O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes
SEGUNDA PARTE
HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA
47. Protecionismo e Livre-Câmbio nos Estados Unidos: O êxito não foi obra de uma mão invisível
Em 1865, enquanto a Tríplice Aliança anunciava a
próxima destruição do Paraguai, o general Ulisses Grant
celebrava, em Appomatox, a rendição do general Robert
Lee. A Guerra da Secessão terminava com a vitória dos
centros industriais do norte, protecionistas inveterados,
sobre os plantadores livre-cambistas de algodão e de tabaco
do sul. A guerra que selaria o destino colonial da América
Latina nascia ao mesmo tempo em que morria a guerra que
tornou possível a consolidação dos Estados Unidos como
potência mundial. Convertido pouco depois em Presidente
dos Estados Unidos, Grant afirmou: “Durante séculos a
Inglaterra confiou na proteção, levando-a até seus
extremos, e obteve com isto resultados satisfatórios. Não há
dúvida de que deve sua força atual a esse sistema. Após
dois séculos, a Inglaterra julgou conveniente adotar o livre
comércio, pois entende que a proteção já nada lhe oferece.
Muito bem, então, cavalheiros, meu conhecimento de meu
país me leva a acreditar que, dentro de 200 anos, quando a
América já tiver obtido da proteção tudo o que a proteção
pode lhe dar, ela também adotará o livre-comércio”.¹
[1] Citado por FRANK, André Gunder. Capitalism and Underdevelopment in Latin
America. New York, 1967.
Dois séculos e meio antes, o adolescente capitalismo
inglês transferira para as colônias do norte da América seus
homens, seus capitais, suas formas de viver, sua energia,
seus projetos. As treze colônias, válvulas de escape para a
população europeia
excedente, aproveitaram rapidamente o handicap que
lhes dava a pobreza de seu solo e seu subsolo e geraram
desde cedo uma consciência industrializadora que a
metrópole deixou crescer sem maiores problemas. Em
1631, os recém-chegados colonos de Boston lançaram ao
mar uma balandra de 30 toneladas, Blessing of the Bay,
construída por eles, e desde então a indústria naval ganhou
um assombroso impulso. O carvalho branco, abundante nos
bosques, dava boa madeira para as pranchas profundas e
as armações interiores dos barcos; de pinho faziam a
coberta, os gurupês e os mastros. Massachusetts concedia
subvenções à produção de cânhamo para cordas e sogas, e
também estimulava a fabricação local de lonas e velames.
Ao norte e ao sul de Boston, prósperos estaleiros cobriram
as costas. Os governos das colônias concediam subvenções
e
prêmios às manufaturas de todos os tipos. Eram
promovidos com incentivos o cultivo do linho e a produção
de lã, matérias-primas para os tecidos de fio cru que,
embora não fossem muito elegantes, eram resistentes e
eram nacionais. Para explorar as jazidas de ferro de Lyn, em
1643 surgiu o primeiro forno de fundição; em pouco tempo,
Massachusetts abastecia de ferro toda a região. Como os
estímulos à produção têxtil não pareciam suficientes, esta
colônia optou pela coação: em 1655, criou uma lei que, sob
a ameaça de penas graves, obrigava cada família a ter ao
menos um fiandeiro em contínua e intensa atividade. Cada
condado de Virginia estava obrigado, nessa mesma época, a
selecionar crianças para instruí-las na manufatura têxtil. Ao
mesmo tempo, era proibida a exportação de couros, para
que fossem transformados, nos limites da colônia, em
botas, correias e arreios.
“As desvantagens com que tem de lutar a indústria
colonial procedem de qualquer parte, menos da política
colonial
inglesa”, diz Kirkland¹.
Ao
contrário, as
dificuldades de comunicação faziam com que a legislação
proibitiva perdesse quase toda a sua força a 3 mil milhas de
distância, e favoreciam a tendência ao auto-abastecimento.
As colônias do norte não enviavam à Inglaterra nem prata
nem ouro nem açúcar, e em troca suas necessidades de
consumo provocavam um excesso de importações que de
algum modo era preciso sustar. Não eram intensas as
relações comerciais através do mar; era imprescindível
desenvolver as manufaturas locais para sobreviver. No
século XVIII, a Inglaterra ainda prestava tão pouca atenção
às colônias do norte que não impedia que se transferissem
para suas fábricas as técnicas metropolitanas mais
avançadas, num processo real que desmentia as proibições
de papel do pacto colonial. Este não era o caso, por certo,
das colônias latino-americanas, que proporcionavam o ar, a
água e o sal ao capitalismo ascendente na Europa e podiam
nutrir com abundância o consumo luxuoso de suas classes
dominantes, que importavam de ultramar as manufaturais
mais finas e mais caras. Na América Latina, as únicas
atividades em expansão eram aquelas que pendiam para a
exportação; e assim foi também nos séculos seguintes: os
interesses econômicos e políticos da burguesia mineradora
ou terra-tenente nunca coincidia com a necessidade de um
desenvolvimento econômico para dentro, e os comerciantes
não estavam ligados ao Novo Mundo em maior medida do
que aos mercados estrangeiros dos metais e dos alimentos
que vendiam, e às fontes estrangeiras dos artigos
manufaturados que compravam.[1] KIRKLAND, Edward C. Historia económica de Estados Unidos. México, 1941.
Quando declarou sua independência, a população norte americana equivalia, em quantidade, à do Brasil. A metrópole portuguesa, tão subdesenvolvida quanto a espanhola, exportava seu subdesenvolvimento para a colônia. A economia brasileira foi instrumentalizada em proveito da Inglaterra, para abastecer suas necessidades de ouro ao longo de todo o século XVIII. A estrutura de classes da colônia refletia essa função provedora. Diferentemente dos Estados Unidos, a classe dominante do Brasil não era formada pelos granjeiros, fabricantes empreendedores e comerciantes internos. Os principais intérpretes dos ideais das classes dominantes nos dois países, Alexander Hamilton e o Visconde de Cairú, expressam claramente a distinção entre uma e outra¹. Ambos tinham sido discípulos de Adam Smith, na Inglaterra. No entanto, enquanto Hamilton se transformara num paladino da industrialização e promovia o estímulo e a proteção do Estado à manufatura nacional, Cairú acreditava na mão invisível que atua na magia do liberalismo: deixai fazer, deixai passar, deixar vender.
[1] FURTADO, op. cit.
Enquanto morria o século XVIII, os Estados Unidos contavam já com a segunda frota mercante do mundo, totalmente formada por barcos construídos nos estaleiros nacionais, e as fábricas têxteis e siderúrgicas estavam em pleno e pujante crescimento. Pouco tempo depois, nasceu a indústria do maquinário: as fábricas já não precisavam comprar no estrangeiro seus bens de capital. Nas campinas da Nova Inglaterra os fervorosos puritanos do Mayflower tinham lançado as bases de uma nação; no litoral de baías profundas, ao longo dos grandes estaleiros, uma burguesia industrial havia prosperado ininterruptamente. O tráfico comercial com as Antilhas, que incluía a venda de escravos africanos, desempenhou, como vimos em outro capítulo, uma função capital neste sentido, mas a façanha norte americana não teria explicação se não tivesse sido, desde o princípio, animada pelo mais ardente dos nacionalismos. George Washington havia aconselhado em sua mensagem de adeus: os Estados Unidos deviam seguir uma rota solitária¹. Emerson proclamava em 1837: “Temos escutado por tempo demais as refinadas musas da Europa. Nós vamos andar com nossos pés, vamos trabalhar com nossas mãos e falar segundo nossas próprias convicções”.²
[1] FOHLEN, Claude. L’Amérique anglo-saxonne de 1815 à nos jours. Paris, 1965.
Quando declarou sua independência, a população norte americana equivalia, em quantidade, à do Brasil. A metrópole portuguesa, tão subdesenvolvida quanto a espanhola, exportava seu subdesenvolvimento para a colônia. A economia brasileira foi instrumentalizada em proveito da Inglaterra, para abastecer suas necessidades de ouro ao longo de todo o século XVIII. A estrutura de classes da colônia refletia essa função provedora. Diferentemente dos Estados Unidos, a classe dominante do Brasil não era formada pelos granjeiros, fabricantes empreendedores e comerciantes internos. Os principais intérpretes dos ideais das classes dominantes nos dois países, Alexander Hamilton e o Visconde de Cairú, expressam claramente a distinção entre uma e outra¹. Ambos tinham sido discípulos de Adam Smith, na Inglaterra. No entanto, enquanto Hamilton se transformara num paladino da industrialização e promovia o estímulo e a proteção do Estado à manufatura nacional, Cairú acreditava na mão invisível que atua na magia do liberalismo: deixai fazer, deixai passar, deixar vender.
[1] FURTADO, op. cit.
Enquanto morria o século XVIII, os Estados Unidos contavam já com a segunda frota mercante do mundo, totalmente formada por barcos construídos nos estaleiros nacionais, e as fábricas têxteis e siderúrgicas estavam em pleno e pujante crescimento. Pouco tempo depois, nasceu a indústria do maquinário: as fábricas já não precisavam comprar no estrangeiro seus bens de capital. Nas campinas da Nova Inglaterra os fervorosos puritanos do Mayflower tinham lançado as bases de uma nação; no litoral de baías profundas, ao longo dos grandes estaleiros, uma burguesia industrial havia prosperado ininterruptamente. O tráfico comercial com as Antilhas, que incluía a venda de escravos africanos, desempenhou, como vimos em outro capítulo, uma função capital neste sentido, mas a façanha norte americana não teria explicação se não tivesse sido, desde o princípio, animada pelo mais ardente dos nacionalismos. George Washington havia aconselhado em sua mensagem de adeus: os Estados Unidos deviam seguir uma rota solitária¹. Emerson proclamava em 1837: “Temos escutado por tempo demais as refinadas musas da Europa. Nós vamos andar com nossos pés, vamos trabalhar com nossas mãos e falar segundo nossas próprias convicções”.²
[1] FOHLEN, Claude. L’Amérique anglo-saxonne de 1815 à nos jours. Paris, 1965.
[2] SCHNER, op. cit.
Os fundos públicos ampliavam as dimensões do
mercado interno. O Estado estendia estradas e ferrovias,
construía pontes e canais¹. Em meados do século, o
estado da Pennsylvania participava da gestão de mais de
150 empresas de economia mista, além de administrar os
100 milhões de dólares investidos em empresas públicas. As
operações militares de conquista, que arrebataram ao
México mais de metade de sua superfície, também
contribuíram em grande medida para o progresso do país. O
Estado não participava do desenvolvimento somente
através dos investimentos de capital e dos gastos militares
orientados para a expansão; no Norte, tinha começado a
aplicar um zeloso protecionismo aduaneiro. Os terras
tenentes do Sul eram, ao contrário, livre-cambistas. A
produção de algodão era duplicada a cada dez anos, e
embora proporcionasse grandes rendas comerciais à nação
inteira e alimentasse os modernos teares de Massachusetts,
dependia sobretudo dos mercados europeus. A aristocracia
sulista estava vinculada em primeiro lugar ao mercado
mundial, no estilo latino-americano; do trabalho de seus
escravos provinha 80 por cento do algodão usado nas
fiações europeias. Quando o Norte somou a abolição da
escravatura ao protecionismo industrial, a contradição
resultou na eclosão da guerra. O Norte e o Sul enfrentavam
dois mundos na verdade opostos, dois tempos históricos
diferentes, duas antagônicas concepções do destino
nacional. O século XX ganhou esta guerra contra o século
XIX.
[1] “O capital do Estado assume o risco inicial (...). A ajuda oficial às ferrovias não somente facilita a reunião de capitais, como também reduz os custos da construção. Em alguns casos, entre outros para as linhas marginais, os fundos públicos tornaram possível a construção de ferrovias que não teriam sido feitas de outro modo. Em outro número de casos ainda mais importante, aceleraram a realização de projetos que a utilização de capitais privados teria certamente atrasado. PIERCE, Harry H. Railroads of New York. A Study of Government Aid 182-1875. Cambridge, Massachusetts, 1953.
Que todo homem livre cante...O velho Rei Algodão está morto e enterrado,
clamava o poeta do exército vitorioso¹. A partir da derrota do general Lee, adquiriram um valor sagrado as taxas aduaneiras, que tinham sido elevadas durante o conflito como um meio de conseguir recursos e foram mantidas para proteger a indústria vencedora. Em 1890, o Congresso votou a chamada tarifa McKinley, ultraprotecionista, e em 1897 a lei Dingley elevou novamente os direitos de alfândega. Pouco depois, os países desenvolvidos da Europa viram-se obrigados a impor barreiras aduaneiras frente à erupção das manufaturas norte-americanas perigosamente competitivas. A palavra truste tinha sido pronunciada pela primeira vez em 1882; o petróleo, o aço, os alimentos, as ferrovias e o tabaco estavam nas mãos de monopólios, que avançavam com botas de sete léguas.²
[1] FOHLEN, op. cit.
[2] O Sul se transformou numa colônia interna dos capitalistas do Norte. Depois
da guerra, a propaganda pró construção de fiações nas duas Carolinas, Geórgia
e Alabama, assumiu o caráter de cruzada. Mas este não era o triunfo de uma
causa moral, as novas indústrias não nasciam por puro humanitarismo: o Sul
oferecia mão de obra menos cara, energia mais barata e lucros altíssimos, que
às vezes chegavam a 75 por 100. Os capitais vinham do Norte para atar o Sul ao
centro de gravidade do sistema. A indústria do tabaco, concentrada na Carolina
do Norte, estava na dependência direta do truste Duke, que se mudou para
Nova Jersey para aproveitar uma legislação mais favorável; a Tennessee Coal
and Iron Co., que exportava o ferro e o carvão de Alabama, passou em 1907 ao
controle da U. S. Steel, que desde então fixou preços e assim eliminou uma
concorrência incômoda. No princípio do século, a renda per capita do Sul estava
reduzida à metade do que era antes da guerra. WOODWARD, C. Vann. “Origins
of the New South 1879-1913.” In: A history of the South. Baton Rouge, 1948.
Antes da Guerra de Secessão, o general Grant
participara do despojamento do México. Depois da Guerra
de Secessão, o general Grant foi um presidente com ideias
protecionistas. Tudo fazia parte do mesmo processo de
afirmação nacional. A indústria do Norte conduzia a história
e, já dona do poder político, zelava através do Estado pela
boa saúde de seus interesses prevalentes. A fronteira
agrícola voava para o Oeste e para o Sul, à custa dos índios
e dos mexicanos, mas em sua marcha não ia criando
latifúndios, antes semeava de pequenos proprietários os
novos espaços abertos. A terra da promissão não atraía tão
só camponeses europeus: os mestres artesãos dos mais
diversos ofícios e os operários especializados em mecânica,
metalurgia e siderurgia também vieram da Europa para
fecundar a intensa industrialização norte-americana. Em
fins do século passado, os Estados Unidos já eram a
primeira potência industrial do planeta; em 30 anos, desde
a guerra civil, as fábricas tinham multiplicado por sete sua
capacidade de produção. O volume norte-americano de
carvão já equivalia ao da Inglaterra, e o de aço o duplicava;
as linhas férreas eram nove vezes mais extensas. O centro
do universo capitalista começava a mudar de lugar.
Como a Inglaterra, os Estados Unidos também
exportará, a partir da Segunda Guerra Mundial, a doutrina
do livre-câmbio, do livre-comércio e da livre concorrência,
mas só para o consumo alheio. O Fundo Monetário
Internacional e o Banco Mundial nasceram juntos para negar
aos países subdesenvolvidos o direito de proteger suas
indústrias nacionais, e para neles esmorecer a ação do
Estado. Serão atribuídas infalíveis propriedades curativas à
iniciativa privada. No entanto, os Estados Unidos não
abandonarão uma política econômica que continua sendo,
na atualidade, rigorosamente protecionista, e que por certo
presta bom ouvido às vozes da própria história: no norte,
nunca confundiram a doença com o remédio.
continua na página 328...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Protecionismo e Livre-Câmbio nos Estados Unido (7)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?