O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes
SEGUNDA PARTE
HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA
44. As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas
Protecionismo contra livre-câmbio, o país contra o porto: no
fundo, esta foi a luta que ardeu por trás das guerras civis
argentinas durante o século passado. Buenos Aires, que no
século XVII ainda era uma grande aldeia de 400 casas,
apoderou-se da nação inteira a partir da Revolução de Maio
e da independência. Era o porto único, e por ele tinham de
passar todos os produtos que entravam e saíam do país. As
deformações que a hegemonia portenha impôs à nação se
notam claramente em nossos dias: a capital abarca, com
seus subúrbios, mais de um terço da população total da
Argentina, e exerce sobre as províncias diversas formas de
proxenetismo. Naquela época, detinha o monopólio da
renda aduaneira, dos bancos e da emissão de moeda, e
prosperava vertiginosamente à custa das províncias do
interior. A quase totalidade da receita de Buenos Aires
provinha da alfândega nacional, que o porto usurpava em
proveito próprio, e mais da metade se destinava aos gastos
de guerra contra as províncias, que deste modo pagavam
para ser aniquiladas.
[1]
[1] URGIN, Miron. Aspectos económicos del federalismo argentino. Buenos
Aires, 1960.
Da Sala de Comércio de Buenos Aires, fundada em
1810, os ingleses alongavam seus telescópios para vigiar a
passagem dos navios e abasteciam os portenhos com
tecidos finos, flores artificiais, guarda-chuvas, botões e
chocolates, enquanto uma inundação de ponchos e estribos
de fabricação inglesa fazia seus estragos no interior do país.
Para aquilatar a importância que o mercado mundial então
atribuía aos couros rio-platenses, é preciso remontar a uma
época em que os plásticos e os revestimentos sintéticos não
existiam nem mesmo como suspeita na imaginação dos
químicos. Nenhum cenário mais propício que a fértil planície
do litoral para a criação de gado em larga escala. Em 1816,
descobriu-se um novo sistema que permitia conservar
indefinidamente os couros, através de um tratamento de
arsênico; de resto, prosperavam e se multiplicavam as
charqueadas. O Brasil, as Antilhas e a África abriam seus
mercados para a importação do charque, e na medida em
que a carne salgada, cortada em mantas secas, ia
ganhando consumidores estrangeiros, os consumidores
argentinos notavam a mudança. Criaram-se impostos para o
consumo interno da carne, ao mesmo tempo em que eram
desoneradas as exportações; em poucos anos, o preço dos
novilhos se multiplicou por três, e as estâncias valorizaram
suas terras. Os gaúchos estavam acostumados a caçar
livremente os novilhos a céu aberto, no pampa sem
aramados, para comer o lombo e se desfazer do resto, com
a única obrigação de entregar o couro ao dono do campo.
As coisas mudaram. A reorganização da produção implicava
a submissão do gaúcho nômade a uma nova dependência
servil: um decreto de 1815 estabeleceu que todo homem do
campo que não tivesse propriedades seria reputado
servente, com a obrigação de portar uma papeleta assinada
a cada três meses pelo seu patrão. Ou era servente, ou era
vadio, e os vadios eram incorporados, à força, nos batalhões
de fronteira
[2]. O criollo rude, que servira de carne de
canhão nos exércitos patriotas, era convertido em pária, em
peão miserável ou em milico de fortim. Ou se rebelava,
lança em punho, no redemoinho das montoneras
[3]. Esse
gaúcho arisco, despossuído de tudo exceto de glória e de
coragem, nutriu as cargas de cavalaria que por vezes
desafiaram os bem armados exércitos de linha de Buenos
Aires. O surgimento da estância capitalista, no pampa
úmido do litoral, colocava todo o país a serviço das
exportações de couro e carne, e a marchar de mãos dadas
com a ditadura do porto livre-cambista de Buenos Aires. O
uruguaio José Artigas havia sido, até a derrota e o exílio, o
mais lúcido dos caudilhos que lideraram o combate das
massas criollas contra os comerciantes e os terras-tenentes
atados ao mercado mundial, mas muitos anos depois Felipe
Varela ainda foi capaz de desencadear uma grande rebelião
no norte argentino porque, como constava em sua
proclamação, “ser provinciano é ser mendigo sem pátria,
sem liberdade, sem direitos”. Sua insurreição encontrou
ressonância em todo o interior mediterrâneo. Foi o último
montonero; morreu tuberculoso e na miséria, em 1870
[4]. O
defensor da “União Americana”, projeto de ressurreição da
Pátria Grande despedaçada, ainda é considerado um
bandoleiro – como o era Artigas não faz muito – na história
argentina ensinada nas escolas.
[3] A montonera “nasce no descampado como os redemoinhos. Arremete,
brada e despedaça como os redemoinhos e se detém, de repente, e morre como
eles” . VEGA DÍAZ, Dardo de la. La Rioja heroica. Mendoza, 1955.
José Hernández, que foi soldado da causa federal, cantou no Martín Fierro, o
mais popular dos livros argentinos, as desditas do gaúcho desterrado de sua
querência e perseguido pela autoridade: Vive el áquila en su nido, / el tigre vive
en la selva, / el zorro en la cueva agena, / y en su destino inconstante, / sólo el
gaucho vive errante / donde la suerte o lleva. / Porque: Para él son los
calabozos, / para él las duras prisiones, / en su boca no hay razones / aunque la
razón le sobre, / que son campanas de palo / las razones de los pobres.
José Abelardo Ramos observa (Revolución y contrarrevolución en la Argentina. Buenos Aires, 1965) que os dois sobrenomes verdadeiros que aparecem no
Martín Fierro são os de Anchorena y Gainza, nomes representativos da oligarquia
que exterminou a criollaje em armas, e que hoje em dia se fundiram na família
proprietária do diário La Prensa.
Ricardo Güiraldes mostrou em Don Segundo Sombra ( Buenos Aires, 1939) o
rosto oposto de Martín Fierro: o gaúcho domesticado, amarrado à diária,
bajulador do patrão, bom para ser usado no folclore nostálgico ou para ser
lastimado.
[4] ORTEGA PEÑA, Rodolfo & DUHALDE, Eduardo Luis. Felipe Varela contra el
Imperio Británico. Buenos Aires, 1966. Em 1870, também o Paraguai caía
banhado em sangue pela invasão estrangeira. Era o único Estado latino
americano que não tinha entrado na prisão imperialista.
Felipe Varela nascera num pequeno povoado perdido
entre as serras de Catamarca e tinha sido uma sentida
testemunha da pobreza de sua província, arruinada pelo
porto soberbo e distante. Em fins de 1824, quando Varela
tinha três anos de idade, Catamarca não conseguiu pagar os
gastos dos delegados que enviou ao Congresso Constituinte
que se reuniu em Buenos Aires, e na mesma situação
estavam Misiones, Santiago del Estero e outras províncias.
O deputado catamarquenho Manuel Antonio Acevedo
denunciava a “ominosa mudança” que a concorrência dos
produtos estrangeiros havia provocado: “Catamarca tem
olhado há algum tempo, sem poder solucionar, os
problemas de nossa agricultura, com produtos inferiores às
suas despesas; e também para sua indústria, sem um
consumo capaz de alentar aqueles que a fomentam e a
exercem, e para seu comércio, quase em total abandono
[5].
O representante da província de Corrientes, general
brigadeiro Pedro Ferré, resumia assim, em 1830, as
consequências possíveis do protecionismo que ele
propugnava: “Sim, sem dúvida, um pequeno número de
homens de fortuna padecerá, pois estarão privados de
excelentes vinhos e licores (...). As classes menos
acomodadas não acharão muita diferença nos vinhos e
licores que atualmente bebem, exceto no preço, e
diminuirão o consumo, o que não me parece prejudicial.
Nossos camponeses não usarão ponchos ingleses; não vão
levar consigo boleadeiras e laços feitos na Inglaterra; não
vestiremos roupas de estrangeiros; e outras regras que
podemos fixar; mas em troca começará a ser menos
desgraçada a condição de povoados inteiros de argentinos,
e não nos perseguirá a lembrança da espantosa miséria a
que hoje são condenados”.
[6]
[5] URGIN, op. cit.
[6] ÁLVAREZ, op. cit.
Dando um passo importante para a reconstrução da
unidade nacional dilacerada pela guerra, o governo de Juan
Manuel de Rosas, em 1835, editou uma lei aduaneira que
extração protecionista. A lei proibia a importação de
manufaturas de ferro e latão, arreios de cavalo, ponchos,
cintos, faixas de lã ou de algodão, xergas, produtos
granjeiros, rodas de carroças, velas de sebo e pentes, e
estipulava pesados impostos à introdução de carruagens,
sapatos, cordões, roupas, cavalgaduras, frutas secas e
bebidas alcoólicas. Não era cobrado imposto sobre a carne
transportada em navios de bandeira argentina, e eram
estimuladas as correarias nacionais e a cultura do tabaco.
Os efeitos foram notados sem demora. Até a batalha de
Caseros, que derrubou Rosas em 1852, navegavam pelos
rios escunas e navios construídos nos estaleiros de
Corrientes e Santa Fé, havia em Buenos Aires mais de 100
fábricas prósperas, e todos os viajantes coincidiam na
opinião de que eram excelentes os tecidos e os sapatos
elaborados em Córdoba e Tucumán, os cigarros e os
artesanatos de Salta, os vinhos e as aguardentes de
Mendoza e San Juan. A marcenaria de Tucumán exportava
para o Chile, Bolívia e Peru
[7]. Dez anos depois da
aprovação da lei, os navios de guerra da Inglaterra e da
França rebentaram a canhonaços as correntes estendidas
no rio Paraná, abrindo à navegação os rios interiores
argentinos que Rosa mantivera, dir-se-ia, hermeticamente
fechados. À invasão seguiu-se o bloqueio. Dez memoriais
dos centros industriais de Yorkshire, Liverpool, Manchester,
Leeds, Halifax e Bradford, assinados por 1.500 banqueiros,
comerciantes e industriais, tinham instado o governo inglês
a tomar providências contra as restrições impostas ao
comércio no Prata.
[7] RAMOS, op.cit.
A despeito dos progressos decorrentes da lei aduaneira,
o bloqueio evidenciou as limitações da indústria nacional,
que não estava capacitada para satisfazer a demanda
interna. Na verdade, desde 1841 o protecionismo vinha
enfraquecendo,
ao
invés
de
acentuar-se;
Rosas
representava como ninguém os interesses dos estancieiros
charqueadores da província de Buenos Aires, e não existia,
nem nasceu, uma burguesia industrial capaz de impulsionar
o desenvolvimento de um capitalismo nacional autêntico e
pujante: a grande estância ocupava o centro da vida
econômica do país, e nenhuma política industrial podia ser
empreendida com independência e vigor sem derrubar a
onipotência do latifúndio exportador. Rosa, no fundo,
sempre permaneceu fiel à sua classe. “O homem que era o
melhor ginete da província”
[8], guitarrista e bailarino,
grande domador, que se orientava nas noites de tormenta e
sem estrelas mastigando algumas ervas do pasto, e era um
grande estancieiro produtor de carne seca e couros, os
terras-tenentes tinham convertido em seu chefe. A lenda
negra que logo foi urdida para difamá-lo não pode ocultar o
caráter nacional e popular de muitos de seus atos de
governo
[9], mas a contradição de classes explica a ausência
de uma política industrial dinâmica e sustentada, que
ultrapassasse a cirurgia aduaneira, no governo do caudilho
dos pecuaristas. Esta ausência não pode ser atribuída à
instabilidade e às penúrias implícitas nas guerras nacionais
e no bloqueio estrangeiro. Afinal, em meio ao torvelinho de
uma revolução acossada, vinte anos antes José Artigas
combinou suas normas industrialistas e integradoras com
uma reforma agrária em profundidade.
[8] USANICHE, José Luis. Rosas visto por sus contemporáneos. Buenos Aires,
1955.
[9] José Rivera Indarte realizou, em suas célebres Tablas de sangre, um
inventário dos crimes de Rosas, para estremecer a sensibilidade europeia.
Segundo o Atlas de Londres, a casa bancária inglesa de Samuel Lafone pagou ao
escritor um pêni por morto. Rosas havia proibido a exportação de ouro e prata,
duro golpe no Império, e dissolvera o Banco Nacional, que era um instrumento
do comércio britânico. CADY, John F. La intervención extranjera en el Río de la
Plata. Buenos Aires, 1943.
Num livro fecundo, Vivian Trías compara o
protecionismo de Rosas com o ciclo de medidas que Artigas
irradiou desde a anda Oriental, entre 1813 e 1815, para
conquistar a verdadeira independência na área do vice
reinado rio-platense. Rosas não proibiu os mercadores
estrangeiros de exercer o comércio no mercado interno,
nem devolveu ao país as rendas alfandegárias que Buenos
Aires continuou usurpando, nem terminou com a ditadura
do porto único. No entanto, a nacionalização do comércio
interior e a quebra do monopólio portuário e alfandegário de Buenos Aires haviam sido capítulos fundamentais da política
artiguista,
assim como a questão agrária. Artigas
pretendera a livre navegação nos rios interiores, mas Rosas
nunca abriu às províncias essa chave de acesso ao comércio
de ultramar. No fundo, Rosas também permaneceu fiel à sua
privilegiada província. A despeito de todas essas limitações,
o nacionalismo e o populismo do “gaúcho de olhos azuis”
seguem gerando ódio nas classes dominantes argentinas.
Rosas continua sendo “réu de lesa-pátria”, de acordo com
uma lei de 1857 ainda vigente, e o país ainda se nega a
abrir uma sepultura nacional para seus ossos enterrados na
Europa. Sua imagem oficial é a imagem de um assassino.
Superada a heresia de Rosas, a oligarquia se reencontrou com seu destino. Em 1858, o presidente da comissão diretora da exposição rural declarava inaugurado o evento com estas palavras: “Nós, que ainda estamos na infância, contentemo-nos com a humilde ideia de enviar àqueles bazares europeus os nossos produtos e matérias primas, para que nos devolvam transformados por meio dos poderosos agentes de que dispõem. O que pede a Europa são matérias-primas, para trocá-las por ricos artefatos”. [10]
Superada a heresia de Rosas, a oligarquia se reencontrou com seu destino. Em 1858, o presidente da comissão diretora da exposição rural declarava inaugurado o evento com estas palavras: “Nós, que ainda estamos na infância, contentemo-nos com a humilde ideia de enviar àqueles bazares europeus os nossos produtos e matérias primas, para que nos devolvam transformados por meio dos poderosos agentes de que dispõem. O que pede a Europa são matérias-primas, para trocá-las por ricos artefatos”. [10]
[10] Discurso de Gervásio A. de Posadas, conf. CÚNEO, Dardo. Comportamiento
y crisis de la clase empresaria. Buenos Aires, 1967. Em 1876, o ministro da
Fazenda disse no Congresso: “Não devemos criar um direito exagerado que
torne impossível a entrada do calçado, de modo que quatro remendões aqui
floresçam, enquanto mil fabricantes de calçado estrangeiros não possam vender
um só par de sapatos”.
O ilustre Domingo Faustino Sarmiento e outros
escritores liberais viram na montonera camponesa não mais
do que o símbolo da barbárie, o atraso e a ignorância, o
anacronismo das campanhas pastoris frente à civilização
que a cidade encarnava: o poncho e o chiripá contra o
fraque; a lança e o punhal contra a tropa de linha; o
analfabetismo contra a escola
[11]. Em 1861, Sarmiento
escrevia a Mitre: “Não economize sangue dos gaúchos, é a
única coisa que eles têm de humano. É preciso tornar útil
para o país este adubo”. Tanto desprezo e tanto ódio
revelavam uma negação da própria pátria que continha
também, por certo, uma expressão de política econômica:
“Não somos industriais nem navegantes”, afirmava
Sarmiento, “e a Europa nos abastecerá de seus produtos
por longos séculos, em troca de nossas matérias
primas.”
[12]
[11] AZÁN, Armando Raúl. Las bases sociales de la montonera. Revista de
Historia Americana y Argentina. Mendoza (7-8), 1962-3.
[12] SARMIENTO, Domingo Faustino. Facundo. Buenos Aires, 1952.
O presidente artolomeu Mitre, a partir de 1862, levou
adiante uma guerra de extermínio contra as províncias e
seus últimos caudilhos. Sarmiento foi nomeado comandante
da guerra e as tropas marcharam rumo ao norte para matar
gaúchos, “animais bípedes de tão perversa condição”. Em
La Rioja, Chacho Peñaloza, general das planícies, que
irradiava sua influência até Mendoza e San Juan, era um dos
últimos redutos da rebelião contra o porto, e Buenos Aires
considerou que havia chegado a hora de acabar com ele.
Cortaram-lhe a cabeça e a cravaram, em exibição, no centro
da Praça de Olta. A ferrovia e as estradas arremataram a
ruína de La Rioja, que havia começado a revolução em
1810: o livre-câmbio provocou a crise de seus artesanatos e
acentuou a crônica pobreza da região. No século XX, os
camponeses de La Rioja fogem de suas aldeias nas
montanhas ou nas planícies e descem até Buenos Aires para
oferecer seus braços: como os camponeses de outras
províncias, só chegam às portas da cidade. Nos subúrbios
encontram lugar junto a outros 700 mil habitantes das villas
miserias e, bem ou mal, arranjam-se com as migalhas do
banquete da grande capital. Você nota mudanças naqueles
que foram embora e voltam de visita? – perguntaram os
sociólogos aos 150 sobreviventes de uma aldeia de La Rioja,
há poucos anos. Eles responderam, com inveja, que em Buenos Aires tinham melhorado o traje, os modos e a
maneira de falar dos emigrados, e que alguns, inclusive,
tinham voltado “mais brancos”.
[13]
[13] MARGULIS, Mario. Migración y marginalidad en la sociedad argentina. Buenos Aires, 1968.
continua na página 302...
____________________
Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas (4)
_____________________________
o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?