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li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
Os cafajestes é uma filme brasileiro de 1962, do gênero drama, escrito e dirigido por Ruy Guerra. Teve participação no roteiro de Miguel Torres. Foi o primeiro filme dirigido por Ruy Guerra no Brasil. A atriz Norma Bengell protagonizou o primeiro nu frontal do cinema brasileiro neste filme. Em novembro de 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Foi listado por Jeanne O Santos, do Cinema em Cena, como "clássicos nacionais".
Sinopse: Ao saber que o pai rico está à beira da falência, o mimado Vavá convoca o amigo Jandir com um plano para arrumar dinheiro rápido: eles vão chantagear um tio de Vavá tirando fotos comprometedoras da amante dele, Leda.
Festival de Berlim 1962 (Alemanha) indicado ao Urso de Ouro.
Direção; Ruy Guerra
Roteiristas: Ruy Guerra Miguel Torres
Elenco: Norma Bengell como Leda Hugo Carvana como Fotógrafo Lucy de Carvalho como Vilma Germana de Lamare como Garota do Forte Marina Ferraz Daniel Filho como Vavá Glauce Rocha como Prostituta Aline Silva como Garota do Cadillac Fátima Sommer como Garota do Catecismo Jece Valadão como Jandir
Cena icônica com Norma Bengell, a mulher mais desejada do Brasil
| Grandes Cenas: Os Cafajestes
Análise fílmica da cena "Nua na Praia" no filme "Os Cafajestes" (Ruy Guerra, 1962). Contém entrevista inédita com o cineasta Ruy Guerra e um depoimento da atriz Norma Bengell.
"Enquanto o Cinema Novo tentava nos mostrar o Brasil que não queremos ver, a Bossa Nossa tentava nos mostrar o Brasil que gostaríamos de ser."Cacá Diegues
"Coisa Mais Linda: Histórias e Casos da Bossa Nova" é um documentário que narra a história e os casos do movimento musical que se tornou um fenômeno cultural no Brasil, começando nos anos 50 e atingindo seu ápice em 1962. O filme é dirigido por Paulo Thiago e apresenta um painel histórico, musical e informativo sobre a Bossa Nova, incluindo entrevistas e apresentações exclusivas de artistas como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Johnny Alf e Leny Andrade. O documentário é uma obra que celebra a riqueza e a diversidade da música brasileira, destacando a Bossa Nova como um dos seus mais importantes e influentes movimentos.
Direção: Paulo Thiago
Roteirista: Paulo Thiago
Elenco: Johnny Alf / Self Leny Andrade / Self Billy Blanco / Self Ronaldo Boscoli / Self (cenas de arquivo) Sérgio Cabral / Self Elizeth Cardoso / Self (cenas de arquivo) Oscar Castro-Neves / Self Alaíde Costa / Self Arthur da Távola / Self Vinicius de Moraes / Self (cenas de arquivo) Tárik de Souza / Self Carlos Diegues / Self João Donato / Self Durval Ferreira / Self Astrud Gilberto / Self (cenas de arquivo) João Gilberto / Self (cenas de arquivo) Antônio Carlos Jobim / Self (cenas de arquivo) Paulo Jobim / Self Joyce / Self Nara Leão / Self (cenas de arquivo) Carlos Lyra / Self Kay Lyra / Self Roberto Menescal / Self Luís Carlos Miele / Self Nelson Motta / Self Iko Castro Neves / Self Sérgio Ricardo / Self Wanda Sá / Self Silvinha Telles / Self (cenas de arquivo) Otávio Terceiro / Self
Marvin Gaye, Barry White, Sade, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Al Green
Feche os olhos e deixe a agulha tocar o disco (consegue escutar a agulha deslizando o disco?). Nesta manhã, voltamos à era de ouro do soul — com lendas eternas como Marvin Gaye, The O'Jays, Teddy Pendergrass, The Isley Brothers, Luther Vandross e Al Green.
Foi uma época em que o amor era cantado com o coração, em que cada batida trazia calor e cada letra contava uma história que se sentia lá no fundo da alma. De baladas intensas e envolventes a sons suaves para a calada da noite: estas são as músicas que definiram uma geração.
Então, diminua as luzes, relaxe e deixe o ritmo conduzir você por memórias de discos de vinil, transmissões de rádio na madrugada e emoções atemporais.
Um resumo sobre a música Missing You de Diana Ross dedicada a MARVIN GAYE
Nise da Silveira, a revolução com amor, arte e loucura
o ano é 2015
O filme Nise: O Coração da Loucura (2015), dirigido por Roberto Berliner e protagonizado por Gloria Pires, retrata a trajetória da psiquiatra Nise da Silveira no contexto do sistema manicomial brasileiro da década de 1940. Para além de um drama histórico, a obra constitui material extremamente relevante para estudantes de Psicologia Jurídica, pois provoca reflexões profundas acerca da dignidade da pessoa humana, dos limites da intervenção estatal e da proteção jurídica das pessoas com transtornos mentais. Pioneira da terapia ocupacional, a alagoana Nise da Silveira mudou os rumos dos tratamentos psiquiátricos no Brasil. Filha de uma pianista com um professor de matemática, ela se rebelou contra os métodos agressivos aplicados em pacientes com transtornos mentais, como o eletrochoque e o confinamento.
Ao sair da prisão (foi presa como comunista no Estado Novo de Getúlio Vargas, ficou presa mais de 400 dias), a doutora Nise da Silveira volta aos trabalhos num hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro e se recusa a empregar o eletrochoque e a lobotomia no tratamento dos esquizofrênicos. Isolada pelos médicos, resta a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início a uma revolução regida por amor, arte e loucura.
Diretor: Roberto Berliner
Roteiristas: Flávia Castro Mauricio Lissovsky Maria Camargo Chris Alcazar Patrícia Andrade Leonardo Rocha Roberto Berliner
Elenco:
Glória Pires como Dra. Nise da Silveira Fabrício Boliveira como Fernando Diniz Simone Mazzer como Adelina Gomes Roney Villela como Lúcio Noeman Julio Adrião como Carlos Pertuis Claudio Jaborandy como Emygdio de Barros Zé Carlos Machado como Dr. Nelson Flávio Bauraqui como Octávio Ignacio Bernardo Marinho como Raphael Domingues Roberta Rodrigues como Dona Ivone Lara Augusto Madeira como Lima Georgiana Góes como Marta Fernando Eiras como Mário Magalhães Felipe Rocha como Almir Charles Fricks como Mário Pedrosa Michel Bercovitch como Dr. César Tadeu Aguiar como Dr. Mourão Perfeito Fortuna como Aurélio Zezeh Barbosa como Carmem Luciana Fregolente como Eugênia Pedro Kosovski como Dr. Letier Eliane Costa como Leila Zé Mário Farias como Enfermeiro
Nise da Silveira como a própria Nise (cenas de arquivo) (não creditado)
“Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)
continuando...
Aproximando-se deles Noémone, filho de Frônio,
e para Antínoo adiantando-se, faz-lhe a seguinte pergunta:
“Já saberemos, Antínoo, talvez, ou talvez o ignoremos,
quando regressa de Pilo de solo arenoso, Telêmaco?
Foi num navio que é meu, que ora falta me faz muito grande,
para que a Élide extensa atravesse, onde tenho doze éguas
com doze burros de mama, indomados, e bons para a carga.
Era meu plano trazer um dos tais, para ver se o domava.”
Disse; admiraram-se os dois no mais íntimo, pois não pensavam,
que tivesse ido Telêmaco a Pilo; no campo o julgavam,
entre os rebanhos, talvez, ou na casa, quiçá, do porqueiro.
Disse-lhe Antínoo, nascido de Eupites, então em resposta:
“Ora me conta a verdade: em que dia embarcou e que moços
o acompanharam? São de Ítaca todos, ou foi com seus servos
e mercenários? De feito, podia assim ter procedido.
Dize-me tudo de acordo com os fatos, a fim de que o saiba:
se a teu mau grado e por força o navio levou de cor negra,
ou se lhe deste por gosto, depois de pedir-te insistente.”
Disse-lhe, então, em resposta, Noémone, filho de Frônio:
“Dei-lhe de boa vontade. Quem doutra maneira faria,
se lhe pedisse um varão de tal porte com o peito angustiado
como era o dele? Difícil seria negar-lhe tal coisa.
Quanto aos rapazes que o seguem, distinguem-se todos no povo
como os melhores. Levavam Mentor como chefe, segundo
pude notar, ou um dos deuses, que a ele demais se assemelha.
O que me espanta é ter visto o divino Mentor aqui mesmo
ontem bem cedo, depois de já haver para Pilo embarcado.”
Para a morada do pai se retira, depois dessa fala.
No ânimo altivo ficaram os dois irritados com isso.
Os pretendentes suspendem os jogos e a eles se reúnem.
Diz-lhes Antínoo, nascido de Eupites, então, em resposta,
mui pesaroso; escurece-lhe o peito rancor indomável,
a extravasar-se. Lampejam-lhe os olhos quais chamas ardentes:
“Vede a que empresa audaciosa Telêmaco pôde dar cabo
com essa viagem! Pensávamos todos que não na faria.
Contra a vontade de tantos, consegue o rapaz escapar-nos,
pôde aprontar um navio e escolher companheiros capazes.
Isso é o princípio do mal que há de vir. Quem me dera que Zeus,
antes de a idade viril alcançar, o privasse da força!
Dai-me uma nave ligeira com vinte rapazes prestantes,
para cilada aprestarmos-lhe à volta da viagem, à espera
bem na passagem que de Ítaca Samo escabrosa separa,
para que a viagem em busca do pai desastrosa lhe seja.”
Isso falou. Os presentes aplaudem-no em peso, animando-o;
pondo-se todos de pé, para casa do herói se dirigem.
Por muito tempo não fica sem ser sabedora Penélope
dos pretendentes o plano que no íntimo, então, conceberam.
Disse-lhe o arauto Medonte, que fora do pátio se achava,
quando ele ouvira a conjura que os moços maldosos tramavam.
Ei-lo que vai pela casa anunciar isso tudo a Penélope.
Mal a soleira pisou, lhe dirige a palavra a rainha:
“Os pretendentes ilustres, arauto, por que te enviaram?
Foi, porventura, com o fim de que as servas do divo Odisseu
parem com todo o trabalho e lhes ponham, sem mais, o banquete?
Se requestado jamais me tivessem, nem mesmo aqui vindo!
Fosse, de fato, esta a vez derradeira que todos comessem!
Muito frequente aqui vindes; fazenda esbanjais, sem medida,
bens do sensato Telêmaco. De vossos pais, porventura,
nunca soubestes, no tempo em que ainda crianças seríeis,
como Odisseu costumava com eles aqui fazer sempre?
Nunca nenhuma injustiça a ninguém praticou, nem palavras
más para o povo, tal como costumam os divos monarcas,
que má vontade para uns patenteiam, para outros afeto.
Ele, ao contrário, jamais procedeu contra alguém com malícia,
bem diferente de vós, cuja indigna conduta e desejos
ficam patentes, ingratos que sois aos favores passados.”
Disse-lhe, então, em resposta, Medonte, de sábios conselhos:
“Fosse, ó rainha, esse mal o mais grave de quantos praticam!
Bem mais terrível, ainda, e, sem dúvida, mais doloroso,
os pretendentes maquinam, que Zeus há de obstar, com certeza,
pois planejaram com ferro aguçado matar a Telêmaco,
quando de volta estiver, porque à Pilo sagrada e à divina
Lacedemônia viajou, para novas do pai ver se alcança.”
Susta-lhe o coração, ao ouvi-lo; os joelhos fraquejam.
Por muito tempo ficou sem poder enunciar coisa alguma;
lágrimas enchem-lhe os olhos e a voz se lhe embarga sonora.¹
Só muito tempo depois conseguiu perguntar o seguinte:
“Dize-me, arauto, o motivo de ter o meu filho viajado.
Necessidade não tinha de entrar nos navios velozes,
de homens carruagens, que cortam a imensa amplitude das águas;
foi para que o próprio nome se afunde no olvido dos homens?”
Disse-lhe, então, em resposta, Medonte, de sábios conselhos:
“Eu mesmo ignoro qual deus o incitou, ou se a própria coragem
o compeliu a viajar até Pilo, à procura de novas
do pai querido, se se acha de volta, ou qual fim ele teve.”
Tendo assim dito, ao palácio do herói Odisseu ele volta.
Incomportável angústia a envolveu, sem que força tivesse
de na cadeira assentar-se, das muitas que havia na casa;
mas na soleira do quarto bem-feito de chofre atirou-se,
a se queixar grandemente. Ao redor, as criadas gemiam,
todas, quer fossem de idade, quer moças, que em casa se achavam.
Por entre muitos suspiros, Penélope, alfim, lhes disse isto:
“Caras, ouvi-me os queixumes! O Olímpico mais infortúnios
me propinou do que as quantas nasceram comigo e cresceram.
Cedo meu nobre marido perdi, de coragem leonina,
que era entre os Dânaos notável por grandes e raras virtudes,
e cuja fama atingia toda a Hélade até o centro de Argos.
As tempestades, agora, me o filho arrebatam de casa,
sem glória alguma e sem que eu de sua ida informada estivesse.
Empedernidas sois todas! Ninguém se lembrou no seu peito
de despertar-me da cama, conquanto de tudo cientes,
quando meu filho subiu para o escuro navio bojudo.
Caso eu tivesse sabido da viagem que então meditava,
tê-lo-ia feito ficar, muito embora viajar desejasse,
ou no palácio era força que então me deixasse sem vida.
Uma qualquer dentre vós vá chamar o meu velho criado
Dólio, presente que foi de meu pai, quando vim para casa,
que ora se ocupa do trato do nosso pomar variado.
Corra depressa a contar a Laertes o que ora se passa.
Este, talvez, qualquer plano conceba no peito, saindo
para queixar-se aos do povo, que intentam privar da existência
seu descendente e do nobre Odisseu, semelhante aos eternos.”
A ama querida, Euricleia, lhe disse o seguinte em resposta:
“Filha querida, com bronze aguçado me fere aqui mesmo,
ou no palácio me deixa; não posso ocultar-te o ocorrido.
Fui sabedora de tudo e lhe aviei tudo o que ele me disse,
pão e aprazível bebida. Tomou-me, porém, grande jura
de coisa alguma contar-te antes que doze dias corressem,
ou que sua falta sentisses, por novas ouvir que se fora,
a fim de que não fanasses com lágrimas teu belo rosto.
Cuida, porém, de banhar-te e de roupa vestir muito limpa,
para o aposento de cima dirige-te com as criadas,
faze tuas preces a Atena, que é filha de Zeus poderoso,
e tem poder de em futuro salvá-lo do negro Destino,
mas não aflijas o velho que tão abatido se encontra,
pois não presumo que os deuses bem-aventurados odeiem
a descendência de Arcésio. Alguém há de ficar, com certeza,
para mandar na alta casa e nos agros extensos e pingues.”
Tais argumentos fizeram-lhe o choro parar e os gemidos.
Vai logo banho tomar, roupa limpa vestiu, sem demora,
e para o quarto de cima se foi juntamente com as servas.
Em canistrel põe as molas e a Palas Atena suplica:
“Ouve-me, filha indomável do deus que a grande égide empunha!
Se em algum tempo o solerte Odisseu em seu próprio palácio,
em honra tua, queimou pingues coxas de bois e de ovelhas,
disso recorda-te agora e não deixes perder-se meu filho;
dos pretendentes o livra, maldosos e cheios de orgulho.”
Tendo isso dito, ululou. Foi ouvida sua prece por Palas.
Os pretendentes na sala sombria levantam tumulto.
Foi quando disse um qualquer desses moços de mente soberba:
“A requestada Penélope, certo, nas bodas se afana,
sem suspeitar que fadamos seu filho ao Destino inamável.”
Isso disse ele, porque não sabia do que se passava.
Foi quando Antínoo, tomando a palavra, falou o seguinte:
“Sois todos loucos! Deixai de arrogantes discursos agora,
sem exceção; não vá alguém anunciar isso tudo lá dentro;
mas, sem dizermos palavra, saiamos daqui, bem depressa,
para pôr mãos ao projeto, que todos no peito formamos.”
Tendo isso dito, vinte homens escolhe, dos mais audaciosos,
e para a célere nau se dirige, na beira da praia.
Primeiramente, arrastaram-na para o mar largo; após isso,
fixam o mastro na nau de cor negra e, a seguir, neste, a vela,
tendo aos toletes os remos prendido com estropos de couro,
tudo de acordo com regras, e a cândida vela desprendem.
Põem-lhes as armas a bordo os criados de espírito altivo.
No fundo mar ancoraram, depois, para a terra saltando,
onde cuidaram da ceia, esperando que a tarde chegasse.
Por esse tempo se achava deitada a prudente Penélope
nos aposentos de cima, a enjeitar alimento e bebida,
só preocupada em pensar se da Morte seu filho escapava,
ou se devia cair pela mão dos soberbos imigos.
Tal como o leão, que se encontra indeciso no meio de gente,
cheio de medo, ao sentir que lhe apertam o cerco doloso:
vê-se Penélope, assim, té que o sono agradável lhe chega.
Dorme assim, pois, reclinada, que o sono descanso lhe infunde.
A de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso:
forma uma imagem de sonho, mulher parecendo na forma
e com feições da nascida de Icário magnânimo, Iftima,
que com Eumelo é casada, morando eles ambos em Feras.
Essa visão ao palácio do divo Odisseu manda logo,
porque consolo levasse à tristeza da aflita Penélope
e conseguisse pôr termo aos soluços e ao pranto copioso.
Pela correia do fecho na câmara entrar pôde logo;
paira-lhe sobre a cabeça e lhe diz as seguintes palavras:
“Dormes, Penélope, com o coração por tal modo angustiado?
Não te consentem os deuses, que vivem feliz existência,
tanto chorar e afligir-te; ao teu filho ainda está destinado
vir de tornada, porquanto ele em nada ofendeu aos eternos.”
Disse-lhe, então, em resposta Penélope muito sensata,
Dês da soleira do sono, imergida em torpor muito suave:
“Mana querida, a que vens até aqui? Pois não é teu costume
vir visitar-me, em virtude da grande distância em que moras.
Mandas-me, agora, que cesse de vez com suspiros e dores,
tão numerosas, que o espírito e o peito atormentam sem pausa?
Cedo meu nobre marido perdi, de coragem leonina,
que era entre os Dânaos notável por grandes e raras virtudes,
e cuja fama atingia toda a Hélade até o centro de Argos.
Ora meu filho querido partiu no navio bojudo,
ainda criança, ignorando os trabalhos e arengas nas praças.
Por seu destino me aflijo ainda mais que por causa do esposo.
Tremo por ele e me inquieto; não vá acontecer-lhe algum dano,
quer em viagem, quer mesmo entre as gentes onde ora se encontra.
Muitos malvados contra ele planejam insídias sem conta,
com intenção de matá-lo antes que ele reveja o palácio.”
O pouco claro fantasma de Iftima lhe disse, em resposta:
“Ânimo! Cessa de tanto afligir com receios o peito.
Serve-lhe de companhia a que todos os homens desejam
ter ao seu lado qual deusa assistente — por ser poderosa —
Palas Atena, que se compadece do teu sofrimento.
Dela aqui venho o mandado, porque tudo, enfim, te contasse.”²
Disse-lhe, então, em resposta, Penélope muito sensata:
“Se és uma deusa, de fato, e de um deus as palavras ouviste,
vamos, então me revela o destino infeliz daquele outro,
se ainda com vida se encontra e as delícias da luz ainda enxerga,
ou se é já morto, talvez, e na de Hades estância demora?”
O pouco claro fantasma de Iftima lhe disse, em resposta:
“Nada te posso dizer, com certeza, a respeito desse outro,
se é vivo ou morto; de nada nos serve falar aereamente.”
Tendo isso dito, esvaeceu-se o fantasma, qual sopro do vento,
pelo ferrolho da porta. A de Icário nascida desperta
logo do sono. Seu peito outra vez de alegria se aquece,
por lhe ter vindo no escuro da noite visão tão luzente.
Os pretendentes embarcam e as úmidas vias percorrem,
a cogitar no mais íntimo como matar a Telêmaco.
Bem na passagem do mar que separa de Samo escabrosa
Ítaca, encontra-se uma ilha de pouca extensão, pedregosa,
de nome Astéride. Porto aprazível, contudo, apresenta,
com dupla entrada. Os Aquivos aí de emboscada ficaram.
Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] A cena é decisiva: Penélope finalmente descobre o plano dos pretendentes contra Telêmaco, e o impacto emocional é enorme.
Ela recebe ao arauto Medonte já tomada de inquietação, e sua fala é uma mistura de ironia, indignação e dor. Ela supõe que os pretendentes o enviaram para ordenar que as servas parem de trabalhar e preparem um banquete — uma crítica direta ao abuso que eles cometem na casa. Em seguida, explode: “Se requestado jamais me tivessem, nem mesmo aqui vindo! Fosse, de fato, esta a vez derradeira que todos comessem!” É um desejo de que aquela fosse a última refeição deles — um prenúncio da vingança futura de Odisseu. Ela lembra que os pretendentes consomem os bens de Telêmaco sem pudor. E faz uma comparação moral: Odisseu nunca foi injusto, nunca tratou mal o povo, ao contrário dos pretendentes, ingratos e desrespeitosos.
Essa fala é um dos momentos em que Homero mostra a força moral de Penélope, que não é apenas uma figura passiva esperando o marido.
Medonte, sempre sensato, responde com gravidade. Ele diz que, se o problema fosse apenas o banquete, seria pouco. O verdadeiro mal é muito pior:
os pretendentes planejam matar Telêmaco com ferro aguçado quando ele voltar de Pilo e Esparta. Ele afirma que Zeus há de impedir, o que é uma forma de consolo, mas também um reconhecimento da gravidade da situação.
A reação de Penélope é belíssima e muito homérica. O coração lhe susta — ela fica paralisada de choque. Os joelhos fraquejam — imagem típica da poesia épica para o colapso emocional. Por muito tempo não consegue falar. Lágrimas lhe enchem os olhos e a voz se lhe embarga. É o momento em que a dor de Penélope atinge o auge, preparando a entrada de Atena no sonho.
[2] Penélope está tomada de angústia porque ouviu falar da conspiração dos pretendentes contra Telêmaco. Ela cai no sono, e Atena, desejando confortá‑la, envia em sonho a figura de Iftima, filha de Icário, para acalmá-la.
O fantasma — na verdade uma forma assumida por Atena — pede que Penélope pare de se torturar com medo. Ela revela que Atena está ao lado de Penélope, protegendo-a, e que a deusa se compadece de sua dor. Ou seja: “Vim enviada por ela, para te contar tudo.” É uma típica cena homérica de consolo divino, em que a deusa aparece por meio de um sonho para aliviar o coração do mortal.
Odisseia, de Homero - Canto 4 - Telêmaco em Esparta