sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto VII.b - Entrada de Odisseu na casa de Alcínoo)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VII

Entrada de Odisseu na casa de Alcínoo

    “Atena se faz presente para Odisseu e mostra-lhe a casa de Alcínoo. Odisseu, se aproximando, se lança aos joelhos de Arete, e pede para ela enviá-lo de volta à sua pátria. Alcínoo concorda, o coloca ao seu lado e lhe oferece comida. Arete reconhece as roupas e lhe pergunta de onde as conseguiu. Odisseu então lhes conta os acontecimentos desde a ilha de Calipso, seu naufrágio, sua chegada e que, pedindo, recebeu de Nausícaa as roupas.” (Scholie H V)


continuando...

donde mandou que seu filho saísse, o viril Laodamante, 
que se encontrava a seu lado, e entre todos os mais distinguia. 
Água lustral lhe ministra uma serva em gomil primoroso 
de ouro, deixando-a cair sobre as mãos em bacia de prata, 
pondo-lhe, em frente, depois, uma mesa de aspecto polido. 
A despenseira zelosa aparece, que pão lhe reparte, 
como, também, provisões abundantes lhe dá prazerosa. 
Come à vontade, e assim bebe, o divino e sofrido guerreiro. 
Vira-se, então, para o arauto a de Alcínoo sagrada potência: 
   “Ora, Pontónoo, mistura nas taças o vinho, e aos presentes,

sem exceção, distribui, porque votos a Zeus dirijamos, 
fulminador, que acompanha em seus passos os nobres pedintes.” 
   Disse; Pontónoo obedece, a melíflua bebida mistura, 
distribuindo por todos os copos as sacras primícias. 
Isso, porém, terminado e depois que à vontade libaram, 
disse aos presentes Alcínoo, arengando, as seguintes palavras: 
   “Ora escutai-me, Feácios, que sois conselheiros e guias, 
quanto vos digo e no peito me ordena falar-vos o espírito.
Já terminamos o nosso banquete, ide agora deitar-vos. 
Mas amanhã, quando os nobres anciões estiverem reunidos,

receberemos em nosso palácio o estrangeiro e faremos 
o sacrifício das vítimas sacras; depois decidamos 
como aprestar-lhe o retorno, sem dores nem muitos trabalhos, 
tendo Feácios por guia, até a terra natal o levarmos, 
sem mais demora, ainda mesmo que se ache mui longe da pátria. 
Possa livrar-se, até lá, de sofrer qualquer dor ou trabalhos, 
antes de a terra nativa pisar. Uma vez lá chegado, 
veja-se a braços com quanto o Destino e as molestas fiandeiras 
desde o princípio teceram, ao ser pela mãe dado à vida. 
Mas, se se trata de um deus que do céu tenha, acaso, descido,

é porque, então, os eternos de novo projeto se ocupam,
pois eles têm o costume de vir até nós, em pessoa, 
quando hecatombes perfeitas nos nossos banquetes lhes damos, 
parte tomando nos nossos convites, ao lado de todos. 
Quando, também, um dos nossos na estrada, sozinho, os encontra, 
de forma alguma lhe fogem, tão só por parentes lhes sermos, 
como, igualmente, os Ciclopes e as tribos dos feros Gigantes.” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu, o guerreiro solerte:
“Outros cuidados, Alcínoo, resolve no peito. De fato, 
não me assemelho a nenhum dos eternos, que moram no Olimpo,

nem nas feições, nem na altura; sou simples mortal transitório, 
tal como os homens que estais habituados a ver, experientes 
no sofrimento; com esses, em dores, presumo igualar-me. 
Sim, porventura maiores trabalhos pudera narrar-vos, 
quanto sofri por desígnio de todos os deuses eternos. 
Ora deixai-me comer, apesar da aflição em que me acho. 
Nada se pode encontrar de mais cínico do que um molesto 
ventre, de cuja existência é impossível jamais esquecer-nos, 
por mais cansados que, acaso, estejamos e mais angustiados, 
tal como agora se encontra minha alma. Vede: ele não cessa

de concitar-me a comer e beber, obrigando-me tudo 
quanto hei sofrido esquecer, porque possa somente saciar-se. 
Logo que a Aurora desponte, no entanto, a fazer apressai-vos 
que a este infeliz seja dado pisar o país de nascença, 
pós tantas dores. Termine-se ali minha vida, após isso, 
depois de ver os meus bens, as escravas e a casa imponente.” 
   Isso falou. Os presentes aplaudem-no em peso, concordes 
em repatriar o estrangeiro, porque tão razoável falara. 
Isso, porém, terminado e depois que à vontade beberam, 
foram deitar-se os convivas, cada um procurando sua casa.

Mas o divino e sofrido Odisseu continuou na ampla sala, 
junto de Arete sentado e de Alcínoo, que um deus parecia.¹
Vêm as criadas e tiram a mesa servida na festa. 
Foi a primeira a falar a de cândidos braços, Arete, 
pois, reparando nos belos vestidos, no manto e na túnica, 
viu serem eles os mesmos que com suas servas tecera. 
E, começando a falar, lhe dirige as palavras aladas: 
   “Quero, estrangeiro, primeiro que todos, fazer-te perguntas: 
Qual o teu nome? De onde és? Quem te deu essas roupas que trazes? 
Não nos disseste que vieste até aqui, pelo mar sempre a nado?

Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu, o guerreiro solerte: 
“Mui delicado, ó rainha, seria contar-te sem falhas 
todos os males, que a mim propinaram os deuses eternos. 
Mas a informar-te de tudo o que queres saber me disponho. 
Muito distante, no mar, vê-se uma ilha, que Ogígia se chama, 
onde demora a ardilosa Calipso, de tranças bem-feitas, 
filha de Atlante. É uma deusa terrível, com quem convivência 
não tem criatura nenhuma, nem mesmo nenhum dos eternos. 
Somente a mim, o infeliz, um demônio até lá conduziu-me 
no meu navio veloz abraçado, que Zeus atingira

longe, no mar cor de vinho, fendendo-o com o raio brilhante. 
Todos os meus companheiros valentes aí pereceram; 
eu, no entretanto, abraçando-me à quilha da nave simétrica, 
por nove dias vaguei; mas, na noite do décimo, os deuses 
à ilha de Ogígia me fazem chegar, onde mora Calipso, 
de belas tranças, a deusa funesta, que, sempre bondosa, 
alimentou-me e acolheu-me e me disse, com muitos afagos, 
que me faria imortal e liberto das cãs para eterno. 
O coração no imo peito, porém, jamais pôde abalar-me. 
Por um setênio contínuo ali estive detido, com lágrimas

sempre a banhar os vestidos eternos, que a deusa me dera. 
Mas, depois que, no transcurso do tempo, chegou o oitavo ano, 
ela incitou-me, ordenando seguir, sem delongas, de viagem 
ou por desígnio de Zeus, ou porque se mudasse ela própria. 
Numa jangada bem-feita deixou-me partir, tendo posto 
nela bom vinho e alimento; com roupa divina vestiu-me. 
Fez que soprasse, em seguida, um bom vento, propício e agradável. 
Dias singrei dezessete no dorso do mar, desse modo; 
mas, no seguinte, desta ilha surgiram os montes escuros. 
Já o coração se alegrava no peito do triste coitado;

tinha porém de passar muitos outros reveses, sem conta, 
que de Posido me vinham, que os muros da terra sacode. 
Desencadeou ventos fortes, que a viagem de todo impediram; 
o mar imenso agitou, sem que as ondas, sequer, permitissem 
que da jangada pudesse valer-me na minha desdita, 
pois a procela a desfez. Vi-me, pois, a avançar obrigado, 
sempre nadando, através da voragem, até que à paragem 
em que habitais me lançaram os ventos e as ondas marinhas. 
Para alcançar terra firme, forçaram-me as ondas violentas 
contra uns imanos rochedos, na costa de aspecto tristonho.

Retrocedendo, porém, novamente nadei, até ver-me 
na foz de um rio, onde quis parecer-me lugar apropriado, 
por ser sem pedra nenhuma e abrigado da força dos ventos. 
Quase sem vida caí sobre o solo ao baixar a divina 
Noite. Depois afastei-me do rio, do céu oriundo, 
para ir dormir sobre um monte de folhas, que eu próprio ajeitara, 
entre uns arbustos; um deus me infundiu profundíssimo sono. 
Nesse lugar, entre as folhas, dormi, apesar do cansaço, 
toda essa noite e a seguinte manhã, té a metade do dia. 
O doce sono de mim se apartou, quando o Sol se deitava.

Foi nesse instante que vi sobre a praia a brincar as criadas 
de tua filha, que entre elas estava qual deusa inefável. 
Aproximei-me e falei-lhe; mostrou ser dotada de juízo, 
como jamais esperara que jovem por essa maneira 
me respondesse, que os moços estúrdios são sempre e insensatos. 
Deu-me à vontade alimentos e vinhos de rútilo aspecto; 
fez-me no rio banhar e, por fim, me brindou com estas roupas. 
Eis a verdade de tudo, apesar da aflição que me oprime.” 
   Disse-lhe Alcínoo, depois, em resposta, as seguintes palavras: 
“Hóspede, ao menos num ponto, razoável não foi minha filha,

em não te haver, juntamente com as servas, trazido ao palácio, 
visto ter sido a primeira pessoa de quem te acercaste.” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu, o guerreiro solerte: 
“Não repreendas, guerreiro, tua filha por esse motivo. 
Ela, de fato, me disse que viesse com suas escravas; 
mas eu não quis, por vergonha e, também, por achar-me receoso 
de que pudesses ficar irritado, ao nos veres sozinhos. 
São mui propensos à cólera os homens nascidos da terra.” 
   Disse-lhe Alcínoo, depois, em resposta, as seguintes palavras: 
   “Não é costume, estrangeiro, exaltar-se, sem causa, no peito,

meu coração. Preferível é ser moderado nas coisas. 
Fosse do gosto de Zeus, e de Palas Atena, e de Apolo, 
que, desse modo, qual és, compartindo de meus pensamentos, 
como mulher minha filha escolhesses e fosses chamado 
meu genro aqui. Um palácio dar-te-ia, bem como riquezas, 
se, de bom grado, ficasses, pois contra a vontade os Feácios 
não te detêm. Tal conduta seria por Zeus condenada. 
Sobre a tua volta, fixei-lhe o momento, porque bem o anotes: 
para amanhã; pois, enquanto dormires um sono profundo, 
hão de cortar o mar brando os meus homens, a fim de levar-te

à tua pátria e ao palácio, ou onde quer que te seja agradável, 
mesmo que esteja situada mais longe que a terra de Eubeia, 
que é a mais distante de todas, segundo o referem dos nossos 
quantos a viram, no tempo em que foram levar Radamanto 
para que a Tício visita fizesse, o nascido de Geia. 
Mas conseguiram chegar até lá, sem cansados ficarem, 
no mesmo dia, e fazer o percurso até aqui, de retorno. 
Por experiência hás de ver quanto os nossos navios são ótimos 
e hábeis os moços no ofício de as ondas cortar com seus remos.”² 
   Disse. Com isso o divino e sofrido Odisseu alegrou-se

e a suplicar começou de dizer as seguintes palavras: 
   “Possa, ó Zeus pai, realidade tornar-se isso tudo que Alcínoo 
me prometeu! Que na terra fecunda de trigo sua glória 
seja infinita, e que eu chegue a alcançar meu país de nascença!” 
   Dessa maneira, em colóquio, eles dois tais conceitos diziam. 
Foi quando Arete, de cândidos braços, mandou às criadas 
que sob o pórtico o leito lhe armassem, com bons travesseiros, 
de cor purpúrea forrado e coberto, também, com tapetes, 
para, por último, os mantos velosos por cima assentarem. 
Elas saíram da sala, sustendo nas mãos os archotes.

Ao acabarem de o leito bem forte aprontar, foram todas 
té onde se achava Odisseu, e por esta maneira o invitaram: 
“Vai, estrangeiro, deitar-te, que pronto já se acha o teu leito.” 
Por esse modo falaram; mui grato lhe foi o descanso. 
   Dessa maneira dormia o divino e sofrido guerreiro 
num leito belo e entalhado, debaixo da sala sonora. 
Deita-se Alcínoo, também, no interior
do seu alto palácio, onde a consorte 
comparte do leito e colchões que ajeitara.  

continua página 767...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto VI.a / Canto VI.b / Canto VII.a / Canto VII.b /                            
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] O trecho aprofunda a construção de Odisseu como herói marcado pela dor e pela lucidez, ao mesmo tempo em que revela o código de hospitalidade dos Feácios. Ao responder a Alcínoo, Odisseu recusa qualquer associação com os deuses e insiste em sua condição mortal, sublinhando a distância entre a aparência divina que muitos lhe atribuem e a realidade de um homem exausto, moldado pelo sofrimento. Sua reflexão sobre o “ventre molesto” é um momento raro de ironia e realismo na Odisseia: mesmo em meio à angústia, o corpo exige sustento, lembrando que a necessidade física é inescapável e, paradoxalmente, capaz de suspender a memória da dor. O pedido para retornar à pátria ao amanhecer reforça seu desejo constante de reencontro com a identidade perdida — casa, bens, escravos, estabilidade — e mobiliza a empatia dos convivas, que o aplaudem e concordam em ajudá-lo. O episódio marca a transição de Odisseu da condição de suplicante à de hóspede honrado, preparando o terreno para a narrativa de suas aventuras e para o auxílio decisivo dos Feácios em seu retorno a Ítaca.

[2] A
 relação de confiança começa a se formar entre Odisseu e Alcínoo, ao mesmo tempo em que revela nuaances importantes da ética feácia. Alcínoo inicia com uma leve crítica à filha, Arete, por não ter conduzido o estrangeiro ao palácio, mas Odisseu, com sua habitual prudência, desfaz qualquer possibilidade de conflito ao explicar que recusou o convite por vergonha e receio de causar irritação — um gesto que reforça sua sensibilidade às normas sociais e ao risco de ser mal interpretado. A resposta de Alcínoo, marcada pela moderação, revela um governante equilibrado, que valoriza a calma e a justiça, e chega até a imaginar Odisseu como possível genro, sinal de admiração pela figura do herói. Em seguida, o rei reafirma o princípio fundamental da hospitalidade feácia: ninguém é retido contra a vontade, pois isso seria ofensivo aos deuses. Ele promete uma viagem rápida e segura, destacando a excelência quase sobrenatural das naus de seu povo. Assim, o episódio consolida a passagem de Odisseu da condição de suplicante à de hóspede honrado, enquanto prepara o leitor para o momento decisivo em que os Feácios se tornarão instrumentos do retorno do herói à sua pátria.

Odisseia: Parte II (Canto VII.a - Entrada de Odisseu na casa de Alcínoo)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VII

Entrada de Odisseu na casa de Alcínoo

    “Atena se faz presente para Odisseu e mostra-lhe a casa de Alcínoo. Odisseu, se aproximando, se lança aos joelhos de Arete, e pede para ela enviá-lo de volta à sua pátria. Alcínoo concorda, o coloca ao seu lado e lhe oferece comida. Arete reconhece as roupas e lhe pergunta de onde as conseguiu. Odisseu então lhes conta os acontecimentos desde a ilha de Calipso, seu naufrágio, sua chegada e que, pedindo, recebeu de Nausícaa as roupas.” (Scholie H V)



   Dessa maneira o divino e sofrido Odisseu implorava. 
Para a cidade a donzela levaram as mulas robustas. 
Mas, quando em frente Nausícaa chegou do palácio paterno, 
fê-las parar no portal. Os irmãos rodearam-na logo, 
aos imortais semelhantes, e as mulas tiraram do carro, 
indo, depois, toda a roupa levar para dentro da casa. 
Para o seu quarto ela, então, se encaminha, onde lume lhe acende 
Eurimedusa, nascida em Apira, sua velha servente, 
que, havia muito, trouxeram da pátria os navios simétricos,

e para Alcínoo escolhida ficou como prêmio condigno, 
pois comandava os Feácios, qual deus acatado entre o povo. 
Fora por ela criada na casa a amorável Nausícaa. 
Ora a lareira acendeu e aprestou o repasto da noite. 
   Para a cidade, no entanto, Odisseu se dirige, cercado 
de bruma espessa, que Palas derrama, do herói cuidadosa, 
não o encontrasse em caminho nenhum dos Feácios magnânimos, 
que, porventura, o insultasse, ou quisesse saber quem ele era. 
Mas, quando quase no ponto se achava da amena cidade, 
a de olhos glaucos, Atena, ao encontro lhe veio na forma

de uma donzela, que um cântaro de água nos ombros trazia. 
Ante o divino Odisseu se detém. Este aí lhe pergunta: 
“Minha menina, não queres mostrar-me onde fica o palácio 
do rei Alcínoo, que a todas as gentes da terra comanda? 
Sou estrangeiro, provado em trabalhos infindos e grandes; 
venho de terras longínquas, motivo por que desconheço 
quem na cidade demora e que povo o país todo habita.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Hóspede amigo, é mui fácil mostrar-te o palácio que buscas. 
Fica bem perto da casa em que mora meu pai de alta fama.

Segue calado, que eu própria hei à frente o caminho indicar-te; 
não te detenhas a olhar a ninguém, nem lhe faças perguntas. 
Os moradores daqui não recebem nenhum forasteiro 
de boa mente, nem dão acolhida aos que vêm de outras terras. 
Sempre confiados nas céleres naus, atravessam velozes 
o mar imenso. O que a terra sacode lhes deu tal ofício. 
São-lhes as naus mais ligeiras que as asas e que o pensamento.”¹
   Palas Atena, depois que isso disse, se pôs a guiá-lo, 
rapidamente; ele, empós, as pegadas da deusa seguia, 
sem que os Feácios, amantes do remo, o tivessem sentido,

quando através da cidade e do povo passou. Isso impede 
Palas, de tranças bem-feitas, a deusa potente, que névoa 
prodigiosa lhe lança em redor, porque muito o estimava. 
Vê, admirado, Odisseu as simétricas naves, os portos, 
a ágora das reuniões dos heróis e os compridos, os altos 
muros, providos de estacas, à vista espetác’lo soberbo. 
Quando chegaram, porém, ao palácio admirável de Alcínoo,
a de olhos glaucos, Atena, lhe disse as seguintes palavras: 
   “Hóspede amigo, chegamos à casa que, há pouco, pedias 
se te mostrasse. Num lauto festim hás de ver os regentes,

de Zeus discípulos. Vai para dentro, não mostres receio. 
Quem tem coragem consegue levar a bom termo as empresas 
em que se mete, ainda mesmo que venha de terra estrangeira. 
Primeiramente, hás de a dona da casa encontrar na ampla sala. 
Tem ela o nome de Arete; do mesmo casal ela veio 
que o rei Alcínoo gerou, pois, de fato, Nausítoo primeiro 
foi por Posido gerado, o que os muros da terra sacode, 
e Peribeia, a mais linda entre todas as outras mulheres, 
de Eurimedonte a caçula, dotado de espírito grande, 
que entre os Gigantes altivos reinou nas idades passadas.

Mas ele mesmo a si próprio destruiu, com seu povo descrente. 
Tendo-se à filha formosa ligado, Posido deu vida 
ao dos Feácios regente, Nausítoo, de espírito grande. 
De Rexenor e de Alcínoo, por último, o pai foi Nausítoo. 
Sem descendente varão, por Apolo foi morto o primeiro, 
recém-casado, deixando somente uma filha na casa, 
de nome Arete, que Alcínoo, por fim, recebeu como esposa, 
e com tão grande respeito a cercando, qual nunca na terra 
se viu mulher, entre todas que as casas dos homens governam. 
Dessa maneira foi ela estimada e ainda agora o está sendo

pelos seus filhos queridos e mais por Alcínoo, assim como 
por todo o povo, que tal como deusa imortal a venera, 
quando atravessa a cidade, e a festeja com ledos saudares. 
É que, em verdade, tem muito bom senso: dirime as contendas 
das que lhe são afeiçoadas e os próprios litígios dos homens. 
Caso te escute e em seu peito propícia se mostre à tua sorte, 
podes a esp’rança afagar de rever os amigos, e a casa 
bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença.” 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao dizer tais palavras, 
por sobre o mar infecundo. Partindo da Esquéria amorável

Maratona se foi e a de estradas mui largas, Atenas, 
ao de Erecteu bem-construído palácio. Odisseu, entrementes, 
chega à morada esplendente de Alcínoo; detém-se volvendo 
mil conjeturas, primeiro que a brônzea soleira passasse, 
pois se espalhava um fulgor semelhante ao do Sol ou da Lua 
pela morada de teto elevado de Alcínoo magnânimo. 
De ambos os lados, cobertos de bronze, estendiam-se muros 
desde a fachada até o fundo, encimados por friso azulado. 
Portas com lâminas de ouro o palácio fechavam por dentro, 
com seus batentes de prata apoiados em brônzea soleira.

Era de prata a arquitrave, porém era o anel todo de ouro. 
De ouro e de prata, de cada um dos lados, dois cães se encontravam, 
obra de Hefesto, que os tinha com arte extremada acabado, 
para que a casa guardassem de Alcínoo, de peito magnânimo, 
pois não se achavam sujeitos ao tempo, nem velhos ficavam. 
Lá se encontravam poltronas postadas ao longo dos muros, 
desde a fachada até ao fundo, em fileiras; por cima das mesmas 
panos havia de fino lavor, das mulheres trabalho. 
Tinham os chefes Feácios ali por costume sentar-se 
para comer e beber; os banquetes duravam todo o ano.

De ouro se viam crianças em cima de altares bem-feitos, 
sempre de pé, nas mãozinhas sustendo brilhantes archotes, 
a iluminar toda a noite o palácio, durante os banquetes. 
Eram cinquenta as escravas, que, ao todo, se achavam na casa; 
delas, algumas os grãos alourados no moinho trituram; 
outras, sentadas em filas, quais folhas de choupo altanado, 
tecem no tear finas telas, ou fios no fuso preparam. 
Da tecedura do linho bem-feito óleo líquido estila. 
Do mesmo modo que os homens Feácios a todos se extremam 
no governar os navios velozes no mar, as mulheres

sabem tecer com perícia, pois Palas Atena lhes dera 
mente elevada e perícia em trabalhos de bela feitura. 
Fora do pátio se encontra um jardim, logo ao lado da porta, 
de quatro jeiras, cingido de todos os lados por sebes. 
Árvores grandes se criam aí dentro, com viço admirável. 
Veem-se pereiras, romeiras, macieiras, de frutos esplêndidos, 
mais oliveiras viçosas e figos mui doces ao gosto. 
Nelas jamais faltam frutos, nem nunca tais frutos se estragam; 
já no verão, já no inverno, durante o correr do ano todo 
Zéfiro faz que uns madurem, enquanto crescendo vão outros.

Seguem-se a peras mais peras; maçãs a maçãs substituem; 
vêm depois da uva outras uvas, ao figo outros figos sucedem. 
Para o monarca plantaram, também, uma vinha viçosa; 
cachos alguns em lugares apricos e planos são postos 
para secarem ao sol; outros são vindimados e, destes, 
pouco pisados. Na parte anterior dessa vinha se encontram 
cepas que flores desprendem; as uvas por trás já se coram. 
Na parte extrema desse horto se encontram canteiros bem-feitos 
de variados legumes, que verdes estão o ano todo. 
Veem-se, também, duas fontes; por todo o jardim uma delas

é distribuída; outra passa por baixo da porta do pátio, 
para o palácio elevado, onde o povo sói dela servir-se. 
   Estes os dons admiráveis, que os deuses a Alcínoo fizeram. 
   Para, a admirar o divino e sofrido Odisseu quanto via. 
Mas, depois que se saciara na vista daquele espetáculo, 
rapidamente atravessa o limiar e na casa penetra. 
Os conselheiros e chefes do povo Feácio achou dentro, 
que, com suas taças, libavam ao certeiro Argeifontes, 
o que faziam por último, antes de vir-lhes o sono. 
Corta através do palácio o divino e sofrido guerreiro,

na névoa espessa escondido, que Atena lhe em torno deitara,
té não ser junto de Arete e do rei dos Feácios, Alcínoo. 
Corre a atirar-se Odisseu aos joelhos de Arete, e os abraça 
no próprio instante em que a névoa envolvente de todo se espalha. 
Os circunstantes quedaram silentes, ao verem um homem 
dentro da casa; entreolharam-se todos. O herói lhe suplica: 
   “Filha do herói Rexenor, semelhante a um dos deuses, Arete! 
Pós ter passado trabalhos sem conta, de ti me aproximo, 
de teu esposo e dos outros convivas. Os deuses lhes deem 
vida feliz, e que deixe cada um para os filhos tesouros,

que no palácio ajuntaram, bem como honrarias do povo. 
Dai-me, porém, uma escolta, que à pátria, depressa, me leve, 
pois sofrimentos suporto, há bem tempo, distante de casa.” 
   Tendo isso dito, sentar-se foi ele à lareira, na cinza, 
junto do fogo. As pessoas presentes ficaram caladas. 
Mas, decorrido algum tempo, falou Equeneu valoroso, 
que se prezava de ser o mais velho dos homens Feácios, 
de muita e antiga experiência, e extremado em dizer bons discursos. 
Cheio de bons pensamentos, diz ele, arengando, o seguinte: 
   “Ó rei Alcínoo, não julgo decente, nem belo, deixarmos

que um estrangeiro se sente no chão e na cinza, à lareira. 
Os circunstantes aguardam somente que dês tu o exemplo. 
Vamos! Levanta o estrangeiro e o conduze a sentar-se em poltrona 
cheia de ornatos de prata; em seguida, aos arautos dá ordens 
para que o vinho misturem, e todos a Zeus ofertemos, 
fulminador, que acompanha em seus passos os nobres pedintes. 
A despenseira repasto lhe apreste do que há no palácio.”²
Mal tais palavras ouviu, a de Alcínoo sagrada potência 
toma a Odisseu pela mão, o prudente e solerte guerreiro, 
fê-lo sair da lareira e num trono esplendente assentar-se,

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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] O trecho é um momento belíssimo da Odisseia, apresenta Odisseu em um momento de vulnerabilidade e transição, chegando à terra dos Feácios sob a proteção direta de Atena, que o envolve em névoa para evitar encontros hostis antes que ele alcance o palácio de Alcínoo. A aparição da deusa disfarçada de donzela reforça o tema homérico da intervenção divina e da astúcia como ferramentas essenciais para a sobrevivência do herói. Ao orientar Odisseu a caminhar em silêncio e evitar contato com os habitantes, Atena revela o caráter reservado e quase sobrenatural dos Feácios, navegadores excepcionais que não acolhem facilmente estrangeiros. Assim, o episódio combina tensão, cuidado divino e preparação narrativa para o acolhimento que transformará o destino do herói, marcando o limiar entre o sofrimento das viagens e o início do retorno possível.
- O que acontece nesse trecho?
1. Odisseu chega à cidade dos Feácios envolto em névoa: a névoa é obra de Atena. Ela o protege para que nenhum feácio o veja, o hostilize ou o interrogue antes do momento certo. É um gesto de cuidado divino: Odisseu está exausto, vulnerável e ainda desconhecido naquela terra.
2. Atena aparece disfarçada: quando Odisseu se aproxima da cidade, Atena surge na forma de uma jovem carregando um cântaro de água — uma figura comum e inofensiva. Odisseu, sempre prudente, pergunta a ela onde fica o palácio do rei Alcínoo.
3. Odisseu se apresenta como estrangeiro: ele explica que vem de longe, sofreu muito e não conhece o povo nem a cidade. É a postura típica do herói suplicante: humilde, direto, buscando hospitalidade.
4. Atena orienta Odisseu: ela diz que o palácio é fácil de encontrar e que ele deve segui‑la em silêncio. A deusa alerta: * os feácios não recebem bem estrangeiros; * são um povo marítimo, veloz, quase sobrenatural em suas viagens; * suas naus são mais rápidas que asas ou pensamento — uma imagem poderosa que Homero usa para marcar a natureza quase mágica desse povo. Atena, portanto, não só guia Odisseu fisicamente, mas também o prepara para lidar com uma sociedade peculiar, reservada e desconfiada.
- Significado dentro da narrativa.
1. Proteção divina: Atena continua sendo a principal aliada de Odisseu.
2. Transição importante: Ele está prestes a entrar no último grande episódio antes do retorno a Ítaca.
3. Retrato dos Feácios: Um povo limítrofe entre o humano e o fantástico, essencial para o desfecho da epopeia.

[2] O trecho mostra um momento decisivo de acolhimento e reconhecimento social dentro da Odisseia: Odisseu, ainda na posição de suplicante, dirige-se diretamente a Arete — figura central entre os Feácios — adotando a postura ritual de humildade que marca sua dependência da hospitalidade alheia. Sua fala combina respeito, elogio e súplica, revelando tanto sua vulnerabilidade quanto sua habilidade diplomática. A reação inicial dos presentes, silenciosa, evidencia a tensão do encontro: o estrangeiro ainda não foi integrado ao círculo social. É Equeneu, o mais velho e sábio, quem rompe o silêncio e lembra Alcínoo das normas de hospitalidade, reforçando o valor cultural do xénos e a obrigação moral de acolher o suplicante. Assim, o episódio dramatiza a passagem de Odisseu da condição de desconhecido à de hóspede legítimo, destacando a importância da hospitalidade como eixo ético e narrativo da epopeia.

Bom dia, Clássicas... L'Primavera - Vivaldi

Antonio Lucio Vivaldi

4 de março de 1678 – 28 de julho de 1741

   Parece que por aqui a Primavera está se mostrando, que assim seja! Aproveitemos como ela se apresenta e se oferece à vida. Que ela esteja dentro das pessoas, nas pequenas pistas, no cheiro do ar, na luz do dia e no jeito como as coisas parecem mais possíveis. Não espere que tudo floresça de uma vez, ela é um convite, uma promessa... como A Primavera, de Vivaldi, que sempre parece anunciar não apenas uma estação, mas um recomeço.

   Le quattro stagioni, conhecidos em português como As Quatro Estações, são quatro concertos para violino e orquestra do compositor italiano Antonio Vivaldi.

O arranjo de Vivaldi é o seguinte:
Concerto No. 1 em Mi maior, op. 8, RV 269, "La primavera" (Primavera)
1. Allegro (em mi maior)
2. Largo (em dó sustenido menor)
3. Allegro Pastorale (em mi maior)

   O concerto completo "La Primavera" (A Primavera), de *As Quatro Estações*. Voices of Music; Alana Youssefian, violino barroco. O concerto é executado em instrumentos originais da época de Vivaldi. Alana Youssefian toca um violino barroco de Jason Viseltear (2016), inspirado em um instrumento de Carlo Giuseppe Testore (Milão, oficina "Ao Sinal da Águia").


Vivaldi, As Quatro Estações: Primavera (La Primavera) 
– Versão completa e original. 
Youssefian & Voices of Music (RV)




"Para este vídeo, preparou-se uma nova edição a partir das fontes originais — impressos e manuscritos — da música de Vivaldi. Ao elaborar esta edição para performance, tomamos a decisão musicológica de que a indicação de surdinas no *Allegro* ("con Sordine") para os violinos estava deslocada na partitura impressa original (não há tal indicação nos livros de partes de Manchester); concluímos que as surdinas deveriam ser usadas no *Largo* (e, importante ressaltar, não no movimento final). As surdinas criam agora uma distinção de textura entre as violas e o solista. Vivaldi descreve o último movimento como uma dança rústica ao som de gaitas de fole (*Zampogna*). Por isso, ouvimos também gaitas de fole italianas de estilo tradicional e acrescentamos algumas notas aos bordões da linha de baixo de Vivaldi, recriando essa sonoridade brilhante e singular. Apresentamos aqui nossa nova versão, com os violinos utilizando surdinas no movimento lento e um *Allegro* final vibrante, sem surdinas." Voices of Music


Vivaldi não foi apenas um compositor prolífico; ele moldou a linguagem musical do início do século XVIII. Sua influência se espalhou pela Europa enquanto ele ainda estava vivo, afetando desde a técnica violinista até a própria forma do concerto.

Durante sua vida, suas obras circularam amplamente graças a editores de cidades como Amsterdã, que publicaram seus concertos. Isso fez com que músicos da França, Alemanha, Holanda, Itália e Áustria estudassem e imitassem seu estilo.

Johann Sebastian Bach, por exemplo, transcreveu vários concertos de Vivaldi para teclado e órgão, absorvendo sua clareza formal e energia rítmica.

Jovens compositores viam nele um modelo de modernidade.

L'Primavera - Vivaldi /         

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VII.c - O combate singular de Heitor e Ajaz e a remoção dos mortos)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VII - O combate singular de Heitor e Ajaz e a remoção dos mortos
 
“O retorno de Heitor e de Páris dá vantagem aos Troianos. Heleno, inspirado por Atena e Apolo, aconselha Heitor a pelejar com o melhor entre os Gregos, mas nenhum dos Gregos se manifesta. Com o apelo de Nestor, nove heróis se apresentam, sendo Ajaz Telamônio escolhido. Ele e Heitor lutam até o anoitecer, quando há uma trégua. Decide-se, então, enterrar os mortos e os Gregos aproveitam para fazer um muro diante dos navios. Posido se ofende com este trabalho.”
. 
continuando...

se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva. 
A melhor parte cortou para Ajaz, a saber, todo o lombo, 
o grande filho de Atreu, Agamémnone, rei poderoso. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
foi o primeiro a tecer argumentos Nestor de Gerena, 
cuja opinião, desde muito, julgada a melhor era sempre. 
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte: 
   “Filho de Atreu, e vós outros, distintos e fortes Argivos! 
Muitos Acaios de soltos cabelos já a vida perderam;
Ares, o deus impetuoso, espargiu-lhes o sangue anegrado

no amplo Escamandro, baixando suas almas para o Hades sombrio. 
Faze, portanto, mal surja a manhã, suspender os combates. 
Com bois e mulos, depois, os cadáveres todos nos carros 
transportaremos, a fim de queimá-los na pira sagrada, 
um pouco longe das naves, que os ossos possamos a cada 
filho entregar, quando à pátria querida, por fim, regressarmos.
Um monumento comum, na planície, depois, construamos 
perto da pira e, a partir desse ponto, erijamos, depressa, 
torres excelsas, amparo eficaz para nós e os navios. 
Que sejam elas providas, também, de mui sólidas portas,

porque passagem tenhamos, assim, para os carros de guerra. 
A par, do lado de fora, cavemos um fosso profundo, 
que todo o muro circunde, capaz de refrear os cavalos, 
para não sermos levados pelo ímpeto grande dos Teucros.” 
   Isso disse ele; aplaudiram-no todos os chefes presentes. 
   Junto das portas de Príamo, no alto da Acrópole de Ílio, 
em tumultuosa assembleia os Troianos, também, se reuniam. 
Foi o primeiro a falar Antenor, de prudentes conselhos: 
   “Teucros, Dardânios e aliados, agora atenção prestai todos 
ao que vos digo e no peito me ordena a falar-vos o espírito.

É conveniente aos dois nobres Atridas Helena e os tesouros 
restituir, pois forçoso será combater, dora avante, 
como perjuros que somos. Nenhuma esperança alimento 
de qualquer bem, se negardes anuência a esta minha proposta.” 
   Tendo isso dito, voltou novamente a assentar-se. Levanta-se 
Páris, o divo Alexandre, marido de Helena cacheada, 
e lhe dirige, em resposta, as seguintes palavras aladas: 
   “Quanto disseste, Antenor, está longe de ser-me agradável. 
Penso que fora possível fazeres proposta mais digna. 
Mas, se tudo isso de há pouco foi dito, realmente, em tom sério,

é que os eternos do Olimpo fizeram que o juízo perdesses. 
Ora desejo, também, dirigir-me aos guerreiros Troianos: 
nunca hei de a esposa entregar; isso digo com toda a clareza; 
mas os objetos que de Argos, então, carreguei para Troia, 
em restituir não me oponho, acrescidos de joias inúmeras.”¹
   Tendo isso dito, voltou novamente a sentar-se. Levanta-se 
Príamo, filho de Dárdano, igual, no intelecto, a um dos deuses. 
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte: 
   “Teucros, Dardânios e aliados, agora atenção prestai todos 
ao que vos digo e no peito me ordena falar-vos o espírito.

Ora ide cear na cidade sagrada, conforme é do estilo; 
todos se ocupem da guarda: um por um se conserve acordado. 
Mas amanhã, logo cedo, enviemos Ideu aos navios, 
para dizer aos dois chefes insignes, os claros Atridas, 
o que lhes manda propor Alexandre, fautor desta guerra, 
e ainda mais, perguntar-lhes se querem — e é justo — dar tréguas 
ao fragoroso combate, até termos queimado os cadáveres, 
reiniciando-se a fera peleja no dia seguinte, 
té que um dos deuses decida a quem venha a caber a vitória.” 
   Obedeceram-lhe todos, depois de, em silêncio, o escutarem.

Sem desfazer as fileiras, nos ranchos, da ceia cuidaram. 
Mal a manhã despontou, para as naves Ideu se dirige 
em assembleia encontrando os Argivos, discípulos de Ares,
junto da popa da nave do Atrida. Depois de encontrar-se 
no meio deles, falou-lhes o arauto canoro desta arte: 
   “Filhos de Atreu, e vós outros, distintos e fortes Acaios, 
Príamo e os outros Troianos ilustres aqui me enviaram 
para dizer-vos, no caso de grata vos ser a notícia, 
o que vos manda propor Alexandre, fautor desta guerra. 
Tudo quanto ele — prouvera que a Morte, antes disso, o alcanças

— trouxe nas naves simétricas para a cidade de Príamo, 
cha-se pronto a entregar, acrescido de inúmeras joias. 
Mas quanto àquela que, virgem, o herói Menelau desposara, 
em restituir não consente, apesar de que os Teucros o pedem. 
Trago, também, perguntar-vos se acaso aos combates horríssonos 
tréguas quereis conceder, até termos queimado os cadáveres, 
reiniciando-se a fera peleja no dia seguinte, 
té que um dos deuses decida a quem venha a caber a vitória.” 
   Isso disse ele; calados e quedos os outros ficaram, 
té que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa:

“Não se receba nenhum dos presentes propostos por Páris, 
nem mesmo Helena, por ser mais do que claro, até às próprias crianças, 
que sobre os homens de Troia a ruína fatal já desaba.” 
   Isso disse ele, e os Aqueus prorromperam em grita estrondosa, 
de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes. 
Vira-se, então, para Ideu, o potente senhor Agamémnone: 
   “Ouves, Ideu, com teus próprios ouvidos, o que te respondem 
nossos guerreiros. E grata a resposta também ao meu peito. 
No que concerne aos cadáveres, não lhes recuso a fogueira; 
impedimento nenhum costumamos fazer aos defuntos,

mas, extinguido o vigor, procuramos aplacá-los com o fogo. 
Zeus, de Hera esposo, de voz atroante, confirme esta jura.” 
   O cetro, então, levantando, invocou logo os deuses eternos. 
Para a cidade sagrada de Troia Ideu, logo, retorna. 
Na ágora todos se achavam sentados, Dardânios e Teucros, 
em reunião, cheios de ânsia, a esperar pela volta do arauto. 
Este, avançando até o meio da praça, lhes faz um relato 
do que lhe fora incumbido. Aprontaram-se todos, depressa: 
uns, para lenha acervar; para os corpos trazer, outros tantos. 
Parte também, dos Argivos, deixando os navios, cuidava

de recolher os cadáveres; parte, com a lenha se ocupa. 
   Logo que o Sol começou a ferir com seus raios o campo, 
pós ter deixado a corrente profunda e tranquila do oceano, 
para galgar o alto céu, encontraram-se Aquivos e Teucros. 
Era tarefa difícil identificar os cadáveres, 
sem que, primeiro, com água os coalhos de sangue tirassem. 
Por entre choro sentido os colocam, depois, nas carretas. 
O grande Príamo, entanto, proibiu gritaria: em silêncio, 
o coração angustiado, às fogueiras os corpos entregam. 
Logo depois de queimados, voltaram para Ílio sagrada

Do mesmo modo os Acaios, de grevas bem-feitas, procedem: 
o coração angustiado, às fogueiras os corpos entregam; 
logo depois de queimados, às côncavas naus retornaram.² 
   Antes que a Aurora tivesse surgido, ainda em pleno crepúsculo, 
grupo escolhido de Aqueus ao redor da fogueira se reúne. 
Um monumento comum, na planície, depois, construíram, 
perto da pira e, a partir desse ponto, erigiram, depressa, 
torres excelsas, amparo eficaz para os homens e as naves. 
Portas, depois, de feitura mui sólida, em todas puseram, 
que para os carros de guerra, desta arte, o caminho franqueassem.

A par, do lado de fora, cavaram um fosso profundo, 
grande, bem largo, provido todo ele de fortes estacas. 
Azafamavam-se, assim, os Acaios de soltos cabelos. 
Todos os deuses ao lado de Zeus se encontravam sentados,
fulminador, a admirar a grande obra dos fortes Argivos. 
Foi o primeiro a falar o que a terra sacode, Posido: 
   “Conceber-se-á, Zeus potente, que exista algum homem na Terra 
que, previamente, revele a um de nós seus intuitos e planos? 
Vês como agora, de novo, os Acaios de soltos cabelos 
muro ao redor dos navios construíram, cingido por fosso,

sem que aos eternos houvessem solene hecatombe ofertado? 
Tal como a Aurora, há de a fama sem-par desse muro estender-se, 
e em esquecimento cairão as muralhas que Apolo e eu construímos 
com tanto esforço e canseira no burgo do herói Laomedonte.” 
   Disse-lhe Zeus, indignado, que as nuvens no Olimpo cumula: 
“Abalador poderoso da terra, que ditos são esses! 
Tal pensamento pudera ocorrer a um qualquer dos eternos 
destituído de força e de braços que os teus menos fortes. 
Té onde a Aurora se estenda, também chegará tua glória. 
Sê comedido, que quando os Aquivos, de soltos cabelos,

para o torrão de nascença voltarem, nas naves simétricas, 
tens o poder de arrasar a muralha, levando os escombros 
para o amplo mar e cobrindo a área grande de areia infinita, 
de todo estruindo a grande obra, Posido, dos fortes Aquivos.” 
   Dessa maneira, em colóquio, eles dois tais conceitos diziam. 
E, quando o Sol se deitou, os Aqueus o trabalho concluíram. 
Bois, junto às tendas, imolam; depois, cuidam todos da ceia. 
Nisso, chegaram de Lemno navios inúmeros, cheios 
de vinho rútilo, todos de Euneu e por ele enviados, 
filho do chefe de povos, Jasão, e de Hipsípile bela.

Determinara o pastor de guerreiros, Euneu, para os nobres 
filhos de Atreu mil medidas de vinho, presente valioso. 
Vinho soíam comprar-lhe os Aquivos de soltos cabelos; 
uns, davam bronze de volta; outros, barras de ferro brilhante; 
peles de bois, alguns poucos, e reses, ainda, outros, com vida, 
ou, mesmo, escravos. Banquetes opimos, depois, aprontavam. 
Por toda a noite, em festins, os Acaios de soltos cabelos 
se banqueteavam e, assim, na cidade, os Troianos e aliados. 
Graves incômodos Zeus, toda a noite, para eles pensava, 
a trovejar por maneira terrível. De todos o pálido

Medo se apossa; derramam no solo a bebida; não ousa 
vinho beber ninguém mais, sem que a Zeus poderoso libasse. 
Foram deitar-se, depois, e os presentes do Sono lograram. 

continua página 215...
_________________

A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VII.a / Canto VII.b / Canto VII.c /                          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
________________

[1] Antenor, o mais prudente dos anciãos troianos, propõe na assembleia que Helena e os tesouros sejam devolvidos aos aqueus, reconhecendo que a guerra só continuará a trazer desgraça enquanto Troia insistir em manter aquilo que foi tomado injustamente. Sua sugestão, porém, é rejeitada por Páris, que se levanta indignado, acusa Antenor de ter perdido o juízo e declara que jamais devolverá Helena, embora aceite restituir os bens trazidos de Argos, acrescidos de novas riquezas. O trecho evidencia o conflito interno entre a razão política de Antenor e o orgulho irresponsável de Páris, cuja obstinação mantém viva a causa da guerra.

[2] Logo ao nascer do sol, quando os raios começam a iluminar o campo de batalha, aqueus e troianos se reúnem para recolher os mortos do dia anterior. A tarefa é difícil, pois os corpos estão cobertos de sangue coagulado, e só após lavá-los conseguem identificá-los. Em silêncio e com o coração angustiado, ambos os povos colocam os cadáveres nas carretas e os levam às fogueiras, seguindo a ordem de Príamo de evitar lamentações ruidosas. Depois da cremação, os troianos retornam a Ílio, enquanto os aqueus, igualmente silenciosos e entristecidos, fazem o mesmo ritual e voltam às suas naus. O trecho destaca a trégua momentânea, o respeito mútuo diante da morte e a dor compartilhada pelos dois lados da guerra.


Ilíada, de Homero - Canto VII



Ilíada: Homero (Canto VII.b - O combate singular de Heitor e Ajaz e a remoção dos mortos)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VII - O combate singular de Heitor e Ajaz e a remoção dos mortos
 
“O retorno de Heitor e de Páris dá vantagem aos Troianos. Heleno, inspirado por Atena e Apolo, aconselha Heitor a pelejar com o melhor entre os Gregos, mas nenhum dos Gregos se manifesta. Com o apelo de Nestor, nove heróis se apresentam, sendo Ajaz Telamônio escolhido. Ele e Heitor lutam até o anoitecer, quando há uma trégua. Decide-se, então, enterrar os mortos e os Gregos aproveitam para fazer um muro diante dos navios. Posido se ofende com este trabalho.”
. 
continuando...

não demonstrais ardimento de Heitor enfrentar valoroso!” 
   Essas censuras do velho fizeram que nove guerreiros 
se levantassem: primeiro de todos, o Atrida Agamémnone; 
logo depois, o Tidida Diomedes, de forte estatura; 
os dois Ajazes, depois, revestidos de força guerreira; 
Idomeneu, a seguir, o seu fiel companheiro, Meríones, 
que tinha de Ares funesto a figura exterior e a imponência; 
segue-se Eurípilo, o filho preclaro de Evémone ilustre; 
Toante, por fim, de Andremão descendente, e Odisseu valoroso. 
Todos a o ínclito Heitor enfrentar se mostraram dispostos.

Volta a falar-lhes o velho guerreiro, Nestor de Gerena: 
   “Ora vejamos, por meio da sorte, quem há de bater-se. 
Agradecidos ser-lhe-ão os Acaios, de grevas bem-feitas, 
sobre ser útil, também, para si, caso ao campo retorne 
salvo, escapando, com vida, do encontro e da fera peleja.” 
   Obedeceram-lhe prestes, marcando cada um uma pedra, 
que, depois, no elmo vistoso lançaram do Atrida Agamémnone. 
Súplices, todos imploram, aos deuses as mãos elevando. 
Muitos, olhando para o alto, diziam seus votos ferventes: 
   “Que seja Ajaz Telamônio, Zeus pai, o sorteado, ou Diomedes,

ou faze a escolha cair no monarca da rica Micenas!” 
Por esse modo, imploravam; o Pílio Nestor sacode o elmo; 
do elmo saltou logo a sorte de Ajaz, a que todos pediam. 
Pela direita começa, então, logo, um dos fortes arautos 
a percorrer as fileiras, mostrando-a aos preclaros Aquivos. 
Todos, porém, recusavam pegá-la, que sua não era. 
Mas, quando o arauto, depois de por todos passar, chegou perto 
do próprio autor do sinal posto no elmo, de Ajaz impecável, 
este a mão, logo, estendeu, sua sorte tomando do arauto, 
pois conhecera que a senha era sua, com isso alegrando-se.

Lança-a, depois, para o chão, junto aos pés, prorrompendo desta arte: 
   “É minha, amigos, a marca, o que imensa alegria me causa, 
pois desse encontro com Heitor ainda espero sair vitorioso. 
Vamos! Enquanto me ocupo em vestir a armadura brilhante, 
endereçai fervorosa oração a Zeus, filho de Crono, 
mas em silêncio, que nada o percebam os homens Troianos, 
ou, se o quiserdes, às claras, que nada nos causa receio. 
Certo, uma vez decidido, ninguém poderá, nem por arte, 
nem pela força, obrigar-me a recuar, pois nascido e educado 
em Salamina não fui, para ser indivíduo sem préstimo.”¹

Isso disse ele; os demais, obedientes, a Zeus imploraram. 
Muitos, olhando para o alto, diziam seus votos ferventes: 
   “Zeus pai, que no Ida demoras, senhor poderoso e supremo! 
Que saia Ajaz vencedor! Dá que fama gloriosa ele alcance! 
Mas, se tiveres cuidado de Heitor, se afeição lhe dedicas, 
que ambos, então, se equilibrem no esforço e na fúlgida glória.” 
   Isso diziam. Ajaz, entrementes, o bronze vestira. 
Logo que o corpo ficou recoberto por toda a armadura, 
ei-lo que avança, com Ares terrível fazer tem por hábito, 
ao penetrar nas batalhas dos homens, que o filho de Crono

uns contra os outros atira, em conflito de atroz extermínio. 
Por esse modo, avançava o baluarte dos fortes Acaios, 
com um terrível sorriso no rosto, alternando passadas 
largas e firmes, e a lança de sombra comprida brandindo. 
Encorajados e alegres, os homens Aqueus o contemplam; 
mas os Troianos sentiram nos membros correr-lhes o Medo. 
Ao próprio Heitor, palpitou-lhe o viril coração no imo peito; 
mas impossível lhe fora recuar, ou acolher-se às fileiras 
dos companheiros, por ter sido o duelo proposto por ele. 
Como uma torre era o escudo que Ajaz sobraçava, todo ele

de couro e bronze, composto que fora por Tíquio, o mais hábil 
dos correeiros, que em Hila morada opulenta possuía. 
De sete couros de bois bem-nutridos o escudo fizera, 
e, com oitava camada, o cobrira com bronze batido. 
O grande Ajaz Telamônio, mantendo este escudo ante o peito, 
para defronte de Heitor e lhe diz em tom firme de ameaça: 
   “Dentro de pouco hás de ver, grande Heitor, claramente, o que em luta 
de homem contra homem conseguem fazer os guerreiros Acaios, 
ainda na ausência de Aquiles, o herói de coragem leonina. 
Mas esse, agora, se encontra nas naves recurvas e céleres,

estomagado com o chefe de heróis, o preclaro Agamémnone. 
Muitos e muitos dos nossos te podem fazer, por sem dúvida, 
frente em qualquer circunstância. Ora sus! iniciemos o duelo.” 
   Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Ó grande Ajaz Telamônio, pastor muito ilustre de gentes, 
não me intimides assim, qual se eu fosse criança indefesa, 
ou mulher fraca, que nada entendesse de coisas da guerra. 
Tenho bastante experiência de como prostrar o inimigo. 
Sei sustentar meu escudo de pele de boi tanto à destra 
como à sinistra, que é o modo de sempre lutar com bravura.

Precipitar-me sei bem no tumulto dos céleres carros 
e, no combate a pé firme, dançar pela música de Ares. 
Por isso mesmo, não quero atacar com nenhuma artimanha 
um inimigo como és, mas, lealmente, tentar alcançar-te.” 
   Tendo isso dito, atirou-lhe a hasta longa de sombra comprida, 
que foi no escudo terrível de Ajaz encravar-se, de sete 
couros de boi, transpassando a camada de fora, de bronze. 
Mais seis camadas de couro o metal, terebrante, atravessa, 
indo deter-se só na última. Atira, também, por seu lado, 
o Telamônio divino a hasta longa de sombra comprida,

que foi bater bem no escudo redondo do filho de Príamo. 
A arma terrível o escudo de aspecto brilhante atravessa, 
indo encravar-se na cota de bela e variada textura, 
e interessando, também, junto ao flanco, a preciosa camisa. 
Ele, porém, se encurvou, escapando da lívida Morte. 
Ambos, então, novamente arrancando a hasta longa de bronze, 
vão um para o outro, no jeito de leões voradores de carne, 
ou javalis, que dotados não são de vigor despiciendo. 
Um golpe Heitor logo atira no meio do escudo redondo, 
sem que o furasse, porém, porque a ponta, no bronze, encurvou-se.

O Telamônio, de um salto, a hasta longa fincou-lhe no escudo, 
atravessando-o; obrigado se viu a recuar o Troiano, 
com o pescoço esfrolado, de forma que o sangue escorria. 
Mas, nem assim, deixa Heitor de lutar, o guerreiro preclaro. 
Retrocedendo, com as mãos vigorosas agarra uma pedra 
áspera e escura, que estava no campo, de enorme tamanho, 
e bem no meio do umbigo do escudo de Ajaz atirou-a, 
feito de sete camadas; o bronze ressoou fortemente. 
O Telamônio, porém, um penedo maior do chão pega 
e, remoinhando, lançou-o com força infinita contra o outro:

fica amolgado o pavês, qual se pedra de moinho o apertasse. 
Dobra os joelhos Heitor, que no solo caiu ressupino, 
sem que do escudo largasse. Endireita-o, porém, Febo Apolo. 
Ambos, então, das espadas sacando, se aprestam de novo, 
mas os arautos, que são mensageiros de Zeus e dos homens, 
se interpuseram, Ideu, pelos Troas valentes; Taltíbio, 
pelos Acaios vestidos de bronze. Ambos eles sensatos. 
Põem os cetros no meio dos dois contendores, dizendo 
o mensageiro Troiano, sabido em prudentes conselhos: 
   “Filhos diletos, parai; ponde um fim a essa luta homicida;

a ambos Zeus grande, que as nuvens cumula, afeição tem mostrado. 
Sois igualmente esforçados; nós todos assaz o admiramos. 
Já veio a Noite; será conveniente mostrar-lhe obediência.” 
   Disse-lhe Ajaz Telamônio, o guerreiro preclaro, o seguinte: 
“Essas palavras a Heitor dirigi; parta dele a proposta, 
por ter sido ele o primeiro a os Aqueus provocar para duelo. 
Que ele decida, portanto; farei como for de seu gosto.” 
   Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Deram-te os deuses, Ajaz, estatura magnífica, força 
e valentia sem-par. Dos Aqueus és o mais destemido.

Interrompamos, por hoje somente, os combates e lutas; 
mas amanhã reinicie-se a luta até vir a ser ela 
por um dos deuses julgada, e a vitória a um de nós concedida. 
Já veio a Noite; será conveniente mostrar-lhe obediência. 
Para os navios simétricos volta, levando a alegria 
aos Aqueus todos, mormente aos parentes e aos fiéis companheiros. 
Por minha vez, voltarei para o burgo altanado de Príamo, 
para alegrar os Troianos e suas formosas esposas 
que, porventura, por mim a rezar ora estão pelos templos. 
Mas, antes disso, façamos permuta de belos presentes,

para que possam dizer os Troianos e os fortes Aquivos: 
‘Como inimigos de morte lutaram, com sanha terrível; 
mas, pós haverem trocado presentes, em paz se apartaram.’”²
   Tendo isso dito, uma espada ofertou-lhe com cravos de prata, 
o talabarte de bela feitura e a bainha vistosa. 
Cinto esplendente de púrpura, Ajaz, em retorno, lhe oferta. 
Um dos guerreiros, depois de apartados, procura os Aquivos; 
o outro voltou para o meio dos Troas, que, cheios de júbilo, 
o receberam, ao vê-lo chegar sem nenhum ferimento, 
da ira e das mãos invencíveis de Ajaz, afinal, libertado.

Para a cidade o levaram, sem crerem que salvo estivesse. 
Ao Telamônio, exultante com sua vitória, os Acaios, 
por sua vez, conduziram para onde se achava Agamémnone. 
   Quando eles todos chegaram à tenda do filho de Atreu, 
fez este um touro matar, que cinco anos contava, ofertando-o 
a Zeus potente, nascido de Crono, que as nuvens cumula. 
Prestes, mui prestes, o esfolam e, logo em seguida, o esquartejam; 
todo o restante retalham, espetos enfiam nas postas 
e, cuidadosos, as tostam, tirando-as, depois, dos espetos. 
Quando concluído o trabalho e o convívio, desta arte, aprontado,

continua página 208...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VII.a / Canto VII.b / Canto VII.c /                          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Esse trecho está exatamente no momento decisivo do Canto VII, quando os aqueus escolhem — por sorteio — quem enfrentará Heitor no duelo singular. 
- Heitor desafia os aqueus para um combate singular: Depois de ser impedido de lutar contra Menelau, Heitor avança e lança um desafio formal: ele quer enfrentar qualquer guerreiro grego em duelo. É um momento solene, com os dois exércitos observando.
- Nove heróis se oferecem: Os principais guerreiros aqueus se levantam para aceitar o desafio — entre eles Ájax Telamônio, Diomedes, Agamémnon e outros. Para evitar disputa interna, decide‑se que o campeão será escolhido por sorteio.
- O arauto passa recolhendo as marcas (senhas): Cada guerreiro coloca sua marca dentro do capacete. O arauto passa entre eles, recolhe todas e depois começa a retirar uma por uma para revelar o escolhido.
- Ájax Telamônio é sorteado: É exatamente aqui que o trecho se encaixa. O arauto passa por todos, e ninguém reconhece sua marca — até chegar a Ájax, que imediatamente identifica o sinal que ele mesmo colocou. Ele se alegra, joga a senha no chão e declara que enfrentará Heitor com coragem. Esse momento é importante porque: confirma Ájax como o campeão escolhido pelos deuses (já que o sorteio é visto como vontade divina); prepara o clima para o duelo mais famoso do canto; mostra a confiança e a imponência de Ájax, que é o maior guerreiro grego depois de Aquiles.
- Ájax se arma enquanto os aqueus rezam: O trecho termina com Ájax pedindo aos aqueus que rezem a Zeus — em silêncio ou abertamente — enquanto ele veste sua armadura. Isso reforça o caráter ritual e solene do duelo.
- O duelo entre Heitor e Ájax começa logo depois: O combate é equilibrado, violento e termina sem vencedor claro, marcando um dos momentos mais nobres da Ilíada.
     O trecho marca o momento em que Ájax assume o papel de campeão dos aqueus, preparando‑se para vestir sua armadura enquanto conclama seus companheiros a rezarem a Zeus, inaugurando a atmosfera solene que antecede o grande duelo entre os dois gigantes da guerra.

[2] Aqui está uma da fala de Heitor após o duelo com Ájax Telamônio no Canto VII da Ilíada. 
- Contexto narrativo: O trecho ocorre logo após o duelo entre Heitor e Ájax, um dos momentos mais nobres e equilibrados da Ilíada. Nenhum dos dois heróis consegue vencer o outro: ambos demonstram força, coragem e habilidade, mas o combate é interrompido pela chegada da noite, que na épica homérica funciona como um limite natural imposto pelos deuses. É nesse momento que Heitor toma a palavra.
- Estrutura:  da fala de Heitor. A fala de Heitor pode ser dividida em quatro partes.
1. Elogio ao adversário. Heitor reconhece a grandeza de Ájax: “Deram-te os deuses estatura magnífica, força e valentia sem-par.” “Dos Aqueus és o mais destemido.” Esse elogio não é mera cortesia: é parte do código de honra dos heróis. Heitor demonstra nobreza ao reconhecer o valor do inimigo, reforçando que o duelo foi entre iguais.
2. Proposta de suspensão do combate. Heitor sugere que o combate seja interrompido: a noite chegou; é preciso obedecer ao ritmo imposto pelos deuses; a luta deve ser retomada no dia seguinte, caso os deuses assim desejem. Aqui, Heitor demonstra respeito pela ordem divina e pela tradição guerreira. A noite é personificada como uma entidade que exige obediência.
3. Retorno aos acampamentos. Heitor propõe que cada um volte para seu povo: Ájax deve levar alegria aos aqueus; Heitor deve retornar a Troia para confortar os troianos e suas esposas, que provavelmente rezam por ele. Esse trecho humaniza Heitor: ele pensa nas mulheres que rezam nos templos, mostrando sua consciência do impacto emocional da guerra sobre a comunidade.
4. Troca de presentes. Antes de se separarem, Heitor sugere que troquem presentes: para que ambos os exércitos digam que lutaram como inimigos mortais, mas se separaram em paz, honrando o código de guerra. A troca de presentes é um gesto ritual que simboliza respeito mútuo. É um dos momentos mais civilizados da Ilíada, contrastando com a brutalidade da guerra.
     O trecho sintetiza a ética heroica da Ilíada: coragem, respeito, honra e consciência dos limites impostos pelos deuses. Heitor emerge como um herói completo — não apenas forte, mas também sábio e humano. A troca de presentes sela um momento de paz dentro da guerra, mostrando que até em meio à destruição existe espaço para gestos de grandeza.