sexta-feira, 24 de abril de 2026

Moby Dick: 58 - Brit

Moby Dick

Herman Melville

58 - Brit
     Rumando a nordeste das ilhas Crozet enredamo-nos em vastas pradarias de brit, a minúscula, amarela substância de que a Baleia Franca fartamente se nutre. Por léguas e mais léguas, aquilo ondulou à nossa volta, de modo que parecíamos estar navegando através de ilimitados campos de trigo maduro e dourado.
     No segundo dia, avistamos um grande número de Baleias Francas, as quais, a salvo de serem atacadas por um navio de pesca de Cachalotes como o Pequod, boquiabertas nadavam indolentemente através do brit, que, aderindo às bordas fibrosas das impressionantes venezianas que têm nas bocas, era assim separado da água que lhes escapava pelos lábios.
     Como ceifeiros matutinos, que lado a lado avançam suas foices, lenta e tempestuosamente, através da relva sempre úmida das campinas alagadiças; assim também esses monstros nadavam, fazendo um som estranho, de capim, de corte; e deixando atrás de si um sem-fim de gavelas azuis no mar amarelo.{a}
 
{a} Aquela parte do mar conhecida pelos baleeiros como “Bancos do Brasil” não tinha esse nome, como os bancos de Newfoundland, por haver ali rasos e baixios, mas devido ao seu aspecto notável de campina, causado pelas vastas borras de brit que flutuam constantemente nas latitudes onde se caça com frequência a Baleia Franca. [N. A.]

     Mas era apenas o barulho que faziam ao atravessar o brit que lembrava a ceifa. Vistas dos topos dos mastros, especialmente quando faziam uma pausa e ficavam estáticas por algum tempo, suas imensas formas negras se pareciam mais com massas rochosas sem vida do que qualquer outra coisa. E, como nas regiões importantes de caça da Índia, o forasteiro nas planícies por vezes passa ao largo de elefantes em decúbito sem sabê-lo, tomando-os por elevações nuas e enegrecidas do solo; o mesmo sucede, muitas vezes, com aquele que pela primeira vez contempla esta espécie de Leviatãs do mar. E mesmo quando são, por fim, reconhecidos, sua imensa magnitude torna muito difícil acreditar que tais massas tão volumosas de gigantismo possam estar repletas em todas as suas partes do mesmo tipo de vida que vive num cão ou cavalo.
     De fato, sob outros aspectos, mal se pode considerar qualquer criatura das profundezas com os mesmos sentimentos que se votam às da terra. Pois ainda que alguns velhos naturalistas tenham sustentado que todas as criaturas da terra possuem correspondentes entre as do mar; e ainda que de um ponto de vista geral isso possa ser verdade; contudo, chegando às particularidades, onde, por exemplo, o oceano apresenta algum peixe cuja disposição corresponde à bondade sagaz do cão? Apenas do amaldiçoado tubarão pode-se dizer que em termos genéricos guarde alguma analogia com ele.
     Mas embora, para os homens da terra em geral, os habitantes nativos dos mares sempre tenham sido considerados com emoções indizivelmente antissociáveis e repulsivas; embora saibamos que o mar é uma eterna terra incógnita, que Colombo navegou sobre inúmeros mundos desconhecidos para descobrir o seu único, superficial e ocidental; embora, com larga margem, os mais terríveis de todos os desastres mortais, imemorial e indiscriminadamente, tenham ocorrido a dezenas e centenas de milhares daqueles que se fizeram ao mar; embora um só momento de consideração nos ensinasse que, por mais que se vanglorie o homem infantil de sua ciência e capacidade, e por mais que num incensado futuro essa ciência e capacidade possam vir a crescer; no entanto, para todo o sempre, até o fim dos tempos, o mar o ofenderá e o assassinará, e pulverizará a mais imponente e sólida fragata que ele possa fazer; contudo, pela repetição contínua dessas mesmas impressões, o homem perdeu aquele senso do pleno temor do mar que originalmente ao mar pertence.
     O primeiro barco de que lemos notícia flutuou num oceano que, em vingança digna de um Português, inundou um mundo inteiro sem nem deixar sequer uma viúva. Aquele mesmo oceano se agita agora; aquele mesmo oceano destruiu os navios naufragados do ano passado. Sim, mortais insensatos, o dilúvio de Noé ainda não cessou; dois terços do belo mundo ele ainda cobre.
     Em que diferem o mar e a terra, que um milagre naquele não é um milagre nesta outra? Terrores preternaturais acometeram os Hebreus, quando sob os pés de Coré e seus companheiros o chão vivo se abriu e os engoliu para sempre; contudo nenhum sol moderno jamais se põe sem que, precisamente da mesma maneira, o mar vivo engula navios e tripulações.
     Mas o mar não é esse adversário apenas do homem que o desconhece, mas é também inimigo de suas próprias crias; pior do que o anfitrião Persa que assassinou os seus convidados; não poupa as criaturas que ele mesmo desova. Como uma tigresa selvagem que abalada na selva esmaga os próprios filhotes, assim também o mar atira até mesmo as baleias mais poderosas contra os rochedos, e as deixa lado a lado com os vestígios dos naufrágios dos navios. Nem misericórdia, nem força nenhuma senão a do próprio mar o governa. Arquejando e resfolegando como um louco corcel de batalha que perdeu o seu cavaleiro, o oceano sem dono transborda o globo.
     Considere a sutileza do mar; como as suas criaturas mais temidas deslizam sob as águas, invisíveis na maior parte, e traiçoeiramente ocultas sob os matizes mais encantadores do azul. Considere também o brilho e a beleza diabólica de muitas de suas tribos sem piedade, como a forma delicadamente adornada de muitas espécies de tubarões. Considere, uma vez mais, o canibalismo universal do mar; cujas criaturas todas se devoram umas às outras, continuando a guerra eterna desde o início do mundo.
     Considere tudo isso; e então se volte para esta terra tão verde, suave e dócil; ambos considere, o mar e a terra; e você não acha que existe uma analogia estranha com algo dentro de você? Pois, tal como o oceano aterrador cerca a terra verdejante, também na alma do homem há um Taiti insular, cheio de paz e alegria, mas rodeado por todos os horrores da metade desconhecida da vida. Deus te proteja! Não te afastes dessa ilha, poderás não mais voltar!

Continua na página 265...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
57 - Das baleias pintadas a óleo / 58 - Brit /              
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

MPB: Aos Nossos Filhos

Elis Regina


eu sempre que volto e escuto aqui...
fico aos prantos, os dias eram assim me perdoem,
os dias eram assim
dias de cara amarrada
e quando passarem a limpo façam a festa por mim! lavem a alma e a água
e quando colherem os frutos digam o gosto pra mim






Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim

Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim

Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim

E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim

Quando lavarem a mágoa
Quando lavarem a alma
Quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim

Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim
Digam o gosto pra mim

Compositores: Ivan Lins e Vitor Martins


Aos Nossos Pais





Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida de qualquer pessoa

Por isso, cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram
E o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade, não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração

Já faz tempo, eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
E nós somos os mesmos e vivemos como os nossos pais

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo
Tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

Compositores: Antônio Carlos Belchior


Elis Regina se emociona na antológica interpretação de 'Atrás da Porta', de 'Chico Buarque'






Ah1 tem essa declaração aqui... também do Chico Buarque! Tatuagem... lembram?





Quando O Amor Acontece / Aos Nossos Filhos /         
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quando caminho pela rua lado a lado com você...
e quando escuto o som alegre do seu riso que me dá tanta alegria...





quinta-feira, 23 de abril de 2026

Cinema: Morangos Silvestres

Ingmar Bergman


''Quando fico preocupado ou triste, tento relaxar com as lembranças da minha infância, foi o que fiz essa noite''.

Morangos Silvestres é um clássico sueco de 1957 dirigido por Ingmar Bergman, que acompanha o professor idoso Isak Borg em uma viagem reflexiva sobre a vida e a existência. O elenco inclui Victor Sjöström, no que seria sua última aparição em um filme, como o personagem principal, e vários atores que são recorrentes nos filmes de Bergman, como Bibi Andersson, Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand e Max von Sydow. O cineasta escreveu o roteiro logo após a estreia de O Sétimo Selo (1957) enquanto estava hospitalizado em Estocolmo. O título original, em sueco, refere-se ao lugar (stället) onde se encontram morangos silvestres (smultron).



Para ver o filme clique AQUI.





"O Dr. Isak Borg (Victor Sjöström) é um professor idoso que aos 78 anos deve frequentar a Universidade de Lund para a celebração da sua nomeação com o doutor honoris causa. Na noite anterior à sua partida, o professor sofre um pesadelo em que se perde em um bairro deserto, onde encontra um carro fúnebre puxado a cavalo colidindo com um poste de luz. O veículo carrega um corpo que se parece com o de Isak, que estende a mão para segurar seu sósia, o que causa o fim do sonho. Ao acordar acordado, Borg decide fazer a viagem de carro em vez de avião, como sua governanta, Agda (Jullan Kindahl), havia combinado fazendo ambos brigarem. A esposa de seu filho Evald; Marianne (Ingrid Thulin); morava com ele há algumas semanas, decide acompanhá-lo até Lund."


Direção:
Ingmar Bergman

Roteirista:
Ingmar Bergman

Elenco:
Victor Sjöström - Dr. Eberhard Isak Borg
Bibi Andersson - Sara/Hitchhiker
Ingrid Thulin - Marianne Borg
Gunnar Björnstrand - Dr. Evald Borg
Jullan Kindahl - Agda
Folke Sundquist - Anders
Björn Bjelfvenstam - Viktor
Naima Wifstrand - Mrs. Borg - Mãe de Isak
Gunnel Broström - Berit Alman
Gertrud Fridh - Karin Borg - Esposa de Isak
Sif Ruud - Tia Olga
Gunnar Sjöberg - Sten Alman/O Examinador
Max von Sydow - Henrik Åkerman
Åke Fridell - Amante de Karin
Yngve Nordwall - Tio Aron
Per Sjöstrand - Sigfrid Borg
Gio Petré - Sigbritt Borg
Gunnel Lindblom - Charlotta Borg
Maud Hansson - Angelica Borg
Ann-Marie Wiman - Eva Åkerman
Eva Möller - Anna Borg
Lena Bergman - Kristina Borg
Monica Ehrling - Birgitta Borg
Else Fisher - Isak Borg's Mother
Peder Hellman - O Bebê de Sigbritt (não creditado)
Ulf Johansson - Mr. Borg - pai de Isak (não creditado)
Göran Lundquist - Benjamin Borg (não creditado)
Josef Norman - Professor Tiger (não creditado)
Gunnar Olsson - Bishop (não creditado)
Vendela Rudbäck - Elisabeth - Mrs. Borg's Housemaid (não creditado)
Per Skogsberg - Hagbart Borg (não creditado)
Helge Wulff - O Gerente (não creditado)


Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres /      


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Um clássico do cinema





Espumas Flutuantes - O coração

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O CORAÇÃO
  
O coração é o colibri dourado 
 Das veigas puras do jardim do céu. 
 Um — tem o mel da granadilha agreste, 
 Bebe os perfumes, que a bonina deu. 

O outro — voa em mais virentes balsas, 
 Pousa de um riso na rubente flor. 
 Vive do mel — a que se chama — crenças —, 
 Vive do aroma — que se diz — amor. — 

 Recife, 1865 


MURMÚRIOS DA TARDE 
Écoute! tout se tait; songe à ta bien aimée, 
 Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée, 
 Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux; 
 Ce soir, tout va fleurir: l’immortelle nature 
 Se remplit de parfums, d’amour et de murmure, 
 Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.¹ 
 Alfred de Musset Rosa! 

Rosa de amor purpúrea e bela. 
 Garrett 

Ontem à tarde, quando o sol morria, 
 A natureza era um poema santo. 
 De cada moita a escuridão saía, 
 De cada gruta rebentava um canto, 
 Ontem à tarde, quando o sol morria. 

Do céu azul na profundeza escura 
 Brilhava a estrela, como um fruto louro, 
 E qual a foice, que no chão fulgura, 
 Mostrava a lua o semicírc’lo d’ouro, 
 Do céu azul na profundeza escura. 

Larga harmonia embalsamava os ares! 
 Cantava o ninho — suspirava o lago... 
 E a verde pluma dos sutis palmares 
 Tinha das ondas o murmúrio vago... 
 Larga harmonia embalsamava os ares. 

Era dos seres a harmonia imensa 
 Vago concerto de saudade infinda! 
 “Sol — não me deixes” diz a vaga extensa. 
 “Aura — não fujas” diz a flor mais linda; 
 Era dos seres a harmonia imensa! 

“Leva-me! leva-me em teu seio amigo” 
 Dizia às nuvens o choroso orvalho, 
 “Rola que foges” diz o ninho antigo, 
 “Leva-me ainda para um novo galho... 
 “Leva-me! leva-me em teu seio amigo.” 

“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!” 
 “Inda um calor, antes que chegue o frio...
” E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio... 
 “Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!” 

E tu no entanto no jardim vagavas, 
 Rosa de amor, celestial Maria... 
 Ai! como esquiva sobre o chão pisavas, 
 Ai! como alegre a tua boca ria... 
 E tu no entanto no jardim vagavas. 

Eras a estrela transformada em virgem! 
 Eras um anjo, que se fez menina! 
 Tinhas das aves a celeste origem. 
 Tinhas da lua a palidez divina, 
 Eras a estrela transformada em virgem! 

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto. 
 Que bela rosa! que fragrância meiga! 
 Dir-se-ia um riso no jardim aberto, 
 Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga... 
 Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!... 

E eu, que escutava o conversar das flores, 
 Ouvi, que a rosa murmurava ardente: 
 “Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores, 
 “Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...” 
 E eu escutava o conversar das flores. 

“Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!” 
 Também então eu murmurei cismando... 
 “Minh’alma é rosa, que a geada esfria... 
 “Dá-lhe em teus seios um asilo brando... 
 “Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!...” 

 Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869 


[1] Escuta! Tudo está em silêncio; pensa em teu amado,
     Esta noite, sob as tílias, no dossel sombrio,
     O raio do sol poente deixa uma despedida mais doce;
     Esta noite, tudo florescerá: a natureza imortal
     Enche-se de perfumes, amor e murmúrios,
     Como o leito alegre de dois jovens esposos.


continua pag 52...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração /               
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL


     Se a toalete tem, para muitas mulheres, importância tão considerável é porque ela lhes entrega ilusoriamente, e ao mesmo tempo, o mundo e seu próprio eu. Um romance alemão, A Moça em Seda Artificial, de I. Keun, conta a paixão de uma moça pobre por um casaco de petigris; aprecia-lhe com sensualidade o calor acariciante, a ternura forrada; sob as peles preciosas é a si própria transfigurada que ama; possui enfim a beleza do mundo que nunca abraçara e o destino radioso que nunca fora o seu.

   E eis que vi um casaco suspenso a um gancho, uma pele tão mole, tão doce, tão terna, tão cinzenta, tão tímida; tinha vontade de beijá-la, a tal ponto a amava. Ela tinha um ar de consolo e de Todos os Santos e de segurança completa, como um céu. Era um petigris verdadeiro. Silenciosamente tirei o impermeável e enverguei o petigris. Essa pele era como um diamante para minha pele que a amava e o que se ama não se devolve quando se tem. Por dentro, um forro de crepe marroquino, pura seda, com bordados a mão. O casaco envolvia-me e falava mais do que eu ao coração de Hubert.. . Fico tão elegante com essa pele. É como um homem raro, que me tornaria preciosa através de seu amor por mim. Esse casaco me quer e eu o quero: nós nos possuímos.

     Sendo a mulher um objeto, compreende-se que a maneira pela qual se enfeita e se veste modifica seu valor intrínseco. Já não é mais pura futilidade se dá tamanha importância à meia de seda, às luvas, ao chapéu: sustentar sua posição é uma obrigação imperiosa. Nos Estados Unidos, uma enorme parte do orçamento da trabalhadora é consagrada aos cuidados com a beleza e os vestidos; na França, esse fardo é menos pesado; entretanto, a mulher é tanto mais respeitada quanto melhor "representa". Quanto maior sua necessidade de achar trabalho, mais lhe é útil ter um aspecto confortável: a elegância é uma arma, um cartaz, um motivo de respeito, uma carta de recomendação.
     É uma servidão; os valores que conferem, pagam-se; pagam-se tão caro que, por vezes, um inspetor de polícia surpreende nas grandes lojas uma mulher da sociedade ou uma atriz roubando perfumes, meias de seda, roupa branca. É para se vestir que muitas mulheres se prostituem ou arranjam quem "as ajude"''; e a toaleíe que lhes determina as necessidades de dinheiro. Andar bem vestida reclama também tempo e cuidados; é uma tarefa que é, por vezes, fonte de alegrias positivas: neste terreno também há descoberta de "tesouros escondidos", pechinchas, ardis, combinações, invenção; hábil, pode a mulher tornar-se até criadora. Os dias de exposição, de liquidações principalmente, são aventuras frenéticas. Um vestido novo é por si só uma festa. A maquilagem, o penteado são o sucedâneo de uma obra de arte. Hoje, mais do que outrora, a mulher conhece a alegria de modelar o corpo pelos esportes [1], a ginástica, os banhos, as massagens, os regimes; ela decide de seu peso, de sua linha, da cor de sua pele; a estética moderna permite-lhe integrar qualidades ativas em sua beleza: tem o direito a músculos exercitados, impede a invasão da gordura; na cultura física ela se afirma como uma pessoa; há, para ela, uma espécie de libertação da carne contingente; mas essa libertação retorna facilmente à dependência. A "estrela" de Hollywood triunfa sobre a natureza, mas reencontra-se como objeto passivo nas mãos do produtor.

[1] Parece entretanto, segundo inquéritos recentes, que na França os ginásios femininos se acham hoje quase desertos; foi principalmente em 1920-1940 que as francesas se entregaram à cultura física. Atualmente as dificuldades caseiras pesam demais sobre elas.

     Ao lado dessas vitórias em que a mulher pode com razão comprazer-se, o coquetismo implica — como os cuidados caseiros — uma luta contra o tempo; pois seu corpo é também um objeto que a duração rói. Colette Audry descreve esse combate simétrico desse corpo que, em sua casa, a mulher entrega à poeira (On joue perdant).

   Já não era mais a carne compacta da mocidade; ao longo dos braços e das coxas o desenho dos músculos acentuava-se sob a camada de gordura e de pele um pouco distendida. Inquieta, ela modificou novamente o emprego do tempo: o dia começaria com uma hora de ginástica e à noite, antes de se deitar, haveria um quarto de hora de massagem. Pôs-se a consultar manuais de medicina, jornais de modas, a controlar a cintura. Preparou sucos de frutas, purgou-se de quando em quando, lavou a louça com luvas de borracha. Suas duas preocupações fizeram-se uma só: rejuvenescer tão bem o corpo, polir tão bem a casa que chegaria, um dia, a um período de calma absoluta, a uma espécie de ponto morto... O mundo estaria parado, suspenso fora do envelhecimento e do desgaste... Tomava agora na piscina verdadeiras lições para melhorar o estilo e as revistas de beleza mantinham-na numa expectativa inquieta com receitas indefinidamente renovadas. Ginger Rogers confia-nos: "Dou, todas as manhãs, cem escovadelas em mim mesma, leva exatamente dois minutos e meio e tenho cabelos de seda". .. Como adelgaçar os tornozelos? Erga-se todos os dias trinta vezes nas pontas dos pés sem apoiar os calcanhares, o exercício exige apenas um minuto; que é um minuto por dia? De outra feita, era o banho de óleo para as unhas, o creme de limão para as mãos, morangos esmagados para as faces.

     Também aqui a rotina transforma em corveias os cuidados com a beleza, o trato das roupas e vestidos. O horror à degradação, que todo vir a ser vivo acarreta, suscita em certas mulheres frias ou frustradas o horror à própria vida: elas procuram conservar-se como outras conservam os móveis e as geleias; essa obstinação negativa torna-as inimigas de sua própria existência e hostis a outrem: as boas refeições deformam a linha, o vinho estraga a tez, sorrir demais enruga o rosto, o sol mancha a pele, o repouso engorda, o trabalho desgasta, o amor dá olheiras, os beijos inflamam as faces, as carícias deformam os seios, os abraços fazem a pele murchar, maternidade enfeia o rosto e o corpo; sabe-se quantas mães afastam com raiva o filho maravilhado com o vestido de baile. "Não me toques, estás com as mãos suadas, vais sujar-me"; a coquete opõe as mesmas advertências às atenções do marido ou do amante. Assim como se cobrem os móveis com capas de pano, ela gostaria de se subtrair aos homens, ao mundo, ao tempo. Mas todas essas precauções não impedem o aparecimento de cabelos brancos, de pés-de-galinha. Desde a mocidade, a mulher sabe que esse destino é inelutável. E apesar de toda a sua prudência, é vítima de acidentes: uma gota de vinho cai no vestido, um cigarro queima-o; então desaparece a criatura de luxo e festa que se pavoneava sorridente no salão: seu rosto toma o ar sério e duro da dona de casa; descobre-se repentinamente que sua toalete não era uma girândola, um fogo de artifício, um esplendor gratuito e perecível destinado a iluminar generosamente um instante: é uma riqueza, um capital, um investimento; custou sacrifícios, sua perda é um desastre irreparável. Manchas, rasgões, vestidos falhados, permanentes mal feitas são catástrofes ainda mais graves do que um assado queimado ou um vaso quebrado: porque a coquete não se alienou somente nas coisas, ela se quis coisa, e é sem intermediário que se sente em perigo no mundo. As relações que mantém com a costureira e a modista, suas impaciências, suas exigências revelam seu espírito de seriedade e de insegurança. O vestido bem feito cria nela a personagem de seu sonho; mas numa toalete sem viço, falhada, ela sente-se degradada.

   Do vestido dependia meu humor, minha atitude, a expressão de meu rosto, tudo. . . escreve Maria Bashkirtseff. E ainda: Ou cumpre passear nua ou vestir-se de acordo com o físico, o gosto e o caráter. Quando não me acho nessas condições, sinto-me desajeitada, vulgar e, por conseguinte, humilhada. Que acontece ao humor e ao espírito? Pensam nos trapos e a gente fica tola, aborrecida, não sabe onde se enfiar.

     Muitas mulheres preferem renunciar a uma festa a se apresentarem mal vestidas, ainda que não devam ser notadas.
     Entretanto, embora algumas afirmem: "Eu me visto só para mim mesma, vimos que o olhar de outrem se acha implicado no narcisismo. É quase que somente nos hospícios que as coquetes nutrem obstinadamente uma fé total em olhares ausentes; normalmente, elas reclamam testemunhas.

   Gostaria de agradar, que dissessem que sou bela e que Liova o visse e ouvisse... Para que serviria ser bela? Meu encantador pequeno Petia gosta de sua velha "niannia" como se amasse uma beleza e Liovotchka se teria acostumado ao rosto mais horrível... Tenho vontade de ondular meus cabelos. Ninguém o saberá_ mas nem por isso será menos delicioso. Que necessidade tenho de que me vejam? As fitas e os laços me agradam, gostaria de ter um novo cinto de couro e agora que escrevi isto tenho vontade de chorar, escreve Sofia Tolstoi, depois de dez anos de casada.

     O marido desobriga-se mal do que a mulher espera dele. Suas exigências são dúplices. Se a mulher é demasiado atraente, ele tem ciúme; entretanto, todo marido é mais ou menos o Rei Candaule; quer orgulhar-se da mulher; quer que seja elegante, bonita, "bem" pelo menos; sem o quê, dir-lhe-á agastado as palavras do Pai Ubu: "Estás bem feia, hoje! Será porque temos visitas?" No casamento, já o vimos, os valores eróticos e sociais conciliam-se mal. Esse antagonismo reflete-se aqui. A mulher que acentua seu encanto sexual conduz-se mal aos olhos do marido; ele censura ousadias que o seduziram numa estranha e essa censura mata nele todo desejo; se a mulher se veste com decência, ele a aprova, mas com frieza: não a acha bastante atraente e como que lhe censura de modo vago. Por causa disso, olha-a raramente por sua própria conta, é através de olhos alheios que a inspeciona. "Que dirão dela?" Prevê mal, porque atribui a outrem sua perspectiva de marido. Nada mais irritante para uma mulher do que o ver apreciar numa outra as atitudes que critica nela. Espontaneamente, de resto, está próximo demais dela para vê-la; ela tem para ele uma fisionomia imutável; ele não nota nem as novas toaletes nem as mudanças de penteado. Mesmo um marido amoroso ou um amante apaixonado são indiferentes à toalete da mulher. Se a amam ardentemente em sua nudez, os mais belos adornos não fazem senão mascará-la; eles a amarão malvestida, cansada tanto quanto brilhante. Se não mais a amam, os mais lisonjeiros vestidos serão sem promessas. A toalete pode ser um instrumento de conquista, mas não uma arma defensiva; sua arte consiste em criar miragens, oferece ao olhar um objeto imaginário: no amplexo carnal, na convivência quotidiana, toda miragem se dissipa; os sentimentos conjugais, como o amor físico, situam-se no terreno da realidade. Não é para o homem amado que a mulher se veste. Dorothy Parker, em uma de suas novelas, The lovely leave, descreve uma jovem mulher que, esperando com impaciência o marido que chega de licença, resolve fazer-se bela para recebê-lo: 

   Comprou um vestido novo; preto; êle gostava de vestidos pretos; simples, ele gostava de vestidos simples; e tão caro que não queria pensar no preço. . . 
— ... Gostas de meu vestido? 
— Sim! — disse ele. — Sempre gostei de você com esse vestido. 
   Foi como se ela se tivesse transformado num pedaço de pau. 
— Este vestido — respondeu ela, articulando com uma nitidez insultante — é novo em folha. Nunca o usei. Caso te interesse, comprei-o de propósito para esta circunstância. 
— Desculpa, querida. Naturalmente, vejo agora que não se assemelha absolutamente ao outro; é magnífico; gosto de você sempre de preto. 
— Em momentos como este — disse ela — quase desejo ter outro motivo para me vestir de preto. 

continua página 305...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (2)   
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"