Simone de Beauvoir
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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continuando...
O birth-control e o aborto legal permitiriam à mulher assumir livremente suas maternidades. Na realidade, são em parte
uma vontade deliberada e em parte o acaso que decidem da fecundidade feminina. Em não sendo por ora a inseminação artificial uma prática corrente, acontece à mulher desejar a maternidade sem a poder obter — seja por não ter comércio com os
homens, por ter um marido estéril, ou por ser mal conformada.
Mas acontece, em compensação, que se ache muitas vezes constrangida a engendrar contra a sua vontade. Gravidez e maternidade são vividas de maneira muito diferente, segundo se desenvolvam na revolta, na resignação, na satisfação, no entusiasmo.
É preciso considerar que as decisões e os sentimentos confessados
da jovem mãe nem sempre correspondem a seus desejos profundos. Uma mãe solteira pode estar materialmente acabrunhada
pelo fardo que lhe é repentinamente imposto, desolar-se abertamente e, no entanto, encontrar no filho a realização de sonhos
secretamente acarinhados; inversamente, uma jovem recém-casada
que acolhe com alegria e orgulho sua gravidez, pode receá-la
em silêncio, detestá-la, através de obsessões, de alucinações, de
recordações de infância que ela própria se recusa a admitir. É
uma das razões que tornam as mulheres tão discretas a esse respeito. Seu silêncio vem em parte de que se comprazem em cercar de mistério uma experiência que é apanágio exclusivamente
delas; mas veem-se igualmente desnorteadas pelas contradições
e os conflitos que nelas ocorrem. "As preocupações da gravidez
são um sonho que é tão completamente esquecido quanto o sonho
das dores do parto", disse uma mulher (N. Hale). São as verdades complexas que então se revelam a elas, que procuram envolver no esquecimento.
Vimos que na infância e na adolescência a mulher passa por
diversas fases em relação à maternidade. Menina, a coisa é milagre e jogo: ela encontra na boneca, ela pressente, no filho que
virá, um objeto a possuir e dominar. Adolescente, vê na ocorrência, ao contrário, uma ameaça contra a integridade de sua
preciosa pessoa. Ou então recusa-a ferozmente como a heroína
de Colette Audry (On joue perdant, "l'Enfant"), que nos confia:
Cada criancinha que brincava na areia, eu a detestava por ter saído
de uma mulher. . . Os adultos eu também os execrava por mandarem
nessas crianças, por lhes darem purgantes, palmadas, vestirem-nas, humilharem-nas de todas as maneiras: as mulheres com seus corpos sempre a germinarem novos filhos, os homens que olhavam toda essa polpa
de mulheres e filhos deles com um ar satisfeito e independente. Meu
corpo pertencia-me, a mim somente, gostava dele queimado, incrustado
de sal do mar, arranhado pelas plantas.
Devia permanecer duro e
selado.
Ou ela receia ter um filho, embora desejando-o, o que conduz a alucinações de gravidez e a toda espécie de angústias. Há
jovens que se comprazem em exercer a autoridade que a maternidade confere, mas não estão dispostas a assegurar-lhe plenamente as responsabilidades. É o caso dessa Lídia, citada por H. Deutsch, que, com a idade de 16 anos, empregada como criada
em casa de desconhecidos, se ocupava das crianças entregues a
seus cuidados com a mais extraordinária dedicação: era um prolongamento dos devaneios infantis quando constituía um par com
sua mãe a fim de educar um filho; repentinamente pôs-se a negligenciar o serviço, a mostrar-se indiferente às crianças, a sair,
a namorar; a época dos jogos terminara e ela começava a preocupar-se com sua verdadeira vida em que o desejo de maternidade ocupava pequeno lugar. Certas mulheres alimentam durante toda a vida o desejo de dominar crianças, mas conservam um
sentimento de horror ao trabalho biológico do parto; fazem-se
parteiras, enfermeiras, preceptoras; são tias dedicadas, mas recusam-se a ter filhos. Algumas também, sem rechaçar com desgosto a maternidade, são por demais absorvidas pela sua vida
amorosa ou por uma carreira, para que lhe reservem um lugar
na existência. Têm medo do fardo que o filho representaria para
elas ou para o marido.
Muitas vezes, a mulher garante deliberadamente sua esterilidade, seja esquivando-se a quaisquer relações sexuais, seja mediante práticas de birth-oontrol; mas há também casos em que
ela não confessa seu temor do filho, e é um processo psíquico
que impede a concepção; ocorrem com ela perturbações funcionais reveláveis a um exame médico, mas de origem nervosa. O
Dr. Arthus (Le Mariage) cita, entre outros, um exemplo impressionante:
Mme H. . . fora muito mal preparada pela mãe para sua vida de
mulher; a mãe sempre predissera as piores catástrofes se lhe acontecesse
ficar grávida. . .
Quando Mme H. .. se casou, imaginou-se grávida no
mês seguinte; verificou o engano; acreditou-o novamente ao fim de três
meses: novo engano. Ao fim de um ano foi consultar um ginecologista
que se recusou a reconhecer, nela ou no marido, uma causa qualquer de
infecundidade. Três anos depois, ela viu outro médico, que lhe disse:
Você ficará grávida quando falar menos disso..." Após cinco anos de
casados, Mme H. . . e o marido haviam admitido que não teriam mais
filhos.
O bebê nasceu ao fim de seis anos.
A aceitação ou a recusa de concepção são influenciadas pelos mesmos fatores que a gravidez em geral. No decurso desta,
reavivam-se os sonhos infantis do sujeito e suas angústias de adoescente; a gravidez é vivida de maneira muito diferente segundo as relações que a mulher mantém com a mãe, com o marido e
consigo mesma.
Tornando-se mãe por sua vez, a mulher toma, de certo modo,
o lugar daquela que a engendrou; isso representa para ela uma
emancipação total. Se a deseja sinceramente, alegra-se com a
gravidez e faz questão de conduzi-la sem ajuda; dominada ainda
e consentindo na concepção, entrega-se, ao contrário, às mãos maternas: o recém-nascido se lhe afigurará antes um irmão ou uma
irmã do que seu próprio fruto; se, ao mesmo tempo, quer e não
ousa libertar-se, teme que o filho, ao invés de salvá-la, a faça recair sob o jugo: esta angústia pode provocar um aborto; H.
Deutsch cita o caso de uma jovem mulher que, devendo acompanhar o marido e deixar o filho com a mãe, deu à luz uma criança
morta; espantou-se por não o lamentar excessivamente, porque
o desejara muito; mas teria tido horror de a entregar à mãe, que
a teria dominado através da criança. Vimos que o sentimento
de culpa em relação à mãe é frequente na adolescente; se ainda
se mantém vivo, a mulher imagina que uma maldição pesa sobre
sua progenitura ou sobre si mesma: o filho matá-la-á ou morrerá ao nascer. É o remorso que amiúde provoca essa angústia,
tão frequente nas mulheres jovens, de não conduzir a termo a
gravidez. Vê-se neste exemplo, fornecido por H. Deutsch, a que
ponto a relação da filha com a mãe pode assumir uma importância nefasta:
Mrs. Smith, caçula de uma família numerosa que só contava um
rapaz, fora acolhida com despeito pela mãe, que queria um filho; não sofreu muito com isso graças à afeição do pai e de uma irmã mais velha.
Mas esperando um filho depois de casada, embora o desejasse ardentemente, o ódio que sentira outrora pela mãe tornou-lhe detestável
a ideia de ser mãe; deu à luz um mês antes do termo uma criança morta.
Grávida pela segunda vez, teve receio de novo acidente; felizmente
uma de suas amigas íntimas engravidou ao mesmo tempo; esta tinha
uma mãe muito afetuosa que protegeu as duas mulheres durante a gravidez; mas a amiga concebera um mês antes de Mrs. Smith, que ficou
apavorada com a ideia de terminar sua gravidez sozinha; ante a surpresa de todos, a amiga continuou grávida durante um mês ainda após
a data prevista [1] do parto e as duas deram à luz no mesmo dia. As
duas amigas resolveram conceber no mesmo dia o outro filho e Mrs.
Smith iniciou sem inquietação a nova gravidez. Mas, no terceiro mês,
a amiga precisou sair da cidade; no dia em que o soube, Mrs. Smith
abortou. Nunca mais pôde ter outro filho; a lembrança da mãe pesava
demasiado sobre ela.
[1] H. Deutsch afirma ter verificado que a criança nasceu real
mente dez meses depois de concebida.
Relação não menos importante é a que a mulher mantém
com o pai de seu filho. Uma mulher já madura, independente,
pode querer um filho que só pertença a ela: conheci uma cujos
olhos brilhavam à vista de um belo macho, não por desejo sexual mas porque julgava suas qualidades de reprodutor; são essas amazonas maternais que saúdam com entusiasmo o milagre
da inseminação artificial. Se o pai da criança partilha a vida
delas, recusam-lhe qualquer direito sobre a progenitura, tentam
, como a mãe de Paul em Amantes e Filhos — constituir um
casal isolado com o filhote. Mas, na maioria dos casos, a mulher
tem necessidade de um apoio masculino para aceitar suas novas
responsabilidades; ela só se devotará alegremente ao recém-nascido se um homem se devotar a ela.
Quanto mais infantil e tímida é ela, mais essa necessidade
é urgente. H. Deutsch conta a história de uma jovem mulher que
aos 15 anos se casou com um rapaz de 16 que a engravidara.
Quando menina, sempre gostara dos bebês e assistira a mãe nos
cuidados que prodigalizava a seus irmãos e irmãs. Mas, uma
vez mãe de dois filhos, foi tomada de pânico. Exigia que o marido permanecesse sem cessar junto dela; teve que arranjar um
trabalho que lhe permitisse ficar durante longas horas no lar.
Vivia numa constante ansiedade, exagerando as brigas dos filhos,
dando excessiva importância aos menores incidentes do dia.
Muitas jovens mães pedem assim socorro ao marido, que por
vezes expulsam do lar, acabrunhando-os com as preocupações
delas. H. Deutsch cita, entre outros casos curiosos, este:
Uma jovem mulher casada imaginou que estava grávida e ficou
extremamente feliz; separada do marido por uma viagem, teve uma
aventura muito rápida que aceitou precisamente porque, satisfeita com
a maternidade, nada lhe parecia ter qualquer consequência; voltando
ao marido, soube mais tarde que, na verdade, se enganara acerca da
data da concepção: esta datava do momento da viagem. Quando a
criança nasceu, ela pôs-se subitamente a indagar se era filho do marido
ou do amante ocasional; tornou-se incapaz de sentimento em relação
ao filho desejado; angustiada, infeliz, recorreu a um psiquiatra e só se
interessou pela criança depois que se decidiu a considerar o marido
como pai do recém-nascido.
Uma mulher que tem afeição pelo marido modela seus sentimentos pelos dele; acolhe a gravidez e a maternidade com alegria ou mau humor segundo ele se sinta orgulhoso ou aborrecido. Por vezes, o filho é desejado, a fim de consolidar uma ligação, um casamento, e o apego que lhe dedica a mãe depende
do êxito ou do malogro de seus planos. Se é hostilidade que sente em relação ao marido, a situação é ainda diferente: pode
devotar-se asperamente ao filho cuja posse nega ao pai ou, ao
contrário, encarar com ódio o descendente do homem detestado.
Mme H. N... cuja noite de núpcias contamos, segundo Stekel,
ficou grávida desde logo e detestou durante toda a vida a filha
concebida no horror da iniciação brutal. Vê-se também no diário
de Sofia Tolstoi que a ambivalência de seus sentimentos em relação ao marido se reflete na primeira gravidez. Escreve:
Este estado é-me insuportável física e moralmente.
Fisicamente,
estou sempre doente e, moralmente, sinto um tédio, um vazio, uma
angústia terrível.
E para Liova deixei de existir... Não posso dar-lhe nenhuma alegria, posto que estou grávida.
O único prazer que encontra nesse estado é de ordem masoquista: foi sem dúvida o malogro de suas relações amorosas que
lhe deu uma necessidade infantil de autopunição.
Desde ontem estou inteiramente doente, tenho medo de um aborto.
Essa dor no ventre dá-me um gozo.
É
como em criança quando
fazia uma travessura; mamãe perdoava-me, mas eu não me perdoava.
Beliscava ou picava fortemente a mão até que a dor se tornasse intolerável.
No entanto, suportava-a e sentia nisso um imenso prazer... Quando... a criança chegar, isso recomeçará, é repugnante! Tudo me
parece fastidioso. As horas soam tão tristemente. Tudo é morno. Ah!
se Liova...
Mas a gravidez é principalmente um drama que se desenrola na mulher entre si e si; ela sente-o a um tempo como um
enriquecimento e uma mutilação; o feto é uma parte de seu
corpo e um parasito que a explora; ela o possui e é por ele possuída; ele resume todo o futuro e, carregando-o, ela sente-se ampla como o mundo; mas essa própria riqueza a aniquila: tem
a impressão de não ser mais nada. Uma existência nova vai manifestar-se e justificar sua própria existência; disso ela se orgulha, mas sente-se também o joguete de forças obscuras, sacudida,
violentada. O que há de singular na mulher grávida é que, no
mesmo momento em que se transcende, seu corpo é apreendido
como imanente: encolhe-se em si mesmo, em suas náuseas e seus
incômodos; deixa de existir para si só e é quando se faz mais
volumoso do que nunca. A transcendência do artesão, do homem de ação é habitada por uma subjetividade, mas na futura
mãe abole-se a oposição sujeito e objeto; ela forma, com esse
filho de que se acha prenhe, um casal equívoco que a vida submerge; presa às malhas da Natureza, ela é planta e animal, uma
reserva de coloides, uma poedeira, um ovo; assusta as crianças de corpo egoísta e faz que os jovens escarneçam, pois ela é
um ser humano, consciência e liberdade, que se tornou um instrumento passivo da vida. A vida habitualmente é apenas uma
condição da existência; na gestação ela se apresenta como criadora; mas é uma estranha criação que se realiza na contingência
e na facticidade. Há mulheres para quem as alegrias da gravidez e da amamentação são tão fortes que as querem repetir indefinidamente; sentem-se frustradas a partir do momento em que
a criança é desmamada. Essas mulheres, que são "poedeiras"
mais do que mães, procuram avidamente a possibilidade de alienar sua liberdade em proveito da carne: sua existência aparece--lhes tranquilamente justificada pela passiva fertilidade do corpo. Se a carne é pura inércia, não pode encarnar a transcendência, ainda que sob uma forma degradada; é preguiça e tédio, mas
torna-se, desde que brota, raiz, fonte, flor; ela se ultrapassa, é
movimento para o futuro, ao mesmo tempo que uma presença
espessa. A separação que a mulher sofreu antes, no momento da
desmama, é compensada; ela é novamente mergulhada na corrente da vida, reintegrada no todo, elo na cadeia das gerações,
carne que existe por e para outra carne. A fusão procurada nos
braços do homem e que é recusada, logo que concedida a mãe
a realiza quando sente o filho no ventre pesado ou que o aperta
contra os seios túmidos. Ela não é mais um objeto submetido
a um sujeito; não é tampouco um sujeito angustiado por sua
liberdade, é essa liberdade equívoca: a vida. O corpo é enfim
dela, posto que é do filho que lhe pertence. A sociedade reconhece-lhe a posse desse corpo e ainda o reveste de um caráter sagrado. O seio, antes objeto erótico, ela o pode exibir, é uma
fonte de vida: a tal ponto que quadros piedosos nos mostram a
Virgem Mãe descobrindo o peito para suplicar ao Filho que
poupe a humanidade. Alienada em seu corpo e em sua dignidade social, a mãe tem a ilusão pacificante de se sentir um ser
em si, um valor completo.
continua página 263...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"