em busca do tempo perdidovolume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Segundo
Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin.
continuando...
Assaltou-me o temor de haver falado sem simpatia, diante de Robert, dessa jovem
falsamente original, cujo espírito era tão medíocre quanto violento o caráter. Há quase uma só
notícia que venhamos a saber que nos faça lastimar uma de nossas frases. Respondi à Sra. de
Cambremer que não sabia de nada; que aliás era verdade, e que além disso a noiva me parecia
ainda muito jovem.
- Talvez por causa disso é que o noivado ainda não seja oficial; em todo caso, falam muito
nisso. -
Tendo ouvido que a Sra. de Cambremer me falar de Morel e julgando que ainda o fazia
quando baixou a voz para me falar do noivado de Saint-Loup, disse-lhe secamente a Sra.
Verdurin:
- Quero preveni-la; não é música sem valor o que aqui se toca. A senhora sabe, em arte os
fiéis das minhas quartas, meus filhos, como lhes chamo, é uma coisa espantosa como são
avançados - ajuntou ela com ar de orgulhoso terror. - Muitas vezes lhe digo: "Meu pessoalzinho,
vocês andam mais depressa do que aqui a sua Patroa, a quem, no entanto, passam as audácias
por nunca terem causado medo." Todos os anos isso vai um pouco mais longe; virá em breve o
dia em que ultrapassarão Wagner e d'Indy.
- Mas é muito bom ser avançado, nunca se é o bastante - disse a Sra. de Cambremer,
sempre inspecionando cada canto da sala de jantar, procurando reconhecer as coisas que a
sogra havia deixado, as que a Sra. Verdurin trouxera, e apanhar esta em flagrante delito de falta
de gosto. No entanto, buscava falar-me do assunto que mais a interessava: o Sr. de Charlus.
Achava tocante que o barão protegesse um violinista. - Ele parece inteligente. É até de uma verve
extrema para quem já é um tanto idoso.
- Idoso? Mas ele não tem jeito de idoso; olhe, o cabelo ainda é de moço. (Pois fazia uns
três ou quatro anos que a palavra "cabelo" fora empregada no singular por um desses
desconhecidos que são os lançadores de modas literárias, e todas as pessoas que tinham o
comprimento de raio da Sra. de Cambremer diziam "o cabelo", não sem um sorriso afetado.
Atualmente, ainda se diz "o cabelo", mas do excesso do singular renascerá o plural.)
- O que me interessa, acima de tudo, no Sr. de Charlus - acrescentou - é que se sente nele
o dom. Digo-lhe que pouco me importa o saber. O que se aprende não me interessa. -
Tais palavras não estão em contradição com o valor particular da Sra. de Cambremer, que
era precisamente imitado e adquirido. Mas justamente uma das coisas que se deviam saber
naquele momento é que o saber não é nada e não pesa coisa alguma ao lado da originalidade. A
Sra. de Cambremer aprendera, como o resto, que não é preciso aprender nada.
- É por isso - disse ela - que Brichot, que tem lá o seu lado curioso, pois não desprezo
certa erudição saborosa, interessa-me no entanto muito menos. -
Mas Brichot, naquele instante, só estava ocupado com uma coisa: ouvindo que falavam de
música, receava que o assunto recordasse à Sra. Verdurin a morte de Dechambre. Queria dizer
alguma coisa para afastar essa lembrança funesta. O Sr. de Cambremer forneceu-lhe a ocasião
com esta pergunta:
- Então, os lugares onde há florestas têm sempre nomes de animais?
- Como não? - respondeu Brichot, contente por ostentar seu saber diante de tantos novos,
entre os quais eu lhe dissera que estava certo de interessar ao menos um. - Basta ver como, nos
próprios nomes de pessoas, uma árvore é conservada, como um feto na hulha. Um de nossos
padres conscritos se chama Sr. de Saulces de Freycinet, o que significa, salvo engano, lugar
plantado de salgueiros e de freixos, salix et fraxinetum; seu sobrinho, Sr. de Selves, reúne mais
árvores ainda, visto que se chama de Selves, sylva. -
Com satisfação, Saniette via a conversa animar-se.
Podia, já que Brichot falava o tempo todo, conservar um silêncio que lhe evitaria ser o
objeto dos motejos do Sr. e da Sra. Verdurin. E, tornando-se ainda mais sensível na alegria da
libertação, emocionara-se ao ouvir o Sr. Verdurin, malgrado a solenidade de um tal jantar, dizer ao
mordomo que pusesse uma jarra d'água junto do Sr. Saniette, que não bebia outra coisa. (Os
generais que mais sacrificam soldados fazem questão de mantê-los bem alimentados.) Enfim, a
Sra. Verdurin sorrira uma vez para Saniette. Decididamente eram boas pessoas. Ele não mais
seria torturado.
Nesse momento, a refeição foi interrompida por um convidado que eu me esquecera de
citar, um ilustre filósofo norueguês que falava francês muito bem, porém muito lentamente, por
dois motivos: primeiro, porque, tendo-o aprendido há pouco e não querendo cometer erros
(entretanto cometia alguns), reportava-se para cada palavra a uma espécie de dicionário interior;
depois, porque, sendo metafísico, pensava sempre o que desejava dizer enquanto o dizia, o que,
mesmo num francês, é causa de lentidão. De resto, era uma criatura deliciosa, embora
aparentemente igual a tantas outras, menos sob um aspecto. Esse homem, de falar tão vagaroso
(havia um certo silêncio entre duas palavras), tornava-se de uma rapidez vertiginosa para escapar
logo que se despedia. Da primeira vez, sua precipitação fazia pensar numa cólica ou até numa
necessidade mais imperiosa.
- Meu caro... colega - disse ele a Brichot, depois de haver deliberado em seu espírito se
"colega" era o termo conveniente -, tenho uma espécie de desejo de saber se há outras árvores
na nomenclatura de sua bela língua francesa latina normanda. A senhora (ele queria dizer Sra.
Verdurin, embora não se atrevesse a encará-la) me disse que o senhor sabia todas as coisas.
Não será este precisamente o momento?
- Não, momento de comer - interrompeu a Sra. Verdurin, que via que o jantar não acabava. - Ah, muito bem - respondeu o escandinavo baixando a cabeça para o prato, com um sorriso triste
e resignado. - Porém devo observar, a senhora que se me permite esse questionário, perdão,
essa questação - que amanhã devo voltar a Paris para jantar na Tour d'Argent ou no Hotel
Meurice. Meu confrade francês -, Sr. Boutroux, deve nos falar de sessões de espiritismo perdão,
de evocações espirituosas que ele controlou.
- Não é tão bom como dizem, o Tour d'Argent - retrucou a Sra. Verdurin, irritada. - Cheguei
a ter ali uns jantares detestáveis.
- Mas estou enganado, o que se come na casa da Senhora não é a mais fina cozinha
francesa?
- Meu Deus, positivamente não é mau - respondeu a Sra. Verdurin suavizada. - E, se o
senhor voltar na quarta-feira próxima, será ainda melhor.
- Mas segunda-feira parto para a Argélia e de lá vou até o Cabo. E, quando estiver no
Cabo da Boa Esperança, não poderei mais encontrar o meu ilustre colega perdão, não poderei
encontrar mais o meu confrade. -
E pôs-se, por obediência, após ter fornecido essas desculpas retrospectivas, a comer com
rapidez vertiginosa. Mas Brichot estava bem feliz de poder dar outras etimologias vegetais e
respondeu, interessando de tal modo o norueguês que este parou novamente de comer, mas
fazendo sinal de que podiam lhe tirar o prato cheio e servir o seguinte:
- Um dos Quarenta - disse Brichot - é chamado Houssaye, ou lugar plantado de azevinhos
(houx); no nome de um fino diplomata, o Sr. d'Ormesson, o senhor encontra o olmo (orme), o
ulmus caro a Virgílio e que deu seu nome á cidade de Ulm; no de seus colegas, o Sr. de La
Boulaye, a bétula (bouleau); no Sr. d'Aunay, o amieiro (aune); no Sr. de Bussiere, o buxo (buís);
no Sr. Albaret, o alburno (aubier) (prometi a mim mesmo dizê-lo a Céleste); no Sr. de Cholet, a
couve (chou); e a macieira (pommíer) do nome do Sr. de La Pommeraye que nós ouvimos
conferenciar (lembra-se, Saniette?), na época em que o bom Porei fora enviado aos confins do
mundo como procônsul na Odéonie? -
Ao nome de Saniette pronunciado por Brichot, o Sr. Verdurin lançou à mulher e a Cottard
um olhar irônico que desmontou o tímido.
- Afirmava o senhor que Cholet provém de chou - disse eu a Brichot. - Será que uma
estação pela qual passei antes de chegar a Doncieres, Saint-Frichoux, também provém de chou? - Não, Saint-Frichoux é Sanctus Fructuosus, como Sanctus Ferreolus deu Saint-Fargeau, mas isto
não é absolutamente de origem normanda.
- Ele sabe coisas demais, ele nos aborrece - gargarejou docemente a princesa. -
Há tantos outros nomes que me interessam, mas não posso perguntar-lhe todos de uma
só vez:
E, virando-me para Cottard:
- Será que a Sra. Putbus está aqui? - indaguei.
- Graças a Deus, não - respondeu a Sra. Verdurin, que ouvira a minha pergunta. - Tratei de
desviar as suas vilegiaturas para Veneza; estamos livres dela este ano.
- Eu mesmo vou ter direito a duas árvores - disse o Sr. de Charlus -, pois tenho mais ou
menos reservada uma pequena casa entre Saint-Martin-du-Chêne e Saint-Pierre-des-lfs.
- Mas é muito perto daqui; espero que volte muitas vezes em companhia de Charlie Morel.
Não terá mais do que entrar em acordo com o nosso pequeno grupo quanto aos trens, está a dois
passos de Doncieres - disse a Sra. Verdurin, que detestava que não viessem pelo mesmo trem e
às horas em que enviava os carros para a estação. Ela sabia como era penosa a subida para La
Raspeliere, mesmo contornando-a por trás da Féterne, o que dava um atraso de meia hora, e
temia que aqueles que formassem um grupo à parte não encontrassem carros para levá-los, ou
que, tendo na verdade ficado em casa, pudessem pretextar não terem encontrado carros em
Douville-Féterne e não se sentirem com forças para fazer uma tal subida a pé. A esse convite, o
Sr. de Charlus se limitou a responder com uma inclinação muda.
- Ele não deve ser fácil de tratar todos os dias, tem um ar afetado - sussurrou Ski ao doutor
que, tendo permanecido uma criatura simples, apesar de uma camada superficial de orgulho, não
procurava ocultar que Charlus o esnobava.
- Sem dúvida, ele ignora que em todas as estações de águas e até em Paris, nas clínicas,
os médicos, para quem sou naturalmente o "grande chefe", fazem questão de me apresentar a
todos os nobres que aí estejam e que não vão demorar muito. Isso torna até bem agradável para
mim a permanência nas estâncias balneárias - acrescentou com ar leviano. - Mesmo em
Doncieres, o major do regimento, que é médico assistente do coronel, convidou-me para almoçar
com ele dizendo que eu estava em condições de jantar com o general. E esse general era um
senhor de alguma coisa. Não sei se esses títulos de nobreza são mais ou menos antigos que o
deste barão.
- Não deixe que isto lhe suba à cabeça, é uma bem pobre coroa - respondeu Ski a meia
voz, e acrescentou algo confuso com um verbo, onde apenas distingui as últimas sílabas "ardor",
ocupado como estava em ouvir o que Brichot dizia ao Sr. de Charlus.
- Provavelmente não, lamento dizer-lhe, o senhor só tem uma árvore, pois, se Saint-Martin
du-Chêne é evidentemente Sanctus Martínus juxta quercum, por outro lado a palavra if pode ser
simplesmente a raiz, ave, eve, que quer dizer úmido, como em Aveyron, Lodeve, Yvette, e que o
senhor vê subsistir em nossas pias (évíers) de cozinha. É a "água", que em bretão se diz Ster:
Stermaria, Sterlaer, Sterbouest, Ster-en-Dreuchen. -
Não escutei o final, pois, por maior que fosse o prazer que sentia em voltar a ouvir o nome
de Stermaría, ouvia sem querer, a meu lado, Cottard dizendo baixinho a Ski:
- Ah, mas eu não; sabia! Então, trata-se de um senhor que sabe se virar por todos os lados
na vida! Como! Pertence à confraria! No entanto não tem os olhos pisados. Precisarei de cuidar
dos pés embaixo da mesa, era só o que faltava; me deixasse bolinar por ele. Aliás, isto só
parcialmente me deixa espantado. Vejo diversos nobres na ducha, em trajes de Adão; são mais
ou menos uns degenerados. Nem lhes falo, porque, afinal, sou funcionário e isto poderia me
causar transtornos. Mas eles sabem perfeitamente quem sou.
Saniette, a quem a interpelação de Brichot assustara, começava a respirar como alguém
que tem medo da tempestade e que percebe que o raio não foi seguido de nenhum rumor de
trovão, quando ouviu o Sr. Verdurin questioná-lo, fixando nele um olhar que não largava o infeliz
enquanto estava falando, de modo a perturbá-lo imediatamente e a não lhe permitir recobrar o
ânimo:
- Mas Saniette, como é que sempre nos ocultou que freqüentava as matinês do Odeon? -
Trêmulo como um recruta diante de um sargento torturador, Saniette respondeu, dando à sua
frase as menores dimensões que pôde, a fim de que tivesse mais chances de escapar aos golpes:
- Uma vez, em La Chercheuse.
- Que é que ele está dizendo? - bramiu o Sr. Verdurin, com ar a um tempo desgostoso e
furibundo, franzindo as sobrancelhas como se necessitasse de toda a sua atenção para entender
algo de ininteligível. - Primeiro, não se compreende o que está dizendo. O que tem você na boca? -perguntou o Sr. Verdurin, cada vez mais violento, e aludindo ao defeito de pronúncia de Saniette. - Pobre Saniette, não quero que o faça infeliz - disse a Sra. Verdurin num tom de falsa piedade e
para não deixar dúvida em ninguém quanto às insolentes intenções do marido.
- Eu estava na Ch...
- Che, che, che, procure falar claramente -, disse o Sr. Verdurin -, não o ouço de jeito
nenhum. -
Quase nenhum dos fiéis continha o riso e tinham o aspecto de um bando de antropófagos
em que a ferida feita num branco desperta o gosto pelo sangue. Pois o instinto de imitação e a
ausência de coragem governam tanto as sociedades como as multidões. E todo mundo ri de
alguém de quem se vê zombar, arriscando-se a venerá-lo dez anos depois em um círculo onde é
admirado. Da mesma forma, o povo aclama e enxota os reis.
- Ora - disse a Sra. Verdurin -, não é culpa dele.
- Também não é minha, a gente não janta fora quando não consegue mais articular as
palavras.
- Eu estava assistindo e La Chercheuse d'esprit, de Favart.
- O quê! É a Chercheuse d'esprit que você chamava de Chercheuse? Ah! É magnífica, eu
poderia ficar imaginando cem anos que não descobriria nada - exclamou o Sr. Verdurin, que no
entanto logo acharia que alguém não era letrado, artista, "não era dos seus", se ouvisse dizer o
título completo de certas obras. Por exemplo, era imperioso dizer Le Malade, Le Bourgeois; e
aqueles que acrescentassem lmaginaire ou Gentilhomme teriam revelado não serem "da roda",
assim como, em um salão, alguém prova não pertencer à alta sociedade ao dizer: o Sr. de
Montesquiou-Fezensac em vez de Sr. de Montesquiou.
[Alusão a duas peças de Moliere: O Doente Imaginário ("Le Malade lmaginaire"), e O Burguês
Fidalgo.("Le Bourgeois Gentilhomme"). (N. do L)]
- Mas não é assim tão extraordinário - observou Saniette, sufocado pela emoção, porém
risonho, conquanto não tivesse vontade de rir. -
A Sra. Verdurin estourou:
- Ah, é? - exclamou, escarnecendo. - Fique certo de que ninguém no mundo poderia
adivinhar que se tratava de La Chercheuse d'esprit. -
O Sr. Verdurin retornou com voz suave e, dirigindo-se ao mesmo tempo a Saniette e a
Brichot:
- Aliás, é uma bela peça La Chercheuse d'esprit. -
Pronunciada em tom sério, esta simples frase, onde não se podia achar nenhum sinal de
maldade, fez tanto bem a Saniette e excitou nele tanta gratidão como se fosse uma amabilidade.
Ele não pôde proferir uma só palavra e manteve um silêncio feliz. Brichot foi mais loquaz:
- É verdade - respondeu ele ao Sr. Verdurin- e, se a fizessem passar por obra de algum
autor sármata ou escandinavo, poderiam apresentar a candidatura de La Chercheuse d'esprit à
condição vacante de obra-prima. Mas diga-se, sem faltar com o respeito aos manes do gentil
Favart, ele não era de temperamento ibseniano. (E logo enrubesceu até as orelhas, pensando no
filósofo norueguês, o qual tinha um ar infeliz porque buscava em vão identificar que tipo de
vegetal podia ser o buis de que há pouco falara Brichot a propósito de Bussiere.) Aliás, a satrapia
de Porei estava ocupada agora por um funcionário que é um tolstoiniano de rigorosa observância,
e poderia ocorrer que víssemos Anna Karenina ou Ressurreição sob a arquitrave odeônica.
- Sei a qual retrato de Favart o senhor quer se referir - disse o Sr. de Charlus. - Vi uma
prova muito linda na casa da condessa Molé. -
O nome da condessa Molé causou forte impressão na Sra. Verdurin:
- Ah! O senhor costuma ir à casa da Sra. de Molé! - exclamou ela. Pensava que se dizia "a
condessa Molé", "Sra. Molé", simplesmente por abreviação, como ouvia dizer os Rohan, ou, por
desdém, como ela própria dizia: senhora La Trémoïlle. Não tinha nenhuma dúvida de que a
condessa Molé, conhecendo a rainha da Grécia e a princesa de Caprarola, tivesse mais que
ninguém direito à partícula, e estava decidida, de uma vez por todas, a dá-la a uma pessoa tão
brilhante e que se mostrava muito amável com ela. Assim, para mostrar que falara desse modo
intencionalmente e não regateava esse "de" à condessa, prosseguiu: - Mas eu absolutamente não
sabia que o senhor conhecia a senhora de Molé! - como se fosse duplamente extraordinário que o
Sr. de Charlus conhecesse aquela dama e que a Sra. Verdurin não soubesse que ele a conhecia.
Ora, a alta sociedade, ou pelo menos aquilo que o Sr. de Charlus assim denominava, forma um
todo relativamente homogêneo e fechado. Se, por um lado, é compreensível que na disparatada
imensidade da burguesia um advogado diga, a alguém que conhece um de seus companheiros de
colégio: "Mas como diabos você conhece Fulano?" em compensação, espantar-se de que um
francês conheça o sentido das palavras tempo ou floresta não seria mais extraordinário do que se
admirar dos acasos que tinham podido reunir o Sr. de Charlus e a condessa Molé. Ademais,
mesmo se um tal conhecimento não tivesse decorrido naturalmente das leis mundanas, se tivesse
sido fortuito, como seria estranho que a Sra. Verdurin o ignorasse, já que via o Sr. de Charlus pela
primeira vez e que as relações deste com a Sra. Molé estavam longe de ser a única coisa que ela
não sabia a seu respeito, de que, na verdade, não sabia nada.
- Quem era que representava essa Chercheuse d'esprit, meu caro Saniette? - perguntou o
Sr. Verdurin. Mesmo sentindo que a tempestade passara, o antigo arquivista hesitou em
responder.
- Mas também, tu o intimidas - disse a Sra. Verdurin -, zombas de tudo o que ele diz e
depois queres que ele responda. Vamos, diga quem representava aquilo, e lhe daremos galantina
para levar para casa - acrescentou ela, fazendo uma alusão malévola à ruína em que caíra
Saniette querendo salvar um casal amigo.
- Lembro-me apenas de que era a Sra. Samary que fazia o papel da Zerbine - disse
Saniette.
- A Zerbine? O que é isso? - gritou o Sr. Verdurin como se houvesse um incêndio.
- É uma personagem do antigo repertório, como O Capitão Fracasso, como quem diz o
Fanfarrão, o Pedante.
- Ah, o pedante é você! A Zerbine! Não, mas ele está tocado! - exclamou o Sr. Verdurin.
A Sra. Verdurin olhou para seus convivas rindo, para desculpar Saniette.
- A Zerbine! Ele pensa que todo mundo sabe logo o que significa isso. Você é como o Sr.
de Longepierre, o homem mais idiota que conheço, que outro dia nos falava familiarmente "o
Banat". Ninguém ficou sabendo do que ele estava falando. Finalmente fomos informados de que
se tratava de uma província da Sérvia. -
Para terminar com o suplício de Saniette, que me fazia mais mal do que a ele, perguntei a
Brichot se sabia o que significava Balbec.
- Balbec é provavelmente uma corruptela de Dalbec - disse ele. - Seria preciso consultar as
cartas dos reis da Inglaterra, suseranos da Normandia, pois Balbec era dependente da baronia de
Douvres, devido a que se dizia muitas vezes Balbec d'Outre-Mer, Balbec-en-Terre. Mas a própria
baronia de Douvres dependia do bispado de Bayeux e, apesar dos direitos que os templários
tiveram momentaneamente sobre a abadia a partir de Louis d'Harcourt, patriarca de Jerusalém e
bispo de Bayeux, os bispos dessa diocese é que foram coletores dos bens de Balbec. Foi o que
me explicou o deão de Doville, homem calvo, eloquente, quimérico e gourmet, que vive na
obediência a Brillat-Savarin, e me expôs incertas pedagogias com termos um tanto sibilinos,
enquanto me fazia comer admiráveis batatas fritas. -
continua na página 155...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Assaltou-me o temor)
Volume 6
Volume 7