Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹
Canto VI
Odisseu chega à Feácia
“Atena aparece em sonho para Nausícaa, filha de Alcínoo, e manda-a ir lavar suas roupas no rio, pois seu casamento está próximo. Ela faz o que é pedido. Depois, ela brinca com suas servas. Odisseu ouvindo-as, acorda. Pedindo a Nausícaa, recebe alimento e vestimentas, seguindo-a, então, até a cidade.” (Scholie P Q V)
continuando...
entre quaisquer dos mortais; reverente me deixa tua vista.
Uma só vez coisa igual contemplei: junto às aras de Apolo,
na ilha de Dela, rebento viçoso de esbelta palmeira.
Fora, também, até lá, acompanhado de séquito grande,
numa viagem que fonte de acerbo sofrer me seria.
Da mesma forma fiquei muito tempo enlevado em mirá-la,
pois uma planta como essa jamais pela terra nascera.
Dessa maneira te admiro, mulher, extasiado, mas temo
ir abraçar-te os joelhos, conquanto por males premido.
Ontem, após vinte dias, salvei-me do mar cor de vinho.
Todo esse tempo, trouxeram-me as ondas e as atras procelas
desde a ilha Ogígia. Afinal, arrojou-me um demônio a estas plagas,
para sofrer, porventura, mais dores. Não creio que estejam
para acabar-se, que os deuses, por certo, outros males me aprestam.
Por isso tudo, senhora, te imploro piedade; primeiro
que a ninguém mais te suplico na angústia, porque não conheço
dos habitantes nenhum, que demoram por estas paragens.
Mostra onde fica a cidade e um pedaço de pano me cede
para cobrir-me, se acaso o trouxeste envolvendo tua roupa.
Deem-te os deuses obter quantos bens no mais íntimo almejas,
casa e marido, assim como com ele viver em concórdia
sem semelhante, pois nada é mais grato, nem mais de almejar-se,
do que marido e mulher governarem, acordes, a casa,
em comunhão de vontades. Com isso os imigos se irritam,
mas os amigos exultam; ao máximo os dois rejubilam.”
Diz-lhe Nausícaa, de cândidos braços, então, em resposta:
“Não me parece que sejas estulto nem mau, estrangeiro.
O próprio Olímpico Zeus dá variados presentes aos homens,
a todos eles, os bons e os ruins, como o peito lhe pede.
Deu-te, também, a tua parte; ora cumpre sofrer com paciência.
Visto, porém, teres vindo à cidade e país que habitamos,
necessitado de roupa não hás de ficar por mais tempo,
nem do restante que os pobres costumam pedir aos estranhos.
Hei de mostrar-te a cidade e dizer qual o nome do povo.
São os Feácios os que na cidade e na terra demoram.
Enquanto a mim, sou nascida de Alcínoo, de peito magnânimo,
que entre os Feácios impera e detém o governo e o comando.”
Disse; e às escravas de tranças bem-feitas ordena, em seguida:
“Ora detende-vos, servas. Fugis só à vista de um homem?
Ou presumis que ele vem para nós com malévolo intento?
Ou presumis que ele vem para nós com malévolo intento?
Nunca nasceu nenhum homem, que espere alcançar longa vida,
nem há de haver, que chegasse aos Feácios e à terra em que moram,
para algum dano causar-lhes, pois todos são caros aos deuses.
Nós a de parte moramos de todos, no mar cheio de ondas,
últimos seres humanos, sem termos contato com outros.
Este, porém, que nos chega, é estrangeiro infeliz e vagante, de quem
nos cumpre cuidar. Vêm de Zeus poderoso os mendigos
e os estrangeiros; embora pequenas, são gratas as dádivas.
Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida,
e ide banhá-lo no rio, em lugar protegido dos ventos.”
e ide banhá-lo no rio, em lugar protegido dos ventos.”
A essas palavras as servas detêm-se e entre si se encorajam.
Para lugar abrigado, no rio, Odisseu conduziram,
como Nausícaa o ordenara, de Alcínoo magnânimo filha.
Para vestir-se puseram-lhe ao lado uma túnica e um manto,
e um frasco de ouro no qual óleo havia, com que se esfregasse,
e na corrente do rio o invitaram, depois, a banhar-se.
Mas o divino Odisseu às criadas falou deste modo:
“Ora afastai-vos um pouco, que eu mesmo a salsugem marinha
quero dos ombros tirar e esfregar-me, em seguida, com óleo,
pois o meu corpo, há bem tempo, carece de tantos desvelos.
É-me impossível banhar-me na vossa presença; envergonho-me
de desnudar-me na frente de moças de tranças bem-feitas.”
Disse; afastaram-se as servas e foram contá-lo à donzela.
Lava-se, entanto, Odisseu na corrente, tirando da pele
toda a salsugem deposta no dorso e nas largas espáduas,
e dos cabelos a espuma empastada do mar infecundo.
Quando acabou de banhar-se e esfregar todo o corpo com óleo,
na roupa envolve-se que lhe a donzela pudica cedera.
Fê-lo ficar a nascida de Zeus, de olhos glaucos, Atena
muito mais digno de ver e mais forte, caindo-lhe os cachos
em caracóis, da cabeça, tal como os da flor do jacinto.
Do mesmo modo que artista perito derrama na prata
lâminas de ouro, discíp’lo que fora de Hefesto e de Palas
em variados misteres, e faz admiráveis trabalhos:
Palas, assim, na cabeça e nos ombros infunde-lhe graça.
Este, afastando-se, foi assentar-se na praia marinha,
resplandecente de graça e beleza. Admirou-o a donzela,
e dirigindo-se às servas de tranças bem-feitas lhes disse:
“Ora atendei ao que digo, criadas de cândidos braços.
Não é, decerto, contrário à vontade dos deuses, que habitam
o vasto Olimpo, ter vindo este herói aos deiformes Feácios.
Logo a princípio, em verdade, indivíduo vulgar pareceu-me;
mas vejo-o agora tal como um dos deuses, que moram no Olimpo.
Se me coubesse por sorte alcançar um marido como este
e lhe agradasse ficar aqui mesmo e entre nós ter morada!
Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida.”¹
Obedientes, as servas fizeram como ela ordenara,
pondo bebida e alimentos ao lado do nobre guerreiro.
Com avidez o divino e sofrido varão come e bebe,
pois muitos dias havia que estava em jejum doloroso.
Outro artifício concebe Nausícaa de cândidos braços:
manda dobrar toda a roupa e depô-la no carro bem-feito,
fez que no jugo pusessem as mulas robustas, e sobe,
por sua vez, concitando Odisseu da maneira seguinte:
“Hóspede, agora me segue à cidade; desejo mostrar-te
onde reside meu pai valoroso. Verás lá reunidos
em sua casa os mais nobres senhores do povo Feácio.
Desta maneira procede; insensato não creio que sejas:
enquanto apenas cortamos por campos lavrados por homens,
segue de perto as donzelas e as mulas robustas e o carro,
com passo rápido; eu própria hei de à frente o caminho mostrar-te.
Alcançaremos depois a cidade e seus muros altivos;
ancoradouro aprazível em cada um dos lados ostenta;
é pouco larga a passagem entre eles; no seco se encontram
as naus simétricas, tendo cada uma um tendal ajustado.
A ágora vê-se, também, junto ao templo de linhas perfeitas
do deus Posido, construída com blocos cravados no solo.
Só com os pertences das naves escuras os homens se ocupam,
cordas e todo o velame, e também de falcar belos remos,
pois os Feácios, de fato, não cuidam de aljavas nem de arcos,
mas só de mastros e remos e naves de linhas simétricas;
isso para eles é festa, e vogar pelo mar pardacento.
Quero evitar comentários do povo; não vá censurar-me,
com ironia, um qualquer; insolentes não faltam na terra.
Pode bem ser que encontremos um desses, que diga, maldoso:
‘Quem será esse estrangeiro, que segue a Nausícaa, tão belo
e de tal porte? Onde o achou? Com certeza o escolheu para esposo.
É, porventura, transviado varão, que ela traz de um navio,
desses de terras longínquas, pois perto de nós ninguém mora,
ou qualquer deus que baixasse do Olimpo, atendendo
a seus rogos,
a quem constante suplica; ora sempre ao seu lado vai tê-lo.
Foi bem melhor que ela própria quisesse buscar o consorte
em terra estranha, uma vez que despreza os rapazes Feácios.
Muitos a têm pretendido, entre os filhos mais nobres da terra.’
Isto, sem dúvida alguma, dirão, para minha vergonha.
Mas eu, também, censurara donzela que assim procedesse,
que à revelia dos que lhe são caros, dos pais ainda vivos,
aparecesse entre os homens, sem ter ainda as núpcias firmado.
Ora, estrangeiro, concede-me toda a atenção, porque possas
logo alcançar de meu pai companheiros, que à pátria te levem.
Perto da estrada hás de ver o magnífico bosque de Atena,
de negros álamos, onde há uma fonte; é cercado de um prado.
Nesse lugar tem meu pai um florido jardim, seu terreno,
que da cidade se encontra a distância somente de grito.
Senta-te e espera, até vires que tempo tivemos bastante
de penetrar na cidade e alcançar de meu pai o palácio.
Mas, logo que presumires que a casa tenhamos chegado,
podes, então, dirigir-te à cidade dos homens Feácios,
onde te cumpre indagar da morada de Alcínoo guerreiro.
Ela é mui fácil de ser conhecida; até ingênua criança
te indicará, pois nenhuma das casas dos outros Feácios
tem semelhança com essa em que mora o magnânimo Alcínoo.
Logo porém, que tiveres entrado na casa e no pátio,
corta através dos salões, porque o posto alcançar logo possas
de minha mãe, que se encontra sentada à lareira, fiando
lã cor de púrpura ao brilho do fogo, espetác’lo admirável.
Tem por encosto a coluna; por trás as criadas se encontram.
Junto a essa mesma coluna se vê de meu pai a poltrona,
onde costuma sentar-se, qual deus, a libar com bom vinho.
Não te detenhas aí, mas procura abraçar os joelhos
de nossa mãe, porque possas rever o teu dia da volta
sem mais demora, ainda mesmo que te aches mui longe da pátria.
Caso te escute e em seu peito propícia se mostre à tua sorte,
podes a esp’rança afagar de rever os amigos, e a casa
bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença.”
Tendo assim dito, espertou com o brilhante chicote a parelha
de fortes mulas, que céleres deixam o curso do rio,
a percorrer o caminho, ora a trote, ora a passos medidos.
Mui cautelosa, as dirige Nausícaa, estalando o chicote,
para que as servas, bem como Odisseu, para trás não ficassem.
Punha-se o sol, quando todos o célebre bosque alcançaram
à deusa Atena sagrado, onde o divo Odisseu se deteve,
que logo faz suas preces à filha de Zeus poderoso:
“Ouve-me agora, ó donzela invencível, de Zeus proveniente!
Dá-me atenção, já que dantes embalde te envicei meus gemidos,
quando me fez naufragar o deus forte, que sacode a terra.
Faze que os Feácios de mim se apiedem e amigos se mostrem.”
Dessa maneira suplica Odisseu. Ouve-o Palas Atena,
mas não se atreve a visível ficar, porque ao tio paterno
teme, em verdade, o qual sempre e veemente se mostra indignado
contra o deiforme Odisseu, té que à pátria não fosse chegado.²
Atena ouve — mas não aparece
Este é um dos detalhes mais sutis e importantes do canto: Atena escuta a prece, mas não ousa aparecer visivelmente. Por quê? Porque ela teme a ira de Poseidon, seu tio, que está furioso com Odisseu desde a cegueira de Polifemo. A deusa, portanto: age nos bastidores; protege sem se mostrar; guia sem intervir abertamente. É uma forma de intervenção discreta, típica da Odisseia, onde os deuses moldam o destino com delicadeza, não com estrondo.
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b /
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Este trecho marca o instante em que Nausícaa, já tocada pela presença de Odisseu, deixa de vê‑lo como um náufrago desconhecido e passa a reconhecê‑lo como alguém digno de admiração — talvez até de afeto. É uma virada emocional delicada e decisiva na Odisseia.
A mudança de percepção: do “vulgar” ao “quase divino”
Nausícaa confessa às servas que, à primeira vista, Odisseu lhe pareceu um homem comum, até rude. Mas agora, após ouvir sua fala e observar sua postura, ela o vê “como um dos deuses que moram no Olimpo”. Essa mudança é essencial: revela a sensibilidade da jovem; mostra o poder da palavra de Odisseu; prepara o terreno para a hospitalidade feácia. Odisseu, mesmo exausto, nu, coberto de sal e sofrimento, consegue irradiar dignidade — e Nausícaa percebe isso.
O desejo velado: “Se me coubesse por sorte alcançar um marido como este…”
Este é um dos momentos mais humanos e belos do canto: Nausícaa imagina Odisseu como marido.
Não é uma declaração explícita de amor, mas um suspiro de possibilidade, típico da juventude e da delicadeza da personagem. Homero constrói Nausícaa como uma figura de pureza e graça, e aqui ela se permite sonhar — ainda que discretamente. Esse detalhe é fundamental para compreender: a ternura da cena; a abertura emocional da jovem; o contraste entre o mundo doméstico feácio e a dureza das aventuras de Odisseu.
Hospitalidade: alimento e bebida ao hóspede
Depois de expressar sua admiração, Nausícaa dá instruções às servas: “Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida.” Esse gesto é mais que cortesia — é xenia, a hospitalidade sagrada que rege o mundo grego.
Nausícaa assume o papel de anfitriã, mesmo sendo jovem, mostrando: liderança; generosidade; senso de dever; respeito às normas divinas. Atena, que guiou tudo desde o sonho, vê sua influência florescer aqui.
Por que este trecho é tão importante na narrativa?
- Humaniza Nausícaa, ela não é apenas princesa: é uma jovem que sente, imagina, admira.
- Eleva Odisseu, mesmo em seu estado mais vulnerável, ele inspira respeito e encanto.
- Marca o início da hospitalidade feácia, sem este gesto, Odisseu não chegaria ao palácio de Alcínoo.
- Mistura o épico ao lírico, a cena tem um tom quase pastoral, suave, luminoso.
- Cria tensão narrativa, há um brilho de romance possível — mas o destino de Odisseu é Ítaca.
[2] Este trecho conclui de maneira magistral o episódio do encontro entre Nausícaa e Odisseu, e prepara a transição para a chegada do herói ao palácio dos Feácios. A cena é cheia de simbolismo, delicadeza narrativa e intervenção divina.
A partida da carruagem e o cuidado de Nausícaa
Nausícaa conduz a parelha de mulas com habilidade e cautela: alterna trote e passos medidos; mantém as servas e Odisseu próximos; age como guia e protetora. Esse detalhe reforça o caráter da jovem: ela é responsável, atenta, graciosa, e já exerce uma liderança natural entre as companheiras.
O bosque de Atena: o ponto de transição
Ao pôr do sol, o grupo chega ao bosque sagrado de Atena. Ali, Odisseu se detém — e isso é significativo: ele respeita o espaço divino; reconhece a presença e a influência da deusa; prepara-se para entrar em um novo ciclo de sua jornada. O bosque funciona como limiar narrativo: é o ponto entre o sofrimento do naufrágio e a esperança da hospitalidade feácia.
A prece de Odisseu: humildade e consciência divina
Odisseu ora à “donzela invencível”, Atena, pedindo: que os Feácios se mostrem piedosos; que o recebam como amigo; que sua sorte finalmente mude. Ele lembra que antes já havia clamado à deusa “embalde”, quando Poseidon o fez naufragar.
Essa lembrança reforça a tensão entre as divindades: Atena o protege, mas Poseidon o persegue, e Odisseu está preso entre essas forças.Atena ouve — mas não aparece
Este é um dos detalhes mais sutis e importantes do canto: Atena escuta a prece, mas não ousa aparecer visivelmente. Por quê? Porque ela teme a ira de Poseidon, seu tio, que está furioso com Odisseu desde a cegueira de Polifemo. A deusa, portanto: age nos bastidores; protege sem se mostrar; guia sem intervir abertamente. É uma forma de intervenção discreta, típica da Odisseia, onde os deuses moldam o destino com delicadeza, não com estrondo.
Por que este trecho é tão importante?
- Marca o fim da fase de desamparo de Odisseu. Ele está prestes a entrar no mundo acolhedor dos Feácios.
- Mostra a maturidade de Nausícaa. Ela conduz, protege, organiza — e abre caminho para a hospitalidade.
- Revela a relação complexa entre Atena e Poseidon. A deusa ajuda, mas com cautela, respeitando a hierarquia divina.
- Prepara o clima para o encontro com Alcínoo e Arete. odisseu está espiritualmente pronto para pedir auxílio.
- Mistura o épico ao sagrado. A narrativa passa do cotidiano (mulheres, mulas, roupas) ao divino (bosque, prece, intervenção).