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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Contos de Calvino: A Ovelha Negra (03)

Ítalo Calvino



A Ovelha Negra



Havia um país onde todos eram ladrões.

À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa de um vizinho. Voltava de madrugada, carregado, e encontrava a sua casa roubada.

E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último, que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços, e não havia ricos nem pobres.

Ora, não se sabe como, ocorre que no país apareceu um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances.

Vinham os ladrões, viam a luz acessa e não subiam.

Essa situação durou algum tempo: depois foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não era essa uma boa razão para não deixar os outros fazerem. Cada noite que ele passava em casa era uma família que não comia no dia seguinte.

Diante desses argumentos, o homem honesto não tinha o que objetar. Também começou a sair de noite para voltar de madrugada, mas não ia roubar. Era honesto, não havia nada a fazer. Andava até a ponte e ficava vendo a água embaixo. Voltava para casa, e a encontrava roubada.

Em menos de uma semana o homem honesto ficou sem um tostão, sem o que comer, com a casa vazia. Mas até aí tudo bem, porque era culpa sua; o problema era que seu comportamento criava uma grande confusão. Ele deixava que lhe roubassem tudo e, ao mesmo tempo, não roubava ninguém; assim, sempre havia alguém que, voltando para casa de madrugada, achava a casa intacta: a casa que o homem honesto deveria ter roubado. O fato é que, pouco depois, os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos que os outros e passaram a não querer mais roubar. E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia; assim, iam ficando pobres.

Enquanto isso, os que tinham se tornado ricos pegaram o costume, eles também, de ir de noite até a ponte, para ver a água que passava embaixo. Isso aumentou a confusão, pois muitos outros ficaram ricos e muitos outros ficaram pobres.

Ora, os ricos perceberam que, indo de noite até a ponte, mais tarde ficariam pobres. E pensaram: “Paguemos aos pobres para irem roubar para nós”. Fizeram-se os contratos, estabeleceram-se os salários, as percentagens: naturalmente, continuavam a ser ladrões e procuravam enganar-se uns aos outros. Mas, como acontece, os ricos tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e que mandavam roubar para continuarem a ser ricos. Mas, se paravam de roubar, ficavam pobres porque os pobres os roubavam. Então pagaram aos mais pobres dos pobres para defenderem as suas coisas contra os outros pobres, e assim instituíram a polícia e construíram as prisões.

Dessa forma, já poucos anos depois do episódio do homem honesto, não se falava mais de roubar ou de ser roubado, mas só de ricos ou de pobres; e, no entanto, todos continuavam a ser pobres.

Honesto só tinha havido aquele sujeito, e morrera logo, de fome.




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Contos de Calvino: Consciência (02)




Italo Calvino (1923 – 85) nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba, e foi para a Itália logo após o nascimento. Participou da resistência ao fascismo durante a guerra e foi membro do Partido Comunista até 1956. Publicou sua primeira obra, A trilha dos ninhos da aranha, em 1947.



Calvino, Italo, 1923-1985.

Um general na biblioteca / Italo Calvino ; tradução Rosa Freire d’Aguiar – São Paulo: compainha das Letras, 2001.

Título original: Prima che tu dica “pronto”.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Contos de Calvino: Consciência (02)

Ítalo Calvino



Consciência


Veio uma guerra e um tal de Luigi perguntou se podia ir, como voluntário.

Todos lhe fizeram um monte de cumprimentos. Luigi foi ao lugar onde davam os fuzis, pegou um e disse: - Agora vou matar um tal de Alberto.

Perguntaram-lhe quem era esse Alberto.

- Um inimigo – respondeu -, um inimigo que eu tenho.

Os outros o fizeram compreender que devia matar inimigos de um determinado tipo, e não os que ele queria matar.

- Eu, hein? – disse Luigi. – Estão achando que eu sou ignorante? Esse tal de Alberto é exatamente desse tipo e desse tal país. Quando eu soube que vocês estavam em guerra contra eles, pensei: também vou, assim posso matar o Alberto. Por isso é que eu vim, eu o conheço: é um patife e, em troca de uns poucos tostões, me fez fazer um papelão na frente de uma mulher. São histórias antigas. Se não acreditam, conto tudo em detalhes.

Eles disseram que sim, que estava tudo bem.

- Então – disse Luigi – me expliquem onde está o Alberto, assim eu vou lá e luto contra ele.

Eles disseram que não sabiam.

- Não faz mal - disse Luigi -, eu vou dar um jeito. Mais cedo ou mais tarde vou encontrá-lo.

Os outros lhe disseram que era impossível, que ele devia fazer a guerra onde o pusessem, matar quem aparecesse, e que de Alberto ou não Alberto eles não sabiam de nada.

- Estão vendo – Luigi insistia -, eu realmente preciso contar para vocês. Porque esse aí é um verdadeiro patife e vocês fazem bem de guerrear contra ele.

Mas os outros não queriam nem saber.

Luigi não conseguia entender: - Desculpem, mas, para vocês, se mato um inimigo ou se mato um outro é a mesma coisa. Mas, para mim, matar alguém que talvez não tenha nada a ver com Alberto não me agrada.

Os outros perderam a paciência. Alguém lhe explicou as muitas razões para se fazer uma guerra e como fazê-la, e que ninguém podia ir atrás de quem bem entendesse.

Luigi deu de ombros. – Se é assim – disse -, eu não fico.

- Fica e vai! – eles gritaram.

- Avante-marchar, um-dois, um-dois! – E o mandaram ir para a guerra.

Luigi não estava contente. Matava inimigos, assim, para ver se por acaso matava também Alberto ou algum parente dele. Davam-lhe uma medalha por cada inimigo que matava, mas ele não estava contente. – Se eu não matar Alberto – pensava -, terei matado muita gente à toa. – E sentia remorso.

Enquanto isso, recebia uma medalha atrás da outra, de todos os metais.

Luigi pensava: - Mate hoje, mate amanhã, os inimigos diminuirão e também chegará a vez daquele patife.

Mas os inimigos se renderam antes que Luigi tivesse encontrado Alberto. Sentiu remorso de ter matado tanta gente à toa, e, quando chegou a paz, ele pôs todas as medalhas num saco e vagou pela terra dos inimigos para oferecê-las aos filhos e às mulheres dos mortos.

Acontece que, vagando, encontrou Alberto.

- Muito bem – disse -, antes tarde do que nunca. – E o matou.

Foi então que o prenderam, processaram-no por homicídio e o enforcaram. Durante o processo ele não se cansava de repetir que tinha feito aquilo para ficar em paz com a sua consciência, mas ninguém quis ouvi-lo.



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Calvino, Italo, 1923-1985.

Um general na biblioteca / Italo Calvino ; tradução Rosa Freire d’Aguiar – São Paulo: compainha das Letras, 2001.


Título original: Prima che tu dica “pronto”.

sábado, 27 de junho de 2015

Contos de Calvino: O Homem Que Chamava Teresa (01)

Ítalo Calvino


O Homem Que Chamava Teresa



Desci da calçada, recuei uns passos, olhando para cima, e, chegando no meio da rua, levei as mãos à boca, como um megafone, e gritei para os últimos andares do prédio:

- Teresa!

A minha sombra se assustou com a lua e se agachou entre meus pés.

Passou alguém. Chamei de novo:

- Teresa!

A pessoa se aproximou, disse:

- Se não chamar mais alto não vão escutar. Vamos tentar nós dois. Assim: conto até três, no três gritamos juntos. – E disse: - Um, dois, três.

E juntos gritamos: - Tereeeesaaa!

Passou um grupinho de amigos que voltavam do teatro ou do café e viram nós dois chamando. Disseram: - Bom, também podemos ajudar com a nossa voz. – E também foram para o meio da rua e o primeiro dizia um, dois, três e então todos gritavam em coro: - Te-reeee-saaa!

Passou mais um e juntou-se a nós; quinze minutos depois estávamos reunidos num grupo, uns vinte, quase. E de vez em quando chegava mais um.

Não foi fácil chegarmos a um acordo para gritarmos direito, todos juntos. Havia sempre um que começava antes do “três” ou que demorava demais, mas no final já conseguíamos fazer alguma coisa bem-feita. Combinou-se que “Te” seria dito baixo e longo, “re”, agudo e longo, e “sa”, baixo e breve. Funcionou muito bem. Mas, vez por outra, havia uma briga porque alguém desafinava.

Já começávamos a perder o fôlego quando um de nós, que a julgar pela voz devia ter a cara cheia de sardas, perguntou: - Mas vocês têm certeza que ela está em casa?

- Eu não – respondi.

- Que confusão – disse um outro. – Esqueceu a chave, não é?

- Na verdade – disse eu -, estou com a chave aqui.

- Então – me perguntaram -, por que não sobe?

- Mas eu nem moro aqui – respondi. – Moro no outro lado da cidade.

- Mas então, desculpe a curiosidade – perguntou circunspecto o sujeito da voz cheia de sardas -, quem é que mora aqui?

- Para falar a verdade, não sei – disse eu.

Houve um certo descontentamento ao redor.

- Mas então se pode saber – perguntou outro com a voz cheia de dentes – por que está chamando Teresa aqui de baixo?

- Por mim – respondi – também podemos chamar outro nome, ou em outro lugar. Não custa nada.

Os outros estavam meio aborrecidos.

- O senhor não teria desejado fazer uma brincadeira conosco? – perguntou o das sardas, desconfiado.

- Eu, hein! – disse, ofendido, e me virei para os outros para pedir que confirmassem minhas boas intenções. Os outros ficaram calados, mostrando não terem captado a insinuação.

Houve um instante de constrangimento.

- Vejamos – disse um deles, bondoso. – Podemos chamar Teresa mais uma vez, e depois vamos para casa.

E chamamos mais uma vez – um, dois, três, Teresa! -, mas já não deu muito certo. Depois nos dispersamos, uns por aqui, outros por ali.

Eu já havia chegado à praça quando tive a impressão de ainda ouvir uma voz que gritava: - Tee-reee-sa!

Alguém deve ter ficado chamando, obstinado.




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Calvino, Italo, 1923-1985.

             Um general na biblioteca / Italo Calvino ; tradução Rosa Freire d’Aguiar – São Paulo:                          Compainha das Letras, 2001.

Título original: Prima che tu dica “pronto”.