A Montanha Mágica
Capítulo VII
A grande irritação
Mas, quando o Sr. Settembrini introduziu na conversa a palavra “justiça” e recomendou
esse sublime princípio como meio preventivo contra catástrofes políticas, tanto externas como
internas, evidenciou-se que o mesmo Naphta que acabava de julgar o espírito por demais elevado
para que fosse possível e desejável a sua encarnação numa forma terrena punha agora em dúvida
precisamente o espírito e se empenhava em denegri-lo. Justiça? Era ela uma ideia digna de
adoração? Uma ideia divina? Uma ideia de primeira categoria? Deus e a natureza eram injustos,
tinham favoritos, selecionavam segundo as suas simpatias, concediam perigosas distinções a um e
preparavam a outro uma sorte fácil e banal. E o homem dotado de vontade? Para ele, a justiça
era, de um lado, uma franqueza paralisante, a dúvida em si, e de outro, uma fanfarra que o
chamava para atos inescrupulosos. Desde que o homem, para manter-se dentro da esfera da
moral, tinha de corrigir esta “justiça” por aquela – onde ficavam a incondicionalidade e o
radicalismo da ideia? Ademais, era-se “justo” para com um ou outro dos dois pontos de vista. O
resto não passava de liberalismo, e com isso não se arranjava mais nada hoje em dia. Numa
palavra, a justiça era um termo oco da retórica burguesa, e para chegar à ação era preciso saber de
que justiça se tratava – daquela que desejava conceder a cada um o que lhe pertencia ou da outra
que queria dar parte igual a todos.
Escolhemos a esmo, das discussões sem fim, um exemplo para demonstrar a maneira
como Naphta trabalhava por perturbar a razão. No entanto, era ainda pior o modo como falava
da ciência, na qual não acreditava. Não tinha fé na ciência – dizia – visto o homem ter plena
liberdade de crer ou não crer nela. Essa era uma crença como qualquer outra, apenas mais tola e
mais prejudicial. A própria palavra “ciência” era a expressão do mais estúpido realismo que não
se envergonhava de aceitar e gastar como moeda sonante os reflexos mais que duvidosos que os
objetos sofriam do intelecto humano, e de preparar com eles a mais lamentável e a mais insossa
doutrina que já se impingiu à humanidade. Não constituía, porventura, o conceito de um mundo
material existente por si só a mais ridícula de todas as autocontradições? Ora, a ciência natural
moderna, como dogma, baseava-se exclusivamente no postulado metafísico, segundo o qual o
tempo, o espaço e a causalidade – a saber, as formas de conhecimento dentro das quais se passam
os fenômenos do mundo – eram condições reais, existentes independentemente do nosso
conhecimento. Essa afirmação monista era o mais berrante desaforo que já foi pespegado ao
espírito. Em linguagem monista, o tempo, o espaço e a causalidade chamavam-se evolução, e
com isso estava-se à frente do dogma central da pseudo-religião livre-pensadora e ateística, por
meio da qual se tencionava abolir o primeiro Livro de Moisés e opor a sabedoria esclarecedora a
uma fábula estultificante, como se Haeckel tivesse estado presente no momento em que nascia a
Terra. Empirismo? O éter universal era, acaso, exato? O átomo, essa graciosa brincadeira
matemática em torno da “parcela menor e indivisível” – existia uma prova que o demonstrasse?
A teoria do espaço e do tempo infinitos fundava-se certamente na experiência; ou talvez não?
Com efeito, qualquer pessoa que soubesse pensar logicamente seria levada a experiências curiosas
e a resultados divertidos com esse dogma do espaço e do tempo infinitos e reais; obteria
precisamente o resultado: nada. Perceberia que o tal realismo era genuíno niilismo. Por quê? Pela
simples razão de a relação entre qualquer grandeza e o infinito ser zero. No infinito não existia
medida, e na eternidade não havia nem duração nem modificação. No espaço infinito, onde todas
as distâncias seriam matematicamente iguais a zero, não era possível conceber nem sequer dois
pontos situados um ao lado do outro, e ainda menos dois corpos, para não falar de um
movimento. Ele, Naphta, fazia questão de constatar isso, para contrariar o atrevimento com que
a ciência materialista apresentava os disparates astronômicos e o seu palavrório frívolo acerca do
universo como se fossem conhecimentos absolutos. Coitada da humanidade, que, em face de
uma exposição ostensiva de cifras vazias, deixou que lhe impingissem o sentimento da sua
própria nulidade e admitiu que a privassem do sentido patético da sua importância! Talvez fosse
ainda tolerável que a razão e o conhecimento humanos se mantivessem dentro da esfera terrena e
nesse campo tratassem como reais as suas experiências na exploração do objetivo e do subjetivo.
Mas quando ultrapassassem esses limites e estendessem a mão para o enigma eterno, dedicando
se à chamada cosmologia ou cosmogonia, levariam a brincadeira um pouco longe, e a sua
presunção chegaria ao cúmulo do grotesco. Que absurdo blasfemo querer calcular a “distância”
entre um astro e a Terra em trilhões de quilômetros ou também em anos-luz e imaginar que por
meio dessas mentiras matemáticas se pudesse abrir ao espírito humano a vista para o infinito e o
terreno, quando, em realidade, o infinito nada, absolutamente nada tinha que ver com grandezas,
e a eternidade, nada com a duração e com os lapsos de tempo. Pelo contrário, o infinito e a
eternidade, longe de serem conceitos da ciência natural, representavam justamente a abolição
daquilo que chamamos natureza. A ingenuidade de uma criança que tomasse as estrelas por
buracos no dossel celeste, através dos quais penetrasse a claridade eterna, lhe parecia mil vezes
preferível a toda aquela lengalenga oca, disparatada, presunçosa, que a ciência monista produzia
com respeito ao “universo”.
Settembrini perguntou se Naphta, por sua parte, partilhava dessa crença quanto às
estrelas, ao que o jesuíta respondeu que se reservava o direito da humildade e da liberdade do
ceticismo. Essas palavras davam mais um ensejo para formar uma ideia daquilo que ele entendia
por “liberdade”, e deixavam entrever aonde conduziria esse conceito. Se ao menos o Sr.
Settembrini não tivesse motivos ponderáveis para recear que Hans Castorp achasse essas coisas
dignas de serem ouvidas!
A malícia de Naphta ficava à espreita de oportunidade para descobrir as fraquezas do
progresso dominador da natureza e para demonstrar que os seus pioneiros e campeões sofriam
recaídas muito humanas no irracional. Os aviadores, dizia ele, eram na maioria uns indivíduos
suspeitos, de pouco valor, e sobretudo muitíssimo supersticiosos. Costumavam levar consigo a
bordo dos aviões mascotes ou uma gralha, cuspiam três vezes em todas as direções e calçavam as
luvas dos seus predecessores afortunados. Tal insensatez primitiva era, porventura, compatível
com a concepção do mundo em que se alicerçava a sua profissão?... A contradição que Naphta
acabava de revelar divertia-o, causava-lhe prazer, de maneira que insistia nessa tecla por muito
tempo. Mas todos esses exemplos não são senão casos isolados do sem-número de ditos hostis
proferidos por Naphta. Abandonemo-los para contar fatos infelizmente muito reais.
Certa tarde de fevereiro, os cavalheiros se reuniram para uma excursão a Monstein,
localidade situada a uma hora e meia de trenó da sua morada habitual. O grupo era formado por
Naphta, Settembrini, Hans Castorp, Ferge e Wehsal. Foram em dois trenós, cada qual tirado por
um só cavalo. No primeiro embarcaram Hans Castorp e o humanista, no segundo Naphta, Ferge
e Wehsal, que se instalou na boléia, ao lado do cocheiro. Todos estavam bem agasalhados. Às três
horas partiram do domicílio dos externos. Os guizos soavam simpaticamente através da paisagem
silenciosa sob a sua coberta de neve, enquanto os trenós seguiam ao longo da encosta direita,
passando por Frauenkirch e Glaris, rumo ao sul. Nuvens carregadas de neve aproximavam-se
rapidamente, vindas dessa mesma direção, de modo que pouco depois desapareceu todo o azul
do céu, salvo uma estreita nesga atrás deles, por cima da cordilheira Rética. O frio era intenso. As
montanhas estavam envoltas em bruma. A estrada que percorriam, essa plataforma angusta, sem
balaustrada, construída entre a parede e o abismo, subia uma vertente íngreme, coberta de abetos.
Os cavalos avançavam a passo. Frequentemente vinham a seu encontro desportistas com trenós,
deslizando pela encosta, e que desmontavam para dar-lhes passagem. Por detrás das curvas
ressoavam em delicada advertência guizos estranhos. Trenós puxados por dois cavalos atrelados
um atrás do outro passavam por eles, sendo então preciso esquivar-se com muita cautela. Perto
da meta da viagem descortinava-se uma linda vista sobre um trecho rochoso da estrada de Zügen.
Defronte ao pequeno hotel de Monstein, que se chamava Kurhaus, desembrulharam-se dos
cobertores e caminharam alguns passos para poder contemplar o Stulsergrat. A gigantesca
escarpa, de três mil metros de altura, estava escondida na bruma. Só se via em alguma parte um
pico alto como o céu, superterreno, por assim dizer, recordando um longínquo Valhala, sagrado e
inacessível. Hans Castorp estava cheio de admiração por esse espetáculo e exortou os outros a
partilhar com ele desse sentimento. Foi ele quem, tomado de uma sensação de humildade,
pronunciou a palavra “inacessível”, dando com isso ao Sr. Settembrini uma oportunidade para
observar que aquele cume já havia sido escalado. Era, aliás, uma coisa que quase não existia mais,
essa da inacessibilidade e dos lugares em que o homem ainda não houvesse posto o pé. Naphta
retrucou que isso era um pequeno exagero e uma gabolice. E citou o monte Everest, que por
enquanto opunha uma negativa glacial à arrogância dos homens e parecia querer obstinar-se
nessa reserva. O humanista mostrou-se agastado. O grupo voltou ao Kurhaus, à frente do qual se
achavam além dos seus próprios trenós mais alguns outros, desatrelados.
No primeiro andar havia quartos numerados, onde a gente podia hospedar-se. Era
também ali que estava situada a sala de refeições, de aspecto rústico, bem aquecida. Os
excursionistas encarregaram a hoteleira solícita de lhes trazer uma pequena refeição: café, mel,
pão branco e bolo de peras, a especialidade do lugar. Mandaram servir vinho tinto aos cocheiros.
As outras mesas estavam ocupadas por turistas suíços e holandeses.
Gostaríamos de afirmar que em torno da mesa dos nossos cinco amigos o café quente,
muito digno de elogios, houvesse originado uma conversa mais elevada. Mas isso seria inexato,
uma vez que essa conversa era em realidade um solilóquio de Naphta, que a monopolizou depois
de umas poucas palavras com que os outros haviam contribuído para ela, um monólogo
pronunciado de forma bastante estranha, censurável do ponto de vista das convenções, visto o
ex-jesuíta se dirigir exclusivamente a Hans Castorp, doutrinando-o com muita amabilidade, ao
passo que voltava as costas a seu outro vizinho, que era o Sr. Settembrini, e também não prestava
a menor atenção aos dois outros senhores.
Seria difícil definir qual era o tema das suas improvisações, que Hans Castorp
acompanhava sacudindo a cabeça em sinal de meia aprovação. Não havia, em realidade, um
assunto único. A palestra vagava livremente pela esfera do espírito, roçando isto e aquilo,
empenhada, essencialmente, em demonstrar, de forma desanimadora, a ambiguidade dos
fenômenos espirituais da vida, bem como a natureza irisante e a debilidade combativa das
grandes ideias derivadas deles. Esforçava-se por tornar evidente que o absoluto se apresentava
neste mundo em roupas muitíssimo cambiantes.
A rigor se poderia dizer que a sua conferência se ocupava do problema da liberdade, que
ele tratava com o propósito de criar confusão. Entre outras coisas, mencionamos o Romantismo
e o fascinante sentido duplo, inerente a esse movimento europeu de princípios do século XIX,
em face do qual fracassariam conceitos como “reação” ou “revolução”, a não ser que se
reunissem num conceito superior. Naturalmente era ridículo querer associar o conceito do
“revolucionário” apenas ao progresso e ao esclarecimento vitorioso. O Romantismo europeu
tinha sido, antes de mais nada, um movimento libertador, de caráter anticlassicista e
antiacadêmico, dirigido contra o gosto da França antiga, contra a velha escola da razão, cujos
paladinos eram ridicularizados como cabeças de perucas empoadas.
E Naphta veio a falar das Guerras de Libertação, do entusiasmo fichteano, do
levantamento delirante, poético, de um povo contra uma tirania insuportável, que,
desgraçadamente (ah, ah!), era a encarnação da liberdade, quer dizer, das ideias da Revolução.
Que coisa divertida! Cantando a altas vozes, o povo erguera o braço para esmagar a tirania
revolucionária em prol da opressão reacionária dos príncipes; e isso tinha sido feito em nome da
liberdade!
Aí o jovem ouvinte podia notar a diferença ou talvez a oposição existente entre a
liberdade exterior e a interior. E ao mesmo tempo achava-se diante da escabrosa questão de saber
que forma de servidão era mais ou (ah, ah!) menos compatível com a honra de uma nação.
Em última análise, a liberdade era um conceito do Romantismo antes do que da Época
das Luzes, pois com aquele tinha em comum o entrelaçamento inextricável dos impulsos de
expansão coletiva e do ensimesmamento apaixonadamente individualístico. A sede
individualística de liberdade originara o culto histórico-romântico do nacional, culto esse que era
belicoso e que o liberalismo humanitário tachava de sinistro, posto que ele mesmo nada fizesse
senão pregar o individualismo, somente de maneira um pouco diversa. O individualismo era
romântico-medieval na sua concepção da infinita, da cósmica importância do indivíduo; dela
resultavam a doutrina da imortalidade da alma, a teoria geocêntrica e a astrologia. Por outro lado,
era o individualismo um aspecto do humanismo de tendências liberalísticas, que inclinava para a
anarquia e queria, em todo caso, proteger o querido indivíduo contra o destino de ser imolado à
coletividade. Um e outro aspecto eram individualismo, e esse termo servia para muita coisa.
Mas devia-se admitir que o entusiasmo libertador tinha produzido os mais brilhantes
adversários da liberdade, os mais engenhosos campeões do passado, no combate ao progresso
impiamente destrutor. Naphta citou Arndt, que amaldiçoara o industrialismo e enaltecera a
nobreza; mencionou também Görres, o autor da Mística cristã. A mística, acaso, nada tinha que ver
com a liberdade? Não fora ela antiescolástica, antidogmática, anticlerical? Embora fosse forçoso
considerar a hierarquia uma potência libertadora, desde que opusera um dique à monarquia
absoluta... A mística da última fase da Idade Média pusera à prova o seu caráter liberal como
precursora da Reforma. Sim, da Reforma (ah, ah!), que, por sua vez, havia sido um amálgama
indissolúvel de liberdade e de reação medieval...
E a obra de Lutero? Ah, sim, esta obra tinha o mérito de patentear com a mais crua
nitidez a natureza dúbia da própria ação, da ação em geral. Sabia o ouvinte de Naphta o que era
uma ação? Uma ação fora, por exemplo, o assassínio do Conselheiro de Estado Kotzebue pelo
estudante Sand. Que fora aquilo que, para empregar a linguagem da criminologia, pusera a arma
na mão do jovem Sand? O amor à liberdade, naturalmente! Mas, diante de uma observação mais
detida, manifestava-se que, em realidade, não tinha sido esse amor, senão o fanatismo moral e o
ódio à estrangeirice frívola. Por outro lado estivera Kotzebue a serviço dos russos, isto é, a
serviço da Santa Aliança, de maneira que Sand talvez, apesar de tudo, o tivesse apunhalado em
prol da liberdade... O que, no entanto, também parecia improvável, em face da circunstância de
haver jesuítas entre os seus amigos mais íntimos. Em suma, fosse o que fosse a ação, em todo
caso era um meio pouco adequado para expressar-se com clareza e contribuía pouco para
resolver os problemas espirituais.
– Posso me permitir a pergunta: quando o senhor tenciona terminar com essas
indecências?
Quem perguntara assim era o Sr. Settembrini, e isso num tom muito veemente.
Mantivera-se quieto na sua cadeira, tamborilando na mesa e torcendo os bigodes. Mas aquilo lhe
enchia as medidas. Sua paciência estava esgotada. Empertigava-se, numa posição mais do que
ereta, com o rosto empalidecido. Era como se, apesar de sentado, se colocasse nas pontas dos
pés, de modo que apenas as coxas tocavam o assento. Com os olhos brilhantes encarava o
inimigo que acabava de voltar-se para ele com fingida surpresa.
– Como houve por bem o senhor expressar-se? – foi a pergunta com que Naphta
protestou.
– Eu houve por bem... – disse o italiano, engolindo em seco – eu hei por bem declarar
que estou decidido a impedir que o senhor continue a importunar a juventude indefesa com suas
palavras equívocas!
– Convido o senhor a ponderar o que diz.
– Senhor, dispenso tal convite. Estou acostumado a ponderar o que digo, e a minha
expressão corresponde exatamente às circunstâncias, quando afirmo que o seu jeito de perturbar
o espírito da juventude já de per si vacilante, de seduzi-la e de debilitar-lhe a moral, é uma infâmia
e que palavras não são suficientes para castigá-lo devidamente...
Ao pronunciar a palavra “infâmia”, Settembrini golpeou a mesa com a palma da mão. A
seguir empurrou a cadeira para trás e levantou-se, dando dessa forma aos outros o sinal para
imitá-lo. As pessoas que se achavam nas outras mesas observavam a cena com perplexidade;
eram os holandeses, visto os suíços já terem partido.
Todos os componentes do nosso grupo encontravam-se, pois, de pé, em atitude tensa,
Hans Castorp e os dois adversários, e em frente deles Ferge e Wehsal. Todos os cinco estavam
pálidos, com os olhos arregalados e as bocas crispadas. Não poderiam os três desinteressados ter
feito uma tentativa para intervir num sentido conciliador, afrouxando a tensão por meio de uma
piada e arranjando tudo mediante um apelo humano? Não fizeram tal tentativa. O seu estado de
espírito opunha-se a isso. Quedavam-se de pé, trêmulos, e, sem querer, suas mãos se fechavam.
O próprio A. K. Ferge, que declaradamente nada entendia de quaisquer coisas sublimes e de
antemão renunciava a imaginar o alcance da querela – também ele estava convencido de que
desta vez não havia lugar para transigências e que as pessoas que, elas mesmas fascinadas,
presenciavam a contenda, nada podiam fazer senão deixar as coisas tomarem seu curso normal.
Seu bigode hirsuto e bonachão subia e descia em movimentos rápidos.
Reinava completo silêncio, de forma que se podia ouvir como Naphta rangia os dentes.
Isso representava para Hans Castorp uma experiência semelhante àquela dos cabelos eriçados de
Wiedemann. Pensara ele que “ranger os dentes” fosse somente uma locução e não um fato que se
pudesse produzir. Mas, nesse momento, o rangido ressoava realmente através do silêncio, um
ruído bastante desagradável, selvagem e fantástico, que, no entanto, dava a prova de um
formidável domínio de si próprio; pois, longe de gritar, o jesuíta disse em voz baixa, apenas com
uma quase risada ofegante:
– Infâmia? Castigar? Será que os burros virtuosos se metem a dar coices? Levamos a
polícia pedagógica da civilização a desembainhar a espada? Eis o que chamo um êxito, facilmente
obtido, logo de início, como acrescento com desdém, visto que uma ironia leve foi suficiente para
mobilizar a virtude vigilante! Quanto ao resto, senhor, virá a seu tempo. Inclusive o tal castigo,
sim, senhor! Espero que os seus princípios sociais não o impeçam de saber o que me deve. Caso
contrário, ver-me-ei forçado a pôr esses princípios à prova por meios que...
Um gesto terminante de Settembrini fez com que Naphta continuasse:
– Ah, já vejo que isso não será necessário. Eu estou no seu caminho, o senhor está no
meu. Muito bem, liquidemos essa pequena diferença num lugar adequado. De momento só quero
dizer uma coisa: o seu temor devoto pela ideologia escolástica da revolução jacobina vê um crime
pedagógico na minha maneira de induzir a juventude a duvidar, de derrubar as categorias e de
privar as ideias da dignidade acadêmica da virtude. Esse temor é por demais compreensível, pois
a sua humanidade saiu de moda – tenha certeza disso – saiu de moda, acabou-se! Hoje em dia já
não passa de um rabicho, uma sensaboria classicista, um ennui espiritual que faz bocejar, e que a
nova revolução, a nossa, senhor, está a ponto de abolir. Quando, na nossa função de educadores,
semeamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais imaginou o seu modesto espírito
esclarecido, sabemos perfeitamente o que estamos fazendo. Unicamente do ceticismo radical, do
caos moral nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Isso lhe digo para
justificar-me e para instruí-lo. O resto pertence a um outro capítulo. O senhor terá notícias
minhas.
– Estou ansioso por recebê-las, senhor! – gritou Settembrini por trás de Naphta, que,
abandonando a mesa, se encaminhava ao cabide para apanhar o seu casaco de pele. A seguir, o
maçom deixou-se cair pesadamente na cadeira e apertou o coração com ambas as mãos.
– Distruttore! Cane arrabiato! Bisogna ammazzarlo! – sibilou arfando. Os outros continuavam de pé em torno da mesa. Os bigodes de Ferge prosseguiam
subindo e descendo. Wehsal deixava pender obliquamente a mandíbula inferior. Hans Castorp
arremedava o jeito do avô quando escorava o queixo no colarinho, porque sentia a nuca tremer.
Todos estavam pensando no inesperado desfecho da sua excursão. Todos, sem exceção do Sr.
Settembrini, pensavam também na circunstância feliz de terem alugado dois trenós em vez de um
em comum, o que pelo menos facilitava o regresso. Mas que haveria depois?
– Ele provocou o senhor para um duelo – disse Hans Castorp com o coração angustiado.
– Com efeito – respondeu Settembrini, erguendo o olhar para o jovem que se achava de
pé à sua frente. Mas logo o desviou dele e descansou a cabeça na mão.
– O senhor aceita? – quis Wehsal saber.
– Que pergunta! – retrucou Settembrini, lançando também a ele um rápido olhar. –
Senhores – continuou então, levantando-se completamente controlado –, lastimo que o nosso
passeio tenha chegado a este fim, mas, na vida que vivemos, todo homem deve andar preparado
para essa espécie de incidentes. Teoricamente desaprovo o duelo. Por índole sou obediente à lei...
Na prática, porém, o caso é diferente, e existem situações onde... existiam contrastes que... Numa
palavra, estou à disposição desse cavalheiro. Ainda bem que na minha juventude pratiquei um
pouco de esgrima. Algumas horas de treino hão de me devolver a agilidade do punho. Vamos
embora! A respeito de tudo o mais a gente se porá de acordo. Acho que aquele senhor já terá
dado ordem para atrelar.
continua pág 456...
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Leia também:
Capítulo I / A Chegada
Capítulo II / Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo V / Sopa eterna e clareza repentina (a)
Capítulo VI / Transformações (a)
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [c] / Coisas muito problemáticas - [a] / Coisas muito problemáticas - [b] /
Coisas muito problemáticas - [c] / Coisas muito problemáticas - [d] / A grande irritação - [a] / A grande irritação - [b] /
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.