sexta-feira, 24 de julho de 2026

Ilíada: Homero (Canto I.b)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto I
 
“Invocação às Musas. Crises, sacerdote de Apolo, vem ao campo dos Gregos para recuperar sua filha, que era escrava de Agamémnone. Não a conseguindo, e sendo até insultado pelo rei, pede a Apolo para ser vingado. Uma peste é então enviada a toda a tropa Grega. Aquiles convoca a assembleia e Calcante, um adivinho, revela a causa da peste e indica o remédio: devolver a filha de Crises. Ocorre uma briga entre Agamémnone e Aquiles. Agamémnone devolve Criseide, mas leva Briseide, a escrava de Aquiles. Este, irado contra o ultraje, sai da Guerra de Troia. Tétis, sua mãe, a seu pedido, vai até Zeus para pedir que os Gregos saiam perdedores na guerra para que todos vejam a falta que Aquiles faz. Zeus concede a Tétis que os Troianos saiam vencedores. Ocorre uma briga entre Hera e Zeus sobre o destino da guerra.”

continuando..
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que se lhe expande dos olhos, conhece que é Palas Atena. 
Volta-se, então, para a deusa, e lhe diz as palavras aladas: 
“Filha de Zeus tempestuoso, que causa te trouxe até Troia? 
Ver os ultrajes que o Atrida Agamémnone me faz neste instante? 
Ora te digo com toda a clareza o que vai realizar-se: 
Vai a existência custar-lhe essa grande arrogância de agora.” 
A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Para acalmar-te o furor, tão somente, ora vim do alto Olimpo; 
caso me atendas, enviada por Hera, de braços muito alvos 
que, por igual, a ambos preza e dos dois, cuidadosa, se ocupa.  

Vamos, refreia tua cólera, deixa em repouso essa espada. 
Mas, quanto o queiras, com termos violentos o cobre de injúrias. 
Ora te digo com toda a clareza o que vai realizar-se: 
Prêmios três vezes mais belos virás a alcançar muito em breve, 
por esse insulto de agora. Contém-te, portanto, e obedece.” 
Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, o seguinte, em resposta: 
“Deusa, é razoável que às ordens das duas me mostre obediente, 
ainda que muito irritado me sinto. É, de fato, mais útil. 
Os deuses folgam de ouvir aos que sempre submissos se mostram.” 
A mão robusta, então, logo baixou sobre o punho da espada,  

e a grande espada encaixou na bainha, sem que se esquecesse 
do que lhe Atena dissera, que foi para o Olimpo, a ajuntar-se 
aos outros deuses celestes, na casa de Zeus tempestuoso. 
Mais uma vez o Pelida se vira com termos violentos 
para Agamémnone, a quem ainda a cólera o peito enfunava: 
“Bêbedo, que tens a vista do cão e a coragem do veado, 
nunca a armadura envergaste para ir combater como os outros, 
nunca às ciladas te atreves, ao lado dos nobres Aquivos, 
que no imo peito tens medo pois sabes que a Morte te espera. 
Mais lucrativo, de fato, é correr todo o exército Aquivo,  

para esbulhar dos seus prêmios a quem se atrever a objetar-te. 
Devorador do teu povo! Não fosse imprestável, Atrida, 
toda esta gente, e ficara como último ultraje esse de hoje. 
Mas uma coisa assevero e com jura solene o confirmo: 
Por este cetro que ramos nem folhas jamais, em verdade, 
reproduziu, dês que foi, na montanha, do tronco arrancado, 
e que jamais brotará, pois o bronze, de vez, arrancou-lhe 
a casca e as folhas — a vida — e que os filhos dos nobres Aquivos, 
quando em função de juízes, empunham, fazendo que valham 
as leis de Zeus e os preceitos — solene é, repito, esta jura! —

há de chegar o momento em que todos os nobres Aquivos 
hão de gritar por Aquiles, sem vires, então, nenhum modo 
de protegê-los, no tempo em que às mãos desse Heitor homicida 
uns sobre os outros caírem. Por dentro hás de, então, remoer-te 
de desespero, por teres o Aqueu mais ilustre injuriado.” 
O cetro, Aquiles, depois de falar, adornado com cravos 
de ouro, atirou contra o solo, indo, após, novamente assentar-se. 
O nobre filho de Atreu continuava colérico. Entanto, 
alça-se o velho Nestor, o orador delicioso dos Pílios, 
de cuja boca fluíam, mais doces que o mel, as palavras.

Gerações duas de seres de curta existência já vira 
desaparecer que com ele nasceram no solo arenoso 
da sacra Pilo; qual rei, na terceira, ora o mando exercia. 
Cheio de bons pensamentos, lhes disse, arengando, o seguinte: 
“Deuses! que dor indizível se abate nos povos da Acaia! 
Príamo grande alegria, por certo, há de ter e seus filhos, 
todos os outros Troianos, também, ficarão muito alegres, 
quando notícia tiverem de que ambos, desta arte, contendem, 
os mais distintos heróis nos conselhos de guerra e nas pugnas. 
Ora atendei-me, que muito mais moços do que eu sois, sem dúvida.

Já convivi, noutros tempos, com mais vigorosos guerreiros 
do que vós ambos; no entanto, nenhum inferior me julgava. 
Não, nunca vi, nem presumo que possa ainda ver algum dia, 
homens do porte de Driante, pastor de guerreiros, Pirítoo, 
o grande Exádio, Ceneu, e o que aos deuses é igual, Polifemo, 
e ainda Teseu, que de Egeu descendia, de formas divinas. 
Esses, realmente, os mais fortes heróis que na terra viveram. 
Não foram fortes, somente: lutaram com fortes guerreiros, 
monstros alpestres, a todos matando por modo terrível. 
Fui companheiro de todos nas lutas de então, pois chamado

por eles próprios me vira de Pilo longínqua, arenosa. 
Sim, quanto me era possível, lutei, pois dos homens que a terra 
ora alimenta, nenhum suportava confronto com eles. 
Obedeciam-me, entanto; meu voto era sempre acatado. 
Obedecei-me, também, que é melhor aceitar bons conselhos. 
Mas, forte embora, não queiras, Atrida, tomar ao Pelida 
a bela escrava, alto prêmio que os fortes Aqueus lhe entregaram. 
Nem tu, Pelida, presumas que podes, assim, antepor-te 
ao soberano, porque sempre toca por sorte mais honras 
ao rei que o cetro detém, a quem Zeus conferiu glória imensa.

Se és, em verdade, robusto, e uma deusa por mãe te enaltece, 
este é bem mais poderoso, porque sobre muitos domina. 
Faze cessar teu furor, nobre Atrida, te peço; não deixes 
ir para adiante tua cólera contra o Pelida, pois ele 
tem sido o amparo dos povos Aqueus contra os males da guerra.” 
O poderoso Agamémnone disse o seguinte, em resposta: 
“Todas as tuas palavras, ancião, foram ditas com senso. 
Este indivíduo, porém, sempre quer sobrepor-se a nós todos, 
nos outros todos mandar, arrogar-se a gerência de tudo, 
e leis ditar inconteste, o que muitos, suponho, lhe negam.

Se as divindades eternas guerreiro de prol o fizeram, 
por isso, só, permitiram que os mais insultar possa, impune?” 
Interrompendo-o, lhe disse em resposta o divino Pelida: 
“Sim, merecera me visse apodado de fraco e imprestável, 
se me deixasse dobrar ao capricho de tudo o que dizes. 
Leis continua a ditar para quem te aprouver: mas teu mando 
em mim cessou, pois estou decidido a negar-te obediência. 
Ora outra coisa te vou revelar, fixa-a bem no imo peito: 
Por causa, certo, da escrava, não hei de lutar nem contigo 
nem com ninguém; que ma vens retomar pós ma haveres cedido.

Mas, das riquezas que tenho no barco veloz de cor negra, 
não levarás parte alguma, jamais, contra minha vontade. 
Experimenta, se o queres fazer, que os presentes o vejam: 
na minha lança há de, logo, correr o teu sangue anegrado.” 
Pós ambos terem, desta arte, impropérios trocado, levantam-se, 
pondo remate à assembleia, que junto das naus se reunira. 
Foi o Pelida, a seguir, para as tendas e naves simétricas, 
em companhia do filho do grande Menécio e dos sócios. 
Lança, entrementes, o Atrida nas ondas um barco ligeiro, 
para o qual vinte remeiros já havia escolhido. A hecatombe

de Febo Apolo mandou para bordo, assim como a Criseide 
de faces belas. O mando ao sagaz Odisseu ele entrega. 
Esses, depois de embarcados, as úmidas vias cortaram, 
enquanto o Atrida dava ordens a todos que banho tomassem. 
Purificaram-se todos, jogando no mar as escórias, 
e a Febo Apolo ofertaram, de cabras e touros seletos, 
uma hecatombe completa, na praia do mar incansável. 
Nas espirais da fumaça até o Céu o perfume subia. 
Em todo o exército os Dânaos assim se esforçavam. No entanto 
não se esquecia da ameaça, que a Aquiles fizera, Agamémnone.  

Vira-se para Taltíbio e, também, para Euríbates, ambos 
mui diligentes ministros e arautos, e diz o seguinte: 
“Ide, sem perda de tempo, até a tenda de Aquiles Peleio, 
e me trazei pela mão, sem violência, a graciosa Briseide. 
Há de entregar-ma, que em caso contrário, hei de eu próprio ir 
buscá-la, com muitos outros guerreiros, o que será pior para Aquiles. 
Dessa maneira os envio, porque as ordens terríveis cumprissem.” 
A seu mau grado, eles foram ao longo da praia sonora, 
té que alcançaram as tendas e naus dos heroicos Mirmídones. 
Foram achá-lo sentado do lado de fora, bem perto

da negra nau. Não gostou, certamente, de os ver o Pelida. 
Ambos receosos ficaram, mostrando respeito ao monarca, 
Sem se atreverem, sequer, a o motivo alegar da visita. 
Mas entendeu-o logo Aquiles, que aos dois se dirige, dizendo: 
“Sede bem-vindos, arautos de Zeus poderoso e dos homens! 
Aproximai-vos, que culpa não tendes; sim, tem-na Agamémnone, 
que vos mandou até aqui porque a filha de Crises levásseis. 
Pátroclo, aluno de Zeus, traze a jovem, sem perda de tempo, 
e aos dois arautos a entrega. Sereis testemunhas, sem dúvida, 
junto dos deuses eternos, dos homens de curta existência

e desse odiento monarca, se for necessário algum dia 
que eu próprio venha a intervir para aos outros poupar a vergonha 
de uma derrota; que o rei por completo se encontra enfuriado 
e inteiramente incapaz de julgar o passado e o futuro, 
para que junto das naves, a salvo, os Aquivos combatam.” 
Obedeceu logo Pátroclo às ordens do amigo dileto, 
e conduziu para fora da tenda a formosa Briseide, 
indo entregá-la aos arautos, que para os navios voltaram 
com a escrava; bem contra a vontade os seguia. Entrementes, 
dos companheiros Aquiles se afasta, a chorar, assentando-se

perto da praia do mar espumoso. A fixar o infinito 
pélago, à mãe diletíssima implora, estendendo-lhe os braços: 
“Mãe, já que vida de tão curto prazo me deste, seria 
justo que ao menos tivesse honras muitas de Zeus poderoso 
que no alto troa! Ele, entanto, de todo de mim não se importa, 
pois consentiu que o potente senhor, de Atreu filho, Agamémnone, 
me desonrasse; meu prêmio tomou, de que, ufano, se goza.” 
O que ele assim reclamava, a chorar, pela mãe foi ouvido, 
que se encontrava no fundo do mar, junto ao pai venerando. 
Rapidamente, emergiu dentre as ondas espúmeas, qual névoa;

ao lado dele assentou-se, que em pranto se achava desfeito, 
e acariciando-o com a mão, pôs-se logo a falar, e lhe disse: 
“Qual a razão de teu choro, meu filho? Que dor te acabrunha? 
Ora me conta sem nada ocultar-me; desejo sabê-lo.” 
Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, a gemer fundamente: 
“Já tens de tudo ciência; por que repetir o que sabes? 
Tebas, cidade sagrada de Eecião foi por nós assaltada, 
completamente destruída e espoliada das muitas riquezas. 
Com equidade foi tudo entre os homens Aqueus dividido, 
tendo tocado a Agamémnone a jovem donosa, Criseide.

Crises, então, sacerdote de Apolo, frecheiro infalível, 
veio até as céleres naus dos Acaios, de bronze vestidos, 
súplice, a filha reaver. Infinito resgate trazia, 
tendo nas mãos as insígnias de Apolo, frecheiro infalível, 
no cetro de ouro enroladas. Implora aos Acaios presentes, 
sem exceção, mas mormente aos Atridas, pastores de povos. 
Os heróis todos Aquivos, então, logo ali concordaram 
em que se o velho acatasse, aceitando os presentes magníficos. 
Somente ao peito do Atrida Agamémnone o alvitre desprouve, 
que o repeliu com dureza, assacando-lhe insultos pesados.

Crises, o ancião, indignado, dali se retira; mas Febo 
as preces logo lhe ouviu, que especial afeição lhe dicava. 
Epidemia funesta lançou nos Argivos; morriam 
muitos do povo, pois nunca cessavam os raios de Apolo 
de dizimar as extensas fileiras do exército Acaio. 
Mas eis que um sábio adivinho os orác’los do deus nos revela. 
Aconselhei logo que o nume aplacar procurássemos. 
Mas Agamémnone fica irritado; de pé levantando-se, 
fez-me terrível ameaça, que acaba de ser realizada: 
Em nau veloz os Aqueus de olhos claros a jovem já foram 

ao velho pai restituir, com presentes que ao deus oferecem. 
De minha tenda, porém, neste instante, arrancaram-me arautos 
a bela filha de Brises, que a mim, como prêmio, coubera. 
Ora te cumpre amparar a teu filho, que o podes, sem dúvida. 
Sobe até o Olimpo e a Zeus suplica, fazendo-o lembrado 
de quanto grata lhe foste, por meio de ações e palavras, 
pois muitas vezes te ouvi, no palácio paterno, gloriar-te 
de que entre os deuses eternos tu, só, preservaras o grande 
filho de Crono, que as nuvens cumula, de fim desditoso, 
quando outros deuses do Olimpo em liames quiseram prendê-lo,

continua página 77...
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Canto I.aCanto I.b /  
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.

Ilíada: Homero (Canto I.a)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

"A resposta fácil é que a Ilíada é sobre a Guerra de Troia, conflito entre uma coalizão de reinos gregos contra Ílion (*Ílion, você já deve ter sacado, é outro nome para Troia – do qual deriva o título do poema.), um reino oriental localizado na costa do Mar Egeu, onde hoje fica parte do território da Turquia. O estopim da Guerra é uma mulher: Helena, rainha de Esparta, deixa sua casa e se muda para lá com Páris, príncipe de Ilíon (se ela foi por vontade própria ou sequestrada é algo aberto à interpretação). Helena não é uma rainha qualquer; filha de Zeus com a mortal Leda, é considerada a mulher mais bonita do mundo.
Menelau (rei de Esparta) recorre ao irmão Agamêmnon (rei de Micenas) para invocar um pacto entre os reinos gregos para unir forças e ir resgatar Helena. Os preparativos duram uns 10 anos, e a guerra pelo menos outros 10, com troianos sitiados entre as muralhas e os gregos acampados na praia, seus navios repousados na areia. A Ilíada se passa inteira em um período muito curto, de cerca de 40 dias, bem no finalzinho do conflito – e nem vai até o fim dele. Seria mais exato dizer que a Guerra de Troia é o pano de fundo da Ilíada." (Lombada Quadrada)

Nandaversando - 
5 dicas para ler a Ilíada




Canto I

“Invocação às Musas. Crises, sacerdote de Apolo, vem ao campo dos Gregos para recuperar sua filha, que era escrava de Agamémnone. Não a conseguindo, e sendo até insultado pelo rei, pede a Apolo para ser vingado. Uma peste é então enviada a toda a tropa Grega. Aquiles convoca a assembleia e Calcante, um adivinho, revela a causa da peste e indica o remédio: devolver a filha de Crises. Ocorre uma briga entre Agamémnone e Aquiles. Agamémnone devolve Criseide, mas leva Briseide, a escrava de Aquiles. Este, irado contra o ultraje, sai da Guerra de Troia. Tétis, sua mãe, a seu pedido, vai até Zeus para pedir que os Gregos saiam perdedores na guerra para que todos vejam a falta que Aquiles faz. Zeus concede a Tétis que os Troianos saiam vencedores. Ocorre uma briga entre Hera e Zeus sobre o destino da guerra.”


Canta-me a Cólera — ó deusa! — funesta de Aquiles Pelida, 
causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta 
e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos 
e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados 
e como pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio 
desde o princípio em que os dois, em discórdia, ficaram cindidos, 
o de Atreu filho, senhor de guerreiros, e Aquiles divino. 
Qual, dentre os deuses eternos, foi causa de que eles brigassem? 
O que de Zeus e de Leto nasceu, que, com o rei agastado,  

peste lançou destruidora no exército. O povo morria, 
por ter o Atrida Agamémnone a Crises, primeiro, ultrajado, 
o sacerdote. Este viera, até as céleres naus dos Aquivos, 
súplice, a filha reaver. Infinito resgate trazia, 
tendo nas mãos as insígnias de Apolo, frecheiro infalível, 
no cetro de ouro enroladas. Implora aos Aquivos presentes, 
sem exceção, mas mormente aos Atridas, que povos conduzem: 
“Filhos de Atreu, e vós outros, Aquivos de grevas bem-feitas, 
deem-vos os deuses do Olimpo poderdes destruir as muralhas 
da alta cidade de Príamo, e, após, retornardes a casa. 

A minha filha cedei-me, aceitando resgate condigno, 
e a Febo Apolo, nascido de Zeus, reverentes mostrai-vos.” 
Os heróis todos Aquivos, então, logo ali concordaram 
em que se o velho acatasse, aceitando os presentes magníficos. 
Somente ao peito do Atrida Agamémnone o alvitre desprouve, 
que o repeliu com dureza, assacando-lhe insultos pesados: 
“Velho, que nunca te venha a encontrar junto às céleres naves, 
quer te detenhas agora, quer voltes aqui novamente, 
pois as insígnias do deus e esse cetro de nada te valem. 
Não na liberto, está dito. Que em Argos, mui longe da terra 

do nascimento, há de velha ficar em o nosso palácio, 
a compartir do meu leito e a tecer-me trabalhos de preço. 
Não me provoques, retira-te, caso desejes salvar-te.” 
Isso disse ele, medroso, o ancião se curvou às ameaças, 
e, taciturno, se foi pela praia do mar ressoante, 
onde, de um ponto afastado, dirige oração fervorosa 
a Febo Apolo, nascido de Leto de belos cabelos: 
“Ouve-me, ó deus do arco argênteo, que Crisa, cuidoso, proteges, 
e a santa Cila, e que tens o comando supremo de Tênedo! 
Ajudador! Já te tenho construído magníficos templos, 

bem como coxas queimado de pingues ovelhas e touros. 
Ouve-me, agora, e realiza este voto ardoroso, que faço: 
possas vingar dos Aqueus, com teus dardos, o pranto que verto.” 
Isso disse ele na súplica; ouvido por Febo foi logo.  
O coração indignado, se atira dos cumes do Olimpo; 
atravessado nos ombros leva o arco e o carcás bem-lavrado. 
A cada passo que dá, cheio de ira, ressoam-lhe as flechas 
nos ombros largos; à Noite semelha, que baixa terrível. 
Longe das naves se foi assentar, donde as flechas dispara. 
Do arco de prata começa a irradiar-se um clangor pavoroso. 

Primeiramente, investiu contra os mulos e os cães velocíssimos; 
mas, logo após, contra os homens dirige seus dardos pontudos, 
exterminando-os. Sem pausa, as fogueiras os corpos destruíam. 
Por nove dias, as setas do deus dizimaram o exército; 
mas, no seguinte, chamou todo o povo para a ágora, Aquiles. 
Hera, de braços brilhantes, lhe havia inspirado esse alvitre, 
pois tinha pena dos Dânaos, ao vê-los morrer desse modo. 
Quando ao chamado acudiram e todos se achavam reunidos, 
alça-se Aquiles, de rápidos pés, concionando desta arte: 
“Filho de Atreu, quero crer que nos cumpre voltar para casa 

sem termos nada alcançado, no caso de à Morte escaparmos, 
pois os Aquivos, além das batalhas, consome-os a peste. 
Sus! Consultemos, sem mora, qualquer sacerdote ou profeta, 
ou quem de sonhos entenda — que os sonhos de Zeus se originam —, 
para dizer-nos a causa de estar Febo Apolo indignado: 
se por não termos cumprido algum voto ou, talvez, hecatombes, 
ou se lhe apraz, porventura, de nós receber o perfume 
de pingues cabras e ovelhas, a fim de livrar-nos da peste.” 
Tendo isso dito, assentou-se. Levanta-se, então, do seu posto, 
logo, Calcante, nascido de Téstor, de sonhos intérprete, 

que conhecia o passado, bem como o presente e o futuro, 
e que os navios guiara dos nobres Acaios para Ílio, 
graças aos dons de profeta com que Febo Apolo o brindara. 
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte: 
“Mandas-me, Aquiles, querido de Zeus, que te diga o motivo 
de estar colérico Apolo, o senhor que dispara certeiro. 
Vou revelar-to; atenção presta e escuta. Mas quero que jures 
que me darás proteção com teu braço, ou, sequer, com palavras, 
pois estou certo de que há de irritar-se o guerreiro que manda 
nos Aqueus todos e a quem os Argivos de grado obedecem. 

Contra os pequenos, se acaso se agasta, é o rei sempre excessivo. 
Pois, muito embora refreie os impulsos da cólera um dia, 
continuamente revolve no peito o rancor incontido, 
té que o consiga saciar. Vê, portanto, se auxílio me prestas.” 
Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, o seguinte, em resposta: 
“Podes dizer, sem receio, o que na alma vidente souberes. 
Por Febo Apolo, querido de Zeus, a quem preces diriges, 
nobre Calcante, que possas contar aos Aqueus teus augúrios, 
enquanto eu vivo estiver e na terra gozar da existência, 
nunca nenhum dos Argivos, ao lado das céleres naves, 

há de violência fazer-te, ainda mesmo que penses no Atrida, 
que, no momento, se orgulha de ser o melhor de nós todos.” 
Com mais coragem, então disse o vate preclaro o seguinte: 
“Não se irritou por não termos cumprido algum voto ou hecatombe, 
mas por haver Agamémnone ao seu sacerdote ofendido, 
visto não ter recebido o resgate da filha, entregando-lha. 
Por essa causa, nos deu e há de dar sofrimentos Apolo, 
sem que dos Dânaos pretenda afastar o terrível flagelo, 
antes de haverdes ao pai a donzela de olhar refulgente 
restituído, sem prêmio nenhum, outrossim conduzindo 

a Crises uma hecatombe. Talvez, desse modo, o aplaquemos.” 
Tendo isso dito, assentou-se. Levanta-te, então, do seu posto 
o nobre filho de Atreu, Agamémnone, rei poderoso, 
com torvo aspecto. De trevas a cólera o peito lhe enchia, 
a transbordar. Pareciam-lhe os olhos dois fogos brilhantes. 
Ameaçador, para o vate Calcante se vira, increpando-o: 
“És só profeta de males; jamais me agradou tua fala; 
sempre encontraste prazer em prever-nos apenas desgraças; 
nunca disseste ou cumpriste qualquer vaticínio benéfico, 
bem como agora, que aos Dânaos revelas, sob forma de oráculos, 

que os sofrimentos do exército são por Apolo causados, 
pelo motivo de eu ter recusado o resgate magnífico 
da bela filha de Crises, em vista de ser do meu gosto 
junto mantê-la de mim, que a antepunha, sem dúvida alguma, 
a Clitemnestra, legítima esposa, que em nada lhe cede 
no porte altivo, em beleza e nas prendas variadas do sexo. 
Restituí-la, no entanto, me apraz, por ser mais vantajoso, 
pois salvação só desejo ao meu povo, não vê-lo destruído. 
Mas, sem demora, aprestai-me outro prêmio, que fora injustiça, 
entre os Argivos, só eu não ter parte no espólio de guerra.   

Todos podeis confirmar que meu prêmio, desta arte, me tomam.” 
O divo Aquiles, de rápidos pés, em resposta lhe disse: 
“Filho notável de Atreu, mais que todos os homens avaro, 
por que maneira os Aqueus poderão novo prêmio ofertar-te? 
Conhecimento não temos de espólio abundante ainda intacto, 
pois das cidades saqueadas já estão distribuídas as presas 
nem há de o povo querer novamente reunir isso tudo. 
Ao deus entrega a donzela, que três e mais vezes, sem dúvida, 
te pagaremos os nobres Aqueus, quando for da vontade 
de Zeus potente que os muros dos Troas, alfim, conquistemos.”  

O poderoso Agamémnone disse o seguinte, em resposta: 
“Conquanto sejas astuto, divino Pelida, não penses 
que poderás enganar-me com teus subterfúgios e manhas. 
Queres guardar o teu prêmio, mas pensas que eu deva a donzela 
ao sacerdote mandar, desse modo ficando sem nada? 
Seja! Contanto que um novo presente os Aquivos magnânimos, 
de igual valia, me cedam, conforme o desejo que expendo. 
Caso a mo dar se recusem, pretendo em pessoa ir buscá-lo, 
quer seja o prêmio de Ajaz, ou o do grande Odisseu, ou até mesmo 
o que tiveste por sorte. A visita há de ser-lhe amargosa.  

A esse respeito, porém, voltaremos depois, mais de espaço. 
Ora, convém nau ligeira nas ondas divinas lançarmos. 
Os remadores, sem perda de tempo, reunamos, e as vítimas 
logo ponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crises, 
de belas faces. Comande o navio um dos chefes do exército, 
Idomeneu, o fortíssimo Ajaz. Odisseu, porventura, 
ou mesmo tu, nobre Aquiles, o herói mais que todos terrível, 
para aplacar o frecheiro por meio da sacra oferenda.” 
Com torvos olhos, Aquiles, de rápidos pés, lhe responde: 
“Alma despida de pejo, que só de interesse se ocupa!

Como é possível que algum dos Aqueus ao teu mando obedeça, 
quer em caminho se pondo, quer seja enfrentando outros homens? 
Não foi por causa dos fortes Troianos que vim para Troia, 
para guerreá-los, pois nunca motivo para isso me deram. 
Deles, nenhum das manadas um boi me roubou, nem cavalos, 
nem no terreno de Ftia, nutriz de guerreiros, tampouco, 
minhas colheitas destruíram, pois grandes montanhas escuras 
e o vasto mar sonoroso entre nós de permeio se estendem. 
Para teu gáudio, grandíssimo despudorado, seguimos-te, 
cão sem nenhum descortino, a vingar-te do ultraje dos Troas  

a Menelau. Mas sequer te perturbas, nem cuidas de nada. 
E, para cúmulo, ameaças de vires a escrava arrancar-me, que 
dos Acaios obtive por prêmio de grandes trabalhos. 
Nunca meu prêmio se iguala ao que obténs, quando os nobres Argivos 
uma cidade povoada, dos Troas, acaso conquistam. 
É bem verdade que a parte mais dura dos prélios sangrentos 
a estes meus braços compete; mas quando se passa à partilha, 
sempre o quinhão mais valioso te cabe, enquanto eu me contento 
com recolher-me ao navio, alquebrado, com paga mesquinha. 
Mas para Ftia resolvo voltar, que é bem mais vantajoso  

ir para casa nas naves recurvas. Não julgo decente 
permanecer ultrajado e de bens e riquezas prover-te.” 
Disse-lhe, então, em resposta, Agamémnone, rei poderoso: 
“Foge, se o teu coração te compele, que não te suplico, 
por minha causa, ficares. Muita honra me vem, em verdade, 
de outros guerreiros, mas, principalmente, de Zeus prudentíssimo. 
És, dos monarcas alunos de Zeus, a quem mais ódio tenho. 
Sempre encontraste prazer em contendas, combates e lutas. 
Se de robusto te orgulhas, tua força de um deus é presente. 
Volta nas naves recurvas com todos os teus; nos Mirmídones  

o mando exerce em tua casa, que disso me importo bem pouco. 
Mossa, também, não me faz teu rancor; mas observo o seguinte: 
Visto me haver Febo Apolo da filha de Crises privado, 
acompanhada pretendo enviá-la em navio ligeiro, 
mas em pessoa hei de o prêmio ir buscar à tua tenda, a Briseide 
de belas faces, que, alfim, possas ver por esse ato de força 
quanto te sou superior e, também, para que outros se corram 
de se igualarem comigo e quererem de frente ameaçar-me.” 
Enfurecido com essas palavras ficou o Pelida, 
o coração a flutuar, indeciso, no peito veloso,  

sobre se a espada cortante, ali mesmo, do flanco arrancasse 
e, dispersando os presentes, o Atrida, desta arte, punisse, 
ou se o furor procurasse conter, dominando a alma nobre. 
Enquanto no coração e no espírito assim refletia, 
e a grande espada de bronze arrancava, do Céu baixou prestes 
Palas Atena, mandada por Hera, de braços muito alvos, 
que a ambos prezava e cuidava dos dois por maneira indistinta. 
Por trás de Aquiles postando-se, os louros cabelos lhe agarra, 
a ele visível somente; nenhum dos presentes a via. 
Cheio de espanto, o Pelida virou-se; porém pelo brilho


continua página 71...
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Canto I.a / Canto I.b /  
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.
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Resenhas:

Cultebol - 
Ilíada de Homero: entenda a história do livro mais antigo do Ocidente




“Aquiles sempre esteve morto. Aquiles sempre morreu em Troia”, diz este interessante artigo de Alex de Castro. Ele faz uma distinção entre o que ficou registrado em escrita e o que sempre foi de conhecimento comum na oralidade dos gregos antigos. Porque aqui está outra coisa muito importante: Homero não inventou as narrativas da Ilíada e da Odisseia; ele as registrou (magistralmente) na forma daquela novidade nascente que era, então, a escrita. (Lombada Quadrada)

Tatiana Feltrin - 
Ilíada (Homero)



"Uma das coisas mais diferentonas na Ilíada é a participação direta dos deuses na Guerra de Troia. Parte deles está a favor de Ílion, parte a favor dos gregos, enquanto Zeus fica ali no meio tentando manter a coisa minimamente controlada no Olimpo. Ele, pessoalmente, gosta muito de Troia, mas sabe que seu destino é desaparecer.
Para entender porque os deuses se dividem, a gente precisa retornar à outra parte da mitologia que não está referenciada na Ilíada (nem na Odisseia), e que remete às causas da Guerra de Troia. Já sabemos que tudo tem a ver com o rapto (ou fuga) de Helena. Mas tem uma razão ainda anterior, iniciada no dia em que os pais de Aquiles se casam.
Como já mencionado, ele é filho do mortal Peleu com a deusa Tétis – por isso, a festa teve a presença de todos os deuses olímpicos. Lá pelas tantas, todo mundo cheio de néctar na cabeça, Éris, a deusa da discórdia – por isso mesmo, não convidada para a festa – atira uma maçã no meio do povo com a inscrição “À mais bela”. A maçã fica ali quicando entre Afrodite, Hera e Atena, que então se voltam a Zeus para que diga, afinal, qual delas é a mais bonita. Zeus, que não é besta, foge da resposta e diz que elas procurem o pastor Páris, em Troia.
Páris, então, não sabia que era filho de Príamo, e portanto príncipe de Troia. Mas era considerado um homem justo, por isso a indicação de Zeus. As três vão atrás dele, mas Afrodite faz um acordo secreto: promete que se ela for declarada a mais bela, Páris terá para si a mulher mais bonita do mundo. Ele assim o faz. O tempo passa, descobre-se que é filho de Príamo, vai parar em Esparta e conhece Helena. O resto está nos poemas de Homero, e resumido acima." (Lombada Quadrada)


quinta-feira, 23 de julho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (5)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     45. A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai aniquilou a única experiência de desenvolvimento independente
          O homem viajava ao meu lado, silencioso. Seu perfil, nariz afilado, altos pômulos, recortava-se contra a forte luz do meio-dia. Íamos para Assunção, partindo da fronteira sul, num ônibus para vinte pessoas que, não sei como, transportava 50. Depois de algumas horas, uma parada. Sentamo-nos num pátio aberto, à sombra de uma árvore de folhas carnosas. Aos nossos olhos, abria-se o brilho ofuscante da vasta, despovoada, intacta terra vermelha: de horizonte a horizonte, nada perturba a transparência do ar do Paraguai. Fumamos. Meu companheiro, camponês de fala guarani, desabafou algumas palavras tristes em castelhano. “Os paraguaios somos pobres e poucos”, disse me. Explicou que havia descido até Encarnación à procura de trabalho, mas nada encontrara. Tinha conseguido apenas juntar uns pesos para a passagem de volta. Muitos anos antes, quando moço, tinha tentado a sorte em Buenos Aires e no sul do Brasil. Agora vinha a colheita do algodão e muitos braceros paraguaios pegavam a estrada, como em todos os anos, rumo às terras argentinas. “Mas eu já tenho 63 anos, meu coração já não suporta essas andanças enroladas.”
     Somam meio milhão os paraguaios que abandonaram definitivamente a pátria, nos últimos vinte anos. A miséria induz ao êxodo os habitantes do país que, até quase um século atrás, era o mais avançado da América do Sul. O Paraguai tem agora uma população que apenas duplica a que tinha então, e como a Bolívia, é um dos dois países sul americanos mais pobres e atrasados. Os paraguaios padecem a herança de uma guerra de extermínio que se integrou à história da América Latina como o seu capítulo mais infame. Chamou-se Guerra da Tríplice Aliança. Brasil, Argentina e Uruguai encarregaram-se do genocídio. Não deixaram pedra sobre pedra e tampouco habitantes varões entre os escombros. Embora a Inglaterra não tenha participado diretamente na horrorosa façanha, foram seus mercadores, seus banqueiros e seus industriais que resultaram beneficiados com o crime do Paraguai. A invasão foi financiada, do princípio ao fim, pelo Banco de Londres, pela casa Baring Brothers e pela banca Rothschild, através de empréstimos a juros leoninos que hipotecaram o destino dos países vencedores. [1]

[1] Para escrever este capítulo, o autor consultou as seguintes obras: AL ERDI, Juan Bautista. Historia de la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1962; OX, Pelham Horton. Los orígenes de la Guerra de la Triple Alianza. Buenos Aires; Asunción, 1958; CARDOZO, Efraim. El império del Brasil y el Rio de la Plata. Buenos Aires, 1961; CHAVES, Julio César. El presidente López. Buenos Aires, 1955; PEREYRA, Carlos. Francisco Solano López y la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1945; PÉREZ ACOSTA, Juan F. Carlos Antonio López, obrero máximo. Labor administrativa y constructiva. Asunción, 1948; ROSA, José Maria. La guerra del Paraguay y las montoneras argentinas. Buenos Aires, 1965; MITRE, Bartolomé & GÓMEZ, Juan Carlos. Cartas polémicas sobre la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1940. Prólogo de J. Natalício González; também um trabalho inédito de Vivian Trias sobre o tema.

     Até sua destruição, o Paraguaio se destacava como uma exceção na América Latina: a única nação que o capital estrangeiro não havia deformado. O longo governo de mão de ferro do ditador Gaspar Rodríguez de Francia (1814 1840) havia incubado, na matriz do isolamento, um desenvolvimento econômico autônomo e sustentado. O Estado onipotente, paternalista, ocupava o lugar de uma burguesia nacional que não existia, na tarefa de organizar a nação e orientar seus recursos e seu destino. Francia apoiara-se nas massas campesinas para esmagar a oligarquia paraguaia e conquistara a paz interior estendendo um estrito cordão sanitário nas fronteiras com os restantes países do vice-reinado do Rio da Prata. As expropriações, os desterros, as prisões, as perseguições e as multas não tinham servido de instrumentos para a consolidação do domínio interno dos latifundiários e comerciantes, mas, ao contrário, tinham sido usados para sua destruição. Não existiam, nem nasceriam mais tarde, as liberdades políticas e o direito de oposição, mas naquela etapa histórica só os saudosos dos privilégios perdidos estranhariam a falta de democracia. Não havia grandes fortunas privadas quando Francia morreu, e o Paraguai era o único país da América Latina que não tinha mendigos, famélicos ou ladrões [2]; os viajantes da época encontravam ali um oásis de tranquilidade em meio às demais comarcas convulsionadas por contínuas guerras. O agente norte americano Hopkins informava em 1845 ao seu governo que no Paraguai “não há criança que não saiba ler e escrever”. Era também o único país que não vivia com o olhar cravado no outro lado do mar. O comércio exterior não se constituía no eixo da vida nacional; a doutrina liberal, expressão ideológica da articulação mundial dos mercados, carecia de respostas para os desafios que o Paraguai, obrigado a crescer para dentro por causa de seu isolamento mediterrâneo, estava equacionando desde o princípio do século. O extermínio da oligarquia tornou possível a concentração das bases econômicas fundamentais nas mãos do Estado, para levar adiante esta política autárquica de desenvolvimento dentro das fronteiras.

[2] Francia integra, como um dos exemplares mais horrorosos, o bestiário da história oficial. As deformações ópticas impostas pelo liberalismo não são um privilégio das classes dominantes na América Latina; muitos intelectuais de esquerda, que costumam olhar com lentes alheias para a história de nossos países, também compartilham certos mitos da direita, suas canonizações e suas excomunhões. O Canto general, de Pablo Neruda ( Buenos Aires, 1955), esplêndida homenagem poética aos povos latino-americanos, exibe claramente este desacerto. Neruda ignora Artigas, Carlos Antonio e Francisco Solano López; em troca, identifica-se com Sarmiento. Qualifica Francia de “rei leproso, rodeado / pelas extensões de erva-mate”, que “fechou o Paraguai como um ninho / de sua majestade” e “amarrou tortura / e barro às fronteiras”. Com Rosas não é mais amável: clama contra os “punhais, gargalhadas de mazorca / sobre o martírio” de uma “Argentina roubada a coronhadas / no vapor da aurora, castigada / até sangrar e enlouquecer, vazia /  montada por rudes capatazes”.

     Os posteriores governos de Carlos Antonio López e seu filho Francisco Solano López continuaram e revigoraram a tarefa. A economia estava em pleno crescimento. Quando os invasores apareceram no horizonte, em 1865, o Paraguai contava com uma linha de telégrafos, uma ferrovia e uma boa quantidade de fábricas de materiais de construção, tecidos, lenços, ponchos, papel, tinta, louça e pólvora. Duzentos técnicos estrangeiros, muito bem pagos pelo Estado, colaboravam decisivamente. Desde 1850, a fundição de Ibycui fabricava canhões, morteiros e balas de todos os calibres; no arsenal de Assunção eram fabricados canhões de bronze, obuses e balas. A siderurgia nacional, como todas as demais atividades econômicas essenciais, estava nas mãos do Estado. O país dispunha de uma frota mercante nacional, e tinham sido construídos no estaleiro de Assunção muitos dos navios que ostentavam a bandeira paraguaia ao longo do rio Paraná ou cruzavam o Atlântico e o Mediterrâneo. O Estado virtualmente monopolizava o comércio exterior: a erva-mate e o tabaco abasteciam o consumo do sul do continente; as madeiras valiosas eram exportadas para a Europa. A balança comercial mostrava um expressivo superavit. O Paraguai tinha uma moeda forte e estável, e possuía suficiente riqueza para efetivar enormes investimentos públicos sem recorrer ao capital estrangeiro. O país não devia nem um centavo no exterior, e estava em condições de manter o melhor exército da América do Sul, contratar técnicos ingleses que se colocavam a serviço do país em vez de pôr o país a seu serviço, e enviar à Europa muitos jovens universitários paraguaios para que se aperfeiçoassem em seus estudos. O excedente econômico gerado pela produção agrícola não era esbanjado no luxo estéril de uma oligarquia inexistente, nem ia parar nos bolsos de atravessadores, nem nas mãos rapinantes dos usurários, nem na rubrica lucros que o Império britânico nutria com os serviços de fretes e seguros. A esponja imperialista não absorvia a riqueza que o país produzia. Noventa e oito por cento do território paraguaio era de propriedade pública: o Estado cedia aos camponeses a exploração das parcelas em troca da obrigação de povoá-las e cultivá-las de forma permanente e sem o direito de vendê-las. Além disso, havia 64 estâncias de la patria, fazendas que o Estado administrava diretamente. As obras de irrigação, represas e canais, e as novas pontes e estradas contribuíam em importante grau para a elevação da produtividade agrícola. Foi resgatada a tradição indígena das colheitas anuais, que fora descartada pelos conquistadores. O alento vivo das tradições jesuítas sem dúvida facilitava todo esse processo criador. [3]

[3] Os fanáticos monges da Companhia de Jesus, “guarda negra do Papa”, tinham assumido a defesa da ordem medieval frente às novas forças que irrompiam no cenário histórico europeu. Na América hispânica, contudo, as missões dos jesuítas se desenvolveram sob um signo progressista. Através do exemplo da abnegação e do ascetismo, vinham purificar uma igreja católica entregue ao ócio e ao gozo desenfreado dos bens que a conquista pusera à disposição do clero. Foram as missões do Paraguai as que alcançaram mais alto nível; em pouco mais de um século e meio (1603-1768) definiram a capacidade e os fins de seus criadores. Os jesuítas atraíram, mediante a linguagem da música, os índios guaranis que tinham buscado proteção na floresta ou que nela haviam permanecido sem integrar-se ao processo civilizatório dos encomenderos e dos latifundiários. Assim, 150 mil índios guaranis puderam reencontrar-se com sua organização comunitária primitiva e ressuscitar suas próprias técnicas nos ofícios e nas artes. Nas missões não existia o latifúndio; a terra era cultivada em parte para a satisfação das necessidades individuais e em parte para desenvolver obras de interesse geral e adquirir os instrumentos de trabalho necessários, que eram de propriedade coletiva. A vida dos índios estava sabiamente organizada; nas oficinas e nas escolas se tornavam músicos, artesãos, agricultores, tecedores, atores, pintores, construtores. O dinheiro não era conhecido; era proibida a entrada dos comerciantes, que deviam negociar instalados em hotéis a certa distância. A Coroa, finalmente, sucumbiu à pressão dos encomenderos criollos, e os jesuítas foram expulsos da América. Os latifundiários e os escravistas se lançaram à caça dos índios. Os cadáveres pendiam das árvores nas missões; povoados inteiros foram vendidos nos mercados de escravos do Brasil. Muitos índios voltaram a encontrar refúgio na selva. As bibliotecas dos jesuítas foram parar nos fornos, como combustível, ou utilizadas para fazer cartuchos de pólvora. RAMOS, Jorge Abelardo. Historia de la nación latinoamericana. Buenos Aires, 1968.

     O Estado paraguaio praticava um zeloso protecionismo da indústria nacional e do mercado interno, especialmente reforçado em 1864; os rios interiores não estavam abertos aos navios britânicos que bombardeavam o resto da América Latina com manufaturas de Manchester e Liverpool. O comércio inglês não dissimulava sua inquietude, não só porque se lhe afigurava invulnerável aquele último foco de resistência nacional no coração do continente, mas também e sobretudo pela força do exemplo que a experiência paraguaia irradiava perigosamente para a vizinhança. O país mais progressista da América Latina construía seu futuro sem investimentos estrangeiros, sem empréstimos da banca inglesa e sem as bênçãos do livre comércio
     Mas à medida que o Paraguai ia avançando neste processo, tornava-se mais aguda sua necessidade de romper a reclusão. O desenvolvimento industrial requeria contatos mais intensos e diretos com o mercado internacional e as fontes da técnica avançada. O Paraguai estava objetivamente bloqueado entre a Argentina e o Brasil, e os dois países podiam negar o oxigênio aos seus pulmões fechando-lhe, como fizeram Rivadavia e Rosas, as bocas dos rios, ou fixando impostos arbitrários para o trânsito de suas mercadorias. De outra parte, para seus vizinhos era imprescindível, em nome da consolidação do estado oligárquico, acabar com o escândalo daquele país que se bastava a si mesmo e não queria ajoelhar-se diante dos mercadores britânicos.
     O ministro inglês em Buenos Aires, Edward Thornton, participou ativamente dos preparativos da guerra. Às vésperas da deflagração, estava presente, como assessor do governo, nas reuniões do gabinete argentino, sentando se ao lado do presidente Bartolomeu Mitre. Diante de seu atento olhar foi maquinada a trama de provocações e de enganos que culminou com o acordo argentino-brasileiro e selou a sorte do Paraguai. Venâncio Flores invadiu o Uruguai, na garupa da intervenção dos dois grandes vizinhos, e depois da matança de Paysandú estabeleceu em Montevidéu seu governo devotado ao Rio de Janeiro e a Buenos Aires. A Tríplice Aliança estava em funcionamento. O presidente paraguaio havia ameaçado com a guerra se o Uruguai fosse tomado de assalto: ele sabia que assim se fechava a tenaz de ferro na garganta de seu país encurralado pela geografia e pelos inimigos. O historiador liberal Efraim Cardozo, no entanto, não vê nenhum inconveniente em sustentar que López confrontou o Brasil simplesmente porque estava ofendido: o imperador lhe negara a mão de uma de suas filhas. A guerra nascia. Não era obra de Cupido, mas de Mercúrio.
     A imprensa de Buenos Aires chamava o presidente paraguaio López de “Átila da América”. E clamavam os editoriais: “É preciso matá-lo como a um réptil”. Em setembro de 1864, Thornton enviou a Londres um extenso informe confidencial, datado de Assunção. Descrevia o Paraguai como Dante o inferno, mas punha em evidência o que realmente interessava: “Os impostos de importação de quase todos os artigos são de vinte a 25 por cento ad valorem; mas como este valor é calculado sobre o preço corrente dos artigos, o imposto que se paga chega frequentemente uma cifra entre 40 e 50 por cento do preço da fatura. Os impostos de exportação são de 10 a 20 por cento do valor...” Em abril de 1965, o Standard, diário inglês de Buenos Aires, já celebrava a declaração de guerra da Argentina contra o Paraguai, cujo presidente “infringiu todos os usos das nações civilizadas”, e anunciava que a espada do presidente argentino Mitre “levará em sua trajetória, além do peso das glórias passadas, o impulso irresistível da opinião pública por uma causa justa”. O tratado com o Brasil e o Uruguai foi assinado em 10 de maio de 1865; seus termos draconianos foram publicados um ano depois no diário britânico The Times, que o obteve dos banqueiros credores da Argentina e do Brasil: os futuros vencedores repartiam antecipadamente os despojos do vencido. A Argentina assegurava para si o território de Misiones e o imenso Chaco; o Brasil devorava uma imensa área a oeste de suas fronteiras. O Uruguai, governado por um títere das duas potências, não ficava com nada. Mitre anunciou que tomaria Assunção em três meses. A guerra, contudo, durou cinco anos. Foi uma carnificina, executada ao longo dos fortins que defendiam, de tanto em tanto, o rio Paraguai. O “oprobrioso tirano” Francisco Solano López encarnou heroicamente a vontade nacional de sobreviver; o povo paraguaio, que no último meio século não conhecera guerra alguma, imolou-se ao seu lado. Homens, mulheres, crianças e velhos: todos se bateram como leões. Os prisioneiros feridos arrancavam as ataduras para que não os obrigassem a lutar contra seus irmãos.
     Em 1870, López, à frente de um exército de espectros, velhos e meninos que punham barba postiça para impressionar de longe, internou-se na selva. Por traição real ou imaginária, fuzilou seu irmão e um bispo que com ele marchavam naquela caravana sem destino. Quando, finalmente, o presidente paraguaio foi assassinado à bala e lançaço na densa mata do cerro Corá, ainda conseguiu dizer: “Morro com minha pátria”, e era verdade.
     As tropas invasoras assaltaram os escombros de Assunção com a faca entre os dentes. Vinham para redimir o povo paraguaio, e o exterminaram. No começo da guerra, o Paraguai tinha uma população um pouco menor do que a da Argentina. Tão só 250 mil paraguaios, menos do que a sexta parte, sobreviviam em 1870. Era o triunfo da civilização. Os vencedores, arruinados pelo alto custo do crime, estavam nas mãos dos banqueiros ingleses que tinham financiado a aventura. O império escravista de Pedro II, cujas tropas se nutriam de escravos e de presos, ainda ganhou territórios, mais de 60 mil quilômetros quadrados, e mão de obra, pois muitos prisioneiros paraguaios foram levados para trabalhar nos cafezais paulistas com a marca de ferro da escravidão. A Argentina do presidente Mitre, que havia esmagado seus próprios caudilhos federais, ficou com 94 mil quilômetros quadrados de terra paraguaia e outros frutos do butim, segundo o próprio Mitre havia anunciado quando escreveu: “Os prisioneiros e demais artigos de guerra nós dividiremos na forma combinada”. O Uruguai, onde os herdeiros de Artigas já estavam mortos ou derrotados, e a oligarquia mandava, participou da guerra como sócio minoritário e sem recompensas. Alguns dos soldados uruguaios enviados à campanha do Paraguai tinham embarcado nos navios com as mãos amarradas. Os três países experimentaram uma bancarrota financeira que agravou a dependência da Inglaterra. A matança do Paraguai os marcou para sempre. [4]

[4] Solano López ainda arde na memória. Quando o Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro anunciou, em setembro de 1969, que inauguraria uma vitrina dedicada ao presidente paraguaio, os militares reagiram furiosamente. O general Mourão Filho, que desencadeara o golpe de Estado de 1964, declarou à imprensa: “Um vento de loucura varre o país (...). Solano López é uma figura que deve ser apagada para sempre de nossa história, como paradigma de ditador uniformizado sul-americano. Foi um sanguinário que destruiu o Paraguai, conduzindo-o a uma guerra impossível”.

     O Brasil havia cumprido a missão que o Império britânico lhe atribuíra desde os tempos em que os ingleses transladaram o trono português para o Rio de Janeiro. No princípio do século XIX, tinham sido claras as instruções de Canning ao embaixador, lorde Strangford: “Fazer do Brasil um empório para as manufaturas britânicas destinadas ao consumo de toda a América do Sul”. Pouco antes do início da guerra, o presidente da Argentina inaugurara uma nova linha férrea britânica em seu país e pronunciara um inflamado discurso: “Qual a força que impele o progresso? Senhores, é o capital inglês!” Do Paraguai derrotado não desapareceu só a população: também as tarifas aduaneiras, os fornos de fundição, os rios fechados ao comércio, a independência econômica e vastas zonas de seu território. Dentro das fronteiras reduzidas pelo espólio, os vencedores implantaram o livre-câmbio e o latifúndio. Tudo foi saqueado e tudo foi vendido: as terras e os matos, as minas, os ervais, os prédios das escolas. Sucessivos governos títeres seriam instalados em Assunção pelas forças estrangeiras de ocupação. Tão logo terminou a guerra, sobre as ruínas ainda fumegantes do Paraguai caiu o primeiro empréstimo estrangeiro de sua história. Era britânico, claro. Seu valor nominal alcançava um milhão de libras esterlinas, mas ao Paraguai chegou menos da metade; nos anos seguintes, os refinanciamentos elevaram a dívida a mais de três milhões. A Guerra do Ópio havia terminado quando foi assinado em Nanking o tratado de livre-comércio que assegurou aos comerciantes britânicos o direito de introduzir livremente a droga no território chinês. Também a liberdade de comércio foi garantida pelo Paraguai depois da derrota. Foram abandonadas as plantações de algodão, e Manchester arruinou a produção têxtil; a indústria nacional não ressuscitou jamais.
     O Partido Colorado, que hoje governa o Paraguai, especula alegremente com a memória dos heróis, mas ostenta ao pé de sua ata de fundação a assinatura de 22 traidores do marechal Solano López, “legionários” a serviço das tropas brasileiras de ocupação. O ditador Alfredo Stroessner, que nos últimos quinze anos converteu o Paraguai num grande campo de concentração, fez sua especialização militar no Brasil, e os generais brasileiros o devolveram ao seu país com altas qualificações e ardentes elogios: “É digno de um grande futuro...” Durante seu reinado, Stroessner descartou os interesses anglo argentinos, dominantes no Paraguai nas últimas décadas, em benefício do Brasil e seus donos norte-americanos. Desde 1870, Brasil e Argentina, que libertaram o Paraguai para comê-lo com duas bocas, alternam-se no aproveitamento dos despojos do país derrotado, mas, por sua vez, padecem o imperialismo da grande potência do momento. O Paraguai padece duas vezes: o imperialismo e o subimperialismo. Antes o Império britânico era o elo maior da corrente de dependências sucessivas. Atualmente, os Estados Unidos, que não ignoram a importância geopolítica desse país encravado no centro da América do Sul, mantém em solo paraguaio um sem-número de assessores que treinam e orientam as forças armadas, cozinham os planos econômicos, reestruturam a universidade ao seu arbítrio, inventam um novo esquema político democrático para o país e retribuem com empréstimos onerosos os bons serviços do regime [5]. Mas o Paraguai é também colônia de colônias. Usando a reforma agrária como pretexto, o governo de Stroessner, fazendo-se de distraído, derrogou a disposição legal que proibia a venda a estrangeiros de terras das zonas de fronteira seca, e hoje até os territórios fiscais caíram nas mãos de latifundiários brasileiros do café. A onda invasora atravessa o rio Paraná com a cumplicidade do presidente, associados a terras-tenentes que falam português. Cheguei à movediça fronteira do nordeste do Paraguai com cédulas que estampavam o rosto do vencido marechal Solano López, e ali pude descobrir que só têm valor aqueles que estampam a efígie do vitorioso imperador Pedro II. O resultado da Guerra da Tríplice Aliança, transcorrido um século, ganha ardente atualidade. Os guardas brasileiros exigem passaportes dos cidadãos paraguaios para que possam circular em seu próprio país; são brasileiras as bandeiras e as igrejas. A pirataria de terra abarca também os saltos do Guayrá, a maior fonte potencial de energia de toda a América Latina, que hoje se chamam, em português, Sete Quedas, e a zona de Itaipu, onde o Brasil vai construir a maior central hidrelétrica do mundo.

[5] Pouco antes das eleições de princípios de 1968, o general Stroessner visitou os Estados Unidos. “Quando me encontrei com o presidente Johnson”, declarou à France Press, “comentei que há doze anos desempenho as funções de primeiro magistrado por mandato das urnas. Johnson me respondeu que esta era uma razão a mais para continuar exercendo-as no período vindouro”.

     O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau, expressa-se de mil maneiras. Quando o presidente Johnson, em 1965, decidiu submergir em sangue os dominicanos, Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos para que colaborassem no serviço. O batalhão se chamou uma piada sinistra – “Marechal Solano López”. Os paraguaios atuavam sob as ordens de um general brasileiro, porque foi o Brasil que recebeu as honras da traição: o general Penasco Alvim comandou as tropas latino americanas cúmplices da matança. Exemplos outros e semelhantes podem ser citados. O Paraguai outorgou ao Brasil uma concessão de petróleo em seu território, mas o Brasil, negócio da distribuição de combustíveis e a petroquímica, no pertencem aos norte-americanos. A Missão Cultural Brasileira é dona da Faculdade de Filosofia e Pedagogia da universidade paraguaia, mas os norte americanos, em nossos dias, manejam as universidades do Brasil. O estado-maior do exército paraguaio recebe assessoramento não só de técnicos do Pentágono, mas também de generais brasileiros, que por sua vez respondem ao Pentágono como o eco responde à voz. Pela via aberta do contrabando, os produtos industriais do Brasil invadem o mercado paraguaio, mas muitas das respectivas fábricas em São Paulo são, desde a avalanche desnacionalizadora destes últimos anos, propriedade de corporações multinacionais.
     Stroessner se considera herdeiro dos López. Pode o Paraguai de um século atrás ser impunemente comparado com o Paraguai de agora, empório do contrabando na bacia do Prata e reino da corrupção institucionalizada? Num ato político em que o partido do governo, entre manifestações de júbilo e aplausos, identificava o Paraguai de outrora com o de hoje, um jovenzinho, com a bandeja apoiada no peito, vendia cigarros contrabandeados: a fervorosa assistência fumava nervosamente Kent, Marlboro, Camel e Benson & Hedges. Em Assunção, a escassa classe média bebe uísque Ballantine’s em vez da aguardente paraguaia. Veem-se nas ruas os últimos modelos dos mais luxuosos automóveis fabricados nos Estados Unidos ou Europa, trazidos ao país de contrabando ou através do pagamento prévio de minguados impostos, ao mesmo tempo em que circulam carretas de bois carregando lentamente os frutos para o mercado: a terra é trabalhada com arados de madeira e os táxis são Impalas 1970. Stroessner diz que o contrabando é “o preço da paz”: os generais enchem os bolsos e não conspiram. A indústria, no entanto, agoniza antes de crescer. O Estado sequer cumpre o decreto que manda preferir os produtos das fábricas nacionais nas aquisições públicas. Os únicos triunfos que, com orgulho, o Estado exibe nesta matéria, são as fábricas da Coca-cola, Crush e Pepsi-Cola, instaladas em fins de 1966 como contribuição norte-americana para o progresso do povo paraguaio.
     O Estado manifesta que só vai intervir diretamente na criação de empresas “quando o setor privado não demonstrar interesse” [6], e o anco Central comunica ao Fundo Monetário Internacional que “decidiu implantar um regime de mercado livre de câmbios e abolir as restrições ao comércio e às transações em divisas”; um folheto editado pelo Ministério de Indústria e Comércio informa aos investidores que o país outorga “concessões especiais para o capital estrangeiro”. Isentam-se as empresas estrangeiras do pagamento de impostos e de tarifas aduaneiras “para criar um clima propício aos investimentos”. Um ano depois de instalar-se em Assunção, o National City Bank de Nova York recupera integralmente o capital investido. A banca estrangeira, dona da poupança interna, proporciona ao Paraguai créditos externos que acentuam sua deformação econômica e hipotecam ainda mais sua soberania. No campo, 1,5 por cento dos proprietários dispõe de 90 por cento das terras exploradas, e se cultiva uma área equivalente a menos de 2 por cento da superfície total do país. O plano oficial de colonização no triângulo de Caaguazú oferece aos camponeses famintos mais tumbas do que prosperidade. [7]

[6] Presidencia de la Nación. Secretaría Técnica de Planificación. Plan nacional de desarrollo económico y social. Asunción, 1966.
[7] Muitos dos camponeses optaram por retornar à região minifundiária do centro do país ou seguiram o caminho do novo êxodo para o Brasil, onde seus braços baratos se oferecem nos ervais do Paraná e do Mato Grosso ou nas plantações de café do Paraná. É desesperadora a situação dos pioneiros que se encontram com a selva sem a menor orientação técnica e sem nenhuma assistência creditícia, com terras concedidas pelo governo, das quais terão de arrancar frutos suficientes para a alimentação e para poder pagá-las, pois se o camponês não paga pela terra o preço estipulado não recebe o título de propriedade.

     A Tríplice Aliança continua sendo um grande êxito.
     Os fornos da fundição de Ibycuí, onde foram forjados os canhões que defenderam a pátria invadida, estão num lugar que agora se chama “Mina-cué”, que em guarani significa “Foi mina”.
     Ali, entre pântanos e mosquitos, junto à caliça de um muro destruído, jaz ainda a base da chaminé que, há um século, os invasores explodiram com dinamite, e também os pedaços de ferro retorcido das instalações desfeitas. Vivem na zona uns poucos camponeses em farrapos, que nem sequer sabem qual foi a guerra que destruiu tudo aquilo. Contudo, dizem eles que em certas noites ali se escutam ruídos de máquinas e batidas de martelos, estampidos de canhões e alaridos de soldados.

continua na página 316...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (5)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (III.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

III


     Naquele domingo, a partir das oito horas, Suvarin ficou sozinho na sala do Avantage, no seu lugar habitual, com a cabeça encostada ao muro. Já nenhum mineiro podia tomar seus dois soldos de cerveja; nunca as tabernas tiveram menos fregueses. Por isso, a Sra. Rasseneur, imóvel no balcão, guardava um silêncio irritado, enquanto o marido, em pé defronte ao fogão de ferro fundido, parecia seguir, com ar meditativo, a fumaça ruiva do carvão.
     Bruscamente, naquela paz pesada das peças muito aquecidas, três pequenas pancadas secas, batidas num vidro da janela, fizeram que Suvarin voltasse a cabeça. Ergueu-se, tinha reconhecido o sinal do qual já diversas vezes Etienne se servira para chamá-lo, quando o via lá de fora fumando seu cigarro, sentado a uma mesa vazia Mas, antes que o mecânico alcançasse a porta, Rasseneur a abrira e, reconhecendo, graças à luz da janela, quem estava ali, disse: 

— Será que tens medo de que eu te venda? Se querem conversar é melhor que o façam aqui dentro em vez de na estrada.

     Etienne entrou. A mulher lhe ofereceu cortesmente um copo de cerveja, que ele recusou com um gesto. O taberneiro acrescentou: 

— Há muito tempo que adivinhei onde te escondes. Se eu fosse um espião, como teus amigos dizem, já há oito dias teria mandado para lá os policiais. 
— Não precisas defender-te — respondeu o rapaz. — Sei muito bem que não farias isso. Podemos não ter as mesmas ideias e continuar sendo amigos.

     O silêncio voltou a reinar. Suvarin tornou à sua cadeira, de costas para a parede, os olhos vagando na fumaça do seu cigarro, mas seus dedos febris não paravam um momento; passava-os pelos joelhos procurando o pelo tépido de Polônia, que naquela noite não se encontrava ali; era um mal-estar inconsciente, faltava-lhe alguma coisa, sem que ele soubesse o quê.
     Sentado na outra extremidade da mesa, Etienne disse, enfim: 

— O trabalho recomeça amanhã na Voreux. Os belgas chegaram com Négrel. 
— De fato, chegaram quando já era noite fechada — murmurou Rasseneur, que ficara em pé. — Espero que não recomece a mortandade. — E levantando a voz: — Como vês, não quero continuar brigando contigo, mas isso terminará mal se vocês insistirem em fincar pé... Igualzinho à história da tal de Internacional... Anteontem fui a Lille resolver uns negócios e encontrei Pluchart; parece que a Internacional está desmoronando...

     Deu detalhes. A Associação, depois de ter conquistado os operários do mundo inteiro, num ímpeto propagandístico que ainda fazia tremer a burguesia, estava agora sendo devorada, destruída aos poucos pelas batalhas internas das vaidades e ambições. Desde que os anarquistas triunfaram, expulsando os evolucionistas de primeira hora, tudo estava indo por água abaixo; a finalidade principal, a reforma do salário, afundava em meio aos conflitos de seitas, os grupos mais experientes se desorganizavam devido ao ódio à disciplina. E já se podia prever o fracasso final desse levante de massa, que por um instante ameaçara varrer de um sopro a velha sociedade apodrecida. 

— Pluchart está sem voz, doente com tudo isso — prosseguiu Rasseneur. — Mas assim mesmo faz discursos, quer ir a Paris para falar... Por três vezes me disse que a nossa greve está perdida.

     Etienne, de cabeça baixa, não o interrompeu. Na véspera falara com alguns companheiros, sentia pesar sobre si ondas de rancor e suspeita; eram as primeiras vagas da impopularidade, anunciadoras da denota. Conservou se sombrio, não queria confessar seu abatimento a um homem que lhe predissera que também um dia seria vaiado pela multidão, quando esta se quisesse vingar de uma decepção. 

— A greve está perdida, sem dúvida, sei disso tão bem quanto.

     Pluchart — disse ele. — Era de prever. Aceitamos o movimento contra a vontade, não contávamos acabar com a companhia... O caso é que a gente se arrebata, espera coisas, e, quando tudo vai por água abaixo, esquece-se de que devia contar com isso, há lamentos e brigas como diante de uma catástrofe caída do céu. 

— Mas, então — perguntou Rasseneur —, se julgas a partida perdida, por que não fazes os demais companheiros entenderem isso?

     O rapaz olhou-o fixamente. 

— Olha, estou farto das tuas histórias! Tens as tuas ideias, eu tenho as minhas. Entrei na tua casa para mostrar que te estimo apesar de tudo, mas continuo a pensar que, se morrermos resistindo, nossas carcaças de esfomeados servirão melhor à causa do povo que toda a tua política de homem equilibrado... Ah! se ao menos um desses soldados nojentos me metesse uma bala no coração... Como seria formidável morrer assim!

     Seus olhos ficaram úmidos com esse grito onde explodia o secreto desejo do vencido, o refúgio onde gostaria de perder-se para sempre com seu tormento. 

— Muito bem! — exclamou a Sra. Rasseneur, que, com um olhar, lançava a seu marido todo o desdém das suas opiniões radicais.

     Suvarin, de olhar perdido, continuava a tatear com suas mãos nervosas, não parecendo ter ouvido. Seu rosto louro de moça, de nariz fino e dentes pequenos e pontiagudos, banhava-se de uma luz selvagem, de um devaneio místico, em que perpassavam visões sangrentas. E pôs-se a sonhar em voz alta, respondendo a uma frase de Rasseneur sobre a Internacional, pescada no meio da conversa: 

— São todos uns covardes, só havia um homem capaz de transformar a sua organização num instrumento terrível de destruição. Mas era preciso querer, ninguém quer nada, por isso a revolução abortará mais uma vez.

     E continuou a lamentar-se, cheio de asco pela imbecilidade dos homens, enquanto os outros quedavam perplexos ante aquelas confidencias de sonâmbulo, feitas para as trevas. Na Rússia estava tudo parado, sentia-se desesperado com as notícias que recebera. Seus antigos camaradas se transformavam em políticos, os famosos niilistas que faziam a Europa tremer, filhos de popel, de pequenos burgueses, de comerciantes, não viam mais que a libertação nacional, pareciam acreditar que o mundo seria redimido assim que eles matassem o déspota. E, logo que lhes falava em ceifar a humanidade velha como a uma plantação madura, sentia-se, a partir daí, incompreendido, suspeito, desclassificado, arrolado entre os príncipes frustrados do cosmopolitismo revolucionário. E no entanto seu coração de patriota debatia-se, era com uma amargura dolorosa que repetia seu termo favorito: 

— Besteiras!... Eles nunca conseguirão nada com as suas besteiras.

     Depois, baixando mais a voz, narrou em frases amargas o seu velho sonho de fraternidade. Não tinha renunciado ao seu título e à sua fortuna, só se colocara do lado dos operários com a esperança de ver fundada enfim essa sociedade nova do trabalho em comum. Todas as moedas que trazia no bolso tinham passado havia muito tempo para as mãos dos meninos do conjunto habitacional; fora de uma solidariedade de irmão para com os mineiros, sorrindo à sua desconfiança, conquistando-os com seu modo tranquilo de operário exato e pouco conversador. Mas, decididamente, a fusão não se realizava, permanecia um estranho, com seu desprezo por qualquer ligação amorosa, sua vontade de permanecer impoluto, fora das gloríolas e dos prazeres. E, sobretudo, ficara desesperado de manhã com a leitura de uma notícia que vinha nos jornais.
     Sua voz mudou, seus olhos iluminaram-se, fixos em Etienne, e dirigiu-se diretamente a ele. 

— Tu podes compreender isto? esses operários chapeleiros de Marselha que ganharam a sorte grande de cem mil francos e, imediatamente, foram comprar títulos, dizendo que de agora em diante iam viver sem fazer nada! Essa é a intenção de todos vocês, operários franceses: encontrar um tesouro e em seguida comê-lo sozinhos, refestelados no egoísmo e na vagabundagem. Gostam de gritar contra s ricos, mas não têm coragem de dar aos pobres o dinheiro que a sorte lhes envia... Vocês nunca serão dignos da felicidade enquanto possuírem alguma coisa, enquanto esse ódio aos burgueses for apenas o desejo desesperado de serem burgueses também.

     Rasseneur deu uma gargalhada; pensar que os dois operários de Marselha teriam de renunciar à sorte grande parecia-lhe estúpido. Mas Suvarin fremia, seu semblante descomposto tornava-se amedrontador, numa dessas cóleras religiosas que exterminam os povos. Gritou: 

— Vocês vão ser todos ceifados, derrubados, atirados à podridão! Há de nascer um dia aquele que dizimará sua raça de poltrões e gozadores. Aqui está! Vocês veem as minhas mãos? Se elas pudessem, agarrariam a terra, assim, e a sacudiriam até fazê-la em migalhas, para soterrar todos vocês nos seus escombros! 

— Muito bem! — repetiu a Sra. Rasseneur, no seu modo cortês e convicto.

     Fez-se outro silêncio. Em seguida Etienne falou dos operários belgas. Interrogou Suvarin sobre as disposições que tinham sido tomadas na Voreux, mas o mecânico, que voltara ao seu alheamento, mal respondia, apenas sabia que iam distribuir balas aos soldados que guardavam a mina. E a inquietação nervosa dos seus dedos sobre os joelhos chegou a tal ponto que acabou tomando consciência de que lhe faltava o pelo macio e calmante da coelha. 

— Onde está a Polônia? — perguntou ele.

     O taberneiro deu outra risada e olhou para a mulher. Depois de certa hesitação decidiu-se: 

— A Polônia? Está no quente.

     Desde a sua aventura com Jeanlin, a enorme coelha, certamente ferida, só tivera filhos mortos. E, para não alimentarem uma boca inútil, tinham decidido nesse mesmo dia fazê-la com batatas. 

— Comeste uma perna dela hoje na janta... Não estava bom? Chegaste a lamber os dedos...

     A princípio Suvarin não compreendeu. Depois ficou muito Pando e teve uma contração de náusea; apesar de sua vontade de ser estoico, duas grossas lágrimas encheram seus olhos.

continua na página 347...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / II — Achado

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     II — Achado

             Mário continuava a morar no casarão Gorbeau, sem se importar nem fazer reparo em nenhum dos outros moradores.
     Para bem dizer, nessa época, os únicos moradores do casarão eram ele e os tais Jondra e, a quem o jovem uma ocasião pagara o aluguer, sem, todavia, nunca ter falado nem com o homem, nem com a mulher, nem com as filhas. Os outros inquilinos tinham mudado ou morrido, ou sido expulsos por não pagarem.
     Num dia desse Inverno, na tarde do qual o Sol se mostrara, sem por isso deixar de infundir menos receios, pois estava-se a 2 de Fevereiro, dia da antiga festa de Candelária, cujo sol traiçoeiro, precursor de um frio de seis semanas, inspirou a Matheus Laenberg estes dois versos, que com justiça se tornaram clássicos:
Qu’il luise ou qu’il luiserne, 
L’ours rentre en sa caverne.
     
     Mário acabava de sair da sua caverna, ao cair da tarde. Era a hora do jantar, pois o rapaz vira-se na necessidade de continuar o seu antigo costume de jantar. Oh, fraquezas das paixões ideais!
     Acabava de transpor o limiar da porta que mame Bougon naquele momento andava a varrer, proferindo este memorável monólogo: 

— Hoje em dia que coisa deixa de estar cara? Nada. Está tudo pela hora da morte. A única coisa barata são os trabalhos deste mundo. Mas para que servem os trabalhos deste mundo? Para nada!

     Mário caminhava vagarosamente pelo boulevard, dirigindo-se para a barreira, a fim de tomar para a rua de S. Jacques, pensativo e de olhos fitos no chão, quando de súbito por entre a névoa sentiu um encontrão; voltou-se e viu duas jovens esfarrapadas, uma alta e magra, a outra mais baixa, que passaram rapidamente, esbaforidas, assustadas e -como quem foge, e que, ao passarem, como o não viram, tinham esbarrado com ele. Por entre o crepúsculo, Mário distinguiu-lhes os lívidos rostos, as cabeças descobertas, os cabelos soltos, as esfarrapadas saias e os pés descalços. Iam correndo e falando uma com a outra, e a mais alta dizia à sua companheira, em voz que se ouvia: 

— O caso é que os partazanas por um triz me não deitam o gatazio! Toma que te dou eu!.

     E a outra respondia. 

— Eu bem os vi, mas apenas lhes deitei o luzio, por aqui me sirvo!

     Através desta sinistra gíria, Mário entendeu que os gendarmes ou os cabos estiveram quase a apanhar aquelas duas crianças e que elas lhes tinham fugido. As duas raparigas embrenharam-se por baixo das árvores do boulevard, de onde o jovem vinha, e onde durante alguns instantes desenharam na escuridão uma espécie de vaga brancura que se desfez; e Mário, que parara um momento, dispôs-se a seguir para o seu destino.
     Ia, porém, a continuar o seu caminho, quando, olhando para o chão, avistou um embrulho pardo. Baixou-se e pegou nele. Era uma espécie de sobrescrito que parecia conter papéis. 

— Foram decerto aquelas infelizes que deixaram cair isto! — disse ele.

     Voltou atrás, chamou, porém não as tornou a ver; julgando, pois, que já iriam longe, meteu o embrulho no bolso e foi jantar.
     No caminho viu numa álea da rua de Mouffetard um caixão de um anjinho coberto com um pano preto, colocado em cima de três cadeiras e alumiado por uma vela. Voltaram-lhe então à lembrança as duas raparigas do anoitecer. 

— Pobres mães! — disse ele consigo. — Ainda há para vós coisa mais triste do que verdes morrer vossos filhos; é vê-los viver mal!

     Depois, estas sombras, que variavam a sua tristeza, saíram-lhe do pensamento e ele voltou às suas habituais preocupações. Principiou a pensar nos seus seis meses de amor e ventura, ao ar livre e à luz do meio-dia, debaixo das belas árvores do Luxemburgo. 

— Como se tornou sombria a minha vida! — dizia ele a sós consigo. — Ainda me aparecem as jovens, porém dantes eram anjos, agora são gaviões depenados!

continua na página 548...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - II — Achado
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira