segunda-feira, 9 de março de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: A grande irritação - [c]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
A grande irritação 


     Durante o regresso e mais tarde, Hans Castorp teve momentos em que se sentia tomado de vertigens diante da monstruosidade daquilo que tinham à sua frente; sobretudo quando se manifestou que Naphta não queria saber de floretes ou de sabres, senão insistia num duelo a pistola, e que realmente lhe cabia escolher as armas, já que, segundo os conceitos do código de honra, era ele o ofendido. Houve, pois, momentos em que o jovem conseguiu até certo ponto libertar-se daquele espírito que lavrava no ambiente, envolvendo e perturbando a todos. Dizia-se então que aquilo era rematada loucura e devia ser evitado. 

– Se, pelo menos, houvesse uma ofensa real! – exclamou numa conversa com os senhores Settembrini e Ferge, e com Wehsal, a quem Naphta, já durante a viagem de volta, escolhera para padrinho e que servia de intermediário entre as partes. – Um insulto de caráter meramente convencional! Se o nome honrado de um fosse enxovalhado pelo outro, se se tratasse de uma mulher ou de qualquer outro ponto vital, de uma situação em que não se visse nenhuma outra possibilidade de compensação! Bem, num caso desses existe o duelo como último recurso. Depois, quando se lavou a honra, quando tudo terminou sem grandes danos e se verifica que “os adversários se separaram reconciliados”, pode-se até opinar que se trata de uma boa instituição, de uma coisa salutar e prática em certos casos complicados. Mas que fez Naphta, afinal? Absolutamente não quero defendê-lo. Pergunto apenas: que fez ele para ofender o senhor? Ele derrubou as categorias. Privou, segundo a sua própria expressão, as ideias da sua dignidade acadêmica. O senhor sentiu-se ofendido por isso. Com razão, vamos admiti-lo... 
– Admiti-lo? – repetiu o Sr. Settembrini, encarando-o. 
– Com razão, com razão! Ele ofendeu o senhor com isso. Mas não o insultou. Aí está a diferença, permita-me que o diga! Trata-se de coisas abstratas, espirituais. Com coisas espirituais pode-se ofender, mas não insultar uma pessoa. Esse é um axioma que todos os tribunais de honra aceitariam, posso lhe garantir. E pelo mesmo motivo não há tampouco um insulto naquela resposta do senhor, em que falou de “infâmia” e de “castigar devidamente”, já que também esses termos estavam sendo empregados em sentido espiritual. Tudo se mantinha na esfera espiritual e nada tinha que ver com a esfera pessoal. O espiritual nunca pode ser pessoal; este é o complemento e a interpretação do axioma, e por isso... 
– O senhor está enganado, caro amigo – replicou o Sr. Settembrini com os olhos fechados. – Está enganado em primeiro lugar ao afirmar que o espiritual não pode assumir caráter pessoal. O senhor não deveria pensar assim – continuou com um sorriso singularmente frouxo e doloroso. – Antes de tudo, porém, equivoca-se na apreciação que faz do espírito em geral, que evidentemente considera demasiado fraco para provocar conflitos e paixões da mesma intensidade daqueles que acarreta a vida real e que não toleram outra solução que não a luta armada. All’ incontro! O elemento abstrato, purificado, ideal, é ao mesmo tempo o absoluto, é o que há de realmente rigoroso e encerra em si possibilidades muito mais profundas e mais radicais de ódio, de oposição irrestrita e irreconciliável, do que a vida social. Admira-se o senhor ao ver que o abstrato conduz, por caminhos mais diretos e mais inelutáveis do que esta, à situação em que se trata de “um de nós dois, tu ou eu”, a situação propriamente radical, a do duelo, da luta corporal? O duelo, meu amigo, não é uma “instituição” como qualquer outra. É um último recurso, é a volta ao estado primevo da natureza, apenas levemente suavizada por certo código cavalheiresco que não deixa de ser superficial. O característico dessa situação é o seu cunho totalmente primitivo, a luta corporal, e cabe a todo homem, por mais que se distancie da natureza, manter-se preparado para essa emergência. Ela pode ocorrer a qualquer instante. Quem não é capaz de arriscar a vida, o braço, o sangue na defesa de um ideal não é digno dele. Em que pese a nossa espiritualização, cumpre sermos homens.
     Dessa forma, Hans Castorp recebera uma lição. Que se podia opor a isso? O jovem permaneceu calado, meditando com o coração opresso. As palavras do Sr. Settembrini fingiam ser calmas e lógicas, e todavia soavam estranhas, pouco naturais na sua boca. Esses pensamentos não eram seus, como tampouco fora ele quem tivera a idéia do duelo, senão a aceitara daquele terrorista que era o pequeno Naphta. Eram, sim, a expressão da mentalidade reinante em toda parte, e que se apossara também de Settembrini, reduzindo a sua bela inteligência ao papel de seu servo e instrumento. Mas como? O espírito, por ser rigoroso, deveria conduzir, inexoravelmente, à bestialidade, à solução encontrada por meio da luta corporal? Hans Castorp.revoltava-se contra essa concepção, ou melhor, tentava revoltar-se; e para maior espanto seu, verificava que também ele era incapaz de fazê-lo. Também no seu próprio íntimo, ela se mostrava forte, essa mentalidade, e ele tampouco era talhado para distanciar-se dela. Daquela zona das suas recordações onde Wiedemann e Sonnenschein, desnorteados, se revolviam numa contenda bestial, vinha-lhe uma inspiração tremenda, definitiva, e com horror percebia Hans Castorp que ao fim de todas as coisas não restavam outros meios a não ser os do corpo, as unhas e os dentes. Sim, sim, parecia necessário bater-se, porquanto assim se podia garantir aquela suavização do estado primevo por meio do código cavalheiresco... E o jovem ofereceu ao Sr. Settembrini seus serviços como padrinho.
     Sua oferta foi rejeitada. Não, isso não convinha; não podia ser, foi a resposta que recebeu, primeiramente do próprio Settembrini com um sorriso macio e doloroso, e, a seguir, após um momento de reflexão, também de Ferge e de Wehsal, sem que ninguém justificasse essa opinião. Achavam impossível Hans Castorp assistir ao duelo nessa função. Talvez pudesse ele comparecer ao campo de luta como árbitro, pois a presença de uma pessoa com esse encargo estava prevista nas regras cavalheirescas, destinadas a suavizar a bestialidade. O próprio Naphta, pela boca de Wehsal, seu representante em assuntos de honra, manifestou-se nesse sentido, e Hans Castorp conformou-se com isso. Padrinho ou árbitro, fosse o que fosse, em todo caso teria uma oportunidade para exercer influência sobre as modalidades do combate, coisa que se manifestou sumamente necessária.
     As propostas de Naphta ultrapassavam todos os limites. Exigiu ele cinco passos de distância e três trocas de balas, no caso de se tornar preciso. Na mesma noite do incidente mandou transmitir essa loucura por Wehsal, que se identificava por completo com a tarefa de ser porta-voz e representante dos caprichos selvagens do jesuíta e se aferrava a tais condições ora porque recebera ordem de agir assim, ora porque correspondiam ao seu próprio gosto. Settembrini, naturalmente, nada tinha que objetar, mas Ferge, como seu padrinho, e Hans Castorp, o árbitro, mostraram-se indignados. Este chegou mesmo a ralhar com o desgraçado Wehsal. Não tinha vergonha – perguntou – de trazer à baila essas sugestões desumanas e antipáticas, embora se tratasse de um duelo puramente convencional, sem base em nenhum insulto real? A exigência das pistolas já era muito forte, mas esses pormenores sanguinários eram o cúmulo. Aí não se podia mais falar em espírito cavalheiresco. Por que não atirariam logo à queima-roupa? Para Wehsal era fácil manifestar tamanha sede de sangue, porque não seria contra ele que se daria um tiro de cinco metros de distância. E assim por diante. Wehsal encolheu os ombros, indicando pelo seu silêncio que se achavam numa situação radical, e desarmando dessa forma os seus oponentes, inclinados a esquecer esse fato. Mesmo assim conseguiram estes, no decorrer das negociações do dia seguinte, reduzir as três trocas de tiros a uma única e chegar a um acordo na questão da distância: os combatentes ficariam separados um do outro por quinze passos e teriam o direito de avançar cinco passos antes de atirar. Mas também essa concessão não foi obtida senão pela promessa de que não se fariam tentativas de reconciliação. Descobriram então que nenhum deles possuía pistolas.
     O Sr. Albin, porém, tinha. Além do pequeno e lustroso revólver, com o qual gostava de assustar as senhoras, dispunha ainda de um par de pistolas de oficial, fabricadas na Bélgica e guardadas num estojo comum. Eram Brownings automáticas com coronhas de madeira marrom, que continham os depósitos das balas, com um mecanismo de aço azulado e com canos polidos, sobre cujas bocas se achavam as miras. Em outra ocasião, Hans Castorp vira essas armas nas mãos do fanfarrão, e contra as suas próprias convicções, por puro senso de imparcialidade, ofereceu-se para pedi-las emprestado. E assim fez, não escondendo a finalidade em si, mas envolvendo-a naquele segredo peculiar aos casos de honra e invocando, com êxito fácil, a discrição cavalheiresca do rapaz. O Sr. Albin mesmo lhe ensinou como carregar as armas e disparou-as diversas vezes ao ar livre, a título de experiência.
     Tudo isso requereu tempo, e assim sucedeu que até a data do encontro transcorreram dois dias e três noites. O lugar do duelo tinha sido proposto por Hans Castorp: era aquele sítio pitoresco, que no verão se cobria de flores azuis, e onde o jovem costumava retirar-se para “reinar”. Era ali que; na terceira manhã após a desinteligência, se liquidaria a querela, logo que houvesse bastante luz. Somente na véspera, a altas horas da noite, Hans Castorp, que andava muito nervoso, teve a ideia de que era necessário levar um médico ao campo de luta.
     Foi imediatamente deliberar com Ferge sobre esse problema cuja solução se apresentou bem difícil. Verdade era que Radamanto pertencera a um grêmio de estudantes que mantinha o código de duelo, mas parecia impossível pedir ao chefe do estabelecimento que desse o seu apoio a semelhante ato ilegal, tanto mais que se tratava de doentes. De modo geral, havia pouca esperança de encontrar em Davos um médico que se dispusesse a assistir a um duelo a pistola entre dois homens gravemente enfermos. No que se referia a Krokowski, não se sabia ao certo se esse espírito refinado tinha muita prática na medicação de ferimentos.
     Wehsal, igualmente consultado, declarou que Naphta já se opusera à presença de um médico, alegando que não ia ao lugar do duelo para ser untado e pensado, mas para bater-se e fazê-lo seriamente. Pouco se lhe dava o que acontecesse depois. Isso ficaria para mais tarde. Embora essas palavras parecessem sinistras, Hans Castorp esforçou-se por interpretá-las no sentido de que Naphta era intimamente de opinião que não haveria necessidade de um médico. Não respondera também Settembrini, interpelado por Ferge, que achava melhor abandonar a idéia, uma vez que não lhe interessava? Não era totalmente insensato esperar que os adversários, no fundo do coração, tivessem ambos a intenção de não causar derramamento de sangue. Haviam dormido duas noites desde aquela rixa, e tinham à sua frente uma terceira. O tempo aclara o ambiente e arrefece os ânimos. Não há exaltação que resista à corrente das horas, sem sofrer alterações. Amanhã de madrugada, com a arma na mão, nenhum dos dois brigões seria o mesmo homem que fora na tarde do incidente. Agiriam automaticamente, sob o ditame da honra, e não por viva e espontânea vontade, como teriam feito se tivessem agido na própria ocasião. Deveria ser possível evitar que renegassem o seu espírito atual, a favor daquilo que pertencia ao passado.
     Hans Castorp não se enganava nessas suas reflexões; quer dizer que não se enganava num sentido que jamais poderia ter imaginado. Tinha até perfeitamente razão no que tocava ao Sr. Settembrini. Porém, se houvesse previsto em que sentido Leo Naphta no decorrer do tempo ou no próprio momento decisivo modificaria os seus desígnios, nem sequer a situação íntima em que tudo isso tinha a sua origem teria sido capaz de induzi-lo a admitir o que estava se preparando.
     Às sete horas da manhã, o sol estava longe de surgir atrás da sua montanha, mas o dia raiava penosamente por entre as brumas, quando Hans Castorp, após uma noite inquieta, saía do Sanatório Berghof, a fim de se encaminhar ao lugar do encontro. As criadas que limpavam o vestíbulo olharam-no com surpresa. No entanto achou aberto o portão principal. Ferge e Wehsal, juntos ou separadamente, já o tinham transposto, um para guiar Settembrini e o outro para acompanhar Naphta ao campo de combate. Hans Castorp ia sozinho, visto a sua função de árbitro não lhe permitir associar-se a nenhuma das partes.
     Ia maquinalmente, sob a coação da honra, forçado pelas circunstâncias. Era natural e necessário que ele assistisse ao duelo. Seria impossível manter-se afastado a aguardar o resultado na cama, em primeiro lugar porque... Mas o jovem, ao invés de desenvolver o primeiro motivo, logo acrescentou o segundo: não se devia deixar que as coisas chegassem a seu termo. Por enquanto não acontecera nada de grave, graças a Deus, e não era inevitável, era até mesmo inverossímil que algo de grave acontecesse. Tiveram de se levantar à luz artificial e de sair, sem terem tomado café, para reunir-se ao ar livre, no frio cortante da madrugada, já que assim havia sido combinado. Mas Hans Castorp pensava que depois, sob o influxo da sua própria presença, tudo tomaria rumos mais favoráveis e menos tristes, não se podia antever de que modo, e que era melhor não querer adivinhar, porquanto a experiência ensinava que mesmo os mais simples dos acontecimentos sempre transcorriam de forma diferente à antecipada pela imaginação.
     Ainda assim, era a manhã mais desagradável de todas de que se recordava. Hans Castorp sentia-se lasso e tresnoitado; seus dentes tendiam a bater nervosamente. Não precisava inquirir seu íntimo para desconfiar dos pensamentos com que acabava de tranquilizar-se. Os tempos que corriam eram tão invulgares... A senhora de Minsk, arruinada pela cólera, o colegial enfurecido, Wiedemann e Sonnenschein, a história das bofetadas polacas – tudo isso se revolvia confusamente no seu cérebro. Não podia imaginar que à sua frente, na sua presença, dois homens fossem trocar tiros e derramar o sangue um do outro. Mas quando se lembrava do que, ante os seus olhos, ocorrera entre Wiedemann e Sonnenschein, desconfiava de si próprio e do seu mundo e arrepiava-se sob o casaco forrado de peles, não obstante a sensação do extraordinário e do patético do momento, que o exaltava e animava, da mesma forma que os elementos vivificadores do ar da manhã.
     Tomado de sentimentos contraditórios, que variavam a cada instante, o jovem saía da “aldeia”, através do lusco-fusco que lentamente se aclarava. Partindo do fim da pista de trenó, galgava a encosta, subindo por uma vereda muito estreita. Alcançou o bosque oculto por espessa camada de neve. Atravessou as pontes de madeira, por baixo das quais se estendia a pista, e avançou, por entre as árvores, num caminho aberto antes pelos pés dos transeuntes do que pelas pás. Como caminhasse velozmente, passou depois de pouco tempo por Settembrini e Ferge. Este levava a caixa de pistolas sob a ampla capa. Hans Castorp não vacilou em unir-se a eles. Mal chegara a seu lado, deparou com Naphta e Wehsal, que se achavam a pouca distância na frente. 

– Que manhã fria! Menos dezoito graus – disse na melhor das intenções, mas, assustando-se ele mesmo com a frivolidade das suas palavras, acrescentou: – Senhores, estou convencido...

     Os outros permaneceram silenciosos. Os bigodes joviais de Ferge subiam e desciam. Alguns segundos após Settembrini estacou e, tomando a mão de Hans Castorp entre as suas, disse: 

– Meu amigo, eu não matarei. Não farei isso. Vou me expor à bala dele. É tudo o que a honra pode exigir de mim. Mas eu não matarei, fique sossegado!

     Soltou a mão do jovem e prosseguiu o caminho. Hans Castorp estava profundamente emocionado, mas, depois de alguns passos, objetou: 

– Acho maravilhoso da sua parte, Sr. Settembrini, mas... Se ele, da sua parte...

     O Sr. Settembrini limitou-se a menear a cabeça. Hans Castorp, ponderando que, quando um não atirava, o outro de modo algum poderia atrever-se a fazê-lo, chegou à conclusão de que os auspícios eram felizes e suas esperanças começavam a confirmar-se. Sentiu-se bastante aliviado. 
     Transpuseram a passadeira que cruzava a ravina, onde no verão caía a pitoresca cachoeira, congelada e muda a essa época do ano. Naphta e Wehsal iam de cá para lá, pela neve, diante do banco escondido sob espessa, camada branca. Era o mesmo banco em que Hans Castorp, certa vez, se vira acossado por recordações singularmente vivas, enquanto esperava o fim de uma hemorragia do nariz. Naphta fumava um cigarro, e Hans Castorp perguntou a si mesmo se não sentia vontade de imitá-lo, mas verificou que absolutamente não estava disposto a fazê-lo e deduziu disso que a atitude do outro tinha um fundo de afetação. Com a sensação de agrado que sempre o invadia ali, contemplou a intimidade fria desse sítio que lhe pertencia e não era menos formoso sob aquele aspecto glacial do que na época em que aparecia inundado de flores azuis. O tronco e a ramagem do pinheiro, que formava uma linha diagonal através do quadro, dobravam se sob a carga de neve. 

– Bom dia! – exclamou o jovem com voz alegre, inspirado pelo desejo de introduzir no ambiente, desde o começo, um tom natural, destinado a dissipar as nuvens. Mas teve pouca sorte com essa intenção, pois ninguém respondeu. As saudações trocadas consistiam em reverências mudas, tão cerimoniosas que se tornavam quase imperceptíveis. Mesmo assim, Hans Castorp continuou decidido a lançar mão, sem demora, da emoção inicial, do aceleramento cordial da sua respiração, do calor originado pela caminhada rápida através da manhã de inverno, e a aproveitá-los em prol da finalidade boa. Por isso começou dizendo: 
– Senhores, estou convencido... 
– O senhor tratará das suas convicções em outra oportunidade – atalhou-lhe Naphta friamente a palavra. – As armas, por favor – acrescentou com a mesma arrogância. E Hans Castorp, como se tivesse levado um tapa na boca, teve de ver Ferge tirar o estojo fatal de sob a capa. Wehsal, que se aproximara dele, recebeu das suas mãos uma das pistolas, a fim de passá-la a Naphta. A seguir, Ferge entregou a outra a Settembrini. Feito isso, pediu em voz baixa que desembaraçassem o lugar e pôs-se a medir a passos o terreno e a marcar a distância. Riscou na neve os limites externos com o tacão e assinalou as barreiras internas com duas bengalas, a sua e a de Settembrini.

     Que fazia ali o sofredor bonachão? Hans Castorp mal podia dar crédito a seus olhos. Ferge tinha as pernas compridas e dava largas passadas, de maneira que os quinze passos resultaram numa extensão considerável. Mas havia ainda as malditas barreiras, que realmente não distavam muito uma da outra. Sem dúvida, Ferge estava bem intencionado. E todavia – que perturbação forçava-o a dedicar-se a esses preparativos monstruosos?
     Naphta atirara na neve a peliça, de modo que se via o forro de pele de marta do Canadá. Com a pistola na mão, pôs o pé numa das marcações externas, logo que esta foi traçada, enquanto Ferge ainda tratava das demais. Quando terminou, também Settembrini, com a jaqueta surrada, amplamente aberta, ocupou a sua posição. Hans Castorp despertou da sua letargia e apressadamente tornou a avançar. 

– Senhores – disse em voz opressa –, não se precipitem! Apesar de tudo é do meu dever... 
– Cale-se! – gritou Naphta em tom imperioso. – Exijo o sinal.

     Mas ninguém dava o sinal. Haviam esquecido de se pôr de acordo sobre esse ponto. Era lógico que alguém ordenasse: “Fogo!”, mas não tinham pensado, ou pelo menos não tinham declarado que caberia ao árbitro pronunciar o comando terrível. Hans Castorp permaneceu silencioso, e ninguém fez menção de substituí-lo. 

– Vamos começar! – declarou Naphta. – Avance e atire, senhor! – gritou ao adversário, e começou a avançar ele mesmo, com o braço estendido, apontando a pistola para o peito de Settembrini. Foi um espetáculo fantástico. Settembrini fez o mesmo. Ao terceiro passo – o outro, sem disparar, já alcançara a barreira – levantou a pistola muito alto e apertou o gatilho.

     A detonação provocou um eco múltiplo. As montanhas repercutiram sucessivamente o som. O vale encheu-se de vibrações com o choque, e Hans Castorp pensou que aquilo devia alarmar os habitantes. 

– O senhor atirou para o ar – disse Naphta, controlando-se, enquanto baixava a arma.

     Settembrini replicou: 

– Eu atiro como quero. 
– Atire o senhor novamente. 
 – Nem penso nisso. Agora é a sua vez. – Com a cabeça erguida, o Sr. Settembrini olhava o céu. Colocara-se quase de lado, não expondo o peito em cheio ao outro, o que era comovente de se ver. Evidentemente alguém lhe aconselhara não oferecer ao adversário toda a largura do corpo, e ele se inspirava por essa advertência. 
– Covarde! – bradou Naphta, e com esse grito humano admitiu que era preciso maior coragem para atirar do que para servir de alvo. Levantou então a pistola de um modo que nada mais tinha em comum com um combate, e descarregou-a na própria cabeça.

     Que cena trágica, inesquecível! Enquanto os cumes jogavam bolas com o ruído seco da sua façanha medonha, Naphta cambaleou ou precipitou-se alguns passos para trás, arremessando as pernas para o alto. Deu bruscamente meia-volta à direita e caiu com o rosto na neve.
     Todos permaneceram imóveis durante um momento. Settembrini, depois de arrojar a pistola para longe de si, foi o primeiro a aproximar-se de Naphta.

– Infelice! – exclamou. – Che cosa fai, per l’amor di Dio

     Hans Castorp ajudou-o a virar o corpo. Via-se o buraco vermelho, enegrecido, ao lado da têmpora. Cobriram-lhe o rosto com o lenço de seda cuja ponta sobressaía do bolsinho do casaco de Naphta. 

continua pág 466...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
A grande irritação - [c] /     
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

domingo, 8 de março de 2026

Cinema: Rebecca: A Mulher Inesquecível

Alfred Hitchcock


"Uma jovem de origem humilde se casa com um riquíssimo nobre inglês, que ainda vive atormentado por lembranças de sua falecida esposa. Após o casamento e já morando na mansão do marido, ela vai gradativamente descobrindo surpreendentes segredos sobre o passado dele."






Produção de 1940 P/B

Produtor: 
David O. Selznick

Diretor: 
Alfred Hitchcock

Roteiristas: 
Daphne Du Maurier / escritora do livro
Robert E. Sherwood / roteiro
Joan Harrison / roteiro
Philip MacDonald / adaptação 
Michael Hogan / adaptação

Elenco:
Laurence Olivier / 'Maxim' de Winter
Joan Fontaine / Mrs. de Winter
George Sanders / Jack Favell
Judith Anderson / Mrs. Danvers
Nigel Bruce / Major Giles Lacy
Reginald Denny / Frank Crawley
C. Aubrey Smith / Colonel Julyan
Gladys Cooper / Beatrice Lacy
Florence Bates / Mrs. Van Hopper
Melville Cooper / Coroner
Leo G. Carroll / Dr. Baker 
Leonard Carey / Ben 
Lumsden Hare / Tabbs 
Edward Fielding / Frith 
Philip Winter / Robert 
Forrester Harvey / Chalcroft
Bunny Beatty / Maid (não creditado) 
Billy Bevan / Policial (não creditado) 
Egon Brecher / Recepcionista do hotel (não creditado) 
Gino Corrado / Gerente do hotel (não creditado)
Bonnie Gaye Cowen / Menina (não creditado) 
Dolores 'Dodo' Dewey / Menina (não creditado) 
Ruddy Hartz / Menino (não creditado) 
Bonnie Henjum / Menina (não creditado) 
Alfred Hitchcock / Homem do lado de fora da cabine telefônica (não creditado) 
Leyland Hodgson / Mullen (não creditado) 
Alphonse Martell / Chefe de Garçons do hotel (não creditado) 
Jeanette Noeson / Menina (não creditado) 
William H. O'Brien / Garçom do hotel (não creditado) 
Dorothy Ann Pailliotet / Menina (não creditado) 
Ronald R. Rondell / Homem na sala de jantar para hóspedes do hotel (não creditado)
Phyllis Woodward / Menina (não creditado) 



Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940) 
- Crítica do filme de Alfred Hitchcock



Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: RepórterRebecca: A Mulher Inesquecível /    

Moby Dick: 54 - A História do Town-ho(a)

Moby Dick

Herman Melville

54 - A História do Town-ho (Tal como foi contada na Estalagem Dourada)
 
     O Cabo da Boa Esperança, e toda a região das águas à sua volta, se parece muito com uma encruzilhada de uma estrada importante, onde se encontram mais viajantes do que em qualquer outro lugar. Não muito tempo depois do Goney, encontramos o Town-Ho,{a} um outro baleeiro de regresso à pátria. Era tripulado quase inteiramente por Polinésios. Durante o breve gam que se seguiu, trouxe-nos grandes notícias de Moby Dick. Para alguns, o interesse geral pela Baleia Branca então aumentou muito devido a uma circunstância da história do Town-Ho, que parecia obscuramente envolver com a baleia uma certa manifestação espantosa, invertida, de um desses chamados julgamentos de Deus, que, segundo dizem, às vezes arrebatam alguns homens. Tal circunstância, e seus desdobramentos particulares, que constituem o que se pode chamar de parte secreta da tragédia a ser contada, nunca chegou aos ouvidos do Capitão Ahab ou de seus imediatos. Pois essa parte secreta da história era desconhecida do próprio capitão do Town-Ho. Era propriedade particular de três confederados, marinheiros brancos daquele navio, um dos quais, ao que parece, a comunicou a Tashtego, com romanas injunções de sigilo, mas na noite seguinte Tashtego falou durante o sono e revelou uma parte tão grande que quando acordou não podia mais deixar de contar o resto. Não obstante, isso teve uma influência tão poderosa sobre os marinheiros do Pequod que ficaram sabendo da história toda, que decidiram manter o segredo entre eles, isso por uma delicadeza estranha, por assim dizer, para que nunca transpirasse à ré do mastro principal do Pequod. Tecendo corretamente esta linha obscura em meio à história que foi narrada em público no navio, começo agora um registro completo e extenso desse caso estranho.
     A bem do meu próprio humor, preservarei o estilo que usei para narrar certa vez em Lima, para um círculo ocioso de amigos espanhóis, na véspera de um feriado santo, fumando na varanda de telhas douradas da Estalagem Dourada. Daqueles cavalheiros elegantes, os jovens dons, Pedro e Sebastian, eram os mais próximos; por isso, as perguntas deles feitas durante o relato foram respondidas na mesma hora.

“Cerca de dois anos antes de quando fiquei sabendo sobre os eventos que vou lhes narrar, senhores, o Town-Ho, baleeiro de Nantucket, atravessava este vosso Pacífico, estando a poucos dias de viagem a oeste das beiras desta boa Estalagem Dourada. Estava algures ao norte da linha do Equador. Certa manhã, ao acionarem as bombas como era o costume diário, observaram que o porão estava fazendo mais água do que de costume. Supuseram que um peixe-espada tivesse atingido o navio, senhores. Mas o capitão, tendo inusitadas razões para acreditar que uma sorte especial o aguardava naquelas latitudes; e por isso não querendo abandoná-las, e o vazamento não tendo sido considerado perigoso, embora, de fato, não conseguissem achá-lo depois de procurarem no porão até a sua porção mais baixa, com um tempo bastante ruim, o navio continuou seu cruzeiro, os marinheiros trabalhando nas bombas a intervalos largos e cômodos; mas a boa sorte não veio; passaram-se mais dias, e não apenas ainda não haviam achado o vazamento, como também sensivelmente este aumentara. Tanto que, então um pouco alarmado, o capitão se encaminhou a todo o pano para o porto mais próximo das ilhas, para examinar e consertar o seu casco.
“Embora não tivesse uma travessia curta diante de si, o capitão, se a sorte mais comum o favorecesse, não receava que seu navio fosse a pique durante o caminho, porque suas bombas eram das melhores e, mesmo ficando periodicamente sem elas, os seus trinta e seis homens poderiam facilmente manter o navio flutuando; ainda que o vazamento dobrasse de tamanho. Na verdade, sendo quase toda a travessia servida por uma brisa propícia, o Town-Ho teria chegado em segurança total ao porto sem que ocorresse a menor fatalidade, não fosse pela arrogância brutal de Radney, o imediato, de Nantucket, e a consequente vingança cruel de Steelkilt, um lacustre, um criminoso de Buffalo que não tinha nada a perder.
“Um lacustre! – De Buffalo! Por favor, o que vem a ser um lacustre, e onde fica Buffalo?”, disse Don Sebastian, erguendo-se de sua esteira de palha.
“Na margem leste de nosso lago Erie, Don Sebastian; mas – rogo-lhe a gentileza – o senhor logo saberá mais a esse respeito. Ora, senhores, em brigues de velas quadradas ou navios de três mastros, quase tão grandes e tão fortes como qualquer um dos que tenham zarpado do seu porto de Callao para a distante Manila; este lacustre, no coração da nossa América, crescera alimentado por todas essas impressões bucólicas da pilhagem popularmente associadas ao mar aberto. Pois, em seu conjunto interligado, esses nossos grandes mares de água doce – o Erie, o Ontário, o Huron, o Superior e o Michigan – possuem uma expansividade como a do oceano, com muitas das características mais nobres do oceano; com muitas variedades de raças e de climas. Contêm arquipélagos circulares de ilhas românticas, como nas águas da Polinésia; em grande parte, estão cercados por dois grandes países contrastantes, assim como o Atlântico; servem de grandes caminhos marítimos para as nossas numerosas colônias no território do leste, que pontilham suas margens; aqui e ali se encontram sob a carranca das baterias e dos escabrosos canhões espalhados como cabras no soberbo Mackinaw; ouviram o estrondo das vitórias navais; por vezes, entregaram suas praias a bárbaros selvagens, cujos rostos vermelhos pintados cintilam em suas tendas de pele; por léguas e léguas, são margeados de antigas florestas interditas, onde pinheiros lúgubres parecem fileiras cerradas de reis nas linhagens góticas; essas mesmas florestas que abrigam selvagens feras africanas e sedosas criaturas, cuja pele exportada veste os imperadores tártaros; espelham as capitais pavimentadas de Buffalo e Cleveland, assim como os vilarejos de Winnebago; navega aí o navio mercante equipado, o cruzeiro armado do Estado, o barco a vapor e a canoa de bétula; são varridos por ventos boreais e rajadas desmastreadoras tão medonhas quanto as de água salgada; sabem o que são naufrágios, pois longe dos olhos, mas no interior, afundaram ali muitos navios à meia-noite com toda a tripulação aos gritos. Por isso, senhores, embora fosse do interior, Steelkilt nasceu no oceano bravio e foi criado no oceano bravio, tanto quanto qualquer outro marinheiro audacioso. Quanto a Radney, embora na infância tivesse se deitado na praia isolada de Nantucket, embalado pelo oceano maternal; embora durante toda a sua vida tivesse seguido o nosso Atlântico austero ou o seu Pacífico contemplativo; ainda assim, era tão vingativo e briguento quanto um marinheiro matuto, que não sabe o que é o chifre no cabo de um punhal. Mas o homem de Nantucket tinha alguns traços de bondade, e o lacustre, Steelkilt, era um marinheiro que, apesar de ser praticamente um diabo, podia, com uma firmeza inflexível apenas abrandada pela decência do reconhecimento humano, que é o menor dos direitos de um escravo, permanecer inofensivo e dócil. Em todas as ocasiões, sempre provara ser assim; mas Radney estava condenado e enlouquecido, e Steelkilt ora, senhores, ouçamos.
“Não mais do que um ou dois dias, no máximo, após ter apontado sua proa rumo àquele porto na ilha, o vazamento do Town-Ho parecia estar novamente aumentando, mas só a ponto de requerer uma hora ou mais das bombas por dia. Os senhores devem saber que em um oceano colonizado e civilizado como o nosso Atlântico, por exemplo, alguns capitães nem pensam em usar as bombas durante toda a travessia; mas, se numa noite tranquila e indolente um oficial do convés se esquece do seu dever, os riscos são de que ele e os seus companheiros de bordo nunca mais se lembrem de nada, pois irão todos aqueles braços gentis repousar no fundo do mar. Mesmo nos mares solitários e selvagens, lá bem longe dos senhores, no oriente, é bastante incomum os navios manterem ativa a manivela da bomba, até numa viagem consideravelmente longa; isto é, se estiverem ao largo de uma costa razoavelmente acessível, ou se algum outro recuo razoável for possível. Apenas quando uma embarcação com um vazamento está num lugar muito distante dessas águas, em alguma latitude sem terra à vista, é que o seu capitão começa a ficar um pouco ansioso.
“Muito próximo disso foi o que se passou com o Town-Ho; e assim, quando se descobriu que o seu vazamento começava a crescer de novo, na verdade houve alguma preocupação manifestada pelo grupo; especialmente Radney, o imediato. Ele ordenou que as velas superiores fossem içadas, as escotas puxadas e que as velas ficassem abertas ao vento. Ora, este Radney, suponho, era tão pouco covarde, tão pouco inclinado à apreensão nervosa no que dizia respeito à sua pessoa, quanto qualquer outra criatura irracional e destemida, da terra ou do mar, que se possa imaginar, meus senhores. Por esse motivo, quando demonstrou tal solicitude quanto à segurança do navio, alguns marinheiros declararam que foi apenas porque ele era um dos proprietários. Então, naquela noite, enquanto trabalhavam nas bombas, não era pouca a malícia das brincadeiras entre eles, com os seus pés enfiados na água clara ondulante; clara como a fonte na montanha, senhores – o borbulhar das bombas atravessou o convés e jorrou em sopros uniformes no mar, pelos embornais a sotavento.
“Agora, como os senhores bem sabem, não é raro o caso neste nosso mundo convencional – das águas ou outro – de que uma pessoa no comando dos seus semelhantes pense que um deles lhe seja superior em orgulho viril, e que por isso sinta imediatamente uma aversão e rancor incontroláveis; e assim que tiver uma chance irá derrubar e pulverizar a torre desse subalterno, e fazer dela um monte de poeira. Seja lá o que for, senhores, mas em qualquer hipótese, Steelkilt era um animal alto e nobre com um perfil romano, e uma barba espessa e dourada como as franjas dos atavios do fogoso cavalo de guerra do último vice-rei dos senhores; e um cérebro e um coração e uma alma, cavalheiros, que teria feito de Steelkilt um Carlos Magno, houvesse ele nascido do pai de Carlos Magno. Mas Radney, o imediato, era feio como uma mula; e tão duro, teimoso e malicioso quanto a mesma. Não gostava de Steelkilt, e Steelkilt sabia disso.
“Vendo o imediato chegar perto enquanto trabalhava com a bomba junto com os outros, o lacustre fingiu não notá-lo, e sem medo continuou com sua troça divertida.
“Pois é, meus alegres rapazes, que vazamento mais animado! Um de vocês, aí, pegue uma caneca, e vamos provar. Cruzes, valeria a pena engarrafar! Vou dizer uma coisa, o investimento do velho Rad deve ter valido a pena! É melhor que ele tire a sua parte do casco e reboque para casa. A verdade, rapazes, é que o peixe espada só começou o serviço; ele voltou agora com um cardume de peixes carpinteiros, peixes-serradores e peixes-lixadores, e não sei o que mais; e todo o pelotão está trabalhando arduamente, atacando e cortando o fundo; acho que para fazer melhorias. Se o velho Rad estivesse aqui, eu sugeriria que ele pulasse ao mar e os espantasse. Estão fazendo o diabo com a sua propriedade, isso eu garanto. Mas ele é uma alma pura e boa, o Rad, e muito bonito, também. Rapazes, dizem que todo o resto de suas propriedades ele investiu em espelhos. Será que ele daria o molde do seu nariz para um pobre-diabo como eu?
“Malditos sejam! Por que pararam de bombear?”, rugiu Radney, fingindo não ter escutado a conversa do marinheiro. “Quero ouvi-la trovejar!”
“Sim, sim, senhor”, disse Steelkilt, gaiato como um grilo. “Força, rapazes, força!”, e fez soar aquela bomba como se fossem cinquenta carros de bombeiros; os homens arregaçaram as mangas e logo se ouviam os pulmões arfando, o que denotava a tensão máxima das energias vitais.
“Deixando finalmente a bomba, com o resto de seu grupo, o lacustre foi à frente, arfante, e sentou-se no sarilho; com o rosto afogueado, vermelho, os olhos injetados de sangue, enxugou da testa o suor copioso. Que demônio trapaceiro, senhores, tomou conta de Radney, para fazê-lo se meter com um homem daquele, naquele estado de exasperação física, eu não sei; mas foi o que aconteceu. Andando impaciente pelo convés, o imediato ordenou-lhe que pegasse uma vassoura e varresse as pranchas, e também uma pá, e removesse as coisas repugnantes que um porco solto ali deixara.
“Pois bem, senhores, varrer o convés de um navio no mar é uma tarefa doméstica que, a não ser em caso de tempestades furiosas, sempre é feita à noite; há casos relatados em que essa tarefa foi executada mesmo em navios que estavam afundando. Tal é a inflexibilidade, senhores, dos costumes do mar, e o amor instintivo dos homens do mar pela limpeza; alguns dos quais não iriam se afogar sem primeiro lavar o rosto. Mas em todo navio o uso da vassoura é competência exclusiva de meninos, se houver meninos a bordo. Além disso, os homens mais fortes do Town-Ho haviam sido divididos em grupos, que se revezavam nas bombas; e, sendo o mais atlético de todos os marinheiros, Steelkilt fora designado capitão de um dos grupos; consequentemente, ele deveria ser liberado das tarefas mais simples, que não fossem ligadas aos deveres náuticos, o mesmo valendo para os seus companheiros. Menciono todos esses pormenores para que saibam exatamente como se deram as coisas entre os dois homens.
“Mas não era só isso: a ordem de pegar a pá foi quase tão diretamente dada para ofender e insultar Steelkilt, como se Radney tivesse cuspido em seu rosto. Todo homem que já embarcou num baleeiro entenderá isso; e tudo isso, e sem dúvida muito mais, o lacustre compreendeu perfeitamente quando o imediato deu a ordem. Mas sentou-se calado por alguns instantes, olhou com firmeza para os olhos malignos do piloto e percebeu que neles havia barris de pólvora empilhados e um estopim queimando lentamente; quando instintivamente percebeu tudo isso, aquela estranha abstenção e a indisposição para açular as paixões mais profundas de um ser já iracundo – uma aversão sentida por homens verdadeiramente corajosos, mesmo quando sobressaltados –, este anônimo sentimento imaginário, senhores, arrebatou Steelkilt.

Continua na página 240...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
53 - O Gam / 54 - A História do Town-ho(a) /     
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

Boa tarde, Poesia: O poder humanizador da poesia

Adélia Prado

Palestra da escritora brasileira, Adélia Prado, no programa Sempre um Papo de 2008.


"... não é a religião que inventou, não é a filosofia que inventou, está acenando de dentro do nosso próprio ser: é o desejo profundo que nós experimentamos na nossa orfandade original, nós já nascemos órfãos de ter sentido na vida, de ter significado e de ter perenidade, não pode acabar! esse é o desejo que nós temos... uma pessoa que tem vida interior, vida simbólica... a arte nasce daí e produz a partir daí..."








Tarde de Maio
Carlos Drummond de Andrade

Como esses primitivos que carregam por toda parte o
maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa. . .
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.



"... a beleza é uma experiência, ela não é um discurso..."


Exausto






"então, olha que maravilha se as escolas compreendessem isso e invés de discutir poesia... oferecessem a própria poesia, oferecessem a literatura, a arte, o teatro, tudo aquilo que na escola é humanizador. mas o ensino hoje está voltado para a parte lógica, intelectual - intelectual no sentido pior dessa palavra, aquilo que não toca o sentimento, 'eu sou um intelectual, eu não me comovo'."




Dona Doida 





"o verdadeiro artista está centrado na realidade. a arte não aliena ninguém, ela não tira da realidade, é o contrário, ela trás para o real."


Infância
Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
Lia a história de Robinson Crusóe,
Comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
A ninar nos longes da senzala -- e nunca se esqueceu
Chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
Café gostoso
Café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
Olhando pra mim:
-- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
No mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.



"a cada um de nós cabe a vida comum, o cotidiano, e eu tenho absoluta convicção que é através do cotidiano que se revelam a metafísica, a beleza já está na criação, já está na nossa vida."

 e, em nome dessa beleza da criação de toda vida, a vida comum, precisamos lutar cotidianamente contra a feiura e a crueldade do fascismo e do nazismo que negam a beleza da vida, matam em nome da sua feiura... simples assim, a essência da nossa luta! baitasar
 
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Não sei quantas almas tenho / Falando um pouco de traduçãoO poder humanizador da poesia /    

sábado, 7 de março de 2026

MPB: Rosa de Hiroshima

Secos e Molhados


"Rosa de Hiroshima" é um poema de Vinícius de Moraes que denuncia os horrores da bomba atômica e se tornou um símbolo artístico e musical de protesto contra a guerra.


Rosa de Hiroshima - Secos e Molhados ao vivo no Maracanãzinho.




"O poema foi escrito em 1946, um ano após a devastação causada pelas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. A explosão da bomba "Little Boy" em Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, matou dezenas de milhares de pessoas instantaneamente e deixou sobreviventes com sequelas físicas e genéticas permanentes, incluindo queimaduras, cegueira e doenças relacionadas à radiação. Vinícius de Moraes, diplomata brasileiro e atento aos conflitos internacionais, utilizou o poema como forma de protesto e memorial da tragédia."


Pensem nas crianças
Mudas, telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas

Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas

Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida

A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Poema: Vinícius de Moraes
Música: Gerson Conrad


Vinicius de Moraes e Antônio Carlos Jobim 
- A Felicidade





Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho

Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é uma coisa louca
Mas tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores

Tem ninhos de passarinhos
Tudo isto ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato sempre dela muito bem

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

Composição: Antônio Carlos Jobim / Vinícius de Moraes

O barquinho , O pato , Manhã de carnaval / A Lista / Rosa de Hiroshima /