segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Dante: A Divina Comédia - Canto I

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

NOTA INTRODUTÓRIA
Eugênio Vinci de Moraes


     Primeiro reino do além-túmulo, o Inferno é um abismo formado pelo impacto do corpo de Lúcifer, que foi atirado do céu após liderar a rebelião dos anjos. Em forma de cone, o buraco aberto pelo demônio é mais estreito na sua parte final, onde é mais fundo, e mais largo no início, que fica em Jerusalém, no hemisfério norte. Sua queda também originou a montanha do Purgatório, no hemisfério oposto.
     O Inferno tem nove círculos e uma antessala ou vestíbulo. Nesses círculos são punidos os pecadores em grau crescente, do pecado menor ao maior – dos gentios e não batizados até os traidores.
     No vestíbulo ou antessala estão os indolentes ou pusilânimes. Essa falta impede-os de adentrar o Inferno. Eles correm atrás de um estandarte enquanto são picados por vespas e moscas. Entre eles estão os anjos que nem seguiram Lúcifer, nem ficaram ao lado de Deus.
     O primeiro círculo fica na outra margem do rio Aqueronte, depois da entrada do Inferno. Essa seção também é chamada de Limbo, e as almas dos mortos chegam até ele no barco de Caronte, o primeiro barqueiro dos reinos do além. No Limbo ficam as almas das crianças, mulheres e homens que morreram sem batismo ou que viveram antes de Cristo. Grandes figuras da Antiguidade vagam por ali, como Homero, Aristóteles e o próprio Virgílio. Não se sente dor nele, só melancolia.
     Os próximos cinco círculos (do segundo ao sexto) são destinados àqueles que pecaram por incontinência, ou seja, por luxúria, gula, avareza e prodigalidade, ira e heresia (cantos V a XI). Na porta do segundo círculo está Minós, o monstro infernal que sinaliza para que círculo o pecador deve ser lançado; no terceiro está Cérbero; no quarto, Pluto; no quinto, está o pântano formado pelo segundo rio do Inferno, o Estige; e no sexto círculo ergue-se a cidadela de Dite.
     No sétimo círculo estão os violentos. Essa seção é dividida em três giros, onde são castigados os violentos com o próximo, consigo mesmos e com Deus. Na entrada desse círculo está o Minotauro. No primeiro giro, os condenados ficam imersos no Flegetonte, rio de sangue escaldante, e recebem flechadas de centauros quando emergem; no segundo giro estão os suicidas e os dissipadores; e, no último giro, os blasfemadores, os sodomitas e os usurários, que ficam debaixo de uma chuva de fogo (cantos XII a XVII).
     O oitavo círculo é dividido em dez fossas concêntricas, nas quais são punidos os fraudulentos. Com rosto de homem, corpo de serpente e cauda de escorpião, o monstro Gerião guarda essa seção, conhecida também como Malebolge. Nessas valas, estão os sedutores, os aduladores, os simoníacos, os adivinhos ou mágicos, os trapaceiros, os hipócritas, os ladrões, conselheiros fraudulentos, os cismadores ou semeadores da discórdia e os falsificadores (canto XVIII a XXX).
     O último círculo, destinado aos traidores, é um poço repartido em quatro zonas (cantos XXXI a XXXIV). Esse poço é cercado de gigantes e no fundo há um lago congelado, o Cocito. É o lugar mais fundo do Inferno e é muito frio. A primeira zona chama-se Caína, onde estão os que traíram os parentes; a segunda zona, Antenora, onde penam os traidores da política e da pátria; Ptolomeia é a terceira zona, onde estão os traidores dos hóspedes; e a quarta zona, Judeca, em que penam aqueles que traíram seus benfeitores. No fundo, está Lúcifer, em cujas costas Virgílio e Dante caminham e encontram a saída do Inferno, que dá na praia do Purgatório, no hemisfério sul.


Canto I (Prosa)

Dante se vê perdido, à noite, numa selva escura depois de ter se desviado do caminho da verdade. Pela manhã ele chega ao pé de uma colina, cuja encosta recebe os primeiros raios de sol. Aliviado, começa a subida, mas três feras aparecem, uma em seguida da outra, à sua frente. Elas o impedem de subir e o empurram de volta para a selva. Desesperado, encontra o poeta Virgílio, que foi até lá para ajudá-lo. O poeta latino convida Dante a segui-lo, a fim de cumprir o itinerário espiritual da salvação, começando pelo Inferno, passando pelo Purgatório até atingir o Paraíso.

     [1] No meio do caminho desta vida me vi numa selva escura, onde me perdi da verdadeira via. Ah, mas como é duro falar desta selva selvagem, que, só de relembrá-la, traz-me de volta o pavor que lá senti. Tão amarga era que só à morte se compara. Mas para tratar do bem que lá vi, direi de outras coisas que lá encontrei.
     [10] Não sei muito bem como entrei, tanto sono eu sentia no ponto onde me perdi do reto caminho. Porém, depois que cheguei ao pé de uma colina, ali onde terminava o vale que havia trespassado de pavor meu coração, olhei para o alto e vi suas encostas já vestidas dos raios do Sol, planeta que guia a todos retamente pelas veredas que trilhamos. Então apaziguou-se o medo que senti, no lago do coração, nessa noite em que passei tão aflito.
     [22] E como aquele que, como um náufrago, ofegante, chega à praia e se volta para encarar as águas traiçoeiras, assim minha alma, que ainda se afastava, voltou-se para olhar o lugar do qual homem algum jamais saiu vivo. Depois de repousar um pouco, retomei o caminho pela praia deserta, e passo a passo comecei a subir a colina. Mas eis que logo apareceu uma fera, de pelo todo manchado, ágil e muito ligeira. E, em vez de fugir ao me ver, me impedia o caminho, fazendo-me recuar várias vezes.
     [37] Era a primeira parte da manhã, e o sol subia junto com as estrelas que o acompanhavam quando o amor divino criou as primeiras coisas belas. Estas mais a aurora e a doce primavera davam-me motivo para esperar e não temer a besta malhada. Porém, não houve como não me apavorar à vista de um leão. Ele se dirigia a mim, com a cabeça erguida, raivoso e esfomeado, tão feroz que o ar estremecia em sua presença. E uma loba, cuja avidez marcava-se em sua magreza e que a tanta gente fez infeliz, perturbou-me de tal modo com o pavor que sua visão me encetava que perdi a esperança de continuar a subir. Como alguém que algo conquista, mas tudo perde com o tempo, e então chora e se entristece, assim fez-me sentir a fera persistente, que vindo lentamente em minha direção me empurrava para a região onde o sol se cala.
     [61] Enquanto descia apareceu-me à frente um vulto, tão calado quanto um mudo. Ao vê-lo assim naquele grande deserto, gritei para ele:
– Tem piedade de mim!¹ Quem está aí, sombra ou homem certo?
[1] Em latim, no original “Miserere di me” (vv. 64).
     Ele me respondeu
– Homem? Homem, não, homem fui um dia. Meus pais eram lombardos, mantuanos ambos. Quando nasci, Júlio César governava, e vivi na Roma governada pelo valoroso Augusto, no tempo dos deuses falsos e mentirosos. Fui poeta e cantei a vinda de Troia do justo filho de Anquises, Enéas, depois que sua soberba cidadela foi queimada. Mas por que tu recuas tão desalentado? Por que não sobes a amável colina que é princípio e razão de toda a felicidade?
     [79] – Mas és tu, Virgílio, a fonte de eloquência da qual jorra tão imenso rio? – respondi a ele, envergonhado. – Ó, dos outros poetas o lume e a honra valham-me o estudo e o grande amor que à tua obra tantos anos dediquei. Tu és meu mestre e o meu autor; e foi de ti que colhi o estilo que muito me honra. Vê a fera que me faz recuar, ajuda-me com ela, renomado sábio, pois ela faz minhas veias e pulsos gelarem.
     [91] – A ti convém fazer outra viagem – respondeu ele, depois de ver minhas lágrimas –, se queres escapar deste lugar selvagem. Porque esta besta fera, razão do teu apelo, não deixa ninguém atravessar seu caminho e não só impede a todos como a todos assassina. É tão naturalmente malvada e depravada que jamais sacia sua vilania, assim que acaba de comer sente mais fome ainda. Ela se acasala com muitos animais, e com muitos haverá ainda de se acasalar, até o dia em que o Galgo virá e a matará dolorosamente. Ele não se nutrirá de terras nem de moeda, mas de saber, amor e virtude e irá redimir a Itália, pela qual morreram dolorosamente a virgem Camila, Euríalo, Turno e Niso.¹ O Galgo a caçará por todos os cantos até lançá-la ao Inferno, lá de onde a inveja é primeiramente distribuída. [110] Para o Inferno quero que me sigas, porque penso ser isso o melhor para ti. Lá serei teu guia. Vou te levar ao sítio eterno, onde ouvirás gritos desesperados; onde verás os antigos espíritos sofrendo sua segunda morte; além de ver aqueles que estão contentes no fogo do Purgatório porque esperam atingir, quando assim tiver de ser, as almas felizes. Às quais depois, se desejares subir, outra alma mais digna te conduzirá, com a qual te deixarei ao partir, porque o imperador que lá em cima governa, tendo sido eu rebelde à sua lei, não me quer em seu reino.² Em todas partes impera e lá ele reina, lá é sua cidade e o alto trono. Ah, feliz daquele que por ele é escolhido!
[1] Heróis da Guerra de Troia.
[2] O imperador é Deus, e seu reino é o Céu.
     [130] Disse a ele então:
– Poeta, te peço, pelo Deus que não conheceste, para fugir deste mal maior, que me leves para onde disseste, para que eu veja a porta de São Pedro e aqueles sobre os quais falas com tanta dor.
     [136] Então ele andou e eu o segui.

continua na página....28

Canto I (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue.

      Da nossa vida, em meio da jornada, 
           Achei-me numa selva tenebrosa, 
3         Tendo perdido a verdadeira estrada.
      Dizer qual era é cousa tão penosa, 
           Desta brava espessura a asperidade, 
6         Que a memória a relembra inda cuidosa.
      Na morte há pouco mais de acerbidade; 
           Mas para o bem narrar lá deparado 
9         De outras cousas que vi, direi verdade.
      Contar não posso como tinha entrado; 
           Tanto o sono os sentidos me tomara, 
12       Quando hei o bom caminho abandonado.
      Depois que a uma colina me cercara, 
           Onde ia o vale escuro terminando, 
15       Que pavor tão profundo me causara.
      Ao alto olhei, e já, de luz banhando, 
           Vi-lhe estar às espaldas o planeta, 
18       Que, certo, em toda parte vai guiando.
      Então o assombro um tanto se aquieta, 
           Que do peito no lago perdurava, 
21       Naquela noite atribulada, inquieta.
      E como quem o anélito esgotava 
           Sobre as ondas, já salvo, inda medroso 
24       Olha o mar perigoso em que lutava, 
      O meu ânimo assim, que treme ansioso,
           Volveu-se a remirar vencido o espaço 
27       Que homem vivo jamais passou ditoso.
      Tendo já repousado o corpo lasso, 
           Segui pela deserta falda avante; 
30       Mais baixo sendo o pé firme no passo.
      Eis da subida quase ao mesmo instante 
           Assoma ágil e rápida pantera 
33       Tendo a pele por malhas cambiante.
      Não se afastava de ante mim a fera; 
           E em modo tal meu caminhar tolhia, 
36       Que atrás por vezes eu tornar quisera.
      No céu a aurora já resplandecia, 
           Subia o sol, dos astros rodeado, 
39       Seus sócios, quando o Amor divino um dia
      A tais primores movimento há dado. 
           Me infundiam desta arte alma esperança 
42       Da fera o dorso alegre e mosqueado,
      A hora amena e a quadra doce e mansa. 
           De um leão de repente surge o aspecto, 
45       Que ao meu peito o pavor de novo lança.
      Que me investisse então cuido inquieto; 
           Com fome e raiva atroz fronte levanta; 
48       Tremer parece o ar ao seu consepto.
      Eis surge loba, que de magra espanta; 
           De ambições todas parecia cheia; 
51       Foi causa a muitos de miséria tanta!
      Com tanta intensa torvação me enleia 
           Pelo terror, que o cenho seu movia, 
54       Que a mente à altura não subir receia,
      Como quem lucro anela noite e dia, 
           Se acaso o tempo de perder lhe chega, 
57       Rebenta em pranto e triste se excrucia,
      A fera assim me fez, que não sossega; 
           Pouco a pouco me investe até lançar-me 
60       Lá onde o sol se cala e a luz me nega.
      Quando ao vale eu já ia baquear-me 
           Alguém fraco de voz diviso perto, 
63       Que após largo silêncio quer falar-me.
      Tanto que o vejo nesse grão deserto, 
           — “Tem compaixão de mim” — bradei transido — 
66       “Quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”
      “Homem não sou” — tornou-me — “mais hei sido, 
           Pais lombardos eu tive; sempre amada 
69       Mântua lhes foi; haviam lá nascido.
      “Nasci de Júlio em era retardada, 
           Vivi em Roma sob o bom Augusto, 
72       Quando em deuses havia a crença errada.
      “Poeta, decantei feitos do justo 
           Filho de Anquíses, que de Troia veio, 
75       Depois que Ilion soberbo foi combusto.
      “Mas por que tornas da tristeza ao meio? 
           Por que não vais ao deleitoso monte, 
78       Que o prazer todo encerra no seu seio?”
      “— Oh! Virgílio, tu és aquela fonte 
           Donde em rio caudal brota a eloquência?” 
81       Falei, curvando vergonhoso a fronte. —
      “Ó dos poetas lustre, honra, eminência! 
           Valham-me o longo estudo, o amor profundo 
84       Com que em teu livro procurei ciência!
      “És meu mestre, o modelo sem segundo; 
           Unicamente és tu que hás-me ensinado; 
87       O belo estilo que honra-me no mundo.
      “A fera vês que o passo me há vedado; 
           Sábio famoso, acode ao perseguido! 
90       Tremo no pulso e veias, transtornado!”
      Respondeu, do meu pranto condoído: 
           “Te convém outra rota de ora avante 
93       Para o lugar selvagem ser vencido.
      “A fera, que te faz bradar tremente, 
           Aqui passar não deixa impunemente; 
96       Tanto se opõe, que mata o caminhante.
      “Tem tão má natureza, é tão furente, 
           Que os apetites seus jamais sacia, 
99       E fome, impando, mais que de antes sente.
      “Com muitos animais se consorcia, 
           Há-de a outros se unir té ser chegado 
102     Lebréu, que a leve à hórrida agonia.
      “Por ouro ou por poder nunca tentado 
           Saber, virtude, amor terá por norte, 
105     Sendo entre Feltro e Feltro potentado.
      “Será da humilde Itália amparo forte, 
           Por quem Camila a virgem dera a vida, 
108     Turno Eurialo, Niso acharam morte.
      “Por ele, em toda parte, repelida 
           Irá lançar-se no infernal assento, 
111     Donde foi pela Inveja conduzida.
      “Agora, por teu prol, eu tenho o intento 
           De levar-te comigo; ir-te-ei guiando 
114     Pela estância do eterno sofrimento,
      “Onde, estridentes gritos escutando, 
           Verás almas antigas em tortura 
117     Segunda morte a brados suplicando.
      “Outros ledos verás, que, em prova dura 
           Das chamas, inda esperam ter o gozo 
120     De Deus no prêmio da imortal ventura.
      “Se lá subir quiseres, um ditoso 
           Espírito, melhor te será guia, 
123     Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.
      “Do céu o Imperador, a rebeldia 
           Minha à lei castigando, não consente 
126     Que eu da cidade haja a alegria.
      “Em toda parte impera onipotente, 
           Mas tem no Empíreo sua augusta sede: 
129     Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!”
      — “Vate, rogo-te” — eu disse — “me concede, 
           Por esse Deus, que nunca hás conhecido, 
132     Porque este e maior mal de mim se arrede.
      “Que, até onde disseste conduzido, 
           A porta de São Pedro eu vá contigo 
           E veja os maus que houveste referido”.
136     Move-se o Vate então, após o sigo

continua na página... 30
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—     1. Em meio etc. Aos 35 anos. Dante tinha 35 anos no dia 25 de março de 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro Jubileu. 
—     2. Tenebrosa etc., simbólica selva dos vícios humanos. 
—   32. Pantera, símbolo da luxúria e da fraude; politicamente, de Florença. 
—   44. Um leão, símbolo da soberba e da violência; politicamente, da França. 
—   49. Loba, símbolo da avareza e da incontinência; politicamente da Cúria Romana. 
—   62. Alguém etc., o poeta Virgílio Maro, símbolo da razão humana. 
— 105. Entre Feltro e Feltro, entre Montefeltro e Feltro. 
— 122. Espírito melhor, Beatriz, a mulher que Dante amou. 

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A Divina Comédia
Canto I / 

domingo, 6 de setembro de 2026

Dante: A Divina Comédia - Apresentção

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

Apresentação
UMA SEMANA ENTRE OS MORTOS
Eugênio Vinci de Moraes¹


UMA OUTRA VIAGEM

     Na noite da Sexta-Feira Santa do longínquo ano de 1300 um poeta se vê perdido numa selva escura. Desorientado, vê os primeiros raios da aurora apontarem atrás de uma colina, e a esperança de reencontrar o caminho reacende em seu coração. Mas, ao começar a subida, três feras interrompem sua caminhada: uma onça, um leão e uma loba. Ele recua, desesperançado. Pressente a presença de alguém, “sombra ou homem certo?”, que logo se dirige a ele. É o poeta latino Virgílio, autor da Eneida, que vem em seu socorro e lhe diz para tomar outro rumo, para fazer “outra viagem”. Uma viagem pelos três reinos dos mortos: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.
     Daí em diante o leitor os acompanhará pela “cidade dolente”, o “doloroso asilo” onde penam os pecadores; os seguirá pelos íngremes degraus da montanha do Purgatório, onde os convertidos e arrependidos expiam seus pecados; até encontrar Beatriz, que tomará o lugar de Virgílio como guia de Dante pelos céus do último reino, onde estão os beatos que contemplam o sumo bem.
     O Inferno é fosco, escuro, malcheiroso, pedregoso, perigoso, quente, gelado, habitado por seres extraordinários, como Minós, cuja longa cauda se retorce para indicar o fosso no qual cada condenado deve sofrer seu castigo; ou como Cérbero, o cão de três cabeças que guarda o círculo onde granizo, água escura e neve caem eternamente sobre os gulosos; ou Gerião, monstro com rosto de homem, corpo de serpente e cauda de escorpião, que representa a fraude. Ainda há uma variada sorte de demônios, incluindo o poderoso Lúcifer, que pena no nono e último círculo, destinado aos traidores.
     No Purgatório, novas personagens se apresentam. Elas ajudam os poetas e lhes fazem companhia. São o romano Cipião e o poeta Estácio. O primeiro os orienta na antessala da montanha, e o outro segue com eles até o Paraíso. Se no Inferno os peregrinos caminham num ambiente fétido, sujo e escuro, aqui eles sobem por uma imensa colina composta por degraus, terraços e patamares onde se encontram os homens que cometeram os sete pecados capitais e se arrependeram. Nessas seções, os pecadores vão expiando seus erros com castigos dolorosos, como carregar grandes rochas nas costas, suportar grossas linhas de ferro costurando-lhes as pálpebras, sentir fome e sede sem poder saciar-se, punições que, a despeito da crueldade, não lhes reduzem a esperança de redenção, a qual alcançarão adiante: a ascensão ao Paraíso.
     No terceiro e último reino, luz e melodia, alegria e harmonia envolvem toda a viagem. Ali o leitor acompanhará a subida de Dante e Beatriz pelos dez céus ou esferas nas quais vivem, em alegria eterna, figuras como Adão, mártires da Igreja, apóstolos, São Bento, São Domingos, São Tomás de Aquino, São Pedro, Santa Lúcia, a Virgem Maria, personagens do Velho e Novo Testamentos, além de homens notáveis dos mundos pagão e cristão. Imagens fantásticas apresentam-se a eles, como a grande águia formada pelas luzes dos espíritos beatos, a grande rosa mística em cujas pétalas se sentam santos e beatos, e os próprios anjos, como Gabriel, que anunciou a Maria a vinda de Cristo. E Beatriz.
     Ao fim desta viagem, que dura sete dias, narrada em cem cantos, com cerca de catorze mil versos, Dante – autor, narrador e personagem da Comédia – completa sua viagem pessoal, política e espiritual e reencontra o verdadeiro caminho.

O AUTOR

     A vida e a obra de Dante encontram-se definitivamente entrelaçadas. Boa parte do que se sabe sobre ele vem dos seus próprios escritos e de fontes que se basearam na biografia escrita por Giovanni Boccaccio (1313 1375) e de autores que o seguiram. A data de seu nascimento calcula-se pelo que Dante escreveu em várias passagens de seus textos, somadas e comparadas a outros elementos. Uma das indicações aparece no canto XXII do Paraíso, em que narra ter nascido sob a constelação de Gêmeos: “Ó gloriosa constelação, ó lume impregnado de virtude, do qual reconheço ter recebido todo meu engenho; quando senti pela primeira vez o ar da Toscana, convosco nascia e se punha aquele que é pai de toda vida, e foi por teu zodíaco que me foi concedida a graça de entrar nesta grande esfera que aqui gira”. Para Giorgio Petrocchi é possível estipular que Durante Alighieri (nome de batismo do poeta, Dante é um diminutivo) teria nascido entre 14 de maio e 13 de junho de 1265.
     Filho de Alighiero Alighieri ou Alighiero II ou Alighiero di Bellincione e de Bela, sua primeira mulher, Dante teve uma irmã que morreu jovem e mais dois irmãos do segundo casamento do pai. Alighiero II levou fama de usurário e era um guelfo, facção política toscana partidária do papa. Facção dividida, por sua vez, entre Negros e Brancos, sendo estes mais moderados e aqueles mais radicais em relação à extensão do poder papal. Os guelfos se opunham aos gibelinos, os quais apoiavam o imperador. A questão central girava, portanto, em torno do alcance do poder do papa e do imperador, quem devia mandar mais, em suma. Dante se reunirá aos brancos quando começar na política. (Mais tarde, já no exílio, Dante irá aderir a teses mais próximas às dos gibelinos, sem, no entanto, juntar-se a eles.)
     A divisão entre Brancos e Negros em Florença tomou forma entre as forças sociais que a compunham: de um lado, estavam os nobres, que adotaram o partido dos Negros; do outro, os comerciantes e protoburgueses que ascendiam socialmente na Florença do século XIII, que se filiaram aos Brancos. Aqueles, mais radicais no que se refere à dotação de poder ao papa, defendendo a intromissão direta deste nos assuntos do Estado; estes, embora do lado do papa, propondo um distanciamento maior da Igreja em relação às questões de Estado.
     Aos 35 anos, Dante entrará para política e sairá chamuscado. Ele toma posse como membro no Conselho dos Cem, órgão político que administrava a cidade, em junho de 1300. Nesse cargo se posicionará contra as demandas do papa Bonifácio VIII, figura recorrente na Comédia. O pontífice desejava intervir politicamente em Florença com o apoio do rei francês e dos negros. Por se posicionar contra o papa, Dante irá conhecer “o mais amargo e glorioso exílio de que a história política e cultural se recorda”, nas palavras de Giorgio Petrocchi (1963, p. 15). Ao opor-se ao papa, indispôs-se como os negros, que o expulsaram de Florença ao tomar o poder, em 1302.
     Entre as cidades onde Dante viveu no exílio estão Verona e Ravena. Naquela, morou entre 1312 e 1318 sob a proteção do príncipe Cangrande dela Scala, aludido na Comédia no canto XVII do Paraíso, e em Ravena, de 1318 a 1321, sob os cuidados de Guido Novello da Polenta, mencionado indireta e positivamente no círculo dos fraudulentos, seção do Inferno onde Dante conversa com Ulisses.
     Quando estava exilado em Verona, Dante empreendeu talvez a sua última ação política relevante. Cada vez mais contrário às teses de um governo teocrático, o poeta florentino aproveita a viagem à Itália do imperador Henrique VII, comandante do Império Sacro-Germânico entre 1310 e 1312, para propor-lhe uma intervenção na Toscana. Antes de encontrá-lo pessoalmente escreve-lhe uma carta apaixonada exortando-o a não permanecer no norte da Itália, mas descer até a Toscana e apear os negros do governo de Florença. Para sua frustração, o rei alemão morre em 1313 em Buonconvento, quando viajava para o reino de Nápoles, no sul da Itália.
     Mais tarde Dante torna-se embaixador de Ravena. No retorno de uma viagem a Veneza nessa função, contrai malária, que acaba levando-o à morte em 1321. Seu protetor em Ravena lhe fará um enterro digno, homenagem que não pôde receber de Florença em vida.

A FORMAÇÃO LITERÁRIA

     Dentre os episódios mais conhecidos da vida de Dante está o famoso relato do seu encontro com Beatriz, aos nove anos, narrado em Vida nova: “Desde o meu nascimento, nove vezes o céu de luz havia retornado ao mesmo ponto, em seu giro, quando aos meus olhos surgiu, pela primeira vez, a senhora gloriosa da minha mente, que por muitos foi chamada de Beatriz, mesmo antes de a conhecerem pelo nome” (Pignatari, 2006, p. 18). Sobre esse encontro, não há documento algum além de tal testemunho. Sequer é possível afirmar com certeza que Beatriz tenha existido, mas tudo indica que sim. Seria Beatriz Portinari, filha de Folco Portinari. Nove anos depois do primeiro encontro ele a teria visto na rua e teria sido cumprimentado por ela “tão virtuosamente que, naquela saudação, julguei ver todas as expressões da santidade”. Mas, de concreto mesmo, sabe-se que o poeta casou-se com Gemma Donati dois anos mais tarde, em 1285, e teve três filhos com ela, talvez quatro.
     São escassas também as informações sobre seus estudos. Muito provavelmente foi educado por um tutor, com o qual aprendeu latim, língua que usou para escrever algumas de suas obras e ler Cícero e Virgílio. Sabe se que foi aluno de Brunetto Latino, com quem estudou os provençais, os clássicos de sua época e filosofia medieval. Seu encontro com ele na vala dos sodomitas, no canto XV do Inferno, corrobora tal suposição.
     Além do latim, Dante conheceu outras línguas em Florença, uma cidade grande para os padrões medievais, com cerca de 100 mil habitantes. Comuna rica, circulavam por lá franceses, alemães e italianos de todas as regiões. Uma babel humana e linguística. Os estudos com Brunetto despertaram-lhe o interesse pela poesia provençal, escola que empregou pela primeira vez na Europa a língua vulgar em seus poemas. Isso certamente despertou-lhe o interesse pela língua popular, o italiano, que acabou empregando na Comédia.
     Esses estudos todos somados à sua experiência direta na agitada Florença do século XIII o fizeram figurar, junto com Guido Cavalcanti, entre os maiores poetas da Itália. Por volta de 1285, com cerca de vinte anos, Dante já é um expoente do dolce stil nuovo, escola literária criada em Bolonha (onde também estudou). O amor era o tema central dessa corrente, que o entendia como uma forma de sublimação da virtude, identificando-o com o coração nobre da mulher idealizada, que é percebida como ligação entre o homem e Deus. (Este sem dúvida é o papel de Beatriz na Comédia, na qual ela salva Dante da floresta escura, conclama-o a se arrepender no topo do Purgatório e o guia quase até a sublime visão de Deus.)
     Antes de escrever a Comédia, cuja redação começa em 1307, Dante já produzira várias obras em prosa e verso. Entre 1293 e 1295 escreveu Vida nova; em latim produziu De vulgari eloquentia (1302-1305), sobre a língua italiana; em 1307, termina Il convívio, obra de cunho filosófico, e alguns poemas das Rime petrose. Produziu ao mesmo tempo que compunha a Comédia e Da Monarquia, que terminou em 1317, e vários poemas e cartas, escritos em italiano e latim. Nessas obras Dante tratou da sua vida, de sua lírica, da língua italiana, de filosofia e política. Temas e formas que aparecerão na Comédia com o mesmo rigor, mas embalados pelos versos decassílabos (de dez sílabas métricas) organizados em tercetos rimados (num esquema ABA/ BCB/ CDC e assim por diante) de prodigiosa regularidade e beleza.

A OBRA

     O título dado por Dante a seu poema foi Comédia – pois, ao contrário da tragédia, o poema acaba bem, ou seja, termina no Paraíso. Comédia porque mistura os estilos elevado e baixo (cômico) e também por ter sido escrito em italiano – não em latim, a língua culta da época. O adjetivo “divina” incorporou-se ao título cerca de três décadas depois de sua morte, graças a Boccaccio, autor de Decameron, que assim a chamou na sua obra Trattatello in laude di Dante (Pequeno tratado em louvor a Dante), escrita no século XIV.
     O poema é dividido em três partes – Inferno, Purgatório e Paraíso –, tem cem cantos (com cerca de 130 versos cada um), distribuídos quase igualmente entre os três reinos: 34 cantos no Inferno e 33 nos dois últimos. O Inferno é um abismo em forma de cone escavado pelo corpo do príncipe dos demônios, Lúcifer, que foi lançado do céu assim que se rebelou contra Deus. Sua queda não só gerou tal buraco escuro e doloroso, mas também deslocou imensa massa de terra que formou a montanha do Purgatório no hemisfério oposto. Elevação altíssima onde penam os arrependidos, em seu cume está o Paraíso Terrestre, ou Éden, região próxima das dez esferas celestes que compõem o Paraíso. Este é um reino de luz e som harmônicos, cujas esferas ou céus giram à força do Primeiro Motor, a nona esfera. Na última, no Empíreo, emana a luz de Deus. Essa organização do mundo corresponde às concepções cosmológicas medievais, elaboradas à época de Dante com base nas concepções de Aristóteles e Ptolomeu. Segundo esse modelo cosmológico, a Terra estava no centro do universo e nove céus circulavam à sua volta (Aristóteles dizia serem sete) sustentando os planetas, incluindo o sol, que só bem mais tarde viria a ser pensado como uma estrela.
     Os modelos literários de Dante remontam à literatura latina, sobretudo a Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), autor da Eneida, e Lucano (39-65), autor da Farsália, além de Estácio (c. 45-95), autor da Tebaida, e outros poetas; às passagens bíblicas do Novo e do Antigo Testamento; às visões alegóricas da literatura religiosa medieval; e em especial ao Livro da escada de Maomé, da literatura árabe, que narra a ascensão do profeta muçulmano ao céu. Em relação aos versos, a poesia provençal e o círculo dos poetas sicilianos são as fontes que calibram seus tercetos. Todos esses autores o leitor encontrará na Comédia. Para o contemporâneo de Dante, a visão do mundo dos mortos era um motivo recorrente na cultura da época. Hoje diríamos, talvez, verossímil.
     Dante precisou de dezessete anos para escrevê-la. Acabou de redigir o Inferno em 1308. Precisou de mais quatro anos para escrever o Purgatório. Antes de começar o Paraíso, fez uma revisão do que já redigira por volta de 1315, e em 1316 inicia o Paraíso, cujas últimas linhas escreveu no ano de sua morte. Cópias dela passaram a circular pela Toscana desde 1316, o que fez com que se tornasse, assim, conhecida nos círculos literários da época quando Dante ainda vivia. Quando as cópias do Paraíso se juntaram às outras, completando o poema, ele se tornou famoso em toda a Itália. A história da recepção da Comédia é marcada por idas e vindas. No Renascimento, foi admirada por Michelangelo, mas menosprezada pelos humanistas, sentimento que recebeu também durante o barroco tardio e que assim chegou ao iluminismo (Voltaire foi um de seus principais detratores). A corrente que o resgatou foi sem dúvida o romantismo. No século XVIII a admiração recaía principalmente sobre o Inferno, reino que tem marcado a imagem da obra e está por trás do adjetivo “dantesco” usado até hoje; os góticos estão entre os que legaram a imagem do grotesco da Comédia no Ocidente. Entre os alemães, August W. Schlegel (1767-1845) chegou a traduzir parte do Inferno e Hegel (1770-1831) estendeu a recepção da Comédia para os outros dois cânticos, elaborando uma visão geral da obra. Na passagem do século XVIII para o XIX, a recepção toma impulso também na Inglaterra, sendo o poema admirado por William Blake, e depois por Coleridge e Wordsworth; T.S. Eliot, já no início do século XX, elege Dante como um de seus poetas prediletos. Escritores da “periferia” como Gogol, Sousândrade, Machado de Assis, Ricardo Piglia e Jorge Luis Borges foram seus admiradores, mostrando assim a amplitude da obra do italiano e sua consolidação no cânone da literatura ocidental.
     A recepção da Comédia hoje pode ser medida pelas várias adaptações que vem recebendo, desde best-sellers até versões em quadrinhos, filmes e videogames. São releituras que de alguma forma ecoam a recepção romântica, centrando-se no Inferno, como no jogo Dante’s Inferno, no livro Inferno, de Dan Brown, entre outros. Sem avaliar a qualidade dessas versões, o fato de existirem já é uma boa razão para ler a obra toda, conhecer o que este clássico tem a ponto de ser recriado de tantas formas quase setecentos anos depois de escrito. Outra razão talvez seja vivenciar a história de alguém que se perdeu, testemunhou as piores experiências humanas, viu como a esperança de salvação faz o homem suportar os mais cruéis sofrimentos e comprovou com os próprios olhos a alegria daqueles que chegaram à plena felicidade. Tudo isso num outro mundo, no mundo dos mortos, espelho e alegoria do nosso.

SOBRE A TRADUÇÃO

     Há alguns pares de anos ouvi falar da versão em prosa de Hernâni Donato (Cultrix, 1965) de A divina comédia em uma aula de literatura brasileira na Universidade de São Paulo. O professor conhecia muitíssimo bem o italiano e indicara essa obra para quem quisesse iniciar sua viagem nela.
     Uma tradução em prosa de uma obra em versos serve como porta de entrada para a leitura do original, ou seja, um primeiro passo para um público menos familiarizado com o texto clássico. Donato diz em seu prefácio que a “intenção que presidiu à tarefa de traduzir foi a de tornar Dante mais facilmente compreensível ao leitor comum”. Embora esse propósito esteja por trás deste trabalho, creio que a prosa sirva neste caso também para preparar o leitor, de modo que ele possa, ao encarar a versão em versos, fruí-la melhor, uma vez que as passagens principais, personagens, situações já não são novidade para ele.
     Mas uma versão em prosa não resolve todos os obstáculos para a compreensão desta obra no que se refere ao entendimento de seu conteúdo, da sua história. Os distanciamentos histórico e literário não desaparecem na tradução em prosa; basta ver a quantidade de notas necessárias para ajudar o leitor a compreendê-la. Não é possível elucidar sem notas de rodapé o complicado jogo político da Itália dos séculos XIII e XIV. Elas são imprescindíveis neste caso. O que a prosa traz é a clareza dada pela ordem sintática mais linear e mais articulada que a dos versos. Sem contar, além disso, que a prosa é mais próxima do gênero épico do que do lírico. Aquele gênero, que está na origem do romance, narra uma história, ao passo que este expressa uma aproximação maior entre o eu lírico e o mundo, de modo que elementos como tempo e espaço perdem sua dimensão usual, por exemplo. Evidente que há passagens líricas na Comédia, como os trechos do canto V do Inferno ou os belíssimos versos do último canto do Paraíso, mas a narrativa épica é predominante na obra.
     Outro fator que favorece uma tradução em prosa é o estilo de Dante. Seus versos são menos retorcidos do que muitas traduções deixaram transparecer ao leitor brasileiro. Há tercetos que podem ser vertidos na nossa ordem direta, pois assim estão no original. O hábito de inverter sua ordem deve-se a uma arraigada tradição beletrista nacional. Augusto de Campos chamou atenção para isso quando comentou a versão de Machado de Assis do canto XXV do Inferno, no prefácio às suas belas traduções de Dante, em Invenção – de Arnaut e Raimbaut a Dante e Cavalcanti: “Pecado muito frequente e às vezes inevitável é o do torcicolo das frases, do arrocho das indesejáveis inversões que o ouvido dos brasileiros está cansado de desentender desde as margens plácidas do nosso Ipiranga, mas que aqui desmoronam inevitavelmente quando confrontadas com a linguagem dúctil e fluente da Divina comédia”. Procurou-se, portanto, sempre que possível, traduzir os tercetos em ordem direta ou pelo menos sem os torcicolos mencionados por Campos.
     Contudo, não há como escapar de um problema neste caso. Uma tradução, mesmo em prosa, tem de procurar preservar a força poética a despeito da mudança da forma de expressão. Se não o fizer, corre o risco de constituir uma anódina e escolar paráfrase. Anódina, pois transformaria todas as dificuldades e incríveis invenções poéticas em sentenças pedestres. Escolar, porque lembraria a série de paráfrases da obra realizadas por estudantes italianos que ainda as praticam em sala de aula, nas quais procura-se explicar e até solucionar passagens mais complexas ou até obscuras acrescentando termos, sentenças, informações que não existem na obra original.
     Aqui se fez uma tradução em prosa, não uma paráfrase. Ou seja, procurou-se fazer, como escreveu Donato, “um esforço especial no sentido de não sacrificar aquele intraduzível ‘quê’ existente na poesia da Comédia”. Nesse sentido, as inumeráveis menções indiretas – seja por antonomásias, metáforas, metonímias – a personagens, cidades, entidades mitológicas, constelações, entre outros, foram mantidas, com uma ou outra exceção, empregada ou para diminuir a elaboração de notas de determinada passagem ou para dar mais fluência a este ou aquele trecho.
     O original utilizado foi a versão de Giorgio Petrocchi – Dante Alighieri La Commedia secondo l’antica vulgata –, cujo trabalho de estabelecimento do texto é reconhecido como o mais criterioso atualmente. Em italiano usaram-se também a edição de Italo Borzi, Dante, Tutte Le opere, da Newton Compton (1997), que serviu sobretudo para o estabelecimento das notas, e as organizadas por Umberto Bosco (2001) e Lodovico Magugliani (1949), que também foram úteis para confrontos e redação de trechos e notas.
     Para cotejar, tirar dúvidas, buscar inspirações e citar, foram consultadas as traduções integrais em português e em verso de J.A. Xavier Pinheiro (A divina comédia, 1918), de Cristiano Martins (5 Eugênio Mauro (8 a edição, 1989) e de Ítalo a reimp., 2001), além da tradução do Inferno, de Jorge Wanderley (2004). Também foram consultadas e citadas as traduções de poetas e escritores brasileiros que verteram alguns cantos da Comédia: Machado de Assis, Dante Milano, Mário de Andrade, Augusto de Campos e Haroldo de Campos. Em algumas passagens, soluções desses tradutores e escritores foram citadas integralmente como homenagem a seus trabalhos e como forma de mostrar ao leitor que existe no Brasil desde o século XIX uma recepção importante dessa obra.
     É possível reconhecer dois tipos de tradutores da Comédia: os que enfrentaram a dura tarefa de traduzir em versos integralmente o poema dantesco e os que optaram por verter apenas alguns cantos. Aqueles realizaram a proeza de verter tudo, o que nem sempre é fácil, como aconteceu com Jorge Wanderlei, que morreu antes de terminar seu projeto (só acabou o Inferno); estes últimos – como Machado de Assis, Dante Milano e os irmãos Campos – conseguem outro tipo de proeza: uma beleza muito similar à dos versos de Dante.
     Essa homenagem de certa forma ecoa um procedimento comum entre os épicos, o de citar ou traduzir versos de seus antecessores. Dante faz isso várias vezes com passagens de obras de Virgílio, por exemplo. Todos sabemos que o início dos Lusíadas ecoa o da Eneida. A diferença é que nesta edição damos os créditos, algo próprio da nossa era pós-romântica. Não são muitas passagens, mas o bastante para ilustrar essa tradição.
     As traduções dos livros da Bíblia usadas aqui foram retiradas da edição da Bíblia de Jerusalém (1985), e da Eneida usamos as versões da Manuel Odorico Mendes e de Tassilo Orpheu Spalding.
     Por fim, agradeço especialmente à editora Caroline Chang, que me deu a oportunidade de realizar este projeto e foi bastante paciente com meu ritmo de tradução, bem abaixo do que ela esperava.

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A Divina Comédia
Apresentação 
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[1] Eugênio Vinci de Moraes é bacharel em Língua e Literatura Portuguesa e Italiana, e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, com uma tese intitulada A Tijuca e o Pântano. A Divina comédia na obra de Machado de Assis entre 1870 e 1881. É professor do Centro Universitário Uninter (UNINTER-PR). Traduziu, entre outras obras, A arte da guerra, de Maquiavel (L&PM Editores), e As novelas de Pescara, de Gabriele D'Annunzio (Berlendis&Vertecchia).



Literatura Fundamental 01 - Divina Comédia - Pedro Heise




Cinema: Dante Alighieri

Divina Comédia!!!


o ano é 1350


Em 1350, Giovanni Boccaccio recebeu a incumbência de entregar dez florins de ouro à Irmã Beatrice, filha de Dante Alighieri, no mosteiro de Santo Stefano degli Ulivi, em Ravena. Durante sua longa jornada de Florença a Ravena, Boccaccio reconta as etapas fundamentais da vida do Grande Poeta: da infância à amizade com Guido Cavalcanti, do amor por Beatriz ao dramático exílio de sua amada Florença. Assim, Giovanni Boccaccio empreende uma viagem de aventura para homenagear a memória de Dante Alighieri. Através da história da vida do grande poeta, entre exílios, paixões e tormentos, Boccaccio tenta redimir a injustiça sofrida pelo autor da Divina Comédia, entregando uma compensação tardia pelo seu exílio injusto à sua filha freira em Ravenna. Além de sua filha, conheceremos aqueles que, nos últimos anos do exílio de Ravena, abrigaram e acolheram o grande poeta e também, ao contrário, aqueles que o rejeitaram e o colocaram em fuga. Refaz parte da viagem de Dante, parando nos mesmos conventos, nas mesmas aldeias, nos mesmos castelos, na abertura das mesmas bibliotecas. Nas perguntas que faz e nas respostas que obtém, Boccaccio reconstrói a história de Dante, a ponto de nos poder contar toda a sua história.
O filme é estrelado por Sergio Castellitto e Alessandro Sperduti, e apresenta uma abordagem figurativa que destaca a humanidade do poeta. O filme foi lançado em 2022 e é uma obra que busca explorar o lado mais humano da admirável mente por trás de "A Divina Comédia".






Direção:
Pupi Avati

Roteiristas:
Pupi Avati
Giovanni Boccaccio


Elenco:
Sergio Castellitto
Giovanni Boccaccio
Alessandro Sperduti
Dante Alighieri giovane
Carlotta Gamba
Beatrice Portinari
Enrico Lo Verso
Donato degli Albanzani
Nico Toffoli
Ser Manetto Donati
Ludovica Pedetta
Gemma Donati giovane
Erika Blanc
Gemma Donati anziana
Alessandro Haber
Abate di Vallombrosa
Mariano Rigillo
Meneghino Mezzani
Paolo Graziosi
Alighiero di Bellincione
Leopoldo Mastelloni
Bonifacio VIII
Patrizio Pelizzi
Fazio da Micciole
Rino Rodio
Simone de' Bardi
Valeria D'Obici
Suor Beatrice
Romano Reggiani
Guido Cavalcanti
Giulio Pizzirani
Dante Alighieri anziano
Milena Vukotic
Rigattiera
Antonella Ferrari
Madre di Violante
Valeria Ascione
Suora veglia di Dante
Luca Bagnoli
Pietro Alighieri
Enrico Beruschi
Cameo
Rita Carlini
Cionella Alighieri
Gianni Cavina
Piero Giardina
As Chianese
Boccaccio's Friar Confessor
Cesare Cremonini
Lottieri
Stefano De Sando
Narratore(narração)
Leonardo Della Bianca
Francesco Alighieri
Morena Gentile
Donna gozzuta
Ambra Giordano
Holly Irgen
Zia di Gemma Donati
Valentina Lombardi
Prostituta
Eliana Miglio

Elisa Pierdominici
Violante
Eleonora Pieroni
Nun
Sofia Vittoria Renzi
Beatrice's sister
Patrizia Sacchi

Andrea Santonastaso

Ginevra Toffoli
Castoria
Augusto Zucchi


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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
11. Dante /  



Dante: O poeta, o pensador político e o homem 
(Biografia, de Barbara Reynolds) 
| Tatiana Feltrin




Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: São as sentinelas que abrem as portas (2)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA DA ESPOLIAÇÃO
     
49. São as sentinelas que abrem as portas: a esterilidade culpável da burguesia nacional
          
          A atual estrutura da indústria na Argentina, Brasil e México os três grandes polos de desenvolvimento na América Latina – já expõe as deformações características de um desenvolvimento reflexo. Nos demais países, mais débeis, a satelitização da indústria se operou sem maiores dificuldades, salvo alguma exceção. Não é, por certo, um capitalismo competitivo, aquele que hoje exporta fábricas além de mercadorias e capitais, penetra e monopoliza tudo: esta é a integração industrial consolidada, em escala internacional, pelo capitalismo na idade das grandes corporações multinacionais, monopólios de dimensões infinitas que abrangem as atividades mais diversas nos mais diversos rincões do globo terrestre.¹

[1] BARAN, Paul A. & SWEEZY, Paul M. El capital monopolista. México, 1971.

     Na América Latina, os capitais norte-americanos se concentram mais intensamente do que nos próprios Estados Unidos; um punhado de empresas controla a imensa maioria dos investimentos. Para elas, a nação não é uma tarefa a ser empreendida, nem uma bandeira a defender, nem um destino a conquistar: a nação nada mais é senão um obstáculo a saltar – às vezes a soberania incomoda – e uma sumarenta fruta a devorar. Para as classes dominantes dentro de cada país, constitui a nação, pelo contrário, uma missão a cumprir? O grande galope do capital imperialista encontrou a indústria local sem defesas e sem consciência de seu papel histórico. A burguesia se associou à invasão estrangeira sem derramar lágrimas nem sangue; e quanto ao Estado, sua influência na economia latino-americana, que se debilita há duas décadas, reduziu-se ao mínimo graças aos bons ofícios do Fundo Monetário Internacional. As corporações norte-americanas entraram na Europa com passos de conquistador e a tal ponto se apoderaram do desenvolvimento do velho continente que, sem demora – é o que se anuncia –, a indústria norte-americana ali instalada será a terceira potência industrial do planeta, depois dos Estados Unidos e da União Soviética¹. Se a burguesia europeia, com toda a sua tradição e pujança, não conseguiu opor um dique à maré, caberia esperar que a burguesia latino-americana, nesta altura da história, encabeçasse a impossível aventura de um desenvolvimento capitalista independente? Ao contrário, na América Latina o processo de desnacionalização foi muito mais fulminante e barato, e teve consequências incomparavelmente piores.

[1] SERVAN-SCHREIBET, J. J. El desafío americano. Santiago de Chile, 1968.


     O crescimento fabril da América Latina, em nosso século, foi determinado no exterior. Não foi gerado por uma política planificada e direcionada ao desenvolvimento nacional, nem coroou a maturação das forças produtivas, nem resultou da erupção de conflitos internos, já “superados”, entre os terras-tenentes e um artesanato nacional que morreu pouco depois de nascer. A indústria latino-americana nasceu do próprio ventre do sistema agroexportador, para responder ao agudo desequilíbrio provocado pela queda do comércio exterior. De fato, as duas guerras mundiais e, sobretudo, a profunda depressão que o capitalismo sofreu a partir da explosão da sexta-feira negra de outubro de 1929, causaram uma violenta redução das exportações da região, e em consequência fizeram cair, também de repente, a capacidade de importar. Os preços internos dos artigos industriais estrangeiros, subitamente escassos, subiram verticalmente. Não surgiu, então, uma classe industrial livre da dependência tradicional: o grande impulso manufatureiro proveio do capital acumulado em mãos dos terras-tenentes e dos importadores. Foram os grandes pecuaristas que impuseram o controle de câmbios na Argentina; o presidente da Sociedade Rural, convertido em ministro da Agricultura, declarava em 1933: “O isolamento em que o mundo nos colocou nos obriga a fabricar no país aquilo que já não podemos adquirir nos países que não nos compram”¹. Os fazendeiros do café capitais aplicaram na industrialização de São Paulo boa parte de seus acumulados “Diferentemente da no comércio industrialização nos exterior: países desenvolvidos”, diagnostica um documento governamental², “o processo da industrialização brasileira não se deu paulatinamente, inserto num processo de transformação econômica geral. Foi um fenômeno rápido e intenso, que se sobrepôs à estrutura econômico-social preexistente sem modificá-la por inteiro, dando origem às profundas diferenças setoriais e regionais que caracterizam a sociedade brasileira”.

[1] Citado por PARERA DENNIS, Alfredo. “Naturaleza de las relaciones entre las clases dominantes argentinas y las metrópolis.” In: Fichas de investigación económica y social. Buenos Aires, dezembro de 1964.
[2] MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO E COORDENAÇÃO GERAL. A industrialização brasileira: diagnóstico e perspectivas. Rio de Janeiro, 1969.

     A nova indústria se abrigou atrás das barreiras alfandegárias que os governos levantaram para protegê-la, e cresceu graças a medidas que o Estado adotou para restringir e controlar as importações, fixar taxas especiais de câmbio, evitar impostos, comprar ou financiar os excedentes de produção, abrir estradas para possibilitar o transporte de matérias-primas e mercadorias, e criar e ampliar as fontes de energia. Os governos de Getúlio Vargas (1930-45 e 1951-54), Lázaro Cárdenas (1934-40) e Juan Domingo Perón (1946-55), de orientação nacionalista e amplo prestígio popular, expressaram no Brasil, México e Argentina a necessidade de um ponto de partida, desenvolvimento ou consolidação, segundo cada caso e cada período, da indústria nacional. Na verdade, o “espírito de empresa”, que tem uma série de traços característicos da burguesia industrial nos países capitalistas desenvolvidos, foi na América Latina uma característica do Estado, marcadamente nesses períodos de decisivo impulso. O Estado ocupou o lugar de uma classe social cujo aparecimento a história reclamava sem muito êxito: encarnou a nação e impôs o acesso político e econômico das massas populares aos benefícios da industrialização. Nessa matriz, obra de caudilhos populistas, não se formou uma burguesia industrial essencialmente diferenciada do conjunto das classes até então dominantes. Perón, por exemplo, fez com que entrasse em pânico a União Industrial, cujos dirigentes, não sem razão, viam que o fantasma das montoneras provincianas reaparecia na rebelião dos proletários dos subúrbios de Buenos Aires. As forças da coalizão conservadora, antes que Perón as derrotasse nas eleições de fevereiro de 1946, receberam um famoso cheque do líder dos industriais; na hora da queda do regime, dez anos depois, os donos das fábricas mais importantes voltaram a confirmar que não eram fundamentais suas contradições com a oligarquia da qual, mal ou bem, faziam parte. Em 1956, a União Industrial, a Sociedade Rural e a Bolsa de Comércio formaram uma frente comum em defesa da liberdade de associação, da livre empresa, da liberdade de comércio e da livre contratação de pessoal¹. No Brasil, um importante setor da burguesia fabril juntou-se às forças que induziram Vargas ao suicídio. A experiência mexicana, neste sentido, teve características excepcionais, e por certo prometia muito mais do que aquilo que de fato deu ao processo de mudança na América Latina. O ciclo nacionalista de Lázaro Cárdenas foi o único que quebrou os pratos com os latifundiários e levou adiante a reforma agrária que já convulsionava o país desde 1910; nos demais países, e não só na Argentina e no Brasil, os governos industrializadores deixaram intacta a estrutura fundiária, que continuou estrangulando o desenvolvimento do mercado interno e da produção agropecuária.²

[1] CÚNEO, Dardo. Comportamiento y crisis de la clase empresaria. Buenos Aires, 1967.
[2] Chile, Colômbia e Uruguai também viveram processos de industrialização substitutiva de importações, nos períodos aqui descritos. O presidente uruguaio José Batlle y Ordóñez (1903-7 e 1911-15), algum tempo antes, foi um profeta da revolução burguesa na América Latina. A jornada de trabalho de oito horas foi consagrada em lei no Uruguai antes que nos Estados Unidos. A experiência de welfare state de Batlle não se limitou a pôr em prática a legislação social mais avançada de seu tempo, também impulsionou fortemente o desenvolvimento cultural e a educação das massas, nacionalizou os serviços públicos e várias atividades produtivas de considerável importância econômica. Mas não tocou no poder dos donos da terra, não nacionalizou os bancos nem o comércio anterior. Atualmente, o Uruguai padece as consequências dessas omissões, talvez inevitáveis, do profeta, e das traições de seus herdeiros.

     No geral, a indústria aterrissou como um avião, sem modificar o aeroporto em suas estruturas básicas: condicionada pela demanda de um mercado interno previamente existente, serviu às suas necessidades de consumo e não chegou a ampliá-lo na profunda e extensa medida que as grandes mudanças de estrutura teriam tornado possível, se ocorridas. Do mesmo modo, o desenvolvimento industrial foi obrigado a um aumento das importações de maquinário, peças de reposição, combustíveis e produtos intermediários¹, mas as exportações, fontes das divisas, não podiam dar resposta a esse desafio porque provinham de um campo condenado ao atraso por seus donos. Sob o governo de Perón, o Estado argentino chegou a monopolizar a exportação de grãos; em troca, nem sequer arranhou o regime de propriedade da terra, nem nacionalizou os grandes frigoríficos norte americanos e britânicos e nem os exportadores de lã². O impulso oficial à indústria pesada foi fraco, o Estado não percebeu a tempo que, se não desenvolvesse uma tecnologia própria, sua política nacionalista tentaria voar com as asas cortadas. Já em 1953, Perón, que tinha chegado ao poder enfrentando diretamente o embaixador dos Estados Unidos, recebia com elogios a visita de Milton Eisenhower e pedia cooperação do capital estrangeiro para impulsionar as indústrias dinâmicas³. A necessidade de “associação” da indústria nacional com as corporações imperialistas se tornava peremptória na medida em que eram queimadas etapas na substituição das manufaturas importadas e as novas fábricas requeriam níveis mais altos de técnica e organização. A tendência também ia amadurecendo no seio do modelo industrializador de Getúlio Vargas; pôs-se a descoberto na trágica decisão final do caudilho. Os oligopólios estrangeiros, que concentram a mais moderno tecnologia, apoderavam-se não muito secretamente da indústria nacional de todos os países da América Latina, inclusive o México, através da venda de técnicas de fabricação, patentes e novos equipamentos. Wall Street tinha tomado em definitivo o lugar de Lombard Street, e foram norte-americanas as principais empresas que abriram caminho para o usufruto de um superpoder na região. À penetração na área manufatureira somava-se a ingerência cada vez maior nos circuitos bancários e comerciais; o mercado da América Latina foi-se integrando ao mercado interno das corporações multinacionais.

[1] “A passagem à produção interna de um determinado bem “substitui” apenas parte do valor agregado que antes era gerado fora da economia (...). Na medida em que o consumo desse bem “substituído” se expande rapidamente, a demanda derivada por importações pode ultrapassar em breve a economia de divisas. TAVARES, Maria da Conceição. O processo de substituição de importações como modelo de desenvolvimento recente na América Latina. CEPAL/ILPES. Rio de Janeiro, s.d.
[2] VIÑAS, Ismael & GASTIAZORO, Eugenio. Economía e dependência (1900 1968). Buenos Aires, 1968.
[3] O ministro de Assuntos Econômicos, respondendo a uma pergunta da revista Visión, em 27 de novembro de 1953:
– Além da indústria do petróleo, que outras indústrias a Argentina deseja desenvolver com a cooperação do capital estrangeiro?
– Para ser mais preciso, em ordem de prioridade citaremos o petróleo... Em segundo lugar, a indústria siderúrgica... A química pesada... A fabricação de elementos para o transporte... A fabricação de rodas e eixos... E a construção no país dos motores diesel.
Citado por PARERA DENNIS, op. cit.

     Em 1965, Roberto Campos, o czar econômico da ditadura de Castelo Branco, sentenciava: “A era dos líderes carismáticos, cercados por uma aura romântica, está cedendo lugar à tecnocracia”¹. A embaixada norte americana participou diretamente no golpe de Estado que derrubou o governo de João Goulart. A queda de Goulart, herdeiro de Vargas no estilo e nas intenções, assinalou a liquidação do populismo e da política de massas. “Somos uma nação vencida, dominada, conquistada, destruída”, escrevia-me do Rio de Janeiro um amigo, poucos meses depois do triunfo da conspiração militar: a desnacionalização do Brasil implicava a necessidade de exercer, com mão de ferro, uma ditadura impopular. O desenvolvimento capitalista já não se compaginava com as grandes mobilizações de massas em torno de caudilhos como Vargas. Era preciso proibir as greves, destruir os sindicatos e os partidos, encarcerar, torturar, matar, e apequenar pela violência os salários dos operários, de modo que pudesse ser contida, à custa da maior pobreza dos pobres, a vertigem da inflação. Uma pesquisa realizada em 1966 e 1967 revelou que 84 por cento dos grandes industriais do Brasil considerava que o governo de Goulart aplicara uma política econômica prejudicial. Entre eles estavam, sem dúvida, muitos dos grandes capitães da burguesia nacional nos quais Goulart tentara escorar-se para conter brasileira a sangria imperialista da economia². O mesmo processo de repressão e asfixia do povo teve lugar durante o regime do general Juan Carlos Onganía, na Argentina; na verdade, este processo havia começado com a derrota peronista em 1955, assim como no Brasil se desencadeara com o tiro de Vargas em 1954. A desnacionalização da indústria no México também coincidiu com um endurecimento da política repressiva do partido que monopoliza o governo.

[1] IANNI, Otávio. O colapso do populismo no Brasil. Rio de Janeiro, 1968.
[2] MARTINS, Luciano. Industrialização, burguesia nacional e desenvolvimento. Rio de Janeiro, 1968.

     Fernando Henrique Cardoso assinalou¹ que a indústria leve ou tradicional, crescida à generosa sombra dos governos populistas, exige uma expansão do consumo de massas: as pessoas que compram camisas e cigarros. A indústria dinâmica – bens intermediários e bens de capital –, ao contrário, dirige-se a um mercado restrito, em cujo pináculo estão as grandes empresas e o Estado: poucos consumidores, de grande capacidade financeira. A indústria dinâmica, atualmente em mãos estrangeiras, escora-se na existência prévia da indústria tradicional, e a subordina. Nos setores tradicionais, de baixa tecnologia, o capital nacional conserva alguma força; quanto menos vinculado ao modo internacional de produção pela dependência tecnológica ou financeira, maior tendência mostra o capitalista de olhar com bons olhos a reforma agrária e a elevação da capacidade de consumo das classes populares através da luta sindical. Os mais comprometidos com o exterior, representantes da indústria dinâmica, simplesmente requerem, em troca, o fortalecimento dos laços econômicos entre as ilhas de desenvolvimento dos países dependentes e o sistema econômico mundial, e subordinam as transformações internas a esse objetivo prioritário. Eles falam em nome de toda a burguesia industrial, como o revela, entre outras coisas, o resultado das recentes pesquisas praticadas na Argentina e no Brasil, que servem de matéria-prima para o trabalho de Cardoso. Os grandes empresários se manifestam em termos contundentes contra a reforma agrária; em sua maioria, negam que o setor fabril tenha interesses divergentes dos setores rurais, e consideram que para o desenvolvimento da indústria não há nada mais importante do que a coesão de todas as classes produtoras e o fortalecimento do bloco ocidental. Só uns 2 por cento dos grandes industriais do Brasil e da Argentina consideram que, politicamente, é preciso contar, em primeiro lugar, com os trabalhadores. Os pesquisados, em sua maioria, eram empresários nacionais; também em sua maioria, com as mãos e os pés atados aos centros de poder pelas múltiplas sogas da estrangeiros dependência.

[1] CARDOSO, Fernando Henrique. Ideologías de la burguesía industrial en sociedades dependientes (Argentina y Brasil). México, 1970.

     Caberia, nesta altura, esperar outro resultado? A burguesia industrial integra a constelação de uma classe dominante que, por sua vez, é dominada pelo exterior. Os principais latifundiários da costa do Peru, hoje expropriados pelo governo de Velasco Alvarado, são donos de 31 indústrias de transformação e de muitas outras e distintas empresas¹. Outro tanto ocorre em todos os outros países². O México não é uma exceção: a burguesia nacional, subordinada aos grandes consórcios norte americanos, receia muito mais a pressão das massas do que a opressão do imperialismo, em cujo seio se desenvolve sem independência e sem a imaginação criadora que se lhe atribui, e com eficácia multiplica seus lucros³. Na Argentina, o fundador do Jockey Club, centro do prestígio social dos latifundiários, era ao mesmo tempo o líder dos industriais4, e assim se iniciou, em fins do século passado, uma tradição imortal: os artesãos enriquecidos se casam com as filhas dos terras-tenentes para abrir, pela via conjugal, as portas dos salões mais exclusivos da oligarquia, ou compram terras com os mesmos objetivos, e não são poucos os pecuaristas que, por sua vez, investiram na indústria, ao menos nos períodos de auge, os excedentes de capital acumulados em suas mãos.

[1] BOURRICAUD, François, BRAVO BRESANI, Jorge, FAVRE, Henri, e PIEL, Jean. La oligarquía en el Perú. Lima, 1969. A informação é do trabalho de Favre.
[2] LAGOS ESCOBAR, Ricardo. La concentración del poder económico. Su teoría. Realidad chilena. Santiago de Chile, 1961, e TRÍAS, Vivian. Reforma agraria en el Uruguay. Montevideo, 1962. Ambos oferecem exemplos irrefutáveis: algumas centenas de famílias são proprietárias das fábricas e das terras, das grandes lojas e dos bancos.
[3] “Os capitalistas mexicanos são cada vez mais versáteis e ambiciosos. Independentemente do negócio que lhes serviu de ponto de partida para enriquecer, dispõem de uma fluída rede de canais que sempre proporciona a todos, ou ao menos aos mais proeminentes, a possibilidade de multiplicar e entrelaçar seus interesses através da amizade, da associação nos negócios, do casamento, do compadrio, da concessão de muitos favores, do pertencimento a certos clubes ou agremiações, das frequentes reuniões sociais e, por certo, da afinidade de suas posições políticas”. AGUILAR MONTEVERDE, Alonso, em El milagro mexicano, de vários autores. México, 1970.
[4] Era Carlos Pellegrini. Quando o Jockey Club lhe fez uma homenagem, editando seus discursos, suprimiu aqueles que sustentavam as teses industrialistas. CÚNEO, op. cit.

     Faustino Fano, que fez boa parte de sua fortuna como comerciante e industrial têxtil, tornou-se presidente da Sociedade Rural durante quatro períodos consecutivos, até sua morte em 1967: “Fano destruiu a falsa antinomia agro/indústria”, proclamavam os necrológios que os jornais lhe devotaram. O excedente industrial se converte em vacas. Os irmãos Di Tella, poderosos industriais, venderam para capitais estrangeiros suas fábricas de automóveis e geladeiras, e agora criam touros de cabanha para as exposições da Sociedade Rural. Meio século antes, a família Anchorena, dona dos horizontes da província de Buenos Aires, levantou uma das mais importantes fábricas metalúrgicas da cidade.
     Na Europa e nos Estados Unidos a burguesia industrial surgiu no cenário histórico de outra e muito diferente maneira, e de outra e diferente maneira cresceu e consolidou seu poder.

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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
A Estrutura Contemporânea da Espoliação
São as sentinelas que abrem as portas (2)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?