quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Tratado Geral sobre a Fofoca II

José Angelo Gaiarsa


     Gaiarsa, José Angelo, 1920 - 2010
     Tratado geral sobre a fofoca : uma análise da desconfiança humana / José Angelo Gaiarsa. - 15. ed. - São Paulo : Ágora, 2015


TODOS NOS SENTIMOS VÍTIMAS DA FOFOCA - quando ela chega a nós.


Mas ninguém se sente agente da fofoca. Estranho, não? 
É que fofoca MESMO SÓ ELE faz.
- Eu?
- NUNCA?


Gaiarsa: Respiração E Angústia (1)
"Como é que eu vou me impedir de me sufocar?" J.A. Gaiarsa





"A notícia ao passar de pessoa a pessoa, vai sofrendo alterações e/ou acréscimos, que a modificam.
  Mais importante, porém do que essa modificação na notícia é a INTERPRETAÇÃO que o fofoqueiro faz das ações ou dos ditos de sua vítima. Os tratados não dão ênfase suficiente a esse fato, limitando-se ao primeiro." J.A. Gaiarsa

"Importante é a interpretação, é o atribuir das piores intenções possíveis às ações e aos ditos do fofocado. Este, porém, e por sua vez, ao praticar ou dizer o que fez ou disse, sentia-se sempre movido dos mais límpidos e dignos propósitos." J.A. Gaiarsa

COMO É AMARGA A INCOMPREENSÃO HUMANA!

"Sempre podemos saber, pelo jeito, que uma pessoa está fazendo fofoca.
  Em matéria de fofoca,
 A FORMA É A MENSAGEM!
O elemento visual da fofoca vai além. Com frequência, o olhar desdenhoso, o muxoxo de desprezo, o gesto de pouco-caso das mãos ou o modo de olhar de cima para baixo são toda a fofoca. Dizem do outro e ao outro: 'Coitado!' ou 'Filho da p.'." J.A. Gaiarsa

***


"TODOS OS FOFOQUEIROS SÃO POLICIAIS DO STATUS QUO." J.A. Gaiarsa


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sobre a fofoca / angustia e respiração / 

Curta: Diferente

Como você é diferente?

Curta-metragem premiada de Tahneek Rahman

"Uma garota encontra um garoto, mas nenhum dos dois sabe das diferenças um do outro."

lembrando: caso as legendas não apareçam automaticamente 
clique nas configurações e ative as legendas... ou não! 





Roteirista/Diretora: 
Tahneek Rahman /  / tahneekrahman  
Derian Persand

Elenco:
Kassidy Charles / Emily
Joseph Omar / Sam
Camilo Gonzales / Assistente com cadeira de rodas


* Vencedor dos prêmios "Melhor da Mostra" e "Escolha do Público" no Reel Short Teen Film Festival em Orlando, Flórida, no Enzian Theater (4 de março de 2017).
* Selecionado oficialmente para o All American High School Film Festival em Nova York (30 de julho de 2017).
* Selecionado oficialmente para a 26ª edição anual do Brouhaha Film & Video Showcase (27 de outubro de 2017).
* Inscrito na Tisch School of the Arts da Universidade de Nova York, no Pratt Institute, no Ringling College of Art & Design e na School of Visual Arts & Design da Universidade da Flórida Central.


Pentecost / O Xadrez das CoresDiferente /     

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Assaltou-me o temor)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Assaltou-me o temor de haver falado sem simpatia, diante de Robert, dessa jovem falsamente original, cujo espírito era tão medíocre quanto violento o caráter. Há quase uma só notícia que venhamos a saber que nos faça lastimar uma de nossas frases. Respondi à Sra. de Cambremer que não sabia de nada; que aliás era verdade, e que além disso a noiva me parecia ainda muito jovem. 

- Talvez por causa disso é que o noivado ainda não seja oficial; em todo caso, falam muito nisso. -

     Tendo ouvido que a Sra. de Cambremer me falar de Morel e julgando que ainda o fazia quando baixou a voz para me falar do noivado de Saint-Loup, disse-lhe secamente a Sra. Verdurin: 

- Quero preveni-la; não é música sem valor o que aqui se toca. A senhora sabe, em arte os fiéis das minhas quartas, meus filhos, como lhes chamo, é uma coisa espantosa como são avançados - ajuntou ela com ar de orgulhoso terror. - Muitas vezes lhe digo: "Meu pessoalzinho, vocês andam mais depressa do que aqui a sua Patroa, a quem, no entanto, passam as audácias por nunca terem causado medo." Todos os anos isso vai um pouco mais longe; virá em breve o dia em que ultrapassarão Wagner e d'Indy. 
- Mas é muito bom ser avançado, nunca se é o bastante - disse a Sra. de Cambremer, sempre inspecionando cada canto da sala de jantar, procurando reconhecer as coisas que a sogra havia deixado, as que a Sra. Verdurin trouxera, e apanhar esta em flagrante delito de falta de gosto. No entanto, buscava falar-me do assunto que mais a interessava: o Sr. de Charlus. Achava tocante que o barão protegesse um violinista. - Ele parece inteligente. É até de uma verve extrema para quem já é um tanto idoso. 
- Idoso? Mas ele não tem jeito de idoso; olhe, o cabelo ainda é de moço. (Pois fazia uns três ou quatro anos que a palavra "cabelo" fora empregada no singular por um desses desconhecidos que são os lançadores de modas literárias, e todas as pessoas que tinham o comprimento de raio da Sra. de Cambremer diziam "o cabelo", não sem um sorriso afetado. Atualmente, ainda se diz "o cabelo", mas do excesso do singular renascerá o plural.) 
- O que me interessa, acima de tudo, no Sr. de Charlus - acrescentou - é que se sente nele o dom. Digo-lhe que pouco me importa o saber. O que se aprende não me interessa. -

     Tais palavras não estão em contradição com o valor particular da Sra. de Cambremer, que era precisamente imitado e adquirido. Mas justamente uma das coisas que se deviam saber naquele momento é que o saber não é nada e não pesa coisa alguma ao lado da originalidade. A Sra. de Cambremer aprendera, como o resto, que não é preciso aprender nada. 

- É por isso - disse ela - que Brichot, que tem lá o seu lado curioso, pois não desprezo certa erudição saborosa, interessa-me no entanto muito menos. -

     Mas Brichot, naquele instante, só estava ocupado com uma coisa: ouvindo que falavam de música, receava que o assunto recordasse à Sra. Verdurin a morte de Dechambre. Queria dizer alguma coisa para afastar essa lembrança funesta. O Sr. de Cambremer forneceu-lhe a ocasião com esta pergunta: 

- Então, os lugares onde há florestas têm sempre nomes de animais? 
- Como não? - respondeu Brichot, contente por ostentar seu saber diante de tantos novos, entre os quais eu lhe dissera que estava certo de interessar ao menos um. - Basta ver como, nos próprios nomes de pessoas, uma árvore é conservada, como um feto na hulha. Um de nossos padres conscritos se chama Sr. de Saulces de Freycinet, o que significa, salvo engano, lugar plantado de salgueiros e de freixos, salix et fraxinetum; seu sobrinho, Sr. de Selves, reúne mais árvores ainda, visto que se chama de Selves, sylva. -

     Com satisfação, Saniette via a conversa animar-se.
     Podia, já que Brichot falava o tempo todo, conservar um silêncio que lhe evitaria ser o objeto dos motejos do Sr. e da Sra. Verdurin. E, tornando-se ainda mais sensível na alegria da libertação, emocionara-se ao ouvir o Sr. Verdurin, malgrado a solenidade de um tal jantar, dizer ao mordomo que pusesse uma jarra d'água junto do Sr. Saniette, que não bebia outra coisa. (Os generais que mais sacrificam soldados fazem questão de mantê-los bem alimentados.) Enfim, a Sra. Verdurin sorrira uma vez para Saniette. Decididamente eram boas pessoas. Ele não mais seria torturado.
     Nesse momento, a refeição foi interrompida por um convidado que eu me esquecera de citar, um ilustre filósofo norueguês que falava francês muito bem, porém muito lentamente, por dois motivos: primeiro, porque, tendo-o aprendido há pouco e não querendo cometer erros (entretanto cometia alguns), reportava-se para cada palavra a uma espécie de dicionário interior; depois, porque, sendo metafísico, pensava sempre o que desejava dizer enquanto o dizia, o que, mesmo num francês, é causa de lentidão. De resto, era uma criatura deliciosa, embora aparentemente igual a tantas outras, menos sob um aspecto. Esse homem, de falar tão vagaroso (havia um certo silêncio entre duas palavras), tornava-se de uma rapidez vertiginosa para escapar logo que se despedia. Da primeira vez, sua precipitação fazia pensar numa cólica ou até numa necessidade mais imperiosa. 

- Meu caro... colega - disse ele a Brichot, depois de haver deliberado em seu espírito se "colega" era o termo conveniente -, tenho uma espécie de desejo de saber se há outras árvores na nomenclatura de sua bela língua francesa latina normanda. A senhora (ele queria dizer Sra. Verdurin, embora não se atrevesse a encará-la) me disse que o senhor sabia todas as coisas. Não será este precisamente o momento? 
- Não, momento de comer - interrompeu a Sra. Verdurin, que via que o jantar não acabava. - Ah, muito bem - respondeu o escandinavo baixando a cabeça para o prato, com um sorriso triste e resignado. - Porém devo observar, a senhora que se me permite esse questionário, perdão, essa questação - que amanhã devo voltar a Paris para jantar na Tour d'Argent ou no Hotel Meurice. Meu confrade francês -, Sr. Boutroux, deve nos falar de sessões de espiritismo perdão, de evocações espirituosas que ele controlou. 
- Não é tão bom como dizem, o Tour d'Argent - retrucou a Sra. Verdurin, irritada. - Cheguei a ter ali uns jantares detestáveis. 
- Mas estou enganado, o que se come na casa da Senhora não é a mais fina cozinha francesa? 
- Meu Deus, positivamente não é mau - respondeu a Sra. Verdurin suavizada. - E, se o senhor voltar na quarta-feira próxima, será ainda melhor. 
- Mas segunda-feira parto para a Argélia e de lá vou até o Cabo. E, quando estiver no Cabo da Boa Esperança, não poderei mais encontrar o meu ilustre colega perdão, não poderei encontrar mais o meu confrade. -

     E pôs-se, por obediência, após ter fornecido essas desculpas retrospectivas, a comer com rapidez vertiginosa. Mas Brichot estava bem feliz de poder dar outras etimologias vegetais e respondeu, interessando de tal modo o norueguês que este parou novamente de comer, mas fazendo sinal de que podiam lhe tirar o prato cheio e servir o seguinte: 

- Um dos Quarenta - disse Brichot - é chamado Houssaye, ou lugar plantado de azevinhos (houx); no nome de um fino diplomata, o Sr. d'Ormesson, o senhor encontra o olmo (orme), o ulmus caro a Virgílio e que deu seu nome á cidade de Ulm; no de seus colegas, o Sr. de La Boulaye, a bétula (bouleau); no Sr. d'Aunay, o amieiro (aune); no Sr. de Bussiere, o buxo (buís); no Sr. Albaret, o alburno (aubier) (prometi a mim mesmo dizê-lo a Céleste); no Sr. de Cholet, a couve (chou); e a macieira (pommíer) do nome do Sr. de La Pommeraye que nós ouvimos conferenciar (lembra-se, Saniette?), na época em que o bom Porei fora enviado aos confins do mundo como procônsul na Odéonie? -

     Ao nome de Saniette pronunciado por Brichot, o Sr. Verdurin lançou à mulher e a Cottard um olhar irônico que desmontou o tímido. 

- Afirmava o senhor que Cholet provém de chou - disse eu a Brichot. - Será que uma estação pela qual passei antes de chegar a Doncieres, Saint-Frichoux, também provém de chou? - Não, Saint-Frichoux é Sanctus Fructuosus, como Sanctus Ferreolus deu Saint-Fargeau, mas isto não é absolutamente de origem normanda. 
- Ele sabe coisas demais, ele nos aborrece - gargarejou docemente a princesa. -

     Há tantos outros nomes que me interessam, mas não posso perguntar-lhe todos de uma só vez:
     E, virando-me para Cottard: 

- Será que a Sra. Putbus está aqui? - indaguei. 
- Graças a Deus, não - respondeu a Sra. Verdurin, que ouvira a minha pergunta. - Tratei de desviar as suas vilegiaturas para Veneza; estamos livres dela este ano. 
- Eu mesmo vou ter direito a duas árvores - disse o Sr. de Charlus -, pois tenho mais ou menos reservada uma pequena casa entre Saint-Martin-du-Chêne e Saint-Pierre-des-lfs. 
- Mas é muito perto daqui; espero que volte muitas vezes em companhia de Charlie Morel. Não terá mais do que entrar em acordo com o nosso pequeno grupo quanto aos trens, está a dois passos de Doncieres - disse a Sra. Verdurin, que detestava que não viessem pelo mesmo trem e às horas em que enviava os carros para a estação. Ela sabia como era penosa a subida para La Raspeliere, mesmo contornando-a por trás da Féterne, o que dava um atraso de meia hora, e temia que aqueles que formassem um grupo à parte não encontrassem carros para levá-los, ou que, tendo na verdade ficado em casa, pudessem pretextar não terem encontrado carros em Douville-Féterne e não se sentirem com forças para fazer uma tal subida a pé. A esse convite, o Sr. de Charlus se limitou a responder com uma inclinação muda. 
- Ele não deve ser fácil de tratar todos os dias, tem um ar afetado - sussurrou Ski ao doutor que, tendo permanecido uma criatura simples, apesar de uma camada superficial de orgulho, não procurava ocultar que Charlus o esnobava. 
- Sem dúvida, ele ignora que em todas as estações de águas e até em Paris, nas clínicas, os médicos, para quem sou naturalmente o "grande chefe", fazem questão de me apresentar a todos os nobres que aí estejam e que não vão demorar muito. Isso torna até bem agradável para mim a permanência nas estâncias balneárias - acrescentou com ar leviano. - Mesmo em Doncieres, o major do regimento, que é médico assistente do coronel, convidou-me para almoçar com ele dizendo que eu estava em condições de jantar com o general. E esse general era um senhor de alguma coisa. Não sei se esses títulos de nobreza são mais ou menos antigos que o deste barão. 
- Não deixe que isto lhe suba à cabeça, é uma bem pobre coroa - respondeu Ski a meia voz, e acrescentou algo confuso com um verbo, onde apenas distingui as últimas sílabas "ardor", ocupado como estava em ouvir o que Brichot dizia ao Sr. de Charlus. 
- Provavelmente não, lamento dizer-lhe, o senhor só tem uma árvore, pois, se Saint-Martin du-Chêne é evidentemente Sanctus Martínus juxta quercum, por outro lado a palavra if pode ser simplesmente a raiz, ave, eve, que quer dizer úmido, como em Aveyron, Lodeve, Yvette, e que o senhor vê subsistir em nossas pias (évíers) de cozinha. É a "água", que em bretão se diz Ster: Stermaria, Sterlaer, Sterbouest, Ster-en-Dreuchen. -

     Não escutei o final, pois, por maior que fosse o prazer que sentia em voltar a ouvir o nome de Stermaría, ouvia sem querer, a meu lado, Cottard dizendo baixinho a Ski: 

- Ah, mas eu não; sabia! Então, trata-se de um senhor que sabe se virar por todos os lados na vida! Como! Pertence à confraria! No entanto não tem os olhos pisados. Precisarei de cuidar dos pés embaixo da mesa, era só o que faltava; me deixasse bolinar por ele. Aliás, isto só parcialmente me deixa espantado. Vejo diversos nobres na ducha, em trajes de Adão; são mais ou menos uns degenerados. Nem lhes falo, porque, afinal, sou funcionário e isto poderia me causar transtornos. Mas eles sabem perfeitamente quem sou.

     Saniette, a quem a interpelação de Brichot assustara, começava a respirar como alguém que tem medo da tempestade e que percebe que o raio não foi seguido de nenhum rumor de trovão, quando ouviu o Sr. Verdurin questioná-lo, fixando nele um olhar que não largava o infeliz enquanto estava falando, de modo a perturbá-lo imediatamente e a não lhe permitir recobrar o ânimo: 

- Mas Saniette, como é que sempre nos ocultou que freqüentava as matinês do Odeon? - Trêmulo como um recruta diante de um sargento torturador, Saniette respondeu, dando à sua frase as menores dimensões que pôde, a fim de que tivesse mais chances de escapar aos golpes: 
- Uma vez, em La Chercheuse. 
- Que é que ele está dizendo? - bramiu o Sr. Verdurin, com ar a um tempo desgostoso e furibundo, franzindo as sobrancelhas como se necessitasse de toda a sua atenção para entender algo de ininteligível. - Primeiro, não se compreende o que está dizendo. O que tem você na boca? -perguntou o Sr. Verdurin, cada vez mais violento, e aludindo ao defeito de pronúncia de Saniette. - Pobre Saniette, não quero que o faça infeliz - disse a Sra. Verdurin num tom de falsa piedade e para não deixar dúvida em ninguém quanto às insolentes intenções do marido. 
- Eu estava na Ch... 
- Che, che, che, procure falar claramente -, disse o Sr. Verdurin -, não o ouço de jeito nenhum. -

     Quase nenhum dos fiéis continha o riso e tinham o aspecto de um bando de antropófagos em que a ferida feita num branco desperta o gosto pelo sangue. Pois o instinto de imitação e a ausência de coragem governam tanto as sociedades como as multidões. E todo mundo ri de alguém de quem se vê zombar, arriscando-se a venerá-lo dez anos depois em um círculo onde é admirado. Da mesma forma, o povo aclama e enxota os reis. 

- Ora - disse a Sra. Verdurin -, não é culpa dele. 
- Também não é minha, a gente não janta fora quando não consegue mais articular as palavras. 
- Eu estava assistindo e La Chercheuse d'esprit, de Favart. 
- O quê! É a Chercheuse d'esprit que você chamava de Chercheuse? Ah! É magnífica, eu poderia ficar imaginando cem anos que não descobriria nada - exclamou o Sr. Verdurin, que no entanto logo acharia que alguém não era letrado, artista, "não era dos seus", se ouvisse dizer o título completo de certas obras. Por exemplo, era imperioso dizer Le Malade, Le Bourgeois; e aqueles que acrescentassem lmaginaire ou Gentilhomme teriam revelado não serem "da roda", assim como, em um salão, alguém prova não pertencer à alta sociedade ao dizer: o Sr. de Montesquiou-Fezensac em vez de Sr. de Montesquiou. 
[Alusão a duas peças de Moliere: O Doente Imaginário ("Le Malade lmaginaire"), e O Burguês Fidalgo.("Le Bourgeois Gentilhomme"). (N. do L)] 
- Mas não é assim tão extraordinário - observou Saniette, sufocado pela emoção, porém risonho, conquanto não tivesse vontade de rir. -

     A Sra. Verdurin estourou: 

- Ah, é? - exclamou, escarnecendo. - Fique certo de que ninguém no mundo poderia adivinhar que se tratava de La Chercheuse d'esprit. -

     O Sr. Verdurin retornou com voz suave e, dirigindo-se ao mesmo tempo a Saniette e a Brichot: 

- Aliás, é uma bela peça La Chercheuse d'esprit. -

     Pronunciada em tom sério, esta simples frase, onde não se podia achar nenhum sinal de maldade, fez tanto bem a Saniette e excitou nele tanta gratidão como se fosse uma amabilidade. Ele não pôde proferir uma só palavra e manteve um silêncio feliz. Brichot foi mais loquaz: 

- É verdade - respondeu ele ao Sr. Verdurin- e, se a fizessem passar por obra de algum autor sármata ou escandinavo, poderiam apresentar a candidatura de La Chercheuse d'esprit à condição vacante de obra-prima. Mas diga-se, sem faltar com o respeito aos manes do gentil Favart, ele não era de temperamento ibseniano. (E logo enrubesceu até as orelhas, pensando no filósofo norueguês, o qual tinha um ar infeliz porque buscava em vão identificar que tipo de vegetal podia ser o buis de que há pouco falara Brichot a propósito de Bussiere.) Aliás, a satrapia de Porei estava ocupada agora por um funcionário que é um tolstoiniano de rigorosa observância, e poderia ocorrer que víssemos Anna Karenina ou Ressurreição sob a arquitrave odeônica. 
- Sei a qual retrato de Favart o senhor quer se referir - disse o Sr. de Charlus. - Vi uma prova muito linda na casa da condessa Molé. -

     O nome da condessa Molé causou forte impressão na Sra. Verdurin: 

- Ah! O senhor costuma ir à casa da Sra. de Molé! - exclamou ela. Pensava que se dizia "a condessa Molé", "Sra. Molé", simplesmente por abreviação, como ouvia dizer os Rohan, ou, por desdém, como ela própria dizia: senhora La Trémoïlle. Não tinha nenhuma dúvida de que a condessa Molé, conhecendo a rainha da Grécia e a princesa de Caprarola, tivesse mais que ninguém direito à partícula, e estava decidida, de uma vez por todas, a dá-la a uma pessoa tão brilhante e que se mostrava muito amável com ela. Assim, para mostrar que falara desse modo intencionalmente e não regateava esse "de" à condessa, prosseguiu: - Mas eu absolutamente não sabia que o senhor conhecia a senhora de Molé! - como se fosse duplamente extraordinário que o Sr. de Charlus conhecesse aquela dama e que a Sra. Verdurin não soubesse que ele a conhecia. Ora, a alta sociedade, ou pelo menos aquilo que o Sr. de Charlus assim denominava, forma um todo relativamente homogêneo e fechado. Se, por um lado, é compreensível que na disparatada imensidade da burguesia um advogado diga, a alguém que conhece um de seus companheiros de colégio: "Mas como diabos você conhece Fulano?" em compensação, espantar-se de que um francês conheça o sentido das palavras tempo ou floresta não seria mais extraordinário do que se admirar dos acasos que tinham podido reunir o Sr. de Charlus e a condessa Molé. Ademais, mesmo se um tal conhecimento não tivesse decorrido naturalmente das leis mundanas, se tivesse sido fortuito, como seria estranho que a Sra. Verdurin o ignorasse, já que via o Sr. de Charlus pela primeira vez e que as relações deste com a Sra. Molé estavam longe de ser a única coisa que ela não sabia a seu respeito, de que, na verdade, não sabia nada. 
- Quem era que representava essa Chercheuse d'esprit, meu caro Saniette? - perguntou o Sr. Verdurin. Mesmo sentindo que a tempestade passara, o antigo arquivista hesitou em responder. 
- Mas também, tu o intimidas - disse a Sra. Verdurin -, zombas de tudo o que ele diz e depois queres que ele responda. Vamos, diga quem representava aquilo, e lhe daremos galantina para levar para casa - acrescentou ela, fazendo uma alusão malévola à ruína em que caíra Saniette querendo salvar um casal amigo. 
- Lembro-me apenas de que era a Sra. Samary que fazia o papel da Zerbine - disse Saniette. 
- A Zerbine? O que é isso? - gritou o Sr. Verdurin como se houvesse um incêndio. 
- É uma personagem do antigo repertório, como O Capitão Fracasso, como quem diz o Fanfarrão, o Pedante. 
- Ah, o pedante é você! A Zerbine! Não, mas ele está tocado! - exclamou o Sr. Verdurin.

     A Sra. Verdurin olhou para seus convivas rindo, para desculpar Saniette. 

- A Zerbine! Ele pensa que todo mundo sabe logo o que significa isso. Você é como o Sr. de Longepierre, o homem mais idiota que conheço, que outro dia nos falava familiarmente "o Banat". Ninguém ficou sabendo do que ele estava falando. Finalmente fomos informados de que se tratava de uma província da Sérvia. -

     Para terminar com o suplício de Saniette, que me fazia mais mal do que a ele, perguntei a Brichot se sabia o que significava Balbec. 

- Balbec é provavelmente uma corruptela de Dalbec - disse ele. - Seria preciso consultar as cartas dos reis da Inglaterra, suseranos da Normandia, pois Balbec era dependente da baronia de Douvres, devido a que se dizia muitas vezes Balbec d'Outre-Mer, Balbec-en-Terre. Mas a própria baronia de Douvres dependia do bispado de Bayeux e, apesar dos direitos que os templários tiveram momentaneamente sobre a abadia a partir de Louis d'Harcourt, patriarca de Jerusalém e bispo de Bayeux, os bispos dessa diocese é que foram coletores dos bens de Balbec. Foi o que me explicou o deão de Doville, homem calvo, eloquente, quimérico e gourmet, que vive na obediência a Brillat-Savarin, e me expôs incertas pedagogias com termos um tanto sibilinos, enquanto me fazia comer admiráveis batatas fritas. -

continua na página 155...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Assaltou-me o temor)
Volume 6
Volume 7

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

MPB: O barquinho , O pato , Manhã de carnaval

Nara Leão e Roberto Menescal


"Em 1967 eu tinha 7 anos e nutria um amor platônico por Nara Leão que então estava com seus 25 anos, eu sempre a imaginava como a "minha namorada" e nas revistas semanais que minha mãe comprava eu sempre procurava um "poster" dela para colar na parede do meu quarto. Morreu jovem aos 47 anos, mas até hoje tenho saudades dos "nossos namoros" nos meus devaneios pueris, que se baseava somente nas nossas "troca de olhares" ela no poster, eu com as duas mãos no queixo a admirando, completamente apaixonado." @Alzir100



Dia de luz, festa de Sol
E o barquinho a deslizar
No macio azul do mar
Tudo é verão, o amor se faz
No barquinho pelo mar
Que desliza sem parar
Sem intenção, nossa canção
Vai saindo desse mar
E o Sol
Beija o barco e luz
Dias tão azuis

Volta do mar, desmaia o Sol
E o barquinho a deslizar
E a vontade de cantar
Céu tão azul, ilhas do sul
E o barquinho, coração
Deslizando na canção
Tudo isso é paz
Tudo isso traz
Uma calma de verão
E então
O barquinho vai
E a tardinha cai
O barquinho vai
E a tardinha cai

Volta do mar, desmaia o Sol
E o barquinho a deslizar
E a vontade de cantar
Céu tão azul, ilhas do sul
E o barquinho, coração
Deslizando na canção
Tudo isso é paz
Tudo isso traz
Uma calma de verão
E então
O barquinho vai
E a tardinha cai
O barquinho vai
E a tardinha cai
Vai, vai
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Composição: Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli.






Manhã de carnaval

Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás

Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus

Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor

Composição: Antônio Maria / Luiz Bonfá


Luiz Bonfá





Registro histórico
Nara Leão - A Banda / Festival da Record 1966




"Eu prefiro ser gente."


A morte de Nara Leão 07/06/89



O barquinho , O pato , Manhã de carnaval /    

Bom dia, Poesia... E agora, José?

Carlos Drummond de Andrade



E agora, José?
A festa acabou
A luz apagou
O povo sumiu
A noite esfriou
E agora, José?
E agora, você?
Você que é sem nome
Que zomba dos outros
Você que faz versos
Que ama, protesta?
E agora, José?

Está sem mulher
Está sem discurso
Está sem carinho
Já não pode beber
Já não pode fumar
Cuspir já não pode
A noite esfriou
O dia não veio
O bonde não veio
O riso não veio
Não veio a utopia
E tudo acabou
E tudo fugiu
E tudo mofou
E agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra
Seu instante de febre
Sua gula e jejum
Sua biblioteca
Sua lavra de ouro
Seu terno de vidro
Sua incoerência
Seu ódio, e agora?

Com a chave na mão
Quer abrir a porta
Não existe porta
Quer morrer no mar
Mas o mar secou
Quer ir para Minas
Minas não há mais
José, e agora?

Se você gritasse
Se você gemesse
Se você tocasse
A valsa vienense
Se você dormisse
Se você cansasse
Se você morresse
Mas você não morre
Você é duro, José!

Sozinho no escuro
Qual bicho-do-mato
Sem teogonia
Sem parede nua
Para se encostar
Sem cavalo preto
Que fuja a galope
Você marcha, José!
José, para onde?


"O poema foi publicado em 1942, durante um período de turbulência política e social no Brasil, refletindo a desesperança e a crise existencial do indivíduo. Drummond utiliza o personagem José como um símbolo coletivo, representando a luta e a frustração de muitos. A repetição da pergunta "E agora, José?" ao longo do poema enfatiza a sensação de impotência e a busca por um sentido em meio ao vazio da vida."


E agora, José? - Na voz de Carlos Drummond de Andrade





e também virou música...


Paulo Diniz - José





e que o leitor e a leitora faça a sua interpretação... porque quando uma obra de arte é exposta ao público o autor perde o direito do entendimento único


Poema publicado no livro, José e Novos Poemas, Carlos Drummond de Andrade. 15ª ed. - 2024. Editora Record.


Um poeta do modernismo brasileiro... esse século XX!