terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (X - Boris parou no meio do jardim)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
X

     Natacha, ao fugir da sala, correu para o jardim de inverno. Lá parou e ficou a escutar a conversa e a esperar Boris. Já se impacientava, batendo com o pé e quase chorando com a demora, quando ouviu os passos do rapaz, nem lentos nem rápidos, mas resolutos. Imediatamente escondeu-se atrás das caixas de arbustos.

     Boris parou no meio do jardim, olhou em volta, tirou o pó da manga do uniforme, aproximou-se do espelho e admirou seu belo semblante. Com precaução, Natacha espiava de seu esconderijo o que ele ia fazer. Ficou um momento diante do espelho, sorriu e dirigiu-se para a porta. Natacha quis chamá-lo mas mudou de ideia. “Que procure”, pensou. Boris saiu e pela outra porta Sônia entrou. Estava vermelha, murmurando palavras de raiva através das lágrimas. Natacha, dominando o primeiro impulso de correr para ela, conservou-se no esconderijo, como sob o barrete encantado, olhando o que se passava no mundo. Sentia um prazer novo e estranho. Sônia resmungava qualquer coisa olhando para a porta da sala. Nicolau apareceu. 

— Sônia, o que é isso? Será possível! — disse, correndo para ela. 
— Nada, nada, deixa-me! — Sônia soluçava. 
— Não, eu sei do que se trata. 
— Pois bem! Se sabe, vá para junto dela. 
— Sônia, uma palavra! Será possível nós dois sofrermos por uma coisa que não existe? — disse Nicolau, tomando-lhe as mãos.

     Sônia chorava sem tirar as mãos do rosto. Natacha, sem um movimento e sem respirar, observava de seu esconderijo com os olhos brilhantes. “O que irá acontecer, agora?”, pensou. 

— Sônia, para mim o mundo nada significa, tu só és tudo — continuou Nicolau. — Provarei. 
— Não gosto que fales assim. 
— Está bem, não farei mais. Perdoa, Sônia?

     Puxou-a e beijou-a.

“Ah! como isso é bonito!”, pensou Natacha. E quando Sônia e Nicolau saíram, foi atrás deles e gritou por Boris.

— Boris, venha cá — disse num tom importante e astuto. — Tenho uma coisa para contar-te. Aqui, aqui. — Levou-o para o jardim de inverno, entre as caixas onde estivera escondida.

     Boris acompanhava-a sorrindo. 

— Que coisa é essa? — perguntou.

     Ficou atrapalhada e, olhando em torno de si, pegou uma boneca que estava em cima das caixas. 

— Beija a boneca — disse ela.

     Com um olhar admirado e terno, Boris olhou seu rosto animado e não disse nada. 

— E então, não quer? Pois venha cá. — Escondeu-se ainda mais atrás das caixas e atirou a boneca. — Mais perto, mais perto — cochichou. Segurou o braço do oficial; no seu rosto vermelho lia-se a solenidade e o medo. — E a mim, quer beijar?… — murmurou baixinho olhando-o desconfiada, sorrindo e quase chorando de emoção.

     Boris corou. 

— Como você é engraçada — disse, inclinando-se sobre ela e ficando ainda mais vermelho sem, no entanto, tomar nenhuma iniciativa.

     Natacha pulou em cima de uma caixa e ficou da altura do rapaz. Envolvendo-o com seus finos braços nus, dobrados acima do pescoço, e atirando os cabelos para trás, num movimento de cabeça, beijou-o nos lábios. Depois, deixou-se escorregar entre as caixas, do outro lado das plantas e, baixando a cabeça, ficou parada. 

— Natacha — disse ele —, sabe que amo você, mas… 
— Está apaixonado por mim? — atalhou Natacha. 
— Sim, apaixonado, mas não faça mais isso… Ainda quatro anos… Então, pedirei sua mão. 

     Natacha refletiu. 

— Treze, quatorze, quinze, dezesseis… — disse, contando nos dedos finos. 
— Bem! Então está entendido!

     E um sorriso confiante e alegre iluminou sua fisionomia. 

— Entendido! — disse Boris. 
— Para sempre? — acrescentou a garotinha. — Até a morte?

     Tomou o braço dele com uma expressão de felicidade, e os dois se dirigiram vagarosamente para o cômodo ao lado.

continua na página.... 27
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde / IX - Pois é isso, ma chère / X - Boris parou no meio do jardim /                      
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (O coração)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

O CORAÇÃO  
 
O coração é o colibri dourado 
Das veigas puras do jardim do céu. 
Um — tem o mel da granadilha agreste, 
Bebe os perfumes, que a bonina deu. 

O outro — vôa em mais virentes balsas, 
Pousa de um riso na rubente flor. 
Vive do mel — a que se chama — crenças —, 
Vive do aroma — que se diz — amor. — 

Recife, 1865. 

Espumas Fluctuantes, Edição original: XXXII


PENSAMENTO DE AMOR

Quero viver de esperança 
Quero tremer e sentir! 
Na tua trança cheirosa 
Quero sonhar e dormir. 
           A. DE AZEVEDO.

O' pallida madona de meus sonhos, 
Doce filha dos serros de Engadi! 
Vem inspirar os sonhos do poeta, 
Rosa branca da lyra de David.

Todo o amor que em meu peito repousava, 
Como o orvalho das noites ao relento, 
A teu seio elevou-se, como as nevoas, 
Que se perdem no azul do firmamento. 

Aqui... além... mais longe, em toda a parte, 
Meu pensamento segue o passo teu. 
Tu és a minha luz, — sou tua sombra, 
Eu sou teu lago, — se tu és meu céu. 

Lá, no theatro, ao som das harmonias, 
Vendo-te a fronte altiva e peregrina... 
Eu apertava o seio murmurando: 
"Oh! mata-me de amor, mulher divina!"

A' tarde, quando chegas á janella, 
A trança solta, onde suspira o vento, 
Minha alma te contempla de joelhos... 
A teus pés vae gemer meu pensamento.

Inda hontem, á noite, no piano 
Os dedos teus corriam no teclado; 
Que, ás caricias destas mãos formosas, 
Gemia e suspirava apaixonado.

Depois cantaste... e a ária suspirosa 
Veio n'alma accender-me mais desejos; 
Dir-se-ia que essas notas eram doces 
Como sussurro de amorosos beijos.  

Oh! diz'-me, diz'-me, que ainda posso um dia 
De teus lábios beber o mel dos céus; 
Que eu te direi, mulher dos meus amores: 
— Amar-te ainda é melhor do que ser Deus!

Bahia, 1865.

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     Cf. com um manuscripto de Augusto Alvares Guimarães, num livro de versos do Poeta, cm. por D. Ade laide de Castro Alves Guimarães. Em baixo da pagina havia esta nota, relativa á derradeira estância: "esta ultima estrophe está riscada". Pbl. sob o titulo "****" na "s"" (VP) Edição das Espumas Fluctuantes, de Seraphim José Alves, Rio de Janeiro (1881): "appendice": X. Sob o titulo "Anceios" vem na edição da A Cachoeira de Paulo Affonso, de Cruz Coutinho, Rio, 1882, "appendice": V. Nas Poesias, Bahia (1913) : XLV, tem o titulo "Devaneios". O adoptado aqui é o authentico, que lhe deu o Poeta. 
     Segundo me referiu D. Simy Carvalho, a Amzalack destinatária da "Hebréa", foi esta poesia dirigida a sua linda irmã Esther, depois sra. José Henschel. As reminiscencias "do theatro", "ao piano", "á janella", da "trança solta onde suspira o vento", "cantando..." são confirmadas por outros testemunhos deste namoro. A confissão é tão explicita, que não ousou o Poeta escrever o nome da amada: vae declarado nos "Anjos da meia noite", soneto "Esther".  

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continua página 76...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração /         
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

Marcel Proust - A Prisioneira (Para voltar a Albertine)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Para voltar a Albertine, jamais conheci mulheres mais dotadas do que ela da engenhosa aptidão para a mentira animada, colorida com os próprios matizes da vida, a não ser uma de suas amigas uma das minhas moças em flor também, rósea como Albertine, mas cujo perfil irregular, reentrante aqui, além proeminente, depois de novo reentrante, parecia-se exatamente a certos cachos de flores róseas de cujo nome não me recordo e que têm, da mesma forma, longas e sinuosas reentrâncias. Esta moça era, do ponto de vista da fabulação, superior a Albertine pois, naquilo que contava, não misturava nenhum dos momentos dolorosos e subentendidos coléricos que eram freqüentes na minha amiga. No entanto, falei que era encantadora quando inventava um relato que não deixava lugar a dúvidas, pois então víamos à nossa frente a coisa - todavia imaginada - que ela dizia, servindo de vista a sua palavra. Era a minha verdadeira percepção. Acrescentei: "o que ela confessava", e eis o motivo: às vezes certas aproximações singulares me despertavam suspeitas ciumentas em que, ao lado delas figurava no passado ou, ai de mim, no futuro, uma outra pessoa. Para ter certeza do que imaginava, dizia o nome e Albertine falava: 

- Sim, encontrei-a há oito dias a poucos passos da casa. Por delicadeza, respondi ao seu cumprimento. Dei alguns passos com ela. Mas nunca houve nada entre nós e jamais haverá. -

     Ora, Albertine nem sequer se encontrara com essa pessoa, pela boa razão de que esta não vinha à Paris há dez meses. Mas minha amiga achava que negar completamente era pouco verossímil. De onde esse curto encontro fictício, narrado com tanta simplicidade que eu via a senhora, para dar-lhe bom dia, caminhar um pouco na sua companhia. Somente a verossimilhança havia inspirado Albertine, de modo algum o desejo de provocar ciúmes. Pois Albertine, talvez sem interesse, gostava que lhe fizessem gentilezas. Ora, se no decorrer desta narrativa já tive e ainda terei muitas oportunidades de mostrar como o ciúme reduplica o amor, foi no ponto de vista do amante que me coloquei. Porém, por menos brio que este possua, mesmo que deva morrer após a separação, não responderá a uma traição suposta com uma gentileza; ou se afastará ou, sem afastar-se, resolverá fingir indiferença. Portanto, é em pura perda para si mesma que a amante o faz sofrer tanto. Ao contrário, se dissipar com uma palavra adequada e suaves carinhos as suspeitas que o torturavam, embora bancasse o indiferente, sem dúvida o amante sentirá aquele aumento desesperado do amor a que o eleva o ciúme, porém, deixando bruscamente de sofrer, feliz, enternecido, acalmado como se é depois de uma tempestade, quando a chuva caiu e mal se percebe ainda, sob os grandes castanheiros, pingarem a longos intervalos as gotas suspensas, coloridas pelo sol que já reapareceu, não sabe ele como exprimir o seu reconhecimento àquela que o fez curar-se. Albertine sabia que eu gostava de recompensá-la por suas gentilezas, e isso talvez explicava que ela inventasse, para se inocentar, confissões naturais como essas histórias que eu não punha em dúvida, e uma das quais fora o seu encontro com Bergotte quando ele já estava morto. Até então, das mentiras de Albertine eu só conhecia aquelas que, por exemplo, contara-me Françoise em Balbec, a que não me referi apesar de me terem feito muito mal.

"Como não queria vir, ela me disse: Será que não podia dizer a ele que não me encontrou, que eu tinha saído?"

     Mas os "inferiores" que nos amam, como Françoise me amava, têm prazer em ferir o nosso amor próprio.
     Depois do jantar, disse a Albertine que desejava aproveitar o fato de haver deixado a cama para visitar alguns amigos, a Sra. de Villeparisis, a Sra. de Guermantes, os Cambremer, não sabia quantos, mas aqueles que encontrasse em casa. Silenciei apenas os nomes a cuja residência pretendia ir, os Verdurin. Perguntei a Albertine se não queria ir comigo. Alegou que não tinha vestido. 

- E além disso, estou tão mal penteada. Você faz questão que eu continue a usar este penteado?

     E, para se despedir, estendeu-me a mão com aquele modo brusco, de braço esticado, aprumando os ombros, que tivera outrora na praia de Balbec, e que nunca mais mostrara. Este movimento esquecido refez do corpo animado por ele o daquela Albertine que mal me conhecia ainda. Devolveu a Albertine, cerimoniosa sob a capa da brusquidão, a sua novidade primeira, o seu mistério, e até o seu ambiente. Enxerguei o mar por detrás daquela moça a quem jamais vira cumprimentar-me daquele modo desde que eu voltara de Balbec. 

- Minha tia acha que isso me envelhece - acrescentou com ar de tédio. -

"Tomara que esteja certa", pensei. "Tudo o que a Sra. Bontemps deseja é que Albertine, parecendo uma menina, a faça parecer mais jovem; e mais, que Albertine não lhe custe nada até o dia em que, casando comigo, lhe traga vantagens." Mas que Albertine parecesse menos jovem, menos bonita, fizesse voltarem-se menos na rua para vê-la, eis o que eu, pelo contrário, desejava. Pois a velhice de uma aia não é tranquilizadora para um amante ciumento como a velhice do rosto daquela a quem ama. Só me incomodava que o penteado que lhe pedira que adotasse pudesse parecer a Albertine uma reclusão a mais. E ainda foi este sentimento doméstico novo que não cessou de me ligar a Albertine, mesmo longe dela.

     Depois de dizer a Albertine, pouco disposta, segundo me confessara, a me acompanhar à casa dos Guermantes ou dos Cambremer, que não sabia aonde iria, para a casa dos Verdurin. No momento em que saía e que a ideia do concerto me recordou a cena da tarde: "grandessíssima puta, grandessíssima que iria ouvir lá por despeitado, talvez do amor ciumento, mas desse modo tão bestial como a que excetuadas as palavras, poderia fazer a uma mulher um orangotango enamorado dela. No momento em que na rua ia chamar um fiacre, ouvi de um homem que estava sentado num frade-de pedra; soluços reprimidos, com o rosto nas mãos, parecia jovem e fiquei surpreendido à elegância; que parecia, pela brancura que saía da capa, que estava vestindo. Ao ouvir-me, descobriu o rosto inundado em lágrimas, havia me reconhecido e desviou a cara. Era Morel. Compreendeu que eu o reconhecia logo, tentando estancar as lágrimas, disse que havia parado um momento porque estava desesperado. 

- Hoje mesmo insultei grosseiramente - disse ele - uma pessoa que nutro sentimentos elevados. Foi covardia, pois ela me ama.
- Talvez esqueça com o tempo - respondi, sem pensar, falando dessa maneira dava a entender que ouvira a cena da tarde. Mas ele estava tão absorto em suas preocupações que nem lhe ocorreu que eu pudesse saber de alguma coisa. 
- Talvez mágoas que possa esquecer - Eu e que não poderei esquecer. Tenho e noção da minha vergonha. Mas enfim está dito, nada pode fazer que não tenha sido dito. Quando tenho raiva, não sei mais o que faço. E isso é tão ruim para mim. Quando sinto os nervos transtornados preocupo-me.

     Pois Morel como todo neurastênico preocupava-se grandemente com a saúde.
     Se, de tarde, eu vira um animal furioso cólera amor, agora, à noitinha, em poucas horas havia um sentimento novo, um sentimento de vergonha, arrependimento; decorridos, todos entrecruzados uns pelos outros pois, como todos mostrava que uma grande etapa fora vencida na evolução da besta a se transformar em ser humano. Apesar de tudo, eu ouvia sempre besta desistir à "grandessíssima puta" e temia uma recorrência próxima ao estado selvagem. Aliás, mal sabia o que se havia passado, e isto era tanto mais natural quanto compreender; pois o Sr. de Charlus ignorava inteiramente que, desde alguns dias em particular naquele dia vergonhoso, não se referia diretamente ao próprio, com o violinista. Morel tivera nova crise de neurastenia. De fato, mesmo antes Morel havia apressado o quanto pudera, para o mês anterior a sedução da sobrinha de Jupien, com que na qualidade de noivo, desejara que saísse a seu gosto. Porém logo que fora um pouco longe demais em suas tentativas encontrara uma resistência que o tinha exasperado; e sobretudo quando falara à noiva que se unisse a outras moças que o proporcionariam. Fosse por que ela se mostrasse excessivamente casta, ou pelo contrário, se tivesse cedido; seu desejo passou podia sair muito mais lentamente. Resolvera romper, receou que ela o pusesse no olho do barão quando soubesse do rompimento. Pois o barão era mais moral, conquanto vicioso, e talvez rompesse com ele. Assim, decidira há cerca de quinze dias não voltar a ver a noiva. De repente sentindo que era melhor deixar que o Sr. de Charlus e Jupien se arranjassem e, antes de anunciar a ruptura, resolvera sair pela rua sem destino. Fora sem dizer para onde.
     O Amor, cujo desenlace o deixava um pouco triste; de modo que, embora a conduta que tivera com a sobrinha de Jupien pudesse perfeitamente superpor-se, nos menores detalhes, àquela sobre a qual teorizara diante do barão enquanto jantavam em Saint-Mars-le-Vêtu, é bem provável que fossem muito diferentes e que sentimentos menos atrozes, e que não previra em sua conduta teórica, haviam embelezado e tornado sentimental sua conduta verdadeira. O único ponto em que, ao contrário, a realidade era pior que o projeto, é que no projeto não lhe parecia possível permanecer em Paris depois de tamanha traição. Agora, "dar o fora" lhe parecia demais por uma coisa tão simples. Seria deixar o barão, que certamente ficaria furioso, e sacrificar sua situação. Perderia todo o dinheiro que lhe dava o Sr. de Charlus. A ideia de que isso era inevitável causava-lhe crises de nervos. Ficava chorando horas a fio, e, para não pensar naquilo, tomava morfina com prudência.
     Depois, de súbito, vinha-lhe ao espírito uma ideia que sem dúvida estava tomando vida e forma fazia algum tempo; tal ideia era que a alternativa, a escolha entre o rompimento com a moça e a briga total com o Sr. de Charlus talvez não fosse forçosa. Perder todo o dinheiro do barão era muito. Morel, indeciso, mergulhou durante alguns dias em ideias negras, como as que lhe causavam a vista de Bloch. Depois decidiu que Jupien e a sobrinha haviam tentado fazê-lo cair numa armadilha e deviam considerar se muito felizes por ter a coisa acabado assim. Em suma, achava que a moça era culpada por ter sido tão desajeitada, por não ter sabido prendê-lo pelos sentidos. Não só lhe parecia absurdo o sacrifício de sua situação junto ao Sr. de Charlus, como lamentava até os jantares dispendiosos que oferecera à moça desde que estavam noivos, e cujo custo poderia saber, como filho que era de um criado de quarto que ia todos os meses levar o seu "livro" a meu tio. Pois livro, no singular, que significa obra impressa para o comum dos mortais, perde esse sentido para as Altezas e os criados de quarto. Para estes, significa o livro de contas; para os primeiros, o registro em que as visitas inscrevem seu nome. (Em Balbec, num dia em que a princesa de Luxemburgo me dissera estar sem livro, eu ia lhe emprestar o Pescador da Islândia e Tartarin de Tarascon, quando compreendi o que ela queria dizer: não que passaria menos agradavelmente o tempo, mas que eu teria mais dificuldade em deixar o meu nome ao visitá-la).
     Apesar da mudança do ponto de vista de Morel quanto às conseqüências de sua conduta, embora esta lhe tenha parecido abominável dois meses antes, quando amava apaixonadamente a sobrinha de Jupien, enquanto que de uns quinze dias para cá não cessava de repetir a si mesmo que essa conduta era natural e louvável, cada vez mais se lhe agravava o estado de nervosismo em que há pouco anunciara o rompimento. E estava pronto a "descarregar a cólera", senão (a não ser num acesso momentâneo) na moça para com quem conservava aquele resto de receio, derradeiro vestígio do amor, pelo menos no barão. Contudo, evitou falar-lhe sobre isso antes do jantar. Pois, colocando acima de mais nada o seu próprio virtuosismo profissional, quando tinha que tocar peças difíceis como naquela noite em casa dos Verdurin; evitava (tanto quanto possível, e já era demasiada a cena da tarde), tudo o que podia alterar sua execução. Assim como um cirurgião apaixonado por automobilismo, deixa de dirigir quando tem que operar. Assim, Morel, em quanto falava comigo, movia os dedos um após o outro para ver se haviam readquirido sua flexibilidade. Se sentia uma certa dureza explicava que ainda permanecia um pouco de nervosismo. Porém, Morel, distendia o rosto; sua fisionomia, o franzir de sobrancelhas que parecia significar não aumentar, o rosto como alguém que procurasse não enervar-se com a insônia, ou facilmente por uma mulher, com receio de que ainda retardasse o instante do sono ou do prazer. Assim, desejando recuperar a serenidade como de costume. Gostaria de ter ido embora, entretanto era inútil a partida pois, indo na direção quase da mesma casa, que a poucos minutos tendo ainda viva na lembrança não podia deixar de sentir certo nojo em ter Morel por companhia. É bem possível que depois do amor, a indiferença ou o ódio pela sobrinha de Jupien foram sinceros. Infelizmente não era a primeira vez que procedia assim, e não seria a última; que ele "dava o fora" na moça a que tinha jurado amor eterno chegando até lhe mostrar um revólver carregado e lhe dizer que daria um tiro se era o bastante covarde para abandoná-la. Nem por isso deixava de abandoná-la em seguida e de sentir, em vez de remorso, uma espécie de rancor. Não era a primeira vez que obrava assim nem ia ser a última, de sorte que muitas cabeças de moças - menos esquecidas dele que delas mesmas sofreram -como sofreu muito tempo ainda a sobrinha do Jupien, que continuou amando Morel sem deixar de lhe desprezar-,dispostas a estalar sob o arrebatamento de uma dor interna, porque cada uma delas parecia no cérebro, como um fragmento de uma escultura grega, um aspecto do rosto do Morel, duro como o mármore e belo como a antiguidade, com seus cabelos em flor, seus olhos penetrantes, seu nariz reto -formando protuberância em um crânio não destinado a recebê-la, e que não se podia operar-. Mas, à larga, estes fragmentos tão duros acabam por cair num lugar onde não causam muitos estragos, de onde já não se movem; já não se nota sua presença: é o esquecimento, ou o futuro indiferente.
     Eu levava em mim dois produtos de minha jornada. Por uma parte, graças à calma produzida pela docilidade de Albertina, a possibilidade e, em consequência, a resolução de romper com ela. Por outra parte, resultado de minhas reflexões durante o tempo que passei esperando-a sentado ante o piano, a ideia de que a arte, ao que procuraria dedicar; me esforçaria por consagrar a liberdade reconquistada, não era algo que valesse a pena um sacrifício, algo exterior à vida, não participando de sua vaidade e de seu vazio, pois a aparência de individualidade real obtida nas obras era devida apenas a uma ilusão produzida pela habilidade técnica. Se a minha tarde deixara em mim outros resíduos, talvez mais profundos, só deveriam subir bem depois à minha consciência. Quanto aos dois que eu nitidamente sopesava, não iriam ser duradouros; pois, desde aquela mesma noite, minhas ideias sobre arte iam se recompor da diminuição que tinham experimentado à tarde, mas em compensação, o sossego, e por conseguinte, a liberdade que me permitiria dedicar-me a ela, ser-me-ia novamente retirado.
     Como o meu carro, rodando ao longo do cais, se aproximasse da casa dos Verdurin, fi-lo parar. Com efeito, acabava de ver Brichot descer do bonde na esquina da rua Bonaparte, limpar os sapatos com um jornal velho e calçar luvas cor de pérola. Caminhei até ele. Fazia algum tempo que, tendo piorado sua doença de olhos, fora dotado-tão suntuosamente como um laboratório-de novas lentes, as quais, potentes e complicadas como instrumentos astronômicos, pareciam aparafusadas a seus olhos. Assestou em mim aquelas luzes excessivas e me reconheceu. As lentes estavam em situação primorosa. Mas, por detrás delas, percebi, minúsculo, pálido, convulsivo, expirante, um olhar longínquo colocado sob aquele potente aparelho, como, nos laboratórios por demais subvencionados para os trabalhos que neles se executam, se põe um mísero bichinho agonizante sob os aparelhos mais aperfeiçoados. Ofereci o braço ao semicego para lhe amparar os passos. 

- Desta vez não é perto da grande Cherburgo que nós nos encontramos disse ele-, mas ao lado do Petit Dunkerque. [Dunkerque pequena loja de novidades em Paris, no começo do século (N .do T)]- frase que me pareceu muito aborrecida, pois não entendi o que queria dizer; todavia não ousei fazer perguntas a Brichot, por temer ainda mais o seu desprezo do que suas explicações. Respondi que estava bastante curioso por ver o salão em que Swann outrora se encontrava todas as noites com Odette.

- Como, o senhor conhece estas velhas histórias? - exclamou ele. - 

     A morte de Swann me deixara transtornado na ocasião. A morte de Swann! Swann não desempenha nesta frase o papel de um simples genitivo. Entendo por isso a morte particular, a morte enviada pelo destino ao serviço de Swann. Pois dizemos a morte, para simplificar, mas são tantas as mortes quantas as pessoas. Não possuímos sentidos que nos permitam ver, correndo a toda velocidade e em todas as direções, as mortes, as mortes ativas dirigidas pelo destino para este ou aquele. Muitas vezes são mortes que só serão liberadas inteiramente de sua tarefa dois ou três anos após. Correm depressa para pôr um câncer nos flancos de um Swann, e depois saem para outras tarefas, só regressando no momento em que; tendo sido a operação dos cirurgiões, é preciso recolocar o câncer. Depois tendo o momento em que se lê no Le Gaulois que a saúde de Swann inspirou chega o ponto em que sua indisposição está em franco processo de cura. Então, minutos antes do último suspiro, a morte, como uma religiosa que nos tivesse assistido momentos antes; o destruir, chega para acompanhar nossos últimos instantes, e coroa com uma auréola suprema a criatura para sempre enregelada cujo coração cessou um dia de bater. Como uma dessas multiplicidade de mortes, o mistério de seus circuitos, a cor de sua écharpe; e que conferem algo de tão impressionante às linhas dos jornais: "Acabamos de saber com vivo pesar que o Sr. Charles Swann sucumbiu ontem em seu palacete, vítima de pertinaz moléstia. Parisiense, cujo espírito era apreciado por todos, bem como a firmeza de suas relações escolhidas, porém fiéis. Paris, em fremente lamenta a sua falta, tanto nos meios artísticos e literários, pela esclarecida do seu bom gosto fazia com que se sentisse bem e fosse onde fosse, afinal por todos era admirado, como no Jockey-Club, do qual era um dos membros mais influentes. Pertencia também ao Círculo da União e ao Clube Agrícola onde era um dos mais antigos e apresentara a sua demissão ao círculo da rua Royale. Sua fisionomia especial como sua notável notoriedade não deixavam de excitar a curiosidade do público em todo great event da música e da pintura, notadamente nas vernissages era habitué fiel até seus últimos anos, quando só raramente saía de casa. Terão lugar os funerais, etc.''
     Neste ponto de vista, se não somos "alguém", a ausência de título é mais rápida ainda a decomposição da morte. Sem dúvida é de tal modo conhecido a distinção de individualidade, que se é anônimo o duque de Uzes . Mas a coroa ducal por algum tempo os elementos como os daqueles espelho mantêm unidos e mal desenhadas, apreciados por Albertine. Ao passo que os nomes de forma ultramundanos, logo que eles morrem, desagregam-se, os moldes derretem-se. Vimos a Sra. de Guermantes falar de Cartier como sendo burguês, sendo o melhor amigo do duque de La Trémoïlle, um homem bastante solicitado nos meios aristocráticos. Na geração seguinte, Cartier se tornou algo tão infortunado; ou melhor engrandecessem aparentando-o com o joalheiro Cartier, e no entanto nos meios o pudessem ter confundido com o outro. Swann que talvez, ao contrário, era uma notável personalidade intelectual e artística; não teria "produzido" nada, teve a oportunidade de durar um pouco mais Swann, não Charles Swann, que conheci tão pouco quando ainda era tão jovem, embora perto do túmulo, é justamente porque este, a quem você devia considerar todavia, um imbecil, fez de você o herói de um de seus romances; e que por isso talvez você continue vivendo. Se a respeito do quadro um Tissot representa a sacada do círculo da rua Royale, onde você está entre Gallifet, Edmond de Polignac e Saint Maurice, fala-se tanto de você, é porque veem que existem alguns traços seus na personagem de Swann. [O quadro em questão representa, entre as pessoas mencionadas, a figura de Charles Haas (1832-1902), O principal modelo de Charles Swann. (N. do T)]

continua na página 79...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Para voltar a Albertine)
Volume 6


Em busca do tempo perdido - Philippe Willemart
- Literatura Fundamental 15 




segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Augusto dos Anjos - Budhismo Moderno

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Budhismo Moderno

Tome, Dr., esta tesoura, e.      córte 
Minha singularissima pessoa. 
Que importa a mim que a bicharia rôa 
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah ! Um urubu pousou na minha sorte! 
Também, das diatomáceas da lagoa 
A cryptógama cápsula se esbrôa 
Ao contacto de bronca dextra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida 
Igualmente a uma céllula cahida 
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o aggregado abstracto das saudades 
Fique batendo nas perpétuas grades 
Do ultimo verso que eu fizer no mundo!  


Sonho de um Monista

Eu e o esqueleto esquálido de Eschylo 
Viajávamos, com uma anciã sybarita, 
Por toda a pro-dynamica infinita, 
Na inconsciencia de um zoóphito tranquillo.

A verdade espantosa do Prothylo 
Me aterrava, mas dentro da alma afnicta 
Via Deus—essa mónada exquisita— 
Coordenando e animando tudo aquillo! 

E eu bemdizia, com o esqueleto ao lado, 
Na gutturalidade do meu brado, 
Alheio ao velho cálculo dos dias, 

Como um pagão no altar de Proserpina, 
A energia intra-cósmica divina 
Que é o pai e é a mãe das outras energias!  


Solitario

Como um fantasma que se refugia 
Na solidão da natureza morta, 
Por traz dos ermos túmulos, um dia, 
Eu fui refugiar-me á tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia 
Não era esse que a carne nos conforta. 
Cortava assim como em carniçaria 
O aço das facas incisivas corta! 

Mas tu não vieste ver minha Desgraça! 
E eu sahi, como quem tudo repelle, 
— Velho caixão a carregar destroços —

Levando apenas na tumbal carcassa 
O pergaminho singular da pelle 
E o chocalho fatídico dos ossos!  

Continua na página 45...
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Leia também:
Budhismo Moderno /  
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

domingo, 20 de setembro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto VI.b - Odisseu chega à Feácia)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VI

Odisseu chega à Feácia

    “Atena aparece em sonho para Nausícaa, filha de Alcínoo, e manda-a ir lavar suas roupas no rio, pois seu casamento está próximo. Ela faz o que é pedido. Depois, ela brinca com suas servas. Odisseu ouvindo-as, acorda. Pedindo a Nausícaa, recebe alimento e vestimentas, seguindo-a, então, até a cidade.” (Scholie P Q V)
continuando...

pois os meus olhos jamais contemplaram tão nobre vergôntea 
entre quaisquer dos mortais; reverente me deixa tua vista. 
Uma só vez coisa igual contemplei: junto às aras de Apolo, 
na ilha de Dela, rebento viçoso de esbelta palmeira. 
Fora, também, até lá, acompanhado de séquito grande, 
numa viagem que fonte de acerbo sofrer me seria. 
Da mesma forma fiquei muito tempo enlevado em mirá-la, 
pois uma planta como essa jamais pela terra nascera. 
Dessa maneira te admiro, mulher, extasiado, mas temo 
ir abraçar-te os joelhos, conquanto por males premido.

Ontem, após vinte dias, salvei-me do mar cor de vinho. 
Todo esse tempo, trouxeram-me as ondas e as atras procelas 
desde a ilha Ogígia. Afinal, arrojou-me um demônio a estas plagas, 
para sofrer, porventura, mais dores. Não creio que estejam 
para acabar-se, que os deuses, por certo, outros males me aprestam. 
Por isso tudo, senhora, te imploro piedade; primeiro 
que a ninguém mais te suplico na angústia, porque não conheço 
dos habitantes nenhum, que demoram por estas paragens. 
Mostra onde fica a cidade e um pedaço de pano me cede 
para cobrir-me, se acaso o trouxeste envolvendo tua roupa.

Deem-te os deuses obter quantos bens no mais íntimo almejas, 
casa e marido, assim como com ele viver em concórdia 
sem semelhante, pois nada é mais grato, nem mais de almejar-se, 
do que marido e mulher governarem, acordes, a casa, 
em comunhão de vontades. Com isso os imigos se irritam, 
mas os amigos exultam; ao máximo os dois rejubilam.” 
Diz-lhe Nausícaa, de cândidos braços, então, em resposta: 
“Não me parece que sejas estulto nem mau, estrangeiro. 
O próprio Olímpico Zeus dá variados presentes aos homens, 
a todos eles, os bons e os ruins, como o peito lhe pede.

Deu-te, também, a tua parte; ora cumpre sofrer com paciência. 
Visto, porém, teres vindo à cidade e país que habitamos, 
necessitado de roupa não hás de ficar por mais tempo, 
nem do restante que os pobres costumam pedir aos estranhos. 
Hei de mostrar-te a cidade e dizer qual o nome do povo. 
São os Feácios os que na cidade e na terra demoram. 
Enquanto a mim, sou nascida de Alcínoo, de peito magnânimo, 
que entre os Feácios impera e detém o governo e o comando.” 
   Disse; e às escravas de tranças bem-feitas ordena, em seguida: 
“Ora detende-vos, servas. Fugis só à vista de um homem? 

Ou presumis que ele vem para nós com malévolo intento? 
Nunca nasceu nenhum homem, que espere alcançar longa vida, 
nem há de haver, que chegasse aos Feácios e à terra em que moram, 
para algum dano causar-lhes, pois todos são caros aos deuses. 
Nós a de parte moramos de todos, no mar cheio de ondas, 
últimos seres humanos, sem termos contato com outros. 
Este, porém, que nos chega, é estrangeiro infeliz e vagante, de quem 
nos cumpre cuidar. Vêm de Zeus poderoso os mendigos 
e os estrangeiros; embora pequenas, são gratas as dádivas. 
Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida,

e ide banhá-lo no rio, em lugar protegido dos ventos.” 
   A essas palavras as servas detêm-se e entre si se encorajam. 
Para lugar abrigado, no rio, Odisseu conduziram, 
como Nausícaa o ordenara, de Alcínoo magnânimo filha. 
Para vestir-se puseram-lhe ao lado uma túnica e um manto, 
e um frasco de ouro no qual óleo havia, com que se esfregasse, 
e na corrente do rio o invitaram, depois, a banhar-se. 
Mas o divino Odisseu às criadas falou deste modo: 
   “Ora afastai-vos um pouco, que eu mesmo a salsugem marinha 
quero dos ombros tirar e esfregar-me, em seguida, com óleo,

pois o meu corpo, há bem tempo, carece de tantos desvelos. 
É-me impossível banhar-me na vossa presença; envergonho-me 
de desnudar-me na frente de moças de tranças bem-feitas.” 
   Disse; afastaram-se as servas e foram contá-lo à donzela. 
Lava-se, entanto, Odisseu na corrente, tirando da pele 
toda a salsugem deposta no dorso e nas largas espáduas, 
e dos cabelos a espuma empastada do mar infecundo. 
Quando acabou de banhar-se e esfregar todo o corpo com óleo, 
na roupa envolve-se que lhe a donzela pudica cedera. 
Fê-lo ficar a nascida de Zeus, de olhos glaucos, Atena

muito mais digno de ver e mais forte, caindo-lhe os cachos 
em caracóis, da cabeça, tal como os da flor do jacinto. 
Do mesmo modo que artista perito derrama na prata 
lâminas de ouro, discíp’lo que fora de Hefesto e de Palas 
em variados misteres, e faz admiráveis trabalhos: 
Palas, assim, na cabeça e nos ombros infunde-lhe graça. 
Este, afastando-se, foi assentar-se na praia marinha, 
resplandecente de graça e beleza. Admirou-o a donzela, 
e dirigindo-se às servas de tranças bem-feitas lhes disse: 
   “Ora atendei ao que digo, criadas de cândidos braços.

Não é, decerto, contrário à vontade dos deuses, que habitam 
o vasto Olimpo, ter vindo este herói aos deiformes Feácios. 
Logo a princípio, em verdade, indivíduo vulgar pareceu-me; 
mas vejo-o agora tal como um dos deuses, que moram no Olimpo. 
Se me coubesse por sorte alcançar um marido como este 
e lhe agradasse ficar aqui mesmo e entre nós ter morada! 
Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida.”¹
   Obedientes, as servas fizeram como ela ordenara, 
pondo bebida e alimentos ao lado do nobre guerreiro. 
Com avidez o divino e sofrido varão come e bebe,

pois muitos dias havia que estava em jejum doloroso. 
Outro artifício concebe Nausícaa de cândidos braços: 
manda dobrar toda a roupa e depô-la no carro bem-feito, 
fez que no jugo pusessem as mulas robustas, e sobe, 
por sua vez, concitando Odisseu da maneira seguinte: 
   “Hóspede, agora me segue à cidade; desejo mostrar-te 
onde reside meu pai valoroso. Verás lá reunidos 
em sua casa os mais nobres senhores do povo Feácio. 
Desta maneira procede; insensato não creio que sejas: 
enquanto apenas cortamos por campos lavrados por homens,

segue de perto as donzelas e as mulas robustas e o carro, 
com passo rápido; eu própria hei de à frente o caminho mostrar-te. 
Alcançaremos depois a cidade e seus muros altivos; 
ancoradouro aprazível em cada um dos lados ostenta; 
é pouco larga a passagem entre eles; no seco se encontram 
as naus simétricas, tendo cada uma um tendal ajustado. 
A ágora vê-se, também, junto ao templo de linhas perfeitas 
do deus Posido, construída com blocos cravados no solo. 
Só com os pertences das naves escuras os homens se ocupam, 
cordas e todo o velame, e também de falcar belos remos,

pois os Feácios, de fato, não cuidam de aljavas nem de arcos, 
mas só de mastros e remos e naves de linhas simétricas; 
isso para eles é festa, e vogar pelo mar pardacento. 
Quero evitar comentários do povo; não vá censurar-me, 
com ironia, um qualquer; insolentes não faltam na terra. 
Pode bem ser que encontremos um desses, que diga, maldoso: 
‘Quem será esse estrangeiro, que segue a Nausícaa, tão belo 
e de tal porte? Onde o achou? Com certeza o escolheu para esposo. 
É, porventura, transviado varão, que ela traz de um navio, 
desses de terras longínquas, pois perto de nós ninguém mora,

ou qualquer deus que baixasse do Olimpo, atendendo
a seus rogos, a quem constante suplica; ora sempre ao seu lado vai tê-lo. 
Foi bem melhor que ela própria quisesse buscar o consorte 
em terra estranha, uma vez que despreza os rapazes Feácios. 
Muitos a têm pretendido, entre os filhos mais nobres da terra.’ 
Isto, sem dúvida alguma, dirão, para minha vergonha. 
Mas eu, também, censurara donzela que assim procedesse, 
que à revelia dos que lhe são caros, dos pais ainda vivos, 
aparecesse entre os homens, sem ter ainda as núpcias firmado. 
Ora, estrangeiro, concede-me toda a atenção, porque possas

logo alcançar de meu pai companheiros, que à pátria te levem. 
Perto da estrada hás de ver o magnífico bosque de Atena, 
de negros álamos, onde há uma fonte; é cercado de um prado. 
Nesse lugar tem meu pai um florido jardim, seu terreno, 
que da cidade se encontra a distância somente de grito. 
Senta-te e espera, até vires que tempo tivemos bastante 
de penetrar na cidade e alcançar de meu pai o palácio. 
Mas, logo que presumires que a casa tenhamos chegado, 
podes, então, dirigir-te à cidade dos homens Feácios, 
onde te cumpre indagar da morada de Alcínoo guerreiro.

Ela é mui fácil de ser conhecida; até ingênua criança 
te indicará, pois nenhuma das casas dos outros Feácios 
tem semelhança com essa em que mora o magnânimo Alcínoo. 
Logo porém, que tiveres entrado na casa e no pátio, 
corta através dos salões, porque o posto alcançar logo possas 
de minha mãe, que se encontra sentada à lareira, fiando 
lã cor de púrpura ao brilho do fogo, espetác’lo admirável. 
Tem por encosto a coluna; por trás as criadas se encontram. 
Junto a essa mesma coluna se vê de meu pai a poltrona, 
onde costuma sentar-se, qual deus, a libar com bom vinho.

Não te detenhas aí, mas procura abraçar os joelhos 
de nossa mãe, porque possas rever o teu dia da volta 
sem mais demora, ainda mesmo que te aches mui longe da pátria. 
Caso te escute e em seu peito propícia se mostre à tua sorte, 
podes a esp’rança afagar de rever os amigos, e a casa 
bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença.” 
   Tendo assim dito, espertou com o brilhante chicote a parelha 
de fortes mulas, que céleres deixam o curso do rio, 
a percorrer o caminho, ora a trote, ora a passos medidos. 
Mui cautelosa, as dirige Nausícaa, estalando o chicote,

para que as servas, bem como Odisseu, para trás não ficassem. 
Punha-se o sol, quando todos o célebre bosque alcançaram 
à deusa Atena sagrado, onde o divo Odisseu se deteve, 
que logo faz suas preces à filha de Zeus poderoso: 
   “Ouve-me agora, ó donzela invencível, de Zeus proveniente! 
Dá-me atenção, já que dantes embalde te envicei meus gemidos, 
quando me fez naufragar o deus forte, que sacode a terra. 
Faze que os Feácios de mim se apiedem e amigos se mostrem.” 
   Dessa maneira suplica Odisseu. Ouve-o Palas Atena, 
mas não se atreve a visível ficar, porque ao tio paterno

teme, em verdade, o qual sempre e veemente se mostra indignado 
contra o deiforme Odisseu, té que à pátria não fosse chegado.²

continua página 755...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b /                        
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Este trecho marca o instante em que Nausícaa, já tocada pela presença de Odisseu, deixa de vê‑lo como um náufrago desconhecido e passa a reconhecê‑lo como alguém digno de admiração — talvez até de afeto. É uma virada emocional delicada e decisiva na Odisseia.
     A mudança de percepção: do “vulgar” ao “quase divino”
Nausícaa confessa às servas que, à primeira vista, Odisseu lhe pareceu um homem comum, até rude. Mas agora, após ouvir sua fala e observar sua postura, ela o vê “como um dos deuses que moram no Olimpo”. Essa mudança é essencial: revela a sensibilidade da jovem; mostra o poder da palavra de Odisseu; prepara o terreno para a hospitalidade feácia. Odisseu, mesmo exausto, nu, coberto de sal e sofrimento, consegue irradiar dignidade — e Nausícaa percebe isso.
     O desejo velado: “Se me coubesse por sorte alcançar um marido como este…”
Este é um dos momentos mais humanos e belos do canto: Nausícaa imagina Odisseu como marido.
Não é uma declaração explícita de amor, mas um suspiro de possibilidade, típico da juventude e da delicadeza da personagem. Homero constrói Nausícaa como uma figura de pureza e graça, e aqui ela se permite sonhar — ainda que discretamente. Esse detalhe é fundamental para compreender: a ternura da cena; a abertura emocional da jovem; o contraste entre o mundo doméstico feácio e a dureza das aventuras de Odisseu.
     Hospitalidade: alimento e bebida ao hóspede
Depois de expressar sua admiração, Nausícaa dá instruções às servas: “Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida.” Esse gesto é mais que cortesia — é xenia, a hospitalidade sagrada que rege o mundo grego. Nausícaa assume o papel de anfitriã, mesmo sendo jovem, mostrando: liderança; generosidade; senso de dever; respeito às normas divinas. Atena, que guiou tudo desde o sonho, vê sua influência florescer aqui.
     Por que este trecho é tão importante na narrativa?
Humaniza Nausícaa, ela não é apenas princesa: é uma jovem que sente, imagina, admira.
Eleva Odisseu, mesmo em seu estado mais vulnerável, ele inspira respeito e encanto.
Marca o início da hospitalidade feácia, sem este gesto, Odisseu não chegaria ao palácio de Alcínoo.
Mistura o épico ao lírico, a cena tem um tom quase pastoral, suave, luminoso.
Cria tensão narrativa, há um brilho de romance possível — mas o destino de Odisseu é Ítaca.

[2] Este trecho conclui de maneira magistral o episódio do encontro entre Nausícaa e Odisseu, e prepara a transição para a chegada do herói ao palácio dos Feácios. A cena é cheia de simbolismo, delicadeza narrativa e intervenção divina.
     A partida da carruagem e o cuidado de Nausícaa
Nausícaa conduz a parelha de mulas com habilidade e cautela: alterna trote e passos medidos; mantém as servas e Odisseu próximos; age como guia e protetora. Esse detalhe reforça o caráter da jovem: ela é responsável, atenta, graciosa, e já exerce uma liderança natural entre as companheiras.
     O bosque de Atena: o ponto de transição
Ao pôr do sol, o grupo chega ao bosque sagrado de Atena. Ali, Odisseu se detém — e isso é significativo: ele respeita o espaço divino; reconhece a presença e a influência da deusa; prepara-se para entrar em um novo ciclo de sua jornada. O bosque funciona como limiar narrativo: é o ponto entre o sofrimento do naufrágio e a esperança da hospitalidade feácia.
     A prece de Odisseu: humildade e consciência divina
Odisseu ora à “donzela invencível”, Atena, pedindo: que os Feácios se mostrem piedosos; que o recebam como amigo; que sua sorte finalmente mude. Ele lembra que antes já havia clamado à deusa “embalde”, quando Poseidon o fez naufragar. Essa lembrança reforça a tensão entre as divindades: Atena o protege, mas Poseidon o persegue, e Odisseu está preso entre essas forças.
     Atena ouve — mas não aparece
Este é um dos detalhes mais sutis e importantes do canto: Atena escuta a prece, mas não ousa aparecer visivelmente. Por quê? Porque ela teme a ira de Poseidon, seu tio, que está furioso com Odisseu desde a cegueira de Polifemo. A deusa, portanto: age nos bastidores; protege sem se mostrar; guia sem intervir abertamente. É uma forma de intervenção discreta, típica da Odisseia, onde os deuses moldam o destino com delicadeza, não com estrondo.
Por que este trecho é tão importante?
- Marca o fim da fase de desamparo de Odisseu. Ele está prestes a entrar no mundo acolhedor dos Feácios.
- Mostra a maturidade de Nausícaa. Ela conduz, protege, organiza — e abre caminho para a hospitalidade. 
- Revela a relação complexa entre Atena e Poseidon. A deusa ajuda, mas com cautela, respeitando a hierarquia divina.
- Prepara o clima para o encontro com Alcínoo e Arete. odisseu está espiritualmente pronto para pedir auxílio.
- Mistura o épico ao sagrado. A narrativa passa do cotidiano (mulheres, mulas, roupas) ao divino (bosque, prece, intervenção).


Odisseia, de Homero - Canto 6 - Odisseu na Ilha dos Feácio