sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto IX.a - Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte III
O Relatos de Odisseu 
Canto IX

Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope 

    “Este canto contém o início do grande Relato: como zarpou Odisseu de Ítaca primeiro chegando à terra dos Cíconos, e pilharam a cidade, junto ao mar, chamada Ismaro. Passaram então por Maleia, extremidade da Lacônia, onde um forte vento levou-os para além de um grande pélago e chegam à terra dos Lotófagos. Depois chegam ao Ciclope. A grande parte da tropa permanece junto à Ilha... mas o Ciclope que foi cego, Polifemo, come seis dos doze que o acompanharam.” (Scolie H Q ... E P)

   Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu, o guerreiro solerte: 
“Ó rei Alcínoo, entre todos ilustre e ornamento do povo! 
É delicioso, de fato, podermos ouvir tão sublime 
e inolvidável cantor, cuja voz se assemelha à dos deuses. 
Sim, digo mesmo que a nada se pode aspirar de mais alto 
que ver a paz entre o povo e a alegria no rosto de todos, 
e, no interior do palácio, os convivas sentados em ordem, 
todos o aedo a escutar, tendo mesas na frente, repletas 
de pão e carne, no tempo em que o vinho nas grandes crateras

deita o escanção, para os copos de todos encher até as bordas: 
eis o que a mim se afigura a mais bela e inefável ventura. 
Mas ora estás inclinado a fazer-me perguntas acerca 
de meus suspiros e dores, a fim de ainda mais lastimar-me. 
Qual há de ser o primeiro, qual o último que hei de contar-te 
dos sofrimentos, se tantos os deuses celestes me deram? 
Pelo meu nome princípio darei, que a saber venhais todos 
como me chamo e porque hóspede vosso ainda seja, conquanto 
venha da Morte a escapar e por mais que me encontre distante. 
Sou de Laertes o filho, Odisseu, conhecido entre os homens

por toda a sorte de astúcias; bater foi no céu minha glória. 
Ítaca, ao longe visível, é minha morada, onde o monte 
Nérito se alça imponente, coroado de frondes; em torno, 
ilhas em número grande se encontram, bem perto umas de outras, 
Samo não só, mas Dulíquio, também, e a selvosa Zacinto. 
Ela é a mais baixa e se encontra nas ondas num ponto longínquo, 
do lado escuro; as demais, para o lado do Sol e da Aurora. 
Áspera, sim, mas nutriz admirável de moços; mais doce 
vista jamais me foi dado admirar do que a terra nativa. 
Bem me deteve em sua côncava gruta a preclara Calipso,

deusa entre as deusas, que ardia em desejos de que eu a esposasse. 
Circe, também, procurou me reter no interior de sua casa, 
a deusa Eeia, astuciosa, intentando fazer-se-me esposa. 
O coração no imo peito, porém, jamais pôde abalar-me. 
Nada tão doce, sem dúvida, pode existir, como a pátria 
e os próprios pais, muito embora moremos num rico palácio, 
longe, em país estrangeiro, distante dos que nos geraram. 
Seja, se o queres! Dir-te-ei do regresso que fiz, trabalhoso, 
dado por Zeus, quando a costa de Troia deixei, de retorno.¹
   “De Ílio levaram-me os ventos à terra habitada por Cíconos,

onde a cidade de Ismaro saqueei e matei os seus homens; 
mas da cidade as mulheres e o grande tesouro amontoado 
foi dividido, porque nenhum homem sem lote ficasse. 
É bem verdade que aos outros propus que com pés mui velozes 
logo fugíssemos, mas os estultos não me obedeceram. 
Vinho gostoso e abundante beberam, ovelhas sem conta 
sacrificaram na praia, e assim bois que se arrastam tardonhos. 
Nesse entrementes, os Cíconos pedem socorro a outros Cíconos 
circunvizinhos, porém de mais força e bem mais numerosos. 
Na terra firme habitavam; de carro eles todos lutavam

com os imigos, ou mesmo de pé, se assim fosse preciso.
Ei-los que chegam, bem cedo, abundantes quais folhas e flores 
da primavera. Então Zeus sobre nós, infelizes, um fado 
triste, mui triste mandou, porque novos trabalhos sofrêssemos. 
Firmes ao lado das céleres naus of’receram combate 
e se feriram reciprocamente com as lanças de bronze. 
Enquanto o dia sagrado crescia e a manhã não cessara, 
foi-nos possível contê-las, pesar do seu número grande. 
Mas, quando o Sol se inclinou, já no tempo em que os bois vão ser soltos, 
levam os Cíconos grande vantagem, fugindo os Aquivos.

De cada nau pereceram seis homens de grevas bem-feitas; 
todos os mais escapamos da Morte e do triste Destino. 
   “O coração apertado, vogamos dali para diante, 
ledos por termos da Morte escapado, com perdas dos sócios. 
Não se afastaram, porém, do lugar meus navios simétricos, 
sem pelo nome chamarmos três vezes a cada coitado 
dos companheiros, que mortos ficaram na terra dos Cíconos. 
Sobre os navios lançou o poderoso, que as nuvens reúne, 
Zeus, tempestade violenta, fazendo que as nuvens cobrissem 
a terra e o mar juntamente. Do céu baixa a noite, entrementes.

Eis nossas naus a correrem sem rumo, com as proas submersas; 
três, quatro vezes, as velas os ventos furiosos as rasgam, 
o que nos faz amainá-las, receosos de mores desditas, 
e as próprias naus, com bem pressa, remamos no rumo da terra. 
Por duas noites e dias contínuos ali demoramos, 
com o peito apresso não só por fadigas, também pelas dores. 
Mas, quando a Aurora, de belos cabelos, nos trouxe o outro dia, 
logo elevamos os mastros, as cândidas velas soltamos 
e nos sentamos. As naus os pilotos e os ventos dirigem. 
Ao ninho pátria, talvez sem mais dores houvesse eu chegado;

mas, ao querer contornar o Maleia, arrastou-me a corrente, 
bem como Bóreas, do que resultou de Citera afastar-me. 
   “Por nove dias dali me levaram os ventos funestos, 
por sobre o oceano piscoso; somente no décimo à terra 
nos foi possível descer dos Lotófagos que comem flores. 
Nessa paragem descemos, a fim de fazermos aguada. 
A refeição junto às naves velozes os sócios fizeram. 
Mas, tendo assim, a vontade da fome e da sede saciado, 
sócios escolho e os envio, com o fim de notícias obterem, 
sobre que gente aí morava, e se vive de pão, como todos,

tendo escolhido dois homens e o arauto, o terceiro, por sócio. 
Ei-los que vão, sem demora, e se mesclam aos homens Lotófagos. 
Esses Lotófagos não empreenderam fazer nenhum dano 
aos nossos homens, mas logo fizeram que loto comessem. 
Quem quer que viesse a provar uma vez desse fruto gostoso 
nunca a resposta haveria trazer, nem de novo empegar-se; 
desejaria, isso sim, morar sempre com os homens Lotófagos, 
a comer loto somente, esquecido, de vez, do retorno. 
Mas, apesar de suas lágrimas, trouxe-os à força, de novo, 
para as naus côncavas, onde os atei sob os bancos dos remos,

tendo, em seguida, ordenado aos queridos consócios de viagem 
que para as céleres naves, sem perda de tempo, subissem. 
Não fosse a alguém esquecer o retorno por causa do loto. 
Sobem, por isso, os demais para bordo e se sentam nos bancos, 
todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas. 
   “O coração apertado, vogamos daí para diante. 
Fomos, depois, apartar ao país dos soberbos Ciclopes, 
destituídos de leis, que, confiados nos deuses eternos, 
não só não cuidam de os campos lavrar, como não plantam nada. 
Tudo lhes nasce espontâneo, sem uso de arado e sementes

trigo e cevada, bem como videiras, que vinho produzem, 
de cor vermelha; na chuva de Zeus vem a vida dos frutos. 
Leis desconhecem, bem como os concílios nas ágoras públicas. 
Vivem agrestes, somente nos cimos das altas montanhas, 
em grutas côncavas, tendo cada um sobre os filhos e a esposa 
plenos direitos, sem que dos demais o destino lhe importe. 
   “Nota-se uma ilha pequena, que fora do porto se estende, 
nem mui distante nem perto da terra dos homens Ciclopes, 
muito sombreada, onde cabras se encontram em número infindo, 
todas selvagens, que os passos dos homens jamais afugentam.

Nunca, também, caçadores aí chegam, que pelas florestas 
sofrem trabalhos sem conta, ao pisarem os cimos dos montes. 
Grandes armentos, também, não se encontram, nem campos arados, 
mas diariamente produz, sem que seja lavrada ou semeada 
e erma de gentes; só nutre balantes rebanhos de cabras. 
Entre os Ciclopes não se acham navios de frente vermelha, 
nem carpinteiros capazes, que saibam construir segundo a arte 
naves cobertas, como essas que trocas variadas permitem 
pelas cidades dos homens, tal como é costume entre todas 
as demais gentes, que em naves o dorso do mar atravessam.

A ilha teriam deixado, sem dúvida, mais habitável, 
pois não é ruim, mas capaz de gerar toda sorte de frutos. 
Nela se veem, junto à margem do mar pardacento, macios 
e úmidos prados. É certo que a vinha constante daria. 
Para a lavoura há baixada; no tempo oportuno colhera-se 
ótima safra, por ser o terreno, todo ele, mui fértil. 
Porto de boa ancoragem of’rece, onde as naus não precisam 
de lançar âncoras, nem de firmar os calabres em terra. 
Mas, uma vez aí chegados, os nautas ficar poderiam 
por quanto tempo quisessem, ou até lhes soprar um bom vento.

Água mui límpida flui da porção mais interna do porto, 
vinda de gruta que se acha cercada por álamos negros. 
A esse lugar viemos ter, por um deus, certamente, guiados 
na escuridão, que fazia, de noite, em que nada se via, 
pois densa névoa baixara em redor dos navios; a lua 
não nos brilhava no céu, envolvida se achando por nuvens. 
A ilha não foi percebida por homem nenhum dos navios, 
nem mesmo as ondas enormes, que vinham quebrar-se na costa, 
antes de haverem as naves de boa coberta apartado. 
Mas, uma vez aí chegados, as velas, sem mais, amainamos

das naves todas, e à praia sonora do mar nos passamos, 
onde, a dormir, aguardamos que a Aurora divina surgisse. 
   “Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
a percorrer a ilha toda pusemo-nos cheios de espanto. 
Ninfas, as filhas de Zeus poderoso, tocaram montes as 
cabras, que a nossa campanha pudessem servir de repasto. 
Rapidamente das naves tiramos as lanças compridas 
e arcos recurvos; e, tendo disposto em três grupos os sócios, 
logo atiramos; um deus concedeu-nos caçada abundante. 
Doze navios, ao todo, seguiam-me; a cada um tocaram

nove das cabras montesas; a mim, porém, dez foram dadas. 
Dessa maneira, portanto, e até o Sol no ocidente deitar-se, 
nos detivemos sentados, comendo e bebendo à vontade. 
O vinho tinto, de fato, ainda não se acabara nas naves, 
mas provisão ainda havia; pois muito nas ânforas tinham 
todos guardado, ao tocarmos os muros sagrados dos Cíconos. 
Perto dali observamos a terra dos homens Ciclopes 
e percebemos suas vozes, bem como os balidos das cabras. 
Logo que o Sol se acolheu e o crepúsculo baixou sobre a terra, 
fomo-nos todos deitar pela praia, onde as ondas se quebram.

Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
faço reunir a assembleia, e aos presentes arengo desta arte: 
   “‘Vós, companheiros queridos de viagem, ficai aqui todos, 
que eu, no navio em que vim, juntamente com meus companheiros, 
vou ver se obtenho notícias da gente que mora ali perto, 
se, porventura, selvagens violentos, que leis desconheçam, 
se de outras terras e amigos, e afeitos ao culto dos deuses.’ 
   “Isso lhes disse, e subi para a nau, tendo aos sócios mandado 
que se embarcassem, também, e as amarras de trás desprendessem. 
Sobem, por isso, os demais para bordo e se sentam nos bancos,

todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas. 
Em pouco tempo chegamos à terra, que estava bem próxima, 
onde, no extremo, uma gruta avistamos, do mar muito perto, 
ampla e elevada, sombreada por muitos loureiros; inúmeras 
cabras e ovelhas balavam, em torno das quais se elevava 
muro composto todo ele de pedras fincadas no solo 
e altos pinheiros e grossos carvalhos de copas altivas. 
Era essa a casa de um monstro gigante, que ali, solitário, 
só dos rebanhos cuidava, afastado de todos os outros, 
sem com nenhum conviver e ignorando os preceitos divinos.

Era ele um monstro espantoso deveras, que aspecto não tinha 
de homem que vive de pão, mas de um pico, coberto de selvas, 
de alta montanha que, longe, das mais se destaca, isolada. 
   “Dei, nesse passo, instruções aos queridos consócios de viagem, 
para que ali me esperassem, guardando o navio veloce; 
e, tendo doze escolhido dos mais corajosos, nos fomos, 
odre levando comigo de vinho de gosto agradável, 
de cor escura, que Maro me dera, o nascido de Evanto, 
e sacerdote de Apolo, dos muros de Ismaro padroeiro, 
pelo motivo de o haver acatado e poupado, bem como

a esposa e filhos. Morava num bosque sombreado por árvores, 
de Febo Apolo. Magníficos brindes, então, me deu ele: 
de ouro talentos me deu, sete ao todo, mui bem trabalhados, 
uma cratera de prata maciça, bem como doze ânforas, 
de alças ornadas e cheias de vinho gostoso e sem mescla: 
era bebida divina; ninguém tinha disso notícia 
lá no palácio, entre todos os servos e servas da casa, 
com exceção de uma só despenseira, ele próprio e a consorte. 
Quando queriam beber desse vinho melífluo e vermelho, 
era a medida deitar uma taça bem cheia do mesmo

em vinte de água. Do vaso evolava-se aroma inefável, 
coisa divina. Custava a qualquer não poder saboreá-lo. 
Odre bem grande aprontei desse vinho e um surrão com vitualhas, 
pois me dizia uma voz no imo peito valente que iria 
ver-me defronte de um homem dotado de força excessiva, 
bronco selvagem, ignaro das leis e do senso do justo. 
   “Em pouco tempo chegamos à gruta, mas não o encontramos 
dentro; levara a pascer pelo prado suas pingues ovelhas. 
Dentro da gruta, tomados de espanto, admirávamos tudo. 
Os secadouros de queijo se achavam repletos; cabritos

e anhos no estáb’lo apertavam-se, todos mui bem-segregados: 
os que nasceram primeiro, os de idade mediana e, por último, 
os recém-nados. Das muitas vasilhas o soro escorria, 
tarros, não só, mas gamelas bem-feitas, nas quais ordenhara. 
Meus companheiros, então, me pediram voltássemos logo 
com uma boa porção desses queijos; depois cuidaríamos, 
sem perder tempo, de às naves velozes levar alguns anhos 
e cabritinhos, e as ondas salgadas cursar, em seguida. 
Mas não me quis convencer — e bem mais vantajoso me fora! 
pois desejava encontrá-lo e provar hospital gasalhado.
continua página 796...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Parte III
Canto IX.a /                                   
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Este trecho marca um momento muito importante da Odisseia: é quando Odisseu finalmente se identifica diante dos feácios, após ter permanecido por algum tempo sem revelar seu nome. Alguns temas centrais aparecem com grande força:
     * A hospitalidade e a convivência civilizada - Odisseu começa elogiando a cena que presencia no palácio de Alcínoo. Para ele, uma das maiores felicidades humanas é a harmonia social: o povo em paz, os convidados reunidos, o poeta cantando, as mesas fartas e o vinho circulando. Essa imagem representa o ideal grego de uma comunidade ordenada, próspera e hospitaleira.
     * A fama (kleos) - Quando revela quem é, Odisseu declara: “Sou de Laertes o filho, Odisseu, conhecido entre os homens por toda a sorte de astúcias”. Na cultura heroica grega, a fama era uma forma de imortalidade. Odisseu apresenta-se não apenas pelo nome, mas também pela reputação conquistada em suas aventuras e na Guerra de Troia.
     * O amor pela pátria - Talvez o aspecto mais emocionante do trecho seja a declaração de amor a Ítaca. Embora reconheça o encanto de Calipso e Circe, ele afirma que nada é mais precioso do que: “a pátria e os próprios pais”. Homero contrasta aqui dois tipos de desejo:
- a tentação da imortalidade e do prazer oferecidos pelas deusas;
- o desejo profundamente humano de regressar ao lar.
     * A humanidade de Odisseu - Mesmo sendo um herói famoso, Odisseu não se apresenta como um guerreiro invencível. Ele fala de seus sofrimentos, suspiros e dores. Sua grandeza não está apenas nas vitórias, mas na capacidade de suportar perdas, tentações e adversidades sem abandonar o objetivo de voltar para casa.
     * O início do grande relato autobiográfico - Este trecho funciona como uma transição narrativa. Após se identificar, Odisseu anuncia que contará toda a história de seu retorno desde a saída de Troia. A partir daí começam os famosos episódios do Ciclope, dos Lestrigões, de Circe, das Sereias, de Cila e Caríbdis e de outras aventuras.
     Em resumo, este é um dos trechos mais emblemáticos da Odisseia porque reúne três valores fundamentais do poema: a fama do herói, a nostalgia da pátria e a perseverança diante do sofrimento. Odisseu rejeita até mesmo o amor de deusas imortais porque considera que nada supera o retorno ao próprio lar.

[2] Este é o episódio do Ciclope Polifemo, um dos mais famosos da Odisseia, e já revela uma característica essencial de Odisseu: sua maior virtude, a curiosidade e a busca pela experiência, é também uma de suas maiores fraquezas.
     * O vinho como arma futura - Antes mesmo de encontrar o ciclope, Odisseu leva consigo o extraordinário vinho dado por Maro, sacerdote de Apolo. Homero dedica muitos versos à descrição dessa bebida porque ela terá um papel decisivo mais adiante: será com esse vinho fortíssimo, diluído normalmente em vinte partes de água para uma de vinho, que Odisseu embriagará Polifemo. 
O herói parece agir por intuição: "me dizia uma voz no imo peito valente que iria ver-me defronte de um homem dotado de força excessiva". Isso sugere a prudência estratégica que o caracteriza. Ele se prepara para um encontro difícil antes mesmo de saber exatamente o que encontrará.
     * O contraste entre os companheiros e Odisseu - Quando entram na caverna vazia, os companheiros propõem algo simples e sensato: pegar os queijos; capturar alguns cabritos e cordeiros; voltar imediatamente ao navio. Seria uma incursão rápida e segura. Mas Odisseu recusa. Esse é um dos momentos em que Homero deixa o leitor perceber a ambiguidade do herói. Sua decisão nasce do desejo de conhecer o dono da gruta e receber dele os presentes de hospitalidade que, segundo os costumes gregos, deveriam ser oferecidos a um visitante.
     * A importância da hospitalidade - Odisseu espera encontrar um homem civilizado, submetido às regras da xenia, a hospitalidade sagrada protegida por Zeus. Na cultura grega: o estrangeiro devia ser acolhido; o anfitrião oferecia alimento e abrigo; só depois perguntava quem era o visitante. Odisseu acredita que essas normas são universais. O erro está justamente aí. Polifemo não pertence ao mundo organizado das cidades gregas. O próprio trecho já o descreve antecipadamente como: "bronco selvagem, ignaro das leis e do senso do justo." A tragédia começa quando Odisseu tenta aplicar valores de civilização a alguém que vive fora dela.
     * A ironia do narrador - O verso: "Mas não me quis convencer — e bem mais vantajoso me fora!" é uma observação retrospectiva de Odisseu narrador. Ele já sabe tudo o que ocorrerá depois: os companheiros devorados, o aprisionamento na caverna e os sofrimentos que virão. Ao contar a história aos feácios, reconhece que deveria ter escutado seus homens. É um raro momento de autocrítica.
     * Significado mais profundo - Este episódio não é apenas uma aventura contra um monstro. Ele opõe dois mundos:

Mundo de OdisseuMundo de Polifemo
leisforça bruta
hospitalidadeegoísmo
convivência socialisolamento
inteligênciaviolência
civilizaçãoselvageria

     Toda a vitória posterior de Odisseu sobre o ciclope será uma vitória da inteligência sobre a força física. Mas Homero também sugere algo importante: se Odisseu não fosse tão curioso e tão confiante em sua própria capacidade de lidar com qualquer situação, talvez jamais tivesse entrado naquela caverna. Sua astúcia o salva, mas seu excesso de confiança frequentemente o coloca em perigo. É uma das características mais humanas e fascinantes do herói.


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Curta: Depois do fim

Uma reflexão sobre o amor, o tempo e nossas escolhas


Anos após o término, Ana e Théo se reencontram por acaso e Ana oferece uma carona para seu ex-namorado. Durante o trajeto, eles preenchem o silêncio conversando sobre o passado e o que poderia ter sido. Durante o trajeto de carro, o diálogo aberto sobre o passado e as suas vidas atuais conduz a uma reflexão melancólica sobre o amor, o tempo e os caminhos que cada um escolheu seguir desde o término da relação.







Ficha Técnica:
Escrito e dirigido por Pedro Maciel
Elenco - Olivia Torres e Rafael Lozano
Produtora executiva - Lívia Barros
Diretor de fotografia - Caetano Braga
Diretora Assistente - Jessica Pereira
Operador de som - Eloi Mattar
Set Producer - Phelipi Sgarbi
Art Director - Olívia Pitô
Camera Assistants - Matteo Bonas e Henrique Mello
Gaffer - Marcelo Egídio dos Santos Grafite
Gaffer Assistants - Carlos Rocha, Jonathan Egídio e Anderson Mascarenhas
Transport - Diego Gnomo
Camera Car - Coptercam, Emerson Pena e José Luiz
Stylist - Camila Gonçalves
Editor - Pedro Dias
Colorist - Victor Furlan
Sound Mixing - Igor Yamawaki
Still Photographers - Marina Toledo e Liz Dórea
Soundtrack - Christian Sayeg
Guitar - Victor Kroner
Adicional Track - "Última Vez" Tim Bernardes


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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Cinema: La notte

Michelangelo Antonioni


     Segunda parte da trilogia não oficial de Antonioni sobre alienação, solidão e a incomunicabilidade entre as pessoas na sociedade moderna, as outras partes da trilogia são compostas por A Aventura e L'eclisse.
     O filme (La Notte - 1961) acompanha um dia na vida de um casal (interpretados por (Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau) infiel e sua relação em constante deterioração. que são convidados para passar uma noite em uma festa de amigos burgueses, durante a festa, o vazio e desgaste emocional existente entre o casal é intensificado.

Não esqueça de ativar as legendas.





Direção:
Michelangelo Antonioni

Roteiristas:
Michelangelo Antonioni
Ennio Flaiano
Tonino Guerra


Elenco:
Marcello Mastroianni como Giovanni Pontano
Jeanne Moreau como Lidia Pontano
Monica Vitti como Valentina Gherardini
Bernhard Wicki como Tommaso Garani
Rosy Mazzacurati como Resy
Maria Pia Luzi como A ninfomaníaca no hospital
Guido A. Marsan como Senhor Fanti
Vittorio Bertolini
Vincenzo Corbella como Senhor Gherardini
Ugo Fortunati como Cesarino
Gitt Magrini como Senhoraa Gherardini
Giorgio Negro como Roberto
Roberta Speroni como Berenice
Valentino Bompiani como Ele mesmo (não creditado)
Roberto Danesi como Função indeterminada (não creditado)
Umberto Eco como Um convidado da festa (não creditado)
Giansiro Ferrata como Um convidado da festa (não creditado)
Giorgio Gaslini como Ele mesmo (não creditado)
Alceo Guatelli como Função indeterminada (não creditado)
Odile Jean como Função indeterminada (não creditado)
Ottiero Ottieri como Ele mesmo (não creditado)
Salvatore Quasimodo como Ele mesmo (não creditado)
Ettore Univelli como Função indeterminada (não creditado)


"O tema do matrimônio e suas intempéries já foi retratado diversas vezes pelo cinema. As diversas fases de um casamento e todas as questões que elas suscitam já foram examinadas por cineastas da melhor estirpe. Obras como Domicílio Conjugal, de François Truffaut e Cenas de Um Casamento, de Ingmar Bergman, são possivelmente dois dos melhores exemplos. Filme de importância equivalente sobre o mesmo tema é A Noite, segundo capítulo da aclamada Trilogia da Incomunicabilidade, de Michelangelo Antonioni. O italiano segue debruçando-se sobre os limites da comunicação humana e, dessa vez, ele constrói um filme menos nebuloso em sua proposta do que o primeiro da trilogia – A Aventura, mas não menos instigante e bem realizado. Antonioni está ainda mais afinado com o tema e mais habilidoso em trabalhá-lo." Marcelo Sobrinho

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
25. La notte /       


JN (1982) - Marcello Mastroianni no Brasil para o filme "Gabriela"




Marcello Mastroianni: o anti-galã do cinema italiano



Jeanne Moreau - (Paris, 23 de janeiro de 1928 – Paris, 31 de julho de 2017) foi uma atriz e cantora francesa.


Jeanne Moreau - Miles Davis - Louis Malle - Paris - 1958



A trilha sonora de Miles Davis para o filme é considerada por muitos inovadora, com o crítico de jazz Phil Johnson descrevendo-a como "o som de trompete mais solitário que você já ouvirá, e o modelo para a música sad-core desde então. Ouça e chore."


Ilíada: Homero (Canto IX.c - Honra para Aquiles e Preces)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IX - Honra para Aquiles e Preces
 
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”

continuando...

onde me acolhe o potente Peleu com benévolo espírito. 
Teve-me grande afeição, como pai poderoso a filho único, 
único herdeiro de infinita riqueza para ele acervada, 
e cumulou-me de bens, sobre dar-me o comando de gentes, 
pois sobre os Dólopes tive o governo, no extremo de Ftia. 
Qual és, Aquiles divino, nesta hora, por mim foste feito, 
por mim, com terna afeição. Ninguém mais ao teu lado querias, 
tanto como hóspede, fora, ou à mesa, nos nossos banquetes,
té que em meus joelhos, alfim, te pusesse, e cortasse os assados 
em pedacinhos, com o que te saciasses e vinho te desse.

Não poucas vezes, de vinho, no peito molhaste-me a túnica, 
que borrifavas por cima de mim, com capricho de criança. 
Por tua causa vê só que trabalhos sofri, que de incômodos! 
Considerando que os deuses um filho me haviam negado, 
como se filho me fosses, Aquiles divino, criei-te, 
para que um dia amparar-me pudesses da ruína e do opróbrio. 
   “Vamos, Aquiles, o orgulho domina; aspereza tão grande 
não fica bem para ti, pois se deixam dobrar até os deuses, 
com terem mais dignidade, poder superior e virtude. 
Apesar disso, conseguem os homens obter-lhes as graças

com libações e gordura queimada, com preces e vítima, 
se, porventura, cometem qualquer infração ou pecado. 
Pois são as Preces, nascidas do Crônida Zeus poderoso, 
coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso e desviado, 
as quais se afanam no encalço da Culpa, tentando alcançá-la. 
Esta é, porém, vigorosa e de pés mui velozes; por isso 
a todas elas se adianta, causando, onde quer que se encontre, 
dano aos mortais, ao que as Preces procuram, depois, dar remédio. 
Quem, a estas filhas de Zeus, ao chegarem, demonstra respeito, 
delas obtém só vantagens, por serem seus votos ouvidos.

Mas se, obstinados, os homens ouvidos, acaso, lhes negam, 
as Preces, logo, a Zeus Crônida sobem e, instantes, suplicam 
que sempre a Culpa os torture e que tenham, com o dano, o castigo. 
Por isso, Aquiles, concede a essas filhas de Zeus o devido 
acatamento, que heróis valorosos já têm conquistado. 
Se não te houvesse Agamémnone dons ofertado, além de outros 
que te promete, mas ainda insistisse em mostrar-se zangado, 
não te viria exortar, certamente, a suster a tua cólera 
para ajudar os Acaios, embora careçam de auxílio. 
Dá-te, porém, muitas coisas, e dons mais valiosos promete,

e te mandou, com pedido, em seu nome, os varões mais conspícuos 
do acampamento, escolhendo os Argivos que mais estimavas. 
Não menosprezes, portanto, seus passos e quanto disseram, 
que, antes, a tua atitude nós todos assaz a exculpávamos.¹
   “As próprias gestas de heróis das idades corridas nos dizem 
que, quando, acaso, ficavam possuídos de cólera grande, 
eram sensíveis a brindes, dobrando-se à força suasória. 
Ora, meus caros amigos, me ocorre contar-vos um caso 
nada recente, bem velho, tal como se deu, em verdade. 
De certa vez os Curetes e os fortes Etólios, à volta de

Calidona lutavam, causando recíproco estrago. 
Estes, lutando em defesa da bela cidade; os Curetes, 
só desejosos de que Ares entrar as muralhas lhes desse. 
Foi provocada a contenda por Ártemis do trono de ouro, 
que se indignara por não ter de Eneu recebido as primícias 
dos agros pingues, quando este ofertou hecatombes aos deuses 
todos do Olimpo, excetuando-se a filha de Zeus, tão somente, 
ou por descuido, ou de caso pensado, o que a fez irritar-se. 
Por isso, pois, agastada, a donzela que flechas dispara, 
um javali de alvos dentes, selvagem, envia contra ele,

que, destruidor habitual, as culturas de Eneu danifica. 
Árvores grandes fazia tombar pelo solo e, com elas, 
suas raízes, no tempo em que a flor prometia sementes. 
Foi por Meléagro, filho de Eneu, o animal, então, morto, 
pós haver feito reunir caçadores de muitas cidades 
e seus mastins; impossível a poucos seria vencê-lo, 
tão grande ele era, pois muitos já à pira funesta mandara. 
Entre os Etólios galhardos e os homens Curetes valentes 
a deusa, então, suscitou clamorosa contenda, por causa 
da pele hirsuta do grande javardo e da enorme cabeça.

“Enquanto o forte Meléagro esteve a lutar, o Destino 
para os Curetes foi sempre contrário, pois fora dos muros, 
ainda que em número grande, lhes era impossível manter-se. 
Mas, quando o peito do herói foi tomado pela ira que a muitos 
outros, também, já turvara, dotados, embora, de siso, 
 contra Alteia, sua mãe, irritado ficou o guerreiro, 
foi para junto da esposa legítima, a bela Cleópatra, 
filha da filha de Eveno, Marpessa, dos belos artelhos, 
e do grande Idas, o herói mais robusto de quantos outrora 
na terra extensa viveram, que até contra Febo tomara 

do arco, por causa da noiva estimada, de artelhos venustos. 
A esta, por isso, no belo palácio, o apelido de Alcíone 
os próprios pais lhe puseram, porque o sofrimento dessa ave 
à mãe coubera, também, que profundos lamentos soltava, 
quando se vira raptada por Febo, o frecheiro infalível. 
Junto da esposa, agastado, deixou-se ficar, por motivo 
das maldições de sua mãe, que do irmão tendo a morte sentido, 
aos deuses todos do Olimpo, sem pausa, orações dirigia. 
Vezes sem conta à alma Terra com a mão percutiu, invocando 
o nome de Hades escuro e Perséfone, a deusa tremenda,

posta de joelhos e o seio banhado de lágrimas quentes, 
para que o filho fizessem morrer. Pelas duras Erínias, 
que andam nas trevas, desde o Érebo, foi, logo, a súplica ouvida. 
   “Em torno às portas, entanto, o barulho e o clamor recrudescem; 
as torres foram forçadas. Os velhos Etólios, nessa hora, 
e os sacerdotes sagrados de mais reverência lhe pedem 
que a defendê-los se ponha, ofertando-lhe muitos presentes. 
Em Calidona aprazível, lhe dizem, um campo escolhesse, 
onde terreno mais fértil achasse, podendo cinquenta 
jeiras, ao todo, marcar; para vinha, do chão a metade;

a outra metade, sem árvores, só de terreno lavrável. 
O velho Eneu picador também fez insistentes pedidos. 
De pé, no umbral do aposento de teto elevado, sacode 
as folhas firmes da porta, a chamar pelo nome do filho. 
Muito, também, as irmãs lhe pediram e a mãe veneranda. 
Mais firmemente, porém, se negava Meléagro. Pedem-lhe 
os companheiros, com muita insistência, e os mais caros amigos. 
O coração no imo do peito, porém, ninguém pôde abalar-lhe, 
antes de o fogo lhe haver atingido o aposento e os Curetes 
às altas torres subido e iniciado a conquista dos muros.

Foi nesse instante que a esposa do herói, de cintura bem-feita, 
por entre choro lhe exora, fazendo relato completo 
dos sofrimentos dos homens, se viesse a cair a cidade: 
da morte vil e cruel que teriam, do incêndio das casas, 
a servidão em que iriam ficar as mulheres e as crianças. 
À relação desses males, alfim, comovido se mostra. 
Sem mais detença correu a envergar a armadura brilhante. 
Dessa maneira, afastou dos Etólios o dia funesto, 
por próprio impulso levado. Sem paga os livrou do perigo, 
pois dos presentes de grande valia nenhum lhe foi dado.

“Essa maneira de ver, caro amigo, não deve ser tua. 
Nenhum demônio te instigue. Seria, sem dúvida, inglório 
ir em defesa das naus incendiadas. Aceita os presentes 
que te ofertaram. Os Gregos ter-te-ão como um deus do alto Olimpo. 
Pois se enfrentasses a guerra homicida sem dádivas grandes, 
honra menor te coubera, ainda mesmo que o imigo afastasses.” 
   Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, em resposta, o seguinte: 
“Velho Fenice, nutrido por Zeus, de tais honras não curo; 
são dispensáveis. Confio, isso sim, nos favores do Crônida, 
que me farão demorar junto às naves recurvas, enquanto

sopro no peito tiver e os joelhos puderem mover-se. 
Ora outra coisa te quero dizer; guarda-a bem no imo peito: 
o coração não me venhas turvar com lamentos e queixas, 
para ao Atrida agradares. Não deves amá-lo desta arte, 
se não quiseres em ódio mudar a afeição que te voto. 
Fica-te bem retribuir com ofensa a quem vier a ofender-me. 
Vem partilhar do comando comigo; iguais honras te caibam. 
Estes dirão a resposta. Aqui, pois, permanece, e ao macio 
leito recolhe-te. Logo que a Aurora surgir, pensaremos 
no que convém escolher; se ficar, se voltar para a pátria.”

Com o sobrecenho, depois, sem falar, fez a Pátroclo aceno 
para que o leito mandasse aprontar, de Fenice, que, logo, 
os outros dois no retorno pensassem, Ajaz Telamônio, 
de forma igual à de um deus, proferiu as seguintes palavras: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso, 
vamos! Não creio que nosso propósito alcance algum êxito 
por esta via. Ora cumpre, sem perda de tempo, a resposta 
comunicar aos Argivos, embora bem ruim ela seja, 
que eles, por certo, ainda estão reunidos, à espera. O Pelida, 
de ira selvagem, somente inundou o magnânimo peito.

Homem cruel, que não preza a amizade dos fidos consócios, 
essa com que o distinguíamos, junto de nossos navios! 
Sem compaixão! É comum aceitar-se o resgate, até mesmo 
pelo assassínio do irmão, pela morte do filho querido. 
Fica o ofensor no país, quando multa adequada se acorda, 
pois o ofendido refreia no peito a paixão excruciante 
com receber os presentes. Rancor implacável e duro 
no coração te puseram os deuses por causa, tão somente, 
de uma cativa. No entanto, te damos sete outras, belíssimas, 
e muitas dádivas mais. Assossega, portanto, o teu peito,

e tua casa respeita; encontramo-nos sob este teto 
por comissão dos Acaios. Julgávamos, todos, te fôssemos 
os mais prezados amigos no grande arraial dos Argivos.” 
   Disse-lhe Aquiles, dos rápidos pés, em resposta, o seguinte: 
“Dominador poderoso de povos, Ajaz Telamônio! 
Com quase todas as tuas palavras meu peito concorda. 
O coração, porém, sinto indignar-se ao lembrar-me do insulto 
que me atirou Agamémnone, em face do exército Aquivo, 
como se eu fosse adventício de todo o valor destituído. 
Ora fazei-vos de volta, e a resposta, que dei, transmiti-lhe.

Não tomarei decisão de tornar para a guerra cruenta, 
antes que Heitor, o divino, de Príamo sábio nascido, 
chegue até perto das tendas e naus dos heroicos Mirmídones, 
e, a dizimar os guerreiros Aquivos, as naus incendeie. 
Mas quero crer que aqui perto da tenda em que me acho e da nave 
de cor escura há de Heitor valoroso refrear seus propósitos.” 
   Isso disse ele. Então, todos, tomando dos copos, libaram 
junto das naus, regressando; servia Odisseu como guia. 
Pátroclo, então, disse às servas e a seus companheiros que fossem 
o leito cômodo, logo, aprontar para o velho Fenice.

Obedientes às ordens, o leito aprontaram, forrando-o 
com velo e colcha macia e coberta de linho finíssimo. 
O velho ilustre deitou-se, aguardando a chegada da Aurora. 
Deita-se Aquiles, também, no recesso da tenda bem-feita, 
com uma jovem ao lado, que havia trazido de Lesbo, 
filha do grande Forbante, Diomeda de faces rosadas. 
Pátroclo, no lado oposto, também se deitou, tendo ao lado 
Ífis, de bela cintura, que Aquiles divino lhe dera 
quando a cidade de Enieu valoroso, a alta Esciro, saqueara. 
   Logo que os dois emissários chegaram à tenda do Atrida,

viram-se pelos Argivos cercados, que, alçando-se prestes, 
com taças de ouro os saudavam, ansiosos por tudo saberem.² 
Foi o primeiro a falar Agamémnone, rei poderoso: 
   “Dize-me logo, Odisseu meritíssimo, glória da Acaia, 
se ele consente em livrar os navios do fogo inimigo, 
ou se se nega, por ter ainda o peito tomado pela ira?” 
    Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu sofredor de trabalhos: 
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso. 
não só persiste na cólera, como se mostra tomado 
pelo furor, recusando os presentes e tuas propostas.

Acha que deves, com os outros Argivos, pensar na maneira 
de as naus e o exército Acaio salvar do perigo iminente. 
Sim, chegou mesmo a ameaçar de que, logo que a Aurora se eleve, 
há de puxar para as ondas as naves de boa coberta. 
Acrescentou que aconselha aos demais que se façam de volta 
para o torrão de nascença, que o termo jamais acharemos 
de Ílio escarpada, que a mão protetora, sobre ela, Zeus, grande, 
de voz potente, estendeu, reforçando a coragem do povo. 
Meus companheiros, aqui, poderão confirmar o que digo, 
o Telamônio e os arautos dotados de grande prudência.

O venerando Fenice ficou, a conselho de Aquiles, 
para partir, juntamente com ele, amanhã muito cedo, 
caso deseje, que contra a vontade, não há de levá-lo.” 
   Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram, 
estupefatos perante a violência de suas palavras. 
Por muito tempo em silêncio mantêm-se os turvados Aquivos, 
té que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa: 
   “Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso! 
Antes nenhuma proposta tivesses ao grande Pelida 
apresentado, nem feito tão grandes promessas. Se já era

insuportável, tornou-se ainda mais insolente com isso. 
Não mais devemos com ele ocupar-nos, quer volte, realmente, 
quer se decida a ficar. Há de, alfim, reingressar nos combates, 
quando lhe o peito ordenar ou algum deus o incitar a fazê-lo. 
Satisfaçamos, primeiro, o desejo, com vinho e alimentos, 
para irmos, logo, dormir, que isso as forças restaura e a coragem. 
E, quando a Aurora, de dedos de rosa, surgir no horizonte, 
a postos põe, junto às naves, os homens e os carros de guerra, 
e para a luta os incita; tu próprio lhes sê alto exemplo.” 
   Todos os chefes presentes romperam em francos aplausos

de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes. 
As libações completadas, às tendas, depois, se acolheram, 
onde gozaram, deitados, dos gratos presentes do Sono
continua página 258...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c / Canto IX.a / Canto IX.b / Canto IX.c /                                       
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] V
ersos 496 a 523, traduzidos de forma clássica.
     Esta passagem do Canto IX da Ilíada (conhecida como a "Alegoria das Preces", ou Litai) é uma das joias filosóficas e retóricas mais fascinantes de toda a poesia homérica. Nela, o velho Fênix tenta dobrar o orgulho irredutível de Aquiles. Nesse trecho, Fênix, o velho mestre e figura paterna de Aquiles, tenta persuadir o herói a abandonar sua ira implacável contra Agamemnon e a aceitar os presentes de reconciliação tr azidos pela embaixada grega. 
* O Mito das Preces (Litai) e da Culpa (Até)
- A Culpa (Até): É descrita como vigorosa, rápida e de pés ligeiros. Ela se adianta e espalha o mal e o dano entre os homens. Representa a impulsividade, a arrogância (hubris) ou o erro que irrompe de forma súbita.
- As Preces (Litai): São filhas de Zeus, mas são retratadas de forma paradoxal — "coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso". Elas caminham devagar, arquejando no encalço da Culpa, tentando reparar o estrago.
     Fênix está argumentando que o erro e o conflito (representados pelo atrito entre Agamemnon e Aquiles) são inevitáveis na condição humana. No entanto, o que define a grandeza de um herói não é a infalibilidade, mas sim a capacidade de ceder ao remédio da reconciliação.
- Se o homem acolhe as Preces (as ofertas de paz e pedido de perdão), ele é abençoado.
- Se o homem é obstinado e orgulhoso, recusando-as, as Preces recorrem ao próprio Zeus, fazendo com que a Culpa (Até) retorne para esmagar o transgressor com o castigo.
     Fênix está, na prática, fazendo um alerta profético: a recusa cega de Aquiles em aceitar os presentes e perdoar o comandante grego deixará de ser uma defesa de sua honra e passará a ser uma desmedida (hubris), o que acabará por atrair a desgraça sobre os próprios gregos e sobre o próprio Aquiles (culminando na morte de Pátroclo).

[2] A resposta de Aquiles, contida neste trecho, marca o clímax e o fracasso absoluto da Embaixada a Aquiles.
     Enquanto Ájax Telamônio (que fala logo antes desse trecho) tenta apelar para a solidariedade de Aquiles com os companheiros em sofrimento, Aquiles demonstra que sua ferida é, acima de tudo, narcísica e profunda: o insulto público de Agamemnon fferiu sua honra (timé) de forma irreparável diante de todo o exército.
* A Resposta Irredutível e a Estética da Honra
- O orgulho ferido: Aquiles admite que o raciocínio de Ájax faz sentido, mas o rancor ("o coração... sinto indignar-se") é mais forte. Ele não aceita ser tratado como um pária ("como se eu fosse adventício de todo o valor destituído").
- O limite traçado por Aquiles: Ele cede apenas parcialmente à pressão dos amigos, estabelecendo uma linha vermelha tática e psicológica. Ele não voltará a lutar agora, mas impõe uma condição quase fatal para os gregos: só entrará no combate se Heitor e os troianos avançarem a ponto de incendiar as frotas dos mirmidões e ameaçar suas próprias tendas.
* A Ironia Trágica
- Ao desejar que Heitor avance até as naus para só então agir, Aquiles está, sem saber, selando o destino de seu melhor amigo, Pátroclo (que aparece logo depois mandando preparar a cama para Fênix).
- É justamente quando os troianos chegam às naus e começam a incendiá-las que Pátroclo pedirá a armadura de Aquiles emprestada para conter o inimigo — o que resultará na morte de Pátroclo pelas mãos de Heitor, o evento que finalmente trará Aquiles de volta à guerra sedento de vingança.
* A Calmaria Doméstica em Contraste com a Crise Épica
     É fascinante notar a transição cinematográfica que Homero faz no final do trecho:
- De um lado, temos a alta política, a guerra iminente e a diplomacia frustrada entre os maiores heróis da Hélade.
- De outro, o texto desce para o interior das tendas, mostrando os detalhes cotidianos e humanos daquela noite de trégua tensa: Pátroclo preparando o leito para o velho Fênix, e os heróis recolhendo-se com suas companheiras cativas (como Diomeda e Ífis). Esse contraste realça a tragédia — o silêncio e o repouso antes da tempestade devastadora que o Canto XVI trará.

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Ilíada, de Homero - Canto IX