quarta-feira, 4 de novembro de 2026

MPB: Eu vou tirar você desse lugar

Odair José


"Odair José revela a inspiradora história real por trás de “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”. A música, lançada em 1972, conquistou o Brasil com uma letra ousada, humana e cheia de empatia — e até hoje é um dos maiores sucessos da música romântica brasileira." 


Olha
A primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair
Eu vim em busca do amor

Olha
Foi então que eu lhe conheci
Naquela noite fria, em seus braços
Meus problemas, esqueci

Olha
A segunda vez que eu estive aqui
Já não foi pra distrair
Eu senti saudade de você

Olha
Eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais lhe esquecer

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar

Eu sei que você tem medo de não dar certo
Pensa que o passado vai estar sempre perto
E que um dia eu vou me arrepender

Eu quero
Que você não pense em nada triste
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa
O que os outros vão pensar

Eu vou tirar você desse lugar


Odair José e Caetano Veloso





"A VERDADE por trás de 'Vou Tirar Você Desse Lugar' — Odair José conta tudo!"




Odair José - A Censura, A Pílula e o Filho de José e Maria 
| 50 ANOS DE CARREIRA | Parte 3



Quer assistir a Parte 1? Aqui!
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Quer assistir a Parte 4? Aqui!



Diana - Porque Brigamos
“Porque brigamos” é uma canção brasileira lançada originalmente por Diana em 1972, versão em português de “I Am… I Said”, de Neil Diamond, com letra adaptada por Rossini Pinto.




Hibernar | Odair José - 2019





Odair José  - O Filho de José e Maria




Odair José, Arnaldo Antunes e Paulo Mikros - Eu vou tirar você desse lugar




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É preciso dar um jeito, meu amigo / Cálice / Eu vou tirar você desse lugar /        

Tchekhov - A brincadeira

Alguns melhores contos


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”
Anton Tchekhov

A brincadeira

     Um claro dia de inverno… o frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante no qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo. 

— Deslizemos até lá em baixo, Nadêjda Petrovna! imploro eu. — Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!

     Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se afigura a ela como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego, só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó – que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá! 

— Eu lhe suplico! – digo eu. — Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!

     Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com receio pela própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.
     O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos! 

— Eu te amo, Nádia! – digo eu a meia voz.

     O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar. Eu a ajudo a se levantar. 

— Nunca mais farei isto – diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. – Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!

     Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.
     Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria… 

— Sabe duma coisa? – diz ela, sem olhar para mim. 
— O quê? – pergunto eu. 
— Vamos mais uma vez… deslizar pelo morro.

     Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o voo do trenó está no auge do ímpeto, eu digo a meia voz: 

— Eu te amo, Nádenka!

     Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito: “Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?”.
     Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro. 

— Não preferes ir para casa? – pergunto eu. 
— Mas eu… eu gosto destas… descidas – diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?

     Ela “gosta” destas descidas, e, no entanto, sentando se no trenó ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.
     Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar: 

— Eu te amo, Nádia!

     E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando… Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer: “Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!”.
     No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: “Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N.”. E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras: 

— Eu te amo, Nádia!

     Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento… Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!
     Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vi como Nádenka chegou até o sopé, como me procurou com os olhos… E depois, timidamente, ela sobe os degraus… Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento… “zzzzzz…” zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei… Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender…
     Mas eis que chega o mês de março, primaveril… O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo – por muito tempo, quiçá para sempre.
     Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento. O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado… Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima. E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz: 

— Eu te amo, Nádia!

     Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.
     E eu vou arrumar as malas…
     Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis – isto não importa – com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras “eu te amo, Nádenka”, não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação de sua vida…
     Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais por que dizia aquelas palavras.
     Não compreendo mais por que brincava…

Anton Tchekhov
Fim 
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Leia também:
A mulher do farmacêutico / A obra de arte / Angústia / A brincadeira /             .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

"Tchekhov denuncia a indiferença, a apatia; o que diria dos “tempos líquidos” em que vivemos? Os meios digitais, as redes sociais, constroem laços cada vez mais fluidos, passageiros. A expectativa que uma mensagem causa, denota o quão solitários estamos. Estamos doentes, vivendo em uma sociedade egocêntrica, onde ninguém tem tempo para ouvir. E se damos bom dia para cavalo, é porque sabemos que dele não virá um coice.'

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 4 (III. O encontro com os colegiais)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


SEGUNDA PARTE
LIVRO IV
OS TUMULTOS
III
O ENCONTRO COM OS COLEGIAIS
 
 "Felizmente meu pai não me fez perguntas a respeito de Grúchenhka", dizia a si mesmo Aliócha, dirigindo-se para a casa da Senhora Khokhlakova. "Teria sido preciso contar-lhe o encontro de ontem com ela. "Pensava com pesar que, durante a noite, os adversários haviam retomado forças, que seus corações estavam de novo endurecidos. "Meu pai está irritado e cheio de maldade, continua ancorado em sua ideia. Dimítri também se reafirmou e deve ter um plano... É absolutamente preciso que o encontre hoje... "

     Mas as reflexões de Aliócha foram interrompidas por um incidente que o impressionou, malgrado sua pouca importância.
     Ao aproximar-se da Rua de São Miguel, paralela à Rua Grande, da qual só estava separada por um riacho (nossa cidade é cortada por ele), avistou lá embaixo, diante do passadiço, um pequeno grupo de colegiais, meninos de nove a doze anos no máximo. Voltavam para suas casas após as aulas, carregando suas sacolas a tiracolo ou amarradas nas costas por meio de correias; uns tinham apenas uma jaqueta, outros, sobretudos; alguns calçavam botas dessas pregueadas, com as quais gostam de exibir-se os meninos mimados por pais abastados. O grupo discutia com animação, parecia manter conselho.
     Aliócha interessava-se sempre pelas crianças que encontrava (era o caso em Moscou) e, muito embora preferisse os bebês de três anos, os escolares de dez e de onze lhe agradavam muito. Assim, malgrado sua preocupação, quis abordá-los, entrar em conversa com eles. Ao aproximar-se, observava-lhes os rostos vermelhos e notou que todos os meninos tinham uma pedra na mão e até mesmo duas. Do outro lado do riacho, a cerca de trinta passos, mantinha-se, encostado a uma paliçada, um escolar, com sua sacola sobre o quadril, parecendo ter no máximo uns dez anos, pálido, de ar doentio, com olhos negros que cintilavam. Esquadrinhava com o olhar os seis colegiais, seus camaradas, com os quais parecia estar brigado.
     Aliócha avançou e, dirigindo-se a um menino de cabelos cacheados, louro, corado, de jaqueta preta, observou, olhando-o:

— Quando eu tinha tua idade, carregava-se a sacola do lado esquerdo, a fim de alcançá-la com a mão direita; mas a tua está do lado direito, não deve ser cômodo. 

     Sem nenhuma premeditação, começara Aliócha com essa observação prática; um adulto não pode proceder de outra forma, se quer ganhar a confiança de uma criança e sobretudo dum grupo de crianças. Era preciso começar seriamente, praticamente, para ficar em pé de igualdade. Instintivamente, dava-se Aliócha conta disso.

— Ele é canhoto — respondeu logo outro menino de onze anos, de ar resoluto. 

     Os cinco outros fitavam Aliócha.

— Ele atira pedras com a mão esquerda — notou um terceiro. 

     No mesmo instante, foi lançada uma pedra contra o grupo, roçando pelo canhoto, mas foi perder-se adiante, embora atirada com habilidade e vigor. Fora lançada pelo menino colocado do outro lado do riacho.

— Duro com ele, acerta bem, Smúrov! — gritaram todos.

     O canhoto não se fez de rogado e retribuiu imediatamente; não teve êxito e sua pedra bateu no chão. O adversário ripostou com um seixo que atingiu Aliócha bastante rudemente no ombro. Via-se a trinta passos que aquele garoto tinha os bolsos de seu sobretudo cheios de pedras.

— Foi no senhor, no senhor; fez pontaria de propósito no senhor. Porque o senhor é um Karamázov — exclamaram os meninos, desatando a rir.
— Vamos, todos ao mesmo tempo contra ele, fogo! — Seis pedras voaram juntas. Atingindo na cabeça, o garoto caiu, mas para se levantar logo e responder com encarniçamento. Dos dois lados houve um bombardeio ininterrupto; muitos, no grupo, tinham também seus bolsos cheios de projéteis.  
— Mas como é isso? Não têm vergonha, meus amigos? Seis contra um! Vão matá-lo! — exclamou Aliócha.

     Correu para a frente, a fim de se expor aos projéteis, protegendo assim o garoto do outro lado do riacho. Três ou quatro pararam por um minuto. 

— Foi ele quem começou! — gritou com voz irritada um menino de blusa vermelha; é um bandido; ainda há pouco feriu na aula Krasótkin com seu canivete, correu sangue, Krasótkin não quis fazer queixa; é preciso dar uma surra nele... 
— Mas por quê? Precisam mesmo persegui-lo? 
— Ele atirou outra pedra nas costas do senhor. Ele o conhece — gritaram os meninos. — É contra o senhor que está fazendo pontaria agora. Vamos, todos de novo contra ele, não deixe de acertar, Smúrov!...  

     O bombardeio recomeçou, desta vez implacável. O garoto, sozinho, recebeu uma pedrada no peito; lançou um grito, pôs-se a chorar, fugiu pela subida para a Rua de São Miguel. No grupo vociferava-se: "Ah! ele teve medo, fugiu, aquele 'esfregão de tília'!" — O senhor ainda não sabe, Karamázov, como ele é ruim; seria pouco matá-lo — repetiu o menino de jaqueta, de olhos ardentes, e que parecia ser o mais velho.

— É um linguarudo? — perguntou Aliócha. 

     Os meninos trocaram olhares com ar zombeteiro. 

— O senhor vai pela Rua de São Miguel? — continuou o mesmo. — Então, alcance-o... Veja, parou de novo; espera e olha para o senhor. 
— Olha para o senhor, olha para o senhor! — repetiram os meninos.
— Pergunte-lhe então se ele gosta de um esfregão de tília desmanchado. Entendeu? Pergunte assim. 

     Houve então uma explosão geral de gargalhadas. Aliócha e os meninos cruzavam olhares.

— Não vá lá, ele o ferirá — gritou, solícito, Smúrov. 
— Meus amigos, não farei a ele a pergunta a respeito do esfregão de tília, porque é com isso que vocês o maltratam, mas me informarei com ele do motivo pelo qual vocês o odeiam tanto... 
— Informe se, informe-se — gritaram os meninos, rindo-se.

     Aliócha transpôs o passadiço e subiu a ladeira ao longo da paliçada, diretamente para o lado de seu agressor.

— Atenção — gritaram-lhe —, ele não tem medo do senhor e vai atingi-lo à traição, como fez com Krasótkin.

     O menino esperava-o imóvel. Chegando bem perto, encontrou-se Aliócha diante de um menino de nove anos, fraco, raquítico, de rosto oval, pálido, magro, com grandes olhos escuros que o olhavam cheios de ódio. Vestia um velho sobretudo bastante gasto e muito curto. Seus braços nus saíam de suas mangas. Havia um grande remendo no joelho direito de sua calça e, dissimulado com tinta, um buraco no seu sapato do pé direito, no lugar do dedo grande. Os bolsos do sobretudo estavam cheios de pedras. Aliócha parou a dois passos, olhando com ar interrogador. O garoto, adivinhando pelos olhos de Aliócha que não tinha este intenção de bater- lhe, retomou coragem e falou em primeiro lugar: 

— Eu estava sozinho contra seis... Hei de matá-los todos — disse ele, com olhar faiscante. 
— Uma pedrada deve ter-lhe feito bastante mal — observou Aliócha.  
— Mas eu acertei bem na cabeça de Smúrov! — replicou ele. 
— Disseram-me que você me conhecia e atirou-me a pedra de propósito — disse Aliócha. 

     O menino olhava-o com um olhar sombrio.

— Não o conheço. Você me conhece? — continuou Aliócha.
— Deixe-me tranquilo! — gritou, de súbito, o menino com voz irritada, mas sem sair de seu lugar, como na expectativa de alguma coisa, o olhar hostil. 
— Está bem, vou-me embora — disse Aliócha —, mas não o conheço e não quero importuná-lo. No entanto, seus colegas me disseram como deveria eu fazer. Adeus. 
— Seu fradeco! — gritou o garoto, acompanhando Aliocha com o mesmo olhar cheio de ódio e provocante; pôs-se na defensiva, acreditando que Aliocha iria lançar-se contra ele, mas aquele voltou-se, olhou-o e seguiu seu caminho. Não havia dado uns três passos quando recebeu nas costas o mais grosso dos seixos que enchiam o bolso do sobretudo. 
— Como? Por trás? É então verdade o que eles dizem, que você ataca como traidor? 

     Aliocha voltou-se; visado no rosto, teve tempo de prevenir-se e novo projétil atingiu-o no cotovelo. 

— Não tem vergonha? Que lhe fiz eu? — exclamou ele.

     O garoto esperava, silencioso e agressivo, persuadido de que, daquela vez, Aliocha lhe cairia em cima; vendo que sua vítima não se movia, ficou furioso como uma pequena fera e avançou. Antes que Aliocha tivesse podido fazer um movimento, o diabrete agarrou-lhe a mão esquerda e mordeu-lhe cruelmente um dedo. Aliocha lançou um grito de dor, esforçando-se por livrar-se. O garoto largou-o por fim, recuando para a distância anterior. A mordidela, perto da unha, era profunda, o sangue corria. Aliocha tirou seu lenço, enrolando com ele apertadamente sua mão ferida. Isto levou cerca de um minuto. Entretanto o menino esperava. Aliocha baixou sobre ele um olhar calmo. 

— Está bem — disse ele —, veja como me mordeu profundamente. Isto basta, creio. Agora, diga-me, que lhe fiz eu? 

     O menino fitou-o, surpreso.

— Não o conheço absolutamente e vejo-o pela primeira vez — prosseguiu Aliocha, com a mesma calma —, mas devo ter-lhe feito alguma coisa, do contrário não me teria você agredido por coisa nenhuma. Vamos, diga me, que lhe fiz eu e que culpa cometi para com você?

     Como resposta, o menino pôs-se a soluçar e fugiu. Aliocha seguiu-o lentamente pela Rua de São Miguel e avistou-o ainda por muito tempo, correndo e chorando, sem se voltar. Prometeu a si mesmo, desde que tivesse tempo, tornar a encontrá-lo, para esclarecer aquele enigma.
 continua na página 254...
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Leia também:
Livro 1
Livro 2
Livro 3 
Livro 4 
I. O Padre Fierapont / II. Alócha em casa de seu pai / III. O encontro com os colegiais /                                                 
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Leia também: 
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (XIII - Pierre não chegara a escolher)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
XIII

    Pierre não chegara a escolher uma carreira em Petersburgo e fora realmente banido para Moscou em consequência do seu condenável procedimento. O fato se dera tal qual o haviam contado à condessa de Rostov. Tomara parte na brincadeira feita a um policial com um urso. Chegara havia vários dias, e, como de costume, hospedara-se na casa do pai. Embora supondo que sua história já fosse conhecida, assim que chegou, dirigiu-se aos aposentos do conde. Não tinha a menor dúvida de que as damas que cercavam o pai, sempre hostis a ele, não teriam perdido tempo para fazer intrigas. Ao entrar no salão, onde as princesas costumavam estar, cumprimentou-as. Eram três. A mais velha, de aspecto severo, bem tratada e de alto porte (era a que recebera Ana Mikhailovna) lia em voz alta. As duas mais moças, graciosas e muito bonitas, distinguiam-se uma da outra por um sinalzinho que uma tinha no lábio e que a embelezava bastante. Bordavam num bastidor. Pierre foi recebido como um morto ou um leproso. A princesa mais velha interrompeu a leitura e olhou-o com espanto sem dizer palavra. Outra, a que não tinha o sinalzinho, fez o mesmo. A mais moça, de temperamento alegre e disposto, inclinou-se sobre o bastidor, escondendo um sorriso, possivelmente lembrando-se da cena cujo lado cômico imaginava. Puxou uns fios do avesso e, procurando conter o riso, fingiu que examinava o desenho.
     
— Bom dia, prima — disse Pierre. — Não te lembras mais de mim? 
— Lembro-me bem demais, bem demais. 
— Como vai o conde, posso vê-lo? — perguntou, desajeitado como sempre, mas sem perturbar se. 
— O conde sofre física e moralmente, e tem-se a impressão de que o senhor faz empenho em causar-lhe o máximo possível de sofrimentos morais. 
— Posso ver o conde? — repetiu Pierre. 
— Hum!… se quiser matá-lo de uma vez, pode. Olga, vai ver se o caldo do tio está pronto; está quase na hora — acrescentou, procurando fazer Pierre sentir que estavam ocupadas, e ocupadas exclusivamente em cuidar do pai dele, enquanto ele só procurava incomodá-lo.

     Olga saiu. Pierre continuava de pé e, olhando as duas irmãs, disse, despedindo-se: 

— Bem, vou para meu quarto. Quando for possível, me avisem.

     Saiu. A mais moça não pôde conter uma risada sonora.
     No dia seguinte, chegava o príncipe Vassili, instalando-se na casa do conde. Mandou chamar Pierre e lhe disse: 

— Meu caro, se te comportares aqui como em Petersburgo, vais acabar muito mal, é o que eu digo. O conde está muito doente, não poderás vê-lo.

     Depois disso, ninguém mais preocupou-se com Pierre, que passava os dias inteiros sozinho em seu quarto, no sobrado.
     Quando Boris entrou, ele caminhava de um lado para outro, fazendo, de quando em vez, um gesto ameaçador para a parede, como trespassando, com uma espada, um inimigo invisível. Depois fechava a carranca por cima dos óculos e continuava a andar, pronunciando palavras vagas, sacudindo os ombros e abrindo os braços. 

— Os dias da Inglaterra passaram — disse, franzindo o cenho e apontando para alguém. — Monsieur Pitt, como traidor da nação e dos direitos do homem, está condenado a… — Não teve tempo de pronunciar sua sentença contra Pitt, imaginando-se o próprio Napoleão. No momento em que fazia, com seu herói, a travessia perigosa do passo de Calais e ocupava Londres, viu entrar em seu quarto o jovem, belo e elegante oficial. Parou. Pierre vira Boris pela última vez quando este tinha quatorze anos e não guardava dele a menor lembrança. No entanto, com a espontaneidade que lhe era peculiar, estendeu-lhe a mão, sorrindo amigavelmente. 
— Lembra-se de mim? — perguntou Boris tranquilamente e com um sorriso agradável. — Vim com minha mãe ver o conde, dizem que não está passando bem. 
— É, parece que está mal, vivem a perturbá-lo — respondeu Pierre, procurando recordar quem era esse rapaz.

     Boris percebeu que Pierre não o reconhecera, mas julgou desnecessário apresentar-se, e fitou-o nos olhos sem o menor constrangimento. 

— O conde Rostov o convida para jantar em sua casa, hoje — disse depois de um silêncio bastante longo e constrangedor para Pierre. 
— Ah! O conde Rostov! — exclamou Pierre alegremente. — Então é seu filho Ilia? Imagine que não o havia reconhecido no primeiro momento. Lembra-se de que fomos juntos aos Montes dos Pardais, com Madame Jacquot? Já faz muito tempo. 
— Está enganado — disse Boris lentamente, com um sorriso audacioso e um pouco zombeteiro. — Sou Boris, filho da princesa Ana Mikhailovna Drubetzkaia. O velho Rostov chama-se Ilia e seu filho, Nicolau. E eu não conheço nenhuma Madame Jacquot.

     Pierre fez um gesto com as mãos como se estivesse sendo agredido por mosquitos ou abelhas. 

— Oh! Senhor! Vivo confundindo tudo. Também os parentes em Moscou são tantos! Você é Boris, sim… está bem; enfim, estamos explicados. O que pensa da expedição de Bolonha? Os ingleses não ficariam muito à vontade se Napoleão atravessasse o canal? Penso ser uma empreitada muito viável. A menos que Villeneuve cometa erros!…

     Boris não entendia nada da expedição de Bolonha, não lia jornais e ouvia o nome de Villeneuve pela primeira vez. 

— Aqui, em Moscou, o pessoal se interessa mais por intrigas e jantares que por política — disse no mesmo tom calmo e pilhérico. — Não sei nada, nem tenho opinião a esse respeito. Acima de tudo, Moscou preocupa-se com mexericos, e de momento, só se fala no senhor e no conde.

     Pierre esboçou um sorriso bondoso, como temendo que seu interlocutor dissesse qualquer coisa de que viesse a arrepender-se. Mas Boris falava secamente, com precisão e clareza, olhando-o dentro dos olhos. 

— Em Moscou, a única coisa que se faz é falar da vida alheia. Todo mundo pergunta a quem o conde deixará a fortuna, embora seja possível que sobreviva a todos nós, o que eu desejo de todo o coração… 
— Sim, tudo isso é muito penoso, muito desagradável — disse Pierre, que continuava receando que o oficial, inconscientemente, tomasse um rumo bastante constrangedor para si próprio. 
— E o senhor deve pensar — disse Boris, corando um pouco, mas sem mudar de tom — que todos se preocupam em receber qualquer coisa do ricaço.

“Pronto!”, pensou Pierre.

— E, para evitar qualquer mal-entendido, quero dizer-lhe que está redondamente enganado se conta minha mãe e a mim entre essas pessoas. Somos muito pobres, mas, precisamente porque seu pai é rico é que não me considero como parente. Nem minha mãe nem eu pediremos ou aceitaremos nada dele.

     Pierre custou a compreender, mas, quando percebeu a coisa, levantou-se do divã, corando ainda mais que Boris, apertou-lhe a mão num movimento brusco e desajeitado e começou a falar como que envergonhado e pesaroso. 

— Mas como! É estranho! Então eu… Mas quem poderia pensar… Sei muito bem… 

     Boris interrompeu-o novamente. 

— Estou satisfeito por ter dito tudo. Talvez tenha sido desagradável, perdoe-me — disse, tranquilizando Pierre em lugar de ser tranquilizado por ele. — Mas espero que não o tenha ofendido. Por princípio, digo tudo francamente… E o que devo responder de sua parte? Vai ao jantar dos Rostov? — E, sentindo-se visivelmente desobrigado de um dever penoso, saindo da situação difícil para nela meter um outro, voltou à sua afabilidade natural. 
— Escute — disse Pierre, tranquilizando-se —, você é um homem surpreendente. O que disse há pouco é muito bom, muito bom. Naturalmente não me conhece, há muito que não nos vimos, éramos ainda crianças… e pode muito bem pensar que eu… Compreendo-o muito bem, sem dúvida. Nunca faria isso, não teria a coragem de fazê-lo, mas é muito bonito. Estou muito contente por termos nos encontrado de novo. É estranho o que supõe de mim! — acrescentou, sorrindo depois de uma pausa. — Se for de seu agrado estreitaremos nossas relações. — Apertou a mão de Boris. — Sabe que ainda não vi o conde? Não mandou me chamar. Tenho pena dele… mas o que fazer? 
— E acredita que Napoleão consiga levar seu exército? — perguntou Boris, sorrindo.

     Pierre compreendeu que ele queria mudar de assunto e, desejando-o também, começou a explicar as vantagens e dificuldades da empreitada de Bolonha. O lacaio veio dizer que a princesa esperava para sair. Pierre prometeu ir ao jantar e em seguida, para ligar-se mais estreitamente com Boris, apertou-lhe fortemente a mão olhando-o afetuosamente por sob os óculos…
     Depois que Boris saiu, continuou a andar pelo quarto, mas já não feria um inimigo invisível e sorria ao lembrar-se desse jovem simpático, inteligente e resoluto.
     Como sempre acontece aos moços que vivem isolados, sentiu uma afeição sem causa por esse rapaz, e um forte desejo de tê-lo como seu amigo.
     O príncipe Vassili acompanhava a princesa, que tinha o lenço nos olhos, debulhada em lágrimas. 

— É horrível — disse ela. — Mas, seja como for, cumprirei meu dever. Voltarei para passar a noite. Não se pode deixá-lo assim. Todos os instantes são preciosos. Não compreendo o que esperam as princesas. Deus me ajudará a encontrar um meio para prepará-lo!… Adeus, príncipe, que o bom Deus o ampare… 
— Adieu, ma bonne! — respondeu o príncipe Vassili, afastando-se. 
— Ah! está num estado lamentável — disse ao filho assim que tomaram o carro. — Quase não reconhece mais ninguém. 
— Mamãe, não consigo compreender em que pé estão as relações dele com Pierre — perguntou o filho. 
— O testamento dirá tudo, meu amigo; dele depende também nossa sorte… 
— Mas por que imagina que nos deixará alguma coisa? 
— Ah! meu filho, ele é tão rico e nós tão pobres. 
— Mas, mamãe, isso não é uma razão… 
— Ah! meu Deus, meu Deus! como está mal.
continua na página.... 33
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
XI - Queria conversar em particular / XII - Mon cher Boris /  XIII - Pierre não chegara a escolher /                         
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Eugenia Camara)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma introducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

A EUGENIA CAMARA 
.
Ainda uma vez tu brilhas sobre o palco, 
Ainda uma vez eu venho te saudar... 
Também o povo vem rolando applausos 
A's tuas plantas mil trophéus lançar...

Após a noite, que passou sombria, 
A estrella d'alva pelo céu rasgou... 
Errante estrella, se luctaste um dia, 
Vê como o povo o teu soffrer pagou... 

LuctarL. que importa, se afinal venceste? 
Chorar!... que importa, se afinal sorris? 
A tempestade se não rompe a estatua 
Lava-lhe os pés e a triumphal cerviz. 

Ouves o applauso deste povo immenso, 
Lava, que irrompe do popular vulcão? 
E' o bronze rubro, que ao fundir dos bustos 
Referve ardente do porvir na mão.

O povo... o povo... é um juiz severo, 
Maldiz as trevas, abençoa a luz... 
Sentiu teu gênio e rebramiu soberbo: 
— P'ra ti altares, não do poste a cruz. 

Que queres? Ouve! — são mil palmas fervidas, 
Olha! — é o delírio, que prorompe audaz. 
Pisa! — são flores, que tu tens ás plantas 
Toca na fronte — coroada estás. 

Descansa, pois, como o condor nos Andes, 
Pairando altivo sobre terra e mar 
Pousa nas nuvens p'ra arrogante em breve 
Distante... longe... mais além voar. 

Recife. 1866. 
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Inédita. Cm. por D. Adelaide de Castro Alves Guimarães, de um manuscripto do Dr. Augusto Alvares Guimarães, em um livro de versos do Poeta.  


SONHO DA BOHEMIA
DAMA NEGRA

I
Vamos, meu anjo, fugindo, 
A todos sempre sorrindo, 
Bem longe nos occultar, 
Como Bohemios errantes 
Alegres e delirantes 
Por toda a parte a vagar.

II
Ha tanto canto na terra 
Que uma vida inteira... encerra... 
E que vida!... Um céu de amor! 
Seremos dois passarinhos... 
Faremos os nossos ninhos 
Lá onde ninguém mais fôr. 

III
Uma casinha bonita, 
Lá na matta que se agita
Do vento ao molle soprar, 
Com as folhas seccas da selva 
Com o lençol verde da relva 
Oh! quanto havemos de amar!... 

IV
De manhã, inda bem cedo, 
Has de acordar, anjo ledo, 
Junto do meu coração... 
Ao canto alegre das aves 
As nossas canções suaves, 
Quaes preces se a juntarão.

V
Passeiaremos á sésta 
Sonharemos na floresta, 
Sempre felizes, meu Deus!... 
N'alguma languida esteira 
Quanta cantiga faceira 
Ouvirei dos lábios teus...

VI
E á noite no mesmo leito 
Reclinada no meu peito 
Hei de ouvir os cantos teus... 
Por cada estrophe bonita 
No teu seio, que palpita, 
Terás cem beijos... Por Deus!

VII
Farei poesias ou versos 
Aos teus olhinhos perversos,
Aos teus pésinhos, meu bem! 
Tu cântaras, ó Manola, 
Aquella moda hespanhola 
Que tantos requebros tem!   

VIII
Depois... que lindeis viagens... 
Veremos novas paysagens, 
No sul, no norte, onde fôr... 
Voando sempre, querida, 
Co'a primavera da vida, 
Co'a primavera do amor...

IX
Vamos, meu anjo, fugindo, 
A todos sempre sorrindo 
Bem longe nos occultar. 
Como Bohemios errantes 
Que repetem delirantes 
"P'ra ser feliz basta amar!"  

Recife, 1866. 

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     Cf. com um manuscripto de Augusto Alvares Guimarães, em livro de versos do Poeta, cm. por D. Adelaide de Castro Alves Guimarães. Pbl. nas Poesias, Bahia (1913) : XIII, sob o titulo "Sonho". 
     1) Dama negra. Pela data, por essa inscripção — Dama negra —, e ainda pelo assumpto, trata-se de Eugenia Camara. Os namorados fugiram da cidade e se abrigaram num arrabalde do Recife, na casinha do Barro, onde foram viver os seus "sonhos da bohemia".  

continua página 88...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração / Hebréa / O vôo do genio / Eugenia Camara /                
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921