sábado, 25 de abril de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1


1.
     Era um dia frio e luminoso de abril, e os relógios davam treze horas. Winston Smith, queixo enfiado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.
     O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a velhos capachos de pano trançado. Numa das extremidades, um pôster colorido, grande demais para ambientes fechados, estava pregado na parede. Mostrava simplesmente um rosto enorme, com mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis. Winston avançou para a escada. Não adiantava tentar o elevador. Mesmo quando tudo ia bem, era raro que funcionasse, e agora a eletricidade permanecia cortada enquanto houvesse luz natural. Era parte do esforço de economia durante os preparativos para a Semana do Ódio. O apartamento ficava no sétimo andar e Winston, com seus trinta e nove anos e sua úlcera varicosa acima do tornozelo direito, subiu devagar, parando para descansar várias vezes durante o trajeto. Em todos os patamares, diante da porta do elevador, o pôster com o rosto enorme fitava-o da parede. Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.
     No interior do apartamento, uma voz agradável lia alto uma relação de cifras que de alguma forma dizia respeito à produção de ferro-gusa. A voz saía de uma placa oblonga de metal semelhante a um espelho fosco, integrada à superfície da parede da direita. Winston girou um interruptor e a voz diminuiu um pouco, embora as palavras continuassem inteligíveis. O volume do instrumento (chamava-se teletela) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. Winston foi para junto da janela: o macacão azul usado como uniforme do Partido não fazia mais que enfatizar a magreza de seu corpo frágil, miúdo. Seu cabelo era muito claro, o rosto naturalmente sanguíneo, a pele áspera por causa do sabão ordinário, das navalhas cegas e do frio do inverno que pouco antes chegara ao fim.
     Fora, mesmo visto através da vidraça fechada, o mundo parecia frio. Lá embaixo, na rua, pequenos rodamoinhos de vento formavam espirais de poeira e papel picado e, embora o sol brilhasse e o céu fosse de um azul áspero, a impressão que se tinha era de que não havia cor em coisa alguma a não ser nos pôsteres colados por toda parte. Não havia lugar de destaque que não ostentasse aquele rosto de bigode negro a olhar para baixo. Na fachada da casa logo do outro lado da rua, via-se um deles. o GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, enquanto os olhos escuros pareciam perfurar os de Winston. Embaixo, no nível da rua, outro pôster, esse com um dos cantos rasgado, adejava operosamente ao vento, ora encobrindo, ora expondo uma palavra solitária: Socing. Ao longe, um helicóptero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula e voltou a afastar-se a grande velocidade, fazendo uma curva. Era a patrulha policial, bisbilhotando pelas janelas das pessoas. As patrulhas, contudo, não eram um problema. O único problema era a Polícia das Ideias.
     Por trás de Winston, a voz da teletela continuava sua lenga-lenga infinita sobre o ferro-gusa e o total cumprimento — com folga — das metas do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Todo som produzido por Winston que ultrapassasse o nível de um sussurro muito discreto seria captado por ela; mais: enquanto Winston permanecesse no campo de visão enquadrado pela placa de metal, além de ouvido também poderia ser visto. Claro, não havia como saber se você estava sendo observado num momento específico. Tentar adivinhar o sistema utilizado pela Polícia das Ideias para conectar-se a cada aparelho individual ou a frequência com que o fazia não passava de especulação. Era possível inclusive que ela controlasse todo mundo o tempo todo. Fosse como fosse, uma coisa era certa: tinha meios de conectar-se a seu aparelho sempre que quisesse. Você era obrigado a viver — e vivia, em decorrência do hábito transformado em instinto — acreditando que todo som que fizesse seria ouvido e, se a escuridão não fosse completa, todo movimento examinado meticulosamente.
     Winston mantinha as costas voltadas para a teletela. Era mais seguro; contudo, como sabia muito bem, mesmo as costas de uma pessoa podem ser reveladoras. A um quilômetro de distância, o Ministério da Verdade, onde ele trabalhava, erguia-se vasto e branco por sobre a paisagem encardida. Aquela, pensou com uma espécie de contrariedade difusa, aquela era Londres, principal cidade da Faixa Aérea Um, terceira mais populosa das províncias da Oceania. Tentou localizar alguma lembrança de infância que lhe dissesse se Londres sempre fora assim. Será que sempre houvera aquele cenário de casas do século XIX caindo aos pedaços, paredes laterais escoradas com vigas de madeira, janelas remendadas com papelão, telhados reforçados com chapas de ferro corrugado, decrépitos muros de jardins adernando em todas as direções? E os lugares bombardeados, onde o pó de gesso dançava no ar e a salgueirinha crescia e se espalhava sobre as pilhas de entulho? E os locais onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e onde tinham brotado colônias sórdidas de cabanas de madeira que mais pareciam galinheiros? Não adiantava, ele não conseguia se lembrar. Tudo o que lhe ficara da infância era uma série de tableaux superiluminados, desprovidos de paisagem de fundo e quase sempre ininteligíveis.
     O Ministério da Verdade — Miniver, em Novafala* — era extraordinariamente diferente de todos os outros objetos à vista. Era uma enorme estrutura piramidal de concreto branco cintilante, erguendo-se, terraço após terraço, trezentos metros espaço acima. Do lugar onde Winston estava mal dava para ler, escarvados na parede branca em letras elegantes, os três slogans do Partido:

GUERRA É PAZ 
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO 
IGNORÂNCIA É FORÇA 

     Comentava-se que o Ministério da Verdade continha três mil salas acima do nível do solo e ramificações equivalentes abaixo. Em Londres havia somente três outros edifícios de aparência e dimensões equivalentes. Eles tinham o efeito de reduzir tão drasticamente a arquitetura circundante que do telhado das Mansões Victory era possível avistar os quatro ao mesmo tempo. Eram as sedes dos quatro ministérios entre os quais se dividia a totalidade do aparato governamental. O Ministério da Verdade, responsável por notícias, entretenimento, educação e belas-artes. O Ministério da Paz, responsável pela guerra. O Ministério do Amor, ao qual cabia manter a lei e a ordem. E o Ministério da Pujança, responsável pelas questões econômicas. Seus nomes, em Novafala: Miniver, Minipaz, Minamor e Minipuja.
     Desses, o realmente apavorante era o Ministério do Amor. O edifício não tinha nenhuma janela. Winston nunca entrara no Ministério do Amor, nunca chegara nem a meio quilômetro de distância. Era impossível entrar no prédio sem uma justificativa oficial, e mesmo nesses casos só transpondo um labirinto de novelos de arame farpado, portas de aço e ninhos ocultos de metralhadora. Mesmo as ruas que levavam até as barreiras externas eram percorridas por guardas com cara de gorila vestindo fardas negras e armados de cassetetes articulados.
     Winston virou-se abruptamente. Compusera a própria fisionomia de modo a ostentar a expressão de tranquilo otimismo que convinha ter no rosto sempre que se encarasse a teletela. Atravessou a sala e entrou na minúscula cozinha. Para poder sair do Ministério naquele horário, sacrificara o almoço na cantina; sabia que o único alimento existente na cozinha era um naco de pão escuro que só seria consumido no café da manhã do dia seguinte. Tirou da prateleira uma garrafa de líquido incolor com uma simples etiqueta branca onde se lia GIM VICTORY. A bebida exalava um odor oleoso enjoativo semelhante ao da aguardente de arroz dos chineses. Winston serviu-se de pouco menos de uma xícara de chá, preparou-se para o impacto e engoliu o líquido como quem toma uma dose de remédio.
     No mesmo instante seu rosto ficou rubro e lágrimas começaram a escorrer-lhe dos olhos. A substância parecia ácido nítrico e ao engoli-la a pessoa tinha a sensação de receber um golpe de cassetete na nuca. Logo em seguida, porém, a ardência no ventre esmoreceu e o mundo começou a parecer mais prazeroso. Tirou um cigarro de um maço amarrotado onde estava escrito CIGARROS VICTORY e imprudentemente segurou-o na vertical, o que fez com que o recheio de tabaco caísse ao chão. Na tentativa seguinte teve mais sorte. Voltou para a sala de estar e sentou-se junto a uma mesinha que ficava à esquerda da teletela. Abriu a gaveta da mesa e tirou um porta-penas, um vidro de tinta e um caderno grosso, formato in quarto, sem nada escrito, de lombada vermelha e capa marmorizada.
     Por alguma razão, a teletela da sala de estar ocupava uma posição atípica. Em vez de estar instalada, como de hábito, na parede do fundo, de onde podia controlar a sala inteira, ficava na parede mais longa, oposta à janela. Em um de seus lados havia uma reentrância pouco profunda na qual Winston estava agora instalado e que na época da construção dos apartamentos provavelmente se destinava a abrigar uma estante de livros. Sentando-se na reentrância e permanecendo bem ao fundo, Winston conseguia ficar fora do alcance da teletela, pelo menos no que dizia respeito à visão. Podia ser ouvido, claro, mas enquanto se mantivesse naquela posição não podia ser visto. Em parte fora a topografia pouco usual do aposento que lhe dera a ideia de fazer a coisa que estava prestes a fazer.
     Mas essa coisa também lhe fora sugerida pelo caderno que acabara de tirar da gaveta. Era um caderno singularmente bonito. Seu papel acetinado, cor de creme, um pouco amarelecido pela idade, era de um tipo que já não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Dava para imaginar, porém, que o caderno era muito mais velho do que isso. Vira-o exposto na vitrine de uma lojinha de badulaques desmazelada de um setor miserável da cidade (qual setor, exatamente, já não se recordava) e fora no mesmo instante tomado pelo desejo avassalador de possuí-lo. Supunha-se que os membros do Partido não frequentassem estabelecimentos comerciais comuns (“dedicados ao livre comércio”, diziam), mas a regra não era obedecida com rigor porque havia diversas coisas, por exemplo cadarço de sapato e lâmina de barbear, impossíveis de serem obtidas de outra forma. Depois de olhar rapidamente para os dois lados da rua, Winston se enfiara na loja e comprara o caderno por dois dólares e meio. Na ocasião, não tinha consciência de querê-lo para alguma coisa específica. Cheio de culpa, levara-o para casa dentro da pasta. Mesmo sem nada escrito nele, aquele era um bem comprometedor.
     A coisa que estava prestes a fazer era começar um diário. Não que isso fosse ilegal (nada era ilegal, visto que já não existiam leis), mas se o fato fosse descoberto era praticamente certo que o punissem com a morte ou com pelo menos vinte e cinco anos de prisão em algum campo de trabalhos forçados. Winston encaixou uma pena no porta-penas e chupou-a para remover a graxa. A pena era um instrumento arcaico, pouco usado inclusive para assinaturas, e ele obtivera aquela, furtivamente e com alguma dificuldade, só por ter sentido que o belo papel creme merecia que escrevessem nele com uma pena de verdade, em vez de ser rabiscado com lápis-tinta. Na verdade, Winston não estava habituado a escrever a mão. Exceto no caso de um ou outro bilhete muito curto, o hábito era ditar tudo ao ditógrafo, o que, evidentemente, não se aplicava à circunstância presente. Mergulhou a caneta na tinta e vacilou por um segundo. Suas entranhas foram percorridas por um estremecimento. Marcar o papel era o ato decisivo. Em letras miúdas, desajeitadas, escreveu:
4 de abril de 1984.
     Recostou-se na cadeira. Estava possuído por uma sensação de absoluto desamparo. Para começar, não sabia com certeza se estava mesmo em 1984. Devia ser por aí, visto que estava seguro de ter trinta e nove anos e acreditava ter nascido em 1944 ou 1945; mas nos tempos que corriam era impossível precisar uma data sem uma margem de erro de um ou dois anos.
     Para quem, ocorreu-lhe perguntar-se de repente, estava escrevendo aquele diário? Para o futuro, para os não nascidos. Sua mente deu voltas por um momento em torno da data duvidosa na página, depois, com um solavanco, colidiu com um termo em Novafala: duplipensamento. Pela primeira vez deu-se conta da dimensão de seu projeto. Como fazer para comunicar-se com o futuro? Era algo impossível por natureza. Ou bem o futuro seria semelhante ao presente e não daria ouvidos ao que ele queria lhe dizer, ou bem seria diferente e sua iniciativa não faria sentido.
     Ficou sentado por algum tempo contemplando estupidamente o papel. A teletela passara a transmitir uma música militar estridente. Estranho, parecia não apenas ter perdido a capacidade de se expressar, como inclusive ter esquecido o que originalmente pretendia dizer. Durante semanas se preparara para aquele momento e jamais lhe passara pela cabeça que pudesse ter necessidade de alguma outra coisa que não coragem. Escrever, em si, seria fácil. Bastava transferir para o papel o monólogo infinito e incansável que ocupava o interior de sua cabeça havia anos, literalmente. Naquele momento, porém, mesmo o monólogo estancara. Para rematar, sua úlcera varicosa começara a comichar, uma coisa torturante. Não ousava coçar-se, porque sempre que fazia isso a úlcera inflamava. Os segundos se sucediam. Só estava consciente da página vazia diante dele, da comichão na pele acima do tornozelo, do clangor da música e de uma leve tontura provocada pelo gim.
     De repente começou a escrever de puro pânico, percebendo apenas de modo impreciso o que ia anotando. Sua letra miúda, infantil, se espalhava pela página em linhas incertas, abandonando primeiro as maiúsculas, depois até mesmo os pontos finais.

     4 de abril de 1984. Ontem à noite cineminha. Só filme de guerra. Um muito bom do bombardeio de um navio cheio de refugiados em algum lugar do Mediterrâneo. Público achando muita graça nos tiros dados num gordão que tentava nadar para longe perseguido por um helicóptero. primeiro ele aparecia chafurdando na água como um golfinho, depois já estava todo esburacado e o mar em volta ficou rosa e ele afundou tão de repente que parecia que a água tinha entrado pelos buracos. público urrando de tanto rir quando ele afundou. depois aparecia um bote salva vidas cheio de crianças com um helicóptero pairando logo acima. tinha uma mulher de meia-idade talvez uma judia sentada na proa com um garoto de uns três anos no colo. garoto chorando de medo e escondendo a cabeça entre os seios dela como se tentasse se enterrar nela e a mulher envolvendo o garoto com os braços e tentando acalmá-lo só que ela mesma estava morta de medo, e o tempo todo cobria o garoto o máximo possível como se achasse que seus braços iam conseguir protegê-lo das balas. aí o helicóptero largou uma bomba de vinte quilos bem no meio deles clarão terrível e o bote virou um monte de gravetos. depois uma tomada sensacional de um braço de criança subindo subindo pelo ar um helicóptero com uma câmera no nariz deve ter acompanhado o braço subindo e muita gente aplaudiu nos assentos do partido mas uma mulher sentada no meio dos proletas de repente começou a criar caso e a gritar que eles não tinham nada que mostrar aquilo não na frente das crianças não deviam não era direito não na frente das crianças não era até que a polícia botou ela botou pra fora acho que não aconteceu nada com ela ninguém dá a mínima para o que os proletas falam típica reação de proleta eles nunca...

     Winston parou de escrever, em parte porque estava com cãibra. Não sabia o que o levara a derramar aquela torrente de idiotices. Mas o estranho era que enquanto ele fazia aquilo uma lembrança completamente diferente se definira em sua mente, a tal ponto que quase decidira registrá-la. Fora por causa desse outro incidente, percebia agora, que tomara a decisão repentina de ir para casa e começar o diário.

continua na página 16...
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Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) /    
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.
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Resenha literária:

o título do livro 1984 é inversão da dezena e da unidade do ano em George Orwell escrevia o livro, ou seja, 1948 virou 1984!

tatianagfeltrin




 o fascismo, o totalitarismo... as ditaduras! governam controlando o nosso pensamento, fazem desaparecer o conceito de verdade, toda mentira passa a ser verdade: a guerra é paz, a liberdade é escravidão, a ignorância é força!
o grande irmão (big techs) já está acontecendo!

Cinema: 1984

George Orwell


É mágico como um livro consegue desenhar rostos e mundos inteiros dentro da gente, antes mesmo de os conhecermos de verdade no cinema.



George Orwell entendeu o perigo por trás das palavras
Lara Brenner





Depois da guerra atômica, o mundo foi dividido em três estados e Londres é a capital da Oceania, dominada por um partido que tem total controle sobre todos os cidadãos. Winston Smith é um humilde funcionário do partido e comete o atrevimento de se apaixonar por Julia, numa sociedade totalitária onde as emoções são consideradas ilegais. Eles tentam escapar dos olhos e dos ouvidos do Grande Irmão, sabendo das dificuldades que teriam que enfrentar.





"Esta é a primeira adaptação cinematográfica do romance, estrelada por Edmond O'Brien, no papel do protagonista Winston Smith. O filme conta com Donald Pleasence, Jan Sterling e Michael Redgrave. O personagem antagonista O'Brien foi renomeado para "O'Connor", para evitar confusão com o sobrenome do ator principal. E Emmanuel Goldstein foi rebatizado para 'Kalador'."

Assim como a adaptação cinematográfica anterior de A Revolução dos Bichos, o filme 1984 de 1956 foi secretamente financiado pela CIA.[1]

[1] Morris, Nigel (11 out 2012). «Keeping It All in the (Nuclear) Family: Big Brother, Auntie BBC, Uncle Sam and George Orwell's Nineteen Eighty-Four». Frames Cinema Journal. Consultado em 5 abr 2020
Traduzindo o título do livro: "Mantendo tudo em família (nuclear): Big Brother, Tia BBC, Tio Sam e 1984 de George Orwell"


Produção de 1956

Direção: Michael Anderson

Elenco:
Edmond O'Brien ... Winston Smith, do Partido Exterior
Michael Redgrave ... Gen. O'Connor do Partido Interno
Jan Sterling ... Júlia do Partido Exterior
David Kossoff ... Charrington, o dono da loja de quinquilharias
Mervyn Johns ... Jones
Donald Pleasence ... R. Parsons
Carol Wolveridge ... Selina Parsons
Ernest Clark ... Anunciador do Partido Exterior
Patrick Allen ... Oficial do Partido Interior
Ronan O'Casey ... Rutherford
Michael Ripper ... Orador do Partido Exterior
Ewen Solon ... Orador do Partido Exterior
Kenneth Griffith ... Prisio teletela
Barbara Cavan ... Mulher (narração) (não creditado)
Walter Gotell ... Guarda (não creditado)
Bernard Rebel ... Kalador (não creditado)
Alan Tilvern ... Martin o criado de O'Connor (não creditado)
Patrick Troughton ... Homem na teletela(não creditado)
John Vernon ... Grande Irmão (não creditado)
Vivienne Villiers ... Criança assustada (não creditado)



1984 (George Orwell)
trailer
legendado



Direção: 
Michael Radford

Elenco: 
John Hurt, 
Richard Burton, 
Suzanna Hamilton, 
Cyril Cusack

Ano: 1984
País: Inglaterra
Gênero: Ficção Científica, Drama, Romance


Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(c)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
 
continuando...

          No reino de Uganda, encontrou-se uma maneira de manter na terra, junto de seus devotados súditos, o espírito do rei morto. Ele não podia perecer; não era mandado embora: ele tinha de permanecer neste mundo. Após a sua morte, nomeava-se um médium — um “mandwa” — no qual o espírito do rei se instalava. O médium, cuja função era a de um sacerdote, tinha de parecer-se com o rei e comportar-se exatamente como ele. Imitava-lhe as peculiaridades da fala e, em se tratando de um rei de tempos remotos, valia-se da língua arcaica de trezentos anos antes, conforme se atestou com segurança em um caso. E isso porque, quando o médium morria, o espírito do rei passava-se para um outro membro do mesmo clã. Assim, um “mandwa” herdava de outro o seu posto, e o espírito do rei tinha sempre uma morada. Podia, pois, ocorrer de um médium utilizar palavras que ninguém mais entendia, nem mesmo seus colegas.
     Não se deve, porém, imaginar que o médium representava continuamente o papel do rei. De tempos em tempos, “o rei tomava conta de sua cabeça”, como se dizia. O médium mergulhava num estado de possessão e incorporava o morto em todos os seus detalhes. Nos clãs responsáveis pelo provimento dos médiuns, as peculiaridades do rei à época de sua morte eram transmitidas por meio da palavra e da imitação. O rei Kigala morrera em idade bastante avançada; seu médium era um homem muito jovem. Quando, porém, o rei “tomava conta de sua cabeça”, o jovem transformava-se num velho: seu rosto se enrugava, a saliva escorara-lhe pela boca e ele mancava.
     Tais acessos eram encarados com o maior respeito. Tinha-se por uma honra presenciá-los; estava-se na presença do rei morto e se reconhecia esse rei. O próprio rei, por sua vez, podendo manifestar-se à vontade no corpo de um homem cuja função era essa e que servia unicamente a esse propósito, decerto não sentia o rancor do “sobrevivido” na mesma medida em que o sentem outros, banidos completamente de nosso mundo.
     Extremamente rico em consequências faz-se o desenvolvimento do culto aos antepassados entre os chineses. A m de se compreender o que representa para eles um antepassado, é necessário examinar em maior detalhe suas concepções da alma.
     Os chineses acreditavam que todo homem possui duas almas. A primeira, po, originando-se do esperma e existente, portanto, desde o momento da concepção; a ela atribuía-se a memória. A outra alma, hun, originando-se do ar aspirado após o nascimento e constituindo-se, então, pouco a pouco. Esta última possuía a forma do corpo que animava, mas era invisível. A inteligência, a seu cargo, crescia juntamente com ela, que constituía a alma superior.
     Após a morte, essa alma da respiração subia ao céu, ao passo que a alma do esperma permanecia junto do corpo na cova. Era essa alma, a inferior, a que mais se temia. Ela era malvada, invejosa e buscava arrastar os vivos consigo para a morte. À medida que o corpo se decompunha, também a alma do esperma dissolvia-se gradualmente, perdendo, por fim, o poder de causar dano.
     A alma superior da respiração, ao contrário, seguia existindo. Ela precisava de alimento, pois seu caminho rumo ao mundo dos mortos era longo. Se seus descendentes não lhe ofereciam comida alguma, ela sofria terrivelmente. Não logrando encontrar o caminho, fficava infeliz, tornando-se, então, tão perigosa quanto a alma do esperma.
     Os ritos fúnebres tinham um duplo objetivo: pretendiam proteger os vivos da ação dos mortos e, ao mesmo tempo, assegurar às almas destes últimos a sobrevivência. E isso porque, partindo dos mortos a iniciativa, a conexão com seu mundo era perigosa. Propícia, porém, era essa conexão quando se manifestava sob a forma do culto aos antepassados, organizado em conformidade com o prescrito pela tradição e cumprido nas épocas adequadas.
     A sobrevivência da alma dependia da força física e moral que ela adquirira ao longo da vida. Adquiria-se essa força por meio da alimentação e do estudo. Particularmente importante era a diferença entre a alma do senhor de terra, que havia sido um “comedor de carne” e se alimentara bem durante toda a vida, e aquela do camponês comum, pouco e mal nutrido. Granet afirma:

   Somente os senhores de terra possuem uma alma, no verdadeiro sentido da palavra. Mesmo a idade não desgasta essa alma, mas enriquece-a. O senhor prepara-se para a morte fartando-se de requintadas comidas e de bebidas que o animam. No decorrer de sua vida, ele incorporou um sem-número de essências, numa quantidade proporcional à vastidão e à opulência de seus domínios. Ele multiplicou ainda mais a rica substância de seus antepassados, também estes plenamente saciados de carne e de caça. Ao morrer, sua alma não se dispersou feito uma alma comum, mas partiu-lhe do corpo cheia de energia.
   Se o senhor levou sua vida em consonância com as regras de sua posição, sua alma — ainda mais enobrecida e purificada pelos ritos fúnebres — possui, após a morte, um poder sublime e luminoso. Dispõe, assim, da força benfazeja de um espírito protetor, preservando simultaneamente todas as características de uma personalidade duradoura e santa. Transformou-se numa alma ancestral.

     A essa alma dedica-se, então, num templo especial, um culto próprio. Ela participa das cerimônias relativas às estações do ano da vida da natureza e da vida da terra. Quando a caça é abundante ela é bem alimentada. E jejua quando a colheita é ruim. A alma ancestral alimenta-se de grãos, carne e da caça nos domínios senhoriais, que são o seu lar. Contudo, por mais rica que seja a personalidade de uma tal alma ancestral e por mais que ela siga vivendo com toda a sua energia reunida em si, também para ela chegará o momento da dispersão e da extinção. Após quatro ou cinco gerações, a tábua de ancestrais à qual a vinculavam certos ritos perde o seu direito a um santuário especial. Ela é depositada num cofre de pedra, juntando-se às tábuas de todos os antepassados mais antigos, cuja memória pessoal já se perdeu. O antepassado que ela representava e do qual carregava o nome não é mais reverenciado como um senhor. Sua vigorosa individualidade, que tão nítida e longamente se destacou, desaparece. Sua carreira terminou, e seu papel como antepassado já foi cumprido. Graças ao culto de que foi objeto, escapou por longos anos do destino dos mortos comuns. Agora, retorna à massa de todos os demais mortos e torna-se tão anônima quanto estes.
     Nem todos os antepassados sobrevivem por quatro ou cinco gerações. Se sua tábua será mantida ou não por muito tempo, se se invoca ou não a alma, rogando-lhe que aceite o alimento, isso depende da posição hierárquica particular do antepassado. Algumas são já removidas após uma única geração. Durem, porém, o tempo que for, o fato de simplesmente existirem altera em muitos aspectos o caráter da sobrevivência.
     Para o filho, já não mais se trata de modo algum de um triunfo secreto o fato de ele estar vivo e o pai não. Afinal, na qualidade de antepassado, o pai permanece presente; o filho agradece-lhe por tudo o que tem e precisa preservar-lhe a disposição favorável. Mesmo estando o pai morto, ele tem de alimentá-lo, e certamente evitará ser arrogante para com ele. De todo modo, enquanto o filho viver, também a alma ancestral do pai estará presente, e, como se viu aqui, ela conserva todos os traços de uma determinada pessoa à qual se pode reconhecer. Ao pai, porém, importa muito ser respeitado e alimentado. É fundamental para sua nova existência como antepassado que seu filho esteja vivo: não tivesse ele descendentes, não haveria ninguém para reverenciá-lo. É seu desejo que o filho e outras gerações sobrevivam a ele. Deseja, ademais, que estejam passando bem, pois de sua prosperidade depende sua própria existência como antepassado. Enquanto estiverem dispostos a lembrá-lo, o pai demanda que vivam. Nasce aí uma conexão íntima e feliz entre a forma moderada de sobrevivência que os antepassados obtêm e o orgulho dos descendentes, que existem para propiciar-lhes aquela sobrevivência. 
      É igualmente importante que os antepassados permaneçam individualizados por algumas gerações. É como indivíduos que são conhecidos, e é também como tal que são reverenciados; somente os de um passado mais distante confluem para formar uma massa. O descendente, vivendo no presente, encontra-se apartado da massa de seus antepassados, e graças justamente a todos aqueles que, como indivíduos isolados e bem delimitados — como o pai e o avô, por exemplo —, interpõem-se entre ele e aquela massa. Se uma satisfação pelo fato de estar vivo influi na veneração do filho, sua natureza é branda e moderada. Em função da própria natureza da relação, ela não será capaz de estimulá-lo a multiplicar o número dos mortos. Ele próprio é quem irá aumentar em uma unidade esse número, e seu desejo é que isso demore a acontecer. A situação da sobrevivência despe-se assim de todo e qualquer traço aparentado à massa. Como paixão, ela seria paradoxal e incompreensível; a sobrevivência perdeu todos os seus traços assassinos. A memória e a dignidade pessoal selaram uma aliança. Uma influenciou a outra, mas o melhor de ambas preservou-se.
     Quem contempla a figura do detentor de poder ideal, conforme ela se desenvolveu na história e no pensamento dos chineses, sente-se afetado por sua humanidade. É de se supor que a ausência de violência desse quadro se deva a essa espécie particular de veneração dos antepassados.

continua página 414...
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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(c)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(e)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Assim que acabámos o inventário e que a nossa terrível exaltação ficou em parte apaziguada, Legrand, ao ver que eu morria de impaciência por possuir a solução deste prodigioso enigma, deu-me todos os pormenores. 

— Recorda-se — disse-me — da noite em que mostrei o esboço que fizera do escaravelho. Lembra-se também que fiquei sentido pela sua insistência em me fazer notar que o meu desenho se parecia com uma caveira. A primeira vez que fez essa observação, julguei que brincava. Em seguida, recordei-me das manchas particulares no dorso do inseto e reconheci que a sua observação tinha na realidade qualquer fundamento. Contudo, a sua ironia quanto às minhas faculdades gráficas irritou-me, porque sou tido como um artista razoável e por isso, quando estendeu o pedaço do pergaminho, estive quase a amarfanhá-lo e atirá-lo ao lume. 
— Quer referir-se ao pedaço de papel? 
— Não. Tinha todo o aspecto de papel, e eu mesmo assim supus, mas depois, ao querer desenhar em cima dele descobri logo que era um pedaço de pergaminho muito fino. Ele estava bastante sujo, você recorda-se. No momento em que eu o ia limpar, os meus olhos incidiram no desenho que você tinha visto e pode conceber qual foi o meu espanto quando me apercebi da imagem precisa de uma caveira mesmo no sítio onde eu julgava ter desenhado um escaravelho. Durante um momento, senti-me demasiado aturdido para pensar com clareza. Sabia que o meu esboço diferia desse novo desenho em todos os pormenores, se bem que tivesse uma certa analogia no contorno geral. Peguei então numa vela e sentando-me na outra extremidade do quarto, procedi logo a uma análise mais minuciosa do pergaminho. Ao virá-lo, vi o meu próprio desenho pelo avesso, precisamente como o tinha feito. A minha primeira impressão foi simplesmente de surpresa. Havia nele uma semelhança realmente notável no contorno, e era uma coincidência que a imagem de uma caveira, desconhecida para mim, ocupasse o outro lado do pergaminho, mesmo por baixo do meu desenho do escaravelho — e de uma caveira que se assemelhava ao meu desenho, não só no contorno como nas dimensões. Confesso que esta coincidência me deixou positivamente estupefato, por um instante. É o efeito vulgar desta espécie de coincidências. O espírito esforça-se em estabelecer uma relação, uma ligação da causa com o efeito e, julgando-se impotente para o conseguir, sofre uma espécie de paralisia momentânea. Mas, quando voltei a mim deste espanto, senti nascer em mim, a pouco e pouco, uma convicção que me chocou ainda mais do que essa coincidência. Comecei a recordar-me distintamente, positivamente, que não havia nenhum desenho no pergaminho quando eu fiz nele o esboço do escaravelho. Tinha a certeza absoluta, porque me recordo de o ter virado e tornado a virar, procurando o sítio mais limpo. Se a caveira estivesse visível, tê lo-ia notado. Havia nela realmente um mistério que me sentia capaz de desvendar, e desde então, pareceu-me ver antecipadamente um pálido clarão nas regiões mais profundas e mais secretas da minha compreensão, uma espécie de pirilampo de luz intelectual, uma conceção em embrião da verdade, da qual a nossa aventura na outra noite nos forneceu uma esplêndida demonstração. Levantei-me decididamente e, pegando no pergaminho, deixei toda a reflexão para o momento em que pudesse estar só. 

« Quando você se fosse embora e o Júpiter estivesse bem adormecido, entregar-me-ia a uma investigação um pouco mais meticulosa sobre o assunto. E, primeiro, quis compreender de que forma este pergaminho viera parar às minhas mãos. O sítio em que descobrimos o escaravelho, fora na costa, a cerca de uma milha a leste da ilha, mas a uma pequena distância acima do nível da maré alta. Quando o apanhei, mordeu-me cruelmente, e eu deixei-o fugir. Júpiter, com a sua prudência costumada, antes de apanhar o inseto que voara já do seu lado, procurou em volta dele uma folha ou outra coisa semelhante com que pudesse pegar-lhe. Foi nesse momento que descobriu o pedaço de pergaminho, que julgou ser papel. Estava meio enterrado na areia, com uma ponta de fora. Perto do lugar, onde o achámos, observei os restos de um casco de uma grande embarcação, pelo menos pelo que pude observar. Os destroços do naufrágio estavam ali provavelmente há já muito tempo, porque a custo se poderia reconhecer a armação de um barco.
« Júpiter embrulhou o inseto e deu-me. Pouco depois prosseguimos o caminho até à cabana e encontrámos o tenente G... Mostrei-lhe o inseto e ele pediu-me que deixasse levá-lo ao forte. Disse-lhe que sim e ele meteu-o no bolso do colete, mas sem o pergaminho que lhe servia de invólucro e que eu conservara na mão enquanto ele examinava o escaravelho. Talvez tivesse medo que eu mudasse de opinião e julgou prudente guardar primeiro o inseto; sabe que ele é doido por História Natural e por tudo o que com ela se relaciona. E então, sem pensar nisso, meti o pergaminho no bolso.
« Recorda-se que assim que me sentei à mesa para desenhar o escaravelho, não encontrei o papel no lugar em que o ponho habitualmente. Vi na gaveta e não havia lá nenhum. Procurei nas minhas algibeiras, esperando encontrar uma carta já antiga, quando os meus dedos encontraram o pergaminho. Dou-lhe pormenorizadamente toda a série de circunstâncias que o puseram nas minhas mãos, porque todas elas impressionaram o meu espírito.
« Sem dúvida alguma, você julgar-me-ia um sonhador, mas eu já tinha estabelecido uma espécie de conexão. Já unira dois grandes elos de uma grande cadeia.
« Um barco que naufragara na costa e não longe deste barco um pergaminho — não um papel — que continha a imagem de uma caveira. Vai naturalmente perguntar-me onde está a relação? Responderei que a caveira é o emblema, bem conhecido, dos piratas. Em todos os ataques içam sempre o pavilhão com a caveira.
« Disse-lhe que era um pedaço de pergaminho e não de papel. O pergaminho é uma coisa de muita duração, quase que não se deteriora. Não se confiam ao pergaminho documentos de mínima importância, pois que é menos fácil de utilizar para escrever e menos ainda para desenhar. Esta reflexão levou me a pensar que devia ter qualquer relação com a caveira, qualquer sentido estranho. Como é natural, não deixei de reparar no formato do pergaminho. Embora um dos cantos tivesse sido destruído por qualquer acidente via-se bem que a forma primitiva era oblonga. Era, portanto, uma dessas tiras que se escolhe para escrever, para assinar um documento importante, um apontamento que se quer conservar por muito tempo e cuidadosamente.»

— Mas — interrompi-o — diz que a caveira não estava no pergaminho quando desenhou nele o escaravelho. Como pode estabelecer, portanto, uma relação entre o barco e a caveira, pois que esta última, segundo confessou, foi de facto desenhada? Deus sabe como e por quem foi desenhada, posteriormente ao seu desenho do escaravelho? 
— Ah!, é nisso que reside todo o mistério, se bem que eu tivesse pouca dificuldade em resolver esse ponto do enigma. A minha dedução estava certa e não podia levar-me senão a um único resultado. O meu raciocínio era este: quando desenhei o meu escaravelho, não tinha nenhum vestígio de caveira no pergaminho: quando acabei o meu desenho passei-lhe e não o perdi de vista até que me restituiu. Por conseguinte, não foi você que desenhou a caveira e não havia ali outra pessoa para o fazer. Não tinha sido, portanto, feito por mão humana, e no entanto ali estava diante dos meus olhos!

« As minhas reflexões levaram-me a tentar recordar e, com efeito, lembrei-me com uma perfeita exatidão, de todos os incidentes que ocorreram nesse intervalo. A temperatura era baixa — oh!, a feliz casualidade! — e um bom lume crepitava na lareira. Estava suficientemente aquecido pelo exercício e sentei-me perto da mesa. Você, entretanto, virara a sua cadeira para muito perto da lareira, justamente no momento em que lhe passei o pergaminho para mão, e quando o ia examinar, Wolf, o meu terra-nova, entrou e saltou-lhe aos ombros. Você afagou-o com a mão esquerda, e procurava afastá-lo deixando descair vagarosamente a sua mão direita, a que segurava o pergaminho, entre os seus joelhos e muito perto do fogo. Julguei por uns momentos que a chama ia atingi-lo e estive quase a dizer-lhe para ter cuidado. Mas, antes que eu falasse, você retirou-o e pôs-se a examiná-lo. Quando considerei bem estas circunstâncias, não duvidei por um instante de que o calor tivesse sido o agente que fizera aparecer no pergaminho o desenho da caveira. Sabe que há — e desde sempre houve — preparações químicas, por meio das quais se pode escrever no papel caracteres que são invisíveis até serem submetidos à ação do calor. Emprega-se algumas vezes o óxido de cobre misturado com água régia e diluído em quatro partes do seu peso de água, combinação que dá uma cor verde. O óxido de cobalto dissolvido no ácido nítrico dá uma cor vermelha. Estas cores desaparecem, mais ou menos tempo depois de arrefecer a substância na qual se escreveu, mas reaparecem facilmente sob a ação do calor.
« Examinei então a caveira com o maior cuidado. Os contornos exteriores, isto é, os mais próximos da beira do pergaminho estavam muito mais nítidos do que os outros. Evidentemente que a ação do calor fora imperfeita e desigual. Acendi imediatamente o lume e submeti o pergaminho inteiro a um calor escaldante. Primeiro, não teve outro efeito senão avivar as linhas um pouco sumidas da caveira; mas, ao prosseguir a experiência, vi aparecer a um canto da tira, no diagonalmente oposto àquele em que estava traçada a caveira, uma figura que eu supus primeiro ser uma cabra. Mas um exame mais atento convenceu-me de que se tratava de um cabrito.

— Ah!, ah! — exclamei. — Não tenho o direito de troçar de si. Um milhão e meio de dólares, é uma coisa demasiado séria para que se brinque. Mas não poderá juntar um terceiro elo à sua cadeia, não encontrará nenhuma referência especial entre os seus piratas e uma cabra. Como sabe, os piratas não têm nada a ver com cabras. Isso refere-se aos granjeiros. 
— Mas acabei de lhe dizer que a imagem não era de uma cabra. 
— Bom!, seja um cabrito. É quase a mesma coisa. 
— Quase, mas não por completo — disse Legrand. — Ouviu decerto falar de um certo capitão Kidd. Eu considerei imediatamente a figura deste animal como uma espécie de assinatura hieroglífica (kidd: cabrito). Digo assinatura, porque o lugar que ela ocupava no pergaminho sugeria naturalmente esta ideia. Quanto à caveira, colocada na extremidade diagonalmente oposta, tinha o aspecto de um timbre, de uma estampilha. Mas fiquei cruelmente desconcertado pela ausência de qualquer texto. 
— Presumo que esperava encontrar algumas linhas entre o selo e a assinatura. 
— Qualquer coisa desse género. O facto é que me sentia irresistivelmente impressionado por um pressentimento de uma imensa e iminente fortuna. Porquê? Não poderia dizê-lo muito bem. Afinal, talvez fosse mais um desejo do que uma crença positiva. Mas acreditaria que o dito absurdo de Júpiter, de que o escaravelho era de ouro maciço, teve uma influência notável na minha imaginação? Depois desta série de incidentes e coincidências era na verdade extraordinário! Notou tudo o que há de fortuito nisto? Foi preciso que todos os acontecimentos ocorressem no mesmo dia do mesmo ano, em que houve frio, e bastante, para ser preciso aquecimento e, sem este lume e sem a intervenção do cão, no momento preciso em que apareceu, nunca teria tomado conhecimento da caveira e nunca teria possuído o tesouro. 
— Vá, vá. Estou em brasas. 
— Pois bem, vai ter conhecimento de uma louca história sobre a qual correram mil rumores vagos, relativos aos tesouros escondidos, em alguma parte da costa atlântica, por Kidd e os seus sócios. Resumindo, todos estes rumores deviam ter qualquer fundamento. E esses rumores duravam já há tanto tempo e com tanta persistência, que isso não podia, quanto a mim, ter senão uma razão: é que o tesouro continuava escondido. Se Kidd tivesse desenterrado o tesouro, esses rumores não teriam, sem dúvida, chegado até nós de uma maneira tão persistente. Repare que as histórias em causa falam nas pessoas que procuram o tesouro e nunca nas que o encontraram. Se o pirata tivesse ido buscá-lo, o caso ficaria por aí. Parecia-me que algum acidente, por exemplo, a perda da indicação que marcava o sítio exato, privá-lo-ia do meio para o descobrir. Suponho que este incidente chegou ao conhecimento dos seus companheiros — de outra forma nunca teriam sabido que um tesouro estava enterrado — e com suas pesquisas infrutíferas, sem um guia e indicações positivas, deram início a este rumor universal e a estas lendas hoje tão comuns. Ouviu falar alguma vez de algum tesouro importante descoberto na costa? 
— Nunca. 
— Ora, é notório que Kidd acumulou imensas riquezas. Considerava, portanto, como uma coisa certa que a terra as guardava ainda; e não se espantará muito se eu lhe disser que sentia em mim uma esperança que era quase uma certeza: que o pergaminho, tão estranhamente encontrado, conteria a indicação desaparecida do lugar onde fora feito o depósito. 
— Mas como procedeu? 
— Expus novamente o pergaminho ao lume, depois de ter aumentado o calor, mas não apareceu nada! Pensei que a camada de gordura podia influir no insucesso, e por isso limpei cuidadosamente o pergaminho deitando água quente em cima dele. Depois, coloquei-o numa caçarola de ferro fundido, com a caveira para cima e pu-lo em cima de um fogão de carvão em brasa. Passados alguns minutos, retirei a tira de pergaminho e apercebi-me, com uma alegria inexprimível, que estava marcado em vários sítios com sinais que se assemelhavam a algarismos dispostos em linhas. Tornei a pô-lo na caçarola e, quando o retirei de lá, estava tal como vai ver.

continua na página 435...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Moby Dick: 58 - Brit

Moby Dick

Herman Melville

58 - Brit
     Rumando a nordeste das ilhas Crozet enredamo-nos em vastas pradarias de brit, a minúscula, amarela substância de que a Baleia Franca fartamente se nutre. Por léguas e mais léguas, aquilo ondulou à nossa volta, de modo que parecíamos estar navegando através de ilimitados campos de trigo maduro e dourado.
     No segundo dia, avistamos um grande número de Baleias Francas, as quais, a salvo de serem atacadas por um navio de pesca de Cachalotes como o Pequod, boquiabertas nadavam indolentemente através do brit, que, aderindo às bordas fibrosas das impressionantes venezianas que têm nas bocas, era assim separado da água que lhes escapava pelos lábios.
     Como ceifeiros matutinos, que lado a lado avançam suas foices, lenta e tempestuosamente, através da relva sempre úmida das campinas alagadiças; assim também esses monstros nadavam, fazendo um som estranho, de capim, de corte; e deixando atrás de si um sem-fim de gavelas azuis no mar amarelo.{a}
 
{a} Aquela parte do mar conhecida pelos baleeiros como “Bancos do Brasil” não tinha esse nome, como os bancos de Newfoundland, por haver ali rasos e baixios, mas devido ao seu aspecto notável de campina, causado pelas vastas borras de brit que flutuam constantemente nas latitudes onde se caça com frequência a Baleia Franca. [N. A.]

     Mas era apenas o barulho que faziam ao atravessar o brit que lembrava a ceifa. Vistas dos topos dos mastros, especialmente quando faziam uma pausa e ficavam estáticas por algum tempo, suas imensas formas negras se pareciam mais com massas rochosas sem vida do que qualquer outra coisa. E, como nas regiões importantes de caça da Índia, o forasteiro nas planícies por vezes passa ao largo de elefantes em decúbito sem sabê-lo, tomando-os por elevações nuas e enegrecidas do solo; o mesmo sucede, muitas vezes, com aquele que pela primeira vez contempla esta espécie de Leviatãs do mar. E mesmo quando são, por fim, reconhecidos, sua imensa magnitude torna muito difícil acreditar que tais massas tão volumosas de gigantismo possam estar repletas em todas as suas partes do mesmo tipo de vida que vive num cão ou cavalo.
     De fato, sob outros aspectos, mal se pode considerar qualquer criatura das profundezas com os mesmos sentimentos que se votam às da terra. Pois ainda que alguns velhos naturalistas tenham sustentado que todas as criaturas da terra possuem correspondentes entre as do mar; e ainda que de um ponto de vista geral isso possa ser verdade; contudo, chegando às particularidades, onde, por exemplo, o oceano apresenta algum peixe cuja disposição corresponde à bondade sagaz do cão? Apenas do amaldiçoado tubarão pode-se dizer que em termos genéricos guarde alguma analogia com ele.
     Mas embora, para os homens da terra em geral, os habitantes nativos dos mares sempre tenham sido considerados com emoções indizivelmente antissociáveis e repulsivas; embora saibamos que o mar é uma eterna terra incógnita, que Colombo navegou sobre inúmeros mundos desconhecidos para descobrir o seu único, superficial e ocidental; embora, com larga margem, os mais terríveis de todos os desastres mortais, imemorial e indiscriminadamente, tenham ocorrido a dezenas e centenas de milhares daqueles que se fizeram ao mar; embora um só momento de consideração nos ensinasse que, por mais que se vanglorie o homem infantil de sua ciência e capacidade, e por mais que num incensado futuro essa ciência e capacidade possam vir a crescer; no entanto, para todo o sempre, até o fim dos tempos, o mar o ofenderá e o assassinará, e pulverizará a mais imponente e sólida fragata que ele possa fazer; contudo, pela repetição contínua dessas mesmas impressões, o homem perdeu aquele senso do pleno temor do mar que originalmente ao mar pertence.
     O primeiro barco de que lemos notícia flutuou num oceano que, em vingança digna de um Português, inundou um mundo inteiro sem nem deixar sequer uma viúva. Aquele mesmo oceano se agita agora; aquele mesmo oceano destruiu os navios naufragados do ano passado. Sim, mortais insensatos, o dilúvio de Noé ainda não cessou; dois terços do belo mundo ele ainda cobre.
     Em que diferem o mar e a terra, que um milagre naquele não é um milagre nesta outra? Terrores preternaturais acometeram os Hebreus, quando sob os pés de Coré e seus companheiros o chão vivo se abriu e os engoliu para sempre; contudo nenhum sol moderno jamais se põe sem que, precisamente da mesma maneira, o mar vivo engula navios e tripulações.
     Mas o mar não é esse adversário apenas do homem que o desconhece, mas é também inimigo de suas próprias crias; pior do que o anfitrião Persa que assassinou os seus convidados; não poupa as criaturas que ele mesmo desova. Como uma tigresa selvagem que abalada na selva esmaga os próprios filhotes, assim também o mar atira até mesmo as baleias mais poderosas contra os rochedos, e as deixa lado a lado com os vestígios dos naufrágios dos navios. Nem misericórdia, nem força nenhuma senão a do próprio mar o governa. Arquejando e resfolegando como um louco corcel de batalha que perdeu o seu cavaleiro, o oceano sem dono transborda o globo.
     Considere a sutileza do mar; como as suas criaturas mais temidas deslizam sob as águas, invisíveis na maior parte, e traiçoeiramente ocultas sob os matizes mais encantadores do azul. Considere também o brilho e a beleza diabólica de muitas de suas tribos sem piedade, como a forma delicadamente adornada de muitas espécies de tubarões. Considere, uma vez mais, o canibalismo universal do mar; cujas criaturas todas se devoram umas às outras, continuando a guerra eterna desde o início do mundo.
     Considere tudo isso; e então se volte para esta terra tão verde, suave e dócil; ambos considere, o mar e a terra; e você não acha que existe uma analogia estranha com algo dentro de você? Pois, tal como o oceano aterrador cerca a terra verdejante, também na alma do homem há um Taiti insular, cheio de paz e alegria, mas rodeado por todos os horrores da metade desconhecida da vida. Deus te proteja! Não te afastes dessa ilha, poderás não mais voltar!

Continua na página 265...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
57 - Das baleias pintadas a óleo / 58 - Brit /              
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?