volume V
A Prisioneira
continuando...
continuando...
Decerto eu sentia um pouco de remorso por ser tão irritante para com Albertine, e dizia comigo:
"Se não a amasse, ela me teria maior reconhecimento, pois eu não seria ruim com ela; mas não, isto se
compensaria, pois eu também seria menos amável." E, para me justificar, poderia lhe dizer que a amava.
Mas a confissão desse amor, além de não trazer novidade alguma a Albertine, talvez a deixasse mais fria
a meu respeito do que as durezas e ardis de que justamente o amor era a única desculpa.
É tão natural ser duro e ardiloso com quem se ama! Se o interesse que demonstramos aos outros
não nos impede de sermos doces com eles e complacentes com aquilo que desejam, é que esse
interesse é uma mentira. O próximo nos é indiferente, e a indiferença não convida à maldade.
A noite passava; antes que Albertine fosse deitar-se, não havia tempo a perder se quiséssemos
fazer as pazes e recomeçar com os beijos. Nenhum de nós ainda tomara a iniciativa.
Sentindo que ela estava realmente zangada, aproveitei para lhe falar de Esther Lévy.
- Bloch me disse (o que não era verdade) que você conhecera muito bem a sua prima Esther.
- Eu nem sequer a reconheceria - disse Albertine com ar vago.
- Vi a fotografia dela - acrescentei furioso. Ao dizer isto, não encarava Albertine, de modo que não
vi sua expressão, que teria sido a única resposta, pois ela não disse nada.
Já não era o sossego do beijo de minha mãe em Combray o que eu sentia junto de Albertine
nessas noites, mas, ao contrário, a angústia daqueles dias em que minha mãe mal me dava boa-noite, ou
até nem subia para o meu quarto, ou porque estivesse zangada comigo ou porque a retivessem os
convidados. Essa angústia, não a sua transposição para o amor, não, essa própria angústia, que por
algum tempo se especializara no amor, que se destinara unicamente a ele, depois de operada a partilha,
a divisão das paixões, agora parecia de novo estender-se a todas, tornada outra vez indivisa, assim como
na minha infância, como se todos os meus sentimentos, que estremeciam à ideia de não poder conservar
Albertine junto ao meu leito, a um tempo como amante, como irmã, como filha, como mãe igualmente, de
cujo boa-noite cotidiano eu recomeçava a sentir a necessidade pueril, tivessem começado a reunir-se, a
se unificar na noite prematura da minha vida, que parecia ser tão breve como um dia de inverno. Mas, se
eu experimentava a angústia de minha infância, a mudança da criatura que me fazia senti-la, a diferença
de sentimento que ela me inspirava, a própria transformação do meu caráter, tornavam impossível
reclamar-lhe o alívio como outrora à minha mãe. Eu já não sabia dizer: "Estou triste."
Com a morte na alma, limitava-se a falar de coisas indiferentes que não me adiantavam em nada
para uma solução feliz. Repisava em dolorosas banalidades. E com aquele egoísmo intelectual que, por
menos que uma verdade insignificante se refira ao nosso amor, nos faz ter em grande conta aquele que a
encontrou, talvez tão casualmente como a cartomante que nos anunciou um fato banal mas que desde
então se cumpriu, eu não estava muito longe de acreditar Françoise superior a Bergotte e a Elstir, porque
me dissera em Balbec:
- Essa moça lhe dará desgostos.
Cada minuto me aproximava do boa-noite de Albertine, que por fim ela me dava. Mas naquela
noite o seu beijo, de onde ela própria estava ausente e que não me encontrava, fazia-me tão ansioso que,
o coração palpitante, eu a contemplava ir até a porta, pensando: "Se quero achar um pretexto para
chamá-la, retê-la, fazer as pazes, preciso apressar-me, ela só precisa de mais alguns passos para sair do
quarto, mais dois, mais um, ela gira a maçaneta, abre, é tarde, já fechou a porta." Talvez não fosse tarde
demais, apesar de tudo. Como antigamente em Combray, quando minha mãe me havia deixado sem me
sossegar com seu beijo, eu queria lançar-me no encalço de Albertine, sentia que não teria sossego
enquanto não a visse de novo, que o fato de revê-la iria tornar-se algo imenso como ainda não ocorrera
até ali, e que, se não conseguisse me livrar sozinho dessa tristeza, talvez adquirisse o hábito vergonhoso
de ir mendigar aos pés de Albertine; saltei da cama quando ela já estava em seu quarto, andava para cá
e para lá no corredor, esperando que ela saísse e me chamasse; permanecia imóvel diante de sua porta,
para não me arriscar a não ouvir um débil chamado, entrava por um instante em meu quarto para ver se
minha amiga por felicidade não tinha esquecido um lenço, uma bolsa, alguma coisa que eu pudesse fingir
recear que lhe fizesse falta e que me desse o pretexto de ir a seu quarto. Não, nada. Voltava a postar-me
diante de sua porta. Mas na frincha desta já não havia luz, Albertine já a apagara, estava deitada, eu
ficava lá, imóvel, esperando não sei que oportunidade que não vinha; e muito tempo depois, gelado,
tornava a me deitar sob os cobertores e chorava a noite inteira.
Assim, às vezes, em certas noites, recorria um ardil que me proporcionava o beijo de Albertine.
Sabendo o quanto era rápido o seu adormecimento logo que se estendia na cama (ela também o sabia,
pois instintivamente, quando se deitava, descalçava as sandálias que eu lhe dera, e o anel, que punha a
seu lado, como fazia em seu quarto ao se acomodar), sabendo o quanto era profundo o seu sono e
carinhoso o seu despertar, agarrava-me a um pretexto para ir buscar alguma coisa, fazia-a estender-se
em minha cama. Quando voltava, ela adormecera, e eu via diante de mim aquela outra mulher em que se
transformava quando estava inteiramente de frente. Mas ela mudava depressa de personalidade, pois eu
me estendia a seu lado e a reencontrava de perfil. Podia pôr a minha mão na sua, nos seus ombros, no
seu rosto, que Albertine continuava a dormir. Podia segurar sua cabeça, virá-la, encostá-la nos meus
lábios, rodear meu pescoço com seus braços, e ela continuava a dormir como um relógio de bolso que
não para, como um bicho que continua vivendo qualquer que seja a posição que lhe deem, como uma
trepadeira, uma ipomeia que continua a estender seus ramos, seja qual for o arrimo de que disponha.
Apenas o seu arfar se modificava a cada um dos meus contatos, como se ele fosse um instrumento que
eu tocasse e ao qual fizesse executar modulações, tirando notas diferentes de uma, depois de outra de
suas cordas. Meu ciúme se acalmava, pois sentia que Albertine transformada num ser que respira, que
não é outra coisa, como o indicava o sopro regular pelo qual se exprime essa pura função fisiológica, a
qual, inteiramente fluida, não possui a espessura da palavra nem do silêncio e, em sua ignorância de todo
mal, ofegar extraído antes de um caniço oco que de um ser humano, realmente paradisíaco para mim,
que naqueles momentos sentia Albertine subtraída de tudo, não só material mas moralmente, era o puro
cântico dos anjos. No entanto, por aquele hálito eu de súbito considerava que talvez muitos nomes
humanos, trazidos pela memória, deveriam passar.
Às vezes, até a voz humana se acrescentava a essa música. Albertine pronunciava algumas
palavras. Como desejaria obter-lhes o sentido! Acontecia que o nome de uma pessoa de quem tínhamos
falado e que excitava o meu ciúme, subia-lhe aos lábios, mas sem me fazer infeliz, pois a recordação que
trazia parecia ser apenas a das conversas que ela tivera comigo sobre o assunto. Entretanto, certa noite,
de olhos fechados, meio que acordada, disse carinhosamente dirigindo-se a mim: "Andrée." Dissimulei
minha emoção.
- Estás sonhando, não sou Andrée - retruquei rindo. Ela também sorriu:
- Não, eu queria te perguntar o que te disse Andrée há pouco.
- Pensei que já tinhas deitado assim junto dela.
- Não, nunca. - disse Albertine.
Unicamente, antes de responder isto, escondera por um instante o rosto nas mãos. Logo, seus
silêncios eram apenas véus, seus carinhos superficiais no fundo somente retinham milhares de
lembranças que teriam me dilacerado sua vida, portanto, era repleta desses fatos cuja narrativa trocista e
cuja crônica risonha constituem nossos mexericos diários a respeito dos outros, dos indiferentes, mas
que, enquanto uma criatura permanece extraviada em nosso coração, nos parecem um esclarecimento
tão precioso de sua vida que, para conhecer esse mundo subjacente, daríamos de bom grado a nossa.
Então o seu sono me surgia como um mundo maravilhoso e mágico, onde por instantes se eleva, do
fundo do elemento apenas translúcido, a confissão de um segredo que não se compreenderá. Mas em
geral, quando Albertine dormia, parecia-me que reencontrava sua inocência. Na atitude que eu lhe
atribuíra mas que em seu sono ela depressa tornava sua, dava a impressão de confiar-se a mim. Sua
fisionomia perdera toda e qualquer expressão de manha ou de vulgaridade, e entre ela e mim, para quem
erguia o braço, sobre quem descansava a mão, parecia haver um abandono completo, um elo
indissolúvel. Aliás, o seu sono não a separava de mim, deixando subsistir nela a noção de nossa ternura,
tendo antes por efeito abolido o resto; eu a beijava, dizia que ia dar alguns passos lá fora, ela entreabria
os olhos e me dizia, com ar espantado -e de fato já era noite:
- Mas aonde vais desse jeito, meu querido?-e, chamando-me pelo meu prenome, logo voltava a
adormecer.
Seu sono era apenas uma espécie de apagamento do resto da vida, um silêncio uniforme onde,
de vez em quando, erguiam voo palavras familiares de carinho. Aproximando-as umas das outras, teria
sido possível compor a conversação sem mistura, a secreta intimidade de um amor puro. Este sono tão
calmo encantava-me como encanta à mãe, que o considera uma qualidade, o bom sono de seu filho. E
com efeito o sono de Albertine era o de uma criança. Outrossim o seu despertar, e é tão natural, tão
carinhoso, antes mesmo que ela se desse conta de onde estava, que às vezes eu me perguntava, com
terror, se ela tivera o hábito, antes de viver comigo, de não dormir sozinha e de encontrar alguém a seu
lado ao abrir os olhos. Mas sua graça infantil era mais forte. Tal uma mãe, ainda maravilha-me que
sempre acordasse de bom humor. Ao cabo de alguns instantes, ela readquiria a consciência, dizia
palavras encantadoras, sem relação umas com as outras, um pipilar apenas. Por uma espécie de
contradança, o seu pescoço, habitualmente pouco notado, e agora quase belo demais, tomara a
importância enorme que seus olhos fechados pelo sono haviam perdido, seus olhos, meus habituais
interlocutores e aos quais já não podia me dirigir desde o cerrar das pálpebras. Da mesma forma que os
olhos fechados conferem uma beleza inocente e grave ao rosto, suprimindo tudo o que os olhares
expressam demais, nas palavras, não sem sentido, mas entrecortadas de silêncio, que Albertine
pronunciava ao despertar, havia uma beleza pura que não é a todo instante manchada, como o é a
conversação, de hábitos verbais, de lenga-lengas, de vestígios de defeitos. Além disso, quando me
decidia a acordar Albertine, podia fazê-lo sem medo, pois sabia que seu despertar não estaria de modo
algum relacionado com a noite que acabáramos de passar, mas sairia do seu sono como da noite sai a
manhã. Logo que ela entreabria os olhos sorrindo, estendia-me os lábios e, antes que dissesse alguma
coisa, eu já lhe saboreara o frescor, calmante como o de um jardim ainda silencioso antes do despontar
do dia.
No dia seguinte àquela noite em que Albertine me dissera que talvez fosse à casa dos Verdurin, e
depois que não iria, eu acordei cedo e, ainda meio adormecido, minha alegria informou-me que era,
interpolado no inverno, um dia de primavera. Lá fora, temas populares finamente escritos por
instrumentos variados, desde a buzina do consertador de porcelana, ou a corneta do empalhador de
cadeiras, até a flauta do cabreiro que parecia num dia lindo ser um pastor da Sicília, orquestravam de
leve o ar matinal numa "Abertura para um dia de festa". A audição, este sentido delicioso, traz até nós a
companhia da rua, da qual retraça todas as linhas, desenha todas as formas que passam, mostrando-nos
o seu colorido. As cortinas de ferro da padaria, da leiteria, que haviam abaixado a noite anterior sobre
todas as possibilidades de ventura feminina, erguiam-se agora como as leves polés de um navio que
aparelha e vai zarpar, cruzando o mar transparente, sobre um sonho de jovens empregadas. Este rumor
da cortina de ferro que está sendo erguida talvez fosse o meu único prazer num bairro diferente. Neste
meu, cem outros formavam a minha alegria, e nem um só eu quisera perder dormindo até mais tarde. O
encanto dos velhos bairros aristocráticos é serem igualmente populares. Como às vezes os tiveram as
catedrais, não longe das portadas (às quais ocorreu mesmo conservarem-lhes o nome, como o da
catedral de Ruão, chamada dos "Livreiros", porque junto a ela expunham estes a sua mercadoria ao ar
livre), diversos pequenos ofícios, mas ambulantes, passavam diante do nobre palacete de Guermantes, e
por vezes faziam pensar na França eclesiástica de outrora. Pois o apelo que lançavam às pequenas
residências vizinhas nada possuía com raras exceções, de uma canção. Diferia dela tanto quanto da
declamação - mal colorida por variações insensíveis de Boris Godunov e de Pélleas; mas, por outro lado,
lembrava o salmodiar de um padre no decurso dos ofícios, dos quais estas cenas de rua são apenas a
contrapartida ingênua, forânea, todavia meio litúrgica. Eu jamais sentira tanto prazer com elas desde que
Albertine morava comigo; parecia-me um alegre sinal de seu despertar e, interessando-me pela vida lá
fora, faziam-me sentir melhor a virtude calmante de uma presença querida, tão constante como a
desejava.
Certos alimentos gritados na rua, e que eu pessoalmente achava detestáveis, eram muito do gosto
de Albertine, de modo que Françoise os mandava comprar pelo seu jovem lacaio, que talvez se sentisse
humilhado por se ver confundido na multidão plebeia. Naquele bairro tão tranquilo (em que os rumores já
não eram um motivo de tristeza para Françoise e haviam se tornado a razão de doçura para mim)
chegavam-me, cada qual com sua modulação diversa, os recitativos declamados por aquelas pessoas do
povo, como o seriam na música, tão popular, de Boris, onde uma entonação inicial quase não se altera
pela inflexão de uma nota que sobre outra se debruça, música da multidão que antes é uma linguagem do
que uma música. Era: "Olha o marisco, olha o marisco por dez tostões!", atraindo a freguesia para os
cestos onde eram vendidas essas horríveis conchinhas que, não fosse Albertine, teriam me causado
repugnância, assim como os caramujos que eu ouvia serem vendidos à mesma hora. Aqui, ainda era na
declamação apenas lírica de Mussorgsky que fazia pensar o vendedor, mas não somente nela. Pois,
após ter quase "falado": "Os caramujos estão fresquinhos, estão bonitos", era com a tristeza e a vaguidão
de Maeterlinck, musicalmente transpostas por Debussy, que o vendedor de caramujos, num desses
dolorosos finais com que o autor de Pélleas se parece com Rameau ("Se devo ser vencida, serás tu o
meu vencedor?"), acrescentava com sua melancolia cantante: "A trinta tostões a dúzia..."
Sempre me foi difícil compreender porque aquelas palavras tão claras eram suspiradas num tom
tão pouco adequado, misterioso, como o segredo que faz com que todos tenham a fisionomia triste no
velho palácio a que Mélisande não conseguiu levar a alegria, e profundo como um pensamento do velho
Arkel, que busca proferir em palavras muito simples toda a sabedoria e o destino. As próprias notas em
que se eleva com doçura crescente a voz do velho rei de Allemonde, ou a de Golaud, para dizer: "Não se
sabe o que acontece aqui. Isto pode parecer estranho. Talvez não existam ocorrências inúteis", ou então:
"Não precisas te assustar... Era uma pobre criaturinha misteriosa, como todo mundo", eram as que
serviam ao vendedor de caramujos para repetir, numa cantilena indefinida: "A trinta tostões a dúzia..."
Porém essa lamentação metafísica não tinha tempo de expirar à beira do infinito; era interrompida por
uma forte trombeta. Desta vez não se tratava de comidas, as palavras do libreto eram: "Tosamos
cachorros, cortamos gatos, as caudas e as orelhas."
Certo, a fantasia e o espírito de cada vendedor ou vendedora introduziam, com frequência,
variantes nas frases de todas essas músicas que eu ouvia da cama. Entretanto, uma parada ritual, pondo
um silêncio em meio a uma frase, sobretudo quando era repetida duas vezes, evocava constantemente a
lembrança de velhas igrejas. Em seu pequeno carro, conduzido por uma burrinha que ele fazia parar
diante de todas as casas para entrar nos pátios, o vendedor de roupa, segurando um chicote, salmodiava:
"Roupas, vendem-se roupas, rou... pas" com a mesma pausa, entre as duas sílabas de "roupas", com
que teria entoado em cantochão: "Per omnia saecula saeculo... rum" ou: "Requiescat in pa... ce", embora
não acreditasse na eternidade de suas roupas e nem tampouco as oferecesse como sudário para o
supremo repouso na paz. E da mesma forma, como os motivos principiavam a cruzar-se desde aquela
hora matinal, uma vendedora de hortaliças, empurrando o seu carrinho, usava para a sua ladainha a
divisão gregoriana: As hortaliças, as hortaliças Alcachofras macias e bonitas Alca-chofras embora ela
fosse provavelmente ignorante do antifonário e dos sete tons que simbolizam, quatro as ciências do
quadrívio e três as do trívio.
Tirando de uma flautinha, de uma gaita de foles, as melodias de sua região meridional, cuja luz
combinava bem com os dias claros, um homem de blusa, tendo à mão um vergalho e na cabeça uma
boina basca, parava diante das casas. Era o cabreiro com dois cães e, à sua frente, o rebanho de cabras.
Como vinha de longe, passava bem tarde no nosso bairro; e as mulheres acorriam com uma tigela para
recolher o leite que devia fortalecer os seus filhinhos. Mas às melodias pirenaicas daquele pastor
benfazejo misturava-se já a campainha do amolador, que gritava: "Facas, tesouras, navalhas." Com ele
não podia lutar o amolador de serrotes, pois, destituído de instrumento, contentava-se em chamar: "Quem
tem serrotes para amolar? Olha o amolador!", ao passo que, mais alegre, o funileiro, depois de ter
enumerado os caldeirões, as caçarolas, tudo quanto ele soldava, entoava o refrão: Tão, tão, tão Conserto
até o chão/ Ponho fundo em tudo/ E tapo buracos/ Raco, raco, raco e italianinhos, carregando grandes
caixas de ferro pintadas de vermelho, onde estavam marcados os números perdedores e ganhadores-, e
tocando matraca, convidavam:
"Venham, venham, minhas senhoras, eis a grande diversão." Françoise me trouxe o Fígaro.
Bastou um só olhar para ver que o meu artigo ainda não fora publicado. Ela me disse que Albertine
indagava se podia vir ao meu quarto e me mandava dizer que, em todo caso, desistira de fazer uma visita
aos Verdurin e esperava ir, como eu lhe aconselhara, à vesperal "extraordinária" do Trocadero (o que
hoje chamaríamos, para coisa muito menos importante, uma vesperal de gala) depois de um
passeiozinho a cavalo que faria com Andrée. Agora que eu sabia que ela renunciara a seu desejo, talvez
perverso, de ir visitar a Sra. Verdurin, respondi rindo:
- Que venha! - e disse para mim mesmo que ela podia ir aonde bem quisesse, pois para mim seria
indiferente. Sabia que, no fim da tarde, quando chegasse o crepúsculo, eu sem dúvida seria um outro
homem, triste, dando às menores idas e vindas de Albertine uma importância que elas não tinham
naquela hora matinal, e quando o dia era tão lindo. Pois a minha despreocupação era seguida pela noção
bem clara de sua causa, mas sem ser alterada por ela.
- Françoise me assegurou que você estava acordado e que eu não incomodaria - disse Albertine
entrando. E, como aquele de me causar frio abrindo a janela num momento mal escolhido, o maior medo
de Albertine era o de entrar no meu quarto quando eu cochilava:
- Espero não ter feito mal - acrescentou. - Receava que você me dissesse: Que mortal insolente
vem procurar a morte?'
E ela riu com aquele riso que tanto me perturbava. Respondi-lhe no mesmo tom gracejador:
- Foi para vós que se deu ordem tão severa?
E de medo que ela a infringisse alguma vez, acrescentei:
- Embora ficasse furioso se você me acordasse.
- Eu sei, eu sei, não tenha medo - disse Albertine.
E, para suavizar, acrescentei, continuando a representar com ela a cena de Esther, ao passo que
na rua prosseguiam os apelos que ficavam confusos devido à nossa conversa:
- Somente em vós encontro uma tal ou qual graça. Que me deslumbra sempre, mas jamais me
cansa. (e comigo mesmo dizia: "Sim, ela me cansa muitas vezes"). E lembrando-me do que ela dissera
na véspera, e agradecendo-lhe com exagero por ter renunciado ir aos Verdurin, para que de outra vez me
obedecesse da mesma forma nisso ou naquilo, observei:
- Albertine, você desconfia de mim, que muito a amo, e tem confiança em pessoas que não
gostam de você (como se não fosse natural desconfiar das pessoas que nos amam e são as únicas que
têm interesse em nos mentir para saber, para nos opor obstáculos).
E acrescentei estas palavras mentirosas:
- No fundo, você não acredita que eu a ame, é engraçado. De fato, não a adoro. -
Ela por sua vez mentiu, dizendo que só confiava em mim, e a seguir foi sincera, garantindo que
sabia muito bem que eu a amava. Mas tal afirmação não parecia implicar que ela não me julgasse
mentiroso e capaz de espioná-la. E parecia perdoar-me, como se visse aí a consequência insuportável de
um grande amor, ou como se ela mesma se achasse menos bondosa.
- Peço-lhe, minha querida, nada de cabriolas como fez outro dia. Pense, Albertine, se lhe ocorre
um acidente! -
continua na página 50...
________________
Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Havia esquecido a mentira)