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quinta-feira, 20 de março de 2014

O mate está esfriando

Ensaio 34B
baitasar

O preto em pé com o cabungo nas mão, os óio sem piscá. Os pé descalçado. Parecia qui um pé tinha vontade de seguí num rumo, o otro pé com a decisão de caminhá otro destino; cada dedo apontava um caminho pra fazê longe dali. Dez dedo, dez lugá diferente pra vivê longe das obrigação de escravo, afastado daquela miséria de branco adormecido de sê gente; distante do chicote da infâmia. De tanto andá descalçado não sentia gosto de usá qualqué coisa nos pé. De tanto tempo sem dente não lembrava mais de mastigá. De não tê língua ou só metade dela, qui era quase a mesma coisa qui não tê, perdeu o gosto de falá. Ficava parado com a boca fechada pra não deixá entrá as mosca. Tinha vez qui sentia saudade de escutá a voz qui foi dono, té isso lhe tirô o dono bondoso da chibata. Deixô de sê dono do qui queria falá. Nem o nome conseguia repetí. Logo o nome qui foi ensinado dizê qui era seu, um nome qui aprendeu junto com as primeira cantoria de nascê. Respirava com cuidado. Nenhum suspiro enquanto esperava a cusparada verde do magistrado juiz

—         Esse é o meu bom Salvador. Dos negros que disponho como minha propriedade, os negros do Tribunal são adequação do serviço público, esse é o negro da mais segura segurança, se os dois amigos me permitem a redundância do circunlóquio.

Colocô as vista no preto qui se aproximô com o cabungo. Otra cusparada verde. A bebida do chimarrão é um costume mui apreciado, sobretudo, no frio. Na Vila, quem tinha tratamento de gente havia de tê o costume de mateá proseando. As duas coisa acontecia junto. Mais de primeiro, era uso da boa maneira e finura oferecê o mate com a erva-mate já no ponto da quentura. Então, o primeiro mate amargo e frio era do convidadô. Ele puxava o mate na bomba, depois cuspia o amargo frio pra não tê desgosto de gosto na barriga.

O magistrado juiz era filho da terra, mais um das fidalguia qui muito novinho foi mandado fazê seus estudo de doutô advogado e juiz, bem longe, precisô atravessá a estrada das água feita pros branco. A estrada das água feita pros preto carregado nos navio negreiro alimentava os navio qui levava e trazia os fio da fidalguia. A estrada das água dos branco. Eles ia ignorante e voltava interesseiro. Não é de estranhá qui voltava interesseiro, todos qui vinha de lá chegava pronto pra usá as carne dos índio e dos preto pra fazê riqueza. E usô té cansá de usá.

Toda sabedoria dele sobre o povo da terra, qui deixô bem novinho, era as história qui lembrava das conversa do velho pai tomando chimarrão com as visita. Hábito qui juntô rapidinho nos seus dia-a-dia. Durante o mate gostava de enaltecê as basbaquice qui reparava desde qui chegô da estrada das água. Tratava logo de avisá qui pensava em francês, não conseguia pensá na língua da Vila

—         O povo mestiço da Vila é inapto para o progresso, a preguiça está entranhada, jamais saberão beneficiar-se das riquezas naturais da terra, que se diga para o seu próprio bem, e os homens de valor da Vila, não deveriam ter a posse. Só assim, talvez, conseguissem evitar a exuberância da lascívia.

Miofioneto, entendeu por causo do quê ocê precisa tá na escola? Pra não tê qui segurá o cabungo pros branco cuspí. Eles vai fazê tudo pra ocê não ficá, mais o mifioneto precisa teimá. O homem branco matô quem quis, na hora qui quis, carregô com ele a praga das doença e do jeito branco de vivê. Acabô com os otro jeito de vivê pela força das arma e as riqueza qui roubô. Criô o dito qui avisava, quem não tinha uma boa arma ou um bão exército, mais dia ou menos dia, ia sê conquistado. Mais quando era do seu interesse se apoderô das utilidade dos índio e dos preto. O mate, por exemplo, era costume dos índio qui ele fez uso e domesticô, pra modo de dizê qui as coisa boa ele não destruía, fazia uso. E fez ficá branca, pra modo de conseguí rezá, a rainha Iemanjá. Nunca vi gente mais interesseira e menos trabalhadeira.

O magistrado juiz ia proseando e esvaziando a cuia. Otra puxada, otra cusparada. Té qui roncô a bomba. Siná qui acabô o mate. O magistrado juiz oiô pro Salvadô, o preto se aligerô de largá o cabungo no piso madeirado. Pegô na chaleira pra serví otro mate. Esse ficô fumegando na cuia. É bonito de vê a espuma esverdeada ladeando o topete do mate

—         Agora, tomo o segundo. E já podemos começar a prosa do assunto original.

O chefe das pulícia ainda tentô voltá na trama anteriô, mais o magistrado juiz ergueu a mão qui não segurava o mate e interrompeu a chefia da sua pulícia. Deu otra puxada. O mate nas mão do bão proseadô servia pra criá adiamento, as delonga com as palavra qui explicava os pensamento, uma prosa sem palavrório. Quando parecia qui ia começá a argumentação, deu otra puxada e a bomba estremeceu roncando. Ele oiô pro preto e perguntô

—         Salvador, parece que ocê fez o mate mais curto que o costume e o meu gosto.

O Salvadô não mexeu nenhum cantinho da cara pra confirmá ou negá. O magistrado juiz esticô o braço pra trás com a cuia, o preto serviu a água quente no mate

—         Amanhã... amanhã. Por agora, o Chefe devia aproveitar o mate e escutar os pensamentos do Governador que nos chegam através das palavras do seu Ouvidor. — estendeu a mão esquerda com a cuia e o mate renovado pro chefe das pulícia — Lhe ofereço com a mão do coração, sinal da minha estima e confiança.

Pra essa sua avó, mifioneto, sempre interessô vê as coisa pequena despercebida, mais qui tem serventia pra muitas coisa, precisa sabê vê

—         Do mesmo modo aceito.

O chefe das pulícia estendeu a mão esquerda do coração, ainda carregava no colarinho do punho o sangue preto do João Amaro, pegô a cuia ricamente lavrada e ornada em ouro, com o feitio dum seio pardo, opulento e farto. A bomba, um canudo em prata lavrada, tava ornada com muitas pedra preciosa. O bocal era feito em ouro.

O magistrado juiz fez um pequeno siná com os óio pro Salvadô. O preto largô a chaleira no chão, juntô o cabungo com as cusparada verde do seu dono e sumiu pelo piso madeirado. Parecia sabê onde pisá pra modo de não fazê o chão gemê. Não conseguia escutá lamúria de qualqué gemeção qui fosse, sem sentí o coração amargurado de tanta tristeza qui té não se importava de virá um cão sem dono. Livre das ordenação de qualqué laia. Imaginava qui à noite virava um homem qui encantava as preta encorpada das cadeira. As cadeiruda. Contava as suas história de cão sem dono. Agarrava as anca graúda da preta e dormia enlaçado. A encantação era só magia qui tinha das história dos antigo; ele sabia qui a libertação podia tomá o tempo do crescimento do baobá, mais ia vim

—         Acredito que assim todos se sentem mais à vontade.

O chefe das pulícia já tinha participado dos encontro naquele esconderijo de conversa secreta e acordos camuflado, mais foi a primeira vez qui ficô incomodado com as janela fechada. O abafado tava lhe impedindo de enxergá nos óio dos conversista. Pensô qui vinha cansado das estripulia com as tentativa de consertá o preto cortado da língua. Tinha nas venta da cara o suô fedido e forte do preto, misturado com sangue, xixi e coco, qui o avariado deixô escorrê das corpulência da carne. Anotô nas memória qui precisava esclarecê pro recém empossado capitão do mato, qui a Vila não tinha o hábito de aplicá corretivo de sangramento descontrolado, É ruim pros negócios.

Deixô as vista pensativa no piso madeirado e puxô o mate. A boca se encheu com o amargo verde e quente. Engoliu tudo de uma só vez, Ainda bem, pensô durante o tempo qui o mate levô pra descê amargo, que a incomodação com os donos do negro preso é serviço da alçada do magistrado. E apesar do descontrole do novo contratado pela Comarca da Vila, esse descomedimento se educa, os serviços da polícia ficaram mais parados. É bom ter descanso vez que outra.

Otro puxão no mate e a bomba roncô

—         Senhores, vamos às conversas que nos trouxeram aqui? — os dois voltô as vista pro ouvidô. A cuia do chimarrão foi té o magistrado juiz qui encheu com a água da chaleira e ofereceu pro aconselhadô do governadô. Ele pegô com a mesma mão do coração — Obrigado.

O magistrado juiz subiu a mão e fez gesto de desacordo

—         Não agradeça, divida com seus amigos as preocupações que lhe fizeram convocar essa reunião.

O mate precisa sê sorvido sem pressa pra modo qui a prosa fique sem a afobação da impaciência, té qui ela acostuma com a preguiça da bebida. O aconselhadô era mateadô experimentado, usava como ninguém o tempo de tomá o mate pro seu gosto de proseá, ora apressando, ora acalmando as palavra fervendo nos pensamento. Na primeira puxada, tinha preocupação com o oferecimento do magistrado juiz, Coisa que não se tem na política, muito menos, quando se chega ao topo da carreira, são amigos. Aqueles que um dia lhe juram amizade, no dia seguinte, podem ser capazes de lhe puxar o tapete dos pés. Se quiser ter amigos precisa ficar longe da política, em nome dela o filho luta contra o pai.

—         A sua Excelência sabe que não podemos enfraquecer a voz do sinhô Padre, não é interesse do Governador, nem da Vila, afinal, ele fala em nome da Santa dos nossos favores. — parô pra tragá de novo o mate, fez com mais calma qui o seu costume, queria alongá o silêncio pra não corrê o risco de acusá a Santa ou a pulícia, Ela não consegue impedir de ser roubada, se fosse ele a santidade, resolvia tudo com uma ou duas palavrinhas com o Sinhô de Tudo.

Como a narração da trama tava parada o chefe das pulícia aproveitô pra interrompê o silêncio

—         Como é isso? A Santa está sendo roubada?

Nas barba do chefe das pulícia e do manto da Santa, teve vontade, mais não disse. O magistrado se contentô em afroxá a voz

—         O assunto teve começo antes da sua chegada na reunião.

O chefe ergueu os ombro e abriu os braço.

O aconselhadô achô meió não se metê na conversa dos homi das lei, na Vila. Fez movimento de tomá otro gole, mais tratô de acalmá ainda mais o seu jeito de tragá o mate. Inventô té um entupimento da bomba, qui podia acontecê, mais, no caso pensado, era invencionice pra se desviá com atenção das explicação dum lado e otro

—         Se entendi as razões do Ouvidor, devidamente explicadas antes da sua chegada, os associados da Irmandade, nossos amigos, estão roubando as doações que fazem à obra Santa. Eles dão o donativo, depois pegam de volta um pouco do que foi dado.

O chefe das pulícia lavô as mão

—         Não vejo nenhum crime, sua Excelência. Eles estão pegando o que já é deles.

—         Depois que foi dado à Santa é da Santa.

O chefe deu de ombro com sua caramunha de desdém

—         Não podemos deixar com a Santa a feitura da justiça?

O aconselhadô fez roncá o mate e, antes de devolvê pro magistrado juiz, interferiu na prosa

—         O sinhô governador me fez a mesma pergunta.

O magistrado juiz estendeu a mão do coração pra recebê de volta a cuia do mate. Enquanto despejava a água na cuia e preparava a sua vez de mateá, não oiava os outro. O chefe achô meió desencadeá uma resposta de mais precisão

—         E qual foi a sua resposta para o Governador?

O perguntado apertô as vista, como se pudesse oiá meió os propósito do otro. Juntô as mão como se pudesse rezá o qui nunca rezô na vida, mais só queria parecê mais sério que parecia

—         Disse que é um jeito de não fazer o que precisa ser feito, mas o problema é o porta-voz da Santa, o sinhô Padre. Ele tem o balcão das domingueiras. É arriscado fechar os olhos.

O magistrado juiz tava puxando o mate, isso lhe autorizava fazê silêncio pra pensá, O povo não vai entender porque quem dá, e pode dar, pega de volta o que foi dado. Mas as leis não podem ficar acuadas pelo sacerdócio.

O chefe das pulícia lembrô do óbvio qui os otro dois já tinha pensado

—         E os associados da Irmandade?

—         Não podemos expor nossos amigos, gente valerosa, credores do Governador junto ao Imperador.

Foi quando o magistrado juiz, qui só pensa em francês, explodiu da raiva e perdeu a formosura

—         Filhos da puta! Não sabem que com um punhado de escravos e um chicote se pode enriquecer? Medíocres! Roubar as obras da Santa! Por acaso, eles não são brancos, cristãos e civilizados? Não roubamos nós mesmos!

Os otros dois não se oiava, nem arriscava concordá ou discordá, tem hora qui é mais bão guardá as palavra e fazê silêncio. Eles esperava qui o magistrado juiz pudesse pará de gritá pra tomá o mate qui esfriava. Ele parecia atolado na raiva qui sentia dos preto e na vergonha dos branco, não conseguia pará. Tava esquecido do mate nas mão, tinha perdido a visão da sua volta

—         O que se pode esperar do conluio de selvagens inferiores, colonizadores oriundos de gente vil, assassinos, e negros boçais e degenerados? Essa mistura é nossa desgraça!

—         Excelência...

—         O que foi? — a voz tava feito gelo, nenhuma paixão

—         O mate está esfriando.

O magistrado juiz pareceu saí do seu transe de ódio, mais os óio ainda piscava, levô o mate té a boca e tomô tudo em duas puxada.
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segunda-feira, 3 de março de 2014

Um lugá qui nunca existiu

Ensaio 33B
baitasar
Ali, num lugá qui não existe, despovoado da permanência da vida, o juiz da excelência das lei na Vila e do império, ajuntado com o aconselhadô do governadô, tava tendo uma conversa qui nunca existiu frente das vista um do otro. Os dois era representadô do imperadô debaixo da guarda atenta e das vista do governadô. Eles gostava de tê conversa conciliatória antes da bocagem aberta e oficial dos assunto de interesse sigiloso. O emaranhamento das conveniência do imperadô,  do governadô e das fidalguia precisava arrumação de capricho, agilidade e o hábito de acertá os assunto da Irmandade antes de se enredá neles. É ajuntamento pra pouco ouvido. E os qui fô escutá tem qui controlá a tentação da língua repetí o qui os ouvido escutô. Por isso, o lugá das reunião sigilosa qui nunca existiu não era paradeiro do conhecimento entre as fidalguia e os moradô comerciante da Vila. Aquilo qui os óio não vê, os ouvido não escuta, o coração não há de sentí e a língua não há de espaiá.
O parasitismo das fidalguia não queria mexê no qui tava bom pra ela, nem interessava sabê as coisa qui acontecia ou deixava de acontecê, desde qui as bondade de cortesia do imperadô e dos seus representante alegórico não mudasse de lado. Faziam gosto de rí com as bondade do imperadô. Ele tinha o dom de serví e gastá mais qui ganhava pra esbanjá. As extravagância do imperadô e té das fidalguia se repetia todos os dia. Coisa de quem manda e desmanda com cortesia. A boca dos oposicionista qui reclamava dos privilégio qui não tinha era fechada com as ruindade das lei.
As lei nunca foi aplicada nos amigo, elas serve pra controlá os inimigo. Os de fora da Irmandade. Mais os pobre, as puta e os preto. Esses não tinha boca, mais era útil pra mostrá o lado triste das treva. Eles servia pra avisá os descontente qui o qui já tava ruim podia piorá. Uma espada jurada em cima das cabeça dos desgarrado do bom senso: Amanhã, se ocê é um desgarrado por birra ou coração vai poder se juntar a manada silenciosa dos miseráveis.
O decisório das lei é um podê dos pouco qui se diz fundadô da Vila .
Um sítio clandestino usado pra encontro furtivo e secreto. Esquecido de sê destinado como lugá dos encontro administrativo da governança ou recinto público dos julgamento da sua Excelência. Um lugá de decisão qui os subalterno do serviço público e os ajudante das lei não podia sabê. Os três funcionário do gabarito mais superiô do governadô - qui era da confiança do imperadô - aparecia e desaparecia, não devia conversá assunto reservado em qualqué lugá.
O assunto daquela reunião repentina não era uma trama qualqué. E podia virá assombração se eles não tivesse cuidado de combiná os interesse do siô padre com as conveniência da Irmandade. Pió podia ficá se os três não tivesse atenção com as comodidade do governadô. Eles gostava da missão, mais carecia qui fosse eficiente.
A porta dos fundo da casa qui nunca existiu abriu de repente, como se tivesse acomedimento de assalto. O chefe das pulícia entrô como gostava de fazê, sem cerimônias e com o pé na porta. Os dois já reunido e com começo de conversação se oiô com jeito aborrecido. Aquela turbulência tinha proveito de uso, mais no lugá adequado
—        Desculpem, os maus hábitos e o não cumprimento com a hora combinada, mas nem todas as horas me favorecem.
—        Pelo visto, o meu Chefe da Polícia não perde o costume da intempestividade com as portas.
Antes de respondê, o chefe procurô com as vista o contratante do encontro, lhe fez um gesto de saudação com uma das mão. A otra  mão levô ao bolso da calça manchada de sangue. Retirô a mão do bolso segurando um lenço todo manchado. Usô o pano rendado pra secá o suô da testa
—        Abafado, por aqui. — depois do murmúrio despretencioso, oiô na direção do juiz, pareceu medí a utilidade de instruí o magistrado sobre as ocorrência do dia. Depois dum suspiro resignado começô o falatório da explicação — Vossa Excelência, dono da sabedoria das lei, sabe que o tempo que se gasta pedindo licença rouba o tempo de cumprir meus deveres. E de mais a mais, a fama de muitos cavalos depende das esporas do cavaleiro. – parô otro pouco, fazia gosto de oiá os efeito das suas palavra. Gostava de misturá no meio da sua prosa alguns dito do povo. Puxô a cadeira qui tava lhe esperando e sentô de frente pra sua excelência
—        Amanhã, Vossa Excelência irá receber o caso de um negro fugitivo com dois donos. O negro tinha dois anúncios de fuga. O primeiro dava conta que o escravo de um tal Américo Soares, morador do Caminho do Meio, há mais de um ano se achava ausente dos seus senhores. Tinha sido seduzido por seu vizinho Moacyr Feitosa com promessas de libertá-lo. O nome do tal escravo é Amaro, estatura média, fala branda e expressiva. A cor do fugitivo é preta. O segundo anúncio dava conta que um escravo de Moacyr Feitosa fugido mais de três meses dos trabalhos, nas terras das cercanias do Caminho do Meio. O nome do escravo é João, estatura média, falante, intitula-se forro. A cor é preta.
O magistrado acariciô o queixo pontudo como se tivesse aprofundando o pensamento no livro das lei, depois coçô a cabeça de pouco cabelo, té quase na nuca, fez uma ou duas careta pra dizê com a voz impaciente
—        Amanhã se faz a pergunta do nome ao negro. Quem ele diz quem é, vai ser. Vamos continuar...
—        E se o negro não diz que é o Amaro, nem confirma ser o João? — os dois otro parô o recomeço das conversa pra escutá a pergunta do chefe, ele não parecia tê terminado o relato — O que me interessa é que o escravo fugitivo foi capturado e precisou ganhar um corretivo. Já tinha a marca de fujão.
—        O “F” na testa escura?
O chefe se desviô do juiz e respondeu
—        Bem assim, sinhô Ouvidor. Marcado em brasa. O capitão-do-mato, esse novo que foi contratado pela Comarca da Vila, achou por bem cortar a língua do negro e preservar as orelhas. Perguntei sobre as mudanças no procedimento corretivo. Vossa Excelência tem conhecimento que depois da segunda fuga o negro capturado leva a marca na testa, se o negro teima em fugir, e Vossa Excelência sabe que a teimosia dos negros tem crescido, a lei permite que se corte uma das suas orelhas. O Capitão mudou por conta própria a repreensão do negro e cortou a língua do fugitivo.
O magistrado mostrava na voz siná de irritação com aquele desvio qui já tomava tempo precioso, mais não pode evitá a pergunta do aconselhadô
—        E o sinhô Chefe da Polícia não lhe perguntou o motivo? Ou os motivos desse novo procedimento de admoestação do escravo fugitivo?
O chefe pareceu tê ficado agastadiço com as desconfiança da sua competência, se o recinto não tivesse tanta falta da luz, ia se podê vê qui ele ficô avermelhado como um pimentão maduro, mais a voz lhe traiu a impaciência. Respondia a perguntação enquanto oiava pro magistrado das lei
—        É claro que fiz a pergunta. O sinhô Ouvidor não tem obrigação de conhecer meu desempenho profissional, mas Vossa Excelência me conhece, não faço gosto de perder o controle dos cumprimentos das regras e das leis na Vila.
Na altura daquele relato, o magistrado juiz sabia qui ficá quieto não ia adiantá, o assunto tinha ficado num tamanho qui o silêncio não era o mais apropriado
—        O que foi que o Capitão lhe respondeu?
O chefe se sentia mais na sua vontade com as pergunta do magistrado juiz. Podia parece bobagem de subalterno pra superiô, mais não se importava de dá aclaramento pra quem devia obrigação de se explicá. Um pouco mais ou um pouco menos qui o soldado devê cumprimento de obedecimento aos fardado acima da sua colocação e esperá atendimento pelos debaixo. Mais o pió era sentí a dô de precisá respondê pra essa gente qui nunca vai chegá perto de lutá e pegá nas arma
—        Ele argumentou, no meu entender com sabedoria, que é melhor o negro escutar as ordens do dono que responder com alguma malcriação.
O magistrado juiz levantô do mesmo jeito qui o chefe entrô, a cadeira caiu de costas como um corpo sem vida, deu três passos na direção da porta. Parô e revirô o corpo, pareceu soldado fazendo volta volvê
—        E o negro?
O chefe subiu os ombro e abriu os braço, como se tivesse dando a entendê qui fez o seu possível na confusão criada pelo tal capitão. Esfregô as mão antes de prosseguí
—        Chamei o negro forro que tem o serviço de barbeiro e sangrador. Pensei que se o negro sabia fazer sangrar devia saber um jeito de não deixar sangrar. O tal se mostrou muito competente com a agulha e a linha. Fez as costuras no tal Amaro ou João que estava aos berros e urros. Tinha jeito de bicho. Um porco na hora do abatimento. Negro forte, não perdeu a consciência nem por um minuto. Berrava e se torcia. Mas, enfim, o serviço foi feito. Parecia que era só preciso esperar, mas uma coisa já era certa, esse não ia saber dizer o próprio nome.
O magistrado juiz deu dois passo de volta. Tinha as mão pra trás e um olhá de dúvida
—        Parecia?
O chefe das pulícia levantô da cadeira e endireitô a qui tava caída. Esperô qui o magistrado juiz sentasse. Parece qui ele não queria. Enquanto o magistrado juiz continuava em pé, parado, esperando resposta pra sua pergunta, o ouvidô do governadô lembrava das suas visão do barbeiro sangradô. Té qui o chefe se resolveu de respondê
—        O negro morreu afogado no sangue e engasgado com o resto da língua que engoliu.
—        Nem porco se trata desse jeito.
O chefe das pulícia exasperô sua calma, não ia ficá sentado, escutando as acusação desse pardo de boa vida. Mexê com ele era o mesmo feitio qui se metê com toda pulícia. Mexeu com um soldado, desafiô com o quartel todo. E se a vara qui cutuca fô curta corre o risco de não protegê a mão qui lhe segura
—        O que o sinhô Ouvidor-Geral sugere que tivesse feito? Quando peguei o caso, o negro já era puro sangue. Pensei em consertar a confusão causticando como se faz com a verruga, mas confesso que o serviço precisava de mais habilidade. Até colocar a focinheira um tempo grande já tinha se perdido. O negro sangrou até não ter mais o que sangrar.
O magistrado juiz já tinha sentado, fez sinal qui o chefe também se acomodasse. Afinal, o assunto de interesse da reunião pouco havia sido mencionado e eles precisava encontrá a calmaria do início. O chefe sentô. Aquela estripulia já lhe tinha arrancado das entranha boa parte das força qui tinha guardado pros festejo na rua dos Sete Pecado. O magistrado juiz qui fosse tê entendimento com o bicho do mato e os dois dono do negro
—        O Capitão quer o pagamento da captura, diz que entregou o negrão safado bem vivinho. Não recomendei nada, ficou tudo para sua decisão.
O magistrado juiz levantô, desta vez, como um cavalheiro. Ficô parado em pé, olhando as parede nua. Não tinha pintura de paisagem ou retrato. As mão pra trás do corpo. Calado. Nem se deu o feitio de virá pra liderança de pulícia na Vila. Não queria, mais fez otra pergunta, qui té já conhecia a resposta. Sabia a gula dos Vileiros por moedas de prata
—        Tudo o quê?
O dono das espora e dos cavalo achô meió não enfiá os pé na porta do magistrado juiz, afinal, a excelência do homem e os cuidado com qui usava os entendimento das lei, fazia dele o homem certo, no lugá certo, no dia certo, pras fidalguia, qui no fim de tudo era qui mandava
—        Amanhã, o sinhô Magistrado vai ter três queixosos: o capitão-do-mato exigindo pagamento da captura; os dois donos do negro morto vão querer indenização do prejuízo. Vossa excelência decide quem tem direito no negro morto e quem não tem. E quem ganhar a custódia do corpo já faz a destinação do defunto.
—        Onde está o negro?
—        Continua preso até sua decisão. — o chefe das pulícia precisô segurá a sua vontade de tê um arroto de satisfação. A clareza com qui colocô os fato no colo do magistrado juiz era virtude qui desentravava quando se punha de fazê travessura pro bem ou pro mal — Na verdade, eles querem ter direito no negro vivo, acontece que o negro está morto. E não se sabe se é o Amaro ou o João.
O magistrado juiz voltô a sentá, e pelo oiá de conhecimento do chefe das pulícia com os feitio do siô juiz, ele já tinha decisão tomada
—        Vamos tomar um chimarrão! — nem bem terminô a frase dita, um preto sorumbático e calado entrô segurando a cuia em uma das mão e a chaleira com a otra. Entregô nas mão do magistrado juiz e se foi
—        Então, quem está na vez do chimarrão?
—        Esse é o primeiro, Excelência. — respondeu o chefe das pulícia. Pegô o pano rendado e manchado qui tinha guardado no bolso da jaqueta, passô na testa
—        Isso mesmo... cabungo! — o preto voltô no aposento. Trazia um cabungo pro magistrado juiz cuspí as primeira puxada do chimarrão servido com água fria, pra modo de não entupí a bomba — Então, cabe a mim o prazer de esquentar a erva para o mate com os amigos.
O ouvidô do governadô oiô com espanto a novidade. O magistrado juiz viu a inquietude e o sobressalto nos óio do otro, se apressô de dizê

—        Esse não fala, só escuta.

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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Avó, João Torto e a professora

Ensaio 32B
baitasar
—        Ocê sabe com quem está falando?
Mifioneto, essa deve sê a pergunta qui a fidalguia mais ensinô os fio fazê, pra modo de calá os miserável. Tá mintendendo? Eles pergunta e não responde, deixa qui a resposta fique dentro de ocê, roendo a coragem e a vontade de lutá. Eles mostra pros fio como é qui se faz fazendo, num tem meió exemplo pros fio qui o pai cumpridô do qui promete. Faz os desafortunado creditá qui tem na frente um inimigo maió qui sua força de lutá, pelo menos, é o qui eles qué fazê ocê pensá
—        Cuidado! Ocê não sabe com quem está se metendo...
Com o tempo de uso, a mesma pergunta mudô um pouquinho aqui, outro ali, e se alastrô nas teia da fidalguia parasita qui adora dizê qui ela é qui trabaia e faz a riqueza de tudo isso. E foi se enfiando, criando o costume de creditá ela mesma qui foi assim, é assim, vai sê sempre assim, aumentando o gosto de sê obedecida sem pergunta. Inté qui esse seu jeito dominadô chegô nas pulícia, nas justiça, nos doutô,  nos jornalista de imprensa, qui parecia qui ia escapá dos parasita, mais não escapô. O mifioneto já deve de tê escutado da professora
—        A professora aqui sou eu, cala a boca!
Eu sempre desconfiei qui isso não é jeito de educá diferente, mais o véio modo de ensiná das fidalguia, Ocê sabe com quem tá se metendo?, mais vai chegá o dia qui os minguado de pobre vai amotiná de sê tratado arrogante pelos patrício, vai aprendê gritá
—        E ocê sabe com quem está gritando?
No tempo do preto Josino, esse jeito parasita já tinha chegado nos funcionário do imperadô.
O imperadô representava o interesse público, se o mifioneto querê oiá esse tal interesse, como sendo a fidalguia parasita, o guri acertô. Era esses qui o imperadô representava. Assim, quem o imperadô convocava pra sê o representante alegórico dele, na verdade, falava e escutava e mandava por ele junto da fidalguia aproveitadora, qui nunca instruiu pra educá, mais pra obedecê. E se as lei do império governa o comportamento do cidadão, e os preto não era cidadão, mais uma mercadoria do ferramental do trabalho nas plantação ou um utensílio de uso nos casarão, então, ele era alguma coisa qui não podia tê comportamento, só obrigação.
Tá mintendendo? Tá entendendo por que ocê tá sentado nesse banco de cobradô e não tá no banco da escola?
O imperadô é soberano!
Faz, autoriza, determina o cumprimento das lei, pra dá conta de tudo isso, nomeia as indicação das fidalguia pros serviço público. O imperadô é assim, no mesmo tempo, a paz e a força. O podê tudo pode com dureza ou brandura, crueldade ou fleuma, coação ou docilidade, ele constrange ou libera; tem vez qui é veemente, mais tem otras qui é desanimado. E quando ele é uma coisa ou otra? Ele decide nas suas comodidade e interesse.
As fidalguia qui o imperadô escolhe e promove faz a incumbência suja com as suas concordância. Quando qué é rápido, decidido e cruel. Mais quando não qué sê duro, fica um docinho de coco. Daí, desse tempo, o dito do povo, O rigô das lei é pros inimigo, as bondade das lei é pros amigo. Ele fez as lei assim, com generosidade e ruindade, e escolhe em quem aplicá uma ou otra.
Foi fácil, assim. É fácil, assim.
As vista grossa e os favorecimento das lei é a generosidade com a fidalguia parasita. As ruindade das lei é pros miserável, os pobre e as puta; a justiça da ruindade ou generosidade não é pros preto. Os preto tá mais embaixo.
Tá mintendendo? Já consegue vê como ocê foi jogado nesse banco de trocadô de passagem? Alguém tinha qui sê, ocê foi escolhido antes de saí da barriga da sua mãe. Já tá vendo por que os fio da fidalguia fica com as meió indicação do imperadô?
—        Mas Avó, já não temos mais Imperador. Isso acabou fazem mais de cem anos... a escravidão foi abolida. Os negros são livres!
—        Já vi qui o mifioneto só enxerga o qui a fidalguia parasita diz pra oiá. O imperadô saiu, diga-se de passagem, calmamente, sem maió susto pra ele e os qui ficô. E quem foi qui ficô? A fidalguia tomô o seu lugá, por isso, não saiu junto. Nunca saiu depois qui chegô.
—        Isso eu sei, viramos uma República!
—        De golpes e tramoia! E sabe por quê? Continuamô a sê dominado pelos parasita qui faz ocê ficá aqui, nesse banco, enquanto eles prende e julga quem eles qué, faz as lei qui qué, diz o qui qué e só escuta o qui qué das suas conveniência. É pouco?
Os parasita faz as lei, executa e aplica, ocê tá mintendendo? Ocê e eu, os preto, os pobre e as puta vivemô na ditadura da fidalguia parasita. E se ocê quisé sabê quem é essa gente, tem qui aprendê oiá e escutá. Eles são egoísta e tem gosto de dizê bem grande com a voz branca, às vezes, dura, otras macia, é a tal da conveniência
—        A nossa Vila é o lugar da liberdade, da ordem e do progresso. — mais não diz quisso tudo é pra eles, as fidalguia parasita.
Tirei os olhos do corredor do ônibus, um instante, minha desatenção deve ter durado menos que um piscar, quando procurei a Avó ela não tava. Largou o tambor, ensaiava os passos da dança para sua Rainha.
Girava, girava e girava num branco e azul. Os olhos fechados. O mar, as algas, a estrela-do-mar, os peixes. O arco-íris de Oxumarê. A mãe dos orixás. Os passageiros batiam palmas e cantavam, celebravam a Senhora de todas as cabeças. Cantavam os orixás. Festejavam. A Avó abria os caminhos
—        Ela tá girando
            É a Rainha do mar
O João Torto parou o carro e desceu. Caminhava na areia, para um lado e outro, com um charuto entre os dedos, indicador e o maior de todos da mão direita; na outra mão, carregava uma garrafa de cachaça. Fumava e bebia enquanto falava a língua dos orixás. Não sei onde ele guardava os utensílios
—        Ô João! João Torto! — não parecia ser mais ele.
Os passageiros iam descendo e formando um círculo na volta da Avó e do Preto Véio. Lá dentro tava a África. A terra perdida. O homem comprido que estava enfiado na janela do teto desceu com o tambor na mão. Foi ele que começou a batucada, é bem assim, não sabemos o que nos cabe até que desistimos da busca inútil de ter tudo
—        Ela tá chegando
            É a Rainha do mar
A Avó girava, o Preto Véio ia e vinha, os dois no meio da cantoria e da roda de gente. O terreiro no ônibus dos passageiros. A nostalgia, a areia molhada, o manto azul voante, flutuante. Uma garoa fininha que parecia subir nas espumas das águas molhava as cabeças. A Mãe das águas do mar estava abençoando o batuque que não parava
—        Iansã cadê Ogum
            Foi pro mar
A mãe e os filhos correndo, dançando, cantando. Iemanjá e os seus dez filhos. A professora e a sua bolsa aberta olhavam de longe, ela carregava nas mãos flores coloridas: marrom, vermelha e branca. Foi se aproximando da roda até que fechou os olhos e começou a girar. A bolsa sorria para a professora girando, cantando, dançando. Batiam palmas, cantavam alto
—        Mas Iansã cadê Ogum
            Foi pro mar
A velhinha carregava um tabuleiro com cocadas coloridas: branca, verde e azul-real. Ela girava alegre, me olhava e chamava, até que fechou os olhos
—        Olha aqui fora! Vem olhar!
Os tambores, os agogôs, os xequerês e adjás. Os homens e mulheres da roda davam vivas, batiam palmas, Iemanjá, Iansã, Ogum, os orixás dançavam com o corpo da Avó, João Torto e a professora. Estavam de novo acostumando com os humanos. O Céu ajuntado à Terra. Os humanos e os orixás felizes
—        Eu vi, Avó!
Um preto do tamanho mais alto tava escorado num poste. Parecia uma montanha. Tinha a envergadura do varapau qui escorava. Um no otro. Olhava direto nos óio do guri. Usava um riso zombateiro qui fazia qualqué um hesitá. Parecia cara de nojo, mais não era nojo, talvez desdém, um oiá de negligência com as descoberta do guri. O preto não tinha cortejo, só a confiança própria de quem carrega a verdade, mesmo qui o carregamento da retidão e honestidade não lhe dê nem a liberdade, nem a bondade, apenas a dô da injustiça desalmada, sem um pouquinho qui seja da compaixão do Jesus branco.
Um oiá mais atento nos detalhe e se via qui o preto escorado no poste da luz ficava mais maió qui o poste. Olhando mais alerta e cuidadoso dava pra vê qui ele carregava no corpo as marca dos lanho. E não parava de crescê. As mão gigante de carregá a escravatura segurava um lápis e um apontadô. Enfiava o lápis no apontadô e girava o lápis té descascá e afiná a ponta. Agachava té o chão e riscava a terra. Depois alevantava, girava o lápis no apontadô té descascá e afiná a ponta. Agachava té o chão e riscava a terra. Na volta dos pé, um amontoado de casca da serraria do lápis cobria té as canela preta
—        Ocê viu o quê, mifioneto?
O preto de tamanho muito grande continuava apontando o lápis e escrevendo na terra, té qui ele cortô e levantô o chão, fez siná com os óio, o guri precisava oiá os escrito qui o sopro dos orixá tinha deixado na terra, tava na língua da criação, Iorubá, pra não sê misturado com as poeira dos branco misericordioso, os dono da escravatura. Os dono do céu branco qui eles comia e bebia nos domingo.
O preto agigantado carregô o chão nas mão té o guri, repetiu o oiá e esperô. A cantoria aumentô, as palma e o batuque ajuntô mais o Céu dos orixá com a Terra dos humano, té qui se ajuntô tudo no guri
—        Ocê precisa estudá pra ocê mesmo, mais também, por tudo qui tá em ocê dos mais antigo; por todo preto e toda preta que é ocê, e os qui vão chegá de ocê. Os dono da escravatura dos preto ainda não se libertô dos gosto do sangue nos lanho e na chibata. Sente prazê em acorrentá. Esses branco qui não se libertô creditá qui é dono dos preto. Ocê precisa ensiná qui ninguém é dono dos preto. Ninguém devia sê dono de ninguém. Pega o lápis e o apontadô
—        Eu vi o pobre cadeiado, o cuspe nas puta e a borracha nos preto!
Oiei o guri com as água dos óio subindo té em cima, no ponto de derramá. Não queria fazê choro. Fiz força pra segurá as água do carinho e da tristeza. Virei os óio na direção do poste da luz, mais o preto não tava, caminhava seu caminho sem oiá atrás, solitário e deslembrado, té qui chorei de raiva e a danação me deixô mais atrevida e forte pra dizê
—        É assim faz muito tempo, mifioneto!
É assim desde qui o primeiro preto pisô na Vila escravizado, era o tempo da carregação dos preto pra trabaiá e colocá comida na boca das fidalguia preguiçosa e hipócrita. Os branco da fidalguia mentirosa, desmemoriada das crueldade que fez, e continua tentando fazê, jura qui não é verdade. Tudo invencionice dos preto, dos pobre e das puta qui não gosta de trabaiá. Eles faz pouco caso, e repete té alguém creditá
—        Aqui na Vila, ninguém é preso ou morre porque é negro. O problema deles não é a cor, é a burrice que vem do berço. — a hipocrisia é uma das parte do parasita, o corpo e o sangue das domingueira alivia as fraqueza e intolerância dos otros dia. Pra gente assim, não descendo a borracha no lombo dos fio da fidalguia, tá tudo certo, a verdade das coisa tá dita e tá feita, se apanhô tava merecendo, se foi cadeiado alguma coisa há de tê feito; otra das parte da fidalguia, além de vivê acostumada com as bondade das lei, é a parte qui gosta de fazê caridade com o cu dos otro
—        E essas putas vagando pelas margens do rio? O que Vossa Excelência tem a dizer?
—        Poderiam trabalhar no serviço doméstico. O lugar da mulher não é na rua se oferecendo, mas não querem largar essa vida fácil.
—        Não querem.
—        Eu sei, preferem continuar onde estão. Na rua. Não tem muita coisa que eu discorde de Jesus e as suas misericórdias, mas defender as prostitutas foi demais. Deviam ser condenadas ao ostracismo. Francamente, sinhô Ouvidor, foi um desserviço essa historinha da primeira pedra. Muita misericórdia para quem não merece.
Isso já dura tanto tempo qui té o tempo desanima e gosta de creditá qui os branco é um doce e o inferno dos branco é meió qui o céu dos preto
—        Mas há quem devemos a convocação dessa reunião no Sanctuário? Por certo, não foi para ouvirmos um do outro o que já conhecemos dos negros e das prostitutas.
O oiá dos dois homem se cruzô de lado a lado, no recinto escurecido. Parecia dois risco de relâmpago preparando à tempestade, a chegada dos ventos e a descida das água. As janela fechada ajudava trazê mais abafamento antes da tormenta, como se ela não pudesse desabafá o prazê da traição
—        Vim à pedido do nosso Governador que se sente honrado por Sua Excelência receber esse humilde servidor. E mais humilde ainda,  como Ouvidor-Geral da Vila, um lugar de homens fortes e destemidos, prontos à luta e lealdade ao nosso Governador.
E o pió é qui eles achava graça nesses galanteio e boniteza de falá enquanto decidia o qui é certo, o qui é errado, quem valia a pena prendê, quem não valia, quem devia tomá um susto e quem nem merecia sê lembrado. Era quando se convenciam de julgá e não julgá. Eles tinha tempo de resolvê o qui precisava sê dito e o qui carecia de fazê silêncio, sabe como é, cara de paisagem, fazê de conta qui não viu, não escutô, não ficô sabendo. A sua excelência costumava repetí aos próximo da sua amizade, como um siná de atrevimento

—        A abundância de poderio e podridão da Irmandade obriga o cuidado de não entrar em reunião, nem fazê o julgamento dos associados sem que tudo tenha sido tratado.
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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O barbeiro-sangradô e os fidalgo parasita

Ensaio 31B
baitasar
A escravidão dos preto na Vila podia tê alguma diferença da escravatura nas fazenda das plantação, nas charqueada, mais não mudava qui os preto tinha dono. Não podia tê vontade própria, precisava obedecê té no jeito de criá os fio. Nem a decifração das letra escrita os preto podia sabê. Os dono da escravidão não deixava os preto sabê lê. A obrigação dos preto era com os trabalho nas plantação, nas charqueada. Tinha vez que era preciso tê briga com a castelhanada, então os dono da escravidão fazia a arregimentação militá dos escravo: prometia o qui não cumpria. A libertação. As preta tinha as tarefa diferente, mais não escapava de sê propriedade do siô branco.
Os dono da escravidão qui tinha fio fazia gosto de usá os serviço da muié preta no descabaço de guri. Os primeiro favô do piá pra encabeçá muié era na escrava da escolha do siô patrão
—        Até podia ser com algum outro animal, como foi no nosso tempo de guri solto com as bezerras do campo, lembra conde?
—        Coronel, não vamos dificultar com lembranças de tão longe. Usar o que lhe pertence, no seu gosto, é um dos direitos sagrados da propriedade, não aceite lições de quem quer que seja.
Quando o guri tava perto do tempo de conhecê muié, o siô dono de tudo escolhia a preta qui mais lhe apetecia. Tinha qui tá intocada. Primeiro o siô perguntava
—        A neguinha já conheceu homem? — se respondia qui já tinha sido enfiada, apanhava por não tê esperado as ordem do siô patrão, mais depois voltava pra sua lida; caso tivesse coragem de mentí — Não conheço homê — coisa fácil de descobrí. Apanhava e não voltava. O siô dono de tudo vendia a enganosa fingida. Era o tempo da lição da chibata e do exemplo
—        Preciso manter o controle das rédeas sempre esticadas.
Depois de procurá e se certificá de sê o primeiro, fazia a escolha melhó pra lhe serví os modo. Dava as instrução à menina, pessoalmente, três a quatro na semana. Quando achava qui a escrava tava no seu gosto, soltava o guri. As preta escrava com serventia na cama nunca sabia se ia parí o fio ou o neto do siô dono de tudo.
Pra compensá tanta tarefa, os dono de tudo consentia na aparição dos preto nas missa domingueira, antes da domingueira dos branco. Tudo pra não misturá o deus dos preto com o deus dos branco. Não durô muito o jeito de fazê duas missa, nem se sabe com certeza certa quem causô de mudá as duas missa em uma só. Uns achô qui foi o siô padre causo de quê não queria trabalhá duas missa domingueira; otros jurava qui foi arrumação direta do Siô Grande Siô, cansado dessa besteira de missa branca, missa preta. O desconforto dos branco nas domingueira era qui as palavra da reprimenda do siô padre pros ouvido dos branco entrava nos ouvido dos preto, ficava parecendo qui os pecado dos branco era igual os pecado dos preto.
Os branco não ficô conformado, é claro, té qui o siô padre achô otra solução mais pacífica: divinizô o departamento dos branco, na frente; e o departamento dos preto, atrás. Trocando em miúdo, os branco sentava mais perto do palanque do oratório, os preto sentava mais perto da porta da saída, mais não saía primeiro. Depois do sinal qui o sô padre repetia no fim da missa, o Siô Pai, Siô Fio e do Espírito Santo, amém, ele aconselhava
—        Ide em paz! E que o Sinhô os acompanhe! — os preto qui tava sentado levantava, mais continuava em pé parado, esperando os branco saí pela porta da frente. Quando não tinha mais branco na igreja, os preto podia saí pelas porta do lado. O parasitismo branco não ia se deixá desmoroná pelas missa e as palavra do siô padre, nem acabá o jeito de dominá por quem tinha feito as leis pra tê o direito de mandá.
O parasitismo religioso nunca pareceu parasita, pelo menos, pra aquele qui acredita qui o céu dos branco é diferente do céu dos preto, qui os preto precisava sofrê a escravidão e mostrá pra deus qui também merecia o céu dos branco. O siô padre tava lá, na tribuna do sermão, rezando pelo sonho do céu; a esperança de uma otra vida, otra chance. Impedindo pelo medo do inferno: a rebelião, a teimosia, o motim, a desobediência, a resistência, a rebeldia. E perdoando o navio negreiro, a chibata, o enforcamento, o defloro das pretas, o capitão-do-mato.
O céu coberto de preto qui tinha existido nas terra da África acabô com a chegada dos branco. Depois qui o primeiro escravizadô desembarcô nas terra do céu preto, e perguntô
—        Por que trabalhar se os negros podem fazer o trabalho das terras, das cidades... pela comida, roupa e estadia? — o trabalho dos preto escravizado passô a valê tanto quanto as prata e os ouro das mina. Ninguém achava estranho, só os preto escravizado.
Eram contados por cabeça, como as cabeça do gado. Virô vício comprá e tê escravo. Os dono da escravidão mandava os fio estudá longe, pra aprendê o jeito certo de escrevê e lê. Os piá ia de navio diferente dos navio negreiro. Os preto qui vinha de contrabando nos navio negreiro pagava com sangue, suô e saudade, os estudo dos fio dos dono da escravidão. Os preto era mantido miserável e inculto pra não tê otra vida. Não tê sonho.
Branco sensato ou insensato acreditava qui a natureza fazia dos preto escravo; não era os navio negreiro, as corrente, as chibata, a fome, a saudade, as doença, os padre, as lei, os capitão-do-mato, os enforcamento, as canga, as pulícia, as prisão. Os fidalgo lusitano treinarô os qui quiserô aprendê, como utilizá e se empanturrá do trabalho escravo pra tê sua vida apática, desleixada e preguiçosa. Queriam qui fosse luxuosa pra sempre
—        Entendeu por que ocê tá sentado no banco do cobradô, no lugá de tá sentado no banco da escola? O fioneto entendeu?
—        Avó, eu não posso lhe colocá atenção!
Bobagem, é só escutá com o coração a razão das coisa sê como são. Os fidalgo lusitano abrirô a estrada das água pro tráfico dos preto e renunciarô aos hábito do trabalho. E assim, nasceu essa fidalguia ignorante, egoísta, devassa, preguiçosa e beata. Perdida dos hábito do trabalho, mais com o espírito sossegado pela pompa de algum frade gordo e conversado. O moleque qui aceita tudo, perdoa tudo por dinheiro
—        Tá escutando, mi fioneto? Ocê precisa sabê quem é e donde veio, presta atenção qui vô repetí bem degavarzinho: somos os que se foram, estamos nos que virão.
—        Tô escutando, Avó. Feeeecha! Um passinho mais à frente, por favor! Não queremos deixar os tio e as tia esperando pelo próximo... Avó, por favor, não é hora!
—        Nunca vai sê hora se esperá pela melhó hora. Se ocê não sabe por que tá sentado aqui e não tá sentado no banco da escola, não vai saí daqui. E se saí não vai sabê porque saiu, e se não sabe vai aceitá as tagarelice branca qui não se esforçô e não lutô como os branco. Tudo tontice.
—        Avó, tô aqui porque não quis continuar lá.
—        Não foi bem assim, a sua véia lembra qui quando ocê começô na escola ocê só queria sabê da escola, depois o qui aconteceu ocê deve sabê melhó do qui essa velha.
—        A avó tá muito esperta.
—        Precisei morrê pra sabê da vida, queria qui ocê não precise aprendê do jeito dessa velha.
Olha pra rua, escutá o soluçá dos escravo.
Na rua dos vendedô, carregadô e barbeiro, os preto trabalhava por conta nos ganho, mais tinha a obrigação de entregá aos dono branco as moeda combinada. A entregação do didndin não podia passá do fim do dia. Os qui contava com a sorte juntava um pouco daqui, outro dali, pra fazê um pecúlio; pra modo de pagá pro siô do seu trabalho a indenização do seu valô, e ganhá a alforria. Ali, naquelas margem desabitada de branco, luz e calçamento, tinha muié preta metida no comércio da rua. Eram mais pouca qui os preto, mais era delas a variação do quefazê. A cantoria ficava por conta das muié.
Depois qui saiu da visitação na sacristia, o aconselhadô do governadô, qui não gostava de andá, mais andava pelo pedido do patrão, saiu em meio as gente da rua, escutando, falando, vendo, e se paro. Coisa qui também não fazia, ficá parado na rua, inda mais naquelas margem. Parô a caminhada pra vê um barbeiro-sangradô trabalhando. O escravo atendia otro preto qui tava sentado numa pedra da rua
—        Como a Avó sabe que o barbeiro-sangrador era escravo?
—        O mi fioneto parece qui só tem na cabeça o jeito de pensá o dinheiro qui recebe e o troco qui dá. E lá, naquele tempo de acorrentá e batê nos preto, inté fazê a carne avivá, os preto tinha otro jeito de vivê, ou melhó, otro jeito de esperá inté morrê?
—        E os negros alforriados?
A Avó resolveu ficar pendurada no agarrador do teto, balançando, indo e voltando
—        O mi fioneto tá com as ideia atrapalhada, acredita qui os preto teve vida mansa depois de desacorrentado...
—        Pois fique a Avó sabendo que essas ideias aprendi na escola.
A Avó ficou no seu silêncio pensativo, não parecia triste, mas não tava certa do que dizer. Parou de balançar e sentou no chão do ônibus, misturada com os pés e as pernas dos passageiros. Não tenho certeza, mas acho que ela tava cantando quando me olhou; tinha encontrado as palavras que queria me dizer
—        Nunca disse qui as coisa dita na escola são tudo verdade. As história são contada pelos qui tem a força, o mando e a consideração da maioria, mais nem sempre a maioria tá certa, tem vez qui a maioria é enganada pelas vontade da minoria, pela astúcia e talento da mentira qui a minoria sabe contá. É bem assim, as história são contada pelo vencedô, inté os branco perdedô reclama do jeito qui as história tá contada.
—        A Avó fala dum jeito sobre as histórias contadas que até dá vontade de ser professor da história.
—        Não é sem tempo, mais a história dos preto, té agora, foi contada pelos branco, pois tá na hora dessa história sê contada e cantada pelos preto... ocê tem qui contá.
—        Não sei contar histórias como a Avó.
—        Bobagem mi fioneto, quem disse qui contá as coisa qui aconteceu precisa esperteza e talento?
A Avó tava sentada no assoalho batendo tambor. E mesmo as pessoas que não queriam estavam dançando. Primeiro, como se com a batucada fosse obrigação remexer o corpo, manobrar a cintura. A negrada girando pela liberdade, as coxas, os braços, a cabeça, o suor espumante, o sorriso branco e fértil, os lábios grossos, os seios, o ventre, o nariz achatado, a carapinha, tudo cantava com a batucada; depois, dançavam como se fosse alegria, até que passou a ser uma necessidade com os pés, as mãos, a congada da coroação do nosso Rei
—        Precisa o quê?
—        Sabê escutá as palavra qui tá escrita e descobrí aquelas qui não tá escrita; precisa querê ouví as história qui é contada de pai pra fio, mãe pra fia, desde os tempo qui os preto vivia na terra-mãe. E depois, não tê medo de saí por aí contando as história.
Olha pra rua, já tá conseguindo escutá?
O aconselhadô parô pra vê o tal barbeiro-sangradô. O preto além de cortá cabelo e raspá barba sabia tirá o sangue doente dos preto. Gostava de fazê uso das sanguessuga. O escravo adoentado sentava na calçada e se entregava nas habilidade do barbeiro com as bicha parasita.
Mais adiante tinha o tambô e as cantoria ao ar livre. A rua da Floresta era a rua dos batuque com os pé no chão, sem o assoalho das tábua. Os preto só precisava tê cuidado com as pulícia. Já vem daquele tempo, qui nas pulícia tinha os preto qui era preto e avisava das batida nas festa dos batuque; mais também, tinha os preto virado pulícia qui queria esquecê a cô qui tinha e não avisava das batida. Fingia qui sabia vivê com os branco, mais faltava sê dono de preto escravo. Isso não conseguia.
Seguido chegava as denúncia contra os batuque dos tambô, quase sempre nos domingo. As pulícia saía da toca pra cumprí as lei imperial: serená os divertimento dos preto forro. Causava estranheza a batucada e as dança dos preto. Os branco nunca entendeu qui aquele bailado não era briga nem desordem, mais o jeito dos preto encontrá o olhá dos antigo. O passado acontecido e os enredo qui tá acontecendo no tempo de cada um. Ouví os aconselhamento dos passado qui tá em volta era o jeito de lutá pela sobrevivência e resistí.
Depois de caminhá pensativo té chegá na beirada das água, parô. Sabia qui as queixa do siô padre precisava sê estudada com cuidado. Não tinha solução de simplicidade, mais havia de sê tomada alguma providência. O rigô das lei pros preto e miserável é fácil, eles já sabe qui vai sê a primeira tarefa dos qui governa em nome do imperadô; depois, quase no mesmo tempo, é preciso arrasá com os antigovernista. Prendê e soltá, prendê e soltá, é um jeito de quebrá as resistência dos mais fraco; tem otros qui fica mais fácil comprá. E tem os caso qui só fazendo desaparecê na forca.
Os problema mais preocupante são os amigo indecente e descuidado. As fidalguia não podia recebê os rigô das lei mais acostumada tavam de tê as bondade das lei. Na Vila parecia qui a fidalguia toda era aparentada. Todo mundo tinha interesse de cuidá de uma, duas ou mais família: os fio, os pai, os irmão, as amante. O aconselhadô não podia chegá com as notícia nova e assustá o governadô
—        Os nossos amigos estão roubando as doações que fazem à obra Santa. Eles dão o donativo durante o dia, fazem o fingimento do bom amigo. E à noite voltam para levar parte do que foi dado.
—        O padre garante o que viu?
—        Ele garante que quem viu usava os olhos dele.
O governadô não parecia mais preocupado qui antes de sabê das acusação
—        Não podemos deixar esse justiçamento com as leis do divino? Afinal, não é coisa de muita gravidade.

—        É um jeito de não fazer o que tem que ser feito, mas o problema é o sinhô Padre e o sermão da domingueira. Do mesmo jeito que o povo escuta, o Imperador pode escutar. O sinhô Padre tem muitos olhos e ouvidos no Império. É muito arriscado fechar os olhos.
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Ensaio 30B - O parasitismo das bisbilhotice

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O parasitismo das bisbilhotice


Ensaio 30B
baitasar
Ali, na sacristia. Lugá de descanso e intimidade do siô padre, ponto das troca dos uniforme da missa e folga; recinto de guardá o pão e o vinho qui vira, na hora certa, o corpo e o sangue do Siô; se podia colocá as vista privilegiada de quem olha os filho bastardo. Os filho de ninguém. Lugá pro poderio da visão interesseira nos serviços dos preto. O trabalho das formiga preta – graudona ou pequetitinha – subindo e descendo: as cortadeira, as carregadora, as vigia impaciente do formigueiro e o olhá curioso dos passante na rua: uns por bisbilhotice; otros, por entusiasmo; não tinha pescoço resistente com as vontade de espiá os trabalho qui nunca acabava. A obra Santa qui virô motivo de curiosidade e persistência escondia o aproveitamento interesseiro de otros tanto.
Os costume da época perdoa tudo. Quase tudo.
Um começo qui começô pra não tê fim. Os preto tudo tinha tarefa, os branco tinha o quefazê de cuidá os preto fazendo: o parasitismo das bisbilhotice. Caso ocê, mi fioneto, nessa sua falta de tempo pra estudá, inda não teve vontade de botá as vista no qui contece nas volta da vida, toma cuidado com os imaginativo da fofoca.
O siô padre conhecia o valô das bisbilhotice qui agoura, cisma, daquilo qui não sabe, mais qui precisá contá com a marotice da cobiça. Sabia qui tinha qui tá um passo na frente dos conspiradô. O melhó jeito era vigiá e conservá as coisa como sempre foi. Ficá com a cautela de não corrê risco: abrí um olho, fechá o otro; mais não fez o qui devia de vez em quando: abrí o fechado e fechá o aberto, pra não cansá o qui vigia, nem acostumá o qui dorme na malandragem. Assim seja, só abria as vista nos preto, fechava as vista nos branco; abria té quando os preto dormia. Fez como sempre foi, cuidava de vigiá os mais fraco. Não podia sê ingênuo e achá qui todo mundo é igual.
Com uma das mão na beirada da porta e a otra agarrada no crucifixo pendurado do pescoço té o peito, ele deixô qui as vista soltasse a língua, ia confiá no ouvidô do patrão governadô, mais inda precisava dá umas volta na palavraria
—        Veja esses escravos purgando as culpas por não aceitarem o único Deus que existe.
O otro aproximô do siô padre, olhô por cima do ombro do ministro de Deus, lá fora um formigueiro de pretos. O zambo continuava agarrado no seu graal, desviô as vista no siô padre antes de dizê o qui não tinha vindo dizê
—        Pois, para mim, é a maior desgraça da Vila. Não tem solução: se são puros na cor e no sangue, merecem as correntes que lhes seguram os modos primitivos. Afinal, não têm para onde ir e vir. Não têm onde caírem mortos, e aliás, se caem, é preciso fazer o enterramento logo, rastro de negro estragado é intragável. De mais a mais, não têm ninguém que venha lhes reclamar os restos. E quando não são puros na cor e no sangue, são mestiços. A mestiçagem é preguiçosa de berço. A má índole é do nascimento, gostam de pedir. Não tem esmola suficiente para a fome da mestiçagem, um saco sem fundo. Ora, ora, que arrume algum serviço nem que seja como carregador das imundícies da merda. Desculpe o meu atrevimento da língua, mas quando se precisa de um carregador de água não se encontra nenhum. Que se acomodem ou jamais serão cristãos e civilizados como os brancos. Macacos!
Ouviram um grito e uma batida abafada. Correram té a porta
—        O que sucedeu? — grito o siô padre
O encarregado lhe respondeu com a voz amedrontada
—        Um negro caiu do madeiramento do teto.
O bafo frio da morte e o calô quente e úmido daquela manhã se misturô na cara do homem de Deus, rescitô bem baixinho, In nomine patris, et filii, et spiritus sancti, amen, e o espírito do vinho invadiu a sacristia té esquentá a cara do zambo do governadô. Os dois parecia medí a montoeira do vinho tomado. Já tinha passado do razoável pra uma visitação de cortesia. Nenhum dos dois ia admití de dizê qui tinha tomado mais vinho qui o recomendado. A língua continuava destravando, parecia não querê pará de soltá os mistério qui cadum guarda escondido do seu jeito
—        Não seja tão duro, sinhô Ouvidor, para tudo isso concorre esse calor dos diabos, que Deus me perdoe, que temos por aqui. Não esqueça que esses negros não têm a Verdade de Deus..
—      São medíocres! Possuem os sentimentos do negro e a imaginação do escravo. Não conseguem se libertar da selvageria.
O siô padre pareceu tê ficado com mais sede depois qui viu o negro sê carregado. Saiu da porta da sacristia e sentô no seu lugá de despacho. Pegô o graal, encheu té na parte de cima, já tava perdido das boas maneiras de serví e tomá, fornicava com a gula
—        Sinto falta de um acompanhamento. — se ia continuá o uso do vinho era preciso fazê uso de algum pão. Pegou o pão do corpo e ofereceu — Pegue...
O zambo qui não precisava pedí esmola olhô pra mão oferecida segurando o cálice do pão
—        O amigo acha... — parecia tê cisma com aquele ofertório
—        Pegue, peço reposição.
O homem do governadô esticô o braço e pegô umas quatro fatia do pão. Voltô no assunto de antes
—        O que se pode esperar da mestiçagem desses negros boçais e degenerados?
O siô padre não pareceu tê feito um brinde às palavras do zambo. Alterô a voz, não queria deixá aparecê qui sua língua tava enrolando como a cobra antes do ataque
—      Muito longe de casa.
—      Desequilibrados... precisam ser castrados, inutilizados para a reprodução. — a visita engoliu o pão, pareceu qui precisô empurrá com a língua o pão grudado no céu da sua boca. Otro gole do vinho pra fazê descê o qui desgrudô. E mais um bochecho pra modo de tê firmeza qui não ficô nenhum farelinho do corpo na boca. Só então, fez modo de continuá respondê a tagarelice do siô padre — Tem vez que acho que não é pra tanto, a nascença dos negrinhos recoloca os braços perdidos com as fugas, os castigos e os desaparecimentos. Já são nascidos na lida da escravidão, chegam com as ideias daqui, não choram de saudade. Isso é vantajoso. Não se perde tempo com a educação, já nascem comportados. — estendeu o braço, desta vez o siô padre não lhe deu importância, tava indo ou vindo de bem longe, o zambo encolheu os ombro e continuô a prosa
—        E o sinhô devia saber que o homem que não tem mulher na sua cama, perde a força de homem. Não é uma tarefa fácil para o sinhô Padre, mais difícil seria para controlar os negros.
O otro continuava sentado com o olhá cravado em algum lugá qui não era na sacristia. Tinha a aparência de lembrá o qui queria esquecê, té qui a boca abriu e ressuscitô a decoreba do Papa
—        O sacerdote faz uma doação do seu espírito e da sua carne ao Sinhô, precisa aprender a defender-se dos impulsos de afeto que fazem brotar emoções de entusiasmo descontrolado, inadequados à razão. Precisa se resguardar das simpatias perigosas.
O zambo não pareceu se importá com aquele adoratório todo, estendeu a mão para o cálice do corpo escorado na mesa, tirô mais fatias do pão. Com a boca cheia de pão e vinho, a língua enrolada e tonta, não pode controlá a bisbilhotice
—        O sinhô Padre é virgem?
O perguntado tomô otro gole, depois baixô a cabeça té desaparecê das vista do perguntadô. Quando voltô com a cabeça erguida tinha na mão otra garrafa de vinho
—        A matéria  da castidade está merecendo um brinde de prudência, não me merece importância, mas já que o sinhô voltou no assunto.
—        Feliz aventura essa do sinhô Padre que não pode ajuntar ao sacerdócio o matrimônio. Tem a desculpa perfeita e pode se deixar agarrar pelos perigos da mulherada... vez que outra.
O siô padre estendeu o braço com o vinho na direção do curioso e, tão solene quanto lhe permitia as perna, se aproximô com o seu graal
—        O Ouvidor do sinhô Governador não veio até essa sacristia para saber se tenho ou não castidade.
—        Meu amigo, essa Vila nasceu dos fidalgos e desbravadores lusitanos que nos trouxeram hábitos de sociabilidade, urbanidade, luxo...
—        E as leis do Papa.
—        É. As leis do Papa. — nesse ponto do abocanhamento das palavra, o visitadô já tava caminhando sem tanta agitação. Parô na porta, parecia arrependido de não dizê o qui devia sê dito — Pena que a ralé da mestiçagem ociosa e inútil, que poderia aprender com tão ilustres exemplos laboriosos, esteja condenada a degradação da corrupção e miséria. — o zambo não perdoava o seu mestiçamento injusto — Esses sararás nunca terão pureza de sangue e de caráter, para sempre um crioléu menos escuro, mas degenerado e tarado!
—        Saúde!
Virô as costa pra porta e ergueu o graal
—        Deveria haver uma comida, uma fruta, ou uma bebida, que sufoque esse abastarmento, pelo menos, para lhes aumentar o valor.
O siô padre lhe fez convite pra sentá. Tinha assunto mais delicado e havia de sê dito com voz qui as parede não pudesse escutá
—        Chegue mais perto. — esperô té qui a orelha do escutadô  ficasse mais perto — Pra terminar o assunto anterior e começar um novo, devo lembrar o sinhô que esses negros vêm parar aqui porque se diz que nem os escuros de lá os querem por perto. — dito isso, o siô padre voltô pra encruzilhada da confiança. Precisava confiá na intenção de quem lhe escutava
—        Sinhô Ouvidor-Geral, não dá para ter respeito e reverência em quem se deveria confiar.
O otro se ajeitô melhó, não largô o graal, mais não lhe levô nenhum gole, desconfiô qui o assunto principal tava por sê dito. Pediu qui o siô padre parasse de ladeá os motivo da sua preocupação — O sinhô Padre poderia ser mais claro? — não sabia o qui ia escutá nem o qui ia falá depois de escutá. O siô padre avisô qui mesmo as parede da sacristia podia ouví o qui não devia. Os dois chegaram mais perto os graal e as vista
—        Os mais ilustres associados da Irmandade estão desfalcando as doações da obra Santa?
—        Como assim?
—        Estão escamoteando tudo que é doado. — chegô a hora do vinho fazê o controle da realidade, diferençá os delírio dos heroísmo fingido
—        E quem lhe disse?
—        O encarregado já vinha com os cuidados de anotar o que chegava, o que era usado e as sobras. Nos seus cálculos, quanto menos se usa, menos sobra.
—        E o sinhô confia no encarregado? Ele não é um negro?
 —       O homem é meus olhos, ouvidos e o que fala por mim nas matéria da obra.
A conversa ia assim, tomando o rumo qui mais parecia com disse me disse, enredo de falatório. É difícil acusá gente de bem. O degustadô avaliô o ar da sacristia e respirô fundo. Coçou a carapinha ralinha, depois bateu forte na própria perna e ofereceu uma das estradas da encruzilhada
—        O sinhô padre tem os nomes dos pilhantes?
—        Da maioria. — foi a resposta qui escutô
—        São tantos assim?
—        É menos demorado dizer os nomes de quem não assalta as próprias doações. Mas se sua Excelência aceitar um conselho...
—        Fale, padre.

—        Esse é assunto de pouca conversa com qualquer um dos associados...


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