sábado, 19 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VI.b - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”
continuando...

grato fruíam, ao lado de suas esposas legítimas. 
Foi nessa altura que a mãe amorosa ao encontro lhe veio, 
que acompanhava até a casa a mais bela das filhas, Laódice. 
Toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Filho, a que vens até aqui? Por que causa deixaste o combate? 
Sim, certamente é mui grande a pressão dos malditos Acaios 
contra a cidade sagrada. Por isso, teu peito te trouxe, 
para que do alto da Acrópole a Zeus as mãos ambas alçasses. 
Para, aqui, um pouco, que vinho mais doce que o mel vou buscar-te, 
para que libes a Zeus e às demais divindades eternas, 

e tuas forças restaures, também, pós haveres bebido. 
Tônico é o vinho, excelente, para o homem no extremo das forças, 
tal como te achas, de tanto lutar em defesa da pátria.” 
   Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Mãe veneranda, não tragas a doce bebida; receio 
que os fortes braços me enerve, vindo eu a perder toda a força. 
A reverência me impede de vinho ofertar a Zeus grande 
com mãos impuras. É impróprio, assim, sujo de poeira e de sangue, 
preces alçar ao que nuvens cumula no Olimpo vastíssimo. 
Com muito incenso, no entanto, dirige-te ao templo de Palas,

a predadora, depois de as matronas haveres reunido. 
Toma do manto maior que na régia bem-feita encontrares, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro te seja, 
e sobre os joelhos de Atena o coloca, de belos cabelos. 
Mais: doze vacas promete imolar no interior do santuário, 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo guerreiro selvagem. 
Ao templo, pois, te dirige, de Palas Atena indomável,

enquanto eu vou à procura de Páris, a fim de incitá-lo 
para o combate, se ouvidos me der. Ah, se a terra se abrisse 
subitamente! Um fautor de desgraças nascer fez o Olimpo 
para o magnânimo Príamo, os filhos e o povo Troiano.      
Se concedido me fosse assistir-lhe à descida para o Hades, 
esquecer-se-ia minha alma, por certo, dos males presentes.”¹
Disse; ela, então, para casa voltou, tendo às servas dado ordens 
que as venerandas matronas, por toda a cidade, chamassem. 
Ao aposento flagrante baixou, logo após, onde peplos 
inumeráveis se achavam de grande brancura, tecidos

pelas mulheres Sidônias. O divo Alexandre os trouxera 
da populosa Sidão, justamente no tempo em que Helena, 
de nobilíssimo pai, por caminhos extensos raptara. 
Hécabe um desses tomou para a Palas Atena ofertá-lo, 
o mais bonito e maior, que se achava por baixo de todos, 
de brilho igual ao dos astros e enfeites de fino trabalho. 
Pelas matronas seguida, a caminho se pôs, sem demora. 
Logo que o templo de Atena alcançaram, no burgo elevado, 
Teano formosa, nascida do claro Cisseu, lhe abre as portas, 
filha e consorte do forte Antenor, domador de cavalos.

Sacerdotisa a elegeram, de Palas Atena, os Troianos. 
Todas a Palas elevam as mãos e, bradando, suplicam. 
Tendo tomado do peplo, Teano, de faces formosas, 
foi colocá-lo nos joelhos de Atena, de belos cabelos, 
e, em prece ardente, implorou à nascida de Zeus poderoso: 
   “Ó venerável Atena, defesa de nossa cidade, 
quebra do forte Diomedes a lança, ou o derruba tu própria 
das Portas Ceias em frente, de bruços no solo fecundo, 
que doze vacas ao templo, sem mora, viremos trazer-te, 
ainda indomadas, apenas de um ano, se fores benigna

para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos!” 
   Não foi a súplica, entanto, por Palas Atena acolhida. 
Enquanto à filha de Zeus poderoso elas todas oravam, 
encaminhava-se Heitor ao palácio do divo Alexandre, 
belo de ver, que ele próprio construíra com a ajuda de artífices 
de fama excelsa, os melhores da terra abençoada de Troia. 
Estes, o tálamo e a sala elevaram, e o pátio espaçoso, 
perto dos paços de Príamo e Heitor, no ponto alto da Acrópole. 
Entra o guerreiro, a Zeus caro, no belo palácio, levando 
a forte lança na mão, de onze cúbitos, com reluzente

extremidade de bronze firmada por círculo de ouro. 
Acha a Alexandre no tálamo, atento no exame das armas 
de primorosa feitura, a apalpar o arco forte e brunido. 
A Argiva Helena se achava a seu lado, no meio das servas, 
a dirigir os trabalhos que todas, cuidosas, faziam. 
Vendo-o, com termos violentos, Heitor o censura, dizendo: 
   “Recomendáveis não são, ó infelizes, esses teus sentimentos. 
Fora dos muros, o povo perece na crua peleja. 
Por tua causa, acendeu-se esta guerra, que em volta de Troia 
arde, sem pausa nenhuma. Tu próprio, quiçá, te indignaras,

caso encontrasses alguém que fugisse à defesa da pátria. 
Vamos; se não, logo, logo, há de a chama inimiga atingir-nos.” 
   Páris, de formas divinas, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“É justo, Heitor, o que dizes; contrário à razão não me falas. 
Por isso vou contestar-te, pedindo que ouvido me prestes. 
Certo, não foi achar-me agastado com os Troas, que ao tálamo 
me recolhi, mas por causa da dor que me o peito angustia. 
Neste momento, com doces palavras, a cara consorte 
me aconselhava a voltar para a luta. Eu, também, já pensara 
que é bem melhor desse modo. A vitória tem suas mudanças.

Por uns instantes espera que as armas de guerra eu envergue; 
ou melhor, vai; que em teus passos já sigo, esperando alcançar-te.” 
   Nada lhe disse, em resposta, o guerreiro do casco ondulante. 
Vira-se Helena para esse, com termos afáveis, e fala: 
   “Caro cunhado da pobre que apenas desgraças espalha! 
Fora melhor, bem melhor, que, no dia em que a luz vi do mundo, 
arrebatado me houvesse de casa terrível procela, 
para nos montes lançar-me, ou nas ondas do mar ressoante,
que me teriam tragado, evitando esta grande catástrofe. 
Mas já que os deuses quiseram que tudo, desta arte, se desse,

fosse-me, então, destinado marido melhor, que as censuras 
dos companheiros sentisse e a desonra daí decorrente. 
Este, porém, nunca teve firmeza, nem nunca há de tê-la. 
Por isso mesmo, estou certa, há de os frutos colher dentro em breve. 
Mas entra, um instante sequer, e repousa sobre esta cadeira, 
caro cunhado, que mais do que todos suportas o peso 
das consequências de minha cegueira e da culpa de Páris. 
Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem, 
nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates.” 
   Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante:

 “Não é possível, Helena, aceitar-te o convite amigável, 
pois o meu peito me incita a correr em ajuda dos nossos, 
que já se encontram, por certo, impacientes com a minha demora. 
A este, porém, manda-o logo, ou se apresse, espontâneo, a vestir-se, 
para que possa alcançar-me ainda dentro dos muros de Troia, 
enquanto a casa, de bela feitura, dirijo-me para 
mais uma vez ver os criados, a esposa dileta e o filhinho. 
É, por sem dúvida, incerto se possa voltar a revê-los, 
ou se por mão dos Aquivos os deuses à Morte me entregam.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco.

 Pouco depois alcançava o palácio de bela feitura; 
mas não achou no interior do aposento a formosa consorte, 
que, juntamente com o filho e uma serva de manto vistoso, 
no alto da torre se fora postar, a chorar aflitíssima. 
Não tendo Heitor no palácio encontrado a impecável Andrômaca, 
para a saída retorna, apressado, e às escravas pergunta: 
   “Toda a verdade, donzelas, dizei-me, sem nada ocultar-me: 
para onde foi a senhora, se dentro de casa não se acha? 
Foi, porventura, em visita às cunhadas de peplos formosos, 
ou, com as outras Troianas, ao templo de Palas Atena,

onde procuram a deusa tremenda aplacar com pedidos?” 
   A despenseira, solícita, disse-lhe, então, em resposta: 
“Já que me mandas, Heitor, informar-te de toda a verdade, 
nem em visita se encontra às cunhadas de peplos formosos, 
nem, com as outras Troianas, no templo de Palas Atena, 
onde procurem a deusa tremenda aplacar com pedidos. 
Foi, sim, à torre altanada, depois de saber que os Troianos 
cedem terreno ante a força maior dos guerreiros Acaios. 
Fora de si, para os muros correu, onde, agora, se encontra, 
como uma louca; o menino pela ama, também, foi levado.”

A essas palavras da serva, Heitor sai, novamente, de casa, 
a desandar o caminho de bela feitura, apressado. 
Quando, depois de correr pela grande cidade, alcançara 
as Portas Ceias, por onde devia passar para o campo, 
sai-lhe ao encontro, a correr, a consorte de dote copioso, 
a nobre filha de Eecião, o guerreiro magnânimo, Andrômaca, 
o grande Eecião, que o palácio construíra no Placo selvoso 
e comandava os Cilícios em Tebas, chamada a Hipoplácia. 
A filha a Heitor, como esposa, entregara, o guerreiro arnesado. 
Esta, ao encontro lhe veio, seguida de uma ama solícita,

a qual nos braços trazia o filhinho de Heitor, ainda infante, 
só comparável à vista inefável de um astro fulgente. 
O nome, Heitor, de Escamândrio, lhe pôs; mas as outras pessoas, 
o de Astianacte, que o pai era o amparo dos muros de Troia. 
Ao ver o filho, o guerreiro sorriu, sem dizer coisa alguma. 
Pôs-se-lhe ao lado a impecável Andrômaca, em pranto desfeita; 
toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Tua coragem te perde, cruel! Não te apiadas, ao menos, 
de teu filhinho inocente, ou de minha desdita, ficando 
cedo viúva de ti quando os feros Aqueus te matarem?

A ti, somente, eles visam. Bem mais vantajoso me fora 
que, antes de vir a perder-te, se abrisse o chão duro. Nenhuma 
outra esperança me resta, colhendo-te o negro Destino. 
Dores, somente; nem pai ora tenho nem mãe veneranda. 
Foi por Aquiles divino meu pai da existência privado, 
quando a cidade imponente dos homens Cilícios destruiu, 
Tebas, de portas muito altas. Aquiles a Eecião tira a vida, 
sem despojá-lo das armas, contudo; a consciência o impediu. 
Tendo-o queimado na pira com as armas de fino trabalho, 
um monumento lhe fez erigir, que as Oréades, logo,

de olmos vistosos cercaram, as filhas de Zeus poderoso. 
Meus sete irmãos, que comigo viviam em nosso palácio, 
em um só dia baixaram para o Hades de aspecto sombrio, 
o divo Aquiles, de rápidos pés, a eles todos deu morte, 
quando guardavam bois tardos e ovelhas de velo argentino. 
A minha mãe, tão somente, senhora do Placo selvoso, 
que para aqui ele trouxe, com seus opulentos haveres, 
deu liberdade, depois de exigir um vultoso resgate; 
ela, no entanto, por Ártemis foi no palácio frechada. 
És para mim, caro Heitor, assim pai como mãe veneranda,

és meu irmão, de igual modo, e marido na idade florente. 
Tem, pois, piedade de mim; fica um pouco na torre; não queiras 
órfão o filho deixar, nem viúva a consorte querida. 
Junto da grande figueira coloca mais gente, onde há acesso, 
para a cidade, mais fácil, que o muro permite escalada. 
Já por três vezes tentaram subi-lo os heróis mais valentes 
da companhia dos fortes Ajazes, dos claros Atridas, 
de Idomeneu valoroso e do forte e preclaro Tidida, 
ou por conselho de algum sabedor do fatal vaticínio,
ou pela própria coragem a assim proceder impelidos.”

Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Tudo isso, esposa, também me preocupa; mas quanta vergonha 
dos outros homens e, assim, das Troianas de peplos compridos, 
eu sentiria se, infame, fugisse às pelejas cruentas. 
Isso meu peito proíbe, ensinando-me a ser valoroso 
e a combater sempre à frente dos fortes guerreiros de Troia, 
para mor lustre da glória paterna e de meu próprio nome. 
O coração claramente mo diz e a razão mo confirma: 
dia virá em que Troia sagrada será destruída, 
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.

Menos, porém, me acabrunha o destino que aos Teucros espera, 
ou mesmo o de Hécabe, ou a sorte que a Príamo está reservada, 
e a meus irmãos numerosos, que, embora valentes, na poeira 
hão de jogados ficar, sob os golpes de imigos ferozes, 
que imaginar-te arrastada por um desses duros Aquivos 
de vestes brônzeas, em prantos, sem nada dos dias felizes. 
Às ordens de outra mulher hás de, em Argos, tecer belos panos,
ou te verás obrigada a trazer, de Hipereia ou Messeida, 
água, bem contra a vontade, agravada por doestos pesados. 
E, porventura, dirá quem te vir humilhada chorando:

‘Eis aí a esposa de Heitor, o guerreiro mais forte e galhardo, 
quando, ao redor das muralhas de Troia, incessante era a luta.’ 
Isso dirão, aumentando-te a dor de não teres esposo, 
o homem capaz de livrar-te dos dias do vil cativeiro. 
É preferível que a terra fecunda meu corpo recubra, 
a ter de ouvir-te os lamentos, ao seres levada de rastos.” 
   Disse, e estendeu para o filho as mãos ambas, visando a abraçá-lo. 
Mas teve medo a criança do aspecto do pai; e, gritando, 
ao seio da ama acolheu-se, de bela cintura. Estranhara 
o inusitado fulgor do elmo aêneo de grande cimeira,

pelo galhardo e oscilante penacho de crina encimado. 
O pai e a mãe veneranda, a um só tempo, sorriram, de gozo. 
O refulgente elmo, então, da cabeça tirou o guerreiro, 
pondo-o, cuidoso, depois, ao seu lado, na terra fecunda. 
E, logo, o filho nos braços tomando, depois de beijá-lo, 
a Zeus e a todos os deuses eternos suplica, fervente: 
   “Zeus poderoso, e vós outros, ó deuses eternos do Olimpo, 
que venha a ser o meu filho como eu, distinguido entre os Teucros, 
de igual vigor, e que em Ílio, depois, venha a ter o comando. 
E que, ao voltar dos combates alguém diga, ao vê-lo: ‘É mais

ainda, que o pai!’ Possa a mãe veneranda à sua vista alegrar-se 
pós ter matado o inimigo, pesado de espólios cruentos!” 
   Disse, e nos braços da esposa dileta depõe o filhinho. 
Ela, afetuosa, o acolheu e o afagou no fragrante regaço, 
rindo, entre lágrimas. Mui comovido ante o quadro, o guerreiro, 
acariciando-a com a mão, lhe dirige as seguintes palavras: 
   “Minha tolinha, por que, desse modo, afliges tua alma? 
Homem nenhum poderá, contra o Fado, mandar-me para o Hades, 
pois quero crer que a ninguém é possível fugir ao destino, 
desde que nasça, seja ele um guerreiro de prol ou sem préstimo.

Para tua casa recolhe-te e cuida dos próprios lavores, 
roca e tear, assim como às criadas transmite tuas ordens, 
para que tudo executem, que aos homens que em Troia nasceram, 
mormente a mim, está afeto pensar quanto à guerra concerne.” 
   O elmo de equino penacho depois retomou o guerreiro. 
Para o palácio retorna, entrementes, a esposa, virando-se 
a cada passo, a verter, pela estrada, amaríssimo pranto. 
Quando chegou ao palácio de bela feitura do insigne 
e incontrastável guerreiro, cercada se viu pelas servas, 
que prorromperam, também, a chorar, quando aflita a enxergaram.

 Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam, 
pois esperança não tinham de que ele voltar conseguisse 
salvo das mãos dos Aquivos, à fúria da guerra escapando. 
   Páris, também, não ficou muito tempo na estância elevada, 
mas, tendo as armas de bronze vestido, de fino trabalho, 
corta, apressado, a cidade, nos rápidos pés confiado. 
Como galopa um cavalo habituado no estábulo, quando 
pode do laço escapar e, fogoso, a planície atravessa 
para ir banhar-se, impaciente, na bela corrente do rio, 
cheio de orgulho, soleva a cabeça; por sobre as espáduas

bate-lhe a crina, agitada; consciente da própria beleza, 
levam-no os pés para o prado, onde os outros cavalos se reúnem: 
Páris, o filho de Príamo, assim, desce do alto da Acrópole 
da sacra Pérgamo, envolto em couraça que a vista ofuscava. 
Vem exultante; seus rápidos pés o conduzem em pouco 
tempo aonde Heitor se encontrava, o divino guerreiro, que tinha 
precisamente deixado o local em que à esposa falara. 
Foi o primeiro a falar Alexandre, de formas divinas: 
   “Mano, bem vejo que muito te fiz esperar, quando tinhas 
tão grande pressa; não fui diligente, conforme o ordenaste.”

Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Páris, nenhuma pessoa de espírito justo pudera 
desconhecer teu valor nos combates, porque és corajoso. 
Mas, voluntário, te escusas; não queres lutar. Isto o peito 
muito me punge, quando ouço as censuras que soem fazer-te 
os picadores Troianos, que tanto por ti têm sofrido. 
Mas, por agora, sigamos; que disso, depois, cuidaremos, 
quando Zeus pai consentir que ofertemos a grande cratera 
da liberdade aos eternos, nos nossos palácios bem-feitos, 
quando dos muros de Troia expulsarmos os fortes Aquivos.”² 

continua página 198...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1} Aqui outro momento extraordinário da Ilíada: Heitor falando com sua mãe, Hécuba, antes de ir ao encontro de Páris. É uma cena cheia de religiosidade, tensão e frustração. 
*    O que está acontecendo na cena: Heitor retorna à cidade durante a batalha e encontra sua mãe, Hécuba, que lhe oferece vinho para revigorar as forças. Ele recusa — e a recusa é significativa:
Vinho enfraquece os braços, diz ele, e um guerreiro não pode perder vigor.
- Além disso, não é correto oferecer libações a Zeus com as mãos sujas de sangue e poeira. Heitor demonstra respeito religioso e autocontrole.
     Em vez disso, ele pede que Hécuba vá ao templo de Atena, levando as mulheres da cidade para suplicar proteção.
 *    O pedido ritual de Heitor, ele instrui sua mãe a:
- reunir as matronas troianas;
- escolher o manto mais belo e precioso do palácio;
- colocá-lo sobre os joelhos da deusa Atena;
- prometer o sacrifício de doze novilhas de um ano, ainda indomadas.
     O objetivo é claro: implorar que Atena afaste Diomedes, o “Tidida”, que naquele canto está devastando os troianos com força quase sobre-humana. Esse detalhe é importante: Heitor reconhece que Diomedes é, naquele momento, o maior perigo no campo de batalha.
*     A frustração com Páris
     Depois de orientar sua mãe, Heitor diz que irá atrás de Páris, para fazê-lo voltar ao combate. E aqui surge o tom mais humano e amargo da passagem:
Ah, se a terra se abrisse subitamente! Um 
fautor de desgraças nascer fez o Olimpo para 
o magnânimo Príamo, os filhos e o povo 
troiano.”
     Heitor expressa sua exasperação: Páris é visto como a causa da guerra, um peso para a família e para a cidade. Ele deseja, quase desesperadamente, que Páris desapareça — e confessa que isso o faria esquecer todos os males presentes. É um dos momentos em que Heitor revela sua profundidade emocional: ele é o defensor de Troia, mas carrega o fardo das escolhas de outros.
*     Por que esse trecho é tão importante?
1. Mostra o caráter de Heitor: disciplinado, religioso, responsável, consciente da gravidade da guerra.
2. Revela a fragilidade de Troia: a cidade depende da proteção divina e sofre com a irresponsabilidade de Páris.
3. Constrói o clima para o encontro com Andrômaca, que virá logo depois — um dos momentos mais tocantes da Ilíada.
4. Expõe a tensão entre dever e família, tema central do canto VI.

[2] Aqui a continuação perfeita do episódio entre Heitor e Páris — e este trecho é especialmente rico para análise, porque mostra o contraste entre os dois irmãos e aprofunda o drama moral da Ilíada
*     O diálogo entre Heitor e Páris: coragem, vergonha e esperança
1. Páris fala primeiro — e tenta justificar-se (Páris, “de formas divinas”, começa reconhecendo que demorou e que não cumpriu o que Heitor lhe pediu. É uma fala suave, quase resignada, que tenta atenuar sua falta de prontidão.)
     Esse detalhe é importante: Páris não é covarde no sentido físico — ele luta bem quando quer — mas é irresponsável, volúvel, incapaz de assumir o peso das consequências de seus atos.
2. A resposta de Heitor: elogio e reprovação ao mesmo tempo
     Heitor responde com uma mistura de verdade e dor:
- Ele admite que ninguém de espírito justo negaria o valor de Páris no combate.
- Mas logo acrescenta: Páris evita lutar voluntariamente, e isso “punge” seu peito.
     Heitor sofre não apenas pela guerra, mas pela vergonha que Páris traz à família e à cidade. Os “picadores troianos” — os cidadãos comuns — murmuram contra Páris, e Heitor sente o peso dessas críticas. Esse é um dos momentos mais humanos do poema: Heitor ama o irmão, mas não consegue esconder sua frustração.
3. A promessa de futuro — quando Troia expulsar os aqueus
     Heitor tenta encerrar o assunto, porque a urgência da guerra não permite longas discussões. Ele diz:
Por agora, sigamos; que disso, depois, 
cuidaremos.”
     E então imagina um futuro idealizado:
- Zeus permitirá que os troianos ofereçam a “cratera da liberdade” aos deuses.
- Eles celebrarão nos palácios bem-feitos.
- Os aqueus serão expulsos dos muros de Troia.
     Esse momento é profundamente irônico: Heitor fala com esperança, mas o leitor sabe que Troia jamais verá essa celebração. A frase revela sua , sua honra, mas também sua tragédia.
*     Por que este trecho é tão significativo?
1. Constrói o contraste entre os irmãos:
     - Heitor: dever, disciplina, responsabilidade.
     - Páris: beleza, talento, mas falta de compromisso.
2. Mostra a tensão interna de Troia:
     A guerra não é apenas contra os aqueus — é também contra a desordem moral dentro da própria cidade.
3. Revela a liderança de Heitor:
     Ele não humilha Páris; ele o chama à luta, tentando preservar a unidade.
4. Antecipação trágica:
     A esperança de expulsar os aqueus é uma sombra do destino inevitável de Troia
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Ilíada, de Homero - Canto VI




Ilíada: Homero (Canto VI.a - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”

   Ficam sozinhos na luta os Troianos e os Dânaos grevados, 
recrudescendo na vasta planície a terrível batalha. 
Uns contra os outros, as lanças de bronze os guerreiros atiram, 
entre a corrente do Xanto divino e do belo Simoente. 
   Primeiramente, o baluarte dos Gregos, Ajaz Telamônio, 
rompe a falange dos Troas, abrindo uma luz para os sócios,
com derrubar o melhor dos guerreiros chegados da Trácia, 
o destemido e membrudo Acamante, nascido de Eussoro. 
Na crista do elmo ondulante certeira pancada lhe assesta,

indo encravar-se na testa do herói a hasta longa de bronze, 
atravessando-lhe os ossos; as trevas os olhos lhe envolvem. 
Mata Diomedes, de voz retumbante, o admirável Axilo, 
filho do forte Teutrante, que tinha em Arisbe a morada 
bem-construída e opulenta; por todos era ele estimado, 
pois para todos sua casa, na beira da estrada, era franca. 
Mas nenhum desses amigos lhe veio servir de anteparo, 
para livrá-lo da Morte; Diomedes a vida tirou-lhe 
e ao próprio pajem Calésio que, então, dirigia os cavalos,
na qualidade de auriga; ambos eles à terra baixaram.

Priva das armas brilhantes Euríalo a dois, Dreso e Oféltio, 
indo, depois, contra Pédaso e Esepo que, outrora, uma náiade, 
Abarbareia, gerou do formoso pastor Bucolionte, 
de Laomedonte divino o mais velho dos filhos, embora 
de nascimento sem brilho, provindo de amores furtivos. 
Quando cuidava das belas ovelhas, à náiade uniu-se, 
de quem, ali concebidos, dois gêmeos famosos nasceram. 
Mas o vigor lhes dissolve dos joelhos e membros o filho 
de Mecisteu, que dos ombros as armas, também, lhes retira. 
A morte a Astíalo deu Polipetes, guerreiro ardoroso;

com sua lança de bronze Odisseu tira a vida a Pedites, 
nado em Percote; Aretáone divo por Teucro foi morto; 
foi pela lança brilhante de Antíloco, o moço Nestórida, 
Áblero morto; Agamémnone a Elato, também, prostra exânime 
o qual em Pédaso excelsa morava, nas margens do rio 
Sátnio, de bela corrente, ao fugir, foi por Lito alcançado 
Fílaco; as armas Eurípilo toma do escuro Melântio. 
   Por Menelau gritador foi Adrasto com vida apanhado; 
desobedientes ao freio, corriam no plaino os cavalos, 
os quais levaram o carro recurvo a chocar contra um galho

de tamargueira, o que fez que o timão se partisse; assustados, 
para a cidade os cavalos retornam, no rasto dos outros. 
Cai o guerreiro de bruços, bem junto da roda do carro, 
indo de boca no chão; logo perto se achou dele o louro 
filho de Atreu, Menelau, com sua lança de sombra comprida. 
Passa-lhe os braços à volta dos joelhos Adrasto e suplica: 
   “Ó Menelau, não me mates; aceita resgate condigno. 
Em seu palácio, meu pai acumula preciosos tesouros, 
bem trabalhados objetos de ferro, e ouro e bronze abundantes. 
Meu genitor te dará, de boamente, um resgate elevado,

quando souber que me encontro com vida nas naus dos Aquivos.”¹
   Isso disse ele, abalando, sem dúvida, o peito do Atrida, 
que já inclinado se achava a entregá-lo a um dos servos, que o fosse 
para os navios velozes levar, quando o Atrida Agamémnone 
chega, apressado, e o impediu, com dizer-lhe, em voz alta, o seguinte: 
   “Ó Menelau compassivo, por que para os homens te mostras 
tão sem vigor? Belas coisas, de fato, em tua casa fizeram 
esses Troianos! Por isso da Morte escapar não deixemos 
quantos às mãos nos caírem, sendo homens, embora ainda se achem 
no próprio ventre materno. Que todos pereçam bem longe

de Ílio destruída, sem túmulo algum, nem memória, deixarem.” 
   Essas palavras do herói, de fatais e prudentes conceitos, f
azem que o peito mudasse do irmão, que, com o braço, repele 
o suplicante. Este foi pelo forte guerreiro Agamémnone 
no baixo-ventre ferido, caindo de costas; o Atrida 
sobe-lhe em cima do peito, arrancando a hasta longa de freixo. 
   Em altas vozes Nestor os guerreiros Argivos exorta: 
“Dânaos guerreiros, amigos diletos, discípulos de Ares! 
Nenhum se deixe ficar para trás, tendo em vista, somente, 
presas valiosas levar para as naves de casco anegrado.

Ora, inimigos maternos; depois, com vagar, na planície 
procurareis os cadáveres, para das armas despi-los.” 
   Por esse modo incitava o furor e a coragem de todos. 
E, porventura, os Troianos teriam para Ílio fugido, 
sob a pressão dos Acaios valentes, em franco desânimo, 
se para Eneias e Heitor não tivesse falado nesta hora 
o nobre filho de Príamo, Heleno, excelente adivinho: 
   “Em vós, Eneias e Heitor, os Troianos e os Lícios confiam 
os mais pesados trabalhos da guerra, por terdes em tudo 
a iniciativa, não só nos combates, também nos conselhos.

Ora, detende-vos para correr as fileiras e os nossos 
homens conter ante as portas, se não todos eles aos braços 
se atirarão das mulheres, objetos de mofa do imigo. 
Mas, uma vez as falanges em ordem, de novo, e inflamadas, 
procuraremos, também, contra os Dânaos lutar aqui mesmo, 
ainda que muito cansados, que o aperto é, de fato, imperioso. 
Para a cidade, depois, Heitor corre, e instruções leva logo 
à nossa mãe, que, sem perda de tempo, as matronas reúna 
no alto da rocha, onde o templo se encontra de Palas Atena. 
Pós ter franqueado com a chave o recesso sagrado do templo,

tome no manto maior que na régia bem-feita se encontra, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro lhe seja, 
e sobre os joelhos de Atena, de belos cabelos, deponha. 
Mais: doze vacas prometa imolar no interior do santuário 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo, selvagem guerreiro, 
o qual, afirmou-o, é o mais forte de todos os homens Acaios. 
Tanto pavor nem de Aquiles sentimos, senhor de guerreiros,

filho, segundo se diz, de uma deusa. Porém tanta é a fúria 
deste, que fora estultícia a um dos nossos querer enfrentá-lo.” 
   Obedeceu, logo, Heitor ao conselho que Heleno lhe dera. 
Rapidamente do carro pulou, sem que as armas soltasse, 
e, duas lanças brandindo, correu as fileiras do exército, 
a concitar para a luta os guerreiros; a pugna se instaura. 
Voltam agora os Troianos, de novo, a enfrentar aos Aquivos 
que, por sua vez, retrocedem; cessou desse modo a matança. 
Imaginaram que algum dos eternos do Céu se atirara 
para ajudar os Troianos, que insólito ardor manifestam.

Em altos brados Heitor se dirige aos guerreiros Troianos: 
   “Vós, corajosos Troianos e aliados de fama excelente! 
Sede homens, caros amigos, e força mostrai impetuosa, 
enquanto vou à cidade falar aos anciões do conselho 
e a nossas caras esposas, que preces aos deuses elevem, 
a todos eles perfeita hecatombe ofertar prometendo.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco. 
Nos calcanhares e no alto da nuca o debrum lhe batia, 
de couro preto, que à volta se achava do escudo de umbigo. 
   Glauco, nascido de Hipóloco, e o grande e valente Tidida,

cheios de ardor, se avistaram no meio do teatro da luta, 
e, caminhando um para o outro, afinal frente a frente ficaram. 
Disse Diomedes, de voz retumbante, falando primeiro: 
“Homem de grande valor, de que estirpe mortal te originas? 
Ainda não tive ocasião de te ver nas batalhas, que aos homens 
glória concedem; no entanto, os demais, em coragem, superas, 
pois vens, agora, enfrentar a minha lança de sombra comprida. 
Os que se medem comigo são filhos de pais sem ventura. 
Mas, se um dos deuses tu fores, que moram no Olimpo vastíssimo, 
sabe que contra os eternos não quero em combate medir-me.

Nem mesmo o filho de Driante, Licurgo valente, mui longa 
vida alcançou, por haver contra os deuses celestes lutado. 
Ébrio, uma vez, de Dioniso ele as amas, violento, repele 
do sacro monte de Nisa. Tomadas de medo indizível, 
quando o homicida Licurgo, contra elas, brandiu a aguilhada, 
os tirsos jogam no chão. Aterrado, nas ondas marinhas 
corre Dioniso a lançar-se, onde, trêmulo, Tétis ao seio 
o recolheu, que assaz medo sentia do herói com seus gritos. 
Mas, depois disso, contra ele irritaram-se os deuses felizes, t
endo-o cegado Zeus Crônida. A vida bem curta ele teve,

por se ter feito odioso aos eternos que moram no Olimpo. 
Por isso tudo, não quero lutar contra os deuses beatos. 
Mas se, contrário, és humano e te nutres dos frutos da terra, 
chega-te, e logo hás de ver-te, por certo, no extremo funesto.” 
   Disse-lhe, então, em resposta o preclaro rebento de Hipóloco: 
“Grande Tidida, por que saber queres a minha ascendência? 
As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores, 
que, umas, os ventos atiram no solo, sem vida; outras, brotam 
na primavera, de novo, por toda a floresta viçosa. 
Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira.

Já que desejas, porém, conhecer meus avós, vou dizer-te 
qual seja a minha progênie, por muitos, decerto, sabida. 
No centro de Argos, nutriz de cavalos, os muros se elevam 
de Éfira, sob o comando do mais astucioso dos homens, 
Sísifo, de Éolo filho; de Sísifo Glauco proveio. 
Belerofonte, o admirável, de Glauco a existência recebe. 
Deram-lhe os deuses beleza e vigor varonil aliado 
a gênio afável. Mas Preto, insidioso, da pátria o repele, 
pois tinha mais influência do que ele entre os homens Argivos, 
por os haver submetido ao seu cetro o nascido de Crono.

A diva Anteia, consorte de Preto, em desejos ardia 
de, às escondidas, unir-se-lhe, sem ter, contudo, abalado 
Belerofonte prudente, de castos e leais pensamentos. 
Vira-se, então, para o esposo, e, falseando a verdade, lhe disse: 
‘Ou tira a vida de Belerofonte, ou consente em morreres. 
Preto, por ter querido ele obrigar-me a um ilícito amplexo.’ 
A essas palavras, o rei foi tomado de cólera ingente. 
Não quis da vida privá-lo, por ter, em verdade, receio; 
mas para a Lícia o enviou, tendo escrito uns sinais mui funestos 
em duas tábuas fechadas, que ao sogro mandou que entregasse,

para que viesse a morrer, visto morte os sinais inculcarem. 
Em companhia dos deuses, se pôs a caminho o guerreiro. 
Quando, porém, alcançou a corrente do Xanto, na Lícia, 
foi pelo rei do amplo reino, por modo benigno, acolhido. 
Em nove dias matou nove bois, que aos celestes oferta: 
mas, quando, ao décimo, a Aurora de dedos de rosa surgiu, 
fez-lhe perguntas, de ver os sinais desejoso mostrando-se 
que de seu genro, da parte de Preto, lhe tinha trazido. 
Logo, porém, que o sentido aventou dos fatais caracteres, 
primeiramente, a incumbência lhe deu de extinguir a Quimera

originária, não de homens mortais, mas de estirpe divina: 
era, na frente, leão; drago, atrás, e, no meio, quimera, 
que borbotões horrorosos de fogo lançava das fauces. 
Certo do amparo dos deuses, sozinho, ele o monstro aniquila. 
Teve, depois, de lutar contra os Sólimos fortes, sozinho, 
seu mais terrível encontro, segundo ele próprio o dizia. 
Como terceira incumbência, destruiu as viris Amazonas. 
Outra perfídia contra ele, ao voltar, o hospedeiro excogita: 
tendo escolhido os melhores guerreiros da Lícia vastíssima, 
numa emboscada os postou; não reviu nenhum deles a pátria;

Belerofonte, o impecável, a todos privou da existência. 
Reconhecendo, afinal, que um dos deuses o tinha gerado, 
soube retê-lo no reino, fazendo-o casar com a filha 
e dividindo com ele a honraria e o poder da realeza. 
Deram-lhe os Lícios, também, um pedaço excelente de terra, 
própria, igualmente, para uso do arado e cultivo de frutas. 
Três filhos teve da esposa o magnânimo Belerofonte; 
foram: Hipóloco, Isandro e Laodâmia gentil e formosa. 
A esta se uniu, em conúbio amoroso, Zeus grande e prudente, 
tendo gerado ao guerreiro esforçado, o divino Sarpédone.

Mas, quando, alfim, se tornara também, pelos deuses, odiado, 
e pelos campos Aleios famosos vagava sozinho, a alma por dentro
a roer e a fugir do convívio dos homens, 
Ares, o deus insaciável, a Isandro privou da existência 
em um combate com os Sólimos fortes, de fama excelente. 
Ártemis, das rédeas de ouro, zangada, matou a Laodâmia. 
Enquanto a mim, tenho orgulho de filho chamar-me de Hipóloco, 
que me mandou para Troia sagrada, insistindo comigo 
para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me, 
sem desonrar a linhagem dos nossos, que sempre entre os fortes

de Éfira foram contados, bem como na Lícia vastíssima. 
Esse o meu sangue, essa a estirpe, que só de nomear me envaideço.” 
   Isso disse ele; alegrou-se Diomedes, de voz retumbante; 
finca a hasta brônzea na terra, de heróis a nutriz generosa, 
e, com palavras afáveis, saudou o pastor de guerreiros: 
   “Hóspede és meu desde o tempo de nossos avós, vejo-o agora. 
Por vinte dias seguidos Eneu, o divino, agasalho 
deu em seu belo palácio ao magnânimo Belerofonte, 
tendo ambos dons hospedais, de subido valor permutado. 
Foi o penhor da amizade de Eneu cinturão purpurino;

Belerofonte lhe deu uma copa, adornada com alça, 
de ouro, que em casa deixei quando tive de vir para Troia. 
Quanto a Tideu, não me lembro, pois era criança quando ele 
foi para Tebas e o exército Acaio ficou destruído. 
Por essa antiga amizade, és meu hóspede em Argos, ao passo 
que me farás grato hospício se um dia eu chegar até a Lícia. 
Cumpre, portanto, que, em meio da pugna, um ao outro poupemos. 
Para matar, não me faltam Troianos excelsos e aliados, quem 
quer que um deus me conceda, ou quem chegue a alcançar na carreira; 
sobram-te Aqueus, outrossim, para a muitos privares da vida.

Ora troquemos as armas, porque possam todos os outros 
reconhecer que nós dois nos gloriamos da avita amizade.”²
   Ambos dos carros desceram, depois de assim terem falado, 
e, logo, apertos de mão, como prova de afeto, trocaram. 
Foi quando o Crônida Zeus o juízo de Glauco conturba, 
por ter querido trocar com Diomedes as armas que tinha, 
ouro por bronze, o valor de cem bois pelo preço de nove. 
   Às Portas Ceias Heitor, entrementes, e à faia chegando, 
pelas esposas e filhas dos Teucros se viu circundado, 
que pelos seus perguntavam, ansiosas, por filhos e manos,

primos e esposos. Heitor recomenda que aos deuses orassem, 
em procissão; mas a muitos já havia a desgraça atingido. 
Logo depois, alcançou o palácio mui belo de Príamo, 
todo ladeado de pórticos feitos de pedras lavradas. 
Nele cinquenta aposentos se viam, de mármore polido, 
todos contíguos, nos quais, numerosos, os filhos de Príamo 
do grato sono fruíam ao lado de suas esposas. 
Do lado oposto do pátio, de frente para estes, havia 
doze aposentos, também, para as filhas, de mármore polido, 
todos contíguos. Os genros de Príamo, ali, do repouso

continua página 180...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1A cena é um trecho do momento em que Adrasto, um dos troianos, é capturado vivo por Menelau, irmão de Agamêmnon. 
    O que acontece na cena:
Adrasto é derrubado do carro quando seus cavalos, em pânico, chocam o veículo contra um galho de tamargueira. O timão se parte, os animais fogem de volta para a cidade, e o guerreiro cai de bruços no chão, indefeso.
Menelau, o “louro filho de Atreu”, se aproxima com a lança. Adrasto, percebendo que não tem como lutar, agarra os joelhos de Menelau — gesto clássico de súplica na tradição grega — e implora por sua vida.
Ele oferece resgate: seu pai possui grandes riquezas e pagará generosamente se souber que o filho está vivo entre os aqueus.
     Significado literário do episódio:
O gesto de suplicar pelos joelhos é um símbolo forte de submissão e pedido de misericórdia na cultura grega.
- Adrasto tenta escapar da morte apelando ao código de honra dos guerreiros, que muitas vezes aceitavam resgates.
- A cena prepara o conflito moral entre Menelau, inclinado a poupar o suplicante, e Agamêmnon, que logo adiante exigirá que nenhum troiano seja poupado — um dos momentos que mostram a brutalidade crescente da guerra.

[2] Aqui outro momento belíssimo da Ilíada: o encontro entre Diomedes e Glauco, quando dois guerreiros, prestes a lutar, descobrem que seus avós foram hóspedes e amigos — e, por isso, não devem se enfrentar. É um dos episódios mais humanos e simbólicos de todo o poema.
     O sentido da cena: a amizade antiga que suspende a guerra
O trecho pertence ao famoso episódio da xenia — a hospitalidade sagrada entre famílias — que une Diomedes (aqueu) e Glauco (lício). Eles se encontram no campo de batalha, prontos para lutar, mas antes trocam palavras sobre suas origens.
     O que Glauco revela: Glauco conta que seu avô, Belerofonte, foi recebido por Eneu, avô de Diomedes. Durante essa estadia:
- Eneu ofereceu a Belerofonte um cinturão púrpura como presente de hospitalidade.
- Belerofonte retribuiu com uma taça de ouro com alça, que Diomedes diz ter deixado em casa ao partir para Troia.
     Esses presentes eram o selo de uma amizade hereditária, transmitida de geração em geração.
     Glauco conclui:
Por essa antiga amizade, és meu hóspede em 
           Argos, e eu serei teu hóspede na Lícia.”
     Ou seja: mesmo em lados opostos da guerra, eles pertencem a uma mesma rede de respeito e obrigação moral.
     A decisão: não lutar entre si - Glauco propõe que ambos evitem ferir um ao outro no combate, pois há muitos outros inimigos disponíveis. É uma forma de preservar a honra sem quebrar o vínculo ancestral. Ele então sugere o gesto simbólico:
“Ora troquemos as armas, para que todos 
reconheçam que nos gloriamos da avita amizade.”
     Esse ato — trocar armaduras — é um sinal público de que a amizade entre suas casas é mais antiga e mais forte que a guerra presente.
     Por que esse episódio é tão famoso?
1. Humaniza a guerra: mostra que, mesmo em meio à carnificina, há memória, tradição e respeito.
2. Ilustra a força da xenia: um valor sagrado que ultrapassa fronteiras e conflitos.
3. Cria um contraste dramático: dois guerreiros que deveriam se matar escolhem a paz por causa de seus antepassados.
4. Tem um detalhe irônico (que aparece logo depois no poema): Zeus faz Glauco perder o juízo e ele troca sua armadura de ouro pela de bronze de Diomedes — um negócio terrível, lembrado até hoje como símbolo de ingenuidade.

Dante: A Divina Comédia - Canto II

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

INFERNO

Canto II (Prosa)

Cai a noite, e Dante expõe a Virgílio suas dúvidas e hesita em começar a jornada com a qual havia se comprometido. Não se sente à altura dessa viagem, feita antes por Enéas e pelo apóstolo Paulo. Virgílio, então, lhe revela o segredo que o fez vir até Dante. Tal jornada foi desejada pelo Altíssimo. Três mulheres com assento no Paraíso intervieram para ajudar o poeta florentino: Nossa Senhora, Santa Lúcia e Beatriz. Dante, sentindo-se mais seguro e moralmente confortado, retoma o caminho.

     [1] O dia terminava e a noite escura liberava os animais de seu cansaço e eu me preparava para enfrentar a guerra tanto do caminho quanto do sofrimento, contada pela mente, que não erra. Ó musas, ó supremo engenho, ajudai-me agora; ó mente que escreves isso que vi, mostra aqui tua nobreza.
     [10] Então comecei:

– Poeta, meu guia, observa minha virtude, se ela é suficiente, antes que esse grande passo me confies. Disseste que Enéas, pai de Sílvio, mortal ainda, andou de corpo e alma no reino imortal. Porém, se o adversário de todo mal foi benevolente com ele, pensando no valoroso feito que ele cumpriria ao sair dali, isso me parece digno, ainda mais por ter sido ele a alma de Roma e do império por escolha dos céus. Roma e império que, para não desdizer a verdade, foram destinados para ser, uma e outro, a sede do papado. [28] Ali também andou o Vaso de Eleição¹, para reforçar a fé, que é princípio de toda salvação. Mas por que eu? Quem me concede essa graça? Não sou Enéas, tampouco sou Paulo. Ser digno disso, ninguém há de crer. Então, se a esta viagem me largo, temo que a uma louca ventura me atire. Sábio que és, decerto entendes melhor isso que não compreendo.

[1] É o apóstolo Paulo. Assim ele é chamado nos Atos dos Apóstolos (IX, 15).

     [37] E como aquele que desquer aquilo que quer e diante de novas ideias muda a forma de pensar, a ponto de desfazer tudo que começou, tal eu fiz, naquela praia escura, porque, pensando mais um tanto, renunciei à empresa que antes havia imediatamente iniciado.

– Se entendi bem tuas palavras – respondeu a sombra magnânima –, tua alma acovardou-se, coisa que muitas vezes imobiliza o homem, o faz recuar de uma empresa nobre, assim como um animal recua ou refuga diante de uma mera sombra. Para que desse temor eu te libere, direi por que vim até aqui e o que ouvi desde a primeira vez que teus lamentos escutei. Eu estava no Limbo quando uma senhora tão beata quanto bela me chamou, a quem roguei logo que me desse ordens, tão rápido desejava obedecê-la. Seu olhos brilhavam mais que as estrelas e começou a dizer-me suave e calmamente, com voz angélica, estas palavras: “Ó gentil alma mantuana, cuja fama no mundo ainda dura, e durará enquanto o mundo for mundo, um amigo meu, mais meu do que da fortuna, em cujas faces o medo se estampa, encontra-se na inóspita praia impedido de caminhar. Temo que esteja tão perdido que o socorro agora não lhe sirva mais, segundo o que escutei no céu. Agora anda e, com tua palavra ornada e com todos os meios de que dispuser, ajuda-o e assim me sentirei consolada. Sou Beatriz, venho do lugar para onde se deseja voltar, amor me move e me faz falar. Quando eu estiver à frente do senhor meu, louvar-te-ei sempre”. Calou-se então, e em seguida comecei: “Ó senhora, de cuja virtude toda humanidade excede de alegria aqui abaixo da lua, tua ordem me agrada tanto que te obedecer já, já seria obedecer-te atrasado; e mais não preciso para que eu cumpra tua vontade. Mas diz-me o motivo de não te resguardares de vir aqui, ao Inferno, vindo do alto, de onde ardes por voltar”. Respondeu ela: “Do que queres saber, por que não temo vir aqui embaixo, lhe direi tudo brevemente. Só se devem temer as coisas que podem fazer mal aos outros; as outras, não. Pela graça de Deus fui feita, por isso tua desgraça não me toca, tampouco a chama deste incêndio me corrompe. Gentilíssima, Nossa Senhora no céu se compadeceu do impedimento para onde te mando, rompendo a dura lei que lá vigora. Ela chamou Santa Lúcia 6 e disse: ‘Teu devoto precisa de ti agora, e a ti o recomendo’. Lúcia, inimiga de todo mal, moveu-se e veio até o lugar onde eu estava, em que me sento com Raquel, e me disse: ‘Beatriz, beata de Deus, por que não socorres aquele que tanto te ama, que por isso do vulgo se destacou? Não ouviste a dor do seu pranto? Não vês a morte perto dele, torrente contra a qual nem o mar vence?’. Jamais houve pessoa no mundo que tão rápido se pôs a ir atrás do bem e a fugir do mal como eu depois de ter ouvido aquelas palavras. Do meu abençoado assento, desci até aqui fiando-me do teu falar honesto, que te honra e honra também aqueles que te ouvem”. Depois de ela ter dito isso, seus olhos encheram-se de luz e lacrimejaram, razão pela qual me fez vir aqui o mais rápido possível. E vim, como ela me pediu, e tirei a loba da tua frente, loba que te tolhia a subida ao belo monte. Então, o que se passa? Por que paras? Por que acolhes tanta vileza no coração? Por que deixas para trás a coragem e a lealdade depois que essas três senhoras abençoadas cuidaram de ti no reino do céu, e mesmo diante da minha palavra, que tanto bem te promete?

     [127] Tal como as flores de cristal de gelo que, iluminadas pelo sol, erguem-se e abrem-se todas em torno do seu caule, fiz eu com meu cansaço. E coragem tão alentadora senti no coração que comecei a falar, muito francamente:

– Ó piedosa que me socorreu! E tu, gentil poeta, que a ela obedeceste prontamente mal suas verdadeiras palavras ouviu! Tu recompuseste o desejo em meu coração ao dirigir-me tuas palavras e por isso retorno ao meu primeiro propósito. Agora, então, um só desejo é o desejo de ambos: tu és o guia, senhor e mestre.

     [142] Assim lhe disse e, depois que se moveu, adentrei o caminho difícil e agreste.

continua na página....31


Canto II (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém, Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava pela sua salvação, determina-se segui-lo e entra com o seu guia no difícil caminho.

     Fora-se o dia; e o ar, se enevoando, 
Aos animais, que vivem sobre a terra, 
3.       As fadigas tolhia; eu só, velando, 
     Me aparelhava a sustentar a guerra 
Da jornada, assim como da piedade, 
6.       Que vai pintar memória, que não erra. 
     Ó Musas! Ó do gênio protestade! 
Valei-me! Aqui, ó mente, que guardaste 
9.       Quanto vi, mostra a egrégia qualidade. 
     “Poeta”, — assim falei, — “que começaste 
A guiar-me, vê bem se em mim persiste 
12.     Calor que, à empresa que me fias, baste. 
     “Que o pai do Sílvio fora, referiste, 
Corrutível ainda, até o inferno 
15.     Sem perder o que em corpo humano existe. 
     “Se do mal assim quis o imigo eterno, 
Origem vendo nele do alto efeito, 
18.     O que e o qual, segundo o que discerno, 
     “Pela razão bem pode ser aceito; 
Que para Roma e o império se fundarem 
21.     Fora no céu por genitor eleito; 
     “A qual e ao qual cabia aparelharem, 
Dizendo-se a verdade, o lugar santo 
24.     Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.
     “Nessa empresa, em que o hás louvado tanto, 
Cousas ouviu, de que surgiu motivo 
27.     Ao seu triunfo e ao pontifício manto. 
     “Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo: 
Conforto ia buscar, à fé, que à estrada 
30.     Da salvação princípio é decisivo. 
     “Por que irei? Quem permite esta jornada? 
Eneias, Paulo sou? Essa ventura 
33.     Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada. 
     “Receio, pois, seja ato de loucura, 
Se eu me resigno a cometer a empresa. 
36.     Supre, és sábio, o que digo em frase escura”. 
     Como quem ora quer, ora despreza, 
Sua alma a ideias novas tem disposta, 
39.     Mostrando aos seus desígnios estranheza, 
     Assim fiz eu na tenebrosa encosta, 
Porque, pensando, abandonava o intento, 
42.     Formando à pressa, que ora me desgosta, 
     “Do teu dizer se atinjo o entendimento” 
— Do magnânimo a sombra me tornava, — 
45.     “Eivado estás de ignóbil sentimento, 
     “Que do homem muita vez faz alma ignava, 
Das honrosas ações o desviando, 
48.     Qual sombra, que o corcel ao medo trava. 
     “Desse temor livrar-te desejando, 
Por que vim te direi e quanto ouvido 
51.     Hei logo ao ver-te mísero lutando. 
     “No Limbo era suspenso: eis requerido 
Por Dama fui tão bela, tão donosa, 
54.     Que as ordens suas presto lhe hei pedido. 
     “Brilhavam mais que a estrela radiosa 
Os seus olhos; suave assim dizia 
57.     De anjo com voz, falando-me piedosa: 
     — “De Mântua alma cortês, que inda hoje em dia 
No mundo gozas fama tão sonora, 
60.     Que, enquanto existir mundo, mais se amplia, 
     “Amigo meu, que a sorte desadora, 
Pela deserta falda indo, impedido 
63.     De medo, atrás os passos volta agora. 
     “Temo que esteja tanto já perdido, 
Que tarde eu tenha vindo a socorrê-lo, 
66.     Pelo que lá no céu dele hei sabido. 
     “Parte, pois, e com teu discurso belo 
E quanto o salvar possa do perigo 
69.     Lhe acode; e me console o teu desvelo.
     “Sou Beatriz, que envia-te ao que digo, 
De lugar venho a que voltar desejo: 
72.     Amor conduz-me e faz-me instar contigo. 
     “Voltando ao meu Senhor, em todo o ensejo 
Repetirei louvor, que hás merecido”. — 
75.     “Tornei-lhe, quando já calar-se a vejo: 
     — “Senhora da virtude, a quem tem sido 
Dado só que proceda a espécie humana 
78.     Quanto é no mundo sublunar contido, 
     “Tanto praz-me a ordem que de ti dimana, 
Que, já cumprida, houvera inda demora: 
81.     Em me abrir teu querer não mais te afana. 
     “Diz-me, porém, por que razão, Senhora, 
Baixar a este centro hás resolvido 
84.     Do céu, a que ardes por voltar agora”. 
     — “Se queres tanto ser esclarecido 
Eu te direi” — tornou-me — “frase breve 
87.     Por que sem medo às trevas hei descido. 
     “Somente as cousas recear se deve 
Que a outrem podem ser causa de dano 
90.     Não das mais: a temor a causa é leve. 
     “De Deus favor criou-me soberano 
Tal, que a vossa miséria não me empece 
93.     Nem deste incêndio assalta o fogo insano. 
     “Nobre Dama há no céu, que compadece 
O mal, a que te envio; e tanto implora, 
96.     Que lá decreto austero se enternece. 
     — Volvendo-se a Luzia, assim a exora: 
“O teu servo fiel tanto periga, 
99.     Que teu amparo o recomendo agora”. — 
      “Luzia, sempre do que é mau imiga 
Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada 
102.   Ao lado estava de Raquel antiga. 
     “De Deus vero louvor!” — diz-me apressada— 
“Por que não socorrer quem te amou tanto, 
105.   Que só por ti deixou do vulgo a estrada? 
     “Não lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto? 
Não vês que junto ao rio é combatido, 
108.   Que ao mar não corre, por mortal espanto?” — 
     “Os danos, tão veloz, não tem fugido 
Ninguém, nem procurado o que deseja, 
111.   Como eu, em tendo vozes tais ouvido; 
     “O trono meu deixei, por que te veja, 
Fiada em teus discursos eloquentes, 
114.   Honra tua e de quem te ouvindo esteja”. — 
     “Assim falava e os olhos refulgentes 
Com lágrimas a mim ela volvia, 
117.   Para apressar-me a vir assaz potentes. 
     “A ti vim, pois, como ela requeria; 
Da fera te livrei, que da colina 
120.   Tão perto já, teus passos impedia. 
     “Que fazes, pois? Por que, por que domina 
Tanta fraqueza o peito espavorido? 
123.   Por que ao valor tua alma não se inclina, 
     “Quando és pelas três santas protegido, 
Que na corte do céu por ti se esmeram, 
126.   E gozar tanto bem lhe é prometido?” 
     Quais flores, que, fechadas, se abateram 
Da noite ao frio, e, quando o sol aquece, 
129.   Erguem-se abertas na hástea, tais como eram, 
     Tal meu valor renova e fortalece. 
Tanto ardimento o coração me aviva, 
132.   Que exclamei, como quem jamais temesse: 
      “Ó Dama em socorrer-me compassiva! 
E tu, que a voz lhe ouvindo, obedeceste, 
135.   Cortês ao rogo e com vontade ativa, 
     “Por teu dizer no peito me acendeste 
Desejo tal de vir, que sou tornado 
138.   Ao propósito, a que antes me trouxeste. 
     “Vai, pois nosso querer ‘stá combinado. 
Serás meu guia, meu senhor, meu mestre!” 
Disse-lhe assim. Moveu-se ele; ao seu lado 
142.   Pelo caminho entrei alto e silvestre.

continua na página... 35
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—   13. O pai de Sílvio, Eneias
—   28. O Vaso, São Paulo que nos Atos dos Apóstolos é chamado o Vaso de eleição. 
—   76. Senhora da virtude, Beatriz simboliza a teologia. 
—   94. Nobre Dama, Maria, mãe de Jesus, símbolo da misericórdia divina. 
—   97. Luzia, mártir e santa, símbolo da graça iluminante. 
— 102. Raquel, filha de Labão e mulher do patriarca Jacó, simboliza a vida contemplativa. 

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A Divina Comédia
Inferno
Canto I / Canto II /  

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Que bandeira drapeja sobre as máquinas? (3)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA DA ESPOLIAÇÃO
     
50. Que bandeira drapeja sobre as máquinas?
          
          A velha se inclinou e abanou o fogo com a mão. Assim, com o dorso torcido e o pescoço espichado e arado pelas rugas, parecia uma antiga tartaruga negra. Mas aquele pobre vestido, por certo, não a protegia como uma carapaça, e de resto ela era tão vagarosa só por causa da idade. Às suas costas, também torcido, seu casebre de madeira e lata, e além outros casebres semelhantes do mesmo subúrbio de São Paulo; à sua frente, numa chaleira cor de carvão, já fervia a água para o café. Levou uma latinha aos lábios; antes de beber, balançou a cabeça e fechou os olhos. “O Brasil é nosso”, disse. No centro da mesma cidade e nesse mesmo momento, pensou exatamente a mesma coisa, mas em outro idioma, o diretor-executivo da Union Carbide, enquanto levantava uma taça de cristal para celebrar a captura, por sua empresa, de mais uma fábrica brasileira de plásticos. Um dos dois estava errado.
     Desde 1964, os sucessivos ditadores militares do Brasil festejam os aniversários das empresas do Estado anunciando sua próxima desnacionalização, que chamam recuperação. A lei 56.570, promulgada em 6 de julho de 1965, reservou para o Estado a exploração da petroquímica; no mesmo dia, a lei 56.571 derrogou a anterior e abriu a exploração para os investimentos privados. Deste modo, a Dow Chemical, a Union Carbide, a Phillips Petroleum e o grupo Rockefeller obtiveram, diretamente ou através de “associação” com o Estado, o filet mignon tão cobiçado: a indústria dos derivados químicos do petróleo, previsível boom da década de 70. O que ocorreu durante as horas decorridas entre uma e outra lei? Cortinados que tremem, passos nos corredores, desesperadas batidas na porta, cédulas verdes voando pelos ares, agitação no palácio: de Shakespeare a Brecht, muitos gostariam de ter imaginado estas cenas. Um ministro do governo reconhece: “Forte no Brasil, além do próprio Estado, só existe o capital estrangeiro, salvo honrosas exceções¹. E o governo faz o possível para evitar essa incômoda concorrência para as corporações norte-americanas e europeias.

[1] Discurso do ministro Hélio Beltrão, no almoço da Associação Comercial do Rio de Janeiro. Correio do Povo, 24 de maio de 1969.

     No Brasil, o ingresso em grandes cifras do capital estrangeiro destinado às manufaturas começou nos anos 50, e recebeu um forte impulso do Plano de Metas (1957 - 60) posto em prática pelo presidente Juscelino Kubitschek. Aquelas foram as horas da euforia do crescimento. Brasília nascia, brotada de uma galera mágica, no meio do deserto, onde os índios não conheciam nem mesmo a existência da roda; abriam-se estradas; construíam-se grandes represas; das fábricas de automóveis surgia um carro novo a cada dois minutos. A indústria crescia em ritmo acelerado. Eram abertas portas, de par em par, aos investimentos estrangeiros, aplaudia-se a invasão dos dólares, sentia-se a vibração do dinamismo do progresso. As cédulas circulavam com a tinta ainda fresca: o salto adiante era financiado pela inflação e por uma pesada dívida externa que seria descarregada, angustiante herança, sobre os governos seguintes. Foi concedido um tipo especial de câmbio, que Kubitschek garantiu, para a remessa de lucros às matrizes das empresas estrangeiras e para a amortização de seus investimentos. O Estado assumia a responsabilidade solidária no pagamento das dívidas contraídas pelas empresas no exterior e fixava também um dólar barato para a amortização e os juros dessas dívidas: segundo um informe da CEPAL¹, mais de 80 por cento do total dos investimentos que chegaram entre 1955 e 1962 provinha de empréstimos obtidos com o aval do Estado. Isto significava que mais do que uma quinta parte dos investimentos das empresas derivavam da banca estrangeira e passavam a engrossar a vultosa dívida externa do Estado brasileiro. Além disso, concediam-se especiais benefícios para a importação de maquinário². As empresas nacionais não gozavam dessas facilidades presenteadas à General Motors e à Volkswagen.

[1] CEPAL/BNDE. Quince años de la política económica en el Brasil. Santiago do Chile, 1965.
[2] Um economista muito favorável aos investimentos estrangeiros, Eugenio Gudim, calcula que só por esta concessão o Brasil doou às empresas norte americanas e europeias nada menos do que um bilhão de dólares; Moacir Paixão estimou que os privilégios concedidos à indústria automobilística no período de sua implantação montavam a uma soma equivalente à do orçamento nacional. Paulo Schilling assinala que (em Brasil para extranjeros. Montevideo, 1966), ao mesmo tempo em que cedia às grandes corporações internacionais um aluvião de benefícios, e lhes consentia um máximo de lucros com um mínimo de investimento, o Estado brasileiro negava apoio à Fábrica Nacional de Motores, criada na época de Vargas. Posteriormente, durante o governo de Castelo Branco, essa empresa do Estado foi vendida à Alfa Romeo.


     O resultado desnacionalizador desta política de sedução perante o capital imperialista se manifestou quando foram publicados os dados da paciente investigação realizada pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade sobre os grandes grupos econômicos do Brasil¹. Entre os conglomerados com um capital superior a quatro bilhões de cruzeiros, eram estrangeiros mais da metade, a maioria norte-americanos; acima de dez bilhões de cruzeiros, apareciam doze grupos estrangeiros e apenas cinco nacionais. “Quanto maior é o grupo econômico, maior é a possibilidade de que seja estrangeiro”, concluiu Maurício Vinhas de Queiroz na análise da pesquisa. Mas tão ou mais eloquente foi constatar que, dos 24 grupos nacionais com mais de quatro bilhões de capital, apenas nove não estavam ligados, por ações, a capitais dos Estados Unidos ou da Europa, e ainda assim em dois deles apareciam entrecruzamentos com diretorias estrangeiras. A pesquisa detectou dez grupos econômicos que exerciam um virtual monopólio em suas respectivas especialidades. Destes dez, oito eram filiais de grandes corporações norte-americanas.

[1] QUEIROZ, Maurício Vinhas de. “Os grupos multibilionários.” In: Revista do Instituto de Ciências Sociais. Universidade Federal do Rio de Janeiro, janeiro dezembro de 1965.

     Mas tudo isto parece brincadeira de criança comparado com o que veio depois. Entre 1964 e meados de 1968, quinze fábricas de automotores ou de peças para veículos foram deglutidas pela Ford, Chrysler, Willys, Simca, Volkswagen e Alfa Romeo; no setor elétrico e eletrônico, três importantes empresas brasileiras foram parar em mãos japonesas; Wyeth, Bristol, Mead Johnson e Lever devoraram uns quantos laboratórios, e a produção nacional de medicamentos se reduziu à quinta parte do mercado; a Anaconda se lançou sobre os metais não ferrosos, e a Union Carbide sobre os plásticos, os produtos químicos e a petroquímica; a American Can e a American Machine and Foundry e outras colegas se apossaram de seis empresas nacionais de mecânica e metalurgia; a Companhia de Mineração Geral, uma das maiores fábricas metalúrgicas do Brasil, foi comprada a preço vil por um consórcio do qual participam a Bethlehem Steel, o Chase Manhattan Bank e a Standard Oil. Foram sensacionais as conclusões de uma comissão parlamentar formada para investigar o assunto, mas o governo militar fechou as portas do Congresso, e o público brasileiro jamais conheceu esses dados¹.

[1] A comissão chegou à conclusão de que o capital estrangeiro, em 1968, controlava 40 por cento do mercado de capitais do Brasil, 62 por cento de seu comércio exterior, 82 por cento do transporte marítimo, 67 por cento dos transportes aéreos externos, 100 por cento da produção de veículos a motor, 100 por cento da produção de pneus, mais de 80 por cento da indústria farmacêutica, cerca de 50 por cento da química, 59 por cento da produção de máquinas, 62 por cento das fábricas de autopeças, 48 por cento do alumínio e 90 por cento do cimento. A metade do capital estrangeiro correspondia a empresas dos Estados Unidos, seguidas em ordem de importância por empresas alemãs. É oportuno assinalar, de passagem, o peso crescente dos investimentos da Alemanha Federal. De cada dois automóveis fabricados no Brasil, um provém da Volkswagen, que é a fábrica mais importante de toda a região. A primeira fábrica de automóveis da América do Sul foi uma empresa alemã, a Mercedes Benz Argentina, fundada em 1951. Bayer, Hoechst, BASF e Schering dominam boa parte da indústria química nos países latino-americanos.


     Sob o governo do marechal Castelo Branco foi firmado um acordo de garantia de investimentos que concedia às empresas estrangeiras virtual extraterritorialidade, com a redução de seus impostos sobre a renda e a outorga de facilidades extraordinárias para desfrutar de crédito, além do afrouxamento do torniquete imposto pelo anterior governo de Goulart à drenagem dos lucros. A ditadura acenava para os capitalistas estrangeiros oferecendo o país como os proxenetas oferecem uma mulher, e destacava seus atributos: “O tratamento dado aos estrangeiros no Brasil é um dos mais liberais do mundo... não há restrição à nacionalidade dos acionistas... não existe limite para o percentual de capital registrado que pode ser remetido como lucro... não há limitações ao repatriamento do capital, e o reinvestimento de lucros é considerado um incremento do capital original (...)”¹.

[1] Suplemento especial do New York Times, 19 de janeiro de 1969.

     A Argentina disputa com o Brasil o papel de praça predileta dos investimentos imperialistas, e seu governo militar não ficava atrás na exaltação das vantagens, nesse mesmo período: no discurso em que definiu a política econômica argentina, em 1967, o general Juan Carlos Onganía reafirmava que as galinhas concedem às raposas igualdade de oportunidades: “Os investimentos estrangeiros na Argentina são considerados em pé de igualdade com os investimentos de origem interna, de acordo com a política tradicional de nosso país, que nunca discriminou o capital estrangeiro”¹. A Argentina também não impõe limitações à entrada do capital forâneo, nem à sua gravitação na economia nacional, nem à saída dos lucros e nem à repatriação do capital; os pagamentos das patentes, regalias e assistência técnica são feitos livremente. O governo isenta de impostos as empresas e lhes fixa taxas especiais de câmbio, além de muitos outros estímulos e franquias. Entre 1963 e 1968, foram desnacionalizadas 50 importantes empresas argentinas, 29 delas caindo em mãos norte-americanas, em setores tão diversos como a fundição de aço, a fabricação de automóveis e peças de reposição, a petroquímica, a química, a indústria elétrica, o papel e os cigarros². Em 1962, duas empresas nacionais de capital privado, Siam Di Tella e Indústrias Kaiser Argentinas, figuravam entre as cinco maiores empresas da América Latina; em 1967, ambas foram capturadas pelo capital imperialista. Entre as mais poderosas indústrias do país, que faturam em vendas, cada uma, mais de sete bilhões de pesos anuais, a metade do valor total de vendas pertence às firmas estrangeiras, um terço aos organismos do Estado e apenas um sexto às sociedades privadas de capital argentino³.

[1] NICOLAU, Sergio. La inversión extranjera directa en los países de la ALALC. México, 1968.
[2] GARCIA LUPO, Rogelio. Contra la ocupación extranjera. Buenos Aires, 1968.
[3] Citado por NACIONES UNIDAS/CEPAL. Estudio económico de América Latina, 1968.

     Dos investimentos norte-americanos na indústria manufatureira da América Latina, o México congrega quase a terça parte. Tampouco este país opõe restrições à transferência de capitais e à repatriação de lucros; as restrições cambiais brilham pela ausência. A mexicanização obrigatória dos capitais, que impõe a maioria nacional das ações em algumas indústrias, “foi bem acolhida, em termos gerais, pelos investidores estrangeiros, que reconheceram publicamente diversas vantagens na criação de empresas mistas”, segundo declarava em 1967 o Secretário de Indústria e Comércio do governo: “Cabe notar que, mesmo empresas de renome internacional, adotaram esta forma de associação de companhias que se estabeleceram no México, e igualmente é importante destacar que a política de mexicanização da indústria não só não desestimulou os investimentos estrangeiros no México, como também fez com que fosse batido o recorde de investimentos em 1965; e o volume alcançado em 1965 foi novamente superado em 1966”¹. Em 1962, das 100 empresas mais importantes do México, 56 eram total ou parcialmente controladas pelo capital estrangeiro, 24 pertenciam ao Estado e vinte ao capital privado mexicano. Essas 20 empresas privadas de capital nacional participam com pouco mais da sétima parte do volume total de vendas das 100 empresas consideradas². Atualmente, as grandes firmas estrangeiras dominam mais da metade dos capitais investidos em computadores, equipamentos de escritório, maquinário e equipamentos industriais; General Motors, Ford, Chrysler e Volkswagen consolidaram seu poderio na indústria de automóveis e na rede de fábricas auxiliares; a nova indústria química pertence à Du Pont, Monsanto, Imperial Chemical, Allied Chemical, Union Carbide e Cyanamid; os principais laboratórios estão nas mãos da Parke Davis, Merck & Co., Sidney Ross e Squibb; a influência da Celanese é decisiva na fabricação de fibras artificiais; Anderson Clayton e Lieber Brothers dominam em grau progressivo a fabricação de óleos comestíveis, e os capitais estrangeiros têm uma presença esmagadora na produção de cimento, cigarros, borracha e derivados, artigos para o lar e alimentos diversos³.

[1] Reportagem da revista Visión, 3 de fevereiro de 1967.
[2] CECEÑA, José Luis. Los monopolios en México. México, 1962.
[3] CECEÑA, José Luis. México en órbita imperial. México, 1970; e AGUILAR, Alonso & CARMONA, Fernando. México, riqueza y miseria. México, 1968.

continua na página 350...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
A Estrutura Contemporânea da Espoliação
Que bandeira drapeja sobre as máquinas? (3)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?


Eduardo Galeano l Sangue Latino