Fiódor Dostoiévski
PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
VI
SMIERDIÁKOV
Encontrou Fiódor Pávlovitch ainda à mesa. Como de
hábito, a mesa fora posta no salão e não na sala de
jantar. Era a peça maior da casa, mobiliada com
certa pretensão antiquada. Os móveis, bastante
antigos, eram brancos, cobertos por um estofo
vermelho, meio seda, meio algodão. Havia tremós
de molduras pretensiosas, esculpidas à velha moda,
igualmente brancas e douradas. Nas paredes, cuja
tapeçaria branca estava rasgada em muitos lugares,
figuravam dois grandes retratos, o de um antigo
governador-geral da província, e o de um prelado,
também morto desde muito tempo. No ângulo que
fazia face à porta de entrada encontravam-se vários
ícones, diante dos quais ardia uma lâmpada
durante a noite, menos por devoção do que para
iluminar a sala. Fiódor
Pávlovitch deitava-se muito tarde, às 3 ou 4 horas da
madrugada, e até então passeava de lá para cá ou
meditava em sua poltrona. Tornara-se isso um
hábito. Passava muitas vezes a noite sozinho, depois
de ter despedido os criados, mas a maior parte do
tempo o criado Smierdiákov dormia na antecâmara,
deitado em cima de uma comprida arca. À chegada
de Aliócha, o jantar estava no fim, haviam-se servido
a sobremesa e o café. Fiódor Pávlovitch gostava de
doces, após o jantar, com conhaque. Ivã estava
tomando café com seu pai. Os criados, Gregório e
Smierdiákov, conservavam-se perto da mesa. Amos
e
servidores achavam-se visivelmente de bom
humor. Fiódor Pávlovitch ria às gargalhadas; desde o
vestíbulo, reconheceu Aliócha sua risada semelhante
a latidos, que lhe era tão familiar. Concluiu dali que
seu pai, ainda longe da embriaguez, encontrava-se
em felizes disposições.
— Ei-lo afinal! — exclamou Fiódor Pávlovitch,
encantado com a chegada de Aliócha. — Vem sentar
te conosco. Queres café forte? É famoso e está
fervendo. Não te ofereço conhaque porque estás
jejuando. Mas se quiseres... Não, dar-te-ei antes
licores de boa qualidade. Smierdiákov, abre o
armário, eles se acham na segunda prateleira, à
direita, aqui estão as chaves. Ufa!
Aliócha fez gesto de que recusava os licores.
—
Servi-los-ão mesmo assim para nós, já que não
queres. Dize-me, já jantaste?
Aliócha respondeu que sim; na realidade, comera um
pedaço de pão e beber a um copo de kvas na
cozinha do padre abade
— Tomarei de bom grado
uma xícara de café quente. — Ah! o espertalhão!
Não recusa o café! Será preciso esquentá-lo? Mas
não, está ainda fervendo. É café famoso, preparado
por Smierdiákov. É mestre em fazer café, tortas e
sopas de peixe. Virás um dia tomar a sopa de peixe
aqui. Avisa-me com antecedência. A propósito, não
te disse que transportasses teu colchão e teus
travesseiros hoje mesmo? Já o fizeste? Ah! ah! ah!
— Não, não os trouxe — respondeu Aliócha, também
rindo. — Ah! tiveste medo, no entanto, tiveste medo!
Serei capaz de fazer- te sofrer, meu querido? Escuta,
Ivã, não posso resistir, quando ele me fita
nos olhos, rindo. A alegria dilata-me as entranhas,
somente ao vê-lo.
Gosto dele! Aliócha, vem receber minha bênção.
Aliócha
levantou-se,
mas
Fiódor
Pávlovitch
reconsiderara.
— Não, farei somente um sinal-da
cruz, assim, vai-te sentar. Pois bem, ficarás contente,
a propósito de teu assunto favorito, vais rir. A burra
de Balaão falou, e que linguagem a dela!
A burra de
Balaão não era outro senão o criado Smierdiákov,
rapaz de 24 anos, insociável e taciturno, embora não
fosse selvagem ou acanhado; pelo contrário, era
arrogante e parecia desprezar todo mundo. Chegou
o momento de falar a seu respeito, ainda que pouco.
Educado por Marfa Ignátievna e Gregório
Vassílievitch, o garoto, "natureza ingrata", segundo a
expressão de Gregório, crescera selvagem no seu
canto. Na sua infância, tinha prazer em enforcar os
gatos, enterrando-os depois com grande cerimonial.
Para fazer isto, cobria-se com uma colcha de cama,
à guisa de casula, e cantava, agitando um simulacro
de turíbulo por cima do cadáver. Tudo isso no maior
mistério.
Gregório surpreendeu-o um dia e
chicoteou-o rudemente. Durante uma semana, o
garoto enfurnou-se num canto, olhando de través.
"Ele não gosta de nós, o monstro", dizia Gregório a
Marfa.
"Aliás,
não
gosta
de
ninguém. És
verdadeiramente um ser humano?", perguntou ele
uma vez a Smierdiákov. "Mas não, nasceste da
umidade do banheiro..."
Smierdiákov, como se viu
posteriormente, jamais lhe perdoara essas palavras.
Gregório ensinou-o a ler e a história sagrada desde
que completou doze anos. Mas esta tentativa foi
infeliz. Um dia, numa das primeiras lições, o menino
pôs-se a rir.
— Que tens? — perguntou Gregório,
olhando-o severamente por cima de seus óculos.
— Nada. Deus criou o mundo no primeiro dia; o sol, a
lua e as estrelas no quarto dia. Donde vinha, pois, a
luz do primeiro dia?
Gregório ficou estupefato. O
menino olhava seu amo com ar irônico, seu olhar
parecia mesmo provocá-lo. Gregório não pôde
conter-se:
"Eis
donde ela veio!", exclamou,
esbofeteando-o violentamente.
O menino não se
moveu, mas meteu-se de novo no seu canto por
vários dias. Uma semana depois, teve ele uma
primeira crise de epilepsia, doença que não o deixou
mais dali por diante. Tendo conhecimento disso,
Fiódor Pávlovitch mudou logo sua maneira de tratar
o garoto. Até então olhava-o com indiferença, se
bem que não o repreendesse nunca e lhe desse 1
copeque
todas as vezes em que o encontrava. Quando estava
de bom humor,
mandava-lhe sobremesa de sua mesa. A doença do
menino provocou sua solicitude; mandou buscar um
médico;
ensaiou-se
um
tratamento,
mas
Smierdiákov era incurável. Em média, tinha uma
crise uma vez por mês, a intervalos irregulares. Os
ataques variavam de intensidade, ora fracos, ora
violentos.
Fiódor Pávlovitch proibiu terminantemente
que Gregório batesse no menino e deu-lhe acesso à
sua casa. Proibiu igualmente qualquer estudo até
nova ordem.
Um dia — tinha Smierdiákov então
quinze anos — Fiódor Pávlovitch viu-o lendo os
títulos das obras através dos vidros da biblioteca.
Fiódor Pávlovitch possuía uma centena de volumes,
mas nunca fora visto a folheá-los. Deu logo as
chaves
a
Smierdiákov.
"Toma,
serás
meu
bibliotecário; senta-te e lê, será melhor do que
andares à toa pelo pátio. Toma isto", e Fiódor
Pávlovitch deu-lhe Serões na Quinta de Dikanhka¹.
[1] Primeira coletânea de novelas de Gógol (1831).
Esse livro não agradou ao rapaz, que o acabou de ler
com ar sombrio, sem ter rido uma vez sequer.
— Pois bem! Não é divertido? — perguntou Fiódor
Pávlovitch. Smierdiákov permaneceu calado.
— Responde, pois, imbecil.
— Só há mentiras, aqui dentro — resmungou
Smierdiákov, sorrindo.
— Vai-te para o diabo, alma
de lacaio! Espera, eis aqui a História Universal, de
Smarágdov. Aqui tudo é verdadeiro. Lê.
Mas Smierdiákov não chegou a ler dez páginas.
Achava aquilo enfadonho. Não se falou mais em
biblioteca.
Em breve Marfa e Gregório levaram ao
conhecimento de Fiódor Pávlovitch que Smierdiákov,
pouco a pouco se tornara de trato muito difícil,
fazendo-se requintado; contemplando seu prato de
sopa, examinava-o curvado, enchia uma colherada,
que olhava à luz.
— Uma barata, talvez? — perguntava por vezes
Gregório.
— Ou então uma mosca? — insinuava
Marfa.
O meticuloso rapaz não respondia nunca, mas
procedia da mesma maneira com o pão, a carne,
todas as comidas; pegando um pedaço com seu
garfo, estudava-o à luz, como num microscópio, e,
após reflexão, decidia-se a levá-lo à boca. "Dir-se-ia que é o filho de
um senhor",
murmurava Gregório, olhando-o.
Posto ao corrente
dessa mania de Smierdiákov, decretou Fiódor
Pávlovitch logo que tinha ele vocação para
cozinheiro e mandou-o a aprender sua arte em
Moscou. Passou ali vários anos e voltou bastante
mudado de aspecto; envelhecido demasiadamente
para
sua
idade,
enrugado,
amarelecido,
assemelhava-se a um skópiets. Moralmente, era
quase o mesmo de antes da partida; sempre um
verdadeiro
selvagem
que
não
procurava
absolutamente a sociedade. Não dizia palavra em
Moscou, como se soube mais tarde. A própria cidade
muito pouco o interessara. Tendo ido uma vez ao
teatro, voltou descontente.
Usava
roupas
de
linho
convenientes,
escovava
cuidadosamente seus ternos duas vezes por dia;
gostava muito de engraxar suas botas elegantes, de
bezerra, com uma graxa inglesa especial, que as
fazia reluzir como um espelho. Revelou-se excelente
cozinheiro.
Fiódor Pávlovitch decidiu pagar-lhe
ordenado, que era quase todo gasto em roupas,
pomadas, perfumes, etc. Parecia fazer tão pouco
caso das mulheres quanto dos homens, mostrando
se para com elas empertigado e quase inabordável. Fiódor Pávlovitch pôs-se a considerá-lo de um ponto
de vista um pouco diferente. Suas crises tornavam
se mais frequentes. Marfa substituía-o naqueles dias
na cozinha, o que não convinha absolutamente a seu
amo.
— Por que tens crises mais frequentemente? — E
olhava carrancudo para o novo cozinheiro. —
Deverias arranjar mulher, queres que te case?
Mas
Smierdiákov não respondia nada àquelas palavras,
que o tornavam lívido de despeito.
Fiódor
Pávlovitch ia-se embora, dando de ombros. Sabia-o
visceralmente honesto, incapaz de tomar ou roubar
o que quer que fosse, e era o essencial. Estando
bêbado, perdeu Fiódor Pávlovitch em seu pátio três
cédulas de 100 rublos que acabara de receber e só
se deu conta disso no dia seguinte. Ao cascavilhar
em seus bolsos, viu-os em cima da mesa.
Smierdiákov tinha-os achado e trazido na véspera.
"Nunca encontrei outro igual a ti, meu bravo", disse
laconicamente Fiódor Pávlovitch, e presenteou-o com
10 rublos.
É preciso acrescentar que não somente
estava certo de sua honestidade, mas tinha afeição
por ele, muito embora o rapaz lhe fizesse má cara,
como aos outros. Se alguém que o visse
perguntasse: "Por que se interessa esse rapaz, que é
que o preocupa sobretudo?" não se teria podido
responder, olhando-o. Entretanto, em casa, no pátio
ou na rua, parava por vezes, pensativo, e ficava
assim uma dezena de minutos. O rosto de
Smierdiákov nada teria
revelado a um fisionomista; nenhum pensamento,
pelo menos, mas
somente uma espécie de contemplação.
Há um
notável quadro do pintor Kramskói, intitulado O
Contemplativo. Uma floresta no inverno; sobre a
estrada vê-se um mujique, vestido com um cafetã
rasgado e com sapatos de tília. Ali está numa solidão
profunda e parece refletir, mas não pensa,
contempla alguma coisa. Se se desse nele um
encontrão, estremeceria e olharia como quem
desperta, mas sem compreender. Na verdade,
voltaria logo a si, mas se lhe perguntassem em que
pensava, certamente não se lembraria de nada,
mas, em compensação, decerto guardaria para si a
impressão sob cujo império se achava durante, sua
contemplação. Essas impressões são-lhe caras e se
acumulam nele, imperceptivelmente, sem que o
perceba; com que fim, ele o ignora.
Um dia, talvez,
depois de havê-las armazenado durante anos,
deixará tudo e partirá para Jerusalém, a fim de tratar
talvez
de sua salvação. Ou então deitará fogo à sua aldeia
natal ou faça
mesmo as duas coisas
sucessivamente.
Há muitos contemplativos em
nosso povo. Smierdiákov era certamente um tipo
desse gênero e armazenava avidamente suas
impressões, quase sem conhecer a razão disso.
continua na página 183...
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Leia também:
Livro 1
Livro 2
I. A chegada ao mosteiro / II. Um velho palhaço / III. As mulheres crentes / IV. Uma dama sem muita fé / V. Assim seja! /
Livro 3
IV. Confissão de um coração ardente - anedotas / V. Confissão de um coração ardente e desbocado / VI. Smierdiákov /
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Leia também:
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Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.