Edgar Allan Poe - Contos
O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842
continuando...
« Também em relação à veracidade que pareça ainda revestir a argumentação do Commercial, essa veracidade ficará bastante diminuída se considerarmos a hora a que a jovem saiu. Foi — diz o jornal — numa altura em que as ruas estão cheias de gente. Mas isto não é verdade. Eram nove horas da manhã. Ora, às nove horas da manhã, durante toda a semana, exceto ao domingo, as ruas da cidade estão, é verdade, cheias de gente. As nove da manhã de domingo, cada um está geralmente em sua casa, preparando-se para ir à igreja. Não há razoável observador que não tenha notado o aspecto particularmente deserto da cidade, ao domingo, entre as oito e as dez da manhã. Entre as dez e as onze, as ruas estão cheias de gente, mas nunca a uma hora tão matinal como a que foi designada.
— E que devemos pensar — perguntei — do artigo do Soleil?
— Que é uma pena que o seu redator não tenha nascido papagaio, pois
nesse caso teria sido o mais ilustre espécime da sua raça. Limitou-se
simplesmente a repetir fragmentos das opiniões individuais já expressas, que foi
buscar, com uma louvável habilidade, a tal ou tal diário. Os objetos — afirma o
Soleil — estiveram no local, segundo toda a evidência, durante pelo menos três ou
quatro semanas... Não é pois possível duvidar de que foi finalmente descoberto o
teatro do abominável caso. Os factos aqui novamente enunciados pelo Soleil não
bastam para dissipar as minhas próprias dúvidas quanto a este ponto, e teremos
de examiná-los mais particularmente nas suas implicações com uma outra parte
da questão.
« De momento, devemos ocupar-nos de outras investigações. Decerto não deixou de notar uma extrema negligência no exame do cadáver. É verdade que a questão da identidade foi facilmente resolvida, ou deve tê-lo sido, mas havia outros pontos a verificar. Teria sido o corpo, de algum modo, despojado? Teria a defunta alguns artigos de bijuteria consigo quando saiu de casa? Se tinha, foram esses artigos encontrados no corpo? São perguntas importantes, absolutamente negligenciadas pelo inquérito, e há outras de um valor igual que não atraíram a mínima atenção. Tentaremos responder-lhes através de uma investigação pessoal. O caso de Saint-Eustache necessita ser novamente examinado. Não tenho suspeitas contra esse indivíduo, mas procedamos com método. Verificaremos escrupulosamente a veracidade das atestações referentes aos lugares onde foi visto nesse domingo. Esse género de testemunhos escritos são muitas vezes meios de mistificação. Se nada encontrarmos, poremos Saint Eustache fora de causa. O seu suicídio, se bem que pareça corroborar as suspeitas, caso encontremos qualquer trapaça nos affidavit, não é uma circunstância inexplicável ou que deva fazer-nos desviar de uma linha de análise ordinária.
« De momento, devemos ocupar-nos de outras investigações. Decerto não deixou de notar uma extrema negligência no exame do cadáver. É verdade que a questão da identidade foi facilmente resolvida, ou deve tê-lo sido, mas havia outros pontos a verificar. Teria sido o corpo, de algum modo, despojado? Teria a defunta alguns artigos de bijuteria consigo quando saiu de casa? Se tinha, foram esses artigos encontrados no corpo? São perguntas importantes, absolutamente negligenciadas pelo inquérito, e há outras de um valor igual que não atraíram a mínima atenção. Tentaremos responder-lhes através de uma investigação pessoal. O caso de Saint-Eustache necessita ser novamente examinado. Não tenho suspeitas contra esse indivíduo, mas procedamos com método. Verificaremos escrupulosamente a veracidade das atestações referentes aos lugares onde foi visto nesse domingo. Esse género de testemunhos escritos são muitas vezes meios de mistificação. Se nada encontrarmos, poremos Saint Eustache fora de causa. O seu suicídio, se bem que pareça corroborar as suspeitas, caso encontremos qualquer trapaça nos affidavit, não é uma circunstância inexplicável ou que deva fazer-nos desviar de uma linha de análise ordinária.
« No seguimento do que agora lhe proponho, afastaremos os pontos ocultos
do drama e concentraremos a nossa atenção no contorno exterior. Em
investigações deste gênero, comete-se frequentemente o erro de limitar o
inquérito aos fatos imediatos e desprezar absolutamente os factos colaterais ou
acessórios. É a detestável rotina dos tribunais criminais: confinar a instrução e a
discussão ao domínio do relativo aparente. No entanto, a experiência provou, e a
verdadeira filosofia prová-lo-á sempre, que uma vasta parte da verdade, talvez a
mais considerável, brota de elementos aparentemente estranhos à questão. Foi
pelo espírito, se não mesmo pela letra deste princípio, que a ciência moderna
chegou a calcular sobre o imprevisto. Mas talvez não me compreenda? A história
da ciência humana mostra-nos, de uma forma tão contínua, que é aos factos
colaterais, fortuitos e acidentais, que devemos as nossas mais numerosas e mais
preciosas descobertas, que se tornou finalmente necessário, em todo o balanço do
progresso futuro, dar uma parte não só muito grande, mas a maior possível, às
invenções que nascerão do acaso, e que estão completamente fora das previsões
normais. Doravante já não é filosófico ter por base uma visão do que há de ser. O
acidente deve ser admitido como parte da criação. Fazemos do acaso a matéria
para um cálculo rigoroso. Submetemos o inesperado e o inconcebível às
fórmulas matemáticas das escolas.
« Repito: é um fato provado que a melhor parte da verdade nasce do acessório, do indireto; e é conformando-me com simplicidade ao princípio implicado neste facto que gostaria, no caso presente, de desviar a instrução do batido e infrutuoso terreno do acontecimento em si, e levá-la para as circunstâncias contemporâneas que o rodeiam. Enquanto o meu amigo verifica a validade dos affidavit, tratarei de examinar os jornais de um modo mais geral. Até agora, limitámo-nos ao reconhecimento do campo de investigação, mas seria verdadeiramente estranho que um exame compreensivo dos jornais, tal como tenciono fazê-lo, não nos trouxesse quaisquer pequenas informações que servirão para dar uma nova diretriz às averiguações.
De acordo com a ideia de Dupin, fui verificar escrupulosamente os affidavit. O resultado deste exame foi uma firme convicção da sua validade e, consequentemente, da inocência de Saint-Eustache. Ao mesmo tempo, o meu amigo aplicava-se, com uma minúcia que me parecia absolutamente supérflua, ao exame de coleções de diversos jornais. Ao cabo de uma semana, colocou sob os meus olhos os seguintes extratos:
« Repito: é um fato provado que a melhor parte da verdade nasce do acessório, do indireto; e é conformando-me com simplicidade ao princípio implicado neste facto que gostaria, no caso presente, de desviar a instrução do batido e infrutuoso terreno do acontecimento em si, e levá-la para as circunstâncias contemporâneas que o rodeiam. Enquanto o meu amigo verifica a validade dos affidavit, tratarei de examinar os jornais de um modo mais geral. Até agora, limitámo-nos ao reconhecimento do campo de investigação, mas seria verdadeiramente estranho que um exame compreensivo dos jornais, tal como tenciono fazê-lo, não nos trouxesse quaisquer pequenas informações que servirão para dar uma nova diretriz às averiguações.
De acordo com a ideia de Dupin, fui verificar escrupulosamente os affidavit. O resultado deste exame foi uma firme convicção da sua validade e, consequentemente, da inocência de Saint-Eustache. Ao mesmo tempo, o meu amigo aplicava-se, com uma minúcia que me parecia absolutamente supérflua, ao exame de coleções de diversos jornais. Ao cabo de uma semana, colocou sob os meus olhos os seguintes extratos:
a) « Há seis meses, pouco mais ou menos, foi provocada uma emoção semelhante pelo desaparecimento da mesma Marie Roget, da perfumaria do senhor Le Blanc, no Palais Royal. No entanto, ao cabo de uma semana, a jovem reapareceu atrás do seu balcão habitual, com excelente aspeto, se excetuarmos uma leve palidez que lhe cobria as faces. A mãe da jovem e o senhor Le Blanc limitaram-se a declarar que Marie tinha ido visitar quaisquer parentes residentes no campo, e o assunto foi prontamente esquecido. Presumimos que a sua ausência atual é da mesma natureza, e que ao fim de uma semana ou de um mês a veremos voltar ao nosso convívio.» Journal du Soir, segunda-feira, 23 de junho.
b) « Um jornal da tarde, no seu número de ontem, recorda uma primeira e misteriosa ausência da menina Roget. É do conhecimento geral que, durante essa ausência da perfumaria Le Blanc, que durou uma semana, esteve na companhia de um jovem oficial da Marinha, conhecido pelos seus gostos depravados. Uma zanga providencial, ao que se supõe, levou-a a regressar a casa. Sabemos o nome do Lotário em questão, que se encontra atualmente de licença em Paris, mas, por razões facilmente compreensíveis, abstemo-nos de publicá-lo.» Le Mercure, terça-feira, 24 de junho.
c) « Um atentado dos mais odiosos foi cometido nos arredores desta cidade
durante o dia de anteontem. Ao cair da noite, um cavalheiro, com a mulher e a
filha, desejando atravessar o rio, contratou os serviços de seis jovens que
andavam pelo Sena numa lancha, aparentemente sem destino. Chegados à
margem oposta, os três passageiros puseram pé em terra, e tinham-se já
afastado bastante da margem, quando a jovem se apercebeu de que havia
deixado a sua sombrinha na embarcação. Voltou, para reavê-la, mas foi
agarrada pelo bando de energúmenos, transportada para o rio, amordaçada,
terrivelmente maltratada e, finalmente, deposta num ponto da margem não
muito distante daquele onde tinha primitivamente subido para o barco na
companhia dos pais. Os miseráveis escaparam de momento à ação da Polícia,
que todavia lhes anda na pista, e alguns deles não tardarão a ser capturados.»
Journal du Matin, 25 de junho.
d) «Recebemos uma ou duas comunicações que têm como objetivo
imputar a Mennais o odioso crime recentemente cometido. Uma vez, porém, que
este cavalheiro ficou ilibado por um inquérito judiciário, e como os argumentos
do nosso correspondente parecem marcados mais por excitação do que por
sagacidade, não consideramos conveniente publicá-los.» Journal du Matin, 28 de
junho.
e) « Recebemos várias cartas energicamente escritas, que parecem provir
de fontes diversas e afirmam ser um facto consumado que a infortunada Marie
Roget foi vitima de um dos numerosos bandos de energúmenos que infestam, ao
domingo, os arredores da cidade. A nossa própria opinião é decididamente a
favor desta tese. Tentaremos de futuro expor aqui alguns dos argumentos
apresentados.» Journal du Soir, segunda-feira, 30 de junho.
f) « Na segunda-feira, um dos bateleiros afetos ao serviço do fisco viu no
Sena um barco abandonado e vogando ao sabor da corrente. As velas estavam
arriadas no tombadilho. O bateleiro rebocou o barco até junto da delegação das
autoridades fluviais. Na manhã seguinte, verificou-se que este barco fora
desamarrado e desaparecera sem que qualquer dos funcionários o notasse. O
respetivo leme ficou na delegação.» La Diligence, quinta-feira, 26 de junho.
Ao ler estes diferentes extratos, não só me pareceram alheios à questão,
como não me foi possível descobrir qualquer modo de relacioná-los com ela.
Fiquei à espera de uma explicação de Dupin.
— Não é de momento minha intenção — disse-me ele — demorar-me no
exame do primeiro e do segundo desses extratos. Copiei-os, sobretudo, para lhe
mostrar a extrema negligência dos agentes da Polícia, que, a acreditar no
prefeito, não se preocuparam absolutamente nada com o oficial de marinha
mencionado. No entanto, seria loucura afirmar que não temos o direito de supor
uma relação entre a primeira e a segunda ausência de Marie. Admitamos que a
primeira fuga teve como resultado uma zanga entre os dois amantes e o regresso
da jovem traída. Mais do que o resultado de novas propostas por parte de um
segundo indivíduo, podemos considerar um segundo rapto — se soubermos que
houve um segundo rapto — indício de novas tentativas por parte do traidor. Pode
considerar-se esta nova fuga mais como o recomeço do antigo amor do que o
início de um novo. Ou aquele que já uma vez fugira com Marie lhe propôs uma
nova evasão, ou Marie teria aceitado propostas semelhantes feitas por um outro
indivíduo. Mas há duas probabilidades contra uma a favor da primeira suposição.
E aqui permita-me chamar a sua atenção para o facto de o período decorrido
entre a primeira e a segunda evasões ultrapassar poucos meses apenas o período
normal de cruzeiro dos nossos navios de guerra. O amante, interrompido na sua
primeira infâmia pela necessidade de voltar ao mar, aproveitou a primeira
oportunidade, após o regresso, para renovar as vis tentativas, até então não
coroadas de êxito, ou, pelo menos para ele, não absolutamente satisfeitas? Sobre
todas estas coisas nada sabemos.
« Dir-me-á, talvez, que no segundo caso a fuga que supomos não se consumou. Certamente que não. Mas podemos afirmar que não houve uma tentativa falhada? Com exceção de Saint-Eustache, e talvez de Beauvais, não sabemos de nenhuns amantes de Marie reconhecidos, declarados, honestos. Não se falou de qualquer outro. Quem é então o amante secreto de que os parentes — pelo menos na sua maioria — nunca ouviram falar, mas com quem Marie se encontrou no domingo de manhã, e em quem confia tanto que não hesita em ficar com ele até que as sombras da noite comecem a envolver os bosques solitários da barreira do Roule? Quem é, repito, esse amante secreto de que a maioria dos parentes nunca ouviu falar? E que significam estas estranhas palavras da senhora Roget, na manhã do domingo em que Marie desapareceu: Receio nunca mais voltar a vê-la?
« Dir-me-á, talvez, que no segundo caso a fuga que supomos não se consumou. Certamente que não. Mas podemos afirmar que não houve uma tentativa falhada? Com exceção de Saint-Eustache, e talvez de Beauvais, não sabemos de nenhuns amantes de Marie reconhecidos, declarados, honestos. Não se falou de qualquer outro. Quem é então o amante secreto de que os parentes — pelo menos na sua maioria — nunca ouviram falar, mas com quem Marie se encontrou no domingo de manhã, e em quem confia tanto que não hesita em ficar com ele até que as sombras da noite comecem a envolver os bosques solitários da barreira do Roule? Quem é, repito, esse amante secreto de que a maioria dos parentes nunca ouviu falar? E que significam estas estranhas palavras da senhora Roget, na manhã do domingo em que Marie desapareceu: Receio nunca mais voltar a vê-la?
« Ora, mesmo que a senhora Roget não tivesse conhecimento do projeto de
fuga, não poderemos ao menos imaginar que esse projeto foi concebido pela
filha? Ao sair de casa, deu a entender que ia visitar uma tia, residente na Rua
Drômes, e Saint-Eustache foi encarregado de ir buscá-la ao fim da tarde. Ora, à
primeira vista, este facto milita fortemente contra a minha opinião; mas
reflitamos um pouco. Que ela encontrou algum companheiro, que atravessou
com ele o rio e chegou à barreira do Roule a uma hora bastante adiantada, cerca
das três da tarde — tudo isso é sabido. Mas, ao consentir em acompanhar o tal
indivíduo, com qualquer desígnio conhecido ou não da mãe, deve ter pensado na
desculpa dada ao sair de casa, assim como na surpresa e nas suspeitas que
nasceriam no coração do noivo, Saint-Eustache, quando, ao ir buscá-la à Rua
Drômes à hora combinada, lhe fosse dito que ela não tinha aparecido, e quando,
além disso, ao regressar à pensão com esta alarmante notícia, soubesse da sua
prolongada ausência de casa. Deve, repito, ter pensado em tudo isto. Deve ter
previsto o desgosto de Saint-Eustache, as suspeitas de todos os seus amigos. É
possível que lhe tenha faltado a coragem para regressar e enfrentar estas
suspeitas. Mas tais suspeitas deixariam de ter a mínima importância para ela, se
supusermos que a sua intenção inicial era não regressar.
« Podemos imaginar que raciocinou deste modo:
« Tenho um encontro com uma certa pessoa, com o objetivo de fugir com
ela ou com vista a certos outros projetos de que só eu sei. É preciso eliminar toda
a possibilidade de ser surpreendida. É necessário que tenhamos todo o tempo
necessário para iludir qualquer perseguição. Darei a entender que vou visitar a
minha tia e que passarei o dia em sua casa, na Rua Drômes. Direi a Saint
Eustache para só lá ir buscar-me ao fim da tarde. Deste modo, a minha ausência
de casa, prolongada o mais possível sem provocar suspeitas nem inquietação,
poderá explicar-se, e ganharei bastante tempo. Se pedir a Saint-Eustache que vá
buscar-me ao fim da tarde, ele decerto o fará mais cedo, mas, se deixar de
pedir-lhe que vá buscar-me, o tempo de que disporei para a fuga ficará
consideravelmente diminuído, pois esperar-me-ão cedo de regresso. Ora, se
fosse minha intenção regressar, se tivesse em vista um simples passeio com a
pessoa em questão, não seria de boa política pedir a Saint-Eustache que fosse
buscar-me, pois, ao chegar, ele não deixaria de aperceber-se de que tinha sido
enganado, coisa que poderia esconder-lhe indefinidamente saindo de casa sem
dar parte da minha intenção, regressando antes da noite e dizendo então que fui
passar o dia com a minha tia. Mas, uma vez que o meu projeto é não voltar... pelo
menos antes que passem várias semanas ou até que tenha conseguido esconder
certas coisas... a necessidade de ganhar tempo é a única coisa com que devo
inquietar-me.
« Terá observado, nas suas notas, que a opinião geral sobre este triste caso é, e sempre foi, de que a jovem foi vítima de um bando de patifes. Ora, em determinadas condições, a opinião popular não deve ser desdenhada. Quando surge por si mesma, quando se manifesta de um modo absolutamente espontâneo, devemos considerá-la um fenômeno análogo a essa intuição que é a idiossincrasia do homem de gênio. Em noventa por cento dos casos, confiarei nas suas decisões. Mas é muito importante que não se descubram traços palpáveis de uma sugestão exterior. A opinião deve ser rigorosamente o pensamento pessoal do público, e é muitas vezes difícil captar esta distinção e mantê-la. No caso presente, parece-me, a mim, que esta opinião pública, relativa a um bando, foi inspirada pelo acontecimento paralelo e acessório relatado no terceiro dos meus extratos.
« Paris inteira fica excitada pela descoberta do cadáver de Marie, uma jovem bela e conhecida. Este cadáver é encontrado com marcas de violência e flutuando no rio. Mas está agora provado que no mesmo dia em que se supõe ter a jovem sido assassinada, um atentado semelhante ao sofrido pela defunta, ainda que menos sensacional, foi consumado, por um bando de jovens patifes, sobre uma outra jovem. Será de surpreender, se o primeiro atentado conhecido tiver influenciado o julgamento popular relativamente ao outro, ainda obscuro? Este julgamento aguardava uma direção, e o atentado conhecido parecia indicá-la com tanta oportunidade! Também Marie foi encontrada no rio; e foi nesse mesmo rio que o atentado conhecido fora consumado. A conexão dos dois acontecimentos tinha em si qualquer coisa de tão palpável, que seria milagre o povo não a captar e não se apoderar dela. De fato, porém, um atentado cujo processo de execução se torna conhecido, é indício — e o mais seguro — de que o outro, cometido numa época quase coincidente, não foi cometido da mesma maneira. Na verdade, poder-se-ia considerar um espanto se, enquanto um bando de patifes consumava, num dado local, um determinado atentado, um outro bando semelhante, na mesma zona da mesma cidade, nas mesmas circunstâncias, cometesse, com os mesmos meios e os mesmos processos, um crime semelhante, e precisamente na mesma altura! E a que, pergunto-lhe, nos levaria a acreditar a opinião pública, acidentalmente sugerida, senão nesta espantosa série de coincidências?
Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
« Terá observado, nas suas notas, que a opinião geral sobre este triste caso é, e sempre foi, de que a jovem foi vítima de um bando de patifes. Ora, em determinadas condições, a opinião popular não deve ser desdenhada. Quando surge por si mesma, quando se manifesta de um modo absolutamente espontâneo, devemos considerá-la um fenômeno análogo a essa intuição que é a idiossincrasia do homem de gênio. Em noventa por cento dos casos, confiarei nas suas decisões. Mas é muito importante que não se descubram traços palpáveis de uma sugestão exterior. A opinião deve ser rigorosamente o pensamento pessoal do público, e é muitas vezes difícil captar esta distinção e mantê-la. No caso presente, parece-me, a mim, que esta opinião pública, relativa a um bando, foi inspirada pelo acontecimento paralelo e acessório relatado no terceiro dos meus extratos.
« Paris inteira fica excitada pela descoberta do cadáver de Marie, uma jovem bela e conhecida. Este cadáver é encontrado com marcas de violência e flutuando no rio. Mas está agora provado que no mesmo dia em que se supõe ter a jovem sido assassinada, um atentado semelhante ao sofrido pela defunta, ainda que menos sensacional, foi consumado, por um bando de jovens patifes, sobre uma outra jovem. Será de surpreender, se o primeiro atentado conhecido tiver influenciado o julgamento popular relativamente ao outro, ainda obscuro? Este julgamento aguardava uma direção, e o atentado conhecido parecia indicá-la com tanta oportunidade! Também Marie foi encontrada no rio; e foi nesse mesmo rio que o atentado conhecido fora consumado. A conexão dos dois acontecimentos tinha em si qualquer coisa de tão palpável, que seria milagre o povo não a captar e não se apoderar dela. De fato, porém, um atentado cujo processo de execução se torna conhecido, é indício — e o mais seguro — de que o outro, cometido numa época quase coincidente, não foi cometido da mesma maneira. Na verdade, poder-se-ia considerar um espanto se, enquanto um bando de patifes consumava, num dado local, um determinado atentado, um outro bando semelhante, na mesma zona da mesma cidade, nas mesmas circunstâncias, cometesse, com os mesmos meios e os mesmos processos, um crime semelhante, e precisamente na mesma altura! E a que, pergunto-lhe, nos levaria a acreditar a opinião pública, acidentalmente sugerida, senão nesta espantosa série de coincidências?
continua na página 481...
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O Mistério de Marie Roget (e) /
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.