em busca do tempo perdidovolume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Segundo
Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.
continuando...
Essa atitude de resignação aos sofrimentos sempre iminentes infligidos pelo Belo, e a
coragem que tivera em pôr um vestido quando mal se levantava após a última sonata, faziam com
que a Sra. Verdurin, mesmo para escutar a música mais cruel, conservasse uma fisionomia
desdenhosamente impassível e até chegasse a se esconder para engolir duas colheradas de
aspirina.
- Ah, sim, ei-los - exclamou o Sr. Verdurin com alívio, vendo a porta se abrir e deixar
passar Morel, seguido do Sr. de Charlus. Este, para quem jantar na casa dos Verdurin não era de
forma alguma comparecer à sociedade, mas ir a um lugar suspeito, estava intimidado como um
colegial que entra pela primeira vez num bordel e com mil respeitos para com a dona. Assim, o
desejo habitual do Sr. de Charlus, de parecer frio e viril, foi dominado (quando apareceu na porta
aberta) por essas ideias tradicionais de cortesia, que se revelam desde que a timidez arruína uma
atitude fictícia e apela para os recursos do inconsciente. Quando é num Charlus, seja ele burguês
ou nobre, que age tal sentimento de polidez instintiva e atávica para com desconhecidos, é
sempre a alma de um parente do sexo feminino, auxiliadora como uma deusa, ou encarnada
como um duplo, que se encarrega de introduzi-lo num novo salão e de modelar sua atitude até
que ele tenha chegado diante da dona da casa. Certo pintor jovem, educado por uma santa prima
protestante, entrará com a cabeça oblíqua e vacilante, os olhos no teto, as mãos presas a um
regalo invisível, cuja forma evocada e cuja presença real e tutelar auxiliarão o artista intimidado a
franquear, sem agorafobia, o espaço cavado de abismos que vai do vestíbulo ao salão pequeno.
Assim, a piedosa parenta, cuja lembrança o guia hoje, entrava, há muitos anos e com um aspecto
tão gemente, que todos se perguntavam qual a desgraça que vinha anunciar, quando às suas
primeiras palavras compreenderam, como agora ocorria com o pintor, que ela vinha fazer uma
visita de digestão. Em virtude dessa mesma lei que exige que a vida, no interesse do ato ainda
não cumprido, mande servir, utilize, desnature, numa perpétua prostituição, os mais respeitáveis
legados, por vezes os mais santos, por vezes os mais inocentes, do passado, e, embora ela
engendrasse então um aspecto diferente, um dos sobrinhos da Sra. Cottard, que afligia a família
por seus modos afeminados e suas relações, fazia sempre uma entrada alegre como se viesse
dar uma surpresa ou anunciar uma herança, iluminado por uma felicidade de cuja causa seria
baldado perguntar-lhe, que se ligava à sua hereditariedade inconsciente e a seu sexo desviado.
Andava na ponta dos pés, estava sem dúvida ele próprio espantado de não ter à mão um carnê
de cartões de visita, estendia a mão abrindo a boca em forma de coração, como vira a tia fazer, e
seu único olhar inquieto era para o espelho, onde parecia querer verificar, embora estivesse de
cabeça descoberta, se o seu chapéu, como um dia indagara a Sra. Cottard a Swann, não estava
de través.
Quanto ao Sr. de Charlus, a quem a sociedade na qual tinha vivido fornecia, nesse
momento crítico, exemplos diferentes, outros arabescos de amabilidade e, enfim, a máxima que
se deve conhecer em certos casos, para com simples pequeno-burgueses, externar e oferecer as
mais raras graças, habitualmente conservadas em reserva, foi bamboleando com afetação e a
mesma amplitude como que umas saias houvessem alargado e embaraçado os seus requebros,
que ele se dirigiu para a Sra. Verdurin, com um ar tão lisonjeado e honrado que se diria que ser
apresentado em sua casa teria sido para ele um favor supremo. Seu rosto, meio inclinado, onde a
satisfação competia com as conveniências, sulcava-se de pequeninas rugas de afabilidade.
Julgar-se-ia ver avançar a Sra. de Marsantes, de tanto que, naquele momento, sobressaía a
mulher que um erro da natureza colocara no corpo do Sr. de Charlus. Decerto, esse erro o barão
duramente havia penado para dissimulá-lo e assumir uma aparência masculina. Porém, mal o
conseguira e eis que, tendo conservado ao mesmo tempo os mesmos gostos, o hábito de sentir
como mulher lhe dava uma nova aparência feminina, nascida esta não da hereditariedade, mas
da vida individual. Como chegava aos poucos a pensar, mesmo os fatos sociais, no feminino; isto
sem se dar conta de tal, pois não é somente à força de mentir para os outros, mas também de
mentir para si mesmo, que se deixa de perceber que se mente, embora ele tivesse pedido ao
corpo que tornasse manifesto (no momento em que entrava na casa dos Verdurin) toda a cortesia
de um grão senhor, esse corpo, que compreendera perfeitamente aquilo que o Sr. de Charlus
deixara de ouvir, desenrolou, a ponto de que o barão teria merecido o epíteto de lady-like, todas
as seduções de uma grande dama. Afinal, pode-se separar inteiramente o aspecto do Sr. de
Charlus do fato de que os filhos, visto nem sempre se parecerem com os pais, mesmo não sendo
invertidos e procurarem mulheres, consumam no rosto a profanação de sua mãe? Mas deixemos
aqui o que mereceria um capítulo à parte: as mães profanadas.
Conquanto razões outras presidissem a essa transformação do Sr. de Charlus e fermentos
puramente físicos fizessem "trabalhar" nele a matéria e passar seu corpo, aos poucos, para a
categoria de corpos de mulher, todavia a mudança que aqui assinalamos era de origem espiritual.
À força de se julgarem enfermas, as pessoas o acabam sendo, emagrecem, não têm mais forças
para se levantar, sofrem de enterites nervosas. À força de pensar com ternura nos homens, uma
pessoa se torna mulher e uma saia postiça entrava seus passos. A ideia fixa nelas pode modificar
o sexo (assim como em outros casos a saúde).
Morel, que o seguia, veio cumprimentar-me.
Desde aquele momento, devido a uma dupla mudança que nele se efetuava, ele me
causou (ai de mim, que não o soube perceber em tempo) uma má impressão. Eis o motivo.
Disse eu que Morel, tendo escapado à servidão do pai, comprazia-se em geral numa
familiaridade extremamente desdenhosa. Falara comigo, no dia em que me levara as fotografias,
sem sequer uma vez me dizer "senhor" e tratando-me de alto a baixo. Qual não foi minha
surpresa, na casa da Sra. Verdurin, ao vê-lo inclinar-se profundamente diante de mim, e só diante
de mim, e ao ouvir, antes mesmo que ele tivesse pronunciado outras frases, as expressões de
"respeito" e "muito respeitoso" palavras que eu considerava impossíveis em seus lábios ou em
seus escritos a mim dirigidas! Tive logo a impressão de que ele queria me pedir alguma coisa.
Tomando-me à parte ao cabo de um minuto:
- O senhor me prestaria um grande serviço - disse ele, chegando dessa vez a me falar na
terceira pessoa ocultando inteiramente à Sra. Verdurin e a seus convidados o tipo de profissão
que meu pai exerceu em casa de seu tio. Seria preferível dizer que ele era, em sua família, o
intendente de domínios tão vastos que isto o fazia quase da mesma classe que seus pais. - O
pedido de Morel me contrariava infinitamente, não por me obrigar a engrandecer a posição de seu
pai, o que na verdade pouco me importava, mas a fortuna ao menos aparente do meu, o que
achava ridículo. Mas seu aspecto era tão infeliz, tão premente, que não recusei.
- Não, antes do jantar - pediu-me em tom de súplica; o senhor tem mil pretextos para
chamar à parte a Sra. Verdurin.
Foi o que fiz, com efeito, cuidando de realçar da melhor maneira o brilho do pai de Morel,
sem exagerar muito "o modo de vida" e a "abastança" de meus pais. Isso passou como carta no
correio, apesar do espanto da Sra. Verdurin, que vagamente conhecera meu avô. E, como fosse
desprovida de tato e odiava as famílias (esse dissolvente do pequeno núcleo), depois de haver
dito que outrora avistara meu bisavô e de ter se referido a ele como a alguém mais ou menos
idiota que nada teria compreendido do pequeno grupo, e que, conforme sua expressão, "não era
dos deles", ela me disse:
- Aliás, isso de famílias é tão enfadonho; a gente só aspira em sair delas; - e em seguida
contou-me, do pai de meu avô, essa tirada que eu ignorava, embora em casa tivesse suspeitado
(não chegara a conhecê-lo, mas falavam muito nele) de sua avareza (oposta à generosidade um
tanto faustosa do meu tio-avô, o amigo da dama cor-de-rosa e patrão do pai de Morel): - Já que
seus pais tinham um intendente tão elegante, isto prova que há pessoas de todos os matizes nas
famílias. O pai de seu avô era tão avarento que, quase caduco no fim da vida cá entre nós, ele
nunca foi muito forte, o senhor os compensa a todos -, não se conformava em gastar três sous
com o ônibus. De modo que tinham sido obrigados a mandar alguém segui-lo, pagar em separado
ao trocador e fazer acreditar ao velho que seu amigo, Sr. de Persigny, ministro de Estado,
conseguira que ele andasse de graça nos ônibus. De resto, estou muito contente que o pai do
nosso Morel tenha tido tão boa situação. Eu havia compreendido que ele era professor de liceu,
não quer dizer nada, entendi mal. Mas não tem importância, pois aqui só apreciamos o valor
próprio, a contribuição pessoal, o que chamo de participação. Contanto que seja da arte, numa
palavra, contanto que seja da confraria, o resto pouco importa. -
A maneira como Morel o era tanto quanto pude sabê-lo que ele amava bastante as
mulheres e os homens para agradar a cada sexo com a ajuda do que experimentara no outro - é o
que veremos mais tarde. O essencial a dizer aqui é que, desde que lhe dei minha palavra no
sentido de intervir junto à Sra. Verdurin, sobretudo desde que o fiz, e sem ser possível voltar atrás,
o "respeito" de Morel por mim se desvaneceu como por encanto, desapareceram as fórmulas
respeitosas, e ele chegou mesmo, durante algum tempo, a me evitar, cuidando para parecer que
me desdenhava, de forma que, se a Sra. Verdurin queria que lhe dissesse alguma coisa lhe
pedisse determinado trecho de música, ele continuava a falar como fiel, depois com outro,
mudava de lugar se me aproximava dele. Eram forçados a lhe dizer até três ou quatro vezes que
eu lhe dirigira a palavra, após o que ele me respondia, constrangido, de modo breve, a menos que
estivéssemos a sós. Neste caso, tornava-se expansivo, amistoso, pois apresentava aspectos de
caráter muito encantadores. Nem por isso deixei de concluir, por aquela primeira reunião noturna,
que sua natureza devia ser vil, que ele não recuava, se necessário, diante de nenhuma baixeza,
ignorava a gratidão. Nisso assemelhava-se ao comum dos homens. Mas, como eu tinha dentro de
mim um pouco de minha avó e me agradava a diversidade dos homens, sem deles nada esperar
ou lhes querer mal, não me importei com sua baixeza, e diverti-me com sua boa disposição
quando apareceu, e até no que acho ter sido uma sincera amizade de sua parte quando, tendo
dado toda a volta de seus falsos conhecimentos da natureza humana, ele percebeu (por impulsos,
pois era dotado de estranhos retrocessos à sua selvageria primitiva e cega) que minha suavidade
para com ele era desinteressada, que minha indulgência não provinha de uma falta de
perspicácia, mas do que chamou de bondade, e que sobretudo eu me encantava com sua arte,
que não passava de admirável virtuosismo, mas que me fazia (sem que ele fosse um verdadeiro
músico, no sentido intelectual do termo) ouvir de novo ou conhecer tantas belas músicas. Aliás,
um manager, o Sr. de Charlus, em quem eu ignorava esses talentos (embora a Sra. de
Guermantes, que o conhecera bem diferente na sua juventude, afirmasse que ele lhe compusera
uma sonata, pintara um leque, etc.), modesto no que concernia a suas verdadeiras
superioridades, mas de primeira ordem, soube colocar esse virtuosismo a serviço de um senso
artístico multiforme, e que o decuplicou.
Imagine-se algum artista puramente habilidoso dos Ballets russos, estilizado, instruído,
desenvolvido em todos os sentidos pelo Sr. Diaghilev.
Acabava de transmitir à Sra. Verdurin a mensagem de que me havia encarregado Morel, e
falava sobre Saint-Loup com o Sr. de Charlus, quando Cottard entrou no salão anunciando, como
se se tratasse de um incêndio, que os Cambremer estavam chegando. A Sra. Verdurin, para não
parecer, diante de novatos como eu e o Sr. de Charlus (que Cottard não tinha visto), ligar tanta
importância à chegada dos Cambremer, não se mexeu, não respondeu nada ao anúncio daquela
novidade, contentando-se em dizer ao doutor, abanando-se com graça e com o mesmo tom
artificial de uma marquesa do Théâfre-français:
- O barão nos dizia justamente... -
Era demais para Cottard! Com menos vivacidade do que faria outrora, pois o estudo e as
altas posições tinham tornado mais vagarosa a sua fala, mas ainda assim com aquela emoção
que reencontrou:
- Um barão! Onde isso, um barão?- procurando-o com os olhos, num espanto que ofuscou.
A Sra. Verdurin, com a indiferença afetada de um criado, diante dos convidados, acabada
a entonação artificial e aumentada de um desempenho de Dumas Filho, respondeu:
- Ora, o barão de Charlus. -
Aliás, não desagradava se fazer de grande dama.
O Sr. de Charlus apertou com um sorriso benévolo atacou de súbito, vendo entrarem os
Cambremers. Ao entrarem o Sr. de Charlus me arrastava para um canto sem apalpar meus
músculos, ao que Cambremer de modo algum se assemelhava dizia este com ternura,
inteiramente do lado oposto que se ouvira falar nele, ou de cartas dele, do seu físico assombrava.
Sem dúvida, a gente via que havia escolhido, para vir colocar de través em linha oblíqua, entre
tantas outras, que não se vê no rosto, um nariz; que indicava uma estupidez vulgar, de uma pele
normanda de vermelhidão do Sr. de Cambremer; aguardassem nas pálpebras tão suaves pelos
belos dias ensolarados e divertidos em ver, paradas à beira da estrada, às sombras dos álamos,
mas aquelas pálpebras abaixadas, teriam impedido a própria inteligência postado com a
exiguidade daquele olhar de narigão atravessado. Por uma transposição nos olhava com o nariz.
Esse nariz do Sr. de Charlus era um pouco bonito demais, por demais forte, com excesso de
importância. Convexo, brunido, reluzente, novamente disposto a compensar a insuficiência se os
olhos são às vezes o órgão em que seja qual for, aliás a íntima solidariedade dos traços uns sobre
os outros, o nariz revela mais facilmente a tolice.
Por mais conveniência a Sra. de Cambremer usava sempre, mesmo de manhã, algo que
ofuscava e exasperava o brilho das roupas desconheciam, não se podia compreender que a
mulher do presidente do conselho declarasse com ar de faro e de autoridade, como pessoa que
tem mais experiência do que nós acerca da alta sociedade de Alençon, que diante de Sr. de
Cambremer logo nos sentíamos, mesmo antes de saber de quem se tratava, em presença de um
homem de alta distinção, de um homem perfeitamente bem-educado, diferente do gênero de
Balbec, enfim, um homem junto a quem se podia respirar. Era para ela, asfixiada por tantos
turistas de Balbec que não conheciam o seu mundo, como um frasco de sais. Pareceu-me, ao
contrário, que ele era dessas pessoas que minha avó teria achado logo "muito mau" e, como não
compreendia o esnobismo, sem dúvida ficaria estupefata de que ele tivesse conseguido se casar
com a Srta. Legrandin, que devia ser difícil em matéria de distinção, ela, cujo irmão era "tão bom".
Quando muito, podia-se dizer da feiura vulgar do Sr. de Cambremer que ela era um pouco da
região e tinha algo de muito antigamente local; diante de seus traços errôneos e que se teria
desejado retificar, pensava-se nesses nomes de cidadezinhas normandas sobre cuja etimologia o
meu cura se enganava porque os camponeses, articulando mal ou tendo mal compreendido o
termo normando ou latim que as designa, acabaram por fixar num barbarismo que já se encontra
nas cartulárias, como diria Brechot, um contrassenso e um vício de pronúncia. A vida nessas
velhas cidadezinhas pode aliás passar-se agradavelmente, e o Sr. de Cambremer devia ter
qualidades, pois, se era próprio de uma mãe que a velha marquesa preferisse seu filho à nora, em
compensação, ela, que tinha vários filhos, dos quais dois pelo menos não eram desprovidos de
mérito, frequentemente declarava que o marquês, em sua opinião, era o melhor da família.
Durante o pouco tempo que havia passado no exército, seus companheiros, achando muito
comprido dizer Cambremer, tinham lhe dado o apelido de Cancan, que ele de resto não merecera
em nada. Sabia ornar um jantar ao qual o convidavam, dizendo no momento do peixe (mesmo
que o peixe estivesse podre) ou à entrada:
- Mas sim senhor, parece que está mesmo um belo animal. -
E sua mulher, tendo adotado ao entrar para a família tudo o que julgava fazer parte do
gênero daquela sociedade, punha-se à altura dos amigos do marido, e talvez procurasse agradar
lhe como uma amante, e como se outrora tivesse estado ligada à sua vida de solteiro, dizendo
com ar displicente quando falava dele aos oficiais:
- Vão ver Cancan, Cancan foi a Balbec, mas estará de volta esta noite. -
Estava furiosa por se comprometer aquela noite com os Verdurin e só comparecia às
instâncias da sogra e do marido, no interesse da locação. Porém, menos bem-educada que eles,
não ocultava o motivo e fazia quinze dias que troçava com as amigas sobre esse jantar.
- Sabem que vamos jantar com nossos locatários? Isso bem merece um aumento. No
fundo, estou bastante curiosa por saber o que podem ter feito da nossa pobre e velha Raspeliere
(como se ali tivesse nascido e encontrasse todas as recordações dos seus). Nosso velho guarda
nos disse ainda ontem que não era possível reconhecer mais nada. Nem tenho coragem de
pensar em tudo o que deve se passar lá dentro. Acho que faremos bem em mandar desinfetar
tudo antes de nos reinstalarmos. -
Ela chegou altaneira e rabugenta, com o ar de grande dama cujo castelo, por ocasião de
uma guerra, tivesse sido ocupado pelos inimigos, mas que ainda assim sente-se em casa e faz
questão de mostrar aos vencedores que eles são intrusos.
A princípio a Sra. de Cambremer não pôde me ver porque eu estava numa sacada lateral
com o Sr. de Charlus, que me dizia ter sabido por Morel que seu pai fora "intendente" em minha
família, e que ele, Charlus, contava muito com minha inteligência e magnanimidade (termo comum
a ele e a Swann) para recusar-me o ignóbil e mesquinho prazer que pequenos imbecis vulgares
(eu estava prevenido) não deixariam de gozar em meu lugar, revelando aos nossos anfitriões
pormenores que estes poderiam julgar depreciativos.
- O simples fato de que me interesse por ele e estenda sobre ele a minha proteção tem
algo de sobre-eminente e abole o passado - concluiu o barão.
Escutando-o e prometendo silêncio, que aliás teria guardado mesmo sem a esperança de,
em troca, passar por inteligente e magnânimo, eu olhava a Sra. de Cambremer. E custou-me
reconhecer a coisa sumarenta e deliciosa que eu tivera no outro dia junto a mim à hora da
merenda, no terraço de Balbec, na bolacha que via, dura como uma pedra, e na qual os fiéis em
vão tentariam cravar o dente. Antecipadamente irritada com o jeito bonachão que o marido
herdara da mãe e que o faria assumir um ar de honrado quando o apresentassem aos fiéis, e no
entanto desejosa de preencher suas funções de mulher da alta sociedade, quando lhe nomearam
Brichot, quis fazê-lo travar conhecimento com o marido, porque vira suas amigas mais elegantes
procederem desse modo; mas ou a raiva ou o orgulho, vencendo a ostentação do savoir-vivre, fê
la dizer, não como deveria:
- Permita-me apresentar-lhe o meu marido e sim: - Apresento-lhe o meu marido -,
mantendo assim altaneiro o estandarte dos Cambremer, a despeito deles mesmos, pois o
marquês inclinou-se diante de Brichot tão profundamente como ela havia previsto. Mas todo esse
humor da Sra. de Cambremer mudou de súbito quando ela avistou o Sr. de Charlus, a quem
conhecia de vista. Jamais conseguira fazer-se apresentada a ele, mesmo à época em que tivera
uma ligação com Swann. Pois o Sr. de Charlus, tomando sempre o partido das mulheres, de sua
cunhada contra as amantes do Sr. de Guermantes, de Odette, então ainda não casada, porém
antiga ligação de Swann, contra as novas, severo defensor da moral e protetor fiel dos cônjuges,
fizera a Odette a promessa de não se deixar apresentar à Sra. de Cambremer, promessa que
mantivera. Certamente a Sra. de Cambremer não duvidara que era na casa dos Verdurin que
haveria por fim de conhecer esse homem inabordável. O Sr. de Cambremer sabia que aquilo seria
uma tão grande satisfação para ela que ele próprio se sentia enternecido, e olhou para a mulher
com um ar que significava:
"Está contente por ter se decidido a vir, não é mesmo?"
Aliás, falava muito pouco sabendo que se casara com uma mulher superior.
- Eu, indigno - dizia-a todo instante, e de bom grado citava uma fábula de La Fontaine e
uma de Florian, que lhe pareciam aplicar-se à sua ignorância e, por outro lado permitir-lhe, sob as
formas de uma lisonja desdenhosa, mostrar aos homens da ciência que não eram do Jockey, que
se pode muito bem casar e ter lido fábulas. O diabo é que só conhecia duas. Assim, elas
retornavam muitas vezes. A Sra. de Cambremer não era idiota, mas possuía diversos hábitos
muito irritantes. Nela, a deformação dos nomes não tinha absolutamente nada do desdém
aristocrático. Não seria ela que, como a duquesa de Guermantes (que, pelo nascimento, deveria
estar, mais que a Sra. de Cambremer, ao abrigo desse ridículo), teria dito, para não parecer saber
o nome pouco elegante (quando agora é o de uma das mulheres mais difíceis com quem se possa
ter intimidade) de Julien de Monchâteau:
- Uma senhorazinha... Pico della Mirandola. -
Não, quando a Sra. de Cambremer citava falsamente um nome, era por benevolência, para
não dar a entender que conhecia algo, e quando todavia por sinceridade o confessava, julgando
que o ocultava ao desmarcá-lo. Se, por exemplo, defendia uma mulher, procurava dissimulá-lo,
sempre querendo não mentir àquela que lhe suplicava que dissesse a verdade, que tal senhora
era atualmente amante do Sr. Sylvain Lévy, e dizia:
- Não... não sei absolutamente nada sobre ela, creio que lhe censuraram o ter inspirado
uma paixão a um senhor cujo nome desconheço, algo como Cahn, Kohn ou Kuhn; aliás, creio que
este senhor já está morto há muitíssimo tempo e que nunca houve nada entre eles. -
É o procedimento semelhante ao dos mentirosos e inversamente ao deles os quais julgam
que, alterando o que fizeram quando o contam a uma amante ou simplesmente a um amigo,
imaginam que uma e outro não verão imediatamente que a frase dita (assim como Cahn, Kohn ou
Kuhn) é interpolada, e de espécie diversa das que compõem a conversação e têm fundo falso.
A Sra. Verdurin perguntou ao ouvido do esposo:
- Devo dar o braço ao barão de Charlus? Como terás à tua direita a Sra. de Cambremer,
poderíamos cruzar as finezas.
- Não - disse o Sr. Verdurin -, visto que a outra é de grau mais elevado (querendo dizer que
o Sr. de Cambremer era marquês), o Sr. de Charlus, em suma, é seu inferior.
- Pois bem, vou colocá-lo ao lado da princesa. -
E a Sra. Verdurin apresentou a Sra. Sherbatoff ao Sr. de Charlus; ambos se inclinaram em
silêncio, com o ar de que sabiam muito bem um sobre o outro e de se prometerem segredo
mútuo. O Sr. Verdurin me apresentou ao Sr. de Cambremer. Antes mesmo que me tivesse falado
com sua voz forte e levemente gaguejante, sua elevada estatura e seu rosto colorido
manifestaram, em sua oscilação, a hesitação marcial de um chefe que busca nos tranquilizar e
diz:
"Falaram-me a respeito, vamos dar um jeito nisso; vou mandar cancelar sua punição; não
somos vampiros; tudo correrá bem."
Depois, apertando-me a mão:
- Creio que conhece minha mãe - disse ele. O verbo "crer" lhe parecia, aliás, convir à
discrição de um primeiro encontro, porém de maneira alguma exprimir uma dúvida, pois
acrescentou: - De resto, trago uma carta dela para o senhor. -
continua na página 140...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Essa atitude de resignação aos sofrimentos)
Volume 6
Volume 7