quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Espera de ordens

Elias Canetti

A ORDEM

     Espera de ordens

          O soldado em serviço apenas cumpre ordens. É possível que tenha vontade de fazer isto ou aquilo, mas como é soldado isso não conta. Ele não pode encontrar-se diante de encruzilhadas; e mesmo que se encontrasse não seria ele quem iria decidir qual dos caminhos tomar. Sua vida ativa está restringida por todos os lados. Ele faz o que todos os demais soldados fazem com ele; e faz o que lhe é ordenado. A eliminação de todas as demais ações, que os demais homens executam, livremente (ou assim pensam), o deixa ávido das ações que tem de executar. 
     A sentinela, que permanece imóvel durante horas em seu posto, é o melhor exemplo da constituição psíquica do soldado. Ela não pode se afastar, não pode adormecer, não pode se movimentar, a não ser que lhe tenham sido prescritos certos movimentos, fixados nos menores detalhes. Seu serviço propriamente dito é a resistência a qualquer tentação de abandonar seu posto, seja qual for a forma sob a qual esta tentação possa aparecer. Esse negativismo do soldado, como poderia ser definido, é sua espinha dorsal. Todos os motivos habituais de ação, como os desejos, o temor, a inquietude, que constituem a essência da vida do homem, são reprimidos dentro dele. E ele os combate melhor quando nem sequer chega a confessá-los.
     Todo ato que ele então realmente executa deve estar sancionado por uma ordem. Como é muito difícil para um homem não fazer coisa alguma, acumula-se dentro dele uma grande expectativa pelo que lhe é permitido empreender. O desejo de ação se represa e cresce até atingir proporções desmedidas. Mas, como antes da ação existe uma ordem, a expectativa se volta para esta: o bom soldado está sempre em estado de consciente espera de ordens. Esta espera é ampliada de todas as formas possíveis pela educação; ela se manifesta claramente nas posturas e nas fórmulas militares. O momento vital na existência do soldado é o da posição de atenção diante de seu superior. Num estado de tensão e de receptividade máximas, ele se coloca diante do superior e a fórmula que pronuncia — "Às suas ordens!" — expressa com grande precisão do que se trata.
     A educação do soldado começa no momento em que lhe são proibidas muito mais coisas do que aos demais homens. Para as menores transgressões existem castigos severos. A esfera do proibido, com a qual já está familiarizado desde criança, se amplia até atingir o gigantesco para o soldado. Muros e mais muros são construídos em torno dele; muros que são iluminados para ele, e que dão a impressão de crescer diante dele. Sua altura e severidade se igualam à sua claridade. Constantemente fala-se a respeito desses muros; o soldado não pode alegar desconhecê-los. Começa então a se movimentar como se eles estivessem sempre ao seu redor. O aspecto anguloso do soldado é como um eco, em seu corpo, da dureza e da lisura desses muros; ele adquire algo de uma figura estereométrica. É um prisioneiro que se adaptou aos seus muros; um prisioneiro que está satisfeito; que se defende tão pouco contra a situação em que se encontra quanto os muros que o moldam. Enquanto outros prisioneiros vivem apenas de uma única ideia (como conseguir saltar ou perfurar seus muros), o soldado os aceita como uma nova natureza, como um ambiente natural ao qual se adapta, no qual ele mesmo acaba se transformando.
     Somente quem incorporou dentro de si, desta maneira intensa, a medida plena das proibições, quem através dos afazeres de todos os dias — e isto dia após dia — demonstrou que sabe se esquivar da maneira mais precisa de todas as coisas que são proibidas é que passa realmente a ser soldado. Para ele, a ordem tem um valor superior. É como a saída de uma fortaleza, dentro da qual se tenha permanecido durante tempo demasiado. A ordem o atinge como um raio que o lança contra os muros do que é proibido; como um raio que mata apenas esporadicamente. Neste enorme deserto monótono das coisas proibidas que se estende por todos os lados em torno dele, a ordem acontece como uma redenção: a figura estereométrica se anima e se coloca em movimento ao ouvir a voz de comando.
     Faz parte da formação do soldado que ele aprenda a receber ordens de duas maneiras; sozinho ou na companhia de outros. Os exercícios o habituaram a movimentos que são executados juntamente com os demais; todos devem realizá-los de maneira absolutamente idêntica. Trata-se de uma espécie de precisão que se aprende melhor pela imitação dos demais do que sozinho. Desta forma o indivíduo torna-se igual aos outros; estabelece-se uma igualdade que eventualmente pode ser utilizada para transformar a divisão do exército em massa. Normalmente, porém, deseja-se exatamente o contrário: igualar o mais possível os soldados, sem que eles se transformem em massa.
     Quando estão juntos como unidade, eles reagem a todas as ordens dadas em conjunto. No entanto, deve continuar existindo a possibilidade de separá-los: um, dois, três homens, metade deles, quantos o comandante desejar. O fato de eles marcharem juntos deve ser exterior; a divisibilidade da divisão constitui sua utilidade. A ordem deve sempre poder atingir o número que se quiser: um, vinte ou a divisão inteira. Sua eficiência não pode depender da quantidade dos que são atingidos. É a mesma ordem, pouco importando que seja apenas um quem a recebe ou todos. Esta natureza invariável da ordem é da maior importância: ela a subtrai de todas as influências da massa.
     A pessoa que deve dar ordens num exército deve poder manter-se livre de toda e qualquer massa — fora dele, dentro ele. Ela aprendeu isso tendo sido educada para esperar ordens.

continua na página 176...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

MPB: Jorge Maravilha

Julinho da Adelaide


A partir da gravação de Apesar de Você, interpretada pelas autoridades da ditatura militar como uma ofensa a Armando Falcão, Ministro da Justiça do Brasil durante o governo Ernesto Geisel (1974-1979), os censores do Serviço de Censura de Diversões Públicas tornaram-se bastante rígidos com o compositor. Todas as letras assinadas por Buarque recebiam o carimbo interditada. Para escapar das limitações, especialmente após as proibições impostas a peça Calabar, Chico Buarque criou o heterônimo Julinho da Adelaide. A estratégia funcionou, e músicas como Acorda amor, Milagre brasileiro e Jorge Maravilha escaparam da censura.






Tem nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Ela gosta do tango, do dengo
Do mengo, domingo e de cosca
Ela pega e me bisca, belisca, petisca
Me arrisca e me enrosca

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Tem nada como um dia após o outro dia
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Ela gosta do tango, do dengo
Do mengo, domingo e de cosca
Ela pega e me bisca, belisca, petisca
Me arrisca e me enrosca

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta


Jorge Maravilha - A história por trás da música.





Apesar de você - Chico Buarque e MPB4





Acorda amor - Julinho da Adelaide





É o Milagre brasileiro quanto mais trabalho menos vejo o dinheiro...



Calabar - Chico Buarque





Você já leu peça de teatro em livro?
Calabar - Chico Buarque e Ruy Guerra





Novos Baianos | Jorge maravilha

Com direito ao Paulinho Boca de Cantor tirando um sarro da 
censura na ditadura cívico-militar de 64!




Um dia de domingo / Se eu quiser falar com Deus / Jorge Maravilha /      

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Poço e o Pêndulo (a)

Edgar Allan Poe - Contos


O Poço e o Pêndulo 

Aqui por muito tempo os impiedosos torturadores nutriram 
o insaciável furor da turba pelo sangue dos inocentes. 
Agora que a pátria está a salvo, e o antro fúnebre foi destruído, 
onde antes havia morte surgem vida e bem-estar.
(Quadra composta para os portões de um mercado a ser erguido 
no local onde ficava o Clube dos Jacobinos, em Paris.)

     Eu estava esgotado — mortalmente esgotado por aquela longa agonia; e quando enfim me desataram, e foi-me dada a permissão de sentar, percebi que os sentidos me faltavam. A sentença — a pavorosa sentença de morte — foi a última de distinta articulação a chegar aos meus ouvidos. Depois disso, o som das vozes inquisitoriais pareceu fundir-se em um único murmúrio vago e onírico. Ele transmitia à alma a ideia de rotação — talvez por associar-se em minha imaginação ao rumor de uma roda de moinho. Isso por um curto período, apenas; pois em breve nada mais ouvi. E contudo, por um tempo, eu vi; mas com que terrível exagero! Vi os lábios dos juízes em seus mantos negros. Pareceram-me brancos — mais brancos que a folha em que traço estas palavras — e finos ao ponto mesmo do grotesco; finos com a intensidade de suas expressões de intransigência — de inamovível determinação — de austero desprezo pelo suplício humano. Vi que os decretos do que para mim era o Destino ainda saíam por aqueles lábios. Vi que se contorciam em mortal elocução. Vi que formavam as sílabas do meu nome; e estremeci, pois som nenhum adveio. Vi também, por alguns momentos de horror delirante, a suave e quase imperceptível ondulação dos reposteiros cor de sable que revestiam as paredes da sala. E então meu olhar recaiu sobre as sete velas altas em cima da mesa. No início, exibiam o aspecto da caridade, e pareciam esguios anjos brancos que me salvariam; mas então, de repente, a náusea mais mortífera tomou conta de meu espírito, e senti cada fibra do corpo vibrar como se eu houvesse tocado o io de uma pilha galvânica, enquanto as formas angelicais tornavam-se espectros sem sentido, com cabeças de fogo, e vi que dali nenhum conforto adviria. E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo. O pensamento se insinuou vagaroso e furtivo, e pareceu transcorrer longo tempo antes que atingisse a plena apreciação; mas no exato momento em que meu espírito enfim o sentiu e o acolheu propriamente, as figuras dos juízes desvaneceram, como que por mágica, diante de meus olhos; as longas velas mergulharam no vazio; suas chamas se extinguiram por completo; o negror das trevas sobreveio; todas as sensações pareceram tragadas num assalto violento e furioso como o da alma pelo Hades. Então o universo se tornou silêncio, imobilidade e noite.
     Desmaiara; mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo — não! No delírio — não! Em um desmaio — não! Na morte — não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia), não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloquentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é — o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba? Mas e se as impressões do que denominei como primeiro estágio não são, voluntariamente, recordadas, acaso, após um longo intervalo, elas não voltam mesmo sem ser convidadas, enquanto imaginamos admirados de onde podem ter surgido? Aquele que jamais desfaleceu, não é ele que encontra palácios estranhos e rostos perturbadoramente familiares nas brasas incandescentes; não é ele que contempla, flutuando em pleno ar, as tristes visões que à maioria são vedadas; não é ele que pondera sobre o perfume de alguma flor incomum — não é ele cujo cérebro fica mais e mais atônito com o significado de alguma cadência musical que nunca antes prendeu sua atenção.
     Em meio aos frequentes e diligentes esforços por lembrar; em meio às obstinadas lutas para recuperar alguma recordação do estado de aparente inexistência em que minha alma mergulhara, houve momentos em que sonhei com o êxito; houve períodos breves, muito breves, em que conjurei lembranças que, segundo me assegura a razão lúcida de uma época posterior, poderiam referir-se apenas àquela condição de aparente inconsciência. Essas sombras de memória evocam, vagamente, figuras altas que me ergueram e me carregaram em silêncio, descendo — descendo — descendo mais —, até que uma medonha vertigem me oprimiu ante a mera ideia da natureza interminável da descida. Evocam também um vago horror em meu coração, por conta da anormal tranquilidade desse mesmo coração. Então segue-se uma sensação de súbita imobilidade de todas as coisas; como se aqueles que me carregavam (um cortejo espectral!) houvessem ultrapassado, em sua descida, os limites do ilimitado, e parado com a exaustão do esforço hercúleo. Depois disso vêm-me à mente horizontalidade e umidade; e então tudo é insanidade — a insanidade de uma lembrança se insinua em meio a coisas proibidas.
     Muito subitamente regressaram-me à alma movimento e som — o tumultuoso movimento do coração e, aos meus ouvidos, o som de seu batimento. Então uma pausa em que tudo é vácuo. Então outra vez som, e movimento, e tato — uma sensação de formigamento permeando meu corpo. Então a mera consciência da existência, sem pensamento — condição que durou longamente. Então, muito subitamente, pensamento, e trêmulo terror, e obstinado esforço de compreender meu verdadeiro estado. Então um forte desejo de mergulhar na insensibilidade. Então uma violenta reanimação da alma e um vitorioso esforço de me mover. E depois a completa lembrança do julgamento, dos juízes, dos negros reposteiros, da sentença, do esgotamento, do desfalecimento. Então o total esquecimento de tudo que se seguiu; de tudo que um dia posterior e grande obstinação de esforço possibilitaram-me vagamente recordar.
     Até esse momento, eu não abrira os olhos. Senti que jazia de costas, desatado. Estiquei a mão, e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa úmida e dura. Deixei-me aí ficar por vários minutos, enquanto me empenhava em imaginar onde e no que podia estar. Ansiava, e contudo não ousava, empregar a visão. Aterrorizava-me o impacto inicial dos objetos em torno de mim. Não que eu temesse ver coisas horríveis, mas fui invadido por um crescente pavor de não haver nada para ver. Finalmente, com descontrolado desespero no coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. O negror da noite eterna me engolfava. Lutei para respirar. A intensidade das trevas parecia me oprimir e sufocar. A atmosfera era intoleravelmente opressiva. Continuei deitado, imóvel, e esforcei-me por exercitar a razão. Evoquei em minha mente o processo inquisitorial, e tentei a partir desse ponto inferir minha real condição. A sentença fora proferida; e a mim me pareceu que um intervalo muito longo de tempo transcorrera desde então. Contudo, nem sequer por um momento supus que estivesse morto de fato. Tal suposição, não obstante o que lemos na ficção, é completamente inconsistente com a existência real; — mas onde e em que estado eu me encontrava? Os condenados à morte, eu sabia, eram normalmente executados nos autos de fé, e um desses fora realizado na exata noite de meu julgamento. Estaria eu sendo mantido sob custódia em meu calabouço, a fim de aguardar o sacrifício seguinte, que não teria lugar senão dali a muitos meses? Percebi na mesma hora que tal não podia ser. As vítimas haviam sido reclamadas de imediato. Além do mais, meu calabouço, assim como as celas de todos os condenados em Toledo, tinha piso de pedra, e a luz não era completamente excluída.
     Uma assustadora ideia agora de repente fez o sangue fluir incontrolavelmente em meu coração e, por um breve período, mais uma vez recaí na insensibilidade. Assim que me recuperei, fiquei de pé na mesma hora, tremendo convulsivamente em cada fibra. Agitei os braços freneticamente acima e em torno de mim, em todas as direções. Nada senti; contudo, hesitava em dar um passo, com receio de ser bloqueado pelas paredes de uma tumba. O suor brotava de cada poro, e formava grossas gotas em minha fronte. A agonia do suspense cresceu até se tornar intolerável e cuidadosamente me movi para a frente, com os braços estendidos, e meus olhos esforçando-se em suas órbitas, na esperança de captar algum débil raio de luz. Avancei vários passos; mas o negror e o vazio continuaram. Respirei mais facilmente. Parecia evidente que o meu não era, ao menos, o mais hediondo dos destinos.
     E então, conforme continuava a andar cautelosamente adiante, invadiu me a memória, num tropel, uma infinidade de vagos rumores sobre os horrores de Toledo. Daqueles calabouços estranhas coisas se contavam — fábulas, eu sempre as reputara —, porém por demais estranhas, e por demais macabras, para serem repetidas, salvo num sussurro. Teria sido eu deixado para morrer de fome nesse mundo subterrâneo de trevas; ou que destino, talvez ainda mais assustador, me aguardava? Que o resultado seria a morte, e morte de uma pungência mais do que costumeira, eu conhecia bem demais o caráter de meus juízes para duvidar. O modo e o momento eram tudo que me ocupava ou distraía.
     Minhas mãos estendidas enfim encontraram alguma obstrução sólida. Era uma parede, em alvenaria de pedra, aparentemente — muito lisa, musgosa e fria. Acompanhei sua superfície; pisando com toda a cuidadosa desconfiança que determinados relatos antigos haviam me inspirado. Esse processo, entretanto, não me possibilitou meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; uma vez que podia completar seu circuito, e regressar ao ponto onde começara, sem dar-me conta do fato; tão perfeitamente uniforme parecia a parede. Procurei desse modo a faca que havia em meu bolso, quando levado à câmara inquisitorial; mas ela se fora; minhas roupas haviam sido trocadas por um camisolão de sarja grosseira. Meu pensamento fora forçar a lâmina em alguma minúscula fenda da alvenaria, de modo a identificar o ponto de partida. A dificuldade, todavia, era apenas trivial; muito embora, na desordem de minha imaginação, parecesse em princípio insuperável. Rasguei um pedaço da bainha em meu robe e dispus a tira de comprido, em ângulo reto com a parede. Ao tatear meu caminho em torno da prisão, não teria como deixar de encontrar o trapo quando completasse o circuito. Assim, ao menos, raciocinei: mas eu não contara com a extensão do calabouço, ou com minha própria debilidade. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleei para a frente por algum tempo, até pisar em falso e cair. Minha fadiga excessiva induziu-me a permanecer prostrado; e ali deitado o sono em breve se apossou de mim.
     Ao despertar, e esticando um braço, encontrei ao meu lado um pão e uma jarra com água. Estava exausto demais para refletir sobre essa circunstância, mas comi e bebi com avidez. Pouco depois, retomei meu reconhecimento do circuito da prisão, e com grande labor, cheguei enfim ao pedaço de sarja. Até o momento de minha queda, eu contara cinquenta e dois passos, e, após retomar minha caminhada, contara quarenta e oito mais — quando cheguei ao pedaço de pano. Havia ao todo, desse modo, cem passos; e, considerando cada dois passos como um metro, inferi que o calabouço tinha um perímetro de cem metros. Eu havia topado, entretanto, com muitos ângulos na parede, e assim não podia formar suposição alguma sobre o formato da cripta; pois uma cripta era o que eu não podia deixar de supor que fosse.
     Eu tinha pouco propósito — certamente nenhuma esperança — nessas investigações; mas uma vaga curiosidade impeliu-me a continuá-las. Deixando por ora a parede, decidi cruzar a área de meu cárcere. No início, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente de material sólido, era traiçoeiro devido ao musgo. Finalmente, entretanto, tomei coragem, e não hesitei em pisar com firmeza — empenhando-me em atravessar numa linha a mais reta possível. Avançara dez ou doze passos dessa maneira quando o que restava da bainha rasgada em meu robe enroscou-se entre minhas pernas. Pisei nela e caí violentamente de bruços.
     Na confusão, preocupando-me com minha queda, não me dei conta imediatamente de uma circunstância um tanto alarmante, que contudo, poucos segundos depois, e enquanto eu ainda jazia prostrado, prendeu minha atenção. Foi o seguinte: meu queixo estava pousado no chão da prisão, mas meus lábios, e a parte superior de minha cabeça, embora aparentemente com uma elevação inferior à do queixo, não tocavam coisa alguma. Ao mesmo tempo, minha testa parecia banhada em um vapor viscoso, e o odor peculiar de fungo em decomposição subia às minhas narinas. Estiquei o braço, e estremeci ao descobrir que caíra bem na beirada de um poço circular, cuja extensão, é claro, eu não tinha meios de averiguar no momento. Tateando a alvenaria logo abaixo da extremidade, consegui deslocar um pequeno fragmento, e deixei que caísse no abismo. Por vários segundos, estiquei os ouvidos para suas reverberações conforme colidia contra as laterais da garganta em sua queda: finalmente, sobreveio um lúgubre mergulho na água, seguido de ecos elevados. No mesmo instante, escutei um ruído similar ao de uma porta no alto sendo rapidamente aberta, e prontamente fechada, enquanto um tênue raio de luz tremeluziu subitamente através da escuridão, e subitamente sumiu.
     Enxerguei claramente a sina que me havia sido preparada e dei graças em silêncio pelo oportuno acidente que me possibilitara dela escapar. Mais um passo antes de minha queda, e o mundo não mais me veria. E a morte que acabara de evitar era exatamente o que eu costumava encarar como a típica história fantasiosa e pitoresca relativa à Inquisição. Às vítimas de sua tirania cabia a escolha da morte com suas mais desesperadoras agonias ou da morte com seus mais hediondos horrores morais. A mim fora reservada esta última. O longo sofrimento abalara meus nervos, a ponto de eu estremecer ao som de minha própria voz e me tornar em todos os aspectos uma vítima sob medida para as variedades de tortura que me aguardavam.
     Tremendo em cada membro do corpo, tateei meu caminho de volta à parede — determinado a aí perecer, em lugar de me arriscar aos terrores dos poços cuja existência eu agora imaginava haver em variados pontos espalhados pelo calabouço. Em outras condições de espírito, talvez tivesse a coragem de dar cabo de minha miséria na mesma hora, mergulhando num daqueles abismos; mas nesse momento eu era o mais rematado dos covardes. E tampouco esquecia o que havia lido a respeito desses poços — que a extinção súbita da vida não fazia parte de seu mais horrendo desígnio.
     A agitação de espírito manteve-me acordado por muitas horas intermináveis; mas finalmente voltei a adormecer. Ao despertar, descobri ao meu lado, como antes, um pão e uma jarra de água. Uma sede excruciante me consumia, e esvaziei o recipiente de um só trago. Devia haver alguma droga ali — pois, mal terminei de beber, senti um torpor irresistível. Um sono profundo se apossou de mim — um sono que era como a morte. Quanto tempo durou é algo que decerto não sei dizer; mas quando, mais uma vez, abri os olhos, os objetos em torno de mim estavam visíveis. Por meio de uma fulguração difusa e sulfurosa, cuja origem não pude inicialmente determinar, fui capaz de ver a extensão e o aspecto da prisão.
     Quanto ao tamanho eu me equivocara redondamente. O perímetro completo de suas paredes não excedia os vinte e cinco metros. Por alguns minutos, o fato ocasionou-me um mundo de vãs preocupações; vãs, de fato — pois o que podia ser menos importante, nas terríveis circunstâncias em que me encontrava, do que as meras dimensões de meu calabouço? Mas minha alma assumiu um descontrolado interesse em banalidades e concentrei-me diligentemente em esclarecer o erro que havia cometido ao fazer minhas medições. A verdade enfim se me afigurou. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinquenta e dois passos até o momento da queda: eu devia ali estar a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, eu praticamente completara o perímetro da cripta. E então adormeci — e, ao acordar, devo ter refeito meus passos —, pressupondo assim o perímetro como tendo quase o dobro do que de fato tinha. Minha confusão mental impediu-me de observar que iniciei o percurso tendo a parede à esquerda, e que o terminei com a parede à minha direita.
     Eu havia sido iludido, também, com respeito à forma do cárcere. Tateando meu caminho, topara com diversos ângulos, e assim inferi uma ideia de grande irregularidade; tão poderoso é o efeito da escuridão absoluta ao despertarmos da letargia ou do sono! Os ângulos nada mais eram que umas poucas depressões ligeiras, ou nichos, a intervalos variáveis. O formato geral da prisão era quadrado. O que eu tomara por alvenaria parecia agora ser ferro, ou algum outro metal, em imensas placas, cujas suturas ou junções ocasionavam a depressão. A superfície inteira do recinto de metal estava grosseiramente pintada com todas essas lucubrações hediondas e repulsivas às quais a sepulcral superstição dos monges havia dado origem. Figuras diabólicas em posturas ameaçadoras, com formas esqueléticas e outras imagens de fato ainda mais assustadoras, espalhavam-se e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos das monstruosidades eram suficientemente distintos, mas que as cores pareciam esmaecidas e borradas, como que por efeito da umidade da atmosfera. Eu agora notava também o chão, que era de pedra. No centro esbeiçava-se o poço circular de cujas mandíbulas eu escapara; mas era o único no calabouço.

continua página 49...
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William Wilson (a) / William Wilson (b) / William Wilson (c) / O Poço e o Pêndulo (a) /                 
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Moby Dick: 72 - A corda de macaco

Moby Dick

Herman Melville

72 - A corda de macaco

     No trabalho tumultuado de cortar e de cuidar da baleia, há muita correria de lá para cá em meio à tripulação. Ora os marinheiros são necessários em um lugar, ora são chamados em outro lugar. Ninguém para em lugar algum; pois tudo tem de ser feito ao mesmo tempo e em toda parte. Acontece o mesmo com quem pretende descrever a cena. É preciso que voltemos um pouco. Foi mencionado que antes de começar a cortar o dorso da baleia se coloca um gancho no buraco original feito pelas pás dos imediatos. Mas como se pode fixar o gancho no buraco de um volume tão desajeitado e pesado? Ele foi colocado ali pelo meu dileto amigo Queequeg, cujo dever, como arpoador, era subir no dorso do monstro com o referido propósito. Mas em muitos casos as circunstâncias exigem que o arpoador permaneça na baleia até que a operação de despelar e de esfolar termine. A baleia, bom que se observe, está quase inteiramente submersa, salvo as partes nas quais se está trabalhando. Ali, portanto, a dez pés abaixo do nível do convés, o pobre arpoador mal se sustenta, parte sobre a baleia e parte na água, enquanto a enorme massa se revolve como um moinho abaixo dele. Nessa presente ocasião, Queequeg vestia roupas da Highland – uma saia e meias– nas quais aos meus olhos, pelo menos, parecia insolitamente elegante; e ninguém teve oportunidade melhor de observá-lo, como se verá em seguida.
     Sendo o proeiro do selvagem, ou seja, o sujeito que manobrava o remo de proa em seu bote (o segundo da frente para trás), era meu prazeroso dever ajudá-lo em sua difícil escalada sobre o dorso da baleia morta. Você já viu meninos italianos tocadores de realejo segurando um macaquinho com um cordão comprido. Do mesmo jeito, do costado íngreme do navio, segurei Queequeg lá embaixo no mar, por meio do que, na pescaria, é tecnicamente chamado de corda de macaco, presa a um cinto de lona forte amarrado ao redor de sua cintura.
     Era uma tarefa engraçada e perigosa para nós dois. Pois, antes de prosseguir, é preciso dizer que a corda de macaco estava presa às duas extremidades; presa ao cinto largo de lona de Queequeg e presa ao meu cinto estreito de couro. De modo que, para o bem ou para o mal, nós dois, naquele momento, estávamos unidos; e caso o coitado do Queequeg afundasse para não voltar mais, tanto o costume quanto a honra exigiam que, em vez de cortar a corda, ela deveria me arrastar junto a ele. Assim, portanto, uma alongada ligadura Siamesa nos unia. Queequeg era meu inseparável irmão gêmeo; nem podia eu, de forma alguma, livrar-me das perigosas responsabilidades que o liame de cânhamo envolvia.
     De modo tão intenso e metafísico eu compreendia minha situação que, enquanto vigiava diligentemente seus movimentos, parecia perceber com clareza que minha própria individualidade havia se fundido com outra numa sociedade conjunta de ações: que meu livre-arbítrio recebera um golpe mortal; e que o erro ou azar do outro poderia me dragar, um inocente como eu, para um desastre ou morte imerecida. Consequentemente, vi que aquilo era uma espécie de interregno da Providência; pois sua justiça sempre presente jamais poderia ter sancionado uma injustiça tão flagrante. E seguindo adiante em meus pensamentos – enquanto às vezes o puxava de entre a baleia e o navio, que ameaçava esmagá-lo –, repito, seguindo adiante em meus pensamentos, percebi que essa minha situação era rigorosamente igual à de todo mortal que respira; apenas, na maioria dos casos, de um modo ou de outro ele tem essa ligação Siamesa com vários outros mortais. Se seu banqueiro falir, você quebra; se seu boticário por engano colocar veneno em suas pílulas, você morre. Claro, você pode achar que, com extremo cuidado, possivelmente se escapa dessas e de uma infinidade de outras fatalidades da vida. Mas, mesmo lidando tão cuidadosamente com a corda de macaco de Queequeg quanto possível, às vezes ele lhe dava trancos tão fortes que fiquei muito perto de cair para fora do barco. Tampouco podia esquecer que, fizesse o que fosse, eu tinha apenas o controle de uma das suas pontas.¹

[1] Todos os navios baleeiros têm cordas de macacos, mas apenas no Pequod o macaco e seu auxiliar ficavam amarrados dessa forma. O aperfeiçoamento do costume original foi feito por ninguém menos do que Stubb, para proporcionar ao arpoador em perigo uma garantia quanto à fidelidade e à vigilância de seu auxiliar com a corda. [N. A.]

     Antes dei a entender que tinha de puxar com frequência o coitado do Queequeg de entre a baleia e o navio – onde vez por outra caía por conta do incessante balançar e rolar de ambos. Mas esse não era o único risco de ser esmagado a que estava exposto. Em nada amedrontados pelo massacre perpetrado à noite, os tubarões, refeitos em suas forças e ainda mais atraídos pelo sangue outrora encerrado que começava a fluir da carcaça as furiosas criaturas se aglomeravam em torno da carcaça como abelhas em torno da colmeia.
     E bem no centro desses tubarões estava Queequeg; que muitas vezes tentava afastá-los batendo com seus pés instáveis. Uma coisa incrível é que, se não atraído por uma presa como uma baleia morta, o de outro modo ecumenicamente carnívoro tubarão raras vezes ataca o homem.
     Não obstante, pode-se bem acreditar que, uma vez que tivessem se posto ali com tanta voracidade, seria prudente ficar bem atento a eles. Portanto, além da corda de macaco, com a qual vez por outra eu puxava o pobre coitado para afastá-lo das imediações de uma goela que pudesse pertencer a um tubarão especialmente feroz – ele ainda dispunha de outra proteção. Suspensos junto ao costado numa das plataformas, Tashtego e Daggoo brandiam sem parar duas afiadas pás de baleia sobre sua cabeça, com as quais abatiam tantos tubarões quantos pudessem alcançar. Era certo que tal gesto viesse da benevolência e da abnegação desses homens. Eles queriam o bem de Queequeg, tenho de concordar; mas em sua ânsia precipitada de ajudá-lo, e porque Queequeg e os tubarões, por vezes, ficavam às vezes meio escondidos na água turvada de sangue, aquelas suas pás imprudentes pareciam mais propensas a amputar uma perna do que uma cauda. Mas ao coitado do Queequeg, imagino eu, arfando e entregando toda sua força àquele gancho de ferro imenso – ao coitado do Queequeg, imagino eu, só lhe restou rezar para seu Yojo e entregar a própria vida às mãos de seus deuses.
     Bem, bem, meu dileto amigo e irmão gêmeo, pensei eu, enquanto trazia e então lentamente soltava a corda a cada onda do mar – o que importa, afinal de contas? Você não é a preciosa imagem de todos nós, homens, nesse mundo baleeiro? O oceano insondável no qual você está ofegante é a Vida; aqueles tubarões, seus inimigos; aquelas pás, seus amigos; e entre tubarões e pás você está em aperto e apuro, meu pobre rapaz.
     Mas, coragem! Um estoque de alegria ainda te aguarda, Queequeg. Pois quando, de lábios azuis e olhos vermelhos de sangue, o exausto selvagem por fim subiu pelas correntes, ele inteiro pingando e tremendo sobre o costado; o camareiro avança, e com um olhar benevolente e consolador lhe oferece – O quê? Um conhaque quente? Não! Ó, deuses, não! Ele lhe oferece uma xícara de gengibre quente com água!

“Gengibre? É cheiro de gengibre?”, perguntou Stubb, desconfiado, aproximando-se. “Sim, deve ser gengibre”, espiando a ainda intocada xícara. Depois, parado por uns instantes como se não acreditasse, seguiu calmamente na direção do camareiro estupefato dizendo-lhe pausadamente: “Gengibre? Gengibre? Quer ter a bondade de me explicar, senhor Dough-Boy, de que serve o gengibre? Gengibre! Seria o gengibre uma espécie de combustível que se usa, Dough-Boy, para acender o fogo desse canibal trêmulo? Gengibre! – Que diabos vem a ser o gengibre? Carvão do mar? – Lenha? – Fósforos de Lúcifer? – Isca? – Pólvora? – O que vem a ser esse gengibre, repito, que você oferece a este nosso coitado Queequeg?”.
“Há um movimento dissimulado da Sociedade da Abstinência nisso”, acrescentou de repente, aproximando-se de Starbuck, que acabava de chegar da proa. “O senhor poderia dar uma olhada nesta kannakin; por favor, sinta o cheiro.” Depois, observando a expressão do oficial, acrescentou: “Senhor Starbuck, o camareiro teve o desplante de oferecer calomelano com jalapa ao Queequeg, aqui, neste instante saído da baleia. Seria o camareiro um boticário, senhor? Posso saber se isso é um tipo de fole com o qual espera trazer de volta a respiração de um homem que quase se afogou?
“Não creio que seja”, disse Starbuck, “é muito pouca coisa.”
“Sim, sim, camareiro”, gritou Stubb, “vamos lhe ensinar como medicar um arpoador; nada desses seus remédios de boticário aqui; queres nos envenenar, não é? Tens apólices de seguro sobre nossas vidas e quer nos assassinar a todos para embolsar a grana, não é?”
“Não fui eu!”, gritou Dough-Boy, “Foi a tia Charity que trouxe o gengibre a bordo; e ordenou-me que nunca desse álcool aos arpoadores, apenas um trago de gengibre – como ela mesma disse.”
“Trago de gengibre! Seu tratante de gengibre! Toma isto! Corre para os armários e me traz algo melhor. Espero não estar errado, senhor Starbuck. São ordens do capitão – grog para o arpoador que vier da baleia.”
“Basta”, respondeu Starbuck, “não batas nele outra vez, senão –”
“Oras, eu nunca machuco quando bato, a não ser que seja uma baleia ou algo parecido; esse sujeito é uma fuinha. O que o senhor dizia?”
“Apenas isto: desce com ele e pega o que tu queres.”

     Quando Stubb voltou, veio com um frasco escuro numa mão, e uma espécie de caixa de chá na outra. O primeiro continha uma bebida forte e foi entregue a Queequeg; a segunda era o presente de tia Charity, que foi oferecido gratuitamente às ondas.

continua na página 351...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 70 - A esfinge / 71 - A história de Jerobão / 72 - A corda de macaco /                                
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

Tchekhov - A dama do cachorrinho (IV)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

IV

     Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo. Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo tempo. Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.
     Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera, ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado, pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho. Caía uma neve graúda, molhada.

- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai neve - dizia Gurov à filha. - Mas este calor existe somente na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera há uma temperatura bem inferior.
- Papai, e por que não há trovões no inverno?

     Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os que o queriam, repassada de verdade e de mentiras convencionais, completamente semelhante às vidas de seus conhecidos e amigos, e outra que decorria em segredo. E por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior", a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso era aparente. E julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o manto da noite, a sua vida autêntica e mais interessante. Cada existência individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver respeitado o mistério individual.
     Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida, olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como se não se tivessem visto uns dois anos.

- Bem, como vai a tua vida lá?- perguntou ele. Que há de novo?
- Espere, vou dizer daqui :a pouco... Não posso.

     Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça e apertou o lenço contra os olhos.
     
"Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.

     Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões! Não estava destruída a vida de ambos?

- Ora, basta!- disse Gurov.

     Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.
     Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele momento, viu-se no espelho.
     A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor.
     E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez na vida.
     Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos. Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e era incompreensível por que ele estava casado e ela também. Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele amor os transformara.
     Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...

- Basta, minha boa, menina. - dizia ele - Chorou e chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma ideia.
- Corno? Como?- perguntava ela, pondo as mãos à cabeça. - Como?

     Tinham a impressão de que mais um pouco encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.

(1899)
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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV).     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".