quinta-feira, 20 de agosto de 2026

MPB: Fio Maravilha

Jorge Ben Jor

Os alquimistas da bola
já passaram por aqui
eu vi eles chegando
Os alquimistas da bola
já passaram por aqui
discretos e silenciosos
Agora moram bem longe
muito longe dos gramados
esuascadeirasnumeradas
torcidasorganizadas
camarotescomwhiskyechampanhe
pessoasqueevitamqualquerrelaçãocompessoas
desde a trituração,           a fixação
a destilação e                   a coagulação
          esse temperamento sórdido
Fio Maravilha faz mais um pra gente vê

os alquimistas estão chegando




Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh

Os alquimistas
Estão chegando
Estão chegando
Os alquimistas

Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Ê, ê, ê, ê

Eles são discretos
E silenciosos
Moram bem longe dos homens
Escolhem com carinho
A hora e o tempo
Do seu precioso trabalho

São pacientes, assíduos
E perseverantes
Executam
Segundo as regras herméticas
Desde a trituração, a fixação
A destilação e a coagulação

Trazem consigo, cadinhos
Vasos de vidro
Potes de louça
Todos bem e iluminados
Evitam qualquer relação
Com pessoas
De temperamento sórdido
De temperamento sórdido

Ê, ê, ê, ê
Ê, ê, ê, ê

Os alquimistas
Estão chegando
Estão chegando
Os alquimistas

Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh



Jorge Ben Jor 
- Por Causa de Você, Menina / Chove Chuva / Mas que nada 
- na TV Espanhola






Jorge Ben Jor 
- MPB Especial 1972



"O apelido virou "Fio Maravilha", após marcar o gol da vitória (1–0) da equipe carioca contra o Benfica, de Portugal. Foi homenageado pelo cantor Jorge Ben Jor com a canção homônima, grande sucesso nacional, vencedora do Festival Internacional da Canção de 1972 (na voz de Maria Alcina), que narra o feito contra a equipe portuguesa: "Tabelou, driblou dois zagueiros/ Deu um toque driblou o goleiro/ Só não entrou com bola e tudo/ Porque teve humildade em gol". O gol "de anjo, um verdadeiro gol de placa", segundo Jorge Ben, aos 33 da segunda etapa e visto por 44 mil pessoas no Maracanã, ocorreu em 15 de janeiro de 1972 (4 dias antes de completar 27 anos), pelo Torneio Internacional do Rio de Janeiro, vencido pelo Flamengo, após essa vitória contra o time lusitano e outra sobre o Vasco da Gama (também por 1–0, mas com gol de Paulo César Cajú; Fio entrou no lugar de Caio Cambalhota). Pedido pela torcida, Zagallo o colocou no segundo tempo, após Arílson se machucar em dividida com o zagueiro Malta. Os dois zagueiros citados no hit eram o beque Messias e o lateral Artur; o goleiro era José Henrique, o “Zé Gato”; e a tabela foi feita com Rogério Hetmanek. Não existem gravações do lance. Detalhe que o contrato dele com o clube já havia expirado fazia 15 dias, que o renovou em razão do golaço."


Fio Maravilha explica problema com Jorge Ben Jor





Fio Maravilha
A história do gol que virou música



E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão, um gol
Sacudindo a torcida aos trinta e três minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial, um gol

Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque, driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade, um gol

Foi um gol de classe
Onde ele mostrou sua malícia e sua raça
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E que a galera agradecida assim cantava
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E que a galera agradecida assim cantava

Fio Maravilha, nós gostamos de você
Fio Maravilha, faz mais um pra gente vê
Fio Maravilha, nós gostamos de você
Fio Maravilha, faz mais um pra gente vê

Fio Maravilha, nós gostamos de você
Fio Maravilha, faz mais um pra gente vê


o ano é 1972
Maria Alcina - Fio Maravilha (VII Festival Internacional da Canção)






Jorge Ben Jor - Filho Maravilha


Odisseia: Parte I (Canto III.b)

 Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto III

Em Pilo

    “Telêmaco chega a Pilo junto com Atena na forma de Mentor e encontra os Pílios terminando um sacrifício de touros para Posido. Perguntando sobre seu pai, Nestor expõe alguns dos relatos de Troia. Depois disso, Atena vai embora em forma de pássaro. Nestor oferece um sacrifício a ela e envia Telêmaco para Lacônia junto com seu filho Pisístrato.” (Scholie P S V)

continuando...

para poder dar a Morte a um herói bem mais forte do que ele? 
De Argos da Acaia se achava afastado, e talvez por estranhos 
homens, errante, de forma que ousou desse modo matá-lo?” 
   Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, domador de cavalos: 
“Toda a verdade, meu filho, do que se passou, vou contar-te. 
Com muito tino aventaste como isso se deu realmente: 
Se o louro herói Menelau, regressando das plagas troianas, 
fosse chegado com tempo de Egisto alcançar ainda vivo, 
não lhe teriam, por certo, coberto com terra o cadáver, 
mas para as aves e os cães como pasto seria lançado,

longe dos muros jogado, sem que das Aquivas nenhum 
pranto por ele vertesse; seu crime foi muito execrável. 
Lá nos achávamos todos, às voltas com grandes trabalhos; 
ele, folgado, bem no íntimo de Argos, nutriz de ginetes, 
com muita lábia e insistência seduz a mulher de Agamémnone. 
Ela, de fato, a princípio se nega à proposta impudente, 
pois Clitemnestra divina era ornada de bons sentimentos. 
Tinha a seu lado um cantor, a quem com muito empenho pedira 
lhe defendesse a mulher, ao partir para Troia, Agamémnone. 
Quando, porém, a vontade dos deuses a fez submeter-se,

ei-lo que faz conduzir o cantor para uma ilha deserta, 
onde o deixou, como presa fatal e repasto das aves. 
Para sua casa, depois, a levou, na vontade conformes. 
Sobre os altares sagrados dos deuses queimou muitas coxas, 
muitas oferendas, também, suspendeu, de tecidos e de ouro, 
por ter tal obra acabado, o que nunca em seu peito esperara. 
   “Já no retorno de Troia o caminho fazíamos juntos 
eu mais o Atrida, que afeto recíproco nos afeiçoara. 
Mas, quando ao Súnio chegamos, o cabo sagrado de Atenas, 
Febo tirou do piloto do rei Menelau a existência;

apropinquando-se dele, com seus brandos raios armado, 
quando na mão segurava inda o leme da nau corredora, 
Frôntide, filho de Onétor, que a todos os homens vencia 
no governar uma nau, té nas ondas e ventos revoltos. 
Nesse lugar se deteve, apesar de ansiar pela volta, 
para que o sócio ao sepulcro entregasse, com fúnebres honras. 
Logo, porém, que partiu, a sulcar pelo mar cor de vinho nas
naus cavadas, que o monte escarpado Maleia atingira, 
célere, eis que o tonante viagem terrível lhe apresta, 
Zeus, derramando nas águas estrídulos ventos, e as ondas

intumescendo, quais monstros da altura de enormes montanhas. 
Umas das naves, assim dispersadas, a Creta se lançam, 
onde os Cidônios habitam, nas margens do Járdano ilustre. 
Há, nessa altura, uma pedra talhada e mui lisa, nas ondas, 
bem nos extremos de Górtina, a dentro do mar nebuloso. 
Noto projeta na ponta da esquerda, do lado de Festo, 
grande escarcéu; mas a força é quebrada na pedra pequena. 
Para esse ponto vieram, a custo escapando da Morte, 
todos os homens; as naus contra escolhos as ondas jogaram. 
Cinco, porém, das restantes, de proa de cor anegrada,

pelas correntes e ventos se viram lançadas no Egito. 
Por esse modo, reunia muito ouro e vitualhas sem conta, 
a pervagar com suas naus por entre homens de estranha linguagem. 
Nesse entrementes, Egisto na pátria o delito acabava: 
Reina em Micenas, em ouro abundante, durante sete anos, 
pós dar a Morte a Agamémnone e o povo forçar à obediência. 
Mas no seguinte, por sua desgraça, retorna de Atenas 
o ínclito Orestes, e a Egisto matou, o assassino do Atrida, 
que, com traiçoeira artimanha, matara seu pai muito ilustre. 
Tendo isso feito, aos Argivos apresta, em seguida, um banquete

pelas exéquias da mãe odiosa e de Egisto covarde. 
No mesmo dia chegou Menelau, de voz forte na guerra, 
tão opulento de bens quanto as naus comportavam de carga. 
   “Tu também, caro, não vagues mais tempo distante da pátria, 
abandonando os haveres, além de em tua casa deixares 
homens de tanta arrogância; não vá suceder que devorem 
toda a fazenda, e a dividam, ficando-te a viagem frustrada. 
Mas aconselho-te e exorto-te a ires à casa do Atrida, 
que, há pouco tempo, voltou do comércio de terras estranhas, 
donde jamais afagara esperança do dia da volta

quem, desse modo, se visse desviado por tais tempestades 
num mar de tanta largura, que as aves, quiçá, não conseguem 
atravessá-lo num ano, tão grande e terrível é ele. 
Vai em tua nau procurá-lo, seguido de teus companheiros. 
Se preferires a via terrestre, cavalos e carro 
ao teu dispor aqui tens; poderão os meus filhos levar-te 
ao louro Atrida, que mora na terra sagrada de Esparta. 
Tu próprio deves pedir-lhe que fale conforme a verdade. 
Como sensato varão, não dirá falsidade nenhuma.” 
   Disse, no tempo em que o Sol se deitou, sucedendo-se as trevas.

A de olhos glaucos, Atena, lhe diz, em resposta, o seguinte: 
   “Tudo, ó ancião, que contaste, foi dito com senso e justiça. 
Mas concluamos; as línguas cortai, misturai logo o vinho, 
para cuidar de dormir, em seguida, depois de libarmos 
ao deus Posido e às demais divindades; chegado é o momento. 
A luz do Sol já baixou para o ocaso; ficar não devemos 
por muito tempo na festa dos deuses, mas irmo-nos logo.” 
   Esse o discurso da filha de Zeus; os demais lhe obedecem. 
Fazem vir água e por cima das mãos os arautos a deitam; 
té pelas bordas os moços os jarros encheram de vinho,

distribuindo por todos os copos as sacras primícias. 
Tendo nas chamas as línguas lançado, de pé libam logo. 
Isso, porém, terminado, e depois que à vontade beberam, 
ambos, Atena e Telêmaco, em tudo a um dos deuses semelho, 
manifestaram vontade de para o navio ir de volta. 
Repreendeu-os Nestor, com palavras de amiga censura: 
   “Zeus nos defenda e, também, as demais divindades eternas, 
de abandonardes-me a casa, com o fim de ao navio vos irdes, 
como se eu fosse indivíduo privado de bens e de roupa, 
sem ter em casa nem mantos, nem cópia de bons cobertores

em que pudesse dormir suavemente e, comigo, meus hóspedes. 
Há no palácio, sem dúvida, mantos e belas cobertas. 
O de Odisseu caro filho de jeito nenhum sobre as tábuas 
pernoitará do navio, enquanto eu estiver ainda vivo, 
ou no palácio meus filhos ficarem, depois, como donos, 
e receberem quem vier visitá-los em nosso palácio.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe diz, em resposta, o seguinte: 
“Caro ancião, com prudência falaste; por certo Telêmaco 
há de aceitar-te o conselho, por ser esse o alvitre mais justo. 
Há de seguir-te, sem dúvida, ao belo palácio em que moras,

para dormir. Eu, porém, para a nau voltarei, de cor negra, 
para que os sócios anime e lhes fale e proveja de tudo, 
pois tenho orgulho de ser o mais velho no nosso navio. 
Por amizade, os demais o acompanharam na viagem; são jovens; 
com o generoso Telêmaco todos regulam na idade. 
Junto da côncava nau de cor negra a dormir me proponho. 
Mas amanhã partirei para a terra dos grandes Caucônios, 
para cobrar uma dívida não de valor despiciendo, 
nem muito nova. Mas este, uma vez que chegou à tua casa, 
manda-o de carro, e que um filho o acompanhe; cavalos lhe cede,

dos mais velozes que tenhas no curso, e de força provados.” 
   Palas Atena, depois que assim disse, partiu-se depressa, 
sob a figura de uma águia. Espantaram-se todos que a viram. 
Fica admirado o ancião por ter visto com os olhos aquilo; 
toma da mão de Telêmaco e diz-lhe as seguintes palavras: 
   “Caro, não creio que venhas a ser nem covarde, nem fraco, 
pois, desse modo, com tão poucos anos, os deuses te seguem. 
Vimos, por certo, um dos deuses que moram no Olimpo altanado, 
a Tritogênia gloriosa, nascida de Zeus poderoso, 
que distinguia a teu pai muito ilustre no exército Argivo.

Sê-nos propícia, rainha, concede-nos ínclita glória,
não só a mim, mas aos filhos, também, como à esposa pudica. 
Hei de imolar-te vitela de um ano, de fronte espaçosa, 
nunca domada por homem nenhum, nem vergada no jugo. 
Em sacrifício ta oferto, depois de dourar-lhe os dois chifres.” 
   Isso disse ele na súplica. A deusa o atendeu prontamente. 
Guia os demais o Gerênio Nestor, condutor de cavalos, 
filhos e genros, que, então, o acompanham ao belo palácio. 
Logo que todos chegaram à casa do rei, opulenta, 
sentam-se em ordem, assim nas cadeiras, bem como nos tronos.

Manda o Gerênio Nestor misturar na cratera para o hóspede 
vinho de doce padar, que há onze anos estava guardado. 
A despenseira abriu logo a vasilha, tirando-lhe a faixa. 
Feita no copo a mistura e libado, o ancião venerável 
ardentemente suplica à nascida de Zeus poderoso. 
Isso, porém, terminado, e depois que à vontade beberam, 
foram cuidar de dormir, cada um em sua própria morada, 
Quanto a Telêmaco, o filho querido do ilustre Itacense, 
torna-o a cargo o Gerênio Nestor, domador de cavalos. 
Arma-lhe um leito lavrado, debaixo da sala sonora,

tendo ao seu lado Pisístrato, chefe pugnaz de guerreiros, 
pois no palácio, dos filhos era este o que moço restava. 
Ele, porém, se deitou no interior de sua alta morada, 
onde a consorte partilha do leito e colchões, que ajeitara. 
   Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
prestes se ergueu o Gerênio Nestor, condutor de cavalos. 
Tendo saído do quarto, se assenta nas pedras polidas 
que se encontravam em frente da porta imponente, tão brancas 
como brilhantes, porque de óleo untadas. Neleu ali mesmo 
dantes sentar-se soía, qual deus imortal nos conselhos.

Mas, pela Parca apanhado, já havia descido para o Hades. 
Ora, com o cetro na mão, se assentava Nestor, dos Aquivos 
guarda seguro; rodeando-o, vieram juntar-se-lhe os filhos, 
que, nesse tempo, do quarto saíam: Equéfrone, Areto, 
e Trasimedes, a um deus semelhante, Perseu e Estratio. 
Sexto e por último, veio ajuntar-se-lhes o alto Pisístrato. 
Estes o divo Telêmaco trazem, que ao lado se assenta. 
   Diz-lhes, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
“Sem mais delongas, meus filhos queridos, cumpri-me o desejo, 
para que obsecre, primeiro que aos outros, o auxílio de Atena,

que no banquete opulento do deus claramente foi vista. 
Vá um de vós escolher a vitela no campo; e que venha 
logo; convém que o pastor maioral seja o próprio a trazê-la. 
Outro dirija-se à nau de cor negra do grande Telêmaco, 
para que seus companheiros nos traga, deixando dois deles. 
Ordens transmita um terceiro ao ourives Laércio, chamando-o, 
a fim de que nos prepare a vitela, dourando-lhe os chifres. 
Quanto a vós outros, ficai reunidos; dizei às criadas 
que, sem demora, preparem na casa opulenta o banquete 
e tragam, logo, cadeiras e lenha, bem como água limpa.”

Disse; apressados, então, lhe obedecem. Do campo a vitela 
veio trazida; da nave ligeira e simétrica os sócios 
chegam do grande Telêmaco; o ourives, também, logo veio, 
tendo nas mãos utensílios de bronze, instrumentos do ofício 
que exercitava: martelo, bigorna, e tenazes bem-feitas. 
Com essas coisas trabalha. Baixou, também, Palas Atena, 
para ao convite assistir. O Gerênio mandou que trouxessem 
o ouro preciso, que o artífice, tendo-o mui bem-laminado, 
põe da vitela nas aspas, a fim de que a deusa se alegre. 
Trazem-na Equéfrone e o divo Estratio segura dos chifres.¹

Água lustral traz Areto, a seguir, em florida bacia, 
vindo do quarto, e na esquerda açafate com as molas do estilo. 
Para que o golpe pudesse ferir, Trasimedes guerreiro 
põe-se de lado, apertando na mão um machado afiado; 
vaso sustenta Perseu para o sangue; Nestor, o ginete, 
dá, logo, início pela água lustral e o espalhar da farinha, 
tendo lançado no fogo os cabelos e a Atena implorado. 
Dessa maneira, concluída a oração e a farinha espalhada,
eis que a feriu, do lugar em que estava, o belaz Trasimedes, filho 
do velho Nestor; e lhe corta os tendões e o pescoço

com a secure, que as forças lhe tira. O clamor de piedade 
logo elevaram as filhas e noras e a esposa pudica 
de Nestor, filha mais velha de Clímeno, Eurídice ilustre. 
Eles, depois, a sustentam acima do solo espaçoso, 
onde Pisístrato logo a degola, o senhor de guerreiros. 
Quando saiu todo o sangue mui negro e, dos ossos, a vida,
sem dilação a esquartejam e tiram-lhe os ossos das coxas, 
tudo de acordo com os ritos, em dupla camada os envolvem 
da própria graxa, jogando por cima pedaços de carne. 
Assa-os na lenha o ancião, tendo vinho por cima aspergido;

com garfos de cinco dentes, ao lado, os rapazes o ajudam. 
Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas, 
logo o restante retalham e espetos enfiam nas postas 
para as assar, segurando nas mãos os espetos agudos. 
Mas Policasta formosa, entrementes, banhava a Telêmaco, 
filha caçula do velho Nestor, de Neleu descendente. 
Tendo-o lavado e, em seguida, esfregado com óleo de oliva, 
deita-lhe em torno uma túnica e esplêndido manto por cima. 
Ei-lo que sai da banheira, tal como um dos deuses eternos, 
indo sentar-se de par com Nestor, o pastor desses povos.

Logo que a carne por fora tostou, dos espetos a tiram; 
sentam-se para o banquete; varões diligentes à volta 
deles não deixam de o vinho deitar nas douradas crateras. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
toma a palavra o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
   “Meus caros filhos, trazei-me os cavalos de crina formosa 
para atrelá-los no carro e seguir seu caminho Telêmaco.” 
   Isso disse ele; atenção lhe prestaram; cumprindo-lhe as ordens. 
Rapidamente, atrelaram no carro os cavalos velozes. 
Traz pão e vinho, e os coloca no carro mulher despenseira,

e outros manjares, que comem os reis de divina progênie. 
Sobe Telêmaco, então, para o carro magnífico, ao lado 
vindo o valente Pisístrato, filho do forte Nelida, 
que, tendo ao carro subido, tomou logo as rédeas potentes. 
Com chicotada os cavalos esperta, que partem velozes 
pela planície, deixando a altanada cidade de Pilo. 
   O dia inteiro galopam e o jugo, incessantes, sacodem. 
E, quando o Sol se deitou e as estradas a sombra cobria, 
ei-los chegados a Feras, em frente ao palácio de Diocles, 
filho de Ortíloco, que por Alfeu tinha sido gerado.

Lá pernoitaram, tendo ele of’recido hospedal tratamento. 
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
tendo atrelado os cavalos, ao carro enfeitado subiram 
e para fora os guiaram da porta da sala sonora. 
Com chicotada os cavalos esperta, que partem velozes 
pela planície, trigo abundante, onde logo a viagem 
levam a termo; tal era o vigor dos velozes cavalos. 
   E, quando o Sol se deitou e as estradas a sombra cobria. 

continua página 697...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b /        
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

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[1] Esse trecho — “O Gerênio mandou que trouxessem o ouro preciso…” — é uma tradução antiga da Ilíada, no episódio em que se prepara um sacrifício ritual para a deusa Atena. Destrinchando o sentido e o contexto para melhor entendimento.
O personagem chamado Gerênio é Nestor, frequentemente chamado “o Gerênio” por ser o ancião de Gerênia. Ele está organizando um ritual de súplica à deusa Atena.
Nestor ordena que tragam ouro puro, material valioso usado para adornar o objeto do sacrifício.
O artífice (o artesão) lamina o ouro e o coloca nas aspas — isto é, nas pontas dos chifres da vitela (novilha). É um costume ritual: decorar os chifres do animal sacrificial com ouro para honrar a divindade.
Dois jovens — Equéfrone e Estratio — conduzem a vitela, segurando-a pelos chifres já adornados.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Odisseia: Parte I (Canto III.a)

 Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto III

Em Pilo

    “Telêmaco chega a Pilo junto com Atena na forma de Mentor e encontra os Pílios terminando um sacrifício de touros para Posido. Perguntando sobre seu pai, Nestor expõe alguns dos relatos de Troia. Depois disso, Atena vai embora em forma de pássaro. Nestor oferece um sacrifício a ela e envia Telêmaco para Lacônia junto com seu filho Pisístrato.” (Scholie P S V)


   E, quando o Sol se elevou, tendo o lago mui belo deixado, 
em rumo à abóbada brônzea, para iluminar os eternos 
deuses e os homens mortais, por sobre essa terra fecunda, 
ei-los em Pilo, cidade do velho Neleu, de muralha 
bem-construída. Na praia, uma oferenda de touros faziam, 
negros, sem mácula, ao deus de cabelos escuros, Posido. 
Nove fileiras de bancos havia, com homens quinhentos 
em cada fila e na frente dos grupos, também, nove touros. 
Chegam no ponto em que os Pílios aos deuses as coxas queimavam

pós das entranhas comerem; as cândidas velas da nave
baixam, cuidosos, e as dobram, saltando, depois, para terra. 
Desce da nave Telêmaco; serve-lhe Atena de guia. 
A de olhos glaucos, Atena, em primeiro lugar é quem fala: 
   “Deves, agora, Telêmaco, pôr a vergonha de lado, 
pois empreendeste a viagem com o fim de saber, tão somente, 
qual o destino que teve teu pai e em que terra se esconde. 
Sem vacilar te dirige a Nestor, domador de cavalos, 
porque saibamos que sábio conselho em seu peito se oculta. 
Tu próprio deves pedir-lhe que fale conforme a verdade.

Como sensato varão, não dirá falsidade nenhuma.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“De que maneira, Mentor, me apresento, e como hei de falar-lhe? 
Não sou versado em dizer bem-tecidos discursos, e tanto 
mais que um mancebo se acanha ao falar com pessoa mais velha.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“Hás de encontrar em ti próprio, Telêmaco, alguns pensamentos; 
outros serão por qualquer divindade inspirados, pois creio 
que vieste ao mundo e cresceste não contra a vontade dos deuses.” 
   Palas Atena, depois que assim disse, se pôs a guiá-lo

rapidamente. As pegadas da deusa seguia Telêmaco. 
Ei-los chegados ao ponto em que os Pílios estavam sentados, 
onde encontraram Nestor com seus filhos. Em torno, os mais sócios 
tratam da festa; uns as carnes espetam, do assado outros cuidam. 
Logo que viram pessoas de fora, vieram reunidos; 
trocam apertos de mão e os convidam, sem mais, a assentar-se. 
Aproximou-se-lhes, presto, Pisístrato, o claro Nestórida, 
que, pelas mãos os tomando, os invita, cortês, a assentar-se 
em velos brandos, que estavam na areia da praia estendidos, 
junto do irmão Trasimedes e ao lado também do pai dele.

Parte das vísceras dá-lhes; depois, tendo enchido de vinho 
áurea cratera, dirige-se à filha de Zeus poderoso, 
Palas Atena, e lhe diz as seguintes palavras aladas: 
   “Ora, estrangeiro, também, a Posido, monarca dos mares, 
cujo banquete aqui vieste encontrar, no decurso da viagem. 
Logo que tenhas orado e libado, de acordo com o uso, 
passa, também, para o outro a cratera de vinho melífluo, 
para que libe, pois penso que sabe cultuar os divinos. 
Todos os homens precisam da ajuda dos deuses eternos. 
Mas ainda é moço; regula, talvez, em idade, comigo;

Eis o motivo por que a áurea cratera te oferto primeiro.” 
   Isso dizendo, lhe passa a cratera da doce bebida. 
Palas se alegra por ver a prudência do justo guerreiro, 
que a áurea cratera em primeiro lugar ofertado lhe havia, 
e ao soberano Posido dirige seus votos ferventes: 
   “Ouve-me, ó deus, que circundas a terra, não queiras negar-nos 
que se realizem os votos e súplicas, que ora fazemos. 
Glória, em primeiro lugar, em Nestor e seus filhos derrama; 
aos moradores de Pilo concede também recompensa 
grata por esta hecatombe solene; e, por último, dá-nos,

enquanto a mim e a Telêmaco, irmos de volta na negra 
nave, depois que tivermos concluído o objetivo da viagem.” 
   Dessa maneira suplica, e ela própria realiza seus votos, 
Passa a Telêmaco uma bela cratera com alça dupla, 
para que o filho do claro Odisseu de igual modo libasse. 
Logo que a carne por fora tostou, dos espetos a tiram, 
cortam-na em postas e se banqueteiam esplendidamente. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
toma a palavra o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
   “Ora que os hóspedes já se alegraram no nosso banquete,

é permitido fazer-lhes perguntas porque se nomeiem. 
Ó estrangeiro, quem sois? Donde vindes nas úmidas vias? 
É por algum interesse, ou à toa cruzais o mar vasto, 
como piratas, que vagam sem rumo, arriscando suas vidas 
enquanto vão conduzindo a desgraça a pessoas estranhas?” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta, 
sem se tolher, pois Atena coragem lhe havia infundido, 
para que acerca de seu pai ausente pergunta fizesse, 
como também conquistasse entre os homens um nome preclaro: 
   “Filho do grande Neleu, ó Nestor, dos Aquivos orgulho!

já que perguntas a terra de origem, vou logo dizer-to. 
De Ítaca viemos, que está edificada na base do Neio, 
não por negócio do povo, mas, como o direi, no meu próprio. 
Pus-me no rasto da fama sem par de meu pai, para novas 
obter do divo e paciente Odisseu, que contigo, assim dizem, 
tendo lutado com os homens de Troia, saqueou-lhes o burgo. 
Temos notícias de como tombaram na Morte lutuosa 
quantos em Troia lutaram, na guerra com seus defensores, 
menos aquele, a que o filho de Crono deu fim ignorado, 
pois ninguém sabe dizer, com que certeza, onde a vida perdesse,

quer fosse em terra, contra homens em luta, que imigos seriam, 
quer sobre o mar agitado, nas ondas da deusa Anfitrite. 
Venho, por isso, implorar aos teus joelhos, porque me refiras 
sobre seu fim lastimável, quer tenhas a tudo assistido 
com os próprios olhos, quer tenhas por outro vagante sabido 
notícias dele, que a mãe concebeu como ser desditoso. 
Nada atenues por pena, talvez, ou até mesmo respeito, 
mas tudo conta sem falha, tal como tu próprio o observaste. 
Eu te suplico, se acaso meu pai, Odisseu, de alta fama, 
ou por palavras, ou obras, se desempenhou de promessa

feita na terra troiana, onde muito os Aqueus padecestes. 
Ora te lembra de tudo, e me conta conforme a verdade.” 
   Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
“Filho, uma vez que me lembras o que de trabalhos passamos 
quando entre os povos Troianos os fortes guerreiros Aquivos, 
quer percorrendo em navios o mar nebuloso, à procura 
do que pilharmos, para onde quisesse levar-nos Aquiles, 
quer combatendo em redor da cidade soberba de Príamo. 
Sim, lá tombaram sem vida os heróis mais notáveis e fortes; 
lá, sepultado, se encontra o mavórtico Ajaz; lá, o Pelida;

lá, também, Pátroclo, bom conselheiro, qual deus sempiterno, 
como meu filho querido, que à força aliava a beleza, 
o meu Antíloco, mestre na pugna e veloz na carreira. 
Outros trabalhos, ainda, aturamos; e quem poderia 
enumerar todos eles, dos homens mortais que hoje vivem? 
Nem que cinco anos aqui demorasses, ou seis, porventura, 
a perguntar que de dores sofreram os divos Acaios, 
antes, cansado, à tua pátria, de novo, tornar escolheras. 
Muitos trabalhos lhes demos durante noves anos, a braços 
com numerosas insídias, alfim pelo Crônida esfeitas¹.

Mas, quanto à astúcia ninguém suportava confronto com ele, 
que, na inventiva de ardis, sobre-estava a qualquer companheiro, 
teu genitor, o divino Odisseu. Se, de fato, tu fores 
dele oriundo; ao mirar-te, me sinto tomado de espanto. 
Muito pareces com ele, na fala; ninguém suporia 
que, por tal modo condigno, um rapaz conseguisse expressar-se. 
Por todo o tempo em que lá demoramos, jamais dissentimos, 
eu e o divino Odisseu, nos conselhos, assim como na ágora; 
sempre, porém, com um só pensamento e conselhos prudentes, 
dávamos nossa opinião aos Aqueus, só visando à vitória.

Mas, quando a excelsa cidade de Príamo, enfim, destruímos, 
às naus subimos velozes; um deus dispersou os Aquivos. 
Zeus planejou no mais íntimo triste regresso aos Acaios, 
visto nem todos se terem mostrado sensatos e justos. 
Disto proveio tocar à mor parte um destino funesto, 
pela zizânia terrível que a filha do pai poderoso, 
a de olhos glaucos, Atena, lançou entre fortes Atridas. 
Estes resolvem reunir a assembleia-geral dos Acaios, 
inoportunos e contra os costumes, depois do Sol posto. 
E, quando os nobres Aquivos, pesados de vinho, chegaram,

tomam, então, a palavra, e o motivo do apelo apresentam. 
Primeiramente, exortou Menelau os guerreiros Aquivos 
a se lembrarem da volta e sulcarem das águas o dorso. 
Mas Agamémnone o alvitre rejeita; deter pretendia 
todos os homens, a fim de ofertar hecatombes sagradas, 
para que a cólera grande de Atena pudesse aplacar-se. 
Tolo! De fato, ignorava que lhe era impossível dobrá-la, 
pois não se muda assim, prestes, a mente dos deuses eternos. 
Dessa maneira ficaram, trocando palavras azedas. 
Alçam-se, logo, os Aquivos ornados de grevas bem-feitas,

com indizível clamor, divididos, também, em dois grupos. 
Por toda a noite ficamos volvendo propósitos graves, 
desencontrados, pois Zeus preparava maiores desgraças. 
Pela manhã arrastamos a nau para as ondas sagradas, 
dentro metendo as riquezas e escravas de baixa cintura. 
Mas a metade do povo resolve ficar ali mesmo 
com Agamémnone, pastor do povo, de Atreu descendente. 
   “Nossa metade, embarcando-se, afasta-se logo; velozes 
vogam, por ter um dos deuses o mar cor de vinho aplanado. 
Mal aportamos em Tênedo, sacrificamos aos deuses

por nossa volta; mas Zeus inda não resolvera o retorno. 
Que crueldade! De novo entre nós a discórdia suscita. 
Uns, tendo à frente Odisseu, de prudentes e sábios conselhos, 
fazem mudar a derrota da nave de pontas recurvas, 
para fazerem, de novo, a vontade do Atrida Agamémnone. 
Eu, por meu lado, e os navios velozes, que formam meu séquito, 
logo, fugimos, por vermos que um deus meditava arruinar-nos; 
foge o guerreiro Tidida, também, concitando a companhia. 
O louro herói Menelau vem mais tarde reunir-se conosco, 
na ilha de Lesbo, ao tratarmos da rota que urgia fazermos:

se pela ilha de Psira, por cima de Quio escabrosa, 
tendo aquela outra à sinistra, se rumo seguindo diverso, 
indo por baixo de Quio, a costear o Mimante ventoso. 
Todos, então, suplicamos ao deus nos mandasse um presságio. 
Deu-nos sinal, ordenando cortarmos o mar para Eubeia, 
para que cedo pudéssemos todos fugir dos perigos. 
Logo começa a soprar a viração; os navios apartam 
rapidamente o caminho piscoso, até que, pela noite, 
vão fundear em Geresto. De bois muitas coxas queimamos 
ao deus Posido, por termos o pélago imenso medido.

Nas naus simétricas a Argos chegamos após quatro dias, 
onde ficaram os sócios do forte Tidida, Diomedes, 
o picador. Para Pilo voguei, sem deixar de ter nunca 
vento propício, que um deus nos fazia soprar de contínuo. 
   “Dessa maneira, meu filho, voltei, sem ter outras notícias 
quanto ao destino ulterior dos Acaios, quais mortos, quais vivos. 
Mas quanto soube, depois que aqui vivo em o nosso palácio, 
vou relatar-te, como é de justiça, sem falha nenhuma. 
Dizem que os fortes Mirmídones sem contratempos chegaram, 
sob o comando do filho preclaro do excelso Pelida,

como, também, Filocretes, filho notável de Peante. 
Idomeneu para Creta, também, trouxe os sócios, sem perdas, 
quantos da guerra escaparam; nenhum pelo mar foi tragado. 
O que respeita ao Atrida, soubeste-lo, embora distantes, 
de sua volta e do fim desditoso, que Egisto lhe urdiu.
Este, porém, já pagou ignominiosamente seu feito. 
Nada melhor para o herói, quando morre, do que deixar filho 
homem, também, pois aquele se vinga de Egisto assassino, 
que, com traiçoeira artimanha, matara seu pai muito ilustre. 
Tu, também, caro! Crescido te vejo e com bela aparência.

Sê corajoso, porque também possam vindouros louvar-te.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Filho do grande Neleu, ó Nestor, dos Aquivos orgulho, 
sobejamente vingou-se, de fato, e os Acaios imensa 
glória hão de dar-lhe, que há de chegar sem deslustre aos vindouros. 
Oh, quem me dera que os deuses tal força, também, me outorgassem, 
para que, enfim, conseguisse vingar a molesta protérvia² 
dos pretendentes soberbos que iníquas ações me maquinam. 
Tanta ventura, porém, os eternos do Olimpo não deram 
nem a meu pai nem a mim; ora cumpre sofrer com paciência.”

Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
“Filho, uma vez que mo lembras, por teres falado em tal coisa, 
dos pretendentes contaram-me, de tua mãe, numerosos, 
que, a teu mau grado, em tua casa praticam ações revoltantes. 
Dize-me se te submetestes voluntariamente, ou se o povo 
se mostra às claras infenso, atendendo de um deus às palavras? 
Quem nos dirá que não volte e consiga infligir-lhes castigo, 
quer venha só, quer seguido de todos os homens Aquivos? 
Se a de olhos glaucos, Atena, quisesse também distinguir-te 
como ao preclaro Odisseu distinguia entre todos, outrora,

nos vastos plainos de Troia, onde muito os Aqueus padecemos! 
Nunca me foi tão patente a afeição das eternas deidades, 
como ante a clara assistência que Palas, então, lhe dicava. 
Caso quisesse dignar-se de amar-te e querer-te, em sua alma, 
muitos, por certo, a lembrança das bodas perder haveriam.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Tal vaticínio, ó ancião, não presumo que venha a efetuar-se; 
é por demais excessivo e me espanta; esperar não me atrevo 
tal conjuntura, ainda mesmo que os deuses eternos o queiram.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, em resposta, o seguinte: 

“Mas que palavras, Telêmaco, deixas fugir dessa boca?
Mesmo de longe é mui fácil a um deus socorrer qualquer homem. 
Sim, preferira sofrer em minha alma trabalhos sem conta, 
mas para a pátria tornar e rever o meu dia de volta, 
a me finar no meu próprio palácio, tal como Agamémnone, 
que sucumbiu ante a fraude de sua mulher e de Egisto. 
Mas para todos a Morte é uma só, nem conseguem os deuses, 
indo ao mais caro dos homens, sequer defendê-lo, ao ser ele 
pelo Destino exicial alcançado, da Moira funesta.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta:

“Não mais falemos, Mentor, disso agora, conquanto apreensivos. 
Não é possível que volte; o que é certo é que os deuses eternos 
o condenaram à Morte, entregando-o ao escuro Destino. 
Ora desejo saber outra coisa e também informar-me, 
junto a Nestor, que, em justiça e prudência, aos demais sobre-excede, 
pois, dizem todos, que em três gerações já estendeu o seu mando. 
Quando o contemplo, parece que vejo um dos deuses eternos. 
Ora, Neleio Nestor, a verdade inconcussa me narra: 
Como morreu Agamémnone, o Atrida de extensos domínios? 
E Menelau, onde estava? Que dolos valeram a Egisto

continua página 688...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b /        
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

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[1] A frase “alfim pelo Crônida esfeitas” é uma tradução poética, em português arcaizante. Vamos destrinchar cada parte para entender o sentido.
Crônida = “filho de Crono”, isto é, Zeus. É uma forma tradicional, usada em traduções mais literárias, para se referir ao deus.
Esfeitas = forma arcaica de “feitas”, “realizadas”, “executadas”.
Alfim = aqui está o ponto mais obscuro. Em algumas traduções antigas, “alfim” aparece como forma poética para “alvo”, “branco”, “puro”, ou como adaptação de termos gregos ligados a “resplendor” ou “proteção”. Em certos contextos da Odisseia, pode estar ligado a armas, dádivas, sinais divinos ou ações.
     Sentido provável da frase, tomando o conjunto, a expressão deve significar algo como:
obras (ou feitos) alvos/puros realizados pelo Crônida (Zeus)” ou “ações resplandecentes feitas por Zeus
Em outras palavras, trata-se de uma referência poética aos feitos de Zeus, destacando sua autoridade e grandeza.
[2] Molesta protérvia:
protérvia = insolência, arrogância, atrevimento desmedido.
molesta = dolorosa, incômoda, odiosa. Juntas, formam algo como “a odiosa insolência”.
vingar - Aqui no sentido clássico: punir, retribuir, fazer pagar.
conseguisse vingar - Expressa um desejo ou hipótese: “se pudesse punir”, “se lograsse retribuir”.
A “protérvia” é quase sempre associada a hýbris, a arrogância que exige castigo.
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Odisseia, de Homero - Canto 3 
- Telêmaco chega a Pilo em busca de notícias de Odisseu



terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cinema: O Pagador de Promessas

Glória Menezes e Leonardo Vilar

o ano é 1962

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, é até hoje o único filme brasileiro a conquistar a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes.

Diretor:
Anselmo Duarte

Roteiristas:
Anselmo Duarte
Dias Gomes

O filme acompanha Zé do Burro, homem simples que cruza o sertão até Salvador para cumprir um voto ligado à fé e à promessa de justiça social. Abordando intolerância religiosa e crítica social com atuações marcantes e fotografia memorável, é considerado um marco do cinema brasileiro, um filme para quem aprecia dramas profundos e culturalmente ricos.
Zé do Burro vive com Rosa, sua mulher, numa pequena propriedade perto de Salvador. Um dia, seu burro é atingido por um raio. Em um terreiro de candomblé, ele faz uma promessa a Santa Bárbara para salvar o animal, que se recupera. Para cumprir sua palavra, Zé doa metade de seu sítio e segue a pé para a capital baiana, carregando uma enorme cruz de madeira. Na cidade, Rosa se apaixona por um cafetão, e padre Olavo, responsável pela igreja de Santa Bárbara, não deixa que Zé entre no templo porque a promessa foi feita em um terreiro de candomblé. 
O filme é uma adaptação da peça teatral homônima escrita em 1959 por Dias Gomes






Elenco:
Leonardo Villar como Zé do Burro
Glória Menezes como Rosa
Dionísio Azevedo como Padre Olavo
Geraldo Del Rey como Bonitão
Roberto Ferreira como Dede
Norma Bengell como Marly
Othon Bastos como Reporter
Antônio Pitanga como Coca
Gilberto Marques como Galego
Milton Gaúcho como Policial
Enoch Torres como Inspetor de Polícia
Carlos Torres como Coca's Friend
João Di Sordi como Police Detective
Veveldo Dinizcomo Sacristão
Maria Conceição como Tia
Irenio Simões como Editor
Walter da Silveira como Bispo
Napoleao Lopes Filho como Bispo
Cecília Rabelo como Sacristão
Jurema Penna como Sacristão
Alair Liguori como Sacristão
Canjiquinha como Capoeirista
Américo Coimbra como Bonitão
Ignácio de Loyola Brandão (não creditado)
Garibaldo Matos (não creditado)


Dias Gomes - Alfredo de Freitas Dias Gomes, mais conhecido pelo sobrenome Dias Gomes (Salvador, 19 de outubro de 1922 — São Paulo, 18 de maio de 1999), foi um romancista, dramaturgo, autor de telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras. Também conhecido pelo seu casamento com a também escritora Janete Stocco Emmer (Janete Clair).

Alfredo Dias Gome
- 12/06/1995




Telenovelas:

1969
A Ponte dos Suspiros   
1970
Verão Vermelho
1970/1971
Assim na Terra como no Céu
1971/1972
Bandeira 2
1973
O Bem-Amado
1974
O Espigão
1975
Roque Santeiro (versão censurada)
1976
Saramandaia
1978/1979
Sinal de Alerta
1985/1986
Roque Santeiro
1987
Expresso Brasil
1987/1988
Mandala
1990/1991
Araponga
1995
Irmãos Coragem
1996
O Fim do Mundo

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
01. Antonia / 02. O Quatrilho / 03. Meu Pé Esquerdo / 04. O Pagador de Promessas /