quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / V — O Judas da providência

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     V — O Judas da providência

             Havia cinco anos que Mário vivia na pobreza, rodeado de privações e mesmo de penúria, mas só então descobriu que nunca conhecera a verdadeira miséria. Acabava de a ver. Era aquela larva que lhe passara por diante dos olhos. É que, com efeito, quem nunca viu senão a miséria do homem não viu nada, precisa ver a miséria da mulher; quem nunca viu senão a miséria da mulher, não viu nada, precisa ver a miséria da criança.
     Quando o homem chega às últimas extremidades, chega ao mesmo tempo aos últimos recursos. Desgraçados dos entes sem defesa que o cercam! O trabalho, o salário, o pão, o lume, o ânimo, a boa vontade, tudo lhe falta ao mesmo tempo. A luz moral apaga-se no interior; no meio destas sombras encontra o homem a fraqueza da mulher e a da criança, e amolda-as violentamente às ignomínias.
     Então todos os horrores se tornam possíveis. O desespero é rodeado por frágeis tabiques, que dão todos para o vício ou para o crime.
     A saúde, a mocidade, a honra, as santas e severas delicadezas da carne ainda nova, o coração, a virgindade, o pudor, essa epiderme da alma, são sinistramente manejados pela apalpadela que busca recursos, que encontra o opróbrio e que acomoda com ele. Pais, mães, filhos, irmãos, irmãs, homens, mulheres, raparigas, aderem e agregam-se quase como uma formação mineral, nesta nebulosa promiscuidade de sexos, de parentescos, de idades, de infâmias e de inocências. Agacham-se, encostados uns aos outros, numa espécie de destino-pocilga. É lentamente o modo porque se olham reciprocamente Desventurados! Como estão pálidos! Como tremem de frio! Parece que habitam em planeta muito mais distante do Sol do que nós.
     Aquela rapariga foi para Mário uma espécie de enviado das trevas. Revelou-lhe completamente o lado hediondo da noite.
     Mário quase se repreendeu das preocupações de sonho e paixão que o tinham impedido até aquele dia de lançar os olhos para os seus vizinhos. Ter-lhes pago a renda da casa, fora uma coisa maquinal, que qualquer pessoa teria feito, mas ele, Mário, devia ter feito mais. O quê! Por estar apenas separado por uma parede daqueles entes abandonados, que viviam às apalpadelas no meio da escuridão, e separado do resto dos viventes, roçava por eles, era de certo modo o último elo do género humano, que eles tocavam, sentia-os viver, ou antes, agonizar, junto de si, e não lhes dava a mínima atenção! Todos os dias, a todos os instantes, ouvia-lhes os passos, sentia-os andar de um lado para o outro, ouvia-os falar através da parede e não aplicava o ouvido! As palavras que proferiam continham gemidos, e ele nem mesmo os escutava! O seu pensamento estava noutra parte, sonhava com brilhos impossíveis, com amores aéreos, com loucuras, e entretanto, havia criaturas humanas, seus irmãos em Jesus Cristo, seus irmãos pelo povo, que agonizavam a seu lado! Agonizavam inutilmente! Ele chegava a fazer parte da sua desgraça, agravava-a mesmo! Por que se vessem outro vizinho menos quimero e mais atento, um homem vulgar e caritativo, teria sido evidentemente notada a sua indigência, os seus sinais de miséria teriam sido percebidos e haveria talvez já muito tempo que teriam sido recolhidos e salvos! Pareciam decerto, muito depravados, muito corrompidos e aviltados, mesmo muito odiosos; mas são muito raros os que caíram sem se enlamear; e depois há um ponto em que os desventurados e os infames se amalgamam e confundem numa só palavra, na palavra fatal miseráveis; de quem é a culpa? E depois, não deve ser tanto maior a caridade quanto mais profunda é a perdição?
     Enquanto Mário moralizava por este modo, porque havia ocasiões em que, como todos os corações verdadeiramente honestos, se tornava pedagogo de si mesmo, e ralhava consigo mais do que merecia, olhava para a parede que o separava dos Jondrette, como se pudesse atravessá-la com o seu olhar piedoso, para reanimar aqueles desgraçados.
     A parede era um simples tabique delgadíssimo, que, como se viu, deixava perfeitamente distinguir o ruído dos passos e as vozes. Era preciso andar sempre abstrato, como Mário, para o não ter ainda notado. A parede não era forrada com o mais insignificante papel, nem do lado dos Jondrette, nem do de Mário; estava em osso. Mário, sem quase ter a consciência do que fazia, examinava o tabique; às vezes a distração examina, observa e escuta como faria a atenção.
     De repente levantou-se: acabava de descobrir no alto da parede, junto do teto, um buraco. A cal e a areia que devia ter preenchido aquele vácuo, caíra, decerto; e subindo se à cômoda, podia-se ver por aquela abertura a pocilga dos Jondrette. Aquele buraco era como que um Judas. É permitido observar traiçoeiramente o infortúnio com o fim de o socorrer. «Também sempre hei-de ver que casta de gente é esta», disse para consigo, «e até que ponto chega a sua miséria»
     E, ao mesmo tempo que dizia isto, subiu para cima da cômoda, aproximou um dos olhos junto ao buraco e pôs-se a espreitar.

continua na página 555...
______________

Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
_________________________

Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - V — O Judas da providência
_______________________
  
Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira


Literatura Fundamental - Victor Hugo - Maria Lúcia Dias Mendes




quarta-feira, 26 de agosto de 2026

George Orwell - 1984: Parte 2.1b (No dia seguinte, ela reapareceu)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

1.

     No dia seguinte, ela reapareceu. Seu braço estava fora da tipoia e ela tinha uma faixa de gesso adesivo em volta do pulso. O alívio de vê-la foi tão grande que ele não conseguiu resistir a olhar diretamente para ela por vários segundos. No dia seguinte, quase conseguiu falar com ela. Quando entrou na cantina, ela estava sentada em uma mesa bem longe da parede, e estava completamente sozinha. Era cedo, e o lugar não estava muito cheio. A fila avançou até Winston estar quase no balcão, depois foi retida por dois minutos porque alguém na frente estava reclamando que ele não tinha recebido seu tablete de sacarina. Mas a garota ainda estava sozinha quando Winston segurou sua bandeja e começou a ir para a mesa. Ele caminhou casualmente em direção a ela, com os olhos voltados para um lugar em alguma mesa além dela. Ela estava a cerca de três metros de distância dele. Mais dois segundos e estaria tudo resolvido.
     Então, uma voz atrás dele chamou:

“Smith”!

     Ele fingiu não ouvir.

“Smith!”, repetiu a voz, mais alto. Não adiantava. Ele se virou.

     Um jovem de cabeça loira e cara boba chamado Wilsher, que ele mal conhecia, o convidava com um sorriso para um lugar vago em sua mesa. Não era seguro recusar. Depois de ter sido reconhecido, ele não podia ir e sentar-se à mesa com uma garota desacompanhada. Era muito perceptível.
     Ele se sentou com um sorriso amigável. O rosto loiro tolo brilhava em sua direção. Winston teve uma alucinação de si mesmo esmagando a cabeça bem no meio com um machado. A mesa da garota se encheu alguns minutos depois.
     Mas ela deve tê-lo visto vir em sua direção, e talvez aceitasse a dica. No dia seguinte, ele teve o cuidado de chegar mais cedo. Com certeza, ela estava em uma mesa mais ou menos no mesmo lugar, e novamente sozinha. A pessoa imediatamente à sua frente na fila era um homem pequeno, rápido, parecido com um escaravelho, de rosto plano e olhos minúsculos e suspeitos.
     Enquanto Winston se afastava do balcão com sua bandeja, ele viu que o homenzinho estava indo direto para a mesa da garota. Suas esperanças se afundaram nova mente. Havia um lugar vago em uma mesa mais distante, mas algo na aparência do homenzinho sugeria que ele estaria suficientemente atento ao seu próprio conforto para escolher a mesa mais vazia.
     Com o coração na mão, Winston o seguiu.
     Não adiantava, ele tinha que estar sozinho com a garota.
     Neste momento, houve um tremendo acidente. O homenzinho estava de quatro, sua bandeja havia voado, duas correntes de sopa e café corriam pelo chão. Ele começou a se levantar com um olhar maligno para Winston, que ele evidente mente suspeitava de tê-lo feito tropeçar. Mas estava tudo bem. Cinco segundos depois, com o coração trovejante, Winston estava sentado à mesa da garota.
     Ele não olhou para ela. Ele desempacotou sua bandeja e imediatamente começou a comer. Era muito importante falar de uma vez só, antes que alguém mais viesse, mas agora um medo terrível tinha tomado posse dele. Passara uma semana desde que ela se aproximou dele pela primeira vez. Ela teria mudado de ideia, ela deve ter mudado de ideia!
     Era impossível que este caso terminasse com sucesso; tais coisas não aconteciam na vida real.
     Ele poderia ter hesitado completamente em falar se neste momento não tivesse visto Ampleforth, o poeta cabeludo, vagando coxeando pela sala com uma bandeja, procurando um lugar para sentar-se. À sua maneira vaga, Ampleforth estava preso a Winston, e certamente se sentaria à sua mesa se o visse. Havia talvez um mi nuto para agir.
     Tanto Winston quanto a moça estavam comendo constantemente. O que eles estavam comendo era um cozido ralo, na verdade uma sopa, de feijão branco.
     Em um murmúrio baixo, Winston começou a falar. Nenhum dos dois olhou para cima; constantemente eles colocaram as coisas aquosas na boca, e entre colheradas trocaram as poucas pa lavras necessárias em vozes baixas e sem expressão.

“Que horas você sai do trabalho”? 
“Seis e meia”. 
 “Onde podemos nos encontrar”? 
“Na Praça da Vitória, perto do monumento”. 
 “Lá está cheio de teletelas”. 
 “Não é um problema quando tem muita gente”. 
 “Algum sinal”? 
 “Não. Não venha até mim até que eu esteja entre muitas pessoas. E não olhe para mim. Apenas mantenha-se em algum lugar próximo”. 
 “A que horas”? 
 “Dezenove horas”. 
 “Combinado”. 

     Ampleforth não viu Winston e se sentou em outra mesa. Eles não voltaram a falar e, na medida do possível para duas pessoas sentadas em lados opostos da mesma mesa, eles não olharam um para o outro. A menina terminou seu almoço rapidamente e saiu, enquanto Winston ficou para fumar um cigarro.
     Winston chegou na Praça da Vitória antes da hora marcada. Ele perambulou pela base da enorme coluna canelada que segurava a estátua do Grande Irmão olhando para o sul em direção aos céus, onde havia derrotado os aviões eurasianos (ou os aviões da Lestásia alguns anos antes) na Batalha da Primeira Faixa Aérea. Na rua em frente a ela havia uma estátua de um homem a cavalo que deveria representar Oliver Cromwell. Cinco minutos depois da hora marcada, a menina ainda não tinha aparecido. Um medo terrível se apoderou novamente de Winston. Ela não vinha, ela tinha mudado de ideia!
     Ele caminhou lentamente até o lado norte da praça e teve uma espécie de prazer pálido ao identificar a Igreja de São Martinho, cujos sinos, quando existiam, tinham tocado “De seda e linho”. Então ele viu a menina de pé na base do monumento, lendo ou fingindo ler um cartaz que subia em espiral pela coluna. Não era seguro aproximar-se dela até que mais algumas pessoas tivessem se juntado. Havia teletelas ao redor do monumento. Mas neste momento houve um barulho de gritos e movimento de veículos pesados em algum lugar à esquerda.
     De repente todos pareciam estar correndo pela praça. A garota deu a volta ao redor dos leões na base do monumento e se juntou ágil aos outros. Winston seguiu. Enquanto corria, entendeu a partir dos comentários que um comboio de prisioneiros eurasianos estava passando.
     Uma massa densa de pessoas já bloqueava o lado sul da praça. Winston, em tempos normais, que era o tipo de pessoa que gravitava até a borda externa de qualquer tipo de muvuca, agora empurrava, se enfiava e esguichava em direção ao coração da multidão. Logo ele estava à distância de um braço da garota, mas o caminho estava bloqueado por um enorme prole e uma mulher quase igualmente enorme, presumivelmente sua esposa, que pareciam formar uma parede impenetrável de carne. Winston se mexeu de lado e, com um movimento violento, conseguiu colocar seu ombro entre eles. Por um momento, sentiu como se suas entranhas estivessem sendo moídas entre os dois quadris musculosos, e então ele havia quebrado a barreira, suando um pouco. Estava ao lado da garota. Eles estavam ombro a ombro, ambos olhando fixamente para a frente.
     Uma longa fila de caminhões passava lentamente pela rua, com guardas de cara fechada armados com metralhadoras em pé em cada esquina. Nos caminhões, pequenos homens amarelos com uniformes esverdeados estavam de cócoras, encravados próximos uns dos outros. Seus tristes rostos mongóis olhavam para os lados dos caminhões sem curiosidade alguma. Ocasionalmente, quando um caminhão sacolejava, havia um blim-blim de metal: todos os prisioneiros vestiam grilhões. Caminhões e caminhões passaram com a carga de rostos tristes. Winston sabia que eles estavam lá, mas não os via completamente. O ombro da garota, e parte do braço dela, estavam pressionados contra o dele. A bochecha dela estava quase perto o suficiente para que ele sentisse seu calor. Ela havia imediatamente tomado conta da situação, assim como havia feito na cantina. Ela começou a falar com a mesma voz sem expressão de antes, com os lábios mal se movendo, um mero murmúrio facilmente afogado pelo barulho das vozes e pelo estrondo dos caminhões.

“Você consegue me ouvir”? 
 “Sim”. 
 “Você consegue uma folga no domingo à tarde”? 
 “Sim”. 
 “Então escute com atenção. Você precisa se lembrar disto. Vá para a estação de Paddington–”

     Com uma espécie de precisão militar que o espantou, ela delineou o caminho que ele deveria seguir. Uma viagem ferroviária de meia hora; virar à esquerda fora da estação; dois quilômetros ao longo da estrada; um portão sem a barra superior; um caminho através de um campo; uma faixa de grama; um caminho entre arbustos; uma árvore morta com musgo. Era como se ela tivesse um mapa dentro de sua cabeça. 

“Você vai se lembrar de tudo isso?”, ela murmurou finalmente.
“Sim”. 
“Vire à esquerda, depois à direita, depois à esquerda novamente. E o portão não tem barra superior”. 
“Sim. Que horas”? 
“Umas quinze. Talvez você tenha que esperar. Vou para lá por outro caminho. Você tem certeza de que vai se lembrar de tudo”? 
“Sim”.
“Então vá embora o mais rápido que puder”.

     Ela não precisava ter dito isso a ele. Mas no momento, eles não conseguiram se livrar da multidão. Os caminhões ainda estavam passando, as pessoas ainda estavam embasbacadas. No início, houve algumas vaias e assobios, mas vieram apenas dos membros do Partido entre a multidão, e logo pararam. A emoção que prevalecia era simplesmente a curiosidade. Os estrangeiros, sejam da Eurásia ou da Lestásia, eram uma espécie de animal estranho. Nunca eram vistos, literalmente, a não ser como prisioneiros, e mesmo como prisioneiros nunca se tinha mais do que um vislumbre momentâneo deles. Nem se sabia o que acontecia com eles, além dos poucos que foram enforcados como criminosos de guerra: os outros simplesmente desapareceram, possivelmente em campos de trabalho forçado. Os rostos redondos de mongóis tinham dado lugar a rostos de tipo mais europeu, sujos, barbudos e exaustos. De bochechas muito esfoladas, os olhos olharam para os de Winston, às vezes com estranha intensidade, e voltaram a piscar para longe. A caravana chegava ao fim. No último caminhão ele podia ver um homem idoso, seu rosto era uma massa de cabelos grisalhos, em pé, com os pulsos cruzados na sua frente, como se estivesse acostumado a tê-los amarrados juntos. Estava quase na hora de Winston e a menina se separarem. Mas, no último momento, enquanto a multidão ainda os cercava, suas mãos se encostaram e ela lhe deu um aperto fugaz.
     Não poderia ter passado de dez segundos e, no entanto, parecia que suas mãos estiveram juntas por muito mais tempo. Ele teve tempo para aprender cada detalhe da mão dela. Ele explorou os dedos longos, as unhas afiadas, sua mão com calos de trabalho, a pele lisa sob o pulso. Apenas de senti-lo ele o teria reconhecido à vista. No mesmo instante em que lhe ocorreu que ele não sabia de que cor eram seus olhos. Provavelmente eram marrons, mas as pessoas com cabelos escuros às vezes tinham olhos azuis. Virar a cabeça e olhar para ela teria sido uma loucura inconcebível. Com as mãos juntas, invisíveis entre a prensa dos corpos, eles olhavam firmemente para a frente, e ao invés dos olhos da menina, os olhos do prisioneiro idoso olhavam em luto para Winston através dos ninhos de cabelo.

continua na página 247...
_____________________

Capítulo 1:
Parte 2.1a (Era o meio da manhã) / Parte 2.1b (No dia seguinte, ela reapareceu) /                             
_____________________

George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 3: Seção II)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade

Seção III
Por que uma causa é sempre necessária

     Comecemos pela primeira questão, a respeito da necessidade de uma causa. Trata-se de uma máxima geral da filosofia que tudo que começa a existir deve ter uma causa para sua existência. Costuma-se pressupor essa máxima em todos os raciocínios, sem se fornecer ou exigir prova alguma. Ela supostamente está fundada na intuição, sendo uma dessas máximas que, embora possam ser negadas verbalmente, não podem ser sinceramente postas em dúvida pelos homens. Mas se a examinarmos segundo a ideia de conhecimento anteriormente explicada, não descobriremos nela nenhuma marca de uma tal certeza intuitiva. Ao contrário, veremos que sua natureza é bastante alheia a essa espécie de convicção. 
     Toda certeza provém da comparação de ideias e da descoberta de relações que permanecem inalteráveis enquanto as ideias continuam iguais. Essas relações são a semelhança, as proporções de quantidade e de número, os graus de uma qualidade e a contrariedade - nenhuma das quais está implicada na proposição de que tudo que tem um começo deve ter uma causa para sua existência. Essa proposição, portanto, não é intuitivamente certa. Ou, ao menos, qualquer pessoa que queira afirmar que é intuitivamente certa deverá negar que essas sejam as únicas relações infalíveis, e deverá descobrir alguma outra relação desse tipo implicada naquela proposição - e então será o momento adequado de examiná-la.
     Mas eis aqui um argumento que prova de uma só vez que a pro posição precedente não é nem intuitiva nem demonstrativamente certa. Nunca poderíamos demonstrar a necessidade de uma causa para toda nova existência ou para toda nova modificação de existência sem mostrar, ao mesmo tempo, a impossibilidade de que alguma coisa comece a existir sem algum princípio produtivo. E se esta última pro posição não puder ser provada, deve-se perder qualquer esperança de jamais provar a primeira. Ora, que a última proposição é inteiramente incapaz de receber uma prova demonstrativa é algo de que podemos nos convencer considerando que, como todas as ideias distintas são separáveis entre si, e como as ideias de causa e de efeito são evidentemente distintas, é fácil conceber que um objeto seja não-existente neste momento e existente no momento seguinte, sem juntar a ele a ideia distinta de uma causa ou princípio produtivo. Portanto, a separação da ideia de uma causa da ideia de um começo de existência é claramente possível para a imaginação. Uma vez, portanto, que não implica contradição ou absurdo, a separação real desses objetos é possível, e por isso não pode ser refutada por nenhum raciocínio baseado nas meras ideias. E, sem isso, é impossível demonstrar a necessidade de uma causa.
     Por conseguinte, o exame das demonstrações já apresentadas a favor da necessidade de uma causa mostrará que são todas falaciosas e sofísticas. Alguns filósofos¹ dizem que todos os pontos do tempo e do espaço em que podemos supor que um objeto começa a existir são em si mesmos equivalentes. A menos que haja alguma causa que seja peculiar a um momento e a um lugar, determinando e fixando dessa maneira a existência, esta deverá permanecer eternamente em suspenso; e o objeto nunca poderá começar a existir, em por falta de alguma coisa que fixe seu começo. Mas eu pergunto: será mais difícil supor que o tempo e o espaço sejam fixados sem uma causa do que supor que a existência seja determinada dessa mesma maneira? A primeira pergunta que se coloca a esse respeito é sempre se o objeto irá ou não existir; a pergunta seguinte é quando e onde ele começará a existir. Se, no primeiro caso, for intuitivamente absurdo suprimir toda causa, também deve ser assim no segundo; mas se, no primeiro caso, esse absurdo não ficar claro sem uma prova, esta também será necessária no segundo. Portanto, o absurdo de uma suposição jamais pode servir de prova do absurdo da outra - pois elas estão na mesma condição, sendo confirmadas ou refutadas pelo mesmo raciocínio.

[1] Sr. Hobbes.

     O segundo argumento² que vi ser utilizado a propósito dessa questão enfrenta a mesma dificuldade. Tudo deve ter uma causa, dizem; pois, se alguma coisa carecesse de causa, ela seria produzida por si mesma, isto é, existiria antes de existir, o que é impossível. Esse raciocínio, porém, é claramente inconcludente. Ele supõe que, ao negarmos uma causa, estamos ainda admitindo aquilo que negamos expressamente, a saber, que deve haver uma causa - a qual, portanto, é tida como o próprio objeto. Isso, sem dúvida, é uma evidente contra dição. Mas dizer que alguma coisa é produzida, ou, para me exprimir de maneira mais apropriada, dizer que uma coisa passa a existir sem uma causa, não é afirmar que ela é sua própria causa. Ao contrário, ao excluirmos todas as causas externas, excluímos também afortiori a própria coisa criada. Um objeto que existe absolutamente sem nnhuma causa, com certeza não é sua própria causa. Sustentar o contrário seria supor aquilo mesmo que está em questão, tomando como certo que é inteiramente impossível que alguma coisa possa começar a existir sem uma causa, e que, se excluirmos um princípio produtivo, teremos sempre de recorrer a outro.

[2] Dr. Clarke e outros.


     Exatamente o mesmo se passa com o terceiro argumento² utilizado para demonstrar a necessidade de uma causa. Tudo que é produzido sem causa é produzido por nada;* ou, em outras palavras, tem como causa o nada. Mas o nada nunca poderia ser uma causa, assim como não pode ser alguma coisa, ou ser igual a dois ângulos retos. A mesma intuição que nos leva a perceber que o nada não é igual a dois ângulos retos, ou que não é alguma coisa, leva-nos a perceber que jamais poderia ser uma causa. Consequentemente, devemos perceber que a existência de todo objeto possui uma causa real.

[2] Sr. Locke.
[*] "Whatever is produc’d without any cause, is produc’d by nothing”. A frase gramaticalmente correta em português seria “Tudo que é produzido sem causa não é produzido por nada", mas isso deixaria sem sentido o raciocínio de Hume. (N.T)

     Creio que não precisarei ser muito prolixo para mostrar a fraqueza desse argumento, após o que eu já disse acerca do argumento anterior. Os dois estão fundados na mesma falácia e derivam do mesmo modo de pensar. Basta apenas observar que, ao excluirmos todas as causas, nós realmente as excluímos, e não supomos nem que o nada nem que o objeto mesmo sejam as causas da existência deste. Consequentemente, não podemos extrair do absurdo dessas suposições nenhum argumento para provar o absurdo daquela exclusão. Se tudo deve ter uma causa, segue-se que, ao excluirmos outras causas, devemos aceitar que o próprio objeto ou o nada são causas. Mas o que está em questão é justamente se tudo deve ou não ter uma causa. Portanto, de acordo com todas as regras do bom raciocínio, isso é algo que nunca se deve dar por suposto.
     São ainda mais levianos aqueles que dizem que todo efeito deve ter uma causa porque a ideia de causa está implicada na ideia mesma de efeito. Todo efeito pressupõe necessariamente uma causa, já que efeito é um termo relativo, cujo correlato é causa. Mas isso não prova que todo ser tenha de ser precedido por uma causa, assim como, do fato de que todo marido deve ter uma esposa não se segue que, por isso, todo homem tenha de ser casado. A verdadeira questão é se todo objeto que começa a existir deve ter sua existência atribuída a uma causa. E isso eu afirmo que não é nem intuitiva nem demonstrativamente certo, como espero haver provado de maneira suficiente pelos argumentos precedentes.
     Uma vez que não é do conhecimento ou de um raciocínio científico que derivamos a opinião de que uma causa é necessária para toda nova produção, tal opinião deve vir necessariamente da observação e da experiência. A questão seguinte, portanto, deveria naturalmente ser: como a experiência dá origem a um tal princípio? Mas penso que o mais conveniente será embutir essa questão na seguinte, a saber: por que concluímos que tais causas particulares devem necessariamente ter tais efeitos particulares, e por que realizamos uma inferência daquelas para estes últimos? Esse, portanto, será o tema de nossa próxima investigação. Talvez acabemos descobrindo que a mesma res posta serve para ambas as questões.

continua na página 107...
______________

Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3     
Seção I / Seção II / Seção III /                
___________________

4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.

Cinema: Laura

A Obra-Prima Clássica Vencedora do Oscar

O ano é 1944

Um Filme Que Marcou a História do Cinema

O tenente Mark McPherson investiga o misterioso homicídio de Laura Hunt, uma publicitária de sucesso em Nova Iorque. À medida que interroga o círculo íntimo da vítima, o detetive descobre uma teia complexa de segredos, interesses financeiros e relações ambíguas, tornando a busca pela verdade uma tarefa cada vez mais enigmática e perigosa. E claro, ele se apaixona pela mulher cujo assassinato está investigando. Laura é um clássico do film noir, combinando mistério policial, romance e atmosfera sofisticada. A trama gira em torno da investigação do assassinato com reviravoltas que exploram a aura enigmática da protagonista e a obsessão que ela desperta. Celebrado por sua fotografia premiada, roteiro inteligente e atuações marcantes, é um suspense envolvente que permanece fascinante.





Direção:
Otto Preminger
Rouben Mamoulian

Roteiristas:
Vera Caspary
Jay Dratler
Samuel Hoffenstein

Elenco:
Gene Tierney como Laura Hunt
Dana Andrews como Det. Lt. Mark McPherson
Clifton Webb como Waldo Lydecker
Vincent Price como Shelby Carpenter
Judith Anderson como Ann Treadwell
Grant Mitchell como Lancaster Corey (cenas deletadas)
Dorothy Adams como Bessie Clary - A empregada de Laura (não creditado)
Terry Adams como Mulher (não creditado)
John Alban como Executivo (não creditado)
Wally Albright como Jornaleiro (não creditado)
Bobby Barber como Jornaleiro (não creditado)
Edward Biby como Convidado da festa (não creditado)
Gary Breckner como Narrador (não creditado)
James Carlisle como Convidado da festa (não creditado)
Harry Carter como Convidado da festa (não creditado)
Lane Chandler como Detetive (não creditado)
Bill Chaney como Jornaleiro (não creditado)
Dorothy Christy como Mulher (não creditado)
James Conaty como Convidado da festa (não creditado)
Kay Connors como Mulher (não creditado)
John Dexter como Jacoby - O Artista (não creditado)
Ralph Dunn como Fred Callahan (não creditado)
Nestor Eristoff como Homem (não creditado)
Jean Fenwick como Mulher (não creditado)
Mary Field como Mulher na rua com uma mulher loira (não creditado)
Clyde Fillmore como Proprietário da agência de publicidade Bullitt & Co. (não creditado)
James Flavin como Det. McEveety (não creditado)
Bess Flowers como Convidada da festa (não creditado)
Lee Tong Foo como O empregado de Waldo (não creditado)
William Forrest como Cliente importante (não creditado)
Frances Gladwin como Mulher (não creditado)
William Graeff Jr. como Jornaleiro (não creditado)
Beatrice Gray como Mulher (não creditado)
Sam Harris como Convidado da festa (não creditado)
Kathleen Howard como Louise - Cozinheira da Ann (não creditado)
Yolanda Lacca como Mulher (não creditado)
Frank LaRue como Cabeleireira (não creditado)
Kay Linaker como Mulher (não creditado)
Gloria Marlen como Mulher (não creditado)
Thomas Martin como Mordomo na festa (não creditado)
Dominick Martino como Jornaleiro (não creditado)
Buster Miles como Johnny - Office Boy (não creditado)
Harold Miller como Convidado da festa (não creditado)
Hans Moebus como Cliente do restaurante (não creditado)
Lew Morphy como Policial (não creditado)
Forbes Murray como Homem (não creditado)
Jane Nigh como Secretária (não creditado)
Wedgwood Nowel como Cliente do restaurante (não creditado)
Paul Power como Cliente do restaurante (não creditado)
Aileen Pringle como Mulher (não creditado)
Greg Rhinelander como Convidado da festa (não creditado)
Cyril Ring como Convidado da festa (não creditado)
Alexander Sascha como Homem (não creditado)
Harold Schlickenmayer como Detetive (não creditado)
Scott Seaton como Executivo (não creditado)
Larry Steers como Homem jantando com Laura (não creditado)
Harry Strang como Detetive (não creditado)
Ben Watson como Jornaleiro (não creditado)
Cara Williams como Secretária no escritório da Laura (não creditado)
Eric Wilton como Cliente do restaurante (não creditado)

__________________

Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
06. O Poço e o Pêndulo / 07. Laura /            

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (5)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 continuando...

     Há uma justificação, uma compensação suprema que a sociedade sempre se esforçou por dispensar à mulher: a religião. É preciso uma religião para as mulheres, como é preciso uma para o povo, e exatamente pelas mesmas razoes: quando condenam um sexo, uma classe à imanência, é necessário oferecer-lhe a miragem de uma transcendência. O homem tem toda vantagem em fazer endossar por Deus os códigos que fabrica: e, particularmente, como exerce sobre a mulher uma autoridade soberana é útil que esta lhe seja conferida pelo ser soberano. Entre os judeus, os maometanos, os cristãos, entre outros, o homem é senhor por direito divino: o temor a Deus abafará no oprimido toda veleidade de revolta. Pode-se apostar em sua credulidade. A mulher adota em face do universo masculino uma atitude de respeito e de fé; Deus em seu céu aparece-lhe menos longínquo do que um ministro e o mistério da gênese nivela-se ao das usinas elétricas. Mas se se entrega assim de bom grado à religião, é principalmente porque esta vem satisfazer uma necessidade profunda. Na civilização moderna, que dá certo valor — mesmo quando se trata da mulher — à liberdade, a religião apresenta-se muito menos como um instrumento de constrangimento do que como um instrumento de mistificação. O que se pede à mulher é menos que aceite sua inferioridade em nome de Deus do que acredite ser, graças a ele, igual ao macho suserano. Suprime-se a própria tentação de uma revolta que pretende vencer a injustiça. A mulher não é mais frustrada de sua transcendência porque vai destinar sua imanência a Deus; é somente no céu que se medem os méritos das almas segundo suas realizações terrestres; aqui só há, na expressão de Dostoiewski, ocupações: engraxar sapatos ou construir uma ponte, tudo é igual mente vaidade; para além das discriminações sociais, a igualda de dos sexos é restabelecida. Eis por que a menina e a adolescente mergulham na devoção com um fervor muito maior do que o de seus irmãos; o olhar de Deus, que transcende sua transcendência humilha o menino: permanecerá sempre uma criança sob essa tutela poderosa, é uma castração mais radical do que aquela a que se sente ameaçado pela existência do pai. Ao passo que a "eterna criança" encontra sua salvação nesse olhar que a metamorfoseia em uma irmã dos anjos; anula o privilégio do pênis. Uma fé sincera auxilia muito a menina a evitar todo com plexo de inferioridade: ela não é macho nem fêmea e sim uma criatura de Deus. Eis por que encontramos em muitas grandes santas uma firmeza bem viril: Santa Brígida, Santa Catarina de Siena pretendiam arrogantemente reger o mundo, não reconheciam nenhuma autoridade masculina: Catarina dirigia mesmo com dureza seus diretores; Joana d'Arc, Santa Teresa seguiam seu caminho com uma intrepidez que nenhum homem superou.
     A Igreja cuida de que Deus nunca autorize as mulheres a se subtraírem à tutela dos homens; colocou exclusivamente em mãos masculinas estas armas terríveis: recusa de absolvição, excomunhão; obstinada em suas visões, Joana d'Arc foi queimada. Entretanto, embora submetida à lei dos homens pela própria vontade de Deus, a mulher encontra nele um sólido recurso contra eles. A lógica masculina é contestada pelos mistérios; o orgulho dos homens torna-se um pecado, sua agitação é não somente absurda mas culpada: por que refazer, remodelar este mundo que Deus criou? A passividade a que a mulher é votada é santificada. Debulhando o rosário junto à lareira, sente-se ela mais próxima do céu do que o marido, que participa de comícios políticos. Não é preciso fazer nada para salvar a alma, basta viver sem desobedecer. Consuma-se a síntese da vida e do espírito: a mãe não engendra apenas uma carne, dá a Deus uma alma; é uma obra mais elevada do que descobrir os segredos fúteis do átomo. Com a cumplicidade do pai celeste, a mulher pode reivindicar altivamente a glória de sua feminilidade.
     Não somente Deus restabelece, assim, o sexo feminino em geral em sua dignidade, como ainda cada mulher desta maneira encontra na celeste ausência um apoio singular; enquanto pessoa humana, ela não pesa muito; mas, desde que age em nome de uma inspiração divina, suas vontades tornam-se sagradas. Mme Guyon diz que aprendeu, a propósito da doença de uma religiosa, "o que era comandar pelo Verbo e obedecer pelo mesmo Verbo"; assim a devota mascara de obediência humilde sua autoridade; educando os filhos, dirigindo um convento, organizando uma obra, é apenas um instrumento dócil em mãos sobrenaturais; não se pode desobedecer-lhe sem ofender a Deus. Por certo os homens não desdenham tampouco um tal apoio; mas este não é muito sólido quando enfrentam semelhantes que o podem também reivindicar: o conflito resolve-se finalmente num plano humano. A mulher invoca a vontade divina para justificar absolutamente sua autoridade aos olhos dos que já lhe são naturalmente subordinados, para justificá-la aos próprios olhos. Se essa cooperação lhe é tão útil é porque ela se ocupa principalmente de suas relações consigo mesma — ainda que essas relações interessem a outrem: é somente nesses debates interiores que o silêncio supremo pode ter força de lei. Em verdade, a mulher vale-se da religião como pretexto para satisfazer seus desejos. Fria, masoquista, sádica, santifica-se renunciando à carne, fazendo-se de vítima, abafando em si qualquer impulso vital; mutilando-se, aniquilando-se, sobe na hierarquia dos eleitos; quando martiriza marido e filhos, privando-os de toda felicidade terrestre, prepara-lhes um lugar especial no paraíso; Margarida de Cortona "para se punir de ter pecado", dizem-no seus dois biógrafos, maltrata o filho de seu erro: só lhe dava comida depois de ter alimentado todos os mendigos; o ódio do filho não desejado é, como vimos, frequente: é uma dádiva poder entregar-se a ele com um ardor virtuoso. Por seu lado, uma mulher de moral pouco rigorosa arranja-se comodamente com Deus; a certeza de ser um dia redimida do pecado pela absolvição ajuda muitas vezes a mulher piedosa a vencer seus escrúpulos. Que tenha escolhido o ascetismo ou a sensualidade, o orgulho ou a humildade, a preocupação que tem de sua salvação encoraja-a a entregar-se a esse prazer que sobrepõe a todos: ocupar-se de si; escuta os movimentos do coração, espia os frêmitos de sua carne, justificada pela presença nela da graça, como a mulher grávida pela de seu fruto. Não somente se examina com terna vigilância, como ainda revela-se a seu confessor; em tempos idos podia mesmo gozar a embriaguez das confissões públicas. Contam-nos que Margarida de Cortona, para se punir de um impulso de vaidade, subiu ao terraço de sua casa e pôs-se a dar berros como uma parturiente: "Levantai-vos, habitantes de Cortona, levantai-vos com círios e lanternas e saí para ouvirdes a pecadora!" Enumerava todos os seus pecados clamando sua miséria aos céus. Com essa rui dosa humildade, satisfazia essa necessidade de exibicionismo de que se encontram tantos exemplos nas mulheres narcisistas. A religião autoriza na mulher a complacência para consigo mesma; dá-lhe o guia, o pai, o amante, a divindade tutelar de que ela tem nostálgica necessidade, alimenta-lhe os devaneios, ocupa-lhe as horas vazias. Mas, principalmente, confirma a ordem do mundo, justifica a resignação dando a esperança de um futuro melhor em um céu assexuado. Eis por que as mulheres são ainda hoje um trunfo tão poderoso nas mãos da Igreja; eis por que a Igreja é tão hostil a qualquer medida suscetível de facilitar a emancipação da mulher. É preciso uma religião para as mulheres: é preciso mulheres, "mulheres de verdade" para perpetuarem a religião. 
     Vê-se que o conjunto do "caráter" da mulher — convicções, valores, sabedoria, moral, gostos e condutas — se explica pela sua situação. O fato de sua transcendência lhe ser recusada, interdita-lhe normalmente o acesso às mais elevadas atitudes humanas: heroísmo, revolta, desprendimento, invenção, criação; mas, mesmo entre os homens, elas não são tão comuns. Há muitos homens que, como a mulher, se confinam no terreno do intermediário, do meio inessencial; o operário evade-se pela ação política, exprimindo uma vontade revolucionária, mas os homens das classes que precisamente chamamos "classes médias" instalam--se deliberadamente nesse meio inessencial; destinados como a mulher à repetição das tarefas quotidianas, alienados em valores convencionais, respeitosos da opinião e procurando apenas um vago conforto na terra, o empregado, o comerciante, o burocrata, não detêm nenhuma superioridade sobre suas companheiras; cozinhando, lavando, dirigindo a casa, educando os filhos, ela, a companheira, manifesta mais iniciativa e independência do que o homem escravizado a palavras de ordem; ele deve obedecer o dia inteiro a seus superiores, usar colarinho e afirmar sua posição social; ela pode arrastar-se de roupão pelo apartamento, cantar, rir com as vizinhas; age como bem entende, corre pequenos riscos, procura alcançar eficientemente certos resultados. Vive muito menos do que o marido dentro de convenções e de aparência. O universo burocrático que Kafka — entre outras coisas — descreveu, esse universo de cerimônias, de gestos absurdos, de condutas sem objetivo, é essencialmente masculino; ela está muito mais em contato com a realidade. Quando acaba de alinhar cifras ou de converter latas de sardinha em dinheiro, só aprendeu abstrações; a criança alimentada no berço, a roupa limpa, o assado são bens mais tangíveis; entretanto, como na perseguição concreta desses fins ela experimenta a contingência deles — e correlativamente sua própria contingência — ocorre muitas vezes que não se aliene neles; permanece disponível. As empresas do homem são a um tempo projetos e fugas: ele se deixa devorar pela carreira, pela sua personagem; é amiúde importante, sério; contestando a lógica e a moral masculinas, ela não cai nessas armadilhas: é o que Stendhal tanto apreciava nela; não elide no orgulho a ambiguidade de sua condição; não se esconde atrás da máscara da dignidade humana; descobre com mais sinceridade seus pensamentos indisciplinados, suas emoções, suas reações espontâneas. Eis por que sua conversa é muito menos tediosa do que a do marido, desde que fale em seu próprio nome e não como leal metade de seu senhor. Ele enuncia ideias ditas gerais, isto é, palavras, fórmulas que se encontram nas colunas de seu jornal ou em obras especializadas; ela oferece uma experiência limitada mas concreta. A famosa "sensibilidade feminina" participa um pouco do mito, um pouco da comédia; mas o fato é, também, que a mulher se mostra mais atenta do que o homem a si mesma e ao mundo. Sexualmente, vive num clima masculino, que é áspero: tem como compensação o gosto das "coisas bonitas", o que pode engendrar certo pieguismo mas igualmente delicadeza. Como seu domínio é limitado, os objetos que alcança parecem-lhe preciosos: não os encerrando em conceitos, nem em projetos, desvenda-lhes as riquezas; seu desejo de evasão exprime-se em seu gosto pela festa; encanta-se com a gratuidade de um ramalhete de flores, de um bolo, de uma mesa bem posta; compraz-se em transformar o vazio de seus lazeres em uma oferenda generosa; amando os risos, as canções, os enfeites, os bibelôs, está disposta a acolher tudo o que palpita ao redor dela: o espetáculo da rua, o do céu, um convite, um passeio abrem-lhe novos horizontes. O homem, muitas vezes, recusa-se a participar desses prazeres; quando volta para casa as vozes alegres calam-se, as mulheres da família exibem o ar aborrecido e decente que ele espera delas. Do seio da solidão, da separação, a mulher tira o sentido da singularidade de sua vida: tem do passado, da morte, do correr do tempo, uma experiência mais íntima que o homem; interessa-se pelas aventuras de seu coração, de sua carne, de seu espírito, porque sabe que não tem na terra outro quinhão; e também, por ser passiva, sofre a realidade que a submerge de maneira mais apaixonada, mais patética do que o indivíduo absorvido por uma ambição, por um ofício; tem o lazer e o gosto de se entregar a suas emoções, de estudar suas sensações e entender-lhes o sentido. Quando sua imaginação não se perde em devaneios vãos, torna-se simpatia: ela procura compreender os outros em sua singularidade e recriá-los em si; é capaz de uma verdadeira identificação com o marido ou com o amante: faz seus os projetos e as preocupações dele, de uma maneira que ele não poderia imitar. Presta uma atenção ansiosa ao mundo inteiro, que se lhe apresenta como um enigma: cada ser, cada objeto pode ser uma resposta; ela interroga avidamente. Quando envelhece, sua espera desiludida converte-se em ironia e num cinismo amiúde saboroso; recusa as mistificações masculinas, vê o inverso contingente, absurdo, gratuito do imponente edifício construído pelos homens. Sua dependência proíbe-lhe o desprendimento; mas ela haure, por vezes, da dedicação que lhe é imposta, uma verdadeira generosidade; esquece-se em favor do marido, do amante, do filho, deixa de pensar em si, é toda oferenda, dom. Sendo mal adaptada à sociedade dos homens, e frequentemente obrigada a inventar ela própria suas condutas; pode contentar-se menos com receitas, com clichês; se tem boa vontade, há nela uma inquietação mais próxima da autenticidade do que a segurança importante do esposo.
     Mas ela só terá esses privilégios sobre o homem sob a condição de rechaçar as mistificações que ele lhe propõe. Nas classes superiores, as mulheres fazem-se ardentemente cúmplices de seus senhores porque desejam aproveitar-se dos benefícios que eles lhes asseguram. Vimos que as grandes burguesas, as aristocratas sempre defenderam seus interesses de classe mais obstinadamente ainda do que seus maridos: não hesitam em sacrificar a esses interesses sua autonomia de ser humano; abafam em si todo pensamento, todo juízo crítico, todo impulso espontâneo; repetem como papagaios as opiniões aceitas, confundem-se com o ideal que o código masculino lhes impõe; em seu coração, em seu rosto mesmo, toda sinceridade morre. A dona de casa reencontra uma independência em seu trabalho, no cuidado dos filhos; tira disto uma experiência limitada mas concreta: a que se "serve" não tem mais nenhum domínio sobre o mundo; vive no sonho e na abstração, no vazio. Ela ignora o alcance das ideias que proclama; as palavras que enuncia perderam em sua boca qualquer sentido; o financista, o industrial, até o general, por vezes, assumem fadigas, preocupações, riscos; compram seus privilégios mediante operações injustas, mas pelo menos se expõem; suas mulheres, em troca de tudo o que recebem, não dão nada, não fazem nada; e acreditam com uma fé tanto mais cega em seus direitos imprescritíveis. Sua arrogância vã, sua incapacidade radical, sua ignorância obstinada fazem delas os seres mais inúteis, mais nulos que produziu a espécie humana.
     É pois tão absurdo falar da "mulher" em geral como do "homem" eterno. E compreende-se por que todas as comparações com que se esforçam por decidir se a mulher é superior, inferior ou igual ao homem são inúteis: as situações são profundamente diferentes. Confrontando-se tais situações, faz-se evidente que a do homem é infinitamente preferível, isto é, ele tem muito mais possibilidades concretas de projetar sua liberdade no mundo; disso resulta necessariamente que as realizações masculinas são de longe mais importantes que as das mulheres; a estas é quase proibido fazer alguma coisa. Entretanto, confrontar o uso que em seus limites os homens e as mulheres fazem de sua liberdade é a priori uma tentativa desprovida de sentido, posto que, precisamente, eles a empregam livremente. Sob for mas diversas, as armadilhas da má-fé, as mistificações da seriedade ameaçam-nos a uns como a outros; a liberdade se encontra inteira em cada um. Somente como permanece abstrata e vazia na mulher, esta só poderia assumir-se autenticamente na revolta: é o único caminho aberto aos que não têm a possibilidade de construir o que quer que seja; cumpre-lhes recusar os limites de sua situação e procurar abrir para si os caminhos do futuro; a resignação não passa de uma demissão e de uma fuga; não há, para a mulher, outra saída senão a de trabalhar pela sua libertação.
     Essa libertação só pode ser coletiva e exige, antes de tudo, que se acabe a evolução econômica da condição feminina. Entre tanto, houve, há ainda, numerosas mulheres que buscam solitariamente realizar sua salvação individual. Tentam justificar sua existência no seio de sua imanência, isto é, realizar a transcendência na imanência. É este último esforço — por vezes ridículo, por vezes patético — da mulher encarcerada para converter sua prisão em um céu de glória, sua servidão em liberdade soberana, que encontramos na narcisista, na amorosa, na mística.

continua página 394...
_______________

O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
____________________

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (5)
______________________

As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"


POR QUE LER 'O SEGUNDO SEXO' DE SIMONE DE BEAUVOIR? | Filosofia | Thaís Lima #03