A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra
PRIMEIRA PARTE
As Fontes Subterrâneas do Poder
35. Um Químico Alemão Derrotou os Vencedores da Guerra do Pacífico
A história do salitre, seu apogeu e sua queda, é muito
ilustrativa da ilusória duração das prosperidades latino
americanas no mercado mundial: o sempre efêmero sopro
das glórias e o peso sempre perdurável das catástrofes.
Em meados do século passado, as negras profecias de
Malthus pairavam sobre o Velho Mundo. A população
europeia crescia vertiginosamente e era imprescindível
conferir nova vida aos solos cansados, para que a produção
de alimentos pudesse aumentar em proporção equivalente.
O guano teve suas propriedades fertilizantes revelada nos
laboratórios britânicos; a partir de 1840, desde a costa
peruana, começou sua exportação em grande escala. Os
alcatrazes e as gaivotas, alimentados pelos fabulosos
cardumes de correntes que lambem as margens, tinham
acumulado nas ilhas e ilhotas, desde tempos imemoriais,
grandes montanhas de excrementos ricos em nitrogênio,
amoníaco, fosfatos e sais alcalinos: o guano se conservava
puro nas costas sem chuva do Peru
[1]. Pouco depois do
lançamento internacional do guano, a química agrícola
descobriu que eram ainda maiores as propriedades
nutritivas do salitre, e em 1850 já era muito intenso o seu
emprego como adubo em campos europeus. As terras do
velho
continente
dedicadas ao cultivo do trigo,
empobrecidas pela erosão, recebiam avidamente os
carregamentos de nitrato de soda provenientes das
salitreiras peruanas de Tarapacá e, em seguida, da província
boliviana de Antofagasta
[2]. Graças ao salitre e ao guano,
que jaziam nas costas do Pacífico “quase ao alcance dos
barcos que vinham buscá-los”
[3], o fantasma da fome se
afastou da Europa
A oligarquia de Lima, soberba e presunçosa como
nenhuma outra, continuava enriquecendo à farta e
acumulando símbolos de seu poder nos palácios e nos
mausoléus de mármore de Carrara que a capital levantava
em meio a desertos de areia. Antigamente, as grandes
famílias limenhas tinham prosperado à custa da prata de
Potosí, e agora passavam a viver da merda dos pássaros e
do grumo branco e brilhante das salitreiras. O Peru
acreditava que era independente, mas a Inglaterra ocupava
o lugar da Espanha. “O país se sentiu rico”, escrevia
Mariátegui, “o Estado usou sem medida o seu crédito,
entregou-se ao desperdício, hipotecando seu futuro às
finanças inglesas.” Em 1868, segundo Romero, os gastos e
as dívidas do Estado já eram muito maiores do que o valor
das vendas para o exterior. Os depósitos de guano serviam
de garantia para os empréstimos britânicos, e a Europa
jogava com os preços; a rapina dos exportadores fazia
estragos: aquilo que a natureza havia acumulado nas ilhas
ao longo de milênios era dilapidado em poucos anos.
Entrementes, nos pampas salitreiros – conta Bermúdez –, os
trabalhadores sobreviviam em choças “miseráveis de uma
só peça que mal ultrapassavam a altura de um homem,
feitas de pedras, caliça e barro”.
A exploração do salitre rapidamente se estendeu até a
província boliviana de Antofagasta, embora o negócio não
fosse boliviano e sim peruano, e mais do que peruano,
chileno. Quando o governo da Bolívia quis aplicar um
imposto às salitreiras que operavam em seu território, os
batalhões militares do Chile invadiram a província para
nunca mais sair. Até aquela época, o deserto fizera o papel
de zona de amortecimento para os conflitos entre Chile,
Peru e Bolívia. O salitre desencadeou a luta. A guerra do
Pacífico começou em 1879 e foi até 1883. As forças
armadas chilenas, que já em 1879 tinham ocupado também
os portos peruanos da região do salitre, Patillos, Iquique,
Pisagua, Junín, entraram vitoriosas em Lima, e no dia
seguinte a fortaleza de Callao se rendeu. A derrota provocou
a mutilação e a sangria do Peru. A economia nacional
perdeu seus dois principais recursos, paralisaram-se as
forças produtivas, caiu a moeda, fechou-se o crédito
exterior
[4]. O colapso, advertia Mariátegui, não trouxe
consigo uma liquidação do passado: a estrutura da
economia colonial permaneceu invicta, embora lhe
faltassem suas fontes de sustentação. A Bolívia, por sua
vez, não se deu conta do que perdera com a guerra: a mina
de cobre mais importante do mundo atual, Chuquicamata,
localiza-se exatamente na província agora chilena de
Antofagasta. Mas... e os vencedores?
O salitre e o iodo somavam 5 por cento das rendas do
Estado chileno em 1880; dez anos depois, mais de metade
das receitas fiscais provinham da exportação de nitrato dos
territórios conquistados. No mesmo período, triplicaram os
investimentos ingleses no Chile: a região do salitre tornou
se uma feitoria britânica
[5]. Os ingleses se apossaram do
salitre empregando procedimentos nada custosos. O
governo do Peru expropriara as salitreiras em 1875,
pagando com bônus; a guerra reduziu o valor desses papéis,
cinco anos depois, à décima parte. Alguns aventureiros
ousados, como John Thomas North e seu sócio Robert
Harvey, aproveitaram-se da conjuntura. Enquanto chilenos,
peruanos e bolivianos trocavam tiros no campo de batalha,
os ingleses se apropriaram dos bônus graças aos créditos
que lhes foram proporcionados, sem dificuldade alguma,
pelo anco de Valparaíso e outros bancos chilenos. Por eles
estavam lutando os soldados, embora não o soubessem. O
governo chileno recompensou prontamente o sacrifício de
North, Harvey, Inglis, James, Bush, Robertson e outros
laboriosos homens de empresa: em 1881 determinou a
devolução das salitreiras aos seus legítimos donos, isto
quando já a metade dos bônus passara às mãos prodigiosas
de especuladores britânicos. Para financiar esse saque não
saíra da Inglaterra nem um único pêni.
Ao abrir-se a década de 90, o Chile destinava à
Inglaterra três quartas partes de suas exportações, e da
Inglaterra recebia quase a metade de suas importações; sua
dependência comercial era ainda maior do que aquela que,
na mesma época, afetava a Índia. A guerra havia concedido
ao Chile o monopólio mundial dos nitratos naturais, mas o
rei do salitre era John Thomas North. Uma de suas
empresas, a Liverpool Nitrate Company, pagava dividendos
de 40 por cento. Esse personagem havia desembarcado no
porto de Valparaíso, em 1866, com apenas dez libras
esterlinas no bolso do velho traje coberto de pó; 30 anos
depois, os príncipes e os duques, os políticos mais
proeminentes e os grandes industriais sentavam-se à mesa
de sua mansão londrina. North inventara para si um posto
de coronel e se filiara, como correspondia a um cavalheiro
de seu quilate, ao Partido Conservador e à Loja Maçônica de
Kent. Lorde Dorchester, Lorde Randolph Churchill e o
marquês de Stockpole participavam de suas festas
extravagantes, nas quais North dançava fantasiado de
Henrique VIII
[6]. Enquanto isso, em seu distante reino do
salitre, os obreiros chilenos não folgavam no domingo,
trabalhavam até dezesseis horas diárias e recebiam salários
com fichas que perdiam metade de seu valor nos armazéns
das empresas.
Entre 1886 e 1890, sob a presidência de José Manuel Balmaceda, o Estado chileno executou, conforme Ramírez
Necochea, “os planos de progresso mais ambiciosos de sua
história”. Balmaceda impulsionou o desenvolvimento de
algumas indústrias, realizou importantes obras públicas,
renovou a educação, tomou providências para romper o
monopólio da empresa britânica de ferrovias em Tarapacá e
contratou com a Alemanha o primeiro e único empréstimo
que o Chile não recebeu da Inglaterra em todo o século
passado. Em 1888, anunciou que era necessário
nacionalizar os distritos salitreiros mediante a constituição
de empresas chilenas, e se negou a vender aos ingleses as
terras salitreiras de propriedade do Estado. Três anos depois
sobreveio a guerra civil. North e seus colegas financiaram
regiamente os rebeldes
[7], e os barcos de guerra britânicos
bloquearam o litoral do Chile, enquanto em Londres a
imprensa bradava contra Balmaceda, “ditador da pior
espécie”, “carniceiro”. Derrotado, Balmaceda se suicidou. O
embaixador inglês informou ao Foreign Office: “A
comunidade britânica não faz segredo de sua satisfação
pela queda de Balmaceda, cujo triunfo, acredita-se, teria
trazido sérios prejuízos para os interesses comerciais
britânicos”. De imediato se apequenaram os investimentos
estatais em estradas, ferrovias, colonização, educação e
obras públicas, ao mesmo tempo em que as empresas
britânicas ampliavam seus domínios.
Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, dois terços da
receita nacional do Chile provinham da exportação de
nitratos, mas o pampa salitreiro estava mais amplo e alheio
do que nunca. A prosperidade não tinha servido para
desenvolver e diversificar o país, mas, ao contrário, só
servira para acentuar suas deformações estruturais. O Chile
funcionava como um apêndice da economia britânica: o
mais importante abastecedor de adubos do mercado
europeu não tinha direito a uma vida própria. E então um
químico alemão, em seu laboratório, derrotou os generais
que, tempos antes, haviam triunfado no campo de batalha.
O aperfeiçoamento do processo Haber-Bosch para produzir
nitratos,
obtendo
o
nitrogênio
do
ar,
derrubou
definitivamente o salitre e provocou uma estrepitosa queda
da economia chilena. A crise do salitre era a crise do Chile,
profunda ferida, porque o Chile vivia do salitre e para o
salitre – e o salitre estava em mãos estrangeiras.
No resseco deserto de Tamarugal, onde os reflexos da
terra podem queimar os olhos, fui testemunha do
arrasamento de Tarapacá. Ali havia 120 usinas salitreiras na
época do apogeu e agora resta apenas uma em
funcionamento. No pampa não há umidade nem carunchos,
de modo que não só foram vendidas as máquinas como
sucata, mas também as tábuas de pinho de Oregon das
melhores casas, as folhas de zinco e até parafusos e pregos
em boas condições. Surgiram operários especializados em
desmanchar povoados: eram os únicos que conseguiam
trabalho nessas imensidões arrasadas e abandonadas. Vi os
escombros e os buracos, os povoados fantasmas, as linhas
mortas da Nitrate Railways, os fios mudos do telégrafo, os
esqueletos das usinas salitreiras despedaçadas pelo
bombardeio dos anos, as cruzes dos cemitérios batidas à
noite pelo vento frio, os montes esbranquiçados da caliça
que ia sobrando nas escavações. “Aqui corria o dinheiro e
todos acreditavam que nunca acabaria”, contaram-me os
aldeões sobreviventes. O passado parece um paraíso
comparado com o presente, e até os domingos, que em
1889 não existiam para os trabalhadores e que logo foram
conquistados pacificamente na luta sindical, são lembrados
com todos os seus fulgores: “Cada domingo no pampa
salitreiro”, contava-me um velho muito velho, “era para nós
uma festa nacional, um novo 18 de setembro a cada
semana”. Iquique, o maior porto do salitre, “porto de
primeira” segundo seu slogan oficial, tinha sido o cenário de
mais de uma matança de operários, mas seu teatro
municipal, de estilo belle époque, recebia os melhores
cantores da ópera europeia antes de Santiago.
continua na página 234...
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[1] SAMHA ER, Ernst. Sudamérica, biografía de un continente. Buenos Aires, 1946.
As aves guaneiras são as mais valiosas do mundo, escrevia Robert Cushman
Murphy muito depois do apogeu, “por seus rendimentos em dólares em cada
digestão”. Estão acima, dizia, do rouxinol de Shakespeare que cantava na
sacada de Julieta, acima da pomba que sobrevoou a Arca de Noé e, de resto, das
tristes andorinhas de Bécquer. ROMERO, Emílio. Historia económica del Perú. Buenos Aires, 1949.
[2] BERMÚDEZ, Óscar. Historia del salitre desde sus orígenes hasta la Guerra
del Pacífico. Santiago de Chile, 1963.
[3] MARIÁTEQUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad
peruana. Montevideo, 1970.
[4] O Peru perdeu a província salitreira de Tarapacá e algumas importantes ilhas
guaneiras, mas conservou as jazidas de guano da costa norte. O guano
continuava sendo o principal fertilizante da agricultura peruana, até que, a partir
de 1960, o auge da farinha de pescado aniquilou os alcatrazes e as gaivotas. As
empresas pesqueiras, em sua maioria norte-americanas, arrasaram
rapidamente os bancos de anchovinhas próximos da costa, para alimentar com
farinha peruana os porcos e as aves dos Estados Unidos e da Europa, e os
pássaros guaneiros passaram a perseguir os pescadores mar afora, cada vez
mais longe. Sem resistência para o regresso, caíam no mar. Outros não iam, e
assim era possível ver, em 1962 e 1963, bandos de alcatrazes procurando
comida na principal avenida de Lima: quando já não podiam mais levantar voo,
tombavam mortos nas ruas da cidade.
[5] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Historia del imperialismo en Chile. Santiago
de Chile, 1960.
[6] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Balmaceda y la contrarrevolución de 1891.
Santiago de Chile, 1969.
[7] O Senado encabeçava a oposição ao presidente, e era notória a atração de
muitos de seus membros pelas libras esterlinas. O suborno de chilenos, segundo
os ingleses, era “um costume do país”. Assim o definiu em 1897 o sócio de
North, Robert Harvey, durante o processo que alguns pequenos acionistas
entraram contra ele e outros diretores da The Nitrate Railways Co. Explicando o
desembolso de 100 mil libras para subornos, disse Harvey: “A administração
pública no Chile, como você sabe, é muito corrompida (...). Não digo que seja
necessário subornar juízes, mas acredito que muitos membros do Senado,
escassos de recursos, vão tirar algum benefício de parte desse dinheiro em
troca de seus votos; e ele também serviu para impedir que o governo em
absoluto se negasse a ouvir nossos protestos e reclamações (...).” RAMÍREZ
NECOCHEA, op. cit.
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: Um Químico Alemão Derrotou os Vencedores da Guerra do Pacífico (3)
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o petróleo da Venezuela... o petróleo no pré-sal do Brasil... os minerais nas terras raras do Brasil... ?