdeu a confiança nele mesmo. Ficou doente de vagabundear pelo mundo, sem paradeiro, abandonou o casarão por qualquer lugar, e nada aprendia. Tinha vez que se postava na encruzilhada por onde passavam os que iam ou vinham. Pedia os ebós para Oxalá. Se algum passante perguntava sobre o seu trabalho, respondia, To sempre no posto guardando a casa de Oxalá. Carregava um ogó, Pra que serve esse porrete, perguntavam os que passavam na encruzilhada
—        É pra afastá gente ruim qui tentá enganá a vigilância.
Fez da encruzilhada a sua casa, agora tinha a fama e o seu lugar, sua casa
—        Acho qui agora fico rico, ninguém passa na encruzilhada sem pagá alguma coisa.
Mas o tiuzin não tirou de si a desesperante ansiedade pelo andar. Nesse tempo da sua andadura sem parar ou vigilância na encruzilhada, eu terminei meus estudos do segundo grau e escapei do quartel. A tia Vanda achava que precisava festejar as duas coisas, o diploma do colégio e o corte na vida de milico, Não quero sabê dessa conversa de arma e bala, nada é tão ruim qui não tenha jeito de melhoria.
O casarão não foi vendido, não tinha comprador para as duas casas. Foi o tempo das coisas irem se acomodando enquanto as águas voltavam para dentro das margens do casarão Canela Preta.
O que parecia sem jeito de melhorar era o tiuzin, já tinha dormido no zadrez. A fama dele ia de mau para pior. Diziam dele: é um tranca ruas. As tias não pareciam encontrar preparado de socorro para o tiuzinho andarilho, um jeito, um remédio, uma palavra, uma opinião, uma surra que pudesse tirar o mais velho acampado no corpo e no pensamento do tiuzin, Moleque, irremediável só a morte... há de tê um jeito.
Às vezes, não tem uma reabilitação. Um desastre. O primeiro amor, meu primeiro desconforto. A professora da geografia quis mudar o meu tamanho quando eu disse da vontade do meu coração, os atrevimentos das minhas mãos, depois que ela falou, Você precisa crescer, achei que poderia ter ficado calada, Você precisa crescer, ocê precisa crescê, Quem carecia de crescê era ela, fioneto.
Não conheço nenhum caso do anão que cresceu mais que um anão. Não tem remédio, não. Foi o jeito de me dizer, Moleque, vê se enxerga o teu lugar de ficar. Foi quando desisti da geografia, descobri que existem pessoas que não conseguem viver sem torturar as outras pessoas. O meu tamanho não precisa ter solução, já está resolvido, Avó, sou do jeito que eu quero, Esse é meu fioneto.
Nada é tão ruim que não tenha jeito de melhoria, o tiuzin Batata, depois que se firmou no cargo de motorista da Viação Anônima, chegou espalhando alegria
—        Consegui emprego de cobradô das passagens pro moleque, ele já tem a idade e o conhecimento pra trabalhá.
—        Não sei não, Batata. A mãezinha qué vê o moleque com diploma de doutô.
—        Trabalhá não faz estorvá, o qui pode impedí a conclusão do diploma é a falta do dinheiro. — o tiuzin tava na sua razão
—        Eu consigo, tia Vanda. Faço os dois: estudar e trabalhar.
—        Eu sei qui ocê consegue, mais a vontade da mãezinha não é essa...
O tiuzin Batata levantou em silêncio, a cara era de poucos amigos, caminhou pela cozinha, dava voltas — O moleque precisa de sabê trabalhá... já tem idade de homem.
—        Mais não tem o tamanho.
Olhei espantado, A tia, também?
O amor de muito cuidado pode provocar alergia, arrancar as medidas da confiança, tornar hábito o medo, transformar em tragédias as regras simples, um caldeirão fervente de coisa ruim
—        Eu vou trabalhar com o tiuzin! — a opinião geral era que eu estava condenado a não chegar ao tamanho de um homem. Um personagem esquisito, desusado, ocultado de maneira modesta até morrer. Sem reabilitação. Um desastre preto. Anão não cresce, é o amálgama das preces que não deram certo com os crioulos
—        Mais meu fio sobrinho...
—        Tia, já tenho decisão tomada. Assino contrato de temporário; se der no jeito, fico no carro do tiuzin, se não der no jeito, tudo bem. Começo já, onde for mandado.
—        E os estudo? Ocê carece de escutá a avó... — tinha desconfiança que a escola não foi feita para mim ou não estava pronta para os netos da avó —  Mais ocê, meu sobrinho, daqui de fora, não vai fazê mudá... daqui de fora, ocê só vai fazê é olhá.

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