domingo, 3 de maio de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1


1.
continuando...
     
     Acontecera naquela manhã no Ministério, se é que se podia dizer que algo assim tão nebuloso pudesse ser chamado de acontecimento.
     Eram quase onze da manhã, e no Departamento de Documentação, onde Winston trabalhava, já arrastavam as cadeiras para fora das estações de trabalho para reuni-las no centro do salão, na frente da grande teletela, nos preparativos para os Dois Minutos de Ódio. Winston estava a ponto de se instalar em uma das fileiras centrais, quando de repente duas pessoas a quem conhecia de vista mas com quem nunca trocara uma só palavra entraram no aposento. Uma delas era uma garota com quem muitas vezes cruzava nos corredores. Não sabia seu nome, porém sabia que trabalhava no Departamento de Ficção. Supunha — já que a vira algumas vezes com as mãos sujas de óleo e munida de uma chave inglesa — que tivesse uma função de caráter mecânico em alguma das máquinas romanceadoras. Era uma garota de ar provocador, de uns vinte e sete anos, abundante cabelo preto, rosto sardento e movimentos bruscos, atléticos. Trazia uma faixa estreita, escarlate, símbolo da Liga Juvenil Antissexo, enrolada na cintura por cima do macacão, de modo a evidenciar sutilmente as formas harmoniosas de seus quadris. Winston sentira aversão por ela desde o primeiríssimo momento em que a vira. Sabia a razão. Era por causa da atmosfera de quadras de hóquei, banhos frios, caminhadas comunitárias e mente impoluta que, por alguma razão, a impregnava. Sentia aversão por quase todas as mulheres, sobretudo as jovens e bonitas. Os adeptos mais fanáticos do Partido, os devoradores de slogans, os espiões amadores e os farejadores de inortodoxia eram sempre mulheres, sobretudo as jovens. Mas aquela garota em especial lhe dava a impressão de ser mais perigosa do que a maioria. Numa ocasião em que os dois haviam se cruzado no corredor ela lhe dirigira um rápido olhar enviesado que parecera perfurar seu corpo e por um instante o deixara tomado do mais profundo horror. Passara-lhe pela cabeça, inclusive, que ela devia ser uma agente da Polícia das Ideias. Isso, na verdade, era muito improvável. Mesmo assim ele continuava a sentir um desconforto esquisito, uma mistura de medo e hostilidade, sempre que ela estava por perto.
     A outra pessoa era um homem chamado O’Brien, membro do Núcleo do Partido e ocupante de um cargo tão importante e remoto que Winston fazia apenas uma vaga ideia de qual fosse sua natureza. Por um momento, ao ver o macacão negro de um membro do Núcleo do Partido se aproximar, o grupo de pessoas que cercavam as cadeiras ficou em silêncio. O’Brien era um homem grande, corpulento, de pescoço grosso e rosto rude, jocoso, brutal. A despeito da aparência imponente, seu estilo não era desprovido de sedução. Tinha um jeito de reposicionar os óculos no alto do nariz que era curiosamente desarmante — de um modo impossível de definir, curiosamente civilizado. Era um gesto que, caso ainda fosse possível alguém pensar nestes termos, talvez lembrasse um nobre inglês do século XVIII oferecendo a caixa de rapé. Winston cruzara O’Brien uma dúzia de vezes, talvez, ao longo de um número quase igual de anos. Sentia-se intensamente atraído por ele, e não apenas porque o contraste entre seus modos educados e seu físico de combatente de elite o intrigasse. Era muito mais em razão de uma crença secreta — talvez nem chegasse a ser crença, talvez fosse apenas uma esperança —: a de que a ortodoxia política de O’Brien não era impecável. Alguma coisa no rosto do outro o fazia acreditar piamente nisso. E, de novo, talvez não fosse nem inortodoxia o que estava escrito naquele rosto, mas tão só inteligência. Por isso ou por aquilo, O’Brien parecia ser uma pessoa com quem se podia conversar, se por acaso fosse possível lograr a teletela e ficar a sós com ele. Winston nunca fizera o menor esforço para tirar sua dúvida a limpo: na verdade, não havia como fazê-lo. Naquele momento O’Brien dirigiu os olhos para o relógio de pulso, viu que já eram quase onze horas e, óbvio, resolveu ficar no Departamento de Documentação até o término dos Dois Minutos de Ódio. Ocupou um assento na mesma fileira em que estava Winston, a dois lugares de distância. Uma mulher franzina, de cabelo ruivo, que trabalhava no cubículo vizinho ao de Winston, estava sentada entre os dois. A garota de cabelo escuro estava logo atrás.
     Pouco depois um guincho pavoroso, estridente, como o som produzido por alguma máquina monstruosa girando sem lubrificação, escapou da vasta teletela posicionada no fundo da sala. Era um barulho que mexia com os nervos da pessoa e arrepiava os cabelos da nuca. O Ódio havia começado.
     Como de costume, o rosto de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Ouviram-se assobios em vários pontos da plateia. A mulher ruiva e franzina soltou um guincho em que medo e repugnância se fundiam. Goldstein era o renegado e apóstata que um dia, muito tempo antes (quanto tempo, exatamente, era coisa de que ninguém se lembrava), fora uma das figuras destacadas do Partido, quase tão importante quanto o próprio Grande Irmão, e que depois se entregara a atividades contrarrevolucionárias, fora condenado à morte e em seguida fugira misteriosamente e sumira do mapa. A programação de Dois Minutos de Ódio variava todos os dias, mas o principal personagem era sempre Goldstein. Ele era o traidor original, o primeiro conspurcador da pureza do Partido. Todos os crimes subsequentes contra o Partido, todas as perfídias, sabotagens, heresias, todos os desvios eram resultado direto de sua pregação. Desta ou daquela maneira ele continuava vivo e maquinando seus conluios: talvez em algum lugar do outro lado do mar, talvez até sob a proteção de seus benfeitores estrangeiros — era o que se dizia ocasionalmente — em algum esconderijo na própria Oceânia.
     O diafragma de Winston estava contraído. Ele era incapaz de olhar para o rosto de Goldstein sem ser invadido por uma dolorosa combinação de emoções. Era um rosto judaico chupado, envolto por uma vasta lanugem de cabelo branco e munido de um pequeno cavanhaque — um rosto inteligente e apesar disso, por alguma razão, inerentemente desprezível, com uma espécie de tolice senil no longo nariz esguio, onde se equilibrava um par de óculos já perto da ponta. Parecia a cara de uma ovelha, e a voz, também, tinha uma qualidade algo ovina. Goldstein bradava seu discurso envenenado de sempre sobre as doutrinas do Partido — um discurso tão exagerado e perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado. Goldstein atacava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata celebração da paz com a Eurásia, defendia a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída — e tudo isso num rápido discurso polissilábico que era uma espécie de paródia do estilo habitual dos oradores do Partido, inclusive com palavras em Novafala: mais palavras em Novafala, aliás, do que qualquer membro do Partido costumava usar na vida real. E o tempo todo, para que ninguém alimentasse uma dúvida sequer sobre a realidade encoberta pela lenga-lenga especiosa de Goldstein, por trás de sua cabeça, na teletela, desfilavam as colunas intermináveis do exército eurasiano — fileira após fileira de homens de aspecto sólido e fisionomias asiáticas desprovidas de expressão, que emergiam na superfície da tela e desapareciam, para ser substituídos por outros exatamente iguais. O rumor abafado e ritmado das botas dos soldados formava o pano de fundo para a voz de trombone de Goldstein.
     Não fazia nem meio minuto que o Ódio havia começado e metade das pessoas presentes no salão já começara a emitir exclamações incontroláveis de fúria. Impossível tolerar a visão do rosto ovino repleto de empáfia na tela e o poder aterrador do exército eurasiano logo atrás. Além disso, a visão ou mesmo a ideia de Goldstein produziam automaticamente medo e ira. Ele era um objeto de ódio ainda mais constante do que a Eurásia ou a Lestásia, já que sempre que a Oceânia entrava em guerra com uma dessas potências, costumava estar em paz com a outra. O estranho, porém, era que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todos, embora todos os dias, e mil vezes por dia, nos palanques, nas teletelas, nos jornais, nos livros, suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, expostas ao escárnio geral como o lixo lamentável que eram, apesar disso tudo, o ritmo de crescimento de sua influência parecia nunca arrefecer. Sempre havia novos trouxas à espera de ser seduzidos por ele. Não se passava um dia sem que espiões e sabotadores agindo a seu serviço fossem desmascarados pela Polícia das Ideias. Ele era o comandante de um vasto exército nas sombras, uma rede clandestina de conspiradores dedicados à derrubada do Estado. A Confraria, esse era seu suposto nome. Também circulavam histórias sobre um livro terrível, um compêndio de todas as heresias, do qual Goldstein era o autor e que circulava clandestinamente aqui e ali. Um livro sem título. Quando queriam referir-se a ele, as pessoas diziam apenas o livro. Mas só se tomava conhecimento dessas coisas por intermédio de boatos imprecisos. Nem a Confraria nem o livro eram assuntos que um membro comum do Partido estivesse inclinado a mencionar se pudesse evitá-lo.
     Em seu segundo minuto, o Ódio virou desvario. As pessoas pulavam em seus lugares, gritando com toda a força de seus pulmões no esforço de afogar a exasperante voz estentórea que saía da tela. A mulher esguia e ruiva adquirira uma tonalidade rosa-vivo, e sua boca se abria e se fechava como a boca de um peixe fora d’água. Mesmo o rosto severo de O’Brien ficara rubro. Ele estava sentado muito ereto na cadeira; seu peito vigoroso estufava e estremecia como se estivesse enfrentando uma vaga. A garota de cabelo escuro sentada atrás de Winston começara a gritar “Porco! Porco! Porco!”, e de repente apanhou um pesado dicionário de Novafala e arremessou-o contra a tela. O livro bateu no nariz de Goldstein e despencou: a voz, inexorável, prosseguia. Num momento de lucidez, Winston constatou estar berrando junto com os outros e percebeu que golpeava violentamente a trave de sua cadeira com os calcanhares. O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio não era o fato de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos, já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia circular pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a berrar, rostos deformados pela fúria. Mesmo assim, a raiva que as pessoas sentiam era uma emoção abstrata, sem direção, que podia ser transferida de um objeto para outro como a chama de um maçarico. Assim, em determinado instante a fúria de Winston não estava nem um pouco voltada contra Goldstein, mas, ao contrário, visava o Grande Irmão, o Partido e a Polícia das Ideias; e nesses momentos seu coração se solidarizava com o herege solitário e ridicularizado que aparecia na tela, único guardião da verdade e da saúde mental num mundo de mentiras. Isso não o impedia de, no instante seguinte, irmanar-se àqueles que o cercavam; quando isso acontecia, tudo o que era dito a respeito de Goldstein lhe parecia verdadeiro. Nesses momentos, sua repulsa secreta pelo Grande Irmão se transformava em veneração, e o Grande Irmão adquiria uma estatura monumental, transformava-se num protetor destemido, firme feito rocha para enfrentar as hordas da Ásia, e Goldstein, a despeito de seu isolamento, de sua vulnerabilidade e da incerteza que cercava inclusive sua existência, virava um mago sinistro, capaz de destruir a estrutura da civilização com o mero poder de sua voz.
     Em algumas ocasiões chegava a ser possível alterar o objeto do próprio ódio por meio de um ato voluntário. De chofre, graças a um esforço violento como aquele a que recorremos para erguer a cabeça do travesseiro durante um pesadelo, Winston conseguia transferir seu ódio ao rosto que aparecia na tela para a garota de cabelo escuro sentada logo atrás. Alucinações vívidas, belas, passavam-lhe pela mente. Haveria de golpeá-la até a morte com um cassetete de borracha. Haveria de amarrá-la nua a uma estaca e depois alvejá-la com flechas, como são Sebastião. Haveria de violentá-la e no momento do clímax cortaria sua garganta. De mais a mais, agora percebia mais claramente que antes por que a odiava. Odiava-a porque era jovem e bela e assexuada, porque queria ir para a cama com ela e nunca o faria, porque em torno de sua adorável cintura flexível que parecia lhe pedir que a envolvesse com o braço havia apenas a odiosa faixa escarlate, símbolo agressivo de castidade.
     O Ódio chegou ao clímax. A voz de Goldstein se transformara efetivamente num balido de ovelha e por um instante seu rosto assumiu um semblante de ovelha. Depois o semblante de ovelha se dissolveu e foi substituído pelo rosto de um soldado eurasiano que parecia avançar, imenso e terrível, metralhadora roncando, como se pretendesse saltar para fora da superfície da tela, de modo que algumas pessoas sentadas na primeira fila se inclinaram para trás nos assentos. No mesmo instante, porém, levando todos os presentes a suspirar aliviados, o personagem hostil desapareceu para dar lugar ao rosto do Grande Irmão, cabelo preto, bigode preto, cheio de força e misteriosa calma, e tão imenso que quase enchia a tela inteira. Ninguém ouvia o que o Grande Irmão estava dizendo. Eram apenas algumas palavras de estímulo, o tipo de palavras pronunciadas no fragor da batalha, impossíveis de distinguir isoladamente, mas que restauram a confiança pelo mero fato de serem ditas. Em seguida o rosto do Grande Irmão se esfumou outra vez e os três slogans do Partido, em letras maiúsculas, ocuparam seu lugar.

GUERRA É PAZ 
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO 
IGNORÂNCIA É FORÇA

     O rosto do Grande Irmão, contudo, deu a impressão de permanecer na tela por vários segundos mais, como se o impacto que causara nas retinas de todos os presentes fosse vívido demais para desaparecer imediatamente. A mulher esguia e ruiva se jogara para a frente, apoiando-se no encosto da cadeira diante dela. Com um murmúrio trêmulo que parecia dizer “Meu Salvador!”, estendeu os braços para a tela. Em seguida afundou o rosto nas mãos. Era visível que fazia uma oração.
     Nesse momento todo o grupo ali presente prorrompeu num canto grave, lento, ritmado, em que entoava “g-i!... g-i!... g-i!…” — uma e outra vez, muito devagar, com uma longa pausa entre o “g” e o “i” —, um som grave, em surdina, às vezes curiosamente feroz, em cujo segundo plano parecia ouvir se o ruído de pés descalços golpeando o chão e o latejar de tantãs. Aquilo continuou por uns trinta segundos. Tratava-se de um refrão ouvido com frequência em momentos de emoção avassaladora. Em parte era uma espécie de hino à sabedoria e à majestade do Grande Irmão, mas antes de mais nada era um ato de auto-hipnose, um embotamento voluntário da consciência por intermédio de um ruído rítmico. Winston teve a sensação de gelar por dentro. Durante os Dois Minutos de Ódio ele não conseguia deixar de se integrar ao delírio coletivo, porém aquela entonação sub-humana de “g i!... g-i!...” sempre o deixava horrorizado. Claro que cantava com os outros: impossível não fazê-lo. Dissimular os próprios sentimentos, manter a expressão do rosto sob controle, fazer o que os outros fazem: tudo reações instintivas. Mas houve um espaço de uns dois segundos durante o qual a expressão de seus olhos talvez o tivesse traído. E foi exatamente nesse instante que a coisa significativa aconteceu — se é que de fato aconteceu.
     Por um instante seus olhos se encontraram com os de O’Brien. O’Brien se erguera de seu assento. Tirara os óculos e estava recolocando-os no nariz naquele seu gesto característico. Mas houve uma fração de segundo em que os olhos dos dois se encontraram, e enquanto isso acontecia Winston compreendeu — sim, compreendeu! — que O’Brien pensava o mesmo que ele. Uma mensagem inequívoca fora transmitida. Era como se as duas mentes, de Winston e O’Brien, tivessem se aberto e os pensamentos fluído de um para o outro através dos olhos. “Estou com você”, O’Brien parecia estar dizendo. “Sei exatamente o que está sentindo. Sei tudo sobre seu desprezo, seu ódio, seu asco. Mas não se preocupe, estou com você!” Em seguida o clarão de entendimento se dissipou e o rosto de O’Brien voltou a ser tão impenetrável quanto os de todos os outros.
     Isso fora tudo, e ele já não estava seguro quanto ao que acontecera. Incidentes como aquele nunca tinham sequelas. Eles só serviam para manter viva, nele, a fé, ou a esperança, de que outros além dele fossem inimigos do Partido. Talvez, afinal, os boatos sobre a existência de vastas conspirações clandestinas fossem verdadeiros — talvez a Confraria realmente existisse! Era impossível, apesar da infinidade de prisões e confissões e execuções, ter certeza de que a Confraria não passava de invenção. Havia dias em que ele acreditava em sua existência, outros em que não acreditava. Nada confirmava o fato, além de vislumbres passageiros que talvez significassem alguma coisa, talvez não significassem nada: fragmentos de conversa ouvidos de forma difusa, rabiscos pouco legíveis nas paredes dos lavatórios — uma vez, inclusive, ao presenciar o encontro de dois estranhos, um mínimo movimento de mãos que lhe parecera um sinal de reconhecimento. Tudo não passava de hipótese: muito provavelmente imaginara aquilo. Voltara para sua estação de trabalho sem tornar a olhar para O’Brien. A ideia de levar adiante aquele contato passageiro nem lhe passara pela cabeça. Teria sido perigoso ao extremo, mesmo que soubesse como agir para fazê-lo. Por um segundo, dois segundos, ele e O’Brien haviam trocado um olhar equívoco, e ponto final. Mas mesmo isso era um acontecimento memorável na solidão cerrada em que eram obrigados a viver.
     Winston saiu de seu torpor e endireitou o corpo na cadeira. Soltou um arroto. O gim em seu estômago começava a subir.
     Seus olhos voltaram a fitar a página. Constatou que durante o tempo em que ficara ali sentado sentindo-se desamparado continuara a escrever, como numa ação automática. E já não era a letra retraída e desajeitada de antes. A pena deslizara voluptuosamente pelo papel macio, grafando em letras de forma graúdas e nítidas:

ABAIXO O GRANDE IRMÃO 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO

vezes sem fim, enchendo metade de uma página.
     Não conseguiu evitar uma fisgada de pânico. Um absurdo, já que escrever aquelas palavras específicas não era mais perigoso do que o ato inicial de começar um diário; por um momento, porém, teve a tentação de arrancar as páginas inutilizadas e deixar todo o projeto de lado.
     Não o fez, porém, porque sabia que era inútil. O fato de escrever ou deixar de escrever ABAIXO O GRANDE IRMÃO era irrelevante. Não fazia a menor diferença levar o diário adiante ou não. De toda maneira, a Polícia das Ideias haveria de apanhá-lo. Cometera — e teria cometido, mesmo que jamais houvesse aproximado a pena do papel — o crime essencial que englobava todos os outros. Pensamento-crime, eles o chamavam. O pensamento-crime não era uma coisa que se pudesse disfarçar para sempre. Você até conseguia se esquivar durante algum tempo, às vezes durante anos, só que mais cedo ou mais tarde, com toda a certeza, eles o agarrariam.
     Era sempre à noite — as prisões invariavelmente aconteciam à noite. O tranco súbito que arranca do sono, a mão brutal sacudindo o ombro, as luzes ofuscando os olhos, o círculo de rostos impiedosos em torno da cama. Na vasta maioria dos casos não havia julgamento, não havia registro de prisão. As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. Seus nomes eram removidos dos arquivos, todas as menções a qualquer coisa que tivessem feito eram apagadas, suas existências anteriores eram negadas e em seguida esquecidas. Você era cancelado, aniquilado. Vaporizado, esse o termo costumeiro.
     Por um momento, foi tomado por uma espécie de histeria. Começou a escrever, em garranchos apressados e sem capricho:
                                            vão me dar um tiro não me incomodo vão me dar um tiro na nuca não me incomodo abaixo o grande irmão eles sempre atiram na nuca não me incomodo abaixo o grande irmão...
     Recostou-se outra vez na cadeira, um pouco envergonhado de si mesmo, e largou a pena. No instante seguinte estremeceu com violência. Alguém batia à porta.
     Já!? Ficou ali sentado, imóvel feito um rato, na esperança inútil de que a pessoa junto à porta fosse embora depois da primeira tentativa. Mas não, bateram outra vez. O pior de tudo seria protelar. Seu coração batia como um tambor, porém seu rosto provavelmente estava desprovido de expressão, resultado de um longo hábito. Ergueu-se e se aproximou da porta arrastando os pés.

continua na página 26...
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Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) / Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério)   
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

sábado, 2 de maio de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: As Epidemias

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     As Epidemias
 

          A melhor descrição da peste é a que nos deu Tucídides, que a viveu na própria pele e se curou. Em sua concisão e exatidão, tal descrição contém todos os traços essenciais dessa doença, sendo, pois, aconselhável reproduzir aqui o que ela informa de mais importante.

   Os homens morriam feito os mosquitos. Os corpos dos moribundos eram todos empilhados. Viam-se criaturas semimortas a cambalear pelas ruas ou, em sua ânsia por água, apinharem-se em torno das fontes. Os templos nos quais se abrigavam estavam repletos dos cadáveres das pessoas que haviam morrido ali.
   Em muitas casas, as pessoas foram de tal forma subjugadas pelo peso de seus mortos que deixaram de lamentá-los.
   As cerimônias fúnebres tornaram-se uma confusão; os mortos eram enterrados da melhor maneira possível. Várias pessoas, em cujas famílias haviam sido tantos os mortos que não tinham mais como pagar as despesas do sepultamento, recorriam às mais desavergonhadas artimanhas. Chegavam primeiro à fogueira que outros haviam erigido, depositavam seus mortos sobre ela e ateavam fogo à lenha. Ou, se já havia uma fogueira a arder, jogavam os corpos que traziam consigo sobre os demais cadáveres e se iam.
   Nenhum temor às leis divinas ou humanas os refreava. No que se refere aos deuses, parecia dar no mesmo reverenciá-los ou não, pois via-se que morriam tanto os bons quanto os maus. Não se temia ser chamado a prestar contas por uma infração à lei humana: ninguém tinha esperança de viver o suficiente para tanto. Todos sentiam que uma sentença bastante mais severa lhes fora já proferida. E, antes que esta se cumprisse, queriam ainda extrair algum prazer da vida.
   Compaixão ainda maior pelos doentes e moribundos sentiam aqueles que haviam eles próprios sofrido com a peste e se restabelecido. Estes possuíam não apenas conhecimento de causa, mas sentiam-se seguros também, pois ninguém pegava a doença uma segunda vez — ou, se pegava, esse segundo ataque jamais era fatal. Tais pessoas eram felicitadas por todos, e elas próprias sentiam-se tão sublimes em razão de sua cura que acreditavam que, mesmo no futuro, jamais poderiam morrer de uma doença.

     De todas as desgraças que já assolaram a humanidade, as grandes epidemias deixaram uma lembrança particularmente vívida. Elas têm início com a subtaneidade das catástrofes naturais, mas, enquanto um terremoto geralmente se esgota em uns poucos e breves abalos, a epidemia possui uma duração que se estende por meses, ou até mesmo por um ano. O terremoto produz de um só golpe o que há de mais assustador; suas vítimas perecem todas ao mesmo tempo. Uma epidemia de peste, pelo contrário, possui um efeito cumulativo; de início, somente uns poucos são apanhados por ela; depois, os casos se multiplicam; veem-se os mortos por toda parte, e logo veem-se mais mortos do que vivos reunidos. O resultado de uma epidemia pode, ao final, ser o mesmo de um terremoto. Os homens, porém, são testemunhas da grande mortandade, a qual se intensifica ante seus olhos. São como os participantes numa batalha que dura mais do que todas as batalhas conhecidas. Mas o inimigo é secreto: não se pode vê-lo em parte alguma; não se pode atingi-lo. Espera-se, apenas, ser atingido por ele. A luta é travada única e exclusivamente pelo lado inimigo. Este golpeia quando quer. E golpeia a tantos que logo se teme que venha a golpear a todos.
     Tão logo a epidemia é reconhecida sabe-se já que ela não desaguará em outra coisa senão na morte conjunta de todos. Não havendo remédio que possa combatê-la, os atingidos aguardam o cumprimento da sentença que lhes foi imposta. Somente os atingidos pela epidemia formam uma massa; eles são iguais no tocante ao destino que os aguarda. Seu número aumenta com velocidade crescente. A meta rumo à qual se movem é atingida em poucos dias. Terminam no maior adensamento possível aos corpos humanos: todos juntos num amontoado de cadáveres. Na concepção religiosa de alguns, essa massa estanque dos mortos encontra-se apenas provisoriamente morta. Num único e mesmo instante, ela irá ressuscitar e apresentar-se densamente reunida aos olhos de Deus, para o juízo final. Contudo, mesmo desconsiderando-se o destino futuro dos mortos — afinal, as concepções religiosas a esse respeito não são as mesmas por toda parte —, um fato permanece inconteste: a epidemia desemboca na massa dos moribundos e dos mortos. “Ruas e templos” ficam repletos deles. Com frequência, já não é mais possível enterrar as vítimas individualmente, como se deve; são dispostas em gigantescas valas comuns, milhares delas reunidas numa única cova.
     Existem três fenômenos importantes, e bem conhecidos dos homens, que têm por meta amontoados de corpos. Tais fenômenos apresentam um íntimo parentesco entre si, sendo por isso de particular importância delimitá-los uns em relação aos outros. São eles: a batalha, o suicídio em massa e a epidemia.
     Na batalha, visa-se o amontoado dos corpos dos inimigos. Quer-se diminuir o número dos inimigos vivos, a fim de que, comparado a esse número, o da própria gente seja tanto maior. Que também a própria gente morra é inevitável, mas não é o que se deseja. A meta é o amontoado de inimigos mortos, o qual é produzido de forma ativa, mediante a ação do homem e a força de seu próprio braço.
     No suicídio em massa, tal ação volta-se contra a própria gente. Homens, mulheres, crianças, todos se matam mutuamente, até que nada mais reste senão um amontoado de mortos. A fim de que ninguém caia nas mãos do inimigo e de que a destruição seja completa, recorre-se ao auxílio do fogo.
     Na epidemia, o resultado é o mesmo do suicídio coletivo; não se trata, porém, de algo voluntário, mas sim de algo que parece imposto de fora, por um poder desconhecido. O tempo necessário para o atingimento da meta é maior, de modo que as pessoas vivem na igualdade da expectativa pavorosa, ante a qual todos os vínculos usuais entre os homens se dissolvem.
     O elemento do contágio, tão importante na epidemia, produz como efeito o apartamento dos homens uns dos outros. O mais seguro é não se aproximar demasiadamente de ninguém, pois qualquer um poderia estar já contaminado. Muitos fogem da cidade e espalham-se por suas terras. Outros se trancam em suas casas e não deixam ninguém entrar. As pessoas evitam-se umas às outras. Manter distância torna-se a última esperança. A perspectiva de seguir vivendo, a própria vida expressa-se, por assim dizer, na distância em relação aos doentes. Os empestados transformam-se pouco a pouco numa massa de mortos; os não empestados mantêm-se distantes de todos, frequentemente até mesmo de seus parentes mais próximos — dos pais, dos cônjuges, dos filhos. É notável a maneira pela qual a esperança de sobreviver transforma os homens em indivíduos isolados, em oposição aos quais se encontra a massa de todas as vítimas.
     No entanto, em meio a essa danação geral, na qual cada um dos que foram apanhados pela doença é dado como perdido, ocorre o mais espantoso: alguns poucos conseguem curar-se da peste. Pode-se imaginar como se sentem em meio aos demais. Eles sobreviveram e sentem-se invulneráveis. Sendo assim, são capazes de simpatizar com os enfermos e os moribundos que os circundam. “Tais pessoas”, afirma Tucídides, “sentiam-se tão sublimes em razão de sua cura que acreditavam que, mesmo no futuro, jamais poderiam morrer de uma doença.”

continua página 419...
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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: As Epidemias
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Cinema: O Estrangeiro

Lo Straniero

O Estrangeiro (Lo straniero) é um filme franco-italiano de 1967, do gênero drama, dirigido por Luchino Visconti e baseado em livro homônimo de Albert Camus.

Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.

O filme é de Luchino Visconti  e o é de livro de Albert Camus 
- O Estrangeiro (publicado aqui no baitasar em 20abr2016)


A Constatação do Absurdo





Vamos ao filme... conferir esse Meursault, um homem estranho, um passageiro de algum trem, distante da imensa maioria das pessoas, e a sua profunda indiferença diante de tudo, de absolutamente tudo - e daí que foi à praia no dia seguinte ao enterro da mãe, e de por acaso ter encontrado na praia a bela Maria, que havia trabalhado como secretária na mesma empresa de Meursault, e de terem depois ido ao cinema ver uma comédia com Fernandel, e depois terem ido para a casa dele e ... – nada disso, a rigor, comprova uma personalidade anormal, diferente, doentia. Afinal, ninguém é obrigado a chorar copiosamente num velório ou enterro, nem a ficar olhando para o parente morto no caixão.





Elenco:
Marcello Mastroianni - Arthur Meursault
Anna Karina - Marie Cardona
Bernard Blier - Advogado de Defesa
Alfred Adam - O advogado geral
Pierre Bertin - Juiz
Angela Luce - Madame Masson
Jacques Herlin - Diretor de Assuntos Internos
Mimmo Palmara - Masson
Jean-Pierre Zola - Empregador
Joseph Marechal - Salamano
Jacques Monod - Guarda prisional
Mohamed Cheritel - Árabe
Vittorio Duse - Lawyer
Brahim Hadjadj - Árabe
Valentino Macchi
Saada Rahlem - Árabe
Marc Laurent - Emmanuel
Paolo Herzl

Direção:
Luchino Visconti

Roteiristas:
Albert Camus
Suso Cecchi D'Amico (uma das mais brilhantes roteiristas da História do cinema)
Georges Conchon
Emmanuel Robles

Wolfgang Amadeus Mozart / O Estrangeiro /  

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a democracia NÃO amamenta a passividade que não tem iniciativa de nada e deixa que tudo aconteça sem se importar aparentemente com nada, ela também NÃO semeia a indiferença desapaixonada pela vida e as pessoas, aquele tanto faz: esses políticos são todos iguais; numa inconsciência de si mesmo e dos outros, em desconexão com as outras vidas
a democracia NÃO é um conto de fadas, na democracia não existem príncipes nem princesas, muitos juram que há muito biraia e cascavel, jararacas da coisa feita, sei lá, as pessoas parecem não entender que democracia exige muita luta permanente nesse caldeirão de vontades e conflitos políticos e sociais, não podemos aceitar imunes ao desastre dos 'estrangeiros' na democracia


Literatura Fundamental (2013)
- O Estrangeiro 
- Cláudia Amigo Pino

A professora de literatura francesa Cláudia Consuelo Amigo Pino, do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da USP, fala sobre a vida e a obra do escritor Albert Camus. Filho de franceses, Camus nasceu na Argélia e teve uma infância extremamente humilde no meio rural. No programa, a professora comenta o livro O estrangeiro.




Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(f)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Ao dizer isto, Legrand, tendo de novo aquecido o pergaminho, submeteu-o a um exame meu. Apareceram os seguintes caracteres a vermelho, grosseiramente traçados entre a caveira e o cabrito:

53‡‡
+305))6*;4826)4‡.)4‡);806*;48+8π60))85;1‡(;:‡*8+83(88)5*+;46(;88*96*?;8)*‡(34;48)4‡;161;:188;‡?;

— Mas — disse-lhe ao devolver a tira de pergaminho — não compreendo lá muito bem. Se todos os tesouros do mundo fossem para mim o prémio da solução deste enigma, eu estaria absolutamente convencido de o não ganhar. 
— E, no entanto — disse Legrand — a solução não é assim tão difícil como parece à primeira vista. Estes caracteres, como pode adivinhar-se facilmente, formam um código, quer dizer, representam um sentido; mas, depois do que se sabe de Kidd, não o julgaria capaz de fabricar um mostruário de criptografia abstrusa. Pensei, pois, antes de tudo, que era de uma espécie bem simples — tal como deve parecer absolutamente indecifrável à inteligência rude de um marinheiro, sem a chave. 
— E você decifrou-o? 
— Muito facilmente. Já resolvei outros, dez mil vezes mais complicados. As circunstâncias e uma certa tendência espiritual, levaram-me a tomar interesse por esta espécie de enigmas e é na verdade duvidoso que o engenho humano possa criar um enigma deste género, que outro ser humano não consiga decifrar. Por isso, uma vez que consegui estabelecer uma série de caracteres legíveis, dignei-me apenas pensar na dificuldade de decifrar o significado dele.

« No caso presente — em suma, em todos os casos de código — a primeira pergunta a fazer é a língua dos algarismos; porque os princípios da solução, quando se trata dos números mais simples, dependem do caráter de cada idioma e podem ser modificados. Em geral, não há outro meio senão tentar sucessivamente, conforme as probabilidades, todas as línguas que são do seu conhecimento até que tenha encontrado a indicada! Mas, no hieróglifo de que nos ocupamos, qualquer dificuldade a esse respeito era resolvida pela assinatura. A procura sobre a palavra kidd não era possível senão em língua inglesa. Sem essa circunstância teria começado as minhas tentativas pelo espanhol e o francês, como sendo as línguas das quais um pirata dos mares espanhóis e franceses usaria para guardar um segredo desta natureza. Mas, no caso presente, eu presumia que o criptograma era inglês.
« Repare que não há espaço entre as palavras. Se houvesse espaços, a tarefa seria mais fácil. Neste caso, eu teria começado por fazer uma escolha e uma análise das palavras mais curtas e, se tivesse encontrado — como é sempre provável — uma palavra de uma só letra, a ou l (um, eu) por exemplo, teria considerado a solução como certa. Mas, já que não havia espaços, o meu primeiro dever era assinalar as letras predominantes, assim como as que se encontravam menos vezes. Contei-as todas e formei o seguinte quadro:

O caractere 8 encontra-se 33 vezes 
O caractere ; encontra-se 26 vezes 
O caractere 4 encontra-se 19 vezes 
Os caracteres ‡ e ) encontram-se 16 vezes 
O caractere * encontra-se 13 vezes 
O caractere 5 encontra-se 12 vezes 
O caractere 6 encontra-se 12 vezes 
O caractere ( encontra-se 10 vezes 
Os caracteres + e 1 encontram-se 8 vezes 
O caractere 0 encontra-se 6 vezes 
Os caracteres 9 e 2 encontram-se 5 vezes 
Os caracteres : e 3 encontram-se 4 vezes 
O caractere ? encontra-se 3 vezes 
O caractere π encontra-se 2 vezes 
O caractere - encontra-se 1 vez

« Ora a letra que se encontra mais frequentemente em inglês é e. As outras letras sucedem-se por esta ordem: a o i d h n r s t u y c f g l m w b k p q x z. E predomina tão estranhamente, que é muito raro encontrar uma frase de um certo comprimento em que não seja o caráter principal.
« Nós temos, pois, logo ao começar, um ponto de partida que é melhor do que uma simples conjetura. O uso geral que se pode fazer desta tabela é evidente; mas, para este código particular não nos serviremos muito dela. Visto que o nosso caráter dominante é 8, começaremos por o tomar pelo e do alfabeto natural. Para verificar esta suposição, vejamos se 8 se encontra muitas vezes em duplicado porque o e repete-se frequentemente em inglês; como por exemplo em: meet, fleet, speed, seen, been, agree, etc. Ora, no caso presente, nós vemos que não se repete menos de cinco vezes, se bem que o criptograma seja muito curto.
« Portanto, 8 representará e. Agora, de todas as palavras da língua, the é a mais usada; por consequência, é preciso ver se não a encontramos repetida várias vezes na mesma combinação de três caracteres, este 8 sendo o último dos três. Se encontramos repetições desse género elas representarão provavelmente a palavra the. Feita a verificação, encontrámo-la pelo menos 7 vezes; e os caracteres são :48. Podemos, pois, supor que : representa t, que 4 representa h, e que 8 representa e — o valor do último encontrando-se assim confirmado de novo. Há agora um passo andado.
« Nós determinámos apenas uma palavra, mas essa única palavra permite nos estabelecer um ponto muito mais importante, isto é, os princípios e as terminações de outras palavras. Vejamos, por exemplo, o antepenúltimo caso onde se apresenta a combinação ;48, quase ao fim do enigma. Sabemos que o ; que vem imediatamente depois é o princípio de uma palavra, e os seis caracteres que seguem esse the, não conhecemos menos de cinco. Substituamos, pois, estes caracteres pelas letras que representam, deixando um espaço para o desconhecido:

t eeth.

« Nós devemos antes de mais nada afastar o th como não podendo fazer parte da palavra que começa pelo primeiro t, pois nós vemos, experimentando sucessivamente todas as letras do alfabeto para combinar a falta, que é impossível formar uma palavra cujo th possa fazer parte. Reduzamos, portanto, os nossos caracteres a 

t ee,

e recomeçando todo o alfabeto, se for preciso, construímos a palavra tree (árvore), como a única versão possível. Ganhámos assim uma nova letra, r, representada por mais duas palavras justapostas the tree (a árvore).
« Um pouco mais longe encontrámos ;48, e servimo-nos dela como de uma terminação que precede imediatamente. Isso dá-nos a combinação seguinte:

the tree ;(‡?34 the,

ou, substituindo-lhe letras pelos caracteres que nós conhecemos,

the tree the ‡? 3h the,

Agora, se substituirmos os caracteres desconhecidos por espaços ou pontos, teremos:

the tree thr... h the,

e a palavra through (por, através) sobressai por assim dizer de si própria. Mas esta descoberta dá-nos três letras a mais, o, u e g, representadas por

‡ ? e 3

« Procuremos agora atentamente no criptograma as combinações dos caracteres conhecidos e encontraremos, não longe do princípio, a seguinte combinação:

83(88, ou egree,

que é evidentemente a terminação da palavra degree (grau), e que nos dá ainda um letra d, representado por +.
« Quatro letras mais longe de degree, segue-se a combinação: 

;46(;88*

de que traduzimos os caracteres conhecidos e representamos o desconhecido por um ponto; isso dá-nos

th . rtee,

arranjo que nos sugere imediatamente a palavra thirteen (treze), e nos acresce duas novas letras, e e n, representadas por 6 e *.
« Voltemos agora ao princípio do criptograma e acharemos a combinação

53‡‡+

Traduzido como temos feito, obteremos

good,

o que nos prova que a primeira letra é um a e que as duas primeiras palavras são a good (um bom, uma boa).
« É já tempo de evitar qualquer confusão, dispondo todas as nossas descobertas num quadro. Isso dar-nos-á um começo do enigma:

5 = a 
+ = d 
8 = e 
3 = g 
4 = h 
6 = i 
* = n 
‡ = o 
( = r 
; = t 
? = u 

« Assim, já temos nada menos de dez letras das mais importantes, e é inútil que prossigamos na solução através de todos os pormenores. Já lhe disse o bastante para o convencer de que enigmas desta natureza são fáceis de resolver e para lhe dar um vislumbre de análise raciocinada que serve para os desenredar. Mas tenha como certo que o espécime que vamos ler pertence à categoria dos mais simples da criptografia. Basta-me apenas dar a tradução completa do documento, como se nós tivéssemos decifrado sucessivamente todos os símbolos. Ei-la:

     A good glass in the bishop’s hostel in the devil’s seat forty-one degrees and thirteen minutes northeast and by north main branch seventh limb east side shoot from the left eye of the death’s-head a bee line from the tree through the shot fifty feet out.

(Um bom copo na estalagem do bispo na cadeira do diabo quarenta e um graus e treze minutos quadrante nordeste tronco principal sétimo ramo lado leste deitada no olho esquerdo da caveira uma linha de abelha da árvore através da bola cinquenta pés de largura.)

— Apesar da sua divisão — disse-lhe — continuo sem compreender. 
— Também me aconteceu o mesmo durante alguns dias — respondeu Legrand. — Durante esse tempo, investiguei pela vizinhança da ilha de Sullivan acerca de um prédio que devia chamar-se Estalagem do Bispo, porque não me inquietava a ortografia antiga da palavra. Como não tivesse tido nenhuma informação a esse respeito, procurava a forma de alargar o círculo das minhas averiguações e de proceder de uma maneira mais sistemática, quando, numa manhã, verifiquei que este bishop's hostel podia muito bem ter relação com uma antiga família chamada Bessop, que de longa data eram senhores do solar, a cerca de quatro milhas a norte da ilha. Fui portanto à plantação e recomecei com o meu inquérito entre os negros velhos do lugar. Enfim, uma das mulheres mais idosas, disse-me que ela ouvira falar de um sítio, chamado Bessop’s castle (castelo de Bessop) e que pensava poder conduzir-me até lá, mas que não era um castelo nem hospedaria, mas sim uns grandes rochedos.

« Ofereci-me para a recompensar bem pelo trabalho e, depois de hesitar, anuiu a acompanhar-me até àquele lugar. Descobrimo-lo sem grande dificuldade, despedi-me dela, e comecei a examinar o local. O castelo consistia num conjunto irregular de picos e de rochedos, sendo um deles notável pela sua altura, bem como pela sua configuração quase artificial. Trepei ao cume e ali fiquei muito tempo, sem saber o que fazer a seguir.
« Enquanto eu ali sonhava, os meus olhos repararam numa saliência estreita na face oriental do rochedo, a cerca de uma jarda abaixo da ponta onde eu estava colocado. Esta saliência projetava-se a 18 polegadas aproximadamente, e não teria nunca mais de um pé de largura; um nicho cavado no pico, mesmo por cima, tinha uma grosseira semelhança com as cadeiras de costas côncavas das quais se serviam os nossos antepassados. Não duvidava já que não fosse a cadeira do diabo da qual havia menção no manuscrito, e pareceu-me desde então que tinha o segredo do enigma.
«O bom copo, sabia-o, não podia significar outra coisa senão um vasto panorama; porque os marinheiros empregam raramente a palavra glass noutro sentido. Compreendi imediatamente que era preciso servir-me de um óculo colocando-o num ponto de mira definido e não admitindo nenhuma variante. Ora as frases: quarenta e um graus e treze minutos e nordeste quarto de norte — não hesitei um instante em crer — deviam dar a direção para orientar o óculo. Muito excitado por todas estas descobertas, precipitei-me para casa, e procurei um óculo, voltando depois ao rochedo.
« Deixei-me escorregar sobre a cornija, e apercebi-me que não me podia manter sentado senão numa certa posição. Este facto confirmou a minha conjetura. Pensei então em me servir do óculo. Naturalmente, os quarenta e um graus e treze minutos não podiam ter outra significação, referia-se acima do horizonte visível, pois que a direção horizontal era claramente indicada pelas palavras norte e um quarto de norte. Estabeleci esta direção por meio de uma bússola de algibeira, depois, apontando tanto quanto possível, pela aproximação, o meu óculo num ângulo de quarenta e um graus de elevação, fi-lo mover com precaução de alto a baixo e de baixo para cima até que a minha atenção se fixou numa espécie de buraco circular ou uma claraboia, por entre a folhagem de uma grande árvore que dominava todas as que estavam próximas na extensão visível. No centro desse buraco, avistei um ponto branco, mas não pude a princípio distinguir o que era.
« Depois de ter focado melhor o óculo, olhei novamente e certifiquei-me de que era uma caveira. Logo a seguir a esta descoberta, que me encheu de confiança, considerei o enigma como resolvido; porque a frase: principal tronco, sétimo ramo, lado leste, não podia ter outra indicação senão a de se referir à posição da caveira em cima da árvore, e esta: deitada do olho esquerdo da caveira, não admitia sequer outra interpretação, visto que se tratava da procura de um tesouro escondido. Compreendi que seria preciso deixar cair uma bola do olho esquerdo da caveira, e apenas uma linha de abelha, ou por outras palavras, uma linha reta partindo do ponto mais próximo do tronco e estendendo-se através da bola, isto é, através do ponto onde caísse a bola, indicaria o sítio certo, e por baixo desse lugar pensei que havia pelo menos a possibilidade de existir um depósito precioso que estava ainda escondido.»

— Tudo isso — disse-lhe — é excessivamente claro, e ao mesmo tempo engenhoso, simples e explícito. E quando saiu da Estalagem do Bispo que fez? 
— Tendo marcado cuidadosamente a minha árvore, a sua forma e a sua posição, voltei para a minha casa. Logo que saí da cadeira do diabo, o buraco circular desapareceu e, de qualquer lado que me voltasse era impossível doravante avistá-lo. O que me pareceu obra-prima do engenho em todo este caso, e que faz (porque eu repeti a experiência e estou convencido que era um facto) com que a abertura circular em causa não fosse visível senão de um único ponto, e este ponto de vista único era a estreita cornija no flanco do rochedo.

« Esta última expedição à Estalagem do Bispo fora seguida por Júpiter que observava, sem dúvida, há algumas semanas, o meu ar preocupado, e Unha um cuidado especial em não me deixar só. Mas, no dia seguinte, levantei-me muito cedinho, consegui escapar-lhe e corri para as montanhas à procura da minha árvore. Tive muita dificuldade em encontrá-la. Quando voltei para casa, à noite, o meu criado dispunha-se a dar-me pancada. Quanto ao resto da aventura, penso que já está tão bem informado como eu.»

— Suponho — disse — que, na nossa primeira escavação, errou o sítio por causa da estupidez de Júpiter que deixou cair o escaravelho pelo olho direito da caveira em vez de o deixar escorregar pelo esquerdo. 
— Precisamente. Este descuido provocou uma diferença de cerca de duas polegadas e meia em relação à bola, isto é, à posição da cavilha perto da árvore. Se o tesouro estivesse sob o sítio marcado pela bola, este erro era de pouca importância, mas a bola e o ponto mais aproximado da árvore eram dois pontos que apenas serviam para estabelecer uma linha de ligação; naturalmente o erro, muito pequeno a principio, aumentaria em proporção ao comprimento da linha, quando nós chegámos a uma distância de cinquenta pés, tínhamo-nos desviado por completo. Se não fosse ideia fixa de que estava possuído, que havia decerto ali, em qualquer ponto, um tesouro escondido, teriam sido em vão todos os nossos esforços. 
— Mas a sua ênfase, as suas atitudes solenes ao balancear o escaravelho! Que extravagâncias! Eu julgava-o completamente doido. E por que é que exigiu que deixasse cair da caveira o seu inseto em vez de uma bola? 
— Para ser franco, confesso que me sentia vexado pelas suas dúvidas relativas ao meu estado mental e resolvi castigá-lo calmamente, à minha maneira, com um bocadinho de fria mistificação. Eis porque balanceei o escaravelho e porque o quis deixar cair do cimo da árvore. Uma observação que você fez acerca do seu peso invulgar sugeriu-me esta última ideia. 
— Sim, compreendo. E agora, há apenas um ponto que atrapalha. Que dizer dos esqueletos encontrados na cova? 
— Ah!, é uma pergunta a que não poderia responder-lhe melhor do que você. Não vejo senão uma forma plausível de explicá-la e a minha hipótese implica uma tal atrocidade que é horrível de acreditar. É claro que Kidd — se é certo que foi ele que escondeu o tesouro, do que não duvido, pela minha parte — é claro que Kidd quis que o auxiliassem no seu trabalho. Mas, terminada a tarefa, ele julgou conveniente fazer desaparecer os que possuíam o segredo. Dois golpes fortes de enxada bastaram talvez, enquanto os seus ajudantes estavam ainda ocupados na fossa. Talvez tivesse precisado de lhes dar uma dúzia de golpes... Quem poderá dizer-nos? 

continua na página 445...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 59 - Lula

Moby Dick

Herman Melville

59 - Lula
     Atravessando lentamente as pradarias de brit, o Pequod ainda seguia a sua viagem a nordeste, rumo à ilha de Java; uma brisa suave impelindo a quilha, de tal modo que na serenidade circundante seus três mastros altos e afilados balançassem brandamente, como três brandas palmeiras numa planície. E, com longos intervalos na noite prateada, o jato solitário e encantador ainda se avistava.
     Mas numa manhã azul e transparente, quando uma tranquilidade quase sobrenatural se espalhava por sobre o mar, embora desacompanhada de uma estanque calmaria; quando a clareira longamente polida do sol sobre as águas parecia um dedo de ouro, impondo-lhes algum segredo; quando as ondas de chinelos sussurravam juntas enquanto corriam suavemente; neste profundo sossego da esfera visível, um estranho espectro foi visto por Daggoo do topo do mastro principal.
     Na distância, um grande vulto branco ergueu-se preguiçosamente, e erguendo se cada vez mais, e destacando-se do azul, enfim cintilou diante da nossa proa como um trenó, que viesse descendo a neve da colina. Assim faiscante por um momento, também lentamente baixou, e submergiu. Então mais uma vez ergueu-se, e cintilou em silêncio. Não parecia uma baleia; mas será que é Moby Dick?, pensou Daggoo. Novamente desceu o fantasma, mas ao reaparecer mais uma vez, com uma voz cortante como um punhal que despertou todos os marinheiros de seu cochilo, o negro berrou – “Ali! Outra vez ali! Ali ela salta! Bem em frente! A Baleia Branca, a Baleia Branca!”.
     Com isso, os homens do mar correram para os lais das vergas, como na hora do enxame as abelhas buscam os galhos. Com a cabeça descoberta ao sol ardente, Ahab ficou no gurupés, e com uma das mãos bem estendida para trás, pronta para dar ordens ao timoneiro, lançou seu olhar ansioso na direção indicada no alto pelo braço imóvel de Daggoo.
     Quer tenha sido a fugaz aparição do jato solitário o que gradualmente agira sobre Ahab, de modo que agora estava preparado para associar as noções de brandura e repouso com a primeira visão da baleia específica que perseguia; mesmo que fosse isso, ou que sua ansiedade o tivesse traído; de qualquer modo que tenha sido, bastou-lhe distintamente perceber o vulto branco para, com instantânea intensidade dar as ordens de descer os botes.
     Os quatro botes logo estavam no mar; o de Ahab na frente, e todos tenazes remando em direção à presa. Logo esta mergulhou e, enquanto, com os remos suspensos, esperávamos que reaparecesse, oh, no mesmo ponto em que afundara, lentamente ressurgiu. Quase esquecendo por ora os pensamentos sobre Moby Dick, então contemplamos o mais maravilhoso fenômeno que os mares secretos já revelaram até ali aos homens. Um imenso vulto carnudo, com centenas de metros de comprimento e de largura, de reluzente coloração leitosa, flutuava na água, com inúmeros tentáculos compridos irradiando do centro, e se enrolavam e contorciam feito um ninho de anacondas, como que cegamente dispostos a apanhar algum desgraçado objeto ao seu alcance. Não tinha rosto ou face perceptível; nenhum indício concebível de sensação ou instinto; mas ondulava ali sobre as ondas, uma aparição sobrenatural, amorfa e fortuita da vida.
     Quando aquilo, com um som baixo e aspirado, desapareceu novamente, Starbuck, ainda fitando as águas agitadas onde aquilo mergulhara, com voz enfurecida exclamou – “Quase preferiria ter visto e lutado contra Moby Dick, a ter visto a ti, fantasma branco!”.

“O que foi aquilo, senhor?”, disse Flask. 
“A grande lula viva, a qual, dizem, poucos navios baleeiros viram e voltaram aos seus portos para contar.”

     Mas Ahab não disse nada; virou o seu bote e voltou ao navio; os demais, também mudos, seguiram-no.
     Quaisquer que fossem as superstições dos pescadores de Cachalotes quanto à visão desse objeto, é certo que, sendo raríssimo o seu vislumbre, tal circunstância foi o bastante para investir o encontro de maus presságios. Tão raramente é contemplada, que, embora muitos declarem ser a maior criatura animada do oceano, pouquíssimos têm uma vaga ideia de sua verdadeira natureza e forma; não obstante, acreditam que fornece ao Cachalote o seu único alimento. Pois embora outras espécies de baleias encontrem seu alimento na superfície da água, e possam ser vistas pelo homem no ato de se alimentar, o espermacete se alimenta em zonas desconhecidas, abaixo da superfície; e apenas por inferência é que alguém pode dizer em quê, precisamente, consiste tal alimento. Às vezes, quando seguido de muito perto, ele expele o que se supõe sejam tentáculos da lula; algumas delas assim expostas ultrapassam vinte ou trinta pés de comprimento. Pensavam que o monstro ao qual os tentáculos pertencem ficasse sempre preso por eles ao leito do oceano; e que o Cachalote, ao contrário das outras espécies, dispusesse de dentes para atacá-lo e destroçá-lo.
     Parece que há algum fundamento para imaginar que o grande Kraken, do bispo Pontoppidan, possa ser ao fim e ao cabo a própria Lula. O modo pelo qual o bispo o descreve, alternadamente emergindo e afundando, com alguns outros particulares que ele narra, tudo isso faz com que os dois se assemelhem. Mas é preciso dar um desconto em relação ao volume incrível que ele lhe atribui.
     Alguns naturalistas que ouviram rumores esparsos sobre a misteriosa criatura, de que falamos aqui, colocam-na na classe da siba, à qual, de fato, pareceria pertencer em alguns aspectos externos, mas apenas como o Enaque da tribo

Continua na página 265...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
57 - Das baleias pintadas a óleo / 58 - Brit / 59 - Lula /                
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?