Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
VIMOS que o casamento¹ tem como correlativo imediato a
prostituição.
"O hetairismo, diz Morgan, acompanha a
humanidade até em sua civilização como uma sombra projetada
sobre a família." Por prudência, o homem obriga a esposa à
castidade, mas não se satisfaz com o regime que lhe impõe.
Os reis da Pérsia, conta Montaigne, que lhes aprova a sabedoria, convidavam suas mulheres para lhes fazerem companhia em seus festins; mas, quando o vinho principiava a esquentá-los de verdade e lhes era preciso dar rédeas à volúpia, mandavam-nas de volta a seus lares para que não participassem de seus imoderados apetites e ordenavam que em seu lugar viessem mulheres que não tivessem a obrigação de respeitar.
É preciso que haja esgotos para assegurar a salubridade dos
palácios, diziam os Padres da Igreja. E Mandeville, em uma
obra que teve repercussão: "É evidente que existe uma necessidade de sacrificar uma parte das mulheres para conservar a outra
e evitar uma sujeira de natureza mais repugnante". Um dos
argumentos dos escravocratas norte-americanos em favor da
escravidão era que, estando os brancos do Sul desobrigados das
tarefas servis, podiam manter entre si as relações mais democráticas, mais requintadas; do mesmo modo, a existência de uma
casta de "mulheres perdidas" permite tratar as "mulheres honestas" com o mais cavalheiresco respeito. A prostituta é o
bode expiatório; o homem liberta-se nela de sua turpitude e a
renega.
Quer um estatuto legal a coloque sob a fiscalização
policial, quer trabalhe na clandestinidade, é ela sempre tratada
como pária.
Do ponto de vista econômico, sua situação é simétrica à da
mulher casada. "Entre as que se vendem pela prostituição e
as que se vendem pelo casamento, a única diferença consiste
no preço e na duração do contrato", diz Marro (La Puberté).
Para ambas, o ato sexual é um serviço; a segunda é contratada
pela vida inteira por um só homem; a primeira tem vários
clientes que lhe pagam tanto por vez. Aquela é protegida por
um homem contra os outros, esta é defendida por todos contra
a tirania exclusiva de cada um. Em todo caso, os benefícios
que tiram de seu corpo são limitados pela concorrência; o marido
sabe que poderia ter tido outra esposa: o cumprimento dos
"deveres conjugais" não é uma graça, é a execução de um contrato.
Na prostituição, o desejo masculino, sendo específico e
não singular, pode satisfazer-se com qualquer corpo.
Esposa
ou hetaira só conseguem explorar o homem se assumem uma
ascendência singular sobre ele. A grande diferença existente entre
elas está em que a mulher legítima, oprimida enquanto mulher
casada, é respeitada como pessoa humana; esse respeito começa
a pôr seriamente em xeque a opressão. Ao passo que a prostituta não tem os direitos de uma pessoa; nela se resumem, ao
mesmo tempo, todas as figuras da escravidão feminina.
É ingênuo perguntar que motivos levam a mulher à prostituição; não se acredita mais hoje na teoria de Lombroso, que
assimilava as prostitutas aos criminosos e via em ambos degenerados; é possível, como afirmam as estatísticas, que de uma
maneira geral o nível mental das prostitutas esteja um pouco
abaixo da média e que algumas sejam francamente débeis mentais: as mulheres cujas faculdades mentais são retardadas escolhem
amiúde um ofício que não exija delas nenhuma especialização;
mas em sua maioria elas são normais, algumas muito inteligentes.
Nenhuma fatalidade hereditária, nenhuma tara fisiológica pesa
sobre elas. Na verdade, em um mundo atormentado pela miséria
e pela falta de trabalho, desde que se ofereça uma profissão, há
quem a siga; enquanto houver polícia e prostituição, haverá
policiais e prostitutas. Tanto mais quanto tais profissões rendem
muito mais do que outras. É muita hipocrisia espantar-se com
as ofertas que suscita a procura masculina; trata-se de um
processo econômico rudimentar e universal. "De todas as causas
da prostituição, escrevia em 1857 Parent-Duchâtelet durante um
inquérito, nenhuma é mais ativa do que a falta de trabalho e a
miséria, consequência inevitável dos salários insuficientes." Os moralistas bem pensantes respondem, escarnecendo, que as histórias comoventes das prostitutas são romances para uso do
cliente ingênuo. Com efeito, em muitos casos, a prostituta teria
podido ganhar a vida de outro modo: mas, se o que escolheu
não lhe parece o pior, não é prova de que tenha o vício no
sangue; isso antes condena uma sociedade em que tal pro
fissão é ainda uma das que parecem menos rebarbativas a
muitas mulheres. Perguntam: Por que a escolheu ela? A pergunta deveria ser antes: Por que não a teria escolhido? Observou-se, entre outras coisas, que boa parte das prostitutas se recrutava entre as domésticas; foi o que estabeleceu Parent-Duchâtelet
para todos os países, o que Lily Braun notava na Alemanha e
Rickère na Bélgica. 50% mais ou menos das prostitutas foram
primeiramente criadas. Um olhar nos "quartos de criadas" basta
para explicar o fato. Explorada, escravizada, tratada como objeto
mais do que como pessoa, a arrumadeira, a criada de quarto, não
espera nenhuma melhoria da sorte no futuro; por vezes, é-lhe
necessário suportar os caprichos do dono da casa: da escravidão
doméstica, dos amores ancilares, ela desliza para uma escravidão
que não pode ser mais degradante e que ela imagina mais feliz.
Demais, as empregadas domésticas são o mais das vezes desarraigadas: calcula-se que 80% das prostitutas parisienses vêm da província ou do campo. A proximidade da família, a preocupação
com a reputação impediriam a mulher de abraçar uma profissão
geralmente desconsiderada; mas, perdida na cidade grande, não
estando mais integrada na sociedade, a ideia abstrata de moralidade não lhe opõe nenhum obstáculo. Assim como a burguesia
cerca o ato sexual — e principalmente a virgindade — de tabus
temíveis, em muitos meios camponeses e operários isso tudo se
afigura indiferente. Muitos inquéritos concordam a esse respeito:
há muitas mulheres que se deixam deflorar pelo primeiro que
aparece e que acharão em seguida natural entregar-se ao primeiro
que surgir. Em um inquérito realizado com cem prostitutas, o
Dr. Bizard salientou os fatos seguintes: uma fora deflorada aos
11 anos, duas aos 12, duas aos 13, seis aos 14, sete aos 15, vinte
e uma aos 16, dezenove aos 17, dezessete aos 18, seis aos 19; as
outras depois dos 21 anos. Havia portanto 5% que tinham sido
violentadas antes de formadas.
Mais de metade dizia ter-se
entregue por amor; as outras tinham consentido por ignorância.
O primeiro sedutor é muitas vezes jovem. É frequentemente um
camarada de oficina, um colega de escritório, um amigo de infância; vêm a seguir os militares, os contramestres, os criados, os estudantes; a lista do Dr. Bizard comportava, ademais, dois
advogados, um arquiteto, um médico, um farmacêutico. É bastante raro que seja, como quer a lenda, o próprio patrão quem
desempenhe esse papel de iniciador: mas é o filho dele, muitas
vezes, ou o sobrinho, ou um amigo. Commenge, em seu estudo,
assinala também quarenta e cinco jovens de 12 a 17 anos, que
teriam sido defloradas por desconhecidos que nunca mais teriam
visto; tinham consentido com indiferença, sem experimentar nenhum prazer. Entre outros casos, o Dr. Bizard assinala mais
precisamente os seguintes:
Mlle G., de Bordéus, voltando do convento aos 18 anos, deixa-se arrastar, sem pensar nas consequências, para um carro de saltimbancos, onde é deflorada por um cigano desconhecido.Uma menina de 13 anos entrega-se sem refletir a um senhor que encontrou na rua e que nunca mais verá.M. . . conta-nos textualmente que foi deflorada aos 17 anos por um rapaz que não conhecia.. . deixou-o fazer por completa ignorância.R. . . deflorada com 17 anos e 1/2 por um homem que nunca vira e que, por acaso, encontrara no consultório de um médico da vizinhança, que fora chamar para a irmã doente, um homem que a ia conduzir de automóvel para que chegasse mais depressa e, na realidade, a largara em plena rua.B. . . deflorada com 15 anos e 1/2, "sem pensar no que fazia", diz textualmente nossa cliente, por um jovem que nunca tornou a ver; nove meses depois, deu à luz um filho com boa saúde.S... deflorada aos 14 anos por um rapaz que a levou para casa a pretexto de lhe apresentar a irmã. O rapaz na realidade não tinha irmã, mas tinha sífilis e contaminou a menina.R. . . deflorada aos 18 anos, numa antiga trincheira da frente, por um primo casado e com quem visitava os campos de batalha. Pô-la grávida, o que a obrigou a abandonar a família.C. . . deflorada aos 17 anos, na praia, numa noite de verão, por um jovem que acabara de conhecer no hotel, a cem metros das duas mães que falam de frivolidades. Contaminada por blenorragia.L... deflorada com 13 anos, pelo tio, ouvindo rádio, enquanto a tia, que gostava de dormir cedo, repousava tranquilamente no quarto ao lado.
Essas jovens, que cederam passivamente, nem por isso deixaram de sofrer o traumatismo do defloramento; desejaríamos
saber que influência psicológica teve essa experiência brutal no futuro delas; mas não se psicanalisam prostitutas: são inábeis na
descrição de si mesmas e escondem-se atrás de lugares-comuns.
Em algumas, a facilidade de se entregar a qualquer um explica-se pela existência de fantasmas de prostituição de que falamos:
por rancor familiar, horror à sexualidade nascente, desejo de
desempenhar o papel de adulto; há moças que imitam as prostitutas: pintam-se exageradamente, recebem rapazes, mostram-se
coquetes e provocantes; ainda infantis, assexuadas, frias, acre
ditam poder brincar com o fogo impunemente; um dia um homem
as toma a sério e elas passam dos sonhos aos atos.
"Quando uma porta foi arrombada, é difícil depois mantê-la
fechada", dizia uma jovem prostituta de 14 anos². Entretanto
a moça raramente se decide a "fazer o trottoir" logo depois do
defloramento. Em certos casos, continua apegada ao primeiro
amante e a viver com ele; arranja um ofício "honesto"; quando o
amante a abandona, outro a consola; como não pertence a um
homem só, acha que pode dar-se a todos; por vezes é o amante
— o primeiro ou o segundo — que sugere esse meio de ganhar
dinheiro. Há também muitas moças que são prostituídas pelos
pais: em certas famílias — como na célebre família norte--americana dos Juke — todas as mulheres são destinadas a essa
profissão.
Entre as jovens vagabundas, numerosas meninas
abandonadas pelos seus começam pela mendicância e deslizam
para a prostituição. Em 1857, Parent-Duchâtelet verificara que,
em 5.000 prostitutas, 1.441 tinham sido influenciadas pela pobreza,
1.425 seduzidas e abandonadas, 1.255 abandonadas e deixadas
sem recursos pelos pais. Os inquéritos modernos sugerem mais
ou menos as mesmas conclusões. A doença leva muitas vezes
à prostituição a mulher incapacitada para um trabalho verdadeiro,
ou que perdeu seu lugar; ela destrói o equilíbrio precário do
orçamento, obriga a mulher a inventar apressadamente novos
recursos. De igual modo, o nascimento de um filho. Mais de
metade das mulheres de Saint-Lazare tiveram um filho pelo menos;
muitas criaram de três a seis; o Dr. Bizard refere-se a uma
que deu à luz quatorze, oito dos quais viviam ainda quando êle a
conheceu. Poucas há, diz ele, que abandonam o filho; e acontece
ser para alimentá-lo que se fazem prostitutas. Ele cita este caso
entre outros:
[2] Citado por Marro, La Puberté.
Deflorada na província, com a idade de 19 anos, por um patrão de 60 quando ainda vivia com a família, foi obrigada, estando grávida, a abandonar os seus para dar à luz uma menina com boa saúde e que educou muito corretamente. Depois do parto veio para Paris, onde trabalhou como ama, tendo começado a prostituir-se aos 29 anos. Prostitui-se, portanto, há 33 anos. Sem mais forças nem coragem, pede agora para ser hospitalizada em Saint-Lazare.
continua página 328...
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (1)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"