sábado, 29 de agosto de 2026

Odisseia: Parte I (Canto IV.d)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto IV

Na Lacônia e a emboscada dos pretendentes

    “Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)

continuando...

Aproximando-se deles Noémone, filho de Frônio, 
e para Antínoo adiantando-se, faz-lhe a seguinte pergunta: 
   “Já saberemos, Antínoo, talvez, ou talvez o ignoremos, 
quando regressa de Pilo de solo arenoso, Telêmaco? 
Foi num navio que é meu, que ora falta me faz muito grande, 
para que a Élide extensa atravesse, onde tenho doze éguas 
com doze burros de mama, indomados, e bons para a carga. 
Era meu plano trazer um dos tais, para ver se o domava.” 
   Disse; admiraram-se os dois no mais íntimo, pois não pensavam, 
que tivesse ido Telêmaco a Pilo; no campo o julgavam,

entre os rebanhos, talvez, ou na casa, quiçá, do porqueiro. 
Disse-lhe Antínoo, nascido de Eupites, então em resposta: 
   “Ora me conta a verdade: em que dia embarcou e que moços 
o acompanharam? São de Ítaca todos, ou foi com seus servos 
e mercenários? De feito, podia assim ter procedido. 
Dize-me tudo de acordo com os fatos, a fim de que o saiba: 
se a teu mau grado e por força o navio levou de cor negra, 
ou se lhe deste por gosto, depois de pedir-te insistente.” 
Disse-lhe, então, em resposta, Noémone, filho de Frônio: 
“Dei-lhe de boa vontade. Quem doutra maneira faria,

se lhe pedisse um varão de tal porte com o peito angustiado 
como era o dele? Difícil seria negar-lhe tal coisa. 
Quanto aos rapazes que o seguem, distinguem-se todos no povo 
como os melhores. Levavam Mentor como chefe, segundo 
pude notar, ou um dos deuses, que a ele demais se assemelha. 
O que me espanta é ter visto o divino Mentor aqui mesmo 
ontem bem cedo, depois de já haver para Pilo embarcado.” 
   Para a morada do pai se retira, depois dessa fala. 
No ânimo altivo ficaram os dois irritados com isso. 
Os pretendentes suspendem os jogos e a eles se reúnem.

Diz-lhes Antínoo, nascido de Eupites, então, em resposta, 
mui pesaroso; escurece-lhe o peito rancor indomável, 
a extravasar-se. Lampejam-lhe os olhos quais chamas ardentes: 
   “Vede a que empresa audaciosa Telêmaco pôde dar cabo 
com essa viagem! Pensávamos todos que não na faria. 
Contra a vontade de tantos, consegue o rapaz escapar-nos, 
pôde aprontar um navio e escolher companheiros capazes. 
Isso é o princípio do mal que há de vir. Quem me dera que Zeus, 
antes de a idade viril alcançar, o privasse da força! 
Dai-me uma nave ligeira com vinte rapazes prestantes,

para cilada aprestarmos-lhe à volta da viagem, à espera 
bem na passagem que de Ítaca Samo escabrosa separa, 
para que a viagem em busca do pai desastrosa lhe seja.” 
   Isso falou. Os presentes aplaudem-no em peso, animando-o; 
pondo-se todos de pé, para casa do herói se dirigem. 
   Por muito tempo não fica sem ser sabedora Penélope 
dos pretendentes o plano que no íntimo, então, conceberam. 
Disse-lhe o arauto Medonte, que fora do pátio se achava, 
quando ele ouvira a conjura que os moços maldosos tramavam. 
Ei-lo que vai pela casa anunciar isso tudo a Penélope.

Mal a soleira pisou, lhe dirige a palavra a rainha: 
   “Os pretendentes ilustres, arauto, por que te enviaram? 
Foi, porventura, com o fim de que as servas do divo Odisseu 
parem com todo o trabalho e lhes ponham, sem mais, o banquete? 
Se requestado jamais me tivessem, nem mesmo aqui vindo! 
Fosse, de fato, esta a vez derradeira que todos comessem! 
Muito frequente aqui vindes; fazenda esbanjais, sem medida, 
bens do sensato Telêmaco. De vossos pais, porventura, 
nunca soubestes, no tempo em que ainda crianças seríeis, 
como Odisseu costumava com eles aqui fazer sempre?

Nunca nenhuma injustiça a ninguém praticou, nem palavras 
más para o povo, tal como costumam os divos monarcas, 
que má vontade para uns patenteiam, para outros afeto. 
Ele, ao contrário, jamais procedeu contra alguém com malícia, 
bem diferente de vós, cuja indigna conduta e desejos 
ficam patentes, ingratos que sois aos favores passados.” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Medonte, de sábios conselhos: 
“Fosse, ó rainha, esse mal o mais grave de quantos praticam! 
Bem mais terrível, ainda, e, sem dúvida, mais doloroso, 
os pretendentes maquinam, que Zeus há de obstar, com certeza,

pois planejaram com ferro aguçado matar a Telêmaco, 
quando de volta estiver, porque à Pilo sagrada e à divina 
Lacedemônia viajou, para novas do pai ver se alcança.” 
   Susta-lhe o coração, ao ouvi-lo; os joelhos fraquejam. 
Por muito tempo ficou sem poder enunciar coisa alguma; 
lágrimas enchem-lhe os olhos e a voz se lhe embarga sonora.¹ 
Só muito tempo depois conseguiu perguntar o seguinte: 
   “Dize-me, arauto, o motivo de ter o meu filho viajado. 
Necessidade não tinha de entrar nos navios velozes, 
de homens carruagens, que cortam a imensa amplitude das águas;

foi para que o próprio nome se afunde no olvido dos homens?” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Medonte, de sábios conselhos: 
“Eu mesmo ignoro qual deus o incitou, ou se a própria coragem 
o compeliu a viajar até Pilo, à procura de novas 
do pai querido, se se acha de volta, ou qual fim ele teve.” 
   Tendo assim dito, ao palácio do herói Odisseu ele volta. 
Incomportável angústia a envolveu, sem que força tivesse 
de na cadeira assentar-se, das muitas que havia na casa; 
mas na soleira do quarto bem-feito de chofre atirou-se, 
a se queixar grandemente. Ao redor, as criadas gemiam,

todas, quer fossem de idade, quer moças, que em casa se achavam. 
Por entre muitos suspiros, Penélope, alfim, lhes disse isto: 
   “Caras, ouvi-me os queixumes! O Olímpico mais infortúnios 
me propinou do que as quantas nasceram comigo e cresceram. 
Cedo meu nobre marido perdi, de coragem leonina, 
que era entre os Dânaos notável por grandes e raras virtudes, 
e cuja fama atingia toda a Hélade até o centro de Argos. 
As tempestades, agora, me o filho arrebatam de casa, 
sem glória alguma e sem que eu de sua ida informada estivesse. 
Empedernidas sois todas! Ninguém se lembrou no seu peito

de despertar-me da cama, conquanto de tudo cientes, 
quando meu filho subiu para o escuro navio bojudo. 
Caso eu tivesse sabido da viagem que então meditava, 
tê-lo-ia feito ficar, muito embora viajar desejasse, 
ou no palácio era força que então me deixasse sem vida. 
Uma qualquer dentre vós vá chamar o meu velho criado 
Dólio, presente que foi de meu pai, quando vim para casa, 
que ora se ocupa do trato do nosso pomar variado. 
Corra depressa a contar a Laertes o que ora se passa. 
Este, talvez, qualquer plano conceba no peito, saindo

para queixar-se aos do povo, que intentam privar da existência 
seu descendente e do nobre Odisseu, semelhante aos eternos.” 
   A ama querida, Euricleia, lhe disse o seguinte em resposta: 
“Filha querida, com bronze aguçado me fere aqui mesmo, 
ou no palácio me deixa; não posso ocultar-te o ocorrido. 
Fui sabedora de tudo e lhe aviei tudo o que ele me disse, 
pão e aprazível bebida. Tomou-me, porém, grande jura 
de coisa alguma contar-te antes que doze dias corressem, 
ou que sua falta sentisses, por novas ouvir que se fora, 
a fim de que não fanasses com lágrimas teu belo rosto.

Cuida, porém, de banhar-te e de roupa vestir muito limpa, 
para o aposento de cima dirige-te com as criadas, 
faze tuas preces a Atena, que é filha de Zeus poderoso, 
e tem poder de em futuro salvá-lo do negro Destino, 
mas não aflijas o velho que tão abatido se encontra, 
pois não presumo que os deuses bem-aventurados odeiem 
a descendência de Arcésio. Alguém há de ficar, com certeza, 
para mandar na alta casa e nos agros extensos e pingues.” 
   Tais argumentos fizeram-lhe o choro parar e os gemidos. 
Vai logo banho tomar, roupa limpa vestiu, sem demora,

e para o quarto de cima se foi juntamente com as servas. 
Em canistrel põe as molas e a Palas Atena suplica: 
   “Ouve-me, filha indomável do deus que a grande égide empunha! 
Se em algum tempo o solerte Odisseu em seu próprio palácio, 
em honra tua, queimou pingues coxas de bois e de ovelhas, 
disso recorda-te agora e não deixes perder-se meu filho; 
dos pretendentes o livra, maldosos e cheios de orgulho.” 
   Tendo isso dito, ululou. Foi ouvida sua prece por Palas. 
Os pretendentes na sala sombria levantam tumulto. 
Foi quando disse um qualquer desses moços de mente soberba:

“A requestada Penélope, certo, nas bodas se afana, 
sem suspeitar que fadamos seu filho ao Destino inamável.” 
   Isso disse ele, porque não sabia do que se passava. 
Foi quando Antínoo, tomando a palavra, falou o seguinte: 
   “Sois todos loucos! Deixai de arrogantes discursos agora, 
sem exceção; não vá alguém anunciar isso tudo lá dentro; 
mas, sem dizermos palavra, saiamos daqui, bem depressa, 
para pôr mãos ao projeto, que todos no peito formamos.” 
   Tendo isso dito, vinte homens escolhe, dos mais audaciosos, 
e para a célere nau se dirige, na beira da praia.

Primeiramente, arrastaram-na para o mar largo; após isso, 
fixam o mastro na nau de cor negra e, a seguir, neste, a vela, 
tendo aos toletes os remos prendido com estropos de couro, 
tudo de acordo com regras, e a cândida vela desprendem. 
Põem-lhes as armas a bordo os criados de espírito altivo. 
No fundo mar ancoraram, depois, para a terra saltando, 
onde cuidaram da ceia, esperando que a tarde chegasse. 
   Por esse tempo se achava deitada a prudente Penélope 
nos aposentos de cima, a enjeitar alimento e bebida, 
só preocupada em pensar se da Morte seu filho escapava,

ou se devia cair pela mão dos soberbos imigos. 
Tal como o leão, que se encontra indeciso no meio de gente, 
cheio de medo, ao sentir que lhe apertam o cerco doloso: 
vê-se Penélope, assim, té que o sono agradável lhe chega. 
Dorme assim, pois, reclinada, que o sono descanso lhe infunde. 
   A de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso: 
forma uma imagem de sonho, mulher parecendo na forma 
e com feições da nascida de Icário magnânimo, Iftima, 
que com Eumelo é casada, morando eles ambos em Feras. 
Essa visão ao palácio do divo Odisseu manda logo,

porque consolo levasse à tristeza da aflita Penélope 
e conseguisse pôr termo aos soluços e ao pranto copioso. 
Pela correia do fecho na câmara entrar pôde logo; 
paira-lhe sobre a cabeça e lhe diz as seguintes palavras: 
   “Dormes, Penélope, com o coração por tal modo angustiado? 
Não te consentem os deuses, que vivem feliz existência, 
tanto chorar e afligir-te; ao teu filho ainda está destinado 
vir de tornada, porquanto ele em nada ofendeu aos eternos.” 
   Disse-lhe, então, em resposta Penélope muito sensata, 
Dês da soleira do sono, imergida em torpor muito suave:

“Mana querida, a que vens até aqui? Pois não é teu costume 
vir visitar-me, em virtude da grande distância em que moras. 
Mandas-me, agora, que cesse de vez com suspiros e dores, 
tão numerosas, que o espírito e o peito atormentam sem pausa? 
Cedo meu nobre marido perdi, de coragem leonina, 
que era entre os Dânaos notável por grandes e raras virtudes, 
e cuja fama atingia toda a Hélade até o centro de Argos. 
Ora meu filho querido partiu no navio bojudo, 
ainda criança, ignorando os trabalhos e arengas nas praças. 
Por seu destino me aflijo ainda mais que por causa do esposo.

Tremo por ele e me inquieto; não vá acontecer-lhe algum dano, 
quer em viagem, quer mesmo entre as gentes onde ora se encontra. 
Muitos malvados contra ele planejam insídias sem conta, 
com intenção de matá-lo antes que ele reveja o palácio.” 
   O pouco claro fantasma de Iftima lhe disse, em resposta: 
“Ânimo! Cessa de tanto afligir com receios o peito. 
Serve-lhe de companhia a que todos os homens desejam 
ter ao seu lado qual deusa assistente — por ser poderosa — 
Palas Atena, que se compadece do teu sofrimento. 
Dela aqui venho o mandado, porque tudo, enfim, te contasse.”²

Disse-lhe, então, em resposta, Penélope muito sensata: 
“Se és uma deusa, de fato, e de um deus as palavras ouviste, 
vamos, então me revela o destino infeliz daquele outro, 
se ainda com vida se encontra e as delícias da luz ainda enxerga, 
ou se é já morto, talvez, e na de Hades estância demora?” 
   O pouco claro fantasma de Iftima lhe disse, em resposta: 
“Nada te posso dizer, com certeza, a respeito desse outro, 
se é vivo ou morto; de nada nos serve falar aereamente.” 
   Tendo isso dito, esvaeceu-se o fantasma, qual sopro do vento, 
pelo ferrolho da porta. A de Icário nascida desperta

logo do sono. Seu peito outra vez de alegria se aquece, 
por lhe ter vindo no escuro da noite visão tão luzente. 
Os pretendentes embarcam e as úmidas vias percorrem, 
a cogitar no mais íntimo como matar a Telêmaco. 
Bem na passagem do mar que separa de Samo escabrosa 
Ítaca, encontra-se uma ilha de pouca extensão, pedregosa, 
de nome Astéride. Porto aprazível, contudo, apresenta, 
com dupla entrada. Os Aquivos aí de emboscada ficaram. 

continua página 725...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /              
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.

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[1] A cena é decisiva: Penélope finalmente descobre o plano dos pretendentes contra Telêmaco, e o impacto emocional é enorme.
     Ela recebe ao arauto Medonte já tomada de inquietação, e sua fala é uma mistura de ironia, indignação e dor. Ela supõe que os pretendentes o enviaram para ordenar que as servas parem de trabalhar e preparem um banquete — uma crítica direta ao abuso que eles cometem na casa. Em seguida, explode: “Se requestado jamais me tivessem, nem mesmo aqui vindo! Fosse, de fato, esta a vez derradeira que todos comessem!” É um desejo de que aquela fosse a última refeição deles — um prenúncio da vingança futura de Odisseu. Ela lembra que os pretendentes consomem os bens de Telêmaco sem pudor. E faz uma comparação moral: Odisseu nunca foi injusto, nunca tratou mal o povo, ao contrário dos pretendentes, ingratos e desrespeitosos.
     Essa fala é um dos momentos em que Homero mostra a força moral de Penélope, que não é apenas uma figura passiva esperando o marido.
     Medonte, sempre sensato, responde com gravidade. Ele diz que, se o problema fosse apenas o banquete, seria pouco. O verdadeiro mal é muito pior: os pretendentes planejam matar Telêmaco com ferro aguçado quando ele voltar de Pilo e Esparta. Ele afirma que Zeus há de impedir, o que é uma forma de consolo, mas também um reconhecimento da gravidade da situação.
     A reação de Penélope é belíssima e muito homérica. O coração lhe susta — ela fica paralisada de choque. Os joelhos fraquejam — imagem típica da poesia épica para o colapso emocional. Por muito tempo não consegue falarLágrimas lhe enchem os olhos e a voz se lhe embarga. É o momento em que a dor de Penélope atinge o auge, preparando a entrada de Atena no sonho.

[2] Penélope está tomada de angústia porque ouviu falar da conspiração dos pretendentes contra Telêmaco. Ela cai no sono, e Atena, desejando confortá‑la, envia em sonho a figura de Iftima, filha de Icário, para acalmá-la.
O fantasma — na verdade uma forma assumida por Atena — pede que Penélope pare de se torturar com medo. Ela revela que Atena está ao lado de Penélope, protegendo-a, e que a deusa se compadece de sua dor. Ou seja: Vim enviada por ela, para te contar tudo.”
     É uma típica cena homérica de consolo divino, em que a deusa aparece por meio de um sonho para aliviar o coração do mortal.


Odisseia, de Homero - Canto 4 - Telêmaco em Esparta




Odisseia: Parte I (Canto IV.c)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto IV

Na Lacônia e a emboscada dos pretendentes

    “Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)

continuando...

Quando, porém, ele próprio voltar a fazer-te perguntas 
sob a figura em que o viste primeiro, a dormir sobre a areia, 
cede no emprego da força, liberta o ancião, ó guerreiro, 
e lhe pergunta qual deus contra ti se conserva indignado, 
e como possas voltar, navegando o oceano piscoso.’ 
   “Tendo isso dito, mergulha de novo no mar ondulante. 
Eu, por meu lado, voltei para as naus, que se achavam na praia. 
O coração me estuava no peito durante o percurso. 
Logo que a margem do mar alcancei, onde estava o navio, 
mando aprontar o jantar. Cai a Noite divina entrementes,

indo nós todos dormir pela praia, onde as ondas se quebram. 
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
pus-me a passear ao comprido da praia do mar de amplas vias, 
ardentemente a implorar aos divinos. Escolho três sócios 
dos da companhia, em quem mais nos perigos confiança depunha. 
Nesse entrementes, afunda Idoteia no seio das águas; 
trouxe de lá quatro peles de foca, no fundo colhidas, 
todas tiradas de fresco, que o pai iludir pretendia. 
Cava, em seguida, buracos ao longo da praia arenosa, 
onde se fica a esperar; perto dela nós outros nos pomos;

faz-nos deitar, e nos cobre com peles em número certo. 
Muito penoso nos era ficar de alcateia; terrível 
e insuportável odor trescalavam as focas do oceano, 
pois quem a par poderia deitar-se de um monstro marinho? 
Ela, porém, nos salvou, concebendo remédio eficiente: 
sob as narinas de todos ambrósia coloca, de aroma 
muito agradável, que o cheiro terrível dos monstros anula. 
O coração paciente, até vir a manhã lá ficamos. 
   “Eis que, reunidas, as focas das ondas emergem; por ordem 
deitam-se, logo em seguida, ao comprido da praia sonora.

Ao meio-dia o ancião sai das ondas, achando os nutridos 
corpos das focas; a todas revista e enumera por ordem, 
a principiar por nós quatro entre os monstros, sem que suspeitasse 
de que pudesse haver dolo. Por fim também ele deitou-se. 
Foi quando em grita o assaltamos, cingindo-lhe o corpo com os braços. 
Mas não se esquece o ancião de valer-se das artes dolosas: 
Toma, de início, a figura de um leão bem provido de juba, 
drago, depois, e pantera e, a seguir, javali portentoso, 
água corrente e, por fim, o feitio de uma árvore excelsa. 
Mais fortemente o agarramos, com ânimo firme e paciente.

Quando enfadado ficou o ancião, sabedor de artimanhas, 
pôs-se, por fim, a falar-me, fazendo a seguinte pergunta: 
   “‘Dize-me, filho de Atreu, qual dos deuses te foi conselheiro, 
para que, assim, me amarrasse por dolo? De que necessitas?’ 
   “Isso disse ele. Em resposta lhe dei as seguintes palavras: 
‘Velho, por que te esquivares com tantas perguntas? Bem sabes 
que há muito tempo me encontro detido nesta ilha, sem meio 
de sair dela; esmorece-me dentro do peito a coragem. 
Ora revela-me tudo, que os deuses o sabem sem falha, 
qual dos eternos me traz aqui preso e me impede o caminho,

e de que modo voltar, navegando o oceano piscoso.’ 
   “Isso lhe disse; em resposta me torna as seguintes palavras: 
‘Antes que houvesse nas naus embarcado, a Zeus grande que vibra 
a égide e às mais divindades, devias ter feito holocaustos, 
para que à pátria pudesses chegar pelo mar cor de vinho, 
pois isto não te pertence, rever os amigos e a casa 
bem-construída tornar, assim como a tua pátria querida, 
sem que, primeiro, outra vez, te dirijas às águas do Egito, 
no céu nascido, e hecatombes sagradas ali ofereças 
às divindades eternas, que moram no céu espaçoso.

Só depois disso obterás realizar o caminho almejado.’ 
   “Parte-se-me o coração, ao ouvi-lo dizer tais palavras, 
pois me ordenava vogar, outra vez, pelo mar nebuloso, 
para que o Egito alcançasse por longo e terrível caminho. 
Mas, apesar de tudo isso, lhe dei a resposta seguinte: 
   ‘Sem discrepância, ó ancião, cumprirei todos esses preceitos. 
Mas, por agora, me fala e responde conforme a verdade, 
se os Aqueus todos, incólumes, em seus navios voltaram, 
quantos deixei, com Nestor, ao partirmos das plagas troianas, 
ou se de Morte cruel pereceram a bordo das naves,

ou entre os braços de amigos, depois de acabada a campanha.’ 
   “Isso lhe disse; em resposta me torna as seguintes palavras: 
‘Por que perguntas, Atrida, tal coisa? Não te é vantajoso 
ter de tudo isso ciência, e dos meus pensamentos. Não creio 
que sem chorar demorasses se tudo saber conseguisses. 
Muitos no mar se afundaram, com vida outros muitos ficaram. 
Dos líderes dos Aqueus de couraça de bronze, morreram, 
quando de volta, só dois — estiveste presente na guerra — 
outro com vida ainda alhures se encontra no largo oceano. 
Com seus navios de remos compridos Ajaz foi ao fundo.

Primeiramente, Posido o lançou nos rochedos de Gira, 
pedra enormíssima, embora o deixasse escapar do naufrágio. 
Mas, salvar-se-ia assim mesmo, e apesar de que Palas o odiava, 
se não deixasse escapar termos feios e grande blasfêmia: 
que, contra as próprias deidades, fugira do abismo das águas. 
Ouve-lhe o grande impropério Posido de escuros cabelos; 
sem mais demora, tomando o tridente nas mãos vigorosas, 
lança-o com força na pedra de Gira, fendendo-a no meio: 
firme uma parte ficou; outra parte caiu dentro da água, 
sim, justamente onde Ajaz se assentava e dissera a blasfêmia;

a essa arrastou para o fundo revolto com grande procela. 
Dessa maneira morreu, tendo as ondas salgadas bebido. 
Té certo ponto Agamémnone pôde do Fado esquivar-se, 
na nau convexa. Foi Hera divina que assim o salvara. 
Mas, quando perto se achava do Cabo Maleia escarpado, 
eis que procela terrível o apanha, obrigando-o a empregar-se 
pelo domínio piscoso, a soltar sentidíssimas queixas. 
Desse local em diante o regresso correu sem perigos, 
por lhe soprarem os deuses monções, tendo à pátria chegado 
junto da ponta do campo onde a casa Tiestes construíra.

Primeiramente; ora reina na casa o Tiestíada Egisto. 
Com alegria pisou ele o solo da terra nativa; 
beija-a e abraça-a; é sua pátria. Sobre ela derrama copiosas 
e ardentes lágrimas, pelo prazer de a rever, de tornada. 
Viu-o o vigia, do ponto em que estava escondido, postado 
lá por Egisto traiçoeiro, que em paga promete entregar-lhe 
dois belos áureos talentos. De guarda o ano todo ficara; 
não lhe escapasse a chegada, lembrado da força impetuosa. 
Ei-lo que o vai revelar no palácio ao pastor de guerreiros. 
Quando isso soube, forjou, logo, Egisto malévolo plano;

vinte indivíduos escolhe no povo, dos mais audaciosos, 
e os deixa ocultos, mandando aprontar noutra parte um banquete. 
Por sua vez, com cavalos e carros, maldosos projetos 
a ruminar, convidou Agamémnone, rei poderoso, 
que, sem saber do fim próximo, leva e trucida, tal como 
na manjedoura uma rês é abatida, durante o banquete. 
Dos companheiros do Atrida nenhum escapar conseguiu, 
nem dos de Egisto, que todos tombaram na casa, sem vida.’ 
   “Parte-se-me o coração, ao ouvi-lo dizer tais palavras. 
Caio de bruços na areia da praia, a chorar, sem vontade
   
nem de com vida ficar, nem de os raios do Sol ver ainda. 
Mas, depois que me saciei de chorar e rolar pelo solo, 
disse-me o ancião infalível marinho as seguintes palavras: 
   “‘Filho de Atreu, não prossigas, assim, nesse choro sem pausa, 
pois que nenhum resultado tiramos com isso, mas trata 
logo de ver como possas a pátria alcançar novamente. 
Encontrá-lo-ás ainda vivo, talvez; ou quem sabe se Orestes 
já o imolou; para o enterro é possível com tempo chegares.’ 
   “Disse. Em meu peito se aquecem o viril coração novamente 
e o ânimo, embora abatidos se achassem por tantos trabalhos.

Mais uma vez o interrogo e lhe digo as palavras aladas: 
   “‘Desses já sei o destino; nomeia-me, agora, o terceiro, 
que inda com vida se encontra detido no largo oceano, 
ou mesmo morto. Desejo-o saber, muito embora me aflija.’ 
   “Isso lhe disse; em resposta me torna as seguintes palavras: 
‘É o de Laertes rebento, que em Ítaca tem a morada. 
Vi-o numa ilha afastada, a verter copiosíssimo pranto, 
em o palácio da ninfa Calipso, que à força o tem preso, 
sem que ele possa voltar para o caro torrão de nascença. 
Faltam-lhe naves providas de remos, assim como sócios,

que pelo dorso do mar extensíssimo possam levá-lo. 
Mas, quanto a ti, Menelau, descendente de Zeus, o Destino 
não determina morreres em Argos, nutriz de cavalos; 
para as campinas do Elísio, limite da terra, te enviam 
os imortais, onde está Radamanto, de louros cabelos, 
e onde a existência decorre feliz para todos os homens. 
Lá não cai neve, nem longo é o inverno, nem chove o ano todo, 
mas de contínuo o de Zéfiro sopro de ruído sonoro 
manda o oceano, que os homens com branda bafagem refresque, 
visto de Helena, marido tu seres e, assim, de Zeus genro.’¹

“Tendo isso dito, mergulha de novo no mar ondulante. 
Volto de novo aos navios e aos sócios de formas divinas. 
O coração me estuava no peito durante o percurso. 
Logo que a margem do mar alcancei, onde estava o navio, 
mando aprestar o jantar. Cai a Noite divina, entrementes, 
indo nós todos dormir pela praia, onde as ondas se quebram. 
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
antes de tudo, arrastamos as naus para as ondas divinas; 
mastros, depois, levantamos e velas nas naves simétricas. 
Sobem, depois, os demais para bordo e se sentam nos bancos,

todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas. 
Volto de novo à corrente do Egito, do céu oriundo; 
fiz ancorar e ali mesmo aprestei hecatombes completas. 
Tendo assim, pois, aplacado dos deuses eternos a cólera, 
um cenotáfio a Agamémnone ergui, para lhe dar eviterna 
glória. Feito isso, embarcamos; os deuses eternos nos mandam 
ventos ponteiros, que à pátria querida, sem mais, nos trouxeram. 
   “Peço-te agora que fiques por tempo mais longo aqui em casa 
té que onze dias, ou mesmo mais um, resolvidos vejamos, 
pois depois disso te mando levar com presentes magníficos:

dou-te carruagem de fino lavor, três cavalos e, ainda, 
uma belíssima taça, com que libações ofereças 
aos imortais diariamente, tornando-me sempre lembrado.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Não me detenhas, Atrida, por tempo mais longo, em tua casa. 
Mesmo que um ano completo aceitasse ficar no palácio, 
não sentiria saudades de casa ou dos que me geraram, 
pois grandemente me enlevo em ouvir teus discursos e contos. 
Mas os meus sócios já estão começando a ficar enfadados 
na sacra Pilo, porque me deténs muito tempo em tua casa.

Quanto ao presente que a mim destinaste, que seja uma joia, 
porque cavalos para Ítaca não levarei; para o gozo 
próprio tos deixo aqui mesmo; em extensa planície dominas, 
onde há abundância de trevo e, também, junça e trigo bastante, 
bem como espelta e cevada, da branca, de espigas bonitas. 
Pistas extensas não temos em Ítaca, ou mesmo bons prados; 
pastos de cabra, isso sim, que as do poldro pastagens mais gratos. 
Sabes que as ilhas situadas no mar não têm prados de jeito 
para carruagens andar. Mais que todas é Ítaca imprópria.” 
   A essas palavras sorriu Menelau, de voz forte na guerra.

Acariciou-o com a mão e, falando, lhe disse o seguinte: 
   “Que és de bom sangue, meu caro, se vê pelo modo que falas. 
Outros presentes vou dar-te em lugar dos primeiros, que o posso. 
De quantas coisas preciosas em casa se encontram guardadas, 
quero ofertar-te a mais bela e de mais extremada valia. 
Dou-te uma taça de fino trabalho e de linhas bem-feitas, 
toda de prata, com bordas, porém, de ouro puro batidas, 
obra de Hefesto, presente de Fédimo, ousado guerreiro, 
rei dos Sidônios, no tempo em que estive em sua casa hospedado, 
quando da viagem de volta. Essa, agora, desejo ofertar-te.”

Dessa maneira, em colóquio, eles dois tais conceitos trocavam. 
Para o palácio do divo monarca vêm vindo os convivas, 
a conduzir as ovelhas e o vinho, que os homens reanimam; 
pães as esposas, ornadas de véus preciosos, enviavam. 
Azafamados assim no palácio cuidavam da festa. 
   Os pretendentes, em frente da casa do divo Odisseu, 
se divertiam, no entanto, jogando venáb’los e discos, 
no pavimento bem-feito, arrogantes, tal como eram sempre. 
Senta-se Eurímaco, a um deus semelhante, de par com Antínoo, 
dos pretendentes os chefes, mais fortes e belos que todos.² 

continua página 717...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /              
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Trecho lindíssimo da Odisseia, ainda dentro do relato de Menelau a Telêmaco.
     Menelau continua contando a Telêmaco como obteve notícias de Odisseu ao consultar Proteu, o Velho do Mar. Este trecho é justamente a parte em que Proteu revela o destino do terceiro guerreiro que Menelau queria saber — e esse terceiro é Odisseu.
     Menelau pergunta a Proteu sobre o terceiro herói cujo destino ainda desconhecia. Proteu revela que esse herói é Odisseu, filho de Laertes, ainda vivo, mas preso na ilha de Calipso, chorando e desejando voltar para Ítaca. Odisseu não tem navio nem companheiros para atravessar o mar — está completamente isolado. Proteu também profetiza o destino de Menelau: ele não morrerá em Argos, mas será levado pelos deuses ao Campo Elísio, onde a vida é eterna e suave, por ser marido de Helena e, portanto, genro de Zeus. Após ouvir isso, Menelau retorna aos navios, prepara sacrifícios, ergue um cenotáfio para Agamémnon e recebe ventos favoráveis que o levam de volta à pátria.
     A revelação sobre Odisseu é crucial: confirma que ele está vivo, mas impossibilitado de retornar — reforça o drama da espera de Penélope e Telêmaco.
     Calipso representa a tensão entre desejo e dever: Odisseu é amado pela ninfa, mas seu coração pertence à sua terra e à sua família.
     A profecia sobre Menelau contrasta com o sofrimento de Odisseu: enquanto o rei de Esparta terá um destino sereno e divino, Odisseu enfrenta provações intermináveis.
     O cenotáfio de Agamémnon mostra a preocupação de Menelau com a memória do irmão, reforçando o tema da glória póstuma.
     Esse trecho prepara o leitor para a libertação de Odisseu por ordem de Zeus, que acontecerá pouco depois. Também reforça a ideia de que o mundo dos heróis é regido por destino, honra e intervenção divina, e que cada um deles carrega uma marca única dos deuses.

[2] A cena pertence ao Canto IV da Odisseia, quando Menelau recebe Telêmaco em Esparta. Menelau reconhece a nobreza do jovem e lhe oferece um presente valioso antes de sua partida para Ítaca. 
     Menelau sorri e elogia Telêmaco, reconhecendo sua boa linhagem pelo modo como fala. Ele promete dar ao jovem um presente ainda melhor que o anterior: uma taça de prata com bordas de ouro, obra de Hefesto, recebida de Fédimo, rei dos sidônios. Enquanto conversam, os preparativos para o banquete prosseguem no palácio: convidados chegam trazendo ovelhas, vinho e pão.
     Logo depois, o texto muda para Ítaca, mostrando os pretendentes se divertindo e desperdiçando os bens de Odisseu enquanto esperam o banquete. Em Ítaca, os pretendentes continuam sua rotina arrogante, jogando dardos e discos diante da casa de Odisseu. Eurímaco e Antínoo, os líderes dos pretendentes, aparecem como figuras centrais, descritos como fortes e belos.
     O contraste entre Esparta (ordem, honra, hospitalidade) e Ítaca (desordem, abuso, arrogância dos pretendentes) prepara o leitor para o retorno de Odisseu e o acerto de contas que virá.

Odisseia: Parte I (Canto IV.b)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto IV

Na Lacônia e a emboscada dos pretendentes

    “Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)

continuando...

envelhecendo no paço, com fresco e saudável aspecto, 
de filhos sábios cercado, e experientes no jogo da lança. 
Ora ponhamos o pranto de lado, a que tanto nos demos, 
e repensemos no nosso banquete, deitando de novo 
água nas mãos, porque para a conversa entre mim e Telêmaco 
tempo amanhã há de haver para, a ponto, de tudo tratarmos.” 
   Disse; Asfalio, obediente, nas mãos lhe deitou água, logo, 
o diligente criado do rei Menelau glorioso. 
Todos as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas. 
   Outro feliz parecer teve Helena, de Zeus oriunda:

deita uma droga no vaso do vinho de que se serviam, 
que tira a cólera e a dor, assim como a lembrança dos males.    
Quem quer que dela provasse, uma vez na cratera lançada, 
não poderia chorar, pelo menos no prazo de um dia, 
mesmo que o pai e a mãe cara privados da vida ali visse, 
ainda que em sua presença, com o bronze-cruel, lhe matassem 
o filho amado ou o irmão e que a tudo ele próprio assistisse. 
Tão eficazes remédios a filha de Zeus possuía, 
e salutares, presentes da esposa de Tão, Polidamna, 
da terra egípcia, onde o solo frutífero gera abundantes

drogas, algumas benéficas, outras fatais nos efeitos. 
Todos os homens são médicos lá, distinguindo-se muito, 
pelo saber, dos demais, pois descendem da raça de Péone. 
Tendo isso, pois, misturado e ordenado que os copos se enchessem, 
volta de novo a falar e se exprime do modo seguinte: 
   “Ó Menelau, de Atreu filho, discíp’lo de Zeus, e vós outros, 
filhos de ilustres varões! É verdade que Zeus distribui, 
sem distinção, ora bens, ora males, pois tudo consegue. 
Ora ao banquete entregai-vos, sentados em nosso palácio, 
edos e gárrulos. Quero contar-vos, também, algo alegre.

Não posso, é certo, lembrar-me de tudo, nem mesmo contar-vos 
quanto o paciente Odisseu suportou de indizíveis trabalhos. 
Um só direi, pelo forte guerreiro a bom termo levado 
entre os de Troia, onde muitos reveses, Aqueus, padecestes. 
Primeiramente, no corpo produz vergonhosas sevícias; 
deita nos ombros uns trapos, tal como os escravos o fazem, 
e na cidade inimiga, de ruas mui largas, se esgueira. 
Tendo assim, pois, disfarçado sua própria presença na de outro, 
qual um mendigo, diverso do que era na nau dos Acaios, 
com tal aspecto desceu pelos muros de Troia. Não houve

quem descobrisse o disfarce, excetuando eu somente, que logo 
lhe fiz diversas perguntas, que o herói astucioso rebate. 
Quando, porém, lhe dei banho e esfreguei óleo fino no corpo, 
tendo-o provido de roupa e jurado por modo solene 
de só trair de Odisseu o segredo aos Troianos, somente 
quando tivesse alcançado os navios velozes e as tendas, 
somente então me contou todo o plano dos chefes Aquivos. 
Muitos Troianos, depois, tendo morto com o bronze afiado, 
foi-se de volta aos Argivos, levando notícias sem conta. 
Rompem em altos lamentos as outras, Troianas; contudo,

muito exultei, porque o peito propenso a voltar se encontrava 
para o meu lar, lastimando a loucura que por Afrodite 
me fora dada, ao levar-me da pátria querida para Ílio, 
abandonando a filhinha, o meu leito de núpcias e o esposo, 
que nem é falto de dotes do espírito nem de beleza.” 
   Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos: 
“Tudo, ó mulher, referiste de acordo com a estrita verdade. 
Já viajei longes terras, e heróis altanados vi muitos, 
de pensamentos diversos e de decisiva vontade; 
mas a ninguém me foi dado admirar com os olhos, que fosse

como Odisseu, revestido de tal coração paciente. 
Pode o fortíssimo herói acabar a bom termo o trabalho 
no interior do cavalo de pau, em que estávamos todos, 
fortes Argivos, levando aos Troianos a Morte e o extermínio. 
Aproximaste-te dele tu própria, talvez conduzida 
por um demônio¹ que glória quisesse aprestar aos Troianos, 
indo em teus passos Deífobo, a um deus imortal semelhante. 
Por vezes três rodeaste e apalpaste o cavado refúgio, 
com voz mui clara a chamar os melhores heróis pelos nomes, 
tendo imitado na voz as esposas dos chefes Argivos.

Eu e o Tidida, bem como o divino Odisseu, que no meio 
nos encontrávamos, logo teus gritos, bem claro, escutamos. 
Ambos ficamos de pé, pelo impulso incontido levados, 
ou de sair do cavalo, ou de dentro, assim mesmo, falar-te. 
Mas Odisseu nos conteve e impediu-nos, embora impacientes. 
Todos os filhos dos chefes Aqueus ali estavam calados; 
somente Anticlo intentou responder-te, falando em voz alta; 
mas Odisseu com as mãos poderosas a boca lhe tapa, 
a sujigá-lo, sem pausa, salvando, desta arte, os Aquivos, 
té que dali, para longe, te Palas Atena levasse.”²

O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Ó Menelau, de Atreu filho, discíp’lo de Zeus, chefe de homens, 
tanto pior! Tal virtude não pode livrá-lo da Morte, 
nem que tivesse no peito a bater coração inquebrável. 
Ora nos manda deitar, que no leito macio possamos 
sob a coberta do sono agradável gozar do repouso.” 
   Isso disse ele. Às criadas a de Argos Helena deu ordens 
para que os leitos com belos colchões sob o pórtico armassem, 
de cor purpúrea forrados, cobertos, também, com tapetes, 
para, por último, os mantos velosos por cima deitar-lhes.

Tomam nas mãos um archote, indo, logo, da sala as criadas 
para aprontar-lhes os leitos. Conduz um arauto as visitas. 
Ambos ali se deitaram, no próprio vestíb’lo da casa, 
tanto Telêmaco herói, como o muito notável Nestórida. 
Deita-se o Atrida, porém, no interior de seu alto palácio, 
e ao lado Helena, de peplo comprido, criatura divina. 
   Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
prestes do leito se ergueu Menelau, de voz forte na guerra. 
Veste-se e do ombro, depois, deita a espada de gume cortante; 
calça, a seguir, as formosas sandálias nos pés delicados,

e sai do quarto, qual deus imortal de presença imponente. 
Senta-se ao pé de Telêmaco e diz-lhe as seguintes palavras: 
   “Qual o motivo, Telêmaco herói, de cursares o dorso 
amplo do mar, até vires à Lacedemônia divina? 
É caso público ou particular? A verdade nos conta.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
   “Ó Menelau, de Atreu filho, discíp’lo de Zeus, chefe de homens! 
Vim para ver se de ti posso obter de meu pai qualquer nova. 
Comem-me a casa; arruínam-me os campos de pingues lavouras; 
cheio se encontra o palácio de intrusos imigos, que sempre

muitas ovelhas abatem e bois que se arrastam tardonhos, 
de minha mãe pretendentes, soberbos e cheios de orgulho. 
Por isso os joelhos te abraço, pedindo-te alguma notícia 
sobre seu fim lastimável, quer tenhas a tudo assistido 
com os próprios olhos, quer tenhas por outro vagante informes 
sabido dele, que a mãe concebeu como ser desditoso. 
Nada atenues, porém, nem por pena nem mesmo respeito 
mas tudo conta sem falha, tal como tu próprio o observaste. 
Eu to suplico, se acaso meu pai, Odisseu estremado, ou por palavras
ou obras, se desempenhou de promessa

feita na terra troiana, onde muito os Aqueus padecestes. 
Ora te lembra de tudo, e me conta conforme a verdade.” 
   Muito indignado lhe diz Menelau, o de louros cabelos: 
“Pois é possível que tais indivíduos, sem força nenhuma, 
queiram deitar-se no leito de um homem como esse, tão forte! 
Bem como quando, no espesso do bosque, onde um leão formidando 
leito fizera, uma corça aí deixara seus ternos filhinhos, 
para sair a pastar pelos cerros e vales ervosos; 
mas o leão para o pouso retorna, passados momentos, 
e, logo ali, ambos eles com Morte horrorosa extermina:

do mesmo modo Odisseu a eles todos dará Morte horrível. 
Fosse do gosto de Zeus, e de Palas Atena, e de Apolo, 
que aparecesse com a força que em Lesbo mostrou altanada, 
quando se ergueu, resolvido a lutar contra Filomelida, 
tendo-o lançado no chão, para gáudio dos chefes Aquivos! 
Se aos pretendentes em meio Odisseu desse modo surgisse! 
Todos, na curta existência, veriam as núpcias lugentes. 
Quanto à pergunta de há pouco e ao que pedes, não penso em dizer-te 
nada que possa afastar-se dos fatos, com o fim de enganar-te. 
Mas o que o velho marinho infalível não quis ocultar-me

hei de contar-te sem nada esconder, nem usar subterfúgios. 
   “Junto do Egito detinham-me os deuses, conquanto impaciente, 
por não lhes ter ofertado hecatombe com todos os ritos, 
pois querem sempre lembrados dos homens os divos preceitos. 
Ilha se encontra ali posta, no mar de bramidos possantes, 
que tem o nome de Faro e se encontra defronte do Egito, 
tanto distante de lá quanto sói navegar nau convexa 
num dia todo, ao soprar-lhe nas velas monção sibilante. 
Ancoradouro e bom porto ali se acha, onde as naus colhem água 
de fonte clara e profunda, antes, sempre, de ao mar se fazerem.

Por vinte dias seguidos os deuses ali nos prenderam, 
sem que do mar nos soprassem os ventos, que para os navios 
servem de guia por sobre o extensíssimo dorso das águas. 
E, porventura, as vitualhas e as forças, então, se esgotassem, 
se divindade de mim não se houvesse apiedado e salvado, 
a descendente do velho marinho, Proteu poderoso, 
digo Idoteia, a quem pude no peito avivar a piedade. 
Quando me achava sozinho e afastado dos outros, buscou-me, 
pois pelos cantos dessa ilha eles sempre vagando se achavam, 
com anzóis curvos pescando, que os ventres a fome apertava.

Aproximando-se, então, me dirige as seguintes palavras: 
   “‘És por tal modo simplório, estrangeiro, e a tal ponto insensato, 
ou voluntário descuidas, achando prazer nos trabalhos? 
Há quanto tempo te encontras detido nesta ilha, sem nunca 
meio adequado alvitrares, enquanto teus sócios definham?’ 
   “Isso falou. Em resposta lhe disse as seguintes palavras: 
‘Vou sem rodeios dizer-to, quem quer que, entre as deusas, tu sejas. 
Não voluntário me encontro nesta ilha, senão que presumo 
ter ofendido os eternos, que moram no Olimpo altanado. 
Ora revela-me tudo, que os deuses o sabem sem falha:

qual dos eternos me traz aqui preso e me impede o caminho, 
e de que modo voltar, navegando o oceano piscoso.’ 
   “Disse-me a deusa preclara, em resposta a essas minhas palavras: 
‘Ó estrangeiro, expender-te pretendo a verdade inconcussa. 
Vem o infalível marinho ancião diariamente a este ponto, 
divo Proteu imortal, das paragens egípcias, que sabe 
todos os fundos do mar e é vassalo do divo Posido. 
A ser verdade o que dizem, sou filha gerada por ele. 
Caso te fosse possível, postado em cilada, apanhá-lo, 
revelar-te-ia, por certo, o roteiro e a extensão da viagem,

e de que modo voltar, navegando o oceano piscoso. 
Fora isso tudo, o discíp’lo de Zeus, contar-te-á, caso queiras, 
as ocorrências, ou boas ou más, que em tua casa se deram 
dês que partiste para essa viagem tão longa e difícil.’ 
   “Isso falou. Em resposta lhe disse as seguintes palavras: 
‘Dize-me como a cilada arranjar para o velho divino, 
porque eu não seja sentido nem visto, nem ele me escape. 
É mui difícil aos homens lutar contra os deuses eternos.’ 
“Disse-me a deusa preclara, em resposta a essas minhas palavras: 
‘Ó estrangeiro, expender-te pretendo a verdade inconcussa.

Sempre que o sol, no seu curso, do meio do céu se aproxima, 
sai, nesse ponto, das ondas o velho marinho verídico, 
ao sopro brando de Zéfiro, oculto na escura madria. 
Logo que fora se vê, vai deitar-se sob gruta escavada; 
dormem-lhe em torno, reunidas, depois que das ondas emergem, 
focas, a prole da bela deidade do mar pardacento, 
a trescalarem o odor penetrante dos salsos abismos. 
Logo que a Aurora raiar, levar-te-ei para ali, porque em ordem 
possas ficar de alcateia. De teus companheiros escolhe 
três, dos melhores que tenhas nas naves de boa coberta.

Todas as tretas funestas pretendo contar-te do velho: 
Logo de início, há de às focas revista passar e contá-las; 
quando, porém, tiver todas em grupos de cinco contado, 
deita-se entre elas, tal como o pastor entre o fato de ovelhas. 
Logo que o velho, assim, virdes dormindo deitado na terra, 
fique ao cuidado de todos do máximo esforço valer-se, 
para ali mesmo detê-lo, conquanto procure escapar-vos. 
Há de tentar transformar-se na forma de todos os seres 
que sobre o solo rastejam, e em chamas ardentes e em água. 
Com mais vigor sujigai-o, detendo-o com força crescente.³ 

continua página 711...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c /            
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Esta palavra em grego, daímon, não tem sentido pejorativo, necessariamente; indica apenas um espírito, um ser divino, normalmente entre os deuses e os homens. Cf. Demônio no apêndice de nomes. (N.R.)
[2] Esse trecho é um dos momentos mais interessantes da Odisseia, quando Menelau recorda para Helena a astúcia de Odisseu durante o episódio do Cavalo de Troia.
     Menelau confirma que Helena está dizendo a verdade e conta como Odisseu demonstrou coragem e autocontrole extraordinários dentro do Cavalo de Troia, quando ela — talvez influenciada por um deus — tentou fazer os guerreiros escondidos revelarem-se chamando-os pelo nome, imitando as vozes das esposas deles. Odisseu impediu que qualquer um respondesse, salvando os Aqueus.
     Menelau responde a Helena, dizendo que tudo o que ela relatou é verdadeiro.
     Ele afirma que, entre todos os heróis que conheceu, ninguém igualava Odisseu em paciência e firmeza de espírito.
     Ele relembra o momento em que os Aqueus estavam escondidos dentro do Cavalo de Pau.
     Helena, acompanhada de Deífobo, circulou ao redor do cavalo três vezes, tocando-o e chamando os nomes dos guerreiros.
     Ela imitava perfeitamente as vozes das esposas dos heróis, tentando fazê-los responder.
     Menelau, Diomedes e Odisseu ouviram claramente os chamados.
     Menelau e Diomedes quase responderam, mas Odisseu os conteve, impedindo-os de falar.
     Anticlo, um dos guerreiros, chegou a tentar responder, mas Odisseu tapou-lhe a boca com as mãos, segurando-o até que Helena se afastasse.
     Assim, Odisseu salvou todos os Aqueus de serem descobertos.
     Esse episódio mostra a astúcia e autocontrole de Odisseu, qualidades centrais do personagem.
     Revela que Helena, consciente ou não, quase sabotou o plano dos gregos.
     Reforça a ideia de que os deuses influenciam os eventos — Menelau sugere que Helena foi movida por um “demônio” (um deus).
     É um dos raros momentos em que se narra um detalhe íntimo e tenso do episódio do Cavalo de Troia, que não aparece na Ilíada.
     Esse trecho é um exemplo clássico da construção do mito de Odisseu como o herói da inteligência e da prudência. Enquanto outros guerreiros são movidos pela emoção, ele é capaz de manter o silêncio absoluto mesmo diante da voz que imita suas esposas — uma tentação emocional fortíssima.
     A cena também reforça a ambiguidade de Helena: vítima dos deuses ou agente consciente? Menelau não afirma, mas sugere.
[3] Esse trecho é outra passagem belíssima da Odisseia, agora sobre Proteu, o “velho do mar”, e sobre como Menelau deve capturá‑lo para descobrir o destino de sua viagem e o que aconteceu em sua casa enquanto esteve ausente.
     A deusa (Eidoteia, filha de Proteu) explica a Menelau como ele deve preparar uma emboscada para capturar Proteu, o deus marinho que conhece todas as verdades ocultas. Proteu muda de forma para tentar escapar, mas se o herói resistir e mantiver o domínio, o deus será obrigado a revelar tudo: como voltar para casa e o que aconteceu em Esparta durante sua ausência.
Ela diz a Menelau que vai revelar “a verdade inconcussa” — isto é, uma verdade firme, inabalável.
     Proteu, o velho do mar é um deus marinho, servo de Poseidon. Surge diariamente em um ponto da costa egípcia. Conhece “todos os fundos do mar”, ou seja, tudo o que acontece no mundo.
     Eidoteia explica que Proteu sai do mar ao meio‑dia, quando o sol está no zênite. Ele se deita numa gruta, cercado por focas — suas criaturas. Menelau deve escolher três companheiros e deitar‑se entre as focas, como se fosse parte do grupo. Quando Proteu adormecer, eles devem agarrá‑lo com toda força.
     Proteu tentará escapar transformando‑se em animais que rastejam, em fogo, em água. Mas Menelau deve segurá‑lo sem soltar, até que o deus desista e fale.
Por que isso é importante na narrativa?
1. O tema da verdade divina (Proteu é uma figura que só revela a verdade quando dominado — um símbolo da dificuldade humana de obter conhecimento dos deuses.)
2. A astúcia como virtude heroica (Assim como Odisseu, Menelau precisa usar: estratégia, paciência, coragem, não apenas força bruta.
3. A tradição dos deuses metamórficos (Proteu pertence a uma linhagem de divindades gregas que mudam de forma: Nereu, Tétis, Deméter e até Zeus, em algumas narrativas.  
4. A função narrativa desse episódio é mostrar o momento em que Menelau finalmente descobre: o destino dos outros heróis aqueus, o que aconteceu em sua casa e como retornar a Grécia.
     É uma peça essencial da teologia da viagem na Odisseia.
     Proteu, por sua vez, é uma figura liminar: não é hostil, não é benevolente, é simplesmente a verdade que resiste.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Odisseia: Parte I (Canto IV.a)

 Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto IV

Na Lacônia e a emboscada dos pretendentes

    “Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)

   Ei-los chegados ao vale escavado de Lacedemônia, 
té que a morada alcançaram do rei Menelau glorioso, 
indo encontrá-lo em palácio, no meio de seus agregados, 
que celebravam as núpcias do filho e da filha impecável. 
Era esta ao filho, enviada, de Aquiles, o rompe fileiras, 
pois desde Troia lhe havia asselado a solene promessa 
de como esposa lha dar. Ora os deuses as núpcias realizam. 
Manda-a, por esse motivo, com carro e cavalos, agora, 
para a cidade famosa, em que reina, de heroicos Mirmídones.

Mas para o filho, de Esparta fez vir a nascida de Aléctor, 
o varonil Megapentes, que teve em idade madura 
de uma das servas; que os deuses a Helena negaram mais filhos 
desde que Hermíone, bela e amorável, lhe fora nascida, 
que à áurea Afrodite era igual na esbelteza e nos traços perfeitos. 
   Banqueteavam-se, pois, no palácio de teto elevado 
os agregados do rei Menelau glorioso e os vizinhos, 
alegremente. Cantava entre todos o aedo divino, 
ao som da cítara, ao tempo, também, em que dois saltadores, 
cabriolavam, seguindo o compasso, no meio de todos. 

Nesse entrementes, o nobre Telêmaco e o ilustre Nestórida 
os corredores velozes defronte da porta refreiam. 
Param; no meio da azáfama o nobre Eteoneu os viu logo, 
o diligente criado do rei Menelau glorioso. 
Volta, sem mais, para dar a notícia ao pastor de guerreiros. 
Ao lado dele chegando, lhe disse as palavras aladas: 
   “Hóspedes novos, aluno de Zeus, Menelau, nos chegaram, 
dois forasteiros; parecem ser filhos de Zeus poderoso. 
Dize se devo tirar os cavalos velozes do carro, 
ou enviá-los a alguém, que lhes faça amistosa acolhida.”

Muito indignado lhe diz Menelau, o de louros cabelos: 
“Ó Eteoneu, de Boétoo nascido, primeiro não eras 
louco assim; ora, como criança, realmente, só dizes tolices. 
Vezes sem conta nós dois nos sentamos à mesa de estranhos, 
antes de virmos de volta, esperando que Zeus nos livrasse 
de sofrimentos futuros. Então? Desatrela os cavalos 
e os forasteiros convida a assentarem-se em nosso banquete.” 
   Disse; Eteoneu, logo, a sala atravessa, a chamar pelo nome 
dos diligentes escravos, porque fossem logo com ele. 
Estes tiraram do jugo os corcéis, que suor estilavam,

e à manjedoura, depois, de cavalos, os levam e amarram, 
onde deitaram mistura de espelta e de branca cevada. 
Contra a parede de tons reluzentes encostam o carro 
e os visitantes conduzem à régia divina do aluno 
de Zeus potente, os quais ficam absortos perante o que viam, 
pois um fulgor se espalhava semelho ao do Sol ou da Lua, 
pela morada elevada do rei Menelau glorioso. 
Mas, depois que na visão do espetáculo os olhos saciaram, 
para banheiras polidas subiram, porque se banhassem, 
onde zelosas escravas os lavam e esfregam com óleo,

mantos lanosos e túnicas sobre as espáduas lhes pondo. 
Sentam-se ao lado do rei Menelau, em cadeiras lavradas. 
Água lustral lhes ministra a criada, num jarro gracioso, 
de ouro, deixando-a cair sobre as mãos em bacia de prata, 
pondo diante dos dois, a seguir, uma mesa polida. 
A despenseira zelosa aparece, que pão lhes reparte, 
como, também, provisões abundantes, que dá prazenteira. 
Vem, a seguir, o trinchante, trazendo nas mãos a travessa 
com muita carne, e de todos ao lado áureos copos coloca. 
Diz-lhes, saudando-os o rei Menelau, o de louros cabelos:

“Ora provai da comida e alegrai-vos. Depois que tiverdes 
a refeição concluído, será minha a vez de inquirir-vos 
quem sois vós outros, porque não se perde dos pais a ascendência. 
De Zeus alunos, por certo, sois ambos, de reis descendentes, 
que cetro empunham, pois vis não teriam tais filhos gerado.” 
   Disse; e um assado do lombo bem gordo, do boi, lhes presenta, 
tendo levado nas mãos o pedaço melhor, que era dele. 
Eles as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas. 
Tendo, assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
vira-se o moço Telêmaco e diz ao Nestórida ilustre,

quase a falar-lhe no ouvido, porque ninguém mais o sentisse: 
   “Caro Nestórida, amado do meu coração, olha um pouco 
como as paredes da sala sonora rebrilham de bronze, 
de ouro e de electro, também, de marfim e de prata luzente. 
Lembra-me a vista do pátio, por dentro, de Zeus Olímpico. 
Quanta riqueza indizível! O espanto de mim se apodera.” 
   O louro herói Menelau percebeu-lhe o sentido das vozes; 
vira-se, então, para os dois, e lhes diz as palavras aladas: 
   “Meus caros filhos, com Zeus emular nenhum homem consegue, 
que imperecíveis são suas riquezas e o belo palácio.

Quanto aos mortais, pode algum em riqueza medir-se comigo, 
ou que o não faça; custou-me sofrer muita dor, errabundo, 
quanto nas naus para aqui transportei, decorridos oito anos, 
tendo vagado por Chipre e Fenícia, assim como no Egito. 
Té aos Sidônios cheguei e aos Erembos, bem como aos Etíopes 
e à própria Líbia, onde aos anhos os chifres mui cedo lhes nascem, 
e por três vezes no curso de um ano as ovelhas dão cria. 
Nesse lugar nenhum chefe, ou pastor, de penúria padece, 
não só de queijo, de carne também e do leite agradável, 
pois estão sempre as ovelhas no ponto de serem mungidas

Mas enquanto eu por aquelas paragens reunia riquezas, 
certo indivíduo, às escuras, privou-me do mano dileto, 
por modo súbito, graças ao dolo da esposa funesta. 
Esse o motivo de não alegrar-me com tanta opulência. 
De vossos pais, porventura, o soubestes, quem quer que eles sejam, 
pois não somente arrostei mil trabalhos; também vi perder-se 
minha morada bem-feita e opulenta de todo o conforto. 
Oh! Quem me dera viver com um terço dos bens no palácio, 
contanto que vivos fossem os homens que outrora caíram 
de Argos distantes, nutriz de corcéis, na planície de Troia.

Pois, em verdade, por todos expendo lamentos amargos, 
muito amiúde sentado nas salas do nosso palácio, 
ora alivio com lágrimas o coração, ora cesso 
de derramá-las, que logo me farto do gélido choro. 
Mas por nenhum me consumo, se bem que por todos me aflija, 
como por um, que me faz odiar o repouso e a comida, 
sempre que dele me lembro. Nenhum dos Aqueus sofreu tanto 
como Odisseu suportou e sofreu; o futuro para ele 
muitos trabalhos guardara, o que a mim aflições ocasiona 
incomportáveis por tão longa ausência e porque ninguém sabe

se ainda se encontra com vida, ou se é morto; sua perda, por certo, 
chora Laertes o velho, assim como a prudente Penélope, 
como Telêmaco, que no palácio ainda infante deixara.” 
   Vivas saudades do pai despertaram-lhe aquelas palavras; 
lágrimas correm-lhe a par para o chão, quando o ouviu nomeado. 
Puxa com ambas as mãos para os olhos o manto purpúreo. 
O louro filho de Atreu logo viu o que estava passando, 
tendo ficado indeciso no peito ardoroso e no espírito, 
se ainda convinha deixar que do pai ele próprio falasse, 
ou se pergunta fizesse, primeiro, e de tudo inquirisse.

No coração e no espírito dessa maneira reflete. 
Nesse momento, do tálamo odoro e elevado, tal como 
Ártemis de fuso de ouro, vem vindo a amorável Helena. 
Logo lhe Adrasta oferece poltrona de fino trabalho, 
tendo-lhe Alcipe trazido tapete de velo macio; 
Filo açafate de prata lhe traz, por Alcandra ofertado, 
quando no Egito, a de Pólibo esposa, que em Tebas habita, 
onde com muitas riquezas as casas se encontram pejadas. 
A Menelau dera Pólibo um par de banheiras de prata, 
trípodes duas e mais dez talentos, também, de ouro puro.

Por sua parte, a mulher fez presentes a Helena, mui belos: 
de ouro uma roca, e um cestinho provido de rodas por baixo, 
todo de prata; mas de ouro batido eram feitas as bordas. 
Filo, a servente zelosa, o cestinho lhe traz, colocando-o, 
logo, ao seu lado, repleto de fio torcido; por cima 
põe uma roca, de lã carregada de cor de violeta. 
Senta-se Helena em poltrona provida de um belo escabelo, 
vira-se para o marido e de tudo procura informar-se: 
   “Ó Menelau, de Zeus grande discíp’lo, sabemos, acaso, 
quem se gloriam de ser esses homens, que a casa nos chegam?

Minto, ou verdade enuncio? A falar me compele a vontade. 
Não, não presumo ter visto jamais semelhança tão grande 
entre quaisquer dos mortais — sou tomada de espanto indizível — 
tanto com o filho do grande Odisseu este aqui se parece, 
digo Telêmaco, que no palácio ainda infante deixara, 
ele, o valente, no tempo em que vós, os Aquivos, lutastes 
sob as muralhas de Troia por causa de minha insolência.” 
   Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos: 
“Penso, ó mulher, de igual modo a respeito do que conjeturas. 
Tinha esse mesmo feitio das mãos e dos pés, em verdade,

jeito de olhar, a cabeça e, por cima de tudo, os cabelos. 
Quando falava a respeito do grande Odisseu, não faz muito, 
a relembrar aflições e trabalhos, que tanto sofrera 
por minha causa, dos cílios corria-lhe pranto copioso, 
tendo, por isso, escondido no manto purpúreo a cabeça.” 
   Disse-lhe o filho do velho Nestor, em resposta. Pisístrato: 
Ó Menelau, de Atreu filho e discíp’lo de Zeus, chefe de homens! 
Este, realmente, é nascido daquele, conforme o disseste; 
mas é dotado de grande prudência; pois sente vergonha 
de, na primeira visita, aturdir-te com fúteis discursos,

pois tua voz nos ressoa qual fosse de um deus emanada. 
Por isso tudo, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos, 
quis que eu, também, o seguisse; ansiava bastante por ver-te, 
para pedir-te lhe desses auxílio, ou sequer uns conselhos. 
Sempre que ausente o pai se acha, padece trabalhos o filho 
na própria casa, por falta de algum defensor, que o proteja, 
tal como agora Telêmaco; ausente se encontra o pai dele, 
sem que no povo haja alguém que nos males de amparo lhe sirva.” 
   Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos: 
“Como! É, então, certo que a casa me veio de súbito o filho

do homem dileto que tantos trabalhos por mim tem sofrido? 
Sempre a mim mesmo propus de maneira especial distingui-lo, 
mais do que aos outros Argivos, se o Olímpico Zeus, de voz forte, 
nos concedesse voltar pelas ondas nas céleres naves. 
Destinar-lhe-ia uma bela cidade, das de Argos, com casa, 
de Ítaca, sim, transferindo-o com o filho, os haveres e o povo, 
pós haver feito evacuar uma só dentre as muitas cidades 
da redondeza, entre quantas o mando supremo me acatam. 
Perto dele estando, possível nos fora falar com frequência, 
nada pudera cindir nosso afeto e o prazer do convívio,

té quando a nuvem escura da Morte a nós dois envolvesse. 
Isso, talvez fosse causa da inveja da mesma deidade 
que a ele somente, o infeliz, do regresso privou à sua pátria.”¹ 
   Disse: invencível desejo de choro de todos se apossa. 
Helena de Argos, nascida de Zeus, a chorar se pôs logo; 
chora, também, Menelau, de Atreu filho, bem como Telêmaco; 
nem foi possível manter olhos limpos o moço Nestórida, 
pois evocou no seu ânimo o irrepreensível Antíloco, 
a quem o filho admirável da Aurora brilhante matara. 
Dele lembrando-se, diz as seguintes palavras aladas:

“Filho de Atreu, costumava Nestor, o ancião, elogiar-te 
quando falava de ti, como de homem sensato entre todos, 
em nossa casa, ao trocarmos ideias nos nossos colóquios. 
Caso te seja possível, atende-me agora: não gosto 
de ver tristezas à mesa; outra aurora, amanhã, matutina, 
nos será dada; não julgo possível jamais de censura 
quem se compraz em chorar por aqueles que as Moiras alcançam. 
Somente uma honra podemos prestar aos mortais infelizes: 
e essa é os cabelos cortarmos e o pranto deixarmos que corra. 
No que me toca, morreu-me um irmão, que não era o mais fraco

entre os Argivos; por certo que o sabes, porque conhecê-lo 
não me foi dado, nem vê-lo; mas dizem que os mais superava 
não só no rápido curso, também nos combates de perto.” 
   Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos: 
“Tuas palavras, ó caro, parecem-me de homem sensato, 
cujas ações ou discursos proviessem de idade provecta. 
Falas com tanta prudência, qual filho do pai que tiveste. 
A descendência de um homem é fácil de ser conhecida, 
quando o haja Zeus distinguido, ao nascer e na escolha da esposa 
como a ventura que teve Nestor no correr da existência,

continua página 704...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b /           
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

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[1] Esse trecho é um dos momentos mais delicados e humanos do Canto IV da Ilíada. Depois de toda a violência, Homero insere uma fala de Menelau que funciona quase como uma confissão íntima — e é surpreendente ver isso no meio de um poema tão marcado pela fúria e pelo bronze.
     Menelau fala sobre Odisseu — “o filho do homem dileto que tantos trabalhos por mim tem sofrido”. Ele está comovido ao ver Odisseu aproximar-se, e isso desencadeia uma reflexão sobre:
amizade,
lealdade,
promessas feitas antes da guerra,
o desejo de convivência após o retorno,
e a dor causada pela intervenção dos deuses.
     É um raro momento em que Menelau se mostra vulnerável, quase melancólico.
     O que Menelau revela aqui é gratidão profunda (ele reconhece que Odisseu sofreu “tantos trabalhos” por sua causa — referência direta ao fato de que Odisseu foi um dos principais articuladores da expedição a Troia, e também um dos mais ativos durante toda a guerra.), promessa de recompensa (Menelau diz que, se Zeus permitisse o retorno seguro, ele daria a Odisseu: uma cidade inteira em Argosuma casapovohaveres, e até transferiria Odisseu com sua família e bens. É uma promessa enorme, quase exagerada — e isso mostra o quanto Menelau valoriza Odisseu.), desejo de convivência (Menelau imagina os dois vivendo próximos, conversando sempre, até que “a nuvem escura da Morte” os envolvesse. É uma imagem de intimidade e amizade duradoura, rara na épica.), a intervenção dos deuses (Ele termina lamentando que talvez uma divindade tenha sentido inveja dessa proximidade e por isso tenha privado Odisseu do retorno. Aqui Homero antecipa o tema central da Odisseia: o retorno negado, adiado, dificultado pelos deuses.)
     Esse trecho funciona como uma ponte entre os dois grandes poemas:
- Na Ilíada, Odisseu é o estrategista, o diplomata, o homem da palavra.
- Aqui, Menelau já pressente que o destino dele será diferente — marcado pela ausência, pela demora, pela saudade.
     É como se Homero estivesse dizendo: “A história de Odisseu não termina aqui; ela é grande demais para caber na Ilíada.”
     Menelau, que costuma ser um personagem mais rígido, aqui se mostra:
- afetuoso,
- grato,
- imaginativo
- e até um pouco fatalista.
     Essa fala humaniza profundamente o herói.