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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (IV.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

IV


     Mas era preciso fazer desaparecer aquele cadáver. Etienne pensou primeiro em jogá-lo ao canal. Mudou de ideia com a certeza de que lá seria encontrado. Sua ansiedade crescia com o correr dos minutos. Que decisão tomar? Teve uma inspiração súbita: se pudesse levar o corpo até Réquillart, saberia então como fazê-lo desaparecer para sempre. 

— Vem aqui — disse para Jeanlin. O menino estava arredio. 
— Não, queres bater-me. E agora tenho o que fazer. Boa noite. Realmente, tinha combinado com Bébert e Lydie encontrarem-se num esconderijo, um buraco que haviam preparado sob a provisão de madeira da Voreux. Para eles era uma farra enorme dormirem fora de casa para assistir à surra que os belgas iam levar se descessem à mina. 
— Escuta, vem aqui — repetiu Etienne —, ou eu chamo os soldados para te cortarem a cabeça.

     E, como Jeanlin se decidisse a ajudá-lo, amarrou fortemente seu lenço no pescoço do soldado, sem retirar a faca, que impedia o sangue de correr A neve derretia-se, o solo não estava manchado de sangue e não havia mesmo vestígios de luta 

— Pega pelas pernas.

     Jeanlin fez o que Etienne mandava, enquanto este segurava o morto pelos ombros, depois de colocar o fuzil às costas. E assim desceram lentamente o aterro, cuidando para não fazer rolar nenhuma pedra. Felizmente a lua estava escondida quando se esgueiravam, porem, pela margem do canal, ela surgiu, muito clara, e foi um milagre não os verem do posto da guarda. Silenciosos, caminhavam às pressas, atrapalhados pelo balanço do cadáver, sendo obrigados a pousá-lo de cem em cem metros. A esquina da viela de Réquillart ficaram horrorizados ao ouvir o barulho de passos e mal tiveram tempo de se esconder por trás de um muro para deixar passar uma patrulha. Mais adiante foram surpreendidos por um homem, mas ia bêbado e afastou-se injuriando-os. Chegaram enfim à galeria antiga, alagados de suor, tão perturbados que batiam o queixo.
     Etienne havia pensado que não seria fácil passar o soldado pelo fosso das escadas. Foi uma trabalheira medonha. Primeiro, Jeanlin, de cima, deixou escorregar o corpo, enquanto ele, suspenso do matagal, acompanhava-o, para ajudá-lo a transpor os dois primeiros patamares, onde faltavam alguns degraus. Em seguida, a cada escada, teve de repetir a mesma manobra, descer primeiro, depois recebê-lo em seus braços. E isso se repetiu nos trinta lances seguintes, duzentos e dez metros, sentindo-o continuamente cair sobre si. O fuzil machucava-lhe a espinha, não quis que o menino fosse buscar o coto de vela, que poupara avaramente. Para quê? A luz viria atrapalhá-los mais ainda naquele buraco estreito. Contudo, quando chegaram à embocadura da galeria, exaustos, mandou Jeanlin buscar a vela. Sentou-se perto do corpo, em meio às trevas, com o coração aos pulos.
     Assim que Jeanlin voltou com a luz, Etienne consultou-o, já que o menino conhecia muito bem aquelas obras antigas, ate as fendas por onde os homens não podiam passar. Tornaram a partir arrastando o morto cerca de um quilômetro, por um dédalo de galerias em ruínas. Por fim, o teto foi ficando mais baixo, já estavam ajoelhados, por baixo de uma rocha que se esfarelava e era escorada por caibros meio rachados. Era uma espécie de caixa comprida, ali colocaram o soldadinho como num caixão, pondo a seu lado o fuzil. Depois, a pontapés, acabaram de quebrar os caibros, arriscando lá ficarem também. Imediatamente a rocha se fendeu; apenas tiveram tempo de se arrastar para fora. Quando Etienne se voltou, querendo ver, a queda do teto continuava, esmagando lentamente o corpo sob o peso enorme. Dentro em pouco — o via mais nada a não ser a enorme massa de terra.
     Tendo voltado ao seu canto da caverna onde armazenava os outros, Jeanlin atirou-se sobre a palha, murmurando, prostrado 

— Bolas! os garotos que me esperem, vou dormir uma hora.

     Etienne tinha apagado a vela, da qual só restava um pedaço muito pequeno. Ele também estava exausto, mas não tinha sono, com a cabeça martelada por dolorosos pensamentos, que eram como pesadelos. Em breve, só um ficou, torturante, fatigando-o com uma interrogação a que não podia responder: por que não tinha acabado com Chaval quando o subjugara com a faca? E por que aquela criança terminava de esfaquear um soldado de quem nem sequer o nome sabia? Essa coragem para matar, o direito de matar, transtornava todas as suas crenças revolucionárias. Sena um covarde? O menino, deitado na palha, pusera-se a roncar, com um ronco de embriagado, como se estivesse curando a bebedeira de seu crime. E, repugnado, irritado, Etienne sofria com a sua presença. De repente estremeceu, um sopro de medo roçara-lhe o rosto. Um roçar muito leve, um soluço parecia-lhe ter saído das profundezas da terra. A imagem do soldadinho, deitado lá no fundo com seu fuzil, debaixo das rochas, fez que sentisse um arrepio nas costas e os cabelos em pé. Era idiota, toda a mina se enchia de murmúrios, teve de acender novamente a vela e só sossegou vendo o vazio das galerias àquela pálida claridade.
     Ainda durante um quarto de hora esteve refletindo, sempre assolado pela mesma luta, com os olhos fixos naquele pavio que ardia. Mas houve um deslocamento de ar, o pavio foi-se afogando, e tudo voltou às trevas. Sentiu outro arrepio, teve ímpetos de esbofetear Jeanlin para impedi-lo de ressonar tão alto. A presença do menino era-lhe tão insuportável que fugiu em busca de ar livre, correndo pelas galerias e pelo poço das escadas, como se ouvisse uma sombra resfolegante a persegui-lo.
     Em cima, entre as ruínas de Réquillart, Etienne pôde enfim respirar à vontade. Já que não ousava matar, restava-lhe morrer. Essa ideia de morte, que já tivera uma vez, renascia, tomava corpo no seu cérebro como uma derradeira esperança. Morrer corajosamente, pela revolução, eis a solução que acabaria com todos os seus problemas, impedindo-o de continuar pensando. Se seus companheiros atacassem os belgas, ele estaria na vanguarda e teria a oportunidade de receber os primeiros golpes. E foi com passos firmes que voltou a rondar a Voreux...
     Deram duas horas. Da sala dos contramestres, onde se instalara a guarda que protegia a mina, elevava-se uma grande algazarra. O desaparecimento da sentinela alvoroçara os soldados, tinham ido acordar o capitão e acabaram acreditando que houvera deserção, após meticuloso exame do local. E, à espreita na sombra, Etienne pensou nesse capitão republicano, de quem o soldadinho lhe falara. Quem sabe se não o decidiriam a passar para o lado do povo? Se a tropa se recusasse a atirar, isso podia ser o sinal para o massacre dos burgueses. Começou a voar nas asas de outro sonho; não mais pensou em morrer, permaneceu horas com os pés enfiados na lama, a neblina do degelo a cair-lhe nos ombros, arrebatado pela esperança de uma vitória ainda possível.
     Até as cinco horas esperou pela chegada dos operários belgas. Depois deu-se conta de que a companhia tivera a inteligência de fazê-los dormir na Voreux. A descida começou, os poucos grevistas do Deux-Cent Quarante colocados de piquete hesitavam em prevenir os companheiros. Foi Etienne quem os advertiu sobre o que se estava passando, e eles partiram correndo, enquanto o rapaz esperava atrás do aterro, perto do embarcadouro. Deram seis horas. O céu escuro ia ficando pálido, iluminando-se com um alvorecer avermelhado, quando o Padre Ranvier surgiu por um atalho, com a batina arregaçada sobre as pernas magras. Todas as segundas-feiras ia dizer a missa na capela de um convento, do outro lado da mina. 

— Bom dia, meu amigo — disse em voz forte, depois de examinar o rapaz com seus olhos de fogo.

     Etienne não respondeu. Ao longe, por entre os cavaletes da Voreux, vira passar uma mulher e precipitou-se, inquieto, julgando ter reconhecido Catherine.
     Desde a meia-noite que Catherine palmilhava o degelo dos caminhos. Chaval, ao voltar, encontrou-a deitada e a pôs em pé com um tabefe, gritando-lhe que saísse imediatamente se não quisesse voar pela janela. E ela, em lágrimas, sem abrigo, com as pernas todas roxas dos pontapés, tivera de sair, empurrada para fora com um último tapa. Essa separação brutal a deixara tonta. Sentara-se num portal, olhando a casa, esperando que ele a chamasse de volta, porque não era possível, ele devia estar espiando-a pela janela para mandá-la subir assim que a visse tiritar, abandonada, sem ninguém que a recolhesse.
     Depois, passadas duas horas, decidiu-se, morrendo de frio naquela imobilidade de cão escorraçado: saiu de Montsou pelo mesmo caminho em que viera, sem ousar chamar da calçada ou bater na porta Afinal, tomou a estrada larga, planejando dirigir-se para o conjunto habitacional, à casa dos pais. Mas, quando lá chegou, foi possuída por tamanha vergonha, que correu ao longo dos jardins, temendo ser reconhecida por alguém, não obstante o pesado sono em que tudo estava mergulhado por trás das persianas fechadas. E, a partir daí, andou ao acaso, apavorada ao menor ruído, com medo de ser apanhada e conduzida como prostituta para a casa pública de Marchiennes, cuja ameaça a perseguia como um pesadelo havia meses. Por duas vezes foi dar na Voreux, assustando-se com a algazarra da casa da guarda, correndo esbaforida, olhando para trás, temendo que a perseguissem. A ruela de Réquillart estava sempre cheia de homens bêbados, mas ela acabou indo até lá, na vaga esperança de encontrar aquele que a expulsara horas antes.
     Naquela manhã Chaval devia ir trabalhar. Este pensamento trouxe novamente Catherine para as proximidades da mina, se bem que soubesse que seria inútil falar-lhe: estava tudo acabado entre eles. Na Jean-Bart não havia mais trabalho e o homem jurara matá-la se ela voltasse a trabalhar na Voreux, onde temia comprometer-se em sua companhia. Que fazer, então? Ir embora, morrer de fome, ceder à sanha de todos os homens que passassem? Arrastava-se, tropeçava nas poças, as pernas trêmulas, toda enlameada. O degelo transformara-se numa enxurrada de lodo pelos caminhos; ela atolava-se, andando sempre, sem ânimo para procurar uma pedra onde pudesse sentar-se.
     Surgiu o dia. Catherine reconheceu Chaval pelas costas, contornando prudentemente o aterro, no mesmo momento em que percebeu Lydie e Bébert, espiando do seu esconderijo, no monte de madeiras. Tinham passado a noite ali, esperando, sem se atreverem a voltar para casa, já que a ordem de Jeanlin era de esperarem por ele. E, enquanto este, em Réquillart, curava a embriaguez do seu crime, as duas crianças tinham-se lançado nos braços uma da outra, para aquecerem-se. O vento assobiava por entre os toros de castanheiro e carvalho, eles se enovelavam, como se estivessem numa cabana de lenhador abandonada. Lydie não ousava dizer em voz alta seus sofrimentos de menina-mulher acostumada a apanhar, da mesma forma que Bébert não tinha coragem para queixar-se dos tabefes com que seu capitão lhe inchava o rosto. Mas este, no final das contas, estava abusando demasiado, fazendo que arriscassem suas peles em roubos que eram verdadeiras loucuras e depois recusando-se a fazer a partilha. E nos seus coraçõezinhos começou a pulsar revolta, acabaram beijando-se apesar da proibição do outro, não se importando de receber um tapa do invisível, com que ele os ameaçava. O tapa não veio e eles continuaram a beijar-se docemente esquecidos de todo o resto, pondo nessa carícia sua longa paixão reprimida, tudo o que havia neles de martirizado e enternecido. Durante toda a noite tinham-se aquecido dessa maneira, tão felizes no fundo daquele buraco inóspito, que nem se lembravam de algum vez o terem sido tanto, nem mesmo na festa de Santa Bárbara quando comiam filhoses e bebiam vinho.
     Um toque repentino de clarim fez Catherine estremecer. Pôs-se na ponta dos pés e viu a guarda da Voreux armando-se. Etienne surgiu correndo. Bébert e Lydie, de um pulo, saltaram para fora do esconderijo. Ao longe, dentro do dia que clareava, um bando de homens e mulheres vinha descendo do conjunto habitacional, com grandes gestos de cólera.

continua na página 362...
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Sexta Parte - (IV.b) /    
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.



GERMINAL de Émile Zola por Miriam Bevilacqua




segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Moby Dick: 73 - Stubb e Flask matam uma Baleia Franca

Moby Dick

Herman Melville

73 - Stubb e Flask matam uma baleia Franca; e depois conversam a respeito dela

     É preciso ter em mente que, durante todo esse tempo, tivemos uma prodigiosa cabeça de Cachalote balançando no costado do Pequod. Mas será preciso deixá-la ali pendurada por algum tempo até que tenhamos condições de lhe dar atenção. No momento, outros são os assuntos urgentes, e o melhor que podemos fazer pela cabeça, por ora, é rezar aos céus para que as talhas aguentem.
     Ora, durante a noite e pela manhã, o Pequod havia sido levado aos poucos para um mar que, por suas áreas ocasionais de brit amarelo, revelava indícios inusitados da presença de Baleias Francas nos arredores, uma espécie do Leviatã que poucos imaginavam àquela época estar se movendo em quaisquer imediações. Embora, em geral, os marinheiros desprezassem a captura daquelas criaturas inferiores; embora o Pequod não estivesse autorizado a persegui-las, e embora tivesse encontrado várias delas perto das ilhas Crozet sem ter descido os botes; no entanto, uma vez que um Cachalote havia sido levado para o navio e decapitado, para a surpresa de todos, foi anunciado que uma Baleia Franca deveria ser capturada naquele dia, caso houvesse oportunidade.
     E a oportunidade não tardou. Jatos altos foram vistos a sotavento; e dois botes, os de Stubb e Flask, foram destacados para a perseguição. Vogando sempre para longe, eles por fim ficaram praticamente invisíveis para os homens no topo do mastro. Mas subitamente, a distância, avistaram uma grande quantidade de água branca em movimento, e em seguida notícias do topo informavam que um dos botes ou ambos deviam estar indo depressa. Passado um tempo, os botes surgiram inteiros aos olhos dos gajeiros, ambos arrastados em direção ao navio pela baleia rebocadora. Tão perto a baleia chegou do casco que, de início, parecia que tinha intenções malignas; mas afundando de repente num redemoinho, a cerca de cinquenta pés das pranchas, ela desapareceu completamente da vista, como se mergulhasse sob a quilha. “Cortar, cortar!”, foi o grito que saiu do navio para os botes, que, por um instante, pareciam a ponto de se chocar mortalmente contra o costado do veleiro. Mas, havendo linha suficiente nas selhas, e a baleia não tendo mergulhado muito depressa, soltaram a corda em abundância e, ao mesmo tempo, remaram com toda a força para ficar à frente do navio. Por alguns minutos, a luta foi intensamente travada; pois, enquanto ainda afrouxavam a linha esticada em uma direção, e ainda impunham aos remos a contrária, a tração conflituosa ameaçava afundá-los. Mas ganhar alguns metros na dianteira era tudo o que queriam. E insistiram até que os ganharam; quando, subitamente, se sentiu um breve tremor correndo como um relâmpago ao longo da quilha, enquanto a ostaxa esticada, arranhando a base do navio, reapareceu de repente sob a proa, estalando e vibrando; e lançando tão violentamente suas gotas d’água que elas caíam como cacos de vidro na água, enquanto a baleia mais adiante também reaparecia, e mais uma vez os botes ficavam livres para correr. Mas a baleia cansada diminuiu a velocidade e, alterando seu rumo às cegas, deu a volta na popa do navio rebocando os dois botes, de forma que percorreram um circuito completo.
     No entretempo, eles puxaram mais e mais suas ostaxas, até que, flanqueando a baleia de perto pelos dois lados, Stubb e Flask arremessaram suas lanças; e assim, a batalha continuou, dando voltas no Pequod, enquanto as multidões de tubarões que antes nadavam em torno do corpo do Cachalote correram para o sangue fresco que derramava, bebendo-o com sede a cada novo corte, como os ávidos Israelitas o fizeram nas fontes novas que brotaram da rocha fendida.
     Por fim seu sopro ficou espesso e, com um tranco e um vômito horrível, a baleia virou de costas, um cadáver.
     Enquanto os dois oficiais se ocupavam de amarrar as cordas à cauda da baleia, nesse sentido cuidando para que a massa pudesse ser rebocada, iniciaram uma conversa.

“O que será que o velho deseja com esse monte de banha fétida?”, disse Stubb, não sem alguma aversão à ideia de ter de lidar com um Leviatã tão desprezível. 
“O que deseja?”, disse Flask, enrolando a ostaxa sobressalente na proa do bote, “você nunca escutou falar que desde que um navio traga a cabeça de um Cachalote pendurada a estibordo, e ao mesmo tempo a de uma Baleia Franca a bombordo; Stubb, você nunca escutou que esse navio nunca mais poderá naufragar?” 
“Por que não?”
“Eu não sei, mas escutei Fedallah, aquele fantasma amarelo, dizer isso e parece que sabe tudo a respeito de feitiços de navios. Mas às vezes acho que ele vai enfeitiçar o navio com maldade. Não gosto nem um pouco daquele sujeito, Stubb. Você já percebeu que aquela presa dele parece entalhada na cabeça de uma cobra, Stubb?” 
“Afogue-o! Nunca olho para ele; mas se eu tiver uma oportunidade, numa noite escura, e ele estiver ocupado em sua vigília na amurada, com ninguém por perto; olha lá, Flask” – apontando para o mar com um gesto específico de ambas as mãos – “Sim, eu o faço! Flask, tenho para mim que Fedallah é o demônio disfarçado. Você acredita naquela história sem pé nem cabeça de que ele veio a bordo como clandestino? Ele é o demônio, vá por mim. A gente só não vê o rabo dele porque ele o esconde; acho que enrolado em seu bolso. Maldito seja! Pensando nisso, ele sempre pede estopa para colocar na ponta das suas botas.”
“Ele dorme em suas botas, não é? Ele não tem rede; mas eu já dei com ele deitado sobre um rolo de cordame.” 
“Sem dúvida, e isso é por causa de seu maldito rabo; ele o deixa enrolado no olho do cordame.” 
“O que será que o velho tanto quer com ele?” 
“Uma troca ou uma barganha, creio.” 
“Barganha? – de quê?”
“Ora, preste atenção, o velho está empenhado na caça da Baleia Branca, e o diabo está tentando envolvê-lo, aliciá-lo em troca de seu relógio de prata, ou de sua alma, ou de qualquer coisa do gênero, para depois lhe entregar Moby Dick.” 
“Ora essa! Stubb, você está de brincadeira; como Fedallah pode fazer uma coisa dessas?” 
“Não sei, Flask, mas o diabo é um sujeito curioso e bem malvado, posso lhe garantir. Pois bem, dizem que certa vez foi dar um passeio numa velha nau capitânia, abanando a cauda de modo diabólico e cavalheiresco e perguntando se o velho comandante estava em casa. Bem, ele estava em casa e perguntou ao diabo o que queria. O diabo, batendo os cascos, se levanta e diz, ‘Quero o John’. ‘Para quê?’, pergunta o velho comandante. ‘O que você tem com isso?’, disse o diabo, ficando irritado, – ‘Quero usá-lo!’. ‘Leve-o’, diz o comandante – e, pelo amor de Deus, Flask, se o diabo não castigou John com a cólera Asiática antes de acabar com ele, eu como essa baleia em uma bocada. Mas cuidado – você ainda não ‘tá pronto? Bem, puxe daí, e vamos deixar a baleia ao longo do costado.”
“Acho que me lembro de uma história como essa que você contou”, disse Flask, quando, por fim, os dois botes avançavam lentamente com a carga em direção ao navio, “mas não consigo me lembrar de onde.” 
“Nos Três espanhóis? As aventuras dos três soldados sanguinários? Você leu ali, Flask? Acho que sim.” 
“Não: nunca vi tal livro; já ouvi falar dele, de todo modo. Mas agora me diga uma coisa, Stubb, você acha que o diabo de quem você estava falando agora é o mesmo que você diz estar a bordo do Pequod?”
“Sou o mesmo homem que ajudou a matar essa baleia? O diabo não vive para sempre? Quem já ouviu falar que o diabo morreu? Você já viu algum padre enlutado por causa do diabo? Se o diabo tem uma chave de cadeado para entrar na cabine do almirante, você não acha que ele pode rastejar pela vigia? Responda, senhor Flask.” 
“Quantos anos você acha que Fedallah tem, Stubb?”
“Você está vendo o mastro principal ali?”, apontando para o navio; “bem, esse é o número um; agora pegue todos os aros do porão do Pequod e os coloque enfileirados atrás do mastro, no lugar dos zeros, entendeu? Bem, isso não daria para o começo da idade de Fedallah. Nem todos os toneleiros trabalhando juntos poderiam oferecer aros em número suficiente para tantos zeros.” 
“Mas vê bem, Stubb, agora mesmo achava você um pouco cheio de bravata, quando disse que jogaria Fedallah ao mar, se houvesse oportunidade. Ora, se ele é tão velho quanto esses seus aros dizem, se ele vai viver para sempre, de que adiantaria jogá-lo ao mar – quer me dizer?”
“Ele ao menos ganharia um bom mergulho.” 
“Mas ele voltaria.” 
“E que ele mergulhasse de novo; e assim continuasse, mergulho após mergulho.” 
“E se ele tivesse a ideia de fazer você mergulhar também – sim, e afogá-lo –, e então?”
“Gostaria de vê-lo tentar; eu lhe daria dois olhos tão roxos que ele não ousaria mais mostrar seu rosto na cabine do almirante por um bom tempo, muito menos naquele bailéu, onde ele vive, e no tombadilho, por onde se move sorrateiro. Dane-se o diabo, Flask; você pensa que tenho medo do diabo? Quem tem medo dele, a não ser o velho comandante, que não ousa agarrá-lo e algemá-lo, como merece, mas o deixa andar por aí roubando pessoas? Sim, e assinou um contrato com ele permitindo que fritasse todas as pessoas que tivesse roubado. Que comandante!” 
“Você acredita que Fedallah queira roubar o Capitão Ahab?”
“Se acredito? Logo vai saber, Flask. Mas agora vou ficar de olho nele; e, se eu vir alguma coisa suspeita acontecendo, vou agarrá-lo pelo colarinho e dizer – Olha aqui, Belzebu, você não vai fazer isso; e se ele fizer algum estardalhaço, juro por Deus que tiro o rabo dele do bolso, levo para o cabrestante e dou-lhe tantos puxões e trancos que seu rabo vai ficar tão pequeno quanto um coto – entendeu? E depois disso, creio que quando se vir atracado daquele jeito esquisito, decepado, vai rastejar daqui sem nem ao menos sentir alegria de ter o rabo entre as pernas.” 
“E o que você vai fazer com o rabo, Stubb?”
“O que vou fazer? Vendê-lo como um chicote de boi quando voltarmos para casa – o que mais?” 
“Ora, você está falando a sério? Você está falando a sério desde o começo, Stubb?” 
“Sério ou não, agora chegamos ao navio.”

     Os botes foram chamados para rebocar a baleia para o costado de bombordo, onde correntes para a cauda e outros apetrechos haviam sido preparados para prendê-la.

“Não falei?”, disse Flask; “sim, em breve você vai ver a cabeça dessa baleia franca pendurada do lado oposto à do Cachalote.”

     Não muito depois, as palavras de Flask provaram ser verdadeiras. Antes o Pequod havia se inclinado abruptamente na direção da cabeça do Cachalote; agora, com o contrapeso das duas cabeças, a quilha retomou a posição de sempre; embora isso lhe custasse muito esforço, acredite. Assim, quando você iça de um lado a cabeça de Locke, vai-se para esse lado; mas então erga a cabeça de Kant do outro lado, e você volta à posição anterior; mas num estado deplorável. Desse modo, certas mentes estão sempre tentando retomar o prumo. Ó, insensatos! Jogai ao mar todas essas cabeças retumbantes e navegareis direto e reto.
     Arrumando o corpo de uma baleia franca, quando trazida para o costado do navio, segue-se o mesmo procedimento preliminar dedicado ao Cachalote; apenas, no caso do último, a cabeça é cortada por inteiro, enquanto no primeiro lábios e língua são retirados e pendurados separadamente no convés, com a conhecida barbatana escura presa à chamada coroa. Mas, nesse caso, nada disso foi feito. As carcaças das duas baleias foram deixadas para trás; e o navio levando as duas cabeças parecia uma mula carregando dois cestos muito pesados.
     Enquanto isso, Fedallah olhava tranquilamente para a cabeça da baleia franca, e, de vez em quando, seus olhos passavam das rugas profundas do animal para as linhas de sua própria mão. E Ahab estava numa posição tal, que o Parse ocupava sua sombra; enquanto, se é que o Parse tinha uma sombra, esta se fundiu com a de Ahab, encompridando-a. Enquanto os marinheiros trabalhavam, faziam conjecturas Lapônicas a respeito de todas as coisas acontecidas.

continua na página 357...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
73 - Stubb e Flask matam uma Baleia Franca                                
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

domingo, 23 de agosto de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (VIII. Saboreando o conhaque)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
VIII
SABOREANDO O CONHAQUE
 
     A discussão chegara ao fim, mas, coisa estranha, Fiódor Pávlovitch, tão alegre até então, ensombreceu-se. Serviu-se de mais um copo de conhaque, o que já era demais.

— Vão-se embora, jesuítas, fora daqui! — gritou ele para os criados.
— Vai-te, Smierdiákov, receberás hoje o ducado prometido. Não te desoles, Gregório, vai procurar Marfa, ela te consolará, cuidará de ti. Esses canalhas não nos deixam descansar — disse ele, de mau humor, quando os criados saíram, obedecendo-lhe às ordens.
— Smierdiákov vem agora aqui todos os dias depois do jantar. És tu que o atrais, que o tratas com mimos? — perguntou ele a Ivã Fiódorovitch.
— Absolutamente — respondeu este.
— Deu-lhe na veneta mostrar respeito por mim, é um lacaio, um pulha. Fará parte da vanguarda, quando o momento chegar. 
— Da vanguarda?  
— Haverá outros e melhores, mas haverá muitos como ele.
— E quando chegará o momento?
— O foguete arderá, mas talvez não até o fim. No momento, não gosta o povo de ouvir esses queima panelas.
— Com efeito, aquela burra de Balaão pensa que não acaba mais, e Deus sabe até onde isso pode ir. 
— Ele armazena idéias — observou Ivã, sorrindo.
— Vês tu? Sei que ele não me pode tolerar, nem a mim nem aos outros, e a ti em primeiro lugar, se bem que creias que "lhe deu na veneta mostrar respeito por ti". E quanto a Aliócha, ele despreza Aliócha. Mas não é ladrão, nem falador; não sai espalhando coisas; faz excelentes pastéis de peixe... Ah! Afinal, que o diabo o leve! Vale a pena falar dele?
— Decerto que não.
— E, quanto ao que ele pensa lá consigo, é preciso em geral chicotear o mujique russo. Sempre foi minha opinião. Nosso mujique é um velhaco, indigno de compaixão, e fazem bem em bater-lhe por vezes ainda agora. É a bétula que faz a força da terra russa, e ela perecerá com as florestas. Sou a favor das pessoas de espírito. Deixamos de bater nos mujiques, por liberalismo, mas eles continuam a chicotear a si mesmos. E fazem bem. "Com a medida com que me dirdes, vos medirão a vós. " É bem isto, não é?... Meu caro, se soubesses como odeio a Rússia... isto é, não a Rússia, mas todos os seus vícios... e talvez a Rússia. Tout cela, c'est de Ia cochonnerie. Sabes o que amo? Amo o espírito. 
— O senhor serviu-se outro copo. Já bebeu bastante.
— Espera, tomarei ainda dois e acabou-se. Mas interrompeste-me. De passagem por Mókroie, conversei um dia com um velho, que me disse: "Gostamos, mais do que tudo, de condenar as moças a açoites, e encarregamos os rapazes de executar a sentença. Em seguida, o rapaz toma como noiva aquela a quem chicoteou, de modo que se tornou isso um costume entre nós para as moças". Que sadistas, hein? Digam o que disserem, é engraçado. Se fôssemos ver isso, hein? Aliócha, ficas corado? Não te envergonhes, meu filho. É pena que não tenhas ficado hoje para jantar com o padre abade. Teria falado aos monges a respeito das moças de Mókroie. Aliócha, não me queiras mal por ter ofendido o padre abade. A cólera arrebata-me. Porque, se há um Deus, se ele existe, evidentemente sou culpado então, e responderei por isso, mas, se ele não existe, há necessidade ainda desses teus padres? Não seria demais se lhes cortassem a cabeça, porque eles impedem o progresso. Crês tu, Ivã, que isso me atormenta? Não, tu não o crês, vejo-o nos teus olhos. Crês que não sou senão um palhaço, como se pretende. Aliócha, crês tu nisso, crês tu?
 — Não, não o creio.
— E eu estou persuadido de que falas sinceramente e que vês com justeza. Não és como Ivã. Ivã é presunçoso... No entanto, gostaria de acabar com o teu mosteiro. Seria preciso suprimir duma vez essa engenhoca mística em toda a terra russa, para converter todos os imbecis à razão. Quanto dinheiro e quanto ouro afluiriam para o Tesouro!
— Mas por que suprimir os mosteiros? — perguntou Ivã.
— A fim de que a verdade resplandeça mais depressa.
— Quando essa verdade resplandecer, primeiramente despojá-los-ão, depois... suprimi-los-ão.  
— Ora! Mas talvez tenhas razão. Que asno sou! — exclamou Fiódor Pávlovitch, coçando a testa. — Paz ao teu mosteiro, Aliócha, se é assim. Nós, pessoas de espírito, ficamos no quente e bebemos conhaque. É sem dúvida a vontade expressa de Deus. Ivã, dize me, há um Deus, sim ou não? Espera, responda-me seriamente! Por que ris ainda?
— Rio de sua observação espirituosa a respeito da fé que revelou Smierdiákov a respeito dos dois eremitas capazes de mover montanhas.
— É a mesma coisa? 
— Totalmente. 
— Pois bem, por consequência, sou também um homem russo, com a mesma característica russa, e tu, filósofo, podes ser apanhado com uma característica do mesmo gênero. Queres que te apanhe? Apostemos que será amanhã. Mas dize-me, no entanto, há um Deus ou não? Somente é preciso que me fales seriamente. 
— Não, não há Deus. 
— Aliócha, Deus existe? 
— Sim, existe. 
— Ivã, há imortalidade? Por pequena que seja, por mais modesta? 
— Não, não há. 
— Nenhuma? 
— Nenhuma.
— Quer dizer, um zero absoluto, ou uma parcela? Não haveria uma parcela? 
— Um zero absoluto. 
— Aliócha, há imortalidade? 
— Sim. 
— Deus e a imortalidade juntos? 
— Sim. É em Deus que repousa a imortalidade.
— Hum! Deve ser Ivã quem tem razão. Senhor, quando se pensa quanto de fé e de energia essa quimera tem custado ao homem, em pura perda, desde milhares de anos! Quem, pois, zomba assim da humanidade? Ivã, pela derradeira vez e categoricamente: há um Deus, sim ou não? 
— Não, pela derradeira vez. 
— Quem, pois, zomba do mundo, Ivã? 
— O diabo, provavelmente — escarneceu Ivã. 
— O diabo existe? 
— Não, não existe. 
— Tanto pior. Não sei o que teria eu feito ao primeiro fanático que inventou Deus. Enforcá-lo seria insuficiente! 
— Sem essa invenção, não haveria civilização. 
— Deveras? Sem Deus? 
— Sim. E não haveria conhaque tampouco. Vai ser preciso retirá-lo. 
— Espera, espera! Ainda um copito! Ofendi Aliócha. Não me queres mal, não é, meu queridinho Alieksiéitchik? 
— Não, não lhe quero mal. Conheço seus pensamentos. Seu coração vale mais que sua cabeça. 
— Meu coração vale mais que minha cabeça? De quem são essas palavras? Ivã, gostas de Aliócha? 
— Sim, amo-o. 
— Ama-o (Fiódor Pávlovitch estava meio embriagado). Escuta, Aliócha, fui grosseiro há pouco com teu stáriets, mas estava superexcitado. É um homem inteligente, que achas, Ivã? 
— Poderia ser. 
— Decerto, il y a du Piron là-dedans¹. É um jesuíta russo. A necessidade de representar a comédia, de usar uma máscara de santidade, indigna-o interiormente, porque é um caráter nobre. 

[1] Há Piron dentro disto.

— Mas ele crê em Deus. 
— Nem 1 copeque. Não o sabias? Ele mesmo fala disso a todo mundo, ou antes, a todas as pessoas inteligentes que vão vê-lo. Declarou sem rebuços ao Governador Schultz: "Creio, mas ignoro em quê". 
— Deveras? 
— É textual. Mas estimo-o. Há nele alguma coisa de Mefistófeles, ou melhor, do Um Herói de Nosso Tempo... Arbiénin, é este mesmo seu nome?.., Vês tu? É um sensual, e a tal ponto que não estaria tranquilo, mesmo agora, se minha mulher ou minha filha fossem confessar-se com ele. Quando começa ele a contar, se tu soubesses... Há três anos, convidou-nos a tomar chá, com licores (porque as damas enviam-lhe licores); pôs-se a descrever sua vida de outrora, de modo que a gente só faltava morrer de rir... e como teve de avir-se para curar uma senhora... "Se não tivesse dor nas pernas", disse ele, "dançaria para vocês certa dança. " Hein? Que sujeito! "Eu também levei vida alegre", acrescentou ele. Extorquiu 60 000 rublos ao negociante Diemídov. 
— Como? Roubando-o?
— O outro havia-se confiado a ele, acreditando-o um homem de honra. "Guarde-os para mim, amanha vão passar minha casa em revista. " O santo homem guardou tudo. "Tu os deste para a igreja", disse ele. Disse- lhe que era ele um tratante. "Não", replicou ele, "mas tenho ideias largas... " De resto, é de um outro que se trata. Confundi... sem dar por isso. Ainda um copinho e pronto. Leva a garrafa, Ivã. Por que não me detiveste nas minhas mentiras? 
— Sabia que o senhor mesmo se deteria.
— É falso, somente por maldade não disseste nada. No fundo, tu me desprezas. Vieste à minha casa para mostrar teu desprezo. 
— Vou-me embora; o conhaque começa a subir-lhe à cabeça. 
— Pedi-te insistentemente que fosses passar um ou dois dias em Tchermachniá, mas não fizeste caso. 
— Partirei amanhã, já que faz tanta questão. 
— Não há perigo. Queres espionar-me; tal é teu fito, maldito, e o que te retém aqui.  

     O velho não se acalmava. Estava naquele ponto em que certos bêbados, até então pacíficos, fazem de repente questão de se mostrarem malvados.
— Que tens para me olhares assim? Teus olhos me dizem: "Vil beberrão". Revelam desconfiança e desprezo. És um velhaco astuto. O olhar de Aliócha resplandece. Ele não me despreza. Alieksiéi, cuida de não amar Ivã. 
— Não se zangue contra meu irmão! Basta de ofendê-lo — proferiu Aliócha, num tom firme. 
 — Pois bem, seja! Ah! que dor de cabeça! Ivã, leva o conhaque, pela terceira vez te digo. — pôs-se a pensar e mostrou de súbito um sorriso astuto. — Não te zangues, Ivã, contra um pobre velho. Não gostas de mim, eu o sei, mas não te zangues. Não há razão para amar-me. Partirás para Tchermachniá, irei encontrar-te lá e te levarei um presente. Mostrar-te ei lá uma mocinha, atrás de quem ando há muito tempo. Anda ainda descalça, mas não tenhas medo das moças descalças, não se deve desprezá-las, elas são umas pérolas!... — e estalou um beijo na mão. — Para mim — animou-se subitamente, como que desembriagado por um instante, abordando seu tema favorito —, para mim... Ah! meus filhos, meus leitõezinhos... para mim... jamais encontrei uma mulher feia, eis minha máxima! Compreendem? Não, não podem. Não é sangue, é leite que corre nas veias de vocês, ainda não quebraram a casca completamente! Na minha opinião, pode-se encontrar em toda mulher algo de muito interessante, que lhe é particular, somente é preciso saber descobri-lo, eis o quid! É um talento! Para mim nunca houve feionas. Basta o sexo e é já muito... Mas isto está fora do alcance de vocês! Até mesmo entre as solteironas velhas, encontram-se por vezes encantos tais, que a gente pergunta a si mesmo como é que imbecis puderam deixá-las envelhecer sem as notar! É preciso em primeiro lugar surpreender uma dessas que andam descalças, é assim que se deve fazer. Não o sabias? É preciso que ela fique maravilhada e confusa por ver um bárin² amoroso do focinhozinho dela. Por sorte, há e sempre haverá senhores para tudo ousar e criadas para obedecer-lhes. Basta isto para felicidade da existência! A propósito, Aliócha, sempre causei espanto à tua defunta mãe, mas duma outra maneira. Por vezes, depois de havê-la privado de carícias, expandia- me diante dela num momento dado, caía a seus joelhos, beijando-lhe os pés, e sempre lhe provocava uma risadinha convulsiva, aguda mas sem estrépito. Ela não ria de outra forma. Sabia que sua crise começava sempre assim, que no dia seguinte ela gritaria como uma possessa, e que aquela risadinha só exprimia a aparência de um entusiasmo; mas era sempre isto! A gente sempre encontra, quando sabe procurar. Um dia um tal Bieliávski, um rico bonitão, que lhe fazia a corte e frequentava nossa casa, esbofeteou-me na presença dela. Mansa como um carneiro, pensei que ela ia bater-me: "Tu foste batido, ele te esbofeteou!", dizia ela. 'Tu me vendias a ele... Como ousou ele, na minha presença? Trata de não me aparecer, corre a desafiá-lo a um duelo!... " Conduzi-a então ao mosteiro, onde rezaram sobre ela para acalmá-la, mas, juro-te perante Deus, Aliócha, jamais ofendi a minha pequena endemoniada. Uma vez somente, foi no primeiro ano de nosso casamento, rezava ela demais, observava estritamente as festas da Virgem, e recusava-me a entrada de seu quarto. "Vou curá-la de seu misticismo!", pensava eu. "Vês", disse, "este ícone que tens como milagroso? Tiro-o, vou cuspir em cima dele na tua presença e nenhum castigo sofrerei!" "Meu Deus, ela vai Tratar-me", digo a mim mesmo. Ela, porém, teve apenas um sobressalto, juntou as mãos, ocultou seu rosto, foi tomada dum tremor e caiu sobre o soalho... Aliócha! Aliócha! Que tens? Que tens?

[2] Senhor. Tratamento respeitoso dado outrora às pessoas classe privilegiada. Atualmente, emprega-se no sentido irônico de comodista, preguiçoso.

     O velho levantou-se, aterrorizado. Desde que se começou a falar de sua mãe, o rosto de Aliócha alterava-se pouco a pouco; corou, seus olhos cintilaram, seu lábios tremeram... O velho bêbedo nada notara, até o momento em que Aliócha teve uma crise estranha, reproduzindo, traço por traço, o que acabava ele de contar a respeito da "endemoniada". De- súbito, levantou-se da mesa, exatamente como sua mãe, de acordo com a narrativa, juntou as mãos, ocultou o rosto, deixou-se cair sobre sua cadeira, todo sacudido por uma crise de histeria, acompanhada de lágrimas silenciosas.

— Ivã! Ivã! Água, depressa! Completamente como a mãe dele. Tira água com a colher grande e asperge o, como eu fazia com ela. É por causa de sua mãe, por causa de sua mãe... — murmurou ele a Ivã.
— Sua mãe era também a minha, suponho, que pensa o senhor? — não pôde Ivã impedir-se de dizer, com um desprezo cheio de cólera. Seu olhar faiscante fez o velho estremecer. Coisa estranha, por um instante, o velho pareceu perder de vista que a mãe de Aliócha era também a de Ivã...
— Como, tua mãe? — murmurou, sem compreender. — Por que dizes isto? A propósito de que mãe? Será que ela... Ah! diabo! é também a tua! Pois bem, onde tinha eu a cabeça? Desculpa-me, mas eu acreditava, Ivã... Eh! eh! eh! — parou, com um sorriso idiota de bêbedo. 

     No mesmo instante, um barulho reboou no vestíbulo, gritos furiosos se elevaram, a porta abriu-se e Dimítri Fiódorovitch irrompeu na sala. O velho apavorado precipitou-se para Ivã. 

— Ele vem matar-me! Não me entregues! — exclamou ele, agarrado às abas do paletó de Ivã.

continua na página 199...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Compreendi que duas horas queria dizer três horas)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Compreendi que duas horas queria dizer três horas, pois já passava das duas. Mas era, em Françoise, um dos defeitos particulares, permanentes e incuráveis, a que chamamos doentios, o de nunca poder olhar nem dizer exatamente a hora. Jamais pude compreender o que se passava na sua cabeça quando Françoise, tendo olhado o relógio, caso fossem duas horas dizia: é uma hora, ou são três horas; jamais pude compreender se o fenômeno que ocorria então tinha por ser do olhar de Françoise, o seu cérebro, ou a sua linguagem; o certo é que tal fenômeno ocorria sempre. A humanidade é muito velha. A hereditariedade e os cruzamentos deram uma força invencível a maus hábitos, a reflexos viciosos. Algumas pessoas espirram e respiram com dificuldade porque passam perto de um arbusto, outras têm erupções devido ao odor da tinta fresca; muitas têm cólicas se é preciso viajar, e netos de ladrões que agora são milionários generosos não resistem à tentação de nos roubar cinquenta francos. Quanto a saber em que consistia a impossibilidade em que se achava Françoise de dizer a hora exata, não foi dela que pude extrair qualquer esclarecimento a respeito. Pois, apesar da cólera que me davam habitualmente suas respostas inexatas, Françoise não procurava desculpar-se pelo erro, nem explicá-lo. Permanecia muda, dava a impressão de não me ouvir, o que acabava de me exasperar. Gostaria eu de ouvir uma palavra de justificação, ainda que fosse apenas para rebatê-la, mas nada; um silêncio indiferente. Em todo caso, quanto a hoje, nenhuma dúvida: Albertine ia voltar com Françoise às três horas, Albertine não veria Léa nem suas amigas. Assim, estando conjurado o perigo que ela renovasse suas relações com tais pessoas, esse perigo logo perdeu importância a meus olhos, e me espantei, ao ver a facilidade com que fora evitado, de ter pensado que não conseguiria que o fosse. Senti um vivo movimento de gratidão por Albertine, a qual, via bem, não fora ao Trocadero por causa das amigas de Léa, e que me mostrava, deixando a vesperal e voltando para casa a um sinal meu, que ela me pertencia para o futuro até mais do que eu imaginava. Maior ainda foi tal sentimento quando um ciclista me trouxe um bilhete dela para que eu tivesse paciência, bilhete em que havia amabilidades que lhe eram comuns: "Meu querido, meu caro Marcel, chego menos depressa que este ciclista, de cuja bicicleta gostaria de utilizar-me para estar mais cedo com você. Como pode imaginar que eu possa ficar aborrecida e que algo possa me agradar mais do que estar junto de você? Seria ótimo sairmos os dois juntos e melhor ainda seria nunca sairmos senão juntos. Que ideia são as suas, então? Esse Marcel! Toda sua, Albertine." 
     Até os vestidos que lhe comprava, o iate de que lhe falara, os peignoirs de Fortuny, tudo isso, tendo nesta submissão de Albertine não a sua compensação, mas o seu complemento, surgia-me como outros tantos privilégios que eu exercia; pois os deveres e os encargos de um senhor fazem parte de sua dominação e a definem e provam, tanto quanto os seus direitos. E esses direitos que ela me reconhecia dava precisamente à meus encargos o seu verdadeiro caráter: eu tinha uma mulher à minha disposição, a qual, ao primeiro recado que lhe enviasse de improviso, mandava-me telefonar, com deferência, que voltava, que se deixava reconduzir logo. Eu era mais senhor do que julgava. Mais senhor, isto é, mais escravo. Eu já não tinha nenhuma impaciência de ver Albertine. A certeza de que ela estava fazendo compras com Françoise, que regressaria com ela num momento próximo que eu de bom grado prorrogaria, iluminava como um astro radioso e pacífico um tempo que agora eu gostaria muito mais de passar sozinho. O amor por Albertine fizera erguer-me e me preparar para sair, mas me impediria de desfrutar a minha saída. Imaginava que, nesse domingo, operariazinhas, midinettes e cocotes iam passear no Bois. E com essas palavras, "midinettes", "operariazinhas" (como já me ocorrera muitas vezes com um nome próprio, um nome de moça lido no noticiário de um baile), com a imagem de um corpete branco, de uma saia curta, pois atrás disso eu punha uma criatura desconhecida e que poderia me amar, eu criava sozinho mulheres desejáveis, e dizia comigo: "Como devem ser gostosas!" Mas de que me serviriam que o fossem, visto que eu não saía só?
     Aproveitando o fato de que ainda estava sozinho, e entrecerrando as cortinas para que o sol não me impedisse de ler as notas, sentei-me ao piano e abri ao acaso a Sonata de Vinteuil que ali estava posta, e comecei a tocar porque, estando ainda meio distante a chegada de Albertine, mas em compensação sendo segura, eu dispunha de tempo e de paz de espírito. Banhado na espera, cheio de segurança pelo seu retorno na companhia de Françoise e de confiança em sua docilidade, como na beatitude de uma luz interior tão reaquecedora como a de fora, eu podia dispor do meu pensamento, desprendê-lo de Albertine, aplicá-lo à Sonata. Mesmo nesta, não me empenhei em reparar o quanto a combinação do motivo voluptuoso e do motivo ansioso respondia agora mais ao meu amor por Albertine, do qual o ciúme estivera por tão longo tempo ausente que eu havia podido confessar a Swann a minha ignorância de tal sentimento. Não, tomando a Sonata de um outro ponto de vista, encarando-a em si mesma como sendo a obra de um grande artista, eu era conduzido pelo fluxo sonoro em direção aos dias de Combray. Não quero dizer de Montjouvain e do lado de Méséglise, mas dos passeios pelos lados de Guermantes -quando eu próprio desejara ser artista. Abandonando de fato tal ambição, renunciara eu a alguma coisa real? Poderia a vida consolar-me da arte, haveria na arte uma realidade mais profunda em que nossa personalidade verdadeira encontrasse uma expressão que não lhe conferem as ações da vida? Todo grande artista parece de fato de tal modo diverso dos outros, e tanto nos dá aquela sensação de individualidade que em vão buscamos na existência cotidiana! No momento em que eu pensava nisto, um compasso da Sonata me impressionou, compasso que aliás eu conhecia bem; mas às vezes a atenção ilumina diversamente coisas já conhecidas no entanto há muito, e nas quais assinalamos o que nunca tínhamos percebido nelas. Tocando esse compasso, e conquanto Vinteuil estivesse exprimindo ali um sonho que deveria permanecer de todo estranho a Wagner, não pude evitar murmurar: "Tristão!"-com o sorriso que tem um amigo da família ao encontrar algo do avô numa entonação, num gesto do neto que não o conheceu. E como então se olha uma fotografia que permite precisar a semelhança, instalei na estante, por sobre a Sonata de Vinteuil, a partitura de Tristão, do qual tocavam, justamente naquela tarde, alguns trechos no Concert Lamoureux. Na minha admiração pelo mestre de Bayreuth, eu não tinha nenhum dos escrúpulos daqueles, como Nietzsche, a quem o dever lhes dita que fujam, na arte como na vida, da beleza que os provoca, repudiando Tristão como renegam Parsifal e, por ascetismo espiritual, de mortificação em mortificação, chegam, seguindo o mais sangrento dos caminhos da cruz, a elevar-se ao puro conhecimento e à adoração perfeita do Postilhão de Longjumeau. [Ópera-cômica de Adolphe Adam (1803-1856). (N. do T)]. Eu percebia tudo o que a obra de Wagner tem de real, revendo esses temas insistentes e fugazes que visitam um ato, afastando-se apenas para retornar, e às vezes distantes, entorpecidos, quase desligados, são, em outros momentos, mesmo sempre continuando vagos, tão próximos e prementes, tão internos, tão orgânicos, tão viscerais, que se diria serem a retomada menos de um motivo que de uma nevralgia.
     A música, bem diferente nisto da companhia de Albertine, ajudava-me a descer ao fundo de mim mesmo, e a descobrir aí coisas novas: a variedade que eu em vão buscara na vida, na viagem, cuja nostalgia no entanto me era dada por esse fluxo sonoro que fazia morrer a meu lado suas ondas ensolaradas. Dupla diversidade. Como o espectro exterioriza para nós a composição da luz, do mesmo modo a harmonia de um Wagner e a cor de um Elstir nos permitem conhecer aquela essência qualitativa das sensações de outrem, onde o amor por outra criatura não nos faz penetrar. Além disso, diversidade no seio da própria obra, pelo único meio que há de ser realmente diverso: reunir várias individualidades. Onde um músico qualquer julgaria estar pintando um escudeiro, ou um cavaleiro, ainda quando os fizesse cantar a mesma música, Wagner, ao contrário, coloca, sob cada denominação, uma realidade diferente e, cada vez que seu escudeiro aparece, trata-se de uma figura particular, a um tempo simplista e complicada, que, com um entrechoque de linhas radiante e feudal, inscreve-se na imensidade sonora. Decorre daí a plenitude de uma música de fato repleta de tantas músicas, cada uma das quais é um ser. Um ser ou a impressão que nos dá um aspecto momentâneo da natureza. Mesmo aquilo que é mais independente do sentimento que ela nos faz experimentar, conserva sua realidade exterior e inteiramente definida, o canto de um pássaro, o som da trompa de um caçador, a canção tocada por um pastor na sua flauta de cana, recortam no horizonte a sua silhueta sonora. Por certo Wagner ia fazê-la mais próxima, aproveitar-se dela, colocá-la numa orquestra, submetê-las às mais altas ideias musicais, todavia respeitando sua originalidade primitiva como um fabricante de arcas respeita as fibras, a essência particular da madeira que esculpe.
     Mas apesar da riqueza dessas obras em que a contemplação da natureza tem seu lugar ao lado da ação, ao lado de indivíduos que não são mais que nomes de personagens, mesmo assim eu imaginava o quanto essa obras participam do caráter de ser - ainda que maravilhosamente - sempre incompletas, que é o caráter de todas as grandes obras do século XIX, cujos maiores escritores deixaram em seus livros a marca de sua personalidade, mas, observando-se enquanto trabalhavam, como se fossem a um tempo o operário e o juiz, extraíram dessa autocontemplação uma beleza nova, exterior e superior à obra, impondo-lhe retroativamente uma unidade, uma grandeza que ela não possui. Sem nos determos naquele que viu em seus romances, depois de concluídos, uma Comédia Humana, nem naqueles que a poemas ou ensaios inconjuntos denominaram A Lenda dos Séculos e A Bíblia da Humanidade, não podemos, no entanto, dizer que este último encarna tão bem o século XIX, que as maiores belezas de Michelet devemos procurá-las menos na sua própria obra que nas atitudes que ele assume em face da mesma, não na sua História da França ou na sua História da Revolução, mas em seus prefácios a esses dois livros? Prefácios, ou seja, páginas escritas depois dos livros, onde ele os examina, e às quais convém acrescentar, aqui e ali, algumas frases, começando de hábito por um "Devo dizê-lo?" que não é uma cautela de sábio, mas uma cadência de músico. O outro músico, o que me deslumbrava no momento, Wagner, tirando de suas gavetas um trecho delicioso para fazê-lo entrar como tema retrospectivamente necessário em uma obra na qual não pensava no momento em que a compusera e, depois, tendo composto uma primeira ópera mitológica, depois uma segunda, depois ainda outras, e de súbito percebendo que acabava de fazer uma Tetralogia, deve ter sentido um pouco da mesma embriaguez de Balzac, quando este, lançando às suas obras um olhar a um tempo de um estranho e de um pai, achando neste romance a pureza de Rafael, neste outro a simplicidade do Evangelho, reparou bruscamente, ao lançar sobre eles uma iluminação retrospectiva, que ficariam mais belos reunidos num ciclo em que as mesmas personagens reaparecessem e acrescentou à sua obra, nesse ajustamento, uma pincelada, a derradeira e a mais sublime. Unidade ulterior, não artificial.
     Senão seria reduzida a pó como tantas sistematizações de escritores medíocres que, com grande reforço de títulos e subtítulos, desejam parecer que se deram ao esforço de perseguir um só e transcendente desígnio. Não fictícia, talvez mais real até por ser ulterior, por ter nascido de um momento de entusiasmo em que é descoberta entre pedaços que só precisam se unir, unidade que se ignorava, portanto vital e não lógica, que não proscreveu a variedade nem ressecou a execução. Ela é (mas aplicando-se desta vez ao conjunto) como determinado trecho composto à parte, nasceu de uma inspiração, não exigida pelo desenvolvimento artificial de uma tese, e que vem integrar-se a resto. Antes do grande movimento de orquestra que precede a volta de Isolda, foi à própria obra que atraiu para si a ária meio esquecida da flauta de um pastor.
     E, sem dúvida, assim como a progressão da orquestra, ao aproximar-se da nave, apodera-se dessas notas da flauta, transforma-as, associa-as à sua embriaguez, quebra o seu ritmo, aclara-lhes a tonalidade, acelera-lhes o movimento, multiplica-lhes a instrumentação, assim o próprio Wagner, sem dúvida, alegrou-se ao descobrir em sua memória a ária do pastor, agregou-a à sua obra, deu-lhe todo seu significado. De resto, semelhante alegria não o abandona jamais. Seja qual for a tristeza do poeta, ela é consolada nele, superada - quer dizer, infelizmente um pouco destruída pela alegria do fabricante. Mas então, tanto quanto pela identidade que eu havia notado há pouco entre a frase de Vinteuil e a de Wagner, sentia-me perturbado por essa habilidade vulcânica. Seria essa habilidade que confere, nos grandes artistas, a ilusão de uma originalidade intrínseca, irredutível, aparentemente um reflexo dê uma realidade mais que humana, e de fato o produto de um labor industrioso?
     Se a arte não passa disto, não é mais real do que a vida, e eu não tinha que lastimar o fato de não ser artista. Continuava a tocar Tristão. Separado de Wagner pelo tabique sonoro, ouvia-o exultar, convidar-me a partilhar da sua alegria, ouvia redobrar o riso imortalmente jovem e as marteladas de Siegfried, em quem, aliás, mais maravilhosamente marcadas eram tais frases, a habilidade técnica do operário só servindo para fazê-las mais livremente deixar a terra, pássaros idênticos não ao cisne de Lohengrin, mas àquele aeroplano que eu vira, em Balbec, mudar sua energia em elevação, planar acima das ondas e perder-se no céu. Talvez, como as aves que mais alto sobem, que voam mais depressa, têm uma asa mais possante, fossem necessários aparelhos realmente materiais para explorar o infinito, desses cento e vinte cavalos marca Mistério, nos quais entretanto, por mais alto que se voe, é-se um tanto impedido de desfrutar o silêncio dos espaços devido ao potente ronco do motor!
     Não sei por que o curso de meus devaneios, que até aqui havia seguido as recordações da música, desviou-se para aqueles que foram, em nossa época, os melhores executantes, e entre os quais, superestimando-o um pouco, eu situava Morel. E logo o meu pensamento fez um brusco desvio e foi sobre o caráter de Morel, e certas singularidades desse caráter, que me pus a devanear. Aliás, isto podia acrescentar-se mas não se confundir com a neurastenia que o atormentava-, Morel tinha o hábito de falar de sua vida, mas dando um retrato tão sombrio dela que era difícil distinguir alguma coisa. Por exemplo, colocava-se à inteira disposição do Sr. de Charlus, com a condição de ter as noites livres, pois desejava poder seguir o curso de álgebra depois do jantar. O Sr. de Charlus dava licença, mas pedia para vê-lo depois.

- Impossível, é uma velha pintura italiana-(este gracejo não faz qualquer sentido transcrito assim; mas o Sr. de Charlus fizera Morel ler A Educação Sentimental, em cujo penúltimo capítulo Fréderic Moreau diz esta frase; e, assim, Morel, de brincadeira, nunca dizia a palavra "impossível" sem fazê-la seguir por estas: "é uma velha pintura italiana") -, o curso dura muitas vezes até bem tarde e já é um grande incômodo para o professor, que naturalmente ficaria melindrado... 
- Mas não há necessidade de curso, álgebra não é como a natação, nem mesmo como o inglês, isto se aprende muito bem num livro - replicava o Sr. de Charlus, tendo logo adivinhado nesse curso de álgebra uma dessas imagens em que não se podia destrinçar nada. Talvez se tratasse da cópula com uma mulher, ou, se Morel procurava ganhar dinheiro por meios suspeitos e estivesse de combinação com a polícia secreta, de uma operação com agentes de segurança, ou, quem sabe, pior ainda, a espera de um gigolô de quem se poderá precisar num bordel. 
- Bem mais facilmente até pelos livros - respondia Morel ao Sr. de Charlus-, pois não se compreende nada num curso de álgebra. 
- Então por que não a estudas de preferência lá em casa, onde tens de fato todo o conforto? -poderia ter respondido o Sr. de Charlus; evitou, porém, dizê-lo, sabendo que, imediatamente, conservando apenas o mesmo caráter de necessidade para reservar as horas da noite, o curso de álgebra se mudaria numa aula obrigatória de dança ou de desenho. No que o Sr. de Charlus pôde perceber que se enganava, ao menos em parte: Morel, muitas vezes, na casa do barão, ocupava-se em resolver equações. O Sr. de Charlus objetava que a álgebra não podia servir em nada a um violinista. Morel retrucava que era uma distração para passar o tempo e combater a neurastenia. É claro que o Sr. de Charlus poderia procurar saber o que eram na verdade aquelas misteriosas e fatais aulas de álgebra, só ministradas à noite. Mas o Sr. de Charlus estava envolvido demais nas obrigações da sociedade para se ocupar em deslindar o emaranhado das ocupações de Morel.

     As visitas feitas ou recebidas, o tempo passado no círculo, os jantares na cidade e as noites no teatro impediam-no de pensar nisso, bem como naquela malvadez, a um tempo violenta e sorrateira, que Morel, dizia-se, fazia ao mesmo tempo brilhar e dissimular nos ambientes sucessivos, nas diferentes cidades por onde passara, e onde só falavam dele com um arrepio, baixando a voz, e sem coragem de contar coisa alguma. Infelizmente, foi a uma dessas explosões de nervosismo maldoso que tive ocasião de assistir naquele dia, quando, tendo deixado o piano, desci ao pátio para ir ao encontro de Albertine que ainda não tinha chegado. Passando em frente à loja de Jupien, onde Morel e aquela que eu julgava vir a ser em breve sua mulher estavam sozinhos, ouvi Morel gritando com toda a força, o que fazia sair dele uma entonação que não lhe conhecia, rude, habitualmente recalcada, e estranhíssima. As palavras não o eram menos, erradas do ponto de vista da língua francesa, mas ele conhecia tudo imperfeitamente. 

- Saia já daqui; sua grandessíssima puta, grandessíssima puta, grandessíssima puta- repetia ele à pobre moça, que certamente no começo não entendera o que ele queria dizer; e depois, trêmula e digna, permanecia imóvel diante dele. - Já lhe disse para sumir daqui, grandessíssima puta, grandessíssima puta, vá procurar o seu tio para que eu lhe diga o que você é, sua puta. -

     Justo naquele momento a voz de Jupien; que regressava conversando com um amigo, fez-se ouvir no pátio, e, como eu sabia que Morel era um tremendo poltrão, achei inútil juntar minhas forças à de Jupien e seu amigo, que num instante estariam dentro da loja, e voltei a subir, para evitar Morel, que, embora tivesse tanto desejado que chamassem Jupien (provavelmente para aterrorizar e dominar a moça com uma chantagem sem qualquer fundamento), apressou-se a sair logo que ouviu sua voz no pátio. As palavras reproduzidas não são nada, nem explicariam o bater do coração com que subi.
     Tais cenas a que assistimos na vida encontram um elemento de força incalculável no que os militares denominam, em matéria de ofensiva, a vantagem da surpresa, e, por maior que fosse a minha sensação de suave tranquilidade por saber que Albertine, em vez de ficar no Trocadero, ia voltar para junto de mim, nem por isso ressoava menos nos ouvidos o acento daquelas palavras dez vezes repetidas: "grandessíssima puta, grandessíssima puta", que tinham me perturbado tanto.
     Pouco a pouco minha agitação se acalmou. Albertine ia chegar. Eu a ouviria bater à porta dentro de um instante. Sentia que minha vida não era mais a mesma como poderia ter sido; e que ter assim uma mulher com a qual muito naturalmente, quando estivesse de volta, deveria sair, para cujo embelezamento iam ser cada vez mais desviadas as forças e a atividade do meu ser, fazia de mim como que uma haste acrescida, mas vergada ao peso do fruto opulento pelo qual passam todas as suas reservas. Contrastando com a ansiedade que eu experimentara uma hora antes, o sossego que me causava o regresso de Albertine era mais vasto do que o que eu sentira de manhã, antes de sua partida. Antecipando o futuro, de que a docilidade de minha amiga me tornava mais ou menos senhor, mais resistente, como que repleto e estabilizado pela presença iminente, importuna, inevitável e doce, era o sossego (dispensando-nos de buscar a felicidade em nós mesmos) que nasce de um sentimento familiar e de uma ventura doméstica: foi isso ainda, não menos que o sentimento que me trouxera tanta paz enquanto eu esperava Albertine, o que experimentei a seguir, passeando com ela. Ela tirou a luva por um momento, fosse para tocar a minha mão, fosse para me deslumbrar, deixando-me ver no seu dedo mindinho, ao lado daquele que recebera da Sra. Bontemps, um anel onde se estendia a larga e líqüida toalha de uma clara folha de rubis:

- Um novo anel, Albertine? Sua tia é tão generosa! 
- Não, este não veio da minha tia - disse ela, rindo. - Eu mesma é que o comprei, visto que, graças a você, posso fazer grandes economias. Nem mesmo sei a quem pertenceu. Um viajante que não tinha dinheiro o deixou para o dono de um hotel onde estive em Mans. O homem não sabia o que fazer dele e o teria vendido bem abaixo do seu valor. Mas ainda assim era muito caro. Agora que, graças a você, eu me torno uma dama elegante, mandei lhe perguntar se ele o possuía ainda. E aí está. 
- Tanto anel, Albertine. Onde vai pôr o que lhe vou dar? Em todo caso, este é muito bonito; não consigo distinguir os lavores em torno aos rubis, dir-se-ia uma cabeça humana fazendo caretas. Mas não tenho boa vista. 
- Mesmo que a tivesse, não adiantaria muito. Eu também não distingo nada.

     Antigamente, muitas vezes me ocorrera, ao ler um volume de memórias ou um romance, em que um homem sempre sai com uma mulher, merendam juntos, desejar poder fazer o mesmo. Às vezes julgara consegui-lo, por exemplo, levando comigo a amante de Saint-Loup, indo jantar com ela. Mas debalde eu invocava a ideia de que, naquele momento, representava bem a personagem que havia invejado no romance, essa ideia me convencia de que eu devia ter satisfação ao lado de Rachel e, todavia, não me proporcionava.
     É que, de cada vez que desejamos imitar alguma coisa, esquecemos que essa coisa foi produzida não pela vontade de imitar, mas por uma força inconsciente, também real. Mas essa impressão particular que não pudera me dar todo o meu desejo de sentir um prazer delicado ao passear com Rachel, eis que agora o sentia sem o ter procurado de forma alguma, mas por motivos completamente diversos, sinceros, profundos para citar um exemplo - porque meu ciúme impedia-me de estar longe de Albertine e, no momento em que eu podia sair, de deixá-la passear sem mim. Só o sentia agora porque o conhecimento é, não das coisas exteriores que desejamos observar, mas das sensações involuntárias; porque outrora uma mulher, por mais tempo que estivesse no mesmo carro que eu, não estava na realidade junto a mim, enquanto não a recriasse ali, a todo instante, uma necessidade dela como eu a tinha de Albertine, enquanto a carícia constante do meu olhar não lhe devolvesse permanentemente as cores que exigem ser perpetuamente refrescadas, enquanto os sentidos, mesmo apaziguados, mas que se recordam, não pusessem sob aquelas cores o sabor e a consistência, enquanto, unido aos sentidos e à imaginação que os exalta, o ciúme não mantivesse tal mulher em equilíbrio junto a mim por uma atração compensada, tão poderosa como a lei da gravidade.
     Nosso carro descia depressa pelos bulevares, pelas avenidas, cujos palacetes enfileirados, rósea congelação de sol e de frio, recordavam-me as visitas à casa da Sra. Swann, docemente iluminadas pelos crisântemos a esperada hora dos lampiões. Eu mal tinha tempo de avistar, tão separado delas atrás do vidro do automóvel como o teria estado atrás da janela do meu quarto, uma jovem caixeira da casa de frutas, uma moça da leiteria de pé diante da porta, iluminada pelo lindo dia como uma heroína que meu desejo bastava para empenhar em peripécias deliciosas, no limiar de um romance que eu nunca haveria de conhecer. Pois eu não podia pedir a Albertine que parássemos, e já não eram mais visíveis as moças, de quem meus olhos mal distinguiram as feições e mal puderam acariciar a frescura no louro vapor em que elas se banhavam. A emoção de que me sentia possuído ao avistar a filha de um comerciante de vinhos ou uma lavadeira conversando na rua era a emoção que se tem ao reconhecer as Deusas. Desde que o Olimpo já não existe, seus habitantes vivem na terra. E, quando, ao compor um quadro mitológico, os pintores fizeram posar, como Vênus ou Ceres, moças do povo que exerciam os ofícios mais vulgares, bem longe de cometer um sacrilégio, não fizeram mais que acrescentar-lhes, restituir-lhes a qualidade e os atributos divinos de que se achavam despojadas. 

- Como lhe pareceu o Trocadero, louquinha? 
- Estou muito contente de o ter deixado para passear com você. É de Davioud, creio. 
- Mas como a minha pequena Albertine é instruída! De fato, é de Davioud, mas eu o tinha esquecido.
- Enquanto você dormia li seus livros, grande preguiçoso. Como monumento, é bem feio, não acha? 
- Menina, você está mudando com tamanha rapidez e se torna de tal modo inteligente (é verdade, mas, além disso, gostava que ela tivesse a satisfação, à falta de outras, de pensar que pelo menos o tempo que passava em minha casa não era totalmente perdido), que lhe diria, quando necessário, algumas coisas que em geral seriam consideradas falsas e que correspondem a uma verdade que estou procurando. - Você sabe o que é o impressionismo?
- Sei. 
- Pois bem, veja o que pretendo dizer: lembra-se da igreja de Marcouville I'Orgueilleuse, que Elstir não apreciava porque era nova? Será que ele não está um tanto em contradição com o seu próprio impressionismo, quando retira assim esses monumentos da impressão global em que estão situados, leva-os para fora da luz onde estão dissolvidos e examina o seu valor intrínseco feito um arqueólogo? Quando pinta, por acaso um hospital, uma escola ou um cartaz numa parede não têm o mesmo valor que uma catedral inestimável que está perto, numa imagem indivisível? Lembre-se de como a fachada estava queimada pelo sol, como o relevo daqueles santos de Marcouville sobrenadavam na luz. Que importa que um monumento seja novo, se parece velho? E mesmo que não pareça! O que os velhos bairros têm de poético foi extraído até a última gota, porém certas casas recentemente construídas para pequenos burgueses endinheirados, nos bairros novos, onde a pedra muito branca mostra ter sido preparada há pouco, não rompem elas o ar tórrido do meio-dia em julho, à hora em que os comerciantes voltam para o almoço no subúrbio, com um grito tão ácido como o odor das cerejas, antes que a refeição seja servida na sala de jantar penumbrosa, onde os prismas de vidro para descanso das facas projetam focos multicores tão belos como os vitrais de Chartres? 
- Como você é delicioso de ouvir! Se algum dia eu me tornar inteligente, será graças a você. 
- Por que, num dia bonito, desviar os olhos do Trocadero cujas torres em forma de pescoço de girafa fazem pensar na cartuxa de Pavia? 
- Ele me lembrou também, dominando da mesma forma do alto da colina, uma reprodução de Mantegna que você possui, creio que é São Sebastião, onde existe ao fundo uma cidade em anfiteatro e onde se poderia jurar que fica o Trocadero. 
- Você observa bem! Mas como é que viu a reprodução de Mantegna? Você é surpreendente.

     Tínhamos chegado aos bairros mais populares, e a ereção de uma Vênus ancilar atrás de cada balcão fazia dele uma espécie de altar suburbano ao pé do qual eu gostaria de passar a minha vida. Como se faz às vésperas de uma morte prematura, eu recapitulava os prazeres de que me privava o ponto final que Albertine punha na minha liberdade. Em Passy, foi no próprio leito da rua, por causa do tráfego congestionado, que as moças, abraçadas pela cintura, deslumbraram-me com seu sorriso. Não tive tempo de o perceber muito bem, mas era pouco provável que o superestimasse; de fato, em qualquer multidão, em qualquer multidão de gente jovem, não é raro que se encontre a efígie de um nobre perfil. De modo que essas balbúrdias populares dos dias de festa são para o indivíduo voluptuoso tão preciosas como, para o arqueólogo, a desordem de uma terra onde uma escavação faz surgir medalhas antigas. Chegamos ao Bois. Eu pensava que, se Albertine não tivesse vindo comigo, poderia naquele instante, no Circo do Champs-Élysées, ouvir a tempestade wagneriana fazer gemer todos os instrumentos de corda da orquestra, atrair para si como leve espuma a ária da flauta que eu havia tocado há pouco, fazê-la voar, petrificá-la, deformá-la, dividi-la, arrastá-la num turbilhão crescente. Pelo menos, desejei que o nosso passeio fosse curto e que voltássemos cedo, pois, sem nada falar a Albertine, eu decidira ir à noite à casa dos Verdurin. Tinham-me ultimamente enviado um convite que eu jogara na cesta, como a todos os anteriores. Mas resolvera reconsiderar aquela noite, pois queria tentar saber que tipo de pessoas Albertine poderia esperar encontrar de tarde na casa deles. Para falar a verdade, eu chegara com Albertine àquele momento em que (se tudo continua como está, se as coisas se passam normalmente) uma mulher só serve para nós como transição para outra mulher. Ela ainda nos fala ao coração, mas muito pouco; temos pressa de ir encontrar desconhecidas todas as noites, e sobretudo desconhecidas que ela conhece, e que poderão nos contar a vida dela. Com efeito, já possuímos e esgotamos tudo o que ela consentiu em nos entregar de si mesma. Sua vida é ainda ela mesma, mas justamente a parte que não conhecemos, as coisas sobre as quais interrogamos em vão e que poderemos ouvir de lábios novos.

continua na página 70...
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Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Compreendi que duas horas queria dizer três horas)

domingo, 16 de agosto de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (IV.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

IV


     Ao saírem de Rasseneur, Etienne e Catherine caminharam em silêncio. O degelo começava, um degelo frio e lento, que sujava a neve sem derretê-la. No céu lívido notava-se a lua cheia por detrás de grandes nuvens, farrapos negros que uma ventania altíssima varria furiosamente. Na terra não soprava nenhuma aragem, só se ouvia o gotejar dos telhados, de onde caíam bolas brancas, numa queda suave.
     Etienne, embaraçado com a presença daquela mulher que lhe presenteavam, não sabia o que dizer, de tão sem jeito. A ideia de levá-la consigo e escondê-la em Réquillart parecia-lhe absurda. Preferia conduzi-la ao conjunto habitacional, para a casa dos pais, mas ela recusava, cheia de pavor: não, não, tudo menos voltar para a família depois de a ter deixado de maneira tão ignóbil. E nenhum dos dois conseguia dizer palavra, caminhavam ao acaso pelos caminhos que se transformavam em lodaçais. Primeiro tinham descido em direção à Voreux, depois dobraram à direita, passando entre o aterro e o canal. 

— Mas tens que dormir em algum lugar — disse ele afinal. — Se eu tivesse ao menos um quarto, levava-te comigo...

     Calou-se, cheio de timidez. Seu passado vinha-lhe à memória, seus enormes desejos de outrora, as delicadezas e as vergonhas que os tinham impedido de se juntarem. Acaso a quereria ainda, para se sentir tão confuso, com o coração pulsando cada vez mais forte de desejo renascido? A lembrança das bofetadas que ela lhe dera na Gaston-Marie agora o excitava, em vez de enchê-lo de rancor. E estava surpreendido; a ideia de levá-la para Réquillart já lhe parecia completamente natural e de fácil execução. 

— Vamos, decide-te, onde queres que te leve? Tu me detestas tanto que não queres vir comigo...

     Ela seguia-o lentamente, atrapalhada com os escorregões penosos dos tamancos nos sulcos do caminho. Sem erguer a cabeça, murmurou: 

— Já sou bastante desgraçada, pelo amor de Deus, não me faças sofrer mais! De que adianta dizer isso, agora que já tenho um homem e tu tens uma mulher?

     Referia-se à filha de Mouque. Julgava que viviam juntos, pois esse era o boato que corria havia uns quinze dias. E quando ele negou, jurando, ela balançou a cabeça e lembrou a noite em que os vira beijando-se na boca. 

— Não é uma pena todas essas besteiras? — continuou ele a meia voz e parando. — Nós nos teríamos entendido tão bem...

     A moça respondeu com estremecimento: 

— Vamos, não te lamentes, não estás perdendo grande coisa. Se soubesses o traste inútil que sou, magra como um esqueleto, tão mal acabada que nunca serei uma mulher, juro-te!

     E continuou a falar livremente, acusando-se como de uma falta, daquele longo atraso de sua puberdade.
     Isso, apesar de já ter tido um homem, diminuía-a, relegava-se às fileiras das meninas. Quando se pode ter um filho, ainda há desculpa. 

— Minha pobre criança! — murmurou Etienne, cheio de grande piedade.

     Encontravam-se ao pé do aterro, escondidos à sombra do monte enorme. Uma nuvem de chumbo passava justamente pela lua, não podiam ver um ao outro, e seus hálitos se misturavam, seus lábios se buscavam, para o beijo cujo desejo os atormentara durante meses. Mas a lua reapareceu de repente, e viram por cima deles, no alto das rochas brancas de luz, a sentinela perfilada, que guardava a mina. E, sem que se tivessem beijado, separou-os o pudor, esse pudor antigo onde havia cólera, uma vaga repugnância e muito de amizade. Recomeçaram a vagarosa caminhada, com lama até os tornozelos. 

— Então está decidido: tu não queres... — disse Etienne. 
— Não — respondeu ela. — Primeiro o Chaval, agora tu depois um outro... Não, tenho nojo disso. Ademais, não sinto prazer algum, para que fazer, então?

     Calaram-se, andaram mais cem passos, sem trocar palavra. 

— Mas ao menos sabes para onde é que vais? Não posso deixar-te ao deus-dará com uma noite dessa.

     Ela respondeu com naturalidade: 

— Volto para casa, para Chaval, é com ele que tenho de ficar. 
— Mas ele te prometeu uma surra!

     O silêncio recomeçou. Ela dera de ombros, resignada. Sim, ele a espancaria, e, quando estivesse cansado de bater, pararia; preferia isso a andar rolando pelas sarjetas, como uma meretriz. E depois, já estava acostumada a apanhar; dizia mesmo, para se consolar, que, em dez mulheres, oito não viviam melhor que ela. Se um dia Chaval quisesse casar, tudo estaria resolvido.
     Etienne e Catherine dirigiram-se inconscientemente para Montsou, e, à medida que se aproximavam, seus silêncios ficavam mais longos. Era como se não estivessem mais caminhando juntos. O rapaz não encontrava nada para dizer que pudesse convencê-la, apesar da grande tristeza que sentia de vê-la voltando para Chaval. Seu coração estava despedaçado, nada tinha a oferecer senão uma existência de miséria e fuga, uma noite sem amanhã, se a bala de algum soldado lhe varasse a cabeça. Talvez mesmo fosse mais sensato não procurar novos sofrimentos. E assim reconduziu-a à casa do amante, de cabeça baixa, e não fez um gesto de protesto quando, já na estrada real, ela parou à esquina do depósito da companhia, a vinte metros do Piquette, dizendo: 

— Volta daqui. Se ele te vê, vai querer brigar de novo. Davam onze horas na igreja, o botequim estava fechado, mas a luz passava pelas frestas da porta. 
— Adeus — murmurou a moça.

     Estendeu-lhe a mão, que ele prendeu entre as suas; com esforço, lenta e penosamente, ela retirou-a, para deixá-lo. Sem olhar para trás, entrou pela porta pequena, com sua chave. Mas o rapaz permaneceu onde estava, espiando a casa, ansioso por saber o que se passava lá dentro. Apurou o ouvido, tremia com receio de ouvir os gritos de uma mulher sendo espancada. A casa conservava-se escura e silenciosa, apenas via luz numa janela do primeiro andar; e, como essa janela se abrisse e ele reconhecesse a figura franzina que se debruçava sobre a estrada, avançou.
     Catherine, então, disse em voz muito baixa: 

— Ele não voltou ainda, vou deitar-me. Vai embora, pelo amor de Deus!

     Etienne partiu. O degelo aumentava, era como se a chuva rolasse dos telhados, um suor de umidade escorria das paredes, dos tapumes, de todas a» massas confusas daquela zona industrial, perdida na noite. Primeiro dirigiu-se para Réquillart, doente de tristeza e cansaço, querendo apenas desaparecer, ser tragado pela terra, mas, em seguida, começou a atormentá-lo a ideia da Voreux, dos operários belgas que iam começar a trabalhar ali, e vieram-lhe à memória os companheiros exasperados contra os soldados, resolvidos a não tolerar estrangeiros na sua mina. Dirigiu-se novamente para lá, costeando o canal, atolando-se nas poças de neve derretida.
     Quando se viu novamente perto do aterro, a lua surgiu, muito clara. Levantou os olhos, olhou o céu, onde havia uma cavalgada de nuvens impelidas pela ventania que soprava no alto. Agora, porém, elas estavam esbranquiçadas, esfiapadas, mais leves, de uma transparência baça de água turva sobre a face da lua, e correndo tão rápidas que o astro, velado por momentos, incessantemente reaparecia na sua limpidez.
     Com os olhos cheios daquela claridade pura, Etienne baixou a cabeça, detendo a vista num espetáculo que se desenrolava no cimo do aterro. A sentinela, entorpecida pelo frio, não mais conseguindo ficar parada, agora dava guarda andando vinte e cinco passos voltada para o lado de Marchiennes, fazia meia-volta e caminhava outro tanto, de frente para Montsou. Via-se o brilho prateado da baioneta pairando acima da silhueta escura do soldado, recortada nitidamente contra a palidez do céu. Mas o que interessava ao rapaz era uma sombra móvel, um bicho de rastos e à espreita, em quem logo reconheceu Jeanlin pelo dorso de fuinha, longo e desengonçado, emboscado por trás da cabana onde o velho Boa-Morte se abrigava nas noites de temporal. A sentinela não podia vê-lo, com certeza o pequeno bandido preparava alguma das suas, pois andava furioso com os soldados, perguntando quando se veriam livres daqueles assassinos, que ali estavam com seus fuzis para matar a gente.
     Etienne hesitou, não sabendo se devia chamá-lo, para evitar que fizesse alguma bobagem. Num dos momentos em que a lua se escondeu, viu-o preparando-se para saltar, só não o tendo feito porque o astro voltou a brilhar. Invariavelmente a sentinela avançava até a cabana, dava meia-volta e repetia o trajeto já feito. Repentinamente, aproveitando as sombras de uma nuvem, Jeanlin saltou nas costas do soldado com um pulo enorme de gato do mato e agarrou-se a ele com suas garras, cravando-lhe o canivete na garganta. Como o colarinho duro resistisse, empunhou a arma com ambas as mãos e abateu-a com todo o peso do corpo. Já estava acostumado a sangrar as galinhas que encontrava ciscando por perto das fazendas. Fez um trabalho tão rápido, que só se ouviu na noite um grito sufocado e o ruído cavo do fuzil caindo. A lua, muito branca, brilhava outra vez.
     Paralisado de espanto, Etienne continuava a olhar. Uma exclamação fora estrangulada no fundo do seu peito. No alto, o aterro estava deserto, já não se distinguia sombra alguma sob a fuga descontrolada das nuvens. Subiu correndo para encontrar Jeanlin de gatinhas diante do cadáver que caíra de costas e braços abertos. Na neve, ao luar, as calças vermelhas e o capote cinzento destacavam-se duramente. Não correra uma única gota de sangue, a faca ainda estava enterrada até o cabo na garganta.
     Com um soco furioso e irrefletido ele prostrou o menino ao lado do corpo. 

— Por que fizeste isso? — gaguejou, desesperado.

     Jeanlin soergueu-se, rastejou sobre as mãos, com o arqueamento felino do seu dorso magro; e as suas grandes orelhas, seus olhos verdes, suas maxilas salientes fremiam e faiscavam na excitação do crime. 

— Fala, demônio! Por que fizeste isso? 
— Sei lá, tive vontade.

     E insistiu naquela resposta. Havia três dias que tinha vontade de fazer aquilo. Só pensava nisso, chegava a andar com dor de cabeça de tanto pensar. Para que preocupar-se por causa desses soldados imundos que vinham incomodar os mineiros em suas próprias casas? Dos discursos violentos na floresta, dos gritos de devastação e morte ecoados nas minas, cinco ou seis palavras tinham ficado na sua memória, e ele agora as repetia, brincando de revolução. Outras explicações não sabia dar, ninguém o tinha empurrado, imaginara tudo sozinho, da mesma maneira que planejava roubar cebolas nas plantações.
     Etienne, abismado com aquele brotar surdo do crime no fundo de um cérebro de criança, escorraçou-o de novo com um pontapé, como a uma besta inconsciente. Temia que a guarnição da Voreux tivesse ouvido o grito abafado da sentinela e olhava para a mina a cada vez que a lua surgia. Mas nada se mexia, e ele debruçou-se sobre o cadáver, tocou as mãos que esfriavam, auscultou o coração arado sob o capote. Da faca só se via o cabo de osso, onde a divisa galante, a simples palavra "Amor", estava gravada em letras negras. Seus olhos correram da garganta para o rosto e ele reconheceu o soldadinho, era Jules, o recruta, com quem conversara num amanhecer. Sentiu uma enorme piedade diante daquele rosto de louro, cheio de sardas. Os olhos azuis, arregalados, contemplavam o céu com o mesmo olhar fixo com que o vira esquadrinhando o horizonte em busca da terra natal. Onde seria a região de Plogoff que lhe aparecia sob um sol resplandecente? Ah! longe, muito longe. Com aquela noite de temporal o mar bramia a distância. Esse vento que soprava tão alto tinha talvez passado pela charneca. Duas mulheres estavam paradas — a mãe, a irmã — de cabelos ao vento, olhando também, como se pudessem ver o que a esta hora estava fazendo o seu menino para além das léguas e léguas que os separavam. De agora em diante elas continuariam a esperá-lo. Que coisa detestável era isso, os pobres-diabos matarem-se entre si, pelos ricos!

continua na página 357...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.