Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO II
A MÃE
continuando...
Mas é apenas uma ilusão. Porque ela não fez realmente
o filho: ele se fez nela; sua carne só engendra carne: ela é incapaz de fundar uma existência, que se terá de fundar ela própria;
as criações que emanam da liberdade põem o objeto como valor
e o reevestem de uma necessidade; no seio materno o filho é injustificado, não passa ainda de uma proliferação gratuita, um
fato bruto cuja contingência é simétrica à da morte. A mãe pode
ter suas razões de querer um filho, mas não poderá dar, a esse
outro que vai ser amanhã, suas próprias razões de ser; ela engendra-o na generalidade de seu corpo, não na singularidade
de sua existência. É o que compreende a heroína de Colette
Audry quando diz:
Nunca pensara que ele pudesse dar um sentido a minha vida... Seu ser germinara em mim; o que quer que acontecesse, tinha de conduzi-lo a bom termo, até o fim, sem poder apressar as coisas, ainda que fosse preciso morrer. Depois ali estivera, nascido de mim; assim, assemelhava-se à obra que eu teria podido realizar na vida. . . mas afinal não o era (cf. On joue perdant, "1'Enfant").
Em certo sentido, o mistério da encarnação repete-se em cada
mulher; toda criança que nasce é um deus que se faz homem:
não poderia realizar-se como consciência e liberdade se não viesse ao mundo; a mãe presta-se a esse mistério, mas não o comanda; a suprema verdade desse ser que se forma em seu ventre
escapa-lhe. É esse equívoco que ela traduz por dois fantasmas
contraditórios: toda mãe tem a ideia de que o filho será um
herói; exprime assim seu deslumbramento à ideia de engendrar
uma consciência e uma liberdade; mas teme também dar à luz
um enfermo, um monstro, porque conhece a horrível contingência
da carne e esse embrião que a habita é somente carne. Há casos
em que tal ou tal mito vence, mas muitas vezes a mulher oscila
entre um e outro. Ela é sensível também a outro equívoco. Presa
no grande ciclo da espécie, afirma a vida contra o tempo e a
morte: com isso tem a promessa da imortalidade; mas experimenta também na carne a realidade da afirmação de Hegel: "O nascimento dos filhos é a morte dos pais". O filho, diz ele ainda,
é para os pais "o ser para si do amor deles que cai fora deles",
e inversamente, ele obterá seu ser para si "na separação da fonte, uma separação em que essa fonte seca". Essa superação de
si é também para a mulher prefiguração da morte. Ela traduz
essa verdade pelo medo que sente quando imagina o parto;
receia nele perder a própria vida.
Sendo assim ambígua a significação da gravidez, é natural
que a atitude da mulher seja ambivalente: de resto, modifica-se,
nos diversos estádios da evolução do feto. É preciso sublinhar
primeiramente que, no início do processo, o filho não está presente; ele ainda não tem senão uma existência imaginária; a
mãe pode sonhar com esse pequeno indivíduo que nascerá dentro
de meses, pode diligenciar para preparar-lhe um berço, uma
fralda: só apreende concretamente os turvos fenômenos orgânicos
que nela se verificam. Certos incensadores da Vida e da Fecundidade pretendem misticamente que a mulher reconhece pela qualidade de seu prazer que o homem acaba de torná-la mãe: trata-se
de um desses mitos que cumpre abandonar. Ela nunca tem uma
intuição decisiva do acontecimento: ela o induz partindo de sinais incertos. Cessam as regras, engorda, os seios tornam-se pesados e doem, ocorrem vertigens e náuseas; por vezes, ela acredita simplesmente estar doente e é um médico que a informa.
Sabe então que seu corpo recebeu um destino que o transcende;
dia após dia, um pólipo nascido de sua carne e estranho a sua
carne vai crescer nela; a mulher torna-se presa da espécie que
lhe impõe suas misteriosas leis e, geralmente, essa alienação a
amedronta: seu medo traduz-se por vômitos. Estes são parcialmente provocados pelas modificações das secreções gástricas que
então se produzem; mas se essa reação, que outras fêmeas mamíferas ignoram, assume importância é por motivos psíquicos:
manifesta o caráter agudo que o conflito entre a espécie e o
indivíduo (Cf vol. I, cap. 1) reveste na fêmea humana. Ainda
que a mulher deseje profundamente o filho, seu corpo revolta-se
primeiramente quando lhe cumpre parir. Nos Estados Nervosos
de Angústia, Stekel afirma que o vômito da mulher grávida
exprime sempre certa recusa ao filho; se este é acolhido com
hostilidade — por motivos amiúde inconfessados — as perturbações estomacais exageram-se.
"A psicanálise ensinou-nos que a exageração psíquica dos
sintomas do vômito só se observa no caso em que a expulsão oral
traduz emoções de hostilidade em relação à gravidez ou ao feto",
diz H. Deutsch. E ela acrescenta: "Muitas vezes o conteúdo psíquico do vômito da gravidez é exatamente o mesmo que nos vômitos histéricos das moças, provenientes de um fantasma de gravidez [1] ". Em ambos os casos reaviva-se a velha ideia da fecundação pela boca que se encontra nas crianças. Para as mulheres infantis, em particular, a gravidez é, como no passado,
assimilada a uma doença do aparelho digestivo. H. Deutsch
cita o caso de uma doente que estudava, com ansiedade, seus
vômitos para verificar se não encontrava neles fragmentos de
embrião; sabia, no entanto, pelo que afirmava, que a obsessão
era absurda.
A bulimia, a falta de apetite, as repugnâncias assinalam a mesma hesitação entre o desejo de conservar e o de
destruir o embrião. Conheci uma jovem mulher que sofria ao
mesmo tempo de vômitos exasperados e de uma constipação feroz; disse-me, ela própria, que tinha a impressão de procurar
expulsar o feto e ao mesmo tempo retê-lo; o que correspondia
exatamente a seus desejos confessados.
[1] Citaram-me precisamente o caso de um homem que, durante
os primeiros meses da gravidez da mulher — que no entanto ele amava
pouco — apresentou exatamente os mesmos sintomas de náusea, de
vertigem e de vômitos que se observam nas mulheres grávidas. Traziam evidentemente, de uma maneira histérica, conflitos consciente.
O Dr. Arthus (Le Mariage) cita o exemplo seguinte, que
resumo:
Mme T. apresenta graves perturbações de gravidez, com vômitos incoercíveis... A situação é tão inquietante que se deve pensar em praticar uma interrupção da gravidez em processo... A mulher está desolada... A rápida análise que pôde ser praticada revela (que): Mme T. procedeu a uma identificação inconsciente com uma de suas antigas amigas de pensão que desempenhou papel muito grande em sua vida afetiva e morreu em consequência de sua primeira gravidez. Logo que a causa pode ser revelada, os sintomas melhoram; depois de uma quinzena de dias verificam-se ainda vômitos, porém sem mais nenhum perigo.
Constipação, diarreias, trabalho de expulsão manifestam
sempre a mesma mistura de desejo e de angústia; disso resulta,
por vezes, um aborto: quase todos os abortos espontâneos têm
uma origem psíquica. Tais incômodos se acentuam tanto mais
quanto a mulher lhes dá maior importância e "se ouve" mais.
Em particular, os famosos "desejos" das mulheres grávidas são
obsessões de origem infantil complacentemente acariciadas: relacionam-se sempre aos alimentos, em virtude da velha ideia da
fecundação alimentar; sentindo perturbações em seu corpo, a
mulher traduz, como acontece muitas vezes nas psicastenias, esse
sentimento de estranheza por um desejo que por vezes a fascina.
Há, de resto, uma "cultura" desses desejos pela tradição, como
houve outrora uma cultura da histeria; a mulher, na expectativa de ter desejos, espera por eles, inventa-os. Relataram-me o
caso de uma mãe solteira que tinha um desejo tão frenético de
espinafres que corria a comprá-los no mercado e ficava numa terrível impaciência a olhá-los enquanto os cozinhava: exprimia
assim a angústia de sua solidão; sabendo que só podia contar
consigo mesma, era com pressa febril que diligenciava para satisfazer seus desejos. A Duquesa de Abrantes descreveu de maneira muito divertida, em suas Mêmoires, um caso em que o
desejo é imperiosamente sugerido pelo ambiente da mulher. Queixa-se de ter sido cercada de excessiva solicitude durante a
gravidez.
Esses cuidados, essas atenções aumentam o mal-estar, o enjoo, o nervosismo, os mil e um sofrimentos que quase sempre acompanham a primeira gravidez. Senti-o... Foi minha mãe quem começou, um dia em que jantava em casa dela... "Ah! Meu Deus, disse-me de repente largando o garfo e encarando-me com um ar consternado, ah! meu Deus, não pensei em perguntar qual era teu desejo."- Mas não tenho nenhum — respondi.- Não tens desejo — disse minha mãe... — Não tens desejo! Mas nunca se viu isso! Tu te enganas. É que não prestas atenção. Falarei com tua sogra.E eis minhas duas mães se consultando, e eis meu Junot que, com medo de que lhe desse um filho com cabeça de javali... me perguntava todas as manhãs: "Laure, de que tens vontade?" Minha cunhada, que voltou de Versalhes ampliou o coro das perguntas... nem podia enumerar quantas pessoas vira desfiguradas por desejos não satisfeitos... sei, assustando-me também... Até procurei em minha imaginação algo de que gostasse especialmente e não encontrei nada. Enfim, um dia, aconteceu-me, comendo uma pastilha de ananás, refletir que um ananás deveria ser uma coisa excelente... Uma vez persuadida de que tinha desejo de ananás, senti uma vontade muito grande, que aumentou quando Corcelet declarou que não estava no tempo. Oh! Então experimentei esse sofrimento que participa do desespero e põe a gente num estado de morrer ou satisfazê-lo.(Junot, após numerosas gestões, acaba recebendo um ananás das mãos de Mme Bonaparte. A Duquesa de Abrantes acolheu-o alegremente e passou a noite a cheirá-lo e tocá-lo, por lhe ter o médico ordenado que só o comesse pela manhã. Quando finalmente Junot me serviu):Empurrei o prato para longe de mim, "Não sei o que tenho, não posso comer ananás." Ele punha-me o nariz no maldito prato, o que provocou uma asserção positiva de que não podia comer ananás. Foi preciso não somente levá-lo, mas ainda abrir as janelas, perfumar meu quarto para tirar o menor vestígio de um odor que um segundo bastara para tornar odioso. O que há de mais singular neste fato é que, desde então, nunca pude comer ananás sem um esforço violento...
São as mulheres de quem se ocupam demasiado ou que se
ocupam demasiado consigo mesmas que apresentam maior número de fenômenos mórbidos. As que vencem mais facilmente a
prova da gravidez são, por um lado, as matronas totalmente entregues a sua função de poedeiras e, por outro lado, as mulheres
viris que as aventuras do corpo não fascinam e que fazem questão de sobrepujá-las com desembaraço; Mme de Stael conduzia
uma gravidez com tanta vivacidade e displicência quanto uma
conversação.
Quando a gravidez prossegue, a relação entre a mãe e o
feto muda. Este acha-se solidamente instalado no ventre materno, os dois organismos se adaptaram um ao outro e há entre ambos
trocas biológicas que permitem à mulher reencontrar seu equilíbrio. Ela não se sente mais possuída pela espécie: ela é que
possui o fruto de suas entranhas. Durante os primeiros meses
era uma mulher qualquer e diminuída pelo trabalho secreto que
se realizava no seu interior; posteriormente torna-se, com evidência, uma mãe e suas fraquezas são o reverso de sua glória. A
impotência de que sofria torna-se, acentuando-se, um álibi. Muitas mulheres encontram, então, em sua gravidez uma maravilhosa
paz: sentem-se justificadas; tinham sempre tido prazer em se
observar, em espiar o corpo; não ousavam, por senso de seus
deveres sociais, interessar-se por ele com demasiada complacência: agora têm o direito de fazê-lo, porque tudo o que fazem para
seu próprio bem-estar fazem para o filho. Não se lhes pede mais
trabalho, nem esforço; não têm mais que se preocupar com o
resto do mundo; os sonhos de futuro que acariciam dão um
sentido ao momento presente; basta-lhes se deixarem viver, estão
de férias. A razão de sua existência está em seu ventre e dá-lhes
uma impressão perfeita de plenitude. "É como um pequeno aquecedor no inverno, sempre aceso e que só para você existe, inteiramente submetido à sua vontade. É também uma ducha fresca,
escorrendo sem cessar durante o verão. Está ali", diz uma mulher citada por H. Deutsch. Satisfeita, a mulher conhece também o prazer de se sentir "interessante", o que constituiu seu
maior desejo desde a adolescência; como esposa, sofria com sua
dependência em relação ao homem; agora não é mais um objeto
sexual, uma serva; encarna a espécie, é promessa de vida, de
eternidade; os que a cercam, respeitam-na; até seus caprichos
tornam-se sagrados: o que a incita, já o vimos, a inventar "desejos". "A gravidez permite à mulher racionalizar atos que de
outro modo pareceriam absurdos", afirma Helen Deutsch. Justificada pela presença de um outro em seu seio, ela goza enfim
plenamente de ser ela própria.
continua página 268...
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (3)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
