sábado, 8 de agosto de 2026

Cinema: O Quatrilho

Imigrantes italianos


     Em 1910, numa comunidade rural no Rio Grande do Sul habitada por imigrantes italianos, dois casais muito amigos se unem para poder sobreviver e decidem morar na mesma casa. Os dois casais de imigrantes italianos entram em um jogo silencioso, feito de olhares, carências e impulsos. A traição surge como consequência inevitável, e a fuga, como única saída. Mas cada movimento cobra seu tributo, deixando marcas profundas em quem fica para trás. A esposa (Patricia Pillar) de um (Alexandre Paternost) se interessa pelo marido (Bruno Campos) da outra (Glória Pires), sendo correspondida. Após algum tempo, os dois amantes decidem fugir e recomeçar outra vida, deixando para trás seus parceiros, que viverão uma experiência dramática e constrangedora, mas nem por isto desprovida de romance. Baseado no livro homônimo de José Clemente Pozenato. O filme foi indicado ao Oscar (1996) de Melhor Filme Estrangeiro.

Direção: 
Fábio Barreto 

Produção: 
Lucy Barreto 

Roteiro: 
Antônio Calmon
Leopoldo Serran 

Distribuição: Europa Filmes / 1995






Elenco:
Glória Pires como Pierina
Patricia Pillar como Teresa
Alexandre Paternost como Angelo Gardone
Bruno Campos como Massimo
Gianfrancesco Guarnieri como Padre Giobbe
José Lewgoy como Rocco
Cecil Thiré como Padre Gentile
Cláudio Mamberti como Batiston
Antônio Carlos Pires como Aurélio
Arcangelo Zorzi como Sichopa
José Vitor Castiel como Miro
Fábio Barreto como Gaudério
Julia Barreto Borges como Dosolina
Mariana Pellegrino Barreto como Bambina
Elaine Braghirolli como Tia Gema
María Díaz como Mulher de Sichopa
Oldina Cerutti Do Monte como Figurante na festa de casamento
Alceu Ferraro como Gaiteiro
Renato Filippini como Nane Mondo
Tereza Fortuna como Mulher De Verde
Diego Galafassi como Filho de Teresa
Daniel Gatelli como Natale
António Giacomoni como Beppe
Hugo Lorensati como Funcionario I
Thiago Lorensati como Rapaz do Armazém
Gonçalo Mascia como Agostinho
Ana Parenti como Mulher de Matale
Antoine Parenti como Carroceiro
Pedro Parenti como Iscariot
Cleri Pelizza como Marieta
André Piccoli como Sacristão
José Clemente Pozenato como Fotógrafo
Ceres Ramos como Rosalba
Flávio Rizzi como Joanim
Borba Sidnei como Vendedor
Milton Stumpf como Fazendeiro
Lídia Tonus como Colona II
Nadir Tonus como Cosimo
Wilson Toscan como Rapaz do Café
João Wianey como Funcionnario II
Inés Zorzi como Colona I
Pedro Zorzi como Motorista

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O livro

     Publicado originalmente em 1985, O Quatrilho é a obra mais conhecida de José Clemente Pozenato e um dos romances mais importantes da literatura gaúcha contemporânea.


     O romance toma emprestado o nome do quatrilho, jogo que exige reflexos rápidos, memória afiada e que costuma aproximar amigos ao redor da mesa. Embora pensado para quatro jogadores, aceita variações. Entre parceiros não há traição: apenas uma coreografia de sinais e linguagens veladas, destinada a embaralhar a percepção dos adversários.

     A narrativa acompanha dois casais descendentes de imigrantes italianos na Serra Gaúcha do final do século XIX. Quando Teresa e Mássimo decidem fugir juntos, rompem convenções sociais e religiosas, desencadeando profundas transformações em suas vidas e na comunidade.

Editora Pozenato

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
01. Antonia / 02. O Quatrilho /      

MPB: Se eu quiser falar com Deus

Gilberto Gil


Um convite: talvez a única certeza de eternidade seja o amor que deixamos nessa vida pra que os outros continuem carregando esse amor para as próximas gerações.

"Não sou religioso,
não frequento igreja e,
para ser sincero, sou bem cético 
- mais do que gostaria.
Mas, no momento, em que Gil pega seu violão
e o público fica em silêncio, algo acontece.
É como se, por alguns instantes, para mim, uma conversa com Deus fosse possível.
Sinto que essa experiência atravessa a gente, suspende o mundo.
Uma fresta espiritual."





Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que, ao findar, vai dar em nada

Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Composição: Gilberto Gil


Aprendi a cantar essa conversa do Gil...
com ela, Elis Regina




Um dia de domingo / Se eu quiser falar com Deus /   

Marcel Proust - A Prisioneira (Imediatamente, pegando o jornal)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Imediatamente, pegando o jornal, ela descobriu até o cotovelo a manga rubra da sua jaqueta e me estendeu o diário conservador com um gesto hábil e gentil que me agradou pela rapidez familiar, pela aparência macia e a cor escarlate. Enquanto eu abria o Fígaro, para dizer algo e sem erguer os olhos, perguntei à menina:

- Como se chama esse seu casaco de tricô vermelho? É muito bonito. -

     Ela respondeu: 

- É o meu golfe. -

     Pois, devido a uma degradação costumeira a todas as modas, as roupas e os ternos que, alguns anos antes, pareciam pertencer ao mundo relativamente elegante das amigas de Albertine, eram agora usados pelas operárias. 
- Não se incomodará se eu a mandar a um recado um pouco longe? - disse-lhe, aparentando procurar no Fígaro. Logo que achei penoso o serviço que me prestaria, ela começou de fato a pensar que era um transtorno. 
- É que devo passear daqui a pouco de bicicleta. Droga, só temos o domingo para isso. 
- Mas não vai sentir frio, com a cabeça descoberta desse jeito?
- Ah! Mas não estarei de cabeça descoberta, e sim com a minha boina, e poderia até passar sem ela por causa da minha cabeleira. - 
 
     Ergui os olhos para as mechas flavescentes e frisadas, e senti que seu turbilhão me arrastava, o coração palpitante, na luz e nas rajadas de um furacão de beleza. Continuava a ler o jornal, mas, embora fosse apenas para me recobrar e ganhar tempo, enquanto fingia ler ia compreendendo, apesar do sentido das palavras que tinha diante dos olhos, e estas me deixaram atônito: "No programa da vesperal que anunciamos e que será executada esta tarde no salão de festas do Trocadero, é necessário acrescentar o nome da Srta. Léa, que aceitou comparecer em Les Fourberies de Nérine¹. Evidentemente, ela fará o papel de Nérine, no qual é estonteante de vivacidade e de encantadora alegria."

[1] 'As artimanhas de Nérine', comédia em versos de Théodore de Banville (1823-1891)(N. do T).

     Foi como se me tivessem arrancado brutalmente do coração o curativo sob o qual ele começara a cicatrizar desde o meu regresso de Balbec. O fluxo de minhas angústias jorrou em torrentes. Léa era a comediante amiga das duas moças que Albertine, sem parecer vê-las, havia em uma tarde observado pelo espelho, no cassino. É verdade que, em Balbec, Albertine, ao nome de Léa, assumira um tom particular de compunção para me dizer, quase chocada de que se pudesse suspeitar de pessoa tão virtuosa: 

- Oh não, não é de modo algum uma mulher desse tipo; é uma mulher muito correta. -

     Infelizmente para mim, quando Albertine fazia uma afirmação desse gênero, isto nunca passava do primeiro estágio de afirmações diferentes. Pouco depois da primeira, vinha esta segunda:

- Não a conheço.

     Em terceiro lugar, depois de me ter falado de tal pessoa como "acima de qualquer suspeita", e que, a seguir, afirmava não a conhecer, esquecia-se aos poucos, primeiro de haver dito que não a conhecia, e, numa frase em que se contradizia sem querer, voltava a falar que a conhecia. Consumado este primeiro esquecimento e tendo sido enunciada a nova afirmação, principiava um segundo esquecimento, o de que a pessoa era insuspeitável.

- Será que essa fulana - indagava eu - tem esses hábitos?
- Ora, naturalmente, todo mundo sabe disso! -

     Porém logo o tom compungido voltava para uma afirmação que era um vago eco, bastante atenuado da primeira:

- Devo dizer que comigo sempre se mostrou muito correta. Naturalmente ela sabia que eu a teria posto em seu lugar, e de que maneira. Mas, afinal, pouco importa. Sou forçada a lhe ser grata pelo verdadeiro respeito que ela sempre testemunhou por mim. Vê-se que ela sabia com quem estava lidando.

     Lembramo-nos da verdade porque ela tem um nome, raízes antigas; mas uma mentira improvisada se esquece depressa. Albertine se esquecia dessa última mentira, a quarta, e, num dia em que desejava ganhar minha confiança por meio de confidências, chegava a me dizer da mesma pessoa, no começo tão distinta e que ela não conhecia: 

- Teve uma quedinha por mim. Três, quatro vezes me pediu para acompanhá-la até em casa e subir com ela. Eu não via mal nenhum em acompanhá-la, diante de todo mundo, em pleno dia, na rua. Mas, logo que chegava à sua porta, achava sempre um pretexto e nunca subi.

     Algum tempo depois, Albertine me fazia alusão à beleza dos objetos que se viam na casa da mesma pessoa. De aproximação em aproximação, talvez se chegasse a fazê-la dizer a verdade, uma verdade quem sabe menos grave do que eu era levado a crer, pois talvez, fácil com as mulheres, ela preferisse um amante, e agora que eu era o seu, não mas teria pensado em Léa. Em todo caso, quanto a muitas das mulheres, já teria me bastado apresentar numa síntese à minha amiga as suas afirmações contraditórias para convencê-la de seus erros (erros que são bem mais fáceis de verificar pelo raciocínio, como as leis astronômicas, do que de observar, de surpreender na realidade). Mas ela ainda teria preferido dizer que mentira quando fizera uma de suas afirmações, cuja retirada faria desse modo desmoronar todo o meu sistema, em vez de reconhecer que tudo o que havia contado desde o princípio não passava de uma trama de histórias mentirosas. Há casos iguais nas Mil e Uma Noites, e que nos encantam. Fazem-nos sofrer numa pessoa a quem amamos, e por causa disso nos permitem penetrar um pouco mais fundo no conhecimento da natureza humana, em vez de limitar-nos à sua superfície. O desgosto nos invade e obriga-nos pela curiosidade dolorosa a penetrar. Daí decorrem as verdades que não nos sentimos com o direito de ocultar, de modo que um ateu agonizante que as descobriu, seguro do Nada, despreocupado da glória, usa todavia suas horas derradeiras para tentar fazer com que sejam conhecidas.
     Sem dúvida, eu estava ainda na primeira daquelas afirmações sobre Léa. Ignorava até se Albertine a conhecia ou não. Pouco importa, dava no mesmo. Era preciso, a todo custo, impedir que Albertine, no Trocadero, pudesse reencontrar essa conhecida, ou travar relações com essa desconhecida. Disse que não sabia se ela a conhecia ou não; no entanto, é possível que o tivesse sabido em Balbec, através da própria Albertine. Pois o esquecimento apagava tanto em mim quanto em Albertine uma boa parte das coisas que ela me havia afirmado. Porque a memória, em vez de um exemplar em dobro, sempre presente a nossos olhos, dos diversos fatos da nossa vida, é antes um Nada de onde, por instantes, uma similitude atual nos permite extrair, ressuscitadas, lembranças mortas; mas existem ainda mil pequenos fatos que não caíram nessa virtual idade da memória e que permanecerão para sempre inverificáveis para nós. A tudo o que ignoramos relacionar-se à vida real da pessoa a quem amamos não prestamos atenção, esquecemos logo o que ela nos disse a propósito de um determinado fato ou de uma certa pessoa que não conhecemos, e o aspecto dela ao nos dizer tais coisas. Assim, quando a seguir o nosso ciúme é excitado por essas mesmas pessoas, para saber se ele não se engana, se é precisamente a elas que se deve relacionar uma certa pressa que a nossa amante tem de sair, certo descontentamento de ter sido privada de fazê-lo porque voltamos cedo demais, o nosso ciúme, examinando o passado para obter indicações, nada encontra nele; sempre retrospectivo, é como um historiador que tivesse de escrever uma história para a qual não dispusesse de documento algum; sempre atrasado, ele se precipita como um touro furioso para onde não se encontra a criatura brilhante e altiva que o irrita com suas picadas e cuja magnificência e astúcia a multidão cruel admira. O ciúme se debate no vazio, indeciso, como o somos nesses sonhos em que sofremos por não encontrar em sua casa vazia uma pessoa que conhecemos muito bem na vida, mas que aqui talvez seja uma outra e apenas tenha assumido as feições de outra personagem; indeciso, como o somos mais ainda quando, após o despertar, buscamos identificar tal ou qual detalhe do nosso sonho. Que jeito seria o da nossa amiga ao nos dizer isso? Teria um aspecto feliz, não estaria mesmo assobiando, coisa que ela só faz quando lhe ocorre um pensamento amoroso e nossa presença a importuna ou irrita? Não nos terá dito uma coisa que se acha em contradição com o que afirma agora, que conhece ou não conhece tal pessoa? Não o sabemos, não saberemos jamais, empenhamo-nos em procurar os destroços inconsistentes de um sonho, e durante esse tempo a nossa vida com a amante continua, nossa vida distraída diante do que ignoramos ser importante para nós, atenta ao que talvez o não seja, atormentada de pesadelos com criaturas que não têm relações reais conosco, nossa vida cheia de esquecimentos, de lacunas, de ansiedades vãs, nossa vida semelhante a um sonho.
     Dei-me conta de que a garota da leiteria ainda estava ali. Disse-lhe que decididamente era muito longe, que não precisava dela. E logo ela achou também que ia ser muito incômodo:

- Vai haver um bom match daqui a pouco, gostaria de não perdê-lo. -  

     Senti que ela já devia gostar de esportes e que dentro de alguns anos diria: viver sua vida. Disse lhe que decididamente não precisava dela e lhe dei cinco francos. Imediatamente, como se não esperasse por isso, e considerando que se ganhara cinco francos para não fazer nada, poderia ganhar muito mais pela comissão, começou a achar que seu match não tinha importância.

- Bem que eu poderia dar o seu recado. Sempre se consegue dar um jeito. - 

     Mas eu a impeli até a porta, precisava estar sozinho; tinha a todo custo de impedir que Albertine encontrasse as amigas de Léa no Trocadero.
     Precisava, precisava consegui-lo; para dizer a verdade, ainda não sabia como; e, durante aqueles primeiros instantes, abria as mãos, olhava-as, fazia estalar as juntas dos dedos, ou porque o espírito que não pode achar o que procura, tomado de preguiça, concorda em fazer uma parada durante um momento, quando as coisas mais indiferentes lhe aparecem com nitidez, como essas pontas de capim que do vagão vemos tremer nos taludes ao sopro do vento, quando o trem para em campo raso; imobilidade que nem sempre é mais fecunda que a do animal capturado, que, paralisado de medo, ou fascinado, olha sem se mexer-, ou porque eu mantivesse o corpo inteiramente preparado com minha inteligência dentro e, nela, os meios de ação sobre tal ou qual pessoa - como sendo apenas uma arma de onde partiria o golpe que haveria de separar Albertine de Léa e de suas duas amigas. Decerto, na manhã em que Françoise viera me dizer que Albertine iria ao Trocadero, eu havia pensado: "Albertine pode muito bem fazer o que quiser" e acreditara que até a noite, naquele tempo radioso, os seus atos não teriam importância perceptível para mim. Mas não fora apenas o sol da manhã, como pensara, que me fizera tão despreocupado; era porque, tendo obrigado Albertine a renunciar aos projetos que ela podia talvez preparar ou até mesmo realizar na casa dos Verdurin, e limitando-a a ir a uma vesperal que eu próprio escolhera e em função da qual ela não pudera combinar coisa alguma, sabia que o que ela faria forçosamente seria inocente. Da mesma forma, se Albertine dissera instantes depois:

- Se eu me matar, pouco me importa-, fora por estar convencida de que não se mataria. À minha frente, à frente de Albertine, houvera aquela manhã (bem mais que a iluminação do dia) aquele meio que não vemos, mas através de cujo intermédio translúcido e mutável nós víamos, eu as suas ações, e ela a importância de sua própria vida, isto é, aquelas crenças que não percebemos mas que, como o ar que nos rodeia, não são assimiláveis a um puro vácuo; compondo ao nosso redor uma atmosfera variável, por vezes excelente, muita vez irrespirável, elas mereceriam ser destacadas e assinaladas com tanto cuidado como a temperatura, a pressão barométrica e a estação, pois os nossos dias têm sua originalidade física e moral. A crença, não notada por mim naquela manhã e na qual todavia estivera alegremente envolto até o momento em que abrira o Fígaro, de que Albertine só faria coisas inofensivas, essa crença acabava de desaparecer.

     Eu já não vivia num dia lindo, mas num dia criado no seio deste pela inquietude de que Albertine reatasse com Léa e mais facilmente ainda com as duas moças, caso estas fossem, como me parecia provável, aplaudir a atriz no Trocadero, onde não lhes seria difícil, num entreato, reencontrar Albertine. Eu não pensava mais na Srta. Vinteuil, o nome de Léa me fizera rever, para sentir ciúmes, a imagem de Albertine no cassino perto das duas moças. Pois eu só possuía na memória séries de Albertine separadas umas das outras, incompletas, perfis, instantâneos; desse modo, o meu ciúme se restringia a uma expressão descontínua, a um tempo fixa e fugidia, e às criaturas que a tinham feito aparecer na fisionomia de Albertine. Lembrava-me desta quando, em Balbec, era excessivamente olhada pelas duas moças ou por mulheres desse tipo; lembrava-me do sofrimento que senti ao ver percorrido por olhos ativos como os de um pintor que quer fazer um croqui, este rosto inteiramente coberto por eles e que, devido, é claro, à minha presença, sofria esse contato sem dar a impressão de percebê-lo, com uma passividade talvez clandestinamente voluptuosa.
     E, antes que ela se recobrasse e me falasse, havia um segundo durante o qual Albertine não se movia, sorrindo no vazio, com o mesmo ar de natureza fingido e de prazer dissimulado que teria se lhe fossem tirar o retrato; ou até para escolher diante da objetiva uma pose mais picante - aquela mesma que assumira em Doncieres quando passeávamos com Saint-Loup: rindo e passando a língua nos lábios, fingia que estava irritando um cão. Decerto, nesses momentos não era de modo algum a mesma que se interessava pelas garotas que passavam. Ao contrário, neste último caso o seu olhar estreito e aveludado se fixava, colocava-se na passante, tão aderente, tão corrosivo, que parecia que, ao retirar-se, levaria consigo a pele. Mas nesse momento aquele olhar, que pelo menos lhe dava um quê de seriedade, fazendo-a até parecer doente, era-me suave em comparação com o seu olhar inerte e feliz junto das duas moças, e eu teria preferido a sombria expressão do desejo que ela talvez sentia às vezes, à expressão risonha causada pelo desejo que ela inspirava. Por mais que tentasse disfarçar a consciência que tinha disso, esta a banhava e envolvia, vaporosa, voluptuosa, fazia surgir todo corado o seu rosto. Mas tudo o que Albertine deixava em suspenso nesses instantes dentro de si mesma, e que irradiava à sua volta e me fazia sofrer tanto, quem sabe se na minha ausência ela continuaria a manter em silêncio, se aos avanços das duas moças, agora que eu já não estava ali, ela não corresponderia com audácia? É claro que tais lembranças me causavam grande mágoa. Eram como uma confissão total dos gostos de Albertine, uma confissão geral de sua infidelidade, contra o que não poderiam prevalecer suas juras particulares, nas quais eu gostaria de crer, os resultados negativos de minhas incompletas indagações, as garantias de Andrée, talvez forjadas em conivência com Albertine. Esta podia negar suas traições particulares; com palavras que lhe escapavam, mais fortes que as declarações contrárias, ou por simples olhares, ela confessara o que desejava ocultar, muito mais do que fatos particulares: aquilo que preferia matar-se a dar a conhecer, o seu vício. Pois nenhuma criatura deseja entregar a sua alma. Apesar da mágoa que tais lembranças me causavam, poderia eu negar que era o programa da vesperal do Trocadero que despertara a minha necessidade de Albertine? Ela era dessas mulheres em quem as culpas poderiam, se preciso fosse, substituir os encantos e, tanto quanto as culpas, a bondade que lhes sucede e nos devolve aquela doçura que com elas, como um enfermo que nunca se sente bem dois dias seguidos, sempre somos obrigados a reconquistar. Aliás, mais até do que as culpas do tempo em que as amamos, existem as culpas de antes que as conhecêssemos, e a primeira de todas: a sua natureza. De fato, o que torna dolorosos tais amores é que preexiste a eles uma espécie de pecado original da mulher, um pecado que faz com que a amemos, de modo que, quando o esquecemos, temos menos necessidade dela e, para recomeçar a amar, é necessário recomeçar a sofrer. Neste momento, que ela não se encontrasse com as duas moças e saber se ela conhecia ou não conhecia Léa era o que mais me preocupava, embora a gente não devesse interessar-se por fatos particulares a não ser devido à seu significado geral, e apesar da puerilidade que existe, tão grande como a da viagem ou do desejo de conhecer mulheres, em fragmentar a curiosidade sobre aquilo que, da torrente invisível das realidades cruéis que nos ficarão sempre desconhecidas, casualmente se cristalizou em nosso espírito. Além disso, mesmo que chegássemos a destruir tal cristalização, ela seria logo substituída por outra. Ontem, eu temia que Albertine fosse à casa dos Verdurin. Hoje só estava preocupado com Léa. O ciúme, que traz uma venda nos olhos, não é só impotente para descobrir alguma coisa nas trevas que o cercam; é também um dos suplícios em que a tarefa é recomeçar sem descanso, como a das Danaides, como a de Íxion. Mesmo se as duas moças lá não estivessem, qual a impressão que poderia causar sobre ela a atriz Léa, embelezada pela caracterização, glorificada pelo sucesso, quantas fantasias deixaria ela para Albertine, quais os desejos que, mesmo refreados em minha casa, lhe dariam o desgosto de uma vida em que não poderia satisfazê-los? Aliás, quem sabe se ela não conhecia Léa e não iria vê-la em seu camarim, e até que Léa não a conhecesse: quem me asseguraria que, tendo-a de qualquer modo avistado em Balbec, não a reconheceria e não lhe faria um sinal desde o palco, o que autorizaria Albertine a mandar abrir a porta dos bastidores? Um perigo parece muito evitável quando é conjurado. Este não o era ainda, eu receava que não fosse possível evita-lo, e por isso ele me parecia tanto mais terrível. E no entanto esse amor por Albertine, que eu sentia quase desvanecer-se quando tentava realiza-lo, parecia de algum modo provado pela violência da minha dor nesse momento. Eu não me preocupava com outra coisa e só pensava nas maneiras de impedir Albertine de ficar no Trocadero, teria oferecido qualquer quantia a Léa para que lá não comparecesse. Se se demonstra a preferência de alguém pela ação que pratica mais do que pelas ideias que defende, então eu estava amando Albertine.
     Mas essa retomada do sofrimento não dava maior consistência à imagem de Albertine dentro de mim. Provocava os meus males como uma divindade que permanece invisível.
     Fazendo mil conjecturas, eu procurava remediar meu sofrimento sem por isso realizar o meu amor.
     Primeiro, era necessário ter certeza de que Léa iria de fato ao Trocadero. Depois de ter mandado embora a garota da leiteria, dando-lhe cinco francos, telefonei para Bloch, também ligado a Léa, para tomar informações. Não sabia de nada e pareceu espantado que aquilo pudesse interessar-me. Pensei que era preciso apressar-me, que Françoise já estava pronta e eu não; e, enquanto me levantava, mandei-a tomar um automóvel;18 ela devia ir ao Trocadero, comprar uma entrada, procurar Albertine por todo o salão e lhe entregar um bilhete meu. Nesse bilhete eu dizia que estava transtornado por uma carta recebida há pouco da mesma senhora por quem ela sabia que me sentira tão infeliz certa noite em Balbec. Lembrava-lhe que no dia seguinte ela me censurara por não ter mandado chamá-la. Assim, dizia eu, permitia-me pedir que sacrificasse a sua vesperal e viesse buscar-me para tomarmos juntos um pouco de ar, a fim de tentar que eu melhorasse. Mas, como eu levaria muito tempo para me vestir e me aprontar, ela me daria grande prazer aproveitando a presença de Françoise para ir comprar nos Trois Quartiers (sendo menor, esta loja me inquietava menos que o Bon Marché) o lenço de tule branca de que necessitava.
     Meu bilhete provavelmente não era inútil. Para falar a verdade, eu nada sabia do que havia feito Albertine desde que a conhecia, nem mesmo antes. Mas em sua conversação (Albertine poderia dizer, se lhe tivesse falado nisso, que eu compreendera mal) havia certas contradições, certos retoques que me pareciam tão decisivos como um flagrante delito, porém menos utilizáveis contra Albertine que, muitas vezes, surpreendida em fraude como uma criança, de cada vez, graças a súbitas retificações estratégicas, tornara baldados meus cruéis ataques e restabelecera a situação. Cruéis para mim. Ela empregava, não por refinamento de estilo, mas para reparar suas imprudências, esses saltos bruscos de sintaxe um tanto semelhantes ao que os gramáticos denominam anacoluto ou seja lá o que for. Deixando escapar, ao falar de mulheres, estas palavras: 

- Lembro-me que ultimamente, eu -, bruscamente, depois de uma "pausa de semicolcheia", "eu" se transformava em "ela", era uma coisa que ela tinha avistado num passeio inocente, e não realizada. Não era ela o sujeito da ação. Gostaria eu de me lembrar exatamente do começo da frase para concluí-la por mim mesmo, já que ela se interrompera, qual teria sido o final. Mas, como havia esperado esse final, mal me recordava do princípio, pois talvez o meu ar interessado a tivesse feito desviar-se, e eu ficava ansiando pelo seu pensamento verdadeiro, pela sua recordação verídica. Infelizmente, com os começos de uma mentira de nossa amante ocorre o mesmo que com os começos do nosso próprio amor, ou com os começos de uma vocação. Eles se formam, conglomeram-se e passam despercebidos de nossa própria atenção. Quando queremos nos lembrar de que modo começamos a amar uma mulher, já estamos amando; dos devaneios de antes, não dizíamos: é o prelúdio de um amor, estejamos atentos; e eles avançavam de surpresa, mal notados por nós. Da mesma forma, a não ser em casos relativamente escassos, foi quase por comodidade da narrativa que muitas vezes opus aqui um dito mentiroso de Albertine com (sobre o mesmo assunto) a sua afirmação primitiva. Essa afirmação primitiva, muitas vezes, não lendo no futuro e não adivinhando qual afirmação contraditória lhe corresponderia mais tarde, deslizara despercebida, com certeza escutada por meus ouvidos, mas sem que eu a isolasse da continuidade das palavras de Albertine. Posteriormente, gostaria de me lembrar; era em vão; minha memória não fora prevenida a tempo; havia julgado inútil guardar uma cópia.

     Recomendei a Françoise que, quando tivesse feito Albertine sair do salão, avisasse-me por telefone e a trouxesse de volta, contente ou não.

- Não faltava mais nada que ela não ficasse contente de vir para a companhia do senhor. 
- Mas não sei se ela gosta tanto assim de estar comigo.
- Seria preciso que ela fosse bem ingrata - replicou Françoise, em quem Albertine renovava, depois de tantos anos, o mesmo suplício da inveja que outrora lhe causara Eulalie junto de minha tia. Ignorando que a situação de Albertine junto a mim não fora procurada por ela mas por mim desejada (o que por amor-próprio e para enraivecer Françoise eu punha tanto empenho em lhe ocultar), ela admirava e execrava a sua habilidade e chamava-a, quando falava dela aos demais criados, de "comediante", de "impostora", que fazia de mim o que queria. Não ousava ainda entrar em guerra aberta contra Albertine, fazia-lhe boa cara, e valorizava-me os serviços que prestava em suas relações comigo, pensando ser inútil dizer-me qualquer coisa e que não conseguiria nada, mas aguardando uma ocasião; e, se alguma vez descobrisse uma fissura na situação de Albertine, prometia a si mesma alargá-la e separar-nos completamente.
- Muito ingrata? Mas não, Françoise, eu é que me considero ingrato, você não sabe como ela é boa para mim. (Era-me tão doce parecer ser amado!) Vá depressa. 
- Vou chispando. 
 
     A influência de sua filha começava a alterar um pouco o vocabulário de Françoise. Assim todas as línguas perdem a sua pureza por anexar novos termos. Aliás, eu era indiretamente responsável por essa decadência do modo de falar de Françoise, que conhecera em sua bela época. A filha de Françoise não teria feito com que degenerasse ao mais baixo calão a linguagem clássica da mãe, se se tivesse contentado em falar o patoá com ela. Nunca se privara disso, e, quando as duas estavam juntas comigo, se tinham coisas secretas a se dizer, em vez de irem fechar-se na cozinha, elas se faziam, bem no meio do meu quarto, uma proteção mais intransponível que a porta mais bem trancada, falando o patoá. Eu apenas supunha que mãe e filha não viviam sempre em boa harmonia, a julgar pela frequência com que se repetia o único vocábulo que eu podia distinguir: m'esasperate (a menos que o objeto dessa exasperação fosse eu). Infelizmente, acabamos por aprender a língua mais desconhecida, desde que a ouçamos falar sempre. Lamentei que fosse o patoá, pois cheguei a conhecê-lo e não teria aprendido menos bem se Françoise tivesse o hábito de se exprimir em persa. Françoise, quando percebeu meu progresso, tratou de falar o mais depressa possível, e a filha também, mas nada adiantou. A mãe ficou desolada quando soube que eu compreendia o patoá, e depois contente ao me ouvir falá-lo. Na verdade, esse contentamento era o da zombaria, pois, embora eu acabasse por pronunciá-lo mais ou menos como ela, Françoise achava entre nossas pronúncias abismos que a encantavam, e punha-se a lastimar não ver mais pessoas da sua terra, nas quais há muitos anos que não pensava, e que, ao que parece, se torceriam de um riso que ela desejaria ouvir, ao me escutarem falar tão mal o patoá. Bastava essa ideia para enchê-la de alegria e de mágoa de não vê-la realizada, e nomeava este ou aquele camponês que chegaria às lágrimas de tanto rir. Em todo caso, nenhuma alegria se misturou à tristeza de que, mesmo o pronunciando mal, eu o compreendesse bem. As chaves tornavam-se inúteis quando aquele a quem desejamos impedir de entrar pode se servir de uma gazua ou de uma chave-mestra. Reduzindo-se o patoá a uma defesa sem valor, Françoise pôs-se a falar com a filha um francês que bem depressa se tornou o das épocas mais baixas.
     Eu já estava pronto. Françoise ainda não havia telefonado; seria preciso sair sem esperar? Mas quem sabe se ela encontraria Albertine? E se esta não se encontrasse nos bastidores? E se até, descoberta por Françoise, não se deixasse levar embora? Meia hora depois, ressoou o toque do telefone e no meu coração bateram tumultuosamente o receio e a esperança. Era um esquadrão volante de sons que, sob as ordens de um funcionário da companhia telefônica, com uma velocidade instantânea, me trazia as palavras do telefonista, não as de Françoise, a quem uma timidez e uma melancolia ancestrais, aplicadas a um objeto desconhecido de seus pais, a impediam de se aproximar de um receptor, mas que, no entanto, não temia visitar doentes contagiosos. Havia encontrado Albertine sozinha no corredor, e esta, tendo ido apenas avisar Andrée que não ficaria, logo se reunira a Françoise. 

- Ela não estava zangada? Ah, perdão. Pergunte a esta senhora se a senhorita não estava zangada. 
- Esta senhora me diz para lhe dizer que não, absolutamente não, muito pelo contrário; em todo caso, se ela não está contente isto não se percebe. Agora elas vão aos Trois Quartiers e estarão de volta às duas horas. -

continua na página 65...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Imediatamente, pegando o jornal)

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino I

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 I

Recife. Ponte Buarque de Macedo. 
Eu, indo em direcção á casa do Agra, 
Assombrado com a minha sombra magra, 
Pensava no Destino, e tinha medo! 

Na austera abóbada alta o phósphoro alvo 
Das estrellas luzia. . 0 calçamento 
Saxeo, de asphalto rijo, atro e vidrento, 
Copiava a polidez de um cráneo calvo. 

Lembro-me bem. A ponte era comprida, 
E a minha sombra enorme enchia a ponte, 
Como uma pelle de rhinoceronte 
Estendida por toda a minha vida! 

A noite fecundava o ovo dos vícios 
Animaes. Do carvão da trevaimmensa 
Cahia um ar damnado de doença 
Sobre a cara geral dos edifícios!  

Tal uma horda feroz de cães famintos, 
Atravessando uma estação deserta, 
Uivava dentro do eu, com a bocca aberta. 
A matilha espantada dos instinctos! 

Era como si, na alma da cidade, 
Profundamente lubrica e revolta, 
Mostrando as carnes, uma besta solta 
Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro, 
Eu vi, então, á luz de áureos reflexos, 
O trabalho génésico dos sexos, 
Fazendo á noite os homens do Futuro. 

Livres de microscópios e escalpellos, 
Dansavam, parodiando saraus cynicos, 
Bilhões de centrosomas apollinicos 
Na câmara promiscua do vitellus

Mas, a irritar-me os globos oculares, 
Apregoando e alardeando a côr nojenta, 
Fetos magros, ainda na placenta, 
Estendiam-me as mãos rudimentares! 

Mostravam-me o apriorismo incognoscivel 
Dessa fatalidade egualitaria, 
Que fêz minha familia originaria 
Do antro daquella fábrica terrível! 

A corrente atmospherica mais forte 
Zunuia. E, na ignea crostra do Cruzeiro, 
Julgava eu ver o fúnebre candieiro 
Que ha de me allumiar na hora da morte.

Ninguém comprehendia o meu soluço, 
Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas, 
O vento bravo me atirava flechas 
E applicações hyemaes de gelo russo, 

A vingança dos mundos astronômicos 
Enviava á terra extraordinária faca, 
Posta em rija adhesão de gomma lacca 
Sobre os meus elementos anatômicos. 

Ah ! Com certeza, Deus me castigava! 
Por toda a parte, como um réu confesso, 
Havia um juiz que lia o meu processo 
E uma forca especial que me esperava!

Mas o vento cessara por instantes 
Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orço 
Abafava-me o peito arqüeado e porco 
Num núcleo de substancias abrazantes. 

E' bem possível que eu um dia cegue. 
No ardor desta lethal tórrida zona, 
A côr do sangue é a cor que me impressiona 
E a que mais neste mundo me persegue! 

Essa obsessão chromática me abate. 
Não sei porque me vêm sempre á lembrança 
O estômago esfaqueado de uma creança 
E um pedaço de viscera escarláte. 

Quizéra qualquer coisa provisória 
Que a minha cerebral caverna entrasse, 
E até ao fim, cortasse e recortasse 
A faculdade aziaga da memória.  

Na ascensão barométrica da calma, 
Eu bem sabia, anciado e contrafeito, 
Que uma população doente do peito 
Tossia sem remédio na minhalma! 

E o cuspo que essa hereditária tosse 
Golphava, á guisa de ácido residuo, 
Não era o cuspo só de um individuo 
Minado pela tísica precoce. 

Não ! Não era o meu cuspo, com certeza 
Era a expectoração pútrida e crassa 
Dos bronchios pulmonares de uma raça 
Que violou as leis da Natureza! 

Era antes uma tosse úbiqua, estranha, 
Igual ao ruido de um calháo redondo 
Arremessado no apogêo do estrondo, 
Pelos fundibularios da montanha! 

E a saliva daquelles infelizes 
Inchava, em minha bocca, de tal arte, 
Que eu, para não cuspir por toda a parte, 
Ia engolindo, aos poucos, a hemoptisis! 

Na alta allucinação de minhas scismas, 
O microcosmos liquido da gotta 
Tinha a abundância de uma artéria rota, 
Arrebentada pelos anéurismas. 

Chegou-me o estado máximo da magua! 
Duas, três, quatro, cinco, seis e sete 
Vezes que eu me furei com um canivete, 
A hemoglobina vinha cheia de água!  

Cuspo, cujas caudaes meus beiços regam, 
Sob a fôrma de minimas camándulas, 
Bemditas sejam todas essas glândulas, 
Que, quotidianamente, te segrégam! 

Escarrar de um abysmo n' outro abysmo, 
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro, 
Ha mais philosophia neste escarro 
Do que em toda a moral do christianismo! 

Porque, si no orbe oval que os meus pés tocam 
Eu não deixasse o meu cuspo carrasco, 
Jamais exprimiria o acerrimo asco 
Que os canalhas do mundo me provocam! 


Continua na página 30...
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Leia também:
  O Deus-Verme / As Scismas do Destino I /   
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

Odisseia: Parte I (Canto II.b)

 Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto II

A Assembleia em Ítaca e a partida de Telêmaco

     ““Junto com a Aurora, Telêmaco, convocando para a assembleia os itacenses, pede aos pretendentes que saiam da casa, e solicita um navio para viajar a Pilo e a Esparta, que não consegue. Recebendo um navio de Noémone e as provisões de sua ama Euricleia, parte escondido da mãe.” (Scholie H M S)

continuando...

mas se me vier a notícia de que não mais vive, que é morto, 
volto, a seguir, para a terra querida do meu nascimento, 
um cenotáfio lhe erijo e funéreas exéquias lhe apresto, 
ricas, tal como convém. Casarei minha mãe depois disso.” 
   Disse; e, depois de falar, assentou-se. Levanta-se, logo, 
o venerável Mentor, do preclaro Odisseu companheiro, 
que lhe entregara o palácio e a fazenda ao subir para a nave, 
recomendando que todos respeito ao ancião demonstrassem. 
Cheio de bons pensamentos lhe diz, arengando, o seguinte: 
“Ora Itacentes, ouvi quanto na alma pretendo dizer-vos.

Que, doravante, nenhum rei cetrado jamais se revele 
nobre, sensato e bondoso, nem cheio de retos desígnios 
mas, ao contrário, só pense austerezas e viva maldades, 
pois do divino Odisseu já ninguém dos do povo se lembra, 
que sobre todos reinou como pai de bondade extremada. 
Os pretendentes soberbos, não vou censurar, certamente, 
pelas violências que fazem, produto de instintos malvados, 
que eles as próprias cabeças arriscam pilhando a fazenda 
do valoroso Odisseu, na ilusão de que a casa não volta. 
Mas contra o resto do povo não posso deixar de indignar-me.

Com serdes muitos, ficais em silêncio, sentados, sem 
verdes que aos pretendentes, por poucos, podíeis impor vosso freio.” 
   Disse-lhe o filho de Evénor, Leócrito, então, em resposta: 
“Louco e insensato Mentor, que pretendes com esse discurso? 
Queres que a gente desta ilha nos venha refrear? Perigoso 
lhe fora, embora em mor número, vir disputar-nos as festas. 
Mesmo que o próprio Odisseu Itacense voltasse em pessoa 
e os pretendentes viesse encontrar em sua casa, em banquetes, 
caso pensasse consigo em tocá-los, sem mais, do palácio, 
dificilmente haveria de a esposa saudosa alegrar-se:

sim, Morte indigna encontra aqui mesmo o guerreiro solerte, 
se se medisse com muitos. Não foste oportuno em teus ditos. 
Eia! Disperse-se o povo e procure cada um seu trabalho. 
Quanto à viagem, incumbam-se disso Mentor e Haliterses, 
que companheiros, há muito, se prezam de ser do pai dele. 
Penso, porém, que não deve afastar-se desta ilha, onde quieto, 
há de notícias obter, sem jamais realizar essa viagem.” 
   Dessa maneira falou, dissolvendo, sem mais, a assembleia. 
Tendo-se assim dispersado, procura cada um sua casa; 
os pretendentes à casa do divo Odisseu se dirigem.

Foi, em seguida, Telêmaco, ao longo da praia marítima; 
molha nas ondas espúmeas as mãos e dirige-se a Atena: 
   “Ouve-me, ó deus, que estiveste no nosso palácio 
ontem, e me aconselhaste cruzar num navio o mar fosco, 
em busca de informações de meu pai, que, de há muito, está ausente, 
se vem de volta. Mas isso os Acaios procuram frustrar-me 
e os pretendentes, mormente, malvados e de ânimo altivo.” 
   Dessa maneira suplica. Aproxima-se Palas Atena, 
mui semelhante a Mentor, na figura exterior e na fala, 
e, começando a falar, lhe dirige as palavras aladas:

“Para o futuro nem fraco, nem fútil serás, ó Telêmaco, 
se de teu pai, em verdade, possuíres o ardor invencível. 
Homem como ele é bem raro; não só nos discursos, nas obras! 
Essa viagem, que intentas, nem vã há de ser nem frustrada. 
Se não descendes, porém, nem do herói, nem da sábia Penélope, 
não poderás realizar o projeto que no imo acalentas, 
pois são contados os filhos que à altura dos pais chegar podem; 
a maior parte é inferior; muito poucos conseguem passá-los. 
Mas é evidente que fútil nem fraco hás de um dia mostrar-te, 
porque do senso do astuto Odisseu não pareces privado.

Nutre a esperança, portanto, de dar bom recado da empresa. 
Os pretendentes despreza, quer falem, quer teçam projetos, 
os insensatos, porque nem são justos, nem obram com siso, 
sim, pois ignoram em seus pensamentos que a Morte e o sombrio 
Fado estão próximos, para que todos pereçam num dia. 
Por muito tempo a viagem que intentas não há de atrasar-se, 
pois companheiro fiel de teu pai encontrar em mim vieste: 
aprestarei um navio veloz, indo eu próprio contigo. 
Para tua casa retorna, mistura-te com os pretendentes. 
Vasos bastantes apresta e, também, os demais mantimentos,

vinho nos odres, bem como a farinha, medula dos homens, 
dentro de couros bem fortes, enquanto procuro no povo 
quem, voluntário, nos siga. Navios possui numerosos 
Ítaca, que pelo mar é cercada, entre novos e velhos. 
Desses, pretendo escolher para ti o que for mais prestante, 
e o lançaremos no vasto oceano, depois de esquipado.” 
   Palas Atena, nascida de Zeus, assim disse. Telêmaco 
não se detém por mais tempo, pós ter-lhe escutado o conselho. 
Para o palácio retorna, sentindo angustiar-se-lhe o peito. 
Os pretendentes soberbos foi logo encontrar, que no pátio

couros tiravam de cabras e porcos assavam no fogo. 
Rindo-se, Antínoo se foi para o lado onde estava Telêmaco, 
toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Altiloquente Telêmaco, de ânimo altivo, não cuides 
revolutear em teu peito ações más, ou sequer, pensamentos, 
mas vem conosco comer e beber, tal como antes fazias. 
Deixa ao cuidado dos nobres Aqueus arranjarem-te naves 
e remadores seletos, a fim de que possas a Pilo 
te transportar e notícias obter de Odisseu, como queres.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta:

“Não é possível, Antínoo, convosco ficar, arrogantes, 
nesses banquetes, calado, e que alegre e tranquilo me mostre. 
Ou já não basta me terem vastado a fazenda copiosa 
os pretendentes, durante esse tempo em que eu era criança? 
Ora que um homem já sou e que os ditos das outras pessoas 
ouço e compreendo, no peito, também, sinto estuar-me a coragem. 
Contra vós todos, por isso, hei de fado aprestar-vos funesto, 
ou seja em Pilo arenosa, ou aqui mesmo, entre o povo desta ilha. 
Já que é impossível obter remadores e barco, pois todos 
mais conveniente julgais recusarmos, sabei que essa viagem

não ficará infrutuosa; em navio sairei alugado.” 
   Isso disse ele, tirando depressa sua mão da de Antínoo. 
Os pretendentes, no entanto, preparam na casa o banquete, 
enquanto alguns ironias e ditos pungentes lhe assacam. 
Foi quando disse um qualquer desses moços de mente soberba: 
   “Oh! Com certeza Telêmaco pensa em matar-nos a todos, 
quer vá buscar defensores em Pilo, de solo arenoso, 
quer os conduza de Esparta. Empenhado em partir se revela. 
A Éfira, certo, de férteis campinas chegar ele almeja, 
para tentar adquirir qualquer droga de força homicida,

que nos misture no vinho, com o fim de que todos morramos.” 
   Fala, também, por seu lado, outro moço de mente soberba: 
“E quem nos diz que não venha a perder-se, também, na bojuda 
nave, distante dos caros amigos, tal como o pai dele? 
Se tal se desse, teríamos, por vossa vez, mais trabalhos. 
Fora mister dividir os bens todos, exceto o palácio, 
que lhe seria da mãe e daquele que esposo lhe fosse.” 
   Isso diziam. À câmara paterna baixa, de teto 
alto, e espaçosa, onde de ouro e bronze tesouros havia, 
bem como vestes em arcas e óleo cheiroso em grã cópia,

jarras de vinho de antiga colheita, de gosto inefável, 
tendo no bojo a divina bebida, extremada e sem liga, 
enfileiradas ao longo do muro, Odisseu aguardando, 
caso ao palácio voltasse, depois de trabalhos inúmeros. 
Duplo ferrolho engenhoso ajustava os batentes da porta. 
Sempre de guarda, ficava a intendente de dia e de noite, 
bem vigilante e dotada de grande prudência, Euricleia, 
gênita de Opos, que filho se diz do guerreiro Pisénor. 
Chama-a Telêmaco ao quarto e lhe diz as seguintes palavras: 
   “Ora, mãezinha, nas ânforas vinho agradável derrama,

em qualidade, o primeiro depois do que tens sob tua guarda, 
sempre a pensar no coitado, se acaso de novo voltasse 
livre dos riscos da Morte, Odisseu de linhagem divina. 
Enche-me doze e com rolhas prove todas elas a jeito; 
vinte medidas, também, de farinha nas mós triturada, 
que deitarás em um saco de couro mui bem-costurado. 
Mas que ninguém mais o saiba. Em lugar concertado põe tudo; 
eu mesmo, à noite, virei cá buscá-lo, no instante em que minha 
mãe para o quarto subir, com tenção de no leito deitar-se, 
para que a Esparta me vá, como a Pilo de solo arenoso,

ver se consigo notícias da volta de meu pai querido.” 
   Isso disse ele; Euricleia é tomada de súbito pranto; 
e, entre gemidos sentidos, lhe diz as palavras aladas: 
   “Mas, caro filho, que ideia foi essa que à mente te veio? 
Como pretendes viajar pelo mundo tão grande, sozinho, 
nosso consolo exclusivo? Morreu muito longe da pátria, 
em terra desconhecida, Odisseu de linhagem divina. 
Nem bem te apartes, decerto ciladas a ti serão feitas, 
para que morras e possam depois repartir-te a fazenda. 
Fica em tua casa, no meio do que te pertence; não corras

por longes terras, nem sofras trabalhos no mar infecundo.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Mãe, não te aflijas, que tenho a assistência de um deus no que faço. 
Quero, porém, que me jures que nada dirás à mãezinha 
antes que sejam onze dias completos, ou mesmo doze dias, 
salvo se der pela falta, ou souber por alguém dessa viagem, 
para que o rosto formoso, com lágrimas não desfigure.” 
   Disse; promete-o a anciã pela máxima jura dos deuses. 
Tendo assim, pois, completado as palavras da fórmula sacra, 
vai, sem demora, nas ânforas vinho deitar, saboroso,

mais a farinha num saco de couro mui bem-costurado. 
Volta Telêmaco para o palácio e aos demais se mistura. 
   A de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso: 
Sob as feições de Telêmaco toda a cidade percorre 
e apropinquando-se a cada um dos moços, aviso lhes dava, 
para que à noite se fossem reunir no navio bojudo. 
Pede, depois, a Noémone, filho preclaro de Frônio, 
queira emprestar-lhe o navio veloz; de bom grado ele o cede. 
E, quando o Sol se deitou e as estradas a sombra cobria, 
puxa o navio veloz para o mar e, em seguida, o apetrecha

com tudo que embarcação bem coberta levar costumava. 
Põe-na na entrada do porto, onde a tripulação expedita 
se reunira. Coragem em todos a deusa suscita. 
   A de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso: 
Para o palácio do divo Odisseu dirigiu-se depressa, 
onde lançou doce sono nas pálpebras dos pretendentes, 
que, vacilantes e bêbados, soltam das mãos as crateras. 
Foram-se todos dormir na cidade; ninguém mais consegue 
continuar assentado, que o sono atingira já todos. 
A de olhos glaucos, Atena, a Telêmaco fala, após tê-lo

feito sair de seu quarto de boa e formosa feitura, 
mui semelhante a Mentor, na figura exterior e na fala: 
   “Teus companheiros, de grevas bem-feitas, estão já, Telêmaco, 
com mãos nos remos, à espera, tão só, de que vás lhes dar ordens. 
Vamos, portanto. Não fique atrasada, por isso, a viagem.” 
   Palas Atena, depois que assim disse, se pôs a guiá-lo 
rapidamente. As pegadas da deusa seguia Telêmaco. 
Logo que foram chegados ao mar e, depois, ao navio, 
os companheiros, de longos cabelos, encontram na praia. 
Disse-lhes estas palavras o sacro poder de Telêmaco:

“Vamos, amigos! Só falta trazer as vitualhas que se acham 
no átrio, apartadas. Não só minha mãe, mas as criadas o ignoram, 
com exceção de uma apenas, a quem confiei todos os planos.” 
   Isso dizendo, se pôs a guiá-los; os outros o seguem. 
Tudo transportam, depois, para a nave de boa coberta, 
tal como o filho querido do herói Odisseu o ordenara. 
Sobe, depois, para a nave Telêmaco; Atena o guiava, 
indo sentar-se na popa. A seu lado assentou-se Telêmaco. 
Os companheiros, no entanto, depois de safar as amarras, 
sobem, também, para bordo e se sentam nos bancos dos remos.

A de olhos glaucos, Atena, bom vento lhes deu para a viagem, 
o forte Zéfiro, que ressoava no mar cor de vinho. 
Ora estimula Telêmaco os seus companheiros e manda que mãos pusessem 
na enxárcia; obedecem-lhe todos às ordens. 
Eis que primeiro levantam o mastro de abeto e na enora 
do travessão o colocam; depois, com estais o reforçam; 
içam a cândida vela com driças de couro trançado. 
Logo se enfuna no meio com o vento, e na frente do beque 
da nau, que avança, ressoam ruidosas as ondas inquietas. 
Corre veloz sobre as ondas, fazendo o caminho do estilo.

Tendo a manobra concluído na escura e mui célere nave,
logo levantam crateras repletas de vinho até a borda, 
e libações oferecem a todos os deuses eternos, 
principalmente à donzela nascida de Zeus, olhos glaucos. 
   Té que raiasse a manhã corre a nau, perfazendo o caminho. 

continua página 680...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b /    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

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Ilíada, de Homero - Canto II