domingo, 11 de outubro de 2026

MPB: Trem das Onze

Adoniran Barbosa

Adoniran Barbosa, nome artístico de João Rubinato, 6 de ago de 1910 (Valinhos) - 23 de nov de 1982 (São Paulo), foi um cantor, compositor, ator e humorista brasileiro conhecido como o “pai do samba paulista”. Retratou com humor e lirismo o cotidiano das camadas populares de São Paulo em sucessos como “Trem das Onze”, “Saudosa Maloca” e “Samba do Arnesto”, marcados pelo dialeto ítalo-paulista e crítica social. Sua obra é referência na música popular brasileira.

Trem das Onze

Não posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito amor, mas não pode ser

Moro em Jaçanã,
Se eu perder esse trem
Que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã.

Além disso, mulher
Tem outra coisa,
Minha mãe não dorme
Enquanto eu não chegar,

Sou filho único
Tenho minha casa para olhar
E eu não posso ficar.





pedaço lindo da historia da humanidade e da música brasileira

Gal Costa - Trem das Onze 1973



O legado de Adoniran Barbosa e influências têm sido reconhecidos por diversas publicações especializadas, com a Rolling Stone Brasil elegendo "Trem das Onze" entre as 100 maiores músicas nacionais e Adoniran entre os maiores artistas da música brasileira.


Encontro de Adoniran Barbosa e Elis Regina. 
Músicas: "Iracema", "Um samba no Bexiga" e "Saudosa Maloca", no Bar da Carmela.





"Arnesto" fala sobre Adoniran Barbosa, no aniversário de 100 anos do sambista (2010)

Em uma entrevista simpática, o personagem de Adoniran falou sobre a relação com o músico e comentou a emoção de ter um samba em sua homenagem, escrito pelo mestre.




Adoniran Barbosa - Rita Lee - Demônios da Garoa - "Samba do Arnesto"




Adoniran Barbosa - Documentário Sotto La Tua Finestra 1976



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Deus me proteja / Vem pra cá / Leva / Trem das Onze /                

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 3: Seção VII)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade

Seção VII
Da natureza da ideia ou crença

     A ideia de um objeto é uma parte essencial da crença que nele depositamos, mas não é tudo. Concebemos muitas coisas em que não acreditamos. Por isso, para descobrir de maneira mais completa a natureza da crença, ou as qualidades das ideias a que damos nosso assentimento, pesemos as seguintes considerações.
     É evidente que todos os raciocínios feitos a partir de causas ou efeitos terminam em conclusões a respeito de questões de fato, isto é, a respeito da existência de objetos ou suas qualidades. É também evidente que a ideia de existência não é nada diferente da ideia de um objeto. Quando, após ter simplesmente concebido alguma coisa, nós em seguida a concebemos como existente, na realidade não acrescentamos nada a nossa primeira ideia, e tampouco a alteramos. Assim, quando afirmamos que Deus existe, simplesmente formamos a ideia desse ser, tal como nos é representado; a existência que a ele atribuímos não é concebida mediante uma ideia particular que juntaríamos à ideia de suas outras qualidades, e a qual pudéssemos novamente separar e distinguir destas últimas. Mas vou mais longe ainda: não satisfeito em afirmar que a concepção da existência de um objeto não acrescenta nada à sua simples concepção, sustento ainda que a crença nessa existência não junta novas ideias àquelas que compõem a ideia do objeto. Quando penso em Deus, quando penso nele como existente, e quando creio que ele existe, minha ideia dele não aumenta nem diminui. Mas, como é certo que há uma grande diferença entre a simples concepção da existência de um objeto e a crença nesta, e como tal diferença não repousa nas partes ou na composição da ideia que concebemos, segue-se que ela deve estar na maneira como a concebemos.
     Suponhamos que haja uma pessoa diante de mim enunciando proposições com as quais não concordo: que César morreu em seu leito, que a prata é mais fusível que o chumbo, ou que o mercúrio é mais pesado que o ouro. É evidente que, não obstante minha incredulidade, entendo claramente o que essa pessoa quer dizer, e formo as mesmas ideias que ela. Minha imaginação é dotada dos mesmos poderes que a sua, e é impossível que ela conceba qualquer ideia que eu não possa conceber, ou que junte ideias que eu também não possa juntar. Pergunto, portanto: em que consiste a diferença entre crer e não crer em uma proposição? A resposta é fácil quando se trata de proposições provadas por intuição ou por demonstração. Nesse caso, a pessoa que manifesta seu assentimento não apenas concebe as ideias de acordo com a proposição, mas é necessariamente determinada a concebê-las dessa maneira particular, seja imediatamente, seja pela interposição de outras ideias. Tudo que é absurdo é ininteligível; é impossível para a imaginação conceber algo contrário a uma demonstração. Mas, nos raciocínios causais e concernentes a questões de fato, essa necessidade absoluta não pode ocorrer e a imaginação é livre para conceber ambos os lados da questão. Por isso, volto a perguntar: em que consiste a diferença entre a incredulidade e a crença? - já que em ambos os casos é igualmente possível e imprescindível conceber a ideia.
     Não basta responder que uma pessoa que não dá seu assentimento a uma proposição que emitis, após ter concebido o objeto da mesma maneira que vós, imediatamente depois o concebe de maneira diferente, formando dele ideias diferentes. Essa resposta é insatisfatória, não por conter uma falsidade, mas por não revelar toda a verdade. Deve-se reconhecer que, em todos os casos em que discordamos de alguém, nós concebemos ambos os lados da questão; mas, como só podemos crer em um deles, segue-se evidentemente que a crença deve produzir alguma diferença entre a concepção a que damos nosso as sentimento e aquela de que discordamos. Podemos misturar, unir, separar, embaralhar e alterar nossas ideias de centenas de modos diferentes. Mas até que apareça um princípio que fixe uma dessas diferentes situações, não temos realmente nenhuma opinião. E esse princípio, uma vez que claramente não acrescenta nada a nossas ideias precedentes, pode apenas mudar a maneira como as concebemos.
     As percepções da mente são todas de dois tipos, a saber, impressões e ideias, que só se distinguem por seus diferentes graus de força e vividez. Nossas ideias são copiadas de nossas impressões, representando-as em todas as suas partes. Se quisermos alterar de algum modo a ideia de um objeto particular, a única coisa que podemos fazer é aumentar ou diminuir sua força e vividez. Se produzirmos nela qualquer outra mudança, ela passará a representar um objeto ou impressão diferente. O mesmo se dá no caso das cores. Uma tonalidade particular de uma cor pode adquirir um novo grau de vividez ou brilho sem que haja nenhuma outra variação. Se produzirmos qualquer outra variação, porém, não teremos mais a mesma tonalidade ou cor. Sendo assim, como a crença não faz senão variar a maneira como concebemos um objeto, ela só pode conceder a nossas ideias uma força e vividez adicionais. Portanto, uma opinião ou crença pode ser definida mais precisamente como UMA IDEIA VÍVIDA RELACIONA DA OU ASSOCIADA COM UMA IMPRESSÃO PRESENTE¹.

[1] Aproveitemos essa ocasião para observar um erro bastante apreciável, que, de tanto ser ensinado nas escolas, tornou-se uma espécie de máxima estabelecida, sendo universalmente aceito por todos os lógicos. Esse erro consiste na divisão usual dos atos do entendimento em concepção, juízo e raciocínio, e em suas respectivas definições. A concepção é definida como a simples consideração de uma ou mais ideias; o juízo, como a separação ou a união de diferentes ideias; o raciocínio, como a separação ou a união de diferentes ideias pela interposição de outras, que mostram a relação que aquelas mantêm entre si. Mas essas distinções e definições são falhas em vários pontos importantes. Em primeiro lugar, está longe de ser verdade que, em todos os juízos que formamos, nós unimos duas ideias diferentes; pois na proposição Deus existe, ou mesmo em qualquer outra que diga respeito à existência, a ideia de existência não é uma ideia distinta que unimos à ideia do objeto, e que seria capaz de formar, por essa união, uma ideia composta. Em segundo lugar, assim como podemos formar uma proposição que contenha apenas uma ideia, podemos também exercer nossa razão sem empregar mais de duas ideias, e sem recorrer a uma terceira que sirva de termo médio entre elas. Inferimos imediatamente uma causa de seu efeito; e essa inferência é não apenas uma verdadeira espécie de raciocínio, como o mais forte de todos, e mais convincente do que aqueles em que interpomos outra ideia para conectar os dois extremos. O que podemos afirmar, em geral, a respeito desses três atos do entendimento é que, examinados de um ponto de vista apropriado, todos eles se reduzem ao primeiro, não sendo senão formas particulares de concebermos nossos objetos. Quer consideremos um único objeto ou vários; quer nos demoremos sobre esses objetos ou passemos a outros; e qualquer que seja a forma ou ordem em que os consideremos, o ato da mente não excede uma simples concepção; a única diferença apreciável se dá quando juntamos uma crença à concepção, e estamos persuadidos da verdade daquilo que concebemos. Esse ato mental nunca foi explicado por nenhum filósofo. Por isso, sinto-me livre para propor minha hipótese a seu respeito: a crença é somente a concepção forte e firme de uma ideia, aproximando-se em grande medida de uma impressão imediata.

     Eis aqui o cerne dos argumentos que nos levam a essa conclusão. Sempre que inferimos a existência de um objeto da existência de outros, deve haver algum objeto presente à memória ou aos sentidos que sirva de fundamento a nosso raciocínio - já que a mente não pode seguir com suas inferências ao infinito. A razão jamais pode nos convencer de que a existência de um objeto qualquer implica a de outro; assim, quando passamos da impressão de um à ideia de outro, ou à crença nele, não estamos sendo determinados pela razão, mas pelo costume ou um princípio de associação. Mas a crença é algo mais que uma simples ideia. É uma maneira particular de formar uma ideia. E como a mesma ideia só pode ser alterada por uma alteração em seus graus de força e vividez, segue-se, de tudo o que foi dito, que a crença é uma ideia vívida produzida por uma relação com uma impressão presente, conforme à definição precedente.
     [Essa operação da mente que gera a crença em um fato parece ter sido até hoje um dos maiores mistérios da filosofia, embora ninguém tenha sequer suspeitado de que havia alguma dificuldade em sua explicação. De minha parte, devo confessar que vejo aqui uma dificuldade considerável; e, mesmo quando penso compreender perfeitamente o assunto, não encontro as palavras adequadas para expressar o que quero dizer. Por uma indução que me parece bastante evidente, concluo que uma opinião ou crença não é senão uma ideia que difere de uma ficção, não na natureza ou na ordem de suas partes, mas sim na maneira como é concebida. Mas quando pretendo explicar o que é essa maneira, não consigo encontrar nenhuma palavra plenamente satisfatória, sendo por isso obrigado a apelar para aquilo que cada um sente, a fim de lhe dar uma noção perfeita dessa operação da mente. Uma ideia que recebe o assentimento é sentida de maneira diferente [feels different] de uma ideia fictícia, apresentada apenas pela fantasia. É essa maneira diferente de sentir [this different feeling] que tento explicar, denominando-a uma força, vividez, solidez, firmeza, ou estabilidade superior. Essa variedade de termos, que pode parecer tão pouco filosófica, busca apenas exprimir aquele ato mental que torna as realidades mais presentes a nós que as ficções e faz que tenham um peso maior no pensamento, bem como uma influência superior sobre as paixões e a imaginação. Contanto que concordemos acerca dos fatos, é desnecessário discutir sobre os termos. A imaginação tem o controle de todas as suas ideias, podendo juntá-las, misturá-las e alterá-las de todos os modos possíveis. Ela pode conceber os objetos com todas as circunstâncias de tempo e espaço. Pode, por assim dizer, apresentá-los a nossos olhos em suas cores verdadeiras, exatamente como devem ter existido. Mas, como é impossível que essa faculdade possa jamais, por si só, alcançar a crença, é evidente que esta não consiste na natureza ou na ordem de nossas ideias, mas na maneira como as concebemos e como são sentidas pela mente. Confesso que é impossível explicar perfeitamente essa sensação [feeling] ou maneira de se conceber. Podemos empregar palavras que expressem algo próximo a isso. Mas seu nome verdadeiro e apropriado é crença, termo que todos compreendem suficientemente na vida comum. E, na filosofia, não podemos ir além da afirmação de que a crença é algo sentido pela mente, que permite distinguir as ideias do juízo das ficções da imaginação. A crença dá a essas ideias mais força e influência; faz que pareçam mais importantes, fixa-as na mente; e as torna os princípios reguladores de todas as nossas ações.]
     Essa definição também irá se mostrar inteiramente conforme à sensação [feeling] e à experiência de cada um de nós. Nada é mais evidente que o fato de que as ideias a que damos nosso assentimento são mais fortes, firmes e cheias de vida que os vagos devaneios de um sonhador. Se uma pessoa senta-se para ler um livro como se fosse um romance, e outra como se ele fosse uma história verdadeira, é claro que elas recebem as mesmas ideias, na mesma ordem; e a credulidade de uma e a incredulidade da outra não as impedem de atribuir exatamente o mesmo sentido a seu autor. As palavras deste produzem as mesmas ideias em ambas, mas seu testemunho não tem sobre elas a mesma influência. A segunda tem uma concepção mais viva de todos os incidentes; entra mais profundamente nos problemas dos personagens; representa para si mesma suas ações, caráter, amizades e inimizades; chega até a formar uma noção de seus traços, aparência e modos. Ao passo que a primeira, como não dá crédito ao testemunho do autor, concebe todos esses detalhes de maneira mais fraca e lânguida, e, não fosse pelo estilo e habilidade da composição, não conseguiria extrair da obra quase nenhum prazer.
continua na página 124...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3     
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IV / Seção V / Seção VI / Seção VII /                        
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
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CAPÍTULO II
A AMOROSA
 
continuando...

     Stekel acrescenta que, "para muitas mulheres, a queda na animalidade é essencial ao orgasmo". Elas veem no amor físico um aviltamento que não se pode conciliar com sentimentos de estima e afeição. Mas para outras, ao contrário, é pela estima, pela ternura, pela admiração do homem que esse aviltamento pode ser abolido. Só consentem em se entregar a um homem em se acreditando profundamente amadas; uma mulher precisa de muito cinismo, indiferença ou orgulho para considerar as relações físicas como uma troca de prazeres em que cada parceiro encontra igualmente sua satisfação. O homem tanto quanto a mulher — e talvez mais — revolta-se contra quem o quer explorar¹. Mas ela é quem tem geralmente impressão de que seu parceiro a utiliza como um instrumento. Somente uma admiração exaltada pode compensar a humilhação de um ato que considera como uma derrota. Vimos que o ato amoroso exige dela uma alienação profunda; ela banha-se na languidez da passividade; de olhos cerrados, anônima, perdida, sente-se transportada por ondas, varrida pela tormenta, sepultada na noite; noite da carne da matriz, do túmulo; aniquilada, alcança o Todo, abole-se o seu eu. Mas quando o homem se separa dela, ela se encontra rejei tada à terra, em um leito, na luz; readquire um nome, um rosto: é uma vencida, uma presa, um objeto. É então que o amor se torna necessário. Assim como depois da desmama a criança busca o olhar tranquilizador dos pais, é preciso que, pelos olhos do amante que contempla, a mulher se sinta reintegrada no Todo de que sua carne dolorosamente se destacou. Muito raramente ela se satisfaz completamente; mesmo se conheceu o apaziguamento do prazer não fica definitivamente liberta do feitiço carnal; sua perturbação prolonga-se tornando-se sentimento; dispensando-lhe a volúpia, o homem prende-a a si, não a liberta. Entretanto, não mais a deseja; ela só lhe perdoa essa indiferença momentânea se ele lhe dedica um sentimento intemporal e absoluto. A imanência do instante é então superada; as recordações ardentes não são mais uma saudade e sim um tesouro; dissipando-se, a volúpia torna-se esperança e promessa; o gozo é justificado; a mulher pode orgulhosamente assumir sua sexualidade porque a transcende; perturbação, prazer, desejo não são mais um esta do e sim um dom; seu corpo não é mais um objeto: é um cântico, uma chama. Pode ela então entregar-se apaixonadamente à magia do erotismo; a noite transforma-se em luz; a mulher apaixonada pode abrir os olhos; olhar o homem que a ama e cujo olhar a glorifica; através dele o nada faz-se plenitude de ser e o ser é transfigurado em valor; ela não soçobra mais em um mar de trevas, é içada sobre asas, exaltada aos céus. O abandono torna-se êxtase sagrado. Quando acolhe o homem amado, a mulher é habitada, visitada como a Virgem pelo Espírito Santo, como o crente pela hóstia; é o que explica a analogia obscena dos cantos piedosos com as canções licenciosas: não por ter sempre o amor místico um caráter sexual, mas porque a sexualidade da apaixonada se reveste de um colorido místico. "Meu Deus, meu adorado, meu senhor. . .", as mesmas palavras saem dos lábios da santa ajoelhada e da amorosa no leito; uma oferece a carne aos dardos de Cristo, estende as mãos para receber os estigmas, busca a queimadura do Amor Divino; a outra é também oferenda e espera: setas, dardos, flechas encarnam-se no sexo masculino. Em ambas o sonho é o mesmo, o sonho infantil, o sonho místico, o sonho amoroso: existir soberanamente em se abolindo no seio do outro

[1] Cf., entre outras obras, O Amante de Lady Chatterley. Pela Palavra de Mellors, Lawrence exprime seu horror às mulheres que fazem dele um instrumento de prazer.

     Afirmou-se por vezes que esse desejo de aniquilamento conduzia ao masoquismo. Mas, como o assinalei, a propósito do erotismo, só se pode falar de masoquismo quando tento "fascinar-me a mim mesma por minha objetividade através de outrem" (cf. Sartre, L'Être et le Néant), isto é, quando a consciência do sujeito se volta para o ego a fim de apreendê-lo em sua situação humilhada. Ora, a amorosa não é somente uma narcisista alienada em seu eu: ela sente também um desejo apaixonado de transbordar seus próprios limites e tornar-se infinita pelo instrumento de um outro que tem acesso à realidade infinita. Ela abandona-se ao amor primeiramente para se salvar, mas o paradoxo do amor idólatra está em que, para se salvar, ela acaba por se renegar totalmente. Seu sentimento assume uma dimensão mística; ela não pede mais ao Deus que a admire, que a aprove; quer fundir-se nele, esquecer-se em seus braços. "Quisera ser uma santa do amor, escreve Mme d'Agoult. Invejava o martírio em tais momentos de exaltação e de furor ascético." O que se evidencia nestas palavras é o desejo de uma destruição radical de si mesma abolindo as fronteiras que a separam do bem-amado: não se trata sequer de masoquismo e sim de um sonho de união extática¹. É o mesmo sonho que inspira estas palavras de Georgette Leblanc: "Naquela época, se me tivessem perguntado o que mais almejava no mundo, teria respondido sem hesitar: ser alimento e chama para seu espírito".

[1] O termo vem do grego ekstatikós, que significa "que tira para fora de si" ou "fora de si", derivado de ekstasis (ek = fora, stasis = estado ou condição). Passou pelo latim como extaticus antes de chegar ao português, mantendo o sentido de arrebatamento ou contemplação intensa. A palavra extática refere-se a um estado de intensa emoção ou arrebatamento, frequentemente associado a alegria extrema, êxtase, euforia ou contemplação profunda. Alguém extático pode estar absorto, enlevado, pensativo ou maravilhado, demonstrando uma imersão completa no momento presente. (Nota do baitasar.)

     Para realizar essa união, o que a mulher deseja primeiramente é servir; é respondendo às exigências do amante que se sentirá necessária; será integrada na existência dele, participará de seu valor, será justificada; até as místicas se comprazem em crer, segundo Angelus Silesius, que Deus precisa do homem, sem o quê, o dom que fazem de si mesmas seria vão. Quanto mais o homem multiplica suas solicitações, mais a mulher se sente satisfeita. Embora a reclusão imposta por Hugo a Juliette Drouet pese à jovem mulher, sente-se que ela se compraz em lhe obedecer: permanecer sentada junto à lareira é fazer alguma coisa para a felicidade do senhor. Ela tenta com paixão ser-lhe útil positivamente. Prepara-lhe pratos delicados, instala um lar para ele: nossa pequena "tua casa", dizia ela gentilmente; cuida da roupa dele.

   Quero que manches, que rasgues o mais possível todas as tuas roupas e que seja eu a única a consertá-las, a limpá-las sem ajuda de ninguém, escreve-lhe. 

     Para ele, ela lê os jornais, corta artigos, classifica cartas e notas, copia manuscritos. Desola-se quando o poeta confia parte desse trabalho à filha Léopoldine. Encontram-se traços semelhantes em toda mulher apaixonada. Se necessário, ela se tiraniza a si mesma em nome do amante; é preciso que tudo o que é, tudo o que tem, todos os instantes de sua vida lhe sejam dedicados e tenham assim sua razão de ser; ela não quer possuir coisa alguma senão nele; o que a tornaria infeliz fora que ele nada reclamasse, eis por que una amante delicado inventa exigências. Ela procurou primeiramente no amor uma confirmação do que era, de seu passado, de seu personagem; mas no amor empenha também seu futuro. Para justificá-lo, destina esse amor àquele que detém todos os valores; assim é que se liberta de sua transcendência: subordina-a à do outro essencial de quem se faz vassala e escrava. É a fim de se encontrar, de se salvar que ela começa por se perder nele: e o fato é que, pouco a pouco, se perde. Toda a realidade está no outro. O amor, que de início se definia como uma apoteose narcisista, realiza-se nas ásperas alegrias de um devotamento que conduz, frequentemente, a uma automutilação. Nos primeiros tempos de uma grande paixão, a mulher torna-se mais bonita, mais elegante do que antes: "Quando Adèle me penteia, contemplo minha fronte porque você gosta dela", escreve Mme d'Agoult. Achou uma razão de ser para esse rosto, esse corpo, esse quarto, esse eu, adora-os pela mediação do homem amado que a ama. Mas, pouco mais tarde, ela renuncia, ao contrário, a todo coquetismo, se o amante o deseja, ela modifica essa imagem que lhe era antes mais preciosa do que o próprio amor; desinteressa-se dela; faz do que é, do que tem, o feudo de seu soberano; renega o que ele desdenha; gostaria de lhe consagrar cada batida do coração, cada gota do sangue, a medula dos ossos. É o que se traduz por êfete sonho de martírio: exagerar o dom de si até a tortura, até a morte, ser o solo que o amado pisa, ser apenas o que responde ao apelo dele. Tudo o que é inútil ao amado, ela o aniquila com exaltação. Se o presente que faz de si é integralmente aceito, o masoquismo não aparece: poucos vestígios se percebem em Juliette Drouet. Na sua adoração excessiva, ajoelhava-se por vezes diante do retrato do poeta e pedia perdão para as faltas que pudesse ter cometido; não se voltava colérica contra si mesma. Mas do entusiasmo generoso para o masoquismo o deslize é fácil. A amante que se reencontra diante do amante na situação da criança diante dos pais, reencontra também esse sentimento de culpa que conhecia junto deles; não escolhe revoltar-se contra ele enquanto o ama: revolta-se contra si mesma. Se ele a ama menos do que ela o deseja, se ela não consegue absorvê-lo, torná-lo feliz, bastar-lhe, todo o narcisismo se converte em nojo, em humilhação, num ódio a si mesma que a incita a autopunições. Durante uma crise mais ou menos demorada, por vezes durante toda a vida, ela se transformará em vítima voluntária, obstinar-se-á em molestar esse eu que não soube satisfazer o amante. Sua atitude é então propriamente masoquista. Mas não se deve confundir esses casos em que a mulher apaixonada busca seu próprio sofrimento, a fim de se vingar de si mesma, com os casos em que visa a confirmação da liberdade do homem e seu poder. É lugar-comum — e parece que uma verdade — dizer que a prostituta tem orgulho de ser espancada por seu homem: mas não é a ideia de sua pessoa batida e escravizada que a exalta, é a força, a autoridade, a soberania do macho de que ela depende; ela gosta também de vê-lo maltratar outro homem, incita-o amiúde a competições perigosas: quer que seu senhor detenha os valores reconhecidos no meio a que ela pertence. A mulher que se submete com prazer a caprichos masculinos igualmente admira na tirania que se exerce sobre si a evidência de uma liberdade so berana. Cumpre atentar para o fato de que, se, por uma razão qualquer, o prestígio do amante arruína-se, pancadas e exigências se tornarão odiosas: só valem como manifestação da divindade do bem-amado. Neste caso é alegria embriagante sentir-se a presa de uma liberdade estranha: é para um existente a mais surpreendente aventura achar-se criado pela vontade diversa e imperiosa de outro; a gente se cansa de morar sempre na mesma pele; a obediência cega é a única possibilidade de mudança radical que um ser humano pode conhecer. Eis a mulher escrava, rainha, flor, corça, vitral, capacho, criada, cortesã, musa, companheira, mãe, irmã, filha segundo os sonhos fugazes, as ordens imperiosas do amante: ela presta-se, em êxtase, a essas metamorfoses enquanto não reconhece que conserva sempre nos lábios o gosto idêntico da submissão. No plano do amor, como no do erotismo, verificamos que o masoquismo é um dos caminhos pelos quais envereda a mulher insatisfeita, desiludida pelo outro e por si mesma; mas não é a tendência natural de uma demissão feliz. O masoquismo perpetua a presença do eu sob uma figura amarfanhada¹, degradada; o amor visa esquecimento de si em benefício do sujeito essencial.

[1] A amarfanhada é o feminino de amarfanhado, que significa:
- Amarrotado: algo que se amassou ou amarrotou, como um vestido.
- Humilhada: usado figurativamente para descrever alguém que foi alvo de humilhação ou maus-tratos.
- Enrugado: referindo-se a algo que está enrugado ou com dobras irregulares.
     A palavra deriva do verbo amarfanhar, que significa amassar ou esmagar.  (Nota do baitasar)


     O objetivo supremo do amor humano como do amor místico é a identificação com o amado. A medida dos valores, a verdade do mundo estão na consciência dele; eis por que não é ainda suficiente servi-lo; a mulher tenta ver com os olhos dele, lê os livros que ele lê, prefere os quadros e a música que ele prefere, só se interessa pelas paisagens que vê com ele, pelas ideias que vêm dele; adota as amizades, as inimizades, as opiniões dele; quando se interroga é a resposta dele que se esforça por ouvir; quer em seus pulmões o ar que ele já respirou; as flores, os frutos que não recebe da mão dele não têm perfume nem gosto; seu espaço hodológico¹ acha-se transtornado: o centro do mundo não é mais o lugar onde se encontra e sim aquele onde se encontra o amado; todos os caminhos saem de sua casa e a esta conduzem. Ela serve-se das palavras dele, refaz-lhe os gestos, adquire-lhes as manias e os sestros. "Sou Heathcliff", diz Katherine em Whuthering Heights; é o grito de toda apaixonada; ela é outra encarnação do amado, seu reflexo, seu duplo: ela é ele. Seu próprio mundo, ela o deixa desmoronar na contingência: é no universo dele que vive.
 
[1] Hodológico refere-se ao estudo de objetos complexos e suas interações.
     O hodológico era utilizado para prever acontecimentos futuros com base nas posições dos planetas, estrelas e outros corpos celestes. Os astrólogos gregos traçavam mapas astrais e analisavam os caminhos que esses corpos percorriam para interpretar o impacto de suas posições na vida das pessoas e da sociedade como um todo. (Nota do baitasar)


     A felicidade suprema da amorosa consiste em ser reconhecida pelo homem amado como parte dele próprio; quando ele diz "nós" ela é associada a ele e com ele se identifica, partilha-lhe o prestígio e com ele reina sobre o resto do mundo; não cansa de repeti-lo — ainda que abusivamente — esse "nós" saboroso. Necessária a um ser que é a necessidade absoluta que se projeta no mundo para fins necessários e que lhe restitui o mundo sob a figura da necessidade, a amorosa conhece em sua demissão a posse magnífica do absoluto. É essa certeza que lhe dá tão grandes alegrias; sente-se exaltada à direita do deus; pouco lhe importa ter apenas o segundo lugar se tem seu lugar, para sempre, em um universo maravilhosamente ordenado. Enquanto ama, enquanto é necessária ao amado, sente-se totalmente justificada: degusta paz e felicidade, Essa talvez tenha sido a sorte de Mlle Aissé junto do Cavaleiro de Aydie, antes que os escrúpulos da religião lhe tivessem perturbado a alma, ou o de Juliette Drouet à sombra de Hugo.    
     Mas é raro que essa gloriosa felicidade seja estável. Nenhum homem é deus. As relações que a mística sustenta com a divina ausência dependem unicamente de seu fervor: mas o homem divinizado, e que não é Deus, está presente. Disso nascerão os tormentos da apaixonada. Seu destino mais comum acha-se resumido nas palavras célebres de Julie de Lespinasse: "Amo-vos, meu amigo, sofro e vos espero em todos os instantes de minha vida". Sem dúvida para os homens também o sofrimento está ligado ao amor; mas suas penas não duram muito tempo ou não são devoradoras; Benjamin Constant quis morrer por Juliette Récamier: em um ano curou-se. Stendhal teve, durante anos, saudades de Métilde, mas era uma saudade que lhe perfumava a vida mais do que a destruía. Ao passo que, assumindo-se como o inessencial¹, aceitando uma dependência total, a mulher cria um inferno para si; toda amorosa se reconhece na pequena sereia de Andersen que, tendo, por amor, trocado sua cauda de peixe por pernas de mulher, marchava sobre agulhas e carvões em brasa. Não é verdade que o homem amado seja incondicionalmente necessário e, por outro lado, ela não lhe é necessária; ele não está à altura de justificar quem lhe rende um culto, e não se deixa possuir por ela.

[1] A palavra "inessencial" é um adjetivo que significa "não essencial" ou "que não é necessário nem imprescindível". É sinônimo de termos como "secundário", "insignificante" e "desimportante". Por exemplo, pode-se dizer que "sua colaboração é inessencial para a empresa". (Nota do baitasar)


     Um amor autêntico deveria assumir a contingência do outro, isto é, suas falhas, seus limites, sua gratuidade original; não pretenderia ser uma salvação e sim uma relação inter-humana. O amor idólatra confere ao amado um valor absoluto; é a primeira mentira que se apresenta a todos os olhares estranhos: "Ele não merece tanto amor", murmuram em torno da amorosa; a posteridade sorri com dó, quando evoca a pálida figura do Conde Guibert. Descobrir as falhas, a mediocridade de seu ídolo, é para a mulher uma decepção desesperante. Colette aludiu muitas vezes — em La Vagabonde, em Mes Apprentissages — a essa agonia amarga; a desilusão é mais cruel ainda que a da criança que vê desmoronar o prestígio paterno, porque a mulher escolheu ela própria o homem a quem fez dom de todo o ser. Mesmo que o eleito seja digno do mais profundo apego, sua verdade é terrestre: não é mais ele que a mulher ama, genuflete¹  diante de um ser supremo; ela é enganada por esse espírito de seriedade que se recusa a pôr os valores "entre parênteses", isto é, a reconhecer que têm sua fonte na existência humana; sua má-fé ergue barreiras entre ela e quem ela adora. Incensa-o, consterna-se, mas não é para ele uma amiga, porquanto não se dá conta de que ele corre perigo no mundo, de que seus projetos e seus fins são frágeis como ele próprio; considerando-o como a fé, a Verdade, desconhece a liberdade dele, que é hesitação e angústia. Essa recusa de aplicar ao amante uma medida humana explica muitos paradoxos femininos. A mulher reclama do amante um favor, ele o concede: ei-lo generoso, rico, magnífico, real, divino. Se o recusa, ei-lo avarento, mesquinho, cruel, é um ser demoníaco, bestial. Poderiam ser tentados a objetar: se um "sim" surpreende como uma soberba extravagância, deve-se espantar com um "não"? Se o "não" manifesta tão abjeto egoísmo, por que tanto admirar o "sim"? Não há lugar para o humano entre o sobre-humano e o inumano?

[1] A palavra "genuflete" refere-se ao ato de genufletir, que é um gesto de reverência religiosa onde a pessoa se ajoelha em sinal de humildade e respeito perante uma divindade. Esse ato é comum em várias tradições cristãs, como o catolicismo, e envolve ajoelhar-se diante do Santíssimo Sacramento ou do altar. A origem da palavra vem do latim, onde "genu" significa "joelho" e "flectere" significa "dobrar". A genuflexão é uma forma de expressar devoção e demonstrar submissão à presença divina. (Nota do baitasar)


continua página 423...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

sábado, 10 de outubro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Negativismo e esquizofrenia

Elias Canetti

A ORDEM

     Negativismo e esquizofrenia

          Um ser humano pode esquivar-se de ordens não lhes dando ouvidos; pode esquivar-se deixando de executá-las. O aguilhão — e nunca se insistirá demais neste ponto - somente aparece com a execução de ordens. É a própria ação realizada sob pressão alheia, de fora para dentro, o que leva o homem à formação de aguilhões. A ordem que é levada à ação estampa sua forma exata no executante; da força com que é dada, de sua aparência, de sua superioridade e de seu conteúdo dependem a profundidade e a dureza com que ela pode estampar-se. Ela sempre permanece como algo isolado, e desta forma é inevitável que todo homem finalmente acumule uma porção de aguilhões, tão isolados como o foram as ordens recebidas. Sua capacidade de aderência nos homens é surpreendente, nada penetra tão profundamente neles e nada chega a ser tão indissolúvel. É possível que chegue um momento no qual um indivíduo esteja tão repleto de aguilhões que já não tenha sensibilidade para nenhuma outra coisa; excetuando-se esses aguilhões, ele não sente mais coisa alguma.
     Sua defesa cm relação a novas ordens se converte então numa questão vital. Ele procura não ouvi-las, para não ter de aceitá-las . Quando é obrigado a ouvi-las, não as compreende, desviando-se delas de maneira ostensiva, fazendo o contrário do que lhe é ordenado. Quando lhe dizem para avançar, retrocede. Quando lhe dizem para retroceder, avança. Não se pode cede. Quando se pode dizer que ele seja livre em relação à ordem. Trata-se de uma reação desastrada ou até mesmo impotente, pois de certa forma ela é também determinada pelo conteúdo da ordem. É esta reação que a psiquiatria designa como negativismo; ele desempenha um papel especialmente importante entre os esquizofrênicos.
     Nos esquizofrênicos o que mais chama a atenção é a carência de contato. Eles estão muito mais isolados do que os demais. Frequentemente dão a impressão de estarem enrijecidos dentro de si mesmos; é como se não existisse nenhum tipo de relação entre eles e os demais; como se nada entendessem; como se nada quisessem entender. Sua obstinação é como a das estátuas de pedra. Não existe uma posição na qual eles não possam enrijecer. No entanto estas mesmas pessoas, noutras fases de sua enfermidade, se comportam repentinamente de maneira diametralmente oposta. Mostram-se de uma sugestionabilidade que assume proporções fantásticas. Fazem tudo o que lhes é ensinado ou que se pede a eles com tal rapidez, com tal perfeição que é como se nós mesmos estivéssemos dentro deles, fazendo as coisas por eles. Trata-se de ataques de servilismo que lhes acontecem repentinamente. "A escravidão da sugestão", como foi definido por um deles. De estátuas passam a ser zelosos escravos do dever, e levam ao extremo, de um modo que às vezes parece ridículo, qualquer coisa que se lhes peça.
     O contraste entre estas duas atitudes é tão grande que se torna difícil compreendê-lo; mas se por um momento nos abstrairmos da maneira como estas atitudes se apresentam dentro deles, se os contemplarmos, por assim dizer, de fora para dentro, não se pode negar que ambos os estados são bastante conhecidos também na vida dos seres "normais". A diferença é que, neste caso, esses estados servem a um determinado fim e dão a impressão de ser menos exagerados.
     O soldado que não dá atenção a qualquer estímulo externo, que permanece rígido, parado onde foi colocado, que não abandona seu posto, a quem ninguém pode induzir a fazer algo que normalmente faria e que já fez com muito agrado, esse soldado corretamente treinado para seu serviço encontra-se artificialmente num estado de negativismo. É verdade que em determinadas circunstâncias ele também pode agir, mas única e exclusivamente por ordens de seu superior. Ele foi adestrado neste negativismo para agir apenas sob determinadas ordens. Trata-se de um negativismo que se deixa manipular, pois está no arbítrio e no poder do superior levá-lo ao estado extremo oposto. Assim que a autoridade competente ordena algo ao soldado, ele se comporta com o mesmo zelo e com o mesmo servilismo do esquizofrênico em sua fase oposta.
     É necessário acrescentar que o soldado sabe muito bem por que age dessa maneira. Ele obedece porque se encontra sob ameaça de morte. Num capítulo anterior já descrevemos como ele se habitua pouco a pouco a este estado, chegando no fim a adaptar-se a ele de dentro para fora. Deve realçar-se apenas uma coisa: a inconfundível semelhança externa que existe entre o soldado em serviço e o esquizofrênico.
     Mas uma ideia bastante distinta se impõe aqui e ela me parece importante. O esquizofrênico, no seu estado de extrema sugestionabilidade, comporta-se como membro de uma massa. Ele é igualmente impressionável, cede de igual maneira a todo e qualquer estímulo externo. Somente não percebemos que ele poderia estar neste estado porque está sozinho. Como não vemos massa alguma em torno dele, não nos ocorre supor que ele — do seu próprio ponto de vista — se sente como se a ela pertencesse: ele é um pedaço desprendido de massa. Esta afirmação somente pode ser demonstrada se entrarmos nas representações internas dos próprios enfermos. Inumeráveis são os exemplos que podem ser citados. Uma mulher declara ter "todos os seres humanos no seu ventre". Outra "ouvia os mosquitos conversando". Um homem escutou "729 mil moças", outro "as vozes sussurrantes de toda a humanidade". Nas representações dos esquizofrênicos aparecem — por trás de disfarces múltiplos — todas as espécies de massa que existem; seria até mesmo possível começar a estudar a massa a partir deste ponto de vista. A meta de um trabalho especial será reunir e revisar as representações de massa dos esquizofrênicos. Sua classificação irá mostrar a grandiosa integridade e amplitude existente nelas.
     Vale a pena perguntar por que os dois estados opostos que mencionamos aqui são necessários para o esquizofrênico. Para compreendê-los é preciso lembrar o que ocorre com um indivíduo, assim que ele entra na massa. A liberação das distâncias obrigadas foi narrada e designada como descarga. Para complementar podemos acrescentar que os aguilhões-ordens que estão acumulados em cada indivíduo fazem parte destas distâncias obrigadas. Na massa todos os seres individuais são iguais entre si, nenhum tem o direito de mandar nos outros; também seria possível dizer que todos mandam em todos. Não só não se formam novos aguilhões: o indivíduo se desfaz ao mesmo tempo de todos os antigos. Por assim dizer ele escapuliu de casa e deixou seus aguilhões para trás, no sótão, onde jazem amontoados. Este sair de tudo o que faz suas rígidas uniões, seus limites e cargas é o motivo principal do sentimento de elevação, quase de euforia, que o homem sente dentro da massa. Em parte alguma ele se sente mais livre, e, se ele deseja tão ardentemente continuar sendo massa, isto se deve ao fato de saber o que irá acontecer depois. Quando ele retornar a si, quando voltar para sua casa, voltará a encontrar-se com tudo isso: limites, cargas e aguilhões.
      O esquizofrênico que está tão sobrecarregado de aguilhões a ponto de ficar por momentos paralisado por causa deles, sucumbe à ilusão do estado oposto: o estado de massa. Enquanto ele se encontra na massa não sente seus aguilhões. Ele saiu — pelo menos assim pensa — de si mesmo, e embora isso aconteça de maneira insegura e duvidosa, ele parece extrair daí um alívio temporário para o seu tormento; sente-se como se estivesse novamente relacionado com os demais. O valor desta redenção, é claro, é apenas ilusório. Justamente onde inicia sua libertação o esperam novas e mais intensas coerções. Mas a natureza completa da esquizofrenia não é o assunto que desejamos estudar aqui. Basta lembrarmo-nos de um fato: ninguém necessita mais da massa do que o esquizofrênico, tão repleto de aguilhões-ordens que se sente asfixiado por eles. Incapaz de encontrar a massa fora, ele se abandona a ela dentro de si.
continua na página 182...
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Massa e Poder - A Ordem: Negativismo e esquizofrenia
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem respostas te incomodam?

Edgar Allan Poe - Contos: Os fatos do caso do Sr. Valdemar

Edgar Allan Poe - Contos


Os fatos do caso do Sr. Valdemar

Decerto não pretendo considerar como o menor motivo de admiração que o extraordinário caso do sr. Valdemar tenha suscitado debate. Teria sido um milagre de outro modo — sobretudo, dadas as circunstâncias. Devido ao desejo de todas as partes envolvidas de manter o episódio longe do público, pelo menos por ora, ou até que tenhamos novas oportunidades de investigação — devido aos nossos esforços de empreendê-la — um relato deturpado ou exagerado chegou à sociedade e tornou-se fonte de inúmeras distorções desagradáveis e, muito naturalmente, de grande dose de incredulidade.
     
     Faz-se necessário agora que eu forneça os fatos — na medida em que eu mesmo os compreenda. São, sucintamente, os seguintes:
     Minha atenção, nos últimos três anos, tem sido repetidamente atraída para a questão do mesmerismo; e, cerca de nove meses atrás, ocorreu-me, muito subitamente, que na série de experimentos até então efetuados, sucedera uma omissão das mais notáveis e deveras inexplicável: — nenhuma pessoa ainda fora mesmerizada in articulo mortis. Permanecia por ser verificado, primeiro, se, em tais condições, existia no paciente alguma suscetibilidade à influência magnética; segundo, se, caso existisse, ela era prejudicada ou ampliada pela condição; terceiro, em que medida, ou por qual duração de tempo, os avanços da Morte podiam ser detidos pelo processo. Havia outros pontos a averiguar, mas esses foram os que mais excitaram minha curiosidade — em especial este último, pelo caráter imensamente importante de suas consequências.
     Procurando à minha volta alguém por cujo intermédio eu pudesse testar essas particularidades, fui levado a pensar em meu amigo, o sr. Ernest Valdemar, o conhecido compilador da Bibliotheca Forensica e autor (sob o nom de plume de Issachar Marx) das versões polonesas de Wallenstein e Gargantua. O sr. Valdemar, que residia a maior parte do tempo no Harlem, em Nova York, desde o ano de 1839, é (ou era) particularmente notável pela extrema magreza de sua pessoa — seus membros inferiores parecendo muito com os de John Randolph; e, além disso, pela alvura de suas suíças, em violento contraste com o negror dos cabelos — estes, consequentemente, sendo no mais das vezes tomados por uma peruca. Seu temperamento era marcadamente nervoso e fazia dele um bom instrumento para o experimento mesmérico. Em duas ou três ocasiões eu o pus para dormir com pouca dificuldade, mas fiquei desapontado com outros resultados que sua peculiar constituição naturalmente me levara a antecipar. Sua vontade não ficou em período algum positivamente, ou inteiramente, sob meu controle e, com respeito a sua clarividência, não fui capaz de executar com ele nada que me fosse digno de confiança. Sempre atribuí meu fracasso nesses aspectos ao estado deteriorado de sua saúde. Por alguns meses antes que eu viesse a conhecê-lo, seus médicos o haviam diagnosticado com uma tísica crônica. Tinha o costume, de fato, de falar calmamente sobre seu óbito iminente, como um assunto que não era para ser evitado nem lastimado.
     Quando as ideias às quais aludi me ocorreram, nada mais natural é claro que me viesse à mente o sr. Valdemar. Eu conhecia a firme filosofia do homem bem demais para recear escrúpulos de sua parte; e ele não tinha parentes na América que pudessem interferir. Conversamos francamente sobre o assunto; e, para minha surpresa, seu interesse pareceu vivamente despertado. Eu disse, para minha surpresa; pois, embora sempre se prestasse de boa vontade a meus experimentos, nunca antes manifestara o menor sinal de apreciação pelo que eu fazia. Sua doença era de uma espécie que admitiria o cálculo exato com respeito à época do término em morte; e foi finalmente combinado entre nós que ele mandaria me chamar cerca de vinte e quatro horas antes do período anunciado por seus médicos como sendo o de seu passamento.
     Faz agora mais de sete meses desde que recebi, do próprio sr. Valdemar, o seguinte bilhete:

   Meu caro P——,
   Pode vir agora mesmo. D—— e F—— estão de acordo que não devo durar além de amanhã à meia-noite; e acho que acertaram o momento com bastante precisão.
                              Valdemar

     Recebi esse bilhete cerca de meia hora após ele ter sido escrito e, quinze minutos depois, encontrava-me no quarto do moribundo. Eu não o via havia dez dias e fiquei consternado com a assustadora alteração que o breve intervalo operara em sua pessoa. Seu rosto exibia um matiz plúmbeo; os olhos estavam totalmente embaciados; e a emaciação era tão extrema que a pele fora rachada pelos ossos malares. A expectoração era excessiva. O pulso, mal perceptível. Conservava, todavia, de um modo assaz notável, tanto as faculdades mentais como um certo grau de força física. Falava com clareza — tomou alguns medicamentos paliativos sem ajuda — e, quando entrei no quarto, ocupava-se de redigir lembretes em um caderninho de bolso. Recostava na cama em travesseiros. Os doutores D —— e F—— assistiam-no.
     Após apertar a mão de Valdemar, chamei esses cavalheiros à parte e obtive com eles um relato minucioso das condições do paciente. O pulmão esquerdo se encontrava havia dezoito meses em um estado semiósseo ou cartilaginoso, e estava, é claro, inteiramente inutilizado para qualquer propósito vital. O direito, em sua metade superior, também ficara parcialmente, se não por completo, ossificado, enquanto a região inferior era meramente uma massa de tubérculos purulentos, interpenetrando-se. Diversas cavernas extensas haviam se formado; e, em um ponto, ocorrera a adesão permanente às costelas. Essas ocorrências no lobo direito eram de data relativamente recente. A ossificação avançara com rapidez muito inusual; nenhum sinal dela fora detectado um mês antes, e a adesão só fora observada no decorrer dos três dias precedentes. Independentemente da tísica, suspeitavam que o paciente sofresse um aneurisma da aorta; mas nesse ponto os sintomas ósseos tornavam um diagnóstico exato impossível. Era da opinião dos dois médicos que o sr. Valdemar morreria por volta da meia-noite do dia seguinte (domingo). Eram então sete horas da noite de sábado.
     Ao se afastar do leito do enfermo para entreter conversa com minha pessoa, os doutores D—— e F—— haviam feito suas despedidas finais. Não tinham intenção de regressar; mas, a um pedido meu, concordaram em examinar o paciente por volta das dez horas da noite seguinte.
     Depois que partiram, conversei livremente com o sr. Valdemar sobre a questão de seu óbito iminente, bem como, em maiores particularidades, sobre a experiência proposta. Reafirmou-me que continuava disposto e até ansioso para sua realização e insistiu comigo que começasse imediatamente. Um enfermeiro e uma enfermeira cuidavam dele; mas eu não me sentia inteiramente livre para empreender uma tarefa daquela natureza sem alguma testemunha mais confiável do que essas pessoas, em caso de um súbito acidente, poderiam se revelar. Logo, posterguei os procedimentos para até mais ou menos as oito horas da noite seguinte, quando a chegada de um estudante de medicina com quem eu tinha alguma familiaridade (o sr. Theodore L——l) aliviou-me de adicionais contratempos. Fora minha intenção, originalmente, aguardar pelos médicos; mas fui levado a prosseguir, primeiro, devido à insistência do sr. Valdemar e, segundo, devido a minha convicção de que não tinha um minuto a perder, pois que sua condição se deteriorava a olhos vistos.
     O sr. L——l teve a gentileza de aceder ao meu desejo de que tomasse notas dos acontecimentos; e é com base em seus apontamentos que o que tenho a relatar foi, na maior parte, condensado ou copiado verbatim.
     Faltavam cerca de cinco minutos para as oito quando, tomando a mão do paciente, instei-o a declarar, com a maior clareza de que fosse capaz, ao sr. L——l, se ele (o sr. Valdemar) estava inteiramente de acordo que eu conduzisse o experimento de mesmerização com ele em sua presente condição.
     Ele respondeu debilmente, embora de forma suficientemente audível, “Sim, desejo ser mesmerizado” — acrescentando de imediato, “Receio que o senhor tenha adiado demais”.
     Enquanto ele assim falava, dei início aos passes que eu já percebera serem os mais eficientes em subjugá-lo. Encontrava-se evidentemente sob minha influência ao primeiro toque lateral de minha mão através de sua testa; mas, embora eu empregasse todos os meus poderes, nenhum efeito perceptível posterior foi induzido senão alguns minutos após as dez horas, quando os doutores D—— e F—— chegaram, segundo o combinado. Expliquei-lhes, em poucas palavras, o que planejava fazer, e como não ofereceram nenhuma objeção, afirmando que o paciente encontrava-se já na agonia da morte, prossegui sem hesitar — mudando, entretanto, os passes laterais para passes descendentes, e dirigindo meu olhar inteiramente ao olho direito do enfermo.
     Nesse momento, seu pulso era imperceptível e ele estertorava, a intervalos de meio minuto.
     Essa condição permaneceu quase inalterada por um quarto de hora. Ao esgotar-se esse período, entretanto, um suspiro natural, ainda que muito profundo, escapou do peito do paciente, e a respiração estertorosa cessou — isto é, seus estertores não mais eram perceptíveis; os intervalos haviam aumentado. As extremidades do paciente estavam geladas.
     Às cinco para as onze, percebi sinais inequívocos da influência mesmérica. O movimento vítreo do olho abandonara essa expressão de inquieto exame interior que nunca é visto exceto em casos de sonambulismo e que é um tanto impossível de confundir. Com alguns poucos e rápidos passes laterais, fiz as pálpebras estremecerem, como que no sono incipiente, e com outros mais cerrei-as inteiramente. Não me dei por satisfeito, todavia, com isso, mas continuei as manipulações vigorosamente, e aplicando nelas toda minha força de vontade, até ter enrijecido por completo os membros do paciente adormecido, não sem antes tê-los acomodado numa posição aparentemente confortável. As pernas foram deixadas bem esticadas; os braços, um pouco menos, colocados na cama a uma distância moderada dos quadris. A cabeça ficou apenas ligeiramente elevada.
     Quando completei tudo isso, era meia-noite em ponto, e pedi aos cavalheiros presentes que examinassem as condições do sr. Valdemar. Após alguns experimentos, admitiram que se encontrava em um estado extraordinariamente perfeito de transe mesmérico. A curiosidade dos dois médicos ficou enormemente excitada. O dr. D—— resolveu na mesma hora permanecer com o paciente durante toda a noite, enquanto o dr. F—— partiu com a promessa de voltar ao raiar do dia. O sr. L——l e os enfermeiros permaneceram.
     Deixamos o sr. Valdemar inteiramente imperturbado até cerca de três da manhã, quando me aproximei e o encontrei precisamente na mesma condição que estava quando o dr. F—— se foi — ou seja, permanecia na mesma posição; o pulso estava imperceptível; a respiração era suave (mal se podia notar, exceto aproximando um espelho de seus lábios); os olhos cerravam-se naturalmente; e os membros estavam rígidos e frios como mármore. Mesmo assim, a aparência geral não era a de um morto.
     Quando me acerquei do sr. Valdemar fiz uma espécie de esforço leve para influenciar seu braço direito a acompanhar o meu, conforme eu o passava de um lado para outro acima de seu corpo. Em experimentos assim com esse paciente eu nunca me saíra perfeitamente bem no passado e decerto tampouco me ocorria que pudesse ser bem-sucedido agora; mas, para minha perplexidade, seu braço muito prontamente, ainda que debilmente, acompanhou cada direção que designei com o meu próprio. Decidi arriscar algumas palavras de conversa.

“Senhor Valdemar”, eu disse, “está dormindo?” Ele não respondeu, mas percebi um tremor perto dos lábios, e fui assim levado a repetir a pergunta, uma vez depois mais outra. Nessa terceira tentativa, seu corpo todo foi agitado por um tremor muito ligeiro; as pálpebras se descerraram o suficiente para expor uma linha branca do globo ocular; os lábios se moveram morosamente e, do meio deles, num sussurro quase inaudível, vieram as palavras:
“Sim; — adormecido, agora. Não me acorde! — Deixe-me morrer assim!”

     Nesse momento apalpei seus membros e vi que continuavam tão rígidos como antes. O braço direito, novamente, obedeceu a direção de minha mão. Questionei o noctâmbulo mais uma vez: 

“Ainda sente dores no peito, senhor Valdemar?”

     A resposta agora foi imediata, mas ainda menos audível que antes:

“Sem dor — estou morrendo.”

     Julguei não ser aconselhável perturbá-lo ainda mais naquele ponto, e nada mais foi dito ou feito até a chegada do dr. F——, que chegou pouco antes do nascer do sol, e expressou uma perplexidade sem limites em ver que o paciente continuava com vida. Após tomar seu pulso e aplicar-lhe um espelho aos lábios, requisitou-me que falasse com o noctâmbulo outra vez. Assim o fiz, dizendo:

“Senhor Valdemar, continua dormindo?”

     Como antes, alguns minutos transcorreram até que uma resposta fosse pronunciada; e durante o intervalo o moribundo parecia juntar forças para falar. No momento em que eu repetia a pergunta pela quarta vez, disse, muito debilmente, de modo quase inaudível:

“Sim; ainda dormindo — morrendo.”

     Era agora a opinião, ou antes o desejo, dos médicos que ao sr. Valdemar fosse concedido permanecer imperturbado em sua condição presente aparentemente tranquila, até que a morte lhe adviesse — e isso, era o consenso geral, devia ter lugar dali a poucos minutos. Decidi, entretanto, dirigir-lhe a palavra uma vez mais, e meramente repeti minha pergunta anterior.
     Enquanto eu falava, uma visível mudança se operou na fisionomia do noctâmbulo. Os olhos giraram e se abriram vagarosamente, as pupilas ocultas no alto; a pele como um todo assumiu um matiz cadavérico, parecendo-se menos com pergaminho do que com papel branco; e as manchas circulares da héctica que até então se faziam notar distintamente no centro de cada bochecha sumiram de repente. Uso essa expressão porque a subitaneidade com que se foram trouxe-me à mente nada menos que uma vela sendo apagada por um sopro de ar. O lábio superior, ao mesmo tempo, encolheu-se e expôs os dentes, quando antes os cobria por inteiro; ao passo que o maxilar inferior caiu com um audível tranco, deixando a boca amplamente aberta, e exibindo por inteiro a língua inchada e enegrecida. Presumo que nenhum membro do grupo presente na ocasião estivesse desacostumado aos horrores de um leito de morte; mas tão hedionda além de qualquer noção era a aparência do sr. Valdemar nesse momento que ocorreu um recuo geral das imediações da cama.
     Sinto agora que chego a um ponto desta narrativa em que o choque fará com que todo leitor se mostre positivamente descrente. É minha obrigação, entretanto, simplesmente continuar.
     Já não havia o mais leve sinal vital no sr. Valdemar; e, concluindo que estava morto, ocupávamo-nos em confiá-lo aos cuidados dos enfermeiros quando um forte movimento vibratório se fez observar em sua língua. Isso prosseguiu por cerca de um minuto. Ao expirar esse período, do maxilar distendido e imóvel brotou uma voz — e uma tal que seria loucura de minha parte tentar descrever. Existem, na verdade, dois ou três epítetos que se poderiam considerar aplicáveis aqui, em parte; posso dizer, por exemplo, que o som foi áspero, alquebrado e sepulcral; mas, como um todo, foi indescritível, pelo simples motivo de que nenhum som tão terrivelmente similar jamais vibrou no ouvido humano. Houve duas particularidades, todavia, que na ocasião achei, e continuo a achar, podem ser inequivocamente apontadas como características da entonação — além de muito aptas a transmitir certa ideia de peculiaridade sobrenatural. Em primeiro lugar, a voz parecia chegar aos ouvidos — pelo menos aos meus — de uma vasta distância, ou de alguma profunda caverna no interior da terra. Em segundo lugar, ocasionou-me uma impressão (temo, de fato, que me será impossível fazer compreender) semelhante à que materiais gelatinosos ou glutinosos causam ao sentido do tato.
     Falei tanto de “som” como de “voz”. Quero dizer que o som foi pronunciado com extrema nitidez — com extraordinária, penetrante, nitidez —, sílaba a sílaba. O sr. Valdemar falou — obviamente em resposta à pergunta que eu lhe apresentara alguns minutos antes. Eu havia perguntado, é mister lembrar, se continuava dormindo. Ele agora dizia:

“Sim; — não; — eu estava dormindo — e agora — agora — estou morto.”

     Nenhum dos presentes sequer teve pretensão de negar, ou de tentar reprimir, o calafrio de horror inexprimível que essas poucas palavras, assim pronunciadas, tão previsivelmente provocaram. O sr. L——l (o estudante) desmaiou. Os enfermeiros deixaram o quarto imediatamente e não houve como convencê-los a voltar. Quanto as minhas próprias impressões, abstenho-me de tentar torná-las inteligíveis ao leitor. Durante quase uma hora, ocupamo-nos, em silêncio — sem que ninguém pronunciasse uma única palavra —, dos procedimentos para reanimar o sr. L——l. Quando ele voltou a si, tornamos a nos concentrar em investigar a condição do sr. Valdemar.
     Ela continuava em todos os aspectos como descrevi da última vez, com exceção de que o espelho não mais fornecia evidência de alento. Uma tentativa de colher sangue do braço fracassou. Devo mencionar, ainda, que esse membro não mais se encontrava submetido à minha vontade. Tentei em vão fazer com que seguisse a direção de minha mão. O único indício real, de fato, da influência mesmérica, era agora encontrado no movimento vibratório da língua, sempre que eu endereçava alguma pergunta ao sr. Valdemar. Ele parecia esforçar-se para responder, mas já não havia mais volição suficiente. As perguntas a ele apresentadas por qualquer outro que não eu mesmo parecia inteiramente insensível — embora eu me empenhasse em deixar cada membro da equipe em comunhão mesmérica com ele. Acredito que a essa altura já relatei todo o necessário para uma compreensão do estado do noctâmbulo nesse momento. Outros enfermeiros foram chamados; e às dez horas deixei a casa na companhia dos dois médicos e do sr. L——l.
     No período da tarde, voltamos todos para visitar o paciente. Sua condição permanecia precisamente a mesma. Travamos então uma discussão acerca da propriedade ou exequibilidade de acordá-lo; mas não nos foi difícil concordar que nenhum propósito benéfico adviria de fazê-lo. Estava evidente que, no momento, a morte (ou o que normalmente chamamos de morte) fora detida pelo procedimento mesmérico. Parecia-nos indubitável que despertar o sr. Valdemar signf icaria meramente assegurar seu instantâneo, ou pelo menos acelerado, óbito.
     Desde esse período até o encerramento da semana passada — um intervalo de quase sete meses — continuamos a fazer visitas diárias à casa do sr. Valdemar, acompanhados, vez por outra, de médicos e alguns amigos. Todo esse tempo o noctâmbulo permaneceu exatamente como eu o descrevera da última vez. O cuidado dos enfermeiros era contínuo.
     Foi na sexta-feira passada que finalmente resolvemos fazer o experimento de despertá-lo, ou de tentar despertá-lo; e é (talvez) o resultado infeliz desse último experimento que tem ensejado tanta discussão em círculos privados — grande parte da qual não consigo deixar de julgar como sendo de uma inclinação popular injustificável.
     Com o intuito de tirar o sr. Valdemar do transe mesmérico, fiz uso dos costumeiros passes. Os quais, por algum tempo, não surtiram efeito. O primeiro indício de revivescência foi proporcionado por uma descida parcial da íris. Observou-se como uma particularidade notável o fato de que o declínio da pupila se fez acompanhar da profusa efusão de uma linfa amarelada (originada sob as pálpebras) dotada de um odor pungente e sumamente repulsivo.
     Era agora sugerido que eu tentasse influenciar o braço do paciente, como dantes. Fiz uma tentativa e fracassei. O dr. F—— então expressou o desejo de que eu lhe fizesse uma pergunta. Procedi como segue:

“Senhor Valdemar, pode nos explicar o que está sentindo ou querendo nesse momento?”

     Houve um ressurgimento imediato dos círculos hécticos nas bochechas; a língua estremeceu, ou antes rolou violentamente na boca (embora os maxilares e os lábios permanecessem tão rígidos quanto antes) e finalmente a mesma voz hedionda que já tive oportunidade de descrever proferiu:

“Pelo amor de Deus! — rápido! — rápido! — ponha-me para dormir — ou, rápido! — acorde-me! — rápido! — afirmo que estou morto!”

     Fiquei profundamente perturbado e por um instante permaneci indeciso quanto ao que fazer. No início, empreendi uma tentativa de tranquilizar o paciente; mas, fracassando nesse propósito por total suspensão da volição, voltei atrás e me empenhei com igual concentração em despertá-lo. Nessa tentativa logo vi que seria bem-sucedido — ou pelo menos logo imaginei que meu êxito seria completo — e estou certo de que todos naquele quarto estavam preparados para ver o paciente voltando a si.
     Para o que realmente ocorreu, entretanto, é absolutamente impossível que algum ser humano pudesse estar preparado.
     Conforme eu rapidamente executava os passes mesméricos, em meio a exclamações de “morto! morto!” definitivamente prorrompendo da língua e não dos lábios do enfermo, seu corpo todo subitamente — no espaço de um único minuto, ou ainda menos que isso, encolheu — desintegrou-se — se decompôs por completo sob minhas mãos. Em cima da cama, diante de toda a equipe, nada mais havia que uma massa quase líquida de uma asquerosa — detestável — podridão.

continua página 94...
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Manuscrito encontrado numa garrafa (b) / O gato preto / Os fatos do caso do Sr. Valdemar /                   
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.