sexta-feira, 5 de junho de 2026

Cinema: Os Irmãos Karamazov - Parte 3

OS IRMÃOS KARAMAZOV 

- (URSS - 1969)

'Os Irmãos Karamazov' é um filme de drama soviético de 1969, dirigido por Kirill Lavrov, Ivan Pyryev e Mikhail Ulyanov. O filme é uma adaptação da obra de Dostoéievski e retrata a vida dos irmãos Karamazov na Rússia do século XIX, explorando temas de espiritualidade, amor, ambição e moralidade. O elenco principal inclui Mikhail Ulyanov, Kirill Lavrov e Lionella Pyryeva. O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 1970, representando a União Soviética.

Direção
Kirill Lavrov
Ivan Pyrev
Mikhail Ulyanov

Roteiristas
Fyodor Dostoevsky
Ivan Pyrev





Elenco
Mark Prudkin como Fyodor Pavlovich Karamazov
Mikhail Ulyanov como Dmitriy Karamazov
Kirill Lavrov como Ivan Karamazov
Andrey Myagkov como Alyosha Karamazov
Lionella Pyryeva como Agrafena 'Grushenka' Svetlova
Svetlana Korkoshko como Yekaterina Ivanovna Verkhovtseva
Valentin Nikulin como Pavel Smerdyakov
Pavel Pavlenko como Zosima
Andrei Abrikosov como Kuzma Samsonov
Gennadiy Yukhtin como Padre Paisiy
Anatoliy Adoskin como Nikolay Nelyudov - Juiz examinador
Rada Volshaninova como Gipsy
Tamara Nosova como Marya Kondratyevna
Nikita Podgorny como Mikhail Rakitin
Ivan Lapikov como Stepan 'Lyagavyy' Gorskiy
Varvara Popova como Matryona
Yevdokiya Urusova como Marfa Osipovna
Stanislav Chekan como filho de Samsonov
Aleksandra Danilova como Relative
Aleksandr Khvylya como Ferapont
Nikolai Ryzhov como Trifon Borisovich Plastunov
Nikolai Prokopovich como Mussyalovich
Evgeniy Teterin como Padre Iosif
Mark Pertsovskiy como Vrublyovskiy
Lyubov Korneva como Fedosya 'Fenya' Markovna
Sergei Kalinin como Sacerdote
Vladimir Osenev como Juiz
Nikolai Bubnov como Clerk
Viktor Filippov
Olga Gasparova como Maidservant
Georgiy Georgiu
Oleg Golubitsky
Grigore Grigoriu
Grigori Kirillov como Promotor
Viktor Kolpakov como Grigoriy
Nikolay Kutuzov como Monge Negro
Nikolay Parfyonov como Barman
Yuri Rodionov como Attorney
Ivan Savkin
V. Sokolov como gospodin v Sude
Georgiy Svetlani
Nikolay Svetlovidov como Maksimov
Ivan Vlasov como Pyotr Kalganov
Nikolay Sibeikin como Aparecendo (não creditado)


A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (V. Os "Stártsi")

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
V
OS 'STÁRTSI"
    
     O leitor imaginará talvez que o meu herói fosse um indivíduo doentio e extático, um pálido sonhador, macilento, atacado de tuberculose. Pelo contrário, Aliócha, que tinha então dezenove anos, era um jovem bem feito, de faces vermelhas, de olhar límpido, transbordante de saúde. Era mesmo bastante belo, de talhe esbelto, cabelos castanhos, rosto regular, embora um pouco alongado, olhos dum cinzento-escuro, brilhantes, ras gados, pensativo e parecendo bastante calmo. Dir-se-á talvez que faces vermelhas não impedem de ser fanático ou místico; ora, parece-me que Aliócha era, mais que qualquer outra pessoa, realista. Oh! bem decerto, no convento cria perfeitamente nos milagres, mas, na minha opinião, os milagres jamais perturbarão o realista. Não são eles que o levam a crer. Um verdadeiro realista, se é incrédulo, encontra sempre em si a força e faculdade de não crer mesmo no milagre e, se este último se apresenta como um fato incontestável, duvidará de seus sentidos em vez mesmo de admitir o fato. Se o admitir, será como um fato natural, mas desconhecido dele até então. No realista, a fé não nasce do milagre, mas o milagre da fé. Se o realista adquire a fé, deve necessariamente, em virtude de seu realismo, admitir também o milagre. O apóstolo Tome declarou que não acreditaria enquanto não visse; em seguida, diz: "Meu Senhor e meu Deus!" Fora o milagre que o obrigara a crer? Muito provavelmente não, mas ele acreditava unicamente porque desejava crer; talvez tivesse já a fé inteira nas dobras ocultas de seu coração, mesmo quando declarava: "Só acreditarei depois que tiver visto.
     Dir-se-á talvez que Áliócha era obtuso, pouco desenvolvido, que não terminara seus estudos. Este último fato é exato, mas seria bastante injusto dizer que fosse ele obtuso ou estúpido. Repito o que já disse: escolhera aquela via unicamente porque somente ela o atraia então e representava a ascensão ideal para a luz de sua alma desprendida das trevas. Além disso, era aquele rapaz da época mais recente, isto é, leal, ávido de verdade, procurando-a cora fé, e, uma vez encontrada, querendo dela participar com toda a força de sua alma, querendo realizações imediatas e pronto a tudo sacrificar com este fim, até mesmo sua vida. Entretanto, esses rapazes não compreendem, desgraçadamente, que sacrificar sua vida é a coisa mais fácil em muitos casos, ao passo que consagrar, por exemplo, cinco ou seis anos de sua bela mocidade ao estudo e à ciência — não fosse senão para decuplicar suas forças, a fim de servir à verdade e atingir o fim proposto — é um sacrifício que os ultrapassa. Aliócha só fizera escolher a via oposta a todas as outras, mas com a mesma sede de realização imediata. Logo que se convenceu, após sérias reflexões, de que Deus e a imortalidade existem, disse a si mesmo, naturalmente: "Quero viver para a imortalidade, não admito compromissos'*. Igualmente, se tivesse concluído que não há nem Deus nem imortalidade, ter-se-ia tornado imediatamente ateu e socialista (porque o socialismo não é apenas a questão operária ou do quarto Estado, mas é sobretudo a questão do ateísmo, de sua encarnação contemporânea, a questão da torre de Babel, que se construiu sem Deus, não para atingir os céus da terra, mas para abaixar os céus até a terra). Parecia estranho e impossível a Aliócha viver como antes. Está dito: "Abandona tudo quanto tens e segue-me, se queres ser perfeito". Aliócha dizia a si mesmo: "Não posso dar um lugar de "tudo' 2 rublos e em lugar de 'segue-me' ir somente à missa". Entre as re cordações de sua tenra infância, lembrava-se talvez de nosso mosteiro, aonde sua mãe talvez o levara para assistir aos ofícios. Talvez tivesse ali sofrido a influência dos raios oblíquos do sol poente diante da imagem para a qual o voltava sua mãe, a endemoniada. Chegou entre nós pensativo, unicamente para ver se se tratava aqui de tudo ou somente de 2 rublos, e encontrou no convento aquele stáriets.
     Era o stáriets Zósima, como já o expliquei acima; seria preciso dizer algumas palavras a propósito dos stártsi nos nossos mosteiros e lamento não ter, neste domínio, toda a competência necessária. Tentarei, no entanto, fazê-lo a grandes traços. Os especialistas competentes asseguram que a instituição dos stártsi apareceu nos mosteiros russos em época recente, há menos de um século, quando, em todo o Oriente ortodoxo, sobretudo no Sinai e no Monte Atos, existe ela desde bem mais de mil anos. Pretende-se que os stártsi existiam na Rússia em tempos bastante antigos, ou que deveriam ter existido, mas que, em consequência das calamidades que sobrevieram, o jugo tártaro, as perturbações, a interrupção das antigas relações com o Oriente, após a queda de Constantinopla, essa instituição se perdeu entre nós e os stártsi desapareceram. Foi ressuscitada por um dos maiores ascetas, Paísi Vielitchkóvski, e por seus discípulos, mas até o presente, após um século, existe ela em muito poucos conventos e foi mesmo, ou pouco faltou, alvo de perseguições, como uma inovação desconhecida na Rússia. Florescia sobretudo no famoso Eremitério de Kózilhskaia Optínaia, Ignoro quando e por quem foi ela implantada em nosso mosteiro, mas já se haviam sucedido ali três stártsi, dos quais Zósima era o último. Estava quase a sucumbir à fraqueza e às doenças e não se sabia por quem substituí-lo. Para nosso mosteiro, era essa uma séria questão, porque, até o presente, nada o havia distinguido; não possuía nem relíquias santas nem ícones miraculosos, ligando-se as tradições gloriosas à nossa história. Faltavam lhe igualmente os altos fatos históricos e os serviços prestados à pátria. Tornara-se florescente e famoso em toda a Rússia, graças a seus stártsi, que os peregrinos vinham em multidão ver e ouvir de todos os pontos da Rússia, a milhares de verstas. Que é um stáriets? O stáriets é aquele que absorve vossa alma e vossa vontade nas suas. Tendo escolhido um stáriets, vós abdicais de vossa vontade e lha entregais com toda a obediência, com inteira resignação. O penitente submete-se voluntariamente a essa prova, a essa dura aprendizagem, na esperança de, após um longo estágio, vencer-se a si mesmo, dominar-se a ponto de atingir, afinal, depois de ter obedecido toda a sua vida, a liberdade perfeita, isto é, a liberdade para consigo mesmo, e evitar a sorte daqueles que viveram sem se encontrar a si mesmos. Esta invenção, isto é, a instituição dos stártsi, não é teórica, mas tirada, no Oriente, de uma prática milenar. As obrigações para com o stáriets são bem diversas da "obediência** habitual que sempre existiu igualmente nos mosteiros russos. Lá, a confissão de todos os militantes ao stáriets é perpétua, e o elo que liga o confessor ao confessado, indissolúvel. Conta-se que, nos tempos antigos do cristianismo, um noviço, depois de haver deixado de cumprir um dever prescrito pelo seu stáriets, abandonou o mosteiro para dirigir-se a outro país, da Síria ao Egito. Ali, praticou atos sublimes e foi por fim julgado digno de sofrer o martírio pela fé. Já a Igreja ia enterrá-lo, reverenciando-o como um santo, quando o diácono proferiu: "Que os catecúmenos saiam!*', o caixão que continha o corpo do mártir foi arrancado de seu lugar e projetado fora do templo três vezes em seguida. Soube-se por fim que aquele santo mártir havia infringido a obediência e abandonado o seu stáriets e que, por consequência, não podia ser perdoado sem o consentimento deste último, malgrado sua vida sublime. Mas quando o stáriets, chamado, o desligou da obediência, pôde-se enterrá-lo sem dificuldade. Sem dúvida, não passa isso de uma antiga lenda, mas eis um fato recente. Um religioso cuidava de sua salvação no Monte Atos, ao qual queria de toda a sua alma, como um santuário e um retiro tranquilo, quando seu stáriets lhe ordenou,, de repente, que partisse para ir primeiro a Jerusalém, visitar os Lugares Santos,, depois voltar ao norte, na Sibéria. "Lá é que é teu lugar e não aqui.'* Consternado e desolado, o monge foi procurar o patriarca em Constantinopla e suplicou-lhe que o libertasse da obediência, mas o chefe da Igreja respondeu-lhe que não somente ele, patriarca, não podia desligá-lo, mas não havia nenhum poder no mundo capaz de fazê-lo, exceto o stáriets do qual ele dependia. Vê-se dessa forma que, em certos casos, os stártsi estão investidos duma autoridade sem limites e incompreensível. Eis por que, em muitos de nossos mosteiros, essa instituição foi a princípio quase perseguida. No entanto o povo testemunhou imediatamente grande veneração pelos stártsi. Por isso o povinho e as pessoas mais distintas vinham em multidão prosternar-se diante dos stártsi de nosso mosteiro e lhes confessavam suas dúvidas, seus pecados, seus sofrimentos, implorando conselhos e direções. Vendo o que, os adversários dos stártsi lhes censuravam, entre outras acusações, envilecerem arbitrariamente o sacramento da confissão, se bem que as confidencias ininterruptas do noviço ou dum leigo ao stáriets não tivessem de modo algum o caráter dum sacramento. Seja como for, a instituição dos stártsi manteve-se e implanta-se pouco a pouco nos mosteiros russos. É verdade que esse meio experimentado e já milenar de regeneração moral, que faz o homem passar da escravidão à liberdade, aperfeiçoando-o, pode também tornar-se uma arma de dois gumes: em lugar da humildade e do domínio de si mesmo, pode desenvolver um orgulho satânico e fazer um escravo em lugar de um homem livre.
     O stáriets Zósima tinha 65 anos; descendia duma família de proprietários; na sua mocidade servira no Exército como oficial, no Cáucaso. Sem dúvida, Aliócha ficou impressionado por certa qualidade especial da alma dele. Vivia na mesma cela do stáriets, que muito o amava e o mantinha a seu lado. Ê preciso notar que, vivendo no mosteiro, não estava Aliócha preso por nenhum laço; podia ir aonde bem quisesse, dias inteiros, e, se usava batina, era voluntariamente, para não se distinguir de ninguém no mosteiro. Talvez a imaginação juvenil de Aliócha tivesse sido muito impressionada pela força e pela glória que cercavam seu stáriets como uma auréola. A propósito do stáriets Zósima, muitos contavam que, à força de acolher, desde numerosos anos, todos aqueles que vinham expandir seu coração, ávidos de seus conselhos* e de suas consolações, havia, para o fim, adquirido grande perspicácia. Ao primeiro olhar lançado sobre um desconhecido, adivinhava o motivo de sua vinda, o que lhe era preciso e até mesmo o que lhe atormentava a consciência. O- penitente ficava espantado, confuso e por vezes mesmo apavorado por sentir-se penetrado, antes de ter proferido uma palavra. Aliócha notara que muitos daqueles que vinham pela primeira vez entreter-se em particular com o stáriets entravam em seu aposento com temor e inquietação; quase todos saíam radiantes e o rosto mais sombrio iluminava-se de satisfação. O que o surpreendia também é que o stáriets, longe de ser severo, parecia mesmo satisfeito. Os monges diziam dele que se ligava aos mais pecadores e os estimava na proporção de seus pecados. Mesmo para o fim de sua vida, contava o stáriets, entre os monges, inimigos e invejosos, mas seu numero diminuía, se bem que figurassem nele personalidades importantes do convento. Tal era um dos mais antigos religiosos, por demais taciturno e jejuador extraordinário. No entanto, a grande maioria era partidária do stáriets Zósima e muitos o amavam sinceramente, de todo o seu coração; alguns lhe eram mesmo ligados quase fanaticamente. Estes diziam, mas em voz baixa, que era um santo, decerto, e, prevendo seu fim próximo, aguardavam imediatos milagres que espalhariam grande glória sobre o mosteiro. Alieksiéi cria cegamente na força miraculosa do stáriets, da mesma maneira que acreditava no relato do caixão projetado fora da igreja. Entre as pessoas que levavam ao stáriets crianças ou parentes doentes, para que ele lhes impusesse as mãos ou rezasse uma oração em sua intenção, via Aliócha muitos voltarem em breve, por vezes no dia seguinte, para agradecer-lhe de joelhos o ter-lhes curado seus doentes. Havia cura ou somente melhoria natural do estado deles? Aliócha nem sequer fazia a si mesmo a pergunta, porque acreditava absolutamente na força espiritual de seu mestre e a glória dele era como o seu próprio triunfo. Batia-lhe o coração e ficava radiante, sobretudo quando o stáriets saía a ter com a multidão dos peregrinos que o esperavam nas portas do eremitério, pessoas do povo vindas de todos os pontos da Rússia pura vê-lo e receber sua bênção. Prosternavam-se diante dele, choravam, beijavam seus pés e o lugar onde ele se achava, lançando gritos; as mulheres estendiam para ele seus filhos; traziam possessos. O stáriets falava-lhes, fazia uma curta oração, dava-lhes sua bênção, depois mandava-os embora. Nos derradeiros tempos, a doença havia-o de tal modo enfraquecido que mal podia ele deixar sua cela e os peregrinos aguar-» davam sua saída para o mosteiro, por vezes dias inteiros. Aliócha não perguntava a si mesmo absolutamente por que eles o amavam tanto, por que se prosternavam diante dele com lágrimas de enternecimento, vendo seu rosto. Oh! Compreendia perfeitamente que para a alma resignada do simples povo russo, vergado sob o trabalho e o pesar, mas sobretudo sob a injustiça e o pecado contínuos — o seu e o do mundo — não há maior necessidade e consolo do que encontrar um santuário ou um santo, cair de joelhos, adorá-lo: "Se o pecado, a mentira, a tentação são nossa partilha, há no entanto em alguma parte do mundo um ser santo e sublime; possui a verdade, conhece-a; portanto, ela descerá um dia até nós e reinará sobre a terra inteira, como foi pro* metido". Aliócha sabia que é assim que o povo sente e até mesmo raciocina; compreendia isto, mas que o stáriets fosse precisamente esse santo, esse depositário da verdade divina aos olhos do povo, estava disso persuadido tanto quanto aqueles mujiques e aquelas mulheres doentes que lhe estendiam seus filhos. A convicção de que o stáriets, após sua morte, atrairia uma glória extraordinária para o mosteiro reinava na sua alma mais forte talvez do que entre os monges. Desde algum tempo, seu coração aquecia-se sempre mais à labareda dum profundo entusiasmo interior. Não o perturbava absolutamente nada ver no stáriets um indivíduo isolado: "Dá no mesmo, há no seu coração o mistério da renovação para todos, esse poder que instaurará por fim a verdade na terra e todos serão santos, amar-se-ão uns aos outros; não haverá mais nem ricos nem pobres, nem elevados nem humilhados; todos serão como os filhos de Deus e será isto o advento do reino do Cristo". Eis com que sonhava o coração de Aliócha.  
     Parece que impressionou fortemente a Aliócha a chegada de seus dois irmãos, que ele não conhecia absolutamente até então. Ligara-se mais a Dimítri, se bem que este tivesse chegado mais tarde. Quanto a Ivã, interessava-se muito por ele, mas os dois jovens permaneciam estranhos um ao outro e, no entanto, dois meses se haviam passado durante os quais viam-se bastante frequentemente. Aliócha era taciturno; além disso, parecia esperar não se sabia o que, ter vergonha de alguma coisa; muito embora tivesse notado no começo os olhares curiosos que lhe lançava seu irmão, cessou Ivã em breve de prestar-lhe atenção. Aliócha sentiu por isso alguma confusão. Atribuiu a indiferença de seu irmão à desigualdade de sua idade e de sua instrução. Mas tinha uma grande ideia. O pouco interesse que lhe testemunhava Ivã podia provir de uma causa que ele ignorava. Parecia este absorvido por algo de importante, como se visasse um alvo muito difícil, o que teria explicado sua distração a respeito dele. Alieksiéi perguntou igualmente a si mesmo senão havia naquilo o desprezo de um ateu sábio por um pobre noviço. Não podia sentir-se ofendido com tal desprezo, se é que ele existia, mas aguardava com um vago alarma, que ele próprio não explicava a si mesmo, no momento em que seu irmão queria aproximar-se dele. Seu irmão Dimítri falava de Ivã com o mais profundo respeito, num tom circunspecto. Contou a Aliócha os detalhes do importante negócio que havia aproximado estreitamente os dois mais velhos. O entusiasmo com que Dimítri falava de Ivã impressionava tanto mais Aliócha quanto, comparado a seu irmão, Dimítri era quase um ignorante; o contraste da personalidade deles e de seus caracteres era tão vivo que se teria dificilmente imaginado dois seres tão diferentes.
     Foi então que teve lugar a entrevista, ou antes, a reunião, na cela do stariets, de todos os membros daquela família mal harmonizada, reunião que exerceu influência extraordinária sobre Aliócha. O pretexto que a motivou era na realidade mentiroso. O desacordo entre Dimítri e seu pai, a respeito da herança de sua mãe e das contas da propriedade, atingia então seu auge. As relações tinham-se envenenado a ponto de tornar-se insuportáveis. Foi Fiódor Pávlovitch quem sugeriu, por brincadeira, que se reunissem todos na cela do stariets Zósima; sem recorrer à sua intervenção, poderiam eles entender-se mais decentemente, sendo capazes a dignidade e a pessoa do stariets de impor a reconciliação. Dimítri, que jamais estivera em casa dele e jamais o vira, pensou que quisessem amedrontá-lo daquela maneira; mas, como ele próprio se censurava secretamente de muitas explosões bastante bruscas em sua querela com seu pai, aceitou o desafio. É preciso notar que não residia, como Ivã, em casa de seu pai, mas na outra extremidade da cidade. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que morava então em nossa cidade, agarrou-se a essa ideia. Liberal dos anos 40 e 50, livre-pensador e ateu, tomou neste caso uma parte extraordinária, por tédio, talvez, ou para se divertir. Tomou-o subitamente a fantasia de ver o mosteiro e o "santo". Como seu antigo processo contra o mosteiro durasse ainda — o litígio tinha por objeto a delimitação de suas terras e certos direitos de pesca e de corte —, apressou-se em aproveitar essa ocasião, sob o pretexto de entender-se com o padre abade, a fim de dar por terminado aquele negócio amigavelmente. Um visitante animado de tão boas intenções podia ser recebido no mosteiro com mais atenções que um simples curioso. Estas considerações fizeram com que se insistisse junto ao stariets, o qual, desde algum tempo, não deixava mais sua cela e recusava mesmo, por causa de sua doença, receber os simples visitantes. Deu seu consentimento e foi marcado o dia. "Quem me encarregou de decidir entre eles?*', declarou ele somente a Aliócha, com um sorriso. 
     Ao saber dessa reunião, ficou Aliócha muito perturbado. Se algum dos adversários em luta podia tomar aquela entrevista a sério, era seguramente seu irmão Dimítri, e somente ele; os outros iriam com intenções frívolas e talvez ofensivas para o stariets. Aliócha o compreendia bem. Seu irmão Ivã e Miúsov para ali se dirigiam levados pela curiosidade e seu pai para fazer o papel de palhaço, se bem que guardando silêncio. Conhecia-o a fundo. Repito-o, aquele rapaz não era tão ingênuo como todos o acreditavam. Aguardava com ansiedade o dia marcado. Sem dúvida levava muito em questão ver cessar por fim o desacordo na sua família. Mas preocupava-se sobretudo com o stariets; tremia por ele, pela sua glória, temendo as ofensas, particularmente as finas zombarias de Miúsov e as reticências do erudito Ivã. Queria mesmo tentar prevenir o stariets, falar-lhe a respeito daqueles visitantes eventuais, mas refletiu e calou-se. Na véspera do dia marcado, mandou dizer a Dimítri que o amava muito e esperava dele o cumprimento de sua promessa. Dimítri, que procurou em vão lembrar-se de ter prometido alguma coisa, respondeu-lhe por carta que faria tudo para evitar uma baixeza. Embora cheio de respeito pelo stariets e por Ivã, via naquilo uma armadilha ou uma comédia indigna. "Entretanto, preferirei engolir minha língua a faltar ao respeito ao santo homem que veneras", dizia Dimítri, terminando sua carta. Aliócha nem por isso ficou reconfortado.
 
continua na página 29...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (30 de março - Uma geada)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     30 de março. Uma geada.
          Então, entrei no escritório de Kiríla Matvyéevitch. Eu daria um bom presente a qualquer um que pudesse me mostrar meu próprio rosto no momento em que aquele digno funcionário, enrolando apressadamente seu Bukhará de roupão em volta dele, se adiantasse para me encontrar com as mãos estendidas. Devo ter irradiado uma atmosfera de modesto triunfo, simpatia paternalista e magnanimidade sem limites... Senti que eu era algo da natureza de Scipio Africanus. Ozhógin estava visivelmente envergonhado e deprimido, evitou o meu olhar e se deslocou de pé em pé onde estava. Percebi também que ele falava de forma desnaturalmente alta, e ao mesmo tempo se expressava muito indefinidamente; indeterminada, mas com fervor, ele me pediu perdão, aludiu indiscriminadamente ao visitante falecido, acrescentou algumas observações gerais e indefinidas sobre o engano e a instabilidade das bênçãos terrenas, e de repente, tomando consciência de uma lágrima no olho, apressou-se a tomar uma pitada de rapé, provavelmente com o objetivo de me iludir quanto à causa que o fazia chorar... Ele usou rapé verde russo, e todo mundo sabe que aquela planta faz até mesmo homens velhos derramarem lágrimas, uma verruga que o olho humano espreita de forma tênue e sem sentido pelo espaço de vários minutos.
     É claro que tratei o velho com muita cautela, indagado após a saúde de sua esposa e filha, e ao mesmo tempo virei a conversa com arte sobre a interessante questão da rotação de culturas. Estava vestido como de costume; mas a sensação de decoro suave e condescendência suave que enchia meu peito, me proporcionou uma sensação festiva e fresca, como se eu estivesse usando um colete branco e um pano branco para o pescoço. Uma coisa me perturbou: a ideia de reencontrar Liza... Por fim, o próprio Ozhógin se propôs a me conduzir até sua esposa. Aquela mulher boa, mas estúpida, ao me contemplar, a princípio ficou assustadoramente envergonhada; mas seu cérebro foi incapaz de preservar uma e a mesma impressão por muito tempo juntos, e por isso ela rapidamente recuperou sua equanimidade. Finalmente eu vi Liza... Ela entrou na sala...
     Eu já esperava encontrar nela um pecador abominável e penitente, e já tinha transmitido antecipadamente ao meu rosto a expressão mais cordial e encorajadora... Por que eu deveria mentir? Eu realmente a amava e tinha sede da felicidade de perdoá-la, de estender minha mão para ela; mas, para meu indizível espanto, em resposta ao meu significativa reverência, ela riu friamente, comentou descuidadamente: "Ah? então é você?" e imediatamente se afastou de mim. Seu riso me pareceu forçado, é verdade, e, em todo caso, não se adaptava ao seu rosto terrivelmente emaciado... Mas, mesmo assim, eu não esperava tal recepção... Eu a encarei com espanto... Que mudança tinha acontecido nela! Entre a antiga criança e esta mulher não havia nada em comum. Ela parecia ter ficado mais alta, ter se desenhado mais reta; todos os seus traços, especialmente os lábios, pareciam ter tido um contorno mais definido... seu olhar tinha se tornado mais profundo, mais firme, mais escuro. Sentei-me com os Ozhógins até o jantar; ela se levantou, saiu da sala e voltou a se apresentar, respondeu calmamente às perguntas e, deliberadamente, não me deu atenção. Pude ver que ela desejava fazer-me sentir que eu não era digno nem da sua ira, embora eu tivesse chegado perto de matar o seu amante. Por fim, perdi a paciência: uma dica maliciosa partiu-se dos meus lábios... Ela estremeceu, ousou olhar rápido para mim, levantou-se e, caminhando até a janela, disse com uma voz que tremia um pouco: "Você pode dizer o que quiser, mas deve saber que eu amo aquele homem e sempre o amarei, e não o considere culpado para comigo no menor grau, pelo contrário...". Sua voz quebrou com um tilintar, ela pausou... tentou se controlar, mas não conseguia, e rompeu em lágrimas e saiu da sala... O mais velho Ozhógins ficou confuso... Apertei a mão com os dois, suspirei, lancei um olhar para cima e fui embora.
     Estou muito fraco, resta pouco tempo para mim, não estou em condições de descrever com minha minuciosidade anterior essa nova série de meditações torturadoras, intenções firmes e outros frutos do chamado conflito interior, que começou em mim após a renovação do meu convívio com os Ozhógins. Não duvidava que Liza ainda amava e amaria o Príncipe por muito tempo.... mas, sendo um homem domesticado agora pelas circunstâncias e que se resignou ao seu destino, eu nem sonhava com o seu amor: Eu só desejava sua amizade, queria ganhar sua confiança, seu respeito, que, segundo afirmações de pessoas experientes, é considerado como a base mais confiável para a felicidade no casamento... Infelizmente, eu havia perdido de vista uma circunstância bastante importante - a de que Liza me odiava desde o dia do duelo. Eu aprendi isso tarde demais.
     Comecei a frequentar a casa dos Ozhógins a partir de então. Kiríla Matvyéevitch era mais cordial comigo e me acariciava mais do que nunca. Tenho até motivos para pensar que na época ele me teria dado sua filha com prazer, embora eu não fosse um par invejável: a opinião pública o condenou e a Liza, e, por outro lado, me lançou aos ares. O tratamento que Liza deu a mim não mudou: ela manteve silêncio a maior parte do tempo, obedeceu quando foi convidada a comer, não mostrou sinais externos de dor, mas, mesmo assim, desperdiçou-se como uma vela. Devo fazer justiça a Kiríla Matvyéevitch: ele a poupou de todas as maneiras possíveis; a velha Madame Ozhógin apenas se levantou enquanto olhava para sua pobre filha. Havia apenas um homem que Liza não evitava, embora ela não falasse muito com ele, a saber, Bizmyónkoff. Os velhos Ozhógins o trataram com severidade, mesmo que grosseiramente; não puderam perdoá-lo por ter agido como segundo; mas ele continuou a vir à casa deles, como se não notasse o desfavor deles. Comigo ele era muito frio, e - estranho dizer!- eu sentia medo dele, por assim dizer. Este estado de coisas durou cerca de quinze dias. Por fim, depois de uma noite sem dormir, decidi ter uma conversa com Liza, para lhe expor o meu coração; para lhe dizer que, apesar do passado, apesar de todo tipo de boatos e fofocas, eu deveria me considerar feliz demais se ela me favorecesse com a mão, me devolvesse a sua confiança. Eu realmente, sem brincadeira, imaginava que eu estava exibindo, como dizem os compêndios da literatura, um exemplo inédito de magnanimidade, e que ela daria seu consentimento por pura estupefação. Em todo caso, eu queria esclarecer a situação com ela, e fugir, definitivamente, do meu estado de incerteza.
     Atrás da casa dos Ozhógins havia um jardim bastante espaçoso, terminando em uma talhadia de tília, negligenciada e superpovoada. No meio desta talhadia ergueu-se uma velha árvore ao estilo chinês; uma cerca de tábua separou o jardim de um beco sem saída. Liza às vezes passeava horas a fio sozinha neste jardim. Kiríla Matvyéevitch sabia disso e tinha dado ordens para que não fosse incomodada, e vigiava-a: "Que a dor dela se canse", disse ele. Quando ela não foi encontrada na casa, bastava tocar uma pequena campainha no alpendre na hora do jantar, e ela se apresentava imediatamente, com a mesma taciturna obcecada nos lábios e no olhar, e uma espécie de folha amarrotada na mão. Então, um dia, observando que ela não estava na casa, fingi que estava me preparando para partir, me despedi de Kiríla Matvyéevitch, coloquei meu chapéu, e saí da ante-sala para o pátio, e do pátio para a rua, mas instantaneamente, com extraordinária rapidez, escorreguei de volta pelo portão e passei pela cozinha para o jardim. Por sorte, ninguém me viu. Sem parar muito para pensar, entrei no bosque com passos apressados. Diante de mim, no caminho, estava Liza. Meu coração começou a bater violentamente no meu peito. Parei curto, suspirei fundo, e estava a ponto de me aproximar dela, quando de repente, sem me virar, ela levantou a mão e começou a ouvir... Por trás das árvores, na direção do beco cego, duas batidas soaram claramente, como se alguém estivesse batendo na cerca. Liza bateu palmas, um leve rangido da porta do postigo tornou-se audível, e Bizmyónkoff emergiu da talhadia. Eu prontamente me escondi atrás de uma árvore. Liza virou-se silenciosamente para ele... Silenciosamente ele puxou o braço dela através do dele, e ambos caminharam suavemente ao longo do caminho. Eu os olhava com espanto. Eles pararam, olharam em volta deles, desapareceram atrás dos arbustos, apareceram novamente, e finalmente entraram nos arbusto. Esta árvore tinha forma circular, um pequeno edifício, com uma porta e uma pequena janela; no centro, uma velha mesa com uma única perna, coberta de fino musgo verde; dois divãs de tábuas desbotadas ficavam nos lados, a alguma distância das paredes úmidas e escuras. Aqui, em dias excepcionalmente quentes, e que uma vez por ano, e em épocas anteriores, tinham o hábito de tomar chá. A porta não fechava de forma alguma; a moldura já havia caído da janela há muito tempo e, pegando por um canto, balançou de luto, como a asa ferida de um pássaro. Eu me furtei até a árvore e olhei cautelosamente através de uma fenda da janela. Liza estava sentada em um dos pequenos divãs, com a cabeça inclinada; sua mão direita estava no colo; Bizmyónkoff estava segurando a esquerda em ambas as mãos. Ele estava olhando para ela com simpatia.

"Como você se sente hoje?" - perguntou-lhe ele, em voz baixa.

     E acrescentou: "Mesmo assim" - respondeu ela - "nem melhor nem pior" - "nem melhor nem pior" - "e acrescentou, levantando os olhos com desalento.
     Bizmyónkoff não respondeu.

"O que você acha", prosseguiu ela;-"Será que ele vai me escrever de novo?"
"Eu não acho, Lizavéta Kiríllovna!"

     Ela ficou em silêncio por um tempo.

"E, na verdade, sobre o que ele pode escrever? Ele me contou tudo em sua primeira carta. Eu não podia ser sua esposa; mas fui feliz... não por muito tempo.... Eu era feliz....".

     Bizmyónkoff baixou os olhos.

"Akh," - prosseguiu com animação;-"se você soubesse o quanto o Tchulkatúrin é repugnante para mim!.... Sempre me parece que eu posso ver ..... o sangue dele ... nas mãos daquele homem". (escrevi atrás da minha rachadura.) "Entretanto," - acrescentou ela pensativamente;-"quem sabe, - talvez não tivesse sido para aquele duelo..... Akh, quando o vi ferido, senti imediatamente que eu era toda dele".
"Tchulkatúrin te ama," -comentou Bizmyónkoff.
"O que me importa isso? Eu preciso do amor de alguém?...". Ela pausou, e acrescentou lentamente: ... "exceto o seu. Sim, meu amigo, o seu amor é indispensável para mim: sem você eu deveria ter perecido. Você me ajudou a suportar momentos terríveis....".

     Ela cessou..... Bizmyónkoff começou a acariciar sua mão com ternura paterna. "Não há ajuda para isso, não há ajuda para isso, Lizavéta Kiríllovna," - repetiu, várias vezes consecutivas.

"Sim, e agora," - disse ela, sem fazer barulho, - "acho que eu deveria morrer se não fosse por você". Só você me sustenta; além disso, me lembra.... Pois tu sabes tudo. Você se lembra como ele era bonito naquele dia?..... Mas perdoa-me: deve ser doloroso para ti.....".
"Fale, fale! O que você quer dizer com isso? Deus te abençoe!" -Bizmyónkoff a interrompeu. Ela apertou a mão dele.
"Você é muito gentil, Bizmyónkoff," - continuou ela:-"você é tão gentil quanto um anjo". O que eu devo fazer? Eu sinto que vou amá-lo até morrer. Eu o perdoei, eu lhe sou grata. Que Deus lhe conceda a felicidade! Que Deus lhe dê uma esposa conforme o seu próprio coração" - E seus olhos cheios de lágrimas - "Se ao menos ele não me esquece, se ao menos de vez em quando ele lembrará de sua Liza. Vamos sair," - acrescentou ela, após uma breve pausa.

     Bizmyónkoff levantou a mão para os lábios dele.

"Eu sei - ela começou com calor - que todos estão me culpando, todos estão jogando pedras em mim agora". Deixe-os! Mesmo assim, eu não trocaria minha infelicidade pela felicidade deles... não! não! não!... Ele não me amou por muito tempo, mas ele me amou! Ele nunca me enganou: ele não me disse que eu seria sua esposa; eu mesma nunca pensei em tal coisa. Só o pobre papai esperava por isso. E agora eu ainda não estou totalmente infeliz: resta-me a memória, e por mais terríveis que sejam as consequências... Estou sufocada aqui... foi aqui que eu o vi pela última vez... Vamos para o ar"...

     Eles se levantaram. Eu mal consegui saltar para o lado e me esconder atrás de uma tília grossa. Eles saíram da árvore e, até onde pude julgar pelo som dos seus passos, saíram para o bosque. Não sei quanto tempo fiquei ali parado, sem me mexer do local, absorto numa espécie de surpresa irracional, quando de repente o som dos passos se tornou audível novamente. Eu comecei e espreitei cautelosamente da minha emboscada. Bizmyónkoff e Liza estavam voltando pelo mesmo caminho. Ambos estavam muito agitados, especialmente Bizmyónkoff. Ele estava chorando, aparentemente. Liza parou, olhou para ele, e pronunciou as seguintes palavras com clareza: "Eu concordo, Bizmyónkoff. Eu não teria consentido, se você apenas quisesse me salvar, para me tirar de uma posição assustadora; mas você me ama, você sabe tudo - e você me ama; eu nunca encontrarei um amigo mais confiável e fiel. Eu serei tua esposa".
     Bizmyónkoff beijou a mão dela; ela sorriu tristemente para ele, e foi para a casa. Bizmyónkoff correu para a mata, e eu segui o meu caminho. Como Bizmyónkoff provavelmente havia dito a Liza exatamente o que eu pretendia dizer a ela, e como ela havia dado a ele exatamente a resposta que eu esperava ouvir dela, não havia necessidade de me incomodar mais. Quinze dias depois, ela casou com ele. Os velhos Ozhógins ficaram felizes em conseguir qualquer noivo.
     Bem, diga-me agora, eu não sou um homem supérfluo? Será que eu não fiz em todo esse caso o papel de um homem supérfluo? O papel do Príncipe... quanto a isso, não há nada a dizer; o papel de Bizmyónkoff também é compreensível... Mas eu? por que me envolvi nisso?... que estúpida quinta roda para a carroça que eu era!... Akh, isso é amargo, amargo!... Então agora, como dizem os estivadores do Volga: "Heave-ho! heave-ho!" - um dia a mais, depois outro, e nada mais será amargo ou doce para mim.

continua em... 31 de março 
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29 de março - Uma geada leve / 30 de março - Uma geada /          
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Dentes de ferro sobre o Brasil (6)

 A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra


PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     38. Dentes de ferro sobre o Brasil
          Pelo ferro que compram do Brasil e da Venezuela, os Estados Unidos pagam menos do que pelo ferro extraído de seu próprio subsolo. Mas esta não é a chave da ânsia norte americana de apossar-se de jazidas de ferro no exterior: a posse ou o controle das minas fora de suas fronteiras constitui, mais do que um negócio, um imperativo da segurança nacional. O subsolo norte-americano, como vimos, já se exaure. Sem o ferro não se faz o aço, e 85 por cento da produção industrial dos Estados Unidos, de uma forma ou de outra, contém aço. Quando, em 1969, reduziram-se os fornecimentos do Canadá, houve um imediato aumento das importações da América Latina.
     O cerro Bolívar, na Venezuela, é tão rico que a terra dele retirada pela US Steel Co. é carregada diretamente para os porões dos navios rumo aos Estados Unidos. O cerro expõe em suas encostas as profundas feridas que lhe infligem os bulldozers: a empresa estima que contém cerca de oito bilhões de dólares em ferro. Num só ano, em 1960, a US Steel e a Bethlehem Steel repartiram ganhos equivalentes a mais de 30 por cento do capital investido no ferro da Venezuela, e o volume desses lucros resultou igual à soma de todos os impostos pagos ao Estado venezuelano nos dez anos transcorridos desde 1950 [1]. Como as duas empresas vendem o ferro com destino aos seus próprios estabelecimentos siderúrgicos nos Estados Unidos, não têm o menor interesse na defesa do preço; ao contrário, convêm-lhes que o custo da matéria-prima seja o mais barato possível. A cotação internacional do ferro, que caíra verticalmente entre 1958 e 1964, estabilizou-se relativamente nos anos posteriores e permanece estancada; entrementes, o preço do aço não parou de subir. O aço é produzido nos centros ricos do mundo, o ferro nos subúrbios pobres; o aço paga salários de “aristocracia operária”, e o ferro, diárias de mera subsistência.

[1] PLAZA, Salvador de la. In: Perfiles de la economía venezolana, volume coletivo. Caracas, 1964.

     Graças às informações recolhidas e divulgadas, lá por 1910, por um Congresso Internacional de Geologia reunido em Estocolmo, os homens de negócios dos Estados Unidos puderam, pela primeira vez, avaliar as dimensões dos tesouros escondidos sob o solo de uma série de países, um dos quais, talvez o mais tentador, era o Brasil. Muitos anos depois, em 1948, a embaixada dos Estados Unidos criou um cargo novo no Brasil, o adido mineral, que logo teve tanto trabalho quanto o adido militar e o adido cultural: tanto que, rapidamente, foram designados dois adidos minerais no lugar de um só [2]. Pouco depois, a Bethlehem Steel recebia do governo de Dutra as esplêndidas jazidas de manganês do Amapá. Em 1952, o acordo militar assinado com os Estados Unidos proibiu o Brasil de vender matérias-primas de valor estratégico – como o ferro – para os países socialistas. Esta foi uma das causas da trágica queda do presidente Getúlio Vargas, que desobedeceu essa imposição e, em 1953 e 1954, vendeu ferro para a Polônia e a Tchecoslováquia a preços mais altos do que aquele que era pago pelos Estados Unidos. Em 1957, a Hanna Mining Co. comprou, por seis milhões de dólares, a maioria das ações de uma empresa britânica, a Saint John Mining Co., que se dedicava à extração do ouro em Minas Gerais desde os distantes tempos do Império. A Saint John operava no vale do Paraopeba, onde jaz a maior concentração de ferro do mundo inteiro, avaliada em 200 bilhões de dólares. A empresa inglesa não estava legalmente habilitada a explorar essa fabulosa riqueza, e tampouco a Hanna estaria, de acordo com as claras disposições constitucionais e legais que Duarte Pereira enumera em sua obra sobre o tema. Mas este foi, logo se soube, o negócio do século.

[2] PEREIRA, Osny Duarte. Ferro e independência. Um desafio à dignidade nacional. Rio de Janeiro, 1967.

     George Humphrey, diretor presidente da Hanna, era então membro proeminente do governo dos Estados Unidos, como secretário do Tesouro e como diretor do Eximbank, o banco oficial para financiamento de operações de comércio exterior. A Saint John havia solicitado um empréstimo ao Eximbank: não teve sorte até que a Hanna se apoderou da empresa. A partir de então, desencadearam-se as mais furiosas pressões sobre os sucessivos governos do Brasil. Os diretores, advogados e assessores da Hanna – Lucas Lopes, José Luiz Bulhões Pereira, Roberto Campos, Mário da Silva Pinto, Otávio Gouveia de Bulhões – eram também membros de alto nível do governo do Brasil, e continuaram ocupando cargos de ministros, embaixadores ou diretores de serviços nos ciclos seguintes. A Hanna não havia escolhido mal seu estado-maior. O bombardeio se tornou cada vez mais intenso para que fosse reconhecido à Hanna o direito de explorar o ferro que, a rigor, pertencia ao Estado. Em 21 de agosto de 1961 o presidente Jânio Quadros assinou uma resolução que anulava as ilegais autorizações estendidas a favor da Hanna e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional. Quatro dias depois, os ministros militares obrigaram Quadros a renunciar: “Forças terríveis se levantaram contra mim...”, dizia o texto da renúncia.
     O levantamento popular encabeçado por Leonel Brizola em Porto Alegre frustrou o golpe dos militares e colocou no poder o vice-presidente de Quadros, João Goulart. Em julho de 1962, quando um ministro quis pôr em prática o decreto fatal contra a Hanna – que fora mutilado no Diário Oficial –, o embaixador dos Estados Unidos, Lincoln Gordon, enviou um telegrama a Goulart, protestando com viva indignação pelo atentado que o governo ia cometer contra os interesses da uma empresa norte-americana. O Poder Judiciário confirmou a validade da resolução de Jânio Quadros, mas Goulart vacilava. Enquanto isto, o Brasil dava os primeiros passos para estabelecer um entreposto de minerais no Adriático, com o fim de abastecer de ferro vários países europeus, capitalistas e socialistas: a venda direta do ferro significava um desafio insuportável para as grandes empresas que manejam os preços em escala mundial. O entreposto nunca se tornou realidade, mas outras medidas nacionalistas – como o dique oposto à drenagem dos lucros das empresas estrangeiras – passaram a viger e proporcionaram detonadores para a explosiva situação política. A espada de Dâmocles da resolução de Quadros permanecia em suspenso sobre a cabeça da Hanna. Até que, no último dia de março de 1964, prorrompeu um golpe de Estado em Minas Gerais, casualmente o cenário das jazidas de ferro em disputa. “Para a Hanna”, escreveu a revista Fortune, “a revolta que derrubou Goulart na primavera passada chegou como um desses resgates de último minuto pelo Primeiro de Cavalaria.” [3]

[3] “Immovable mountains”. Fortune, abril de 1965.

     Homens da Hanna passaram a ocupar a vice presidência do Brasil e três dos ministérios. No mesmo dia da insurreição militar, o Washington Star havia publicado um editorial no mínimo profético: “Eis aqui uma situação em que um bom e efetivo golpe de Estado, no velho estilo, de líderes militares conservadores, pode servir aos melhores interesses de todas as Américas” [4]. Goulart ainda não renunciara nem abandonara o Brasil quando Lyndon Johnson, sem poder conter-se, enviou seu célebre telegrama ao presidente do Congresso brasileiro, que havia assumido provisoriamente a presidência do país: “O povo norte americano acompanhou com ansiedade as dificuldades políticas e econômicas pelas quais tem atravessado sua grande nação, e admirou a resoluta vontade da comunidade brasileira de solucionar essas dificuldades no marco da democracia constitucional e sem guerra civil” [5]. Pouco mais de um mês decorrera quando o embaixador Lincoln Gordon, que percorria euforicamente os quartéis, pronunciou um discurso na Escola Superior de Guerra, afirmando que o triunfo da conspiração de Castelo Branco “poderia ser incluído, ao lado da proposta do Plano Marshall, do bloqueio de Berlim, da derrota da agressão comunista na Coreia e da solução da crise dos foguetes em Cuba, como um dos mais importantes momentos de mudança na história mundial de meados do século XX” [6]. Um dos membros militares da embaixada dos Estados Unidos tinha oferecido ajuda material aos conspiradores, pouco antes da eclosão do golpe [7], e o próprio Gordon lhes sugerira que os Estados Unidos reconheceriam um governo se ele fosse capaz de se sustentar dois dias em São Paulo [8]. Não vale a pena esbanjar testemunhos sobre a importância que teve, no desenvolvimento e no desenlace dos acontecimentos, a ajuda econômica dos Estados Unidos, da qual, de resto, nos ocuparemos mais adiante, ou a assistência norte-americana no plano militar ou sindical. [9]

[4] Conf. PEDROSA, Mário. A opção brasileira. Rio de Janeiro, 1966.
[5] De Lyndon Johnson a Rainieri Mazzilli, 2 de abril de 1964, versão da Associated Press.
[6] Segundo informou o jornal O Estado de São Paulo, 4 de maio de 1964.
[7] STACCHINI, José. Mobilização de audácia. São Paulo, 1965.
[8] SIEKMAN, Philip. “When Executives Turned Revolutionaries”. Fortune, julho de 1964.
[9] Vejam-se as declarações ante o Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, citadas por MAGDOFF, op. cit., e o revelador artigo de Eugene Methvin em Selecciones de Reader’s Digest em espanhol, de dezembro de 1966: segundo Methvin, graças aos bons serviços do Instituto Americano para o Desenvolvimento do Sindicalismo Livre, com sede em Washington, os golpistas brasileiros puderam coordenar por telegrama seus movimentos de tropa, e o novo regime militar recompensou o IADSL designando quatro de seus graduados “para que fizessem uma limpa nos sindicatos dominados pelos vermelhos (...)”.

     Depois que cansaram de atirar na fogueira ou ao fundo da baía da Guanabara os livros de autores russos tais como Dostoiévski, Tolstói ou Gorki, e depois ainda de ter condenado ao exílio, à prisão ou à sepultura um número considerável de brasileiros, a flamante ditadura de Castelo Branco pôs mãos à obra: entregou o ferro e todo o resto. A Hanna recebeu seu decreto de 24 de dezembro de 1964. Esse presente de Natal não só lhe dava toda a segurança para explorar em paz as jazidas do Paraopeba, como também garantia os planos da empresa de ampliar um porto próprio a 60 milhas do Rio de Janeiro e de construir uma ferrovia destinada ao transporte do ferro. Em outubro de 1965, a Hanna formou um consórcio com a Bethlehem Steel para a exploração conjunta do ferro presenteado. Essa espécie de aliança, frequente no Brasil, não pode se efetivar nos Estados Unidos, pois ali as leis a proíbem [10]. O incansável Lincoln Gordon tinha chegado ao fim de sua missão – já todo mundo era feliz e a fábula havia terminado– e passara a presidir uma universidade em Baltimore. Em abril de 1966, Johnson designou seu substituto, John Tuthill, depois de vários meses de vacilações, e explicou que se demorara porque para o Brasil era preciso nomear um bom economista.

[10] DUARTE PEREIRA, op. cit.

     A US Steel não ficou atrás. Acaso pretendiam deixá-la sem convite para o jantar? Pouco depois se associou com a empresa mineira do Estado, a Companhia Vale do Rio Doce, que assim se transformou em seu pseudônimo oficial. Por esta via a US Steel, resignando-se a nada mais do que 49 por cento das ações, obteve a concessão das jazidas de ferro da serra dos Carajás, na Amazônia. Sua magnitude, segundo afirmam os técnicos, é comparável à coroa de ferro da Hanna-Bethlehem em Minas Gerais. Como de costume, o governo aduziu que o Brasil não dispunha de capitais para fazer a exploração por sua própria conta.

continua na página 248...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: Dentes de ferro sobre o Brasil (6)

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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (V.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

V
continuando...


     Justamente a dois quilômetros das primeiras casas, um pouco abaixo do cruzamento da estrada real com o caminho de Vandame, a Sra. Hennebeau e suas convidadas acabavam de assistir ao desfile do bando. O dia em Marchiennes passara-se alegremente, com um almoço delicioso na casa do diretor das Forjas e com uma interessante visita às oficinas e a uma fábrica de vidros das vizinhanças, como programa da tarde. Quando enfim voltavam, naquele límpido fim de um belo dia de inverno, Cécile tivera a fantasia de beber um copo de leite numa pequena fazenda da beira da estrada. Todos desceram da caleça. Négrel galantemente apeou do cavalo. A camponesa, assustada ao ver gente tão distinta, não sabia o que fazer, dizia que ia colocar uma toalha antes de servir. Mas Lucie e Jeanne quiseram ver a ordenha e todos foram para o estábulo com os copos na mão, transformando a idéia num piquenique, rindo muito ao afundarem-se na palha.
     A Sra. Hennebeau, sempre dando-se ares de mãe condescendente, sorvia o leite aos golinhos, quando um barulho estranho vindo de fora e que ia num crescendo a inquietou. 

— Que é isso?

     O estábulo, construído à beira da estrada, possuía uma porta larga, para carroça, porque servia ao mesmo tempo de palheiro. As moças já tinham espichado os pescoços e espantavam-se com o que viam à esquerda: uma vaga negra, uma multidão que desembocava ululante do caminho de Vandame. 

— Diabo! — murmurou Négrel, que também tinha saído. — Será que os nossos gabolas decidiram brigar? 
— Devem ser outra vez os mineiros — disse a camponesa. — Já passaram por aqui duas vezes. Parece que a coisa vai mal, eles estão donos da região.

     Dizia cada palavra com cautela, observando o efeito que produzia. Quando notou o pavor de todos, a profunda ansiedade em que aquele encontro os lançava, apressou-se a concluir: 

— São uns patifes!

     Négrel, vendo que era tarde demais para subirem à carruagem e voltarem a Montsou, deu ordem ao cocheiro para que abrigasse depressa a caleça no pátio da fazenda, onde a parelha de cavalos ficou escondida por trás de um galpão. Ele mesmo amarrou dentro desse galpão o seu cavalo, que um garoto segurava pela rédea. Ao voltar, encontrou sua tia e as moças fora de si, prontas a seguirem a camponesa, que lhes propusera refugiarem se dentro de casa. Mas ele foi de opinião que ali estavam mais seguros, certamente ninguém viria procurá-los dentro da palha. A porta do estábulo não fechava direito e tinha tantos buracos, que se via a estrada por entre suas tábuas apodrecidas. 

— Vamos, coragem! — disse ele. — Venderemos caro a nossa vida.

     Essa brincadeira aumentou o medo. O barulho aproximava-se, mas ainda não se via nada; na estrada deserta parecia soprar um vento agreste, igual a essas rajadas bruscas que precedem as tempestades. 

— Não, não quero ver — disse Cécile, indo encolher-se na palha.

     A Sra. Hennebeau, muito pálida, cheia de ódio contra aquela gentalha que estragava um dos seus prazeres, mantinha-se atrás lançando olhares oblíquos e enojados, enquanto Lucie e Jeanne, apesar de trêmulas, espiavam por uma fresta, não querendo perder nada do espetáculo.
     O ribombar de trovão aproximava-se, a terra foi sacudida e Jeanlin passou na vanguarda, soprando a sua cometa. 

— Apanhem os sais, é o suor do povo que está passando — murmurou Négrel, que, apesar das suas convicções republicanas, gostava de rir da canalha em companhia das senhoras.

     Mas seu gracejo foi carregado pelo furacão dos gestos e gritos. As mulheres tinham aparecido, cerca de mil, cabelos ao vento, desgrenhados pela correria, os farrapos deixando à mostra a pele nua, nudez de fêmeas exaustas de parir mortos-de-fome. Algumas traziam os filhos nos braços, e levantavam-nos, agitando-os como uma bandeira de luto e vingança. Outras, mais jovens, com peitos estufados de guerreiras, brandiam paus, enquanto as velhas, monstruosas, berravam tão alto que as veias dos seus pescoços descarnados pareciam rebentar. Em seguida vieram os homens, dois mil furiosos, aprendizes, britadores, consertadores, verdadeira massa compacta que rolava como se fosse feita de um só bloco, apertada, confundida, a ponto de não se distinguirem as calças desbotadas ou os suéteres esfarrapados, esbatidos na mesma uniformidade terrosa. Os olhos faiscavam, viam-se apenas os buracos negros das bocas cantando a Marselhesa, cujas estrofes se perdiam num bramido confuso acompanhada pelo bater dos tamancos na terra dura. Acima das cabeças, entre a floresta de barras de ferro, passou um machado, bem ao alto. Esse único machado, que era como o estandarte do bando, desenhava no céu claro o perfil aguçado de um cutelo de guilhotina. 

— Que caras horrendas! — balbuciou a Sra. Hennebeau. Négrel disse entre dentes: 
— O diabo me carregue se eu reconheço um único! De onde terão saído esses bandidos?

     Realmente, a cólera, a fome, os dois meses de sofrimentos e aquela correria desenfreada pelas minas tinham transformado em mandíbulas de animais ferozes as feições plácidas dos mineiros de Montsou. Naquele momento o sol desaparecia; os últimos raios, de um púrpuro sombrio, pareciam ensangüentar a planície. E a estrada também pareceu lavada em sangue; as mulheres e os homens continuavam marchando, cobertos de sangue, como carniceiros em plena matança. 

— Oh! maravilhoso! — disseram a meia voz Lucie e Jeanne, tocadas, no seu gosto de artistas, por aquele belo hórrido.

     Mas mesmo assim tinham medo, recuando para perto da Sra. Hennebeau, que se apoiava numa manjedoura. Gelava-lhes o sangue nas veias pensar que bastava um olhar por entre as frestas daquela porta desconjuntada para que fossem massacrados. Também Négrel, que de ordinário era corajoso, sentia-se empalidecer, presa de um pavor mais forte que a sua valentia, um desses pavores que sopram do desconhecido. Cécile, aninhada na palha, nem se movia. E os outros, apesar do seu desejo de desviarem os olhos, não podiam, continuavam olhando.
     Era a visão vermelha que arrastaria a todos, fatalmente, numa dessas noites sangrentas desse fim de século. Sim, uma noite, o povo em torrentes, desenfreado, correria assim pelos caminhos, gotejando o sangue burguês, exibindo cabeças, semeando o ouro dos cofres arrombados. As mulheres gritariam, os homens abririam suas queixadas de lobos, prontos para morderem. Sim, seriam os mesmos farrapos, o mesmo matraquear de tamancos grosseiros, a mesma turba assustadora, suja, de hálito fétido, varrendo o mundo caduco com a sua irresistível avalanche de bárbaros. Arderiam incêndios, nas cidades não ficaria pedra sobre pedra, regredir-se ia à vida selvagem das florestas após o grande cio, o grande rega-bofe, em que os pobres, numa só noite, extenuariam as mulheres e esvaziariam as adegas dos ricos. Não sobraria nada, as fortunas e os títulos das situações adquiridas desapareceriam, até o dia em que talvez desabrochasse uma nova sociedade. Sim, eram essas coisas que estavam passando pela estrada, como uma força da natureza, e vinha delas o vento terrível que lhes açoitava os rostos.
     Um enorme clamor se elevou, dominando a Marselhesa: 

— Pão! Pão! Pão!

     Lucie e Jeanne abraçaram-se à Sra. Hennebeau, que parecia sem sentidos, enquanto Négrel se colocava diante delas como para protegê-las com seu corpo. Seria naquela mesma noite que a velha sociedade viria abaixo? O que viram então acabou de atordoá-los. O bando escoava, na frente do estábulo passava agora um grupo de retardatários, quando surgiu a filha de Mouque. Ela sempre ficava para trás, espiando os burgueses pelos portões dos jardins, pelas janelas das casas. Quando descobria um, não podendo cuspir-lhe no rosto, mostrava-lhe o que era para ela o cúmulo do desprezo Sem dúvida tinha descoberto algum, porque, de repente, levantou as saias, espichou as nádegas, mostrou seu enorme traseiro, completamente nu aos últimos raios do sol. Aquela massa disforme não tinha nada de obsceno nem fazia rir, era antes feroz.
     Como tinha vindo, desaparecera; a onda rolava agora para Montsou pela estrada em ziguezagues, por entre as casas baixas pintadas de cores vivas. A caleça foi novamente para fora, mas o cocheiro disse que não se responsabilizava em levar de volta para casa a senhora e as senhoritas com os grevistas ocupando a estrada. E o pior era que não havia outro caminho. 

— Mas temos de voltar, o jantar nos espera! — disse a Sra. Hennebeau fora de si, exasperada pelo medo. — Essa escória foi escolher logo hoje, quando tenho convidados. Vá-se fazer bem a uma gentalha como essa!

     Lucie e Jeanne tentavam retirar Cécile da palha; esta debatia-se, pensando que os selvagens ainda estavam desfilando, e repetindo que não queria ver. Finalmente todas entraram no carro e Négrel, já a cavalo, teve a ideia de passar pelas ruelas de Réquillart. 

— Dirija devagar — disse ele ao cocheiro —, porque o caminho é muito ruim. Se mais adiante algum bando o impedir de voltar à estrada, pare atrás da mina velha e nós iremos a pé, entrando pelo portão do jardim, enquanto você guarda o carro e os cavalos no galpão da primeira estalagem que encontrar.

     E, assim, partiram. O bando, ao longe, espalhava-se por Montsou. Após terem visto passar por duas vezes os policiais e a cavalaria, os habitantes do lugar agitavam-se, cheios de pânico. Corriam histórias terríveis, falava-se de cartazes manuscritos ameaçando os burgueses com uma carnificina. Ninguém os tinha lido, mas assim mesmo citavam frases textuais. Sobretudo em casa do notário o terror estava no auge, porque ele acabava de receber por baixo da porta uma carta anônima em que o advertiam de que um barril de pólvora estava enterrado na sua adega, pronto para explodir se ele não se declarasse a favor do povo.
     Os Grégoire, que justamente protelavam o fim de sua visita em razão da chegada dessa carta, discutiam-na, afirmando ser obra de algum trocista, quando a invasão do bando acabou de apavorar a casa. Eles sorriam e espiavam por uma fresta de cortina, recusando-se a admitir um perigo qualquer, certos de que tudo terminaria amigavelmente, como diziam. Como eram apenas cinco horas, tinham tempo, esperariam que a rua estivesse livre para ir jantar defronte, na casa dos Hennebeau, onde Cécile, certamente já de volta devia esperá-los. Mas em Montsou ninguém parecia partilhar da confiança deles, pessoas passavam correndo, portas e janelas fechavam-se violentamente. Perceberam Maigrat, do outro lado da estrada, entrincheirando seu armazém com trancas de ferro, tão pálido e trêmulo, que sua raquítica mulherzinha é quem tinha de apertar os parafusos.
     O bando concentrara-se diante do palacete do diretor e gritava sem parar: 

— Pão! Pão! Pão!

     O Sr. Hennebeau estava em pé à janela quando Hippolyte entrou para fechar os postigos, temendo que os vidros fossem quebrados a pedradas. Fechou assim todo o térreo e passou ao primeiro andar; ouviam se distintamente os rangidos dos fechos e o bater das persianas. Infelizmente não se podia fechar da mesma forma o respiradouro da cozinha, no subsolo, uma abertura perigosa onde se refletia o fogo das panelas e da assadeira.
     Maquinalmente, o Sr. Hennebeau, que queria ver, subiu novamente ao segundo andar, ao quarto de Paul; era o mais bem situado, à esquerda, permitindo descortinar a estrada até os depósitos da companhia. E escondeu-se atrás da persiana, dominando a multidão. Mas o quarto apoderou-se dele uma outra vez, o toucador limpo e em ordem, o leito frio, com os lençóis trocados e lisos. Toda a sua raiva da tarde, a furiosa batalha que tivera lugar no âmago do grande silêncio da sua solidão, transformava se num imenso cansaço. O seu ser era agora como aquele quarto, arrefecido, varrido das imundícies da manhã, de volta à ordem habitual. De que serviria um escândalo? Sua mulher tinha simplesmente um amante a mais; o grave era que o escolhera dentro da família. Mas talvez houvesse uma vantagem; dessa maneira salvava as aparências. Encheu-se de autopiedade ao lembrar se do seu ciúme louco. Que ridículo ter esmurrado a cama! Já não tinha tolerado outro homem? Podia muito bem tolerar este. Seria apenas o problema de mais um pouco de desprezo. Um amargor terrível envenenava lhe a boca, a inutilidade de tudo, a eterna dor de viver, a vergonha de si próprio, que continuava a adorar e desejar essa mulher, mesmo na imundície em que a abandonava.
     Embaixo da janela os gritos explodiram com redobrada violência: 

— Pão! Pão! Pão! 
 — Imbecis! — disse o Sr. Hennebeau por entre os dentes fechados.

     Ouvia que o injuriavam por receber ordenados polpudos, que o chamavam de vagabundo, barrigudo, de canalha que tinha indigestões de iguarias enquanto o operário morria de fome.
     As mulheres haviam descoberto a cozinha e houve uma verdadeira tempestade de imprecações contra o faisão que assava contra os molhos cujo cheiro gorduroso aguilhoava seus estômago vazios. Ah, burgueses imundos, haviam de empanturrá-los d champanha e trufas até verem suas tripas estourar! 

— Pão! Pão! Pão! 
— Imbecis! — repetiu o Sr. Hennebeau. — Acaso eu sou feliz! Enchia-se de cólera contra aquela gente que não compreendia.

     Dar-lhes-ia com prazer seu polpudo ordenado para ter, como eles, o couro resistente, a cópula fácil e sem remorso. Com que prazer os poria à sua mesa, os cevaria com seu faisão, enquanto ele iria fornicar atrás das sebes, derribar as moças, rindo daqueles que já tinham feito o mesmo com elas antes dele! Daria tudo, sua educação, seu bem-estar, seu luxo, sua autoridade de diretor, para ser, por um dia, o último dos miseráveis que lhe obedeciam, liberto da sua carne, bastante patife para bater na esposa e ir procurar seu prazer com as vizinhas. E queria também morrer de fome, ter a barriga vazia, o estômago contraído pelas cãibras e o cérebro com vertigens, talvez isso matasse a eterna dor. Ah! viver como um animal, nada ter de seu, acampar nos trigais com a operadora de vagonetes mais feia, mais suja, e ter a capacidade de ser feliz! 

— Pão! Pão! Pão!

     Fora de si, gritou furiosamente no meio do alarido: 

— Pão! Só isso chega, imbecis?

     Ele comia, mas assim mesmo estertorava de tanto sofrimento. Seu lar destruído, toda a sua vida de amargura subia-lhe à garganta num espasmo de morte. Era um desgraçado porque tinha pão. Quem era o idiota que punha a felicidade deste mundo na repartição da riqueza? Esses revolucionários sonhadores podiam destruir a sociedade e criar uma nova, mas não tomariam maior a alegria da humanidade, nem diminuiriam suas tristezas, cortando a cada um a sua fatia de pão. O que fariam seria aumentar as desgraças da terra, levando até os cães a uivar de desespero ao se verem arrancados da tranquila satisfação dos instintos para serem elevados ao sofrimento insaciável das paixões. Não, o único bem era não ser, ou, sendo, ser a árvore, a pedra, menos ainda, o grão de areia que não pode sangrar sob o tacão dos viandantes.
     E no auge do seu tormento, seus olhos encheram-se de lágrimas que começaram a escorrer em gotas ardentes pelo rosto. O crepúsculo engolfava a estrada, quando as pedras começara a esburacar a fachada do palacete. Já incapaz de cólera contra aqueles famintos, fendo apenas com a chaga em fogo do seu coração, continuou a balbuciar por entre lágrimas: 

— Imbecis! Imbecis! 

     Mas o grito das barrigas vazias foi mais forte; como uma tempestade varrendo tudo, soprou o bramido: 

— Pão! Pão! Pão!

continua na página 306...
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Quinta Parte - (V.a) / Quinta Parte - (V.b) / 
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.