Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte III
O Relatos de Odisseu
Canto IX
Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope
“Este canto contém o início do grande Relato: como zarpou Odisseu de Ítaca
primeiro chegando à terra dos Cíconos, e pilharam a cidade, junto ao mar,
chamada Ismaro. Passaram então por Maleia, extremidade da Lacônia, onde um
forte vento levou-os para além de um grande pélago e chegam à terra dos
Lotófagos. Depois chegam ao Ciclope. A grande parte da tropa permanece junto
à Ilha... mas o Ciclope que foi cego, Polifemo, come seis dos doze que o
acompanharam.” (Scolie H Q ... E P)
“Ó rei Alcínoo, entre todos ilustre e ornamento do povo!
É delicioso, de fato, podermos ouvir tão sublime
e inolvidável cantor, cuja voz se assemelha à dos deuses.
Sim, digo mesmo que a nada se pode aspirar de mais alto
que ver a paz entre o povo e a alegria no rosto de todos,
e, no interior do palácio, os convivas sentados em ordem,
todos o aedo a escutar, tendo mesas na frente, repletas
de pão e carne, no tempo em que o vinho nas grandes crateras
deita o escanção, para os copos de todos encher até as bordas:
deita o escanção, para os copos de todos encher até as bordas:
eis o que a mim se afigura a mais bela e inefável ventura.
Mas ora estás inclinado a fazer-me perguntas acerca
de meus suspiros e dores, a fim de ainda mais lastimar-me.
Qual há de ser o primeiro, qual o último que hei de contar-te
dos sofrimentos, se tantos os deuses celestes me deram?
Pelo meu nome princípio darei, que a saber venhais todos
como me chamo e porque hóspede vosso ainda seja, conquanto
venha da Morte a escapar e por mais que me encontre distante.
Sou de Laertes o filho, Odisseu, conhecido entre os homens
Toda a vitória posterior de Odisseu sobre o ciclope será uma vitória da inteligência sobre a força física. Mas Homero também sugere algo importante: se Odisseu não fosse tão curioso e tão confiante em sua própria capacidade de lidar com qualquer situação, talvez jamais tivesse entrado naquela caverna. Sua astúcia o salva, mas seu excesso de confiança frequentemente o coloca em perigo. É uma das características mais humanas e fascinantes do herói.
por toda a sorte de astúcias; bater foi no céu minha glória.
Ítaca, ao longe visível, é minha morada, onde o monte
Nérito se alça imponente, coroado de frondes; em torno,
ilhas em número grande se encontram, bem perto umas de outras,
Samo não só, mas Dulíquio, também, e a selvosa Zacinto.
Ela é a mais baixa e se encontra nas ondas num ponto longínquo,
do lado escuro; as demais, para o lado do Sol e da Aurora.
Áspera, sim, mas nutriz admirável de moços; mais doce
vista jamais me foi dado admirar do que a terra nativa.
Bem me deteve em sua côncava gruta a preclara Calipso,
deusa entre as deusas, que ardia em desejos de que eu a esposasse.
Circe, também, procurou me reter no interior de sua casa,
a deusa Eeia, astuciosa, intentando fazer-se-me esposa.
O coração no imo peito, porém, jamais pôde abalar-me.
Nada tão doce, sem dúvida, pode existir, como a pátria
e os próprios pais, muito embora moremos num rico palácio,
longe, em país estrangeiro, distante dos que nos geraram.
Seja, se o queres! Dir-te-ei do regresso que fiz, trabalhoso,
dado por Zeus, quando a costa de Troia deixei, de retorno.¹
“De Ílio levaram-me os ventos à terra habitada por Cíconos,
onde a cidade de Ismaro saqueei e matei os seus homens;
mas da cidade as mulheres e o grande tesouro amontoado
foi dividido, porque nenhum homem sem lote ficasse.
É bem verdade que aos outros propus que com pés mui velozes
logo fugíssemos, mas os estultos não me obedeceram.
Vinho gostoso e abundante beberam, ovelhas sem conta
sacrificaram na praia, e assim bois que se arrastam tardonhos.
Nesse entrementes, os Cíconos pedem socorro a outros Cíconos
circunvizinhos, porém de mais força e bem mais numerosos.
Na terra firme habitavam; de carro eles todos lutavam
com os imigos, ou mesmo de pé, se assim fosse preciso.
com os imigos, ou mesmo de pé, se assim fosse preciso.
Ei-los que chegam, bem cedo, abundantes quais folhas e flores
da primavera. Então Zeus sobre nós, infelizes, um fado
triste, mui triste mandou, porque novos trabalhos sofrêssemos.
Firmes ao lado das céleres naus of’receram combate
e se feriram reciprocamente com as lanças de bronze.
Enquanto o dia sagrado crescia e a manhã não cessara,
foi-nos possível contê-las, pesar do seu número grande.
Mas, quando o Sol se inclinou, já no tempo em que os bois vão ser soltos,
levam os Cíconos grande vantagem, fugindo os Aquivos.
De cada nau pereceram seis homens de grevas bem-feitas;
todos os mais escapamos da Morte e do triste Destino.
“O coração apertado, vogamos dali para diante,
ledos por termos da Morte escapado, com perdas dos sócios.
Não se afastaram, porém, do lugar meus navios simétricos,
sem pelo nome chamarmos três vezes a cada coitado
dos companheiros, que mortos ficaram na terra dos Cíconos.
Sobre os navios lançou o poderoso, que as nuvens reúne,
Zeus, tempestade violenta, fazendo que as nuvens cobrissem
a terra e o mar juntamente. Do céu baixa a noite, entrementes.
Eis nossas naus a correrem sem rumo, com as proas submersas;
três, quatro vezes, as velas os ventos furiosos as rasgam,
o que nos faz amainá-las, receosos de mores desditas,
e as próprias naus, com bem pressa, remamos no rumo da terra.
Por duas noites e dias contínuos ali demoramos,
com o peito apresso não só por fadigas, também pelas dores.
Mas, quando a Aurora, de belos cabelos, nos trouxe o outro dia,
logo elevamos os mastros, as cândidas velas soltamos
e nos sentamos. As naus os pilotos e os ventos dirigem.
Ao ninho pátria, talvez sem mais dores houvesse eu chegado;
mas, ao querer contornar o Maleia, arrastou-me a corrente,
bem como Bóreas, do que resultou de Citera afastar-me.
“Por nove dias dali me levaram os ventos funestos,
por sobre o oceano piscoso; somente no décimo à terra
nos foi possível descer dos Lotófagos que comem flores.
Nessa paragem descemos, a fim de fazermos aguada.
A refeição junto às naves velozes os sócios fizeram.
Mas, tendo assim, a vontade da fome e da sede saciado,
sócios escolho e os envio, com o fim de notícias obterem,
sobre que gente aí morava, e se vive de pão, como todos,
tendo escolhido dois homens e o arauto, o terceiro, por sócio.
Ei-los que vão, sem demora, e se mesclam aos homens Lotófagos.
Esses Lotófagos não empreenderam fazer nenhum dano
aos nossos homens, mas logo fizeram que loto comessem.
Quem quer que viesse a provar uma vez desse fruto gostoso
nunca a resposta haveria trazer, nem de novo empegar-se;
desejaria, isso sim, morar sempre com os homens Lotófagos,
a comer loto somente, esquecido, de vez, do retorno.
Mas, apesar de suas lágrimas, trouxe-os à força, de novo,
para as naus côncavas, onde os atei sob os bancos dos remos,
tendo, em seguida, ordenado aos queridos consócios de viagem
tendo, em seguida, ordenado aos queridos consócios de viagem
que para as céleres naves, sem perda de tempo, subissem.
Não fosse a alguém esquecer o retorno por causa do loto.
Sobem, por isso, os demais para bordo e se sentam nos bancos,
todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas.
“O coração apertado, vogamos daí para diante.
Fomos, depois, apartar ao país dos soberbos Ciclopes,
destituídos de leis, que, confiados nos deuses eternos,
não só não cuidam de os campos lavrar, como não plantam nada.
Tudo lhes nasce espontâneo, sem uso de arado e sementes
trigo e cevada, bem como videiras, que vinho produzem,
trigo e cevada, bem como videiras, que vinho produzem,
de cor vermelha; na chuva de Zeus vem a vida dos frutos.
Leis desconhecem, bem como os concílios nas ágoras públicas.
Vivem agrestes, somente nos cimos das altas montanhas,
em grutas côncavas, tendo cada um sobre os filhos e a esposa
plenos direitos, sem que dos demais o destino lhe importe.
“Nota-se uma ilha pequena, que fora do porto se estende,
nem mui distante nem perto da terra dos homens Ciclopes,
muito sombreada, onde cabras se encontram em número infindo,
todas selvagens, que os passos dos homens jamais afugentam.
Nunca, também, caçadores aí chegam, que pelas florestas
sofrem trabalhos sem conta, ao pisarem os cimos dos montes.
Grandes armentos, também, não se encontram, nem campos arados,
mas diariamente produz, sem que seja lavrada ou semeada
e erma de gentes; só nutre balantes rebanhos de cabras.
Entre os Ciclopes não se acham navios de frente vermelha,
nem carpinteiros capazes, que saibam construir segundo a arte
naves cobertas, como essas que trocas variadas permitem
pelas cidades dos homens, tal como é costume entre todas
as demais gentes, que em naves o dorso do mar atravessam.
A ilha teriam deixado, sem dúvida, mais habitável,
A ilha teriam deixado, sem dúvida, mais habitável,
pois não é ruim, mas capaz de gerar toda sorte de frutos.
Nela se veem, junto à margem do mar pardacento, macios
e úmidos prados. É certo que a vinha constante daria.
Para a lavoura há baixada; no tempo oportuno colhera-se
ótima safra, por ser o terreno, todo ele, mui fértil.
Porto de boa ancoragem of’rece, onde as naus não precisam
de lançar âncoras, nem de firmar os calabres em terra.
Mas, uma vez aí chegados, os nautas ficar poderiam
por quanto tempo quisessem, ou até lhes soprar um bom vento.
Água mui límpida flui da porção mais interna do porto,
Água mui límpida flui da porção mais interna do porto,
vinda de gruta que se acha cercada por álamos negros.
A esse lugar viemos ter, por um deus, certamente, guiados
na escuridão, que fazia, de noite, em que nada se via,
pois densa névoa baixara em redor dos navios; a lua
não nos brilhava no céu, envolvida se achando por nuvens.
A ilha não foi percebida por homem nenhum dos navios,
nem mesmo as ondas enormes, que vinham quebrar-se na costa,
antes de haverem as naves de boa coberta apartado.
Mas, uma vez aí chegados, as velas, sem mais, amainamos
das naves todas, e à praia sonora do mar nos passamos,
das naves todas, e à praia sonora do mar nos passamos,
onde, a dormir, aguardamos que a Aurora divina surgisse.
“Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina,
a percorrer a ilha toda pusemo-nos cheios de espanto.
Ninfas, as filhas de Zeus poderoso, tocaram montes as
cabras, que a nossa campanha pudessem servir de repasto.
Rapidamente das naves tiramos as lanças compridas
e arcos recurvos; e, tendo disposto em três grupos os sócios,
logo atiramos; um deus concedeu-nos caçada abundante.
Doze navios, ao todo, seguiam-me; a cada um tocaram
nove das cabras montesas; a mim, porém, dez foram dadas.
nove das cabras montesas; a mim, porém, dez foram dadas.
Dessa maneira, portanto, e até o Sol no ocidente deitar-se,
nos detivemos sentados, comendo e bebendo à vontade.
O vinho tinto, de fato, ainda não se acabara nas naves,
mas provisão ainda havia; pois muito nas ânforas tinham
todos guardado, ao tocarmos os muros sagrados dos Cíconos.
Perto dali observamos a terra dos homens Ciclopes
e percebemos suas vozes, bem como os balidos das cabras.
Logo que o Sol se acolheu e o crepúsculo baixou sobre a terra,
fomo-nos todos deitar pela praia, onde as ondas se quebram.
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina,
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina,
faço reunir a assembleia, e aos presentes arengo desta arte:
“‘Vós, companheiros queridos de viagem, ficai aqui todos,
que eu, no navio em que vim, juntamente com meus companheiros,
vou ver se obtenho notícias da gente que mora ali perto,
se, porventura, selvagens violentos, que leis desconheçam,
se de outras terras e amigos, e afeitos ao culto dos deuses.’
“Isso lhes disse, e subi para a nau, tendo aos sócios mandado
que se embarcassem, também, e as amarras de trás desprendessem.
Sobem, por isso, os demais para bordo e se sentam nos bancos,
todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas.
todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas.
Em pouco tempo chegamos à terra, que estava bem próxima,
onde, no extremo, uma gruta avistamos, do mar muito perto,
ampla e elevada, sombreada por muitos loureiros; inúmeras
cabras e ovelhas balavam, em torno das quais se elevava
muro composto todo ele de pedras fincadas no solo
e altos pinheiros e grossos carvalhos de copas altivas.
Era essa a casa de um monstro gigante, que ali, solitário,
só dos rebanhos cuidava, afastado de todos os outros,
sem com nenhum conviver e ignorando os preceitos divinos.
Era ele um monstro espantoso deveras, que aspecto não tinha
Era ele um monstro espantoso deveras, que aspecto não tinha
de homem que vive de pão, mas de um pico, coberto de selvas,
de alta montanha que, longe, das mais se destaca, isolada.
“Dei, nesse passo, instruções aos queridos consócios de viagem,
para que ali me esperassem, guardando o navio veloce;
e, tendo doze escolhido dos mais corajosos, nos fomos,
odre levando comigo de vinho de gosto agradável,
de cor escura, que Maro me dera, o nascido de Evanto,
e sacerdote de Apolo, dos muros de Ismaro padroeiro,
pelo motivo de o haver acatado e poupado, bem como
a esposa e filhos. Morava num bosque sombreado por árvores,
a esposa e filhos. Morava num bosque sombreado por árvores,
de Febo Apolo. Magníficos brindes, então, me deu ele:
de ouro talentos me deu, sete ao todo, mui bem trabalhados,
uma cratera de prata maciça, bem como doze ânforas,
de alças ornadas e cheias de vinho gostoso e sem mescla:
era bebida divina; ninguém tinha disso notícia
lá no palácio, entre todos os servos e servas da casa,
com exceção de uma só despenseira, ele próprio e a consorte.
Quando queriam beber desse vinho melífluo e vermelho,
era a medida deitar uma taça bem cheia do mesmo
em vinte de água. Do vaso evolava-se aroma inefável,
em vinte de água. Do vaso evolava-se aroma inefável,
coisa divina. Custava a qualquer não poder saboreá-lo.
Odre bem grande aprontei desse vinho e um surrão com vitualhas,
pois me dizia uma voz no imo peito valente que iria
ver-me defronte de um homem dotado de força excessiva,
bronco selvagem, ignaro das leis e do senso do justo.
“Em pouco tempo chegamos à gruta, mas não o encontramos
dentro; levara a pascer pelo prado suas pingues ovelhas.
Dentro da gruta, tomados de espanto, admirávamos tudo.
Os secadouros de queijo se achavam repletos; cabritos
e anhos no estáb’lo apertavam-se, todos mui bem-segregados:
os que nasceram primeiro, os de idade mediana e, por último,
os recém-nados. Das muitas vasilhas o soro escorria,
tarros, não só, mas gamelas bem-feitas, nas quais ordenhara.
Meus companheiros, então, me pediram voltássemos logo
com uma boa porção desses queijos; depois cuidaríamos,
sem perder tempo, de às naves velozes levar alguns anhos
e cabritinhos, e as ondas salgadas cursar, em seguida.
Mas não me quis convencer — e bem mais vantajoso me fora!
pois desejava encontrá-lo e provar hospital gasalhado.
[1] Este trecho marca um momento muito importante da Odisseia: é quando Odisseu finalmente se identifica diante dos feácios, após ter permanecido por algum tempo sem revelar seu nome. Alguns temas centrais aparecem com grande força:
* A hospitalidade e a convivência civilizada - Odisseu começa elogiando a cena que presencia no palácio de Alcínoo. Para ele, uma das maiores felicidades humanas é a harmonia social: o povo em paz, os convidados reunidos, o poeta cantando, as mesas fartas e o vinho circulando. Essa imagem representa o ideal grego de uma comunidade ordenada, próspera e hospitaleira.
* A fama (kleos) - Quando revela quem é, Odisseu declara: “Sou de Laertes o filho, Odisseu, conhecido entre os homens por toda a sorte de astúcias”. Na cultura heroica grega, a fama era uma forma de imortalidade. Odisseu apresenta-se não apenas pelo nome, mas também pela reputação conquistada em suas aventuras e na Guerra de Troia.
* O amor pela pátria - Talvez o aspecto mais emocionante do trecho seja a declaração de amor a Ítaca. Embora reconheça o encanto de Calipso e Circe, ele afirma que nada é mais precioso do que: “a pátria e os próprios pais”. Homero contrasta aqui dois tipos de desejo:
- a tentação da imortalidade e do prazer oferecidos pelas deusas;
- o desejo profundamente humano de regressar ao lar.
* A humanidade de Odisseu - Mesmo sendo um herói famoso, Odisseu não se apresenta como um guerreiro invencível. Ele fala de seus sofrimentos, suspiros e dores. Sua grandeza não está apenas nas vitórias, mas na capacidade de suportar perdas, tentações e adversidades sem abandonar o objetivo de voltar para casa.
* O início do grande relato autobiográfico - Este trecho funciona como uma transição narrativa. Após se identificar, Odisseu anuncia que contará toda a história de seu retorno desde a saída de Troia. A partir daí começam os famosos episódios do Ciclope, dos Lestrigões, de Circe, das Sereias, de Cila e Caríbdis e de outras aventuras.
Em resumo, este é um dos trechos mais emblemáticos da Odisseia porque reúne três valores fundamentais do poema: a fama do herói, a nostalgia da pátria e a perseverança diante do sofrimento. Odisseu rejeita até mesmo o amor de deusas imortais porque considera que nada supera o retorno ao próprio lar.
[2] Este é o episódio do Ciclope Polifemo, um dos mais famosos da Odisseia, e já revela uma característica essencial de Odisseu: sua maior virtude, a curiosidade e a busca pela experiência, é também uma de suas maiores fraquezas.
* O vinho como arma futura - Antes mesmo de encontrar o ciclope, Odisseu leva consigo o extraordinário vinho dado por Maro, sacerdote de Apolo. Homero dedica muitos versos à descrição dessa bebida porque ela terá um papel decisivo mais adiante: será com esse vinho fortíssimo, diluído normalmente em vinte partes de água para uma de vinho, que Odisseu embriagará Polifemo.
* A importância da hospitalidade - Odisseu espera encontrar um homem civilizado, submetido às regras da xenia, a hospitalidade sagrada protegida por Zeus. Na cultura grega: o estrangeiro devia ser acolhido; o anfitrião oferecia alimento e abrigo; só depois perguntava quem era o visitante. Odisseu acredita que essas normas são universais. O erro está justamente aí. Polifemo não pertence ao mundo organizado das cidades gregas. O próprio trecho já o descreve antecipadamente como: "bronco selvagem, ignaro das leis e do senso do justo." A tragédia começa quando Odisseu tenta aplicar valores de civilização a alguém que vive fora dela.
* A ironia do narrador - O verso: "Mas não me quis convencer — e bem mais vantajoso me fora!" é uma observação retrospectiva de Odisseu narrador. Ele já sabe tudo o que ocorrerá depois: os companheiros devorados, o aprisionamento na caverna e os sofrimentos que virão. Ao contar a história aos feácios, reconhece que deveria ter escutado seus homens. É um raro momento de autocrítica.
* Significado mais profundo - Este episódio não é apenas uma aventura contra um monstro. Ele opõe dois mundos:
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b /
Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b /
Parte III
Canto IX.a /
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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* A hospitalidade e a convivência civilizada - Odisseu começa elogiando a cena que presencia no palácio de Alcínoo. Para ele, uma das maiores felicidades humanas é a harmonia social: o povo em paz, os convidados reunidos, o poeta cantando, as mesas fartas e o vinho circulando. Essa imagem representa o ideal grego de uma comunidade ordenada, próspera e hospitaleira.
* A fama (kleos) - Quando revela quem é, Odisseu declara: “Sou de Laertes o filho, Odisseu, conhecido entre os homens por toda a sorte de astúcias”. Na cultura heroica grega, a fama era uma forma de imortalidade. Odisseu apresenta-se não apenas pelo nome, mas também pela reputação conquistada em suas aventuras e na Guerra de Troia.
* O amor pela pátria - Talvez o aspecto mais emocionante do trecho seja a declaração de amor a Ítaca. Embora reconheça o encanto de Calipso e Circe, ele afirma que nada é mais precioso do que: “a pátria e os próprios pais”. Homero contrasta aqui dois tipos de desejo:
- a tentação da imortalidade e do prazer oferecidos pelas deusas;
- o desejo profundamente humano de regressar ao lar.
* A humanidade de Odisseu - Mesmo sendo um herói famoso, Odisseu não se apresenta como um guerreiro invencível. Ele fala de seus sofrimentos, suspiros e dores. Sua grandeza não está apenas nas vitórias, mas na capacidade de suportar perdas, tentações e adversidades sem abandonar o objetivo de voltar para casa.
* O início do grande relato autobiográfico - Este trecho funciona como uma transição narrativa. Após se identificar, Odisseu anuncia que contará toda a história de seu retorno desde a saída de Troia. A partir daí começam os famosos episódios do Ciclope, dos Lestrigões, de Circe, das Sereias, de Cila e Caríbdis e de outras aventuras.
Em resumo, este é um dos trechos mais emblemáticos da Odisseia porque reúne três valores fundamentais do poema: a fama do herói, a nostalgia da pátria e a perseverança diante do sofrimento. Odisseu rejeita até mesmo o amor de deusas imortais porque considera que nada supera o retorno ao próprio lar.
[2] Este é o episódio do Ciclope Polifemo, um dos mais famosos da Odisseia, e já revela uma característica essencial de Odisseu: sua maior virtude, a curiosidade e a busca pela experiência, é também uma de suas maiores fraquezas.
* O vinho como arma futura - Antes mesmo de encontrar o ciclope, Odisseu leva consigo o extraordinário vinho dado por Maro, sacerdote de Apolo. Homero dedica muitos versos à descrição dessa bebida porque ela terá um papel decisivo mais adiante: será com esse vinho fortíssimo, diluído normalmente em vinte partes de água para uma de vinho, que Odisseu embriagará Polifemo.
O herói parece agir por intuição: "me dizia uma voz no imo peito valente que iria ver-me defronte de um homem dotado de força excessiva". Isso sugere a prudência estratégica que o caracteriza. Ele se prepara para um encontro difícil antes mesmo de saber exatamente o que encontrará.
* O contraste entre os companheiros e Odisseu - Quando entram na caverna vazia, os companheiros propõem algo simples e sensato: pegar os queijos; capturar alguns cabritos e cordeiros; voltar imediatamente ao navio. Seria uma incursão rápida e segura. Mas Odisseu recusa. Esse é um dos momentos em que Homero deixa o leitor perceber a ambiguidade do herói. Sua decisão nasce do desejo de conhecer o dono da gruta e receber dele os presentes de hospitalidade que, segundo os costumes gregos, deveriam ser oferecidos a um visitante.* A importância da hospitalidade - Odisseu espera encontrar um homem civilizado, submetido às regras da xenia, a hospitalidade sagrada protegida por Zeus. Na cultura grega: o estrangeiro devia ser acolhido; o anfitrião oferecia alimento e abrigo; só depois perguntava quem era o visitante. Odisseu acredita que essas normas são universais. O erro está justamente aí. Polifemo não pertence ao mundo organizado das cidades gregas. O próprio trecho já o descreve antecipadamente como: "bronco selvagem, ignaro das leis e do senso do justo." A tragédia começa quando Odisseu tenta aplicar valores de civilização a alguém que vive fora dela.
* A ironia do narrador - O verso: "Mas não me quis convencer — e bem mais vantajoso me fora!" é uma observação retrospectiva de Odisseu narrador. Ele já sabe tudo o que ocorrerá depois: os companheiros devorados, o aprisionamento na caverna e os sofrimentos que virão. Ao contar a história aos feácios, reconhece que deveria ter escutado seus homens. É um raro momento de autocrítica.
* Significado mais profundo - Este episódio não é apenas uma aventura contra um monstro. Ele opõe dois mundos:
| Mundo de Odisseu | Mundo de Polifemo |
|---|---|
| leis | força bruta |
| hospitalidade | egoísmo |
| convivência social | isolamento |
| inteligência | violência |
| civilização | selvageria |
Toda a vitória posterior de Odisseu sobre o ciclope será uma vitória da inteligência sobre a força física. Mas Homero também sugere algo importante: se Odisseu não fosse tão curioso e tão confiante em sua própria capacidade de lidar com qualquer situação, talvez jamais tivesse entrado naquela caverna. Sua astúcia o salva, mas seu excesso de confiança frequentemente o coloca em perigo. É uma das características mais humanas e fascinantes do herói.