O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes
SEGUNDA PARTE
HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA
45. A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai aniquilou a única experiência de desenvolvimento independente
O homem viajava ao meu lado, silencioso. Seu perfil, nariz
afilado, altos pômulos, recortava-se contra a forte luz do
meio-dia. Íamos para Assunção, partindo da fronteira sul,
num ônibus para vinte pessoas que, não sei como,
transportava 50. Depois de algumas horas, uma parada.
Sentamo-nos num pátio aberto, à sombra de uma árvore de
folhas carnosas. Aos nossos olhos, abria-se o brilho
ofuscante da vasta, despovoada, intacta terra vermelha: de
horizonte a horizonte, nada perturba a transparência do ar
do Paraguai. Fumamos. Meu companheiro, camponês de
fala guarani, desabafou algumas palavras tristes em
castelhano. “Os paraguaios somos pobres e poucos”, disse
me. Explicou que havia descido até Encarnación à procura
de trabalho, mas nada encontrara. Tinha conseguido apenas
juntar uns pesos para a passagem de volta. Muitos anos
antes, quando moço, tinha tentado a sorte em Buenos Aires
e no sul do Brasil. Agora vinha a colheita do algodão e
muitos braceros paraguaios pegavam a estrada, como em
todos os anos, rumo às terras argentinas. “Mas eu já tenho
63 anos, meu coração já não suporta essas andanças
enroladas.”
Somam meio milhão os paraguaios que abandonaram
definitivamente a pátria, nos últimos vinte anos. A miséria
induz ao êxodo os habitantes do país que, até quase um
século atrás, era o mais avançado da América do Sul. O
Paraguai tem agora uma população que apenas duplica a
que tinha então, e como a Bolívia, é um dos dois países sul
americanos mais pobres e atrasados. Os paraguaios
padecem a herança de uma guerra de extermínio que se
integrou à história da América Latina como o seu capítulo
mais infame. Chamou-se Guerra da Tríplice Aliança. Brasil,
Argentina e Uruguai encarregaram-se do genocídio. Não
deixaram pedra sobre pedra e tampouco habitantes varões
entre os escombros. Embora a Inglaterra não tenha
participado diretamente na horrorosa façanha, foram seus
mercadores, seus banqueiros e seus industriais que
resultaram beneficiados com o crime do Paraguai. A invasão
foi financiada, do princípio ao fim, pelo Banco de Londres,
pela casa Baring Brothers e pela banca Rothschild, através
de empréstimos a juros leoninos que hipotecaram o destino
dos países vencedores.
[1]
[1] Para escrever este capítulo, o autor consultou as seguintes obras: AL ERDI,
Juan Bautista. Historia de la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1962; OX,
Pelham Horton. Los orígenes de la Guerra de la Triple Alianza. Buenos Aires;
Asunción, 1958; CARDOZO, Efraim. El império del Brasil y el Rio de la Plata. Buenos Aires, 1961; CHAVES, Julio César. El presidente López. Buenos Aires,
1955; PEREYRA, Carlos. Francisco Solano López y la guerra del Paraguay. Buenos
Aires, 1945; PÉREZ ACOSTA, Juan F. Carlos Antonio López, obrero máximo. Labor
administrativa y constructiva. Asunción, 1948; ROSA, José Maria. La guerra del
Paraguay y las montoneras argentinas. Buenos Aires, 1965; MITRE, Bartolomé &
GÓMEZ, Juan Carlos. Cartas polémicas sobre la guerra del Paraguay. Buenos
Aires, 1940. Prólogo de J. Natalício González; também um trabalho inédito de
Vivian Trias sobre o tema.
Até sua destruição, o Paraguaio se destacava como uma
exceção na América Latina: a única nação que o capital
estrangeiro não havia deformado. O longo governo de mão
de ferro do ditador Gaspar Rodríguez de Francia (1814
1840) havia incubado, na matriz do isolamento, um
desenvolvimento econômico autônomo e sustentado. O
Estado onipotente, paternalista, ocupava o lugar de uma
burguesia nacional que não existia, na tarefa de organizar a
nação e orientar seus recursos e seu destino. Francia
apoiara-se nas massas campesinas para esmagar a
oligarquia paraguaia e conquistara a paz interior
estendendo um estrito cordão sanitário nas fronteiras com
os restantes países do vice-reinado do Rio da Prata. As
expropriações, os desterros, as prisões, as perseguições e
as multas não tinham servido de instrumentos para a
consolidação do domínio interno dos latifundiários e
comerciantes, mas, ao contrário, tinham sido usados para
sua destruição. Não existiam, nem nasceriam mais tarde, as
liberdades políticas e o direito de oposição, mas naquela
etapa histórica só os saudosos dos privilégios perdidos
estranhariam a falta de democracia. Não havia grandes
fortunas privadas quando Francia morreu, e o Paraguai era o
único país da América Latina que não tinha mendigos,
famélicos ou ladrões
[2]; os viajantes da época encontravam
ali um oásis de tranquilidade em meio às demais comarcas
convulsionadas por contínuas guerras. O agente norte
americano Hopkins informava em 1845 ao seu governo que
no Paraguai “não há criança que não saiba ler e escrever”.
Era também o único país que não vivia com o olhar cravado
no outro lado do mar. O comércio exterior não se constituía
no eixo da vida nacional; a doutrina liberal, expressão
ideológica da articulação mundial dos mercados, carecia de
respostas para os desafios que o Paraguai, obrigado a
crescer para dentro por causa de seu isolamento
mediterrâneo, estava equacionando desde o princípio do
século. O extermínio da oligarquia tornou possível a
concentração das bases econômicas fundamentais nas
mãos do Estado, para levar adiante esta política autárquica
de desenvolvimento dentro das fronteiras.
[2] Francia integra, como um dos exemplares mais horrorosos, o bestiário da
história oficial. As deformações ópticas impostas pelo liberalismo não são um
privilégio das classes dominantes na América Latina; muitos intelectuais de
esquerda, que costumam olhar com lentes alheias para a história de nossos
países, também compartilham certos mitos da direita, suas canonizações e suas
excomunhões. O Canto general, de Pablo Neruda ( Buenos Aires, 1955),
esplêndida homenagem poética aos povos latino-americanos, exibe claramente
este desacerto. Neruda ignora Artigas, Carlos Antonio e Francisco Solano López;
em troca, identifica-se com Sarmiento. Qualifica Francia de “rei leproso, rodeado / pelas extensões de erva-mate”, que “fechou o Paraguai como um ninho / de
sua majestade” e “amarrou tortura / e barro às fronteiras”. Com Rosas não é
mais amável: clama contra os “punhais, gargalhadas de mazorca / sobre o
martírio” de uma “Argentina roubada a coronhadas / no vapor da aurora,
castigada / até sangrar e enlouquecer, vazia / montada por rudes capatazes”.
Os posteriores governos de Carlos Antonio López e seu
filho Francisco Solano López continuaram e revigoraram a
tarefa. A economia estava em pleno crescimento. Quando
os invasores apareceram no horizonte, em 1865, o Paraguai
contava com uma linha de telégrafos, uma ferrovia e uma
boa quantidade de fábricas de materiais de construção,
tecidos, lenços, ponchos, papel, tinta, louça e pólvora.
Duzentos técnicos estrangeiros, muito bem pagos pelo
Estado, colaboravam decisivamente. Desde 1850, a
fundição de Ibycui fabricava canhões, morteiros e balas de
todos os calibres; no arsenal de Assunção eram fabricados
canhões de bronze, obuses e balas. A siderurgia nacional,
como todas as demais atividades econômicas essenciais,
estava nas mãos do Estado. O país dispunha de uma frota
mercante nacional, e tinham sido construídos no estaleiro
de Assunção muitos dos navios que ostentavam a bandeira
paraguaia ao longo do rio Paraná ou cruzavam o Atlântico e
o Mediterrâneo. O Estado virtualmente monopolizava o
comércio exterior: a erva-mate e o tabaco abasteciam o
consumo do sul do continente; as madeiras valiosas eram
exportadas para a Europa. A balança comercial mostrava
um expressivo superavit. O Paraguai tinha uma moeda forte
e
estável, e possuía suficiente riqueza para efetivar
enormes investimentos públicos sem recorrer ao capital
estrangeiro. O país não devia nem um centavo no exterior,
e estava em condições de manter o melhor exército da
América do Sul, contratar técnicos ingleses que se
colocavam a serviço do país em vez de pôr o país a seu
serviço, e enviar à Europa muitos jovens universitários
paraguaios para que se aperfeiçoassem em seus estudos. O
excedente econômico gerado pela produção agrícola não
era esbanjado no luxo estéril de uma oligarquia inexistente,
nem ia parar nos bolsos de atravessadores, nem nas mãos
rapinantes dos usurários, nem na rubrica lucros que o
Império britânico nutria com os serviços de fretes e seguros.
A esponja imperialista não absorvia a riqueza que o país
produzia. Noventa e oito por cento do território paraguaio era de
propriedade pública: o Estado cedia aos camponeses a
exploração das parcelas em troca da obrigação de povoá-las
e cultivá-las de forma permanente e sem o direito de vendê-las. Além disso, havia 64 estâncias de la patria, fazendas
que o Estado administrava diretamente. As obras de
irrigação, represas e canais, e as novas pontes e estradas
contribuíam em importante grau para a elevação da
produtividade agrícola. Foi resgatada a tradição indígena
das
colheitas
anuais,
que
fora
descartada pelos
conquistadores. O alento vivo das tradições jesuítas sem
dúvida facilitava todo esse processo criador.
[3]
[3] Os fanáticos monges da Companhia de Jesus, “guarda negra do Papa”,
tinham assumido a defesa da ordem medieval frente às novas forças que
irrompiam no cenário histórico europeu. Na América hispânica, contudo, as
missões dos jesuítas se desenvolveram sob um signo progressista. Através do
exemplo da abnegação e do ascetismo, vinham purificar uma igreja católica
entregue ao ócio e ao gozo desenfreado dos bens que a conquista pusera à
disposição do clero. Foram as missões do Paraguai as que alcançaram mais alto
nível; em pouco mais de um século e meio (1603-1768) definiram a capacidade
e os fins de seus criadores. Os jesuítas atraíram, mediante a linguagem da
música, os índios guaranis que tinham buscado proteção na floresta ou que nela
haviam permanecido sem integrar-se ao processo civilizatório dos
encomenderos e dos latifundiários. Assim, 150 mil índios guaranis puderam
reencontrar-se com sua organização comunitária primitiva e ressuscitar suas
próprias técnicas nos ofícios e nas artes. Nas missões não existia o latifúndio; a
terra era cultivada em parte para a satisfação das necessidades individuais e
em parte para desenvolver obras de interesse geral e adquirir os instrumentos
de trabalho necessários, que eram de propriedade coletiva. A vida dos índios
estava sabiamente organizada; nas oficinas e nas escolas se tornavam músicos,
artesãos, agricultores, tecedores, atores, pintores, construtores. O dinheiro não
era conhecido; era proibida a entrada dos comerciantes, que deviam negociar
instalados em hotéis a certa distância. A Coroa, finalmente, sucumbiu à pressão
dos encomenderos criollos, e os jesuítas foram expulsos da América. Os
latifundiários e os escravistas se lançaram à caça dos índios. Os cadáveres
pendiam das árvores nas missões; povoados inteiros foram vendidos nos
mercados de escravos do Brasil. Muitos índios voltaram a encontrar refúgio na
selva. As bibliotecas dos jesuítas foram parar nos fornos, como combustível, ou
utilizadas para fazer cartuchos de pólvora. RAMOS, Jorge Abelardo. Historia de la
nación latinoamericana. Buenos Aires, 1968.
O Estado paraguaio praticava um zeloso protecionismo
da indústria nacional e do mercado interno, especialmente
reforçado em 1864; os rios interiores não estavam abertos
aos navios britânicos que bombardeavam o resto da
América Latina com manufaturas de Manchester e
Liverpool. O comércio inglês não dissimulava sua
inquietude, não só porque se lhe afigurava invulnerável
aquele último foco de resistência nacional no coração do
continente, mas também e sobretudo pela força do exemplo
que a experiência paraguaia irradiava perigosamente para a
vizinhança. O país mais progressista da América Latina
construía seu futuro sem investimentos estrangeiros, sem
empréstimos da banca inglesa e sem as bênçãos do livre
comércio.
Mas à medida que o Paraguai ia avançando neste
processo, tornava-se mais aguda sua necessidade de
romper a reclusão. O desenvolvimento industrial requeria
contatos mais intensos e diretos com o mercado
internacional e as fontes da técnica avançada. O Paraguai
estava objetivamente bloqueado entre a Argentina e o Brasil, e os dois países podiam negar o oxigênio aos seus
pulmões fechando-lhe, como fizeram Rivadavia e Rosas, as
bocas dos rios, ou fixando impostos arbitrários para o
trânsito de suas mercadorias. De outra parte, para seus
vizinhos era imprescindível, em nome da consolidação do
estado oligárquico, acabar com o escândalo daquele país
que se bastava a si mesmo e não queria ajoelhar-se diante
dos mercadores britânicos.
O ministro inglês em Buenos Aires, Edward Thornton,
participou ativamente dos preparativos da guerra. Às
vésperas da deflagração, estava presente, como assessor
do governo, nas reuniões do gabinete argentino, sentando
se ao lado do presidente Bartolomeu Mitre. Diante de seu
atento olhar foi maquinada a trama de provocações e de
enganos que culminou com o acordo argentino-brasileiro e
selou a sorte do Paraguai. Venâncio Flores invadiu o
Uruguai, na garupa da intervenção dos dois grandes
vizinhos, e depois da matança de Paysandú estabeleceu em
Montevidéu seu governo devotado ao Rio de Janeiro e a Buenos Aires. A Tríplice Aliança estava em funcionamento. O
presidente paraguaio havia ameaçado com a guerra se o
Uruguai fosse tomado de assalto: ele sabia que assim se
fechava a tenaz de ferro na garganta de seu país
encurralado pela geografia e pelos inimigos. O historiador
liberal Efraim Cardozo, no entanto, não vê nenhum
inconveniente em sustentar que López confrontou o Brasil
simplesmente porque estava ofendido: o imperador lhe
negara a mão de uma de suas filhas. A guerra nascia. Não
era obra de Cupido, mas de Mercúrio.
A imprensa de Buenos Aires chamava o presidente
paraguaio López de “Átila da América”. E clamavam os
editoriais: “É preciso matá-lo como a um réptil”. Em
setembro de 1864, Thornton enviou a Londres um extenso
informe confidencial, datado de Assunção. Descrevia o
Paraguai como Dante o inferno, mas punha em evidência o
que realmente interessava: “Os impostos de importação de
quase todos os artigos são de vinte a 25 por cento ad
valorem; mas como este valor é calculado sobre o preço
corrente dos artigos, o imposto que se paga chega
frequentemente uma cifra entre 40 e 50 por cento do preço
da fatura. Os impostos de exportação são de 10 a 20 por
cento do valor...” Em abril de 1965, o Standard, diário inglês
de Buenos Aires, já celebrava a declaração de guerra da
Argentina contra o Paraguai, cujo presidente “infringiu todos
os usos das nações civilizadas”, e anunciava que a espada
do presidente argentino Mitre “levará em sua trajetória,
além do peso das glórias passadas, o impulso irresistível da
opinião pública por uma causa justa”. O tratado com o Brasil
e o Uruguai foi assinado em 10 de maio de 1865; seus
termos draconianos foram publicados um ano depois no
diário britânico The Times, que o obteve dos banqueiros
credores da Argentina e do Brasil: os futuros vencedores
repartiam antecipadamente os despojos do vencido. A
Argentina assegurava para si o território de Misiones e o
imenso Chaco; o Brasil devorava uma imensa área a oeste
de suas fronteiras. O Uruguai, governado por um títere das
duas potências, não ficava com nada. Mitre anunciou que
tomaria Assunção em três meses. A guerra, contudo, durou
cinco anos. Foi uma carnificina, executada ao longo dos
fortins que defendiam, de tanto em tanto, o rio Paraguai. O
“oprobrioso tirano” Francisco Solano López encarnou
heroicamente a vontade nacional de sobreviver; o povo
paraguaio, que no último meio século não conhecera guerra
alguma, imolou-se ao seu lado. Homens, mulheres, crianças
e velhos: todos se bateram como leões. Os prisioneiros
feridos arrancavam as ataduras para que não os obrigassem
a lutar contra seus irmãos.
Em 1870, López, à frente de um exército de espectros,
velhos e meninos que punham barba postiça para
impressionar de longe, internou-se na selva. Por traição real
ou imaginária, fuzilou seu irmão e um bispo que com ele
marchavam naquela caravana sem destino. Quando,
finalmente, o presidente paraguaio foi assassinado à bala e
lançaço na densa mata do cerro Corá, ainda conseguiu
dizer: “Morro com minha pátria”, e era verdade.
As tropas invasoras assaltaram os escombros de
Assunção com a faca entre os dentes. Vinham para redimir
o povo paraguaio, e o exterminaram. No começo da guerra,
o Paraguai tinha uma população um pouco menor do que a
da Argentina. Tão só 250 mil paraguaios, menos do que a
sexta parte, sobreviviam em 1870. Era o triunfo da
civilização. Os vencedores, arruinados pelo alto custo do
crime, estavam nas mãos dos banqueiros ingleses que
tinham financiado a aventura. O império escravista de Pedro
II, cujas tropas se nutriam de escravos e de presos, ainda
ganhou territórios, mais de 60 mil quilômetros quadrados, e
mão de obra, pois muitos prisioneiros paraguaios foram
levados para trabalhar nos cafezais paulistas com a marca
de ferro da escravidão. A Argentina do presidente Mitre, que
havia esmagado seus próprios caudilhos federais, ficou com
94 mil quilômetros quadrados de terra paraguaia e outros
frutos do butim, segundo o próprio Mitre havia anunciado
quando escreveu: “Os prisioneiros e demais artigos de
guerra nós dividiremos na forma combinada”. O Uruguai,
onde os herdeiros de Artigas já estavam mortos ou
derrotados, e a oligarquia mandava, participou da guerra
como sócio minoritário e sem recompensas. Alguns dos
soldados uruguaios enviados à campanha do Paraguai
tinham embarcado nos navios com as mãos amarradas. Os
três países experimentaram uma bancarrota financeira que
agravou a dependência da Inglaterra. A matança do
Paraguai os marcou para sempre.
[4][4] Solano López ainda arde na memória. Quando o Museu Histórico Nacional do
Rio de Janeiro anunciou, em setembro de 1969, que inauguraria uma vitrina
dedicada ao presidente paraguaio, os militares reagiram furiosamente. O
general Mourão Filho, que desencadeara o golpe de Estado de 1964, declarou à
imprensa: “Um vento de loucura varre o país (...). Solano López é uma figura
que deve ser apagada para sempre de nossa história, como paradigma de
ditador uniformizado sul-americano. Foi um sanguinário que destruiu o Paraguai,
conduzindo-o a uma guerra impossível”.
O Brasil havia cumprido a missão que o Império
britânico lhe atribuíra desde os tempos em que os ingleses
transladaram o trono português para o Rio de Janeiro. No
princípio do século XIX, tinham sido claras as instruções de
Canning ao embaixador, lorde Strangford: “Fazer do Brasil
um empório para as manufaturas britânicas destinadas ao
consumo de toda a América do Sul”. Pouco antes do início
da guerra, o presidente da Argentina inaugurara uma nova
linha férrea britânica em seu país e pronunciara um
inflamado discurso: “Qual a força que impele o progresso?
Senhores, é o capital inglês!” Do Paraguai derrotado não
desapareceu só a população: também as tarifas aduaneiras,
os fornos de fundição, os rios fechados ao comércio, a
independência econômica e vastas zonas de seu território.
Dentro das fronteiras reduzidas pelo espólio, os vencedores
implantaram o livre-câmbio e o latifúndio. Tudo foi saqueado
e tudo foi vendido: as terras e os matos, as minas, os ervais,
os prédios das escolas. Sucessivos governos títeres seriam
instalados em Assunção pelas forças estrangeiras de
ocupação. Tão logo terminou a guerra, sobre as ruínas ainda
fumegantes do Paraguai caiu o primeiro empréstimo
estrangeiro de sua história. Era britânico, claro. Seu valor
nominal alcançava um milhão de libras esterlinas, mas ao
Paraguai chegou menos da metade; nos anos seguintes, os
refinanciamentos elevaram a dívida a mais de três milhões.
A Guerra do Ópio havia terminado quando foi assinado em
Nanking o tratado de livre-comércio que assegurou aos
comerciantes britânicos o direito de introduzir livremente a
droga no território chinês. Também a liberdade de comércio
foi garantida pelo Paraguai depois da derrota. Foram
abandonadas as plantações de algodão, e Manchester
arruinou a produção têxtil; a indústria nacional não
ressuscitou jamais.
O Partido Colorado, que hoje governa o Paraguai,
especula alegremente com a memória dos heróis, mas
ostenta ao pé de sua ata de fundação a assinatura de 22
traidores do marechal Solano López, “legionários” a serviço
das tropas brasileiras de ocupação. O ditador Alfredo
Stroessner, que nos últimos quinze anos converteu o
Paraguai num grande campo de concentração, fez sua
especialização militar no Brasil, e os generais brasileiros o
devolveram ao seu país com altas qualificações e ardentes
elogios: “É digno de um grande futuro...” Durante seu
reinado, Stroessner descartou os interesses anglo
argentinos, dominantes no Paraguai nas últimas décadas,
em benefício do Brasil e seus donos norte-americanos.
Desde 1870, Brasil e Argentina, que libertaram o Paraguai
para
comê-lo
com duas bocas, alternam-se no
aproveitamento dos despojos do país derrotado, mas, por
sua vez, padecem o imperialismo da grande potência do
momento. O Paraguai padece duas vezes: o imperialismo e
o subimperialismo. Antes o Império britânico era o elo maior
da corrente de dependências sucessivas. Atualmente, os
Estados Unidos, que não ignoram a importância geopolítica
desse país encravado no centro da América do Sul, mantém
em solo paraguaio um sem-número de assessores que
treinam e orientam as forças armadas, cozinham os planos
econômicos, reestruturam a universidade ao seu arbítrio,
inventam um novo esquema político democrático para o
país e retribuem com empréstimos onerosos os bons
serviços do regime
[5]. Mas o Paraguai é também colônia de
colônias. Usando a reforma agrária como pretexto, o
governo de Stroessner, fazendo-se de distraído, derrogou a
disposição legal que proibia a venda a estrangeiros de
terras das zonas de fronteira seca, e hoje até os territórios
fiscais caíram nas mãos de latifundiários brasileiros do café.
A onda invasora atravessa o rio Paraná com a cumplicidade
do presidente, associados a terras-tenentes que falam
português. Cheguei à movediça fronteira do nordeste do
Paraguai com cédulas que estampavam o rosto do vencido
marechal Solano López, e ali pude descobrir que só têm
valor aqueles que estampam a efígie do vitorioso imperador
Pedro II. O resultado da Guerra da Tríplice Aliança,
transcorrido um século, ganha ardente atualidade. Os
guardas brasileiros exigem passaportes dos cidadãos
paraguaios para que possam circular em seu próprio país;
são brasileiras as bandeiras e as igrejas. A pirataria de terra
abarca também os saltos do Guayrá, a maior fonte potencial
de energia de toda a América Latina, que hoje se chamam,
em português, Sete Quedas, e a zona de Itaipu, onde o Brasil vai construir a maior central hidrelétrica do mundo.
[5] Pouco antes das eleições de princípios de 1968, o general Stroessner visitou
os Estados Unidos. “Quando me encontrei com o presidente Johnson”, declarou
à France Press, “comentei que há doze anos desempenho as funções de
primeiro magistrado por mandato das urnas. Johnson me respondeu que esta
era uma razão a mais para continuar exercendo-as no período vindouro”.
O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau,
expressa-se de mil maneiras. Quando o presidente Johnson,
em 1965, decidiu submergir em sangue os dominicanos,
Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos
para que colaborassem no serviço. O batalhão se chamou
uma piada sinistra – “Marechal Solano López”. Os
paraguaios atuavam sob as ordens de um general brasileiro,
porque foi o Brasil que recebeu as honras da traição: o
general Penasco Alvim comandou as tropas latino
americanas cúmplices da matança. Exemplos outros e
semelhantes podem ser citados. O Paraguai outorgou ao Brasil uma concessão de petróleo em seu território, mas o Brasil,
negócio da distribuição de combustíveis e a petroquímica,
no
pertencem aos norte-americanos. A Missão
Cultural Brasileira é dona da Faculdade de Filosofia e
Pedagogia da universidade paraguaia, mas os norte
americanos, em nossos dias, manejam as universidades do Brasil.
O estado-maior do exército paraguaio recebe
assessoramento não só de técnicos do Pentágono, mas
também de generais brasileiros, que por sua vez respondem
ao Pentágono como o eco responde à voz. Pela via aberta
do contrabando, os produtos industriais do Brasil invadem o
mercado paraguaio, mas muitas das respectivas fábricas
em São Paulo são, desde a avalanche desnacionalizadora
destes
últimos
anos,
propriedade de corporações
multinacionais.
Stroessner se considera herdeiro dos López. Pode o
Paraguai de um século atrás ser impunemente comparado
com o Paraguai de agora, empório do contrabando na bacia
do Prata e reino da corrupção institucionalizada? Num ato
político em que o partido do governo, entre manifestações
de júbilo e aplausos, identificava o Paraguai de outrora com
o de hoje, um jovenzinho, com a bandeja apoiada no peito,
vendia cigarros contrabandeados: a fervorosa assistência
fumava nervosamente Kent, Marlboro, Camel e Benson &
Hedges. Em Assunção, a escassa classe média bebe uísque Ballantine’s em vez da aguardente paraguaia. Veem-se nas
ruas os últimos modelos dos mais luxuosos automóveis
fabricados nos Estados Unidos ou Europa, trazidos ao país
de contrabando ou através do pagamento prévio de
minguados impostos, ao mesmo tempo em que circulam
carretas de bois carregando lentamente os frutos para o
mercado: a terra é trabalhada com arados de madeira e os
táxis são Impalas 1970. Stroessner diz que o contrabando é
“o preço da paz”: os generais enchem os bolsos e não
conspiram. A indústria, no entanto, agoniza antes de
crescer. O Estado sequer cumpre o decreto que manda
preferir os produtos das fábricas nacionais nas aquisições
públicas. Os únicos triunfos que, com orgulho, o Estado
exibe nesta matéria, são as fábricas da Coca-cola, Crush e
Pepsi-Cola, instaladas em fins de 1966 como contribuição
norte-americana para o progresso do povo paraguaio.
O Estado manifesta que só vai intervir diretamente na
criação de empresas “quando o setor privado não
demonstrar interesse”
[6], e o anco Central comunica ao
Fundo Monetário Internacional que “decidiu implantar um
regime de mercado livre de câmbios e abolir as restrições
ao comércio e às transações em divisas”; um folheto
editado pelo Ministério de Indústria e Comércio informa aos
investidores que o país outorga “concessões especiais para
o capital estrangeiro”. Isentam-se as empresas estrangeiras
do pagamento de impostos e de tarifas aduaneiras “para
criar um clima propício aos investimentos”. Um ano depois
de instalar-se em Assunção, o National City Bank de Nova
York recupera integralmente o capital investido. A banca
estrangeira, dona da poupança interna, proporciona ao
Paraguai créditos externos que acentuam sua deformação
econômica e hipotecam ainda mais sua soberania. No
campo, 1,5 por cento dos proprietários dispõe de 90 por
cento das terras exploradas, e se cultiva uma área
equivalente a menos de 2 por cento da superfície total do
país. O plano oficial de colonização no triângulo de
Caaguazú oferece aos camponeses famintos mais tumbas
do que prosperidade.
[7]
[6] Presidencia de la Nación. Secretaría Técnica de Planificación. Plan nacional
de desarrollo económico y social. Asunción, 1966.
[7] Muitos dos camponeses optaram por retornar à região minifundiária do
centro do país ou seguiram o caminho do novo êxodo para o Brasil, onde seus
braços baratos se oferecem nos ervais do Paraná e do Mato Grosso ou nas
plantações de café do Paraná. É desesperadora a situação dos pioneiros que se
encontram com a selva sem a menor orientação técnica e sem nenhuma
assistência creditícia, com terras concedidas pelo governo, das quais terão de
arrancar frutos suficientes para a alimentação e para poder pagá-las, pois se o
camponês não paga pela terra o preço estipulado não recebe o título de
propriedade.
A Tríplice Aliança continua sendo um grande êxito.
Os fornos da fundição de Ibycuí, onde foram forjados os
canhões que defenderam a pátria invadida, estão num lugar
que agora se chama “Mina-cué”, que em guarani significa
“Foi mina”.
Ali, entre pântanos e mosquitos, junto à caliça de um
muro destruído, jaz ainda a base da chaminé que, há um
século, os invasores explodiram com dinamite, e também os
pedaços de ferro retorcido das instalações desfeitas. Vivem
na zona uns poucos camponeses em farrapos, que nem
sequer sabem qual foi a guerra que destruiu tudo aquilo.
Contudo, dizem eles que em certas noites ali se escutam
ruídos de máquinas e batidas de martelos, estampidos de
canhões e alaridos de soldados.
continua na página 316...
____________________
Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (5)
_____________________________
o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?