sábado, 22 de agosto de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (II - Aos poucos a sala de Ana Pavlovna se enchia)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
II

Aos poucos a sala de Ana Pavlovna se enchia. Seus convidados eram de todas as idades e temperamentos, mas todos rigorosamente do mesmo meio, a alta sociedade de Petersburgo. Lá estavam: a bela Helena, filha do príncipe Vassili, trajando um vestido de gala como distintivo das damas de companhia, que vinha buscar o pai para acompanhá-lo à festa do embaixador; a princesinha Bolkonskaia, conhecida como a mulher mais sedutora de Petersburgo, que casara no último inverno, e só era vista nos saraus mais íntimos por causa da gravidez, que a impedia de ir às grandes recepções; Mortemart, que era introduzido pelo príncipe Hippolyte, filho do príncipe Vassili; o abade Morio e muitos outros. “Ainda não viu ma tante?” ou “Ainda não conhece ma tante?”, perguntava Ana Pavlovna a todos os convidados que chegavam, conduzindo-os gravemente até uma velhinha toda cheia de fitas que surgira do aposento vizinho quando os convidados começaram a reunir-se.


     Ana Pavlovna olhava o recém-chegado ao apresentá-lo à ma tante, deixando-a em seguida para trazer outros. Todos faziam os cumprimentos de uso à tia que não conheciam, por quem não se interessavam, e de quem ninguém precisava. Com ar solene e triste, Ana Pavlovna observava os salamaleques que faziam, aprovando-os silenciosamente. Com as mesmas palavras, ma tante perguntava pela saúde de cada um, falava na própria saúde e na de Sua Majestade que hoje, graças a Deus, estava melhor. Por cortesia, todos se aproximavam da velha e se afastavam sem pressa, mas com a intenção de não mais encontrá-la o resto da noite e com o sentimento de um penoso dever cumprido. A princesinha Bolkonskaia trouxera seu tricô numa bolsa de veludo bordada a ouro. Seu lábio superior, muito bonito, sombreado por uma leve penugem, era um pouco curto em relação aos dentes, mas sempre encantador, quer com a boca entreaberta, quer forçando para fechá-la. Como sempre acontece às mulheres muito atraentes, seu defeito — o lábio curto e a boca entreaberta — parecia ser sua beleza peculiar.
     Era um encanto para todos olhar essa linda future maman, cheia de saúde e vivacidade, que suportava tão facilmente seu estado. Em sua companhia os velhos e moços entediados pareciam transformar-se; os que a escutavam e viam em cada uma de suas palavras o sorriso claro e os dentes brancos e brilhantes que a cada instante se mostravam, imaginavam-se particularmente amáveis nesse dia. E todos pensavam assim.
     Em passos curtos e rápidos, num leve ritmo de dança, a princesinha fez a volta da mesa levando a bolsa do tricô e, ajustando o vestido, sentou-se no divã, perto do samovar de prata, como se tudo que fazia fosse um brinquedo para ela e para os que a cercavam. 

— Trouxe o meu trabalho — disse, abrindo a bolsa e dirigindo-se a todos ao mesmo tempo. — Tome cuidado, Annette, não me pregue uma peça — acrescentou, falando à dona da casa. — Você me escreveu dizendo que era uma reunião íntima; veja como me vesti!

     E abriu os braços para mostrar o elegante vestido cinza, guarnecido de rendas, com uma larga fita marcando a cintura abaixo dos seios. 

— Fique sossegada, Lisa, você sempre será a mais linda de todas — respondeu Ana Pavlovna. — Sabem que estou sendo abandonada? — continuou no mesmo tom, dirigindo-se a todos. — Meu marido vai acabar morto. Diga-me, qual é a razão dessa guerra horrível? — perguntou ao príncipe Vassili e, sem esperar a resposta, voltou-se para a filha dele, a bela Helena. 
— Que deliciosa criatura, esta princesinha! — disse o príncipe Vassili em voz baixa a Ana Pavlovna.

     Pouco depois da princesinha, entrou na sala um rapaz corpulento, cabeça raspada, de óculos, calças claras à moda da época, colarinho alto e fraque marrom. Era filho natural do conde Bezukhov, célebre no tempo de Catarina II, agora agonizante em Moscou. Nunca se dedicara a nenhuma atividade, acabava de chegar do exterior onde fora educado, e pela primeira vez comparecia a um sarau. Ana Pavlovna recebeu-o com o cumprimento reservado aos homens do último degrau hierárquico em seu salão. Vendo Pierre entrar, embora o cumprimentasse como a um inferior, a fisionomia de Ana Pavlovna exprimia a inquietação e o medo que se sente ao ver, fora do lugar, alguma coisa descomunalmente grande. Pierre era, de fato, um pouco mais alto que os outros homens que lá se encontravam; mas esse medo era causado pelo olhar inteligente e ao mesmo tempo tímido, observador e franco, que o distinguia de todos os outros convidados. 

— Foi muito amável, Monsieur Pierre, em visitar uma pobre doente — disse-lhe Ana Pavlovna, trocando com a tia um olhar ansioso e levando-o para junto dela.

     Pierre murmurou qualquer coisa incompreensível, continuando a procurar alguém com os olhos. Sorrindo alegremente, cumprimentou a princesinha como a uma pessoa íntima e aproximou-se da tia. O receio de Ana Pavlovna não era infundado, pois Pierre afastou-se da velha sem ouvir o final de sua frase sobre a saúde de Sua Majestade. Aterrada, Ana Pavlovna deteve-o com as seguintes palavras: 

— Não conhece o abade Morio? É um homem muito interessante… 
— Sim, já ouvi falar nos seus projetos de paz eterna; é muito interessante, mas será possível… 
— Acha?… — atalhou Ana Pavlovna para dizer qualquer coisa e voltar às suas obrigações de anfitriã; mas Pierre cometeu outra incivilidade. Antes afastara-se sem ouvir as últimas palavras de uma interlocutora; agora, com sua conversa, retinha outra que precisava afastar-se dele. Abrindo as compridas pernas, baixou a cabeça e começou a demonstrar a Ana Pavlovna por que achava irrealizáveis os planos do abade. — Falaremos nisso depois — disse Ana Pavlovna, sorrindo.

     Livrando-se do rapaz que não possuía a menor noção de trato social, voltou a seus deveres, continuando a ouvir e observar, pronta a intervir no momento em que a conversação perdesse o fluxo. Como o mestre de uma fiação, depois de instalar os operários em seus lugares, passeia pela oficina e ao notar a imobilidade ou algum barulho anormal dos fusos, corre à frente de todos para parar as máquinas e reajustá-las ao verdadeiro ritmo. Ana Pavlovna andava, ora aproximando-se de um grupo silencioso, ora de outro que falava demais, e com uma palavra, um deslocamento de pessoas, consertava a máquina de conversação que continuava funcionando num movimento regular e conveniente. Mas, entre esses cuidados, via-se que, acima de tudo, temia qualquer coisa de Pierre. Olhava-o atentamente quando ele se aproximava de Mortemart, prestando atenção ao que se dizia na roda deste, e depois se dirigia para o grupo onde estava o abade. Para Pierre, criado no estrangeiro, esse sarau de Ana Pavlovna era o primeiro de que participava na Rússia. Sabia que a elite de São Petersburgo estava reunida ali e seus olhos, como os de uma criança num bazar de brinquedos, ziguezagueavam em todas as direções. Receava perder alguma palestra inteligente que pudesse ouvir. Observando na fisionomia dos presentes a elegância e segurança da expressão, esperava sempre algum dito extraordinariamente sagaz. Finalmente aproximou-se de Morio. O assunto pareceu-lhe interessante; parou à espera da ocasião de externar seu pensamento, como gostam de fazer todos os moços.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
I - Meu Deus, que virulência! / II - Aos poucos a sala de Ana Pavlovna se enchia / 
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (I - Meu Deus, que virulência!)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
I

 — Então, príncipe, Gênova e Lucca já não são mais que domínios da família Bonaparte. Não, eu lhe previno: se não me disser que estamos em guerra, se ainda se permite defender as infâmias e atrocidades desse anticristo (estou convencida de que ele o é, palavra de honra), não o conheço mais, não é mais meu amigo, o meu fiel escravo, como diz. Pois bem! Boa noite, caro príncipe! Vejo que o assustei, sente-se, vamos conversar.

     Assim falava, em julho de 1805, Ana Pavlovna Scherer, dama de companhia e pessoa muito chegada à imperatriz Maria Feodorovna. Suas palavras se dirigiam ao personagem muito grave, esmagado de títulos, o príncipe Vassili, o primeiro a chegar à recepção que ela dava. Havia já vários dias que Ana Pavlovna tossia. Era uma gripe, como ela dizia (gripe era então palavra nova e muito raramente empregada); os bilhetes que enviara, pela manhã, por um lacaio de libré encarnada — cor da corte —, diziam invariavelmente:

Se não tem coisa melhor que fazer, senhor conde (ou meu príncipe), e se não o assusta a ideia de passar o serão com uma pobre doente, ficaria encantada em recebê-lo em minha casa, entre sete e dez horas.

 Annette Scherer


 — Meu Deus, que virulência! — respondeu o príncipe sem desconcertar-se com o acolhimento. Vestia o uniforme da corte, com meias de seda e sapatos de fivelas; trazia o peito coberto de condecorações e uma expressão sorridente no rosto inexpressivo 

     Exprimia-se num francês precioso, no qual nossos avós não só falavam como também pensavam, com entonações macias e protetoras, próprias de um homem importante, envelhecido na sociedade e na corte. Aproximou-se de Ana Pavlovna, beijou-lhe a mão, inclinando a cabeça reluzente e perfumada, e sentou-se tranquilamente num divã:

— Antes de mais nada, diga-me como vai, querida amiga. Tranquilize o amigo — disse ele sem mudar de voz e num tom que, sob a simpatia convencional, deixava transparecer indiferença, ou mesmo zombaria. 
— Como se pode estar bem com o moral abatido?… Nos tempos que correm, acha possível um sensível coração ficar impassível? — respondeu Ana Pavlovna. — Espero que hoje seja dos últimos a retirar-se! 
— E a festa do embaixador da Inglaterra? É hoje, quarta-feira. Devo comparecer — disse o príncipe —, minha filha passará aqui para levar-me. 
— Pensei que tivesse sido adiada. Confesso-lhe que todas essas festas e fogos de artifício estão se tornando insípidos. 
— Se fosse sabido que essa era sua vontade, a festa teria sido adiada — disse maquinalmente o príncipe, como um relógio bem ajustado, sem o menor desejo de ser levado a sério. 
— Não zombe de mim. Então, que foi que se decidiu com respeito à nota de Novosiltzov? O senhor está a par de tudo. 
— Como dizer? — respondeu o príncipe num tom frio e aborrecido. — O que se decidiu? Decidiu-se que Buonaparte queimou os seus barcos, e creio que nós estamos a ponto de queimar os nossos.

     Como um ator que recita o papel de uma velha peça, o príncipe Vassili sempre falava indolentemente. Ana Pavlovna Scherer, ao contrário, apesar dos seus quarenta anos, era toda animação e entusiasmo.
     Esse entusiasmo tornara-se a alma de sua posição social, e, às vezes mesmo sem vontade, entusiasmava-se para não decepcionar os que a conheciam. O sorriso reprimido que Ana Pavlovna trazia sempre na face, embora não condissesse com seus traços cansados, exprimia, como nas crianças mimadas, a consciência absoluta de seu gracioso defeito, de que não queria, não podia e não achava necessário corrigir-se.
     No decorrer de uma conversa sobre política, exaltava-se. 

— Ah! não me fale da Áustria! Talvez eu não entenda nada, mas a Áustria jamais quis a guerra, e ainda não a quer. Ela está nos traindo. Só a Rússia pode salvar a Europa. Nosso benfeitor conhece sua grande missão e lhe será fiel. Eis aí a única coisa em que tenho fé. Ao nosso bom e admirável imperador cabe a maior tarefa do mundo, e ele é tão virtuoso e tão bom que Deus não vai deixá-lo desamparado a fim de que cumpra seu destino: ele há de esmagar a hidra da revolta, que, ainda, persiste, terrível na pessoa desse assassino, desse monstro. Cabe a nós resgatar o sangue do justo… Com quem podemos contar, pergunto-lhe eu? A Inglaterra, com seu espírito mercantil, não compreenderá nem poderá compreender a elevação de alma de Alexandre. Ela recusou evacuar Malta. Quer ver e, por toda parte, procura segunda intenção em nossos atos. Que disseram a Novosiltzov? Nada. Eles não compreenderam e nem podem compreender o sacrifício de nosso imperador que não quer nada para si, mas tudo para o bem do mundo. E o que prometeram? Nada. E nem mesmo o que prometeram manterão! “A Prússia já declarou que Bonaparte é invencível e que a Europa toda nada pode fazer contra ele… E eu não creio numa única palavra de Hardenberg nem de Haugwitz. A famosa neutralidade prussiana não passa de uma cilada. Eu só creio em Deus e no alto destino de nosso gracioso imperador. Ele salvará a Europa!

     Estacou num sorriso de gozação ante o seu próprio ardor. 

— Penso — disse o príncipe sorrindo — que se a tivessem mandado no lugar do amável Wintzingerode, a minha querida amiga teria arrancado, de assalto, o consentimento do rei da Prússia. É tão eloquente! Mas poderia servir-me o chá? 
— Imediatamente. A propósito — acrescentou ela acalmando-se novamente —, estarão hoje aqui dois homens interessantíssimos: o visconde de Mortemart, parente dos Montmorency pelos Rohan, uma das melhores famílias da França. É um dos emigrantes, dos verdadeiros. E também o abade Morio. Conhece esse espírito profundo? Foi recebido pelo imperador. Sabe, não é? 
— Ah! teria muita honra — disse o príncipe. — Diga-me, por favor — acrescentou negligentemente como lembrando-se de alguma coisa, enquanto era esse o objetivo principal de sua visita —, é verdade que a imperatriz mãe deseja a nomeação do barão Funke para primeiro secretário em Viena? Esse barão é uma pobre criatura, ao que se diz.

     O príncipe Vassili queria para o filho esse posto, que outros, por intermédio da imperatriz Maria Feodorovna, se esforçavam para dar ao barão.
     Ana Pavlovna semicerrou os olhos em sinal de que nem ela nem ninguém podia criticar o que era ou não do agrado da imperatriz. 

— O senhor barão Funke foi recomendado à imperatriz mãe pela sua irmã — limitou-se a dizer num tom triste e seco. Quando Ana Pavlovna mencionou a imperatriz, seu semblante tomou subitamente a expressão profunda e sincera do devotamento e da estima, misturada de dor, o que sempre lhe acontecia quando mencionava sua grande protetora. Disse que Sua Majestade quisera mostrar uma grande estima ao barão Funke, e novamente seu olhar sombreou-se de tristeza.

     O príncipe calou-se, com indiferença. Ana Pavlovna quis com a habilidade e o tato pronto de uma mulher, e mulher de corte principalmente, repreendê-lo por ter ousado falar nesse tom da pessoa recomendada à imperatriz, e, ao mesmo tempo, consolá-lo. 

— Mas, por falar na sua família — disse ela —, sabe que sua filha, desde que frequenta a sociedade, faz o encanto de todos? Acham-na lindíssima.

     O príncipe inclinou-se em sinal de respeito e agradecimento. 

— Penso — continuou Ana Pavlovna, depois de um curto silêncio e aproximando-se do príncipe com um sorriso terno, dando-lhe a entender que não se falaria mais em política, ou banalidades da sociedade, e agora começava uma conversação íntima —, penso muitas vezes na maneira injusta como se partilha a felicidade. Por que lhe deu a sorte dois filhos tão lindos… (salvo Anatole, o mais moço, que não suporto) — acrescentou em tom enérgico, levantando as sobrancelhas — tão encantadores?! E, entretanto, o senhor aprecia-os menos que qualquer um de nós, o senhor não os merece então.

     E abriu seu sorriso entusiasta. 

— Que quer a senhora? Lavater diria que eu não tenho a bossa da paternidade — disse o príncipe. 
— Deixe de gracejo! Quero falar-lhe seriamente. Sabe que não estou satisfeita com o seu filho mais moço? Que isso fique entre nós. — Seu rosto retomou uma expressão compungida. — Um dia desses falaram dele a Sua Majestade e tiveram palavras de lástima para o senhor…

     O príncipe não respondeu, mas ela o fitou gravemente, esperando a resposta em silêncio. O príncipe Vassili franziu levemente o sobrolho. 

— Que quer que eu faça? — disse finalmente. — A senhora sabe que fiz tudo o que um pai pode para educá-los, e são des imbéciles ambos. Hippolyte, ao menos, é um tolo sossegado, mas Anatole é um tolo turbulento. Eis a única diferença entre os dois — disse num sorriso imprevisto e uma animação ainda mais estranha, deixando perceber, claramente, numa contração dos lábios, qualquer coisa de brutal e desagradável. 
— E por que homens como o senhor têm filhos? Se não os tivesse, não haveria por que censurá-lo — disse Ana Pavlovna alçando pensativamente os olhos. 
— Sou o seu fiel escravo, só com a senhora posso ser franco. Meus filhos são o flagelo da minha existência, a minha cruz. É assim que explico isso. O que a senhora quer? — Calou-se, exprimindo num gesto sua submissão ao infortúnio.


     Ana Pavlovna ficou pensativa. 

— Nunca pensou em casar Anatole, esse filho pródigo? Dizem — acrescentou — que as solteironas têm mania de casamento. Ainda não sinto essa fraqueza, mas tenho em vista uma petite personne que é muito infeliz na casa do pai, uma parenta nossa, uma princesa Bolkonskaia.

     O príncipe Vassili não respondeu, mas, com a rapidez de cálculo e memória peculiar aos homens do mundo, fez um sinal de cabeça demonstrando que a informação o interessava e que com entusiasmo registrava a ocasião na memória. 

— Não, a senhora sabe que esse Anatole me custa quarenta mil rublos por ano? — disse, sem forças para controlar o curso de seus tristes pensamentos. Calou-se. — Se isso continuar assim, não sei o que será dentro de cinco anos! Eis aí a vantagem de ser pai. E essa sua princesa, é rica? 
— O pai é muito rico e avarento. Vive no campo. O senhor conhece, é o famoso príncipe Bolkonski, apelidado “Rei da Prússia”, que foi demitido no tempo do finado imperador. É um homem muito inteligente, mas intratável e cheio de manias. A pobrezinha está infeliz como nunca. Tem um irmão que casou recentemente com Lisa Meinen. É ajudante de ordens de Kutuzov. Deve vir aqui hoje. 
— Escute, minha cara Annette — disse o príncipe pegando de repente a mão de sua interlocutora. — Arranje-me isso, e serei o seu mais fiel escrafo, como diz meu estaroste em seus relatórios, para todo o sempre. Ela é rica e de boa família. É tudo de que preciso.

     E, com o desembaraço, a familiaridade e a graça de movimentos que o distinguiam, beijou a mão da dama de companhia e, após fechá-la levemente, mergulhou numa poltrona e ficou abstrato. 

— Espere — disse Ana Pavlovna, refletindo. — Hoje mesmo falarei com Lisa, a mulher do jovem Bolkonski. Talvez se possa arranjar. Porei em prática na sua família o meu aprendizado de solteirona.

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Guerra e Paz
Primeira Parte:
I - Meu Deus, que virulência! / II - Aos poucos a sala de Ana Pavlovna se enchia
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 4 - A casa vazia)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
4

     A casa vazia, há muito não aquecida, de Nikólskoie reviveu, porém não reviveu aquilo que a habitava. Mamãe não existia mais e estávamos a sós, frente a frente. Mas agora não precisávamos da solidão, ela até nos constrangia. O inverno foi tanto pior para mim que eu estive doente e só me refiz após o nascimento do meu segundo filho. As minhas relações com o marido continuavam também a ser friamente amistosas, como nos tempos da nossa vida na cidade, mas, na aldeia, cada taco do assoalho, cada parede e cada divã lembravam-me o que ele era para mim e o que eu perdera. Havia entre nós como que uma ofensa não perdoada, era como se ele me castigasse por algo e fingisse não o perceber. Não havia por que pedir perdão: ele me castigava apenas não se entregando a mim totalmente, não me dando toda a sua alma, como outrora; mas não a entregava também a nada nem a ninguém, como se não a tivesse mais. Às vezes, vinha-me à mente que ele apenas fingia ser assim, a fim de me atormentar, mas que nele estava ainda vivo o sentimento de antes, e eu procurava suscitá-lo. Mas, todas as vezes, parecia evitar a franqueza, como se me suspeitasse de fingimento e temesse, como ridícula, toda sensibilidade. O seu olhar e o tom da sua voz diziam: sei tudo, tudo, não há o que dizer; sei também tudo o que tu queres dizer. E também sei que dirás uma coisa e farás outra. A princípio, eu ficava ofendida com este medo da sinceridade, mas depois habituei-me à ideia de que não era insinceridade, e sim falta de uma necessidade de ser sincero. Agora, a minha língua não se moveria para lhe dizer de repente que o amava, ou para lhe pedir que rezasse comigo umas orações, ou então chamá-lo para ouvir-me tocar piano. Já se podia perceber entre nós determinadas relações de conveniência. Vivíamos cada um do seu lado. Ele com as suas ocupações, nas quais eu não precisava e não queria agora participar, eu com o meu ócio, que não o ofendia nem entristecia, como outrora. As crianças ainda eram demasiado pequenas e não podiam unir-nos.
     Chegou, porém, a primavera, Kátia e Sônia vieram ao campo, a fim de passar o verão, nossa casa em Nikólskoie entrou em reforma e mudamos para Pokróvskoie. Ali, era a mesma casa velha com terraço, com a mesa dobradiça e um piano no salão claro, com o meu antigo quarto de cortinas brancas, com os meus sonhos de moça, que pareciam esquecidos ali. Havia neste pequeno quarto duas caminhas: uma que fora minha, e na qual eu de noite fazia o sinal da cruz sobre o gorducho Kokocha¹, de braços e pernas espalhados, e a outra pequena, sobre a qual o rostinho de Vânia² espiava dentre os cueiros. Depois de fazer sobre eles o sinal da cruz, eu muitas vezes parava em meio ao quieto quartinho, e de súbito erguiam-se de todos os cantos, das paredes, das cortinas, antigas e esquecidas visões da mocidade. Vozes de outrora entoavam canções de moça. E onde estavam aquelas visões? Onde estavam as canções queridas e suaves? Realizara-se tudo o que eu mal ousara esperar. Os sonhos imprecisos, confusos, tornaram-se realidade; e a realidade transformou-se numa vida pesada, difícil, sem alegria. E tudo era como dantes: viam-se pela janela o mesmo jardim, a mesma área, o mesmo caminho, o mesmo banco ali sobre a ravina, os mesmos cantos de rouxinol vinham do açude, os mesmos lilases apareciam em plena floração, e a mesma lua estava parada sobre a casa; no entanto, tudo se transformara de modo tão terrível, tão impossível! Era tão frio tudo o que podia ter sido tão próximo e querido! Tal como outrora, estou sentada com Kátia na sala de visitas, conversando a respeito dele. Mas Kátia ficou enrugada, amarelou, os olhos não lhe brilham mais de esperança e alegria, mas expressam comiseração, tristeza e simpatia. Não nos extasiamos mais com ele, como em outros tempos, nós o julgamos, não nos espantamos com o porquê e o para quê de sermos tão felizes, e não pretendemos, como outrora, contar a todo mundo aquilo que estamos pensando; ficamos murmurando como conspiradoras, e, pela centésima vez, perguntamos uma à outra por que tudo se transformou tão tristemente. E ele é sempre o mesmo, apenas se tornou mais funda a ruga que tem entre as sobrancelhas, possui mais cabelos grisalhos nas têmporas, mas o seu olhar profundo e atento está continuamente afastado de mim por uma nuvem que o tolda. Eu sou a mesma, porém não há em mim amor, nem desejo de amor. Não há necessidade de trabalho, nem satisfação comigo mesma. E parecem-me tão distantes e impossíveis os antigos êxtases religiosos, o antigo amor por ele, a antiga plenitude da existência. Eu não compreenderia agora aquilo que antes me parecia tão claro e justo: ser uma felicidade viver para outrem. Por que para outrem, quando não se tem vontade de viver mesmo para si?

[1] Diminutivo brincalhão de Nikolai. (N. do T.)
[2] Diminutivo de Ivan. (N. do T.)

     Eu abandonara completamente a música desde que nos mudamos para Petersburgo; mas agora o velho piano, os velhos cadernos de notas, atraíram-me novamente.
     De uma feita, sentindo-me adoentada, fiquei sozinha em casa; Kátia e Sônia foram com ele a Nikólskoie, a fim de olhar a construção. A mesa estava posta para o chá, fui para baixo e, esperando-os, sentei-me ao piano. Abri a sonata Quasi una fantasia e pus-me a tocá-la. Não se via nem se ouvia ninguém, as janelas estavam abertas para o jardim; e ressoaram na sala os sons conhecidos, de uma dolência solene. Terminada a primeira parte, espiei de todo inconsciente, por um velho costume, para o canto em que ele costumava ficar sentado, ouvindo-me. Mas ele não estava; a cadeira, há muito não mexida, permanecia no mesmo canto; via-se pela janela um tufo de lilases sobre o poente claro, e o frescor noturno jorrava pelas janelas abertas. Apoiei ambos os braços sobre o piano, fechei o rosto com as mãos e fiquei pensativa. Passei muito tempo sentada assim, lembrando com sofrimento o passado, o irreversível, e inventando timidamente algo novo. Mas parecia não existir mais nada pela frente, era como se eu nada mais desejasse nem esperasse. “Será possível que já vivi minha vida?” — pensei, soergui horrorizada a cabeça e, procurando esquecer e não pensar, pus me novamente a tocar, e sempre o mesmo andante. “Meu Deus! — pensei — Perdoa-me se eu sou culpada, ou devolve-me tudo o que eu tinha de tão belo em meu íntimo, ou então ensina-me o que fazer e como viver agora.” Rodas ressoaram sobre o capim, vozes conhecidas e cautelosas ouviram-se à entrada da casa, depois sobre o terraço, calando-se em seguida. Mas foi um sentimento diferente dos de outrora que respondeu ao som desses passos conhecidos. Quando terminei, os passos ouviram-se atrás de mim e certa mão pousou-me no ombro.

— Como foste inteligente em tocar esta sonata — disse ele. 

     Continuei calada. 

— Não tomaste chá?

     Meneei negativamente a cabeça e não me voltei para ele, a fim de não revelar os sinais de perturbação, que me ficaram no rosto. 

— Elas virão nesse instante; o cavalo começou a fazer das suas, e elas vêm a pé desde a estrada principal — disse ele. 

— Vamos esperá-las — retruquei, e saí para o terraço, esperando que me seguisse; mas ele perguntou pelas crianças e foi vê-las. Novamente a sua presença, a sua voz singela, bondosa, desmentiu que eu tivesse perdido algo. O que mais eu tinha a desejar? Ele era bondoso, de gênio brando, bom marido, bom pai, eu mesma não sabia o que mais me faltava. Saí para o balcão e sentei-me sob a lona do terraço, sobre o mesmo banco em que estivera sentada no dia da nossa declaração. O sol já se pusera, começava a escurecer, uma nuvenzinha escura de primavera estava suspensa sobre a casa e o jardim; somente atrás das árvores via-se uma faixa limpa de céu, com o poente que se apagava e uma estrelinha noturna, que acabava de se acender. A sombra da nuvenzinha leve pairava sobre todas as coisas, e tudo estava à espera da suave chuva de primavera. O vento imobilizara-se, não se movia uma folha, um talo de erva, o aroma do lilás e da cerejeira-brava pairava tão intenso no jardim e sobre o terraço, como se todo o ar florisse, e, por ondas, ora enfraquecia de repente, ora se fortalecia, de modo que dava vontade de fechar os olhos, não ver nem ouvir nada, e só sentir esse doce aroma. As dálias e tufos de roseiras, ainda sem flores, alongados e imóveis no seu canteiro negro e revolvido, pareciam subir lentamente sobre os seus brancos e lisos tutores; rãs coaxavam, em uníssono e com um som penetrante, no fundo da ravina, esgoelando-se como se fossem os seus últimos gritos antes da chuva, que as enxotaria para a água. Um indefinido som aquático, fino e incessante, pairava sobre este grito. Rouxinóis dialogavam a intervalos, e ouvia-se como voavam sobressaltados de um lugar a outro. Novamente nesta primavera, um rouxinol tentou instalar-se na moita sob a janela, e, quando eu saí, ouvi que ele se mudara para além da alameda, onde trinara uma vez e calara se, igualmente em expectativa de chuva.

     Era em vão que eu procurava acalmar-me: esperava e desejava algo. 
     Ele voltou de cima e sentou-se a meu lado.

— Parece que elas vão se molhar. 
— Sim — retruquei, e ficamos muito tempo calados.

     No entretanto, na ausência de vento, a nuvem descia cada vez mais; tudo se tornava mais quieto, mais cheiroso e imóvel, e de repente uma gota caiu e como que saltou sobre o toldo de lona do terraço, uma outra esfacelou-se sobre o pedregulho do caminho; houve um estalo sobre as bardanas e gotejou uma chuvinha graúda, fresca, cada vez mais forte. Rãs e rouxinóis calaram-se de todo, apenas o som fino, aquático, ainda que parecesse mais distante por causa da chuva, mantinha-se sempre parado no ar, e certo pássaro, provavelmente escondido entre as folhas secas, perto do terraço, soltava com regularidade duas notas monótonas. Ele se levantou e quis afastar-se. 

— Aonde vais? — perguntei, retendo-o. — É tão bom aqui. 
— É preciso mandar para elas um guarda-chuva e galochas. 
— Não precisa, a chuva já vai passar.

     Concordou e ficamos junto à balaustrada do terraço. Apoiei a mão numa barra molhada, escorregadia, e pus a cabeça para fora. A chuvinha fresca borrifou-me irregularmente os cabelos e o pescoço. Clareando e tornando-se mais rala, a nuvenzinha desfazia-se em água sobre nós; o som regular da chuva foi substituído por umas gotas espaçadas, caídas de cima e das folhas. Embaixo, novamente coaxaram as rãs, rouxinóis tornaram a se sacudir e passaram a responder um ao outro, de dentro das moitas molhadas, ora de um, ora de outro lado. Tudo se aclarou na nossa frente.

— Que bom! — disse ele, sentando-se sobre a balaustrada e passando a mão sobre os meus cabelos molhados. 

     Esse carinho singelo atuou sobre mim como uma censura, tive vontade de chorar. 

— Do que mais precisa o homem? — disse ele. — Estou agora tão contente que não preciso de nada, completamente feliz!

“Não foi assim que falaste um dia sobre a tua felicidade — pensei. — Por maior que ela fosse, dizias, querias algo mais e mais. E agora estás tranquilo e satisfeito, enquanto eu tenho na alma como que um arrependimento inconfessado e lágrimas não choradas.”

— Também me sinto bem — disse eu —, mas dá tristeza justamente o fato de que tudo seja tão bom diante de mim. Dentro, tenho tanta incoerência, tudo é tão incompleto, há tanto desejo de algo; e aqui, tudo é tão belo e sossegado. Será possível que também em ti uma angústia não se acrescente ao deleite com a natureza, como se quisesses algo impossível e lamentasses algo que passou?

     Ele retirou a mão da minha cabeça e calou-se algum tempo. 

— Sim, antes isto me acontecia também, principalmente na primavera — disse ele, como que lembrando alguma coisa. — Também eu passei noites sentado, querendo e esperando algo, e eram noites boas!... Mas, então, tudo estava pela frente, e agora tudo ficou para trás; agora, basta-me o que tenho, e sinto-me bem — concluiu com um tom convictamente descuidado, a tal ponto que, embora me fosse muito doloroso ouvir isto, acreditei que dizia verdade.
— E não te faz falta nada? — perguntei. 
— Nada que seja impossível — respondeu ele, adivinhando o meu sentimento. — Quanto a ti, estás aí molhando a cabeça — acrescentou, acariciando-me como a uma criança, passando-me novamente a mão sobre os cabelos —, invejas as folhas e a erva, porque são molhadas pela chuva, gostarias de ser a erva, a folhagem, a chuva. E eu apenas me alegro com elas, como me alegro com tudo o que é belo, jovem e feliz no mundo. 
— E não lamentas nada do que passou? — continuei a perguntar, percebendo em meu coração um sentimento cada vez mais penoso.

     Ficou pensativo e tornou a calar-se. Vi que procurava responder com toda franqueza. 

— Não! — respondeu ele, lacônico. 
— Não é verdade! Não é verdade! — disse eu, voltando-me para ele e fitando-o nos olhos. — Não lamentas o passado? 
— Não! — repetiu. — Sou grato por ele, mas não o lamento. 
— Mas não gostarias de fazê-lo voltar?

     Ele virou a cabeça e pôs-se a olhar para o jardim. 

— Não quero isso, como não quero que me cresçam asas — disse. — Não se pode! 
— E não corriges o passado? Não censuras a ti mesmo ou a mim? 
— Nunca! Tudo aconteceu para melhor. 
— Escuta! — disse eu, tocando-lhe o braço, para que se voltasse para mim. — Escuta: por que nunca me disseste o que querias, para que eu vivesse exatamente de acordo com a tua vontade, por que me deste liberdade, que eu não sabia usar, por que deixaste de me ensinar? Se quisesses, se me orientasses de outro modo, não teria acontecido nada, nada — disse eu, com uma voz em que se expressava cada vez mais fortemente uma fria mágoa e censura, em lugar do antigo amor. 
— O que não teria acontecido então? — perguntou surpreso, virando-se na minha direção. — Está tudo bem. Muito bem — acrescentou com um sorriso.

“Será possível que ele não compreenda ou, o que é pior ainda, não queira compreender?” — pensei e lágrimas apareceram-me nos olhos.

— Não, deixa-me falar até o fim... Tiraste-me a tua confiança, o amor, a consideração até; porque eu não acreditarei que me ames agora, depois do que aconteceu. Não, preciso dizer de uma vez tudo o que me atormenta há muito tempo — interrompi-o novamente. — Serei eu culpada porque não conhecia a vida, e tu me deixaste sozinha em minha busca?... Serei culpada porque nesse momento, quando eu mesma compreendi o que é preciso, quando eu, vai fazer um ano já, bato-me por voltar para junto de ti, tu me repeles, como se não compreendesses o que eu quero, e tudo se passa de tal modo que não se pode censurar-te nada, e eu sou culpada e infeliz ao mesmo tempo?! Sim, queres atirar-me de novo num tipo de existência que poderia ter feito a minha infelicidade e a tua. 
— Mas como foi que eu te mostrei isso? — perguntou ele, com espanto e um susto sincero. — Não disseste ainda ontem, e não dizes sempre, que não consigo viver aqui e que, no inverno, devemos viajar novamente para Petersburgo, que me é odiosa? — continuei. — Em lugar de me apoiar, evitas toda franqueza, toda palavra sincera, carinhosa, comigo. E depois, quando eu tiver caído de vez, vais censurar-me e alegrar-te com a minha queda. 
— Espera, espera — disse ele com severidade e frieza —, é ruim o que dizes agora. Isto apenas demonstra que estás mal disposta em relação a mim, que tu não... 
— Que eu não te amo? Fala! Fala! — concluí, e lágrimas correram me dos olhos. Sentei-me num banco e tapei o rosto com um lenço.

“Aí está como ele me compreendeu!” — pensei, procurando conter os soluços, que me comprimiam. “Está acabado o nosso amor de outros tempos” — dizia-me certa voz no coração. Ele não se aproximou de mim, não me consolou. Estava ofendido com o que eu dissera. A sua voz era tranquila e seca.

— Não sei o que me censuras — começou ele. — Se é o fato de que te amei menos que antes... 
— Amou! — disse eu para dentro do meu lenço, e lágrimas amargas escorreram sobre este, em maior abundância ainda. 
— Nisso têm culpa o tempo e nós mesmos. Cada época tem o seu amor... — Calou-se um pouco. — Dizer-te toda a verdade, já que tu queres franqueza? Assim como naquele ano em que eu apenas te conheci, passei noites sem dormir, pensando em ti e criando eu mesmo o meu amor, e este amor crescia-me mais e mais no coração, exatamente do mesmo modo em Petersburgo e no estrangeiro eu passei noites terríveis de insônia, rompendo, destruindo este amor, que me atormentava. Eu não o destruí, mas destruí somente aquilo que me torturava, acalmei-me, e, apesar de tudo, amo ainda, mas é um outro amor. 
— Sim, chamas isto de amor, mas é uma tortura — disse eu. — Por que me permitiste viver no mundo, se ele te parecia tão pernicioso que deixaste de me amar por causa dele? 
— Não foi o mundo, minha amiga — disse ele. 
— Por que não usaste a tua autoridade — prossegui —, não me amarraste, não me mataste? Seria melhor para mim agora que privar-me de tudo o que constituía a minha felicidade, seria bom para mim, eu não teria vergonha. 

     Tornei a romper em pranto e escondi o rosto.
     Nesse ínterim, alegres e molhadas, Kátia e Sônia entravam no terraço, falando alto e rindo; mas, vendo-nos, silenciaram e saíram no mesmo instante.
     Passamos ainda muito tempo calados; acabei de chorar as minhas lágrimas e me senti aliviada. Olhei para ele. Estava sentado, a cabeça apoiada no braço, e queria dizer algo, em resposta ao meu olhar, mas apenas suspirou pesadamente e tornou à posição anterior.
     Aproximei-me dele e afastei-lhe o braço. Seu olhar voltou-se pensativo para mim.

— Sim — disse ele, como que dando prosseguimento à sua reflexão. — Todos nós, e particularmente vós mulheres, devemos viver sozinhos todo o absurdo da existência, a fim de voltar à própria vida; e não se pode crer em outra coisa. Ainda estavas longe de ter vivido então todo o absurdo simpático e encantador com que eu me extasiava em ti; e eu te deixei acabar de vivê-lo e senti não ter o direito de te constranger, embora para mim o tempo já tivesse passado havia muito. 
— Mas, se me amava, por que vivias comigo e me deixavas viver este absurdo? — disse eu. 
— Porque, ainda que quisesses acreditar em mim, não o conseguirias; devias conhecê-lo por ti mesma, e o conheceste. 
— Tu argumentavas, argumentavas muito — disse eu. — Amavas pouco.

     Calamo-nos de novo por algum tempo.

— É cruel o que acabaste de dizer, mas é verdade — disse ele, erguendo-se de repente e pondo-se a caminhar pelo terraço — sim, é verdade. Fui culpado! — acrescentou, parando em frente de mim. — Eu não devia permitir-me amar-te, ou devia amar com mais simplicidade, sim. 
— Esqueçamos tudo — disse eu timidamente. 
— Não, o que passou, não há de voltar, é impossível fazê-lo voltar — e, ao dizer isso, a sua voz abrandou-se. 
— Tudo já voltou — disse eu, pondo-lhe a mão no ombro.

     Afastou a minha mão e apertou-a.

— Não, eu estava mentindo, ao dizer que não lamento o passado; não, eu lamento, eu choro aquele amor passado, que não existe nem pode existir mais. Quem é culpado disso? Não sei. Sobrou o amor, mas não aquele, sobrou o seu lugar, mas o amor ficou totalmente dolorido, não tem mais força nem suculência, ficaram as recordações e a gratidão, mas... 
— Não fales assim... — interrompi-o. — Que tudo seja de novo como antes... Bem que isto pode ser assim? Não é mesmo? — perguntei, fitando-o nos olhos. Mas eles eram límpidos, tranquilos, e olhavam dentro dos meus sem profundidade.

     Enquanto eu falava, senti que já era impossível aquilo que eu queria e que pedia a ele. Teve um sorriso tranquilo, humilde, o que me pareceu senil

— Como és jovem ainda e como sou velho — disse ele. — Em mim, não existe mais aquilo que procuras; para quê se enganar? — acrescentou, continuando a sorrir do mesmo jeito.

     Coloquei-me em silêncio ao seu lado, e senti maior tranquilidade interior.

— Não procuremos repetir a vida — prosseguiu ele —, não mintamos a nós mesmos. E quanto ao fato de não termos mais os sobressaltos e inquietações de outros tempos, que seja graças a Deus! Não temos o que procurar, nem motivo para ficar perturbados. Já encontramos, e coube-nos felicidade bastante. Agora, já temos que nos apagar e dar caminho aí está a quem — disse, apontando a ama que se acercara com Vânia e parara à porta do terraço. — Assim é, querida amiga — concluiu, inclinando para si a minha cabeça e beijando-a. Quem me beijava não era um amante, mas um velho amigo. E do jardim erguia-se cada vez mais intensamente e com maior doçura o frescor cheiroso da noite, os sons e o silêncio tornavam-se cada vez mais solenes, as estrelas acendiam-se no céu com maior frequência. Olhei-o e, de repente, senti a alma leve, era como se me tivessem tirado o nervo moral doente, que me obrigara a sofrer. Percebi de repente, com nitidez e tranquilidade, que o sentimento daquele tempo passara irrevogavelmente, assim como o próprio tempo, e que fazê-lo voltar seria não só impossível, mas até penoso e constrangedor. E ademais, seria mesmo tão bom aquele tempo que me parecia tão feliz? E tudo isso acontecera havia tanto, tanto tempo!
— Mas já está na hora do chá! — disse ele e fomos juntos para a sala de visitas. À porta, encontrei novamente a ama com Vânia. Tomei nos braços a criança, cobri as suas perninhas vermelhas e desnudas, apertei a contra mim e beijei-a, mal encostando os lábios. Como que dormindo, ele moveu a mãozinha de dedos enrugados e muito afastados e abriu os olhinhos turvos como se procurasse ou lembrasse algo; de repente, esses olhinhos detiveram-se sobre mim, faiscou neles um fagulha de pensamento, os labiozinhos rechonchudos, arrepanhados, começaram a mexer-se e abriram-se num sorriso. “É meu, meu, meu!” — pensei com uma tensão feliz em todos os membros, apertando-o ao peito e contendo-me a custo, para não lhe causar dor. E pus-me a beijar-lhe as perninhas frias, a barriguinha, os braços e a cabecinha em que mal despontavam cabelos. Meu marido aproximou-se de mim, fechei depressa o rosto da criança e tornei a descobri-lo.

— Ivan Sierguiéitch!¹ — disse meu marido, tocando-o com o dedo abaixo do queixinho. Mas, novamente, cobri depressa Ivan Sierguiéitch. Ninguém além de mim devia olhá-lo por muito tempo. Olhei para meu marido, os seus olhos riam, fitando os meus, e pela primeira vez, depois de muito tempo, eu sentia leveza e alegria ao olhá-los.

[1] Corruptela de Sierguiéievitch. (N. do T.)

     A partir desse dia, terminou o meu romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa, e que ainda não acabei de viver...

Fim...


POSFÁCIO 
Boris Schnaiderman

     Esta novela, Felicidade conjugal, publicada em 1859, pode surpreender o leitor acostumado com a pregação insistente por Tolstói de seu sistema ético-religioso. Com efeito, na mesma época em que a escreveu entregava-se com insistência à elaboração de textos moralizantes.
     Assim, anotava em seu diário, em 1852: “Decididamente, não posso escrever sem objetivo e sem esperança de utilidade”. E em 1855, tratava ali do “bem que eu posso fazer com os meus livros”. Estas cogitações chegavam à obsessão. Basta lembrar que, em plena Guerra da Crimeia, sob o bombardeio inimigo e em meio às privações provocadas pelo assédio anglo-francês, entregou-se à ideia de fundar uma nova religião, “que corresponda ao desenvolvimento da humanidade, uma religião de Cristo, mas purificada da fé e do mistério, e que dê a bem-aventurança na terra”.
     Depois disso, torna-se muito compreensível que, durante a correção das provas desta novela, tenha escrito: “É uma ignomínia vergonhosa”. Mas, ao mesmo tempo, felizmente, não eliminou esta “ignomínia”.
     Creio que na base desta oscilação encontra-se uma dualidade tolstoiana sobre a qual já escrevi mais de uma vez. Ele era um moralista feroz, implacável, mas, ao mesmo tempo, sabia como ninguém expressar a atração do carnal e as grandes fraquezas humanas tinham nele um observador genialmente perspicaz. Vejam-se nesta novela as páginas 94 a 98 do capítulo III, da segunda parte, onde a personagem feminina se sente atraída por um marquês italiano. 
     Ora, esta contraparte com descrição muito compreensiva das vacilações inerentes ao humano é uma constante em boa parte da obra de Tolstói. Mesmo Anna Kariênina, onde o adultério é condenado com “uma crueldade magnífica”, segundo a expressão feliz de Eisenstein, contém páginas em que se trata com simpatia o irmão de Anna, que “trai constantemente a mulher, mas com naturalidade, como algo que não pode ser diferente, como um comportamento que faz parte do fluxo da existência”, conforme escrevi um dia¹.É verdade que, nos últimos anos de vida, radicalizou-se a atitude moralizante de Tolstói, chegando então ao paroxismo, conforme se constata particularmente em A Sonata a Kreutzer². Mas Felicidade conjugal constitui um dos momentos em que está menos imerso em seu delírio de pregador, quando ele se torna realmente insuperável.

[1] Boris Schnaiderman, Tolstói: antiarte e rebeldia (Coleção Encanto Radical), São Paulo, Brasiliense, 1983, p. 63 [este ensaio foi republicado como posfácio a Lev Tolstói, Khadji-Murát, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2017].
[2] Ver Lev Tolstói, A Sonata a Kreutzer, tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman, São Paulo, Editora 34, 2007. 

     Esta novela se diferencia de outros escritos de Tolstói, sobretudo na postura perante as injunções da moral. Assim, escreveria no diário, em 1889: “Vivemos no reino da devassidão e das mulheres. As mulheres movem tudo”. Mas, em Felicidade conjugal, temos (p. 86) um pensamento da personagem central: “Ah! Então é este o poder do marido — pensei. — Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa. Nisso é que consistem os direitos do marido, mas eu não me submeterei a eles”. Realmente, impressiona a passagem de uma atitude compreensiva, humana, que até consegue captar um momento de revolta contra a prepotência masculina, ao tom ranzinza e rabugento de A Sonata a Kreutzer, que é, no entanto, magistral como obra de obsessão e delírio.
     Na edição que tenho de Felicidade conjugal¹ há uma nota: “Segundo testemunho do próprio Tolstói, serviu de fundamento à concepção literária desse romance a história das suas relações pessoais com V. V. Arsiênieva”², isto é, a moça com quem tivera um envolvimento amoroso antes de seu noivado e casamento com Sófia Behrs, que é sempre lembrada como Sófia Tolstaia, a condessa.

[1] Lev Tolstói, Obras reunidas em 12 volumes, Moscou, Goslitizdát (Editora Estatal de Obras da Literatura), 1956, vol. 3.
[2] Siemiéinoie schástie (Felicidade conjugal), em op. cit., p. 397.

     Na verdade, esta informação só pode ser aceita cum granum salis, pois a sucessão dos fatos autobiográficos nesta novela é bem tênue. Foi tudo vivido no plano da fantasia e da fabulação literária. Na vida real, não aconteceu nada que se aproximasse sequer da trama arquitetada. Aliás, Tolstói se orgulhava de sua capacidade de fabulação e, em diversas ocasiões, manifestou-se contra a cópia pura e simples, na ficção, dos acontecimentos da vida real.
     Todavia, é muito comum esta leitura exageradamente biográfica de algumas de suas obras. Assim, os romances Infância, Adolescência e Juventude, planejados como parte de uma tetralogia, que não chegou a completar, foram às vezes editados no Ocidente com a designação Memórias, o que é um absurdo.
     Em Felicidade conjugal, provoca até estranheza a ausência de certa problemática russa da época. Visto que o texto é de 1859, os fatos ali narrados decorrem no período em que se articulavam as grandes reformas do reinado de Alexandre II, inclusive a libertação dos servos da gleba, que ocorreria em 1861. No entanto, os camponeses da novela aparecem sem maior destaque, sem qualquer referência à “questão camponesa”, tema candente na época. Ora, Tolstói estava então muito envolvido com esta problemática e participava ativamente das assembleias da nobreza rural no distrito de Tula, onde ficava sua propriedade, Iásnaia Poliana.
     Também, a estada das personagens numa estação de águas no exterior não suscitou qualquer das reações indignadas do escritor à vida burguesa do Ocidente.
     A ação da novela se concentra no cotidiano de um casal da nobreza, sem quaisquer preocupações sociais ou políticas. Não procuremos ver em Sierguiéi Mikháilovitch um reflexo de Tolstói, pois ele não aguentaria semelhante comparação. Ao aceitar esta narrativa pura e simplesmente, sem maiores aprofundamentos históricos, veremos que nisso está a sua grandeza, sua contribuição específica. Quem quiser procure em outras obras de Tolstói sua vivência atormentada da Rússia na época. Pois temos de reconhecer: o humano e o literário encontram nesse texto o seu máximo de expressão.

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Primeira Parte:
Segunda Parte: 
3 - A partir desse dia / 4 - A casa vazia  
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Meu segredo)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MEU SEGREDO 
 Á SENHORA D. *** 

I

Eu tenho dentro d'alma o meu segredo 
 Guardado como a pérola do mar, 
 Occulto ao mundo como a flor silvestre 
 Escondida no valle a vicejar.

Eu guardo-o no meu peito... E' meu thesouro, 
 Meu único thesouro desta vida, 
 — Sonho de phantasia — flor ephemera, 
 Uma nuvem, talvez, no céo perdida... 

Mas que importa ? E' uma crença de minh'alma 
 — Gotta do orvalho d'alva da existência, 
 Ultima flor, que vive aos raios mornos 
 Do sol de amor na quadra da innocencia. 

Só,, quando a terra dorme solitária 
 E ergue-se á meia noite, branca, a lua, 
 E a brisa geme cantos de tristeza 
 Na rama do pinheiro que fluctúa;  

E quando o orvalho pende do arvoredo, 
 Que se debruça p'ra beijar o rio, 
 E as estrellas no céo scintillam languidas 
 — Pérolas soltas de um collar sem fio;

Então eu vou sentar-me sobre a relva, 
 Eu vou sonhar meus sonhos ao relento, 
 E só conto o segredo de minh'alma 
 Das horas mortas ao tristonho vento.

II

Eu sei como este mundo ri de escarneo, 
 Deste aéreo sonhar da phantasia. 
 Eu sei... P'ra cada crença de noss'alma, 
 Elle tem uma phrase de ironia... 
 Ah! deixai-me guardar o meu segredo! 
 Deste riso cruel eu tenho medo... 

Meu segredo? E' o canto de poesia 
 Que suspirou saudoso o gondoleiro, 
 Que vae morrer gemente sobre as praias; 
 — Da despedida pranto derradeiro, 
 Mais aéreo que as vozes da sereia, 
 Alta noite sentada sobre a areia. 

Meu segredo? E' o soluço d'alma triste 
 Que conta sua dor á brisa errante; 
 E' o pulsar tresloucado de meu peito 
 A repetir um nome delirante; 
 Indeciso anhelar de edeneo gozo, 
 Castello que eu creei vertiginoso.  

Creei-o numa noite não dormida, 
 Após vel-a entre todas — a rainha; 
 Creei-o nestas horas de delírio, 
 Em que sentira em fogo a fronte minha 
 E o sangue galopava-me nas veias, 
 E o cérebro doia-me de idéas... 

E quem na vida não amara um dia? 
 E nunca despertara ao som de um beijo? 
 Quem nunca na vigília empallecera, 
 Ao seguir com o pensar louco desejo? 
 Quem não sonhara ao collo voluptuoso 
 Da sultana louça morrer de gozo ?

Uma noite tentei fechar as palpebras, 
 Debalde revolvi-me sobre o leito... 
 A alma adejava em phantasias d'ouro, 
 Arfava ardente o coração no peito. 
 A imagem que eu seguia? E' meu segredo! 
 Seu nome? Não o digo... tenho medo. 

Ai! dóe muito calar dentro em noss'alma 
 Este anhelar fremente de desejos! 
 Ai! dóe muito calar o roseo sonho 
 Que sonhamos: — dormir entre mil beijos 
 Num seio que de amor todo estremece, 
 Quando o olhar de volupias esmorece... 

Dóe muito., mas dóe mais uma ironia, 
 Quando adeja o pensar no firmamento. 
 Dóe muito... mas dóe mais um desengano, 
 Quando se vive só de um sentimento, 
 Quando o peito cifrou sua esperança 
 Em beijar da mulher a negra trança. 

Que loucura! Aos teus languidos olhares, 
 Beber, louco de amor, seiva de vida... 
 Sorver perfume em teus cabellos negros, 
 Sentir a alma de si mesma esquecida... 
 E, de gozo de amar louco, sedento, 
 Viver a eternidade num momento! 

Que ventura! Sorver co'os lábios trêmulos 
 Em teus lábios — de amor o nome santo... 
 Que ventura! Fitar-te os negros olhos 
 Desmaiados de amor e de quebranto... 
 E, reclinada a fronte no teu seio, 
 Sentir languido arfar em doce enleio... 

Mas que louco sonhar... O' minha amante, 
 Que nunca nos meus braços desmaiaste, 
 Que nem sequer de amor uma palavra 
 Dos meus lábios em fogo inda escutaste, 
 Perdoa este sonhar vertiginoso! 
 Foi um sonho do peito deliroso! 

E, se um dia, entre as scismas de tu'alma, 
 Minha imagem passar um só momento, 
 Fita meus olhos, vê como elles falam 
 Do amor que eu te votei no esquecimento: 
 Recorda-te do moço que em segredo 
 Fez-te a fada gentil de um sonho ledo... 

Recorda-te do pobre que em silencio 
 De ti fez o seu anjo de poesia, 
 Que tresnoita scismando em tuas graças, 
 Que por ti, só por ti, é que vivia, 
 Que tremia aó roçar de teu vestido, 
 E que por ti de amor era perdido...

Sagra ao menos uma hora em tua vida 
 Ao pobre que sagrou-te a vida inteira, 
 Que em teus olhos, febril e delirante, 
 Bebeu de amor a inspiração primeira, 
 Mas que de um desengano teve medo, 
 E guardou dentro d'alma o seu segredo! 

Recife, Junho de 1863. 

______________

     Cf. com a primeira publicação em livro, na "5* 
 (VI) Edição das Espumas Fluctuantes, de Seraphim 
 José Alves, Rio de Janeiro (1881), "appendice": I. 
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continua página 64...
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Posias Lyricas
Meu segredo /  
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

Marcel Proust - A Prisioneira (Compreendi que duas horas queria dizer três horas)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Compreendi que duas horas queria dizer três horas, pois já passava das duas. Mas era, em Françoise, um dos defeitos particulares, permanentes e incuráveis, a que chamamos doentios, o de nunca poder olhar nem dizer exatamente a hora. Jamais pude compreender o que se passava na sua cabeça quando Françoise, tendo olhado o relógio, caso fossem duas horas dizia: é uma hora, ou são três horas; jamais pude compreender se o fenômeno que ocorria então tinha por ser do olhar de Françoise, o seu cérebro, ou a sua linguagem; o certo é que tal fenômeno ocorria sempre. A humanidade é muito velha. A hereditariedade e os cruzamentos deram uma força invencível a maus hábitos, a reflexos viciosos. Algumas pessoas espirram e respiram com dificuldade porque passam perto de um arbusto, outras têm erupções devido ao odor da tinta fresca; muitas têm cólicas se é preciso viajar, e netos de ladrões que agora são milionários generosos não resistem à tentação de nos roubar cinquenta francos. Quanto a saber em que consistia a impossibilidade em que se achava Françoise de dizer a hora exata, não foi dela que pude extrair qualquer esclarecimento a respeito. Pois, apesar da cólera que me davam habitualmente suas respostas inexatas, Françoise não procurava desculpar-se pelo erro, nem explicá-lo. Permanecia muda, dava a impressão de não me ouvir, o que acabava de me exasperar. Gostaria eu de ouvir uma palavra de justificação, ainda que fosse apenas para rebatê-la, mas nada; um silêncio indiferente. Em todo caso, quanto a hoje, nenhuma dúvida: Albertine ia voltar com Françoise às três horas, Albertine não veria Léa nem suas amigas. Assim, estando conjurado o perigo que ela renovasse suas relações com tais pessoas, esse perigo logo perdeu importância a meus olhos, e me espantei, ao ver a facilidade com que fora evitado, de ter pensado que não conseguiria que o fosse. Senti um vivo movimento de gratidão por Albertine, a qual, via bem, não fora ao Trocadero por causa das amigas de Léa, e que me mostrava, deixando a vesperal e voltando para casa a um sinal meu, que ela me pertencia para o futuro até mais do que eu imaginava. Maior ainda foi tal sentimento quando um ciclista me trouxe um bilhete dela para que eu tivesse paciência, bilhete em que havia amabilidades que lhe eram comuns: "Meu querido, meu caro Marcel, chego menos depressa que este ciclista, de cuja bicicleta gostaria de utilizar-me para estar mais cedo com você. Como pode imaginar que eu possa ficar aborrecida e que algo possa me agradar mais do que estar junto de você? Seria ótimo sairmos os dois juntos e melhor ainda seria nunca sairmos senão juntos. Que ideia são as suas, então? Esse Marcel! Toda sua, Albertine." 
     Até os vestidos que lhe comprava, o iate de que lhe falara, os peignoirs de Fortuny, tudo isso, tendo nesta submissão de Albertine não a sua compensação, mas o seu complemento, surgia-me como outros tantos privilégios que eu exercia; pois os deveres e os encargos de um senhor fazem parte de sua dominação e a definem e provam, tanto quanto os seus direitos. E esses direitos que ela me reconhecia dava precisamente à meus encargos o seu verdadeiro caráter: eu tinha uma mulher à minha disposição, a qual, ao primeiro recado que lhe enviasse de improviso, mandava-me telefonar, com deferência, que voltava, que se deixava reconduzir logo. Eu era mais senhor do que julgava. Mais senhor, isto é, mais escravo. Eu já não tinha nenhuma impaciência de ver Albertine. A certeza de que ela estava fazendo compras com Françoise, que regressaria com ela num momento próximo que eu de bom grado prorrogaria, iluminava como um astro radioso e pacífico um tempo que agora eu gostaria muito mais de passar sozinho. O amor por Albertine fizera erguer-me e me preparar para sair, mas me impediria de desfrutar a minha saída. Imaginava que, nesse domingo, operariazinhas, midinettes e cocotes iam passear no Bois. E com essas palavras, "midinettes", "operariazinhas" (como já me ocorrera muitas vezes com um nome próprio, um nome de moça lido no noticiário de um baile), com a imagem de um corpete branco, de uma saia curta, pois atrás disso eu punha uma criatura desconhecida e que poderia me amar, eu criava sozinho mulheres desejáveis, e dizia comigo: "Como devem ser gostosas!" Mas de que me serviriam que o fossem, visto que eu não saía só?
     Aproveitando o fato de que ainda estava sozinho, e entrecerrando as cortinas para que o sol não me impedisse de ler as notas, sentei-me ao piano e abri ao acaso a Sonata de Vinteuil que ali estava posta, e comecei a tocar porque, estando ainda meio distante a chegada de Albertine, mas em compensação sendo segura, eu dispunha de tempo e de paz de espírito. Banhado na espera, cheio de segurança pelo seu retorno na companhia de Françoise e de confiança em sua docilidade, como na beatitude de uma luz interior tão reaquecedora como a de fora, eu podia dispor do meu pensamento, desprendê-lo de Albertine, aplicá-lo à Sonata. Mesmo nesta, não me empenhei em reparar o quanto a combinação do motivo voluptuoso e do motivo ansioso respondia agora mais ao meu amor por Albertine, do qual o ciúme estivera por tão longo tempo ausente que eu havia podido confessar a Swann a minha ignorância de tal sentimento. Não, tomando a Sonata de um outro ponto de vista, encarando-a em si mesma como sendo a obra de um grande artista, eu era conduzido pelo fluxo sonoro em direção aos dias de Combray. Não quero dizer de Montjouvain e do lado de Méséglise, mas dos passeios pelos lados de Guermantes -quando eu próprio desejara ser artista. Abandonando de fato tal ambição, renunciara eu a alguma coisa real? Poderia a vida consolar-me da arte, haveria na arte uma realidade mais profunda em que nossa personalidade verdadeira encontrasse uma expressão que não lhe conferem as ações da vida? Todo grande artista parece de fato de tal modo diverso dos outros, e tanto nos dá aquela sensação de individualidade que em vão buscamos na existência cotidiana! No momento em que eu pensava nisto, um compasso da Sonata me impressionou, compasso que aliás eu conhecia bem; mas às vezes a atenção ilumina diversamente coisas já conhecidas no entanto há muito, e nas quais assinalamos o que nunca tínhamos percebido nelas. Tocando esse compasso, e conquanto Vinteuil estivesse exprimindo ali um sonho que deveria permanecer de todo estranho a Wagner, não pude evitar murmurar: "Tristão!"-com o sorriso que tem um amigo da família ao encontrar algo do avô numa entonação, num gesto do neto que não o conheceu. E como então se olha uma fotografia que permite precisar a semelhança, instalei na estante, por sobre a Sonata de Vinteuil, a partitura de Tristão, do qual tocavam, justamente naquela tarde, alguns trechos no Concert Lamoureux. Na minha admiração pelo mestre de Bayreuth, eu não tinha nenhum dos escrúpulos daqueles, como Nietzsche, a quem o dever lhes dita que fujam, na arte como na vida, da beleza que os provoca, repudiando Tristão como renegam Parsifal e, por ascetismo espiritual, de mortificação em mortificação, chegam, seguindo o mais sangrento dos caminhos da cruz, a elevar-se ao puro conhecimento e à adoração perfeita do Postilhão de Longjumeau. [Ópera-cômica de Adolphe Adam (1803-1856). (N. do T)]. Eu percebia tudo o que a obra de Wagner tem de real, revendo esses temas insistentes e fugazes que visitam um ato, afastando-se apenas para retornar, e às vezes distantes, entorpecidos, quase desligados, são, em outros momentos, mesmo sempre continuando vagos, tão próximos e prementes, tão internos, tão orgânicos, tão viscerais, que se diria serem a retomada menos de um motivo que de uma nevralgia.
     A música, bem diferente nisto da companhia de Albertine, ajudava-me a descer ao fundo de mim mesmo, e a descobrir aí coisas novas: a variedade que eu em vão buscara na vida, na viagem, cuja nostalgia no entanto me era dada por esse fluxo sonoro que fazia morrer a meu lado suas ondas ensolaradas. Dupla diversidade. Como o espectro exterioriza para nós a composição da luz, do mesmo modo a harmonia de um Wagner e a cor de um Elstir nos permitem conhecer aquela essência qualitativa das sensações de outrem, onde o amor por outra criatura não nos faz penetrar. Além disso, diversidade no seio da própria obra, pelo único meio que há de ser realmente diverso: reunir várias individualidades. Onde um músico qualquer julgaria estar pintando um escudeiro, ou um cavaleiro, ainda quando os fizesse cantar a mesma música, Wagner, ao contrário, coloca, sob cada denominação, uma realidade diferente e, cada vez que seu escudeiro aparece, trata-se de uma figura particular, a um tempo simplista e complicada, que, com um entrechoque de linhas radiante e feudal, inscreve-se na imensidade sonora. Decorre daí a plenitude de uma música de fato repleta de tantas músicas, cada uma das quais é um ser. Um ser ou a impressão que nos dá um aspecto momentâneo da natureza. Mesmo aquilo que é mais independente do sentimento que ela nos faz experimentar, conserva sua realidade exterior e inteiramente definida, o canto de um pássaro, o som da trompa de um caçador, a canção tocada por um pastor na sua flauta de cana, recortam no horizonte a sua silhueta sonora. Por certo Wagner ia fazê-la mais próxima, aproveitar-se dela, colocá-la numa orquestra, submetê-las às mais altas ideias musicais, todavia respeitando sua originalidade primitiva como um fabricante de arcas respeita as fibras, a essência particular da madeira que esculpe.
     Mas apesar da riqueza dessas obras em que a contemplação da natureza tem seu lugar ao lado da ação, ao lado de indivíduos que não são mais que nomes de personagens, mesmo assim eu imaginava o quanto essa obras participam do caráter de ser - ainda que maravilhosamente - sempre incompletas, que é o caráter de todas as grandes obras do século XIX, cujos maiores escritores deixaram em seus livros a marca de sua personalidade, mas, observando-se enquanto trabalhavam, como se fossem a um tempo o operário e o juiz, extraíram dessa autocontemplação uma beleza nova, exterior e superior à obra, impondo-lhe retroativamente uma unidade, uma grandeza que ela não possui. Sem nos determos naquele que viu em seus romances, depois de concluídos, uma Comédia Humana, nem naqueles que a poemas ou ensaios inconjuntos denominaram A Lenda dos Séculos e A Bíblia da Humanidade, não podemos, no entanto, dizer que este último encarna tão bem o século XIX, que as maiores belezas de Michelet devemos procurá-las menos na sua própria obra que nas atitudes que ele assume em face da mesma, não na sua História da França ou na sua História da Revolução, mas em seus prefácios a esses dois livros? Prefácios, ou seja, páginas escritas depois dos livros, onde ele os examina, e às quais convém acrescentar, aqui e ali, algumas frases, começando de hábito por um "Devo dizê-lo?" que não é uma cautela de sábio, mas uma cadência de músico. O outro músico, o que me deslumbrava no momento, Wagner, tirando de suas gavetas um trecho delicioso para fazê-lo entrar como tema retrospectivamente necessário em uma obra na qual não pensava no momento em que a compusera e, depois, tendo composto uma primeira ópera mitológica, depois uma segunda, depois ainda outras, e de súbito percebendo que acabava de fazer uma Tetralogia, deve ter sentido um pouco da mesma embriaguez de Balzac, quando este, lançando às suas obras um olhar a um tempo de um estranho e de um pai, achando neste romance a pureza de Rafael, neste outro a simplicidade do Evangelho, reparou bruscamente, ao lançar sobre eles uma iluminação retrospectiva, que ficariam mais belos reunidos num ciclo em que as mesmas personagens reaparecessem e acrescentou à sua obra, nesse ajustamento, uma pincelada, a derradeira e a mais sublime. Unidade ulterior, não artificial.
     Senão seria reduzida a pó como tantas sistematizações de escritores medíocres que, com grande reforço de títulos e subtítulos, desejam parecer que se deram ao esforço de perseguir um só e transcendente desígnio. Não fictícia, talvez mais real até por ser ulterior, por ter nascido de um momento de entusiasmo em que é descoberta entre pedaços que só precisam se unir, unidade que se ignorava, portanto vital e não lógica, que não proscreveu a variedade nem ressecou a execução. Ela é (mas aplicando-se desta vez ao conjunto) como determinado trecho composto à parte, nasceu de uma inspiração, não exigida pelo desenvolvimento artificial de uma tese, e que vem integrar-se a resto. Antes do grande movimento de orquestra que precede a volta de Isolda, foi à própria obra que atraiu para si a ária meio esquecida da flauta de um pastor.
     E, sem dúvida, assim como a progressão da orquestra, ao aproximar-se da nave, apodera-se dessas notas da flauta, transforma-as, associa-as à sua embriaguez, quebra o seu ritmo, aclara-lhes a tonalidade, acelera-lhes o movimento, multiplica-lhes a instrumentação, assim o próprio Wagner, sem dúvida, alegrou-se ao descobrir em sua memória a ária do pastor, agregou-a à sua obra, deu-lhe todo seu significado. De resto, semelhante alegria não o abandona jamais. Seja qual for a tristeza do poeta, ela é consolada nele, superada - quer dizer, infelizmente um pouco destruída pela alegria do fabricante. Mas então, tanto quanto pela identidade que eu havia notado há pouco entre a frase de Vinteuil e a de Wagner, sentia-me perturbado por essa habilidade vulcânica. Seria essa habilidade que confere, nos grandes artistas, a ilusão de uma originalidade intrínseca, irredutível, aparentemente um reflexo dê uma realidade mais que humana, e de fato o produto de um labor industrioso?
     Se a arte não passa disto, não é mais real do que a vida, e eu não tinha que lastimar o fato de não ser artista. Continuava a tocar Tristão. Separado de Wagner pelo tabique sonoro, ouvia-o exultar, convidar-me a partilhar da sua alegria, ouvia redobrar o riso imortalmente jovem e as marteladas de Siegfried, em quem, aliás, mais maravilhosamente marcadas eram tais frases, a habilidade técnica do operário só servindo para fazê-las mais livremente deixar a terra, pássaros idênticos não ao cisne de Lohengrin, mas àquele aeroplano que eu vira, em Balbec, mudar sua energia em elevação, planar acima das ondas e perder-se no céu. Talvez, como as aves que mais alto sobem, que voam mais depressa, têm uma asa mais possante, fossem necessários aparelhos realmente materiais para explorar o infinito, desses cento e vinte cavalos marca Mistério, nos quais entretanto, por mais alto que se voe, é-se um tanto impedido de desfrutar o silêncio dos espaços devido ao potente ronco do motor!
     Não sei por que o curso de meus devaneios, que até aqui havia seguido as recordações da música, desviou-se para aqueles que foram, em nossa época, os melhores executantes, e entre os quais, superestimando-o um pouco, eu situava Morel. E logo o meu pensamento fez um brusco desvio e foi sobre o caráter de Morel, e certas singularidades desse caráter, que me pus a devanear. Aliás, isto podia acrescentar-se mas não se confundir com a neurastenia que o atormentava-, Morel tinha o hábito de falar de sua vida, mas dando um retrato tão sombrio dela que era difícil distinguir alguma coisa. Por exemplo, colocava-se à inteira disposição do Sr. de Charlus, com a condição de ter as noites livres, pois desejava poder seguir o curso de álgebra depois do jantar. O Sr. de Charlus dava licença, mas pedia para vê-lo depois.

- Impossível, é uma velha pintura italiana-(este gracejo não faz qualquer sentido transcrito assim; mas o Sr. de Charlus fizera Morel ler A Educação Sentimental, em cujo penúltimo capítulo Fréderic Moreau diz esta frase; e, assim, Morel, de brincadeira, nunca dizia a palavra "impossível" sem fazê-la seguir por estas: "é uma velha pintura italiana") -, o curso dura muitas vezes até bem tarde e já é um grande incômodo para o professor, que naturalmente ficaria melindrado... 
- Mas não há necessidade de curso, álgebra não é como a natação, nem mesmo como o inglês, isto se aprende muito bem num livro - replicava o Sr. de Charlus, tendo logo adivinhado nesse curso de álgebra uma dessas imagens em que não se podia destrinçar nada. Talvez se tratasse da cópula com uma mulher, ou, se Morel procurava ganhar dinheiro por meios suspeitos e estivesse de combinação com a polícia secreta, de uma operação com agentes de segurança, ou, quem sabe, pior ainda, a espera de um gigolô de quem se poderá precisar num bordel. 
- Bem mais facilmente até pelos livros - respondia Morel ao Sr. de Charlus-, pois não se compreende nada num curso de álgebra. 
- Então por que não a estudas de preferência lá em casa, onde tens de fato todo o conforto? -poderia ter respondido o Sr. de Charlus; evitou, porém, dizê-lo, sabendo que, imediatamente, conservando apenas o mesmo caráter de necessidade para reservar as horas da noite, o curso de álgebra se mudaria numa aula obrigatória de dança ou de desenho. No que o Sr. de Charlus pôde perceber que se enganava, ao menos em parte: Morel, muitas vezes, na casa do barão, ocupava-se em resolver equações. O Sr. de Charlus objetava que a álgebra não podia servir em nada a um violinista. Morel retrucava que era uma distração para passar o tempo e combater a neurastenia. É claro que o Sr. de Charlus poderia procurar saber o que eram na verdade aquelas misteriosas e fatais aulas de álgebra, só ministradas à noite. Mas o Sr. de Charlus estava envolvido demais nas obrigações da sociedade para se ocupar em deslindar o emaranhado das ocupações de Morel.

     As visitas feitas ou recebidas, o tempo passado no círculo, os jantares na cidade e as noites no teatro impediam-no de pensar nisso, bem como naquela malvadez, a um tempo violenta e sorrateira, que Morel, dizia-se, fazia ao mesmo tempo brilhar e dissimular nos ambientes sucessivos, nas diferentes cidades por onde passara, e onde só falavam dele com um arrepio, baixando a voz, e sem coragem de contar coisa alguma. Infelizmente, foi a uma dessas explosões de nervosismo maldoso que tive ocasião de assistir naquele dia, quando, tendo deixado o piano, desci ao pátio para ir ao encontro de Albertine que ainda não tinha chegado. Passando em frente à loja de Jupien, onde Morel e aquela que eu julgava vir a ser em breve sua mulher estavam sozinhos, ouvi Morel gritando com toda a força, o que fazia sair dele uma entonação que não lhe conhecia, rude, habitualmente recalcada, e estranhíssima. As palavras não o eram menos, erradas do ponto de vista da língua francesa, mas ele conhecia tudo imperfeitamente. 

- Saia já daqui; sua grandessíssima puta, grandessíssima puta, grandessíssima puta- repetia ele à pobre moça, que certamente no começo não entendera o que ele queria dizer; e depois, trêmula e digna, permanecia imóvel diante dele. - Já lhe disse para sumir daqui, grandessíssima puta, grandessíssima puta, vá procurar o seu tio para que eu lhe diga o que você é, sua puta. -

     Justo naquele momento a voz de Jupien; que regressava conversando com um amigo, fez-se ouvir no pátio, e, como eu sabia que Morel era um tremendo poltrão, achei inútil juntar minhas forças à de Jupien e seu amigo, que num instante estariam dentro da loja, e voltei a subir, para evitar Morel, que, embora tivesse tanto desejado que chamassem Jupien (provavelmente para aterrorizar e dominar a moça com uma chantagem sem qualquer fundamento), apressou-se a sair logo que ouviu sua voz no pátio. As palavras reproduzidas não são nada, nem explicariam o bater do coração com que subi.
     Tais cenas a que assistimos na vida encontram um elemento de força incalculável no que os militares denominam, em matéria de ofensiva, a vantagem da surpresa, e, por maior que fosse a minha sensação de suave tranquilidade por saber que Albertine, em vez de ficar no Trocadero, ia voltar para junto de mim, nem por isso ressoava menos nos ouvidos o acento daquelas palavras dez vezes repetidas: "grandessíssima puta, grandessíssima puta", que tinham me perturbado tanto.
     Pouco a pouco minha agitação se acalmou. Albertine ia chegar. Eu a ouviria bater à porta dentro de um instante. Sentia que minha vida não era mais a mesma como poderia ter sido; e que ter assim uma mulher com a qual muito naturalmente, quando estivesse de volta, deveria sair, para cujo embelezamento iam ser cada vez mais desviadas as forças e a atividade do meu ser, fazia de mim como que uma haste acrescida, mas vergada ao peso do fruto opulento pelo qual passam todas as suas reservas. Contrastando com a ansiedade que eu experimentara uma hora antes, o sossego que me causava o regresso de Albertine era mais vasto do que o que eu sentira de manhã, antes de sua partida. Antecipando o futuro, de que a docilidade de minha amiga me tornava mais ou menos senhor, mais resistente, como que repleto e estabilizado pela presença iminente, importuna, inevitável e doce, era o sossego (dispensando-nos de buscar a felicidade em nós mesmos) que nasce de um sentimento familiar e de uma ventura doméstica: foi isso ainda, não menos que o sentimento que me trouxera tanta paz enquanto eu esperava Albertine, o que experimentei a seguir, passeando com ela. Ela tirou a luva por um momento, fosse para tocar a minha mão, fosse para me deslumbrar, deixando-me ver no seu dedo mindinho, ao lado daquele que recebera da Sra. Bontemps, um anel onde se estendia a larga e líqüida toalha de uma clara folha de rubis:

- Um novo anel, Albertine? Sua tia é tão generosa! 
- Não, este não veio da minha tia - disse ela, rindo. - Eu mesma é que o comprei, visto que, graças a você, posso fazer grandes economias. Nem mesmo sei a quem pertenceu. Um viajante que não tinha dinheiro o deixou para o dono de um hotel onde estive em Mans. O homem não sabia o que fazer dele e o teria vendido bem abaixo do seu valor. Mas ainda assim era muito caro. Agora que, graças a você, eu me torno uma dama elegante, mandei lhe perguntar se ele o possuía ainda. E aí está. 
- Tanto anel, Albertine. Onde vai pôr o que lhe vou dar? Em todo caso, este é muito bonito; não consigo distinguir os lavores em torno aos rubis, dir-se-ia uma cabeça humana fazendo caretas. Mas não tenho boa vista. 
- Mesmo que a tivesse, não adiantaria muito. Eu também não distingo nada.

     Antigamente, muitas vezes me ocorrera, ao ler um volume de memórias ou um romance, em que um homem sempre sai com uma mulher, merendam juntos, desejar poder fazer o mesmo. Às vezes julgara consegui-lo, por exemplo, levando comigo a amante de Saint-Loup, indo jantar com ela. Mas debalde eu invocava a ideia de que, naquele momento, representava bem a personagem que havia invejado no romance, essa ideia me convencia de que eu devia ter satisfação ao lado de Rachel e, todavia, não me proporcionava.
     É que, de cada vez que desejamos imitar alguma coisa, esquecemos que essa coisa foi produzida não pela vontade de imitar, mas por uma força inconsciente, também real. Mas essa impressão particular que não pudera me dar todo o meu desejo de sentir um prazer delicado ao passear com Rachel, eis que agora o sentia sem o ter procurado de forma alguma, mas por motivos completamente diversos, sinceros, profundos para citar um exemplo - porque meu ciúme impedia-me de estar longe de Albertine e, no momento em que eu podia sair, de deixá-la passear sem mim. Só o sentia agora porque o conhecimento é, não das coisas exteriores que desejamos observar, mas das sensações involuntárias; porque outrora uma mulher, por mais tempo que estivesse no mesmo carro que eu, não estava na realidade junto a mim, enquanto não a recriasse ali, a todo instante, uma necessidade dela como eu a tinha de Albertine, enquanto a carícia constante do meu olhar não lhe devolvesse permanentemente as cores que exigem ser perpetuamente refrescadas, enquanto os sentidos, mesmo apaziguados, mas que se recordam, não pusessem sob aquelas cores o sabor e a consistência, enquanto, unido aos sentidos e à imaginação que os exalta, o ciúme não mantivesse tal mulher em equilíbrio junto a mim por uma atração compensada, tão poderosa como a lei da gravidade.
     Nosso carro descia depressa pelos bulevares, pelas avenidas, cujos palacetes enfileirados, rósea congelação de sol e de frio, recordavam-me as visitas à casa da Sra. Swann, docemente iluminadas pelos crisântemos a esperada hora dos lampiões. Eu mal tinha tempo de avistar, tão separado delas atrás do vidro do automóvel como o teria estado atrás da janela do meu quarto, uma jovem caixeira da casa de frutas, uma moça da leiteria de pé diante da porta, iluminada pelo lindo dia como uma heroína que meu desejo bastava para empenhar em peripécias deliciosas, no limiar de um romance que eu nunca haveria de conhecer. Pois eu não podia pedir a Albertine que parássemos, e já não eram mais visíveis as moças, de quem meus olhos mal distinguiram as feições e mal puderam acariciar a frescura no louro vapor em que elas se banhavam. A emoção de que me sentia possuído ao avistar a filha de um comerciante de vinhos ou uma lavadeira conversando na rua era a emoção que se tem ao reconhecer as Deusas. Desde que o Olimpo já não existe, seus habitantes vivem na terra. E, quando, ao compor um quadro mitológico, os pintores fizeram posar, como Vênus ou Ceres, moças do povo que exerciam os ofícios mais vulgares, bem longe de cometer um sacrilégio, não fizeram mais que acrescentar-lhes, restituir-lhes a qualidade e os atributos divinos de que se achavam despojadas. 

- Como lhe pareceu o Trocadero, louquinha? 
- Estou muito contente de o ter deixado para passear com você. É de Davioud, creio. 
- Mas como a minha pequena Albertine é instruída! De fato, é de Davioud, mas eu o tinha esquecido.
- Enquanto você dormia li seus livros, grande preguiçoso. Como monumento, é bem feio, não acha? 
- Menina, você está mudando com tamanha rapidez e se torna de tal modo inteligente (é verdade, mas, além disso, gostava que ela tivesse a satisfação, à falta de outras, de pensar que pelo menos o tempo que passava em minha casa não era totalmente perdido), que lhe diria, quando necessário, algumas coisas que em geral seriam consideradas falsas e que correspondem a uma verdade que estou procurando. - Você sabe o que é o impressionismo?
- Sei. 
- Pois bem, veja o que pretendo dizer: lembra-se da igreja de Marcouville I'Orgueilleuse, que Elstir não apreciava porque era nova? Será que ele não está um tanto em contradição com o seu próprio impressionismo, quando retira assim esses monumentos da impressão global em que estão situados, leva-os para fora da luz onde estão dissolvidos e examina o seu valor intrínseco feito um arqueólogo? Quando pinta, por acaso um hospital, uma escola ou um cartaz numa parede não têm o mesmo valor que uma catedral inestimável que está perto, numa imagem indivisível? Lembre-se de como a fachada estava queimada pelo sol, como o relevo daqueles santos de Marcouville sobrenadavam na luz. Que importa que um monumento seja novo, se parece velho? E mesmo que não pareça! O que os velhos bairros têm de poético foi extraído até a última gota, porém certas casas recentemente construídas para pequenos burgueses endinheirados, nos bairros novos, onde a pedra muito branca mostra ter sido preparada há pouco, não rompem elas o ar tórrido do meio-dia em julho, à hora em que os comerciantes voltam para o almoço no subúrbio, com um grito tão ácido como o odor das cerejas, antes que a refeição seja servida na sala de jantar penumbrosa, onde os prismas de vidro para descanso das facas projetam focos multicores tão belos como os vitrais de Chartres? 
- Como você é delicioso de ouvir! Se algum dia eu me tornar inteligente, será graças a você. 
- Por que, num dia bonito, desviar os olhos do Trocadero cujas torres em forma de pescoço de girafa fazem pensar na cartuxa de Pavia? 
- Ele me lembrou também, dominando da mesma forma do alto da colina, uma reprodução de Mantegna que você possui, creio que é São Sebastião, onde existe ao fundo uma cidade em anfiteatro e onde se poderia jurar que fica o Trocadero. 
- Você observa bem! Mas como é que viu a reprodução de Mantegna? Você é surpreendente.

     Tínhamos chegado aos bairros mais populares, e a ereção de uma Vênus ancilar atrás de cada balcão fazia dele uma espécie de altar suburbano ao pé do qual eu gostaria de passar a minha vida. Como se faz às vésperas de uma morte prematura, eu recapitulava os prazeres de que me privava o ponto final que Albertine punha na minha liberdade. Em Passy, foi no próprio leito da rua, por causa do tráfego congestionado, que as moças, abraçadas pela cintura, deslumbraram-me com seu sorriso. Não tive tempo de o perceber muito bem, mas era pouco provável que o superestimasse; de fato, em qualquer multidão, em qualquer multidão de gente jovem, não é raro que se encontre a efígie de um nobre perfil. De modo que essas balbúrdias populares dos dias de festa são para o indivíduo voluptuoso tão preciosas como, para o arqueólogo, a desordem de uma terra onde uma escavação faz surgir medalhas antigas. Chegamos ao Bois. Eu pensava que, se Albertine não tivesse vindo comigo, poderia naquele instante, no Circo do Champs-Élysées, ouvir a tempestade wagneriana fazer gemer todos os instrumentos de corda da orquestra, atrair para si como leve espuma a ária da flauta que eu havia tocado há pouco, fazê-la voar, petrificá-la, deformá-la, dividi-la, arrastá-la num turbilhão crescente. Pelo menos, desejei que o nosso passeio fosse curto e que voltássemos cedo, pois, sem nada falar a Albertine, eu decidira ir à noite à casa dos Verdurin. Tinham-me ultimamente enviado um convite que eu jogara na cesta, como a todos os anteriores. Mas resolvera reconsiderar aquela noite, pois queria tentar saber que tipo de pessoas Albertine poderia esperar encontrar de tarde na casa deles. Para falar a verdade, eu chegara com Albertine àquele momento em que (se tudo continua como está, se as coisas se passam normalmente) uma mulher só serve para nós como transição para outra mulher. Ela ainda nos fala ao coração, mas muito pouco; temos pressa de ir encontrar desconhecidas todas as noites, e sobretudo desconhecidas que ela conhece, e que poderão nos contar a vida dela. Com efeito, já possuímos e esgotamos tudo o que ela consentiu em nos entregar de si mesma. Sua vida é ainda ela mesma, mas justamente a parte que não conhecemos, as coisas sobre as quais interrogamos em vão e que poderemos ouvir de lábios novos.

continua na página 70...
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Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Compreendi que duas horas queria dizer três horas)