domingo, 22 de fevereiro de 2026

Grandes Saxofonistas do Jazz

Grandes Saxofonistas do Jazz!

(Parte 1)


O saxofone é um dos instrumentos mais marcantes do jazz, desde os anos 20, 30 até os dias de hoje. Neste vídeo temos alguns dos grandes e mais importantes saoxofnistas do jazz, sendo que a maioria deles, nesta seleção, se concentram na década de 50 e 60.







John Coltrane - A Love Supreme [Full Album] (1965)






60 anos 'A LOVE SUPREME'
a obra-prima de JOHN COLTRANE





História do Saxofone

História do Saxofone 

- Parte 1


Desde o nascimento do criador do saxofone, Adolph Sax, em 1814, até 1962 muitos acontecimentos marcaram a história. Documentário sobre a evolução do saxofone em mais de 100 anos. 
HISTÓRIA DO SAXOFONE - Parte 1





- Parte 2

Três grandes marcas surgem a partir da década de 60 para dar equilíbrio no mercado dominado pela Selmer e suas criações como o Balanced action e Mark VI. São Yamaha, Yanagisawa e JK. 🎷 HISTÓRIA do SAXOFONE - PARTE 2





sábado, 21 de fevereiro de 2026

Curta: "Dúdú e o Lápis Cor da Pele"

Eduardo, Sonia e Marta


"Dudu é um garoto negro, inteligente e imaginativo, estudante de um colégio particular da classe média de São Paulo. Durante uma aula de educação artística, sua professora, Sônia, diz a ele que utilize o que ela chama de "lápis cor da pele" para pintar um desenho. A frase desperta em Dudu uma crise de identidade. Com toda a inocência de uma criança da sua idade, Dudu passa a carregar o lápis em questão consigo para encontrar alguém que possa sanar seus questionamentos. Sua mãe, Marta, logo percebe e resolve ir até a escola da criança tomar satisfações sobre o ocorrido. A professora justifica-se dizendo que falou de forma automática, sem pensar."






FICHA TÉCNICA:

Produção: Cinema na Veia Produções - Take a Take Films
Diretor: 
Miguel Rodrigues

Roteirista: 
Cleber Marques

Produtor Executivo: 
Leandra Aiedo da Silva

Diretor de Produção: 
Miguel Rodrigues

Diretor de Fotografia: 
Marcelo Coutinho

Câmera: 
William di Farias

Editor de Som: 
Miguel Matarazzo

Diretor de Arte: 
Carolina Gomes

Figurinista: 
Leandra Aiedo da Silva

Editor de Imagem: 
Miguel Rodrigues

Cenógrafo: 
Carolina Gomes

Música de:
Armando Ferrante - Nome Artístico: Armandinho Ferrante


ATORES
CLAUDIANE CARVALHO: Sônia
NELLY TRINDADE: Madalena
LUCIO CORREIA: Dúdú
NARUNA COSTA: Marta

_________________

Pentecost / O Xadrez das Cores / Diferente"Dúdú e o Lápis Cor da Pele" /     

Espumas Flutuantes - Pedro Ivo

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

PEDRO IVO 
 Sonhava nesta geração bastarda 
 Glórias e liberdade!... 
 ..................................................... 
 Era um leão sangrento, que rugia,
Da glória nos clarins se embriagava, 
 E vossa gente pálida recuava, 
 Quando ele aparecia. 
 Álvares de Azevedo 

 Rebramam os ventos... 
Da negra tormenta 
 Nos montes de nuvens galopa o corcel... 
 Relincha — troveja... galgando no espaço 
 Mil raios desperta co'as patas revel. 

 É noite de horrores... nas grunas celestes, 
 Nas naves etéreas o vento gemeu... 
 E os astros fugiram, qual bando de garças 
 Das águas revoltas do lago do céu. 

 E a terra é medonha... As árvores nuas 
 Espectros semelham fincados de pé, 
 Com os braços de múmias, que os ventos retorcem, 
 Tremendo a esse grito, que estranho lhes é. 

 Desperta o infinito... Co’a boca entreaberta 
 Respira a borrasca do largo pulmão. 
 Ao longe o oceano sacode as espáduas 
 — Encelado novo calcado no chão. 

 É noite de horrores... Por ínvio caminho 
 Um vulto sombrio sozinho passou, 
 Co’a noite no peito, co’a noite no busto 
 Subiu pelo monte, — nas cimas parou. 

 Cabelos esparsos ao sopro dos ventos, 
 Olhar desvairado, sinistro, fatal, 
 Diríeis estátua roçando nas nuvens, 
 Pra qual a montanha se fez pedestal. 

 Rugia a procela — nem ele escutava!... 
 Mil raios choviam — nem ele os fitou! 
 Com a destra apontando bem longe a cidade, 
 Após largo tempo sombrio falou!... 

II 
 Dorme, cidade maldita, 
 Teu sono de escravidão!... 
 Dorme, vestal da pureza, 
 Sobre os coxins do Sultão!... 
 Dorme, filha da Geórgia 
 Prostituta em negra orgia 
 Sê hoje Lucrécia Bórgia  
Da desonra no balcão!...

Dormir?!... Não! Que a infame grita 
 Lá se alevanta fatal... 
 Corre o champagne e a desonra 
 Na orgia descomunal... 
 Na fronte já tens o laço... 
 Cadeia de ouro no braço, 
 De pérolas um baraço, 
 — Adornos da saturnal! 

 Louca!... Nem sabe que as luzes, 
 Que acendeu pra as saturnais, 
 São do enterro de seus brios 
 Tristes círios funerais... 
 Que o seu grito de alegria 
 É o estertor da agonia, 
 A que responde a ironia 
 Do riso de Satanás!... 

 Morreste... E ao teu saimento 
 Dobra a procela no céu. 
 E os astros — olhar dos mortos — 
 A mão da noite escondeu. 
 Vê!... Do raio mostra a lampa 
 Mão de espectro, que destampa 
 Com dedos de ossos a campa, 
 Onde a glória adormeceu. 

 E erguem-se as lápidas frias, 
 Saltam bradando os heróis: 
 “Quem ousa da eternidade 
 Roubar-nos o sono a nós?” 
 Responde o espectro: A desgraça! 
 Que a realeza, que passa, 
 Com o sangue da vossa raça, 
 Cospe o lodo sobre vós!...” 

 Fugi, fantasmas augustos! 
 Caveiras que coram mais, 
 Do que essas faces vermelhas 
 Dos infames párias!... 
 Fugi do solo maldito... 
 Embuçai-vos no infinito!... 
 E eu por detrás do granito 
 Dos montes ocidentais... 

 Eu também fujo... Eu fugindo!!... 
 Mentira desses vilões!  
Não foge a nuvem trevosa 
 Quando em asas de tufões, 
 Sobe dos céus à esplanada, 
 Para tomar emprestada 
 De raios uma outra espada, 
 À luz das constelações!... 

 Como o tigre na caverna 
 Afia as garras no chão, 
 Como em Elba amola a espada 
 Nas pedras — Napoleão, 
 Tal eu — vaga encapelada, 
 Recuo de uma passada, 
 Pra levar de derribada 
 Rochedos, reis, multidões...! 

III 
 “Pernambuco! Um dia eu vi-te 
 Dormindo imenso ao luar, 
 Com os olhos quase cerrados, 
 Com os lábios — quase a falar... 
 Do braço o clarim suspenso, 
 — O punho no sabre extenso 
 De pedra — recife imenso, 
 Que rasga o peito do mar... 

 E eu disse: Silêncio, ventos! 
 Cala a boca, furacão! 
 No sonho daquele sono 
 Perpassa a Revolução! 
 Este olhar que não se move 
 Stá fito em — Oitenta e nove — 
 Lê Homero — escuta Jove... 
 — Robespierre — Dantão. 

 Naquele crânio entra em ondas 
 O verbo de Mirabeau... 
 Pernambuco sonha a escada, 
 Que também sonhou Jacó... 
 Cisma a República alçada, 
 E pega os copos da espada, 
 Enquanto em su’alma brada: 
 “Somos irmãos, Vergniaud.” 

 Então repeti ao povo: 
 — Desperta do sono teu! 
 Sansão — derroca as colunas! 
 Quebra os ferros — Prometeu! 
 Vesúvio curvo — não pares,  
Ígnea coma solta aos ares, 
 Em lavas inunda os mares, 
 Mergulha o gládio no céu. 

 República!... Voo ousado 
 Do homem feito condor! 
 Raio de aurora inda oculta, 
 Que beija a fronte ao Tabor! 
 Deus! Por que enquanto que o monte 
 Bebe a luz desse horizonte, 
 Deixas vagar tanta fronte, 
 No vale envolto em negror?!... 


Inda me lembro... Era, há pouco, 
 A luta!... Horror!... Confusão!... 
 A morte voa rugindo 
 Da garganta do canhão!... 
 O bravo a fileira cerra!... 
 Em sangue ensopa-se a terra!... 
 E o fumo — o corvo da guerra — 
 Com as asas cobre a amplidão... 

 Cheguei!... Como nuvens tontas, 
 Ao bater no monte — além, 
 Topam, rasgam-se, recuam... 
 Tais a meus pés vi também 
 Hostes mil na luta inglória... 
 ... Da pirâmide da glória 
 São degraus... Marcha a vitória, 
 Porque este braço a sustém. 

 Foi uma luta de bravos, 
 Como a luta do jaguar. 
 De sangue enrubesce a terra, 
 — De fogo enrubesce o ar!... 
 ... Oh!... mas quem faz que eu não vença? 
 — O acaso... — avalanche imensa, 
 Da mão do Eterno suspensa, 
 Que a ideia esmaga ao tombar!... 

 Não importa! A liberdade 
 É como a hidra, o Anteu. 
 Se no chão rola sem forças, 
 Mais forte do chão se ergueu... 
 São os seus ossos sangrentos 
 Gládios terríveis, sedentos... 
 E da cinza solta aos ventos 
 Mais um Graco apareceu!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
 Dorme, cidade maldita! 
 Teu sono de escravidão! 
 Porém no vasto sacrário 
 Do templo do coração, 
 Ateia o lume das lampas, 
 Talvez que um dia dos pampas 
 Eu surgindo quebre as campas, 
 Onde te colam no chão. 

 Adeus! Vou por ti maldito 
 Vagar nos ermos pauis. 
 Tu ficas morta, na sombra, 
 Sem vida, sem fé, sem luz!... 
 Mas quando o povo acordado 
 Te erguer do tredo valado, 
 Virá livre, grande, ousado, 
 De pranto banhar-me a cruz!...

IV 
 Assim falara o vulto errante e negro, 
 Como a estátua sombria do revés. 
 Uiva o tufão nas dobras de seu manto, 
 Como um cão do senhor ulula aos pés... 

 Inda um momento esteve solitário 
 Da tempestade semelhante ao deus, 
 Trocando frases com os trovões no espaço 
 Raios com os astros nos sombrios céus... 

 Depois sumiu-se dentre as brumas densas 
 Da negra noite — de su’alma irmã... 
 E longe... longe... no horizonte imenso 
 Ressonava a cidade cortesã!... 

 Vai!... Do sertão esperam-te as Termópilas 
 A liberdade inda pulula ali... 
 Lá não vão vermes perseguir as águias, 
 Não vão escravos perseguir a ti! 
 
Vai!... Que o teu manto de mil balas roto 
 É uma bandeira, que não tem rival. 
 — Desse suor é que Deus faz os astros... 
 Tens uma espada, que não foi punhal. 

 Vai, tu que vestes do bandido as roupas, 
 Mas não te cobres de uma vil libré 
 Se te renega teu país ingrato 
 O mundo, a glória tua pátria é!...
.............................................................. 

 V 
 E foi-se... E inda hoje nas horas errantes, 
 Que os cedros farfalham, que ruge o tufão, 
 E os lábios da noite murmuram nas selvas 
 E a onça vagueia no vasto sertão. 

 Se passa o tropeiro nas ermas devesas, 
 Caminha medroso, figura-lhe ouvir 
 O infrene galope d’Espectro soberbo, 
 Com um grito de glória na boca a rugir. 

 Que importa se o túm’lo ninguém lhe conhece? 
 Nem tem epitáfio, nem leito, nem cruz?... 
 Seu túmulo é o peito do vasto universo, 
 Do espaço — por cúpula — as conchas azuis!... 

 ... Mas contam que um dia rolara o oceano 
 Seu corpo na praia, que a vida lhe deu... 
 Enquanto que a glória rolava sua alma 
 Nas margens da história, na areia do céu!... 

 Recife, maio de 1865

continua pag 32...
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida


O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR


SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     Mas é apenas uma ilusão. Porque ela não fez realmente o filho: ele se fez nela; sua carne só engendra carne: ela é incapaz de fundar uma existência, que se terá de fundar ela própria; as criações que emanam da liberdade põem o objeto como valor e o reevestem de uma necessidade; no seio materno o filho é injustificado, não passa ainda de uma proliferação gratuita, um fato bruto cuja contingência é simétrica à da morte. A mãe pode ter suas razões de querer um filho, mas não poderá dar, a esse outro que vai ser amanhã, suas próprias razões de ser; ela engendra-o na generalidade de seu corpo, não na singularidade de sua existência. É o que compreende a heroína de Colette Audry quando diz:

Nunca pensara que ele pudesse dar um sentido a minha vida... Seu ser germinara em mim; o que quer que acontecesse, tinha de conduzi-lo a bom termo, até o fim, sem poder apressar as coisas, ainda que fosse preciso morrer. Depois ali estivera, nascido de mim; assim, assemelhava-se à obra que eu teria podido realizar na vida. . . mas afinal não o era (cf. On joue perdant, "1'Enfant").

     Em certo sentido, o mistério da encarnação repete-se em cada mulher; toda criança que nasce é um deus que se faz homem: não poderia realizar-se como consciência e liberdade se não viesse ao mundo; a mãe presta-se a esse mistério, mas não o comanda; a suprema verdade desse ser que se forma em seu ventre escapa-lhe. É esse equívoco que ela traduz por dois fantasmas contraditórios: toda mãe tem a ideia de que o filho será um herói; exprime assim seu deslumbramento à ideia de engendrar uma consciência e uma liberdade; mas teme também dar à luz um enfermo, um monstro, porque conhece a horrível contingência da carne e esse embrião que a habita é somente carne. Há casos em que tal ou tal mito vence, mas muitas vezes a mulher oscila entre um e outro. Ela é sensível também a outro equívoco. Presa no grande ciclo da espécie, afirma a vida contra o tempo e a morte: com isso tem a promessa da imortalidade; mas experimenta também na carne a realidade da afirmação de Hegel: "O nascimento dos filhos é a morte dos pais". O filho, diz ele ainda, é para os pais "o ser para si do amor deles que cai fora deles", e inversamente, ele obterá seu ser para si "na separação da fonte, uma separação em que essa fonte seca". Essa superação de si é também para a mulher prefiguração da morte. Ela traduz essa verdade pelo medo que sente quando imagina o parto; receia nele perder a própria vida.
     Sendo assim ambígua a significação da gravidez, é natural que a atitude da mulher seja ambivalente: de resto, modifica-se, nos diversos estádios da evolução do feto. É preciso sublinhar primeiramente que, no início do processo, o filho não está presente; ele ainda não tem senão uma existência imaginária; a mãe pode sonhar com esse pequeno indivíduo que nascerá dentro de meses, pode diligenciar para preparar-lhe um berço, uma fralda: só apreende concretamente os turvos fenômenos orgânicos que nela se verificam. Certos incensadores da Vida e da Fecundidade pretendem misticamente que a mulher reconhece pela qualidade de seu prazer que o homem acaba de torná-la mãe: trata-se de um desses mitos que cumpre abandonar. Ela nunca tem uma intuição decisiva do acontecimento: ela o induz partindo de sinais incertos. Cessam as regras, engorda, os seios tornam-se pesados e doem, ocorrem vertigens e náuseas; por vezes, ela acredita simplesmente estar doente e é um médico que a informa. Sabe então que seu corpo recebeu um destino que o transcende; dia após dia, um pólipo nascido de sua carne e estranho a sua carne vai crescer nela; a mulher torna-se presa da espécie que lhe impõe suas misteriosas leis e, geralmente, essa alienação a amedronta: seu medo traduz-se por vômitos. Estes são parcialmente provocados pelas modificações das secreções gástricas que então se produzem; mas se essa reação, que outras fêmeas mamíferas ignoram, assume importância é por motivos psíquicos: manifesta o caráter agudo que o conflito entre a espécie e o indivíduo (Cf vol. I, cap. 1) reveste na fêmea humana. Ainda que a mulher deseje profundamente o filho, seu corpo revolta-se primeiramente quando lhe cumpre parir. Nos Estados Nervosos de Angústia, Stekel afirma que o vômito da mulher grávida exprime sempre certa recusa ao filho; se este é acolhido com hostilidade — por motivos amiúde inconfessados — as perturbações estomacais exageram-se.

     "A psicanálise ensinou-nos que a exageração psíquica dos sintomas do vômito só se observa no caso em que a expulsão oral traduz emoções de hostilidade em relação à gravidez ou ao feto", diz H. Deutsch. E ela acrescenta: "Muitas vezes o conteúdo psíquico do vômito da gravidez é exatamente o mesmo que nos vômitos histéricos das moças, provenientes de um fantasma de gravidez [1] ". Em ambos os casos reaviva-se a velha ideia da fecundação pela boca que se encontra nas crianças. Para as mulheres infantis, em particular, a gravidez é, como no passado, assimilada a uma doença do aparelho digestivo. H. Deutsch cita o caso de uma doente que estudava, com ansiedade, seus vômitos para verificar se não encontrava neles fragmentos de embrião; sabia, no entanto, pelo que afirmava, que a obsessão era absurda. A bulimia, a falta de apetite, as repugnâncias assinalam a mesma hesitação entre o desejo de conservar e o de destruir o embrião. Conheci uma jovem mulher que sofria ao mesmo tempo de vômitos exasperados e de uma constipação feroz; disse-me, ela própria, que tinha a impressão de procurar expulsar o feto e ao mesmo tempo retê-lo; o que correspondia exatamente a seus desejos confessados.

[1] Citaram-me precisamente o caso de um homem que, durante os primeiros meses da gravidez da mulher — que no entanto ele amava pouco — apresentou exatamente os mesmos sintomas de náusea, de vertigem e de vômitos que se observam nas mulheres grávidas. Traziam evidentemente, de uma maneira histérica, conflitos consciente.

     O Dr. Arthus (Le Mariage) cita o exemplo seguinte, que resumo:

Mme T. apresenta graves perturbações de gravidez, com vômitos incoercíveis... A situação é tão inquietante que se deve pensar em praticar uma interrupção da gravidez em processo... A mulher está desolada... A rápida análise que pôde ser praticada revela (que): Mme T. procedeu a uma identificação inconsciente com uma de suas antigas amigas de pensão que desempenhou papel muito grande em sua vida afetiva e morreu em consequência de sua primeira gravidez. Logo que a causa pode ser revelada, os sintomas melhoram; depois de uma quinzena de dias verificam-se ainda vômitos, porém sem mais nenhum perigo. 

     Constipação, diarreias, trabalho de expulsão manifestam sempre a mesma mistura de desejo e de angústia; disso resulta, por vezes, um aborto: quase todos os abortos espontâneos têm uma origem psíquica. Tais incômodos se acentuam tanto mais quanto a mulher lhes dá maior importância e "se ouve" mais. Em particular, os famosos "desejos" das mulheres grávidas são obsessões de origem infantil complacentemente acariciadas: relacionam-se sempre aos alimentos, em virtude da velha ideia da fecundação alimentar; sentindo perturbações em seu corpo, a mulher traduz, como acontece muitas vezes nas psicastenias, esse sentimento de estranheza por um desejo que por vezes a fascina. Há, de resto, uma "cultura" desses desejos pela tradição, como houve outrora uma cultura da histeria; a mulher, na expectativa de ter desejos, espera por eles, inventa-os. Relataram-me o caso de uma mãe solteira que tinha um desejo tão frenético de espinafres que corria a comprá-los no mercado e ficava numa terrível impaciência a olhá-los enquanto os cozinhava: exprimia assim a angústia de sua solidão; sabendo que só podia contar consigo mesma, era com pressa febril que diligenciava para satisfazer seus desejos. A Duquesa de Abrantes descreveu de maneira muito divertida, em suas Mêmoires, um caso em que o desejo é imperiosamente sugerido pelo ambiente da mulher. Queixa-se de ter sido cercada de excessiva solicitude durante a gravidez.

Esses cuidados, essas atenções aumentam o mal-estar, o enjoo, o nervosismo, os mil e um sofrimentos que quase sempre acompanham a primeira gravidez. Senti-o... Foi minha mãe quem começou, um dia em que jantava em casa dela... "Ah! Meu Deus, disse-me de repente largando o garfo e encarando-me com um ar consternado, ah! meu Deus, não pensei em perguntar qual era teu desejo."
- Mas não tenho nenhum — respondi.
- Não tens desejo — disse minha mãe... — Não tens desejo! Mas nunca se viu isso! Tu te enganas. É que não prestas atenção. Falarei com tua sogra.
E eis minhas duas mães se consultando, e eis meu Junot que, com medo de que lhe desse um filho com cabeça de javali... me perguntava todas as manhãs: "Laure, de que tens vontade?" Minha cunhada, que voltou de Versalhes ampliou o coro das perguntas... nem podia enumerar quantas pessoas vira desfiguradas por desejos não satisfeitos... sei, assustando-me também... Até procurei em minha imaginação algo de que gostasse especialmente e não encontrei nada. Enfim, um dia, aconteceu-me, comendo uma pastilha de ananás, refletir que um ananás deveria ser uma coisa excelente... Uma vez persuadida de que tinha desejo de ananás, senti uma vontade muito grande, que aumentou quando Corcelet declarou que não estava no tempo. Oh! Então experimentei esse sofrimento que participa do desespero e põe a gente num estado de morrer ou satisfazê-lo. 
(Junot, após numerosas gestões, acaba recebendo um ananás das mãos de Mme Bonaparte. A Duquesa de Abrantes acolheu-o alegremente e passou a noite a cheirá-lo e tocá-lo, por lhe ter o médico ordenado que só o comesse pela manhã. Quando finalmente Junot me serviu): 
Empurrei o prato para longe de mim, "Não sei o que tenho, não posso comer ananás." Ele punha-me o nariz no maldito prato, o que provocou uma asserção positiva de que não podia comer ananás. Foi preciso não somente levá-lo, mas ainda abrir as janelas, perfumar meu quarto para tirar o menor vestígio de um odor que um segundo bastara para tornar odioso. O que há de mais singular neste fato é que, desde então, nunca pude comer ananás sem um esforço violento... 

     São as mulheres de quem se ocupam demasiado ou que se ocupam demasiado consigo mesmas que apresentam maior número de fenômenos mórbidos. As que vencem mais facilmente a prova da gravidez são, por um lado, as matronas totalmente entregues a sua função de poedeiras e, por outro lado, as mulheres viris que as aventuras do corpo não fascinam e que fazem questão de sobrepujá-las com desembaraço; Mme de Stael conduzia uma gravidez com tanta vivacidade e displicência quanto uma conversação.
     Quando a gravidez prossegue, a relação entre a mãe e o feto muda. Este acha-se solidamente instalado no ventre materno, os dois organismos se adaptaram um ao outro e há entre ambos trocas biológicas que permitem à mulher reencontrar seu equilíbrio. Ela não se sente mais possuída pela espécie: ela é que possui o fruto de suas entranhas. Durante os primeiros meses era uma mulher qualquer e diminuída pelo trabalho secreto que se realizava no seu interior; posteriormente torna-se, com evidência, uma mãe e suas fraquezas são o reverso de sua glória. A impotência de que sofria torna-se, acentuando-se, um álibi. Muitas mulheres encontram, então, em sua gravidez uma maravilhosa paz: sentem-se justificadas; tinham sempre tido prazer em se observar, em espiar o corpo; não ousavam, por senso de seus deveres sociais, interessar-se por ele com demasiada complacência: agora têm o direito de fazê-lo, porque tudo o que fazem para seu próprio bem-estar fazem para o filho. Não se lhes pede mais trabalho, nem esforço; não têm mais que se preocupar com o resto do mundo; os sonhos de futuro que acariciam dão um sentido ao momento presente; basta-lhes se deixarem viver, estão de férias. A razão de sua existência está em seu ventre e dá-lhes uma impressão perfeita de plenitude. "É como um pequeno aquecedor no inverno, sempre aceso e que só para você existe, inteiramente submetido à sua vontade. É também uma ducha fresca, escorrendo sem cessar durante o verão. Está ali", diz uma mulher citada por H. Deutsch. Satisfeita, a mulher conhece também o prazer de se sentir "interessante", o que constituiu seu maior desejo desde a adolescência; como esposa, sofria com sua dependência em relação ao homem; agora não é mais um objeto sexual, uma serva; encarna a espécie, é promessa de vida, de eternidade; os que a cercam, respeitam-na; até seus caprichos tornam-se sagrados: o que a incita, já o vimos, a inventar "desejos". "A gravidez permite à mulher racionalizar atos que de outro modo pareceriam absurdos", afirma Helen Deutsch. Justificada pela presença de um outro em seu seio, ela goza enfim plenamente de ser ela própria.

continua página 268...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"