quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Tchekhov - A mulher do farmacêutico

Alguns melhores contos


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”
Anton Tchekhov

A mulher do farmacêutico

     O lugarejo de B.., formado por duas ou três ruazinhas tortas, dorme seu sono pesado. No ar espesso o silêncio é total. Ouve-se apenas, ao longe, fora dos limites da cidade, o latido ardido e líquido de um cão que aos poucos enrouquece. É quase o amanhecer.
     Há muito tempo que tudo está dormindo. A única que não dorme é a jovem mulher do boticário Tchornomordik, proprietário da farmácia de B… Já tentou deitar-se três vezes, mas, não sabe por quê, o sono teima em não querer chegar. Sentada, a janela aberta, veste apenas uma camisola e olha para a rua. Sente calor, tédio, desgosto. Tanto desgosto que lhe dá até vontade de chorar; de novo, não sabe por quê.
     Sente um nó no peito que de repente lhe chega a garganta… Poucos passos atrás dela, colado à parede, dorme Tchornomordik e ronca baixinho. Uma pulga esfomeada suga-o a raiz do nariz, mas ele não percebe e até sorri, pois está sonhando que todos na cidade estão com tosse e compram dele, interminavelmente, as gotas do rei da Dinamarca. Nenhuma picada poderia acordá-lo agora, nem um canhão, nem uma carícia.
     Como a farmácia encontra-se quase no limite da cidade, a mulher do boticário consegue ver o campo, ao longe… Vê como o céu aos poucos faz-se branco, do lado do leste, e depois se torna púrpura, como que devido a um grande incêndio. Inesperadamente, de trás de um longínquo arbusto desponta o grande rosto da lua. Ela é vermelha (não sabe por que a lua saindo detrás dos arbustos sempre tem um quê de terrivelmente confuso).
     De repente, no meio da calma noturna, ressoam passos e o retinir de esporas. Ouvem-se vozes.
     Pouco depois surgem dois vultos e dois uniformes brancos de oficiais: um é grande e gordo, o outro menor e mais fino… Arrastam, preguiçosos, uma perna atrás da outra, ao longo da sebe, e conversam ruidosamente. Diante da farmácia diminuem ainda mais o passo e olham para as janelas.

– Sente-se cheiro de farmácia… – diz o magro. – E é uma farmácia! Ah, estou lembrando… Na semana passada vim aqui comprar óleo de rícino. O farmacêutico tem um rosto azedo e uma queixada de burro. Pois é, meu amigo, a queixada! Aquela mesma com que Sansão deu cabo dos filisteus.
– Sim… – diz o gordo, com sua voz de baixo. – O farmacêutico dorme e dorme a mulher do farmacêutico. Por sinal, Obtiossov, ela não é de se atirar aos cães.
– Eu a vi. E gostei… Diga-me doutor, será que ela pode gostar de uma queixada dessas? O senhor acha isso possível?
– Não, provavelmente, não gosta – suspira o médico com uma expressão como que de pena pelo farmacêutico. – A mamãezinha está dormindo atrás das janelas. Que acha, Obtiossov? Deitou-se, de tanto calor… a boca entreaberta… a perna caída, fora da cama. E a besta do farmacêutico não está com nada… Para ele, provavelmente, uma mulher ou um vidro de fenol são a mesma coisa.
– Sabe de uma coisa, doutor? – diz o oficial, parando. 
– Que tal entrar na farmácia e comprar alguma coisa? Quem sabe a gente vê a farmacêutica?
– Imagine – de madrugada!
– E daí? De madrugada também tem de atender. Entremos, por favor…

     A farmacêutica escondida atrás da cortina ouve o som rouco da campainha. Olha para o marido que, como dantes, ronca baixinho e sorri. Veste rapidamente a roupa, calça o sapato sem meia e corre para a loja.
     Atrás da porta de vidro veem-se duas sombras… A farmacêutica aumenta a luz da lamparina e abre a porta depressa. Já não sente tédio, nem desgosto, nem vontade de chorar; apenas o coração bate, forte. Entram o doutor gorducho e o esbelto Obtiossov. Agora pode olhá-los à vontade. O doutor barrigudo é moreno, barbado e lerdo. Ao menor movimento seu uniforme estala e seu rosto cobre-se de gotas de suor. Ao contrário, o oficial é rosado, sem barba, feminino e flexível como um chicote inglês.

– O que desejam? – pergunta a farmacêutica, segurando com uma das mãos o decote do vestido.
– Bem… dê-nos quinze copeques de pastilhas de hortelã. Sem se apressar, a mulher retira da prateleira a lata e começa a pesar. Os clientes olham para ela, de costas, sem pestanejar: o médico de olhos semicerrados, como um gato satisfeito, e o tenente, sério.
– É a primeira vez que vejo uma senhora trabalhar numa farmácia – diz o médico. 
– Não há nada de estranho – responde a farmacêutica olhando de viés para o rosto rosado de Obtiossov. – Como meu marido não tem ajudantes, quem o ajuda sou eu.
– É assim? Pois a senhora tem uma linda farmácia! Um montão dessas… latas!  E a senhora não tem medo de estar sempre às voltas com venenos? Brrr!

     A farmacêutica embrulha as pastilhas e as entrega ao médico. Obtiossov dá-lhe uma moeda de quinze copeques. Meio minuto de silêncio.. Os homens entreolham-se, dão um passo em direção à porta, olham se de novo.

– Dê-me dez copeques de bicarbonato de sódio! – diz o médico.

     De novo a farmacêutica move-se devagar e estende lentamente o braço para a prateleira.

– Será que aqui na farmácia não tem alguma coisa…– resmunga Obtiossov mexendo os dedos -, alguma coisa, assim, a senhora sabe, de alegórico, algum licor revigorante… gasosa, isso! A senhora tem gasosa?
– Tenho – responde a farmacêutica.
– Excelente! A senhora não é uma mulher, é uma feiticeira. Arranje-nos então umas três garrafas.

     Ela embrulha o bicarbonato de sódio e desaparece na sombra atrás da porta.

– Uma fruta! – diz o medico, piscando; – Um ananás como esse, Obtiossov, você não encontra nem sequer na ilha da Madeira. Hem? O que você acha? Porém. está ouvindo o ronco? É o senhor farmacêutico que resolveu dormir em santa paz.

     Um minuto mais tarde a farmacêutica está de volta com cinco garrafas que coloca no balcão. Acaba de subir do porão, por isso ela está corada e um pouco agitada.

– Sss… mais baixinho – diz Obtiossov quando ela deixa cair o abridor, após ter destampado as garrafas. Não faça tanto barulho, senão acorda seu marido.
– E daí, o que é que tem se ele acordar?
– Ele dorme tão bem… está sonhando com a senhora… À sua saúde!
– Além do que – acrescenta o médico com sua voz de baixo, após um gole de gasosa -, quanto ao marido, é uma coisa tão maçante que seria bom ele dormir sempre. Eh, com essa água, até que um vinhozinho ia bem.
– O que mais o senhor quer inventar! – ri a farmacêutica.
– Seria magnífico. É uma pena que não se vendam bebidas alcoólicas em farmácia. Mas… a senhora deve vender vinho, como remédio. A senhora por acaso tem vinum gallicum rubrum?
– Tenho.
– Viva! Traga-o, traga-o, com os diabos!
– Quanto o senhor quer? 
– Quantum satis. Para começo de conversa, traga uma onça num copo de água, depois veremos… Não é assim, Obtiossov? Primeiro com a água, depois já per se…

     O médico e Obtiossov sentam-se perto do balcão, tiram seus quepes e começam a beber o vinho tinto.

– É preciso convir, é horrível. Vinum malissimum. Embora em companhia de… he, he, he… ele pareça um néctar. Madame, a senhora é encantadora! Beijo-lhe a mão em pensamento.
– E o que eu daria para não fazê-lo em pensamento! falou Obtiossov.
– Palavra de honra! Daria a vida.
– Deixe disso… – falou a senhora Tchernomódrik, corando e assumindo um ar de seriedade.
– E, no entanto, como a senhora é coquete – ri o doutor baixinho, olhando-a de baixo, maliciosamente. Seus olhos disparam: pam! pam! Parabéns, a senhora ganhou! Fomos atingidos!

     A farmacêutica olha para seus rostos corados, ouve suas palavras e logo ela também se anima. Entra na conversa, ri, flerta e até, após tantos pedidos, consente em beber duas onças de vinho tinto.

– Ah, se vocês oficiais viessem mais vezes do acampamento para a cidade – diz ela. – Aqui é tão aborrecido. Morro de tanto tédio.
– Não faça isso! – exclama o doutor horrorizado. Uma fruta dessas… um milagre da natureza nesse lugar perdido. Bem que Griboiédov disse: “Para o deserto, para Sarátov!” Infelizmente, já está na hora. Tive imenso prazer em conhecê-la... Imenso. Quanto lhe devemos?

     A farmacêutica levanta os olhos para o teto e move demoradamente os lábios.

– Doze rublos e quarenta e oito copeques – diz, afinal. Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, fica um tempão remexendo entre as notas e acerta a conta.
– Seu marido dorme em paz… sonha… – resmunga ele, apertando o braço da farmacêutica, ao despedir-se.
– Não gosto de ficar ouvindo besteiras…
– Mas que besteiras… Já Shakespeare dizia: “Feliz daquele que foi jovem quando jovem”.
– Solte meu braço!

     Finalmente, depois de longas conversas, os clientes beijam a mão da farmacêutica e, incertos, como se temessem ter esquecido alguma coisa, saem da farmácia.
     Ela corre logo para o quarto e senta-se à mesma janela. Vê que o doutor e o tenente, após terem saído da loja, andam uns vinte passos sem vontade, depois param e começam a bisbilhotar entre si. O coração dela bate. Sobre o que será? As têmporas também latejam, por quê, ela mesma não sabe… O coração bate forte, como se aqueles dois, bisbilhotando lá fora, fossem decidir seu destino.
     Uns cinco minutos depois o médico se afasta de Obtiossov e prossegue, enquanto o outro retorna. Passa pela farmácia uma, duas vezes… Para perto da porta, começa a andar de novo. Afinal, toca com cuidado a campainha.

– O que há? Quem está aí? – a farmacêutica ouve de repente a voz do marido. – Estão tocando e você não escuta? Que droga!

     Ele levanta, veste o robe e balançando, meio sonado, arrasta os chinelos e vai até a loja.

– O que… o senhor quer? – pergunta a Obtiossov.
– Dê-me… dê-me quinze copeques de pastilhas de hortelã.

     Tchornomordik sopra, boceja, anda dormindo, bate com os joelhos no banco, sobe na prateleira e apanha a lata.
     Dois minutos mais tarde a farmacêutica vê Obtiossov sair da loja e, depois de alguns passos, jogar na estrada poeirenta as pastilhas de hortelã. Da esquina o médico vem a seu encontro.. Ambos se juntam e, gesticulando com as mãos, desaparecem na bruma da manhã.

– Como eu sou infeliz! – diz a farmacêutica, olhando com ódio o marido que se despe depressa para deitar de novo.
– Oh, como eu sou infeliz! – repete ela, e de repente seus olhos se enchem de lágrimas. – E ninguém, ninguém desconfia…
– Esqueci quinze copeques no balcão – resmunga o marido desaparecendo sob o cobertor. Esconda-os na caixa, por favor…

Fim

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Leia também:
A mulher do farmacêutico /        .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (XI. Outra reputação perdida)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
X
OUTRA REPUTAÇÃO PERDIDA
 
     Da cidade ao mosteiro era apenas 1 versta. Aliócha caminhava rapidamente pela estrada, deserta àquela hora. Era quase noite e difícil, a trinta passos, distinguir os objetos. Em meio do caminho, no centro duma encruzilhada, elevava-se um salgueiro isolado, sob o qual percebia-se um vulto. Mal Aliócha chegara àquele local, o vulto destacou-se da árvore e lançou se a ele gritando:

— A bolsa ou a vida! 
— Como, és tu, Mítia! — exclamou, espantado, Aliócha, bastante comovido. 
— Ah! ah! não esperavas por isto, hein? Perguntava a mim mesmo onde esperar-te. Perto da casa dela? Há três caminhos que partem dali e eu podia não te encontrar. Tive a idEia afinal de esperar-te aqui, porque devias necessariamente passar por esta estrada, uma vez que não há outra para ir ao mosteiro. Pois bem, dize-me a verdade, esmaga-me como a uma barata... Que tens, então?
— Não é nada, irmão... É o medo! Ah! Dimítri! Ainda há pouco, esse sangue de nosso pai (Aliócha pôs-se a chorar, desde muito tinha vontade disso, parecia-lhe que alguma coisa se dilacerava dentro dele). Tu quase o mataste... tu o amaldiçoaste... e eis que agora... aqui... fazes brincadeira... a bolsa ou a vida!
— Ah! sim. Pois bem! É indecente? Não convém isto à situação?
— Mas não, dizia isto...
— Espera, olha essa noite; vê como está sombria, aquelas nuvens, esse vento que se levantou. Oculto sob o salgueiro, esperava-te e, de repente, disse a mim mesmo (Deus me seja testemunha!): "Que adianta sofrer ainda, por que esperar? Eis um salgueiro, tenho meu lenço e minha camisa, a corda ficaria trançada em breve, com meus suspensórios ainda por cima... A terra ficaria livre de mim, não mais a desonraria com a minha presença!" E eis que ouço os teus passos. Senhor, foi como se um raio descesse sobre mim! "Há pois um homem a quem amo, ei-lo, esse homenzinho, o meu querido irmãozinho, a quem amo mais que tudo no mundo e é o único a quem amo!" Tão vivo era meu afeto naquele minuto que pensei: "Vou atirar-me ao seu pescoço!" Mas veio-me uma idEia estúpida: "Para diverti-lo, vou fazer-lhe medo". E gritei como um imbecil: "A bolsa!" Perdoa minha tolice; é absurdo, mas no fundo da alma... sou bom... Pois bem! com o diabo! Fala pois, que houve lá? Que foi que ela disse? Esmaga-me, bate-me, não me poupes! Ela está exasperada? 
— Não... não é totalmente isto, Mítia. Encontrei as duas.
— Quais duas?
— Grúchenhka em casa de Catarina Ivânovna.

     Dimítri ficou estupefato. 

— É impossível! — exclamou. — Deliras! Grúchenhka em casa dela? 

     Numa narrativa despida de artifício, mas não de clareza, expôs Aliócha o essencial do que se passara, acrescentando-lhe suas próprias impressões. Seu irmão escutava-o em silêncio, fixando-o com um ar impassível, mas Aliócha via claramente que ele já havia compreendido tudo, elucidado todo o caso. À medida que a narrativa avançava, seu rosto tornava-se não sombrio, mas ameaçador. Franzia o cenho, de dentes cerrados, o olhar ainda mais fixo, mais terrível na sua obstinação... A mudança súbita que ocorreu em seu rosto encolerizado foi por isso mesmo totalmente inesperada; seus lábios crispados distenderam-se, e Dimítri Fiódorovitch explodiu na gargalhada mais irresistível e mais franca. Ficou um bom momento sem poder falar, à força de rir.

— De modo que ela não lhe beijou a mão! Fugiu sem beijar-lhe a mão! — exclamou ele num arrebatamento mórbido, que se teria podido qualificar de impudente, se não fosse tão ingênuo. 
— E a outra chamou-a de teoriza? É uma mesmo! Devia subir ao cadafalso! Certamente, estou de acordo; deveriam tê-lo feito desde muito. Mas não é tudo, irmão, é preciso em primeiro lugar recuperar a saúde. Ela está toda inteira nesse beijo de mão, aquela rainha da impudência, aquela criatura infernal! É a rainha de todas as fúrias que se possam imaginar! De encher de entusiasmo, de certa maneira! Partiu para sua casa? Agora mesmo... corro até lá. Aliócha, não me acuses, convenho que seria pouco o estrangulá-la...
— E Catarina Ivânovna? — perguntou tristemente Aliócha. 
— Também a compreendo, como até agora tenho compreendido! Ê a descoberta das quatro partes do mundo, das cinco, quero dizer! Tal passo que deu! Ê bem a mesma Catarina, a pensionista que não receia ir ter com um oficial grosseiro, com o nobre desígnio de salvar seu pai, arriscando-se a ser insultada! Mas essa altivez, essa sede do perigo, esse desafio ao destino, até os derradeiros limites!... Sua tia, dizes, queria impedi-la? É uma mulher despótica, irmã daquela generala de Moscou; fazia muito embaraço, mas seu marido foi acusado de malversações, perdeu tudo, seus bens e o resto, sua orgulhosa esposa teve de baixar o tom. De modo que retinha ela Cátia, mas esta não a escutou. "Posso tudo vencer, tudo me é submetido, enfeitiçarei Grúchenhka, se quiser. " Acreditava bem nisso decerto, e forçou seu talento. De quem a culpa? Pensas que tenha sido intencionalmente que beijou por primeira a mão de Grúchenhka, por cálculo e por astúcia? Não, deixou se enfeitiçar nada mais nada menos por Grúchenhka, isto é, não por ela, mas pelo seu sonho, pelo seu desejo, muito simplesmente, porque esse sonho, esse desejo eram os seus! Aliócha, como pudeste escapar a semelhantes mulheres? Fugiste, arrepanhando a batina, hein? Ah! ah! ah! 
— Irmão, não pensaste, creio, na ofensa que fizeste a Catarina Ivânovna contando a Grúchenhka sua visita à tua casa; Grúchenhka lançou-lhe em rosto que "ela ia furtivamente traficar seus encantos". Há pior injúria, meu irmão?

     A ideia de que seu irmão se rejubilava com a humilhação de Catarina Ivânovna atormentava Aliócha, embora sem razão, evidentemente.

— Ah! sim! — disse Dimítri, franzindo as sobrancelhas e batendo na testa. Somente agora se dava conta, se bem que Aliócha tivesse tudo contado ao mesmo tempo, a injúria e o grito de Catarina Ivânovna: "Seu irmão é um canalha!" — Sim, com efeito, devo ter falado a Grúchenhka daquele "dia fatal", como diz Cátia. Deveras, contei-lhe, lembro-me! Foi em Mókroie, enquanto os ciganos cantavam; estava embriagado... Mas então eu soluçava, rezava de joelhos diante da imagem de Cátia. Grúchenhka compreendia-o, ela mesma chorava... Ah! diabos! poderia ser de outro modo agora? Ela chorava então, agora crava um punhal no coração. Eis as mulheres!

     Pôs-se a refletir, de cabeça baixa. — Sim, sou um verdadeiro canalha — proferiu ele, de súbito, com voz sombria. — Que tenha chorado ou não, tanto faz. Conta-lhe que aceito o qualificativo, se isto pode consolá-la. Pois bem! chega, de que serve tagarelar? Não é divertido. Sigamos cada qual nossa estrada. Não quero mais rever-te antes do derradeiro momento. Adeus, Alieksiéi!
     Apertou fortemente a mão de Aliócha e, sem erguer a cabeça, como um evadido, caminhou a grandes passadas para a cidade. Aliócha acompanhou-o com o olhar, não podendo crer que tivesse ele partido deveras.

— Espera, Alieksiéi, ainda uma confissão, para ti somente! (Dimítri retrocedera. ) — Olha-me bem no rosto: aqui, vês tu, aqui, uma infâmia execrável se prepara. (Ao dizer isto, Dimítri batia no peito com um ar estranho, como se a infâmia estivesse depositada em seu peito ou suspensa ao seu pescoço. ) Já me conheces como um canalha chapado. Mas, fica sabendo, o que quer que eu tenha feito, o que quer que possa fazer no futuro, nada se compara em baixeza com a infâmia que trago no meu peito e que poderia reprimir, mas não o farei, fica sabendo. Prefiro cometê-la. Tudo te contei há pouco, exceto isto, não tinha coragem! Posso ainda deter-me e, dessa maneira, recuperar amanhã a metade de minha honra, mas não renunciarei a isto, cumprirei meu negro desígnio, poderás ser testemunha de que falo disso antecipadamente e cientemente. Perdição e trevas! Inútil explicar-te, sabê-lo-ás a seu tempo. A lama é uma verdadeira fúria! Adeus. Não rezes por mim, não sou digno e não tenho necessidade de oração nenhuma... Sai de meu caminho!...

     Afastou-se desta vez, definitivamente. Aliócha seguiu para o mosteiro.  

"Como! Não o verei mais? Que é que ele diz?" Isto pareceu-lhe esquisito. "Amanhã, sem falta, vou pôr-me à sua procura. Que quis ele dizer?"

     Contornou o mosteiro e seguiu diretamente para o eremitério atra- vés do bosque de pinheiros. Abriram-lhe, se bem que não deixassem entrar ninguém àquela hora. Entrou na cela do stáriets, com o coração palpitante.

"Por que partira ele? Por que o haviam enviado ao mundo? Aqui, a paz, a santidade; lá, a perturbação, as trevas nas quais a gente se perde... "

     Na cela encontravam-se o noviço Porfírio e um religioso, o Padre Paísi, que o dia inteiro viera a cada hora saber notícias do Padre Zósima. Seu estado piorava, como veio a saber Aliócha, com espanto. A conversa habitual da noite com a comunidade não pudera realizar-se daquela vez. Comumente, à noite, após o ofício, a comunidade, antes de ir repousar, reunia-se na cela do stáriets; cada qual lhe confessava bem alto suas faltas do dia, os sonhos culpados, as ideias, as tentações, até as rusgas entre monges, se alguma ocorrera. confessavam, de joelhos. O stáriets Outros se absolvia, acalmava, ensinava, impunha penitências, abençoava e despedia. Era contra essas "confissões" fraternais que se levantavam os adversários do stáriets, dizendo que era aquilo uma profanação da confissão, como sacramento, quase um sacrilégio, se bem que fosse coisa bem diversa. Haviam mesmo feito denúncia à autoridade diocesana de que não somente aquelas confissões não atingiam o seu fim, mas eram na realidade uma fonte de pecados e de tentações. A muitos, na comunidade, repugnava ir à casa do stáriets e ali apareciam de má vontade, a fim de não passarem por orgulhosos e revoltados de espírito. Contava-se que certos monges, ao irem à confissão da noite, entendiam-se entre si de antemão: "Direi que me zanguei contra ti esta manhã, tu o confirmarás", isto a fim de ter alguma coisa que dizer e ver-se livre daquilo. Aliócha sabia que as coisas se passavam por vezes assim. Sabia também que alguns se indignavam bastante contra o costume segundo o qual as cartas, mesmo dos pais, recebidas pelos solitários, eram levadas em primeiro lugar ao stáriets, para que ele as abrisse e lesse antes de seus destinatários.  
     Supunha-se, bem entendido, que essas práticas deviam realizar-se livremente e sinceramente, de todo o coração, com um fim de edificação salutar e de submissão voluntária; de fato, acontecia que, longe de serem sinceras, não eram senão fingidas. Mas os mais idosos e os mais experimentados da comunidade persistiam em sua ideia, estimando que "os que tinham transposto o recinto para cuidar sinceramente de sua salvação encontravam naquela obediência e naquela abdicação de si mesmos um proveito dos mais salutares; mas que os que murmuravam com repugnância não tinham a vocação e melhor teriam feito se tivessem ficado no mundo. O pecado e a tentação vos tocaiam não somente no mundo, mas no santuário, melhor valia não se prestar a isso".

— Está enfraquecendo, sonolento — murmurou o Padre Paísi a Aliócha. — É difícil despertá-lo. E para quê? Acordou por uns cinco minutos e pediu que se transmitisse sua bênção à comunidade, cujas preces solicita. Amanhã de manhã, tem intenção de comungar de novo. Lembrou-se de ti, Aliócha, informou-se de onde estavas, disseram-lhe que havias partido para a cidade. "Minha bênção o acompanhe ali; seu lugar é lá e não aqui. " És o objeto de seu amor e de sua solicitude, compreendes essa honra? Mas por que te marca ele um estágio no mundo? Será que pressente alguma coisa no teu destino? Se voltares ao mundo, é para cumprir uma tarefa imposta pelo teu stáriets, compreende-o, Alieksiéi, e não para te entregares à agitação vã e às obras do século... 

     O Padre Paísi saiu. Alieksiéi não duvidava de que o fim do stáriets estivesse próximo, muito embora pudesse viver ainda um dia ou dois. Jurou a si mesmo, malgrado os compromissos tomados para com seu pai, as senhoras Khokhlakovi, seu irmão, Catarina Ivânovna, não deixar o mosteiro no dia seguinte e ficar junto do stáriets até seu derradeiro momento. Seu coração abrasava-se de amor e censurava-se amargamente ter podido esquecer um instante, lá embaixo, aquele que deixara em seu leito de morte e a quem venerava acima de tudo. Passou para o quarto de dormir, ajoelhou-se, prosternou-se diante da cama dele. O stáriets repousava tranquilamente, mal se ouvia sua respiração. Seu rosto estava calmo.
     Voltando ao quarto vizinho, onde tivera lugar a recepção da manhã, contentou-se Aliócha com tirar suas botas e estendeu-se sobre o estreito e duro diva de couro onde se acostumara a dormir, valendo-se apenas de um travesseiro. Desde muito tempo renunciara ao colchão de que falava seu pai. Só fazia tirar sua batina, que lhe servia de coberta. Antes de adormecer, ajoelhou-se e pediu a Deus numa prece fervorosa que o esclarecesse, ansioso por tornar a encontrar o apaziguamento que experimentava sempre outrora, depois de ter louvado e glorificado a Deus, como o fazia comumente na sua prece da noite. A alegria que o invadia proporcionava-lhe um sono leve e tranquilo. Enquanto rezava, sentiu em seu bolso o envelopinho cor-de-rosa, entregue pela criada de Catarina Ivânovna, que o alcançara na rua. Ficou perturbado, mas acabou sua prece. Depois abriu o envelope, com alguma hesitação. Continha um bilhete a ele dirigido, assinado por Lisa, a filha da Senhora Khokhlakova, que zombara dele pela manhã, na presença do stáriets.

   Alieksiéi Fiódorovitch:
   Escrevo-lhe às ocultas de todos e de minha mãe, e sei que isto não está bem. Mas não posso viver mais tempo sem dizer-lhe o que me nasceu no coração e que ninguém, a não ser nós dois, deve saber até nova ordem. Dizem que o papel não cora, que engano! Asseguro-lhe que estamos agora bem corados um e outro. Querido Aliócha, eu o amo, eu o amo desde minha infância, desde Moscou, quando era você bem diferente do que é agora. Elegi-o em meu coração para me unir a você e acabarmos nossos dias juntos. Bem entendido, com a condição de que deixe você o mosteiro. Quanto à nossa idade, esperaremos tanto quanto a lei o exija. Daqui até lá, estarei restabelecida, andarei, dançarei. Isto não tem dúvida nenhuma. Vê você que calculei tudo, mas há uma coisa que não posso imaginar: que pensará você de mim lendo estas linhas? Rio, brinco, fi-lo zangar-se há pouco, mas asseguro-lhe que antes de pegar da pena rezei diante da imagem da Virgem, quase chorando. Meu segredo está em suas mãos e quando você vier, amanhã, não sei como poderei encará-lo. Alieksiéi Fiódorovitch, que acontecerá, se não puder impedir-me de rir ao vê-lo, como esta manhã? Você me tomará por uma zombadora implacável e duvidará de minha carta. Assim, suplico-lhe, meu querido, que não me olhe demasiado o rosto quando vier, porque pode acontecer que rebente a rir à vista de sua batina comprida... Já agora, meu coração fica gelado só de pensar nisso; para começar, lance seus olhares para mamãe ou para a janela... Eis que lhe escrevi uma carta de amor. Meu Deus, que fiz eu? Aliócha, não me despreze; se agi mal e o magoo, desculpe-me. Agora, a sorte de minha reputação, talvez perdida, está entre suas mãos. Haverei de chorar hoje por certo. Adeus, até essa entrevista terrível... 
PS. — Aliócha, venha sem falta, sem falta. Lisa.

     Aliócha leu duas vezes aquela carta com surpresa, ficou pensativo, depois riu docemente de prazer. Estremeceu, aquele riso lhe parecia culpado. Mas, ao fim de um instante, repetiu o mesmo riso feliz. Tornou a pôr a carta no envelope, fez um sinal da cruz e deitou-se. Sua alma havia reencontrado a calma. 

 "Senhor, perdoa-lhes a todos, protege esses infelizes e agitados, guia-os, mantém-nos no bom caminho. Tu que és o amor, concede a todos a alegria!"

     E Aliócha adormeceu num sono tranquilo. 

continua na página 229...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (X - Boris parou no meio do jardim)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
X

     Natacha, ao fugir da sala, correu para o jardim de inverno. Lá parou e ficou a escutar a conversa e a esperar Boris. Já se impacientava, batendo com o pé e quase chorando com a demora, quando ouviu os passos do rapaz, nem lentos nem rápidos, mas resolutos. Imediatamente escondeu-se atrás das caixas de arbustos.

     Boris parou no meio do jardim, olhou em volta, tirou o pó da manga do uniforme, aproximou-se do espelho e admirou seu belo semblante. Com precaução, Natacha espiava de seu esconderijo o que ele ia fazer. Ficou um momento diante do espelho, sorriu e dirigiu-se para a porta. Natacha quis chamá-lo mas mudou de ideia. “Que procure”, pensou. Boris saiu e pela outra porta Sônia entrou. Estava vermelha, murmurando palavras de raiva através das lágrimas. Natacha, dominando o primeiro impulso de correr para ela, conservou-se no esconderijo, como sob o barrete encantado, olhando o que se passava no mundo. Sentia um prazer novo e estranho. Sônia resmungava qualquer coisa olhando para a porta da sala. Nicolau apareceu. 

— Sônia, o que é isso? Será possível! — disse, correndo para ela. 
— Nada, nada, deixa-me! — Sônia soluçava. 
— Não, eu sei do que se trata. 
— Pois bem! Se sabe, vá para junto dela. 
— Sônia, uma palavra! Será possível nós dois sofrermos por uma coisa que não existe? — disse Nicolau, tomando-lhe as mãos.

     Sônia chorava sem tirar as mãos do rosto. Natacha, sem um movimento e sem respirar, observava de seu esconderijo com os olhos brilhantes. “O que irá acontecer, agora?”, pensou. 

— Sônia, para mim o mundo nada significa, tu só és tudo — continuou Nicolau. — Provarei. 
— Não gosto que fales assim. 
— Está bem, não farei mais. Perdoa, Sônia?

     Puxou-a e beijou-a.

“Ah! como isso é bonito!”, pensou Natacha. E quando Sônia e Nicolau saíram, foi atrás deles e gritou por Boris.

— Boris, venha cá — disse num tom importante e astuto. — Tenho uma coisa para contar-te. Aqui, aqui. — Levou-o para o jardim de inverno, entre as caixas onde estivera escondida.

     Boris acompanhava-a sorrindo. 

— Que coisa é essa? — perguntou.

     Ficou atrapalhada e, olhando em torno de si, pegou uma boneca que estava em cima das caixas. 

— Beija a boneca — disse ela.

     Com um olhar admirado e terno, Boris olhou seu rosto animado e não disse nada. 

— E então, não quer? Pois venha cá. — Escondeu-se ainda mais atrás das caixas e atirou a boneca. — Mais perto, mais perto — cochichou. Segurou o braço do oficial; no seu rosto vermelho lia-se a solenidade e o medo. — E a mim, quer beijar?… — murmurou baixinho olhando-o desconfiada, sorrindo e quase chorando de emoção.

     Boris corou. 

— Como você é engraçada — disse, inclinando-se sobre ela e ficando ainda mais vermelho sem, no entanto, tomar nenhuma iniciativa.

     Natacha pulou em cima de uma caixa e ficou da altura do rapaz. Envolvendo-o com seus finos braços nus, dobrados acima do pescoço, e atirando os cabelos para trás, num movimento de cabeça, beijou-o nos lábios. Depois, deixou-se escorregar entre as caixas, do outro lado das plantas e, baixando a cabeça, ficou parada. 

— Natacha — disse ele —, sabe que amo você, mas… 
— Está apaixonado por mim? — atalhou Natacha. 
— Sim, apaixonado, mas não faça mais isso… Ainda quatro anos… Então, pedirei sua mão. 

     Natacha refletiu. 

— Treze, quatorze, quinze, dezesseis… — disse, contando nos dedos finos. 
— Bem! Então está entendido!

     E um sorriso confiante e alegre iluminou sua fisionomia. 

— Entendido! — disse Boris. 
— Para sempre? — acrescentou a garotinha. — Até a morte?

     Tomou o braço dele com uma expressão de felicidade, e os dois se dirigiram vagarosamente para o cômodo ao lado.

continua na página.... 27
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde / IX - Pois é isso, ma chère / X - Boris parou no meio do jardim /                      
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (O coração)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

O CORAÇÃO  
 
O coração é o colibri dourado 
Das veigas puras do jardim do céu. 
Um — tem o mel da granadilha agreste, 
Bebe os perfumes, que a bonina deu. 

O outro — vôa em mais virentes balsas, 
Pousa de um riso na rubente flor. 
Vive do mel — a que se chama — crenças —, 
Vive do aroma — que se diz — amor. — 

Recife, 1865. 

Espumas Fluctuantes, Edição original: XXXII


PENSAMENTO DE AMOR

Quero viver de esperança 
Quero tremer e sentir! 
Na tua trança cheirosa 
Quero sonhar e dormir. 
           A. DE AZEVEDO.

O' pallida madona de meus sonhos, 
Doce filha dos serros de Engadi! 
Vem inspirar os sonhos do poeta, 
Rosa branca da lyra de David.

Todo o amor que em meu peito repousava, 
Como o orvalho das noites ao relento, 
A teu seio elevou-se, como as nevoas, 
Que se perdem no azul do firmamento. 

Aqui... além... mais longe, em toda a parte, 
Meu pensamento segue o passo teu. 
Tu és a minha luz, — sou tua sombra, 
Eu sou teu lago, — se tu és meu céu. 

Lá, no theatro, ao som das harmonias, 
Vendo-te a fronte altiva e peregrina... 
Eu apertava o seio murmurando: 
"Oh! mata-me de amor, mulher divina!"

A' tarde, quando chegas á janella, 
A trança solta, onde suspira o vento, 
Minha alma te contempla de joelhos... 
A teus pés vae gemer meu pensamento.

Inda hontem, á noite, no piano 
Os dedos teus corriam no teclado; 
Que, ás caricias destas mãos formosas, 
Gemia e suspirava apaixonado.

Depois cantaste... e a ária suspirosa 
Veio n'alma accender-me mais desejos; 
Dir-se-ia que essas notas eram doces 
Como sussurro de amorosos beijos.  

Oh! diz'-me, diz'-me, que ainda posso um dia 
De teus lábios beber o mel dos céus; 
Que eu te direi, mulher dos meus amores: 
— Amar-te ainda é melhor do que ser Deus!

Bahia, 1865.

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     Cf. com um manuscripto de Augusto Alvares Guimarães, num livro de versos do Poeta, cm. por D. Ade laide de Castro Alves Guimarães. Em baixo da pagina havia esta nota, relativa á derradeira estância: "esta ultima estrophe está riscada". Pbl. sob o titulo "****" na "s"" (VP) Edição das Espumas Fluctuantes, de Seraphim José Alves, Rio de Janeiro (1881): "appendice": X. Sob o titulo "Anceios" vem na edição da A Cachoeira de Paulo Affonso, de Cruz Coutinho, Rio, 1882, "appendice": V. Nas Poesias, Bahia (1913) : XLV, tem o titulo "Devaneios". O adoptado aqui é o authentico, que lhe deu o Poeta. 
     Segundo me referiu D. Simy Carvalho, a Amzalack destinatária da "Hebréa", foi esta poesia dirigida a sua linda irmã Esther, depois sra. José Henschel. As reminiscencias "do theatro", "ao piano", "á janella", da "trança solta onde suspira o vento", "cantando..." são confirmadas por outros testemunhos deste namoro. A confissão é tão explicita, que não ousou o Poeta escrever o nome da amada: vae declarado nos "Anjos da meia noite", soneto "Esther".  

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continua página 76...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração /         
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

Marcel Proust - A Prisioneira (Para voltar a Albertine)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Para voltar a Albertine, jamais conheci mulheres mais dotadas do que ela da engenhosa aptidão para a mentira animada, colorida com os próprios matizes da vida, a não ser uma de suas amigas uma das minhas moças em flor também, rósea como Albertine, mas cujo perfil irregular, reentrante aqui, além proeminente, depois de novo reentrante, parecia-se exatamente a certos cachos de flores róseas de cujo nome não me recordo e que têm, da mesma forma, longas e sinuosas reentrâncias. Esta moça era, do ponto de vista da fabulação, superior a Albertine pois, naquilo que contava, não misturava nenhum dos momentos dolorosos e subentendidos coléricos que eram freqüentes na minha amiga. No entanto, falei que era encantadora quando inventava um relato que não deixava lugar a dúvidas, pois então víamos à nossa frente a coisa - todavia imaginada - que ela dizia, servindo de vista a sua palavra. Era a minha verdadeira percepção. Acrescentei: "o que ela confessava", e eis o motivo: às vezes certas aproximações singulares me despertavam suspeitas ciumentas em que, ao lado delas figurava no passado ou, ai de mim, no futuro, uma outra pessoa. Para ter certeza do que imaginava, dizia o nome e Albertine falava: 

- Sim, encontrei-a há oito dias a poucos passos da casa. Por delicadeza, respondi ao seu cumprimento. Dei alguns passos com ela. Mas nunca houve nada entre nós e jamais haverá. -

     Ora, Albertine nem sequer se encontrara com essa pessoa, pela boa razão de que esta não vinha à Paris há dez meses. Mas minha amiga achava que negar completamente era pouco verossímil. De onde esse curto encontro fictício, narrado com tanta simplicidade que eu via a senhora, para dar-lhe bom dia, caminhar um pouco na sua companhia. Somente a verossimilhança havia inspirado Albertine, de modo algum o desejo de provocar ciúmes. Pois Albertine, talvez sem interesse, gostava que lhe fizessem gentilezas. Ora, se no decorrer desta narrativa já tive e ainda terei muitas oportunidades de mostrar como o ciúme reduplica o amor, foi no ponto de vista do amante que me coloquei. Porém, por menos brio que este possua, mesmo que deva morrer após a separação, não responderá a uma traição suposta com uma gentileza; ou se afastará ou, sem afastar-se, resolverá fingir indiferença. Portanto, é em pura perda para si mesma que a amante o faz sofrer tanto. Ao contrário, se dissipar com uma palavra adequada e suaves carinhos as suspeitas que o torturavam, embora bancasse o indiferente, sem dúvida o amante sentirá aquele aumento desesperado do amor a que o eleva o ciúme, porém, deixando bruscamente de sofrer, feliz, enternecido, acalmado como se é depois de uma tempestade, quando a chuva caiu e mal se percebe ainda, sob os grandes castanheiros, pingarem a longos intervalos as gotas suspensas, coloridas pelo sol que já reapareceu, não sabe ele como exprimir o seu reconhecimento àquela que o fez curar-se. Albertine sabia que eu gostava de recompensá-la por suas gentilezas, e isso talvez explicava que ela inventasse, para se inocentar, confissões naturais como essas histórias que eu não punha em dúvida, e uma das quais fora o seu encontro com Bergotte quando ele já estava morto. Até então, das mentiras de Albertine eu só conhecia aquelas que, por exemplo, contara-me Françoise em Balbec, a que não me referi apesar de me terem feito muito mal.

"Como não queria vir, ela me disse: Será que não podia dizer a ele que não me encontrou, que eu tinha saído?"

     Mas os "inferiores" que nos amam, como Françoise me amava, têm prazer em ferir o nosso amor próprio.
     Depois do jantar, disse a Albertine que desejava aproveitar o fato de haver deixado a cama para visitar alguns amigos, a Sra. de Villeparisis, a Sra. de Guermantes, os Cambremer, não sabia quantos, mas aqueles que encontrasse em casa. Silenciei apenas os nomes a cuja residência pretendia ir, os Verdurin. Perguntei a Albertine se não queria ir comigo. Alegou que não tinha vestido. 

- E além disso, estou tão mal penteada. Você faz questão que eu continue a usar este penteado?

     E, para se despedir, estendeu-me a mão com aquele modo brusco, de braço esticado, aprumando os ombros, que tivera outrora na praia de Balbec, e que nunca mais mostrara. Este movimento esquecido refez do corpo animado por ele o daquela Albertine que mal me conhecia ainda. Devolveu a Albertine, cerimoniosa sob a capa da brusquidão, a sua novidade primeira, o seu mistério, e até o seu ambiente. Enxerguei o mar por detrás daquela moça a quem jamais vira cumprimentar-me daquele modo desde que eu voltara de Balbec. 

- Minha tia acha que isso me envelhece - acrescentou com ar de tédio. -

"Tomara que esteja certa", pensei. "Tudo o que a Sra. Bontemps deseja é que Albertine, parecendo uma menina, a faça parecer mais jovem; e mais, que Albertine não lhe custe nada até o dia em que, casando comigo, lhe traga vantagens." Mas que Albertine parecesse menos jovem, menos bonita, fizesse voltarem-se menos na rua para vê-la, eis o que eu, pelo contrário, desejava. Pois a velhice de uma aia não é tranquilizadora para um amante ciumento como a velhice do rosto daquela a quem ama. Só me incomodava que o penteado que lhe pedira que adotasse pudesse parecer a Albertine uma reclusão a mais. E ainda foi este sentimento doméstico novo que não cessou de me ligar a Albertine, mesmo longe dela.

     Depois de dizer a Albertine, pouco disposta, segundo me confessara, a me acompanhar à casa dos Guermantes ou dos Cambremer, que não sabia aonde iria, para a casa dos Verdurin. No momento em que saía e que a ideia do concerto me recordou a cena da tarde: "grandessíssima puta, grandessíssima que iria ouvir lá por despeitado, talvez do amor ciumento, mas desse modo tão bestial como a que excetuadas as palavras, poderia fazer a uma mulher um orangotango enamorado dela. No momento em que na rua ia chamar um fiacre, ouvi de um homem que estava sentado num frade-de pedra; soluços reprimidos, com o rosto nas mãos, parecia jovem e fiquei surpreendido à elegância; que parecia, pela brancura que saía da capa, que estava vestindo. Ao ouvir-me, descobriu o rosto inundado em lágrimas, havia me reconhecido e desviou a cara. Era Morel. Compreendeu que eu o reconhecia logo, tentando estancar as lágrimas, disse que havia parado um momento porque estava desesperado. 

- Hoje mesmo insultei grosseiramente - disse ele - uma pessoa que nutro sentimentos elevados. Foi covardia, pois ela me ama.
- Talvez esqueça com o tempo - respondi, sem pensar, falando dessa maneira dava a entender que ouvira a cena da tarde. Mas ele estava tão absorto em suas preocupações que nem lhe ocorreu que eu pudesse saber de alguma coisa. 
- Talvez mágoas que possa esquecer - Eu e que não poderei esquecer. Tenho e noção da minha vergonha. Mas enfim está dito, nada pode fazer que não tenha sido dito. Quando tenho raiva, não sei mais o que faço. E isso é tão ruim para mim. Quando sinto os nervos transtornados preocupo-me.

     Pois Morel como todo neurastênico preocupava-se grandemente com a saúde.
     Se, de tarde, eu vira um animal furioso cólera amor, agora, à noitinha, em poucas horas havia um sentimento novo, um sentimento de vergonha, arrependimento; decorridos, todos entrecruzados uns pelos outros pois, como todos mostrava que uma grande etapa fora vencida na evolução da besta a se transformar em ser humano. Apesar de tudo, eu ouvia sempre besta desistir à "grandessíssima puta" e temia uma recorrência próxima ao estado selvagem. Aliás, mal sabia o que se havia passado, e isto era tanto mais natural quanto compreender; pois o Sr. de Charlus ignorava inteiramente que, desde alguns dias em particular naquele dia vergonhoso, não se referia diretamente ao próprio, com o violinista. Morel tivera nova crise de neurastenia. De fato, mesmo antes Morel havia apressado o quanto pudera, para o mês anterior a sedução da sobrinha de Jupien, com que na qualidade de noivo, desejara que saísse a seu gosto. Porém logo que fora um pouco longe demais em suas tentativas encontrara uma resistência que o tinha exasperado; e sobretudo quando falara à noiva que se unisse a outras moças que o proporcionariam. Fosse por que ela se mostrasse excessivamente casta, ou pelo contrário, se tivesse cedido; seu desejo passou podia sair muito mais lentamente. Resolvera romper, receou que ela o pusesse no olho do barão quando soubesse do rompimento. Pois o barão era mais moral, conquanto vicioso, e talvez rompesse com ele. Assim, decidira há cerca de quinze dias não voltar a ver a noiva. De repente sentindo que era melhor deixar que o Sr. de Charlus e Jupien se arranjassem e, antes de anunciar a ruptura, resolvera sair pela rua sem destino. Fora sem dizer para onde.
     O Amor, cujo desenlace o deixava um pouco triste; de modo que, embora a conduta que tivera com a sobrinha de Jupien pudesse perfeitamente superpor-se, nos menores detalhes, àquela sobre a qual teorizara diante do barão enquanto jantavam em Saint-Mars-le-Vêtu, é bem provável que fossem muito diferentes e que sentimentos menos atrozes, e que não previra em sua conduta teórica, haviam embelezado e tornado sentimental sua conduta verdadeira. O único ponto em que, ao contrário, a realidade era pior que o projeto, é que no projeto não lhe parecia possível permanecer em Paris depois de tamanha traição. Agora, "dar o fora" lhe parecia demais por uma coisa tão simples. Seria deixar o barão, que certamente ficaria furioso, e sacrificar sua situação. Perderia todo o dinheiro que lhe dava o Sr. de Charlus. A ideia de que isso era inevitável causava-lhe crises de nervos. Ficava chorando horas a fio, e, para não pensar naquilo, tomava morfina com prudência.
     Depois, de súbito, vinha-lhe ao espírito uma ideia que sem dúvida estava tomando vida e forma fazia algum tempo; tal ideia era que a alternativa, a escolha entre o rompimento com a moça e a briga total com o Sr. de Charlus talvez não fosse forçosa. Perder todo o dinheiro do barão era muito. Morel, indeciso, mergulhou durante alguns dias em ideias negras, como as que lhe causavam a vista de Bloch. Depois decidiu que Jupien e a sobrinha haviam tentado fazê-lo cair numa armadilha e deviam considerar se muito felizes por ter a coisa acabado assim. Em suma, achava que a moça era culpada por ter sido tão desajeitada, por não ter sabido prendê-lo pelos sentidos. Não só lhe parecia absurdo o sacrifício de sua situação junto ao Sr. de Charlus, como lamentava até os jantares dispendiosos que oferecera à moça desde que estavam noivos, e cujo custo poderia saber, como filho que era de um criado de quarto que ia todos os meses levar o seu "livro" a meu tio. Pois livro, no singular, que significa obra impressa para o comum dos mortais, perde esse sentido para as Altezas e os criados de quarto. Para estes, significa o livro de contas; para os primeiros, o registro em que as visitas inscrevem seu nome. (Em Balbec, num dia em que a princesa de Luxemburgo me dissera estar sem livro, eu ia lhe emprestar o Pescador da Islândia e Tartarin de Tarascon, quando compreendi o que ela queria dizer: não que passaria menos agradavelmente o tempo, mas que eu teria mais dificuldade em deixar o meu nome ao visitá-la).
     Apesar da mudança do ponto de vista de Morel quanto às conseqüências de sua conduta, embora esta lhe tenha parecido abominável dois meses antes, quando amava apaixonadamente a sobrinha de Jupien, enquanto que de uns quinze dias para cá não cessava de repetir a si mesmo que essa conduta era natural e louvável, cada vez mais se lhe agravava o estado de nervosismo em que há pouco anunciara o rompimento. E estava pronto a "descarregar a cólera", senão (a não ser num acesso momentâneo) na moça para com quem conservava aquele resto de receio, derradeiro vestígio do amor, pelo menos no barão. Contudo, evitou falar-lhe sobre isso antes do jantar. Pois, colocando acima de mais nada o seu próprio virtuosismo profissional, quando tinha que tocar peças difíceis como naquela noite em casa dos Verdurin; evitava (tanto quanto possível, e já era demasiada a cena da tarde), tudo o que podia alterar sua execução. Assim como um cirurgião apaixonado por automobilismo, deixa de dirigir quando tem que operar. Assim, Morel, em quanto falava comigo, movia os dedos um após o outro para ver se haviam readquirido sua flexibilidade. Se sentia uma certa dureza explicava que ainda permanecia um pouco de nervosismo. Porém, Morel, distendia o rosto; sua fisionomia, o franzir de sobrancelhas que parecia significar não aumentar, o rosto como alguém que procurasse não enervar-se com a insônia, ou facilmente por uma mulher, com receio de que ainda retardasse o instante do sono ou do prazer. Assim, desejando recuperar a serenidade como de costume. Gostaria de ter ido embora, entretanto era inútil a partida pois, indo na direção quase da mesma casa, que a poucos minutos tendo ainda viva na lembrança não podia deixar de sentir certo nojo em ter Morel por companhia. É bem possível que depois do amor, a indiferença ou o ódio pela sobrinha de Jupien foram sinceros. Infelizmente não era a primeira vez que procedia assim, e não seria a última; que ele "dava o fora" na moça a que tinha jurado amor eterno chegando até lhe mostrar um revólver carregado e lhe dizer que daria um tiro se era o bastante covarde para abandoná-la. Nem por isso deixava de abandoná-la em seguida e de sentir, em vez de remorso, uma espécie de rancor. Não era a primeira vez que obrava assim nem ia ser a última, de sorte que muitas cabeças de moças - menos esquecidas dele que delas mesmas sofreram -como sofreu muito tempo ainda a sobrinha do Jupien, que continuou amando Morel sem deixar de lhe desprezar-,dispostas a estalar sob o arrebatamento de uma dor interna, porque cada uma delas parecia no cérebro, como um fragmento de uma escultura grega, um aspecto do rosto do Morel, duro como o mármore e belo como a antiguidade, com seus cabelos em flor, seus olhos penetrantes, seu nariz reto -formando protuberância em um crânio não destinado a recebê-la, e que não se podia operar-. Mas, à larga, estes fragmentos tão duros acabam por cair num lugar onde não causam muitos estragos, de onde já não se movem; já não se nota sua presença: é o esquecimento, ou o futuro indiferente.
     Eu levava em mim dois produtos de minha jornada. Por uma parte, graças à calma produzida pela docilidade de Albertina, a possibilidade e, em consequência, a resolução de romper com ela. Por outra parte, resultado de minhas reflexões durante o tempo que passei esperando-a sentado ante o piano, a ideia de que a arte, ao que procuraria dedicar; me esforçaria por consagrar a liberdade reconquistada, não era algo que valesse a pena um sacrifício, algo exterior à vida, não participando de sua vaidade e de seu vazio, pois a aparência de individualidade real obtida nas obras era devida apenas a uma ilusão produzida pela habilidade técnica. Se a minha tarde deixara em mim outros resíduos, talvez mais profundos, só deveriam subir bem depois à minha consciência. Quanto aos dois que eu nitidamente sopesava, não iriam ser duradouros; pois, desde aquela mesma noite, minhas ideias sobre arte iam se recompor da diminuição que tinham experimentado à tarde, mas em compensação, o sossego, e por conseguinte, a liberdade que me permitiria dedicar-me a ela, ser-me-ia novamente retirado.
     Como o meu carro, rodando ao longo do cais, se aproximasse da casa dos Verdurin, fi-lo parar. Com efeito, acabava de ver Brichot descer do bonde na esquina da rua Bonaparte, limpar os sapatos com um jornal velho e calçar luvas cor de pérola. Caminhei até ele. Fazia algum tempo que, tendo piorado sua doença de olhos, fora dotado-tão suntuosamente como um laboratório-de novas lentes, as quais, potentes e complicadas como instrumentos astronômicos, pareciam aparafusadas a seus olhos. Assestou em mim aquelas luzes excessivas e me reconheceu. As lentes estavam em situação primorosa. Mas, por detrás delas, percebi, minúsculo, pálido, convulsivo, expirante, um olhar longínquo colocado sob aquele potente aparelho, como, nos laboratórios por demais subvencionados para os trabalhos que neles se executam, se põe um mísero bichinho agonizante sob os aparelhos mais aperfeiçoados. Ofereci o braço ao semicego para lhe amparar os passos. 

- Desta vez não é perto da grande Cherburgo que nós nos encontramos disse ele-, mas ao lado do Petit Dunkerque. [Dunkerque pequena loja de novidades em Paris, no começo do século (N .do T)]- frase que me pareceu muito aborrecida, pois não entendi o que queria dizer; todavia não ousei fazer perguntas a Brichot, por temer ainda mais o seu desprezo do que suas explicações. Respondi que estava bastante curioso por ver o salão em que Swann outrora se encontrava todas as noites com Odette.

- Como, o senhor conhece estas velhas histórias? - exclamou ele. - 

     A morte de Swann me deixara transtornado na ocasião. A morte de Swann! Swann não desempenha nesta frase o papel de um simples genitivo. Entendo por isso a morte particular, a morte enviada pelo destino ao serviço de Swann. Pois dizemos a morte, para simplificar, mas são tantas as mortes quantas as pessoas. Não possuímos sentidos que nos permitam ver, correndo a toda velocidade e em todas as direções, as mortes, as mortes ativas dirigidas pelo destino para este ou aquele. Muitas vezes são mortes que só serão liberadas inteiramente de sua tarefa dois ou três anos após. Correm depressa para pôr um câncer nos flancos de um Swann, e depois saem para outras tarefas, só regressando no momento em que; tendo sido a operação dos cirurgiões, é preciso recolocar o câncer. Depois tendo o momento em que se lê no Le Gaulois que a saúde de Swann inspirou chega o ponto em que sua indisposição está em franco processo de cura. Então, minutos antes do último suspiro, a morte, como uma religiosa que nos tivesse assistido momentos antes; o destruir, chega para acompanhar nossos últimos instantes, e coroa com uma auréola suprema a criatura para sempre enregelada cujo coração cessou um dia de bater. Como uma dessas multiplicidade de mortes, o mistério de seus circuitos, a cor de sua écharpe; e que conferem algo de tão impressionante às linhas dos jornais: "Acabamos de saber com vivo pesar que o Sr. Charles Swann sucumbiu ontem em seu palacete, vítima de pertinaz moléstia. Parisiense, cujo espírito era apreciado por todos, bem como a firmeza de suas relações escolhidas, porém fiéis. Paris, em fremente lamenta a sua falta, tanto nos meios artísticos e literários, pela esclarecida do seu bom gosto fazia com que se sentisse bem e fosse onde fosse, afinal por todos era admirado, como no Jockey-Club, do qual era um dos membros mais influentes. Pertencia também ao Círculo da União e ao Clube Agrícola onde era um dos mais antigos e apresentara a sua demissão ao círculo da rua Royale. Sua fisionomia especial como sua notável notoriedade não deixavam de excitar a curiosidade do público em todo great event da música e da pintura, notadamente nas vernissages era habitué fiel até seus últimos anos, quando só raramente saía de casa. Terão lugar os funerais, etc.''
     Neste ponto de vista, se não somos "alguém", a ausência de título é mais rápida ainda a decomposição da morte. Sem dúvida é de tal modo conhecido a distinção de individualidade, que se é anônimo o duque de Uzes . Mas a coroa ducal por algum tempo os elementos como os daqueles espelho mantêm unidos e mal desenhadas, apreciados por Albertine. Ao passo que os nomes de forma ultramundanos, logo que eles morrem, desagregam-se, os moldes derretem-se. Vimos a Sra. de Guermantes falar de Cartier como sendo burguês, sendo o melhor amigo do duque de La Trémoïlle, um homem bastante solicitado nos meios aristocráticos. Na geração seguinte, Cartier se tornou algo tão infortunado; ou melhor engrandecessem aparentando-o com o joalheiro Cartier, e no entanto nos meios o pudessem ter confundido com o outro. Swann que talvez, ao contrário, era uma notável personalidade intelectual e artística; não teria "produzido" nada, teve a oportunidade de durar um pouco mais Swann, não Charles Swann, que conheci tão pouco quando ainda era tão jovem, embora perto do túmulo, é justamente porque este, a quem você devia considerar todavia, um imbecil, fez de você o herói de um de seus romances; e que por isso talvez você continue vivendo. Se a respeito do quadro um Tissot representa a sacada do círculo da rua Royale, onde você está entre Gallifet, Edmond de Polignac e Saint Maurice, fala-se tanto de você, é porque veem que existem alguns traços seus na personagem de Swann. [O quadro em questão representa, entre as pessoas mencionadas, a figura de Charles Haas (1832-1902), O principal modelo de Charles Swann. (N. do T)]

continua na página 79...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Para voltar a Albertine)
Volume 6


Em busca do tempo perdido - Philippe Willemart
- Literatura Fundamental 15