sexta-feira, 8 de maio de 2026

Cinema: Quilombo

Um símbolo da resistência negra contra a escravidão


"Num engenho de Pernambuco, por volta de 1650, um grupo de escravizados se rebela e ruma ao Quilombo dos Palmares, onde existe uma nação de ex-escravizados fugidos que resiste ao cerco colonial, entre eles Ganga Zumba, um príncipe africano. Tempos depois, seu herdeiro e afilhado, Zumbi, contesta as ideias conciliatórias de Ganga Zumba (Príncipe) e enfrenta o maior exército jamais visto na história colonial brasileira"






"Filme de 1984 dirigido por Cacá Diegues, baseado nos livros Ganga Zumba, de João Felício dos Santos e Palmares, de Décio de Freitas. Nos primórdios de nossa civilização, os negros africanos trazidos pelos portugueses para o trabalho escravo nas plantações de cana-de-açúcar, que não suportavam os maus tratos dos senhores, fugiam para o interior do país e se organizavam em comunidades. A mais famosa foi a do Quilombo dos Palmares, cuja história é contada nesse filme. Nesse Quilombo não havia só negros escravizados fugitivos, mas, índios e brancos que eram perseguidos ou estavam insatisfeitos com a vida que levavam na Colônia. Ganga Zumba (Toni Tornado) é o líder; o rei da comunidade. Dandara (Zezé mota) é sua mulher; Zumbi (Antônio Pompeo) e Ana Ferro (Vera Fischer). Quatro importantes personagens desse filme de dramaticidade. Uma aula dada por Cacá Diegues sobre um dos mais sombrios e lindos episódios de nossa história. Um elenco brilhante, conta com Jofre Soares, Camila Pitanga, Antônio Pitanga, Jonas Bloch, Milton Gonçalves, Dona Zica (ela mesma, esposa de Cartola), Daniel Filho, Maurício do Valle, Toni TOrnado, João Nogueira entre outros. Indicado a Palma de Ouro no Festival de Cannes e premiado no Festival de Miami 1984 (EUA)."

É um filme de coprodução brasileira e francesa de 1984, do gênero drama.

Direção
Carlos Diegues

Roteiristas
Carlos Diegues
João Felicio dos Santos
Décio Freitas

Elenco
Bené Batista como Ibualama/Xangô
Jonas Bloch  como Samuel
Zózimo Bulbul como Homem de Pedra
Emmanuel Cavalcanti como Lins
Arduíno Colassanti como Blaer
Jorge Coutinho como Salé
Babaú da Mangueira
Roberto de Cleto como Padre Mello
Chico Díaz como Anunciação
Aniceto do Império
Maurício do Valle como Dominingos Jorge Velho
Sabrina Fidalgo
Daniel Filho como Fernão Carrilho
Jorge Fino como Iabu
Vera Fischer como Ana de Ferro
Léa Garcia
Milton Gonçalves como Escravo moribundo
Thiago Justino como Tité
Markus Konká como Katambo
Carlos Kroeber como Tourinho
Carlos Lagoeíro como André Tourunho
Swami Leeladahar como Bernardo
Wilson Macalé como Cabinda/Xangô
Eduardo Machado
Sergio Maia como Teodoro
Scarlet Moon
Luis Motta como Bezerra
Zezé Motta como Dandara
Kim Negro como Homem do Milho
João Nogueira como Rufino
Waldir Onofre como Henchman
Grande Otelo como Babá
José Márcio Passos como Vicente
Paulão como Lua Lua
Antônio Pitanga como Acaiuba
Camila Pitanga como Menina
Ruy Polanah como Navarro
Antônio Pompêo como Zumbi
Thelma Reston como Mrs. Olímpia
Alaide Santos como Acotirene
Namba Santos como Namba
Adalberto Silva como Aroroba
Evandro Rocha como Professor
Embaixador como Congo
Regina Rocha como Gongoba
Márcio Alexandre como Henrique
Eduardo Silva como Camuanga
Victor Cantero como Mágico
Delanir Cerqueira como Indegro
Joel Silva como Tolentino
Jofre Soares como Canindé
Sandro Solviatti como Capitão do mato
Paulo Henrique Souto como Padeiro
Tony Tornado como Ganga Zumba
Dona Zica do Cartola

Música
Gilberto Gil
Waly Salomão 



Zumbi e a Consciência Negra 
- Eduardo Bueno




A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava / 
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984 / 
Quilombo /  
___________________

Zumbi (A Felicidade Guerreira)




Zumbi (A Felicidade Guerreira) · Gilberto Gil
Quilombo (Original Motion Picture Soundtrack)
℗ 1984 Warner Music Brasil Ltda.
Produtor: Gilberto Gil
Vocal: Gilberto Gil
Produtor: Liminha
Compositor: Gilberto Gil


Quilombo, o eldorado negro - Gilberto Gil 
| (Quilombo - Cacá Diegues - 1984)



Cenas de "Quilombo", de Cacá Diegues, com a versão da música "Quilombo, o eldorado negro", presente no início do filme e não no álbum da trilha sonora.


é só deixar rolar a trilha sonora do filme

George Orwell - 1984: Parte 1.2 ( Quando apoiou a mão na maçaneta)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1


2.
     
     Quando apoiou a mão na maçaneta, Winston percebeu que havia deixado o diário aberto em cima da mesa. Cobrindo o papel com letras garrafais, as frases ABAIXO O GRANDE IRMÃO quase podiam ser lidas do outro lado do aposento. Um descuido de uma estupidez inconcebível. Contudo, Winston se deu conta de que mesmo em pânico ele não quisera borrar o papel creme fechando o diário com a tinta ainda úmida.
     Respirou fundo e abriu a porta. No mesmo instante sentiu uma onda cálida de alívio percorrer-lhe o corpo. Uma mulher pálida, de aparência emaciada, cabelo ralo e rosto enrugado estava parada do lado de fora.

“Ah, camarada”, começou ela, num tom de voz monótono e queixoso, “tive a impressão de ouvir você chegar. Será que poderia ir até a minha casa dar uma olhada na pia da cozinha? Está entupida e...”

     Era a sra. Parsons, mulher de um vizinho de andar. (“Sra.” era uma forma de tratamento pouco favorecida pelo Partido — a ideia era chamar todo mundo de “camarada” —, porém com certas mulheres seu uso era quase instintivo.) Ela devia ter uns trinta anos, mas aparentava muito mais. Dava a impressão de ter poeira acumulada nas rugas do rosto. Winston a seguiu pelo corredor. Esses consertos de amador eram uma amolação quase diária. Os apartamentos das Mansões Victory eram antigos, haviam sido construídos em 1930, por volta disso, e estavam caindo aos pedaços. O reboco do teto e das paredes vivia despencando, o encanamento estourava com qualquer geada mais forte, havia goteiras no teto sempre que nevava, o sistema de calefação costumava ser regulado em potência baixa, isso quando não permanecia desligado por razões de economia. Os consertos que os moradores não conseguiam fazer sozinhos precisavam ser autorizados por comitês inacessíveis, capazes de retardar por dois anos uma singela troca de vidraça.

“Claro que só estou pedindo sua ajuda porque o Tom não está em casa”, disse a sra. Parsons sem mais explicações.

     O apartamento dos Parsons era maior que o de Winston, e sua esqualidez era de outro tipo. Tudo tinha um aspecto surrado, maltratado, como se um animal grande e violento tivesse acabado de passar por ali. Apetrechos esportivos — bastões de hóquei, luvas de boxe, uma bola de futebol furada, um calção suado pelo avesso — estavam largados pelo chão, e sobre a mesa via-se uma confusão de pratos sujos e livros de exercícios com as orelhas dobradas. As paredes ostentavam bandeiras vermelhas da Liga da Juventude e dos Espiões e um pôster em tamanho natural do Grande Irmão. Sentia-se o tradicional cheiro de repolho cozido comum ao prédio inteiro, só que temperado por um fedor ainda mais pronunciado de suor, que — percebia-se à primeira farejada, embora fosse difícil explicar por quê — era o suor de uma pessoa ausente no momento. Em outro cômodo alguém utilizava um pente e um pedaço de papel higiênico para tentar acompanhar o ritmo da marcha militar que continuava saindo da teletela.

“São as crianças”, disse a sra. Parsons, lançando um olhar um tanto apreensivo para a porta. “Ainda não puseram os pés fora de casa hoje. E claro que...”

     Ela tinha o hábito de deixar as frases pela metade. A pia da cozinha estava cheia quase até a borda de uma água imunda e esverdeada, cujo cheiro de repolho era simplesmente insuportável. Winston se ajoelhou e examinou o cotovelo do encanamento. Detestava ter de usar as mãos e detestava ter de se abaixar, coisa que sempre podia provocar um acesso de tosse. A sra. Parsons observava sem saber o que fazer.

“Claro que se o Tom estivesse em casa, resolvia o problema num instante”, disse ela. “Ele adora fazer esse tipo de coisa. É muito habilidoso, o Tom.”

     Parsons trabalhava com Winston no Ministério da Verdade. Era um sujeito gordinho mas diligente, de uma estupidez paralisante, um amontoado de entusiasmos imbecis — um daqueles burros de carga absolutamente submissos e dedicados de quem dependia, mais até que da Polícia das Ideias, a estabilidade do Partido. Aos trinta e cinco anos, acabara de ser excluído, contra a vontade, da Liga da Juventude, e antes de ingressar na Liga da Juventude conseguira permanecer com os Espiões um ano mais que a idade prevista nos estatutos. No Ministério, desempenhava alguma função subalterna que não tivesse a inteligência como requisito; por outro lado, porém, era figura de proa no Comitê Esportivo e em todos os demais comitês responsáveis pela organização de caminhadas comunitárias, manifestações espontâneas, campanhas de economia e atividades voluntárias em geral. Com discreto orgulho, entre uma e outra baforada de seu cachimbo, anunciava para quem quisesse ouvi-lo que tivera participações no Centro Comunitário toda santa noite ao longo dos últimos quatro anos. Um cheiro opressivo de suor, uma espécie de testemunho inconsciente da vida extenuante que ele levava, acompanhava-o aonde quer que fosse e impregnava o lugar mesmo depois de ele ter saído.

“A senhora tem uma chave inglesa?”, indagou Winston, tentando soltar a rosca do cotovelo.
“Uma chave inglesa”, repetiu a sra. Parsons, tornando-se no mesmo instante invertebrada. “Não sei, não sei. Pode ser que as crianças...”

     Ouviu-se um tropel de botinas e outra clarinada no pente quando as crianças irromperam na sala. A sra. Parsons apareceu com a chave inglesa. Winston deixou escorrer a água e tirou com repugnância o chumaço de cabelo humano que entupira o cano. Limpou os dedos o melhor que pôde na água fria da torneira e voltou para o outro aposento.

“Mãos ao alto!”, berrou uma voz selvagem.

     Um garoto de nove anos, bonito e com cara de brigão surgira detrás da mesa e o ameaçava com uma pistola de brinquedo, enquanto sua irmã menor, uns dois anos mais jovem, imitava-o utilizando um pedaço de madeira. Ambos trajavam os calções azuis, as camisetas cinza e os lenços vermelhos de amarrar no pescoço que compunham o uniforme dos Espiões. Winston ergueu as mãos acima da cabeça, mas com uma sensação incômoda — o jeito do menino era tão malévolo que a coisa não parecia ser de brincadeira.

“Você é um traidor!”, gritou o menino. “É um criminoso do pensamento! Um espião eurasiano! Eu acabo com você, vaporizo você, mando você para as minas de sal!”

     De repente as duas crianças estavam pulando em volta dele, gritando “Traidor!” e “Criminoso do pensamento!”, a garotinha imitando o irmão em todos os movimentos. Por alguma razão aquilo era um pouco apavorante, como as cambalhotas dos filhotes de tigre que não tardarão a crescer e tornar-se devoradores de homens. Havia uma espécie de ferocidade calculista nos olhos do garoto, um desejo bastante óbvio de bater ou dar chutes em Winston, e a consciência de que não faltava muito para alcançar o tamanho suficiente para fazer isso. Ainda bem que ele não tinha nas mãos um revólver de verdade, pensou Winston.
     Os olhos da sra. Parsons iam nervosamente de Winston para as crianças e destas para ele. À luz mais clara da sala de estar, ele reparou, não sem interesse, que de fato havia poeira acumulada nas rugas do rosto dela.

“Eles fazem tanta algazarra”, disse ela. “Estão desapontados porque não puderam ver o enforcamento. Estou ocupada demais para levá-los e o Tom não vai chegar a tempo do trabalho.” 
“Por que a gente não pode ir ver o enforcamento?”, rugiu o garoto com seu vozeirão. 
“A gente quer ir no enforcamento! A gente quer ir no enforcamento!”, cantarolou a garotinha, que continuava pulando ao redor de Winston. 

     Alguns prisioneiros eurasianos, praticantes de crimes de guerra, seriam enforcados no Parque naquela noite, lembrou-se Winston. Isso acontecia aproximadamente uma vez por mês, e era um espetáculo muito popular. As crianças faziam questão de que os pais as levassem para assistir. Despediu se da sra. Parsons e avançou para a porta. Mas não dera seis passos no corredor quando algo o atingiu na nuca com uma pancada extremamente dolorosa. Foi como ser espetado com um pedaço de arame incandescente. Winston virou-se a tempo de ver a sra. Parsons arrastando o filho apartamento adentro enquanto o menino guardava um estilingue no bolso. 

“Goldstein!”, trovejou o garoto enquanto a mãe fechava a porta. Mas o que mais impressionou Winston foi o olhar de pânico impotente estampado no rosto cinzento da mulher.

     De volta a seu apartamento, passou depressa diante da teletela e tornou a sentar-se à mesa, ainda massageando a nuca. A teletela já não transmitia música. Em vez disso, uma voz militar sincopada lia, com uma espécie de prazer atroz, uma descrição dos armamentos da nova Fortaleza Flutuante que acabara de ser ancorada entre a Islândia e as Ilhas Faroe.
     Com crianças daquele tipo, pensou Winston, aquela infeliz mulher deve levar uma vida de terror. Mais um ou dois anos e eles começariam a vigiá-la noite e dia em busca do menor sintoma de inortodoxia. Quase todas as crianças eram horríveis atualmente. O pior de tudo era que, por meio de organizações como a dos Espiões, elas eram transformadas em selvagens incontroláveis de maneira sistemática — e nem assim mostravam a menor inclinação para rebelar-se contra a disciplina do Partido. Pelo contrário, adoravam o Partido e tudo que se relacionasse a ele. As canções, os desfiles, as bandeiras, as marchas, os exercícios com rifles de brinquedo, as palavras de ordem, o culto ao Grande Irmão — tudo isso, para elas, era uma espécie de jogo sensacional. Toda a sua ferocidade era voltada para fora, dirigida contra os inimigos do Estado, contra os estrangeiros, os traidores, os sabotadores, os criminosos do pensamento. Chegava a ser natural que as pessoas com mais de trinta anos temessem os próprios filhos. E com razão, pois era raro que uma semana se passasse sem que o Times trouxesse um parágrafo descrevendo como um pequeno bisbilhoteiro — “herói mirim” era a expressão usada com mais frequência — ouvira às escondidas os pais fazerem algum comentário comprometedor e os denunciara à Polícia das Ideias.
     A ferroada do projétil lançado pelo estilingue já não doía. Winston pegou a caneta sem muito ânimo, perguntando-se se encontraria alguma outra coisa para escrever no diário. De repente voltou a pensar em O’Brien.
     Alguns anos antes — quantos? Devia fazer uns sete anos — ele sonhara que estava andando num aposento completamente às escuras. E alguém sentado a um lado disse, quando ele passou: “Ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão”. Isso foi dito com muita tranquilidade, de forma quase despreocupada — era uma afirmação, não uma ordem. Ele seguira em frente sem se deter. O curioso é que na época, no sonho, as palavras não lhe causaram maior impressão. Só mais tarde e aos poucos elas começaram a adquirir um significado. Já não se lembrava se fora antes ou depois do sonho que vira O’Brien pela primeira vez; e tampouco se lembrava de quando identificara pela primeira vez a voz do sonho como sendo a de O’Brien. De todo modo, a identidade era inegável. O’Brien era a pessoa que falara com ele no escuro.
     Winston nunca soubera com certeza — mesmo depois da troca de olhares daquela manhã, continuava sendo impossível ter certeza — se O’Brien era amigo ou inimigo. Se bem que isso não parecesse importar muito. Havia entre eles um elo de entendimento cuja importância era maior que o afeto ou a comunhão de ideias. “Ainda nos encontraremos no lugar onde não há escuridão”, dissera ele. Winston não sabia o que isso significava, apenas que de uma maneira ou de outra aquilo acabaria se tornando realidade.
     A voz transmitida pela teletela fez uma pausa. No ar estagnado pairou o toque de um clarim, nítido e belo. A voz prosseguiu com aspereza: 

“Atenção! Atenção, por favor! Uma notícia-relâmpago acaba de chegar do fronte malabarense. Nossas forças obtiveram gloriosa vitória no sul da Índia. Estou autorizado a afirmar que a ação que noticiamos neste momento pode perfeitamente deixar a guerra a uma distância mensurável do final. Eis a notícia-relâmpago...”

     Más notícias a caminho, pensou Winston. E de fato, logo depois da descrição sanguinolenta da aniquilação de um exército eurasiano, com um número elevadíssimo de soldados inimigos mortos ou feitos prisioneiros, veio o anúncio de que, a partir da semana seguinte, a ração de chocolate seria reduzida de trinta para vinte gramas.
     Winston arrotou de novo. O efeito do gim estava passando, substituído por uma sensação de esvaziamento. A teletela — fosse para comemorar a vitória, fosse para apagar a lembrança da porção de chocolate perdida — atacou com Oceânia, glória a ti. As pessoas deviam ouvi-la em posição de sentido.
     Oceânia, glória a ti deu lugar a uma seleção musical mais leve. Winston se aproximou da janela, sempre de costas para a teletela. O dia continuava frio e sem nuvens. Em algum lugar ao longe uma bomba-foguete explodiu com um estrondo surdo, reverberante. Eram vinte ou trinta delas caindo sobre Londres todas as semanas.
     Lá embaixo, na rua, o vento castigava o cartaz rasgado, agitando-o de um lado para o outro, e a palavra Socing, condizentemente, aparecia e desaparecia. Socing. Os sagrados princípios do Socing. Novafala, duplipensamento, a mutabilidade do passado. Winston tinha a sensação de estar vagando pelas florestas do fundo do mar, perdido num mundo monstruoso em que o monstro era ele próprio. Estava sozinho. O passado estava morto, o futuro era inimaginável. Que certeza podia ter de que naquele momento uma criatura humana, uma que fosse, estivesse do lado dele? E como saber se o domínio do Partido não seria para sempre? À guisa de resposta, vieram-lhe à cabeça os três slogans estampados na fachada branca do Ministério da Verdade:

GUERRA É PAZ 
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO 
IGNORÂNCIA É FORÇA

     Tirou do bolso uma moeda de vinte e cinco centavos. Ali também, em letras minúsculas e precisas, estavam inscritos os mesmos slogans, e do outro lado da moeda via-se a cabeça do Grande Irmão. Até na moeda os olhos perseguiam a pessoa. Nas moedas, nos selos, nas capas dos livros, em bandeiras, em cartazes e nas embalagens dos maços de cigarro — em toda parte. Sempre aqueles olhos observando a pessoa e a voz a envolvê-la. Dormindo ou acordada, trabalhando ou comendo, dentro ou fora de casa, no banho ou na cama — não havia saída. Com exceção dos poucos centímetros que cada um possuía dentro do crânio, ninguém tinha nada de seu.
     O sol avançara e as infindáveis janelas do Ministério da Verdade, agora que já não recebiam luz direta, pareciam tão temíveis quanto as seteiras de uma fortaleza. O coração de Winston se encolheu diante do enorme vulto piramidal. O edifício era forte demais, não havia como tomá-lo. Nem mil bombas-foguetes seriam capazes de destruí-lo. Voltou a perguntar-se para quem estaria escrevendo o diário. Para o futuro, para o passado — para uma época talvez imaginária. E diante dele estava o extermínio, não a morte. O diário seria reduzido a cinzas e ele próprio viraria vapor. Somente a Polícia das Ideias leria o que ele havia escrito, antes de suprimirem tudo da existência e da memória. Como era possível fazer um apelo ao futuro, quando nem um rastro seu, nem mesmo uma palavra anônima rabiscada num pedaço de papel, tinha condições de sobreviver fisicamente?
     A teletela deu as horas: duas da tarde. Winston devia sair em dez minutos. Precisava estar de volta ao trabalho às duas e meia.
     Curiosamente, o anúncio das horas pareceu dar-lhe novo ânimo. Era um fantasma solitário afirmando uma verdade de que ninguém jamais ouviria falar. Só que, enquanto a afirmasse, de alguma maneira obscura a continuidade não se romperia. Não era fazendo-se ouvir, mas mantendo a sanidade mental que a pessoa transmitia sua herança humana. Voltou para a mesa, molhou a pena da caneta e escreveu:

   Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós — a um tempo em que a verdade exista e em que o que for feito não possa ser desfeito:
   Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensamento — saudações!

     Ele já estava morto, refletiu. Parecia-lhe que só agora, quando começava a ser capaz de formular seus pensamentos, dera o passo decisivo. As consequências de toda ação estão contidas na própria ação. Escreveu:

   O pensamento-crime não acarreta a morte: o pensamento-crime é a morte.

     Agora que se via como um homem morto, tornava-se importante continuar vivo o maior tempo possível. Dois dedos de sua mão direita estavam sujos de tinta. Era exatamente o tipo de detalhe que podia entregar uma pessoa. Algum fanático enxerido do Ministério (uma mulher, talvez, alguém como a mulher de cabelo ruivo ou a moça de cabelo preto do Departamento de Ficção) podia ficar intrigado e começar a se perguntar por que ele havia passado o intervalo do almoço escrevendo, por que teria usado uma caneta antiquada, o que teria escrito — e depois soltar alguma insinuação no local adequado. Foi até o banheiro e removeu cuidadosamente a tinta dos dedos com o sabonete marrom-escuro, um sabonete que raspava a mão como uma lixa e que, portanto, atendia muito bem a seus propósitos.
     Guardou o diário na gaveta. Não fazia sentido pensar em escondê-lo, mas ele podia ao menos garantir que a eventual descoberta de sua existência não lhe passasse despercebida. Um fio de cabelo atravessado na extremidade das páginas era óbvio demais. Com a ponta do dedo, recolheu um grãozinho identificável de poeira esbranquiçada e o depositou num canto da capa, de onde certamente cairia se alguém mexesse no caderno.

continua na página 35...
_____________________

Parte 1.2 ( Quando apoiou a mão na maçaneta) /     
_____________________

George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

Massa e Poder - O Sobrevivente: Sobre os Cemitérios e o sentimento que provocam

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Sobre os Cemitérios e o sentimento que provocam
 

          Os cemitérios exercem uma forte atração; as pessoas os visitam mesmo quando neles não jaz nenhum parente seu. Em cidades estrangeiras, peregrinam rumo a eles; deixam-se ficar ali e passeiam pelo cemitério como se ele tivesse sido construído para elas. Nem sempre é o túmulo de um homem respeitado que as atrai. E mesmo quando a visita tinha por meta original um tal homem, ela sempre se transforma em mais do que isso. No cemitério, as pessoas logo mergulham num estado de espírito de natureza bastante singular. Enganar-se a si próprias acerca da natureza desse estado de espírito constitui um seu costume piedoso. E isso porque a seriedade que sentem e, mais ainda, exibem oculta uma satisfação secreta.
     O que faz realmente um visitante quando se encontra num cemitério? Como se move e de que se ocupa? Ele caminha lentamente de um lado para outro por entre as sepulturas, contempla esta ou aquela lápide, lê os nomes e sente-se atraído por muitos deles. Começa, então, a interessar-se pelo que possa haver sob aqueles nomes. Ali está um casal que viveu junto por muito tempo e, agora, como é próprio, repousa junto. Lá está uma criança que morreu bem pequenina. Ou uma moça que acabara de completar dezoito anos. Cada vez mais, são os espaços de tempo que cativam o visitante. Mais e mais, eles se destacam das particularidades comoventes e fazem-se espaços de tempo enquanto tais.
     Lá está alguém que viveu 32 anos, e, mais adiante, um outro que chegou aos 45. O visitante é já mais velho que isso; aqueles dois estão, por assim dizer, fora do páreo. Ele encontra muitos que não viveram tanto quanto ele, e, a não ser que tenham morrido bem jovens, seu destino não lhe desperta pesar algum. Mas há muitos também que superam sua idade. Há homens que morreram aos setenta anos e mesmo um que ultrapassou os oitenta. Estes, o visitante ainda pode alcançar. Eles o estimulam a imitá-los. Para ele abrem-se ainda todas as perspectivas. O caráter indefinido do tempo de vida que ainda espera viver constitui uma grande vantagem que ele possui sobre ambos aqueles mortos, e, empenhando-se, ele poderia mesmo superá-los. É auspicioso medir-se com eles, pois o visitante possui já uma vantagem sobre ambos: a meta destes já foi alcançada; eles não estão mais vivos. Com qualquer um dos dois que venha a competir, toda a força estará do seu lado, pois do lado contrário não há força alguma, apenas a meta assinalada. Aqueles que o superaram já estão mortos. Já não podem olhá-lo nos olhos de homem para homem e infundem-lhe a força para tornar-se para sempre mais do que eles. O homem de 89 anos que ali jaz é como um grande estímulo. O que impede o visitante de chegar aos noventa anos?
     Esse, porém, não é o único tipo de conta que se faz em meio a uma tal abundância de túmulos. Começa-se também a atentar para quanto tempo faz que alguns homens jazem ali. O tempo que separa o visitante da morte desses homens tem algo de tranquilizador: o primeiro encontra-se já um certo número de anos a mais neste mundo. Os cemitérios que ainda possuem lápides bem antigas, remontando aos séculos XVIII ou mesmo XVII, têm algo de enaltecedor. O visitante posta-se pacientemente diante da inscrição já apagada e não sai dali até que a tenha decifrado. A contagem do tempo, em geral empregada unicamente para propósitos práticos, adquire subitamente uma vida vigorosa e profunda. Todos os séculos conhecidos pelo visitante lhe pertencem. Aquele que ali jaz não faz ideia de que o homem postado diante de seu túmulo contempla-lhe o tempo de vida. Para o morto, a contagem de tempo interrompe-se no ano de sua morte; para o observador, porém, ela seguiu adiante, até ele próprio. Quanto não daria o morto já há tanto tempo para poder ainda postar-se ao lado do observador! Duzentos anos se passaram desde a sua morte; o visitante é, por assim dizer, duzentos anos mais velho que ele e, graças a toda sorte de registros, conhece bem muito do que aconteceu no tempo que se passou desde então. Ele leu a respeito, ouviu histórias e chegou a vivenciá-lo em parte. É difícil não se sentir superior, e é assim que se sente, nessa situação, o homem ingênuo.
     Mais ainda, porém, ele sente que está passeando sozinho no cemitério. A seus pés jazem muitos desconhecidos, todos densamente reunidos. Seu número é indefinido, mas grande, e aumenta cada vez mais. Eles não podem separar-se; permanecem como num amontoado. Somente o visitante vem e vai a seu bel-prazer. Somente ele se encontra de pé em meio aos que jazem.

continua página 422...
____________________

Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: Sobre os Cemitérios e o sentimento que provocam
____________________

ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________

Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

__________________

e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?

Conceição Evaristo

Lobo de lobo



Neste episódio de Lobo del Lobo, a escritora brasileira Conceição Evaristo compartilha seu processo criativo no mundo literário e revela a origem de sua capacidade de imaginar histórias.


"Nada do que está escrito é mentira, nada do que está escrito é verdade porque são ficções da memória."






"Tio Tatão dizia que as pessoas morrem, mas não morrem, continuam nas outras. Um dia, ele disse, quase como se estivesse dando uma ordem: "Menina, o mundo, a vida, tudo está aí. Nossa gente não tem conseguido quase nada. Todos aqueles que morreram sem se realizar, todos os negros escravizados de ontem, os supostamente livres de hoje, se libertam na vida de cada um de nós que consegue viver, consegue se realizar. A sua vida menina não pode ser só sua. Muitos vão se libertar, vão se realizar por meio de você."


________________

Mais cinema-documentário:

Menino 23 / CentralNey À Flor da Pele / Grávida /  Cidadão Boilesen / 1961 / Conceição Evaristo / 

Edgar Allan Poe - Contos: O Retrato Oval

Edgar Allan Poe - Contos


O Retrato Oval
Título original: Life in Death 
Publicado em 1842  


      O castelo onde o meu criado achara por bem penetrar à força, em vez de me condenar, deploravelmente ferido como eu estava, a passar uma noite ao relento, era uma dessas construções, misto de grandeza e de melancolia, que por longo tempo ergueram a sua fronte orgulhosa no meio dos Apeninos, tanto na realidade como na imaginação da Sr.ª Radcliffe. Segundo toda a aparência, tinha sido temporária e recentemente abandonado.
     Instalámo-nos numa das dependências menos amplas e menos sumptuosamente mobiladas, situada numa torre afastada do edifício. A sua decoração era rica, mas antiquada e em ruínas. As paredes, ornamentadas com numerosos troféus heráldicos de todas as formas, eram cobertas de tapeçarias, assim como de uma coleção prodigiosa de pinturas modernas, de grande estilo, em ricas molduras de oiro ao gosto arabesco.
     Tomei profundo interesse — talvez fosse o meu delírio a causa disso — por esses quadros, suspensos não só nas principais paredes mas também nos inúmeros recantos que a extravagante arquitetura do castelo tornava inevitáveis; de tal modo que mandei Pedro fechar as pesadas portas das janelas do aposento — pois era já noite —, acender um grande candelabro de vários braços, colocado junto da minha cabeceira, e abrir de par em par os reposteiros de veludo preto, guarnecidos de franjas, que cercavam o leito. Dei estas ordens para que ao menos, no caso de eu não poder dormir, me deleitasse alternadamente com a contemplação dessas pinturas e com a leitura de um pequeno volume que encontrara sobre o travesseiro e que continha a descrição e a análise dos quadros.
     Li durante muito tempo, muito tempo; contemplei religiosamente, devotamente; as horas consumiam-se, rápidas e gloriosas, e chegou a profunda meia-noite. A posição do candelabro não me agradava; por isso, estendendo a mão com dificuldade, para não incomodar o meu criado que repousava, coloquei o objeto de maneira que fizesse incidir os seus raios plenamente sobre o livro. 
     Mas o efeito produzido foi absolutamente inesperado. Os raios de luz das numerosas velas (porque eram muitas) caíram então sobre um recanto do quarto que até aí uma das colunas do leito mergulhara em sombra densa. Vi à luz viva uma pintura que, a princípio, me tinha passado despercebida. Era o retrato de uma rapariga já amadurecida, quase mulher. Deitei ao quadro um olhar rápido e fechei os olhos. Porquê? Ao princípio eu próprio não soube porquê. Mas, enquanto mantinha as pálpebras fechadas, analisei rapidamente a causa que me obrigara a fechá-las assim. Fora um movimento voluntário para ganhar tempo e para pensar — para me certificar de que a vista não me enganara, para acalmar e preparar o espírito para uma contemplação mais a frio e mais segura. Ao fim de alguns instantes, olhei de novo fixamente para o quadro.
     Não podia duvidar, mesmo que quisesse, de que via então com toda a nitidez, pois o primeiro fulgor do candelabro sobre aquela tela dissipara o espanto e o devaneio de que os meus sentidos estavam possuídos, e chamara-me num instante à vida real. 
     O retrato, como já disse, era o de uma rapariga. Era simplesmente uma cabeça, com as espáduas, tudo naquele estilo que se chama, em linguagem técnica, estilo de vinheta, bastante à maneira de Sully nas suas cabeças prediletas. Os braços, o seio e até a extremidade dos cabelos radiosos fundiam-se imperceptivelmente na sombra vaga, mas profunda, que dava contraste ao conjunto. O caixilho era oval, magnificamente dourado e lavrado em metal, ao gosto mourisco. Como obra de arte, não se podia encontrar nada mais digno de admiração do que a própria pintura. Mas é possível que não fosse nem a execução da obra nem a imortal beleza da fisionomia o que tão de súbito e tão fortemente me impressionou. Ainda menos devo acreditar que a minha imaginação, saída de uma meia sonolência, tivesse tomado a cabeça pela de uma pessoa viva. Antes de mais compreendi que os pormenores do desenho, o estilo de vinheta e o aspecto da moldura teriam imediatamente dissipado tal sortilégio e me preservariam de qualquer ilusão por momentânea que fosse. Enquanto fazia e aprofundava estas reflexões, conservei-me meio estendido, meio sentado, uma hora inteira talvez, com os olhos pregados naquele retrato. Por fim, depois de ter descoberto o verdadeiro segredo do efeito que ele produzia, deixei-me cair de novo no leito. Adivinhara que o encanto da pintura residia numa expressão vital absolutamente adequada à própria vida, que a princípio me fizera estremecer e, finalmente, me deixara confuso, subjugado, amedrontado. Com profundo e respeitoso terror, tornei a pôr o candelabro na sua posição primitiva. Depois de ter assim furtado aos meus olhos a causa de tão grande perturbação, procurei vivamente o livro que continha a análise dos quadros e a sua história. Indo direito ao número que designava o retrato oval, li o vago e singular relato que se segue:

« Era uma rapariga de raríssima beleza e não menos gentil que alegre. Maldita foi a hora em que ela viu, amou e desposou o pintor. Este, apaixonado, estudioso, austero, já tinha encontrado esposa na sua Arte; ela, rapariga de rara beleza e não menos gentil que alegre, toda luz e sorrisos, com o feitio folgazão de uma jovem corça, amando com ternura todas as coisas e odiando apenas a Arte que era sua rival, só temia a paleta e os pincéis, e os outros instrumentos que a privavam da presença do seu bem-amado. Terrível coisa foi para a dama ouvir o pintor exteriorizar o desejo de pintar também a sua jovem esposa. Mas ela, humilde e obediente, posou durante longas semanas, na sombria e alta câmara da torre, onde a luz se filtrava unicamente pelo teto e incidia sobre a desmaiada tela. Ele, porém, o pintor, punha toda a sua glória naquela obra, que progredia de hora para hora. — Era um homem apaixonado, estranho, meditabundo, perdido em devaneios; de tal maneira que não queria ver como a luz que tão lugubremente caía naquela torre isolada ressequia a saúde e o espírito de sua mulher, que definhava visivelmente para toda a gente menos para ele. E ela sorria sempre, sempre, sem se queixar, pois via que o pintor (de tão grande renome) sentia vivo e ardente prazer na sua tarefa, e trabalhava noite e dia para pintar aquela que tão ternamente amava — mas que enlanguescia, cada vez mais, de dia para dia. E, na verdade, aqueles que contemplavam o retrato falavam em voz baixa da semelhança, como de extrema maravilha, como de uma prova do talento do pintor, não menor que o seu amor profundo por aquela que ele tão miraculosamente pintava.

     Um dia, contudo, quando a tarefa estava no fim, ninguém mais foi admitido na torre; o pintor enlouquecera com o ardor que punha no seu trabalho e raramente desviava o olhar da tela, mesmo para contemplar o rosto da mulher. Ele não queria ver que as cores que espalhava na tela eram tiradas das faces daquela que estava junto de si. E quando muitas semanas já se tinham passado e muito pouco restava para fazer, nada mais que um retoque na boca e uns laivos nos olhos, o espírito da retratada ainda palpitou como a chama viva de uma lâmpada. Foi então feito o retoque e postos os laivos; e, por momentos, o pintor quedou-se em êxtase diante do trabalho concluído; mas, um minuto depois, ainda a contemplá-lo, ele estremeceu e, tomado de assombro, gritou com voz estrepitosa: « Mas é a própria Vida!» E então, bruscamente, voltou-se para contemplar a sua bem-amada: — Estava morta!

continua na página 449...
__________________

____________________

Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
__________________

Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.