terça-feira, 9 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (II. Um velho palhaço)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
II
UM VELHO PALHAÇO
    
     Entraram quase ao mesmo tempo que o stáriets, que, desde a chegada deles, havia saído de seu quarto de dormir. Na cela, tinham sido precedidos por dois religiosos do eremitério: um era o padre bibliotecário, o outro o Padre Paísi, doente, malgrado sua idade pouco avançada, mas erudito, segundo se dizia. Achava-se ainda ali um rapaz (ficou de pé todo o tempo), parecendo ter 22 anos de idade, de sobrecasaca, seminarista e futuro teólogo, protegido pelo mosteiro e pela confraria. Era de estatura bastante elevada, tinha o rosto fresco, os pômulos salientes, com olhinhos castanhos de olhar inteligente. Seu rosto exprimia deferência, mas sem obsequiosidade. Não cumprimentou os visitantes, considerando-se não como igual deles, mas como um subalterno.
     O stáriets Zósima apareceu, em companhia de um noviço e de Aliócha. Os religiosos levantaram-se, fizeram-lhe profunda reverência, com os dedos tocando a terra, receberam sua bênção, beijaram-lhe a mão. A cada um deles, o stáriets respondeu com uma reverência semelhante, com os dedos tocando a terra, pedindo-lhes por sua vez sua bênção. Aquela cerimônia, marcada de grande seriedade, nada tendo da etiqueta vulgar, exalava uma espécie de emoção. No entanto, pareceu a Miúsov que aquilo se fazia com uma finalidade de sugestão premeditada. Conservava-se à frente de seus companheiros. Teria sido conveniente, quaisquer que fossem suas ideias — e por simples polidez, para se conformar com os usos —, que se aproximassem do stáriets para receber sua bênção, se não para beijar-lhe a mão. Foi no que pensara na véspera, mas as reverências e os beijos dos monges fizeram-no mudar de resolução. Fez uma reverência grave e digna, de homem da sociedade, e foi sentar-se. Fiódor Pávlovitch fez a mesma coisa, macaqueando dessa vez Miúsov. A saudação de Ivã Fiódorovitch foi das mais corteses, mas também ele conservou seus braços ao longo dos quadas. Quanto a Kolgánov, tal era sua confusão que não fez saudação nenhuma. O stáriets deixou recair sua mão prestes a abençoá-los e convidou todos a sentarem-se. O sangue subiu às faces de Aliócha, estava envergonhado. Seus maus pressentimentos realizavam-se.
     O stáriets tomou lugar num pequeno diva de couro — móvel bastante antigo — e fez seus visitantes sentarem-se perto da parede em frente, em quatro cadeiras de acaju, recobertas de couro bastante surrado. Os religiosos instalaram-se de lado, um na porta, outro na janela. O seminarista, Aliócha e o noviço ficaram de pé. A cela não era vasta e mostrava certo ar de coisa velha. Continha somente alguns móveis e objetos grosseiros, pobres, o estritamente necessário. Dois jarros de flores na janela; a um canto, numerosos ícones; um deles representava uma Virgem de grandes dimensões, pintada provavelmente muito tempo antes do Raskol.5 Uma lâmpada ardia diante dela. Não longe, dois outros ícones de revestimentos cintilantes, depois dois querubins esculpidos, pequenos ovos de porcelana, um crucifixo de marfim, com uma Mater Dolorosa que o abraçava, e algumas gravuras estrangeiras, reproduções de grandes pintores italianos dos séculos passados. Ao lado dessas obras de valor, exibiam-se litografias russas para uso do povo, representando santos, mártires, prelados, as quais se vendiam por alguns copeques em todas as feiras. Miúsov lançou uma olhadela rápida sobre aquelas imagens, depois fixou seu olhar no stáriets. Respeitava sua maneira de ver, fraqueza desculpável, seguramente, se se considerar que já tinha cinqüenta anos, idade em que um homem do mundo, inteligente e opulento, leva-se sempre mais a sério, por vezes mesmo contra a sua vontade. 
     Desde o começo, o stáriets causara-lhe desagrado. Havia efetivamente em sua figura algo que teria desagradado a muitos outros que não apenas a Miúsov. Era um homenzinho curvado, de pernas muito fracas, de sessenta anos somente, mas que parecia ter dez anos mais, por causa de sua doença. Todo o seu rosto, aliás bastante seco, estava sulcado de pequenas rugas, sobretudo em redor dos olhos. Tinha os olhos claros, não muito grandes, vivos e brilhantes como dois pontos luminosos. Seus cabelos grisalhos chegavam-lhe apenas às têmporas; sua barba, pequena e rala, acabava em ponta; os lábios, delgados como duas correias, sorriam frequentemente; o nariz agudo lembrava um pássaro.

"Segundo toda a aparência, uma alma malévola e arrogante", pensou. Em geral, estava muito descontente consigo mesmo.

     O soar da hora ajudou o início do diálogo. Um pequeno relógio de pesos bateu doze pancadas. 

— A hora exata — exclamou Fiódor Pávlovitch — e meu filho Dimítri Fiódorovitch que não chega! Peço-lhe desculpas por ele, santo stáriets! (Aliócha estremeceu ao ouvir aquelas palavras de "santo stáiets".) Sou sempre pontual, dentro do minuto, lembrando-me de que a pontualidade é a polidez dos reis. 
— No entanto, o senhor não é nenhum rei — resmungou Miúsov, incapaz de conter-se. 
— Ê verdade, não o sou. E imagine, Piotr Alieksándrovitch, que eu mesmo o sabia, palavra! E falo sempre assim, fora de propósito! Vossa Reverência — exclamou ele, de súbito, num tom patético — tem diante de si um verdadeiro palhaço. É minha maneira de apresentar-me. Um velho hábito, ai de mim! Ora, se falo por vezes fora de propósito, é intencionalmente, com o fim de fazer rir e ser agradável. É preciso ser agradável, não é verdade? Há sete anos, cheguei a uma cidadezinha para tratar duns negocinhos, umas contas a meias com uns negociantezinhos. Fomos à casa do isprávnik, uma vez que tínhamos algo a pedir-lhe e para convidá-lo a comer conosco. Aparece o isprávnik: era um homem de alta estatura, gordo, louro e carrancudo — os indivíduos mais perigosos em semelhante caso, pois a bílis os atormenta. Abordo-o com a desenvoltura de um homem do mundo: "Senhor Isprávnik", disse eu, "o senhor será talvez, por assim dizer, o nosso Naprávnik?" "Que Naprávnik?", perguntou ele. Vi imediatamente que aquilo não pegava, que ele continuava todo grave; obstinei-me: "É uma brincadeira, quis tornar todos alegres, porque o Senhor Naprávnik é um chefe de orquestra conhecido; ora, para a harmonia de nosso empreendimento, precisamos justamente duma espécie de chefe de orquestra". A explicação e a comparação eram razoáveis, não? "Perdão", disse ele, "sou isprávnik e não permito que se façam trocadilhos a respeito de minha profissão." Volta as costas e retira se. Corro atrás dele, gritando: "Sim, sim, o senhor é isprávnik e não Naprávnik". "Não", replicou ele, "o senhor disse, sou Naprávnik." Imaginem que isso fez fracassar nosso negócio! Nem por isso me emendei. Prejudico me por causa de minha amabilidade! Certa vez, há muitos anos, dizia eu a uma personagem importante: "Sua esposa é uma mulher coceguenta", no sentido de ser muito sensível em questões de honra, de qualidades morais, por assim dizer, ao que ele me replica: "O senhor lhe fez cócegas?" Não pude conter-me, banquemos o amável, pensei: "Sim, fiz-lhe cócegas"; mas então quem me fez cócegas foi ele... Aconteceu há muito tempo, por isso não tenho vergonha de contá-lo; é sempre assim que causo prejuízo a mim mesmo. 
— É está causando agora — murmurou Miúsov, com desagrado. O stáriets examinava um a um, em silêncio. 
— Deveras? Imagine que já o sabia, Piotr Alieksándrovitch, e, até mesmo, saiba que pressentia o que faço, desde que comecei a falar, e até mesmo, saiba-o, pressentia que seria o senhor o primeiro a observar-me isso. Nesses momentos, quando vejo que minhas pilhérias não dão resultado, reverendíssimo senhor, minhas bochechas começam a dessecar se na direção das gengivas, tenho quase como uma convulsão; isto remonta à minha mocidade, quando era parasita em casa dos nobres e ganhava meu pão por meio dessa habilidade. Sou um palhaço autêntico, inato, reverendíssimo senhor, a mesma coisa que um idiota; não nego que um espírito mau more talvez em mim, bem modesto, cm todo caso; se fosse mais importante, ter-se-ia alojado em outra parte, somente não no senhor, Piotr Alieksándrovitch, porque o senhor não é importante. Em compensação, creio, creio em Deus. Nestes últimos tempos, tinha dúvidas; mas agora espero sublimes palavras. Pareço-me com o filósofo Diderot, reverendíssimo senhor. Sabe o senhor, santíssimo padre, como se apresentou ele diante do metropolita Platon, no reinado da Imperatriz Catarina? Entrou e largou sem mais: "Não há Deus**. Ao que o grande prelado respondeu, de dedo erguido: "O insensato disse em seu coração: 'não há Deus!*** Imediatamente Diderot lançou-se a seus pés: "Creio", exclamou ele, "e quero ser batizado”. Batizaram-no ali mesmo. A Princesa Dachkova foi a madrinha, e Potiomkin o padrinho... 
— Fiódor Pávlovitch, é intolerável! Porque o senhor mesmo sabe que está mentindo e que essa estúpida anedota é falsa; por que fazer-se malicioso? — proferiu com voz trêmula Miúsov, que já não se podia conter. 
— Toda a minha vida pressenti que era isso uma mentira! — exclamou Fiódor Pávlovitch, entusiasmando-se. — Em compensação, senhores, dir-lhes-ei toda a verdade. Eminente stáriets, perdoe-me, eu mesmo Inventei esse fim, ainda há pouco, com o batismo de Diderot; isto jamais me ocorrera antes. Inventei-o para dar certo ar picante ao caso. Se me faço de malicioso, Piotr Alieksándrovitch, é para ser mais gentil. De resto, por vezes, não sei eu mesmo por quê. Quanto a Diderot, ouvi contar isto: "O insensato disse..." umas vinte vezes na minha juventude, pelos proprietários de terras do país, quando morava entre eles; ouvi-o dizer, Piotr Alieksándrovitch, de sua própria tia, Mavra Fomínichna. Até agora, estão todos persuadidos de que o ímpio Diderot fora à casa do metropolita Platon para discutir a existência de Deus...

     Uy Miúsov levantara-se, não somente porque perdera a paciência, mas achava-se fora de si. Estava furioso e compreendia que isso o tornava ridículo. Com efeito, passava-se na cela algo de intolerável. Havia quarenta ou cinquenta anos, ainda no tempo dos precedentes stártsi, os visitantes reuniam-se naquela cela, mas sempre com a mais profunda veneração. Quase todos quantos eram admitidos compreendiam que lhes era concedido um insigne favor. Muitos, dentre eles, punham-se de joelhos e assim ficavam durante toda a visita. Pessoas de posição elevada, eruditos e até mesmo livres-pensadores, vindos, quer por curiosidade, quer por qualquer outro motivo, achavam um dever o testemunhar ao stáriets profunda deferência e grandes atenções, durante toda a entrevista — quer fosse pública ou privada —, tanto mais quanto não havia questão de dinheiro. Só havia o amor e a bondade, em presença do arrependimento e da sede de resolver algum difícil problema moral ou uma crise da vida do coração. Assim, as piadas a que se entregara Fiódor Pávlovitch, chocantes em tal lugar, haviam provocado o embaraço e o espanto das testemunhas, em todo caso, de várias dentre elas. Os religiosos, que permaneciam impassíveis, fixavam sua atenção no que iria dizer o stáriets, mas pareciam já prestes a levantar-se como Miúsov. Aliócha tinha vontade de chorar e curvava a cabeça. Toda a sua esperança repousava em seu irmão Ivã, o único cuja influência seria capaz de deter seu pai, e estava estupefato por vê-lo sentado, imóvel, de olhos baixos, aguardando com curiosidade o desenlace daquela cena, como se fosse completamente estranho a ela. Era impossível a Aliócha olhar para Rakítin (o seminarista), com o qual vivia quase em intimidade: conhecia seus pensamentos (era, aliás, o único a conhecê-los em todo o mosteiro).

— Desculpe-me... — começou Miúsov, dirigindo-se ao stáriets — se pareço tomar parte nessa indigna pilhéria. Errei ao acreditar que, até mesmo um indivíduo da qualidade de Fiódor Pávlovitch, visitando uma personalidade tão respeitável, saberia compreender suas obrigações ... Não pensava que seria preciso desculpar-me por ter vindo com ele...  

     Piotr Alieksándrovitch não acabou e, todo confuso, queria sair já do quarto. 

— Não se inquiete, rogo-lhe — disse o stáriets, que, erguendo-se sobre seus pés débeis, pegou Piotr Alieksándrovitch pelas duas mãos e obrigou-o a tornar a sentar-se. — Acalme-se, rogo-lhe. O senhor é meu hóspede.  

     Dito isto, e após uma reverência, voltou a sentar-se no diva.

— Eminente stáriets, diga-me, será que minha vivacidade o ofende? — exclamou, de repente, Fiódor Pávlovitch, agarrando-se nos dois braços da poltrona, como prestes a saltar, de acordo com a resposta que recebesse. 
— Rogo-lhe igualmente que não se inquiete e não se constranja — declarou o stáriets com majestade. — Não se constranja, esteja como que em sua casa. Sobretudo não tenha tanta vergonha de si mesmo, porque todo o mal vem daí. 
— Completamente como em minha casa? Isto é, ao natural? Oh! é demais, é muito demais. Aceito, porém, com enternecimento! Sabe, meu venerando padre? Não me leve a mal mostrar-me ao natural, é por demais arriscado... eu mesmo não chego a esse ponto. Digo isto para que o senhor se previna. Pois bem! o resto está ainda enterrado nas trevas do desconhecido, se bem que alguns quisessem enforcar-me. Isto dirige-se ao senhor, Piotr Alieksándrovitch; quanto ao senhor, santa criatura, eis o que declaro: "Estou transbordante de entusiasmo!" — Levantou-se e, de braços para o ar, proferiu: 
— "Bendito o ventre que te concebeu e benditos os peitos que te amamentaram, os peitos sobretudo!" Com aquela sua observação de há pouco: "Não tenha tanta vergonha de si mesmo, porque todo o mal vem daí", o senhor como que me transpassou e leu em mim. Justamente, quando me dirijo às pessoas, parece-me que sou a mais vil de todas e que todo mundo me toma por um palhaço; então digo a mim mesmo: "Sejamos palhaço, não temo vossa opinião, porque vós sois todos, até o derradeiro, mais vis do que eu!" Eis por que sou palhaço, por vergonha, eminente padre, por vergonha. Somente por timidez é que me faço de valentão. Porque se estivesse certo, ao entrar, de que todos me acolheriam como um ser simpático e ajuizado, meu Deus!, como eu seria bom! Mestre — pôs-se de repente de joelhos —, que é preciso fazer para ganhar a vida eterna? 

     Mesmo então, era difícil saber se brincava ou cedia ao enternecimento. O stáriets ergueu os olhos para ele e declarou, sorrindo:
     Há muito tempo que o senhor mesmo sabe o que é preciso fazer; não lhe falta senso: não se entregue à embriaguez e à intemperança de linguagem; não se entregue à sensualidade, sobretudo ao amor ao dinheiro; e feche seus botequins de bebida, pelo menos dois ou três, se não pode fechá-los todos. * Mas sobretudo, antes de tudo, não minta.

— É a propósito de Diderot que o senhor diz isso? 
— Não, não é a propósito de Diderot. Sobretudo não minta ao senhor mesmo. Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si, nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros. Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar, e para se distrair, na ausência de amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se. É por vezes bastante agradável ofender a si mesmo, não é verdade? Um indivíduo sabe que ninguém o ofendeu, mas que ele mesmo forjou uma ofensa e mente para embelezar, enegrecendo de propósito o quadro, que se ligou a uma palavra e fez dum montículo uma montanha — ele próprio o sabe, portanto é o primeiro a ofender-se, até o prazer, até experimentar uma grande satisfação, e por isso mesmo chega ao verdadeiro ódio... Mas levante-se, sente-se, rogo-lhe; isto também é um gesto falso... 
— Bem-aventurado! Deixai-me beijar-vos a mão. — Fiódor Pávlovitch levantou-se e pousou os lábios sobre a mão descarnada do stáriets. — Justamente, justamente, ofender-se a si mesmo causa prazer. O senhor disse-o tão bem, como jamais o ouvi dizer. Justamente, justamente, senti prazer em toda a minha vida com as ofensas, por um sentimento de estética, porque ser ofendido não somente causa prazer, mas por vezes é belo. Eis o que o senhor esqueceu, eminente stáriets: a beleza! Notá-lo-ei no meu caderninho! Quanto a mentir, não faço senão isso em toda a minha vida, a cada dia e a cada hora. Na verdade, sou mentira e o pai da mentira! Aliás, creio que não é o pai da mentira, embaraço-me nos textos, pois bem, o filho da mentira, e isto basta. Somente... meu anjo... pode-se por vezes florear a respeito de Diderot! Isto não faz mal, ao passo que certas palavras podem fazer mal. Eminente stáriets, a propósito, recordo-me de que, há três anos, tinha prometido a mim mesmo vir aqui informar-me e descobrir com insistência a verdade; peça somente a Piotr Alieksándrovitch que não me interrompa. Eis de que se trata. É verdade, reverendo padre, o que se conta em alguma parte das Vidas dos Santos, a respeito dum santo taumaturgo, que sofreu o martírio pela fé e, depois de ter sido decapitado, ergueu do chão sua cabeça e, "beijando-a delicadamente", a carregou muito tempo em seus braços? É verdade ou não, meus padres? 
— Não, não é verdade — disse o stáriets
— Não há nada de semelhante em nenhuma Vidas dos Santos. A propósito de que santo diz o senhor que se relata esse fato? — perguntou um religioso, o padre bibliotecário. 
— Ignoro qual. Não tenho conhecimento disso. Induziram-me em erro. Ouvi-o dizer e sabe por quem? Por esse mesmo Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que ainda há pouco se zangava a respeito de Diderot; era ele quem contava isso. 
— Jamais lhe contei isso, pela razão muito justa de que não converso nunca com o senhor. 
— É verdade que não contou isso a mim, mas numa reunião social em que me encontrava há quatro anos. Se lembrei o fato, é que o senhor abalou minha fé com essa narrativa cômica. Piotr Alieksánrovitch. O senhor de nada sabia, mas voltei para minha casa com a fé abalada e desde então vacilo cada vez mais. Sim, Piotr Alieksándrovitch, foi o senhor causa duma grande queda. Ê coisa bem diversa de Diderot!

     Fiódor Pávlovitch acalorava-se duma maneira patética, se bem que fosse evidente para todos que ele de novo não fazia senão exibir-se. Mas Miúsov estava exacerbado. 

— Que absurdo, como tudo isso, aliás! — murmurou ele. — Talvez tenha-o dito uma vez, na verdade... mas não ao senhor. Falaram-me disso. Ouvi em Paris um francês contar que se lê entre nós este episódio na missa, nas Vidas dos Santos, Foi um erudito que tem especialmente estudado a estatística da Rússia... há muito tempo. Quanto a mim, não lia as Vidas dos Santos e não as lerei... Pode-se bem dizer coisas durante o jantar... Nós estávamos jantando, então... 
— Sim, os senhores estavam jantando então e eu perdi a fé! — disse para aborrecê-lo Fiódor Pávlovitch. 
— Que me importa sua fé! — ia gritar Miúsov, mas conteve-se e proferiu com desprezo: — O senhor emporcalha literalmente tudo quanto toca.

     O stáriets levantou-se de repente.

— Desculpem-me, senhores, deixá-los a sós por alguns minutos — disse ele, dirigindo-se a todos os visitantes —, mas já me esperavam antes da chegada dos senhores. Quanto ao senhor, abstenha-se de mentir — acrescentou, voltando-se para Fiódor Pávlovitch, com o rosto alegre.

     Saiu da cela. Aliócha e o noviço lançaram-se a ajudá-lo a descer a escada. Aliócha sufocava; sentia-se feliz por sair, feliz igualmente por ver o stáriets alegre e não ofendido. O stáriets dirigia-se para a galeria, a fim de abençoar aquelas que o esperavam, mas Fiódor Pávlovitch deteve-o às portas da cela. 

— Bem-aventurado! — exclamou ele, sentimentalmente. — Permita me que lhe beije ainda uma vez a mão! Com o senhor, pode-se conversar, pode-se viver. O senhor pensa que minto sempre assim e que banco de palhaço? Era para verificar se se pode viver com o senhor, se há lugar para minha humildade ao lado de sua altivez. Passo-lhe um certificado de sociabilidade! Agora, nem mais uma palavra. Vou sentar-me e ficar em silêncio. Cabe ao senhor falar, Piotr Alieksándrovitch, o senhor passa a ser a personagem principal... por dez minutos.

continua na página 43...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cinema: Amar Não Tem Preço

Hors de prix



Irène é uma bela e sedutora aventureira que frequenta os hotéis mais luxuosos da Riviera Francesa em busca de homens ricos para bancar seu estilo de vida extravagante. Por um acaso do destino, ela confunde Jean, um tímido e modesto funcionário de um hotel, com um bilionário. Quando descobre a verdade e percebe que ele é pobre, ela o abandona rapidamente. No entanto, perdidamente apaixonado, Jean decide segui-la até a Côte d'Azur e, esgotando suas economias, acaba adotando a mesma tática de Irène, tornando-se um acompanhante de luxo. Essa nova e curiosa vida acaba aproximando os dois de forma inesperada.






Direção: 
Pierre Salvadori
 
Elenco: 
Audrey Tautou como Irène
Gad Elmaleh como Jean
Marie-Christine Adam como Madeleine
Vernon Dobtcheff como Jacques
Jacques Spiesser como Gilles
Annelise Hesme como Agnès
Charlotte Vermeil como Senhora com o chihuahua
Claudine Baschet como Senhora com o cachorro
Laurent Claret como Gerente de bar Biarritz
Jean de Coninck como O homem com o charuto
Blandine Pélissier como A camareira
Philippe Vendan-Borin como Garçom em Biarritz
Bernard Bourdeau como Faculdade Jean Biarritz
Didier Brice como François
Laurent Mouton como Garçom François
Frédéric Bocquet como Recepcionista em Mônaco
Jean-Michel Lahmi como Cirurgião plástico
Luc Chavy como Servidor na piscina
 
Gênero: 
Comédia | Romance
 
Título original: Hors de prix
Ano: 2006

A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Amar não tem preço /       

Moby Dick: 64 - A ceia de Stubb

Moby Dick

Herman Melville

64 - A Ceia de Stubb
    A baleia de Stubb fora morta a uma certa distância do navio. Havia calmaria, então; assim, formando uma fila de três botes, começamos o lento trabalho de reboque do prêmio para o Pequod. E agora, com dezoito homens, trinta e seis braços, e cento e oitenta dedos e dedões, trabalhando lenta e arduamente, hora após hora, naquele cadáver inerte e insensível no mar; e que parecia mal sair do lugar, salvo após longos intervalos; tínhamos por isso claros indícios da grandeza da massa que carregávamos. Pois, no grande canal de Hang Ho, ou como quer que o chamem, na China, quatro ou cinco trabalhadores carregarão por uma trilha qualquer uma carga volumosa de junco a uma velocidade de uma milha por hora; mas o imenso galeão que rebocávamos avançava aos trancos e pesadamente, como se estivesse carregado de barras de chumbo.
     Era chegada a escuridão; mas três luzes suspensas em diferentes alturas no cordame do Pequod guiavam obscuramente nosso caminho, até que, chegando mais perto, vimos Ahab pendurando mais uma dentre muitas lamparinas na amurada. Contemplando por um instante a baleia suspensa com um olhar vazio, deu as ordens costumeiras para que a prendêssemos por aquela noite e, entregando sua lamparina a um marinheiro, seguiu em seu caminho para a cabine e de lá não saiu até o dia seguinte.
    Ainda que, na supervisão da captura dessa baleia, Ahab tivesse demonstrado sua habitual diligência, por assim dizer; agora que a criatura estava morta, um certo desprazer, ou impaciência, ou desespero, parecia dominá-lo; como se a visão daquele corpo morto o fizesse lembrar de que Moby Dick restava ainda por matar, e mesmo se milhares de outras baleias fossem levadas ao seu navio, isso em nada o ajudaria em seu grande e monomaníaco propósito. Pouco depois, pelo barulho no convés do Pequod, você poderia ser levado a pensar que todos os marinheiros estavam se preparando para lançar a âncora no mar; pois pesadas correntes estavam sendo arrastadas pelo convés e estrondosamente atiradas pelas vigias. Mas por aquelas cadeias retumbantes era o imenso cadáver, e não o navio, que devia ser atracado. Presa pela cabeça à popa, e pela cauda à proa, a baleia ficou então com seu casco preto encostado ao do navio, e vistos na escuridão da noite, que obscurece a verga e o cordame no alto, os dois – navio e baleia pareciam sob o mesmo jugo como dois bois colossais, um dos quais descansava enquanto o outro permanecia de pé.{a}

{a} Um pormenor poderia muito bem ser relatado aqui. A forma mais confiável e firme de segurar uma baleia ao flanco de um navio é pelos lobos ou pela cauda. Sendo mais densa, essa parte é relativamente mais pesada do que qualquer outra (exceto as barbatanas laterais); mesmo quando morta, sua flexibilidade faz com que afunde um pouco abaixo da superfície; de tal modo que não se consegue alcançá-la com a mão do bote, para amarrá-la com a corrente. Mas essa dificuldade é resolvida com muita engenhosidade: prepara-se uma corda pequena e forte, com uma bóia de madeira na extremidade exterior e um contrapeso no meio, enquanto a outra ponta fica presa ao navio. Com uma manobra habilidosa a bóia de madeira emerge do outro lado do corpo, de tal modo que, tendo dado a volta na baleia, a corrente está pronta para fazer o mesmo; e deslizando ao longo do corpo, por fim, é ligada com firmeza à parte mais estreita da cauda, no ponto de junção dos seus lobos enormes. [N. A.]

     Se o temperamental Ahab era agora todo calma, pelo menos tanto quanto se podia perceber no convés, Stubb, o segundo imediato, era o entusiasmo. Estava ele em um tão incomum alvoroço que o sóbrio Starbuck, seu superior, lhe delegou temporariamente a condução das operações. A pequena causa determinante de toda a animação de Stubb logo se fez estranhamente manifesta. Stubb gostava de uma boa dieta; e apreciava de um modo um tanto destemperado a baleia, a mais saborosa iguaria para o seu paladar.

“Um bife, um bife antes de dormir! Você aí, Daggoo! Desce e corta um pedaço da parte mais delgada!”

     Esclareça-se que, embora esses pescadores ferozes, em geral, e segundo a grande máxima militar, não façam o inimigo pagar as despesas da guerra (pelo menos antes de calcular os lucros da viagem), no entanto, vez por outra, você encontra um desses nativos de Nantucket que sente um verdadeiro prazer com aquela parte do Cachalote desejada por Stubb; que consiste na extremidade afilada do corpo.
     Por volta da meia-noite o bife havia sido cortado e cozinhado; e, iluminado por duas lamparinas de óleo de Cachalote, Stubb subiu com sua ceia de Cachalote ao topo do cabrestante, como se o cabrestante fosse um aparador. Mas não foi só Stubb que se refestelou com carne de baleia naquela noite. Mesclando grunhidos e dentadas, milhares e milhares de tubarões, apinhados em torno do Leviatã morto, deleitaram-se vivamente em sua gordura. Os poucos homens que dormiam nos beliches embaixo acordavam muitas vezes assustados com o incisivo golpe das caudas contra o casco, a poucas polegadas de seus corações. Às escondidas pelo costado, você os podia ver (como antes os escutava) agitados nas sombrias águas escuras, virando-se de costas enquanto arrancavam imensos pedaços circulares da baleia, estes do tamanho de uma cabeça humana. Esse gesto específico do tubarão parece quase milagroso. Como, numa superfície aparentemente inatacável, ele logra cortar nacos tão simétricos, ainda é parte do enigma universal das coisas. A marca que deixa na baleia pode muito bem ser comparada ao buraco feito por um carpinteiro para fazer girar um parafuso.
     Ainda que, no meio de todo o horror e malvadeza fumegantes de uma luta no mar, os tubarões sejam vistos a observar com ansiedade o convés do navio, como cachorros famintos em volta de uma mesa onde uma peça de carne malpassada está sendo fatiada, prontos para se atirar sobre qualquer homem morto que lhes seja lançado; e ainda que, enquanto valentes açougueiros estão à mesa do convés cortando, como canibais, a carne viva uns dos outros, com facas de corte todas ornadas de borlas e banhadas a ouro, também os tubarões, com suas bocas cravejadas de brilhantes, cortem litigiosamente a carne morta debaixo da mesa; e ainda que, invertendo toda a situação, ela permanecesse mais ou menos a mesma, ou seja, um assunto repulsivamente tubaronesco para todas as partes; e ainda que os tubarões sejam os invariáveis batedores de todos os navios negreiros que cruzam o Atlântico, acompanhando-os sistematicamente pelos flancos, para estar por perto caso um pacote tenha de ser levado a algum lugar, ou um escravo morto tenha de ser enterrado decentemente; e ainda que se possa dar mais um ou outro exemplo, com referência aos períodos, ocasiões e lugares em que os tubarões se reúnem socialmente e organizam seus mais alegres festins; ainda assim, não existe outra ocasião ou época melhor para encontrá-los em tão grande número e tão bem dispostos e alegres, quanto ao redor de um Cachalote morto preso a um navio baleeiro à noite no mar. Se você nunca viu esse espetáculo, suspenda então seu juízo sobre as convenções do culto ao demônio e a vantagem de se conciliar com ele.
     Mas, até então, Stubb não prestou atenção aos grunhidos do banquete que estava acontecendo tão perto dele, tanto quanto os tubarões aos estalos de seus lábios epicúrios.

“Cozinheiro, cozinheiro! – Onde está o velho Fleece?”, gritou, por fim, apartando ainda mais as pernas, como se quisesse fazer uma base mais segura para sua ceia; e, ao mesmo tempo, batendo com ímpeto o garfo no prato, como se o estivesse perfurando com sua lança; “cozinheiro, cozinheiro! – Vem aqui, cozinheiro!”

     O preto velho, de modo algum satisfeito por terem-no tirado de sua rede aconchegante numa hora tão inoportuna, veio aos trancos de sua cozinha, pois, como muitos pretos velhos, tinha um problema nas patelas, que ele não mantinha tão bem cuidadas quanto suas panelas; o velho Fleece, o Lã-de Carneiro, como o chamavam, veio arrastando os pés e manquitolando, auxiliando suas passadas com uma tenaz, que havia sido toscamente feita de duas argolas de ferro esticadas; o velho Ébano veio trôpego e, obedecendo à ordem, parou abruptamente do outro lado do aparador de Stubb; quando, entrelaçando as mãos e apoiando-se em sua bengala de duas pernas, dobrou ainda mais suas costas já curvadas, e ao mesmo tempo inclinou a cabeça de lado, de modo a levar seu ouvido bom à questão.

“Cozinheiro”, disse Stubb, levando com rapidez um pedaço bem vermelho à boca, “você não acha que esse bife passou do ponto? Você bateu demais esse bife; está macio demais. Não digo sempre que um bom bife de baleia precisa estar duro? Temos esses tubarões no costado; você não vê que eles os preferem duros e malpassados? Que balbúrdia estão fazendo! Cozinheiro, vá lá falar com eles; diga a eles que podem vir se servir civilizadamente e com moderação, mas que precisam ficar quietos. O raio que os parta! Não consigo ouvir minha própria voz. Vá, cozinheiro, transmita a eles minha mensagem. Aqui, pegue essa lamparina”, disse, apanhando uma lamparina do aparador; “agora vá e lhes faça a pregação.”

     Pegando contrariado a lamparina que lhe foi oferecida, o velho Fleece atravessou claudicante o convés até a amurada; e então, com uma mão aproximando a luz do mar, de modo a ter uma visão boa de sua congregação, com a outra ele brandiu solenemente sua tenaz, e inclinando-se sobre o costado com uma voz baixa se dirigiu aos tubarões, enquanto Stubb, chegando sorrateiro por detrás, escutou tudo o que foi dito.

“Caras criatura’: me mandaru’ aqui pra dizê’ que ‘cêis têm que pará’ com esse maldito barulho aí. Ouviru’? Parem d’istalá’ os beiço! O sinhô Stubb disse que ‘cêis pode enchê’ o seu maldito bucho ‘té arrebentá’, mas, pelo amô’ de Deus, ‘ceis têm que pará’ co’ a baderna!” 
“Cozinheiro!”, interrompeu Stubb, dando-lhe um tapa nas costas para acompanhar o chamado, “Cozinheiro! Maldito seja! Não blasfeme desse jeito enquanto prega. Isso não é jeito de converter os pecadores, cozinheiro!” 
“E quem feiz isso? Então ‘cê mesmo prega pr’eles”, virando-se carrancudo para ir embora. 
“Não, cozinheiro; continua, continua.” 
“Bem, então, caras amada’ criatura’…” 
“Isso mesmo!”, exclamou Stubb, com aprovação, “tente persuadi-los com lisonjas; tente assim”, e Fleece continuou. 
“Apesa’ que ‘cêis é tudo tubarão, e muito glutão por natureza, eu tenho que dizê’ pro’cêis, caras criatura’, que essa voracidade – pare’ de batê’ esse maldito rabo! Como é que vão ouvi’ se ficá’ com essas malditas batida e mordida aí?” 
“Cozinheiro”, gritou Stubb, agarrando-o pela gola, “Não quero blasfêmias. Fala direito com eles.”

     Mais uma vez o sermão continuou.

“A gula do‘cêis, caras criatura’, num culpo ‘cêis por isso; isso é natureza e num dá pra fazê’ nada; mas guverná’ essa natureza malvada, esse é o objetivo. ‘Cêis são tubarão, ‘tá certo; mas se ‘cêis guverná’ o tubarão dentro do‘cêis, então ‘cêis são anjo: porque tud’os anjo é só um tubarão bem guvernado. Ora, veja’ bem, irmãos, tente só uma veiz sê’ civilizado, quando se servi’ dessa baleia. Num tirem a gordura da boca do vizinho, repito. Um tubarão num tem tantos direito’ quanto o otro sobre essa baleia? Pelo amô’ de Deus, nenhum do‘cêis tem direito a essa baleia; essa baleia pertence a otro. Sei que auguns do‘cêis têm uma boca muito grande, maió’ que a dos otro; mas às veiz as boca’ grande’ têm as barriga’ pequena’; mode que a grandeza da boca num é pra enguli’ muito, mas pra arrancá’ a gordura pros tubarão pequeno, que num pode empurrá’ pra se servi’.”
“Muito bem, velho Fleece!”, gritou Stubb, “isso é Cristianismo, continua.”
“Num ‘dianta continuá’, os maldito’ canalha continua empurran’o e baten’o, seu Stubb; num ‘tão escutan’o nenhuma palavra; num ‘dianta pregá’ pruns maldito fominha, como se diz, antes que o bucho deles ‘teja cheio, e o bucho deles num tem fundo; e quando ‘tão de bucho cheio, num vão querê’ escutá’, porque afundam no má’, correm pra dormi’ no coral, e não vão ouvi’ nada, nunca mais.” 
“Dou a minha palavra que sou da mesma opinião! Dê-lhes uma bênção, Fleece, que vou voltar à minha ceia.”

     Com isso, Fleece estendeu as duas mãos sobre a multidão de peixes, levantou a sua voz estridente, e gritou - 

“Malditas caras criatura’! Façam o maió’ barulho que pudé’, encham o bucho até estourá’ – e depois morram.” 
“Ora, cozinheiro”, disse Stubb, voltando à sua ceia no cabrestante; “fique ali onde você estava antes; ali, do outro lado, e preste atenção.” 
“Toda ‘tenção”, disse Fleece, curvando-se de novo sobre a tenaz, na posição desejada. 
“Bem”, disse Stubb, servindo-se à vontade enquanto isso, “Vou voltar agora ao assunto do bife. Em primeiro lugar, quantos anos você tem, cozinheiro?”
“O qui é qui isso tem a vê’ com o bife?” 
“Silêncio! Quantos anos você tem, cozinheiro?” 
“Uns noventa, dizem”, murmurou com tristeza. 
“E você viveu quase cem anos neste mundo, cozinheiro, e não aprendeu a fazer um bife de baleia?”, mastigando rapidamente um pedaço depois da última palavra, de tal modo que o pedaço parecia a continuação da questão. “Onde você nasceu, cozinheiro?”
“‘Trás da escotilha, numa balsa que ‘tava atravessando o Roanoke.” 
“Nasceu numa balsa! Isso é estranho, também. Mas quero saber em que lugar você nasceu, cozinheiro.” 
“Eu num disse na região do Roanoke?”, disse, com um tom de amargura. 
“Não, não disse, cozinheiro, mas vou dizer-lhe aonde quero chegar, cozinheiro. Você deve voltar para casa e nascer de novo, pois ainda não sabe fazer um bife de baleia.”
“Valha-me Deus se eu fizé’ mais um”, resmungou, com raiva, virando-se para ir embora. 
“Volte aqui, cozinheiro – aqui, dê-me essa tenaz –, agora pegue um pedaço daquele bife ali e me diga se está bem feito? Pegue, repito, pegue e experimente!”, disse, segurando as tenazes na sua direção.

     Experimentando um pouquinho com os seus lábios secos, o preto velho murmurou: “Mió’ bife qui já comi, dilicioso muito dilicioso”.

“Cozinheiro”, disse Stubb, voltando a se servir, “você vai à igreja?” 
“Fui uma vez em Cape Down”, disse o homem, mal-humorado. 
“E passou uma vez na sua vida numa igreja sagrada em Cape Town, onde, sem dúvida, ouviu um santo pároco dirigir-se aos ouvintes como se estivesse falando com caras criaturas muito queridas, não é, cozinheiro? No entanto, você vem aqui, e conta uma mentira deslavada como fez agora, hein?”, disse Stubb. “Aonde você pensa que vai, cozinheiro?”
“Pra cama bem depressa”, murmurou, dando meia-volta ao dizer isso. 
“Alto lá! Pare! Eu quis dizer quando você morrer, cozinheiro. É uma pergunta terrível. Qual é sua resposta?” 
“Quando esse preto véio morrê’”, disse o preto devagar, mudando de tom e de comportamento, “ele num vai pra lugá’ nenhum, mas um anjo abençoado vem buscá’ e levá’ ele.”
“Buscá-lo? Como? Numa carruagem com quatro cavalos como buscaram Elias? E levá-lo para onde?” 
“Lá pra cima”, disse Fleece segurando a tenaz em cima da cabeça, e mantendo a ali com solenidade. 
“Então, você espera subir ao cesto da gávea quando morrer, cozinheiro? Mas você não sabe que quanto mais alto se sobe mais frio fica? Cesto da gávea, hein?”
“Num disse isso”, disse Fleece, mal-humorado de novo. 
“Você disse lá em cima, não? Olhe você mesmo, e veja para onde a tenaz está apontando. Mas talvez você queira chegar ao céu passando pelo buraco do gajeiro, cozinheiro; mas, não, cozinheiro, não se chega lá a não ser pelo caminho regular, dando a volta no cordame. É um negócio delicado, mas que deve ser feito, não tem jeito! Mas nenhum de nós chegou ao céu. Solte a tenaz, cozinheiro, e escute as minhas ordens. Está escutando? Segura o seu chapéu com uma mão, e bata no coração com a outra, quando eu estiver dando as minhas ordens, cozinheiro. O quê? O seu coração fica aí? – isso é a sua barriga! Mais pra cima! Mais pra cima! Aí! – Agora está bem. Fique assim e preste atenção.”
“Toda atenção”, disse o preto velho, com as duas mãos dispostas como havia sido indicado, torcendo em vão a cabeça grisalha, como se quisesse colocar as duas orelhas para a frente ao mesmo tempo. 
“Pois bem, cozinheiro, perceba que esses bifes de baleia estão tão ruins que tenho que tirá-los da minha frente o mais rápido possível; você percebe isso, não? Pois bem, no futuro, se você fizer outro bife de baleia para a minha mesa particular aqui, o cabrestante, vou lhe dizer o que fazer para não estragá-lo cozinhando-o por muito tempo. Segure o bife com uma mão e mostre-lhe uma brasa com a outra; isto feito, sirva-o, escutou? Amanhã, cozinheiro, quando cortarmos o peixe, não deixe de estar por perto, para pegar as pontas das barbatanas; coloque-as em conserva. Quanto às pontas da cauda, coloque-as em salmoura, cozinheiro. Pronto, agora pode ir.”

     Mas, mal Fleece tinha dado três passos, foi novamente chamado.

“Cozinheiro, quero costeletas para a ceia amanhã à noite na minha vigília. Escutou? E agora vá – Ei! Pare! Faça uma reverência antes de partir – Pare outra vez! Os testículos da baleia para o café da manhã – não se esqueça.”
“Pelo amô’ di Deus! queria que a baleia comesse ele, em vez que ele comesse a baleia. Juro que ele é mais tubarão que o próprio sinhô Tubarão”, resmungou o velho, enquanto claudicava de volta; e com essa sábia exclamação foi para a sua rede.

Continua na página 288...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
63 - A Forquilha / 64 - A ceia de Stubb /            
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

Espumas Flutuantes - O hóspede

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O HÓSPEDE
Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando te fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga

I
“Onde vais estrangeiro! Por que deixas 
 O solitário albergue do deserto? 
 O que buscas além dos horizontes? 
 Por que transpor o píncaro dos montes, 
 Quando podes achar o amor tão perto?... 

 “Pálido moço! Um dia tu chegaste 
 De outros climas, de terras bem distantes... 
 Era noite!... A tormenta além rugia... 
Nos abetos da serra a ventania 
 Tinha gemidos longos, delirantes.

“Uma buzina restrugiu no vale 
 Junto aos barrancos onde geme o rio... 
 De teu cavalo o galopar soava, 
 E teu cão ululando replicava 
 Aos surdos roncos do trovão bravio.

“Entraste! A loura chama do brasido 
 Lambia um velho cedro crepitante. 
 Eras tão triste ao lume da fogueira... 
 Que eu derramei a lágrima primeira 
 Quando enxuguei teu manto gotejante! 

“Onde vais, estrangeiro? Por que deixas 
 Esta infeliz, misérrima cabana? 
 Inda as aves te afagam do arvoredo... 
 Se quiseres... as flores do silvedo 
 Verás inda nas tranças da serrana. 

“Queres voltar a este país maldito 
 Onde a alegria e o riso te deixaram? 
 Eu não sei tua história... mas que importa?... 
 ... Boia em teus olhos a esperança morta 
 Que as mulheres de lá te apunhalaram. 

“Não partas, não! Aqui todos te querem! 
 Minhas aves amigas te conhecem. 
 Quando à tardinha volves da colina 
 Sem receio da longa carabina 
 De lajedo em lajedo as corças descem! 

“Teu cavalo nitrindo na savana 
 Lambe as úmidas gramas em meus dedos. 
 Quando a fanfarra tocas na montanha, 
 A matilha dos ecos te acompanha 
 Ladrando pela ponta dos penedos.

“Onde vais, belo moço? Se partires 
 Quem será teu amigo, irmão e pajem? 
 E quando a negra insônia te devora, 
 Quem na guitarra que suspira e chora. 
Há de cantar-te seu amor selvagem? 

“A choça do desterro é nua e fria! 
 O caminho do exílio é só de abrolhos! 
 Que família melhor que meus desvelos?... 
 Que tenda mais sutil que meus cabelos  
Estrelados no pranto de teus olhos?... 

“Estranho moço! Eu vejo em tua fronte 
 Esta amargura atroz que não tem cura. 
 Acaso fulge ao sol de outros países, 
 Por entre as balsas de cheirosas lises, 
 A esposa que tua alma assim procura? 

“Talvez tenhas além servos e amantes, 
 Um palácio em lugar de uma choupana. 
 E aqui só tens uma guitarra e um beijo, 
 E o fogo ardente de ideal desejo 
 Nos seios virgens da infeliz serrana!...” 

No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe 
 Escondeu-se onde a vista não alcança... 
 ... Mas não penseis que o triste forasteiro 
 Foi procurar nos lares do estrangeiro 
 O fantasma sequer de uma esperança!... 
 Curralinho, 29 de abril de 1870 

AS TREVAS
A meu amigo, o dr. Franco Meireles, inspirado 
 tradutor das Melodias Hebraicas 

 Traduzido de Lord Byron 

Tive um sonho que em tudo não foi sonho!... 

O sol brilhante se apagara: e os astros, 
 Do eterno espaço na penumbra escura, 
 Sem raios, e sem trilhos, vagueavam. 
 A terra fria balouçava cega 
 E tétrica no espaço ermo de lua. 
 A manhã ia, vinha... e regressava... 
 Mas não trazia o dia! Os homens pasmos 
 Esqueciam no horror dessas ruínas 
 Suas paixões. E as almas conglobadas 
 Gelavam-se num grito de egoísmo 
 Que demandava “luz”. Junto às fogueiras 
 Abrigavam-se... e os tronos e os palácios, 
 Os palácios dos reis, o albergue e a choça 
 Ardiam por fanais. Tinham nas chamas 
 As cidades morrido. Em torno às brasas 
 Dos seus lares os homens se grupavam, 
 Pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas 
 Dos vulcões sob a tocha alcantilada! 

Hórrida esp'rança acalentava o mundo! 
 As florestas ardiam!... de hora em hora 
 Caindo se apagavam; crepitando, 
 Lascado o trono desabava em cinzas. 
 E tudo... tudo as trevas envolviam. 
 As frontes ao clarão da luz doente 
 Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes 
 As faíscas das chamas borrifavam-nas. 
 Uns, de bruços no chão, tapando os olhos 
 Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros — 
 Firmando a barba, desvairados riam. 
 Outros correndo à toa procuravam 
 O ardente pasto pra funéreas piras. 
 Inquietos, no esgar do desvario, 
 Os olhos levantavam pra o céu torvo, 
 Vasto sudário do universo — espectro —, 
 E após em terra se atirando em raivas, 
 Rangendo os dentes, blasfemos, uivavam!

Lúgubre grito os pássaros selvagens 
 Soltavam, revoando espavoridos 
 Num voo tonto co’as inúteis asas! 
 As feras ’stavam mansas e medrosas! 
 As víboras rojando s’enroscavam 
 Pelos membros dos homens, sibilantes, 
 Mas sem veneno... a fome lhes matavam! 
 E a guerra, que um momento s’extinguira, 
 De novo se fartava. Só com sangue 
 Comprava-se o alimento, e após à parte 
 Cada um se sentava taciturno, 
 Pra fartar-se nas trevas infinitas! 
 Já não havia amor!... O mundo inteiro 
 Era um só pensamento, e o pensamento 
 Era a morte sem glória e sem detença! 
 O estertor da fome apascentava-se 
 Nas entranhas... Ossada ou carne pútrida 
 Ressupino, insepulto era o cadáver. 

Mordiam-se entre si os moribundos: 
 Mesmo os cães se atiravam sobre os donos, 
 Todo exceto um só... que defendia 
 O cadáver do seu, contra os ataques 
 Dos pássaros, das feras e dos homens, 
 Até que a fome os extinguisse, ou fossem 
 Os dentes frouxos saciar algures! 
 Ele mesmo alimento não buscava...  
Mas, gemendo num uivo longo e triste 
 Morreu lambendo a mão, que inanimada 
 Já não podia lhe pagar o afeto. 

Faminta a multidão morrera aos poucos. 
 Escaparam dous homens tão-somente 
 De uma grande cidade. E se odiavam. 
 ... Foi junto dos tições quase apagados 
 De um altar, sobre o qual se amontoaram 
 Sacros objetos pra um profano uso, 
 Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas 
 Reunindo nas mãos frias dos espectros, 
 De seus sopros exaustos ao bafejo 
 Uma chama irrisória produziram!... 
 Ao clarão que tremia sobre as cinzas 
 Olharam-se e morreram dando um grito. 
 Mesmo da própria hediondez morreram, 
 Desconhecendo aquele em cuja fronte 
 Traçara a fome o nome de Duende! 

O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida, 
 Populosa tornou-se numa massa 
 Sem estações, sem árvores, sem erva, 
 Sem verdura, sem homens e sem vida, 
 Caos de morte, inanimada argila! 
 Calaram-se o oceano, o rio, os lagos! 
 Nada turbava a solidão profunda! 
 Os navios no mar apodreciam 
 Sem marujo
s! os mastros desabando 
 Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos 
 Uma vaga na queda alevantassem. 
 Tinham morrido as vagas! e jaziam 
 As marés no seu túmulo... antes delas 
 A lua que as guiava era já morta! 
 No estagnado céu murchara o vento; 
 Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas 
 Era só trevas o universo inteiro. 
 Bahia, 23 de dezembro 

continua pag 71...

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A Luís / As duas ilhas / Os Anjos da Meia-Noite / O hóspede /                           
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

Mulheres na MPB: Dolores Duran

Viveu em 29 anos mais que em 100 anos!


Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que quero lhe dar


Por Toda Minha Vida - Dolores Duran




Nasceu em uma casa humilde, em uma vila, na rua do Propósito, no bairro da Saúde, Zona Central do Rio de Janeiro, onde morou por alguns anos. Teve uma infância pobre e não conheceu seu pai biológico. Cresceu ao lado de sua mãe, Josepha Silva da Rocha, seu padrasto, Armindo José da Rocha, e suas duas meias-irmãs, Solange e Denise. Ainda na infância mudou-se para um cortiço no bairro da Piedade, onde foi criada. 

Dolores Duran canta ''Tião'' (1957)




Desde criança gostava de cantar e sonhava em ser famosa. Aos oito anos de idade contraiu uma febre reumática, que quase a levou à morte, e que deixou como sequela um sopro cardíaco gravíssimo.


A noite do meu bem




Somos a vida e o sonho
Nós somos o amor

Por causa de você



Com uma carreira de sucesso especialmente durante os anos cinquenta, em 1958, Dolores alcançou o seu ápice ao cantor fora do país - no Uruguai e na União Soviética. Durante essa viagem, a jovem realizou dos seus maiores sonhos que era conhecer Paris.

Dolores Duran em aparição rara cantando Se Avexe Não - ( 1956 )




Amou demais
sofreu o dobro


Ela disse que "ia dormir até morrer" O Trágico fim de Dolores Duran



Na música Dolores emprestou a sua voz especialmente para canções apaixonadas. As mais famosas foram: Canção da Volta, Fim de caso, Se é por falta de adeus, Solidão e Tião.

Da parceria com o compositor Tom Jobim surgiram canções de sucesso como Por causa de você, O negócio é amar e Estrada do sol.


Maysa fala de Dolores Duran




Solidão



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Mulheres na MPB
Dolores Duran /