quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto V.a)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto V

A Caverna de Calipso e a balsa de Ulisses

    “Formando uma segunda assembleia dos deuses, Zeus envia Hermes para Calipso mandando libertar Odisseu. Ela faz o que é ordenado. No décimo oitavo dia, Posido o vê e, se irritando, desfaz a balsa. Mas Ino lhe entrega o seu véu com ordem de o devolver assim que chegar à terra. Depois de muito sofrimento, salvo, chega à terra dos Feácios.” (Scholie P Q V)



   Alça-se a Aurora do leito onde estava o preclaro Titono, 
para que a luz aos eternos levasse e aos mortais transitórios, 
quando nos tronos os deuses se foram sentar, tendo ao meio 
Zeus, cuja voz é atroante, de força e poder muito grandes. 
Palas a todos contava do divo Odisseu os trabalhos, 
dele lembrando-se, que ainda se achava na casa da ninfa: 
   “Zeus, nosso pai, e vós outros, ó deuses eternos e beatos, 
que doravante nenhum rei cetrado jamais se revele 
nobre, sensato e bondoso, nem cheio de retos desígnios,

mas, ao contrário, só pense austerezas e viva maldades, 
pois entre o povo ninguém do divino Odisseu se recorda, 
que sobre todos reinou como pai de bondade extremada. 
Vive numa ilha jogado, a sofrer indizível martírio, 
em o palácio da ninfa Calipso, que à força o tem preso, 
sem que ele possa, por isso, voltar para a terra nativa. 
Faltam-lhe naves providas de remos, assim como sócios 
que pelo dorso do mar extensíssimo possam levá-lo. 
Ora o projeto concebem de o filho querido matar-lhe, 
quando de volta estiver, pois à Pilo sagrada e à divina

Lacedemônia viajou, porque novas do pai alcançasse.” 
   Zeus, que bulcões acumula, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Filha, por que tais palavras de encerro da boca soltaste? 
Não foste tu que, por própria deliberação, resolveste 
que se vingasse Odisseu deles todos, ao vir de tornada? 
Guia Telêmaco com teus conselhos — ser-te-á muito fácil 
para que incólume possa voltar outra vez para a pátria 
e os pretendentes retornem nas naus com os intuitos frustrados.” 
   Disse; e, para Hermes voltando-se, o filho querido, lhe fala: 
“Hermes — já estás habituado a servir-me nas minhas mensagens —

dize a Calipso, de tranças bem-feitas, nosso propósito 
irrevogável de à pátria o divino Odisseu voltar logo. 
Mas nenhum deus lhe fará companhia, ou qualquer dos humanos; 
sim, em bem-feita jangada, depois de trabalhos pesados, 
vá ter à Esquéria fecunda, ao raiar o vigésimo dia, 
terra dos nobres Feácios, parentes chegados dos deuses, 
que de mui boa vontade o honrarão qual se deus ele fosse, 
e o levarão de tornada em navio até a pátria querida, 
dando-lhe vestes em tanta abundância, bem como ouro e bronze, 
como jamais Odisseu obteria do saco de Troia,

caso tivesse tornada feliz com sua parte da presa, 
pois lhe reserva Destino rever os amigos, e a casa 
de alto telhado voltar, assim como ao torrão de nascença.” 
   O mensageiro brilhante, de pronto, ao mandato obedece. 
Calça, sem perda de tempo, nos pés as bonitas sandálias 
de ouro e divinas, que por sobre as águas, sem mais, o conduzem, 
como, também, pela terra infinita, qual sopro do vento; 
arma-se do caduceu com que os olhos dos homens encanta 
como lhe apraz, ou consegue fazer despertar os que dormem. 
Tendo-o seguro na mão, voa o forte e brilhante correio.

Paira por cima de Piéria, e desde o éter no oceano se atira, 
a deslizar pelo dorso das ondas, tal como gaivota 
quando nos seios terríveis do mar infecundo mergulha 
para pescar e umedece nas ondas as asas robustas. 
Hermes, por essa maneira, desliza por cima das ondas. 
   Mas, quando o ponto alcançou em que a ilha remota se achava, 
deixa o domínio das ondas escuras e à terra se atira, 
para que a gruta espaçosa atingisse onde a ninfa Calipso, 
de belas tranças, morava. Encontrou-a, de fato, lá dentro. 
Ardem no lar grandes chamas, que espalham ao longe, pela ilha,

de achas bem-feitas de cedro e de tuia o perfume agradável, 
quando queimadas. Com voz inefável, dentro, ela cantava, 
junto do tear passeando, em que tece com áurea naveta. 
Luxuriante floresta se estende por fora da gruta, 
com numerosos amieiros e choupos e odoros ciprestes, 
onde seus ninhos as aves constroem, de extensos remígios, 
como corujas, falcões e assim gralhas de língua comprida, 
dessas do mar, que se aprazem nas lides da pesca marinha. 
De crescimento admirável, a vinha os pimpolhos estende 
da gruta côncava em torno, a vergar com o peso dos cachos.

Água mui clara promana de quatro nascentes vizinhas, 
que juntas surdem, mas abrem caminhos por partes diversas. 
Prados macios em torno se viam, com aipo e violeta, 
cheios de viço. Até um deus imortal que ali viesse, por certo 
se admiraria com tal espetáculo, na alma folgando. 
Dessa maneira, admirado, ali esteve o brilhante correio. 
   Quando, porém, se saciou na visão do espetác’lo inefável, 
sem mais demora dirige-se à gruta espaçosa. Calipso, 
deusa entre as deusas, o identificou, quando o viu diante dela. 
Reconhecerem-se é fácil a todos os deuses do Olimpo,

mesmo que tenham construído as moradas em pontos distantes. 
Dentro da gruta não foi encontrar Odisseu de alma grande, 
que, como sempre, a chorar, se encontrava sentado na praia, 
a alma desfeita em suspiros sentidos, e prantos, e dores. 
Lágrimas, pois, a verter, contemplava o infecundo oceano. 
A Hermes, entanto, dirige a palavra a divina Calipso, 
ao convidá-lo a assentar-se num lúcido e esplêndido trono: 
   “Qual o motivo de aqui vires ter, deus do caduceu de ouro, 
que tanto estimo e venero? És estranho por estas paragens. 
Fala o que queres, que o peito me manda acatar-te o desejo,

se for, de fato, exequível e em mim estiver realizá-lo. 
Antes, porém, me acompanha, que dons hospitais te ofereça.” 
   Tendo isso dito, apresenta-lhe a deusa uma mesa pequena 
cheia de ambrósia, e mistura-lhe o néctar vermelho a contento. 
Come à vontade, e assim bebe, o correio, o divo Argeifontes. 
Tendo concluído o repasto e do peito os desejos saciado, 
vira-se, então, para a deusa e lhe diz as seguintes palavras: 
   “Deusa, perguntas a um deus a razão de sua vinda. Vou logo, 
por tal motivo, a verdade dizer-te, uma vez que o desejas. 
Vim até aqui contra minha vontade, por Zeus sou mandado;

pois quem, por gosto, atravessa tão grande extensão do mar salso 
e o infindo espaço? Não vemos por perto nenhuma cidade, 
onde hecatombes perfeitas os homens aos deuses ofertem. 
Mas é impossível, até para um deus, esquivar-se à vontade, 
ou procurar infringir os desígnios de Zeus poderoso. 
Diz ele achar-se nesta ilha o varão mais sofrido de quantos 
outros heróis na cidade de Troia indefesos lutaram 
por anos nove, e no décimo, alfim, conseguiram derruí-la. 
Mas, na viagem de volta, ofenderam a Palas Atena, 
que ondas furiosas contra eles soltou e, assim, ventos funestos.

Todos os seus companheiros valentes aí pereceram; 
só, ele aqui veio ter, pelas ondas e ventos jogado. 
Ora deseja que o mandes de volta o mais cedo possível. 
Não é dos Fados que morra distante dos que lhe são caros, 
pois lhe reserva o Destino rever os amigos, e a casa 
de alto telhado voltar, assim como ao torrão de nascença.” 
   Treme Calipso, preclara entre as deusas, ouvindo tal coisa; 
põe-se, em seguida, a falar, e lhe diz as palavras aladas: 
   “Duros sois todos os deuses e mais invejosos
que os homens, que vos zangais, quando, acaso, uma deusa se acolhe no leito

de homem mortal e resolve esposar quem na terra lhe agrade, 
tal como a Aurora, de dedos de rosa, que o Orião foi juntar-se. 
Todos ficastes zangados, ó deuses de vida tranquila! 
té que na Ortígia achegou-se-lhe a deusa do trono dourado, 
Ártemis, para privá-lo da vida com raios suaves. 
Do mesmo modo Deméter, de tranças bem-feitas, cedendo 
ao próprio impulso, se uniu a Jasão em amplexo amoroso, 
num campo arado três vezes. De tudo Zeus soube sem custo; 
priva-o da vida, atirando sobre ele o seu raio brilhante. 
Ora me tendes inveja por ter um mortal ao meu lado.

Foi ele salvo por mim, quando veio, sozinho, na quilha 
de seu navio veloz abraçado, que Zeus atingira 
longe, no mar cor de vinho, fendendo-o com o raio brilhante. 
Todos os seus companheiros valentes aí pereceram, 
só, ele aqui veio ter, pelas ondas e ventos jogado. 
Dei-lhe hospital agasalho e o provi de alimento; mais, ainda: 
fiz-lhe a promessa de eterno torná-lo e das cãs sempre livre. 
Mas, visto ser impossível a um deus esquivar-se à vontade, 
ou procurar infringir os desígnios de Zeus poderoso, 
que parta, então, visto Zeus o ordenar e incitar a fazê-lo,

por sobre o mar infecundo. Mas nada farei para o embarque; 
faltam-me naves providas de remos, assim como sócios 
que pelo dorso do mar extensíssimo possam levá-lo; 
sim, de bom grado, conselhos darei, sem velar coisa alguma, 
para que possa, sem nada sofrer, retornar para a pátria.”² 
   Disse-lhe, então, em resposta, o correio de aspecto brilhante: 
“Deixa-o partir e na cólera pensa do filho de Crono, 
para evitar que se zangue e te advenha, daí, sofrimento.” 
   Tendo isso dito, retira-se o poderoso Argeifontes. 
A nobre ninfa Calipso procura Odisseu de alma grande,

continua página 731...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b /                   
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.

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[1] Esta parte da Odisseia marca a transição decisiva entre o sofrimento solitário de Odisseu e sua reintegração ao mundo humano. Aqui, Homero reúne três núcleos narrativos:
O cativeiro de Odisseu na ilha de Calipso
O naufrágio e a chegada à terra dos Feácios
A acolhida na casa do rei Alcínoo, onde Odisseu finalmente narra suas aventuras.
     É o momento em que o herói deixa de ser apenas personagem das histórias dos outros (como na Telemaquia) e volta a ser protagonista de sua própria narrativa.
Canto V
- Odisseu está preso há sete anos na ilha de Ogígia, retido pela ninfa Calipso, que lhe oferece imortalidade se ele aceitar ficar com ela.
- Os deuses decidem que é hora de libertá-lo; Hermes leva a ordem a Calipso.
- O herói constrói uma balsa e parte, mas Posídon, ainda irado pelo episódio com Polifemo, provoca uma tempestade.
- Odisseu sobrevive por pouco e é lançado ao mar, agarrado a pedaços da embarcação.
[2] O discurso de Calipso no Canto V é um momento decisivo da narrativa, carregado de tensão emocional, crítica aos deuses e revelação de caráter da ninfa.
     O trecho ocorre quando Hermes transmite a ordem de Zeus: Calipso deve libertar Odisseu. A ninfa, contrariada, responde com esse discurso. É a primeira vez que ela expressa abertamente sua indignação diante da decisão dos deuses.
* Tema central: a hipocrisia divina - Calipso acusa os deuses — especialmente os masculinos — de serem invejosos e injustos. Ela denuncia um padrão: quando uma deusa se une a um mortal, os deuses se enfurecem. Exemplos citados por Calipso:
Aurora e Orião: Aurora amou o mortal, e os deuses enviaram Ártemis para matá-lo.
Deméter e Jasão: Deméter se uniu ao mortal, e Zeus o fulminou com um raio.
     Esses exemplos reforçam a ideia de que os deuses não toleram relações entre divindades femininas e homens mortais, revelando um duplo padrão:
- Zeus e outros deuses masculinos têm inúmeras amantes mortais.
- Mas quando uma deusa faz o mesmo, é punida ou impedida.
     Calipso expõe essa contradição com força retórica, revelando a dimensão política e moral do mundo olímpico.
* A posição de Calipso: amor, frustração e impotência. Calipso se apresenta como:
Protetora de Odisseu (“salvo por mim”).
Benfeitora (“dei-lhe agasalho e alimento”).
Amante dedicada (“prometi torná-lo eterno e livre das cãs”).
Mas também impotente diante da ordem de Zeus.
     Ela reconhece que nenhum deus pode contrariar Zeus, o que reforça a hierarquia rígida do Olimpo.
* A dor de Calipso
     Há uma camada emocional forte: Ela não apenas perde Odisseu — perde também a possibilidade de viver um amor que transcende a mortalidade. 
     Sua frustração é dupla:
Perde o amado.
É humilhada pelos deuses, que interferem em sua vida íntima.
A ambiguidade moral da personagem. Calipso não é vilã. Ela é uma figura complexa:
Ama Odisseu sinceramente, mas o mantém preso.
Oferece imortalidade, mas isso implicaria renunciar à humanidade do herói.
Reclama da injustiça, mas também age contra a vontade de Odisseu.
     Essa ambiguidade é essencial: Homero constrói uma personagem que é ao mesmo tempo divina, apaixonada, poderosa e vulnerável.
Conclusão interpretativa
     O discurso de Calipso é um dos momentos mais ricos da Odisseia. Ele revela:
- A hipocrisia dos deuses
- A força emocional da deusa
- A centralidade da mortalidade na identidade humana
- A determinação do destino sobre o desejo individual
- A complexidade das relações entre deuses e mortais
     Calipso emerge como uma figura trágica: ama um homem que não pode ter, e é obrigada a libertá-lo por uma ordem divina que ela não pode contestar.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

MPB: Vem pra cá

Papas na Língua


A canção foi lançada em 2004 pelo selo Orbeat Som e Imagem Ltda. e tornou-se uma das faixas mais conhecidas da banda, destacando-se pelo estilo pop-rock brasileiro e pela melodia envolvente. A letra fala sobre desejo, proximidade e a dificuldade de expressar sentimentos, com trechos como "Não ver você, não tem explicação, é caminhar pela escuridão, ficar a fim e não poder falar.


Não ver você, não tem explicação
É caminhar pela escuridão
Ficar afim e não poder falar
Querer o sim e não se acostumar
Com a solidão, o medo de amar
Estranho vazio no seu olhar
Eu tento achar em algum lugar
O amor que você deixou pra trás

Vem pra cá, vem pra cá
Vem pra cá, vem pra cá

Vem pra cá, vem pra cá
Vem pra cá, vem pra cá

Não ver você, não tem explicação
É caminhar pela escuridão
Ficar afim e não poder falar
Querer o sim e não se acostumar
Com a solidão, o medo de amar
Estranho vazio no seu olhar
Eu tento achar em algum lugar
O amor que você deixou pra trás

Vem pra cá, vem pra cá
Vem pra cá, vem pra cá

Vem pra cá, vem pra cá
Vem pra cá, vem pra cá


Papas da LínguaVem Pra Cá (Ao Vivo) | Turnê 30 Anos





um encontro simples, quase acidental, 
se transforma em algo marcante
a blusinha branca 
— algo pequeno, mas fica na memória 
a sensação de ver a pessoa, 
o encanto,  
muda suas emoções


Papas da Língua - Blusinha Branca




Papas da Língua - Pequeno Grande Amor





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Vem pra cá /             

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto V.d - Os feitos heroicos de Diomedes)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto V - Os feitos heroicos de Diomedes (Aristia de Diomedes)
 
“Atena convence Ares a abandonar a guerra aos homens, e, assim, os Gregos sobrepujam os Troianos. Diomedes, ferido por Pândaro, e protegido por Palas Atena, se sobressai ainda mais. Lutando com Pândaro e Eneias, mata o primeiro e quase mata o segundo, que é salvo por Afrodite. No entanto, Diomedes fere a própria Afrodite. Apolo cura Eneias e Ares volta ao combate, reanimando os Troianos. Os Gregos começam a perder e Hera e Atenas os ajudam. Diomedes, ajudado por Atena, fere o próprio Ares, que vai ao Olimpo reclamar com Zeus da ousadia de Diomedes.”

continuando... 

o grande filho de Príamo, Heitor, desejoso, somente, 
de repelir os Argivos e a muitos privar da existência. 
Os companheiros galhardos do divo Sarpédone, entanto, 
para debaixo da faia de Zeus poderoso o levaram, 
onde o fiel Pelagonte, dos sócios o mais acatado, 
a hasta comprida fraxínea, sem mais, arrancou-lhe da coxa. 
Perde os sentidos o herói; densas trevas aos olhos lhe baixam, 
mas logo volta a viver, que de Bóreas o sopro agradável 
pôde insuflar novo alento no espírito pronto a evolar-se. 
   Ainda que sob a pressão de Ares forte e de Heitor, os Argivos

nem procuravam fugir para o lado das naves escuras, 
nem conseguiam forçar o inimigo; mas cedem, recuando, 
por terem visto que ao lado dos Teucros lutava Ares forte. 
Qual o primeiro, qual o último, ali, da existência privaram 
Ares de bronze e o alto Heitor, o guerreiro nascido de Príamo? 
O domador de cavalos, Orestes, o divo Teutrante, 
Treco, lanceiro da Etólia, o magnânimo Enómao, Heleno, 
filho de Enópio e, por último, Orésbio, do cinto brilhante, 
que em Hile tinha o palácio pejado de grandes tesouros, 
junto do lago Cefísio, onde muitos vizinhos contava,

homens da Beócia, que pingues campinas, ali, cultivavam. 
   Hera, a magnânima deusa dos cândidos braços, notando 
como os Argivos, na pugna terrível, tombavam sem vida, 
súbito a Palas Atena dirige as palavras aladas: 
   “Palas Atena indomável, donzela de Zeus poderoso, 
não passará de promessa o que ao rei Menelau predissemos, 
de que faria o retorno depois de destruir Ílio forte, 
se consentirmos que, assim, Ares fero prossiga, furioso. 
Vamos, depressa, também, tomar parte na pugna terrível.” 
   A de olhos glaucos, Atena, aceitou-lhe o conselho, de pronto

Os corredores, ornados com belo frontal de ouro puro, 
foi Hera, logo, atrelar, que de Crono potente nascera 
Hebe, sem perda de tempo, adaptou no eixo férreo do carro 
as rodas curvas de bronze, nas quais oito raios se viam. 
As pinas, de ouro maciço eram feitas, e o círculo extremo 
era composto de bronze infrangível, espanto dos olhos; 
de prata pura, os dois cubos, que giram para ambos os lados; 
de tiras de ouro e de prata enlaçadas a caixa é formada, 
que protegida se achava por dois parapeitos; do carro 
sai o timão, feito todo de prata; na ponta do mesmo

os jugos de ouro afirmou, adaptando, por último, neles, 
os peitorais, também de ouro. Os velozes cavalos, por último. 
Hera conduz para o jugo, sequiosa de entrar em combate. 
   A de olhos glaucos, Atena, donzela de Zeus poderoso, 
deixa cair logo o peplo no soalho brilhante do Olimpo, 
obra de fino lavor, que ela própria tecera e enfeitara. 
Veste a loriga de Zeus atroante, que as nuvens cumula, 
e as demais armas empunha, adequadas às guerras lutuosas. 
A égide ornada de franjas, então, sobre os ombros coloca, 
coisa espantosa de ver, pelo frio Terror circundada,

pela Discórdia, a Violência e, também, pelo Assalto horroroso, 
bem como pela cabeça da Górgona, monstro terrível, 
horripilante espetác’lo, do Crônida Zeus maravilha. 
O elmo de dupla cimeira e de quatro saliências coloca, 
de ouro, que os homens de cem fortalezas cobrir poderia. 
Logo subiu para o carro brilhante, tomando da lança 
grande, pesada e robusta, com que derrotar costumava 
turmas de heróis, ao zangar-se a nascida do pai poderoso. 
   Hera os cavalos velozes com o látego, logo, estimula. 
Por próprio impulso, rangeram as portas do Céu, que se encontram

sob a custódia das Horas, que têm a incumbência, no Olimpo 
e no Céu vasto, de abrir ou fechar a cortina das nuvens. 
Estimulando os cavalos, depressa por elas passaram, 
indo a Zeus Crônida achar, que sentado sozinho se via, 
dos demais deuses à parte, no pico mais alto do Olimpo. 
Hera, de cândidos braços, detém, nesse ponto, os ginetes, 
e para o Crônida sumo se vira, dizendo o seguinte: 
   “Indignação não te causa, Zeus pai, ver como Ares se excede? 
Já destruiu muitos homens Acaios, dos mais afamados, 
sem conveniência nenhuma, ao acaso, o que muito me aflige.

A Cípria, entanto, se alegra e, assim, Febo, o deus do arco de prata, 
que a esse demente, das leis ignorante, a tal ponto excitaram. 
Provocarei, porventura, tua cólera, Zeus, retirando 
a Ares do meio da pugna e infligindo-lhe duro castigo?” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula: 
“Seja; mas é preferível que Palas atires contra ele, 
a predadora, que está acostumada a lhe dar tais castigos.” 
   Hera, de cândidos braços, de pronto aceitou-lhe o conselho; 
com chicotada os cavalos esperta, que partem, velozes, 
pelo caminho que fica entre a terra e o Céu vasto e estrelado.

Quanto consegue com a vista alcançar, no horizonte, indivíduo 
que, da alta penha, procure esguardar o amplo mar cor de vinho, 
tanto, de um salto, os cavalos das deusas, nitrindo, avançaram. 
Mas, quando o plaino de Troia alcançaram e o ponto em que as águas 
o Simoente e o Escamandro divino, confluentes, misturam, 
Hera, de cândidos braços, deteve os fogosos ginetes, 
desatrelou-os e espessa neblina em redor lhes atira. 
Pasto divino fez logo, para eles, brotar do Simoente. 
As duas deusas, então, como trépidas pombas, se foram, 
impacientes de auxílio levar aos guerreiros Argivos.

Mas, ao chegarem ao ponto em que turmas de heróis se apinhavam 
em torno da força do grande Diomedes, que doma cavalos, 
densos, num grupo, quais leões voradores de carne cruenta, 
ou javalis, cuja força não é para ser desprezada, 
Hera, de cândidos braços, parou, dando um grito terrível, 
sob a figura de Esténtor, o herói de voz brônzea, tão forte 
como o clamor que cinquenta mortais, em conjunto, elevassem: 
   “Ó geração de covardes de bela presença, que opróbrio! 
Enquanto Aquiles divino nos prélios convosco se achava, 
nunca os Troianos ousaram sair pelas Portas Dardânias,

pois medo tinham da lança terrível do herói valoroso. 
Ora se luta bem longe dos muros, ao lado das naves.” 
   Por esse modo excitava o furor e a coragem de todos. 
A de olhos glaucos, Atena, correu para o grande Diomedes. 
Junto do carro e dos belos cavalos achou o guerreiro 
que procurava acalmar a ferida causada por Pândaro. 
Muito o afligia o suor sob o peso do escudo redondo 
de bálteo largo; cansado o deixava e com o braço impotente. 
O bálteo afasta da chaga, abstergendo-a dos cruores escuros. 
Toca nos freios a deusa, e dirige a palavra ao guerreiro:

“Em nada o filho do grande Tideu se parece com ele. 
Era Tideu, em verdade, pequeno, mas forte e impetuoso. 
Lembra-me, sim, que o proibi, certa vez, de lutar e, até mesmo, 
de procurar distinguir-se, quando ele sem outros Aquivos 
a Tebas fora, qual núncio, onde achou numerosos Cadmeios. 
Quieto insisti que ficasse na sala dos lautos banquetes; 
ele, porém, que no peito abrigava o valor consueto, 
nos mais variados torneios venceu os nascidos de Cadmo 
sem grande esforço, que sempre o amparava por modo eficiente. 
Ora me encontro ao teu lado e procuro, zelosa, ajudar-te,

expressamente ordenando que contra os Troianos combatas. 
Mas o cansaço opressivo teus membros domina de todo, 
ou pelo frio temor inibido te encontras. Por isso, 
vejo que o filho não és do guerreiro de Eneu descendente.” 
   Disse-lhe o forte Diomedes, então, em resposta, o seguinte: 
“Eu te conheço, sem dúvida, filha de Zeus que sustenta 
a égide. Quero, por isso, falar-te sem mais subterfúgios. 
Nem indeciso me sinto, nem fraco por causa do medo; 
mas ainda tenho presente o que há pouco tu própria ordenaste, 
ao me proibires lutar contra os deuses eternos do Olimpo,

sem distinção; mas se a filha de Zeus poderoso, Afrodite, 
na pugna entrasse, podia feri-la com bronze afiado. 
Por essa causa, recuei, tendo a todos os outros Argivos 
aconselhado a que viessem reunir-se-me onde ora me encontro, 
pois vejo que Ares, também, toma parte na luta terrível.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Ó claro filho do grande Tideu, diletíssimo amigo, 
não tenhas medo nem de Ares, nem de outro qualquer dos eternos 
deuses do Olimpo, que sempre te assisto por modo eficiente. 
Vamos, dirige contra Ares os teus ardorosos ginetes,

e, bem de perto, o acomete, sem ter complacência nenhuma 
com esse louco furioso, inconstante, a maldade em pessoa, 
que prometeu a Hera augusta e a mim própria, não faz muito tempo, 
contra os Troianos lutar, protegendo os guerreiros Aquivos, 
e ora do lado daqueles se encontra, esquecido dos outros.” 
   Mal acabou de falar, para trás, com a mão, puxa a Esténelo 
para tirá-lo do carro; este, lestes, saltou para o solo. 
A deusa, entanto, ardorosa, subiu para o carro, postando-se 
a par do divo Diomedes. Com o peso da deusa terrível 
e de tão grande guerreiro, estalou o eixo forte de faia.

Toma das rédeas e empunha o chicote, sem perda de tempo, 
Palas, e os brutos de cascos possantes, contra Ares, dirige, 
que a Perifante membrudo, das armas, nessa hora, espoliava, 
o belo filho de Oquésio e o mais forte dos homens da Etólia. 
Ares sanguíneo o espoliava. Com o fim de tornar-se invisível 
ao deus terrível, Atena depressa cingiu o elmo de Hades. 
Quando o flagelo dos homens notou que o divino Diomedes 
vinha para ele, no mesmo lugar logo o corpo abandona 
de Perifante membrudo, que tinha, de pouco, matado, 
indo direto ao encontro do grã-cavaleiro Diomedes.

Logo que os dois combatentes em frente se acharam um do outro, 
Ares, primeiro, inclinado por cima do jugo e das rédeas, 
a lança brônzea jogou, desejando da vida privá-lo. 
Palas Atena, porém, de olhos glaucos, com a mão a desvia, 
de forma que ela, frustrânea, passou por debaixo do carro. 
Foi o segundo a atirar a sua lança de bronze o guerreiro 
de voz possante, Diomedes, a qual, por Atena guiada, 
no baixo-ventre foi dar de Ares forte, onde o cinto o apertava. 
Nesse lugar o feriu, tendo a pele macia rasgado, 
Palas, de novo, a arma extrai; Ares brônzeo soltou tão grande urro

como o alarido que soem fazer nove ou dez mil guerreiros, 
de uma só vez, quando se acham travados em dura batalha. 
Amedrontados, tremeram os homens Aquivos e Teucros, 
tão formidável o grito do deus insaciável da guerra. 
Tal como fica todo o ar, recoberto por nuvens escuras, 
quando o excessivo calor faz soprar algum vento impetuoso: 
tal ao Tidida Diomedes o vulto do deus Ares brônzeo 
apareceu, ao subir para o céu, pelas nuvens envolto. 
   Rapidamente à morada dos deuses chegou, no alto Olimpo, 
indo sentar-se, de par com Zeus grande, agastado no espírito,

a quem o sangue imortal, que manava da chaga, revela. 
Rompe, depois, em queixumes, dizendo as palavras aladas: 
   “Indignação não te causa, Zeus pai, assistir tanto abuso? 
Por comprazer os mortais, nós, os eternos, estamos sujeitos 
a indescritíveis tormentos, que a mútua discórdia nos causa. 
De tudo a culpa tens tu, pois geraste uma filha funesta 
e destituída de senso, a quem ímpias ações só comprazem. 
Todos os deuses eternos, que moram no Olimpo vastíssimo, 
te obedecemos, de grado, e acatamos, submissos, tuas ordens. 
A ela, somente, nenhuma censura ou castigo incomoda,

se é que não serves de estímulo à peste por ti concebida. 
Neste momento acabou de excitar contra os deuses eternos 
a esse insensato, Diomedes, que vem de Tideu valoroso. 
Primeiramente, achegando-se à Cípria, feriu-a no carpo; 
logo depois contra mim se atirou, qual se fosse um demônio. 
Se não me houvessem livrado meus rápidos pés, certamente 
por muito tempo ficaria a sofrer entre as rimas de mortos, 
ou, vivo embora, sem ânimo, aos golpes da lança de bronze.” 
   Com torvo aspecto lhe disse Zeus grande, que as nuvens cumula: 
“Cessa, leviano; não venhas, de novo, com tuas lamúrias.

És, entre todos os deuses, aquele a quem mais ódio tenho. 
Sempre encontraste prazer em combates, contendas e lutas. 
De tua mãe, por sem dúvida, o gênio indomável herdaste 
e insuportável, que a minhas palavras a custo obedece. 
De seus conselhos, presumo, teus males origem tiveram. 
Mas, ainda assim, não desejo que sofras por tempo mais longo; 
és de meu sangue também; tua mãe te gerou de mim próprio. 
Se, tal como és, tão nefasto, tivesses por pais outros deuses, 
há muito, sim, te encontrarias mais baixo que os filhos de Urano.” 
   Manda que Péone, então, sem demora, ali mesmo, o curasse.

Péone, logo, deitou sobre a chaga eficaz lenitivo, 
que o fez sarar, pois, de fato, não era de estirpe terrena. 
Como o queijeiro, que o leite, antes líquido, faz que coagule 
em pouco tempo, agitando-o, depois de lançar nele o coágulo, 
Ares violento, desta arte, depressa curado encontrou-se. 
Hebe, depois, lhe deu banho, envolvendo-o em magníficas vestes. 
Junto do Crônida Zeus foi sentar-se, radiante de glória. 
   Para a morada de Zeus poderoso, também, retornaram 
Hera, que em Argos cultuam, e Atena, a auxiliar poderosa, 
pós terem feito que a sanha homicida do deus se acalmasse.¹ 

continua página 180...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d /                     
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Chegamos a um dos trechos mais intensos e reveladores do Canto V da Ilíada — o momento em que Zeus repreende Ares depois de o deus da guerra ter sido ferido por Diomedes. É uma cena que expõe a psicologia dos deuses, suas tensões internas, suas hierarquias e até suas fragilidades. 
* Zeus humilha Ares — e isso é central nos cantos homéricos
     Zeus começa com um ataque direto: “És, entre todos os deuses, aquele a quem mais ódio tenho.”
     Isso é extraordinário. O rei dos deuses admite desprezar o próprio filho. E por quê?
- Ares representa violência irracional,
- guerra sem propósito,
- destruição pela destruição.
     Zeus, apesar de ser o deus do trovão e do poder, não é um deus da violência gratuita. Ele é ordem, soberania, destino. Ares é caos. Por isso Zeus o chama de leviano, alguém que vive reclamando, alguém que não aceita limites.
* Ares é filho de Zeus — mas carrega o temperamento de Hera
     Zeus diz: “De tua mãe herdaste o gênio indomável e insuportável.”
     Aqui há uma ironia cruel: 
- Ares é filho de Zeus, mas Zeus atribui sua natureza violenta à mãe, Hera.
- Hera é a deusa da fúria, do rancor, da vingança — especialmente contra Zeus e suas amantes.
- Ares, portanto, é visto como produto da ira de Hera, não da ordem de Zeus.
     Zeus praticamente diz: “Você é meu filho, mas não é como eu. Você é como ela.”
     Isso reforça a ideia de que os deuses não são perfeitos nem harmoniosos — são uma família disfuncional com poderes cósmicos.
* Ares é curado rapidamente — porque não é mortal
     A cura de Ares é descrita com uma imagem doméstica: “Como o queijeiro que faz o leite coagular…”
     Essa comparação é brilhante:
- A guerra é brutal, mas a cura divina é simples, quase cotidiana.
- Ares, que representa o horror da batalha, é tratado como algo fácil de consertar.
- Isso reforça a diferença entre dor divina e dor humana.
     Para os deuses, ferimentos são inconvenientes. Para os mortais, são destino.
Ares volta ao lado de Zeus — “radiante de glória”
     Isso é irônico. Ares volta ao trono de Zeus não como herói, mas como alguém que foi:
- ferido,
- humilhado,
- repreendido,
- curado,
- e reintegrado
     A glória aqui não é mérito — é status divino. Ares é glorioso porque é imortal, não porque é admirável.
Hera e Atena retornam — depois de acalmar a fúria de Ares
     Esse detalhe é fundamental:
- Hera e Atena são inimigas de Ares.
- Atena é a deusa da guerra estratégica, racional — o oposto de Ares.
- Hera odeia Ares por ele ser reflexo da violência masculina que ela despreza.
     Mas aqui, ambas retornam ao Olimpo vitoriosas, porque:
- Diomedes feriu Ares com ajuda de Atena,
- Ares foi humilhado por Zeus,
- a fúria do deus da guerra foi contida.
     É como se a ordem olímpica tivesse sido restaurada.
O significado profundo desse episódio
     Este trecho revela três grandes temas da Ilíada:
Os deuses são poderosos, mas não são sábios: eles sentem dor, ciúme, raiva, orgulho. São eternos, mas infantis.
A guerra é uma força divina — mas também é um problema divino: Ares não é admirado. Ele é tolerado.
A glória humana depende dos deuses — mas também os desafia: Diomedes feriu um deus. Isso é um ato de audácia que redefine o limite entre humano e divino.


Ilíada, de Homero - Canto V



Ilíada: Homero (Canto V.c - Os feitos heroicos de Diomedes)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto V - Os feitos heroicos de Diomedes (Aristia de Diomedes)
 
“Atena convence Ares a abandonar a guerra aos homens, e, assim, os Gregos sobrepujam os Troianos. Diomedes, ferido por Pândaro, e protegido por Palas Atena, se sobressai ainda mais. Lutando com Pândaro e Eneias, mata o primeiro e quase mata o segundo, que é salvo por Afrodite. No entanto, Diomedes fere a própria Afrodite. Apolo cura Eneias e Ares volta ao combate, reanimando os Troianos. Os Gregos começam a perder e Hera e Atenas os ajudam. Diomedes, ajudado por Atena, fere o próprio Ares, que vai ao Olimpo reclamar com Zeus da ousadia de Diomedes.”

continuando... 

No alto de Pérgamo após ter falado foi ele assentar-se. 
Ares as filas Troianas penetra, visando a excitá-las, 
sob a figura do chefe dos Trácios, o forte Acamante. 
Os nobres filhos de Príamo, alunos de Zeus, ele incita: 
   “Filhos de Príamo, alunos de Zeus, até quando, dizei-me, 
consentireis que os Aqueus a matar nossa gente prossigam? 
Esperareis que a batalha até as sólidas portas se estenda? 
Já vulnerado se encontra o guerreiro que a Heitor, em apreço 
equiparávamos, filho de Anquises magnânimo, Eneias. 
Vamos, salvemos do prélio terrível o fiel companheiro.”

Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos. 
Vira-se, então, para Heitor, censurando-o acremente, Sarpédone: 
   “Para onde foi, divo Heitor, a coragem que sempre mostraste? 
Não afirmavas que té sem aliados, sem povo, podias, 
só com os cunhados e irmãos, defender a cidade altanada? 
Ora, em que muito me esforce, nenhum deles vejo ou percebo. 
Trêmulos todos estão, como em frente do leão cachorrinhos. 
Nós combatemos, conquanto sejamos apenas aliados. 
Enquanto a mim, como aliado de terra distante sou vindo, 
sim, das longínquas paragens da Lícia, no Xanto revolto,

onde deixei a dileta consorte, o filhinho inocente 
e bens inúmeros, causa de inveja de quem não tem nada. 
Mas, ainda assim, estimulo os meus Lícios, ardendo em desejos 
de me enfrentar com o inimigo, apesar de não ter coisa alguma 
que pelos homens Aqueus possa ser conduzido ou levado. 
Ficas, no entanto, inativo; sequer estimulas os outros 
a resistência of’recer, defendendo as esposas e os filhos. 
Tende cuidado! Bem cedo nas malhas de rede finíssima 
presa vireis a ficar e rapina de vossos imigos. 
Hão de tomar, dentro em pouco, a cidade altanada, que é vossa.

A ti compete pensar em tudo isso, de noite e de dia, 
e concitar os guerreiros aliados, de fama excelente, 
para que firmes resistam, deixando de lado as censuras.” 
   Essas palavras do Lício a alma nobre de Heitor mordiscaram. 
Rapidamente, do carro pulou, sem que as armas soltasse, 
e, duas lanças brandindo, correu as fileiras do exército, 
a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura. 
Mais uma vez os Troianos aos homens Aquivos enfrentam; 
estes, compactos, resistem, sem dar mostra alguma de medo. 
Como, pela eira sagrada, em remoinhos a palha se eleva,

quando os campônios padejam, no tempo em que a loura Deméter 
ao sopro forte do vento separa do grão toda a palha, 
que se amontoa, alvejando o terreiro: desta arte os Aquivos 
brancos ficaram por causa do pó que de sob as fileiras 
se levanta até a abóbada brônzea, ao pisar dos cavalos, 
pois os aurigas, de novo, os faziam voltar para a pugna. 
Travam-se todos os homens; a fim de ajudar aos Troianos, 
Ares, o forte, envolveu a batalha nas trevas da Noite, 
a toda parte acudindo, cuidoso de dar cumprimento 
à ordem de Febo, da espada dourada, que o tinha incitado

a estimular os Troianos, depois que dali se afastara 
Palas Atena, que auxílio levara aos guerreiros Acaios. 
Febo, entrementes, a Eneias do tempo suntuoso impelia, 
força espertando no peito do herói e incontida coragem. 
Aos companheiros Eneias correu a reunir-se, que mostras 
deram de muita alegria ao revê-lo, com vida e refeito, 
sobre-esforçado; contudo ninguém lhe dirige perguntas, 
pois o impedia o trabalho espertado pelo alto frecheiro. 
Ares, o grande homicida, e a Discórdia que nunca se aplaca. 
   Os dois Ajazes, Diomedes, e o forte Odisseu os Aquivos

estimulavam, conquanto nenhum se mostrasse receoso 
do ímpeto grande dos Teucros, nem mesmo dos gritos que davam. 
Firmes, quedaram-se à espera, qual nuvem que Zeus deixa imóvel, 
por ocasião de bonança, nos picos mais altos dos montes, 
sem se mexer, quando Bóreas ao sono se entrega e os restantes 
ventos de força impetuosa que soem fazer dissiparem-se, 
quando sibilam violentos, as nuvens de aspecto sombrio: 
firmes, os Dânaos, desta arte, sem medo aos Troianos aguardam. 
Por entre as filas o Atrida corria, dando ordens diversas: 
   “Sede homens, caros amigos, e ardor demonstrai combativo!

Possa o respeito recíproco a todos na pugna dar ânimo. 
São mais poupados na guerra os que sabem morrer briosamente, 
ao passo que os fugitivos nem glória obterão, nem defesa.” 
   Disse, e atirou logo a lança, que foi atingir na vanguarda 
a Diecoonte, o consórcio de Eneias de espírito grande, 
filho de Pérgaso, a quem como aos filhos de Príamo os Teucros 
honras prestavam, por ser impetuoso e pugnar na dianteira. 
A este no escudo acertou a hasta forte do Atrida Agamémnone. 
Não resistiu nada o escudo, que a lança de bronze o atravessa, 
indo cravar-se no ventre, depois de o talim ter quebrado.

Com grande estrondo caiu, ressoando-lhe em torno a armadura. 
   Por sua vez mata Eneias dois fortes guerreiros Argivos, 
os caros filhos de Diocles, Orsíloco e Crétone. Casa 
na bem-construída cidade de Feras os pais tinha pronta, 
opulentíssima. Era ele da estirpe do Alfeio divino, 
o grande rio que corre através do terreno dos Pílios. 
Rei poderoso era Orsíloco, oriundo do Alfeio divino; 
por sua vez gera Orsíloco a Diocles, de espírito grande: 
Diocles, por último, foi genitor dos dois gêmeos galhardos, 
Crétone e Orsíloco, em todas as artes da guerra sabidos.

Ambos, no viço da idade, aos Argivos seguiram, quando estes 
em naus escuras vieram para Ílio, nutriz de ginetes, 
a fim de a injúria vingar, feita aos filhos de Atreu, Agamémnone 
e Menelau. A ambos eles a Morte impiedosa recobre. 
Como dois fortes leões pela mãe, com desvelos, criados 
no mais espesso das matas que os picos dos montes revestem, 
que bois costumam, depois, assaltar, e vistosas ovelhas, 
e as propriedades dos homens devastam, té virem a Morte, 
por sua vez, a encontrar pela mão de robustos pastores: 
do mesmo modo eles dois, pelo braço de Eneias feridos,

sobre o chão duro caíram, tal como dois grandes abetos. 
   Vendo-os tombar, teve dó Menelau, de Ares forte discípulo. 
Corta através das primeiras fileiras, em bronze envolvido, 
a lança forte a brandir. Incitava-o, por esse caminho, 
Ares, a fim de que fosse cair aos ataques de Eneias. 
Mas por Antíloco foi percebido, o Nestórida ilustre; 
corre para ele, receando que viesse a sofrer qualquer coisa, 
frustres deixando a eles todos os prêmios dos grandes trabalhos. 
Já frente a frente os dois cabos de guerra se achavam, com as lanças 
alevantadas, querendo dar ambos início ao combate.

Chega-se Antíloco para onde estava o pastor de homens fortes; 
retrocedeu, logo. Eneias, conquanto guerreiro animoso, 
quando viu juntos, dispostos contra ele, os dois fortes guerreiros. 
Estes então, para os homens Aquivos os corpos levaram 
desventurados, deixando-os a cargo de seus companheiros, 
e retornaram, sem mora, a lutar nas fileiras da frente. 
Matam Pilémenes, logo, notável discípulo de Ares, 
cabo viril dos heróis Paflagônios, armados de escudos. 
A esse, que estava de pé, com a lança bem junto à clavícula 
fere o nascido de Atreu, Menelau, mui famoso lanceiro.

Por sua vez, fere Antíloco ao claro cocheiro Midonte, 
filho de Antímnio valente, quando ele desviara os cavalos. 
Do cotovelo no meio o alcançou grande pedra, escapando-se-lhe 
das mãos as rédeas de enfeites ebúrneos, que tombam na poeira. 
Salta, ferindo-o na fonte, com a espada, o notável Nestórida. 
Estertorando, o guerreiro, do carro de bela feitura 
cai de cabeça, na poeira, onde o crânio, até os ombros, enterra. 
Por algum tempo ficou desse jeito — que a areia era muita —, 
té que os cavalos ao solo o fizeram rolar, quando Antíloco 
os chicoteou para ao campo levá-los dos homens Acaios.

Viu-os Heitor entre as filas dos seus, e sobre eles lançou-se 
com grandes gritos, seguido por muitas falanges Troianas, 
irresistíveis; Enió e Ares forte serviam de guia. 
Leva a primeira, consigo, o Tormento feroz da batalha; 
Ares avança, também, manejando uma lança monstruosa, 
ora passando na frente de Heitor, ora vindo após ele. 
Vendo-o, Diomedes, de voz retumbante, ficou receoso. 
Como o viandante, de meios privado, em planície extensíssima, 
para ante o curso impetuoso de um rio que ao mar se despenha, 
vendo-o espumoso a ressoar, e desanda, sem mais, o caminho:

por este modo o Tidida recuou, dirigindo-se aos sócios: 
   “Caros amigos, realmente, espantado me sinto ante o modo 
de o grande Heitor manejar a hasta longa e avançar impetuoso. 
Sempre ao seu lado se encontra algum deus, que dos golpes o livra. 
Ares agora, que o vulto assumiu de um mortal, o defende. 
Por isso tudo recuemos, sem dar aos Troianos as costas; 
não é prudente querer contra os deuses usar de violência.” 
   Os picadores Troianos já próximos deles se achavam. 
Nesse momento Heitor mata a dois fortes e excelsos guerreiros, 
que num só carro se achavam, Menestes e Anquíalo bravos.¹

O grande Ajaz Telamônio da sorte dos dois apiedou-se; 
junto dos corpos se pôs e atirou contra os Troas a lança, 
que em Anfião foi cravar-se, de Sélago o filho, que tinha 
casa e terrenos em Peso; porém induzido ele fora 
pelo Destino a socorro trazer para Príamo e os filhos. 
O grande Ajaz Telamônio o atingiu bem na altura do cinto, 
indo encravar-se no ventre a hasta longa de sombra comprida. 
Com grande estrondo caiu; salta Ajaz, o guerreiro notável, 
para privá-lo das armas; os Teucros, porém, lhe atiraram 
dardos em número grande que, em parte, no escudo se encravam.

A lança o herói conseguiu arrancar do cadáver, firmando-o 
com o calcanhar; mas não pôde dos ombros tirar-lhe a armadura 
de alto lavor, que se via alvejada por tiros sem conta. 
Teve, de fato, receio do ataque dos Teucros valentes, 
que, numerosos e fortes, armados de lança, o cercaram 
e a recuar o obrigaram, conquanto galhardo ele fosse 
e de grandíssimo vulto; fremindo de raiva, recua. 
   Por esse modo, eles todos, no prélio terrível lutavam. 
Leva o Destino potente a lutar contra o divo Sarpédone, 
o destemido Tlepólemo, de Héracles forte nascido.

Logo que os dois combatentes em frente se acharam um do outro, 
filho e o neto de Zeus poderoso, que as nuvens cumula, 
pôs-se Tlepólemo, logo, a falar, tendo dito o seguinte: 
   “Chefe dos Lícios guerreiros, Sarpédone, quem te concita 
a vir mostrar-te medroso, se nada de guerra conheces? 
Não falam certo os que dizem que és filho de Zeus poderoso, 
pois não revelas virtudes que tua pessoa equiparem 
aos varões fortes nascidos de Zeus nas idades passadas. 
Bem diferente, por certo, é o que de Héracles forte se conta, 
meu audacíssimo pai, de coragem leonina dotado,

que já aqui esteve, uma vez, por motivo dos fortes cavalos 
de Laomedonte, em seis naves somente e com bem pouca gente, 
quando destruiu a cidade, deixando as estradas desertas. 
Alma covarde te anima; teu povo tem sido destruído. 
Tenho certeza de que pouco auxílio trouxeste da Lícia 
para os guerreiros Troianos, embora valor estardeies. 
Ora, por mim jugulado, o limiar do Hades negro atravessas.” 
   O comandante dos Lícios, Sarpédone, disse, em resposta: 
“Ílio sagrada, Tlepólemo, foi destruída por Héracles 
em consequência da própria estultícia do herói Laomedonte,

que benefícios daquele pagou com palavras violentas, 
com recusar-lhe os cavalos que viera buscar de tão longe. 
Digo-te, entanto, que a lívida Morte hás de, agora, de minha 
mão receber; minha espada, prostrando-te, vai dar-me excelsa 
fama, mandando tua alma para Hades, de claros ginetes.” 
   Ainda falava Sarpédone, e a lança de freixo Tlepólemo 
já levantara; a um só tempo eles ambos as lanças jogaram. 
A de Sarpédone o imigo atingiu bem no meio do colo, 
de forma tal, que a hasta acerba foi logo sair do outro lado. 
Noite escuríssima, então, sobre os olhos lhe desce, envolvendo-os.

Na coxa esquerda, no entanto, também foi ferido Sarpédone 
pela hasta longa, que as carnes, sequiosa, do herói atravessa, 
té raspar o osso. Seu pai, dessa vez, o salvou do perigo. 
Os companheiros galhardos do divo Sarpédone, entanto, 
o retiraram da pugna. Afligia-o, demais, a hasta longa 
que era forçado a arrastar, pois ninguém se lembrou de, lá mesmo, 
da coxa o freixo arrancar-lhe, que fácil lhe fosse mover-se, 
tanta era a azáfama e a pressa ao redor do esforçado guerreiro. 
Por outro lado, os Aquivos do campo o cadáver tiraram 
do companheiro; esse foi pelo divo Odisseu conhecido,

o sofredor, que sentiu na alma grande incontida revolta. 
No coração e no espírito pôs-se a pensar o guerreiro 
sobre se fora melhor ir no encalço do filho de Zeus 
de voz tonante, ou se a muitos dos Lícios prostrasse sem vida. 
Mas o Destino assentara que o filho de Zeus poderoso 
não pelo bronze do grande Odisseu perecer deveria. 
Palas Atena, por isso, o desviou para a chusma dos Lícios, 
onde sem vida a Cerano deixou, ressupino, no campo, 
Crômio, Hálio, Alcandro, Noémone, Alástor e Prítanis forte. 
E, porventura, a outros Lícios o divo Odisseu prostraria,

se por Heitor, de penacho ondulante, notado não fosse. 
Corta através das primeiras fileiras, em bronze envolvido; 
aos Dânaos leva o terror; alegrou-se, no entanto, Sarpédone, 
filho de Zeus, à sua vista, e lhe fala com voz lamentosa: 
   “Filho de Príamo, faze que eu presa não seja dos Dânaos, 
abandonado; socorre-me! Possa colher-me, após isso, 
em vossos muros, a Morte, uma vez que o Destino me nega 
ver novamente, na pátria querida, meu rico palácio, 
e à cara esposa e aos filhinhos levar novamente alegria.” 
   Sem se deter, nada disse em resposta a essas suas palavras 

continua página 171...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d /                     
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Esse é um momento decisivo da aristeia de Diomedes, ainda no Canto V da Ilíada, quando o herói, que vinha agindo com fúria quase sobre-humana, de repente freia ao perceber que Heitor não está sozinho—há um deus ao lado dele, Ares, disfarçado de mortal. É sobre medo lúcido, não covardia; sobre o limite entre a coragem humana e a presença do divino.
     A comparação com o viajante diante do rio: “Como o viandante, de meios privado, em planície extensíssima, para ante o curso impetuoso de um rio que ao mar se despenha, vendo-o espumoso a ressoar, e desanda, sem mais, o caminho...” 
Imagem central: um viajante pobre, sem recursos, diante de um rio enorme, impetuoso, espumoso, barulhento.
Sentido: ele não atravessa; não porque seja fraco, mas porque reconhece o limite.
Aplicação a Diomedes: o herói percebe que, naquele ponto, a força que enfrenta não é apenas humana—é algo que o ultrapassa.
     Homero usa essa comparação para mostrar que recuar pode ser um ato de sabedoria, não de fraqueza.
     Diomedes reconhece o papel dos deuses: “Sempre ao seu lado se encontra algum deus, que dos golpes o livra. Ares agora, que o vulto assumiu de um mortal, o defende.”
     Aqui Diomedes faz três coisas importantes:
Reconhece a excelência de Heitor: “o grande Heitor manejar a hasta longa e avançar impetuoso”.
Percebe a intervenção divina: Heitor não é só bom guerreiro; ele é amparado por deuses.
Nomeia Ares: ele identifica que é o próprio deus da guerra, disfarçado, protegendo Heitor.
     Isso mostra que Diomedes não é apenas um bruto em fúria—ele é capaz de ler o campo de batalha, perceber o invisível, entender que há uma camada divina atuando.
     A prudência diante dos deuses: “Por isso tudo recuemos, sem dar aos Troianos as costas; não é prudente querer contra os deuses usar de violência.”
     Esse verso é chave:
“Recuemos, sem dar as costas”: não é fuga desonrosa; é reorganização, mantendo a frente voltada ao inimigo.
“não é prudente...”: Diomedes introduz a ideia de prudência no código heroico; há um limite ético e cósmico: não se luta contra deuses como se fossem homens.
     Isso dialoga com o que Apolo já havia dito antes: que é absurdo um mortal se achar igual aos deuses.
     Diomedes, então, internaliza essa advertência: ele continua herói, mas não quer ser sacrílego.
     Heitor em contraste: impulso e apoio divino: Nesse momento Heitor mata a dois fortes e excelsos guerreiros...” 
     Enquanto Diomedes recua com lucidez, Heitor avança com fúria, matando Menestes e Anquíalo:
Heitor é o espelho troiano de Diomedes: ambos são grandes guerreiros, mas aqui Heitor está inflado por Ares.
A cena mostra o peso da intervenção divina: quando um deus está ao lado de um guerreiro, o equilíbrio da batalha se rompe.
     Temas profundos desse trecho:
Limite entre humano e divino - Diomedes entende que há um ponto em que a coragem se torna arrogância. O herói verdadeiro não é aquele que ignora os deuses, mas aquele que sabe até onde pode ir.
Coragem vs. imprudência - Recuar aqui não é covardia, é inteligência trágica: ele sabe que desafiar Ares diretamente seria violar a ordem do mundo.
A guerra como espaço de forças invisíveis - Homero mostra que a batalha não é só choque de lanças e escudos; é também campo de atuação dos deuses, que inclinam o destino de um lado ou de outro.
A tensão entre honra e sobrevivência - Diomedes quer manter a honra (“sem dar as costas”), mas também quer preservar a vida dos seus companheiros. Ele pensa como líder, não só como indivíduo em busca de glória.

Ilíada: Homero (Canto V.b - Os feitos heroicos de Diomedes)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto V - Os feitos heroicos de Diomedes (Aristia de Diomedes)
 
“Atena convence Ares a abandonar a guerra aos homens, e, assim, os Gregos sobrepujam os Troianos. Diomedes, ferido por Pândaro, e protegido por Palas Atena, se sobressai ainda mais. Lutando com Pândaro e Eneias, mata o primeiro e quase mata o segundo, que é salvo por Afrodite. No entanto, Diomedes fere a própria Afrodite. Apolo cura Eneias e Ares volta ao combate, reanimando os Troianos. Os Gregos começam a perder e Hera e Atenas os ajudam. Diomedes, ajudado por Atena, fere o próprio Ares, que vai ao Olimpo reclamar com Zeus da ousadia de Diomedes.”

continuando... 

“É preferível, Eneias, que as rédeas dirijas e os brutos, 
que, sob o auriga habitual, puxarão mais velozes o carro 
curvo, no caso de ser necessário fugir de Diomedes. 
Temo que possam a voz estranhar e, sentindo tua falta, 
não nos retirem, com tempo, da luta, tomados de espanto. 
Fora, então, fácil saltar contra nós o Tidida magnânimo 
e nos privar da existência, ficando com os dois corredores. 
Guia tu próprio os cavalos e o carro recurvo; pertencem-te. 
Com minha lança aguçada hei de o embate iminente amparar-lhe.” 
   Sobem, depois de falar, para o carro variado, e os cavalos   

guiam, sequiosos de a pugna encetar contra o grande Tidida. 
Viu-os Esténelo, o filho do herói Capaneu preclaríssimo; 
para Diomedes virando-se, diz-lhe as palavras aladas: 
   “Ó claro filho do grande Tideu, diletíssimo amigo, 
dois inimigos percebo, que vêm contra ti, denodados, 
ambos de força infinita: um, frecheiro de fama inconcussa, 
Pândaro, que se gloria de ser filho do heroico Licáone; 
o outro é o notável Eneias, que tem grande orgulho em chamar-se 
filho de Anquises guerreiro e da deusa imortal Afrodite. 
Sobe, também, para o carro; fujamos; se, a pé, continuas

a na vanguarda te expor, é certeza perderes a vida.” 
   Com torvo olhar lhe responde Diomedes, o forte guerreiro: 
“Fuga? Presumes que possa deixar-me suadir porventura? 
Não se coaduna com minha coragem fugir do inimigo, 
ou trepidar; o consueto vigor ainda tenho no peito. 
Peja-me de ter de subir para o carro; tão só, como me acho, 
hei de enfrentá-los, que Palas Atena tremer não me deixa. 
Dificilmente a eles dois poderão conduzir para longe 
os corredores velozes, embora escapar um consiga. 
Ora uma coisa te vou revelar, guarda-a bem no imo peito:

caso a imortal de prudentes conselhos, Atena, essa glória 
me conceder, de tirar-lhes a vida, detém aqui mesmo 
os corredores, e prende, puxando-as, as rédeas no carro. 
Que não te esqueça, depois, aos cavalos de Eneias lançar-te 
e para o campo dos fortes Acaios grevados tocá-los, 
que eles provêm dos cavalos que Zeus deu a Trós como paga 
de Ganimedes, seu filho, os melhores, sem dúvida alguma, 
de quantos já contemplaram os raios do Sol ou da Aurora. 
Sem Laomedonte saber, pôde Anquises, senhor de guerreiros, 
a raça deles roubar, conseguindo que os mesmos cobrissem

seis éguas suas, que número igual lhe pariram de potros. 
Desses, nos próprios estábulos, quatro criou com carinho; 
os outros dois deu a Eneias; semeiam terror nas batalhas. 
Grande será nossa glória se, acaso, pudermos tomá-los.” 
   Dessa maneira, em colóquio, eles dois tais conceitos trocavam. 
Eis que os velozes corcéis para perto os imigos trouxeram. 
Foi o primeiro a falar o nascido do heroico Licáone: 
   “Filho prudente do forte Tideu, corajoso guerreiro, 
já que meu dardo amargoso não pôde, de fato, prostrar-te, 
exp’rimentemos a lança; vejamos se posso atingir-te.”

Tendo isso dito, atirou-lhe a sua lança de sombra comprida. 
Esta, no escudo bateu do Tidida, de forma que a ponta 
brônzea passou-lhe a defesa e na coura, afinal, encravou-se. 
O claro filho do heroico Licáone exclama com júbilo: 
   “Foste ferido na ilharga! Não hás de of’recer resistência 
por muito tempo; este feito vai dar glória imensa ao meu nome.” 
   Sem mostrar medo, lhe disse, em resposta, o robusto Diomedes: 
“Não me feriste; ainda erraste. Mas não cessareis, vejo-o agora, 
de importunar, antes de um, pelo menos, cair no chão duro, 
para, com o sangue, a Ares forte saciar, o guerreiro potente.”

A lança atira-lhe, então, que, por Palas Atena guiada, 
foi atingir-lhe o nariz, junto aos olhos, quebrando-lhe os dentes. 
A língua, o duro farpão, na raiz também corta, indo a ponta 
aparecer, novamente, na parte inferior da mandíbula. 
Tomba do carro, de bruços, ressoando-lhe em torno a armadura 
cheia de brilho e vistosa; assustados, os dois corredores 
saltam de lado; a alma e a força abandonam-lhe o corpo, ali mesmo. 
   Para evitar que os Aquivos as armas do morto pilhassem, 
com lança e escudo saltou, logo, Eneias do carro bem-feito, 
e, como leão que na força confia, ao redor do cadáver

pôs-se a girar, protegendo-o com a lança e o broquel bem redondo, 
com grandes gritos de morte ameaçando os imigos que ousavam 
aproximar-se do corpo. O Tidida, no entanto, uma pedra 
nas mãos tomou — grande empresa que dois dos guerreiros de agora 
mal abalar poderiam; sozinho a atirou, facilmente, 
indo atingir o guerreiro, nascido de Anquises, no ponto 
justo — de nome acetáb’lo — em que o fêmur se encaixa na pelve, 
que estraçalhado ficou juntamente com os dois tendões fortes. 
A áspera pedra a epiderme rasgou; cai o herói de joelhos, 
mas ainda assim, contra o solo apoiou-se com ambas as mãos.

Cobre-lhe os olhos brilhantes, depressa, a caligem da Noite. 
E o chefe de homens, Eneias, talvez perecesse ali mesmo, 
se o não tivesse notado Afrodite, de Zeus a donzela, 
mãe carinhosa, que o havia de Anquises, pastor, concebido. 
Os braços níveos lançou, logo, à volta do filho querido, 
numa das dobras do manto luzente envolvendo-lhe o corpo, 
que lhe servisse de amparo, se, acaso, um dos Dânaos tentasse 
a arma aguçada no peito enterrar-lhe, arrancando-lhe a vida. 
Enquanto o filho, desta arte, Afrodite da pugna afastava, 
lembram a Esténelo, o filho do herói Capaneu, as precisas 

indicações que lhe dera Diomedes, de voz retumbante. 
   Os corredores detém, apartados do prélio terrível; 
no parapeito do carro, puxando-as, as rédeas amarra, 
salta aos cavalos de Eneias, de crina vistosa e tratada, 
e para o campo os tocou dos guerreiros Aquivos grevados, 
onde a Deípilo os deu, o fiel companheiro, que tanto 
entre os equevos, prezava, por serem de iguais pensamentos 
para que às côncavas naus os levasse. Depois, pressuroso, 
torna a subir para o carro, das rédeas nitentes retoma 
e os corredores fustiga, de cascos robustos, que partem

na direção de Diomedes. A Cípria, com bronze impiedoso, 
era seguida por este, que vira ser deusa indefesa, 
bem diferente das outras que os prélios dos homens frequentam, 
tal como Palas Atena ou Enió, eversora de muros. 
Quando, afinal, a alcançou pelo meio dos fortes guerreiros, 
pula o magnânimo filho do grande Tideu para a frente, 
e a extremidade da mão delicada, com a lança pontuda, 
fere de leve. Foi fácil ao bronze riscar a epiderme, 
pós ter o manto divino, que as Graças teceram, rasgado, 
junto ao punho. Escorreu, logo, o icor imortal da deidade,

sangue que corre nas veias de todos os deuses eternos. 
Não se alimentam de pão; roxo vinho não bebem; por isso 
sangue não têm, como os homens, que deuses eternos lhe chamam. 
Um grito solta Afrodite, deixando cair logo o filho. 
No mesmo instante, as mãos ambas Apolo estendeu, envolvendo-o 
em nuvem negra, com o fim de evitar que algum Dânao tentasse 
a arma aguçada no peito enterrar-lhe, arrancando-lhe a vida. 
Em altos brados lhe disse Diomedes, de voz retumbante: 
   “Filha de Zeus poderoso, conserva-te longe da luta. 
Ou seduzir não te basta mulheres privadas de força?

Se ainda sentires desejo de ver um combate de perto, 
creio que só o nome ‘guerra’ há de grande pavor inspirar-te.” 
   Atormentada, Afrodite, enquanto ele falava, afastou-se. 
Íris, veloz como o vento, a envolveu, retirando-a do prélio, 
mesta e gemente, murchada as cores da cute famosa. 
No lado esquerdo do campo da luta encontrou Ares forte, 
que numa nuvem a lança e os velozes corcéis apoiara. 
A bela deusa, enlaçando-se aos joelhos do irmão diletíssimo, 
pede, com súplica instante, os corcéis de frontal de ouro fino: 
   “Mano querido, protege-me, empresta-me teus corredores,

para que o Olimpo consiga alcançar, sede augusta dos deuses. 
Dói-me a ferida que um homem mortal me causou há momentos, 
o filho, sim, de Tideu, que até ao próprio Zeus pai se atrevera.”¹ 
   Ares, sem mora, lhe entrega os corcéis de frontal de ouro fino. 
O coração angustiado, subiu para o carro Afrodite; 
Íris sentou-se-lhe ao lado, tomando nas mãos, logo, as rédeas; 
com chicotada os cavalos esperta, que partem velozes. 
Em pouco tempo ao Olimpo chegaram, sede alta dos deuses, 
Íris, veloz como o vento, refreia os fogosos ginetes, 
tira-os do carro esplendente e lhes deita alimento ambrosíaco.

Corre a acolher-se a divina Afrodite ao regaço de Dione. 
Toda desvelos, a mãe carinhosa nos braços a ampara 
e, acariciando-a, lhe diz as seguintes palavras aladas: 
   “Qual das deidades urânias te fez esse dano, querida, 
como se à vista de todos houvesses um mal praticado?” 
   Disse-lhe a deusa dos risos amante, Afrodite, em resposta: 
“Foi o arrogante Diomedes, do grande Tideu descendente, 
por ter querido livrar a meu filho do prélio funesto, 
meu caro Eneias, a quem especial afeição diquei sempre. 
Não se restringe aos Troianos e Aquivos a guerra, somente;

té contra os deuses eternos os Dânaos, agora, se atrevem.” 
   Disse-lhe Dione, a imortal admirável, então, em resposta: “
Ainda que muito te aflija, querida, suporta paciente. 
Que de aflições indizíveis, os deuses, por causa dos homens, 
já suportamos, causando uns aos outros trabalhos sem conta! 
Ares, também, já sofreu, quando foi em possantes cadeias 
acorrentado por Oto e Efialtes, de Aloeu descendentes. 
Por treze meses esteve metido num cárcere brônzeo. 
E, porventura, perdera a existência o insaciável guerreiro, 
se Peribeia, a formosa, madrasta dos dois, a ocorrência

a Hermes houvesse ocultado. Este, a furto livrar ainda pôde 
a Ares exânime quase, que assaz as prisões o abatiam. 
Hera, também, já sofreu quando o herói Anfitriônio no seio 
destro a feriu com uma seta dotada de três farpas ásperas. 
Dor insofrível teve ela de, então, padecer, em verdade. 
Hades, o monstro, também, sofreu muito, em virtude de um dardo 
por esse mesmo homem forte atirado, de Zeus descendente, 
no próprio sólio dos mortos, causando-lhe dor infinita. 
O coração angustiado, com dor indizível, foi ele 
para o palácio de Zeus, no vastíssimo Olimpo. Encravara-se-lhe

no ombro possante o fautor do sofrer que lhe o peito excruciava. 
Péone, logo, deitou eficaz lenitivo na chaga, 
que o fez sarar, pois, de fato, não era de estirpe terrena. 
Ímpio e malvado, que não se corria de feitos tão graves, 
indo até o ponto de flechas lançar nos que moram no Olimpo. 
A este acirrou contra ti, por sem dúvida, Palas Atena. 
Néscio mostrou ser o filho do grande Tideu, em verdade, 
por ignorar que não têm vida longa os que lutam com os deuses. 
Nunca os filhinhos ‘papai’ lhes dirão, nos joelhos sentados, 
quando dos prélios terríveis, alfim, para casa tornarem.

Ora reflita o Tidida, conquanto mui forte ele seja, 
não aconteça antepor-se-lhe um deus do que tu bem mais forte, 
pois, neste caso, a prudente Egialeia, nascida de Adrasto, 
com seus lamentos o sono turvara de toda a família, 
quando chorar a condigna consorte do grande Diomedes 
a triste sorte do herói mais galhardo do exército Aquivo.” 
   Tendo isso dito, com ambas as mãos enxugou o icor, logo. 
Sara a ferida, de pronto; acalmaram-se as dores pungentes. 
Hera, a magnífica, e Atena, que o fato observavam, se voltam 
para Zeus grande, com termos mordazes, tentando irritá-lo.

A de olhos glaucos, Atena, primeiro, desta arte lhe fala: 
   “Não ficarás agastado, Zeus pai, com o que eu vou revelar-te? 
Creio que a Cípria tentou, novamente, saudar uma Acaia 
para passar-se aos Troianos, aos quais tanto afeto dedica. 
Quando animava uma dessas Aquivas de manto bem-feito, 
a delicada mãozinha espetou na dourada fivela.” 
   O pai dos homens e deuses sorriu ao ouvir tais palavras, 
e, para perto chamando Afrodite, lhe disse o seguinte: 
   “Cara, não são para ti essas ações belicosas; 
volve a atenção, isso sim, para os doces trabalhos das núpcias.

Ares, o rápido, e Atena se incumbem da guerra, a contento.” 
   Enquanto os deuses do Olimpo conceitos, desta arte, trocavam, 
insta Diomedes, o herói gritador, contra o príncipe Eneias. 
Ainda que houvesse notado que Apolo o amparava cuidoso, 
a um deus tão grande não tinha receio de opor-se, ambiciando 
somente a Eneias matar e das armas fulgentes privá-lo. 
Por vezes três arremete sequioso de a vida tirar-lhe; 
mas por três vezes no escudo brilhante de Apolo ele bate. 
Quando, porém, pela quarta avançou, qual se fosse um demônio,
com voz terrível lhe diz Febo Apolo, o frecheiro infalível:

“Entra em ti mesmo, Diomedes; afasta-te; é absurdo pensares 
que és como os deuses; em caso nenhum podem ser comparados 
os moradores do Olimpo com os homens que rojam na Terra.” 
   A essas palavras, o forte Diomedes recuou poucos passos, 
para evitar o rancor do frecheiro infalível, Apolo. 
Febo tirou logo a Eneias da luta, depondo-o na sacra 
Pérgamo, dentro do templo que fora para ela construído, 
no ádito grande do qual dele cuidam, deixando-o mais belo, 
Ártemis, deusa frecheira infalível, e Leto amorável. 
Nesse entrementes, Apolo, o deus do arco de prata, um fantasma

mui semelhante, no gesto e nas armas, a Eneias, formara. 
Em torno dele os Troianos e os divos Acaios a luta, 
de novo, acendem, talhando os arneses de couro bovino, 
os manejáveis broquéis e os escudos redondos e fortes.² 
Vira-se Febo para Ares terrível e diz o seguinte: 
   “Ares guerreiro, dos homens flagelo, eversor de cidades, 
não te seria possível tirar dos combates esse homem, 
digo, o Tidida, que ao próprio Zeus pai, porventura, enfrentara? 
Primeiramente, achegando-se à Cípria, feriu-a no carpo; 
logo depois, contra mim se atirou, qual se fosse um demônio.”

continua página 164...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c /                   
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Aqui vemos Afrodite ferida por Diomedes durante o auge da aristeia dele. Ela, incapaz de suportar a dor — porque os deuses olímpicos não foram feitos para a violência física — corre para pedir ajuda ao irmão Ares, o deus da guerra.
     A cena é poderosa porque mostra: a vulnerabilidade dos deusesa hierarquia entre elesa tensão entre os papéis divinos, e a ironia de Afrodite, deusa do amor, buscar socorro justamente no deus da guerra.
     Ares está parado no campo de batalha, envolto numa nuvem, com seus cavalos preparados. Ele é a própria imagem da guerra: força bruta, caos, destruição.
     Afrodite, ao contrário, é beleza, sedução, suavidade. Quando ela se ajoelha e abraça os joelhos do irmão — gesto ritual de súplica — o contraste é enorme.
     Ela pede: proteçãoos cavalos de Arese um retorno rápido ao Olimpo, longe da dor humana.
     Afrodite reclama que foi ferida por um mortal — Diomedes — e ainda enfatiza que ele é “o filho de Tideu”, alguém que ousou enfrentar até Zeus.
     Essa fala tem dois sentidos: Dor literal: ela realmente está ferida; Dor simbólica: um mortal ousou tocar um deus — isso é uma afronta à ordem cósmica.
     Na Ilíada, quando um mortal fere um deus, não é só um golpe físico: é um abalo na estrutura do mundo.
Esse trecho é importante porque marca a humilhação de Afrodite, a ascensão momentânea de Diomedes, a intervenção crescente dos deuses na batalha, e o início de uma sequência em que Ares também será ferido.
     É um momento em que a guerra ultrapassa o humano e invade o divino.
[2] Este é um dos momentos mais dramáticos do Canto V, quando Diomedes está no auge da sua aristeia — tão poderoso que começa a ferir até deuses.
     Diomedes, fortalecido por Atena, avança pela quarta vez para atacar Eneias e até Apolo, acreditando que pode enfrentar um deus. É aí que Apolo intervém diretamente.
     O deus Apolo diz: “Entra em ti mesmo, Diomedes; afasta-te; é absurdo pensares que és como os deuses.” Essa fala é essencial na lógica da Ilíada: há um limite entre humanos e deuses, a glória humana nunca pode ultrapassar o domínio divino, quem tenta cruzar essa fronteira é punido.
     Diomedes, apesar de estar tomado por coragem divina, recua. Ele sabe que desafiar Apolo seria suicídio — e também uma violação da ordem cósmica.
     Enquanto Diomedes recua, Apolo salva Eneias: retira Eneias da batalha, leva-o ao templo de Pérgamo, entrega-o aos cuidados de Ártemis e Leto, e cria um fantasma idêntico ao herói para confundir os combatentes. Esse “duplo” é uma estratégia divina para manter o fluxo da guerra sem revelar que Eneias foi retirado.
Esse trecho marca o limite da aristeia de Diomedes. Ele chegou ao ponto máximo da glória humana — feriu Afrodite, enfrentou Ares, mas Apolo o detém. Mostra a hierarquia divina. Atena pode fortalecer Diomedes, mas Apolo pode pará-lo. Os deuses têm poderes diferentes e disputam entre si. Reforça o destino de Eneias. Eneias não pode morrer na Ilíada — ele é destinado a sobreviver e fundar a linhagem que, na tradição posterior, levará à Roma. Por isso Apolo o protege. A guerra continua. Com o fantasma de Eneias, o combate reacende, como se nada tivesse acontecido.