contos e poesia no butekudu baitasar.
a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre!
li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
Como, quando e por que se derruba um presidente...
Lançamento em 1984
Vinte anos depois do golpe de 1964, o documentário Jango refaz a trajetória política do presidente João Goulart, deposto nas primeiras horas do dia primeiro de abril daquele ano por uma junta militar. A partir de uma extensa pesquisa de arquivo que incorpora cinejornais da época, fotografias e manchetes de jornais, a obra percorre desde o início da carreira de João Goulart, passando pelos governos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, até a sua morte, doze anos depois de ter deixado o país rumo ao exílio no Uruguai. O filme examina a luta ideológica que foi travada durante o governo Jango, onde a máquina de propaganda de setores da direita fez de Cuba, modelo para a esquerda, um pretexto para radicalizar do debate público, vendo em qualquer medida um sinal de comunização. Jango remonta a escalada de tensão de um governo marcado por forte oposição das classes dominantes, que levou a crises sucessivas desde os primeiros instantes após da renúncia de Jânio Quadros. Através de depoimentos e textos em off, o filme relembra fatos decisivos, como o Comício da Central do Brasil, as marchas pedindo sua deposição, a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais, os últimos dias do governo, primeiros instantes após o golpe e as tentativas de resistência ao golpe, avançando até a consolidação do governo Castello Branco. Prêmio Especial do Júri, Melhor Filme do Júri Popular e Melhor Trilha Sonora do Festival de Gramado (1984). Prêmio Especial do Júri, Festival de Havana (1984). Festival Internacional Del Nuevo Cine Latinoamericano de Cuba (1984), Prêmio especial do júri. Troféu Margarida de Prata – C.N.B.B. (1984). Bilheteria: 1 milhão de espectadores.
Direção:
Silvio Tendler
Roteiro:
Silvio Tendler
Maurício Dias
Elenco:
José Wilker (narrador) João Goulart (imagens de arquivo) Juscelino Kubitschek (imagens de arquivo) Leonel Brizola Frei Betto Magalhães Pinto
Tancredo Neves (imagens de arquivo)
Jânio Quadros (imagens de arquivo)
Agradecimentos Especiais: Caetano Veloso / Eduardo Chuahy Musicas Cedida Pela EMI – ODEON: Menino (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), Trem Mineiro (Wagner Tiso) Musicas Cedida pela POLYGRAM: Enquanto seu lobo nao vem (Caetano Veloso) – Temas Musicais de Milton Nascimento, Abertura: Tema de Che Guevara (Versão de San Vicente) Tema FInal – Músicos de Milton Nascimento: Paulinho Carvalho/ Neném / Marcos Viana / Paulinho Santos / Tulio Mourao / Sergio Alves – Temas Musicais de Wagner Tiso: Noites Moscou ( tema Original de Soloviev e Sedoy) – O Encouraçado PotemKim ( Tema Original de Dmitri Shostakovich) Músicos de Wagner Tiso: Ari Sperling / Andre Sperling / Mauro Senize
A edição foi conduzida por Francisco Sérgio Moreira e os produtores associados foram Denise Goulart (filha do ex-presidente) e Hélio Paulo Ferraz.
Coração de Estudante
A melodia da canção foi originalmente composta por Wagner Tiso em 1983 como um tema instrumental para a trilha sonora do documentário Jango, dirigido por Silvio Tendler, que narra a vida de João Goulart, presidente deposto pelo golpe militar de 1964.
Após assistir a algumas cenas do documentário, Milton Nascimento se emocionou com o tema de Tiso e, em um momento raro de sua carreira onde não costumava ser o letrista, decidiu adicionar versos à melodia. A letra, permeada por metáforas de esperança ("há que se cuidar do broto / pra que a vida nos dê flor e fruto") e denúncia ("já podaram seus momentos / desviaram seu destino"), foi inspirada na luta e nas mortes de estudantes durante o regime militar, com menção específica a Edson Luís de Lima Souto, morto em 1968. O título da canção faz referência ao nome de uma flor popular em Minas Gerais, terra natal dos compositores.
Coração de Estudante foi gravada no álbum Milton Nascimento Ao Vivo e rapidamente se tornou um hino não-oficial do movimento pró-democracia Diretas Já, sendo considerada uma das obras mais emblemáticas da música brasileira na fase final da Ditadura Militar.
Quero falar de uma coisa Adivinha onde ela anda Deve estar dentro do peito Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado Bem mais perto que pensamos A folha da juventude É o nome certo desse amor
Já podaram seus momentos Desviaram seu destino Seu sorriso de menino Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança Nova aurora a cada dia E há que se cuidar do broto Pra que a vida nos dê flor Flor e fruto
Coração de estudante Há que se cuidar da vida Há que se cuidar do mundo Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho Espalhados no caminho Verdes, planta e sentimento Folhas, coração, juventude e fé
Milton Nascimento / Show TV Cultura 1983 - Coração De Estudante
O Estudante Que a Ditadura Matou a Tiro (E o Brasil Nunca Esqueceu)
Em 28 de março de 1968, um estudante de 18 anos foi morto a tiro por um policial dentro de um restaurante popular no Rio de Janeiro. O nome dele era Edson Luís de Lima Souto — e sua morte mudou o rumo da ditadura militar no Brasil.
Enterro Edson Luís de Lima Souto, 29 de Março de 1968
O assassinato do estudante Edson Luís, pela Ditadura Cívico-Militar de 1964, completou 58 anos.
Para retornar às realidades mais genéricas, foi dessa morte prevista e contudo inesperada de
Swann que ouvira o próprio Brichot falar à duquesa de Guermantes, na noite da festa na casa da prima
desta. Era a mesma morte cuja estranheza específica e impressionante me afastara na noite em que eu
folheara o jornal e a notícia me fizera estacar de súbito, como se traçada em misteriosas linhas
inoportunamente intercaladas. Haviam bastado para fazer de um vivo alguém que já não pode responder
ao que lhe dizem, um nome, um nome escrito, repentinamente passado do mundo real para o reino do
silêncio. Eram elas que me davam ainda neste momento o desejo de conhecer melhor a residência onde
outrora haviam morado os Verdurin e onde Swann, que então não era apenas algumas letras impressas
no jornal, jantara tantas vezes com Odette. É preciso acrescentar igualmente (e isto me tornou, por muito
tempo ainda, mais dolorosa do que qualquer outra a morte de Swann, embora esses motivos não se
relacionassem com a estranheza individual de sua morte) que eu não fora visitar Gilberte como lhe havia
prometido na casa da princesa de Guermantes; que ele, Swann, não me havia exposto aquela "outra
razão" a que aludira nessa noite, para a qual me escolhera como confidente de sua conversa com o
príncipe, que mil perguntas me vinham à cabeça (como bolhas que sobem do fundo da água) e que eu
desejaria fazer-lhe a respeito dos mais diversos assuntos: sobre Vermeer, sobre o Sr. de Mouchy, sobre
ele mesmo, sobre uma tapeçaria de Boucher, sobre Combray, perguntas - é claro de pouca urgência,
visto que as adiara dia após dia, mas que me pareciam capitais desde que, estando selados os seus
lábios, a resposta já não viria. A morte dos outros é como uma viagem que nós próprios faríamos e durante a qual recordamos, a
cem quilômetros de Paris, ter esquecido de duas dúzias de lenços, de deixar uma chave para a
cozinheira, de nos despedirmos do tio, de perguntar o nome da cidade onde se acha a fonte antiga que
desejamos ver. Enquanto estes esquecimentos que nos acossam e que narramos em voz alta, por pura
formalidade, ao amigo que viaja conosco, têm por única resposta o começo da aceitação do banco
estofado, o nome da estação gritado pelo chefe do trem só faz afastar-nos ainda mais das realizações
dali em diante impossíveis, de maneira que, desistindo de pensar nas coisas irremediavelmente
olvidadas, desfazemos o embrulho das comidas e permutamos jornais e revistas.
- Mas não - replicou Brichot-, não era aqui que Swann se encontrava com sua futura mulher; ou,
pelo menos, só foi aqui nos últimos tempos, depois do sinistro que destruiu parcialmente a primeira
residência da Sra. Verdurin.
Infelizmente, com receio de ostentar aos olhos de Brichot um luxo que me parecia deslocado, visto
que o universitário não tomava parte nele, eu havia descido com muita precipitação do carro, e o cocheiro
não compreendera o que lhe recomendara às pressas para ter tempo de me afastar antes que Brichot me
avistasse. O resultado foi que o cocheiro veio ao nosso encontro e perguntou se devia voltar para me
apanhar; disse-lhe rapidamente que sim e redobrei de respeito para com o universitário, que chegara de
ônibus.
- Ah, o senhor está de carro - disse-me ele em tom grave. - Meu Deus, pelo maior dos acasos; isto
não acontece nunca, sempre ando de ônibus ou a pé. Porém, desse modo talvez tenha a grande honra
de levá-lo até em casa esta noite, se o senhor consentir em me acompanhar nesse calhambeque;
ficaremos um pouco apertados. Mas o senhor é tão bondoso comigo. -
Ai de mim; propondo-lhe aquilo não me privo de nada, pensei, visto que serei obrigado da mesma
forma a regressar por causa de Albertine. Sua presença em minha casa, numa hora em que ninguém
podia visitá-la, permitia-me dispor tão livremente de meu tempo como de tarde, quando sabia que ela ia
voltar do Trocadero e eu não tinha pressa em revê-la. Mas afinal, também como de tarde, sentia eu que
tinha uma mulher e que, voltando para casa, não conheceria a exaltação revigorante da solidão.
- Aceito de coração - respondeu Brichot. - Na época a que o senhor alude, aos nossos amigos
moravam na rua Montalivet, num magnífico andar térreo com água furtada dando para um jardim, menos
suntuoso, é claro, e que no entanto prefiro ao palacete da Embaixada de Veneza. -
Brichot contou-me que naquela noite havia o "cais Conti" (era assim que os fiéis denominavam o
salão Verdurin desde que, se mudara para lá), um grande "tra-la-lá" musical, organizado pelo Sr. de
Charly, - Acrescentou que, no tempo antigo de que eu falava, o pequeno núcleo era outro; o tom bem
diferente, não só porque os fiéis eram muito jovens. Contou-me as farsas de Elstir (o que denominava
"puras patacoadas"), como num dia em que este, tendo fingido que roera a corda, viera disfarçado de
mordomo extra e, enquanto passava os pratos, dissera graçolas ao ouvido da muito pudica baronesa
Putbus vermelha de espanto e raiva; depois, desaparecendo antes do fim do jantar, mandara trazer ao
salão uma banheira cheia d'água, de onde, quando saíam todos da mesa, emergira completamente nu
soltando palavrões; e também das ceias onde todos apareciam em roupas de papel, desenhadas,
cortadas e pintadas por Elstir que eram obras-primas, tendo Brichot certa ocasião vestido a de um grande
fidalgo da corte de Carlos VII, com sapatos de bico revirado, e, de outra vez, a de Napoleão, para a qual
Elstir havia feito a grande insígnia da Legião de Honra com lacre. Em suma, recordando Brichot o salão
de outrora, com seus janelões, seus canteiros baixos comidos pelo sol do meio-dia e que fora preciso
substituir, declarava preferi-lo ao de hoje. Por certo, eu bem compreendia que, por "salão", Brichot queria
dizer-como o vocábulo "igreja" não indica apenas o edifício religioso mas a comunidade de fiéis não
apenas a água-furtada, mas as pessoas que a frequentavam em busca de prazeres especiais que vinham
procurar ali e aos quais, em sua memória, tinham dado sua forma aqueles canapés, em que, quando
vinham visitar a Sra. Verdurin de tarde, esperavam que ela se aprontasse, enquanto as flores róseas dos
castanheiros, lá fora, e os cravos nos vasos sobre a lareira pareciam, num pensamento de graciosa
simpatia pelo visitante, traduzido nas risonhas boas-vindas de suas cores rosadas, mirar fixamente a
chegada tardia da dona da casa. Mas se este "salão" lhe parecia superior ao atual, era talvez porque o
nosso espírito é o velho Proteu, não pode permanecer escravo de nenhuma forma e, mesmo no terreno
mundano, desprende-se subitamente de um salão, que chegou lenta e dificilmente a seu ponto de
perfeição, para preferir um salão menos brilhante, assim como as fotografias "retocadas" que Odette
mandara fazer no fotógrafo Otto, nas quais estava elegantíssima em seu rico vestido de princesa e
ondulada por Lenthéric, não agradavam tanto a Swann quanto um cartãozinho postal de Nice, onde,
numa capelinha de pano modesto, os cabelos mal toucados saindo para fora de um chapéu de palha
bordado de amores-perfeitos e com um laço de veludo negro (pois as mulheres em geral parecem mais
velhas quanto mais antigas forem as fotografias), vinte anos mais moça em elegância, parecia uma
criadinha vinte anos mais velha. Talvez Brichot também tivesse a satisfação de me gabar aquilo que eu
não havia conhecido, em mostrar-me que desfrutara de prazeres que eu não poderia ter. Conseguia-o,
aliás, pois, citando apenas os nomes de duas ou três pessoas que já não existiam e a cujo encanto
atribuía algo de misterioso por sua maneira de falar delas e dessas intimidades deliciosas, eu indagava a
mim mesmo sobre o que ele poderia ter sido, sentia que tudo aquilo que me haviam contado acerca dos
Verdurin era excessivamente grosseiro; e até Swann, que eu conhecera, censurava-me por não ter
prestado atenção nele, de não lhe ter prestado atenção com suficiente desinteresse, de não o ter
escutado bem quando, à espera de que sua mulher regressasse para o almoço, ele me recebia e me
mostrava belas coisas, agora que eu sabia que ele era comparável aos melhores conversadores de
antigamente.
No momento de chegar à casa da Sra. Verdurin, avistei o Sr. de Charlus que vinha navegando em
direção a nós com seu corpo enorme, arrastando atrás, sem querer, um desses apaches ou mendigos
que agora a sua passagem fazia infalivelmente surgir até mesmo dos cantos aparentemente mais
desertos, e dos quais aquele monstro poderoso era escoltado bem contra sua vontade, embora a certa
distância, como o tubarão pelo peixe piloto, afinal, contrastando de tal modo com o forasteiro altivo do
primeiro ano em Balbec, de aspecto severo e com sua afetação de virilidade, que me pareceu descobrir,
acompanhado de seu satélite, um astro num período totalmente diverso de sua revolução e que agora se
começa a ver em sua fase cheia; ou um enfermo invadido agora pelo mal que, anos antes, não passava
de uma leve borbulha que ele facilmente dissimulava e de cuja gravidade ninguém suspeitava. Embora
uma operação que Brichot sofrera lhe houvesse restituído um pouquinho da visão que para sempre tinha
perdido, não sei se perceberei, o vagabundo que seguia o barão. Aliás, pouco importava, pois desde La
Raspelier e apesar da amizade que o universitário tinha por ele, a presença do Sr. de Charlus lhe dava
um certo mal-estar. Sem dúvida para cada homem a vida de outrem prolonga na escuridão caminhos de
que não se tem qualquer ideia. A mentira, contudo; tantas vezes enganadora, e pasto de todas as
conversas, esconde menos perfeitamente um sentimento de inimizade ou de interesse, ou uma visita que
desejamos, dar a impressão que não foi feita, ou uma escapada com uma amante de um dia queremos
ocultar à nossa mulher - do que uma boa reputação o segredo dos maus costumes de que ninguém
desconfia. Esses maus costumes podem ficar ignorados a vida inteira; revela-os o súbito acaso de um
encontro à noite, num cais; mas esse acaso é muitas vezes mal compreendido e é preciso que um
terceiro, já, conhecedor do segredo, forneça-nos o seu sentido oculto, que todos ignoram. Porém uma vez
conhecidos, eles impressionam, pois percebemos que raiam pela loucura muito mais do que por serem
imorais. A Sra. de Surgis não possuía um sentimento moral muito desenvolvido e teria admitido qualquer
comportamento; de seus filhos desde que aviltado e explicado pelo interesse, o que é compreensível em
todos os homens. Mas proibiu-lhes que continuassem a frequentar o Sr. de Charlus quando soube que,
por uma espécie de relógio de repetição, o barão era fatalmente levado, em cada visita, a beliscar-lhes o
queixo e a fazer com que ambos, se beliscassem um ao outro. Experimentou aquela sensação de
inquietude do mistério físico, que faz com que nos indaguemos se o vizinho, com quem tem boas
relações, não estará atacado de antropofagia; e às repetidas perguntas ao barão:
- Quando é que verei de novo os rapazes? - respondeu, sabendo os furores que acumularia contra
a sua pessoa, que eles estavam ocupados com os estudos, os preparativos de uma viagem, etc. A
irresponsabilidade agrava as culpas e até os crimes, digam o que disserem. Landru (supondo que ele
tenha de fato matado as mulheres), se o fez por interesse, coisa a que se pode resistir, pode ser
perdoado; mas não se o fez por um sadismo irresistível.
[Henri Désiré Landru (1869-1922) foi preso e acusado da morte de dez mulheres, a quem teria proposto
casamento, e que nunca mais foram vistas. Condenado, sofreu pena de morte na guilhotina sem jamais
ter confessado os crimes (1920). Dos episódios da vida real mencionados na Em Busca do Tempo
Perdido, este é o de data recente. (N. do T)]
Os pesados gracejos de Brichot, no começo de sua amizade com o barão, tinham dado lugar,
quando já não se tratava de dizer lugares-comuns mas de compreender, a um sentimento desagradável
que encobria o contentamento. Ele sossegava recitando páginas de Platão, versos de Virgílio, porque,
igualmente cego de espírito, não compreendia que então amar um rapaz era como hoje (os gracejos de
Sócrates revelam-no melhor do que as teriam de Platão) sustentar uma dançarina e depois arranjar um
bom casamento. O próprio Sr. de Charlus mal o teria entendido, ele que confundia a sua mania com a
amizade, que não se lhe parece a coisa alguma, e os atletas de Praxíteles com dóceis pugilistas. Não
queria ver que há mil e novecentos anos ("um cortesão devoto sob um príncipe devoto teria sido ateu sob
um príncipe ateu", disse La Bruyere) todo o homossexualismo de costume e dos rapazes de Platão como
o dos pastores de Virgílio desaparecera, que sobrenada e se multiplica apenas o involuntário, o nervoso,
o que se oculta aos outros e se disfarça aos próprios olhos. E o Sr. de Charlus teria errado em não
renegar francamente a genealogia pagã. Em troca de um pouco de beleza plástica, quanta superioridade
moral! O pastor de Teócrito que suspira por um rapaz, mais tarde não terá motivo algum para ser menos
duro de coração e mais fino de espírito que o outro pastor, cuja flauta ressoa por Amarílis. Pois o primeiro
não é atacado por um mal, apenas obedece à moda de seu tempo. É o homossexualismo sobrevivente,
apesar dos obstáculos, vergonhoso, desonrado, o único verdadeiro, o único a poder corresponder, num
mesmo indivíduo, um refinamento das qualidades morais. Assusta-nos a relação que o físico possa ter
com estas quando se pensa na pequena aberração de gosto puramente físico, na ligeira tara de um
sentido, que explicam por que o universo dos poetas e dos músicos, tão fechado ao duque de
Guermantes, entreabre-se para o Sr. de Charlus.
Que este demonstre gosto no arranjo de sua residência, como uma dona de casa colecionadora
de bibelôs, não é coisa que surpreenda; mas a estreita fenda que abre para Beethoven e Veronese! Nem
por isso, no entanto, as pessoas sãs de espírito deixam de ter medo quando um louco, que fez um poema
sublime, depois de lhes explicar pelos motivos mais justos que está internado por engano, pela maldade
de sua mulher, pede que intervenham junto ao diretor do asilo, queixando-se das promiscuidades que lhe
impõem, concluindo assim:
- Olhem, este que virá falar-me no pátio, cujo contato sou obrigado a suportar, acredita ser Jesus
Cristo. Ora, isto é o bastante para me provar com que espécie de alienados me prendem; ele não pode
ser Jesus Cristo, pois Jesus Cristo sou eu! -
Um momento antes, estavam prontos para denunciar o erro ao médico alienista. Diante dessas
últimas palavras, e mesmo levando em conta o admirável poema em que esse homem trabalha todos os
dias, as pessoas se afastam, como os filhos da Sra. de Surgis se afastavam do Sr. de Charlus, não que
este lhes tenha feito algum mal, mas devido ao luxo de convites dos quais a finalidade era lhes beliscar
os queixos. É de lamentar que o poeta, que não dispõe de nenhum Virgílio para guiá-lo, precise
atravessar os círculos de um inferno de pez e de enxofre, de se lançar a um fogo que desce do céu, para
dali trazer alguns habitantes de Sodoma. Nenhum encanto em sua obra; a mesma severidade na sua vida
que na daqueles que seguem a regra do mais casto celibato para que não possam atribuir o terem
largado a batina a outra coisa que não a perda da fé. Todavia, não ocorre sempre do mesmo modo com
esses escritores. Qual o médico de loucos que não terá tido, à força de assisti-los, sua crise de loucura?
Feliz ainda se pode afirmar que não se trata de uma loucura anterior e latente que o tivesse feito dedicar
se a eles. O objeto de seus estudos, um psiquiatra, muitas vezes age de novo sobre ele. Mas antes disso,
esse objeta, que obscura inclinação, que terror fascinante o fizera escolhê-lo?
Fingindo não ver o indivíduo suspeito que ajustava seus passos pelos dele (quando o barão se
aventurava pelos bulevares ou atravessava a sala de espera da estação de Saint-Lazare, semelhantes
seguidores se contavam por dúzias que, na esperança de ganhar dinheiro, não o largavam) e com receio
de que, o outro se animasse a dirigir-lhe a palavra, o barão baixava em devotamento os cílios
enegrecidos que, contrastando com as faces cobertas de pó-de-arroz, faziam-no parecer-se a um grande
inquisidor pintado por El Greco. Mas tal padre causava medo e se assemelhava a um padre suspenso
das ordens, pois os diversos expedientes a que tivera de recorrer por necessidade, a fim de satisfazer o
seu vício e proteger seu segredo, tinham tido por efeito trazer à superfície do rosto precisamente aquilo
que o barão tentava ocultar, uma vida crapulosa atestada pela decadência moral. De fato, seja qual for a
sua causa, facilmente se lê, pois não demora a materializar-se, a proliferar sobre um rosto, especialmente
nas faces e ao redor dos olhos, tão fisicamente quanto o amarelo ocre numa pessoa que sofre do fígado
ou os vermelhos repugnantes de uma doença de pele. Aliás, não era apenas nas faces, ou melhor nas
bochechas desse rosto pintado, no peito de mamas salientes, nas nádegas proeminentes desse corpo
entregue à indolência e invadido pela gordura, que sobrenadava agora, espalhado como óleo, o vício
outrora tão intimamente resguardado pelo Sr. de Charlus no ponto mais secreto de si mesmo.
Transbordava agora de suas frases.
- Quer dizer, Brichot, que você anda passeando à noite com um belo rapaz? - disse aos abordar
nos, enquanto que o tal tipo, desapontado, afastava-se - Muito bonito. Vou dizer aos seus alunozinhos da
Sorbonne que você não é tão sério assim. Aliás, a companhia da juventude lhe faz bem, senhor
professor, deixa-o fresco feito uma rosinha. E você, meu caro, como vai?- disse-me ele, abandonando
seu tom de gracejo. - Não é visto muitas vezes no cais Conti, bela juventude. Pois bem, e sua prima,
como está? Não veio com você. Lamentamos, pois é encantadora. Poderemos vê-la esta noite? Oh, ela é
bem bonita. E o seria mais ainda se cultivasse amiúde a arte, tão rara, que possui naturalmente, de bem
vestir-se. -
Aqui devo dizer que o Sr. de Charlus "possuía", o que o tornava o exato oposto, o antípoda de
mim, o dom de observar minuciosamente, de distinguir os detalhes tanto de vestido como de uma tela.
Quanto aos vestidos e chapéus, certas más línguas determinados teóricos radicais dirão que, num
homem, a inclinação pelos atrativos masculinos tem por compensação o gosto inato, o estudo e a ciência
da total feminina. E com efeito, isso ocorre às vezes, como se os homens, tendo açambarcado todo o
desejo físico, toda a profunda ternura de um Charlus, o outro sexo em troca se achasse gratificado com
tudo o que fosse gosto "platônico" (adjetivo bastante impróprio), ou tout court, de tudo que fosse gosto,
com os mais sábios e seguros requintes. Sob tal aspecto, o Sr. de Charlus teria merecido a alcunha que
lhe deram mais tarde, "a Costureira". Mas seu gosto e espírito de observação se estendiam a muitas
outras coisas. Na noite em que fui vê-lo depois de um jantar na casa da duquesa de Guermantes, vimos
que eu só percebera as obras-primas que ele possuía em casa à medida que ele as ia mostrando a mim.
Reconhecia de imediato aquilo a que pessoa alguma jamais prestara atenção, e isso tanto nas obras de
arte como nas iguarias de um jantar (e da pintura à cozinha todo o meio-termo ficava compreendido). Sempre lamentei que o Sr. de Charlus, em vez de limitar seus dons artísticos à pintura de um
leque oferecido de presente à cunhada (vimos a duquesa de Guermantes segurando-o na mão e abrindo
o, menos para se abanar do que para gabar-se, fazendo ostentação da amizade de Palamede) e ao
aperfeiçoamento de sua execução pianística a fim de acompanhar sem erros o desempenho do violino de
Morel, repito, sempre lamentei, e lamento ainda, que o Sr. de Charlus nunca tenha escrito coisa alguma.
É claro que não posso extrair da eloqüência de sua conversação e até de sua correspondência a
conclusão de que ele teria sido um escritor de talento. Esses méritos não cabem no mesmo plano. Temos
visto obras primas escritas por enfadonhos alinhadores de banalidades, e reis da conversação
mostrarem-se inferiores ao mais medíocre quando tentam escrever. Apesar disso, creio que o Sr. de
Charlus teria experimentado a prosa, e, para começar com aqueles temas artísticos que ele conhecia
bem, o fogo teria irrompido, o clarão brilharia, e o homem mundano se tornaria um senhor escritor. Disse
lhe isto várias vezes, e ele jamais quis tentar, talvez apenas por preguiça ou devido ao tempo ocupado
com festas brilhantes e divertimentos sórdidos, ou uma necessidade própria de Guermantes de prolongar
indefinidamente os falatórios. Tanto mais o lamento porque, em sua mais brilhante conversa, o espírito
nunca se separava do temperamento, os achados de um da insolência do outro. Se tivesse escrito livros,
em vez de detestá-lo mesmo admirando-o como se fazia num salão onde, em seus mais curiosos
instantes de inteligência, ele ao mesmo tempo espezinhava as fábulas, vingava-se de quem não o
insultara, procurava de maneira vil fazer que amigos brigassem se tivesse escrito livros, teriam todos
avaliado isoladamente o seu valor espiritual, decantado do mal; nada teria perturbado a admiração e
muitos aspectos despertariam a amizade. Em todo caso, mesmo que eu me engane sobre o que ele teria podido realizar na menor página,
teria ele prestado um raro serviço escrevendo, pois, se distinguia tudo, de tudo o que ele distinguia
conhecia o nome. Certamente, conversando com ele, se não aprendi a ver (meu espírito e meu
sentimento tinham tendência a estar alhures), pelo menos vi coisas que, sem ele, teriam-me ficado
despercebidas, porém o nome delas, que me teria auxiliado a reencontrar o seu desenho, suas cores,
esse nome eu sempre esqueci bem depressa. Se tivesse escrito livros ainda que ruins; e não creio que o
fossem -, que delicioso dicionário, que repertório inesgotável! Afinal de contas, quem sabe? Em vez de pôr
no livro todo o conhecimento e seu gosto, talvez devido a esse demônio que muitas vezes contraria o
nosso destino, ele houvesse escrito folhetins desenxabidos, inúteis narrativas de viagens e de aventuras.
- Sim, ela sabe se vestir ou, mas exatamente, enfeitar-se - continuou o Sr. de Charlus a propósito
de Albertine. - Minha única dúvida é se ela se arruma em conformidade com sua beleza particular, e eu
talvez seja um tanto responsável por isso, por causa dos conselhos não muito ponderados que lhe dei. O
que muitas vezes lhe disse ao ir à Raspeliere e que era antes ditado talvez - e disso me arrependo pela
natureza da região e pela proximidade das praias do que pelo caráter individual de tipo da sua prima, fê-la
acentuar um pouco demais o gênero leve. Reconheço que a vi usar lindas tarlatanas, encantadoras
écharpes de gaze, uma determinada touca cor-de-rosa onde uma pequena pluma rósea não fazia má
figura. Mas acho que sua beleza, que é real e maciça, exige mais do que belos enfeites. Conviria a touca
a essa cabeleira enorme que um kakochnyk (penteado em diadema das mulheres russas) não faria mais
que ressaltar? Há poucas mulheres a quem convenham os vestidos antigos que dão um aspecto de
fantasia de teatro. Mas a beleza dessa moça, já mulher, abre uma exceção e mereceria um vestido antigo
de veludo de Gênova (logo pensei em Elstir - e nos vestidos de Fortuny) que eu não recearia tornar mais
pesado ainda com incrustações ou pingentes de maravilhosas pedras desusadas (é o mais belo elogio
que se pode fazer a tal respeito) como a olivina, a marcassita e a incomparável labradorita. Aliás, ela
mesma parece possuir o instinto do contrapeso, que exige uma beleza um tanto pesada. Lembre-se, para
ir jantar na Raspeliere, de todo esse acompanhamento de belos estojos, de bolsas pesadas, nos quais,
quando se caso ela poderá colocar mais do que a brancura do pó-de-arroz ou o carmim da pintura do
rosto, mas num cofrezinho de lápis-lazúli não muito cor de anil; também pérolas e rubis não
reconstituídos, creio, pois ela pode fazer um casamento rico.
- Ora, ora, barão - interrompeu Brichot, temendo que eu me aborrecesse com essas últimas
palavras, pois tinha dúvidas sobre a pureza de minhas relações e a autenticidade do parentesco de
Albertine comigo -, aí está como você se ocupa com as senhoritas!
- Faça o favor de se calar diante deste menino, língua viperina - troçou o Sr. de Charlus
abaixando, num gesto para impor silêncio a Brichot, a mão que não deixou de apoiar em meu ombro.-
Incomodei-os; vocês pareciam divertir-se como duas louquinhas e não precisavam de uma velha vovó
desmancha-prazeres como eu. Não irei confessar-me por causa disso, pois vocês já estavam quase
chegando. -
O barão estava de muito bom humor, tanto mais que ignorava completamente a cena da tarde,
pois Jupien julgara mais útil proteger a sobrinha contra nova ofensiva de Morel do que ir prevenir o Sr. de
Charlus. Assim, este sempre acreditava no casamento e se regozijava com isso. Dir-se-ia que é um
consolo, para esses grandes solitários, conferir a seu trágico celibato o alívio de uma paternidade fictícia.
- Mas palavra de honra, Brichot - acrescentou ele, voltando-se a rir para nós -, que tenho
escrúpulos em vê-lo em tão galante companhia. Vocês pareciam dois namorados. De braços dados, que
liberdades são essas, hem Brichot? -
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro. Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.
Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações.
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Uma simples olhada nas estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa
mista mostrará, com notável frequência, uma situação que muitas vezes provocou
discussões na imprensa e literatura católicas e nos congressos católicos, principalmente na
Alemanha: o fato que os homens de negócios e donos do capital, assim como os
trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das
modernas empresas é predominantemente protestante.
Este fato não se verifica apenas onde a diferença de religião coincide com uma
nacionalidade, e portanto com seu desenvolvimento cultural, como no caso da Alemanha
oriental e da Polônia. Observamos a mesma coisa onde se fez levantamentos de filiação
religiosa, por onde quer que o capitalismo, na época de sua grande expansão, pôde alterar a
distribuição social conforme suas necessidades e determinar a estrutura ocupacional.
Quanto maior foi a liberdade de ação, mais claro o efeito apontado.
É bem verdade que a maior participação relativa dos Protestantes na propriedade do capital,
na direção e nas esferas mais altas das modernas empresas comerciais e industriais pode em
parte ser explicada pelas circunstâncias históricas oriundas de um passado distante, nas
quais a filiação religiosa não poderia ser apontada como causa de condição econômica, mas
até certo ponto parece ser resultado daquela.
A participação nas funções econômicas envolve geralmente alguma posse de capital e uma
dispendiosa educação e, muitas vezes, de ambas. Hoje tais coisas são largamente
dependentes da posse de riqueza herdada, ou, no mínimo, de certo bem estar material. Certo
número dos domínios do velho império, que eram mais economicamente desenvolvidos,
mais favorecidos pela situação e recursos naturais, particularmente a maioria das cidades
mais ricas, aderiram ao Protestantismo no século XVI.
Os resultados de tais circunstâncias favorecem os protestantes, até hoje, na sua labuta pela
existência econômica. Surge assim a indagação histórica: porque os lugares de maior
desenvolvimento econômico foram, ao mesmo tempo, particularmente propícios a uma
revolução dentro da Igreja? A resposta não é tão simples como se poderia pensar.
A emancipação do tradicionalismo econômico parece sem dúvida ser um fator que apóia
grandemente o surgimento da dúvida quanto à santidade das tradições religiosas e de todas
as autoridades tradicionais. Devemos porém notar, fato muitas vezes esquecido, que a
Reforma não implicou na eliminação do controle da Igreja sobre a vida quotidiana, mas na
substituição por uma nova forma de controle. Significou de fato o repúdio de um controle
que era muito frouxo e, na época praticamente imperceptível, pouco mais que formal, em favor de uma regulamentação da conduta como um todo, que penetrando em todos os
setores da vida pública e privada, era infinitamente mais opressiva e severamente imposta.
A regra da Igreja Católica ,”punindo o herege, mas perdoando o pecador”, mais no passado
do que no presente, é hoje tolerada pelas pessoas de caráter econômico completamente
moderno, e nasceu entre as camadas mais ricas e economicamente mais avançadas do
mundo por volta do século XV. Por outro lado, a regra do Calvinismo como foi imposta no
século XVI em Genebra e na Escócia, entre o século XVI e XVII em grande parte da
Holanda e no século XVII na Nova Inglaterra e, por algum tempo na própria Inglaterra, se
tornaria a forma mais intolerável de controle eclesiástico do indivíduo que já pôde existir. E
foi exatamente isso que foi sentido por uma grande parte da velha aristocracia comercial da
época de Genebra, da Holanda e da Inglaterra. E a queixa dos reformadores, nesta regiões
de grande desenvolvimento econômico, não era o excesso de controle da vida por parte da
Igreja, mas a sua falta.
Como, pois, aconteceu que os países mais economicamente avançados da época, e suas
classes médias burguesas, não só não se opuseram a esta tirania inédita do Puritanismo,
como chegaram a desenvolver sua heroica defesa? A burguesia raramente mostrara tal
heroísmo antes e nunca ó mostrou depois. Foi o “nosso último heroísmo”, como disse
Carlyle não sem-razão.
Além disso há algo especialmente importante: pode ser, como já foi aventado, que a maior
participação dos protestantes nas posições de proprietário e de dirigente na moderna vida
econômica seja entendida hoje, pelo menos em parte, simplesmente como resultado da
maior riqueza material herdada por eles. Contudo, há certos fenômenos que não podem ser
explicados por esse caminho. Só para citar alguns, há uma grande diferença perceptível, em
Baden, na Baviera e na Hungria, no tipo de educação superior que católicos e protestantes
proporcionam a seus filhos. O fato de a porcentagem de católicos entre os estudantes e os
formados nas instituições de ensino superior ser proporcionalmente inferior à população
total, pode, certamente, ser largamente explicado em termos de riqueza herdada. Porém,
entre os próprios formados católicos, a porcentagem dos que receberam formação em
instituições que preparam especialmente para os estudos técnicos e ocupações comerciais e
industriais, e em geral para a vida de negócios de classe média, é muito inferior à dos
protestantes. Por sua vez, os católicos preferem o tipo de aprendizagem oferecido pelos
ginásios humanísticos. Essa é uma circunstância à qual não se aplica a explicação acima
apontada, mas que, ao contrário, é uma das razões do pequeno engajamento dos católicos
nas empresas capitalistas.
Mais notável ainda é um fato que explica parcialmente a menor proporção de católicos
entre os trabalhadores especializados na moderna indústria. Sabe se que as fábricas
arregimentaram boa parte de sua mão de obra especializada entre os jovens artesãos;
contudo, isso é muito mais verdadeiro para os diaristas protestantes que para os católicos.
Em outras palavras, entre os diaristas católicos parece preponderar uma forte tendência a
permanecer em suas oficinas, e tornar com frequência mestres artesãos, enquanto os
protestantes são fortemente atraídos para as fábricas, para nelas ocuparem cargos superiores
de mão de obra especializada e posições administrativas.
A explicação desses casos é, sem dúvidas que as peculiaridades mentais e espirituais
adquiridas do meio ambiente, especialmente do tipo de educação favorecido pela atmosfera
religiosa da família e do lar, determinaram a escolha da ocupação e, por isso, da carreira.
A menor participação dos católicos na moderna vida de negócios da Alemanha é tão
notável justamente porque contraria a tendência observada em todos os tempos,” até
mesmo no presente.
As minorias nacionais ou religiosas, em posição de subordinação em relação a um grupo de
governantes, pela sua exclusão voluntária ou involuntária das posições de influência
política, são aparentemente engajadas com especial vigor nas atividades econômicas. Seus
membros mais aptos buscam o reconhecimento de suas habilidades nesse campo, uma vez
que não há oportunidades a serviço do Estado.
Isso, sem dúvida, mostrou se verdadeiro com os poloneses na Rússia e na Prússia Oriental,
onde, contrariamente ao que ocorreu na Galícia, de onde provinham, conseguiram um
desenvolvimento econômico mais rápido. O mesmo ocorreu em outros tempos com os
huguenotes, na França de Luís XIV, com os não conformistas e quakers na Inglaterra, e
finalmente com os judeus durante os últimos dois mil anos. Mas os católicos da Alemanha
não mostraram nenhuma evidência desse tipo. Também no passado, contrariamente aos
protestantes quer da Holanda quer da Inglaterra, na época em que eram perseguidos ou
apenas tolerados, não alcançaram desenvolvimento econômico relevante. Resta, por outro
lado, observar o fato de os protestantes (especialmente certos ramos do movimento, que
serão amplamente discutidos adiante), quer como classe dirigente, quer como subordinada,
tanto em maioria como em minoria, terem mostrado uma especial tendência para
desenvolver o racionalismo econômico, fato que não pode ser observado entre os católicos
em qualquer das situações citadas.` A explicação principal de tais diferenças deve pois ser
procurada no caráter intrínseco permanente de sua crenças religiosas, e não apenas em suas
situações temporárias externas, históricas e políticas.
Nossa tarefa será investigar essas religiões com o intuito de descobrir as particularidades
que têm ou que tiveram, que resultaram no comportamento descrito acima. Numa análise
superficial, e com base em certas impressões comuns, poderíamos ser tentados a admitir
que a menor mundanidade do catolicismo, o caráter ascético de seus mais altos ideais tenha
induzido seus seguidores a uma maior indiferença para com as boas coisas deste mundo. E
tal explicação reflete a tendência de julgamento popular de ambas as religiões.
Do lado protestante, é usada como base das críticas de tais ideais ascéticos (reais ou
imaginários) do modo de viver católico, enquanto os católicos respondem com a acusação
de que o materialismo resulta da secularização de todos os ideais pelo protestantismo.
Um escritor contemporânea tentou definir a diferença de atitudes diante da vida econômica
da seguinte maneira: “O católico é mais quieto, tem menor impulso aquisitivo; prefere uma
vida a mais segura possível, mesmo tendo menores rendimentos, a uma vida mais excitante
e cheia de riscos, mesmo que esta possa lhe propiciar a oportunidade de ganhar honrarias e
riquezas. Diz o provérbio, jocosamente: “Coma ou durma bem”. Neste caso, o protestante
prefere comer bem, e o católico, dormir sossegado”.
De fato, esse desejo de “comer bem” pode ser encarado como uma caracterização correta,
embora incompleta, da motivação de muitos dos protestantes da Alemanha atual. Mas as
coisa nem sempre foram assim: os puritanos ingleses, americanos e holandeses tinham a
característica exatamente oposta à alegria de viver, um fato que é, como veremos, da maior
importância para o nosso estudo. Além disso, os protestantes franceses, entre outros,
conservaram e ainda conservam, em certa medida até hoje, as características das igrejas
calvinistas de todos os países, especialmente as sob a cruz do tempo das guerras religiosas.
Não obstante, tais características foram (ou talvez tenham sido até as causas, como
indagaremos mais adiante) sabidamente um dos mais importantes fatores de
desenvolvimento do capitalismo e da indústria na França, e assim permaneceu, na pequena
escala permitida pelas perseguições que sofreram. Se pudermos chamar essa seriedade e
predominância de interesses religiosos na conduta geral da vida de alheamento da matéria,
então os calvinistas franceses foram e ainda são tão desapegados do mundo quanto os
católicos do norte da Alemanha, para os quais sua fé é tão vital como para poucos povos no
mundo.
Ambos diferem de modo semelhante da tendência religiosa predominante em seus
respectivos países. Os católicos da França são, em seus escalões inferiores, grandemente
interessados nos prazeres da vida e, nas camadas superiores, francamente hostis à religião.
Os protestantes da Alemanha, do mesmo modo, são absorvidos pelas atividades
econômicas diuturnas e, nas suas camadas superiores, são muito indiferentes à religião.
Dificilmente alguma coisa poderá mostrar tão claramente como essa comparação que, tais
vagas ideias, como o suposto desapego do Catolicismo e da suposta alegria materialista do
Protestantismo, e outras semelhantes, de nada servem para o nosso propósito. Tais termos
gerais de diferenciação não refletem os fatos de hoje, e certamente nem mesmo os
passados.
Se contudo alguém quiser delas se utilizar, deverá associar lhe diversas outras observações
que sugiram que o aparente conflito entre o desapego, o ascetismo e a devoção eclesiástica
de um lado, e a participação na aquisição de bens materiais do outro, possam de fato vir a
apresentar um íntimo relacionamento.
Um fato que nos parece certamente notável, para começar com uma observação superficial,
é o grande número de representantes das formas mais espirituais da fé cristã que se
originaram nos círculos comercias. O Pietismo, em particular, tem grande número de seus
seguidores mais zelosos com essas origens. Isso pode ser explicado como uma espécie de
reação contra a cobiça por parte das naturezas sensíveis não adaptadas à vida comercial e,
como no caso de Francisco de Assis, muitos pietistas interpretaram sua conversão desse
modo.
Do mesmo modo, é uma notável circunstância que muitos dos maiores empreendedores
capitalistas – até Cecil Rhodes – tenham tido origem em famílias de clérigos, o que pode
ser interpretado como uma reação contra a sua formação ascética.
Essa forma de explicação, contudo, torna se falha quando se combinam um extraordinário
senso capitalístico dos negócios com as mais intensas formas religiosas nas mesmas
pessoas e grupos, e que lhes penetra e direciona a vida toda.
Esses casos não são isolados, mas seus traços são característicos de muitas das mais
importantes Igrejas e seitas da história do Protestantismo. O Calvinismo, em especial, por
onde quer que tenha surgido, mostrou essa combinação. Embora de pouca monta no tempo
da expansão da Reforma, ele (como qualquer outra crença protestante) estava associado a
certas classes sociais específicas, e é característico e até típico que, nas Igrejas dos
Huguenotes da França, monges de negócios (comerciantes e artesãos) fossem
especialmente numerosos entre os fiéis, especialmente no tempo das perseguições.” Mesmo
os espanhóis sabiam que a heresia (isto é, o Calvinismo holandês) promovia os negócios, e
isso coincide com as opiniões que Sir William Petty manifestou em sua discussão sobre as
razões do desenvolvimento capitalista da Holanda. Gothein$ qualifica corretamente a
diáspora calvinista como a semente da economia capitalista. Mesmo em tais casos poderia
se considerar como fator decisivo a superioridade das culturas econômicas francesa e
holandesa de onde se originaram tais comunidades, ou talvez a imensa influência desses na
quebra das relações tradicionais. Mas a situação na França, como sabemos pela luta de
Colbert, era a mesma até o século XVII. Mesmo a Áustria, para não citar outros países,
importava diretamente artífices protestantes.
Mas nem todas as ramificações protestantes parecem ter tido a mesma poderosa influência
nesse sentido. A do Calvinismo, mesmo na Alemanha, parece ter sido das mais fortes, e a fé
reformada” parece ter promovido o desenvolvimento do espírito do capitalismo no
Wupperthal como em outro lugares. Muito mais que o Luteranismo, parecem prová-lo
comparações gerais e particulares, especialmente no Wupperthal. Buckle e, entre os poetas
ingleses, Keats, enfatizaram essa mesma relação com a Escócia. Ainda mais notável, e que
deve ser só mencionada, é a ligação entre um modo de vida religioso e o mais intenso
desenvolvimento da acuidade comercial entre aquelas seitas cujo desapego do mundo é tão
proverbial quanto sua riqueza, especialmente os Quaker e menonitas. O papel que os
primeiros desempenharam na Inglaterra e na América do Norte, coube aos últimos na
Alemanha e na Holanda.
Os menonitas foram tolerados por Frederico Guilherme I, na Prussi a Oriental por tê-los
como indispensáveis para a indústria, a despeito de sua absoluta recusa de prestar serviço
militar; e esse é um dos numerosos e conhecidos fatos que, considerando o caráter daquele
monarca, torna se dos mais significativos. Por fim, essa combinação de intensa
religiosidade com igualmente forte desenvolvimento da acuidade comercial, característica
comum aos Pietistas, é um fato amplamente conhecido. É desnecessário acumular mais exemplos nesta discussão meramente introdutória; esses
poucos já deixam claro um ponto: que o espírito de intenso trabalho, de progresso, ou como
se queira chamá-lo e cujo despertar se esteja propenso a atribuir ao Protestantismo, não
deve ser entendido, como é a tendência, como uma alegria de viver ou por qualquer outro
sentido ligado ao Iluminismo. O velho Protestantismo de Lutero, Calvino, Knox e Voet
tinha bem pouco a ver com o que é hoje chamado de progresso.
Aquele era abertamente hostil a aspectos inteiros da vida moderna, que hoje não são mais
contestados nem pelos religiosos mais ferrenhos. Se quisermos encontrar uma relação
interna entre certas expressões do velho espírito protestante e a cultura capitalista moderna, deveremos tentar encontrá-la, bem ou mal, não na alegria de viver mais ou menos
materialista, ou ao menos anti-ascética, mas nas suas características puramente religiosas.
Mostesquieu (Esprit des Lois, Livro XX, cap, 7) diz dos ingleses que “foram, de todos os
povos, os que mais progrediram em três coisa importantes: na religião, no comércio e na
liberdade”. Não seria possível que sua superioridade comercial e sua adaptação às
instituições políticas liberais tivessem, de algum modo, relação com a religiosidade que
Mostesquieu lhes atribui? Ocorre-nos um grande número de relações possíveis, vagamente percebidas, quando
colocamos a questão nesses termos. Será agora nossa tarefa formular com a maior clareza
possível aquilo que percebemos confusamente, considerando a infindável diversidade de
todo o material histórico. Mas para chegar a isso, é necessário deixarmos de lado os
conceitos vagos e gerais com os quais lidamos até aqui, e tentar penetrar nas características
peculiares e nas diferenças entre esses grandes mundos do pensamento religioso que
existiram historicamente nos vários ramos do Cristianismo. Contudo, antes de
continuarmos, se fazem necessárias algumas observações, primeiro quanto às
peculiaridades do fenômeno do qual buscamos uma explicação histórica, e depois quanto
ao sentido em que tal explicação é possível dentro dos limites dessas investigações
und Sozialpolitik.– Tübinger, 1904/5. Vols.: XX e
XXI.
Introdução do autor
Ao estudarmos qualquer problema da história universal, o produto da moderna civilização
europeia estará sujeito à indagação de quais combinações de circunstâncias se pode atribuir
o fato de na civilização ocidental, e só nela, terem aparecido fenômenos culturais que,
como queremos crer, apresentam uma linha de desenvolvimento de significado e valor
universais.
Apenas no Ocidente existe uma ciência num estágio de desenvolvimento que
reconhecemos, hoje, como válido. O conhecimento empírico, as reflexões sobre o universo
e a vida, a sabedoria filosófica e teológica das mais profundas não estão aqui confinadas,
embora no caso desta última o pleno desenvolvimento da teologia sistemática deva ser
creditado ao cristianismo sob a influência do helenismo, uma vez que dela houve apenas
fragmentos no islamismo e numas poucas seitas hindus. Em poucas palavras, conhecimento
e observação de grande finura sempre existiram em toda parte, principalmente na índia, na
China, na Babilônia e no Egito. Mas à astronomia da Babilônia e às demais faltavam – o
que torna seu desenvolvimento mais assombroso – as bases matemáticas recebidas
primeiramente dos gregos. A geometria hindu não tinha provas racionais, que foram outro
produto do intelecto grego, criador também da mecânica e da física. As ciências naturais da
índia, embora de todo desenvolvidas sobre a observação, careciam de método de
experimentação o que foi, longe de seus alvores na Antiguidade, um produto
essencialmente do Renascimento, assim como o moderno laboratório. A medicina,
especialmente na índia, embora altamente desenvolvida quanto às técnicas empíricas,
carecia de fundamentos biológicos e particularmente bioquímicos. Uma química racional
tem estado ausente de todas as áreas dá cultura que não a ocidental.
A erudição histórica chinesa, altamente desenvolvida, não possuía o método de Tucídides.
É verdade que Maquiavel teve predecessores na índia; mas todo o pensamento político da
índia carecia de um método sistematizado como o de Aristóteles e, de fato, de conceitos
racionais. Nem todas as antecipações da índia (Escola de Mimamsa), nem as extensas
codificações, especialmente no Oriente Próximo, nem todos os livros de leis da índia e de
outros lugares possuíam formas estritamente sistemáticas de pensamento, tão essenciais a
uma jurisprudência racional como a lei romana e o direito ocidental por ela influenciado.
Uma estrutura como o cânone jurídico é conhecida apenas no Ocidente.
A mesma observação é válida no tocante às artes. O ouvido musical dos outros povos era,
provavelmente, de sensibilidade até mais desenvolvida do que o nosso; e certamente não o
era menos. A música polifônica de diversos tipos era amplamente distribuída sobre o
planeta. Diversos instrumentos tocando em conjunto, assim como o canto de partes da
música, existiram em toda parte. Todos os nossos intervalos racionais de tons eram conhecidos e calculados. Mas a música de harmonia racional tanto o contraponto quanto a
harmonia , a formação do tom básico sobre três tríades com o terceiro harmônico; nossa
cromática e enarmônica, não interpretadas em termos de espaço mas, desde o
Renascimento, em termos de harmonia; nossa orquestra, com seu núcleo de quarteto de
cordas e a organização do conjunto de sopros; nosso acompanhamento de graves; nosso
sistema de notação, que tornou possível a composição e o moderno trabalho musical e,
pois, a sua própria sobrevivência; nossas sonatas, sinfonias, óperas e, finalmente, nossos
instrumentos fundamentais que são expressão daquelas: o órgão, o piano, o violino etc.
Todas essas coisas são conhecidas apenas no Ocidente, embora a música descritiva, a
poesia tonal, as alterações de tonalidade e cromáticas tenham existido como meios de
expressão de várias tradições musicais.
Em arquitetura, o arco ogival tem sido usado em toda parte como meio de decoração, na
Antiguidade e na Ásia; presumivelmente, a combinação do arco ogival com a abóbada em
cruz não era desconhecida no Oriente. Mas o uso racional da abóbada gótica como meio de
distribuição de cargas e cobertura de espaços de todas as formas e, como um princípio
construtivo de grandes edificações monumentais e como fundamento de um estilo,
extensivo à escultura e à pintura, como as criadas pela Idade Média, não ocorreu em
nenhum outro lugar. As bases técnicas de nossa arquitetura nos vieram do Oriente. Nelas
porém faltava a solução do problema da cúpula e o tipo de racionalização de toda a as artes – no caso da pintura, a utilização racional das linhas e a perspectiva espacial que o
Renascimento criou. Houve a impressão na China, mas a literatura impressa, projetada
apenas para a impressão e por ela possibilitada e, acima de tudo, a Imprensa e os
periódicos, apareceram só no Ocidente.
As instituições de educação superior, de todos os tipos possíveis, mesmo algo semelhantes,
superficialmente, às nossas Universidades, ou pelo menos, às nossas Academias, existiram
na China e no Islão. Mas a busca racional, sistemática e especializada da ciência por parte
de pessoal treinado e especializado existiu somente no Ocidente, num sentido que se
aproxima de seu papel dominante na nossa cultura atual. Isso é verdadeiro, acima de tudo,
no tocante ao funcionário público treinado, pilar tanto do Estado moderno quanto da vida
econômica do Ocidente. Este constitui um tipo do qual antigamente só se encontraram
sugestões, que nunca apresentaram, nem remotamente, a importância que tem no presente
para a ordem social. Naturalmente o funcionário público, mesmo o especializado, é um
constituinte muito antigo das mais diversas sociedades. Mas nenhuma época e nenhum país
experimentaram jamais, no mesmo sentido do Ocidente atual, a absoluta e completa
dependência de sua existência, de suas condições econômicas, políticas e técnicas, de uma
organização de funcionários especialmente treinados. As funções mais importantes da vida
diária da sociedade são desempenhadas por funcionários públicos treinados técnica,
comercial, e acima de tudo legalmente.
A organização de grupos políticos e sociais era uma coisa comum na estrutura feudal. Mas
mesmo o estado feudal do rex et regnum no sentido ocidental só foi conhecido na nossa
cultura. Os parlamentos de representantes eleitos periodicamente, com a liderança de
demagogos e chefes de partido como ministros responsáveis perante o parlamento, são
peculiaridade nossa, embora naturalmente sempre tenha havido partidos no mundo todo, no sentido de uma organização que exerce influência e busca ganhar o controle do poder
político. De fato, o próprio Estado, tomado como uma associação política com uma
constituição racionalmente redigida, leis racionalmente ordenadas é uma administração
coordenada por regras racionais ou leis, administrado por funcionários treinados, é
conhecido, nessa combinação de características, apenas no Ocidente, a despeito de todas as
outras que dele se aproximam.
E o mesmo é verdade também para a mais decisiva força da nossa vida moderna: o
capitalismo. O impulso para o ganho, a persecução do lucro, do dinheiro, da maior
quantidade possível de dinheiro, não tem, em si mesma, nada que ver com o capitalismo.
Tal impulso existe e sempre existiu entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas,
funcionários desonestos, soldados, nobres, cruzados, apostadores, mendigos etc... Pode-se
dizer que tem sido comum à toda sorte e condição humanas em todos os tempos e em todos
os países da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade objetiva para tanto. É
coisa do jardim de infância da história cultural a noção de essa idéia ingênua de capitalismo
deva ser eliminada definitivamente. A ganância ilimitada de ganho não se identifica, nem
de longe, com o capitalismo, e menos ainda com seu “espírito”. O capitalismo, pode
eventualmente se identificar com a restrição, ou pelo menos com uma moderação racional
desse impulso irracional. O capitalismo, porém identifica-se com a busca do lucro, do lucro
sempre renovado por meio da empresa permanente, capitalista e racional. Pois assim deve
ser: numa ordem completamente capitalista da sociedade, uma empresa individual que não
tirasse vantagem das oportunidades de obter lucros estaria condenada à extinção.
Definamos agora nossos termos com uma precisão algo maior do que a usual. Definiremos
como ação econômica capitalista aquela que repousa na expectativa de lucros pela
utilização das oportunidades de troca, isto é, nas possibilidades (formalmente) pacíficas de
lucro. A aquisição pela força, (formalmente e de fato) segue suas próprias leis particulares,
e não seria conveniente, embora não se possa proibi-lo, colocá-la na mesma categoria da
ação que é, em última análise, orientada para o lucro por meio da troca. Onde a aquisição
capitalista é obtida racionalmente, a ação correspondente é ajustada por cálculo em termos
de capital. Isso significa que a ação é adaptada à utilização sistemática dos recursos ou dos
serviços pessoais como meio de aquisição, de modo que, ao término de um período de
negócios, o balanço da empresa, em termos de dinheiro (ou, no caso de empresa
permanente, o valor monetário estimado de seus bens) exceda o capital, isto é, o valor
estimado dos meios materiais de produção utilizados para â aquisição na troca. Não importa
que isso envolva uma quantidade de bens in natura confiados a um caixeiro viajante, cuja
renda podem ser outros bens in natura adquiridos em troca ou que envolva uma empresa
manufatureira cujos ativos sejam prédios, máquinas, liquidez monetária, matéria prima,
produtos completa ou parcialmente acabados, tudo contabilizado contra os compromissos.
O fato importante é que o cálculo do capital é sempre feito em dinheiro, quer pelos
modernos métodos de contabilidade, quer por qualquer outro método, por mais primitivo e
grosseiro que seja. Tudo é feito em termos de balanços: um balanço inicial no começo da
empresa; outro antes de qualquer decisão individual, como cálculo de sua provável
lucratividade e um balanço final para apurar o lucro obtido.
Por exemplo, o balanço inicial de uma transação por commenda pode determinar um valor
monetário acordado dos bens negociados (até que não esteja ainda expresso em dinheiro), e
o balanço final poderá dar uma estimativa básica da distribuição dos lucros e perdas no
final. Quando a transação é racional, o cálculo é a base de toda ação individual dos
parceiros. O fato de poder não existir um cálculo realmente preciso de o procedimento ser
mera adivinhação ou simplesmente tradicional e convencional ocorre ainda hoje em todas
as formas de empreendimento capitalista nas quais as circunstâncias não exijam grande
precisão. Contudo, esses pontos afetam apenas o grau da racionalidade da aquisição
capitalista.
Para os propósitos desta concepção, o importante é ocorrer um verdadeiro ajuste da ação
econômica no cotejo entre o dinheiro que entra e as despesas, não importando o quão
primitiva possa ser sua forma. Ora, nesse sentido, o capitalismo e as empresas capitalistas,
inclusive com uma considerável racionalização do cálculo, existiram em todos os países
civilizados do planeta, até onde a documentação econômica nos permite avaliar; isso na
China, na índia, na Babilônia, no Egito, na Antiguidade Mediterrânea e na Idade Média
tanto quanto nos tempos modernos. O que havia não eram meramente empreendimentos
isolados, mas empresas econômicas inteiramente dependentes da contínua renovação dos
empreendimentos capitalistas e até de operações contínuas. Contudo, o comércio em
especial não teve, por longo tempo, a continuidade dos nossos empreendimentos atuais,
mas consistiu essencialmente numa série de empreendimentos individuais. Foi só
gradualmente que tais atividades, mesmo as dos grandes comerciantes, adquiriram uma
coerência interna (com a urbanização de ramificações etc.) Em todos os casos, a empresa
capitalista e o empresário capitalista, não só como ocasionais, mas como empreendimentos
estáveis, são muito antigos e difundidos pelo mundo.
Contudo, o Ocidente desenvolveu o capitalismo tanto em sua dimensão quantitativa, sem
abrir mão daquele desenvolvimento, como em tipos, formas e direções que nunca existiram
antes em parte alguma. Pelo mundo inteiro têm havido comerciantes, atacadistas e
varejistas, locais e envolvidos em comércio exterior. Têm sido feitos empréstimos de todo
tipo e tem havido bancos com as mais diversas funções, comparáveis, digamos, aos nossos
do século XVI. Empréstimos marítimos, commenda, transações e associações semelhantes
à Kommanditgesellschaft tem sido muito disseminados, mesmo como negócio constante.
Por onde existiram financiamentos monetários de corporações, apareceram os agiotas,
como na Babilônia, na Grécia, na índia, na China, e em Roma. Financiaram guerras e
piratarias, contratos e operações de construção de todo tipo. Na política de ultramar,
funcionaram como empreendedores colonialistas, como plantadores escravistas ou com
trabalho direta ou indiretamente forçado, arrendaram domínios, repartições e, sobretudo
tudo, impostos. Financiaram líderes partidários em eleições e condottieri em guerras civis.
E finalmente, tem sido especuladores das oportunidades de ganho monetário de todos os
tipos. Esse tipo de empreendedor, o aventureiro capitalista, existiu em toda parte. Suas
atividades, à exceção do comércio e do crédito, assim como das transações bancárias, eram
de caráter predominantemente irracional e especulativo, ou direcionado para a aquisição
pela força, sobretudo a aquisição do botim, tanto na guerra como na exploração fiscal
contínua das pessoas a eles sujeitas.
O capitalismo dos patrocinadores, dos grandes especuladores, dos caçadores de concessões
e muito do moderno capitalismo financeiro, mesmo em tempos de paz mas, acima de tudo,
aquele capitalismo envolvido com a exploração da guerra, ostenta essa marca mesmo nos
modernos países do Ocidente, e uma parte – e apenas uma parte – do grande comércio
internacional está estritamente relacionado com isso, hoje como sempre.
Modernamente, porém, o Ocidente desenvolveu, além desse, uma forma muito diferente de
capitalismo, que nunca havia aparecido antes: a organização capitalista racional do trabalho
livre (pelo menos formalmente). Dele encontramos apenas sugestões noutras partes. Até a
organização do trabalho escravo encontrou um nível considerável de racionalidade apenas
nas plantações, e em num grau muito pequeno na Ergasteria da Antiguidade. Nos feudos,
as oficinas, a indústria caseira e as propriedades movidas pelo trabalho servil foram
provavelmente ainda menos desenvolvidas. E mesmo as industrias caseiras reais com
trabalho livre existiram comprovadamente em apenas poucos casos isolados fora do
Ocidente. O uso frequente de trabalhadores diaristas levou; em pouquíssimos casos, –
especialmente em monopólios estatais que eram muito diferentes da moderna organização
industrial; – à criação de organizações manufatureiras, mas nunca à organização racional do
aprendizado das habilidades como na nossa Idade Média.
A organização industrial racional, voltada para um mercado regular e não para as
oportunidades especulativas de lucro, tanto políticas como irracionais, não é, contudo, a
única peculiaridade do capitalismo ocidental. A moderna organização racional das
empresas capitalistas não teria sido possível sem dois outros fatores importantes em seu
desenvolvimento: a separação dos negócios da moradia da família, fato que domina
completamente a vida econômica e, estritamente ligada a isso, uma contabilidade racional.
A separação espacial entre os locais de trabalho e os de residência existia em outros
lugares, como nos bazares orientais ou nas Ergasteria de outras culturas. O
desenvolvimento de associações capitalistas auto suficientes é também encontrado no
Extremo Oriente, no Oriente Próximo e na Antiguidade. Comparadas porém com a
independência das modernas empresas de negócios, constituem se apenas em tímidos
primórdios. A razão disso era, particularmente, que estavam completamente ausentes, ou
estavam apenas começando a se desenvolver, os requisitos indispensáveis de sua
independência, como nossa contabilidade racional e nossa separação legal entre as
propriedades particulares e as da empresa. A tendência generalizada era o crescimento das
empresas aquisitivas como parte de uma casa real ou feudal – do oikos – que era, como o
percebeu Rodbertus, com toda a sua semelhança superficial, um desenvolvimento
basicamente diferente, e até oposto.
Contudo, todas essas peculiaridades do capitalismo ocidental derivaram seu significado, em
última análise, apenas de sua associação com a organização capitalista do trabalho. Mesmo
o que é geralmente chamado de comercialização – o desenvolvimento de títulos
negociáveis e a racionalização da especulação, das trocas etc., estão a ela ligadas. De fato,
sem a organização capitalista do trabalho, tudo isso, até onde fosse possível, não teria o
mesmo significado, quanto à estrutura social e todos, os problemas específicos ocidentais
da atualidade que daquela derivam. O cálculo exato, base para as demais coisas, só é
possível se baseado no trabalho livre.
E assim como o mundo não conheceu uma organização racional do trabalho fora do
Ocidente moderno, ou talvez por causa disso mesmo, tampouco conheceu um socialismo
racional. Na verdade, existiram a economia cívica, uma política de abastecimento cívico, o
mercantilismo, a política de bem estar social dos príncipes, o racionamento, a
regulamentação da vida econômica, o protecionismo e teorias do laissez faire (como na
China). O mundo conheceu também experiências socialistas e comunistas de vários tipos:
familiar, religioso, militar, o socialismo de Estado (no Egito), cartéis monopolistas, e
organizações de consumidores. Mas embora tenha havido em toda parte privilégios de
mercado urbano, companhias, corporações e toda sorte de diferenças legais entre a cidade e
o campo, o conceito de cidadão e o de burguesia não existiram fora do moderno Ocidente.
Do mesmo modo, o proletariado como classe não poderia ter existido, pois não existia uma
organização racional do trabalho livre sob disciplina metodizada. As lutas de classe entre as
parcelas credoras e devedoras; proprietários rurais e sem terra, servos ou meeiros;
interesses comerciais e consumidores ou senhores de terras existiram em toda parte nas
mais diversas combinações. Mas mesmo as lutas medievais entre empreiteiros e seus
trabalhadores existiram, noutros lugares, apenas no começo. O atual conflito entre o
empreendedor industrial de grande escala e os trabalhadores livres era totalmente ausente.
E por isso, não poderia haver os problemas com o socialismo.
Assim, numa história universal da cultura, mesmo de um ponto de vista puramente
econômico, não é, em última análise, o desenvolvimento da atividade capitalista como tal,
diferindo nas diversas culturas apenas quanto à forma: o tipo aventureiro, o capitalismo do
comércio, da guerra, da política ou da administração como fontes de lucro e que é o ponto
chave. É antes a origem desse sóbrio capitalismo burguês com sua organização racional do
trabalho. Ou, em termos de história da cultura, o problema é o da origem da classe burguesa
ocidental e suas peculiaridades, um problema que está com certeza estritamente ligado ao
da origem da organização capitalista do trabalho, embora não se trata da mesma coisa. Pois
os burgueses como classe existiam antes dó desenvolvimento das modernas formas
peculiares do capitalismo, embora de fato, apenas no hemisfério ocidental.
À primeira vista, a forma especial do moderno capitalismo ocidental teria sido fortemente
influenciada pelo desenvolvimento das possibilidade técnicas. Sua racionalidade é hoje
essencialmente dependente da calculabilidade dos fatores técnicos mais importantes. Mas
isso significa basicamente que é dependente da ciência moderna, especialmente das
ciências naturais baseadas na matemática e em experimentações exatas e racionais. Por
outro lado, o desenvolvimento de tais ciências e das técnicas que nelas se apóiam recebe,
agora importante estímulo dos interesses capitalistas quanto a suas aplicações econômicas
práticas. É verdade que a origem da ciência ocidental não pode ser atribuída a tais
interesses. O cálculo, mesmo com decimais, e a álgebra, foram adotados na índia, onde o
sistema decimal foi inventado; mas seu uso foi desenvolvido apenas pelo capitalismo no
Ocidente, pois na índia isso não levou à moderna aritmética e contabilidade. Nem podemos
dizer que as origens da matemática e da mecânica tenham sido determinadas pelos
interesses capitalistas. Mas a utilização técnica do conhecimento científico, tão importante
para as condições de vida da massa do povo, foi certamente incentivada pelas
considerações econômicas, que lhe eram extremamente favoráveis no mundo ocidental.
Esse incentivo, porém, derivava das peculiaridades da estrutura social no Ocidente. Devemos mesmo perguntar de qual parte de tais estruturas derivava, uma vez que nem
todas poderiam ter sido da mesma importância.
Entre os fatores de importância incontestável estão as estruturas racionais das leis e da
administração, pois que o moderno capitalismo racional não necessita apenas dos meios
técnicos de produção, mas também de um sistema legal calculável e de uma administração
baseada em termos de regras formais. Sem isso, o capitalismo aventureiro e de comércio
especulativo e todo tipo de capitalismo politicamente determinado seriam possíveis, mas
não o empreendimento racional da iniciativa privada, com capital fixo e cálculos certeiros.
Tais tipos de sistemas legais e de administração, num grau relativo de perfeição legal e
formal, têm sido disponíveis para a atividade econômica apenas no Ocidente. Devemos pois
perguntar de onde se originou esse sistema legal. Entre outras circunstâncias, o interesse
capitalista, por sua vez, sem dúvida contribuiu para preparar o caminho à predominância do
direito.e,à administração a de uma classe de juristas especialmente treinados na legislação
nacional, embora não tenha sido o único nem o principal. Forças bem diferentes atuaram no
seu desenvolvimento. E porque os interesses capitalistas não fizeram o mesmo na índia ou
na China? Porque lá o desenvolvimento científico, artístico, político ou econômico não
tomou o mesmo caminho de racionalização que é peculiar ao Ocidente? Porque em todos os
casos acima o problema é o racionalismo peculiar e específico da cultura ocidental. Ora,
nesses termos, pode-se entender coisas muito diferentes, como a discussão a seguir
mostrará repetidamente. Temos, por exemplo, a racionalização da contemplação mística,
atitude que, vista sob outro prisma da vida, é especialmente irracional, e temos também
como temos as racionalizações da vida econômica, da técnica, da pesquisa científica, do
treino militar, do direito e da administração. Além disso, cada um desses campos pode ser
racionalizado em termos consoantes com valores últimos e finalidades muito diferentes, e o
que é racional de um certo ponto de vista, poderá ser irracional de outro. Racionalizações
dos mais variados tipos têm existido em vários setores da vida, em todas as áreas da cultura.
Para caracterizar suas diferenças de um ponto de vista da história da cultura é necessário
saber quais setores foram racionalizados e em que direção. Por isso, nossa primeira
preocupação é desvendar e explicar a gênese e a peculiaridade do racionalismo ocidental e,
por esse enfoque, sua forma moderna.
Cada tentativa de explicação deve, reconhecendo a importância fundamental do fator
econômico, tomar em consideração, acima de tudo as condições econômicas. Mas ao
mesmo tempo, não se deve deixar de considerar a correlação oposta. E isso porque o
desenvolvimento do racionalismo econômico é parcialmente dependente da técnica e do
direito racionais, mas é ao mesmo tempo determinado pela habilidade e disposição do
homem em adotar certos tipos de conduta racional prática. Quando tais tipos de conduta
têm sido obstruídos por obstáculos espirituais, o desenvolvimento da conduta econômica
racional encontrou também séria resistência interna. As forças mágicas e religiosas e as
ideias éticas de dever nelas baseadas têm estado sempre, no passado, entre as mais
importantes influências formativas da conduta. Nos estudos aqui coletados, ocuparemos nos
de tais forças.
Dois ensaios anteriores foram colocados no início, como tentativa de abordar um ponto
importante do problema que é geralmente mais difícil de ser apanhado: a influência de certas ideias religiosas no desenvolvimento de um espírito econômico, ou o ethos de um
sistema econômico. Nesse caso estamos lidando com a conexão do espírito da moderna
vida econômica com a ética racional da ascese protestante. Assim, tratamos aqui apenas de
um lado do encadeamento causal. Os estudos posteriores sobre Ética Econômica das
Religiões Mundiais tentam uma visão geral das relações entre as mais importantes
religiões, a vida econômica e a estratificação social de seu meio, para seguir ambas as
relações causais até onde for necessário para achar pontos de comparação com o
desenvolvimento ocidental.
Só desse modo se pode tentar uma avaliação causal daqueles elementos da ética econômica
das religiões ocidentais que as diferenciam das outras, na esperança de obter ao menos um
grau tolerável de aproximação. Daí tais estudos não terem a pretensão de serem análises
culturais completas, ainda que breves. Pelo contrário, enfatizam propositalmente, em cada
cultura, os elementos que as diferenciam da civilização ocidental. São eles, pois, orientados
definitivamente para os problemas que parecem importantes para a compreensão da cultura
ocidental desse ponto de vista. Com tal objetivo em mente, não seria possível qualquer
outro procedimento. Mas, para evitar mal entendidos, devemos dar uma ênfase especial às
limitações do nosso propósito.
Por outro lado, os não iniciados devem ser, no mínimo, alertados para não exagerar a
importância de tais investigações. O sinólogo, indólogo, o semitólogo ou egiptólogo não
encontrarão aqui, logicamente, nenhuma novidade. Esperamos apenas que não encontrem
nada de definitivamente errado nos pontos essenciais. O autor não sabe até que ponto um
não especialista pôde se aproximar desse ideal. É bem evidente que qualquer um que seja
obrigado a confiar em traduções e, mais ainda, no uso e avaliação de fontes monumentais,
documentais ou literárias, deve se valer de literatura específica, muitas vezes controvertida,
e cujos méritos não é capaz de avaliar corretamente; tal escritor só pode achar modesto o
valor do seu trabalho. E, ademais, a quantidade de traduções disponíveis de fontes
verdadeiras (isto é, de inscrições e documentos) é ainda muito pequena, especialmente em
relação à China, em comparação com tudo o que existe de importante. De tudo isso se
depreende o caráter decididamente provisório destes estudos, especialmente das partes
relativa à Ásia. Apenas o especialista tem competência para um julgamento definitivo. E
naturalmente, os presentes estudos foram escritos apenas porque ainda hão foram feitos
estudos especializados com este intuito particular e deste particular ponto de vista. Eles
estão destinados a ser ultrapassados, num sentido muito mais importante, digamos, que um
trabalho científico. Mas uma invasão de outro campos específicos, por mais reprovável que
possa ser, não pode ser evitada num estudo comparativo; e disso se devem assumir as
consequências, resignando se às grandes dúvidas quanto ao grau de sucesso alcançado.
A moda e o zelo dos literati nos faz considerar, hoje, o especialista como dispensável, ou
relegá-lo à posição subalterna de observador. Quase todas as ciências devem algo aos
diletantes, com frequência pontos de vista muito valiosos. O diletantismo¹ porém, como
princípio, seria o fim da ciência. Aquele que tiver vontade de ver pode ir ao cinema,
embora hoje lhe seja também oferecido, fartamente, o presente campo de investigação na
forma literária. Nada está mais longe destes estudos, profundamente sérios, que tal atitude.
E posso acrescentar, quem quiser ouvir um sermão, que vá a um convento. A questão do valor relativo das culturas aqui comparadas, não recebe uma palavra sequer. É bem verdade
que os caminhos do destino humano só podem amedrontar a quem dele observa apenas um
segmento. Mas será oportuno que guarde para si a esses pequenos comentários pessoais,
como se faz à vista do mar ou de montanhas majestosas, a menos que se ache com vocação
e capacidade para lhes dar expressão artística ou forma profética. Em muitos outros casos, a
volumosa conversa sobre intuição nada mais faz senão ocultar uma falta de perspectiva em
relação ao objeto, que merece o mesmo julgamento que a semelhante falta de perspectiva
para com o homem.
[1] Diletantismo - Comportamento de quem age com imaturidade diante das regras e das normas que uma atividade pode requerer; amadorismo. Dedicação a alguma coisa somente pelo prazer que ela lhe proporciona. Característica da pessoa que gosta do que está relacionado com as artes ou com a literatura; gosto direcionado para as artes ou para a música. Característica do que se realiza ou se desenvolve de maneira desinteressada, sem apuro ou cuidado.
É necessária uma justificativa para o fato de não ter sido utilizado o material etnográfico
numa extensão compatível com o valor que sua contribuição naturalmente mereceria em
qualquer investigação profunda, especialmente quanto às religiões asiáticas. Tal limitação
não foi apenas imposta pelo restrito potencial humano de trabalho. A omissão pareceu nos
permissível por estarmos aqui, necessariamente, tratando da ética religiosa das classes que
foram as vigas mestras da cultura em seus respectivos países. O que interessa é a influência
que sua conduta teve. É bem verdade que esta só pode ser completamente conhecida em
todos os detalhes quando comparada com a etnografia¹ e com o folclore. Devemos pois
admitir expressamente e enfatizar que essa é uma falha a que o etnógrafo porá,
legitimamente, objeções. Espero contribuir de algum modo para o preenchimento dessa
lacuna, com um estudo sistemático da Sociologia da Religião. Tal empreendimento teria
extrapolado os limites desta investigação e de seu propósito circunscrito. Ela teve de se
contentar em trazer à luz os pontos de comparação com as nossas religiões ocidentais, tanto
quanto o possível.
[1] Etnografia - é um método de pesquisa qualitativa que descreve e interpreta práticas culturais, sociais e simbólicas de grupos humanos, baseado principalmente na observação participante e no trabalho de campo prolongado.
Por fim, podemos fazer referência ao lado antropológico do problema. Quando achamos,
repetidamente, mesmo em setores da vida aparentemente independentes, que certos tipos de
racionalização se desenvolveram no Ocidente, e só aqui no Ocidente, seria natural suspeitar
que a razão mais importante das diferenças estivesse na hereditariedade. O autor admite
estar inclinado a pensar que a importância da hereditariedade biológica seja muito grande.
Mas apesar dos notáveis achados da pesquisa antropológica, não vejo, até o presente, como
medir, exata ou aproximadamente, quer a extensão, quer, sobretudo, a forma de sua
influência no desenvolvimento aqui investigado. Deve ser uma das primeiras tarefas da
investigação sociológica e histórica analisar todas as influências e relações causais que
possam ser explicadas satisfatoriamente em termos de reações ao meio ambiente. Só então,
e quando a neurologia e psicologia raciais comparativas tiverem progredido além dos atuais
e de certo modo promissores estágios, poderemos esperar por uma probabilidade de
resposta satisfatória para essa questão. Por ora, essa condição me parece não existir, e um
apelo à hereditariedade envolveria assim uma renúncia prematura à possibilidade de um
conhecimento atingível agora, e deslocaria o problema para fatores ainda desconhecidos no
presente.