sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Odisseia: Parte I (Canto IV.a)

 Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto IV

Na Lacônia e a emboscada dos pretendentes

    “Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)

   Ei-los chegados ao vale escavado de Lacedemônia, 
té que a morada alcançaram do rei Menelau glorioso, 
indo encontrá-lo em palácio, no meio de seus agregados, 
que celebravam as núpcias do filho e da filha impecável. 
Era esta ao filho, enviada, de Aquiles, o rompe fileiras, 
pois desde Troia lhe havia asselado a solene promessa 
de como esposa lha dar. Ora os deuses as núpcias realizam. 
Manda-a, por esse motivo, com carro e cavalos, agora, 
para a cidade famosa, em que reina, de heroicos Mirmídones.

Mas para o filho, de Esparta fez vir a nascida de Aléctor, 
o varonil Megapentes, que teve em idade madura 
de uma das servas; que os deuses a Helena negaram mais filhos 
desde que Hermíone, bela e amorável, lhe fora nascida, 
que à áurea Afrodite era igual na esbelteza e nos traços perfeitos. 
   Banqueteavam-se, pois, no palácio de teto elevado 
os agregados do rei Menelau glorioso e os vizinhos, 
alegremente. Cantava entre todos o aedo divino, 
ao som da cítara, ao tempo, também, em que dois saltadores, 
cabriolavam, seguindo o compasso, no meio de todos. 

Nesse entrementes, o nobre Telêmaco e o ilustre Nestórida 
os corredores velozes defronte da porta refreiam. 
Param; no meio da azáfama o nobre Eteoneu os viu logo, 
o diligente criado do rei Menelau glorioso. 
Volta, sem mais, para dar a notícia ao pastor de guerreiros. 
Ao lado dele chegando, lhe disse as palavras aladas: 
   “Hóspedes novos, aluno de Zeus, Menelau, nos chegaram, 
dois forasteiros; parecem ser filhos de Zeus poderoso. 
Dize se devo tirar os cavalos velozes do carro, 
ou enviá-los a alguém, que lhes faça amistosa acolhida.”

Muito indignado lhe diz Menelau, o de louros cabelos: 
“Ó Eteoneu, de Boétoo nascido, primeiro não eras 
louco assim; ora, como criança, realmente, só dizes tolices. 
Vezes sem conta nós dois nos sentamos à mesa de estranhos, 
antes de virmos de volta, esperando que Zeus nos livrasse 
de sofrimentos futuros. Então? Desatrela os cavalos 
e os forasteiros convida a assentarem-se em nosso banquete.” 
   Disse; Eteoneu, logo, a sala atravessa, a chamar pelo nome 
dos diligentes escravos, porque fossem logo com ele. 
Estes tiraram do jugo os corcéis, que suor estilavam,

e à manjedoura, depois, de cavalos, os levam e amarram, 
onde deitaram mistura de espelta e de branca cevada. 
Contra a parede de tons reluzentes encostam o carro 
e os visitantes conduzem à régia divina do aluno 
de Zeus potente, os quais ficam absortos perante o que viam, 
pois um fulgor se espalhava semelho ao do Sol ou da Lua, 
pela morada elevada do rei Menelau glorioso. 
Mas, depois que na visão do espetáculo os olhos saciaram, 
para banheiras polidas subiram, porque se banhassem, 
onde zelosas escravas os lavam e esfregam com óleo,

mantos lanosos e túnicas sobre as espáduas lhes pondo. 
Sentam-se ao lado do rei Menelau, em cadeiras lavradas. 
Água lustral lhes ministra a criada, num jarro gracioso, 
de ouro, deixando-a cair sobre as mãos em bacia de prata, 
pondo diante dos dois, a seguir, uma mesa polida. 
A despenseira zelosa aparece, que pão lhes reparte, 
como, também, provisões abundantes, que dá prazenteira. 
Vem, a seguir, o trinchante, trazendo nas mãos a travessa 
com muita carne, e de todos ao lado áureos copos coloca. 
Diz-lhes, saudando-os o rei Menelau, o de louros cabelos:

“Ora provai da comida e alegrai-vos. Depois que tiverdes 
a refeição concluído, será minha a vez de inquirir-vos 
quem sois vós outros, porque não se perde dos pais a ascendência. 
De Zeus alunos, por certo, sois ambos, de reis descendentes, 
que cetro empunham, pois vis não teriam tais filhos gerado.” 
   Disse; e um assado do lombo bem gordo, do boi, lhes presenta, 
tendo levado nas mãos o pedaço melhor, que era dele. 
Eles as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas. 
Tendo, assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
vira-se o moço Telêmaco e diz ao Nestórida ilustre,

quase a falar-lhe no ouvido, porque ninguém mais o sentisse: 
   “Caro Nestórida, amado do meu coração, olha um pouco 
como as paredes da sala sonora rebrilham de bronze, 
de ouro e de electro, também, de marfim e de prata luzente. 
Lembra-me a vista do pátio, por dentro, de Zeus Olímpico. 
Quanta riqueza indizível! O espanto de mim se apodera.” 
   O louro herói Menelau percebeu-lhe o sentido das vozes; 
vira-se, então, para os dois, e lhes diz as palavras aladas: 
   “Meus caros filhos, com Zeus emular nenhum homem consegue, 
que imperecíveis são suas riquezas e o belo palácio.

Quanto aos mortais, pode algum em riqueza medir-se comigo, 
ou que o não faça; custou-me sofrer muita dor, errabundo, 
quanto nas naus para aqui transportei, decorridos oito anos, 
tendo vagado por Chipre e Fenícia, assim como no Egito. 
Té aos Sidônios cheguei e aos Erembos, bem como aos Etíopes 
e à própria Líbia, onde aos anhos os chifres mui cedo lhes nascem, 
e por três vezes no curso de um ano as ovelhas dão cria. 
Nesse lugar nenhum chefe, ou pastor, de penúria padece, 
não só de queijo, de carne também e do leite agradável, 
pois estão sempre as ovelhas no ponto de serem mungidas

Mas enquanto eu por aquelas paragens reunia riquezas, 
certo indivíduo, às escuras, privou-me do mano dileto, 
por modo súbito, graças ao dolo da esposa funesta. 
Esse o motivo de não alegrar-me com tanta opulência. 
De vossos pais, porventura, o soubestes, quem quer que eles sejam, 
pois não somente arrostei mil trabalhos; também vi perder-se 
minha morada bem-feita e opulenta de todo o conforto. 
Oh! Quem me dera viver com um terço dos bens no palácio, 
contanto que vivos fossem os homens que outrora caíram 
de Argos distantes, nutriz de corcéis, na planície de Troia.

Pois, em verdade, por todos expendo lamentos amargos, 
muito amiúde sentado nas salas do nosso palácio, 
ora alivio com lágrimas o coração, ora cesso 
de derramá-las, que logo me farto do gélido choro. 
Mas por nenhum me consumo, se bem que por todos me aflija, 
como por um, que me faz odiar o repouso e a comida, 
sempre que dele me lembro. Nenhum dos Aqueus sofreu tanto 
como Odisseu suportou e sofreu; o futuro para ele 
muitos trabalhos guardara, o que a mim aflições ocasiona 
incomportáveis por tão longa ausência e porque ninguém sabe

se ainda se encontra com vida, ou se é morto; sua perda, por certo, 
chora Laertes o velho, assim como a prudente Penélope, 
como Telêmaco, que no palácio ainda infante deixara.” 
   Vivas saudades do pai despertaram-lhe aquelas palavras; 
lágrimas correm-lhe a par para o chão, quando o ouviu nomeado. 
Puxa com ambas as mãos para os olhos o manto purpúreo. 
O louro filho de Atreu logo viu o que estava passando, 
tendo ficado indeciso no peito ardoroso e no espírito, 
se ainda convinha deixar que do pai ele próprio falasse, 
ou se pergunta fizesse, primeiro, e de tudo inquirisse.

No coração e no espírito dessa maneira reflete. 
Nesse momento, do tálamo odoro e elevado, tal como 
Ártemis de fuso de ouro, vem vindo a amorável Helena. 
Logo lhe Adrasta oferece poltrona de fino trabalho, 
tendo-lhe Alcipe trazido tapete de velo macio; 
Filo açafate de prata lhe traz, por Alcandra ofertado, 
quando no Egito, a de Pólibo esposa, que em Tebas habita, 
onde com muitas riquezas as casas se encontram pejadas. 
A Menelau dera Pólibo um par de banheiras de prata, 
trípodes duas e mais dez talentos, também, de ouro puro.

Por sua parte, a mulher fez presentes a Helena, mui belos: 
de ouro uma roca, e um cestinho provido de rodas por baixo, 
todo de prata; mas de ouro batido eram feitas as bordas. 
Filo, a servente zelosa, o cestinho lhe traz, colocando-o, 
logo, ao seu lado, repleto de fio torcido; por cima 
põe uma roca, de lã carregada de cor de violeta. 
Senta-se Helena em poltrona provida de um belo escabelo, 
vira-se para o marido e de tudo procura informar-se: 
   “Ó Menelau, de Zeus grande discíp’lo, sabemos, acaso, 
quem se gloriam de ser esses homens, que a casa nos chegam?

Minto, ou verdade enuncio? A falar me compele a vontade. 
Não, não presumo ter visto jamais semelhança tão grande 
entre quaisquer dos mortais — sou tomada de espanto indizível — 
tanto com o filho do grande Odisseu este aqui se parece, 
digo Telêmaco, que no palácio ainda infante deixara, 
ele, o valente, no tempo em que vós, os Aquivos, lutastes 
sob as muralhas de Troia por causa de minha insolência.” 
   Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos: 
“Penso, ó mulher, de igual modo a respeito do que conjeturas. 
Tinha esse mesmo feitio das mãos e dos pés, em verdade,

jeito de olhar, a cabeça e, por cima de tudo, os cabelos. 
Quando falava a respeito do grande Odisseu, não faz muito, 
a relembrar aflições e trabalhos, que tanto sofrera 
por minha causa, dos cílios corria-lhe pranto copioso, 
tendo, por isso, escondido no manto purpúreo a cabeça.” 
   Disse-lhe o filho do velho Nestor, em resposta. Pisístrato: 
Ó Menelau, de Atreu filho e discíp’lo de Zeus, chefe de homens! 
Este, realmente, é nascido daquele, conforme o disseste; 
mas é dotado de grande prudência; pois sente vergonha 
de, na primeira visita, aturdir-te com fúteis discursos,

pois tua voz nos ressoa qual fosse de um deus emanada. 
Por isso tudo, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos, 
quis que eu, também, o seguisse; ansiava bastante por ver-te, 
para pedir-te lhe desses auxílio, ou sequer uns conselhos. 
Sempre que ausente o pai se acha, padece trabalhos o filho 
na própria casa, por falta de algum defensor, que o proteja, 
tal como agora Telêmaco; ausente se encontra o pai dele, 
sem que no povo haja alguém que nos males de amparo lhe sirva.” 
   Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos: 
“Como! É, então, certo que a casa me veio de súbito o filho

do homem dileto que tantos trabalhos por mim tem sofrido? 
Sempre a mim mesmo propus de maneira especial distingui-lo, 
mais do que aos outros Argivos, se o Olímpico Zeus, de voz forte, 
nos concedesse voltar pelas ondas nas céleres naves. 
Destinar-lhe-ia uma bela cidade, das de Argos, com casa, 
de Ítaca, sim, transferindo-o com o filho, os haveres e o povo, 
pós haver feito evacuar uma só dentre as muitas cidades 
da redondeza, entre quantas o mando supremo me acatam. 
Perto dele estando, possível nos fora falar com frequência, 
nada pudera cindir nosso afeto e o prazer do convívio,

té quando a nuvem escura da Morte a nós dois envolvesse. 
Isso, talvez fosse causa da inveja da mesma deidade 
que a ele somente, o infeliz, do regresso privou à sua pátria.”¹ 
   Disse: invencível desejo de choro de todos se apossa. 
Helena de Argos, nascida de Zeus, a chorar se pôs logo; 
chora, também, Menelau, de Atreu filho, bem como Telêmaco; 
nem foi possível manter olhos limpos o moço Nestórida, 
pois evocou no seu ânimo o irrepreensível Antíloco, 
a quem o filho admirável da Aurora brilhante matara. 
Dele lembrando-se, diz as seguintes palavras aladas:

“Filho de Atreu, costumava Nestor, o ancião, elogiar-te 
quando falava de ti, como de homem sensato entre todos, 
em nossa casa, ao trocarmos ideias nos nossos colóquios. 
Caso te seja possível, atende-me agora: não gosto 
de ver tristezas à mesa; outra aurora, amanhã, matutina, 
nos será dada; não julgo possível jamais de censura 
quem se compraz em chorar por aqueles que as Moiras alcançam. 
Somente uma honra podemos prestar aos mortais infelizes: 
e essa é os cabelos cortarmos e o pranto deixarmos que corra. 
No que me toca, morreu-me um irmão, que não era o mais fraco

entre os Argivos; por certo que o sabes, porque conhecê-lo 
não me foi dado, nem vê-lo; mas dizem que os mais superava 
não só no rápido curso, também nos combates de perto.” 
   Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos: 
“Tuas palavras, ó caro, parecem-me de homem sensato, 
cujas ações ou discursos proviessem de idade provecta. 
Falas com tanta prudência, qual filho do pai que tiveste. 
A descendência de um homem é fácil de ser conhecida, 
quando o haja Zeus distinguido, ao nascer e na escolha da esposa 
como a ventura que teve Nestor no correr da existência,

continua página 704...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a /         
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

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[1] Esse trecho é um dos momentos mais delicados e humanos do Canto IV da Ilíada. Depois de toda a violência, Homero insere uma fala de Menelau que funciona quase como uma confissão íntima — e é surpreendente ver isso no meio de um poema tão marcado pela fúria e pelo bronze.
     Menelau fala sobre Odisseu — “o filho do homem dileto que tantos trabalhos por mim tem sofrido”. Ele está comovido ao ver Odisseu aproximar-se, e isso desencadeia uma reflexão sobre:
amizade,
lealdade,
promessas feitas antes da guerra,
o desejo de convivência após o retorno,
e a dor causada pela intervenção dos deuses.
     É um raro momento em que Menelau se mostra vulnerável, quase melancólico.
     O que Menelau revela aqui é gratidão profunda (ele reconhece que Odisseu sofreu “tantos trabalhos” por sua causa — referência direta ao fato de que Odisseu foi um dos principais articuladores da expedição a Troia, e também um dos mais ativos durante toda a guerra.), promessa de recompensa (Menelau diz que, se Zeus permitisse o retorno seguro, ele daria a Odisseu: uma cidade inteira em Argosuma casapovohaveres, e até transferiria Odisseu com sua família e bens. É uma promessa enorme, quase exagerada — e isso mostra o quanto Menelau valoriza Odisseu.), desejo de convivência (Menelau imagina os dois vivendo próximos, conversando sempre, até que “a nuvem escura da Morte” os envolvesse. É uma imagem de intimidade e amizade duradoura, rara na épica.), a intervenção dos deuses (Ele termina lamentando que talvez uma divindade tenha sentido inveja dessa proximidade e por isso tenha privado Odisseu do retorno. Aqui Homero antecipa o tema central da Odisseia: o retorno negado, adiado, dificultado pelos deuses.)
     Esse trecho funciona como uma ponte entre os dois grandes poemas:
- Na Ilíada, Odisseu é o estrategista, o diplomata, o homem da palavra.
- Aqui, Menelau já pressente que o destino dele será diferente — marcado pela ausência, pela demora, pela saudade.
     É como se Homero estivesse dizendo: “A história de Odisseu não termina aqui; ela é grande demais para caber na Ilíada.”
     Menelau, que costuma ser um personagem mais rígido, aqui se mostra:
- afetuoso,
- grato,
- imaginativo
- e até um pouco fatalista.
     Essa fala humaniza profundamente o herói.

Reunião Dançante... Garajão 7

Garajão 7

uma casa 
um sol nascente
como isso é humano
essa ruína
esse mistério
sem redenção da jogatina
a mãe e o blue jeans
o pai e o jogo
as consequências das escolhas
quando as coisas dão errado
o perfume que fica
a tentação
a traição
como isso é humano
o coração esfria
nada parece bem
e aparece a palavra
simples
mas separados
nenhum sacrifício
é preciso sair da prisão
das lágrimas
do ciúme
isso é tão humano
a mudança da luz do sol
quer a luz do luar
reflexos luminosos da vida
enchem nossos olhos
apesar da agitação das pessoas
da tristeza
quero voltar
para meu velho caminho
isso é tão humano
por favor, isso é tão humano
leve-me de volta
ah, esse garajão dançante



o ano é 1989


Elton John - Sacrifice




It's a human sign
When things go wrong
When the scent of her lingers
And temptation's strong
Into the boundary
Of each married man
Sweet deceit comes callin'
And negativity lands

Cold, cold heart
Hardened by you
Some things lookin' better, baby
Just passin' through
And it's no sacrifice
Just a simple word
It's two hearts living
In two separate worlds
But it's no sacrifice
No sacrifice
It's no sacrifice at all

Mutual misunderstanding
After the fact
Sensitivity builds a prison
In the final act
We lose direction
No stone unturned
No tears to damn you
When jealously burns

Cold, cold heart
Hardened by you
Some things lookin' better, baby
Just passin' through
And it's no sacrifice
Just a simple word
It's two hearts living
In two separate worlds
But it's no sacrifice
No sacrifice
It's no sacrifice at all

Cold, cold heart
Hardened by you
Some things lookin' better, baby
Just passin' through
And it's no sacrifice
Just a simple word
It's two hearts living
In two separate worlds
But it's no sacrifice
No sacrifice
It's no sacrifice at all

No sacrifice at all
No sacrifice at all

... escrita por John e Bernie Taupin


o ano é 1969

The Marmalade - Reflections of my life



The changing of sunlight to moonlight
Reflections of my life
Oh, how they fill my eyes

The greetings of people in trouble
Reflections of my life
Oh, how they fill my mind

All my sorrow, sad tomorrow
Take me back to my own home
All my crying (all my crying)
Feel I'm dying, dying
Take me back to my own home

I'm changing, arranging
I'm changing
I'm changing everything
Ah, everything around me

The world is a bad place
A bad place
A terrible place to live
Oh, but I don't wanna die

All my sorrow
Sad tomorrow
Take me back to my own home
All my crying (all my crying)
Feel I'm dying, dying
Take me back to my own home
(Oh I'm going home)

All my sorrow
Sad tomorrow
Take me back to my own home
All my crying (all my crying)
Feel I'm dying, dying
Take me back to my own home

scrita pelo guitarrista principal Junior Campbell e pelo vocalista Dean Ford (creditado ao seu nome de nascimento, Thomas McAleese)


o ano é 1964

The Animals - The House of the Rising Sun




There is a house in New Orleans
They call the Rising Sun
And it's been the ruin of many a poor boy
And God, I know I'm one

My mother was a tailor
She sewed my new blue jeans
My father was a gamblin' man
Down in New Orleans

Now the only thing a gambler needs
Is a suitcase and a trunk
And the only time he'll be satisfied
Is when he's all drunk

Oh, mother, tell your children
Not to do what I have done
Spend your lives in sin and misery
In the House of the Rising Sun

Well, I got one foot on the platform
The other foot on the train
I'm goin' back to New Orleans
To wear that ball and chain

Well, there is a house in New Orleans
They call the Rising Sun
And it's been the ruin of many a poor boy
And God, I know I'm one


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Garajão 01: Alone again / Ben / Soley Soley
Garajão 02: One Day In Your Life / Dance, Little Lady Dance / More Than A Woman
Garajão 03: Não se esqueça de mim / Os seus botões / Café da manhã
Garajão 04: Daddy Cool / Ma Baker / Sunny  
Garajão 05: Everything I Own / Born to be alive / Walk of life
Garajão 06: Never Be The Same / Arthur's Theme / Sailling
Garajão 07: Sacrifice / Reflections of my life / The House of the Rising Sun / 



O Mistério da Casa do Sol Nascente





Bob Dylan - House of the Risin' Sun




Ilíada: Homero (Canto IV.c - A quebra do juramento e revista de Agamémnone)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IV - A quebra do juramento e revista de Agamémnone
 
“Hera, na assembleia dos deuses, obtém de Zeus que a luta recomece entre Gregos e Troianos e que estes últimos paguem pela derrota de Páris. Atena desce à Terra e faz com que Pândaro, o Lício, desrespeite o juramento, acertando Menelau com uma flecha. Atena salva a vida de Menelau, que fica apenas ferido. As duas partes se preparam para a guerra e Agamémnone faz a revista de sua tropa, distribuindo elogios e reprovações. Começa uma batalha terrível, onde Ares e Apolo estão ao lado de Troia e Atena e outras divindades ao lado dos Gregos.”

continuando...

nas conjunturas da guerra, se bem que orador excelente.” 
   Nada lhe disse em resposta Diomedes, o forte guerreiro, 
mas suportou com respeito a censura do rei venerando. 
O filho, entanto, do herói Capaneu, lhe retruca o seguinte: 
   “Conscientemente, Agamémnone, torces os fatos verídicos. 
Temos orgulho de ser mais prestantes que os nossos maiores. 
De sete portas, foi Tebas por nós facilmente expugnada, 
com pouca gente, lançada de encontro às possantes muralhas, 
pois nos sinais dos eternos confiamos e em Zeus poderoso, 
ao passo que eles morreram por ímpios se terem mostrado.

Não queiras, pois, comparar à dos nossos avós nossa glória.”    
   Com os olhos fixos no chão o adverte o possante Diomedes: 
“Cala-te, Esténelo; fica quieto e obedece ao que digo. 
De forma alguma censuro Agamémnone, rei poderoso, 
por exortar para a luta os Aquivos de grevas bem-feitas. 
Dele será toda a glória se os fortes Acaios entrarem 
os muros de Ílio sagrada, vencendo os guerreiros Troianos; 
mas dele o opróbrio, também, se os Aquivos vencidos ficamos. 
Vamos, pensemos, agora, no ardor impetuoso da guerra.” 
   Ao dizer isso, do carro pulou, sem que as armas soltasse.

Tão rijamente soava no peito do herói a armadura, 
quando marchava, que até nos mais fortes pavor causaria. 
   Tal como quando na praia do mar ressoante se elevam 
ondas frequentes, movidas da força impetuosa de Zéfiro: 
primeiramente, a distância elas se alçam; depois, impetuosas, 
com grande estrondo se quebram na praia, encurvando-se à volta 
dos promontórios, e espuma salgada nas margens atiram: 
por esse modo esquadrões sucessivos os Dânaos moviam 
para os combates, sem pausa, guiados, cada um, por um chefe, 
que ordens transmite; os guerreiros, calados, os seguem; difícil

fora saberdes se aquilo era exército de homens em marcha, 
de voz dotado. Nenhum som se ouvia, que aos chefes temiam. 
Com o movimento da marcha refulge a armadura variada. 
Os picadeiros Troianos, da mesma maneira que ovelhas, 
balam, sem pausa, no estábulo de homens de muitos haveres, 
quando ordenhadas vão ser, ao ouvirem a voz dos cordeiros: 
por todo o exército de Ílio a chamada os guerreiros repetem. 
Não era idêntico o acento; a palavra, também, diferia; 
línguas diversas falavam, pois vinham de troncos variados. 
Estimulava a uns, Atena; a outros, Ares, o deus poderoso,

pelo Terror secundados, e a Fuga, e a Discórdia insaciável,
a companheira e irmã de Ares, que dele jamais se despega, 
e que, ao passar pela terra, mal se ergue, a princípio, do solo, 
indo, porém, logo após, entestar com o Céu estrelado. 
O Ódio semeava exicial pelo meio da turba guerreira, 
multiplicando, por onde passava, os gemidos dos homens. 
   Quando os inimigos exércitos vieram, num ponto, a encontrar-se, 
lanças e escudos se chocam, bem como a coragem dos homens 
com armaduras de bronze; broquéis abaulados se chocam 
uns contra os outros; estrépito enorme se eleva da pugna.

Dos vencedores os gritos de júbilo se ouvem e as queixas 
dos que tombavam vencidos; de sangue se encharca o chão duro. 
Como dois rios, oriundos de um grande degelo dos montes, 
numa bacia, somente, o volume das águas despejam, 
para reuni-las, depois, nas entranhas do côncavo abismo, 
de onde o barulho vai longe, ao pastor, que num monte se encontra: 
tal era a grita e o trabalho dos dois combatentes exércitos¹
   Foi o primeiro a prostrar a um dos Troas guerreiros Antíloco, 
que, na vanguarda, a Equepolo matou, de Talísio nascido. 
Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta,

que fez o crânio partir-se-lhe, entrando até o cérebro a ponta 
aênea da lança potente; cobriram-lhe as trevas os olhos. 
Como se efunde uma torre, tombou na batalha terrível. 
No mesmo instante o puxou pelos pés Elefénor, gerado 
por Calcodonte, magnânimo chefe dos fortes Abantes, 
para tirá-lo do alcance dos dardos, e, mais facilmente, 
o despojar da armadura; contudo, a intenção foi fugace, 
pois Agenor, de alma nobre, notou que, ao querer debruçar-se 
sobre o cadáver, o escudo um dos flancos deixara visível: 
fere-o com a ponta de bronze, solvendo-lhe a força dos joelhos.

A alma o deixou; em redor ainda mais se incrementa a batalha, 
entre os guerreiros Troianos e os fortes Aqueus; como lobos 
uns contra os outros se atiram, travando-se luta corpórea. 
   O grande Ajaz Telamônio feriu a Simoésio florente, 
o Antemiônio garboso, que a mãe deu à luz junto à margem 
do Simoente, num dia em que fora com os pais do monte Ida 
para ajudá-los no afã de vigiar os vistosos rebanhos. 
Daí lhe chamaram Simoésio: aos pais não lhe foi, pois, possível 
retribuir os cuidados na curta existência que teve, 
pois deveria cair sob a lança de Ajaz de alma grande.

Quando avançava na frente, o feriu junto ao seio direito 
o Telamônio, na espádua sair indo a lança de bronze. 
Ei-lo que tomba na poeira, tal como se abate um grande álamo, 
que se criara e crescera na beira de um lago espaçoso, 
de tronco liso, que em ramos inúmeros no alto se alarga. 
O carpinteiro, depois, a estes corta com ferro brilhante, 
para dobrá-los em rodas de um carro de bela feitura; 
o tronco, entanto, na margem do lago a secar é deixado: 
por esse modo despoja das armas ao filho de Antêmio, 
o Telamônio. Entrementes, um Teucro de bela armadura,

Ántifo, filho de Príamo, a lança ligeiro lhe atira, 
sem que o atingisse, no entanto, que a Leuco acertou na virilha, 
Leuco, do herói Odisseu companheiro, que a um morto arrastava: 
das mãos o solta, sobre ele caindo de braços abertos. 
Vendo sem vida tombar, assim, Leuco, Odisseu, indignado, 
corta através das primeiras fileiras, em bronze envolvido; 
para defronte do imigo, examina em redor, e desfere 
a lança aênea pontuda; abaixaram-se os homens Troianos 
ante o disparo do herói; mas frustrâneo não foi este golpe, 
pois atingiu um bastardo de Príamo, o herói Democoonte,

que, recém-vindo de Abido, deixara seus belos cavalos. 
Enraivecido Odisseu por motivo da morte do amigo, 
na fronte a lança lhe acerta, saindo-lhe a ponta de bronze 
no lado oposto da testa. Cobriram-lhe as trevas os olhos. 
Com grande estrondo caiu, ressoando-lhe em torno a armadura. 
Os combatentes da frente recuaram e Heitor esplendente. 
Grita os Argivos elevam; os mortos do campo retiram, 
e, denodados, avançam. Indigna-se Apolo frecheiro, 
que das alturas do Pérgamo olhava, e gritou aos Troianos: 
   “Ânimo, Teutros valentes; deveis enfrentar os Aquivos,

pois nenhum deles tem corpo de ferro ou de pedra, que nada 
possa ceder, ao tocar-lhes a fúria do bronze cortante. 
Não mais o filho de Tétis, Aquiles, com eles se encontra, 
sim, ruminando nas tendas a bile que o peito lhe amarga.” 
   Do alto dos muros, Apolo terrível procura inflamá-los; 
a Tritogênia, no entanto, as fileiras corria, incitando 
para o combate os Acaios que via indecisos ou fracos. 
Diores, o filho do herói Amaríncio, foi presa do Fado. 
No tornozelo da perna direita se viu atingido 
por uma pedra pontuda que o Imbrásida Píroo atirou-lhe,

chefe dos homens da Trácia, que de Eno chegara de pouco. 
Os tendões ambos e os ossos a pedra angulosa de todo 
esmigalhou; cai de costas na areia, e a vida ali deixa, 
quando ainda, súplice, os braços tentava soerguer para os sócios 
fiéis companheiros. Mas Píroo, que o tinha ferido, saltando, 
junto do umbigo lhe a lança enterrou; pelo solo derramam-se 
os intestinos; cobriram-lhe as trevas os olhos brilhantes. 
Mas, ao recuar, Píroo foi atacado por Toante da Etólia, 
junto ao seio, com fúria, indo o bronze o pulmão alcançar-lhe. 
Aproximando-se dele, o guerreiro da Etólia arrancou-lhe

do peito a lança; em seguida, sacando da espada cortante, 
fere-lhe o ventre, com o que, mais depressa, o privou da existência. 
Mas espoliá-lo não pôde que os sócios da Trácia, de tufos 
no alto do crânio, o cercaram, armados de lanças compridas, 
os quais, conquanto soberbo e de grande estatura ele fosse, 
o repeliram dali. Cede à força do número toante. 
Dessa maneira ficaram deitados na poeira os dois chefes, 
um, dos guerreiros Epeios de vestes de bronze; outro, Trácio. 
À volta de ambos inúmeros outros heróis pereceram.
   De forma alguma dissera tratar-se de feitos somenos 

quem, sem se ver atingido por golpes do bronze cortante, 
atravessasse a batalha levado por Palas Atena, 
que, pela mão segurando-o, o livrasse da fúria dos dardos, 
pois numerosos guerreiros Troianos e Acaios naquele 
dia se achavam sem vida na poeira, uns ao lado dos outros. 

continua página 149...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c /             
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica

Ilíada, de Homero - Canto IV




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[1] Esse trecho é um dos momentos mais potentes do Canto IV da Ilíada: a descrição da ruptura do tratado e do início efetivo da batalha campal. Homero aqui faz aquilo que sabe fazer melhor — transformar o caos da guerra em poesia de altíssima força imagética.
     Este é o instante em que os dois exércitos — Aqueus e Troianos — finalmente colidem após o rompimento do juramento.
lanças chocando-se,
escudos rangendo,
bronze contra bronze,
gritos de vitória,
gemidos dos que tombam,
sangue encharcando o solo.
     É a primeira grande batalha campal do poema, e Homero quer que o leitor sinta o impacto físico e sonoro desse encontro.
     Homero compara o choque dos exércitos ao encontro de dois rios de degelo que:
descem das montanhas,
despejam suas águas numa mesma bacia,
se unem num “côncavo abismo”,
e produzem um estrondo que ecoa até o pastor distante.
     Essa imagem amplifica a escala da batalha, desumaniza o conflito, cria distância poética
     Esse trecho marca a transição de uma guerra que ainda parecia ritualizada para uma guerra total, caótica, sangrenta. É o momento em que a Ilíada deixa de ser negociação e se torna tragédia.

Ilíada: Homero (Canto IV.b - A quebra do juramento e revista de Agamémnone)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IV - A quebra do juramento e revista de Agamémnone
 
“Hera, na assembleia dos deuses, obtém de Zeus que a luta recomece entre Gregos e Troianos e que estes últimos paguem pela derrota de Páris. Atena desce à Terra e faz com que Pândaro, o Lício, desrespeite o juramento, acertando Menelau com uma flecha. Atena salva a vida de Menelau, que fica apenas ferido. As duas partes se preparam para a guerra e Agamémnone faz a revista de sua tropa, distribuindo elogios e reprovações. Começa uma batalha terrível, onde Ares e Apolo estão ao lado de Troia e Atena e outras divindades ao lado dos Gregos.”

continuando...

dos esquadrões dos guerreiros Aquivos. De pé, finalmente, 
entre as fileiras, o vê, dos heróis que o haviam seguido, 
com seus escudos possantes, de Troia, nutriz de cavalos. 
Chega-se bem para perto e lhe diz as palavras aladas: 
   “Corre, Asclepíade! Chama-te o grande guerreiro Agamémnone, 
para que vejas o herói Menelau, chefe insigne de povos, 
que um dos archeiros de Troia, ou da Lícia, feriu com perícia, 
glória para ele, sem dúvida, mas, para nós, mágoa imensa.” 
   Essas palavras o peito abalaram do forte Macáone; 
sem perder tempo, atravessa as fileiras dos homens Aquivos.

Quando, afinal, alcançou o lugar onde estava o guerreiro 
filho de Atreu, vulnerado, cercado por todos os chefes, 
com divinal compostura avançou para o meio do círculo. 
A seta, então, sem demora, do cinto apertado retira, 
ainda que as farpas agudas, quando ele puxou, se virassem. 
A malha, após, retirou, a couraça de aspecto brilhante 
e o cinturão que o bronzista, com muita perícia, forjara. 
Pondo patente a ferida que o dardo amargoso fizera, 
chupa-lhe o sangue, cobrindo-a, depois, habilmente, com bálsamo, 
cujo segredo Quirão, por afeto, a seu pai ensinara.

Enquanto todos cuidavam do herói Menelau, de voz forte, 
rompem a marcha os guerreiros Troianos munidos de escudos. 
Os Aqueus todos às armas correram, lembrados da pugna. 
   Nessa ocasião não puderas tachar o divino Agamémnone 
de sonolento, ou covarde, ou propenso a evitar os combates, 
sim, pressuroso de entrar na batalha que aos homens dá glória. 
O carro, cheio de enfeites de bronze, deixou a de parte 
com seus fogosos corcéis, aos cuidados do auriga prudente, 
Eurimedonte, do herói Ptolomeu Piraída nascido. 
Dera-lhe o Atrida instruções de o seguir e o tomar, quando os membros

pelo cansaço, de tanto girar invadidos se vissem. 
A pé, entretanto, partiu, revistando as fileiras Aquivas. 
Quando encontrava guerreiros dispostos a entrar em combate, 
estimulava-lhes mais, ainda, o brio, desta arte, falando: 
   “Não afrouxeis, homens de Argos, jamais do valor impetuoso, 
que nunca Zeus poderoso se pôs dos perjuros ao lado! 
Sempre tem sido repasto de cães e de abutres as carnes 
tenras de quantos primeiro violaram os pactos firmados. 
Quando tivermos os muros entrado, haveremos de levar-lhes 
em nossas naves as caras esposas e os tenros filhinhos.”

Se descuidados os via, evitando a batalha funesta, 
os censurava com termos violentos, falando desta arte: 
   “Envergonhai-vos, Aqueus, que somente alardeais valentia! 
Qual a razão por que venho encontrar-vos atônitos como 
tímidas corças que param, cansadas, depois de correrem 
pela planície, sem terem no peito coragem de nada? 
Atarantados, assim, vos mostrais, sem entrar nos combates. 
Ou, porventura, aguardais que os Troianos as naves alcancem, 
largas, de boas cobertas, na praia do mar cor de cinza, 
para saberdes se Zeus se compraz em a mão estender-vos?”

Desse feito, corria as fileiras dos homens Acaios. 
Por entre a turba de heróis, foi bater nos Cretenses que à volta 
de Idomeneu se aprestavam, guerreiro de méritos grandes. 
Este se achava nas filas da frente, qual forte javardo; 
a estimular as fileiras de trás se encontrava Meríones. 
Vendo-os, o chefe de heróis, Agamémnone, fica exultante, 
e a Idomeneu, com palavras afáveis, contente saúda: 
   “Idomeneu, mais que aos outros Aqueus picadores te prezo, 
não só na guerra, também nos negócios à paz pertinentes 
e nos banquetes magníficos, quando os Aquivos mais nobres

o vinho rútilo bebem, mesclado nas grandes crateras. 
Todos os outros Aqueus, de ondulantes cabelos, recebem 
a sua parte somente; teu copo, porém, sempre se acha 
a transbordar, como o meu, porque possas beber à vontade. 
Vamos, confirma na luta o valor que de ter te orgulhavas.” 
   Idomeneu, chefe insigne dos homens de Creta, lhe disse: 
“Filho de Atreu, Agamémnone, fiel companheiro hei de ser-te, 
tal como sempre me viste e de acordo com o meu juramento. 
Trata, porém, de espertar os demais combatentes Aquivos, 
para que logo comece a batalha, uma vez que as sagradas

juras os Teucros violaram. A Morte a eles todos espera, 
por terem sido os primeiros a os pactos violar sacrossantos.” 
   O coração satisfeito, prossegue a revista Agamémnone, 
tendo alcançado os Ajazes, depois de cortar pela turba. 
Ambos se armavam, seguidos por nuvem de peões belicosos. 
Tal como quando o pastor, num penedo postado, divisa 
nuvem que avança do mar, pelo sopro tocada de Zéfiro, 
que se lhe antolha, daquela distância, que o pez mais escura, 
quando se adianta no mar, conduzindo violenta procela, 
e apavorado recolhe e uma gruta o dileto rebanho:

do mesmo modo os dois fortes Ajazes, de Zeus descendentes, 
densas e escuras colunas de heróis para a guerra levavam, 
todos num grupo eriçado de lanças e fortes escudos. 
Vendo-os, o chefe de heróis, Agamémnone, fica exultante; 
e aproximando-se de ambos, palavras aladas lhes fala: 
   “Vós, ó notáveis Ajazes, mentores dos fortes Aquivos, 
necessidade não vejo de vos excitar ou dar ordens, 
pois bem sabeis ser exemplo e inflamar vossos fiéis companheiros. 
Fosse do gosto de Zeus, e de Palas Atena, e de Apolo, 
que pensamentos como esses em todos os peitos se achassem!

Em pouco tempo cairia a cidade potente de Príamo, 
por nossos braços vencida e por nós abrasada e saqueada.” 
   Deixa-os, depois de os saudar, e para outras fileiras prossegue, 
onde o eloquente Nestor encontrou, da cidade de Pilo, 
que seus guerreiros em ordem dispunha e a lutar incitava. 
Hémone, Crômio, o viril Pelagonte e o fortíssimo Biante 
nessa tarefa o ajudavam, bem como o admirável Alastor. 
Os cavaleiros dispunha, e os cavalos e os carros, na frente, 
e a infantaria na parte de trás, numerosa e escolhida, 
para servir de baluarte; os mais fracos no meio coloca,

que, a seu mau grado, se vissem forçados a entrar na batalha. 
Aos que combatem de carro, primeiro instruções transmitia, 
para os cavalos susterem, não fossem correr as fileiras: 
   “Não queira alguém, por confiar na perícia e na própria coragem, 
só, das fileiras distantes, lutar contra os homens de Troia; 
que não recue ninguém; facilmente seríeis vencidos. 
Uso só faça da lança o guerreiro que o carro do imigo 
perto do seu observar, que há de ser muito mais vantajoso. 
Nossos maiores puderam entrar em cidades e muros 
por terem sempre adotado essa norma, ardorosos, na luta.”

Tira da antiga experiência o saber com que inflama os seus homens. 
Vendo-o, exultante se mostra Agamémnone, rei poderoso, 
e, aproximando-se dele, lhe diz as palavras aladas: 
   “Se conservasses, ó velho, nos membros a antiga energia 
e a agilidade dos joelhos, tal como a coragem conservas! 
Mas a velhice, que a todos oprime, em ti pesa. Quem dera 
que se passasse para outro, deixando-te moço de novo!” 
   Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
“Eu próprio, ó filho de Atreu, desejara de novo encontrar-me 
com o vigor daquela época, quando privei da existência a 

Ereutalião. Mas os deuses nem tudo aos humanos concedem. 
Era, então, moço; mas ora a velhice nos ombros me pesa. 
Apesar disso, estarei sempre junto dos meus cavaleiros 
com minhas ordens e alvitres, que é sempre este o ofício dos velhos. 
Como lanceiros, disponho os mais moços, do que eu bem mais ágeis 
e que nos prélios revelam confiança na própria coragem.” 
   O coração satisfeito, prossegue a revista Agamémnone. 
O picador Menesteu foi achar, de Peteu descendente, 
sempre de pé, tendo à volta os guerreiros famosos de Atenas. 
Perto se achava, também, Odisseu, o guerreiro solerte,

pelas fileiras cercado dos fortes heróis Cefalênios. 
Todos estavam parados; nenhum o sinal percebera, 
pois as falanges dos Teucros e Aquivos somente de pouco 
tinham o avanço iniciado, que a pugna encetasse. Esperavam, 
por consequência, que uma outra coluna dos seus avançasse 
contra os guerreiros de Troia, porque se iniciasse a peleja. 
Vendo-os, com termos violentos censura-os o Atrida Agamémnone, 
e, aproximando-se deles, palavras aladas profere: 
   “Ó filho insigne do forte Peteu, por Zeus grande nutrido, 
e tu, também, caviloso e entendido em toda arte de embustes

por que ficais a de parte, esperando que o exemplo vos deem? 
O lugar que a ambos compete é na frente das filas Acaias, 
no mais aceso da pugna; ali, sim, é que estar deveríeis. 
Quando há banquete, sois vós os primeiros a ouvir meu convite, 
sempre que festa os Aqueus para os nossos anciões preparamos. 
Tendes prazer em comer nessas festas opimos assados 
e de esvaziar vossos copos repletos de vinho gostoso, 
e ora ficais esperando que dez esquadrões dos Aquivos 
vos antecedam com o bronze cruel para a luta encetarem?” 
   Com torvo aspecto lhe disse, em resposta, Odisseu, o seguinte:

“Filho de Atreu, que palavras do encerro da boca soltaste? 
Por que disseste que somos remissos? Por quê? Poderias, 
sempre que os homens Aqueus a Ares forte nos Troas espertam, 
ver, caso o queiras, é claro, e se algum interesse achas nisso, 
como ante as hostes Troianas o pai de Telêmaco avança 
entre os primeiros. Carecem de senso teus ditos sarcásticos.” 
   Logo que o Atrida notou que se tinha com ele agastado, 
rindo-se a ofensa desfez, com dizer-lhe, em resposta, o seguinte: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu, engenhoso, 
não pretendia ofender-te, ou, sequer, ministrar-te conselhos,

pois reconheço que abrigas no peito, por tudo que é nosso, 
só sentimentos benévolos; temos iguais pensamentos. 
Vamos! se alguma palavra mais áspera, acaso, te disse, 
resolveremos depois; que os eternos aos ventos a entreguem.” 
   Deixa-o, depois de falar, e para outras fileiras prossegue. 
O valoroso Diomedes achou, de Tideu descendente, 
de pé, no sólido carro puxado por lindos ginetes, 
os quais Esténelo, o filho do herói Capaneu, refreava. 
Vendo-o, com termos violentos censura-o o Atrida Agamémnone, 
e, aproximando-se dele, palavras aladas profere:

“Filho do grande Tideu domador de cavalos, que espias? 
Por que motivo examinas, desta arte os caminhos franqueáveis? 
Não costumava Tideu trepidar, por maneira nenhuma; 
sim, motivo adiante de seus companheiros, o inimigo enfrentava. 
É o que me dizem os homens que o viram lutar; que eu, de fato, 
nunca ante os olhos o tive; era sempre entre os seus o primeiro. 
De certa vez — como amigo, porém — em Micenas esteve 
com Polinice divino, com o fim de reunir companheiros, 
pois nesse tempo cercavam os muros sagrados de Tebas. 
Muito insistiram porque lhe arranjassem prestantes aliados.

Os de Micenas queriam o auxílio impetrado ceder-lhe; 
mas com funestros presságios faz Zeus que mudassem de intento. 
Ao retornarem, porém, perfazendo o caminho de volta, 
quando alcançaram o Asopo de juncos e prados ervosos, 
de embaixador foi mandado Tideu pelos homens de Acaia. 
Obedeceu-lhes Tideu, tendo achado Cadmeios inúmeros 
dentro da casa de Etéocles forte, num lauto banquete. 
Ainda que fosse estrangeiro no meio de tantos Cadmeios, 
o domador de cavalos, Tideu, não ficou perturbado, 
sim, desafiando-os, a todos venceu em diversos torneios

mui facilmente, que Atena o amparava por modo eficiente. 
Os picadeiros Cadmeios ficaram, com isso, indignados, 
e cinquenta homens, quando ele voltava, em cilada puseram, 
num grupo só, comandados por dois distinguidos guerreiros, 
Méone, de Hémone filho, no porte semelho a um dos deuses, 
e Polifonte Autofônio, de nome entre os seus, excelente. 
Ignominioso destino, contudo, Tideu soube dar-lhes; 
a todos eles matou, consentindo que Méone, apenas, 
vivo pudesse voltar, acatando sinais dos eternos¹
Tal foi o Etólio Tideu; mas a um filho gerou bem somenos

continua página 143...
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Esse trecho é outro episódio fascinante da Ilíada, e ele funciona quase como uma “mini‑epopeia dentro da epopeia”: um relato condensado da juventude de Tideu, pai de Diomedes, que serve para explicar por que Atena protege tanto o herói no Canto V. Aqui vai uma leitura estruturada e profunda do que está acontecendo.
     O episódio: a missão de Tideu e a emboscada dos Cadmeus
- O contexto da missão:
Os Aqueus enviam Tideu como embaixador aos Cadmeus (os habitantes de Tebas). É importante notar: Tideu não vai como guerreiro, mas como diplomata — e mesmo assim, sua natureza heroica transborda.
- A recepção hostil:
Ele encontra os Cadmeus banqueteando na casa de Etéocles, e apesar de estar sozinho, estrangeiro e cercado por muitos, não se intimida. Homero sublinha isso com a expressão “não ficou perturbado”: Tideu é o tipo de herói que não conhece medo.
- Os desafios e a vitória:
Os Cadmeus o submetem a provas e torneios, talvez para humilhá-lo ou testar sua força. Tideu vence todos facilmente, e Homero deixa claro o motivo: Atena o amparava.
Esse detalhe é crucial. A deusa já o favorecia antes de favorecer Diomedes — é uma espécie de herança divina.
- A emboscada dos cinquenta guerreiros:
Humilhados, os Cadmeus armam uma cilada com cinquenta homens, liderados por dois guerreiros de destaque:
Méone, filho de Hémone, “semelho a um dos deuses”
Polifonte, filho de Autofônio
É uma tentativa de assassinato, não de duelo.
- A carnificina heroica:
Tideu, sozinho, mata todos os cinquenta, exceto Méone.
A sobrevivência de Méone não é por misericórdia humana, mas por ordem dos deuses — Homero reforça que Tideu age em consonância com o destino.
     Esse trecho é uma digressão narrativa
Agamémnon está elogiando Diomedes no Canto IV, e para engrandecer o filho, evoca a glória do pai.
     Homero faz isso o tempo todo:
A genealogia legitima o valor do herói.
O passado ilumina o presente.
A memória dos feitos antigos reforça a identidade guerreira.
     Tideu é apresentado como um modelo de coragem extrema, quase selvagem — e isso prepara o leitor para entender a ferocidade de Diomedes no Canto V, quando ele se torna o mais devastador dos Aqueus.
     Significado literário e temático:
     A figura do herói solitário (Tideu é o arquétipo do guerreiro que enfrenta multidões sozinho — um tema recorrente na épica.)
     - A intervenção divina (Atena o protege, e isso cria uma linha direta entre Tideu → Diomedes → a própria deusa.)
     - A honra e a humilhação (A vitória de Tideu nos torneios desperta a ira dos Cadmeus, mostrando como a honra masculina na épica é frágil e explosiva.)
     - A violência como destino (A sobrevivência de Méone por ordem dos deuses indica que até a violência tem limites impostos pelo destino.)

Ilíada: Homero (Canto IV.a - A quebra do juramento e revista de Agamémnone)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IV - A quebra do juramento e revista de Agamémnone
 
“Hera, na assembleia dos deuses, obtém de Zeus que a luta recomece entre Gregos e Troianos e que estes últimos paguem pela derrota de Páris. Atena desce à Terra e faz com que Pândaro, o Lício, desrespeite o juramento, acertando Menelau com uma flecha. Atena salva a vida de Menelau, que fica apenas ferido. As duas partes se preparam para a guerra e Agamémnone faz a revista de sua tropa, distribuindo elogios e reprovações. Começa uma batalha terrível, onde Ares e Apolo estão ao lado de Troia e Atena e outras divindades ao lado dos Gregos.”



   Junto de Zeus, entretanto, se achavam reunidos os deuses, 
no soalho de ouro sentados. De néctar enchia Hebe augusta 
os copos de ouro maciço, que todos recebem, trocando 
brindes corteses, enquanto a cidade de Troia admiravam. 
A Hera, de súbito, o filho potente de Crono provoca, 
com frase irônica, que pronunciou sem para ela virar-se: 
   “Ao louro filho de Atreu, Menelau, duas deusas amparam, 
Hera, que em Argos cultuam, e Atena, a auxiliar poderosa. 
Ambas, no entanto, a de parte ficaram, prazer encontrando

só no espetác’lo da luta. A Alexandre a risonha Afrodite 
não abandona jamais, protegendo-o da lívida Morte, 
tal como o fez nesse instante, ao julgar-se ele próprio perdido. 
Mas é evidente que o herói Menelau alcançou a vitória. 
Ora é mister refletir de que modo fazer precisamos: 
se novamente devemos a guerra e as contendas funestas 
encarniçar, ou se é bem que a amizade entre os povos impere. 
Caso aceitemos esse último alvitre, por justo e exequível, 
bem, continue povoada a cidade elevada de Príamo 
e volte Helena ao poder do discípulo de Ares potente.”

A essas palavras as deusas morderam os lábios com força. 
Juntas se achavam, planejando a extinção dos guerreiros Troianos! 
Palas Atena calada ficou, sem dizer coisa alguma, 
ainda que contra Zeus pai transbordasse de raiva selvagem. 
Hera, porém, explodiu sem corte o rancor do imo peito: 
   “Zeus prepotente, nascido de Crono, que coisa disseste? 
Vãs, por acaso, desejas que fiquem, sem fruto de todo, 
minhas fadigas e o suor derramado? Estafei meus cavalos 
para reunir muitos povos que a Príamo e os filhos punissem. 
Seja, se o queres; conquanto nós outras jamais te aprovemos.”

Disse-lhe Zeus, indignado, que as nuvens no Olimpo cumula: 
“Deusa implacável, que ofensa tão grave de Príamo e os filhos 
te compungiu, para, assim, te afanares, com tanta insistência, 
em destruir a cidade de Troia, de bela feitura? 
Se conseguisses entrar a cidade potente e suas portas, 
e, vivo, Príamo e os filhos e os outros Troianos comesses, 
provavelmente acalmaras a fúria que o peito te abrasa. 
Faze conforme o desejas; não seja esta rixa motivo 
de originar-se entre nós, em futuro, discórdia insanável. 
Ora outra coisa te quero dizer; guarda-a bem no imo peito:

caso me ocorra o desejo, em qualquer ocasião, de algum burgo 
vir a destruir, habitado por homens, que a ti sejam caros, 
deixa-me agir livremente, não quero que venhas obstar-me, 
que esta consinto destruas bem contra o que eu próprio quisera. 
Entre as cidades que os homens nascidos da terra construíram 
sob a luz viva do Sol e as estrelas do Céu, refulgentes, 
nenhuma tanto prezava como Ílio de muros sagrados, 
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro. 
Em meus altares jamais sacrifícios condignos faltaram, 
nem libações, nem perfumes, as honras, em suma, devidas.”

Hera, a magnífica, de olhos bovinos, lhe disse, em resposta: 
“Três prediletas cidades, meu peito, realmente, distingue: 
Argos, Esparta e Micenas, construída com ruas muito amplas. 
Todas destrói, quando odiosas, enfim, para ti se tornarem, 
que não pretendo a isso opor-me, ou pedir-te, sequer, que o não faças. 
Pois se, realmente, tentasse evitar que destruídas ficassem, 
nada obteria, pois muito mais que eu és dotado de força. 
Os meus trabalhos, contudo, não devem ficar infrutuosos. 
Sou, também, deusa imortal e a ascendência que tens também tenho, 
filha mais velha de Crono, deidade de mente tortuosa.

Sim, não somente por esse motivo; também por chamar-me 
tua consorte e imperares em todos os deuses eternos. 
Reciprocar concessões é, por isso, dever de nós ambos: 
cedo-te um pouco; outro pouco me cede, que o exemplo, sem dúvida, 
hão de os demais imitar. Ora cumpre que Atena despaches 
para a terrível batalha dos homens Aqueus e Troianos, 
porque os Troianos primeiro aos Aqueus exultantes ofendam, 
com se tornarem perjuros, quebrando a aliança firmada.” 
   O pai dos homens e deuses de pronto aceitou esse alvitre 
e, para Atena voltado, lhe disse as palavras aladas:

“Baixa, sem perda de tempo, às fileiras dos Teucros e Aquivos, 
porque os Troianos primeiro aos Aqueus exultantes ofendam, 
em se tornarem perjuros, quebrando a aliança firmada.” 
   Essas palavras a Atena ainda mais excitada deixaram; 
célere baixa, passando por cima dos cumes do Olimpo. 
Tal como estrela cadente, que o filho de Crono astucioso 
manda, em sinal, para os nautas e os homens no campo da luta, 
cheia de vivo esplendor, desferindo faúlhas inúmeras: 
Palas Atena, da mesma maneira, baixou para a Terra, 
em meio ao campo caindo. Tomados de espanto ficaram

os picadeiros Troianos e Aquivos de grevas bem-feitas. 
Uns para os outros palavras aladas, então, pronunciaram: 
   “Ou vai haver, novamente, contendas funestas e guerra, 
ou vai fazer Zeus potente que a paz entre todos impere, 
ele que é o árbitro sumo das lutas sangrentas dos homens.” 
   Os Aqueus todos e os homens Troianos, desta arte, falavam. 
Palas Atena, entretanto, nas filas dos Teucros penetra, 
sob a figura do forte lanceiro Antenórida, Laódoco, 
com a intenção de achar Pândaro, o Lício, de formas divinas. 
Foi encontrar, em verdade, de pé, o notável guerreiro,

filho do forte Licáone, junto das filas dos Lícios, 
que, com escudos possantes, das margens do Esepo o seguiram. 
Chega-se bem para perto e lhe diz as palavras aladas: 
   “Pândaro, herói prudentíssimo, queres ouvir-me um conselho? 
Atrever-te-ás, porventura, a atirar uma seta ligeira 
em Menelau? Glória excelsa obterás e o favor dos Troianos, 
mas, sobretudo, do Príncipe Páris, o divo Alexandre. 
Dele, em primeiro lugar, obtiveras magníficos brindes, 
se visse o filho de Atreu, Menelau, de Ares forte discípulo, 
por tua seta domado, subir para a triste fogueira.

Vamos! dispara uma seta no herói Menelau valoroso, 
e a Febo Apolo, o notável archeiro nascido na Lícia, 
uma hecatombe promete de ovelhas de menos de um ano, 
quando estiveres de novo nos muros sagrados de Zélia.” 
   Essas palavras de Atena suadiram o néscio guerreiro. 
Sem mais demora o arco forte tomou, preparado dos chifres 
de um cervo agreste e impetuoso, por ele apanhado em tocaia, 
quando o ferira no esterno, ao pular de um rochedo para outro. 
O coração traspassado, da pedra caiu, ressupino. 
Dezesseis palmos haviam os chifres na fronte crescido,

os quais, um no outro, com muita perícia ajustou o torneiro, 
para, depois, o lavrar e lhe apor o anel de ouro num lado. 
O arco, com muito cuidado, no solo depôs o guerreiro, 
para entesá-lo; os consócios, na frente os escudos puseram, 
com a intenção de evitar que os valentes Aqueus o assaltassem 
antes de ser Menelau atingido, o discípulo de Ares. 
Tira, depois, do carcás, pós o haver destapado, uma seta 
nova e provida de pena, fautora de dores atrozes. 
Sem mais demora esse dardo amargoso na corda ele adapta 
e a Febo Apolo, o notável archeiro nascido na Lícia,

uma hecatombe promete de ovelhas de menos de um ano, 
quando de novo se achasse nos muros sagrados de Zélia. 
Puxa a um só tempo da corda e da parte chanfrada da seta; 
no peito a corda encostou, no arco a ponta aguçada do ferro. 
Quando o grande arco adquiriu o feitio de um círculo grande, 
forte vibrou; zune a corda possante, a silvar disparando 
a flecha aguda, sedenta de voar para a turba inimiga. 
   Não se esqueceram de ti, Menelau, os eternos e beatos 
deuses, mormente a donzela de Zeus, a imortal predadora, 
que, pressurosa, de ti pôde a seta desviar aguçada.

Frustra-lhe a mira, de fato, tal como procede afetuosa 
mãe afastando uma mosca do filho que dorme tranquilo, 
e para o ponto a dirige em que as áureas fivelas do cinto 
se superpõem, formando, desta arte, uma dupla couraça. 
No cinto bem-ajustado encravou-se-lhe o dardo amargoso, 
atravessando, no impulso em que vinha, sua bela textura, 
bem como a forte couraça, trabalho de fino remate. 
A própria malha, que o rei costumava trazer sobre o corpo 
como anteparo, por certo, eficaz, foi, também, transpassada; 
mas a epiderme somente esflorada ficou pelo dardo,

ainda que o sangue corresse, anegrado, do corte, então, feito. 
Como se dá quando serva da Meônia, ou da Cária, de púrpura 
tinge o marfim, que vai pôr, como enfeite, nas cambas de um freio, 
que deixa exposto na sala a acender a cobiça de muitos 
equitadores — a um rei, entretanto, é que está destinado, 
para adornar-lhe o cavalo e acender o entusiasmo do auriga: 
desta maneira as tuas coxas, ó herói Menelau, se tingiram 
de vivo sangue, que às pernas desceu, e depois aos maléolos. 
Treme de susto Agamémnone, rei de infinitos guerreiros, 
ao ver o sangue de cor anegrada escorrer da ferida;

treme, também, Menelau, o discípulo de Ares potente. 
Ao perceber, entretanto, que as farpas e o nervo que liga 
o ferro à vara visíveis estavam, cobrou novo alento. 
Entre sentido clamor dos presentes, o herói Agamémnone 
a Menelau pela mão segurou, suspirando, e lhe disse: 
   “À Morte, assim, caro irmão, minhas juras te haviam sagrado, 
ao aceitares a luta, por nós, contra os homens de Troia? 
Foste por eles ferido, que, assim, as alianças violaram. 
Vãs, entretanto, essas juras não foram, o sangue das vítimas, 
as libações e os apertos de mão que, confiados, trocamos.

Ainda que o filho de Crono se abstenha de, agora, puni-los, 
há de lhes dar o castigo adequado, mais tarde acrescido, 
pois vai custar-lhes a vida e a das próprias esposas e filhos. 
O coração claramente o diz e a razão o confirma: 
há, sim, de o dia chegar de caírem os muros de Troia, 
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro. 
Zeus poderoso, que no éter demora, nascido de Cronos 
a égide fosca há de, certo, agitar lá de cima contra eles, 
vendo a traição cometida; cumprido há de ser isso tudo. 
Mas grande dor, Menelau, por tua causa, meu peito angustiara,

caso o Destino fatal te atingisse, entregando-te à Morte. 
A Argos sequiosa voltara coberto de eterna vergonha, 
pois aos Aqueus ocorrera, de pronto, tornar para a pátria, 
abandonando, aos Troianos e a Príamo, Helena, motivo 
certo de toda esta guerra; teus ossos, nos campos de Troia, 
hão de esfazer-se, sem teres levado até o fim essa empresa. 
Há de dizer, porventura, algum Teucro de mente soberba, 
a espezinhar, insultuoso, do herói Menelau o sepulcro: 
‘Possa Agamémnone, em todos sempre a ira saciar deste modo, 
como ao trazer para aqui seu inútil exército Aquivo,

para, depois, ser forçado a voltar para a terra da pátria 
com suas naves vazias, privado do irmão valoroso!’ 
Que a terra vasta me suma bem antes de assim se jactarem.” 
   O louro herói Menelau tranquiliza-o, falando desta arte: 
“Ânimo, irmão! Não consternes, sem causa, os guerreiros Aquivos. 
A seta, agora, não deu em lugar perigoso, porque antes 
foi pela malha detida, a couraça de aspecto brilhante 
e o cinturão, que o bronzista forjou com bastante perícia.” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Agamémnone, rei poderoso: 
“Ó Menelau, caro irmão, oxalá seja tudo assim mesmo!

Que venha um médico, logo, explorar a ferida e cobri-la 
com salutíferas drogas, que possam da dor libertar-te.” 
   Vira-se, então, para o arauto divino, Taltíbio, e lhe fala: 
“Corre, Taltíbio, e nos traze, sem perda de tempo, Macáone, 
médico irrepreensível, o filho notável de Asclépio, 
para que o filho de Atreu, Menelau valoroso, examine, 
que um dos archeiros de Troia, ou da Lícia, feriu, com perícia, 
glória para ele, sem dúvida, mas, para nós, mágoa imensa.”¹ 
   Obedeceu-lhe Taltíbio, sem perda de tempo, ao mandado, 
pondo-se, logo, à procura do forte Macáone, em meio

continua página 137...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b /            
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] O que está acontecendo:
Menelau é ferido, mas a flecha não o atinge mortalmente porque é detida pela armadura — a couraça, o cinturão e as malhas metálicas.
Agamémnon, seu irmão e comandante dos Aqueus, fica profundamente preocupado e teme que o ferimento seja grave.
Menelau tenta tranquilizar Agamémnon, dizendo que não é tão sério.
Mesmo assim, Agamémnon ordena que chamem Macáon, filho de Asclépio, o médico mais habilidoso entre os gregos.
O arauto Taltíbio é enviado imediatamente para buscá-lo.
     Por que Macáon é chamado:
Ele é médico divino, descendente direto de Asclépio, o deus da medicina.
Sua presença simboliza que, na guerra, a cura é tão importante quanto a força.
A preocupação de Agamémnon mostra o valor político e emocional de Menelau: perder o marido de Helena seria um golpe moral enorme para os Aqueus.
     Esse episódio reforça alguns temas centrais da Ilíada:
A vulnerabilidade dos heróis: mesmo os mais fortes dependem de armaduras, médicos e da sorte.
A importância da fraternidade: Agamémnon demonstra afeto e preocupação genuína por Menelau.
A tensão entre glória e sofrimento: o arqueiro troiano ganha “glória”, mas os Aqueus ganham “mágoa imensa”.
     A cena é construída com muito cuidado por Homero:
Primeiro, o impacto da flecha.
Depois, o alívio ao perceber que não foi fatal.
Por fim, a mobilização imediata de líderes e especialistas.
     É quase um pequeno drama médico dentro do épico guerreiro.