segunda-feira, 13 de julho de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção V.b)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção V
Continuação do mesmo tema
.continuando...

     Eis aqui, portanto, três relações entre aquela distância que trans mite a ideia de extensão e essa outra, que não é preenchida por nenhum objeto colorido ou sólido. Os objetos distantes afetam os sentidos da mesma maneira, não importando qual das duas distâncias os separa. A segunda espécie de distância se mostra capaz de acolher a primeira; e ambas diminuem igualmente a força de todas as qualidades.
     Essas relações entre os dois tipos de distância nos proporcionam uma razão simples para explicar por que as duas têm sido tão frequentemente confundidas uma com a outra, e por que imaginamos ter uma ideia de extensão mesmo sem a ideia de um objeto qualquer da visão ou do tato. De fato, podemos estabelecer como uma máxima geral nessa ciência da natureza humana que, sempre que há uma relação estreita entre duas ideias, a mente apresenta uma forte tendência a confundi-las, e a usar uma em lugar da outra em todos os seus discursos e raciocínios. Esse fenómeno ocorre em tantas ocasiões e tem consequências tão consideráveis que não posso deixar de parar um momento para examinar suas causas. Minha única premissa será que devemos distinguir exatamente entre o próprio fenômeno e as causas que a ele atribuirei; e qualquer incerteza que possa existir nessas causas não nos deve fazer imaginar que o fenómeno seja igualmente incerto. O fenómeno pode ser real, mesmo que minha explicação seja quimérica. A falsidade daquele não é consequência da falsidade desta; embora, ao mesmo tempo, possamos observar que é muito natural extrairmos tal consequência, o que, aliás, é um exemplo manifesto do próprio princípio que tento explicar.
     Quando admiti as relações de semelhança, contiguidade e causalidade como princípios de união entre ideias, sem examinar suas causas, foi antes para seguir minha primeira máxima, de que devemos em última instância nos contentar com a experiência, que pela falta de alguma coisa especiosa e plausível que eu pudesse ter apresentado sobre esse tema. Teria sido fácil fazer uma dissecção imaginária do cérebro, e mostrar por que, ao concebermos determinada ideia, os espíritos animais se espalham por todas as vias contíguas, despertando as outras ideias relacionadas à primeira. Entretanto, embora eu tenha desprezado qualquer vantagem que teria podido extrair dessas considerações para explicar as relações de ideias, receio que devo aqui recorrer a elas, a fim de dar conta dos erros provenientes dessas relações. Observarei portanto que, como a mente é dotada do poder de despertar qualquer ideia que lhe aprouver, quando ela envia os espíritos animais para a região do cérebro em que está localizada tal ideia, esses espíritos sempre a despertam, penetrando precisamente nas vias apropriadas e vasculhando o compartimento a ela pertencente. Mas o movimento dos espíritos animais raramente é direto; ao contrário, ele se desvia naturalmente um pouco para um lado ou para outro. Por essa razão, ao penetrarem nas vias contíguas, os espíritos apresentam outras ideias relacionadas em lugar daquela que a mente de início desejava considerar. Nem sempre percebemos essa troca. Continuamos com a mesma cadeia de pensamentos, e fazemos uso da ideia relacionada que se nos apresenta, empregando-a em nosso raciocínio, como se fosse a mesma que aquela que buscávamos. Essa é a causa de tantos erros e sofismas presentes na filosofia- como se poderia naturalmente imaginar, e como seria fácil mostrar se houvesse ocasião para tal.
     Das três relações acima mencionadas, a de semelhança é a fonte mais fértil de erros. De fato, poucos são os erros presentes nos raciocínios que não se devem em grande parte a essa origem. Não apenas as ideias semelhantes são relacionadas, como também as ações mentais que realizamos para considerar cada uma delas diferem tão pouco umas das outras que não somos capazes de as distinguir. Esta última circunstância tem consequências importantes. Podemos observar em geral que, sempre que as ações da mente pelas quais formamos duas ideias quaisquer são iguais ou semelhantes, temos uma forte tendência a confundir tais ideias, tomando uma pela outra. Veremos vários exemplos disso no decorrer deste tratado. Entretanto, embora a semelhança seja a relação que mais facilmente produz um equívoco nas ideias, as outras relações, de contiguidade e causalidade, podem igual mente contribuir para esse mesmo efeito. Poderíamos apresentar as figuras poéticas e retóricas como provas suficientes do que acaba de ser mencionado - se fosse tão comum como é razoável, nas questões metafísicas, extrair nossos argumentos desse domínio. Mas como os metafísicos talvez considerem tal procedimento abaixo de sua dignidade, extrairei minha prova de algo que pode ser observado na maioria de seus discursos, a saber, que é muito comum que os homens utilizem palavras em lugar de ideias e, em seus raciocínios, falem ao invés de pensar. Utilizamos palavras em lugar de ideias, por que elas normalmente estão conectadas de forma tão estreita que a mente as confunde com facilidade. E essa também é a razão de utilizarmos a ideia de uma distância que não é considerada nem como visível nem tangível, em lugar da extensão, que não é mais que uma composição de pontos visíveis ou tangíveis dispostos em uma certa ordem. As relações de semelhança e de causalidade concorrem para causar esse erro. Como a primeira espécie de distância se mostra conversível na segunda, ela constitui, nesse sentido, uma espécie de causa; e a similaridade da maneira como as duas afetam os sentidos e diminuem todas as qualidades forma a relação de semelhança.
     Com essa série de raciocínios e explicações de meus princípios, estou agora preparado para responder a todas as objeções que me foram apresentadas, sejam elas derivadas da metafísica ou da mecânica. A frequência das discussões acerca de um vácuo, ou extensão sem matéria, não prova a realidade da ideia sobre a qual se discute. Pois nada é mais comum que ver os homens enganarem a si mesmos sobre esse ponto, especialmente quando se apresenta uma outra ideia estreitamente relacionada, capaz de ocasionar seu erro.
     Podemos dar uma resposta quase igual à segunda objeção, derivada da conjunção das ideias de repouso e aniquilação. Quando todas as coisas dentro do aposento são aniquiladas e as paredes continuam imóveis, o aposento deve ser concebido de uma maneira muito próxima à maneira como é concebido agora, quando o ar que o preenche não é um objeto dos sentidos. Essa aniquilação deixa aos olhos a distância fictícia revelada pelas diferentes partes desse órgão que são afetadas e pelos graus de luz e sombra; e deixa ao tato aquela outra distância, que consiste na sensação de um movimento na mão ou em outro membro do corpo. Em vão buscaríamos algo além disso. De qualquer lado que examinemos este assunto, veremos que essas são as únicas impressões que tal objeto é capaz de produzir após a suposta aniquilação. E já observamos que as impressões só podem originar ideias que a elas se assemelhem.
     Uma vez que se pode supor que um corpo interposto entre dois outros seja aniquilado sem produzir nenhuma mudança nos que o ladeiam, é fácil conceber como esse mesmo corpo pode ser recriado, produzindo tão pouca alteração como no caso anterior. Ora, o movimento de um corpo tem quase o mesmo efeito que sua criação. Os corpos distantes não são mais afetados em um caso que no outro. Isso é suficiente para satisfazer a imaginação, provando que não há incompatibilidade nesse movimento. Posteriormente, entra em jogo a experiência, persuadindo-nos de que dois corpos situados da maneira acima descrita têm realmente uma tal capacidade de acolher algum corpo entre eles, e que não há obstáculo à conversão da distância invisível e intangível em uma distância visível e tangível. Por mais natural que possa parecer essa conversão, só podemos ter certeza de que é factível depois de ter tido experiência dela.
     Parece-me que, com isso, respondi às três objeções menciona das, embora, ao mesmo tempo, eu tenha consciência de que poucos ficarão satisfeitos com essas respostas, e que novas objeções e dificuldades serão imediatamente propostas. Dir-se-á provavelmente que meu raciocínio é irrelevante, e que eu explico somente a maneira como os objetos afetam os sentidos, sem dar conta de sua natureza e ope rações reais. Ainda que não haja nada visível ou tangível interposto entre dois corpos, vemos pela experiência que esses corpos podem estar situados da mesma maneira em relação ao olho, e exigir que a mão faça o mesmo movimento para passar de um a outro como se estivessem separados por algo visível e tangível. A experiência também mostra que essa distância invisível e intangível possui a capacidade de acolher algum corpo, ou seja, de se tornar visível e tangível. Essa seria a totalidade de meu sistema. E em nenhuma parte dele teria eu explicado a causa que separa os corpos dessa maneira, dando-lhes a capacidade de acolher outros corpos entre eles, sem sofrer nenhum impacto ou penetração.
     Respondo a essa objeção confessando-me culpado, e admitindo que minha intenção nunca foi penetrar na natureza dos corpos ou explicar as causas secretas de suas operações. Além de isso estar fora de meu propósito presente, receio que tal empresa ultrapasse o alcance do entendimento humano, e que nunca poderemos conhecer os corpos senão por meio das propriedades externas que se mostram aos sentidos. Quanto àqueles que tentam algo além disso, não poderei lhes dar crédito até ver que tiveram sucesso em pelo menos um caso. No momento, contento-me em conhecer perfeitamente a maneira como os objetos afetam meus sentidos e as conexões que eles mantêm entre si, até onde a experiência disso me informa. Esse conhecimento basta para a condução da vida; e basta também para minha filosofia, que pretende explicar tão-somente a natureza e as causas de nossas percepções, ou seja, de nossas impressões e ideias.
     Concluirei esse tema da extensão com um paradoxo, que será facilmente explicado com base no raciocínio anterior. O paradoxo consiste em que, se quisermos dar à distância invisível e intangível, ou, em outras palavras, à capacidade de se tornar uma distância visível e tangível, o nome de vácuo, então extensão e matéria são a mesma coisa, e entretanto existe o vácuo. Se não quisermos dar-lhe tal nome, o movimento é possível no pleno, sem nenhum impacto transmitido ao infinito, sem retornar em círculos, e sem penetração. Porém, como quer que nos expressemos, devemos sempre confessar que não possuímos nenhuma ideia de uma extensão real se não a preenchemos com objetos sensíveis, e se não concebemos suas partes como visíveis e tangíveis.
     Quanto à doutrina de que o tempo não é senão a maneira pela qual certos objetos reais existem, podemos observar que ela está sujeita às mesmas objeções que a doutrina similar a respeito da extensão. Se o fato de discutirmos e raciocinarmos acerca de um vácuo fosse uma prova suficiente de que temos essa ideia, então, pela mesma razão, deveríamos ter uma ideia de tempo, ainda que na ausência de qualquer existência mutável - pois não há objeto de discussão mais frequente e comum. Entretanto, é certo que não temos realmente tal ideia. Pois de onde ela seria derivada? Surgiria ela de uma impressão de sensação ou de reflexão? Mostrai-nos distintamente essa impressão, para que possamos conhecer sua natureza e suas qualidades. Mas se não fordes capazes de nos mostrar uma tal impressão, podeis estar certos de vosso engano, quando imaginais possuir uma tal ideia.
     De todo modo, mesmo que seja impossível mostrar a impressão de que deriva a ideia de um tempo sem existência mutável, podemos facilmente apontar as aparências que nos fazem imaginar que temos essa ideia. Podemos observar que existe uma sucessão contínua de percepções em nossa mente, de modo que a ideia de tempo está sempre presente em nós. E, quando consideramos um objeto estável às cinco horas, e voltamos a olhá-lo às seis, tendemos a aplicar a ele essa ideia, como se cada momento fosse distinguível por uma posição diferente ou por uma alteração no objeto. A primeira e a segunda aparições do objeto, ao serem comparadas com a sucessão de nossas percepções, parecem tão afastadas entre si como se o objeto houvesse realmente mudado. A isso podemos acrescentar algo que nos é mostrado pela experiência, a saber, que o objeto poderia ter sofrido um tal número de alterações entre essas aparições; como também que a duração imutável ou antes fictícia tem o mesmo efeito sobre todas as qualidades, aumentando-as ou diminuindo-as, que aquela sucessão que é evidente para os sentidos. E em razão dessas três relações que tendemos a confundir nossas ideias, imaginando que somos capazes de formar a ideia de um tempo e de uma duração sem nenhuma mudança ou sucessão.

continua na página 89...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IVa. / Seção IVb. / Seção Va. / Seção Vb. /             
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 

     É POSSÍVEL agora compreender por que, nos requisitórios contra a mulher, dos gregos aos nossos dias, se encontram tantos traços comuns; sua condição permaneceu a mesma através de mudanças superficiais e define isso que se chama o "caráter" da mulher: esta "chafurda na imanência", é prudente e mesquinha, tem espírito de contradição, não tem o senso da verdade nem da exatidão, carece de moralidade, é baixamente utilitária, mentirosa, comediante, interesseira... Há em todas estas afirmações uma verdade. Só que as condutas que se de nunciam não são ditadas à mulher pelos seus hormônios nem prefiguradas nos compartimentos de seu cérebro: são marcadas pela sua situação. Dentro desta perspectiva, tentaremos esboçar um panorama sintético que nos obrigará a certas repetições, mas que nos permitirá apreender no conjunto de seu condicionamento econômico, social, histórico, "o eterno feminino".  
     Opõe-se por vezes o "mundo feminino" ao universo masculino, mas é preciso sublinhar mais uma vez que as mulheres nunca constituíram uma sociedade autônoma e fechada; estão integra das na coletividade governada pelos homens e na qual ocupam um lugar de subordinadas; estão unidas somente enquanto semelhantes por uma solidariedade mecânica: não há entre elas essa solidariedade orgânica em que assenta toda uma comunidade uni ficada; elas se esforçaram sempre — nos tempos dos mistérios de Líêusis como hoje nos clubes, nos salões, nas reuniões beneficentes — por se ligar a fim de afirmarem um "contra-universo, mas é ainda no seio do universo masculino que o colocam. E daí vem o paradoxo de sua situação: elas pertencem ao mesmo tempo ao mundo masculino e a uma esfera em que esse mundo e contestado; encerradas nessa esfera, investidas por aquele mundo, não podem instalar-se em nenhum lugar com tranquilidade. Sua docilidade comporta sempre uma recusa, a recusa de uma aceitação; nisto sua atitude aproxima-se da atitude da moça; mas é mais difícil de sustentar porque não se trata somente para a mulher adulta de sonhar sua vida através de símbolos, e sim de vivê-la.
     A própria mulher reconhece que o universo em seu conjunto é masculino; os homens modelaram-no, dirigiram-no e ainda hoje o dominam; ela não se considera responsável; está entendido que é inferior, dependente; não aprendeu as lições da violência, nunca emergiu, como um sujeito, em face dos outros membros da coletividade; fechada em sua carne, em sua casa, apreende-se como passiva em face desses deuses de figura humana que definem fins e valores. Neste sentido, há verdade no slogan que a condena a permanecer "uma eterna criança"; também se dizia dos operários, dos escravos negros, dos indígenas colonizados que eram "crianças grandes", enquanto não os temeram; isso significava que deviam aceitar, sem discussão, verdades e leis que outros homens lhes propunham. O quinhão da mulher é a obediência e o respeito. Ela não tem domínio, nem sequer em pensamento, sobre essa realidade que a cerca. É essa realidade a seus olhos uma presença opaca. Efetivamente, ela não fez a aprendizagem das técnicas que lhe permitiriam dominar a matéria; não é com a matéria que lhe cabe lutar, e sim com a vida e esta não se deixa dominar pelas ferramentas; não se pode senão suportar-lhe as leis secretas. O mundo não se apresenta à mulher como um "conjunto de utensílios" intermediário entre sua vontade e seus fins, tal qual o define Heidegger: é ao contrário uma resistência obstinada, indomável; ele é dominado pela fatalidade e cortado de caprichos misteriosos. Esse mistério de um morango de sangue que se transforma em um ser humano no ventre da mãe, nenhuma matemática o põe em equação, nenhuma máquina o poderá apressar ou retardar; ela experimenta a resistência da duração que os mais engenhosos aparelhos malogram em dividir ou multiplicar; experimenta-a em sua carne submetida ao ritmo da lua e que os anos amadure cem primeiramente e depois corroem. Quotidianamente, a cozinha ensina-lhe paciência e passividade; é uma alquimia; cabe-lhe obedecer ao fogo, à água; "esperar que o açúcar derreta", que a pasta fermente e também que a roupa seque, que as frutas amadureçam. Os trabalhos caseiros aparentam-se a uma atividade técnica; mas são por demais rudimentares, por demais monótonos para convencer a mulher das leis da causalidade mecânica. Aliás mesmo nesse terreno, as coisas têm seus caprichos; há tecidos que encolhem e outros que não encolhem ao serem lava dos manchas que desaparecem e outras que não, objetos que se quebram sozinhos, poeiras que germinam como plantas. A mentalidade da mulher perpetua a das civilizações agrícolas que adoram as virtudes mágicas da terra: ela acredita na magia. Seu erotismo passivo desvenda-lhe o desejo, não como vontade e agres são, mas como uma atração análoga à que faz oscilar a varinha do pesquisador de nascentes; a simples presença de sua carne incha e entesa o sexo do macho, porque uma água escondida não faria tremer a vara da aveleira? Ela sente-se cercada de ondas, de radiações, de fluidos; acredita na telepatia, na astrologia, na radiestesia, na tina de Mesmer, na teosofia, nas mesas giratórias, nas videntes, nos curandeiros; introduz na religião as superstições primitivas: círios, ex-votos etc; encarna nos santos os antigos espíritos da natureza: este protege os viajantes, outro as parturientes, outro encontra os objetos perdidos; e naturalmente nenhum prodígio a espanta; sua atitude será a da conjuração e da prece; para obter determinado resultado, obedecerá a certos ritos comprovados. É fácil compreender por que é rotineira; o tempo não tem para ela uma dimensão de novidade, não é um jorro criador; como é destinada à repetição só vê no futuro uma duplicata do passado; conhecendo-se a palavra e a fórmula, a duração alia-se às forças da fecundidade: mas mesmo esta obedece ao ritmo dos meses, das estações; o ciclo de cada gravidez, de cada floração reproduz identicamente o que o precedeu; neste movimento circular, o único devir do tempo é uma lenta degradação: ele corrói os móveis e as roupas, como estraga o rosto; as forças férteis são pouco a pouco destruídas pela fuga dos anos. Por isso, a mulher não confia nessa força que se obstina em desfazer.
     Não somente ela ignora o que seja uma verdadeira ação, capaz de mudar a face do mundo, mas ainda perde-se no meio desse mundo como no coração de uma imensa e confusa nebulosa. Sabe servir-se mal da lógica masculina. Stendhal observava que a manejava tão espertamente quanto o homem, quando a necessidade a obrigava a isso, mas trata-se de um instrumento que quase não tem a oportunidade de utilizar. Um silogismo não serve nem para acertar uma maionese nem para acalmar o choro da criança; os raciocínios masculinos não são adequados à realidade de que tem experiência. E no reino dos homens, desde que não faz nada, seu pensamento, não aderindo a nenhum projeto, não se distingue do sonho; por falta de eficiência, não tem o senso da verdade; só anda às voltas com imagens e palavras, eis por que acolhe sem embaraço as assertivas mais contraditórias; preocupa-se pouco com elucidar os mistérios de um campo que de toda maneira está fora de seu alcance, contenta-se, a respeito, com conhecimentos terrivelmente vagos: confunde os partidos, as opiniões, os lugares, as pessoas, os acontecimentos; há em sua cabeça uma estranha bagunça. Afinal, ver com clareza isso tudo não é de sua alçada: ensinaram-lhe a aceitar a autoridade masculina; renuncia pois a criticar, a examinar, a julgar por sua conta. Confia na casta superior. Eis por que o mundo masculino se apresenta a ela como uma realidade transcendente, um absoluto. "Os homens fazem os deuses, diz Frazer, as mulheres adoram-nos." Eles não podem ajoelhar-se com uma convicção total diante dos ídolos que forjaram; mas quando as mulheres encontram em seu caminho essas grandes estátuas, não imaginam que uma mão as fabricou e prosternam-se documente¹. Em particular, gostam que a Ordem, o Direito se encarnem em um chefe. Em todo Olimpo há um deus soberano; a prestigiosa essência viril deve reunir-se em um arquétipo de quem pai, marido, amantes são apenas um pálido reflexo. É algo humorístico dizer que o culto que rendem a esse grande totem é sexual; o que é verdade é que em face dele satisfazem plenamente o sonho infantil de demissão e de genuflexão. Na França os generais: Boulanger, Pétain, De Gaulle², sempre tiveram as mulheres por eles; cumpre lembrar com que frêmitos expressivos as jornalistas do Humanité evocavam outrora Tito e seu belo uniforme. O general, o ditador — olhar de águia, mento voluntarioso — é o pai celeste que exige o universo da seriedade, garantia absoluta de todos os valores. É da própria ineficiência e da ignorância que nasce o respeito das mulheres pelos heróis e pelas leis do mundo masculino; reconhecem-nos não por um julgamento, mas por um ato de fé. A fé haure sua força fanática do fato de que não é um saber; o que ela afirma, ela o afirma incondicionalmente, contra a razão, contra a história, contra os desmentidos. Essa reverência obstinada pode assumir segundo as circunstâncias dois aspectos: ora é ao conteúdo da lei, ora unicamente à sua forma vazia que a mulher adere com paixão. Se pertence à elite privilegiada que tira benefícios da ordem social estabelecida, ela a quer inabalável e faz-se notar pela sua intransigência. O homem sabe que pode reconstruir outras instituições, outra ética, outro código; apreendendo-se como transcendência, encara também a história como um devir; o mais conservador sabe que certa evolução é fatal e que a ela deve adaptar sua ação e seu pensamento; a mulher, não participando da história, não lhe compreende as necessidades; desconfia do futuro e almeja sustar o tempo. Não pressente nenhum meio de repovoar o céu se abaterem os ídolos propostos por seu pai, seus irmãos, seu marido; esforça-se encarniçadamente por defendê-los. Durante a Guerra da Secessão ninguém entre os sulistas foi tão apaixonadamente escravocrata quanto as mulheres; na Inglaterra, no momento da guerra dos Bôeres, na França contra a Comuna, foram elas as mais ferozes; procuram compensar sua inação pela intensidade dos sentimentos que exibem; em caso de vitória, desencadeiam-se como hienas contra o inimigo abatido; em caso de derrota, recusam-se asperamente a qualquer conciliação; não passando suas ideias de atitudes, é-lhes indiferente defender causas obsoletas: podem ser legitimistas em 1914, tzaristas em 1949. O homem encoraja-as por vezes sorrindo: agrada-lhe ver refle tidas sob uma forma fanática as opiniões que exprime com mais medida; mas por vezes ele se agasta também com o aspecto estúpido e obstinado de que revestem então suas próprias ideias.

[1] Cf. J.-P. Sartre. Les Mains sales. "Hoederer: São cabeçudas, compreendes, aceitam as ideias convencionais, acreditam então nelas como no bom Deus. Somos nós que fazemos as ideias e conhecemos os segredos da cozinha; nunca estamos inteiramente convencidos de ter razão."
[2] "À passagem do general, o público era principalmente com posto de mulheres e crianças" (Dos jornais, a propósito da viagem à Savóia, em setembro de 1948).
      "Os homens aplaudiram o discurso do general, mas as mulheres distinguiam-se pelo entusiasmo. Observava-se que algumas estavam literalmente em êxtase, valorizando particularmente quase todas as palavras e aplaudindo, gritando com tal fervor que seu rosto como se tingia de vermelho-papoula." (Aux Êcoutes, 11 de abril de 1947.)

     É somente nas civilizações e nas classes fortemente integradas que a mulher se apresenta assim irredutível. Geralmente, sendo sua fé cega, ela respeita a lei simplesmente por ser a lei; que a lei mude, ela conserva seu prestígio; aos olhos da mulher, a força cria o direito porquanto os direitos que reconhece aos homens decorrem da força masculina; eis porque, quando uma coletividade se decompõe, são elas as primeiras a se lançar aos pés dos vencedores. De uma maneira geral aceitam o que é. Um dos traços que as caracterizam é a resignação. Quando desenterraram as estátuas de Pompéia, observaram que os homens estavam entesados em movimentos de revolta, desafiando o céu ou procurando fugir, ao passo que as mulheres, curvadas, encolhidas sobre si mesmas, voltavam o rosto para a terra. Elas sabem que são impotentes contra as coisas: os vulcões, os policiais, os patrões, os homens. "As mulheres são feitas para sofrer, dizem elas. É a vida... nada se pode contra ela." Essa resignação engendra a paciência que amiúde se admira nelas. Suportam muito melhor do que o homem o sofrimento físico: são capazes de uma coragem estoica quando as circunstâncias o exigem: sem a coragem agressiva do homem, muitas mulheres distinguem-se pela calma tenacidade de sua resistência passiva; enfrentam as crises, a miséria, a desgraça mais energicamente do que os maridos; respeitosas da duração que nenhuma pressa pode vencer, não medem seu tempo; quando aplicam sua obstinação serena a alguma empresa, obtêm, por vezes, resultados brilhantes. "O que a mulher quer...", diz o provérbio. Numa mulher generosa, a resignação assume a forma da indulgência: ela admite tudo, não condena ninguém porque estima que nem as pessoas nem as coisas podem ser diferentes do que são. Uma orgulhosa pode fazer disso uma virtude altiva, como Mme de Charrière entesada em seu estoicismo. Mas ela engendra também uma prudência estéril; as mulheres tentam sempre antes conservar, consertar, arranjar, de preferência a destruir e reconstruir. Preferem os compromissos e as transações às revoluções. No século XIX, constituíram um dos maiores obstáculos ao esforço de emancipação proletária; para uma Flora Tristan, uma Louise Michel, quantas donas de casa perdidas em sua timidez não suplicavam ao marido que não corresse nenhum risco! Tinham medo, não somente das greves mas ainda da falta de trabalho, da miséria: temiam que a revolta fosse um pecado. Compreende-se que, sofrimento por sofrimento, prefiram a rotina à aventura: alcançam mais facilmente sua parte de magra felicidade em casa do que nas estradas. Sua sorte confunde-se com a das coisas perecíveis; perdendo-as, perderiam tudo. Só um sujeito livre, afirmando-se para além da duração, pode vencer toda ruína; esse supremo recurso, proibiram-no à mulher. É essencialmente porque nunca experimentou os poderes da liberdade que ela não acredita na libertação: o mundo parece-lhe regido por um destino obscuro que seria presunçoso desafiar. Esses caminhos perigosos que a querem obrigar a seguir, ela não os abriu ela própria: é normal que neles não se precipite cora entusiasmo³. Que lhe franqueiem o futuro e ela não mais se agarrará ao passado. Quando incitam concretamente as mulheres à ação, quando elas se reconhecem nos objetivos que lhes designam, são tão ousadas e corajosas quanto os homens4.

[3] Cf. Gide, Journal. "Créuse ou a mulher de Lot: uma se retarda, a outra olha para trás, o que é uma maneira de se retardar. Não há maior grito de paixão do que este:

Et Phèdre, au Labyrinthe avec vous descendue 
Se serait avec vous retrouvée ou perdue. 

Mas a paixão cega-a; ao fim de alguns passos, em verdade, ela ter-se-ia sentado, ou houvera querido voltar para trás — ou, enfim, ter-se-ia feito carregar."
[4] Assim é que a atitude das mulheres dos operários mudou profundamente num século; durante as últimas greves nas minas do Norte, em particular, elas deram provas de tanta paixão e energia quanto os homens, participando de manifestações e lutando ao lado deles.  

continua página 369...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (1)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

domingo, 12 de julho de 2026

Cinema: Anahy de las Misiones

Ficção Histórica

Uma família, liderada por uma mulher, Anahy, que vive na companhia de seus quatro filhos, gerados com pais diferentes, durante o contexto da Guerra dos Farrapos (1835-1845). Obtém seu sustento saqueando os mortos encontrados nos campos de batalha e vendendo o que encontram a quem tiver interesse. É um drama emocionante, bastante verossímil das condições de vida durante aqueles anos em que parte do Rio Grande do Sul – os farroupilhas – revoltou-se contra a autoridade do Império do Brasil.
Uma mulher que tem força, poeira, pólvora, uma mulher que não se deixa capturar por bandeira nenhuma. Moldada pelo vento, sabe que sobreviver não é virtude, é obrigação. Anahy não se importa com discursos de liberdade, república ou império. Para ela, tudo isso é conversa de homens que não sabem o peso de carregar crianças no colo enquanto o horizonte arde. Ela vive de comércio ambulante, trocando sal, couro, erva-mate, mantimentos — e, quando necessário, de saques oportunistas em acampamentos abandonados. Não por maldade, mas por pragmatismo. Guerra não tem piedade; ela também não pode ter.

Direção: 
Sérgio Silva

Produção: 
Gisele Hiltl

Roteiro: 
Sérgio Silva 
Tabajara Ruas
Gustavo Fernández

Produção de 1997






Elenco:
Araci Esteves como Anahy
Marcos Palmeira como Solano
Dira Paes como Luna
Cláudio Gabriel como Teobaldo
Fernando Alves Pinto como Leon
Giovanna Gold como Picumã
Matheus Nachtergaele como Manoel
Marcelo Almeida
Marcos Barreto
Roberto Birindelli
Roberto Bomtempo
Ivo Cutzarida
Leverdógil de Freitas
Nélson Diniz
Paulo José como Joca Ramírez
Robinson Sawitzki
Oscar Simch

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
16. Matilha Voraz / 17. Anna Kariênina / 18. Sinédoque / 19. Anahy de las Misiones /         

Massa e Poder - A Ordem: A domesticação da ordem

Elias Canetti

A ORDEM

     A domesticação da ordem

          A ordem de fuga, que contém uma ameaça de morte, supõe uma grande diferença de poder entre os participantes. Quem coloca outro em fuga poderia matá-lo. Na natureza esta situação fundamental se deve ao fato de que muitas espécies animais se alimentam de outros animais. É de outras espécies que elas vivem. Por este motivo, a maior parte dos animais se sente ameaçada por outros de. outra espécie, recebendo deles, estranhos e inimigos, a ordem de fuga.
     Mas o que nós na vida comum chamamos ordem se desenvolve entre os homens: o senhor manda no seu escravo, a mãe manda no seu filho. A ordem, tal como nós a conhecemos, evoluiu afastando-se de sua origem biológica: da ordem de fuga. Ela se domesticou. Ela é empregada nas relações sociais em geral, mas também na mais íntima convivência humana. Ela é bastante diferente do que descrevemos como ordem de fuga. O senhor chama o escravo e este se aproxima, mesmo sabendo que irá receber uma ordem. A mãe chama seu filho e não é sempre que este escapa. Apesar de ela sobrecarregá-lo com ordens de todos os tipos, de maneira geral mantém-se o carinho. O filho permanece na sua proximidade, vem correndo em direção a ela. O mesmo também é válido para o cachorro: ele sempre permanece nas proximidades do seu dono, e vem correndo assim que ouve o assobio.
     Como se chegou a esta domesticação da ordem? O que tornou inócua a ameaça de morte? A explicação desta evolução está no fato de que em cada um destes casos pratica-se uma espécie de suborno. O senhor dá a comida ao seu cão ou ao seu escravo, a mãe alimenta seu filho. A criatura em estado de submissão está acostumada a receber seu alimento apenas de uma única mão. O escravo ou o cão recebem seu alimento exclusivamente do seu dono; nenhuma outra pessoa tem obrigação de fazê-lo; na verdade nenhuma outra pessoa deve ali mentá-los. A relação de propriedade consiste em parte em que todo e qualquer alimento chegue a eles apenas pelas mãos do dono. A criança, porém, ainda não é capaz de se alimentar sozinha. Desde o seu primeiro momento de vida ela depende do peito materno.
     Entre a entrega do alimento e a ordem criou-se uma estreita relação. Muito claramente esta relação aparece na prática do adestramento de animais. Quando o animal fez o que devia fazer, recebe uma guloseima da mão do domador. A domesticação da ordem a transforma numa promessa de alimento. Em vez de ameaçar com a morte e de provocar a fuga, promete-se o que toda criatura deseja em primeiro lugar, e cumpre-se estritamente a promessa feita. Em vez de servir de alimento ao seu dono, em vez de ser devorada, a criatura à qual se dá este tipo de ordem recebe o que comer.
     Esta desnaturação da ordem de fuga biológica educa homens e animais para uma espécie de cativeiro voluntário, do qual existem todos os tipos de intensidade e de nuanças. Entretanto isto não modifica inteiramente a essência da ordem. Ela passa a ser atenuada, mas existem sanções expressas em casos de desobediência; estas sanções podem ser muito severas e a mais severa de todas é a sanção primitiva, ou seja, a morte.

continua ...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

Edgar Allan Poe - Contos: William Wilson (a)

Edgar Allan Poe - Contos


William Wilson 

Que dizer dela? que dizer da austera consciência, 
Esse espectro em meu caminho? 
Chamberlain, Pharronida

     Que me seja permitido, no momento, apresentar-me como William Wilson. A página imaculada ora diante de mim não necessita ser manchada com meu verdadeiro nome. Este já constituiu por demais objeto do desprezo, do horror, do repúdio de minha estirpe. Às mais remotas regiões do globo não espalharam os ventos indignados sua infâmia sem paralelo? Ah, o mais desamparado pária dentre todos os párias! Para o mundo não estás morto eternamente? para suas glórias, para suas flores, para suas douradas aspirações? e acaso uma nuvem densa, desoladora e infinita não paira por todo o sempre entre tuas esperanças e o céu?
     Não pretendo, mesmo que o pudesse, aqui ou agora, compor um relato de meus últimos anos de indizível sofrimento e desgraça imperdoável. Esse período — esses últimos anos — assumiram uma elevação súbita em torpeza cuja origem, e nada mais, é meu presente propósito determinar¹. Os homens em geral tornam-se vis gradualmente. De mim, num instante, toda a virtude caiu por inteiro, como um manto. Da perversidade relativamente trivial passei, com as passadas de um gigante, a excessos maiores que os de um Heliogábalo. Que acaso — que evento isolado provocou esse infortúnio, tende paciência enquanto o relato. A morte se aproxima; e a sombra que a precede lançou uma influência suavizante sobre meu espírito. Anseio, ao cruzar o vale sombrio, pela simpatia — quase ia dizendo pela piedade — de meus semelhantes. Eu de bom grado os faria crer que fui, em alguma medida, escravo de circunstâncias além do controle humano. Gostaria que encontrassem para mim, nos detalhes que estou prestes a dar, algum pequeno oásis de fatalidade em meio a um deserto de erros. Desejaria que admitissem — coisa que não se podem furtar a admitir — que, embora a tentação possa ter desde algum tempo existido em tamanha grandeza, o homem jamais assim foi, pelo menos, antes tentado — certamente, jamais a ela assim sucumbiu. E de tal modo, portanto, que assim nunca sofreu. Acaso não terei vivido em um sonho? Não estarei perecendo vítima do horror e mistério das mais fantásticas dentre todas as visões sublunares?

[1] Optou-se, com algumas exceções (e, como aqui, eventualmente a despeito da norma), pela fidelidade à pontuação original, bastante peculiar, às vezes, sobretudo no uso do travessão. Em 1848, um ano antes de sua morte, Poe assinou um artigo na Graham's Magazine em que manifestava sua intenção (não concretizada) de escrever um tratado sobre o assunto, e afirmava: “O travessão proporciona ao leitor uma escolha entre duas, três ou mais expressões, uma delas podendo ser mais forte que as outras, mas todas contribuindo para a ideia”.  

     Descendo de uma estirpe notável desde sempre por seu temperamento imaginativo e facilmente excitável; e, na mais tenra infância, dei mostras de ter herdado plenamente o caráter familiar. À medida que avançava em anos, este se desenvolvia cada vez mais forte; constituindo, por muitas razões, motivo de séria inquietação entre meus amigos, e de positivo agravo para mim mesmo. Tornei-me cada vez mais teimoso, aferrado aos mais estouvados caprichos, e presa das paixões mais ingovernáveis. Pobres de espírito e vítimas dessas fraquezas de constituição semelhantes às minhas próprias, meus pais pouco podiam fazer para deter as malignas propensões com que eu me distinguia. Alguns esforços débeis e mal direcionados redundaram em completo fracasso de sua parte e, é claro, em total triunfo da minha. Desse momento em diante minha voz passou a ser lei na família; e numa idade em que poucas crianças abandonaram suas guias, fui deixado à orientação de minha própria vontade, e tornei-me, em tudo a não ser no nome, senhor de minhas próprias ações.
     Minhas mais antigas lembranças de uma vida escolar estão ligadas ao prédio grande, irregular, elisabetano de um vilarejo na Inglaterra, onde havia um vasto número de árvores gigantescas e contorcidas, e onde todas as casas eram excessivamente antigas. De fato, era um lugar onírico e que trazia paz ao espírito, esse antigo e venerável povoado. Neste exato momento, em minha imaginação, sinto o revigorante frescor de suas alamedas profundamente sombreadas, inspiro a fragrância de seus incontáveis arbustos e torno a estremecer com indefinível deleite sob o repique profundo e cavernoso do sino da igreja rompendo, de hora em hora, com seu troar repentino e taciturno, a quietude da fusca atmosfera em que se encravava serenamente o dilapidado campanário gótico.
     Proporciona-me, talvez, tanto prazer quanto hoje me é dado de algum modo sentir deter-me em minuciosas recordações da escola e seus assuntos. Mergulhado em infelicidade como estou — infelicidade, ai de mim! por demais real —, espero ser perdoado se busco alívio, por mais superficial e transitório que seja, no fraco por alguns poucos detalhes aleatórios. Estes, além do mais, inteiramente triviais, e até ridículos em si mesmos, assumem, em minha imaginação, adventícia importância, pois que ligados a um período e local em que reconheço as primeiras ambíguas advertências do destino que posteriormente me lançou em tão completas trevas. Que me seja então permitido recordar.
     O prédio, repito, era antigo e irregularmente distribuído. Seu terreno era extenso, e um muro de tijolos alto e sólido, encimado por cimento com cacos de vidro, circundava todo o entorno. Essa proteção semelhante à de uma prisão compunha o limite de nosso domínio; além dele íamos apenas três vezes por semana — uma delas nos sábados à tarde, quando, acompanhados por dois mestres, recebíamos permissão para breves caminhadas em formação por alguns dos campos vizinhos — e duas aos domingos, quando marchávamos desse mesmo modo formal para o serviço matutino e vespertino da única igreja no vilarejo. O diretor de nossa escola era o ministro dessa igreja. Com que profundo espírito de admiração e perplexidade soía eu observá-lo de nosso remoto banco na plateia, quando, com passos solenes e vagarosos, subia ao púlpito! Aquele homem reverendo, de semblante tão recatadamente benévolo, com seu manto tão brilhante e tão clericalmente esvoaçante, a peruca tão minuciosamente empoada, tão rígida e tão basta — como podia ser esse mesmo que, pouco antes, com expressão severa, e em roupas manchadas de rapé, administrava, palmatória na mão, as draconianas leis do internato? Ah, gigantesco paradoxo, absolutamente imenso demais para ter uma solução!
     Em um ângulo do pesado muro espreitava ameaçador um portão ainda mais pesado. Guarnecido de rebites e ferrolhos e coroado por aguçadas lanças de ferro. Que impressões de profundo temor ele não inspirava! Nunca era aberto salvo pelas três periódicas saídas e ingressos já mencionados; assim, a cada rangido de seus poderosos gonzos, descobríamos uma plenitude de mistério — um mundo de matéria para solene consideração, ou para ainda mais solene reflexão.
     A extensa muralha era irregular na forma, exibindo diversos nichos espaçosos. Destes, três ou quatro dentre os maiores constituíam o pátio de recreio. O terreno era nivelado e coberto de cascalho fino e duro. Lembro me bem de não haver árvores, nem bancos, nem nada similar ali. Claro que ficava nos fundos do prédio. Na frente havia um pequeno parterre, onde se cultivavam buxos e outros arbustos; mas através dessa sagrada área passávamos na verdade apenas nas mais raras ocasiões — como ao chegar pela primeira vez na escola ou ao partir dali em definitivo, ou, talvez, quando, após o convite dos pais ou de algum amigo, alegremente tomávamos o caminho de casa para passar o Natal ou os feriados juninos.
     Mas o prédio! — que edifício mais excêntrico e antigo aquele! — para mim, como era verdadeiramente um palácio encantado! Não havia de fato fim para seus meandros — para suas incompreensíveis subdivisões. Era difícil, a qualquer dado momento, dizer com certeza em qual de seus dois andares calhava de se estar. De cada cômodo para qualquer outro aconteceria seguramente de se topar com três ou quatro degraus, fosse para subir, fosse para descer. E ainda as passagens laterais eram inumeráveis — inconcebíveis — e de tal modo desembocando em si mesmas que nossas ideações mais exatas com respeito à totalidade da mansão não eram muito diferentes dessas com que ponderávamos sobre o infinito. Durante os cinco anos em que ali residi, nunca fui capaz de determinar com precisão em que remoto esconso localizava-se o pequeno dormitório reservado a mim e a cerca de dezoito ou vinte outros estudantes.
     A sala de aula era a maior da casa — e, eu não conseguia deixar de pensar, do mundo. Era muito comprida, estreita e desoladoramente baixa, com pontudas janelas góticas e forro de carvalho. Em um ângulo remoto e que nos infundia o terror ficava o recinto quadrado com cerca de dois a três metros compreendendo o sanctum, “durante o horário”, de nosso diretor, o reverendo dr. Bransby. Era uma sólida estrutura, com porta maciça, e, preferencialmente a abri-la na ausência do “Dominie”, teríamos todos de bom grado perecido sob a peine forte et dure². Em outros ângulos ficavam dois cubículos similares, muito menos reverenciados, na verdade, mas ainda assim objeto de grande respeito. Um deles era o púlpito do mestre “clássico”, outro, do “inglês e matemático”. Distribuídas pela sala, indo e vindo em uma irregularidade contínua, havia inumeráveis carteiras com bancos, escuras, antigas e desgastadas pelo tempo, cobertas com periclitantes pilhas de livros muito manuseados, e tão riscadas de iniciais, nomes inteiros, figuras grotescas e outros múltiplos trabalhos a canivete que estes haviam perdido inteiramente o pouco da forma original que porventura lhes coubera em um tempo havia muito ido. Um imenso balde d'água ficava numa extremidade da sala, e um relógio de dimensões estupendas na outra.

[2] Dominie: mestre-escola; peine forte et dure: punição que consistia em empilhar pedras sobre o peito do réu que se recusasse a se declarar culpado ou inocente, até ele falar ou morrer sufocado.

     Encerrado nas paredes maciças desse venerando ateneu, passei, embora não entediado nem desgostoso, os anos do terceiro lustro de minha vida. A fervilhante cabeça da infância prescinde de qualquer mundo ou incidente externo com que se ocupar ou se divertir; e a monotonia aparentemente melancólica de um colégio era repleta de uma excitação mais intensa do que minha juventude mais avançada derivou do luxo ou minha idade viril do crime. E contudo quero crer que meu desenvolvimento mental inicial guardava em si muito de incomum — muito, até, de outré³. Nos seres humanos como um todo os eventos da existência muito tenra raramente deixam na maturidade alguma impressão definida. Tudo são sombras cinzentas — uma lembrança tênue e irregular — uma recordação vaga de débeis prazeres e fantasiosos sofrimentos. Comigo tal não se dá. Na infância devo ter sentido com a energia de um homem o que hoje encontro gravado na memória em linhas tão vívidas, tão profundas e tão permanentes quanto os exergos das medalhas cartaginesas.

[3] “Anticonvencional”; “excêntrico”; “bizarro”.

     E contudo de fato — para a visão factual do mundo — como havia pouco que recordar! O despertar pela manhã, as chamadas para se recolher à noite; as horas de estudo, as sabatinas; os regulares meios períodos de descanso, e suas perambulações; o pátio de recreio com suas altercações, seus passatempos, suas intrigas; — isso tudo, mediante uma feitiçaria mental há muito esquecida, foi moldado de maneira a envolver uma imensidade de sensações, um mundo de ricos incidentes, um universo de emoção variada, das excitações mais apaixonadas e inspiradoras do espírito. “Oh, le bon temps, que ce siècle de fer!4.

[4] “Oh, não há tempos tão bons como este século de ferro.” Verso do poema “Le mondaine”, de Voltaire.

     Na verdade, o ardor, o entusiasmo e a imperiosidade de minha disposição não tardaram a me conferir um caráter destacado entre meus colegas e, mediante graduações lentas mas naturais, renderam-me uma ascendência sobre todos os não muito mais velhos do que eu; — todos, com uma exceção. Essa exceção se encontrava na pessoa de um aluno que, embora sem parentesco comigo, ostentava o mesmo nome de batismo e sobrenome; — circunstância, na verdade, pouco notável; pois, não obstante uma linhagem nobre, o meu era um desses nomes ordinários que parecem, por direito prescritivo, ter sido, em tempos imemoriais, propriedade comum do vulgo. Nessa narrativa portanto intitulei a mim mesmo William Wilson — nome fictício não muito diferente do real. Apenas meu homônimo, dentre todos os que no linguajar escolar constituíam “nosso círculo”, ousava competir comigo nos estudos da sala de aula, nos esportes e altercações do pátio — ousava recusar-se a crer implicitamente em minhas asserções, e submeter-se a minha vontade — na verdade, interferir com minha autoridade arbitrária no que quer que fosse. Se existe um despotismo supremo e absoluto no mundo, é o despotismo de uma mente superior na infância sobre os espíritos menos enérgicos de seus companheiros.
     A rebeldia de Wilson para mim constituía fonte do maior constrangimento; — tanto mais porque, a despeito da bravata com que em público eu fazia questão de tratá-lo, bem como a suas pretensões, secretamente percebia temê-lo, e não conseguia deixar de pensar na igualdade que mantinha tão facilmente comigo como uma prova de sua genuína superioridade; pois que não ser derrotado custava-me um esforço perpétuo. E contudo essa superioridade — mesmo essa igualdade — não era com efeito admitida por ninguém mais a não ser eu mesmo; nossos colegas, devido a uma cegueira inexplicável, pareciam nem sequer desconfiar disso. Na verdade, sua competição, sua resistência e particularmente sua impertinência e obstinada interferência com os meus propósitos eram não tão manifestas, mas antes privadas. Ele parecia destituído igualmente da ambição que me impelia e da energia apaixonada de mente que me capacitava a me sobressair. Em sua rivalidade poder-se ia conjecturar que agia unicamente por um desejo caprichoso de estorvar, surpreender ou mortificar minha pessoa; embora houvesse ocasiões em que eu não conseguia deixar de observar, com um sentimento misto de admiração, humilhação e irritação, que temperava suas injúrias, seus insultos ou suas contradições com uma afetuosidade de modos que era decerto por demais inadequada e seguramente por demais indesejável. Esse comportamento singular eu só o podia conceber como derivando de uma rematada presunção dando-se ares vulgares de apoio condescendente e proteção.
     Talvez fosse este último traço na conduta de Wilson, combinado a nossa identidade de nome, e ao mero acidente de termos ingressado na escola no mesmo dia, que ventilou entre as classes mais velhas do colégio a ideia de que éramos irmãos. Os alunos maiores em geral não indagam com grande rigor os assuntos dos mais novos. Disse antes, ou deveria tê-lo feito, que Wilson não era, no mais remoto grau, ligado a minha família. Mas seguramente se de fato fôssemos irmãos deveríamos ser gêmeos; pois, após deixar a instituição do dr. Bransby, casualmente vim a saber que meu homônimo nascera no dia 19 de janeiro de 1809 — e isso é de certo modo uma coincidência notável; pois esse é precisamente o dia de meu próprio nascimento5.

[5] Poe modificou a data nas diversas edições desse conto ao longo de sua vida (inicialmente 1811, depois 1809 e, por fim, 1813). Aqui mantida a mais significativa, em que o próprio escritor nasceu. (N. do T.)

     Talvez pareça estranho que a despeito da contínua ansiedade em mim ocasionada pela rivalidade de Wilson, e por seu intolerável espírito contestador, eu era incapaz de vir a odiá-lo inteiramente. Tínhamos, para ser exato, quase todos os dias uma briga em que, concedendo-me publicamente a palma da vitória, ele, de algum modo, excogitava uma maneira de me fazer sentir não ser seu verdadeiro merecedor; e, contudo, um senso de orgulho de minha parte e uma genuína dignidade da dele mantinham-nos sempre no que se costuma chamar de “bons termos”, embora houvesse muitos pontos de forte conformidade operando em nossos temperamentos para despertar em mim um sentimento que talvez exclusivamente nossa situação impedia de amadurecer em amizade. Difícil é de fato definir, ou mesmo descrever, meus reais sentimentos para com ele. Formavam um composto variegado e heterogêneo; — parte animosidade petulante, que ainda não era ódio, parte estima, uma dose de respeito, e muito medo, com uma quantidade imensa de curiosidade. Para o moralista será desnecessário dizer, além do mais, que Wilson e eu éramos os mais inseparáveis dos companheiros.

continua...
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William Wilson (a) /             
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.