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domingo, 28 de junho de 2026

Contos Africanos - Todos dependem da boca

Eu conto, tu contas, ele conta... 

Aldónio Gomes,

Estórias africanas (1999)


      Certo dia, a boca, com ar vaidoso, perguntou:

– Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante?

Os olhos responderam:

– O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas.
– Somos nós, porque ouvimos – disseram os ouvidos.
– Estão enganados. Nós é que somos mais importantes porque agarramos as coisas, disseram as mãos.

Mas o coração também tomou a palavra:

– Então e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo!
– E eu trago em mim os alimentos! – interveio a barriga.
– Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos.

Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas andaram... Mas a boca recusou comer. E continuou a recusar.

Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças... Então a boca voltou a perguntar:

– Afinal qual é o órgão mais importante no corpo?
– És tu boca, responderam todos em coro. Tu és o nosso rei!

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Comentando:
     "O conto popular de Moçambique conta uma história de competição. Quando os órgãos do corpo humano começam a brigar para decidir qual deles é o mais importante, todos passam a desvalorizar o papel dos seus "adversários" para sublinhar o seu.

     No final, a disputa tem um mau resultado: todos ficam sem comer e começam a se tornar cada vez mais fracos. A narrativa fala, então, sobre a necessidade de trabalhar em união e colaborar para um bem comum.

Outra questão que é realçada aqui é o valor do alimento. A boca acaba ganhando a discussão, já que a comida é essencial para manter a vida humana. Afinal, como costumamos dizer por aqui, saco vazio não para em pé".

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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória do Ladrão e do Papagaio... João Miguel ... (07)

Luaanda... Estória do Ladrão e do Papagaio


Luandino Vieira

continuando...

João Miguel, que lhe chamavam o Via-Rápida, era o cabeça. Ninguém que discutia, verdade de todos, nem pensavam podia ser diferente. Mas o homem de confiança era o cap’verde Lomelino dos Reis por causa só ele é que falava no Kabulu, sem esse branco o negócio não andava mais. E com Garrido Fernandes, o Kam’tuta, eram a quadrilha. Quadrilha à-toa, nunca ninguém que lhe organizara nem nada, e só nasceu assim da precisão de estarem juntos por causa beber juntos e as casas eram perto. Sem mesmo adiantarem combinar, um dia fizeram um assalto numa montra de barbeiro e deram conta Lomelino executou, Via-Rápida ajudou e Kam’tuta atrasou fingindo mijar na parede, a vigiar por causa as patrulhas. Pronto, ficou assim: o cabeça era o João Miguel, ele é que dividiu o dinheiro; quem lhe arranjou foi o Dosreis vendendo o perfume e outras coisas no Kabulu e todos ficaram confiar nele senão não podiam mais trabalhar; Kam’tuta, aleijado, só serviu para avisar. Ficava de vigia e quando os outros queriam nem lhe avisavam nem nada para não atrapalhar se era o caso de agarrar uma berrida. No fim, davam-lhe a parte dele: metade de uma metade, se não ia; uma parte igual dos outros, se lhes acompanhava. Assim, nunca podia pôr queixa deles.

A reunião era sempre aí na quitanda do Amaral, oito horas — oito e meia, hora que começavam sair nas cubatas, jantar já na barriga, depois de passar o dia à toa na Baixa, procurando emprego de verdade ou dormindo no quintal quando era dia seguinte dum trabalho. João Miguel é que estava sempre o primeiro a chegar e quando Dosreis entrava já o rapaz tinha bebido mais de meio-litro∗ com gasosa como ele gostava. Mas nessa noite dos patos tudo que começou, começou passar ao contrário, parecia já estava se adivinhar era diferente, alguma coisa que ia suceder.

Quando o Lomelino chegou, cansado do caminho no Rangel e mais para lá, o João Miguel ainda não tinha aparecido. Perguntou para menino Luís, o empregado, mas ele falou não, o Via-Rápida não tinha estado lá. Nove horas eram quase, cadavez o rapaz tinha ido no cinema com alguma pequena, mas sempre assim ele avisava primeiro. Só que hoje não podia faltar, tinha-lhe deixado um aviso na vizinha Mariquinha, para lhe dar encontro oito e meia no Amaral. Bem, esperar.

Sentado no canto deles, Lomelino acendeu o cigarro, mas a cabeça não queria ficar mais quieta, aguentar o jeito de esperar no amigo, também não era tarde ainda. Não, Os pensamentos não aceitavam e a preocupação enchia-lhe pouco-pouco com o virar do tempo. Porque ia ser pena se perdiam essa noite assim escura para fazer o trabalho dos patos do Ramalho da Silva, lá no Marçal. Já andava lhe estudar muito tempo, desde o dia João Miguel descobriu era um pouco fácil de fazer e o lucro certo. Mas lucro certo também só se o Lomelino ajudasse com os conhecimentos dele. Custou a convencer o Kabulu, o homem não gostava esse assunto de criação, só queria as coisas de guardar numa cubata sozinha sem ninguém para lhe tomar conta, bicho que mexe e fala é preciso tratar e sempre chama polícia. Dosreis falou agora as coisas quietas estavam bem guardadas e as patrulhas eram de mais e, depois ainda, nestes tempos, entrar em casa leia é perigoso, as pessoas põem logo tiro e a desculpa é que é terrorista e pronto, os casos ficam arrumados. Voltou então para receber resposta nesse dia, sete horas lá estava, encostado no balcão, bebendo seu meio-litro, fingindo. Sô Kabulu, gordo e encarnado, veio para ele, mas só lhe disse estas palavras:

— Carreguem-lhes na casa do Zeca Burro!

Melhor. No Zeca Burro conhecia-lhe bem: matador de cabritos roubados para vender a carne, uma vez fizeram-lhe até um negócio dumas cabrinhas que já estavam mesmo velhas e doentes e rendeu. Com ele era canja; o pior era o assunto quem tinha-lhe tratado era o Kabulu e esse gosmeiro é que ia tirar o lucro, apostava só ia lhes pagar os bicos preço do Kinaxixi∗ menos que metade e depois recebia mais que o dobro no Zeca Burro. E eram mesmo uns patos gordos, não andavam no lixo, vadiar nos musseques, não. Tinha um até, branco quase, que ele tinha-lhe visto bem, esse bicho cadavez ia rebentar se lhe engordavam mais, quatro quilos apostava.

Saiu embora na loja do Kabulu, no escuro veio vindo devagar para ganhar tempo e não cansar de mais, a respiração já estava lhe fazer partidas, nesses dias de trabalho o coração acelerava e o sangue, habituado à mangonha do trabalho quieto, corria logo com a ideia do escuro, do serviço, e também pensava cadavez o João Miguel ia refilar por ele não ter-se lembrado mais do Zeca Burro, assim iam perder um lucro de patos gordos. Mas com João Miguel ele aceitava, o menino era mesmo monandengue ainda, vinte e quatro anos só, obedecia-lhe como pai, respeito de mais velho. A não ser o rapaz tinha sonhado outra vez os casos antigos e estava na diamba. Talvez era isso para não estar lá na hora combinada, só porque adiantou fumar. E nem mesmo ao menos o Kam’tuta para lhe acompanhar, ali no sozinho. Mas esse, ele sabia o rapaz agora esses dias só rondava a quitanda da Viúva para ver a Inácia, parecia era um galo com aquela cabeça grande em cima do pescoço fino a arrastar a perna, Deus Nosso Senhor lhe perdoasse, não deve se fazer pouco um aleijado, mas era mesmo parecido um galo o Kam’tuta.

— Boas-noites, compadre Dosreis!

Era o Via-Rápida e sentou logo parecia nem podia mais com o corpo dele. Ficou olhar, banzado, na cara do Lomelino, parecia nunca tinha-lhe visto mais na vida, os olhos quase fechados, quietos, cheios de encarnado de sangue, respirando devagar, mas com força, sopro de vapor de comboio. Sempre que lhe via assim, Dosreis pensava o rapaz era uma máquina. Não era mais porque o serviço dele era agulheiro, no tempo que estava trabalhar no Cê-Efe-Bê∗, no Luso, nem das estórias que ele punha falando os casos da sua vida de ferroviário. Mas aqueles olhos assim quietos, vermelhos, pareciam eram mesmo as luzes da locomotiva. A força do vento da respiração, na boca, saía com o fumo do cigarro, e o nariz dele, largo e achatado como a frente da máquina, assobiava nessas horas. Forte e todo encolhido na cadeira, só a cabeça esticada por cima da mesa, parecia estava fazer uma força grande de rebocar muitos vagões de minério. Mas a verdade era só que o João Miguel estava chegar mas era de fumar a diamba. E não queria falar.

— Estás bom, João?

— Bem ‘brigado, mano Dosreis!

Silêncio outra vez. Custava engatar a conversa assim com ele, era preciso ainda deixar-lhe sozinho, o veneno da planta derreter no sangue com a velocidade que ele andava e sair embora na respiração. Perigoso até falar, mesmo que quase sempre João Miguel ficava mas é triste porque ele não queria mais fumar, só fumava mesmo quando os casos antigos começavam-lhe arreganhar, não deixavam dormir.

— Vai um copo, João?

— ‘brigado, vai.

O quente era bom dentro dele, a paz, uma vontade de não fazer mesmo nada, só sorrir, sorrir, pôr as coisas boas, cantar. Mas os casos não deixavam, estavam fundos, bem fundos, porque Félix era o grande amigo e lá não chegava o feitiço da diamba. Mesmo que lhe tirava a raiz deles, não conseguia apagar mais o sangue espalhado na linha, nas rodas da máquina, nem aquela figura do Félix, todo estragado, a cabeça do outro lado, dentro das linhas, em cima da brita, e o corpo, o corpo de miúdo ainda, torcido, as pernas, com o peso da roda no pescoço, tinham-se levantado, parecia até ele estava com elas no ar na hora da ginástica do clube, até dava vontade de rir. Não, esse sangue nada que lhe tirava no fundo dos olhos, esse cadáver do Félix falecido assim, matado por ele, ele mesmo, João Miguel. Lembra bem: a 205 vinha devagar, comboio da lenha; o Chaveco, maquinista, pôs um adeus de amigo e o Félix fazia-lhe caretas, abraçado no outro, gozando e avisando-lhe a rir:

— Logo nas cinco! Sai treino!

E parece mesmo pode ainda ver os risos dos homens no escuro da máquina, o fumo branco que lhes rodeava parecia grande cacimbo, sentir sempre nas orelhas esses risos. E depois?...

— Mano Dosreis, este vinho é uma merda!

— É igual dos outros, João.

— Mas é uma merda!

— Já sei o que vais falar...

— Pois é! Estou pensar isso mesmo: uma boa via-rápida, um copo bem cheio, a gente bebe essa aguardente, senta no chão, fica com os companheiros, conversa da vida, conversa do serviço, conversa de pequenas, a mutopa∗ aí bem carregada... Aiuê! Saudade, mano! A mu-topa cheinha, tabaco bom, a água a cantar na cabaça, chupa, chupa... Não é essa porcaria da diamba, não é essa merda desse vinho de brancos...

E o grande silêncio outra vez, só o arder dos cigarros e o sangue e a voz dos capatazes a correr, o chefe, o guarda-fios∗, fator∗, fiel∗, todos a porem-lhe socos, sacana de negro e mais coisas, bêbado, bandido... Mas quem gostava o Félix mais do que ele, quem? Pois é, mas foi a sua mão, João Miguel, que mandou a 205 contra o comboio do ferro; foi a sua mão que pôs a roda da 205 em cima do pescoço do Félix, menino fraquinho, nem que aguentou a pancada do choque, caiu logo cá embaixo e a máquina, no pequeno arranque na frente, parou-lhe em cima do pescoço.

— Não! Não quero mais isto! Não posso, mano Dosreis, não posso...

— Calma, então! Olha: vamos ainda lá fora, preciso te falar, assunto sério, temos um serviço...

O vento frio do cacimbo corria às gargalhadas com os papéis pelo musseque fora. As luzes da rua, lá mais longe, pareciam estavam derretidas, descia a espuma no chão ou subia no ar como fumo de fogueira que arde bem, sem lenha verde.

— Então, arranjaste?

— Arranjei. O mesmo. Falou sim, podemos entregar. Só que fica mais longe, não quer lá em casa. Qu’até meia-noite o homem espera. É o Zeca, não sei se lhe conheces...

— Zeca Burro?

— É ele, ele mesmo;

— Não é teu amigo, esse gajo?

— Não, nada mesmo, nem que lhe cumprimento... — mentiu Dosreis. — E que o resto é com a gente.

— Está bem. Vamos combinar.

Sentia-se o ar fresco e a conversa estava fazer melhor no Via-Rápida. Falava mais direito, guardava aqueles olhos grandes mais abertos, mas na cabeça começava trabalhar bem, todos os porquês e como ele resolvia logo-logo, também conhecia o quintal como a cara dele e o plano era fácil, a casa ficava nuns fundos de cubatas, só beco estreitinho é que tinha para lá, caminho das patrulhas um bocado longe.

— E a hora?

— Onze e meia é bom. Acabamos-lhe rápido e depois você pode mesmo andar no meio das pessoas que vão sair no cinema...

Dosreis estava guardar, com receio, a pergunta mais especial para fazer só no fim. Nesses dias de diamba ninguém que sabia por quê, o João não gostava mais o Garrido; eles, que todos dias eram braço embaixo, braço em cima, falando conversas diferentes das pessoas e das maneiras de viver a vida, até admirava. Mas era mesmo a verdade: sempre que Via-Rápida lembrava Félix não gostava a amizade do Garrido e quase escapava passar luta.

— João!... E o Kam’tuta, levamos-lhe?

Mal que tinha posto a pergunta o não do rapaz foi alto, com força, via-se não admitia resposta ao contrário.

— Mas vê ainda... Ele podia ficar no fim do beco para assobiar as patrulhas...

— Não! Não precisa! Eu vou lá; você vigia. Depois você carrega-lhes no saco e pronto. Não quero aleijado agarrado nas minhas pernas!

— Deixa então, não se zanga. Cada vez também não lhe levamos noutros casos e o rapaz sempre aceita...

— Não, não quero esse coxo da merda, já disse! Até ando a desconfiar ele vai ser é bufo, com aquelas conversas de mudar a vida, para amigar...

— Elá, Via! Qu’é isso, então? Pôr falsos assim? Conheço-lhe de miúdo, João, e você é amigo dele também...

— Amigo, eu!? Eu só gosto as pessoas inteiras, meio-homem eu não acompanho...

— Não pensei falavam as pessoas nas costas, amigos!

João não acabou falar, essa voz saiu no escuro, já lá estava à espera, gelou o coração bom do Lomelino, parecia o sangue tinha fugido todo com a vergonha, naquela hora. No peito de João Miguel é que não: cresceu a raiva, aqueceu a vontade de bater à toa, rasgar-se, arranhar-se em todo o corpo...

Puxando a perna, sempre parecia ia ficar atrás, Garrido saiu do escuro da esquina da quitanda e veio, com devagar, a cabeça levantada e os olhos. Dosreis avançou para ele; João Miguel recuou, encostou na parede.

— Escuta ainda, Garrido! Eu explico...

— Não adianta, amigo Dosreis. Eu ouvi tudo. Na hora que eu cheguei; vocês falavam a hora de atacar e fiquei ali a espiar...

João Miguel saltou, raivoso.

— Não dizia? Não te dizia? Bufo é que você vai ser!

Dosreis aguentou-lhe, meteu no meio, separando com o seu corpo velho.

— Não m’insulta só, João! Por acaso sou teu amigo, mas não vou deixar mais que me façam pouco à toa... Jurei!

E tinha uma vontade diferente nos olhos azuis do rapaz, Lomelino nunca tinha-lhes visto assim. Parecia até a perna era já boa, a sair direita do calção. Garrido estava todo em pé, o corpo magro levantado, mas o que admirava mais era ainda a calma daquela cara de monandengue, os olhos bem de frente no João Miguel, ele nem lhes aguentou, teve de baixar a grande cabeça de máquina de comboio e o Kam’tuta repetia devagar, cada palavra sua vez:

— Todos me fazem pouco, mas acabou, compadre Dosreis! E você ainda, João Miguel, meu amigo! É a você eu quero avisar primeiro; você ganhaste raiva de mim, não te fiz mal. Sempre que vou nos serviços, faço como vocês. Não têm culpas para mim. Quando vieste, já m’encontraste com meu compadre Dosreis. Por que agora eu é que saio? É porque sou aleijado, coxo, meio-homem, como você falou? Não admito mais ninguém me faz pouco. Luto, juro que luto! Nem que você me mata com a porrada, não faz mal... Ouviste? Ouviste, João Miguel?

Parecia o rapaz estava maluco mesmo. Sacudiu o Dosreis do caminho, ele deixou-lhe passar, admirado com este Garrido novo, levantado. Mas não tinha mais medo, nada que ia suceder, o João nunca que aceitava pelejar com o Kam’tuta.

— Ouve bem! Por acaso você é meu amigo, é por isso eu te aviso, sabes? Não tenho medo, fica sabendo. Nem de você nem de nenhum sacana neste musseque... Sukua’! Aleijado, meio-homem! Olha: você é grande, mas não presta; o seu corpo está crescido, mas o coração é pequeno, está raivoso, cheio de porcarias.

— Cala-te a boca! Cala-te a boca, mano Garrido, senão...

— Bate, se você é capaz. Arreia! É isso que eu quero com você, não percebeste ainda? Quero pelejar! Ao menos um dia luta com um homem, um que não tem medo. Arreia, bate, se você tem coragem!

Direito, no meio da noite, o Garrido Kam’tuta crescia, não estava mais o rapaz torto, sempre a cabeça no peito, escondendo em todos os cantos, fugindo as berridas dos monas que lhe insultavam:


                                            Kam’tuta, sung’ó pé!... Sung’ó pé...


E João Miguel via nascer na frente dele, outra vez, o Félix. Era ainda o seu amigo que estava lhe falar ali, nascia dentro do Kam’tuta com aquelas frases corajosas que sempre soubera, aquela maneira de ficar ganhar mesmo quando lhe davam uma boa surra de pancada. Fechou as mãos grossas escondendo-lhes nos bolsos, elas queriam sair sozinhas para atacar o Garrido, se ele não ia se calar, não podia mais ouvir, não podia deixar mais entrar aquelas palavras que ele falava e estavam estragar todo o trabalho bom, paciente, da diamba. Não podia sentir assim a verdade a queimar-lhe as orelhas, por dentro, por fora da cabeça, era mesmo melhor fugir senão ia esborrachar o mulato, ele era um fraco no corpo...

— Cala o Garrido, Dosreis cala-lhe a boca, senão mato-lhe!

— És um cobarde, João! Você tem medo da verdade! Você, no seu coração, tens é um ninho de ratos medrosos. Aceita o que sucedeu, vence essa culpa que você tem. Não fica medroso, não foge da diamba, luta com a dor, luta com a vida, não foge, seu cagunfas∗, só sabe pôr chapadas e socos nos outros, nos mais fracos, mas contigo mesmo não podes lutar, tens medo... És um merda! Tenho vergonha de ser mais seu amigo!

Lomelino correu para lhe agarrar, mas falhou. O mulato mexia parecia tinha feitiço, correu mesmo com a perna parecia já nem era aleijado nem nada, vuzou∗ uma cabeçada no João Miguel.

— Deixa-lhe, João! O rapaz está bêbado!

Mas João Miguel não aceitava, nem mesmo as palavras sempre boas do amigo Dosreis serviam, nessa hora em que a raiva estava nas mãos a torcer dentro dos bolsos, a pensar apertar mesmo o pescoço do mulato, aquele pescoço magro de osso saliente parecia até com o feitio das mãos. Mas, no coração, uma chuva de cacimbo subia, ele sentia-lhe chegar nas janelas dos olhos; nas orelhas dele aquelas palavras que nunca ninguém tinha-se atrevido a falar-lhe, roíam, punham eco em todos os cantos do corpo; e a cabeça pesada, estalava, parecia os ossos eram pequenos para guardar tudo o que estava pensar, tudo o que as falas do Kam’tuta tinha-lhe soltado lá dentro, já ninguém que lhe amarrava mais.

Avançou para o Garrido; enxotou com uma só mão o Dosreis, foi bater na parede; depois parou mesmo na frente do mulato, só ficou ouvir-se a respiração assustada. A cabeçada na barriga era nada mesmo, mas aqueles olhos azuis, fundos, numa cara de miúdo, esses é que ele não admitia, não podia-lhes consentir assim arreganha-dores na cara dele, não podiam continuar a dizer tudo assim calados. Levantou a mão fechada, grande, pesada biela de locomotiva, em cima da cabeça do Kam’tuta para lhe esborrachar.

— Bate! — falou, cheio de calma, o Garrido.

Nada. Silêncio de vento a correr cafucambolando∗ pelo meio das cubatas.

— Bate, cobarde! — repetiu-lhe Kam’tuta.

O braço grande, pau de imbondeiro∗ levantado no ar e Lomelino rezava para dentro, nada que podia fazer mais nessa hora, para João não lhe deixar cair, era a morte de Garrido.

— Bate, se tens coragem!

Já tremia a voz de Garrido, mas os olhos eram ainda os mesmos, colados na cara de João Miguel, ele não podia fugir naquela luz, estava preso, amarrado naquela coragem nova dum homem fraco, não precisava mais ter o corpo grande para lhe desafiar assim, mostrar uma pessoa aguenta de frente os casos da vida, quando é preciso.

— Deixa o rapaz, Via! Favor...

Foi um soco no João, a voz assim a pedir, de Dosreis, doeu mais que tudo, um mais velho como ele não pedia, mandava. A vergonha veio mais depressa, o sangue fugiu todo, a voz rouca um pouco, do Lomelino, é que abaixou o braço, os olhos, todo o grande corpo do João. Com raiva de bater mas era no Lomelino, sem saber ainda o que podia fazer nessa hora, João Miguel desatou fugir no areal, pelo frio adiante, na direção das luzes derretidas no meio do cacimbo, com o Lomelino dos Reis atrás dele.

Garrido Kam’tuta virou então no escuro, com devagar, arrastando outra vez a perna aleijada. Toda coragem tinha fugido embora com os amigos e, assim, só foi encostar-se na parede da quitanda sem força para nada. Sentou no chão e desatou chorar com choro silencioso.

Na mesma hora que a patrulha dava encontro com o cap’verde Lomelino dos Reis e lhe agarrava com um saco cheio de patos gordos, o Garrido Fernandes Kam’tuta estava roubar o papagaio Jacó.

continua página 68...

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∗ meio-litro — vinho.
∗ Kinaxixi — bairro, musseque de Luanda.
∗ Cê-Efe-Bê — C. F. B. ou Caminho de Ferro de Benguela.
∗ mutopa — cachimbo indígena.
∗ guarda-fios — que toma conta dos fios do telégrafo ao longo da linha férrea.
∗ fator — o controlador de bilhetes, das passagens.
∗ fiel — almoxarife.
∗ cagunfas — medroso; covarde.
∗ vuzar — bater com força; arrancar.
∗ cafucambolar — dar cambalhotas.
∗ imbondeiro — baobá.

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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.


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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)



Luuanda
Estórias
Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963.
1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964.
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares).
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974.
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974.
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976.
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977.
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil,
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964.
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965.
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou, 1968.

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Leia também:

Contos Africanos : Luandino Vieira - Vavó Xíxi... a chuva não caía (01)

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Um tal Lomelino (01)
Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Mas tinha já alegria (02)
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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória do Ladrão e do Papagaio... Inácia tinha puxado a saia... (06)

 Luaanda... Estória do Ladrão e do Papagaio




Luandino Vieira



continuando...


Inácia tinha puxado a saia bem em cima dos joelhos redondos e lisos e Garrido sentiu nos olhos a queimar-lhe, a tapar tudo o resto, aquela pele preta, engraxada, luzia no escuro lá dentro das coxas compridas e rijas e esse sentir queria lhe puxar a cabeça mais em cima para espreitar outra vez, mais, era bom aquele branco a chamar lá no fim do escuro todo do corpo dela, Garrido podia jurar não tinha cor mais bonita que aquela, um branco muito lavado lá no fundo da noite da saia, mais escura agora com a noite de verdade que chegava, quem sabe mesmo, com as corridas para tapar o encarnado da cara de Garrido Fernandes. 

— Ená, Gagá! Não treme então! Segura com a outra mão...

Agarrou-lhe no tornozelo bem feito, apertando com carinho. O calor parecia corria nos braços como água da chuva, saía do corpo dele com depressa, para entrar na perna da Inácia, ela até tinha-se abaixado mais fingido era para espiar o trabalho, mas, com a respiração, só as mamas macias faziam festas na cabeça de monandengue do Garrido. Talvez mesmo, quem sabe?, a bitacaia nessa hora estava gozar os falhanços∗ de Kam’tuta, ele, que era um mestre nos mauindos, não conseguia lhe furar. Verdade que o alfinete estava grosso, mas um como ele, devia trabalhar ainda com qualquer ferramenta à-toa.

Sentiu a bitacaia podia morar mesmo lá, pôr ovo, fazer mauindo, nada que lhe interessava já nessa hora; se ia continuar assim com os quissondes a lhe atacar no sangue cadavez mais e a malandra da Inácia a chegar, a encostar, mostrar os segredos do corpo dela, provocar dessa maneira, cadavez podia ainda pensar ela queria dele, ia lhe agarrar ali mesmo, atrás da capoeira, que a noite já prestava, escura que vinha.

Mas quem veio, num vôo torto, foi o Jacó. Pousou na dona, desatou bicar o Garrido, estragou-lhe o serviço que queria fazer, deu-lhe berrida até embaixo da mandioqueira.

Falei a raiz da estória era o Jacó e é verdade mesmo, porque se não era esse bicho ter todos os carinhos de Inácia, nada que ia suceder, nem o Kam’tuta aceitava o que a pequena pediu-lhe no fim e era uma vergonha, ele já não estava mais monandengue de andar fazer essas habilidades.

Mas como é Garrido podia, cheio de vontade pela Inácia, queria-lhe mesmo amigar para acabar a dor no coração e matar os quissondes que andavam-lhe passear no sangue, como é ele ia fazer, se um papagaio velho e sujo, mal-educado, adiantava pôr beijo na boca da pequena e esconder embaixo das pernas dela?

A noite estava chegar, mas já morava no coração de Garrido logo na hora a Inácia decidiu acabar mesmo zangar o rapaz com o Jacó. Disse baixinho, quase nem que se ouvia:

— Kam’tuta, sunga...

Nem precisou acabar. Logo o Jacó abriu a asa e pôs um barulho parecia era riso de pessoa, antes de falar. Cantou:

Kam’tuta... tuta... tuta... sung’ó pé... pé... pé... 

E depois Inácia continuou furar no coração dele. Disse:

Tunda!∗...

Jacó não esperou. Mais alto que tudo continuou cantar:

Sung’ó pé... tundé... tundé... tundé... 
sung’ó pé... pé... ∗ 

E lembrou mesmo mais, para acabar a brincadeira: pegou o bago de jinguba no bolso, pôs na boca dela, pediu:

— Jacó, Jacó... tira o baguinho!

Jacó veio e com o cantar de riso dele, bicou-lhe na boca, tirou-lhe a jinguba. Garrido, era um soco cadavez ele fazia isso. Nem que aguentou mais, pediu:

— Inácia! Você me faz pouco, se quiser. Mas não deixa esse rosqueiro te mexer na boca. Um bicho porco!

Com cara de menina que não sabe nada, pôs os olhos grandes na cara de Garrido:

— Ai? Tem mal?

— Tem, Naxa,

Nem que refilou lhe chamar como ela não gostava.

— Tenho ciúme do bicho, pronto! Já sabe!

Não tinha mesmo no mundo cara tão sonsa como de Inácia nessa hora:

— Não digas?! Você sente raiva por papagaio me pôr beijo assim?...

— Por acaso sim, Inácia, não faz mais!

— E se eu digo a ele: Jacó! Jacó! procura o bago...

Nessa hora foi só ver o papagaio meter o bico, a cabeça toda no decote largo, procurando a jinguba Inácia tinha deitado lá no meio das mamas gordas que tremiam com o sacudir das asas do pássaro. Garrido nem sabia já o que sentia: se era o quissonde no sangue, o jindungo a correr, pensando o peito dela assim bicado devagarinho como Jacó sabia; se era raiva de apertar pescoço nesse bicho ordinário, podia mexer onde ele até tinha vergonha de olhar só.

— Também tem ciúme do meu peito, Gagá?

— Juro! Por acaso tenho! E raiva no Jacó!

— E se eu deixo ele andar dentro do vestido, você zanga, Gagá?

— Por acaso! Por acaso sou capaz de lhe apertar o pescoço. Juro! Inácia, não faz isso, não faz isso, não me provoca só, Naxa!

Mas o Jacó já saía com a cabeça do peito para engolir o bago, tinha-lhe encontrado, a Inácia ria toda, mexia, torcida de cócegas que as penas lhe punham.

— Fica quieto, Jacó! Está me pôr comichões...

— É os piolhos do fidamãe!

— Não tem piolhos o Jacó! Piolho tem você... Jacó... Jacó... vai chover!

Nessas palavras então era o cúmulo, ninguém que podia mesmo continuar ali a ser gozado dessa maneira assim, sem respeito. O papagaio desceu devagar e espreitando com a cabeça nos joelhos apertados da Inácia, meteu-lhe embaixo da bainha, começou a andar lá para dentro, para o escuro, largando seus pios e assobios, cantarolando :

Vai vir chuva... vai vir chuva... 

Inácia ria, torcida com cócegas, a cara de raivado do Garrido Fernandes. E quando o rapaz levantou-se devagar para adiantar arrancar com a perna aleijada, feito pouco, triste e envergonhado, Inácia chamou-lhe manso, com todo o açúcar-preto da voz dela:

— Gagá! Não me deixa só no escuro...

É que o escuro tinha descido já. As luzes começavam piscar em todos os lados, na quitanda já tinha barulho de homens a gastar o dinheiro no vinho, voltando do serviço. Garrido parou, baralhado, não sabia se ficava, se ia embora; se calhar era só para adiantar fazer mais pouco que lhe chamava, a voz era de mentira, aquele Gagá não queria dizer. Mas, devagar, veio sentar-se mais perto dela, pediu:

— Primeiro, se você quer eu fico, enxota o fidamãe do Jacó!

Inácia aceitou, deu-lhe berrida; o bicho foi embora pelo chão, pesado e torto, parecia era pato marreco, falando os insultos sô Ruas tinha-lhe ensinado e ele nunca esquecia.

— Depois, se você quer eu fico para te tomar conta até na hora de vir a tua senhora, deixa ainda te dar um beijo!

— Elá! ‘tá saliente!...

Nem Kam’tuta mesmo que sabia como é tinha-lhe saído essas palavras na garganta, nada que tinha pensado disso naquela hora, se calhar era o quente do sangue que ensinava a coragem desses pedidos assim. Inácia riu muito, os seus dentes todos de coco ficaram a tremer no escuro, a pôr música nas orelhas de Kam’tuta.

— ‘tá bem! Aceito!

Atrapalhado, não esperava ela ia dizer sim, Garrido levantou os braços, a cabeça começou trabalhar mais depressa que as mãos e sentiu, mesmo sem lhe tocar, a pele quente das costas que ia abraçar, o macio de sumaúma dos lábios grossos, o molhado quente da boca dela, tudo assim como pensava de noite, os olhos abertos no escuro do seu canto onde dormia e fabricava aventuras que nunca se passavam mais.

— Espera ainda! Você pode me pôr um beijo, se você quer te deixo mesmo passar sua mão nas minhas pernas, mas quero troco também...

— Diz, diz! Eu faço já!

— Juras?

— Juro a alma da minha mãe!

— Olha então... Eu ouvi que você pode mesmo andar ao contrário... Põe mãos no chão, arruma tua perna aleijada na capanga e anda em volta do quintal para eu te ver ainda!

— Não!

Uma dor grande, de lhe pôr chapadas, estava nas mãos levantadas prontas para lhe abraçar.

— Não, Naxa! Não faz pouco de mim, assim!

— Ai?! Fazer pouco, como então? Pra você se mostrar...

— Não! Não sou Nuno. E mesmo se eu faço, não é habilidade nada. E só porque sou aleijado, e Deus Nosso Senhor assim é que mandou...

— Deixa, pronto!... Você é que sabe, Gagá. Se não queres me pôr um beijo, se não gostas as minhas pernas, é contigo. Mas depois não vem me chamar eu sou camuela consigo, só gosto os outros!

Uma vontade de chorar, de berrar, de rasgar aquela cara de miúda sem pecado da Inácia, a olhar-me quieta, com os grandes olhos de fogo, é que tinha. Mas as mãos não aceitavam chapadas, queriam era só abraçar-lhe, amarrar-lhe no corpo estreito dele, esfomeado, cheio de sede. Com as lágrimas quase a chover, baixou a cabeça, estendeu os braços magros e pôs as largas mãos no chão. Nem precisou dar balanço nem nada, o corpo ficou pendurado para baixo, uma perna no ar e a outra, fina e aleijada, enrolou logo no pescoço.

Assim quieto, endireitou a cabeça de monandengue. Mirou Inácia sentada, viu a tristeza mesmo, a pena, já estavam chegar, vendo-lhe nessa posição é que parecia ele era meio-homem só. Mas não quis olhar-lhe mais, começou andar. Cada passo das mãos era um espinho no coração, um peso que acrescentava, não deixava ir na zuna e ele queria acabar logo-logo, fugir dessa figura que ele mesmo via dar a volta no quintal com depressa, quase era corrida já, para matar a vergonha, ninguém lhe ver, adiantar receber o prêmio, fugir para longe.

— Pronto, já ‘cabei, Naxa...

Estava triste, triste, a voz. Azuis, os olhos quase cacimbados∗. Sem força nos braços para abraçar. Mas o quissonde veio morder outra vez no sangue vendo Inácia assim quieta, derrotada, nem que mexia, só os olhos a mirarem para lá da mandioqueira, já não a rapariga antiga, parecia era uma miúda mesmo. Uma grande ternura cobriu a vergonha toda do Kam’tuta, apagou a tristeza, desculpou as malandrices da Inácia, queria-lhe pôr festas, falar coisas bonitas, prometer, fazer, mas nessa hora só conseguiu abaixar-se sorrindo bom, para um abraço melhor ainda do que queria, sem jindungo no corpo, sem vontade de lhe apertar, de lhe encostar nele, só de pôr brincadeira no cabelo dela, passar a mão na pele redonda dos ombros, repetir mansinho nas orelhas dela as palavras ele sabia ela gostava.

E se não tivesse pensado assim, se não estivesse cheio dessa felicidade que vem sempre quando a gente pensa as coisas boas para outra pessoa, tinha pelejado, tinha arreado porrada na Inácia, não fazia mal ela era uma mulher, não havia direito fazer pouco assim um homem. Mas não, a felicidade não deixou. A chapada de Inácia, os gritos da pequena no meio das lágrimas, depois as gargalhadas de mentira, só lhe fizeram ficar mais banzado, de boca aberta, nem a chapada na cara que lhe doeu, os olhos azuis grandes e fundos ficaram mirar espantados, tudo parecia estava suceder no meio do fumo da diamba, a Inácia a gritar, xalada∗, a insultar-lhe correndo para dentro da quitanda:

— Sungaribengo de merda! Filho da mãe aleijado! Sem-pernas da tuji! Pensas podes-me comprar com brincadeira de macaco, pensas? Tunda! Tunda! Vai ‘mbora saguim mulato, seu palhaço!...

Com devagar, puxando atrás dele a perna aleijada, o coração rebentado, o sangue frio, mais frio que o cacimbo das lágrimas e da noite fechada em cima do musseque, Garrido sentiu ainda muito tempo os assobios, a voz de fazer-pouco do fidamãe do papagaio Jacó, xingando-lhe lá de dentro da mandioqueira:

Kam’tuta... sung’ó pé... o pé... pé... pé...




continua página 59...


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∗ falhanço — tentativa frustrada.
∗ tunda! — rua!; sai!
∗ Sung’ó pé tundé... tundé... tundé... sung’ó pé... — Puxa o pé... rua... rua... rua... puxa o pé...
∗ cacimbado — molhado, enevoado pelas lágrimas.
∗ xalada — maluca; doída.


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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


Leia também:


Contos Africanos : Luandino Vieira - Vavó Xíxi... a chuva não caía (01)

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Um tal Lomelino (01)
Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Mas tinha já alegria (02)
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Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Então podemos falar...  (04)


Contos Africanos : Luandino Vieira - Vavó Xíxi... Sério, com esse assunto... (06)

 Luaanda... Vavó Xíxi e Seu Neto Zeca Santos




Luandino Vieira





continuando...


Sério, com esse assunto Zeca ficou calado. Delfina sempre lhe falava esses casos do trabalho e mesmo quando ele queria fazer-pouco o João Rosa, cafofo∗ e mais não sei quê, a rapariga refilava, assanhada:

— Você tens é raiva! O rapaz trabalha, tem seu carro dele, e fala-me mesmo para casar comigo...

Gostava muito de Delfina, queria mesmo ela sabia todas coisas da vida dele, mas como ia-lhe contar então o que tinha sucedido nesses dias de procura de trabalho? Ou mesmo falar esse trabalho de carregar cimento no porto, serviço assim só de monangamba? Ela não ia aceitar, ia-lhe deixar naquela hora, naquele sítio, no meio do caminho das barrocas. Também dizer não tinha trabalho, não encontrava serviço, era pior. Delfina continuava falar, sentia-se mesmo na voz dela era só para fazer raiva, dizia João Rosa já tinha-lhe prometido falar no patrão para lhe mudarem no escritório; que ela devia mas é ir mesmo na escola da noite; que, depois, queria se casar com ela, se ia aceitar namoro dele e mais outras conversas, só para irritar Zeca Santos. Essas palavras magoavam-lhe lá dentro, sentia tristeza, vergonha dele mesmo, mas também sorte não tinha, gostava a pequena, o pior é que trabalho de todos os dias custa encontrar. Pensou a tarde já estava a ser boa com esse encontro, pena Delfina estar lhe xingar assim. Medroso, agarrou-lhe no braço e baixando a voz falou como ele sabia:

— Ouve então, Fininha. Você esqueceste o sábado? Aquilo que disseste, enh? Para quê você está se zangar? E depois, falar assim à toa nesse sungadibengo∗ de Rosa, para quê? Eu não fico raivado, qu’é que você pensa? Agora tenho o meu emprego aí com Maneco, na estação de serviço... E depois, você sabe, você viu no baile, Marcelina anda-me chatear...

— Ih! Essa sonsa?! Sukuama! Já viram? Tem nada de cheirar?...

Calou-se logo, Delfina. O sorriso de Zeca Santos estava na frente dela, um sorriso ela gostava e tinha raiva ao mesmo tempo, ficava parecia era cara de gato quando anda brincar com o rato...

Devagar, com toda a técnica ele tinha estudado, desviou-lhe do caminho onde iam, atravessaram um bocado de capim, borboletas e quinjongos∗ saltaram para todos os lados. Sentados debaixo de uma grande acácia, vermelha de flores, Zeca puxou Delfina na cintura, mostrando-lhe só os olhos a rir, uns olhos de criança malandra que ela gostava. Mesmo assim não aceitou: tirou-lhe as mãos atrevidas, arranjou o vestido e ela é que sentou como quis, ali perto, puxando a chita de cores para cima dos joelhos, agarrando-lhe com as mãos por baixo das coxas fortes.

Zeca Santos ficou um tempo deitado a chupar um capim, sem falar nada; depois rastejou parecia era sardão∗, na direção de Delfina, mirando-lhe com olhos doces e amigos. A menina nem nada que disse, deixou só a cabeça dele deitar no colo, era bom sentir assim aquele peso, o calor dele contra a barriga, as orelhas-de-abano a mostrarem bem o feitio da cabeça, os olhos cheios de felicidade. Sem mesmo poder parar-lhes, as mãos dela começaram a pôr festas de samaúma na carapinha, na pele quente do pescoço, do princípio do peito, e Zeca suspirou, falou-lhe mansinho:

— Ai, Fina, meu amor! Se você vem mais com João Rosa não sei ainda o que vou fazer...

— Não venho mais, Zeca, juro sangue de Cristo! Só de você é que eu gosto, só de você, você sabe...

Sorriu; era bom sentir essas falas assim, as festas, o calor das mãos dela na pele toda, nada que ficava no corpo: nem a fome a roer na barriga; nem o vinho a pôr as coisas brancas e leves; só um quente novo, um fresco bom, melhor que o vento que soprava xaxualhando as pequeninas folhas verdes das acácias, empurrando as flores, algumas deixavam cair as suas folhas vermelhas e amarelas, parecia era mesmo uma chuva de papel de seda em cima deles.

— Agora que arranjaste mesmo um bom emprego, Zeca, não fica dormir mais, não?

— Não, Fina!

— Se tu queres eu vou-te acordar de manhã... bato na janela...

Zeca sorriu outra vez, feliz com a amizade.

— Não precisa, Fininha! Agora mesmo vou ter juízo, juro!

— Sukuama! Já é idade, Zeca. Se não vai ter mais juízo, não vou te gostar mais...

Os olhos grandes, claros, de Delfina, mostravam toda a mentira dessas palavras, mas Zeca já não estava ver. Tinha escondido a cabeça no colo, a vergonha não queria lhe largar o coração, a vontade de falar só a verdade na menina, como ela merecia, e a certeza nessa hora que falasse ia lhe perder mesmo quando ela ia saber ele só tinha um serviço de monangamba e, pior, João Rosa, seu “Morris”, suas delicadas falas a quererem-Lhe roubar a pequena, tudo isso pelejava na cabeça fraca dele, no coração fraco de Zeca Santos.

E essa dor foi tão grande, o roer na barriga a atacar outra vez, a fazer fugir as coisas boas na frente dos olhos dele, que tudo começou a girar à roda, a cabeça leve, o estômago a doer, na boca um cuspo amargo e azedo, toda a barriga pedia-lhe para vomitar, deitar fora as bananas e o vinho que lhes azedara, e, nessa hora, sentiu medo. Levantou os olhos grandes, de animal assustado, para Delfina, e as mãos procuraram o corpo da namorada para agarrar sua última defesa, seu último esconderijo contra esse ataque assim de todas as coisas desse dia, desses dias atrasados, contra esse receio de vomitar logo ali. Sentiu, debaixo dos dedos, as mamas pequenas dela de repente apertadas, e a outra mão espetou-se com força e medo, com raiva, na coxa negra e forte que o vestido, desarrumado, não tapava mais.

As cigarras calaram a cantiga delas, uma pica fugiu do pau onde chupava flores: Delfina, com toda a força dela, pôs uma chapada na cara do namorado, e Zeca, magrinho e mal deitado, rebolou até no tronco da acácia.

Quase a chorar, agarrando o vestido aí no sítio onde os dedos dele tinham rebentado os botões, Delfina zuniu-lhe todas as palavras-podres que a cabeça inventava, que a sua boca sabia, insultou, cuspiu-lhe:

— Você pensas eu sou da tua família, pensas? Que sou dessas, deita no capim, paga cinquenta, vem dormir comigo? Pensas? Seu sacana, seu vadio de merda! Vagabundo, vadio, não tens vergonha! Chulo de sua avó, seu pele-e-osso!...

Mas Zeca Santos nem percebia bem o que estava a passar. O vômito grande juntava-se na barriga, apertou-lhe com as mãos para poder respirar, mas não teve mais tempo de levantar: Delfina empurrou-lhe outra vez contra o tronco da acácia, saindo depois a correr pelo capim abaixo, borboletas e gafanhotos fugiam dos seus pés irritados, as cigarras calavam-se com as palavras que foi gritando sempre, enquanto Zeca podia ouvir:

— Vadio de merda! Homem só no dia do casamento, sabes, rosqueiro∗? No dia do casamento, na cama, não é como os bichos no capim, seu pele-e-osso dum raio!...

Para os lados do colégio das madres o sino começou tocar devagar e o sol, na hora de dar fimba∗ no mar, descia vermelho e grande. O vento a soprar, brincalhão, nos troncos dos paus, trouxe nas orelhas dele, doridas da chapada, o grito de Delfina, lá de baixo, do princípio do morro, só as cores bonitas do vestido de chita é que se viam bem no meio das folhas:

— Não tens vergonha, seu merda?! Estás magrinho parece és bordão de ximbicar∗! Até faz pena!...

Com os vômitos, Zeca Santos nem deu conta da teimosa alegria que queria nascer, rebentar, debaixo dessas palavras que a boca de Delfina falou sem saber mais por quê.





continua página 027...

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∗ cafofo — cego.
∗ sungadibengo ou sungaribengo — (depreciativo) mulato; mestiço.
∗ quinjongos — gafanhotos grandes.
∗ sardão — espécie de lagarto.
∗ rosqueiro — sodomita.
∗ fimba — mergulho na água.
∗ ximbicar — empurrar o barco com uma vara longa.

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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


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sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória da Galinha e do Ovo... Só mesmo quando o... (05)

Luaanda... Estória da Galinha e do Ovo


Luandino Vieira





Para Amorim e sua ngoma:
sonoros corações da nossa terra.



continuando...


Só mesmo quando o sargento começou aos socos nas costas é que tudo calou e começaram ainda arranjar os panos, os lenços da cabeça, coçar os sítios das pancadas. Os dois soldados tinham também entrado atrás do chefe deles, sem licença nem nada, e agora, um de cada lado do grupo, mostravam os cassetetes brancos, ameaçando e rindo. Mas o sargento, um homem gordo e baixo todo suado, tinha tirado o capacete de aço e arreganhava: 

— Bando de vacas! Que raio de coisa é esta? Eh!? O que é que sucedeu?

Ninguém que respondeu, só alguns muxoxos. Vavó Bebeca avançou um passo.

— Não ouvem, zaragateiras? O que é isto aqui? Uma reunião?

— Ih?! Reunião de quê então? — vavó, zangada, refilava.

— Vamos, conta lá, avozinha! Por que é que estavam à porrada? Depressa, senão levo tudo para a polícia.

Vavó viu nos olhos do soldado o homem estava falar verdade e, então, procurou ajuda nas outras pessoas. Mas as caras de todas não diziam nada, estavam olhar no chão, o ar, o canto onde Beto e Xico não tinham saído com o cesto, os dois soldados rodeando todo o grupo. No fim, olhando o homem gordo, falou devagar, a explorar ainda:

— Sabe! O senhor soldado vai-nos desculpar...

— Soldado, uma merda! Sargento!

— Ih?! E sargento não é soldado?...

— Deixa-te de coisas, chiça!∗ Estou quase a perder a paciência. Que raio de chinfrim é este?

Vavó contou, procurando cm Zefa e Bina cada vez que falava para ver a provação das suas palavras, toda a confusão da galinha e do ovo e por que estavam pelejar. O sargento, mais risonho, olhava também a cara das mulheres para descobrir a verdade daquilo tudo, desconfiado que o queriam enganar.

— E os vossos homens onde estão?

Foi nga Bina quem respondeu primeiro, falando o homem dela estava na esquadra e ela queria o ovo, assim grávida estava-lhe apetecer muito. Mas o sargento nem lhe ligou; abanava a cabeça, depois disse entredentes:

— Na polícia, hein? Se calhar é terrorista... E a galinha?

Todas as cabeças viraram para o canto, nas man-dioqueiras, onde os meninos, abaixados à volta do cesto, guardavam a Cabíri. Mas nem com os protestos de nga Zefa e o refilanço das outras amigas, o soldado aceitou: foi lá e, metendo a mão debaixo do cesto, agarrou a galinha pelas asas, trazendo-lhe assim para entregar ao sargento. A Cabíri nem piava, só os olhos dela, maiores com o medo, olhavam os amigos Beto e Xico, tristes no canto. O sargento agarrou-lhe também pelas asas e encostou o bicho à barriga gorda. Cuspiu e, diante da espera de toda a gente — nga Zefa sentia o coração bater parecia ngoma, Bina rindo para dentro —, falou:

— Como vocês não chegaram a nenhuma conclusão sobre a galinha e o ovo, eu resolvo...

Riu, os olhos pequenos quase desapareceram no meio da gordura das bochechas dele e piscando-lhes para os ajudantes, arreganhou:

— Vocês estavam a alterar a ordem pública, neste quintal, desordeiras! Estavam reunidas mais de duas pessoas, isso é proibido! E, além do mais, com essa mania de julgarem os vossos casos, tentavam subtrair a justiça aos tribunais competentes! A galinha vai comigo, apreendida, e vocês toca a dispersar! Vamos! Circulem, circulem para casa!

Os soldados, ajudando, começaram a girar os cassetetes brancos em cima da cabeça. Muitas que fugiram logo, mas nga Zefa era rija, acostumada a lutar sempre, e não ia deixar a galinha dela ir assim para churrasco do soldado, como esses homens da patrulha queriam. Agarrou-se no sargento, queria segurar a galinha, mas o homem empurrou-lhe, levantando o bicho alto, por cima da cabeça, onde a Cabíri, assustada, começou piar, sacudir o corpo gordo, arranhando o braço do soldado com as unhas.

— Ei, ei, ei! Mulherzinha, calma! Senão ainda te levo presa, vais ver! ‘tá quieta!

Mas, nessa hora, enquanto nga Zefa tentava tirar a galinha das mãos do gordo sargento, debaixo do olhar gozão de vavó Bebeca, nga Bina e outras que tinham ficado ainda, é que sucedeu aquilo que parecia feitiço e baralhou toda a gente enquanto não descobriram a verdade.

Quando o soldado foi tirar a galinha debaixo do cesto, Beto e Xico miraram-se calados. E se as pessoas tivessem dado atenção nesse olhar tinham visto logo nem os soldados que podiam assustar ou derrotar os meninos de musseque. Beto falou na orelha de Xico:

— É isso, Xico! Esses gajos não vão levar a Cabíri assim à toa! Temos de lhes atacar com a nossa técnica!...

— Vamos, Beto! Com depressa!

— Não, você ficas! P’ra disfarçar...

E Beto, parecia era gato, passou o corpo magro no buraco das aduelas desaparecendo, nas corridas, por detrás da quitanda. Xico esticou as orelhas com atenção esperando mesmo esse sinal que ia salvar a Cabíri. E foi isso que as pessoas, banzadas, ouviram quando o sargento queria ainda esquivar a galinha dos braços compridos e magros de nga Zefa.

Só eram mesmo cinco e meia quase, o sol ainda brilhava muito e a noite vinha longe. Ainda se estivesse fresco, mas não: o calor era pesado e gordo em cima do musseque. Como é um galo tinha-se posto assim, naquela hora, a cantar alegre e satisfeito, a sua cantiga de cam-bular galinhas? As pessoas pasmadas e até a Cabíri deixou de mexer, só a cabeça virava em todos os lados, revirando os olhos, a procurar no meio do vento esse cantar conhecido que lhe chamava, que lhe dizia o companheiro tinha encontrado bicho de comer ou sítio bom de tomar banho de areia. Maior que todos os barulhos, do lado de lá da quitanda de sô Zé, vinha, novo, bonito e confiante, o cantar dum galo, desafiando a Cabíri...

E, então, sucedeu: Cabíri espetou com força as unhas dela no braço do sargento, arranhou fundo, fez toda a força nas asas e as pessoas, batendo palmas, uatobando e rindo, fazendo pouco, viram a gorda galinha sair a voar por cima do quintal, direita e leve, com depressa, parecia era ainda pássaro de voar todas as horas. E como cinco e meia já eram, e o céu azul não tinha nem uma nuvem daquele lado sobre o mar, também azul e brilhante, quando todos quiseram seguir Cabíri no vôo dela na dire-ção do sol, só viram, de repente, o bicho ficar num corpo preto no meio, vermelho dos lados e, depois desaparecer na fogueira dos raios do sol...

Ainda com as mãos nos olhos magoados da luz, o sargento e os soldados saíram resmungando a ocasião perdida de um churrasco sem pagar. As mulheres miravam-lhes com os olhos gozões, as meninas riam. O vento veio soprar devagar as folhas das mandioqueiras. Nga Zefa sentia o peito leve e vazio, um calor bom a encher-lhe o corpo todo: no meio do cantar do galo, ela sabia estava sair no quintal dela, conheceu muito bem a voz do filho, esse malandro miúdo que imitava as falas de todos os bichos, enganando-lhes. Chamou Xico, riu nas vizinhas e pondo festas nos cabelos do monandengue, falou-lhes, amiga:

— Foi o Beto! Parecia mesmo era galo. Aposto a Cabíri já está na capoeira...

Vavó Bebeca sorriu também. Segurando o ovo na mão dela, seca e cheia de riscos dos anos, entregou para Bina.

— Posso, Zefa?...

Envergonhada ainda, a mãe de Beto não queria soltar o sorriso que rebentava na cara dela. Para disfarçar, começou dizer só:

— É, sim, vavó! É a gravidez. Essas fomes, eu sei... E depois o mona na barriga reclama!...

De ovo na mão, Bina sorria. O vento veio devagar e, cheio de cuidados e amizade, soprou-lhe o vestido gasto contra o corpo novo. Mergulhando no mar, o sol punha pequenas escamas vermelhas lá embaixo nas ondas mansas da Baía. Diante de toda a gente e nos olhos admirados e monandengues de miúdo Xico, a barriga redonda e rija de nga Bina, debaixo do vestido, parecia era um ovo grande, grande...






continua página 101...


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∗ chiça! — porra!
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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 3963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


Leia também:

Contos Africanos : Luandino Vieira - Vavó Xíxi... a chuva não caía (01)

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória do Ladrão e do Papagaio... Um tal Lomelino (01)

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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória do Ladrão e do Papagaio... Sentou o largo, redondo... (05)

Luaanda... Estória do Ladrão e do Papagaio



Luandino Vieira



continuando...


Sentou o largo, redondo, duro mataco∗ desenhado no fundo do vestido, Kam’tuta ficou pensar era sempre assim, só um pano em cima da pele, cadavez mesmo cuecas nada... e isso pôs-lhe um arrepio, ficou a correr o corpo todo até na perna aleijada, mas fugiu embora logo mirando os olhos, quietos e amigos, diferentes da provocação desse corpo cheio de sumo. Jacó desatou a xingar-lhe outra vez com os cantares dele, mas Inácia foi lhe dar umas jingubas, falando docinho, parecia até gostava era do bicho.

— Então, querido! Pronto ainda! Toma, toma... Você sabe eu gosto de você... Hum! Meu bichinho...

Garrido não aguentava essas palavras assim no papagaio, jurava sentia-se roubado, um bicho indecente receber esse amor e ele ali sem nada, até parecia Inácia estava fazer de propósito. Falou isso mesmo, mas a pequena pôs-lhe os olhos mansos nos olhos azuis e só perguntou:

— Você pensa isso de mim? Você, que me gostas?!

— Não, Inácia! Falei mal, não penso nada. É só porque o bicho é porco!

— Porco? Sukua’! Jacó é limpo. Não é, meu amor, meu papagaizinho?...

E continuava; a dor crescia no peito de Kam’tuta, ela parecia não percebia estava magoar-lhe lá dentro, doía. Até punha um tremer nas ancas para lhes remexer, roçando a cara dela no cinzento sujo do papagaio.

— Inácia, ouve então! Me liga só um bocado!

— Um bocado só, juro!

Jurou e riu, afastando para levar o Jacó no quintal das galinhas, o bicho estava reclamar água, água, misturando cadavez essa palavra com muitas asneiras.

Devagar, maré a encher, Garrido adiantou. Com receio, primeiro coisas à-toa que não mostravam o que ele queria; depois, os casos da vida assim sem descobrir trabalho de trabalhar mesmo, só uns biscates nos amigos, arranjar sola rota, tomba∗, salto, e quando lhe deixavam, também ia nuns serviços de noite, aí já que adiantava ajuntar umas macutas∗. E enrolava as palavras para desviar, meter no caminho que queria; Inácia já sabia: o rapaz sempre começava assim, medroso, com receio do quissen-de, mas cinco minutos nem que passavam a conversa já era aquela ele gostava, tinha estudado noites e dias sem parar, pergunta e resposta de Inácia, podia-lhe intrujar até, fazer ela ir a reboque para onde as conversas eram melhores para ele.

— Sente, Garrido! — se lhe tratava de Garrido, já estava aceitar as conversas. — Você fala bem, és mesmo um vigarista, rapaz! Mas se eu ia-lhe aceitar, como é as pessoas iam falar?

— Não liga nas pessoas!

— Ih! Diziam já, um aleijado mesmo, nem que trabalha nem nada, só no capiango, como é ele vive e faz comer a mulher dele?

— Procuro trabalho de trabalhar!

— Você sempre fala isso, mês e mês, e até hoje, nada! Pra ser chulo∗ de sua mulher você não quer, não é?

— Por acaso não, Inácia, nem pensas nisso!

— Mas é assim que iam te falar! Sukua’! Que eu recebia dos outros para você comer, Garrido. Não esquece a sua perna!

— Oh! Nem fala a perna, merda!

— Já estás disparatar? Sempre que te falo as verdades, você disparata-me logo, não é?

— Não zanga, Naxinha, desculpa ainda! Não queria...

— Naxinha é a mãe!

A voz estava irritada, Kam’tuta sentia já no peito o medo ela ia se zangar.

Passavam sempre assim também as conversas. Muito bem que ele aguentava quando falava só as coisas imaginadas de noite; mas depois, quando as conversas vinham nos casos de verdade mesmo, da vida de todos os dias, ele refilava as idéias de Inácia, ela só estava pensar na comida, na casa, no amor não falava, e o fim era sempre o mesmo: ficava ainda com a dor de perder as palavras do Garrido, essas que lhe faziam sonhar e ela não queria aceitar. Então magoava-lhe, e se ele adiantava continuar mesmo que lhe xingava assim, punha-lhe quissende para ele ir embora.

Garrido tinha jurado, nessa hora quando veio, ia sair com resposta de sim ou não. Se sim, para dormir na cama dele; se não, nunca mais lhe falar e procurar matar o quissonde∗ que lhe ferrava no peito. Por isso não desistiu logo-logo, continuou a conversa dele, mas mais nada que podia voltar ao princípio. Inácia já estava má, com as falas de meio-riso na boca, provocadora.

— Olha até, Garrido! — ainda lhe falava assim, a zanga estava só principiar. — Já te falei uma vez eu vou ser como a minha senhora, ouviste?

Uns olhos de cão batido miravam-lhe lá no fundo da cara dele, lisa, da barba feita com cuidado, parecia era monandengue. E esses olhos assim ainda raivavam mais Inácia, faziam-lhe sentir o rapaz era mais melhor que ela, mesmo que estava com aquelas manias de menino que não dormiu com mulher, não sabe nada da vida, pensa pode-se viver é de palavras de amor. Por causa essa razão queria-lhe magoar, envergonhar-lhe como cadavez gostava de fazer.

— E olha mais, Kam’tuta...

A cabeça dele caiu e a pele lisa ficou cheia de riscos em todos os lados, a fome não enchia as peles e a tristeza punha-lhe velhice, mesmo que era um mais novo.

— ...aviso-te, enh?! Ficas avisado! Quando eu vou com a minha senhora, você nem que me cumprimenta, ouviste? ‘tás perceber? Nem que t’atreves a cumprimentar! Senão t’insulto mesmo aí no meio da rua!

— Pronto, está bem, Inácia.

— Cala-te a boca, eu é que falo! Ou você pensa eu vou vestir os vestidos minha senhora me dá embora, vestir sapato de salto, pôr mesmo batom — se eu quero, ponho, ouviu? Ponho! —, para ser ainda cumprimentada por um qualquer à toa como você? Pensas?

Os olhos azuis estavam outra vez colocados na cara dela e mostravam o princípio de um sorriso na boca es-treitinha. Não tinha mais vergonha esse sungaribengo, a gente insulta-lhe e ele fica sorrir com cara não sei de quê, parece é maluco. Também era bom, quente, ver uma amizade assim, nada que lhe acabava, mesmo que ela punha chapadas apostava ele um dia ia voltar. Sentiu, nessa hora, vergonha das palavras que tinha-lhe falado, mas não queria ainda desculpar senão o rapaz ia pensar tinha-lhe convencido. Mas não podia esconder todos os pensamentos, nos grandes olhos tinha muito brilho, cresciam no meio da cara bonita e larga, de pele bem esticada, parecia iam-lhe ocupar toda, tudo, com essa luz que davam.

— Pronto, Inácia, desculpa então...

Garrido atreveu isso com consentimento dos olhos dela. Inácia não respondeu, ficou olhar só, na cabeça dela estava passar confusão, não sabia mais como é ia lhe tratar nesse homem assim diferente, não se zangava, era fraco, a gente podia lhe insultar e tudo, mas nas palavras dele tinha um bocado de força, talvez se as pessoas fizessem o que ele queria, cadavez ia sair bem, quem sabe? Mas como é ela ia viver então com um aleijado, todo o musseque dali sabia, ele com a vergonha da perna, nunca que tinha-se deitado com mulher, as pessoas iam fazer pouco, uma pequena assim bonita e macia, rija como ela, Inácia Domingas, amigar com um homem à-toa e tantos que lhe queriam? E mais pior mesmo, sem serviço nem patrão.

A tarde descia depressa porque era cacimbo, o dia fugia cedo, do frio, do vento a xaxualhar nas folhas. No quintal, Jacó insultava, assobiava, cantava, sempre aos saltos para esquivar as bicadas dos galos. Inácia tinha-se calado, triste, estava só coçar o dedo grande do pé, deixar a cabeça fugir com as palavras do Garrido.

— Tem matacanha∗ aí, Inácia?

— Ih! Sukua’! Você pensa eu vivo na lixeira?

Mas ria, deitada em cima do pé, a raspar com a unha, sentia outra vez vontade de brincar. Esticou a perna na frente da cara dele, falou:

— É mesmo, Garrido. Imagina só, onde é que eu apanhei-lhe não sei...

— Aqui tem galinha, tem quintal...

— Você pode me tirar? Podes? Se você gosta de mim, não custa, mentira?

Essa ideia era mesmo daquela Inácia ele gostava olhar só, sem lhe mexer, da pequena que lhe apalpavam na quitanda e sempre esquivava e ria e punha partidas e brincadeiras para todos. Só Garrido é que não, nem ele sentia vontade, nem Inácia tinha coragem para deixar e depois, para desforrar, fazia-lhe pouco.

— Dá alfinete, então!

— Elá! Mas chega bem aqui! Não vai tirar assim de longe...

Chegou mais junto dela e parecia o vento frio do cacimbo tinha ficado quente nessa hora mesmo.

— Senta no chão, dá mais jeito, Gagá...

Tinha voz dela doce outra vez e os olhos macios. Empurrou-lhe o pé na barriga, com devagar de gato, o largo pé descalço de menina de musseque, mesmo em cima do meio das pernas, para pôr cócegas, e um fósforo aceso correu no sangue de Garrido, jindungo, quissondes a morder-lhe, era bom. Para passar a confusão que lhe atacava começou, com toda falta de jeito, a bicar com alfinete, mas a ponta não queria ficar quieta, não acertava na cabeça do bicho. Era uma bitacaia∗ nova, ainda só começava entrar, metade de fora parecia estava espreitar, cocaiar∗, gozando as pessoas, não era mauindo∗ ainda, não. Por isso mais, comichão estava muita. E a técnica de Kam’tuta, nesses casos, era encostar uma agulha fina na pele e avançar devagar, furar-lhe o corpo um bocado só, pouco, e, depois — tau! —, puxar-lhe. Mas como ia fazer nessa hora em que ele todo tremia, cheio de frio do calor no sangue e a mão quente de Inácia tinha-lhe agarrado na capanga∗ dele para não cair e todo o peito rijo e macio, a boa catinga do corpo maduro dela estavam em cima dele, sentia-lhe entrar em todos os buracos da roupa? Atrapalhado levantou um bocado a cabeça para respirar bem, ver se o quente ia embora, mas isso é que foi mesmo o pior, até a cabeça caiu com o peso do sangue a bater em todos os lados, ngoma∗ de farra dentro das orelhas.





continua página 53...

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∗ mataco — bunda, nádegas.
∗ tomba — remendo no sapato.
∗ macuta — moeda antiga da colônia.
* chulo — que explora a mulher, que vive ã custa da mulher.
∗ quissonde — formiga vermelha de picada dolorosa.
∗ matacanha — espécie de pulga que penetra na pele.
∗ bitacaia — espécie de pulga que penetra na pele.
∗ cocaiar — espreitar.
∗ mauindo — saco de ovos da bitacaia.
∗ capanga — parte posterior do pescoço, cangote; braço dobrado à volta do pescoço (golpe de
luta).
∗ ngoma — tambor.

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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


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Luaanda... Vavó Xíxi e Seu Neto Zeca Santos



Luandino Vieira





°


O sape-sape∗ ficava perto da rua, no terreno onde antigamente estava o Asilo República. 

Assim, ali sozinho, de todos os lados as grandes casas de muitas janelas olhavam-lhe, rodeavam-lhe, parecia era feitiço. Sem mais água, só mesmo com a chuva é que vivia e sempre atacado no fumo preto das camionetas, indo e vindo no porto, que ali era o caminho delas, como é essa árvore ainda tinha coragem e força para pôr uma sombra boa, crescer suas folhas verde sujas, amadurecer os sape-sapes que falavam sempre frescura da sua carne de algodão e o gosto de cuspir longe as sementes pretas, arrancar a pele cheia de picos? Só mais lá em cima, nas barrocas das Florestas, tinha outros pau. Ali, era só aquele, corajoso, guardando na sua sombra massuícas pretas de fazer comida de monangambas dos armazéns de café, dos aprendizes de mecânico da oficina em frente, mesmo dos homens da Câmara quando vinham com as pás e picaretas e rasgavam a barriga das ruas.

Nessa hora de quase cinco horas as folhas xaxualhavam∗ baixinho e a sombra estendida estava boa, fresca, parecia era água de muringue∗. Sentado nas pedras negras do fumo, Zeca Santos esperava Delfina mirando, ansioso, a porta da fábrica. Tinha combinado com a pequena, nesse dia ela ia pedir para sair mais cedo, iam dar encontro, Zeca queria adiantar essas falas do baile de sábado. Delfina merengara∗ muito bem com ele e quando o conjunto, depois, rebentou com a música do “Kabulu”∗, ninguém mais lhes agarrou, quase o baile ia ficar só deles os dois, toda a gente parada a assistir-lhes, vaidosos e satisfeitos. Daí é que nasceu a peleja com João Rosa: o rapaz andava perseguir a garota, queria-lhe para ele, mas, nessa noite, Zeca Santos com a satisfação dos olhos de Delfina, pelejava mesmo que eram muitos. A sorte ficou do lado dele, azar no lado de João porque, lá fora, a luz era pouca. O rapaz usava óculos e falhou o soco na cara; aí, sem custar nada, Zeca caçou-lhe o braço e passou-lhe uma bassula nas costas, mergulhou-lhe em cima da areia.

Mas, mesmo que na peleja Zeca tinha ganhado, o mulato continuou vir buscar Delfina em seu carro pequeno, muitas vezes costumava-lhe trazer também e, nessa hora, era já escuro. Zeca ficava raivado, pensava o silêncio e o escondido do carro, se calhar o sacrista∗ adiantava apalpar as pernas da namorada, muitas vezes, quem sabe? outras coisas mesmo, o carro estava-lhe ajudar...

Por causa disso, nesse dia tinha decidido. Ou era dos copos do vinho no almoço e mais outro com Maneco depois que falaram no Sebastião, ou era ainda, cadavez, essa promessa de trabalho que arranjara, a verdade agora estava ver tudo com mais confiança, satisfeito quase. Sem querer mesmo, o pensamento do dinheiro para mandar consertar sapatos, muitas vezes umas calças novas, juntava-se com a figura de Delfina, com seu riso e seu falar, seu encostar pequeno e bom, na hora dos tangos, na farra...

Sebastião tinha-lhes recebido bem, Maneco era amigo. Grande, careca quase, o homem falou com voz grossa em Zeca Santos, apalpou-lhe ainda os braços, depois cuspiu. Mas Maneco estava a ajudar-lhe:

— Deixa, Mbaxi∗! O rapaz precisa...

Sebastião Cara-de-Macaco — Polo ia Hima∗, como gritavam todos os homens do cariengue∗, por ali deitados nas sombras das árvores, esperando as camionetas — foi avisando o trabalho era pesado, pega sete horas, despega seis horas e todo o dia é aguentar os sacos de cimento nas costas, carregar as camionetas, descansar só mesmo para uma sandes∗ de peixe frito. E depois o pior é esse pó toda a hora, ainda que põe lenço na boca, ele entra na mesma.

— E você, rapaz, és fraco! Não quero t’aldrabar∗!...

Zeca Santos resmungou qualquer coisa, nem ele mesmo que percebeu o quê, o homem fazia respeito com seu largo peito e braços pareciam eram troncos de pau, a voz grossa, as pernas grandes saindo duma calça rasgada em feitio de calção. Apontando em todos os outros por ali sentados ou deitados, Sebastião riu um grande riso de dono e falou-lhes, mais baixo agora:

— Você vai roubar serviço num desses homens!... Mas deixa só! Eu é que escolho quando vêm os camiões... e você vai comigo!

Maneco apertou-lhe a mão para despedir, mas o homem não aceitou. Continuou rir, ria, e falou outra vez. Zeca Santos não percebia por que o homem ria assim, mas as palavras espantaram:

— Os gajos costumam pagar quarenta, nesse serviço. Já foi sessenta cada dia, mas tem sempre cada vez mais gente aqui para trabalhar e os sacanas fazem abatimento...

Olhou para todos os lados, calado e desconfiado agora, e os olhos brilharam na cara achatada de grande queixo.

— Dez paus cada dia, são para mim. Aceitas?

Zeca Santos abriu a boca, mas Maneco já refilava:

— Ená, Mbaxi! Vê ainda o rapaz, pópilas!∗ Tem pessoa de família para comer...

— E eu? Não tenho meus sete filhos? Como vou dar de comer? Enh? E vestir? Se não aceita tem aí quem me dá mesmo metade, se lhe deixo ir no cimento!

Maneco quis ainda protestar, arranjar abatimento, cinco estava muito bem, o rapaz tinha de fazer força, lutar, não estava habituado, merecia o vencimento...

— Por isso mesmo! — riu. — Por isso mesmo! O miúdo vai fazer mangonha∗, eu é que vou lhe carregar o resto dele...

No meio desse riso assim, que lhe sacudia os músculos dentro da camisola, virou-lhes as costas e adiantou deitar outra vez debaixo da velha árvore onde estava, gritando depois:

— Seis horas, sem falta! Senão, entra outro! E dez paus...

Maneco pôs-lhe um manguito∗ e Zeca Santos foi ainda muito tempo com um peso no coração, nem lhe apetecia falar, antes de despedir o amigo e chegar na porta da fábrica de tabacos, adiantar combinar encontro com Delfina.

Mas agora, com a rapariga ali ao lado, não tinha mais lembrança de Sebastião Polo ia Hima. O calor começava já fugir com medo da noite que vinha e um vento, guardando o fresco da chuva da manhã, batia o vestido de Delfina de encontro às pernas fortes, ao corpo rijo dela, O capim verde convidava de todos os lados e, molhado como estava, punha cócegas nos pés de Zeca Santos, metendo-se nos sapatos rotos. Ia muito calado, não sabia mais o que dizer a Delfina, tudo quanto estava inventar debaixo do sape-sape, essas palavras doces que nasciam à toa no calor das farras, agora ali não aceitavam sair. Pelo carreiro acima, devagar, sentia as cigarras a cantar nos troncos das acácias, o vento a dançar os ramos cheios de flores, as folhas murmurando uma conversa parecia de namorados, todo o barulho das picas∗, dos pardais, dos plim-plaus aproveitando os bichos das chuvas. Delfina vinha com um pequeno sorriso escondido, de fazer-pouco, e foi ela quem adiantou interromper esse silêncio:

— Ená! Então você me dá encontro e não dizes nada?

— Oh!... O que eu quero falar você já sabe, Fina!

— Ih!? Já sei? Quando é que falaste? E trabalho, já arranjaste?





continua página 024...

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∗ sape-sape— árvore da família da fruta-pinha.
∗ xaxualhar — balançar fazendo ruído; farfalhar; rumorejar.
∗ muringue — moringa; cântaro; pote de barro para água.
∗ merengar — dançar o merengue (ritmo musical).
∗ “Kabulu” — Coelho (das fábulas); música original do conjunto Ngota Ritmo.
∗ sacrista — sacana.
∗ Mbaxi — Sebastião.
∗ Polo ia Hima — cara de macaco.
∗ cariengue — sistema de trabalho que emprega mão-de-obra avulsa: trabalho temporário.
∗ sande — sanduíche.
∗ aldrabar — enganar; mentir; passar conto do vigário.
∗ pópilas! — exclamação de surpresa, que equivale aproximadamente a “ora bolas!”.
∗ mangonha — preguiça.
∗ manguito — gesto obsceno feito com os dois braços.
∗ pica — o mesmo que pica-flor; beija-flor.

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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


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