Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹
Canto VII
Entrada de Odisseu na casa de Alcínoo
“Atena se faz presente para Odisseu e mostra-lhe a casa de Alcínoo. Odisseu, se aproximando, se lança aos joelhos de Arete, e pede para ela enviá-lo de volta à sua pátria. Alcínoo concorda, o coloca ao seu lado e lhe oferece comida. Arete reconhece as roupas e lhe pergunta de onde as conseguiu. Odisseu então lhes conta os acontecimentos desde a ilha de Calipso, seu naufrágio, sua chegada e que, pedindo, recebeu de Nausícaa as roupas.” (Scholie H V)
continuando...
que se encontrava a seu lado, e entre todos os mais distinguia.
Água lustral lhe ministra uma serva em gomil primoroso
de ouro, deixando-a cair sobre as mãos em bacia de prata,
pondo-lhe, em frente, depois, uma mesa de aspecto polido.
A despenseira zelosa aparece, que pão lhe reparte,
como, também, provisões abundantes lhe dá prazerosa.
Come à vontade, e assim bebe, o divino e sofrido guerreiro.
Vira-se, então, para o arauto a de Alcínoo sagrada potência:
“Ora, Pontónoo, mistura nas taças o vinho, e aos presentes,
[1] O trecho aprofunda a construção de Odisseu como herói marcado pela dor e pela lucidez, ao mesmo tempo em que revela o código de hospitalidade dos Feácios. Ao responder a Alcínoo, Odisseu recusa qualquer associação com os deuses e insiste em sua condição mortal, sublinhando a distância entre a aparência divina que muitos lhe atribuem e a realidade de um homem exausto, moldado pelo sofrimento. Sua reflexão sobre o “ventre molesto” é um momento raro de ironia e realismo na Odisseia: mesmo em meio à angústia, o corpo exige sustento, lembrando que a necessidade física é inescapável e, paradoxalmente, capaz de suspender a memória da dor. O pedido para retornar à pátria ao amanhecer reforça seu desejo constante de reencontro com a identidade perdida — casa, bens, escravos, estabilidade — e mobiliza a empatia dos convivas, que o aplaudem e concordam em ajudá-lo. O episódio marca a transição de Odisseu da condição de suplicante à de hóspede honrado, preparando o terreno para a narrativa de suas aventuras e para o auxílio decisivo dos Feácios em seu retorno a Ítaca.
[2] A relação de confiança começa a se formar entre Odisseu e Alcínoo, ao mesmo tempo em que revela nuaances importantes da ética feácia. Alcínoo inicia com uma leve crítica à filha, Arete, por não ter conduzido o estrangeiro ao palácio, mas Odisseu, com sua habitual prudência, desfaz qualquer possibilidade de conflito ao explicar que recusou o convite por vergonha e receio de causar irritação — um gesto que reforça sua sensibilidade às normas sociais e ao risco de ser mal interpretado. A resposta de Alcínoo, marcada pela moderação, revela um governante equilibrado, que valoriza a calma e a justiça, e chega até a imaginar Odisseu como possível genro, sinal de admiração pela figura do herói. Em seguida, o rei reafirma o princípio fundamental da hospitalidade feácia: ninguém é retido contra a vontade, pois isso seria ofensivo aos deuses. Ele promete uma viagem rápida e segura, destacando a excelência quase sobrenatural das naus de seu povo. Assim, o episódio consolida a passagem de Odisseu da condição de suplicante à de hóspede honrado, enquanto prepara o leitor para o momento decisivo em que os Feácios se tornarão instrumentos do retorno do herói à sua pátria.
sem exceção, distribui, porque votos a Zeus dirijamos,
fulminador, que acompanha em seus passos os nobres pedintes.”
Disse; Pontónoo obedece, a melíflua bebida mistura,
distribuindo por todos os copos as sacras primícias.
Isso, porém, terminado e depois que à vontade libaram,
disse aos presentes Alcínoo, arengando, as seguintes palavras:
“Ora escutai-me, Feácios, que sois conselheiros e guias,
quanto vos digo e no peito me ordena falar-vos o espírito.
Já terminamos o nosso banquete, ide agora deitar-vos.
Mas amanhã, quando os nobres anciões estiverem reunidos,
receberemos em nosso palácio o estrangeiro e faremos
o sacrifício das vítimas sacras; depois decidamos
como aprestar-lhe o retorno, sem dores nem muitos trabalhos,
tendo Feácios por guia, até a terra natal o levarmos,
sem mais demora, ainda mesmo que se ache mui longe da pátria.
Possa livrar-se, até lá, de sofrer qualquer dor ou trabalhos,
antes de a terra nativa pisar. Uma vez lá chegado,
veja-se a braços com quanto o Destino e as molestas fiandeiras
desde o princípio teceram, ao ser pela mãe dado à vida.
Mas, se se trata de um deus que do céu tenha, acaso, descido,
é porque, então, os eternos de novo projeto se ocupam,
pois eles têm o costume de vir até nós, em pessoa,
quando hecatombes perfeitas nos nossos banquetes lhes damos,
parte tomando nos nossos convites, ao lado de todos.
Quando, também, um dos nossos na estrada, sozinho, os encontra,
de forma alguma lhe fogem, tão só por parentes lhes sermos,
como, igualmente, os Ciclopes e as tribos dos feros Gigantes.”
Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu, o guerreiro solerte:
“Outros cuidados, Alcínoo, resolve no peito. De fato,
não me assemelho a nenhum dos eternos, que moram no Olimpo,
nem nas feições, nem na altura; sou simples mortal transitório,
tal como os homens que estais habituados a ver, experientes
no sofrimento; com esses, em dores, presumo igualar-me.
Sim, porventura maiores trabalhos pudera narrar-vos,
quanto sofri por desígnio de todos os deuses eternos.
Ora deixai-me comer, apesar da aflição em que me acho.
Nada se pode encontrar de mais cínico do que um molesto
ventre, de cuja existência é impossível jamais esquecer-nos,
por mais cansados que, acaso, estejamos e mais angustiados,
tal como agora se encontra minha alma. Vede: ele não cessa
de concitar-me a comer e beber, obrigando-me tudo
quanto hei sofrido esquecer, porque possa somente saciar-se.
Logo que a Aurora desponte, no entanto, a fazer apressai-vos
que a este infeliz seja dado pisar o país de nascença,
pós tantas dores. Termine-se ali minha vida, após isso,
depois de ver os meus bens, as escravas e a casa imponente.”
Isso falou. Os presentes aplaudem-no em peso, concordes
em repatriar o estrangeiro, porque tão razoável falara.
Isso, porém, terminado e depois que à vontade beberam,
foram deitar-se os convivas, cada um procurando sua casa.
Mas o divino e sofrido Odisseu continuou na ampla sala,
junto de Arete sentado e de Alcínoo, que um deus parecia.¹
Vêm as criadas e tiram a mesa servida na festa.
Foi a primeira a falar a de cândidos braços, Arete,
pois, reparando nos belos vestidos, no manto e na túnica,
viu serem eles os mesmos que com suas servas tecera.
E, começando a falar, lhe dirige as palavras aladas:
“Quero, estrangeiro, primeiro que todos, fazer-te perguntas:
Qual o teu nome? De onde és? Quem te deu essas roupas que trazes?
Não nos disseste que vieste até aqui, pelo mar sempre a nado?
Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu, o guerreiro solerte:
“Mui delicado, ó rainha, seria contar-te sem falhas
todos os males, que a mim propinaram os deuses eternos.
Mas a informar-te de tudo o que queres saber me disponho.
Muito distante, no mar, vê-se uma ilha, que Ogígia se chama,
onde demora a ardilosa Calipso, de tranças bem-feitas,
filha de Atlante. É uma deusa terrível, com quem convivência
não tem criatura nenhuma, nem mesmo nenhum dos eternos.
Somente a mim, o infeliz, um demônio até lá conduziu-me
no meu navio veloz abraçado, que Zeus atingira
longe, no mar cor de vinho, fendendo-o com o raio brilhante.
Todos os meus companheiros valentes aí pereceram;
eu, no entretanto, abraçando-me à quilha da nave simétrica,
por nove dias vaguei; mas, na noite do décimo, os deuses
à ilha de Ogígia me fazem chegar, onde mora Calipso,
de belas tranças, a deusa funesta, que, sempre bondosa,
alimentou-me e acolheu-me e me disse, com muitos afagos,
que me faria imortal e liberto das cãs para eterno.
O coração no imo peito, porém, jamais pôde abalar-me.
Por um setênio contínuo ali estive detido, com lágrimas
sempre a banhar os vestidos eternos, que a deusa me dera.
Mas, depois que, no transcurso do tempo, chegou o oitavo ano,
ela incitou-me, ordenando seguir, sem delongas, de viagem
ou por desígnio de Zeus, ou porque se mudasse ela própria.
Numa jangada bem-feita deixou-me partir, tendo posto
nela bom vinho e alimento; com roupa divina vestiu-me.
Fez que soprasse, em seguida, um bom vento, propício e agradável.
Dias singrei dezessete no dorso do mar, desse modo;
mas, no seguinte, desta ilha surgiram os montes escuros.
Já o coração se alegrava no peito do triste coitado;
tinha porém de passar muitos outros reveses, sem conta,
que de Posido me vinham, que os muros da terra sacode.
Desencadeou ventos fortes, que a viagem de todo impediram;
o mar imenso agitou, sem que as ondas, sequer, permitissem
que da jangada pudesse valer-me na minha desdita,
pois a procela a desfez. Vi-me, pois, a avançar obrigado,
sempre nadando, através da voragem, até que à paragem
em que habitais me lançaram os ventos e as ondas marinhas.
Para alcançar terra firme, forçaram-me as ondas violentas
contra uns imanos rochedos, na costa de aspecto tristonho.
Retrocedendo, porém, novamente nadei, até ver-me
na foz de um rio, onde quis parecer-me lugar apropriado,
por ser sem pedra nenhuma e abrigado da força dos ventos.
Quase sem vida caí sobre o solo ao baixar a divina
Noite. Depois afastei-me do rio, do céu oriundo,
para ir dormir sobre um monte de folhas, que eu próprio ajeitara,
entre uns arbustos; um deus me infundiu profundíssimo sono.
Nesse lugar, entre as folhas, dormi, apesar do cansaço,
toda essa noite e a seguinte manhã, té a metade do dia.
O doce sono de mim se apartou, quando o Sol se deitava.
Foi nesse instante que vi sobre a praia a brincar as criadas
de tua filha, que entre elas estava qual deusa inefável.
Aproximei-me e falei-lhe; mostrou ser dotada de juízo,
como jamais esperara que jovem por essa maneira
me respondesse, que os moços estúrdios são sempre e insensatos.
Deu-me à vontade alimentos e vinhos de rútilo aspecto;
fez-me no rio banhar e, por fim, me brindou com estas roupas.
Eis a verdade de tudo, apesar da aflição que me oprime.”
Disse-lhe Alcínoo, depois, em resposta, as seguintes palavras:
“Hóspede, ao menos num ponto, razoável não foi minha filha,
em não te haver, juntamente com as servas, trazido ao palácio,
visto ter sido a primeira pessoa de quem te acercaste.”
Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu, o guerreiro solerte:
“Não repreendas, guerreiro, tua filha por esse motivo.
Ela, de fato, me disse que viesse com suas escravas;
mas eu não quis, por vergonha e, também, por achar-me receoso
de que pudesses ficar irritado, ao nos veres sozinhos.
São mui propensos à cólera os homens nascidos da terra.”
Disse-lhe Alcínoo, depois, em resposta, as seguintes palavras:
“Não é costume, estrangeiro, exaltar-se, sem causa, no peito,
meu coração. Preferível é ser moderado nas coisas.
Fosse do gosto de Zeus, e de Palas Atena, e de Apolo,
que, desse modo, qual és, compartindo de meus pensamentos,
como mulher minha filha escolhesses e fosses chamado
meu genro aqui. Um palácio dar-te-ia, bem como riquezas,
se, de bom grado, ficasses, pois contra a vontade os Feácios
não te detêm. Tal conduta seria por Zeus condenada.
Sobre a tua volta, fixei-lhe o momento, porque bem o anotes:
para amanhã; pois, enquanto dormires um sono profundo,
hão de cortar o mar brando os meus homens, a fim de levar-te
à tua pátria e ao palácio, ou onde quer que te seja agradável,
mesmo que esteja situada mais longe que a terra de Eubeia,
que é a mais distante de todas, segundo o referem dos nossos
quantos a viram, no tempo em que foram levar Radamanto
para que a Tício visita fizesse, o nascido de Geia.
Mas conseguiram chegar até lá, sem cansados ficarem,
no mesmo dia, e fazer o percurso até aqui, de retorno.
Por experiência hás de ver quanto os nossos navios são ótimos
e hábeis os moços no ofício de as ondas cortar com seus remos.”²
Disse. Com isso o divino e sofrido Odisseu alegrou-se
e a suplicar começou de dizer as seguintes palavras:
“Possa, ó Zeus pai, realidade tornar-se isso tudo que Alcínoo
me prometeu! Que na terra fecunda de trigo sua glória
seja infinita, e que eu chegue a alcançar meu país de nascença!”
Dessa maneira, em colóquio, eles dois tais conceitos diziam.
Foi quando Arete, de cândidos braços, mandou às criadas
que sob o pórtico o leito lhe armassem, com bons travesseiros,
de cor purpúrea forrado e coberto, também, com tapetes,
para, por último, os mantos velosos por cima assentarem.
Elas saíram da sala, sustendo nas mãos os archotes.
Ao acabarem de o leito bem forte aprontar, foram todas
té onde se achava Odisseu, e por esta maneira o invitaram:
“Vai, estrangeiro, deitar-te, que pronto já se acha o teu leito.”
Por esse modo falaram; mui grato lhe foi o descanso.
Dessa maneira dormia o divino e sofrido guerreiro
num leito belo e entalhado, debaixo da sala sonora.
Deita-se Alcínoo, também, no interior
do seu alto palácio, onde a consorte
comparte do leito e colchões que ajeitara.
continua página 767...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b / Canto VII.a / Canto VII.b /
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] O trecho aprofunda a construção de Odisseu como herói marcado pela dor e pela lucidez, ao mesmo tempo em que revela o código de hospitalidade dos Feácios. Ao responder a Alcínoo, Odisseu recusa qualquer associação com os deuses e insiste em sua condição mortal, sublinhando a distância entre a aparência divina que muitos lhe atribuem e a realidade de um homem exausto, moldado pelo sofrimento. Sua reflexão sobre o “ventre molesto” é um momento raro de ironia e realismo na Odisseia: mesmo em meio à angústia, o corpo exige sustento, lembrando que a necessidade física é inescapável e, paradoxalmente, capaz de suspender a memória da dor. O pedido para retornar à pátria ao amanhecer reforça seu desejo constante de reencontro com a identidade perdida — casa, bens, escravos, estabilidade — e mobiliza a empatia dos convivas, que o aplaudem e concordam em ajudá-lo. O episódio marca a transição de Odisseu da condição de suplicante à de hóspede honrado, preparando o terreno para a narrativa de suas aventuras e para o auxílio decisivo dos Feácios em seu retorno a Ítaca.
[2] A relação de confiança começa a se formar entre Odisseu e Alcínoo, ao mesmo tempo em que revela nuaances importantes da ética feácia. Alcínoo inicia com uma leve crítica à filha, Arete, por não ter conduzido o estrangeiro ao palácio, mas Odisseu, com sua habitual prudência, desfaz qualquer possibilidade de conflito ao explicar que recusou o convite por vergonha e receio de causar irritação — um gesto que reforça sua sensibilidade às normas sociais e ao risco de ser mal interpretado. A resposta de Alcínoo, marcada pela moderação, revela um governante equilibrado, que valoriza a calma e a justiça, e chega até a imaginar Odisseu como possível genro, sinal de admiração pela figura do herói. Em seguida, o rei reafirma o princípio fundamental da hospitalidade feácia: ninguém é retido contra a vontade, pois isso seria ofensivo aos deuses. Ele promete uma viagem rápida e segura, destacando a excelência quase sobrenatural das naus de seu povo. Assim, o episódio consolida a passagem de Odisseu da condição de suplicante à de hóspede honrado, enquanto prepara o leitor para o momento decisivo em que os Feácios se tornarão instrumentos do retorno do herói à sua pátria.