sábado, 11 de julho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (IV. Confissão de um coração ardente - anedotas)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
IV
CONFISSÃO DE UM CORAÇÃO ARDENTE - ANEDOTAS
    
— Entregara-me à devassidão. Meu pai dizia ainda há pouco que gastei milhares de rublos para seduzir donzelas. Imaginação de porco! É uma mentira, porque minhas conquistas não me custavam nada, a bem dizer. Para mim o dinheiro não passa do acessório, a encenação. Hoje, sou o amante de uma dama, amanhã de uma mulher das ruas. Divirto as duas, prodigando dinheiro aos punhados, com música e ciganos. Se for possível, dou dinheiro a elas, porque de qualquer forma o dinheiro não lhes desagrada; elas nos agradecem. Amaram-me senhoritas, não todas, mas as houve e muitas. Gostava dos becos, das vielas sombrias e desertas, teatro de aventuras, de surpresas, por vezes de pérolas na lama. Exprimo-me alegoricamente, irmão, esses becos só existiam figuradamente. Se fosses semelhante a mim, compreenderias. Gostava da devassidão pela sua abjeção mesma. Gostava da crueldade; não sou um percevejo, um inseto malfazejo? Um Karamázov, e está tudo dito! Uma vez, houve um grande piquenique, para onde fomos em sete tróicas, no inverno, num tempo sombrio; no trenó cobri de beijos minha vizinha, filha de um funcionário, sem fortuna, encantadora e tímida; no escuro, permitiu-me ela carícias demasiado livres. A pobrezinha imaginava que no dia seguinte iria eu pedi-la em casamento (porque era eu apreciado como possível noivo); mas fiquei cinco meses sem dizer-lhe uma palavra. Muitas vezes, quando se dançava, via-a seguir-me com o olhar num canto do salão, com os olhos a arderem duma terna indignação. Esse jogo só fazia deitar minha sensualidade perversa. Cinco meses depois, casou se ela com um funcionário e partiu... furiosa e talvez amando-me ainda. Vivem felizes, agora. Nota que ninguém sabe de nada, sua reputação está - intacta; malgrado meus vis instintos e meu amor à baixeza, não sou desonesto. Tu coras. Teus olhos cintilam. Estás farto dessa lama. No entanto, não passam de grinaldas à Paulo de Kock. Tenho, irmão, um álbum inteiro de recordações. Que Deus as guarde a essas queridas criaturas. No momento de romper, evitava as querelas. Jamais vendi nem comprometi nenhuma. Mas isto basta. Crês que te chamei somente por causa dessas sujeiras? Não, foi a fim de contar-te algo de mais curioso; mas não fiques surpreendido pelo fato de não ter eu vergonha diante de ti, sinto-me mesmo à vontade. — Fazes alusão ao meu rubor — observou, de súbito, Aliócha.
— Não são tuas palavras, nem mesmo tuas ações que me fazem corar. Coro porque sou igual a ti.
— Tu? Estás indo um pouco longe. 
— Não, não exagero — declarou Aliócha, com calor. (Via-se que estava presa dessa ideia desde muito tempo.) — A escada do vício é a mesma para todos. Acho-me no primeiro degrau; estás mais alto, no décimo terceiro, admitamos. Acho que é absolutamente a mesma coisa: uma vez posto o pé no primeiro degrau, é preciso galgar todos. — O melhor, então, é não começar? 
— Evidentemente, se é possível. 
— Pois bem, és capaz? 
— Creio que não. 
— Cala-te, Aliócha, cala-te, meu querido, tenho vontade de beijar-te a mão cheio de enternecimento. Ah! essa marota da Gruchenhka conhece os homens; dizia-me, uma vez, que um dia ou outro te devoraria. Está bem, calo-me! Mas deixemos esse terreno emporcalhado pelas moscas para chegar à minha tragédia, emporcalhada, também ela, pelas moscas, isto é, por todas as espécies de baixezas possíveis. Se bem que o velho tenha mentido a respeito de minhas pretensas seduções, isto aconteceu-me, no entanto, uma vez somente; e ainda assim não chegou a executar-se. Ele, que me censurava coisas imaginárias, nada sabe disso; não o contei a ninguém, és o primeiro a quem falo, exceto Ivã, bem entendido. Ele sabe de tudo desde muito tempo. Mas Ivã é mudo como o tumulo. 
— Como o tumulo?
— Sim.

     Aliócha redobrou de atenção.

— Embora alferes num batalhão de linha, era objeto de certa vigilância, a modo dum deportado. Mas acolhiam-me bastante bem na cidadezinha. Prodigalizava dinheiro, acreditavam-me rico e eu acre ditava que o era. Devia agradar também por outras razões. Embora abanando a cabeça por causa de minhas estroinices, tinham afeição por mim. Meu tenente-coronel, um velho, antipatizou comigo de repente. Pôs-se a amofinar-me, mas eu tinha costas largas; toda a cidade ficou a meu lado, não podia ele fazer grande coisa. A culpa era minha; por tola altivez, não lhe prestava eu as homenagens a que tinha ele direito. Aquele velho teimoso, bom homem no íntimo e muito hospitaleiro, fora casado duas vezes. Era viúvo. Sua primeira mulher, de baixa condição, deixara-lhe uma filha tão simples quanto ela mesma. Tinha a moça então 24 anos e vivia com seu pai e sua tia materna. Longe de ter a ingenuidade silenciosa de sua tia, a isso juntava muita vivacidade. Jamais encontrei caráter feminino mais encantador. Chamava-se Agáfia, imagina, Agáfia Ivânovna. Bastante bonita, ao gosto russo, grande, de boas carnes, de belos olhos, mas de expressão um pouco vulgar. Ficara solteira, malgrado dois pedidos de casamento, e conservava sua jovialidade. Travei amizade com ela, tudo muito direito, com muita honestidade. Porque travei mais de uma amizade feminina, perfeitamente pura. Falava com ela em termos bastante livres e ela só fazia rir. Muitas mulheres gostam dessa liberdade de expressão, nota-o bem; além do mais, era muito divertido com uma moça igual a ela. Um traço ainda: não se podia qualificá-la de senhorita. Sua tia e ela viviam em casa de seu pai, numa espécie de rebaixa mento voluntário, sem se igualarem ao resto da sociedade. Estimavam-na, apreciavam seus talentos de costureira, porque não cobrava ela nada, trabalhando por gentileza para suas amigas, sem todavia recusar o dinheiro, quando lhe era oferecido. Quanto ao coronel, era um dos homens notáveis do lugar. Vivia à larga. Toda a cidade era recebida em sua casa; ceava-se, dançava-se. Por ocasião de minha entrada para o batalhão, só se falava, na cidade, da próxima chegada da segunda filha do coronel. Famosa pela sua beleza, acabava de sair de um internato aristocrático da capital. É Catarina Ivânovna, a filha da segunda mulher do coronel. Esta última era nobre, de grande casa, mas não trouxera dote algum ao marido; sei-o de boa fonte. Era de boa família, com algumas esperanças, mas nada de efetivo. No entanto, quando a jovem chegou para uma temporada, a cidadezinha ficou como que galvanizada; nossas damas mais distintas, duas excelências, uma coronela, e todas as outras, em seguimento, disputavam-na; festejavam-na, era a rainha dos bailes, dos piqueniques; organizaram-se quadros vivos em benefício de não sei quais professoras. Quanto a mim, caio-me, farreio; imaginei então uma pilhéria à minha moda, que deu que falar à cidade inteira. Uma noite, em casa do comandante da bateria, Catarina Ivânovna lançou me um olhar de alto a baixo; não me aproximei dela, desdenhando travarmos conhecimento. Abordei-a algum tempo depois, igualmente num sarau. Falei lhe. Olhou- me apenas, com os lábios desdenhosos. "Espera um pouco, pensei, vingar-me-ei!" Era eu então um sujeito verdadeiramente estourado na maior parte dos casos e sentia isso. Sentia sobretudo que Catarina, longe de ser uma pensionista ingênua, tinha caráter, altivez e verdadeira virtude, sobretudo muita inteligência e instrução, o que me faltava totalmente. Pensas que eu queria pedir-lhe a mão? Absolutamente. Queria somente me vingar de sua indiferença a meu respeito. Foi então uma farra de arrebentar. Por fim; o tenente-coronel infligiu-me três dias de detenção. Naquela ocasião, nosso pai enviou-me 6 000 rublos em troca de uma renúncia formal a todos os meus direitos e pretensões à fortuna de minha mãe. Nada entendia disso então; até minha chegada aqui, irmão, até estes últimos dias e talvez mesmo agora, nada compreendi dessas disputas de dinheiro entre mim e meu pai. Mas, para o diabo tudo isso, tornaremos a falar. Já de posse desses 6 000 rublos a carta de um amigo me fez ciente de uma coisa bastante interessante, a saber, que estavam descontentes com o nosso tenente coronel, suspeito de malversações, e que seus inimigos lhe preparavam uma surpresa. Com efeito, o chefe da divisão apareceu para dirigir-lhe vigorosa reprimenda. Pouco depois foi obrigado a demitir-se. Não te contarei todos os detalhes desse negócio; tinha ele, com efeito, inimigos; ocorreu na cidade brusco resfriamento de relações com ele e toda a sua família; todo mundo os abandonava. Foi então que pus em prática minha primeira treta: encontro Agáfia Ivânovna, de quem me mantinha sempre amigo, e digo-lhe: "Faltam 4 500 rublos na caixa de seu pai..." "Como? Quando o general veio, recentemente, a soma estava completa. ." "Estava então, mas não mais agora." Ela ficou apavorada. "Não me apavore, rogo-lhe, donde soube isso?" "Tranquilize-se", digo-lhe "não falarei a ninguém, sabe você que a esse respeito sou um tumulo. Queria somente dizer-lhe isto, de qualquer modo: quando reclamarem de seu pai esses 4 500 rublos que lhe faltam, em vez de passar em julgamento na sua idade e ser degradado, mande-me sua irmã secretamente; acabo de receber dinheiro, remeter lhe-ei a soma e ninguém ficará sabendo de nada." "Ah! que patife é você!", disse ela. "Que canalha! Como ousa?" Ela foi-se embora, sufocada de indignação, e gritei-lhe às costas que o segredo seria inviolavelmente guardado. Aquelas duas mulheres, Agáfía e sua tia, eram verdadeiros anjos; adoravam a altiva Cátia*, serviam-na humildemente. Agáfia deu parte de nossa conversa à sua irmã, como vim a saber mais tarde. Era justamente o que me era preciso. "Entrementes, chega novo major para tomar o comando do batalhão. O velho coronel cai doente; fica no quarto dois dias inteiros e não presta suas contas. O Doutor Krávtchenko assegura que a doença não é simulada. Mas eis o que eu sabia com certeza, e desde muito tempo: após cada revisão de seus chefes, o coronel fazia desaparecer certa soma por algum tempo; isto remontava a quatro anos. Emprestava-a a um homem de toda confiança, um negociante, viúvo barbudo, de óculos de ouro, Trífonov. Este ia à feira, servia-se do dinheiro para seus negócios e restituía-o logo ao coronel, com um presente e uma boa comissão. Mas desta vez, Trífonov, à sua volta da feira, nada entregara (soube o, por acaso, de seu filho, um fedelho, garoto pervertido dos que mais o sejam). O coronel acorreu: 'Jamais recebi nada do senhor, respondeu o velhaco. O infeliz não põe mais pé fora de casa, com a cabeça enrolada num penso, as três mulheres aplicando-lhe gelo sobre o crânio. Chega um ordenança com a ordem de entrega da caixa imediatamente, dentro de duas horas. Ele assinou, vi mais tarde sua assinatura no registro, levantou-se, dizendo que ia vestir seu uniforme, e passou para seu quarto de dormir. Ali pegou seu fuzil de caça, carregou-o com baia, descalçou seu pé direito, apoiou a arma contra o peito, tateando com o pé para premir o gatilho. Mas Agáfia, que não esquecera minhas palavras, suspeitava de alguma coisa; tendo-se aproximado furtivamente, vigiava-o. Precipitou-se, cercou-o com seus braços pelas costas; o tiro partiu para o ar, sem ferir ninguém. Os outros acorreram, arrancaram-lhe a arma, segurando-o pelas mãos... Encontrava- me então em casa, ao crepúsculo, a ponto de sair, vestido, penteado, o lenço perfumado; pegara meu casquete; de repente, a porta se abre e vejo entrar Catarina lvânovna. "Há coisas estranhas: ninguém a notara na rua, quando vinha ela para minha casa, nem visto, nem conhecido. Eu morava em casa de duas mulheres de funcionários, pessoas idosas; faziam elas o serviço, para tudo me escutavam com deferência e guardaram por ordem minha segredo absoluto. Compreendi no mesmo instante do que se tratava. Ela entrou, de olhar fito em mim; seus olhos sombrios exprimiam a decisão, a audácia mesmo, mas o jeito de seus lábios revelava a perplexidade."

[*] Diminutivo de Catarina.
 
— Minha irmã me disse que o senhor daria 4 500 rublos, se eu viesse buscá-los... em pessoa. Eis-me aqui... dê-me o dinheiro!... — Sufocava, tomada de terror; sua voz extinguiu-se, seus lábios tremiam... Aliócha, tu me escutas ou dormes?
— Mítia, sei que me dirás toda a verdade — replicou Aliócha, comovido. 
— Podes contar com isso, não me pouparei. Meu primeiro pensamento foi o de um Karamázov. Um dia, irmão, fui picado por uma centopeia e tive de ficar quinze dias de cama, com febre; pois bem, senti então no coração a picada da centopeia, um animal venenoso, bem sabes. Eu a examinava de alto a baixo. Viste-a? É uma beleza. Mas era bela então pela sua nobreza moral, pela sua grandeza de alma e pelo seu devotamento filial, a meu lado, vil e repugnante personagem. Era, no entanto, de mim que "toda" ela dependia, corpo e alma, como que prisioneira. Confessar-lo-ei: aquele pensamento, o pensamento da centopeia, dominou-me o coração com tal intensidade que acreditei morrer de angústia. Parecia que nenhuma luta era possível: conduzir-me baixamente, como uma tarântula venenosa, sem sombra de compaixão... Isso atravessou-me mesmo o espírito. No dia seguinte, bem entendido, iria eu pedir-lhe a mão, para terminar tudo da maneira mais nobre e ninguém teria sabido nada do caso. Porque, se tenho instintos baixos, sou contudo leal. E, de súbito, ouço que me murmuram ao ouvido: "Amanhã, quando fores oferecer-lhe tua mão, ela não se mostrará e mandará expulsar-te pelo cocheiro. 'Podes difamar-me pela cidade', dirá ela, 'não tenho medo de ti!'" Olhei para a jovem afim de ver se aquela voz não mentia. A expressão de seu rosto não deixava nenhuma dúvida, por-me-iam pela porta afora. A cólera dominou-me, tive vontade de pregar- lhe a peça mais vil, uma sujeira de bodegueiro: olhá-la ironicamente e, enquanto ela se conservasse diante de mim, consterná-la, tomando a inflexão de que só são capazes os bodegueiros: "— Quatro mil rublos! Mas eu estava brincando! A senhorita contou muito facilmente com isso! Duzentos rublos, com prazer e de boa vontade; mas 4 000 é dinheiro, isso não se pode dá-lo assim levianamente. A senhorita incomodou-se por coisa alguma. "Vês tu, teria eu tudo perdido, ela teria fugido, mas aquela vingança infernal teria compensado o resto. Eu lhe teria pregado essa peça, pronto a lamentá-la em seguida a vida inteira! Acreditarás que, em semelhantes minutos, jamais olhei uma mulher, quem quer que ela fosse, com um ar de ódio — mas, juro-o sobre a cruz, durante alguns segundos contemplei-a com um ódio intenso, o ódio que só está separado do amor mais ardente por um cabelo. Aproximei-me da janela, apoiei a fronte na vidraça gelada, lembro-me de que o frio fazia-me o efeito de uma queimadura. Não a retive muito tempo, fica tranquilo; fui à minha mesa, abri uma gaveta, dela retirei um cheque de 5 000 rublos ao portador, que se encontrava no meu dicionário francês. Sem dizer uma palavra, mostrei-o, dobrei-o, entreguei-o, depois eu mesmo abri a porta da antecâmara e fiz uma profunda saudação. Ela estremeceu toda, olhou-me fixamente um segundo, ficou branca como um linho e, sem proferir uma palavra, sem brusquidão, mas ternamente, docemente, prosternou-se a meus pés, com a fronte no chão, não como uma pensionista, mas à russa! Levantou-se e fugiu. Após sua partida, tirei minha espada e quis matar-me, por que, não sei dizê-lo; teria sido absurdo, evidentemente; sem dúvida, por entusiasmo. Compreendes que possa a gente matar-se de alegria? Mas limitei- me a beijar a lâmina e a repus na bainha... Poderia muito bem não ter-te falado disso. Parece-me, aliás, que floreei um tanto, para me gabar, contando-te as lutas de minha consciência. Mas que importa! Ao diabo todos os espiões do coração humano! Eis toda a minha aventura com Catarina Ivânovna. És o único, com Ivã, a conhecê-la." 

     Dimítri Fiódorovitch levantou-se, dando alguns passos com hesitação, tirou seu lenço, enxugou a testa, depois tornou a sentar-se, mas num outro lugar, sobre o banco em frente, contra a outra parede, de modo que Aliócha teve de voltar-se totalmente para seu lado. 


continua na página 113...
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Leia também:
Livro 1
Livro 2
Livro 3 
I. Na antecâmara / II. Lisavieta Smirdiáchtchaia / III. Confissão de um coração ardente em versos / 
IV. Confissão de um coração ardente - anedotas /                                     
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Leia também: 
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (5. Não havia razão para adiar o nosso casamento)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

5



     Não havia razão para adiar o nosso casamento, e nem eu nem ele o queríamos. Kátia, é verdade, quisera ir a Moscou, a fim de comprar e encomendar peças para o enxoval, e a mãe dele exigira que, antes de casar, ele adquirisse uma nova carruagem e mobília e que forrasse a casa com papel de parede novo, mas ambos insistimos em que se deixasse isso para mais tarde, já que era tão indispensável, e se celebrasse o casamento duas semanas depois do meu aniversário, sem barulho, sem enxoval, sem convidados, sem padrinhos, ceias, champanha e todos estes acessórios convencionais do ato matrimonial. Ele me contou como a sua mãe ficara descontente pelo fato de que o casamento devia realizar-se sem música, sem montanhas de baús e sem uma reforma de toda a casa, enfim, de maneira bem diversa do casamento dela, que custara trinta mil rublos; e como ela, ao remexer em baús na despensa, conferenciara seriamente, às escondidas dele, com a governanta Máriuschka¹, sobre certos tapetes, cortinas e bandejas indispensáveis à nossa felicidade. Do meu lado, Kátia fazia o mesmo com a ama-seca Kuzmínischna. E não se podia falar disso com ela num tom de brincadeira. Estava firmemente convicta de que nós dois, ao falarmos do nosso futuro, apenas fazíamos dengos e insignificâncias, como é peculiar às pessoas nesta condição; mas que a nossa felicidade efetiva dependeria exclusivamente do corte e da costura corretos das camisas e do ponto com que se bordariam as orlas de toalhas de mesa e guardanapos. Entre o dia do Sudário e a festa de São Nicolau, comunicaram-se algumas vezes ao dia notícias confidenciais sobre o que estava sendo preparado e onde, e embora, aparentemente, as relações entre Kátia e a mãe dele fossem das mais carinhosas, já se percebia entre elas certa diplomacia um tanto hostil, ainda que sutilíssima. Tatiana Siemiônovna, a mãe dele, com a qual eu travara agora relações mais íntimas, era uma dona de casa altiva e severa, uma grã senhora dos velhos tempos. Ele amava-a não só como um filho, por obrigação, mas também como uma pessoa humana, por sentimento, considerando-a a melhor, a mais inteligente, a mais bondosa, a mais afetuosa mulher no mundo. Tatiana Siemiônovna era sempre boa conosco, particularmente comigo, e estava contente porque o filho ia casar-se, mas, quando a visitei como noiva, pareceu-me que ela queria fazer-me sentir que eu não era dos melhores partidos para o seu filho, e que não me faria mal lembrar sempre esta circunstância. Eu a compreendia totalmente e concordava com ela. 

[1] Diminutivo de Mária. (N. do T.)

     Víamo-nos diariamente nessas duas semanas derradeiras. Ele vinha jantar e ficava até meia-noite. Mas, apesar daquilo que dizia, e eu sabia que estava dizendo a verdade ao afirmar que não podia viver sem mim, ele nunca passava o dia inteiro comigo e procurava continuar ocupado com os negócios. Até o casamento, as nossas relações exteriores continuaram as mesmas de antes, não nos tratávamos por tu², ele não me beijava sequer a mão, e não só não procurava, mas até evitava ficar comigo a sós. Era como se temesse entregar-se ao nocivo excesso de ternura que havia nele. Não sei se foi ele ou eu que mudamos, mas agora eu me sentia completamente igual a ele, não encontrava nele o arremedo de simplicidade, que me desagradara antes, e frequentemente via deliciada na minha frente, em lugar de um homem que inspirava respeito e medo, uma criança dócil, perdida de felicidade. “Mas somente isso é que existia nele! — pensava eu com frequência. — Ele é uma pessoa exatamente igual a mim, não mais que isso.” Parecia-me agora que ele estava todo diante de mim e que eu passara a conhecê-lo completamente. E tudo o que eu começava a conhecer era tão simples e tão concorde comigo mesma. Até os seus planos sobre como iríamos viver juntos eram os meus próprios planos, apenas definidos mais claramente e melhor com as suas palavras.

[2] No texto original, eles se tratam por vós, que é o tratamento russo menos íntimo. (N. do T.)

     Naqueles dias, o tempo estava feio, e ficávamos quase sempre dentro de casa. As melhores conversas íntimas tinham lugar num canto, entre o piano e a janela pequena. A luz das velas refletia-se perto, na janela negra, e gotas escorriam de raro em raro sobre o vidro lustroso. Havia batidas no telhado, a água soltava borrifos na poça sob a calha, a umidade esgueirava-se pela janela. E o nosso canto parecia mais claro, mais tépido e alegre.

— E sabe? Há muito, eu queria dizer-lhe uma coisa — disse ele de uma feita em que ficamos até tarde, sentados a sós nesse canto. — Enquanto você tocava, não parei de pensar nisso. 
— Não diga nada, sei tudo — disse eu.

     Ele sorriu. 

— Sim, está certo, não falemos nisso. 
— Não, diga-me: o que é? — perguntei. 
— Trata-se do seguinte: lembra-se de quando lhe contei aquela história sobre A e B? 
— Como não lembrar essa história tola? Ainda bem que tudo acabou assim... 
— Sim, mais um pouco e toda a minha felicidade pereceria por minhas próprias mãos. Você me salvou. Mas o mais importante é que eu não parei de mentir então, e agora estou envergonhado, quero acabar de dizer o que pretendia. 
— Ah, por favor, não precisa. 
— Não tenha medo — disse ele, sorrindo. — Preciso apenas defender-me. Quando comecei a falar, eu quis argumentar. 
— Para que argumentar?! — disse eu. — Não se deve nunca. 
— Sim, eu argumentava mal. Depois de todos os meus erros e decepções, quando voltei para a roça, disse a mim mesmo decididamente que o amor acabara para mim, que ficaram para mim unicamente as obrigações do final de uma existência, de modo que por muito tempo não dava conta a mim mesmo do que significava o meu sentimento por você e onde ele podia levar-me. Eu tinha e não tinha esperança, ora me parecia que você estava procedendo com coquetismo, ora me surgia a esperança, mas eu mesmo não sabia o que ia fazer. Mas, depois daquela noite — lembra-se? Foi quando passeamos até tarde pelo jardim — eu me assustei, a minha felicidade atual pareceu-me demasiado grande e impossível. Ora, o que sucederia se eu me permitisse ter esperança, e em vão? Mas, naturalmente, eu pensava apenas em mim mesmo; porque sou um reles egoísta.

     Permaneceu algum tempo em silêncio, os olhos fixos em mim.

— Mas não era apenas tolice o que eu dizia então. Bem que eu podia e devia ter medo. Eu tomo tanto de você e posso dar tão pouco. Você ainda é criança, é um botão que ainda há de desabrochar, é a primeira vez que ama, e eu... 
— Sim, diga-me com franqueza — retruquei, mas de repente tive medo da sua resposta. — Não, não precisa — acrescentei. 
— Se eu já amei antes? Sim? — disse ele, adivinhando no mesmo instante o meu pensamento. — Posso responder. Não, não amei. Nunca tive nada que se assemelhasse a este sentimento... — Mas, de repente, uma lembrança penosa pareceu passar-lhe de relance na imaginação. — Não, e agora preciso do seu coração para ter o direito de amá-la — disse ele entristecido. — Então, não é verdade que devia mesmo pensar um pouco, antes de dizer que a amava? O que lhe dou? O amor, é verdade. 
— Mas, será pouco? — disse eu, fitando-o nos olhos. 
— É pouco, minha amiga, para você é pouco — prosseguiu. — Tem beleza e mocidade! Agora, fico muitas vezes sem dormir de noite, sempre pensando em nossa existência em comum. Vivi muito e tenho a impressão de que achei o necessário para a felicidade. Uma vida quieta, solitária, em nosso rincão distante, com a possibilidade de fazer o bem às pessoas, o bem tão fácil de fazer por elas, que não estão acostumadas com isso; depois, o trabalho, um trabalho que aparentemente traz proveito; e ainda o repouso, a natureza, os livros, a música, o amor a alguém próximo — eis a minha felicidade, acima da qual nada sonhei. E no caso, acima de tudo isso, uma companheira como você, talvez a família — é tudo o que pode desejar uma pessoa. 
— Sim — disse eu. 
— Para mim, que já passei pela mocidade, sim, mas não para você — prosseguiu ele. — Você ainda não viveu, você talvez queira ainda procurar a felicidade em outras coisas, e talvez a encontre nelas. Agora tem a impressão de que isso é felicidade, porque me ama. 
— Não, eu sempre só desejei e amei esta quieta vida familiar — disse eu. — E você apenas diz o mesmo que eu pensei.

     Ele sorriu. 

— É apenas uma impressão, minha amiga. E é pouco para você. Tem beleza e mocidade — repetiu pensativo.

     Mas eu me zanguei porque ele não me acreditava e parecia censurar me a beleza e mocidade. 

— Neste caso, por que me ama? — disse eu zangada. — Pela minha mocidade, ou por mim mesma? 
— Não sei, mas amo — respondeu, dirigindo-me o seu olhar atento, de ímã.

     Não respondi nada e fiquei fitando-o involuntariamente nos olhos. De repente, aconteceu-me algo estranho; em primeiro lugar, deixei de ver o que me cercava, depois o seu rosto desapareceu diante de mim, apenas os seus olhos, parecia, brilhavam bem em frente dos meus, em seguida tive a impressão de que esses olhos estavam dentro de mim, tudo se turvou, não vi mais nada, precisei entrecerrar os olhos, para me desprender do sentimento de prazer e medo, que este olhar suscitava em mim...
     Na véspera do dia marcado para o casamento, o tempo mudou bruscamente antes de anoitecer. E depois das chuvas que começaram no verão, apareceu a primeira noite fria e brilhante de outono. Tudo estava molhado, frio, claro, e no jardim percebiam-se pela primeira vez a amplidão outonal, uma vivacidade de colorido e nudez. O céu claro, frio e pálido. Fui dormir, feliz com o pensamento de que no dia seguinte, dia do nosso casamento, faria tempo bonito.
     Acordei com o primeiro sol, e o pensamento de que hoje... como que me assustou e me surpreendeu. Saí para o jardim. O sol apenas se erguera e brilhava fragmentário, em meio às tílias despidas e amareladas da alameda. O caminho estava forrado de folhagem farfalhante. Os cachos franzidos, de cor viva, da sorveira avermelhavam-se sobre galhos com folhas mortas pela geada, raras, retorcidas; as dálias se enrugaram e enegreceram. A geada estendia-se pela primeira vez, argêntea, sobre o verde pálido da erva e sobre as bardanas quebradas, junto à casa. No céu claro e frio, não havia e não podia haver nenhuma nuvem.

“Será possível que seja hoje? — perguntava a mim mesma, não crendo na minha felicidade. — Será possível que já amanhã eu acordarei não aqui, mas numa casa alheia, em Nikólskoie, uma casa com colunas? Será possível que não vou esperá-lo e não irei mais ao seu encontro, e não passarei mais tardes e noites falando dele com Kátia? Não ficarei mais sentada com ele ao piano, no salão da casa de Pokróvskoie? Não o acompanharei e não temerei por ele nas noites escuras?” Lembrei-me, porém, de que na véspera ele dissera que vinha ali pela última vez, e Kátia obrigara-me a experimentar o vestido de casamento, dizendo: “É para amanhã”; e eu acreditava por um instante e tornava a duvidar. “Será possível que à partir de hoje viverei lá com a sogra, sem Nadiéjda, sem o velho Grigóri, sem Kátia? Não beijarei mais, antes de dormir, a minha ama-seca e não a ouvirei dizer, segundo um velho costume, depois de fazer sobre mim o sinal da cruz: ‘Boa noite, senhorita'? Não darei mais aulas a Sônia e não vou brincar com ela, nem baterei na parede de manhã, na direção do seu quarto, nem ouvirei a sua sonora gargalhada? Será possível que a partir de hoje me tornarei estranha a mim mesma, e que se abra diante de mim uma nova vida de realização das minhas esperanças e desejos? Será possível que esta vida nova é para sempre?”

     Esperei-o impaciente, era-me penoso ficar sozinha com esses pensamentos. Ele chegou cedo, e somente na sua companhia acreditei plenamente em que seria sua esposa naquele dia, e este pensamento deixou de me assustar.
     Antes do jantar, fomos à nossa igreja, a fim de celebrar missa em memória de meu pai.

“Se ele estivesse vivo agora!” — pensei, ao voltarmos para casa, e me apoiei em silêncio no braço do homem que fora o melhor amigo daquele em que eu pensava. No decorrer da oração, encostando a cabeça à pedra fria do chão da capela, imaginei tão vivamente o meu pai, acreditei tanto em que a sua alma compreendia-me e abençoava a minha escolha, que tive a impressão de mesmo nesses momentos estar ali aquela alma, voando sobre nós, e de sentir sobre mim a sua benção. As recordações, as esperanças, a felicidade, a tristeza, fundiam-se em mim num único sentimento triunfal e agradável, em cuja direção tendiam aquele ar fresco e imóvel, a quietude, a nudez dos campos e o céu pálido, do qual caíam sobre todas as coisas raios brilhantes, mas impotentes, que tentavam queimar-me a face. Tinha a impressão de que aquele ao lado de quem eu caminhava compreendia e partilhava o meu sentimento. Ele caminhava suavemente, calado, e o seu rosto, que eu espiava de raro em raro, expressava não sei se tristeza, não sei se alegria, mas algo importante que existia tanto na natureza como em meu coração.

     De repente, voltou-se para mim, vi que pretendia dizer algo. “E se ele falar de assunto diverso daquele em que penso?” — acudiu-me à mente. Mas ele falou de meu pai, mesmo sem nomeá-lo.

— E um dia ele me disse brincando: “Case-se com a minha Macha!”. 
— Como ele seria feliz agora! — disse eu, apertando com mais força contra mim o braço que estava apoiando o meu. 
— Sim, você ainda era criança — prosseguiu ele, espiando os meus olhos —, eu beijava então estes olhos e amava-os somente porque se pareciam com os dele, e nem pensava que me seriam tão caros por si mesmos. Eu a chamava então de Macha. 
— Trate-me por “tu” — disse eu. 
— Ainda agora, eu quis dizer-te “tu” — replicou. — Tenho somente agora a impressão de que és completamente minha — e o seu olhar tranquilo, feliz, de ímã, deteve-se em mim.

     Estávamos caminhando por uma vereda não batida, através do campo, em meio aos restolhos amassados, pisados; e ouvíamos somente os nossos passos e vozes. De um lado, passada a ravina, estendia-se até o bosque distante e despido o campo coberto de palha pardacenta, e através do qual, um tanto afastado de nós, um mujique recortava com o arado uma faixa negra, cada vez mais larga. Um bando de cavalos, espalhado sob a montanha, parecia próximo. Do outro lado e na frente, indo até o jardim e a nossa casa, que aparecia atrás dele, o campo degelado de outono pretejava, e aqui e ali já apresentava faixas verdejantes. Brilhava por toda parte um sol não muito quente, teias de aranha longas, onduladas, estendiam-se sobre as coisas todas. Elas voavam à nossa volta e depositavam-se sobre a palha ressecada pelo frio, caíam-nos dentro dos olhos, sobre os cabelos e a roupa. Quando falávamos, as nossas vozes ressoavam e detinham-se sobre nós no ar imóvel, como se estivessem sozinhas em meio do mundo inteiro, sozinhas sob esta cúpula azul, sobre a qual tremia e resplandecia um sol sem calor.
     Eu também queria tratá-lo por tu, mas tinha vergonha. 

— Por que andas com essa velocidade? — disse eu depressa, quase num murmúrio, e corei contra a vontade.

     Ele caminhou mais devagar e olhou-me de modo ainda mais carinhoso, mais alegre e feliz.
     Quando voltamos para casa, já estavam ali sua mãe e visitas, sem as quais não podíamos passar, e até o momento de sairmos da igreja e sentarmo-nos na carruagem, a fim de ir a Nikólskoie, não ficamos a sós.
     A igreja estava quase vazia, eu vi com um olho somente a mãe dele, ereta sobre um tapetinho junto ao coro, Kátia de touca de fitas lilases e lágrimas sobre as faces e dois ou três criados, que me olhavam curiosos. Eu não olhava para ele, mas sentia a sua presença ao meu lado. Prestava atenção às palavras da oração, repetia-as, mas nada me repercutia na alma. Não conseguia rezar e dirigia um olhar embotado para os ícones, as velas, a cruz bordada nas costas do sacerdote, a iconóstase, a janela da igreja, e não compreendia nada. Sentia somente que me acontecia algo inaudito. Quando o sacerdote com a cruz voltou-se para nós, deu os parabéns e disse que ele me batizara e, agora, Deus lhe concedera também me casar, Kátia e a mãe dele beijaram-nos, e ouviu-se a voz de Grigóri, que chamava a carruagem, eu me espantei e assustei-me porque tudo já estava terminado, e em meu espírito não se processara nada de extraordinário, correspondente ao mistério operado sobre mim. Beijamo-nos, e este beijo foi tão esquisito, tão estranho ao nosso sentimento. “E é só isto” — pensei. Saímos para o adro, as rodas ressoaram pesadamente sob a cúpula da igreja, o ar fresco soprou-nos no rosto, ele pôs o chapéu e segurou-me o braço, a fim de ajudar-me a subir para o carro. Da janela, vi a lua frígida, rodeada de um círculo. Sentou se ao meu lado e fechou a portinhola. Algo espetou-me o coração. Pareceu-me como que ofensiva a autoconfiança com que ele o fizera. A voz de Kátia gritou-me que cobrisse a cabeça, as rodas bateram sobre o pedregulho, depois sobre a estrada macia, e avançamos. Encolhida num canto, eu olhava pela janela para os campos distantes e claros e para a estrada, que fugia em meio ao brilho frio do luar. E, sem olhar para ele, sentia-o ali, a meu lado. “E então foi só isso que me deu este instante, do qual eu tanto esperava” — pensei, e continuou a parecer-me como que ofensivo, humilhante, ficar sentada sozinha, tão perto dele. Voltei-me na sua direção, com a intenção de dizer-lhe algo. Mas as palavras não saíam, como se não existisse mais em mim o anterior sentimento de ternura, substituído que fora por sentimentos de ofensa e medo.

— Até este momento, eu não acreditei que isso pudesse acontecer — respondeu ele com doçura ao meu olhar. 
— Sim, mas eu estou assustada não sei por quê — disse eu. 
— Tem medo de mim, minha amiga? — disse ele, apanhando-me a mão e baixando sobre ela a cabeça.

     Minha mão permaneceu deitada, sem vida, na mão dele, e o meu coração foi ficando dolorido de frio. 

— Sim — murmurei.

     Mas, no mesmo instante, o coração de repente bateu-me mais forte, a mão tremeu e apertou a sua, fiquei com calor, os olhos procuravam na penumbra o seu olhar, e eu senti de repente que não o temia, que esse medo era amor, um amor novo, ainda mais forte e carinhoso que o anterior. Senti que lhe pertencia toda e que era feliz com o poderio dele sobre mim.

continua na página 64...
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Leia também...
Primeira Parte:
5. Não havia razão para adiar o nosso casamento /
Segunda Parte:  
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

Espumas Flutuantes - Uma Página de Escola Realista

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

Uma Página de Escola Realista
DRAMA CÔMICO EM QUATRO PALAVRAS 

A tragédia me faz rir, a comédia me faz chorar, 
E o drama? Nem rir, nem chorar... 
 (Pensamento de CARNIOLI)

 CENÁRIO 

A alcova é fria e pequena 
 Abrindo sobre um jardim. 
 A tarde frouxa e serena lá desmaia para o fim. 
 No centro um leito fechado 
 Deixa o longo cortinado 
 Sobre o tapete rolar... 
 Há, nas jarras deslumbrantes, 
 Camélias frias, brilhantes, 
 Lembrando a neve polar. 

Livros esparsos por terra, 
 Uma harpa caída além; 
 E essa tristeza, que encerra 
 O asilo, onde sofre alguém. 
 Fitas, máscaras e flores 
 Não sei que vagos odores 
 Falam de amor e prazer. 
 Além da frouxa penumbra 
 Um vulto incerto ressumbra 
 —O vulto de uma mulher.  

Vous, qui volez là-bas. légères hirondelles
Dites-moi, dites-moi, pourquoi vais-je mourir!
MUSSET

MÁRIO (no leito)

É tarde! É tarde! Abri-me estas cortinas 
 Deixai que a luz me acaricie a fronte!... 
 Ó sol, ó noivo das regiões divinas, 
 Suspende um pouco a luz neste horizonte! 

SÍLVIA (abrindo a janela) 

Da noite o frio vento te regela 
 O mórbido suor...  

MÁRIO

Oh! que me importa? 
 A tarde doura-me o suor da fronte... 
 — Último louro desta vida morta! 

Crepusc'lo! mocidade! natureza! 
 Inundai de fulgor meu dia extremo... 
 Quero banhar-me em vagas de harmonia. 
 Como no lago se mergulha o remo!

E que amores que sonham as esferas! 
 A brisa é de volúpia um calafrio. 
 A estrela sai das folhas do infinito, 
 Sai dos musgos o verme luzidio... 

Tudo que vive, que palpita e sente 
 Chama o par amoroso para a sombra. 
 O pombo arrula — preparando o ninho, 
 A abelha zumbe — preparando a alfombra.

As trevas rolam como as tranças negras, 
 Que a Andaluza desmancha em mago enleio. 
 E entre rendas sutis surge medrosa 
 A lua plena, qual moreno seio. 

Abre-se o ninho... o cálice... o regaço... 
 Anfitrite, corando, aguarda o noivo...  

( Longa pausa )

E tu também esperas teu esposo, 
 Ó morte! ó moça, que engrinalda o goivo!  

SÍLVIA (a meia voz, acompanhando-se na guitarra)

Dizem as moças galantes 
                                     Que as rolas são tão constantes... 
 Pois será? 
 Que morrendo-lhe os amantes, 
                                Morrem de fome, arquejantes, 
  Quem dirá? 

Dizem sábios arrogantes 
 Que nestas terras distantes, 
 Não por cá, 
 Sobre piras fumegantes 
                            Morrem viúvas constantes, 
 Pois será? 

Não creio nos navegantes 
 Nem nas histórias galantes, 
 Que há por lá. 
 Fome e fogueiras brilhantes 

Cá não há... 
 Mas inda morrem amantes 
                    De saudades lacerantes 
 Quem dirá? 

MÁRIO ( vendo-a chorar) 

(Aos últimos arpejos cai-lhe umas lágrimas 

Sílvia! Deixa rolar sobre a guitarra, 
 Da lágrima a harmonia peregrina! 
 Sílvia! cantando— és a mulher formosa! 
 Sílvia! chorando—és a mulher divina!  

Oh! lágrimas e pérolas! — aljofares 
 Que rebentais no interno cataclismo, 
 Do oceano — este, dédalo insondável! 
 Do coração—este profundo abismo!  

Sílvia! dá-me a beber a gota d'água, 
 Nessa pálpebra roxa como o lírio... 
 Como lambe a gazela o brando orvalho 
 Nas largas folhas do deserto assírio.

E quando est'alma desdobrando as asas 
 Entrar do céu na região serena, 
 Como uma estrela eu levarei nos dedos 
 Teu pranto sideral, ó Madalena!... 

SÍLVIA (tem-se ajoelhado aos pés do leito) 

Meus prantos sirvam apenas 
 P'ra umedecer teus cabelos, 
 Como da corça nos velos 
 Fresco orvalho a resvalar! 
 P'ra molhar a flor, que aspires, 
 Rolem prantos de meus olhos, 
 P'ra atravessar os escolhos 
 Meus prantos manda rolar!... 

Meus prantos sirvam apenas 
 P'ra a terra, em que tu pisares, 
 P'ra a sede, em que te abrasares, 
 Terás meu sangue, Senhor! 
 Meus prantos são óleo humilde 
 Que eu derramo a tuas plantas.. 

MÁRIO (estende-lhe os braços) 

Mas se acaso me levantas 
 Meus prantos dizem-te amor!...

MÁRIO (tendo-a contra o seio) 

Sentir que a vida vai fugindo aos poucos 
 Como a luz, que desmaia no ocidente... 
 E boiar sobre as ondas do sepulcro, 
 Como Ofélia nas águas da corrente...

Sentir o sangue espanadar do peito 
                         — Licor de morte — sobre a boca fria, 
 E meu lábio enxugar nos teus cabelos, 
 Como Rolla nas tranças de Maria.

De teus braços fazer o diadema 
 De minha vida, que desmaia insana, 
 Esquecer o passado em teu regaço, 
 Como Byron aos pés da Italiana; 

Em teu lábio molhado e perfumoso 
 O licor entornar de minha vida... 
 Escutar-te nus vascas da agonia, 
 Como Fausto as canções de Margarida!... 

Eis como eu quero — na embriaguez da morte... 
 Do banquete no chão pender a fronte... 
 Inda a taça empunhando de teus beijos 
 Sob as rosas gentis de Anacreonte!... 

(A noite tem descido pouco a pouco 
O luar penetrando /o pela alcova a alumia o grupo dos amantes.) 

Sílvia! 

Que palidez, meu poeta, 
 Se estende nu face tua 

 MÁRIO!...

São os raios descorados, 
 Os alvos raios da lua! 

Sílvia!

Mas um suor de agonia 
 Teu peito ardente tressua..  

MÁRIO

São os orvalhos, que descem 
 Ao frio clarão da lua! 

Sílvia!

Que mancha é esta sangrenta, 
 Que no teu lábio flutua?  

MÁRIO

São as sombras de uma nuvem 
 Que tolda a face da lua!  

SÍLVIA

Como teus dedos esfriam 
 Sobre minha espádua nua!...  

MÁRIO (distraído)

Não vês um anjo, que desce, 
 o frouxo clarão da lua?... 

SÍLVIA

Mário? Não vês quem te chama?... 
Tua amante... Sílvia... a tua...  

MÁRIO (desmaiando)

É a morte que me leva 
 Num frio raio da lua!... 

(O poeta cai semimorto sobre o leito. 
 No espasmo sua mão contraída prende uma tranca da mura.) 

SÍLVIA

Teus brancos dedos fecharam 
 De meu cabelo a madeixa, 
 Tua amante não se queixa... 
 Bem vês... cativa ficou. 
 Mas não se prende o desejo 
 Que n'alma acaso se aninha!... 
 Nunca viste a andorinha, 
 Que alegre o fio quebrou? 

(Ouve-se um relógio dar horas.)

Já! tão tarde! E embalde tento 
 Abrir-te os dedos fechados... 
 Como frios cadeados, 
 Que o teu amor me lançou. 
 Porém se aqui me cativas 
 Minh'alma foge-te asinha... 
 Nunca viste a andorinha, 
 Que alegre o fio quebrou!  

(Debruça-se Q escrever numa carteira.)

"Paulo! Vem à meia-noite. . . 
 Mário morre! Mário expira! 
 Vem que minha alma delira 
 E embalde cativa estou..."  

MÁRIO (que tem lido por cima de seu ombro) 

Sílvia! a morte abre-me os dedos, 
 És livre, Sílvia... caminha!( morrendo ) 
 Minh'alma é como a andorinha, 
 Que alegre o fio quebrou. 

Coup D'Étrier 

É preciso partir! Já na calçada 
 Retinem. as esporas do arrieiro; 
 Da mula a ferradura tacheada 
 Impaciente chama o cavaleiro; 
 A espaços ensaiando uma toada 
 Sincha as bestas o lépido tropeiro... 
 Soa a celeuma alegre da partida, 
 O pajem firma o loro e empunha a brida.
 
Já do largo deserto o sopro quente 
 Mergulha perfumado em meus cabelos. 
 Ouço das selvas a canção cadente 
 Segredando-me incógnitos anelos. 
 A voz dos servos pitoresca, ardente 
 Fala de amores férvidos, singelos... 
 Adeus! Na folha rota de meu fado 
 Traço ainda um — adeus — ao meu

Um adeus! E depois morra no olvido 
 Minha história de luto e de martírio, 
 As horas que eu vaguei louco, perdido 
 Das cidades no tétrico delírio; 
 Onde em pântano turvo, apodrecido 
 D'íntimas flores não rebenta um lírio... 
 E no drama das noites do prostíbulo 
 É mártir — alma... a saturnal — patíbulo! 

Onde o Gênio sucumbe na asfixia 
 Em meio à turba alvar e zombadora; 
 Onde Musset suicida-se na orgia, 
 E Chatterton na fome aterradora! 
 Onde, à luz de uma lâmpada sombrio, 
 O Anjo-da-Guarda ajoelhado chora, 
 Enquanto a cortesã lhe apanha os prantos 
 P'ra realce dos lúbricos encantos!... 

Abre-me o seio, ó Madre Natureza! 
 Regaços da floresta americana, 
 Acalenta-me a mádida tristeza 
 Que da vaga das turbas espadana. 
 Troca dest'alma a fria morbideza 
 Nessa ubérrima seiva soberana!... 
 O Pródigo... do lar procura o trilho... 
 Natureza! Eu voltei... e eu sou teu filho! 

Novo alento selvagem, grandioso 
 Trema nas cordas desta frouxa lira. 
 Dá-me um plectro bizarro e majestoso, 
 Alto como os ramais da sicupira. 
 Cante meu gênio o dédalo assombroso 
 Da floresta que ruge e que suspira, 
 Onde a víbora lambe a parasita... 
 E a onça fula o dorso pardo agita! 

Onde em cálix de flor imaginária 
 A cobra de coral rola no orvalho, 
 E o vento leva a um tempo o canto vário 
 D'araponga e da serpe de chocalho... 
 Onde a solidão é o magno estradivário... 
 Onde há músc'los em fúria em cada galho, 
 E as raízes se torcem quais serpentes... 
 E os monstros jazem no ervaçal dormentes. 

E se eu devo expirar. .. se a fibra morta 
 Reviver já não pode a tanto alento... 
 Companheiro! Uma cruz na selva corta 
 E planta-a no meu tosco monumento!... 
 Da chapada nos ermos... (o qu'importa?) 
 Melhor o inverno chora... e geme o vento. 
 E Deus para o poeta o céu desata 
 Semeado de lágrimas de prata!... 

 Curralinho, 1 de junho de 1870.

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Canção do Boêmio / A meu irmão Guilherme de Castro Alves / Uma Página de Escola Realista                                   
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

MPB: Boca de Sapo

Clementina de Jesus

A voz da ancestralidade

e tu já levô rastêra?
                                     uma veiz ou duas num importa
a rastêra tá dada
      procurô levô





Boca De Sapo · Clementina De Jesus · João Bosco
Álbum: Clementina E Convidados
℗ 1979 EMI Records Brasil Ltda
Released on: 1979-01-01
Vocalista: Clementina De Jesus
Vocalista, Compositor: João Bosco
Producutor: Fernando Faro
Compositor: Aldir Blanc 


Costurou na boca do sapo
Um resto de angu
A sobra do prato que o pato deixou
Depois deu de rir feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira
Depois deu de rir feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira

E amarrou as pernas do sapo
Com a guia de vidro
Que ele pensava que tinha perdido

Depois deu de rir feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira
Depois deu de rir feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira

Tu tá branco, Honorato, que nem cal
Murcho feito o sapo, Honorato
No quintal
Do teu riso, Honorato, nem sinal
Se o sapo dança, Honorato
Tu, babau

Definhou e acordou com um sonho
Contando a mandinga
E falou pra doida: Meu santo me vinga

Mas ela se riu feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira
Mas ela se riu feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira

E implorou: Patroa, perdoa
Eu quero viver
Afasta meus olhos de Obaluaiê

Mas ela se riu feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira
Mas ela se riu feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira

Tás virando, Honorato, varapau
Seco feito o sapo, Honorato
No quintal
Figa, reza, Honorato, o escambau
Nada salva o sapo, Honorato
Desse mal (ai, costurou)

Costurou na boca do sapo
Um resto de angu
A sobra do prato que o pato deixou

Depois deu de rir feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira
Depois deu de rir feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira
Depois deu de rir feito Exu Caveira
Marido infiel vai levar rasteira

Composição: João Bosco, Aldir Blanc


João Bosco - “Boca de Sapo” | Por Acaso - Retro




Clementina de Jesus 
| Programa Ensaio da TV Cultura (1973)




Tetê Espíndola e Clementina de Jesus



O Mestre Sala dos Mares / Boca de sapo /       

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Havia esquecido a mentira)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Havia esquecido a mentira que me dissera uma noite acerca da dama suscetível em cuja casa era de todo necessário que fosse tomar chá, ainda que, indo visitar essa dama, corresse o risco de perder minha amizade e ter de se matar. Não lhe recordei a mentira. Mas fiquei acabrunhado. E adiei o rompimento para outra ocasião. Não é necessária a sinceridade, e nem mesmo a destreza na mentira, para ser amado. Aqui, chamo de amor uma tortura recíproca. Nessa noite, eu não achava de modo algum repreensível falar-lhe como minha avó, tão perfeita, fizera comigo, nem, para lhe dizer que a acompanharia à casa dos Verdurin, ter adotado a maneira brusca de meu pai, o qual jamais nos comunicava uma decisão a não ser do jeito que nos pudesse causar o máximo de uma agitação desproporcionada, nesse grau, à própria decisão. De modo que estava coberto de razão quando nos achava absurdos de mostrarmos tanta angústia por tão pequena coisa, angústia que de fato correspondia à comoção que nos causara. E como (da mesma forma que o bom senso inflexível de minha avó) essas veleidades arbitrárias de meu pai viessem completar em mim a natureza sensível a que tinham permanecido por tanto tempo alheias, e a qual durante toda a minha infância fizeram sofrer tanto, essa natureza sensível informava-se bem exatamente sobre os pontos que deviam visar com eficácia: não existe melhor delator que um antigo ladrão, ou do que um súdito da nação que se guerreia. Em certas famílias mentirosas, um irmão que vem visitar outro irmão sem motivo aparente e lhe pede casualmente, à porta da rua, ao sair, uma informação que nem sequer parece ouvir, por isso mesmo dá a entender ao irmão que tal informação era a finalidade de sua visita, pois o irmão bem conhece aquele ar desligado, aquelas palavras ditas como que entre parênteses no último minuto, pois ele próprio as empregou várias vezes. Ora, existem igualmente famílias patológicas, sensibilidades aparentadas, temperamentos fraternos, iniciados nesse tácito idioma que faz com que em família as pessoas se compreendam sem falar. Assim, quem mais que um nervoso pode ser enervante? E além do mais, talvez houvesse na minha conduta, nesses casos, uma causa mais geral, mais profunda. É que, nesses momentos breves, porém inevitáveis, quando se detesta a quem se ama - esses momentos que duram às vezes toda a vida com as pessoas de quem não se gosta -, não desejamos parecer bons, para que não tenham pena de nós; queremos ao mesmo tempo ser malvados e cruéis o mais possível para que nossa felicidade seja verdadeiramente odiosa e ulcere a alma do nosso inimigo ocasional ou duradouro. Diante de quantas pessoas não fui eu mentirosamente caluniado, apenas para que meus "êxitos" lhes parecessem imorais e os encarniçassem ainda mais contra mim! Seria preciso seguir o caminho inverso, mostrar sem orgulho que temos bons sentimentos, em vez de os esconder tanto. O que seria fácil se soubéssemos jamais odiar, amar sempre. Pois então seríamos tão felizes por só dizer as coisas que podem dar alegria aos outros, enternecê-los, fazer com que nos amem!
     Decerto eu sentia um pouco de remorso por ser tão irritante para com Albertine, e dizia comigo: "Se não a amasse, ela me teria maior reconhecimento, pois eu não seria ruim com ela; mas não, isto se compensaria, pois eu também seria menos amável." E, para me justificar, poderia lhe dizer que a amava. Mas a confissão desse amor, além de não trazer novidade alguma a Albertine, talvez a deixasse mais fria a meu respeito do que as durezas e ardis de que justamente o amor era a única desculpa.
     É tão natural ser duro e ardiloso com quem se ama! Se o interesse que demonstramos aos outros não nos impede de sermos doces com eles e complacentes com aquilo que desejam, é que esse interesse é uma mentira. O próximo nos é indiferente, e a indiferença não convida à maldade.
     A noite passava; antes que Albertine fosse deitar-se, não havia tempo a perder se quiséssemos fazer as pazes e recomeçar com os beijos. Nenhum de nós ainda tomara a iniciativa.
     Sentindo que ela estava realmente zangada, aproveitei para lhe falar de Esther Lévy.

- Bloch me disse (o que não era verdade) que você conhecera muito bem a sua prima Esther. 
- Eu nem sequer a reconheceria - disse Albertine com ar vago.
- Vi a fotografia dela - acrescentei furioso. Ao dizer isto, não encarava Albertine, de modo que não vi sua expressão, que teria sido a única resposta, pois ela não disse nada.

     Já não era o sossego do beijo de minha mãe em Combray o que eu sentia junto de Albertine nessas noites, mas, ao contrário, a angústia daqueles dias em que minha mãe mal me dava boa-noite, ou até nem subia para o meu quarto, ou porque estivesse zangada comigo ou porque a retivessem os convidados. Essa angústia, não a sua transposição para o amor, não, essa própria angústia, que por algum tempo se especializara no amor, que se destinara unicamente a ele, depois de operada a partilha, a divisão das paixões, agora parecia de novo estender-se a todas, tornada outra vez indivisa, assim como na minha infância, como se todos os meus sentimentos, que estremeciam à ideia de não poder conservar Albertine junto ao meu leito, a um tempo como amante, como irmã, como filha, como mãe igualmente, de cujo boa-noite cotidiano eu recomeçava a sentir a necessidade pueril, tivessem começado a reunir-se, a se unificar na noite prematura da minha vida, que parecia ser tão breve como um dia de inverno. Mas, se eu experimentava a angústia de minha infância, a mudança da criatura que me fazia senti-la, a diferença de sentimento que ela me inspirava, a própria transformação do meu caráter, tornavam impossível reclamar-lhe o alívio como outrora à minha mãe. Eu já não sabia dizer: "Estou triste."
     Com a morte na alma, limitava-se a falar de coisas indiferentes que não me adiantavam em nada para uma solução feliz. Repisava em dolorosas banalidades. E com aquele egoísmo intelectual que, por menos que uma verdade insignificante se refira ao nosso amor, nos faz ter em grande conta aquele que a encontrou, talvez tão casualmente como a cartomante que nos anunciou um fato banal mas que desde então se cumpriu, eu não estava muito longe de acreditar Françoise superior a Bergotte e a Elstir, porque me dissera em Balbec:

- Essa moça lhe dará desgostos.

     Cada minuto me aproximava do boa-noite de Albertine, que por fim ela me dava. Mas naquela noite o seu beijo, de onde ela própria estava ausente e que não me encontrava, fazia-me tão ansioso que, o coração palpitante, eu a contemplava ir até a porta, pensando: "Se quero achar um pretexto para chamá-la, retê-la, fazer as pazes, preciso apressar-me, ela só precisa de mais alguns passos para sair do quarto, mais dois, mais um, ela gira a maçaneta, abre, é tarde, já fechou a porta." Talvez não fosse tarde demais, apesar de tudo. Como antigamente em Combray, quando minha mãe me havia deixado sem me sossegar com seu beijo, eu queria lançar-me no encalço de Albertine, sentia que não teria sossego enquanto não a visse de novo, que o fato de revê-la iria tornar-se algo imenso como ainda não ocorrera até ali, e que, se não conseguisse me livrar sozinho dessa tristeza, talvez adquirisse o hábito vergonhoso de ir mendigar aos pés de Albertine; saltei da cama quando ela já estava em seu quarto, andava para cá e para lá no corredor, esperando que ela saísse e me chamasse; permanecia imóvel diante de sua porta, para não me arriscar a não ouvir um débil chamado, entrava por um instante em meu quarto para ver se minha amiga por felicidade não tinha esquecido um lenço, uma bolsa, alguma coisa que eu pudesse fingir recear que lhe fizesse falta e que me desse o pretexto de ir a seu quarto. Não, nada. Voltava a postar-me diante de sua porta. Mas na frincha desta já não havia luz, Albertine já a apagara, estava deitada, eu ficava lá, imóvel, esperando não sei que oportunidade que não vinha; e muito tempo depois, gelado, tornava a me deitar sob os cobertores e chorava a noite inteira.
     Assim, às vezes, em certas noites, recorria um ardil que me proporcionava o beijo de Albertine. Sabendo o quanto era rápido o seu adormecimento logo que se estendia na cama (ela também o sabia, pois instintivamente, quando se deitava, descalçava as sandálias que eu lhe dera, e o anel, que punha a seu lado, como fazia em seu quarto ao se acomodar), sabendo o quanto era profundo o seu sono e carinhoso o seu despertar, agarrava-me a um pretexto para ir buscar alguma coisa, fazia-a estender-se em minha cama. Quando voltava, ela adormecera, e eu via diante de mim aquela outra mulher em que se transformava quando estava inteiramente de frente. Mas ela mudava depressa de personalidade, pois eu me estendia a seu lado e a reencontrava de perfil. Podia pôr a minha mão na sua, nos seus ombros, no seu rosto, que Albertine continuava a dormir. Podia segurar sua cabeça, virá-la, encostá-la nos meus lábios, rodear meu pescoço com seus braços, e ela continuava a dormir como um relógio de bolso que não para, como um bicho que continua vivendo qualquer que seja a posição que lhe deem, como uma trepadeira, uma ipomeia que continua a estender seus ramos, seja qual for o arrimo de que disponha. Apenas o seu arfar se modificava a cada um dos meus contatos, como se ele fosse um instrumento que eu tocasse e ao qual fizesse executar modulações, tirando notas diferentes de uma, depois de outra de suas cordas. Meu ciúme se acalmava, pois sentia que Albertine transformada num ser que respira, que não é outra coisa, como o indicava o sopro regular pelo qual se exprime essa pura função fisiológica, a qual, inteiramente fluida, não possui a espessura da palavra nem do silêncio e, em sua ignorância de todo mal, ofegar extraído antes de um caniço oco que de um ser humano, realmente paradisíaco para mim, que naqueles momentos sentia Albertine subtraída de tudo, não só material mas moralmente, era o puro cântico dos anjos. No entanto, por aquele hálito eu de súbito considerava que talvez muitos nomes humanos, trazidos pela memória, deveriam passar.
     Às vezes, até a voz humana se acrescentava a essa música. Albertine pronunciava algumas palavras. Como desejaria obter-lhes o sentido! Acontecia que o nome de uma pessoa de quem tínhamos falado e que excitava o meu ciúme, subia-lhe aos lábios, mas sem me fazer infeliz, pois a recordação que trazia parecia ser apenas a das conversas que ela tivera comigo sobre o assunto. Entretanto, certa noite, de olhos fechados, meio que acordada, disse carinhosamente dirigindo-se a mim: "Andrée." Dissimulei minha emoção. 

- Estás sonhando, não sou Andrée - retruquei rindo. Ela também sorriu: 
- Não, eu queria te perguntar o que te disse Andrée há pouco. 
- Pensei que já tinhas deitado assim junto dela.
- Não, nunca. - disse Albertine.

     Unicamente, antes de responder isto, escondera por um instante o rosto nas mãos. Logo, seus silêncios eram apenas véus, seus carinhos superficiais no fundo somente retinham milhares de lembranças que teriam me dilacerado sua vida, portanto, era repleta desses fatos cuja narrativa trocista e cuja crônica risonha constituem nossos mexericos diários a respeito dos outros, dos indiferentes, mas que, enquanto uma criatura permanece extraviada em nosso coração, nos parecem um esclarecimento tão precioso de sua vida que, para conhecer esse mundo subjacente, daríamos de bom grado a nossa. Então o seu sono me surgia como um mundo maravilhoso e mágico, onde por instantes se eleva, do fundo do elemento apenas translúcido, a confissão de um segredo que não se compreenderá. Mas em geral, quando Albertine dormia, parecia-me que reencontrava sua inocência. Na atitude que eu lhe atribuíra mas que em seu sono ela depressa tornava sua, dava a impressão de confiar-se a mim. Sua fisionomia perdera toda e qualquer expressão de manha ou de vulgaridade, e entre ela e mim, para quem erguia o braço, sobre quem descansava a mão, parecia haver um abandono completo, um elo indissolúvel. Aliás, o seu sono não a separava de mim, deixando subsistir nela a noção de nossa ternura, tendo antes por efeito abolido o resto; eu a beijava, dizia que ia dar alguns passos lá fora, ela entreabria os olhos e me dizia, com ar espantado -e de fato já era noite: 

- Mas aonde vais desse jeito, meu querido?-e, chamando-me pelo meu prenome, logo voltava a adormecer.

     Seu sono era apenas uma espécie de apagamento do resto da vida, um silêncio uniforme onde, de vez em quando, erguiam voo palavras familiares de carinho. Aproximando-as umas das outras, teria sido possível compor a conversação sem mistura, a secreta intimidade de um amor puro. Este sono tão calmo encantava-me como encanta à mãe, que o considera uma qualidade, o bom sono de seu filho. E com efeito o sono de Albertine era o de uma criança. Outrossim o seu despertar, e é tão natural, tão carinhoso, antes mesmo que ela se desse conta de onde estava, que às vezes eu me perguntava, com terror, se ela tivera o hábito, antes de viver comigo, de não dormir sozinha e de encontrar alguém a seu lado ao abrir os olhos. Mas sua graça infantil era mais forte. Tal uma mãe, ainda maravilha-me que sempre acordasse de bom humor. Ao cabo de alguns instantes, ela readquiria a consciência, dizia palavras encantadoras, sem relação umas com as outras, um pipilar apenas. Por uma espécie de contradança, o seu pescoço, habitualmente pouco notado, e agora quase belo demais, tomara a importância enorme que seus olhos fechados pelo sono haviam perdido, seus olhos, meus habituais interlocutores e aos quais já não podia me dirigir desde o cerrar das pálpebras. Da mesma forma que os olhos fechados conferem uma beleza inocente e grave ao rosto, suprimindo tudo o que os olhares expressam demais, nas palavras, não sem sentido, mas entrecortadas de silêncio, que Albertine pronunciava ao despertar, havia uma beleza pura que não é a todo instante manchada, como o é a conversação, de hábitos verbais, de lenga-lengas, de vestígios de defeitos. Além disso, quando me decidia a acordar Albertine, podia fazê-lo sem medo, pois sabia que seu despertar não estaria de modo algum relacionado com a noite que acabáramos de passar, mas sairia do seu sono como da noite sai a manhã. Logo que ela entreabria os olhos sorrindo, estendia-me os lábios e, antes que dissesse alguma coisa, eu já lhe saboreara o frescor, calmante como o de um jardim ainda silencioso antes do despontar do dia.
     No dia seguinte àquela noite em que Albertine me dissera que talvez fosse à casa dos Verdurin, e depois que não iria, eu acordei cedo e, ainda meio adormecido, minha alegria informou-me que era, interpolado no inverno, um dia de primavera. Lá fora, temas populares finamente escritos por instrumentos variados, desde a buzina do consertador de porcelana, ou a corneta do empalhador de cadeiras, até a flauta do cabreiro que parecia num dia lindo ser um pastor da Sicília, orquestravam de leve o ar matinal numa "Abertura para um dia de festa". A audição, este sentido delicioso, traz até nós a companhia da rua, da qual retraça todas as linhas, desenha todas as formas que passam, mostrando-nos o seu colorido. As cortinas de ferro da padaria, da leiteria, que haviam abaixado a noite anterior sobre todas as possibilidades de ventura feminina, erguiam-se agora como as leves polés de um navio que aparelha e vai zarpar, cruzando o mar transparente, sobre um sonho de jovens empregadas. Este rumor da cortina de ferro que está sendo erguida talvez fosse o meu único prazer num bairro diferente. Neste meu, cem outros formavam a minha alegria, e nem um só eu quisera perder dormindo até mais tarde. O encanto dos velhos bairros aristocráticos é serem igualmente populares. Como às vezes os tiveram as catedrais, não longe das portadas (às quais ocorreu mesmo conservarem-lhes o nome, como o da catedral de Ruão, chamada dos "Livreiros", porque junto a ela expunham estes a sua mercadoria ao ar livre), diversos pequenos ofícios, mas ambulantes, passavam diante do nobre palacete de Guermantes, e por vezes faziam pensar na França eclesiástica de outrora. Pois o apelo que lançavam às pequenas residências vizinhas nada possuía com raras exceções, de uma canção. Diferia dela tanto quanto da declamação - mal colorida por variações insensíveis de Boris Godunov e de Pélleas; mas, por outro lado, lembrava o salmodiar de um padre no decurso dos ofícios, dos quais estas cenas de rua são apenas a contrapartida ingênua, forânea, todavia meio litúrgica. Eu jamais sentira tanto prazer com elas desde que Albertine morava comigo; parecia-me um alegre sinal de seu despertar e, interessando-me pela vida lá fora, faziam-me sentir melhor a virtude calmante de uma presença querida, tão constante como a desejava.
     Certos alimentos gritados na rua, e que eu pessoalmente achava detestáveis, eram muito do gosto de Albertine, de modo que Françoise os mandava comprar pelo seu jovem lacaio, que talvez se sentisse humilhado por se ver confundido na multidão plebeia. Naquele bairro tão tranquilo (em que os rumores já não eram um motivo de tristeza para Françoise e haviam se tornado a razão de doçura para mim) chegavam-me, cada qual com sua modulação diversa, os recitativos declamados por aquelas pessoas do povo, como o seriam na música, tão popular, de Boris, onde uma entonação inicial quase não se altera pela inflexão de uma nota que sobre outra se debruça, música da multidão que antes é uma linguagem do que uma música. Era: "Olha o marisco, olha o marisco por dez tostões!", atraindo a freguesia para os cestos onde eram vendidas essas horríveis conchinhas que, não fosse Albertine, teriam me causado repugnância, assim como os caramujos que eu ouvia serem vendidos à mesma hora. Aqui, ainda era na declamação apenas lírica de Mussorgsky que fazia pensar o vendedor, mas não somente nela. Pois, após ter quase "falado": "Os caramujos estão fresquinhos, estão bonitos", era com a tristeza e a vaguidão de Maeterlinck, musicalmente transpostas por Debussy, que o vendedor de caramujos, num desses dolorosos finais com que o autor de Pélleas se parece com Rameau ("Se devo ser vencida, serás tu o meu vencedor?"), acrescentava com sua melancolia cantante: "A trinta tostões a dúzia..."
     Sempre me foi difícil compreender porque aquelas palavras tão claras eram suspiradas num tom tão pouco adequado, misterioso, como o segredo que faz com que todos tenham a fisionomia triste no velho palácio a que Mélisande não conseguiu levar a alegria, e profundo como um pensamento do velho Arkel, que busca proferir em palavras muito simples toda a sabedoria e o destino. As próprias notas em que se eleva com doçura crescente a voz do velho rei de Allemonde, ou a de Golaud, para dizer: "Não se sabe o que acontece aqui. Isto pode parecer estranho. Talvez não existam ocorrências inúteis", ou então: "Não precisas te assustar... Era uma pobre criaturinha misteriosa, como todo mundo", eram as que serviam ao vendedor de caramujos para repetir, numa cantilena indefinida: "A trinta tostões a dúzia..." Porém essa lamentação metafísica não tinha tempo de expirar à beira do infinito; era interrompida por uma forte trombeta. Desta vez não se tratava de comidas, as palavras do libreto eram: "Tosamos cachorros, cortamos gatos, as caudas e as orelhas."
     Certo, a fantasia e o espírito de cada vendedor ou vendedora introduziam, com frequência, variantes nas frases de todas essas músicas que eu ouvia da cama. Entretanto, uma parada ritual, pondo um silêncio em meio a uma frase, sobretudo quando era repetida duas vezes, evocava constantemente a lembrança de velhas igrejas. Em seu pequeno carro, conduzido por uma burrinha que ele fazia parar diante de todas as casas para entrar nos pátios, o vendedor de roupa, segurando um chicote, salmodiava: "Roupas, vendem-se roupas, rou... pas" com a mesma pausa, entre as duas sílabas de "roupas", com que teria entoado em cantochão: "Per omnia saecula saeculo... rum" ou: "Requiescat in pa... ce", embora não acreditasse na eternidade de suas roupas e nem tampouco as oferecesse como sudário para o supremo repouso na paz. E da mesma forma, como os motivos principiavam a cruzar-se desde aquela hora matinal, uma vendedora de hortaliças, empurrando o seu carrinho, usava para a sua ladainha a divisão gregoriana: As hortaliças, as hortaliças Alcachofras macias e bonitas Alca-chofras embora ela fosse provavelmente ignorante do antifonário e dos sete tons que simbolizam, quatro as ciências do quadrívio e três as do trívio.
     Tirando de uma flautinha, de uma gaita de foles, as melodias de sua região meridional, cuja luz combinava bem com os dias claros, um homem de blusa, tendo à mão um vergalho e na cabeça uma boina basca, parava diante das casas. Era o cabreiro com dois cães e, à sua frente, o rebanho de cabras. Como vinha de longe, passava bem tarde no nosso bairro; e as mulheres acorriam com uma tigela para recolher o leite que devia fortalecer os seus filhinhos. Mas às melodias pirenaicas daquele pastor benfazejo misturava-se já a campainha do amolador, que gritava: "Facas, tesouras, navalhas." Com ele não podia lutar o amolador de serrotes, pois, destituído de instrumento, contentava-se em chamar: "Quem tem serrotes para amolar? Olha o amolador!", ao passo que, mais alegre, o funileiro, depois de ter enumerado os caldeirões, as caçarolas, tudo quanto ele soldava, entoava o refrão: Tão, tão, tão Conserto até o chão/ Ponho fundo em tudo/ E tapo buracos/ Raco, raco, raco e italianinhos, carregando grandes caixas de ferro pintadas de vermelho, onde estavam marcados os números perdedores e ganhadores-, e tocando matraca, convidavam:
     "Venham, venham, minhas senhoras, eis a grande diversão." Françoise me trouxe o Fígaro. Bastou um só olhar para ver que o meu artigo ainda não fora publicado. Ela me disse que Albertine indagava se podia vir ao meu quarto e me mandava dizer que, em todo caso, desistira de fazer uma visita aos Verdurin e esperava ir, como eu lhe aconselhara, à vesperal "extraordinária" do Trocadero (o que hoje chamaríamos, para coisa muito menos importante, uma vesperal de gala) depois de um passeiozinho a cavalo que faria com Andrée. Agora que eu sabia que ela renunciara a seu desejo, talvez perverso, de ir visitar a Sra. Verdurin, respondi rindo:  

- Que venha! - e disse para mim mesmo que ela podia ir aonde bem quisesse, pois para mim seria indiferente. Sabia que, no fim da tarde, quando chegasse o crepúsculo, eu sem dúvida seria um outro homem, triste, dando às menores idas e vindas de Albertine uma importância que elas não tinham naquela hora matinal, e quando o dia era tão lindo. Pois a minha despreocupação era seguida pela noção bem clara de sua causa, mas sem ser alterada por ela. 
- Françoise me assegurou que você estava acordado e que eu não incomodaria - disse Albertine entrando. E, como aquele de me causar frio abrindo a janela num momento mal escolhido, o maior medo de Albertine era o de entrar no meu quarto quando eu cochilava: 
- Espero não ter feito mal - acrescentou. - Receava que você me dissesse: Que mortal insolente vem procurar a morte?'

     E ela riu com aquele riso que tanto me perturbava. Respondi-lhe no mesmo tom gracejador:

- Foi para vós que se deu ordem tão severa? 

     E de medo que ela a infringisse alguma vez, acrescentei:

- Embora ficasse furioso se você me acordasse.
- Eu sei, eu sei, não tenha medo - disse Albertine.

     E, para suavizar, acrescentei, continuando a representar com ela a cena de Esther, ao passo que na rua prosseguiam os apelos que ficavam confusos devido à nossa conversa:

- Somente em vós encontro uma tal ou qual graça. Que me deslumbra sempre, mas jamais me cansa. (e comigo mesmo dizia: "Sim, ela me cansa muitas vezes"). E lembrando-me do que ela dissera na véspera, e agradecendo-lhe com exagero por ter renunciado ir aos Verdurin, para que de outra vez me obedecesse da mesma forma nisso ou naquilo, observei: 
- Albertine, você desconfia de mim, que muito a amo, e tem confiança em pessoas que não gostam de você (como se não fosse natural desconfiar das pessoas que nos amam e são as únicas que têm interesse em nos mentir para saber, para nos opor obstáculos).

     E acrescentei estas palavras mentirosas: 

- No fundo, você não acredita que eu a ame, é engraçado. De fato, não a adoro. -

     Ela por sua vez mentiu, dizendo que só confiava em mim, e a seguir foi sincera, garantindo que sabia muito bem que eu a amava. Mas tal afirmação não parecia implicar que ela não me julgasse mentiroso e capaz de espioná-la. E parecia perdoar-me, como se visse aí a consequência insuportável de um grande amor, ou como se ela mesma se achasse menos bondosa. 

- Peço-lhe, minha querida, nada de cabriolas como fez outro dia. Pense, Albertine, se lhe ocorre um acidente! -


continua na página 50...
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Volume 2
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Volume 4
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A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Havia esquecido a mentira)