domingo, 29 de março de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (c)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos
 
continuando...

          Como alguém consegue salvar-se na guerra, quando todos os que lhe são aparentados pereceram? E como se sente esse único alguém? A esse respeito, informa-nos uma passagem de um mito indígena anotado por Koch-Grünberg junto aos taulipangues, na América do Sul.

Os inimigos vieram e os atacaram. Chegaram à aldeia, que se compunha de cinco casas, e, à noite, incendiaram-na em dois lugares, a m de que, em razão da claridade, os habitantes não pudessem fugir no escuro. Com seus tacapes, mataram muitos deles, no momento mesmo em que pretendiam escapar de suas casas.
     Um homem chamado Maitchaule deitou-se ileso em meio a um amontoado de mortos e, com o intuito de enganar os inimigos, lambuzou o rosto e o corpo de sangue. Acreditando que estavam todos mortos, eles foram embora. Restou somente aquele homem. Ele se foi, banhou-se e caminhou até uma outra casa, não muito distante. Pensou que houvesse gente ali, mas não achou ninguém. Todos haviam fugido. Encontrou apenas bolo de mandioca e carne assada, e comeu. Pôs-se, então, a refletir; deixou a casa e afastou-se. Sentou-se e seguiu pensando. Pensou no pai e na mãe, que haviam sido mortos pelos inimigos, e que agora não tinha mais ninguém no mundo. Então disse: “Vou me deitar ao lado de meus companheiros, que estão mortos!”. E, com muito medo, retornou à aldeia incendiada. Encontrou nela uma grande quantidade de abutres. Maitchaule era um feiticeiro e havia sonhado com uma linda moça. Espantou os abutres e deitou-se ao lado dos companheiros mortos. Lambuzara-se novamente de sangue. A m de poder usá-las a qualquer momento, manteve as mãos junto à cabeça. Os abutres, então, voltaram e puseram-se a disputar os cadáveres. Em seguida, chegou a filha do rei dos abutres. E o que fez, então, a filha do rei? Pousou sobre o peito de Maitchaule e, quando ia bicar-lhe o corpo, ele a agarrou. Os abutres bateram em retirada. Maitchaule disse à filha do rei dos abutres: “Transforma-te numa mulher! Estou tão sozinho aqui, sem ninguém que me ajude”. E levou-a consigo para a casa abandonada. Lá, cuidou dela como de um pássaro domesticado. Disse-lhe: “Agora vou pescar. Quando voltar, quero encontrar-te transformada numa mulher!”.

     Primeiramente, Maitchaule deita-se entre os mortos, para escapar. Faz-se de morto para não ser descoberto. Depois, descobre ser o único que restou, sentindo-se triste e amedrontado. Decide, assim, deitar-se novamente entre os companheiros mortos. De início, talvez entretenha o pensamento de compartilhar de seu destino. Muito seriamente, porém, não o faz, pois sonhou com uma linda moça, e, não vendo nenhum outro ser vivo em torno de si senão abutres, toma um abutre para ser sua mulher. Pode-se acrescentar ainda que, atendendo ao seu desejo, o pássaro de fato se transforma numa mulher.
     É notável o número de tribos — e, aliás, por todo o mundo — oriundas de um casal que é o único a permanecer vivo após uma grande catástrofe. O caso do bem conhecido dilúvio bíblico é atenuado pelo direito que tem Noé a toda a sua família. É-lhe permitido levar consigo na arca toda a sua estirpe, além de um casal de cada espécie de ser vivo. Mas o agraciado com a misericórdia divina é ele próprio; a virtude da sobrevivência — nesse caso, uma virtude religiosa — pertence a ele, e é somente por causa dele que os demais podem entrar na arca. Há exemplos mais crus dessa mesma lenda, narrativas nas quais, à exceção do casal primordial, todos os demais homens perecem. Nem sempre tais narrativas encontram-se vinculadas à ideia de um dilúvio. Frequentemente, é em consequência de epidemias que os homens todos perecem, à exceção de um único, que, vagando em busca de uma mulher, acaba por encontrar uma única, às vezes duas, com as quais se casa, fundando assim uma nova estirpe.
     É parte da força e da glória desse antepassado que, um dia, ele tenha restado como o único homem sobre a terra. Ainda que não se afirme explicitamente, constitui uma espécie de mérito seu o fato de não ter sucumbido junto com os outros. Ao prestígio de que ele desfruta por ser o antepassado de todos quantos vieram depois dele junta-se o respeito pela afortunada força de sua sobrevivência. Enquanto vivia ainda entre muitos dos seus, é possível que não se tenha distinguido de forma tão particular: era um homem como todos os outros. De súbito, porém, está totalmente sozinho. A época de sua peregrinação solitária é descrita em muitos detalhes. O espaço mais amplo ocupa aí sua busca por seres vivos, em lugar dos quais encontra apenas cadáveres por toda parte. A certeza crescente de que, além dele, não há de fato mais ninguém o impregna de desespero. Contudo, uma outra nota soa aí também, inequívoca: a humanidade que com ele recomeça repousa tão somente nele; sem ele, e sem sua coragem de recomeçar sozinho, ela absolutamente não existiria.
     Das narrativas dessa espécie que nos foram transmitidas, uma das mais simples é a da origem dos kutenais. Seu texto é o que se segue.

As pessoas viviam ali e, de repente, veio uma epidemia. Estavam morrendo. Morriam todas. Puseram-se a vagar, levando a notícia umas às outras. Entre a totalidade dos kutenais reinava a doença. Por toda parte era a mesma coisa. Num determinado lugar não encontraram ninguém. Estavam todos mortos. Restara uma única pessoa. Um dia, essa pessoa que restara se curou. Tratava-se de um homem, e ele estava sozinho. Então, pensou: “Vou vagar pelo mundo para ver se encontro alguém em alguma parte. Se não encontrar ninguém, não vou mais querer regressar. Não há ninguém no mundo, e ninguém jamais virá me visitar”. O homem partiu em sua canoa e chegou ao último acampamento dos kutenais. Chegando lá, onde normalmente se viam pessoas à beira do rio, não encontrou ninguém; e, andando pelas redondezas, viu apenas mortos — nenhum sinal de vida em parte alguma. Tornou a partir em sua canoa e, chegando a uma outra localidade, desembarcou, mais uma vez encontrando apenas mortos. Não havia ninguém ali. Tomou, então, o caminho de volta. Alcançou o último povoado onde os kutenais tinham vivido. Entrou no povoado. Nas tendas, havia tão somente cadáveres amontoados. Vagou, pois, sem parar e viu que todos haviam morrido. Chorava ao caminhar. “Sou o único que restou”, disse para si mesmo; “até mesmo os cães estão mortos.” Ao chegar à aldeia mais longínqua, viu pegadas humanas. Havia uma tenda ali. Em seu interior, não havia cadáveres. Mais adiante cava a aldeia. Soube, então, que duas ou três pessoas ainda estavam vivas. Viu pegadas maiores e menores, e não saberia dizer se eram de três pessoas. Mas alguém se salvara. Seguiu adiante em sua canoa e pensou: “Remarei naquela direção. Os que viviam aqui costumavam remar para lá. Se se trata de um homem, talvez ele se tenha mudado para mais adiante”. 
     Assim, sentado em sua canoa, viu mais acima, a uma certa distância, dois ursos pretos comendo pequenas frutas. Pensou: “Vou atirar neles e, se os acertar, eu os como. Porei sua carne para secar e, então, darei uma olhada por aí, para ver se sobrou alguém vivo. Primeiro, ponho a carne para secar; depois, vou procurar as pessoas. Anal, vi pegadas de gente. Talvez sejam homens ou mulheres famintas. Precisam também de algo para comer”. Caminhou rumo aos ursos. Ao aproximar-se, viu que não eram ursos, mas mulheres. Uma era mais velha; a outra, uma moça. Pensou consigo: “Fico contente de ver seres humanos. Tomarei esta mulher por esposa”. Adiantou-se, pois, e pegou a moça, que disse a sua mãe: “Mãe, estou vendo um homem”. A mãe ergueu os olhos e viu que sua filha estava falando a verdade. Viu um homem pegando sua filha. Então, a mulher, a moça e o jovem homem choraram, pois os kutenais haviam morrido todos. Fitando-se uns aos outros, choraram juntos. A mulher disse: “Não leve minha filha. Ela ainda é pequena. Leve a mim. Você será o meu homem. No futuro, quando minha filha crescer, ela será tua mulher. Então você terá filhos”. O jovem casou se com a mulher mais velha. Não tardou muito até que ela lhe dissesse: “Agora minha filha está adulta. Agora ela pode ser tua mulher. É bom que vocês tenham filhos. O ventre dela agora está forte”. O jovem, então, tomou a moça por esposa, e, daí em diante, os kutenais se multiplicaram.

     Uma terceira espécie de catástrofe — o suicídio em massa —, consequência, por vezes, da epidemia e da guerra, produziu também seus sobreviventes. A seguir, apresenta-se aqui uma lenda dos ba-ilas, um povo banto da Rodésia.
     Dois clãs dos ba-ilas, um dos quais denominando-se o das cabras e o outro o dos vespões, encontravam-se em grave disputa. O motivo da discórdia era a qual deles cabia o direito à ocupação do posto de cacique. O clã das cabras, que já desfrutara da primazia, perdera o posto e, em razão do orgulho ferido, seus membros decidiram afogar-se todos juntos no lago. Homens, mulheres e crianças confeccionaram uma corda bastante comprida. Reuniram-se, então, à beira do lago, ataram todos, um por um, a corda ao pescoço e mergulharam juntos na água. Um homem oriundo de um terceiro clã, o dos leões, desposara uma mulher do clã das cabras. Tentou, pois, impedi-la de suicidar-se e, não conseguindo, decidiu morrer junto com ela. Coincidentemente, haviam sido ambos os últimos a atarem-se à corda. Foram, assim, arrastados juntamente com os outros e estavam para se afogar quando, subitamente, o homem sentiu pena e cortou a corda, libertando-se a si próprio e a sua mulher. Tentando livrar-se dele ela gritou: “Me solta! Me solta!”. Ele, porém, não cedeu, trazendo-a de volta para a terra. Por essa razão, até hoje a gente do clã dos leões diz àqueles do clã das cabras: “Nós salvamos vocês da extinção. Nós!”.
     Por fim, cumpre ainda considerar aqui um emprego consciente dos sobreviventes proveniente de tempos históricos e muito bem atestado. Numa luta de aniquilação travada por duas tribos indígenas da América do Sul, um único representante do lado dos derrotados é mantido com vida pelos inimigos e enviado de volta para sua gente. Deveria contar lhes o que vira e retirar-lhes toda a coragem de prosseguir lutando. Ouçamos, nas palavras de Humboldt, o relato acerca desse mensageiro do terror:

Após o ano de 1720, a longa resistência que, reunidos sob o comando de um líder valente, os cabres haviam oposto aos caraíbas arruinara os primeiros. Haviam derrotado o inimigo na foz do rio; uma porção de caraíbas foi morta em fuga, entre as corredeiras e uma ilha. Os prisioneiros foram devorados; mas, com aquela refinada astúcia e crueldade que é própria dos povos das Américas do Sul e do Norte, deixaram um único caraíba com vida o qual, afim de testemunhar o bárbaro acontecimento, foi obrigado a subir numa árvore para, imediatamente depois, dar conhecimento aos derrotados do que vira. Contudo, o êxtase vitorioso do chefe dos cabres foi de curta duração. Os caraíbas retornaram em massas tamanhas que dos cabres antropófagos restaram apenas uns míseros resquícios.

     Esse único sobrevivente, deixado escarnecedoramente com vida, vê, de cima de uma árvore, sua gente ser devorada. Todos os guerreiros juntamente com os quais ele partira para a batalha tombaram em combate ou foram parar no estômago dos inimigos. Na condição de sobrevivente compulsório, tendo diante dos olhos as imagens do terror, ele é enviado de volta a sua gente. O sentido de sua mensagem, conforme a concebem os inimigos, seria: “Somos tão poderosos que restou um único de vocês. Não ousem lutar conosco novamente!”. Contudo, a força do que viu é tão grande em seu interior, sua unicidade compulsória é tão impressionante que ele, contrariamente ao esperado, incita sua gente à vingança. Os caraíbas acorrem em massas provindas de toda parte e dão para sempre um fim nos cabres.
     Essa história, que não é a única em seu gênero, mostra a clareza com que os povos primitivos veem o sobrevivente. Têm plena consciência da singularidade de sua situação. Contam com essa singularidade e procuram empregá-la para seus objetivos particulares. Para ambos os lados, junto aos inimigos e aos amigos, o caraíba que esteve em cima da árvore representou seu papel corretamente. Refletindo-se corajosamente sobre essa sua dupla função, pode-se aprender uma infinidade de coisas.

continua página 397...
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Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (c) 
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(b)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Havia no conteúdo desta carta qualquer coisa que me causava uma grande inquietação. O estilo diferia absolutamente do habitual de Legrand. Com que diabo sonharia? Que novo capricho se apoderara do seu cérebro excitado? Que assunto « tão importante» poderia ter a expor-me? As palavras de Júpiter não pressagiavam nada de bom. Eu temia que a contínua intranquilidade tivesse desarranjado a razão ao meu amigo. Sem hesitar, preparei-me, pois, para acompanhar o negro.
     Ao chegar ao cais, reparei numa foice e em três pás novas que estavam no fundo do barco no qual íamos embarcar. 

— O que é que significa tudo isto, Júpiter? 
— Isso é uma grande foice, massa, e pás. 
— Bem vejo, mas o que é que estão a fazer aqui? 
Massa Will disse-me para as comprar na cidade e paguei-as bem caro. Isto custou-me um dinheirão. — Mas, com todo este mistério, o que é que vai fazer o teu massa Will com a foice e as pás? 
— Pergunta-me mais do que sei; o próprio massa não sabe mais também; diabos me levem, se não estou convencido disso. Tudo isto é por causa do escaravelho.

     Vendo que não podia obter nenhum esclarecimento de Júpiter, cuja compreensão parecia absorvida pelo escaravelho, entrei no barco e desfraldei a vela. Uma bela e forte brisa empurrou-nos bem depressa para a enseada ao norte do forte Moultrie, e depois de um passeio de cerca de duas milhas, chegámos à cabana. Eram quase três da tarde. Legrand esperava-nos com viva impaciência. Apertou-me a mão com uma nervosa solicitude que me alarmou e reforçou as suspeitas que me assaltavam. O seu rosto tinha uma palidez espectral, e os seus olhos, vulgarmente muito fundos, brilhavam com um fulgor sobrenatural. Depois de algumas perguntas relativas à sua saúde, perguntei-lhe, por não encontrar nada melhor, se o tenente G... lhe tinha finalmente entregado o seu escaravelho. 

— Oh!, sim — respondeu, corando muito. — Ele deu-me no dia seguinte, de manhã. Por nada deste mundo me separaria desse escaravelho. Sabe que Júpiter tem absoluta razão a respeito dele? 
— Em quê? — perguntei-lhe com um triste pressentimento no coração. 
— Suponho que é um escaravelho de ouro autêntico.

     Ele disse isto com uma profunda seriedade que me fez um mal indizível. 

— Este escaravelho está destinado a fazer a minha fortuna e — continuou com um sorriso de triunfo — a devolver-me os bens da minha família. Será, portanto, de estranhar que o tenha em tão alto apreço? Pois que a Fortuna julgou por bem conceder-me, não tenho senão que aproveitar-me dele, convenientemente, e obterei o ouro do qual é o indício. Júpiter, traz-me! 
— O quê? O escaravelho, massa? Prefiro não ter nada a ver com o escaravelho. Pode ir buscá-lo o patrão.

     Ao ouvir isto, Legrand levantou-se com ar grave e imponente e foi buscar o inseto colocado numa campânula de vidro. Era um soberbo escaravelho, desconhecido dos naturalistas dessa época e que devia ser de um grande valor sob o ponto de vista científico. Tinha numa das extremidades do dorso duas manchas negras e redondas e na outra uma mancha de forma alongada. Os élitros eram excessivamente duros e luzidios e tinham positivamente o aspecto de ouro polido.
     O inseto era extraordinariamente pesado, a ponto de parecer justificar a opinião de Júpiter, mas que Legrand concordasse com ele a esse respeito, isso era-me impossível compreender, e, mesmo que se tratasse da minha vida, não teria encontrado a chave do enigma. 

— Pedi-lhe que viesse — disse-me com um tom especial quando acabei de examinar o inseto — e fi-lo para lhe pedir um conselho e assistência na realização dos objetivos do Destino e do escaravelho... 
— Meu caro Legrand — exclamei interrompendo-o — certamente não está bem de saúde e seria muito melhor que tomasse algumas precauções. Vai meter-se na cama, e ficarei ao pé de si alguns dias, até que esteja restabelecido. Tem febre e... 
— Apalpe o meu pulso — disse-me.

     Tomei-lhe o pulso e, para dizer a verdade, não lhe encontrei o mais ligeiro sintoma de febre. 

— Mas poderá estar muito doente, sem ter febre. Permita-me, desta vez, que faça apenas de seu médico. Antes de mais, vai meter-se na cama. Em seguida... 
— Engana-se — interrompeu-me — estou tão bem quanto se pode esperar neste estado de excitação. Se realmente quer ver-me perfeitamente bem, alivie esta excitação. 
— E o que é preciso para tal? 
— É muito fácil. Júpiter e eu partiremos para uma expedição às colinas, no continente, e temos necessidade da ajuda de uma pessoa em que nós possamos confiar em absoluto. Você é a única pessoa. Quer a nossa empresa seja um malogro ou um êxito, a excitação que vê em mim será igualmente acalmada. 
— Tenho um enorme desejo de lhe ser útil — respondi. — Mas pretenderá dizer que este infernal escaravelho tenha qualquer ligação com a nossa expedição às colinas? 
— Sim, certamente. 
— Então, Legrand, é-me impossível colaborar numa empresa perfeitamente absurda. 
— Desgosta-me muito o que diz, porque teremos de tentar a empresa sozinhos. 
— Sozinhos! Ah!, o desgraçado está doido de certeza! Mas vejamos, quanto tempo durará essa excursão? 
— Provavelmente toda a noite. Vamos partir imediatamente, e em qualquer dos casos, estaremos de regresso ao amanhecer. 
— E promete-me pela sua honra, que passado este capricho, e o caso do escaravelho — bom Deus! — satisfeito plenamente, voltará para casa e seguirá as minhas prescrições exatamente como as do seu médico? 
— Sim, prometo-lhe, e agora partamos porque não há tempo a perder.

     Acompanhei o meu amigo, com o coração confrangido.
     Às quatro horas metemo-nos a caminho, Legrand, Júpiter, o cão e eu. Júpiter pegou na foice e nas pás. Insistiu em se encarregar delas, pelo que me pareceu mais com o receio de deixar um desses instrumentos nas mãos do seu patrão, do que por excesso de zelo e de complacência. Ele estava aliás com um bom humor de cão, e estas palavras: « Escaravelho maldito!» , foram as únicas que lhe escaparam durante toda a viagem. Eu fora encarregado de levar as duas lanternas apagadas. Quanto a Legrand, contentara-se com o escaravelho que levava atado na extremidade de um pedaço de cordel e que fazia girar em volta dele ao caminhar com ares de mágico. Quando observei esse sintoma supremo de demência no meu pobre amigo, a custo pude conter as lágrimas. Pensei, no entanto, que valia mais satisfazer a sua fantasia, pelo menos de momento, até que pudesse tomar algumas medidas enérgicas com possibilidade de êxito. Entretanto, experimentei, mas inutilmente, sondá-lo em relação ao fim da expedição. Ele tinha conseguido persuadir-me a acompanhá-lo, pouco disposto a estabelecer conversa sobre um assunto de uma tão fraca importância. A todas as minhas perguntas, não se dignava responder senão com um: « Depois veremos!»
     Atravessamos num escaler a enseada até ao extremo da ilha, e trepando pelos terrenos montanhosos da margem oposta, dirigimo-nos para o noroeste, através de uma região horrivelmente selvagem e desolada onde era impossível descobrir o rasto de um pé humano. Legrand seguia o caminho com decisão, parando apenas de vez em quando para consultar certas indicações que parecia ter deixado ele mesmo numa ocasião precedente. Caminhámos assim cerca de duas horas, e o Sol estava no ocaso quando entrámos numa região muitíssimo mais sinistra de que tudo o que tínhamos visto até então. Era uma espécie de planalto próximo do cimo de uma montanha muitíssimo escarpada, coberta por um bosque da base ao cume e, à mistura, uma enorme profusão de blocos de pedra, espalhados no chão, e alguns seriam infalivelmente precipitados nos vales inferiores, sem o amparo das árvores em que se apoiavam. As ravinas profundas irradiavam em diversas direções e davam à cena um caráter de solenidade lúgubre.
     A plataforma natural para a qual tínhamos trepado era tão profundamente pejada de cardos que sem a foice teria sido impossível abrir passagem. Júpiter, segundo as ordens do seu patrão, começou a abrir-nos um caminho que ia até uma tulipeira gigantesca que se erguia rodeada por oito ou dez carvalhos, sobre a plataforma, e que os ultrapassava a todos, assim como a todas as árvores que vira até ali, pela beleza da sua forma e folhagem, pelo enorme desenvolvimento dos seus ramos e por toda a majestade do seu aspecto. Quando nos aproximámos desta árvore, Legrand voltou-se para Júpiter e perguntou-lhe se se sentia capaz de a trepar. O pobre velho parecia ligeiramente aturdido com esta pergunta e ficou alguns instantes sem responder. Contudo, aproximou-se do grande tronco, deu lentamente uma volta e examinou-o com uma atenção minuciosa. Quando acabou de o observar disse simplesmente: 

— Sim, massa; Júpiter nunca viu uma árvore a que não possa subir. 
— Então, sobe. Vamos, vamos! E depressa, porque em breve estará muito escuro para ver o que fazemos. 
— Até onde é preciso subir, massa? — perguntou Júpiter. 
— Trepa primeiro para o tronco e depois dir-te-ei que caminho deves seguir. Ah!, um instante! Leva este escaravelho contigo. 
— O escaravelho, massa Will!, o escaravelho de ouro! — gritou o negro aterrorizado. Por que é preciso levar comigo este escaravelho para a árvore? Eu fique amaldiçoado se o fizer! 
— Júpiter, se tens medo, tu, um negro alto, gordo e forte, de tocar num pequeno inseto morto e inofensivo, pois bem, podes levá-lo com um cordel; mas se o não levares contigo, de uma maneira ou de outra, vejo-me na cruel necessidade de te rachar a cabeça com esta pá. 
— Meu Deus! O que é que tem? — disse Júpiter, que com a vergonha se tornara evidentemente mais complacente. — É preciso estar sempre zangado com o seu velho negro? Era uma brincadeira. Eu, ter medo do escaravelho! Estou a rir-me do escaravelho.

     Pegou com precaução na extremidade da corda e, agora com o inseto longe dele, tanto quanto as circunstâncias permitiam, pôs-se a tentar trepar à árvore.

continua na página 420...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

sábado, 28 de março de 2026

De quanta terra um homem precisa? - III

Liev Tolstói

III

     O contentamento de Pahóm teria sido completo se os vizinhos não lhe atravessassem as searas e os prados; falou-lhes muito delicada   mente, mas os homens continuaram; umas vezes eram os pastores da comuna que deixavam ir as vacas para as suas pastagens, outras vezes os cavalos que se soltavam à noite e lhe iam para as searas. Pahóm enxotava-os, perdoava aos donos e, durante muito tempo, não fez queixa de ninguém; por fim, perdeu a paciência e queixou-se ao tribunal; bem sabia que era a falta de terra dos camponeses e não qualquer má intenção que os fazia proceder daquele modo, mas pensava: “Se não tomo cuidado, dão-me cabo de tudo; tenho que lhes dar uma lição”.
     Foi o que fez: deu-lhes uma lição, depois segunda, e dois ou três camponeses foram multados; ao fim de certo tempo, os vizinhos tinham-lhe raiva e era de propósito que lhe metiam o gado pelas terras; houve mesmo um que, uma noite, lhe cortou cinco limoeiros para lhes tirar a casca; Pahóm passou pelo bosque e viu umas coisas brancas: aproximou-se e deu com os troncos sem casca estendidos no chão; quase ao lado estavam os cepos; Pahóm, furioso, pensou: “Já bastaria para mal que este patife tivesse cortado uma árvore aqui e além; mas foi logo uma fila inteira; ah! se o apanho!...”
     Pôs-se a ver quem poderia ter sido; finalmente, disse consigo: “Deve ter sido o Simão; ninguém mais ia fazer uma coisa destas.” Deu uma volta pelas propriedades de Simão, mas nada viu e só arranjou a zangar-se com o vizinho; tinha, no entanto, a certeza que era ele e apresentou queixa; Simão foi chamado, julgado e absolvido porque não havia provas; Pahóm ficou ainda mais furioso e voltou-se contra os juízes:

“A gatunagem unta-vos as mãos; se aqui houvesse vergonha, não iam os ladrões em paz.”

     As zangas com os juízes e com os vizinhos trouxeram como resultado ameaças de lhe queimarem a casa; Pahóm tinha mais terra do que dantes, mas vivia muito pior. E foi por esta altura que se levantou o rumor de que muita gente ia sair da terra. “Por mim, não tenho que me mexer” — pensou Pahóm —, “mas se os outros se fossem embora, haveria mais terra para nós; havia de comprá-la e de arredondar a minha pequena propriedade; então é que era viver à farta; assim, ainda estou muito apertado”. 
     Estava um dia Pahóm sentado em casa quando calhou de entrar um camponês que ia de viagem; deu-lhe licença para passar ali a noite e, à ceia, puseram-se de conversa; Pahóm perguntou- lhe donde vinha e o forasteiro respondeu que de além do Volga, onde tinha estado a trabalhar; depois disse o homem que havia muita gente que se estava a fixar por aqueles lados, mesmo lavradores da sua aldeia; tinham entrado na comuna e obtinham setenta e cinco hectares; a terra era tão boa que o centeio crescia à altura de um cavalo e era tão basto que com meia dúzia de foiçadas se fazia um feixe; havia um camponês que tinha chegado de mãos a abanar e possuía agora seis cavalos e duas vacas.
     O peito de Pahóm inflamava-se de cobiça: “Para que hei-de eu continuar neste buraco se noutra parte se pode viver tão bem? Vou vender tudo e, com o dinheiro, vou começar a vida de novo; aqui há muita gente e sempre estou a brigar; mas, primeiro, vou eu mesmo saber as coisas ao certo.” Pelos princípios do Verão, preparou-se e partiu; desceu o Volga de vapor até Samara, depois andou a pé noventa léguas; por fim chegou; era exatamente o que o forasteiro tinha dito; os camponeses tinham imensa terra: cada homem possuía os setenta e cinco hectares que a comuna lhe dera e, se tivesse dinheiro, podia comprar as terras que quisesse, a três rublos o hectare. Informado de tudo o que queria saber, voltou Pahóm a casa no Outono e começou a vender o que lhe pertencia; vendeu a terra com lucro, vendeu a casa e o gado, saiu da comuna; esperou pela Primavera e largou com a família para os novos campos.  

Continua na pág 22...
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De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / De quanta terra um homem precisa? - III
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Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.

Bom diaaa, Clássicas... Gounod, Bach, Puccini

Uma playlist calma de violoncelo e piano para ler ou escrever


"Leia, escreva ou estude com esta playlist calma de violoncelo e piano, perfeita para criar um ambiente focado e inspirado. Com clássicos atemporais como Ave Maria de Gounod, a belíssima O Mio Babbino Caro de Puccini e O Cisne de Saint-Saëns, esta coleção oferece melodias suaves para acompanhar seus momentos de tranquilidade." Cellofeggio






Lista de faixas:
00:00 - Ave Maria - Charles Gounod
02:59 - O Mio Babbino Caro - Giacomo Puccini
05:20 - O ma belle rebelle - Charles Gounod
09:08 - O Cisne - Camille Saint-Saëns
12:11 - Ricercare - Domenico Gabrielli
21:51 - Prelúdio da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
25:57 - Allemande da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
29:37 - Courante da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
32:21 - Sarabande da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
38:21 - Minuetos da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
41:17 - Gigue da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
44:09 - Sonata em Sol Menor - Henry Eccles
47:11 - Largo (Inverno) - Antonio Vivaldi
49:30 - Ave Maria - Franz Schubert

Gounod, Bach, Puccini /  

Desenho animado - O Mundo de Karma

Celebrando a história negra e os contadores de histórias


"O Mundo de Karma tem como personagem principal Karma Grant, uma artista musical e rapper aspirante com um talento enorme, e um coração ainda maior. Ela é inteligente, resistente e cheia de empatia. Ela coloca toda sua alma em seu trabalho artístico, transformando seus sentimentos em rimas inteligentes cheias de paixão, coragem e um senso de humor característico. Nesta série, veremos Karma usando a voz para ajudar a família, amigos e comunidade, e aprenderemos como as palavras podem ter poder. Ela não quer só compartilhar sua música com o mundo... ela quer mudar o mundo através da música!"





O Mundo de Karma - Scholastic