Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Na Jean-Bart, havia já uma hora que Catherine empurrava os
vagonetes até o entroncamento. Estava tão alagada de suor que parou um
momento para enxugar o rosto.
Do fundo do desmonte, onde britava no veio com seus
companheiros de empreitada, Chaval admirou-se de não ouvir mais o
barulho das rodas. As lâmpadas iluminavam mal, a poeira do carvão não
deixava ver nada.
— Que aconteceu? — gritou ele.
Quando ela respondeu que estava desfazendo-se em suor e que
sentia o coração saltando do peito, respondeu furioso:
— Burra! pois tira a camisa, como a gente!
Estavam a setecentos e oito metros, ao norte, na primeira via do
veio Désirée, separados por três quilômetros do poço. Quando falavam
daquela parte da mina, os mineiros da região empalideciam e baixavam a
voz, como se estivessem falando do inferno. No mais das vezes limitavam
se a abanar a cabeça, preferindo calar sobre aquelas profundidades que
ardiam como brasas. A medida que avançavam para o norte, as galerias
aproximavam-se do Tartaret, penetrando assim no incêndio interno que, em
cima, calcinava as rochas. O veio, no ponto a que se chegara, tinha uma
temperatura média de quarenta e cinco graus. Estava-se em plena cidade
maldita, no meio das chamas que os passantes da planície viam pelas
fissuras, cuspindo enxofre e vapores nauseabundos.
Catherine, que já tirara a jaqueta, hesitou, depois tirou também as
calças. E de braços e pernas nus, a camisa amarrada na cintura por uma
corda, como se fosse uma blusa, pôs-se de novo a empurrar.
— Assim talvez melhore — disse ela em voz alta.
Sentia-se inquieta por estar seminua. Havia cinco dias que
trabalhavam ali e que pensava nas histórias com que fora embalada na
infância, nas operadoras de vagonetes de outrora que ardiam no Tartaret,
como castigo por coisas que não se ousava repetir. Sem dúvida, já tinha
idade bastante para não acreditar em tais bobagens, mas que faria ela, se
repentinamente visse sair do muro uma moça rubra como um fogareiro e
com olhos parecendo tições? A esta ideia, suava mais ainda.
No entroncamento, a oitenta metros do desmonte, outra operadora
recebia o vagonete e empurrava-o mais oitenta metros. Dali ele era
expedido pelo recebedor, com os demais que desciam das vias superiores.
— Puxa que coragem! — disse a outra operadora de vagonetes, uma
viúva magra de trinta anos, ao ver Catherine em camisa.
— Eu é que não posso andar assim... Os garotos do plano inclinado
não me deixam em paz com os seus palavrões.
— Pois eu — replicou Catherine — não ligo para o que dizem os
homens. Estou sentindo muito calor.
E tornou a partir, empurrando um vagonete vazio. O pior era que
naquela via do fundo outra causa vinha juntar-se à vizinhança do Tartaret
para tornar o calor insuportável. Ao lado, havia uma galeria abandonada da
Gaston-Marie, muito profunda, onde uma explosão de grisu, dez anos antes,
incendiara o veio, que ainda ardia por trás do muro de greda, que fora
construído ali para estancar o fogo e vivia sob contínuos reparos, a fim de
limitar o desastre. Sem ar, o incêndio devia ter-se apagado, mas sem dúvida
correntes de ar desconhecidas o mantinham aceso. Durando já dez anos,
esse fogo esquentava a argila do muro como os tijolos de um forno, a ponto
de se receber o seu bafo na passagem. E era ao longo dessa muralha de mais
de cem metros que se fazia o transporte, a uma temperatura de sessenta
graus.
Após duas viagens, Catherine sentiu-se novamente abafada.
Felizmente a via era larga e cômoda no veio Désirée, um dos mais espessos
da região. A camada tinha um metro e noventa, os operários podiam
trabalhar em pé; mas eles teriam preferido cavar curvados e ter um pouco
de ar fresco para respirar.
— Mais esta! Já estás dormindo? — gritou violentamente Chaval
quando não mais ouviu Catherine movimentar-se. — Que castigo para mim
ter conseguido uma estropiada dessa! Vais ou não vais encher teu vagonete
e empurrá-lo?
Ela estava na parte de baixo do veio, apoiada na pá; olhava a todos
com um ar imbecilizado, sem obedecer, presa de um súbito mal-estar. Mal
podia vê-los à luz avermelhada das lâmpadas, inteiramente nus, como
animais, tão negros e sujos de suor e carvão, que sua nudez não a
incomodava. Era um trabalho feito na obscuridade, espinhas de macacos
que se espichavam, uma visão infernal de membros chamuscados,
esgotando-se em meio aos golpes surdos e aos gemidos. Mas eles, sem
dúvida, viam-na melhor, porque pararam de bater com as picaretas e
começaram a fazer brincadeiras ao perceberem que estava sem calças.
— Ei, cuidado, não deixes que te resfries!
— Que pernas que ela tem! Como é, Chaval? Dá bem para dois!
— Queremos ver! Levanta mais um pouco! Mais alto! Mais alto,
Chaval, sem se zangar com aquela pândega, insultou-a de novo.
— Diacho! Para ouvir palavrões ela é boa, poderia ficar ali até
amanhã.
Num supremo esforço, Catherine decidiu-se a encher o vagonete e
depois empurrou-o. A galeria era larga demais para que ela pudesse
encostar-se nas madeiras dos lados, seus pés descalços não se mantinham
sobre os trilhos, onde buscava um ponto de apoio enquanto empurrava o
carro lentamente, os braços retesados e o corpo curvado. E, assim que
ladeava o muro de greda, o suplício do fogo recomeçava, o suor voltava a
correr por todo o corpo, em gotas enormes, como uma chuva de tempestade.
Apenas a um terço do entroncamento, ficou inundada, cega, coberta
também de lama negra. Sua camisa estreita, como que encharcada em tinta,
colada à pele, subira até os rins com o movimento das pernas. Sentia-se tão
dolorosamente manietada, que teve de parar o trabalho outra vez.
Afinal, que estava acontecendo com ela naquele dia? Nunca se
sentira tão mole. Devia ser o ar contaminado. Não havia ventilação no
fundo daquela via longínqua. Respirava-se toda espécie de vapores que
saíam do carvão com uma efervescência de fonte, e às vezes com tal
abundância que as lâmpadas apagavam-se. Sem falar do grisu, do qual
ninguém se ocupava mais, tal a sua quantidade, intoxicando os mineiros, do
princípio ao fim da quinzena. Ela conhecia bem esse ar contaminado, esse
ar morto, como dizem os mineiros: embaixo pesados gases asfixiantes, em
cima gases leves que se incendeiam e fulminam uma mina inteira e
centenas de homens num relâmpago. Desde a sua infância respirara-o tanto,
que se espantava de não poder suportá-lo agora, os ouvidos zumbindo, a
garganta em fogo.
Não podendo mais, sentiu necessidade de tirar a camisa. Aquela
roupa, cujas menores pregas pareciam entrar na carne, estava-se
transformando numa tortura. Resistiu e quis continuar empurrando, mas foi
forçada a endireitar a espinha. Num repente, dizendo-se que voltaria a
vestir-se no entroncamento, tirou tudo, a corda e a camisa, com tanta ânsia
que teria arrancado a pele, se pudesse. E agora, nua, deplorável, rebaixada
ao trote de fêmea ganhando a vida pela lama dos caminhos, esfalfava-se,
com a garupa coberta de fuligem e barro até a barriga, como uma égua de
carroça. De quatro patas, ela empurrava o vagonete.
Sentiu que estava ficando desesperada, a nudez não a aliviara. Que
mais havia de tirar? Estava surda com aquele zumbido nos dos parecia-lhe
ter um torniquete nas têmporas. Caiu de joelhos. A lâmpada, enfiada nos
fragmentos de carvão do vagonete, foi diminuindo. No meio das suas ideias
confusas, uma única era clara: subir o pavio da lâmpada. Por duas vezes
quis examiná-la, e em ambas, à medida que a pousava diante de si, no chão,
notou que se extinguia, como se a ela também faltasse a respiração. De
repente a lâmpada apagou-se e tudo foi engolfado pelas trevas. Sua cabeça
parecia um moinho girando, seu coração foi parando de bater, entorpecido
pelo mesmo imenso cansaço que lhe atingira o corpo. Caíra de boca para
baixo e agonizava no ar asfixiante, rente ao chão.
— Inferno! Garanto que ela anda outra vez fazendo das suas! —
trovejou a voz de Chaval.
Pôs-se a escutar do alto do veio e não ouviu o barulho das rodas.
— Ei, Catherine! Diabo de mulher!
A voz perdia-se ao longe, na galeria escura, e nem um suspiro
respondia.
— Queres que eu vá fazer-te andar?
Nada se movia, sempre o mesmo silêncio de morte. Furioso, ele
desceu e saiu correndo com a sua lâmpada, quase tropeçando no corpo da
operadora de vagonetes, que barrava a via. Boquiaberto, olhou-a
demoradamente. Que teria ela? Não estaria fingindo, para tirar uma soneca?
Mas a lâmpada, que baixara para iluminar o rosto da mulher, quase se
apagou. Levantou-a, baixou-a novamente e acabou por compreender: devia
ser um golpe de ar asfixiante. Sua violência desaparecera, a solidariedade
do mineiro acordava diante do companheiro em perigo. Gritou para que lhe
trouxessem a camisa dela, tomou nos braços a moça nua e desmaiada,
erguendo-a o mais alto possível. Assim que lhe puseram nos ombros a
roupa de ambos, partiu correndo, sustentando com uma das mãos o seu
fardo, carregando na outra as duas lâmpadas. As galerias profundas
desenrolavam-se na sua frente, enquanto corria, dobrando à esquerda e à
direita, em busca da vida no ar gelado da planície, que o ventilador soprava.
Finalmente parou ao ouvir um ruído de fonte, o borbulhar de uma
infiltração vazando na rocha. Encontrava-se na encruzilhada de uma grande
galeria carroçável, que antigamente era utilizada pela Gaston-Marie. Nesse
ponto a ventilação soprava como uma tempestade, o frescor era tão grande
que ele foi sacudido por um arrepio ao sentar-se por terra, encostando-se ao
revestimento e com a amante ainda desacordada e de olhos fechados.
— Chega de brincadeiras, Catherine! Como é?... Vê se podes
sustentar-te sozinha por um instante enquanto eu molho isto na água...
Estava assustado com a placidez dela. Mas assim mesmo conseguiu
molhar sua camisa na fonte e lavar-lhe o rosto. Ela mais parecia uma morta,
já enterrada, com seu corpo delicado de moça tardia, onde as formas da
puberdade eram ainda hesitantes. De repente, um frêmito percorreu seu colo
de criança, indo terminar no ventre e no sexo de pequena miserável,
deflorada antes da idade. Abrindo os olhos, sussurrou:
— Tenho frio.
— Ah! agora sim, estou gostando... — exclamou Chaval, aliviado.
Vestiu-a, enfiando-lhe facilmente a camisa, e praguejou devido à
dificuldade que encontrava para enfiar-lhe as calças. Ainda atordoada e sem
movimentos, ela não sabia onde se encontrava nem por que estava nua. Ao
lembrar-se, ficou envergonhada. Como tivera a coragem de tirar tudo!
Perguntou: tinha sido vista assim, sem ao menos um lenço na cintura? Ele,
rindo, inventou história, contou que desfilara com ela nua por entre os
companheiros que abriam alas. Também, que idéia ter ouvido seu conselho
e pôr-se de bunda à mostra! Em seguida deu a sua palavra de que os
camaradas nem ficaram sabendo se ela tinha o traseiro redondo ou
quadrado, tanto ele correra.
— Com a breca! Estou morrendo de frio! — disse, vestindo-se
também.
Nunca ela o vira tão carinhoso. De ordinário, para uma palavra boa,
saíam logo duas grosseiras da sua boca. Seria tão bom se pudessem viver
em paz! Ainda lânguida de fadiga, foi invadida pela ternura. Sorrindo,
murmurou:
— Beija-me!
Ele beijou-a e deitou-se ao seu lado, enquanto esperava que ela
pudesse caminhar.
— Estás vendo? — continuou a moça. — Não tinhas razão de gritar
comigo lá no veio. Juro que já não podia mais. Onde vocês trabalham é
menos quente, mas se tu soubesses como a gente cozinha no fundo da via...
— Claro — respondeu ele. — A gente estaria melhor a céu aberto.
Tens sofrido um bocado nesta mina, minha pobre menina; disso não duvido.
Ficou tão comovida ouvindo-o concordar, que se fez de corajosa.
— É que hoje o ar está envenenado e eu tive uma indisposição. Mas em seguida verás se sou preguiçosa. Quando é preciso
trabalhar, trabalha-se, não é verdade? Prefiro morrer a ficar sem fazer
nada...
Houve um silêncio. Ele segurava-a pela cintura, abrigando-a contra
o peito. Ela, embora sentindo-se já com forças para voltar ao trabalho,
entregava-se, deliciada.
— Eu só queria que fosses mais carinhoso — disse ela baixinho. —
A gente podia viver tão bem se houvesse um pouco de amor...
E pôs-se a chorar mansamente.
— Mas eu te amo! — exclamou ele. — A prova é que te levei para
viver comigo.
continua na página 254...
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Germinal: Quinta Parte - (II.a) /
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.