sábado, 23 de maio de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Mistério de Marie Roget (b)

 Edgar Allan Poe - Contos


O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842  


     Depois de identificado, o corpo não foi, como é habitual, transportado para a morgue (tendo-se esta formalidade tornado supérflua), mas enterrado à pressa não muito longe do ponto da margem onde fora encontrado. Graças aos esforços de Beauvais, o caso foi cuidadosamente abafado, tanto quanto foi possível; e assim se passaram alguns dias antes que dele resultasse qualquer emoção pública. Finalmente, no entanto, um hebdomadário pegou no assunto; o cadáver foi exumado e ordenou-se novo inquérito, do qual nada resultou que não tivesse já sido observado. Todavia, as roupas foram então apresentadas à mãe e aos amigos da defunta, que as reconheceram perfeitamente como sendo as que a jovem vestia ao sair de casa.
     Entretanto, a excitação pública crescia de hora para hora. Vários indivíduos fortim presos e novamente postos em liberdade. Saint-Eustache, em particular, pareceu suspeito, e não soube a princípio esclarecer com lucidez os passos que dera no domingo em cuja manhã Marie saíra de casa. Mais tarde, no entanto, apresentou ao senhor G... as provas que explicavam de uma maneira satisfatória o uso que fizera de cada hora do dia em questão. Como o tempo passava sem levar a qualquer descoberta, mil rumores contraditórios foram postos em circulação, e os jornalistas puderam dar rédea às suas inspirações. De entre todas estas hipóteses, uma atraiu particularmente as atenções: a que admitia que Marie Roget estava viva e que o cadáver encontrado no Sena era o de qualquer outra infeliz. Parece-me útil submeter ao leitor algumas das passagens relativas a esta insinuação. Estas passagens são tiradas textualmente do L’Étoile, jornal geralmente dirigido com grande habilidade.

   A menina Roget saiu de casa de sua mãe na manhã de domingo, 22 de junho, com a intenção expressa de ir visitar uma tia, ou qualquer outra parente, residente na Rua Drômes. A partir desse instante, não é possível encontrar alguém que a tenha visto. Dela não há o mais pequeno rasto, a mais pequena notícia...
   Ninguém se apresentou declarando tê-la visto nesse dia, depois de ela ter atravessado o umbral da casa materna...
   Ora, se não temos qualquer prova indicando que Marie Roget era ainda deste mundo a partir das nove horas da manhã de domingo 22 de junho, temos, contudo, a certeza de que até esse momento estava viva. Quarta-feira, ao meio-dia, foi descoberto um corpo de mulher flutuando no rio, perto da barreira do Roule. Mesmo supondo que Marie Roget tenha sido lançada à água três horas após o instante em que saiu de casa da mãe, isto dar-nos-ia três dias decorridos sobre o momento da sua partida — três dias exatos. Mas é absurdo imaginar que o crime, se Marie foi vítima de um crime, possa ter sido consumado com suficiente rapidez para permitir aos assassinos lançar o corpo ao rio antes do meio da noite. Os que perpetram crimes tão horríveis preferem as trevas à luz do dia...
   Assim, vemos que, se o corpo encontrado no rio fosse o de Marie Roget, não poderia ter estado na água mais de dois dias e meio, no máximo três dias. A experiência mostra que os corpos afogados, ou lançados à água imediatamente após uma morte violenta, necessitam de um período que vai de seis a dez dias para que uma decomposição suficiente os faça voltar à superfície. Um cadáver sobre o qual se dispara um tiro de canhão, e que se eleva antes que a imersão tenha durado pelo menos cinco ou seis dias, volta a mergulhar se abandonado a si mesmo. Perguntamos agora: que terá podido, no caso presente, alterar o curso habitual da natureza?...
   Se o corpo, em estado de decomposição, tivesse sido conservado na margem até à noite de terça-feira, encontrar-se-iam nessa mesma margem alguns vestígios dos assassinos. É também muito duvidoso que o corpo tenha podido voltar tão depressa à superfície, mesmo admitindo que tenha sido lançado à água dois dias após a sua morte. Por fim, é excessivamente improvável que os malfeitores, depois de terem cometido um crime tal como o que se lhes atribui, lançassem o corpo à água sem um peso para o lastrar, quando seria tão fácil tomar essa precaução.

     O redator do jornal esforça-se em seguida por demonstrar que o corpo deve ter ficado na água não apenas três dias, mas pelo menos cinco vezes três dias, uma vez que estava de tal modo decomposto que Beauvais teve dificuldade em reconhecê-lo. Este último ponto, todavia, era completamente falso. Continuo a citação:

   Quais são pois os factos em que o senhor Beauvais se apoia para dizer que não duvida de que o corpo seja o de Marie Roget? Rasgou a manga do vestido e encontrou, segundo diz, marcas que provam a identidade. O público supôs de um modo geral que tais marcas deviam consistir numa espécie de cicatriz. O senhor Beauvais passou a mão pelo braço, e encontrou pelos — facto que nos parece menos estranho que se possa imaginar, e que é tão pouco concludente como encontrar um braço dentro de uma manga. O senhor Beauvais não voltou a casa nessa noite, mas mandou recado à senhora Roget, às sete da tarde de quarta-feira, para lhe dizer que o inquérito respeitante à filha seguia o seu curso. Mesmo admitindo que a senhora Roget, devido à idade e à dor, estava incapaz de dirigir-se ao local (o que, na verdade, é conceder demasiado) alguém teria decerto considerado útil ir até lá e seguir a investigação, se na verdade se pensasse tratar-se realmente do corpo de Marie. Mas ninguém foi. Nada se disse nem nada se ouviu dizer a respeito do assunto na Rua Pavée-Saint-André, que tivesse chegado aos ouvidos dos locatários da casa. O senhor Saint-Eustache, o apaixonado e o futuro marido de Marie, alojado em casa da mãe da jovem, afirma só ter ouvido falar da descoberta do corpo da sua noiva na manhã seguinte, quando o próprio senhor Beauvais entrou no seu quarto para lhe comunicar. Que uma notícia tão importante como esta tenha sido recebida tão tranquilamente, é coisa que nos assombra.

     O jornal esforça-se assim por sugerir uma certa apatia entre os parentes e amigos de Marie, apatia que seria absurda supondo que esses mesmos parentes e amigos julgassem verdadeiramente que o corpo encontrado era o da jovem. O L’Étoile procura, em suma, insinuar que Marie, com a conivência dos amigos, se ausentou da cidade por razões relacionadas com a sua virtude, e que esses mesmos amigos, tendo encontrado no Sena um corpo semelhante ao da jovem, haviam aproveitado a ocasião para espalhar a notícia da sua morte. Mas o L’Étoile precipitou-se. Provou-se claramente que a alegada apatia de modo algum correspondia à verdade. A velha senhora estava excessivamente fraca, e tão agitada, que lhe seria impossível ocupar-se fosse do que fosse; Saint Eustache, longe de receber a notícia com frieza, ficou louco de dor e deu tais mostras de desespero que o senhor Beauvais julgou aconselhável encarregar um dos seus amigos e parentes de vigiá-lo e impedi-lo de assistir ao exame que se seguiria à exumação. Além disso, ainda que o L’Étoile afirme que o corpo foi reenterrado a expensas do Estado, que uma vantajosa oferta de sepultura particular foi absolutamente recusada pela família, e que nenhum membro da família assistiu à cerimónia; ainda que o L’Étoile, dizia eu, afirme tudo isso, a fim de corroborar a impressão que deseja causar, todas estas afirmações foram vitoriosamente refutadas. Num dos números seguintes do mesmo jornal, faz-se um esforço para lançar as suspeitas sobre o próprio Beauvais. O redator diz o seguinte:

   Acaba de verificar-se uma alteração no caso. Contam-nos que em certa ocasião, quando uma tal senhora B. estava em casa da senhora Roget, o senhor Beauvais, que saía, disse-lhe que havia de aparecer ali um polícia, recomendando-lhe que nada lhe dissesse até que ele estivesse de volta, e que lhe deixasse o encargo de resolver o assunto...
   Na presente situação, parece que o senhor Beauvais tem todo o segredo do assunto fechado na cabeça. É impossível avançar um passo sem o senhor Beauvais. Para onde quer que nos voltemos, é ele que se nos depara...
   Por uma razão qualquer, decidiu que ninguém, exceto ele, poderia ocupar-se do inquérito e, a dar crédito às recriminações dos parentes, pô-los de parte de um modo bastante estranho. Pareceu muito obstinado com a ideia de impedir os parentes de ver o cadáver.

     O fato que se segue terá emprestado alguma verossimilhança às suspeitas lançadas sobre Beauvais. Alguém que o fora visitar no seu escritório, alguns dias antes do desaparecimento da jovem e durante uma ausência do mesmo Beauvais, observara uma rosa espetada no orifício da fechadura e a palavra Marie escrita numa ardósia colocada ao alcance da mão.
     A impressão geral, pelo menos tanto quanto nos foi possível deduzir dos jornais, era a de que Marie fora vítima de um bando de miseráveis furiosos, que a transportara para a margem, tendo-a aí maltratado e assassinado. No entanto, um jornal de vasta projeção, o Commercial, combatia vivamente esta ideia popular. Extraio uma ou duas passagens das suas colunas:

   Estamos convencidos de que a investigação seguiu até agora uma falsa pista, pelo menos na medida em que foi dirigida para a barreira do Roule. É impossível que uma jovem, conhecida, como era o caso de Marie, de vários milhares de pessoas, tenha podido percorrer um extenso trajeto sem encontrar alguém a quem o seu rosto fosse familiar. E quem a tivesse visto ter-se-ia recordado, pois Marie inspirava simpatia a todos os que a conheciam. Saiu de casa numa altura em que as ruas estão sempre cheias de gente...
   É impossível que tenha chegado até à barreira do Roule ou até à Rua Drômes sem ter sido reconhecida por uma dúzia de pessoas. Nenhum depoimento afirma, todavia, que alguém a tenha visto senão à porta de casa da mãe, e não há sequer provas de que tenha realmente chegado a sair, excetuando o testemunho referente à intenção manifestada por ela. Um pedaço do seu vestido foi rasgado, apertado em torno do corpo e preso com um nó: o corpo pode ter sido assim transportado, como um fardo. Se o crime tivesse sido cometido na barreira do Roule, não teria sido necessário tomar tais disposições. O facto de o corpo ter sido encontrado a flutuar perto da barreira não constitui prova quanto ao local onde foi lançado à água...
   Um pedaço de uma das saias da infeliz jovem, com sessenta centímetros de comprimento e trinta de largura, tinha sido arrancado, amarrado em torno do pescoço e preso atrás com um nó, provavelmente para a impedir de gritar. Isto foi feito por indivíduos que nem sequer tinham um lenço de bolso.

     Um ou dois dias antes de o prefeito nos visitar, a Polícia obtivera uma informação bastante importante que parecia destruir a argumentação do Commercial, pelo menos na sua parte principal. Dois garotos, filhos de um tal senhor Deluc, vagabundeando pelos bosques, perto da barreira do Roule, tinham se embrenhado por acaso num denso grupo de moitas, onde se encontravam três ou quatro grandes pedras formando uma espécie de cadeira, com costas e assento. Sobre a pedra superior jazia uma saia branca; na segunda havia um xale de seda. Foi ainda encontrada uma sombrinha, luvas e um lenço de bolso. O lenço ostentava o nome « Marie Roget» . Nos espinhos das moitas circundantes encontraram-se pedaços de roupas. O solo estava espezinhado, havia ramos quebrados; verificavam-se todos os sinais de uma luta. Entre as moitas e o rio, verificou-se que os arbustos tinham sido partidos e que a terra conservava o rastro de um pesado fardo que fora arrastado.
     Um hebdomadário, Le Soleil, fazia sobre estas descobertas os seguintes comentários, que não passavam do eco dos sentimentos de toda a imprensa parisiense:

   Os objetos estiveram no local, segundo toda a evidência, durante pelo menos três ou quatro semanas; estavam completamente estragados pela ação da chuva, e colados uns aos outros pela humidade. Em redor, a erva havia crescido, chegando até a cobri-los parcialmente. A seda da sombrinha era sólida, mas as varetas estavam fechadas, e a parte superior, onde o tecido era reforçado, roída e apodrecida pela humidade, rasgou-se logo que foi aberta (...) Os fragmentos de tecido presos aos arbustos tinham cerca de oito centímetros de largura por dezasseis de comprimento. Um deles era um pedaço da bainha do vestido, que tinha sido remendada, outro um pedaço da saia, mas não da bainha. Davam a impressão de tiras arrancadas e estavam suspensas de moitas espinhosas, a cerca de trinta centímetros do solo (...) Não é pois impossível duvidar de que foi finalmente descoberto o teatro do abominável crime.

     Imediatamente após esta descoberta, apareceu um novo testemunho. A senhora Deluc contou que tinha um albergue à beira da estrada, não longe da margem do rio oposta à barreira do Roule. Os arredores são solitários... muito solitários. É ali, ao domingo, o ponto de encontro habitual dos elementos suspeitos da cidade, que atravessam o rio em canoa. Por volta das três horas, na tarde do domingo em questão, uma jovem havia chegado ao albergue, acompanhada por um homem moreno. Tinham lá ficado ambos durante algum tempo. Depois de saírem, dirigiram-se aos densos bosques das imediações. A atenção da senhora Deluc fora despertada pela indumentária da jovem, devido à sua semelhança com a de uma das suas parentes já falecida, principalmente o xale. Logo após a partida do casal, apareceu um bando de desavergonhados, que fizeram uma balbúrdia indescritível, comeram, beberam e saíram sem pagar, seguindo o mesmo caminho que o homem e a jovem, e regressaram ao albergue ao fim da tarde, passando o rio a toda a pressa.

continua na página61...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 62 - O arremesso

Moby Dick

Herman Melville

62 - O arremesso
     Uma palavra sobre um incidente do capítulo anterior.
     Segundo o invariável costume da pesca, o bote baleeiro se afasta do navio com o oficial, ou matador de baleias, como timoneiro temporário, e o arpoador, ou caçador de baleias, movendo o remo-guia, conhecido como remo do arpoador. É necessário ter um braço vigoroso e forte para cravar o primeiro ferro no peixe; pois, amiúde, quando se trata do chamado arremesso comprido, o pesado apetrecho tem de ser lançado a uma distância de vinte ou trinta pés. Por mais longa e exaustiva que seja a caçada, espera-se do arpoador que empenhe força máxima em seu remo; de fato, espera-se que dê aos outros o exemplo de uma atividade sobre-humana, não apenas por um extraordinário remar, como também ao proferir repetidamente altas e intrépidas exclamações; e o que significa gritar a plenos pulmões, quando todos os músculos estão exaustos e alquebrados – isso ninguém pode saber, senão por experiência. Quanto a mim, não consigo gritar com muito entusiasmo e trabalhar com muita determinação ao mesmo tempo. Nesse estado de cansaço e de gritaria, de costas para o peixe, de repente o arpoador exaurido escuta um agitado comando:

– “Levante-se! Ao ataque!”. 

     Ele então tem de soltar e prender o remo, dar meia-volta, pegar seu arpão da forquilha e, com o pouco de força que ainda lhe resta, tentar de algum modo acertá-lo na baleia. Não admira, pois, considerando-se as frotas de baleeiros em conjunto, que de cinquenta oportunidades para um arremesso nem cinco delas tenham êxito; não admira que tantos e infelizes arpoadores sejam furiosamente amaldiçoados e desqualificados; não admira que alguns deles estourem seus vasos sanguíneos no bote; não admira que alguns caçadores de Cachalotes fiquem por quatro anos ausentes para apenas quatro barris de óleo; não admira que para muitos proprietários de navios baleeiros a pesca de baleias signifique prejuízo; pois é o arpoador que faz a viagem, e se lhe tiram o fôlego, como pode se esperar que ele o recupere no momento mais necessário?! 
     Ainda assim, se o arremesso é bem-sucedido, há um segundo momento crítico, ou seja, quando a baleia começa a correr, e o líder do bote e o arpoador também começam a correr, da proa para a popa, com perigos iminentes para si e para os demais. É nesse momento que trocam de lugares; e o líder, o oficial principal da pequena embarcação, toma sua posição na proa do bote.
     Ora, não me importa quem pense o contrário, mas tudo isso é estúpido e desnecessário. O oficial deveria ficar na proa do começo ao fim, deveria arremessar o arpão e a lança, e não deveria remar, por mais que o esperassem, a não ser em circunstâncias óbvias para qualquer pescador. Sei que isso por vezes envolveria uma pequena perda de velocidade na caça; mas a longa experiência de vários baleeiros de mais de um país me convenceu de que a grande maioria dos fracassos na pesca não foi de modo algum causada pela velocidade da baleia, mas pela anteriormente descrita exaustão do arpoador.
     Para garantir uma maior eficiência no arremesso, os arpoadores deste mundo deveriam se levantar saídos do descanso, não da fadiga.

Continua na página 279...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

sexta-feira, 22 de maio de 2026

MPB: Paralelas

Belchior

- Paralelas (1978)

"Paralelas é uma canção de Belchior, lançada em 1977 no álbum "Coração Selvagem", e aborda temas de amor e a passagem do tempo. Ela soa muito atual, pois revela a alienação humana moderna e a nossa expectativa contábil em relação a vida, o conflito do sucesso material e o vazio existencial, utilizando de metáforas alegóricas como: “As paralelas dos pneus na água das ruas” - marcas dos pneus podem ser dois amantes que caminham lado a lado mas nunca se encontram, que fogem do que é seu."

Teu infinito sou eu!






Dentro do carro, sobre o trevo a cem por hora
oh! Meu amor
Só tens agora os carinhos do motor

E no escritório em que eu trabalho e fico rico
Quanto mais eu multiplico diminui o meu amor

Em cada luz de mercúrio, vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos, nem te lembras de voltar
De voltar, de voltar

No Corcovado
Quem abre os braços sou eu!
Copacabana, esta semana, o mar sou eu!
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão

E as paralelas dos pneus n'água das ruas
São duas estradas nuas em que foges do que é teu
No apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito
Grito quando o carro passa
teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu

No corcovado quem abre os braços sou eu
Copacabana esta semana o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel e o que é paixão

Compositor: Antonio Carlos Belchior (Belchior)



Pondé analisa a música "Paralelas", de Belchior: "É um pressuposto romântico"





Você tem uma expectativa contábil diante da vida?


Quando O Amor Acontece / Aos Nossos Filhos / Só Hoje / Mal Secreto / Paralelas /          

Espumas Flutuantes - As duas ilhas

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

AS DUAS ILHAS
 Sobre uma página da poesia de Victor Hugo, 
 com o mesmo título

Quando à noite — às horas mortas — 
 O silêncio e a solidão
— Sob o dossel do infinito — 
 Dormem do mar n’amplidão, 
 Vê-se, por cima dos mares, 
 Rasgando o teto dos ares 
 Dous gigantescos perfis... 
 Olhando por sobre as vagas, 
 Atentos, longínquas plagas 
 Ao clarear dos fuzis.

Quem os vê, olha espantado 
 E a sós murmura: “O que é? 
 Ai! que atalaias gigantes, 
 São essas além de pé?...” 
 Adamastor de granito 
 Co’a testa roça o infinito 
 E a barba molha no mar; 
 E de pedra a cabeleira 
 Sacudind’a onda ligeira 
 Faz de medo recuar...

São — dous marcos miliários, 
 Que Deus nas ondas plantou. 
 Dous rochedos, onde o mundo 
 Dous Prometeus amarrou!... 
 — Acolá... (Não tenhas medo!...) 
 É Santa Helena — o rochedo 
 Desse Titã, que foi rei!... 
 — Ali... (Não feches os olhos!...) 
 Ali... aqueles abrolhos 
 São a ilha de Jersey!... 

São eles — os dous gigantes 
 No século de pigmeus. 
 São eles — que a majestade 
 Arrancam da mão de Deus. 
 — Este concentra na fronte 
 Mais astros — que o horizonte, 
 Mais luz — do que o sol lançou!... 
 — Aquele — na destra alçada 
 Traz segura sua espada 
 — Cometa, que ao céu roubou!... 

E olham os velhos rochedos 
 O Sena, que dorme além... 
 E a França, que entre a caligem 
 Dorme em sudário também... 
 E o mar pergunta espantado: 
 “Foi deveras desterrado 
 Buonaparte — meu irmão?...”
Diz o céu astros chorando: 
 “E Hugo?...” E o mundo pasmando 
 Diz: “Hugo... Napoleão!...” 

Como vasta reticência 
 Se estende o silêncio após... 
 És muito pequena, ó França, 
 Pra conter estes heróis... 
 Sim! que estes vultos augustos 
 Para o leito de Procustos 
 Muito grandes Deus traçou... 
 Basta os reis tremam de medo 
 Se a sombra de algum rochedo 
 Sobre eles se projetou!... 

Dizem que, quando, alta noite, 
 Dorme a terra — e vela Deus, 
 As duas ilhas conversam 
 Sem temor perante os céus. 
 — Jersey curva sobre os mares 
 À Santa Helena os pensares 
 Segreda do velho Hugo... 
 — E Santa Helena no entanto 
 No Salgueiro enxuga o pranto 
 E conta o que Ele falou... 

E olhando o presente infame 
 Clamam: “Da turba vulgar 
 Nós — infinitos de pedra — 
 Nós havemo-los vingar!...” 
 E do mar sobre as escumas, 
 E do céu por sobre as brumas, 
 Um ao outro dando a mão... 
 Encaram a imensidade 
 Bradando: “A Posteridade!...” 
 Deus ri-se e diz: “Inda não!... 
Recife, 1865. 


AO AUTOR JOAQUIM AUGUSTO

Um dia Pigmalião — o estatuário 
 Da oficina no tosco santuário 
 Pôs-se a pedra a talhar... 
 Surgem contornos lânguidos, amenos... 
 E dos flocos de mármore outra Vênus 
 Surge dest’outro mar.  

De orgulho o mestre ri... A estátua é bela! 
 Da Grécia as filhas por inveja dela 
 Vão nas grutas gemer... 
 Mas o artista soluça: “Ó Grande Jove! “
Ela é bela... bem sei — mas não se move! 
 “É sombra — e não mulher!”

Então do excelso Olimpo o deus-tonante 
 Manda que desça um raio fulgurante 
 À tenda do escultor. 
 Vive a estátua! Nos olhos — treme o pejo, 
 Vive a estátua!... Na boca — treme um beijo, 
 Nos seios — treme amor. 

O poeta é — o moderno estatuário 
 Que na vigília cria solitário 
 Visões de seio nu! 
 O mármore da Grécia — é o novo drama! 
 Mas o raio vital quem lá derrama?... 
 É Júpiter!... És tu!... 

Como Gluck nas selvas aprendia 
 Ao som do violoncelo a melodia 
 Da santa inspiração, 
 Assim bebes atento a voz obscura 
 Do vento das paixões na selva escura 
 Chamada — multidão.

Gargalhadas, suspiros, beijos, gritos, 
 Cantos de amor, blasfêmias de precitos, 
 Choro ou reza infantil, 
 Tudo colhes... e voltas co’as mãos cheias, 
 — O crânio largo a transbordar de ideias 
 E de criações mil. 

Então começa a luta, a luta enorme. 
 Desta matéria tosca, áspera, informe, 
 Que na praça apanhou, 
 Teu gênio vai forjar novo tesouro... 
 O cobre escuro vai mudar-se em ouro, 
 Como Fausto o sonhou! 

Glória ao mestre! Passando por seus dedos 
 Dói mais a dor... os risos são mais ledos... 
 O amor é mais do céu... 
 Rebenta o ouro desta fronte acesa! 
 O artista corrigiu a natureza! 
 O alquimista venceu!  

Então surges, Ator! e do proscênio 
 Atiras as moedas do teu gênio 
 Às pasmas multidões. 
 Pródigo enorme! a tua enorme esmola 
 Cunhada pela efígie tua rola 
 Nos nossos corações. 

Por isso agora, no teu almo dia, 
 Vieram dando as mãos à Poesia 
 E o povo, bem o vês; 
 Como nos tempos dessa Roma antiga 
 Aos pés desse outro Augusto a plebe amiga 
 Atirava lauréis...

Augusto! E o nome teu não se desmente... 
 O diadema real na vasta frente 
 Cinges... eu bem o sei! 
 Mandas no povo deste novo Lácio... 
 E os poetas repetem como Horácio: 
 “Salve! Augusto! Rei!” 
 São Paulo, outubro de 1868 

continua pag 63...
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A Luís / As duas ilhas /                      
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
 


     VIMOS que o casamento¹ tem como correlativo imediato a prostituição. "O hetairismo, diz Morgan, acompanha a humanidade até em sua civilização como uma sombra projetada sobre a família." Por prudência, o homem obriga a esposa à castidade, mas não se satisfaz com o regime que lhe impõe.

[1] Vol. I, 2ª. parte.

   Os reis da Pérsia, conta Montaigne, que lhes aprova a sabedoria, convidavam suas mulheres para lhes fazerem companhia em seus festins; mas, quando o vinho principiava a esquentá-los de verdade e lhes era preciso dar rédeas à volúpia, mandavam-nas de volta a seus lares para que não participassem de seus imoderados apetites e ordenavam que em seu lugar viessem mulheres que não tivessem a obrigação de respeitar.

     É preciso que haja esgotos para assegurar a salubridade dos palácios, diziam os Padres da Igreja. E Mandeville, em uma obra que teve repercussão: "É evidente que existe uma necessidade de sacrificar uma parte das mulheres para conservar a outra e evitar uma sujeira de natureza mais repugnante". Um dos argumentos dos escravocratas norte-americanos em favor da escravidão era que, estando os brancos do Sul desobrigados das tarefas servis, podiam manter entre si as relações mais democráticas, mais requintadas; do mesmo modo, a existência de uma casta de "mulheres perdidas" permite tratar as "mulheres honestas" com o mais cavalheiresco respeito. A prostituta é o bode expiatório; o homem liberta-se nela de sua turpitude e a renega. Quer um estatuto legal a coloque sob a fiscalização policial, quer trabalhe na clandestinidade, é ela sempre tratada como pária.
     Do ponto de vista econômico, sua situação é simétrica à da mulher casada. "Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelo casamento, a única diferença consiste no preço e na duração do contrato", diz Marro (La Puberté). Para ambas, o ato sexual é um serviço; a segunda é contratada pela vida inteira por um só homem; a primeira tem vários clientes que lhe pagam tanto por vez. Aquela é protegida por um homem contra os outros, esta é defendida por todos contra a tirania exclusiva de cada um. Em todo caso, os benefícios que tiram de seu corpo são limitados pela concorrência; o marido sabe que poderia ter tido outra esposa: o cumprimento dos "deveres conjugais" não é uma graça, é a execução de um contrato. Na prostituição, o desejo masculino, sendo específico e não singular, pode satisfazer-se com qualquer corpo. Esposa ou hetaira só conseguem explorar o homem se assumem uma ascendência singular sobre ele. A grande diferença existente entre elas está em que a mulher legítima, oprimida enquanto mulher casada, é respeitada como pessoa humana; esse respeito começa a pôr seriamente em xeque a opressão. Ao passo que a prostituta não tem os direitos de uma pessoa; nela se resumem, ao mesmo tempo, todas as figuras da escravidão feminina.
     É ingênuo perguntar que motivos levam a mulher à prostituição; não se acredita mais hoje na teoria de Lombroso, que assimilava as prostitutas aos criminosos e via em ambos degenerados; é possível, como afirmam as estatísticas, que de uma maneira geral o nível mental das prostitutas esteja um pouco abaixo da média e que algumas sejam francamente débeis mentais: as mulheres cujas faculdades mentais são retardadas escolhem amiúde um ofício que não exija delas nenhuma especialização; mas em sua maioria elas são normais, algumas muito inteligentes. Nenhuma fatalidade hereditária, nenhuma tara fisiológica pesa sobre elas. Na verdade, em um mundo atormentado pela miséria e pela falta de trabalho, desde que se ofereça uma profissão, há quem a siga; enquanto houver polícia e prostituição, haverá policiais e prostitutas. Tanto mais quanto tais profissões rendem muito mais do que outras. É muita hipocrisia espantar-se com as ofertas que suscita a procura masculina; trata-se de um processo econômico rudimentar e universal. "De todas as causas da prostituição, escrevia em 1857 Parent-Duchâtelet durante um inquérito, nenhuma é mais ativa do que a falta de trabalho e a miséria, consequência inevitável dos salários insuficientes." Os moralistas bem pensantes respondem, escarnecendo, que as histórias comoventes das prostitutas são romances para uso do cliente ingênuo. Com efeito, em muitos casos, a prostituta teria podido ganhar a vida de outro modo: mas, se o que escolheu não lhe parece o pior, não é prova de que tenha o vício no sangue; isso antes condena uma sociedade em que tal pro fissão é ainda uma das que parecem menos rebarbativas a muitas mulheres. Perguntam: Por que a escolheu ela? A pergunta deveria ser antes: Por que não a teria escolhido? Observou-se, entre outras coisas, que boa parte das prostitutas se recrutava entre as domésticas; foi o que estabeleceu Parent-Duchâtelet para todos os países, o que Lily Braun notava na Alemanha e Rickère na Bélgica. 50% mais ou menos das prostitutas foram primeiramente criadas. Um olhar nos "quartos de criadas" basta para explicar o fato. Explorada, escravizada, tratada como objeto mais do que como pessoa, a arrumadeira, a criada de quarto, não espera nenhuma melhoria da sorte no futuro; por vezes, é-lhe necessário suportar os caprichos do dono da casa: da escravidão doméstica, dos amores ancilares, ela desliza para uma escravidão que não pode ser mais degradante e que ela imagina mais feliz. Demais, as empregadas domésticas são o mais das vezes desarraigadas: calcula-se que 80% das prostitutas parisienses vêm da província ou do campo. A proximidade da família, a preocupação com a reputação impediriam a mulher de abraçar uma profissão geralmente desconsiderada; mas, perdida na cidade grande, não estando mais integrada na sociedade, a ideia abstrata de moralidade não lhe opõe nenhum obstáculo. Assim como a burguesia cerca o ato sexual — e principalmente a virgindade — de tabus temíveis, em muitos meios camponeses e operários isso tudo se afigura indiferente. Muitos inquéritos concordam a esse respeito: há muitas mulheres que se deixam deflorar pelo primeiro que aparece e que acharão em seguida natural entregar-se ao primeiro que surgir. Em um inquérito realizado com cem prostitutas, o Dr. Bizard salientou os fatos seguintes: uma fora deflorada aos 11 anos, duas aos 12, duas aos 13, seis aos 14, sete aos 15, vinte e uma aos 16, dezenove aos 17, dezessete aos 18, seis aos 19; as outras depois dos 21 anos. Havia portanto 5% que tinham sido violentadas antes de formadas. Mais de metade dizia ter-se entregue por amor; as outras tinham consentido por ignorância. O primeiro sedutor é muitas vezes jovem. É frequentemente um camarada de oficina, um colega de escritório, um amigo de infância; vêm a seguir os militares, os contramestres, os criados, os estudantes; a lista do Dr. Bizard comportava, ademais, dois advogados, um arquiteto, um médico, um farmacêutico. É bastante raro que seja, como quer a lenda, o próprio patrão quem desempenhe esse papel de iniciador: mas é o filho dele, muitas vezes, ou o sobrinho, ou um amigo. Commenge, em seu estudo, assinala também quarenta e cinco jovens de 12 a 17 anos, que teriam sido defloradas por desconhecidos que nunca mais teriam visto; tinham consentido com indiferença, sem experimentar nenhum prazer. Entre outros casos, o Dr. Bizard assinala mais precisamente os seguintes:

       Mlle G., de Bordéus, voltando do convento aos 18 anos, deixa-se arrastar, sem pensar nas consequências, para um carro de saltimbancos, onde é deflorada por um cigano desconhecido.
   Uma menina de 13 anos entrega-se sem refletir a um senhor que encontrou na rua e que nunca mais verá.
   M. . . conta-nos textualmente que foi deflorada aos 17 anos por um rapaz que não conhecia.. . deixou-o fazer por completa ignorância. 
   R. . . deflorada com 17 anos e 1/2 por um homem que nunca vira e que, por acaso, encontrara no consultório de um médico da vizinhança, que fora chamar para a irmã doente, um homem que a ia conduzir de automóvel para que chegasse mais depressa e, na realidade, a largara em plena rua. 
   B. . . deflorada com 15 anos e 1/2, "sem pensar no que fazia", diz textualmente nossa cliente, por um jovem que nunca tornou a ver; nove meses depois, deu à luz um filho com boa saúde. 
   S... deflorada aos 14 anos por um rapaz que a levou para casa a pretexto de lhe apresentar a irmã. O rapaz na realidade não tinha irmã, mas tinha sífilis e contaminou a menina. 
   R. . . deflorada aos 18 anos, numa antiga trincheira da frente, por um primo casado e com quem visitava os campos de batalha. Pô-la grávida, o que a obrigou a abandonar a família. 
   C. . . deflorada aos 17 anos, na praia, numa noite de verão, por um jovem que acabara de conhecer no hotel, a cem metros das duas mães que falam de frivolidades. Contaminada por blenorragia. 
   L... deflorada com 13 anos, pelo tio, ouvindo rádio, enquanto a tia, que gostava de dormir cedo, repousava tranquilamente no quarto ao lado.

     Essas jovens, que cederam passivamente, nem por isso deixaram de sofrer o traumatismo do defloramento; desejaríamos saber que influência psicológica teve essa experiência brutal no futuro delas; mas não se psicanalisam prostitutas: são inábeis na descrição de si mesmas e escondem-se atrás de lugares-comuns. Em algumas, a facilidade de se entregar a qualquer um explica-se pela existência de fantasmas de prostituição de que falamos: por rancor familiar, horror à sexualidade nascente, desejo de desempenhar o papel de adulto; há moças que imitam as prostitutas: pintam-se exageradamente, recebem rapazes, mostram-se coquetes e provocantes; ainda infantis, assexuadas, frias, acre ditam poder brincar com o fogo impunemente; um dia um homem as toma a sério e elas passam dos sonhos aos atos.
     "Quando uma porta foi arrombada, é difícil depois mantê-la fechada", dizia uma jovem prostituta de 14 anos². Entretanto a moça raramente se decide a "fazer o trottoir" logo depois do defloramento. Em certos casos, continua apegada ao primeiro amante e a viver com ele; arranja um ofício "honesto"; quando o amante a abandona, outro a consola; como não pertence a um homem só, acha que pode dar-se a todos; por vezes é o amante — o primeiro ou o segundo — que sugere esse meio de ganhar dinheiro. Há também muitas moças que são prostituídas pelos pais: em certas famílias — como na célebre família norte--americana dos Juke — todas as mulheres são destinadas a essa profissão. Entre as jovens vagabundas, numerosas meninas abandonadas pelos seus começam pela mendicância e deslizam para a prostituição. Em 1857, Parent-Duchâtelet verificara que, em 5.000 prostitutas, 1.441 tinham sido influenciadas pela pobreza, 1.425 seduzidas e abandonadas, 1.255 abandonadas e deixadas sem recursos pelos pais. Os inquéritos modernos sugerem mais ou menos as mesmas conclusões. A doença leva muitas vezes à prostituição a mulher incapacitada para um trabalho verdadeiro, ou que perdeu seu lugar; ela destrói o equilíbrio precário do orçamento, obriga a mulher a inventar apressadamente novos recursos. De igual modo, o nascimento de um filho. Mais de metade das mulheres de Saint-Lazare tiveram um filho pelo menos; muitas criaram de três a seis; o Dr. Bizard refere-se a uma que deu à luz quatorze, oito dos quais viviam ainda quando êle a conheceu. Poucas há, diz ele, que abandonam o filho; e acontece ser para alimentá-lo que se fazem prostitutas. Ele cita este caso entre outros:

[2] Citado por Marro, La Puberté.

   Deflorada na província, com a idade de 19 anos, por um patrão de 60 quando ainda vivia com a família, foi obrigada, estando grávida, a abandonar os seus para dar à luz uma menina com boa saúde e que educou muito corretamente. Depois do parto veio para Paris, onde trabalhou como ama, tendo começado a prostituir-se aos 29 anos. Prostitui-se, portanto, há 33 anos. Sem mais forças nem coragem, pede agora para ser hospitalizada em Saint-Lazare.

continua página 328...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (1)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"