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sábado, 9 de maio de 2026

um mulherão e cinco homens (2)

um mulherão e cinco homens (2)

baitasar


as mães desacordam antes do sol, um desadormecer cansado, é preciso preparar o café com um sorriso apressado, muitas tarefas de cuidar e educar, Vocês não me peguem nada que não seja de vocês, o lugar de comer é em casa. Não esqueçam a merenda!

plantava sementes enquanto partes de si mesma ficava pelo caminho, um mulherão e cinco homens

a vozearia dos guris se espalhava, mauro, rogério, ricardo, rubem, o Milton já se fora para a fábrica de balanças Santo Antônio, saia nas madrugadas da manhã e voltava já noite adiantada, nós, os quatro filhos, ficávamos com a Elci, como tantos filhos e filhas, naqueles dias era assim, esse mulherão carregava sonhos que ficaram pelo caminho, fingimentos verdadeiros e verdades inventadas, rotinas de palavras doces, passos acelerados entre o tanque das roupas imundas da filharada e a cozinha da comida amorosa, no caminho, gestos escondidos nas sombras do silêncio

aquela fortaleza invisível continua planejando nossas vidas, correndo pelos nossos caminhos, mulher corajosa, amorosa, determinada, suportando nossas partes de esperança em silêncio, não reclamava, uma peregrinação sem tréguas para cumprir no tempo das horas essa combinação silenciosa de entrega e desassombro, cuidando da febre e dos medos, entre sua angústia e cansaço, não desistiu

não aceitou deixar seus filhos num calabouço com pão, água e sem escola, queria mais, não desistiu, Vocês vão pra escola, e pronto! Não quero escutar queixas da professora, entenderam? Quando saírem da escola vão saber que valeu a pena.

nunca, durante esse tempo de guri, me perguntei como se impunha forçar ombros e pernas para alicerçar e escorar nossa pequena família de homem e guris, uma tarefa cumprida no dia-a-dia, de domingo à domingo, exigindo de si mesma mais e mais, cada vez mais

nunca foi um ensaio, sempre foi para valer, muitas vezes, com lágrimas e olhar desenxabido

o tempo do nosso desmame era inevitável, tínhamos sentimentos amontoados e desencontrados, cada um no seu tempo e do seu jeito, desgrudando sem soltar, sem mau humor, gritarias, choro ou culpa, em silêncio, uma outra vida cheia de surpresas vivendo do jeito que dá, o abraço no lugar do colo

continuo me permitindo sentir saudade, o amor que tenho e o beijo doce na boca alimentam lembranças de contentamento, mesmo que o tempo da tristeza não passe, preciso chegar em casa, esquecer sem esquecimento e sempre com a necessidade da proximidade do perfume do café passado, o aroma do pão fresco, o leite derramando na fervura, sentindo a ventania do nosso amor que ela transformava em brisa

sim, ela continua em nós

te amo, mãe

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Crônica: Ano Novo

Luis Fernando Veríssimo

Uma crônica sobre o ano de 2012 para 2013..

     Existem muitas superstições sobre a melhor maneira de entrar o Ano-Novo. Na nossa casa, por exemplo, nunca falta um prato de lentilha para ser consumido nos primeiros minutos do ano que começa. Dá sorte. Ouvi dizer que na Espanha, ao soar da meia-noite, deve-se comer uma uva para cada badalada do relógio. Este costume chegou à Bulgária mas, por uma falha na tradução, lá se come um melão para cada batida do relógio, e os hospitais ficam cheios no dia 1º. Na Suíça, comem o relógio.

     Algumas crenças persistem através do tempo, desafiando toda lógica. Se o champanhe aberto à meia-noite não estourar e se tiver alguém na família chamado Edgar, é sinal de que a casa será arrasada por uma manada de elefantes e o champanhe está choco. Na Rússia, depois de brindarem o Ano-Novo com vodca, os convidados devem atirar suas taças contra a parede e depois ficar muito brabos porque não há mais copos na casa e atirar o anfitrião contra a parede. De qualquer maneira, a festa termina cedo.

     Na Índia se a primeira criança que nascer no Ano-Novo tiver bigode, fumar de piteira e pedir para falar urgentemente com o Kofi Anan, é mau sinal. Na Polinésia, em certas tribos primitivas, o guerreiro mais audaz deve levar a virgem mais bonita até a boca do vulcão e atirá-la para a morte, como um sacrifício aos deuses. Mas a encosta do vulcão é comprida, os dois param para descansar um pouco e, quando chegam à boca do vulcão, estabelece-se o paradoxo: se o guerreiro era audaz, a moça não é mais virgem, se a moça ainda é virgem, o guerreiro não era audaz, e o sacrifício sempre fica para o ano que vem. Na Austrália, todos se atiram contra a parede.

     Entrar o Ano-Novo de gravata-borboleta pode comprometer seriamente as relações entre o Oriente e o Ocidente. O primeiro animal que você encontrar na rua no Ano-Novo pode significar uma coisa. Cachorro é sorte. Gato é dinheiro. Rato é saúde. Um bando de hienas é azar, corra. Um cavalo roxo dançando o xaxado na calçada significa que você está bêbado. Vá dormir.

     Em certos lugares, é costume derramar champanhe no decote da mulher ao seu lado, o que lhe trará, a longo prazo, bons negócios, e, a curto prazo, um tapa-olho. Se você estiver num réveillon junto com seu patrão, não esqueça de se colocar estrategicamente para ser o primeiro a abraçá-lo à meia-noite. Dance com a mulher dele. Insista para que ele dance com a sua. Proponha vários brindes. Pule em cima da mesa. Proponha mais brindes. Diga que agora você é quem vai dançar com o patrão e não quer nem saber. Acabe lhe dizendo algumas verdades. Proteste que ninguém precisa segurar você, você está sóbrio, entende? Sóbrio! Só não sabe como uma manada de elefantes roxos invadiu o salão, ou será que a mulher do patrão trouxe a família toda? No dia 1º você não se lembrará de nada. No dia 2, você vai procurar outro emprego. Chato.

     Outro costume é fazer previsões na véspera do Ano-Novo. Pode chover. Alguém, em algum lugar do Brasil, está dizendo: “Boas-entradas nada, eu quero saber onde fica a saída…” E a previsão mais fácil de todas…

– Qual é?

– Amanhã eu vou estar de ressaca!

Enfim, o Ano-Novo já está quase aí e, apesar de muita gente no Brasil telefonar para os parentes no Japão, onde o 2013 chegará mais cedo, querendo saber que tal o ano, como quem pergunta como é que está a água, ninguém sabe como ele será. Farei o possível para entrar nele com o pé direito, mas, quando perceber, ele é que terá entrado em mim, não dará para recuar.

     Só sei uma coisa. Assim que o relógio terminar de bater a meia-noite, comerei meu prato de lentilha para dar sorte. Pedirei outro. E derramarei lentilha no colo, destruindo para sempre A) um bom par de calças e B) minha fé em qualquer tipo de superstição.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor (algumas nem tão bem humoradas, mas sempre nos provocando...), seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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sábado, 27 de dezembro de 2025

Crônica: Equívocos

Luis Fernando Veríssimo


     Uma família de classe média alta. Pai, mulher, um filho de sete anos. É a noite do dia em que o filho fez sete anos. A mãe recolhe os detritos da festa.

     O pai ajuda o filho a guardar os presentes que ganhou dos amigos. Nota que o filho está quieto e sério, mas pensa: "É o cansaço." Afinal ele passou o dia correndo de um lado para o outro, comendo cachorro-quente e sorvete, brincando com os convidados por dentro e por fora da casa. Tem que estar cansado.

- Quanto presente, hein, filho? 
- É. 
- E esta espada. Mas que beleza. Esta eu não tinha visto. 
- Pai... 
- E como pesa! Parece uma espada de verdade. É de metal mesmo. Quem foi que deu? 
- Era sobre isso que eu queria falar com você.

     O pai estranha a seriedade do filho. Nunca o viu assim. Nunca viu nenhum garoto de sete anos sério assim. Solene assim. Coisa estranha... O filho tira a espada da mão do pai. Diz:

- Pai, eu sou Thunder Boy. 
- Thunder Boy? 
- Garoto Trovão. 
- Muito bem, meu filho. Agora vamos pra cama. 
- Espere. Esta espada. Estava escrito. Eu a receberia quando fizesse sete anos.

     O pai se controla para não rir. Pelo menos a leitura de história em quadrinhos está ajudando a gramática do guri. "Eu a receberia..." O guri continua.

- Hoje ela veio. É um sinal. Devo assumir meu destino. A espada passa a um novo Thunder Boy a cada geração. Tem sido assim desde que ela caiu do céu, no vale sagrado de Bem Tael, há sete mil anos, e foi empunhada por Ramil, o primeiro Garoto Trovão.

     O pai está impressionado. Não reconhece a voz do filho. E a gravidade do seu olhar. Está decidido. Vai cortar as histórias em quadrinhos por uns tempos.

- Certo, filho. Mas agora vamos... 
- Vou ter que sair de casa. Quero que você explique à mamãe. Vai ser duro para ela. Conto com você para apoiá-la. Diga que estava escrito. Era o meu destino. 
- Nós nunca mais vamos ver você? - pergunta o pai, resolvendo entrar no jogo do filho enquanto o encaminha, sutilmente, para a cama. 
- Claro que sim. A espada do Thunder Boy está a serviço do bem e da justiça. Enquanto vocês forem pessoas boas e justas poderão contar com a minha ajuda. 
- Ainda bem - diz o pai.

     E não diz mais nada. Porque vê o filho dirigir-se para a janela do seu quarto, e erguer a espada como uma cruz, e gritar para os céus "Ramil!". E ouve um trovão que faz estremecer a casa. E vê a espada iluminar-se e ficar azul. E o seu filho também.

     O pai encontra a mulher na sala. Ela diz:

- Viu só? Trovoada. Vá entender este tempo. 
- Quem foi que deu a espada pra ele? 
- Não foi você? Pensei que tivesse sido você. 
- Tenho uma coisa pra te contar. 
- O que é? 
- Senta, primeiro.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor (algumas nem tão bem humoradas, mas sempre nos provocando...), seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Crônica: Exigências da vida moderna

Luis Fernando Veríssimo


     Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C. Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
     Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
     Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).
     Cada dia uma Aspirina, previne infarto.
     Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.
     Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem.
     O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
     Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.
     Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.
     E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia… E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.
     Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.
     Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
     Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito.
     As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
     E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
     Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
     Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo – e nem estou falando de sexo tântrico.
     Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.
     Na minha conta são 29 horas por dia. A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!
     Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes.
     Chame os amigos junto com os seus pais.
     Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher… na sua cama.
     Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
     Agora tenho que ir.
     É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal… Tchau!
     Viva a vida com bom humor!!!





Edson Valerio

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor (algumas nem tão bem humoradas, mas sempre nos provocando...), seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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Exigências da vida moderna / Equívocos / 

sábado, 22 de novembro de 2025

Crônica: Provocações

Luis Fernando Veríssimo


     “A primeira provocação ele aguentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

     Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

     Foram lhe provocando por toda a vida.

     Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

     Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

     Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

     Estavam lhe provocando.

     Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

     Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a ideia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

     Terra era o que não faltava.

     Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

     Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

     Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano… Então protestou.

     Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

– Violência, não!”


Provocações 
- Abujamra 
- Luis Fernando Veríssimo




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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor (algumas nem tão bem humoradas, mas sempre nos provocando...), seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico / O Lixo / Dois mais dois / Não me acorde / Cuia / Provocações /

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Crônica: Cuia

Luis Fernando Veríssimo


     Lindaura, a recepcionista do analista de Bagé ― segundo ele, “mais prestimosa que mãe de noiva” ―, tem sempre uma chaleira com água quente pronta para o mate. O analista gosta de oferecer chimarrão a seus pacientes e, como ele diz, “charlar passando a cuia, que loucura não tem micróbio”. Um dia entrou um paciente novo no consultório.

― Buenas, tchê ― saudou o analista. ― Se abanque no más.

     O moço deitou no divã coberto com um pelego e o analista foi logo lhe alcançando a cuia com erva nova. O moço observou:

― Cuia mais linda.
― Cosa mui especial. Me deu meu primeiro paciente. O coronel Macedônio, lá pras banda de Lavras.
― A troco de quê? ― quis saber o moço, chupando a bomba.
― Pues tava variando, pensando que era metade homem e metade cavalo. Curei o animal.
― Oigalê.
― Ele até que não se importava, pues poupava montaria. A família é que encrencou com a bosta dentro de casa.
― A la putcha.

O moço deu outra chupada, depois examinou a cuia com mais cuidado.

― Curtida barbaridade. 
― Também. Mais usada que pronome oblíquo em conversa de professor.
― Oigatê.

     E a todas estas o moço não devolvia a cuia. O analista perguntou:

― Mas o que é que lhe traz aqui, índio velho?
― É esta mania que eu tenho, doutor.
― Pos desembuche.
― Gosto de roubar as coisas.
― Sim.

     Era cleptomania. O paciente continuou a falar, mas o analista não ouvia mais.
     Estava de olho na sua cuia.

― Passa ― disse o analista.
― Não passa, doutor. Tenho esta mania desde piá.
― Passa a cuia.
― O senhor pode me curar, doutor?
― Primeiro devolve a cuia.

     O moço devolveu.
     Daí para diante, só o analista tomou chimarrão. E cada vez que o paciente estendia o braço para receber a cuia de volta, ganhava um tapa na mão.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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Mano Lima - sobre o Mate




Causos do Mano Lima




Mano Lima - Cadela Baia 
Programa De Campo E Alma




Cadela Baia | Mano Lima e Grupo Bororé
Composição: Mano Lima.
Programa de Corpo e Alma

A minha doma é na base do ia há há
Deixo que corra à vontade e embalo o corpo pra golpear
Dou-lhe um tirão lá no fundo da invernada
E outro aqui na chegada e nesse já faço esbarrar
Dou-lhe um tirão lá no fundo da invernada
E outro aqui na chegada e nesse já faço esbarrar
Conto com a sorte e com a minha cadela baia
Que às vezes a pobre me ajuda e outras vezes me atrapalha
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreios eu me garanto
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreio eu me garanto
Depois que eu boto a curva da perna no arreio
Pode frouxar a minha cadela só que rache pelo meio
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta
Pra quem não sabe o meu apelido é polvadeira
E desde que eu vim da fronteira dou pau em égua porreada
Meu professor foi o maragato Antenor
Que mora ali no corredor pra diante da encruzilhada
Meu professor foi o maragato Antenor
Que mora ali no corredor pra diante da encruzilhada
Conto com a sorte e com a minha cadela baia
Que às vezes a pobre me ajuda e outras vezes me atrapalha
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreios eu me garanto
Eu mesmo pego, eu mesmo encilho, eu mesmo espanto
Depois que solto pra arriba nos arreios eu me garanto
Depois que eu boto a curva da perna no arreio
Pode soltar a minha cadela só que rache pelo meio
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta
A minha cadela sai pegando pelas venta
E eu afirmo na soiteira e abraço nas ferramenta

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Crônica: Não me acorde

Luis Fernando Veríssimo


     O passado é prologo.

     Certos acontecimentos dão força a essa frase. Transformam tudo que veio antes em preliminar, em mero antecedente. Ou, para usar outro termo literário, em prefácio. Você se dá conta de que tudo que houve até ali, toda uma vida, toda uma história foi simplesmente preparação para aquele certo momento, depois do qual, nada será como era.

     E o passado ganha uma lógica que não tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto. Tudo tinha um sentido em que você apenas não percebera, na falta do momento máximo. A vitória do Grêmio, em Tóquio em 83, os anos medíocres, o quase rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames, as desilusões, tudo era prólogo para ontem.

     Agora ficou claro. Agora ficou lógico.

     O próprio destaque como melhores do mundo, conquistado pelo Barcelona e pelo Ronaldinho, fazia parte da preparação para o nosso 17 de dezembro, que não teria o mesmo gosto épico se o adversário fosse outro. Tudo era armação para aumentar o brilho e o drama do nosso momento máximo. Tudo se encaixava. Ou você pensa que a saída do Pato e do Fernandão foi obra do acaso, esse autor sem imaginação?

O resultado veio sendo construído aos poucos, desde antes da fundação do Internacional. Antes de Pedro Alvares Cabral, antes de Onero e das Pirâmides. E eu sabia que havia uma justificativa histórica para o topete do Gabiru.

Há dias, a leitora Poliana Lopes me lembrou de um texto que eu tinha escrito e esquecido. Ela teve a gentileza de me mandar o texto, e eu peço licença para repeti-lo agora. Era assim:

     Meu caro Colorado. Desculpe esta carta a céu aberto, é por que não sei seu nome nem seu endereço. Na verdade, só vi você na rua de mãos dadas com seu pai e cercado pelos seus irmãos que vestiam a camiseta do Grêmio. Suponho que fossem seu pai e seus irmãos.
     Você estava com a camiseta do Internacional. Quase parei o carro para olhar melhor, mas não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha. Seu pai vestia uma camiseta branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio.
     E lá estava você de camiseta vermelha, o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provações. Não sei se você sabe que vários colorados da sua geração não aguentaram e trocaram de time. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista.
     Você aguentou! Você não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando que, quando for a nossa vez de novo, teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Porque será a torcida dos que resistiram. Aguente só mais um pouco. Meus respeitos.

     Mas isso tudo também pode ser um sonho.
     Se for, por favor, não me acorde.






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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico / O Lixo / Dois mais dois / Não me acorde / Cuia /


Resenha há 10 anos!
COLEÇÃO LUIS FERNANDO VERISSIMO



Ler Antes de Morrer

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Crônica: Dois mais dois

Luis Fernando Veríssimo


     O Rodrigo não entendia por que precisava aprender matemática, já que a sua minicalculadora faria todas as contas por ele, pelo resto da vida, e então a professora resolveu contar uma história.

     Contou a história do Supercomputador. Um dia disse a professora, todos os computadores do mundo serão unificados num único sistema, e o centro do sistema será em alguma cidade do Japão. Todas as casas do mundo, todos os lugares do mundo terão terminais do Supercomputador. As pessoas usarão o Supercomputador para compras, para recados, para reservas de avião, para consultas sentimentais. Para tudo. Ninguém mais precisará de relógios individuais, de livros ou de calculadoras portáteis. Não precisará mais nem estudar. Tudo que alguém quiser saber sobre qualquer coisa estará na memória do Supercomputador, ao alcance de qualquer um. Em milésimos de segundo a resposta à consulta estará na tela mais próxima. E haverá bilhões de telas espalhadas por onde o homem estiver, desde lavatórios públicos até estações espaciais. Bastará ao homem apertar um botão para ter a informação que quiser.

     Um dia, um garoto perguntará ao pai:

– Pai, quanto é dois mais dois?
– Não pergunte a mim – dirá o pai -, pergunte a Ele.

     E o garoto digitará os botões apropriados e num milésimo de segundo a resposta aparecerá na tela. E então o garoto dirá:

– Como é que sei que a resposta é certa?
– Porque Ele disse que é certa – responderá o pai.
– E se Ele estiver errado?
– Ele nunca erra.
– Mas se estiver?
– Sempre podemos contar nos dedos.
– O quê?
– Contar nos dedos, como faziam os antigos. Levante dois dedos. Agora mais dois. Viu? Um, dois, três, quatro. O computador está certo.
– Mas, pai, e 362 vezes 17? Não dá para contar nos dedos. A não ser reunindo muita gente e usando os dedos das mãos e dos pés. Como saber se a resposta d’Ele está certa? Aí o pai suspirou e disse:
– Jamais saberemos...

     O Rodrigo gostou da história, mas disse que, quando ninguém mais soubesse matemática e não pudesse pôr o Computador à prova, então não faria diferença se o Computador estava certo ou não, já que a sua resposta seria a única disponível e, portanto, a certa, mesmo que estivesse errada, e... Aí foi a vez da professora suspirar.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico / O Lixo / Dois mais dois / Não me acorde / 

domingo, 16 de novembro de 2025

Crônica: O Lixo

Luis Fernando Veríssimo


     Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.

- Bom dia... 
- Bom dia. 
- A senhora é do 610. 
- E o senhor do 612 
- É. 
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente... 
- Pois é... 
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo... 
- O meu quê? 
- O seu lixo. 
- Ah... 
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena... 
- Na verdade sou só eu. 
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata. 
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar... 
- Entendo. 
- A senhora também... 
- Me chame de você. 
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim... 
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra... 
- A senhora... Você não tem família? 
- Tenho, mas não aqui. 
- No Espírito Santo. 
- Como é que você sabe? 
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo. 
- É. Mamãe escreve todas as semanas. 
- Ela é professora? 
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou? 
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora. 
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo. 
- Pois é... 
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado. 
- É. 
- Más notícias? 
- Meu pai. Morreu. 
- Sinto muito. 
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos. 
- Foi por isso que você recomeçou a fumar? 
- Como é que você sabe? 
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo. 
- É verdade. Mas consegui parar outra vez. 
- Eu, graças a Deus, nunca fumei. 
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo... 
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo? 
- Isso você também descobriu no lixo? 
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel. 
- É, chorei bastante, mas já passou. 
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos... 
- É que eu estou com um pouco de coriza. 
- Ah. 
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo. 
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é. 
- Namorada? 
- Não. 
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha. 
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga. 
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte. 
- Você já está analisando o meu lixo! 
- Não posso negar que o seu lixo me interessou. 
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia. 
- Não! Você viu meus poemas? 
- Vi e gostei muito. 
- Mas são muito ruins! 
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados. 
- Se eu soubesse que você ia ler... 
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela? 
- Acho que não. Lixo é domínio público. 
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso? 
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que... 
- Ontem, no seu lixo... 
- O quê? 
- Me enganei, ou eram cascas de camarão? 
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei. 
- Eu adoro camarão. 
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode... 
- Jantar juntos? 
- É. 
- Não quero dar trabalho. 
- Trabalho nenhum. 
- Vai sujar a sua cozinha? 
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?

VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. RJ: Objetiva. 2002.






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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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sábado, 15 de novembro de 2025

Crônica: Épico

Luis Fernando Veríssimo


     O futebol de calçada era com narração, e o próprio jogador fornecia a narração. Jogava e descrevia sua jogada ao mesmo tempo, e nunca deixava de se auto entusiasmar. “Sensacional, senhores ouvintes!” (Naquele tempo os locutores tratavam o público de “senhores ouvintes”).

     “Sensacional! Mata no peito, põe no chão, faz que vai mas não vai, passa por um, por dois... Fáu! Foi fáu do béque! O juiz não deu! O juiz está comprado, senhores ouvintes!”

     Fáu era “foul” e béque era “back”, na língua daquela terra estranha, o passado. E o juiz, claro, era imaginário. Tudo era imaginário no futebol de calçada, a começar pela nossa genialidade. A bola era de borracha, quando não era qualquer coisa remotamente redonda. O bola número cinco oficial de couro ganha no Natal não aparecia na calçada, tá doido? Estragar uma bola de futebol novinha jogando futebol?

     Mas éramos gênios na nossa própria narração.

     “Lá vai ele de novo. Cabeça erguida! Passa a bola e corre para receber de volta... Que lance! O passe não vem! Não lhe devolvem a bola! Assim não dá, senhores ouvintes ... Só ele joga nesse time!”

     A narração dava um toque épico ao futebol. Lembro que na primeira vez em que fui a um campo, acostumado a só ouvir futebol pelo rádio, senti falta de alguma coisa que não sabia o que era. Tudo era maravilhoso, o público, o cheiro de grama, os ídolos que eu conhecia de fotografias desbotadas no jornal ali, em cores vivas... Mas faltava alguma coisa. Faltava uma voz me dizendo que o que eu estava vendo era mais do que estava vendo. Faltava a narrativa heroica. Faltava o Homero.

     Na calçada éramos os nossos próprios heróis e os nossos próprios Homeros.

     “Atenção. Ele olha para o gol. Vai chutar. Lá vai a bomba. O goleiro treme. Ele chuta! A bola toma efeito. Entra pela janela. E lá vem a mãe, senhores ouvintes! A mãe invade o campo. Ele tenta se esquivar. Dá um drible espetacular na mãe. Dois. A mãe pega ele pela orelha. Pela orelha! E o juiz não vê isso!”

     Mesmo se nem tudo merecesse o toque épico.

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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico / O Lixo / 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Crônica: A metamorfose

Luis Fernando Veríssimo


     Uma barata acordou um dia e viu que tinha se transformado num ser humano. Começou a mexer suas patas e viu que só tinha quatro, que eram grandes e pesadas e de articulação difícil. Não tinha mais antenas. Quis emitir um som de surpresa e sem querer deu um grunhido. As outras baratas fugiram aterrorizadas para trás do móvel. Ela quis segui-las, mas não coube atrás do móvel. O seu segundo pensamento foi: “Que horror… Preciso acabar com essas baratas…”

     Pensar, para a ex-barata, era uma novidade. Antigamente ela seguia seu instinto. Agora precisava raciocinar. Fez uma espécie de manto com a cortina da sala para cobrir sua nudez. Saiu pela casa e encontrou um armário num quarto, e nele, roupa de baixo e um vestido. Olhou-se no espelho e achou-se bonita. Para uma ex-barata. Maquiou-se. Todas as baratas são iguais, mas as mulheres precisam realçar sua personalidade. Adotou um nome: Vandirene. Mais tarde descobriu que só um nome não bastava. A que classe pertencia?… Tinha educação?…. Referências?… Conseguiu a muito custo um emprego como faxineira. Sua experiência de barata lhe dava acesso a sujeiras mal suspeitadas. Era uma boa faxineira.

     Difícil era ser gente… Precisava comprar comida e o dinheiro não chegava. As baratas se acasalam num roçar de antenas, mas os seres humanos não. Conhecem-se, namoram, brigam, fazem as pazes, resolvem se casar, hesitam. Será que o dinheiro vai dar ? Conseguir casa, móveis, eletrodomésticos, roupa de cama, mesa e banho. Vandirene casou-se, teve filhos. Lutou muito, coitada. Filas no Instituto Nacional de Previdência Social. Pouco leite. O marido desempregado… Finalmente acertou na loteria. Quase quatro milhões ! Entre as baratas ter ou não ter quatro milhões não faz diferença. Mas Vandirene mudou. Empregou o dinheiro. Mudou de bairro. Comprou casa. Passou a vestir bem, a comer bem, a cuidar onde põe o pronome. Subiu de classe. Contratou babás e entrou na Pontifícia Universidade Católica.

     Vandirene acordou um dia e viu que tinha se transformado em barata. Seu penúltimo pensamento humano foi : “Meu Deus!… A casa foi dedetizada há dois dias!…”. Seu último pensamento humano foi para seu dinheiro rendendo na financeira e que o safado do marido, seu herdeiro legal, o usaria. Depois desceu pelo pé da cama e correu para trás de um móvel. Não pensava mais em nada. Era puro instinto. Morreu cinco minutos depois , mas foram os cinco minutos mais felizes de sua vida.

     Kafka não significa nada para as baratas…






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Luis Fernando Veríssimo (1936 - 2025) foi um escritor gaúcho reconhecido por suas famosas crônicas. Normalmente se utilizando do humor, seus textos curtos trazem histórias que versam sobre o cotidiano e as relações humanas.

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A metamorfose / Épico /

domingo, 2 de novembro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (11)

um professor bagunceirinho (11)

baitasar

   começo o ritual diário da chamada, o registro histórico das presenças no início de mais um dia letivo, os nomes flutuando na memória, alguns se escondendo na rotina que emerge, o registro que o tempo determina, cada nome uma história, uma presença marcada; lógico, o livro das presenças aberto ainda não revela a jornada traçada, é apenas o registro do presente tornado passado, a formalidade de um ritual importante sobre quem está presente ou ausente, um fio que conecta alunos e alunas, o testemunho da continuidade, preservando o tempo, guardando nomes enquanto a rotina se estrutura, cada nome é uma palavra, cada presença uma janela de possibilidades, cada falta uma digital da história que esvazia a escola
   o case sobre a mesa
   hoje, a curiosidade se parece com uma chama que arde serena e sem véu, os olhares viajando fagueiros e delicados, as perguntas contidas, represadas e inquietas, não querem atrapalhar mais que o necessário, buscam por respostas urgentes às suas perguntas, acho que aprendem a crescer – estufando o aprendizado do adiamento e da tardança – , minha voz se espalha sozinha, no brilho dos olhos o desejo, talvez de tocar estrelas, buscar o novo, é visivelmente um fogo intenso e controlado
   está mais descomplicado e sossegado acomodar a turma em seus lugares, a bisbilhotice com o estojo preto e imenso do sax estabelece um acordo entre essa criançada interessante e interessada, querem as respostas sobre o caso do estojo, um mistério a ser desvendado
   termino a chamada sem nenhuma interrupção, eu mesmo não acredito, surpresa, continuam em silêncio, as bocas abertas caladas, o inesperado dançando em redor, aquele mundo se curvando ao novo encanto, um segredo irá emergir do estojo
   e se o espanto, apesar de inesperado, não trazer maravilhamento ou alegria, é um risco, cheguei com o estojo sem anúncio ou convite, e se essa tal admiração se mostrar sem brilho ou luz que acalente seus corações, não tenho plano B, o eco destas dúvidas se repetindo, uma sombra silente assusta, desvia o curso, perturba a paz, reinventa a confusão, A surpresa que traz, não traz o que faz, repeti para mim, antes de guardar o caderno estojo da chamada

Professor...

O que foi, Ana?

   olho sobre o estojo, está sentada na primeira fórmica verde, colada na minha mesa, os olhos negros estalados atrás daquela bolsa imensa, o cabelo crespo empoderando autonomia, os fios sem definição, as pontas repicadas, bastante volume e com formato redondo, tanta beleza humana diferente em cada uma dessas crianças

Vai demorar?

   minha risada surge enquanto percebo o brilho da que desconhece, onde perguntas florescem com pressa, quer diminuir a distância, o mistério alentando o encontro, vai começar o vaivém das perguntas, o tropeço doce que tenta entender o que não é seu, a tela em branco, a dúvida que convida caminharmos juntos até descobrirmos que talvez o segredo não seja possuir a verdade, mas abrir a possibilidade da surpresa e do encantamento

O que vai demorar, Ana?

   a resposta vem rápida, sabe que estou bordejando sobre o prato principal – que para mim era o acessório acidental –, O senhor abrir esse troço e mostrar o que tem dentro...
   confesso que ainda não sei bem o que estou fazendo, e incoerente, a minha resposta segue o raciocínio do planejamento, não está errada, mas eu acabei de colocar um bode na sala, Não, não vai demorar. Mas antes temos algumas tarefas para fazer. Assim, que terminarmos eu mostro o que tem dentro do estojo.
   um desassossego instantâneo se estabelece na turma, o vento que não para, a ebulição do mar revolto sem lua, pensamentos acelerados, sem repouso, a tensão, a dor, um fôlego intenso busca o inalcançado, incerto, ansioso, passos se aproximam, Felipe, senta no seu lugar!

Eu posso olhar de pertinho?

Não. Olhem dos seus lugares por enquanto...

   sei que o desejo não cabe em diques, tampouco é contido com gritos e ameaças, ele atravessa frestas e fissuras, gritos servem apenas para desgastar todos, ensinam apenas a submissão ao mais forte ou àquela que grita mais alto

Ah, professor! Mostra o que tem dentro desse caixão!

   o desejo encontra rotas novas, contorna barreiras, transforma o medo em mapa

Calma, Graziela...

   olho a turma, a curiosidade mostra sua semente que insiste em nascer, um vento que arrebola a pele do silêncio confortável, arrancando as pétalas do repouso, uma a uma, bem me quer mal me quer, bem me quer mal me quer, acende uma fogueira na barriga da noite, as faíscas das labaredas não pedem licença ao tamborilar suave do desassossego, o peito inquieto não se cala, sem dor, sem alívio, é apenas um pressentimento, uma curiosidade que transforma a sala em uma caverna que não se aquieta com as sombras, onde cada criança guarda uma hipótese é o coração aprendendo ouvir o sussurro que ainda não sabe falar, o novo escondido que faz gemer, empurra para dentro do sonho a curiosidade, não é fuga, é vida em movimento

Está bem... está bem! Vou abrir a caixa da surpresa. Mas ninguém vai escapar das tarefas de hoje!

   a válvula se abrindo, empurrando as tarefas ensaiadas e pensadas para algum canto da sala, e junto, a prudência e a ordem, a contenção para manter o equilíbrio se rompe, procura o curso livre, gritos de alegria, a vitória conquistada pela insistência, ecos que não se acabam, a luta persistente que insiste, chama, segue em frente, ensaia voos, sorrisos e lágrimas fecundam sonhos, geram ventos, a esperança tece a vitória que renasce na dança, faz a sala estremecer de tanto querer, levantam e gritam sua vitória, não há tempo nem muro que os contenha, nem esse professor pode ou quer conter essa alegria que nos chama, a vida insiste em vencer

Então, façam silêncio e sentem em seus lugares!

   o silêncio chega rápido, as cadeiras de fórmica verde são ocupadas de imediato, já não me espanto, esperam pelo segredo a ser sussurrado, o instante mudo, um espaço silencioso para enxergar, a calma instantânea onde quase tudo se revela, uma possível verdade oculta a ser revelada, o detalhe esquecido, observo meus alunos e alunas, percebo que a curiosidade e a coragem estão me permitindo aprender o momento para descobrir que o que é oculto precisa curiosidade para ser desvendado, o rio dos pensamentos sempre procura o curso da liberdade, a repressão não é morada segura
   pego o estojo sobre a fórmica verde da minha mesa
um professor bagunceirinho (11)

domingo, 26 de outubro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (10)

um professor bagunceirinho (10)

baitasar

   segunda-feira, terceira semana, as duas primeiras semanas foram intensas nos desafios e contradições entre meu discurso e minha prática, escondido atrás da segurança do costume desde antes, não sabia como mudar meu comportamento copista dos planos de aula sugeridos pelas colegas, legitimamente apontadas como alfabetizadoras, o tempo é o senhor da razão, paciente e sereno, silencioso e com passos lentos, desvendando segredos e curando dores, não há pressa nem mentira que vença o tempo
   ia clareando um desconforto na medida que pensava outras possibilidades daquela prática que já houve e está havendo por mim, virei um repetidor doido para fazer diferente, Mas por onde começar e fazer diferente?
   acordo como nas outras manhãs, os planos e estratégias para formar crianças alfabetizadas estão prontos, tudo certinho, não dá errado mesmo quando o inesperado se mostra sorrindo ou chorando, às vezes, gritando, a vida é imprevisível, e na escola é como um vento que não se espera, pode entrar forte ou suave, com risos ou lágrimas se misturando, cada olhar uma história diferente, um segredo, um contínuo enredo de emoção e razão, uma viagem do tempo no coração
   não tenho o direito de ser incompetente e preciso lutar comigo mesmo para não ser incoerente, uma responsabilidade pessoal e coletiva com a educação popular, a conscientização crítica e a ação transformadora que valoriza a construção do conhecimento e da justiça social; tenho claro, para mim, a exigência da competência é uma forma de respeitar a outra  – o outro  – e o processo dialógico, é uma luta para garantir que o meu discurso esteja junto a minha prática pedagógica, uma ética de compromisso, reflexão crítica e integridade emancipadora solidária
   o primeiro compromisso é com a pontualidade, a correria da higiene, café, lanche e torcer para que o fusca branco não me deixe na mão, saio e fecho a porta, jogo a mochila e a térmica com chá no banco de trás, entro no carro e dou partida no motor, o dia está começando bem 
   mas algumas coisa continuam inevitáveis, abro a porta do fusca e saio  – deixo o motor funcionando e porta aberta  –, preciso ir ao banheiro, o desconforto dos últimos anos com minha próstata tornou-me mais humilde, entro em casa apressado, levanto o assento estofado do vaso sanitário – e no limite do meu controle  –, encho o cabungo com o meu mijadeiro
   três biópsias da próstata, trinta e seis pedacinhos retirados para exames laboratoriais, exames de toque, PSA altíssimo, desconforto e medo, até chegarmos ao diagnóstico: hiperplasia prostática; por enquanto, respiro mais aliviado, um diagnóstico que diminui em muito qualquer agressão mais desastrosa e improrrogável, um diagnóstico necessário para uma medicação adequada, mas é preciso seguir cauteloso e atento
   a descarga, a higiene, a lavação das mãos, o relógio esgotando o tempo, e sem planejar ou mesmo pensar, vou até o quarto e pego o case com meu sax
   o case é um estojo preto com alça, usado para guardar e transportar, devidamente protegido e desmontado em três partes, o sax, alguém já me disse, Esse tal de case mais parece um caixão funerário, pode ser, desperta curiosidade, mas enfim, estou com ele em uma das mãos, caminhando até o fusca, a porta aberta, inclino para frente o meu banco, coloco o estojo com o sax no banco de trás, esse carregamento não estava previsto, Tu tá enlouquecendo, professor, penso com um breve sorriso
   uma manhã ensolarada, céu de brigadeiro, limpo de nuvens, seguro e tranquilo, ideal para voar, mas também, prenúncio de mais um dia quente,  como tantos outros em março, aqui em Porto Alegre; o bairro silencioso, exceto pelo barulho nos trilhos do trensurb – o trem metropolitano de superfície que corta a região metropolitana da capital –, nenhum vento cortante nas ruas vazias, uma rotina monótona e simples a que estava acostumado, a vida escolar me espera
   passo pela porta, verifico mentalmente tudo que carrego, os planos de aula, o lanche, o chá e o case, abro o cadeado e afasto o portão, entro no fusca, o motor ligado, e a dúvida surge, Devo levar o sax? E a porta... eu fechei? Não lembro, tudo sendo feito no automático.
   uma regra simples, mas rígida, Fechar a porta, não posso ficar com essa dúvida, Bobagem, claro que fechei, eu sempre fecho, posso deixar para trás essa incerteza, Claro que devo ter fechado, mas o medo escondido nas sombras é real, não sei explicar direito essa desatenção; ao mesmo tempo, a ideia de voltar para verificar me parece absurda, um pequeno esquecimento do já feito
   respiro fundo, tento me convencer que não há motivo para voltar, a dúvida persiste, um buraco aberto na casa, a porta da frente, Porra, Marko! Deixa pra lá!
   a incerteza consumindo esses minúsculos segundos, olho para trás, abro a porta do fusca, e volto, a porta está fechada, sempre está, repito para mim que havia feito a coisa certa entre a decisão e a dúvida
   saio com o fusca, desço e fecho o portão, entro apressado e dirijo para a escola, sem pressa, as regras do trânsito precisam ser obedecidas estando atrasado ou não – de novo a coerência tentando caminhar junto –, chego e estaciono no pátio destinado aos professores, pego meus planos, o chá e o case imprevisto
   coloco o polegar no relógio-ponto, registro minha entrada na escola, tudo no último minuto antes do atraso, respiro aliviado, cheguei no tempo exato, mas sem tempo para cumprimentos – sempre em frente –, vou direto para o pátio encontrar a turma E
   as perguntas óbvias e os olhares surpresos precisam de explicação, Explico tudo na nossa sala de aula, continuo me perguntando por que eu trouxe essa confusão para mim, não deveria ter sucumbido ao impulso do sax com certeza, vou ter mais dificuldades que vantagens, é muito discutível essa atitude de me arriscar sem um plano, ir além do conhecimento, uma rebelião, espero que isso tudo se torne uma obra de arte, O que preciso esperar para que aconteça algo diferente? Quem é esse guardião do tempo e da mudança?
   sou um velho professor conhecido por ser antigo, gosto da fronteira entre o imaginário e o real, já gostei mais de observar as estrelas e a lua com um telescópio amador, ficar encantado com o céu que se ilumina com uma aurora diferente e mantém o fluxo das horas, dias e anos nessa luz, o eco de todas as eras, sei que não é uma questão de esperar, é difícil compreender que o tempo carrega em si a mudança, revela o que já sou, mas não mudei, gosto da imagem suave da ampulheta, a areia escorrendo lentamente, cada grão e cada escolha, um momento, uma oportunidade, não sei se ainda tenho disposição para tanta mudança, entro na sala de aula com muitas dúvidas do que esperar e também fazer, não sei como fazer minha própria transformação, abrir as portas para um mundo diferente, um outro jeito e o case na mão
um professor bagunceirinho (10)

domingo, 19 de outubro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (9)

um professor bagunceirinho (9)

baitasar

   estou mais confiante, saio vitaminado da nossa sala do café, água e conversas sobre letras – e também, conversas aleatórias sobre ensinar a pensar certo através do conteúdo e itinerários –, falação educativa em acentos mais confortáveis que a fórmica verde, e como aprendi que não há espaço sem tempo – são inseparáveis –, estou me perguntando se aproveitei-me do tempo finito do recreio de forma produtiva e apropriada
   preciso transitar de um não-lugar para um outro mundo sem fronteiras, reconhecendo meus limites do conhecimento em uma linha tênue entre o nada e o pleno, ambos desafiam minha compreensão e revelam a profundidade do mistério de ensinar e educar, Não se enganou a escola com as crianças que não floresceram?
   a professora Aninha saiu-se antes, Quero bisbilhotar o recreio, diz que assim fica mais perto e quanto mais perto, Fico mais confiante e eficiente, é preciso conhecer o aluno real para pensar certo, também caminho mais esperançoso pelo corredor até o pátio, um caminho mais leve, passos abertos e decididos, crianças riem, brilham, a escola, a escola é abrigo e porto seguro, caminho ao encontro do que sonhei, paro embaixo do cartaz com a letra D, aguardo em silêncio, correm, gritam, sem as crianças existiria uma escola menos esperançosa, aprender a conversar com elas é como aprender a conversar antes da prática, sentir o coração pulando incontrolável, tocando nossa sensibilidade, nem sempre uma conversa serena nem sempre amena, é verdade, mas, de qualquer maneira, não sei como se chama a tristeza de uma criança em silêncio

Crianças! Façam uma fila!

   a fila é tão comum, quase nunca paramos para observá-la com um pouco mais de atenção, esse mesmo zelo vigilante que usamos para não sermos ultrapassados quando estamos enfileirados
   o perfume das corridas escorrendo está no ar da fila que se forma depois do recreio, risos, gritos, o ritmo da dança é alegre, crianças chegando suadas, alarmadas e livres, escolho organizá-las pela desigualdade do tempo, Quem chega primeiro fica na frente, meu critério para uma estrutura militar organizada

Sou o professor Marko! Vou ficar com vocês até o final da aula de hoje, a fila parando de se mexer como uma minhoca assustada, como sei que elas não foram ao banheiro – que criança vai se permitir ir ao banheiro no recreio e perder a vez nas corridas e brincadeiras? –, eu pergunto, Vocês querem ir ao banheiro?

Siiimmm!!!

Tudo bem, mas vamos em fila e de maneira muito organizada, a fila para o banheiro se tornará um rotina cotidiana junto com os conteúdos curriculares que, por ora, desconheço

   cada criança, cada um de nós, cada turma e seu coletivo, carrega sua própria história de impaciências, uma sacola cheia de lembranças, expectativas variadas e lambanças estacionadas na monotonia da espera, na distância que não encurta nem aproxima os olhares, uma criança atrás da outra, olhos na nuca da criança da frente, em uma escola cinza todas vivem em filas
   depois da ordem dada, faço silêncio, espero pela tensão estática dos corpos alinhados – uma espera quase inútil e desnecessária, a fila é uma força ideológica, continuo esperando –, uma criança atrás da outra, a busca pelo silêncio ensurdecedor, cada criança com o seu lugar marcado para comer, respirar e pensar, presas a uma espera que disciplina e nunca termina
   um código tatuado no braço e o seu lugar marcado, uma sequência rígida que ordena a existência, o relógio da escola bate o mesmo segundo para todos, congela o tempo em uma corrida monótona esmagadora, olhos brilhantes esvaziando, encarando o vazio da nuca, é proibido ultrapassar o corpo à frente, um lugar onde ninguém se encontra, apenas marchamos, eu à frente delas, uma atrás da outra, ainda há espaço para gestos de inconformidade, sorrisos ou olhares que escapam, meu olhar é uma prisão invisível
   crianças estão na fila por anos, uma sucessão de sombras que não se reconhecem, qualquer som é censurado, um campo de batalha enfileirado com empurrões sutis, olhares cortantes e impacientes, o tempo que parece parado incomoda a agitação, provoca desânimo e afobação ao mesmo tempo, esse retorno do recreio é sempre um desafio, empurrar, gritar, sussurrar, faz parte deste repertório de impaciências, a sequência precisa ser restaurada na escola cinza, Crianças! Fiquem na sua posição! Silêncio!
   depois do banheiro, vamos para a sala de aula, o nosso território do diálogo controlado e sem intervenções externas, nosso provável ambiente de libertação e transformação para vidas mais justas, um espaço democrático possível de respeito e combinações, lá fora, o futuro sombrio das regras rígidas e injustiças tentando entrar pelas frestas e arestas
   antes de fazer a chamada dos seus nomes e registrar suas presenças, me apresento mais uma vez, esqueço de dizer que sou professor de educação física, faço a chamada, nome por nome, aproveito para anunciar que minha memória para lembrar nomes está passando por dificuldades, Prometo que vou me esforçar para lembrar seus nomes. Mas vou precisar que me ajudem, combinado?

Siiimmm!!!

antes de distribuir o material da professora Aninha, peço que levantem dos seus lugares e façamos um círculo, Uma roda...

   o barulho não é discreto nem pequeno, mas enfim, depois de muitas classes e cadeiras arrastadas, estamos em círculo, sugiro que possamos nos dar as mãos e sentarmos no chão – diversão garantida, uma pequena revolução, a vida em comum a serviço do conhecimento –, um comportamento libertador para mim, estou reaprendendo esses jeitos
   pergunto se conhecem a canção dos Dedinhos, não conhecem, mas escutaram a outra turma cantando, também querem cantar, cada dedo agora tem um apelido, então cantamos e dançamos com os dedos, cada dedo chamado e cantado dança com o mesmo dedo da outra mão
   a alegria de cantar nos aproximando
   em certo sentido, a música sendo agora um texto que precisamos ler e decorar ao mesmo tempo que cantamos, aprender a ler é também aprender a escutar, escutar minha voz, escutar a voz do outro, cada criança aprendendo ser dona da sua voz, cantamos juntos, nosso jeito de ver o mundo mudando, estou mudando, não sou o mesmo professor depois do recreio, não é uma tarefa fácil esse desaprender libertador através do diálogo esperançoso
   depois do canto e suas repetições, peço para repetirem seus nomes, cumprimento cada criança pelo nome, após a última reapresentação, pergunto, Quem sabe dizer com que letra começa o seu nome?
   a diversão está garantida, o itinerário desenhado, cada criança recebe de volta a folha da professora Aninha com a letra inicial do próprio nome para colorir, recortar e colar em um cartaz coletivo, um quebra-cabeça solidário de letras
   estou acostumado com a rotina da bagunça das corridas, pulos e jogos de bola, mas preciso ficar mais confortável entre cartolinas, tesouras, canetinhas coloridas e tubos de cola
   a semana avança assim, Qual a letrinha que aprendemos hoje? Qual a parte mais divertida da aula? E a mais chata, pergunto, as respostas vêm intensas e imediatas, um livrinho de letras de cada criança está se criando, dia-a-dia, página por página se montando, os moldes, as etiquetas com nomes, cartazes do alfabeto nas paredes, as músicas
   então, fiz o impensável, levei meu sax tenor para a sala de aula

um professor bagunceirinho (9)

domingo, 12 de outubro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (8)

um professor bagunceirinho (8)

baitasar

   desvio minha atenção da girafa, encaro a turma de vinte e cinco gigantes, entre seis e sete anos, ficamos em silêncio nos olhando, eles e elas a mim, eu a eles e elas, exploração e especulação mútuas, minhas mãos apoiadas em cima da fórmica verde, caderno de chamada fechado, observo essas crianças agigantadas, sou o professor Minimus, o mundo daquela sala de aula está de cabeça para baixo, o professor à beira de um colapso, um pesadelo desenfreado, O que fazer? Como fazer? Quem é mais irresponsável? Eu... por ter aceitado? A Rachel por ter pedido? A indiferença do prefeito... eleito com o voto desses mesmos pais e mães? Ah, o aprendizado do voto...
   as crianças estão gigantescas 
   eu, o professor, encolhi a tamanho liliputiano, estou desmontado, o mesmo professor, mas me enxergo com quinze centímetros de altura, uma girafa ciclópica me encarando, na minha frente, crianças com corpos de titãs e corações imprevisíveis
   o último educador disponível da escola e preciso ser uma esperança, pelo menos, para mim mesmo
   havia sido um estimado professor de educação física, agora, com a voz trêmula e corpo minúsculo, preciso dedicar meus últimos dias a alfabetizar crianças liliputianas nas catacumbas da sala de aula, a ilha da escola pública virou um brinquedo sem memória, parece que jamais existiu uma outra escola, ao menos, é como que tentam nos convencer
   sabia que um dia escaparia, mas não sabia como
   por agora, talvez fosse possível usar o alfabeto das plantas usado para me comunicar com abelhas mensageiras
   uma menina chamada Clara, com apenas seis anos, olhos brilhando como lampiões de gás, olha para baixo, as sobrancelhas franzidas, anuncia curiosa, Gente, o professor virou um bonequinho vivo em cima da mesa!
   a palavra professor ecoou como um trovão, as crianças liliputianas congelaram 
   eu pulei dentro da minha mochila, um gesto dramático e ágil, mas inútil, tarde demais, Clara, com uma delicadeza monstruosa, enfiou a mão na mochila, seus dedinhos crescidos entre meus livros, cadernos, lápis e borracha, dedos do tamanho de torres me pegaram como se eu fosse uma bolachinha recheada
eu tremia, minha voz não passava de um zumbido para seus ouvidos gigantes, foi então que Clara fez algo inesperado, sentou no chão cuidadosamente, pegou um giz e começou a desenhar círculo ao meu redor, como se estivesse traçando um mapa

O senhor é... real, perguntou entre sussurros e gritos

   apesar do medo, vi uma oportunidade, subi no giz e gritei a pleno pulmões, Você pode me ajudar?

Eu ajudo, respondeu

   ninguém vai acreditar, claro, mas naquela antiga sala de aula, escondida entre mesas e cadeiras de fórmica verde, existe uma pequena passagem com uma placa pregada em uma agulha, como um anúncio do que já existiu, "Escola Cidadã, turma aos domingos, onde conhecimento é maior que tamanho, é curiosidade esperançosa!"

Professor!

   olho para cima, procuro quem me chamou, Quem me chamou, silêncio, vejo suas mãos apoiadas nos seus cadernos abertos sobre a fórmica verde, lápis na mão, borracha, estojo com capetinhas coloridas
   eu tinha a girafa, e mais nada, somos nós, os humanos, que jogamos bombas e matamos, caçamos e jogamos as girafas nos zoológicos

Crianças, vocês sabem com que letrinha começa a palavra GIRAFA?

   silêncio
   imobilidade anônima, não há o alvoroço das mãos erguidas, o desejo de responder não se mostra, descubro a inutilidade do saber do apedeuta da alfabetização, ilegítimo e inautêntico
   continuo insistindo suave, consciente de ser um estorvo
   um suspiro de alívio quando o aviso para o intervalo do recreio interrompe minhas tentativas
   crianças correndo alegres pelo pátio
   professor voando pelos corredores em busca de socorro, sento ao lado da professora Ana Maria, eu e ela, dividimos o atendimento das duas turmas, depois do recreio ela irá ficar com a minha turma, eu ficarei com a turma que ela atendeu antes do recreio, trocaremos o atendimento das turmas, Aninha, minha aula não funcionou.

É mesmo? O que aconteceu?

   faço um rápido resumo, entre goles de água e café, dispomos de menos de quinze minutos de intervalo, Marko! A letra gê? Santo Deus, coitadinhas das crianças!
   não fico em silêncio, faço questão de me mostrar por inteiro, Não estou entendendo, Aninha. Por que tanto espanto?

Marko, a letra g tem possibilidades de escrita e som que não devem ser usadas antes do aeiou, por exemplo, as vogais, entendeu? Ela pode ser o ga, ge, gi, go, gu, mas também tem o gua, gue, gui... vou parando por aqui.
E o que eu faço? Fiquei sabendo hoje que faria dupla contigo, meu olhar deve estar muito suplicante, ela sorri, estende a mão com algumas folhas em branco, O que é isso, pergunto

   lembro do poema em linha reta, nunca conheci professor que não tivesse errado, todos e todas somos campeões do improviso, e tantas e tantas vezes me senti um parasita sujo, apesar de tudo, tenho tido tanta paciência, mesmo parecendo ridículo e absurdo entre tapetes e etiquetas, planejando e registrando aulas em casa, às vezes, isso me soa mesquinho e grotesco, outras tantas, submisso e arrogante, tenho colegas sofrendo enxovalhos e ficam calados, não querem parecer mais ridículos ainda, sinto o piscar nos olhos dos moços e moças enquanto estou pedindo emprestado algumas aulas, sofrendo a angústia das pequenas coisas ridículas descubro que tenho par neste mundo da escola, essa professora me sorri e confessa que já teve ato ridículo, sofreu enxovalho, tenho sorte de ouvir de alguém a voz humana, ainda há gente no mundo, descubro que fui ridículo sem ter traído

Depois do recreio, você vai ficar com a minha turma, certo?
Isso...
Então, distribui essas folhas em branco, uma folha para cada criança. Pede para elas desenharem e riscarem enquanto você observo elas segurando o lápis, é isso, deixa elas riscando, desenhando, pintando. Observa se elas sabem segurar o lápis. E faça as intervenções que achar necessárias.
Não sei... não estou confiante...
Marko, sem choradeira e pânico, recomeça onde parei. Continua introduzindo o som e a forma das letras, mas sem pressa. E insiste na brincadeira de reconhecer as letras iniciais do próprio nome. O desafio é relacionar som e grafia da letra inicial do nome, estimula a percepção dos sons.

   descubro que dei passos largos em direção ao ridículo e que estou traindo essas crianças, esse não sou eu, não é possível aprender em quinze minutos de recreio o conhecimento e a prática de anos alfabetizando, amorosidade sem competência educativa não trata com a seriedade que merece o sonho de juntos mudar o mundo, O que procuro, ainda que não encontre? E o que essas crianças buscam? Esperança? Aprender a compreender? Tenho o direito de fazer ou continuar um discurso incompreensível em nome do discurso acadêmico?
   não posso cair no simplismo, na tentação da meia verdade, nem negar que a simplicidade faz inteligível a beleza do mundo ético, não tenho o direito de cruzar os braços

Caso você ache viável, avance nas habilidades motoras com mais atividades de pintar e recortar...
Recortar o quê?
Pegue essas tesouras sem ponta, cola e cartolinas. Elas já estavam recortando e colando as letras do alfabeto, acho que minha boca aberta e olhar cismado provocou surpresa na professora Aninha, É só continuar... podem colorir também.

   o sinal
   acabou o recreio

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um professor bagunceirinho (8)

domingo, 5 de outubro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (7)

um professor bagunceirinho (7)

baitasar

     discurso pé-d’água sem nenhum planejamento, completo improviso, correndo os riscos da falta de clareza, confusão nas ideias e dificuldade de entendimento para a turma – os docentes, razão de existir da escola, e no caso da vila, razão de existir e resistir... a Escola Pública com qualidade e amorosidade, libertem-se e me libertem, crianças! –, provocando mal-entendidos, incompreensões didáticas

Professor, eu já fui no zoológico.
Com quem, Caroline?
Com meu pai e a minha mãe...
E você gostou?
Eu fiquei com pena deles, são tão tristes.

     a beleza e a sensibilidade das respostas das crianças, não serve para nada uma escola que não se deixa levar pela observação das suas crianças

É... eu entendo, Caroline. A ideia do zoológico, mesmo sendo bem-intencionada, nunca vai ser suficiente para copiar a liberdade na natureza.
É como estar preso no zoológico, né professor?

     é isso, os zoológicos mesmo com boas intenções de conservação e educação, realmente nunca poderão substituir a liberdade que os animais têm na natureza, eles podem proporcionar segurança e proteção contra ameaças humanas, mas não substituem o ambiente natural, a complexidade dos ecossistemas ou a liberdade de explorar e viver de acordo com seus instintos, a verdadeira liberdade para eles

Eu também já fui no zoológico e os animais vivem soltos. Não estão amarrados.
Muito bem, estou gostando dessa nossa conversa. Como é o teu nome, querida?
Ana...
Então, Ana. O que a Caroline disse é que os animais do zoológico vivem soltos como você disse, mas não podem sair de um lugar para outro. Não podem visitar outros animais diferentes deles. Não é como se estivessem livres na natureza.

     enquanto conversamos, faço uma varredura com o olhar pela sala, a maioria das crianças em silêncio, percebo que escutam com respeito às opiniões e emoções que estão surgindo, quero acreditar que estão construindo seu entendimento do mundo, percebem seus colegas mais falantes se sentindo valorizados e confiantes

Eu nunca fui no zoológico.
Nem eu...
Eu tenho pena...
É, eu sei, Ana. Mas é um refúgio seguro para os animais ameaçados.
Mas eles vivem presos.
Sim. É verdade, mas alguns foram tão caçados e maltratados pelos homens maus que colocamos esses animais no zoológico para não serem mortos.
Professor, em vez dos animais deveriam colocar no zoológicos esses homens maus.
Professor...
Fala, Graziela.
O meu pai também tá preso, perco minha naturalidade, nenhuma preparação prévia, o pensamento rápido congela, Também sinto pena dele. Meu pai diz que sente muita saudade. Os animais sentem saudade, também?, fico em silêncio, ela continua, não percebe meu embaraço, minha incapacidade de me reinventar, ela continua, Acho que devem sentir saudade.

     não estou preparado para sustentar essa conversa, nenhum discurso ou gesto me ocorre para lidar com esse momento de maneira saudável, preciso reconhecer meu limite, respiro fundo e silenciosamente, é isso, nenhum prática pedagógica é neutra, todas estão apoiadas no modo de perceber o mundo e interferir no mundo, a diferença entre escrever e desenhar letras

Voltei! Demorei, professor?

     o Felipe entra feito uma ventania, a pausa que eu preciso, ele me socorre sem saber, sinto vontade de abençoá-lo com um elogio – afinal, elogio de professor é sempre uma benção bem-vinda, né? –, mas não é o que faço, recorro aos velhos hábitos repetitivos, Já estava indo ver onde o moço estava. Vai pro teu lugar.

     olha direto para mim, abre a boca e desiste de dizer o que quer que fosse, comum e profundamente humano esse receio de se expressar por completo, ensaio sutil e inaudível, existe um pensamento ou uma emoção deixada de lado, guardada na desistência, motivada pelo medo de não ser compreendido, causar conflito – acho que não é o caso, estou sendo cínico, né? –, ou parecer delicado e frágil, ou simplesmente por achar que não vale a pena, seja lá o que for
     claro que esse silêncio não significa que o que seria dito perdeu o valor, mas permanece o peso cumulativo da frustração que amontoa, provoca mal-entendidos ou uma solidão emocional, não encontra espaço seguro para se abrir, dizer o que está sentindo e ser escutado com interesse
     ensaiar e calar, que palavras interessantes foram deixadas de serem ditas se não tivesse ficado no deixa pra lá

Professor, o que é veterinário?
Tem girafa no circo?

     aprendia longe das bolas, jogos e brincadeiras sobre o acúmulo silencioso das inquietações internas, dúvidas, dilemas, sentimentos não resolvidos, agora, na sala de aula, como se houvesse um espaço dentro de cada ser humano, jovem ou velho, imberbe ou longevo, onde perguntas se acumulam, esperando por atenção, compreensão ou coragem para serem enfrentadas
     entre tantas tarefas é preciso ficar atento na essência do silêncio, na tempestade das conversas, buscar a verdade da nossa eternidade, guiar estrelas a brilhar, revelar destinos desenfeitados e embelezá-los, vigilantes de si mesmos, atentos ao coração, desvendando sonhos e emoções, a jornada do existir é um aprendizado coletivo e solidário, um caminho sagrado, contagiante, festivo, seja na dor ou na alegria, atentos ao que nos move, nossos sentimentos, a luz que mora em cada pessoa, a verdade que nos conduz às perguntas sobre o sentido da vida, decisões passadas, futuro, sobre quem somos ou o que sentimos, não existem respostas fáceis
     no deixa pra lá, tudo se avoluma dando uma ideia de peso, pressão interna, mais perguntas, mais ansiedade, confusão, paralisia ou gritos – Chega! Silêncio! –, adiando sem esquecer, latentes, perguntas pedindo escuta e reflexão
     estamos constrangidos a ensinar no automático e desistir de educar, uma função mecânica focada apenas na transmissão de informações e habilidades superficiais, sem espaço ou disposição para enfrentar e sofrer com questões mais profundas, é um salve-se quem puder, uma rotina vazia que não alimenta o outro nem a nós mesmos, uma conexão que não vai além do conteúdo, evita os desafios mais profundos do viver
     parece que nestes dias de fast food, basta mastigar e engolir, rápido e funcional, não estamos interessados no aroma, textura e sabor, estamos nos consumindo sem reflexão, desistimos – ou fomos nos deixando convencer – do aroma e paladar de viver momentos, emoções, detalhes, a profundidade de existir, estamos distantes da essência, o aprendizado pela contemplação, a reflexão sobre o valor do tempo, que o significado ganhe espaço com autenticidade
     português e matemática não nos sustentam nem preenchem – adoro português, matemática nem tanto, mas reconheço e aprecio seus valores entre outros tantos que foram deixados de lado –, são usados para nos manterem sem vigor e arrumação para lidarmos com nossas questões mais profundas, ignorar perguntas não as apaga, apenas adia o convite para pararmos, ouvirmos e refletirmos


Professor...
Calma, crianças!

     estou diante de um desafio real, preciso organizar meus pensamentos e meu material – não tenho material, apenas a gravura de uma girafa, eventualmente, poderei usar bolas, cordas e jogos –, preciso estabelecer prioridades, focando no que é mais importante no momento – a girafa! –, evitar a multitarefa, uma coisa de cada vez, vinte e cinco crianças juntas, e ao mesmo tempo, continuar atento às perguntas, ao silêncio, evitar minhas distrações – como se fosse possível 

O que faço com essa girafa?

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um professor bagunceirinho (7)