PRIMEIRA PARTE
As Fontes Subterrâneas do Poder
34. O Subsolo também produz Golpes de Estado, Revoluções, Histórias de Espionagens e Aventuras na Floresta Amazônica
No Brasil, as esplêndidas jazidas de ferro do vale do
Paraopeba derrubaram dois presidentes, Jânio Quadros e
João Goulart, antes que o marechal Castelo Branco,
assaltante do poder em 1964, amavelmente as cedesse à
Hanna Mining Co. Outro amigo anterior do embaixador dos
Estados Unidos, o presidente Eurico Dutra (1946-51),
concedera à Bethlehem Steel, alguns anos antes, os 40
milhões de toneladas de manganês do estado do Amapá,
uma das maiores jazidas do mundo, em troca de 4 por cento
para o Estado sobre as rendas da exportação; desde então,
a Bethlehem está empurrando as montanhas para os
Estados Unidos com tanto entusiasmo que se receia que,
em quinze anos, o Brasil fique sem manganês para prover
sua própria siderurgia. Além disso, de cada 100 dólares que
a Bethlehem investe na extração de minerais, 88
correspondem a uma gentileza do governo brasileiro: as
isenções de impostos em nome do “desenvolvimento da
região”. A experiência do ouro perdido em Minas Gerais
“ouro branco, ouro negro, ouro podre”, escreveu o poeta
Manuel andeira –, como se sabe, não serviu para nada: o Brasil continua se desfazendo gratuitamente de suas fontes
naturais de desenvolvimento
[1]. Por sua parte, o ditador
René Barrientos se apoderou da Bolívia em 1964 e, entre
matança e matança de mineiros, outorgou à firma Philips Brothers a concessão da mina Matilde, que contém chumbo,
prata e grandes quantidades de zinco com um teor doze
vezes mais alto do que nas minas norte-americanas. A
empresa foi autorizada a transportar zinco bruto, para
elaborá-lo em suas refinarias no estrangeiro, pagando ao
Estado nada menos do que 1,5 por cento do valor de venda
do
mineral
[2].
No Peru, em 1968, perdeu-se
misteriosamente a página 11 do convênio que o presidente Bellaúnde Terry tinha assinado aos pés de uma filial da
Standard Oil, e o general Velasco Alvarado derrubou o
presidente, tomou as rédeas do país e nacionalizou os poços
e a refinaria da empresa. Na Venezuela, o grande lago de
petróleo da Standard Oil e da Gulf, tem seu lugar a maior
missão militar norte-americana da América Latina. Os
frequentes golpes de Estado na Argentina acontecem antes
e depois de cada licitação petrolífera. O cobre não era de
modo algum alheio à desproporcionada ajuda militar que o
Chile recebia do Pentágono até o triunfo eleitoral das forças
de esquerda encabeçadas por Salvador Allende; as reservas
norte-americanas de cobre tinham caído em mais de 60 por
cento entre 1965 e 1969. Em 1964, em seu gabinete de
Havana, Che Guevara me demonstrou que a Cuba de Batista não era só de açúcar: as grandes jazidas cubanas de
níquel e manganês, na sua opinião, explicavam melhor a
fúria cega do Império contra a revolução. Desde aquela
conversação, as reservas de níquel dos Estados Unidos se
reduziram à terça parte: a empresa norte-americana Nicro
Nickel tinha sido nacionalizada e o presidente Johnson
ameaçava os metalúrgicos franceses com um embargo às
suas exportações para os Estados Unidos se comprassem o
mineral de Cuba.
Os minerais tiveram muito a ver com a queda do
governo do socialista Cheddi Jagan, que em fins de 1964
tinha obtido novamente a maioria de votos naquilo que
então era a Guiana Inglesa. O país que hoje se chama
Guiana é o quarto produtor mundial de bauxita e figura no
terceiro lugar entre os produtores latino-americanos de
manganês. A CIA desempenhou um papel decisivo na
derrota de Jagan. Arnold Zander, o dirigente máximo da
greve que serviu de provocação e pretexto para negar com
trapaças a vitória eleitoral de Jagan, admitiu publicamente
tempos depois que seu sindicato tinha recebido uma chuva
de dólares de uma das fundações da Agência Central de
Inteligência dos Estados Unidos
[3]. O novo regime garantiu
que não correriam perigo os interesses da Aluminium
Company of America na Guiana: já sem sobressaltos, a
empresa poderia continuar levando a bauxita e vendendo-a
para si própria ao mesmo preço de 1938, ainda que desde
então se tivesse multiplicado o preço do alumínio
[4]. O
negócio já não corria perigo. A bauxita do Arkansas vale o
dobro da bauxita da Guiana. Os Estados Unidos dispõem de
muito pouca bauxita em seu território; empregando
matéria-prima alheia e muito barata, produzem quase a
metade do alumínio que é elaborado no mundo.
Para abastecer-se da maior parte dos minerais
estratégicos considerados de valor crítico para seu potencial
de guerra, os Estados Unidos dependem de fontes
estrangeiras. “O motor de retropropulsão, a turbina de gás e
os reatores nucleares têm hoje uma enorme influência sobre
a demanda de materiais que só podem ser obtidos no
exterior”, diz Magdoff neste sentido
[5].
A
imperiosa
necessidade de minerais estratégicos, imprescindíveis para
salvaguardar o poder militar e atômico dos Estados Unidos,
aparece claramente vinculada à compra de terras na
Amazônia brasileira, por meios geralmente fraudulentos. Na
década de 60, numerosas empresas norte-americanas,
conduzidas pela mão de aventureiros e contrabandistas
profissionais, lançaram-se num rush febril sobre essa
floresta gigantesca. Previamente, em virtude de acordo
firmado em 1964, os aviões da Força Aérea dos Estados
Unidos tinham sobrevoado e fotografado toda a região,
empregando cintilômetros para detectar jazidas de minerais
radioativos pela emissão de ondas de luz de intensidade
variável, eletromagnetômetro para radiografar o subsolo
rico em minerais não ferrosos, e magnetômetro para
descobrir e medir o ferro. Os informes e as fotografias
obtidas no levantamento da extensão e da profundidade
das riquezas secretas da Amazônia foram colocados à
disposição de empresas privadas interessadas no assunto,
graças aos bons serviços da Geological Survey do governo
dos Estados Unidos
[6]. Na mesma região foi comprovada a
existência de ouro, prata, diamantes, gipsita, hematita,
magnetita, tântalo, tório, urânio, quartzo, cobre, manganês,
chumbo, sulfato, potássio, bauxita, zinco, zircônio, cromo e
mercúrio. Tão aberto é o céu da selva virgem do Mato
Grosso até as planuras do sul de Goiás que, segundo
delirava a revista Time em sua última edição latino
americana de 1967, pode-se ver ao mesmo tempo o sol
brilhante e meia dúzia de relâmpagos de diferentes
tormentas. O governo ofereceu isenção de impostos e
outras seduções para colonizar os espaços virgens desse
universo mágico e selvagem. Segundo a Time, os
capitalistas estrangeiros, antes de 1967, compraram a sete
centavos o acre uma superfície maior do que a que somam
os territórios de Connecticut, Rhode Island, Delaware,
Massachusetts e New Hampshire. “Devemos manter as
portas bem abertas ao investimento estrangeiro”, dizia o
diretor da agência governamental para o desenvolvimento
da Amazônia, “porque necessitamos mais do que aquilo que
podemos obter.” Para justificar o levantamento
aerofotogramétrico feito pela aviação norte-americana, o
governo declarou antes que carecia de recursos. Na América
Latina é normal: sempre se entregam os recursos em nome
da falta de recursos.
O Congresso brasileiro realizou uma investigação que
culminou num alentado informe sobre o tema
[7].
Enumeram-se nele casos de venda ou usurpação de terras
de 20 milhões de hectares, estendidas de maneira tão
curiosa que, segundo a comissão investigadora, “formam
um cordão para isolar a Amazônia do resto do Brasil”. A
“exploração clandestina de minerais muito valiosos” figura
no informe como um dos principais interesses da ambição
norte-americana de abrir uma nova fronteira dentro do Brasil. O depoimento do gabinete do Ministério do Exército,
incluído no informe, salienta “o interesse do próprio governo
norte-americano em manter sob seu controle uma vasta
extensão de terra para ulterior utilização, seja para a
exploração de minerais, particularmente os radioativos, seja
como base de uma colonização dirigida”. O Conselho de
Segurança Nacional se manifestou: “Causa suspeita o fato
de que as áreas ocupadas, ou em vias de ocupação, por
elementos estrangeiros, coincidam com regiões submetidas
a campanhas de esterilização de mulheres brasileiras por
estrangeiros”. De fato, segundo o jornal Correio da Manhã,
“mais de vinte missões religiosas estrangeiras, sobretudo as
da igreja protestante dos Estados Unidos, estão ocupando a
Amazônia nos pontos mais ricos em minerais radioativos,
ouro e diamantes (...). Difundem em grande escala diversos
contraceptivos, como o dispositivo intrauterino, e ensinam
inglês aos índios catequizados (...). Suas áreas estão
cercadas por elementos armados e nelas ninguém pode
entrar”
[8]. Não é demais lembrar que a Amazônia é a zona
de maior extensão entre todos os desertos do planeta
habitáveis pelo homem. O controle da natalidade foi posto
em prática nesse grandioso espaço vazio para evitar a
concorrência demográfica dos raríssimos brasileiros que, em
remotos rincões da floresta ou das imensas planícies, vivem
e se reproduzem.
O Congresso brasileiro realizou uma investigação que
culminou num alentado informe sobre o tema
[7].
Enumeram-se nele casos de venda ou usurpação de terras
de 20 milhões de hectares, estendidas de maneira tão
curiosa que, segundo a comissão investigadora, “formam
um cordão para isolar a Amazônia do resto do Brasil”. A
“exploração clandestina de minerais muito valiosos” figura
no informe como um dos principais interesses da ambição
norte-americana de abrir uma nova fronteira dentro do Brasil. O depoimento do gabinete do Ministério do Exército,
incluído no informe, salienta “o interesse do próprio governo
norte-americano em manter sob seu controle uma vasta
extensão de terra para ulterior utilização, seja para a
exploração de minerais, particularmente os radioativos, seja
como base de uma colonização dirigida”. O Conselho de
Segurança Nacional se manifestou: “Causa suspeita o fato
de que as áreas ocupadas, ou em vias de ocupação, por
elementos estrangeiros, coincidam com regiões submetidas
a campanhas de esterilização de mulheres brasileiras por
estrangeiros”. De fato, segundo o jornal Correio da Manhã,
“mais de vinte missões religiosas estrangeiras, sobretudo as
da igreja protestante dos Estados Unidos, estão ocupando a
Amazônia nos pontos mais ricos em minerais radioativos,
ouro e diamantes (...). Difundem em grande escala diversos
contraceptivos, como o dispositivo intrauterino, e ensinam
inglês aos índios catequizados (...). Suas áreas estão
cercadas por elementos armados e nelas ninguém pode
entrar”
[8]. Não é demais lembrar que a Amazônia é a zona
de maior extensão entre todos os desertos do planeta
habitáveis pelo homem. O controle da natalidade foi posto
em prática nesse grandioso espaço vazio para evitar a
concorrência demográfica dos raríssimos brasileiros que, em
remotos rincões da floresta ou das imensas planícies, vivem
e se reproduzem.
continua na página 227...
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[1] O governo do México, por sua vez, constatou a tempo que o país, um dos principais exportadores mundiais de enxofre, estava se esvaziando. A Texas Gulf Sulphur Co. e a Pan American Sulfur tinham garantido que as reservas com que contavam suas concessões eram seis vezes mais abundantes do que em realidade o eram, e o governo, em 1965, resolveu limitar as vendas para o exterior.
[2] ALMARAZ PAZ, Sergio. Réquiem para uma república. La Paz, 1969.
[3] JULIEN, op. cit.
[4] Arthur Davis, presidente da Aluminium Co. durante longo tempo, morreu em
1962 e legou 300 milhões de dólares a fundações de caridade, com a expressa
condição de que gastassem os fundos fora do território dos Estados Unidos.
Nem mesmo por esta via a Guiana pôde recuperar sequer uma parcela da
riqueza que a empresa lhe usurpou. RENO, Philip. “Aluminium Profits and
Caribbean People.” Monthly Review. New York, outubro de 1963. E do mesmo
autor: “El drama de la Guayana Británica. Un pueblo desde la esclavitud a la
lucha por el socialismo.” Monthly Review, seleções em castelhano. Buenos Aires,
janeiro-fevereiro de 1965.
[5] MAGDOFF, op. cit.
[6] ALVES, Hermano. “Aerofotogrametria”. Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 8
de junho de 1967
[7] Informe da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a venda de terras
brasileiras a pessoas físicas ou jurídicas estrangeiras. Brasília, 3 de junho de
1968.
[8] Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 30 de junho de 1968.
[9] SCHILLING, Paulo R. Brasil para extranjeros. Montevideo, 1966.
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: O Subsolo também produz Golpes de Estado (2)
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o petróleo da Venezuela... o petróleo no pré-sal do Brasil... os minerais nas terras raras do Brasil... ?