quarta-feira, 29 de abril de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Quanto ao meu ciúme)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Quanto ao meu ciúme, forçava-me a deixar Albertine o menos possível, embora soubesse que ela não o haveria de curar totalmente senão separando-me dela para sempre. Podia até senti-lo junto dela, mas então cuidava para que não se renovassem as circunstâncias que o tivessem despertado em mim. Foi assim que, num dia de bom tempo, saímos para almoçar em Rivebelle. As grandes portas envidraçadas do refeitório, daquele hall em forma de corredor que servia para os chás, estavam abertas de par em par para a relva dourada pelo sol e das quais o vasto restaurante luminoso parecia fazer parte. O garçom de rosto róseo, de cabelos negros revoltos como chamas, movia-se por toda aquela vasta extensão menos depressa que antigamente, pois não era mais simples garçom, mas um chefe de mesa; não obstante, devido a sua atividade natural, às vezes de longe, no refeitório, às vezes mais perto, porém do lado de fora, servindo à fregueses que tinham preferido almoçar no jardim, a gente o avistava ora aqui, ora ali, como estátuas sucessivas de um jovem deus corredor, umas no interior, aliás bem iluminado, de uma sala que se prolongava em grama verde, outras sob as folhagens, na claridade da vida ao ar livre. Por um instante, esteve ao nosso lado. Albertine respondeu distraidamente ao que eu lhe dizia. Ela o mirava com os olhos crescidos. Durante alguns minutos, senti que é possível estar junto da pessoa amada e todavia não tê-la consigo. Pareciam estar num tête-à-tête misterioso, tornado mudo pela minha presença, e talvez continuação de encontros antigos que eu não conhecia, ou apenas de um olhar que ele lhe lançara e do qual eu era o terceiro importuno e de quem se escondem. Mesmo quando, chamado com violência por seu patrão, ele se afastou, Albertine, embora continuasse a almoçar, já não parecia considerar o restaurante e os jardins senão como pista iluminada, onde aparecia aqui e ali, em cenários variados, o deus corredor de cabelos negros. Num momento, cheguei a perguntar-me se, para segui-lo, ela não iria me deixar sozinho na mesa. Porém nos dias seguintes comecei a esquecer para sempre essa impressão penosa, pois havia decidido jamais voltar a Rivebelle e fizera com que Albertine, que me assegurou ter ido ali pela primeira vez, me prometesse que não voltaria nunca mais. E neguei que o garçom de pés ágeis só tivesse olhos para ela, para que Albertine não julgasse que minha companhia a houvesse privado de um prazer. Aconteceu-me voltar por vezes a Rivebelle, porém só, e beber demais, como já o fizera. Esvaziando um último copo, eu contemplava uma rosácea pintada na parede branca e reportava a ela o prazer que experimentava. Somente ela, no mundo, existia para mim; eu a perseguia, a tocava e a perdia sucessivamente com meu olhar fugidio e era indiferente ao futuro, contentando-me com a rosácea como uma borboleta que gira ao redor de uma borboleta pousada, com a qual vai acabar a vida num ato de suprema volúpia. Ora, eu achava perigoso deixar que se instalasse em mim, mesmo sob uma forma leve, um mal que se assemelha a esses estados patológicos habituais a que não se costumam dar atenção, mas a que, se sobrevém o menor acidente, imprevisível e inevitável, bastam para lhe conferir logo uma extrema gravidade. O momento talvez fosse particularmente bem escolhido para renunciar a uma mulher, a quem nenhum sofrimento muito recente e muito vivo me obrigava a pedir esse bálsamo contra um mal que possuem aquelas que o provocaram. Eu me sentia tranqüilizado por esses mesmos passeios que, embora no momento só os considerasse como uma espera de um amanhã que, apesar do desejo que me inspirava, não deveria ser diferente da véspera, tinham o encanto de serem arrancados aos lugares onde até então se encontrava Albertine, e onde eu não estava com ela, na casa de sua tia, na casa das amigas. Encanto não de uma alegria positiva, mas apenas do apaziguamento de uma inquietação, e contudo bem intenso. Pois a alguns dias de distância, quando voltava a pensar na granja diante da qual tínhamos bebido cidra, ou simplesmente nos poucos passos que déramos defronte de Saint-Mars-le-Vêtu. Lembrando-me que Albertine caminhava a meu lado com sua touca, o sentimento de sua presença acrescentava de súbito uma certa virtude à imagem indiferente da igreja nova, que, no momento em que a fachada ensolarada vinha desse modo pousar por si mesma em minha lembrança, era como uma grande compressa calmante que houvesse aplicado ao meu coração. Eu deixava Albertine em Parville, mas para ir encontrá-la de tarde e estender-me a seu lado na praia e no escuro. Claro que não a via diariamente, e no entanto podia dizer comigo: "Se ela contasse o emprego de seu tempo, de sua vida, era ainda eu quem ocuparia o maior lugar"; e passávamos juntos longas horas seguidas que davam aos meus dias uma tão doca embriaguez que até quando, em Parville, ela saltava do auto que eu ia lhe enviar de novo uma hora depois, já não me sentia sozinho no carro, como se, antes de desembarcar, ela tivesse deixado flores ali. Poderia ter deixado de vê-la todos os dias; e seria feliz, pois sentia que o efeito calmante dessa felicidade podia prolongar-se por vários dias. Mas então ouvia Albertine, ao deixar-me, dizer à sua tia ou a uma amiga: 

- Então, amanhã às oito e meia. Não podemos chegar tarde, eles estarão prontos às oito e quinze. -  

     A conversação de uma mulher amada se parece a um solo que recobre uma água subterrânea e perigosa; a todo momento, sente-se por detrás das palavras a presença e o frio penetrante de um lençol invisível; percebe-se aqui e ao seu pérfido transudar, mas ele próprio permanece oculto. Tão logo ouvia a frase de Albertine, a minha calma ficava destruída. Desejava pedir para ir vê-la na manhã seguinte, a fim de impedi-la de comparecer a esse misterioso encontro das oito e meia de que se falara na minha frente em meias palavras. Sem dúvida, me obedeceria das primeiras vezes, lastimando, no entanto, ter de renunciar a seus projetos; depois teria descoberto minha necessidade permanente de estragá-los; e eu me transformaria naquele para quem se esconde tudo. E, além disso, é provável que essas festas das quais me via excluído consistissem em muito pouca coisa, e que era talvez por receio de que eu me encontrasse com uma certa convidada vulgar ou maçante que não me convidavam. Infelizmente, essa vida tão mesclada à de Albertine não exercia efeitos apenas sobre mim; ela me tranquilizava; porém causava à minha mãe inquietações cuja confissão a destruía. Como eu voltasse contente para casa, decidido a terminar de um dia para o outro uma existência cujo fim eu julgava depender exclusivamente da minha vontade, minha mãe me disse, ao ouvir-me dizer ao chofer que fosse buscar Albertine após o jantar: 

- Como gastas dinheiro! (Françoise, em seu linguajar simples e expressivo, dizia com mais força: "O dinheiro voa.") - Procura - continuou mamãe - não ficar como Charles de Sévigné, cuja mãe dizia: "Sua mão é um crisol onde o dinheiro se derrete." E depois, creio que de fato saíste bastante com Albertine. Asseguro-te que é exagerado, que até mesmo para ela pode parecer ridículo. Fico encantada que isso te distraia, não te peço que não a vejas mais, mas enfim que não seja impossível um ficar sem o outro. -

     Minha vida com Albertine, vida carente de grandes prazeres pelo menos de grandes prazeres percebidos; essa vida que eu tencionava mudar de um dia para o outro, escolhendo uma hora de calma, tornou-se-me de repente necessária por algum tempo, quando se achou ameaçada pelas palavras de mamãe. Disse à minha mãe que suas palavras acabavam de atrasar talvez de dois meses a decisão que pediam e que, sem elas, seria tomada antes do fim da semana. Mamãe pôs-se a rir (para não me deixar triste) do efeito instantâneo de seus conselhos, e prometeu-me não voltar a falar no assunto, para não impedir que renascesse a minha boa intenção. Mas, desde a morte de minha avó, cada vez que mamãe se deixava rir, o riso principiado estacava de súbito e terminava com uma expressão quase soluçante de sofrimento, ou devido ao remorso de, por um instante, ter podido esquecer, ou pela recrudescência com que esse esquecimento tão breve reavivara ainda mais a sua cruel preocupação. Mas, à que lhe causava a lembrança da minha avó, instalada em minha mãe como uma ideia fixa, senti que desta vez se acrescentava uma outra, relativa a mim, por causa de seus temores pelas consequências de minha intimidade com Albertine; intimidade que ela, no entanto, não se animava a estorvar devido ao que lhe acabara de dizer. Mas não pareceu persuadida de que eu não estava enganado. Lembrava-se durante quantos anos minha avó e ela não me haviam mais falado de meu trabalho e de uma norma de vida mais higiênica e que, dizia eu, só a agitação em que me punham as suas exortações bastava para me impedir de começá-la, e que, apesar de seu silêncio obediente, eu não havia seguido.
     Depois do jantar, o auto trazia de volta Albertine; ainda havia um pouco de claridade. O ar estava menos quente, mas, após um dia abrasador, nós dois sonhávamos com frescores ignorados. Então, a nossos olhos empobrecidos, a lua muito estreita apareceu, a princípio (como na noite em que eu fora à casa da princesa de Guermantes e Albertine me telefonara) como a leve e delgada casca, depois como o quarto fresco de uma fruta que uma faca invisível começasse a descascar no céu. Também às vezes, era eu quem ia buscar a minha amiga, então um pouco mais tarde; ela devia esperar-me diante das arcadas do mercado, em Maineville. Nos primeiros instantes, eu não a distinguia; já me inquietava que não devesse aparecer, que tivesse compreendido mal. Então, via-a, com sua blusa branca de pintas azuis, saltar para o meu lado, no carro, num leve pulo que mais parecia o de um animalzinho que de uma moça. E era ainda como uma cadelinha que ela principiava logo a me acariciar sem fim. Quando a noite descia completamente e, como dizia o gerente do hotel, o céu ficava todo semeado de estrelas, se não íamos passear na floresta com uma garrafa de champanha, sem nos preocuparmos com os passeantes que deambulavam ainda sobre o molhe fracamente iluminado, mas que nada poderiam vislumbrar a dois passos sobre a areia escura, ficávamos estendidos ao pé das dunas; aquele mesmo corpo, em cuja flexibilidade vivia toda a graça feminina, marinha e esportiva das moças que eu vira passar pela primeira vez diante do horizonte das ondas, mantinha-o apertado contra o meu, sob a mesma coberta, exatamente à beira do mar imóvel, visível por um trêmulo reflexo; e o escutávamos sem cansar e com o mesmo prazer, seja quando retinha sua respiração, suspensa por tempo bastante para que se julgasse estancado o refluxo, seja quando enfim exalava a nossos pés o murmúrio esperado e atrasado. Eu acabava por levar Albertine à Parville. Chegado diante de sua casa, era necessário interromper nossos beijos de medo que nos vissem; não tendo vontade de ir deitar-se, ela voltava comigo até Balbec, de onde a levava uma última vez até Parville; os motoristas desses primeiros tempos do automóvel eram pessoas que iam deitar-se a qualquer hora. E, de fato, eu só voltava para Balbec com a primeira umidade da manhã, dessa vez sozinho, mas envolto ainda pela presença de minha amiga, repleto de uma quantidade de beijos longa para se esgotar. Na minha mesa encontrava um telegrama ou um cartão-postal. Era de Albertine ainda! Ela os escrevera em Quetteholme, enquanto eu saíra sozinho de auto e para me dizer o que pensava de mim. Eu me deitava na cama relendo-os. Então percebia, acima das cortinas, o primeiro clarão do dia e dizia comigo que devíamos nos amar, apesar de tudo, pois tínhamos passado a noite aos beijos. Quando via Albertine no molhe, na manhã seguinte, sentia tanto medo de que ela me dissesse que não estava livre aquele dia, não podendo aquiescer aos meus pedidos para passearmos juntos, que atrasava esse pedido o mais que podia. Sentia-me tanto mais inquieto porque ela estava com um aspecto frio e preocupado; passavam pessoas que a conheciam; sem dúvida, havia ela formado, para a tarde, projetos dos quais eu estava excluído. Eu a olhava, olhava aquele corpo encantador, aquele rosto rosado de Albertine, erguendo à minha face o enigma de suas intenções, a decisão desconhecida que deveria fazer a felicidade ou a desgraça da minha tarde. Era todo um estado de espírito, todo um futuro de existência que assumira diante de mim a forma alegórica e fatal de uma moça. E, quando por fim me decidia, quando com o ar mais indiferente possível perguntava: 

- Vamos passear juntos daqui a pouco e de noite? e ela me respondia: 
- Com muito gosto -, então toda a brusca reviravolta, na figura rósea, da minha longa inquietude por uma quietude deliciosa, tornava-me ainda mais preciosas essas formas a que eu devia perpetuamente o bem-estar, o sossego que se experimenta depois que desaba um temporal. Eu repetia comigo mesmo: "Como ela é gentil, como é adorável!" numa exaltação menos fecunda do que a devida à embriaguez, apenas mais profunda que a da amizade, mas muito superior à da vida mundana. Só não contratávamos o automóvel quando havia jantar na casa dos Verdurin e nos dias em que, não estando Albertine livre para sair comigo, eu aproveitava para avisar as pessoas que queriam me ver de que permaneceria em Balbec. Nesses dias eu dava licença a Saint-Loup para que fosse me visitar; mas somente nesses dias. Pois, numa vez em que ele chegara de surpresa, eu teria preferido privar-me de ver Albertine do que arriscar-me a que ele a encontrasse e que ficasse comprometido o estado de calma feliz em que me achava desde algum tempo e que se renovasse o meu ciúme. E só havia sossegado depois que Saint Loup se fora. Assim, ele se limitava, com pesar mas escrupulosamente, a nunca vir a Balbec sem que o chamasse. Outrora, pensando com inveja nas horas que a Sra. de Guermantes passava com ele, quanto valor dava eu à sua presença! As criaturas não cessam de mudar de lugar em relação a nós. Na marcha insensível porém eterna do mundo, consideramo-las como imóveis num instante de visão, curto demais para que seja percebido o momento que as carrega. Porém, basta escolher na nossa memória duas imagens suas tomadas em instantes diversos, todavia bastante próximos, para que não tenham mudado, ao menos sensivelmente, e a diferença das duas imagens mede o deslocamento que operaram em relação a nós. Ele me inquietou horrivelmente ao falar dos Verdurin; receei que me pedisse para ser recebido em casa deles, o que seria suficiente, por causa do ciúme que eu não deixava de sentir, para estragar todo o prazer que ali encontrava com Albertine. Felizmente, porém, Robert me confessou, pelo contrário, que desejava acima de tudo não conhecê-los. 
- Não - disse ele -, acho exasperantes esses meios clericais. -

     A princípio não compreendi esse adjetivo "clerical" aplicado aos Verdurin, mas a continuação da frase de Saint-Loup esclareceu-me o seu pensamento, suas concessões às modas da linguagem, que a gente muita vez se espanta de ver empregadas pelos homens inteligentes. 

- São meios - disse ele onde se forma uma tribo, onde se fazem congregações e capelinhas. Não me dirás que não é uma pequena seita; tudo mel para quem pertence ao grupo, e nenhum desprezo bastante para as pessoas de fora. A questão não é, como para Hamlet, ser ou não ser, mas ser deles ou não ser deles. Tu és deles, o meu tio Charlus é deles. Que queres? Jamais gostei disso, a culpa não é minha. Fica entendido que a regra que eu impusera a Saint Loup, de só vir me visitar a meu chamado, eu a estabeleci estritamente para qualquer pessoa com quem aos poucos me relacionava na Raspeliere, em Féterne, em Montsurvent e arredores; e, quando avistava do hotel a fumaça do trem das três horas que, na anfractuosidade das falésias de Parville, deixava seu penacho estável que permanecia por muito tempo enganchado no flanco das verdes vertentes, não tinha nenhuma hesitação quanto ao visitante que vinha tomar chá comigo e que, à maneira de um deus, ainda estava oculto sob aquela nuvenzinha. Sou obrigado a confessar que esse visitante, previamente autorizado a vir por mim, não foi quase nunca Saniette, e muitas vezes censurei-me por isto. Mas a consciência que tinha Saniette de aborrecer (naturalmente ainda mais vindo fazer uma visita do que contando uma história) fazia com que, embora fosse mais instruído, mais inteligente e melhor pessoa que os outros, parecia impossível experimentar junto dele não só algum prazer como outra coisa que não um spleen quase intolerável e que estragava toda a nossa tarde. Provavelmente, se Saniette confessasse francamente esse tédio que receava causar, a gente não temeria tanto as suas visitas. O tédio é um dos males menos graves que temos de suportar; o seu talvez só existisse na imaginação dos outros, ou lhe fora inoculado por eles graças a uma espécie de sugestão, que encontrava pasto em sua agradável modéstia. Mas ele tanto se empenhava em não dar a perceber que não era procurado, que não tinha coragem de oferecer-se. Certamente estava correto em não proceder como as pessoas que ficam tão contentes em desfazer-se em cumprimentos nos lugares públicos que, não nos tendo visto desde muito e lobrigando-nos em um camarote com pessoas brilhantes a quem desconhecem, lançam-nos uma saudação furtiva e ruidosa, desculpando-se com a emoção e o prazer que sentiram ao ver-nos, ao constar que reatamos os prazeres sociais, que temos bom aspecto, etc. Mas Saniette, ao contrário, carecia muito de audácia. Poderia, na casa da Sra. Verdurin ou no trenzinho, dizer-me que sentiria muito prazer em ir visitar-me em Balbec, caso não me fosse incômodo. Tal proposta não teria me assustado. Pelo contrário, ela nada oferecia, mas com uma fisionomia torturada e um olhar tão indestrutível como um esmalte cozido, em cuja composição, porém, entrava, com um desejo palpitante de nos ver a menos que não achasse alguém mais divertido; a vontade de não deixar perceber esse desejo, dizia-me com ar desligado: 
- O senhor não sabe o que vai fazer nestes dias? Porque sem dúvida irei para perto de Balbec. Mas não tem importância, eu só estava perguntando por acaso. -

     Aquele ar não me enganava, e os signos inversos com ajuda dos quais exprimimos nossos sentimentos pelo seu oposto são de uma leitura tão clara, que é de perguntar-se como ainda existem pessoas que dizem, por exemplo: "Tenho tantos convites que não sei o que fazer", para dissimular que não são convidados. Porém, mais ainda, aquele ar desligado, possivelmente devido ao que entrava em sua turva composição, nos causava o que jamais teria podido fazer o temor ao tédio ou a confissão franca do desejo de nos ver, isto é, essa espécie de mal-estar, de repulsa, que, na ordem das relações de simples polidez social, é o equivalente ao que, no amor, é o oferecimento disfarçado, que faz a uma dama o amoroso a quem ela não ama, de vê-la no dia seguinte, enquanto, ao mesmo tempo, protesta que não faz questão disso, ou nem sequer esse oferecimento, mas uma atitude de falsa frieza. E logo emanava da pessoa de Saniette um não sei quê, fazendo com que a gente lhe respondesse com o ar mais afetuoso do mundo: 

- Não, infelizmente, esta semana, vou explicar-lhe... -

     E eu deixava que viessem, em vez de Saniette, pessoas que estavam longe de ter o seu valor, mas que não possuíam o seu olhar carregado de melancolia e sua boca encrespada da amargura inteira de todas as visitas que ele tinha vontade, calando-a, de fazer a uns e outros. Infelizmente, era bem raro que Saniette não encontrasse no "tortinho" o convidado que vinha me visitar, se é que este já não me dissera na casa dos Verdurin: 

- Não se esqueça de que vou visitá-lo na quinta-feira -, dia em que eu precisamente havia dito a Saniette que não estava livre. De modo que ele acabava por imaginar a vida como cheia de divertimentos organizados à sua revelia, se não mesmo contra ele. Por outro lado, como a gente nunca é completamente uno, aquele discreto exagerado era doentiamente indiscreto. A única vez em que por acaso veio visitar-me, contra a minha vontade, uma carta, não sei de quem, estava atirada sobre a mesa. Ao cabo de um momento, percebi que ele só distraidamente escutava o que lhe dizia. A carta, cuja procedência ele ignorava por completo, o fascinava, e eu julgava que a qualquer instante as suas pupilas esmaltadas iam saltar das órbitas para se unirem à carta sem importância, mas que sua curiosidade imantava. Dir-se-ia um pássaro que vai se lançar fatalmente ao encontro de uma serpente. Por fim, não pôde mais conter-se e primeiro mudou-a de lugar, como para pôr ordem no meu quarto. Não lhe bastando isso, pegou-a, virou-a, revirou-a, como se o fizesse maquinalmente. Uma outra forma de sua indiscrição era que, uma vez grudado na gente, não conseguia ir embora. Como me achasse adoentado naquele dia, pedi-lhe que tomasse o trem seguinte, que partia dentro de meia hora. Ela não duvidou de que eu estivesse mal, porém respondeu: 
- Ficarei uma hora e um quarto, depois partirei. -

     Depois, sofri de não lhe haver dito, de cada vez que o podia fazer, que viesse. Quem sabe? Talvez eu tivesse conjurado sua má sorte, e o houvessem convidado outros por quem imediatamente me largaria, de forma que meus convites teriam tido a dupla vantagem de lhe proporcionar alegria e de me desembaraçar dele. Nos dias seguintes aos quais eu havia recebido, naturalmente não esperava visitas, e o automóvel vinha nos buscar a mim e a Albertine. E, quando regressávamos, Aimé, no primeiro degrau da escada, não podia deixar de espiar, com olhos apaixonados, curiosos e glutões, que tipo de gorjeta eu dava ao chofer. Por mais que eu encerrasse a moeda ou a nota na mão fechada, os olhares de Aimé afastavam meus dedos. Desviava a cabeça após um segundo, pois era discreto, bem-educado, e até mesmo se contentava com benefícios relativamente pequenos. Mas o dinheiro recebido por outrem excitava nele uma curiosidade irreprimível, dando-lhe água na boca. Nesses curtos instantes, tinha o ar atento e febril de uma criança que lê um romance de Júlio Verne, ou de uma pessoa que janta tão longe de nós, num restaurante, e que, vendo que nos trincham um faisão, que ele próprio não quer ou não pode saborear, abandona por um instante seus pensamentos sérios para pregar na ave um olhar que o amor e a inveja tornam risonho. Assim ocorriam diariamente aqueles passeios de automóvel. Mas uma vez, quando eu subia pelo elevador, o ascensorista me disse: 

- Aquele cavalheiro esteve aqui, e deixou um recado para o senhor. -

     O ascensorista me disse tais palavras com voz absolutamente mudada, tossindo cuspindo me na cara. 

- Que resfriado que peguei! - acrescentou, como se eu não fosse capaz de percebê-lo por mim mesmo. -

     O doutor disse que é coqueluche e recomeçou a tossir e a cuspir em mim.

- Não se canse falando - disse-lhe eu com ar de bondade fingida.

     Temia pegar a coqueluche, a que, com minha tendência às sufocações, me seria bastante penosa. Mas ele empenhou todo o seu orgulho, como um virtuoso que não quer se confessar doente, em falar e cuspir o tempo todo. 

- Não, isso não quer dizer nada - disse ele (para você, talvez, pensei, mas não para mim). - Aliás, vou em breve de volta a Paris (tanto melhor, desde que não me passe a coqueluche antes). - Parece - continuou - que Paris é bem magnífica. Deve ser mais magnífica ainda do que aqui e em Monte-Carlo, embora alguns companheiros e mesmo fregueses, e até mordomos que iam a Monte-Carlo devido à estação, tenham me dito muitas vezes que Paris era menos magnífica que Monte-Carlo. Talvez estivessem enganados e, no entanto, para ser mordomia não se pode ser imbecil; para guardar todos os pedidos, reservar todas as mesas, é preciso ter uma cabeça! Disseram-me que era ainda mais terrível do que escrever peças e livros. -  
 
     Tínhamos quase chegado ao meu andar, quando o ascensorista me fez descer até embaixo, porque achou que o botão funcionava mal, e consertou-o num piscar de olhos. Disse-lhe que preferia subir a pé, o que queria dizer, e ocultar, que preferia não pegar coqueluche. Mas, com um acesso de tosse cordial e contagioso, ele me impeliu para o elevador. 

- Agora, não há mais perigo, consertei o botão. - 

     Vendo que ele não parava de falar, preferindo conhecer o nome do visitante e o recado que deixara, em vez do paralelo entre as belezas de Balbec, Paris e Monte-Carlo, disse-lhe (como a um tenor que nos importuna com Benjamin Godard: cante de preferência Debussy): 

- Mas quem foi que veio me visitar? 
- É o cavalheiro com quem o senhor saiu ontem. Vou buscar o seu cartão, que está com o porteiro. -

continua na página 191...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Quanto ao meu ciúme)
Volume 6
Volume 7

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Economia Norte-Americana precisa dos Minerais da América Latina (1)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     33. A Economia Norte-Americana precisa dos Minerais da América Latina Como os Pulmões Precisam de Ar
          Os astronautas tinham acabado de imprimir as primeiras pegadas humanas na superfície lunar, e em julho de 1969 o pai da façanha, Werner von Braun, anunciava à imprensa que os Estados Unidos planejavam instalar uma distante estação no espaço, com propósitos bem mais próximos: “Desta maravilhosa plataforma de observação poderemos investigar todas as riquezas da terra: os poços de petróleo desconhecidos, as minas de cobre e zinco (...)”. 
     O petróleo continua sendo o principal combustível de nosso tempo, e os norte-americanos importam a sétima parte do petróleo que consomem. Para matar vietnamitas, precisam de balas, e as balas precisam de cobre: os Estados Unidos compram além de suas fronteiras uma quinta parte do cobre que gastam. A falta de zinco é cada vez mais preocupante: a metade vem do exterior. Não se fabricam aviões sem alumínio, e não se fabrica o alumínio sem bauxita: os Estados Unidos quase não tem bauxita. Seus grandes centros siderúrgicos – Pittsburgh, Cleveland, Detroit– não encontram ferro suficiente nas jazidas de Minnesota, que estão em vias de se extinguir, e o manganês não há no território nacional: a economia norte-americana importa um terço do ferro e todo o manganês que necessita. Para produzir motores de retropropulsão, não contam com níquel nem com cromo em seu subsolo. Para fabricar aços especiais, requer-se o tungstênio: importam a quarta parte.
     A crescente dependência de provisão estrangeira decreta uma também crescente identificação entre os interesses capitalistas norte-americanos na América Latina e a segurança nacional dos Estados Unidos. A estabilidade interna da primeira potência mundial se mostra intimamente ligada aos investimentos norte-americanos ao sul do rio ravo. Cerca de metade desses investimentos é dedicada à extração de petróleo e à exploração de riquezas minerais, “indispensáveis à economia dos Estados Unidos tanto na paz como na guerra” [1]. O presidente do Conselho Internacional da Câmara de Comércio do país do Norte o define assim: “Historicamente, uma das principais razões dos Estados Unidos para investir no exterior é o desenvolvimento de recursos naturais e, mais especialmente, petróleo. É perfeitamente óbvio que os incentivos desse tipo de investimento devem ser incrementados. Nossas necessidades de matérias-primas estão em constante crescimento na medida em que a população se expande e o nível de vida sobe. Ao mesmo tempo, nossos recursos domésticos se esgotam (...)” [2]. Os laboratórios científicos do governo, das universidades e das grandes corporações envergonham a imaginação com o ritmo febril de suas invenções e descobrimentos, mas a nova tecnologia não encontrou o modo de prescindir dos materiais básicos que a natureza, e só ela, proporciona.
     Ao mesmo tempo, vão-se debilitando as respostas que o subsolo nacional é capaz de dar ao desafio do crescimento industrial dos Estados Unidos. [3]

continua na página 220...
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[1] LIEUWEN, Edwin. Thu United States and the Challenge to Security in Latin America. Ohio, 1966. 
[2] COURTNEY, Philip, em trabalho apresentado no II Congresso Internacional de Poupança e Investimento. ruxelas, 1959. 
[3] MAGDOFF, Harry. “La era del imperialismo”. Monthly Review, selecciones en castellano. Santiago de Chile, janeiro-fevereiro de 1969; e JULIEN, Claude. L’empire américan. Paris, 1969. 
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: A Economia Norte-Americana precisa dos Minerais da América Latina (1)
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o petróleo da Venezuela... o petróleo no pré-sal do Brasil... os minerais nas terras raras do Brasil... ?

terça-feira, 28 de abril de 2026

MPB: Só Hoje

Jota Quest


Só Hoje é o segundo single do álbum Discotecagem Pop Variada, da banda brasileira Jota Quest. Composta por Rogério Flausino e Fernanda Mello, sendo quase rejeitada pela banda, a canção foi uma das mais tocadas nas rádios brasileiras.






Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal
Olhar teus olhos de promessas fáceis
E te beijar a boca de um jeito que te faça rir
(Que te faça rir)

Hoje eu preciso te abraçar
Sentir teu cheiro de roupa limpa
Pra esquecer os meus anseios e dormir em paz

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria
Em estar vivo

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia
Que eu faço tudo errado sempre, sempre

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria
Em estar vivo

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou o causador da tua insônia
Que eu faço tudo errado sempre, sempre

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso!
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso!
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz, feliz
Só hoje


meu hino nos dias de 2020... 2021...






acreditar no sorriso, na esperança
mudar o seu mundo de dentro
sempre pra melhor
PORQUE
daqui só levaremos o amor
namorando nas memórias
que continuam depois de tudo







"Jota Quest é uma banda de pop rock brasileira formada em 1993 na cidade de Belo Horizonte. O conjunto nasceu com o nome J. Quest, com a pronúncia em inglês, Jay Quest, por inspiração do desenho animado Jonny Quest, ...mas para não serem processados pela Hanna‑Barbera, adotaram de vez a pronúncia em português Jota Quest no final da década de 1990. Foi por gostar de funk rock e acid‑jazz que o baixista PJ e o baterista Paulinho Fonseca resolveram formar uma banda. Em seguida, o guitarrista Marco Túlio Lara e o tecladista Márcio Buzelin juntaram-se ao grupo. Rogério Flausino começou sua atuação no conjunto após ser escolhido num teste com mais de dezoito candidatos."


Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (II.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

II
 continuando...

     Ela respondeu com um aceno de cabeça. Muitas vezes os homens se juntavam a uma mulher só para usá-la, não se importando com a felicidade dela. Suas lágrimas começaram a correr mais quentes, desesperava-se ao pensar que poderia estar levando uma vida agradável, se fosse outro o companheiro, um rapaz que gostasse de envolvê-la assim, pela cintura. Um outro? E a imagem desse outro foi surgindo da sua enorme emoção. Mas agora já era tarde, seu único desejo era viver até o fim com este, desde que não a maltratasse muito.

— Então — disse ela —, tenta ser assim de vez em quando... Os soluços não a deixavam continuar e ele beijou-a novamente. 
— Bobinha! Está bem, eu juro que serei delicado. Até parece que sou pior do que os outros...

     Olhando-o, ela começou a sorrir entre as lágrimas. Talvez ele tivesse razão, quase não há mulheres felizes. Embora não levando muito a sério o juramento dele, entregou-se à alegria de vê-lo tão solícito. Bom Deus! se ao menos aquilo durasse! Com novo ânimo, estreitaram-se num longo abraço, mas, ouvindo passos, puseram-se em pé. Três companheiros, que os tinham visto passar, vinham saber o que era.
     Continuaram o caminho todos juntos. Eram quase dez horas e resolveram almoçar num canto arejado, antes de voltarem a suar no fundo do veio. Quando estavam acabando de comer o sanduíche duplo e iam beber um gole de café, ouviram um barulho que vinha de longe, das outras seções da mina, e que fez que apurassem o ouvido. Que seria? Outro acidente? Levantaram-se e correram. Britadores, operadoras de vagonetes e aprendizes cruzavam-se a cada instante, mas ninguém sabia de nada, todos gritavam, devia ser uma grande desgraça. Pouco a pouco a mina inteira estava assustada, sombras enlouquecidas desembocavam das galerias, as lanternas balançavam desaparecendo nas trevas. Onde era? Por que não diziam nada?
     De repente um contramestre passou gritando: 

— Estão cortando os cabos! Estão cortando os cabos!

     Esse grito espalhou o pânico. Houve uma correria furiosa através das vias escuras. Ninguém sabia o que pensar. Por que cortavam os cabos? E quem os cortava, havendo homens no fundo da mina? Aquilo parecia uma monstruosidade.
     Nesse momento a voz de outro contramestre ressoou e perdeu-se no emaranhado de galerias: 

— É o pessoal de Montsou que está cortando os cabos! Saiam todos!

     Ao compreender o que estava acontecendo, Chaval fez Catherine parar. A ideia de que ia encontrar os grevistas de Montsou fez que sentisse as pernas bambas. Então essa corja que ele acreditava já nas mãos dos policiais tinha vindo! Por um momento pensou em voltar e subir pela Gaston-Marie, mas aquela saída tinha sido fechada. Praguejou, hesitante, ocultando o medo, repetindo que não havia razão para correr, que ninguém ia deixá-los fechados no fundo da mina.
     Ouviu-se novamente a voz do contramestre que se aproximava: 

— Saiam imediatamente! Usem as escadas! As escadas! Chaval foi arrastado como os demais companheiros; começou a empurrar Catherine, acusando-a de não correr o bastante. Será que ela estava querendo que ficassem encurralados ali, morrendo de fome? Os bandidos de Montsou eram capazes de quebrar as escadas, sem esperar que todos tivessem saído. Esta suposição pavorosa acabou de semear o pânico. Foi um salve-se quem puder ao longo das galerias, todos tentando chegar em primeiro lugar, frenéticos, enlouquecidos. Alguns gritavam que as escadas tinham sido quebradas, que ninguém sairia mais. Quando os grupos em pânico começaram a desembocar no patamar do poço, foi um verdadeiro atropelo: correram para o buraco negro e começaram a esmagar-se na porta estreita que dava acesso às escadas. Enquanto isto, um velho cavalariço que prudentemente recolhia os cavalos para a estrebaria observava-os com desdenhosa negligência, acostumado com as noites passadas na mina, certo de que acabaria sendo retirado dali. 
— Com mil raios! sobe na minha frente! — disse Chaval a Catherine. — Se caíres, pelo menos posso aparar-te.

     Atordoada, exausta devido à corrida de três quilômetros que a deixara novamente alagada em suor, ela abandonava-se, sem compreender, aos redemoinhos daquele mar humano. Ele, então, puxou-a pelo braço com tal violência, que quase o quebrou. A moça soltou um gemido e as lágrimas começaram a correr; ele já esquecera o juramento, nunca seriam felizes. 

— Vamos, passa! — berrou o homem.

     Catherine estava transida de medo. Se subisse na frente dele. seria maltratada todo o tempo, por isso resistia, enquanto o fluxo desvairado dos companheiros os empurrava para o lado. As infiltrações do poço pingavam em gotas enormes e o soalho da embocadura na galeria, abalado pelo tropel, tremia por cima do fosso, do desaguadouro lodoso, com dez metros de profundidade. Fora justamente na Jean-Bart, dois anos antes, que um terrível acidente, a ruptura de um cabo, precipitara o elevador no fundo do fosso, onde dois homens morreram. E todos pensavam nisso, que iam cair lá embaixo, se se amontoassem sobre as pranchas. 

— Maldita cabeçuda! — gritou Chaval. — Pois então morre, ficarei livre de ti!

     Começou a subir as escadas e ela seguiu-o.
     Do fundo à superfície, havia cento e dois lances de escadas, cada um de aproximadamente sete metros, divididos por estreitos patamares da largura do fosso, com buracos quadrados que mal deixavam passar os ombros. Era como uma chaminé chata, de setecentos metros de altura, entre a parede do poço e o tabique do compartimento de extração, uma tripa úmida, negra e sem fim, onde as escadas se sobrepunham, quase a pique, a intervalos regulares. Um homem forte precisava de vinte e cinco minutos para galgar aquela coluna gigante. Aliás, esse fosso das escadas só era usado agora em caso de catástrofe.
     A princípio Catherine subiu sem dificuldade. Seus pés descalços estavam acostumados com as lascas de carvão afiladas das vias e não sofriam com os degraus quadrados, providos de uma cantoneira de ferro para impedir o desgaste. Suas mãos, calejadas pelos vagonetes, agarravam se sem titubear aos corrimões, grossos demais para elas. Ocupava-se com aquilo, esquecia seu desgosto naquela subida imprevista, vendo a serpente humana que coleava, içava-se, três homens por escada, de modo que, quando a cabeça surgisse na superfície, a cauda ainda se arrastaria no fundo do fosso. Mas ainda não estavam nesse ponto, os primeiros deviam ter vencido apenas um terço do caminho. Ninguém falava mais, só os pés se arrastavam com um ruído surdo, enquanto as lanternas, iguais a estrelas errantes, espalhavam-se de alto a baixo, numa linha sempre crescente.
     Catherine ouvia atrás dela um aprendiz contando as escadas. Teve a idéia de fazer o mesmo. Já tinham subido quinze e chegavam a uma embocadura de galeria. Nesse momento chocou-se nas pernas de Chaval. O homem praguejou, dizendo-lhe que prestasse atenção. De vez em quando a coluna parava, imobilizando-se. Que era? Que estava acontecendo? E cada um encontrava voz para perguntar e fazer suposições apavorantes. A angústia aumentava, o desconhecimento dos acontecimentos no exterior era como um garrote que ia apertando à medida que se aproximavam da luz do dia. Alguém disse que teriam de descer, que as escadas estavam quebradas. Essa era a preocupação de todos, o medo de se encontrarem sem saída. Outra explicação veio descendo de boca em boca, o acidente com um britador que escorregara de uma escada. Não se sabia ao certo, os gritos impediam de ouvir. Então iam ficar passando a noite ali? Finalmente, sem outras explicações, a subida recomeçou, com o mesmo movimento lento e penoso, acompanhando o barulho dos pés no ferro dos degraus e a dança das lâmpadas. As escadas quebradas deviam estar mais acima.
     À trigésima segunda escada, quando ultrapassavam a terceira embocadura de galeria, Catherine sentiu que suas pernas e seus braços se enrijeciam. Primeiro sentira um formigueiro na pele, muito leve. Agora, perdia a sensação do ferro e da madeira sob os pés e nas mãos. Uma dor vaga, que se foi tornando aguda, esquentava-lhe os músculos. E, no aturdimento que a invadia, começou a lembrar-se das histórias do avô Boa Morte, do tempo em que não havia elevador e as meninas de dez anos subiam com o carvão nos ombros, ao longo das escadas sem corrimões, de maneira que, quando uma delas escorregava ou simplesmente um pedaço de hulha caía de um cesto, três ou quatro crianças eram precipitadas de cabeça para baixo. As cãibras nos membros estavam ficando insuportáveis, nunca chegaria ao topo.
     Novas paradas permitiram-lhe respirar. Mas o terror que vinha lá de cima acabava de prostrá-la. Acima e abaixo dela, as respirações iam ficando cada vez mais ofegantes, respirava-se uma vertigem nessa ascensão interminável, cuja náusea a sacudia assim como aos outros Sentia-se sufocada, ébria de trevas, exasperada com o esmagamento das paredes contra sua carne. E tiritava devido à umidade, o corpo em suor, porejando gotas enormes que a inundavam. Aproximavam-se do nível, a chuva caía com tanta força que ameaçava apagar as lâmpadas.
     Por duas vezes Chaval falou com Catherine sem obter resposta. Por que não respondia? Tinha engolido a língua? Que custava dizer se estava indo bem? Havia meia hora que subiam, mas tão vagarosamente que se encontravam apenas na quinquagésima nona escada. Restavam quarenta e três. Catherine acabou balbuciando que se ia aguentando. Ele a chamaria de preguiçosa se tivesse confessado seu cansaço. O ferro dos degraus parecia perfurar seus pés, tinha a sensação de que estava sendo serrada até os ossos. Após cada braçada, esperava ver suas mãos largarem o corrimão, esfoladas e endurecidas, a ponto de não poder fechar os dedos. Acreditava que a qualquer momento ia cair para trás com os ombros arrancados, as pernas desconjuntadas pelo contínuo esforço. Era sobretudo a pouca inclinação das escadas que a fazia sofrer, aquela colocação quase a prumo, que a obrigava a içar-se com a força dos braços, a barriga colada à madeira. O resfolegar das respirações cobria agora o barulho dos passos, um enorme estertor, retumbando na parede do fosso, elevava-se do fundo e ia morrer na superfície. Houve um gemido, correu um murmúrio pelas escadas, um aprendiz acabava de quebrar a cabeça na aresta de um patamar. E Catherine subia. Ultrapassaram o nível. A chuva cessara, um nevoeiro tornava pesado o ar subterrâneo, envenenado por um cheiro de ferro velho e madeira úmida. Maquinalmente obstinava-se a contar baixinho: oitenta e um, oitenta e dois, oitenta e três; faltavam dezenove lances. Só estes números, repetidos, a amparavam com seu balanço rítmico. Já perdera a consciência dos seus movimentos. Ao levantar os olhos, as lâmpadas redemoinhavam em espiral. Seu sangue escorria, sentia que estava morrendo, ao menor sopro seria precipitada escadas abaixo. O pior, agora, era que os de baixo estavam empurrando, e a coluna inteira se arremessava com novo ímpeto, cedendo à cólera crescente de sua fadiga, à necessidade furiosa de tornar a ver o sol. Os primeiros da coluna já tinham chegado à superfície, não havia portanto escadas quebradas, mas a ideia de que ainda podiam quebrá-las, para impedir que os últimos saíssem, enquanto os outros respiravam lá em cima, acabou de enfurecê-los. E, como houvesse uma nova parada, as pragas explodiram, todos continuaram a subir, empurrando, passando por cima de corpos, tentando chegar de qualquer maneira.
     Nesse momento Catherine caiu. Chegou a gritar o nome de Chaval, num apelo desesperado, mas ele não ouviu, estava lutando arrebentara as costas de um companheiro a pontapés para passar na sua frente. Ela foi rolada, pisoteada. No seu desmaio, sonhou: era uma das pequenas operadoras de vagonetes de outrora, que um pedaço de carvão, caído de um cesto acima dela, acabava de jogar no fundo do poço, como um pardal atingido por uma pedrada. Faltavam apenas cinco lances de escadas para subir, tinham levado cerca de uma hora. Nunca soube de que maneira chegara ao topo, empurrada pelos outros, talvez graças à estreiteza do fosso. De repente encontrou-se num deslumbramento de sol, no meio de uma multidão ululante que a vaiava.

continua na página 254...
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Quinta Parte - (II.a)Quinta Parte - (II.b) /      
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/III — Efeitos da Primavera

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     III — Efeitos da Primavera

             Certo dia, estando o ar tépido, o Luxemburgo inundado de sombra e sol, o céu puro como se os anjos o vessem lavado pela manhã cedo, os passarinhos soltando os seus costumados gorjeios na espessura dos castanheiros, Mário tinha aberto toda a sua alma à natureza, e, alheado de tudo, vivia e respirava. Nesse dia, passando próximo do célebre banco, a jovem ergueu os olhos para ele e os dois olhares encontraram-se. 
     Que havia desta vez no olhar da jovem? Nem Mário o poderia dizer. Não havia nada e havia tudo. Foi um estranho relâmpago aquele.
     Ela baixou os olhos e ele continuou o seu caminho.
     O que o mancebo acabava de ver não era o simples e ingênuo olhar de uma criança, era uma misteriosa voragem que se tinha entreaberto e repentinamente fechado.
     Há um dia na vida das donzelas em que todas assim olham. Desgraçado então daquele sobre quem esse olhar se fita!
     Esse primeiro olhar de uma alma que ainda se não conhece a si mesma é como a aurora no céu. É o despontar de um mistério esplendoroso. Não há palavras que traduzam o perigoso encanto desse inesperado clarão que se derrama, improvisando luz em trevas adoráveis e que se compõem de toda a inocência do presente e de toda a paixão do futuro. É uma espécie de ternura indecisa que se revela ao acaso e que espera. É um laço que arma sem o saber a inocência e em que sem querer e sem o esperar apanha os corações. É uma virgem com olhar de mulher.
     Raro acontece que no coração daquele sobre quem esse olhar se fita não se desenvolva o gérmen de uma melancolia profunda. Nesse raio de luz fatalmente celeste, que melhor do que os mais estudados olhares da coquete possui o mágico poder de fazer subitamente desabrochar no recôndito de uma alma essa misteriosa flor cheia de olores e venenos, chamada amor, encerram-se todas as purezas e canduras.
     À noite, ao recolher-se ao seu modesto albergue, Mário deitou os olhos à roupa que trazia, e pela primeira vez reparou que tinha a indecência, a inconveniência, a inaudita estupidez de ir passear para o Luxemburgo com o seu trajo «ordinário», quer dizer, com um chapéu amassado, umas botas que pareciam as de um carrejão, umas calças pretas, porém, já todas coçadas nos joelhos, e um casaco preto, também já todo russo nos cotovelos.

continua na página 529...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - III — Efeitos da Primavera
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira