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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Ruan Rulfo - E nos deram a terra

Conto : El Llano en llamas
 

"O primeiro conto publicado de Juan Rulfo, e também o primeiro dos incluídos em *El Llano en llamas*, “Nos han dado la tierra” (1945), é provavelmente um dos mais conhecidos, citados e analisados ​​pela crítica literária. A tal ponto que sua interpretação parece não apresentar grandes dificuldades, talvez devido à franca ironia que emerge da alusão explícita a uma reforma agrária que distribuiu terras claramente impossíveis de cultivar. À descoberta daquilo que a tradição realista denunciou incansavelmente, ou seja, a miséria camponesa e a conivência das autoridades agrárias com os latifundiários."


     Nós gostamos. Após tantas horas de caminhada sem encontrar uma única sombra de árvore, uma única semente ou uma única raiz de qualquer coisa, ouve-se o latido de cães.
     Por vezes, em meio a esta estrada interminável, acreditava-se que nada haveria além; que nada se encontraria do outro lado, no fim desta planície rachada de fendas e riachos secos. Mas sim, há algo. Há uma aldeia. Ouvem-se os cães a ladrar e sente-se o cheiro do fumo no ar, e sente-se o cheiro de gente como se fosse uma esperança.
     Mas a aldeia ainda está longe. É o vento que a traz para mais perto. Estamos caminhando desde o amanhecer. Agora são cerca de quatro da tarde. Alguém olha para o céu, força a vista na direção do sol e diz: "São cerca de quatro da tarde."
     Essa pessoa é Melitón. Junto com ele estão Faustino, Esteban e eu. Somos quatro. Eu os conto: dois na frente, dois atrás. Olho mais para trás e não vejo ninguém. Então penso: "Somos quatro." Há algum tempo, por volta das onze, éramos uns vinte e poucos, mas aos poucos fomos nos dispersando até não sobrar nada além deste nó que somos nós. Faustino diz:

- Pode chover.

     Todos olhamos para cima e vimos uma nuvem negra e densa passando por cima de nós. E pensamos: "Talvez seja isso mesmo."
     Não dizemos o que pensamos. Perdemos a vontade de conversar há muito tempo. Ela morreu com o calor. Em outros lugares, você poderia bater um papo tranquilamente, mas aqui é difícil. Você fala aqui e as palavras esquentam na sua boca por causa do calor lá fora, e secam na sua língua até te deixarem sem fôlego. É assim que as coisas são por aqui. É por isso que ninguém tem vontade de conversar.
     Uma gota d'água cai, grande e espessa, abrindo um buraco no chão e deixando uma massa semelhante a um cuspe. Cai sozinha. Esperamos que outras caiam e as procuramos com os olhos. Mas não há mais nenhuma. Não está chovendo. Agora, se você olhar para o céu, verá a nuvem de chuva se afastando, apressada. O vento que vem da aldeia se junta a ela, empurrando-a contra as sombras azuis das colinas. E a gota que caiu por engano é engolida pela terra e desaparece em sua sede.
     Quem foi que fez essa planície tão grande? Qual é o sentido disso, hein? Voltamos a andar. Tínhamos parado para observar a chuva. Não choveu. Agora estamos andando de novo. E me ocorre que andamos mais do que realmente andamos. É isso que me ocorre. Se tivesse chovido, talvez outras coisas tivessem me ocorrido. No entanto, sei que desde menino nunca vi chover na planície, o que se pode chamar de chuva.
     Não, as planícies são inúteis. Não há coelhos nem pássaros. Não há nada. Exceto por algumas árvores de mesquite raquíticas e um ou outro pedaço de grama com folhas enroladas; fora isso, não há nada.
     E aqui estamos nós. Nós quatro a pé. Antes, íamos a cavalo e carregávamos um rifle a tiracolo. Agora nem sequer carregamos o rifle. Sempre achei que fizeram o certo ao nos tirarem os rifles. Por aqui, é perigoso andar armado. Eles matam sem aviso, vendo você o tempo todo com uma pistola calibre .30 presa ao cinto. Mas os cavalos são outra história. Se tivéssemos vindo a cavalo, já teríamos provado a água verde do rio e desfilado pelas ruas da cidade para digerir a comida. Teríamos feito isso se ainda tivéssemos todos aqueles cavalos que tínhamos antes. Mas levaram nossos cavalos também, junto com os rifles. Olho em volta e contemplo a planície. Tanta terra vasta para nada. Os olhos simplesmente se desviam, sem nada para os prender. Apenas alguns lagartos saem para colocar a cabeça para fora de suas tocas e, sentindo o sol escaldante, correm para se esconder na sombra de uma rocha. Mas quando tivermos que trabalhar aqui, o que faremos para nos refrescar do sol? Porque eles nos deram essa crosta de tapetato para plantar.
     Eles nos disseram: 

- Da cidade em diante, tudo pertence a vocês.

     Perguntamos: 

- A planície? 
- Sim, a planície. Toda a Grande Planície.

     Paramos de falar para dizer que não queríamos o Llano. Queríamos o que ficava perto do rio. Além do rio, ao longo das planícies, onde crescem aquelas árvores chamadas casuarinas, e as altas planícies, e a terra boa. Não essa terra dura e seca que eles chamam de Llano. Mas eles não nos deixaram falar. O delegado não veio conversar conosco. Ele colocou os papéis em nossas mãos e disse: 

- Não tenham medo de ter tanta terra só para vocês. 
- É que o Llano, Sr. Delegado... 
- São milhares e milhares de juntas de bois. 
- Mas não tem água. Nem o suficiente para enxaguar a boca. 
- E a estação chuvosa? Ninguém disse que vocês receberiam terra irrigada. Assim que chover lá, o milho vai crescer como se estivesse sendo esticado.
- Mas, Sr. Delegado, a terra está erodida, dura. Não acreditamos que o arado afunde naquele solo duro como uma pedreira dos Llanos. Você teria que fazer buracos com uma enxada para semear, e mesmo assim, é improvável que algo cresça; nem milho nem nada mais brotará. 
- Coloque isso por escrito. E agora vá. São as grandes propriedades que você precisa atacar, não o governo que lhe dá a terra. 
- Espere por nós, Sr. Delegado. Não dissemos nada contra o Centro. É tudo contra os Llanos... Você não pode lutar contra o que não pode combater. Foi isso que dissemos... Espere que expliquemos. Veja, vamos começar de onde paramos...

     Mas ele se recusou a nos ouvir.
     Foi assim que nos deram esta terra. E nesta chapa escaldante querem que semeemos alguma coisa, para ver se brota e cresce. Mas nada cresce aqui. Nem mesmo os abutres. De vez em quando, você os vê lá em cima, bem alto, voando a toda velocidade; tentando sair o mais rápido possível desta poeira branca e endurecida, onde nada se move e onde você anda como se estivesse indo para trás. Melitón diz:

- Esta é a terra que eles nos deram.

     Faustino diz: 

- O quê?

     Não digo nada. Penso: "Melitón não bate bem da cabeça. Deve ser o calor que o faz falar assim. O calor que penetrou no chapéu e esquentou a cabeça dele. Senão, por que ele diz o que diz? Que tipo de terra nos deram, Melitón? Nem para o vento fazer redemoinhos cabe aqui."
     Melitón repete: 

- Será útil. Será prático, mesmo que seja apenas para éguas de corrida. 
- Quais éguas?, pergunta Esteban.

     Eu não tinha reparado no Esteban antes. Agora que ele está falando, estou observando com mais atenção. Ele está usando um casaco que chega até o umbigo e, por baixo, algo parecido com a cabeça de uma galinha está aparecendo. Sim, é uma galinha vermelha que o Esteban está carregando debaixo do casaco. Dá para ver os olhos sonolentos e o bico aberto, como se estivesse bocejando. u pergunto a ele:

- Ei, Teban, onde você conseguiu esse frango?
- Ela é minha, diz ele. 
- Você não a tinha antes. Onde a comprou? 
- Eu não a comprei, ela é do meu galinheiro.
- Então você a trouxe para alimentá-la, certo? 
- Não, eu a trouxe para cuidar dela. Minha casa estava vazia e não havia ninguém para alimentá-la; por isso a trouxe. Sempre que viajo para longe, levo-a comigo.
- Escondida aí, ela vai sufocar. É melhor deixá-la sair para respirar ar puro. 

     Ele a aconchega debaixo do braço e sopra ar quente sobre ela. Então ele diz:

- Estamos chegando ao ponto de ruptura.

     Já não consigo ouvir o que o Esteban está dizendo. Fizemos fila para descer o barranco, e ele está bem na frente. Parece que ele pegou a galinha pelas patas e está sacudindo-a sem parar para que ela não bata a cabeça nas pedras.
     Ela se sacode de vez em quando para não bater a cabeça nas pedras. À medida que descemos, a terra fica agradável. A poeira sobe de nós como se uma fila de mulas estivesse descendo; mas gostamos de ficar cobertos de poeira. Gostamos disso. Depois de onze horas caminhando sobre a dureza do Llano,
nos sentimos muito confortáveis ​​envoltos nessa coisa que nos cobre e tem gosto de terra.
     Acima do rio, sobre as copas verdes das casuarinas, bandos de aracuãs verdes voam. Isso também nos agrada. Agora, o latido dos cães pode ser ouvido aqui, ao nosso lado, porque o vento que vem da aldeia ecoa na ravina e a preenche com todos os seus sons.
     Esteban abraçou sua galinha novamente quando nos aproximamos das primeiras casas. Ele desamarrou as patas dela para soltá-las e, em seguida, ele e sua galinha desapareceram atrás de algumas árvores de mesquite.

- Eu alugo assim!, diz-nos Esteban.

     Continuamos em frente, adentrando a aldeia. A terra que nos deram fica lá em cima.

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Nos han dado la tierra 

Juan Rulfo

Originalmente publicado en la revista Pan (de Guadalajara) Nº 2, julio, 1945 - (El llano en llamas, 1953)


   Después de tantas horas de caminar sin encontrar ni una sombra de árbol, ni una semilla de árbol, ni una raíz de nada, se oye el ladrar de los perros.
   Uno ha creído a veces, en medio de este camino sin orillas, que nada habría después; que no se podría encontrar nada al otro lado, al final de esta llanura rajada de grietas y de arroyos secos. Pero sí, hay algo. Hay un pueblo. Se oye que ladran los perros y se siente en el aire el olor del humo, y se saborea ese olor de la gente como si fuera una esperanza.
   Pero el pueblo está todavía muy allá. Es el viento el que lo acerca. Hemos venido caminando desde el amanecer. Ahorita son algo así como las cuatro de la tarde.
   Alguien se asoma al cielo, estira los ojos hacia donde está colgado el sol y dice:

-Son como las cuatro de la tarde.

   Ese alguien es Melitón. Junto con él, vamos Faustino, Esteban y yo. Somos cuatro. Yo los cuento: dos adelante, otros dos atrás. Miro más atrás y no veo a nadie. Entonces me digo: "Somos cuatro." Hace rato, como a eso de las once, éramos veintitantos, pero puñito a puñito se han ido desperdigando hasta quedar nada más que este nudo que somos nosotros. Faustino dice:

-Puede que llueva.

   Todos levantamos la cara y miramos una nube negra y pesada que pasa por encima de nuestras cabezas. Y pensamos: "Puede que sí."
   No decimos lo que pensamos. Hace ya tiempo que se nos acabaron las ganas de hablar. Se nos acabaron con el calor. Uno platicaría muy a gusto en otra parte, pero aquí cuesta trabajo. Uno platica aquí y las palabras se calientan en la boca con el calor de afuera, y se le resecan a uno en la lengua hasta que acaban con el resuello. Aquí así son las cosas. Por eso a nadie le da por platicar.
   Cae una gota de agua, grande, gorda, haciendo un agujero en la tierra y dejando una plasta como la de un salivazo. Cae sola. Nosotros esperamos a que sigan cayendo más y las buscamos con los ojos. Pero no hay ninguna más. No llueve. Ahora si se mira el cielo se ve a la nube aguacera corriéndose muy lejos, a toda prisa. El viento que viene del pueblo se le arrima empujándola contra las sombras azules de los cerros. Y a la gota caída por equivocación se la come la tierra y la desaparece en su sed.
   ¿Quién diablos haría este llano tan grande? ¿Para qué sirve, eh? Hemos vuelto a caminar. Nos habíamos detenido para ver llover. No llovió. Ahora volvemos a caminar. Y a mí se me ocurre que hemos caminado más de lo que llevamos andado. Se me ocurre eso. De haber llovido quizá se me ocurrieran otras cosas. Con todo, yo sé que desde que yo era muchacho, no vi llover nunca sobre el llano, lo que se llama llover.
   No, el Llano no es cosa que sirva. No hay ni conejos ni pájaros. No hay nada. A no ser unos cuantos huizaches trespeleques y una que otra manchita de zacate con las hojas enroscadas; a no ser eso, no hay nada.
   Y por aquí vamos nosotros. Los cuatro a pie. Antes andábamos a caballo y traíamos terciada una carabina. Ahora no traemos ni siquiera la carabina. Yo siempre he pensado que en eso de quitarnos la carabina hicieron bien. Por acá resulta peligroso andar armado. Lo matan a uno sin avisarle, viéndolo a toda hora con "la 30" amarrada a las correas. Pero los caballos son otro asunto. De venir a caballo ya hubiéramos probado el agua verde del río, y paseado nuestros estómagos por las calles del pueblo para que se les bajara la comida. Ya lo hubiéramos hecho de tener todos aquellos caballos que teníamos. Pero también nos quitaron los caballos junto con la carabina.Vuelvo hacia todos lados y miro el Llano. Tanta y tamaña tierra para nada. Se le resbalan a uno los ojos al no encontrar cosa que los detenga. Sólo unas cuantas lagartijas salen a asomar la cabeza por encima de sus agujeros, y luego que sienten la tatema del sol corren a esconderse en la sombrita de una piedra. Pero nosotros, cuando tengamos que trabajar aquí, ¿qué haremos para enfriarnos del sol, eh? Porque a nosotros nos dieron esta costra de tapetate para que la sembráramos.
   Nos dijeron:

-Del pueblo para acá es de ustedes.

   Nosotros preguntamos:

-¿El Llano?
-Sí, el Llano. Todo el Llano Grande.

   Nosotros paramos la jeta para decir que el Llano no lo queríamos. Que queríamos lo que estaba junto al río. Del río para allá, por las vegas, donde están esos árboles llamados casuarinas y las parameras y la tierra buena. No este duro pellejo de vaca que se llama Llano.Pero no nos dejaron decir nuestras cosas. El delegado no venía a conversar con nosotros. Nos puso los papeles en la mano y nos dijo:

-No se vayan a asustar por tener tanto terreno para ustedes solos.
-Es que el Llano, señor delegado...
-Son miles y miles de yuntas.
-Pero no hay agua. Ni siquiera para hacer un buche hay agua.
-¿Y el temporal? Nadie les dijo que se les iba a dotar con tierras de riego. En cuanto allí llueva, se levantará el maíz como si lo estiraran.
-Pero, señor delegado, la tierra está deslavada, dura. No creemos que el arado se entierre en esa como cantera que es la tierra del Llano. Habría que hacer agujeros con el azadón para sembrar la semilla y ni aun así es positivo que nazca nada; ni maíz ni nada nacerá.
-Eso manifiéstenlo por escrito. Y ahora váyanse. Es al latifundio al que tienen que atacar, no al Gobierno que les da la tierra.
-Espérenos usted, señor delegado. Nosotros no hemos dicho nada contra el Centro. Todo es contra el Llano... No se puede contra lo que no se puede. Eso es lo que hemos dicho... Espérenos usted para explicarle. Mire, vamos a comenzar por donde íbamos...

   Pero él no nos quiso oír.
   Así nos han dado esta tierra. Y en este comal acalorado quieren que sembremos semillas de algo, para ver si algo retoña y se levanta. Pero nada se levantará de aquí. Ni zopilotes. Uno los ve allá cada y cuando, muy arriba, volando a la carrera; tratando de salir lo más pronto posible de este blanco terregal endurecido, donde nada se mueve y por donde uno camina como reculando. Melitón dice:

-Esta es la tierra que nos han dado.

   Faustino dice:
 
-¿Qué? Yo no digo nada.

   Yo pienso: "Melitón no tiene la cabeza en su lugar. Ha de ser el calor el que lo hace hablar así. El calor, que le ha traspasado el sombrero y le ha calentado la cabeza. Y si no, ¿por qué dice lo que dice? ¿Cuál tierra nos han dado, Melitón? Aquí no hay ni la tantita que necesitaría el viento para jugar a los remolinos."
   Melitón vuelve a decir:

-Servirá de algo. Servirá aunque sea para correr yeguas.
-¿Cuáles yeguas? -le pregunta Esteban.

   Yo no me había fijado bien a bien en Esteban. Ahora que habla, me fijo en él. Lleva puesto un gabán que le llega al ombligo, y debajo del gabán saca la cabeza algo así como una gallina. Sí, es una gallina colorada la que lleva Esteban debajo del gabán. Se le ven los ojos dormidos y el pico abierto como si bostezara. Yo le pregunto:

-Oye, Teban, ¿de dónde pepenaste esa gallina?
-Es la mía- dice él.
-No la traías antes. ¿Dónde la mercaste, eh?
-No la merque, es la gallina de mi corral.
-Entonces te la trajiste de bastimento, ¿no?
-No, la traigo para cuidarla. Mi casa se quedó sola y sin nadie para que le diera de comer; por eso me la traje. Siempre que salgo lejos cargo con ella.
-Allí escondida se te va a ahogar. Mejor sácala al aire.

   Él se la acomoda debajo del brazo y le sopla el aire caliente de su boca. Luego dice:

-Estamos llegando al derrumbadero.

   Yo ya no oigo lo que sigue diciendo Esteban. Nos hemos puesto en fila para bajar la barranca y él va mero adelante. Se ve que ha agarrado a la gallina por las patas y la zangolotea a cada rato, para no, golpearle la cabeza contra las piedras.
   Conforme bajamos, la tierra se hace buena. Sube polvo desde nosotros como si fuera un atajo de mulas lo que bajará por allí; pero nos gusta llenarnos de polvo. Nos gusta. Después de venir durante once horas pisando la dureza del Llano, nos sentimos muy a gusto envueltos en aquella cosa que brinca sobre nosotros y sabe a tierra.
   Por encima del río, sobre las copas verdes de las casuarinas, vuelan parvadas de chachalacas verdes. Eso también es lo que nos gusta. Ahora los ladridos de los perros se oyen aquí, junto a nosotros, y es que el viento que viene del pueblo retacha en la barranca y la llena de todos sus ruidos.
   Esteban ha vuelto a abrazar su gallina cuando nos acercamos a las primeras casas. Le desata las patas para desentumecerla, y luego él y su gallina desaparecen detrás de unos tepemezquites.

-¡Por aquí arriendo yo! -nos dice Esteban.

   Nosotros seguimos adelante, más adentro del pueblo.
   La tierra que nos han dado está allá arriba.

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Leia também:
1. Pedro Páramo: Vim a Comala

sexta-feira, 31 de março de 2017

35. Pedro Páramo: como si fuera un montón de piedras. fim - Juan Rulfo

Juan Rulfo




35. Pedro Páramo: como si fuera un montón de piedras




A esa misma hora, la madre de Gamaliel Villalpando, doña Inés, barría la calle frente a la tienda de su hijo, cuando llegó y por la puerta entornada, se metió Abundio Martínez. Se encontró al Gamaliel dormido encima del mostrador con el sombrero cubriéndole la cara para que no lo molestaran las moscas. Tuvo que esperar un buen rato para que despertara. Tuvo que esperar a que doña Inés terminara la faena de barrer la calle y viniera a picarle las costillas a su hijo con el mango de la escoba y le dijera:

-¡Aquí tienes un cliente! ¡Alevántate!

El Gamaliel se enderezó de mal genio, dando gruñidos. Tenía los ojos colorados de tanto desvelarse y de tanto acompañar a los borrachos, emborrachándose con ellos. Ya sentado sobre el mostrador, maldijo a su madre, se maldijo a sí mismo y maldijo infinidad de veces a la vida «que valía un puro carajo». Luego volvió a acomodarse con las manos entre las piernas y se volvió a dormir todavía farfullando maldiciones:

-Yo no tengo la culpa de que a estas horas anden sueltos los borrachos.

-El pobre de mi hijo. Discúlpalo, Abundio. El pobre se pasó la noche atendiendo a unos viajantes que se picaron con las copas. ¿Qué es lo que te trae por aquí tan de mañana?

Se lo dijo a gritos, porque Abundio era sordo.

-Pos nada más un cuartillo de alcohol del que estoy necesitado.

-¿Se te volvió a desmayar la Refugio?

-Se me murió ya, madre Villa. Anoche mismito, muy cerca de las once. Y conque hasta vendí mis burros. Hasta eso vendí porque se me aliviara.

-¡No oigo lo que estás diciendo! ¿O no estás diciendo nada? ¿Qué es lo que dices?

-Que me pasé la noche velando a la muerta, a la Refugio. Dejó de resollar anoche.

-Con razón me olió a muerto. Fíjate que hasta yo le dije al Gamaliel: « Me huele que alguien se murió en el pueblo». Pero ni caso me hizo; con eso de que tuvo que congeniar con los viajantes, el pobre se emborrachó. Y tú sabes que cuando está en ese estado, todo le da risa y ni caso le hace a una. Pero ¿qué me dices? ¿Y tienes convidados para el velorio?

-Ninguno, madre Villa. Para eso quiero el alcohol, para curarme la pena.


-¿Lo quieres puro?

-Sí, madre Villa. Pa emborracharme más pronto. Y dámelo rápido que llevo prisa.

-Te daré dos decilitros por el mismo precio y por ser para ti. Ve diciéndole entretanto a la difuntita que yo siempre la aprecié y que me tome en cuenta cuando llegue a la gloria.

-Sí, madre Villa.

-Díselo antes de que se acabe de enfriar.

-Se lo diré. Yo sé que ella también cuenta con usté pa que ofrezca sus oraciones. Con decirle que se murió compungida porque no hubo ni quien la auxiliara.

-¿Qué, no fuiste a ver al padre Rentería?

-Fui. Pero me informaron que andaba en el cerro.

-¿En cuál cerro?

-Pos por esos andurriales. Usted sabe que andan en la revuelta.

-¿De modo que también él? Pobres de nosotros, Abundio.

-A nosotros qué nos importa eso, madre Villa. Ni nos va ni nos viene. Sírvamela otra. Ahí como que se hace la disimulada, al fin y al cabo el Gamaliel está dormido.

-Pero no se te olvide pedirle a la Refugio que ruegue a Dios por mí, que tanto lo necesito.

-No se mortifique. Se lo diré en llegando. Y hasta le sacaré la promesa de palabra, por si es necesario y pa que usté se deje de apuraciones.

-Eso, eso mero debes hacer. Porque tú sabes cómo son las mujeres. Así que hay que exigirles el cumplimiento en seguida. Abundio Martínez dejó otros veinte centavos sobre el mostrador.

-Deme el otro cuartillo, madre Villa. Y si me lo quiere dar sobradito, pos ahí es cosa de usté. Lo único que le prometo es que éste sí me lo iré a beber junto a la difuntita; junto a mi Cuca.

-Vete pues, antes que se despierte mi hijo. Se le agria mucho el genio cuando amanece después de una borrachera. Vete volando y no se te olvide darle mi encargo a tu mujer.

Salió de la tienda dando estornudos. Aquello era pura lumbre; pero, como le habían dicho que así se subía más pronto, sorbió un trago tras otro, echándose aire en la boca con la falda de la camisa. Luego trató de ir derecho a su casa donde lo esperaba la Refugio; pero torció el camino y echó a andar calle arriba, saliéndose del pueblo por donde lo llevó la vereda.

-¡Damiana! -llamó Pedro Páramo-. Ven a ver qué quiere ese hombre que viene por el camino.

Abundio siguió avanzando, dando traspiés, agachando la cabeza y a veces caminando en cuatro patas. Sentía que la tierra se retorcía, le daba vueltas y luego se le soltaba; él corría para agarrarla, y cuando ya la tenía en sus manos se le volvía a ir, hasta que llegó frente a la figura de un señor sentado junto a una puerta. Entonces se detuvo:

-Denme una caridad para enterrar a mi mujer-dijo.

Damiana Cisneros rezaba: «De las asechanzas del enemigo malo, líbranos, Señor». Y le apuntaba con las manos haciendo la señal de la cruz.

Abundio Martínez vio a la mujer de los ojos azorados, poniéndole aquella cruz enfrente, y se estremeció. Pensó que tal vez el demonio lo había seguido hasta allí, y se dio vuelta, esperando encontrarse con alguna mala figuración. Al no ver a nadie, repitió:

-Vengo por una ayudita para enterrar a mi muerta.

El sol le llegaba por la espalda. Ese sol recién salido, casi frío, desfigurado por el polvo de la tierra.


La cara de Pedro Páramo se escondió debajo de las cobijas como si se escondiera de la luz, mientras que los gritos de Damiana se oían salir más repetidos, atravesando los campos: «¡Están matando a don Pedro!».

Abundio Martínez oía que aquella mujer gritaba. No sabía qué hacer para acabar con esos gritos. No le encontraba la punta a sus pensamientos. Sentía que los gritos de la vieja se debían estar oyendo muy lejos. Quizá hasta su mujer los estuviera oyendo, porque a él le taladraban las orejas, aunque no entendía lo que decía. Pensó en su mujer que estaba tendida en el catre, solita, allá en el patio de su casa, adonde él la había sacado para que se serenara y no se apestara pronto. La Cuca, que todavía ayer se acostaba con él, bien viva, retozando como una patrona, y que lo mordía y le raspaba la nariz con su nariz. La que le dio aquel hijito que se les murió apenas nacido, dizque porque ella estaba incapacitada: el mal de ojo y los fríos y la rescoldera y no sé cuántos males tenía su mujer, según le dijo el doctor que fue a verla ya a última hora, cuanto tuvo que vender sus burros para traerlo hasta acá, por el cobro tan alto que le pidió. Y de nada había servido... La Cuca, que ahora estaba allá aguantando el relente, con los ojos cerrados, ya sin poder ver amanecer; ni este sol ni ningún otro.

-¡Ayúdenme! -dijo-. Denme algo.

Pero ni siquiera él se oyó. Los gritos de aquella mujer lo dejaban sordo.

Por el camino de Comala se movieron unos puntitos negros. De pronto los puntitos se convirtieron en hombres y luego estuvieron aquí, cerca de él. Damiana Cisneros dejó de gritar. Deshizo su cruz. Ahora se había caído y abría la boca como si bostezara.

Los hombres que habían venido la levantaron del suelo y la llevaron al interior de la casa.

-¿No le ha pasado nada a usted, patrón? -preguntaron.

Apareció la cara de Pedro Páramo, que sólo movió la cabeza.

Desarmaron a Abundio, que aún tenía el cuchillo lleno de sangre en la mano:

-Vente con nosotros -le dijeron-. En un buen lío te has metido.

Y él los siguió.

Antes de entrar en el pueblo les pidió permiso. Se hizo a un lado y allí vomitó una cosa amarilla como de bilis. Chorros y chorros, como si hubiera sorbido diez litros de agua. Entonces le comenzó a arder la cabeza y sintió la lengua trabada:

-Estoy borracho -dijo.

Regresó a donde estaban esperándolo. Se apoyó en los hombros de ellos, que lo llevaron a rastras, abriendo un surco en la tierra con la punta de los pies.


Allá atrás, Pedro Páramo
, sentado en su equipal, miró el cortejo que se iba hacia el pueblo. Sintió que su mano izquierda, al querer levantarse, caía muerta sobre sus rodillas; pero no hizo caso de eso. Estaba acostumbrado a ver morir cada día alguno de sus pedazos. Vio cómo se sacudía el paraíso dejando caer sus hojas: «Todos escogen el mismo camino. Todos se van». Después volvió al lugar donde había dejado sus pensamientos.


«Susana -dijo. Luego cerró los ojos-. Yo te pedí que regresaras...

»... Había una luna grande en medio del mundo. Se me perdían los ojos mirándote. Los rayos de la luna filtrándose sobre tu cara. No me cansaba de ver esa aparición que eras tú. Suave, restregada de luna; tu boca abullonada, humedecida, irisada de estrellas; tu cuerpo transparentándose en el agua de la noche. Susana, Susana San Juan.»

Quiso levantar su mano para aclarar la imagen; pero sus piernas la retuvieron como si fuera de piedra. Quiso levantar la otra mano y fue cayendo despacio, de lado, hasta quedar apoyada en el suelo como una muleta deteniendo su hombro deshuesado.


«Ésta es mi muerte», dijo.

El sol se fue volteando sobre las cosas y les devolvió su forma. La tierra en ruinas estaba frente a él, vacía. El calor caldeaba su cuerpo. Sus ojos apenas se movían; saltaban de un recuerdo a otro, desdibujando el presente. De pronto su corazón se detenía y parecía como si también se detuviera el tiempo y el aire de la vida.

«Con tal de que no sea una nueva noche» , pensaba él.

Porque tenía miedo de las noches que le llenaban de fantasmas la oscuridad. De encerrarse con sus fantasmas. De eso tenía miedo.

«Sé que dentro de pocas horas vendrá Abundio con sus manos ensangrentadas a pedirme la ayuda que le negué. Y yo no tendré manos para taparme los ojos y no verlo. Tendré que oírlo, hasta que su voz se apague con el día, hasta que se le muera su voz.»

Sintió que unas manos le tocaban los hombros y enderezó el cuerpo, endureciéndolo.

-Soy yo, don Pedro -dijo Damiana-. ¿No quiere que le traiga su almuerzo?

Pedro Páramo respondió:

-Voy para allá. Ya voy.

Se apoyó en los brazos de Damiana Cisneros e hizo intento de caminar. Después de unos cuantos pasos cayó, suplicando por dentro; pero sin decir una sola palabra. Dio un golpe seco contra la tierra y se fue desmoronando como si fuera un montón de piedras.





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NAQUELA MESMA hora a mãe de Gamaliel Villalpando, dona Inés, varria a rua na frente da loja do filho, quando chegou e, pela porta entreaberta, entrou Abundio Martínez. Encontrou Gamaliel dormindo em cima do balcão, com o chapelão cobrindo sua cara para que as moscas não o incomodassem. Teve de esperar um bom tempo até ele acordar. Teve de esperar que dona Inés terminasse a labuta de varrer a rua e viesse cutucar as costelas do filho com o cabo da vassoura e dissesse a ele:

— Tem cliente aqui! Levanta!

Gamaliel endireitou-se de mau humor, dando uns grunhidos. Tinha os olhos avermelhados de tanto sono e de tanto acompanhar os bêbados, embebedando-se com eles. Já sentado sobre o balcão, amaldiçoou a mãe, amaldiçoou a si mesmo e amaldiçoou infinitas vezes a vida “que valia um caralho”. Depois tomou a se acomodar com as mãos entre as pernas e virou-se para dormir, ainda balbuciando maldições:

— Eu não tenho culpa de a essas horas os bêbados andarem soltos.

— Coitado do meu filho. Desculpe, Abundio. O coitado passou a noite atendendo a uns viajantes que não queriam saber de largar o copo. O que traz o senhor por aqui tão cedo?

Disse tudo isso aos berros, porque Abundio era surdo.

— Pois só um meio litro de álcool, que ando necessitado.

— Refugio tornou a desmaiar?

— Ela já morreu e tudo, mãe Villa. Ontem à noite, quase às onze. E pensar que até vendi meus burros. Até isso eu vendi para conseguir ajuda que lhe desse um alívio.

— Não escuto o que você está dizendo! Ou você não está dizendo nada? O que é que você diz?

— Que passei a noite inteira velando a morta, a Refugio. Deixou de suspirar ontem à noite.

— Com razão senti cheiro de morto. Veja só, eu até disse a Gamaliel: “Estou cheirando que alguém morreu no povoado.” Mas ele nem me deu confiança; por causa dessa história de ter de compartilhar com os viajantes, o coitado se embebedou. E você sabe que quando está nesse estado, tudo é rir, e ele nem me dá confiança. Mas o que é que você está me dizendo? E tem convidados para o velório?

— Nenhum, mamãe Villa. Por isso quero o álcool, para curar minhas penas.

— Puro?

— Sim, mãe Villa. Para me embebedar mais depressa. E me dê agorinha que estou apressado.

— Vou dar mais um quarto pelo mesmo preço e por ser para você. Vai dizendo à finadinha, enquanto isso, que eu sempre a apreciei e que ela se lembre de mim quando chegar à glória.

— Sim, mamãe Villa.

— Pois diz isso a ela antes que ela acabe de esfriar.

— Vou dizer. Eu sei que ela também conta com a senhora para que ofereça a ela suas orações. Só de pensar que ela morreu pesarosa porque não teve ninguém nem para auxiliá-la.

— O que, você não foi ver o padre Rentería?

— Fui. Mas me informaram que andava pelos montes.

— Em qual monte?

— Pois por esses ermos. A senhora sabe que andam na rebelião.

— Quer dizer que ele também? Pobres de nós, Abundio.

— Essa história não nos importa nada, mamãe Villa. Isso aí e nada para nós dá no mesmo. Sirva mais um. Assim meio disfarçado, já que o Gamaliel está é dormindo.

— Mas não se esqueça de pedir à Refugio que rogue a Deus por mim, que necessito tanto.

— Nem se angustie. É chegar e dizer. E até vou arrancar dela a promessa apalavrada, para o caso de ser necessário e para que a senhora deixe de aflições.

— Isso, é isso mesmo que você deve fazer. Porque você sabe como as mulheres são. Assim, é preciso exigir delas que cumpram em seguidinha o combinado. Abundio Martínez deixou outros 20 centavos em cima do balcão.

— Pois me dá o outro meio litro, mãe Villa. E se quiser me dar ainda mais outro bocadinho, pois aí é assunto da senhora. A única coisa que eu lhe prometo é que este, sim, irei beber ao lado da finadinha; ao lado da minha Cuca.

— Então vai de vez, antes que meu filho acorde. O humor dele azeda muito quando acorda depois de uma bebedeira. Vai voando e não se esqueça do meu pedido para a sua mulher.

Saiu do armazém espirrando. Aquilo lá era uma fumaceira só; mas, como tinham dito que assim subia mais depressa, bebeu um gole atrás do outro, abanando ar na boca com a fralda da camisa. Depois tratou de ir direto para casa, onde Refugio esperava por ele; mas torceu o caminho e desandou a andar rua acima, saindo do povoado por onde a vereda o levou.

— Damiana! — chamou Pedro Páramo. — Venha ver o que quer esse homem que vem pelo caminho.

Abundio continuou avançando, dando tropeços, agachando a cabeça e às vezes andando de quatro. Sentia que a terra se retorcia, dava voltas em volta dele, e depois se soltava; ele corria para agarrá-la, e quando já tinha a terra nas mãos, ela tornava a ir embora, até que chegou na frente da figura de um senhor sentado ao lado de uma porta. Então, parou:

— Uma caridade para enterrar minha mulher — disse.

Damiana Cisneros rezava: “Das armadilhas dos inimigos malvados, livrai-nos, Senhor.” E apontava para ele com as mãos fazendo o sinal da cruz.

Abundio Martínez viu a mulher com os olhos esbugalhados, pondo aquela cruz na sua frente, e estremeceu. Pensou que talvez o demônio o tivesse seguido até ali, e deu meia-volta, esperando encontrar alguma aparição ruim. Ao não ver ninguém, repetiu:

— Venho pedir uma ajudazinha para enterrar a minha morta.

O sol dava às suas costas. Aquele sol recém-saído, quase frio, desfigurado pela poeira da terra.

A cara de Pedro Páramo escondeu-se debaixo das cobertas como se se escondesse da luz, enquanto se ouviam os gritos de Damiana saírem cada vez mais repetidos, atravessando os campos: “Estão matando dom Pedro!”

Abundio Martínez ouvia aquela mulher gritando. Não sabia o que fazer para acabar com aqueles gritos. Não encontrava a ponta de seus pensamentos. Sentia que os gritos da velha deviam estar sendo ouvidos muito lá longe. Talvez até sua mulher estivesse ouvindo, porque perfuravam as orelhas dele, embora não entendesse o que ela dizia. Pensou em sua mulher que estava estendida no catre, sozinha, lá no quintal da casa, onde ele a havia posto para que serenasse e não apestasse depressa. A Cuca, que ainda ontem se deitava com ele, bem viva, espojando feito potranca, e que o mordia e raspava seu nariz com o nariz dela. A que deu a ele aquele filhinho que morreu assim que nasceu, dizem que porque ela estava incapacitada: o mau-olhado e os frios e a queimação na pança e sei lá de quantos males sua mulher padecia, pelo que disse o doutor que foi vê-la à última hora, quando teve de vender seus burros para trazê-lo até aqui, por causa da cobrança tão alta que cobrou. E que não serviu para nada... A Cuca, que agora estava lá aguentando o relento, com os olhos fechados, já sem poder ver o amanhecer; nem este sol nem nenhum outro.

— Uma ajuda! — disse. — Qualquer coisa.

Mas nem mesmo ele se ouviu. Os gritos daquela mulher o deixavam surdo.

Pelo caminho de Comala moveram-se uns pontinhos negros. De repente os pontinhos se converteram em homens que num instante chegaram aqui, perto dele. Damiana Cisneros parou de gritar. Desfez sua cruz. Agora tinha caído e abria a boca como se bocejasse.

Os homens que tinham vindo a levantaram do chão e a levaram para o interior da casa.

— Aconteceu alguma coisa com o senhor, patrão? — perguntaram.

Apareceu a cara de Pedro Páramo, que só mexeu a cabeça.

Desarmaram Abundio, que ainda estava com o punhal cheio de sangue na mão:

— Venha com a gente — disseram a ele. — Você de verdade se meteu numa boa. E ele os seguiu.

Antes de entrar no povoado pediu licença a eles. Fez-se a um lado e ali vomitou uma coisa amarela como bílis. Jorros e jorros, como se tivesse engolido dez litros de água. Então
sua cabeça começou a arder e sentiu a língua travada:

— Estou bêbado — disse.

Regressou até onde estavam esperando por ele. Apoiou-se nos ombros deles, que o levaram arrastado, abrindo um sulco na terra com a ponta dos pés.



LÁ ATRÁS, Pedro Páramo, sentado em sua cadeira de assento de couro, olhou o cortejo que ia até o povoado. Sentiu que sua mão esquerda, ao querer se levantar, caía morta sobre seus joelhos; mas não deu importância a isso. Estava acostumado a ver morrer a cada dia algum de seus pedaços. Viu como o jasmineiro se sacudia deixando cair suas folhas: “Todos escolhem o mesmo caminho. Todos se vão.” Depois voltou ao lugar onde havia deixado seus pensamentos.

— Susana — disse. Depois fechou os olhos. — Eu pedi que você voltasse...

“... Havia uma lua grande no meio do mundo. Eu perdia meus olhos olhando você. Os raios da lua filtrando-se sobre a sua cara. Não me cansava de ver essa aparição que era você. Suave, esfregada de lua; sua boca inchada e suave, umedecida, colorida de estrelas; seu corpo transparentando-se na água da noite. Susana, Susana San Juan.”

Quis levantar uma das mãos para clarear a imagem; mas suas pernas a retiveram como se fosse de pedra. Quis levantar a outra mão, que foi caindo devagar, de lado, até ficar apoiada no chão como uma muleta detendo seu ombro murcho, desossado.

“Esta é a minha morte”, disse.

O sol foi virando-se sobre as coisas e devolveu-lhes sua forma. A terra em ruínas estava na frente dele, vazia. O calor caldeava seu corpo. Seus olhos mal se moviam; saltavam de uma recordação a outra, desfazendo o presente. De repente seu coração se detinha e parecia que também se detivessem o tempo e o ar da vida.

“Desde que não seja uma nova noite”, ele pensava.

Porque tinha medo das noites que enchiam a escuridão de fantasmas. De encerrar-se com seus fantasmas. Disso tinha medo.

“Sei que dentro de poucas horas virá Abundio com suas mãos ensanguentadas me pedir a ajuda que eu neguei. E eu não terei mãos para tapar os olhos e não vê-lo. Terei de ouvi-lo; até que sua voz se apague com o dia, até que sua voz morra.”

Sentiu mãos que tocavam seus ombros e endireitou o corpo, endurecendo-o.

— Sou eu, dom Pedro — disse Damiana. — Não quer que traga seu almoço?

Pedro Páramo respondeu:

— Vou até lá. Estou indo.

Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e fez a tentativa de caminhar. Depois de alguns tantos passos caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma única palavra. Deu uma batida seca contra a terra e foi se desmoronando como se fosse um montão de pedras. fim




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Rulfo, Juan Pedro Páramo / tradução e prefácio de Eric Nepomuceno. — Rio de Janeiro: BestBolso, 2008. Tradução de: Pedro Páramo ISBN 978-85-7799-116-7 1. Romance mexicano. I. Nepomuceno, Eric. II. Título

Pedro Páramo – Romance mais aclamado da literatura mexicana, Pedro Páramo é o primeiro de dois livros lançados em toda a vida de Juan Rulfo. O enredo, simples, trata da promessa feita por um filho à mãe moribunda, que lhe pede que saia em busca do pai, Pedro Páramo, um malvado lendário e assassino. Juan Preciado, o filho, não encontra pessoas, mas defuntos repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável do pai. Vergonha é o que Juan sente. Alegoricamente, é o México ferido que grita suas chagas e suas revoluções, por meio de uma aldeia seca e vazia onde apenas os mortos sobrevivem para narrar os horrores da história. O realismo fantástico como hoje se conhece não teria existido sem Pedro Páramo; é dessa fonte que beberam o colombiano Gabriel Garcia Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa, que também narram odisseias latino-americanas.


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sábado, 25 de março de 2017

34. Pedro Páramo: Pedro Páramo estaba sentado - Juan Rulfo

Juan Rulfo




34. Pedro Páramo: Pedro Páramo estaba sentado




Pedro Páramo estaba sentado en un viejo equipal, junto a la puerta grande de la Media Luna, poco antes de que se fuera la última sombra de la noche. Estaba solo, quizá desde hacía tres horas. No dormía. Se había olvidado del sueño y del tiempo: «Los viejos dormimos poco, casi nunca. A veces apenas si dormitamos; pero sin dejar de pensar. Eso es lo único que me queda por hacer». Después añadió en voz alta: «No tarda ya. No tarda».

Y siguió: «Hace mucho tiempo que te fuiste, Susana. La luz era igual entonces que ahora, no tan bermeja; pero era la misma pobre luz sin lumbre, envuelta en el paño blanco dé la neblina que hay ahora. Era el mismo momento. Yo aquí, junto a la puerta mirando el amanecer y mirando cuando te ibas, siguiendo el camino del cielo; por donde el cielo comenzaba a abrirse en luces, alejándote, cada vez más desteñida entre las sombras de la tierra.

»Fue la última vez que te vi. Pasaste rozando con tu cuerpo las ramas del paraíso que está en la vereda y te llevaste con tu aire sus últimas hojas. Luego desapareciste. Te dije: "¡Regresa Susana!".»

Pedro Páramo siguió moviendo los labios, susurrando palabras. Después cerró la boca y entreabrió los ojos, en los que se reflejó la débil claridad del amanecer.

Amanecía. 



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PEDRO PÁRAMO estava sentado numa velha cadeira de couro, ao lado da porta grande da Media Luna, pouco antes que se fosse a última sombra da noite. Estava sozinho, fazia talvez umas três horas. Não dormia. Tinha se esquecido do sono e do tempo: “Nós velhos dormimos pouco, quase nunca. Às vezes só cochilamos; mas sem deixar de pensar. Essa é a única coisa que me resta fazer.” Depois acrescentou em voz alta: “Não demora. Já não vai demorar.”

E continuou: “Faz muito tempo que você foi-se embora, Susana. A luz então era igual à de agora, não tão vermelha; mas era a mesma pobre luz sem lume, envolta no pano branco da neblina que existe agora. Era o mesmo momento. Eu aqui, ao lado da porta olhando o amanhecer e olhando quando você ia embora, seguindo o caminho do céu; por onde o céu começava a se abrir em luzes, afastando-se, cada vez mais descolorida entre as sombras da terra.

“Foi a última vez que vi você. Passou roçando com seu corpo os galhos de um jasmineiro que está na vereda e levou com o seu ar as últimas folhas. Depois, você desapareceu. Eu disse: ‘Volta, Susana!’ ”

Pedro Páramo continuou movendo os lábios, sussurrando palavras. Depois fechou a boca e entreabriu os olhos, onde a débil claridade do amanhecer refletiu.

Amanhecia.




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Rulfo, Juan Pedro Páramo / tradução e prefácio de Eric Nepomuceno. — Rio de Janeiro: BestBolso, 2008. Tradução de: Pedro Páramo ISBN 978-85-7799-116-7 1. Romance mexicano. I. Nepomuceno, Eric. II. Título

Pedro Páramo – Romance mais aclamado da literatura mexicana, Pedro Páramo é o primeiro de dois livros lançados em toda a vida de Juan Rulfo. O enredo, simples, trata da promessa feita por um filho à mãe moribunda, que lhe pede que saia em busca do pai, Pedro Páramo, um malvado lendário e assassino. Juan Preciado, o filho, não encontra pessoas, mas defuntos repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável do pai. Vergonha é o que Juan sente. Alegoricamente, é o México ferido que grita suas chagas e suas revoluções, por meio de uma aldeia seca e vazia onde apenas os mortos sobrevivem para narrar os horrores da história. O realismo fantástico como hoje se conhece não teria existido sem Pedro Páramo; é dessa fonte que beberam o colombiano Gabriel Garcia Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa, que também narram odisseias latino-americanas.


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35. Pedro Páramo: como si fuera un montón de piedras. fim - Juan Rulfo

sexta-feira, 17 de março de 2017

33. Pedro Páramo: Al alba, la gente fue despertada - Juan Rulfo

Juan Rulfo




33. Pedro Páramo: Al alba, la gente fue despertada




Al alba, la gente fue despertada por el repique de las campanas. Era la mañana del 8 de diciembre. Una mañana gris. No fría, pero gris. El repique comenzó con la campana mayor. La siguieron las demás. Algunos creyeron que llamaban para la misa grande y empezaron a abrirse las puertas; las menos, sólo aquellas donde vivía gente desmañanada, que esperaba despierta a que el toque del alba les avisara que ya había terminado la noche. Pero el repique duró más de lo debido. Ya no sonaban sólo las campanas de la iglesia mayor, sino también las de la Sangre de Cristo, las de la Cruz Verde y tal vez las del Santuario. Llegó el mediodía y no cesaba el repique. Llegó la noche. Y de día y de noche las campanas siguieron tocando, todas por igual, cada vez con más fuerza, hasta que aquello se convirtió en un lamento rumoroso de sonidos. Los hombres gritaban para oír lo que querían decir. «¿Qué habrá pasado?», se preguntaban. 

A los tres días todos estaban sordos. Se hacía imposible hablar con aquel zumbido de que estaba lleno el aire. Pero las campanas seguían, seguían, algunas ya cascadas, con un sonar hueco como de cántaro. 

-Se ha muerto doña Susana. 

-¿Muerto? ¿Quién? 

-La señora. 

-¿La tuya? 

-La de Pedro Páramo. 

Comenzó a llegar gente de otros rumbos, atraída por el constante repique. De Contla venían como en peregrinación. Y aun de más lejos. Quién sabe de dónde, pero llegó un circo, con volantines y sillas voladoras. Músicos. Se acercaban primero como si fueran mirones, y al rato ya se habían avecindado, de manera que hasta hubo serenatas. Y así poco a poco la cosa se convirtió en fiesta. Comala hormigueó de gente, de jolgorio y de ruidos, igual que en los días de la función en que costaba trabajo dar un paso por el pueblo. 

Las campanas dejaron de tocar; pero la fiesta siguió. No hubo modo de hacerles comprender que se trataba de un duelo, de días de duelo. No hubo modo de hacer que se fueran; antes, por el contrario, siguieron llegando más. 

La Media Luna estaba sola, en silencio. Se caminaba con los pies descalzos; se hablaba en voz baja. Enterraron a Susana San Juan y pocos en Comala se enteraron. Allá había feria. Se jugaba a los gallos, se oía la música; los gritos de los borrachos y de las loterías. Hasta acá llegaba la luz del pueblo, que parecía una aureola sobre el cielo gris. Porque fueron días grises, tristes para la Media Luna. Don Pedro no hablaba. No salía de su cuarto. Juró vengarse de Comala: 

-Me cruzaré de brazos y Comala se morirá de hambre. 

Y así lo hizo.




El Tilcuate siguió viniendo: 

-Ahora somos carrancistas. 

-Está bien. Andamos con mi general Obregón. 

-Está bien. Allá se ha hecho la paz. Andamos sueltos. 

-Espera. No desarmes a tu gente. Esto no puede durar mucho. 

-Se ha levantado en armas el padre Rentería. ¿Nos vamos con él, o contra él? 

-Eso ni se discute. Ponte al lado del gobierno. 

-Pero si somos irregulares. Nos consideran rebeldes. 

-Entonces vete a descansar. 

-¿Con el vuelo que llevo? 

-Haz lo que quieras, entonces.

-Me iré a reforzar al padrecito. Me gusta cómo gritan. Además lleva uno ganada la salvación. 

-Haz lo que quieras.



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NO ALVORECER, as pessoas acordaram com o badalar do carrilhão. Era a manhã de 8 de dezembro. Uma manhã cinzenta. Não fria; mas cinzenta. O repicar começou com o campanário maior. Depois vieram os outros. Alguns achavam que era o chamado para a missa grande e começaram a abrir as portas; poucas, só aquelas onde viviam as pessoas madrugadoras, que esperavam acordadas que o toque do alvorecer as avisasse de que a noite havia terminado. Mas o repicar durou mais do que devia. Já não eram apenas os sinos da igreja maior, mas também os da igreja Sangue de Cristo, e o campanário da Cruz Verde, e talvez o do Santuário. Chegou o meio-dia e o repique não cessava. Chegou a noite. E de dia e de noite os sinos continuaram tocando, todos por igual, cada vez com mais força, até que aquilo se converteu num lamento ensurdecedor. Os homens gritavam para ouvir o que queriam dizer: “O que terá acontecido?”, se perguntavam. 

Ao terceiro dia estavam todos surdos. Era impossível falar com aquele zumbido que enchia o ar. Mas os sinos continuavam, continuavam, alguns já trincados, com um soar oco feito o de um cântaro. 

— Morreu dona Susana. 

— Morreu? Quem? 

— A senhora. 

— Sua senhora? 

— A de Pedro Páramo. 

Começou a chegar gente de outras paragens, atraídas pelo repicar constante. De Contla, vinham como em peregrinação. E até de mais longe ainda. Sabe-se lá de onde, o fato é que chegou um circo, trazendo acrobatas e trapezistas. Músicos. Primeiro se aproximavam como se fossem curiosos, e num instante já tinham se transformado em vizinhos, de maneira que houve até serenata. E assim, pouco a pouco a coisa se transformou em festa. Comala formigou de gente, de festança e de ruídos, igual que nos dias da quermesse, quando dava trabalho dar um passo pelo povoado. 

Os sinos deixaram de tocar; mas a festa continuou. Não teve como fazer o pessoal compreender que se tratava de um luto, de dias de luto. Não houve como fazer com que se fossem; pelo contrário, continuou chegando mais e mais gente. 

A Media Luna estava solitária, em silêncio. Caminhava-se com pés descalços; falava-se em voz baixa. Enterraram Susana San Juan e pouca gente em Comala percebeu. Lá havia festa. Apostava-se nos galos, ouvia-se música; os gritos dos bêbados e das vísporas. Até lá chegava a luz do povoado, que parecia uma auréola sobre o céu cor de cinza. Porque foram dias cor de cinza, tristes para a Media Luna. Dom Pedro não falava. Não saía do seu quarto. Jurou vingar-se de Comala: 

— Vou cruzar os braços e Comala vai morrer de fome.

E foi o que ele fez.



O SUCURI continuou aparecendo: 

— Agora estamos com Carranza. 

— Está bem. 

— Agora estamos com o general Obregón. 

— Está bem. 

— Agora selaram a paz. Estamos soltos. 

— Espere. Não desarme o seu pessoal. Isso pode não durar muito. 

— O padre Rentería alçou-se em armas. Vamos com ele, ou contra ele? 

— Não tem nem o que discutir. Você que se ponha do lado do governo. 

— Mas é que somos irregulares. No governo nos consideram rebeldes. 

— Então, vá descansar. 

— Acelerado do jeito que estou? 

— Então faça o que quiser.

— Pois vou dar apoio ao padre. Gosto do jeito que eles gritam. Além do mais, a gente leva de pingo a salvação da alma. 

— Faça o que quiser.





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Rulfo, Juan Pedro Páramo / tradução e prefácio de Eric Nepomuceno. — Rio de Janeiro: BestBolso, 2008. Tradução de: Pedro Páramo ISBN 978-85-7799-116-7 1. Romance mexicano. I. Nepomuceno, Eric. II. Título

Pedro Páramo – Romance mais aclamado da literatura mexicana, Pedro Páramo é o primeiro de dois livros lançados em toda a vida de Juan Rulfo. O enredo, simples, trata da promessa feita por um filho à mãe moribunda, que lhe pede que saia em busca do pai, Pedro Páramo, um malvado lendário e assassino. Juan Preciado, o filho, não encontra pessoas, mas defuntos repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável do pai. Vergonha é o que Juan sente. Alegoricamente, é o México ferido que grita suas chagas e suas revoluções, por meio de uma aldeia seca e vazia onde apenas os mortos sobrevivem para narrar os horrores da história. O realismo fantástico como hoje se conhece não teria existido sem Pedro Páramo; é dessa fonte que beberam o colombiano Gabriel Garcia Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa, que também narram odisseias latino-americanas.


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34. Pedro Páramo: Pedro Páramo estaba sentado - Juan Rulfo

segunda-feira, 6 de março de 2017

32. Pedro Páramo: Tengo la boca llena de tierra - Juan Rulfo

Juan Rulfo




32. Pedro Páramo: Tengo la boca llena de tierra




-Tengo la boca llena de tierra. 

-Sí, padre. 

-No digas: «Sí, padre». Repite conmigo lo que yo vaya diciendo. 

-¿Qué va usted a decirme? ¿Me va a confesar otra vez? ¿Por qué otra vez? 

-Ésta no será una confesión, Susana. Sólo vine a platicar contigo. A prepararte para la muerte. 

-¿Ya me voy a morir? 

-Sí, hija. 

-¿Por qué entonces no me deja en paz? Tengo ganas de descansar. Le han de haber encargado que viniera a quitarme el sueño. Que se estuviera aquí conmigo hasta que se me fuera el sueño. ¿Qué haré después para encontrarlo? Nada, padre. ¿Por qué mejor no se va y me deja tranquila? 

-Te dejaré en paz, Susana. Conforme vayas repitiendo las palabras que yo diga, te irás quedando dormida. Sentirás como si tú misma te arrullaras. Y ya que te duermas nadie te despertará... Nunca volverás a despertar. 

-Está bien, padre. Haré lo que usted diga. 

El padre Rentería, sentado en la orilla de la cama, puestas las manos sobre los hombros de Susana San Juan, con su boca casi pegada a la oreja de ella para no hablar fuerte, encajaba secretamente cada una de sus palabras: «Tengo la boca llena de tierra». Luego se detuvo. Trató de ver si los labios de ella se movían. Y los vio balbucir, aunque sin dejar salir ningún sonido. 

«Tengo la boca llena de ti, de tu boca. Tus labios apretados, duros como si mordieran oprimidos mis labios...» 

Se detuvo también. Miró de reojo al padre Rentería y lo vio lejos, como si estuviera detrás de un vidrio empañado. 


Luego volvió a oír la voz calentando su oído: 

-Trago saliva espumosa; mastico terrones plagados de gusanos que se me anudan en la garganta y raspan la pared del paladar... Mi boca se hunde, retorciéndose en muecas, perforada por los dientes que la taladran y devoran. La nariz se reblandece. La gelatina de los ojos se derrite. Los cabellos arden en una sola llamarada... 

Le extrañaba la quietud de Susana San Juan. Hubiera querido adivinar sus pensamientos y ver la batalla de aquel corazón por rechazar las imágenes que él estaba sembrando dentro de ella. Le miró los ojos y ella le devolvió la mirada. Y le pareció ver como si sus labios forzaran una sonrisa. 

-Aún falta más. La visión de Dios. La luz suave de su cielo infinito. El gozo de los querubines y el canto de los serafines. La alegría de los ojos de Dios, última y fugaz visión de los condenados a la pena eterna. Y no sólo eso, sino todo conjugado con un dolor terrenal. El tuétano de nuestros huesos convertido en lumbre y las venas de nuestra sangre en hilos de fuego, haciéndonos dar reparos de increíble dolor; no menguado nunca; atizado siempre por la ira del Señor. 

«Él me cobijaba entre sus brazos. Me daba amor.» 

El padre Rentería repasó con la vista las figuras que estaban alrededor de él, esperando el último momento. Cerca de la puerta, Pedro Páramo aguardaba con los brazos cruzados; en seguida, el doctor Valencia, y junto a ellos otros señores. Más allá, en las sombras, un puño de mujeres a las que se les hacía tarde para comenzar a rezar la oración de difuntos. 

Tuvo intenciones de levantarse. Dar los santos óleos a la enferma y decir: «He terminado». Pero no, no había terminado todavía. No podía entregar los sacramentos a una mujer sin conocer la medida de su arrepentimiento. 

Le entraron dudas. Quizá ella no tenía nada de que arrepentirse. Tal vez él no tenía nada de que perdonarla. Se inclinó nuevamente sobre ella y, sacudiéndole los hombros, le dijo en voz baja: 

-Vas a ir a la presencia de Dios. Y su juicio es inhumano para los pecadores. 

Luego se acercó otra vez a su oído; pero ella sacudió la cabeza: 

-¡Ya váyase, padre! No se mortifique por mí. Estoy tranquila y tengo mucho sueño. 

Se oyó el sollozo de una de las mujeres escondidas en la sombra. 

Entonces Susana San Juan pareció recobrar vida. Se alzó en la cama y dijo: 

-¡Justina, hazme el favor de irte a llorar a otra parte! 

Después sintió que la cabeza se le clavaba en el vientre. Trató de separar el vientre de su cabeza; de hacer a un lado aquel vientre que le apretaba los ojos y le cortaba la respiración; pero cada vez se volcaba más como si se hundiera en la noche.



-Yo. Yo vi morir a doña Susanita. 

-¿Qué dices, Dorotea? 

-Lo que te acabo de decir.



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— ESTOU COM A BOCA cheia de terra. 

— Sim, padre. 

— Não diga: “Sim, padre.” Repete comigo o que eu for dizendo. 

— O que o senhor vai me dizer? Vai pegar a minha confissão outra vez? Por que outra vez? 

— Esta não vai ser uma confissão, Susana. Só vim conversar com você. Preparar você para a morte. 

— Eu já vou morrer? 

— Vai, filha. 

— Então por que não me deixa em paz? Estou com vontade de descansar. Devem ter pedido ao senhor que viesse tirar meu sono. Que ficasse aqui comigo até meu sono ir embora. E o que eu vou fazer depois para encontrar meu sono? Nada, padre. Então por que o senhor não vai embora de uma vez e me deixa tranquila? 

— Vou deixar você em paz, Susana. Conforme você for repetindo as palavras que eu disser, irá adormecendo. Vai sentir como se você mesma se ninasse. E vai ver que quando você dormir, ninguém mais irá despertá-la... Você não vai voltar a despertar nunca mais. 

— Está bem, padre. Vou fazer o que o senhor disser. 

O padre Rentería, sentado na beira da cama, as mãos postas sobre os ombros de Susana San Juan, com sua boca assim quase grudada na orelha dela para não falar alto, encaixava secretamente cada uma de suas palavras: “Tenho a boca cheia de terra.” Depois se deteve. Tratou de ver se os lábios dela se moviam. E os viu balbuciar, embora sem deixar sair som algum. 

“Tenho a boca cheia de ti, da sua boca. Seus lábios apertados, duros como se mordessem oprimindo meus lábios...” 

Também se deteve. Olhou de viés o padre Rentería e viu-o ao longe, como se estivesse por trás de um vidro embaçado. 

Depois tornou a ouvir a voz esquentando seu ouvido: 

— Tenho saliva espumosa; mastigo torrões coalhados de vermes que se aninham na minha garganta e raspam o meu céu da boca... Minha boca se afunda, contorcendo-se em trejeitos, perfurada pelos dentes que a perfuram e devoram. O nariz amolece. A gelatina dos olhos se derrete. Os cabelos ardem numa labareda só...

Estranhava a quietude de Susana San Juan. Teria querido adivinhar seus pensamentos e ver a batalha daquele coração por rejeitar as imagens que ele estava semeando dentro dela. Olhou seus olhos e ela devolveu o olhar. E ele achou que estava vendo como os lábios dela forçavam um sorriso. 

— Ainda falta uma coisa. A visão de Deus. A luz suave de seu céu infinito. O gozo dos querubins e o canto dos serafins. A alegria dos olhos de Deus, a última e fugaz visão dos condenados à pena eterna. E não apenas isso, mas tudo conjugado com uma dor terrena. O tutano dos nossos ossos convertido em lume e as veias do nosso sangue em fios de fogo, fazendo-nos contorcer de uma dor incrível; que não míngua nunca; atiçado sempre pela ira do Senhor. 

“Ele me abrigava entre seus braços. Ele me dava amor.” 

O padre Rentería repassou com os olhos as figuras que estavam à sua volta, esperando o último momento. Perto da porta, Pedro Páramo esperava com os braços cruzados; em seguida, o doutor Valência, e junto a eles outros senhores. Mais além, nas sombras, um punhado de mulheres para quem já estava se fazendo tarde para começar a rezar a oração dos defuntos. 

Teve intenção de se levantar. Dar os santos óleos à enferma e dizer: “Terminei.” Mas não, ainda não terminara. Não podia entregar os sacramentos a uma mulher sem conhecer o tamanho de seu arrependimento. 

Sentiu que entrava em dúvidas. Talvez ela não tivesse nada de que se arrepender. Talvez ele não tivesse nada a perdoar. Inclinou-se suavemente sobre ela, e sacudindo seus ombros, disse em voz baixa: 

— Você está indo até a presença de Deus. E sua sentença é desumana para os pecadores. 

Depois aproximou-se outra vez de seu ouvido; mas ela sacudiu a cabeça: 

— Vá embora de uma vez, padre! Não se mortifique por mim. Estou tranquila e tenho sono. 

Ouviu-se o soluço de uma das mulheres escondidas na sombra. Então Susana San Juan pareceu recobrar a vida. Endireitou-se na cama e disse: 

— Justina, faça-me o favor de ir chorar em outro canto! 

Depois sentiu que a cabeça se cravava em seu ventre. Tentou separar o ventre de sua cabeça; afastar aquele ventre que apertava seus olhos e cortava sua respiração; mas cada vez se inclinava mais como se afundasse na noite.



— EU... Eu vi dona Susanita morrer. 

— O que você está dizendo, Dorotea?

 — Estou dizendo o que acabo de dizer.








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Rulfo, Juan Pedro Páramo / tradução e prefácio de Eric Nepomuceno. — Rio de Janeiro: BestBolso, 2008. Tradução de: Pedro Páramo ISBN 978-85-7799-116-7 1. Romance mexicano. I. Nepomuceno, Eric. II. Título

Pedro Páramo – Romance mais aclamado da literatura mexicana, Pedro Páramo é o primeiro de dois livros lançados em toda a vida de Juan Rulfo. O enredo, simples, trata da promessa feita por um filho à mãe moribunda, que lhe pede que saia em busca do pai, Pedro Páramo, um malvado lendário e assassino. Juan Preciado, o filho, não encontra pessoas, mas defuntos repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável do pai. Vergonha é o que Juan sente. Alegoricamente, é o México ferido que grita suas chagas e suas revoluções, por meio de uma aldeia seca e vazia onde apenas os mortos sobrevivem para narrar os horrores da história. O realismo fantástico como hoje se conhece não teria existido sem Pedro Páramo; é dessa fonte que beberam o colombiano Gabriel Garcia Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa, que também narram odisseias latino-americanas.


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33. Pedro Páramo: Al alba, la gente fue despertada - Juan Rulfo

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

31. Pedro Páramo: En el comienzo del amanecer - Juan Rulfo

Juan Rulfo




31. Pedro Páramo: En el comienzo del amanecer





En el comienzo del amanecer, el día va dándose vuelta, a pausas; casi se oyen los goznes de la tierra que giran enmohecidos; la vibración de esta tierra vieja que vuelca su oscuridad.

-¿Verdad que la noche está llena de pecados, Justina?

-Sí, Susana.

-¿Y es verdad?

-Debe serlo, Susana.

-¿Y qué crees que es la vida, Justina, sino un pecado? ¿No oyes? ¿No oyes cómo rechina la tierra?

-No, Susana, no alcanzo a oír nada. Mi suerte no es tan grande como la tuya.

-Te asombrarías. Te digo que te asombrarías de oír lo que yo oigo. Justina siguió poniendo orden en el cuarto. Repasó una y otra vez la jerga sobre los tablones húmedos del piso. Limpió el agua del florero roto. Recogió las flores. Puso los vidrios en el balde lleno de agua.

-¿Cuántos pájaros has matado en tu vida, Justina?

-Muchos, Susana.

-¿Y no has sentido tristeza? -Sí, Susana.

-Entonces ¿qué esperas para morirte?

-La muerte, Susana.

-Si es nada más eso, ya vendrá. No te preocupes.

Susana San Juan estaba incorporada sobre sus almohadas. Los ojos inquietos, mirando hacia todos lados. Las manos sobre el vientre, prendidas a su vientre como una concha protectora. Había ligeros zumbidos que cruzaban como alas por encima de su cabeza. Y el ruido de las poleas en la noria. El rumor que hace la gente al despertar.

-¿Tú crees en el infierno, Justina?

-Sí, Susana. Y también en el cielo.

-Yo sólo creo en el infierno -dijo. Y cerró los ojos.

Cuando salió Justina del cuarto, Susana San Juan estaba nuevamente dormida y afuera chisporroteaba el sol. Se encontró con Pedro Páramo en el camino.

-¿Cómo está la señora?

-Mal -le dijo agachando la cabeza.


-¿Se queja?

-No, señor, no se queja de nada; pero dicen que los muertos ya no se quejan. La señora está perdida para todos.

-¿No ha venido el padre Rentería a verla?

-Anoche vino y la confesó. Hoy debía de haber comulgado, pero no debe estar en gracia porque el padre Rentería no le ha traído la comunión. Dijo que lo haría a hora temprana, y ya ve usted, el sol ya está aquí y no ha venido. No debe estar en gracia.

-¿En gracia de quién?

-De Dios, señor.

-No seas tonta, Justina.

-Como usted lo diga, señor.

Pedro Páramo abrió la puerta y se estuvo junto a ella, dejando que un rayo de luz cayera sobre Susana San Juan. Vio sus ojos apretados como cuando se siente un dolor interno; la boca humedecida, entreabierta, y las sábanas siendo recorridas por manos inconscientes hasta mostrar la desnudez de su cuerpo que comenzó a retorcerse en convulsiones.

Recorrió el pequeño espacio que lo separaba de la cama y cubrió el cuerpo desnudo, que siguió debatiéndose como un gusano en espasmos cada vez más violentos. Se acercó a su oído y le habló: «¡Susana!» . Y volvió a repetir: «¡Susana!».

Se abrió la puerta y entró el padre Rentería en silencio moviendo brevemente los labios:

-Te voy a dar la comunión, hija mía.

Esperó a que Pedro Páramo la levantara recostándola contra el respaldo de la cama. Susana San Juan, semidormida, estiró la lengua y se tragó la hostia. Después dijo: «Hemos pasado un rato muy feliz, Florencio». Y se volvió a hundir entre la sepultura de sus sábanas.




_¿Ve usted aquella ventana
, doña Fausta, allá en la Media Luna, donde siempre ha estado prendida la luz?


-No, Ángeles. No veo ninguna ventana.

-Es que ahorita se ha quedado a oscuras. ¿No estará pasando algo malo en la Media Luna? Hace más de tres años que está aluzada esa ventana, noche tras noche. Dicen los que han estado allí que es el cuarto donde habita la mujer de Pedro Páramo, una pobrecita loca que le tiene miedo a la oscuridad. Y mire: ahora mismo se ha apagado la luz. ¿No será un mal suceso?

-Tal vez haya muerto. Estaba muy enferma. Dicen que ya no conocía a la gente, y dizque hablaba sola. Buen castigo ha de haber soportado Pedro Páramo casándose con esa mujer. -Pobre del señor don Pedro.

-No, Fausta. Él se lo merece. Eso y más.

-Mire, la ventana sigue a oscuras.

-Ya deje tranquila esa ventana y vámonos a dormir, que es muy noche para que este par de viejas andemos sueltas por la calle.

Y las dos mujeres, que salían de la iglesia muy cerca de las once de la noche, se perdieron bajo los arcos del portal, mirando cómo la sombra de un hombre cruzaba la plaza en dirección de la Media Luna.

-Oiga, doña Fausta, ¿no se le figura que el señor que va allí es el doctor Valencia?

-Así parece, aunque estoy tan cegatona que no lo podría reconocer.


-Acuérdese que siempre viste pantalones blancos y saco negro. Yo le apuesto a que está aconteciendo algo malo en la Media Luna. Y mire lo recio que va, como si lo correteara la prisa.

-Con tal de que no sea de verdad una cosa grave. Me dan ganas de regresar y decirle al padre Rentería que se dé una vuelta por allá, no vaya a resultar que esa infeliz muera sin confesión.

-Ni lo piense, Ángeles. Ni lo quiera Dios. Después de todo lo que ha sufrido en este mundo, nadie desearía que se fuera sin los auxilios espirituales, y que siguiera penando en la otra vida. Aunque dicen los zahorinos que a los locos no les vale la confesión, y aun cuando tengan el alma impura son inocentes. Eso sólo Dios lo sabe... Mire usted, ya se ha vuelto a prender la luz en la ventana. Ojalá todo salga bien. Imagínese en qué pararía el trabajo que nos hemos tomado todos estos días para arreglar la iglesia y que luzca bonita ahora para la Natividad, si alguien se muere en esa casa. Con el poder que tiene don Pedro, nos desbarataría la función en un santiamén.

A usted siempre se le ocurre lo peor, doña Fausta, mejor haga lo que yo: encomiéndelo todo a la Divina Providencia. Récele un avemaría a la Virgen y estoy segura que nada va a pasar de hoy a mañana. Ya después, que se haga la voluntad de Dios; al fin y al cabo, ella no debe estar tan contenta en esta vida.

-Créame, Ángeles, que usted siempre me repone el ánimo. Voy a dormir llevándome al sueño estos pensamientos. Dicen que los pensamientos de los sueños van derechito al cielo. Ojalá que los míos alcancen esa altura. Nos veremos mañana.

-Hasta mañana, Fausta.

Las dos viejas, puerta de por medio, se metieron en sus casas. El silencio volvió a cerrar la noche sobre el pueblo.
 



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NO COMEÇO DO amanhecer, o dia vai dando voltas, com pausas; quase dá para ouvir as dobradiças da terra, que giram emboloradas; a vibração desta terra velha que derrama sua escuridão.

— É verdade que a noite está cheia de pecados, Justina?

— É, Susana.

— De verdade?

— Deve ser, Susana.

— E o que você acha que a vida é, Justina, a não ser um pecado? Está ouvindo? Está ouvindo como a terra range?

— Não, Susana, eu não consigo ouvir nada. Minha sorte não é tão grande como a sua.

— Você iria se espantar. Eu digo que você iria se espantar se ouvisse o que eu ouço.

Justina continuou arrumando o quarto. Repassou uma vez e outra a estopa grossa sobre as tabuonas úmidas do assoalho. Limpou a água do floreiro quebrado. Recolheu as flores. Pôs os cacos de vidro no balde cheio d’água.

— Quantos pássaros você matou na vida, Justina?

— Muitos, Susana.

— E não sentiu tristeza?

— Senti, Susana.

— Então, está esperando o quê para morrer?

— A morte, Susana.

— Se é só isso, já, já ela chega. Não se preocupe.

Susana San Juan estava erguida sobre seus travesseiros. Os olhos inquietos, olhando para todos os lados. As mãos sobre o ventre, grudadas em seu ventre como uma concha protetora. Havia ligeiros zumbidos que passavam como asas por cima da sua cabeça. E o ruído das roldanas na madeira do poço. O rumor que as pessoas fazem ao acordar.

— Você acredita no inferno, Justina?

— Sim, Susana. E no céu também.

— Eu só acredito no inferno — ela disse. E fechou os olhos.

Quando Justina saiu do quarto, Susana San Juan estava adormecida de novo e lá fora o sol lançava chispas. Encontrou Pedro Páramo no caminho.

— Como é que a senhora está?

— Mal — ela respondeu agachando a cabeça.

— Ela se queixa?

— Não, senhor, não se queixa de nada; mas dizem que os mortos não se queixam mais. A senhora está perdida para todos.

— O padre Rentería não veio vê-la?

— Veio ontem, e tomou-lhe a confissão. Hoje ela deveria ter comungado, mas não deve estar nas graças, porque o padre Rentería não trouxe a comunhão para ela. Disse que ia fazer isso logo cedo, e o senhor está vendo, o sol já está aqui e ele não veio. Ela não deve estar nas graças.

— Nas graças de quem?

— De Deus, senhor.

— Não seja boba, Justina.

— Como o senhor quiser, patrão.

Pedro Páramo abriu a porta e ficou ao lado dela, deixando que um raio de luz caísse sobre Susana San Juan. Viu seus olhos apertados como quando se sente uma dor; a boca umedecida, entreaberta, e os lençóis sendo percorridos por mãos inconscientes até mostrar a nudez de seu corpo que começou a se contorcer em convulsões.

Percorreu aquele pequeno espaço que o separava da cama e cobriu o corpo nu, que continuou se debatendo como uma minhoca em espasmos cada vez mais violentos. Aproximou-se de seu ouvido e falou: “Susana!” E tornou a repetir: “Susana!”

A porta foi aberta e em silêncio entrou o padre Rentería, movendo brevemente os lábios:

— Vou lhe dar a comunhão, filha minha.

Esperou que Pedro Páramo a levantasse encostando-a sobre o espaldar da cama. Susana San Juan, semiadormecida, estendeu a língua e engoliu a hóstia. Depois disse: “Tivemos um tempo muito feliz, Florencio.” E tornou a se afundar entre a sepultura de seus lençóis.



— A SENHORA ESTÁ vendo aquela janela, dona Fausta, lá na Media Luna, onde a luz sempre ficava acesa?


— Não, Angeles. Não vejo nenhuma janela.

— É que justinho agora ficou escura. Será que aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna? Faz mais de três anos que aquela janela está alumbrada, noite a noite. Dizem, quem esteve lá, que é o quarto onde habita a mulher de Pedro Páramo, uma coitadinha louca que tem medo do escuro. E olha só: agora mesmo, a luz apagou. Não será um acontecimento ruim?

— Talvez tenha morrido. Estava muito doente. Dizem que já nem reconhecia as pessoas, e dizem que falava sozinha. Bom castigo deve ter suportado Pedro Páramo casando-se com essa mulher.

— Coitado do senhor dom Pedro.

— Não, Fausta. Ele merece. Isso e muito mais.

— Olha, a janela continua escura.

— Deixa essa janela em paz e vamos dormir, que é noite alta para que nós duas, esse par de velhas, andemos soltas pela rua.

E as duas mulheres, que saíam da igreja muito perto das onze da noite, perderam-se debaixo dos arcos do portal, olhando como a sombra de um homem cruzava a praça na direção da Media Luna.

— Escuta, dona Fausta, não parece que o senhor ali é o doutor Valência?

— Parece mesmo, mas ando tão cega que não conseguiria reconhecê-lo.

— Não se esqueça que ele veste sempre calças brancas e paletó preto. Eu aposto que está acontecendo alguma coisa ruim na Media Luna. E olha só como ele vai rijo, como se a urgência o empurrasse.

— Pode ser de verdade uma coisa ruim. Sinto vontade de voltar e dizer ao padre Rentería que se achegue por lá, vai que essa infeliz morre sem se confessar.

— Nem pense nisso, Angeles. Nem Deus queira. Depois de tudo que ela sofreu neste mundo, ninguém desejaria que se fosse sem os auxílios espirituais e continuasse a penar na outra vida. Embora os bruxos digam que nos loucos a confissão não vale, pois mesmo quando têm a alma impura são inocentes. Isso só Deus sabe... Veja só, já tornaram a acender a luz na janela. Oxalá tudo dê certo. Imagine só em aonde iria dar o trabalho que tivemos todos esses
dias para arrumar a igreja para que pareça bonita agora no Natal, se alguém morrer naquela casa. Com o poder que tem, dom Pedro aguaria a nossa festa num triz.


— A senhora sempre pensa o pior, dona Fausta. Era melhor fazer como eu: encomende tudo à Providência Divina. Reze uma ave-maria à Virgem e tenho certeza que nada vai acontecer de hoje para amanhã. Depois, que seja feita a vontade de Deus; afinal de contas, ela não deve estar tão contente assim nesta vida.

— Acredite em mim, Angeles, a senhora sempre me repõe o ânimo. Vou dormir levando ao sono esses pensamentos. Dizem por aí que os pensamentos dos sonhos vão direto para o céu. Tomara que os meus alcancem esta altura. Amanhã nos vemos.

— Até amanhã, Fausta.

As duas velhas, porta a porta, se meteram em suas casas. O silêncio voltou a fechar a noite sobre o povoado.





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Rulfo, Juan Pedro Páramo / tradução e prefácio de Eric Nepomuceno. — Rio de Janeiro: BestBolso, 2008. Tradução de: Pedro Páramo ISBN 978-85-7799-116-7 1. Romance mexicano. I. Nepomuceno, Eric. II. Título

Pedro Páramo – Romance mais aclamado da literatura mexicana, Pedro Páramo é o primeiro de dois livros lançados em toda a vida de Juan Rulfo. O enredo, simples, trata da promessa feita por um filho à mãe moribunda, que lhe pede que saia em busca do pai, Pedro Páramo, um malvado lendário e assassino. Juan Preciado, o filho, não encontra pessoas, mas defuntos repletos de memórias, que lhe falam da crueldade implacável do pai. Vergonha é o que Juan sente. Alegoricamente, é o México ferido que grita suas chagas e suas revoluções, por meio de uma aldeia seca e vazia onde apenas os mortos sobrevivem para narrar os horrores da história. O realismo fantástico como hoje se conhece não teria existido sem Pedro Páramo; é dessa fonte que beberam o colombiano Gabriel Garcia Márquez e o peruano Mario Vargas Llosa, que também narram odisseias latino-americanas.


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32. Pedro Páramo: Tengo la boca llena de tierra - Juan Rulfo