em busca do tempo perdido
volume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Terceiro
Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.
O Sr. de Charlus estava assustado como um provinciano que tem de atravessar os
bulevares; e, para empregar uma comparação infinitamente menos sacrílega que o assunto
representado nos capitéis do pórtico da velha igreja de Couliville, as vozes das jovens criadas
repetiam mais baixo, sem se cansar, a ordem da subpatroa, como esses catecismos que ouvimos
os alunos salmodiarem na sonoridade de uma igreja rural. Por mais medo que tivesse, o Sr. de
Charlus, que na rua tremia à ideia de ser ouvido, convencendo-se de que Morel estava à janela,
talvez não se assustasse tanto em meio ao ranger daquelas escadarias enormes, onde se
compreendia que não era possível ouvir coisa alguma dos quartos. Afinal, no termo de seu
calvário, encontrou a Srta. Noémie, que devia escondê-lo com Jupien, mas principiou por fechá-lo
num salão persa extremamente suntuoso, de onde ele não via nada. Ela disse-lhe que Morel
pedira uma laranjada e que, logo que a tivessem servido, introduziriam os dois viajantes num
salão transparente. Enquanto isso, como a reclamassem, ela lhes prometeu, como num conto,
que, para passarem o tempo, iria mandar-lhes "uma mulherzinha inteligente". Pois ela estava
sendo chamada. A mulherzinha inteligente vestia um peígnoír persa, que desejava tirar. O Sr. de
Charlus pediu-lhe que não fizesse nada, e ela mandou subir champanha, que custava quarenta
francos a garrafa. Durante todo esse tempo, Morel na verdade estava com o príncipe de
Guermantes; para salvar as aparências, fingira enganar-se de quarto, entrara num em que havia
duas mulheres, as quais se apressaram a deixar os dois cavalheiros a sós. O Sr. de Charlus
ignorava tudo isso, mas praguejava e queria abrir as portas; mandou chamar de novo a Srta.
Noémie, a qual, tendo ouvido a mulherzinha inteligente dar ao Sr. de Charlus detalhes sobre Morel
que não concordavam com os que ela mesma dera a Jupien, fê-la retirar-se e em breve enviou,
para substituí-la, "uma mulherzinha gentil", que não lhes mostrou nada de mais, mas falou o
quanto a casa era séria e também pediu champanha. O barão, espumando de ódio, mandou que
a Srta. Noémie voltasse; esta lhes disse:
- Sim, demora um pouco, essas damas tomam atitudes, não parece que ele tenha vontade
de fazer alguma coisa. -
Por fim, diante das promessas e ameaças do barão, a Srta. Noémie saiu com ar
contrariado, assegurando-lhes que não esperariam mais de cinco minutos. Tais cinco minutos
duraram uma hora, após o que Noémie conduziu, na ponta dos pés, o Sr. de Charlus, ébrio de
furor, e Jupien, desolado, para uma porta entreaberta, dizendo:
- Os cavalheiros vão ver muito bem. Aliás, neste momento não é interessante, ele está
com três damas e conta-lhes a sua vida no regimento. -
Enfim o barão pôde ver pela abertura da porta e também nos espelhos. Mas um terror
mortal o obrigou a apoiar-se à parede. Era Morel mesmo que ele tinha diante de si, mas, como se
ainda existissem os mistérios pagãos e os enfeitiçamentos, era antes a sombra de Morel. Morel
embalsamado, nem sequer Morel ressuscitado como Lázaro, uma aparição de Morel, um
fantasma de Morel. Morel retornando ou evocado naquele quarto (onde por todo lado as paredes
e os divãs repetiam emblemas de feitiçaria), que estava a poucos metros dele, de perfil, Morel
tinha, como depois da morte, perdido todas as cores; entre aquelas mulheres, com as quais era
de esperar que se entregasse a alegres folguedos, permanecia lívido, preso a uma imobilidade
artificial; para beber a taça de champanha à sua frente, seu braço sem forças tentava estender-se
devagar e tombava. Tinha-se a impressão desse equívoco que faz que uma religião fale de
imortalidade, mas por isso entende alguma coisa que não exclui o Nada. As mulheres o
atormentavam com perguntas. As perguntas das mulheres se faziam mais inquisitivas, mas Morel,
inanimado não tinha força para lhes responder. Nem sequer se produzia o milagre de uma palavra
murmurada. O senhor de Charlus teve um só instante de vacilação e compreendeu a verdade e
que já por estupidez de Jupien quando fora acertar tudo, já fora por poder de expansão dos
segredos confiados que nunca os conservara seja pelo caráter indiscreto dessas mulheres, seja
por temor da polícia, tinham avisado Morel que dois senhores haviam pago muito caro para vê
lo, tinham-no feito sair o príncipe de Guermantes, permutado em três mulheres e colocado o
pobre Morel, tremente e paralisado de tal modo pelo estupor que se o senhor de Charlus o via
mal, era porque ele estava apavorado e sem palavras, não se atrevia a tomar seu copo por temor
a deixá-lo cair, vendo totalmente o barão.
A história por outra parte não termina melhor para o príncipe de Guermantes. Quando o
tinham feito sair para que não visse o senhor de Charlus, furioso por sua desilusão sem suspeitar
quem era o autor, tinha suplicado ao Morel, sempre sem lhe deixar saber sua identidade, que se
vissem na noite seguinte na pequena casa que havia alugado e que apesar do escasso tempo
que devia ocupar, fora adornado, de acordo com o mesmo costume maníaco que já observamos
em casa da senhora de Villeparisis, com grande quantidade de lembranças de família, para sentir
se mais aclimado. Por isso no dia seguinte, Morel, que voltava com freqüência a cabeça, tremendo que o
seguisse e o espiasse a mando do senhor de Charlus, tinha terminado por entrar na casa. Um
serviçal o fez entrar em salão, dizendo que ia avisar ao senhor (seu amo lhe tinha recomendado
que não pronunciasse seu título de príncipe temendo despertar suspeitas). Mas quando Morel
estava sozinho e quis olhar no espelho para ver se sua mecha estava despenteada, foi como
uma alucinação. Sobre a estufa, as fotografias identificáveis para o violinista, por ter visto em
casa do senhor de Charlus, da princesa de Guermantes, da duquesa de Luxemburgo e da
senhora de Villeparisis, petrificaram-no primeiro de assombro. No mesmo momento advertiu a do
senhor de Charlus, que estava um pouco apartada. O barão parecia imobilizado à Morel com
seu olhar estranho e fixo. Louco de medo, Morel, que voltava de seu primitivo estupor e não
duvidava que essa não fosse uma cilada em que o tinha feito cair o senhor de Charlus, para
comprovar se era fiel, desceu de quatro os poucos degraus da casa e saiu correndo pela estrada.
Quando o príncipe de Guermantes (depois de ter feito esperar o que acreditou necessário a
uma relação de passagem, não sem haver perguntado se era muito prudente e se o indivíduo
não seria perigoso), entrou no salão, não encontrou ninguém. Por mais que explorasse toda a
casa, com seu serviçal e com o revólver em punho a casa inteira, que não era grande, e os
recantos do jardinzinho e o porão, desaparecera o companheiro cuja presença julgara certa.
Encontrou-o várias vezes durante a semana seguinte. Mas de cada vez, era Morel, o
sujeito perigoso, quem fugia, como se o príncipe fosse mais perigoso ainda. Renitente em suas
suspeitas, Morel nunca as dissipou, e mesmo em Paris, a simples vista do príncipe de
Guermantes bastava para pô-lo em fuga. Por onde se vê que o Sr. de Charlus foi protegido de
uma infidelidade que o desesperava, e vingado sem jamais tê-lo imaginado, e nem principalmente
de que modo.
Mas as lembranças do que me contaram a respeito já não substituídas por outras, pois o
B.C.N., retomando a sua marcha de "calhambeque", continua a largar ou apanhar os viajantes nas
estações seguintes.
Em Grattevast, onde morava sua irmã com quem fora passar a tarde, subia às vezes o Sr.
Pierre de Verjus, conde de Crécy (a quem chamavam apenas conde de Crécy), fidalgo pobre mas
de extrema distinção, que eu conhecera através dos Cambremer, a quem aliás era pouco ligado.
Reduzido a uma vida extremamente modesta, quase miserável, sentia eu que um charuto, uma
"consumação" eram coisas tão agradáveis para ele que tomei o hábito, quando não podia ver
Albertine, de convidá-lo para vir a Balbec. Muito fino e expressando-se às mil maravilhas cabeça
toda branca e encantadores olhos azuis, falava principalmente com o canto dos lábios, e muita
delicadeza, dos confortos da vida senhorial, que evidentemente conhecera, e também de
genealogias. Como lhe perguntasse o que estava gravado em seu anel, disse com um sorriso
modesto:
- É um ramo de verjus (agraço).
[Agraço: estado das uvas antes de amadurecerem. (N. do T)]
E acrescentou com prazer de degustador:
- Nossas armas são um ramo de agraço simbólico, pois me chamo Verjus com caule e
folhas de sinople. -
Creio, porém, que ficaria decepcionado se em Balbec eu só lhe oferecesse verjus para
beber. Ele apreciava os vinhos mais caros, decerto por privação, pelo conhecimento profundo
daquilo de que se achava privado, por gosto, talvez também por inclinação exagerada. Assim,
quando o convidava para jantar em Balbec, ele encomendava a refeição com uma ciência
requintada, mas comia um pouco demais, e sobretudo bebia, mandando guardar os vinhos que
deviam ser bebidos logo, e gelar aqueles que deviam ficar no gelo. Antes e depois do jantar,
indicava a data ou o número que desejava de um vinho do porto ou de um conhaque, como o teria
feito para a ereção geralmente ignorada de um marquesado, mas que ele conhecia igualmente
bem.
Como eu era para Aimé um freguês predileto, ficava ele encantado que eu desse esses
jantares extras e gritava para os garçons:
- Depressa, preparem a mesa 25; - ele nem mesmo dizia "preparem", mas "preparem-me",
como se fosse para ele próprio. E, como a linguagem dos mordomos de hotel não é exatamente a
mesma da dos chefes de mesa, subchefes, copeiros, etc., no momento em que eu pedia a nota,
ele dizia ao garçom que nos servira, com um gesto repetido e apaziguador da palma da mão,
como se quisesse acalmar um cavalo prestes a tomar o freio nos dentes:
- Não avance muito (para a nota); vá devagarinho, bem devagarinho. -
Depois, como o garçom partisse com esse aviso, Aimé, receando que suas
recomendações não fossem observadas com exatidão, tornava a chamá-lo:
- Espere, eu mesmo vou pôr os preços. -
E, como eu lhe dissesse que aquilo não fazia diferença:
- Tenho por princípio que, como se diz vulgarmente, não se deve burlar o freguês. -
Quanto ao gerente, observando as roupas simples, sempre as mesmas e bastante gastas
do meu convidado (e contudo ninguém poria tão bem em prática a arte de se vestir com
opulência, como um elegante de Balzac, se possuísse meios), limitava-se, por minha causa, a
inspecionar de longe para ver se tudo corria bem e a exigir, com um olhar, que pusessem um
calço no pé da mesa que não estava a prumo. Não que não soubesse meter a mão na massa
como qualquer outro, embora ocultasse os seus começos como lava-pratos.
Foi preciso, todavia, uma circunstância excepcional para que um dia ele próprio
destrinchasse os perus. Eu havia saído, mas soube que ele o fizera com uma majestade
sacerdotal, cercado, a respeitosa distância do trinchante, de um círculo de garçons que assim
procuravam menos aprender do que se exibir, e tinham um ar beatífico de admiração. Aliás, não
foram vistos de modo algum pelo gerente (que mergulhava num gesto lento no flanco das vítimas
e sem despregar os olhos, compenetrados de sua alta função e como se devesse ler algum
augúrio). O sacrificador nem sequer percebeu minha ausência. Quando o soube, ficou desolado.
- Como, o senhor não me viu decepar eu mesmo os perus? -
Respondi que, não tendo podido ver até então Roma, Veneza, Siena, o museu do Prado, o
museu de Dresde, as Índias, nem Sarah na Fedra, já conhecia a resignação e acrescentaria à lista
o seu trinchamento dos perus. A comparação com a arte dramática (Sarah na Fedra) foi a única
que ele pareceu compreender, pois sabia por mim que, nos dias de representações de gala,
Coquelin sênior aceitara papéis de estreante, ou até o de personagens que só dizem uma frase
ou nem dizem nada.
- Tanto faz, estou desolado pelo senhor. Quando é que vou trinchar de novo? Seria preciso
um acontecimento, seria preciso uma guerra. -
(Com efeito, foi necessário o armistício.) Desde esse dia, o calendário foi mudado,
contava-se assim: "Foi no dia seguinte àquele em que trinchei pessoalmente os perus." - "Foi
exatamente oito dias depois que o gerente trinchou ele próprio os perus." - Assim, aquela
prossectomia serviu, como o nascimento de Cristo ou a Hégira, de ponto de partida para um
calendário diverso dos demais, mas que não logrou sua extensão nem igualou sua duração.
A tristeza da vida do Sr. de Crécy tanto provinha de não mais possuir cavalos e uma mesa
suculenta, como de conviver com pessoas que imaginavam que Cambremer e Guermantes
fossem uma só família. Quando viu que eu sabia que Legrandin, que agora se fazia chamar
Legrand de Méséglise, a que não tinha o menor direito, aliás animado pelo vinho que bebia, teve
uma espécie de acesso de alegria. Sua irmã me dizia com ar de compreensão:
- Meu irmão jamais se sente tão feliz como quando pode conversar com o senhor. -
De fato, ele sentia-se existir desde que descobrira alguém que conhecia a mediocridade
dos Cambremer e a grandeza dos Guermantes, alguém para quem o universo social existia.
Como se, após o incêndio de todas as bibliotecas do globo e a ascensão de uma raça totalmente
ignorante, um velho latinista retomasse pé e confiança na vida ao ouvir alguém citar-lhe um verso
de Horácio. Assim, se ele jamais saía do vagão sem me dizer:
- Para quando, a nossa pequena reunião? - tanto era por avidez de parasita, como por
gula de erudito, e porque considerava os ágapes de Balbec como uma ocasião para conversar, ao
mesmo tempo, sobre assuntos que lhe eram caros e de que não podia falar com ninguém, e
análogos nisso a esses jantares em que se reúnem em datas fixas, diante da mesa
particularmente suculenta do Círculo da União, a Sociedade dos Bibliófilos. Muito modesto no que
se referia à sua própria família, não foi pelo Sr. de Crécy que fiquei sabendo que ela era bem
grande e um autêntico ramo, enraizado na França, da família inglesa que leva o título de Crécy.
Quando soube que ele era um verdadeiro Crécy, contei-lhe que uma sobrinha da Sra. de
Guermantes havia desposado um americano de nome Charles Crécy e lhe disse que pensava que
o mesmo não tinha qualquer relação com ele.
- Nenhum - disse-me. - Como também (apesar de que minha família não possui tanta
ilustração) muitos americanos que se chamam Montgommery Berry, Chandos ou Capei não têm
qualquer relação com as famílias de Pembroke, de Buckingham, d'Essex, ou com o duque de
Berry. -
Pensei várias vezes em lhe dizer, para diverti-lo, que conhecia a Sra. Swann, a qual, como
cocote, era conhecida antigamente sob o nome de Odette de Crécy; mas, embora o duque
d'Alençon não pudesse ficar constrangido que lhe falassem de Émilienne d'Alençon, não me
julguei bastante íntimo do Sr. de Crécy para levar o gracejo a esse ponto.
- Ele pertence a uma grande família - disse-me um dia o Sr. de Montsurvent. - Seu
patronímico é Saylor. - E acrescentou que, no seu velho castelo acima de Incarville, aliás quase
inabitável, e que, embora o Sr. de Crécy tivesse nascido muito rico, estava atualmente arruinado
demais para poder reformá-lo, lia-se ainda a antiga divisa da família. Achei essa divisa muito
bonita, aplicada aplicada à impaciência de uma raça de presa aninhada naquele ambiente de
onde outrora devia alçar voo, seja, hoje, atribuída à contemplação do declínio, à espera da morte
próxima naquele retiro selvagem e dominador. Com efeito, é nesse duplo sentido que essa divisa
joga com o nome de Saylor: Ne sçais I'heure.
[Ne sçais l'heure, "não sei a hora" em francês arcaico. Notar a semelhança fônica com o nome de Saylor. (N. do T)]
[Ne sçais l'heure, "não sei a hora" em francês arcaico. Notar a semelhança fônica com o nome de Saylor. (N. do T)]
Em Hermonville, embarcava às vezes o Sr. de Chevregny, cujo nome, disse-me Brichot,
significava (como o de Monsenhor de Cabrieres) "lugar onde se reúnem as cabras". Era parente
dos Cambremer e, por causa disso, e devido a uma falsa apreciação da elegância, estes o
convidavam frequentemente a Féterne, mas apenas quando não tinham convidados para exibir.
Vivendo o ano inteiro em Beausoleil, o Sr. de Chevregny permanecera mais provinciano do que
eles. Assim, quando ia passar algumas semanas em Paris, não tinha um só dia a perder para tudo
o que "haveria de ver"; a tal ponto que às vezes, um pouco aturdido pelo número de espetáculos
digeridos depressa demais, quando lhe perguntavam se tinha visto uma determinada peça,
chegava a não ter certeza. O que era raro, pois ele conhecia as coisas de Paris com esse
pormenor particular às pessoas que raramente a visitam. Aconselhava-me as "novidades" que
convinha ir ver ("Isto vale a pena"), aliás considerando-as apenas do ponto de vista da noite
agradável que fazem passar, e ignorando o ponto de vista estético até não desconfiar sequer que
pudessem, de fato, constituir às vezes uma "novidade" na história da arte. Assim é que, falando
de tudo sob um mesmo plano, ele nos dizia:
- Uma vez fomos à ópera-Cômica, mas o espetáculo não era famoso. Chamava-se Pélleas
et Mélisande. É insignificante. Périer representa sempre bem, mas é preferível vê-lo em outra
coisa. Em compensação, no Gymnase, representava-se A Castelã. Voltamos duas vezes lá; não
deixem de ir, merece ser vista. E depois, é representada às maravilhas. Verão Frévalles, Marie
Magnier, Baronfils. -
Citava-me até nomes de atores de que eu jamais ouvira falar, e sem fazê-los preceder de
"senhor", "senhora" ou "senhorita", como o teria feito o duque de Guermantes, o qual falava no
mesmo tom cerimoniosamente desdenhoso das "canções da Srta. Yvette Guilbert" e das
"experiências do Sr. Charcot". O Sr. de Chevregny não procedia dessa forma; dizia Cornaglia e
Dehelly, como teria dito Voltaire e Montesquieu. Nele, relativamente aos atores e a tudo quanto
fosse parisiense, o desejo de se mostrar desdenhoso, que tinha o aristocrata, era vencido pelo de
parecer familiar, próprio do provinciano.
Logo depois do meu primeiro jantar na Raspeliere com o que ainda se chamava em
Féterne "o jovem casal", embora o Sr. e a Sra. de Cambremer já não fossem jovens, a velha
marquesa me escrevera uma dessas cartas cuja caligrafia se reconhece entre milhares. Dizia-me:
"Traga sua prima deliciosa encantadora -, agradável. Será um encanto, um prazer" falhando
sempre com tal infalibilidade a progressão esperada por aquele que recebia a carta, que acabei
por mudar de opinião acerca da natureza daqueles diminuendo, por julgá-los intencionais e por
encontrar neles a mesma deterioração do gosto transposta para a ordem mundana que levava
Sainte-Beuve a quebrar todas as alianças de palavras, a alterar toda expressão um tanto habitual.
Dois métodos, sem dúvida ensinados por mestres diferentes, contrariavam-se nesse estilo
epistolar, o segundo fazendo a Sra. de Cambremer compensar a banalidade dos adjetivos
múltiplos ao empregá-los em escala descendente, e evitando acabar no acorde perfeito. Em troca,
eu me inclinava a ver, nessas gradações inversas, não mais o requinte, como quando elas eram
obra da velha marquesa, mas sim falta de jeito, todas as vezes em que eram empregadas pelo
marquês, seu filho, ou por suas primas. Pois em toda a família, até um grau bastante afastado e
por uma imitação admirável da tia Zélia, a regra dos três adjetivos era muito estimada, bem como
uma certa maneira entusiasta de retomar a respiração ao falar. Imitação que aliás passara ao
sangue; e, quando na família uma meninazinha, desde a infância, parava ao falar para engolir
saliva, diziam: - Ela puxou à tia Zélia e sentiam que mais tarde o seu lábio teria uma rápida
inclinação a sombrear-se de um leve buço, e prometiam cultivar nela as disposições que
mostrasse para a música. As relações dos Cambremer não tardaram a ser menos perfeitas com a
Sra. Verdurin do que comigo, e por motivos diversos. Desejavam convidar esta última. A "jovem"
marquesa dizia-me com desdém:
- Não vejo por que não havemos de convidar essa mulher; no campo, a gente visita
qualquer um; isso não traz consequências. -
Mas no fundo, muito impressionados, não cessavam de me consultar sobre a maneira
como deveriam realizar o seu desejo de polidez. Como nos haviam convidado para jantar, a mim e
a Albertine, na companhia de amigos de Saint-Loup, pessoas elegantes da região, proprietários
do castelo de Gourville, e que mais ou menos representavam a elite normanda, que a Sra.
Verdurin apreciava, embora não quisesse aparentá-lo, aconselhei aos Cambremer que
convidassem a Patroa também. Mas os castelães de Féterne, por medo (de tanto que eram
tímidos) de descontentar seus nobres amigos, ou (de tanto que eram ingênuos) que o Sr. e a Sra.
Verdurin se entediassem com pessoas que não eram intelectuais, ou ainda (como estavam
impregnados de um espírito rotineiro que a experiência não fecundara), receando misturar os
gêneros e cometer uma tolice, declararam que aquilo não "daria certo" em conjunto, que
"estragaria", e que era melhor reservar a Sra. Verdurin (que haveriam de convidar com todo o seu
pequeno grupo) para um outro jantar. Para o próximo o elegante, com os amigos de Saint-Loup
do pequeno grupo só convidaram Morel, a fim de que o Sr. de Charlus fosse indiretamente
informado sobre as pessoas brilhantes que eles recebiam, e também para que o músico fosse um
elemento de distração para os convidados, pois pediram-lhe que levasse o seu violino.
Acrescentaram-lhe Cottard, porque o Sr. de Cambremer declarou que ele era um sujeito animado
e fazia boa figura num jantar; além do mais, seria conveniente estar em bons termos com um
médico, para o caso de alguém ficar doente. Mas convidaram-no sozinho, para "não começar
nada com a mulher". A Sra. Verdurin ficou indignada quando soube que dois membros do
pequeno grupo tinham sido convidados sem ela para um jantar íntimo em Féterne. Ditou ao
doutor, cujo primeiro movimento fora de aceitar o convite, uma altiva resposta em que dizia: "Nós
jantamos esta noite na casa da Sra. Verdurin", plural que deveria ser uma lição para os
Cambremer, e mostrar-lhes que ele era inseparável da Sra. Cottard. Quanto a Morel, a Sra.
Verdurin não teve necessidade de lhe traçar uma conduta impolida, que ele próprio adotou
espontaneamente. Eis por quê. Se, no que se refere aos seus prazeres, tinha ele, em relação ao
Sr. de Charlus, uma independência que a este muito afligia, já vimos que a influência deste último
se fazia sentir mais em outros domínios e que, por exemplo, ele havia ampliado seus
conhecimentos musicais e apurado o estilo do virtuose. Porém, ao menos do ponto de vista da
nossa narrativa, não passava de uma influência. Em compensação, havia um terreno sobre o qual
aquilo que o barão dizia era cegamente acreditado e feito por Morel. Cega e loucamente, pois não
só os ensinamentos do Sr. de Charlus eram falsos como também, ainda que válidos para um
grão-senhor, tornavam-se grotescos aplicados ao pé da letra por Morel. O terreno em que Morel
se tornava tão crédulo e era tão dócil ao mestre era o terreno mundano. O violinista que, antes de
conhecer a Sr. de Charlus, não tinha noção alguma da sociedade, tomara ao pé da letra o esboço
altivo e sumário que lhe traçara o barão:
- Há um certo número de famílias preponderantes - dissera-lhe o Sr. de Charlus. - Antes de
tudo os Guermantes, que contam quatorze alianças com a Casa de França, o que aliás é
principalmente lisonjeiro à Casa de França, pois era a Aldonca de Guermantes e não a Luís o
Gordo, seu irmão consanguíneo, porém segundo-gênito, que deveria ter voltado ao trono da
França. Sob Luís XIV, pusemos luto pela morte de Monsenhor, pois tínhamos a mesma avó que o
rei. Muito abaixo dos Guermantes, pode-se todavia citar os La Trémoïlle, descendentes dos reis
de Nápoles e dos condes de Poitiers; os d'Uzes, pouco antigos como família mas que são os mais
antigos pares; os Luynes, bem recentes, mas com o brilho das grandes alianças; os Choiseul, os
Harcourt, os La Rochefoucauld. Acrescente ainda os Noailles, apesar do conde de Toulouse, os
Montesquiou, os Castellane e, salvo esquecimento, isso é tudo. Quanto a todos esses fidalgotes
que se chamam marquês de Cambremerda ou de Vaitefumar, não há nenhuma diferença entre
eles e o último soldado do seu regimento. Que você vá fazer xixi na casa da condessa Cocô e
cocô na da baronesa Xixi, é a mesma coisa, terá comprometido a sua reputação e tomado um
trapo sujo por papel higiênico. É uma porcaria. -
Morel recolhera piedosamente essa lição de história, talvez um tanto sumária; julgava as
coisas como se ele próprio fosse um Guermantes e sonhava com uma ocasião de se encontrar
com os falsos La Tour d'Auvergne para fazê-los sentir, com um soco desdenhoso, que ele não os
levava a sério. Quanto aos Cambremer, eis que justamente podia mostrar-lhes que não valiam
mais que "o último soldado de seu regimento". Não respondeu ao convite deles e na noite do
jantar desculpou-se à última hora com um telegrama, deslumbrado como se acabasse de agir feito
um príncipe de raça. Além disso, resta acrescentar que não se pode imaginar o quanto, de um
modo geral, o Sr. de Charlus podia ser insuportável, minucioso, e até, ele tão fino, também
imbecil, em todas as ocasiões em que entravam em jogo os defeitos do seu caráter. De fato,
pode-se dizer que estes são como que uma enfermidade intermitente do espírito. Quem já não
reparou no fato entre as mulheres, e até nos homens, dotados de inteligência notável porém
afligidos de nervosismo? Quando estão felizes, sossegados, satisfeitos com o ambiente, fazem
com que admiremos seus preciosos dotes; é literalmente a verdade que fala por sua boca. Uma
enxaqueca, uma pequena picada de amor-próprio, basta para mudar tudo. A luminosa
inteligência, convulsiva, brusca e acanhada, só reflete um ego irritado, perspicaz, caprichoso,
fazendo todo o possível para desagradar.
Foi intensa a cólera dos Cambremer; e, no intervalo, outros incidentes levaram a uma certa
tensão em suas relações com o pequeno clã. Quando voltávamos, os Cottard, Charlus, Brichot,
Morel e eu, de um jantar na Raspeliere e como os Cambremer, que tinham almoçado com amigos
em Arembouville, tivessem feito na ida uma parte do trajeto conosco:
- O senhor, que tanto aprecia Balzac e sabe reconhecê-lo na sociedade contemporânea
dissera eu ao Sr. de Charlus -, deve achar que esses Cambremer saíram das Cenas da Vida
Provinciana. -
Mas o Sr. de Charlus, exatamente como se fosse amigo deles e eu o tivesse melindrado
com minha observação, cortou-me bruscamente a palavra:
- O senhor diz isto porque a mulher é superior ao marido - replicou ele em tom seco.
- Oh, eu não queria dizer que ela era a Musa do Departamento, nem a Sra. de Bargeton,
muito embora... -
O Sr. de Charlus interrompeu de novo:
- Diga antes a Sra. de Mortsauf. -
O trem parou, e Brichot desceu.
- Por mais que lhe fizéssemos sinais, o senhor é terrível.
- Como?
- Ora, não percebeu que Brichot está loucamente apaixonado pela Sra. de Cambremer? -
Pela atitude dos Cottard e de Charlie, vi que aquilo era aceito sem sombra de dúvida no
pequeno núcleo. Creio que havia maldade da parte deles.
- Pois não notou como ele ficou perturbado quando você falava dela? - continuou o Sr. de
Charlus, que gostava de mostrar que tinha experiência com as mulheres e falava do sentimento
que elas inspiram com um ar natural, e como se este sentimento fosse o que ele próprio sentisse
habitualmente. Porém um certo ar de paternidade equívoca em relação a todos os jovens apesar
de seu amor exclusivo por Morel acabou desmentindo, pelo tom, as opiniões de mulherengo que
ele emitia:
- Oh, esses meninos! - disse com voz aguda, piegas e cadenciada. - É preciso ensinar-lhes
tudo, são inocentes como criança recém-nascida, não sabem reconhecer quando um homem está
enamorado de uma mulher. Na sua idade eu era mais esperto - acrescentou, pois gostava de
empregar as expressões do mundo apache, talvez por gosto, talvez para não parecer, evitando-as, que frequentava aqueles para quem tais expressões faziam parte do vocabulário corrente.
Alguns dias mais tarde, fui obrigado a render-me à evidência e reconhecer que Brichot estava
apaixonado pela marquesa. Desgraçadamente, aceitou vários almoços na casa dela. A Sra.
Verdurin achou que era tempo de dar um basta naquilo. Fora a utilidade que ela via numa
intervenção, para a política do pequeno núcleo, sentia por esses tipos de explicações e pelos
dramas daí decorrentes um prazer cada vez mais vivo e que a ociosidade faz nascer tanto no
mundo aristocrático como na burguesia. Foi um dia de grande emoção na Raspeliere quando se
viu a Sra. Verdurin desaparecer durante uma hora com Brichot, a quem soube-se que ela dissera
que a Sra. de Cambremer zombava dele, que ele era motivo de troça em seu salão, que ele ia
desonrar a sua velhice, comprometer a sua posição no ensino. Chegou ao ponto de falar em
termos tocantes da lavadeira com quem ele vivia em Paris, e de sua filhinha. Ela venceu, e Brichot
deixou de ir a Féterne, mas seu desgosto foi tal que, durante dois dias, julgamos que perderia
completamente a visão, e, em todo caso, sua enfermidade se agravou a um estágio que se tornou
definitivo. Entretanto, os Cambremer, cuja raiva contra Morel era grande, convidaram uma vez, e
de propósito, o Sr. de Charlus, mas sem o violinista. Não recebendo resposta do barão, recearam
ter cometido uma gafe, e, achando que o rancor era mau conselheiro, escreveram um pouco
tardiamente a Morel, servilismo que fez sorrir o Sr. de Charlus, mostrando-lhe o seu poder.
- Responda por nós dois que aceito - disse o barão a Morel.
continua na página 221...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - O Sr. de Charlus estava assustado)
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)Volume 6
Volume 7