Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
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Era no Plan-des-Dames, na vasta clareira que uma derrubada
acabava de abrir. Ela estendia-se em declive suave, cingida pela floresta
espessa, por faias magníficas cujos troncos retos e regulares a envolviam de
colunas brancas, esverdeadas de liquens. Os gigantes abatidos ainda jaziam
sobre a grama; à esquerda, um monte de toros cortados mais parecia um
cubo geométrico. O frio aumentara com o crepúsculo, o musgo gelado
estalava sob os pés. Na terra já era noite fechada, os ramos altos
recortavam-se contra o céu pálido, onde a lua cheia, subindo no horizonte,
ia apagar as estrelas.
Perto de três mil mineiros tinham comparecido à reunião; era uma
multidão fervilhante, homens, mulheres e crianças enchendo pouco a pouco
a
clareira, transbordando por baixo do arvoredo; e os retardatários
continuavam a chegar; a maré de cabeças, afogada na sombra, espraiava-se
até os cortes vizinhos. Um bramido subia daquele mar humano, igual a um
vento de tempestade na floresta imóvel e gelada.
No alto, dominando o declive, encontrava-se Etienne, acompanhado
de Rasseneur e Maheu. Estourara uma briga, ouviam-se seus ecos
ressoando, intermitentes. Perto dos que discutiam estavam Levaque, de
punhos cerrados, Pierron, que logo se pôs de costas, muito nervoso por não
ter podido pretextar mais febres, e mais o velho Boa-Morte e o velho
Mouque, ombro a ombro sentados num tronco, com ar de profunda
meditação. Por trás deles agrupavam-se os trocistas: Zacharie, o jovem
Mouque e outros ainda, que tinham vindo para se divertir, enquanto as
mulheres, recolhidas e graves como numa igreja, formavam grupo à parte.
A mulher de Maheu, muda, balançava a cabeça ouvindo o surdo praguejar
da mulher de Levaque. Philomène tossia, atacada de bronquite com a
chegada do inverno. Só a filha de Mouque ria com todos os dentes,
divertida pela maneira com que a velha Queimada falava da filha,
chamando-a de desnaturada, que a mandava sair para empanturrar-se com
coelho, uma vendida que engordava graças à falta de caráter do marido. E
sobre o monte de madeira encarapitara-se Jeanlin, içando Lydie e obrigando
Bébert a segui-lo, ficando os três acima dos outros.
O responsável pela disputa era Rasseneur, que queria proceder
formalmente à eleição da mesa. A derrota que sofrerá no Bon-Joyeux
enfurecera-o, e tinha jurado tirar a desforra, gabando-se de reconquistar sua
autoridade antiga quando se encontrassem frente a frente, não mais como
delegados, mas como mineiros. Etienne, revoltado, achou imbecil a ideia da
mesa, em plena floresta. Tinham que agir revolucionariamente, como
selvagens, já que estavam sendo caçados como lobos.
Vendo que a discussão não terminava mais, subiu num tronco de
árvore e apoderou-se subitamente da multidão, gritando:
— Camaradas! Camaradas!
O rumor confuso extinguiu-se num longo suspiro, enquanto Maheu
abafava os protestos de Rasseneur. Etienne continuou com uma voz
poderosa:
— Camaradas, uma vez que nos proíbem de falar, uma vez que a
polícia nos persegue como se fôssemos bandidos, é aqui que temos de nos
reunir! Aqui somos livres, estamos em nossa casa, ninguém virá para nos
fazer calar, da mesma forma que não conseguem calar os pássaros e os
animais!
Uma torrente de gritos e exclamações foi a resposta:
— Sim, sim, a floresta é nossa, temos o direito de conversar... Faia!
Etienne permaneceu por um momento imóvel sobre o tronco de
árvore. A lua, ainda baixa no horizonte, só iluminava os galhos mais altos, a
multidão permanecia envolta em trevas, pouco a pouco acalmada e
silenciosa. Ele, igualmente no escuro, fazia por cima dela, no cimo do
declive, uma mancha de sombra.
Levantou um braço num gesto lento e começou. Sua voz, no
entanto, não ribombava mais, adotara o tom frio de um simples mandatário
do povo prestando contas. Finalmente fazia o discurso que o comissário de
polícia fizera gorar no Bon-Joyeux. Começou com um histórico rápido da
greve, afetando uma eloquência científica: fatos, nada mais que fatos.
Primeiro referiu-se à sua repugnância pela greve: os mineiros não a tinham
querido, a direção os provocara com a nova tarifa de revestimentos. Depois
lembrou a primeira visita dos delegados ao diretor, a má-fé da
administração, e mais tarde, quando da segunda visita, sua concessão tardia,
os dois cêntimos que devolvia depois de ter tentado roubá-los. Agora
estavam nisso; começou a dar números provando que a caixa de previdência
estava vazia, indicou o emprego dos socorros enviados, desculpando em
algumas frases a Internacional, Pluchart e os outros, por não terem podido
fazer mais por eles, devido às preocupações que tinham com seus planos de
conquista do mundo. A situação agravava-se dia a dia, a companhia
despedindo e ameaçando contratar operários na Bélgica; além disso
intimidava os fracos, convencera certo número de mineiros a voltar ao
trabalho. Toda essa fala foi pronunciada em tom monótono, como para
ressaltar essas más notícias. Falou ainda da fome vitoriosa, da esperança
morta, da luta já nos últimos haustos da coragem. De repente terminou, sem
elevar a voz:
— E nestas circunstâncias, camaradas, que vocês devem tomar uma
decisão esta noite. Querem a continuação da greve? E, nesse caso, que
pretendem fazer para triunfar sobre a companhia?
Um silêncio profundo caiu do céu estrelado. A multidão, engolfada
na escuridão, permanecia muda sob o peso daquelas palavras que lhe
esmagavam o coração. Apenas se ouvia sua respiração angustiada por entre
as árvores.
Mas Etienne já prosseguia noutro tom. Não era mais o secretário da
associação que falava, era o chefe de bando, o apóstolo portador da
verdade. Então havia covardes que faltavam à palavra empenhada? Então
tinha-se sofrido um mês inutilmente para depois voltar às minas de cabeça
baixa e recomeçar a eterna miséria? Não valeria mais a pena morrer de uma
vez, tentando destruir essa tirania do capital que levava o trabalhador à
inanição? Continuar submetendo-se à fome até o momento em que ela,
novamente, revoltaria até os mais calmos não era um jogo estúpido que não
podia continuar existindo? E mostrou os mineiros explorados, suportando
sozinhos resultados da crise, obrigados a não mais comer no momento em
que as necessidades da concorrência fizessem baixar os preços da mão-de-obra. Não! A tarifa do revestimento era inaceitável, não passava de uma
economia disfarçada, queriam roubar de cada homem uma hora de seu
trabalho diário. Desta vez era demais, estava chegando a hora em que os
miseráveis, levados até o último degrau da sua miséria, fariam justiça.
Ficou de braços erguidos.
A multidão, à palavra "justiça", sacudida por um longo
estremecimento, desatou em aplausos que rolaram com um barulho de
folhas secas. Vozes gritaram:
— Justiça! Chegou a hora da justiça!
Aos poucos Etienne inflamava-se. Não possuía a abundância fácil e
cascateante de Rasseneur. Muitas vezes, as palavras não lhe vinham, tinha
de torturar a frase e dela saía com um esforço que ressaltava com um
movimento de ombros. Mas nesses contínuos tropeços descobria imagens
de uma energia familiar que empolgavam seu auditório. Da mesma forma,
seus gestos de mineiro, os cotovelos para trás, depois estendendo-se e
lançando os punhos para a frente, sua mandíbula repentinamente
avançando, como para morder, exerciam também uma ação extraordinária
sobre os camaradas. Todos o diziam, ele não era um espetáculo, mas
prendia a atenção.
— O sistema assalariado é uma nova forma de escravidão —
continuou ele com a voz ainda mais vibrante. — A mina deve ser do
mineiro, como o mar é do pescador, como a terra é do camponês.
Compreendam isso de uma vez por todas: a mina é de vocês, de todos
vocês, que há um século a vêm pagando com tanto sangue e tanta miséria!
Com a maior sem-cerimônia abordou problemas obscuros de
direito, a enfiada de leis especiais sobre minas em que ele se perdia. O
subsolo, assim como o solo, pertencia à nação; apenas um privilégio odioso
assegurava o monopólio às companhias. Para Montsou, a pretensa
legalidade das concessões complicava-se com tratados passados outrora
com proprietários de antigos feudos, segundo o velho costume de Hainaut.
Os mineiros, portanto, só tinham que reconquistar sua propriedade. E com
as mãos estendidas ele mostrava a região inteira, para além da floresta.
Nesse momento, a lua, que subia no horizonte, escorregando pelos ramos
mais altos, iluminou-o. Quando a multidão, ainda no escuro, divisou-o
assim, todo iluminado, distribuindo a fortuna com suas mãos abertas,
aplaudiu de novo, prolongadamente.
— Sim, sim, ele tem razão! Bravo!
A partir daí Etienne cavalgou no seu plano favorito: a distribuição
de instrumentos de trabalho à coletividade, como ele dizia numa frase, cuja
barbárie o comichava deliciosamente. Nele, agora, a evolução era completa.
Tendo partido da fraternidade humilde dos catecúmenos, da necessidade de
reformar o sistema assalariado, acabara na idéia política de o suprimir.
Depois da reunião no Bon-Joyeux, seu coletivismo, ainda humanitário e
sem fórmula, enrijecera num programa complicado, que ele ia discutindo
cientificamente, artigo por artigo. Primeiro disse que a liberdade só podia
ser conseguida com a destruição do Estado; quando o povo tivesse tomado
o poder, as reformas seriam feitas: volta à comuna primitiva; substituição da
família moral e opressiva pela família igualitária e livre; igualdade absoluta,
civil, política e econômica; garantia da independência individual graças à
possessão e ao produto integral dos instrumentos de trabalho; enfim,
instrução profissional e gratuita, paga pela coletividade. Isso levaria a uma
reforma da sociedade velha e podre. Atacou o casamento, o direito de fazer
testamento, regulamentou a fortuna particular, pôs abaixo o monumento
iníquo dos séculos mortos com um grande gesto, sempre o mesmo, o gesto
do ceifador que derruba a colheita madura. Com a outra mão foi
reconstruindo, erguendo a futura humanidade, o edifício da verdade e da
justiça surgindo na aurora do século XX. Diante de tal tensão cerebral a
razão perdeu pé, restou apenas a idéia fixa do sectário. Os escrúpulos da sua
sensibilidade e do seu bom senso evaporaram-se, nada era mais fácil do que
a realização desse mundo novo; previra tudo, falava dele como de uma
máquina que montaria em duas horas, sem levar em conta o fogo e o
sangue.
— Chegou a nossa vez! — gritou, numa última explosão. — Agora
depende de nós conseguirmos o poder e a riqueza!
Uma aclamação rolou até ele, vinda dos confins da floresta. A lua,
agora, iluminava toda a clareira, recortava em arestas brilhantes o mar de
cabeças por toda a confusa lonjura da mata de corte e por entre os enormes
troncos cinzentos. E naquele ar glacial havia u; ricto feroz nos rostos, olhos
faiscantes, bocas abertas... Era todo u: povo em delírio de possessão,
homens, mulheres e crianças famélicos, prontos para o assalto justo aos
antigos bens de que estavam sendo esbulhados. Já nem sentiam mais frio,
aquelas palavras ardentes aqueceram-nos até as entranhas. Uma exaltação
religiosa fazia-os pairar sobre a terra, era a febre de esperança dos primeiros
cristãos da Igreja esperando o reino próximo da justiça. Muitas frases
obscuras lhes tinham escapado, quase nada entendiam daqueles raciocínios
técnicos e abstratos, mas a própria obscuridade, a abstração, tornava ainda
maior o campo das promessas, arrebatava-os num deslumbramento. Que
sonho! serem eles os senhores, cessarem de sofrer, usufruírem finalmente
da felicidade!
— É isso mesmo, com todos os diabos! Chegou a nossa vez!
Morte aos exploradores!
continua na página 242...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.