quinta-feira, 14 de maio de 2026

Cinema: Casanova de Fellini

FEDERICO FELLINI (1976) 

Il Casanova di Federico Fellini


No século XVIII, o libertino bibliotecário Giacomo Casanova é um grande colecionador de boas histórias. Visitante frequente da nobreza, ele viajou para todas as capitais europeias e conheceu as mais diversas culturas, além de manter alguns relacionamentos amorosos. ele sonha com a boneca perfeita... sem alma e sem consciência.





𝑵𝒐𝒎𝒆 𝒅𝒐 𝑭𝒊𝒍𝒎𝒆: CasaNova de Fellini
𝑻𝒊́𝒕𝒖𝒍𝒐 𝑶𝒓𝒊𝒈𝒊𝒏𝒂𝒍: Il Casanova di Federico Fellini
𝑮𝒆̂𝒏𝒆𝒓𝒐: Biografia, Drama, Clássico
𝑫𝒊𝒓𝒆𝒄̧𝒂̃𝒐: FedericoFellini
𝑬𝒔𝒕𝒓𝒆𝒍𝒂𝒏𝒅𝒐: Carmen Scarpitta | Cicely Browne | Clara Algranti | Daniel Emilfork | Donald Sutherland | Dudley Sutton | Harold Innocent | Tina Aumont






Direção
Federico Fellini

Roteiristas
Giacomo Casanova
Federico Fellini
Bernardino Zapponi

Elenc
Donald Sutherland como Giacomo Casanova
Tina Aumont como Henriette
Cicely Browne como Madame D'Urfé
Carmen Scarpitta como Madame Charpillon
Clara Algranti como Marcolina
Daniela Gatti como Giselda
Margareth Clémenti como Sister Maddalena
Olimpia Carlisi como Isabella
Silvana Fusacchia como Isabella's sister
Chesty Morgan como Barberina (cenas deletadas) (apenas creditado)
Leda Lojodice como Rosalba the mechanical doll
Sandra Elaine Allen como Angelina the giantess
Clarissa Mary Roll como Anna Maria
Daniel Emilfork como Marquis Du Bois
Luigi Zerbinati como Pope
Hans van de Hoek como Prince Del Brando
Dudley Sutton como Duke of Wuertemberg
John Karlsen como Lord Talou
Reggie Nalder como Faulkircher
Majorite Belle como Countess of Waldenstein (não creditado)
Alessandra Belloni como Princess (não creditado)
Mariano Brancaccio como Dancer (não creditado)
Carli Buchanan como Aristocratic woman in Rome (não creditado)
Mario Cencelli como Moebius (não creditado)
Francesco De Rosa como Servant of Casanova in London (não creditado)
Mario Gagliardo como Righetto (não creditado)
Angelica Hansen como Hunchbacked lady (não creditado)
Donald Hodson como Hungarian captain (não creditado)
Harold Innocent como Count Saint-Germain (não creditado)
Diane Kurys como Madame Charpillon (não creditado)
Norbert Losch como Admiral at dinner table (não creditado)
Elisa Mainardi como Party guest (não creditado)
Mauro Mannatrizio como Man watching aged Casanova poetry recital (não creditado)
Mary Marquet como Casanova's mother (não creditado)
Maria Mascarielli como Dinner guest (não creditado)
Veronica Nava como Romana (não creditado)
Gennarino Pappagalli como Servant of Prince Dal Brando (não creditado)
Marie Párová (não creditado)
Isabel Pisano como (não creditado)
Marika Rivera como Astrodi (não creditado)
Nicholas Smith como Casanova's Brother (não creditado)
Antonio Spinnato como Stage Actor (não creditado)
Pietro Torrisi como Brute Man (não creditado)
Dan van Husen como Viderol (não creditado)
Jean-Claude Vernè como Party guest (não creditado)
Renato Zero como Organist (não creditado)


Ainda que o roteiro seja baseado na autobiografia Histoire de Ma Vie, do aventureiro italiano Giacomo Casanova, a história se desenrola sob a ótica muito particular do diretor Fellini. Daí, a inclusão de seu nome no título do filme. Apesar de ambientada em vários países da Europa, a produção foi toda rodada nos estúdios Cinecittà, em Roma.

A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Quilombo / Casanova de Fellini /     

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Casanova sonha com a boneca perfeita... sem alma e sem consciência.

Espumas Flutuantes - A Luís

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

A LUÍS
  No dia de seu natalício
A imaginação, com o voo ousado, aspira
a princípio à eternidade... Depois um
pequeno espaço basta em breve para os destroços
de nossas esperanças iludidas!...
Goethe

Como um perfume de longínquas plagas
Traz o vento da pátria ao peregrino, 
 Ó meu amigo! que saudade infinda 
 Tu me trazes dos tempos de menino! 

É o ledo enxame de sutis abelhas 
 Que vem lembrar à flor o mel d’aurora... 
 Acres perfumes de uma idade ardente 
 Quando o lábio sorri... mas nunca chora! 

Que tempos idos! que esperanças louras! 
 Que cismas de poesia e de futuro! 
 Nas páginas do triste Lamartine 
 Quanto sonho de amor pousava puro!... 

E tu falavas de um amor celeste, 
 De um anjo, que depois se fez esposa... 
 — Moça, que troca os risos de criança 
 Pelo meigo cismar de mãe formosa. 

Oh! meu amigo! neste doce instante 
 O vento do passado em mim suspira, 
 E minh’alma estremece de alegria, 
 Como ao beijo da noite geme a lira. 

Tu paraste na tenda, ó peregrino! 
 Eu vou seguindo do deserto a trilha; 
 Pois bem... que a lira do poeta errante 
 Seja a bênção do lar e da família. 
 Rio, fevereiro de 1868


DALILA
Fair defect of nature 
 Paradise Lost — Milton
Foi desgraça, meu Deus!... Não!... Foi loucura 
 Pedir seiva de vida — à sepultura, 
 Em gelo — me abrasar, 
 Pedir amores — a Marco sem brio, 
 E a rebolcar-me em leito imundo e frio 
 — A ventura buscar.

Errado viajor — sentei-me à alfombra 
 E adormeci da mancenilha à sombra 
 Em berço de cetim... 
 Embalava-me a brisa no meu leito... 
 Tinha o veneno a lacerar-me o peito 
— A morte dentro em mim...

Foi loucura!... No ocaso — tomba o astro; 
 A estátua branca e pura de alabastro 
 — Se mancha em lodo vil... 
 Quem rouba a estrela — à tumba do ocidente? 
 Que Jordão lava na lustral corrente 
 O marmóreo perfil?...  

.....................................................................

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta 
 Ela passou sozinha, macilenta 
 Tremendo a soluçar... 
 Chorava — nenhum eco respondia... 
 Sorria — a tempestade além bramia... 
 E ela sempre a marchar.  

E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma. 
 Tens os pés a sangrar? — podes em calma 
 Dormir no peito meu. 
 Pomba errante — é meu peito um ninho vago! 
 Estrela — tens minha alma — imenso lago — 
 Reflete o rosto teu!... 

E amamos... Este amor foi um delírio... 
 Foi ela minha crença, foi meu lírio, 
 Minha estrela sem véu... 
 Seu nome era o meu canto de poesia, 
 Que com o sol — pena de ouro — eu escrevia 
 Nas lâminas do céu. 

Em seu seio escondi-me... como à noite 
 Incauto colibri, temendo o açoite 
 Das iras do tufão, 
 A cabecinha esconde sob as asas, 
 Faz seu leito gentil por entre as gazas 
 Da rosa do Japão. 

E depois... embalei-a com meus cantos 
 Seu passado esqueci... lavei com prantos 
 Seu lodo e maldição... 
 ... Mas um dia acordei... E mal desperto 
 Olhei em torno a mim... — Tudo deserto... 
 Deserto o coração...

Ao vento, que gemia pelas franças 
 Por ela perguntei... de suas tranças 
 À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio... 
 E meu lábio queimado e o peito frio, 
 Foi ela que o queimou... 

Minha alma nodoou no ósculo imundo, 
 Bem como Satanás — beijando o mundo — 
 Manchou a criação, 
 Simum — crestou-me da esperança as flores... 
 Tormenta — ela afogou nos seus negrores 
 A luz da inspiração... 

Vai, Dalila!... É bem longa tua estrada... 
 É suave a descida — terminada 
 Em báratro cruel. 
 Tua vida — é um banho de ambrosia... 
 Mais tarde a morte e a lâmpada sombria 
 Pendente do bordel.

Hoje flores... A música soando... 
 As perlas do Champagne gotejando 
 Em taças de cristal. 
 A volúpia a escaldar na louca insônia... 
 Mas sufoca os festins de Babilônia 
 A legenda fatal. 

Tens o seio de fogo e a alma fria. 
 O cetro empunhas lúbrico da orgia 
 Em que reinas tu só!... 
 Mas que finda o ranger de uma mortalha, 
 A enxada do coveiro que trabalha 
 A revolver o pó.

Não te maldigo, não!... Em vasto campo 
 Julguei-te — estrela, — e eras — pirilampo 
 Em meio à cerração... 
 Prometeu — quis dar luz á fria argila... 
 Não pude... Pede a Deus, louca Dalila, 
 A luz da redenção!!...
Recife, 1864. 

continua pag 59...
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A Luís /                    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (5)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL
 
continuando...

     Entretanto há também homens de carne e osso no ambiente da mulher; sexualmente satisfeita, fria ou frustrada — salvo no caso muito raro de um amor completo, absoluto, exclusivo — ela empresta grande valor aos sufrágios deles. O olhar demasiado quotidiano do marido não consegue mais animar-lhe a imagem; ela tem necessidade de que olhos ainda cheios de mistérios a descubram ela própria como um mistério; é preciso uma consciência soberana em face dela para recolher-lhe as confidências, despertar as fotografias apagadas, fazer com que exista a covinha do canto da boca, esse bater de cílios que só a ela pertence; ela só é desejável, amável se a desejam, se a amam. Acomoda-se mais ou menos a seu casamento, mas são principalmente satisfações de vaidade que busca junto dos outros homens: convida-os a participarem do culto que rende a si mesma; seduz, agrada, contente com sonhar amores proibidos, com pensar: "Se eu quisesse..."; gosta mais de encantar numerosos admiradores do que se apegar profundamente a um deles; mais ardente, mais arisca do que uma moça, seu coquetismo pede aos homens que a confirmem na consciência de seu valor e de seu poder; é muitas vezes tanto mais ousada quanto ancorada em seu lar, e tendo conseguido conquistar um homem, joga sem grandes esperanças nem grandes riscos.  
     Acontece que, após um período de fidelidade mais ou menos longo, a mulher não se detenha mais nesses namoros e nesses coquetismos. Frequentemente é por rancor que se decide a enganar o marido. Adler pretende que a infidelidade da mulher é sempre uma vingança; é ir longe demais; mas o fato é que amiúde ela cede menos à sedução do amante do que a um desejo de desafiar o marido: "Não é o único homem no mundo — há outros a quem posso agradar — não sou sua escrava, acredita-se muito esperto e deixa-se enganar". É possível que o marido insultado conserve aos olhos da mulher uma importância primordial; assim como a moça, por vezes, arranja um amante como revolta contra a mãe, como queixa contra os pais, para desobedecer-lhes, afirmar-se, uma mulher que seus próprios rancores prendem ao marido procura no amante um confidente, uma testemunha que contemple seu personagem de vítima, um cúmplice que a ajude a diminuir o marido? Fala-lhe deste sem cessar, a pretexto de entregá-lo a seu desprezo; se o amante não desempenha bem seu papel, ela se afasta dele aborrecida, seja para voltar ao marido, seja para procurar outro consolador. Mas é muitas vezes menos o rancor do que a decepção que a joga nos braços de um amante; não encontra o amor no casamento e resigna-se dificilmente a não conhecer jamais as volúpias e as alegrias cuja espera lhe encantou a juventude. O casamento, frustrando a mulher de toda satisfação erótica, denegando-lhe a liberdade e a singularidade de seus sentimentos, a conduz, através de uma dialética necessária e irônica, ao adultério.

   Educamo-las desde a infância para as empresas do amor, diz Montaigne; sua graça, seus adornos, sua ciência, sua palavra, toda a instrução que se lhes dá, visam tão somente a esse fim. Suas governantas só lhe apresentam a imagem do amor, ainda que apenas para desgostá-las dela...

     E acrescenta mais adiante:

   É portanto loucura tentar reprimir nas mulheres um desejo que lhes é tão picante e tão natural. 

     E Engels declara: 

   Com a monogamia aparecem de maneira permanente duas figuras sociais características: o amante da mulher e o cornudo. . . Ao lado da monogamia e do hetairismo, o adultério torna-se uma instituição social inelutável, prescrita, rigorosamente punida, mas impossível de ser suprimida.

     Se os amplexos conjugais excitaram a curiosidade da mulher sem lhe satisfazer os sentidos, como L'Ingénue libertine de Colette, ela procura terminar sua educação nos leitos alheios. Se o marido conseguiu despertar-lhe a sexualidade, não tendo um apego especial por ele, desejará gozar com outros os prazeres que ele lhe revelou.
     Moralistas indignaram-se com a preferência dada ao amante, e assinalei o esforço da literatura burguesa para reabilitar a figura do marido; mas é absurdo defendê-lo mostrando que constantemente aos olhos da sociedade — isto é, dos outros homens — tem ele mais valor do que o rival: o importante aqui é o que ele representa para a mulher. Ora, há dois traços essenciais que o tornam odioso. Primeiramente, é ele que assume o papel ingrato de iniciador. As exigências contraditórias da virgem que sonha, ao mesmo tempo, com ser violentada e respeitada, condenam-no quase necessariamente a um malogro; ela permanece fria para sempre nos braços dele; junto do amante não conhece ela as angústias do defloramento, nem as primeiras humilhações do pudor vencido; é-lhe poupado o trauma da surpresa; ela sabe mais ou menos o que a espera; mais sincera, menos suscetível, menos ingênua do que na noite de núpcias, não confunde mais o amor ideal com o apetite físico, o sentimento com a turvação dos sentidos: quando arranja um amante é exatamente um amante que quer. Essa lucidez é um aspecto da liberdade de sua escolha. Pois aí está a outra tara que pesa sobre o marido: ele em geral foi suportado, não eleito. Ou ela o aceitou resignada, ou ela lhe foi entregue pela família. E ainda que o tivesse desposado por amor, em se casando fez dele seu senhor; suas relações tornaram-se um dever e muitas vezes ele se apresentou a ela sob a figura de um tirano. Sem dúvida a escolha de um amante é limitada pelas circunstâncias, mas há nessa relação uma dimensão de liberdade; casar-se é uma obrigação, ter um amante um luxo; é porque ele a solicitou que a mulher cede; tem certeza, senão do amor, ao menos do desejo dele; não é para obedecer às leis que ele se executa. Tem ele também o privilégio de não desgastar suas seduções nem seu prestígio no roçar da vida quotidiana: permanece a distância: um outro. Por isso tem a mulher, em seus encontros, a impressão de sair de si, de atingir riquezas novas: ela sente-se outra. É sobretudo o que certas mulheres procuram numa ligação: ser ocupadas, surpreendidas, arrancadas de si mesmas pelo outro. Uma ruptura deixa nelas um sentimento desesperado de vazio. Janet (cf. Les Obsessions et la Psychasthénie) cita um caso dessas melancolias que nos mostram em profundidade o que a mulher procurava e encontrava no amante:

   Uma mulher de 39 anos, desesperada por ter sido abandonada por um escritor que durante cinco anos a tinha associado a seus trabalhos, escreve a Janet: "Ele tinha uma vida tão rica e era tão tirânico que eu não podia ocupar-me senão dele e não podia pensar em outra coisa".
  Outra, de 31 anos, ficara doente em consequência de uma ruptura com um amante que adorava. "Desejaria ser um tinteiro de sua escrivaninha para vê-lo e ouvi-lo", diz ela. E explica: "Sozinha eu me aborreço, meu marido não faz minha cabeça trabalhar suficientemente, não sabe nada, não me ensina nada, não me surpreende... só tem bom senso vulgar, caceteia-me". Do amante, ao contrário, escrevia: "É um homem surpreendente, nunca o vi perturbado um só minuto, comovido, alegre, relaxado; sempre senhor de si, zombeteiro, de uma frieza capaz de matar de tristeza. Ao lado disso, um topete, um sangue frio, uma finura de espírito, uma vivacidade de inteligência que me faziam perder a cabeça..."

     Há mulheres que só experimentam esse sentimento de plenitude e de excitação alegie nos primeiros momentos da ligação; se o amante não lhes dá prazer imediatamente — o que acontece frequentemente na primeira vez, já que os parceiros se encontram intimidados e inadaptados um ao outro — elas sentem rancor e repugnância contra ele; essas "Messalinas" multiplicara as experiências e passam de um amante a outro. Mas acontece também que a mulher esclarecida pelo malogro conjugal seja atraída então pelo homem que precisamente lhe convém e assim se crie entre ambos uma ligação duradoura. Muitas vezes ele lhe agradará por ser um tipo radicalmente oposto ao do marido. Foi sem dúvida o contraste, que Sainte-Beuve oferecia em relação a Victor Hugo, que seduziu Adèle. Stekel cita o caso seguinte:
  
   Mme P. H. está casada há oito anos com um sócio de um clube de atletismo. Vai a uma clínica ginecológica em virtude de uma ligeira salpingite, queixando-se de que o marido não a deixa sossegada... sente somente dores. O homem é rude e brutal. Ele acaba arranjando uma amante e a esposa fica feliz com isso. Quer divorciar-se e no escritório do advogado conhece um secretário que é exatamente o contrário do marido. É esbelto, frágil, mas muito amável e terno. Tornam-se íntimos; o homem procura seu amor, escreve-lhe muitas cartas cheias de ternura, tem mil gentilezas para com ela. Descobrem interesses espirituais comuns... O primeiro beijo faz que desapareça sua anestesia...  A potência relativamente fraca do homem acarreta os mais intensos orgasmos na mulher... Depois do divórcio, casaram--se e viveram muito felizes... Ele conseguia provocar o orgasmo com beijos e carícias. Era essa mesma mulher que o marido extremamente potente acusava de frieza!

     Nem todas as ligações acabam assim em conto de fadas. Tal como a moça, que sonha com um libertador que a arranque do lar paterno, a mulher espera que o amante a livre do jugo conjugal; é um tema amiúde explorado o do amante ardoroso que esfria e foge quando a amante começa a falar de casamento; muitas vezes ela se sente magoada pelas reticências dele e essas relações são por sua vez pervertidas pelo rancor e pela hostilidade. Ao se estabilizar, frequentemente, uma ligação acaba assumindo um caráter familiar e conjugal; nela se reencontram o tédio, o ciúme, a prudência, o ardil, todos os vícios da casamento. E a mulher sonha com outro homem que a tire dessa rotina.
     O adultério reveste aliás caracteres muito diferentes, segundo os costumes e as circunstâncias. A infidelidade conjugal apresenta-se ainda, em nossa civilização, em que as tradições patriarcais sobrevivem, como muito mais grave para a mulher do que para o homem:

   Iníqua avaliação dos vícios!, diz Montaigne. Encaramos e pesamos os vícios não de acordo com sua natureza mas segundo o nosso interesse, por isso assumem eles tantas formas desiguais. A aspereza de nossos juízes torna a aplicação das mulheres a esses vícios mais obstinada e viciosa do que comporta a realidade e as impele a consequências piores do que a causa.

     Vimos quais as razões originais dessa severidade: o adultério da mulher, introduzindo na família o filho de um estranho, comporta o risco de frustrar os herdeiros legítimos; o marido é o senhor, a mulher sua propriedade. As mudanças sociais, a prática do birth-control enfraqueceram bastante esses motivos. Mas a vontade de manter a mulher em estado de dependência perpetua as proibições de que a cercam ainda. Muitas vezes ela as interioriza; e fecha os olhos às estroinices conjugais sem que sua religião, moralidade e "virtude" lhe permitam encarar qualquer reciprocidade. O controle exercido pelo ambiente — em particular nas "cidadezinhas" do Velho como do Novo Mundo — é muito mais severo do que o que pesa sobre o marido: ele sai mais, viaja, toleram-se os seus erros com muito mais indulgência, ao passo que ela se arrisca a perder sua reputação e sua situação de mulher casada. Descreveram-se amiúde os ardis através dos quais a mulher consegue obviar a tais vigilâncias: conheço uma cidadezinha portuguesa de uma severidade à moda antiga, em que as jovens só saem acompanhadas pela sogra ou pela cunhada; mas o cabeleireiro aluga quartos localizados em cima de sua loja; entre a "permanente" e um toque de pente, os amantes se encontram apressadamente. Nas grandes cidades a mulher tem menor número de carcereiros: mas os encontros "de cinco a sete" que se praticavam outrora não permitiam, tampouco, os sentimentos ilegítimos desabrocharem com êxito. Rápido, clandestino, o adultério não cria relações humanas e livres; as mentiras que implica acabam denegando toda dignidade às relações conjugais.
     Em muitos meios, as mulheres conquistaram hoje parcialmente sua liberdade sexual. Mas é ainda, para elas, um problema difícil conciliar a vida conjugal com satisfações eróticas. Não implicando o casamento geralmente amor físico, pareceria razoável dissociar francamente um do outro. Admite-se que o homem possa ser excelente marido e no entanto volúvel: seus caprichos sexuais não o impedem, com efeito, de orientar amigavelmente com a mulher a empresa de uma vida comum; essa amizade será mesmo tanto mais pura, menos ambivalente, quanto menos represente uma prisão. Poder-se-ia admitir que seja a mesma coisa para a esposa; ela deseja muitas vezes partilhar a existência do marido, criar com ele um lar para os filhos e contudo conhecer outras carícias. São os compromissos de prudência e de hipocrisia que tornam o adultério degradante; um pacto de liberdade e de sinceridade aboliria uma das taras do casamento. Entretanto, é preciso reconhecer que hoje a fórmula irritante que inspirou a Francillon de Dumas Filho: "Para a mulher não é a mesma coisa", é parcialmente verdadeira. A diferença nada tem de natural. Pretende-se que a mulher tem menos necessidade sexual do que o homem: nada é menos certo; as mulheres recalcadas são esposas rabugentas, mães sádicas, donas de casa maníacas, criaturas infelizes e perigosas; mas ainda que seus desejos fossem mais raros não seria uma razão para achar supérfluo que os satisfizesse. A diferença vem do conjunto da situação erótica do homem e da mulher, tal qual a tradição e a sociedade a definem. Considera-se ainda o ato amoroso na mulher como um serviço prestado ao homem e que faz que este se apresente como seu senhor; vimos que ele pode sempre arranjar uma inferior, mas que ela se degrada entregando-se a um homem que não é de seu nível. Seu consentimento tem, em todo caso, o caráter de uma rendição, de uma queda. Uma mulher aceita de bom grado que o marido possua outras mulheres: sente-se até lisonjeada com isso; parece que Adèle Hugo viu, sem o lamentar, o marido fogoso orientar seu ardor para outros leitos; algumas mesmo, imitando a Pompadour, aceitam tornar-se alcoviteiras¹. Ao contrário, no amplexo, a mulher é transformada em objeto, em presa; afigura-se ao marido que ela se impregnou de um mane estranho, deixou de ser sua, roubaram-lhe. E o fato é que, na cama, a mulher muitas vezes sente-se, quer-se, e por conseguinte, é dominada; é verdade também que por causa do prestígio viril ela tende a aprovar, a imitar o homem que, tendo-a possuído, encarna a seus olhos o homem na sua totalidade. O marido irrita-se, não sem razão, de ouvir numa boca familiar o eco de um pensamento estranho; parece-lhe um pouco que ele é que foi possuído, violentado. Se Mme de Charrière rompeu com o jovem Benjamin Constant — que entre duas mulheres viris representava um papel feminino — foi porque não suportava senti-lo marcado pela influência detestada de Mme de Staël. Enquanto a mulher se faz escrava e reflexo do homem a quem se "entrega", deve reconhecer que suas infidelidades a arrancam mais radicalmente do marido do que infidelidades recíprocas.

[1] Falo aqui do casamento. Veremos que no amor a atitude do casal é invertida. 
     
     Se ela conserva sua integridade, pode entretanto temer que o marido se haja comprometido na consciência do amante. Uma mulher pode mesmo imaginar que deitando com um homem — embora uma só vez, às pressas, num sofá — adquire uma superioridade sobre a esposa legítima; com muito mais razão um homem que acredita possuir a amante considera que prega uma peça no marido dela. É por isso que em Tendresse, de Bataille, em Belle de Nuit de Kessel, a mulher tem o cuidado de escolher amantes de baixa condição: ela procura satisfações sexuais com eles, mas não quer dar-lhes ascendência sobre o marido respeitado. Em Condition Humaine, Malraux mostra-nos um casal em que marido e mulher fizeram um pacto de liberdade recíproca: entretanto, quando May conta a Kyo que dormiu com um camarada, ele sofre, pensando que esse homem imaginou tê-la "tido"; ele escolheu respeitar-lhe a independência porque sabe que nunca se tem ninguém; mas as ideias complacentes por outro acariciadas magoam-no e humilham-no através de May. A sociedade confunde a mulher livre com a mulher fácil; o próprio amante não reconhece de bom grado a liberdade de que se aproveita; prefere acreditar que a amante cedeu, deixou-se arrastar, que ele a conquistou, seduziu. Uma mulher orgulhosa pode suportar pessoalmente a vaidade do parceiro; mas ser-lhe-á odioso que um marido estimado suporte a arrogância dele. É muito difícil a uma mulher agir como uma igual ao homem quando essa igualdade não está universalmente reconhecida e concretamente realizada.
     Como quer que seja, adultério, amizades, vida mundana não constituem, na vida conjugal, senão divertimentos; podem ajudar a suportar seus constrangimentos mas não os destroem. São falsas evasões que não permitem em absoluto à mulher ser autenticamente dona de seu destino.

continua página 316...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (5)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

terça-feira, 12 de maio de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção VI)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção VI
Dos modos e substâncias
     
     Gostaria de perguntar aos filósofos que fundamentam tantos dos seus raciocínios na distinção entre substância e acidente, imaginando que temos de uma e outra ideias claras, se a ideia de substância provém das impressões de sensação ou das impressões de reflexão. Se ela nos é transmitida pelos sentidos, pergunto por qual e de que maneira. Se é percebida pelos olhos, deve ser uma cor; se pelos ouvidos, um som; se pelo paladar, um sabor, e assim por diante quanto aos outros sentidos. Mas creio que ninguém afirmará que a substância é uma cor, um som, ou um sabor. A ideia de substância deve portanto provir de uma impressão de reflexão, se ela na realidade existe. Ora as impressões de reflexão reduzem-se às nossas paixões e emoções, nenhuma das quais com certeza pode representar uma substância. Portanto não temos uma ideia de substância distinta da de urna colecção de qualidades particulares, nem queremos dizer outra coisa quando falamos ou raciocinamos sobre ela.
     A ideia de substância, assim como a de modo, não é senão uma coleção de ideias simples unidas pela imaginação, às quais se deu um nome determinado, que nos permite evocar, quer para nós próprios, quer para os outros, essa coleção. Mas a diferença entre estas ideias consiste em que as qualidades particulares que formam uma substância são usualmente relacionadas com algo desconhecido, a que se supõe serem inerentes; ou, não se aceitando esta ficção, supõe-se pelo menos que estas qualidades estão estreita e indissoluvelmente unidas pelas relações de contiguidade e causalidade. Em consequência disto, qualquer nova qualidade simples que descubramos ter a mesma conexão com as restantes, é imediatamente por nós incluída entre elas, embora não entrasse na nossa primeira concepção dessa substância. Assim a nossa ideia do ouro pode a princípio ser a cor amarela, o peso, a maleabilidade, a fusibilidade; mas quando descobrimos a sua solubilidade na aqua regia acrescentamos esta qualidade às outras e consideramo-la como pertencente a essa substância, exatamente como se a sua ideia tivesse desde o princípio feito parte da ideia composta. Sendo o princípio de união considerado o elemento principal da ideia complexa, ele permite a entrada de qualquer qualidade que se apresente posteriormente e abrange-a tal e qual como as outras que se apresentaram desde início.
     Que isto mesmo não pode dar-se com os modos, torna-se evidente considerando a natureza deles. As ideias simples, de que se formam os modos, ou representam qualidades que não estão unidas por contiguidade ou causalidade, mas se encontram dispersas em diferentes objetos; ou então, se as qualidades estão todas reunidas, o princípio unificador não é considerado o fundamento da ideia complexa. A ideia de uma dança exemplifica a primeira espécie de modos; a ideia de beleza é exemplo da segunda. É evidente a razão pela qual tais ideias complexas não podem receber nenhuma ideia nova, sem mudar o nome que distingue o modo.

continua na página 52...
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Já era noite agora)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Já era noite agora, quando trocava o calor do hotel que se tornara o meu lar pelo vagão onde embarcava com Albertine e onde o reflexo da lanterna na vidraça indicava, em certas paradas do trenzinho impulsivo, que tínhamos chegado a uma estação. Para não corrermos o risco de que Cottard não nos avistasse, e não tendo ouvido anunciar a estação, eu abria a portinhola, mas o que se precipitava no vagão não eram os fiéis, e sim o vento, a chuva, o frio. Na obscuridade, eu distinguia os campos, ouvia o mar, estávamos em plena campina. Albertine, antes que nos reuníssemos ao pequeno núcleo, olhava-se num espelhinho tirado de um nécessaire de ouro que trazia consigo. De fato, nas primeiras vezes, tendo a Sra. Verdurin feito com que ela subisse para o seu gabinete de toalete a fim de que se arrumasse para jantar, eu experimentara, no seio da profunda tranquilidade em que vivia desde algum tempo, um pequeno movimento de inquietação e ciúme ao ser obrigado a deixar Albertine ao pé da escada, e me sentira tão ansioso enquanto estava sozinho no salão em meio ao pequeno clã e perguntava a mim mesmo o que faria a minha amiga lá em cima, que, no dia seguinte, por telegrama, depois de pedir algumas indicações ao Sr. de Charlus sobre o que havia de mais elegante no gênero, encomendei à casa Cartier um nécessaire que era a alegria de Albertine e também a minha. Era para mim um penhor de calma e também da solicitude da minha amiga. Pois ela certamente adivinhara que eu não gostava que ficasse sem minha companhia na casa da Sra. Verdurin, e se arranjava para fazer no vagão toda a sua toalete anterior ao jantar. No número dos habitués da Sra. Verdurin, e o mais fiel de todos, contava-se agora e desde vários meses o Sr. de Charlus. Regularmente, três vezes por semana, os viajantes que estacionavam nas salas de espera ou na plataforma de Doncieres-Oeste viam passar aquele homem corpulento, de cabelos grisalhos e bigode preto, os lábios rubros de uma pintura que se notava menos no fim da estação que no verão, quando a luz intensa a fazia mais crua, e o calor, meio líquida. Enquanto se dirigia para o trenzinho, não podia deixar (só por hábito de conhecedor, visto que agora possuía um sentimento que o tornava casto ou, pelo menos, durante a maior parte do tempo, fiel) de lançar sobre os carregadores, os militares, os rapazes de uniforme de tênis um olhar furtivo, a um tempo inquisitorial e timorato, após o qual baixava logo as pálpebras sobre os olhos quase fechados, com a unção de um eclesiástico a desfiar o seu rosário, com a reserva de uma esposa votada ao seu único amor, ou de uma jovem bem-educada. Os fiéis tanto mais estavam convencidos de que ele não os vira, porque subia para um compartimento diverso do deles (como igualmente o fazia a princesa Sherbatoff), como homem que não sabe se ficariam satisfeitos ou não de serem vistos na sua companhia e que deixa a todos o direito de ir procurá-lo caso tenham vontade. Tal vontade não foi sentida nas primeiras vezes pelo doutor, que desejava deixássemos o barão a sós em seu compartimento. Dissimulando sua natureza vacilante desde que alcançara uma grande posição como médico, foi sorrindo, virando-se e olhando Ski por cima do pince-nez, que ele disse por malícia ou para surpreender de esguedelha a opinião dos companheiros: 

- Vocês compreendem, se eu estivesse sozinho, solteiro... mas, por causa de minha mulher, pergunto-me se posso deixá-lo viajar conosco depois do que o senhor me disse - sussurrou o doutor. 
- Que é que estás dizendo? - indagou a Sra. Cottard. 
- Nada, isto não é contigo, não é assunto para as mulheres - respondeu o doutor, piscando o olho, com uma majestosa satisfação de si mesmo, que ficava entre o ar sonso que mantinha ante os alunos e os enfermos, e a inquietação que outrora acompanhava suas tiradas na casa dos Verdurin, e continuou a falar em voz baixa.  

     A Sra. Cottard só percebeu as palavras "da confraria" e "lingüinha", e, como na linguagem do doutor a primeira designava a raça judaica e a segunda as pessoas que falam pelos cotovelos, a Sra. Cottard concluiu que o Sr. de Charlus devia ser um judeu tagarela. Não entendeu que mantivessem o barão à parte por causa disso, e julgou de seu dever de decana do clã exigir que não o deixassem a sós, e nos encaminhamos todos para o compartimento do Sr. de Charlus, guiados por Cottard, sempre perplexo. Do seu canto, onde lia um volume de Balzac, o Sr. de Charlus percebeu aquela hesitação; entretanto, não erguera os olhos. Mas, como os surdos mudos reconhecem, devido a uma corrente de ar insensível aos demais, que alguém está chegando por trás deles, o barão possuía, para ser advertido da frieza que sentiam a seu respeito, uma verdadeira hiperacuidade sensorial. Esta, como tem o hábito de fazer em todos os domínios, engendrara sofrimentos imaginários no espírito do Sr. de Charlus. Como esses nevropatas que, sentindo um leve frescor, induzem que deve haver uma janela aberta no andar de cima, enfurecem-se e entram a espirrar, o Sr. de Charlus, se uma pessoa mostrasse diante dele um ar preocupado, concluía que tinham repetido a essa pessoa uma frase que ele pronunciara a seu respeito. Mas nem sequer havia necessidade de que tivesse um ar distraído, ou sombrio, ou risonho: ele os inventava. Em compensação, a cordialidade mascarava-lhe facilmente as maledicências que ele desconhecia. Tendo adivinhado da primeira vez a hesitação de Cottard, se, para grande espanto dos fiéis, que não se julgavam percebidos ainda pelo leitor de olhos baixos, ele lhes estendeu a mão quando chegaram a distância conveniente, limitou-se, quanto a Cottard, a uma inclinação de todo o corpo, logo vivamente endireitado, sem apertar com a mão enluvada de couro da Suécia a mão que o doutor lhe estendera. 

- Fizemos questão absoluta de viajar em sua companhia, senhor, e não deixá-lo sozinho desse jeito no seu canto. É um grande prazer para nós - disse a Sra. Cottard bondosamente ao barão. 
- Fico muito honrado - enunciou o barão, inclinando-se com ar frio. 
- Fiquei muito contente ao saber que o senhor tinha escolhido definitivamente esta região para fixar aqui os seus tabern... - Ela ia dizer tabernáculos, mas essa palavra lhe pareceu hebraica e pouco delicada para um judeu que poderia ver nela uma alusão. Assim, conteve-se para escolher uma outra expressão que lhe fosse familiar, ou seja, uma expressão solene: para fixar aqui, eu queria dizer, os seus penares - (é verdade que essas divindades tampouco pertenciam à religião cristã, mas a uma que está extinta há tanto tempo que já não tem seguidores a quem receemos melindrar). - Infelizmente, nós, com a volta às aulas e o serviço hospitalar do doutor, nunca podemos fixar domicílio por muito tempo em um mesmo local. - E exibindo-lhe uma caixa: - Aliás, veja como nós, mulheres, somos menos felizes que o sexo forte; para ir tão pertinho como a casa dos nossos amigos Verdurin, somos obrigadas a levar conosco toda uma série de bagagens. -

     Durante todo esse tempo, eu olhava o volume de Balzac do barão. Não era uma brochura, comprada ao acaso como o volume de Bergotte que ele me emprestara no primeiro ano. Era um livro de sua biblioteca e, como tal, trazia a divisa: 

"Pertenço ao barão de Charlus", a qual por vezes era substituída, para mostrar o gosto dos Guermantes pelo estudo: In proeliis non semper e, ainda outra: Non sine labore
[Expressões latinas, respectivamente: "Nem sempre nos combates" e "Não foi adquirido sem trabalho (N. do T)]

     Porém, nós as veremos em breve substituídas por outras, para tentar agradar a Morel. A Sra. Cottard, ao cabo de um instante, adotou um assunto que achava tocar mais pessoalmente ao barão: 

- Não sei se o senhor é da minha opinião -disse ela -, mas tenho ideias muito liberais e, a meu ver, desde que sejam praticadas com sinceridade, todas as religiões são boas. Não sou como as pessoas a quem à vista de um... protestante deixa hidrófobas. 
- Ensinaram-me que a minha era a verdadeira - respondeu o Sr. de Charlus. -

"É um fanático", pensou a Sra. Cottard; "Swann, a não ser no fim, era mais tolerante; é verdade que se tratava de um convertido." Ora, pelo contrário, o Sr. de Charlus era não só cristão, como todos sabiam, mas também piedoso à maneira da Idade Média. Para ele, como para os escultores do século XIII, a Igreja cristã era, no sentido vivo do termo, povoada por uma multidão de seres tidos como perfeitamente reais: profetas, apóstolos, anjos, santas personagens de toda espécie, que cercavam o Verbo encarnado, sua mãe e, seu esposo, o Padre eterno, todos os mártires e doutores, tais como seu povo, em alto-relevo se apressa no pórtico ou enche a nave das catedrais. Entre todos eles, o Sr. de Charlus escolhera como patronos intercessores os arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel, com os quais tinha freqüentes conversações, a fim de que eles comunicassem suas preces ao Padre eterno, diante de cujo trono estão postados. Assim, o engano da Sra. Cottard muito me divertia.

     Para abandonarmos o terreno religioso, digamos que o doutor, que chegara a Paris com a magra bagagem de conselhos de uma mãe camponesa, e depois, absorvido pelos estudos quase puramente materiais, aos quais aqueles que desejam subir bastante na carreira médica são obrigados a se consagrar durante muitos anos, nunca se cultivara; adquirira mais autoridade, mas não experiência. Tomou ao pé da letra a palavra "honrado" e com isso ficou a um tempo satisfeito, pois era vaidoso, e aflito, pois era uma boa pessoa. 

- Esse pobre Charlus - disse ele de noite à mulher - deu-me pena quando disse que se sentia honrado em viajar conosco. Sente-se, pobre diabo, que ele não tem relações, que se humilha.  

     Mas dali a pouco, sem necessidade de serem guiados pela caridosa Sra. Cottard, os fiéis conseguiram dominar o constrangimento que todos haviam mais ou menos sentido a princípio por se acharem junto do Sr. de Charlus. Sem dúvida, na sua presença, conservavam sem cessar no espírito a lembrança das revelações de Ski e a ideia da estranheza sexual que estava inclusa em seu companheiro de viagem. Mas essa própria estranheza exercia sobre eles uma espécie de atração. Conferia, para eles, à conversa do barão, aliás notável mas em pontos que não podiam apreciar, um sabor que transformava a conversa mais interessante, até mesmo a de Brichot, em algo insosso. Por outro lado, desde o princípio, todos se mostraram satisfeitos ao reconhecer que ele era inteligente. 

- O gênio pode ser vizinho da loucura - enunciou o doutor e, se a princesa, ávida por instruir-se, insistia, ele nada mais dizia, já que esse axioma era tudo o que sabia sobre o gênio e, além disso, não lhe parecia tão demonstrado como tudo o que se referisse à febre tifoide e ao artritismo. E como se tornara orgulhoso e permanecera mal-educado: 
- Nada de perguntas, princesa, não me interrogue, estou à beira-mar para um descanso. Aliás, a senhora não me compreenderia, pois não sabe medicina. -

     E a princesa se calava, desculpando-se, achando Cottard um homem encantador e compreendendo que as celebridades nem sempre são abordáveis.
     Nesse primeiro período, tinham portanto achado o Sr. de Charlus inteligente, apesar de seu vício (ou aquilo que geralmente se chama desse modo). Agora, sem perceberem, era devido a esse vício que o achavam mais inteligente que os outros. As máximas mais simples que, habilmente provocado pelo universitário ou o escultor, o Sr. de Charlus enunciava acerca do amor, do ciúme, da beleza, por causa da experiência singular, secreta, refinada e monstruosa em que as havia haurido, assumiram para os fiéis aquele encanto do exotismo que uma psicologia, análoga à que nos tem oferecido o tempo todo a nossa literatura dramática, adquire numa peça da Rússia ou do Japão representada por artistas desses países. Arriscavam ainda, quando ele não estava ouvindo, um gracejo de mau gosto: 

- Oh! - cochichava o escultor, ao ver um jovem empregado de longos cílios de bailarina indiana e que o Sr. de Charlus não pudera evitar de encarar. - Se o barão se põe a namorar o fiscal, não estaremos perto de chegar, pois o trem irá de marcha a ré. Olhem só a forma como ele o encara; já não é num trenzinho de ferro que estamos, é num funicular. -

     Mas, no fundo, se o Sr. de Charlus não comparecia, ficavam quase decepcionados de viajar apenas entre pessoas comuns, e de não terem junto deles aquele personagem pintalgado, pançudo, semelhante a alguma caixa de proveniência exótica e suspeita, que deixa escapar o curioso odor de frutas, às quais o simples pensamento de provar nos causaria náuseas. Desse ponto de vista, os fiéis do sexo masculino tinham satisfações mais vivas, no curto pedaço do trajeto que se fazia entre Saint-Martin-du-Chêne, onde embarcava o Sr. de Charlus, e Doncieres, estação em que Morel se juntava a nós. Pois, enquanto o violinista não se achava presente (e se as senhoras e Albertine, formando grupo à parte para não incomodar a conversa, mantinham-se afastadas), o Sr. de Charlus, para não parecer que evitava certos assuntos, não se constrangia de falar daquilo "que se convencionou chamar os maus costumes". Albertine não podia constrangê-lo, pois estava sempre com as senhoras, por deferência de moça que não quer que sua presença restrinja a liberdade da conversa. Ora, eu suportava com facilidade o não tê-la a meu lado, com a condição, porém, de que permanecesse no mesmo vagão. Pois eu, que não mais sentia ciúme nem quase amor por ela, não pensava no que fazia Albertine nos dias em que não a via; em compensação, quando estava ali, um simples tabique que, a rigor, pudesse dissimular uma traição, era-me insuportável e, se ela ia com as senhoras para o compartimento vizinho, ao fim de um momento, sem poder ficar no mesmo lugar, arriscando-me a constranger o interlocutor, fosse Brichot, Cottard ou Charlus, e a quem não podia explicar o motivo de minha saída, eu me levantava, deixava-os ali e, para ver se não havia nada de anormal, passava para o outro lado.
     Até Doncieres, o Sr. de Charlus, sem medo de escandalizar, falava às vezes muito cruamente dos costumes que ele declarava, por sua conta, não achar nem bons nem maus. Fazia-o por habilidade, para mostrar sua largueza de espírito, persuadido como estava de que os seus não despertavam nenhuma suspeita entre os fiéis. Acreditava que havia no universo algumas pessoas que, conforme uma expressão que mais tarde se lhe tornou familiar, "tinham opinião assente a seu respeito". Mas ele imaginava que essas pessoas não passavam de três ou quatro e que não havia nenhuma delas no litoral da Normandia. Essa ilusão pode espantar, provindo de alguém tão fino, tão inquieto. Mesmo quanto aos que supunha mais ou menos informados, gabava-se de que o fossem apenas de modo vago, e tinha a pretensão, segundo alguém lhe dissesse tal ou qual coisa, de pôr essa pessoa fora das suposições de um interlocutor que, por polidez, fingia aceitar suas palavras. Mesmo desconfiando do que eu podia saber ou supor a seu respeito, pensava que essa opinião, que julgava ser muito mais antiga de minha parte do que o era na realidade, fosse geral, e que lhe bastava negar este ou aquele detalhe para ser acreditado, quando pelo contrário, se o conhecimento do conjunto precede sempre o dos detalhes, facilita infinitamente a investigação destes e, tendo destruído o poder de invisibilidade, já não permite ao dissimulador ocultar o que lhe agrada. Na verdade, quando o Sr. de Charlus, convidado para jantar por um certo fiel ou um certo amigo dos fiéis, fazia os mais complicados rodeios para incluir o nome de Morel em meio aos nomes de dez pessoas que citava, não suspeitava que aos motivos sempre diversos que dava do prazer ou da comodidade que sentiria aquela noite em ser convidado juntamente com ele, seus anfitriões, aparentando acreditá-lo piamente, substituíam todos os motivos por um só, sempre o mesmo, e que o barão julgava ignorado por eles, ou seja, que ele o amava. Da mesma forma, a Sra. Verdurin, parecendo sempre admitir totalmente os motivos meio artísticos, meio humanitários, que o Sr. de Charlus lhe dava acerca do interesse que tinha por Morel, não cessava de agradecer ao barão, emocionada, a tocante generosidade, dizia, que ele mostrava pelo violinista. Ora, qual seria o espanto do Sr. de Charlus se, num dia em que ele e Morel estavam atrasados e não haviam chegado pelo trem, ouvisse a Patroa dizer: 

- Só estamos esperando essas senhoritas. -

     Tanto mais estupefato ficaria o barão, pois que, não saindo de La Raspeliere, fazia ali o papel de capelão, de abade do repertório, e às vezes (quando Morel tinha quarenta e oito horas de licença), dormia lá dois dias seguidos. A Sra. Verdurin lhes dava então dois quartos com comunicação interna e, para deixá-los à vontade, dizia: 

- Se desejarem tocar música, não se acanhem; as paredes são como as de uma fortaleza, não há ninguém no andar dos senhores, e meu marido tem sono de pedra. -

     Nesses dias, o Sr. de Charlus substituía a princesa, indo pegar os novatos na estação; desculpava a Sra. Verdurin de não ter vindo por causa de um estado de saúde, que ele descrevia tão bem que os convidados entravam com uma cara de circunstância e soltavam uma exclamação de espanto ao encontrar a Patroa de pé e bem disposta, num vestido semidecotado. Pois o Sr. de Charlus, para a Sra. Verdurin, tornara-se momentaneamente o fiel dos fiéis, uma segunda princesa Sherbatoff. De sua posição mundana ela estava bem menos segura do que da posição da princesa, imaginando que, se esta só desejava freqüentar o pequeno núcleo, era por desprezo aos outros, e predileção por ele. Como semelhante ficção era própria dos Verdurin, que consideravam aborrecidos aqueles a quem não podiam freqüentar, era incrível que a Patroa pudesse julgar a princesa uma alma de aço que detestava a vida chique. Mas não desistia e estava certa de que era com sinceridade e pelo gosto das coisas intelectuais que a grande dama também não freqüentava os aborrecidos. Aliás, para os Verdurin, o número destes diminuía. A vida dos banhos de mar tirava a uma apresentação as conseqüências para o futuro que se poderia recear em Paris. Homens brilhantes que tinham ido sem a mulher a Balbec, o que facilitava tudo, davam os primeiros passos na Raspeliere e, de aborrecidos, tornavam-se requintados. Foi o caso do príncipe de Guermantes, a que todavia a ausência da princesa não teria decidido a ir "como solteiro" à casa dos Verdurin, se o ímã do dreyfusismo não fosse tão poderoso que o fizesse galgar de um só impulso as encostas que levam a Raspeliere, infelizmente num dia em que a Patroa havia saído. A Sra. Verdurin não estava bem certa de que ele e o Sr. de Charlus pertencessem à mesma sociedade. O barão afirmara que o duque de Guermantes era seu irmão, mas aquilo talvez fosse mentira de um aventureiro. Por mais elegante que ele se mostrasse, por mais amável, por mais "fiel" quanto aos Verdurin, a Patroa hesitava quase em convidá-lo com o príncipe de Guermantes. Consultou Ski e Brichot: 

- O barão e o príncipe de Guermantes; será que funciona? 
- Meu Deus, senhora, quanto a um dos dois creio que posso dizer... 
- Mas, um dos dois, de que pode me adiantar? - replicara a Sra. Verdurin, irritada. - Eu lhes pergunto se dará certo os dois juntos? 
- Ah, senhora, eis uma coisa que é bem difícil de saber. -

     A Sra. Verdurin não punha qualquer malícia naquilo. Estava certa dos costumes do barão, mas, quando se expressava desse modo, não pensava neles, mas simplesmente em saber se poderiam convidar juntos o príncipe e o Sr. de Charlus, se aquilo combinava. Não punha nenhuma intenção malévola no emprego dessas frases feitas e que os "pequenos clãs" artísticos favorecem. Para pavonear-se com o Sr. de Guermantes, desejava levá-lo, na tarde que se seguiria ao almoço, a uma festa de caridade na qual marinheiros da costa representariam uma aparelhagem. Mas, não tendo tempo de se ocupar de tudo, delegou suas funções ao fiel dos fiéis, ao barão. 

- O senhor compreende, não é necessário que eles fiquem imóveis feito mexilhões, é preciso que não deixem de ir e vir, para que se veja a confusão, não sei o nome disso tudo. Mas o senhor, que vai muitas vezes ao porto de Balbec-Plage, poderia muito bem mandar fazer um ensaio sem se cansar. O senhor deve ser muito mais entendido do que eu, Sr. de Charlus, em fazer funcionar os marujinhos. Mas, afinal, estamos tendo muito trabalho com o Sr. de Guermantes. Talvez seja um imbecil do Jockey. Oh, meu Deus, falei mal do Jockey e parece-me que me lembro que o senhor é sócio. Ei, barão, não me responde, será que é mesmo sócio? Não quer sair conosco? Veja, aqui está um livro que recebi, acho que pode lhe interessar. É de Roujon. O título é bonito: Entre os homens.

     De minha parte, estava muito satisfeito de que o Sr. de Charlus substituísse tantas vezes a princesa Sherbatoff, pois não me achava de bem com esta, por um motivo a um tempo insignificante e profundo. Um dia em que estava no trenzinho, como de costume cumulando de amabilidades a princesa Sherbatoff, vi embarcar a Sra. de Villeparisis. Com efeito, esta viera passar algumas semanas na casa da princesa de Luxemburgo, mas, preso à necessidade cotidiana de ver Albertine, eu jamais respondera aos múltiplos convites da marquesa e de sua régia anfitriã. Senti remorsos ao ver a amiga de minha avó e, por puro dever (sem deixar a princesa Sherbatoff), conversei com ela durante muito tempo. De resto, ignorava absolutamente que a Sra. de Villeparisis sabia perfeitamente quem era a minha vizinha, mas que não desejava conhecê-la. Na estação seguinte, a Sra. de Villeparisis deixou o vagão, e eu até me censurei por tê-la ajudado a descer; fui sentar-me ao lado da princesa. Porém dir-se-ia cataclismo freqüente nas pessoas cuja posição é pouco sólida e que temem que a gente haja ouvido falar mal delas e as despreze que ocorrera uma mudança. Mergulhada na sua Revue des Deux Mondes, a Sra. Sherbatoff mal respondeu com o canto da boca às minhas perguntas e acabou por me dizer que eu lhe causava uma enxaqueca. Eu nada entendia do meu crime. Quando disse adeus à princesa, o sorriso habitual não iluminou o seu rosto, uma seca saudação abaixou o seu queixo, ela nem sequer me estendeu a mão e desde aí nunca mais voltou a falar-me. Mas deve ter falado aos Verdurin e não sei para dizer o quê, pois sempre que eu perguntava a eles se não deveria fazer uma gentileza à princesa Sherbatoff, eles em coro se precipitavam: 

- Não! Não! Não! Sobretudo isso! Ela não gosta de amabilidades! -

     Não o faziam para me ver rompido com ela, mas a princesa conseguira que acreditassem ser insensível às amabilidades, uma alma inacessível às vaidades deste mundo. É preciso ter visto o político que passa por ser o mais íntegro, o mais intransigente, o mais inabordável desde que está no poder; é preciso tê-lo visto no tempo de sua desgraça, mendigar timidamente, com um sorriso radiante de apaixonado, o cumprimento altivo de um jornalista qualquer; é preciso ter visto o aprumo de Cottard (que seus novos clientes tomavam por uma barra de ferro), e saber de que despeitos amorosos, de que fracassos de esnobismo eram feitos a aparente altivez, o anti-esnobismo universalmente admitido da princesa Sherbatoff, para compreender que na humanidade a regra que comporta exceções, e claro que os duros são frágeis repelidos, e que os fortes, sem se preocuparem se são queridos ou não, são os únicos que possuem essa doçura que o vulgo toma por fraqueza. Ademais, não devo julgar severamente a princesa Sherbatoff. Seu caso é tão frequente!
     Um dia, no enterro de um Guermantes, um homem notável a meu lado me mostrou um senhor esbelto e dotado de um rosto bonito. 

- De todos os Guermantes - disse o meu vizinho -, este é o mais extraordinário, o mais singular. É o irmão do duque. -

     Respondi-lhe imprudentemente que se equivocava, que aquele senhor, sem qualquer parentesco com os Guermantes, se chamava Fournier-Sarloveze. O homem notável voltou-me as costas e daí em diante nunca mais me cumprimentou.

continua na página 206...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Como na véspera)
Sodoma e Gomorra (Cap III - Já era noite agora)
Volume 6
Volume 7