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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Uma conversa que sai do óbvio

Miguel Nicolelis e José Kobori


De um lado, mercado, investimentos, números e decisões. Do outro, ciência, inovação, humanidade e futuro.

"O cérebro é um camaleão. Ele fala: Ok, você vai ficar imerso na lógica digital... eu vou me comportar como um sistema digital, vou começar a destruir tudo aquilo que existe entre 0 e 1, ou seja, empatia, solidariedade, altruísmo, tudo que não é computável entre 0 e 1."








Capitulos:
02:47 - O livro "Nada Mais Será Como Antes" de Miguel Nicolelis
10:06 - A Bolha Financeira e a Diluição do Poder de Compra
1:00:40 - O Impacto da Tecnologia e a Perda de Habilidades Humanas
1:07:59 - A Relação entre Emoção e Razão no Cérebro Humano
1:23:10 - Reflexões sobre Capitalismo, Socialismo e o Futuro
1:58:37 - O Retorno do Livro Físico e o Otimismo na Espécie Humana
2:04:30 - A Censura no Mercado Literário Americano e a Relevância do Debate
2:35:07 - Reforma do Sistema Educacional Brasileiro

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Uma conversa que sai do óbvio /   

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sinto pelos resignados...

Quando a resignação é covardia



Prof. Marcos Vinícius*


O poeta Pasolini acreditava que antes de lutar por um mundo melhor, devemos lutar para evitar que piore. Apesar do salário congelado há quatro anos, a atual greve dos professores eclodiu devido ao parcelamento, cujo último mês iniciou com a mísera parcela de 350 reais. Ainda assim, há professores que seguem trabalhando. Como Italo Calvino escreveu que toda leitura de um clássico é na verdade uma releitura, lanço mão da Literatura buscando retratar o mundo por analogia. A atitude de alguns professores que não entraram em greve ou que deixaram de fazê-la tão somente receberam os salários me faz lembrar um conto de Tchékhov.

O conto faz uma crítica à resignação covarde. Durante um acerto de contas, a governanta Iúlia Vassílievna escuta passivamente seu chefe construir uma narrativa mentirosa na qual ela ganharia muito menos do que foi combinado. “Então, a senhora ficou dois meses”. “Dois meses e cinco dias”. “Dois meses, tenho anotado aqui”. O chefe descontaria dias em que sua filha adoeceu, uma xícara que ela supostamente havia quebrado, e até um sapato que uma costureira roubou de sua filha sob o argumento de que ela era responsável. Enfim, o chefe pagaria onze rublos quando ela deveria receber oitenta.

Apesar do rubor, dos olhos cheios d'água, Iúlia jamais reagiu. Após receber o mísero pagamento, a governanta murmura um "merci". Neste momento, o chefe se levanta indignado e pergunta a razão do agradecimento e se ela não havia percebido que ele a estava roubando. Iúlia disse que agradecia pelo dinheiro, pois houve locais em que trabalhou e nem sequer recebeu. (Recordo o governador afirmando que o servidor deveria agradecer a Deus pela estabilidade.) Então, o chefe se desculpa e diz que lhe pagará os oitenta rublos, mas pergunta se alguém pode ser tão pateta. Se é possível não protestar. Nesse mundo é possível ser tão palerma? Iúlia dá um sorriso amarelo que o patrão lê como um "Sim, é possível". O sorriso de Iúlia e a resignação de alguns professores provam que sim. Em suma, a dignidade não é um valor indispensável a todos."




*Prof. Marcos Vinicius de Oliveira Teixeira
rede estadual de educação / rs
professor de literatura



domingo, 2 de abril de 2017

liberdade por um fio

já temos nossa Curitiba? ou vai ficar pior?



baitasar


olhando para as imagens do jovem professor de educação física sendo agredido violentamente junto com professores e professoras, na cidade de Cachoeirinha, no RS, pela violência política do PSD/PMDB, vejo que o capitão-do-mato não é uma figura que ficou no nosso passado da selvageria escravocrata e relegado ao presente como um ente literário do passado. ele - o passado - se derrama sobre uma sociedade gaúcha conservadora que se finge de ingênua e que se submete às tradições perversas e burras da Casa Grande.

já tínhamos a Casa Grande, agora temos nossa Curitiba!

e teremos para sempre nossos capitães-do-mato? eles existem somente com as armas e fardas de pulícia? e aqueles e aquelas fardadas de verdeamareluto? quando aprenderemos?

e a violência costumeira - e usual - da nossa pulícia nas periferias? e a usual - e costumeira - abordagem aos jovens pobres e negros e miseráveis em todas as nossas cidades?

eu sou professor, como esse jovem agredido com balas de borracha, gás de pimenta e cadeiradas nas costas! eu sou a professora torturada com choque nos mamilos! e nem fui abordado, não estava em Cachoeirinha, agora estou.

não uso armas!

não levo à escola gás de pimenta, balas de borracha - levo chicletes ou uma pequena garrafa de água para umedecer as cordas vocais (falamos muito) e café (para manter nossa atenção nos três turnos de trabalho), às vezes, levo chimarrão. não tenho armas e não queremos ter: somos professores e professoras!

mas o que temos que liberta no outro esse armamento de tiros, cassetes, gás, choques e cadeiradas, professora torturada com choque nos mamilos, professores presos inconscientes, balas de borracha, pontapés...? quem soltou a besta? o golpe? o voto sem memória? a impunidade? a Casa Grande?

a palavra!

isso! temos a palavra!... mas não é qualquer palavra, temos a palavra que liberta - ou deveria libertar - o pulícia de cumprir ordens desumanas. ou seriam os pulícias feito desumanos para cumprirem ordens desumanas? ou seriam escolhidos entre os menos humanos dos desumanos? 

e quem seriam os mais desumanos?

seriam mais desumanos aqueles que autorizam isso tudo? e os que autorizam são os que mandam?

quem são esses que mandam?

você acha que merece ser prefeito da sua Cidade quem humilha professor e professora?

você acha que merece governar o seu Estado quem não paga o professor e a professora pelo trabalho de educar crianças, jovens e adultos?

você acha que merece ser presidente do seu País - por golpe ou não -  quem congela os investimentos em educação e saúde por 20 anos?

quando aprenderemos que só fica decepcionado ou decepcionada quem deposita sua cumplicidade nas mãos dos capitães-do-mato fardados ou eleitos?

precisaremos de quantas Curitibas e Cachoeirinhas mais?

as marcas do tempo não doem, mas as marcas da intolerância... jogam professores desacordados ao chão, quebram cadeiras em suas costas, lançam gás de pimenta.

desconfio que os capitães-do-mato estavam apenas treinando

as imagens abaixo são de professores e professoras apanhando.



essa imagem reforça o sentimento de segurança que não sinto mais















alergia nas mãos e barriga pelo gás de pimenta

cadeiradas

balas de borracha que se espalham

























a solidariedade precisa nos fortalecer...


domingo, 3 de julho de 2016

Bertolt Brecht - Se e Quem

Perguntas de um trabalhador que lê



Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.






Se os tubarões fossem homens





Se os tubarões fossem homens eles, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos

Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. Aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .

Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Su Majestad El Fútbol: Eduardo Galeano

Eduardo Galeano

Prólogo












Su Majestad el Futbol

Eduardo Galeano

(selección y prólogo)



Prólogo de pocas palabras



Hay intelectuales que niegan los sentimientos que no son capaces de experimentar ni, en consecuencia, de compartir: sólo podrían referirse al fútbol con una mueca de disgusto, asco o indignación. No es menos típica la búsqueda de chivos emisarios para expiar la propia impotencia, y el fútbol es ideal en este sentido; está allí, tan a mano del intelectual como de cualquiera, sin ganas ni necessidad de defenderse: el fútbol es, pues, cómodamente, señalado con el dedo índice como la causa primera y última de todos los males, el culpable de la ignorancia y la resignación de las masas populares en el Río de la Plata. La miseria no está escrita en los astros, suele pensar el intelectual de izquierda, pero sí en el tablero del estadio donde se marcan los goles: si no fuera por el fútbol, el proletariado adquiriría su necesaria conciencia de clase y la revolución estallaría.

No creo que tanta perversidad pueda imputarse al fútbol con algún fundamento de causa. No niego que el fútbol empieza por gustarme, y mucho, sin que eso me provoque el menor remordimiento ni la sensación de estar traicionando a nada ni a nadie, confesso consumidor del opio de los pueblos. Me gusta el fútbol, sí, la guerra y la fiesta del fútbol, y me gusta compartir euforias y tristezas en las tribunas con millares de personas que no conozco y con las que me identifico fugazmente en la pasión de un domingo de tarde. ¿Desahogo de una agresividad reprimida en el curso de la semana? ¿Merece uno el sillón del psicoanalista? ¿O bien se ha sumado uno a las fuerzas de la contrarrevolución? Los hinchas somos inocentes. Inocentes, incluso, de las porquerías del profesionalismo, la compra y la venta de los hombres y las emociones.

Con ninguma otra actividade nos sentimos tan identificados los hombres de la cuenca del Plata, y muy particularmente los orientales. En el estilo y la “garra” de algunos jugadores, sobrevivientes de la época de oro en que se jugaba “con todo”, reconocemos de algún modo un estilo nacional, con sus rasgos negativos y positivos, la “viveza” muchas veces cochina tanto como la firmeza y la imaginación, la manera de plantarse en la cancha y la fracción de segundo que demora un delantero en escapar por el costado donde no se le espera, abrir la brecha y meter el gol. Los uruguayos tenemos motivos de sobra para desear que la “garra” legendaria de nuestros jugadores se proyecte más allá de las canchas sobre el asfalto de la ciudad y la desolada immensidad del campo: que el heroísmo nazca de los grandes compromisos sociales y políticos. Pero no es culpa del fútbol que sólo en el fútbol esa “garra” ofrezca, o haya ofrecido, resultados concretos, como no es culpa del fútbol que haya sido por el fútbol que el Uruguay adquirió cierta relevancia internacional o por lo menos nombre propio en el mapa del mundo. Recuerdo que desde los balcones de “Epoca” mirábamos en 1966 la impresionante manifestación con que el publo celebraba la victoria de Peñarol en la Copa Mundial de Clubes. Recuerdo que discutimos. Yo también hubiera preferido una manifestación tan multitudinaria y estridente por la tierra que los cañeros reclamaron en vano o contra la política económica que el imperialismo nos impuso para comernos mejor. Pero la victoria de Peñarol no era culpable de las derrotas de la izquierda: ojalá la izquierda fuera también capaz de ganar 4 a 2 cuando, faltando pocos minutos para el fin, todo parece perdido.

Esta antología que la editorial ARCA me ha encomendado preparar, es deliberadamente irregular. Me propuse hacer una especie de collage que incluyera variados testimonios, en prosa y en poesía, sobre el fútbol en sus diversos aspectos y proyecciones. Por eso el lector encontrará aquí reportajes, cuentos, poemas, confesiones y artículos. Los toros han tenido su Hemingway. El fútbol espera todavía al gran escritor que se lance a su rescate. Ojalá este pequeño trabajo sirva como provocación o estímulo: el deprecio y el miedo han hecho del fútbol un tema tabú casi invicto, aún no revelado en toda la posible intensidade de las pasiones que resume y desata.

Eduardo Galeano
Montevideo, principios del 68.



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Galeano, Eduardo. Su majestad el futbol. Eduardo Galeano. Edición sin modificaciones respecto de la version de 1968. Ed. Arca. Montevideo – Uruguay. diciembre 2000.



En esta antologia, Eduardo Galeano (Montevideo, 1940) reúne testimonios sobre el fútbol en sus diversos aspectos y proyecciones. Cuentos, confesiones y reportajes de Benedetti, Camus, Maggi, Morosoli, El Hachero, entre muchos otros, componen este deliberado collage realizado por un narrador y periodista reconocido a nível nacional e internacional.

sábado, 6 de junho de 2015

Fabio Hernandez (Cuba)

“E ela vivia me agradecendo por tê-la ensinado a gozar com penetração”



Diário do Centro do Mundo



Postado em 30 mai 2015
por : Fabio Hernandez







Meu tio Fábio, um homem sábio do interior, um dia me entregou um livro do Plutarco. Confesso que tremi diante da idéia de enfrentar, na inexpugnável solidão da leitura, as páginas com certeza brilhantes mas inevitavelmente árduas do grego. Mas, prático que é, e conhecedor das limitações de seu sobrinho como leitor, tio Fábio me avisou que desejava que eu lesse somente um trecho marcado numa determinada página.

Ali se contava a história de um soldado que salvara a vida de um rei numa batalha. Um sábio imediatamente aconselhou o soldado a fugir. O soldado preferiu ficar, na esperança de ser recompensado pelo rei que salvara. Acabou morto. E logo. Quando terminei de ler essa história, imediatamente me lembrei de outro trecho de livro que tio Fábio me passara. Platão – tio Fábio sempre bebeu na sabedoria grega – contava que Sócrates disse mais ou menos o seguinte aos homens que o condenaram a tomar cicuta: que bem fiz eu a vocês para que me tratem assim?

As duas história tratam do mesmo tema: a ingratidão. E francamente: não sei por que iniciei minha coluna com a dupla história grega de ingratidão humana. Ou melhor. Sei sim. É que eu queria fazer uma conexão entre aqueles episódios e a vida amorosa. O fato cruel e inescapável é o seguinte: o amor é ingrato. O amor tem uma série de virtude: ele ilumina, ele embeleza a vida, ele torna divertido um congestionamento. Mas ele é ingrato como o rei que matou o soldado que o salvara e os atenienses que fizeram Sócrates beber cicuta.

Um amigo meu, Roni Maldonado, outro dia veio desabafar comigo. Ele acabara de romper com a namorada, uma loira de fazer cego olhar para trás, e ela além de gritar-lhe insultos arrebentou a pontapés a porta de seu carro. Roni é essencialmente um ingênuo do amor, um otimista das relações sentimentais. Ele sinceramente achava que, por fatos como ter arrumado um bom emprego para a namorada e num período de depressão ter-lhe até financiado um terapeuta de 400 reais a hora, receberia de volta alguma gratidão, e não uma porta de carro arrebentada a golpes de salto alto.

Tive vontade de apresentar Roni a tio Fábio e pedir a ele (meu tio) que falasse um pouco a meu amigo sobre a gratidão humana. Tive vontade de falar um pouco do soldado e de Sócrates, do rei assassino e da cicuta. Mas apenas balancei a cabeça numa muda expressão de solidariedade a meu amigo ferido na alma. Roni, refleti, passará a vida inteira atrás de uma ilusão, de uma fantasia tão irreal quanto a espada de Artur: a gratidão amorosa. O que você possa ter feito de bom a alguém numa relação amorosa não conta no final. O que vale são apenas os crimes, geralmente imaginários, que você cometeu. Não conheço caso de amor que termine com uma declaração sincera de agradecimento pelos serviços prestados.

Roni me contou, em sua estupefação tola, que até em relação ao sexo ouviu palavras que quase o reduzem a um eunuco da corte de Ramsés. “E ela vivia me agradecendo por tê-la ensinado a gozar com penetração”, me repetia ele. “No final me disse que eu não tinha nenhuma imaginação quanto a sexo. Que eu era um idiota sexual.”

O meu ponto é o seguinte: faça sempre tudo que puder por sua namorada, mulher, amante. Tudo. Agrade-a de todas as maneiras possíveis. Flores, beijos, bom sexo, atenção. Dê tudo. Mas jamais cometa o erro fatal do soldado. Não faça nada esperando gratidão. O amor é ingrato como o rei que matou o homem que o salvara da morte.





Sobre o Autor
O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um "escritor barato".

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

E se o outro fosse ocê? O que ocê faria?

What would you do?









"Não é uma questão de sentimentalismo. E um bom coração também não é a questão de sair por aí num tipo de euforia de falso amor, negando o sofrimento e dizendo que tudo é benção e alegria. Não é assim. Um coração genuinamente bom é um coração que é aberto e é ávido por compreensão. Ele ouve as tristezas do mundo. Nossa sociedade está errada ao pensar que a felicidade depende da satisfação dos nossos próprios desejos e vontades. Por isso nossa sociedade está tão miserável. Somos uma sociedade de indivíduos, todos obsessivos com o esforço por nossa própria felicidade. Estamos desconectados do nosso sentimento de interconexão com os outros, estamos desligados da realidade. Porque na realidade estamos todos interconectados." Jetsunma Tenzin Palmo





Canto Das Três Raças
CLARA NUNES






Canto Das Três Raças
Clara Nunes


Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil

Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou

Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou

Fora a luta dos Inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou

E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

ô, ô, ô, ô, ô, ô
ô, ô, ô, ô, ô, ô

E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador

Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas
Como um soluçar de dor



Composição: Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro





Iansã cadê Ogum?
CLARA NUNES





A Deusa dos Orixás
Clara Nunes


Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
Mas Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
(3X)

Yansã penteia os seus cabelos macios
Quando a luz da lua cheia clareia as águas do rio
Ogum sonhava com a filha de Nanã
E pensava que as estrelas eram os olhos de Yansã

Mas Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
Mas Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar

Na terra dos orixás, o amor se dividia
Entre um deus que era de paz
E outro deus que combatia
Como a luta só termina quando existe um vencedor
Yansã virou rainha da coroa de Xangô

Mas Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
mas Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar
mas Yansã, cadê Ogum? Foi pro mar



Composição: Romildo/Toninho



Morena De Angola
CLARA NUNES





Morena de Angola
Clara Nunes


Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?

Será que a morena cochila
Escutando o cochicho do chocalho?
Será que desperta gingando
E já sai chocalhando pro trabalho?

Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?

Será que ela tá na cozinha
Guisando a galinha à cabidela?
Será que esqueceu da galinha
E ficou batucando na panela?
Será que no meio da mata
Na moita, morena ainda chocalha?
Será que ela não fica afoita
Pra dançar na chama da batalha?
Morena de Angola que leva
O chocalho amarrado na canela
Passando pelo regimento ela faz requebrar a sentinela

Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?

Será que quando vai pra cama
Morena se esquece dos chocalhos?
Será que namora fazendo bochincho
Com seus penduricalhos?

Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?

Será que ela tá caprichando
No peixe que eu trouxe de benguela?
Será que tá no remelexo
E abandonou meu peixe na tigela?
Será que quando fica choca
Põe de quarentena o seu chocalho?
Será que depois ela bota a canela no nicho do pirralho?
Morela de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Eu acho que deixei um cacho
Do meu coração na catumbela

Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?

Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA

Morena de Angola
Que leva o chocalho
Amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho
Ou chocalho é que mexe com ela?



Composição: Chico Buarque

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O senhor é petista, professor?

Continuar Mudando!


baitasar



Curiosidade? Preconceito? Meu aluno precisa da resposta.Eu sou um petista?

Sou um homem apaixonado com aquela geração de jovens, mulheres e homens, alguns meninos ou meninas, adolescentes de outro tempo, que ousaram enfrentar a ditadura militar e refundaram a política brasileira. Lutavam por liberdade! Essa que vivemos hoje. Foram e são nomeados de subversivos e bandidos pelos mesmos que hoje nos chamam de corruptos e ladrões! Nos tempos da luta armada eu não estava em suas fileiras, me arrependo disso. Meus interesses coletivos eram o handebol e o atletismo. Um jovem professor de educação física envolvido com bolas, corridas, saltos e arremessos.

Não, eu não fui um petista.

Minhas leituras? Piaget, psicomotricidade, ginástica, recreação, nutrição, maratonas, táticas de ataque e defesa, jogadas ensaiadas, treinamentos com chuva ou sol no Capão do Corvo (sempre gostei deste apelido carinhoso para o Parque Municipal Getúlio Vargas). Minha teoria e prática esportiva estava fundamentada nas leituras disponíveis naqueles anos. Fiz um bom e honesto trabalho, honrava o operário metalúrgico que me fizera chegar à Universidade Pública. E a mulher que se dedicara aos filhos.

Descobri o Partido dos Trabalhadores em 1989, e também, o homem-político que venho acompanhando e elegendo, às vezes não conseguindo, Olívio Dutra. Democracia é assim, nem sempre temos as respostas. Ou propostas. Fui descobrindo o PT de Porto Alegre, 1990, 1991, 1992... as conversas com Paulo Freire, os estudos de Vygotsky, pela primeira vez olhei a história e vi que o PT surgiu muito antes: o Partido dos Trabalhadores vem dos homens e mulheres torturados na ditadura, desaparecidos, mortos. Ele vem das lutas Comunistas! Tem na sua história Getúlio e os direitos dos trabalhadores. Um partido com o DNA dos trabalhadores.

Ah, os trabalhadores!

Todos somos trabalhadores, ou não? Sim, todos somos trabalhadores, mas alguns conquistaram mais direitos que outros, e muitos ainda continuam escravizados. Ao longo da História – ah, esses professores e professoras de história têm tanta coisa para discutir com seus alunos e alunas – da humanidade, os trabalhadores vêm alcançando vitórias importantes. No Brasil, nos anos 30, 40 e 50, século XX: Getúlio Vargas e a CLT. Um político imenso com as suas contradições. Nos anos 80, 90 e... com o Partido dos Trabalhadores e a CUT.

Foi nos anos 90 que me apresentei como um soldado para o partido, mas não fui aceito. Meus fundamentos teóricos eram frágeis – continuam frágeis – num tempo em que o partido deliberava aos seus líderes. Aqui, minha primeira desilusão, nestes dias atuais de exercício do poder, os líderes têm deliberado ao partido. E parte da militância cresceu acreditando na força da conhecença e sabença dos líderes e, secundariamente, na força das discussões dentro do partido
 – e mais superficialmente na força do Povo. 
Deseducamos nossos jovens. Esquecemos de fazer política COM o Povo, nos contentamos em fazer política PARA as pessoas mais humildes e pobres. 

Foi quando nos tornamos quase iguais aos demais partidos com seus ícones. Uma conta que tem o seu preço. Assim, chego no tempo do maior ícone político desses meus dias: Lula. Outro político imenso, um operário das articulações. Sensível e profundo conhecedor do povo brasileiro. Iniciamos o século XXI com Lula e o Partido dos Trabalhadores ocupando 
na República importantes espaços políticos nunca dantes imaginados pelos homens e mulheres que conservaram o Brasil e o seu Povo num atraso histórico: UDN, ARENA, PDS e PSDB.

Nas mãos e mentes destes senhores e senhoras, sempre fomos e seríamos o País do Futuro, da miséria e da fome! Um povo de desdentados, com altíssima taxa de mortalidade infantil, analfabetos, salários indignos, desemprego, inflação descontrolada, mas com uma imprensa pronta, usando o rádio, a televisão, os jornais (e agora, a internet), para nos convencer que existe um custo para que milhares de brasileiros sejam felizes: milhões de brasileiros e brasileiras precisavam continuar com fome e na miséria!

Foi quando descobri que SOU PETISTA!

Em 2014 o Brasil saiu do mapa mundial da FOME!

É pouco?

Queremos mais, mudar mais!

É... gosto disso, continuar mudando. Por isso, não consigo acreditar que homens e mulheres históricos com essa luta anunciem ou se omitam – qual a diferença? – apoiando o PSDB!

Os egoístas de sempre forjados pelo analfabetismo político!

Os eleitores forjados pelo jornalismo da RBS, Globos e afins, não precisam declarar seu voto, ele está no olhar. Quem assina VEJA e revistas afins, foi transformado num analfabeto político. São boas pessoas, queridas, mas não se veem construindo algo coletivo, neoliberais que no máximo conseguem pensar no bem-estar comum. Isso sim, em parte, é culpa do PT. Acho que o muda mais deveria começar por aí, a participação popular e dos movimentos sociais, mas sem auditório. A participação popular com plenárias constituintes desse PT que luta e vence a FOME!

Sim, eu sou Petista!

A próxima luta (sempre teremos uma próxima luta)?

Contra a Miséria!

Claro, depois de elegermos a Dilma!

Eu sou 13!




Mauro Marques


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Inocente... não sabe nada! Acredita que o PSDB mudou!





domingo, 21 de setembro de 2014

Amorosidade e Luta!

Mercedes Sosa


Nestes tempos de luta (como em outros tempos e as mesmas lutas e os mesmos ódios!) é bom revisitar pessoas amorosas, cantantes, falantes e lutadoras!


Inconsciente colectivo





Inconsciente colectivo
de Charly García.

Nace una flor, todos los días sale el sol
de vez en cuando escuchas aquella voz.
Cómo de pan, gustosa de cantar, en los aleros de mi mente con las chicharras.
Pero a la vez existe un transformador
que te consume lo mejor que tenés
te tira atrás, te pide más y más
y llega un punto en que no querés.
Mamá la libertad, siempre la llevarás
dentro del corazón
te pueden corromper
te puedes olvidar
pero ella siempre está
Mamá la libertad, siempre la llevarás
dentro del corazón
te pueden corromper
te puedes olvidar
pero ella siempre está
Ayer soñé con los hambrientos, los locos,
los que se fueron, los que están en prisión
hoy desperté cantando esta canción
que ya fue escrita hace tiempo atrás.
Es necesario cantar de nuevo,
una vez más.



Paulo Freire


"O amanhã não é uma espera que eu chegue lá. O amanhã tá metido dentro do hoje..."








Eduardo Galeano


El derecho de Soñar


Los desesperados serán esperados y los perdidos serán encontrados porque ellos se desesperaron de tanto esperar y ellos se perdieron por tanto buscar.






¿Qué tal si deliramos por un ratito?


¿Qué tal si clavamos los ojos más allá de la infamia para adivinar otro mundo posible?

El aire estará limpio de todo veneno que no provenga de los miedos humanos y de las humanas pasiones.

En las calles los automóviles serán aplastados por los perros.

La gente no será manejada por el automóvil, ni será programada por el ordenador, ni será comprada por el supermercado, ni será tampoco mirada por el televisor.

El televisor dejará de ser el miembro más importante de la familia y será tratado como la plancha o el lavarropas.

Se incorporará a los códigos penales el delito de estupidez que cometen quienes viven por tener o por ganar, en vez de vivir por vivir no más, como canta el pájaro sin saber que canta y como juega el niño sin saber que juega.

En ningún país irán presos los muchachos que se nieguen a cumplir el servicio militar sino los que quieran cumplirlo.

Nadie vivirá para trabajar pero todos trabajaremos para vivir.

Los economistas no llamarán nivel de vida al nivel de consumo, ni llamarán calidad de vida a la cantidad de cosas.

Los cocineros no creerán que a las langostas les encanta que las hiervan vivas.

Los historiadores no creerán que a los países les encanta ser invadidos.

Los políticos no creerán que a los pobres les encanta comer promesas.

La solemnidad se dejará de creer que es una virtud, y nadie nadie tomará en serio a nadie que no sea capaz de tomarse el pelo.

La muerte y el dinero perderán sus mágicos poderes y ni por defunción ni por fortuna se convertirá el canalla en virtuoso caballero.

La comida no será una mercancía ni la comunicación un negocio, porque la comida y la comunicación son derechos humanos.

Nadie morirá de hambre porque nadie morirá de indigestión.

Los niños de la calle no serán tratados como si fueran basura porque no habrá niños de la calle.

Los niños ricos no serán tratados como si fueran dinero porque no habrá niños ricos.

La educación no será el privilegio de quienes puedan pagarla y la policía no será la maldición de quienes no puedan comprarla.

La justicia y la libertad, hermanas siamesas, condenadas a vivir separadas, volverán a juntarse, bien pegaditas, espalda contra espalda.

En Argentina las locas de Plaza de Mayo serán un ejemplo de salud mental porque ellas se negaron a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria.

La Santa Madre Iglesia corregirá algunas erratas de las tablas de Moisés y el sexto mandamiento ordenará festejar el cuerpo.

La Iglesia también dictará otro mandamiento que se le había olvidado a Dios, “amarás a la Naturaleza de la que formas parte”.

Serán reforestados los desiertos del mundo y los desiertos del alma.

Los desesperados serán esperados y los perdidos serán encontrados porque ellos se desesperaron de tanto esperar y ellos se perdieron por tanto buscar.

Seremos compatriotas y contemporáneos de todos los que tengan voluntad de belleza y voluntad de justicia, hayan nacido cuando hayan nacido y hayan vivido donde hayan vivido, sin que importe ni un poquito las fronteras del mapa ni del tiempo.

Seremos imperfectos porque la perfección seguirá siendo el aburrido privilegio de los dioses.

Pero en este mundo, en este mundo chambón y jodido seremos capaces de vivir cada día como si fuera el primero y cada noche como si fuera la última.

EDUARDO GALEANO – extracto de “EL DERECHO AL DELIRIO” (texto completo)




Pablo Neruda


Amor América


Antes de la peluca y la casaca
fueron los ríos, ríos arteriales,
fueron las cordilleras, en cuya onda raida
el cóndor o la nieve parecían inmóviles:
fue la humedad y la espesura, el trueno
sin nombre todavía, las pampas planetarias.

El hombre tierra fue, vasija, párpado
del barro trémulo, forma de la arcilla,
fue cantaro caribe, piedra chibcha,
copa imperial o silice araucana.
Tierno y sangriento fue, pero en la empunadura
de su arma de cristal humedecido,
las iniciales de la tierra estaban escritas.

Nadie pudo
recordarlas después: el viento
las olvidó, el idioma del agua
fue enterrado, las claves se perdieron
o se inundaron de silencio o sangre.

No se perdió la vida, hermanos pastorales.
Pero como una rosa salvaje
cayo una gota roja en la espesura
y se apagó una lámpara de tierra.

Yo estoy aquí para contar la historia.
Desde la paz del búfalo
hasta las azotadas arenas
de la tierra final, en las espumas
acumuladas de la luz antártica,
y por las madrigueras despenadas
de la sombría paz venezolana,
te busque, padre mío,
joven guerrero de tiniebla y cobre
o tú, planta nupcial, cabellera indomable,
madre caimán, metálica paloma.

Yo, incásico del legamo,
toqué la piedra y dije:
¿Quién me espera? Y aprete la mano
sobre un punado de cristal vacío.
Pero anduve entre flores zapotecas
y dulce era la luz como un venado,
y era la sombra como un párpado verde.

Tierra mía sin nombre, sin América,
estambre equinoccial, lanza de púrpura,
tu aroma me trepó por las raíces
hasta la copa que bebía, hasta la más delgada
palabra aún no nacida de mi boca.

domingo, 22 de junho de 2014

As virtudes do sexo sem berro (Cuba)

... na definição de um "escritor barato"




Fabio Hernandez


Um poeta português disse que as cartas de amor são ridículas. Mas mais ridículo ainda é não escrever cartas de amor. Tenho um acréscimo à voz do poeta: algumas cartas de amor ultrapassam os limites do ridículo. São pomposas, verborrágicas, exageradas. A grande carta de amor é necessariamente simples e objetiva. Assim como a grande declaração de amor. A simplicidade é bela ao falar e ao escrever. Uma pessoa afetada na forma de se comunicar com as demais é afetada em outras esferas. “A verdade tem que falar uma linguagem simples, sem artifícios”, escreveu um filósofo da Antigüidade. O amor também. Isto é, se for verdadeiro.

As virtudes da economia ao se expressar têm notáveis exemplos históricos. Conta-se que os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a uma esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês. Quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”. Num outro caso, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia à qual cabia a escolha ouviu um extenso discurso do primeiro arquiteto. As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: “Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer”. Para o pensador romano Sêneca, nos grandes arroubos da eloqüência há mais ruído que sentido”.

Os espartanos serão eternamente reverenciados pela simplicidade com que viviam e se expressavam. Uma vez perguntaram a uma autoridade de Esparta por que os espartanos não colocavam por escrito as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las. A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens aos feitos e não às palavras. “O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia”, escreveu o filósofo francês Montaigne. (Realmente sinto que estou exagerando nas citações. Deus, pareço um almanaque. Mas olho para trás e tento cortar algumas citações, e não consigo, não por mérito meu, mas dos donos das frases. Dá para deletar a seguinte reflexão do escritor e historiador Plutarco? Disse ele: “A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir. Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Não só não causa sede como confere um traço de nobreza”.)

Também no amor, há mais “ruído que sentido” nas frases espalhafatosas ditas ou escritas. A mais genuína, a mais poderosa declaração de amor é, muitas vezes, o olhar silencioso, o gesto mudo, e, no entanto, estamos quase sempre inclinados a berrar nossa paixão. Na cama, sobretudo, trava-se muitas vezes uma competição para ver quem gritar mais alto, um torneio de gemidos geralmente insinceros e ensurdecedores que cada parceiro acredita, numa mistura de ignorância e ingenuidade, serem excitantes. O berro amoroso incomoda o ouvido e dificilmente chega ao coração. E provoca não orgasmos maravilhosos, não maratonas sexuais inacreditáveis, mas simplesmente sede.


O cubano Fabio Hernandez é, em sua autodefinição, um “escritor barato”.

sábado, 15 de março de 2014

Negra, Escritora, Catadora de Lixo - "Sou Cidadã Negra Brasileira"

Carolina Maria de Jesus, a escritora que o Brasil esqueceu.


Livres Pensadores







Semi-analfabeta, negra e favelada, Carolina foi mãe de três filhos e nunca se casou.

Apesar de tais condições, a paixão dela pela escrita e leitura foi tamanha que passou a dividir seu tempo entre cata papel, cuidar dos filhos e escrever.

Lançado pela Livraria Francisco Alves em agosto de 1960, Quarto de Despejo ganhou oito edições no mesmo ano, tendo mais de 100 mil exemplares vendidos na época.





“Tirando de Letra” – Carolina Maria de Jesus
Parte 1




Parte 2




Parte 3


O Programa “Tirando de Letra”, da UnB TV, entrevista a Prof. Germana Henriques, falando sobre o livro: “Carolina Maria de Jesus: O Estranho Diário da Escritora Vira Lata”. A Prof. Germana conta um pouco sobre a trajetória de vida da escritora mineira, pobre e catadora mas que virou um fenômeno literário no final dos anos 50.







Carolina Maria de Jesus nasceu a 14 de Março de 1914 em Sacramento, estado de Minas Gerais, cidade onde viveu sua infância e adolescência.


Foi filha de negros que, provavelmente, migraram do Desemboque para Sacramento quando da mudança da economia da extração de ouro para as atividades agro-pecuárias.

Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, repórter da Folha da Noite, Carolina teve suas anotações publicadas em 1960 no livro Quarto de Despejo, que vendeu mais de cem mil exemplares. A obra foi prefaciada pelo escritor italiano Alberto Moravia e traduzida para 29 idiomas. Em 1961, o livro foi adaptado como peça teatral por Edi Lima e encenado no Teatro Nídia Lícia, no mesmo ano. Sua obra também virou filme, produzido pela Televisão Alemã, que utilizou a própria Carolina de Jesus como protagonista do longa-metragem Despertar de um sonho (inédito no Brasil).



Quanto a sua escolaridade em Sacramento, provavelmente foi matriculada em 1923, noColégio Allan Kardec, primeiro Colégio Espírita do Brasil, fundado em 31 de Janeiro de 1907, por Eurípedes Barsanulfo. Nessa época, as crianças pobres da cidade eram mantidas no Colégio através da ajuda de pessoas influentes. A benfeitora de Carolina Maria de Jesus foi a senhora Maria Leite Monteiro de Barros, pessoa para quem a mãe de Carolina trabalhava como lavadeira. No Colégio Allan Kardec Carolina estudou pouco mais de dois anos. Toda sua educação formal na leitura e escrita advêm deste pouco tempo de estudos.

Mesmo diante todas as mazelas, perdas e discriminações que sofreu em Sacramento, por ser negra e pobre, Carolina revela através de sua escritura a importância do testemunho como meio de denúncia sócio-política de uma cultura hegemônica que exclui aqueles que lhe são alteridade.

A obra mais conhecida, com tiragem inicial de dez mil exemplares esgotados na primeira semana, e traduzida em 13 idiomas nos últimos 35 anos é Quarto de Despejo. Essa obra resgata e delata uma face da vida cultural brasileira quando do início da modernização da cidade de São Paulo e da criação de suas favelas. Face cruel e perversa, pouco conhecida e muito dissimulada, resultado do temor que as elites vivenciam em tempos de perda de hegemonia. Sem necessidade de precisarem as áreas de onde vem os perigos, a elite que resguarda hegemonias não suaviza atos e conseqüências quando ameaçadas por “gente de fora” (leia-se, “gente de baixo”). Essa literatura documentária de contestação, tal como foi conhecida e nomeada pelo jornalismo de denúncia dos anos 50-60, é hoje a literatura das vozes subalternas que enunciam-se, a partir dos anos 70, pelos testemunhos narrativos femininos.

Segundo pesquisas do professor Carlos Alberto Cerchi, Quarto de Despejo inspirou diversas expressões artísticas como a letra do samba “Quarto de Despejo” de B. Lobo; como o texto em debate no livro “Eu te arrespondo Carolina” de Herculano Neves; como a adaptação teatral de Edy Lima; como o filme realizada pela Televisão Alemã, utilizando a própria Carolina de Jesus como protagonista do filme “Despertar de um sonho” (ainda inédito no Brasil); e, finalmente, a adaptação para a série “Caso Verdade” da Rede Globo de Televisão em 1983.



Carolina Maria de Jesus com Clarice Lispector.




Livro autografado por Carolina Maria de Jesus



Em São Paulo, foi empregada doméstica, auxiliar de enfermagem, artista de circo.

A escritora deu entrevistas, ganhou prêmios, apareceu na TV. Deixou a favela, recebeu as chaves da cidade. Mas seus livros seguintes não tiveram a mesma repercussão. Logo seria esquecida. Já não era favelada, mas morreu no barraco de um dos filhos

O livro Quarto de despejo vendeu 10 mil exemplares em uma semana. Contradição: no dia do lançamento, teve de catar papel para garantir comida.

Em maio de 1958 o repórter Audálio Dantas chega à favela para cobrir a inauguração de um parque infantil. Fica intrigado com a mulher (Carolina Maria de Jesus, no caso) que ameaça bêbados sobre os brinquedos: “Se não saírem daí, vou colocá-los em meu livro!”

A obra de Carolina Maria de Jesus é um referencial importante para os Estudos Culturais, tanto no Brasil como no exterior.

Carolina foi mãe de três filhos: João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima.

Faleceu em 13 de Fevereiro de 1977, com 62 anos de idade e foi sepultada no Cemitério da Vila Cipó, cerca de 40 Km do centro de São Paulo.









“Quarto de Despejo” antecipou o gênero “depoimento” e “testemunho” que, no final do século XX, tanto encanta leitores e estudiosos da literatura. No caso dos diários de Carolina, no entanto, ao desejo de conhecer a vida alheia soma-se um outro fator de interesse: o cotidiano que seu livro devassa é muito distinto daquele em que vivem seus leitores. Já pelo título da obra de estréia, o leitor percebe que vai adentrar lugares aos quais não está habituado.


Promete e traça uma cartografia de espaços degradados, relacionados a restos, a desordem, a coisas que ninguém mais quer. A própria Carolina desvela a metáfora que serve de título ao seu livro:




(…) em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes. É por isso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.



A vontade de conhecer e entender o outro, na busca por um mundo mais justo manifesta-se com freqüência nos anos sessenta, talvez na esteira da vitoriosa revolução socialista cubana. Também nessa época intensifica-se o movimento feminista, passando as mulheres a exigir condições de vida e de trabalho iguais às dos homens. Veja na cronologia alguns eventos ligados ao feminismo. Ainda que muito tenuemente, começa-se a pensar que, embora sejamos todos diferentes (mulheres e homens, negros e brancos, brasileiros e europeus) devemos ser todos tratados de forma igual, devemos ter todos os mesmos direitos e oportunidades.








Quando consegue algum alimento, a narradora reflete sobre sua condição de pessoa expulsa do mundo humano:
“Quando eu levava feijão pensava: hoje eu estou parecendo gente bem, vou cozinhar feijão. Parece até um sonho!”


A miséria que presencia é tão chocante que Carolina acha que alguém poderia não acreditar no que conta:
“…. Há existir alguém que lendo o que eu escrevo dirá… isto é mentira! Mas, as misérias são reais.”


Com grande senso crítico, a autora destaca as visitas do padre à favela:
“De manhã o padre veio dizer missa. Ontem ele veio com o carro capela e disse aos favelados que eles precisam ter filhos. Penso: porque há de ser o pobre quem há de ter filhos ¬ se filhos de pobre tem que ser operário? (…) Para o senhor vigário, os filhos de pobre criam só com pão. Não vestem e não calçam.”


O contraste entre a favela e a cidade é percebido com acuidade e senso crítico por Carolina:
“Quando eu vou na cidade tenho a impressão de que estou no paraíso. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas.Aquelas paisagens há de encantar os visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da América do Sul está enferma. Com as suas ulceras. As favelas.”


Fatos corriqueiros como brigas entre marido e mulher, entre as mulheres e os bêbados, a presença da Rádio Patrulha, mortes por intoxicação com alimentos putrefatos são narrados com detalhes por Carolina:
“Eu já estou tão habituada a ver brigas que já não impressiono. Despertei com um bate-fundo perto da janela. Era a Ida e a Amália.A briga começou lá na Leila. Elas não respeitam nem a extinta. O Joaquim interviu pedindo para respeitar o corpo. Elas foram brigar na rua.”


Ao olhar atento da narradora nada escapa:
“…. Nas favelas, as jovens de 15 anos permanecem até a gora que elas querem. Mescla-se com as meretrizes, contam suas aventuras [...] Há os que trabalham. E há os que levam a vida a torto e a direito.As pessoas de mais idade trabalham, os jovens é que renegam o trabalho. Tem as mães, que catam frutas e legumes nas feiras. Tem as igrejas que dá pão.”

Sempre em atrito com os vizinhos por causa dos filhos, Carolina diz:
“ Os meus filhos estão defendendo-me. Vocês são incultas, não pode compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradáveis me fornece os argumentos.”


Carolina demonstra ser uma pessoa exatamente atualizada em relação ao que se passa na vida política do país, o que se comprova pelas constantes referências aos políticos em destaque na época, como Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Adhemar de Barros e Juscelino Kubitschek.A exploração da boa-fé do povo pelos políticos na época de eleições, as visitas dos candidatos à favela, os pequenos agrados e as promessas não cumpridas são registradas pela narradora de forma crítica e consciente:
“…. Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente
que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olho o povo com os olhos semicerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade.”


Sobre sua obra, Carolina afirma:
“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.”









“Heróis de Todo Mundo” – Carolina Maria de Jesus

Interpretada pela atriz Ruth de Souza.
Parte única





Carolina Maria de Jesus – “Diário de Bitita”
Parte única


Reportagem sobre a escritora de Sacramento, Carolina Maria de Jesus, realizada pela Rede Integração(Globo), com participação de Audálio Dantas (Jornalista), Vera Eunice (Filha), Marisa (Neta), e Berto Cerchi(Historiador e Escritor), na ocasião do lançamento da re-edição do Livro “Diário de Bitita”, pela Editora Bertolucci.



Verônica Ferriani canta “A Marcha do Pinguço”, composta por Carolina Maria de Jesus.
Parte única




Verônica Ferriani canta “Ra-Re-Ri-Ro-Rua”, de Carolina Maria de Jesus
Parte única




Carolina Maria de Jesus, a escritora que o Brasil esqueceu.

domingo, 27 de outubro de 2013

"Ler é encantar-se"


Por que ler?



27 de outubro de 2013


Fiz esta crônica para ler na abertura da Feira do livro de Camaquã, no Rio Grande do Sul, onde fui, cheio de honra e de alegria, patrono.

*

Resolvo pagar mico. Pode ser estimulante sair da zona de conforto sem sair do bairro. Dou um passeio. Interpelo pessoas e faço uma pergunta simples: por que ler? Tem sol. Faz mais de 20 graus. É primavera. Uma leve brisa empurra as folhas de árvores frondosas. Porto Alegre está linda. Alguns me reconhecem. Outros me olham desconfiados. Uma senhora claudicante puxa a filha, uma moça loura sorridente, pelo braço e “sussurra” alto:

– Só pode ser golpe.

Afastam-se apressadas torcendo o pescoço para ver se não as estou seguindo ou se tem alguém caindo no meu conto. Sim, é um conto. O que estou contando? Uma pequena história da leitura. Quem conta um conto aumenta um ponto. Posso perder alguns. Mas eu estou contando a verdade. O que é a verdade? O que as pessoas contam.

– Por que ler?

– Para se instruir – responde um homem de gravata.

Será culpa da gravata? Temo os homens que nunca se separam das suas gravatas. São seres estrangulados. Podem, um dia, cortarem o nó. Será a gravata que faz o homem de quem estou falando, por volta dos 40 anos, tão sisudo, tão utilitarista, tão preocupado com o resultado? Ele não está errado nem conta mentira. Ler instrui.

– Para me instruir eu estudo – diz uma guria.

– Estudar é ler – persevera o homem.

– É e não é – insiste a guria.

– É ou não é? – empertiga-se o homem da gravata vermelha.

– Ler quer dizer mais do que estudar. A gente lê para sonhar, viajar, fantasiar, ter prazer – explica a moça.

Está de saia vermelha. Comparo a saia dela com a gravata do homem. A blusa dela é branca e com um generoso decote. Valeria escrever uma crônica sobre o abismo que se insinua em direção a territórios encobertos do seu corpo esguio. Não sou um escritor erótico. A minha preocupação é a leitura. Conto só o que se deve contar.

– Leio para viver – é o que me diz uma dama toda de branco cuja idade não pode ser inferior aos 90 anos.

Examino sua figura frágil e vergada. Ele me sorri um sorriso cheio de leituras dos tempos da Editora Globo. Pelos seus olhos passa a mulher de 30 anos de Balzac, passa também uma Odete de Marcel Proust e, se não me engano, se não forço o conto, passa Madame Bovary. Ela vê o que eu vejo nos seus olhos e me olha com “olhos de ressaca”, não a ressaca da Capitu, mas a doce ressaca dos belos anos, que desconheço, mas imagino e já admiro.

– Leio para reviver – ela se corrige.

E se vai. Ainda me olha antes de dobrar a esquina. Penso que viveu, no que poderíamos ter vivido, no que leu. Passa uma gata. Anda na cadência da serpente que dança de Baudelaire, “belle d’abandon”. Penso em abordá-la. Hesito. Ela vai achar que sou um chato, um tarado, um golpista ou um cantador barato. Eu sou apenas um contador vira-lata latino-americano que lê por paixão. Arrisco:

– Por que ler?

– Para iluminar o mundo – ela me responde.

Paro de escrever. Tudo isso eu inventei para ler. Quem conta um conto cai no seu canto. Ler é encantar-se.

sábado, 18 de maio de 2013

Qui ném feijão com arroiz

Muitas vezes tenho vontade...


de mandar a Vivo à merda, principalmente, quando querem me vender o tal smartfone, Não quero! Não uso internet

- Velho rabugento...

e não estou reclamando quando a ligação apaga/desliga/desconecta/vira fumaça no meio da palav

mas daí, lembro do Eduardo e da Mônica... ahah e ah!

E sei que tudo vai dar certo.

Acho até que vou deixar de ser rabunojento...





Mas se vc ñ ta de mau com a Vivo aproveita e curte o Legião Urbana. Afinal, vc ainda tem como fazê...
a gurizada neim sabi queim eh

não sei, não
acho que tem alguns que sabe desse faroeste de branco



Faroeste Caboclo





Faroeste Caboclo
Legião Urbana



Não tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu

Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu
Era o terror da sertania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu

Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar

Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
De escolha própria, escolheu a solidão

Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze era professor.
Aos quinze, foi mandado pro o reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.

Não entendia como a vida funcionava
Discriminação por causa da sua classe e sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.

E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar

Dizia ele: "Estou indo pra Brasília
Neste país lugar melhor não há
Tô precisando visitar a minha filha
Eu fico aqui e você vai no meu lugar"

E João aceitou sua proposta
E num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal

"Meu Deus, mas que cidade linda,
No Ano-Novo eu começo a trabalhar"
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava cem mil por mês em Taguatinga

Na sexta-feira ia pra zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo do seu bisavô

Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ele ia começar

E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar

Mas ele não queria mais conversa
E decidiu que, como Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E sem ser crucificado, a plantação foi começar.

Logo logo os maluco da cidade souberam da novidade:
"Tem bagulho bom ai!"
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali.

Fez amigos, frequentava a Asa Norte
E ia pra festa de rock, pra se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinho da cidade
Começou a roubar.

Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
"Vocês vão ver, eu vou pegar vocês"

Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general

Foi quando conheceu uma menina
E de todos os seus pecados ele se arrependeu
Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu

Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
"Maria Lúcia pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter"

O tempo passa e um dia vem na porta
Um senhor de alta classe com dinheiro na mão
E ele faz uma proposta indecorosa
E diz que espera uma resposta, uma resposta do João

"Não boto bomba em banca de jornal
Nem em colégio de criança isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas
Que fica atrás da mesa com o cu na mão

E é melhor senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião"
Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
"Você perdeu sua vida, meu irmão"

"Você perdeu a sua vida meu irmão
Você perdeu a sua vida meu irmão
Essas palavras vão entrar no coração
Eu vou sofrer as consequências como um cão"

Não é que o Santo Cristo estava certo
Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se embebedou e no meio da bebedeira
Descobriu que tinha outro trabalhando em seu lugar

Falou com Pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia o contrabando da Bolívia
E Santo Cristo revendia em Planaltina

Mas acontece que um tal de Jeremias,
Traficante de renome, apareceu por lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que, com João ele ia acabar

Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que Jeremias começasse a brigar

Jeremias, maconheiro sem-vergonha
Organizou a Rockonha e fez todo mundo dançar
Desvirginava mocinhas inocentes
Se dizia que era crente mas não sabia rezar

E Santo Cristo há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
"Eu vou me embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já tá em tempo de a gente se casar"

Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez
Com Maria Lúcia Jeremias se casou
E um filho nela ele fez

Santo Cristo era só ódio por dentro
E então o Jeremias pra um duelo ele chamou
Amanhã às duas horas na Ceilândia
Em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou

E você pode escolher as suas armas
Que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia
Aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor

E o Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórter da televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão

No sábado então, às duas horas,
Todo o povo sem demora foi lá só para assistir
Um homem que atirava pelas costas
E acertou o Santo Cristo, começou a sorrir

Sentindo o sangue na garganta,
João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali

E se lembrou de quando era uma criança
E de tudo o que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
"Se a via-crucis virou circo, estou aqui"

E nisso o sol cegou seus olhos
E então Maria Lúcia ele reconheceu
Ela trazia a Winchester-22
A arma que seu primo Pablo lhe deu

"Jeremias, eu sou homem. coisa que você não é
E não atiro pelas costas não
Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha
Dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o teu perdão"

E Santo Cristo com a Winchester-22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor

E o povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV

E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz...

Sofrer...

Composição: Renato Russo