terça-feira, 28 de abril de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (II.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

II
 continuando...

     Ela respondeu com um aceno de cabeça. Muitas vezes os homens se juntavam a uma mulher só para usá-la, não se importando com a felicidade dela. Suas lágrimas começaram a correr mais quentes, desesperava-se ao pensar que poderia estar levando uma vida agradável, se fosse outro o companheiro, um rapaz que gostasse de envolvê-la assim, pela cintura. Um outro? E a imagem desse outro foi surgindo da sua enorme emoção. Mas agora já era tarde, seu único desejo era viver até o fim com este, desde que não a maltratasse muito.

— Então — disse ela —, tenta ser assim de vez em quando... Os soluços não a deixavam continuar e ele beijou-a novamente. 
— Bobinha! Está bem, eu juro que serei delicado. Até parece que sou pior do que os outros...

     Olhando-o, ela começou a sorrir entre as lágrimas. Talvez ele tivesse razão, quase não há mulheres felizes. Embora não levando muito a sério o juramento dele, entregou-se à alegria de vê-lo tão solícito. Bom Deus! se ao menos aquilo durasse! Com novo ânimo, estreitaram-se num longo abraço, mas, ouvindo passos, puseram-se em pé. Três companheiros, que os tinham visto passar, vinham saber o que era.
     Continuaram o caminho todos juntos. Eram quase dez horas e resolveram almoçar num canto arejado, antes de voltarem a suar no fundo do veio. Quando estavam acabando de comer o sanduíche duplo e iam beber um gole de café, ouviram um barulho que vinha de longe, das outras seções da mina, e que fez que apurassem o ouvido. Que seria? Outro acidente? Levantaram-se e correram. Britadores, operadoras de vagonetes e aprendizes cruzavam-se a cada instante, mas ninguém sabia de nada, todos gritavam, devia ser uma grande desgraça. Pouco a pouco a mina inteira estava assustada, sombras enlouquecidas desembocavam das galerias, as lanternas balançavam desaparecendo nas trevas. Onde era? Por que não diziam nada?
     De repente um contramestre passou gritando: 

— Estão cortando os cabos! Estão cortando os cabos!

     Esse grito espalhou o pânico. Houve uma correria furiosa através das vias escuras. Ninguém sabia o que pensar. Por que cortavam os cabos? E quem os cortava, havendo homens no fundo da mina? Aquilo parecia uma monstruosidade.
     Nesse momento a voz de outro contramestre ressoou e perdeu-se no emaranhado de galerias: 

— É o pessoal de Montsou que está cortando os cabos! Saiam todos!

     Ao compreender o que estava acontecendo, Chaval fez Catherine parar. A ideia de que ia encontrar os grevistas de Montsou fez que sentisse as pernas bambas. Então essa corja que ele acreditava já nas mãos dos policiais tinha vindo! Por um momento pensou em voltar e subir pela Gaston-Marie, mas aquela saída tinha sido fechada. Praguejou, hesitante, ocultando o medo, repetindo que não havia razão para correr, que ninguém ia deixá-los fechados no fundo da mina.
     Ouviu-se novamente a voz do contramestre que se aproximava: 

— Saiam imediatamente! Usem as escadas! As escadas! Chaval foi arrastado como os demais companheiros; começou a empurrar Catherine, acusando-a de não correr o bastante. Será que ela estava querendo que ficassem encurralados ali, morrendo de fome? Os bandidos de Montsou eram capazes de quebrar as escadas, sem esperar que todos tivessem saído. Esta suposição pavorosa acabou de semear o pânico. Foi um salve-se quem puder ao longo das galerias, todos tentando chegar em primeiro lugar, frenéticos, enlouquecidos. Alguns gritavam que as escadas tinham sido quebradas, que ninguém sairia mais. Quando os grupos em pânico começaram a desembocar no patamar do poço, foi um verdadeiro atropelo: correram para o buraco negro e começaram a esmagar-se na porta estreita que dava acesso às escadas. Enquanto isto, um velho cavalariço que prudentemente recolhia os cavalos para a estrebaria observava-os com desdenhosa negligência, acostumado com as noites passadas na mina, certo de que acabaria sendo retirado dali. 
— Com mil raios! sobe na minha frente! — disse Chaval a Catherine. — Se caíres, pelo menos posso aparar-te.

     Atordoada, exausta devido à corrida de três quilômetros que a deixara novamente alagada em suor, ela abandonava-se, sem compreender, aos redemoinhos daquele mar humano. Ele, então, puxou-a pelo braço com tal violência, que quase o quebrou. A moça soltou um gemido e as lágrimas começaram a correr; ele já esquecera o juramento, nunca seriam felizes. 

— Vamos, passa! — berrou o homem.

     Catherine estava transida de medo. Se subisse na frente dele. seria maltratada todo o tempo, por isso resistia, enquanto o fluxo desvairado dos companheiros os empurrava para o lado. As infiltrações do poço pingavam em gotas enormes e o soalho da embocadura na galeria, abalado pelo tropel, tremia por cima do fosso, do desaguadouro lodoso, com dez metros de profundidade. Fora justamente na Jean-Bart, dois anos antes, que um terrível acidente, a ruptura de um cabo, precipitara o elevador no fundo do fosso, onde dois homens morreram. E todos pensavam nisso, que iam cair lá embaixo, se se amontoassem sobre as pranchas. 

— Maldita cabeçuda! — gritou Chaval. — Pois então morre, ficarei livre de ti!

     Começou a subir as escadas e ela seguiu-o.
     Do fundo à superfície, havia cento e dois lances de escadas, cada um de aproximadamente sete metros, divididos por estreitos patamares da largura do fosso, com buracos quadrados que mal deixavam passar os ombros. Era como uma chaminé chata, de setecentos metros de altura, entre a parede do poço e o tabique do compartimento de extração, uma tripa úmida, negra e sem fim, onde as escadas se sobrepunham, quase a pique, a intervalos regulares. Um homem forte precisava de vinte e cinco minutos para galgar aquela coluna gigante. Aliás, esse fosso das escadas só era usado agora em caso de catástrofe.
     A princípio Catherine subiu sem dificuldade. Seus pés descalços estavam acostumados com as lascas de carvão afiladas das vias e não sofriam com os degraus quadrados, providos de uma cantoneira de ferro para impedir o desgaste. Suas mãos, calejadas pelos vagonetes, agarravam se sem titubear aos corrimões, grossos demais para elas. Ocupava-se com aquilo, esquecia seu desgosto naquela subida imprevista, vendo a serpente humana que coleava, içava-se, três homens por escada, de modo que, quando a cabeça surgisse na superfície, a cauda ainda se arrastaria no fundo do fosso. Mas ainda não estavam nesse ponto, os primeiros deviam ter vencido apenas um terço do caminho. Ninguém falava mais, só os pés se arrastavam com um ruído surdo, enquanto as lanternas, iguais a estrelas errantes, espalhavam-se de alto a baixo, numa linha sempre crescente.
     Catherine ouvia atrás dela um aprendiz contando as escadas. Teve a idéia de fazer o mesmo. Já tinham subido quinze e chegavam a uma embocadura de galeria. Nesse momento chocou-se nas pernas de Chaval. O homem praguejou, dizendo-lhe que prestasse atenção. De vez em quando a coluna parava, imobilizando-se. Que era? Que estava acontecendo? E cada um encontrava voz para perguntar e fazer suposições apavorantes. A angústia aumentava, o desconhecimento dos acontecimentos no exterior era como um garrote que ia apertando à medida que se aproximavam da luz do dia. Alguém disse que teriam de descer, que as escadas estavam quebradas. Essa era a preocupação de todos, o medo de se encontrarem sem saída. Outra explicação veio descendo de boca em boca, o acidente com um britador que escorregara de uma escada. Não se sabia ao certo, os gritos impediam de ouvir. Então iam ficar passando a noite ali? Finalmente, sem outras explicações, a subida recomeçou, com o mesmo movimento lento e penoso, acompanhando o barulho dos pés no ferro dos degraus e a dança das lâmpadas. As escadas quebradas deviam estar mais acima.
     À trigésima segunda escada, quando ultrapassavam a terceira embocadura de galeria, Catherine sentiu que suas pernas e seus braços se enrijeciam. Primeiro sentira um formigueiro na pele, muito leve. Agora, perdia a sensação do ferro e da madeira sob os pés e nas mãos. Uma dor vaga, que se foi tornando aguda, esquentava-lhe os músculos. E, no aturdimento que a invadia, começou a lembrar-se das histórias do avô Boa Morte, do tempo em que não havia elevador e as meninas de dez anos subiam com o carvão nos ombros, ao longo das escadas sem corrimões, de maneira que, quando uma delas escorregava ou simplesmente um pedaço de hulha caía de um cesto, três ou quatro crianças eram precipitadas de cabeça para baixo. As cãibras nos membros estavam ficando insuportáveis, nunca chegaria ao topo.
     Novas paradas permitiram-lhe respirar. Mas o terror que vinha lá de cima acabava de prostrá-la. Acima e abaixo dela, as respirações iam ficando cada vez mais ofegantes, respirava-se uma vertigem nessa ascensão interminável, cuja náusea a sacudia assim como aos outros Sentia-se sufocada, ébria de trevas, exasperada com o esmagamento das paredes contra sua carne. E tiritava devido à umidade, o corpo em suor, porejando gotas enormes que a inundavam. Aproximavam-se do nível, a chuva caía com tanta força que ameaçava apagar as lâmpadas.
     Por duas vezes Chaval falou com Catherine sem obter resposta. Por que não respondia? Tinha engolido a língua? Que custava dizer se estava indo bem? Havia meia hora que subiam, mas tão vagarosamente que se encontravam apenas na quinquagésima nona escada. Restavam quarenta e três. Catherine acabou balbuciando que se ia aguentando. Ele a chamaria de preguiçosa se tivesse confessado seu cansaço. O ferro dos degraus parecia perfurar seus pés, tinha a sensação de que estava sendo serrada até os ossos. Após cada braçada, esperava ver suas mãos largarem o corrimão, esfoladas e endurecidas, a ponto de não poder fechar os dedos. Acreditava que a qualquer momento ia cair para trás com os ombros arrancados, as pernas desconjuntadas pelo contínuo esforço. Era sobretudo a pouca inclinação das escadas que a fazia sofrer, aquela colocação quase a prumo, que a obrigava a içar-se com a força dos braços, a barriga colada à madeira. O resfolegar das respirações cobria agora o barulho dos passos, um enorme estertor, retumbando na parede do fosso, elevava-se do fundo e ia morrer na superfície. Houve um gemido, correu um murmúrio pelas escadas, um aprendiz acabava de quebrar a cabeça na aresta de um patamar. E Catherine subia. Ultrapassaram o nível. A chuva cessara, um nevoeiro tornava pesado o ar subterrâneo, envenenado por um cheiro de ferro velho e madeira úmida. Maquinalmente obstinava-se a contar baixinho: oitenta e um, oitenta e dois, oitenta e três; faltavam dezenove lances. Só estes números, repetidos, a amparavam com seu balanço rítmico. Já perdera a consciência dos seus movimentos. Ao levantar os olhos, as lâmpadas redemoinhavam em espiral. Seu sangue escorria, sentia que estava morrendo, ao menor sopro seria precipitada escadas abaixo. O pior, agora, era que os de baixo estavam empurrando, e a coluna inteira se arremessava com novo ímpeto, cedendo à cólera crescente de sua fadiga, à necessidade furiosa de tornar a ver o sol. Os primeiros da coluna já tinham chegado à superfície, não havia portanto escadas quebradas, mas a ideia de que ainda podiam quebrá-las, para impedir que os últimos saíssem, enquanto os outros respiravam lá em cima, acabou de enfurecê-los. E, como houvesse uma nova parada, as pragas explodiram, todos continuaram a subir, empurrando, passando por cima de corpos, tentando chegar de qualquer maneira.
     Nesse momento Catherine caiu. Chegou a gritar o nome de Chaval, num apelo desesperado, mas ele não ouviu, estava lutando arrebentara as costas de um companheiro a pontapés para passar na sua frente. Ela foi rolada, pisoteada. No seu desmaio, sonhou: era uma das pequenas operadoras de vagonetes de outrora, que um pedaço de carvão, caído de um cesto acima dela, acabava de jogar no fundo do poço, como um pardal atingido por uma pedrada. Faltavam apenas cinco lances de escadas para subir, tinham levado cerca de uma hora. Nunca soube de que maneira chegara ao topo, empurrada pelos outros, talvez graças à estreiteza do fosso. De repente encontrou-se num deslumbramento de sol, no meio de uma multidão ululante que a vaiava.

continua na página 254...
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Quinta Parte - (II.a)Quinta Parte - (II.b) /      
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/III — Efeitos da Primavera

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     III — Efeitos da Primavera

             Certo dia, estando o ar tépido, o Luxemburgo inundado de sombra e sol, o céu puro como se os anjos o vessem lavado pela manhã cedo, os passarinhos soltando os seus costumados gorjeios na espessura dos castanheiros, Mário tinha aberto toda a sua alma à natureza, e, alheado de tudo, vivia e respirava. Nesse dia, passando próximo do célebre banco, a jovem ergueu os olhos para ele e os dois olhares encontraram-se. 
     Que havia desta vez no olhar da jovem? Nem Mário o poderia dizer. Não havia nada e havia tudo. Foi um estranho relâmpago aquele.
     Ela baixou os olhos e ele continuou o seu caminho.
     O que o mancebo acabava de ver não era o simples e ingênuo olhar de uma criança, era uma misteriosa voragem que se tinha entreaberto e repentinamente fechado.
     Há um dia na vida das donzelas em que todas assim olham. Desgraçado então daquele sobre quem esse olhar se fita!
     Esse primeiro olhar de uma alma que ainda se não conhece a si mesma é como a aurora no céu. É o despontar de um mistério esplendoroso. Não há palavras que traduzam o perigoso encanto desse inesperado clarão que se derrama, improvisando luz em trevas adoráveis e que se compõem de toda a inocência do presente e de toda a paixão do futuro. É uma espécie de ternura indecisa que se revela ao acaso e que espera. É um laço que arma sem o saber a inocência e em que sem querer e sem o esperar apanha os corações. É uma virgem com olhar de mulher.
     Raro acontece que no coração daquele sobre quem esse olhar se fita não se desenvolva o gérmen de uma melancolia profunda. Nesse raio de luz fatalmente celeste, que melhor do que os mais estudados olhares da coquete possui o mágico poder de fazer subitamente desabrochar no recôndito de uma alma essa misteriosa flor cheia de olores e venenos, chamada amor, encerram-se todas as purezas e canduras.
     À noite, ao recolher-se ao seu modesto albergue, Mário deitou os olhos à roupa que trazia, e pela primeira vez reparou que tinha a indecência, a inconveniência, a inaudita estupidez de ir passear para o Luxemburgo com o seu trajo «ordinário», quer dizer, com um chapéu amassado, umas botas que pareciam as de um carrejão, umas calças pretas, porém, já todas coçadas nos joelhos, e um casaco preto, também já todo russo nos cotovelos.

continua na página 529...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - III — Efeitos da Primavera
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Ruan Rulfo - E nos deram a terra

Conto : El Llano en llamas
 

"O primeiro conto publicado de Juan Rulfo, e também o primeiro dos incluídos em *El Llano en llamas*, “Nos han dado la tierra” (1945), é provavelmente um dos mais conhecidos, citados e analisados ​​pela crítica literária. A tal ponto que sua interpretação parece não apresentar grandes dificuldades, talvez devido à franca ironia que emerge da alusão explícita a uma reforma agrária que distribuiu terras claramente impossíveis de cultivar. À descoberta daquilo que a tradição realista denunciou incansavelmente, ou seja, a miséria camponesa e a conivência das autoridades agrárias com os latifundiários."


     Nós gostamos. Após tantas horas de caminhada sem encontrar uma única sombra de árvore, uma única semente ou uma única raiz de qualquer coisa, ouve-se o latido de cães.
     Por vezes, em meio a esta estrada interminável, acreditava-se que nada haveria além; que nada se encontraria do outro lado, no fim desta planície rachada de fendas e riachos secos. Mas sim, há algo. Há uma aldeia. Ouvem-se os cães a ladrar e sente-se o cheiro do fumo no ar, e sente-se o cheiro de gente como se fosse uma esperança.
     Mas a aldeia ainda está longe. É o vento que a traz para mais perto. Estamos caminhando desde o amanhecer. Agora são cerca de quatro da tarde. Alguém olha para o céu, força a vista na direção do sol e diz: "São cerca de quatro da tarde."
     Essa pessoa é Melitón. Junto com ele estão Faustino, Esteban e eu. Somos quatro. Eu os conto: dois na frente, dois atrás. Olho mais para trás e não vejo ninguém. Então penso: "Somos quatro." Há algum tempo, por volta das onze, éramos uns vinte e poucos, mas aos poucos fomos nos dispersando até não sobrar nada além deste nó que somos nós. Faustino diz:

- Pode chover.

     Todos olhamos para cima e vimos uma nuvem negra e densa passando por cima de nós. E pensamos: "Talvez seja isso mesmo."
     Não dizemos o que pensamos. Perdemos a vontade de conversar há muito tempo. Ela morreu com o calor. Em outros lugares, você poderia bater um papo tranquilamente, mas aqui é difícil. Você fala aqui e as palavras esquentam na sua boca por causa do calor lá fora, e secam na sua língua até te deixarem sem fôlego. É assim que as coisas são por aqui. É por isso que ninguém tem vontade de conversar.
     Uma gota d'água cai, grande e espessa, abrindo um buraco no chão e deixando uma massa semelhante a um cuspe. Cai sozinha. Esperamos que outras caiam e as procuramos com os olhos. Mas não há mais nenhuma. Não está chovendo. Agora, se você olhar para o céu, verá a nuvem de chuva se afastando, apressada. O vento que vem da aldeia se junta a ela, empurrando-a contra as sombras azuis das colinas. E a gota que caiu por engano é engolida pela terra e desaparece em sua sede.
     Quem foi que fez essa planície tão grande? Qual é o sentido disso, hein? Voltamos a andar. Tínhamos parado para observar a chuva. Não choveu. Agora estamos andando de novo. E me ocorre que andamos mais do que realmente andamos. É isso que me ocorre. Se tivesse chovido, talvez outras coisas tivessem me ocorrido. No entanto, sei que desde menino nunca vi chover na planície, o que se pode chamar de chuva.
     Não, as planícies são inúteis. Não há coelhos nem pássaros. Não há nada. Exceto por algumas árvores de mesquite raquíticas e um ou outro pedaço de grama com folhas enroladas; fora isso, não há nada.
     E aqui estamos nós. Nós quatro a pé. Antes, íamos a cavalo e carregávamos um rifle a tiracolo. Agora nem sequer carregamos o rifle. Sempre achei que fizeram o certo ao nos tirarem os rifles. Por aqui, é perigoso andar armado. Eles matam sem aviso, vendo você o tempo todo com uma pistola calibre .30 presa ao cinto. Mas os cavalos são outra história. Se tivéssemos vindo a cavalo, já teríamos provado a água verde do rio e desfilado pelas ruas da cidade para digerir a comida. Teríamos feito isso se ainda tivéssemos todos aqueles cavalos que tínhamos antes. Mas levaram nossos cavalos também, junto com os rifles. Olho em volta e contemplo a planície. Tanta terra vasta para nada. Os olhos simplesmente se desviam, sem nada para os prender. Apenas alguns lagartos saem para colocar a cabeça para fora de suas tocas e, sentindo o sol escaldante, correm para se esconder na sombra de uma rocha. Mas quando tivermos que trabalhar aqui, o que faremos para nos refrescar do sol? Porque eles nos deram essa crosta de tapetato para plantar.
     Eles nos disseram: 

- Da cidade em diante, tudo pertence a vocês.

     Perguntamos: 

- A planície? 
- Sim, a planície. Toda a Grande Planície.

     Paramos de falar para dizer que não queríamos o Llano. Queríamos o que ficava perto do rio. Além do rio, ao longo das planícies, onde crescem aquelas árvores chamadas casuarinas, e as altas planícies, e a terra boa. Não essa terra dura e seca que eles chamam de Llano. Mas eles não nos deixaram falar. O delegado não veio conversar conosco. Ele colocou os papéis em nossas mãos e disse: 

- Não tenham medo de ter tanta terra só para vocês. 
- É que o Llano, Sr. Delegado... 
- São milhares e milhares de juntas de bois. 
- Mas não tem água. Nem o suficiente para enxaguar a boca. 
- E a estação chuvosa? Ninguém disse que vocês receberiam terra irrigada. Assim que chover lá, o milho vai crescer como se estivesse sendo esticado.
- Mas, Sr. Delegado, a terra está erodida, dura. Não acreditamos que o arado afunde naquele solo duro como uma pedreira dos Llanos. Você teria que fazer buracos com uma enxada para semear, e mesmo assim, é improvável que algo cresça; nem milho nem nada mais brotará. 
- Coloque isso por escrito. E agora vá. São as grandes propriedades que você precisa atacar, não o governo que lhe dá a terra. 
- Espere por nós, Sr. Delegado. Não dissemos nada contra o Centro. É tudo contra os Llanos... Você não pode lutar contra o que não pode combater. Foi isso que dissemos... Espere que expliquemos. Veja, vamos começar de onde paramos...

     Mas ele se recusou a nos ouvir.
     Foi assim que nos deram esta terra. E nesta chapa escaldante querem que semeemos alguma coisa, para ver se brota e cresce. Mas nada cresce aqui. Nem mesmo os abutres. De vez em quando, você os vê lá em cima, bem alto, voando a toda velocidade; tentando sair o mais rápido possível desta poeira branca e endurecida, onde nada se move e onde você anda como se estivesse indo para trás. Melitón diz:

- Esta é a terra que eles nos deram.

     Faustino diz: 

- O quê?

     Não digo nada. Penso: "Melitón não bate bem da cabeça. Deve ser o calor que o faz falar assim. O calor que penetrou no chapéu e esquentou a cabeça dele. Senão, por que ele diz o que diz? Que tipo de terra nos deram, Melitón? Nem para o vento fazer redemoinhos cabe aqui."
     Melitón repete: 

- Será útil. Será prático, mesmo que seja apenas para éguas de corrida. 
- Quais éguas?, pergunta Esteban.

     Eu não tinha reparado no Esteban antes. Agora que ele está falando, estou observando com mais atenção. Ele está usando um casaco que chega até o umbigo e, por baixo, algo parecido com a cabeça de uma galinha está aparecendo. Sim, é uma galinha vermelha que o Esteban está carregando debaixo do casaco. Dá para ver os olhos sonolentos e o bico aberto, como se estivesse bocejando. u pergunto a ele:

- Ei, Teban, onde você conseguiu esse frango?
- Ela é minha, diz ele. 
- Você não a tinha antes. Onde a comprou? 
- Eu não a comprei, ela é do meu galinheiro.
- Então você a trouxe para alimentá-la, certo? 
- Não, eu a trouxe para cuidar dela. Minha casa estava vazia e não havia ninguém para alimentá-la; por isso a trouxe. Sempre que viajo para longe, levo-a comigo.
- Escondida aí, ela vai sufocar. É melhor deixá-la sair para respirar ar puro. 

     Ele a aconchega debaixo do braço e sopra ar quente sobre ela. Então ele diz:

- Estamos chegando ao ponto de ruptura.

     Já não consigo ouvir o que o Esteban está dizendo. Fizemos fila para descer o barranco, e ele está bem na frente. Parece que ele pegou a galinha pelas patas e está sacudindo-a sem parar para que ela não bata a cabeça nas pedras.
     Ela se sacode de vez em quando para não bater a cabeça nas pedras. À medida que descemos, a terra fica agradável. A poeira sobe de nós como se uma fila de mulas estivesse descendo; mas gostamos de ficar cobertos de poeira. Gostamos disso. Depois de onze horas caminhando sobre a dureza do Llano,
nos sentimos muito confortáveis ​​envoltos nessa coisa que nos cobre e tem gosto de terra.
     Acima do rio, sobre as copas verdes das casuarinas, bandos de aracuãs verdes voam. Isso também nos agrada. Agora, o latido dos cães pode ser ouvido aqui, ao nosso lado, porque o vento que vem da aldeia ecoa na ravina e a preenche com todos os seus sons.
     Esteban abraçou sua galinha novamente quando nos aproximamos das primeiras casas. Ele desamarrou as patas dela para soltá-las e, em seguida, ele e sua galinha desapareceram atrás de algumas árvores de mesquite.

- Eu alugo assim!, diz-nos Esteban.

     Continuamos em frente, adentrando a aldeia. A terra que nos deram fica lá em cima.

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Nos han dado la tierr

Juan Rulfo

Originalmente publicado en la revista Pan (de Guadalajara) Nº 2, julio, 1945 - (El llano en llamas, 1953)


   Después de tantas horas de caminar sin encontrar ni una sombra de árbol, ni una semilla de árbol, ni una raíz de nada, se oye el ladrar de los perros.
   Uno ha creído a veces, en medio de este camino sin orillas, que nada habría después; que no se podría encontrar nada al otro lado, al final de esta llanura rajada de grietas y de arroyos secos. Pero sí, hay algo. Hay un pueblo. Se oye que ladran los perros y se siente en el aire el olor del humo, y se saborea ese olor de la gente como si fuera una esperanza.
   Pero el pueblo está todavía muy allá. Es el viento el que lo acerca. Hemos venido caminando desde el amanecer. Ahorita son algo así como las cuatro de la tarde.
   Alguien se asoma al cielo, estira los ojos hacia donde está colgado el sol y dice:

-Son como las cuatro de la tarde.

   Ese alguien es Melitón. Junto con él, vamos Faustino, Esteban y yo. Somos cuatro. Yo los cuento: dos adelante, otros dos atrás. Miro más atrás y no veo a nadie. Entonces me digo: "Somos cuatro." Hace rato, como a eso de las once, éramos veintitantos, pero puñito a puñito se han ido desperdigando hasta quedar nada más que este nudo que somos nosotros. Faustino dice:

-Puede que llueva.

   Todos levantamos la cara y miramos una nube negra y pesada que pasa por encima de nuestras cabezas. Y pensamos: "Puede que sí."
   No decimos lo que pensamos. Hace ya tiempo que se nos acabaron las ganas de hablar. Se nos acabaron con el calor. Uno platicaría muy a gusto en otra parte, pero aquí cuesta trabajo. Uno platica aquí y las palabras se calientan en la boca con el calor de afuera, y se le resecan a uno en la lengua hasta que acaban con el resuello. Aquí así son las cosas. Por eso a nadie le da por platicar.
   Cae una gota de agua, grande, gorda, haciendo un agujero en la tierra y dejando una plasta como la de un salivazo. Cae sola. Nosotros esperamos a que sigan cayendo más y las buscamos con los ojos. Pero no hay ninguna más. No llueve. Ahora si se mira el cielo se ve a la nube aguacera corriéndose muy lejos, a toda prisa. El viento que viene del pueblo se le arrima empujándola contra las sombras azules de los cerros. Y a la gota caída por equivocación se la come la tierra y la desaparece en su sed.
   ¿Quién diablos haría este llano tan grande? ¿Para qué sirve, eh? Hemos vuelto a caminar. Nos habíamos detenido para ver llover. No llovió. Ahora volvemos a caminar. Y a mí se me ocurre que hemos caminado más de lo que llevamos andado. Se me ocurre eso. De haber llovido quizá se me ocurrieran otras cosas. Con todo, yo sé que desde que yo era muchacho, no vi llover nunca sobre el llano, lo que se llama llover.
   No, el Llano no es cosa que sirva. No hay ni conejos ni pájaros. No hay nada. A no ser unos cuantos huizaches trespeleques y una que otra manchita de zacate con las hojas enroscadas; a no ser eso, no hay nada.
   Y por aquí vamos nosotros. Los cuatro a pie. Antes andábamos a caballo y traíamos terciada una carabina. Ahora no traemos ni siquiera la carabina. Yo siempre he pensado que en eso de quitarnos la carabina hicieron bien. Por acá resulta peligroso andar armado. Lo matan a uno sin avisarle, viéndolo a toda hora con "la 30" amarrada a las correas. Pero los caballos son otro asunto. De venir a caballo ya hubiéramos probado el agua verde del río, y paseado nuestros estómagos por las calles del pueblo para que se les bajara la comida. Ya lo hubiéramos hecho de tener todos aquellos caballos que teníamos. Pero también nos quitaron los caballos junto con la carabina.Vuelvo hacia todos lados y miro el Llano. Tanta y tamaña tierra para nada. Se le resbalan a uno los ojos al no encontrar cosa que los detenga. Sólo unas cuantas lagartijas salen a asomar la cabeza por encima de sus agujeros, y luego que sienten la tatema del sol corren a esconderse en la sombrita de una piedra. Pero nosotros, cuando tengamos que trabajar aquí, ¿qué haremos para enfriarnos del sol, eh? Porque a nosotros nos dieron esta costra de tapetate para que la sembráramos.
   Nos dijeron:

-Del pueblo para acá es de ustedes.

   Nosotros preguntamos:

-¿El Llano?
-Sí, el Llano. Todo el Llano Grande.

   Nosotros paramos la jeta para decir que el Llano no lo queríamos. Que queríamos lo que estaba junto al río. Del río para allá, por las vegas, donde están esos árboles llamados casuarinas y las parameras y la tierra buena. No este duro pellejo de vaca que se llama Llano.Pero no nos dejaron decir nuestras cosas. El delegado no venía a conversar con nosotros. Nos puso los papeles en la mano y nos dijo:

-No se vayan a asustar por tener tanto terreno para ustedes solos.
-Es que el Llano, señor delegado...
-Son miles y miles de yuntas.
-Pero no hay agua. Ni siquiera para hacer un buche hay agua.
-¿Y el temporal? Nadie les dijo que se les iba a dotar con tierras de riego. En cuanto allí llueva, se levantará el maíz como si lo estiraran.
-Pero, señor delegado, la tierra está deslavada, dura. No creemos que el arado se entierre en esa como cantera que es la tierra del Llano. Habría que hacer agujeros con el azadón para sembrar la semilla y ni aun así es positivo que nazca nada; ni maíz ni nada nacerá.
-Eso manifiéstenlo por escrito. Y ahora váyanse. Es al latifundio al que tienen que atacar, no al Gobierno que les da la tierra.
-Espérenos usted, señor delegado. Nosotros no hemos dicho nada contra el Centro. Todo es contra el Llano... No se puede contra lo que no se puede. Eso es lo que hemos dicho... Espérenos usted para explicarle. Mire, vamos a comenzar por donde íbamos...

   Pero él no nos quiso oír.
   Así nos han dado esta tierra. Y en este comal acalorado quieren que sembremos semillas de algo, para ver si algo retoña y se levanta. Pero nada se levantará de aquí. Ni zopilotes. Uno los ve allá cada y cuando, muy arriba, volando a la carrera; tratando de salir lo más pronto posible de este blanco terregal endurecido, donde nada se mueve y por donde uno camina como reculando. Melitón dice:

-Esta es la tierra que nos han dado.

   Faustino dice:
 
-¿Qué? Yo no digo nada.

   Yo pienso: "Melitón no tiene la cabeza en su lugar. Ha de ser el calor el que lo hace hablar así. El calor, que le ha traspasado el sombrero y le ha calentado la cabeza. Y si no, ¿por qué dice lo que dice? ¿Cuál tierra nos han dado, Melitón? Aquí no hay ni la tantita que necesitaría el viento para jugar a los remolinos."
   Melitón vuelve a decir:

-Servirá de algo. Servirá aunque sea para correr yeguas.
-¿Cuáles yeguas? -le pregunta Esteban.

   Yo no me había fijado bien a bien en Esteban. Ahora que habla, me fijo en él. Lleva puesto un gabán que le llega al ombligo, y debajo del gabán saca la cabeza algo así como una gallina. Sí, es una gallina colorada la que lleva Esteban debajo del gabán. Se le ven los ojos dormidos y el pico abierto como si bostezara. Yo le pregunto:

-Oye, Teban, ¿de dónde pepenaste esa gallina?
-Es la mía- dice él.
-No la traías antes. ¿Dónde la mercaste, eh?
-No la merque, es la gallina de mi corral.
-Entonces te la trajiste de bastimento, ¿no?
-No, la traigo para cuidarla. Mi casa se quedó sola y sin nadie para que le diera de comer; por eso me la traje. Siempre que salgo lejos cargo con ella.
-Allí escondida se te va a ahogar. Mejor sácala al aire.

   Él se la acomoda debajo del brazo y le sopla el aire caliente de su boca. Luego dice:

-Estamos llegando al derrumbadero.

   Yo ya no oigo lo que sigue diciendo Esteban. Nos hemos puesto en fila para bajar la barranca y él va mero adelante. Se ve que ha agarrado a la gallina por las patas y la zangolotea a cada rato, para no, golpearle la cabeza contra las piedras.
   Conforme bajamos, la tierra se hace buena. Sube polvo desde nosotros como si fuera un atajo de mulas lo que bajará por allí; pero nos gusta llenarnos de polvo. Nos gusta. Después de venir durante once horas pisando la dureza del Llano, nos sentimos muy a gusto envueltos en aquella cosa que brinca sobre nosotros y sabe a tierra.
   Por encima del río, sobre las copas verdes de las casuarinas, vuelan parvadas de chachalacas verdes. Eso también es lo que nos gusta. Ahora los ladridos de los perros se oyen aquí, junto a nosotros, y es que el viento que viene del pueblo retacha en la barranca y la llena de todos sus ruidos.
   Esteban ha vuelto a abrazar su gallina cuando nos acercamos a las primeras casas. Le desata las patas para desentumecerla, y luego él y su gallina desaparecen detrás de unos tepemezquites.

-¡Por aquí arriendo yo! -nos dice Esteban.

   Nosotros seguimos adelante, más adentro del pueblo.
   La tierra que nos han dado está allá arriba.

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Leia também:
1. Pedro Páramo: Vim a Comala

sábado, 25 de abril de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1


1.
     Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfiado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.
     O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.
     No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Partido não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim.
     Fora, mesmo visto através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo, na rua, pequenos rodamoinhos de vento formavam espirais de poeira e papel picado e, embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul áspero, a impressão que se tinha era de que não havia cor em coisa alguma a não ser nos pôsteres colados por toda parte. Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. o GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston. Embaixo, no nível da rua, outro pôster, esse com um dos cantos rasgado, adejava operosamente ao vento, ora encobrindo, ora expondo uma palavra solitária: Socing. Ao longe, um helicóptero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula e voltou a afastar-se a grande velocidade, fazendo uma curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando pelas janelas das pessoas. As patrulhas, contudo, não eram um problema. O único problema era a Polícia das Ideias.
     Por trás de Winston, a voz da teletela continuava sua lenga-lenga infinita sobre o ferro-gusa e o total cumprimento — com folga — das metas do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Todo som produzido por Winston que ultrapassasse o nível de um sussurro muito discreto seria captado por ela; mais: enquanto Winston permanecesse no campo de visão enquadrado pela placa de metal, além de ouvido também poderia ser visto. Claro, não havia como saber se você estava sendo observado num momento específico. Tentar adivinhar o sistema utilizado pela Polícia das Ideias para conectar-se a cada aparelho individual ou a frequência com que o fazia não passava de especulação. Era possível inclusive que ela controlasse todo mundo o tempo todo. Fosse como fosse, uma coisa era certa: tinha meios de conectar-se a seu aparelho sempre que quisesse. Você era obrigado a viver — e vivia, em decorrência do hábito transformado em instinto — acreditando que todo som que fizesse seria ouvido e, se a escuridão não fosse completa, todo movimento examinado meticulosamente.
     Winston mantinha as costas voltadas para a teletela. Era mais seguro; contudo, como sabia muito bem, mesmo as costas de uma pessoa podem ser reveladoras. A um quilômetro de distância, o Ministério da Verdade, onde ele trabalhava, erguia-se vasto e branco por sobre a paisagem encardida. Aquela, pensou com uma espécie de contrariedade difusa, aquela era Londres, principal cidade da Faixa Aérea Um, terceira mais populosa das províncias da Oceania. Tentou localizar alguma lembrança de infância que lhe dissesse se Londres sempre fora assim. Será que sempre houvera aquele cenário de casas do século XIX caindo aos pedaços, paredes laterais escoradas com vigas de madeira, janelas remendadas com papelão, telhados reforçados com chapas de ferro corrugado, decrépitos muros de jardins adernando em todas as direções? E os lugares bombardeados, onde o pó de gesso dançava no ar e a salgueirinha crescia e se espalhava sobre as pilhas de entulho? E os locais onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e onde tinham brotado colônias sórdidas de cabanas de madeira que mais pareciam galinheiros? Não adiantava, ele não conseguia se lembrar. Tudo o que lhe ficara da infância era uma série de tableaux superiluminados, desprovidos de paisagem de fundo e quase sempre ininteligíveis.
     O Ministério da Verdade — Miniver, em Novafala* — era extraordinariamente diferente de todos os outros objetos à vista. Era uma enorme estrutura piramidal de concreto branco cintilante, erguendo-se, terraço após terraço, trezentos metros espaço acima. Do lugar onde Winston estava mal dava para ler, escarvados na parede branca em letras elegantes, os três slogans do Partido:

GUERRA É PAZ 
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO 
IGNORÂNCIA É FORÇA 

     Comentava-se que o Ministério da Verdade continha três mil salas acima do nível do solo e ramificações equivalentes abaixo. Em Londres havia somente três outros edifícios de aparência e dimensões equivalentes. Eles tinham o efeito de reduzir tão drasticamente a arquitetura circundante que do telhado das Mansões Victory era possível avistar os quatro ao mesmo tempo. Eram as sedes dos quatro ministérios entre os quais se dividia a totalidade do aparato governamental. O Ministério da Verdade, responsável por notícias, entretenimento, educação e belas-artes. O Ministério da Paz, responsável pela guerra. O Ministério do Amor, ao qual cabia manter a lei e a ordem. E o Ministério da Pujança, responsável pelas questões econômicas. Seus nomes, em Novafala: Miniver, Minipaz, Minamor e Minipuja.
     Desses, o realmente apavorante era o Ministério do Amor. O edifício não tinha nenhuma janela. Winston nunca entrara no Ministério do Amor, nunca chegara nem a meio quilômetro de distância. Era impossível entrar no prédio sem uma justificativa oficial, e mesmo nesses casos só transpondo um labirinto de novelos de arame farpado, portas de aço e ninhos ocultos de metralhadora. Mesmo as ruas que levavam até as barreiras externas eram percorridas por guardas com cara de gorila vestindo fardas negras e armados de cassetetes articulados.
     Winston virou-se abruptamente. Compusera a própria fisionomia de modo a ostentar a expressão de tranquilo otimismo que convinha ter no rosto sempre que se encarasse a teletela. Atravessou a sala e entrou na minúscula cozinha. Para poder sair do Ministério naquele horário, sacrificara o almoço na cantina; sabia que o único alimento existente na cozinha era um naco de pão escuro que só seria consumido no café da manhã do dia seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com uma simples etiqueta branca onde se lia GIM VICTORY. A bebida exalava um odor oleoso enjoativo semelhante ao da aguardente de arroz dos chineses. Winston serviu-se de pouco menos de uma xícara de chá, preparou-se para o impacto e engoliu o líquido como quem toma uma dose de remédio.
     No mesmo instante seu rosto ficou rubro e lágrimas começaram a escorrer-lhe dos olhos. A substância parecia ácido nítrico e ao engoli-la a pessoa tinha a sensação de receber um golpe de cassetete na nuca. Logo em seguida, porém, a ardência no ventre esmoreceu e o mundo começou a parecer mais prazeroso. Tirou um cigarro de um maço amarrotado onde estava escrito CIGARROS VICTORY e imprudentemente segurou-o na vertical, o que fez com que o recheio de tabaco caísse ao chão. Na tentativa seguinte teve mais sorte. Voltou para a sala de estar e sentou-se junto a uma mesinha que ficava à esquerda da teletela. Abriu a gaveta da mesa e tirou um porta-penas, um vidro de tinta e um caderno grosso, formato in quarto, sem nada escrito, de lombada vermelha e capa marmorizada.
     Por alguma razão, a teletela da sala de estar ocupava uma posição atípica. Em vez de estar instalada, como de hábito, na parede do fundo, de onde podia controlar a sala inteira, ficava na parede mais longa, oposta à janela. Em um de seus lados havia uma reentrância pouco profunda na qual Winston estava agora instalado e que na época da construção dos apartamentos provavelmente se destinava a abrigar uma estante de livros. Sentando-se na reentrância e permanecendo bem ao fundo, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que dizia respeito à visão. Podia ser ouvido, claro, mas enquanto se mantivesse naquela posição não podia ser visto. Em parte fora a topografia pouco usual do aposento que lhe dera a ideia de fazer a coisa que estava prestes a fazer.
     Mas essa coisa também lhe fora sugerida pelo caderno que acabara de tirar da gaveta. Era um caderno singularmente bonito. Seu papel acetinado, cor de creme, um pouco amarelecido pela idade, era de um tipo que já não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Dava para imaginar, porém, que o caderno era muito mais velho do que isso. Vira-o exposto na vitrine de uma lojinha de badulaques desmazelada de um setor miserável da cidade (qual setor, exatamente, já não se recordava) e fora no mesmo instante tomado pelo desejo avassalador de possuí-lo. Supunha-se que os membros do Partido não frequentassem estabelecimentos comerciais comuns (“dedicados ao livre comércio”, diziam), mas a regra não era obedecida com rigor porque havia diversas coisas, por exemplo cadarço de sapato e lâmina de barbear, impossíveis de serem obtidas de outra forma. Depois de olhar rapidamente para os dois lados da rua, Winston se enfiara na loja e comprara o caderno por dois dólares e meio. Na ocasião, não tinha consciência de querê-lo para alguma coisa específica. Cheio de culpa, levara-o para casa dentro da pasta. Mesmo sem nada escrito nele, aquele era um bem comprometedor.
     A coisa que estava prestes a fazer era começar um diário. Não que isso fosse ilegal (nada era ilegal, visto que já não existiam leis), mas se o fato fosse descoberto era praticamente certo que o punissem com a morte ou com pelo menos vinte e cinco anos de prisão em algum campo de trabalhos forçados. Winston encaixou uma pena no porta-penas e chupou-a para remover a graxa. A pena era um instrumento arcaico, pouco usado inclusive para assinaturas, e ele obtivera aquela, furtivamente e com alguma dificuldade, só por ter sentido que o belo papel creme merecia que escrevessem nele com uma pena de verdade, em vez de ser rabiscado com lápis-tinta. Na verdade, Winston não estava habituado a escrever a mão. Exceto no caso de um ou outro bilhete muito curto, o hábito era ditar tudo ao ditógrafo, o que, evidentemente, não se aplicava à circunstância presente. Mergulhou a caneta na tinta e vacilou por um segundo. Suas entranhas foram percorridas por um estremecimento. Marcar o papel era o ato decisivo. Em letras miúdas, desajeitadas, escreveu:
4 de abril de 1984.
     Recostou-se na cadeira. Estava possuído por uma sensação de absoluto desamparo. Para começar, não sabia com certeza se estava mesmo em 1984. Devia ser por aí, visto que estava seguro de ter trinta e nove anos e acreditava ter nascido em 1944 ou 1945; mas nos tempos que corriam era impossível precisar uma data sem uma margem de erro de um ou dois anos.
     Para quem, ocorreu-lhe perguntar-se de repente, estava escrevendo aquele diário? Para o futuro, para os não nascidos. Sua mente deu voltas por um momento em torno da data duvidosa na página, depois, com um solavanco, colidiu com um termo em Novafala: duplipensamento. Pela primeira vez deu-se conta da dimensão de seu projeto. Como fazer para comunicar-se com o futuro? Era algo impossível por natureza. Ou bem o futuro seria semelhante ao presente e não daria ouvidos ao que ele queria lhe dizer, ou bem seria diferente e sua iniciativa não faria sentido.
     Ficou sentado por algum tempo contemplando estupidamente o papel. A teletela passara a transmitir uma música militar estridente. Estranho, parecia não apenas ter perdido a capacidade de se expressar, como inclusive ter esquecido o que originalmente pretendia dizer. Durante semanas se preparara para aquele momento e jamais lhe passara pela cabeça que pudesse ter necessidade de alguma outra coisa que não coragem. Escrever, em si, seria fácil. Bastava transferir para o papel o monólogo infinito e incansável que ocupava o interior de sua cabeça havia anos, literalmente. Naquele momento, porém, mesmo o monólogo estancara. Para rematar, sua úlcera varicosa começara a comichar, uma coisa torturante. Não ousava coçar-se, porque sempre que fazia isso a úlcera inflamava. Os segundos se sucediam. Só estava consciente da página vazia diante dele, da comichão na pele acima do tornozelo, do clangor da música e de uma leve tontura provocada pelo gim.
     De repente começou a escrever de puro pânico, percebendo apenas de modo impreciso o que ia anotando. Sua letra miúda, infantil, se espalhava pela página em linhas incertas, abandonando primeiro as maiúsculas, depois até mesmo os pontos finais.

     4 de abril de 1984. Ontem à noite cineminha. Só filme de guerra. Um muito bom do bombardeio de um navio cheio de refugiados em algum lugar do Mediterrâneo. Público achando muita graça nos tiros dados num gordão que tentava nadar para longe perseguido por um helicóptero. primeiro ele aparecia chafurdando na água como um golfinho, depois já estava todo esburacado e o mar em volta ficou rosa e ele afundou tão de repente que parecia que a água tinha entrado pelos buracos. público urrando de tanto rir quando ele afundou. depois aparecia um bote salva vidas cheio de crianças com um helicóptero pairando logo acima. tinha uma mulher de meia-idade talvez uma judia sentada na proa com um garoto de uns três anos no colo. garoto chorando de medo e escondendo a cabeça entre os seios dela como se tentasse se enterrar nela e a mulher envolvendo o garoto com os braços e tentando acalmá-lo só que ela mesma estava morta de medo, e o tempo todo cobria o garoto o máximo possível como se achasse que seus braços iam conseguir protegê-lo das balas. aí o helicóptero largou uma bomba de vinte quilos bem no meio deles clarão terrível e o bote virou um monte de gravetos. depois uma tomada sensacional de um braço de criança subindo subindo pelo ar um helicóptero com uma câmera no nariz deve ter acompanhado o braço subindo e muita gente aplaudiu nos assentos do partido mas uma mulher sentada no meio dos proletas de repente começou a criar caso e a gritar que eles não tinham nada que mostrar aquilo não na frente das crianças não deviam não era direito não na frente das crianças não era até que a polícia botou ela botou pra fora acho que não aconteceu nada com ela ninguém dá a mínima para o que os proletas falam típica reação de proleta eles nunca...

     Winston parou de escrever, em parte porque estava com cãibra. Não sabia o que o levara a derramar aquela torrente de idiotices. Mas o estranho era que enquanto ele fazia aquilo uma lembrança completamente diferente se definira em sua mente, a tal ponto que quase decidira registrá-la. Fora por causa desse outro incidente, percebia agora, que tomara a decisão repentina de ir para casa e começar o diário.

continua na página 16...
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Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) /    
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.
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Resenha literária:

o título do livro 1984 é inversão da dezena e da unidade do ano em George Orwell escrevia o livro, ou seja, 1948 virou 1984!

tatianagfeltrin




 o fascismo, o totalitarismo... as ditaduras! governam controlando o nosso pensamento, fazem desaparecer o conceito de verdade, toda mentira passa a ser verdade: a guerra é paz, a liberdade é escravidão, a ignorância é força!
o grande irmão (big techs) já está acontecendo!

Cinema: 1984

George Orwell


É mágico como um livro consegue desenhar rostos e mundos inteiros dentro da gente, antes mesmo de os conhecermos de verdade no cinema.



George Orwell entendeu o perigo por trás das palavras
Lara Brenner





Depois da guerra atômica, o mundo foi dividido em três estados e Londres é a capital da Oceania, dominada por um partido que tem total controle sobre todos os cidadãos. Winston Smith é um humilde funcionário do partido e comete o atrevimento de se apaixonar por Julia, numa sociedade totalitária onde as emoções são consideradas ilegais. Eles tentam escapar dos olhos e dos ouvidos do Grande Irmão, sabendo das dificuldades que teriam que enfrentar.





"Esta é a primeira adaptação cinematográfica do romance, estrelada por Edmond O'Brien, no papel do protagonista Winston Smith. O filme conta com Donald Pleasence, Jan Sterling e Michael Redgrave. O personagem antagonista O'Brien foi renomeado para "O'Connor", para evitar confusão com o sobrenome do ator principal. E Emmanuel Goldstein foi rebatizado para 'Kalador'."

Assim como a adaptação cinematográfica anterior de A Revolução dos Bichos, o filme 1984 de 1956 foi secretamente financiado pela CIA.[1]

[1] Morris, Nigel (11 out 2012). «Keeping It All in the (Nuclear) Family: Big Brother, Auntie BBC, Uncle Sam and George Orwell's Nineteen Eighty-Four». Frames Cinema Journal. Consultado em 5 abr 2020
Traduzindo o título do livro: "Mantendo tudo em família (nuclear): Big Brother, Tia BBC, Tio Sam e 1984 de George Orwell"


Produção de 1956

Direção: Michael Anderson

Elenco:
Edmond O'Brien ... Winston Smith, do Partido Exterior
Michael Redgrave ... Gen. O'Connor do Partido Interno
Jan Sterling ... Júlia do Partido Exterior
David Kossoff ... Charrington, o dono da loja de quinquilharias
Mervyn Johns ... Jones
Donald Pleasence ... R. Parsons
Carol Wolveridge ... Selina Parsons
Ernest Clark ... Anunciador do Partido Exterior
Patrick Allen ... Oficial do Partido Interior
Ronan O'Casey ... Rutherford
Michael Ripper ... Orador do Partido Exterior
Ewen Solon ... Orador do Partido Exterior
Kenneth Griffith ... Prisio teletela
Barbara Cavan ... Mulher (narração) (não creditado)
Walter Gotell ... Guarda (não creditado)
Bernard Rebel ... Kalador (não creditado)
Alan Tilvern ... Martin o criado de O'Connor (não creditado)
Patrick Troughton ... Homem na teletela(não creditado)
John Vernon ... Grande Irmão (não creditado)
Vivienne Villiers ... Criança assustada (não creditado)



1984 (George Orwell)
trailer
legendado



Direção: 
Michael Radford

Elenco: 
John Hurt, 
Richard Burton, 
Suzanna Hamilton, 
Cyril Cusack

Ano: 1984
País: Inglaterra
Gênero: Ficção Científica, Drama, Romance