O gato preto
Para a narrativa sumamente extravagante e contudo sumamente trivial em que tomo da pena, não espero nem peço crédito. De fato, louco seria eu de esperar tal coisa, num episódio em que até meus próprios sentidos rejeitam o que testemunharam. Contudo, não estou louco — e, decerto, tampouco estou sonhando. Mas amanhã morrerei e hoje quero desafogar minha alma. Meu propósito imediato é expor diante do mundo, de modo direto, sucinto e sem comentários, uma série de simples eventos domésticos. Por suas consequências, esses eventos me aterrorizaram — torturaram — destruíram. Contudo, não farei uma tentativa de explicá-los. Para mim, pouco representaram além do Horror — para muitos, parecerão menos terríveis do que barrocos. Num futuro próximo, talvez, algum intelecto haverá de surgir para reduzir minha fantasmagoria ao lugar comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico e muito menos excitável do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias por mim detalhadas com assombro, nada mais do que uma ordinária sucessão de causas e efeitos perfeitamente naturais.
Desde a infância sempre me fiz notar pela docilidade e humanidade de
meu temperamento. Minha ternura de coração era de fato tão evidente
que me tornava objeto de troça de meus companheiros. Tinha particular
afeição por animais e fui mimado por meus pais com uma grande
variedade de bichos de estimação. Com eles passava a maior parte do
tempo e nunca me sentia tão feliz como nas ocasiões em que os alimentava
e acariciava. Essa peculiaridade de caráter acompanhou-me ao crescer e,
mais tarde, quando me tornei um homem, dela extraía uma das minhas
principais fontes de prazer. Para aqueles que acalentaram afeição por um
cão fiel e esperto, dificilmente preciso me dar o trabalho de explicar a
natureza ou a intensidade da satisfação que disso pode advir. Há qualquer
coisa no amor altruísta e abnegado de uma criatura bruta que cala fundo
no coração de quem muitas vezes já teve ocasião de experimentar a
amizade mesquinha e a fidelidade impalpável do mero Homem.
Casei-me cedo, e tive a felicidade de encontrar em minha esposa uma
disposição não incompatível com a minha própria. Observando meu apreço
pelos animais domésticos, ela não perdia a oportunidade de obter os tipos
mais agradáveis. Tivemos pássaros, peixes dourados, um ótimo cão,
coelhos, um macaquinho e um gato. Este último era um animal notavelmente grande e belo, todo negro, e
esperto em um grau espantoso. Falando de sua inteligência, minha esposa,
que no fundo não era pouco imbuída de superstição, fazia frequente alusão
à antiga crença popular que via em todos os gatos pretos bruxas
disfarçadas. Não que em algum momento falasse a sério nesse sentido — e
não toco no assunto por nenhum outro motivo além de acontecer, bem
agora, de me vir à memória.
Pluto — esse o nome do gato — foi meu bicho e companheiro favorito. Somente eu o alimentava, e ele me seguia pela casa aonde quer que eu fosse. Era mesmo com dificuldade que conseguia impedi-lo de seguir-me pelas ruas.
Pluto — esse o nome do gato — foi meu bicho e companheiro favorito. Somente eu o alimentava, e ele me seguia pela casa aonde quer que eu fosse. Era mesmo com dificuldade que conseguia impedi-lo de seguir-me pelas ruas.
Nossa amizade durou, desse modo, por vários anos, durante os quais
meu temperamento geral e caráter — por obra do Demônio da
Intemperança — experimentaram (coro em confessar) uma radical
alteração para pior. Tornei-me, a cada dia, mais taciturno, mais irritável,
mais sem consideração pelos sentimentos alheios. Permitia-me o uso de
uma linguagem destemperada com minha mulher. Por im, cheguei até a
ameaçá-la de violência ísica. Meus bichos, é claro, também sofreram com
minha mudança de disposição. Eu não só os negligenciava, como também
os maltratava. Por Pluto, entretanto, ainda mostrava suficiente
consideração para me abster de infligir-lhe maus-tratos, como fazia com os
coelhos, o macaco ou mesmo o cão, quando, por acidente, ou talvez por
afeto, entravam em meu caminho. Mas a doença ganhou corpo em mim —
pois que doença se compara ao Álcool? — e no fim até mesmo Pluto, que a
essa altura estava ficando velho e, consequentemente, um tanto malcriado
— até mesmo Pluto começou a experimentar os efeitos de meu
temperamento irascível.
Certa noite, voltando para casa, muito embriagado, de uma de minhas
tavernas pela cidade, julguei que o gato evitava minha presença. Agarrei-o;
nisso, em seu medo de minha violência, ele me infligiu um leve ferimento
na mão com os dentes. A fúria de um demônio apossou-se
instantaneamente de mim. Eu não mais me reconhecia. Minha alma original
pareceu, na mesma hora, levantar voo de meu corpo; e uma malevolência
mais do que diabólica, inflamada a gim, convulsionou cada fibra de meu
corpo. Tirei do bolso do colete um pequeno canivete, abri-o, agarrei o
pobre animal pela garganta e deliberadamente arranquei um de seus
olhos da órbita! Coro, enrubesço, estremeço conforme descrevo a
abominável atrocidade.
Quando a razão me voltou pela manhã — após ter dissipado no sono os
vapores do desregramento noturno — experimentei um sentimento que
era parte horror, parte remorso pelo crime do qual era culpado; mas foi,
quando muito, um sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu
intocada. Voltei a mergulhar em excessos e não tardei a afogar na bebida
qualquer lembrança do ato.
Entrementes, o gato lentamente se recuperou. A órbita do olho perdido
apresentava, é verdade, uma aparência assustadora, mas ele não parecia
sentir mais dor alguma. Andava pela casa como de costume, mas, como era
de esperar, fugindo aterrorizado à minha aproximação. Restava-me
su iciente de minha antiga afeição para que no início icasse magoado com
esse evidente repúdio de parte de uma criatura que outrora tanto me
amara. Mas esse sentimento em breve deu lugar à irritação. E então
sobreveio, como que para minha ruína final e irrevogável, o espírito da
PERVERSIDADE. Desse espírito a filosofia não se ocupa. Contudo, não
tenho tanta convicção sobre a existência de minha alma quanto tenho de
que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano —
uma das indivisíveis e primordiais faculdades, ou sentimentos, que
orientam o caráter do Homem. Quem nunca se pegou, uma centena de
vezes, cometendo algum ato vil ou tolo sem nenhum outro motivo além de
saber que não deveria? Não mostramos uma perpétua inclinação,
malgrado todo o nosso bom-senso, a violar essa coisa que chamamos Lei,
meramente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de
perversidade, como disse, veio para minha ruína final. Foi esse
inescrutável anseio da alma de atormentar a si mesma — de violentar sua
própria natureza — de cometer o mal em nome do mal simplesmente —
que me impeliu a continuar e finalmente consumar o agravo que já infligira
à inofensiva criatura. Certa manhã, a sangue frio, passei um laço em torno
de seu pescoço e o enforquei no galho de uma árvore; — enforquei-o com
as lágrimas brotando de meus olhos, e com o remorso mais amargo no
coração; — enforquei-o porque sabia que me amara, e porque sentia que
não me dera o menor motivo para ressentimento; — enforquei-o porque
sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado — um pecado mortal
que poria minha alma imortal em perigo a ponto de deixá-la — se tal coisa
era possível — fora de alcance até da misericórdia infinita do Deus Mais
Misericordioso e Mais Terrível.
Na noite do dia em que perpetrei essa cruel infâmia, fui despertado do sono pelos gritos de fogo. As cortinas de minha cama estavam em chamas. A casa toda ardia. Foi com grande dificuldade que minha esposa, uma criada e eu próprio conseguimos escapar da conflagração. A destruição foi completa. Todas minhas posses terrenas foram consumidas e entreguei-me dali em diante ao desespero.
Na noite do dia em que perpetrei essa cruel infâmia, fui despertado do sono pelos gritos de fogo. As cortinas de minha cama estavam em chamas. A casa toda ardia. Foi com grande dificuldade que minha esposa, uma criada e eu próprio conseguimos escapar da conflagração. A destruição foi completa. Todas minhas posses terrenas foram consumidas e entreguei-me dali em diante ao desespero.
Não cedo à fraqueza de tentar estabelecer uma sequência de causa e
efeito entre o desastre e a atrocidade. Mas estou descrevendo uma cadeia
de eventos — e não desejo deixar de fora nem sequer um possível elo.
Certo dia após o incêndio iz uma visita às ruínas. As paredes, com exceção
de uma só, haviam desabado. Essa exceção consistia de uma parede
divisória interna, não muito grossa, mais ou menos no meio da casa, contra
a qual ficava recostada a cabeceira de minha cama. O reboco havia, em
grande parte, resistido à ação do fogo — ocorrência que atribuí ao fato de
ter sido recentemente aplicado. Em torno dessa parede uma compacta
multidão havia se reunido e muitas pessoas pareciam examinar uma área
particular dela com atenção extremamente minuciosa e intensa. As
palavras “estranho!”, “singular!” e outras expressões similares atiçaram
minha curiosidade. Acerquei-me e vi, como que gravado em bas relief sobre
a superfície branca, a figura de um gigantesco gato. A imagem se
estampava com uma precisão realmente maravilhosa. Havia uma corda em
torno do pescoço do animal.
Quando contemplei a aparição — pois como menos que isso eu dificilmente podia encará-la — minha admiração e meu terror foram extremos. Até que enfim a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei, fora enforcado em um jardim adjacente à casa. Ao alarme de incêndio, esse jardim fora imediatamente tomado pela multidão — e alguém ali devia ter cortado a forca e jogado o animal por uma janela aberta dentro do meu quarto. Isso provavelmente fora feito com o intuito de me despertar de meu sono. A queda de outras paredes comprimira a vítima de minha crueldade na massa da alvenaria recém-aplicada; a cal do reboco, sob a ação do fogo, combinara-se ao amoníaco da carcaça para executar o esboço tal como eu o via.
Embora desse modo procurasse eu prontamente prestar contas a minha razão, quando não, na medida do possível, a minha consciência, pelo fato alarmante que acabo de descrever, isso tampouco deixou de causar uma profunda impressão em minha imaginação. Por meses não consegui me libertar da imagem fantasmagórica do gato; e, durante esse período, voltou-me ao espírito um sentimento vago que parecia, mas não era, remorso. Cheguei a ponto de lamentar a perda do animal, e de procurar, nas sórdidas tavernas que agora me habituara a frequentar, outro bichano do mesmo tipo, e de aparência algo similar, com o qual suprir seu lugar.
Quando contemplei a aparição — pois como menos que isso eu dificilmente podia encará-la — minha admiração e meu terror foram extremos. Até que enfim a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei, fora enforcado em um jardim adjacente à casa. Ao alarme de incêndio, esse jardim fora imediatamente tomado pela multidão — e alguém ali devia ter cortado a forca e jogado o animal por uma janela aberta dentro do meu quarto. Isso provavelmente fora feito com o intuito de me despertar de meu sono. A queda de outras paredes comprimira a vítima de minha crueldade na massa da alvenaria recém-aplicada; a cal do reboco, sob a ação do fogo, combinara-se ao amoníaco da carcaça para executar o esboço tal como eu o via.
Embora desse modo procurasse eu prontamente prestar contas a minha razão, quando não, na medida do possível, a minha consciência, pelo fato alarmante que acabo de descrever, isso tampouco deixou de causar uma profunda impressão em minha imaginação. Por meses não consegui me libertar da imagem fantasmagórica do gato; e, durante esse período, voltou-me ao espírito um sentimento vago que parecia, mas não era, remorso. Cheguei a ponto de lamentar a perda do animal, e de procurar, nas sórdidas tavernas que agora me habituara a frequentar, outro bichano do mesmo tipo, e de aparência algo similar, com o qual suprir seu lugar.
Certa noite, enquanto eu me sentava, meio entorpecido, num antro dos
mais infames, minha atenção foi subitamente atraída por um objeto negro,
repousando sobre a tampa de um imenso tonel de gim, ou rum, que
constituía a principal peça de mobília do ambiente. Eu estivera a olhar fixamente para a tampa desse tonel por alguns minutos, e o que agora
causava minha surpresa era o fato de não ter percebido antes o objeto que
estava sobre ele. Aproximei-me e o toquei com a mão. Era um gato preto —
muito grande — tão grande quanto Pluto, e muito parecido com ele em
todos os aspectos, exceto um. Pluto não tinha um único pelo branco em
todo o seu corpo; mas esse gato exibia uma mancha branca enorme,
embora indefinida, a lhe cobrir toda a região do peito.
No momento em que o toquei, ele se levantou de imediato, ronronou
audivelmente, esfregou-se em minha mão e pareceu deliciado com a
atenção concedida. Aquela, então, era exatamente a criatura que eu estava
procurando. Ofereci-me na mesma hora para adquiri-lo junto ao dono; mas
o homem afirmou que não lhe pertencia — que nada sabia do bicho —
nunca o vira antes.
Continuei com minhas carícias e quando me preparava para voltar para
casa o animal evidenciou disposição de me acompanhar. Permiti que o fizesse; parando ocasionalmente e dando-lhe tapinhas carinhosos
conforme andava. Quando cheguei em casa, ficou à vontade na mesma
hora e imediatamente conquistou a predileção de minha mulher.
De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém — não sei dizer como nem por que — sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus-tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente — muito gradualmente — comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.
De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém — não sei dizer como nem por que — sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus-tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente — muito gradualmente — comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.
O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a
descoberta, na manhã subsequente à noite em que o levei para casa, de
que, como Pluto, ele também fora privado de um olho. Essa circunstância,
entretanto, apenas o fez crescer em afeição perante minha esposa, que,
como já disse, possuía, em elevado grau, essa humanidade de sentimentos
que outrora havia sido meu traço característico, e a origem de muitos de
meus prazeres mais singelos e puros.
Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim pareceu
aumentar. Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil
fazer o leitor compreender. Sempre que me sentava, acomodava-se sob
minha poltrona, ou pulava sobre meus joelhos, cobrindo-me com suas
detestáveis carícias. Se eu me levantava para andar, metia-se entre meus
pés e desse modo quase me derrubava, ou, cravando suas garras longas e
afiadas em minha roupa, trepava, desse modo, até meu peito. Em
momentos como esse, embora desejasse com todas as forças matá-lo de um
só golpe, eu era contudo impedido de o fazer, em parte pela lembrança de
meu antigo crime, mas principalmente — que eu o confesse logo de uma
vez — por absoluto pavor da criatura.
Esse pavor não era exatamente o pavor de um mal ísico — e contudo
me faltariam palavras para de ini-lo de outro modo. Tenho quase vergonha
de confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso, tenho quase vergonha
de confessar — que o terror e o horror que esse animal me infundia
haviam sido aumentados por uma das mais simples quimeras que seria
possível conceber. Minha esposa chamara minha atenção, em mais de uma
ocasião, para o caráter da mancha de pelo branco, da qual falei, e que
constituía a única diferença visível entre o estranho animal e o outro que
eu matara. O leitor haverá de recordar que essa mancha, embora grande,
havia se mostrado originalmente muito indefinida; porém, mediante
vagarosas gradações — gradações quase imperceptíveis, e que por longo
tempo minha Razão lutou por rejeitar como fruto da imaginação —,
assumira, finalmente, uma rigorosa precisão de contornos. Era agora a
representação de um objeto que tremo em nomear — e por isso, acima de
tudo, nutria ódio, e pavor, e teria me livrado do monstro caso ousasse —
era agora, afirmo, a imagem de uma coisa hedionda — de uma coisa
macabra — do PATÍBULO! — ah, pesaroso e terrível maquinismo de
Horror e de Crime — de Agonia e de Morte!
E agora eu estava de fato desgraçado para além da desgraça da mera
Humanidade. E uma criatura bruta — cujo semelhante eu matara
desprezivelmente — uma criatura bruta engendrara para mim — para
mim, um homem, feito à imagem do Deus Altíssimo — tamanho e
insuportável suplício! Ai de mim! nem de dia, nem de noite, conhecer a
bênção do Descanso! Durante o dia, a criatura não me deixava mais um
momento sozinho; e, à noite, eu acordava, de hora em hora, com pesadelos
de indizível medo, para dar com o hálito quente da coisa sobre meu rosto, e
seu vasto peso — a encarnação de um Súcubo que eu era impotente para
repelir — oprimindo eternamente meu coração.
Sob a pressão de tormentos como esses, o tênue resquício do que havia de bondade em mim cedeu. Pensamentos malignos tornaram-se meus únicos companheiros — os pensamentos mais negros e malignos. Meu temperamento habitualmente taciturno evoluiu num ódio por todas as coisas e por toda a espécie humana; ao passo que das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de uma fúria à qual eu agora cegamente me abandonava minha resignada esposa, ai de mim!, era a mais habitual e a mais paciente das vítimas.
Sob a pressão de tormentos como esses, o tênue resquício do que havia de bondade em mim cedeu. Pensamentos malignos tornaram-se meus únicos companheiros — os pensamentos mais negros e malignos. Meu temperamento habitualmente taciturno evoluiu num ódio por todas as coisas e por toda a espécie humana; ao passo que das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de uma fúria à qual eu agora cegamente me abandonava minha resignada esposa, ai de mim!, era a mais habitual e a mais paciente das vítimas.
Certo dia ela me acompanhava, em algum serviço doméstico, ao porão da
velha casa que nossa pobreza nos compelia a ocupar. O gato me seguiu
pelos íngremes degraus e, quase me fazendo cair de frente, exasperou-me
ao ponto da loucura. Erguendo um machado, e esquecendo, em minha ira,
o pavor infantil que até então detivera minha mão, dirigi um golpe contra o
animal que, sem dúvida, teria se provado instantaneamente fatal caso
houvesse descido como eu desejara. Mas o golpe foi interrompido pela mão
de minha esposa. Instigado por essa interferência numa fúria mais do que
demoníaca, libertei meu braço e enterrei o machado em seu cérebro. Ela
tombou morta imediatamente, sem um gemido.
Executado o assassinato hediondo, procedi incontinente, e com total
determinação, à tarefa de ocultar o corpo. Eu sabia que não poderia
removê-lo da casa, de dia ou de noite, sem o risco de ser observado pelos
vizinhos. Inúmeros planos passaram por minha mente. A certa altura,
pensei em cortar o cadáver em pequenos pedaços e destruí-los no fogo. Em
outro momento, resolvi cavar um buraco para enterrá-lo no chão do porão.
Depois, considerei a possibilidade de jogá-lo no poço do quintal — ou de
fazer um embrulho e encaixotá-lo, como se fosse uma mercadoria, tomando
as usuais providências, de modo que um carregador viesse levá-lo da casa.
Finalmente, ocorreu-me um expediente que julguei muito melhor do que
todos esses. Decidi emparedá-lo no porão — como ouvira dizer que os
monges da Idade Média faziam com suas vítimas.
Para um tal propósito o porão se prestava bem. Suas paredes eram
construídas sem firmeza, e haviam recentemente recebido uma camada
grosseira de reboco, que a umidade do ambiente impedira de endurecer.
Além do mais, numa das paredes havia uma saliência, causada por uma
falsa chaminé, ou lareira, que fora preenchida, de modo a se parecer com o
restante do porão. Não tive dúvida de que seria capaz de remover
facilmente os tijolos nesse lugar, inserir o cadáver e reconstruir a parede
como antes, de modo que olho algum detectasse algo suspeito.
E nesse cálculo não me equivoquei. Utilizando um pé de cabra, desloquei
rapidamente os tijolos e, após escorar o corpo cuidadosamente contra a
parede interna, mantive-o nessa posição, enquanto, com pouca dificuldade,
refazia toda a estrutura como se mostrava originalmente. Tendo buscado
argamassa, areia e crina, com todas as precauções possíveis, preparei um
reboco que fosse indistinguível do antigo, e com ele procedi muito
diligentemente à obra da nova alvenaria. Após terminar, observei satisfeito
o trabalho bem-feito. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido
perturbada. Recolhi o entulho no chão com cuidado mais do que minucioso.
Olhei em torno em triunfo e disse comigo mesmo — “Aí está, pronto, meu
trabalho não foi em vão”.
Meu passo seguinte foi procurar pelo causador de tamanha desgraça;
pois eu havia, en im, chegado à irme determinação de matá-lo. Tivesse eu
sido capaz de encontrá-lo naquele momento, não resta dúvida sobre qual
teria sido seu destino; mas ao que parecia a criatura astuciosa se alarmara
com a violência de minha fúria precedente e evitava aparecer em meu
presente estado de espírito. É impossível descrever, ou imaginar, a
profunda, jubilosa, sensação de alívio que o sumiço do detestado animal
ocasionou em meu peito. Ele não apareceu durante a noite — e assim, por
uma noite, ao menos, desde que fora trazido à casa, dormi um sono
profundo e tranquilo; sim senhor, dormi, mesmo com o fardo do
assassinato em minha alma!
O segundo e o terceiro dia se passaram, e ainda nem sinal de meu algoz.
Eu voltava a respirar como um homem livre. O monstro, aterrorizado,
fugira do lugar para sempre! Eu não o veria nunca mais! Minha felicidade
era suprema! A culpa por meu ato tenebroso pouco me perturbava. Umas
poucas perguntas haviam sido feitas, mas foram respondidas prontamente.
Até mesmo uma busca fora empreendida — mas é claro que nada se
descobrira. Eu contemplava minha futura felicidade como assegurada.
No quarto dia após o crime, uma equipe policial veio, um tanto
inesperadamente, ter à minha porta, e procedeu mais uma vez a uma
rigorosa investigação da casa. Confiante, entretanto, na inescrutabilidade
de meu esconderijo, mostrei grande desembaraço. Os policiais instaram
que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram um único vão ou
recesso por examinar. Finalmente, pela terceira ou quarta vez, desceram
ao porão. Não tremi um músculo sequer. Meu coração batia tão
calmamente como o de alguém no sono da inocência. Andei pelo porão de
ponta a ponta. Cruzei os braços sobre o peito e perambulei para cá e para
lá, tranquilo. Os policiais se deram totalmente por satisfeitos e se
prepararam para ir embora. A exultação em meu coração era forte demais
para ser reprimida. Eu ardia por dizer nem que fosse uma palavra, a título
de triunfo, e tornar duplamente garantida sua certeza de minha inocência.
“Senhores”, disse eu, enfim, quando os homens subiam pela escada,
“alegra-me ter-lhes aplacado as suspeitas. Desejo saúde a todos, e lhes
apresento mais uma vez meus respeitos. A propósito, senhores, esta —
esta é uma casa muito bem construída.” (Em meu incontrolável desejo de
dizer o que quer que fosse com naturalidade, eu mal fazia ideia do que
falava.) — “Devo dizer, uma casa excelentemente bem construída. Estas
paredes — já vão, senhores? — estas paredes são obra sólida”; e nisso, no
pleno frenesi de minha bravata, bati fortemente, com a bengala que levava
na mão, exatamente naquela parte da alvenaria atrás da qual jazia o
cadáver de minha amantíssima esposa.
Mas queira Deus me proteger e livrar das presas do Príncipe das
Trevas! Nem bem a reverberação de minhas batidas mergulhou no
silêncio, fui atendido por uma voz vinda da tumba! — por um gemido,
inicialmente abafado e fraco, como de uma criança a soluçar, e depois se
dilatando rapidamente em um grito longo, elevado e contínuo, inteiramente
anômalo e inumano — um uivo — um guincho lamurioso, metade horror e
metade triunfo, tal como só poderia ter brotado do inferno num esforço
combinado das gargantas dos condenados em sua agonia e dos demônios
que exultam na danação.
De meus próprios pensamentos é tolice falar. Desfalecendo, cambaleei
para a parede oposta. Por um instante, os policiais na escada
permaneceram imóveis, num paroxismo de terror e perplexidade. No
instante seguinte, uma dúzia de braços vigorosos avançava contra a
parede. Ela veio toda abaixo. O cadáver, já grandemente decomposto e
coberto de crostas de sangue, surgiu ereto ante os olhos dos presentes. Em
sua cabeça, com a boca vermelha escancarada e um olho solitário de fogo,
estava a hedionda criatura cuja astúcia me levara ao assassinato, e cuja voz
delatora me condenara à corda do carrasco. Eu emparedara o monstro
dentro da tumba!
continua página 83...
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Leia também:
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
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Uma Descida ao Maelstrom (01) / A Ilha da Fada / A Máscara da Morte Vermelha / A Quinta de Arnheim (1) /
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
__________________
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.