O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes
SEGUNDA PARTE
HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA
43. Protecionismo e livre-câmbio na América Latina: O curto voo de Lucas Alamán
A expansão dos mercados latino-americanos acelerava a
acumulação de capitais nas sementeiras da indústria
britânica. Fazia já muito tempo que o Atlântico se tornara o
eixo do comércio mundial, e os ingleses tinham sabido tirar
proveito da localização de sua ilha, cheia de portos, a meio
caminho do Báltico e do Mediterrâneo e apontando as
costas da América. A Inglaterra organizava um sistema
universal e se tornava a prodigiosa fábrica abastecedora do
planeta: do mundo inteiro vinham as matérias-primas e no
mundo inteiro se derramavam as mercadorias elaboradas. O
império contava com o maior porto e o mais poderoso
sistema financeiro de seu tempo; tinha o mais alto grau de
especialização comercial, dispunha do monopólio mundial
dos seguros e dos fretes, e dominava o mercado
internacional do ouro. Friederich List, pai da união aduaneira
alemã, havia advertido que o livre-comércio era o principal
produto de exportação da Grã- Bretanha
[1]. Nada enfurecia
tanto os ingleses quanto o protecionismo aduaneiro, e às
vezes faziam sabê-lo numa linguagem de sangue e fogo,
como na Guerra do Ópio contra a China. No entanto, a livre
concorrência nos mercados se converteu numa verdade
revelada para a Inglaterra somente a partir do momento em
que teve certeza de que era a mais forte, e depois de ter
desenvolvido sua própria indústria têxtil ao abrigo da
legislação protecionista mais severa da Europa. No difícil
começo, quando a indústria britânica ainda levava
desvantagem, o cidadão inglês que fosse surpreendido
exportando lã crua, sem elaborar, era condenado a perder a
mão direita, e se reincidia, era enforcado; estava proibido
de enterrar um cadáver sem que antes o pároco do lugar
garantisse que a mortalha provinha de uma fábrica
nacional.
[2]
[1] Este economista alemão, nascido em 1789, propagou nos Estados Unidos e
em sua própria pátria a doutrina do protecionismo aduaneiro e do fomento
industrial. Suicidou-se em 1846, mas suas ideias se impuseram nos dois países.
[2] VÉLIZ, Claudio. “La mesa de tres patas”. In: Desarrollo económico, v.3 (1 e
2). Santiago de Chile, setembro de 1963.
“Todos os fenômenos deletérios suscitados pela livre
concorrência no interior de um país”, observou Marx, “se
reproduzem em proporções mais gigantescas no mercado
mundial”
[3]. O ingresso da América Latina na órbita
britânica, da qual só sairia para se incorporar à órbita norte
americana, ocorreu nos termos desse quadro geral, e nele
se
consolidou
a
dependência dos novos países
independentes. A livre circulação de mercadorias e a livre
circulação do dinheiro para os pagamentos, assim como a
transferência
de
capitais,
tiveram
consequências
dramáticas.
[3] “Não é estranho que os livre-cambistas sejam incapazes de compreender
como um país pode enriquecer à custa de outro, pois estes mesmos senhores
tampouco querem compreender como no interior de um país uma classe pode
enriquecer à custa de outra. MARX, Karl. “Discurso sobre el libre cambio.” In:
Miseria de la filosofía. Moscou, s.f.
No México, Vicente Guerrero chegou ao poder, em 1829,
“nos ombros do desespero dos artesãos, insuflados pelo
grande demagogo Lorenzo de Zavala, que lançou sobre as
lojas repletas de mercadorias inglesas do Parián uma turba
faminta e desesperada”
[4]. Pouco durou Guerrero no poder,
e caiu em meio à indiferença dos trabalhadores, pois não
quis ou não pôde opor um dique à importação de
mercadorias europeias, “cuja abundância”, diz Chávez
Orozco, “levava ao desemprego as massas artesãs das
cidades, que antes da independência, sobretudo nos
períodos bélicos da Europa, viviam com certa folga”. A
indústria mexicana carecera de capitais, mão de obra
suficiente e técnicas modernas; não tivera uma organização
adequada, nem meios de comunicação e de transporte para
chegar aos mercados e às fontes de abastecimento.
“Sobraram-lhe unicamente interferências, restrições e
impedimentos de toda ordem”, diz Alonso Aguilar
[5]. Apesar
disso, como notara Humboldt, a indústria havia despertado
nos momentos de estancamento do comércio exterior,
quando se interrompiam ou se tornavam problemáticas as
comunicações marítimas, e começara a fabricar o aço e a
fazer uso do ferro e do mercúrio. O liberalismo que a
independência trouxe consigo agregava pérolas à coroa
britânica e paralisava os estabelecimentos têxteis e
metalúrgicos do México, Puebla e Guadalajara.
[4] CHÁVEZ OROZCO, Luis. “La industria de transformación mexicana (1821
1867).” In: ANCO NACIONAL DE COMERCIO EXTERIOR. Colección de
documentos para la historia del comercio exterior de México. México, 1962. t.VII.
[5] AGUILAR MONTEVERDE, Alonso. Dialéctica de la economía mexicana.
México, 1968.
Lucas Alamán, um político conservador de grande
capacidade, percebeu a tempo que as ideias de Adam Smith
continham veneno para a economia nacional, e propiciou,
como ministro, a criação de um banco estatal, o anco de
Avio, com o fim de incrementar a industrialização. Um
imposto aplicado aos tecidos estrangeiros de algodão
proporcionaria ao país os recursos para comprar no exterior
as máquinas e os meios técnicos que o México precisava
para abastecer-se de tecidos de algodão de fabricação
própria. O país dispunha de matéria-prima, contava com
energia hidráulica mais barata do que o carvão e podia
formar rapidamente bons operários. O anco nasceu em
1830, e pouco depois chegaram das melhores fábricas
europeias as máquinas mais modernas para fiar e tecer
algodão; além disso, o Estado contratou especialistas
estrangeiros na técnica têxtil. Em 1844, as grandes fábricas
de Puebla produziram um milhão e 400 mil cortes de manta
grossa. A nova capacidade industrial do país ultrapassava a
demanda interna; o mercado de consumo do “reino da
desigualdade”, formado em sua grande maioria por índios
famintos, não podia sustentar a continuidade daquele
desenvolvimento fabril vertiginoso. Contra essa muralha se
chocava o esforço de romper a estrutura herdada da
colônia. A tal ponto se modernizara a indústria que as
fábricas têxteis norte-americanas, por volta de 1840,
contavam em média com menos fusos do que as fábricas
mexicanas
[6]. Dez anos depois, a proporção se invertera
com sobras. A instabilidade política, as pressões dos
comerciantes ingleses e franceses e seus poderosos sócios
internos, as mesquinhas dimensões do mercado interno, de
antemão estrangulado pela economia mineira e
latifundiária, derrubaram a exitosa experiência. Antes de
1850 já se interrompera o progresso da indústria têxtil
mexicana. Os criadores do anco de Avio tinham ampliado
seu raio de ação, e quando ele se extinguiu, os créditos
abarcavam também as tecelagens de lã, as fábricas de
tapetes e a produção de ferro e de papel. Esteban de
Antuñano sustentava, inclusive, a necessidade de que o
México criasse o quanto antes uma indústria nacional de
maquinarias, “para resistir ao egoísmo europeu”.
[6] AZANT, Jan. Estudio sobre la productividad de la industria algodonera
mexicana en 1843-1845 (Lucas Alamán y la revolución industrial en México). In: Banco Nacional de Comercio Exterior, op. cit.
O maior mérito do ciclo industrializador de Alamán e
Antuñano reside em que ambos restabeleceram a
identidade
“entre
a
independência política e a
independência econômica, e o fato de preconizar, como
único meio de defesa contra os povos poderosos e
agressivos, um enérgico impulso à economia industrial”
[7].
O próprio Alamán se tornou industrial, criou o maior
estabelecimento têxtil mexicano daquele tempo (chamava
se Cocolapan e ainda existe) e organizou os industriais
como grupo de pressão frente aos sucessivos governos
livre-cambistas
[8]. Mas Alamán, conservador e católico, não
chegou a equacionar a questão agrária, porque ele mesmo
se sentia ideologicamente ligado à velha ordem, e não
percebeu que o desenvolvimento industrial estava de
antemão condenado a ficar no meio do caminho, sem bases
de sustentação, naquele país de latifúndios infinitos e
miséria generalizada.
[7] CHÁVEZ OROZCO, op. cit.
[8] No tomo III da citada coleção de documentos do anco Nacional de
Comércio Exterior são transcritos vários arrazoados protecionistas publicados en
El Siglo XIX em fins de 1850: “Passada já a conquista da civilização espanhola
com seus três séculos de dominação militar, entrou o México numa nova era,
que também pode ser chamada de conquista, mas científica e mercantil (..). Sua
potência são os navios mercantes; sua prédica é a absoluta liberdade
econômica; sua norma poderosíssima em relação aos povos menos adiantados é
a lei da reciprocidade (...). ‘Levai à Europa’, disse-nos, ‘quantas manufaturas
possais (exceto, no entanto, as que nós proibimos); e em contrapartida permiti
que tragamos quantas manufaturas possamos, ainda que arruinando vossas
artes (...)’. Adotemos as doutrinas que eles (nossos senhores do outro lado do
oceano e do rio Bravo) dão e não tomam, e nosso erário crescerá um pouco, se
queiramos (..), mas não será fomentando o trabalho do povo mexicano, mas o
dos povos inglês e francês, suíço e da América do Norte”.
continua na página 293...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Protecionismo e livre-câmbio na América Latina (3)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?
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até quando iremos entregar nossas riquezas?