quarta-feira, 16 de setembro de 2026

George Orwell - 1984: Parte 2.2b (O primeiro pedaço de chocolate)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

2.
continuando...

     O primeiro pedaço de chocolate tinha derretido na língua de Winston. O sabor era delicioso. Mas ain da havia aquela memória se movendo nas bordas de sua consciência, algo forte, mas não redutível à forma definida, como um objeto visto pelo canto do olho. Ele a afastou dele, consciente apenas de que era a memória de alguma ação que ele gosta ria de desfazer, mas não podia.  

“Você é muito jovem”, ele disse. “Você é dez ou quinze anos mais jovem do que eu. O que você vê em um homem como eu”? 
“Era algo na sua expressão. Pensei em arriscar. Sou boa em identificar pessoas que não pertencem a este mundo. Assim que te vi, sabia que estava contra eles”. 
“Eles”, parecia, se referia ao Partido, e sobretudo ao Partido Interno, sobre o qual ela falava com um ódio aberto que fazia Winston se sentir inquieto, embora ele soubesse que eles estavam seguros aqui se pudessem estar seguros em qualquer lugar. Uma coisa que o espantou nela foi a rudeza de sua linguagem. Os membros do Partido não deveriam falar palavrões, e o próprio Winston muito raramente fazia isso, de qualquer forma, em voz alta. Júlia, entretanto, parecia incapaz de mencionar o Partido, e especialmente o Partido Interno, sem usar o tipo de palavras. Não é que ele não gostou. Era apenas um sintoma de sua revolta contra o Partido e todas as suas formas, e de alguma forma parecia natural e saudável, como o espirro de um cavalo que cheira um feno ruim. Eles tinham deixado a clareira e vagueavam de novo pela sombra axadrezada, com os braços à volta da cintura um do outro sempre que o caminho permitisse que andassem lado a lado. Ele notou o quanto a cintura dela parecia mais macia agora que a faixa tinha desaparecido. A conversa entre eles não passava de um sussurro. Fora da clareira, disse Júlia, era melhor ir em silêncio. Atualmente, eles tinham chegado à borda da pequena floresta. Ela o deteve.
“Não vá para o lado de fora. Pode haver alguém observando. Estaremos bem se nos mantivermos atrás dos ramos”.

     Eles estavam à sombra de arbustos de aveleira. A luz do sol, filtrando através de inúmeras folhas, ainda estava quente em seus rostos. Winston olhou para o campo além deles, e sofreu um curioso e lento choque de reconhecimento. Ele o conhecia de vista. Um pasto velho e bem próximo, com um caminho de pé que perambulava por ele e um monte de terra aqui e ali. Na sebe desgarrada do lado oposto, os ramos dos olmos balançavam de forma perceptível na brisa, e suas folhas se agitavam levemente em massas densas como os cabelos das mulheres. Certamente em algum lugar próximo, mas fora de vista, deve haver um riacho com poças verdes onde peixes nadavam...

“Não há um riacho por aqui”?, sussurrou ele.
“É verdade, há um riacho. Na verdade, está na borda do próximo campo. Há peixes nele, bem grandes. Você pode vê-los deitados nas piscinas sob os salgueiros, balançando suas caudas”. 
“É o quase o Condado Dourado”, ele murmurou.
“Condado Dourado”?
“Não, nada. É só uma paisagem que eu vejo às vezes em um sonho”.  
“Olha!”, sussurrou Julia.

     Um sabiá tinha pousado em um galho a menos de cinco metros de distância, quase na altura de seus rostos. Talvez ele não os tivesse visto. Estava ao sol, eles à sombra. Ele estendeu suas asas, colocou-as cuidadosamente no lugar novamente, abaixou a cabeça por um momento, como se fizesse uma espécie de reverência ao sol, e então começou a derramar uma torrente de canções. No silêncio da tarde, o volume do som era assustador. Winston e Julia se abraçaram, fascinados. A música continuava e continuava, minuto após minuto, com variações surpreendentes, nunca se repetindo, quase como se o pássaro estivesse mostrando deliberadamente sua virtuosidade. Às vezes ele parava por alguns segundos, se espalhava e ajeitava suas asas, depois inchava seu peito salpicado e estourava novamente em canções. Winston o observava com uma espécie de reverência vaga. Para quem, para quê, aquele pássaro estava cantando? Nenhum companheiro, nenhum rival o observava. O que o fez sentar à beira do bosque solitário e derramar sua música no nada? Ele se perguntava se afinal de contas havia um microfone escondido em algum lugar próximo. Ele e Julia haviam falado apenas em sussurros baixos, e ele não pegaria o que eles haviam dito, mas pegaria o sabiá. Talvez na outra ponta do instrumento algum homem pequeno, parecido com um besouro, estivesse ouvindo aten tamente – ouvindo isso. Mas, pouco a pouco, a en xurrada de música fez com que todas as especulações saíssem de sua mente. Era como se fosse um tipo de coisa líquida se derramasse sobre ele, se misturando com a luz do sol que chegava através das folhas. Ele parou de pensar e apenas sentiu. A cintura da garota na dobra de seu braço era macia e quente. Ele a puxou, de modo que eles estavam de peito a peito; o corpo dela parecia derreter no dele. Para onde quer que suas mãos se movessem, tudo era tão flexível quanto água. Suas bocas se agarravam; era bem diferente dos beijos duros que haviam trocado antes. Quando voltaram a separar seus rostos, os dois sus piravam profundamente. O pássaro se assustou e fugiu com um tilintar de asas.
     Winston colocou seus lábios contra a orelha dela.

“Agora”, ele sussurrou.
“Aqui não”, sussurrou ela de volta. “Vamos voltar para o esconderijo. É mais seguro”.

     Rapidamente, com um crepitar ocasional de galhos, eles trilharam seu caminho de volta para a clareira. Uma vez dentro do anel de mudas, ela se virou e o enfrentou. Ambos respiravam rápido, mas o sorriso havia reaparecido nos cantos de sua boca. Ela ficou olhando para ele por um instante, depois abriu o zíper de seu macacão. E, sim!, foi quase como em seu sonho. Quase tão rápido quanto ele havia imaginado, ela havia rasgado suas roupas, e quando as jogou de lado foi com aquele mesmo gesto magnífico pelo qual toda uma civilização parecia estar aniquilada. O corpo dela brilhava branco ao sol. Mas por um momento ele não olhou para o corpo dela; seus olhos estavam ancorados pelo rosto de sardas com seu sorriso tênue e ousado. Ele se ajoelhou diante dela e pegou as mãos dela nas dele.

“Você já fez isso antes”?
“Claro que sim. Centenas de vezes... bem, dezenas de vezes pelo menos”. 
“Com membros do Partido”. 
“Sim, sempre com membros do Partido”. 
“Com membros do Partido Interno”? 
“Não, nunca com esses porcos, não. Mas muita coisa aconteceria se eles tivessem meia chance. Eles não são tão santos quanto fazem parecer”.

     Seu coração saltou. Ela já tinha feito dezenas de vezes: ele desejava que tivessem sido centenas, milhares. Qualquer coisa que insinuasse corrupção sempre o enchia de uma esperança selvagem. Quem diria, talvez o Partido estivesse podre sob a superfície, seu culto à tenacidade e à abnegação simplesmente uma farsa que escondia a iniquidade. Se ele pudesse ter infectado todos eles com lepra ou sífilis, como ele teria feito isso com prazer! Tudo para apodrecer, para enfraquecer, para minar! Ele a puxou para baixo, de modo que eles estavam ajoelhados frente a frente.

“Ouça. Quanto mais homens você teve, mais eu a amo. Você entende isso”? 
“Entendo perfeitamente”. 
“Odeio pureza, odeio bondade! Eu não quero que nenhuma virtude exista em nenhum lugar. Eu quero que todos sejam corruptos até os ossos”. 
“Bem, então, eu vou servir, querido. Sou inteira corrupta”. 
“Você gosta de fazer isso? Não me refiro simplesmente a mim: Quero dizer a coisa em si”? 
“Eu amo”.

     Isso era, acima de tudo, o que ele queria ouvir. Não apenas o amor de uma pessoa, mas o instinto animal, o simples desejo indiferenciado: essa era a força que desfazia o Partido em pedaços. Ele a pressionou sobre a grama, entre as flores caídas. Desta vez, não houve dificuldade. A subida e descida de seus seios diminuíam à velocidade normal e, numa espécie de desamparo agradável, eles se desfaziam. O sol parecia ter ficado mais quente. Ambos estavam adormecidos. Ele procurou os macacões descartados e os puxou parcialmente sobre ela. Quase imediatamente eles adormeceram e dormiram por cerca de meia hora.
     Winston acordou primeiro. Ele se sentou e observou o rosto sardento, ainda pacificamente adormecido, almofadado na palma de sua mão. Exceto por sua boca, não se podia chamá-la de linda. Havia uma ou duas linhas em volta dos olhos, se você olhasse bem. O cabelo curto e escuro era extraordinariamente grosso e macio. Ocorreu-lhe que ele ainda não sabia o sobrenome dela ou onde morava.
     O corpo jovem e forte, agora desamparado no sono, despertou nele um sentimento de piedade e proteção. Mas a ternura sem sentido que ele havia sentido sob a aveleira, enquanto o tordo cantava, não havia voltado completamente. Ele puxou o macacão para o lado e estudou o flanco branco suave dela. Nos velhos tempos, ele pensou, um homem olhava para o corpo de uma garota e viu que era desejável, e isso era o fim da história. Mas hoje em dia não se podia ter puro amor ou pura luxúria. Nenhuma emoção era pura, porque tudo estava misturado com medo e ódio. O abraço deles tinha sido uma batalha, o clímax uma vitória. Foi um golpe contra o Partido. Foi um ato político.

continua na página 269...
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Capítulo 1:
Parte 2.2b (O primeiro pedaço de chocolate) /         
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 3: Seção V)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade

Seção V
Das impressões dos sentidos e da memória
     
     Nesse tipo de raciocínio por causalidade, portanto, empregamos materiais de natureza mista e heterogénea, que, embora conectados, são essencialmente diferentes uns dos outros. Todos os nossos argumentos concernentes a causas e efeitos consistem tanto em uma impressão da memória ou dos sentidos como na ideia daquela existência que produz o objeto da impressão, ou que é por ele produzida. Temos aqui, portanto, três coisas a explicar: em primeiro lugar, a impressão original; em segundo, a transição para a ideia da causa ou do efeito conectados; e, em terceiro, a natureza e as qualidades dessa ideia.
     Quanto às impressões provenientes dos sentidos, sua causa última é, em minha opinião, inteiramente inexplicável pela razão humana, e será para sempre impossível decidir com certeza se elas surgem imediatamente do objeto, se são produzidas pelo poder criativo da mente, ou ainda se derivam do autor de nosso ser. Tal questão, diga-se de passagem, não tem nenhuma importância para nosso propósito presente. Podemos sempre fazer inferências partindo da coerência de nossas percepções, sejam estas verdadeiras ou falsas, representem elas a natureza de maneira correta ou sejam meras ilusões dos sentidos.
     Quando buscamos a característica que distingue a memória da imaginação, devemos imediatamente perceber que ela não pode estar nas ideias simples que aquela nos apresenta, pois ambas as faculdades retiram suas ideias simples das impressões, e nunca podem ir além dessas percepções originais. As duas faculdades tampouco se distinguem pela disposição de suas ideias complexas. Porque, embora seja uma propriedade peculiar da memória preservar a ordem e posição originais de suas ideias, enquanto a imaginação as transpõe e altera a seu bel-prazer, essa diferença não é suficiente para distingui-las em suas operações ou para nos permitir discernir uma da outra. Pois é impossível recordar impressões passadas a fim de compará-las com nossas ideias presentes, e dessa forma ver se sua ordenação é exatamente igual. Como, portanto, a memória não é conhecida nem pela ordem de suas ideias complexas nem pela natureza de suas ideias simples, segue-se que a diferença entre ela e a imaginação está em sua força e vividez superior. Um homem pode dar vazão a sua fantasia imaginando-se como personagem de uma cena passada de aventuras. E não haveria possibilidade de distinguir essa cena de uma lembrança de um tipo semelhante, se as ideias da imaginação não fossem mais fracas e obscuras.
     [É frequente acontecer que, quando dois homens estiveram envolvidos em um episódio, um deles se lembre dele muito melhor que o outro, e tenha a maior dificuldade do mundo para fazer que seu companheiro se lembre também. Enumera em vão diversas circunstâncias, menciona o momento, o lugar, as pessoas que estavam presentes, o que foi dito, o que cada um fez, até que, finalmente, toca em uma circunstância feliz, que faz reviver o conjunto todo, dando a seu amigo uma memória perfeita de cada detalhe. Aqui, a pessoa que esqueceu recebe inicialmente do discurso da outra todas as ideias, com as mesmas circunstâncias de tempo e lugar, mas as considera como meras ficções da imaginação. Entretanto, assim que é mencionada a circunstância que toca sua memória, exatamente as mesmas ideias aparecem sob nova luz, produzindo como que uma sensação [feeling] diferente daquela que antes produziam. Sem qualquer outra alteração além dessa na sensação [feeling], elas se tornam imediatamente ideias da memória, e recebem nosso assentimento.
     Portanto, como a imaginação é capaz de representar todos os mesmos objetos que a memória pode nos oferecer, e já que essas faculdades só se distinguem pela maneira diferente como sentimos as ideias que nos apresentam, talvez seja apropriado considerar qual a natureza dessa sensação [feeling]. E, aqui, acredito que todos concordarão imediatamente comigo, que as ideias da memória são mais fortes e mais vividas que as da fantasia.] Um pintor que quisesse representar uma paixão ou emoção qualquer tentaria observar uma pessoa movida por uma emoção semelhante, a fim de avivar suas ideias e dar-lhes uma força e vividez superiores às encontradas nas ideias que são meras ficções da fantasia. Quanto mais recente essa memória, mais clara a ideia; e quando, após um longo intervalo, o pintor voltasse a contemplar seu objeto, sempre acharia a ideia deste bastante enfraquecida, senão apagada por completo. Frequentemente, quando as ideias da memória se tornam muito fracas e pálidas, ficamos indecisos a seu respeito; e não sabemos como determinar se uma imagem procede da fantasia ou da memória, quando não está pintada com as cores vivas que distinguem esta última faculdade. Acho que me lembro de tal acontecimento, diz alguém, mas não tenho certeza. Um longo intervalo de tempo quase o apagou de minha memória, e não sei dizer se é ou não um mero produto de minha fantasia.
     E assim como uma ideia da memória, ao perder sua força e vividez, pode degenerar a ponto de ser tomada por uma ideia da imaginação, assim também, em contrapartida, uma ideia da imaginação pode adquirir tal força e vividez que chega a passar por uma ideia da memória, simulando seus efeitos sobre a crença e o juízo. Isso pode ser notado no caso dos mentirosos, que, pela frequente repetição de suas mentiras, acabam finalmente por acreditar nelas, e lembram-se mesmo delas como realidades. Neste caso, como em muitos outros, o costume e o hábito exercem sobre a mente a mesma influência que a natureza, fixando a ideia com igual força e vigor.
     Vemos, assim, que a crença ou assentimento que sempre acompanha a memória e os sentidos não consiste senão na vividez das percepções que ambos apresentam, e que somente isso os distingue da imaginação. Crer, nesse caso, é sentir uma impressão imediata dos sentidos, ou uma repetição dessa impressão na memória. É simplesmente a força e a vividez da percepção que constituem o primeiro ato do juízo e estabelecem o fundamento do raciocínio que construímos com base nela, quando traçamos a relação de causa e efeito.

continua na página 111...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3     
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IV / Seção V /                     
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo I - A narcisista (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO I
A NARCISISTA
 continuando...

     Traço comum à pequena Mrs Welton, à soberba Mme de Noailles, à infortunada doente de Stekel, à multidão das mulheres marcadas por um destino excepcional, é o se sentirem incompreendidas; os que as cercam não reconhecem sua singularidade — ou não o fazem suficientemente; elas traduzem positivamente essa ignorância, essa indiferença dos outros pela ideia de que encerram em si um segredo. O fato é que muitas enterraram silenciosamente episódios de infância que tinham para elas grande importância; sabem que sua biografia oficial não se confunde com sua história verdadeira. Mas, principalmente por não se realizar na vida, a heroína amada pela narcisista não passa de uma coisa imaginária; sua unidade não lhe é conferida pelo mundo concreto; é um princípio escondido, uma espécie de "força", de "virtude" tão obscura quanto o flogístico; a mulher crê em sua presença, mas se a quisesse descobrir a outrem ficaria tão embaraçada como o psicastênico encarniçando-se em confessar crimes impalpáveis. Nos dois casos, o segredo reduz-se à convicção vazia de possuir no fundo de si uma chave que permite decifrar e justificar sentimentos e condutas. É sua abulia, sua inércia que dá aos psicastênicos essa ilusão; e é por não poder exprimir-se na ação quotidiana que a mulher também se acredita habitada por um mistério inexprimível: o famoso mito do mistério feminino encoraja-a a isso e vê-se, em compensação, confirmado.
     Rica de seus tesouros desconhecidos, marcada por uma estrela fasta ou nefasta, a mulher toma a seus próprios olhos a necessidade dos heróis de tragédia que um destino governa. Toda sua vida se transfigura num drama sagrado. Sob o vestido escolhido com solenidade erguem-se a um tempo uma sacerdotisa envergando as vestes sacerdotais e um ídolo adornado por mãos fiéis e oferecido à adoração dos devotos. Sua casa torna-se o templo em que se realiza seu culto. Maria Bashkirtseff cuida tanto do quadro que instala ao redor de si, quanto de seus vestidos:

   Junto da escrivaninha uma poltrona em estilo antigo, de maneira que, quando entram, basta-me imprimir um movimento a essa poltrona para me achar em face das pessoas... perto da escrivaninha pedantesca com os livros no fundo, entre quadros e plantas, e as pernas e os pés à vista, ao invés de ser cortada em dois como antes por essa madeira escura. Em cima do sofá, acham-se pendurados os dois pandolins e a guitarra. Colocai no meio de tudo isso uma moça loura e branca, de mãos muito pequenas e finas, e veias azuis.

     Quando se pavoneia nos salões, quando se abandona nos braços do amante, a mulher cumpre sua missão: é Vênus distribuindo ao mundo os tesouros de sua beleza. Não era ela própria, era a Beleza que Cécile Sorel defendia, quando quebrou o vidro da caricatura de Bib; vê-se em suas memórias que, em todos os instantes de sua vida, convidou os mortais ao culto da arte. Assim também Isadora Duncan quando se descreve em Minha Vida:

   Depois das representações, escreve, vestida com minha túnica e a cabeleira coroada de rosas, estava tão bonita! Por que não fazer que aproveitassem esse encanto? Por que um homem que trabalha durante o dia todo com o cérebro... não seria enlaçado por estes braços esplêndidos e não encontraria algum consolo para suas penas e algumas horas de beleza e esquecimento?

     A generosidade da narcisista é-lhe aproveitável: mais do que nos espelhos é nos olhos admirativos de outrem que ela divisa seu duplo aureolado de glória. Na falta de um público complacente, abre o coração a um confessor, a um médico, a um psicanalista; vai consultar quiromantes, videntes. "Não é porque acredite nisso", dizia uma starlet aprendiz, "mas gosto tanto que falem de mim!"; ela conta-se às amigas; no amante, mais avidamente do que em qualquer outro, busca uma testemunha; a amorosa esquece depressa o seu eu; mas muitas mulheres são incapazes de um amor verdadeiro, precisamente porque não se esquecem nunca. À intimidade da alcova, preferem um palco mais vasto. Daí a importância que assume para elas a vida mundana: precisam de olhos para olharem-na, de ouvidos para ouvirem-na; à sua personagem é indispensável o mais amplo público possível. Descrevendo mais uma vez seu quarto, Maria Bashkirtseff deixa escapar esta confissão:

   Desta maneira estou no palco, quando entram e me encontram escrevendo.

     E adiante:

   Estou decidida a criar para mim uma encenação considerável. Vou construir uma residência mais bela que a de Sarah e ateliers maiores...

     Por sua vez Mme de Noailles escreve:

   Amei e amo-a agora... Por isso mesmo pude muitas vezes tranquilizar os amigos que temiam importunar-me por causa do número dos convivas, com esta confissão sincera: não gosto de representar diante de bancos vazios.

     A toalete, a conversa satisfazem em grande parte esse gosto feminino de exibição. Mas uma narcisista ambiciosa almeja exibir-se de maneira mais rara e variada. Fazendo de sua vida uma peça oferecida aos aplausos do público, comprazer-se-á, particularmente, em subir de verdade ao palco. Mme de Staël contou longamente em Corinne como encantou as multidões italianas recitando poemas que acompanhava na harpa. Em Coppet, uma de suas distrações prediletas era declamar papéis trágicos; sob a figura de Phèdre, endereçava de bom grado aos jovens amantes, que fantasiava de Hippolyte, declarações ardentes. Mme Krüdener especializava-se na dança do xale, que descreve em Valéria:

   Valéria pediu o xale de musselina azul-escuro, afastou os cabelos da fronte; pôs o xale na cabeça; caía ao longo das têmporas e dos ombros; a fronte desenhou-se à maneira antiga, os cabelos desapareceram, as pálpebras baixaram, o sorriso habitual dissipou-se pouco a pouco; a cabeça inclinou-se, o xale caiu molemente sobre os braços cruzados, sobre o seio, e essa vestimenta azul, esse semblante puro e meigo pareciam ter sidos desenhados por Corregio para exprimir a resignação serena; e quando os olhos se ergueram, quando os lábios esboçavam um sorriso, teve-se a impressão de ver como Shakespeare a pintou, a Paciência sorrindo para a Dor, junto de um monumento... É Valéria que cumpre ver. Ela, que é tímida, nobre, profundamente sensível, perturba, arrasta, comove, arranca lágrimas ao mesmo tempo, e faz o coração palpitar como palpita quando dominado por uma grande ascendência; ela é que possui essa graça encantadora que não se pode aprender, mas que a natureza revelou em segredo a alguns seres superiores.

     Permitindo-lhe as circunstâncias, nada dará uma satisfação mais profunda à narcisista do que se consagrar publicamente ao teatro:

   O teatro, diz Georgette Leblanc, dava-me o que nele sempre procurava: um motivo de exaltação. Hoje ele se me afigura uma caricatura da ação; algo indispensável aos temperamentos excessivos.

     A expressão de que se serve é impressionante: não agindo, a mulher inventa sucedâneos para a ação; o teatro representa para algumas um ersatz privilegiado. A artista pode, de resto, visar a fins muito diferentes. Para algumas, representar é um meio de ganhar a vida, uma simples profissão; para outras é o acesso à fama, a ser explorada para fins galantes; para outras, ainda, o triunfo de seu narcisismo; as maiores — Rachel, a Duse — são artistas autênticas que se transcendem no papel que criam; a cabotina, ao contrário, não se preocupa com o que realiza e sim com a glória que disso lhe advém; procura antes de tudo valorizar-se. Uma narcisista obstinada será limitada em arte, como no amor, por não saber dar-se.
     Esse defeito far-se-á sentir gravemente em todas as suas atividades. Ela será tentada por todos os caminhos que podem conduzi-la à glória; mas nunca seguirá nenhum sem reserva. Pintura, escultura, literatura são disciplinas que reclamam severo aprendizado e exigem um trabalho solitário; muitas mulheres as tentam, mas logo renunciam, se não são incentivadas por um desejo positivo de criação; muitas também das que perseveram não fazem senão fingir que trabalham, representam. Maria Bashkirtseff, tão ávida de glória, passava horas diante do cavalete, mas amava-se a si mesma demais para gostar realmente de pintar. Confessa-o, ela própria, após anos de despeito: "Sim, não me esforço por pintar, observei-me hoje, trapaceio..." Quando uma mulher vence, como Mme de Staël, Mme de Noailles, consegue construir uma obra, é porque não está exclusivamente absorvida pelo culto que se rende: mas uma das taras que pesam sobre numerosas escritoras é a complacência para consigo mesmas, que prejudica sua sinceridade, que as limita e as diminui.
     Muitas mulheres, imbuídas de sentimento de sua superioridade, não são entretanto capazes de manifestá-la aos olhos do mundo; sua ambição será então utilizar, como instrumento, um homem a quem convencerão dos méritos delas; não visam a valores singulares através de livres projetos; querem anexar valores feitos ao seu eu; voltar-se-ão portanto para os que detêm influência e glória, na esperança de se identificar com eles, fazendo-se musas, inspiradoras, egérias. Exemplo impressionante disso temos em Mabel Dodge, em suas relações com Lawrence:

   Eu queria, diz, seduzir-lhe o espírito, constrangê-lo a produzir certas coisas. . . Tinha necessidade de sua alma, de sua vontade, de sua imaginação criadora, de sua visão luminosa. Para me tornar senhora desses instrumentos essenciais, era-me necessário dominar-lhe o sangue. . . Sempre procurei fazer que os outros fizessem coisas, sem eu própria procurar fazer qualquer coisa. Adquiria o sentimento de uma espécie de atividade, de fecundidade por procuração. Era uma espécie de compensação ao sentimento desolado de não ter que fazer.

     E adiante:

   Queria que Lawrence conquistasse por mim, que se valesse de minha experiência, de minhas observações, de meu Taos e formulasse tudo isso numa magnífica criação artística.

     Assim queria Georgette Leblanc ser para Maeterlinck "chama e alimento"; mas queria também ter o nome inscrito no livro composto pelo poeta. Não se trata aqui de ambiciosas que escolheram objetivos pessoais e utilizaram homens para alcançá-los — como fizeram a Princesa des Ursins, Mme de Staël — e sim de mulheres animadas por um desejo inteiramente subjetivo de importância, que não visam nenhum alvo objetivo e que pretendem apropriar-se da transcendência de um outro. Estão longe de sempre o conseguir; mas são hábeis em mascarar o malogro e persuadir-se de que são dotadas de uma irresistível sedução. Sabendo-se amáveis, desejáveis, admiráveis, sentem-se seguras de ser amadas, desejadas, admiradas. Toda narcisista é Bélise. Mesmo a inocente Brett, dedicada a Lawrence, fabrica um pequeno personagem de si mesma e ao qual empresta uma sedução grave:

   Ergo os olhos para perceber que você me olha com malícia, cota seu ar de fauno, uma luz provocante brilha em seus olhos, Pã. Encaro-o com um ar solene e digno, até que a luz se apague em seu rosto.

     Tais ilusões podem engendrar verdadeiros delírios; não é sem razão que Clérambault considerava a erotomania como uma "espécie de delírio profissional"; sentir-se mulher é sentir-se objeto desejável, é acreditar-se desejada e amada. É coisa notável que, em dez doentes atingidos de "ilusão de ser amados", nove sejam mulheres. Vê-se claramente que o que procuram em seu amante imaginário é uma apoteose de seu narcisismo. Querem-no dotado de um valor incondicionado: sacerdote, médico, advogado, homem superior; e a verdade categórica que essas condutas revelam é que a amante ideal é superior a todas as outras mulheres, que possui virtudes irresistíveis e soberanas.
     A erotomania pode aparecer em diversas psicoses; mas seu conteúdo é sempre o mesmo. O sujeito é iluminado e glorificado pelo amor de um homem de grande valor, que foi bruscamente fascinado por seus encantos — quando ela nada esperava dele — e que manifesta seus sentimentos de maneira indireta mas imperiosa; essa relação permanece por vezes ideal, por vezes reveste uma forma sexual; mas o que a caracteriza essencialmente é que o semideus poderoso e glorioso ama mais do que é amado e manifesta sua paixão através de condutas estranhas e ambíguas. Em meio ao grande número de casos relatados pelos psiquiatras, eis um bem típico, que resumo de Ferdière, de sua obra L'Eroto manie. Trata-se de uma mulher de 48 anos, Marie-Yvonne, que faz a confissão seguinte:

   Trata-se de mestre Achille, antigo deputado e subsecretário de Estado, advogado e membro do Conselho da Ordem. Conheço-o desde 12 de maio de 1920; na véspera, eu tentara encontrá-lo no Palácio de Justiça; observara de longe seu porte, mas não sabia quem era; provocou-me um arrepio nas costas.. . Sim, há entre mim e ele uma questão de sentimento, de sentimento recíproco: os olhos, os olhares cruzaram-se. Desde a primeira vez que o vi, senti uma atração por ele; com ele acontece a mesma coisa. . . Em todo caso, foi o primeiro a declarar-se; era no início de 1922; recebia-me em seu salão, sempre sozinha; de uma feita, chegou a mandar embora o filho... Um dia... levantou-se e veio para meu lado continuando a conversar. Compreendi imediatamente que era um impulso sentimental... Disse-me palavras que o davam a entender. Mediante diferentes amabilidades levou-me a compreender que os sentimentos recíprocos se haviam encontrado. De outra vez, sempre em seu escritório, aproximou-se de mim dizendo: "Sois vós, sois vós sozinha e não outra, Senhora, bem o entendeis". Fiquei tão surpreendida que não soube como responder; disse-lhe somente: Mestre, obrigada! Outra vez ainda, acompanhou-me desde o escritório até a rua; até desvencilhou-se de um senhor que o acompanhava, deu-lhe uma moeda na escada e disse-lhe: Deixe-me, rapaz, está vendo que estou em companhia da senhora! Tudo isso era para me acompanhar e ficar só comigo. Apertava-me sempre as mãos com força. Durante sua primeira defesa, lançou uma indireta para dar-me a entender que era celibatário.
   Mandou um cantor ao pátio, para fazer com que eu compreendesse seu amor... olhava-me debaixo da janela; poderia cantar-vos a canção. Fez desfilar diante de minha porta a banda da Comuna. Fui tola. Devia ter correspondido a suas tentativas. Arrefeci o ardor de Mestre Achille... então ele pensou que eu o rechaçava e agiu; teria sido melhor que falasse abertamente; vingou-se. Mestre Achille pensava que eu tinha um sentimento por B... e tinha ciúme... Fez-me sofrer por mandingas mediante uma fotografia minha; foi o que descobri à força de estudos nos livros, nos dicionários. Ele trabalhou suficientemente a fotografia: tudo vem daí...

     Esse delírio transforma-se com efeito facilmente em um delírio de perseguição. E encontra-se esse processo mesmo nos casos normais. A narcisista não pode admitir que outros não se interessem por ela apaixonadamente; se tem a prova evidente de que não é adorada supõe imediatamente que a detestam. Atribui todas as críticas ao ciúme, ao despeito. Seus malogros são o resultado de tenebrosas maquinações: e, deste modo, eles a confirmam na ideia de sua importância. Ela descamba facilmente para a megalomania ou para o delírio de perseguição, que é a imagem invertida daquela: centro de seu universo e não conhecendo outro universo, ei-la centro absoluto do mundo.
     Mas é a expensas da vida real que a comédia narcisista se desenrola; um personagem imaginário solicita a admiração de um público imaginário; a mulher tomada pelo seu eu perde todo domínio sobre o mundo concreto, não se preocupa com estabelecer qualquer relação real com os outros; Mme de Staël não houvera declamado Phèdre com tanto prazer, se tivesse pressentido as zombarias que seus "admiradores" anotavam à noite em seus diários; mas a narcisista recusa-se a admitir que a vejam de maneira diferente daquela com que se mostra: é o que explica que, tão ocupada com se contemplar, consiga tão mal julgar-se e soçobre tão facilmente no ridículo. Não ouve mais, fala e quando fala recita seu papel:

   Diverte-me, escreve Maria Bashkirtseff. Não converso com ele, represento e sentindo-me diante de um bom público sou excelente de entoações infantis e fantasistas, e de atitudes.

     Olha-se demais para ver alguma coisa; só compreende de outrem o que dela reconhece nele. O que não pode assimilar a seu caso, a sua história, permanece-lhe estranho. Compraz-se em multiplicar as experiências: quer conhecer a embriaguez e os tormentos da mulher apaixonada, as alegrias puras da maternidade, a amizade, a solidão, as lágrimas, os risos; mas, nunca se podendo dar, seus sentimentos e emoções são fabricados. Sem dúvida, Isadora Duncan chorou lágrimas de verdade quando da morte dos filhos. Mas, quando lhes jogou as cinzas no mar, em um grande gesto teatral, era apenas uma comediante; e não se pode ler sem sentir algum mal-estar este trecho de Minha Vida em que evoca sua desgraça:

   Sinto a mornidão de meu próprio corpo. Abaixo os olhos para minhas pernas nuas que estico, para a doçura de meus seios, para meus braços que nunca se imobilizam, mas flutuam sem cessar em doces ondulações, e vejo que há doze anos estou lassa, que este peito encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que, quando estou só, estes olhos raramente secam.

     No culto de seu eu, a adolescente pode haurir a coragem de enfrentar o futuro inquietante; mas é uma etapa que cumpre superar depressa: sem o quê, o futuro torna a fechar-se. A apaixonada que encerra o amante na imanência do casal destina-o consigo à morte: a narcisista, alienando-se em seu duplo imaginário, aniquila-se. Suas recordações coagulam-se, suas condutas estereotipam-se, ela rumina as palavras, repete mímicas quase esvaziadas de qualquer conteúdo: daí a impressão de pobreza que dão tantos "diários íntimos" ou "autobiografias" femininas; preocupada com se incensar, a mulher que não faz nada não se faz nada e incensa um nada.
     Sua desgraça está em que, apesar de toda a sua má-fé, ela conhece esse nada. Não pode haver relação real entre um indivíduo e seu duplo, porque este duplo não existe. A narcisista sofre um malogro radical. Não pode apreender-se como totalidade, plenitude, não pode manter a ilusão de ser em si — para si. Sua solidão como a de todo ser humano é experimentada como contingência e abandono. E por isso — salvo numa conversão — ela é condenada a fugir de si sem cessar para a multidão, o ruído, os outros. Seria um erro grave acreditar que, escolhendo-se como fim supremo, escape à dependência: vota-se, ao contrário, à mais estrita escravidão; não se apoia em sua liberdade, faz de si um objeto que se acha em perigo no mundo e nas consciências estranhas. Não são somente seu corpo e seu semblante uma carne vulnerável e que o tempo degrada. Mas é praticamente um empreendimento custoso paramentar o ídolo, erguer-lhe um pedestal, construir-lhe um templo: vimos que para inscrever suas formas em um mármore imortal Maria Bashkirtseff teria consentido em casar por dinheiro. Fortunas masculinas pagaram o ouro, o incenso, a mirra que Isadora Duncan ou Cécile Sorel depuseram aos pés de seu trono. Como é o homem que encarna o destino para a mulher, é pelo número e a qualidade dos homens submetidos a seu poder que as mulheres medem em geral sua vitória. Mas a reciprocidade também importa aqui; a "fêmea do louva-a-deus", que tenta fazer do macho seu instrumento, não consegue entretanto libertar-se dele, por quanto, para encadeá-lo, precisa agradar-lhe. A mulher norte--americana, querendo ser ídolo, faz-se escrava de seus adoradores, não se veste, não vive, não respira senão pelo homem e para ele. Na verdade, a narcisista é tão dependente quanto a hetaira. Se escapa ao domínio de um homem singular, é aceitando a tirania da opinião. Este laço que a prende a outrem não implica a reciprocidade da permuta: se procurasse fazer-se reconhecer pela liberdade de outrem em a reconhecendo também como fim através das atividades, ela deixaria de ser narcisista. O paradoxo de sua atitude está em que ela reclama ser valorizada por um mundo ao qual nega qualquer valor, posto que só ela conta a seus olhos. O sufrágio estranho é uma força inumana, misteriosa, caprichosa, que é preciso captar màgicamente. A despeito de sua arrogância superficial, a narcisista sente-se ameaçada eis por que é inquieta, suscetível, irritável, está sempre na expectativa; sua vaidade nunca se sacia; quanto mais envelhece, mais procura ansiosamente elogios e êxitos, mais suspeita da exis ência de conjuras ao redor de si; desnorteada, obcecada, ela afunda na noite da má-fé e acaba muitas vezes por edificar em torno de si um delírio paranoico. A ela é que se aplicam singularmente as palavras: "Quem quer salvar a vida, perdê-la-á".

continua página 410...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo I - A narcisista (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Ordem. Cavalo. Flecha.

Elias Canetti

A ORDEM

     Ordem. Cavalo. Flecha.

          Na história dos mongóis chama a atenção a estrita e original relação existente entre ordem, cavalo e flecha. Nesta relação podemos ver a razão principal do aumento súbito e repentino do poder deles. Uma análise desta relação é indispensável e será tentada aqui em rápidas palavras.
     A ordem, como sabemos, deriva biologicamente da ordem de fuga. O cavalo — como todos os demais animais ungulados que se assemelham a ele — foi adaptado durante toda sua história a esta fuga; seria possível até mesmo afirmar que sua própria finalidade era a fuga. Ele sempre viveu em manadas e estas manadas estavam acostumadas a fugir em conjunto. A ordem para isto lhes era dada pelos perigosos animais de presas que pretendiam tirar-lhes a vida. A fuga de massa passou a ser uma de suas experiências mais frequentes e como que uma característica natural dos cavalos. Quando o perigo passa, ou quando eles acreditam que o perigo tenha passado, retomam sua despreocupada vida gregária, onde cada um faz o que lhe agrada.
     O homem que se apoderou do cavalo, que o domesticou, forma uma nova unidade com ele. O mesmo homem aprendeu uma série de procedimentos que podem ser considerados como ordens. Alguns destes procedimentos são constituídos por sons; em sua maioria, porém, são formados por movimentos bastante determinados de pressão e de tração que transmitem ao cavalo a vontade do cavaleiro. O cavalo compreende os impulsos da vontade do cavaleiro e obedece a eles. Entre os povos de cavaleiros, o cavalo é tão necessário e tão familiar ao seu senhor que se formou entre eles uma relação inteiramente pessoal, uma submissão de uma intimidade que não é possível normalmente.
     A distância física que normalmente existe entre quem manda e quem obedece, e também entre o dono e o seu cachorro, por exemplo, deixa de existir neste caso. É o corpo do cavaleiro que transmite as indicações ao corpo do cavalo. O espaço de comando reduz-se a um mínimo. Os aspectos distantes, estranhos, vagos, que pertencem ao caráter original da ordem, desaparecem. A ordem neste caso é domesticada de maneira muito especial; um novo agente se introduziu na história das relações entre as criaturas: a cavalgadura; o servidor sobre o qual o dono se assenta, o servidor que está exposto ao peso físico do dono e que cede a cada pressão do seu corpo.
     Como repercute esta relação com o cavalo sobre o exer cício de comando do cavaleiro? É preciso notar, em primeiro lugar, que o cavaleiro tem a possibilidade de transmitir ao seu cavalo as ordens que recebe de um superior. A meta que lhe é fixada, ele não a alcança correndo pessoalmente em sua direção; ele transmite ao seu cavalo a ordem de chegar até lá. Uma vez que isto ocorre de imediato, ele não mantém em si o aguilhão desta ordem. Ele evita isso pela transmissão da ordem ao seu cavalo. A limitação específica de liberdade que esta ordem lhe teria ocasionado escapa-lhe antes mesmo de ele ter a oportunidade de senti-la de fato. Quanto mais rapidamente ele realiza seu encargo, quanto mais depressa montar, quanto mais depressa cavalgar, tanto menor será o aguilhão que irá permanecer nele. A arte propriamente dita destes cavaleiros, quando reveste o caráter militar, consiste no fato de eles serem capazes de adestrar uma massa muito maior de receptores de ordens, aos quais transmitem sem demora tudo o que eles próprios receberam de cima.
     A organização militar dos mongóis possuía uma disciplina especialmente rígida. Aos povos que eles atacaram e que foram forçados à submissão, e que tinham oportunidade de observá-los mais detalhadamente, esta disciplina parecia ser o que de mais surpreendente e severo jamais tinham visto. Fossem eles persas, árabes ou chineses, russos, húngaros ou os monges franciscanos que chegaram até lá como embaixadores do papa, a todos era igualmente incompreensível que seres humanos pudessem obedecer de maneira tão incondicional. Esta disciplina era suportada com facilidade pelos mongóis (ou tártaros, como frequentemente eram chamados) porque a parte deste povo que realmente arcava com o peso principal eram os cavalos.
     Crianças pequenas de dois ou três anos de idade já eram colocadas sobre o dorso de um cavalo para aprenderem a montar. Já mencionamos que, na primeira fase da educação de uma criança, ela é literalmente crivada de aguilhões-ordens. Principalmente pela mãe, desde muito cedo e de muito perto, mas também pelo pai, mais tarde e a uma distância maior, e por qualquer pessoa encarregada de sua educação. Na prática, qual quer pessoa adulta ou de idade maior que esteja em contato com a criança não se cansa de sobrecarregá-la com determinações, ordens e proibições. Desde cedo vão se acumulando na criança todos os tipos de aguilhões; são eles que se transformarão posteriormente nas coerções e coações de sua vida, forçando-a a procurar outras criaturas nas quais possa desfazer-se dos seus aguilhões. Sua existência se transforma numa aventura de procurar livrar-se desses aguilhões, sem saber por que comete esta ou aquela ação inexplicável, por que estabelece esta ou aquela relação aparentemente absurda.
     A criança mongol que aprende a cavalgar tão cedo tem portanto, em comparação às crianças de culturas sedentárias e superiores, uma liberdade de tipo muito particular. Assim que ela passa a entender de cavalos, pode transmitir a estes tudo o que lhe for ordenado. Desde muito cedo esta criança se livra dos aguilhões que — em medida muito menor — também pertencem à sua educação. O cavalo faz o que a criança deseja, muito antes que o faça qualquer outra pessoa. Essa criança se habitua a tal obediência, e assim vive mais aliviada; mais tarde, porém, exigirá da pessoa por ela subjugada o mesmo tipo de comportamento, ou seja, uma submissão física de natureza absoluta.
     A esta relação — de importância decisiva para o exercício do comando — entre o homem e o cavalo, acrescenta-se em segundo lugar para os mongóis o significado da flecha. Ela é a réplica exata da ordem primordial, não domesticada.
     A flecha é hostil, sua finalidade é matar. Ela atravessa em linha reta uma grande distância. É preciso esquivar-se dela. Quem não o consegue, perece; a flecha fica cravada nele. É possível extraí-la mas, mesmo que ela não se quebre, sempre deixa uma ferida. (Existem alguns relatos a respeito de feri mentos causados por flechas na História Secreta dos Mongóis.) O número de flechas que se pode disparar é ilimitado; a flecha é a arma principal dos mongóis. Elas matam à distância; mas também matam em movimento, a partir do dorso de um cavalo.
     Já observamos que toda ordem, desde sua origem biológica, leva acoplada uma sentença de morte. Quem não foge é atingido. Quem é atingido é destroçado.
     Entre os mongóis a ordem manteve o seu caráter de sentença de morte em grau muito mais elevado. Eles matam homens como se fossem animais. Matar é sua terceira natureza, do mesma forma que cavalgar é a segunda.
     Suas matanças de seres humanos se assemelham muito às suas caçadas de animais. Quando não estão em guerra, vão à caça; suas manobras são as caçadas. Eles devem ter ficado altamente assombrados quando, no decorrer de suas vastas expedições de conquistas, encontraram budistas e cristãos, cujos sacerdotes lhes falavam a respeito do valor especial de toda espécie de vida. Um contraste maior dificilmente pode ter existido: os mestres da ordem pura, que a encarnam por instinto, se encontram com aqueles que por meio de sua religião a querem enfraquecer ou modificar a ponto de perder suas características letais, transformando-a em algo humano.

continua na página 179...
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Leia também:

Massa e Poder - A Ordem: Ordem. Cavalo. Flecha. /  
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

Edgar Allan Poe - Contos: Manuscrito encontrado numa garrafa (b)

Edgar Allan Poe - Contos


Manuscrito encontrado numa garrafa 

Aquele a quem não resta senão um momento de vida 
Nada mais tem a esconder
Quinault, Atys
continuando...

     Um sentimento para o qual não tenho nome apossou-se de minha alma — uma sensação que não admitirá quaisquer análises, para a qual as lições do tempo passado são inadequadas, e de cuja compreensão receio nem sequer o próprio futuro detém alguma chave. Para uma mente constituída como a minha, esta última consideração é uma desgraça. Jamais — sei que jamais — me darei por satisfeito com respeito à natureza de minhas impressões. E contudo, não é de admirar que essas impressões sejam indefinidas, uma vez que se originam de fontes tão completamente inéditas. Uma nova percepção — uma nova entidade passou a integrar minha alma.

*** 

     Já é decorrido um longo tempo desde que pisei pela primeira vez nos deques deste terrível navio, e os raios de meu destino estão, creio, convergindo em um foco. Homens incompreensíveis! Absortos em meditações de um tipo que me é vedado intuir, passam por mim sem me notar. Esconder-me foi uma completa tolice de minha parte, pois essa gente não me enxerga. Agora mesmo passei diretamente diante dos olhos do imediato; isso foi pouco depois de haver me aventurado pela cabine particular do próprio capitão, apropriando-me ali dos materiais com que ora escrevo, e tenho escrito. Continuarei a retomar esse diário de tempos em tempos. É verdade que provavelmente não encontrarei oportunidade de transmiti-lo ao mundo, mas não pretendo abrir mão de tentar. No último momento, tratarei de encerrar o manuscrito numa garrafa, e vou lançá-la ao mar.

***

     Ocorreu um incidente que me proporcionou novo ensejo para reflexão. São tais coisas o incontrolado acaso em operação? Aventurei-me pelo convés e larguei-me, sem atrair qualquer atenção, entre uma pilha de cabos de enfrechates e velas usadas, no fundo do escaler. Enquanto cismava na singularidade de meu destino, aplicava pinceladas distraídas com uma brocha alcatroada às beiradas de um cutelo cuidadosamente dobrado sobre um barril perto de mim. Essa vela está agora envergada no alto do navio e as irrefletidas pinceladas da brocha formaram a palavra DESCOBERTA.
     Tenho feito muitas observações ultimamente sobre a estrutura da embarcação. Embora bem armada, ela não é, creio eu, uma belonave. Seu cordame, feitio e aparelhamento geral constituem todos uma negativa a suposições nesse sentido. O que ela não é eu o posso perceber facilmente; o que ela é receio ser impossível dizer. Não sei como isso se dá, mas ao escrutinizar seu estranho modelo e singular disposição de vergas, seu tamanho imenso e velame prodigioso, sua proa austeramente simples e popa antiquada, ocasionalmente cruza minha mente a sensação de coisas familiares, e sempre vem misturada a essas sombras indistintas da memória uma inexplicável lembrança de antigas narrativas estrangeiras e de eras perdidas no tempo.

***

     Tenho estado a observar o arcabouço do navio. É construído de um material que desconheço. Há qualquer coisa de peculiar no caráter da madeira que a meu ver parece torná-la extremamente imprópria para o uso a que foi destinada. Re iro-me a sua extrema porosidade, considerada independentemente da condição carcomida que advém de navegar por esses mares, e à parte a podridão que seria de esperar da idade. Parecerá talvez uma observação até certo ponto curiosa, mas esse madeirame apresentaria todas as características do carvalho espanhol, pudesse o carvalho espanhol ser dilatado por quaisquer meios não naturais.
     Lendo o período acima, um curioso apotegma de um curtido navegador holandês me volta subitamente à memória. “É tão certo”, costumava ele dizer quando alguma dúvida era lançada sobre seu apego à verdade, “tão certo quanto existe um oceano onde o próprio navio cresce em tamanho como o corpo vivente de um marujo.”

***

     Há mais ou menos uma hora, tomei coragem e fui me enfiar entre um grupo da tripulação. Não prestaram a menor atenção em mim e, embora eu ficasse bem no meio deles todos, pareciam completamente alheios à minha presença. Como aquele primeiro que vi no porão, ostentavam todos as marcas encanecidas de uma velhice provecta. Seus joelhos tremiam de enfermidade; seus ombros vergavam acentuadamente de decrepitude; suas peles enrugadas repercutiam com o vento; suas vozes eram baixas, trêmulas e alquebradas; seus olhos luziam com a reuma dos anos; e seus cabelos grisalhos desgrenhavam-se terrivelmente na tempestade. Em torno deles, por toda parte no convés, jaziam espalhados instrumentos matemáticos da construção mais antiquada e obsoleta.

***

     Mencionei, faz algum tempo, o envergamento de um cutelo. Desse período em diante, o navio, com vento à popa arrasada, prosseguiu em seu terrível curso rumo sul, com cada farrapo de pano enfunado sobre ele, desde suas pegas até os mais baixos botalós de cutelo, e mergulhando a todo momento os lais das vergas de seus joanetes no mais apavorante inferno líquido que a mente humana jamais pôde conceber. Acabo de deixar o convés, onde me é impossível continuar de pé, embora a tripulação pareça experimentar pouco inconveniente. A mim parece um milagre dos milagres que nosso maciço volume não tenha sido tragado de uma vez para todo o sempre. Estamos decerto condenados a continuar lutuando no limiar da eternidade, sem nunca dar esse derradeiro mergulho no abismo. De vagalhões mil vezes mais estupendos do que qualquer um que algum dia já vi afastamo-nos deslizando com o desembaraço da célere gaivota; e as águas colossais erguem suas cabeças acima de nós como demônios das profundezas, mas como demônios restritos a simplesmente ameaçar, e proibidos de destruir. Sou levado a atribuir essas evasões frequentes à única causa natural capaz de explicar tal efeito. Devo supor que o navio esteja sob a influência de alguma forte corrente oceânica, ou de uma impetuosa contracorrente de fundo.

***

     Vi o capitão frente a frente, e em sua própria cabine — porém, como esperado, ele não prestou a menor atenção em mim. Embora em sua aparência não haja, para o observador casual, nada capaz de indicar alguém acima ou abaixo do comum dos homens, ainda assim um sentimento de irreprimível reverência e assombro mesclou-se à sensação de portento com que o contemplei. Em compleição, é quase de minha própria estatura; ou seja, cerca de um metro e setenta. Tem o corpo bem constituído e compacto, nem robusto, nem eminentemente o contrário. Mas é a singularidade da expressão dominante em seu rosto — a intensa, prodigiosa, cativante evidência de idade provecta, tão absoluta, tão extrema, que anima em meu espírito uma sensação — um sentimento inexprimível. Sua testa, embora pouco enrugada, parece ostentar sobre si a marca de uma miríade de anos. Seus cabelos cinza são registros do passado, e seus olhos ainda mais cinzentos são sibilas do futuro. O chão da cabine estava forrado de estranhos in-fólios encadernados com dobradiças de ferro, instrumentos científicos desfeitos, mapas arcaicos e obsoletos. Sua cabeça estava curvada entre as mãos, e ele perscrutava, com um olhar febril, inquieto, um papel que julguei ser uma carta de comissão, e que, em todo caso, exibia a assinatura de um monarca. Resmungava malcriadamente consigo mesmo — assim como fazia o primeiro marujo que vi no porão — algumas palavras em uma língua estrangeira; e embora o homem estivesse a um palmo de mim, sua voz parecia chegar aos meus ouvidos da distância de uma milha.

***

     O navio e tudo que nele vai estão imbuídos do espírito de uma era ancestral. A tripulação se move de um lado para o outro como os fantasmas de séculos sepultados; seus olhos transmitem impaciência e inquietação; e quando suas silhuetas cruzam meu caminho ao clarão fantástico das lanternas de combate, sinto algo que nunca senti antes, ainda que tenha sido um negociante de antiguidades por toda a minha vida, e me deixado embeber pelas sombras de colunas caídas em Balbec, Tadmor, Persépolis, até minha própria alma ter se tornado uma ruína.

***

     Quando olho em torno de mim, sinto vergonha de minhas antigas apreensões. Se tremi ante a tempestade que até o momento nos acompanhou, o que devo sentir senão o mais puro terror diante de um confronto bélico entre o vento e o oceano, do qual palavras como tornado e simum transmitem apenas uma ideia limitada e imprecisa? Tudo na vizinhança imediata do navio é o negror da noite eterna e um caos de águas sem espumas; mas a cerca de uma légua de ambos os lados de nós podem ser vistos, indistintamente e a intervalos, estupendos baluartes de gelo, assomando imponentes contra o céu desolado, e parecendo as muralhas do universo.

***

     Como imaginei, o navio mostra estar em uma corrente — se essa denominação pode apropriadamente ser conferida a um luxo oceânico que, uivando e guinchando nas imediações do gelo branco, segue trovejando na direção sul com velocidade semelhante à violenta precipitação de uma catarata.

***

     Conceber o horror de minhas sensações é, presumo, completamente impossível; contudo, uma curiosidade de penetrar nos mistérios dessas plagas espantosas predomina até mesmo sobre meu desespero, e me trará resignação perante o aspecto sumamente hediondo da morte. É evidente que singramos velozmente rumo a uma empolgante compreensão — algum segredo fadado a jamais ser partilhado, cujo conhecimento acarreta destruição. Talvez essa corrente nos leve ao próprio polo austral. É forçoso confessar que uma suposição aparentemente tão ousada conta com toda probabilidade a seu favor.

***

     A tripulação anda de um lado a outro pelo convés com passadas trêmulas; mas observa-se em seus semblantes antes uma expressão de ansiedade esperançosa do que a apatia do desespero.
     Nesse ínterim, o vento segue soprando de popa e, por carregarmos essa infinidade de velas, o navio às vezes se eleva, de casco e tudo, acima do oceano! Oh, horror sobre horror! — o gelo se abre subitamente à direita, e à esquerda, e rodopiamos vertiginosamente, em imensos círculos concêntricos, girando e girando pelas bordas de um gigantesco anfiteatro cujas paredes no alto se perdem nas trevas e na distância. Mas pouco tempo ainda me resta para refletir sobre meu destino! Os círculos rapidamente ficam cada vez menores — mergulhamos desvairadamente nas garras da voragem — e em meio aos rugidos, aos clamores, aos estrondos do oceano e da tempestade, o navio estremece — ai, Deus! e —— desce!

Nota: O “Manuscrito encontrado numa garrafa” foi originalmente publicado em 1831 [1833]; e não foi senão depois de muitos anos que tomei conhecimento das cartas de Mercator, em que o oceano é representado como correndo, por quatro bocas, para dentro do Abismo Polar (ao norte), de modo a ser engolido pelas entranhas da Terra; o próprio polo é representado por um rochedo negro, assomando a prodigiosa altura. 

continua página 72...
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Manuscrito encontrado numa garrafa (a) / Manuscrito encontrado numa garrafa (b) /                 
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.