sábado, 24 de outubro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Um Império que importa CAPITAIS (6)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA DA ESPOLIAÇÃO
     
53. Um Império que importa CAPITAIS
          
          O “Programa de ação econômica do governo”, elaborado por Roberto Campos, previa que, em resposta à sua política benfeitora, os capitais afluiriam do exterior para incrementar o desenvolvimento do Brasil e contribuir para sua estabilidade econômica e financeira¹. Anunciavam-se para 1965 novos investimentos diretos, de origem estrangeira, de 100 milhões de dólares. Chegaram 70. Assegurava-se que, nos anos seguintes, o nível superaria as previsões de 1965, mas as convocatórias foram inúteis. Em 1967, ingressaram 76 milhões; a evasão resultante de lucros e dividendos, assistência técnica, patentes, royalties ou regalias e uso de marcas superou em mais de quatro vezes o investimento novo. A tais sangrias teria de se somar também as remessas clandestinas. O Banco Central admite que, em 1967, emigraram do Brasil fora das vias legais 120 milhões de dólares.

[1] MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO E COORDENAÇÃO ECONÔMICA. Programa de ação econômica do governo. Rio de Janeiro, novembro de 1964. Dois anos depois, falando na Universidade Mackenzie, em São Paulo, Campos insistia: “Já que as economias em processo de organização não dispõem de recursos para dinamizar-se, pelo simples fato de que se os tivessem não estariam em atraso, é lícito aceitar o concurso de todos quantos queiram correr conosco os riscos da maravilhosa aventura que é o progresso, para dele receber uma parte dos frutos” (22 de dezembro de 1966).

     Como se vê, o valor do que saiu é infinitamente maior do que o valor que entrou. Definitivamente, os números dos novos investimentos diretos nos anos cruciais da desnacionalização industrial – 1965, 1966, 1967 – estiveram muito abaixo do nível de 1961¹. Os investimentos na indústria congregam a maior parte dos capitais norte americanos no Brasil, mas correspondem a menos de 4 por cento do total dos investimentos dos Estados Unidos nas manufaturas mundiais. Os da Argentina chegam apenas a 3 por cento; os do México, a 3,5. A digestão dos maiores parques industriais da América Latina não exigiu grandes sacrifícios de Wall Street.

[1] “As remessas do Brasil registram uma alta desde a legislação de 1965”, celebrava o órgão do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. “Aumenta o fluxo de juros, lucros, dividendos e regalias; os termos e as condições dos empréstimos estão sujeitos ao compromisso com o Fundo Monetário Internacional. International Commerce, 24 de abril de 1967.


     “O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monopólio, é a exportação de capital”, escreveu Lênin. Em nossos dias, como advertiram Baran e Sweezy, o imperialismo importa capitais dos países onde opera. No período 1950-67, os novos investimentos norte-americanos na América Latina totalizaram, sem incluir os lucros reinvestidos, três bilhões e 921 milhões de dólares. No mesmo período, os lucros e os dividendos remetidos ao exterior pelas empresas somaram doze bilhões e 819 milhões de dólares. Os ganhos drenados superaram em mais de três vezes o montante de novos capitais incorporados à região1. Desde então, segundo a CEPAL, novamente cresceu a sangria dos lucros, que nos últimos anos excedeu em cinco vezes os investimentos novos; a Argentina, o Brasil e o México sofreram os maiores aumentos da evasão. Mas este é um cálculo conservador. Boa parte dos fundos repatriados a título de amortização da dívida corresponde, na verdade, a lucros de investimentos, e os números tampouco incluem as remessas ao exterior relativas a pagamento de patentes, royalties e assistência técnica, nem computam outras transferências invisíveis que costumam se esconder atrás dos véus da epígrafe “erros e omissões”², nem levam em conta os lucros que têm as corporações ao inflar os preços dos abastecimentos que proporcionam às suas filiais e ao inflar também, com igual entusiasmo, seus custos operacionais.

[1] SECRETARÍA GENERAL DE LA OEA, op. cit. O presidente Kennedy já reconhecera que em 1960 “do mundo subdesenvolvido, que tem necessidade de capitais, retiramos um bilhão e 300 milhões de dólares, enquanto para lá só exportamos 200 milhões em capitais de investimento”. Discurso no congresso da AFL-CIO, em Miami, em 8 de dezembro de 1961.

[2] Entre 1955 e 1966, os misteriosos erros e omissões somaram, por exemplo, mais de um bilhão de dólares na Venezuela, 743 milhões na Argentina, 714 no Brasil, 310 no Uruguai. NACIONES UNIDAS/CEPAL, op. cit.

     A imaginação das empresas faz outro tanto com os próprios investimentos. De fato, como a vertigem do progresso tecnológico abrevia cada vez mais os prazos de renovação do capital fixo nas economias avançadas, a grande maioria das instalações e dos equipamentos fabris exportados para os países da América Latina cumpriu anteriormente um ciclo de vida útil em seus lugares de origem. A amortização, portanto, já foi feita, de forma total ou parcial. Nos efeitos do investimento no exterior, este pormenor não é contado: o valor atribuído ao maquinário, arbitrariamente elevado, seguramente não seria nem sombra do que é, se formos considerar os frequentes casos de desgaste prévio. De resto, a matriz não tem por que lançar-se em gastos para produzir na América Latina os bens que antes lhe vendia à distância. Os governos se encarregam de ajudar, adiantando recursos à filial que chega para instalar-se e cumprir sua missão redentora: a filial tem acesso ao crédito local a partir do momento em que põe um cartaz no terreno onde erguerá sua fábrica; conta com privilégios cambiais para suas importações compras que a empresa costuma fazer de si mesma – e até pode conseguir, em alguns países, um tipo especial de câmbio para pagar suas dívidas no exterior, que frequentemente são dívidas do ramo financeiro da mesma corporação. Um cálculo feito pela revista Fichas¹ indica que as divisas utilizadas na Argentina, entre 1961 e 1964, pela indústria automobilística, são três vezes e meia maiores do que o montante necessário para construir dezessete centrais termelétricas e seis centrais hidrelétricas com uma potência total de mais de 2.200 megawatts, e equivalem ao valor das importações de maquinário e equipamentos requeridos durante onze anos pelas indústrias dinâmicas para provocar um incremento anual de 2,8 por cento no produto por habitante.

[1] Fichas de investigación econômica y social. Buenos Aires, junho de 1965.


continua na página 363...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
A Estrutura Contemporânea da Espoliação
Um Império que importa CAPITAIS (6)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas? 

Émile Zola - Germinal: Sétima Parte - (II)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sétima Parte

II

     No domingo, assim que anoiteceu, Etienne escapou do conjunto habitacional. Um céu muito puro, cravejado de estrelas, iluminava a terra com uma luz azul de crepúsculo. Desceu em direção ao canal, seguiu lentamente a margem para os lados de Marchiennes. Era o seu passeio favorito, uma vereda de duas léguas coberta de relva, estendendo-se muito reta ao longo daquela água geométrica, que se desenrolava como uma interminável lâmina de prata liquefeita.
     Nunca encontrava ninguém por aquelas paragens. Naquele dia, porém, ficou contrariado vendo um homem dirigir-se para ele. E, à luz pálida das estrelas, os dois caminhantes solitários só se reconheceram quando estavam frente a frente. 

— Ah, és tu! — murmurou Etienne.

     Suvarin acenou com a cabeça, sem responder. Por um momento permaneceram imóveis, depois, um ao lado do outro, recomeçaram o passeio em direção a Marchiennes. Ambos pareciam continuar imersos em seus pensamentos, como que muito distanciados. 

— Viste no jornal o sucesso de Pluchart em Paris? — perguntou finalmente Etienne. — Ao sair da tal reunião de Belleville estava sendo esperado na calçada e recebeu uma ovação. O homem está lançado, apesar da sua rouquidão. De agora em diante ele vai dar as cartas.

     O mecânico deu de ombros. Desprezava os discursadores, os astutos que entram na política como quem entra na advocacia, para ganhar dinheiro com a retórica.
     Etienne, agora, estava entusiasmado por Darwin. Lera fragmentos seus, resumidos e vulgarizados num volume de cinco soldos, e dessa leitura mal compreendida, fazia uma ideia revolucionária da luta pela existência, os magros comendo os gordos, o povo forte devorando a fanada burguesia. Mas Suvarin irritou-se, alongou-se sobre a imbecilidade dos socialistas que aceitam Darwin, esse apóstolo da desigualdade científica, cuja famosa seleção só era boa para filósofos aristocratas. E o outro insistia, queria raciocinar e exprimia suas dúvidas por uma hipótese: a velha sociedade não existia mais, fora varrida até as migalhas; pois bem! não era de temer que o mundo novo crescesse, lentamente estragado pelas mesmas injustiças, uns fracos e outros fortes, uns mais hábeis, mais inteligentes, comendo tudo, e outros idiotizados e preguiçosos, voltando novamente à escravidão? Diante dessa visão de eterna miséria o mecânico exclamou em tom feroz que, se a justiça não era compatível com o homem, este tinha que desaparecer. Enquanto houvesse sociedades podres haveria massacres, até a exterminação do último ser. E o silêncio voltou a reinar.
     Por muito tempo, de cabeça baixa, Suvarin caminhou sobre a erva fina, tão absorto que seguia bem à beira da água, com a tranquila certeza de um homem sonâmbulo, sonhando ao longo de um beirai. Depois, repentinamente, estremeceu, como se tivesse esbarrado com uma sombra. Levantou os olhos e seu rosto era de uma palidez marmórea. Perguntou suavemente ao companheiro: 

— Já te contei como ela morreu? 
— Quem? 
— Minha mulher, lá na Rússia.

     Etienne fez um gesto vago, admirado com o tremor da voz, com aquela repentina necessidade de confidência num homem habitualmente impassível, no seu estoico distanciamento dos outros e de si mesmo. Sabia apenas que a mulher era uma amante e fora enforcada em Moscou. 

— O golpe tinha gorado — começou a contar Suvarin, agora com os olhos perdidos no branco deslizar do canal, entre a colunata azul das grandes árvores. — Tínhamos ficado catorze dias debaixo da terra, colocando minas na estrada de ferro. E, em vez do trem imperial, foi um trem de passageiros que explodiu... Então prenderam Anuchka. Era ela que todas as noites nos trazia pão, disfarçada em camponesa. Foi ela também quem acendeu a mecha, porque um homem poderia ser notado... Segui o julgamento, escondido na multidão, durante seis dias intermináveis...

     Não pôde mais falar, foi sufocado por um ataque de tosse. Em seguida continuou: 

— Por duas vezes tive vontade de gritar, de furar a multidão para juntar-me a ela. Mas de que serviria? Um homem de menos é um soldado de menos; e eu percebia claramente que ela me dizia que não, com seus grandes olhos parados, quando encontrava os meus.

     Tornou a tossir. 

— No último dia, na praça, eu também estava... Chovia, os idiotas não sabiam o que fazer debaixo da chuvarada. Tinham levado vinte minutos para enforcar outros quatro: a corda rompia, não conseguiam acabar com o quarto... Ánuchka estava muito ereta, esperando. Não me via, procurava-me com o olhar na multidão. Subi numa pilastra e ela me enxergou, nossos olhares não se largaram mais. Mesmo depois de morta continuou olhando me. Agitei meu chapéu e parti.

     Houve novo silêncio. A fita branca do canal desenrolava-se até o infinito; ambos caminhavam no mesmo passo abafado, cada um imerso outra vez no seu isolamento. No fundo do horizonte, a água pálida parecia abrir no céu um risco de luz muito fino. 

— Era o nosso castigo — continuou duramente Suvarin. — Éramos culpados do nosso amor... Sim, foi melhor que ela morresse, nascerão heróis do seu sangue, e eu, agora, tenho um coração de pedra... Ah! nem pais, nem mulher, nem amigo, nada que faça tremer a mão no dia em que for necessário tirar a vida de outros ou dar a sua!

     Etienne parará, fremindo sob a noite fresca. Não discutiu, disse simplesmente: 

— Estamos longe, queres voltar?

     Voltaram em direção à Voreux, lentamente; depois de alguns passos, acrescentou: — Viste os novos cartazes?

     Eram os grandes cartazes amarelos que a companhia mandara fixar na manhã daquele dia. Neles, mostrava-se mais clara e conciliadora, prometia aceitar os mineiros despedidos que se apresentassem no dia seguinte ao trabalho. Tudo seria esquecido, perdoariam até os mais comprometidos. 

— Sim vi — respondeu o mecânico. 
— E que achas? 
— Acho que está tudo acabado... O rebanho voltará ao trabalho. Vocês são todos uns covardes.

     Etienne, febrilmente, desculpou os companheiros: um homem pode ser valente, uma multidão que morre de fome não tem força para nada. Passo a passo tinham atingido a Voreux. Diante da massa escura da mina, continuou, jurou que nunca mais voltaria àquele trabalho, mas desculpava os que voltassem. Em seguida, como corria o boato de que os carpinteiros não tinham tido tempo de consertar o estaqueamento, procurou informar-se. Seria verdade? O volume de terra contra o madeiramento que revestia o poço era tão grande que ele estava arqueado e um dos elevadores de extração roçava-o ao passar, numa extensão de mais de cinco metros. Era verdade isso?
     Suvarin, caído novamente no seu mutismo, respondeu secamente. Trabalhara na véspera, e, realmente, o elevador roçava em certo trecho; os mecânicos tinham de duplicar a velocidade para poder passar naquele lugar. Mas todos os chefes acolhiam as observações com a mesma frase irritada: queriam carvão; mais tarde aquilo seria consertado. 

— Imagina se rebenta... — murmurou Etienne. — Estaríamos perdidos.

     Com os olhos na mina, sem forma definida no escuro, Suvarin concluiu tranquilamente: 

— Se aquilo rebentar, os companheiros o saberão, já que tu os aconselhas a voltarem ao trabalho.

     Davam nove horas no campanário de Montsou. Como o outro dissesse que ia dormir, ele acrescentou, sem mesmo estender a mão: 

— Bem, adeus. Eu vou embora. 
— Como, vais embora? 
— É isso mesmo, pedi minha carteira de trabalho de volta, vou para outro lugar.

     Etienne, estupefato, comovido, fitava-o. Era depois de duas horas de passeio que lhe dizia aquilo, e com toda a calma, quando só o anúncio daquela brusca separação confrangia seu coração. Haviam-se conhecido, tinham sofrido juntos; só de pensar que nunca mais o veria, ficava triste. 

— Tu te vais para onde? 
— Por aí, não sei... 
— Mas nós nos veremos de novo? 
— Não, acho que não.

     Calaram-se, ficaram por um momento frente a frente, sem saber o que dizer. 

— Então, adeus. 
— Adeus.

     Enquanto Etienne subia em direção ao conjunto habitacional, Suvarin voltou as costas e dirigiu-se para a margem do canal. Lá, agora sozinho, de cabeça baixa, engolfado nas trevas, como uma sombra movendo-se na noite, caminhou ao léu. Por momentos parava para ver as horas, ao longe. Quando soou meia-noite, abandonou o canal e dirigiu-se para a Voreux.
     Nesse momento a mina estava deserta, apenas encontrou um contramestre com os olhos pesados de sono. As fornalhas só eram acesas às duas horas, para o começo do trabalho. Primeiro subiu para procurar num armário uma jaqueta que fingia ter esquecido. Nessa peça de roupa encontravam-se enroladas diversas ferramentas: uma pua, um serrote pequeno muito forte, um martelo e uma talhadeira. Em seguida, partiu; mas, em vez de sair pelo vestiário, enfiou-se pelo estreito corredor que levava ao fosso das escadas. E, com a jaqueta debaixo do braço, desceu de mansinho, sem lanterna, medindo a profundidade pela contagem das escadas. Sabia que o elevador roçava a trezentos e setenta e quatro metros, de encontro à quinta passagem do revestimento inferior. Tendo contado cinquenta e quatro lances de escada, tateou com a mão e sentiu a saliência das madeiras. Era ali.
     Então, com a destreza e o sangue-frio de um bom operário que meditou longamente sobre a sua tarefa, pôs-se a trabalhar. Começou serrando um painel no tabique do fosso que comunicava com o compartimento de extração. E, com a ajuda de fósforos rapidamente acesos e apagados, pôde estudar o estado dó revestimento e dos reparos que recentemente tinham sido feitos.
     Entre Calais e Valenciennes, a abertura dos poços de minas encontrava dificuldades inauditas, para atravessar os imensos lençóis de água subterrâneos, ao nível dos vales mais baixos. Só a construção do revestimento com pranchas unidas umas às outras, como as aduelas de um tonei, conseguia conter os mananciais e isolar os poços no meio de lagos cujas vagas profundas e obscuras batiam contra as paredes. Ao abrir a Voreux, fora necessário construir dois revestimentos: o do nível superior nas areias soltas e argilas brancas, vizinhas do terreno cretáceo, fendidas de todos os lados, empapadas de água como uma esponja; depois, o do nível inferior, diretamente por cima das jazidas de carvão, numa areia amarela, fina como farinha, correndo com a fluidez de um líquido; e era aí que se encontrava a Torrente, esse mar subterrâneo, o terror das minas do norte, mar com suas tempestades e seus naufrágios, mar ignorado, insondável, com seus vagalhões negros, a mais de trezentos metros da luz do sol. De ordinário os estaqueamentos aguentavam a pressão enorme. Só a depressão dos terrenos vizinhos podia ser perigosa, já que essas terras eram constantemente abaladas pelas antigas galerias de exploração, que, ao se encherem, sorviam-nos. Nessa depressão das rochas, às vezes se produziam fendas que se propagavam lentamente até o estaqueamento, deformando-o com o tempo, empurrando-o para o interior do poço.
     Esse era o grande perigo, uma ameaça de desabamento e inundação, a mina enchendo-se com as terras esboroadas e o dilúvio dos mananciais.
     Suvarin, a cavalo na abertura que fizera, constatou uma deformação muito grave na quinta passagem do estaqueamento. A madeira estava arqueada, fora do enquadramento, muitas tinham mesmo saído do seu lugar. Infiltrações abundantes, "repuxos", como dizem os mineiros, jorravam das juntas, através da estopa alcatroada com que estavam calafetadas. E os carpinteiros, premidos pelo tempo, haviam-se limitado a colocar cunhas de ferro, tão negligentemente que nem todos os parafusos tinham sido postos. Produzia-se, evidentemente por trás, nas areias da Torrente, um movimento considerável.
     Então, com a broca, principiou a desapertar os parafusos, de modo que um empuxão final arrancasse todos. Era um trabalho de temeridade louca, durante o qual várias vezes quase caiu, numa queda de cento e oitenta metros, que era o que o separava do fundo. Tivera de se agarrar às guias de carvalho, os madeiros por onde corriam os elevadores; e, suspenso por cima do vácuo, locomovia-se ao longo das travessas que os ligavam de distância em distância deslizava, sentava-se, deitava-se de costas, simplesmente apoiado num cotovelo ou num joelho, com um tranquilo desprezo pela morte. Um sopro o faria cair; por três vezes quase se despencou sem um arrepio. Primeiro tateava com a mão, depois trabalhava, só acendendo um fósforo quando se perdia no meio daqueles caibros viscosos. Desatarraxados os parafusos, começou a trabalhar nas próprias pranchas, o que mais aumentou o perigo. Tinha procurado a prancha mestra, a que servia de apoio às outras; contra ela se encarniçou, furando-a, serrando-a, afinando-a, para que perdesse resistência, enquanto a água, escapando em finos esguichos pelos buracos e fendas, cegava-o e ensopava o numa chuva gelada. Dois fósforos se apagaram; todos estavam molhados. Agora era a noite, um vácuo profundo de trevas.
     A partir desse momento, parecia ébrio de ódio. Os sopros do invisível arrebatavam-no, o negro horror daquele buraco batido pela água lançou-o num furor de destruição. Começou a golpear ao acaso o estaqueamento, batendo onde podia, com a broca, com o serrote, possuído pelo desejo de pôr tudo abaixo sobre si mesmo. E punha nisso tal ferocidade, que era como se estivesse esfaqueando um ser vivo, que odiasse. Havia de exterminar essa besta malfazeja, essa Voreux que estava com a goela sempre aberta e já devorara tanta carne humana! Ouvia-se o ranger das suas ferramentas, espichava-se, rastejava, descia, subia, mantendo-se por milagre, num vaivém contínuo, num esvoaçar de pássaro noturno por entre o vigamento de um campanário.
     Mas acalmou-se, não contente consigo. Será que não se podiam fazer as coisas friamente? Sem se apressar tomou fôlego, voltou ao fosso das escadas, tornando a colocar o painel que serrara. Já bastava, não queria dar o alarme com um estrago muito grande, que tentariam consertar sem demora. A besta estava ferida na barriga, ver-se-ia se ela poderia viver até a noite. E lá estava a sua marca; o mundo, aterrado, viria a saber que ela não morrera de morte natural. Demorou-se enrolando metodicamente as ferramentas na jaqueta, subiu as escadas lentamente. Depois, tendo saído da mina sem ser visto, nem chegou a pensar em mudar de roupa. Deram três horas. Ficou na estrada, esperando. A mesma hora, Etienne, que não dormia assustou-se com um leve ruído que ouviu na escuridão espessa do quarto. Distinguia a respiração leve das crianças, os roncos de Boa-Morte e da viúva, enquanto, ao seu lado, Jeanlin emitia uma nota prolongada de flauta. Com certeza tinha sonhado, e já ia enovelar-se outra vez quando o ruído recomeçou. Era um estalido de madeira, o esforço abafado de uma pessoa que se levanta. Então pensou que talvez Catherine estivesse indisposta. 

— És tu? Estás sentindo alguma coisa? — perguntou em voz baixa.

     Ninguém respondeu, o ressonar dos outros continuava. Durante cinco minutos nada se mexeu, depois houve um outro estalido. E agora, seguro de não ter sonhado, atravessou o quarto, estendeu os braços para as trevas, tocando na cama da frente. Foi grande a sua surpresa ao encontrar a moça sentada, com a respiração suspensa, acordada e à espera. 

— Por que não respondes? Que estás fazendo?

     Ela acabou por dizer: 

— Estou-me levantando. 
— Levantando a esta hora? 
— É isso mesmo, vou trabalhar.

     Comovido, Etienne teve de se sentar na borda da enxerga, enquanto Catherine explicava-lhe as razões do seu gesto. Sofria muito de viver assim, sem fazer nada, sentindo sobre si os eternos olhares de censura; preferia correr o risco de ser maltratada por Chaval lá na mina. E, se a mãe não aceitasse seu dinheiro, não havia de ser nada, já estava bastante adulta para viver sozinha e fazer sua comida. 

— E agora vai, quero vestir-me. E não digas nada, hem? Sê bom.

     Mas ele ficou onde estava e tomou-a pela cintura, numa carícia de tristeza e pena. Em camisola, apertados um ao outro, sentiram o calor de sua pele nua, à beira daquela cama tépida do sono da noite. O primeiro movimento dela fora afastar-se, depois pôs-se a chorar baixinho, agarrando o pelo pescoço para mantê-lo contra si, num abraço desesperado. E ficaram assim, sem outro desejo, com o passado dos seus amores infelizes, que não tinham podido satisfazer. Estava então tudo acabado, não ousariam amar-se um dia, agora que eram livres? Um pouquinho de felicidade seria o bastante para dissipar sua vergonha, esse mal-estar que os impedia de seguirem juntos, em razão de uma infinidade de idéias, que nem eles mesmos sabiam o que era. 

— Vai deitar-te — murmurou ela. — Não quero acender a luz para não acordar mamãe... Já está na hora, vai...

     Mas ele não escutava, abraçava-a desesperadamente, o coração imerso em profunda tristeza. Uma necessidade de paz, um invencível desejo de ser feliz invadia-o. E via-se casado, numa casinha limpa sem outra ambição do que a de viverem e morrerem assim, juntos . Só pão lhe bastaria; e, mesmo que houvesse apenas para um, esse pedaço seria para ela. Para que mais? A vida valeria mais que isso?
     Ela já estava soltando seus braços nus. 

— Por favor, vai...

     Então, num transbordamento de coração, ele disse-lhe ao ouvido: 

— Espera, vou contigo.

     E admirou-se de ter dito aquilo. Jurara que não voltaria a descer, de onde viria então essa decisão brusca, saída dos seus lábios sem a ter pensado ou raciocinado? Agora fazia-se nele tamanha tranquilidade, uma cura tão completa das suas dúvidas, que se obstinava na decisão, como um homem salvo pelo acaso e que enfim encontrasse a única saída para o seu tormento. Por isso não quis ouvi-la, quando ela se mostrou alarmada, compreendendo que seu gesto era pura dedicação, temendo os impropérios com que ele seria recebido na mina. O rapaz ria de tudo isso, os cartazes prometiam perdão, e isso bastava. 

— Já decidi, vou trabalhar... Vamos vestir-nos sem fazer barulho. 

     Vestiram-se no escuro, com mil precauções. Ela, às escondidas, tinha preparado de véspera a sua roupa de mineiro; o rapaz tirou do armário uma jaqueta e umas calças. E não se lavaram com receio de fazer barulho com o tacho. Todos dormiam, tinham de atravessar o corredor estreito onde dormia a mãe. Ao saírem, por desgraça tropeçaram numa cadeira. A mulher acordou, perguntando, cheia de sono: 

— Hem? quem é?

     Catherine, toda trêmula, tinha parado, apertando violentamente a mão de Etienne. 

— Sou eu, não é nada — disse este. — Estou precisando de ar fresco, vou até lá fora respirar um pouco. 
— Ah! — grunhiu a mulher, voltando a dormir.

     Catherine não ousava caminhar. Finalmente desceu à sala e repartiu uma fatia que tinha guardado de um pão dado por uma senhora de Montsou. Depois, fecharam cuidadosamente a porta e partiram.
     Suvarin permanecera em pé, ao lado do Avantage, numa curva da estrada. Havia meia hora que observava os mineiros voltando ao trabalho, confundidos com o escuro, passando com o seu surdo bater de cascos, como um rebanho. Contava-os, como os magarefes contam as reses à entrada do matadouro; e estava surpreso com a quantidade, não previra, mesmo no seu pessimismo, que o número de covardes pudesse ser tão grande. A fila não tinha fim, ele se retesava, friorento, cerrando os dentes, os olhos claros.
     De repente estremeceu. Entre os homens que desfilavam e cujas fisionomias não distinguia, acabava de reconhecer um, pelo modo de andar. Avançou e fê-lo parar. 

— Aonde vais?

     Etienne, perturbado, em vez de responder, balbuciava: 

— Como, ainda não partiste?

     Depois confessou, voltava para a mina. Sim, tinha jurado, mas não era vida esperar de braços cruzados que as coisas, talvez dentro de cem anos, acontecessem; além disso, razões suas tinham feito com que se decidisse.
     Suvarin escutara-o arrepiado. Agarrando-o por um braço, empurrou-o de volta ao conjunto habitacional. 

— Volta já para casa!

     Catherine se aproximou, ele reconheceu-a também. Etienne protestou, declarou que ninguém tinha o direito de julgar seus atos. E os olhos do mecânico foram da moça ao companheiro, enquanto recuava um passo, com um gesto brusco de desistência. Quando um homem tinha uma mulher no coração, estava liquidado, podia morrer. Talvez tenha visto, numa rápida visão, lá em Moscou, sua amante enforcada, o último laço carnal que cortara, que o tornara livre da vida dos outros e da sua. Disse simplesmente: 

— Vai.

     Perturbado, Etienne demorava-se, procurando uma palavra de camaradagem, para não se separarem assim. 

— Então, vais partir mesmo? 
— Vou. 
— Vamos, um aperto de mão, meu velho. Boa viagem, e sempre amigos.

     O outro lhe estendeu a mão gelada. Nem amigo, nem mulher. 

— Desta vez é para sempre. Adeus. 
— Sim, adeus.

     E Suvarin, imóvel nas trevas, seguiu com o olhar Etienne e Catherine, que entravam na Voreux.

continua na página 395...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
             
          Mário não tinha perdido um só pormenor desta cena, e, contudo, na realidade nada tinha visto. Os olhos tinham-lhe ficado fixos na jovem, que ele, para assim dizer, abarcara toda com o coração, apenas ela entrou na mansarda. Durante todo o tempo que ela ali se detivera, o jovem vivera a vida do êxtase que suspende as percepções materiais, fazendo concentrar a alma toda num só ponto. Ele contemplava, não a jovem, mas aquela luz que trazia um mantelete de cem e um chapelinho de veludo. O jovem não ficaria mais deslumbrado do que ficou se naquela sala vesse entrado a estrela Sírio.
     Ao mesmo tempo que a graciosa jovem ia desatando a trouxa, desdobrando a roupa e os cobertores, e fazendo perguntas com bondade à doente e com enternecimento à pequena que se cortara, Mário observava-lhe todos os movimentos e tentava ouvir todas as palavras que ela proferia. Conhecia-lhe os olhos, a fronte, a beleza, a cintura, o andar, só não lhe conhecia o som da voz. Julgara uma ocasião no Luxemburgo que lhe ouvira algumas palavras, mas não tinha a certeza disso. De bom grado dava dez anos da sua vida para a ouvir falar, para poder levar na alma um bocado desta música. Tudo, porém, que a jovem dizia era abafado pelos lamentosos queixumes de Jondrette e pelos seus guinchos, com o que o transportado jovem muito se encolerizava. Mário fitava-lhe os olhos com a maior ternura. Não podia capacitar-se de que era, realmente, aquela criatura divina que ele divisava no meio daqueles imundos entes, naquela mansarda monstruosa. Parecia-lhe um colibri entre sapos.
     Quando ela saiu, o seu pensamento foi segui-la, não a perder de vista, acompanhá-la até saber onde ela morava, ou ao menos não a tornar a perder, depois de a haver encontrado tão miraculosamente. Saltou, pois, abaixo da cômoda e pegou no chapéu, mas, ao deitar a mão ao fecho da porta para sair, suspendeu-o uma reflexão. O corredor era comprido, a escada empinada, Jondrette falador, por isso o senhor Leblanc ainda de certo não se tinha medo na carruagem, e se ele no corredor ou na escada ou no limiar da porta se voltasse, avistá-lo-ia naquela casa, e decerto se assustaria e acharia modo de lhe escapar de novo, e lá ia outra vez tudo. Que fazer? Esperar um bocado? Mas, durante esse tempo de espera, podia a carruagem ir-se embora. Mário estava perplexo. Afinal, aventurou-se a sair do quarto.
     Como no corredor já não encontrasse ninguém, dirigiu-se para a escada, onde também não encontrou vivalma. Desceu, portanto, apressadamente, e chegou ao boulevard a tempo de ver um carro a voltar a esquina da Rua do Petit-Banquier e encaminhar-se para Paris.
     Mário precipitou-se naquela direção, e, chegado ao ângulo do boulevard, tornou a avistar o carro, que seguia rapidamente pela rua Mouffetard; já ia muito distante, tornando-se impossível apanhá-lo; mesmo que ele tentasse isso, deitando a correr com toda a força atrás dele, decerto o avistariam de dentro e o velho o conheceria. Neste momento, porém, singular e maravilhoso acaso, Mário avistou um cabriole de aluguer, que ia a passar pelo boulevard sem ninguém dentro. O único expediente, pois, que tinha a tomar era meter-se no cabriole e seguir o carro. Era uma coisa certa, eficaz e sem perigo.
     Mário fez sinal ao cocheiro para que parasse e gritou-lhe: 

— Por hora!

     Mário estava sem gravata, com o fato velho com que trabalhava, ao qual faltavam alguns botões, e uma camisa rota numa das pregas do peito.
     O cocheiro parou, piscou o olho e estendeu a mão para Mário, esfregando brandamente o índex com o polegar. 

— Que é? — perguntou Mário. 
— Pague adiantado — respondeu o cacheiro.

     O rapaz lembrou-se então de que não trazia consigo senão dezesseis soldos. 

— Quanto? — indagou. 
— Quarenta soldos. 
— Eu pago na volta.

     O cocheiro, por única resposta, pôs-se a assobiar a cantiga de La Palisse e fustigou os cavalos.
     Mário viu partir o cabriole com gesto desvairado. Por vinte e quatro soldos que lhe faltavam, perdia a sua alegria, a sua ventura, o seu amor, ficava outra vez nas trevas, tornava a cegar, depois de ter visto! Lembrou-se então amargamente, e, devemos dizê-lo, com profundo pesar, dos cinco francos que pela manhã dera à miserável rapariga, filha do seu vizinho Jondrette. Se ele ali tivesse esses cinco francos, estava salvo, renasceria, sairia dos limbos e das trevas, sairia do isolamento, do spleen, da viuvez, tornaria a atar o fio negro do seu destino àquele belo fio de ouro que há um instante lhe flutuara diante dos olhos, quebrando-se ainda outra vez!
     Mário entrou em casa no cúmulo do desespero.
     Pudera servir-lhe de lenitivo a lembrança, de que o senhor Leblanc prometera voltar de tarde e que então tomaria melhor as suas precauções para o seguir; o jovem, porém, alheado na sua contemplação, mal ouvira a promessa do velho.
     Na ocasião em que ia a subir a escada, avistou do outro lado do boulevard, junto da parede deserta da rua da Barreira dos Gobelinos, Jondrette, vestido com o sobretudo do «filantropo», a falar com um desses homens de aspecto pouco tranquilizador, a quem por convenção chamamos vagabundos das barreiras; homens de rostos equívocos e monólogos suspeitos, que têm ar de más intenções e que de ordinário dormem de dia, o que faz supor que trabalham de noite.
     Estes dois homens parados a conversar, apanhando a neve que caía em espessos flocos, formavam um grupo, que um agente de polícia com certeza se poria a observar, mas em que Mário mal fez reparo.
     Não obstante, porém, a grande preocupação que o agitava, não pôde deixar de notar que aquele vagabundo das barreiras com quem Jondrette estava a falar se parecia com um certo Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, que Courfeyrac uma vez lhe mostrara, e que passava no bairro por um perigoso passeante noturno. O leitor já no livro precedente viu o nome deste homem. O tal Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, veio depois a figurar em muitos processos criminais, o que o tornou célebre entre os gatunos. Neste tempo não passava de um famoso gatuno. Hoje apenas resta dele uma vaga tradição entre os salteadores e ratoneiros. Fazia escola pelos fins do último reinado. Ao cair da noite, à hora em que se formam os grupos falando em voz baixa, conversava-se a respeito dele na Force, na Cova dos Leões. Podia-se até, na prisão, justamente no sítio em que por baixo do caminho de circunvalação passava o cano das latrinas, por onde em 1843 conseguiram evadir-se, em pleno dia, trinta presos, podia-se ler, logo por cima, o seu nome — PANCHAUD — audaciosamente gravado por ele no muro de circunvalação, numa das suas tentativas de evasão.
     Em 1832 já a polícia o vigiava, porém ainda ele não tinha feito a sua estreia de um modo sério.

continua na página 571...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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[1] "Aluguer"... significa a cedência provisória do uso de um bem mediante pagamento, equivalente a aluguéis ou arrendamentos. A palavra "aluguer" refere-se à cedência temporária do uso ou usufruto de um bem, que pode ser um imóvel, veículo, objeto ou serviço, mediante pagamento de um valor previamente acordado, ou seja, trata-se de aluguel ou arrendamento. "Alugueres" é o plural de "aluguer" e é mais comum em Portugal e em contextos jurídicos. No Brasil, a forma equivalente é "aluguéis," plural de "aluguel," sendo a forma mais usada no português brasileiro. Ambas as formas são corretas gramaticalmente, mas a escolha depende da variante do português utilizada.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

George Orwell - 1984: Parte 2.4a (Winston olhou em volta)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

4.

     Winston olhou em volta da pequena sala de estar em cima da loja do Sr. Charrington. Ao lado da janela, a enorme cama estava feita, com cobertores maltrapilhos e um acolchoado sem capa. O relógio antiquado, com o frontispício de doze horas, estava a fazer tique-taque sob a lareira. No canto, na mesa dobrável, o peso de papel de vidro que ele havia comprado em sua última visita brilhava suavemente na semi-escuridão.
     Havia também um fogareiro batido de óleo, uma panela e dois copos, fornecidos pelo Sr. Charrington. Winston acendeu o queimador e colocou uma panela de água para ferver. Ele tinha trazido um envelope cheio de Café da Vitória e algumas pastilhas de sacarina. Os ponteiros do relógio diziam dezessete e vinte: eram realmente dezenove e vinte. Ela chegaria às dezenove e meia.
     Loucura, loucura, seu coração continuava dizendo: loucura consciente, gratuita, suicida. De todos os crimes que um membro do Partido podia cometer, este era o menos possível de se ocultar. Na verdade, a ideia tinha passado primeiro pela sua cabeça na forma de uma visão, o pisa-papéis de vidro espelhado pela superfície da mesinha. Como ele havia previsto, não tinha sido difícil para o Sr. Charrington alugar a sala. Ele estava obviamente contente com os poucos dólares que isso lhe traria. Nem parecia chocado ou ofendido ao saber quando ficou claro que Winston queria a sala com o propósito de uma relação amorosa. Em vez disso, ele olhou para nada e falou generalidades, com um ar tão delicado a ponto de dar a impressão de que havia se tornado parcialmente invisível. A privacidade, disse ele, era uma coisa muito valiosa. Todos queriam um lugar onde pudessem estar sozinhos ocasionalmente. E quando tinham um lugar assim, era apenas uma cortesia comum que qualquer outra pessoa que soubesse disso para guardasse seu conhecimento para si mesmo. Ele até mesmo acrescentou, parecendo quase desvanecer-se enquanto o fazia, que havia duas entradas para a casa, uma delas pelo do quintal, que dava em uma outra viela.
     Sob a janela, alguém estava cantando. Winston espreitou para fora, seguro pela proteção da cortina de musselina. O sol de junho ainda estava alto no céu, e uma mulher monstruosa, volumosa como uma coluna normanda, com antebraços vermelhos e um avental amarrado ao meio, estava tropeçando de um lado para o outro entre um tanque de lavar roupa e um varal no pátio ensolarado abaixo, fixando uma série de panos brancos que Winston identificou como fraldas para bebês. Sempre que sua boca não estava ocupada segurando grampos para a roupa, ela cantava em um poderoso contralto:

Era apenas uma fantasia sem esperança, 
que passou como um dia de Abril, 
Mas um olhar e uma palavra e os sonhos que despertam! 
Eles roubaram minha cervejinha!

     Essa música estava tomando conta de Londres há algumas semanas. Foi uma das inúmeras canções similares publicadas para o benefício dos proles por uma subseção do Departamento de Música. As palavras destas canções foram compostas sem qualquer intervenção humana com um instrumento conhecido como versificador. Mas a mulher cantava com tanta afinação que transformava o lixo horrível em um som quase agradável. Ele podia ouvir a mulher cantando e o raspar de seus sapatos nas lajes, e os gritos das crianças na rua, e em algum lugar distante um leve rugido do trânsito, e ainda assim a sala parecia curiosamente silenciosa, graças à ausência de uma teletela.
     Loucura, loucura, loucura!, ele pensou novamente. Era inconcebível que eles pudessem frequentar este lugar por mais de algumas semanas sem serem pegos. Mas a tentação de ter um esconderijo que fosse verdadeiramente seu, dentro de uma casa e perto, tinha sido demais para ambos. Durante algum tempo após sua visita ao campanário da igreja, havia sido impossível organizar outros encontros. O horário de trabalho havia sido drasticamente aumentado em antecipação à Semana do Ódio. Estava a mais de um mês de distância, mas os enormes e complexos preparativos que isso implicava estavam dando trabalho extra a todos. Finalmente, ambos conseguiram assegurar uma tarde livre no mesmo dia. Eles tinham concordado em voltar para a clareira na floresta. Na noite anterior, eles se encontraram brevemente na rua. Como sempre, Winston mal olhou para Julia enquanto eles se dirigiam um para o outro na multidão, mas pelo breve olhar que ele lhe deu, pareceu-lhe que ela estava mais pálida do que de costume.

“Está tudo acabado”, ela murmurou assim que julgou que era seguro falar. “Amanhã, quero dizer”.
“O quê”? 
“Amanhã à tarde. Eu não posso ir”. 
“Por que não”?
“Ah, a razão de sempre. Começou cedo desta vez”.

     Por um momento, ele ficou violentamente zangado. Durante o mês em que ele a conheceu, a natureza de seu desejo por ela havia mudado. No início, havia pouca sensualidade verdadeira nela. A primeira vez que fizeram amor foi simplesmente um ato de vontade. Mas após a segunda vez, foi diferente. O cheiro de seu cabelo, o gosto de sua boca, a sensação de sua pele parecia ter entrado dentro dele, ou no ar que o rodeava. Ela havia se tornado uma necessidade física, algo que ele não só queria, mas sentia que tinha o direito de fazer. Quando ela disse que não podia vir, ele tinha a sensação de que ela o estava enganando. Mas justamente neste momento a multidão os pressionou e suas mãos se encontraram acidentalmente. Ela apertou rapidamente as pontas de seus dedos, algo que parecia convidar não ao desejo, mas ao afeto. Ele percebeu que, quando se vivia com uma mulher, esta decepção deve ser um acontecimento normal e recorrente; e uma profunda ternura, como ele não havia sentido por ela antes, de repente se apoderou dele. Ele desejava que eles fossem um casal com dez anos de casamento. Ele desejava estar andando pelas ruas com ela como eles estavam fazendo agora, mas abertamente e sem medo, falan do de trivialidades e comprando bugigangas para a casa. Ele desejava acima de tudo que eles tivessem algum lugar onde pudessem estar sozinhos juntos sem sentir a obrigação de fazer amor toda vez que se encontrassem. Não foi realmente naquele momento, mas em algum momento do dia seguinte, que a ideia de alugar o quarto do Sr. Charrington lhe ocorreu. Quando ele o sugeriu a Julia, ela concordou com uma prontidão inesperada. Ambos sabiam que era uma loucura. Era como se estivessem intencionalmente andando para mais perto de seus túmulos. Enquanto esperava sentado na beira da cama, ele pensou novamente nos porões do Ministério do Amor. Era curioso como aquele horror predestinado se movia para dentro e para fora da consciência. Lá estava ele, fixado em tempos futuros, precedendo a morte com a certeza de que 99 precede 100. Não se podia evitá-lo, mas talvez se pudesse adiá-lo: e ainda assim, de vez em quando, por um ato consciente e voluntário, optou-se por encurtar o intervalo antes que acontecesse.
     Neste momento, houve um estalar rápido na escada. Julia irrompeu pela sala. Ela estava carregando uma mala para ferramentas de lona marrom grossa, como ele já a vira fazendo no Ministério. Ele avançou em sua direção para pegá-la em seus braços, mas ela se soltou rapidamente, em parte porque ela ainda estava segurando a bolsa de ferramentas.

“Meio segundo”, ela disse. “Quero mostrar o que eu trouxe. Você trouxe um pouco daquele Café da Vi tória péssimo? Eu achei que sim. Você pode jogá-lo fora, porque não vamos precisar dele. Veja aqui”.

     Ela caiu de joelhos, abriu a mala e tirou algumas chaves de fenda e um alicate que enchiam a parte superior. Abaixo havia uma série de pacotes de papel limpos. O primeiro pacote que ela passou para Winston teve uma sensação estranha e ao mesmo tempo vagamente familiar. Era preenchido com algum tipo de coisa pesada, parecida com areia, que afundava onde quer que se tocasse nele. 

“Isso não é açúcar?”, disse ele.
“Açúcar de verdade, não açúcar de sacarina. E aqui temos uma broa de pão branco, não aquela coisa ruim, e um pouco de geleia. E aqui tem uma lata de leite – mas olha! Estou orgulhosa mesmo desse aqui. Precisei embalar bem, porque –”.

     Mas ela nem precisou dizer o porquê de toda a embalagem. O cheiro já preenchia todo o quarto, um cheiro profundo e quente que parecia emanar do começo da sua infância, mas que ele parecia encontrar de vez em quando até agora, vindo de uma passagem antes de uma porta ser batida, se diluindo misteriosamente por uma rua cheia, sentido por alguns segundos e então perdido novamente. 

“É café”, ele disse. “Café de verdade”.
“É café do Partido Interno. Tenho um quilo inteiro aqui”, ela disse.
“Como você conseguiu obter todas essas coisas”?
“São coisas do Partido Interno. Não há nada que esses porcos não tenham, nada. Mas é claro que garçons, criados e outras pessoas pegam algumas coisas, e – olha, eu também tenho um pacote de chá”.

     Winston havia se agachado ao lado dela. Ele ras gou um canto do pacote. 

“É chá de verdade. Não folhas de amora silvestre”. 
“Tem bastante chá nos últimos tempos. Eles capturaram a Índia, ou algo assim”, disse ela vagamente. “Mas escute, querido. Eu quero que você se vire de costas por três minutos. Vá e sente-se do outro lado da cama. Não se aproxime muito da janela. E não vire as costas até eu avisar”. 

     Winston olhou abstraído através da cortina de musselina. No quintal, a mulher de braços vermelhos ainda estava marchando de um lado para o outro entre o tanque e o varal. Ela tirou mais dois grampos de sua boca e cantou com sentimento profundo:

Eles dizem que o tempo cura tudo, 
Dizem que você sempre pode esquecer, 
Mas os sorrisos e as lágrimas de todos os anos 
Anda fazem meu coração amolecer!
  
     Parecia que ela sabia de cor toda a canção. Sua voz flutuava para cima com o ar doce do verão, muito afinada, carregado de uma espécie de melancolia feliz. Tivemos a sensação de que ela teria ficado perfeitamente satisfeita, se a noite de junho tivesse sido interminável e o fornecimento de roupas inesgotáveis, para permanecer lá por mil anos, tirando fraldas e cantando porcarias. Pareceu-lhe um fato curioso que nunca havia ouvido um membro do Partido cantar sozinho e espontaneamente. Teria parecido até pouco ortodoxo, uma excentricidade perigosa, como falar consigo mesmo. Talvez fosse apenas quando as pessoas estavam em algum lugar perto do nível de fome que elas tinham algo para cantar.

“Você pode se virar agora”, disse Julia.
continua na página 303..
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Parte 1 
Parte 2 
Capítulo 4a (Winston olhou em volta)
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (3)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
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CAPÍTULO II
A AMOROSA
 
continuando...

     Um deus degradado não é um homem, é uma impostura; o amante não tem outra alternativa senão provar que é realmente esse rei adulado, ou denunciar-se como usurpador. A partir do momento em que não o adoram, cumpre espezinhá-lo. Em nome dessa glória com que aureolou o amado, a amorosa proíbe-lhe qualquer fraqueza; desilude-se e irrita-se se ele não se molda à imagem que ela colocou em seu lugar; se está fatigado, estonteado, se tem fome ou sede fora de propósito, se se engana, se se contradiz, ela decreta que ele está "abaixo de si mesmo" e lhe censura. Por esse viés, chega a censurar-lhe todas as iniciativas que ela própria não aprecia; julga o juiz e, para que ele mereça continuar seu senhor, denega-lhe a liberdade. O culto que lhe rende satisfaz-se por vezes melhor com a ausência do que com a presença. Há mulheres, já vimos, que se consagram a heróis mortos ou inacessíveis, a fim de nunca os confrontar com seres de carne e osso; estes fatalmente contradizem os sonhos. Daí os slogans desabusados: "Não se deve acreditar em príncipe encantado. Os homens não passam de pobres diabos". Não pareceriam anões, se não se lhes pedisse para ser gigantes.
     É uma das maldições que pesam sobre a mulher apaixonada: sua generosidade converte-se desde logo em exigência. Tendo-se alienado em outrem, quer também recuperar-se: é-lhe necessário anexar esse outro que detém o seu ser. Não se dá inteiramente a ele, mas é preciso que ele esteja inteiramente disponível para receber dignamente esse dom. Ela dedica-lhe todos os seus instantes: é preciso que a cada instante ele esteja presente; ela quer viver unicamente por ele, mas quer viver; ele deve consagrar-se a fazê-la viver.

   Amo-o por vezes bobamente e nesses momentos não compreendo por que não poderia, não fosse e não devesse ser para você um pensamento absorvente como você o é para mim, escreve Mme d'Agoult a Liszt.

     Ela tenta refrear o desejo espontâneo: ser tudo para ele. Depara-se com idêntico apelo na queixa de Mlle de Lespinasse:

   Deus meu! Se soubesse que são os dias, que é a vida privada do interesse e do prazer de vê-lo! Meu amigo, a dissipação, a ocupação, o movimento lhe bastam; eu, minha felicidade é você, e só você; não quereria viver se não devesse vê-lo e amá-lo em todos os momentos da vida.

     A princípio, a amorosa encantava-se com satisfazer o desejo do amante; depois — como o bombeiro lendário que por amor ao ofício provocava incêndio por toda parte — em não conseguindo, sente-se humilhada, inútil a ponto de o amante fingir ardores que não experimenta. Fazendo-se escrava, encontra ela o meio mais seguro de acorrentá-lo. Trata-se de mais uma mentira do amor, que muitos homens — Lawrence, Montherlant — denunciaram com rancor: apresenta-se como um dom quando é uma tirania. Benjamin Constant em Adolphe pintou asperamente os ferros com que prende o homem a generosa paixão de uma mulher. "Ela não calculava seus sacrifícios porque estava preocupada com me fazer aceitá-los", diz ele com crueldade, de Eléonore. A aceitação é efetivamente um compromisso que amarra o amante, sem que ele tenha sequer o benefício de se apresentar como aquele que dá; a mulher quer que ele acolha com gratidão os fardos com que o esmaga. E sua tirania é insaciável. O homem amoroso é autoritário, mas quando obtém o que desejava, fica satisfeito; ao passo que não há limites para a dedicação exigente da mulher. Um amante que tem confiança em sua amante admite sem desprazer que ela se ausente, que se ocupe longe dele; certo de que ela lhe pertence, prefere possuir uma liberdade a possuir uma coisa. Ao contrário, a ausência do amante é sempre uma tortura para a mulher; ele é um olhar, um juiz, ele a frustra desde que deite os olhos em outra coisa que não ela; rouba-lhe tudo o que vê: longe dele, ela sente-se despojada de si mesma e do mundo; mesmo sentado ao lado dela, lendo, escrevendo, ele a está abandonando, traindo. Ela detesta-lhe o sono. Baudelaíre se enternece ante a mulher adormecida: "Teus belos olhos estão lassos, pobre amante". Proust encanta-se com olhar Albertine dormir¹; o ciúme masculino é simplesmente a vontade de uma posse exclusiva. A bem-amada não pertence a ninguém quando o sono lhe devolve a candura desarmada da infância; para o homem essa certeza basta. Mas o deus, o senhor, não deve abandonar-se ao repouso da imanência; é com um olhar hostil que a mulher contempla essa transcendência fulminada; ela detesta-lhe a inércia animal, o corpo que não mais existe para ela e sim em si, abandonado a uma contingência que deve pagar com sua própria contingência.
[1] O fato de Albertine ser um Albert não modifica nada; aqui atitude de Proust é, em todo caso, uma atitude viril.

     Violette Leduc exprimiu, em Je hais les dormeurs, com força esse sentimento:

   Detesto os homens que dormem. Debruço-me sobre eles com minhas más intenções. Sua submissão exaspera-me. Odeio sua serenidade inconsciente, sua falsa anestesia, sua fisionomia de cego estudioso, sua embriaguez sensata, sua aplicação de incapaz... Fiquei de atalaia, esperei durante muito tempo a bolha rósea que sairia da boca de meu dorminhoco. Só reclamava dele uma bolha de presença. Não a tive... Vi que suas pálpebras de noite eram pálpebras de morto... Refugiava-me na alegria de suas pálpebras quando esse homem era intratável. O sono é duro quando de verdade. Roubou-me tudo. Detesto este meu homem dormindo, capaz de com inconsciência criar para si uma paz que me é estranha. Detesto sua fronte de mel... No fundo de si mesmo está a preocupar-se com seu repouso. Recapitula não sei quê... Tínhamos levantado voo. Queríamos deixar a terra utilizando nosso temperamento. Tínhamos decolado, subido, espiado, e esperado, cantarolado, chegado, gemido, ganho e perdido ao mesmo tempo. Era uma vagabundagem séria. Tínhamos descoberto uma nova espécie de nada. Agora dormes. Teu retraimento não é honesto... Se meu dorminhoco se mexe, minha mão toca, sem querer, a semente. É o celeiro com cinquenta sacos de grãos que é abafante, despótico. As bolsas íntimas de um homem que dorme caíram sobre a minha mão. . . Possuo os saquinhos de sementes. Tenho nas mãos os campos que serão lavrados, os vergéis que serão tratados, a força das águas que será transformada, as quatro tábuas que serão pregadas, os toldos que serão erguidos. Tenho nas mãos os frutos, as flores, os animais selecionados. Tenho na mão o bisturi, o podão, a sonda, o revólver, o fórceps e tudo isso não me enche a mão. A semente do mundo que dorme não é senão o supérfluo oscilante do prolongamento da alma. . . Odeio-te quando dormes.

     É preciso que o deus não adormeça, sem o quê, faz-se barro, carne; é preciso que não deixe de estar presente, sem o quê, sua criatura soçobra no nada. Para a mulher, o sono do homem é avareza e traição. O amante desperta por vezes a amante; é para possuí-la. Ela o desperta simplesmente para que ele não durma, não se afaste, pense somente nela, esteja presente, fechado no quarto, no leito, em seus braços — como Deus no tabernáculo. E o que a mulher deseja: é uma carcereira.
     E, no entanto, ela não consente realmente em que o homem não seja senão seu prisioneiro. É esse um dos paradoxos dolorosos do amor: cativo, o deus despoja-se de sua divindade. Destinando-lhe sua transcendência, a mulher salva-a: mas é preciso que ele a transporte para o mundo inteiro. Se dois amantes se abismam juntos no absoluto da paixão, toda liberdade se degrada em imanência: só a morte pode então trazer uma solução. É o sentido do mito de Tristão e Isolda. Dois amantes que se destinam exclusivamente um a outro, já estão mortos: morrem de tédio. Em Terres Étrangères, Marcel Arland descreveu a agonia de um amor que se devora a si mesmo. A mulher conhece esse perigo. Salvo nas crises de ciúme frenético, ela própria deseja que o homem seja projeto, ação. Não é mais um herói, se não realiza nenhuma façanha. O cavaleiro que parte para novas proezas ofende sua dama, mas ela o despreza se permanece sentado aos pés dela. Essa, a tortura do amor impossível; a mulher quer ter todo o homem, mas exige dele que supere todo dado cuja posse seja possível: não se tem uma liberdade; ela quer encerrar aqui um existente que é, segundo Heidegger, "um ser dos longes" e ela bem sabe que a tentativa é condenada. "Meu amigo, amo-o como se deve amar, com excesso, loucura, transporte e desespero", escreve Julie de Lespinasse. O amor idólatra, se lúcido, só pode ser desesperado. Porque a amante que pede ao amante que seja herói, gigante, semideus, reclama por não ser tudo para ele, quando só pode conhecer a felicidade com a condição de o conter inteiro dentro de si.

   A paixão da mulher, renúncia total a toda espécie de direitos próprios, postula precisamente que o mesmo sentimento, o mesmo desejo de renúncia não exista para o outro sexo, pois se ambos renunciassem a si 'mesmos por amor,' disso resultaria não sei bem quê, digamos talvez o horror ao vácuo? A mulher quer ser possuída... ela exige por tanto alguém que possua, que não se dê a si próprio, que não se abandone, mas que queira, ao contrário, enriquecer seu eu no amor. . . A mulher dá-se, o homem aumenta-se com ela. . . (Nietzsche, Gaia Ciência).

     Pelo menos, a mulher poderá encontrar sua alegria nesse enriquecimento que traz ao bem-amado; ela não é Tudo para ele, mas tentará acreditar-se indispensável; não há graus na necessidade. Se ele "não pode viver sem ela", ela se considera como o fundamento de sua preciosa existência, e disso aufere seu próprio valor. Põe sua alegria em servi-lo: mas é preciso que ele reconheça esse serviço com gratidão; o dom torna-se exigência, segundo a dialética comum da dedicação¹. E uma mulher de espirito escrupuloso interroga-se: é realmente de mim que ele precisa? O homem ama-a, deseja-a com uma ternura e um desejo singular: mas não teria por outra um sentimento igualmente singular? Muitas mulheres apaixonadas deixam-se iludir: querem ignorar que o geral se acha envolvido no singular, e o homem facilita-lhes essa ilusão porque antes de tudo a partilha; há constantemente em seu desejo, um arrebatamento que parece desafiar o tempo; no instante em que quer essa mulher ele a quer com paixão e somente a ela: e sem dúvida o instante é um absoluto, mas o absoluto de um instante. Iludida, a mulher passa para o eterno. Divinizada pelo amplexo do senhor, ela acredita ter sido sempre divina e destinada ao deus: ela somente. Mas o desejo masculino é tão fugaz quão imperioso; uma vez satisfeito, morre assaz depressa, ao passo que é, o mais das vezes, depois do amor que a mulher se torna sua prisioneira. É o tema de toda uma literatura fácil de canções triviais. "Um jovem passava, uma mulher cantava... um jovem cantava, uma mulher chorava." E o fato de um homem permanecer duradouramente apegado à mulher não significa que ela lhe seja necessária. É entretanto o que ela reclama: sua abdicação só a salva com a condição de lhe restituir seu império; não se pode fugir ao jogo da reciprocidade. É preciso pois que ela sofra, que ela minta a si mesma. Na maioria das vezes ela se agarra primeiramente à mentira. Imagina o amor do homem como a exata contrapartida do que ela lhe dedica; com má-fé toma o desejo por amor, a ereção por desejo, o amor por uma religião. Força o homem a mentir: tu me amas? Como ontem? Tu me amarás sempre? Habilmente, faz as perguntas no momento em que não há tempo para respostas matizadas e sinceras, ou então em que as circunstâncias as impedem; é durante o amplexo amoroso, no limiar de uma convalescença, entre soluços ou na plataforma de uma estação que ela interroga imperiosamente; faz troféus das respostas arrancadas e, na falta de respostas, faz os silêncios falarem. Toda amorosa verdadeira é mais ou menos paranóica. Lembro-me de uma amiga que, ante o silêncio prolongado de um amante longínquo, declarava: "Quando se quer romper, escreve-se para anunciar a ruptura"; e depois de ter recebido uma carta sem ambiguidade: "Quando se quer realmente romper, não se escreve". É muitas vezes muito difícil verificar onde começa o delírio patológico ante as confidencias recebidas. Descrita pela apaixonada, em pânico, a conduta de um homem apresenta-se sempre como extravagante: é um neurótico, um inconsistente, um recalcado, um masoquista, um sádico, um demônio, um covarde ou tudo isso junto; desafia as explicações psicológicas mais sutis. "X. me adora, é loucamente ciumento, desejaria que eu usasse uma mascara quando saio; mas é um ser tão estranho e que desconfia tanto do amor que, quando lhe bato à porta, me recebe no patamar e não me deixa sequer entrar." Ou então: "Z. me adorava. Mas era demasiado orgulhoso para pedir-me que fosse residir em Lião, onde mora: fui e instalei-me em casa dele. Ao fim de oito dias, sem uma briga, mandou-me embora. Tornei a vê-lo duas vezes. Na terceira vez que lhe telefonei, bateu o telefone no meio da conversa. É um neurótico". Essas histórias misteriosas esclarecem-se quando o homem explica: "Não a amava absolutamente", ou "Tinha-lhe amizade, mas não teria suportado viver com ela um mês". Sendo demasiado obstinada, a má-fé conduz ao hospício: um dos traços constantes da erotomania, está em que as condutas do amante se apresentam como enigmáticas e paradoxais; por esse desvio, o delírio da doente consegue sempre quebrar as resistências da realidade. Uma mulher nor mal acaba sempre sendo vencida pela verdade, e reconhecendo que não é mais amada. Mas, enquanto não é acuada a essa confissão, trapaceia sempre um pouco. Mesmo no amor recíproco há entre os sentimentos dos amantes uma diferença fundamental que ela se esforça por mascarar. Pois é naturalmente preciso que o homem possa justificar-se sem ela, posto que ela espera ser justificada por ele. Se ele lhe é necessário, é porque foge de sua liberdade; mas se assume a liberdade sem a qual não seria nem herói nem simplesmente homem, nada nem ninguém lhe seriam necessários. A dependência que a mulher aceita vem de sua fraqueza: como encontraria uma dependência recíproca naquele que ela ama em sua força?
     Uma alma apaixonadamente exigente não poderia encontrar sossego no amor porque visa um fim contraditório. Torturada, atormentada, arrisca-se a tornar-se um fardo para aquele de quem se sonhava escrava; não podendo ser indispensável, torna-se importuna, odiosa. É isso também uma tragédia muito comum. Mais sensata, menos intransigente, a amorosa resigna-se. Não é tudo, não é necessária: basta-lhe ser útil; outra ocuparia facilmente seu lugar: ela contenta-se com ser a que está presente, Reconhece sua servidão sem pedir reciprocidade. Pode então experimentar uma felicidade modesta; mas, mesmo dentro de tais limites, essa felicidade não será sem nuvens. Muito mais dolorosamente do que a esposa, a amorosa espera. Se a própria esposa é exclusivamente uma amorosa, as tarefas caseiras, a maternidade, suas ocupações, seus prazeres não têm valor nenhum a seus olhos: é a presença do esposo que a arranca ao limbo do tédio. "Quando não estás presente, parece-me que não vale sequer a pena olhar o dia; tudo que me acontece é então como uma morte, não passo mais de um pequeno vestido vazio jogado sobre uma cadeira", escreve Cécile Sauvage nos primeiros tempos de seu casamento¹. E vimos que muitas vezes é fora do casamento que nasce e desabrocha o amor-paixão. Um dos mais notáveis exemplos de uma vida inteira dedicada ao amor é o de Juliette Drouet: ela é apenas uma espera indefinida. "Cumpre sempre voltar ao mesmo ponto de partida, isto é, a esperá-lo sempre", escreve ela a Victor Hugo. "Eu o espero como um esquilo na gaiola." "Deus meu! Como é triste para uma natureza como a minha esperar desde um fim da vida até o outro.'' "Que dia! Pensei que não passasse, a tal ponto te esperei, e agora acho que passou depressa demais porquanto não te vi..." "Acho o dia infindável..." "Espero-o porque afinal prefiro ainda esperar, a crer que não virá mais." É verdade que Victor Hugo, depois de Juliette romper com seu rico protetor, Príncipe Demidoff, confinara-a em um pequeno apartamento e durante doze anos proibiu-a de sair sozinha, a fim de que não reatasse com nenhum de seus amigos de outrora. Mesmo quando a sorte daquela que se intitulava "sua pobre vítima enclaustrada" se amenizou, não deixou ela de ter o amante como única razão de viver e de vê-lo bem pouco. "Amo-te, meu Victor bem amado", escreve em 1841, "mas tenho o coração triste e cheio de amargura; vejo-te tão pouco, e o pouco que te vejo me pertences tão pouco, que todos esses poucos fazem um todo de tristeza que me enche o coração e o espírito." Ela sonha conciliar a independência com o amor. "Gostaria de ser independente e escrava a um tempo, independente por uma situação de que viva e escrava unicamente de meu amor." Mas tendo definitivamente malogrado em sua carreira de atriz, teve de resignar-se "de um fim de vida a outro" a ser apenas uma amante. Apesar de seus esforços para prestar serviço ao ídolo, suas horas eram demasiado vazias: as 17.000 cartas que escreveu a Hugo, ao ritmo de 300 a 400 por ano, testemunham-no. Entre as visitas do senhor não lhe restava senão matar o tempo. O pior horror na condição da mulher de harém é serem seus dias uns desertos de tédio: quando o homem não usa esse objeto que ela é para ele, ela não é absolutamente mais nada. A situação da amorosa é análoga: ela só quer ser essa mulher amada, nada mais tem valor a seus olhos. Para existir, é-lhe preciso portanto que o amante esteja a seu lado, se ocupe com ela; ela espera a chegada, o desejo, o despertar dele. E logo que ele a deixa, recomeça a esperar. É a maldição que pesa sobre a heroína de Back Street, de Fanny Hurst, sobre a de Intempéries, de R. Lehman, sacerdotisas e vítimas do amor puro. É a dura punição infligida a quem não tomou o próprio destino nas mãos.
[1] É diferente o caso quando a mulher encontra sua autonomia no casamento; então o amor entre os cônjuges pode ser uma livre troca de dois seres que se bastam.

continua página 430...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"