em busca do tempo perdidovolume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Terceiro
Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de
Albertine, desejo romper com ela.
Eu caía de sono. Fui levado de elevador até o meu andar não pelo ascensorista, mas pelo
groom vesgo que travou conversa para me contar que sua irmã continuava a viver com o
cavalheiro tão rico e que, certa vez, como ela tivesse vontade de voltar para casa em lugar de
permanecer séria, o seu cavalheiro fora procurar a mãe do vesgo e dos outros filhos mais
afortunados, a qual encaminhara o mais rápido possível a insensata à casa de seu amigo.
- Saiba o senhor, é uma grande dama a minha irmã. Ela toca piano, fala espanhol. E o
senhor não a acreditaria ser irmã do simples empregado que o faz subir no elevador; ela não se
nega coisa alguma. Tem a sua camareira pessoal, e não me espantaria que um dia venha a ter o
seu carro. É muito bonita, se o senhor a visse, um tanto orgulhosa, mas diabos! isto se
compreende. Tem muito espírito. Nunca deixa um hotel sem se aliviar num armário, numa
cômoda, para deixar uma lembrancinha à camareira que há de fazer a limpeza. Às vezes, até no
carro ela faz isso e, depois de pagar a corrida, oculta-se num canto, coisa de muito rir, para ver
reclamar o cocheiro que terá de lavar o carro. Meu pai também deu uma boa, ao encontrar para o
meu irmão mais novo aquele príncipe indiano que havia conhecido antigamente. Naturalmente é
outro gênero. Mas a posição é soberba. Se não fossem as viagens, seria o ideal. Até agora, só eu
é que fiquei no desvio. Mas nunca se sabe. A sorte está na minha família; quero sabe se não serei
um dia presidente da República? Mas estou fazendo-o tagarelar (eu não dissera uma só palavra e
começava a dormir ao ouvir as suas). Boa-noite, senhor. Oh, obrigado, senhor! Se todo mundo
tivesse tão bom coração como o senhor, não haveria mais desgraçados. Mas como diz a minha
irmã, sempre é necessário que os haja para que, agora que sou rica, possa cagar neles um
pouco. Desculpa a expressão. Boa-noite, senhor.
Talvez a cada noite aceitemos o risco de viver, dormindo, sofrimentos que consideramos
nulos e não acontecidos, pois foram suportados no decorrer de um sono que julgamos sem
consciência. Com efeito, nessas noites em que eu regressava tarde da Raspeliere, sentia muito
sono. Porém, logo que chegaram os frios intensos eu não podia adormecer imediatamente, pois o
fogo da lareira iluminava como se uma lâmpada se acendesse. Apenas, não passava de uma
chama e também como uma lâmpada, como o dia quando cai a tarde sua luz muito viva não
tardava a diminuir; e eu caía no sono, o qual é como um segundo apartamento que tivéssemos e
onde, abandonando o nosso, fôssemos dormir. Tem campainhas próprias, e às vezes somos
violentamente despertados por um rumor de timbre, perfeitamente escutado por nossos ouvidos,
quando todavia ninguém tocou. Tem seus criados, seus visitantes particulares que vêm buscar
nos para sair, de modo que estamos prontos para levantar-nos quando nos é forçoso constatar,
por nossa quase imediata transmigração para o outro apartamento, o da véspera, que o quarto
está vazio, que não veio ninguém. A raça que o habita, como a dos primeiros humanos, é
andrógina. Ali, um homem, ao cabo de um instante, aparece sob o aspecto de uma mulher. As
coisas ali possuem uma inclinação a se tornarem homens, e os homens em amigos e inimigos. O
tempo que transcorre para o adormecido, durante esse sono, é absolutamente diverso do tempo
em que se cumpre a vida do homem acordado. Ora seu curso é muito mais rápido: um quarto de
hora parece um dia inteiro; às vezes, muito mais longo: julgamos ter dado um breve cochilo e
dormimos o dia todo. Então, no carro do sono, descemos às profundezas em que a recordação
não pode mais alcançá-lo e para aquém das quais o espírito foi obrigado a arrepiar caminho. A
parelha de cavalos do sono, semelhante à do sol, caminha num passo tão igual, numa atmosfera
onde não pode mais detê-lo nenhuma resistência, que é preciso algum pedregulho aerolítico
estranho a nós (por qual Desconhecido dardejado do céu azul?) para atingir o sono regular (que,
sem isso, não teria motivo algum para se deter e duraria, com um movimento igual, séculos afora)
e fazê-lo, numa curva brusca, retornar ao real, queimar etapas, atravessar regiões próximas à vida
ou breve o adormecido ouvirá, desta, os rumores quase vagos ainda, mas já perceptíveis,
conquanto deformados e aterrissar de chofre no despertar. Então, desses sonos profundos, a
gente acorda numa aurora, sem saber onde está, não sendo ninguém, novo, pronto para tudo, o
cérebro vazio desse passado que era a vida até ali. E talvez ainda seja mais belo quando a
aterrissagem do despertar se faz de maneira brutal e os nossos pensamentos do sono, ocultos
por um manto de esquecimento, não têm tempo de regressar progressivamente antes que o sono
acabe. Então, da negra tempestade que nos parece que atravessamos (mas nem sequer dizemos
nós), saímos deitados, sem pensamentos: um nós que não tivesse conteúdo. - Que martelada a
criatura ou a coisa que ali está recebeu a ponto de ignorar tudo; estupefata até o momento em
que a memória, acorrendo, lhe restitua a consciência ou a personalidade? Ainda, para esses dois
tipos de despertar, convém não adormecer, mesmo que profundamente, sob a lei do hábito. Pois
o hábito vigia tudo o que encerra em suas redes; é preciso escapar a ele, adormecer no momento
em que se julgava fazer coisa bem diversa do que dormir, numa palavra, receber um sono que
não permanece sob a tutela da previdência, na companhia, mesmo oculta, da reflexão. Ao menos
nesses despertares, tais como os que acabo de descrever, e que eram na maior parte do tempo
os meus quando eu tinha jantado na véspera na Raspeliere, tudo se passava como se assim
fosse, e posso testemunhá-lo, eu, o estranho humano que, esperando que a morte o venha
libertar, vê os postigos fechados, não sabe nada do mundo, permanece imóvel feito uma coruja e,
como esta, só vê um pouco de claridade nas trevas. Tudo se passa como se assim fosse, mas
talvez somente uma camada de estopa impediu o adormecido de perceber o diálogo interior das
lembranças e a incessante tagarelice do sono. Pois (o que aliás pode se explicar igualmente no
primeiro sistema, mais amplo, mais misterioso, mais astral) no momento em que se produz o
despertar, o adormecido ouve uma voz interior que lhe diz: "Não vem jantar esta noite, meu caro
amigo? Como seria agradável!" e pensa: "Sim, como seria agradável, irei"; depois, acentuando-se
o despertar, ele recorda de súbito: "Minha avó só tem algumas semanas de vida, afirma o doutor."
Ele toca a campainha, chora à ideia de que não será, como antigamente, a sua avó, a sua avó
agonizante, mas um criado-grave indiferente que virá atendê-lo. Todavia, mesmo que o sono o
levasse para bem longe do mundo habitado pela recordação e pelo pensamento, através de um
éter onde estivesse sozinho, mais que sozinho, sem nem sequer ter esse companheiro em que a
gente se vê a si mesmo, estava ele fora do tempo e de suas medidas. E já entra o camareiro e ele
não se anima a perguntar-lhe a hora, pois ignora se dormiu, ou quantas horas dormiu (indaga a si
próprio se não foram dias, de tal modo retorna com o corpo exausto e o espírito descansado, o
coração nostálgico, como de uma viagem demasiado distante para que não tenha durado muito
tempo). Decerto pode-se pretender que só existe um tempo, pelo fútil motivo de que foi olhando
para a pêndula que se constatou ser apenas um quarto de hora o que pensáramos fosse um dia
inteiro. Mas, no momento em que o verificamos, somos justamente um homem desperto,
mergulhado no tempo dos homens despertos; desertamos do outro tempo. Talvez até mais que de
um outro tempo: de uma outra vida. Os prazeres que temos no sono, não os fazemos figurar na
conta dos prazeres experimentados durante a existência. Para só aludirmos ao mais vulgarmente
sensual de todos, qual de nós, ao despertar, não sentiu alguma irritação por ter experimentado,
enquanto dormia, um prazer que, se não queremos nos cansar demais, já não podemos, uma vez
despertos, renovar indefinidamente nesse dia? É como uma riqueza perdida. Tivemos prazer em
uma outra vida que não a nossa. Sofrimentos e prazeres do sonho (que em geral se dissipam
rapidamente ao despertar), se os fizéssemos figurar num orçamento, não seria no da vida
corrente. Disse eu: dois tempos; talvez exista apenas um, não que o do homem desperto seja
válido para o adormecido, mas talvez porque a outra vida, aquela em que se dorme, não esteja
em sua parte profunda submetida à categoria do tempo. Assim eu o representava quando, no dia
seguinte aos jantares na Raspeliere, adormecia tão completamente. Eis o porquê. Principiava a
desesperar-me, ao acordar, vendo que, depois de ter chamado dez vezes, o criado-grave não
aparecia. Na undécima vez ele entrava. Era apenas a primeira vez. As dez outras não tinham
passado de esboços no meu sono, que durava ainda, do toque de campainha que eu desejava.
Minhas mãos entorpecidas nem mesmo se haviam mexido. Ora, nessas manhãs (e é o que me
faz dizer que o sono talvez ignore a lei do tempo), o meu esforço para me acordar consistia
sobretudo em um esforço para adaptar o bloco obscuro, não definido, do sono que eu acabava de
viver, aos quadros do tempo. Não é fácil tarefa; o sono, que não sabe se dormimos duas horas ou
dois dias, não pode nos fornecer nenhum ponto de referência. E, se não o encontrarmos no
exterior, não conseguindo retornar ao tempo, voltamos a adormecer, por cinco minutos que
parecem três horas. Eu sempre disse e experimentei que o mais poderoso dos hipnóticos é o
sono. Depois de ter dormido profundamente por duas horas, ter combatido tantos gigantes e de
ter travado para sempre tantas amizades, é bem mais difícil despertar do que depois de ter
tomado vários gramas de veronal. Pensando assim sobre um e outro, fiquei surpreendido ao
saber, pelo filósofo norueguês, que o soubera pelo Sr. Boutroux, "seu eminente colega, perdão,
confrade", o que o Sr. Bergson pensava das alterações particulares da memória devidas aos
hipnóticos. "Está entendido", teria dito o Sr. Bergson ao Sr. Boutroux, a crer no filósofo norueguês,
"que os hipnóticos tomados de vez em quando em doses moderadas não têm influência sobre
essa memória sólida da nossa vida cotidiana, tão bem instalada em nós. Mas existem igualmente
outras memórias, mais altas e também mais instáveis. Um de meus colegas está dando um curso
de História antiga. Disse-me que, se na véspera havia tomado um comprimido para dormir, tinha
dificuldade, durante a aula, de encontrar as citações gregas de que necessitava. O médico que
lhe recomendara esses comprimidos assegurou-lhe que não tinham influência sobre a memória. É
que o senhor talvez não tenha de fazer citações gregas, respondera o historiador, não sem um
toque de “orgulho zombeteiro." Não sei se esta conversação entre o Sr. Bergson e o Sr. Boutroux
estará correta. O filósofo norueguês, todavia tão profundo e claro, passionalmente atento, pode ter
compreendido mal. Pessoalmente, minha experiência me proporcionou resultados opostos. Os
momentos de olvidey que, no dia seguinte, se seguem à ingestão de certos narcóticos têm uma
semelhança meramente parcial, mas perturbadora, com o esquecimento que reina no decurso de
uma noite de sono profundo e natural. Ora, o que eu esqueço, num e noutro caso, não é
determinado verso de Baudelaire, qual antes me fatiga, "assim como um tímpano", não é certo
conceito de um dos filósofos citados, é a própria realidade das coisas vulgares que me cercam se
durmo e cuja não-percepção faz de mim um louco; é se estou acordado e saio, logo após um sono
artificial não o sistema de Porfírio ou de Plotino, que posso discutir tão bem como em qualquer
outro dia, mas à resposta que prometi dar a um convite, cuja lembrança foi substituída por um
branco total. A ideia elevada permaneceu em seu lugar; o que o hipnótico pôs fora de uso é o
poder de agir nas pequenas coisas, em tudo o que exige atividade para recuperar bem a tempo,
para agarrar determinada lembrança da vida cotidiana. Apesar de tudo o que se possa dizer da
sobrevivência após a destruição do cérebro, reparo que a cada alteração do cérebro corresponde
um fragmento de morte. Todos nós possuímos as nossas lembranças, se não a faculdade de
recordá-las, diz, segundo Bergson, o grande filósofo norueguês, cuja linguagem não procurei
imitar, para não demorar ainda mais. Se não a faculdade de recordá-las. Mas o que é uma
lembrança da qual não se recorda? Porém vamos mais longe. Não nos recordamos das
lembranças dos últimos trinta anos; mas elas nos banham por inteiro; por que então parar a trinta
anos, por que não prolongar até além do nascimento essa vida anterior? Desde o momento em
que não conheço toda uma parte das lembranças que estão por detrás de mim, desde o momento
em que elas me são invisíveis, que não tenho a faculdade de chamá-las a mim, quem me diz que
nessa massa desconhecida de mim não há recordações que remontam muito além da minha vida
humana? Se posso ter em mim e a meu redor tantas lembranças de que não me recordo, esse
olvido (ao menos olvido de fato, visto que não possuo a faculdade de nada ver) pode estender-se
sobre uma vida que vivi no corpo de outro homem, até mesmo em outro planeta. Um mesmo
esquecimento apaga tudo. Mas então, que significa essa imortalidade da alma, de que o filósofo
norueguês afirmava a realidade? A criatura que serei após a morte não tem mais motivos de se
lembrar do homem que sou desde o nascimento, assim como este último não se recorda do que
eu fui antes de nascer.
O criado-grave entrava. Eu não lhe dizia que havia tocado a campainha diversas vezes,
pois já percebia que o fizera até então enquanto sonhava. No entanto, assustava-me pensar que
semelhante sonho tivera a nitidez do conhecimento. Teria o conhecimento, reciprocamente, a
irrealidade do sonho? Em compensação, perguntava-lhe quem havia tocado tanto aquela noite.
Ele dizia "ninguém", e podia afirmá-lo, pois o "quadro" das chamadas o teria registrado.
Entretanto, escutava os toques repetidos, quase furiosos, que ainda vibravam em meu ouvido e
me deviam permanecer perceptíveis durante vários dias. No entanto, é raro que o sono lance
desse modo, na vida desperta, lembranças que não morrem com ele. Podem-se contar esses
aerólitos. Se se trata de uma ideia que o sono forjou, ela depressa se dissocia em fragmentos
tênues, não encontrados. Porém aí o sono fabricara sons. Mais materiais e mais simples, duravam
por mais tempo. Espantava-me a hora relativamente matinal que o camareiro me dizia. Nem por
isso me sentia menos repousado. São os sonos leves que têm longa duração, porque,
intermediários entre a vigília e o sono, mantendo da primeira uma noção um tanto apagada mas
permanente, é-lhes necessário infinitamente mais tempo para repousar-nos do que um sono
profundo, o qual pode ser de curta duração. Sentia-me bem disposto por outra razão. Se é
bastante lembrarmo-nos de que estamos cansados para sentirmos penosamente o nosso
cansaço, dizer para nós mesmos: "Estou descansado", basta para criar o repouso.
Ora, havia sonhado que o Sr. de Charlus estava com cento e dez anos e acabara de dar
um par de tapas na própria mãe, Sra. Verdurin, porque ela comprara um buquê de violetas por
cinco bilhões; portanto, estava certo de ter dormido profundamente e sonhado às avessas todas
as minhas noções da véspera e todas as possibilidades da vida corrente; bastava isso para que
me sentisse inteiramente repousado. Teria deixado bem surpreendida a minha mãe, que não
podia compreender a assiduidade do Sr. de Charlus na casa dos Verdurin, se lhe tivesse contado
(precisamente no dia em que fora encomendada a touca de Albertine, sem nada lhe dizer e para
lhe fazer uma surpresa) com quem o Sr. de Charlus fora jantar num salão do Grande Hotel de
Balbec. O convidado não era outro senão o lacaio de uma prima dos Cambremer. Este lacaio
vestia-se com grande elegância e, quando atravessou o hall com o barão, "fez-se de homem do
mundo" aos olhos dos turistas, como teria dito Saint-Loup. Mesmo os jovens grooms, os "levitas"
que desciam em bando os degraus do templo nesse instante, porque era o momento da rendição,
não prestaram atenção nos dois recém-chegados, dos quais um o Sr. de Charlus, timbrava em
mostrar, baixando os olhos, que eles pouco lhe importavam. Dava a impressão de abrir passagem
no meio deles. "Prosperai, cara esperança de uma santa nação", citou ele, lembrando-se dos
versos de Racine, ditos num sentido bem diverso. - O que diz, senhor? perguntou o lacaio, pouco
a par dos clássicos. O Sr. de Charlus não lhe respondeu, pois punha um certo orgulho em não
fazer caso das perguntas e em caminhar direito para a frente como se não houvesse outros
fregueses no hotel e no mundo só existisse ele, barão de Charlus. Mas, tendo continuado os
versos de Josabeth: “Vinde, vinde, minhas filhas", sentiu-se desgostoso e não acrescentou, como
ela: "é preciso chamá-las", pois esses jovens ainda não tinham alcançado a idade em que o sexo
está inteiramente formado e que agradava ao Sr. de Charlus. Aliás, se escrevera ao lacaio da Sra.
de Chevregny, por não duvidar de sua docilidade, havia esperado que fosse mais viril. Ao vê-lo,
achara-o mais efeminado do que o desejaria. Disse-lhe que pensara tratar com alguém diferente,
pois conhecia de vista outro lacaio da Sra. de Chevregny, em quem de fato havia reparado no
carro. Era um tipo de camponês bem rústico, completamente o oposto deste, que, julgando, pelo
contrário, suas afetações como superioridades, e estando certo de que fossem essas qualidades
de mundano que seduziriam o Sr. de Charlus, não compreendeu sequer de que é que o barão
queria falar.
- Mas não tenho nenhum companheiro, a não ser um, a quem o senhor não pode ter
deitado o olho; é horroroso, parece um camponês brutamontes. -
E, à ideia de que talvez semelhante rústico fosse o que o barão vira, sentiu uma pontada
no seu amor-próprio. O barão o adivinhou e, ampliando o inquérito:
- Mas eu não fiz um voto especial de só conhecer gente da Sra. de Chevregny -disse. -
Será que aqui, ou em Paris, já que vai partir em breve, não poderia você apresentar-me muitos de
seus companheiros, de uma casa ou de outra?
- Oh, não respondeu o lacaio -, não frequento ninguém da minha classe. Só lhes falo sobre
o serviço, mas há alguém muito distinto que poderei fazer com que conheça.
- Quem? - indagou o barão.
- O príncipe de Guermantes. -
O Sr. de Charlus ficou despeitado de que só lhe oferecessem um homem daquela idade, e
para o qual, aliás, não necessitava da recomendação de um lacaio. Assim, declinou a oferta em
tom seco e, não se deixando desanimar pelas pretensões mundanas do criado, recomeçou a
explicar-lhe o que desejava, o gênero, o tipo, mesmo que fosse um jóquei, etc. Receando que o
tabelião que passava nesse momento o tivesse escutado, julgou prudente mostrar que falava de
coisa bem diversa daquela que poderiam supor, e disse com insistência e como que para o
público, mas feito não fizesse mais que continuar a conversação:
- Sim, apesar da minha idade, mantive o gosto de comprar quinquilharias, o gosto pelos
lindos bibelôs, faço loucuras por um velho bronze, por um lustre antigo. Adoro o Belo. -
Mas, para fazer o lacaio entender a mudança de assunto que tão rapidamente consumara,
o Sr. de Charlus acentuava de tal modo cada palavra e, mais ainda, para ser ouvido pelo tabelião,
gritava-as todas com tanta força, que todo esse jogo de cena teria bastado para denunciar o que
ele ocultava a ouvidos mais avisados que os do oficial do ministério. Este não desconfiou de coisa
alguma, bem como nenhum outro hóspede do hotel, pois todos viram um elegante estrangeiro no
lacaio tão bem vestido. Em compensação, se os homens da sociedade se equivocavam, tomando
o por um americano muito elegante, mal apareceu diante dos criados foi logo adivinhado por eles,
assim como um forçado reconhece outro, e até mesmo mais depressa, farejado a distância como
um animal por certos animais. Os chefes da categoria ergueram os olhos. Aimé lançou um olhar
suspeitoso. O copeiro, dando de ombros, disse por trás da mão, porque julgava isso cortês, uma
frase injuriosa que todos ouviram. E até a nossa velha Françoise, cuja vista diminuía e que
passava naquele momento ao pé da escada para ir jantar nos "mensageiros", ergueu a cabeça,
reconheceu um criado onde os convivas do hotel não o suspeitavam como a velha ama Euricléia
reconhece Ulisses bem antes dos pretendentes assentados no festim e, vendo o Sr. de Charlus
andar familiarmente com ele, demonstrou uma expressão acabrunhada, como se de repente as
maldades de que ouvira falar e em que não tinha acreditado houvessem adquirido a seus olhos
uma pungente verossimilhança. Ela nunca me falou, nem a ninguém, deste incidente, o qual,
todavia, deve ter dado trabalho considerável a seu cérebro, pois mais tarde, cada vez que, em
Paris, teve ocasião de ver "Julien", que até então apreciara tanto, sempre se mostrou cortês com
ele, mas de uma cortesia que se resfriara e estava sempre acrescida de forte dose de reserva.
Esse mesmo incidente, ao contrário, levou alguém bem diverso a me fazer uma confidência; foi
Aimé. Quando eu cruzara pelo Sr. de Charlus, este, que não esperava encontrar-me, gritou-me,
erguendo a mão: "Boa-noite", com a indiferença, ao menos aparente, de um grão-senhor que julga
que tudo lhe é permitido e que acha mais hábil dar a entender que não se esconde. Ora, Aimé,
que nesse momento o observava com olhar desconfiado e viu que eu cumprimentava o
companheiro daquele em que estava certo de ver um criado, perguntou-me nessa mesma noite de
quem se tratava. Pois, desde algum tempo, Aimé gostava de conversar, ou melhor, como dizia,
sem dúvida para marcar o caráter, segundo ele filosófico, dessas conversas, de "discutir" comigo.
E, como várias vezes lhe dissesse que me sentia constrangido que ele ficasse de pé junto a mim
enquanto eu jantava, em vez de sentar-se e compartilhar da minha refeição, declarava que jamais
vira um freguês com "raciocínio tão justo". Naquele momento, conversava com dois garçons.
Tinham me saudado; não sabia por quê; seus rostos eram-me desconhecidos, embora ressoasse,
na sua conversa, um rumor que não me parecia novo. Aimé censurava-os por causa do noivado
de ambos, que desaprovava. Tomou-me como testemunha; eu disse que não podia ter uma
opinião, visto que não os conhecia. Eles recordaram-me os seus nomes e também que muitas
vezes me haviam servido em Rivebelle. Mas um deixara crescer o bigode, o outro o raspara e
havia cortado o cabelo à escovinha; e devido a isso, e apesar de ser a mesma cabeça de outrora
que estava sobre seus ombros (e não uma outra, como nas restaurações errôneas da Notre
Dame), ela me havia permanecido tão invisível como esses objetos que escapam às mais
minuciosas perquirições, e que estão simplesmente aos olhos de todos, que não os percebem,
acima de uma lareira. Logo que lhes soube os nomes, reconheci com exatidão a melodia incerta
de suas vozes porque revi os rostos antigos que a determinavam. - Eles querem se casar e nem mesmo sabem o inglês! - disse Aimé, que não imaginava
que eu estivesse pouco a par da profissão de hoteleiro e não conseguia compreender que, se não
se conhecem as línguas estrangeiras, não se pode contar com uma boa situação. Eu, que
pensava que ele facilmente saberia que o novo freguês era o Sr. de Charlus, e imaginava até que
devia lembrar-se dele, por tê-lo servido, quando o barão viera visitar a Sra. de Villeparisis por
ocasião da minha primeira temporada em Balbec, disse-lhe o seu nome. Ora, não só Aimé não se
lembrava do barão de Charlus, mas também esse nome lhe pareceu causar uma profunda
impressão. Disse-me que iria procurar, no dia seguinte, em seus guardados, uma carta que eu
talvez pudesse explicar-lhe. Tanto mais espantado fiquei, pois que o Sr. de Charlus, quando
quisera dar-me um livro de Bergotte, em Balbec, naquela temporada, tinha mandado chamar
especialmente Aimé, a quem deve ter encontrado em seguida nesse restaurante de Paris onde eu
jantara com Saint-Loup e a amante deste, e onde o Sr. de Charlus tinha ido nos espionar. É
verdade que não pudera cumprir pessoalmente essas missões, estando deitado da primeira vez e,
da segunda, ocupado em serviço. No entanto, eu sentia muitas dúvidas quanto à sua sinceridade,
quando afirmava não conhecer o Sr. de Charlus. Por um lado, devia ser conveniente ao barão.
Como todos os chefes de andar do hotel de Balbec, como vários camareiros do príncipe de
Guermantes, Aimé pertencia a uma raça mais antiga que a do príncipe, e portanto mais nobre.
Quando alguém pedia um salão, a princípio acreditava-se a sós. Mas em breve avistava na copa
um escultural mordomo, desse gênero etrusco ruivo de que Aimé era o tipo, um tanto envelhecido
pelos excessos de champanha e vendo aproximar-se a hora necessária da água de Contrexéville.
[Contrexéville é uma estância hidromineral francesa, indicada para o tratamento de doenças
urinárias e biliares, gota e obesidade. (N. do T)]
Todos os fregueses só lhes pediam que os servissem. Os grooms, que eram jovens,
escrupulosos, apressados, a quem uma amante esperava na cidade, tratavam de escapulir.
Assim, Aimé lhes censurava o não serem sérios. Estava no seu direito. Sério, ele o era. Tinha
mulher e filhos, e ambições para a família. Portanto, não repelia as tentativas que uma estrangeira
ou um estrangeiro lhe faziam, mesmo que tivesse de ficar toda a noite. Pois o trabalho deve estar
acima de tudo. De tal modo ele era do gênero que podia agradar ao Sr. de Charlus, que suspeitei
que mentia quando me disse não conhecê-lo. Enganava-me. Era com toda a sinceridade que o
groom havia dito ao barão que Aimé (que lhe passara uma reprimenda no dia seguinte) estava
deitado (ou tinha saído) e, da outra vez, que estava de serviço. Mas a imaginação supõe além da
realidade. E o embaraço do groom provavelmente causara, no Sr. de Charlus, quanto à
sinceridade de suas desculpas, dúvidas que nele haviam ferido sentimentos dos quais Aimé não
suspeitava. Viu-se também que Saint-Loup impedira que Aimé fosse ao carro onde o Sr. de
Charlus que, não sei como, obtivera o novo endereço do mordomo, passara por uma nova
decepção. Aimé, que não o percebera, experimentou o espanto que se pode imaginar quando, na
mesma noite do dia em que eu almoçara com Saint-Loup e sua amante, recebeu uma carta
lacrada com as armas de Guermantes e da qual citarei aqui algumas passagens, como exemplo
de loucura unilateral de um homem inteligente que se dirigisse a um imbecil sensato. "Senhor, não
pude conseguir, apesar dos esforços que assombrariam muitas pessoas que buscam inutilmente
ser recebidas e saudadas por mim, que escutasse as poucas explicações que não me pedia, mas
que eu julgava apresentar-lhe, devido à minha e à sua dignidade. Portanto, vou escrever aqui o
que seria mais fácil dizer-lhe de viva voz. Não lhe ocultarei que da primeira vez que o vi, em
Balbec, sua figura me pareceu francamente antipática. Seguiam-se então reflexões sobre a
semelhança notada apenas no segundo dia com um amigo defunto, pelo qual o Sr. de Charlus
sentira grande afeição.
"Então, tive por um momento a idéia de que o senhor poderia, sem prejudicar em nada a
sua profissão, vir jogar comigo partidas de cartas, com as quais a alegria desse amigo sabia
dissipar a minha tristeza, para dar-me a ilusão de que ele não estava morto. Seja qual for a
natureza das suposições mais ou menos tolas que o senhor provavelmente fez, e mais ao alcance
de um serviçal (que nem merece tal nome, já que não quis servir) do que a compreensão de um
sentimento tão elevado, julgou o senhor provavelmente dar-se importância, ignorando quem eu
era e o que era, mandando responder, quando lhe mandava pedir um livro, que estava deitado;
ora, é um erro supor que um mau procedimento acrescenta o que quer que seja à graça, de que
aliás o senhor é inteiramente destituído. Teria eu ficado nisso, se por acaso, na manhã seguinte,
não lhe pudesse falar. Sua semelhança com meu pobre amigo acentuou-se de tal maneira,
fazendo até desaparecer a forma insuportável de seu queixo proeminente, que compreendi que
era o defunto que, nesse momento, emprestava-lhe um pouco de sua expressão tão bondosa a
fim de lhe permitir que voltasse a me impressionar e impedi-lo de perder a oportunidade única que
se lhe oferecia. Com efeito, embora eu não deseje, visto que nada disso tem mais razão de ser e
que não terei mais ocasião de encontrá-lo nesta vida, misturar a isso tudo brutais questões de
interesse, ficaria muito feliz em obedecer às súplicas do morto (pois creio na comunhão dos
santos e em sua veleidade de intervenção no destino dos vivos), de agir consigo como com ele,
que tinha seu carro, seus criados, e a quem era muito natural que eu consagrasse a maior parte
de minhas rendas, pois amava-o como a um filho. O senhor decidiu de outra forma. A meu pedido
de que me trouxesse um livro, mandou responder que precisava sair. E esta manhã, quando
mandei lhe pedir que viesse ao meu carro, o senhor, se posso lhe falar assim sem sacrilégio,
renegou-me pela terceira vez. O senhor me desculpará por não colocar neste envelope as
gorjetas elevadas que contava dar-lhe em Balbec, e nas quais muito penoso me seria insistir em
relação a uma pessoa com que, por um instante, julguei que iria dividir tudo. Quando muito,
poderia poupar-me fazer, junto ao senhor, em seu restaurante, uma quarta tentativa inútil e até à
qual não iria a minha paciência. (E aqui o Sr. de Charlus dava o seu endereço, a indicação das
horas em que seria encontrado, etc.) Adeus, senhor. Como creio que, sendo de tal modo parecido
com o amigo que perdi, não deve ser inteiramente estúpido, a menos que a fisionomia se revele
como uma ciência falsa, estou convencido de que um dia, se pensar de novo neste incidente, não
o será sem experimentar uma certa pena e algum remorso. De minha parte, creia que bem
sinceramente não lhe guardo amargura nenhuma. Teria preferido que nos separássemos com
uma lembrança menos ruim do que a desta terceira tentativa inútil. Será logo esquecida. Somos
como esses navios que o senhor deve ter avistado às vezes de Balbec, que se cruzam por um
momento; poderia haver, para cada um deles, vantagens em parar; porém um julgou de modo
diverso; em breve não se avistarão sequer no horizonte, e o encontro está apagado; mas, antes
dessa separação definitiva, cada qual saúda o outro, e é o que faz aqui, senhor, desejando-lhe
boa sorte, o barão de Charlus."
Aimé nem sequer havia lido essa carta até o fim, pois não entendera nada e desconfiava
de uma mistificação. Quando lhe expliquei quem era o barão, ele pareceu um tanto sonhador e
sentiu aquela pena que o Sr. de Charlus lhe predissera. Nem mesmo juraria que ele então não
tivesse escrito para se desculpar perante um homem que dava carros a seus amigos. Mas, nesse
intervalo, o Sr. de Charlus travara relações com Morel. Quando muito, sendo essas relações
talvez platônicas, o Sr. de Charlus buscava às vezes, por uma noite, uma companhia como aquela
em que eu acabava de encontrá-lo no hall. Mas ele não podia mais desviar de Morel o sentimento
violento que, livre alguns anos antes, desejara fixar-se em Aimé e que havia ditado a carta que me
mostrara o mordomo e me fazia sentir constrangido pelo Sr. de Charlus. Por causa do amor antissocial que era o do Sr. de Charlus, constituía essa carta um exemplo mais impressionante da
força poderosa e insensível dessas correntes da paixão e dentro das quais o enamorado, como
um nadador que é arrastado sem o perceber, rapidamente perde a terra de vista. É claro que o
amor de um homem normal também pode, quando o amoroso, pela invenção sucessiva de seus
desejos, de suas penas, de suas decepções e de seus projetos, constrói todo um romance inteiro
sobre uma mulher que ele não conhece, permitir que se meça um bem considerável afastamento
das duas pontas de compasso. Todavia, um tal afastamento era singularmente ampliado pela
natureza de uma paixão que em geral não é partilhada e pela diferença das condições de Aimé e
do Sr. de Charlus.
continua na página 175...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Eu caía de sono)
Volume 6
Volume 7