O SOBREVIVENTE
Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
continuando...
Junto aos zulus, na África do Sul, esse convívio com os antepassados
assume uma forma particularmente íntima. Os relatos que, há
aproximadamente cem anos, o missionário inglês Callaway ali coletou e
publicou constituem o testemunho mais genuíno que se pode encontrar
a respeito do culto aos antepassados entre os zulus. Callaway deixa que
seus informantes falem e registra-lhes as declarações na própria língua
deles. Seu livro, The Religious System of the Amazulu, é raro e, por esse
motivo, muito pouco conhecido; trata-se de um dos documentos
fundamentais da humanidade.
Os antepassados dos zulus transformam-se em cobras e andam
debaixo da terra. Contrariamente ao que se poderia supor, porém, não
são cobras míticas, que jamais se chega a ver. São espécimes bem
conhecidos e apreciam perambular pelas proximidades das cabanas, as
quais, aliás, adentram com frequência. As características físicas de
algumas dessas cobras lembram antepassados específicos, reconhecidos
como esses pelos vivos.
Mas não são apenas cobras, pois, nos sonhos, aparecem para os vivos
sob forma humana e conversam com eles. As pessoas esperam por esses
sonhos, sem os quais a existência dos homens faz-se desagradável. Elas
querem falar com seus mortos; fazem questão de, em seus sonhos, vê-los
clara e nitidamente. Por vezes, a imagem dos antepassados se turva,
tornando-se escura; tem-se então de, mediante determinados ritos,
cuidar para que ela se faça novamente clara. De tempos em tempos — e,
muito particularmente, em todas as ocasiões importantes —, sacrifícios
são-lhes oferecidos. Cabras e bois são abatidos em sua homenagem e, de
modo solene, os antepassados são invocados para que deles se sirvam.
São chamados em voz alta e por seus títulos de glória, aos quais
atribuem grande valor; são deveras pundonorosos, sendo considerado
ofensivo esquecer ou omitir-lhes o respectivo título. O animal
sacrificado deve berrar, a fim de que eles o ouçam; os antepassados
adoram esse grito. Por isso mesmo, ovelhas, que morrem caladas, não
devem ser utilizadas como vítimas. O sacrifício nada mais é aí do que
uma refeição da qual compartilham mortos e vivos, uma espécie de
comunhão destes com aqueles.
Se se vive como os antepassados estavam acostumados a viver,
conservando inalterados os velhos usos e costumes; se se oferecem
regularmente sacrifícios a eles, ficam satisfeitos e favorecem a
prosperidade de seus descendentes. Mas, tão logo alguém adoece ele
saberá que provocou a insatisfação de um de seus antepassados e fará de
tudo para descobrir o motivo dessa insatisfação.
Os mortos nem sempre são justos. Foram seres humanos que as
pessoas conheceram e de cujas fraquezas e erros elas se lembram bem.
Nos sonhos, eles figuram em consonância com o caráter que tinham.
Vale a pena destacar aqui um caso registrado com algum detalhe no
livro de Callaway. Tal caso mostra que um rancor pelos que ficaram
assalta até mesmo aqueles mortos bem assistidos e louvados, e isso
simplesmente pelo fato de não estarem mais vivos. A história de um tal
rancor, conforme se lerá a seguir, corresponde, traduzida para o nosso
contexto, ao curso de uma doença perigosa.
Um primogênito morreu. Suas posses e, muito particularmente, todo
o seu gado — que é o que se considera sua verdadeira propriedade —
passaram para o irmão mais novo. Tal ordem de sucessão é a usual; o
irmão mais novo, que tomou posse da herança e realizou devidamente
todos os sacrifícios, não tem consciência de ter cometido qualquer falta
para com o morto. De súbito, porém, fica gravemente enfermo e, em
sonho, aparece-lhe o irmão mais velho.
“Sonhei que ele me batia e dizia: ‘Como pode você não saber mais
quem eu sou?’. E eu respondi: ‘O que posso fazer para que você veja que
eu te conheço? Sei que você é meu irmão!’. E ele perguntou: ‘Quando
você sacrifica teus bois, por que você não me chama?’. E eu lhe disse:
‘Mas é claro que te chamo, e te honro com teu título de glória. Diga-me qual foi o boi que matei sem te chamar’. Ao que ele respondeu: ‘Eu
quero carne’. Recusei-lhe a carne dizendo-lhe: ‘Não, meu irmão. Não
tenho nenhum boi. Você está vendo algum no curral?’. ‘Mesmo que haja
só um’, disse ele, ‘eu o exijo.’ Quando acordei, sentia uma dor no anco.
Tentei respirar, mas não consegui: estava sem fôlego.”
O homem era teimoso e não queria sacrificar boi algum. Disse:
“Estou realmente doente e conheço a doença que está me abatendo”. As
pessoas disseram-lhe: “Se você a conhece, por que não se livra dela?
Pode um homem provocar deliberadamente a sua doença? Quando
sabe que doença é essa, ele quer morrer? Sim pois quando o espírito
está irado com alguém ele o destrói”.
O homem, então, retrucou: “Não, meus senhores! Foi um homem
que me fez doente. Eu o vejo quando durmo, quando me deito. Só
porque sente vontade de comer carne ele me vem com artimanhas e diz
que não o chamo quando mato o gado. Isso me deixa bastante surpreso,
pois já matei tanto gado e nem uma única vez deixei de chamá-lo. Se ele
quer carne, poderia simplesmente me dizer: ‘Meu irmão, eu queria
carne’. Mas, em vez disso, diz que não o honro. Estou com raiva dele e
acho que ele só quer me matar”.
As pessoas, então, disseram: “Você acredita que o espírito ainda é
capaz de entender, quando se fala com ele? Onde é que ele está, para
que possamos dizer-lhe a nossa opinião? Estivemos sempre presentes
nas ocasiões em que você abateu o gado. Você o louvou e chamou-o por
seu título de glória, título que ele recebeu por sua valentia. Nós
ouvimos e, se fosse possível a esse teu irmão ou a qualquer outro
homem morto ressuscitar, nós conversaríamos com ele e lhe
perguntaríamos: ‘Por que você diz essas coisas?’”.
Ao que o doente respondeu: “Ora, meu irmão comporta-se dessa
forma jactanciosa porque é o mais velho. Sou mais novo que ele.
Espanto-me quando ele exige que eu acabe com o gado todo. Ele
próprio não deixou o gado como herança ao morrer?”.
E as pessoas disseram: “O homem morreu. Nós, porém, estamos
falando com você de verdade, e teus olhos ainda nos fitam de fato. Por
isso, no que se refere a ele, te dizemos: converse com ele calmamente e,
ainda que você tenha apenas uma cabra, ofereça essa cabra a ele. É uma
vergonha que ele venha e te mate. Por que você continua sempre vendo
teu irmão ao dormir e fica doente? Um homem deveria sonhar com seu
irmão e acordar saudável”.
Então, o irmão mais novo respondeu: “Está bem, meus senhores. Vou
dar a ele a carne que ele adora. Ele exige carne e está me matando. Está
cometendo uma injustiça comigo. Sonho com ele todo dia e acordo
com dores. Ele não é um homem; foi sempre um pobre coitado, um
arruaceiro. Sim, porque ele era assim mesmo: a cada palavra, um soco.
Quando alguém falava com ele, ele logo partia para o ataque. Então
havia briga; ele a provocara e batia. Nunca compreendeu nem admitiu:
‘Cometi um erro e não deveria ter lutado com essas pessoas’. Seu
espírito é como ele era. É mau e está sempre irado. Mas vou dar a ele a
carne que ele exige. Se vir que ele vai me deixar em paz e que eu vou ficar saudável, amanhã vou abater o gado para ele. Ele deve deixar que
eu me cure e respire, se é ele a causa de tudo isso. Minha respiração não
deve mais me cortar como agora”.
As pessoas concordaram: “Isso. Se amanhã você estiver bom, então
saberemos que foi o espírito de teu irmão. Mas se você ainda estiver
doente, então não diremos que foi teu irmão a causa da doença: diremos
que se trata de uma doença comum”.
Quando o sol se pôs, o irmão mais novo reclamou ainda das dores.
Quando, porém, chegou a hora de ordenhar as vacas pediu comida.
Pediu um caldo aguado e conseguiu engolir um pouco dele. Então,
disse: “Me deem um pouco de cerveja. Estou com sede”. Suas mulheres
deram-lhe cerveja e sentiram-se confiantes. Alegraram-se, pois haviam
sentido muito medo e se perguntado: “Será que a doença é tão ruim a
ponto de ele não comer nada?”. Alegraram-se em silêncio; não
manifestaram sua alegria, mas apenas se entreolharam. Ele bebeu a
cerveja e disse: “Me deem um pouco de rapé. Quero cheirar um
pouquinho só”. Deram-lhe o rapé, ele o cheirou e deitou-se. Então,
adormeceu.
De noite, o irmão veio e lhe disse: “E então, você já separou o gado
para mim? Vai matá-lo amanhã cedo?”.
E, dormindo, ele lhe respondeu: “Sim, vou matar uma cabeça de
gado para você. Por que você diz, meu irmão, que eu não te chamo, se
sempre te honrei com teu título de glória ao matar o gado? Anal, você
era corajoso e um bom guerreiro”.
Ao que o irmão replicou: “Digo-o com razão, se tenho vontade de
comer carne. Afinal, morri e te deixei uma aldeia. Você tem uma grande
aldeia”.
“Está bem, está bem, meu irmão. Você me deixou uma aldeia. Mas ao
deixá-la para mim e morrer, você matou todo o teu gado?”
“Não, não matei todo ele.”
“E agora, então, filho de meu pai, você exige de mim que eu acabe
com tudo?”
“Não, não exijo que você acabe com tudo. Digo-te apenas: mate, para
que tua aldeia seja grande!”
O irmão mais novo acordou; sentia-se bem e a dor passara. Sentou-se
e cutucou a mulher: “Levanta, acenda o fogo”. A mulher acordou,
atiçou o fogo e perguntou-lhe como se sentia. “Fique tranquila”, disse
ele. “Ao acordar, senti um alívio no corpo. Falei com meu irmão.
Quando acordei, estava curado.” Cheirou, então, um pouco de rapé e
adormeceu de novo. O espírito do irmão retornou, dizendo-lhe: “Está
vendo? Eu te curei. Mate o gado pela manhã!”.
De manhã, ele se levantou e foi até o curral. Tinha ainda outros
irmãos mais novos, que o acompanharam. “Digo a vocês que agora
estou curado. Meu irmão diz que me curou.” Depois, mandou que
trouxessem um boi. Eles o trouxeram. “Tragam aquela vaca estéril!”
Trouxeram ambos. Foram até a parte de cima do curral e postaram-se
ali, ao lado dele, que começou a rezar nos seguintes termos: “Comei,
pois, gente da nossa casa. Que um espírito bom esteja conosco, para que
as crianças cresçam e as pessoas permaneçam com saúde. Pergunto a ti,
que és meu irmão, por que segues vindo até mim quando durmo. Por
que sonho contigo e fico doente? Um bom espírito chega e traz boas
notícias. Mas eu tenho de queixar-me o tempo todo de doenças. Que
gado é esse que precisa devorar seu dono, pondo-o constantemente
doente? Eu te digo: para com isso! Para de me fazer adoecer! E digo-te:
venha até mim quando durmo, fale com calma e diga-me o que
quiseres! — Mas tu vens para me matar! É evidente que, em vida, foste
um mau sujeito. Mas segues sendo um mau sujeito embaixo da terra?
Nunca esperei que teu espírito me visitasse amistosamente, trazendo
me boas notícias. Mas por que vens com maldade? — tu, meu irmão
mais velho, que deverias trazer coisas boas à aldeia, para que nada de
mau lhe acontecesse; tu, que és, afinal, o dono da aldeia!”.
Ao que, então, dando graças, disse ainda as seguintes palavras sobre o
gado: “Aí está o gado que te ofereço. Eis aí um boi vermelho; eis aí uma
vaca estéril, vermelha e branca. Mata-os! Digo-te: conversa
amistosamente comigo, para que eu acorde sem dores. Digo-te: deixa
que todos os espíritos desta casa se reúnam em torno de ti, que gostas
tanto de carne!”.
E ordenou: “Matem-nos!”. Um de seus irmãos pegou uma lança e
cravou-a na vaca estéril, que caiu. Enfiou-a ainda no boi, que tombou
também. Ambos berravam. Ele os matou; estavam mortos. Ordenou,
então, que lhes tirassem o couro. Ambos foram despelados; o couro foi
lhes tirado. Comeram os animais no curral. Os homens todos se
reuniram e pediram comida. Levaram embora pedaço por pedaço.
Comeram e estavam satisfeitos. Agradeceram e disseram: “Nós te
agradecemos, filho de fulano de tal. Se um espírito te deixar doente,
saberemos que se trata de teu irmão miserável. Não sabíamos, ao longo
de tua grave enfermidade, se ainda comeríamos carne em tua
companhia. Vemos agora que o miserável quer te matar. Alegra-nos que
você esteja saudável novamente”.
“Afinal, morri”, diz o irmão mais velho, e nessa afirmação encontra-se
resumido o cerne da disputa, da perigosa enfermidade, do relato em si.
Como quer que o morto se apresente, o que quer que demande, ele
morreu e tem, assim, razão de sobra para a amargura. “Deixei-te uma
aldeia”, afirma, logo acrescentando: “Você tem uma grande aldeia.” A
vida do outro é essa aldeia, de modo que o morto poderia igualmente
ter dito: “Eu estou morto e você continua vivo”.
É essa reprimenda que o vivo teme, e, sonhando com ela, ele dá razão
ao morto: sobreviveu a ele. A amplitude dessa injustiça, ao lado da qual
todas as demais empalidecem, confere ao morto o poder de transformar
reprimenda e amargura numa doença grave. “Ele quer me matar”, diz o
irmão mais novo — pois está morto, pensa consigo. Sabe, pois, muito
bem por que razão teme o irmão, e, para apaziguá-lo, concorda afinal
com o sacrifício.
Como se vê, a sobrevivência dos mortos vincula-se, para os que ficaram, a um considerável desconforto. Mesmo onde se estabeleceu
uma forma de veneração regular, não se pode confiar inteiramente
neles. Quanto mais poderoso foi o morto entre os homens na terra,
tanto maior e mais perigoso é seu rancor no além.
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Título original Masse und Macht
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Leia também:
Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(b)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."