Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
O Sr. Hennebeau fora à janela do seu gabinete para ver a partida da
caleça que levava sua mulher para almoçar em Marchiennes. Por um
instante, seu olhar seguira Négrel, que trotava ao lado da portinhola, depois
foi sentar-se tranquilamente à sua mesa. A casa parecia vazia sem a
presença buliçosa da mulher e do sobrinho. Justamente naquele dia era o
cocheiro quem guiava a carruagem; Rose, a nova camareira, estava de
licença até as cinco horas; só Hippolyte, o camareiro, permanecera,
locomovendo-se à vontade pelas peças, e, naturalmente, a cozinheira,
ocupada desde o amanhecer com suas panelas, toda entregue ao jantar que
seus patrões dariam à noite. De modo que o Sr. Hennebeau planejara um dia
de ande trabalho, na calma imensa da casa deserta.
Lá pelas nove horas, Hippolyte, ainda que tivesse recebido ordem
para não deixar ninguém entrar, tomou a liberdade de anunciar Dansaert
que trazia notícias. Foi só então que o diretor soube da reunião da véspera,
na floresta. E os detalhes eram a tal ponto pormenorizados que ele os
escutou pensando nos amores do capataz com a mulher de Pierron, tão
conhecidos, que duas ou três cartas anônimas por semana denunciavam os
desregramentos do seu empregado: evidentemente o marido falara, aquela
delação cheirava a travesseiro. Aproveitou a ocasião, deu a entender que
sabia de tudo, mas apenas recomendou um pouco de prudência, para evitar
escândalo. Assustado com aquelas acusações durante seu relatório,
Dansaert negou, gaguejando desculpas, enquanto seu narigão confessava o
crime, subitamente rubro. Mas não quis insistir, contente de se ver
desculpado com tanta bonomia, porque, de ordinário, o diretor mostrava-se
de uma severidade implacável de homem puro, quando algum empregado
resolvia regalar-se com alguma moça bonita durante o trabalho. A conversa
continuou sobre a greve; essa reunião da floresta não passava ainda de uma
fanfarronada de baderneiros, não havia uma ameaça séria. Em todo o caso,
certamente os conjuntos habitacionais mineiros não se mexeriam nos
próximos dias, graças à impressão de medo e respeito que lhes fora
inculcada pelo desfile militar da manhã.
Quando o capataz partiu, o Sr. Hennebeau esteve a ponto de enviar
um telegrama ao prefeito. Apenas o receio de dar provas de nervosismo o
reteve. Já não se perdoava sua falta de faro, que o levara a dizer aos quatro
ventos, e mesmo escrever à administração, que a greve não duraria mais do
que uma quinzena. Para sua grande surpresa, ela se arrastava havia dois
meses. Desesperava-se com isso, sentia-se humilhado, comprometido,
forçado a imaginar algo brilhante, se queria voltar às boas graças dos
administradores. Acabava de pedir-lhes instruções na eventualidade de
alguma desordem. A resposta não vinha, esperava-a pelo correio da tarde. E
perguntava-se se ainda estaria em tempo de enviar telegramas, pedindo a
ocupação militar das minas, se essa fosse a opinião de Paris. Segundo ele,
isso resultaria numa batalha, com sangue e mortos. Semelhante
responsabilidade perturbava-o, apesar de sua habitual energia.
Até as onze horas trabalhou sem ser incomodado, sem outro ruído
na casa morta que o da escova de encerar que Hippolyte manejava, muito
ao longe, numa peça do primeiro andar. Depois uma após a outra, recebeu
duas mensagens, a primeira anunciando a invasão da Jean-Bart pelos
grevistas de Montsou, a segunda falando dos cabos cortados, das fornalhas
apagadas, de todos os estragos. Não podia compreender. Que tinham ido
fazer os grevistas na concessão de Deneulin, em vez de atacarem uma mina
da companhia? Aliás, que arrasassem Vandame à vontade, isso não fazia
mais que ajudar o plano de conquista que tramava. Ao meio-dia almoçou
sozinho na vasta sala, servido em silêncio pelo criado, do qual nem mesmo
os passos ouvia. Esta solidão tornava ainda mais sombrias as suas
preocupações. Sentiu o sangue gelando nas veias quando um contramestre,
que viera correndo, foi introduzido e lhe contou a marcha do bando sobre a
Mirou. Quase em seguida, quando acabava de tomar café, um telegrama lhe
informou que a Madeleine e a Crèvecoeur também estavam ameaçadas.
Desse momento em diante sentiu-se extremamente perplexo. Esperava o
correio às duas horas: devia pedir tropas imediatamente? ou seria melhor
esperar, para não agir antes de ter conhecimento das ordens da
administração? Voltou ao gabinete, quis ler uma nota para o prefeito, que na
véspera pedira a Négrel que redigisse, mas não conseguiu encontrá-la.
Pensou que talvez o rapaz a tivesse deixado no seu quarto, onde muitas
vezes escrevia durante a noite. E, sem tomar uma decisão, perseguido pela
idéia da nota, subiu ao quarto do sobrinho para procurá-la.
Ao entrar, o Sr. Hennebeau teve uma surpresa: o quarto não estava
arrumado, sem dúvida por esquecimento ou preguiça de Hippolyte. Reinava
ali um calor úmido, o calor abafado de uma noite inteira, aumentado pelo
escapamento do calorífero que ficara aberto. Seu olfato foi açulado, quase
sufocado com um perfume penetrante, que julgou ser o cheiro dos sais de
banho, de que a bacia estava cheia. Uma grande desordem reinava na peça,
roupas espalhadas, toalhas molhadas jogadas nos encostos das cadeiras, a
cama descoberta, um lençol puxado, arrastando-se no tapete. Quando
entrou, apenas lançou um olhar distraído a tudo aquilo, dirigindo-se para
uma mesa coberta de papéis, em busca da nota desaparecida. Por duas vezes
examinou os papéis, um por um, e decididamente o que buscava não estava
entre eles. Onde diabo teria o desmiolado do Paul escondido o documento?
E ao voltar para o centro do quarto, olhando por cima de cada
móvel, percebeu, na cama descoberta, algo que brilhava como uma faísca.
Aproximou-se maquinalmente e estendeu a mão. Era um pequeno frasco de
ouro entre duas pregas do lençol. Imediatamente reconheceu-o como da
Sra. Hennebeau, o frasco de éter do qual ela nunca se separava. Continuava
sem compreender como aquele objeto viera parar na cama de Paul. Num
átimo ele se transformara: estava horrivelmente pálido. Sua mulher tinha
dormido ali.
— Desculpe — murmurou Hippolyte da porta. — Como vi o senhor
subir...
O criado entrou, olhando espantado para a desordem da peça.
— Meu Deus! É verdade que este quarto ainda não foi arrumado!
Também, a Rose saiu, deixando tudo nas minhas costas..
O Sr. Hennebeau escondia o frasco na mão, apertando-o com toda a
força.
— Quer alguma coisa?
— Está aí outro homem... Veio da Crèvecoeur trazendo uma carta.
— Está bem. Pode ir, e diga-lhe que me espere.
Sua mulher tinha dormido ali! Correu o ferrolho da porta, abriu a
mão e olhou o frasco, que lhe deixara um sinal vermelho na pele. E
subitamente começou a compreender, a ver claro, aquela sujeira tinha lugar
em sua casa havia meses. Lembrou-se da sua antiga suspeita, os ruídos
leves contra as portas, os pés descalços caminhando de noite pela casa
silenciosa. Era isso! Sua mulher subia para dormir ali...
Caído sobre uma cadeira, em frente à cama que contemplava
fixamente, permaneceu por algum tempo como se tivesse sido golpeado.
Foi despertado por um barulho, alguém batia à porta, tentando abrir.
Reconheceu a voz do criado:
— Sr. Hennebeau... Ah! está fechado por dentro...
— Que quer?
— Parece que é urgente, os operários estão quebrando tudo. Há
mais dois homens lá embaixo. Chegaram telegramas...
— Deixe-me em paz! Já vou.
A ideia de que Hippolyte teria descoberto o frasco, se tivesse
arrumado o quarto de manhã, deixava-o gelado. Aliás, esse criado já devia
saber: inúmeras vezes encontrara a cama ainda quente do adultério, cabelos
da mulher caídos no travesseiro, manchas execrandas enodoando os lençóis.
Se vinha a todo o momento importuná-lo, era por maldade.
Quantas vezes não teria ficado com o ouvido colado à porta
excitado com a devassidão dos patrões?
O Sr. Hennebeau permaneceu imóvel, olhando para a cama. o longo
passado de sofrimentos veio-lhe à memória, seu casamento com aquela
mulher, o imediato mal-entendido, tanto físico como espiritual, os amantes
que ela tivera sem que ele desconfiasse, aquele que tolerara por dez anos
como se tolera uma perversão a uma doente. Depois, foi a chegada deles a
Montsou, a louca esperança de curá-la, meses de languidez, de exílio
modorrento, a aproximação da velhice, que enfim iria trazê-la de volta para
ele. Mas surgia o sobrinho, esse Paul de quem ela se intitulava mãe, a quem
falava do seu coração morto, enterrado em cinzas para todo o sempre. E ele,
marido imbecil, nada via, na adoração por aquela mulher que era sua, que
tantos homens tinham possuído e só ele não podia ter. Adorava-a com uma
paixão vergonhosa, a ponto de cair de joelhos se ela resolvesse dar-lhe o
resto dos outros. E o resto dos outros ela dava àquele rapaz.
Nesse momento, um toque de campainha longínquo fez o Sr.
Hennebeau estremecer. Reconheceu-o, era o toque que se dava, seguindo
suas ordens, quando chegava o carteiro. Levantou-se, falou em voz alta,
num assomo de vulgaridade que jorrava da garganta, escapando ao seu
controle.
— Ah! Que um raio os parta! Pouco me importam os telegramas e
as cartas dessa gente!
Sentia-se invadido pelo ódio, necessitava de uma cloaca para nela
enterrar toda essa imundície, esmagando-a com os pés. Aquela mulher era
uma cadela! Procurava palavras indecorosas, para com elas emporcalhar a
sua imagem. A repentina ideia do casamento entre Cécile e Paul, que ela
arranjava com um sorriso tão inocente, acabou de exasperá-lo. Então nem
sequer havia paixão, ou ciúme, em toda aquela sensualidade arrebatada? Na
idade dela, já não devia ser mais do que um brinquedo perverso, a fixação
no homem, uma recreação degustada como uma sobremesa a que estivesse
acostumada. Acusava-a de tudo, quase inocentava o rapazinho que ela, com
rejuvenescido apetite, mordera, como se morde o primeiro fruto verde,
roubado na estrada. Quem mais devoraria, até onde desceria quando não
houvesse mais sobrinhos condescendentes, bastante práticos para aceitarem
em sua família, mesa, cama e mulher?
Bateram timidamente na porta e Hippolyte disse, com medo, pelo
buraco da fechadura:
— O correio, Sr. Hennebeau... E está aí outra vez o Sr. Dansaert
dizendo que se estão matando...
— Inferno! Já vou!
Que faria com eles? Expulsá-los quando voltassem de Marchiennes,
como animais nojentos que não queria mais ter sob seu teto? Agarraria um
pau e lhes gritaria que fossem espalhar longe dele o veneno de seu
concubinato. Eram seus suspiros, seus hálitos confundidos que aumentavam
o calor úmido daquele quarto; o cheiro penetrante que o sufocara era o
cheiro de almíscar que exalava a pele de sua mulher, outro gosto depravado,
uma necessidade carnal de perfumes violentos. Reconheceu então o calor, o
cheiro de fornicação, o adultério vivendo nos vasos desarrumados, nas
bacias ainda cheias, na desordem dos lençóis, dos móveis, da peça inteira,
corrompida pelo vício. Um furor de impotência atirou-o para cima da cama
aos murros, massacrou-a, amarfanhou os lugares onde via a marca dos dois
corpos, furioso com as cobertas arrancadas, com os lençóis usados, moles e
inertes sob seus golpes, como que também exaustos pela longa noite de
amor.
Mas de repente pareceu-lhe ouvir Hippolyte subindo outra vez.
Envergonhado, parou.
Ficou por um momento ainda ofegante, enxugando a testa,
acalmando as batidas do coração. Em pé defronte de um espelho,
contemplou seu rosto, tão descomposto que não chegava a reconhecê-lo.
Depois, quando viu que voltava ao normal, por um supremo esforço de
vontade, desceu.
Embaixo, cinco mensageiros, sem contar Dansaert, esperavam.
Todos traziam notícias de gravidade crescente sobre a marcha dos grevistas
pelas minas. O capataz contou com detalhes os acontecimentos da Mirou,
salva pelo valoroso comportamento do velho Quandieu. Ele escutava,
balançava a cabeça, mas não sabia o que o outro estava dizendo; seu
espírito ficara lá em cima, no quarto. Por fim disse que podiam ir,
prometendo tomar medidas. Vendo-se outra vez só, sentado em frente à sua
mesa, pareceu adormecer, a cabeça entre as mãos, os olhos abertos. A
correspondência estava ah, sobre a mesa, e decidiu procurar a carta
esperada, a resposta da administração, cujas linhas, a princípio, dançaram
ante seus olhos Contudo, acabou por compreender que os administradores
queriam uma reação; claro, não lhe ordenavam que piorasse as coisas, mas
davam a entender que alguns choques apressariam o desenlace da greve,
provocando uma repressão enérgica. Desse momento em diante não hesitou
mais, enviou telegramas para toda parte, ao prefeito de Lille, ao quartel do
exército de Douai, à polícia de Marchiennes. Era um alívio, agora podia
encerrar-se em casa, fez até espalhar boatos de que estava com gota. E
durante toda a tarde escondeu-se no seu gabinete, sem receber ninguém,
lendo apenas os telegramas e cartas que continuavam a chover. Seguiu
assim de longe o bando da Madeleine à Crèvecoeur, da Crèvecoeur à
Victoire, da Victoire à Gaston-Marie. Por outro lado, chegavam-lhe
informações sobre o desnorteamento dos policiais e da cavalaria, perdidos
pela estrada, sempre saindo das minas que iam ser atacadas. Podiam matar
se e destruir tudo, colocara novamente a cabeça entre as mãos, os dedos
apertando os olhos, engolfados no grande silêncio da casa vazia, onde se
ouvia apenas, e espaçadamente, o barulho das caçarolas da cozinheira
preparando o jantar.
O crepúsculo já escurecia a peça, eram cinco horas quando uma
algazarra fez que o Sr. Hennebeau acordasse sobressaltado, saindo do torpor
e da inércia em que se encontrava, sempre com os cotovelos fincados na
mesa. Por um momento pensou que eram os dois miseráveis que voltavam.
Mas o tumulto ia num crescendo, e ao aproximar-se da janela deu-se uma
terrível explosão de vozes:
— Pão! Pão! Pão!
Eram os grevistas que invadiam Montsou, enquanto os policiais,
acreditando em um ataque à Voreux, galopavam em sentido contrário para
ocupar aquela mina.
continua na página 293...
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Quinta Parte - (V.a) /
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.