Edgar Allan Poe - Contos
O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug
Publicado em 1842
continuando...
Decorridas duas horas, tínhamos atingido uma profundidade de cinco pés, e
nenhum indício de tesouro se nos deparara. Descansámos todos e pensei que a
farsa estivesse a chegar ao fim. Entretanto, Legrand, se bem que evidentemente
desconcertado, enxugou a testa com um ar pensativo e tornou a pegar na pá. O
buraco ocupava já toda a extensão do círculo de quatro pés de profundidade.
Aumentámos ligeiramente este limite e cavámos ainda mais dois pés. Não
apareceu nada. O meu pesquisador de ouro, do qual eu tinha imensa piedade,
saltou por fim para fora do buraco com o mais espantoso desapontamento
estampado no rosto e decidiu-se a vestir o casaco, que tirara antes de começar o
trabalho.
Evitei fazer-lhe qualquer observação. Júpiter, a um sinal do patrão,
começou a reunir a ferramenta. Feito isto, e depois de tirar o açaimo ao cão,
voltamos a pôr-nos em marcha num silêncio profundo. Tínhamos dado talvez
uma dúzia de passos quando Legrand, soltando uma terrível praga, saltou para
Júpiter e agarrou-o pelo pescoço. O negro estupefato abriu os olhos e a boca a
toda a largura, deixou cair as pás e caiu de joelhos.
— Celerado! — gritava Legrand sibilando as sílabas entre dentes. — Negro
do diabo! Vil negro! Fala, ordeno-te! Responde-me neste instante e, sobretudo,
não mintas. Qual é o teu olho esquerdo?
— Ah!, misericórdia, massa Will! não é este o meu olho esquerdo? — rugiu
Júpiter espantado, colocando a mão sobre o olho direito, e mantinha-a agora com
a força do desespero, como se receasse que o seu patrão lhe quisesse arrancar.
— Eu já desconfiava! Bem o sabia! Bravo! — vociferou Legrand largando
o negro, e dando uma série de saltos e cabriolas, com grande espanto do seu
criado que se levantara e olhava, sem dizer palavra, para o patrão e para mim.
— Vamos, é preciso voltar — disse ele ao negro. — A partida não está
perdida.
E dirigiu-se de novo para a tulipeira.
— Júpiter — disse-lhe quando chegamos ao pé da árvore — vem aqui! O
crânio está pregado com a face voltada para o exterior ou voltada para o centro
do ramo?
— A caveira está pregada ao ramo exterior, massa, de forma que os corvos
puderam comer os olhos sem nenhuma dificuldade.
— Bem. Então, foi por este olho ou pelo outro que fizeste escorregar o
escaravelho? — E Legrand tocou alternadamente nos dois olhos de Júpiter.
— Por este olho aqui, massa, pelo olho esquerdo, justamente como me
havia dito.
E era ainda o seu olho direito que indicava o pobre negro.
— Vamos, vamos! É preciso recomeçar.
Então o meu amigo, na loucura da qual agora eu via, ou julgava ver, certos
indícios de método, colocou a cavilha que marcava o sítio onde o escaravelho
caíra a três polegadas, para oeste, da sua primeira posição. Estendendo de novo o
seu cordel do ponto mais próximo do tronco até à cavilha, como já tinha feito, e
continuando a estender em linha reta a uma distância de cinquenta pés, marcou
um novo ponto afastado várias jardas do sítio em que tínhamos anteriormente
cavado.
Em volta deste novo centro, foi traçado um círculo pouco mais largo do
que o primeiro, e pusemo-nos de novo a trabalhar. Eu estava muitíssimo fatigado,
mas sem me dar conta do que influíra para uma modificação no meu
pensamento, não sentia já uma grande aversão pelo trabalho que me fora
imposto. Interessei-me inexplicavelmente. Diria mais: sentia-me excitado. Talvez
houvesse, em toda a estranha conduta de Legrand, um certo ar deliberado, um
certo ar profético que me impressionava. Eu cavava ardentemente e, de vez em
quando, surpreendia-me a procurar, por assim dizer, com os olhos, com um
sentimento que se assemelhava ao da espera desse tesouro imaginário, cuja visão
tinha transtornado o meu infortunado camarada. Num desses momentos em que
as divagações se tinham apoderado estranhamente de mim, e quando tínhamos
já trabalhado aproximadamente hora e meia, fomos novamente interrompidos
pelos uivos do cão. A sua inquietação no primeiro caso não fora evidentemente
senão o resultado de um capricho ou de uma alegria doida. Desta vez, porém,
tinha um tom mais violento e mais caracterizado. Quando Júpiter se esforçou de
novo a açaimá-lo, ele resistiu furiosamente e, saltando para a cova pôs-se a
esgaravatar freneticamente a terra com as unhas. Passados alguns segundos, o
cão tinha descoberto uma massa de ossos humanos, formada por dois esqueletos
completos e misturados com vários botões de metal e outra coisa que nos
pareceu ser lã velha, apodrecida e esfarelada. Uma ou duas pazadas fizeram
saltar a lâmina de uma grande faca espanhola. Cavámos ainda mais e
apareceram três ou quatro moedas de ouro e de prata espalhadas.
Ao ver isto, Júpiter pôde a custo conter a sua alegria, mas a fisionomia do
seu patrão exprimiu um desapontamento medonho. Pediu, no entanto, para
continuarmos os nossos esforços, e mal acabara de falar, tropecei e caí para a
frente, com a biqueira da minha bota metida num grande aro de ferro que jazia
meio enterrado sob um monte de terra fresca. Recomeçamos o trabalho com um
novo ardor. Eu nunca passara dez minutos de uma tão viva exaltação. Ao fim
desse tempo, desenterrámos completamente um cofre de forma oblonga que, a
julgar pelo seu perfeito estado de conservação e a sua espantosa resistência,
devia ter sido submetido a qualquer processo de mineralização, talvez com
cloreto de mercúrio. Este cofre tinha três pés e meio de profundidade. Estava
solidamente reforçado por duas lâminas de ferro forjado pregadas e formando
em volta uma espécie de grinalda. De cada lado do cofre, perto da tampa, havia
três argolas de ferro, seis ao todo, por meio das quais seis pessoas podiam
levantá-lo. Todos os nossos esforços reunidos, conseguiram movê-lo apenas
ligeiramente do lugar. Vimos imediatamente a impossibilidade de levar um tão
grande peso. Por felicidade, a tampa estava apenas presa por dois ferrolhos que
fizemos deslizar, tremendo e cheios de ansiedade. De súbito, deparou-se-nos um
tesouro de um valor incalculável. Os raios das lanternas incidiam na cova e
faziam brilhar, numa mistura confusa, o ouro e as joias, com reflexos e
esplendores que nos deslumbravam positivamente.
Nunca poderei tentar descrever os sentimentos com que contemplei este
tesouro. Como é de supor, a estupefação dominou todos os outros. Legrand
parecia esgotado pela sua excitação e apenas pronunciava algumas palavras.
Quanto a Júpiter, com o rosto de uma palidez mortal, se é possível numa cara
negra, parecia estupefato, fulminado.
Em breve, caiu de joelhos na cova e mergulhando os braços nus no ouro,
até aos cotovelos, deixou-os estar demoradamente, como se gozasse da volúpia
de um banho.
— Enfim! — exclamou ele com um profundo suspiro, como se falasse
com ele mesmo. — E tudo isto por causa do escaravelho de ouro? O lindo
escaravelho de ouro! O pobre escaravelhozinho que tu injuriavas, que caluniavas.
Não tens vergonha de ti mesmo, negro? Que tens para responder?
Foi preciso, entretanto, que eu despertasse, por assim dizer, o patrão e o
criado, e que lhes fizesse compreender que havia urgência em levar o tesouro.
Já era tarde e era preciso empregar qualquer sistema, se queríamos que
tudo ficasse em segurança em nossa casa antes de amanhecer.
Não sabíamos que resolução deveríamos tomar e perdemos muito tempo a
deliberar. Por fim, aliviamos o cofre levando dois terços do conteúdo e pudemos,
enfim, mas não sem custo ainda, arrancá-lo da cova. Os objetos que nós
tínhamos tirado foram colocados entre os cardos e confiados à guarda do cão, a
quem Júpiter recomendou severamente que não se mexesse sob nenhum
pretexto e que não abrisse a boca até ao nosso regresso.
Então pusemo-nos precipitadamente a caminhar com o cofre; alcançamos
a cabana sem incidentes, mas muito cansados e à uma hora da manhã. Esgotados
como estávamos não pudemos entregarmo-nos imediatamente à tarefa, seria
ultrapassar as forças humanas. Descansamos até às duas, depois ceamos; por
fim, metemo-nos a caminho pelas montanhas com três sacos que encontramos,
por sorte, na cabana. Chegamos um pouco antes das quatro horas à cova, e
dividimos tão igualmente quanto possível o resto do achado, e sem nos darmos ao
trabalho de taparmos o buraco, pusemo-nos a caminho para a nossa casa, onde
colocamos os nossos preciosos fardos, precisamente quando os primeiros clarões
da aurora apareciam a leste, por cima das árvores.
Estávamos absolutamente exaustos; mas a profunda excitação impediu-nos
de repousar. Depois de um sono inquieto de três ou quatro horas, levantámo-nos,
como se estivéssemos combinados, para proceder ao exame do nosso tesouro.
O cofre estava cheio até às bordas e passamos o dia inteiro e a maior parte
da noite seguinte a inventariar o conteúdo. O cofre tinha sido cheio sem nenhuma
ordem, de qualquer maneira. Quando fizemos cuidadosamente uma
classificação geral, encontramo-nos de posse de uma fortuna que ultrapassava o
que nós tínhamos pensado. Havia em espécies mais de quatrocentos e cinquenta
mil dólares, valorizando as moedas tão rigorosamente quanto possível, segundo as
cotações da época. No meio de tudo isso nem uma parcela de prata. Tudo de
ouro muito antigo e de uma grande variedade: moedas francesas, espanholas e
alemãs, alguns guinéus ingleses, e algumas moedas francesas de que nunca
víramos nenhum exemplar. Havia várias moedas muito grandes e pesadas, mas
tão gastas que nos foi impossível decifrar as inscrições. Nenhuma moeda
americana. Quanto ao valor das joias, era um caso muito mais difícil.
Encontrámos diamantes, dos quais alguns muito belos e de um tamanho invulgar
— ao todo cento e dez — e nem um só era pequeno; dezoito rubis de um brilho
notável; trezentas e dez esmeraldas, todas muito belas; vinte e uma safiras e uma
opala. Todas essas pedras tinham sido arrancadas das suas armações e metidas
de qualquer maneira no cofre. Quanto às armações, que pusemos numa
categoria diferente do outro ouro, pareciam ter sido amachucadas à martelada,
como que para ficarem irreconhecíveis. Além de tudo isso, havia uma enorme
quantidade de ornamentos de ouro maciço. Perto de duzentos anéis ou brincos
maciços; belas correntes, umas trinta, se a memória não me falha; oitenta e três
crucifixos muito grandes e muito pesados; cinco incensórios de ouro de grande
preço; uma gigantesca tigela de ouro, de grande valor, decorada com folhas de
videira e figuras de bacantes cinzeladas; dois cabos de espada maravilhosamente
trabalhados e enorme quantidade de outros artigos mais pequenos, dos quais não
me recordo. O peso de todos estes valores ultrapassava as 350 libras; nesta
avaliação omiti cento e noventa e sete relógios de ouro, que valiam, pelo menos
quinhentos dólares cada um. Vários eram velhos, e sem nenhum valor como
peças de relojoaria, pois tinham sofrido, mais ou menos, a ação corrosiva da
terra, mas todos eram magnificamente ornados de pedrarias e as caixas de
grande preço. Avaliamos, nessa noite, o conteúdo total do cofre num milhão e
meio de dólares; e quando mais tarde demos destino joias e pedras, depois de
termos guardado algumas para nosso uso pessoal, achamos que o tínhamos
avaliado abaixo do seu justo valor.
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O Escaravelho de Ouro(d) /
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.