quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
 


     VIMOS que o casamento¹ tem como correlativo imediato a prostituição. "O hetairismo, diz Morgan, acompanha a humanidade até em sua civilização como uma sombra projetada sobre a família." Por prudência, o homem obriga a esposa à castidade, mas não se satisfaz com o regime que lhe impõe.

[1] Vol. I, 2ª. parte.

   Os reis da Pérsia, conta Montaigne, que lhes aprova a sabedoria, convidavam suas mulheres para lhes fazerem companhia em seus festins; mas, quando o vinho principiava a esquentá-los de verdade e lhes era preciso dar rédeas à volúpia, mandavam-nas de volta a seus lares para que não participassem de seus imoderados apetites e ordenavam que em seu lugar viessem mulheres que não tivessem a obrigação de respeitar.

     É preciso que haja esgotos para assegurar a salubridade dos palácios, diziam os Padres da Igreja. E Mandeville, em uma obra que teve repercussão: "É evidente que existe uma necessidade de sacrificar uma parte das mulheres para conservar a outra e evitar uma sujeira de natureza mais repugnante". Um dos argumentos dos escravocratas norte-americanos em favor da escravidão era que, estando os brancos do Sul desobrigados das tarefas servis, podiam manter entre si as relações mais democráticas, mais requintadas; do mesmo modo, a existência de uma casta de "mulheres perdidas" permite tratar as "mulheres honestas" com o mais cavalheiresco respeito. A prostituta é o bode expiatório; o homem liberta-se nela de sua turpitude e a renega. Quer um estatuto legal a coloque sob a fiscalização policial, quer trabalhe na clandestinidade, é ela sempre tratada como pária.
     Do ponto de vista econômico, sua situação é simétrica à da mulher casada. "Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento, a única diferença consiste no preço e na duração do contrato", diz Marro (La Puberté). Para ambas, o ato sexual é um serviço; a segunda é contratada pela vida inteira por um só homem; a primeira tem vários clientes que lhe pagam tanto por vez. Aquela é protegida por um homem contra os outros, esta é defendida por todos contra a tirania exclusiva de cada um. Em todo caso, os benefícios que tiram de seu corpo são limitados pela concorrência; o marido sabe que poderia ter tido outra esposa: o cumprimento dos "deveres conjugais" não é uma graça, é a execução de um contrato. Na prostituição, o desejo masculino, sendo específico e não singular, pode satisfazer-se com qualquer corpo. Esposa ou hetaira só conseguem explorar o homem se assumem uma ascendência singular sobre ele. A grande diferença existente entre elas está em que a mulher legítima, oprimida enquanto mulher casada, é respeitada como pessoa humana; esse respeito começa a pôr seriamente em xeque a opressão. Ao passo que a prostituta não tem os direitos de uma pessoa; nela se resumem, ao mesmo tempo, todas as figuras da escravidão feminina.
     É ingênuo perguntar que motivos levam a mulher à prostituição; não se acredita mais hoje na teoria de Lombroso, que assimilava as prostitutas aos criminosos e via em ambos degenerados; é possível, como afirmam as estatísticas, que de uma maneira geral o nível mental das prostitutas esteja um pouco abaixo da média e que algumas sejam francamente débeis mentais: as mulheres cujas faculdades mentais são retardadas escolhem amiúde um ofício que não exija delas nenhuma especialização; mas em sua maioria elas são normais, algumas muito inteligentes. Nenhuma fatalidade hereditária, nenhuma tara fisiológica pesa sobre elas. Na verdade, em um mundo atormentado pela miséria e pela falta de trabalho, desde que se ofereça uma profissão, há quem a siga; enquanto houver polícia e prostituição, haverá policiais e prostitutas. Tanto mais quanto tais profissões rendem muito mais do que outras. É muita hipocrisia espantar-se com as ofertas que suscita a procura masculina; trata-se de um processo econômico rudimentar e universal. "De todas as causas da prostituição, escrevia em 1857 Parent-Duchâtelet durante um inquérito, nenhuma é mais ativa do que a falta de trabalho e a miséria, consequência inevitável dos salários insuficientes." Os moralistas bem pensantes respondem, escarnecendo, que as histórias comoventes das prostitutas são romances para uso do cliente ingênuo. Com efeito, em muitos casos, a prostituta teria podido ganhar a vida de outro modo: mas, se o que escolheu não lhe parece o pior, não é prova de que tenha o vício no sangue; isso antes condena uma sociedade em que tal pro fissão é ainda uma das que parecem menos rebarbativas a muitas mulheres. Perguntam: Por que a escolheu ela? A pergunta deveria ser antes: Por que não a teria escolhido? Observou-se, entre outras coisas, que boa parte das prostitutas se recrutava entre as domésticas; foi o que estabeleceu Parent-Duchâtelet para todos os países, o que Lily Braun notava na Alemanha e Rickère na Bélgica. 50% mais ou menos das prostitutas foram primeiramente criadas. Um olhar nos "quartos de criadas" basta para explicar o fato. Explorada, escravizada, tratada como objeto mais do que como pessoa, a arrumadeira, a criada de quarto, não espera nenhuma melhoria da sorte no futuro; por vezes, é-lhe necessário suportar os caprichos do dono da casa: da escravidão doméstica, dos amores ancilares, ela desliza para uma escravidão que não pode ser mais degradante e que ela imagina mais feliz. Demais, as empregadas domésticas são o mais das vezes desarraigadas: calcula-se que 80% das prostitutas parisienses vêm da província ou do campo. A proximidade da família, a preocupação com a reputação impediriam a mulher de abraçar uma profissão geralmente desconsiderada; mas, perdida na cidade grande, não estando mais integrada na sociedade, a ideia abstrata de moralidade não lhe opõe nenhum obstáculo. Assim como a burguesia cerca o ato sexual — e principalmente a virgindade — de tabus temíveis, em muitos meios camponeses e operários isso tudo se afigura indiferente. Muitos inquéritos concordam a esse respeito: há muitas mulheres que se deixam deflorar pelo primeiro que aparece e que acharão em seguida natural entregar-se ao primeiro que surgir. Em um inquérito realizado com cem prostitutas, o Dr. Bizard salientou os fatos seguintes: uma fora deflorada aos 11 anos, duas aos 12, duas aos 13, seis aos 14, sete aos 15, vinte e uma aos 16, dezenove aos 17, dezessete aos 18, seis aos 19; as outras depois dos 21 anos. Havia portanto 5% que tinham sido violentadas antes de formadas. Mais de metade dizia ter-se entregue por amor; as outras tinham consentido por ignorância. O primeiro sedutor é muitas vezes jovem. É frequentemente um camarada de oficina, um colega de escritório, um amigo de infância; vêm a seguir os militares, os contramestres, os criados, os estudantes; a lista do Dr. Bizard comportava, ademais, dois advogados, um arquiteto, um médico, um farmacêutico. É bastante raro que seja, como quer a lenda, o próprio patrão quem desempenhe esse papel de iniciador: mas é o filho dele, muitas vezes, ou o sobrinho, ou um amigo. Commenge, em seu estudo, assinala também quarenta e cinco jovens de 12 a 17 anos, que teriam sido defloradas por desconhecidos que nunca mais teriam visto; tinham consentido com indiferença, sem experimentar nenhum prazer. Entre outros casos, o Dr. Bizard assinala mais precisamente os seguintes:

       Mlle G., de Bordéus, voltando do convento aos 18 anos, deixa-se arrastar, sem pensar nas consequências, para um carro de saltimbancos, onde é deflorada por um cigano desconhecido.
   Uma menina de 13 anos entrega-se sem refletir a um senhor que encontrou na rua e que nunca mais verá.
   M. . . conta-nos textualmente que foi deflorada aos 17 anos por um rapaz que não conhecia.. . deixou-o fazer por completa ignorância. 
   R. . . deflorada com 17 anos e 1/2 por um homem que nunca vira e que, por acaso, encontrara no consultório de um médico da vizinhança, que fora chamar para a irmã doente, um homem que a ia conduzir de automóvel para que chegasse mais depressa e, na realidade, a largara em plena rua. 
   B. . . deflorada com 15 anos e 1/2, "sem pensar no que fazia", diz textualmente nossa cliente, por um jovem que nunca tornou a ver; nove meses depois, deu à luz um filho com boa saúde. 
   S... deflorada aos 14 anos por um rapaz que a levou para casa a pretexto de lhe apresentar a irmã. O rapaz na realidade não tinha irmã, mas tinha sífilis e contaminou a menina. 
   R. . . deflorada aos 18 anos, numa antiga trincheira da frente, por um primo casado e com quem visitava os campos de batalha. Pô-la grávida, o que a obrigou a abandonar a família. 
   C. . . deflorada aos 17 anos, na praia, numa noite de verão, por um jovem que acabara de conhecer no hotel, a cem metros das duas mães que falam de frivolidades. Contaminada por blenorragia. 
   L... deflorada com 13 anos, pelo tio, ouvindo rádio, enquanto a tia, que gostava de dormir cedo, repousava tranquilamente no quarto ao lado.

     Essas jovens, que cederam passivamente, nem por isso deixaram de sofrer o traumatismo do defloramento; desejaríamos saber que influência psicológica teve essa experiência brutal no futuro delas; mas não se psicanalisam prostitutas: são inábeis na descrição de si mesmas e escondem-se atrás de lugares-comuns. Em algumas, a facilidade de se entregar a qualquer um explica-se pela existência de fantasmas de prostituição de que falamos: por rancor familiar, horror à sexualidade nascente, desejo de desempenhar o papel de adulto; há moças que imitam as prostitutas: pintam-se exageradamente, recebem rapazes, mostram-se coquetes e provocantes; ainda infantis, assexuadas, frias, acre ditam poder brincar com o fogo impunemente; um dia um homem as toma a sério e elas passam dos sonhos aos atos.
     "Quando uma porta foi arrombada, é difícil depois mantê-la fechada", dizia uma jovem prostituta de 14 anos². Entretanto a moça raramente se decide a "fazer o trottoir" logo depois do defloramento. Em certos casos, continua apegada ao primeiro amante e a viver com ele; arranja um ofício "honesto"; quando o amante a abandona, outro a consola; como não pertence a um homem só, acha que pode dar-se a todos; por vezes é o amante — o primeiro ou o segundo — que sugere esse meio de ganhar dinheiro. Há também muitas moças que são prostituídas pelos pais: em certas famílias — como na célebre família norte--americana dos Juke — todas as mulheres são destinadas a essa profissão. Entre as jovens vagabundas, numerosas meninas abandonadas pelos seus começam pela mendicância e deslizam para a prostituição. Em 1857, Parent-Duchâtelet verificara que, em 5.000 prostitutas, 1.441 tinham sido influenciadas pela pobreza, 1.425 seduzidas e abandonadas, 1.255 abandonadas e deixadas sem recursos pelos pais. Os inquéritos modernos sugerem mais ou menos as mesmas conclusões. A doença leva muitas vezes à prostituição a mulher incapacitada para um trabalho verdadeiro, ou que perdeu seu lugar; ela destrói o equilíbrio precário do orçamento, obriga a mulher a inventar apressadamente novos recursos. De igual modo, o nascimento de um filho. Mais de metade das mulheres de Saint-Lazare tiveram um filho pelo menos; muitas criaram de três a seis; o Dr. Bizard refere-se a uma que deu à luz quatorze, oito dos quais viviam ainda quando êle a conheceu. Poucas há, diz ele, que abandonam o filho; e acontece ser para alimentá-lo que se fazem prostitutas. Ele cita este caso entre outros:

[2] Citado por Marro, La Puberté.

   Deflorada na província, com a idade de 19 anos, por um patrão de 60 quando ainda vivia com a família, foi obrigada, estando grávida, a abandonar os seus para dar à luz uma menina com boa saúde e que educou muito corretamente. Depois do parto veio para Paris, onde trabalhou como ama, tendo começado a prostituir-se aos 29 anos. Prostitui-se, portanto, há 33 anos. Sem mais forças nem coragem, pede agora para ser hospitalizada em Saint-Lazare.

continua página 328...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (1)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção VII)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção VII
Das ideias abstratas
     
     Levantou-se um problema muito importante com relação às ideias abstratas ou gerais, a saber, se elas são gerais ou particulares quando a mente as concebe. Um grande filósofo¹ contestou a opinião estabelecida sobre este assunto e afirmou que todas as ideias gerais não são senão ideias particulares adstritas a um certo termo que lhes dá um significado mais extenso e faz que evoquem ocasionalmente outros indivíduos a elas semelhantes. Visto que na minha opinião esta é uma das maiores e mais valiosas descobertas feitas recente mente na república das letras, tentarei aqui confirmá-la mediante alguns argumentos que, segundo espero, a porão fora de qualquer dúvida e controvérsia.

[1] Berkeley.

     É evidente que, quando formamos a maior parte, se não a totalidade, das nossas ideias gerais, fazemos abstração de todos os graus particulares de quantidade e qualidade; e que um objeto não deixa de pertencer a uma determinada espécie em razão de qualquer pequena alteração na sua extensão, duração e outras propriedades. Poder-se-á portanto pensar que existe aqui um dilema evidente, decisivo em relação à natureza daquelas ideias abstratas que têm proporcionado tanta especulação aos filósofos. A ideia abstrata de homem representa homens de todas as estaturas e de todas as qualidades, o que, conforme se depreende, ela não pode fazer senão representando igualmente todas as estaturas e todas as qualidades possíveis, ou não representando nenhuma em particular. Ora tendo-se considerado absurdo defender a primeira destas proposições, pois implica que a mente é dotada de capacidade infinita, concluiu-se geralmente pela segunda; e admitiu-se que as nossas ideias abstratas não representam qualquer grau particular de quantidade ou de qualidade. Mas vou tentar fazer ver que esta conclusão é errônea, primeiro provando que é absolutamente impossível conceber uma quantidade ou qualidade qualquer sem formar uma noção precisa dos seus graus; segundo, mostrando que, embora a capacidade da mente não seja infinita, podemos contudo formar simultaneamente uma noção de todos os graus possíveis de quantidade e qualidade, pelo menos de tal modo que, não obstante a sua imperfeição, a referida noção possa servir a todos os fins da reflexão e da conversação.
     Começando pela primeira proposição, que a mente não pode formar qualquer noção de quantidade ou qualidade sem formar uma noção precisa dos respectivos graus: podemos prová-la mediante os três argumentos seguintes. Primeiro, observamos que todos os objetos que são diferentes são também distinguíveis, e que todos os objetos que são distinguíveis são separáveis pelo pensamento e imaginação. E podemos aqui acrescentar que também é verdadeiro a recíproca destas proposições: que todos os objetos que são separáveis são também distinguíveis, e que todos os objetos que são distinguíveis são também diferentes. Pois como poderíamos separar o que não é distinguível, ou distinguir o que não é diferente? Portanto, para sabermos se a abstração implica uma separação, temos apenas de considerá-la desta perspectiva e examinar se todas as circunstâncias de que fazemos abstração nas nossas ideias gerais são tais que sejam distinguíveis e diferentes das que retemos como partes essenciais destas mesmas ideias. Mas é imediatamente evidente que o comprimento exato de uma linha não é diferente nem distinguível da própria linha, nem o grau exato de uma qualidade o é da própria qualidade. Por conseguinte, estas ideias não são mais susceptíveis de separação do que de distinção e diferença. Portanto elas estão conjugadas umas com as outras na concepção e a ideia geral de uma linha, não obstante todas as nossas abstrações e subtilezas tem, ao surgir na mente, um grau exato de quantidade e qualidade, muito embora possamos fazê-la representar outras que têm diferentes graus de ambas.
     Segundo, temos de reconhecer que nenhum objeto pode aparecer aos sentidos ou, por outras palavras, que nenhuma impressão pode tornar-se presente ao espírito sem ser determinada nos seus graus tanto de quantidade como de qualidade. A confusão em que por vezes são envolvidas as impressões tem origem apenas na sua fraqueza e instabilidade, e não em qualquer capacidade da mente para receber qualquer impressão que na sua existência real não possua grau ou proporção particulares. Isto é uma contradição nos termos, e implica mesmo a mais manifesta de todas as contradições, a saber, que a mesma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo.
     Ora uma vez que todas as ideias se originam de impressões e não são senão cópias e representações delas, tudo o que é verdade acerca de umas, deve reconhecer-se como verdadeiro acerca das outras. As impressões e as ideias diferem apenas quanto à força e à vivacidade. A conclusão anterior não assenta em qualquer grau particular de vivacidade. Não pode pois ser afetada por qualquer variação quanto a este aspecto. Uma ideia é uma impressão mais fraca, e, visto que uma impressão forte necessariamente deve ter quantidade e qualidade determinadas, o mesmo se deve aplicar à sua cópia ou representante.
     Terceiro, é um princípio geralmente aceito em filosofia que tudo na natureza é individual e que é totalmente absurdo admitir a existência real de um triângulo cujos ângulos e lados não tenham proporções exatas. Se pois isto é absurdo de fato e na realidade, também deve ser absurdo em ideia, visto que não é absurda nem impossível uma coisa de que podemos formar uma ideia clara e distinta. Mas formar a ideia de um objeto e formar uma ideia simplesmente é a mesma coisa, pois que a referência da ideia a um objeto é uma denominação extrínseca de que a ideia não contém em si qualquer marca ou carácter. Ora, sendo impossível formar a ideia de um objeto que possua quantidade e qualidade, sem contudo as possuir num grau determinado, segue-se que é igualmente impossível formar uma ideia que não seja limitada e determinada nestes dois aspectos. As ideias abstratas são portanto em si mesmas individuais, embora possam tornar-se gerais na sua representação. A imagem na mente é apenas a de um objeto particular, embora a sua aplicação nos nossos raciocínios seja a mesma que se ela fosse universal.
     Esta aplicação das ideias para além da natureza das mesmas procede do fato de juntarmos todos os seus graus possíveis de quantidade e qualidade de maneira suficientemente imperfeita para poder servir a todos os fins da vida, o que é a segunda proposição que me proponho explicar. Depois de termos descoberto uma semelhança entre vários objetos que nos ocorrem frequentemente, aplicamos a todos eles o mesmo nome, quaisquer que sejam as diferenças que possamos observar nos seus graus de quantidade e qualidade, e quaisquer que sejam outras diferenças que entre eles possam surgir. Após adquirirmos um hábito deste tipo, ouvir esse nome desperta a ideia de um desses objetos e leva a imaginação a concebê-lo em todas as suas circunstâncias e proporções particulares. Mas como se supõe que a mesma palavra foi frequentemente aplicada a outros indivíduos que em muitos aspectos diferem da ideia imediatamente presente à mente; consequentemente essa palavra, não podendo despertar as ideias de todos estes indivíduos, por assim dizer apenas toca a alma, e desperta o hábito que adquirimos ao examiná-los. Eles não estão realmente e de fato presentes na mente, mas apenas potencialmente; e não os evocamos todos distintamente na imaginação, mas conservamo-nos prontos para examinar qualquer deles, conforme a tal sejamos levados pelo projeto ou necessidade do momento. A palavra faz surgir uma ideia individual juntamente com um certo hábito, e esse hábito produz qualquer outra ideia individual propiciada pela ocasião. Mas, como na maioria dos casos é impossível a produção de todas as ideias às quais pode aplicar-se o nome, abreviamos este trabalho limitando o nosso exame e notamos que poucos inconvenientes resultam dessa abreviação para o nosso raciocínio.
     É na verdade um dos fatos mais extraordinários desta matéria que depois de a mente ter produzido uma ideia individual, sobre a qual raciocinamos, o hábito conjunto, despertado pelo termo geral ou abstrato, prontamente sugere qualquer outro indivíduo, se por acaso formarmos qualquer raciocínio que não concorde com ela. Assim, se mencionarmos a palavra triângulo e formarmos a ideia de um determinado triângulo equilátero para lhe corresponder, e se em seguida afirmarmos que os três ângulos de um triângulo são iguais entre si, os outros indivíduos como o triângulo escaleno ou o isósceles, que a princípio nos passaram despercebidos, ocorrem-nos imediatamente e fazem-nos ver a falsidade dessa proposição, não obstante a sua veracidade relativamente à ideia que tínhamos formado antes. Se a mente nem sempre sugere estas ideias na ocasião adequada, tal se deve a qualquer imperfeição das suas faculdades; e semelhantes imperfeições dão muitas vezes origem a falsos raciocínios e a sofismas. Mas isto dá-se principalmente com as ideias abstrusas e compostas. Nos outros casos o hábito é mais completo e é raro cairmos em tais erros.
     Sim, é tão completo o hábito, que exatamente a mesma ideia pode ligar-se a várias palavras diferentes e empregar-se em diferentes raciocínios sem qualquer perigo de erro. Assim, a ideia de um triângulo equilátero de uma polegada de altura pode servir-nos para falarmos de uma figura, de uma figura retilínea, de uma figura regular, de um triângulo e de um triângulo equilátero. Portanto neste caso todos esses termos são acompanhados da mesma ideia mas, como temos o hábito de os empregar com uma extensão maior ou menor, eles despertam os seus hábitos próprios e dessa forma conservam a mente preparada para vigiar no sentido de que não se forme nenhuma conclusão contrária às ideias normalmente abrangidas por eles.
     Antes de estes hábitos se tornarem inteiramente perfeitos, poderá talvez a mente não se contentar com formar a ideia de um só indivíduo, mas percorrer várias ideias afim de chegar a compreender o seu próprio significado, e a extensão da coleção que pretende exprimir pelo termo geral. Para fixar o significado da palavra figura podemos revolver na nossa mente as ideias de círculos, quadrados, paralelogramos, triângulos de diferentes dimensões e proporções, sem nos fixarmos numa só imagem ou ideia. Como quer que seja, é certo que formamos a ideia de indivíduos sempre que empregamos qualquer termo geral; que raramente ou nunca conseguimos esgotar estes indivíduos, e que aqueles que permanecem são apenas representados por meio desse hábito mediante o qual os evocamos de cada vez que as circunstâncias do momento o exigem. Tal é pois a natureza das nossas ideias abstratas e dos nossos termos gerais, e é desta maneira que damos conta do paradoxo anterior, que algumas ideias são particulares pela sua natureza, mas gerais pela sua representação. Uma ideia particular torna-se geral quando se une a um termo geral, isto é, a um termo que, por uma conexão habitual, tem relação com muitas outras ideias particulares e prontamente as evoca na imaginação.
     A única dificuldade que pode restar quanto a este assunto será com relação àquele hábito que evoca tão prontamente qualquer ideia particular de que possamos necessitar, e que é despertado por qualquer palavra ou som a que correntemente o ligamos. Na minha opinião, o método mais apropriado para esclarecer satisfatoriamente este ato mental consiste em apresentar outros exemplos análogos, e outros princípios que facilitem a sua operação. Não se podem explicar as causas últimas das nossas ações mentais. Basta que possamos dar delas uma explicação suficientemente fundamentada na experiência e na analogia.
     Noto então primeiro que quando mencionamos um número elevado qualquer, por exemplo mil, geralmente a mente não possui dele uma ideia adequada; possui apenas o poder de apresentar tal ideia mediante a ideia adequada que tem dos decimais em que o número está incluído. Contudo esta imperfeição das nossas ideias jamais se verifica nos nossos raciocínios, o que parece ser um caso paralelo ao caso presente das ideias universais.
     Segundo, temos várias exemplos de hábitos que uma simples palavra pode despertar. Assim, quando uma pessoa sabe de cor partes de um discurso ou um certo número de versos, a simples palavra ou expressão inicial chamar-lhe-á à memória o conjunto de que não consegue lembrar-se.
     Terceiro, julgo que qualquer pessoa que examine a situação da sua mente ao raciocinar concordará comigo que nós não ligamos ideias completas e distintas a todos os termos que empregamos; quando falamos de governo, igrejanegociação, conquista, raramente expomos nas nossas mentes todas as ideias simples de que se compõem estas ideias complexas. Pode contudo notar-se que, não obstante esta imperfeição, podemos evitar fazer afirmações disparatadas sobre estes pontos e podemos perceber qualquer contra dição nas ideias exatamente como se delas tivéssemos plena compreensão. Assim., se em vez de dizer que na guerra os mais fracos podem recorrer sempre às negociações, disséssemos que podem recorrer sempre às conquistas, o hábito que adquirimos de atribuir às ideias certas relações continua a acompanhar essas palavras e leva-nos imediatamente a ver o absurdo de tal proposição; do mesmo modo que uma ideia particular pode servir-nos para raciocinarmos sobre outras ideias, qualquer que seja a diferença entre uma e outras.
     Quarto, visto que os indivíduos são agrupados e colocados sob um termo geral em razão da semelhança que apresentam entre si, esta relação deve facilitar o seu aparecimento na imaginação e fazer que elas sejam mais facilmente sugeridas quando necessário. E na verdade se considerarmos o progresso normal do pensamento, quer na reflexão, quer na conversação, acharemos boas razões para ficar satisfeitos quanto a este ponto. Nada há mais admirável do que a prontidão com a qual a imaginação sugere as suas ideias e as apresenta no momento exato em que elas se tornam necessárias ou úteis. A fantasia corre de um extremo a outro do universo para reunir as ideias pertinentes a qualquer assunto. Pensar-se-ia que todo o mundo intelectual das ideias já alguma vez esteve perante a nossa visão, e que não fizemos mais do que escolher as mais apropriadas à nossa finalidade. Pode contudo não haver outras ideias presentes além daquelas que são assim reunidas por uma espécie de faculdade mágica da alma, a qual, embora seja sempre muito perfeita nos maiores gênios, e sendo ela própria aquilo que chamamos gênio, é no entanto inexplicável, não obstante os maiores esforços do entendimento humano.
     Talvez estas quatro reflexões ajudem a remover todas as dificuldades da hipótese por mim proposta relativamente às ideias abstratas, tão contrária à que até aqui prevaleceu em filosofia. Mas, para falar verdade, deposito a minha maior confiança no que já provei quanto à impossibilidade das ideias gerais, segundo o método geralmente empregado para as explicar. Devemos certamente procurar sobre este assunto um novo sistema, e é manifesto que não há outro além do que propus. Se as ideias forem particulares na sua natureza e ao mesmo tempo em número finito, só pelo hábito podem tornar-se gerais na sua representação e conter no seu âmbito um número infinito de outras ideias.
     Antes de abandonar este assunto utilizarei os mesmos princípios para explicar aquela distinção de razão de que tanto se fala e tão pouco se entende nas escolas. É deste gênero a distinção entre a figura senção e o corpo figurado, entre o movimento e o corpo movido. A dificuldade de explicar esta distinção surge do princípio já exposto de que todas as ideias diferentes são separáveis. Pois daqui resulta que, se a figura for diferente do corpo, as suas ideias têm de ser separáveis bem como distinguíveis; se não forem diferentes, as suas ideias não podem ser nem separáveis, nem distinguíveis. Que se entende pois por distinção de razão, uma vez que ela não implica nem diferença, nem separação?
     Para remover esta dificuldade temos de recorrer à anterior explicação das ideias abstratas. É certo que a mente jamais sonharia em distinguir a figura do corpo figurado, pois na realidade eles não são distinguíveis, nem diferentes, nem separáveis, se não tivesse observado que, ainda mesmo nesta simplicidade, podem estar contidas numerosas semelhanças e relações diversas. Assim, quando nos é apresentado um globo de mármore branco, apenas recebemos a impressão de uma cor branca distribuída numa certa forma, e somos incapazes de separar e distinguir a cor da forma. Mas observando depois um globo de mármore preto e um cubo de mármore branco e comparando-os com o nosso primeiro objeto, encontramos duas semelhanças separadas no que a princípio parecia, e realmente é, perfeitamente inseparável. Após um pouco mais de prática deste gênero, começamos a distinguir a figura da cor, por uma distinção de razão; isto é, consideramos a figura e a cor em conjunto, visto que efetivamente elas são idênticas e indistinguíveis; contudo vêmo-las sob diferentes aspectos, conforme as semelhanças que podem admitir. Quando queremos considerar apenas a figura do globo de mármore branco, na realidade formamos uma ideia tanto da figura como da cor, mas tacitamente encaminhamos o nosso olhar para a sua semelhança com o globo de mármore preto; e, do mesmo modo, quando queremos considerar somente a cor, dirigimos a nossa vista para a semelhança com o cubo de mármore branco. Por este meio acompanhamos as nossas ideias com uma espécie de reflexão que em grande parte nos passa despercebida, por força do hábito. A pessoa que deseje que consideremos a figura de um globo de mármore branco sem pensar na cor dele, deseja o impossível; mas a intenção dessa pessoa é que consideremos conjuntamente a cor e a figura, conservando contudo sob o nosso olhar a semelhança com o globo de mármore preto, ou com qualquer outro globo de qualquer cor ou substância.

continua na página 63...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IV / Seção V / Seção VI / Seção VII /        
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Cinema: Como estrelas na Terra

Apenas cuidem bem dele...

Nome original do filme: Taare zameen Par

Sinopse: Um garoto de oito anos é acusado de ser problemático e preguiçoso, até que o novo professor de artes na escola tem paciência e compreensão para descobrir o verdadeiro problema por trás de suas lutas na escola. Este professor de artes não-convencional, que além do trabalho no colégio, leciona também em um colégio para crianças com necessidades especiais ajuda Ishaan a descobrir seu verdadeiro potencial.

Data de lançamento: 21 de dezembro de 2007 (Índia)

Diretores: 
Aamir Khan
Amole Gupte

Indicações: 
Prêmio Filmfare de Melhor Filme e muitas outras indicações

Autor: 
Amole Gupte

Roteiro: 
Amole Gupte

Aos colegas que compreendem e apoiam crianças com dificuldades de aprendizagem, utilizam atividades e atenção individualizada para mostrar que "essas e esses Ishaan" possuem talentos únicos, reforçando a mensagem de que cada criança é especial e merece compreensão e apoio.







Elenco:
Darsheel Safary como Ishaan Nandkishore Awasthi
Aamir Khan como Ram Shankar Nikumbh (professor de artes)
Tisca Chopra como Maya Awasthi (mãe)
Vipin Sharma como Nandkishore Awasthi (pai)
Tanay Chheda como Rajan Damodran
Sachet Engineer como Yohan Nandkishore Awasthi (irmão)
Girija Oak como Jabeen Khan
Lalitha Lajmi como convidada de honra de Art Mela
Ravi Khanvilkar como Mr. Holkar
Pratima Kulkarni como Diretor - Escola Santo Antônio
Meghna Malik como Professora Victoria 
Sonali Sachdev como Professora Irene
Sanjay Dadhich como Maadhoo
Rajgopal Iyer como George Sir
Bugs Bhargava Krishna como Sen Sir
Shankar Sachdev como Tiwari Sir
M.K. Raina como Diretor
Gurkirtan como Diretor da casa
Gurdeepak Kaur como Esposa do diretor da casa
Alorika Chatterjee como Professor de Ciências
Megha Bengali como Mrs. Karnik
Munireh Guhilot como Responsável pelo dormitório
Girish Kumar Menon como Pai de Rajan
Vivekanandan como Operadora de Telefone
Madhav Datt como Loo Bully
Prashant como Músico no Mela
Vitthal como Músico no Mela
Jadav como Músico no Mela
Ramit Gupta comoo Ranjeet
Arnav Valcha como Kabir Johar
Brihan Lamba como Arun Poddar
Ricky como Munoo Patel
Krishn Gopinath como Satyajit Bhatkar
Ayaan como Ishaan (10 Months)
Veer Mohan como Ishaan (2 Yrs.)
Aniket Engineer como Jovem Yohan
Kunjan Barot como Ishaan's Classmate at St. Xavier's Mumbai School
Sachin Birhade como Abnormal School Boy (não creditado)


Análise Psicológica
COMO ESTRELAS NA TERRA 



A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Quilombo / Casanova de Fellini / Che: O Argentino (Parte 1) / Che: O Argentino (Parte 2) / Como estrelas na Terra /  

terça-feira, 19 de maio de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Um grande músico)

 em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Um grande músico, membro do Instituto, alto dignitário oficial e que conhecia Ski, passou por Arembouville, onde tinha uma sobrinha, e compareceu a uma quarta-feira na casa dos Verdurin. O Sr. de Charlus mostrou-se particularmente amável com ele (a pedido de Morel) e sobretudo para que, quando de regresso a Paris, o acadêmico lhe permitisse assistir a diversas sessões privadas, ensaios, etc., em que tocava o violinista. O acadêmico, lisonjeado e aliás pessoa encantadora, prometeu e cumpriu a promessa. O barão ficou muito comovido com todas as gentilezas que esse personagem (que aliás, de sua parte, amava profunda e exclusivamente as mulheres) teve para com ele, com todas as facilidades que lhe proporcionou para ver Morel em lugares oficiais, onde os profanos não entram, com todas as oportunidades oferecidas pelo célebre artista ao jovem virtuoso para se apresentar; fazer-se conhecido, designando-o, de preferência a outros de igual talento, para audições que deviam ter uma repercussão especial. Mas o Sr. de Charlus não desconfiava que devia tanto maior reconhecimento ao mestre, visto que este, duplamente merecedor, ou, se preferem, duas vezes culpado, não ignorava coisa alguma acerca das relações entre o violinista e seu nobre protetor. Ele as favoreceu, certamente sem simpatia por elas, não podendo compreender outro amor que não o da mulher, que havia inspirado toda a sua música, mas por indiferença moral, complacência e servilismo profissionais, amabilidade mundana, esnobismo. Quanto às dúvidas sobre o caráter dessas relações, tinha-as tão poucas que, desde o primeiro jantar em La Raspeliere, perguntara a Ski, falando do Sr. de Charlus e de Morel como se falasse de um homem e sua amante:

- Faz muito tempo que estão juntos? -

     Porém, mundano demais para deixar transparecer fosse o que fosse aos interessados, pronto, se aparecessem falatórios entre os colegas de Morel, a reprimi-los e a tranqüilizar Morel, dizendo-lhe paternalmente: 

- Dizem isso de todo mundo, hoje em dia -, não deixou de cumular o barão de gentilezas que este achava encantadoras, embora naturais, incapaz de supor no ilustre mestre tanto vício ou tanta virtude. Pois as palavras que se diziam na ausência do Sr. de Charlus, as insinuações sobre Morel, ninguém era de alma tão baixa que fosse repeti-las. E no entanto, esta simples situação basta para mostrar que mesmo esta coisa universalmente desacreditada, que em parte alguma encontraria um defensor o mexerico; também ele, ou que tenha por objeto a nós mesmos e se nos torne desse modo particularmente desagradável, ou que nos informe sobre um terceiro algo que ignorávamos, tem seu valor psicológico. Ele impede o espírito de adormecer sobre a visão artificial do que julga serem as coisas e que não passa da aparência destas. Revira esta última com a destreza mágica de um filósofo idealista e rapidamente nos apresenta uma ponta insuspeitada do avesso do tecido. Poderia o Sr. de Charlus imaginar estas palavras ditas por certa amável parenta: 
- Como queres que Mémé esteja apaixonado por mim? Então esqueces que sou uma mulher?! -

     E, no entanto, ela nutria uma amizade verdadeira e profunda pelo barão. Como então espantar-se, no caso dos Verdurin, com cuja bondade e afeto ele não tinha direito nenhum de contar, de que as palavras que diziam longe dele (e não foram só palavras, conforme se verá) fossem tão diversas do que ele imaginava, ou seja, simples reflexo das que ouvia quando se achava presente? Somente estas ornavam de inscrições afetuosas o pequeno pavilhão ideal onde por vezes o Sr. de Charlus vinha sonhar sozinho, quando por um instante introduzia a sua imaginação na ideia que os Verdurin faziam dele. Ali a atmosfera é tão simpática, tão cordial, o repouso tão reconfortante, que, quando o Sr. de Charlus, antes de adormecer, vinha ali descansar um momento de suas preocupações, nunca saía sem um sorriso. Mas, para cada um de nós, esse gênero de pavilhão é dúplice: diante daquele que julgamos ser o único existe outro, normalmente invisível para nós, o verdadeiro, simétrico em relação ao que conhecemos, porém muito diferente e cuja ornamentação, em que não achamos nada do que esperávamos ver, nos assombraria como se fosse feita com os símbolos odiosos de uma hostilidade insuspeitada. Que pasmo para o Sr. de Charlus, se ele penetrasse num desses pavilhões adversos graças a um mexerico, como por uma dessas escadas de serviço onde, à porta dos apartamentos, são rabiscados a carvão grafitos obscenos por fornecedores descontentes ou criados despedidos! Mas, da mesma forma como somos privados desse senso de orientação de que são dotados certos pássaros, falta-nos o sentido da visibilidade, como o das distâncias, e julgamos estar próxima a atenção interessada de pessoas que, pelo contrário, jamais pensam em nós, e não suspeitamos que, durante esse tempo, somos para os outros a sua única preocupação. Assim, o Sr. de Charlus vivia iludido como o peixe que julga que a água em que nada se estende para além do vidro de seu aquário, que lhe apresenta o reflexo dessa água, ao passo que não vê a seu lado, na sombra, o passeante divertido que segue suas evoluções ou o piscicultor todo-poderoso que, no momento imprevisto e fatal, diverso desse momento em relação ao barão (para quem o piscicultor, em Paris, será a Sra. Verdurin), irá tirá-lo sem piedade do ambiente em que gostava de viver para arremessá-lo a outro. De resto, os povos, na qualidade de coleções de indivíduos, podem oferecer exemplos mais ampliados, porém idênticos em cada uma de suas partes, desta cegueira profunda, obstinada e desconcertante. Até aqui, se ela fora causa de que o Sr. de Charlus mantivesse, no pequeno clã, conversas de uma habilidade inútil ou de uma audácia que fazia sorrir às escondidas, ainda não tivera para ele, nem deveria tê-lo em Balbec, consequências graves. Um pouco de albumina, de açúcar, de arritmia cardíaca não impede que a vida continue de modo normal para aquele que nem sequer percebe isso, enquanto que só o médico vê no caso um presságio de catástrofes. No momento presente, o gosto platônico ou não do Sr. de Charlus por Morel somente impelia o barão a dizer de bom grado, na ausência de Morel, que o achava muito bonito, pensando que isso será ouvido com toda a inocência, e nisso agia como um homem fino que, chamado a depor diante do tribunal, não se acanhará de entrar em detalhes que aparentemente lhe são desvantajosos, mas que, por isso mesmo, têm maior naturalidade e menos vulgaridade do que os protestos convencionais de um réu de teatro. Com a mesma liberdade, sempre entre Doncieres-Oeste e Saint-Martin-du-Chêne ou vice-versa; o Sr. de Charlus falava de bom grado acerca das pessoas que, segundo parece, têm costumes bem estranhos, e até mesmo acrescentava: 

- Afinal de contas, digo "estranhos" não sei por quê, pois isso nada possui de tão estranho -para mostrar a si próprio como se sentia à vontade com seu público. E ele o era de fato, com a condição de que fosse ele a tomar a iniciativa das operações e soubesse que a galeria estava muda e risonha, desarmada pela credulidade ou pela boa educação. Quando o Sr. de Charlus não falava de sua admiração pela beleza de Morel, como se não tivesse nenhuma relação com um gosto chamado vício, tratava desse vício, mas como se de modo algum fosse o seu. Por vezes até não hesitava em chamá-lo pelo seu nome. Como, depois de haver observado a bela encadernação de seu Balzac, eu lhe perguntasse o que preferia na Comédia Humana, respondeu me, dirigindo seu pensamento para uma ideia fixa: 
- Tanto faz, as pequenas miniaturas, como O Cura de Tours e A Mulher Abandonada, ou os grandes afrescos, como a série das Ilusões Perdidas. Como! Não conhece as Ilusões Perdidas? É tão belo! O momento em que Carlos Herrera indaga o nome do castelo pelo qual está passando a sua caleche: é Rastignac, a moradia do rapaz a quem ele amou outrora. E o abade nesse momento cai num devaneio que Swann denominava, o que era bem espirituoso, a "Tristeza de Olímpio" da pederastia. E a morte de Lucien! Já não me lembro qual foi o homem de gosto que teve esta resposta, a quem lhe perguntava que acontecimento mais o afligira em toda a sua vida: "A morte de Lucien de Rubempré em Esplendores e Misérias". 
["Tristeza de Olímpio" é um célebre poema de Victor Hugo, em que o poeta revê com melancolia os locais onde principiou seu amor por Juliette Drouet. (N. do T)] 
- Sei que Balzac vai passando muito bem este ano, como no ano passado o pessimismo - interrompeu Brichot. - Mas com o risco de entristecer as almas atacadas de deferência balzaquiana, sem pretender, Deus me livre!, o papel de guarda das letras e abrir processo contra erros de gramática, confesso que o copioso improvisador de quem o senhor parece sobrestimar singularmente as espantosas elucubrações, pareceu-me sempre um escriba insuficientemente meticuloso. Eu li estas Ilusões Perdidas de que nos fala, barão, torturando-me para atingir um fervor de iniciado, e confesso com toda a simplicidade de alma que esses romances-folhetins redigidos em pathos, em algaravia dupla ou tripla ("Esther feliz", "Aonde levam os maus caminhos", "Por quanto o amor fica aos velhos"), sempre me deram o efeito dos mistérios de Rocambole, promovido por inexplicável favor à condição precária de obra-prima. 
- O senhor diz isso porque não conhece a vida - retrucou o barão, duplamente irritado, pois sentia que Brichot não haveria de compreender suas razões de artista nem quaisquer outras. 
- Entendo perfeitamente - respondeu Brichot- que, para falar como mestre Rabelais, o senhor quer dizer que sou muito sorbonagra, sorbonícola e sorboniforme.19 Entretanto, assim como os camaradas, gosto que um livro dê impressão de sinceridade e de vida, não sou desses clérigos...
[Brichot sem ligar para adjetivos usados por Rabelais para debicar dos universitários da Sorbonne. (N. do T)]
- O quarto de hora de Rabelais - interrompeu Cottard, com um ar não mais de dúvida, mas de espirituosa segurança - ... que fazem voto de literatura seguindo a regra da Abbaye-aux-Bois, na obediência do Sr. visconde de Chateaubriand, grande mestre do chique, segundo a regra estrita dos humanistas. O Sr. visconde de Chateaubriand 
- Chateaubriand com batatas? - interrompeu o doutor Cottard. - É ele o patrono da confraria - continuou o gracejo do doutor, o qual em compensação, alarmado pela frase do universitário, olhou inquieto para o Sr. de Charlus. Era uma falta de tato de Brichot, segundo Cottard, cujo trocadilho fizera aflorar um fino sorriso aos lábios da princesa Sherbatoff. 
- Com o professor, a ironia mordaz do perfeito cético jamais perde os seus direitos - disse ela por amabilidade e para mostrar que a "palavra" do médico não lhe passara despercebida. 
- O sábio é forçosamente cético - respondeu o doutor. 
- Que sei eu? "Conhece-te a ti mesmo." dizia Sócrates. É muito justo, o excesso é um defeito em tudo. Mas fico embasbacado quando penso que bastou isso para fazer durar o nome de Sócrates até nossos dias. O que existe nessa filosofia? Pouca coisa, em suma. Quando se pensa que Charcot e outros realizaram trabalhos mil vezes mais notáveis, e que pelo menos se apoiam em alguma coisa, a respeito da supressão do reflexo pupilar como síndrome da paralisia geral, e que estão quase esquecidos! Em suma, Sócrates não é extraordinário. Trata-se de pessoas que não tinham nada para fazer, que passavam o dia inteiro a passear, a discutir. É como Jesus Cristo: Amai-vos uns aos outros... Muito bonito! 
- Meu amigo... - implorou a Sra. Cottard. 
- Naturalmente a minha mulher protesta, todas elas são umas neuróticas. 
- Mas, meu doutorzinho, eu não sou neurótica - murmurou a Sra. Cottard. 
- Como? Ela não é neurótica? Quando seu filho está doente, ela apresenta fenômenos de insônia. Mas, afinal, reconheço que Sócrates e o resto são necessários para uma cultura superior, para se obter talentos de exposição. Costumo citar sempre a meus alunos no primeiro ano. O padre Bouchard, que soube disso, felicitou-me. 
- Não sou dos cultores da forma pela forma e também não entesouraria como poesia a rima milionária - retorquiu Brichot. - Mas ainda assim A Comédia Humana (bem pouco humana) é por demais o oposto dessas obras em que a arte excede o fundo, como diz a besta do Ovídio. E é permitido preferir uma trilha a meia encosta, que leve ao curato de Meudon ou à ermida de Ferney, a igual distância da Vallée-aux-Loups, onde Renê cumpria magnificamente os deveres de um pontificado sem mansuetude, e Jardies, onde Honoré de Balzac, atormentado pelos esbirros, não parava de cacografar para uma polonesa, como apóstolo zeloso da algaraviada. 
- Chateaubriand está muito mais vivo do que o senhor diz, e Balzac mesmo assim é um grande escritor - respondeu o Sr. de Charlus, ainda por demais impregnado do gosto de Swann para não se sentir irritado com Brichot - e Balzac conheceu até mesmo essas paixões que todo mundo ignora ou só estuda para as difamar. Sem voltar a falar das imortais Ilusões Perdidas, Sarrazine, A Menina dos Olhos de Ouro, Uma Paixão no Deserto, até a bastante enigmática A Falsa Amante salta em meu apoio. Quando eu falava a Swann sobre esse aspecto "fora da natureza" de Balzac, ele me dizia: - O senhor é da mesma opinião de Taine. Eu não tive a honra de conhecer o Sr. Taine - acrescentou o Sr. de Charlus (com esse hábito irritante do "senhor" inútil que têm as pessoas da sociedade, como se julgassem que, tachando de senhor a um grande escritor, lhe conferiam uma honra, talvez guardassem as distâncias e davam a entender que o não conheciam) eu não conhecia o Sr. Taine, mas me sentia muito honrado de ser da mesma opinião que ele. -  

     Aliás, malgrado esses ridículos hábitos mundanos, o Sr. de Charlus era muito inteligente, e é provável que, se algum casamento antigo tivesse estabelecido laços entre a sua família e a de Balzac, ele teria sentido (de resto, não menos que Balzac) uma satisfação de que, no entanto, não poderia deixar de vangloriar-se como de um sinal de admirável condescendência.
     Às vezes, na estação seguinte a Saint-Martin-du-Chêne, rapazes embarcavam no trem. O Sr. de Charlus não podia deixar de olhá-los, mas como abreviava e disfarçava a atenção que lhes prestava, esta parecia ocultar um segredo, mais especial até que o verdadeiro; dir-se-ia que o barão os conhecia; deixava-o transparecer contra a sua vontade, depois de ter aceito o seu sacrifício, antes de virar-se para nós, como esses meninos que, devido a uma briga dos pais, foram proibidos de cumprimentar seus camaradas, mas que, ao se encontrarem, não podem deixar de erguer a cabeça antes de recair sob a férula do preceptor. À expressão grega de que o Sr. de Charlus, falando de Balzac, fizera seguir a alusão à "Tristeza de Olímpio" em Esplendores e Misérias, Ski, Brichot e Cottard se entreolharam com um sorriso, talvez menos irônico de que impregnado da satisfação que sentiriam os convivas que tivessem conseguido que Dreyfus falasse sobre o seu próprio caso, ou a imperatriz do seu reinado. Contavam levá-lo um pouco mais adiante no assunto, mas já estávamos em Doncieres, onde Morel se reuniria a nós. Diante dele, o Sr. de Charlus vigiava cuidadosamente a sua conversa, e, quando Ski desejou fazê-lo voltar ao amor de Carlos Herrera por Lucien de Rubempré, o barão mostrou-se contrariado, misterioso, e por fim (vendo que não o escutavam), assumiu o ar severo e justiceiro de um pai que ouvisse dizer indecências diante da filha. Tendo Ski teimado um pouco para que ele continuasse, o Sr. de Charlus, de olhos fora das órbitas, erguendo a voz, disse em tom significativo e apontando para Albertine, que todavia não podia escutar-nos, ocupada em conversar com a Sra. Cottard e a princesa Sherbatoff, e no tom ambíguo de alguém que pretende dar uma lição a pessoas mal-educadas: 

- Creio que não faltará ocasião de falar dessas coisas que podem interessar a essa moça.

     Mas eu compreendi perfeitamente que, para ele, a "moça" não era Albertine e sim Morel; mais tarde, aliás, comprovou ele a justeza da minha interpretação, com as frases de que se serviu ao pedir que não mais se conversasse sobre tais assuntos na presença de Morel. 

- O senhor sabe - disse-me ele, falando do violinista - que ele absolutamente não é o que poderiam acreditar; é um menino muito honrado, que sempre teve muito juízo, um menino muito sério. -

     Sentia-se por essas palavras que o Sr. de Charlus considerava a inversão sexual como um perigo tão ameaçador para os jovens como a prostituição para as mulheres, e que se ele se servia do epíteto de "sério" para Morel, era no mesmo sentido que tem quando aplicado a uma operariazinha. Então Brichot, para mudar de conversa, perguntou se eu pretendia ficar ainda muito tempo em Incarville. Por mais que eu lhe tivesse observado várias vezes que não morava em Incarville, mas em Balbec, ele recaía sempre no mesmo erro, pois era sob o nome de Incarville, ou Balbec-lncarville, que designava aquela parte do litoral. Assim, há pessoas que falam da mesma coisa que nós, chamando-as por nomes um pouco diferentes. Certa dama do faubourg Saint-Germain me perguntava sempre, quando queria falar da duquesa de Guermantes, se fazia muito tempo que eu não via Zénaïde, ou Oriane-Zénaïde, e o resultado é que eu não compreendia no primeiro instante. Provavelmente, houvera um tempo em que, chamando-se Oriane uma parenta da Sra. de Guermantes, chamavam a esta de Oriane-Zénaïde para evitar confusões. Talvez também houvesse no começo apenas uma estação em Incarville, e de onde se ia de carro até Balbec. 

- De que estavam falando, então? - indagou Albertine, espantada com o tom solene de pai de família que o Sr. de Charlus acabara de assumir. 
- De Balzac - apressou-se a responder o barão - e você hoje está precisamente com a toalete da princesa de Cadignan, não a primeira, a do jantar, mas a segunda. -

     Esta circunstância decorria de que, para escolher as toaletes de Albertine, eu me inspirava no gosto que ela havia formado graças a Elstir, o qual muito apreciava uma sobriedade que poderia chamar-se britânica, não fosse temperada de uma certa doçura, certa languidez francesa. Na maioria das vezes, seus vestidos prediletos ofereciam aos olhos uma harmoniosa combinação de tons cinzentos, como a de Diane de Cadignan. Não havia ninguém como o Sr. de Charlus para saber apreciar em seu justo valor as toaletes de Albertine; logo em seguida, seus olhos descobriam o que lhes formava a raridade, o valor; jamais teria dito o nome de um tecido em vez de outro, e reconhecia os costureiros. Só que apreciava para as mulheres um pouco mais de brilho e de cor do que o tolerado por Elstir. Assim, naquela noite, lançou-me ela um olhar meio risonho, meio inquieto, franzindo seu narizinho róseo de gata. Com efeito, cruzada sobre sua saia de crepe da China cinzenta, sua jaqueta de cheviote cor-de-cinza fazia crer que Albertine estivesse toda de gris. Mas, fazendo-me sinal para que a ajudasse, pois suas mangas bufantes precisavam ser abaixadas ou erguidas para tirar ou botar sua jaqueta, Albertine despiu esta e, como essas mangas eram escocesas de um tom muito suave, róseo, azul pálido, esverdeado, furta-cor, foi como se num céu cinzento se formasse um arco-íris. E ela se perguntava se aquilo iria agradar ao Sr. de Charlus. 

- Ah! - exclamou este encantado - eis um raio de luz, um prisma de cores. Apresento-lhe os meus cumprimentos. 
- Mas este Senhor aqui é que possui todos os méritos - respondeu gentilmente Albertine, designando-me, pois gostava de mostrar o que lhe provinha de minha parte. 
- Só as mulheres que não sabem se vestir é que receiam a cor - continuou o Sr. de Charlus. - Pode-se ser deslumbrante sem vulgaridade, e suave sem ser insosso. Além disso, você não tem os mesmos motivos que a Sra. de Cadignan para querer parecer desligada da vida, pois era a idéia que ela desejava incutir em d'Arthez com essa toalete gris. -

     Albertine, a quem interessava essa muda linguagem dos vestidos, fez perguntas ao Sr. de Charlus acerca da Princesa de Cadignan. 

- Oh, é uma novela refinada - disse o barão num tom sonhador. 
- Conheço o jardinzinho em que Diane de Cadignan passeava com a Sra. d'Espard. É o jardim de uma de minhas primas. 
- Todas essas questões do jardim de sua prima – murmurou Brichot a Cottard - podem, assim como a sua genealogia, ter importância para este excelente barão. Mas que interesse tem isso para nós, que não temos o privilégio de passear nele, nem conhecemos essa dama e não possuímos títulos de nobreza? -

     Pois Brichot não imaginava que fosse possível alguém interessar-se por um vestido ou um jardim como por uma obra de arte, e que era como em Balzac que o Sr. de Charlus revia as pequenas alamedas da Sra. de Cadignan. O barão continuou: 

- Mas o senhor a conhece - disse-me ele, falando daquela prima e para me lisonjear, dirigindo-se a mim como a alguém que, exilado no pequeno clã, se não era propriamente de seu mundo para o Sr. de Charlus, ao menos o frequentava. - Em todo caso, deve tê-la visto na casa da Sra. de Villeparisis. 
- A marquesa de Villeparisis, a quem pertence o castelo de Baucreux? - perguntou Brichot com ar submisso. 
- Sim, conhece-a? - indagou secamente o barão. 
- De forma alguma - respondeu Brichot -, mas nosso colega Norpois passa, todos os anos, uma parte de suas férias em Baucreux. Já tive ocasião de lhe escrever para lá. -

     Disse eu a Morel, pensando interessar-lhe, que o Sr. de Norpois era amigo de meu pai. Mas nenhum movimento de seu rosto mostrou que ele tivesse ouvido, de tal modo considerava meus pais como gente sem importância, e que não estavam muito longe do que havia sido o meu tio-avô, em cuja casa o pai dele fora criado de quarto e que; aliás, contrariamente ao restante da família, como gostava de "fazer encrencas", deixara em seus criados uma recordação fascinante. - Parece que a Sra. de Villeparisis é uma mulher superior; porém, nunca me foi dado julgá-lo por mim mesmo, assim como o resto dos meus colegas. Pois Norpois, que aliás é cheio de cortesia e afabilidade no Instituto, não apresentou nenhum de nós à marquesa. Não sei de ninguém recebido por ela, a não ser o nosso amigo Thureau-Dangin, que tinha com ela antigas relações de família, e também Gaston Boissier, a quem ela desejou conhecer devido a um estudo que a interessava muito especialmente. Jantou lá uma vez e voltou fascinado. E o fato é que a Sra. Boissier não foi convidada.
     A esses nomes, Morel sorriu enternecido: 

- Ah, Thureau-Dangin - disse-me ele, tão interessado agora como fora indiferente ao ouvir falar do marquês de Norpois e de meu pai. - Thureau-Dangin e seu tio formavam um bom par de amigos. Quando uma dama queria um bom lugar para uma recepção da Academia, o seu tio dizia: "Escreverei a Thureau-Dangin." E naturalmente o lugar era logo enviado, pois bem compreende que ele não negaria coisa alguma a seu tio, que se desforraria de volta. Diverte-me igualmente ouvir o nome de Boissier, pois era lá que seu tio-avô mandava comprar todos os presentes para as senhoras no Ano-Novo. Sei disso, pois conheço a pessoa encarregada de fazê-lo. -

continua na página 211...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Um grande músico)
Volume 6
Volume 7

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Dentes de cobre sobre o Chile (4)

 A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra


PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     36. Dentes de cobre sobre o Chile
          O cobre não demorou muito para ocupar o lugar do salitre na economia chilena, ao mesmo tempo em que a hegemonia britânica abria passagem ao domínio dos Estados Unidos. Às vésperas da crise de 1929, os investimentos norte-americanos no Chile ascendiam a mais de 400 milhões de dólares, quase todos destinados à exploração e ao transporte do cobre. Até a vitória eleitoral das forças da Unidade Popular em 1970, as maiores jazidas do metal vermelho continuavam nas mãos da Anaconda Copper Mining Co. e da Kennecott Copper Co., duas empresas intimamente ligadas entre si, como parte do mesmo consórcio mundial. Em meio século, ambas remeteram do Chile para suas matrizes quatro bilhões de dólares, caudaloso sangue que se evadiu sob diversos títulos, e em contrapartida tinham efetivado, segundo suas próprias e infladas cifras, um investimento total que não passava de 800 milhões, quase tudo proveniente de lucros arrancados ao país [1]. A hemorragia fora aumentando na medida em que a produção crescia, até superar os 100 milhões por ano nos últimos tempos. Os donos do cobre eram os donos do Chile.
     Enquanto escrevo isto, em fins de 1970, Salvador Allende fala da sacada do palácio do governo para uma multidão fervorosa; anuncia que assinou o projeto de reforma constitucional que tornará possível a nacionalização da mineração. Em 1969, diz ele, a Anaconda alcançou no Chile lucros de 79 milhões de dólares, que equivalem a 80 por cento de suas rendas em todo o mundo: no entanto, acrescenta, a Anaconda tem no Chile menos da sexta parte de seus investimentos no exterior. A guerra bacteriológica da direita, uma planejada campanha de propaganda destinada a semear o terror para evitar a nacionalização do cobre e as demais reformas de estrutura anunciadas pela esquerda, foi tão intensa quanto nas eleições anteriores. Os jornais publicaram fotos mostrando tanques soviéticos movimentando-se diante do palácio presidencial de La Moneda; nas paredes de Santiago apareciam cartazes que mostravam guerrilheiros barbados arrastando jovens inocentes para a morte; tocavam a campainha de cada casa e aparecia uma senhora: “Você tem quatro filhos? Dois irão para a União Soviética e dois para Cuba”. Tudo foi inútil. O cobre, anuncia Allende, será chileno.
     Os Estados Unidos, por sua vez, com as pernas presas na armadilha das guerras do sudeste asiático, não ocultaram o mal-estar oficial diante da marcha dos acontecimentos ao sul da cordilheira dos Andes. O Chile, contudo, não está ao alcance de uma súbita expedição dos marines, e Allende, de resto, é presidente com todos os requisitos da democracia representativa que o país do norte formalmente prega. O imperialismo atravessa as primeiras etapas de um novo ciclo crítico, cujos signos já são nítidos em sua economia; sua função de polícia mundial tornou-se mais cara e mais difícil. E a guerra de preços? Agora a produção chilena é vendida em mercados diversos, e pode abrir mercados novos entre os países socialistas; os Estados Unidos carecem de meios para bloquear, em escala universal, as vendas do cobre que os chilenos querem recuperar. Muito diferente, por certo, era a situação do açúcar cubano doze anos atrás, integralmente destinado ao mercado norte-americano e inteiramente dependente de seu preço. Quando Eduardo Frei ganhou as eleições em 1964, a cotação do cobre subiu de imediato com visível alívio; quando Allende ganhou as de 1970, o preço, que já vinha baixando, caiu mais ainda. Mas o cobre, habitualmente sujeito às severas flutuações de preços, havia desfrutado de preços razoavelmente altos nos últimos anos, e como a demanda excede a oferta, a escassez impede que o nível tenha quedas consideráveis. Embora o alumínio, em grande medida, tenha ocupado o lugar do cobre como condutor de eletricidade, o alumínio também requer cobre, e também não foram encontrados sucedâneos mais baratos e eficazes para substituí-lo na indústria do aço e na indústria química, e o metal vermelho continua sendo a principal matéria-prima nas fábricas de pólvora, latão e arame. [2]
     Ao longo das faldas da cordilheira, o Chile possui as maiores reservas de cobre do mundo, uma terça parte do total até agora conhecido. O cobre chileno geralmente aparece associado a outros metais, como o ouro, a prata e o molibdênio. É um fator adicional para estimular a exploração. Além disso, os obreiros chilenos, para as empresas, são baratos: com seus baixíssimos custos no Chile, a Anaconda e a Kennecott financiam com sobras seus altos custos nos Estados Unidos, do mesmo modo que o cobre chileno paga, pela via dos “gastos no exterior”, mais de dez milhões anuais para a manutenção de seus representantes em Nova York. O salário médio das minas chilenas mal alcançava, em 1964, a oitava parte do salário básico nas refinarias da Kennecott nos Estados Unidos, ainda que a produtividade tanto de uns quanto de outros estivesse no mesmo nível [3]. Não eram iguais, portanto, e nem o são, as condições de vida. Os mineiros chilenos, geralmente, vivem em estreitos e sórdidos quartinhos, separados de suas famílias, que moram em casinholas miseráveis de arrabalde; afastados, decerto, do pessoal estrangeiro, que nas grandes minas habita um universo à parte, minúsculos estados dentro do Estado, onde só se fala inglês e até são editados jornais para sua exclusiva leitura. A produtividade obreira no Chile foi aumentando na medida em que as empresas mecanizavam seus meios de exploração. Desde 1945, a produção de cobre aumentou em 50 por cento, mas o número de operários empregados nas minas reduziu-se a uma terça parte.
     A nacionalização dará um fim a um estado de coisas que se tornou insuportável para o país, e evitará que se repita com o cobre a experiência de saque e queda no vazio que sofreu o Chile no ciclo do salitre. Porque os impostos que as empresas pagam ao Estado não compensam de modo algum o inflexível esgotamento dos recursos minerais que a natureza concedeu e não renovará. De resto, os impostos diminuíram em termos relativos, desde que, em 1955, foi estabelecido o sistema de tributação decrescente de acordo com os aumentos da produção, e desde a “chilenização” do cobre determinada pelo governo de Frei. Em 1965, Frei tornou o Estado sócio da Kennecott e permitiu às empresas pouco menos que triplicar seus lucros, através de um regime tributário que lhes foi muito propício. No novo regime, os gravames foram aplicados sobre um preço médio de 29 centavos a libra, ainda que o preço, empurrado pela grande demanda mundial, tenha subido até 70 centavos. Com a diferença de impostos entre o preço fictício e o preço real, o Chile perdeu uma enorme quantidade de dólares, como reconheceu o próprio Radomiro Tomic, o candidato eleito para suceder Frei no período seguinte. Em 1969, o governo de Frei celebrou com a Anaconda um acordo para lhe comprar 51 por cento das ações em quotas semestrais, em condições tais que desencadearam um novo escândalo político e deram maior impulso ao crescimento das forças de esquerda. O presidente da Anaconda dissera previamente ao presidente do Chile, segundo a versão divulgada pela imprensa: “Excelência, os capitalistas não conservam os bens por motivos sentimentais, mas por razões econômicas. É normal que uma família guarde um roupeiro que pertenceu a um avô; as empresas, no entanto, não têm avô. A Anaconda pode vender todos os seus bens. Depende só do preço que lhe paguem”.

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[1] As mesmas empresas industrializavam o mineral chileno em suas fábricas longínquas. Anaconda American rass, Anaconda Wire and Cable e Kennecott Wire and Cable figuram entre as principais fábricas de bronze e arame do mundo inteiro. CADEMARTORI, José. La economía chilena. Santiago de Chile, 1968.
[2] As mesmas empresas industrializavam o mineral chileno em suas fábricas longínquas. Anaconda American rass, Anaconda Wire and Cable e Kennecott Wire and Cable figuram entre as principais fábricas de bronze e arame do mundo inteiro. CADEMARTORI, José. La economía chilena. Santiago de Chile, 1968.
[3] VERA, Mario & CATALÁN, Elmo. La encrucijada del cobre. Santiago de Chile, 1965.