em busca do tempo perdido
volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Terceiro
Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.
Fazia mais que conhecê-la, era o pai dele. Algumas das lembranças afetuosas de Morel à
memória de meu tio ligavam-se ao fato de que não tencionávamos permanecer sempre no
palacete de Guermantes, aonde só fôramos morar por causa da minha avó! Às vezes, falava-se
de uma possível mudança. Ora, para compreender os conselhos que a tal respeito me dava
Charles Morel, é preciso saber que, antigamente meu tio-avô morava no bulevar Malesherbes 40
bis. Como nós íamos muito à casa de meu tio Adolphe, até o dia fatal em que fiz meus pais
brigarem com ele ao contar a história da dama cor-de-rosa, resultou daí que, na família, em vez
de se dizer "casa do seu tio", dizia-se "no 40-bis": Primas de minha mãe diziam com o ar mais
natural do mundo:
- Ah! Domingo não podemos visitar vocês, pois vão jantar no 40-bis. -
Se eu ia visitar uma parenta, recomendavam-me que passasse primeiro no 40-bis, para
que meu tio não se melindrasse por não ter começado por ele. Ele era proprietário da casa e, para
falar a verdade, mostrava-se muito difícil na escolha dos locatários, que eram todos seus amigos,
ou ficariam sendo. O coronel barão de Vatry vinha todos os dias fumar um charuto com ele a fim
de mais facilmente obter os consertos. A porta da rua estava sempre fechada. Se, numa janela,
meu tio avistava uma roupa, um tapete, enfurecia-se e mandava retirá-los mais rapidamente do
que hoje o faz a polícia. Mas afinal, nem por isso deixava de alugar uma parte da casa,
reservando para seu uso apenas dois andares e as cavalariças. Apesar disso, sabendo que lhe
agradava elogiassem a boa manutenção da casa, louvavam o conforto do "palacete" como se
meu tio fosse o seu único ocupante, e ele deixava que o dissessem, sem opor o desmentido
formal que seria de esperar. Seguramente o "palacete" era confortável (pois meu tio introduzia
nele todas as invenções da época). Porém nada possuía de extraordinário. Só meu tio, embora
dizendo com falsa modéstia "meu casebre", estava persuadido, ou pelo menos inculcara a seu
criado de quarto, à mulher deste, ao cocheiro, à cozinheira a ideia de que não existia nada em
Paris que se comparasse ao pequeno palacete em conforto, luxo e satisfação. Charles Morel
crescera dentro dessa fé. E nela permanecera. Assim, mesmo nos dias em que não conversava
comigo, se, no trem, eu falasse a alguma pessoa sobre a possibilidade de uma mudança, logo ele
me sorria e, piscando o olho com ar de entendido, dizia:
- Ah, o que o senhor precisaria era de alguma coisa do tipo do 40-bis! Aí é que haveria de
sentir-se a gosto! Pode-se dizer que seu tio entendia dessas coisas. Estou certo de que em Paris
inteira não existe nada que valha o 40-bis.
Ao ar melancólico que o Sr. de Charlus assumira ao falar da princesa de Cadignan, bem
senti que essa novela não o fazia pensar apenas no jardinzinho de uma prima muito indiferente.
Caiu num profundo devaneio e, como que falando para si mesmo, exclamou:
- Os Segredos da Princesa de Cadignan! Que obra-prima! Como é profunda, como é
dolorosa essa má reputação de Diane, que tanto receia que o homem a quem ama o venha a
saber! Que verdade eterna, e mais geral do que aparenta! Como vai longe isso! -
O Sr. de Charlus pronunciou essas palavras com uma tristeza que, no entanto, a gente
sentia que ele não achava sem atrativos. Provavelmente o Sr. de Charlus, não sabendo ao certo
em que medida os seus costumes eram ou não conhecidos, estremecia desde algum tempo à
ideia de que voltaria a Paris e que o encontrariam com Morel, a família deste acabasse por intervir
e que, assim, a sua felicidade ficasse comprometida. Tal eventualidade provavelmente só lhe
aparecera até então como algo de profundamente penoso e desagradável. Mas o barão era muito
artista. E agora que, desde um momento, confundia sua situação com a descrita por Balzac,
refugiava-se de algum modo na novela, e, ao infortúnio que talvez o ameaçasse e, de qualquer
forma, não deixava de assustá-lo, ele tinha esse consolo de encontrar na própria ansiedade aquilo
que Swann e o próprio Saint-Loup teriam denominado algo de "muito balzaquiano". Essa
identificação com a princesa de Cadignan tornara-se fácil ao Sr. de Charlus graças à transposição
mental que se lhe tornara um hábito e da qual já dera vários exemplos. Aliás, era o bastante para
que a simples substituição da mulher, como objeto amado, por um rapaz desencadeasse
imediatamente, em torno deste, todo o processo de complicações sociais que se desenvolvem ao
redor de uma ligação comum. Quando, por um motivo qualquer, introduz-se de uma vez por todas
uma mudança no calendário ou nos horários, se se faz principiar o ano algumas semanas mais
tarde ou soar a meia-noite quinze minutos mais cedo, como os dias, mesmo assim, terão vinte e
quatro horas e os meses trinta dias, tudo o que decorre da medida do tempo permanecerá
idêntico. Tudo pode ter sido alterado sem causar nenhum transtorno, pois as relações entre os
números são sempre as mesmas. Assim ocorre com os que seguem "a hora da Europa central"
ou os calendários orientais. Parece até que o amor-próprio que se tem em sustentar uma atriz
desempenhava um papel nesta ligação. Quando, desde o primeiro dia, o Sr. de Charlus tomara
informações sobre Morel, certamente ficara sabendo que era de origem humilde; mas uma demi
mondaine a quem amamos, nada perde de seu prestígio para nós por ser filha de gente pobre.
Em compensação, os músicos conhecidos a quem ele mandara escrever nem mesmo por
interesse, como os amigos que, apresentando Swann a Odette, haviam-na descrito como mais
difícil e mais requisitada do que o era por simples banalidade de homens em evidência que
exaltam um estreante, haviam respondido ao barão:
- Ah, grande talento, boa situação, naturalmente considerando que é um jovem, muito
apreciado pelos conhecedores, irá longe. -
E, com a mania dos que ignoram a inversão, falando da beleza masculina:
- E depois, dá gosto vê-lo tocar; faz melhor figura que ninguém num concerto; tem lindos
cabelos, uma postura distinta; a cabeça é atraente e ele parece um violinista de retrato. -
Assim o Sr. de Charlus, aliás sobrexcitado por Morel, que não o deixava ignorar de
quantas propostas era objeto, sentia-se lisonjeado em trazê-lo consigo, de construir-lhe um
pombal a que ele voltasse várias vezes. Pois desejava estar livre o restante do tempo, o que se
fazia necessário para a sua carreira, que o Sr. de Charlus queria que Morel continuasse, por mais
dinheiro que tivesse de lhe dar, fosse por causa daquela ideia muito Guermantes de que é
necessário que um homem faça alguma coisa, de que as pessoas só valem pelo seu talento, e
que a nobreza ou o dinheiro são somente o zero que multiplica um valor, fosse por ter medo de
que, ocioso e sempre a seu lado, o violinista acabasse se aborrecendo. Enfim, não queria privar
se do prazer que sentia consigo próprio, de dizer por ocasião de certos concertos de gala: "Este a
quem aclamam no momento estará comigo esta noite." As pessoas elegantes, quando estão
enamoradas, e de qualquer maneira que o estejam, põem sua vaidade naquilo que pode destruir
as vantagens anteriores em que sua vaidade encontrou satisfação. Morel, sentindo que eu não
tinha maldade com ele, sinceramente ligado ao Sr. de Charlus e, por outro lado, de uma
indiferença física absoluta em relação a ambos, acabou por manifestar a meu respeito os mesmos
sentimentos de calorosa simpatia de uma cocote que sabe que não a desejamos e que seu
amante tem em nós um amigo sincero que não tentará fazê-lo romper com ela. Não só me falava
exatamente como outrora Rachel, a amante de Saint-Loup, mas também, conforme o que me
repetia o Sr. de Charlus, dizia de mim, na minha ausência, as mesmas coisas que Rachel falava
sobre mim a Robert. Por fim, o Sr. de Charlus me dizia:
- Ele gosta muito do senhor.
Como Robert: - Ela gosta muito de ti. -
E, como o sobrinho em nome da amante, era em nome de Morel que o tio me pedia muitas
vezes que fosse jantar com eles. Além disso, não havia menos tempestades entre eles do que
entre Robert e Rachel. Certo, quando Charlie (Morel) ia embora, o Sr. de Charlus não lhe poupava
elogios, repetindo desvanecido que o violinista era muito bom para ele. Mas era visível, no
entanto, que freqüentemente Charlie, mesmo diante de todos os fiéis, tinha um ar irritado em vez
de parecer sempre feliz e submisso como o teria desejado o barão. Essa irritação chegou até,
mais tarde, devido à fraqueza que fazia o Sr. de Charlus perdoar as atitudes inconvenientes de
Morel, ao ponto de o violinista não mais ocultá-la, ou ainda a afetava. Vi o Sr. de Charlus entrando
num vagão onde se achava Morel com alguns de seus amigos militares e ser recebido com um
dar de ombros do músico, acompanhado com um piscar de olhos a seus amigos. Ou então fingia
estar dormindo, como alguém a quem semelhante chegada é o cúmulo do aborrecimento. Ou
punha-se a tossir; os outros riam, simulando, para divertir-se, o falar amaneirado de homens como
o Sr. de Charlus; atraíam Charlie para um canto e este acabava por voltar, como que forçado,
para junto do Sr. de Charlus, cujo coração era transpassado por todos esses maus-tratos. É
inconcebível que os tenha suportado; e essas formas cada vez diferentes de sofrimento
colocavam de novo para o Sr. de Charlus o problema da felicidade, forçavam-no não apenas a
pedir mais, como também a desejar outra coisa, já que a combinação precedente se achava
viciada por uma lembrança horrível. E no entanto, por mais penosas que fossem logo tais cenas,
convém reconhecer que, nos primeiros tempos, se manifestava em Morel o gênio do homem do
povo da França, emprestando-lhe formas encantadoras de simplicidade, de aparente franqueza, e
até de uma altivez independente que parecia inspirada pelo desinteresse. Isso era falso, mas a
vantagem da atitude estava bem mais a favor de Morel, considerando-se que, enquanto aquele
que ama está sempre forçado a voltar à carga, a insistir, pelo contrário, é fácil ao que não ama
seguir uma linha reta, inflexível e graciosa. Ela existia, por privilégio da raça, no rosto tão aberto
desse Morel de coração tão fechado, nesse rosto adornado com a graça neo-helênica que
floresce nas basílicas da Champagne. Apesar de sua altivez artificial, seguidamente, avistando o
Sr. de Charlus no momento em que não o esperava, ficava constrangido diante do pequeno clã,
enrubescia, baixava os olhos, para deslumbramento do barão que via naquilo todo um romance.
Era simplesmente um sinal de irritação e de vergonha. A primeira por vezes se expressava; pois,
por mais calma e energicamente decente que fosse a atitude de Morel, ele não passava sem
desmentir-se com freqüência. Às vezes até, a alguma palavra que o barão lhe dissesse, estourava
da parte de Morel uma réplica insolente, em tom duro, e com o qual todos ficavam chocados. O
Sr. de Charlus baixava a cabeça com ar triste, nada respondia e, com a faculdade que têm os pais
idólatras de achar que ninguém repara na frieza e dureza dos filhos, nem por isso deixava de
entoar louvores ao violinista. Aliás, o Sr. de Charlus não era sempre tão submisso, mas suas
rebeliões em geral não alcançavam seu objetivo, principalmente porque, tendo convivido com
pessoas da alta sociedade, levava em conta, no cálculo das reações que podia despertar, a
baixeza, se não original pelo menos adquirida pela educação. Ora, em vez disso, encontrava em
Morel alguma veleidade plebéia de indiferença momentânea. Infelizmente para o Sr. de Charlus,
ele não compreendia que, para Morel, tudo cedia diante das questões em que o Conservatório e a
boa reputação no Conservatório (porém isto, que devia ser mais grave, não se colocava de
momento) entravam em jogo. Assim, por exemplo, os burgueses mudam facilmente de nome por
vaidade, os grão-senhores por vantagem. Para o jovem violinista, ao contrário, o nome de Morel
estava indissoluvelmente ligado a seu prêmio de violino; logo, era impossível modificá-lo. O Sr. de
Charlus gostaria que Morel tivesse tudo dele, mesmo o seu nome. Considerando que o prenome
de Morel era Charles, que se assemelhava a Charlus, e que a propriedade em que eles se
encontravam tinha o nome de Charmes, quis convencer Morel de que um belo nome, agradável
de dizer, era a metade de uma reputação artística, e que o virtuoso devia sem hesitar tomar o
nome de “Charmel", discreta alusão ao local de seus encontros. Deu de ombros Morel e, como
último argumento, o Sr. de Charlus teve a infeliz idéia de acrescentar que tinha um criado de
quarto que se chamava desse modo. Não fez mais que excitar a furiosa indignação do rapaz.
- Houve um tempo em que meus antepassados sentiam-se orgulhosos do título de criado
de quarto, de mordomo do rei. - Houve um outro - respondeu altivamente Morel - em que meus
antepassados mandaram cortar o pescoço dos seus. -
O Sr. de Charlus ficaria muito espantado se pudesse supor que, na falta de "Charmel",
resignado a adotar Morel e a lhe dar um dos títulos da família de Guermantes de que dispunha,
mas que as circunstâncias, conforme se verá, não lhe permitiram oferecer ao violinista, este o
houvesse recusado, pensando na reputação artística ligada a seu nome de Morel e nos
comentários que fariam na "classe". De tal modo colocava ele a rua Bergere acima do faubourg
Saint-Germain! Ao Sr. de Charlus forçoso lhe foi contentar-se, no momento, em mandar fazer,
para Morel, anéis simbólicos com a antiga inscrição: PLVS VLTRA CAROLVS. Por certo, diante
de um adversário de uma espécie a que não conhecia, o Sr. de Charlus deveria mudar de tática.
Mas quem é capaz de tal? Além disso, se o Sr. de Charlus tinha dessas inabilidades, tampouco
Morel as deixava de ter. Bem mais do que a simples circunstância que provocou o rompimento, o
que devia, ao menos provisoriamente (mas esse provisório veio a ser definitivo), perdê-lo ante o
Sr. de Charlus é que nele não havia apenas a baixeza, que o fazia ser vulgar diante da severidade
e responder com insolência à doçura. Paralelamente à natural baixeza, havia nele uma
neurastenia complicada com a má educação, que, despertando em toda circunstância em que
estivesse em falta ou dependesse de alguém, fazia com que, no próprio momento em que
necessitaria de toda a sua gentileza, de toda a sua doçura, de toda a sua alegria para desarmar o
barão, ele se tornasse sombrio, intratável; procurasse travar discussões em que sabia que
divergiam dele, sustentava seu ponto de vista hostil com uma fraqueza de razões e uma violência
cortante que só fazia aumentar essa mesma fraqueza. Pois bem depressa, à falta de argumentos,
ainda assim os inventava, revelando destarte toda a extensão de sua tolice e ignorância. Estas
mal se mostravam quando ele era amável e só procurava agradar. Pelo contrário, só elas é que
apareciam em seus acessos de mau humor sombrio, nos quais, de inofensivas tornavam-se
odiosas. Então o Sr. de Charlus sentia-se farto pondo toda a sua esperança num dia seguinte
melhor, ao passo que Morel, esquecendo que o barão o fazia viver faustosamente, ostentava um
sorriso irônico de piedade superior e dizia:
- Nunca aceitei nada de ninguém. Desse modo, não há ninguém a quem eu deva um só
muito obrigado.
Nesse meio tempo, e como se tivesse de lidar com um homem da alta sociedade, o Sr. de
Charlus continuava a exercer as suas cóleras, verdadeiras ou fingidas, porém agora inúteis.
Entretanto, nem sempre o eram. Assim, um dia (que se coloca aliás após aquele primeiro período)
em que o barão voltava comigo e Charlie de um almoço em casa dos Verdurin, julgando passar o
fim da tarde e a noite com o violinista em Doncieres, a despedida deste, logo que o trem partiu,
respondendo:
- Não, tenho o que fazer -, causou ao Sr. de Charlus uma tão forte decepção que, embora
tentasse mostrar boa cara diante do azar, vi que lágrimas dissolviam o cosmético de suas
pestanas, enquanto que ele permanecia estupidificado diante do trem. Essa dor foi tamanha que,
como Albertine e eu pretendêssemos acabar o dia em Doncieres, disse ao ouvido dela que não
gostaria de deixar sozinho o Sr. de Charlus, que me parecia, não saber por quê, muito
desgostoso. A querida pequena aceitou de bom grado. Então, perguntei ao Sr. de Charlus se não
desejava que o acompanhasse um pouco. Ele também aceitou, mas recusou incomodar por isso a
minha prima. Achei uma certa doçura (e sem dúvida pela última vez, pois estava decidido a
romper com ela) em lhe ordenar suavemente, como se ela fosse minha mulher:
- Volta sozinha, vou me encontrar contigo esta noite -, e em ouvi-la, como o faria uma
esposa, dar-me licença de proceder como quisesse e aprovar que me pusesse à disposição do Sr.
de Charlus, caso este, de quem muito gostava, precisasse de mim.
Fomos, o barão e eu, ele bamboleando a sua corpulência, com seus olhos de jesuíta
baixos, eu seguindo-o até um café onde nos serviram cerveja. Senti os olhos do Sr. de Charlus
presos pela inquietação a algum projeto. De súbito, pediu papel e tinta e pôs-se a escrever com
rapidez singular. Enquanto enchia folha após folha, seus olhos brilhavam num devaneio raivoso.
Depois de escrever oito páginas:
- Posso pedir-lhe um grande obséquio? - indagou. - Desculpe-me fechar esta carta. Mas é
necessário. O senhor vai tomar um carro, um auto se puder, para ir mais depressa. Certamente
ainda encontrará Morel no seu quarto, aonde foi se trocar. Pobre menino, quis bancar o fanfarrão
no momento de nos deixar, mas fique certo de que ele está com o coração mais pesado que eu. O
senhor vai entregar-lhe esta carta e, se ele perguntar onde é que me viu, dirá que desembarcou
em Doncieres (o que aliás era verdade) para ver Robert (o que talvez não seja verdade), mas que
me encontrou com alguém a quem não conhecia, que eu parecia bastante encolerizado, que o
senhor julgou surpreender palavras de envio de testemunhas (na verdade, bato-me amanhã).
Principalmente, não lhe diga que peço para chamá-lo, nem procure trazê-lo, mas, se ele quiser
voltar com o senhor, não o impeça. Vá, meu menino, é para o bem dele, o senhor pode evitar um
grande drama. Enquanto estiver fora, vou escrever às minhas testemunhas. Impedi o senhor de ir
passear com sua prima. Espero que ela não me queira mal por isso, e até o creio. Pois trata-se de
uma alma nobre e sei que é daquelas que sabem não se furtar à grandeza das circunstâncias.
Terá de agradecei-lhe em meu nome. Sou-lhe pessoalmente devedor e agrada-me que assim
seja. -
Sentia grande piedade pelo Sr. de Charlus; parecia-me que Charlie poderia impedir esse
duelo, do qual talvez fosse a causa; e, se assim era, sentia-me revoltado que ele tivesse ido
embora com aquela indiferença em vez de dar assistência a seu protetor. Minha indignação
cresceu quando, ao chegar à casa em que residia Morel, reconheci a voz do violinista que, pela
necessidade de expandir sua alegria, cantava a plenos pulmões: "Na noite de sábado, depois do
batente!" Se o pobre Sr. de Charlus o ouvisse, justo ele que desejava que acreditassem, e sem
dúvida acreditava, que Morel tinha o coração pesado naquele momento! Charlie pôs-se a dançar
de prazer quando me viu.
- Oh, meu velho (perdoe-me chamá-lo desse modo, mas com essa maldita vida de militar a
gente adquire maus hábitos), que sorte que o vejo! Não tenho nada a fazer de noite. Vamos
passá-la juntos, que tal? Ficaremos aqui, se isto lhe agrada; se achar melhor, vamos passear de
bote, tocaremos música, não tenho qualquer preferência.
Disse-lhe que era obrigado a jantar em Balbec, ele tinha muita vontade de que o
convidasse, mas eu não queria.
- Mas, se está tão apressado, por que veio até aqui?
- Trago-lhe uma carta do Sr. de Charlus. -
A esse nome, toda a sua alegria desapareceu; seu rosto contraiu-se.
- Como! Até aqui ele vem me importunar? Então eu sou um escravo! Meu velho, seja
amável. Não vou abrir a carta. Você lhe dirá que não me encontrou.
- Não seria melhor abri-la? Acho que contém algo de grave.
- Cem vezes não, você não conhece as mentiras, as manhas infernais desse velho pirata.
É um truque para que vá vê-lo. Pois bem! Não irei, quero ter paz esta noite.
- Mas não haverá um duelo amanhã? - perguntei a Morel, que eu julgava a par de tudo.
- Um duelo? -indagou com ar estupefato. - Não sei uma só palavra a respeito. Afinal, pouco
me importa. Esse velho repulsivo bem pode se deixar esfaquear se lhe agrada. Mas olhe, você me
deixou intrigado; em todo caso, vou ler a carta dele. Diga-lhe que a deixou aqui, para o caso de eu
voltar para casa. -
Enquanto Morel me falava, eu olhava com espanto os admiráveis livros que o Sr. de
Charlus lhe dera e que atulhavam o quarto. Tendo o violinista recusado aqueles que traziam a
divisa: "Pertenço ao barão, etc.", divisa que lhe parecia insultante para si próprio, como um sinal
de posse, o barão, com o engenho sentimental em que se compraz o amor infeliz, tinha variado
com outras, provenientes de ancestrais, porém encomendadas ao encadernador conforme as
circunstâncias de uma amizade melancólica. Às vezes eram breves e confiantes, como Spes mea,
ou como Exspectata non eludet; às vezes, apenas resignadas, como "Esperarei"; algumas
galantes: Mesmes, prazer do Mestre, ou recomendando a castidade, como aquela tomada de
empréstimo aos Simiane, semeada de torres de blau (azul) e de flores-de-lis, e desviada de seu
sentido: Sustentant lilia turres; outras, enfim, desesperadas e marcando encontro no céu para
quem não quisera saber dele na terra: Manet ultima coelo; e achando muito verdes as uvas que
não podia alcançar, fingindo não ter procurado aquilo que não obtivera, o Sr. de Charlus dizia em
uma: Non mortale quod opto. Mas não tive tempo de ver todas. Se o Sr. de Charlus, lançando no
papel essa carta, parecera possuído do demônio da inspiração que fazia correr a sua pena, assim
que Morel rompeu o selo: Atavis et armis.
[Tradução respectiva das expressões em latim: Spes mea, "minha esperança"; Exspectata non
eludet, "Não decepcionará minhas expectativas"; Sustentant filia turres, "As torres sustentam os
lírios"; Manet ultima coelo, "O fim pertence ao céu"; Non mortale quod opto, "Tenho a ambição de
um imortal". Atavis et armis: "Pelos ancestrais e pelas armas." (N. do T)]
Acometido por um leopardo acompanhado de duas rosas de goelas, pôs-se a ler com tão
grande febre como a que tivera o Sr. de Charlus ao escrever, e sobre essas páginas preenchidas
ao acaso, o seu olhar não corria menos depressa que a pena do barão.
- Ah, meu Deus! - gritou - só faltava mais essa! Mas onde encontrá-lo? Deus sabe onde
estará agora. -
Insinuei que, se a gente se apressasse, iria encontrá-lo ainda no mesmo café onde ele
pedira cerveja para se refazer.
- Não sei se voltarei - disse ele à governanta da casa, e acrescentou in petto: - Isso
dependerá do aspecto que as coisas assumirem. -
Minutos depois chegávamos ao café. Notei o aspecto do Sr. de Charlus ao me avistar.
Vendo que eu não voltava sozinho, senti que a respiração e a vida lhe eram devolvidas. Estando
naquela noite num estado de espírito em que não podia dispensar Morel, inventara que lhe tinham
dito que dois oficiais do regimento haviam falado mal dele a propósito do violinista e que ele ia
enviar-lhes suas testemunhas. Morel adivinhara o escândalo, sua vida ficaria impossível no
regimento, e havia acorrido. No que absolutamente não procedera mal. Pois, para tornar mais
verossímil a sua mentira, o Sr. de Charlus já escrevera a dois amigos (um deles era Cottard) para
pedir que fossem suas testemunhas. E, se o violinista não tivesse vindo, é certo que, doido como
era o Sr. de Charlus (e para mudar sua tristeza em furor), ele os teria enviado a um oficial
qualquer, ao acaso, oficial com quem lhe seria um alívio bater-se. Durante esse tempo, o Sr. de
Charlus, lembrando-se que era de mais pura estirpe que a Casa de França, dizia consigo que ele
era muito bom por inquietar-se tanto por causa do filho de um mordomo, cujo patrão ele não se
dignaria a frequentar. Por outro lado, se apenas lhe agradava agora a companhia dos crápulas, o
hábito arraigado que têm estes de não responder a uma carta, de faltar a um encontro sem
prevenir, sem se desculparem depois, dava-lhe, como se tratava muitas vezes de amores, tantas
emoções, e, no resto de tempo, lhe causava tanta irritação, constrangimento e raiva, que às vezes
chegava a lamentar a multiplicidade de caretas por um nada, a exatidão escrupulosa dos
príncipes e embaixadores, os quais, se desgraçadamente lhe eram indiferentes, apesar de tudo
davam-lhe uma espécie de repouso. Habituado aos modos de Morel e sabendo da pouca
influência que tinha sobre ele e de como era incapaz de insinuar-se numa vida em que as
camaradagens vulgares mais consagradas pelo hábito ocupavam excessivo lugar e tempo para
que se reservasse uma hora ao grão-senhor repelido, orgulhoso e que implorava em vão, o Sr. de
Charlus estava de tal modo persuadido de que o músico não viria, de tal maneira receava estar
brigado para sempre com ele, por ter ido longe demais, que mal pôde reter um grito ao vê-lo.
Porém, sentindo-se vencedor, fez questão de ditar as condições de paz e delas tirar as vantagens
que pudesse.
- Que vem fazer aqui? - disse-lhe. - E o senhor? - acrescentou, olhando-me - eu lhe havia
recomendado, acima de tudo, que não o trouxesse.
- Ele não queria me trazer - disse Morel, virando para o Sr. de Charlus, na ingenuidade de
sua coqueteria, olhares convencionalmente tristes e langorosamente desusados, com um ar, que
sem dúvida julgava irresistível, de querer beijar o barão e de ter vontade de chorar. - Fui eu que
vim contra a vontade dele. Venho, em nome da nossa amizade, para suplicar de joelhos que não
cometa essa loucura.
O Sr. de Charlus delirava de alegria. A reação era muito forte para os seus nervos; apesar
disso, manteve-se senhor da situação.
- A amizade, que o senhor invoca de modo bastante inoportuno - respondeu ele em tom
seco - devia pelo contrário conseguir a aprovação de sua parte, quando acho que não devo deixar
passar em branco as impertinências de um tolo. Além disso, se eu quisesse obedecer aos rogos
de uma afeição que já conheci mais bem inspirada, não poderia mais fazê-lo, visto que as cartas
já foram expedidas às minhas testemunhas e não duvido que sejam aceitas. O senhor sempre
agiu comigo como um perfeito imbecil e, em vez de se orgulhar, como seria de seu direito, da
predileção com que eu o assinalava, em vez de fazer compreender, à chusma de ajudantes ou de
criados em meio aos quais a lei militar o força a viver, que motivo de incomparável orgulho era
para o senhor uma amizade como a minha, procurou desculpar-se, quase transformando num
mérito estúpido o fato de não ser devidamente reconhecido. Sei que nisso acrescentou, para não
deixar perceber o quanto certas cenas o haviam humilhado o senhor só é culpado de ter-se
deixado levar pelo ciúme dos outros. Mas como é que, na sua idade, pode ser tão criança (e
criança mal-educada) para não ter adivinhado imediatamente que minha preferência pelo senhor
e todas as vantagens que daí deviam resultar iriam provocar ciúmes? Que todos os seus
camaradas, enquanto o incitavam a brigar comigo, iriam trabalhar para tomar o seu posto? Achei
que não devia mostrar-lhe as cartas que recebi, sobre o assunto, de todos aqueles em quem mais
confia. Desdenho tanto as investidas desses lacaios como suas vãs zombarias. A única pessoa
que me preocupa é o senhor, porque muito o estimo, mas a afeição tem limites, e o senhor bem o
deveria saber. -
continua na página 211...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Fazia mais que conhecê-la)
Volume 6
Volume 7