quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Curta: Mindenki

Cantem!

Kristof Deák

Curta-metragem vencedora do Oscar sobre injustiça social

Zsofi está com dificuldades para se adaptar à sua nova escola – cantar no famoso coral da escola é seu único consolo, mas a diretora do coral pode não ser a professora inspiradora que todos pensam que ela seja. Zsofi e sua nova amiga Liza precisarão descobrir a cruel verdade.

"Sing" é um drama infantil com muita música, ambientado na Budapeste da década de 1990, na Hungria.

Baseado em uma história real, o filme acompanha um coral escolar premiado e a nova aluna da turma que enfrenta uma escolha difícil: se opor a um sistema corrupto ou se adaptar silenciosamente a ele.






Dieser Kurzfilm ganhou os seguintes prêmios:

Melhor Curta-Metragem em Live-Action / Prêmio da Academia OSCAR®, 2017
Prêmio do Público / 32º Festival du Cinema Européen Lille
Prêmio do Público / Festival Internacional de Cine Lanzarote
Prêmio Escolha do Público / TIFF Kids Toronto
Prêmio Especial Daazo.com / Grande Prêmio do Festival de Carnes Frescas de Budapeste e Melhor Curta Internacional
Prêmio do Público / Festival de Curtas-Metragens da Ásia, Tóquio (Qualificatório para o OSCAR®)
Melhor Atriz Infantil (para Dorka Gáspárfalvi e Dorottya Hais) e Prêmio do Público / Sapporo Shortsfest
Melhor Curta-Metragem de Ficção / Festival Internacional de Cinema Infantil de Chicago (Qualificatório para o OSCAR®)
2º Prêmio / Interfilm KUKI + TeenScreen Berlin

Título original - Mindenki (Sing)
Diretor - Kristof Deák
Livro - Kristof Deák, Christian Azzola, Bex Harvey
Produção - Anna Udvardy, Kristof Deák
Elenco - Zsófia Szamosi, Dorottya Hais, Dorka Gáspárfalvi
Música - Adam Balazs
Ano - 2016

© Licenciado pela New Europe Film Sales

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Essa atitude de resignação aos sofrimentos)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Essa atitude de resignação aos sofrimentos sempre iminentes infligidos pelo Belo, e a coragem que tivera em pôr um vestido quando mal se levantava após a última sonata, faziam com que a Sra. Verdurin, mesmo para escutar a música mais cruel, conservasse uma fisionomia desdenhosamente impassível e até chegasse a se esconder para engolir duas colheradas de aspirina. 

- Ah, sim, ei-los - exclamou o Sr. Verdurin com alívio, vendo a porta se abrir e deixar passar Morel, seguido do Sr. de Charlus. Este, para quem jantar na casa dos Verdurin não era de forma alguma comparecer à sociedade, mas ir a um lugar suspeito, estava intimidado como um colegial que entra pela primeira vez num bordel e com mil respeitos para com a dona. Assim, o desejo habitual do Sr. de Charlus, de parecer frio e viril, foi dominado (quando apareceu na porta aberta) por essas ideias tradicionais de cortesia, que se revelam desde que a timidez arruína uma atitude fictícia e apela para os recursos do inconsciente. Quando é num Charlus, seja ele burguês ou nobre, que age tal sentimento de polidez instintiva e atávica para com desconhecidos, é sempre a alma de um parente do sexo feminino, auxiliadora como uma deusa, ou encarnada como um duplo, que se encarrega de introduzi-lo num novo salão e de modelar sua atitude até que ele tenha chegado diante da dona da casa. Certo pintor jovem, educado por uma santa prima protestante, entrará com a cabeça oblíqua e vacilante, os olhos no teto, as mãos presas a um regalo invisível, cuja forma evocada e cuja presença real e tutelar auxiliarão o artista intimidado a franquear, sem agorafobia, o espaço cavado de abismos que vai do vestíbulo ao salão pequeno. Assim, a piedosa parenta, cuja lembrança o guia hoje, entrava, há muitos anos e com um aspecto tão gemente, que todos se perguntavam qual a desgraça que vinha anunciar, quando às suas primeiras palavras compreenderam, como agora ocorria com o pintor, que ela vinha fazer uma visita de digestão. Em virtude dessa mesma lei que exige que a vida, no interesse do ato ainda não cumprido, mande servir, utilize, desnature, numa perpétua prostituição, os mais respeitáveis legados, por vezes os mais santos, por vezes os mais inocentes, do passado, e, embora ela engendrasse então um aspecto diferente, um dos sobrinhos da Sra. Cottard, que afligia a família por seus modos afeminados e suas relações, fazia sempre uma entrada alegre como se viesse dar uma surpresa ou anunciar uma herança, iluminado por uma felicidade de cuja causa seria baldado perguntar-lhe, que se ligava à sua hereditariedade inconsciente e a seu sexo desviado. Andava na ponta dos pés, estava sem dúvida ele próprio espantado de não ter à mão um carnê de cartões de visita, estendia a mão abrindo a boca em forma de coração, como vira a tia fazer, e seu único olhar inquieto era para o espelho, onde parecia querer verificar, embora estivesse de cabeça descoberta, se o seu chapéu, como um dia indagara a Sra. Cottard a Swann, não estava de través.

     Quanto ao Sr. de Charlus, a quem a sociedade na qual tinha vivido fornecia, nesse momento crítico, exemplos diferentes, outros arabescos de amabilidade e, enfim, a máxima que se deve conhecer em certos casos, para com simples pequeno-burgueses, externar e oferecer as mais raras graças, habitualmente conservadas em reserva, foi bamboleando com afetação e a mesma amplitude como que umas saias houvessem alargado e embaraçado os seus requebros, que ele se dirigiu para a Sra. Verdurin, com um ar tão lisonjeado e honrado que se diria que ser apresentado em sua casa teria sido para ele um favor supremo. Seu rosto, meio inclinado, onde a satisfação competia com as conveniências, sulcava-se de pequeninas rugas de afabilidade. Julgar-se-ia ver avançar a Sra. de Marsantes, de tanto que, naquele momento, sobressaía a mulher que um erro da natureza colocara no corpo do Sr. de Charlus. Decerto, esse erro o barão duramente havia penado para dissimulá-lo e assumir uma aparência masculina. Porém, mal o conseguira e eis que, tendo conservado ao mesmo tempo os mesmos gostos, o hábito de sentir como mulher lhe dava uma nova aparência feminina, nascida esta não da hereditariedade, mas da vida individual. Como chegava aos poucos a pensar, mesmo os fatos sociais, no feminino; isto sem se dar conta de tal, pois não é somente à força de mentir para os outros, mas também de mentir para si mesmo, que se deixa de perceber que se mente, embora ele tivesse pedido ao corpo que tornasse manifesto (no momento em que entrava na casa dos Verdurin) toda a cortesia de um grão senhor, esse corpo, que compreendera perfeitamente aquilo que o Sr. de Charlus deixara de ouvir, desenrolou, a ponto de que o barão teria merecido o epíteto de lady-like, todas as seduções de uma grande dama. Afinal, pode-se separar inteiramente o aspecto do Sr. de Charlus do fato de que os filhos, visto nem sempre se parecerem com os pais, mesmo não sendo invertidos e procurarem mulheres, consumam no rosto a profanação de sua mãe? Mas deixemos aqui o que mereceria um capítulo à parte: as mães profanadas.
     Conquanto razões outras presidissem a essa transformação do Sr. de Charlus e fermentos puramente físicos fizessem "trabalhar" nele a matéria e passar seu corpo, aos poucos, para a categoria de corpos de mulher, todavia a mudança que aqui assinalamos era de origem espiritual. À força de se julgarem enfermas, as pessoas o acabam sendo, emagrecem, não têm mais forças para se levantar, sofrem de enterites nervosas. À força de pensar com ternura nos homens, uma pessoa se torna mulher e uma saia postiça entrava seus passos. A ideia fixa nelas pode modificar o sexo (assim como em outros casos a saúde).
     Morel, que o seguia, veio cumprimentar-me.
     Desde aquele momento, devido a uma dupla mudança que nele se efetuava, ele me causou (ai de mim, que não o soube perceber em tempo) uma má impressão. Eis o motivo.
     Disse eu que Morel, tendo escapado à servidão do pai, comprazia-se em geral numa familiaridade extremamente desdenhosa. Falara comigo, no dia em que me levara as fotografias, sem sequer uma vez me dizer "senhor" e tratando-me de alto a baixo. Qual não foi minha surpresa, na casa da Sra. Verdurin, ao vê-lo inclinar-se profundamente diante de mim, e só diante de mim, e ao ouvir, antes mesmo que ele tivesse pronunciado outras frases, as expressões de "respeito" e "muito respeitoso" palavras que eu considerava impossíveis em seus lábios ou em seus escritos a mim dirigidas! Tive logo a impressão de que ele queria me pedir alguma coisa. Tomando-me à parte ao cabo de um minuto: 

- O senhor me prestaria um grande serviço - disse ele, chegando dessa vez a me falar na terceira pessoa ocultando inteiramente à Sra. Verdurin e a seus convidados o tipo de profissão que meu pai exerceu em casa de seu tio. Seria preferível dizer que ele era, em sua família, o intendente de domínios tão vastos que isto o fazia quase da mesma classe que seus pais. - O pedido de Morel me contrariava infinitamente, não por me obrigar a engrandecer a posição de seu pai, o que na verdade pouco me importava, mas a fortuna ao menos aparente do meu, o que achava ridículo. Mas seu aspecto era tão infeliz, tão premente, que não recusei. 
- Não, antes do jantar - pediu-me em tom de súplica; o senhor tem mil pretextos para chamar à parte a Sra. Verdurin.

     Foi o que fiz, com efeito, cuidando de realçar da melhor maneira o brilho do pai de Morel, sem exagerar muito "o modo de vida" e a "abastança" de meus pais. Isso passou como carta no correio, apesar do espanto da Sra. Verdurin, que vagamente conhecera meu avô. E, como fosse desprovida de tato e odiava as famílias (esse dissolvente do pequeno núcleo), depois de haver dito que outrora avistara meu bisavô e de ter se referido a ele como a alguém mais ou menos idiota que nada teria compreendido do pequeno grupo, e que, conforme sua expressão, "não era dos deles", ela me disse: 

- Aliás, isso de famílias é tão enfadonho; a gente só aspira em sair delas; - e em seguida contou-me, do pai de meu avô, essa tirada que eu ignorava, embora em casa tivesse suspeitado (não chegara a conhecê-lo, mas falavam muito nele) de sua avareza (oposta à generosidade um tanto faustosa do meu tio-avô, o amigo da dama cor-de-rosa e patrão do pai de Morel): - Já que seus pais tinham um intendente tão elegante, isto prova que há pessoas de todos os matizes nas famílias. O pai de seu avô era tão avarento que, quase caduco no fim da vida cá entre nós, ele nunca foi muito forte, o senhor os compensa a todos -, não se conformava em gastar três sous com o ônibus. De modo que tinham sido obrigados a mandar alguém segui-lo, pagar em separado ao trocador e fazer acreditar ao velho que seu amigo, Sr. de Persigny, ministro de Estado, conseguira que ele andasse de graça nos ônibus. De resto, estou muito contente que o pai do nosso Morel tenha tido tão boa situação. Eu havia compreendido que ele era professor de liceu, não quer dizer nada, entendi mal. Mas não tem importância, pois aqui só apreciamos o valor próprio, a contribuição pessoal, o que chamo de participação. Contanto que seja da arte, numa palavra, contanto que seja da confraria, o resto pouco importa. -

     A maneira como Morel o era tanto quanto pude sabê-lo que ele amava bastante as mulheres e os homens para agradar a cada sexo com a ajuda do que experimentara no outro - é o que veremos mais tarde. O essencial a dizer aqui é que, desde que lhe dei minha palavra no sentido de intervir junto à Sra. Verdurin, sobretudo desde que o fiz, e sem ser possível voltar atrás, o "respeito" de Morel por mim se desvaneceu como por encanto, desapareceram as fórmulas respeitosas, e ele chegou mesmo, durante algum tempo, a me evitar, cuidando para parecer que me desdenhava, de forma que, se a Sra. Verdurin queria que lhe dissesse alguma coisa lhe pedisse determinado trecho de música, ele continuava a falar como fiel, depois com outro, mudava de lugar se me aproximava dele. Eram forçados a lhe dizer até três ou quatro vezes que eu lhe dirigira a palavra, após o que ele me respondia, constrangido, de modo breve, a menos que estivéssemos a sós. Neste caso, tornava-se expansivo, amistoso, pois apresentava aspectos de caráter muito encantadores. Nem por isso deixei de concluir, por aquela primeira reunião noturna, que sua natureza devia ser vil, que ele não recuava, se necessário, diante de nenhuma baixeza, ignorava a gratidão. Nisso assemelhava-se ao comum dos homens. Mas, como eu tinha dentro de mim um pouco de minha avó e me agradava a diversidade dos homens, sem deles nada esperar ou lhes querer mal, não me importei com sua baixeza, e diverti-me com sua boa disposição quando apareceu, e até no que acho ter sido uma sincera amizade de sua parte quando, tendo dado toda a volta de seus falsos conhecimentos da natureza humana, ele percebeu (por impulsos, pois era dotado de estranhos retrocessos à sua selvageria primitiva e cega) que minha suavidade para com ele era desinteressada, que minha indulgência não provinha de uma falta de perspicácia, mas do que chamou de bondade, e que sobretudo eu me encantava com sua arte, que não passava de admirável virtuosismo, mas que me fazia (sem que ele fosse um verdadeiro músico, no sentido intelectual do termo) ouvir de novo ou conhecer tantas belas músicas. Aliás, um manager, o Sr. de Charlus, em quem eu ignorava esses talentos (embora a Sra. de Guermantes, que o conhecera bem diferente na sua juventude, afirmasse que ele lhe compusera uma sonata, pintara um leque, etc.), modesto no que concernia a suas verdadeiras superioridades, mas de primeira ordem, soube colocar esse virtuosismo a serviço de um senso artístico multiforme, e que o decuplicou.
     Imagine-se algum artista puramente habilidoso dos Ballets russos, estilizado, instruído, desenvolvido em todos os sentidos pelo Sr. Diaghilev.
     Acabava de transmitir à Sra. Verdurin a mensagem de que me havia encarregado Morel, e falava sobre Saint-Loup com o Sr. de Charlus, quando Cottard entrou no salão anunciando, como se se tratasse de um incêndio, que os Cambremer estavam chegando. A Sra. Verdurin, para não parecer, diante de novatos como eu e o Sr. de Charlus (que Cottard não tinha visto), ligar tanta importância à chegada dos Cambremer, não se mexeu, não respondeu nada ao anúncio daquela novidade, contentando-se em dizer ao doutor, abanando-se com graça e com o mesmo tom artificial de uma marquesa do Théâfre-français: 

- O barão nos dizia justamente... -

     Era demais para Cottard! Com menos vivacidade do que faria outrora, pois o estudo e as altas posições tinham tornado mais vagarosa a sua fala, mas ainda assim com aquela emoção que reencontrou: 

- Um barão! Onde isso, um barão?- procurando-o com os olhos, num espanto que ofuscou.

     A Sra. Verdurin, com a indiferença afetada de um criado, diante dos convidados, acabada a entonação artificial e aumentada de um desempenho de Dumas Filho, respondeu: 

- Ora, o barão de Charlus. -

     Aliás, não desagradava se fazer de grande dama.
     O Sr. de Charlus apertou com um sorriso benévolo atacou de súbito, vendo entrarem os Cambremers. Ao entrarem o Sr. de Charlus me arrastava para um canto sem apalpar meus músculos, ao que Cambremer de modo algum se assemelhava dizia este com ternura, inteiramente do lado oposto que se ouvira falar nele, ou de cartas dele, do seu físico assombrava. Sem dúvida, a gente via que havia escolhido, para vir colocar de través em linha oblíqua, entre tantas outras, que não se vê no rosto, um nariz; que indicava uma estupidez vulgar, de uma pele normanda de vermelhidão do Sr. de Cambremer; aguardassem nas pálpebras tão suaves pelos belos dias ensolarados e divertidos em ver, paradas à beira da estrada, às sombras dos álamos, mas aquelas pálpebras abaixadas, teriam impedido a própria inteligência postado com a exiguidade daquele olhar de narigão atravessado. Por uma transposição nos olhava com o nariz. Esse nariz do Sr. de Charlus era um pouco bonito demais, por demais forte, com excesso de importância. Convexo, brunido, reluzente, novamente disposto a compensar a insuficiência se os olhos são às vezes o órgão em que seja qual for, aliás a íntima solidariedade dos traços uns sobre os outros, o nariz revela mais facilmente a tolice.
     Por mais conveniência a Sra. de Cambremer usava sempre, mesmo de manhã, algo que ofuscava e exasperava o brilho das roupas desconheciam, não se podia compreender que a mulher do presidente do conselho declarasse com ar de faro e de autoridade, como pessoa que tem mais experiência do que nós acerca da alta sociedade de Alençon, que diante de Sr. de Cambremer logo nos sentíamos, mesmo antes de saber de quem se tratava, em presença de um homem de alta distinção, de um homem perfeitamente bem-educado, diferente do gênero de Balbec, enfim, um homem junto a quem se podia respirar. Era para ela, asfixiada por tantos turistas de Balbec que não conheciam o seu mundo, como um frasco de sais. Pareceu-me, ao contrário, que ele era dessas pessoas que minha avó teria achado logo "muito mau" e, como não compreendia o esnobismo, sem dúvida ficaria estupefata de que ele tivesse conseguido se casar com a Srta. Legrandin, que devia ser difícil em matéria de distinção, ela, cujo irmão era "tão bom". Quando muito, podia-se dizer da feiura vulgar do Sr. de Cambremer que ela era um pouco da região e tinha algo de muito antigamente local; diante de seus traços errôneos e que se teria desejado retificar, pensava-se nesses nomes de cidadezinhas normandas sobre cuja etimologia o meu cura se enganava porque os camponeses, articulando mal ou tendo mal compreendido o termo normando ou latim que as designa, acabaram por fixar num barbarismo que já se encontra nas cartulárias, como diria Brechot, um contrassenso e um vício de pronúncia. A vida nessas velhas cidadezinhas pode aliás passar-se agradavelmente, e o Sr. de Cambremer devia ter qualidades, pois, se era próprio de uma mãe que a velha marquesa preferisse seu filho à nora, em compensação, ela, que tinha vários filhos, dos quais dois pelo menos não eram desprovidos de mérito, frequentemente declarava que o marquês, em sua opinião, era o melhor da família. Durante o pouco tempo que havia passado no exército, seus companheiros, achando muito comprido dizer Cambremer, tinham lhe dado o apelido de Cancan, que ele de resto não merecera em nada. Sabia ornar um jantar ao qual o convidavam, dizendo no momento do peixe (mesmo que o peixe estivesse podre) ou à entrada: 

- Mas sim senhor, parece que está mesmo um belo animal. -

     E sua mulher, tendo adotado ao entrar para a família tudo o que julgava fazer parte do gênero daquela sociedade, punha-se à altura dos amigos do marido, e talvez procurasse agradar lhe como uma amante, e como se outrora tivesse estado ligada à sua vida de solteiro, dizendo com ar displicente quando falava dele aos oficiais: 

- Vão ver Cancan, Cancan foi a Balbec, mas estará de volta esta noite. -

     Estava furiosa por se comprometer aquela noite com os Verdurin e só comparecia às instâncias da sogra e do marido, no interesse da locação. Porém, menos bem-educada que eles, não ocultava o motivo e fazia quinze dias que troçava com as amigas sobre esse jantar. 

- Sabem que vamos jantar com nossos locatários? Isso bem merece um aumento. No fundo, estou bastante curiosa por saber o que podem ter feito da nossa pobre e velha Raspeliere (como se ali tivesse nascido e encontrasse todas as recordações dos seus). Nosso velho guarda nos disse ainda ontem que não era possível reconhecer mais nada. Nem tenho coragem de pensar em tudo o que deve se passar lá dentro. Acho que faremos bem em mandar desinfetar tudo antes de nos reinstalarmos. -
     Ela chegou altaneira e rabugenta, com o ar de grande dama cujo castelo, por ocasião de uma guerra, tivesse sido ocupado pelos inimigos, mas que ainda assim sente-se em casa e faz questão de mostrar aos vencedores que eles são intrusos.
     A princípio a Sra. de Cambremer não pôde me ver porque eu estava numa sacada lateral com o Sr. de Charlus, que me dizia ter sabido por Morel que seu pai fora "intendente" em minha família, e que ele, Charlus, contava muito com minha inteligência e magnanimidade (termo comum a ele e a Swann) para recusar-me o ignóbil e mesquinho prazer que pequenos imbecis vulgares (eu estava prevenido) não deixariam de gozar em meu lugar, revelando aos nossos anfitriões pormenores que estes poderiam julgar depreciativos. 

- O simples fato de que me interesse por ele e estenda sobre ele a minha proteção tem algo de sobre-eminente e abole o passado - concluiu o barão.

     Escutando-o e prometendo silêncio, que aliás teria guardado mesmo sem a esperança de, em troca, passar por inteligente e magnânimo, eu olhava a Sra. de Cambremer. E custou-me reconhecer a coisa sumarenta e deliciosa que eu tivera no outro dia junto a mim à hora da merenda, no terraço de Balbec, na bolacha que via, dura como uma pedra, e na qual os fiéis em vão tentariam cravar o dente. Antecipadamente irritada com o jeito bonachão que o marido herdara da mãe e que o faria assumir um ar de honrado quando o apresentassem aos fiéis, e no entanto desejosa de preencher suas funções de mulher da alta sociedade, quando lhe nomearam Brichot, quis fazê-lo travar conhecimento com o marido, porque vira suas amigas mais elegantes procederem desse modo; mas ou a raiva ou o orgulho, vencendo a ostentação do savoir-vivre, fê la dizer, não como deveria: 

- Permita-me apresentar-lhe o meu marido e sim: - Apresento-lhe o meu marido -, mantendo assim altaneiro o estandarte dos Cambremer, a despeito deles mesmos, pois o marquês inclinou-se diante de Brichot tão profundamente como ela havia previsto. Mas todo esse humor da Sra. de Cambremer mudou de súbito quando ela avistou o Sr. de Charlus, a quem conhecia de vista. Jamais conseguira fazer-se apresentada a ele, mesmo à época em que tivera uma ligação com Swann. Pois o Sr. de Charlus, tomando sempre o partido das mulheres, de sua cunhada contra as amantes do Sr. de Guermantes, de Odette, então ainda não casada, porém antiga ligação de Swann, contra as novas, severo defensor da moral e protetor fiel dos cônjuges, fizera a Odette a promessa de não se deixar apresentar à Sra. de Cambremer, promessa que mantivera. Certamente a Sra. de Cambremer não duvidara que era na casa dos Verdurin que haveria por fim de conhecer esse homem inabordável. O Sr. de Cambremer sabia que aquilo seria uma tão grande satisfação para ela que ele próprio se sentia enternecido, e olhou para a mulher com um ar que significava:

"Está contente por ter se decidido a vir, não é mesmo?"

     Aliás, falava muito pouco sabendo que se casara com uma mulher superior. 

- Eu, indigno - dizia-a todo instante, e de bom grado citava uma fábula de La Fontaine e uma de Florian, que lhe pareciam aplicar-se à sua ignorância e, por outro lado permitir-lhe, sob as formas de uma lisonja desdenhosa, mostrar aos homens da ciência que não eram do Jockey, que se pode muito bem casar e ter lido fábulas. O diabo é que só conhecia duas. Assim, elas retornavam muitas vezes. A Sra. de Cambremer não era idiota, mas possuía diversos hábitos muito irritantes. Nela, a deformação dos nomes não tinha absolutamente nada do desdém aristocrático. Não seria ela que, como a duquesa de Guermantes (que, pelo nascimento, deveria estar, mais que a Sra. de Cambremer, ao abrigo desse ridículo), teria dito, para não parecer saber o nome pouco elegante (quando agora é o de uma das mulheres mais difíceis com quem se possa ter intimidade) de Julien de Monchâteau: 
- Uma senhorazinha... Pico della Mirandola. -  

     Não, quando a Sra. de Cambremer citava falsamente um nome, era por benevolência, para não dar a entender que conhecia algo, e quando todavia por sinceridade o confessava, julgando que o ocultava ao desmarcá-lo. Se, por exemplo, defendia uma mulher, procurava dissimulá-lo, sempre querendo não mentir àquela que lhe suplicava que dissesse a verdade, que tal senhora era atualmente amante do Sr. Sylvain Lévy, e dizia: 

- Não... não sei absolutamente nada sobre ela, creio que lhe censuraram o ter inspirado uma paixão a um senhor cujo nome desconheço, algo como Cahn, Kohn ou Kuhn; aliás, creio que este senhor já está morto há muitíssimo tempo e que nunca houve nada entre eles. -

     É o procedimento semelhante ao dos mentirosos e inversamente ao deles os quais julgam que, alterando o que fizeram quando o contam a uma amante ou simplesmente a um amigo, imaginam que uma e outro não verão imediatamente que a frase dita (assim como Cahn, Kohn ou Kuhn) é interpolada, e de espécie diversa das que compõem a conversação e têm fundo falso.
     A Sra. Verdurin perguntou ao ouvido do esposo: 

- Devo dar o braço ao barão de Charlus? Como terás à tua direita a Sra. de Cambremer, poderíamos cruzar as finezas. 
- Não - disse o Sr. Verdurin -, visto que a outra é de grau mais elevado (querendo dizer que o Sr. de Cambremer era marquês), o Sr. de Charlus, em suma, é seu inferior.
- Pois bem, vou colocá-lo ao lado da princesa. -

     E a Sra. Verdurin apresentou a Sra. Sherbatoff ao Sr. de Charlus; ambos se inclinaram em silêncio, com o ar de que sabiam muito bem um sobre o outro e de se prometerem segredo mútuo. O Sr. Verdurin me apresentou ao Sr. de Cambremer. Antes mesmo que me tivesse falado com sua voz forte e levemente gaguejante, sua elevada estatura e seu rosto colorido manifestaram, em sua oscilação, a hesitação marcial de um chefe que busca nos tranquilizar e diz:  

"Falaram-me a respeito, vamos dar um jeito nisso; vou mandar cancelar sua punição; não somos vampiros; tudo correrá bem."

     Depois, apertando-me a mão: 

- Creio que conhece minha mãe - disse ele. O verbo "crer" lhe parecia, aliás, convir à discrição de um primeiro encontro, porém de maneira alguma exprimir uma dúvida, pois acrescentou: - De resto, trago uma carta dela para o senhor. -  

continua na página 140...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Essa atitude de resignação aos sofrimentos)
Volume 6
Volume 7

MPB: O Que Foi Feito Devera (De Vera)

Elis Regina e Milton Nascimento

Clube Da Esquina 2
1978 Universal Music International







Lançado em: 02/01/1978
Produtor: Máriozinho Rocha
Vocalista: Elis Regina
Vocalista: Milton Nascimento
Compositor Letrista: Milton Nascimento
Compositor Letrista: Fernando Brant
Compositor Letrista: Marcio Borges


O que foi feito, amigo
De tudo que a gente sonhou
O que foi feito da vida
O que foi feito do amor

Quisera encontrar aquele verso menino
Que escrevi há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade
Falo assim por saber

Se muito vale o já feito
Mais vale o que será
Mais vale o que será
E o que foi feito é preciso
Conhecer para melhor prosseguir

Falo assim sem tristeza
Falo por acreditar
Que é cobrando o que fomos
Que nós iremos crescer
Nós iremos crescer
Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de Sol e de luz

Alertem todos alarmas
Que o homem que eu era voltou
A tribo toda reunida
Ração dividida ao Sol
E nossa vera cruz

Quando o descanso era luta pelo pão
E aventura sem par
Quando o cansaço era rio
E rio qualquer dava pé
E a cabeça rolava num gira-girar de amor
E até mesmo a fé não era cega nem nada
Era só nuvem no céu e raiz

Hoje essa vida só cabe
Na palma da minha paixão
Devera nunca se acabe
Abelha fazendo o seu mel
No canto que criei
Nem vá dormir como pedra e esquecer
O que foi feito de nós



Maria Rita - O Que Foi Feito Devera (De Vera) / Maria, Maria





Depoimento de Milton Nascimento sobre Elis Regina





TV MULHER - ENTREVISTA COMPLETA COM MARIA RITA



O Que Foi Feito Devera (De Vera) /  

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Cotação do Café Lança ao Fogo as Colheitas(13)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     24. A Cotação do Café Lança ao Fogo as Colheitas e Determina o Ritmo dos Casamentos
          O que é isso? O eletroencefalograma de um louco? Em 1889, o café valia dois centavos e seis anos depois subiu para nove; três anos mais tarde baixou para quatro centavos e cinco anos depois para dois. Esse período foi ilustrativo [1]. Os gráficos dos preços do café, como os de todos os produtos tropicais, assemelham-se aos quadros clínicos da epilepsia, mas a linha sempre desce quando registra o valor de troca do café perante os maquinários e produtos industrializados. Carlos Lleras Restrepo, presidente da Colômbia, queixava-se em 1967: neste ano, seu país devia pagar 57 bolsas de café para comprar um jipe, enquanto em 1950 bastavam dezessete bolsas. Ao mesmo tempo, o Secretário da Agricultura de São Paulo, Herbert Levi, fazia cálculos mais dramáticos: para comprar um trator em 1967, o Brasil precisava de 350 bolsas de café, ao passo que, quatorze anos antes, 70 bolsas teriam sido suficientes. O presidente Getúlio Vargas, em 1954, despedaçou seu coração com um balaço, e a cotação do café não se alheou à tragédia: “Veio a crise do café”, escreveu Vargas em seu testamento, “valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder”. Vargas quis que seu sangue fosse um preço do resgate.
     Se a colheita do café de 1964 fosse comercializada no mercado norte-americano a preços de 1955, o Brasil teria recebido 200 milhões de dólares a mais. A baixa de um centavo na cotação do café implica uma perda de 65 milhões de dólares para o conjunto dos países produtores. Desde 1964, como o preço continuou caindo até 1968, tornou-se maior a quantidade de dólares usurpados do Brasil, país produtor, pelo país consumidor, os Estados Unidos. Mas em benefício de quem? Do cidadão que bebe o café? Em julho de 1968, o preço do café brasileiro nos Estados Unidos havia baixado 30 por cento em relação a janeiro de 1964. No entanto, o consumidor norte-americano não pagava menos pelo seu café, mas 13 por cento a mais. Entre 64 e 68, portanto, os intermediários abocanharam estes 13 e aqueles 30: ganharam nas duas pontas. No mesmo período, os valores que receberam os produtores brasileiros por cada bolsa de café estavam reduzidos à metade [2]. Quem são os intermediários? Seis empresas norte-americanas dispõem de mais do que a terça parte do café que sai do Brasil, e outras seis empresas norte americanas dispõem de mais do que a terça parte do café que entra nos Estados Unidos: são firmas dominantes em ambos os extremos da operação [3]. A United Fruit (que passou a chamar-se United Brands enquanto escrevo estas linhas) exerce o monopólio da venda de bananas da América Central, Colômbia e Equador, e ao mesmo tempo monopoliza a importação e a distribuição de bananas nos Estados Unidos. De modo semelhante, são empresas norte americanas que manejam o negócio do café, e o Brasil só participa como provedor e como vítima. É o Estado brasileiro que arca com os estoques quando a superprodução obriga a acumular reservas.
     Acaso não existe um Convênio Internacional do Café para equilibrar os preços no mercado? O Centro Mundial de Informação do Café publicou em Washington, em 1970, um amplo documento destinado a convencer os legisladores para que os Estados Unidos prorrogassem, em setembro, a vigência da lei complementar relativa ao convênio. O informe assegura que o convênio beneficiou em primeiro lugar os Estados Unidos, consumidores de mais da metade do café que se vende no mundo. A compra do grão continua sendo uma pechincha. No mercado norte-americano, o irrisório aumento do preço do café (em benefício, como vimos, dos intermediários) foi muito menor do que a alta geral do custo de vida e do nível interno dos salários; o valor das exportações dos Estados Unidos, entre 1960 e 1969, elevou-se em uma sexta parte, e no mesmo período o valor das importações de café, em vez de aumentar, diminuiu. De resto, é preciso levar em conta que os países latino-americanos aplicam as deterioradas divisas obtidas com a venda do café na compra desses produtos norte americanos que subiram de preço.
     O café beneficia muito mais quem consome do que quem o produz. Nos Estados Unidos e na Europa gera rendas, empregos, e mobiliza grandes capitais; na América Latina, paga salários de fome e acentua a deformação econômica dos países postos a seu serviço. Nos Estados Unidos, o café proporciona trabalho a mais de 600 mil pessoas: os norte-americanos que distribuem e vendem o café latino-americano ganham salários infinitamente mais altos do que os brasileiros, colombianos, guatemaltecos, salvadorenhos ou haitianos que semeiam e colhem o grão nas plantações. De outra parte, informa-nos a CEPAL que, por incrível que pareça, o café entorna mais riqueza nas arcas estatais dos países europeus do que a riqueza que deixa em mãos dos países produtores. De fato, “em 1960 e 1961, as cargas fiscais totais impostas pelos países da Comunidade Europeia ao café latino-americano elevaram-se a cerca de 700 milhões de dólares, ao passo que as rendas dos países abastecedores (em termos do valor FO das mesmas exportações) só alcançaram 600 milhões de dólares” [4]. Os países ricos, pregadores do livre-comércio, aplicam o mais rígido protecionismo contra os países pobres: convertem tudo o que tocam em ouro para eles mesmos e em lata para os demais – incluindo a própria produção dos países subdesenvolvidos. O mercado internacional do café copia de tal modo o desenho de um funil que o Brasil, recentemente, aceitou impor altos impostos às suas exportações de café solúvel para proteger– protecionismo ao contrário – interesses dos fabricantes norte-americanos do mesmo artigo. O café instantâneo produzido no Brasil é mais barato e de melhor qualidade do que o da florescente indústria dos Estados Unidos, mas no regime da livre concorrência, está visto, uns são mais livres do que os outros.
     Neste reino do absurdo organizado as catástrofes naturais se convertem em bênçãos do céu para os países produtores. As agressões da natureza elevam os preços e permitem que se mobilizem as reservas acumuladas. As ferozes geadas que devastaram a colheita de 1969 no Brasil condenaram à ruína numerosos produtores, sobretudo os pequenos, mas empurraram para cima a cotação internacional do café e aliviaram consideravelmente o estoque de 60 milhões de bolsas – equivalentes a dois terços da dívida externa do Brasil – que o Estado acumulara para defender os preços. O café armazenado, que já se deteriorava e, progressivamente, ia perdendo valor, por pouco não foi para a fogueira. Não seria a primeira vez. Na crise de 1929, que derrubou os preços e contraiu o consumo, o Brasil queimou 78 milhões de bolsas de café: assim ardeu em chamas o esforço de 200 mil pessoas durante cinco safras [5]. Aquela foi uma típica crise de uma economia colonial: veio de fora. A brusca queda dos lucros dos plantadores e dos exportadores de café nos anos 30 provocou, além do incêndio do café, o incêndio da moeda. Este é o mecanismo usual na América Latina para “socializar as perdas” do setor exportador: compensa-se em moeda nacional, através das desvalorizações, o que se perde em divisas.
     O auge dos preços, contudo, não têm melhores consequências. Incrementa grandes semeaduras, um crescimento na produção, uma multiplicação da área destinada ao cultivo do produto afortunado. O estímulo funciona como um bumerangue, pois a abundância do produto derruba os preços e provoca o desastre. Foi o que ocorreu em 1958, na Colômbia, quando foi colhido o café semeado com tanto entusiasmo quatro anos antes; ciclos semelhantes se repetiram ao longo da história deste país. A Colômbia depende a tal ponto do café e de sua cotação internacional que, “em Antióquia, a curva dos casamentos responde rapidamente à curva dos preços do café. É típico de uma estrutura dependente: até o momento propício a uma declaração de amor numa colina de Antióquia é decidido na bolsa de Nova York” [6].

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Cotação do Café Lança ao Fogo as Colheitas(13)
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[1] MONEIG, Pierre. Pionniers et planteurs de São Paulo. Paris, 1952.
[2] Dados do anco Central, Instituto Brasileiro do Café e FAO. Revista Fator (2). Rio de Janeiro, novembro-dezembro de 1968. 
[3] Segundo investigação realizada pela Federal Trade Commission. SILVEIRA, Cid. Café: um drama na economia nacional. Rio de Janeiro, 1962.
[4] CEPAL. El comercio internacional y el desarrollo de América Latina. México; Buenos Aires, 1964.
[5] SIMONSEN, op. cit.
[6] ARRUBLA, op. cit.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Novela: Beto Rockfeller

A novela que mudou a televisão brasileira


"Foi a primeira novela a usar o merchandising, ainda que não em caráter oficial. Era do medicamento Engov, pois o personagem bebia muito uísque, e Luiz Gustavo faturava cada vez que engolia o comprimido em cena."


F... comme femme
Salvatore Adamo
1968





F Como Feminina
F Comme Femme

Ela desabrochou numa bela manhã
Elle est éclose un beau matin
No jardim triste de meu coração
Au jardin triste de mon cœur
Trazia os olhos do destino
Elle avait les yeux du destin
Assemelhava-se ela a minha felicidade?
Ressemblait-elle à mon bonheur?
Ou parecia-se com minha alma?
Ou, ressemblait-elle à mon âme?
Eu a colhi, ela era mulher
Je l'ai cueillie, elle était femme
Feminina como F rosa, F como uma flor
Femme avec un F rose, F comme fleur
Ela transformou meu universo
Elle a changé mon univers
Encantou toda a minha vida
Ma vie en fut toute enchantée
A poesia pairava no ar
La poésie chantait dans l'air
Eu tinha uma casa de bonecas
J'avais une maison de poupée
Em meu coração ardia uma chama
Et dans mon cœur brûlait ma flamme
Tudo era belo, tudo era mulher
Tout était beau, tout était femme
Feminina com um F mágico, F de fada
Femme avec un F magique, F comme fée
Ela me acorrentava cem vezes por dia
Elle m'enchaînait cent fois par jour
Ao doce encanto de sua ternura
Au doux poteau de sa tendresse
Minhas correntes eram trançadas pelo amor
Mes chaînes étaient tressées d'amour
Eu era mártir de suas carícias
J'étais martyre de ses caresses
Eu era feliz, ou seria eu um infame?
J'étais heureux, étais-je infâme?
Mas eu a amava, ela era mulher
Mais je l'aimais, elle était femme
Um dia, o pássaro tímido e frágil
Un jour l'oiseau timide et frêle
Veio falar-me de liberdade
Vint me parler de liberté
Ela arrancou-lhe as asas
Elle lui arracha les ailes
E o pássaro morreu com o verão
L'oiseau mourut avec l'été
Naquele dia fez-se o drama
Et ce jour-là ce fut le drame
E, apesar de tudo, ela era mulher
Et malgré tout elle était femme
Feminina com um F cinzento, de fatalidade
Mais Femme avec un F tout gris, fatalité
Na hora da verdade
À l'heure de la vérité
Havia uma mulher e uma criança
Il y avait une femme et un enfant
Aquele menino em que eu me convertera
Cet enfant que j'étais resté
Contra a vida, contra o tempo
Contre la vie, contre le temps
Eu me fechei em minha alma
Je me suis blotti dans mon âme
E compreendi que ela era mulher
Et j'ai compris qu'elle était femme
Mas feminina com F alado, que se vai
Mais femme avec un F aîlé, foutre le camp

Composição: Salvatore Adamo


BETO "ROCKFELLER" 
(1968-1969) 
Capítulo 34





Direção:

Lima Duarte - 1 episódio

Walter Avancini - 302 episódios • 1968–1969

Roteirista:
Bráulio Pedroso - 1 episódio
Eloy Araújo - 302 episódios • 1968–1969
Plínio Marcos - 302 episódios • 1968–1969

Montagem:
Walter Tasca

Designer de Produção:
Luigi Galvano

Figurinista:
Pedro Ivan
Alik Kostakis

Elenco:
Alceu Nunes - Polidoro
Ana Rosa - Cida
Bete Mendes - Renata
Dalva Dias - 
Débora Duarte - Lu
Eleonor Bruno - Dirce
Elias Gleizer - Self
Esther Mellinger - Tânia
Etty Fraser - Madame Walesca
Gésio Amadeu - Gésio
Heleno Prestes - Tavinho
Irene Ravache - Neide
Jaime Barcelos - 
Jofre Soares - Pedro (as Joffre Soares)
Liana Duval - Brigite
Lima Duarte - Domingos (narração)
Luis Gustavo - Beto
Luiz Américo - Tomás
Maria Della Costa - Maitê
Marilda Pedroso - Mila
Marília Pêra - Manoela
Marilu Martinelli - 
Martha Overbeck - 
Ney Latorraca - 
Othon Bastos - 
Pepita Rodríguez - 
Plínio Marcos - Vitório
Rafael Loduca - 
Renato Corte Real - 
Rodrigo Santiago - Carlucho
Rui Resende - Saldanha
Walderez de Barros - Mercedes
Walter Forster - Otávio
Wladimir Nikolaief - Lavito
Yara Lins - 
Zezé Motta - Zezé


"A teledramaturgia brasileira se divide em duas fases: antes e depois de Beto Rockfeller, que representou um grande sucesso na época, inovando o estilo de se fazer telenovelas no país. Enquanto a superprodução era a arma da TV Excelsior - principal concorrente da TV Tupi, na época - para segurar a audiência, a Tupi apostava na linha iniciada em 1968, com a novela Antônio Maria, de Geraldo Vietri, no horário das sete. O processo de nacionalização das novelas brasileiras teve início em Beto Rockfeller, às 20 horas, abrindo caminho para um novo formato que passou a ser seguido pelas demais emissoras. A ideia inicial da telenovela surgiu de Cassiano Gabus Mendes, diretor artístico da Tupi, que procurou o dramaturgo Bráulio Pedroso, editor do caderno de literatura do Estadão, que logo aceitou o desafio. Os textos tiveram de ser adaptados por Lima Duarte, pois Bráulio escrevia peças de teatro e pouco entendia de televisão. Cassiano, Bráulio e Lima estavam por trás de uma trama simples, mas que mostrava uma nova proposta de trabalho para a televisão brasileira."


BETO "ROCKFELLER"
(1968-1969) 
Capítulo 35




"Beto Rockfeller abandonava, então, a linha de atitudes dramáticas e artificiais que acompanhavam as telenovelas desde que o gênero havia conquistado o gosto nacional, quando foi possível adaptar o público às novas exigências, não apenas os diálogos, mas principalmente a estrutura da história, para ganhar mais proximidade com o público. Revolucionou até o modelo de interpretação dos atores e atrizes, que passou dos exagerados gestos dramáticos para um forma natural."


Beto Rockfeller 
(1968-1969) 
Capítulo 73






ANTÔNIO MARIA 
(1968-1969) 
Último Capítulo