domingo, 5 de julho de 2026

Cinema: Matilha Voraz

Terror e Mistério


      Perseguidos por um pai que carrega segredos e violência, um menino e sua mãe fogem para uma fazenda isolada. Lá, o menino começa a ver e ouvir coisas que não deveriam existir: vozes que sussurram nomes, sombras que repetem gestos do passado, um retrovisor antigo que reflete cenas que ainda não aconteceram? Enquanto a mãe tenta reconstruir uma vida de silêncio e proteção, o menino precisa decifrar sinais e memórias para descobrir a verdade sobre aquela casa, antes que o passado os alcance ou a verdade se perca para sempre enterrada em camadas de silêncio. Sabia que cada camada removida poderia aproximá-los do perigo que os perseguia. Ainda assim, havia algo que o impelia adiante.





Dirigido por:
Valerie Buhagiar

Data de lançamento:
1 Março 2025
País de origem:
Canadá
Duração:
97 minutos (1h37)

Elenco:
Donovan Colan como Cameron Weaver
Kathleen Munroe como Katherine Weaver
Stuart Hughes como Art Sinclair
Kris Holden-Ried como Ken Armstrong
Asher Grayson como Jacky
Dylan Taylor como Mike Weaver
Aidan Kalechstein como Cody
Patrice Goodman como Officer Culp
Morgan Bedard como Matthew Fraser
Clare Coulter como Hannah Murphy
Amy Jean Cross como Waitress
Andréa Grant como Evelyn McTavish
Ian Ho como Ben
Helene Lohan Cameron como Librarian
Steven McCarthy como Frank McTavish

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
16. Matilha Voraz /      

Coleção Retrô: Barry White

Just The Way You Are


você me faz muito 
mais que as palavras podem dizer
como um cego 
que perdeu o caminho 
   ficou frio e solitário
você consegue me ver?
e me sentir?
queria o vento?
sou a calmaria, saio antes que ele chegue
olho o retrovisor
        as primeiras gotas do entardecer
  naquelas tardes de um novo dia
escorriam como o tempo chorando
ainda posso te amar
       é uma sensação,  
  a imagem desfocada
     cada passo é memória e ausência
é silêncio
inevitável







Never never gonna give you up





You See The Trouble With Me





All Around World





You're, the first, my last, my everething





Tchekhov - Aniúta

A dama do cachorrinho e outras histórias

Anton Tchekhov


Aniúta

     No mais barato dos quartinhos mobiliados do “Lissabon”¹, o estudante do terceiro ano de medicina Stepan Klotchkov decorava com afinco a matéria do curso, andando de um lado para o outro. De tanto decorar, sem uma pausa para descanso, sua garganta ficou seca e gotas de suor brotaram na sua testa.

[1] Uma entre várias casas de cômodos que havia na época, onde se alugavam quartos mobiliados. (N.T.)

     Junto à janela, que tinha os cantos dos vidros cobertos de arabescos de gelo, estava sentada sua inquilina Aniúta, uma moça morena, pequenina, magrinha, de uns 25 anos, muito pálida, com tímidos olhos acinzentados. Inclinada para frente, ela bordava com linha vermelha a gola de uma camisa masculina. O trabalho era urgente... O relógio do corredor bateu duas horas da tarde, e o quartinho ainda não tinha sido arrumado. Um cobertor embolado, travesseiros atirados aqui e ali, livros, roupas, uma grande bacia suja cheia de água com sabão onde boiavam pontas de cigarro, lixo no chão – dava a impressão de que havia um monte de coisas amarfanhadas atiradas de propósito...

– O pulmão direito é formado por três partes... – recitou Klotchkov. – Os limites! A parte superior, na parede anterior do tórax, abrange até quatro ou cinco costelas; na superfície lateral, até a quarta costela... atrás, até a spina scapulae²...

[2] Termo de anatomia em latim: espinha da escápula ou da omoplata. (N.T.)

     Em um esforço para imaginar o que acabara de ler, Klotchkov levantou os olhos para o teto. Não conseguindo uma imagem clara, começou a apalpar em si mesmo, através do colete, as costelas superiores.

– Estas costelas parecem teclas de piano – disse ele. – Para não errar na contagem, é indispensável acostumar-se com elas. Será necessário estudar no esqueleto e em pessoas vivas... Venha cá, Aniúta, deixe eu me orientar.

     Aniúta largou o bordado, tirou a blusa e endireitou o corpo. Klotchkov sentou-se na frente dela, franziu o cenho e começou a contar as costelas.

– Hum... Não sinto a primeira costela... Ela fica atrás da clavícula... Esta aqui deve ser a segunda costela... É isso... E esta é a terceira... Esta é a quarta... Hum... É isso. Por que está se encolhendo?
– Os dedos do senhor estão frios!
– Ora, ora, não vai morrer disso, não fique se remexendo. Então, esta é a terceira costela, e esta é a quarta. Você é magricela, mas quase não se consegue apalpar as costelas... Esta é a segunda, esta é a terceira... Não, assim fica confuso e não se tem uma visão clara... É necessário desenhar... Onde está meu carvão?

     Klotchkov pegou o pedaço de carvão e riscou no peito de Aniúta algumas linhas paralelas, correspondentes às costelas.

– Formidável! Claro como a palma da minha mão... Bem, agora podemos dar batidinhas. Fique em pé!

     Aniúta levantou-se e ergueu o queixo. Klotchkov ficou tão absorvido dando pancadinhas que não notou que os lábios, o nariz e os dedos da moça estavam azuis de frio. Aniúta tremia e receava que, se notasse seu tremor, o estudante desistisse de desenhar com o carvão e depois não fizesse uma boa prova.– Agora está tudo claro – disse Klotchkov, parando de bater.

– Fique aí sentada e não apague o carvão enquanto eu decoro mais umas coisinhas.

     E o estudante pôs-se novamente a caminhar e a memorizar a matéria. Aniúta, com listas pretas no peito, como se estivesse tatuada, ficou sentada, encolhida de frio e pensando. Em geral, ela falava muito pouco, estava sempre calada e pensava, pensava...
     Nos seis ou sete anos em que perambulou por quartos mobiliados, como o de Klotchkov, ela conhecera uns cinco rapazes. Agora todos eles haviam terminado seus cursos, ficaram importantes e, naturalmente, como pessoas da sociedade, há muito a esqueceram. Um deles mora em Paris, dois são médicos, o quarto é um pintor, e o quinto, dizem, já é até catedrático. Klotchkov é o sexto... Em breve ele também terminará seu curso, ficará importante. Sem dúvida, o futuro será maravilhoso, e provavelmente Klotchkov será um grande homem, mas o presente é muito ruim: Klotchkov não tem tabaco nem chá, e restaram quatro pedacinhos de açúcar. Ela precisava terminar o quanto antes o bordado, levar para a mulher que o havia encomendado e depois comprar tabaco e chá com os vinte e cinco copeques que ia receber.

– Posso entrar? – ouviu-se atrás da porta.

     Aniúta atirou rapidamente um xale de lã sobre os ombros. Entrou o pintor Fetíssov.

– Vim lhe fazer um pedido – começou ele, dirigindo-se a Klotchkov com um olhar feroz por baixo dos cabelos que lhe caíam na testa. – Faça-me um favor: me empreste sua maravilhosa donzela por umas duas horinhas! Estou pintando um quadro e sem um modelo vivo, entende, é completamente impossível!
– Ah, com prazer! – concordou Klotchkov. – Vá, Aniúta.
– O que eu já não vi lá! – murmurou Aniúta.
– Ah, deixa disso! A pessoa está pedindo pelo bem da arte, e não para alguma bobagem. Por que não ajudar, se você pode?

     Aniúta pôs-se a vestir a roupa.

– O que está pintando? – perguntou Klotchkov ao pintor.
– Psiquê. O tema é bom, mas não estou conseguindo, tenho de mudar o tempo todo de modelo. Ontem pintei com uma que tinha os pés azuis. Perguntei: “Por que seus pés estão azuis?” É porque as meias soltam tinta”, disse ela. E você continua a decorar! É feliz, tem paciência para isso.
– A medicina é uma coisa que sem decoreba não dá.
– Hum... Desculpe, Klotchkov, mas você vive numa terrível imundície... Só Deus sabe como você vive!
– Quer saber como? Não posso viver de outro modo... Meu pai só me manda doze rublos por mês, e com esse dinheiro é impossível viver decentemente.
– Bem, isso é verdade... – disse o pintor, fazendo uma careta de nojo. – Mas mesmo assim é possível viver um pouco melhor... Um homem culto tem obrigação de ter estética. Não é verdade? Mas isto aqui, só o diabo entende. A cama não está arrumada, água suja, lixo... mingau de ontem no prato... eca!
– É verdade – disse o estudante, confuso –, mas Aniúta hoje não teve tempo de arrumar. Ficou ocupada o dia inteiro.

     Depois que Aniúta e o pintor saíram, Klotchkov deitou-se no divã e voltou à memorização. Sem querer, adormeceu. Meia hora depois, ao acordar, apoiou a cabeça nas mãos e afundou-se em pensamentos sombrios. Lembrou-se das palavras do pintor sobre a necessidade do homem culto de viver com estética, e, de fato, o ambiente do seu quarto agora lhe pareceu nojento, repulsivo. Parecia imaginar com o olho da razão o seu futuro – ele atendendo os pacientes no seu consultório, tomando chá numa grande sala de jantar, em companhia de uma esposa da boa sociedade – e ali, aquela bacia de água suja com pontas de cigarro dava uma impressão incrivelmente asquerosa. Aniúta já lhe parecia uma pessoa feia, sem elegância, digna de pena... Então ele tomou a resolução de separar-se dela imediatamente, custasse o que custasse.
     Quando Aniúta voltou do quarto do pintor e começou a tirar o casaco, ele se levantou e lhe disse seriamente:

– É o seguinte, minha querida... Sente-se e ouça. Precisamos nos separar! Em suma, não quero mais viver com você.

     Aniúta chegara do quarto do pintor completamente exausta, esgotada. Seu rosto, em consequência da longa imobilidade na pose, tinha ficado mais magro e cavado, o queixo estava mais pontudo. Ela não respondeu às palavras do estudante e seus lábios apenas tremeram.

– Concorde que cedo ou tarde teríamos de nos separar, de um jeito ou de outro – disse o estudante de medicina. – Você é boa, generosa e não é boba; você entenderá...

     Aniúta vestiu novamente o casaco, em silêncio embrulhou o bordado num papel, ajuntou as linhas e agulhas; procurou o embrulhinho com os quatro pedaços de açúcar na janela e colocou sobre a mesa ao lado dos livros. 

– Isto é o seu... açúcar... – disse ela baixinho, virando-se de costas para esconder as lágrimas.
– Ora, por que está chorando? – perguntou Klotchkov.

     Embaraçado, ele deu uns passos pelo quarto e disse:

– Mas como você é estranha... Você mesma sabe que temos de nos separar. Não vamos viver a vida toda juntos.

      Ela já tinha reunido todas as suas trouxinhas e se pusera de frente para ele, para se despedir, quando ele teve pena dela.

“Será que ela não poderia ficar aqui mais uma semana?”, pensou. “É isso mesmo, que fique mais um pouco, e daqui a uma semana eu a mando embora.”

     E, aborrecido por não ter personalidade, gritou com ela em tom severo:

– Então, o que está fazendo aí em pé! Se é para sair, saia, mas se não quer, tire o casaco e fique! Fique!

     Calada, Aniúta tirou o casaco devagar, depois assoou o nariz, também sem fazer barulho, suspirou e silenciosamente se dirigiu para a sua posição habitual: no tamborete junto à janela.
     O estudante pegou o livro e novamente se pôs a andar de um lado para o outro.

– O pulmão esquerdo é composto de três partes... – memorizava. – A parte superior, na parede anterior do tórax, abrange até quatro ou cinco costelas...

     E, no corredor, alguém gritou a plenos pulmões:

– Grigóri! O samovar³!

[3] Utensílio russo de uso doméstico, constituído de pequena caldeira provida de um tubo central no qual se colocam brasas para ferver e manter quente a água para o chá.
Fevereiro de 1886. 

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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta /    

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (III. Confissão de um coração ardente em versos)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
III
CONFISSÃO DE UM CORAÇÃO ARDENTE, EM VERSOS
    
     Ouvindo a ordem que lhe gritava seu pai, da caleça, ao partir do mosteiro, ficou Aliócha algum tempo imóvel e bastante perplexo. Mas, dominando sua perturbação, dirigiu-se logo à cozinha do padre abade, para procurar saber o que tinha feito Fiódor Pávlovitch. Depois pôs-se a caminho, esperando resolver, enquanto andava, um problema que o atormentava. Digamo-lo imediatamente: os gritos de seu pai e a ordem de mudar-se com travesseiros e colchão, não lhe inspiravam nenhum temor. Compreendia perfeitamente que aquela ordem, gritada entre gestos, fora dada "por pura excitação", por assim dizer, e até mesmo para a galeria, à maneira daquele pequeno burguês que recentemente na sua cidade, tendo festejado demasiado seu aniversário e furioso porque não lhe davam mais vodca, pôs-se, diante de seus convidados, a quebrar sua própria louça, a rasgar suas roupas e as de sua mulher, a partir os móveis e as vidraças, tudo isso por pura exibição. No dia seguinte, naturalmente, o burguês desembriagado lamentava as xícaras e os pires quebrados. Aliócha sabia que o velho o deixaria seguramente voltar ao mosteiro no dia seguinte, talvez naquele mesmo dia. E mais, estava persuadido de que seu pai não quereria jamais ofendê-lo, e que jamais ninguém no mundo, não somente não o quereria, mas não o poderia. Era para ele um axioma, admitido de uma vez por todas, e a este respeito caminhava tranquilo, sem a menor excitação.  
     Mas naquele momento, outro temor o agitava, duma espécie bem diversa, e tanto mais penoso quanto ele mesmo não o teria podido definir, o temor de uma mulher, daquela Catarina Ivânovna, que insistia tanto, na sua carta entregue de manhã pela Senhora Khokhla-kova, para que fosse vê-la. Esse pedido e a necessidade de a ele obedecer causavam-lhe uma impressão dolorosa, que, durante toda a tarde, não fez senão agravar-se, malgrado as cenas e as aventuras que se haviam desenrolado no mosteiro, etc. Seu temor não provinha de ignorar ele o que ela lhe diria e o que ele lhe responderia. Não era tampouco a mulher que ele temia nela; decerto, conhecia pouco as mulheres, mas não tinha, no entanto, vivido senão com elas, desde sua tenra infância até sua chegada ao mosteiro. Temia aquela mulher, precisamente Catarina Ivânovna, e isto desde sua primeira entrevista. Ora, ele a havia encontrado duas ou três vezes no máximo, e trocado por acaso algumas palavras com ela. Lembrava-se dela como de uma bela moça, altiva e imperiosa. Não era sua beleza que o atormentava, mas algo.de diferente, e sua impotência em explicar o medo que ela lhe inspirava aumentava esse medo. O fim que a jovem tinha em vista era dos mais nobres, ele o sabia: esforçava-se por salvar Dimítri, culpado para com ela, e só agia por generosidade. Pois bem, malgrado sua admiração por esses nobres sentimentos, percorria-lhe o corpo um arrepio, à medida que se aproximava da casa dela.
     Deu-se conta de que não encontraria em sua companhia Iva, seu íntimo, retido então certamente por seu pai. Quanto a Dimítri, não podia tampouco estar em casa de Catarina Ivânovna, pressentindo ele a razão disso. A conversa entre ambos ocorreria, pois, a sós, mas antes desejava Aliócha ver Dimítri e, sem mostrar-lhe a carta, trocar com ele algumas palavras. Ora, Dimítri morava longe e não estaria sem dúvida em sua casa naquele momento. Tendo parado um minuto, decidiu-se por fim. Depois de um sinal-da-cruz apressado, sorriu misteriosamente e dirigiu-se, resoluto, para a terrível pessoa.
     Conhecia-lhe a casa. Mas se tivesse de passar pela Rua Grande, depois atravessando a praça, etc, seria bastante distante. Sem ser grande, nossa cidade é muito dispersa e as distâncias consideráveis. Além do mais seu pai o esperava; lembrava-se talvez da ordem que lhe dera e era capaz de fazer das suas. Era preciso pois apressar-se para chegar a tempo. Em virtude dessas considerações, resolveu Aliócha abreviar o caminho tomando por atalhos; conhecia todos aqueles becos como seu bolso. Por atalhos significava quase com caminhos traçados costear tapumes desertos, transpor por vezes cercas particulares, atravessar pátios onde aliás todos o conheciam e o cumprimentavam. Podia assim alcançar a Rua Grande em duas vezes menos tempo. Em certo lugar, teve de passar bem perto da casa paterna, precisamente ao lado do jardim contíguo ao deles, que dependia de uma casinha de quatro janelas arruinada e inclinada para o lado. A proprietária dessa casinha era, como Aliócha o sabia, uma pequena burguesa da cidade, velha inválida, que vivia com sua filha, antiga arrumadeira na capital, recentemente ainda a serviço em casa de generais, tendo voltado para casa, havia um ano, por causa da doença de sua mãe e exibindo-se com vestidos elegantes. Essas duas mulheres tinham no entanto caído em profunda miséria e iam mesmo todos os dias, como vizinhas, procurar pão e sopa na cozinha de Fiódor Pávlovitch. Marfa Ignátievna fazia-lhes boa acolhida. Mas a filha, embora indo procurar sopa, não vendera nenhum de seus vestidos; um deles tinha mesmo uma cauda bastante comprida. Aliócha soubera desse detalhe, completamente por acaso, da boca de seu amigo Rakítin, ao qual nada escapava do que se passava na cidadezinha; é certo, porém, que o esquecera logo. Ao chegar diante do jardim da vizinha, lembrou-se daquela cauda, ergueu rapidamente sua cabeça curvada, pensativa, e... teve de súbito o encontro mais inesperado.
     Por trás da cerca, de pé sobre um montículo e visível até o peito, seu irmão Dimítri fazia-lhe sinais, chamava-o com grandes gestos, evitando não somente gritar, mas até mesmo dizer uma palavra, com medo de ser ouvido. Aliócha correu para a cerca. 

— Por felicidade levantaste os olhos, senão teria sido obrigado a gritar — cochichou jovialmente Dimítri Fiódorovitch. — Salta-me esta cerca, depressa! Como chegas a propósito! Pensava em ti.

     Aliócha não estava menos contente, embaraçado apenas por ter de pular a cerca. Mas Mítia, com sua mão de atleta, ergueu-o pelo cotovelo e ajudou-o a saltar, o que ele fez, de batina arrepanhada, com a agilidade de um garoto. 

— E agora, em frente, marcha! — murmurou Mítia, num transporte de alegria. 
— Mas para onde? — perguntou do mesmo modo Aliócha, olhando por todos os lados e vendo-se num jardim deserto, onde não havia ninguém senão eles. O jardim era pequeno, mas a casa encontrava-se a cinquenta passos pelo menos. — Não há ninguém aqui. Por que falamos em voz baixa? 
— Por quê? Que o diabo me carregue! — exclamou de súbito Dimítri Fiódorovitch a plena voz. — Que adianta falar em voz baixa? Vês tu mesmo como se pode ser absurdo. Estou aqui para espionar um segredo. As explicações virão depois, mas, sob a impressão do mistério, pus-me a falar misteriosamente, a cochichar como um tolo, sem razão. Vamos! Vem e cala-te. Mas quero beijar-te.

Glória ao Eterno sobre a terra. 
Glória ao Eterno em mim...   

     Eis o que eu repetia ainda há pouco, sentado no jardim, naquele lugar...
     O jardim de cerca de 1 diesiatina estava todo cercado de árvores ao longo de seu recinto: pereiras, bordos, tílias, bétulas. O centro formava uma espécie de pequeno prado onde se recolhia feno, no verão. A proprietária alugava aquele jardim desde a primavera por alguns rublos. Havia pés de framboesas, groselhas de várias espécies, igualmente perto das cercas; a horta, cultivada desde pouco tempo, achava-se perto da casa. Dimítri conduziu seu irmão para o canto mais afastado do jardim. Ali, entre as tílias muito próximas e velhas moitas de groselheiras e de sabugueiros, de bolas-de-neve e de lilás, avistavam-se as ruínas de um antigo pavilhão verde, enegrecido e empenado, de paredes com claraboia, mas ainda coberto e onde a gente podia abrigar-se da chuva. Segundo a tradição, fora esse pavilhão construído, havia cinquenta anos, por um antigo proprietário, Alieksandr Kárlovitch von Schmidt, tenente-coronel reformado. Tudo caía em poeira, o soalho estava podre, as tábuas balançavam, a madeira tresandava umidade. Havia uma mesa de madeira pintada de verde, enterrada no chão, cercada de bancos que ainda podiam servir. Aliócha notara o entusiasmo de seu irmão; ao entrar no pavilhão, viu sobre a mesa uma meia garrafa de conhaque e um copinho. 

— É conhaque! — disse Mi tia, com uma explosão de riso. — Vais pensar: "Ele continua bebendo". Não te fies nas aparências.

Às tuas suspeitas renuncia...
Às tuas suspeitas renuncia... 

     Eu não me embriago, "beberico", como diz aquele porco do Rakítin, teu amigo, e o dirá ainda, mesmo quando se tornar conselheiro de Estado. Senta-te, Aliócha; gostaria de apertar-te em meus braços, de esmagar-te, porque, no mundo inteiro, crê-me, na verdade, na verdade, não amo senão a ti! Pronunciou as derradeiras palavras numa espécie de frenesi. 

— A ti e também a uma debochada pela qual me embeicei, para desgraça minha. Mas embeiçar-me não é amar. A gente pode emberçar-se e odiar. Lembra-te disto. Até aqui, falo alegremente. Senta-te à mesa, perto de mim, para que te veja. Tu me escutarás em silêncio e direi tudo, porque o momento de falar chegou. Mas fica sabendo, refleti, é preciso falar verdadeiramente baixo porque aqui há talvez orelhas às escutas. Saberás tudo, disse: a continuação virá. Por que tinha eu tamanha vontade de ver te, desde cinco dias que aqui estou e ainda há pouco? É que tu me és necessário... é que a ti somente direi tudo... é que amanhã uma vida acaba e outra começa para mim. Já experimentaste alguma vez em sonho a sensação de rolar num precipício? Pois bem, agora caio realmente. Oh! não tenho medo e tu também não. Isto é, sim, tenho medo, mas é um medo suave, ou antes, embriaguez... E depois, para o diabo! Que importa! Espírito forte, espírito fraco, espírito de mulher, que importa? Louvemos a natureza! Vê que belo sol, que céu puro, por toda parte folhagens verdes; é na verdade ainda o verão. Estamos às 4 horas da tarde, está tudo calmo!. . Aonde ias? 
— Ia à casa de meu pai e queria ver, de passagem, Catarina. 
— À casa dela e à casa de papai? Que coincidência! Pois, por que te chamei, por que te desejava do fundo do coração, com todas as fibras de meu ser? Precisamente para mandar-te à casa de papai, depois à casa dela, a fim de acabar isso de uma vez com um e com outra. Enviar um anjo! Teria podido enviar não importa quem, mas era-me preciso um anjo. E eis que ias tu mesmo para lá! 
— Deveras? Querias mandar-me lá? — perguntou Aliócha, com uma expressão dolorosa. 
— Espera, tu o sabias. Vejo que compreendeste tudo; mas cala-te. Não me lamentes, não chores!

     Dimítri levantou-se, com ar meditativo: 

— Foi ela quem te chamou; deve ter-te escrito, senão não irias... 
— Aqui está seu bilhete... — Aliócha tirou-o de seu bolso. Mítia leu o rapidamente.

     Versos de um poema de Niekrássov.

— E tomavas o caminho mais curto! Ó deuses! Agradeço-vos o tê-lo dirigido para este lado e trazido para mim, tal como o peixinho de ouro que foi cair nas mãos do velho pescador, segundo o conto popular. Escuta, Aliócha, escuta meu irmão, Agora, resolvi dizer tudo. É preciso que me expanda, afinal! Depois de ter-me confessado a um anjo do céu, vou confessar-me a um anjo da terra. Porque és um anjo. Tu me escutarás e me perdoarás... Tenho necessidade de ser absolvido por um ser mais nobre do que eu. Escuta, pois. Suponhamos que duas criaturas
 se libertem das servidões terrestres e planem numa região superior, uma delas, pelo menos. Que esta, antes de voar ou desaparecer, se aproxima da outra e lhe diga: "Faze por mim isto ou aquilo", coisas que jamais se costumam exigir, que só se pedem no leito de morte. Será que o que fica se recusará, se é um amigo, um irmão? 
— Eu o farei, mas dize-me de que se trata, e dize-me quanto antes — falou Aliócha. 
— Depressa... Hum! Não te apresses, Aliócha. Apressando-te, atormentas-te. É inútil apressar-se agora. O mundo entra agora numa era nova. Que pena, Aliócha, que nunca te entusiasmes. Mas que digo eu? Sou eu que careço de entusiasmo! Que digo eu, tolo que sou? 

Homem, sê nobre! 

     De quem é este verso?
     Aliócha resolveu esperar. Compreendera que toda a sua atividade, com efeito, estava talvez concentrada agora naquele lugar. Mítia ficou um momento pensativo, de cotovelos sobre a mesa, a fronte na mão. Ambos mantinham-se calados. 

— Aliócha, somente tu me escutarás sem rir. Gostaria de começar... minha confissão... por um hino à alegria, como Schiller, An die Freude! Mas não sei alemão, sei somente que é An die Freude. Não vás imaginar que tagarelo sob o domínio da embriaguez. Para embriagar-me são precisas duas garrafas de conhaque.

Como Sileno vermelho 
No seu asno vacilante. 

     Ora, não bebi um quarto de garrafa e não sou Sileno. Não Sileno, mas Hércules, porque tomei uma resolução heroica. Perdoa-me essa aproximação de mau-gosto, terás bem mais outras coisas a perdoar-me hoje. Não te inquietes, não invento, falo seriamente e vou direto ao fato. Não serei duro ao» disparo como um judeu. Espera, como é que é mesmo?
     Ergueu a cabeça, refletiu, depois começou a recitar com entusiasmo:

Nu, tímido, selvagem, se ocultava 
O troglodita nas cavernas; 
O nômade nos campos pervagava 
A devastá-los sem cessar; 
O caçador com sua lança e flechas, 
Terrível, as florestas percorria; 
Desgraça para os náufragos lançados 
Pelas ondas naquela praia inóspita. 

Das alturas do Olimpo, Ceres 
Desce, à procura de Prosérpina, 
Ao seu amor arrebatada; 
A seus olhos o mundo é todo horror. 
Nenhum asilo, nem mesmo oferendas 
À deusa são apresentadas.
Aqui não se conhece culto aos deuses, 
Nem templos há para adorá-los.

Os frutos do pomar, as uvas doces 
Não alegram nenhum festim; 
ó os restos das vítimas fumegam 
Sobre as aras ensanguentadas. 
E em vão de Ceres vaga o triste olhar; 
Por toda parte avista o homem 
Numa profunda humilhação. 

     Soluços escaparam-se do peito de Mítia; agarrou Aliócha pela mão. 

— Amigo, amigo, sim, na humilhação, na humilhação ainda agora! O homem sofre na terra males sem conta. Não penses que seja eu apenas um boneco vestido de oficial, bom para beber e para fazer farras. A humilhação, que é a partilha do homem, eis, irmão, quase o único objeto de meu pensamento. Deus me guarde de mentir e de gabar-me. Penso nesse homem humilhado, porque sou ele eu mesmo.

Para que possa sair da abjeção 
O homem, por força de sua alma, 
Deve aliança eterna concluir 
Com sua velha mãe, a Terra.

     Somente, porém, como concluir essa aliança eterna? Não fecundo a terra, abrindo-lhe o seio; far-me-ei mujique ou pastor? Ando sem saber para onde vou, para a luz radiosa ou para a vergonha infecta. Está nisso a desgraça, porque tudo é enigma neste mundo. Quando me achava mergulhado na mais abjeta degradação (era todo o tempo), sempre reli esses versos a respeito de Ceres e da miséria do homem. Corrigiram-me? Não! Porque sou um Karamázov! Porque, quando rolo no abismo, é diretamente, de cabeça à frente; agrada-me mesmo cair assim, vejo beleza nessa queda. E do seio da vergonha entoo um hino. Sou maldito, vil e degradado, mas beijo a fímbria da veste em que se envolve o meu Deus; sou a estrada diabólica, mas sou, no entanto, teu filho, Senhor, e te amo, sinto a alegria sem a qual o mundo não poderia subsistir.

A alegria eterna anima 
Toda a alma da criação, 
Transmite a chama da vida 
Na força oculta dos germes; 
Foi quem fez surgir a relva, 
Transformou o caos em sóis, 
Espalhados nos espaços 
Longe da vista dos homens.

Tudo quanto na boa Natureza 
Respira, dela extrai sua alegria, 
Arrasta atrás de si seres e povos; 
Foi ela quem nos deu 
Amigos na desgraça, 
Dos cachos d'uva o suco, 
Das Graças a grinalda, 
Ao inseto, a luxúria... 

E o Anjo, para levar-nos 
À presença de Deus. 

     Mas basta de versos. Deixa-me chorar. Que seja um absurdo de que o mundo inteiro zombe, exceto tu. Eis teus olhos brilhando. Basta de versos. Quero agora falar-te dos "insetos", daqueles a quem Deus gratificou com a luxúria. Eu mesmo sou um deles e isso se aplica a mim. Nós, Karamázovi, somos todos assim; esse inseto vive em ti, que és um anjo, e aí suscita tempestades. Porque a sensualidade é uma tempestade e até mesmo algo mais. A beleza é uma coisa terrível e espantosa. Terrível, porque indefinível, e não se pode defini-la porque Deus só criou enigmas. Os extremos se tocam, as contradições vivem juntas. Sou pouco instruído, irmão, mas tenho pensado muito nessas coisas. Quantos mistérios acabrunham o homem! Penetra-os e volta intacto. Assim a beleza. Não posso tolerar que um homem de grande coração e de alta inteligência comece pelo ideal da Madona e venha a acabar no de Sodoma. Mas o mais horrível é, trazendo no seu coração o ideal de Sodoma, não repudiar o da Madona, arder por ele como nos seus jovens dias de inocência. Não, o espírito humano é demasiado vasto, gostaria dê restringi-lo. O diabo é quem sabe de tudo. O coração acha beleza até na vergonha, no ideal de Sodoma, que é o da imensa maioria. Conheces esse mistério? É o duelo do diabo e de Deus, sendo o coração humano o campo de batalha. Ora, fala se daquilo que faz a gente sofrer. Vamos, pois, ao fato.

continua na página 113...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

sábado, 4 de julho de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (4. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

4



     Estávamos na quaresma da Assunção¹ e por conseguinte ninguém em casa ficou surpreendido com o projeto das minhas devoções.

 [1] Essa expressão consagrada na Rússia, corresponde ao que se chama nos países católicos "fazer um recolhimento espiritual"

     Durante toda esta semana Sérgio não nos veio ver uma única vez e, longe de estar surpreendida, alarmada, ou zangada, estava contente por ele não ter vindo e não o esperava senão no dia do meu aniversário.
     No decorrer desta mesma semana levantei-me todos os dias cedo, e enquanto aparelhavam os cavalos, passeando sozinha no jardim, sonhava no passado meditando no que me era preciso fazer para à noite estar contente com o meu dia e orgulhosa de não ter cometido faltas.
     Quando os cavalos avançavam, subia para o droschki acompanhada por Macha ou por uma criada e partíamos para a igreja, a três verstas de distância, aproximadamente. Entrando aí, recordava-me todas as vezes que ali se reza por todos aqueles «que entram no templo com temor de Deus» e esforçava-me por me elevar até este conceito, sobretudo no momento em que subia os dois degraus do adro que as ervas invadiam. Ordinariamente, a esta hora não havia na igreja mais de uma dúzia de pessoas, camponeses e droroviés, preparando-se para as suas devoções; apressava-me a corresponder com humildade às suas saudações e aproximava-me eu mesma, o que considerava como uma façanha, do armário das velas para receber algumas das mãos do velho soldado que desempenhava as funções de starost², depois ia colocá-las diante das imagens. Através da porta do santuário enxergava a toalha do altar que a mamã havia bordado e por cima do iconóstase dois anjos salpicados de estrelas, que quando era criança, achava muito grandes, e uma pomba rodeada de uma auréola dourada que, naquela mesma época, absorvia muitas vezes a minha atenção. Por detrás do coro entrevia as pias batismais todas lavradas sobre as quais tantas vezes eu segurara nos filhos dos nossos droroviés e onde eu mesma tinha sido batizada. O velho sacerdote aparecia, trazendo uma casula feita de pano do caixão de meu pai, e entoava o ofício com aquela mesma voz que, tanto quanto me lembrava, havia cantado em nossa casa as rezas da igreja, no batismo de Sónia, nos ofícios fúnebres de meu pai e nos funerais de minha mãe. Depois ouvia ressoar no coro aquela outra voz desafinada do chantre, tão familiar para mim; via, como sempre tinha visto, uma velha curvada que, em todos os ofícios, encostada à parede e apertando entre as mãos um lenço desbotado, contemplava com os olhos cheios de lágrimas uma das imagens do coro e murmurava não sei que orações com a boca desdentada. E não era já a simples curiosidade ou as reminiscências que aproximavam de mim todos aqueles objetos, aqueles entes; apresentavam-se todos a meus olhos, grandes e santos, impregnados de um profundo sentido.

[2] Chama-se starost, nas igrejas ortodoxas, aquele que desempenha o cargo de tesoureiro, se encarrega do peditório, etc.

     Prestava atenção a cada uma das palavras da oração cuja leitura escutava, procurava pôr o meu sentimento de acordo com elas e, se não as compreendia, pedia mentalmente a Deus que me esclarecesse ou então substituía a minha própria oração por aquela que não havia percebido bem. Quando liam as rezas da penitência, recordava-me do meu passado, e esse passado da minha inocente infância parecia-me tão negro, em vista do estado de serenidade em que a minha alma se encontrava naquele momento, que, atónita, chorava em silêncio; mas ao mesmo tempo, sentia que tudo me era perdoado e que então, mesmo que tivesse ainda muitas mais faltas a censurar-me, o arrependimento teria sido tanto mais suave.
     No fim do ofício, na ocasião em que o sacerdote pronunciava as palavras «Que o Senhor esteja convosco», julgava experimentar instantaneamente e comunicar-se a todo o meu ser um sentimento de bem-estar físico, como se uma torrente de luz e de calor me tivesse de repente penetrado até ao coração.
     Terminado o ofício, o padre aproximou-se de mim e perguntou-me se não deveria vir celebrar as vésperas a nossa casa. Agradeci-lhe comovida o que ele queria fazer por minha intenção e disse-lhe que não era necessário e que eu mesma me deslocaria à igreja, a pé ou de carruagem. 

— De modo que se quer incomodar? — perguntou-me ele.

     Não soube o que lhe responder, com medo de pecar por orgulho.
     Se não estava com Macha, mandava sempre retirar a carruagem da igreja e voltava sozinha a pé, saudando profunda e humildemente todos os que encontrava, procurando as ocasiões para os socorrer, para lhes dar conselhos, para me sacrificar por eles de alguma maneira, ajudando a erguer um carro, embalando uma criança, pisando a lama para dar aos outros o melhor caminho.
     Uma tarde ouvi o intendente contar a Macha que um camponês, Simão, viera pedir madeira para o caixão da filha e um rublo para o ofício mortuário, e que ele tudo lhe tinha dado. 

— Então eles são assim tão pobres? — perguntei. 
— Muito pobres, menina, vivem sem sal³ — respondeu o intendente.

[3] Locução russa enérgica para exprimir uma grande miséria.

     Apertou-me o coração e, ao mesmo tempo rejubilei, de certo modo, por o ter sabido. Fazendo acreditar a Macha que ia passear, corri pelas escadas acima e peguei em todo o dinheiro que possuía (embora fosse muito pouco); depois, tendo feito o sinal da cruz, parti sozinha, através do terraço e do jardim, para a aldeia até à choupana de Simão. Era mesmo na extremidade e, não tendo sido vista por pessoa alguma, aproximei-me da janela, onde depus o dinheiro e fugi. Então a porta gemeu, alguém saiu da cabana e me chamou; mas eu, toda gelada e trêmula de susto como uma criminosa, corri para casa. Macha perguntou-me de onde vinha e o que tinha. Mas não compreendi sequer o que ela dizia e não lhe respondi. Tudo, naquele momento, me parecia tão insignificante e de tão poucas consequências! Encerrei-me no meu quarto e ali andei por muito tempo, só, de um lado para outro, não me sentindo com disposição de fazer coisa alguma, de pensar, e incapaz de ajuizar os meus próprios sentimentos. Imaginava a alegria de toda uma família, as palavras escapadas de seus lábios para com aquela que havia colocado o dinheiro na janela, e sentia agora pena por eu mesma não ter dado. Perguntava a mim mesmo o que teria dito Sérgio Mikailovitch se soubesse daquele fato e congratulava-me de que ele nunca o conhecesse. E sentia uma tal alegria, estava tão compenetrada da imperfeição de todos e de mim própria, considerava-me e aos outros com tanta doçura que a ideia da morte oferecia-se me como uma visão de felicidade. Sorria, rezava, chorava e naquele instante amei de repente todos os seres que estão no mundo, e amei-me também com um estranho ardor. Procurando nos ofícios, li muitas passagens do Evangelho e tudo o que lia deste livro cada vez se me tornava mais inteligível; mais tocante e mais simples me parecia a história daquela vida divina, mais terríveis e impenetráveis aquelas sublimidades de sentimentos e de pensamentos que descobria no decurso da leitura. Mas também, como tudo me pareceu claro e fácil quando, deixando o livro, encarei de novo a vida em que jazia e meditei nela. Pareceu-me impossível não viver bem e muito simples amar todo o mundo e ser amada por todos. Entretanto, toda a gente era boa e terna para comigo, mesmo Sónia, cujas lições eu prosseguia, e que se tinha tornado completamente outra, esforçando-se por compreender tudo, por me satisfazer e não me causar desgosto algum. O que procurava ser para os outros, eram estes para mim.
     Passando em seguida aos meus inimigos, dos quais devia obter o perdão antes do grande dia, lembrei-me unicamente de uma rapariga da vizinhança de quem, um ano antes, havia zombado diante de visitas e que tinha deixado de nos procurar. Escrevi-lhe uma carta onde reconhecia a minha falta e em que lhe pedia o seu perdão. Respondeu-me solicitando o meu e perdoando-me também. Derramei lágrimas de prazer lendo aquelas simples linhas, que então me pareceram cheias de um sentimento tão profundo e tocante. A minha ama chorou quando igualmente lhe pedi perdão. Porque eram todos tão bons para mim? Como havia merecido tanta afeição?, perguntava a mim mesmo.
     Recordei-me então involuntariamente de Sérgio Mikailovitch e pensei nele. Não podia proceder de outro modo e não considerei absolutamente esta distração como uma leviandade. É verdade que não pensei de modo algum nele como o havia feito naquela noite em que, pela primeira vez, descobri que o amava; pensava nele como em mim mesmo, associando-o, contra a minha vontade, a cada uma das preocupações do meu futuro. A influência dominante que a sua presença tinha exercido sobre mim, extinguia-se completamente na minha imaginação. Sentia-me hoje sua igual e, do cume do edifício ideal em que pairava, tinha dele uma plena compreensão. Tudo o que nele me tinha outrora parecido estranho, tornava-me inteligível. Somente hoje sabia apreciar aquele pensamento que Sérgio me havia expresso, que a felicidade só consiste em viver para os outros, e agora estava perfeitamente de acordo com ele. Parecia-me que ambos gozaríamos de uma tranquila e ilimitada felicidade. E não se me figurava nem a partida para o estrangeiro, nem o mundo, nem o esplendor, mas uma existência toda pacífica, vida de família no campo, abnegação perpétua da vontade própria, amor constante um ao outro, reconhecimento eterno e absoluto da terna e caritativa Providência.
     Fiz as minhas devoções, como me propusera, no dia do aniversário do meu nascimento. O meu coração transbordava de tal modo de felicidade quando naquele dia voltei da igreja que me sentia invadida por toda a espécie de temores: temor da vida, temor de cada situação, temor de tudo o que podia perturbar essa felicidade. Mas apenas tínhamos descido do droschki para o vestíbulo, ouvi ressoar sobre a ponte o rodar tão conhecido do carrinho de Sérgio Mikailovitch e vi-o. Dirigiu-me as suas felicitações e entrámos junto no salão. Nunca, desde que o conhecia, me tinha encontrado tão tranquila perto dele, nem tão independente como naquela manhã. Sentia que trazia em mim mesma um mundo inteiro completamente novo que ele não compreendia e que lhe era superior. Não experimentava junto de Sérgio a menor agitação. Talvez que ele compreendesse o que se passava em mim, porque me mostrou uma ternura de uma delicadeza particular e como uma deferência religiosa. Tinha-me aproximado do piano, mas Mikailovitch fechou-o e meteu a chave na algibeira, dizendo: 

— Não destrua o estado de espírito em que a vejo; neste momento, em si, executa-se no fundo da sua alma uma música que nenhumas harmonias deste mundo podem igualar!

     Fiquei-lhe reconhecida por este pensamento e, ao mesmo tempo, foi-me um pouco desagradável que ele compreendesse assim e muito facilmente, muito claramente, tudo o que, no domínio da minha alma, devia permanecer secreto para todos.
     Depois do jantar, disse que viera felicitar-me e fazer-me também as suas despedidas, porque no dia seguinte partia para Moscovo. Pronunciando estas palavras fitou Macha e em seguida lançou-me rapidamente um olhar, como se temesse notar alguma comoção na minha fisionomia. Mas não me admirei nem me perturbei, e nem sequer lhe perguntei se a sua ausência seria longa. Sabia que ele sustentaria o que tinha dito, mas que não partiria. Como o adivinhava? É o que não posso agora explicar de modo algum; mas naquele dia memorável parecia-me que eu sabia tudo o que tinha acontecido e tudo o que estaria para suceder. Sentia-me embalada por um desses felizes sonhos em que se tem uma espécie de visão luminosa do futuro com do passado.
     Mikailovitch queria retirar-se logo depois do jantar; mas Macha, saindo da mesa, foi fazer a sua sesta e ele teve de esperar que acordasse a fim de lhe dizer adeus.
     O sol dava em cheio no salão; fomos para o terraço. Apenas nos sentámos, encetei, com uma perfeita tranquilidade, a conversação que ia decidir a sorte no nosso amor. Comecei pois a falar, nem antes nem depois, mas exatamente no instante em que nos achámos em face um do outro, e nada se disse de mais. O tom e o caráter geral da conversa não deixou escapar nada que pudesse impedir o que me tinha proposto dizer. Não posso mesmo compreender de onde me vieram aquela calma, aquela resolução e aquela precisão nas minhas palavras. Dir-se-ia que não era eu quem falava e que um não sei quê independente da minha vontade me fazia falar. Sérgio estava à minha frente e, tendo puxado por uma haste de lilás, arrancou-a com as folhas.
     Quando descerrei os lábios, deixou cair o ramo e cobriu o rosto com as mãos. Esta atitude tanto podia ser a de um homem perfeitamente sossegado como a de um homem entregue a uma grande agitação. 

— Por que motivo nos deixa? — comecei num tom resoluto; e parei, fitando-o.

     Não me respondeu logo. 

— Um negócio! — articulou baixando os olhos.

     Compreendi que lhe era difícil fingir diante de uma pergunta feita por mim tão francamente. 

— Escute — disse eu —, sabe que dia é para mim este em que estamos? A muitos respeitos, é um grande dia. Se o interrogo, não é somente para lhe testemunhar interesse; interrogo-o porque assim me é preciso. Porque nos deixa? 
— É para mim excessivamente difícil dizer-lhe a verdade, dizer-lhe o motivo por que parto. Durante esta semana, muito pensei em si e em mim, e decidi que me era forçoso deixá-la. Compreende... por quê? E se me ama, não me interrogue.

     Enxugou a fronte e, com a mesma mão, tapou os olhos, acrescentando: 

— Isto é doloroso para mim. Mas compreende, Katia...

     O coração começava a bater-me fortemente no peito. 

— Não posso compreender — respondi —, não posso; mas o senhor fale, em nome de Deus, em nome deste dia em que estamos, fale, tudo poderei ouvir sossegadamente.

     Sérgio mudou de atitude, contemplou-me e levantou do chão o ramo de lilás. 

— De resto — replicou depois de um instante de silêncio e com uma voz que em vão queria mostrar firme —, ainda que isto seja absurdo e quase impossível de traduzir por palavras, ainda que isto me custe, tentarei dar-lhe explicação. — E terminando estas palavras, franziu as sobrancelhas, como se sentisse alguma dor física. 
— Escuto-o! — respondi. 
— Imagine que havia um homem, chamemos-lhe A., velho e cansado da vida, e uma senhora B., jovem, feliz e não conhecendo ainda nem o mundo, nem a vida. Em virtude de relações de família, ele amava-a como filha e não suspeitava de que um dia chegaria a amá-la de outro modo.

     Calou-se e eu não o interrompi. 

— Mas — prosseguiu subitamente com uma voz resoluta e sem me olhar — ele esquecera que B. era jovem, que a vida não era para ela ainda senão um brinquedo, que podia acontecer facilmente que ele a amasse e que B. podia divertir-se com isso. Tinha-se enganado e um belo dia descobriu que um outro sentimento, pesado como um remorso, deslizara na sua alma e assustou-se. Receou ver as suas antigas relações de boa amizade assim comprometidas e decidiu afastar-se antes que tivessem tempo de mudar de natureza.

     Dizendo estas palavras, passou de novo a mão pelos olhos, com aparente negligência, e tapou-os. 

— E porque receava ele amar de outro modo? — disse eu bem depressa, contendo a minha comoção e com voz firme. Mas sem dúvida esta pareceu-lhe zombeteira, porque me respondeu no tom de um homem ofendido. 
— Você é nova, eu não o sou. Pode gostar de gracejar; a mim é-me precisa outra coisa. Somente não zombe, porque lhe asseguro que, para mim, não seria bom, e a si doer-lhe-ia a consciência se o fizesse. Aqui tem o que respondeu A. — acrescentou —, mas tudo isso é um absurdo; compreende agora o motivo por que parto; não falemos mais nisso, peço-lhe... 
— Sim, sim, falemos! — disse eu, e as lágrimas faziam-me tremer a voz. — Ele amava-a ou não?

     Sérgio não respondeu. 

— E se não a amava — continuei —, para que brincava com ela como uma criança? 
— Sim, sim, A. tinha sido culpado — respondeu interrompendo-me —; mas tudo isso acabou e ficaram... bons amigos. 
— Mas é horrível! E não existe um outro fim? — perguntei, assustada do que dizia. 
— Sim, há um. — E, destapando o seu rosto perturbado, fitou-me. — Há mesmo dois fins diferentes. Somente, pelo amor de Deus, não me torne a interromper e escute-me tranquilamente. Dizem uns — continuou levantando-se e pairando-lhe nos lábios um doloroso e triste sorriso — dizem, que A. se apaixonou loucamente, que ama B. com um amor insensato e que lhe declarou... Mas esta limitou-se a sorrir. Para ela, isto fora apenas uma brincadeira; para ele, a preocupação de toda a sua vida.

     Estremeci e quis interrompê-lo, dizer-lhe que não devia ter a ousadia de interpretar o meu sentir; mas não me deixou e, colocando a mão sobre a minha: 

— Sossegue — terminou com voz trêmula. — Dizem outros que ela se compadeceu dele, que supôs, a desgraçada que não conhecia o mundo, poder efetivamente amá-lo e que consentiu em o desposar. E ele, como um insensato, acreditou que toda a sua vida começava de novo; ela foi a primeira a notar que se enganavam mutuamente... Não falemos mais neste assunto — concluiu, evidentemente sem forças para continuar.

     E ficou silencioso.
     Dissera: «Não falemos mais nisto» e era bem claro que esperava uma palavra minha com todo o entusiasmo da sua alma. Efetivamente queria falar e não podia; havia alguma coisa que me comprimia o peito. Fitei-o, estava pálido e o lábio inferior tremia-lhe. Causou-me imenso pesar. Fiz novo esforço e de repente, conseguindo quebrar o silêncio que me paralisava, disse com voz pausada, concentrada, que a cada instante receava que se extinguisse: 
— Tem um terceiro fim a história… — calei-me, mas Sérgio permaneceu mudo. — E este terceiro fim é que ele não a amava, que lhe fez mal, muito mal, que julgava ter esse direito, que partiu e, ainda mais, que se mostrou orgulhoso. Não foi da minha parte, mas da sua que houve um gracejo; desde o primeiro dia que o amei. — nesta palavra «amei», a minha voz passou involuntariamente da expressão lenta e concentrada a uma espécie de grito selvagem de que eu mesma me assustei.

     Mikailovitch conservava-se pálido e de pé na minha frente; o lábio tremia-lhe cada vez mais e pelas faces rolaram-lhe duas lágrimas. 

— É cruel! — exclamei a custo, sentindo-me sufocar pela cólera e pelo choro. 
— E por quê? — continuei, levantando-me para me afastar.

     Mas ele correu para mim. Bem depressa a sua cabeça repousava sobre os meus joelhos, os seus lábios beijavam e tornavam a beijar as minhas mãos trémulas, banhando-as de lágrimas. 

— Meu Deus, se eu soubesse! — murmurava Sérgio. — Por quê? Por quê? — repetia eu maquinalmente, e a minha alma estava inundada de uma daquelas felicidades que logo se dissipam para sempre, uma dessas felicidades que nunca mais se repetem.

     Daí a cinco minutos, Sónia corria para junto de Macha e por toda a casa, gritando que Katia ia desposar Sérgio Mikailovitch.

continua na página 40...
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Leia também...
3b. Quando nos encontrámos de novo junto de Mach / 4. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha /         
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
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