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sábado, 3 de outubro de 2026

Augusto dos Anjos - Mater 0riginalis

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Mater 0riginalis

Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mísera e mofina,
Como quasi impalpavel gelatina,
Nos estados prodrómicos da vida;

O hierophante que leu a minha sina
Ignorante é de que és, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

Nenhuma ignota união ou nenhum nexo
A' contingência orgânica do sexo
A tua estacionaria alma prendeu.

Ah! de ti foi que, autônoma e sem normas,
Oh! Mãe original das outras fôrmas,
A minha fôrma lugubre nasceu!


O Lupanar 

Ah! Porque monstruosissimo motivo 
Prenderam para sempre, nesta rede, 
Dentro do angulo diédro da parede, 
A alma do homem polygamo e lascivo?! 

Este logar, moços do mundo, vede: 
E' o grande bebedouro collectivo, 
Onde os bandalhos, como um gado vivo, 
Todas as noites, vêm matar a sede! 

E' o aphrodistico leito do hetaírismo, 
A antecámara lúbrica do abysmo, 
Em que é mister que o gênero humano entre, 

Quando a promiscuidade aterradora 
Matar a ultima força geradora 
E comer o ultimo óvulo do ventre.


Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! 
O amor na Humanidade é uma mentira. 
E' E é por isto que na minha lyra 
De amores futeis poucas vezes falo. 

O amor! Quando virei por fim a amal-o?! 
Quando, si o amor que a Humanidade inspira 
E' o amor do sybarita e da hetaira, 
De Messalina e de Sardanapálo?! 

Pois é mister que, para o amor sagrado, 
O mundo fique immaterialisado 
— Alavanca desviada do seu fulcro — 

E haja só amizade verdadeira 
Duma caveira para outra caveira, 
Do meu sepulchro para o teu sepulchro?!

Continua na página 48...
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Leia também:
Budhismo Moderno / Mater Originalis /     
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (O coração)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

O CORAÇÃO  
 
O coração é o colibri dourado 
Das veigas puras do jardim do céu. 
Um — tem o mel da granadilha agreste, 
Bebe os perfumes, que a bonina deu. 

O outro — vôa em mais virentes balsas, 
Pousa de um riso na rubente flor. 
Vive do mel — a que se chama — crenças —, 
Vive do aroma — que se diz — amor. — 

Recife, 1865. 

Espumas Fluctuantes, Edição original: XXXII


PENSAMENTO DE AMOR

Quero viver de esperança 
Quero tremer e sentir! 
Na tua trança cheirosa 
Quero sonhar e dormir. 
           A. DE AZEVEDO.

O' pallida madona de meus sonhos, 
Doce filha dos serros de Engadi! 
Vem inspirar os sonhos do poeta, 
Rosa branca da lyra de David.

Todo o amor que em meu peito repousava, 
Como o orvalho das noites ao relento, 
A teu seio elevou-se, como as nevoas, 
Que se perdem no azul do firmamento. 

Aqui... além... mais longe, em toda a parte, 
Meu pensamento segue o passo teu. 
Tu és a minha luz, — sou tua sombra, 
Eu sou teu lago, — se tu és meu céu. 

Lá, no theatro, ao som das harmonias, 
Vendo-te a fronte altiva e peregrina... 
Eu apertava o seio murmurando: 
"Oh! mata-me de amor, mulher divina!"

A' tarde, quando chegas á janella, 
A trança solta, onde suspira o vento, 
Minha alma te contempla de joelhos... 
A teus pés vae gemer meu pensamento.

Inda hontem, á noite, no piano 
Os dedos teus corriam no teclado; 
Que, ás caricias destas mãos formosas, 
Gemia e suspirava apaixonado.

Depois cantaste... e a ária suspirosa 
Veio n'alma accender-me mais desejos; 
Dir-se-ia que essas notas eram doces 
Como sussurro de amorosos beijos.  

Oh! diz'-me, diz'-me, que ainda posso um dia 
De teus lábios beber o mel dos céus; 
Que eu te direi, mulher dos meus amores: 
— Amar-te ainda é melhor do que ser Deus!

Bahia, 1865.

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     Cf. com um manuscripto de Augusto Alvares Guimarães, num livro de versos do Poeta, cm. por D. Ade laide de Castro Alves Guimarães. Em baixo da pagina havia esta nota, relativa á derradeira estância: "esta ultima estrophe está riscada". Pbl. sob o titulo "****" na "s"" (VP) Edição das Espumas Fluctuantes, de Seraphim José Alves, Rio de Janeiro (1881): "appendice": X. Sob o titulo "Anceios" vem na edição da A Cachoeira de Paulo Affonso, de Cruz Coutinho, Rio, 1882, "appendice": V. Nas Poesias, Bahia (1913) : XLV, tem o titulo "Devaneios". O adoptado aqui é o authentico, que lhe deu o Poeta. 
     Segundo me referiu D. Simy Carvalho, a Amzalack destinatária da "Hebréa", foi esta poesia dirigida a sua linda irmã Esther, depois sra. José Henschel. As reminiscencias "do theatro", "ao piano", "á janella", da "trança solta onde suspira o vento", "cantando..." são confirmadas por outros testemunhos deste namoro. A confissão é tão explicita, que não ousou o Poeta escrever o nome da amada: vae declarado nos "Anjos da meia noite", soneto "Esther".  

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continua página 76...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração /         
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
_______________

LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Augusto dos Anjos - Budhismo Moderno

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Budhismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e.      córte 
Minha singularissima pessoa. 
Que importa a mim que a bicharia rôa 
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah ! Um urubu pousou na minha sorte! 
Também, das diatomáceas da lagoa 
A cryptógama cápsula se esbrôa 
Ao contacto de bronca dextra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida 
Igualmente a uma céllula cahida 
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o aggregado abstracto das saudades 
Fique batendo nas perpétuas grades 
Do ultimo verso que eu fizer no mundo!  


Sonho de um Monista

Eu e o esqueleto esquálido de Eschylo 
Viajávamos, com uma anciã sybarita, 
Por toda a pro-dynamica infinita, 
Na inconsciencia de um zoóphito tranquillo.

A verdade espantosa do Prothylo 
Me aterrava, mas dentro da alma afnicta 
Via Deus—essa mónada exquisita— 
Coordenando e animando tudo aquillo! 

E eu bemdizia, com o esqueleto ao lado, 
Na gutturalidade do meu brado, 
Alheio ao velho cálculo dos dias, 

Como um pagão no altar de Proserpina, 
A energia intra-cósmica divina 
Que é o pai e é a mãe das outras energias!  


Solitario

Como um fantasma que se refugia 
Na solidão da natureza morta, 
Por traz dos ermos túmulos, um dia, 
Eu fui refugiar-me á tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia 
Não era esse que a carne nos conforta. 
Cortava assim como em carniçaria 
O aço das facas incisivas corta! 

Mas tu não vieste ver minha Desgraça! 
E eu sahi, como quem tudo repelle, 
— Velho caixão a carregar destroços —

Levando apenas na tumbal carcassa 
O pergaminho singular da pelle 
E o chocalho fatídico dos ossos!  

Continua na página 45...
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Leia também:
Budhismo Moderno / Mater Originalis /     
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

domingo, 13 de setembro de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Dalila)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

DALILA  
 
Fair delect oi nature 
                                              MILTON (Parodia* loat).

Foi desgraça, meu Deus!... Não!... Foi loucura 
Pedir seiva de vida — á sepultura, 
          Em gelo — me abrasar, 
 Pedir amores — a Marco sem brio, 
 E a. rebolcar-me em leito immundo e frio 
           — A ventura buscar. 

Errado viajor — sentei-me á alfombra 
E adormeci da mancenilha á sombra 
          Em berço de setim... 
Embalava-me a brisa no meu leito... 
  Tinha o veneno a lacerar-me o peito 
          — A morte dentro em mim... 

Foi loucura!... No occaso — tomba o astro; 
A estatua branca e pura de alabastro 
          — Se mancha em lodo vil... 
Quem rouba a estrella — á tumba do occidente ? 
Que Jordão lava na lustrai corrente 
          O marmóreo perfil?...  

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta 
Ella passou sósinha, macilenta 
          Tremendo a soluçar... 
Chorava — nenhum echo respondia... 
Sorria — a tempestade além bramia... 
          E ella sempre a marchar. 

E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma. 
Tens os pés a sangrar? — podes em calma 
          Dormir no peito meu. 
Pomba errante — é meu peito um ninho vago! 
Estrella — tens minha alma — immenso lago — 
          Reflecte o rosto teu!...

E amamos... Este amor foi um delírio... 
Foi ella minha crença, foi meu lirio, 
          Minha estrella sem véu... 
Seu nome era o meu canto de poesia, 
Que com o sol — penna de ouro — eu escrevia 
          Nas lâminas do céu. 

Em seu seio escondi-me... como á noite 
Incauto colibri, temendo o açoite 
          Das iras do tufão, 
A cabecinha esconde sob as asas, 
Faz seu leito gentil por entre as gazas 
          Da rosa do Japão. 

E depois... embalei-a com meus cantos 
Seu passado esqueci... lavei com prantos 
          Seu lodo e maldição... 
... Mas um dia acordei... E mal desperto 
Olhei em torno a mim... — Tudo deserto... 
          Deserto o coração... 

Ao vento, que gemia pelas franças 
Por ella perguntei... de suas trancas 
          A' flor que ella deixou... 
Debalde... Seu lugar era vazio... 
E meu lábio queimado e o peito frio, 
          Foi ella que o queimou... 

Minha alma nodoou no osculo immundo, 
Bem como Satanaz — beijando o mundo — 
          Manchou a creação, 
Simoun — crestou-me da esperança as flores... 
Tormenta — ella afogou nos seus negrores 
          A luz da inspiração... 

Vai, DalilaL. E' bem longa tua estrada... 
E' suave a descida — terminada 
          Em barathro cruel. 
Tua vida — é um banho de ambrosia... 
Mais tarde a morte e a lâmpada sombria 
          Pendente do bordel. 

Hoje flores... A musica soando... 
As perlas do Champagne gottejando 
          Em taças de crystal. 
A volúpia a escaldar na louca insomnia... 
Mas suffoca os festins de Babylonia 
          A legenda fatal.

Tens o seio de fogo e a alma fria. 
O sceptro empunhas lubrico da orgia 
          Em que reinas tu só!... 
Mas que finda o ranger de uma mortalha, 
A enxada do coveiro que trabalha 
          A revolver o pó.  

Não te maldigo, não!... Em vasto campo 
Julguei-te — estrella, — e eras — pyrilampo 
          Em meio á cerração... 
Prometheu — quis dar luz á fria argilla... 
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila, 
          A luz da redempção !...           

Recife, 1864. 
__________________

     Espumas Fluctuantes, Edição original: XXXIX.
     Pbl. na "Imprensa Acadêmica", de S. Paulo, n". 7, de 5 de Julho de 1868, quasi sem alteração: apenas, na 9.* estância, ultimo verso: "Foi ella que gelou". A importância desta versão é, porem, a data: "Recife — Setembro de 1864".
     1) Dalila (titulo). Não é a personagem biblica, como se poderia immediatamente pensar, mas a da ficção de Octavio Feuillet, heroina symbolica que dá o nome a um drama, em 3 actos e 6 quadros, representa do em Paris em 1857 pela primeira vez e, depois, por toda a parte. No Brasil foi levado á scena muitas vezes e Castro Alves o àpplaudiu, representado por Furtado Coelho e Eugenia Câmara, a qual encarnava Leonora, princeza Falconieri, a Dalila que rende os Sansões, cortezã de excelsa formosura e coração insensível, que immola perversamente as affeiçôes que desperta e provoca, até as vidas que lhe consagram. O nosso Poeta vingou no seu canto os artistas, como o desgraçado André Roswein, o "cysne dalmata", que se degrada e morre por ella, traiçoeira Dalila.
     2) Marco (estância i\, v. 4). Na versão da "Imprensa Acadêmica" vem accentuada assim a palavra, que é como se lê o original francês: "Marco". Personagem principal do drama Les Filies de Marbre, de Theodore Barrière et Lambert Thiboust, em 5 actos, representando em 1853 em Paris e depois também por toda a parte. No Brasil constava do repertório de Furtado Coelho e Eugenia Câmara. As Mulheres de Mármore têm uma dupla celebridade: foram a refutação da these de Alexandre Dumas Filho na Dama das Ca melias, tentativa de rehabilitação das cortezãs, pelo amor, e imitação quasi plagiaria, pela Dalila, de Octavio Feuillet. Marco é uma Dalila, como foi depois a. Leonora, a hetaira que devora os patrimônios e degrada os talentos, insensivel a tudo, excepto ao oiro, como as "mulheres de mármore", do prefacio, que é o começo symbolico do drama. Em Athenas, rico amador encomenda a Phidias três estatuas de mulher, Phryné, Lais, Aspasia, as quaes tão bellas saem do cinzel que ao próprio criador apaixonam. Por isso, não quer o artista entregá-las ao dono, mas apenas restituir-lhe o dinheiro recebido antecipadamente, ao que não convém este. Diogenes intervém: as próprias estatuas o decidirão: "Qual preferem dos dois — um, pobre artista, de gênio e de coração, ou o outro, velho idiota, rico de oiro?" As mulheres de mármore sorriem a este. O philosopho exclama: "Eu bem vos reconheço, ó mulheres de mármore, cortezãs do presente, cortezãs do futuro!" Marco, uma destas, em Paris e na época contemporânea, é como as outras, e o drama doloroso e commovido anda em torno delia.
     Na poesia de Castro Alves ha allusões claras a situações do drama: Raphael, o moço escultor, de gênio e sensibilidade, quando se desenlaça da traçoeira que o empobreceu e degradou, não tem mais gênio nem entusiasmo. O "lábio queimado", o "peito frio", crestadas "as flores da esperança", afogada "a luz da inspiração", nada mais lhe resta, senão morrer. Não creio que em 1864, quando a escreveu Castro Alves, houvesse allusão pessoal: a poesia traduz apenas, em verso, uma impressão de teatro.

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continua página 73...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração /          
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

sábado, 12 de setembro de 2026

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino IV

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 IV

Calou-se a voz. A noite era funesta. 
E os queixos, a exhibir trismos damnados, 
Eu puxava os cabellos desgrenhados 
Como o rei Lear, no meio da floresta!

Maldizia, com apóstrophes vehementes, 
No stentor de mil línguas insurrectas, 
O convencionalismo das Pandectas 
E os textos maus dos códigos recentes!

Minha imaginação atormentada 
Paria absurdos.     Como diabos juntos, 
Perseguiam-me os olhos dos defuntos 
Com a carne da esclerótica esverdeada

Seccára a chlorophylla das lavouras. 
Igual aos sostenidos de uma endeixa, 
Vinha-me ás cordas glótticas a queixa 
Das collectividades soffredoras. 
 
O mundo resignáva-se invertido 
Nas forças principaes do seu trabalho. 
A gravidade era um principio falho, 
A anályse espectral tinha mentido! 

O Estado, a Associação, os Municípios 
Eram mortos.   De todo aquelle mundo 
Restava um mecanismo moribundo 
E uma teleologia sem princípios. 

Eu queria correr, ir para o inferno, 
Para que, da psychê no occulto jogo, 
Morressem suffocadas pelo fogo 
Todas as impressões do mundo externo! 

Mas a Terra negava-me o equilíbrio. 
Na Natureza, uma mulher "de luto 
Cantava, espiando as árvores sem fructo, 
A canção prostituta do ludibrio!  

Continua na página 42...
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Leia também:
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Mocidade e Morte)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MOCIDADE E MORTE 
 
                   E perto avisto o porto
Immenso, nebuloso e sempre noite
            Chamado — Eternidade. — 
                                          LAURINDO. 
 
Laeciate ogni speranza, vol ch'entrate.
                                              DANTE.

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Oh! eu quero viver, beber perfumes 
 Na flor silvestre, que embalsama os ares; 
 Ver minh'alma adejar pelo infinito, 
 Qual branca vela n'amplidão dos mares. 
 No seio da mulher ha tanto aroma... 
 Nos seus beijos de fogo ha tanta vida... 
 — Árabe errante, vou dormir á tarde 
 A' sombra fresca da palmeira erguida. 

Mas uma voz responde-me sombria: 
 Terás o somno sob a lagea fria. 

Morrer... quando este mundo é um paraiso, 
 E a alma um cysne de douradas plumas: 
 Não! o seio da amante é um lago virgem... 
 Quero boiar á tona das espumas.
 Vem! formosa mulher — camelia pallida, 
 Que banharam de pranto as alvoradas, 
 Minh'alma é a borboleta, que espaneja 
 O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrível, 
 Com gargalhar sarcástico: — impossível!

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. 
 Vejo além um futuro radiante: 
 Avante! — brada-me o talento n'alma 
 E o echo ao longe me repete — avante! — 
 O futuro... o futuro... no seu seio... 
 Entre louros e bênçãos dorme a gloria! 
 Após — um nome do universo n'alma, 
 Um nome escripto no Pantheon da historia. 

E a mesma voz repete funerária: 
 Teu Pantheon — a pedra mortuaria! 

Morrer — é ver extincto dentre as nevoas 
 O phanal, que nos guia na tormenta: 
 Condemnado,— escutar dobres de sino, — 
Voz da morte, que a morte lhe lamenta — 
 Ai! morrer — é trocar astros por cirios, 
 Leito macio por esquife immundo, 
 Trocar os beijos da mulher — no visco 
 Da larva errante no sepulcro fundo. 

Ver tudo findo... só na lousa um nome, 
 Que o viandante a perpassar consome. 

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito 
 Um mal terrível me devora a vida: 
 Triste Ahasverus, que no fim da estrada, 
 Só tem por braços uma cruz erguida. 
 Sou o cypreste, qu'inda mesmo flórido, 
 Sombra de morte no ramal encerra! 
 Vivo — que vaga sobre o chão da morte, 
 Morto — entre os vivos a vagar na terra. 

Do sepulcro escutando triste grito 
 Sempre, sempre bradando-me: maldito! — 

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência, 
 Quando a sede e o desejo em nós palpita... 
 Levei aos lábios o dourado pomo, 
 Mordi no fruto podre do Asphaltita. 
 No triclinio da vida — novo Tantalo — 
 O vinho do viver ante mim passa... 
 Sou dos convivas da legenda Hebraica, 
 O stylete de Deus quebra-me a taça. 

E' que até minha sombra é inexorável, 
 Morrer ! morrer! soluça-me implacável. 

Adeus, pallida amante dos meus sonhos! 
 Adeus, vida! Adeus, gloria! amor! anhelos! 
 Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga 
 Os prantos de meu pae nos teus cabellos. 
 Fora louco esperar! fria rajada 
 Sinto que do viver me extingue a lampa... 
 Resta-me agora por futuro — a terra, 
 Por gloria — nada, por amor — a campa.

Adeus!... arrasta-me uma voz sombria 
 Já me foge a razão na noite fria!... 

1864

_________________

     Espumas Fluctuantes, Edição original: VII. 
     Pbl. em S. Paulo, por volta de 1868-69, s°b o titulo "O Phtysico" (titulo que encontrei no índice das poesias que deviam formar os Dramas d'alma — Poesias de Castro Alves — Bahia — e que depois se chamaram Espumas Fluctuantes, manuscripto do Poeta cm. por D. Adelaide de Castro Alves Guimarães) apenas com uma alteração no texto, na 7* estância, v. 6, que diz: 
"Já da tremula vida extingue a lampa..." 
     Isto consta de um livro manuscripto de poesias de Castro Alves, que colleccionou Joaquim Polycarpo Aranha Júnior, contemporâneo e admirador do Poeta, e que as transcrevia á medida que eram publicadas nos jornaes do tempo, segundo me informa Alberto Faria. Alem desta, ahi se encontram "As três irmãs do Poeta"; "Ode ao 2 de julho"; "Quem dá aos pobres empresta a Deus"; "Gonzaga" (Epílogo de um drama); "A Maciel Pinheiro"; "Um dia Pygmalião o estatuario..." (Ao actor Joaquim Augusto); "Vozes d'Africa"; "Hebréa (a uma judia)"; "Perseverando"; "Pedro Ivo"; "Dalila"; "O laço de fita"; "E tarde"; "Adeus"; "As duas ilhas"; "Bôa-noite"; "Basta de covardia! A hora sôa" (Adeus meu canto); "A Bôa Vista"; "A Bailada do Desesperado"; "Fatalidade", o "Phantasma e a Canção", "O derradeiro amor de Byron"; "Rezas"; "Anceios" (Devaneios, ou ****, ou, definitivamente, "Pensamento de Amor") ; "O Século"; "O Navio Negreiro". A propósito de cada uma indicarei as raras variantes. Esse titulo "O Phtysico", depois felizmente substituído, denuncia, já em 1864, se não a certeza, as apprehensões de Castro Alves, sobre a doença que o ameaçava.
     1) Mordi no fruto podre do Asphaltita (estância 6* v. 4). Nas margens do Lago Asphaltita ou Mar Morto ha duas espécies vegetaes, cujos frutos receberam o nome de pomos de Sodoma: uma asclepiadacea, Calotropis procera, dá frutos amarellos, do tamanho de uma pequena laranja, cheios de uma paina sedosa, que se pode tecer; a outra, solanacea, Solaneum sodomeum, o limão de Lot, dos Árabes, fruto enganador, de conteúdo escuro e granuloso, como areia, acre, como cinza. Talvez seja este o da tradição, que chamou Castro Alves — o fruto podre do Asphaltita.

continua página 68...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila /     
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921


3º Ciclo de Conferências - "O adeus de Castro Alves"





A ORGIA DOS DUENDES 
 Bernardo Guimarães 

...

IV 
 Do batuque infernal, que não finda, 
 Turbilhona o fatal rodopio; 
 Mais veloz, mais veloz, mais ainda 
 Ferve a dança como um corrupio.  

Mas eis que no mais quente da festa 
Um rebenque estalando se ouviu, 
Galopando através da floresta 
Magro espectro sinistro surgiu  

Hediondo esqueleto aos arrancos 
Chocalhava nas abas da sela; 
Era a Morte, que vinha de tranco 
Amontada numa égua amarela.  

O terrível rebenque zunindo 
A nojenta canalha enxotava; 
E à esquerda e à direita zurzindo 
Com voz rouca desta arte bradava:  

"Fora, fora! esqueletos poentos, 
Lobisomes, e bruxas mirradas! 
Para a cova esses ossos nojentos! 
Para o inferno essas almas danadas!” 

Um estouro rebenta nas selvas, 
Que recendem com cheiro de enxofre; 
E na terra por baixo das relvas 
Toda a súcia sumiu-se de chofre.  

V 
 E aos primeiros albores do dia 
 Nem ao menos se viam vestígios 
 Da nefanda, asquerosa folia, 
 Dessa noite de horrendos prodígios.  

E nos ramos saltavam as aves 
Gorjeando canoros queixumes, 
E brincavam as auras suaves 
Entre as flores colhendo perfumes.  

E na sombra daquele arvoredo, 
Que inda há pouco viu tantos horrores, 
Passeando sozinha e sem medo 
Linda virgem cismava de amores.



A POLCA 
(A Uma Virgem)
Vitoriano Palhares





O ADEUS DE TERESA
Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
Adeus eu disse-lhe a tremer coa fala...

E ela, corando, murmurou-me: adeus.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
Adeus lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: adeus!

Passaram tempos... séclos de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
. . . Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse -- Voltarei!... descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: adeus!

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz dEla e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! . . . Ela me olhou branca . . . surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: adeus!

São Paulo, 1868

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino III

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 III

«Homem! por mais que a Idéa desintegres, 
Nessas perquisições que não têm pausa, 
Jamais, magro homem, saberás a causa 
De todos os phenómenos alegres!

Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas
A estéril terra, e a hyalina lâmpada ôca, 
Trazes, por perscrutar (oh! sciencia louca!) 
O conteúdo das lagrimas hediondas.

Negro e sem fim é esse em que te mergulhas 
Lugar do Cosmos, onde a dôr infrene 
E' feita como é feito o kerosene 
Nos recôncavos húmidos das hulhas! 

Porque, para que a Dor perscrutes, fora 
Mister que, não como és, em synthese, antes 
Fosses, a reflectir teus semelhantes, 
A própria humanidade soffredôra! 

A universal complexidade é que Ella 
Comprehende. E si, por vezes, se divide, 
Mesmo ainda assim, seu te do não reside 
No quociente isolado da parcella!  

Ah ! Como o ar immortal a Dôr não finda ! 
Das papillas nervosas que ha nos tactos 
Veio e vai desde os tempos mais transactos 
Para outros tempos que hão de vir ainda ! 

Como o machucamento das insomnias 
Te estraga, quando toda a estuada Idéa 
Dás ao soffrego estudo da nymphéa 
E de outras plantas dicotyledoneas!

A diaphana água alvissima e a hórrida áscua 
Que da ignea flamma bruta, estriada, espirra; 
A formação molecular da myrrha, 
O cordeiro symbolico da Paschoa;

As rebelladas cóleras que rugem 
No homem civilisado, e a elle se prendem 
Como ás pulseiras que os mascates vendem 
A adherencia teimosa da ferrugem; 

O orbe feraz que bastos tojos acres 
Produz; a rebellião que, na batalha, 
Deixa os homens deitados, sem mortalha, 
Na sangueira concreta dos massacres; 

Os sanguinolentissimos chicotes 
Da hemorrhagia; as nodoas mais espessas, 
O achatamento ignóbil das cabeças, 
Que ainda degrada os povos hottentótes; 

O Amor e a Fome. a fera ultriz que o fojo 
Entra, á espera que a mansa victima o entre, 
—Tudo que gera no materno ventre 
A causa physiologica do nojo;

As pálpebras inchadas na vigilia, 
As aves moças que perderam a aza, 
O fogão apagado de uma casa, 
Onde morreu o chefe da familia; 

O trem particular que um corpo arrasta 
Sinistramente pela via-férrea, 
A crystallisação da massa térrea, 
O tecido da roupa que se gasta; 

A água arbitrária que hiúlcos caules grossos 
Carrega e come; as negras fôrmas feias 
Dos arachnideos e das centopeias, 
O fogo-fatuo que illumina os ossos;  

As projecções flammivomas que offuscam, 
Como uma pincelada rembrandtesca, 
A sensação que uma coalhada fresca 
Transmitte ás mãos nervosas dos que a buscam;

0 antagonismo de Typhon e Osiris, 
O homem grande opprimiudo o homem pequeno, 
A lua falsa de um paraseleuo, 
A mentira meteórica do arco-iris;

Os terremotos que, abalando os solos. 
Lembram paióes de pólvora explodindo, 
A rotação dos fluidos produzindo 
A depressão gsológica dos pólos; 

O instincto de procrear, a anciã legitima 
Da alma, affrontando ovante aziagos riscos, 
O juramento dos guerreiros priscos 
Mettendo as mãos nas glândulas da victima; 

As differenciações que o psychoplásma 
Humano soffre na mania mystica, 
A pezada oppressão característica 
Dos 10 minutos de um accesso de asthma; 

E, (comquanto contra isto ódios regougues) 
A utilidade fúnebre da corda 
Que arrasta a rêz, depois que a rêz engorda, 
A' morte desgraçada dos açougues. 

Tudo isto que o terráqueo abysmo encerra 
Fôrma a complicação desse barulho 
Travado entre o dragão do humano orgulho 
E as forças inorgânicas da terra! 

Por descobrir tudo isto, embalde cansas! 
Ignoto é o germen dessa força activa 
Que engendra, em cada céllula passiva, 
A heterogeneidade das mudanças! 

Poeta, feto malsão, creado com os suecos 
De um leite máu, carnívoro asqueroso, 
Gerado no atavismo monstruoso 
Da alma desordenada dos malucos;  

Ultima das creatúras inferiores 
Governada por átomos mesquinhos, 
Teu pé mata a uberdade dos caminhos 
E esterilisa os ventres geradores!

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, 
Análogo é ao que, negro e a seu turno, 
Traz o ávido phyllóstomo nocturno 
Ao sangue dos mammiferos vorazes! 

Ah ! Por mais que, com o espirito, trabalhes 
A perfeição dos seres existentes, 
Has de mostrar a carie dos teus dentes 
Na anatomia horrenda dos detalhes!  

O Espaço-esta abstracção spencereana 
Que abrange as relações de co-existencia 
E' só ! Não tem nenhuma dependência 
Com as vertebras mortaes da espécie humana! 

As radiantes ellipses que as estrellas 
Traçam, e ao espectador falsas se antolham 
São verdades de luz que os homens olham 
Sem poder, no entretanto, comprehendel-as. 

Em vão, com a mão corrupta, outro ether pedes 
Que essa mão, de esqueléticas phalanges, 
Dentro dessa água que com a vista abranges, 
Também prova o principio de Archimedes! 

A fadiga feroz que te esbordôa 
Ha de deixar-te essa medonha marca, 
Que, nos corpos inchados de anasárca, 
Deixam os dedos de qualquer pessoa!  

Nem terás no trabalho que tiveste 
A misericordiosa toalha amiga, 
Que affaga os homens doentes de bexiga 
E enxuga, á noite, as pústulas da peste!

Quando chegar depois a hora tranquilla, 
Tu serás arrastado, na carreira, 
Como um cepo inconsciente de madeira 
Na evolução orgânica da argilia! 

Um dia comparado com um millenio 
Seja, pois, o teu ultimo Evangelho. 
E' a evolução do novo para o velho 
E do homogêneo para o heterogêneo! 

Adeus ! Fica-te ahi, com o abdômen largo 
A apodrecer!. E's poeira, e embalde vibras! 
O corvo que comer as tuas fibras 
Ha de achar nellas um sabor amargo!» 

Continua na página 40...
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Leia também:
  O Deus-Verme / As Scismas do Destino I /  As Scismas do Destino II / As Scismas do Destino III / As Scismas do Destino III / 
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

Augusto dos Anjos: O Gênio da Matéria e a Metafísica do Espanto




sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Meu segredo)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MEU SEGREDO 
 Á SENHORA D. *** 

I

Eu tenho dentro d'alma o meu segredo 
 Guardado como a pérola do mar, 
 Occulto ao mundo como a flor silvestre 
 Escondida no valle a vicejar.

Eu guardo-o no meu peito... E' meu thesouro, 
 Meu único thesouro desta vida, 
 — Sonho de phantasia — flor ephemera, 
 Uma nuvem, talvez, no céo perdida... 

Mas que importa ? E' uma crença de minh'alma 
 — Gotta do orvalho d'alva da existência, 
 Ultima flor, que vive aos raios mornos 
 Do sol de amor na quadra da innocencia. 

Só,, quando a terra dorme solitária 
 E ergue-se á meia noite, branca, a lua, 
 E a brisa geme cantos de tristeza 
 Na rama do pinheiro que fluctúa;  

E quando o orvalho pende do arvoredo, 
 Que se debruça p'ra beijar o rio, 
 E as estrellas no céo scintillam languidas 
 — Pérolas soltas de um collar sem fio;

Então eu vou sentar-me sobre a relva, 
 Eu vou sonhar meus sonhos ao relento, 
 E só conto o segredo de minh'alma 
 Das horas mortas ao tristonho vento.

II

Eu sei como este mundo ri de escarneo, 
 Deste aéreo sonhar da phantasia. 
 Eu sei... P'ra cada crença de noss'alma, 
 Elle tem uma phrase de ironia... 
 Ah! deixai-me guardar o meu segredo! 
 Deste riso cruel eu tenho medo... 

Meu segredo? E' o canto de poesia 
 Que suspirou saudoso o gondoleiro, 
 Que vae morrer gemente sobre as praias; 
 — Da despedida pranto derradeiro, 
 Mais aéreo que as vozes da sereia, 
 Alta noite sentada sobre a areia. 

Meu segredo? E' o soluço d'alma triste 
 Que conta sua dor á brisa errante; 
 E' o pulsar tresloucado de meu peito 
 A repetir um nome delirante; 
 Indeciso anhelar de edeneo gozo, 
 Castello que eu creei vertiginoso.  

Creei-o numa noite não dormida, 
 Após vel-a entre todas — a rainha; 
 Creei-o nestas horas de delírio, 
 Em que sentira em fogo a fronte minha 
 E o sangue galopava-me nas veias, 
 E o cérebro doia-me de idéas... 

E quem na vida não amara um dia? 
 E nunca despertara ao som de um beijo? 
 Quem nunca na vigília empallecera, 
 Ao seguir com o pensar louco desejo? 
 Quem não sonhara ao collo voluptuoso 
 Da sultana louça morrer de gozo ?

Uma noite tentei fechar as palpebras, 
 Debalde revolvi-me sobre o leito... 
 A alma adejava em phantasias d'ouro, 
 Arfava ardente o coração no peito. 
 A imagem que eu seguia? E' meu segredo! 
 Seu nome? Não o digo... tenho medo. 

Ai! dóe muito calar dentro em noss'alma 
 Este anhelar fremente de desejos! 
 Ai! dóe muito calar o roseo sonho 
 Que sonhamos: — dormir entre mil beijos 
 Num seio que de amor todo estremece, 
 Quando o olhar de volupias esmorece... 

Dóe muito., mas dóe mais uma ironia, 
 Quando adeja o pensar no firmamento. 
 Dóe muito... mas dóe mais um desengano, 
 Quando se vive só de um sentimento, 
 Quando o peito cifrou sua esperança 
 Em beijar da mulher a negra trança. 

Que loucura! Aos teus languidos olhares, 
 Beber, louco de amor, seiva de vida... 
 Sorver perfume em teus cabellos negros, 
 Sentir a alma de si mesma esquecida... 
 E, de gozo de amar louco, sedento, 
 Viver a eternidade num momento! 

Que ventura! Sorver co'os lábios trêmulos 
 Em teus lábios — de amor o nome santo... 
 Que ventura! Fitar-te os negros olhos 
 Desmaiados de amor e de quebranto... 
 E, reclinada a fronte no teu seio, 
 Sentir languido arfar em doce enleio... 

Mas que louco sonhar... O' minha amante, 
 Que nunca nos meus braços desmaiaste, 
 Que nem sequer de amor uma palavra 
 Dos meus lábios em fogo inda escutaste, 
 Perdoa este sonhar vertiginoso! 
 Foi um sonho do peito deliroso! 

E, se um dia, entre as scismas de tu'alma, 
 Minha imagem passar um só momento, 
 Fita meus olhos, vê como elles falam 
 Do amor que eu te votei no esquecimento: 
 Recorda-te do moço que em segredo 
 Fez-te a fada gentil de um sonho ledo... 

Recorda-te do pobre que em silencio 
 De ti fez o seu anjo de poesia, 
 Que tresnoita scismando em tuas graças, 
 Que por ti, só por ti, é que vivia, 
 Que tremia aó roçar de teu vestido, 
 E que por ti de amor era perdido...

Sagra ao menos uma hora em tua vida 
 Ao pobre que sagrou-te a vida inteira, 
 Que em teus olhos, febril e delirante, 
 Bebeu de amor a inspiração primeira, 
 Mas que de um desengano teve medo, 
 E guardou dentro d'alma o seu segredo! 

Recife, Junho de 1863. 

______________

     Cf. com a primeira publicação em livro, na "5* 
 (VI) Edição das Espumas Fluctuantes, de Seraphim 
 José Alves, Rio de Janeiro (1881), "appendice": I. 
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continua página 64...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte /    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921