segunda-feira, 2 de março de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Ao passo que Brichot sorria)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Ao passo que Brichot sorria, para mostrar o que havia de espirituoso em juntar desse modo coisas tão dispares e empregar para coisas comuns uma linguagem ironicamente elevada, Saniette tentava encaixar algo espirituoso que pudesse reerguê-lo de seu desmoronamento de há pouco. A saída era o que ele chamava de "semelhança", mas que mudara de forma, pois existe uma evolução para os trocadilhos bem como para os gêneros literários e as epidemias, que desaparecem substituídos por outros, etc. Antigamente, a forma dessa "semelhança" era o "cúmulo". Mas estava antiquada, ninguém mais a empregava, e somente Cottard é que dizia ainda às vezes, durante uma partida de piquet: - Sabem qual é o cúmulo da distração? É tomar o édito de Nantes por uma inglesa. -
     Os cúmulos tinham sido substituídos pelos apelidos. No fundo, era sempre a mesma velha "semelhança", mas, como o apelido estava na moda, ninguém se dava conta disso. Infelizmente para Saniette, quando esses ditos não eram seus e normalmente desconhecidos do pequeno núcleo, ele os citava tão timidamente que, apesar do riso com que os acompanhava para assinalar o seu caráter humorístico, ninguém os compreendia. E, se, ao contrário, o dito era de sua palavra, como ele o houvesse conhecido através de um dos fiéis, este o repetia, adotando-o, e a frase então se tornava conhecida, mas não como sendo de Saniette. Assim, quando ele introduzia um desses, todos o reconheciam, mas, como ele se dava por autor, acusavam-no de plágio. 

- Pois bem - prosseguiu Brichot -, Bec em normando quer dizer regato; existe a abadia de Bec, Mobec, o regato do pântano (mor ou mer queria dizer pântano, como em Morville, ou em Bricquemar, Alvimare, Cambremer); Bricquebec, o regato da altura, provém de briga, lugar fortificado, como em Bricqueville, Bricquebosc, o Bric, Briand, ou então de brice, ponte, que é o mesmo que bruck em alemão (Innsbruck) e que bridge em inglês, que é a terminação de tantos nomes de localidades (Cambridge, etc.). Temos ainda na Normandia muitos outros bec: Caudebec, Balbec, Robec, o Bec Hellouin, Becquerel. É a forma normanda do germano Bach, Offenbach, Anspach; Varaguebec, da antiga palavra varaigne, equivalente de souto (garenne), bosques, tanques reservados. Quanto a dar - prosseguiu Brichot -, trata-se de uma forma de Thal, vale: Dametal, Rosendal, e até mesmo, perto de Louviers, Beccial. Orio que deu nome a Dalbec aliás é um encanto. Visto de uma penedia (Fels em alemão; o senhor tem mesmo, não longe daqui, "toupeira", o que, na sua opinião, não era próprio para um homem inteligente. 
- Não disse ele com um ar de equidade -, creio que sua mulher e ele são feitos um para o outro. Deus sabe que não conheço criatura mais aborrecida sobre a face da Terra e ficaria exasperada se me fosse preciso passar duas horas com ela. Mas dizem que ele a considera muito inteligente. É preciso confessar: o nosso Tiche era sobretudo extremamente imbecil! Já o vi deslumbrado com pessoas que o senhor nem imagina, grandes idiotas que jamais haveríamos de querer em nosso pequeno clã. Pois bem! Ele lhes escrevia, discutia com ela, ele, Elstir! Isto não impede seus lados encantadores, ah! Encantadores, encantadores e deliciosamente absurdos, é claro! - Pois a Sra. Verdurin estava convencida de que os homens verdadeiramente notáveis praticam mil loucuras. Ideia falsa onde, entretanto, existe um pouco de verdade. Claro que as "loucuras" das pessoas são insuportáveis. Mas um desequilíbrio que somente se descobre com o passar do tempo é a consequência da entrada, num cérebro humano, de delicadezas para as quais ele habitualmente não é feito. De maneira que irritam as estranhezas de pessoas encantadoras, mas também não há pessoa encantadora que não seja estranha. - Olhe, já vou poder mostrar-lhe as flores -disse ela, vendo que o marido lhe fazia sinal de que podiam erguer-se da mesa. E retomou o braço do Sr. de Cambremer. O Sr. Verdurin quis desculpar-se com o Sr. de Charlus logo que deixou a Sra. de Cambremer, e dar-lhe os seus motivos, sobretudo pelo prazer de conversar sobre esses matizes mundanos com um homem titulado, momentaneamente tido como inferior àqueles que tomavam o lugar a que julgava ter direito. Mas, antes de tudo, fez questão de mostrar ao Sr. de Charlus que intelectualmente o considerava muito, para pensar que ele desse atenção a tais bagatelas: 
- Desculpe-me o estar falando dessas ninharias - começou -, pois suponho perfeitamente o pouco caso que o senhor dá a essas coisas. Os espíritos burgueses fazem questão disso, mas os outros, os artistas, as pessoas que o são de fato, pouco se importam. Ora, desde as primeiras palavras que trocamos, compreendi que o senhor era um desses! -

     O Sr. de Charlus, que dava a essa locução um sentido completamente diverso, teve um estremecimento. Depois das olhadelas do doutor, a franqueza injuriosa do Patrão o sufocava. 

- Não proteste, meu caro senhor, é um deles, está claro como o dia- prosseguiu o Sr. Verdurin. - Repare que não sei se o senhor exerce alguma arte, mas não é necessário e nem sempre é bastante. Dechambre, que acaba de falecer, trabalhava perfeitamente com o mais robusto mecanismo, mas não era desses, sentia-se logo que ele não era Brichot; não é Morel é, minha mulher é, sinto que o senhor é... 
- Que ia me dizer? - interrompeu o Sr. de Charlus, que principiava a tranquilizar-se com o que o Sr. Verdurin queria significar, mas que preferia que ele gritasse mais baixo essas palavras de duplo sentido. 
- Nós apenas o colocamos à esquerda - respondeu o Sr. Verdurin.

     O Sr. de Charlus, com um sorriso compreensivo, bonachão e insolente, respondeu: 

- Mas ora! Isto não tem nenhuma importância, aqui! - E deu um risinho que lhe era especial, que lhe vinha provavelmente de alguma avó bávara ou lorena, que o herdara ela própria, idêntico, de uma avó, de modo que ele soava assim, sem mudança, desde não poucos séculos, nas velhas cortes da Europa, e cujo precioso timbre era desfrutado com gosto como o de certos instrumentos antigos hoje raríssimos.

     Há momentos em que, para pintar completamente a alguém, é necessário que a imitação fonética se junte à descrição, e a do personagem que o Sr. de Charlus representava, arriscava-se a ser incompleta devido à falta desse risinho tão fino, tão leve, como certas suítes de Bach nunca são exatamente reproduzidas porque faltam às orquestras essas "pequenas trombetas" de som tão particular, para as quais o autor escreveu tal ou qual parte. 

- Mas - explicou o Sr. Verdurin, constrangido foi de propósito. - Não dou a menor importância a títulos de nobreza - acrescentou, com esse sorriso de desdém que já vi em tantas pessoas que conheço, ao contrário de minha avó e de minha mãe, para com tudo aquilo que não possuem, diante daqueles que, segundo pensam, não poderão com isso se sentir superiores a elas. - Mas enfim, já que estava presente justo o Sr. de Cambremer, que é marquês, ao passo que o senhor é somente barão... 
- Permita - respondeu o Sr. de Charlus, com ar altivo, ao Sr. Verdurin espantado - sou igualmente duque de Brabant, donzel de Montargis, príncipe de Oléron, de Carency, de Viareggio e de Dunes. Aliás, isso não tem a menor importância. Não se atormente - acrescentou, retomando o seu risinho fino, que se esvaneceu diante destas últimas palavras: - Logo vi que o senhor não estava habituado.

     A Sra. Verdurin veio ao meu encontro para me mostrar as flores de Elstir. Se este ato, há muito tão indiferente para mim, de ir jantar fora, ao contrário não me houvesse, sob a forma que o renovaria inteiramente de uma viagem ao longo do litoral, seguida de uma subida em carro até duzentos metros acima do mar, causado uma espécie de embriaguez, esta não se dissipara na Raspeliere. 

- Olhe, veja só isto - disse a Patroa, mostrando-me grandes e magníficas rosas de Elstir, mas cujo untuoso escarlate e a brancura agitada se realçavam com um relevo um tanto cremoso demais sobre a jardineira em que estavam. - Acha que ele poderia ainda ter mão bastante para fazer isto? É demais! E depois, é belo como matéria, seria divertido de apalpar. Nem posso lhe dizer como era divertido vê-las sendo pintadas. Sentia-se que ele se empenhava em buscar este efeito. -

     O olhar da Patroa se demorou sonhadoramente naquele presente do ato em que se achavam resumidos não só o seu grande talento, mas a longa amizade que somente sobrevivia nessas lembranças que lhe deixara por trás das flores que ele outrora colhera para ela própria; a Sra. Verdurin julgava rever a bela mão que as havia pintado, certa manhã, com todo seu frescor, de modo que, umas sobre a mesa, o outro encostado numa poltrona da sala de jantar, tinham podido figurar em colóquio, para o almoço da Patroa, as rosas ainda vivas e o seu retrato meio parecido. Meio oferecido, apenas, pois Elstir só podia olhar uma flor transplantando-a primeiro para esse jardim interior onde sempre somos forçados a permanecer. Nesta aquarela, ele havia mostrado a aparição das rosas que contemplara e que, sem ele, nunca teríamos conhecido; de forma que se pode dizer que era uma variedade nova com que esse pintor, como um horticultor engenhoso, havia enriquecido a família das rosas. 

- A partir do dia em que ele abandonou o pequeno núcleo, era um homem acabado. Parece que meus jantares o faziam perder tempo, que eu prejudicava o desenvolvimento do seu gênio - disse ela num tom irônico. - Como se a convivência com uma mulher como eu, pudesse não ser saudável a um artista! - exclamou num assomo de orgulho.

     Bem junto a nós, o Sr. de Cambremer, que já estava sentado, esboçou, ao ver o Sr. de Charlus de pé, um movimento para se levantar e ceder sua cadeira. Tal oferecimento talvez não correspondesse, no pensamento do marquês, senão a um propósito de vaga polidez. O Sr. de Charlus preferiu atribuir-lhe a significação de um dever que o simples gentil homem sabia que precisava prestar a um príncipe, e não achou melhor maneira de estabelecer o seu direito a essa precedência senão declinando-a. Assim, exclamou: 

 - Mas como! Peço-lhe! Ora essa! - O tom astuciosamente incisivo desse protesto já continha algo de fortemente "Guermantes", que se acusou sobretudo no gesto imperativo, inútil e familiar com que o Sr. de Charlus pousou ambas as mãos, e como que para forçá-lo a reassentar se, nos ombros do Sr. de Cambremer, que não se levantara: - Ora veja, meu caro insistiu o barão era só o que faltava! Não há motivo para isso! Em nosso tempo só se reservam estas coisas para os príncipes de sangue real. -

     Não emocionei mais aos Cambremer do que à Sra. Verdurin com meu entusiasmo pela sua casa. Pois eu me mantinha frio diante das belezas que me apontavam e exaltava-me com reminiscências confusas: por vezes chegava até a lhes confessar a minha decepção sem achar algo de acordo com o que seu nome me fizera imaginar. Deixei indignada a Sra. de Cambremer ao lhe dizer que julgara que aquilo tudo fosse mais campesino. Em compensação, parei em êxtase a aspirar o aroma de um vento encanado que passava pela porta. 

- Vejo que o senhor aprecia as correntes de ar disseram-me eles.

     Meu elogio da lustrina verde que tapava um caixilho quebrado não teve melhor êxito:

- Mas que horror! - gritou a marquesa.

     O cúmulo foi quando eu disse: 

- Minha maior alegria se deu quando cheguei. Ao ouvir meus passos ressoarem na galeria, julguei que entrava em não sei qual escritório da prefeitura da aldeia, onde existe o mapa da região. -  

     Desta vez a Sra. de Cambremer me voltou resolutamente as costas. 

- Não achou tudo isto muito mal arranjado? - perguntou-lhe o marido, com a mesma solicitude apiedada com que indagaria de que modo a mulher havia suportado uma triste cerimônia. 
- Há coisas belas. -

     Mas como a malevolência, quando as regras fixas de um gosto seguro não lhe impõem limites inevitáveis, acha tudo que criticar na pessoa ou na casa de quem nos suplantou: 

- Sim, mas não estão em seu lugar. E serão mesmo tão belas assim? - disse a Sra. de Cambremer. 
- O senhor reparou - disse o Sr. de Cambremer, com uma pena em que transparecia alguma firmeza - que há quadros de Jouy em que se vê a tela, coisas já totalmente gastas neste salão? 
- E esta peça de tecido com suas grandes rosas, como uma manta de camponesa - disse a Sra. de Cambremer, cuja cultura, toda postiça, aplicava-se exclusivamente à filosofia idealista, à pintura impressionista e à música de Debussy. E, para não protestar exclusivamente em nome do luxo, mas também do bom gosto: 
- E puseram meia cortina! Que falta de estilo! Que querem dessa gente, não sabem nada, onde teriam aprendido? Devem ser grandes comerciantes aposentados. Já não é muito mau para eles. Os lustres me pareceram bonitos - disse o marquês, sem que soubessem por que ele excetuava os lustres, assim como, a cada vez que se falava de uma igreja, fosse a catedral de Chartres, de Reims, de Amiens, ou a igreja de Balbec, inevitavelmente o que ele sempre se apressava a citar como admirável era: "a caixa do órgão, o púlpito e as obras de misericórdia". 
- Quanto ao jardim, nem falemos - disse a Sra. de Cambremer. - É um massacre. Essas aleias que vão em ziguezague!

     Aproveitei que a Sra. Verdurin estava servindo o café para dar uma espiada na carta que o Sr. de Cambremer me entregara, na qual a sua mãe me convidava para jantar. Com um pingo de tinta, a escrita traduzia uma individualidade, de agora em diante reconhecível entre todas, sem que mais houvesse necessidade de recorrer à hipótese de penas especiais, como tintas raras e misteriosamente fabricadas não se fazem necessárias ao pintor para que este exprima a sua visão original. Mesmo um paralítico afetado de agrafia após um ataque e reduzido a olhar os caracteres como um desenho, sem os saber ler, teria compreendido que a Sra. de Cambremer pertencia a uma velha família em que a cultura entusiasta das letras e das artes havia arejado um pouco as tradições aristocráticas. Ele teria adivinhado igualmente em que época a marquesa aprendera simultaneamente a escrever e a tocar Chopin. Era a época em que as pessoas bem educadas observavam o preceito de ser amáveis e a regra dita dos três adjetivos. A Sra. de Cambremer combinava regra e preceito. Um adjetivo laudatório não lhe bastava, ela o fazia seguir (após um pequeno travessão) de um segundo, e depois (após novo travessão) de um terceiro. Mas o que lhe era particular é, que, contrariamente à finalidade social e literária que se propunha, a sucessão dos três epítetos nos bilhetes da Sra. de Cambremer assumia o aspecto, não de uma progressão, mas de um diminuendo. Nesta primeira carta, a Sra. de Cambremer disse que havia visto Saint-Loup e, mais do que nunca, apreciara suas qualidades "únicas raras reais" e que ela devia voltar com um de seus amigos (precisamente aquele que amavam nora) e que, se eu quisesse vir com ou sem eles jantar em Féterne, ela ficaria "encantada feliz contente". Talvez porque nela o desejo de amabilidade não se igualasse à fertilidade da imaginação e à riqueza do vocabulário, é que essa dama, levada a empregar três exclamações, não tinha, forças para conferir à segunda e à terceira mais que um eco enfraquecido da primeira. Houvesse apenas mais um quarto adjetivo, e nada restaria da amabilidade inicial. Enfim, por uma certa simplicidade refinada que não devia deixar de produzir uma considerável impressão na família e mesmo no seu círculo de relações, a Sra. de Cambremer tinha se habituado a substituir a palavra "sincera", que podia acabar por assumir um ar mentiroso: pela palavra "verdadeira". E, para deixar claro que se tratava mesmo de algo sincero, rompia a aliança convencional que colocaria "verdadeira" antes da substantivo, e o punha corajosamente depois. Suas cartas terminavam por: "Creia na minha afeição verdadeira", "creia na minha simpatia verdadeira". Infelizmente, aquilo de tal modo se tornara uma fórmula, que essa afetação de franqueza dava mais a impressão de polidez insincera do que as antigas fórmulas de cujo sentido ninguém mais se recorda. Aliás, sentia-me incomodado para ler devido ao rumor confuso das conversações, dominadas pela voz mais alta do Sr. de Charlus, que não largara o seu assunto e dizia ao Sr. de Cambremer: 

- O senhor me fazia pensar, ao querer que eu tomasse o seu posto, num cavalheiro que me enviou esta manhã uma carta, endereçando-a "A Sua Alteza o barão de Charlus", e que começava por. "Monsenhor". 
- De fato, o seu correspondente exagerava um pouco - respondeu o Sr. de Cambremer, entregando-se a uma discreta hilaridade. O Sr. de Charlus a tinha provocado; mas dela não participou. 
- Porém, no fundo, meu caro - disse -, repare que, do ponto de vista da heráldica, ele é que está com a verdade. Não faço disso uma questão pessoal, acredite. Fala como se se tratasse de outro. Mas o que quer, História é História. Nada podemos e não está em nós refazê-la. Não lhe citarei o imperador Guilherme, que em Kiel nunca deixou de me tratar de Monsenhor. Ouvi dizer que chamava assim a todos os duques franceses, o que é abusivo, e que era talvez simplesmente uma delicada atenção que, por sobre a nossa cabeça, visava a França. 
- Delicada e mais ou menos sincera - disse o Sr. de Cambremer. 
- Ah, não sou de sua opinião. Note que, pessoalmente, um senhor da última ordem como esse Hohenzollem, além do mais protestante, e que despojou o meu primo, o rei de Hanôver, não é de molde a me agradar - acrescentou o Sr. de Charlus, a quem o Hanôver parecia falar mais a seu coração do que a Alsácia-Lorena. - Porém acredito profundamente sincera a inclinação do imperador por nós. Os imbecis dirão que se trata de um imperador de teatro. Mas, ao contrário, ele é extraordinariamente inteligente. Porém não entende de pintura e obrigou o Sr. Tschudi a retirar os Elstir dos museus nacionais. Mas Luís XIV não gostava dos mestres holandeses, também tinha o gosto pelo aparato e, em suma, foi um grande soberano. E Guilherme II ainda armou seu país do ponto de vista militar e naval, como Luís XIV deixou de fazer, e espero que seu reinado jamais conheça os reveses que escureceram o final do reinado daquele a quem banalmente se chama o Rei-Sol. Na minha opinião, a República cometeu um grande erro ao repelir as amabilidades do Hohenzollern, ou só as retribuindo a conta-gotas. Ele mesmo percebe muito bem isso, e diz, com aquele dom de expressão que possui: "O que desejo é um aperto de mão, e não um cumprimento de chapéu." Como homem, é vil: abandonou, renegou, entregou seus melhores amigos em circunstâncias em que seu silêncio foi tão miserável como grande foi o silêncio deles - continuou o Sr. de Charlus que, sempre arrastado por sua inclinação, deslizava para o Caso Eulenbourg e se lembrava da frase que lhe dissera um dos acusados da mais alta posição: "E preciso mesmo que o imperador tenha confiança em nossa delicadeza para ter ousado permitir semelhante processo! Mas, aliás, não se enganou ao ter tido fé na nossa discrição. Até no cadafalso teríamos calado a boca." - De resto, aquilo tudo nada tem a ver com o que queria dizer, a saber que, na Alemanha, como príncipes mediatizados, somos Durchlaucht, e que, na França, nossa posição de Alteza era publicamente reconhecida. Saint-Simon pretende que a tomamos por abuso, no que se engana redondamente. O argumento que ele apresenta, a saber, que Luís XIV nos proibiu que o chamássemos de Rei Cristianíssimo, ordenando-nos que o tratássemos simplesmente de Rei, apenas prova que dependíamos dele e de modo algum que não tivéssemos a qualidade de príncipe. Sem o que, seria preciso negá-la ao duque de Lorena e a tantos outros. Além disso, vários de nossos títulos provêm da casa de Lorena através de Thérese d'Espinoy; minha bisavó, que era filha do donzel de Commercy. -

     Tendo percebido que Morel o escutava, o Sr. de Charlus desenvolveu mais amplamente os motivos de sua pretensão. 

- Já fiz observar ao meu irmão que não é na terceira parte do Gotha, mas na segunda, para não dizer na primeira, que devem encontrar-se a notícia sobre a nossa família - disse ele, sem se dar conta de que Morel não sabia o que era o Gotha. - Mas isso é com ele, ele é meu chefe de armas e, desde que ache bom assim e deixe correr a coisa, não tenho senão que fechar os olhos. 
- O Sr. Brichot me interessou muito - disse eu à Sra. Verdurin, que vinha a meu encontro, enquanto metia no bolso a carta da Sra. de Cambremer. - É um espírito culto e um bom homem respondeu ela friamente. - É claro que não possui nem gosto nem originalidade; tem uma memória tremenda. Diziam dos "avós" das pessoas que recebemos esta noite, dos emigrados, que eles nada haviam esquecido. Mas pelo menos eles tinham a desculpa - disse ela, fazendo sua uma frase de Swann - de que não haviam aprendido coisa alguma. Ao passo que Brichot sabe tudo e nos atira à cabeça, durante o jantar, pilhas de dicionários. Creio que o senhor já não ignora nada sobre o que quer dizer o nome de tal aldeia ou de tal cidade. -

     Enquanto a Sra. Verdurin falava, eu pensava que me prometera perguntar-lhe algo, mas não conseguia me lembrar do que fosse. 

- Estou certo de que falavam de Brichot - disse Ski. 
- Hein? Chantepie e Freycinet, ele não perdoou nada. Eu bem que a estava observando, minha Patroazinha. - Bem que reparei, só me faltou explodir.

     Hoje eu não saberia dizer como a Sra. Verdurin estava vestida aquela noite. Talvez nem naquele momento o soubesse, pois não tenho espírito de observação. Mas, sentindo que sua toalete não era despretensiosa, disse-lhe algumas palavras amáveis e até de admiração. Ela era como quase todas as mulheres, que imaginam que um cumprimento que lhes façam é a estrita expressão da verdade, e que é um juízo que se declara imparcialmente, irresistivelmente, como se se tratasse de um objeto de arte sem relação com uma pessoa. Assim, foi com uma seriedade que me fez enrubescer pela minha hipocrisia, que ela me fez esta orgulhosa e ingênua pergunta, habitual em tais circunstâncias: 

- Agrada-lhe? 
- Certamente estão falando de Chantepie -disse o Sr. Verdurin, aproximando-se.

     Pensando na minha lustrina verde e num cheiro de mato, eu era o único a não perceber que, enumerando essas etimologias, Brichot fizera com que rissem dele. E, como as impressões que davam às coisas o seu valor para mim eram daquelas que as outras pessoas ou não sentem ou recalcam, sem pensar, como sendo insignificantes, e que, por conseguinte, se eu as pudesse comunicar, ficariam incompreendidas ou teriam sido desdenhadas, eram inteiramente inutilizáveis para mim e, além disso, tinham o inconveniente de me fazer passar por estúpido aos olhos da Sra. Verdurin, que via que eu "engolira" Brichot, como já o parecera aos olhos da Sra. de Guermantes porque gostava de comparecer à casa da Sra. d'Arpajon. No caso de Brichot, entretanto, havia uma outra razão. Eu não pertencia ao pequeno clã. E em todo clã, seja mundano, político ou literário, desenvolve-se uma facilidade perversa de descobrir, numa conversação, num discurso oficial, numa novela, num soneto, tudo o que o leitor honesto jamais teria sonhado ver. Quantas vezes me aconteceu, lendo com certa emoção um conto habilmente escrito por um acadêmico um pouco antiquado, estar prestes a dizer a Bloch ou à Sra. de Guermantes: 

- Como é lindo! quando, antes que tivesse aberto a boca, eles exclamavam, cada qual numa linguagem diferente: 
- Se quiser passar um bom momento, leia um conto de Fulano. A estupidez humana jamais foi tão longe. 

     O desprezo de Bloch decorria principalmente de que certos efeitos de estilo, aliás agradáveis, eram um tanto fanados; o da Sra. de Guermantes, de que o conto parecia provar justamente o contrário do que o autor queria dizer, por motivos de fato que ela engenhosamente deduzia, mas nos quais eu nunca teria pensado. Tão surpreso fiquei ao ver a ironia que se ocultava sob a aparente amabilidade dos Verdurin para com Brichot, como ao ouvir, alguns dias mais tarde, em Féterne, os Cambremer dizerem-me, diante do elogio entusiasmado que eu fazia de La Raspeliere: 

- Não é possível que o senhor esteja sendo sincero, depois do que eles fizeram daquilo. -

     É verdade que confessaram que a baixela era bonita. Como as chocantes cortininhas, eu também não a tinha visto. 

- Enfim, agora, quando voltar a Balbec, o senhor saberá o que Balbec significa -disse ironicamente o Sr. Verdurin.

     O que me interessava eram justamente as coisas que Brichot me ensinava. Quanto ao que chamavam o seu espírito, era exatamente o mesmo que outrora fora tão apreciado no pequeno clã. Falava com a mesma irritante facilidade, mas suas palavras já não possuíam alcance, precisavam vencer um silêncio hostil ou ecos desagradáveis; o que havia mudado era não o que ele narrava, e sim a acústica do salão e as disposições do público. 

- Cuidado! - disse a Sra. Verdurin a meia voz, mostrando Brichot.

continua na página 160...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Ao passo que Brichot sorria)
Volume 6
Volume 7

domingo, 1 de março de 2026

Bom dia, Poesia... Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho






Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.

Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu ?”
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa, Novas Poesias Inéditas.

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Não sei quantas almas tenho /   

Sarau... Las babas del diablo(b) - (Julio Cortázar)

A baba do diabo


Julio Cortázar
(1914-1984)

A Paco
que gostava dos meus sonhos

A baba do diabo

continuando... Las babas del diablo(a)

     Quem me conhece sabe que as coisas precisam ser feitas de mim de bom grado. O resultado é que apenas expressei a opinião de que a fotografia não só não é proibida em locais públicos, como também goza do favor mais decidido, tanto oficial quanto privado. E enquanto eu contava isso para ele, ele gostava sarcasticamente de como o garoto se afastava, ficava para trás — só por não se mexer — e de repente (parecia quase incrível) ele se virou e saiu correndo, acreditando que o pobre estava andando e, na verdade, fugindo correndo, passando pelo carro, se perdendo como um fio da Virgem no ar da manhã.
     Mas os fios da Virgem também são chamados de gosma do diabo, e Michel teve que suportar imprecações meticulosas, ouvir a si mesmo ser chamado de intrometido e imbecil, enquanto deliberadamente se esforçava para sorrir e recusar, com simples movimentos de cabeça, tanto transporte barato. Quando comecei a ficar cansado, ouvi uma porta de carro batendo. O homem do chapéu cinza estava lá, olhando para nós. Só então entendi que estava interpretando um papel na comédia.
     Ele começou a caminhar em nossa direção, carregando na mão o jornal que pretendia ler. O que eu lembro melhor é a careta que inclinou sua boca, cobriu seu rosto com rugas, algo mudou de lugar e forma porque sua boca tremia e a careta ia de um lado ao outro dos lábios como um ser independente e vivo, estranho à vontade. Mas todo o resto era fixo, um palhaço enfarinhado ou um homem sem sangue, com pele opaca e seca, os olhos profundos nas profundezas e os buracos no nariz pretos e visíveis, mais pretos que sobrancelhas, cabelos ou gravata preta. Ele andava com cautela, como se o asfalto doísse seus pés; Vi sapatos de couro envernizado nele, com solas tão finas que ele precisava sentir cada aspereza da rua. Não sei por que desci do parapeito, não sei por que decidi não dar a foto para eles, recusar aquela exigência em que eu suspeitava medo e covardia. O palhaço e a mulher se consultavam em silêncio: formamos um triângulo perfeito e insuportável, algo que precisava ser quebrado com um estalo. Ri na cara deles e comecei a andar, acho que um pouco mais devagar que o garoto. No ponto alto das primeiras casas, ao lado da passarela de ferro, me virei para olhar para elas. Eles não se moveram, mas o homem havia deixado cair o jornal; Parecia-me que a mulher, de costas para o parapeito, passava as mãos pela pedra, com o gesto clássico e absurdo da incomodada procurando a saída.


O que se segue aconteceu aqui, quase agora, em um quarto no quinto andar. Demorou vários dias até Michel revelar as fotos no domingo; suas fotos da Conciergerie e da Sainte-Chapelle eram o que deveriam ser. Ele encontrou duas ou três abordagens de teste esquecidas, uma tentativa ruim de pegar um gato surpreendentemente empoleirado no telhado de um mictório abandonado, e também a foto da mulher loira e do adolescente. O negativo foi tão bom que ele preparou uma ampliação; A ampliação era tão boa que ele fez uma muito maior, quase como um pôster. Não lhe ocorreu (agora ele se pergunta e se pergunta) que apenas as fotos do Concierge valiam tanto trabalho. De toda a série, a foto na ponta da ilha foi a única que o interessou; Ele fixou a ampliação em uma parede do cômodo e, no primeiro dia, passou algum tempo olhando para ela e lembrando-a, naquela operação comparativa e melancólica da memória diante da realidade perdida; Lembro de estar petrificada, como qualquer foto, onde nada faltava, nem mesmo e acima de tudo, o verdadeiro manipulador da cena. Lá estava a mulher, ali estava o menino, a árvore rígida acima de suas cabeças, o céu tão fixo quanto as pedras do parapeito, nuvens e pedras confundidas em uma única matéria inseparável (agora uma com bordas afiadas passa, correndo como se fosse uma tempestade). Nos dois primeiros dias, aceitei o que havia feito, desde a própria foto até o ampliamento na parede, e nem me perguntei por que interrompia a tradução do tratado de José Norberto Allende de tempos em tempos para encontrar o rosto da mulher, as manchas escuras no parapeito. A primeira surpresa foi idiota; Nunca me ocorreu que, quando olhamos para uma foto de frente, os olhos repetem exatamente a posição e a visão da lente; São aquelas coisas que são tomadas como certas e que ninguém pensa em considerar. Da minha cadeira, com a máquina de escrever à minha frente, olhei para a foto ali a três metros de distância, e então percebi que eu havia se acomodado exatamente na mira da lente. Era muito bom assim; Sem dúvida, era a maneira mais perfeita de apreciar uma foto, embora a visão diagonal pudesse ter seus encantos e até suas descobertas. A cada poucos minutos, por exemplo, quando não conseguia dizer em bom francês o que José Alberto Allende disse em tão bom espanhol, ele levantava os olhos e olhava para a foto; às vezes eu me sentia atraído pela mulher, às vezes pelo menino, às vezes pelo asfalto onde uma folha seca havia sido admiravelmente colocada para realçar um setor lateral. Depois descansava um pouco do trabalho, e me incluía de bom grado naquela manhã em que estava encharcando a foto, ironicamente lembrava da imagem raivosa da mulher exigindo a foto de mim, da fuga ridícula e patética do garoto, da entrada na cena do homem de rosto pálido. No fundo, eu estava satisfeito comigo mesmo; Minha partida não foi muito brilhante, pois se os franceses receberam o presente de uma resposta rápida, não entendi por que escolhi partir sem uma demonstração completa de privilégios, prerrogativas e direitos dos cidadãos. O importante, o realmente importante, era ter ajudado o garoto a escapar a tempo (isso caso minhas teorias fossem corretas, o que não foi suficientemente comprovado, mas a própria fuga parecia provar isso). De pura intromissão, ele lhe deu a oportunidade de finalmente aproveitar seu medo para algo útil; Agora ele estaria arrependido, minado, sentindo-se um homem pequeno. Isso era melhor do que a companhia de uma mulher que podia olhar como elas o olhavam na ilha; Michel é puritano às vezes, acredita que não deve ser corrompido pela força. No fim, aquela foto foi uma boa ação.

Não foi por boas ações que eu o analisei entre parágrafos do meu trabalho. Naquele momento, eu não sabia por que estava olhando para aquilo, por que tinha fixado a ampliação na parede; Talvez seja assim com todos os atos fatais, e essa seja a condição para seu cumprimento. Não acho que o quase furtivo tremor das folhas na árvore me tenha alarmado, que eu tenha seguido uma frase que havia começado e a terminei em círculo. Os costumes são como grandes herbários, afinal uma ampliação de oitenta por sessenta se assemelha a uma tela onde projetam cinema, onde na ponta de uma ilha uma mulher conversa com um garoto e uma árvore balança algumas folhas secas sobre suas cabeças.

Mas as mãos já eram demais. Eu tinha acabado de escrever: "Donc, la seconde clé réside dans la nature intrinsèque des difficultés que les sociétés," e vi a mão da mulher começando a se fechar lentamente, dedo por dedo. Nada restou de mim, uma frase em francês que nunca será terminada, uma máquina de escrever que cai no chão, uma cadeira que range e treme, uma névoa. O garoto abaixou a cabeça, como cuecas quando não aguentam mais e esperam o golpe do infortúnio; A gola do sobretudo havia sido levantada, ele parecia mais do que nunca um prisioneiro, a vítima perfeita que ajuda na catástrofe. Agora a mulher falava em seu ouvido, e sua mão se abriu novamente para repousar em sua bochecha, acariciá-la e acariciá-la, queimando-a sem pressa. O garoto ficou menos envergonhado do que desconfiado, uma ou duas vezes ele espiou por cima do ombro da mulher e ela continuou falando, explicando algo que o fez olhar para a área onde Michel sabia muito bem que o carro com o homem do chapéu cinza estava, cuidadosamente descartado na fotografia, mas refletido nos olhos do garoto e (como posso duvidar agora) nas palavras da mulher, nas mãos das mulheres, na presença vicária das mulheres. Quando vi o homem chegando, parando perto deles e olhando para eles, com as mãos nos bolsos e um ar entre cínico e exigente, um chefe que vai assobiar para o cachorro depois das brigas na praça, entendi, se isso fosse compreensão, o que tinha que acontecer, o que tinha que acontecer, o que tinha que acontecer naquele momento, entre aquelas pessoas, ali onde eu vim para perturbar uma ordem, inocentemente interferindo naquele que não aconteceu, mas que agora iria acontecer, agora seria cumprido. E o que ele imaginava então era muito menos horrível do que a realidade, essa mulher que não estava ali para si mesma, acariciada, proposta ou incentivada para seu prazer, para levar o anjo desgrenhado embora e brincar com seu terror e sua graça lasciva. O verdadeiro mestre esperava, sorrindo de forma petulante, já certo do trabalho; Ele não foi o primeiro a enviar uma mulher para a vanguarda, para trazer os prisioneiros amarrados com flores. O resto seria tão simples: o carro, qualquer casa, as bebidas, os lençóis empolgantes, as lágrimas tarde demais, acordar no inferno. E eu não consegui fazer nada, dessa vez não consegui fazer nada. Minha força foi uma fotografia, ali, onde eles se vingaram de mim mostrando sem disfarce o que estava para acontecer. A foto havia sido tirada, o tempo havia passado; Estávamos tão distantes um do outro, a corrupção certamente consumada, as lágrimas derramadas, e o resto era conjectura e tristeza. De repente, a ordem foi invertida, eles estavam vivos, em movimento, decidiram e estavam determinados, foram para seu futuro; E eu, deste lado, prisioneiro de outro tempo, de um quarto no quinto andar, de não saber quem eram aquela mulher, aquele homem e aquela criança, de não ser nada mais que a lente da minha câmera, algo rígido, incapaz de intervenção. Eles jogaram a pior zombaria na minha cara, a de decidir, diante da minha impotência, que o garoto olharia para o palhaço enfarinhado de novo e eu entenderia que ele aceitaria, que a proposta continha dinheiro ou engano, e que eu não poderia gritar para ele fugir, ou simplesmente facilitar o caminho para ele novamente com uma nova foto, uma intervenção pequena e quase humilde que interromperia a estrutura de gosma e perfume. Tudo seria resolvido ali mesmo, naquele momento; Havia como um imenso SilencNão tinha nada a ver com silêncio físico. Isso foi esticado, foi montado. Acho que gritei, gritei terrivelmente, e naquele mesmo segundo soube que estava começando a me aproximar, dez centímetros, um passo, outro passo, a árvore estava girando cadencialmente seus galhos em primeiro plano, uma mancha no parapeito estava saindo da pintura, o rosto da mulher, virado para mim como surpreso, estava crescendo, e então me virei um pouco, Quero dizer que a câmera girou um pouco, e sem perder de vista a mulher, ela começou a se aproximar do homem que me olhava com os buracos negros que ele tinha no lugar dos olhos, entre surpreso e raivoso, ele parecia querendo me pregar no ar, e naquele momento consegui ver como um grande pássaro desfocado passou em um único voo à frente da imagem, E eu me encostei na parede do meu quarto e fiquei feliz porque o garoto tinha acabado de escapar, vi ele correndo, novamente focado, fugindo com todo o cabelo ao vento, finalmente aprendendo a voar sobre a ilha, a alcançar a passarela, a voltar para a cidade. Pela segunda vez ele estava partindo, pela segunda vez eu o ajudava a escapar, eu o levava de volta ao seu paraíso precário. Ofegante, fiquei na frente deles; Não havia necessidade de avançar mais, o jogo foi jogado. Da mulher havia apenas um ombro e alguns cabelos, brutalmente cortados pela imagem na imagem; mas na frente dele estava o homem, a boca meio aberta onde viu uma língua negra tremendo, e ele lentamente levantou as mãos, trazendo-as para o primeiro plano, um momento ainda em perfeita concentração, e então ele era todo um monte que apagou a ilha, a árvore, e eu fechei os olhos e não quis mais olhar, cobri o rosto e caí em lágrimas feito um idiota.

Agora uma grande nuvem branca passa, como todos esses dias, todo esse tempo incontável. O que resta dizer é sempre uma nuvem, duas nuvens, ou longas horas de céu perfeitamente limpo, um retângulo muito puro preso à parede do meu quarto. Foi isso que vi quando abri os olhos e os enxuguei com os dedos: o céu limpo, e então uma nuvem que entrou pela esquerda, caminhou lentamente com sua graça e desapareceu pela direita. E então outra, e às vezes tudo fica cinza, tudo é uma nuvem enorme, e de repente os respingos da chuva racham, por muito tempo você vê chover sobre a imagem, como um grito ao contrário, e pouco a pouco a pintura fica mais clara, talvez o sol, e novamente as nuvens entram, Dois, três. E pombos, às vezes, e ocasionalmente um pardal.

**FIM**

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Sarau... Las babas del diablo(a) - (Julio Cortázar)

A baba do diabo

Julio Cortázar
(1914-1984)

A Paco
que gostava dos meus sonhos

A baba do diabo

     Você nunca saberá como dizer isso, seja na primeira ou na segunda, usando o terceiro plural ou inventando continuamente formas que não servirão de nada. Se alguém pudesse dizer: Eu vi a lua nascer, ou: a parte inferior dos meus olhos dói, e acima de tudo assim: você, a mulher loira, eram as nuvens que continuam correndo à minha frente, vocês são nossos, vocês são seus rostos. Que diabos.
     Para contar, se você pudesse tomar um bock e deixar a máquina continuar sozinha (porque eu digito na máquina de escrever), seria perfeito. E não é uma forma de dizer. Perfeição, sim, porque aqui o buraco a ser contado também é uma máquina (de outra espécie, uma Contax 1.1.2) e talvez seja que uma máquina saiba mais sobre outra máquina do que eu, você, ela — a mulher loira — e as nuvens. Mas só tenho sorte de ser um tolo, e sei que se eu sair, essa Remington vai ficar petrificada na mesa com aquele ar de imobilidade dupla, que as coisas têm quando não se movem. Depois tenho que escrever. Um de nós tem que escrever, se isso for ser contado. É melhor que eu esteja morto, que esteja menos comprometido que os outros; Eu, que não vejo nada além das nuvens e posso pensar sem me distrair, escrever sem me distrair (há outro, com borda cinza) e lembrar sem me distrair, eu que estou morto (e vivo, não se trata de enganar ninguém, veremos quando chegar a hora, porque de alguma forma eu tenho que começar e comecei por aqui, a que está lá atrás, a que está no começo, que afinal é a melhor dica quando você quer contar algo).
     De repente me pergunto por que preciso contar isso, mas se alguém começasse a se perguntar por que ele faz tudo o que faz, se apenas se perguntasse por que ele aceita um convite para jantar (agora passa um pombo, e acho que um pardal) ou por que quando alguém nos contou uma boa história, Imediatamente começa como um arrepio no estômago e você não fica calmo até entrar no escritório ao lado e contar a história por sua vez; Só assim se pode estar bem, feliz e retornar ao trabalho. Pelo que sei, ninguém explicou isso, então o melhor a fazer é parar de sentir vergonha e contar, porque afinal ninguém tem vergonha de respirar ou calçar os sapatos; São coisas que acontecem, e quando algo estranho acontece, quando encontramos uma aranha dentro do sapato ou quando respiramos parece vidro quebrado, então temos que contar o que acontece, contar para o pessoal do consultório ou para o médico. Ah, doutor, toda vez que eu respiro... Sempre conte, sempre se livre daquele irritante arrepio do seu estômago.
     E já que vamos te dizer, vamos colocar uma ordem, vamos descer as escadas desta casa até domingo, 7 de novembro, há apenas um mês. Você desce cinco andares e já é domingo, com um sol inesperado para novembro em Paris, com muita vontade de andar, ver coisas, tirar fotos (porque éramos fotógrafos, eu sou fotógrafo). Sei que o mais difícil será encontrar uma forma de contar isso, e não tenho medo de repetir. Vai ser difícil porque ninguém realmente sabe quem está contando, se sou eu, o que aconteceu, ou o que estou vendo (nuvens, e às vezes uma pomba) ou se eu simplesmente contar uma verdade que é só a minha verdade, e então não é a verdade, exceto pelo meu estômago, por esse desejo de fugir e de alguma forma acabar com isso, seja lá o que for.
     Vamos contar devagar, vamos ver o que acontece enquanto escrevo. Se eles me substituírem, se eu não souber mais o que dizer, se as nuvens acabarem e algo mais começar (porque não pode ser que isso seja ver nuvens passando o tempo todo, e às vezes um pombo), se algo assim... E depois do "se", o que eu vou colocar, como vou encerrar a frase corretamente? Mas se eu começar a fazer perguntas, não conto nada; Melhor contar, talvez contar seja como uma resposta, pelo menos para quem lê.
     Roberto Michel, francês-chileno, tradutor e fotógrafo amador em sua época, saiu da rua Monsieur-le-Prince, nº 11, no domingo, 7 de novembro deste ano (agora há duas menores, com bordas prateadas). Eu vinha trabalhando há três semanas na versão francesa do tratado sobre recusas e recursos de José Norberto Allende, professor da Universidade de Santiago. É raro haver vento em Paris, muito menos um vento que girasse e subisse nos cantos, castigando as antigas venezianas de madeira atrás das quais as damas surpreendidas comentavam de várias formas sobre a instabilidade do clima nos últimos anos. Mas o sol também estava lá, cavalgando pelo vento e amigável aos gatos, então nada me impediria de dar uma volta às margens do Sena e tirar algumas fotos do Concierge e da Sainte-Chapelle. Mal eram dez horas, e eu calculava que às onze horas teria boa luz, a melhor possível no outono; para perder tempo, me dirigi à Île Saint-Louis e comecei a caminhar ao longo do Quai d'Anjou, olhei para o Hôtel de Lauzun por um tempo, recitei alguns fragmentos de Apollinaire que sempre me vêm à mente quando passo em frente ao hotel de Lauzun (e devo lembrar de outro poeta, mas Michel é teimoso), E quando, de repente, o vento parou e o sol ficou pelo menos duas vezes maior (quero dizer, mais quente, mas na verdade é a mesma coisa), sentei no parapeito e me senti terrivelmente feliz na manhã de domingo.
     Entre as muitas formas de combater o vazio, uma das melhores é tirar fotografias, uma atividade que deve ser ensinada cedo às crianças porque exige disciplina, educação estética, bom olhar e dedos confiantes. Não se trata de perseguir a mentira como qualquer repórter, e de pegar a silhueta idiota do carinha saindo do número 10 da Downing Street, mas de qualquer forma, quando você anda com a câmera, há um dever de estar atento, de não perder aquele súbito e delicioso salto de um raio de sol em uma pedra antiga, Ou as tranças na corrida aérea de uma garotinha que volta com um pão ou uma mamadeira de leite. Michel sabia que o fotógrafo sempre opera como uma permutação de sua forma pessoal de ver o mundo para outro que a câmera lhe impõe insidiosamente (agora uma grande nuvem, quase negra, passa por ali), mas ele não desconfiava, sabendo que bastava sair sem a Contax para recuperar o tom distraído, a visão sem enquadramento, a luz sem diafragma ou 1/250. Agora (que palavra, que mentira estúpida) eu poderia sentar no parapeito sobre o rio, vendo as pinasas pretas e vermelhas passarem, sem que me passasse pela cabeça pensar fotograficamente nas cenas, nada além de deixar as coisas para trás, correr imóvel com o tempo. E não havia mais vento soprando.
     Então continuei ao longo do Quai de Bourbon até chegar à ponta da ilha, onde gosto e gosto da pequena praça íntima (íntima porque é pequena e nada recatada, porque dá todo o peito ao rio e ao céu) que gosto e gosto. Havia apenas alguns e, claro, pombos; talvez alguns daqueles que agora estão passando pelo que estou vendo. Pulei no parapeito e me deixei envolver e amarrar pelo sol, dando meu rosto, minhas orelhas, ambas as mãos (coloquei as luvas no bolso). Não estava com vontade de tirar fotos, e acendi um cigarro para fazer algo; Acho que no momento em que eu estava aproximando o fósforo do tabaco, vi o menino pela primeira vez. 
     O que eu tinha pensado por casal era muito mais parecido com um menino com a mãe, embora ao mesmo tempo eu tenha percebido que não era um menino com a mãe, mas sim um casal no sentido de que sempre damos aos casais quando os vemos apoiados nos parapeitos ou se abraçando nos bancos das praças. Como eu não tinha nada para fazer, tive bastante tempo para me perguntar por que o garotinho estava tão nervoso, como um potro ou uma lebre, colocando as mãos nos bolsos, depois tirando um e depois outro, passando os dedos pelo cabelo, mudando a postura e, acima de tudo, por que tinha medo, pois podia imaginar em cada gesto, um medo sufocado pela vergonha, um impulso de recuar que parecia que seu corpo estava à beira da fuga, se contendo em um último decoro lamentável.
     Tudo aquilo estava tão claro, a cinco metros de distância — e estávamos sozinhos encostados no parapeito, na ponta da ilha — que a princípio o medo do garoto não me permitiu ver bem a mulher loira. Agora, pensando bem, vejo ela muito melhor naquele primeiro momento em que li seu rosto (de repente ela tinha se transformado como um cata-ventos de cobre, e os olhos, os olhos estavam ali), quando eu entendia vagamente o que poderia estar acontecendo com o garoto e disse a mim mesmo que valia a pena ficar e observar (o vento levou as palavras, os murmúrios quase saudáveis). Acho que sei como olhar, se é que sei de algo, e que toda olhada transborda falsidade, porque é isso que nos tira de nós mesmos, sem a menor garantia, enquanto cheirar, ou (mas Michel se vira facilmente, não podemos deixá-lo reclamar à vontade). Em qualquer caso, se a provável falsidade for prevista antecipadamente, a procura torna-se possível; Talvez seja suficiente escolher bem entre olhar e olhar, tirar as roupas de tantas outras pessoas. E, claro, tudo isso é bastante difícil.
     Lembro da imagem do menino diante do corpo real (isso será entendido depois), enquanto agora tenho certeza de que lembro muito melhor do corpo da mulher do que da imagem dela. Ela era magra e esguia, duas palavras injustas para o que era, e usava um casaco de pele quase preto, quase comprido, quase lindo. Todo o vento daquela manhã (agora soprava leve, e não estava frio) passou pelos cabelos loiros que cortavam seu rosto branco e sombrio — duas palavras injustas — e deixou o mundo horrivelmente sozinho diante de seus olhos negros, seus olhos que caíam sobre coisas como duas águias, dois saltos no vazio, Dois surtos de lama verde. Não descrevo nada, tento entender. E eu disse: dois surtos de lama verde.
     Sejamos justos, o garoto estava bem vestido e usava luvas amarelas que eu juraria serem do irmão mais velho, estudante de direito ou ciências sociais; Era engraçado ver os dedos das luvas saindo do bolso da jaqueta. Por muito tempo não vi seu rosto, apenas um perfil nada bobo – um pássaro confuso, o anjo do Fra Filippo, arroz doce – e as costas de um adolescente que quer praticar judô e que já brigou algumas vezes por uma ideia ou uma irmã. Quase aos quatorze, talvez quinze, ele foi vestido e alimentado pelos pais, mas sem um centavo no bolso, tendo que deliberar com seus companheiros antes de decidir por um café, um conhaque, um maço de cigarros. Eu caminhava pelas ruas pensando nos meus colegas, em como seria bom ir ao cinema e ver o filme mais recente, ou comprar romances, gravatas ou garrafas de bebida com rótulos verdes e brancos. Em sua casa (sua casa seria respeitável, seria almoço às meia-noite e paisagens românticas nas paredes, com uma recepção escura e um guarda-chuva de mogno ao lado da porta) choveria lentamente o tempo de estudar, ser a esperança da mamãe, parecer com o pai, escrever para a tia de Avignon. Por isso tantas ruas, o rio inteiro para ele (mas sem dinheiro) e a misteriosa cidade de quinze anos, com seus cartazes nas portas, seus gatos tremendo, o cartucho de batatas fritas por trinta francos, a revista pornográfica fechada em quatro, a solidão como um vazio nos bolsos, os encontros felizes, o fervor por tanto incompreendido, mas iluminado por amor total, Por causa da disponibilidade semelhante ao vento e às ruas.
     Essa biografia era do garoto e de qualquer menino, mas agora ele o via isolado, tornado único pela presença da mulher loira que continuava a falar com ele. (Fico cansado de insistir, mas duas longas nuvens desfiadas acabaram de passar. Acho que naquela manhã eu não olhei para o céu nem uma vez, porque assim que senti o que estava acontecendo com o menino e a mulher, não pude deixar de olhar para eles e esperar, olhar para eles e...) Resumindo, o garoto estava inquieto e conseguia imaginar sem muito esforço o que havia acabado de acontecer alguns minutos antes, no máximo meia hora. O garoto havia chegado à ponta da ilha, visto a mulher e a achado admirável. A mulher esperava isso porque estava ali para esperar por isso, ou talvez o garoto tivesse chegado antes e ela o visse de uma varanda ou de um carro, e saísse para encontrá-lo, provocando diálogo com qualquer coisa, certa desde o começo de que ele teria medo dela e queria fugir, e que naturalmente ficaria, galante e taciturno, fingindo senioridade e o prazer da aventura. O resto foi fácil porque estava acontecendo a cinco metros de mim e qualquer um poderia ter medido as fases do jogo, a esgrima risível; Seu maior encanto não era o presente, mas a previsão do resultado. O garoto acabava inventando uma desculpa para um compromisso, alguma obrigação, e tropeçava para longe confuso, querendo andar com facilidade, nu sob o olhar zombeteiro que o acompanhava até o fim. Ou ele ficava, fascinado ou simplesmente incapaz de tomar a iniciativa, e a mulher começava a acariciar seu rosto, a bagunçar seu cabelo, falando com ele sem voz, e de repente ela o segurava pelo braço para pegá-lo, a menos que ele, com uma inquietação que talvez começasse a tingir o desejo, o risco da aventura, ousasse colocar o braço em sua cintura e beijá-la. Tudo isso poderia acontecer, mas ainda não aconteceu, e Michel esperou perversamente, sentado no parapeito, quase sem querer preparando a câmera para tirar uma foto pitoresca em um canto da ilha com um casal incomum conversando e se olhando.
     Curioso que a cena (quase nada: dois que estão ali, jovens de forma desigual) tinha uma espécie de aura perturbadora. Achei que tinha colocado aquilo, e que minha foto, se eu a tirasse, restauraria as coisas à sua verdade boba e ridícula. Eu gostaria de saber o que o homem do chapéu cinza estava pensando, sentado ao volante do carro parado no cais que leva à passarela, e quem estava lendo o jornal ou dormindo. Eu tinha acabado de descobrir, porque as pessoas dentro de um carro parado quase desapareceram, elas se perdem naquela jaula miserável, privadas da beleza que o movimento e o perigo lhes proporcionam. E ainda assim o carro esteve lá o tempo todo, formando parte (ou deformando essa parte) da ilha. Um carro: como dizer um poste de luz, um banco na praça. Nunca o vento, a luz do sol, aqueles materiais sempre novos para a pele e os olhos, e também o menino e a mulher, únicos, colocados ali para alterar a ilha, para me mostrar de uma forma diferente. Em resumo, pode muito bem acontecer que o homem do jornal também estivesse atento ao que acontecia e sentisse, como eu, aquele gosto maligno de todas as expectativas. Agora a mulher havia se virado suavemente até colocar o garotinho entre ela e o parapeito, ela os via quase de perfil e ele era mais alto, mas não muito mais alto, e ainda assim ela tinha demais dele, parecia pairar sobre ele (sua risada, de repente, um chicote de pena), esmagando-o só de estar ali, sorrindo, passando a mão pelo ar. Por que esperar mais? Com um décimo sexto diafragma, com uma estrutura onde o horrível carro preto não caberia, mas aquela árvore, necessária para quebrar um espaço muito cinza...
     Levantei minha câmera, fingi estudar um foco que não os incluía, e fiquei à espera, certo de que finalmente captaria o gesto revelador, a expressão que resume tudo, a vida que o movimento acompanha, mas que uma imagem rígida destrói ao seccionar o tempo, se não escolhermos a fração essencial imperceptível. Não precisei esperar muito. A mulher avançou em sua tarefa de amarrar suavemente as mãos do menino, de arrancar fibra por fibra de seus últimos resquícios de liberdade, em uma tortura muito lenta e deliciosa. Imaginei os possíveis finais (agora uma pequena nuvem espumosa aparece, quase sozinha no céu), previ a chegada à casa (provavelmente um térreo, que ela encheria de almofadas e gatos) e suspeitei do constrangimento do menino e sua decisão desesperada de esconder isso e se deixar levar fingindo que nada era novidade para ele. Fechando os olhos, se eu os fechasse, coloquei a cena em ordem, os beijos zombeteiros, a mulher rejeitando gentilmente as mãos que tentariam despir-la como nos romances, em uma cama que teria um edredom lilás, e forçando-o a se deixar tirar a roupa, verdadeiramente mãe e filho sob uma luz amarela de opalinos, e tudo terminaria como de costume, talvez, mas talvez tudo fosse diferente, e a iniciação do adolescente não passasse, não fosse permitida passar, de um longo proemio onde a desajeitação, as carícias exasperantes, a corrida das mãos se resolveria em sabe-se lá o quê, em um prazer separado e solitário, em uma recusa petulante misturada com a arte do cansaço e tanta inocência ferida desconcertante. Pode ser que sim, pode muito bem ser; Aquela mulher não procurava um amante no garoto, e ao mesmo tempo o tomou por um propósito impossível de entender se não imaginasse aquilo como um jogo cruel, um desejo de desejar sem satisfação, de se empolgar por outra pessoa, alguém que não poderia ser aquele garoto.
     Michel é culpado de literatura, de fabricações irreais. Ele não gosta de nada mais do que imaginar exceções, indivíduos fora da espécie, monstros que nem sempre são repugnantes. Mas essa mulher convidou a invenção, talvez dando pistas suficientes para acertar a verdade. Antes de ele partir, e agora que isso preencheria minha memória por muitos dias, porque sou propensa a ruminações, decidi não perder mais um momento. Coloquei tudo no visor (com a árvore, o parapeito, o sol das onze horas) e tirei a foto. A tempo de entender que ambos tinham notado e estavam olhando para mim, o garoto surpreso e questionador, mas ela irritada, resolutamente hostil ao próprio corpo e ao rosto que sabiam serem roubados, ignominiosamente aprisionada em uma pequena imagem química.
     Eu poderia te contar em detalhes, mas não vale a pena. A mulher falou sobre como ninguém tinha o direito de tirar uma foto sem permissão e exigiu que ela entregasse o rolo de filme. Tudo isso com uma voz seca e clara, com um bom sotaque parisiense, que subia em cor e tom a cada frase. Da minha parte, eu me importava muito pouco em dar ou não o rolo de filme para ele, mas

continua depois do filme...Blow-Up

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Sarau... Las babas del diablo(a) / Las babas del diablo(b)

Cinema: Blow Up

Desejo numa Manhã de Verão

1966

Michelangelo Antonioni

Blow Up (Desejo numa Manhã de Verão) Filme italiano de 1966 dirigido por Michelangelo Antonioni, tem como premissa um jovem fotógrafo londrino de moda, arrogante e entediado, que tem algumas de suas fotografias ampliadas e descobre o que parece ser um assassinato. Será apenas uma percepção ou realidade? Uma adaptação literária, de um conto ( Las babas del diablo) do genial escritor franco-argentino Julio Cortázar, nascido na Bélgica.
"No conto de Cortázar, bem como no filme de Antonioni, também estão presentes vários questionamentos a respeito da natureza da realidade e do trabalho do artista (escritor, cineasta, fotógrafo) que tenta capturá-la e compreendê-la. No início do conto de Cortázar, o narrador parece estar vivo e morto, ao mesmo tempo, e também ficamos na dúvida se temos um ou dois narradores na história (tudo indica que é o mesmo narrador, Michel, que está vivo e morto, ao mesmo tempo)."

Uma cena foi silenciada devido aos direitos autorais de uma música




Gênero: 
Drama / suspense
Direção: 
Michelangelo Antonioni
Produção: 
Carlo Ponti
Roteiro: 
Michelangelo Antonioni
Tonino Guerra

Elenco:
David Hemmings .... Thomas
Vanessa Redgrave .... Jane
Sarah Miles .... Patricia
Jane Birkin.... modelo loira
Veruschka .... ela mesma

Música: 
Herbie Hancock

Aparições notáveis:
Alguns artistas já conhecidos em 1966 aparecem no filme, outros se tornariam celebridades depois dele. The Yardbirds, a primeira banda conhecida de Jimmy Page e Jeff Beck, faz uma apresentação num clube londrino e Antonioni pediu a Beck que refizesse a cena de Pete Townshend, do The Who, destruindo suas guitarras e amplificadores no palco, ato pelo qual o cineasta era fascinado. Veruschka, modelo já famosa na Europa, que interpreta a si mesma, depois do filme se tornaria uma celebridade em todo mundo. Michael Palin, comediante britânico que aparece numa das festas, alguns anos depois ficaria internacionalmente famoso como um dos criadores do grupo Monty Python.



Uma breve conversa sobre o filme Blow Up
(Assista essa breve conversa com alguns spoilers... depois do filme: ou não kkkkk)
Wallace Feitosa - fotógrafo





Kagemusha: O Guerreiro das SombrasBlow Up /