domingo, 26 de julho de 2026

MPB: Pavão Mysteriozo

Ednardo


Cantar parece com não morrer
com não se esquecer 
    que a vida é que tem razão
com liberdade
   nesse nosso voar
muita história pra contar
    João e o seu voar
largar o poder que quer tudo
     o corpo e sua embalagem
um susto permanente
 não fume,
    faça bastante sexo
    seja honesto
humano
íntegro
falando amor
 sou filho do Brasil
o meu nome é Cerará






Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse teu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha prá contar...

Pavão misterioso
Nessa cauda
Aberta em leque
Me guarda moleque
De eterno brincar
Me poupa do vexame
De morrer tão moço
Muita coisa ainda
Quero olhar...

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse seu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha prá contar...

Pavão misterioso
Pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda, cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo, oh!
Que não é certo não...

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar...



Ednardo revela como nasceu Pavão Mysteriozo, a admiração por Belchior 
e a decepção com Fagner




     Em entrevista a Joaquim de Carvalho, Ednardo abre o jogo: "Fagner é bolsonarista" e "Belchior morreu de tristeza". Ao completar 80 anos de idade, diz ter certeza de que sua missão não se limita a compor e cantar.


Ednardo & O Pessoal do Ceará - Terral
  
     A música "Terral" foi gravada originalmente por Ednardo & O Pessoal do Ceará no álbum homônimo, de 1973, e regravada e interpretada por inúmeros outros artistas desde então. Nenhuma outra canção traduz tão profundamente a alma da capital cearense e o significado de pertencimento à cidade como "Terral".





Ednardo - Enquanto Engoma a Calça
Enquanto Engoma a Calça - Ednardo e Climério - Gravação Original disco Ednardo 1979




Saramandaia (1976) 
- Cena final (um pedacinho com Juca de Oliveira)




Ednardo - A palo seco
Música de Belchior




Patativa do Assaré - Massafeira




Cinema: Odisseia (2ª parte)

Ulisses

1997

2ª Parte

A "Odisseia" é uma minissérie de 1997 que adapta o épico de Homero, mostrando a longa jornada de Odisseu para retornar a Ítaca após a Guerra de Troia.
A história acompanha Odisseu (Armand Assante), rei de Ítaca, que deixa sua família para lutar na Guerra de Troia. Após a vitória, ele enfrenta uma jornada de dez anos repleta de desafios, incluindo monstros mitológicos, deuses vingativos e obstáculos sobrenaturais. Entre os episódios mais marcantes estão o encontro com o Ciclopes Polifemo, a feiticeira Circe, as Sereias, os monstros Scylla e Caríbdis e a ninfa Calipso. Sua esposa, Penélope (Greta Scacchi), aguarda fielmente seu retorno, enquanto seu filho Telêmaco cresce sem a presença do pai.





A minissérie foi dirigida por Andrei Konchalovsky e co-produzida por Hallmark Entertainment e American Zoetrope. As filmagens ocorreram em Malta, Turquia, Inglaterra e outros locais do Mediterrâneo, recriando fielmente o cenário da narrativa homérica. A série foi exibida em duas partes a partir de 18 de maio de 1997 na NBC

A minissérie de 1997 é considerada uma das adaptações televisivas mais marcantes da década de 1990, combinando aventura, mitologia e drama familiar de forma envolvente e visualmente impressionante.

Diretor:
Andrei Konchalovsky
2 episódios • 1997

Roteiristas:
Homero - poema épico
Andrei Konchalovsky
Chris Solimine

Elenco:
Armand Assante como Odisseu
Greta Scacchi como Penélope
Isabella Rossellini como Athena
Bernadette Peters como Circe
Eric Roberts como Eurymachus
Irene Papas como Anticleia
Jeroen Krabbé como King Alcinous
Geraldine Chaplin como Eurycleia
Christopher Lee como Tiresias
Vanessa Williams como Calypso
Nicholas Clay como Menelaus
Adoni Anastassopoulos como Perimedes
Paloma Baeza como Melanthe
Ron Cook como Eurybates
Reid Asato como Cyclops
Mark Hill como Orsilicus
Pat Kelman como Elatus
Vincenzo Nicoli como Antinous
Sally Plumb como Queen Alcinous
Roger Ashton-Griffiths como Polites
Katie Carr como Nausicaa
Marius Combo como Agelaus
Alan Cox como Elpener
William Houston como Anticlus
Oded Levy como Leocritus
Peter Page como Philotus
Michael J. Pollard como Aeolus
Alan Stenson como Telemachus
Tony Vogel como Eumaeus
Heathcote Williams como Laocoon
Michael Tezcan como Eurylochos
Richard Truett como Achilles
Yorgo Voyagis como Agamemnon
Peter Woodthorpe como Mentor
Derek Lea como Hector
Frederick Stuart como Hermes
Miles Anderson como Poseidon
Alan Smithie como Priam
Vernon Dobtcheff como Aegyptius
Josh Maguire como Young Telemachus
Yuvrajsinh Zala como Young Villager
Stewart Thompson como Antiphus
Stewart Thompson como Antiphus
Kresh Novakovic como Phonecian Sailor (não creditado)
Max Oddball como Greek Juggler (não creditado)

__________________

Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
21. Malcolm X... / 22. A Odisseia (1ª parte) / 23. A Odisseia (2ª parte) / 

Cinema: A Odisseia (1ª parte)

Ulisses

1997

1ª Parte


A "Odisseia" é uma minissérie de 1997 que adapta o épico de Homero, mostrando a longa jornada de Odisseu para retornar a Ítaca após a Guerra de Troia.
A história acompanha Odisseu (Armand Assante), rei de Ítaca, que deixa sua família para lutar na Guerra de Troia. Após a vitória, ele enfrenta uma jornada de dez anos repleta de desafios, incluindo monstros mitológicos, deuses vingativos e obstáculos sobrenaturais. Entre os episódios mais marcantes estão o encontro com o Ciclopes Polifemo, a feiticeira Circe, as Sereias, os monstros Scylla e Caríbdis e a ninfa Calipso. Sua esposa, Penélope (Greta Scacchi), aguarda fielmente seu retorno, enquanto seu filho Telêmaco cresce sem a presença do pai.






A minissérie foi dirigida por Andrei Konchalovsky e co-produzida por Hallmark Entertainment e American Zoetrope. As filmagens ocorreram em Malta, Turquia, Inglaterra e outros locais do Mediterrâneo, recriando fielmente o cenário da narrativa homérica. A série foi exibida em duas partes a partir de 18 de maio de 1997 na NBC

A minissérie de 1997 é considerada uma das adaptações televisivas mais marcantes da década de 1990, combinando aventura, mitologia e drama familiar de forma envolvente e visualmente impressionante.


Diretor:
Andrei Konchalovsky
2 episódios • 1997

Roteiristas:
Homero - poema épico
Andrei Konchalovsky
Chris Solimine

Elenco:
Armand Assante como Odisseu
Greta Scacchi como Penélope
Isabella Rossellini como Athena
Bernadette Peters como Circe
Eric Roberts como Eurymachus
Irene Papas como Anticleia
Jeroen Krabbé como King Alcinous
Geraldine Chaplin como Eurycleia
Christopher Lee como Tiresias
Vanessa Williams como Calypso
Nicholas Clay como Menelaus
Adoni Anastassopoulos como Perimedes
Paloma Baeza como Melanthe
Ron Cook como Eurybates
Reid Asato como Cyclops
Mark Hill como Orsilicus
Pat Kelman como Elatus
Vincenzo Nicoli como Antinous
Sally Plumb como Queen Alcinous
Roger Ashton-Griffiths como Polites
Katie Carr como Nausicaa
Marius Combo como Agelaus
Alan Cox como Elpener
William Houston como Anticlus
Oded Levy como Leocritus
Peter Page como Philotus
Michael J. Pollard como Aeolus
Alan Stenson como Telemachus
Tony Vogel como Eumaeus
Heathcote Williams como Laocoon
Michael Tezcan como Eurylochos
Richard Truett como Achilles
Yorgo Voyagis como Agamemnon
Peter Woodthorpe como Mentor
Derek Lea como Hector
Frederick Stuart como Hermes
Miles Anderson como Poseidon
Alan Smithie como Priam
Vernon Dobtcheff como Aegyptius
Josh Maguire como Young Telemachus
Yuvrajsinh Zala como Young Villager
Stewart Thompson como Antiphus
Stewart Thompson como Antiphus
Kresh Novakovic como Phonecian Sailor (não creditado)
Max Oddball como Greek Juggler (não creditado)

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
21. Malcolm X... / 22. A Odisseia (1ª parte) / 23. A Odisseia (2ª parte) /     

Odisseia: Prelúdio (Canto I.c)

Odisseia

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Prelúdio
Canto I

Assembleia dos Deuses, Conselhos de Atena a Telêmaco e Festa dos Pretendentes

     “A assembleia dos deuses se reúne acerca do envio de Odisseu para Ítaca desde a ilha de Calipso. Então, Atena vai para Ítaca, se apresenta a Telêmaco, se fazendo semelhante a Mentes, rei dos Tófios.
     Ocorre então uma conversa. Atena aconselha Telêmaco a ir procurar seu pai primeiro em Pilo, cidade de Nestor, depois em Esparta, cidade de Menelau. Ela parte dando sinais de que é deusa.
     Acontece, entrementes, a festa dos pretendentes.” (Scholie MPV)


volta, a seguir, para a terra querida do teu nascimento, 
um cenotáfio lhe erige, prestando-lhe as honras funéreas, 
ricas, tal como convém, e a tua mãe depois dá um marido. 
Logo que tudo hajas feito e a bom termo, de acordo, levado, 
no íntimo da alma reflete, e no peito, também, valoroso, 
como consigas matar, claramente ou por modo encoberto, 
os pretendentes, no próprio palácio, que bem não te fica, 
como criança, brincar; para tal, já passaste da idade. 
Ou não soubeste da fama que Orestes divino entre os homens 
veio a alcançar, por haver dado a Morte ao Tiestíada Egisto,

que, com traiçoeira artimanha, matara seu pai muito ilustre? 
Tu, também, caro! Crescido te vejo e com bela aparência. 
Sê corajoso, porque também possam vindoiros louvar-te. 
Ora pretendo tornar para a nave ligeira, a ajuntar-me 
aos companheiros, talvez agastados com minha demora. 
Cuida tu próprio de tudo e medita nas minhas palavras.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Hóspede, tuas palavras são ditas com ânimo amigo, 
como de pai para filho; jamais poderei esquecê-las. 
Mas, muito embora desejes partir, fica um pouco, te peço,

que te banhes e possas dar largas ao peito querido, 
para depois ao navio voltares, levando um presente, 
muito valioso e bonito, que seja lembrança de minha 
parte, tal como os amigos com os hóspedes fazem de grado.” 
  A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“Não me demovas do intento, pois muito me importa ir embora. 
Quanto ao presente, se tanto o desejas, que seja na volta, 
quando de novo passar por aqui; levá-lo-ei para casa. 
Por mais valioso que escolhas, terás outro igual conquistado.” 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao dizer tais palavras. 

Desapareceu como pássaro, tendo-lhe ao peito insuflado 
força e coragem, fazendo-o ainda mais de Odisseu recordar-se 
do que até então o fizera. Transborda-lhe o peito de espanto 
ao refletir sobre o caso, pois que era um dos deuses notara. 
Os pretendentes procura, a seguir, qual um deus na aparência. 
  Todos, em volta, escutavam silentes o aedo famoso, 
que lhes cantava o retorno funesto que Palas Atena 
houve por bem decretar ao voltarem de Troia os Aquivos. 
Dos aposentos de cima escutou a cantiga divina 
a virtuosa Penélope, filha de Icário. Resolve,

sem mais demora, baixar pelas longas escadas da casa, 
mas não sozinha, que duas criadas ao lado a acompanham. 
Quando a divina mulher o lugar alcançou onde estavam 
os pretendentes, no umbral se deteve de bela feitura, 
tendo as feições escondidas num véu de lavor admirável. 
De cada lado lhe fica uma serva de espírito casto. 
Lágrimas verte copiosas e ao divo cantor se dirige: 
  “Fêmio, canções diferentes tu sabes, que os homens encantam 
gestas de heróis e de deuses, que os vates gloriosos propagam. 
Dessas, lhe canta qualquer, e que todos te escutem silentes

vinho a beber. Não prossigas, porém, nessa história tão triste, 
que o coração se me aperta no peito ao ouvir-te a cantiga, 
o que acontece dês que a incomportável saudade me aflige, 
pela querida cabeça, que sempre à memória me ocorre, 
pelo varão, cuja fama em toda a Hélade e em Argos se estende.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Mãe, por que causa proíbes que o nobre cantor nos deleite 
com o que à mente lhe vem? Não têm culpa, por certo, os cantores, 
sim tem-na Zeus, é o culpado, que os dons distribui entre os homens 
laboriosos por modo variável, tal como lhe agrada.

Não o censures por ter-nos cantado as desgraças dos Dânaos, 
pois entre o povo recebem mais altos louvores os cantos 
que para o ouvinte mais novos lhe soam, de fatos recentes. 
Ânimo forte te cumpre ora ter para ouvi-lo sem mágoa. 
Não foi somente Odisseu quem privado se viu do retorno, 
mas também outros heróis pereceram nos plainos de Troia. 
Para o teu quarto recolhe-te e cuida dos próprios lavores, 
roca e tear, e às criadas solícitas ordens transmite 
para que tudo executem, que aos homens importa a palavra, 
mormente a mim, a quem cumpre assumir o comando da casa.”

Cheia de espanto, Penélope aos seus aposentos retorna 
pois lhe calaram no peito as sensatas palavras do filho. 
Acompanhada das servas, subiu para os seus aposentos, 
para chorar pelo caro marido, Odisseu, té que sono 
muito tranquilo nos olhos lhe Palas Atena vertesse. 
Os pretendentes na sala sombria levantam tumulto, 
todos a arder em desejos de o leito poder compartir-lhe. 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhes fala: 
  “De minha mãe pretendentes, soberbos e cheios de orgulho, 
ora gozemos da festa; ninguém faça bulha importuna,

pois não há nada mais belo que um canto escutar delicioso, 
tal como os deste cantor, que semelha na voz a um dos deuses. 
Mas amanhã muito cedo, reunidos sereis todos na ágora, 
para que eu possa anunciar, sem ambages, o que vos intimo: 
abandonardes-me a casa por outros mais gratos convites 
e dardes festas recíprocas, mas só com vossa fazenda. 
Mas se julgardes melhor e mais cômodo assim continuardes 
impunemente a gastar os haveres de um homem somente, 
bem, prossegui! que implorar hei de aos deuses eternos do Olimpo. 
Zeus me dará, porventura, alcançar a vingança almejada,

para que inultos venhais a morrer aqui dentro de casa.” 
  Disse; os presentes, ouvindo-o, morderam os lábios com força, 
maravilhados de como Telêmaco a todos falara. 
Disse-lhe Antínoo, de Eupites nascido, em resposta, o seguinte: 
  “Foram teus mestres, por certo, Telêmaco, os deuses eternos, 
que te ensinaram o orgulho e a falar desse modo grandíloquo. 
Zeus não permita que venhas em Ítaca, de ondas cercada, 
a governar, muito embora isso seja tua herança paterna.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Agastar-te-ei, porventura, com minhas palavras, Antínoo?

Fora de minha vontade reinar, se assim Zeus o deixasse. 
Ou te parece ser isso entre os homens o pior dos destinos? 
De forma alguma quem reina é infeliz, porque logo sua casa 
muito opulenta se torna e ele próprio bem mais respeitado. 
Mas dos Aqueus muitos príncipes há nos contornos desta ilha, 
tanto da nova progênie, assim como de troncos mais velhos. 
Que seja rei qualquer deles, que o divo Odisseu já está morto. 
Eu, quanto a mim, me contento em mandar nesta casa, que é nossa, 
e nas escravas, que o divo Odisseu como espólio nos trouxe.” 
  Disse-lhe Eurímaco, filho de Pólibo, então, em resposta:

 “Isso, Telêmaco, se acha assentado nos joelhos dos Deuses, 
quem há de em Ítaca, de ondas cercada, exercer o reinado. 
Fica na posse de tua fazenda e dirige tua casa, 
que, enquanto houver habitantes em Ítaca, não há de um homem 
contra teu próprio querer expoliar-te exercendo violência. 
Ora, meu caro, a respeito desse hóspede quero falar-te. 
Donde nos veio tal homem? Que terra o envaidece de origem? 
Progenitores quais tem, e a que pátria, também, se filia? 
Trouxe-te, acaso, a notícia de estar o teu pai de tornada, 
ou veio aqui simplesmente por causa do próprio interesse?

Rapidamente voltou, sem dar tempo a nenhum dos presentes 
de conhecê-lo. No entanto, revela aparência mui nobre.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Não é possível, Eurímaco; morto foi ele ao retorno. 
Já não dou crédito algum às pessoas que o dizem de volta, 
como, também, não consulto os oráculos, quando, adivinho 
por minha mãe convidado, é frequente, os expende na sala. 
Trata-se de hóspede antigo de nossa família, de Tafo; 
Mentes se chama e se orgulha de ser descendente de Anquíalo 
justo; dirige o destino dos Táfios amantes do remo.”

 Isso disse ele; mas na alma que é deusa imortal reconhece. 
  Voltam os mais a dançar no compasso do canto agradável, 
a divertirem-se à espera de que fosse a noite chegada. 
Quando o crepúsc’lo baixou, ainda o grato festim prosseguiu; 
todos, então, se dispersam, em busca dos próprios palácios. 
Sobe Telêmaco para o seu quarto no esplêndido pátio, 
onde lhe haviam construído aposento em lugar bem aberto. 
Vai para a cama, volvendo no peito cuidados diversos. 
Iluminava-lhe os passos, com um facho na mão, Euricleia, 
gênita de Opos, que filha se diz do guerreiro Pisénor,

que, há muito tempo, Laertes comprara com os próprios haveres, 
na flor da idade; por ela ele deu vinte bois, esse o preço, 
tendo-a em casa acatado tal como se esposa lhe fosse, 
sem nunca haver compartido do leito; temia a consorte. 
Essa, portanto, aclarava-lhe os passos, pois muito o estimava, 
mais que qualquer das escravas, pois desde pequeno o criara. 
Abre Telêmaco a porta do quarto de forte feitura, 
senta-se logo no leito e, a seguir, despe a túnica fina 
e para os braços a joga da velha de sábios conselhos. 
Esta, tomando da túnica, dobra-a com todo o cuidado e a dependura

 no gancho do lado do leito crivado. 
Vem para fora e, a seguir, puxa a porta por meio da argola 
toda de prata, esticando por fim a correia da tranca. 
Por toda noite ali fica, envolvido num velo de ovelha, 
a refletir no caminho a que Palas Atena o exortara. 

continua página 664...
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Prelúdio
Canto I.a / Canto I.b / Canto I.c /    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

Odisseia: Prelúdio (Canto I.b)

Odisseia

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Prelúdio
Canto I

Assembleia dos Deuses, Conselhos de Atena a Telêmaco e Festa dos Pretendentes


     “A assembleia dos deuses se reúne acerca do envio de Odisseu para Ítaca desde a ilha de Calipso. Então, Atena vai para Ítaca, se apresenta a Telêmaco, se fazendo semelhante a Mentes, rei dos Tófios.
     Ocorre então uma conversa. Atena aconselha Telêmaco a ir procurar seu pai primeiro em Pilo, cidade de Nestor, depois em Esparta, cidade de Menelau. Ela parte dando sinais de que é deusa.
     Acontece, entrementes, a festa dos pretendentes.” (Scholie MPV)


Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
os pretendentes a outros prazeres inclinam as mentes,
canto com música e dança, ornamento de todo banquete.
Uma belíssima cítara traz logo o arauto e a coloca
na mão de Fêmio, que, contra a vontade, os festins alegrava.
Preludiando na cítara, ao canto dá aquele princípio.
À de olhos glaucos, Atena, Telêmaco disse o seguinte,
quase a falar-lhe no ouvido, porque ninguém mais o sentisse:
  “Caro estrangeiro, não vais agastar-te com minhas palavras?
Estes aqui só se ocupam com canto e com música: apenas;

coisa bem fácil, porque só consomem alheia fazenda, 
de quem a ossada, jazendo na praia, apodrece na chuva, 
ou, porventura, é jogada no mar pelo embalo das ondas. 
Mas, se de novo voltasse e, de súbito, em Ítaca o vissem, 
todos, por certo, mais rápidos pés pediriam aos deuses, 
do que viver em tamanha opulência de vestes e de ouro. 
Mas, como disse, caiu sob um fado impiedoso, e esperança 
já não me resta da volta, ainda mesmo que o afirme um
dos muitos dos moradores da terra. A manhã do retorno não surge. 
Vamos! Agora me fala e responde conforme a verdade:

Qual o teu nome e o teu povo? teus pais? a cidade em que moras? 
Em que navio chegaste e de como os seus homens puderam 
pôr-te nesta ilha? Revela-me o nome de que se envaidecem, 
pois não presumo que tenhas chegado por via terrestre. 
  “Conta-me tudo de acordo com os fatos, a fim de que o saiba, 
se é a vez primeira que vens até cá, ou se acaso já foste 
hóspede aqui de meu pai, porque muitos a casa nos vêm, 
visto ser grande o convívio que sempre manteve com os homens.” 
  A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Sem o menor subterfúgio pretendo contar-te a verdade.

Mentes me chamo e me orgulho de ser descendente de Anquíalo 
justo; dirijo o destino dos Táfios amantes do remo. 
Eu, mais os sócios, aqui vimos ter, pelo mar cintilante, 
ora no rumo de Témesa, de moradores de língua 
que diferente nos soa. Por bronze pretendo dar ferro. 
Perto do campo o navio deixei, bem distante das casas, 
no porto Reitro, que fica na base do Neio selvoso. 
Nossas famílias se orgulham da hospitalidade que entre elas 
houve, de início. Pergunta-o ao velho guerreiro Laertes, 
que, dizem todos, não mais a cidade procura e frequenta,

mas em trabalhos os dias consome no campo distante, 
com uma velha criada, que, a ponto, lhe dá os alimentos, 
como bebida, ao sentir o cansaço nos membros, quando anda 
pelo montuoso terreno em que tem sua vinha plantada. 
Mas me disseram que já se encontrava teu pai de retorno. 
Por isso vim; certamente os eternos a volta lhe impedem. 
Não, não morreu sobre a terra o divino Odisseu, mas ainda 
vive e talvez ora se ache detido no largo oceano, 
em qualquer ilha por ondas cercada, onde seres malvados 
e sem polícia por força o retêm, muito contra a vontade.

Ora desejo prever-te o futuro, tal como os eternos 
na alma mo dizem e como há de dar-se com toda a certeza, 
conquanto insciente no voo dos pássaros e profecias. 
Por muito tempo não há de ficar afastado da pátria, 
mesmo que em volta dos membros tivesse cadeias de ferro. 
Pensa na fuga, no modo exequível, por ser ardiloso. 
Vamos, agora me fala e responde conforme a verdade: 
Crescido assim, como estás, do valente Odisseu tu descendes? 
Muito com ele pareces, nas belas feições, na cabeça, 
pois com bastante frequência trocávamos sempre visitas,

antes que para as planícies de Troia embarcasse, aonde foram 
em naus velozes, também, os Argivos mais nobres e fortes. 
Desde esse tempo nem mais eu o vi, nem me viu Odisseu.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Tudo direi, estrangeiro, de acordo com a pura verdade. 
Diz minha mãe que sou dele, de fato, gerado; contudo, 
eu próprio o ignoro; ninguém tem consciência da própria linhagem. 
Bem preferira se de outra pessoa pudesse ser filho, 
que, mais feliz, à velhice chegasse com suas riquezas. 
Já que o desejas saber, dir-te-ei: venho, sim, do guerreiro

mais infeliz do que quantos partilham da vida terrena.” 
  A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“Não resolveram os deuses ficasse sem nome a linhagem 
a que pertences, porque de Penélope foste gerado. 
Mas vamos, ora me fala e responde conforme a verdade: 
Qual é esta festa? Que gente? Até onde te importa isso tudo? 
É casamento ou banquete? Pois não me parece de escote. 
São, a meu ver, por demais arrogantes na festa que fazem 
em tua casa. Qualquer indivíduo dotado de siso 
se indignaria, ao se ver testemunha de tanta impudência.”

O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Hóspede, visto que acerca de tudo interrogas e inquires, 
de intemerata e opulenta ufanou-se esta casa no tempo 
já decorrido, em que aquele varão se encontrava na pátria. 
Ora outra coisa decretam os deuses, que males meditam, 
que resolveram tirá-lo da vista de todos os homens. 
Menos penoso seria saber que, de fato, morrera, 
se sucumbisse entre os seus companheiros nos campos de Troia, 
ou entre os braços de amigos, depois de acabada a campanha. 
Túmulo os povos Aqueus com certeza haveriam fazer-lhe,

e, no porvir, a seu filho deixara renome perene. 
Mas, desse modo, as Harpias sem fama nenhuma o arrastaram. 
Dele já não há notícia, sumiu, só me havendo deixado 
pranto e aflições. Mas não é só por ele que tanto me aflijo; 
por mim também, pois a mim outros males os deuses reservam. 
Quantos senhores dominam possantes nas ilhas de em torno, 
não só em Samo, também em Dulíquio e em Zacinto selvosa, 
ou mesmo em Ítaca o mando repartem, de chão pedregoso, 
todos a mãe me requestam e os bens, sem cessar, dilapidam. 
Ela, nem sabe, de vez, recusar essas núpcias odientas,

nem, de uma vez, aceitar. E, com isso, eles gastam sem pausa 
minha fazenda. A mim próprio, por certo, bem cedo consomem.” 
  Palas Atena, indignada, lhe diz deste modo, em resposta: 
“Vejo que falta mui grande ora tens do afastado Odisseu, 
para que a mão vingadora baixasse sobre estes intrusos. 
Fosse possível chegar hoje mesmo, de pé junto à porta, 
de elmo e de escudo provido, e nas mãos duas lanças potentes, 
e o visse, agora, tal como o encontrei na primeira visita 
a nossa casa, conquanto a tão só beber e divertir-se, 
de Éfire vindo, onde esteve qual hóspede de Ilo Mermérida!

Fora Odisseu até lá transportado por nave ligeira, 
para buscar um veneno homicida de que precisava, 
com o fim de untar suas flechas de bronze. Mas Ilo escusou-se 
por tudo a dar-lho, porque tinha medo dos deuses eternos. 
Meu pai, porém, lho cedeu, pois lhe tinha afeição extremada. 
Oh! se o divino Odisseu, tal como é, entre os moços surgisse! 
Todos na curta distância veriam as núpcias lugentes. 
Mas isso tudo ainda se acha assentado nos joelhos dos deuses, 
se de tornada virá para casa, a tirar a vingança, 
ou se há de inulto ficar. Mas agora a pensar te aconselho

 como consigas tocar do palácio esse bando de gente. 
Vamos, escuta o que digo e reflete nas minhas palavras. 
Logo amanhã chamarás à assembleia os heroicos Aquivos 
e a todos eles expõe teu pensar, invocando os eternos. 
Os pretendentes intima, depois, para que se dispersem. 
Quanto a tua mãe, se, de fato, deseja casar novamente, 
para o palácio retorne do pai, de poder não somenos, 
que cuidará dessas núpcias, bem como do dote vultoso, 
como costumam fazer sempre os pais com suas filhas queridas. 
Ora um conselho sensato pretendo expender, se mo aceitas:

Nau aparelha, a melhor que encontrares, com vinte remeiros, 
para notícias buscar de teu pai, que de há muito está ausente, 
quer to refira um mortal, quer a voz que de Zeus se origina, 
que, sobretudo entre os homens renome preexcelso concede. 
Vai até Pilo, primeiro, e o divino Nestor interroga; 
a Menelau, em seguida, o de louros cabelos, de Esparta, 
o derradeiro a chegar dos Aqueus de couraça de bronze. 
Caso te digam que ainda está vivo e que pensa na volta, 
mesmo que muito te aflija, suporta a demora de um ano. 
Mas, se te vier a notícia de que não mais vive, que é morto,

continua página 658...
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Prelúdio
Canto I.a / Canto I.b / Canto I.c /     
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.