sábado, 26 de setembro de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O gato preto

Edgar Allan Poe - Contos


O gato preto

Para a narrativa sumamente extravagante e contudo sumamente trivial em que tomo da pena, não espero nem peço crédito. De fato, louco seria eu de esperar tal coisa, num episódio em que até meus próprios sentidos rejeitam o que testemunharam. Contudo, não estou louco — e, decerto, tampouco estou sonhando. Mas amanhã morrerei e hoje quero desafogar minha alma. Meu propósito imediato é expor diante do mundo, de modo direto, sucinto e sem comentários, uma série de simples eventos domésticos. Por suas consequências, esses eventos me aterrorizaram — torturaram — destruíram. Contudo, não farei uma tentativa de explicá-los. Para mim, pouco representaram além do Horror — para muitos, parecerão menos terríveis do que barrocos. Num futuro próximo, talvez, algum intelecto haverá de surgir para reduzir minha fantasmagoria ao lugar comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico e muito menos excitável do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias por mim detalhadas com assombro, nada mais do que uma ordinária sucessão de causas e efeitos perfeitamente naturais.
     
     Desde a infância sempre me fiz notar pela docilidade e humanidade de meu temperamento. Minha ternura de coração era de fato tão evidente que me tornava objeto de troça de meus companheiros. Tinha particular afeição por animais e fui mimado por meus pais com uma grande variedade de bichos de estimação. Com eles passava a maior parte do tempo e nunca me sentia tão feliz como nas ocasiões em que os alimentava e acariciava. Essa peculiaridade de caráter acompanhou-me ao crescer e, mais tarde, quando me tornei um homem, dela extraía uma das minhas principais fontes de prazer. Para aqueles que acalentaram afeição por um cão fiel e esperto, dificilmente preciso me dar o trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que disso pode advir. Há qualquer coisa no amor altruísta e abnegado de uma criatura bruta que cala fundo no coração de quem muitas vezes já teve ocasião de experimentar a amizade mesquinha e a fidelidade impalpável do mero Homem.
     Casei-me cedo, e tive a felicidade de encontrar em minha esposa uma disposição não incompatível com a minha própria. Observando meu apreço pelos animais domésticos, ela não perdia a oportunidade de obter os tipos mais agradáveis. Tivemos pássaros, peixes dourados, um ótimo cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
     Este último era um animal notavelmente grande e belo, todo negro, e esperto em um grau espantoso. Falando de sua inteligência, minha esposa, que no fundo não era pouco imbuída de superstição, fazia frequente alusão à antiga crença popular que via em todos os gatos pretos bruxas disfarçadas. Não que em algum momento falasse a sério nesse sentido — e não toco no assunto por nenhum outro motivo além de acontecer, bem agora, de me vir à memória. 
     Pluto — esse o nome do gato — foi meu bicho e companheiro favorito. Somente eu o alimentava, e ele me seguia pela casa aonde quer que eu fosse. Era mesmo com dificuldade que conseguia impedi-lo de seguir-me pelas ruas.
     Nossa amizade durou, desse modo, por vários anos, durante os quais meu temperamento geral e caráter — por obra do Demônio da Intemperança — experimentaram (coro em confessar) uma radical alteração para pior. Tornei-me, a cada dia, mais taciturno, mais irritável, mais sem consideração pelos sentimentos alheios. Permitia-me o uso de uma linguagem destemperada com minha mulher. Por im, cheguei até a ameaçá-la de violência ísica. Meus bichos, é claro, também sofreram com minha mudança de disposição. Eu não só os negligenciava, como também os maltratava. Por Pluto, entretanto, ainda mostrava suficiente consideração para me abster de infligir-lhe maus-tratos, como fazia com os coelhos, o macaco ou mesmo o cão, quando, por acidente, ou talvez por afeto, entravam em meu caminho. Mas a doença ganhou corpo em mim — pois que doença se compara ao Álcool? — e no fim até mesmo Pluto, que a essa altura estava ficando velho e, consequentemente, um tanto malcriado — até mesmo Pluto começou a experimentar os efeitos de meu temperamento irascível.
     Certa noite, voltando para casa, muito embriagado, de uma de minhas tavernas pela cidade, julguei que o gato evitava minha presença. Agarrei-o; nisso, em seu medo de minha violência, ele me infligiu um leve ferimento na mão com os dentes. A fúria de um demônio apossou-se instantaneamente de mim. Eu não mais me reconhecia. Minha alma original pareceu, na mesma hora, levantar voo de meu corpo; e uma malevolência mais do que diabólica, inflamada a gim, convulsionou cada fibra de meu corpo. Tirei do bolso do colete um pequeno canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e deliberadamente arranquei um de seus olhos da órbita! Coro, enrubesço, estremeço conforme descrevo a abominável atrocidade.
     Quando a razão me voltou pela manhã — após ter dissipado no sono os vapores do desregramento noturno — experimentei um sentimento que era parte horror, parte remorso pelo crime do qual era culpado; mas foi, quando muito, um sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu intocada. Voltei a mergulhar em excessos e não tardei a afogar na bebida qualquer lembrança do ato.
     Entrementes, o gato lentamente se recuperou. A órbita do olho perdido apresentava, é verdade, uma aparência assustadora, mas ele não parecia sentir mais dor alguma. Andava pela casa como de costume, mas, como era de esperar, fugindo aterrorizado à minha aproximação. Restava-me su iciente de minha antiga afeição para que no início icasse magoado com esse evidente repúdio de parte de uma criatura que outrora tanto me amara. Mas esse sentimento em breve deu lugar à irritação. E então sobreveio, como que para minha ruína final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE. Desse espírito a filosofia não se ocupa. Contudo, não tenho tanta convicção sobre a existência de minha alma quanto tenho de que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano — uma das indivisíveis e primordiais faculdades, ou sentimentos, que orientam o caráter do Homem. Quem nunca se pegou, uma centena de vezes, cometendo algum ato vil ou tolo sem nenhum outro motivo além de saber que não deveria? Não mostramos uma perpétua inclinação, malgrado todo o nosso bom-senso, a violar essa coisa que chamamos Lei, meramente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, como disse, veio para minha ruína final. Foi esse inescrutável anseio da alma de atormentar a si mesma — de violentar sua própria natureza — de cometer o mal em nome do mal simplesmente — que me impeliu a continuar e finalmente consumar o agravo que já infligira à inofensiva criatura. Certa manhã, a sangue frio, passei um laço em torno de seu pescoço e o enforquei no galho de uma árvore; — enforquei-o com as lágrimas brotando de meus olhos, e com o remorso mais amargo no coração; — enforquei-o porque sabia que me amara, e porque sentia que não me dera o menor motivo para ressentimento; — enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado — um pecado mortal que poria minha alma imortal em perigo a ponto de deixá-la — se tal coisa era possível — fora de alcance até da misericórdia infinita do Deus Mais Misericordioso e Mais Terrível.
     Na noite do dia em que perpetrei essa cruel infâmia, fui despertado do sono pelos gritos de fogo. As cortinas de minha cama estavam em chamas. A casa toda ardia. Foi com grande dificuldade que minha esposa, uma criada e eu próprio conseguimos escapar da conflagração. A destruição foi completa. Todas minhas posses terrenas foram consumidas e entreguei-me dali em diante ao desespero.
     Não cedo à fraqueza de tentar estabelecer uma sequência de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade. Mas estou descrevendo uma cadeia de eventos — e não desejo deixar de fora nem sequer um possível elo. Certo dia após o incêndio iz uma visita às ruínas. As paredes, com exceção de uma só, haviam desabado. Essa exceção consistia de uma parede divisória interna, não muito grossa, mais ou menos no meio da casa, contra a qual ficava recostada a cabeceira de minha cama. O reboco havia, em grande parte, resistido à ação do fogo — ocorrência que atribuí ao fato de ter sido recentemente aplicado. Em torno dessa parede uma compacta multidão havia se reunido e muitas pessoas pareciam examinar uma área particular dela com atenção extremamente minuciosa e intensa. As palavras “estranho!”, “singular!” e outras expressões similares atiçaram minha curiosidade. Acerquei-me e vi, como que gravado em bas relief sobre a superfície branca, a figura de um gigantesco gato. A imagem se estampava com uma precisão realmente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.
     Quando contemplei a aparição — pois como menos que isso eu dificilmente podia encará-la — minha admiração e meu terror foram extremos. Até que enfim a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei, fora enforcado em um jardim adjacente à casa. Ao alarme de incêndio, esse jardim fora imediatamente tomado pela multidão — e alguém ali devia ter cortado a forca e jogado o animal por uma janela aberta dentro do meu quarto. Isso provavelmente fora feito com o intuito de me despertar de meu sono. A queda de outras paredes comprimira a vítima de minha crueldade na massa da alvenaria recém-aplicada; a cal do reboco, sob a ação do fogo, combinara-se ao amoníaco da carcaça para executar o esboço tal como eu o via.
     Embora desse modo procurasse eu prontamente prestar contas a minha razão, quando não, na medida do possível, a minha consciência, pelo fato alarmante que acabo de descrever, isso tampouco deixou de causar uma profunda impressão em minha imaginação. Por meses não consegui me libertar da imagem fantasmagórica do gato; e, durante esse período, voltou-me ao espírito um sentimento vago que parecia, mas não era, remorso. Cheguei a ponto de lamentar a perda do animal, e de procurar, nas sórdidas tavernas que agora me habituara a frequentar, outro bichano do mesmo tipo, e de aparência algo similar, com o qual suprir seu lugar.
     Certa noite, enquanto eu me sentava, meio entorpecido, num antro dos mais infames, minha atenção foi subitamente atraída por um objeto negro, repousando sobre a tampa de um imenso tonel de gim, ou rum, que constituía a principal peça de mobília do ambiente. Eu estivera a olhar fixamente para a tampa desse tonel por alguns minutos, e o que agora causava minha surpresa era o fato de não ter percebido antes o objeto que estava sobre ele. Aproximei-me e o toquei com a mão. Era um gato preto — muito grande — tão grande quanto Pluto, e muito parecido com ele em todos os aspectos, exceto um. Pluto não tinha um único pelo branco em todo o seu corpo; mas esse gato exibia uma mancha branca enorme, embora indefinida, a lhe cobrir toda a região do peito.
     No momento em que o toquei, ele se levantou de imediato, ronronou audivelmente, esfregou-se em minha mão e pareceu deliciado com a atenção concedida. Aquela, então, era exatamente a criatura que eu estava procurando. Ofereci-me na mesma hora para adquiri-lo junto ao dono; mas o homem afirmou que não lhe pertencia — que nada sabia do bicho — nunca o vira antes.
     Continuei com minhas carícias e quando me preparava para voltar para casa o animal evidenciou disposição de me acompanhar. Permiti que o fizesse; parando ocasionalmente e dando-lhe tapinhas carinhosos conforme andava. Quando cheguei em casa, ficou à vontade na mesma hora e imediatamente conquistou a predileção de minha mulher.
     De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém — não sei dizer como nem por que — sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus-tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente — muito gradualmente — comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.
     O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a descoberta, na manhã subsequente à noite em que o levei para casa, de que, como Pluto, ele também fora privado de um olho. Essa circunstância, entretanto, apenas o fez crescer em afeição perante minha esposa, que, como já disse, possuía, em elevado grau, essa humanidade de sentimentos que outrora havia sido meu traço característico, e a origem de muitos de meus prazeres mais singelos e puros.
     Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim pareceu aumentar. Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender. Sempre que me sentava, acomodava-se sob minha poltrona, ou pulava sobre meus joelhos, cobrindo-me com suas detestáveis carícias. Se eu me levantava para andar, metia-se entre meus pés e desse modo quase me derrubava, ou, cravando suas garras longas e afiadas em minha roupa, trepava, desse modo, até meu peito. Em momentos como esse, embora desejasse com todas as forças matá-lo de um só golpe, eu era contudo impedido de o fazer, em parte pela lembrança de meu antigo crime, mas principalmente — que eu o confesse logo de uma vez — por absoluto pavor da criatura.
     Esse pavor não era exatamente o pavor de um mal ísico — e contudo me faltariam palavras para de ini-lo de outro modo. Tenho quase vergonha de confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso, tenho quase vergonha de confessar — que o terror e o horror que esse animal me infundia haviam sido aumentados por uma das mais simples quimeras que seria possível conceber. Minha esposa chamara minha atenção, em mais de uma ocasião, para o caráter da mancha de pelo branco, da qual falei, e que constituía a única diferença visível entre o estranho animal e o outro que eu matara. O leitor haverá de recordar que essa mancha, embora grande, havia se mostrado originalmente muito indefinida; porém, mediante vagarosas gradações — gradações quase imperceptíveis, e que por longo tempo minha Razão lutou por rejeitar como fruto da imaginação —, assumira, finalmente, uma rigorosa precisão de contornos. Era agora a representação de um objeto que tremo em nomear — e por isso, acima de tudo, nutria ódio, e pavor, e teria me livrado do monstro caso ousasse — era agora, afirmo, a imagem de uma coisa hedionda — de uma coisa macabra — do PATÍBULO! — ah, pesaroso e terrível maquinismo de Horror e de Crime — de Agonia e de Morte!
     E agora eu estava de fato desgraçado para além da desgraça da mera Humanidade. E uma criatura bruta — cujo semelhante eu matara desprezivelmente — uma criatura bruta engendrara para mim — para mim, um homem, feito à imagem do Deus Altíssimo — tamanho e insuportável suplício! Ai de mim! nem de dia, nem de noite, conhecer a bênção do Descanso! Durante o dia, a criatura não me deixava mais um momento sozinho; e, à noite, eu acordava, de hora em hora, com pesadelos de indizível medo, para dar com o hálito quente da coisa sobre meu rosto, e seu vasto peso — a encarnação de um Súcubo que eu era impotente para repelir — oprimindo eternamente meu coração.
     Sob a pressão de tormentos como esses, o tênue resquício do que havia de bondade em mim cedeu. Pensamentos malignos tornaram-se meus únicos companheiros — os pensamentos mais negros e malignos. Meu temperamento habitualmente taciturno evoluiu num ódio por todas as coisas e por toda a espécie humana; ao passo que das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de uma fúria à qual eu agora cegamente me abandonava minha resignada esposa, ai de mim!, era a mais habitual e a mais paciente das vítimas.
     Certo dia ela me acompanhava, em algum serviço doméstico, ao porão da velha casa que nossa pobreza nos compelia a ocupar. O gato me seguiu pelos íngremes degraus e, quase me fazendo cair de frente, exasperou-me ao ponto da loucura. Erguendo um machado, e esquecendo, em minha ira, o pavor infantil que até então detivera minha mão, dirigi um golpe contra o animal que, sem dúvida, teria se provado instantaneamente fatal caso houvesse descido como eu desejara. Mas o golpe foi interrompido pela mão de minha esposa. Instigado por essa interferência numa fúria mais do que demoníaca, libertei meu braço e enterrei o machado em seu cérebro. Ela tombou morta imediatamente, sem um gemido.
     Executado o assassinato hediondo, procedi incontinente, e com total determinação, à tarefa de ocultar o corpo. Eu sabia que não poderia removê-lo da casa, de dia ou de noite, sem o risco de ser observado pelos vizinhos. Inúmeros planos passaram por minha mente. A certa altura, pensei em cortar o cadáver em pequenos pedaços e destruí-los no fogo. Em outro momento, resolvi cavar um buraco para enterrá-lo no chão do porão. Depois, considerei a possibilidade de jogá-lo no poço do quintal — ou de fazer um embrulho e encaixotá-lo, como se fosse uma mercadoria, tomando as usuais providências, de modo que um carregador viesse levá-lo da casa. Finalmente, ocorreu-me um expediente que julguei muito melhor do que todos esses. Decidi emparedá-lo no porão — como ouvira dizer que os monges da Idade Média faziam com suas vítimas.
     Para um tal propósito o porão se prestava bem. Suas paredes eram construídas sem firmeza, e haviam recentemente recebido uma camada grosseira de reboco, que a umidade do ambiente impedira de endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência, causada por uma falsa chaminé, ou lareira, que fora preenchida, de modo a se parecer com o restante do porão. Não tive dúvida de que seria capaz de remover facilmente os tijolos nesse lugar, inserir o cadáver e reconstruir a parede como antes, de modo que olho algum detectasse algo suspeito.
     E nesse cálculo não me equivoquei. Utilizando um pé de cabra, desloquei rapidamente os tijolos e, após escorar o corpo cuidadosamente contra a parede interna, mantive-o nessa posição, enquanto, com pouca dificuldade, refazia toda a estrutura como se mostrava originalmente. Tendo buscado argamassa, areia e crina, com todas as precauções possíveis, preparei um reboco que fosse indistinguível do antigo, e com ele procedi muito diligentemente à obra da nova alvenaria. Após terminar, observei satisfeito o trabalho bem-feito. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido perturbada. Recolhi o entulho no chão com cuidado mais do que minucioso. Olhei em torno em triunfo e disse comigo mesmo — “Aí está, pronto, meu trabalho não foi em vão”.
     Meu passo seguinte foi procurar pelo causador de tamanha desgraça; pois eu havia, en im, chegado à irme determinação de matá-lo. Tivesse eu sido capaz de encontrá-lo naquele momento, não resta dúvida sobre qual teria sido seu destino; mas ao que parecia a criatura astuciosa se alarmara com a violência de minha fúria precedente e evitava aparecer em meu presente estado de espírito. É impossível descrever, ou imaginar, a profunda, jubilosa, sensação de alívio que o sumiço do detestado animal ocasionou em meu peito. Ele não apareceu durante a noite — e assim, por uma noite, ao menos, desde que fora trazido à casa, dormi um sono profundo e tranquilo; sim senhor, dormi, mesmo com o fardo do assassinato em minha alma!
     O segundo e o terceiro dia se passaram, e ainda nem sinal de meu algoz. Eu voltava a respirar como um homem livre. O monstro, aterrorizado, fugira do lugar para sempre! Eu não o veria nunca mais! Minha felicidade era suprema! A culpa por meu ato tenebroso pouco me perturbava. Umas poucas perguntas haviam sido feitas, mas foram respondidas prontamente. Até mesmo uma busca fora empreendida — mas é claro que nada se descobrira. Eu contemplava minha futura felicidade como assegurada.
    No quarto dia após o crime, uma equipe policial veio, um tanto inesperadamente, ter à minha porta, e procedeu mais uma vez a uma rigorosa investigação da casa. Confiante, entretanto, na inescrutabilidade de meu esconderijo, mostrei grande desembaraço. Os policiais instaram que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram um único vão ou recesso por examinar. Finalmente, pela terceira ou quarta vez, desceram ao porão. Não tremi um músculo sequer. Meu coração batia tão calmamente como o de alguém no sono da inocência. Andei pelo porão de ponta a ponta. Cruzei os braços sobre o peito e perambulei para cá e para lá, tranquilo. Os policiais se deram totalmente por satisfeitos e se prepararam para ir embora. A exultação em meu coração era forte demais para ser reprimida. Eu ardia por dizer nem que fosse uma palavra, a título de triunfo, e tornar duplamente garantida sua certeza de minha inocência.
     “Senhores”, disse eu, enfim, quando os homens subiam pela escada, “alegra-me ter-lhes aplacado as suspeitas. Desejo saúde a todos, e lhes apresento mais uma vez meus respeitos. A propósito, senhores, esta — esta é uma casa muito bem construída.” (Em meu incontrolável desejo de dizer o que quer que fosse com naturalidade, eu mal fazia ideia do que falava.) — “Devo dizer, uma casa excelentemente bem construída. Estas paredes — já vão, senhores? — estas paredes são obra sólida”; e nisso, no pleno frenesi de minha bravata, bati fortemente, com a bengala que levava na mão, exatamente naquela parte da alvenaria atrás da qual jazia o cadáver de minha amantíssima esposa.
     Mas queira Deus me proteger e livrar das presas do Príncipe das Trevas! Nem bem a reverberação de minhas batidas mergulhou no silêncio, fui atendido por uma voz vinda da tumba! — por um gemido, inicialmente abafado e fraco, como de uma criança a soluçar, e depois se dilatando rapidamente em um grito longo, elevado e contínuo, inteiramente anômalo e inumano — um uivo — um guincho lamurioso, metade horror e metade triunfo, tal como só poderia ter brotado do inferno num esforço combinado das gargantas dos condenados em sua agonia e dos demônios que exultam na danação.
     De meus próprios pensamentos é tolice falar. Desfalecendo, cambaleei para a parede oposta. Por um instante, os policiais na escada permaneceram imóveis, num paroxismo de terror e perplexidade. No instante seguinte, uma dúzia de braços vigorosos avançava contra a parede. Ela veio toda abaixo. O cadáver, já grandemente decomposto e coberto de crostas de sangue, surgiu ereto ante os olhos dos presentes. Em sua cabeça, com a boca vermelha escancarada e um olho solitário de fogo, estava a hedionda criatura cuja astúcia me levara ao assassinato, e cuja voz delatora me condenara à corda do carrasco. Eu emparedara o monstro dentro da tumba!

continua página 83...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 76 - O aríete

Moby Dick

Herman Melville

76 - O aríete 

     Antes de deixar, por ora, a cabeça do Cachalote, gostaria que você, na condição de fisiologista prudente, apenas – particularmente reparasse no aspecto da fronte, em toda sua coesão e calma. Gostaria que a examinasse agora com o único objetivo de fazer uma avaliação inteligente e nada exagerada da força de aríete que possa estar contida ali. É uma questão crucial; pois ou você aceita esse evento como inquestionável, ou permanece descrente para todo o sempre de um dos fatos mais estarrecedores, porém verdadeiros, que receberam registro nos autos da história.
     Observe que, em sua posição comum de nado, a testa do Cachalote fica num plano quase totalmente vertical em relação à água; observe que a parte inferior de sua testa se inclina bem para trás, como se fosse um abrigo para o encaixe comprido que recebe a verga de sua mandíbula inferior; observe que a boca dele está por completo embaixo da cabeça, mais ou menos como se sua própria boca estivesse inteiramente sob seu queixo. Ademais, observe que a baleia não tem um nariz externo; e que o nariz que tem – o orifício do jato – fica no topo de sua cabeça; observe que seus olhos e orelhas ficam do lado da cabeça, a aproximadamente um terço do comprimento de seu corpo a partir da cabeça. Com isso, você deve ter percebido que a testa da cabeça do Cachalote é uma parede insensível e desprovida de aberturas, sem um único órgão ou protuberância frágil de qualquer espécie. Além disso, lembre-se de que apenas na parte inferior extrema da testa, inclinada para trás, existe algum vestígio de osso; e de que, antes de chegar a uns vinte pés da testa, você não encontrará um pleno desenvolvimento do crânio. Portanto, essa massa imensa e desossada é somente uma almofada. Como será revelado, enfim, seu conteúdo constitui-se, em parte, do óleo mais refinado; entretanto, agora você será informado da natureza da substância que reveste de modo tão inexpugnável toda essa aparente efeminação. Nalgum lugar acima, descrevi como a gordura envolve o corpo da baleia, à maneira da casca que envolve a laranja. Assim se dá com a cabeça; mas com esta particularidade: perto da cabeça, tal invólucro, embora não tão espesso, se faz de uma dureza desossada, inimaginável para alguém que jamais tenha tocado nele. O arpão mais afiado, a lança mais incisiva atirada pelo mais forte dos braços humanos, nela ricocheteiam impotentes. É como se a testa do Cachalote fosse pavimentada com cascos de cavalos. Não creio que qualquer sensibilidade exista ali.
     Considere ainda uma outra coisa. Quando dois avantajados e carregados navios mercantes da rota da Índia se empurram e se espremem nas docas, o que é que os marinheiros fazem? Não colocam entre eles, no ponto de contato, nenhuma substância rija como ferro ou madeira. Não, eles suspendem ali um enchimento grande e redondo de estopa e cortiça, enrolado no mais espesso e duro couro de boi. Este, valente e livre de dano, recebe a compressão que teria arrebentado escoras de carvalho e alavancas de ferro. Isso basta para demonstrar o fato óbvio a que me refiro. Mas, somando-se a esse fato, ocorreu-me a hipótese de que, como o peixe comum tem uma bexiga natatória, capaz de aumentar ou diminuir à vontade; e como o Cachalote, tanto quanto sei, não dispõe de tal recurso; considerando a maneira de outro modo inexplicável com que ora afunda inteiramente sua cabeça abaixo da superfície, ora nada com a cabeça bem elevada para fora da água; considerando a elasticidade jamais obstruída de seu invólucro; considerando a especialíssima parte interna de sua cabeça; ocorreu-me a hipótese, repito, de que seus misteriosos e alveolares favos pulmonares possam ter uma, até o presente momento, desconhecida e insuspeitada relação com o ar exterior, de modo a serem suscetíveis à expansão e contração atmosférica. Se assim for, imagine quão irresistível é tal poder, que conta com a contribuição do mais inalcançável e destrutivo de todos os elementos.
     Agora, atenção. Impelindo de modo implacável essa parede insensível, inexpugnável, invencível, e essa coisa que flutua dentro dela; ali nada, por trás de tudo isso, uma gigantesca massa de vida, que só pode ser adequadamente calculada como lenha empilhada – em cordéis; e que obedece a uma única vontade, como o menor inseto. De modo que, quando, mais adiante, eu explicar em detalhes todas as peculiaridades e concentrações de energia escondidas pelo corpo desse monstro expansível; quando eu mostrar algumas de suas mais ordinárias proezas craniais; creio que você renunciará a toda a incredulidade ignorante e estará pronto para aceitar isto: que ainda que o Cachalote arrebentasse uma passagem através do Istmo de Darien, misturando o Atlântico ao Pacífico, você não perderia um fio de cabelo. Pois, se não reconhecer uma baleia, você será apenas um provinciano e sentimentalista diante da Verdade. Mas a Verdade cristalina é uma coisa com a qual só as salamandras gigantes se deparam; como são pequenas, então, as chances de um provinciano! O que aconteceu com o jovem infirme que levantou o véu da temível deusa em Sais?

continua na página 369...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete /     
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Tchekhov - A mulher do farmacêutico

Alguns melhores contos


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”
Anton Tchekhov

A mulher do farmacêutico

     O lugarejo de B.., formado por duas ou três ruazinhas tortas, dorme seu sono pesado. No ar espesso o silêncio é total. Ouve-se apenas, ao longe, fora dos limites da cidade, o latido ardido e líquido de um cão que aos poucos enrouquece. É quase o amanhecer.
     Há muito tempo que tudo está dormindo. A única que não dorme é a jovem mulher do boticário Tchornomordik, proprietário da farmácia de B… Já tentou deitar-se três vezes, mas, não sabe por quê, o sono teima em não querer chegar. Sentada, a janela aberta, veste apenas uma camisola e olha para a rua. Sente calor, tédio, desgosto. Tanto desgosto que lhe dá até vontade de chorar; de novo, não sabe por quê.
     Sente um nó no peito que de repente lhe chega a garganta… Poucos passos atrás dela, colado à parede, dorme Tchornomordik e ronca baixinho. Uma pulga esfomeada suga-o a raiz do nariz, mas ele não percebe e até sorri, pois está sonhando que todos na cidade estão com tosse e compram dele, interminavelmente, as gotas do rei da Dinamarca. Nenhuma picada poderia acordá-lo agora, nem um canhão, nem uma carícia.
     Como a farmácia encontra-se quase no limite da cidade, a mulher do boticário consegue ver o campo, ao longe… Vê como o céu aos poucos faz-se branco, do lado do leste, e depois se torna púrpura, como que devido a um grande incêndio. Inesperadamente, de trás de um longínquo arbusto desponta o grande rosto da lua. Ela é vermelha (não sabe por que a lua saindo detrás dos arbustos sempre tem um quê de terrivelmente confuso).
     De repente, no meio da calma noturna, ressoam passos e o retinir de esporas. Ouvem-se vozes.
     Pouco depois surgem dois vultos e dois uniformes brancos de oficiais: um é grande e gordo, o outro menor e mais fino… Arrastam, preguiçosos, uma perna atrás da outra, ao longo da sebe, e conversam ruidosamente. Diante da farmácia diminuem ainda mais o passo e olham para as janelas.

– Sente-se cheiro de farmácia… – diz o magro. – E é uma farmácia! Ah, estou lembrando… Na semana passada vim aqui comprar óleo de rícino. O farmacêutico tem um rosto azedo e uma queixada de burro. Pois é, meu amigo, a queixada! Aquela mesma com que Sansão deu cabo dos filisteus.
– Sim… – diz o gordo, com sua voz de baixo. – O farmacêutico dorme e dorme a mulher do farmacêutico. Por sinal, Obtiossov, ela não é de se atirar aos cães.
– Eu a vi. E gostei… Diga-me doutor, será que ela pode gostar de uma queixada dessas? O senhor acha isso possível?
– Não, provavelmente, não gosta – suspira o médico com uma expressão como que de pena pelo farmacêutico. – A mamãezinha está dormindo atrás das janelas. Que acha, Obtiossov? Deitou-se, de tanto calor… a boca entreaberta… a perna caída, fora da cama. E a besta do farmacêutico não está com nada… Para ele, provavelmente, uma mulher ou um vidro de fenol são a mesma coisa.
– Sabe de uma coisa, doutor? – diz o oficial, parando. 
– Que tal entrar na farmácia e comprar alguma coisa? Quem sabe a gente vê a farmacêutica?
– Imagine – de madrugada!
– E daí? De madrugada também tem de atender. Entremos, por favor…

     A farmacêutica escondida atrás da cortina ouve o som rouco da campainha. Olha para o marido que, como dantes, ronca baixinho e sorri. Veste rapidamente a roupa, calça o sapato sem meia e corre para a loja.
     Atrás da porta de vidro veem-se duas sombras… A farmacêutica aumenta a luz da lamparina e abre a porta depressa. Já não sente tédio, nem desgosto, nem vontade de chorar; apenas o coração bate, forte. Entram o doutor gorducho e o esbelto Obtiossov. Agora pode olhá-los à vontade. O doutor barrigudo é moreno, barbado e lerdo. Ao menor movimento seu uniforme estala e seu rosto cobre-se de gotas de suor. Ao contrário, o oficial é rosado, sem barba, feminino e flexível como um chicote inglês.

– O que desejam? – pergunta a farmacêutica, segurando com uma das mãos o decote do vestido.
– Bem… dê-nos quinze copeques de pastilhas de hortelã. Sem se apressar, a mulher retira da prateleira a lata e começa a pesar. Os clientes olham para ela, de costas, sem pestanejar: o médico de olhos semicerrados, como um gato satisfeito, e o tenente, sério.
– É a primeira vez que vejo uma senhora trabalhar numa farmácia – diz o médico. 
– Não há nada de estranho – responde a farmacêutica olhando de viés para o rosto rosado de Obtiossov. – Como meu marido não tem ajudantes, quem o ajuda sou eu.
– É assim? Pois a senhora tem uma linda farmácia! Um montão dessas… latas!  E a senhora não tem medo de estar sempre às voltas com venenos? Brrr!

     A farmacêutica embrulha as pastilhas e as entrega ao médico. Obtiossov dá-lhe uma moeda de quinze copeques. Meio minuto de silêncio.. Os homens entreolham-se, dão um passo em direção à porta, olham se de novo.

– Dê-me dez copeques de bicarbonato de sódio! – diz o médico.

     De novo a farmacêutica move-se devagar e estende lentamente o braço para a prateleira.

– Será que aqui na farmácia não tem alguma coisa…– resmunga Obtiossov mexendo os dedos -, alguma coisa, assim, a senhora sabe, de alegórico, algum licor revigorante… gasosa, isso! A senhora tem gasosa?
– Tenho – responde a farmacêutica.
– Excelente! A senhora não é uma mulher, é uma feiticeira. Arranje-nos então umas três garrafas.

     Ela embrulha o bicarbonato de sódio e desaparece na sombra atrás da porta.

– Uma fruta! – diz o medico, piscando; – Um ananás como esse, Obtiossov, você não encontra nem sequer na ilha da Madeira. Hem? O que você acha? Porém. está ouvindo o ronco? É o senhor farmacêutico que resolveu dormir em santa paz.

     Um minuto mais tarde a farmacêutica está de volta com cinco garrafas que coloca no balcão. Acaba de subir do porão, por isso ela está corada e um pouco agitada.

– Sss… mais baixinho – diz Obtiossov quando ela deixa cair o abridor, após ter destampado as garrafas. Não faça tanto barulho, senão acorda seu marido.
– E daí, o que é que tem se ele acordar?
– Ele dorme tão bem… está sonhando com a senhora… À sua saúde!
– Além do que – acrescenta o médico com sua voz de baixo, após um gole de gasosa -, quanto ao marido, é uma coisa tão maçante que seria bom ele dormir sempre. Eh, com essa água, até que um vinhozinho ia bem.
– O que mais o senhor quer inventar! – ri a farmacêutica.
– Seria magnífico. É uma pena que não se vendam bebidas alcoólicas em farmácia. Mas… a senhora deve vender vinho, como remédio. A senhora por acaso tem vinum gallicum rubrum?
– Tenho.
– Viva! Traga-o, traga-o, com os diabos!
– Quanto o senhor quer? 
– Quantum satis. Para começo de conversa, traga uma onça num copo de água, depois veremos… Não é assim, Obtiossov? Primeiro com a água, depois já per se…

     O médico e Obtiossov sentam-se perto do balcão, tiram seus quepes e começam a beber o vinho tinto.

– É preciso convir, é horrível. Vinum malissimum. Embora em companhia de… he, he, he… ele pareça um néctar. Madame, a senhora é encantadora! Beijo-lhe a mão em pensamento.
– E o que eu daria para não fazê-lo em pensamento! falou Obtiossov.
– Palavra de honra! Daria a vida.
– Deixe disso… – falou a senhora Tchernomódrik, corando e assumindo um ar de seriedade.
– E, no entanto, como a senhora é coquete – ri o doutor baixinho, olhando-a de baixo, maliciosamente. Seus olhos disparam: pam! pam! Parabéns, a senhora ganhou! Fomos atingidos!

     A farmacêutica olha para seus rostos corados, ouve suas palavras e logo ela também se anima. Entra na conversa, ri, flerta e até, após tantos pedidos, consente em beber duas onças de vinho tinto.

– Ah, se vocês oficiais viessem mais vezes do acampamento para a cidade – diz ela. – Aqui é tão aborrecido. Morro de tanto tédio.
– Não faça isso! – exclama o doutor horrorizado. Uma fruta dessas… um milagre da natureza nesse lugar perdido. Bem que Griboiédov disse: “Para o deserto, para Sarátov!” Infelizmente, já está na hora. Tive imenso prazer em conhecê-la... Imenso. Quanto lhe devemos?

     A farmacêutica levanta os olhos para o teto e move demoradamente os lábios.

– Doze rublos e quarenta e oito copeques – diz, afinal. Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, fica um tempão remexendo entre as notas e acerta a conta.
– Seu marido dorme em paz… sonha… – resmunga ele, apertando o braço da farmacêutica, ao despedir-se.
– Não gosto de ficar ouvindo besteiras…
– Mas que besteiras… Já Shakespeare dizia: “Feliz daquele que foi jovem quando jovem”.
– Solte meu braço!

     Finalmente, depois de longas conversas, os clientes beijam a mão da farmacêutica e, incertos, como se temessem ter esquecido alguma coisa, saem da farmácia.
     Ela corre logo para o quarto e senta-se à mesma janela. Vê que o doutor e o tenente, após terem saído da loja, andam uns vinte passos sem vontade, depois param e começam a bisbilhotar entre si. O coração dela bate. Sobre o que será? As têmporas também latejam, por quê, ela mesma não sabe… O coração bate forte, como se aqueles dois, bisbilhotando lá fora, fossem decidir seu destino.
     Uns cinco minutos depois o médico se afasta de Obtiossov e prossegue, enquanto o outro retorna. Passa pela farmácia uma, duas vezes… Para perto da porta, começa a andar de novo. Afinal, toca com cuidado a campainha.

– O que há? Quem está aí? – a farmacêutica ouve de repente a voz do marido. – Estão tocando e você não escuta? Que droga!

     Ele levanta, veste o robe e balançando, meio sonado, arrasta os chinelos e vai até a loja.

– O que… o senhor quer? – pergunta a Obtiossov.
– Dê-me… dê-me quinze copeques de pastilhas de hortelã.

     Tchornomordik sopra, boceja, anda dormindo, bate com os joelhos no banco, sobe na prateleira e apanha a lata.
     Dois minutos mais tarde a farmacêutica vê Obtiossov sair da loja e, depois de alguns passos, jogar na estrada poeirenta as pastilhas de hortelã. Da esquina o médico vem a seu encontro.. Ambos se juntam e, gesticulando com as mãos, desaparecem na bruma da manhã.

– Como eu sou infeliz! – diz a farmacêutica, olhando com ódio o marido que se despe depressa para deitar de novo.
– Oh, como eu sou infeliz! – repete ela, e de repente seus olhos se enchem de lágrimas. – E ninguém, ninguém desconfia…
– Esqueci quinze copeques no balcão – resmunga o marido desaparecendo sob o cobertor. Esconda-os na caixa, por favor…

Fim

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Leia também:
A mulher do farmacêutico /        .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (XI. Outra reputação perdida)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
X
OUTRA REPUTAÇÃO PERDIDA
 
     Da cidade ao mosteiro era apenas 1 versta. Aliócha caminhava rapidamente pela estrada, deserta àquela hora. Era quase noite e difícil, a trinta passos, distinguir os objetos. Em meio do caminho, no centro duma encruzilhada, elevava-se um salgueiro isolado, sob o qual percebia-se um vulto. Mal Aliócha chegara àquele local, o vulto destacou-se da árvore e lançou se a ele gritando:

— A bolsa ou a vida! 
— Como, és tu, Mítia! — exclamou, espantado, Aliócha, bastante comovido. 
— Ah! ah! não esperavas por isto, hein? Perguntava a mim mesmo onde esperar-te. Perto da casa dela? Há três caminhos que partem dali e eu podia não te encontrar. Tive a idEia afinal de esperar-te aqui, porque devias necessariamente passar por esta estrada, uma vez que não há outra para ir ao mosteiro. Pois bem, dize-me a verdade, esmaga-me como a uma barata... Que tens, então?
— Não é nada, irmão... É o medo! Ah! Dimítri! Ainda há pouco, esse sangue de nosso pai (Aliócha pôs-se a chorar, desde muito tinha vontade disso, parecia-lhe que alguma coisa se dilacerava dentro dele). Tu quase o mataste... tu o amaldiçoaste... e eis que agora... aqui... fazes brincadeira... a bolsa ou a vida!
— Ah! sim. Pois bem! É indecente? Não convém isto à situação?
— Mas não, dizia isto...
— Espera, olha essa noite; vê como está sombria, aquelas nuvens, esse vento que se levantou. Oculto sob o salgueiro, esperava-te e, de repente, disse a mim mesmo (Deus me seja testemunha!): "Que adianta sofrer ainda, por que esperar? Eis um salgueiro, tenho meu lenço e minha camisa, a corda ficaria trançada em breve, com meus suspensórios ainda por cima... A terra ficaria livre de mim, não mais a desonraria com a minha presença!" E eis que ouço os teus passos. Senhor, foi como se um raio descesse sobre mim! "Há pois um homem a quem amo, ei-lo, esse homenzinho, o meu querido irmãozinho, a quem amo mais que tudo no mundo e é o único a quem amo!" Tão vivo era meu afeto naquele minuto que pensei: "Vou atirar-me ao seu pescoço!" Mas veio-me uma idEia estúpida: "Para diverti-lo, vou fazer-lhe medo". E gritei como um imbecil: "A bolsa!" Perdoa minha tolice; é absurdo, mas no fundo da alma... sou bom... Pois bem! com o diabo! Fala pois, que houve lá? Que foi que ela disse? Esmaga-me, bate-me, não me poupes! Ela está exasperada? 
— Não... não é totalmente isto, Mítia. Encontrei as duas.
— Quais duas?
— Grúchenhka em casa de Catarina Ivânovna.

     Dimítri ficou estupefato. 

— É impossível! — exclamou. — Deliras! Grúchenhka em casa dela? 

     Numa narrativa despida de artifício, mas não de clareza, expôs Aliócha o essencial do que se passara, acrescentando-lhe suas próprias impressões. Seu irmão escutava-o em silêncio, fixando-o com um ar impassível, mas Aliócha via claramente que ele já havia compreendido tudo, elucidado todo o caso. À medida que a narrativa avançava, seu rosto tornava-se não sombrio, mas ameaçador. Franzia o cenho, de dentes cerrados, o olhar ainda mais fixo, mais terrível na sua obstinação... A mudança súbita que ocorreu em seu rosto encolerizado foi por isso mesmo totalmente inesperada; seus lábios crispados distenderam-se, e Dimítri Fiódorovitch explodiu na gargalhada mais irresistível e mais franca. Ficou um bom momento sem poder falar, à força de rir.

— De modo que ela não lhe beijou a mão! Fugiu sem beijar-lhe a mão! — exclamou ele num arrebatamento mórbido, que se teria podido qualificar de impudente, se não fosse tão ingênuo. 
— E a outra chamou-a de teoriza? É uma mesmo! Devia subir ao cadafalso! Certamente, estou de acordo; deveriam tê-lo feito desde muito. Mas não é tudo, irmão, é preciso em primeiro lugar recuperar a saúde. Ela está toda inteira nesse beijo de mão, aquela rainha da impudência, aquela criatura infernal! É a rainha de todas as fúrias que se possam imaginar! De encher de entusiasmo, de certa maneira! Partiu para sua casa? Agora mesmo... corro até lá. Aliócha, não me acuses, convenho que seria pouco o estrangulá-la...
— E Catarina Ivânovna? — perguntou tristemente Aliócha. 
— Também a compreendo, como até agora tenho compreendido! Ê a descoberta das quatro partes do mundo, das cinco, quero dizer! Tal passo que deu! Ê bem a mesma Catarina, a pensionista que não receia ir ter com um oficial grosseiro, com o nobre desígnio de salvar seu pai, arriscando-se a ser insultada! Mas essa altivez, essa sede do perigo, esse desafio ao destino, até os derradeiros limites!... Sua tia, dizes, queria impedi-la? É uma mulher despótica, irmã daquela generala de Moscou; fazia muito embaraço, mas seu marido foi acusado de malversações, perdeu tudo, seus bens e o resto, sua orgulhosa esposa teve de baixar o tom. De modo que retinha ela Cátia, mas esta não a escutou. "Posso tudo vencer, tudo me é submetido, enfeitiçarei Grúchenhka, se quiser. " Acreditava bem nisso decerto, e forçou seu talento. De quem a culpa? Pensas que tenha sido intencionalmente que beijou por primeira a mão de Grúchenhka, por cálculo e por astúcia? Não, deixou se enfeitiçar nada mais nada menos por Grúchenhka, isto é, não por ela, mas pelo seu sonho, pelo seu desejo, muito simplesmente, porque esse sonho, esse desejo eram os seus! Aliócha, como pudeste escapar a semelhantes mulheres? Fugiste, arrepanhando a batina, hein? Ah! ah! ah! 
— Irmão, não pensaste, creio, na ofensa que fizeste a Catarina Ivânovna contando a Grúchenhka sua visita à tua casa; Grúchenhka lançou-lhe em rosto que "ela ia furtivamente traficar seus encantos". Há pior injúria, meu irmão?

     A ideia de que seu irmão se rejubilava com a humilhação de Catarina Ivânovna atormentava Aliócha, embora sem razão, evidentemente.

— Ah! sim! — disse Dimítri, franzindo as sobrancelhas e batendo na testa. Somente agora se dava conta, se bem que Aliócha tivesse tudo contado ao mesmo tempo, a injúria e o grito de Catarina Ivânovna: "Seu irmão é um canalha!" — Sim, com efeito, devo ter falado a Grúchenhka daquele "dia fatal", como diz Cátia. Deveras, contei-lhe, lembro-me! Foi em Mókroie, enquanto os ciganos cantavam; estava embriagado... Mas então eu soluçava, rezava de joelhos diante da imagem de Cátia. Grúchenhka compreendia-o, ela mesma chorava... Ah! diabos! poderia ser de outro modo agora? Ela chorava então, agora crava um punhal no coração. Eis as mulheres!

     Pôs-se a refletir, de cabeça baixa. — Sim, sou um verdadeiro canalha — proferiu ele, de súbito, com voz sombria. — Que tenha chorado ou não, tanto faz. Conta-lhe que aceito o qualificativo, se isto pode consolá-la. Pois bem! chega, de que serve tagarelar? Não é divertido. Sigamos cada qual nossa estrada. Não quero mais rever-te antes do derradeiro momento. Adeus, Alieksiéi!
     Apertou fortemente a mão de Aliócha e, sem erguer a cabeça, como um evadido, caminhou a grandes passadas para a cidade. Aliócha acompanhou-o com o olhar, não podendo crer que tivesse ele partido deveras.

— Espera, Alieksiéi, ainda uma confissão, para ti somente! (Dimítri retrocedera. ) — Olha-me bem no rosto: aqui, vês tu, aqui, uma infâmia execrável se prepara. (Ao dizer isto, Dimítri batia no peito com um ar estranho, como se a infâmia estivesse depositada em seu peito ou suspensa ao seu pescoço. ) Já me conheces como um canalha chapado. Mas, fica sabendo, o que quer que eu tenha feito, o que quer que possa fazer no futuro, nada se compara em baixeza com a infâmia que trago no meu peito e que poderia reprimir, mas não o farei, fica sabendo. Prefiro cometê-la. Tudo te contei há pouco, exceto isto, não tinha coragem! Posso ainda deter-me e, dessa maneira, recuperar amanhã a metade de minha honra, mas não renunciarei a isto, cumprirei meu negro desígnio, poderás ser testemunha de que falo disso antecipadamente e cientemente. Perdição e trevas! Inútil explicar-te, sabê-lo-ás a seu tempo. A lama é uma verdadeira fúria! Adeus. Não rezes por mim, não sou digno e não tenho necessidade de oração nenhuma... Sai de meu caminho!...

     Afastou-se desta vez, definitivamente. Aliócha seguiu para o mosteiro.  

"Como! Não o verei mais? Que é que ele diz?" Isto pareceu-lhe esquisito. "Amanhã, sem falta, vou pôr-me à sua procura. Que quis ele dizer?"

     Contornou o mosteiro e seguiu diretamente para o eremitério atra- vés do bosque de pinheiros. Abriram-lhe, se bem que não deixassem entrar ninguém àquela hora. Entrou na cela do stáriets, com o coração palpitante.

"Por que partira ele? Por que o haviam enviado ao mundo? Aqui, a paz, a santidade; lá, a perturbação, as trevas nas quais a gente se perde... "

     Na cela encontravam-se o noviço Porfírio e um religioso, o Padre Paísi, que o dia inteiro viera a cada hora saber notícias do Padre Zósima. Seu estado piorava, como veio a saber Aliócha, com espanto. A conversa habitual da noite com a comunidade não pudera realizar-se daquela vez. Comumente, à noite, após o ofício, a comunidade, antes de ir repousar, reunia-se na cela do stáriets; cada qual lhe confessava bem alto suas faltas do dia, os sonhos culpados, as ideias, as tentações, até as rusgas entre monges, se alguma ocorrera. confessavam, de joelhos. O stáriets Outros se absolvia, acalmava, ensinava, impunha penitências, abençoava e despedia. Era contra essas "confissões" fraternais que se levantavam os adversários do stáriets, dizendo que era aquilo uma profanação da confissão, como sacramento, quase um sacrilégio, se bem que fosse coisa bem diversa. Haviam mesmo feito denúncia à autoridade diocesana de que não somente aquelas confissões não atingiam o seu fim, mas eram na realidade uma fonte de pecados e de tentações. A muitos, na comunidade, repugnava ir à casa do stáriets e ali apareciam de má vontade, a fim de não passarem por orgulhosos e revoltados de espírito. Contava-se que certos monges, ao irem à confissão da noite, entendiam-se entre si de antemão: "Direi que me zanguei contra ti esta manhã, tu o confirmarás", isto a fim de ter alguma coisa que dizer e ver-se livre daquilo. Aliócha sabia que as coisas se passavam por vezes assim. Sabia também que alguns se indignavam bastante contra o costume segundo o qual as cartas, mesmo dos pais, recebidas pelos solitários, eram levadas em primeiro lugar ao stáriets, para que ele as abrisse e lesse antes de seus destinatários.  
     Supunha-se, bem entendido, que essas práticas deviam realizar-se livremente e sinceramente, de todo o coração, com um fim de edificação salutar e de submissão voluntária; de fato, acontecia que, longe de serem sinceras, não eram senão fingidas. Mas os mais idosos e os mais experimentados da comunidade persistiam em sua ideia, estimando que "os que tinham transposto o recinto para cuidar sinceramente de sua salvação encontravam naquela obediência e naquela abdicação de si mesmos um proveito dos mais salutares; mas que os que murmuravam com repugnância não tinham a vocação e melhor teriam feito se tivessem ficado no mundo. O pecado e a tentação vos tocaiam não somente no mundo, mas no santuário, melhor valia não se prestar a isso".

— Está enfraquecendo, sonolento — murmurou o Padre Paísi a Aliócha. — É difícil despertá-lo. E para quê? Acordou por uns cinco minutos e pediu que se transmitisse sua bênção à comunidade, cujas preces solicita. Amanhã de manhã, tem intenção de comungar de novo. Lembrou-se de ti, Aliócha, informou-se de onde estavas, disseram-lhe que havias partido para a cidade. "Minha bênção o acompanhe ali; seu lugar é lá e não aqui. " És o objeto de seu amor e de sua solicitude, compreendes essa honra? Mas por que te marca ele um estágio no mundo? Será que pressente alguma coisa no teu destino? Se voltares ao mundo, é para cumprir uma tarefa imposta pelo teu stáriets, compreende-o, Alieksiéi, e não para te entregares à agitação vã e às obras do século... 

     O Padre Paísi saiu. Alieksiéi não duvidava de que o fim do stáriets estivesse próximo, muito embora pudesse viver ainda um dia ou dois. Jurou a si mesmo, malgrado os compromissos tomados para com seu pai, as senhoras Khokhlakovi, seu irmão, Catarina Ivânovna, não deixar o mosteiro no dia seguinte e ficar junto do stáriets até seu derradeiro momento. Seu coração abrasava-se de amor e censurava-se amargamente ter podido esquecer um instante, lá embaixo, aquele que deixara em seu leito de morte e a quem venerava acima de tudo. Passou para o quarto de dormir, ajoelhou-se, prosternou-se diante da cama dele. O stáriets repousava tranquilamente, mal se ouvia sua respiração. Seu rosto estava calmo.
     Voltando ao quarto vizinho, onde tivera lugar a recepção da manhã, contentou-se Aliócha com tirar suas botas e estendeu-se sobre o estreito e duro diva de couro onde se acostumara a dormir, valendo-se apenas de um travesseiro. Desde muito tempo renunciara ao colchão de que falava seu pai. Só fazia tirar sua batina, que lhe servia de coberta. Antes de adormecer, ajoelhou-se e pediu a Deus numa prece fervorosa que o esclarecesse, ansioso por tornar a encontrar o apaziguamento que experimentava sempre outrora, depois de ter louvado e glorificado a Deus, como o fazia comumente na sua prece da noite. A alegria que o invadia proporcionava-lhe um sono leve e tranquilo. Enquanto rezava, sentiu em seu bolso o envelopinho cor-de-rosa, entregue pela criada de Catarina Ivânovna, que o alcançara na rua. Ficou perturbado, mas acabou sua prece. Depois abriu o envelope, com alguma hesitação. Continha um bilhete a ele dirigido, assinado por Lisa, a filha da Senhora Khokhlakova, que zombara dele pela manhã, na presença do stáriets.

   Alieksiéi Fiódorovitch:
   Escrevo-lhe às ocultas de todos e de minha mãe, e sei que isto não está bem. Mas não posso viver mais tempo sem dizer-lhe o que me nasceu no coração e que ninguém, a não ser nós dois, deve saber até nova ordem. Dizem que o papel não cora, que engano! Asseguro-lhe que estamos agora bem corados um e outro. Querido Aliócha, eu o amo, eu o amo desde minha infância, desde Moscou, quando era você bem diferente do que é agora. Elegi-o em meu coração para me unir a você e acabarmos nossos dias juntos. Bem entendido, com a condição de que deixe você o mosteiro. Quanto à nossa idade, esperaremos tanto quanto a lei o exija. Daqui até lá, estarei restabelecida, andarei, dançarei. Isto não tem dúvida nenhuma. Vê você que calculei tudo, mas há uma coisa que não posso imaginar: que pensará você de mim lendo estas linhas? Rio, brinco, fi-lo zangar-se há pouco, mas asseguro-lhe que antes de pegar da pena rezei diante da imagem da Virgem, quase chorando. Meu segredo está em suas mãos e quando você vier, amanhã, não sei como poderei encará-lo. Alieksiéi Fiódorovitch, que acontecerá, se não puder impedir-me de rir ao vê-lo, como esta manhã? Você me tomará por uma zombadora implacável e duvidará de minha carta. Assim, suplico-lhe, meu querido, que não me olhe demasiado o rosto quando vier, porque pode acontecer que rebente a rir à vista de sua batina comprida... Já agora, meu coração fica gelado só de pensar nisso; para começar, lance seus olhares para mamãe ou para a janela... Eis que lhe escrevi uma carta de amor. Meu Deus, que fiz eu? Aliócha, não me despreze; se agi mal e o magoo, desculpe-me. Agora, a sorte de minha reputação, talvez perdida, está entre suas mãos. Haverei de chorar hoje por certo. Adeus, até essa entrevista terrível... 
PS. — Aliócha, venha sem falta, sem falta. Lisa.

     Aliócha leu duas vezes aquela carta com surpresa, ficou pensativo, depois riu docemente de prazer. Estremeceu, aquele riso lhe parecia culpado. Mas, ao fim de um instante, repetiu o mesmo riso feliz. Tornou a pôr a carta no envelope, fez um sinal da cruz e deitou-se. Sua alma havia reencontrado a calma. 

 "Senhor, perdoa-lhes a todos, protege esses infelizes e agitados, guia-os, mantém-nos no bom caminho. Tu que és o amor, concede a todos a alegria!"

     E Aliócha adormeceu num sono tranquilo. 

continua na página 229...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (X - Boris parou no meio do jardim)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
X

     Natacha, ao fugir da sala, correu para o jardim de inverno. Lá parou e ficou a escutar a conversa e a esperar Boris. Já se impacientava, batendo com o pé e quase chorando com a demora, quando ouviu os passos do rapaz, nem lentos nem rápidos, mas resolutos. Imediatamente escondeu-se atrás das caixas de arbustos.

     Boris parou no meio do jardim, olhou em volta, tirou o pó da manga do uniforme, aproximou-se do espelho e admirou seu belo semblante. Com precaução, Natacha espiava de seu esconderijo o que ele ia fazer. Ficou um momento diante do espelho, sorriu e dirigiu-se para a porta. Natacha quis chamá-lo mas mudou de ideia. “Que procure”, pensou. Boris saiu e pela outra porta Sônia entrou. Estava vermelha, murmurando palavras de raiva através das lágrimas. Natacha, dominando o primeiro impulso de correr para ela, conservou-se no esconderijo, como sob o barrete encantado, olhando o que se passava no mundo. Sentia um prazer novo e estranho. Sônia resmungava qualquer coisa olhando para a porta da sala. Nicolau apareceu. 

— Sônia, o que é isso? Será possível! — disse, correndo para ela. 
— Nada, nada, deixa-me! — Sônia soluçava. 
— Não, eu sei do que se trata. 
— Pois bem! Se sabe, vá para junto dela. 
— Sônia, uma palavra! Será possível nós dois sofrermos por uma coisa que não existe? — disse Nicolau, tomando-lhe as mãos.

     Sônia chorava sem tirar as mãos do rosto. Natacha, sem um movimento e sem respirar, observava de seu esconderijo com os olhos brilhantes. “O que irá acontecer, agora?”, pensou. 

— Sônia, para mim o mundo nada significa, tu só és tudo — continuou Nicolau. — Provarei. 
— Não gosto que fales assim. 
— Está bem, não farei mais. Perdoa, Sônia?

     Puxou-a e beijou-a.

“Ah! como isso é bonito!”, pensou Natacha. E quando Sônia e Nicolau saíram, foi atrás deles e gritou por Boris.

— Boris, venha cá — disse num tom importante e astuto. — Tenho uma coisa para contar-te. Aqui, aqui. — Levou-o para o jardim de inverno, entre as caixas onde estivera escondida.

     Boris acompanhava-a sorrindo. 

— Que coisa é essa? — perguntou.

     Ficou atrapalhada e, olhando em torno de si, pegou uma boneca que estava em cima das caixas. 

— Beija a boneca — disse ela.

     Com um olhar admirado e terno, Boris olhou seu rosto animado e não disse nada. 

— E então, não quer? Pois venha cá. — Escondeu-se ainda mais atrás das caixas e atirou a boneca. — Mais perto, mais perto — cochichou. Segurou o braço do oficial; no seu rosto vermelho lia-se a solenidade e o medo. — E a mim, quer beijar?… — murmurou baixinho olhando-o desconfiada, sorrindo e quase chorando de emoção.

     Boris corou. 

— Como você é engraçada — disse, inclinando-se sobre ela e ficando ainda mais vermelho sem, no entanto, tomar nenhuma iniciativa.

     Natacha pulou em cima de uma caixa e ficou da altura do rapaz. Envolvendo-o com seus finos braços nus, dobrados acima do pescoço, e atirando os cabelos para trás, num movimento de cabeça, beijou-o nos lábios. Depois, deixou-se escorregar entre as caixas, do outro lado das plantas e, baixando a cabeça, ficou parada. 

— Natacha — disse ele —, sabe que amo você, mas… 
— Está apaixonado por mim? — atalhou Natacha. 
— Sim, apaixonado, mas não faça mais isso… Ainda quatro anos… Então, pedirei sua mão. 

     Natacha refletiu. 

— Treze, quatorze, quinze, dezesseis… — disse, contando nos dedos finos. 
— Bem! Então está entendido!

     E um sorriso confiante e alegre iluminou sua fisionomia. 

— Entendido! — disse Boris. 
— Para sempre? — acrescentou a garotinha. — Até a morte?

     Tomou o braço dele com uma expressão de felicidade, e os dois se dirigiram vagarosamente para o cômodo ao lado.

continua na página.... 27
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
VI - A princesa entrou / VII - A condessa / VIII - O conde / IX - Pois é isso, ma chère / X - Boris parou no meio do jardim /                      
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.