quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Hannah Arendt - Origens do Totalitarismo: Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.3a - O Domínio Total)

Origens do Totalitarismo

Hannah Arendt

Parte III 
TOTALITARISMO

Os homens normais não sabem que tudo é possível. 
David Rousset 

3. O Totalitarismo no Poder
     3.3 - O Domínio Total

          Contudo, essas irregularidades Os campos de concentração e de extermínio dos regimes totalitários servem como laboratórios onde se demonstra a crença fundamental do totalitarismo de que tudo é possível. Comparadas a esta, todas as outras experiências têm importância secundaria — inclusive as médicas, cujos horrores estão registrados em detalhe nos julgamentos contra os médicos do Terceiro Reich —, embora seja característico que esses laboratórios fossem usados para experimentos de todo tipo. O domínio total, que procura sistematizar a infinita pluralidade e diferenciação dos seres humanos como se toda a humanidade fosse apenas um indivíduo, só é possível quando toda e qualquer pessoa seja reduzida à mesma identidade de reações. O problema é fabricar algo que não existe, isto é, um tipo de espécie humana que se assemelhe a outras espécies animais, e cuja única "liberdade" consista em "preservar a espécie".[125] O domínio totalitário procura atingir esse objetivo através da doutrinação ideológica das formações de elite e do terror absoluto nos campos; e as atrocidades para as quais as formações de elite são impiedosamente usadas constituem a aplicação prática da doutrina ideológica — o campo de testes em que a última deve colocar-se à prova —, enquanto o terrível espetáculo dos campos deve fornecer a verificação "teórica" da ideologia.
     Os campos destinam-se não apenas a exterminar pessoas e degradar seres humanos, mas também servem à chocante experiência da eliminação, em condições cientificamente controladas, da própria espontaneidade como expressão da conduta humana, e da transformação da personalidade humana numa simples coisa, em algo que nem mesmo os animais são; pois o cão de Pavlov que, como sabemos, era treinado para comer quando tocava um sino, mesmo que não tivesse fome, era um animal degenerado. Em circunstâncias normais, isso nunca pode ser conseguido, porque a espontaneidade jamais pode ser inteiramente eliminada, uma vez que se relaciona não apenas com a liberdade humana, mas com a própria vida, no sentido da simples manutenção da existência. É somente nos campos de concentração que essa experiência é possível e portanto, os campos são não apenas la société laplus totalitaire encore réalisé (David Rousset), mas também o modelo social perfeito para o domínio total em geral. Da mesma forma como a estabilidade do regime totalitário depende do isolamento do mundo fictício criado pelo movimento em relação ao mundo exterior, também a experiência do domínio total nos campos de concentração depende de seu fechamento ao mundo de todos os homens, ao mundo dos vivos em geral, até mesmo ao mundo do próprio país que vive sob o domínio totalitário. Esse isolamento explica a peculiar irrealidade e à incredibilidade que caracterizam todos os relatos provenientes dos campos de concentração e constitui uma das principais dificuldades para a verdadeira compreensão do domínio totalitário, pois, por mais incrível que pareça, os campos são a verdadeira instituição central do poder organizacional totalitário.
     Existem numerosos relatos de sobreviventes.[126] Quanto mais autênticos, menos procuram transmitir coisas que escapam à compreensão humana e à experiência humana — ou seja, sofrimentos que transformam homens em "animais que não se queixam".[127] Nenhum desses relatórios inspira arroubos de indignação e de simpatia capazes de mobilizar os homens em nome da justiça. Pelo contrário, qualquer pessoa que fale ou escreva sobre campos de concentração é tida como suspeita; e se o autor do relato voltou resolutamente ao mundo dos vivos, ele mesmo é vítima de dúvidas quanto à sua própria veracidade, como se pudesse haver confundido um pesadelo com a realidade.[128]
     Essa dúvida em relação a si mesmo e à realidade de suas próprias experiências apenas demonstra aquilo que os nazistas sempre souberam: que, para os que se dispõem a cometer crimes, convém organizá-los da maneira mais vasta e mais inverossímil. Não apenas porque isso torna inadequada e absurda qualquer punição prevista em lei, mas porque a própria imensidade dos crimes garante que os assassinos, que proclamam a sua inocência com toda sorte de mentiras, sejam mais facilmente acreditados do que as vítimas que dizem a verdade. Os nazistas nem mesmo acharam necessário guardar essa descoberta: Hitler fez circular milhões de cópias do seu livro em que dizia abertamente que, para ser bem sucedida, a mentira deve ser enorme — o que não impediu que as pessoas acreditassem nele, do mesmo modo como as proclamações nazistas, repetidas ad nauseam, de que os judeus seriam exterminados como insetos (isto é, com gás venenoso), não levaram ninguém a acreditar seriamente nessas enunciações.
     Somos todos tentados a explicar o intrinsecamente inacreditável por meio de racionalização. Em cada um de nós existe um liberal que procura persuadir-nos com à voz do bom senso. O caminho do domínio totalitário passa por vários estágios intermediários dos quais podemos encontrar muitas analogias e precedentes. O terror extraordinariamente sangrento durante a fase inicial do governo totalitário atende realmente ao fim exclusivo de derrotar o oponente e de impossibilitar qualquer oposição futura; mas o terror total só é lançado depois de ultrapassada essa fase inicial, quando o regime já nada tem a recear da oposição. O meio se transforma no fim e a afirmação de que "o fim justifica os meios" já não se aplica, pois o terror, não sendo mais o meio de aterrorizar as pessoas, perdeu a sua "finalidade". Tampouco basta dizer que a revolução, como no caso da Revolução Francesa, passou a devorar os próprios filhos, pois o terror continua mesmo quando todos aqueles que eram, ou se podiam julgar, filhos da revolução de um modo ou de outro — as facções russas, os centros de poder do partido, o Exército, a burocracia — já foram eliminados há muito tempo. Muito do que hoje é peculiar ao governo totalitário é bastante conhecido através dos estudos da história. Sempre houve guerras de agressão; o massacre de populações hostis após uma vitória campeou à solta mesmo depois que os romanos o abrandassem com o parcere subjectis; o extermínio dos povos nativos acompanhou a colonização das Américas, da Austrália e da África; a escravidão é uma das mais antigas instituições da humanidade, e todos os impérios da Antiguidade se basearam no trabalho dos escravos do Estado, que erigiam os seus edifícios públicos. Nem mesmo os campos de concentração são invenção dos movimentos totalitários. Surgiram pela primeira vez durante a Guerra dos Bôeres, no começo do século XX, e continuaram a ser usados na África do Sul e na índia para os "elementos indesejáveis"; aqui também encontramos pela primeira vez a expressão "custódia protetora", que mais tarde foi adotada pelo Terceiro Reich. Esses campos correspondem, em muitos detalhes, aos campos de concentração do começo do regime totalitário; eram usados para "suspeitos" cujas ofensas não se podiam provar, e que não podiam ser condenados pelo processo legal comum. Tudo isso aponta claramente na direção dos métodos totalitários; são elementos que eles empregam, desenvolvem e cristalizam à base do princípio niilístico de que "tudo é permitido", princípio que eles herdaram e aceitaram com naturalidade. Mas, onde essas novas formas de domínio adquirem a estrutura autenticamente totalitária, transcendem esse princípio, que ainda se relaciona com os motivos utilitários e o interesse dos governantes, e vão atuar numa esfera que até agora nos era completamente desconhecida: a esfera. onde "tudo é possível". E, tipicamente, ela é precisamente injetada e não pode ser limitada nem por motivos utilitários nem pelo interesse pessoal, não importa o conteúdo deste último.
     O que contraria o bom senso não é o princípio niilístico de que "tudo é permitido", já delineado no conceito utilitário de bom senso do século XIX. O que o bom senso e as "pessoas normais" se recusam a crer é que tudo seja possível.[129] Tentamos compreender certos elementos da experiência atual ou passada que simplesmente ultrapassam os nossos poderes de compreensão. Tentamos classificar como criminoso um ato que esta categoria jamais poderia incluir. Porque, no fundo, qual o significado do conceito de homicídio quando nos defrontamos com a produção de cadáveres em massa? Tentamos compreender psicologicamente a conduta dos presos dos campos de concentração e dos homens da SS, quando o que é preciso compreender é que a psique humana pode ser destruída mesmo sem a destruição física do homem; que, na verdade, a psique, o caráter e a individualidade parecem, em certas circunstâncias, manifestar-se apenas pela rapidez ou lentidão com que se desintegram.[130] Como . resultado final surgem homens inanimados, que já não podem ser compreendidos psicologicamente, cujo retorno ao mundo psicologicamente humano (ou inteligivelmente humano) se assemelha à ressurreição de Lázaro. Diante disto, qualquer julgamento do bom senso serve apenas para justificar aqueles que acham "superficial" "deter-se em horrores".[131]
     Se é verdade que os campos de concentração são a instituição que caracteriza mais especificamente o governo totalitário, então deter-se nos horrores que eles representam é indispensável para compreender o totalitarismo. Mas a recordação não pode levar a isto mais do que o pode o relato incomunicativo da testemunha ocular. Em ambos há uma tendência de fugir da experiência; instintiva ou racionalmente, ambos são tão conscientes do abismo que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos-vivos que não conseguem oferecer senão uma série de ocorrências relembradas, que parecem tão incríveis para os que as relatam como para os que as ouvem. Somente pode dar-se ao luxo de continuar a pensar em horrores a imaginação amedrontada dos que, embora provocados por esses relatos, não foram realmente feridos na própria carne, daqueles que, consequentemente, estão a salvo do pavor bestial e desesperado que, após a experiência do horror verdadeiro e presente, paralisa inexoravelmente tudo. Tais pensamentos são úteis apenas para a percepção dos contextos políticos e para a mobilização das paixões políticas, Pois pensar em horrores não leva a mudanças de personalidade de qualquer espécie, como, aliás, também não o faz a verdadeira experiência do horror. A redução do homem a um feixe de reações separa-o tão radicalmente de tudo o que há nele de personalidade e caráter quanto uma doença mental. Mas quando, como Lázaro, ele se ergue dentre os mortos, reencontra inalterados a personalidade e o caráter, exatamente como os havia deixado.
     Como o horror não altera o caráter do homem nem pode deixá-lo melhor ou pior, também não pode tornar-se a base de uma comunidade política ou de um partido. A tentativa de criar uma elite europeia baseada no programa de entendimento gerado pela experiência dos campos de concentração, sofrida por toda a Europa, falhou do mesmo modo como haviam falhado as tentativas, feitas depois da Primeira Guerra Mundial, de extrair conclusões políticas da experiência internacional da geração interligada pela vivência das trincheiras. Em ambos os casos, verificou-se que a experiência, em si, nada comunica senão banalidades niilísticas.[132] As consequências políticas, como o pacifismo de pós-guerra, por exemplo, resultaram do temor geral da guerra, não das experiências da guerra. Em vez de produzir um pacifismo destituído de realidade, o conhecimento da estrutura das guerras modernas deveria ter levado à compreensão de que o único critério para uma guerra necessária é a luta contra condições em que as pessoas perdem o desejo de viver — e a experiência que tivemos com o inferno atroz dos campos totalitários fez-nos compreender demasiado bem que essas condições são possíveis.[133] Assim, o temor dos campos de concentração e o resultante conhecimento do que é o domínio total podem servir para anular todas as obsoletas divergências políticas da direita e da esquerda e introduzir, ao lado e acima delas, a maneira politicamente mais importante de julgar os eventos da nossa época, ou seja: se são úteis ou não ao domínio totalitário.
     Em qualquer caso, a imaginação amedrontada tem a grande vantagem de anular as interpretações sofístico-dialéticas da política, que partem da premissa homicídio, essa acrobata dialética tinha ao menos uma aparência de justificação. Mas, como sabemos hoje, o homicídio é apenas um mal limitado. O assassino que mata um homem — um homem que, sendo mortal, tem que morrer um dia de qualquer modo — habita o nosso mundo de vida e morte; entre ambos — o assassino e a vítima — existe de fato um elo que serve de base à dialética, mesmo que esta nem sempre o perceba. Mas o assassino que deixa atrás de si um cadáver, não afirma nem pretende impor a ideia de que a sua vítima nunca tenha existido; se apaga quaisquer vestígios, são os da sua própria identidade, e não a memória e a dor daqueles que amaram a vítima; destrói uma vida, mas não destrói o fato da própria existência.
     Os nazistas, com a precisão que lhes era peculiar, costumavam registrar suas operações nos campos de concentração sob o título "na calada da noite" (Nacht und Nebel). Muitas vezes não se percebe à primeira vista o radicalismo de medidas destinadas a tratar pessoas como se nunca houvessem existido e a fazê-las desaparecer no sentido literal do termo, porque o sistema nazista alemão e o sistema bolchevista russo não são uniformes, mas consistem em um conjunto de categorias em que as pessoas são tratadas de modo muito diferente. No caso da Alemanha, houve diferentes categorias de pessoas no mesmo campo, desprovidas de contato entre si; frequentemente, o isolamento entre as categorias era mais severo que o isolamento entre o campo e o mundo exterior. Assim, por motivos "raciais", os cidadãos escandinavos, embora fossem inimigos declarados dos nazistas, eram tratados pelos alemães, durante a guerra, diferentemente dos membros de outros grupos inimigos; estes, por sua vez, dividiam-se entre aqueles cujo "extermínio" era imediato, como no caso dos judeus, ou era previsto em futuro próximo, como no caso dos poloneses, russos e ucranianos, e aqueles a respeito dos quais ainda não existiam instruções quanto a uma "solução final" global, como no caso dos franceses e dos belgas. Na Rússia, por outro lado, podemos distinguir três sistemas mais ou menos independentes. Primeiro, há os grupos condenados a autêntico trabalho forçado, que vivem em relativa liberdade e cujas sentenças são limitadas. Depois, há os campos de concentração nos quais o material humano é impiedosamente explorado e o índice de mortalidade é extremamente alto, mas que ainda assim são organizados fundamentalmente para fins de trabalho. E, finalmente, existem os campos de aniquilação, onde os internos são sistematicamente exterminados pela fome ou pelo abandono.
     O verdadeiro horror dos campos de concentração e de extermínio reside no fato de que os internos, mesmo que consigam manter-se vivos, estão mais isolados do mundo dos vivos do que se tivessem morrido, porque o horror compele ao esquecimento. No mundo concentracionário mata-se um homem tão impessoalmente como se mata um mosquito. Uma pessoa pode morrer em decorrência de tortura ou de fome sistemática, ou porque o campo está super-povoado e há necessidade de liquidar o material humano supérfluo. Inversamente, pode ocorrer que, devido a uma falta de novas remessas humanas, surja o perigo de que os campos se esvaziem, e seja dada a ordem de reduzir o índice de mortalidade a qualquer preço.[134] David Rousset deu ao relato do período que passou num campo de concentração alemão o título de Les jours de notre mort, e, realmente, é como se se pudesse tornar permanente o próprio processo de morrer e criar uma situação em que tanto a morte como a vida são retardadas com a mesma eficácia.
     O surgimento de um mal radical antes ignorado põe fim à noção de gradual desenvolvimento e transformação de valores. Não há modelos políticos nem históricos nem simplesmente a compreensão de que parece existir na política moderna algo que jamais deveria pertencer à política como costumávamos entendê-la, a alternativa de tudo ou nada — e esse algo é tudo, isto é, um número absolutamente infinito de formas pelas quais os homens podem viver em comum, ou nada, pois a vitória dos campos de concentração significaria a mesma inexorável ruína para todos os seres humanos que o uso militar da bomba de hidrogênio traria para toda a raça humana.
     Não há paralelos para comparar com algo a vida nos campos de concentração. O seu horror não pode ser inteiramente alcançado pela imaginação justamente por situar-se fora da vida e da morte. Jamais pode ser inteiramente narrado, justamente porque o sobrevivente retorna ao mundo dos vivos, o que lhe torna impossível acreditar completamente em suas próprias experiências passadas. É como se o que tivesse a contar fosse uma história de outro planeta, pois para o mundo dos vivos, onde ninguém deve saber se ele está vivo ou morto, é como se ele jamais houvesse nascido. Assim, todo paralelo cria confusão e desvia a atenção do que é essencial. O trabalho forçado nas prisões e colônias penais, o banimento, a escravidão, todos parecem, por um instante, oferecer possibilidade de comparação, mas, num exame mais cuidadoso, não levam a parte alguma.
     O trabalho forçado como punição é limitado no tempo e na intensidade. O preso retém os direitos sobre o próprio corpo; não é torturado de forma absoluta nem dominado de modo absoluto. O banimento apenas transfere o banido de uma parte do mundo para outra, também habitada por seres humanos; não o exclui inteiramente do mundo dos homens. Em toda a história, a escravidão foi uma instituição dentro de uma ordem social; os escravos não estavam, como os internos dos campos de concentração, longe dos olhos e, portanto, da proteção dos seus semelhantes; como instrumentos de trabalho, tinham um preço definido e, como propriedade, um valor definido. O interno do campo de concentração não tem preço algum, porque sempre pode ser substituído; ninguém sabe a quem ele pertence, porque nunca é visto. Do ponto de vista da sociedade normal, ele é absolutamente supérfluo, embora em épocas de intensa falta de mão-de-obra, como na Rússia e na Alemanha durante a guerra, fosse usado para o trabalho.

Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.3a - O Domínio Total)
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{125] Em Tischgesprache, Hitler menciona várias vezes estar lutando por uma situação em que "cada indivíduo saiba que vive e morre para a preservação da espécie" (p. 349). Ver também p. 347: "Uma mosca põe milhões de ovos, dos quais todos morrem. Mas a mosca fica". 
[126] Os melhores relatos sobre os campos de concentração nazistas são os de David Rousset, Lesjours de notre mort, Paris, 1947; Eugen Kogon, op. cit.; Bruno Bettelheim, "On Dachau and Buchenwald" (de maio de 1938 a abril de 1939), em Nazi conspiracy, VII, 824 ss. Quanto aos campos de concentração soviéticos, ver a excelente coleção de relatos de sobreviventes poloneses publicados sob o titulo The dark side of the moon; e também David J. Dallin, op. cit., embora as suas narrativas sejam menos convincentes por partirem de personalidades "proeminentes" desejosas de redigir manifestos e acusações.
[127The dark side of the moon; a introdução também acentua essa peculiar falta de comunicação: "Eles registram mas não comunicam". 
[128] Ver especialmente Bruno Bettelheim, op. cit. "Era como se eu estivesse convencido de que, de certa forma, aquelas coisas horríveis e degradantes não estavam acontecendo a 'mim' como sujeito, mas a 'mim' como objeto. Essa sensação foi corroborada pelo que me diziam outros prisioneiros. (...) Era como se eu visse ocorrerem coisas das quais apenas vagamente participava. (...) 'Isto não pode ser verdadeiro, essas coisas simplesmente não acontecem'. (...) Os prisioneiros tinham de convencer a si mesmos que aquilo era real, que estava realmente acontecendo e que não era apenas um pesadelo. Nunca o conseguiram completamente". 
     Ver também Rousset, op. cit., p. 213: "(■■■) Aqueles que não o viram com os próprios olhos não podem acreditar. Você mesmo, antes de vir para cá, levava a sério o que se dizia a respeito das câmaras de gás? Respondi que não. (...) Vê? Pois todos são igualzinhos a você. Todos eles, em Paris, Londres, Nova York, até mesmo em Birkenau, com aqueles crematórios embaixo do próprio nariz (...) ainda não acreditam, cinco minutos antes de serem mandados para o porão dos crematórios ainda não acreditam".
[129] O primeiro a compreender isto foi Rousset, em seu Univers concentratinaire, 1947. 
[130] Rousset, op. cit.,p. 587. 
[131] Ver Georges Bataille em Critique, janeiro de 1948, p. 72. 
[132] O livro de Rousset contém muitas dessas "intuições" a respeito da "natureza" humana, baseadas principalmente na observação do fato de que, depois de certo tempo, mal se pode distinguir a mentalidade dos internos da mentalidade dos guardas dos campos. 
[133] A fim de evitar mal-entendidos, convém acrescentar que, com a invenção da bomba de hidrogênio, dos foguetes teleguiados e das armas eletrônicas, a guerra ficou totalmente diferente. Contudo, está fora do escopo deste livro discutir essa questão. 
[134] Isso aconteceu na Alemanha em fins de 1942, ocasião em que Himmler notificou a todos os comandantes dos campos "que reduzissem a taxa de mortalidade a todo custo", pois verificara-se que, dos 136 mil recém-deportados, 70 mil já estavam mortos quando chegaram no campo ou morreram logo depois. Ver Nazi conspiracy, IV, anexo II. Relatos posteriores, provenientes dos campos da União Soviética, confirma unanimemente que, após 1949 — isto é, quando Stálin ainda estava vivo — a taxa de mortalidade nos campos de concentração, que antes havia alcançado até 60% dos presos, foi sistematicamente reduzida, presumivelmente devido à aguda escassez de mão-de-obra na União Soviética. Essa melhora de condições não deve ser confundida com a crise do regime surgida após a morte de Stálin e que, significativamente, repercutiu primeiro nos campos de concentração. Cf. Wilhelm Starlinger, Grezen der Sowjetmacht [Limites do poder soviético], Würzburg, 1955.  

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Cinema: Vinhas da Ira

A foice, as uvas esmagadas


"O filme relata a história de uma família pobre do estado de Oklahoma, que durante a Grande Depressão de 1929 se vê obrigada a abandonar as terras que ocupava havia décadas, em regime de meeiros, devido à chegada do progresso, traduzido pela compra de tratores e máquinas pelos donos dessas, e de um novo regime de propriedade. Este fator tornou obsoleto o trabalho manual de aragem e plantio da terra, e forçou-os a rumar em direção à Califórnia."


Entendendo o livro...

As Vinhas da Ira, de JOHN STEINBECK




Assistindo o filme... dublado


As vinhas da ira, dublado - 1940



comentando o filme...

Rubens Ewald Filho comenta o filme "Vinhas da Ira"




Assistindo o filme... legendado


As vinhas da ira, legendado - 1940



Elenco principal: 
Henry Fonda .... Tom Joad
Jane Darwell .... Ma Joad
John Carradine .... Casy
Charley Grapewin .... avô Joad
Dorris Bowdon .... Rose-of-Sharon Rivers
Russell Simpson .... Pa Joad
O.Z. Whitehead .... Al Joad
John Qualen .... Muley Graves
Eddie Quillan .... Connie Rivers
Zeffie Tilbury .... avó Joad

Direção: 
John Ford

Roteiro: 
Nunnally Johnson

Baseado no livro As Vinhas da Ira, de John Steinbeck


O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer)Vinhas da Ira /   

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - O Sr. de Cambremer estava ingenuamente feliz)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     O Sr. de Cambremer estava ingenuamente feliz em rever os lugares onde vivera por tanto tempo: 

- Reencontro-me - disse à Sra. Verdurin, enquanto o seu olhar se maravilhava por reconhecer as pinturas de flores em extremos acima das portas, e os bustos em mármore sobre seus altos pedestais. Entretanto, podia achar-se desambientado, pois a Sra. Verdurin havia trazido uma boa quantidade de velhas coisas bonitas que possuía. Desse ponto de vista, a Sra. Verdurin, mesmo passando aos olhos dos Cambremer por devastar tudo, não era revolucionária, mas inteligentemente conservadora, num sentido que eles não compreendiam. Assim, acusavam na injustamente de detestar a velha mansão e desonrá-la com simples tecidos em vez de sua rica pelúcia, como um cura ignorante que censurasse um arquiteto diocesano por recolocar no seu lugar próprio velhas madeiras esculpidas deixadas num canto e que o eclesiástico achava melhor substituir pelos ornamentos adquiridos na praça de Saint-Sulpice. Enfim, um jardim de pároco principiava a substituir, diante do castelo, as platibandas que faziam o orgulho não só dos Cambremer, mas também de seu jardineiro. Este, que considerava os Cambremer como os seus únicos senhores e gemia sob o jugo dos Verdurin, como se a terra tivesse sido momentaneamente ocupada por um invasor e uma tropa de veteranos, ia em segredo levar suas condolências à proprietária despojada, indignava-se com o desprezo com que eram tratadas as suas araucárias, suas begônias, seus saiões, suas dálias duplas, e de que ousassem, numa tão rica morada, plantar flores tão comuns como a macela e o mimo-de-vênus. A Sra. Verdurin sentia essa oposição surda e havia decidido, caso fizesse um longo contrato de arrendamento ou até mesmo chegasse a comprar La Raspeliere, a impor como condição a demissão do jardineiro, a quem a velha proprietária, ao contrário, prezava muito. Ele a servira por nada em tempos difíceis, adorava-a; mas, por esse estranho desdobramento da opinião das pessoas do povo, em que o desprezo moral mais profundo se entranha na mais apaixonada estirpe que, por sua vez, cavalga velhos rancores não abolidos, ele dizia muitas vezes que a Sra. de Cambremer, em 1870, surpreendida pela invasão do castelo que possuía no Leste, tivera de sofrer durante um mês o contato dos prussianos: 

- O que muito se censurou na senhora marquesa foi o de ter tomado, durante a guerra, o partido dos prussianos e de tê-los inclusive alojado em sua casa. Em uma outra ocasião, eu compreenderia; mas em tempo de guerra, ela não deveria ter feito isso. Não é correto. -  

     De motivo que ele lhe era fiel até a morte, venerava-a por sua bondade e acreditava culpada de traição. A Sra. Verdurin sentiu-se melindrada porque o Sr. de Cambremer pretendia reconhecer tão bem La Raspeliere. 

- No entanto, o senhor deve encontrar algumas mudanças - respondeu. - Primeiro, havia uns grandes diabos de bronze de Barbedienne e uns ridículos banquinhos de pelúcia que me apressei a mandar para o sótão, que ainda é bom demais para eles. -

     Depois dessa réplica acerba dirigida ao Sr. de Cambremer ela lhe ofereceu o braço para ir à mesa. Ele hesitou por um momento, dizendo consigo:

"Ainda assim, não posso passar adiante do Sr. de Charlus''

     Mas, pensando que este era um velho amigo da casa, uma vez que não tinha o lugar de honra, decidiu-se a tomar o braço que lhe era oferecida. E disse à Sra. Verdurin o quanto se sentia orgulhoso por ser admitido cenáculo (era assim que ele chamava o pequeno núcleo, não sem rir um pouco de satisfação por saber esse termo).  
     Cottard, que estava sentado ao lado do Sr. de Charlus, observava-o por sob o lorgnon a fim de travar conhecimento e quebrar o gelo, com piscadelas muito mais insistentes do que outrora, e não cortadas pela timidez. E seus olhares insinuantes, acrescidos pelo sorriso, já não eram contidos pelas lentes do lorgnon e transbordavam de todos os lados. O barão, que em toda parte via facilmente semelhantes, não duvidou que Cottard fosse um deles e estivesse a namorá-lo. E logo evidenciou ao professor a dureza dos invertidos sexuais tão desdenhosos com aqueles a quem agradam como ardentemente soltos para com quem lhes agrada. Sem dúvida, embora cada qual fala mentirosamente da ternura de ser amado, sempre recusada pelo destino trata-se de uma lei geral, cujo império está bem longe de estender-se unicamente sobre os Charlus, a que diz que a criatura a quem não amam que nos ama pareça-nos insuportável. A essa criatura, a essa mulher dá quem não diremos que nos ama, mas que nos importuna, preferimos a companhia de qualquer outra, que não terá o seu encanto, nem seus dotes, seu espírito. Ela só os recobrará para nós quando nos deixar de amar. Neste sentido, poderia ver-se apenas a transposição, sob uma forma engraçada, dessa regra universal, na irritação causada num invertido por um homem que lhe desagrada e o procura. Mas nele, ela é bem mais forte. Assim, ao passo que o comum dos homens a procura dissimular quando a experimenta, o invertido, implacavelmente, fá-la sentir ao homem que a provoca, como com certeza a não faria sentir a uma mulher; como, por exemplo, o Sr. de Charlus à princesa de Guermantes, cuja paixão o entediava, embora o lisonjeasse. Mas, quando veem um outro homem testemunhar-lhes um gosto particular; então, ou por incompreensão de que seja o mesmo gosto do deles; ou por lembrança infeliz de que esse gosto, por eles embelezado enquanto eles mesmos o experimentam, é considerado como vício; seja pelo desejo de se reabilitarem com um rompante, numa circunstância em que isso nada lhes custa; seja pelo temor de serem adivinhados, que experimentam de súbito, quando o desejo não mais os impulsiona, de olhos vendados, de imprudência em imprudência; seja pelo furor de sofrer de fato com a atitude equívoca de outro o dano que, quanto à sua atitude, se esse outro lhes agradasse, não receariam causar-lhe, aqueles a quem não constrange seguirem um rapaz durante léguas, não lhe tirarem os olhos de cima no teatro, mesmo que esteja com amigos, arriscando-se com isso a fazê-lo brigar com eles, a gente pode ouvi-lo dizer, por pouco que os olhe um outro que não lhes agrada: 

- Cavalheiro, por quem o senhor me toma? (simplesmente porque os tomam pelo que eles são.) Não o compreendo, é inútil insistir, o senhor está enganado; ir, se necessário, até as bofetadas e, diante de alguém que conhece o imprudente, indignar-se: 
- Como? O senhor conhece esse salafrário? Ele tem um jeito de olhar para a gente! E que maneiras! -

     O Sr. de Charlus não foi tão longe, mas mostrou o ar ofendido e glacial que assumem, quando parecemos julgá-las levianas, as mulheres que o não são, e ainda mais aquelas que o são. Ademais o invertido, posto em presença de outro invertido, vê não apenas uma imagem desagradável de si mesmo que, puramente inanimada, só poderia ferir seu amor-próprio, mas também um outro eu, vivo, que age no mesmo sentido, portanto capaz de fazê-lo sofrer em seus amores. Assim, é num instinto de conservação que ele falará todo o mal do possível concorrente, ou com as pessoas que podem prejudicar a este (e sem que o invertido não se inquiete de passar por mentiroso, quando desse modo liquida o invertido não aos olhos das pessoas que podem ser informadas a respeito de seu próprio caso), ou com o rapaz que ele "agarrou", que talvez lhe venha a ser arrebatado, e a quem trata de convencer que as mesmas coisas, que este tem todas as vantagens de fazer com ele, causariam a desgraça da sua vida se se deixasse levar a fazê-las com o outro.
     Quanto ao Sr. de Charlus, que talvez pensasse nos perigos (totalmente imaginários) que a presença desse Cottard, cujo sorriso entendia de modo errôneo, faria correr a Morel, um invertido que não agradasse não era apenas uma caricatura de si mesmo, era igualmente a rival escolhido. Um comerciante que explora um ramo raro dos negócios desembarcando numa cidade da província onde acaba de instalar-se para o resto da vida, se vê que, na mesma praça, bem defronte, o mesmo negócio é explorado por um concorrente, não fica menos desnorteado que um Charlus que, indo ocultar seus amores numa região tranquila, vê no dia de chegada o gentil homem do lugar, ou o cabeleireiro, cujo ar e maneiras não lhe deixam quaisquer dúvidas. Muitas vezes, o comerciante acaba sentindo um verdadeiro ódio pelo concorrente; por vezes, tal ódio degenera em melancolia, e por pouco que haja hereditariedade bastante carregada, já se vê em cidadezinhas o comerciante mostrar indícios de loucura que só se pode curar convencendo-o a vender seu "fundo" e a expatriar-se. A raiva do invertido é ainda mais lancinante. Compreendeu que, desde o primeiro instante, o gentil-homem e o cabeleireiro desejaram seu jovem camarada. Por mais que repita a este, cem vezes por dia, que o cabeleireiro e o gentil-homem são bandidos cuja aproximação o desonraria, é obrigado, como Harpagão, a velar pelo seu tesouro e levanta-se da cama à noite para ver se não lhe roubam. E sem dúvida é mais ainda que o desejo ou até comodidade de hábitos comuns e quase tanto como essa experiência de si mesmo que é a única verdadeira, faz com que o invertido despiste o invertido com uma rapidez e uma segurança quase infalíveis. Ele pode enganar-se por um momento; mas uma adivinhação rápida o põe de novo no caminho da verdade. Assim, o erro do Sr. de Charlus foi de curta duração. Discernimento divino mostrou-lhe, após um instante, que Cottard não era de sua espécie e que não havia o que temer de seus avanços, nem quanto a si mesmo, o que só faria deixá-lo exasperado, nem quanto a Morel, o que lha pareceria mais grave. Voltou a tranquilizar-se e, como estivesse ainda sob a, influência da passagem de Vênus Andrógina, sorria às vezes debilmente aos Verdurin sem se incomodar em abrir a boca, apenas franzindo um canto dos lábios e, por um segundo, acendia ternamente os olhos, ele, tão cioso de sua virilidade, exatamente como o teria feito sua cunhada, a duquesa de Guermantes. 

- Caça muito, senhor? - perguntou a Sra. Verdurin com desprezo ao Sr. de Cambremer. 
- Ski já lhe contou que nos aconteceu uma boa? - indagou Cottard à Patroa. 
- Caço principalmente na floresta de Chatepie - respondeu o Sr. de Cambremer. 
- Não, não contei nada - disse Ski. 
- Merece ela o seu nome? - perguntou Brichot ao Sr. de Cambremer, depois de ter-me olhado com o rabo dos olhos, pois me havia prometido falar em etimologias, recomendando que dissimulasse à Cambremer o desprezo que lhe inspiravam as do cura de Combray. 
- Com certeza é porque não sou capaz de compreender, mas não alcancei sua pergunta disse o Sr. de Cambremer. 
- Quero dizer: será que por lá cantam muitas pegas? - esclareceu Brichot.

     Entretanto, Cottard sofria porque a Sra. Verdurin ignorava que eles quase haviam perdido o trem. 

- Vamos - disse a Sra. Cottard ao marido para animá-lo-, conta a tua odisséia. 
- De fato, ela sai fora do comum - disse o doutor, que recomeçou sua narrativa. - Quando vi que o trem estava na gare, fiquei petrificado. Tudo isso por culpa de Ski. 
- O senhor é meio bizarróide em suas informações, meu caro! E Brichot que nos esperava na gare! - Pensava - disse o universitário, lançando a seu redor o que lhe restava de olhar e sorrindo com seus lábios delgados - que, se o senhor se havia demorado em Graincourt, era porque encontrara alguma peripatética. 
- Cale-se, por favor. Imagine se minha mulher o ouvisse! - disse o doutor. - A patroa é ciumenta. 
- Ah, esse Brichot! - exclamou Ski, em quem o divertido gracejo de Brichot despertara a alegria costumeira. - É sempre o mesmo. - embora na verdade não soubesse dizer se o universitário tivesse sido libertino algum dia. E, para acrescentar a essas palavras consagradas o gesto ritual, fingiu que não podia resistir ao desejo de lhe beliscar a perna. - Ele não muda, esse galhofeiro de Brichot - continuou Ski, e, sem pensar no que a quase cegueira do universitário ajuntava de triste e cômico a essas palavras, acrescentou: - Sempre um olhinho para as mulheres. 
- Vejam - disse o Sr. de Cambremer - o que é encontrarmos um sábio. Faz quinze anos que caço na floresta de Chantepíe e nunca havia pensado no que seu nome significa.

     A Sra. de Cambremer lançou um olhar severo ao marido; não gostaria que ele se humilhasse de tal forma diante de Brichot. Ficou mais contrariada ainda quando, a cada "frase feita" empregada por Cancan, Cottard, que conhecia o forte e o fraco delas, pois tinha-as trabalhosamente aprendido, demonstrava ao marquês, o qual confessava sua tolice, que elas não queriam dizer nada: 

- Por que: burro como uma porta? Acha que as portas são mais burras do que qualquer outra coisa? O senhor diz: repetir cem vezes a mesma coisa. Por que particularmente cem? Por que: dormir como uma pedra? Por que: com todos os diabos? Por que: levar vida desregrada? - Mas então a defesa do Sr. de Cambremer ficava a cargo de Brichot, que explicava a origem de cada locução. Mas a Sra. de Cambremer ocupava-se principalmente em examinar as mudanças que os Verdurin tinham trazido a La Raspeliere, a fim de poder criticar algumas, levar outras para Féterne, ou talvez as mesmas. 
- Pergunto-me o que quer dizer este lustre todo atravessado. Mal reconheço minha velha Raspeliere - acrescentou com um sorriso familiarmente aristocrático, como se falasse de um servidor, não propriamente para designar-lhe a idade, mas para dizer que ele a vira nascer. E, como era um tanto livresca na linguagem: 
- Ainda assim, - acrescentou a meia voz - parece-me que, se eu morasse em casa alheia, teria algum escrúpulo em mudar tudo assim. 
- É uma pena que os senhores não tenham vindo com eles - disse a Sra. Verdurin ao Sr. de Charlus e a Morel, na esperança de que o Sr. de Charlus voltasse com frequência e se inclinasse à regra de chegarem todos no mesmo trem. - Tem certeza de que Chantepie quer dizer "a pega que cantai!”; Chochotte? - ajuntou ela, para mostrar que, como grande dona-de-casa; tomava parte em todas as conversas ao mesmo tempo. 
- Mas fale-me um pouco desse violinista - disse-me a Sra. de Cambremer - ele me interessa; adoro a música e creio que já ouvi falar nele, por favor queira informar-me, sim? -

     Soubera que Morel tinha vindo com o Sr. de Charlus e desejava, sendo apresentada ao primeiro, travar relações com o segundo. Entretanto, acrescentou, para que eu não pudesse adivinhar esse motivo: 

- O Sr Brichot também me interessa. -

     Pois, se era muito instruída, como ocorre com certas pessoas predispostas à obesidade e que mal comem e caminham o dia inteiro sem cessar de engordar a olhos vistos, assim a Sra. de Cambremer, por mais que se aprofundasse, sobretudo em Féterne, numa filosofia cada vez mais esotérica, numa música cada vez mais transcendente, só saía desses estudos para maquinar intrigas que lhe permitissem "acertar" as amizades burguesas de juventude e travar relações que a princípio julgara fazerem parte da sociedade da família do marido, mas que em seguida percebeu estarem situadas muito mais alto e longe. Um filósofo que não era bastante moderno para ela, Leibnitz, disse que a trajetória da inteligência ao coração é muito longa. Essa trajetória, a Sra. de Cambremer, berre como o seu irmão, não tinha mais forças para percorrê-la. Só abandonando a leitura de Stuart Mill pela de Lachelier, à medida que acreditava menor na realidade do mundo exterior, mais se encarniçava, antes de morrer, em conseguir uma boa posição neste último. Apaixonada pela arte realista nenhum objeto lhe parecia suficientemente humilde para servir de modelo ao pintor ou ao escritor. Um quadro ou um romance mundano lhe provocariam náuseas; um mujique de Tolstoi e um camponês de Millet eram o extremo limite social, que ela não permitia ao artista ultrapassar. Mas franquear o que limitava suas próprias relações, elevar-se até o convívio das duquesas, era a finalidade de todos os seus esforços, de tal modo permanecia ineficaz, contra o esnobismo congênito e mórbido que nela se desenvolvia, o tratamento espiritual a que se submetia através do estudo de obras-primas. Esse esnobismo terminara até curando certas inclinações à avareza e ao adultério, a que era propensa quando jovem, assemelhando-se nisso a esses singulares e contínuos estados patológicos que parecem imunizar os que deles sofrem contra outras doenças. Aliás, eu não podia, ao ouvi-la falar, deixar de fazer justiça ao refinamento de suas expressões, sem todavia sentir nenhum prazer nisso. São as que empregam, numa certa época, todas as pessoas de uma mesma estatura intelectual, de modo que a expressão refinada fornece de imediato, como o arco de um círculo, o meio de descrever e limitar toda a circunferência. Assim, tais expressões fazem com que as pessoas que as empregam me aborreçam logo como já conhecidas, mas também passam por superiores e muitas vezes me foram oferecidas como vizinhas deliciosas e inapreciadas. 

 A senhora bem sabe que muitas regiões florestais tiram o seu nome dos animais que as povoam. Vizinho à floresta de Chantepie, temos o bosque de Chantereine. 
- Não sei de que rainha se trata, mas o senhor não é galante com ela - disse o Sr. de Cambremer. 
- Pegue essa, Chochotte - disse a Sra. Verdurin. - E, fora isso, a viagem correu bem? 
- Só encontramos vagas humanidades que enchiam o trem. Mas respondo à pergunta do Sr. de Cambremer; rainha não é aqui a mulher de um rei, mas a rã. É o nome que ela conservou por muito tempo nesta região, como o testemunha a estação de Renneville, que deveria escrever se Reinneville. 
- Parece-me que a senhora possui aí um belo animal - disse o Sr. de Cambremer à Sra. Verdurin, mostrando-lhe um peixe. Era um desses cumprimentos com que ele julgava pagar sua cota num jantar e já retribuir à gentileza. (“Inútil convidá-los," dizia com frequência à mulher, falando de tais ou quais amigos. "Ficaram encantados de nos terem à sua mesa. Eles é que nos agradeciam.") - Aliás, devo dizer-lhe que há muitos anos vou quase diariamente a Renneville e lá não vi mais rãs do que em qualquer outro lugar. A Sra. de Cambremer mandou vir aqui o cura de uma paróquia onde possui fortes propriedades e que tem o mesmo feitio de espírito que o senhor, pelo que parece. Ele escreveu uma obra. 
- Sei disso, eu a li com grande interesse - respondeu hipocritamente Brichot.

     A satisfação que seu orgulho recebia indiretamente dessa resposta fez rir longamente o Sr. de Cambremer. 

- Pois bem, o autor, como direi, dessa geografia, desse glossário, discorre longamente acerca do nome de uma pequena localidade de que nós éramos outrora, se assim posso dizer, os senhores, e que se chama Pont-à-Couleuvre. Ora, é evidente que não passo de um vulgar ignorante ao lado desses poços de ciência, mas já fui mil vezes a Pont-à-Couleuvre, e diabos me levem se vi alguma vez uma única dessas serpentes danadas, digo danadas, apesar do elogio que lhes faz o bom La Fontaine (O Homem e a Cobra era uma das duas fábulas). 
- O senhor não viu, mas foi o senhor quem viu direito - respondeu Brichot. 
- Certames, o escritor de que fala conhece a fundo o seu assunto, escreveu um litro notável. 
- Claro! - exclamou a Sra. de Cambremer. - Este livro, é bolo que se diga, é um verdadeiro trabalho de beneditino. 
- Sem dúvida ele consultado pouillés (entende-se por isso a lista dos benefícios e curatos de cada diocese, o que lhe pôde fornecer o nome dos patronos antigos e dos colatores eclesiásticos). Mas existem outras fontes. Um de meus amigos mais sábios nelas se abeberou. Descobriu que este mesmo lugar era denominado Pont-à-Quileuvre. Esse nome esquisito o incitou a remontar mais longe ainda, a um texto latino em que a ponte que o seu amigo crê infestada de cobras é designada: Pons cus aperit. Ponte fechada, que se abria mediante uma contribuição razoável. 
- O senhor falava de rãs. Eu; achando-me no meio de pessoas tão sábias, tenho a impressão de que via rã diante do areópago - (era a segunda fábula) - disse Cancan, que muitas vezes fazia rindo esse gracejo, graças ao qual acreditava ao mesmo tempo, por humildade e bem a propósito, fazer profissão de ignorância e ostentação de saber. Quanto a Cottard, bloqueado pelo silêncio do Sr. de Charlus e tentando dar-se importância sob outros aspectos, voltou-se para mim e me fez uma dessas perguntas que impressionavam seus doentes se eram acertadas e mostravam que ele estava, por assim dizer, no corpo deles; se pelo contrário, eram erradas, permitiam-lhe retificar certas teorias, ampliar antigos pontos de vista. 
- Quando o senhor chega a locais relativamente elevados como este em que nos encontramos no momento, reparou que isto aumenta sua tendência às sufocações? - indagou, certo ou de se fazer admirar, ou de completar seus conhecimentos. O Sr. de Cambremer ouviu a pergunta, e sorriu. 
- Não posso lhe dizer como me agrada saber que o senhor tem sufocações - lançou-me ele através da mesa. Com isso, ele não queria dizer que a coisa o alegrava, embora isso também fosse verdade. Pois esse homem excelente não podia no entanto ouvir falar de desgraça de outrem sem um sentimento de bem-estar e um espasmo de hilaridade que rapidamente cediam à piedade de um bom coração. Mas sua frase tinha um outro sentido, que esclareceu a seguinte: 
- Isto me agrada - disse - porque precisamente a minha irmã também sofre disso.

     Em suma, aquilo lhe agradava como se me tivesse ouvido citar como sendo um de meus amigos alguém que tivesse frequentado muito a sua casa. 

- Como é pequeno o mundo - foi a reflexão que ele formulou mentalmente e que vi escrita no seu rosto sorridente quando Cottard me falou de minhas sufocações. E estas se tornaram, a partir desse jantar, uma espécie de relações comuns de que o Sr. de Cambremer jamais deixava de pedir notícias, nem que fosse apenas para transmiti-las à irmã.

     Enquanto respondia às perguntas que sua mulher me fazia sobre Morel, eu pensava numa conversa que tivera com minha mãe à tarde. Como, embora não me desaconselhasse a ir à casa dos Verdurin, se isso podia distrair-me, ela me lembrasse que se tratava de um ambiente que não teria agradado a meu avô e o teria feito exclamar:

"Em guarda!", minha mãe havia acrescentado: - Escuta, o presidente Toureuil e sua esposa me disseram que haviam jantado com a Sra. Bontemps. Não me perguntaram nada. Mas julguei compreender que o casamento de Albertine contigo seria o sonho da sua tia. Creio que a verdadeira razão é que és muito simpático a todos eles. Ainda assim, o luxo que eles acham que poderias lhes dar, as relações que mais ou menos sabem que nós temos, creio que tudo isso não lhes é estranho, embora secundário. Não te falaria nisso porque não ligo muito para tais coisas, mas, como suponho que vão te falar, preferi tomar a dianteira.

- Mas tu, que achas de Albertine? perguntara eu a mamãe. 
- Ora, eu, não serei eu quem se casará com ela. Decerto podes arranjar coisa mil vezes melhor em matéria de casamento. Mas creio que tua avó não gostaria que te influenciassem. Atualmente não posso te dizer como acho Albertine, não acho nada. Direi como a Sra. de Sévigné: "Ela tem boas qualidades, pelo menos é o que creio. Mas agora no começo, só sei louvá-la com negativas. Ela não é isto, ela não tem o sotaque de Rennes. Com o tempo, talvez, eu diga: ela é isto." E sempre a acharei bem, se ela te fizer feliz. -  

     Mas, com essas mesmas palavras, que colocavam nas minhas mãos a decisão sobre a minha própria felicidade, minha mãe me pusera nesse estado de dúvida em que eu já me vira quando, tendo meu pai permitido que eu fosse à representação da Fedra, e principalmente, que me tornasse escritor, sentira de súbito uma responsabilidade excessivamente grande, o medo de afligi-lo, e aquela melancolia que se sente quando se deixa de obedecer a ordens que, no dia-a-dia, nos ocultam o futuro, de perceber que afinal começamos a viver a vida de verdade, como gente grande, a única vida que está à disposição de todos nós. Talvez fosse melhor esperar um pouco, começar a lidar com Albertine como antigamente, para tentar ver se a amava de verdade. Poderia levá-la à casa dos Verdurin para distraí-la, e isso me lembrou que eu mesmo só estava ali aquela noite para saber se a Sra. Putbus ali estava hospedada ou ainda ia chegar. Em todo caso, não viera para jantar. 

- A propósito de seu amigo Saint-Loup - disse-me a Sra. de Cambremer, empregando assim uma expressão que denotava mais seguimento nas ideias do que suas frases dariam a entender; pois, falando de música, pensava em Guermantes -, o senhor sabe que todo mundo fala de seu casamento com a sobrinha da princesa de Guermantes. Dir-lhe-ei que, de minha parte, não me preocupo a mínima com esses mexericos mundanos. -

continua na página 150...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - O Sr. de Cambremer estava ingenuamente feliz)
Volume 6
Volume 7

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

MPB: Maria Fumaça

Kleiton e Kledir






Essa maria fumaça é devagar quase parada
Ô seu foguista, bota fogo na fogueira
Que essa chaleira tem que tá até sexta feira
Na estação de Pedro Osório, sim senhor

Se esse trem não chega a tempo vou perder meu casamento
Atraca, atraca-lhe carvão nessa lareira
Esse fogão é que acelera essa banheira
O padre é louco e bota em meu lugar

Se chego tarde não vou casar
Eu perco a noiva e o jantar
A moça não é nenhuma miss
Mas é prendada e me faz feliz

Seu pai é um próspero fazendeiro
Não é que eu seja interesseiro
Mas sempre é bom e aconselhável
Unir o útil ao agradável

Esse trem não sai do chão
Urinaram no carvão
Entupiram a lotação
E eu nem sou desse vagão

Mas que baita confusão
Tem crioulo e alemão
Empregado com patrão
Opa, opa me passaram a mão
Ora vá lamber sabão

Tagarap, tagarap, tagarap, tagarap, tagarap
Togorop, togorop, togorop, togorop, togorop

Se por acaso eu não casar
Alguém vai ter que indenizar

Esse expresso vai a trote, mais parece um pangaré
Essa carroça é um jabuti com chaminé
Eu tenho pena é de quem segue pra Bagé
Seu cobrador cadê meu troco, por favor?

E dá-lhe apito e manivela, passa sebo nas canelas
Seu maquinista eu vou tirar meu pai da forca
Porque não joga esse museu no ferro velho
E compra logo um trem moderno japonês?

No dia alegre do meu noivado
Pedi a mão todo emocionado
A mãe da moça me garantiu
É virgem, só que morou no Rio!
O pai falou é carne de primeira
Mas se abre a boca só sai besteira
Eu disse fico com essa guria
Só quero mesmo pra tirar cria

Esse trem não era o teu
Esvaziaram o pneu
Mas cadê esse guri?
Tá na fila do xixi

Tem chiclete com tatoo
Foi alguém de Canguçu (barbaridade)
Me roubaram meu chapéu
Chama o hômi do quartel
Deu enjôo na mulher
E fez porquinho no meu pé

Tagarap, tagarap, tagarap, tagarap, tagarap
Togorop, togorop, togorop, togorop, togorop
Tagarap, tagarap, tagarap
Togorop, togorop

Se por acaso eu não casar
Alguém vai ter que indenizar
E é o presidente dessa tal

RFFSA
RFFSA
RFFSA
RFFSA
RFFSA
RFFSA
RFFSA
RFFSA

Compositores: Kledir Ramil, Kleiton Alves Ramil Rami


"Almôndegas foi uma das bandas pioneiras em criar uma linguagem particular para a música pop gaúcha. Oriundos da cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul. Os Almôndegas misturavam velhas canções do folclore gaúcho, MPB e rock."


Almôndegas - Canção da Meia Noite




"Os Almôndegas surgiram oficialmente com a gravação do primeiro LP, em 1975, mas desde quatro anos antes os irmãos Kleiton Ramil e Kledir Ramil, o primo Pery Souza e os amigos Gilnei Silveira e Quico Castro Neves lideravam uma gurizada que se reunia num apartamento no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, para cantar. Músicos de formação eclética, eles só pensavam em se divertir quando venceram o I Festival Universitário da Canção Catarinense com a música Vento Negro."



e temos o irmão Vitor Ramil


Vitor Ramil - Joquim, O Louco do Chapéu Azul




Os irmãos começaram a estudar música muito cedo e juntamente a três amigos, formaram na década de 1970, a banda Almôndegas, onde lançaram quatro discos, uma infinidade de shows e a mudança para o Rio de Janeiro. Quando o grupo se dissolveu, os irmãos decidiram prosseguir a carreira em dupla.



Almôndegas - "Amargo"

Música de Lupicinio Rodrigues, gravada pelo grupo gaúcho Almôndegas, na década de 70 do século XX!





Almôndegas - Vento Negro 
- Vocal: Almôndegas (Kiko Castro Neves
- Compositor: José Fogaça 
- Produção do vídeo: Abraxas




Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Dez anos que dessangraram a Colômbia(14)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     25. Dez anos que dessangraram a Colômbia
          Lá pelos anos 40, o influente economista colombiano Luis Eduardo Nieto Arteta escreveu uma apologia do café. O café tinha conseguido aquilo que jamais conseguiram, nos anteriores ciclos econômicos do país, as minas e o tabaco, o anil e a quina: dar nascimento de uma ordem madura e progressista. As fábricas têxteis e outras indústrias leves nasceram, não por acaso, nos departamentos produtores de café: Antióquia, Caldas, Valle del Cauca, Cundinamarca. Uma democracia de pequenos produtores agrícolas, dedicados ao café, converteu os colombianos em “homens moderados e sóbrios”. “O pressuposto mais vigoroso para a normalidade no funcionamento da vida política colombiana”, ele dizia, “foi a consecução de uma peculiar estabilidade econômica. O café a produziu, e com ela o sossego e a moderação”. [1]
     Pouco tempo depois eclodiu a violência. Os elogios ao café, na verdade, não tinham interrompido, como num passe de mágica, a longa história de revoltas e repressões sanguinárias na Colômbia. Desta vez, e durante dez anos, entre 1948 e 1957, a guerra camponesa abarcou minifúndios e latifúndios, desertos e semeadas, e vales e matas e páramos andinos, compeliu ao êxodo comunidades inteiras, gerou guerrilhas revolucionárias e bandos de criminosos, e transformou o país num cemitério: calcula-se que deixou um saldo de 180 mil mortos [2]. O banho de sangue coincidiu com um período de euforia econômica da classe dominante: é lícito confundir a prosperidade de uma classe com o bem-estar de um país?
     A violência começou como um enfrentamento entre liberais e conservadores, mas a dinâmica do ódio de classes foi salientando cada vez mais seu caráter de luta social. Jorge Eliécer Gaitán, o caudilho liberal que a oligarquia de seu próprio partido, entre depreciadora e receosa, chamava “El Lobo” ou “El adulaque”, granjeara um formidável prestígio popular e ameaçava a ordem estabelecida; quando o assassinaram a tiros, desencadeou-se o furacão. Primeiro foi uma maré humana irrefreável nas ruas da capital, o espontâneo bogotazo, e em seguida a violência derivou para o campo, onde, já fazia algum tempo, os bandos organizados pelos conservadores vinham semeando o terror. O ódio longamente ruminado pelos camponeses explodiu, e enquanto o governo enviava policiais e soldados para cortar testículos, abrir o ventre das mulheres grávidas ou atirar as crianças para o ar para espetá-las com a baioneta, sob a consigna “não deixar nem a semente”, os doutores do Partido Liberal se recolhiam às suas casas sem alterar seus bons modos nem o tom cavalheiresco de suas manifestações; no pior dos casos, viajavam para o exílio. Foram os camponeses que forneceram os mortos. A guerra alcançou extremos de incrível crueldade, estimulada por um afã de vingança que crescia com a própria guerra. Surgiram novos estilos de morte: no “corte gravata”, a língua saía por um buraco do pescoço. Sucediam-se as violações, os incêndios, os saques; os homens eram esquartejados ou queimados vivos, esfolados ou partidos lentamente em pedaços; os batalhões arrasavam as aldeias e as plantações; os rios se tingiam de vermelho; os bandoleiros outorgavam o direito de viver em troca de tributos em dinheiro ou carregamentos de café, e as forças repressivas expulsavam e perseguiam as inúmeras famílias que fugiam para buscar refúgio nas montanhas: as mulheres davam à luz nos matos. Os primeiros chefes guerrilheiros, animados pela necessidade de revanche mas sem horizontes políticos claros, lançavam-se à destruição pela destruição, o desafogo a sangue e fogo sem outros objetivos. Os nomes dos protagonistas da violência (Tenente Gorila, Malasombra, El Cóndor, Pielroja, El Vampiro, Avenegra, El Terror del Llano) não sugerem uma epopeia da revolução. Mas o traço da rebelião social destacava-se até nas coplas que os bandos cantavam:

Eu sou campesino puro 
e não comecei a peleia, 
mas se procuram barulho 
vão dançar com a mais feia.

     Afinal, o terror indiscriminado também havia aparecido, misturado com reivindicações de justiça, na revolução mexicana de Emiliano Zapata e Pancho Villa. Na Colômbia, a raiva explodia de qualquer maneira, mas não é casual que daquela década de violência tenham nascido as posteriores guerrilhas políticas que, levantando as bandeiras da revolução social, chegaram a ocupar e controlar extensas zonas do país. Os camponeses, assediados pela repressão, emigraram para as montanhas e ali organizaram o trabalho agrícola e a autodefesa. As chamadas “repúblicas independentes” continuaram oferecendo refúgio aos perseguidos depois que conservadores e liberais assinaram, em Madri, um pacto de paz. Os dirigentes de ambos os partidos, num clima de brindes e pombas, resolveram alternar-se sucessivamente no poder em prol da concórdia nacional, e então começaram, já de comum acordo, a tarefa de “limpeza” contra os focos de perturbação do sistema. Numa única operação, para combater os rebeldes de Marquetalia, foram disparados um milhão e meio de projéteis, lançadas vinte mil bombas e mobilizados, por terra e ar, dezesseis mil soldados [3].
     Em plena violência, havia um oficial que dizia: “Não me tragam histórias, tragam-me orelhas”. A ferocidade da guerra e o sadismo da repressão poderiam ser explicados mediante razões clínicas? Resultaram da maldade natural dos protagonistas? Um homem que cortou as mãos de um sacerdote, prendeu fogo no corpo e na casa dele e logo o despedaçou e o jogou num cano de despejo, gritava, quando a guerra acabou: “Eu não sou culpado! Eu não sou culpado! Deixem-me só!” Perdera a razão, mas de certo modo a tinha: o horror da violência pôs em evidência o horror do sistema. Porque o café não trouxe a felicidade e a harmonia, como havia profetizado Nieto Arteta. É verdade que, graças ao café, ativou-se a navegação no Magdalena e nasceram ferrovias e estradas e se acumularam capitais que deram origem a certas indústrias, mas a ordem oligárquica interna e a dependência econômica ante os centros estrangeiros do poder não só não foram afetadas pelo processo ascendente do café como também – e bem ao contrário – tornaram-se mais angustiantes para os colombianos. Quando a década de violência chegou ao fim, as Nações Unidas publicavam os resultados de sua pesquisa sobre a nutrição na Colômbia. De lá para cá a situação absolutamente não melhorou: 88 por cento dos escolares de Bogotá padeciam de avitaminose e mais da metade tinha um peso abaixo do normal; entre os trabalhadores, a avitaminose castigava 71 por cento, e entre os camponeses do vale de Tensa, 78 por cento [4]. A pesquisa mostrou “uma nítida insuficiência de alimentos protetores – leite e seus derivados, ovos, carne, pescado e algumas frutas e hortaliças – que em conjunto fornecem proteínas, vitaminas e sais”. Não só aos clarões dos tiros se revela uma tragédia social. As estatísticas indicam que a Colômbia registra um índice de homicídios sete vezes maior do que o dos Estados Unidos, mas também indicam que uma quarta parte dos colombianos em idade ativa não tem trabalho fixo. Duzentas mil pessoas, anualmente, apresentam-se ao mercado de trabalho, mas a indústria não gera novos empregos, e no campo a estrutura de latifúndios e minifúndios tampouco necessita de mais braços; ao contrário, expulsa continuamente novos desempregados para os subúrbios das cidades. Há na Colômbia mais de um milhão de crianças sem escola. Isto não impede que o sistema se dê ao luxo de manter 41 universidades diferentes, públicas ou privadas, cada uma com seus diversos cursos e departamentos, para a educação dos f ilhos da elite e da minoritária classe média [5].

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Dez anos que dessangraram a Colômbia(14)
__________________

[1] ARTETA, Luis Eduardo Nieto. Ensayos sobre economía colombiana. Medellín, 1969.
[2] GUZMÁN CAMPOS, Germán, FALS ORDA, Orlando, & UMAÑA LUNA, Eduardo. La violencia en Colombia. Estudio de un proceso social. Bogotá, 1963-4.  
[3] GUZMÁN CAMPOS. La violencia en Colombia (parte descritiva). Bogotá, 1968. 
[4] NACIONES UNIDAS. “Análisis y proyecciones del desarrollo econômico”, III. In: El desarrollo económico de Colombia. Nova York, 1957. 
[5] O professor Gusmán Rama descobriu que algumas dessas veneráveis casas acadêmicas têm em suas bibliotecas, como acervo mais importante, a coleção encadernada da Seleções do Readers Digest. RAMA, Germán. Educación y movilidad social en Colombia. Eco (116). Bogotá, dezembro de 1969.