sexta-feira, 12 de junho de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (VI.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

VI



     Etienne, sóbrio graças às bofetadas de Catherine, permaneceu à frente dos camaradas. Mas, enquanto os lançava contra Montsou com uma voz enrouquecida, ouvia dentro de si uma outra voz, a da razão, que, espantada, perguntava o porquê daquilo tudo. Ele não tinha querido aquelas coisas... Como, então, tendo partido para a Jean-Bart com o plano de agir friamente e impedir um desastre, acabava o dia de violência em violência, sitiando a residência do diretor?
     E, contudo, era ele quem acabava de gritar: "Chega!" A princípio, sua única ideia fora proteger os depósitos da companhia, que falavam em ir pilhar. E agora, que as pedras já arranhavam a fachada do palacete, procurava, sem encontrar, a presa legítima sobre a qual devia lançar o bando, para evitar desgraças maiores. Como estivesse sozinho, impotente no meio da estrada, alguém o chamou, um homem parado à porta do botequim Tison, cuja proprietária se dera pressa em fechar as janelas, só deixando aberta a entrada. 

— Sou eu... Vem aqui.

     Era Rasseneur. Uns trinta, homens e mulheres, quase todos do conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante, que permaneceram em casa durante a manhã, tinham vindo à tarde em busca de noticias, e, com a aproximação dos grevistas, haviam invadido aquele botequim. Zacharie e Philomène ocupavam uma mesa. Além, Pierron e a mulher, de costas, escondiam o rosto. Ninguém bebia, tinham-se refugiado ali, simplesmente.
     Etienne reconheceu Rasseneur e já se afastava quando este acrescentou: 

— Minha presença não te é agradável, já sei... Eu bem te preveni, as dores de cabeça vão começar. Agora vocês podem pedir pão, vão receber mas é chumbo.

     Ele, então, voltou e respondeu: 

— O que me desagrada são os covardes que, de braços cruzados olham, enquanto arriscamos a pele. 
— Então a tua ideia é pilhar aí em frente? — perguntou Rasseneur. 
— A minha ideia é ficar até o fim com meus amigos, até que nos matem a todos.

     Desesperado, Etienne voltou para o meio da turba, pronto para morrer. Na estrada, três crianças jogavam pedras e ele as afastou com um pontapé, gritando, para refrear os companheiros, que não adiantava nada quebrar os vidros.
     Bébert e Lydie, que acabavam de se reunir a Jeanlin, aprendiam com este a manejar a funda. Cada um lançava a sua pedra, para ver qual deles faria o estrago maior. Lydie, que ainda não tinha prática, quebrara a cabeça de uma mulher na multidão, e os dois meninos riam como loucos. Por trás deles, Boa-Morte e Mouque, sentados num banco, observavam-nos. As pernas inchadas de Boa-Morte doíam tanto, que a muito custo se arrastara até ali, sem que se soubesse que curiosidade o impelia, porque tinha a fisionomia terrosa dos dias em que não se podia arrancar-lhe uma palavra.
     Ninguém mais obedecia a Etienne. As pedras continuavam a chover, apesar das suas ordens em contrário. Ele sentia espanto, susto mesmo, diante daqueles selvagens que sublevara, tão lentos no começo e a seguir terríveis, de uma tenacidade feroz na cólera. Todo o velho sangue flamengo ali estava, pesado e calmo, levando meses para esquentar-se, atirando-se às violências mais inomináveis, sem querer ouvir nada, até que a besta ficasse ébria de atrocidades. No seu Meio-Dia, as multidões inflamavam-se mais depressa, mas trabalhavam menos. Teve de atracar-se com Levaque para arrancar-lhe o machado, não sabia mais como conter os Maheu, que atiravam pedras com ambas as mãos. Mas eram sobretudo as mulheres que o assustavam: a de Levaque, a filha de Mouque e as outras, possuídas de um furor assassino, os dentes e as unhas de fora, ladrando como cadelas, sob o comando da Queimada, que sobressaía dentre elas com seu corpo magro.
     Houve então uma parada súbita, a surpresa de um minuto impunha o pouco de calma que as súplicas de Etienne não podiam obter. Eram simplesmente os Grégoire que tinham decidido despedir-se do notário e dirigiam-se para a casa do diretor. E pareciam tão calmos, tinham o ar de acreditar numa simples brincadeira por arte dos seus bons mineiros, cuja resignação os alimentava havia século, que estes, espantados, tinham com efeito parado de jogar pedras, temendo atingir esse senhor idoso e essa velha dama, caídos do céu. Deixaram-nos entrar no jardim, subir as escadas, bater à porta fortificada, que não tinham pressa de lhes abrir. Mas, justamente nesse momento, Rose, a camareira, voltava do seu passeio, e ria aos operários furiosos, que conhecia muito bem por ser de Montsou. E foi ela quem, esmurrando a porta, acabou forçando Hippotyte a entreabri-la. Já não era sem tempo: mal os Grégoire desapareceram, a chuva de pedras recomeçou. Saída do seu pasmo, a multidão gritava mais forte: 

— Morte aos burgueses! Viva o socialismo!

     Rose continuava rindo, já no vestíbulo do palacete, como que divertida com a aventura, repetindo ao criado aterrado: 

— Eles não são maus, eu os conheço.

     O Sr. Grégoire pendurou metodicamente seu chapéu. Depois, tendo ajudado a esposa a tirar sua capa de fazenda grossa, disse, por sua vez: 

— Sem dúvida, no fundo não têm maldade alguma. Depois de gritarem bastante, irão jantar com mais apetite.

     Nesse momento o Sr. Hennebeau desceu do segundo andar. Assistira à cena e vinha receber seus convidados com seu jeito habitual, frio e polido. Só a palidez do semblante denunciava as lágrimas que o tinham agitado. Mas o homem já fora domado, só restava nele o administrador correto, resolvido a cumprir com o seu dever. 

— Sabem? — disse ele — as senhoras ainda não chegaram. Pela primeira vez uma inquietação apossou-se dos Grégoire.

     Cécile ainda não chegara! E como haveria de entrar se aquela brincadeira dos mineiros se prolongasse? 

— Pensei em fazer desimpedir a entrada — continuou o Sr. Hennebeau. — Acontece, porém, que estou sozinho aqui, e, aliás, não sei aonde enviar meu criado para trazer quatro soldados e um cabo para darem um jeito nessa canalha.

     Rose, que permanecera ali, atreveu-se a murmurar novamente: 

— Mas, meu senhor, eles não são maus...

     O diretor abanou a cabeça, enquanto o tumulto crescia do lado de fora e se ouviam os golpes surdos das pedras contra a fachada 

— Não lhes quero mal, até os desculpo, mas precisam ser muito estúpidos para acreditarem que queremos a sua desgraça. O caso é que sou responsável pela ordem. E dizer que os policiais, ao que me afirmam, estão percorrendo as estradas, e desde cedo não consegui um único!

     Interrompeu-se para deixar passar a Sra. Grégoire e continuou: 

— Passe, senhora, por favor, não fique aí, entre para o salão. Mas a cozinheira, exasperada, vindo do subsolo, reteve-os ainda alguns minutos no vestíbulo. Declarou não aceitar mais a responsabilidade do jantar, porque até agora esperava do pasteleiro de Marchiennes a massa para os pastéis, que encomendara para as quatro horas. Evidentemente o homem ficara pelo caminho, com medo daqueles bandidos. Talvez até tivessem roubado suas cestas. Via os pastéis bloqueados atrás de uma moita, sitiados, enchendo a barriga de três mil miseráveis que pediam pão. Em todo caso, o patrão estava prevenido, ela preferia atirar seu jantar ao fogo a vê-lo estragado por causa da revolução. 

— Tenha um pouco de paciência — disse o Sr. Hennebeau. — Nada está perdido, o pasteleiro ainda pode vir.

     E como se voltasse para a Sra. Grégoire, abrindo ele mesmo a porta do salão, ficou muito surpreso ao perceber, sentado na banqueta do vestíbulo, um homem que até o momento não tinha notado por causa do lusco-fusco. 

— Como? É você, Maigrat? Que aconteceu?

     Maigrat levantara-se e seu rosto apareceu, engordurado e lívido, descomposto pelo pavor. Tinha perdido seu aspecto de homem gordo e calmo. Explicou humildemente que viera até ali para pedir ajuda e proteção no caso de os bandidos assaltarem seu armazém. 

— Você bem vê que eu também estou ameaçado e não tenho ninguém para me proteger — respondeu o Sr. Hennebeau. — Teria feito melhor ficando em casa, para defender suas mercadorias. 
— Sim! Sim! Pus trancas de ferro e deixei minha mulher tomando conta.

     O diretor perdeu a paciência e não pode esconder seu desprezo. Que bela guarda, uma infeliz raquítica, saco de pancadas! 

— Já disse que não posso fazer nada, trate de se defender sozinho. Aliás, aconselho-o a voltar imediatamente para casa, porque eles já estão pedindo pão outra vez... Escute...

     Com efeito, o tumulto recomeçava e Maigrat chegou a ouvir u nome. Voltar não era mais possível, seria despedaçado. Mas ao esmo tempo a ideia da sua ruína transtornava-o. Encostou o rosto no vidro da porta, suando, tremendo, espreitando o desastre, enquanto os Grégoire se decidiam a passar para o salão.
     Tranquilamente, o Sr. Hennebeau fingia fazer as honras da casa. Em vão pediu aos seus convidados que se sentassem. A peça fechada, com barricadas nas janelas, iluminada por duas lâmpadas antes da noite, enchia se de terror a cada novo clamor chegado de fora. No abafamento das tapeçarias, a cólera da multidão retumbava muito mais inquietadora, prenhe de uma ameaça vaga e terrível. Mas assim mesmo conversaram, e, por mais que tentassem, sempre voltavam àquela inconcebível revolta. Ele admirava se de não a ter previsto; na verdade, seus informantes eram tão maus que se enfurecia sobretudo contra Rasseneur, de quem dizia reconhecer a odiosa influência. Mas os policiais tinham de chegar a qualquer momento, era impossível que o abandonassem dessa maneira. Quanto aos Grégoire, não pensavam senão na filha: pobrezinha! Assustava-se com tanta facilidade... Podia ser que, diante do perigo, a carruagem houvesse voltado para Marchiennes. A espera durou ainda um quarto de hora, exasperada pela algazarra da rua, pelo barulho das pedras batendo de vez em quando nas janelas fechadas e que ressoavam como tambores. A situação estava ficando intolerável, o Sr. Hennebeau disse que ia sair para enxotar sozinho os desordeiros e ir ao encontro da carruagem, quando Hippolyte surgiu gritando: 

— Sr. Hennebeau! Sr. Hennebeau! A senhora está aí fora, vão matá-la!

     Como o carro não pudera passar pela ruela de Réquillart por causa dos grupos que o ameaçavam, Négrel resolvera pôr em execução a sua ideia: fazer a pé os cem metros que os separavam do palacete e bater no portão do jardim que ficava ao lado das dependências de serviço; o jardineiro os ouviria, com certeza haveria alguém para abrir. No começo as coisas correram como o previsto; a Sra. Hennebeau e as senhoritas já batiam na entrada de serviço quando algumas mulheres, prevenidas, precipitaram-se para o beco. Nesse momento começaram as complicações. Ninguém abria o portão, Négrel tentou inutilmente arrombá-lo com o ombro. Havia cada vez mais mulheres, e ele, temendo não poder contê-las, tomou o partido desesperado de empurrar à sua frente a tia e as moças e chegar à entrada principal passando pelo meio da turba. Esta manobra, no entanto, teve resultado terrível: não os deixavam passar um grupo aos gritos os encurralou, enquanto o resto da multidão afluía de todos os lados, ainda sem compreender, espantado de ver aquelas damas bem vestidas perdidas no meio da batalha. Nesse momento foi tão grande a confusão que se deu um desses casos de desatino que não é possível explicar. Lucie e Jeanne, tendo chegado à escadaria, enfiaram-se pela porta que a camareira entreabria; a Sra. Hennebeau também entrou, seguida de Négrel, que voltou a pôr os ferrolhos, certo de que vira Cécile passar em primeiro lugar. Mas ela não entrara, tinha desaparecido no turbilhão, presa de tal medo que dera as costas à casa e se atirara no centro do perigo. Em seguida recomeçou o clamor: 

— Viva o socialismo! Morram os burgueses!

     Alguns, de longe, em razão do véu que lhe encobria o rosto, tomaram-na pela Sra. Hennebeau, outros por uma amiga dela, uma jovem casada com um industrial da vizinhança, odiada pelos seus operários. Mas isso pouco importava, eram seu vestido de seda, sua capa de peles, até aquela pluma branca do chapéu que os enlouqueciam. E estava perfumada, possuía um relógio, tinha uma pele fina de desocupada que não lidava com carvão. 

— Espera! — gritou a Queimada. — Vamos enfiar-te no rabo toda essa renda. 
— É da gente que essas cadelas roubam tudo isso — continuou a mulher de Levaque. — Enchem-se de peles enquanto nós morremos de frio... Arranquem tudo, que fique nua, vamos mostrar-lhe como se vive!

     Imediatamente a filha de Mouque investiu: 

— Claro, claro, e que leve uma boa surra!

     E as mulheres, naquela rivalidade selvagem, empurravam-se, agarravam-se pelos andrajos, cada uma querendo alguma coisa daquela moça rica. Na certa não tinha o traseiro mais bem feito do que qualquer outra. Muitas dessas elegantes até podres estavam por baixo dos atavios. A injustiça já estava durando demasiado, todas elas teriam de ser obrigadas a vestir-se como operárias, essas rameiras que tinham o desplante de pagar cinquenta soldos pela lavagem de uma saia!
     Em meio a essas fúrias, Cécile tiritava, as pernas paralisadas, balbuciando repetidamente a mesma frase: 

— Minhas senhoras, por favor, minhas senhoras, não me façam mal.

     Mas de repente soltou um grito rouco: umas mãos álgidas agarravam-na pelo pescoço. Era o velho Boa-Morte, para perto do qual fora empurrada pela multidão, que a segurava dessa maneira. Ele parecia estar ébrio de fome, embrutecido pela longa miséria, saído bruscamente do seu meio século de resignação, sem que se pudesse saber que impulso de rancor o fazia agir assim. Depois de ter durante sua vida, salvo da morte uma dúzia de companheiros, arriscando a pele no grisu e nos desabamentos, cedia a coisas até então desconhecidas para ele, a um desejo de fazer aquilo, à fascinação daquele pescoço branco de moça. E, como aquele era um dos dias em que não falava, apertava os dedos, com seu ar de velho animal enfermo, ruminando recordações. 

— Não! Não! — berraram as mulheres. — Queremos vê-la de bunda à mostra!

     No palacete, desde que se deram conta do que acontecia, Négrel e o Sr. Hennebeau abriram corajosamente a porta para correr em socorro de Cécile. Mas a multidão atirava-se agora contra a grade do jardim, e não era fácil sair. Começaram a lutar, enquanto os Grégoire, horrorizados, surgiam à porta. 

— Larga ela, velho! E a mocinha da Piolaine! — gritou a mulher de Maheu ao avô, quando reconheceu Cécile, a quem uma mulher rasgara o véu.

     Por seu lado, Etienne, chocado com aquelas represálias contra uma menina, esforçava-se por fazer o bando largar a presa. Tendo uma inspiração, brandiu o machado que tinha arrancado das mãos de Levaque. 

— Vamos para o Maigrat, que um raio o parta! Há pão lá dentro! Botemos o barraco de Maigrat abaixo!

     E, com presteza, deu a primeira machadada na porta do armazém. Alguns homens o seguiram, Levaque, Maheu e outros. Mas as mulheres não largavam a presa. Cécile caíra das mãos de Boa-Morte nas da Queimada. Engatinhando, e a mando de Jeanlin, Lydie e Bébert introduziam-se entre as saias, para verem como era o traseiro da dama. Já começavam os repelões, suas roupas se rompiam, quando apareceu um homem a cavalo, arrojando o animal, chicoteando os que não escapavam a tempo. 

— Canalhas! Vocês já chegaram ao ponto de bater nas nossas filhas!

     Era Deneulin que vinha para o jantar. De um salto estava em terra; agarrou Cécile pela cintura, enquanto com a outra mão manobrava o cavalo com uma destreza e uma força extraordinárias servindo-se dele como de uma cunha viva, fendendo a multidão que recuava diante dos coices. Na grade a batalha continuava, mas assim mesmo ele passou, esmagando membros. Esse socorro imprevisto veio na hora certa para Négrel e Hennebeau, que se encontravam em grande perigo, no meio de pragas e socos. E, enquanto o rapaz entrava finalmente, com Cécile desmaiada, Deneulin, que protegia o diretor com seu corpo enorme, no alto do patamar, recebeu uma pedrada que quase lhe quebrou o ombro. 

— Muito bem! — gritou ele. — Quebrem-me os ossos depois de quebrarem minhas máquinas!

     Com a rapidez de um raio, fechou a porta, e uma chuva de pedras bateu na madeira. 

— Que animais! — continuou ele. — Mais dois segundos e me rachavam o crânio como a uma cabaça vazia... É inútil tentar falar-lhes, vocês não acham? Estão loucos furiosos, só matando-os.

continua na página 314...
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Quinta Parte - (V.a) / Quinta Parte - (V.b) / Quinta Parte - (VI.a) /   
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas / IX — Eclipsa

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     IX — Eclipsa

             Viu-se já como Mário descobriu ou lhe pareceu descobrir que ela se chamava Úrsula. O amor é insaciável. Saber que ela se chamava Úrsula, que muito fora, já agora lhe parecia pouco: dentro de três ou quatro semanas devorara esta ventura, e, portanto, queria outra. Queria saber onde ela morava.
     Não contente, pois, com a sua primeira falta, que o fora e grande, deixar-se cair na armadilha do banco do Gladiador; não satisfeito com a segunda, que tão desassisadamente cometera em sair do Luxemburgo quando via que Leblanc chegava só; cometeu ainda terceira, e esta imensa seguiu Úrsula.
     A sua Úrsula morava no lugar mais deserto da rua do Oeste, numa casa nova de três andares, de modesta aparência.
     A partir desse dia, ao prazer de a ver no Luxemburgo, juntava Mário o de segui-la sempre até casa.
     A sua fome, porém, como a sede dos hidrópicos, que mais se ateia, se mais a tentam apagar, aumentava.
     Já sabia como ela se chamava, isto é, sabia-lhe o nome de batismo pelo menos; já sabia onde ela morava; quis também saber quem ela era. Para isto, depois de os ter seguido uma tarde até à entrada de casa e vê-los subir a escada que do portal comunicava com o interior, foi-lhes resolutamente no encalço e desassombradamente perguntou ao porteiro: 

— Este senhor que agora entrou, não é o que mora no primeiro andar? 
— Não, senhor. O que entrou mora no terceiro.

     Ousado com o próspero resultado, resolveu levar mais longe as averiguações.

— Para o lado da frente? — continuou ele. 
— Ora, a pergunta não está má! — exclamou o porteiro. 
— A casa não tem traseiras. 
— E que ocupação é a deste sujeito, sabe? — replicou Mário.

     É um rendeiro e homem de bons sentimentos.
     Conquanto não tenha lá grandes riquezas, favorece os infelizes como outros que têm muito e não o fazem.

— Sabe-me dizer como se chama? — tornou Mário.

     O porteiro, porém, em vez de responder à pergunta, fitou-lhe os olhos e disse-lhe: 

— O senhor é espião?

     Mário saiu dali corrido e vexado, porém sa sfeito com o feliz sucesso das suas pesquisas e informações que ia colhendo. 

— Bem — disse ele consigo. — Já sei que se chama Úrsula, que é filha de um rendeiro e que mora no terceiro andar daquela casa da rua do Oeste.

     No dia seguinte, Leblanc e a filha apareceram no Luxemburgo, porém demoraram-se muito menos do que o costume, retirando-se ainda dia claro, seguidos de Mário, que foi atrás deles até à entrada de casa, como costumava. Ao chegarem à porta, Leblanc deixou passar a filha adiante, parou antes de transpor o limiar da porta e depois voltou atrás e pôs-se a olhar fixamente para Mário.
     No outro dia, Mário esperou por eles, mas debalde. Os dois assíduos frequentadores do Luxemburgo não apareceram.
     Ao escurecer, Mário dirigiu-se para a rua do Oeste, e como nas janelas do terceiro andar visse luz, pôs-se a passear na rua até que a luz se apagou.
     No dia seguinte, nem vivalma no Luxemburgo. Mário esperou todo o dia, e como não visse quem ele esperava, foi fazer a sua ronda noturna debaixo das, janelas da casa da rua do Oeste, que durou até às dez horas. O seu jantar constava do que o acaso lhe deparava. A febre sustenta o enfermo, o amor o namorado.
     Desta maneira se passaram oito dias. No Luxemburgo nunca mais tornaram a aparecer nem Leblanc nem sua filha. Mário fazia tristes conjecturas, porém, receoso, não se atrevia a espionar de dia a modesta casa dos dois entes a que andava ligado o seu destino. Contentava-se em ir de noite contemplar o avermelhado clarão que se coava pelas vidraças, a espaços entenebrecido pelo perpassar de umas sombras, que lhe faziam pulsar o coração aligeirado nos estros da comoção.
     Ao oitavo dia, quando chegou debaixo das janelas, não viu luz. 

— Ora esta! Ainda não acenderam o candeeiro, não obstante ser já noite fechada! Terão eles saído?

     Dito isto, esperou até às dez horas, até à meia-noite, até à uma hora. Ao ver, porém, que em todo este tempo nem nas janelas do terceiro andar apareceu luz, nem para aquela casa entrava vivalma, saiu dali com o coração atribulado.
     No dia seguinte pois o mancebo vivia só das esperanças do outro dia, desde que para ele, permitam-nos a expressão, já não havia hojes no dia seguinte, não encontrando ninguém no Luxemburgo, como já esperava, dirigiu-se para a casa da rua do Oeste. Nem sinal de luz nas janelas; estavam corridas as persianas do terceiro andar e tudo completamente às escuras. Mário bateu à porta, entrou e disse para o porteiro: 

— O inquilino do terceiro andar está em casa? 
— Mudou-se — respondeu o porteiro.

     Mário cambaleou, mas perguntou ainda com voz sumida: 

— Há quanto tempo? 
— Ontem. 
— E onde mora agora, faz favor de me dizer? 
— Isso não sei. 
— Então ele não disse onde era a sua nova morada? 
— Não, senhor.

     E, como o porteiro o reconhecesse, exclamou: 

— Ah, é o senhor! O senhor decididamente é espião, não tem que ver!

continua na página 539...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - IX — Eclipsa
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cinema: João Sem Medo

João Saldanha

O treinador comunista que classificou o Brasil para a Copa do Mundo de 1970 no  México. Um defunto caro para a ditadura militar!


O Cineclube Macunaíma exibe hoje o documentário João Saldanha – uma vida em jogo (2008), seguido de debate com o diretor André Iki Siqueira, o cineasta Silvio Tendler, os ex-jogadores Gérson e Afonsinho, e a filha de Saldanha, Sonia Saldanha.





A seleção de João Saldanha, com Tostão e Pelé, deu show mesclando jogadores do Santos, Botafogo e Cruzeiro. Mas, como ele era o “João sem medo”, como descrevera o amigo Nelson Rodrigues, não atendeu ao pedido do ex-presidente Garrastazu Médici, à época da ditadura brasileira, em 1969, que queria a convocação de Dario José dos Santos, o Dadá Maravilha. Tempos depois foi destituído do cargo, tornando-se comentarista. Assim era João Alves Jobim Saldanha, jornalista, comunista, escritor, ex-treinador da seleção brasileira, e velho conhecido dos amantes da arte e do futebol.

O episódio em que não atendeu ao desejo de Médici, ilustra a personalidade irreverente e incorruptível do jornalista. Como não era fácil descartar um técnico querido e competente como aquele, a equipe do presidente ainda tentou organizar um jantar com Médici para amenizar o clima. Ao que Saldanha respondeu: “Não vou. O cara matou amigos meus. Tenho um nome a zelar.” Treze meses depois, em 17 de março de 1970, Saldanha foi demitido e voltou à sua função de comentarista. O time bem montado foi entregue aos cuidados do treinador Mario Zagallo, que faturou o tricampeonato mundial.


O homem que enfrentou a ditadura militar e foi afastado da seleção em 1970, a melhor de todos os tempos.


O diretor do documentário, André Iki Siqueira, também escreveu a biografia de João Saldanha, João Saldanha uma vida em jogo, da Companhia Editora Nacional - 2007.

Além do cineasta Silvio Tendler, com mais de 300 documentários em seu currículo, e do diretor do filme estarão no debate o ex- jogador niteroiense Gerson de Oliveira Nunes, 80 anos, que atuou como meio-campista, jogou em diversos clubes brasileiros de futebol, tendo passagem destacada no Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense, além da seleção brasileira. É o Canhotinha de Ouro.

A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Amar não tem preço / João Sem Medo /       

George Orwell - 1984: Parte 1.5b (Alguma coisa em seu tom de voz)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

5.

continuando...

    Alguma coisa em seu tom de voz parecia acrescentar “aquele rematado idiota”. Parsons, vizinho de Winston nas Mansões Victory, efetivamente dedicava-se a atravessar o salão — um homenzinho rechonchudo, de estatura média, louro e com cara de sapo. Com trinta e cinco anos, já possuía pneus de gordura incipientes no pescoço e na cintura, mas seus movimentos eram enérgicos e juvenis. Tudo em sua aparência evocava um meninozinho em dimensão aumentada, a tal ponto que, embora vestisse o macacão regulamentar, era quase impossível não pensar nele como se estivesse envergando o short azul, a camisa cinza e o lenço vermelho dos Espiões. Ao evocar sua imagem, o que aparecia era sempre uma figura com covinhas nos joelhos e mangas arregaçadas mostrando os bracinhos rechonchudos. Com efeito, sempre que participava de uma caminhada comunitária ou de outra atividade física qualquer, Parsons aproveitava o pretexto para retomar o uso do short. Ao ver Winston e Syme, cumprimentou os dois com um “Alô, alô!” entusiasmado e sentou-se à mesa, exalando um odor intenso de suor. Todo o seu rosto rosado estava coberto por gotículas de transpiração. Sua capacidade de transpirar era fora do comum. No Centro Comunitário, sempre se podia descobrir se ele havia passado por lá para jogar pingue-pongue: era só verificar se o cabo da raquete estava úmido. Syme agora tinha na mão uma tira de papel com uma longa coluna de palavras, que estudava com um lápis-tinta entre os dedos.

“Olhe só como ele trabalha no horário de almoço!”, disse Parsons cutucando Winston. “Dedicado, hem? O que você tem aí, garotão? Alguma coisa cerebral demais para mim, suponho. Smith, meu garotão, deixe eu lhe dizer por que estou atrás de você. É por causa daquela contri que você esqueceu de me passar.”
“Que contri é essa?”, perguntou Winston, enfiando automaticamente a mão no bolso para pegar dinheiro. Cerca de um quarto do salário do indivíduo tinha de ser reservado para contribuições voluntárias difíceis de controlar, de tão numerosas.
“Para a Semana do Ódio. Lembra? Coleta de porta em porta. Sou o tesoureiro do nosso quarteirão. Estamos suando a camisa para produzir um espetáculo sensacional. Escreva o que vou lhe dizer: se nossa querida Mansões Victory não estiver com a maior coleção de bandeiras da rua, não vai ser por falta de esforço da minha parte. Você me prometeu dois dólares.”

     Winston localizou e entregou ao outro duas cédulas imundas e amarrotadas, que Parsons registrou numa caderneta com a letra desenhada dos analfabetos.

“Aliás, garotão” disse ele, “ouvi dizer que aquele delinquente que eu tenho lá em casa acertou você com o estilingue ontem. Não se preocupe que já passei uma bela de uma descompostura nele por causa disso. Na verdade eu disse a ele que se o fato se repetir ele fica sem o estilingue.”
“Acho que ele estava um pouco chateado por ter perdido a execução”, disse Winston.
“Ah, bom... Quer dizer, ele tem razão, não é mesmo? São dois delinquentes muito do sem-vergonha, aqueles meus filhos, mas que são espertos, lá isso são! Só pensam numa coisa: nos Espiões. E na guerra, claro. Você sabe o que a minha menina aprontou no sábado passado, quando o pelotão dela estava fazendo uma caminhada para os lados de Berkhampsted? Convenceu duas outras meninas a acompanhá-la, escapou do grupo e as três passaram a tarde seguindo um homem esquisito. Ficaram na cola dele por duas horas, atravessaram o bosque e depois, quando chegaram a Amersham, entregaram o sujeito às patrulhas.”
“Por que elas fizeram isso?”, perguntou Winston, um tanto surpreso. Parsons prosseguiu, triunfante:
“Minha garota estava convencida de que o cara era algum tipo de agente inimigo. Achou que talvez ele tivesse sido lançado de paraquedas. Mas a questão é esta, garotão. Por que você acha que ela começou a desconfiar do sujeito? É que ela percebeu que ele calçava uns sapatos estranhos — disse que nunca tinha visto alguém usar aquele tipo de sapato. Quer dizer, tudo indicava que ele fosse estrangeiro. Muito esperta para uma moleca de sete anos, hein?
E o que aconteceu com o homem?”, quis saber Winston.
“Ah, isso eu não sei. Mas não ficaria nem um pouco surpreso se...” Parsons imitou o gesto de quem aponta um fuzil e estalou a língua como se desse o tiro.
“Boa!”, disse Syme distraído, sem levantar os olhos de sua tira de papel.
“Claro que não podemos nos dar ao luxo de correr riscos”, concordou Winston, consciencioso.
“O que estou querendo dizer é que estamos no meio de uma guerra”, observou Parsons.

     Como para confirmar a afirmação, um toque de trombeta emitido pela teletela passou por cima da cabeça deles. Só que dessa vez não se tratava da proclamação de uma vitória militar, mas simplesmente de uma declaração do Ministério da Pujança.

“Camaradas!”, gritou uma garbosa voz juvenil. “Atenção, camaradas! Temos novidades gloriosas para vocês. Vencemos a batalha da produção! Os proventos oriundos da produção de todos os tipos de bens de consumo acabam de ser calculados e mostram que o nível de vida subiu nada menos que vinte por cento em relação ao ano passado. Esta manhã, em todo o território da Oceânia, houve manifestações espontâneas incontroláveis, com os trabalhadores retirando-se de fábricas e escritórios, desfilando pelas ruas com bandeiras e exteriorizando sua gratidão para com o Grande Irmão pela vida nova e feliz a que sua sábia liderança nos conduziu. Aqui estão alguns dos totais obtidos. Gêneros alimentícios...”

     A expressão “vida nova e feliz” foi repetida diversas vezes. Ultimamente essa expressão estava na moda no Ministério da Pujança. Parsons, atento desde o toque da trombeta, ouvia, sentado em silêncio, numa espécie de gravidade boquiaberta, numa espécie de tédio edificado. Era incapaz de acompanhar os números, mas percebia que de alguma forma eles justificavam um estado de satisfação. Segurava um cachimbo grande e sujo, cheio até a metade de tabaco carbonizado. Com o tabaco racionado a cem gramas por semana, poucas vezes era possível encher um cachimbo por completo. Winston fumava um cigarro Victory que mantinha cuidadosamente na horizontal. A nova ração só seria distribuída no dia seguinte e restavam-lhe apenas quatro cigarros. Naquele momento tinha os ouvidos fechados para os ruídos mais afastados e estava escutando o que a teletela transmitia. Foi informado de que houvera inclusive manifestações de agradecimento ao Grande Irmão pelo fato de ter elevado a ração de chocolate para vinte gramas por semana. Sendo que ainda ontem, refletiu, fora anunciada a redução da ração para vinte gramas por semana. Seria possível as pessoas engolirem aquela, passadas apenas vinte e quatro horas do anúncio? Sim, engoliam. Parsons engoliu sem dificuldade, com a estupidez de uma besta. A criatura sem olhos da outra mesa engoliu fanática, apaixonadamente, com um desejo furioso de seguir, denunciar e vaporizar todo aquele que viesse a sugerir que na semana anterior a ração era de trinta gramas. Syme também — de uma maneira mais complexa, que envolvia duplipensamento —, Syme engoliu. Winston era o único, então, a possuir memória?
     Estatísticas fabulosas continuavam brotando da teletela. Em comparação com o ano anterior, havia mais comida, mais roupas, mais casas, mais móveis, mais panelas, mais combustível, mais navios, mais helicópteros, mais livros, mais bebês — mais tudo, exceto enfermidade, crime e loucura. Ano após ano e minuto após minuto, toda a gente e todas as coisas subiam rapidamente uma escala ascendente. Como Syme antes dele, Winston, de colher na mão, remexia o molho de cor esmaecida que respingara pela mesa, dando forma regular a uma longa trilha da substância. Meditava, irritado, sobre a textura física da vida. A vida teria sido sempre assim? A comida teria sempre tido aquele gosto? Percorreu a cantina com o olhar. Um salão de teto baixo, apinhado, de paredes encardidas em decorrência do contato com incontáveis corpos; mesas de metal amassadas e cadeiras posicionadas tão perto umas das outras que o sujeito se sentava com os cotovelos encostados nos dos vizinhos. Colheres tortas, bandejas escalavradas, tigelas brancas grosseiras; todas as superfícies engorduradas, sujeira em cada rachadura; e um cheiro azedo que misturava gim de segunda, café de segunda, ensopado com gosto metálico e roupas sujas. O tempo todo, no estômago, na pele, havia uma espécie de protesto, uma sensação de logro: a sensação de que você havia sido despojado de alguma coisa que tinha o direito de possuir. Era verdade que ele não se lembrava de nada que fosse profundamente diferente. Era a mesma coisa em todos os momentos que conseguia evocar com alguma acurácia: não havia comida suficiente, todas as meias e roupas de baixo estavam cheias de buracos, todos os móveis eram bambos e danificados, os aposentos mal aquecidos, o metrô superlotado, as casas caíam aos pedaços, o pão era escuro, o chá uma raridade, o café tinha um gosto asqueroso, os cigarros eram insuficientes — nada era barato e abundante, exceto o gim sintético. E embora, evidentemente, tudo piorasse à medida que o corpo envelhecia, não seria um sinal de que tudo aquilo não era a ordem natural das coisas o fato de que o coração da pessoa ficava apertado com o desconforto e a sujeira e a escassez, com os invernos intermináveis, com as meias grudentas, com os elevadores que nunca funcionavam, a água fria, o sabão áspero, os cigarros que se quebravam, a comida com seus estranhos gostos ruins? Por que razão o indivíduo acharia aquilo intolerável se não tivesse algum tipo de memória ancestral de que um dia as coisas haviam sido diferentes?
     Tornou a percorrer a cantina com o olhar. Quase todos ali eram feios e continuariam feios mesmo que vestissem outra roupa que não os macacões azuis de praxe. Do outro lado da sala, sentado sozinho a uma mesa, um homem miúdo, curiosamente semelhante a um besouro, tomava café com os olhinhos dardejando, cheios de suspeita, para todos os lados. Como era fácil, pensou Winston, se você evitasse olhar ao redor, acreditar que o tipo físico estabelecido como ideal pelo Partido — jovens altos e musculosos e donzelas de peito farto, louras, vigorosas, queimadas de sol, despreocupadas — existia e até predominava. Na realidade, até onde ele era capaz de julgar, a maioria dos habitantes da Faixa Aérea Um era mirrada, escura e pouco favorecida. Era curioso como aquele tipo que lembrava um besouro proliferava nos ministérios: homens baixinhos, atarracados, que ganhavam peso muito cedo na vida, de pernas curtas, movimentos rápidos e esquivos e rostos obesos e inescrutáveis, sempre com olhos muito pequenos. Esse era o tipo que parecia florescer mais facilmente nos domínios do Partido.
     O pronunciamento do Ministério da Pujança chegou ao fim com outro toque de trombeta e foi substituído por uma música metálica. Parsons, em quem o bombardeio de números provocara discreto entusiasmo, retirou o cachimbo da boca.

“Não há dúvida de que o Ministério da Pujança trabalhou bem este ano”, disse, balançando a cabeça com ar entendido. “Aliás, Smith, meu garotão, será que você não tem uma lâmina de barbear para me passar?”
“Não tenho”, disse Winston. “Estou usando a mesma lâmina há seis semanas.”
“Ah... Bom, não custa perguntar, não é mesmo, garotão?”
“Sinto muito”, disse Winston.

     A voz de grasnado da outra mesa, temporariamente interrompida durante o pronunciamento do Ministério, retomara sua cantilena, tão estridente quanto antes. Por alguma razão, Winston de repente se viu pensando na sra. Parsons, com seu cabelo espigado e poeira nos vincos do rosto. Em dois anos mais aquelas crianças estariam denunciando a mãe à Polícia das Ideias. A sra. Parsons seria vaporizada. Syme seria vaporizado. Winston seria vaporizado. O’Brien seria vaporizado. Parsons, por outro lado, jamais seria vaporizado. A criatura sem olhos com voz de grasnado jamais seria vaporizada. Os homenzinhos com jeito de besouro que percorriam com tanta destreza os corredores labirínticos dos ministérios — esses também jamais seriam vaporizados. E a garota de cabelo escuro, a garota do Departamento de Ficção, tampouco seria vaporizada. Ele tinha a impressão de saber, por instinto, quem iria sobreviver e quem haveria de perecer: embora não fosse fácil determinar o que, exatamente, garantia essa sobrevivência.
     Naquele exato momento, foi arrancado de seu devaneio por um violento safanão. A garota da mesa ao lado virara o corpo e olhava para ele. Era a garota de cabelo escuro. Ela lhe dirigia um olhar enviesado, mas de curiosa intensidade. No instante em que os olhos dos dois se encontraram, ela desviou de novo o olhar.
     As costas de Winston ficaram cobertas de suor. Um golpe terrível de horror varou seu corpo. Foi uma coisa que passou quase na mesma hora, deixando atrás de si uma espécie de inquietação torturante. Por que a garota olhava para ele? Por que o seguia? Infelizmente, era incapaz de recordar se ela já estava sentada na outra mesa quando ele chegara ou se aparecera depois. De um modo ou de outro, no dia anterior, durante os Dois Minutos de Ódio, ela estava sentada logo atrás dele, quando não havia uma necessidade aparente de que lá estivesse. Muito provavelmente o verdadeiro objetivo era ouvir o que ele dizia e assegurar-se de que estava gritando com empenho adequado.
     Seu pensamento anterior veio-lhe à mente: talvez ela não fizesse parte da Polícia das Ideias, mas o problema era que o maior perigo estava justamente no espião amador. Ele não sabia por quanto tempo ela ficara olhando para ele, talvez tivesse feito isso por cinco minutos, e era possível que suas feições não estivessem perfeitamente sob controle. Era terrivelmente perigoso deixar os pensamentos à solta num lugar público qualquer ou na esfera de visão de uma teletela. Qualquer coisinha podia ser sua perdição. Um tique nervoso, um olhar inconsciente de ansiedade, o hábito de falar sozinho — tudo que pudesse produzir uma impressão de anormalidade, de que tinha alguma coisa a esconder. Fosse como fosse, ostentar uma expressão inadequada no rosto (parecer incrédulo no momento em que uma vitória era anunciada, por exemplo) era em si uma infração passível de castigo. Havia inclusive uma palavra para isso em Novafala: rostocrime
     A garota voltara a dar-lhe as costas. Talvez não o estivesse seguindo, afinal de contas. Talvez fosse coincidência ter se sentado tão perto dele por dois dias consecutivos. O cigarro de Winston se apagara e ele o depositou com todo o cuidado sobre a borda da mesa. Acabaria de fumá-lo depois do trabalho, se conseguisse evitar que o tabaco caísse do interior do cilindro de papel. Era muito provável que a pessoa da mesa ao lado fosse uma espiã da Polícia das Ideias, e muito provavelmente em três dias ele estaria nos porões do Ministério do Amor, mas isso não era razão para desperdiçar uma bagana. Syme dobrara sua tira de papel e voltara a guardá-la no bolso. Parsons recomeçara a falar.

“Ô garotão, já lhe contei da vez em que aqueles dois delinquentes que eu tenho lá em casa tocaram fogo na saia da velha lá do mercado, porque viram ela embrulhar salsicha num pôster do g. i.?”, perguntou, mordiscando o tubo do cachimbo e soltando uma risada. “Foram atrás dela sem que ela percebesse e tocaram fogo na saia dela com uma caixa de fósforos. Acho que ela ficou bem queimada. Que bandidos, não é mesmo? Mas umas verdadeiras raposas, de tão espertos. O treinamento que essas crianças recebem nos Espiões é de primeira, hoje em dia. Bem melhor que no meu tempo, inclusive. Adivinhe o que deram a eles, um dia desses? Cornetas acústicas para escutar pelas fechaduras! Minha garotinha apareceu lá em casa com o equipamento e fez o teste na fechadura da sala. Sabe que ela consegue ouvir duas vezes mais do que encostando a orelha no buraco? Claro que é um instrumento de brinquedo, mas ensina as crianças a fazer as coisas, não é mesmo?”

     Nesse momento a teletela emitiu um assobio estridente. Era o sinal de que estava na hora de voltar para o trabalho. Os três homens puseram-se em pé de um salto para entrar na disputa pelos elevadores, e com isso o restinho de tabaco caiu do cigarro de Winston.

continua na página 68...
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Parte 1.4 (Com o suspiro profundo) / Parte 1.5a (Na cantina de teto baixo) / arte 1.5b (Alguma coisa em seu tom de voz) /                
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

Massa e Poder - Elementos do Poder: Pergunta e Resposta

Elias Canetti

ELEMENTOS DO PODER

     Pergunta e Resposta

          Toda pergunta é uma intromissão. Onde ela é aplicada como um instrumento de poder, a pergunta corta feito faca a carne do interrogado. Sabe-se de antemão o que se pode descobrir, mas quer-se descobri-lo e tocá-lo de fato. Com a segurança de um cirurgião, o inquiridor precipita-se sobre os órgãos do interrogado. Esse cirurgião mantém viva sua vítima para saber mais sobre ela. É uma espécie particular de cirurgião, que atua provocando deliberadamente a dor em certos pontos; estimula certas porções da vítima para saber de outras com maior segurança.
     Perguntas visam respostas; aquelas que não se fazem seguir de respostas são como flechas atiradas ao vento. A pergunta mais inocente é aquela que permanece isolada, não trazendo outras consigo. Pergunta-se a um estranho onde fica um determinado edifício. O estranho indica sua localização. O inquiridor contenta-se com a resposta e segue seu caminho. Deteve o estranho por um momento; obrigou-o a pensar. Quanto mais clara e concludente a resposta deste último, tanto mais rapidamente ele se livrará do primeiro. Deu-lhe o que ele esperava e nunca mais precisará revê-lo.
     Um inquiridor, porém, poderia não se contentar com a resposta e fazer outras perguntas. Quando estas se acumulam, elas logo despertam a má vontade do inquirido. Que não é detido apenas exteriormente; a cada resposta, ele mostra um pedaço a mais de si. Tal pedaço pode ser desimportante, superficial, mas foi-lhe solicitado por um estranho; ademais, vincula-se a outros, mais ocultos, aos quais ele atribui valor muito maior. A indisposição que sente logo se converte em desconfiança.
     E isso porque o efeito das perguntas sobre o inquiridor é o de uma elevação de sua sensação de poder; elas lhe dão vontade de fazer mais e mais perguntas. O inquirido sujeita-se tanto mais quanto mais frequentemente consentir em respondê-las. A liberdade das pessoas reside em boa parte em estar a salvo de perguntas. É a tirania mais vigorosa que se permite as perguntas mais enérgicas.
     Uma resposta inteligente é aquela que põe m às perguntas. Quem pode, responde com outra pergunta; entre iguais, esse é um meio de defesa já comprovado. Aquele a quem a posição do inquiridor não permite nenhuma réplica, esse tem de dar-lhe uma resposta completa, revelando-lhe o que ele quer saber; do contrário, precisará, pela astúcia, retirar-lhe a vontade de seguir inquirindo. Poderá, assim, adulando-o, reconhecer a superioridade real do inquiridor, de modo que este não precise manifestá-la ele próprio. E poderá ainda desviar-lhe a atenção para outros, os quais seria mais interessante ou fecundo inquirir. Se sabe dissimular bem, é possível que apague sua identidade. Quando isso acontece é como se a pergunta tivesse, por assim dizer, sido dirigida a outro, ele próprio não sendo a pessoa competente para responder a ela.
     Pretendendo, em última instância, dissecar, a pergunta principia pelo contato. Vai, então, tocando mais pontos, e pontos diversos. Não encontrando resistência, avança. O que colhe não é prontamente desfrutado, mas colocado de lado para utilização posterior. Primeiramente, ela tem de encontrar aquele que é o objeto específico de sua busca. Atrás de cada pergunta há sempre um objetivo deliberado. Perguntas indefinidas — as de uma criança ou de um louco — não possuem força alguma, deixando-se satisfazer com facilidade.
     A situação mais perigosa é aquela na qual se exige uma resposta concisa. A dissimulação convincente, a fuga pela metamorfose, torna-se difícil em poucas palavras, se não impossível. A defesa mais crua é fazer se de surdo ou desentendido. Mas esta só auxilia quando se está entre iguais. Se, pelo contrário, a pergunta parte do mais forte rumo ao mais fraco, ela pode ser feita por escrito ou traduzida. A resposta a uma pergunta assim faz-se, então, muito mais comprometedora. Ela pode ser comprovada, e o inquiridor poderá recorrer a ela.
     Aquele que é exteriormente indefeso recolhe-se em sua armadura interior. Tal armadura interior a protegê-lo da pergunta é o segredo. Este jaz no interior de um corpo qual num segundo corpo, mais bem protegido; quem se aproxima demais dele há de estar preparado para surpresas desagradáveis. Na qualidade de algo mais denso, o segredo é apartado de seu entorno e mantido numa escuridão que somente poucos logram iluminar. O que ele possui de perigoso é sempre colocado acima de seu conteúdo propriamente dito. O mais importante, o mais denso — poder-se-ia dizer — no segredo é a defesa eficaz contra toda e qualquer pergunta.
     O silêncio diante de uma pergunta é como o ricochetear de uma arma num escudo ou armadura. O calar é uma forma extrema de defesa, cujas vantagens e desvantagens equilibram-se. Aquele que cala, é certo, não se entrega; em compensação, porém, dá a impressão de ser mais perigoso do que é. Supõe-se haver nele mais do que aquilo que ele cala. Silencia apenas porque tem muito o que calar; tanto mais importante faz-se, pois, não libertá-lo. O silêncio obstinado conduz à inquisição penosa, à tortura.
     Contudo, mesmo em circunstâncias normais a resposta sempre aprisiona aquele que a deu. Ele não pode mais simplesmente abandoná-la. Ela o obriga a posicionar-se num determinado lugar e a permanecer ali, tendo o inquiridor a alvejá-lo de todas as direções. Este o circunda, por assim dizer, escolhendo a posição que lhe convém. Pode rodeá-lo, surpreendê-lo e confundi-lo. A mudança de posição confere-lhe uma espécie de liberdade da qual o inquirido não pode desfrutar. Com sua pergunta, o inquiridor lança-se sobre ele e, se logra tocá-lo com ela — ou seja, se logra obrigá-lo a responder —, ele o capturou, aprisionando o num determinado lugar. “Quem é você?” “Sou fulano de tal.” Este já não pode mais ser outra pessoa; do contrário, sua mentira enredá-lo-á em dificuldades. Subtraiu-se-lhe já a possibilidade de escapar valendo-se da metamorfose. Se se prolonga por algum tempo, esse processo pode ser encarado como uma espécie de acorrentamento.
     A primeira pergunta tem por objeto a identidade; a segunda, o lugar. Como ambas têm a língua por pressuposto, é de se perguntar se seria concebível uma situação arcaica, existente em palavras já anteriormente à pergunta e a ela correspondente. Nela, identidade e lugar coincidiriam ainda: uma não teria sentido sem o outro. Essa situação arcaica se verifica no contato hesitante com a presa. Quem é você? Você é comestível? O animal, em sua busca incessante por alimento, toca e cheira tudo quanto encontra. Mete seu focinho em toda parte: você é comestível? Que gosto você tem? A resposta é um odor, uma reação, uma rigidez inanimada. O corpo estranho é também seu próprio lugar; cheirando-o e tocando-o é que é conhecido ou — traduzindo para nossos costumes humanos — é nomeado.
     Na educação da criança ainda pequena, dois processos que se entrecruzam parecem desproporcionalmente intensificados; embora pareçam desproporcionais, vinculam-se intimamente um ao outro. Ordens ininterruptas, de natureza vigorosa e enfática, partem dos pais; da criança, por sua vez, parte uma infinidade de perguntas. Essas primeiras perguntas da criança são como um grito por alimento, já em sua segunda e mais elevada forma. São inofensivas, uma vez que absolutamente não transmitem à criança o saber pleno dos pais; a superioridade destes permanece gigantesca.
     Quais as primeiras perguntas que a criança faz? Dentre elas encontram-se aquelas relacionadas a um lugar: “Onde é...?”. “O quê?” e “Quem?” figuram também entre essas primeiras perguntas. Vê-se, pois, que papel, lugar e identidade desempenham desde cedo. Constituem as primeiras coisas acerca das quais a criança busca informar-se. Somente mais tarde, ao final do terceiro ano de vida, ela começa a perguntar “por quê?”, e, mais tarde ainda, “quando?” e “quanto tempo?” — as perguntas relativas ao tempo. Um longo período se passa até que a criança adquira ideias precisas acerca do tempo.
     A pergunta que principia com o contato hesitante busca, como já se disse, avançar mais. Há algo nela que busca cindir, assemelhando-se a uma faca. Pode-se percebê-lo em função da resistência que crianças bem pequenas opõem a perguntas duplas. “O que você prefere? Uma maçã ou uma pera?” A criança não responderá, ou dirá “pera”, simplesmente por ter sido esta a última alternativa mencionada. Uma decisão de fato, que constituísse uma cisão entre pera e maçã, é-lhe, porém, difícil: no fundo, ela quer ambas.
     Seu verdadeiro poder de corte, a cisão atinge quando possíveis são somente as duas respostas mais simples que existem: sim ou não. Sendo opostas e excluindo tudo o mais que há entre elas, a decisão por uma ou outra implica um comprometimento e alcance particulares.
     Antes que a pergunta seja feita, em geral não se sabe o que se pensa. É ela quem obriga à separação dos prós e contras. Se gentil e não aflitiva para com o inquirido, ela deixa a seu cargo a decisão.
     Nos diálogos platônicos, Sócrates é coroado uma espécie de rei da inquirição. Ele despreza as formas comuns de poder e evita zelosamente tudo quanto possa lembrá-las. Qualquer um que o queira pode desfrutar da sabedoria que constitui sua superioridade. Nem sempre, porém, ele a transmite num discurso coeso, mas antes lançando suas perguntas. Nos diálogos, cuida-se para que seja ele a fazer a maioria das perguntas, e as mais importantes dentre elas. Assim, Sócrates não larga mais de seus ouvintes, obrigando-os a cisões das mais variadas naturezas. Seu domínio sobre eles, ele o obtém exclusivamente mediante a inquirição.
     As formas da civilidade que restringem a inquirição são importantes. A um estranho, não é admissível que se façam certas perguntas. Quem as fizer estará se aproximando demasiado dele, invadindo-o, e o estranho terá motivo para sentir-se ofendido. A reserva, pelo contrário, convencê-lo-á do quanto ele é respeitado. O estranho é tratado como se fosse alguém mais forte — uma forma de adulação que provoca nele atitude semelhante. Somente dessa maneira, a uma certa distância um do outro e não ameaçados por perguntas, qual fossem todos fortes e iguais nessa sua força, os homens se sentem seguros e convivem em paz.
     Uma pergunta colossal é aquela que diz respeito ao futuro. Poder-se ia chamá-la a pergunta suprema; é também a mais intensa de todas. Os deuses, aos quais ela é dirigida, não são obrigados a dar uma resposta. A pergunta que se faz ao mais forte é uma pergunta desesperada. Os deuses jamais se deixam aprisionar; não se pode penetrá-los. Suas manifestações são ambíguas; não se deixam decompor. Toda inquirição que se lhes faça não vai além de uma primeira pergunta, para a qual é dada uma única resposta. Com bastante frequência, tal resposta consiste meramente em sinais, os quais são reunidos em grandes sistemas pelos sacerdotes de muitos povos. Dos babilônios, a tradição transmitiu-nos milhares desses sinais. Chama a atenção o fato de cada um deles apresentar-se isolado dos demais. Não decorrem uns dos outros, nem possuem coerência interna alguma. Não são mais que listas de sinais; mesmo quem os conhece a todos só é capaz de inferir de cada um deles em particular um aspecto também particular do futuro.
     Em contraposição a isso, o interrogatório restabelece o passado, e, aliás, em sua totalidade. Ele é dirigido contra o mais fraco. Antes, porém, de nos voltarmos aqui para sua interpretação, convém dedicarmos algumas palavras a um procedimento que hoje já se impôs na maioria dos países: trata-se do registro policial. Desenvolveu-se um grupo de perguntas que são as mesmas por toda parte e que, em essência, estão a serviço da segurança e da ordem. Quer-se saber quão perigoso alguém poderia tornar-se, e, tendo esse alguém se tornado de fato perigoso, poder capturá-lo de imediato. A primeira pergunta que se faz oficialmente a um homem diz respeito ao seu nome; a segunda, a seu domicílio, seu endereço. Têm-se aí, como já se sabe, as duas perguntas mais antigas que existem: aquelas que têm por objeto a identidade e o lugar. A profissão, a pergunta seguinte, revela o que o indivíduo faz; disso, e de sua idade, infere-se a influência que exerce e o prestígio que tem — ou seja, como se deve abordá-lo. O estado civil informa acerca de suas relações humanas mais íntimas, homens, mulheres ou crianças. A origem e a nacionalidade dão uma indicação de como ele possivelmente pensa — em épocas de nacionalismos fanáticos como a atual, dados mais importantes do que a crença religiosa, que perdeu importância. Com tudo isso — mais fotografia e assinatura —, estabeleceu-se já muita coisa a seu respeito.
     As respostas a tais perguntas são aceitas. No momento em que são dadas, elas não estão sob suspeita. Somente no interrogatório voltado para um determinado m é que a pergunta faz-se carregada de desconfiança. Constrói-se, então, um sistema de perguntas que se presta ao controle sobre as respostas; em si, estas poderiam agora ser, todas elas, falsas. O interrogado encontra-se numa relação de hostilidade para com o interrogador. Sendo muito mais fraco que este, ele somente escapa se o faz crer que não é um inimigo.
     Nos interrogatórios judiciais, a inquirição produz uma onisciência a posteriori do inquiridor, o poderoso. Os caminhos que uma pessoa percorreu, os lugares em que esteve, as horas que viveu e que outrora lhe pareceram livres, sem ninguém a persegui-la, passam subitamente a sofrer perseguição. Todos os caminhos precisam ser novamente percorridos, todos os lugares revisitados, até que reste o mínimo possível daquela liberdade passada. Antes de proferir a sentença, o juiz deve ter conhecimento de uma grande quantidade de fatos. Seu poder, em especial, baseia-se na onisciência. A m de adquiri-la, ele tem o direito de formular qualquer pergunta: “Onde você esteve? Quando esteve lá? O que você fez?”. Nas respostas que servem à construção de seu álibi, o interrogado contrapõe identidades e locais. “A essa hora eu estava em outro lugar. Não fui eu quem fez tal coisa.”
     “Certa vez”, conta uma lenda vende, “por volta do meio-dia, uma jovem camponesa, deitada na relva nas proximidades de Dehsa, adormeceu. Seu noivo encontrava-se sentado a seu lado. Pensava numa maneira de livrar-se da noiva. Veio, então, a mulher do meio-dia e pôs-se a lhe fazer perguntas. Por mais que respondesse, ela sempre fazia novas perguntas. Quando o sino deu uma hora, o coração dele parou. A mulher do meio-dia o havia interrogado até a morte.”

continua página 440...
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Leia também:

Massa e Poder - Elementos do Poder: Pergunta e Resposta 
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
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Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?