segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cinema: Os Irmãos Karamazov - Parte 1

OS IRMÃOS KARAMAZOV 

 - (URSS - 1969)

'Os Irmãos Karamazov' é um filme de drama soviético de 1969, dirigido por Kirill Lavrov, Ivan Pyryev e Mikhail Ulyanov. O filme é uma adaptação da obra de Dostoéievski e retrata a vida dos irmãos Karamazov na Rússia do século XIX, explorando temas de espiritualidade, amor, ambição e moralidade. O elenco principal inclui Mikhail Ulyanov, Kirill Lavrov e Lionella Pyryeva. O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 1970, representando a União Soviética.

Direção
Kirill Lavrov
Ivan Pyrev
Mikhail Ulyanov

Roteiristas
Fyodor Dostoevsky
Ivan Pyrev





"Neste exato momento já passei da metade do livro e confesso que nunca vi algo tão fascinante como esse romance. Dostoiévski foi um gênio que passou pela terra e seu legado está eternizado nas estantes das pessoas, das bibliotecas e das livrarias!"


Elenco
Mark Prudkin como Fyodor Pavlovich Karamazov
Mikhail Ulyanov como Dmitriy Karamazov
Kirill Lavrov como Ivan Karamazov
Andrey Myagkov como Alyosha Karamazov
Lionella Pyryeva como Agrafena 'Grushenka' Svetlova
Svetlana Korkoshko como Yekaterina Ivanovna Verkhovtseva
Valentin Nikulin como Pavel Smerdyakov
Pavel Pavlenko como Zosima
Andrei Abrikosov como Kuzma Samsonov
Gennadiy Yukhtin como Padre Paisiy
Anatoliy Adoskin como Nikolay Nelyudov - Juiz examinador
Rada Volshaninova como Gipsy
Tamara Nosova como Marya Kondratyevna
Nikita Podgorny como Mikhail Rakitin
Ivan Lapikov como Stepan 'Lyagavyy' Gorskiy
Varvara Popova como Matryona
Yevdokiya Urusova como Marfa Osipovna
Stanislav Chekan como filho de Samsonov
Aleksandra Danilova como Relative
Aleksandr Khvylya como Ferapont
Nikolai Ryzhov como Trifon Borisovich Plastunov
Nikolai Prokopovich como Mussyalovich
Evgeniy Teterin como Padre Iosif
Mark Pertsovskiy como Vrublyovskiy
Lyubov Korneva como Fedosya 'Fenya' Markovna
Sergei Kalinin como Sacerdote
Vladimir Osenev como Juiz
Nikolai Bubnov como Clerk
Viktor Filippov
Olga Gasparova como Maidservant
Georgiy Georgiu
Oleg Golubitsky
Grigore Grigoriu
Grigori Kirillov como Promotor
Viktor Kolpakov como Grigoriy
Nikolay Kutuzov como Monge Negro
Nikolay Parfyonov como Barman
Yuri Rodionov como Attorney
Ivan Savkin
V. Sokolov como gospodin v Sude
Georgiy Svetlani
Nikolay Svetlovidov como Maksimov
Ivan Vlasov como Pyotr Kalganov
Nikolay Sibeikin como Aparecendo (não creditado)



Os Irmãos Karamazov: O Livro Mais Sombrio por Dostoiévski 
- Documentário
 


Neste vídeo de Os Irmãos Karamazov: O Livro Mais Sombrio por Dostoiévski – Documentário, analisamos uma das obras mais profundas de Fiódor Dostoiévski, onde a fé, a culpa e o conflito moral se confrontam intensamente. O documentário percorre os dilemas filosóficos e espirituais que atravessam a história. Este documentário sobre Os Irmãos Karamazov apresenta claramente as ideias que transformam este romance em uma reflexão sobre a liberdade, o mal e a responsabilidade humana. Uma abordagem simples a um dos textos mais sombrios e poderosos da literatura mundial.

A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Diários de motocicleta / Nohime / Os irmãos Karamazov (1) /          

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (II. Karamázov livra-se de seu primeiro filho)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
II
KARAMÁZOV LIVRA-SE DE SEU PRIMEIRO FILHO

     Pode-se bem imaginar que pai e que educador seria tal homem. Como era de prever, desinteressou-se totalmente do filho que tivera de Adelaide Ivânovna, não por animosidade ou rancor conjugal, mas simplesmente porque se esquecera dele por completo. Enquanto importunava todos com suas lágrimas e suas queixas e fazia de sua casa um antro de corrupção, foi o pequeno Mítia recolhido por Gregório, um servidor fiel; se não tivesse este tomado conta dele, o menino não teria tido talvez nem mesmo quem lhe trocasse as fraldas. Além disso, sua família por parte de mãe pareceu esquecê-lo. Seu avô morrera, sua avó, estabelecida em Moscou, era muito doente e suas tias haviam-se casado, de modo que Mítia teve de passar quase um ano em casa de Gregório e morar em sua isbá. Aliás, se seu pai se tivesse lembrado dele (de fato, não podia ignorar sua existência), teria mandado o menino de volta para a isbá, para não ser incomodado nas suas orgias. Mas, entrementes, chegou de Paris o primo da falecida Adelaide Ivânovna, Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que devia, mais tarde, passar muitos anos no estrangeiro. Naquela época, era ainda bastante moço e se distinguia de sua família pela sua cultura, sua estada na capital e no estrangeiro. Tendo sempre tido a mentalidade ocidental, tornou-se, para o fim de sua vida, um liberal à moda dos anos 40 e 50. No curso de sua carreira, esteve em relações com numerosos ultraliberais, na Rússia e no estrangeiro, conheceu pessoalmente Proudhon e Bakunin. Gostava de evocar os três dias da Revolução de Fevereiro de 1848, em Paris, dando a entender que chegara mesmo a tomar parte nas barricadas. Era uma das melhores recordações de sua juventude. Possuía uma fortuna independente, cerca de 1000 al mas,2 para contar à moda antiga. Sua soberba propriedade encontrava-se nas proximidades de nossa cidadezinha e se limitava com as terras de nosso famoso mosteiro. Logo de posse de sua herança, Piotr Alieksándrovitch iniciou contra os monges um processo interminável, por causa de certos direitos de pesca ou de corte de madeira, não sei mais ao certo, mas achou de seu dever, na qualidade de cidadão esclarecido, processar os "clericais". Tendo sabido das desgraças de Adelaide Ivânovna, de quem se lembrava, e posto ao corrente da existência de Mítia, meteu-se no caso, malgrado sua indignação juvenil e seu desprezo por Fiódor Pávlovitch. Foi então que o viu pela primeira vez. Declarou-lhe abertamente sua intenção de encarregar-se da educação do menino. Muito tempo depois, contava, como traço característico, que Fiódor Pávlovitch, quando se tratou de Mítia, pareceu um momento não compreender absolutamente de qual filho se tratava e até mesmo admirar-se de ter um menino em alguma parte, em sua casa. Mesmo exagerado, o relato de Piotr Alieksándrovitch estava próximo da verdade. Efetivamente, Fiódor Pávlovitch gostou toda a sua vida de tomar atitudes, de representar um papel, por vezes sem necessidade nenhuma, e mesmo em detrimento seu, como naquele caso particular. Ê, aliás, um traço especial de muitas pessoas, mesmo inteligentes. Piotr Alieksándrovitch levou a coisa a sério e foi até nomeado tutor do menino (juntamente com Fiódor Pávlovitch), uma vez que a mãe dele deixara uma casa e terras. Mítia foi morar em casa daquele primo que não tinha família. Com pressa de regressar a Paris, depois de haver regularizado seus negócios e assegurado o pagamento de suas rendas, confiou o menino a uma de suas tias que morava em Moscou. Mais tarde, tendo-se aclimatado na França, esqueceu-se do menino, sobretudo quando estourou a Revolução de Fevereiro, que lhe impressionou a imaginação para o resto de seus dias. Tendo morrido a tia que morava em Moscou, Mítia foi recolhido por uma de suas filhas casadas. Mudou, ao que parece, pela quarta vez, de lar. Não me alongo a este respeito no momento, tanto mais quanto ainda muito se falará desse primeiro rebento de Fiódor Pávlovitch, e limito-me aos detalhes indispensáveis, sem os quais é impossível começar o romance. 
     Em primeiro lugar, esse Dimítri foi o único dos três filhos de Fiódor Pávlovitch que cresceu com a ideia de que tinha alguma fortuna e seria independente ao atingir a maioridade. Sua infância e sua juventude foram agitadas: deixou o ginásio antes do termo, entrou em seguida para uma escola militar, partiu para o Cáucaso, serviu no Exército, foi degradado por haver-se batido em duelo, voltou ao serviço, entregou-se à orgia, gastou dinheiro em quantidade. Recebeu dinheiro de seu pai somente quando atingiu a maioridade, mas fizera dívidas enquanto esperava. Só veio a ver pela primeira vez Fiódor Pávlovitch, depois de sua maioridade, quando chegou à nossa província especialmente para informar-se a respeito de sua fortuna. Seu pai, ao que parece, não lhe agradou desde o começo; ficou pouco tempo, em casa dele e apressou-se em partir, levando certa soma, depois de haver concluído um acordo a respeito das rendas de sua propriedade. Coisa curiosa: nada pôde arrancar de seu pai a respeito de seu rendimento e do valor do domínio. Fiódor Pávlovitch notou então — e importa notá-lo — que Mítia fazia de sua fortuna uma ideia falsa e exasperada. Ficou com isto muito contente, tendo em vista seus interesses particulares. Concluiu de tudo que o rapaz era estouvado, arrebatado, de paixões vivas, um boêmio ao qual bastava dar um osso a roer para acalmá-lo até nova ordem. Fiódor Pávlovitch explorou a situação, limitando-se a largar de tempos em tempos pequenas somas, até que um belo dia, quatro anos depois, Mítia, perdida a paciência, reapareceu na localidade para exigir uma regularização de contas definitiva. Para estupefação sua, aconteceu que não possuía mais nada; era mesmo difícil verificar as contas: já havia recebido em espécie, de Fiódor Pávlovitch, o valor total de seus bens; talvez mesmo viesse a ser seu devedor; de acordo com tal e tal arranjo, concluído em tal e tal data, não tinha o direito de reclamar mais, etc. O rapaz ficou consternado; suspeitou da falsidade, da fraude, ficou fora de si, quase perdeu a razão. Esta circunstância provocou a catástrofe cuja narrativa forma o assunto de meu primeiro romance, ou antes seu quadro exterior. Mas, antes de iniciar o dito romance, é preciso falar ainda dos dois outros filhos de Fiódor Pávlovitch e explicar-lhes a proveniência.  

continua na página 9...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (I. Fiódor Pávlovitch Karamázov)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
I
FIÓDOR PÁVLOVITCH KARAMÁZOV


     Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras de nosso distrito, Fiódor Pávlovitch, tão conhecido em seu tempo (dele se lembram, aliás, ainda) pelo seu fim trágico, ocorrido há treze anos e de que falarei mais adiante. No momento, limitar-me-ei a dizer desse "proprietário" (chamavam-no assim, se bem que jamais tivesse morado em sua "propriedade") que era o tipo estranho, embora bastante frequente, da criatura vil e corrompida, ao mesmo tempo que absurda. Sabia arranjar perfeitamente seus negócios proveitosos, mas nada mais. Fiódor Pávlovitch, por exemplo, começou quase do nada: era um modesto proprietário, gostando muito de jantar em casa dos outros, com fama de parasita. E no entanto, ao morrer, possuía mais de 100 000 rublos em metal sonante. Isso não o impediu de ser, durante sua vida, um dos piores malucos de nosso distrito. Repito-o, não se trata de estupidez — a maior parte desses malucos é bastante inteligente e astuta —, mas de extravagância específica e nacional.
     Foi casado duas vezes e teve três filhos; o mais velho, Dimítri, da primeira mulher, e os dois outros, Ivã e Alieksiéi, da segunda. Sua primeira mulher pertencia a uma família nobre, os Miúsovi, proprietários bastante ricos do mesmo distrito. Como pôde uma moça, tendo um dote, bonita e, além do mais, viva e espirituosa, tal como se encontram muitas entre nossas contemporâneas, casar-se com tão nulo "doidelo" (era assim que o chamavam)? Creio inútil explicá-lo demasiado longamente. Conheci uma jovem, da penúltima geração "romântica", que, após vários anos de amor misterioso por um senhor, com o qual poderia casar-se bem tranquilamente, acabou imaginando obstáculos intransponíveis a esse casamento. Numa noite de tempestade precipitou-se, do alto de um penhasco, num rio impetuoso e profundo, e pereceu vítima de sua imaginação, unicamente para parecer-se com a Ofélia de Shakespeare. Se aquele penhasco, de que ela gostava particularmente, tivesse sido menos pitoresco ou substituído por uma margem chata e prosaica, não se teria ela, sem dúvida, suicidado. O fato é autêntico e creio que entre as duas ou três últimas gerações russas houve numerosos casos análogos. Semelhantemente, a decisão que Adelaide Miúsova tomou foi sem dúvida o eco de influências estrangeiras, a exasperação de uma alma cativa. Queria talvez afirmar sua independência de mulher, protestar contra as convenções sociais, contra o despotismo de sua família. Sua imaginação complacente pintou-lhe — por um curto momento — Fiódor Pávlovitch, malgrado sua reputação de papa-jantares, como uma das personagens mais ousadas e mais maliciosas daquela época em via de melhoramento, quando era ele muito simplesmente, um pregador de más peças. O picante da aventura foi um rapto que encantou Adelaide Ivânovna. A situação de Fiódor Pávlovitch dispunha-o então a semelhantes proezas; estava louco por abrir caminho a qualquer preço: introduzir-se em uma boa família e receber um dote era bastante atraente. Quanto ao amor, não se cuidava disso nem de um lado nem de outro, malgrado a beleza da moça. Esse episódio foi provavelmente único na vida de Fiódor Pávlovitch, grande amador do belo sexo, a vida inteira, sempre pronto a agarrar-se a qualquer saia, contanto que ela lhe agradasse. Ora, aquela mulher foi a única que não exerceu sobre ele atração nenhuma do ponto de vista sensual.
     Adelaide Ivânovna não tardou a verificar que só sentia desprezo pelo seu marido. Nessas condições, as consequências do matrimônio não se fizeram esperar. Se bem que a família se tivesse resignado bem depressa ao acontecido e remetido seu dote à fugitiva, uma existência desordenada e cenas contínuas começaram. Conta-se que a jovem senhora mostrou-se muito mais nobre e mais digna do que Fiódor Pávlovitch, que lhe escamoteou desde o começo, como se soube mais tarde, todo o seu capital, 25 000 rublos, de que ela não mais ouviu falar. Durante algum tempo fez ele tudo para que sua mulher lhe transmitisse, por um documento em boa e devida forma, uma pequena aldeia e uma casa de cidade bastante bonita, que faziam parte de seu dote. Teria certamente logrado isso, tanto era o desprezo e desgosto que lhe causava com suas extorsões e exigências descaradas, levando-a por lassidão a dizer "sim". Por felicidade, a família dela interveio e refreou a rapacidade de seu marido. É notório que os esposos chegavam frequentemente à troca de pancadas e pretende-se que não era Fiódor Pávlovitch quem as dava, mas Adelaide Ivânovna, mulher arrebatada, atrevida, morena irascível, dotada de estupendo vigor. Por fim abandonou a casa e fugiu com um seminarista que não tinha onde cair morto, deixando a cargo do marido um menino de três anos, Mítia. Fiódor Pávlovitch não tardou em transformar sua casa num harém e em organizar pândegas e bebedeiras. Entrementes, percorria toda a província, lamentando-se com todos da deserção de Adelaide Ivânovna, com pormenores chocantes sobre sua vida conjugai. Dir-se-ia que achava prazer em representar diante de todo mundo o papel ridículo de marido enganado, em pintar seu infortúnio, carregando as cores. "Acreditar-se-ia que você subiu de grau, Fiódor Pávlovitch, tão contente você se mostra, apesar de sua aflição", diziam-lhe os trocistas. Muitos ajuntavam que ele se sentia feliz em mostrar-se na sua nova atitude de bufão e que, de propósito, para fazer rir mais, fingia não notar sua situação cômica. Quem sabe, aliás, fosse ingenuidade de sua parte? Por fim, conseguiu descobrir a pista da fugitiva. A desgraçada achava-se em Petersburgo, para onde fora com seu seminarista e onde começara a agir publicamente com a maior liberdade. Fiódor Pávlovitch começou a agitar-se e preparou-se para partir — com que fim? ele mesmo não sabia ainda. Talvez tivesse verdadeiramente feito a viagem a Petersburgo, mas, tomada essa decisão, achou que tinha o direito, para se dar coragem, de embriagar-se desenfreadamente. Enquanto isso, soube a família de sua mulher da morte desta, em Petersburgo. Morrera de repente, num pardieiro, de febre tifoide, dizem uns, de fome, segundo outros. Fiódor Pávlovitch estava bêbedo, quando lhe anunciaram a morte de sua mulher; conta-se que correu para a rua e se pôs a gritar, na sua alegria, de braços levantados para o céu: "Agora, deixa morrer o teu servo". Outros pretendem que soluçava como uma criança, a ponto de causar pena vê-lo, malgrado a aversão que inspirava. Pode dar-se que ambas as versões sejam verdadeiras, isto é, que se regozijou com sua libertação, chorando a sua libertadora. Muitas vezes, as pessoas, mesmo más, são mais ingênuas, mais simples do que o pensamos. Nós também, aliás.

continua na página 7...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov (Prefácio)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski

"Se Deus NÃO existe, tudo é permitido e o homem muito provavelmente não vai optar pelo bem ao invés do mal."

"Os Irmãos Karamazov é uma obra-prima da literatura russa escrita por Fiódor Dostoiévski e publicada pela primeira vez em 1880. O romance é uma exploração complexa da natureza humana, das questões morais e religiosas, e das questões familiares. É uma história envolvente que gira em torno da família Karamázov e seus três filhos: Dmitri, Ivan e Alexei."

Parte 1: Os Personagens Principais:
Fiódor Pavlovitch Karamázov, um palhaço devasso que subiu na vida principalmente devido aos dotes de suas duas mulheres, ambas mortas de forma precoce, e à sua mesquinharia.
Dmitri Karamazov, o filho mais velho, é impulsivo e apaixonado. Ele está envolvido em um conflito com o pai sobre uma herança e é acusado de assassinato.
Ivan Karamazov, o filho do meio, é um intelectual até que questiona a existência de Deus e os valores morais tradicionais.
Alexei Karamazov, o filho mais novo, é um monge ortodoxo que busca a espiritualidade e a fé em meio às relações familiares tumultuadas.

Os irmãos Karamázov deveria ter uma continuação, onde o narrador exporia de melhor forma o caráter de seu herói, o filho mais novo Aliêksei Fiodorovitch Karamázov, para o qual esta narrativa seria a primeira parte de sua biografia, porém Dostoiévski morreu antes de finalizar a segunda parte de sua obra. Dostoiévski declara no início do prólogo que a obra é, de fato, sobre Alieksiéi:

   Ao começar a biografia de meu herói, Alieksiéi Fiódorovitch, sinto-me um tanto perplexo. Com efeito, se bem que o chame meu herói, sei que ele não é um grande homem; prevejo também perguntas deste gênero: "Em que é notável Alieksiéi Fiódorovitch, para que tenha sido escolhido como seu herói? Que fez ele? Quem o conhece e por quê? Tenho eu, leitor, alguma razão para consagrar meu tempo a estudar-lhe a vida?".

O enredo gira em torno do misterioso assassinato de Fiódor Pavlovitch Karamazov, o pai dos três irmãos. Dmitri é acusado injustamente de cometer o assassinato, e o romance explora o julgamento, os depoimentos das testemunhas e as investigações, enquanto também mergulha profundamente nas psicologias dos personagens.



Resenha: Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski





Prefácio

     Ao começar a biografia de meu herói, Alieksiéi Fiódorovitch, sinto me um tanto perplexo. Com efeito, se bem que o chame meu herói, sei que ele não é um grande homem; prevejo também perguntas deste gênero: "Em que é notável Alieksiéi Fiódorovitch, para que tenha sido escolhido como seu herói? Que fez ele? Quem o conhece e por quê? Tenho eu, leitor, alguma razão para consagrar meu tempo a estudar-lhe a vida?"
     A derradeira pergunta é a mais embaraçosa, porque só lhe posso responder dizendo: "Talvez o senhor mesmo descubra isso no romance". Mas se o lerem, sem achar que meu herói é notável? Digo isto porque prevejo, infelizmente, a coisa. A meus olhos, é ele notável, mas duvido bastante de que consiga convencer o leitor. O fato é que ele age seguramente, mas de uma maneira vaga e obscura. Aliás, seria estranho, em nossa época, exigir clareza das pessoas! Uma coisa, no entanto, está fora de dúvida: é um homem estranho, até mesmo um original. Mas a estranheza e a originalidade prejudicam, em lugar de conferir um direito à atenção, sobretudo quando todo mundo se esforça por coordenar as individualidades e destacar um sentido geral do absurdo coletivo. O original, na maior parte dos casos, é o indivíduo que se põe de parte. Não é verdade?
     No caso de me contradizerem, a propósito deste último ponto, dizendo: "Não é verdade", ou "não é sempre verdade", retomo coragem a respeito do valor de meu herói. Porque não somente o original não é "sempre" o indivíduo que se põe de parte, mas acontece-lhe deter a quinta-essência do patrimônio comum, enquanto seus contemporâneos o repudiaram por algum tempo.
     Aliás, em vez de engajar-me nessas explicações destituídas de interesse e confusas, teria começado bem simplesmente, sem prefácio — se minha obra agradar, hão de lê-la —, mas a desgraça está em que, além de uma biografia, tenho dois romances. O principal é o segundo, é a atividade de meu herói em nossa época, no momento presente. O primeiro desenrola-se há treze anos, e, para dizer a verdade, é apenas um momento da primeira juventude do herói. Ê indispensável, porque, sem ele, muitas coisas ficariam incompreensíveis no segundo. Mas isso só faz aumentar o meu embaraço: se eu, biógrafo, acho que um romance teria bastado para um herói tão modesto e vago, como apresentar-me com dois e justificar tal pretensão?
     Desesperando de resolver essas questões, deixo-as em suspenso. Naturalmente, o leitor perspicaz já adivinhou que tal era meu fim desde o começo e leva-me a mal que perca um tempo precioso em palavras inúteis. Ao que responderei que o fiz por polidez, e em seguida por astúcia, a fim de que se fique prevenido de antemão. Além do mais, folgo que meu romance se divida por si mesmo em duas narrativas, "contudo conservando sua unidade integral"; depois de ter tomado conhecimento do primeiro, o leitor verá por si mesmo se vale a pena abordar o segundo. Sem dúvida, cada qual é livre; pode-se fechar o livro desde as primeiras páginas da primeira narrativa para não mais abri-lo. Mas há leitores delicados que querem ir até o fim, para não deixar de ser imparciais; tais são, por exemplo, todos os críticos russos. Sente-se a gente de coração mais leve para com eles. Malgrado sua consciência metódica, forneço-lhes um argumento dos mais fundamentados para abandonar a narrativa no primeiro episódio do romance. Eis terminado o meu prefácio. Convenho que é supérfluo, mas, já que está escrito, deixemo-lo.
     E agora, comecemos.
     O Autor.
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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Mais uma resenha...

“Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski



Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (26 de março - Um descongelamento)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     26 de março - Um descongelamento.
 
          Quando, no dia seguinte, depois de longa hesitação e apaziguamento interior, entrei na familiar sala de visitas dos Ozhógins, não era mais o mesmo homem que eles haviam conhecido pelo espaço de três semanas. Todos os meus hábitos anteriores, dos quais comecei a me desmamar sob a influência de uma emoção que era nova para mim, de repente voltaram a aparecer, e tomaram toda a posse de mim como os donos voltando para sua casa.
     Pessoas como eu geralmente são guiadas não tanto por fatos positivos, mas por suas próprias impressões; eu, que, não mais do que na noite anterior, sonhava com "os arrebates do amor mútuo", hoje não nutria a menor dúvida quanto à minha própria "infelicidade", e estava em total desespero, embora eu mesmo não fosse capaz de descobrir nenhum pretexto razoável para o meu desespero. Eu não podia ter ciúmes do Príncipe N***, e quaisquer que fossem os méritos que ele pudesse possuir, sua mera chegada não era suficiente para extirpar instantaneamente a inclinação de Liza por mim.... Mas fique! - Essa inclinação existe? Eu me lembrei do passado. "E o passeio na floresta?" Eu me perguntei. "E a expressão do rosto dela no espelho?" - "Mas", continuei, - "o passeio na floresta, aparentemente...". Phew, meu Deus! Que ser insignificante eu sou!" Eu exclamei em voz alta, finalmente. Este é um exemplar das ideias meio expressas, meio pensadas que, retornando mil vezes, giravam num redemoinho monótono na minha cabeça. Repito, - voltei para os Ozhógins a mesma pessoa desconfiada, receosa, constrangida que eu tinha sido desde a minha infância...
     Encontrei a família toda na sala de visitas; Bizmyónkoff estava sentado também ali, num canto. Todos pareciam estar de bom humor: Ozhógin, em particular, estava bastante radiante, e suas primeiras palavras foram para me comunicar que o Príncipe N*** tinha passado toda a noite anterior com eles. - "Bem", disse para mim mesmo, "agora entendo porque você está de tão bom humor". Devo confessar que a segunda chamada do Príncipe me intrigou. Eu não esperava isso. Em geral, pessoas como eu esperam tudo no mundo, exceto o que deveria acontecer na corrida normal das coisas. Eu amuei e assumi o aspecto de um homem ferido, mas magnânimo; quis castigar Liza por sua indelicadeza; da qual, além do mais, é preciso concluir, que, no entanto, ainda não estava em completo desespero. Dizem que, em alguns casos, quando se é realmente amado, é até vantajoso torturar o objeto adorado; mas, na minha posição, foi indubitavelmente estúpido. Liza, da maneira mais inocente, não me deu atenção alguma. Só a velha Madame Ozhógin notou minha solene taciturna vaidade, e perguntou ansiosamente pela minha saúde. Claro que eu lhe respondi com um sorriso amargo que "eu estava perfeitamente bem, graças a Deus". Ozhógin continuou a dilatar o assunto de sua visita; mas, observando que eu lhe respondi relutantemente, dirigiu-se principalmente a Bizmyónkoff, que o escutava com muita atenção, quando um criado de pés entrou e anunciou o Príncipe N****. O dono da casa saltou instantaneamente aos seus passos, e saiu correndo para recebê-lo! Liza, sobre quem eu imediatamente ousei um olhar de águia, corei de prazer, e me agachei em sua cadeira. O Príncipe entrou, perfumado, alegre, amável...
     Como não estou compondo um romance para o leitor indulgente, mas simplesmente escrevendo para meu próprio prazer, não há necessidade de eu recorrer aos dispositivos habituais dos senhores literários. Portanto, direi imediatamente, sem mais delongas, que Liza, desde o primeiro dia, apaixonou-se apaixonadamente pelo Príncipe, e o Príncipe apaixonou-se por ela - em parte pela falta de algo para fazer, mas também em parte porque Liza era realmente uma criatura muito charmosa. Lá não foi nada notável o fato de que eles se apaixonaram um pelo outro. Ele, muito provavelmente, não esperava encontrar tal pérola em uma concha tão miserável (estou falando da cidade abandonada por Deus de O****), e ela, até então, nunca havia visto, mesmo em seus sonhos, nada no mínimo como este brilhante, inteligente, fascinante aristocrata.
     Após as saudações preliminares, Ozhógin me apresentou ao Príncipe, que me tratou com muita delicadeza. Como regra, ele era educado com todos, e apesar da distância incomensurável que existia entre ele e nosso obscuro círculo rural, ele entendeu não só como não envergonhar ninguém, mas até mesmo ter a aparência de ser nosso igual, e de só acontecer para viver em São Petersburgo.
     Naquela primeira noite..... Ah, aquela primeira noite! Nos dias felizes de nossa infância, nossos professores costumavam nos narrar e nos apresentar como exemplo de fortaleza viril o jovem Lacedæmonian que, tendo roubado uma raposa e escondido sob seu manto, nunca proferiu um som, mas permitiu que o animal devorasse todas as suas entranhas, preferindo assim a morte à desonra... Não encontro melhor expressão dos meus sofrimentos indizíveis no decorrer daquela noite, quando, pela primeira vez, vi o Príncipe ao lado de Liza. Meu sorriso persistente e constrangido, minha atenção angustiada, minha estúpida taciturnidade, minha dor plena e vã saudade de partir, tudo isso, com toda probabilidade, era extremamente perceptível em seu caminho. Nem uma raposa por si só estava devastando minha vitalidade - ciúme, inveja, a consciência de minha própria insignificância, e a raiva impotente estava me dominando. Eu não podia deixar de admitir que o Príncipe era realmente um jovem muito amável.... Eu o devorava com os olhos; eu realmente acredito que me esqueci de piscar o olho enquanto olhava para ele. Ele não conversava exclusivamente com Liza, mas, é claro, ele falava por ela sozinho. Eu devo tê-lo entediado muito...... Ele provavelmente logo adivinhou que tinha a ver com um amante descartado, mas, por compaixão por mim, e também por uma profunda sensação de minha perfeita inofensividade, ele me tratou com extraordinária gentileza. Você pode imaginar como isso me machucou!
     Lembro-me que, no decorrer da noite, tentei apagar a minha culpa; eu (não ria de mim, quem quer que seja sob cujos olhos estas linhas possam cair, especialmente porque este era o meu sonho final)... De repente levei na minha cabeça, Deus é minha testemunha, entre os variados tormentos, que Liza estava tentando me castigar pela minha frieza arrogante no início da minha visita; que ela estava com raiva de mim, e estava flertando com o Príncipe apenas por vexação comigo. Agarrei uma oportunidade conveniente, e ao me aproximar dela com um sorriso manso mas carinhoso, murmurei: "Chega, perdoe-me... entretanto, eu não pergunto porque tenho medo" - e sem esperar a resposta dela, de repente dei ao meu rosto uma expressão invulgarmente viva e fácil, dei um riso irônico, joguei a mão sobre minha cabeça na direção do teto (lembro que estava tentando ajustar minha gola), e estava até no ponto de rodar num só pé, tanto quanto dizer: "Está tudo acabado, estou de bom humor, que todos estejam de bom humor", mas eu não rodei, mesmo assim, porque tinha medo de cair, devido a uma rigidez antinatural nos joelhos... Liza não me entendeu minimamente, olhou-me no rosto com surpresa, sorriu apressadamente, como se desejasse se livrar de mim o mais rápido possível, e novamente se aproximou do Príncipe. Cego e surdo como eu era, não pude deixar de admitir interiormente que ela não estava nada zangada nem irritada comigo naquele momento; ela simplesmente não estava pensando em mim. O golpe foi decisivo, minhas últimas esperanças se desfizeram em ruínas com um acidente - como um bloco de gelo penetrado com o sol da primavera de repente se desfaz em pequenos fragmentos. Eu tinha recebido um golpe na cabeça no primeiro ataque, e, como os prussianos em Jena, em um dia eu perdi tudo. Não, ela não estava com raiva de mim!...
     Ai de mim! ao contrário! Ela mesma - eu podia ver isso - estava sendo minada, como com um golpe. Como uma jovem muda, que já meio abandonou o banco, ela se inclinou avidamente para frente sobre a enchente, pronta para se render a ela tanto o primeiro desabrochar de sua primavera, quanto toda sua vida. Qualquer um a cuja sorte tenha caído para ser testemunha de tamanha paixão viveu momentos amargos, se ele mesmo amou e não foi amado. Lembrar-me-ei para sempre da atenção devoradora, da ternura, do auto-esquecimento inocente, do olhar, meio infantil e já feminino, do sorriso feliz que desabrochou, por assim dizer, e nunca deixou os lábios semicerrados e as bochechas coradas... Tudo aquilo de que Liza tinha tido um mau presságio durante nosso passeio no bosque tinha agora passado - e ela, entregando-se totalmente ao amor, tinha, ao mesmo tempo, crescido tranquila e espumante como um vinho jovem que deixou de fermentar, porque chegou a sua hora...
     Tive a paciência de sentar-me naquela primeira noite, e as noites que se seguiram.... tudo, até o fim! Eu não podia alimentar nenhuma esperança. Liza e o Príncipe cresciam cada vez mais apegados um ao outro a cada dia que passava..... Mas eu positivamente perdi todo o sentido da minha própria dignidade, e não pude me afastar do espetáculo da minha infelicidade. Lembro que um dia fiz um esforço para não ir, me dei minha palavra de honra pela manhã de que ficaria em casa, - e às oito horas da noite (geralmente saia às sete), pulei como um lunático, coloquei meu chapéu, e corri, ofegante, para a casa de Kiríll Matvyéevitch.
     Minha posição era extremamente constrangedora; mantinha um silêncio obstinado, e às vezes, durante dias, em um trecho nunca emitia um som. Nunca me distingui pela eloquência, como já disse; mas agora todo o sentido que eu tinha parecia voar para longe na presença do Príncipe, e permaneci tão pobre quanto um rato de igreja. Além disso, em particular, forcei meu cérebro infeliz a trabalhar a tal ponto, ponderando lentamente sobre tudo o que havia marcado ou notado no decorrer do dia anterior, que quando voltei à casa dos Ozhógins, mal me restava força suficiente para continuar minhas observações. Eles me pouparam como se fosse um homem doente, eu vi isso. Todas as manhãs chegava a uma nova e definitiva decisão, que havia sido tomada principalmente durante uma noite sem dormir. Agora eu me preparava para ter uma explicação com Liza, para dar-lhe alguns conselhos amigáveis... Mas quando por acaso estava sozinho com ela, minha língua de repente parou de agir, como se tivesse congelado, e ambos esperávamos dolorosamente o aparecimento de uma terceira pessoa; então, novamente, eu queria fugir, para sempre, deixando para trás, pelo objeto de meus afetos, é claro, uma carta cheia de reprovações; e um dia eu me dispus a fazer essa carta, mas o sentido de justiça ainda não havia desaparecido de dentro de mim; Compreendi que não tinha o direito de transtornar ninguém por nada, e atirei minha nota para o fogo; de repente ofereci todo o meu ser como sacrifício, de forma magnânima, e dei minha bênção a Liza, desejando sua felicidade em seu amor, e sorri de uma ponta de um canto para o Príncipe, de forma gentil e amistosa. Mas os amantes de coração duro não só não me agradeceram pelo meu sacrifício, como nem mesmo o perceberam, e evidentemente não precisaram nem das minhas bênçãos nem dos meus sorrisos... Então, com vexação, de repente passei para o estado de espírito diametralmente oposto. Prometi a mim mesmo, enquanto me enfiava no meu manto, à moda espanhola, cortar a garganta do sortudo rival de uma ponta à outra, e com a alegria de uma fera selvagem, imaginei para mim o desespero de Liza... Mas, em primeiro lugar, na cidade de O**** havia pouquíssimos cantos assim, e, em segundo lugar, uma cerca de tábua, uma lanterna de rua, um policial na distância.... Não! em uma esquina como essa, seria mais fácil vender anéis de pão do que derramar sangue humano. Devo confessar que, entre outros meios de libertação, - como expressei muito indefinidamente ao realizar uma conferência comigo mesmo -,  pensei em apelar diretamente ao Sr. Ozhógin .... de direcionar a atenção daquele nobre para a perigosa posição de sua filha, para as tristes conseqüências de sua frivolidade.... Comecei até a conversar com ele um dia sobre o assunto muito delicado, mas enquadrei meu discurso de forma tão astuciosa e obscura, que ele me ouviu e escutou, e de repente, como se despertasse do sono, rapidamente esfregou a palma da mão em todo o rosto, não poupando nem mesmo o nariz, bufou, e se afastou de mim.
     É desnecessário dizer que, ao adotar essa decisão, assegurei-me de que estava agindo pelos motivos mais desinteressados, que estava desejando o bem-estar universal, que estava cumprindo o dever de um amigo da família... Mas me atrevo a pensar que mesmo que Kiríll Matvyéevitch não tivesse cortado minhas efusões, ainda me faltaria coragem para terminar meu monólogo. Às vezes me comprometi, com a pompa de um antigo sábio, a pesar os méritos do Príncipe; às vezes me confortava com a esperança de que era apenas uma fantasia passageira, de que Liza viria à razão, de que seu amor não era amor genuíno... Oh, não! Em uma palavra, não sei de um pensamento sobre o qual eu não me tenha arrebatado naquela época. Um único remédio, confesso francamente, nunca me passou pela cabeça; isto é, nunca me ocorreu cometer suicídio. Por que isso não me ocorreu, eu não sei.... Talvez até então eu tivesse um presságio de que não tinha muito tempo de vida em nenhum caso.
     É fácil entender que, em condições tão desfavoráveis, minha conduta, meu comportamento para com outras pessoas, era mais desnatural e constrangedor do que nunca. Mesmo a velha senhora Ozhógin - aquela idiota - começou a me evitar, e às vezes não sabia de que lado se aproximar de mim. Bizmyónkoff, sempre cortês e pronto para ser útil, me evitou. Também me pareceu então que nele eu tinha um companheiro de sofrimento, que ele também amava Liza. Mas ele nunca respondeu às minhas dicas, e, em geral, falou comigo com relutância. O príncipe se comportou de uma maneira muito amigável com ele; posso dizer que o príncipe o respeitava. Nem Bizmyónkoff nem eu interferimos com o Príncipe e Liza; mas ele não os evitou como eu, ele não parecia um lobo nem uma vítima - e de bom grado se juntou a eles sempre que eles o desejavam. Ele não se distinguia particularmente pela jocularidade em tais ocasiões, é verdade; mas mesmo em tempos passados havia um elemento de quietude em sua alegria.
     Assim se passaram cerca de duas semanas. O Príncipe não era apenas bonito e inteligente: tocava ao piano, cantava, desenhava muito respeitavelmente e sabia narrar bem. Suas anedotas, tiradas dos círculos mais altos da sociedade da capital, sempre causaram forte impressão nos ouvintes, o que era ainda mais poderoso porque ele mesmo não parecia atribuir-lhes importância particular...
     A consequência desse engano, se assim se chama, da parte do Príncipe, foi que durante sua breve estada na cidade de O***, ele enfeitiçou absolutamente toda a sociedade de lá. É sempre muito fácil para um homem dos círculos mais altos enfeitiçar-nos a nós os estepes. Os frequentes apelos do Príncipe aos Ozhógins (ele passava as noites na casa deles), naturalmente, despertavam a inveja dos outros nobres e oficiais; Mas o Príncipe, sendo um homem do mundo e inteligente, não descuidou de nenhum deles, chamou a todos eles, disse pelo menos uma palavra agradável a todas as damas e moças, permitiu-se encher-se de vagens laboriosamente pesadas e tratou de vinhos vis com magníficas denominações; em uma palavra, comportou-se de maneira admirável, cautelosa e inteligente. O Príncipe N**** era, ao todo, um homem de disposição alegre, sociável, amável por inclinação, e também como uma questão de cálculo: como era possível que ele fosse diferente de um sucesso completo em todos os sentidos?
     Desde a sua chegada, todos na casa haviam pensado que o tempo passava com notável rapidez; tudo corria esplendidamente; o velho Ozhógin, embora fingisse não notar nada, estava, com toda a probabilidade, esfregando secretamente as mãos na ideia de ter um genro assim. O próprio Príncipe estava conduzindo todo o caso com muita calma e decoro, quando, de repente, um acontecimento imprevisto...
     Até amanhã. Hoje estou cansado. Essas reminiscências me irritam, mesmo à beira da sepultura. Teréntievna pensou hoje que meu nariz tinha ficado ainda mais pontiagudo; e isso é um mau sinal, dizem eles.

continua em... 27 de março 
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25 de março - Um dia branco de inverno / 26 de março - Um descongelamento /                 
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.