segunda-feira, 4 de maio de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: O Subsolo também produz Golpes de Estado (2)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     34. O Subsolo também produz Golpes de Estado, Revoluções, Histórias de Espionagens e Aventuras na Floresta Amazônica
          No Brasil, as esplêndidas jazidas de ferro do vale do Paraopeba derrubaram dois presidentes, Jânio Quadros e João Goulart, antes que o marechal Castelo Branco, assaltante do poder em 1964, amavelmente as cedesse à Hanna Mining Co. Outro amigo anterior do embaixador dos Estados Unidos, o presidente Eurico Dutra (1946-51), concedera à Bethlehem Steel, alguns anos antes, os 40 milhões de toneladas de manganês do estado do Amapá, uma das maiores jazidas do mundo, em troca de 4 por cento para o Estado sobre as rendas da exportação; desde então, a Bethlehem está empurrando as montanhas para os Estados Unidos com tanto entusiasmo que se receia que, em quinze anos, o Brasil fique sem manganês para prover sua própria siderurgia. Além disso, de cada 100 dólares que a Bethlehem investe na extração de minerais, 88 correspondem a uma gentileza do governo brasileiro: as isenções de impostos em nome do “desenvolvimento da região”. A experiência do ouro perdido em Minas Gerais “ouro branco, ouro negro, ouro podre”, escreveu o poeta Manuel andeira –, como se sabe, não serviu para nada: o Brasil continua se desfazendo gratuitamente de suas fontes naturais de desenvolvimento [1]. Por sua parte, o ditador René Barrientos se apoderou da Bolívia em 1964 e, entre matança e matança de mineiros, outorgou à firma Philips Brothers a concessão da mina Matilde, que contém chumbo, prata e grandes quantidades de zinco com um teor doze vezes mais alto do que nas minas norte-americanas. A empresa foi autorizada a transportar zinco bruto, para elaborá-lo em suas refinarias no estrangeiro, pagando ao Estado nada menos do que 1,5 por cento do valor de venda do mineral [2]. No Peru, em 1968, perdeu-se misteriosamente a página 11 do convênio que o presidente Bellaúnde Terry tinha assinado aos pés de uma filial da Standard Oil, e o general Velasco Alvarado derrubou o presidente, tomou as rédeas do país e nacionalizou os poços e a refinaria da empresa. Na Venezuela, o grande lago de petróleo da Standard Oil e da Gulf, tem seu lugar a maior missão militar norte-americana da América Latina. Os frequentes golpes de Estado na Argentina acontecem antes e depois de cada licitação petrolífera. O cobre não era de modo algum alheio à desproporcionada ajuda militar que o Chile recebia do Pentágono até o triunfo eleitoral das forças de esquerda encabeçadas por Salvador Allende; as reservas norte-americanas de cobre tinham caído em mais de 60 por cento entre 1965 e 1969. Em 1964, em seu gabinete de Havana, Che Guevara me demonstrou que a Cuba de Batista não era só de açúcar: as grandes jazidas cubanas de níquel e manganês, na sua opinião, explicavam melhor a fúria cega do Império contra a revolução. Desde aquela conversação, as reservas de níquel dos Estados Unidos se reduziram à terça parte: a empresa norte-americana Nicro Nickel tinha sido nacionalizada e o presidente Johnson ameaçava os metalúrgicos franceses com um embargo às suas exportações para os Estados Unidos se comprassem o mineral de Cuba. 
     Os minerais tiveram muito a ver com a queda do governo do socialista Cheddi Jagan, que em fins de 1964 tinha obtido novamente a maioria de votos naquilo que então era a Guiana Inglesa. O país que hoje se chama Guiana é o quarto produtor mundial de bauxita e figura no terceiro lugar entre os produtores latino-americanos de manganês. A CIA desempenhou um papel decisivo na derrota de Jagan. Arnold Zander, o dirigente máximo da greve que serviu de provocação e pretexto para negar com trapaças a vitória eleitoral de Jagan, admitiu publicamente tempos depois que seu sindicato tinha recebido uma chuva de dólares de uma das fundações da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos [3]. O novo regime garantiu que não correriam perigo os interesses da Aluminium Company of America na Guiana: já sem sobressaltos, a empresa poderia continuar levando a bauxita e vendendo-a para si própria ao mesmo preço de 1938, ainda que desde então se tivesse multiplicado o preço do alumínio [4]. O negócio já não corria perigo. A bauxita do Arkansas vale o dobro da bauxita da Guiana. Os Estados Unidos dispõem de muito pouca bauxita em seu território; empregando matéria-prima alheia e muito barata, produzem quase a metade do alumínio que é elaborado no mundo.
     Para abastecer-se da maior parte dos minerais estratégicos considerados de valor crítico para seu potencial de guerra, os Estados Unidos dependem de fontes estrangeiras. “O motor de retropropulsão, a turbina de gás e os reatores nucleares têm hoje uma enorme influência sobre a demanda de materiais que só podem ser obtidos no exterior”, diz Magdoff neste sentido [5]. A imperiosa necessidade de minerais estratégicos, imprescindíveis para salvaguardar o poder militar e atômico dos Estados Unidos, aparece claramente vinculada à compra de terras na Amazônia brasileira, por meios geralmente fraudulentos. Na década de 60, numerosas empresas norte-americanas, conduzidas pela mão de aventureiros e contrabandistas profissionais, lançaram-se num rush febril sobre essa floresta gigantesca. Previamente, em virtude de acordo firmado em 1964, os aviões da Força Aérea dos Estados Unidos tinham sobrevoado e fotografado toda a região, empregando cintilômetros para detectar jazidas de minerais radioativos pela emissão de ondas de luz de intensidade variável, eletromagnetômetro para radiografar o subsolo rico em minerais não ferrosos, e magnetômetro para descobrir e medir o ferro. Os informes e as fotografias obtidas no levantamento da extensão e da profundidade das riquezas secretas da Amazônia foram colocados à disposição de empresas privadas interessadas no assunto, graças aos bons serviços da Geological Survey do governo dos Estados Unidos [6]. Na mesma região foi comprovada a existência de ouro, prata, diamantes, gipsita, hematita, magnetita, tântalo, tório, urânio, quartzo, cobre, manganês, chumbo, sulfato, potássio, bauxita, zinco, zircônio, cromo e mercúrio. Tão aberto é o céu da selva virgem do Mato Grosso até as planuras do sul de Goiás que, segundo delirava a revista Time em sua última edição latino americana de 1967, pode-se ver ao mesmo tempo o sol brilhante e meia dúzia de relâmpagos de diferentes tormentas. O governo ofereceu isenção de impostos e outras seduções para colonizar os espaços virgens desse universo mágico e selvagem. Segundo a Time, os capitalistas estrangeiros, antes de 1967, compraram a sete centavos o acre uma superfície maior do que a que somam os territórios de Connecticut, Rhode Island, Delaware, Massachusetts e New Hampshire. “Devemos manter as portas bem abertas ao investimento estrangeiro”, dizia o diretor da agência governamental para o desenvolvimento da Amazônia, “porque necessitamos mais do que aquilo que podemos obter.” Para justificar o levantamento aerofotogramétrico feito pela aviação norte-americana, o governo declarou antes que carecia de recursos. Na América Latina é normal: sempre se entregam os recursos em nome da falta de recursos.
     O Congresso brasileiro realizou uma investigação que culminou num alentado informe sobre o tema [7]. Enumeram-se nele casos de venda ou usurpação de terras de 20 milhões de hectares, estendidas de maneira tão curiosa que, segundo a comissão investigadora, “formam um cordão para isolar a Amazônia do resto do Brasil”. A “exploração clandestina de minerais muito valiosos” figura no informe como um dos principais interesses da ambição norte-americana de abrir uma nova fronteira dentro do Brasil. O depoimento do gabinete do Ministério do Exército, incluído no informe, salienta “o interesse do próprio governo norte-americano em manter sob seu controle uma vasta extensão de terra para ulterior utilização, seja para a exploração de minerais, particularmente os radioativos, seja como base de uma colonização dirigida”. O Conselho de Segurança Nacional se manifestou: “Causa suspeita o fato de que as áreas ocupadas, ou em vias de ocupação, por elementos estrangeiros, coincidam com regiões submetidas a campanhas de esterilização de mulheres brasileiras por estrangeiros”. De fato, segundo o jornal Correio da Manhã, “mais de vinte missões religiosas estrangeiras, sobretudo as da igreja protestante dos Estados Unidos, estão ocupando a Amazônia nos pontos mais ricos em minerais radioativos, ouro e diamantes (...). Difundem em grande escala diversos contraceptivos, como o dispositivo intrauterino, e ensinam inglês aos índios catequizados (...). Suas áreas estão cercadas por elementos armados e nelas ninguém pode entrar” [8]. Não é demais lembrar que a Amazônia é a zona de maior extensão entre todos os desertos do planeta habitáveis pelo homem. O controle da natalidade foi posto em prática nesse grandioso espaço vazio para evitar a concorrência demográfica dos raríssimos brasileiros que, em remotos rincões da floresta ou das imensas planícies, vivem e se reproduzem.
     O Congresso brasileiro realizou uma investigação que culminou num alentado informe sobre o tema [7]. Enumeram-se nele casos de venda ou usurpação de terras de 20 milhões de hectares, estendidas de maneira tão curiosa que, segundo a comissão investigadora, “formam um cordão para isolar a Amazônia do resto do Brasil”. A “exploração clandestina de minerais muito valiosos” figura no informe como um dos principais interesses da ambição norte-americana de abrir uma nova fronteira dentro do Brasil. O depoimento do gabinete do Ministério do Exército, incluído no informe, salienta “o interesse do próprio governo norte-americano em manter sob seu controle uma vasta extensão de terra para ulterior utilização, seja para a exploração de minerais, particularmente os radioativos, seja como base de uma colonização dirigida”. O Conselho de Segurança Nacional se manifestou: “Causa suspeita o fato de que as áreas ocupadas, ou em vias de ocupação, por elementos estrangeiros, coincidam com regiões submetidas a campanhas de esterilização de mulheres brasileiras por estrangeiros”. De fato, segundo o jornal Correio da Manhã, “mais de vinte missões religiosas estrangeiras, sobretudo as da igreja protestante dos Estados Unidos, estão ocupando a Amazônia nos pontos mais ricos em minerais radioativos, ouro e diamantes (...). Difundem em grande escala diversos contraceptivos, como o dispositivo intrauterino, e ensinam inglês aos índios catequizados (...). Suas áreas estão cercadas por elementos armados e nelas ninguém pode entrar” [8]. Não é demais lembrar que a Amazônia é a zona de maior extensão entre todos os desertos do planeta habitáveis pelo homem. O controle da natalidade foi posto em prática nesse grandioso espaço vazio para evitar a concorrência demográfica dos raríssimos brasileiros que, em remotos rincões da floresta ou das imensas planícies, vivem e se reproduzem.

continua na página 227...
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[1] O governo do México, por sua vez, constatou a tempo que o país, um dos principais exportadores mundiais de enxofre, estava se esvaziando. A Texas Gulf Sulphur Co. e a Pan American Sulfur tinham garantido que as reservas com que contavam suas concessões eram seis vezes mais abundantes do que em realidade o eram, e o governo, em 1965, resolveu limitar as vendas para o exterior.
[2]  ALMARAZ PAZ, Sergio. Réquiem para uma república. La Paz, 1969.
[3] JULIEN, op. cit.
[4] Arthur Davis, presidente da Aluminium Co. durante longo tempo, morreu em 1962 e legou 300 milhões de dólares a fundações de caridade, com a expressa condição de que gastassem os fundos fora do território dos Estados Unidos. Nem mesmo por esta via a Guiana pôde recuperar sequer uma parcela da riqueza que a empresa lhe usurpou. RENO, Philip. “Aluminium Profits and Caribbean People.” Monthly Review. New York, outubro de 1963. E do mesmo autor: “El drama de la Guayana Británica. Un pueblo desde la esclavitud a la lucha por el socialismo.” Monthly Review, seleções em castelhano. Buenos Aires, janeiro-fevereiro de 1965.
[5] MAGDOFF, op. cit.
[6] ALVES, Hermano. “Aerofotogrametria”. Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 8 de junho de 1967
[7] Informe da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a venda de terras brasileiras a pessoas físicas ou jurídicas estrangeiras. Brasília, 3 de junho de 1968.
[8Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 30 de junho de 1968.
[9] SCHILLING, Paulo R. Brasil para extranjeros. Montevideo, 1966.
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As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: O Subsolo também produz Golpes de Estado (2)
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o petróleo da Venezuela... o petróleo no pré-sal do Brasil... os minerais nas terras raras do Brasil... ?

Cinema: O Comunista

Kommyhnct

assista antes que esse filme saia do ar

Realizado para marcar o 40º Aniversário da Revolução, o filme mostra a curta, mas brilhante vida de Vassily Gubanov, seu trabalho honesto e consciencioso na construção de uma grande central elétrica em Zagora, durante a Guerra Civil. Sem perceber, ele vai realizando os feitos que o tornarão um herói postumamente. Menção Honrosa no Festival de Veneza. Um momento histórico que mostra a crença de um povo nos ideais de liberdade e igualdade. Gubanov não é apenas um personagem; ele encarna um tipo humano forjado na luta, na construção e no sacrifício coletivo. Ao vê-lo, é impossível não lembrar dos milhões que, ao redor do mundo, deram a própria vida na tentativa de construir uma sociedade mais justa.






O Comunista
1957 | COR | 110 MIN | DRAMA
Direção: Yuli Raizman
Roteiro: Yevgeni Gabrilovich
Música: Rodion Shchedrin
Produção Mosfilm

Wolfgang Amadeus Mozart / O Estrangeiro /  O comunista /   

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (III)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

III


     Desde o raiar do dia que um frêmito tinha agitado os conjuntos habitacionais mineiros, o frêmito que nesse momento se espalhava pelos caminhos, por toda a região. No entanto, a marcha combinada não pudera ser realizada em razão de uma notícia que corria de boca em boca: a tropa a cavalo e os policiais vasculhavam a planície. Contava-se que eles tinham chegado de Douai durante a noite, acusava-se Rasseneur de ter vendido os camaradas, prevenindo o Sr. Hennebeau. Uma operadora de vagonetes chegava a jurar que vira o criado levando o telegrama para ser expedido. Os mineiros cerravam os punhos, espreitando os soldados por trás das suas persianas, à tímida luz da madrugada.
     Por volta das sete e meia, com o nascer do sol, circulou outro boato que acalmou os impacientes. Era um rebate falso, um simples desfile militar, coisa que vinha acontecendo desde o começo da greve, por ordem do general e a pedido do prefeito de Lille. Os grevistas odiavam esta autoridade, a quem acusavam de tê-los enganado com a promessa de uma intervenção conciliadora e que se limitava a fazer que a tropa desfilasse por Montsou de oito em oito dias, para mantê-los na linha. Assim, ao verem a cavalaria e os policiais retomarem tranquilamente o caminho de Marchiennes, depois de haver ensurdecido os conjuntos habitacionais com os cascos dos seus cavalos sobre a terra batida, os mineiros zombaram de um prefeito tão ingênuo, com seus soldados que davam as costas no momento exato em que coisas iam pegar fogo. Até as nove horas mantiveram-se calmos, pacatamente diante das casas, enquanto seguiam com os olhos, estrada afora, as costas pacíficas dos últimos policiais. No fundo dos seus grandes leitos, os burgueses de Montsou ainda dormiam a sono solto. Na direção, acabavam de ver a Sra. Hennebeau partir de carruagem, deixando sem dúvida o Sr. Hennebeau trabalhando, já que o palacete, fechado e mudo, parecia deserto. Nenhuma mina estava guardada militarmente, era a imprevidência fatal na hora do perigo, o erro natural das catástrofes, tudo o que um governo pode cometer de faltas, quando o essencial era prever qualquer eventualidade. Davam as nove quando os mineiros se puseram finalmente a caminho de Vandame, para a ação decidida de véspera na floresta. 
     Etienne compreendeu desde logo que não poderia contar, na Jean Bart, com os três mil camaradas que tinham prometido ir. Muitos julgavam que a manifestação fora adiada, e o pior era que dois ou três grupos, já a caminho, iam comprometer a causa se ele não se pusesse, de qualquer maneira, à sua frente. Uns cem homens haviam partido antes do amanhecer e na certa tinham-se escondido sob as faias da floresta, à espera dos outros. Suvarin, que o rapaz fora consultar, deu de ombros: dez latagões bem dispostos fariam melhor trabalho que uma corja inteira. E tornou a mergulhar na leitura de um livro aberto à sua frente, recusando tomar parte na manifestação. Aquilo ameaçava transformar-se outra vez em sentimentalismo, quando bastaria incendiar Montsou, o que era bem simples. Ao sair pelo lado da casa, Etienne percebeu Rasseneur muito pálido, sentado defronte do fogão de ferro fundido, enquanto sua mulher, enorme na sua eterna roupa negra, o invectivava com palavras cortantes mas polidas.
     Maheu foi de opinião que se devia manter a palavra empenhada. Um compromisso desse era sagrado. No entanto, a noite arrefecera os ânimos e ele, agora, temia uma desgraça e explicava que o dever deles era irem para lá a fim de manter os companheiros na ordem. A mulher aprovou com a cabeça. Etienne contemporizava, repetindo que era preciso agir revolucionariamente, mas sem atentar contra a vida das pessoas. Antes de partir, rejeitou a sua parte de um pão que lhe tinham dado de véspera com uma garrafa de genebra, mas bebeu de um só gole três copinhos, para combater o frio. E levou consigo um cantil cheio dela. Alzire cuidaria das crianças. O velho Boa-Morte, com as pernas doloridas da caminhada da véspera ficara de cama.
     Por prudência, não foram juntos. Jeanlin já desaparecera havia muito tempo. Marido e mulher seguiram lado a lado, atalhando por Montsou, enquanto Etienne se dirigiu para a floresta, onde queria encontrar se com os companheiros. No caminho encontrou um bando de mulheres, entre as quais reconheceu a Queimada e a mulher de Levaque. Enquanto caminhavam, comiam castanhas que a filha de Mouque trouxera, e até as cascas devoravam, para permanecerem mais tempo de barriga cheia.
     Na floresta ele não encontrou ninguém, todos já tinham partido para a Jean-Bart. Então saiu desabalado e chegou diante da mina no momento em que Levaque e uma centena de outros penetravam no pátio. Os mineiros surgiam de todas as partes, os Maheu pela estrada real, as mulheres do meio dos campos, todos dispersos, sem líderes, sem armas, correndo naturalmente para ali como água que transborda e segue os declives. Etienne percebeu Jeanlin instalado sobre um passadiço, como se fosse a um espetáculo. Correu com todas as suas forças e entrou com os primeiros. Não eram mais que trezentos.
     Houve um momento de hesitação quando Deneulin surgiu no alto da escada que conduzia à recebedoria. 

— Que é que vocês querem? — perguntou ele com voz forte. Após ter visto desaparecer a caleça, de onde as filhas lhe sorriam ainda, voltara à mina, cheio de uma vaga apreensão. Mas tudo estava em ordem, os operários tinham descido, a extração funcionava, o que o deixou novamente tranquilo. Conversava com o capataz quando lhe disseram que os grevistas se aproximavam. Dirigiu-se correndo para uma janela da triagem, e, diante daquela onda enorme que invadia o pátio, teve a consciência imediata da sua impotência. Como defender aquelas edificações abertas de todos os lados? Apenas poderia reunir em torno de si uns vinte dos seus operários. Estava perdido. 
— Que é que vocês querem? — repetiu ele, lívido de cólera, fazendo um esforço para aceitar corajosamente sua derrota.

     Houve empurrões e grunhidos na multidão. Etienne avançou e disse: 

— Não viemos aqui para fazer-lhe mal, mas o trabalho tem que parar em toda a região.

     Deneulin não se conteve e chamou-o de imbecil. 

— Então acreditam que me estão fazendo bem parando o trabalho minha mina? É como se me disparassem um tiro pelas costas, à queima roupa. Pois saibam que meus homens estão trabalhando e não subirão, a não ser que vocês me assassinem primeiro!

     Estas palavras violentas levantaram um clamor. Maheu teve de segurar Levaque, que se atirava, ameaçador. Etienne continuou a parlamentar, procurando convencer Deneulin da legitimidade de sua ação revolucionária. Este, no entanto, respondia-lhe com o direito de trabalhar. Aliás, recusava discutir semelhantes tolices; em sua casa era ele quem mandava. Só lastimava não ter ali quatro policiais para varrer aquela canalha. 

— Perfeitamente, é minha culpa, mereço o que me está acontecendo. Com gente como vocês, só a força. Não sei como é que o governo pensa que pode comprá-los com concessões. Vocês o que farão é pô-lo abaixo com as armas que ele lhes fornecer.

     Etienne, furioso, ainda podia conter-se. Baixou a voz: 

— Peço-lhe, meu senhor, dê ordem para que subam os mineiros. Daqui por diante não respondo mais. pela conduta dos meus companheiros. O senhor pode evitar uma desgraça. 
— Não! Vão para o inferno! Eu o conheço? Você não trabalha para mim, portanto não tem nada para discutir comigo. Só os salteadores é que percorrem assim os campos para pilhar as casas.

     Vociferações cobriram sua voz; as mulheres, sobretudo, insultavam no. Ele continuou a desafiá-los, sentindo um alívio naquela franqueza que desafogava seu coração autoritário. Já que, de qualquer jeito, a ruína era certa, achava uma covardia as concessões inúteis. Mas o número de revoltosos ia aumentando sempre, cerca de quinhentos já se atiravam para a porta e ele ia ser destroçado se o seu capataz não o tivesse puxado violentamente para trás. 

— Por favor, Sr. Deneulin!... Isto vai ser uma carnificina. De que serve fazer matar homens inutilmente?

     Ele debateu-se e protestou com um último grito atirado à turba: 

— Súcia de bandidos! Vocês pagarão por isso quando nós voltarmos a ser os mais fortes!

     Levaram-no. Um último ímpeto acabava de levar os que estavam na frente da multidão para o início da escada, cujo corrimão foi torcido. Eram as mulheres que empurravam, uivando, excitando os homens. A porta cedeu em seguida, era uma porta sem fechadura, cerrada apenas com ferrolho. A escada, porém, era muito estreita e a multidão, esmagada, não teria conseguido entrar se a retaguarda dos assaltantes não tivesse resolvido passar pelas outras aberturas. Desse momento em diante, a turba tomou conta de tudo, invadindo o vestiário, a triagem e a casa das caldeiras. Em menos de cinco minutos a mina inteira pertencia aos grevistas, que percorreram os três andares em meio a um furor de gestos e gritos, levando tudo pela frente no entusiasmo da sua vitória sobre o patrão que resistia. Maheu, assustado, fora dos primeiros a arremeter, dizendo a Etienne: 

— Cuidado! Não devem matá-lo!

     Este já corria, mas, quando viu que Deneulin se tinha barricado na sala dos contramestres, respondeu: 

— E daí? Seria por acaso culpa nossa? Um louco desses... Contudo, ele estava cheio de inquietação, ainda bastante calmo para ceder a um gesto de cólera. Sofria também no seu orgulho de chefe, vendo que a turba escapava à sua autoridade, extravasando para fora da fria execução da vontade do povo, que era o que tinha planejado. Em vão pediu que se mantivessem calmos, gritou que não deviam dar razões ao inimigo, com atos de destruição inútil. 
— Às caldeiras — berrava a Queimada. — Apaguemos as fornalhas!

     Levaque, que encontrara uma lima, agitava-a como um punhal, dominava o tumulto com um grito terrível: 

— Cortemos os cabos! Cortemos os cabos!

     Em breve todos o seguiam. Apenas Etienne e Maheu continuavam a protestar, aturdidos, falando inutilmente no meio da gritaria. Por fim, o primeiro conseguiu fazer-se ouvir: 

— Mas há gente lá no fundo, companheiros!

     O alarido redobrou, todos falavam ao mesmo tempo. 

— Pior para eles, não tinham que descer! Vai ser uma lição para esses traidores! Isso mesmo! Isso mesmo! Que fiquem por lá! E, depois, existem as escadas!...

     Quando a e das escadas os tornou ainda mais decididos, Etienne compreendeu que devia ceder. Temendo um desastre ainda maior, precipitou-se para a máquina, querendo ao menos subir os elevadores, para que os cabos, serrados por cima do poço, não os esmagassem com seu peso enorme ao caírem sobre eles. O mecânico tinha desaparecido com os outros trabalhadores da superfície. Segurou a barra de direção e começou a manobrar, enquanto Levaque e outros dois subiam no vigamento de ferro que sustinha as roldanas.
     Etienne acabava de fixar os elevadores nos ferrolhos de segurança quando se ouviu o ranger da lima cortando o aço. Fez-se um grande silêncio, esse ruído pareceu encher toda a mina, a turba ergueu a cabeça e escutou, presa de emoção. Maheu, na primeira fila, sentia-se invadir por uma alegria feroz, como se os dentes da lima os fossem livrar da desgraça, roendo o cabo de um desses buracos cheios de miséria, no qual nunca mais se desceria.
     A Queimada tinha desaparecido pela escada do vestiário, gritando sempre: 

— Apaguemos o fogo! Às caldeiras! Às caldeiras!

     Algumas mulheres a seguiram. A de Maheu foi a primeira, para impedir que quebrassem tudo, da mesma forma que seu marido tinha tentado argumentar com os companheiros. Ela era a mais calma: podiam-se exigir seus direitos, mas sem fazer estragos no que era dos outros. Quando entrou na casa das caldeiras, as mulheres já estavam expulsando os dois foguistas, e a Queimada, empunhando uma grande pá, acocorava-se diante das fornalhas e as esvaziava violentamente, jogando o carvão incandescente sobre o chão de tijolos, onde ele continuava a arder, soltando uma fumaça negra. Havia dez fornalhas para os cinco geradores. Em breve, as outras seguiam o exemplo da Queimada; a mulher de Levaque manobrando sua pá com ambas as mãos e a filha de Mouque arregaçando as saias até as coxas para não se incendiar, todas elas como que cobertas de sangue por causa dos reflexos do fogo, suadas e desgrenhadas em torno daquela cozinha de bruxas. Os montes de hulha cresciam, o calor ardente crestava a enorme peça. 

— Chega! — gritou a mulher de Maheu. — Esta joça já está pegando fogo! 
— Melhor! — respondeu a Queimada. — Vai ser um trabalho completo... Eu tinha jurado que havia de fazê-los pagar pela morte do meu homem!

     Nesse momento ouviu-se a voz esganiçada de Jeanlin: 

— Atenção! Eu vou apagar isso! Vou soltar tudo!

     Fora um dos primeiros a entrar, imiscuindo-se na a turba, encantado com a balbúrdia, procurando coisas para destruir. Teve então a ideia de abrir as torneiras de descarga, para soltar o vapor. Os jatos partiram com a violência de tiros, as cinco caldeiras esvaziaram-se com um sopro de tempestade, assobiando com tal estrondo que os ouvidos sangraram. Tudo desapareceu no meio do vapor, o carvão ficou branco, as mulheres eram apenas sombras de gestos imprecisos. Só o menino permanecia visível, subindo na galeria, por trás dos turbilhões de fumaça branca, encantado, rindo alegremente por ter desencadeado aquele furacão.
     Isso durou cerca de quinze mi     Quando Etienne foi prevenido do que se tramava, veio correndo em companhia de Maheu. Ele mesmo estava ficando possuído, arrebatado por essa febre ardente de vingança. Mas nem por isso deixava de lutar, conjurando os companheiros a manterem-se calmos, agora que os cabos estavam cortados, as fornalhas apagadas e as caldeiras vazias, o que tornava o trabalho impossível. Mas continuavam não o escutando, sua liderança ia ser novamente contestada, quando se ouviu uma enorme vaia do lado de fora, dirigida para uma portinhola onde desembocava o fosso das escadas. 

— Abaixo os traidores! Sujos! Covardes! Abaixo! Abaixo! Era a saída dos operários do fundo da mina que começava. Os primeiros, ofuscados pela luminosidade, não sabiam o que fazer, pestanejando. Depois davam alguns passos, tentando atingir a estrada e fugir. 
— Abaixo os covardes! Abaixo os falsos irmãos!

     Todo o bando de grevistas acorrera. Em menos de três minutos não havia um só homem nas edificações; os quinhentos de Montsou formaram duas fileiras, para obrigar a passarem entre elas aqueles de Vandame, que tinham feito a traição de descer. E a cada novo mineiro que aparecia na porta do fosso, com as roupas em farrapos e a lama negra do trabalho, as vaias recrudesciam, ditos ferozes os recebiam: "Olha esse aí, tem três polegadas de pernas e um cu enorme! E aquele lá, com o nariz roído pelas putas do Volcan! E este outro, mija tanta remela pelos olhos que com ela se poderiam fazer velas para dez catedrais! E este um grandalhão sem bunda, comprido como a fome!" Uma operadora de vagonetes que surgiu tropeçando, enorme, com os seios na barriga e a barriga no traseiro, provocou uma tempestade de gargalhadas. Quiseram apalpá-la, os motejos eram cada vez mais fortes, estavam ficando cruéis, os tabefes iam começar. O desfile dos pobres-diabos continuava, todos tiritantes silenciosos às injúrias, esperando os murros como animais acuados felizes quando podiam enfim correr para fora da mina. 

— Diabo! Afinal, quantos estão lá dentro? — perguntou Etienne.

     Espantava-se de ver tanta gente saindo, irritava-se de constatar que não se tratava de meia dúzia de operários, pressionados pela fome intimidados pelos contramestres. Fora então enganado na floresta? A Jean Bart, quase em peso, descera. Soltou uma exclamação e precipitou-se, percebendo Chaval no umbral. 

— Canalha! Foi para isso que nos fizeste vir?

     Imprecações explodiram, houve um arranco em direção ao traidor. E então? Na véspera tinha feito o juramento com eles e agora era encontrado trabalhando, em companhia dos outros? Estava debochando deles? 

— Agarrem-no! Ao poço! Ao poço!

     Chaval, lívido de medo, gaguejava, procurava explicar-se, mas Etienne cortava-lhe a palavra, fora de si, possuído pela fúria da turba. 

— Escolheste ser dos nossos, e serás. Vamos! em marcha, tratante.

     Outro clamor cobriu sua voz. Catherine, por sua vez, aparecia, ofuscada pelo sol claro, temendo por sua sorte no meio daqueles selvagens. E, com as pernas arrebentadas pelos cento e dois lances de escada, as palmas das mãos sangrando, ofegava, quando a mãe, ao vê-la, atirou-se sobre ela com a mão levantada. 

— Cadela, tu também! Enquanto tua mãe morre de fome, tu a trais por esse cafajeste!

     Maheu reteve-lhe o braço, impedindo a bofetada. Mas sacudiu a filha, enfurecido como a mulher, censurando a sua conduta, ambos fora de si, gritando mais alto que os outros.
     Ao ver Catherine, Etienne ficou ainda mais exasperado. Repetiu: 

— A caminho! Para as outras minas! E tu vens conosco, velhaco! Chaval mal teve tempo de apanhar os tamancos no vestiário e de jogar o suéter sobre os ombros enregelados. Todos o arrastavam, forçando-o a correr no meio deles. Tonta, Catherine enfiava igualmente os tamancos, abotoava no pescoço a velha jaqueta de homem com que se abrigava desde o começo do frio. E saiu correndo atrás do amante, não queria deixá-lo um só instante, porque certamente iam massacrá-lo.

     Então, em dois minutos, a Jean-Bart esvaziou-se. Jeanlin, que encontrara uma cometa, soprava-a emitindo sons roucos, como se estivesse reunindo gado. As mulheres — a de Levaque, a Queimada a filha de Mouque — arregaçavam as saias para correr, enquanto Levaque, empunhando um machado, esgrimia-o como um bastão de tambor-mor. A turba engrossava com novos companheiros que continuavam a chegar, eram já quase mil, sem ordem, esparramando-se pela estrada em aluvião. Como o portão de saída era muito estreito, botaram abaixo a cerca. 

— Às minas! Abaixo os traidores! Nada de trabalho!

     E, de repente, a Jean-Bart caiu num grande silêncio. A mina estava deserta, não se ouvia uma respiração sequer. Deneulin saiu da sala dos contramestres e, sozinho, proibindo com um gesto que o seguissem, percorreu as instalações. Estava pálido, muito calmo. Primeiro, parou diante do poço, levantou os olhos, examinou os cabos cortados: as pontas de aço pendiam inúteis, os dentes da lima tinham deixado uma ferida viva, uma chaga fresca que reluzia no negro da graxa. Em seguida foi até a máquina, contemplou a biela imóvel, semelhante à articulação de um membro colossal atingido pela paralisia; tocou o metal já frio e sentiu um estremecimento como se estivesse tocando num cadáver. Depois desceu até as caldeiras; caminhando lentamente diante das fornalhas apagadas. abertas e inundadas, bateu com o pé nos geradores, que emitiram um som cavo. E agora? Estava tudo terminado, sua ruína concluíra-se. Mesmo que consertasse os cabos, que reacendesse as fornalhas, onde encontraria operários? Mais quinze dias de greve e estaria falido. E nessa certeza da sua bancarrota não mais conseguia odiar os bandidos de Montsou: via nisso a cumplicidade de todos, a culpa geral, secular. Brutos, sim; mas brutos que não sabiam ler e morriam de fome.

continua na página 254...
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Quinta Parte - (II.a) / Quinta Parte - (II.b) / Quinta Parte - (III) /      
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/IV — Princípio de uma grave doença

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     IV — Princípio de uma grave doença

             No dia seguinte, à hora do costume, o mancebo tirou do armário o seu casaco novo, calças novas, chapéu e botas novas, e depois de vestir esta armadura completa e calçar umas luvas, o que nele era um artigo de luxo raras vezes visto, partiu para o Luxemburgo.
     No caminho encontrou Courfeyrac, e como fez que não o vira, Courfeyrac, quando se recolheu a casa, disse aos seus amigos: 

— Encontrei agora o chapéu e o casaco novo de Mário, levando-o a ele dentro. Sem dúvida ia fazer algum exame porque levava mesmo cara de parvo!

     Chegando ao Luxemburgo, Mário deu uma volta em redor do lago, pôs-se a observar os cisnes e depois ficou em demorada contemplação diante de uma estátua que tinha a cabeça coberta de musgo e um quadril decepado. Ao pé do lago estava um barrigudo burguês de quarenta anos, dizendo para um rapazinho de cinco anos, que trazia pela mão: 

— Foge dos excessos, meu filho; conserva-te a igual distância do despotismo e da anarquia.

     Mário aplicou o ouvido ao que o burguês dizia, em seguida deu outra volta em redor do lago e por fim dirigiu-se para a «sua álea», porém, lentamente e como que a custo. Dir-se-ia que uma força oculta o impelia e ao mesmo tempo o retinha. Ele, porém, de nada disto tinha consciência e julgava fazer o que fazia todos os dias.
     Desembocando na álea, avistou no extremo oposto e «no seu banco», o senhor Leblanc e a jovem, abotoou a casaca, puxou-a por todos os lados para que não fizesse rugas, examinou com certa complacência os lustrosos reflexos das calças e dirigiu-se para o banco. O seu andar era como o do soldado que se dispõe para o ataque, pelo menos caminhava com certo ar de conquista. Eu digo que ele se dirigiu para o banco como se dissesse que Aníbal marchou sobre Roma.
     No fim de contas, os seus movimentos eram todos maquinais: não interrompera de modo algum as habituais preocupações do seu espírito e dos seus trabalhos. Naquele momento pensava em que o Manual do Bacharelado era um livro estúpido, e que forçosamente fora redigido por verdadeiros e raros cretinos, para que ali se analisassem como obras-primas três tragédias de Racine e apenas uma comédia de Molière. Sentia nos ouvidos uma espécie de agudo assobio. Aproximando-se do banco, desfazia com a mão as rugas do fato e não afastava os olhos da jovem. Parecia-lhe vê-la preencher toda a extremidade da álea com vago clarão azulado.
     À medida que se aproximava, demorava cada vez mais o passo. Chegando a certa distância do banco, muito antes do fim da álea, parou, e não pôde saber como foi que voltou para trás. Nem sequer chegou a dizer a si mesmo que não ia até ao fim. A jovem mal o teria podido avistar de longe e ver a bela presença que lhe dava o seu fato novo. Entretanto, ele conservava-se muito direito, para apresentar bom aspecto, na suposição de que fosse notado por alguém que se lhe achasse pela parte de trás.
     Chegou afinal ao extremo oposto, depois voltou, mas então aproximou-se um pouco mais do banco. Chegou mesmo até à distância de três intervalos de árvores; mas ali sentiu não sei que impossibilidade de continuar a adiantar-se e hesitou. Julgara ter visto o rosto da jovem voltar-se para ele. Todavia fez um esforço viril e violento para suplantar a hesitação e continuou a avançar. Ao cabo de poucos segundos passava pela frente do banco, direito e firme, vermelho até às orelhas, sem olhar para a direita nem para a esquerda, e com a mão metida na abotoadura do casaco, como qualquer estadista. No momento em que passava sob a artilharia da praça sentiu palpitar o coração de um modo medonho. Como na véspera, a jovem tinha o seu vestido de damasco e o seu chapéu de tule. Mário ouviu uma voz inefável, que devia ser a «sua voz». Conversava tranquilamente. Era muito linda. Mário conhecia-a, apesar de não intentar vê-la. Ela, contudo, pensava o mancebo, não poderia deixar de ter esma e consideração por mim, se soubesse ser eu o verdadeiro autor da dissertação sobre Marcos Obregon de la Ronda, que Francisco de Neufchâteau pôs, como sendo sua, na frente da sua edição de Gil Braz
     Mário ultrapassou o banco, foi até à extremidade da álea, que ficava muito próxima, e voltou de novo, para passar ainda pela frente da jovem. Desta vez estava em extremo pálido. Mas afinal não experimentava senão uma sensação muito desagradável. Afastou-se do banco e da jovem; e mesmo voltando as costas, imaginava que ela o observava, e isto fazia-o tropeçar. 
     Não intentou mais aproximar-se do banco; parou no meio da álea e ali, coisa que nunca fizera, sentou-se, olhando de revés, e pensando, nas profundidades menos distintas do seu espírito, que no fim de tudo era difícil que as jovens de quem ele admirava o chapéu branco e o vestido preto, fossem absolutamente insensíveis às suas calças lustrosas e ao seu casaco novo.
     Passado um quarto de hora levantou-se, como se fosse recomeçar o passeio para o lado do banco, que parecia rodeado por uma auréola. Contudo ficou de pé e imóvel. Pela primeira vez, ao cabo de quinze meses, disse consigo que o sujeito que ali ia sentar-se todos os dias com a jovem, tinha já, decerto, reparado nele e provavelmente achado estranha a sua assiduidade.
     Pela primeira vez também achou que era de pouca reverência designar o desconhecido, mesmo no segredo do seu pensamento, pela alcunha de senhor Leblanc.
     Conservou-se assim por alguns instantes cabisbaixo, e fazendo desenhos na areia com uma varinha que tinha na mão.
     Depois voltou de repente pelo lado oposto ao banco, onde estavam o senhor Leblanc e a filha e regressou a casa.
     Naquele dia esqueceu-se de jantar. Só às oito horas da noite deu pelo esquecimento; e como era demasiadamente tarde para ir à rua de S. Jacques, disse para consigo: «Ora adeus!» E comeu um pedaço de pão.
     Não se deitou porém senão depois de ter escovado e dobrado o casaco com todo o cuidado.

continua na página 531...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - III — Efeitos da Primavera
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - IV — Princípio de uma grave doença
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

domingo, 3 de maio de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1


1.
continuando...
     
     Acontecera naquela manhã no Ministério, se é que se podia dizer que algo assim tão nebuloso pudesse ser chamado de acontecimento.
     Eram quase onze da manhã, e no Departamento de Documentação, onde Winston trabalhava, já arrastavam as cadeiras para fora das estações de trabalho para reuni-las no centro do salão, na frente da grande teletela, nos preparativos para os Dois Minutos de Ódio. Winston estava a ponto de se instalar em uma das fileiras centrais, quando de repente duas pessoas a quem conhecia de vista mas com quem nunca trocara uma só palavra entraram no aposento. Uma delas era uma garota com quem muitas vezes cruzava nos corredores. Não sabia seu nome, porém sabia que trabalhava no Departamento de Ficção. Supunha — já que a vira algumas vezes com as mãos sujas de óleo e munida de uma chave inglesa — que tivesse uma função de caráter mecânico em alguma das máquinas romanceadoras. Era uma garota de ar provocador, de uns vinte e sete anos, abundante cabelo preto, rosto sardento e movimentos bruscos, atléticos. Trazia uma faixa estreita, escarlate, símbolo da Liga Juvenil Antissexo, enrolada na cintura por cima do macacão, de modo a evidenciar sutilmente as formas harmoniosas de seus quadris. Winston sentira aversão por ela desde o primeiríssimo momento em que a vira. Sabia a razão. Era por causa da atmosfera de quadras de hóquei, banhos frios, caminhadas comunitárias e mente impoluta que, por alguma razão, a impregnava. Sentia aversão por quase todas as mulheres, sobretudo as jovens e bonitas. Os adeptos mais fanáticos do Partido, os devoradores de slogans, os espiões amadores e os farejadores de inortodoxia eram sempre mulheres, sobretudo as jovens. Mas aquela garota em especial lhe dava a impressão de ser mais perigosa do que a maioria. Numa ocasião em que os dois haviam se cruzado no corredor ela lhe dirigira um rápido olhar enviesado que parecera perfurar seu corpo e por um instante o deixara tomado do mais profundo horror. Passara-lhe pela cabeça, inclusive, que ela devia ser uma agente da Polícia das Ideias. Isso, na verdade, era muito improvável. Mesmo assim ele continuava a sentir um desconforto esquisito, uma mistura de medo e hostilidade, sempre que ela estava por perto.
     A outra pessoa era um homem chamado O’Brien, membro do Núcleo do Partido e ocupante de um cargo tão importante e remoto que Winston fazia apenas uma vaga ideia de qual fosse sua natureza. Por um momento, ao ver o macacão negro de um membro do Núcleo do Partido se aproximar, o grupo de pessoas que cercavam as cadeiras ficou em silêncio. O’Brien era um homem grande, corpulento, de pescoço grosso e rosto rude, jocoso, brutal. A despeito da aparência imponente, seu estilo não era desprovido de sedução. Tinha um jeito de reposicionar os óculos no alto do nariz que era curiosamente desarmante — de um modo impossível de definir, curiosamente civilizado. Era um gesto que, caso ainda fosse possível alguém pensar nestes termos, talvez lembrasse um nobre inglês do século XVIII oferecendo a caixa de rapé. Winston cruzara O’Brien uma dúzia de vezes, talvez, ao longo de um número quase igual de anos. Sentia-se intensamente atraído por ele, e não apenas porque o contraste entre seus modos educados e seu físico de combatente de elite o intrigasse. Era muito mais em razão de uma crença secreta — talvez nem chegasse a ser crença, talvez fosse apenas uma esperança —: a de que a ortodoxia política de O’Brien não era impecável. Alguma coisa no rosto do outro o fazia acreditar piamente nisso. E, de novo, talvez não fosse nem inortodoxia o que estava escrito naquele rosto, mas tão só inteligência. Por isso ou por aquilo, O’Brien parecia ser uma pessoa com quem se podia conversar, se por acaso fosse possível lograr a teletela e ficar a sós com ele. Winston nunca fizera o menor esforço para tirar sua dúvida a limpo: na verdade, não havia como fazê-lo. Naquele momento O’Brien dirigiu os olhos para o relógio de pulso, viu que já eram quase onze horas e, óbvio, resolveu ficar no Departamento de Documentação até o término dos Dois Minutos de Ódio. Ocupou um assento na mesma fileira em que estava Winston, a dois lugares de distância. Uma mulher franzina, de cabelo ruivo, que trabalhava no cubículo vizinho ao de Winston, estava sentada entre os dois. A garota de cabelo escuro estava logo atrás.
     Pouco depois um guincho pavoroso, estridente, como o som produzido por alguma máquina monstruosa girando sem lubrificação, escapou da vasta teletela posicionada no fundo da sala. Era um barulho que mexia com os nervos da pessoa e arrepiava os cabelos da nuca. O Ódio havia começado.
     Como de costume, o rosto de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Ouviram-se assobios em vários pontos da plateia. A mulher ruiva e franzina soltou um guincho em que medo e repugnância se fundiam. Goldstein era o renegado e apóstata que um dia, muito tempo antes (quanto tempo, exatamente, era coisa de que ninguém se lembrava), fora uma das figuras destacadas do Partido, quase tão importante quanto o próprio Grande Irmão, e que depois se entregara a atividades contrarrevolucionárias, fora condenado à morte e em seguida fugira misteriosamente e sumira do mapa. A programação de Dois Minutos de Ódio variava todos os dias, mas o principal personagem era sempre Goldstein. Ele era o traidor original, o primeiro conspurcador da pureza do Partido. Todos os crimes subsequentes contra o Partido, todas as perfídias, sabotagens, heresias, todos os desvios eram resultado direto de sua pregação. Desta ou daquela maneira ele continuava vivo e maquinando seus conluios: talvez em algum lugar do outro lado do mar, talvez até sob a proteção de seus benfeitores estrangeiros — era o que se dizia ocasionalmente — em algum esconderijo na própria Oceânia.
     O diafragma de Winston estava contraído. Ele era incapaz de olhar para o rosto de Goldstein sem ser invadido por uma dolorosa combinação de emoções. Era um rosto judaico chupado, envolto por uma vasta lanugem de cabelo branco e munido de um pequeno cavanhaque — um rosto inteligente e apesar disso, por alguma razão, inerentemente desprezível, com uma espécie de tolice senil no longo nariz esguio, onde se equilibrava um par de óculos já perto da ponta. Parecia a cara de uma ovelha, e a voz, também, tinha uma qualidade algo ovina. Goldstein bradava seu discurso envenenado de sempre sobre as doutrinas do Partido — um discurso tão exagerado e perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado. Goldstein atacava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata celebração da paz com a Eurásia, defendia a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída — e tudo isso num rápido discurso polissilábico que era uma espécie de paródia do estilo habitual dos oradores do Partido, inclusive com palavras em Novafala: mais palavras em Novafala, aliás, do que qualquer membro do Partido costumava usar na vida real. E o tempo todo, para que ninguém alimentasse uma dúvida sequer sobre a realidade encoberta pela lenga-lenga especiosa de Goldstein, por trás de sua cabeça, na teletela, desfilavam as colunas intermináveis do exército eurasiano — fileira após fileira de homens de aspecto sólido e fisionomias asiáticas desprovidas de expressão, que emergiam na superfície da tela e desapareciam, para ser substituídos por outros exatamente iguais. O rumor abafado e ritmado das botas dos soldados formava o pano de fundo para a voz de trombone de Goldstein.
     Não fazia nem meio minuto que o Ódio havia começado e metade das pessoas presentes no salão já começara a emitir exclamações incontroláveis de fúria. Impossível tolerar a visão do rosto ovino repleto de empáfia na tela e o poder aterrador do exército eurasiano logo atrás. Além disso, a visão ou mesmo a ideia de Goldstein produziam automaticamente medo e ira. Ele era um objeto de ódio ainda mais constante do que a Eurásia ou a Lestásia, já que sempre que a Oceânia entrava em guerra com uma dessas potências, costumava estar em paz com a outra. O estranho, porém, era que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todos, embora todos os dias, e mil vezes por dia, nos palanques, nas teletelas, nos jornais, nos livros, suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, expostas ao escárnio geral como o lixo lamentável que eram, apesar disso tudo, o ritmo de crescimento de sua influência parecia nunca arrefecer. Sempre havia novos trouxas à espera de ser seduzidos por ele. Não se passava um dia sem que espiões e sabotadores agindo a seu serviço fossem desmascarados pela Polícia das Ideias. Ele era o comandante de um vasto exército nas sombras, uma rede clandestina de conspiradores dedicados à derrubada do Estado. A Confraria, esse era seu suposto nome. Também circulavam histórias sobre um livro terrível, um compêndio de todas as heresias, do qual Goldstein era o autor e que circulava clandestinamente aqui e ali. Um livro sem título. Quando queriam referir-se a ele, as pessoas diziam apenas o livro. Mas só se tomava conhecimento dessas coisas por intermédio de boatos imprecisos. Nem a Confraria nem o livro eram assuntos que um membro comum do Partido estivesse inclinado a mencionar se pudesse evitá-lo.
     Em seu segundo minuto, o Ódio virou desvario. As pessoas pulavam em seus lugares, gritando com toda a força de seus pulmões no esforço de afogar a exasperante voz estentórea que saía da tela. A mulher esguia e ruiva adquirira uma tonalidade rosa-vivo, e sua boca se abria e se fechava como a boca de um peixe fora d’água. Mesmo o rosto severo de O’Brien ficara rubro. Ele estava sentado muito ereto na cadeira; seu peito vigoroso estufava e estremecia como se estivesse enfrentando uma vaga. A garota de cabelo escuro sentada atrás de Winston começara a gritar “Porco! Porco! Porco!”, e de repente apanhou um pesado dicionário de Novafala e arremessou-o contra a tela. O livro bateu no nariz de Goldstein e despencou: a voz, inexorável, prosseguia. Num momento de lucidez, Winston constatou estar berrando junto com os outros e percebeu que golpeava violentamente a trave de sua cadeira com os calcanhares. O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio não era o fato de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos, já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia circular pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a berrar, rostos deformados pela fúria. Mesmo assim, a raiva que as pessoas sentiam era uma emoção abstrata, sem direção, que podia ser transferida de um objeto para outro como a chama de um maçarico. Assim, em determinado instante a fúria de Winston não estava nem um pouco voltada contra Goldstein, mas, ao contrário, visava o Grande Irmão, o Partido e a Polícia das Ideias; e nesses momentos seu coração se solidarizava com o herege solitário e ridicularizado que aparecia na tela, único guardião da verdade e da saúde mental num mundo de mentiras. Isso não o impedia de, no instante seguinte, irmanar-se àqueles que o cercavam; quando isso acontecia, tudo o que era dito a respeito de Goldstein lhe parecia verdadeiro. Nesses momentos, sua repulsa secreta pelo Grande Irmão se transformava em veneração, e o Grande Irmão adquiria uma estatura monumental, transformava-se num protetor destemido, firme feito rocha para enfrentar as hordas da Ásia, e Goldstein, a despeito de seu isolamento, de sua vulnerabilidade e da incerteza que cercava inclusive sua existência, virava um mago sinistro, capaz de destruir a estrutura da civilização com o mero poder de sua voz.
     Em algumas ocasiões chegava a ser possível alterar o objeto do próprio ódio por meio de um ato voluntário. De chofre, graças a um esforço violento como aquele a que recorremos para erguer a cabeça do travesseiro durante um pesadelo, Winston conseguia transferir seu ódio ao rosto que aparecia na tela para a garota de cabelo escuro sentada logo atrás. Alucinações vívidas, belas, passavam-lhe pela mente. Haveria de golpeá-la até a morte com um cassetete de borracha. Haveria de amarrá-la nua a uma estaca e depois alvejá-la com flechas, como são Sebastião. Haveria de violentá-la e no momento do clímax cortaria sua garganta. De mais a mais, agora percebia mais claramente que antes por que a odiava. Odiava-a porque era jovem e bela e assexuada, porque queria ir para a cama com ela e nunca o faria, porque em torno de sua adorável cintura flexível que parecia lhe pedir que a envolvesse com o braço havia apenas a odiosa faixa escarlate, símbolo agressivo de castidade.
     O Ódio chegou ao clímax. A voz de Goldstein se transformara efetivamente num balido de ovelha e por um instante seu rosto assumiu um semblante de ovelha. Depois o semblante de ovelha se dissolveu e foi substituído pelo rosto de um soldado eurasiano que parecia avançar, imenso e terrível, metralhadora roncando, como se pretendesse saltar para fora da superfície da tela, de modo que algumas pessoas sentadas na primeira fila se inclinaram para trás nos assentos. No mesmo instante, porém, levando todos os presentes a suspirar aliviados, o personagem hostil desapareceu para dar lugar ao rosto do Grande Irmão, cabelo preto, bigode preto, cheio de força e misteriosa calma, e tão imenso que quase enchia a tela inteira. Ninguém ouvia o que o Grande Irmão estava dizendo. Eram apenas algumas palavras de estímulo, o tipo de palavras pronunciadas no fragor da batalha, impossíveis de distinguir isoladamente, mas que restauram a confiança pelo mero fato de serem ditas. Em seguida o rosto do Grande Irmão se esfumou outra vez e os três slogans do Partido, em letras maiúsculas, ocuparam seu lugar.

GUERRA É PAZ 
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO 
IGNORÂNCIA É FORÇA

     O rosto do Grande Irmão, contudo, deu a impressão de permanecer na tela por vários segundos mais, como se o impacto que causara nas retinas de todos os presentes fosse vívido demais para desaparecer imediatamente. A mulher esguia e ruiva se jogara para a frente, apoiando-se no encosto da cadeira diante dela. Com um murmúrio trêmulo que parecia dizer “Meu Salvador!”, estendeu os braços para a tela. Em seguida afundou o rosto nas mãos. Era visível que fazia uma oração.
     Nesse momento todo o grupo ali presente prorrompeu num canto grave, lento, ritmado, em que entoava “g-i!... g-i!... g-i!…” — uma e outra vez, muito devagar, com uma longa pausa entre o “g” e o “i” —, um som grave, em surdina, às vezes curiosamente feroz, em cujo segundo plano parecia ouvir se o ruído de pés descalços golpeando o chão e o latejar de tantãs. Aquilo continuou por uns trinta segundos. Tratava-se de um refrão ouvido com frequência em momentos de emoção avassaladora. Em parte era uma espécie de hino à sabedoria e à majestade do Grande Irmão, mas antes de mais nada era um ato de auto-hipnose, um embotamento voluntário da consciência por intermédio de um ruído rítmico. Winston teve a sensação de gelar por dentro. Durante os Dois Minutos de Ódio ele não conseguia deixar de se integrar ao delírio coletivo, porém aquela entonação sub-humana de “g i!... g-i!...” sempre o deixava horrorizado. Claro que cantava com os outros: impossível não fazê-lo. Dissimular os próprios sentimentos, manter a expressão do rosto sob controle, fazer o que os outros fazem: tudo reações instintivas. Mas houve um espaço de uns dois segundos durante o qual a expressão de seus olhos talvez o tivesse traído. E foi exatamente nesse instante que a coisa significativa aconteceu — se é que de fato aconteceu.
     Por um instante seus olhos se encontraram com os de O’Brien. O’Brien se erguera de seu assento. Tirara os óculos e estava recolocando-os no nariz naquele seu gesto característico. Mas houve uma fração de segundo em que os olhos dos dois se encontraram, e enquanto isso acontecia Winston compreendeu — sim, compreendeu! — que O’Brien pensava o mesmo que ele. Uma mensagem inequívoca fora transmitida. Era como se as duas mentes, de Winston e O’Brien, tivessem se aberto e os pensamentos fluído de um para o outro através dos olhos. “Estou com você”, O’Brien parecia estar dizendo. “Sei exatamente o que está sentindo. Sei tudo sobre seu desprezo, seu ódio, seu asco. Mas não se preocupe, estou com você!” Em seguida o clarão de entendimento se dissipou e o rosto de O’Brien voltou a ser tão impenetrável quanto os de todos os outros.
     Isso fora tudo, e ele já não estava seguro quanto ao que acontecera. Incidentes como aquele nunca tinham sequelas. Eles só serviam para manter viva, nele, a fé, ou a esperança, de que outros além dele fossem inimigos do Partido. Talvez, afinal, os boatos sobre a existência de vastas conspirações clandestinas fossem verdadeiros — talvez a Confraria realmente existisse! Era impossível, apesar da infinidade de prisões e confissões e execuções, ter certeza de que a Confraria não passava de invenção. Havia dias em que ele acreditava em sua existência, outros em que não acreditava. Nada confirmava o fato, além de vislumbres passageiros que talvez significassem alguma coisa, talvez não significassem nada: fragmentos de conversa ouvidos de forma difusa, rabiscos pouco legíveis nas paredes dos lavatórios — uma vez, inclusive, ao presenciar o encontro de dois estranhos, um mínimo movimento de mãos que lhe parecera um sinal de reconhecimento. Tudo não passava de hipótese: muito provavelmente imaginara aquilo. Voltara para sua estação de trabalho sem tornar a olhar para O’Brien. A ideia de levar adiante aquele contato passageiro nem lhe passara pela cabeça. Teria sido perigoso ao extremo, mesmo que soubesse como agir para fazê-lo. Por um segundo, dois segundos, ele e O’Brien haviam trocado um olhar equívoco, e ponto final. Mas mesmo isso era um acontecimento memorável na solidão cerrada em que eram obrigados a viver.
     Winston saiu de seu torpor e endireitou o corpo na cadeira. Soltou um arroto. O gim em seu estômago começava a subir.
     Seus olhos voltaram a fitar a página. Constatou que durante o tempo em que ficara ali sentado sentindo-se desamparado continuara a escrever, como numa ação automática. E já não era a letra retraída e desajeitada de antes. A pena deslizara voluptuosamente pelo papel macio, grafando em letras de forma graúdas e nítidas:

ABAIXO O GRANDE IRMÃO 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO 
ABAIXO O GRANDE IRMÃO

vezes sem fim, enchendo metade de uma página.
     Não conseguiu evitar uma fisgada de pânico. Um absurdo, já que escrever aquelas palavras específicas não era mais perigoso do que o ato inicial de começar um diário; por um momento, porém, teve a tentação de arrancar as páginas inutilizadas e deixar todo o projeto de lado.
     Não o fez, porém, porque sabia que era inútil. O fato de escrever ou deixar de escrever ABAIXO O GRANDE IRMÃO era irrelevante. Não fazia a menor diferença levar o diário adiante ou não. De toda maneira, a Polícia das Ideias haveria de apanhá-lo. Cometera — e teria cometido, mesmo que jamais houvesse aproximado a pena do papel — o crime essencial que englobava todos os outros. Pensamento-crime, eles o chamavam. O pensamento-crime não era uma coisa que se pudesse disfarçar para sempre. Você até conseguia se esquivar durante algum tempo, às vezes durante anos, só que mais cedo ou mais tarde, com toda a certeza, eles o agarrariam.
     Era sempre à noite — as prisões invariavelmente aconteciam à noite. O tranco súbito que arranca do sono, a mão brutal sacudindo o ombro, as luzes ofuscando os olhos, o círculo de rostos impiedosos em torno da cama. Na vasta maioria dos casos não havia julgamento, não havia registro de prisão. As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. Seus nomes eram removidos dos arquivos, todas as menções a qualquer coisa que tivessem feito eram apagadas, suas existências anteriores eram negadas e em seguida esquecidas. Você era cancelado, aniquilado. Vaporizado, esse o termo costumeiro.
     Por um momento, foi tomado por uma espécie de histeria. Começou a escrever, em garranchos apressados e sem capricho:
                                            vão me dar um tiro não me incomodo vão me dar um tiro na nuca não me incomodo abaixo o grande irmão eles sempre atiram na nuca não me incomodo abaixo o grande irmão...
     Recostou-se outra vez na cadeira, um pouco envergonhado de si mesmo, e largou a pena. No instante seguinte estremeceu com violência. Alguém batia à porta.
     Já!? Ficou ali sentado, imóvel feito um rato, na esperança inútil de que a pessoa junto à porta fosse embora depois da primeira tentativa. Mas não, bateram outra vez. O pior de tudo seria protelar. Seu coração batia como um tambor, porém seu rosto provavelmente estava desprovido de expressão, resultado de um longo hábito. Ergueu-se e se aproximou da porta arrastando os pés.

continua na página 26...
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Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) / Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério)   
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.