sexta-feira, 15 de maio de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Da Imortalidade

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Da Imortalidade

          Em se tratando da imortalidade privada ou literária, é bom partir-se de um homem como Stendhal. Seria difícil encontrar alguém mais avesso às concepções religiosas habituais. Stendhal encontra-se inteiramente liberto de quaisquer compromissos e promessas religiosas. Seus sentimentos e pensamentos voltam-se exclusivamente para esta vida. Ele a sentiu e usufruiu da maneira mais exata e profunda. Discorreu sobre tudo quanto podia trazer-lhe alegria, e não se tornou insípido, pois deixou intocado o detalhe isolado. Não reuniu coisa alguma em unidades duvidosas. Desconfiava de tudo o que não conseguia sentir. Pensou muito, mas nele não se encontram pensamentos gélidos. Tudo quanto registra, tudo a que dá forma permanece próximo do ardoroso instante de sua origem. Amou muito e acreditou em muitas coisas, mas tudo lhe permaneceu maravilhosamente palpável. O que quer que fosse, ele podia encontrá-lo de imediato em si mesmo, sem necessitar dos truques de qualquer ordenação.
     Esse homem que nada pressupõe; que queria descobrir as coisas por si só; que era a própria vida, tanto quanto ela é sentimento e espírito; que esteve no coração dos acontecimentos e, por isso mesmo, podia contemplá-los de fora; esse homem no qual palavra e conteúdo coincidem da forma mais natural, como se ele houvesse tido de purificar a linguagem por conta própria — esse homem raro e verdadeiramente livre tinha, no entanto, uma crença, da qual ele fala tão fácil e naturalmente como de uma amada.
     Sem tristeza, Stendhal contentou-se em escrever para poucos, mas tinha certeza absoluta de que, em cem anos, seria lido por muitos. Impossível, nos tempos modernos, exprimir com maior clareza, singularidade e sem nenhuma arrogância a crença na imortalidade literária. O que significa essa crença? Qual o seu conteúdo? Ela significa que se estará presente quando todos os demais contemporâneos já não mais existirem. Não se trata de uma animosidade em relação aos vivos enquanto tais. Não se trata de afastá-los do caminho; não se faz coisa alguma contra eles, nem mesmo se pretende combatê-los. Desprezam-se aqueles que atingiram a falsa glória, mas despreza-se também o combate com suas armas. Destes, nem sequer se guarda rancor, pois sabe-se o quanto se equivocaram. Escolhe-se a companhia daqueles aos quais se irá pertencer no futuro: todos aqueles de épocas passadas cuja obra segue viva ainda hoje; todos os que falam a nós e dos quais nos alimentamos. A gratidão que se sente por eles é a gratidão pela própria vida.
     Matar para sobreviver nada pode significar para aquele que assim pensa, pois este não quer sobreviver agora. Somente cem anos adiante ele entrará na luta, quando já não estiver mais vivo e, portanto, não mais for capaz de matar. A disputa que então se trava é a de obra contra obra, e será tarde demais para que ele interfira nela. A verdadeira rivalidade, aquela que lhe importa, principia quando os rivais não estão mais presentes. Estes não podem sequer assistir ao combate que suas obras travam. Essa obra, porém, tem de estar viva, e, para que assim seja, ela há de conter o máximo possível da mais pura vida. Um tal homem não apenas desdenhou o matar, mas levou consigo rumo à imortalidade todos os que estavam com ele — uma imortalidade na qual tudo se faz atuante, desde o insignificante até o grandioso.
     Tem-se aí o oposto absoluto daqueles poderosos que levam consigo para a morte todos os que os cercam, a m de que, numa existência dos mortos no além, os primeiros reencontrem tudo aquilo com que estavam acostumados. Nada lhes caracteriza mais terrivelmente a profunda impotência interior. Eles matam em vida e matam na morte; um séquito de mortos os conduz ao além.
     Quem, porém, abre uma obra de Stendhal encontra ali o autor e tudo o que o cercava, e o encontra nesta vida. Assim, os mortos oferecem-se aos vivos na condição da mais nobre iguaria. Sua imortalidade os beneficia: nessa inversão do sacrifício aos mortos todos saem ganhando. A sobrevivência perdeu seu aguilhão, e o reino da hostilidade tem fim.

continua página 422...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?

Edgar Allan Poe - Contos: O Mistério de Marie Roget (a)

Edgar Allan Poe - Contos


O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842  


      Poucas pessoas haverá, mesmo entre os mais calmos pensadores, que não tenham sido alguma vez invadidas por uma vaga mas marcante semicrença no sobrenatural, em face de certas coincidências de um caráter aparentemente tão maravilhoso que o espírito se sente incapaz de admiti-las como puras coincidências. Tais sentimentos (pois as semicrenças de que falo nunca têm a perfeita energia do pensamento), tais sentimentos, repete-se, só muito dificilmente podem ser reprimidos, a menos que se recorra à ciência da sorte ou, segundo a denominação técnica, ao cálculo das probabilidades. Ora, este cálculo é, na sua essência, apenas matemático, e temos assim a anomalia de a ciência mais rigorosamente exata aplicada à sombra e à espiritualidade do que há de mais impalpável no mundo da especulação.
     Os extraordinários pormenores que me convidaram a publicar constituem, como se verá, quanto à sucessão das épocas, o primeiro ramo de uma série de coincidências quase inimagináveis de que todos os leitores encontrarão o ramo secundário ou final no assassínio recente de Mary Cecilia Rogers, em Nova Iorque.
     Quando, num artigo intitulado Os Crimes da Rua Morgue, me apliquei, há cerca de um ano, a descrever alguns dos traços mais salientes do caráter espiritual do meu amigo C. Auguste Dupin, não me ocorreu a ideia de que teria algumas vezes de voltar ao mesmo assunto. Apenas tinha o objetivo de descrever esse caráter, o que era perfeitamente conseguido através da estranha série de circunstâncias feitas para trazer à luz a idiossincrasia de Dupin. Teria podido acrescentar outros exemplos, mas com isso não teria provado qualquer coisa mais. Todavia, acontecimentos recentes, na sua surpreendente evolução, despertaram bruscamente na minha memória alguns outros pormenores, que guardarão assim, presumo, um certo ar de confissão arrancada. Depois de saber tudo o que só muito recentemente me foi contado, seria verdadeiramente estranho que guardasse silêncio sobre o que ouvi e vi há já muito tempo.
     Após a conclusão da tragédia ligada à morte da senhora L’Espanaye e da sua filha, o cavaleiro Dupin expulsou o caso do seu espírito e recaiu nos velhos hábitos de sombrio devaneio. Muito inclinado, desde sempre, para a abstração, o seu caráter não tardou em impeli-lo uma vez mais nesse sentido, e, continuando a ocupar o nosso apartamento no bairro Saint-Germain, abandonámos aos ventos toda e qualquer preocupação quanto ao futuro, e embalámo-nos tranquilamente no presente, bordando com os nossos sonhos a trama fastidiosa do mundo circundante.
     Estes sonhos, contudo, não decorreram sem interrupções. Adivinha-se facilmente que o papel desempenhado pelo meu amigo no drama da Rua Morgue deixou uma certa impressão no espírito da Polícia parisiense. Entre os seus agentes, o nome de Dupin tinha-se tornado uma palavra familiar. Nunca tendo sido explicado ao prefeito, nem a qualquer outro indivíduo, com exceção de mim próprio, o caráter simples das induções através das quais desvendara o mistério, não é de estranhar que o caso tenha sido considerado quase milagre, ou que as faculdades analíticas de Dupin lhe tenham valido a aura maravilhosa da intuição. A sua franqueza tê-lo-ia sem dúvida levado a desenganar todos os que persistissem em tal erro, mas a indolência foi o motivo por que um assunto que para ele deixara havia muito de ter interesse não fosse novamente agitado. Aconteceu assim que Dupin se tornou o foco para o qual se voltavam os olhos da Polícia, e em mais de uma ocasião a Prefeitura envidou esforços no sentido de conseguir o concurso dos seus talentos. Um desses casos mais notáveis foi o do assassínio de uma jovem chamada Marie Roget.
     Este acontecimento ocorreu cerca de dois anos depois do horror da Rua Morgue. Marie, cujos nomes de batismo e de família atrairão sem dúvida a atenção pela semelhança que apresentam com os de uma jovem e infortunada vendedora de charutos, era a única filha da viúva Estelle Roget. O pai morrera durante a infância da jovem e, desde essa data até dezoito meses antes do assassínio que constitui o tema do nosso relato, mãe e filha sempre tinham vivido juntas na Rua Pavée-Saint-André, onde a senhora Roget governava uma pensão burguesa, com a ajuda de Marie. E as coisas correram assim até que a jovem fez 22 anos, quando a sua grande beleza atraiu as atenções de um negociante de perfumes que ocupava uma das lojas do rés do chão do Palais Royal, e cuja clientela era principalmente constituída pelos aventureiros que infestam as vizinhanças. O senhor Le Blanc apercebeu-se imediatamente das vantagens que poderia tirar da presença da bela Marie no seu estabelecimento de perfumaria, e as suas propostas foram vivamente aceites pela jovem, ainda que tenham despertado na senhora Roget qualquer coisa mais do que hesitação.
     As esperanças do negociante realizaram-se, e os encantos da bela caixeira não tardaram em pôr em voga os seus salões. Ocupava o lugar havia cerca de um ano quando os seus admiradores foram lançados na desolação pela sua brusca desaparição da loja. O senhor Le Blanc confessou-se incapaz de dar contas desta ausência, e a senhora Roget ficou louca de inquietação e terror. Os jornais apoderaram-se imediatamente do assunto e a Polícia preparava-se para levar a cabo uma investigação a fundo quando, uma bela manhã, uma semana mais tarde, Marie, de perfeita saúde, mas com um ar ligeiramente entristecido, reapareceu, como de costume, atrás do balcão da perfumaria. Todas as investigações, exceto as que se revestiam de um caráter privado, foram imediatamente interrompidas. O senhor Le Blanc continuava, como anteriormente, a nada saber. Marie e a mãe respondiam, a quem as interrogava, que tinham passado a última semana em casa de um parente, no campo. O caso caiu assim num esquecimento geral, pois a jovem, com o objetivo de subtrair-se à impertinência da curiosidade, abandonou de vez a perfumaria e foi refugiar-se em casa da mãe, na Rua Pavée-Saint-André. 
     Havia cerca de seis meses que regressara a casa, quando os seus amigos foram alarmados por uma súbita e nova desaparição. Passaram-se três dias sem que se ouvisse falar a respeito da jovem. Ao quarto dia, o seu corpo foi descoberto flutuando no Sena, perto da margem que faz face ao bairro da Rua Saint-André, num local não muito distante dos arredores pouco frequentados da barreira do Roule.
     A atrocidade do crime (pois foi imediatamente evidente que de crime se tratava), a juventude e a beleza da vítima, e, ainda por cima, a sua notoriedade anterior — tudo contribuía para suscitar uma intensa excitação nos espíritos dos sensíveis parisienses. Não me recordo de um caso semelhante que tenha causado um efeito tão vivo e tão geral. Durante algumas semanas, até as graves questões políticas da altura foram substituídas nas discussões por este único e absorvente tema; e todas as forças da Polícia parisiense foram lançadas na investigação na máxima força.
     Quando o cadáver foi descoberto, ninguém supôs que o assassino pudesse escapar por muito tempo às pesquisas imediatamente ordenadas. Só ao cabo de uma semana se julgou necessário oferecer uma recompensa, e até essa recompensa se limitou, na altura, à soma de mil francos. Todavia, a investigação continuava com vigor, embora sem discernimento, e numerosos indivíduos foram interrogados, mas sem resultado. Entretanto, a ausência total de fio condutor neste mistério mais não fazia do que aumentar a excitação popular. Ao fim do décimo dia, considerou-se oportuno duplicar a soma inicialmente proposta, e pouco a pouco, tendo decorrido a segunda semana sem que se chegasse a qualquer conclusão, e porque a má opinião que Paris sempre formou a respeito da Polícia se houvesse manifestado em vários motins de alguma gravidade, o prefeito resolveu oferecer a soma de vinte mil francos « pela denúncia do assassino» , ou, se várias pessoas estivessem implicadas no caso, « pela denúncia dos assassinos» . Na proclamação que anunciava esta recompensa, era prometida plena amnistia a todo o implicado que depusesse espontaneamente contra o seu cúmplice, e à declaração oficial, onde quer que fosse afixada, juntava-se um cartaz privado, emanado de uma comissão de cidadãos, que oferecia dez mil francos, além da soma proposta pela Prefeitura. A recompensa inteira ascendia assim a trinta mil francos, o que pode ser considerado uma soma extraordinária, tendo em conta a humilde condição da pequena e a frequência com que, nas grandes cidades, se registam atrocidades no género.
     A partir de então já ninguém duvidou de que o mistério seria rapidamente descoberto. Mas ainda que, num ou dois casos, tenham sido efetuadas prisões que aparentemente poderiam permitir um esclarecimento, nada se descobriu que incriminasse as pessoas suspeitas, as quais foram imediatamente postas em liberdade. Por estranho que isso possa parecer, três semanas tinham já passado sobre a descoberta do cadáver, três semanas decorridas sem que fosse lançada a mais débil réstia de luz sobre o assunto, e nem o mais fraco rumor a respeito dos acontecimentos que tão violentamente agitavam a opinião pública tinha ainda chegado aos nossos ouvidos. Dupin e eu, dedicados a pesquisas que absorviam toda a nossa atenção havia mais de um mês, não puséramos, nem um nem o outro, o pé na rua, não recebêramos qualquer visita e mal tínhamos lançado um olhar aos principais artigos políticos de um dos jornais quotidianos. A primeira notícia sobre o crime foi-nos levada por G... em pessoa. Foi procurar-nos a 13 de julho de 18..., ao começo da tarde, e ficou conosco até bastante tarde. Estava vivamente mortificado pelo insucesso dos seus esforços para descobrir os assassinos. A sua reputação, dizia, com um ar essencialmente parisiense, estava em jogo, a sua própria honra comprometia-se no caso. Os olhos do público, de resto, estavam cravados nele, e não havia verdadeiramente sacrifício que não estivesse disposto a fazer para conseguir o esclarecimento do mistério. Terminou o seu discurso, razoavelmente divertido, com um cumprimento relativo àquilo a que quis chamar o facto de Dupin, e fez-lhe uma proposta direta, certamente muito generosa, mas cujo valor não me assiste o direito de revelar aqui, além do que não tem qualquer relação com o objeto do meu relato.
     O meu amigo rejeitou o cumprimento o melhor que pôde, mas aceitou imediatamente a oferta, ainda que as suas vantagens fossem absolutamente condicionais. Estabelecido este ponto, o prefeito lançou-se imediatamente numa explicação das suas próprias ideias, intercalando-lhe longos comentários sobre os depoimentos, os quais não possuíamos. Discorria longamente e até, sem dúvida, doutamente, quando eu arrisquei uma observação sobre a noite que avançava, convidando ao sono. Dupin, firmemente sentado no seu cadeirão habitual, era a encarnação da respeitosa atenção. Conservara os óculos durante toda a entrevista e, lançando de vez em quando um olhar ao seu rosto protegido pelas lentes verdes, tinha-me convencido de que, embora silencioso, o seu sono não fora menos profundo durante as sete ou oito últimas e pesadas horas que precederam a partida do prefeito.
     Na manhã seguinte, obtive, na Prefeitura, um relatório completo de todos os depoimentos obtidos até então, e, nas redações de diversos jornais, um exemplar de cada um dos números em que, desde o primeiro ao último momento, aparecera qualquer documento com interesse relativo ao triste caso. Desembaraçada do que podia positivamente considerar-se falsidade, esta massa de informações reduzia-se ao seguinte:

Marie Roget saíra de casa da mãe, na Rua Pavée-Saint-André, no domingo 22 de junho de 18..., por volta das nove da manhã. Ao sair dera parte ao senhor Jacques Saint-Eustache, e só a ele, da sua intenção de passar o dia em casa de uma tia, que vivia na Rua Drômes. A Rua Drômes é uma passagem curta e estreita, mas muito populosa, não muito longe da margem do rio, e situada a uma distância de duas milhas, em linha reta, da pensão da senhora Roget. Saint Eustache era o pretendente confessado de Marie, e vivia na pensão, onde tomava igualmente as suas refeições. Deveria ir buscar a noiva ao fim da tarde para acompanhá-la a casa. Mas, da parte da tarde, começara a chover copiosamente e, supondo que a jovem passaria a noite em casa da tia (como já fizera em circunstâncias semelhantes), Saint-Eustache não julgara necessário manter a sua promessa. Já noite cerrada, a senhora Roget (que era velha e doente), expressara o receio de « não voltar a ver Marie» , mas na altura ninguém tinha dado muita atenção a estas palavras.

     Na segunda-feira, verificou-se que a jovem não fora a casa da tia, e quando o dia passou sem que dela houvesse notícias, organizou-se então uma tardia busca em diversos pontos da cidade e dos arredores. Todavia, só no quarto dia sobre a desaparição se soube qualquer coisa de importante a seu respeito. Nesse dia (quarta-feira, 25 de junho), um tal senhor Beauvais, que com um amigo procurava vestígios de Marie perto da barreira do Roule, na margem do Sena oposta à Rua Pavée-Saint-André, foi informado de que um corpo acabava de ser trazido para terra por uns pescadores, os quais o haviam encontrado a flutuar no rio. Ao ver o corpo, Beauvais declarou, após alguma hesitação, tratar se do da jovem da perfumaria. O amigo reconheceu-o mais prontamente.
     O rosto estava coberto de sangue negro, em parte jorrado da boca. Não havia escuma, como acontece nos casos de pessoas simplesmente afogadas, nem descoloração no tecido celular. O pescoço apresentava contusões e marcas de dedos. Os braços, rígidos, estavam dobrados sobre o peito. A mão direita crispada, a esquerda meio aberta. O pulso esquerdo apresentava duas escoriações circulares, aparentemente causadas por cordas, ou por uma corda a que tivesse sido dada mais de uma volta. Uma parte do pulso direito estava também muito arranhado, assim como as costas, em toda a sua extensão, mas particularmente nas omoplatas. Para levar o corpo para a margem, os pescadores tinham-no amarrado com uma corda, mas não fora essa a causa das escoriações em questão. A carne do pescoço estava muito inchada. Não havia golpes aparentes, nem marcas que parecessem resultado de pancadas. Descobriu-se um pedaço de fio de tal modo apertado em torno do pescoço que se tornava difícil distingui-lo: estava completamente cravado na carne, e preso com um nó debaixo da orelha esquerda. Só isso teria bastado para causar a morte. O relatório dos médicos garantia firmemente a virtude da defunta. Tinha sido vencida, diziam, pela força bruta. O cadáver de Marie, ao ser encontrado, apresentava-se em condições tais que não podia deixar de haver, da parte dos seus amigos, certa dificuldade em reconhecê-la.
     O vestuário apresentava-se rasgado e em grande desordem. Da roupa exterior fora rasgada, de baixo para cima, uma tira com cerca de trinta centímetros de largura, da orla da saia até à cintura. Esta tira, que não chegara a ser arrancada, fora enrolada três vezes em torno da cintura e presa nas costas por um nó muito sólido. A peça de roupa imediatamente por baixo do vestido era de musselina fina; desta peça fora arrancada, mas muito regularmente e com grande nitidez, uma tira com a largura de quarenta centímetros, que foi encontrada em torno do pescoço, mas colocada de modo a ficar muito larga, presa por um nó apertado. Por cima desta tira de musselina e do pedaço de fio, estavam amarradas as tiras de um chapéu. O nó que prendia estas tiras não era como os que geralmente fazem as mulheres, mas um nó corrediço, à maneira dos marinheiros.

continua na página 455...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 61 - Stubb mata uma baleia

Moby Dick

Herman Melville

61 - Stubb mata uma baleia
     Se para Stubb a aparição da Lula foi coisa agourenta, para Queequeg tudo se deu de outro modo.

“Quando vuncê vê’ lula”, disse o selvagem, afiando seu arpão na popa do bote suspenso, “depois tu logo vê’ Cachalote.”

     O dia seguinte foi extremamente parado e abafado, e, com nada de especial para ocupá-la, a tripulação do Pequod quase não conseguiu resistir ao encanto do sono gerado por um mar tão apático. Pois aquela parte do oceano Índico por onde àquelas alturas viajávamos não é o que os baleeiros chamam de zona agitada; ou seja, ela oferece pouquíssimas aparições de marsopas, peixes voadores, e outros nativos vivos de águas mais agitadas, como as imediações do Rio da Prata, ou ao largo das costas do Peru.
     Era minha vez de ficar no topo do mastro de proa; e, com os ombros apoiados contra as cordas frouxas dos ovéns, para frente e para trás eu balançava indolente no que parecia ser uma atmosfera encantada. Nenhuma vontade conseguiria resistir; naquele divagar perdendo toda a consciência, por fim minha alma se desprendeu do corpo; ainda que meu corpo continuasse a oscilar como um pêndulo, muito tempo depois de a força que lhe tinha dado impulso ter se retirado.
     Antes que o abandono total me dominasse, notei que os marinheiros no topo dos mastros principal e de mezena estavam igualmente sonolentos. De modo que, por fim, nós três nos balançávamos desfalecidos no arvoredo, e para cada balanço que fazíamos havia embaixo um meneio do timoneiro que dormitava. As ondas também meneavam suas cristas indolentes; e, ao longo do imenso transe do oceano, o leste meneava para o oeste, e o sol pairava sobre todos.
     De repente, pareceu-me que bolhas estouravam para além dos meus olhos fechados; como prensas, minhas mãos se agarraram aos ovéns; uma misteriosa força invisível me salvou; com um choque voltei à vida. E, oh!, bem perto, a sotavento, a menos de quarenta braças, um Cachalote gigantesco rolava pela água como o casco virado de uma fragata, seu dorso enorme e lustroso, de uma cor Etíope, brilhando ao sol como um espelho. Mas ondulando preguiçosa pelas cavas do mar, e, vez ou outra, lançando tranquila seu jato vaporoso, a baleia parecia um burguês corpulento fumando o seu cachimbo numa tarde de calor. Mas aquele cachimbo, pobre baleia, foi o teu último! Como se tocado por uma varinha de condão, o navio sonolento e todos os que cochilavam começaram de uma vez a despertar; e dezenas de vozes de todas as partes do navio, junto com as três que vinham do alto, lançaram o grito costumeiro, enquanto o peixe enorme, com calma e com regularidade, esguichava no ar a salmoura cintilante.

“Arriar os botes! Orçar!”, gritou Ahab. E, obedecendo à sua própria ordem, baixou o leme antes que o timoneiro pudesse pegá-lo.

     Os gritos repentinos da tripulação devem ter assustado a baleia; e antes que os botes descessem à água, virando-se com majestade, ela nadou a sotavento, mas com tal tranquilidade, e fazendo tão pouco movimento enquanto nadava, que Ahab, pensando que talvez ainda não estivesse assustada, deu ordens para que nem um remo fosse usado e que nenhuma palavra fosse proferida, senão em sussurros. Assim sentados, tal como Índios de Ontário nas amuradas dos botes, com as pás largas vogávamos rápida e silenciosamente; uma vez que a calmaria não nos permitia usar as velas. Logo, enquanto desse modo deslizávamos em seu encalço, o monstro levantou a cauda perpendicularmente a quarenta pés no ar e afundou, desaparecendo como uma torre que fosse tragada.

“Ali vai a cauda!”, foi o grito, anúncio imediatamente seguido da presteza de Stubb em pegar um fósforo e acender seu cachimbo, pois agora haveria descanso garantido. Decorrido o intervalo da sondagem, a baleia emergiu de novo e, estando de frente para o bote do fumante, mais perto dele do que dos outros botes, Stubb se fez de rogado das honras de capturá-la. Era óbvio, àquela altura, que a baleia havia se apercebido de seus perseguidores. Todo o silêncio da cautela de nada mais adiantava. As pás largas foram deixadas, e os remos entraram ruidosamente em ação. Ainda dando baforadas no seu cachimbo, Stubb incitou a tripulação ao ataque.

     Sim, uma mudança brusca acometera o peixe. Sensível ao perigo, vinha de “cabeça para fora”; projetando obliquamente essa sua parte para fora da espuma que produzia.{a}

{a} Em outra parte, ver-se-á de que substância leve consiste o interior todo da cabeça enorme do Cachalote. Ainda que aparentemente a mais pesada, é de longe a mais leve. Por isso, ergue-a com facilidade, e invariavelmente o faz quando nada em alta velocidade. Além disso, tal é a largura da parte superior e dianteira de sua cabeça, e tal a forma afilada de sua parte inferior, em talha-mar, que, ao levantá-la obliquamente, se pode dizer que de uma galeota vagarosa de proa larga a baleia se transforma numa barca de piloto nova-iorquina pontiaguda. [N. A.]

“Força, força, meus homens! Não se apressem; demorem bastante – mas façam força; a força de um estrondo de trovão, e só!”, gritou Stubb, soltando a fumaça enquanto falava. “Força, agora; quero um movimento forte e demorado, Tashtego. Força, Tash, meu jovem – força, todos; mas mantenham a calma, mantenham a calma – frieza é a palavra –, devagar, devagar – façam força como os demônios sorridentes e a morte sombria, e levantem perpendicularmente os defuntos enterrados em seus túmulos, rapazes – só isso. Força!”
“Uuh-uuh! Uah-ih!”, berrou o nativo de Gay Head em resposta, lançando algum antigo grito de guerra aos céus, enquanto todos os remadores no bote tensionado foram involuntariamente jogados para a frente com o fortíssimo golpe que o Índio impetuoso desferiu.

     Mas seus gritos selvagens foram respondidos por outros quase tão selvagens.

“Qui-ih! Qui-ih!”, bradou Daggoo, fazendo força para a frente e para trás em seu assento, como um tigre que anda na jaula.
“Qua-la! Quu-lu!”, uivou Queequeg, como se estalasse os lábios abocanhando um bom pedaço de bife. E assim, com remos e gritos as quilhas singravam o mar. Enquanto isso, Stubb, mantendo-se à frente, encorajava seus homens ao ataque, sem parar de baforar a fumaça. Como criminosos destemidos eles desciam os remos e os puxavam de volta com força, até que o grito tão esperado surgiu:
“Levante-se, Tashtego! – Ao ataque!”. O arpão foi arremessado. “À ré!” Os remadores recuaram; no mesmo instante alguma coisa passou quente e sibilante por seus pulsos. Era a ostaxa mágica. Pouco antes, Stubb havia rapidamente lhe dado duas voltas adicionais em torno do posto da arpoeira, de onde, em razão da rapidez com que corria, a fumaça azul do cânhamo subia e se misturava às baforadas sempre presentes de seu cachimbo. À medida que a ostaxa girava em torno do posto da arpoeira; assim também, antes de chegar àquele ponto, ela passava cortante pelas mãos de Stubb, das quais os panos para a mão, ou pedaços de lona acolchoada, às vezes úteis nessas ocasiões, haviam caído. Era como segurar pela folha a afiada espada de dois gumes de um inimigo, enquanto este a retorce todo o tempo para arrancá-la de suas mãos.
“Molhe a ostaxa! Molhe a ostaxa!”, gritou Stubb para o remador da selha (ele sentado perto da selha), o qual, tirando o chapéu, jogou água nela.{b} Mais voltas correram, de modo que a ostaxa começou a parar. O bote voava naquele momento pela água agitada como um tubarão cheio de nadadeiras. Stubb e Tashtego trocaram de lugares – popa por proa –, uma tarefa realmente desconcertante em meio àquela comoção balançante.

{b} Para mostrar como até certo ponto esse gesto é indispensável, lembro que na antiga pescaria Holandesa se usava um pano para molhar com água a ostaxa que corria; em muitos outros navios, leva-se um pequeno balde de madeira para esse fim. No entanto, o chapéu é o mais prático. [N. A.]

     Da ostaxa vibrante, esticada por toda a extensão da parte superior do bote, e do fato de estar mais tensa que a corda de uma harpa, a impressão era de que a embarcação tinha duas quilhas – uma cortando a água, a outra o ar –, pois o bote corria agitado através dos dois elementos opostos de uma só vez. Uma cascata contínua se formava na proa; e um torvelinho ininterrupto na esteira; e, ao menor movimento dentro do bote, mesmo o de um dedinho, a embarcação, que vibrava e rangia, oscilava sua amurada convulsiva nas águas. Assim passavam, desbragados; todos os homens agarrados com toda a força aos bancos, para evitar serem lançados à espuma; e a silhueta alta de Tashtego junto ao remo-guia como que se desdobrando em duas para manter seu centro de equilíbrio. Atlânticos e Pacíficos inteiros pareciam ficar para trás enquanto eles disparavam em seu caminho, até que, por fim, a baleia afrouxou um pouco sua fuga.

“Recolher – Recolher!”, gritou Stubb ao remador da proa e, voltando-se para a baleia, todas as mãos começaram a puxar o bote para perto dela, enquanto o bote ainda corria a reboque. Logo chegando perto de seu flanco, Stubb, firmando o seu joelho na tosca castanha, dardejou dardo após dardo no peixe fugitivo; a seu comando, o bote ora retrocedia frente às horríveis contorções da baleia, ora se aproximava para um novo ataque.

     A corrente vermelha jorrava de todos os lados do monstro, como riachos colina abaixo. Seu corpo torturado rolava não mais na água salgada, mas no sangue, que borbulhava e fervia por centenas de metros em sua esteira. O sol crepuscular, lançando luz sobre aquele lago carmim, devolvia seu reflexo aos rostos de todos, que cintilavam entre si como se fossem peles-vermelhas. Por todo esse tempo, jatos e mais jatos de fumaça branca eram esguichados em agonia do espiráculo da baleia, e baforadas e mais baforadas veementemente expelidas da boca do oficial agitado; enquanto a cada arremesso, recolhendo a lança retorcida (por meio da vioneira a ela presa), Stubb a endireitava, batendo-a contra a amurada, para depois arremessá-la de novo contra a baleia.

“Puxar – puxar!”, gritava para o remador da proa, enquanto a baleia abatida arrefecia sua fúria. “Puxar! – mais perto!”, e o bote costeou o flanco do peixe. Quando estava bem em cima da proa, Stubb cravou lentamente sua lança comprida e afiada no peixe, e ali a manteve, revolvendo sempre de novo, cuidadoso, como se estivesse cautelosamente procurando por um relógio de ouro que a baleia tivesse engolido, e que ele temia que se quebrasse antes de conseguir fisgá-lo para fora. Mas aquele relógio de ouro que procurava era a vida mais profunda do peixe. E ele então a atingiu; pois saindo de seu transe para aquela coisa indescritível que se chama “convulsão”, o monstro contorceu-se terrivelmente em seu próprio sangue, envolveu-se num impenetrável, ardente e louco vapor, de tal modo que a embarcação a perigo, retrocedendo de imediato, teve muita dificuldade de sair às cegas daquele crepúsculo frenético para o ar límpido do dia.

     Já enfraquecida em sua convulsão, a baleia fez-se mais uma vez presente aos olhos; debatendo-se de um lado para o outro; dilatando e contraindo o espiráculo com espasmos e uma agonizante, seca e crepitante respiração. Por fim, sopros após sopros de sangue coagulado, como a borra púrpura do vinho tinto, foram lançados ao ar repleto de terror; e caindo, escorreram dos flancos imóveis para o mar. Seu coração havia estourado!

“Está morta, senhor Stubb”, disse Tashtego.
“Sim; os dois cachimbos se apagaram!”, e tirando-os da boca Stubb espalhou as cinzas mortas sobre a água; e, por um instante, ficou a olhar pensativo para o imenso cadáver que havia feito

Continua na página 268...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
57 - Das baleias pintadas a óleo / 58 - Brit / 59 - Lula / 60 - A Ostaxa / 61 - Stubb mata uma baleia /                        
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Cinema: Casanova de Fellini

FEDERICO FELLINI (1976) 

Il Casanova di Federico Fellini


No século XVIII, o libertino bibliotecário Giacomo Casanova é um grande colecionador de boas histórias. Visitante frequente da nobreza, ele viajou para todas as capitais europeias e conheceu as mais diversas culturas, além de manter alguns relacionamentos amorosos. Ele sonha com a boneca perfeita... sem alma e sem consciência.





𝑵𝒐𝒎𝒆 𝒅𝒐 𝑭𝒊𝒍𝒎𝒆: CasaNova de Fellini
𝑻𝒊́𝒕𝒖𝒍𝒐 𝑶𝒓𝒊𝒈𝒊𝒏𝒂𝒍: Il Casanova di Federico Fellini
𝑮𝒆̂𝒏𝒆𝒓𝒐: Biografia, Drama, Clássico
𝑫𝒊𝒓𝒆𝒄̧𝒂̃𝒐: FedericoFellini
𝑬𝒔𝒕𝒓𝒆𝒍𝒂𝒏𝒅𝒐: Carmen Scarpitta | Cicely Browne | Clara Algranti | Daniel Emilfork | Donald Sutherland | Dudley Sutton | Harold Innocent | Tina Aumont






Direção
Federico Fellini

Roteiristas
Giacomo Casanova
Federico Fellini
Bernardino Zapponi

Elenc
Donald Sutherland como Giacomo Casanova
Tina Aumont como Henriette
Cicely Browne como Madame D'Urfé
Carmen Scarpitta como Madame Charpillon
Clara Algranti como Marcolina
Daniela Gatti como Giselda
Margareth Clémenti como Sister Maddalena
Olimpia Carlisi como Isabella
Silvana Fusacchia como Isabella's sister
Chesty Morgan como Barberina (cenas deletadas) (apenas creditado)
Leda Lojodice como Rosalba the mechanical doll
Sandra Elaine Allen como Angelina the giantess
Clarissa Mary Roll como Anna Maria
Daniel Emilfork como Marquis Du Bois
Luigi Zerbinati como Pope
Hans van de Hoek como Prince Del Brando
Dudley Sutton como Duke of Wuertemberg
John Karlsen como Lord Talou
Reggie Nalder como Faulkircher
Majorite Belle como Countess of Waldenstein (não creditado)
Alessandra Belloni como Princess (não creditado)
Mariano Brancaccio como Dancer (não creditado)
Carli Buchanan como Aristocratic woman in Rome (não creditado)
Mario Cencelli como Moebius (não creditado)
Francesco De Rosa como Servant of Casanova in London (não creditado)
Mario Gagliardo como Righetto (não creditado)
Angelica Hansen como Hunchbacked lady (não creditado)
Donald Hodson como Hungarian captain (não creditado)
Harold Innocent como Count Saint-Germain (não creditado)
Diane Kurys como Madame Charpillon (não creditado)
Norbert Losch como Admiral at dinner table (não creditado)
Elisa Mainardi como Party guest (não creditado)
Mauro Mannatrizio como Man watching aged Casanova poetry recital (não creditado)
Mary Marquet como Casanova's mother (não creditado)
Maria Mascarielli como Dinner guest (não creditado)
Veronica Nava como Romana (não creditado)
Gennarino Pappagalli como Servant of Prince Dal Brando (não creditado)
Marie Párová (não creditado)
Isabel Pisano como (não creditado)
Marika Rivera como Astrodi (não creditado)
Nicholas Smith como Casanova's Brother (não creditado)
Antonio Spinnato como Stage Actor (não creditado)
Pietro Torrisi como Brute Man (não creditado)
Dan van Husen como Viderol (não creditado)
Jean-Claude Vernè como Party guest (não creditado)
Renato Zero como Organist (não creditado)


Ainda que o roteiro seja baseado na autobiografia Histoire de Ma Vie, do aventureiro italiano Giacomo Casanova, a história se desenrola sob a ótica muito particular do diretor Fellini. Daí, a inclusão de seu nome no título do filme. Apesar de ambientada em vários países da Europa, a produção foi toda rodada nos estúdios Cinecittà, em Roma.

A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Quilombo / Casanova de Fellini / Che: O Argentino (Parte 1) /       

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Casanova sonha com a boneca perfeita... sem alma e sem consciência.

Espumas Flutuantes - A Luís

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

A LUÍS
  No dia de seu natalício
A imaginação, com o voo ousado, aspira
a princípio à eternidade... Depois um
pequeno espaço basta em breve para os destroços
de nossas esperanças iludidas!...
Goethe

Como um perfume de longínquas plagas
Traz o vento da pátria ao peregrino, 
 Ó meu amigo! que saudade infinda 
 Tu me trazes dos tempos de menino! 

É o ledo enxame de sutis abelhas 
 Que vem lembrar à flor o mel d’aurora... 
 Acres perfumes de uma idade ardente 
 Quando o lábio sorri... mas nunca chora! 

Que tempos idos! que esperanças louras! 
 Que cismas de poesia e de futuro! 
 Nas páginas do triste Lamartine 
 Quanto sonho de amor pousava puro!... 

E tu falavas de um amor celeste, 
 De um anjo, que depois se fez esposa... 
 — Moça, que troca os risos de criança 
 Pelo meigo cismar de mãe formosa. 

Oh! meu amigo! neste doce instante 
 O vento do passado em mim suspira, 
 E minh’alma estremece de alegria, 
 Como ao beijo da noite geme a lira. 

Tu paraste na tenda, ó peregrino! 
 Eu vou seguindo do deserto a trilha; 
 Pois bem... que a lira do poeta errante 
 Seja a bênção do lar e da família. 
 Rio, fevereiro de 1868


DALILA
Fair defect of nature 
 Paradise Lost — Milton
Foi desgraça, meu Deus!... Não!... Foi loucura 
 Pedir seiva de vida — à sepultura, 
 Em gelo — me abrasar, 
 Pedir amores — a Marco sem brio, 
 E a rebolcar-me em leito imundo e frio 
 — A ventura buscar.

Errado viajor — sentei-me à alfombra 
 E adormeci da mancenilha à sombra 
 Em berço de cetim... 
 Embalava-me a brisa no meu leito... 
 Tinha o veneno a lacerar-me o peito 
— A morte dentro em mim...

Foi loucura!... No ocaso — tomba o astro; 
 A estátua branca e pura de alabastro 
 — Se mancha em lodo vil... 
 Quem rouba a estrela — à tumba do ocidente? 
 Que Jordão lava na lustral corrente 
 O marmóreo perfil?...  

.....................................................................

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta 
 Ela passou sozinha, macilenta 
 Tremendo a soluçar... 
 Chorava — nenhum eco respondia... 
 Sorria — a tempestade além bramia... 
 E ela sempre a marchar.  

E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma. 
 Tens os pés a sangrar? — podes em calma 
 Dormir no peito meu. 
 Pomba errante — é meu peito um ninho vago! 
 Estrela — tens minha alma — imenso lago — 
 Reflete o rosto teu!... 

E amamos... Este amor foi um delírio... 
 Foi ela minha crença, foi meu lírio, 
 Minha estrela sem véu... 
 Seu nome era o meu canto de poesia, 
 Que com o sol — pena de ouro — eu escrevia 
 Nas lâminas do céu. 

Em seu seio escondi-me... como à noite 
 Incauto colibri, temendo o açoite 
 Das iras do tufão, 
 A cabecinha esconde sob as asas, 
 Faz seu leito gentil por entre as gazas 
 Da rosa do Japão. 

E depois... embalei-a com meus cantos 
 Seu passado esqueci... lavei com prantos 
 Seu lodo e maldição... 
 ... Mas um dia acordei... E mal desperto 
 Olhei em torno a mim... — Tudo deserto... 
 Deserto o coração...

Ao vento, que gemia pelas franças 
 Por ela perguntei... de suas tranças 
 À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio... 
 E meu lábio queimado e o peito frio, 
 Foi ela que o queimou... 

Minha alma nodoou no ósculo imundo, 
 Bem como Satanás — beijando o mundo — 
 Manchou a criação, 
 Simum — crestou-me da esperança as flores... 
 Tormenta — ela afogou nos seus negrores 
 A luz da inspiração... 

Vai, Dalila!... É bem longa tua estrada... 
 É suave a descida — terminada 
 Em báratro cruel. 
 Tua vida — é um banho de ambrosia... 
 Mais tarde a morte e a lâmpada sombria 
 Pendente do bordel.

Hoje flores... A música soando... 
 As perlas do Champagne gotejando 
 Em taças de cristal. 
 A volúpia a escaldar na louca insônia... 
 Mas sufoca os festins de Babilônia 
 A legenda fatal. 

Tens o seio de fogo e a alma fria. 
 O cetro empunhas lúbrico da orgia 
 Em que reinas tu só!... 
 Mas que finda o ranger de uma mortalha, 
 A enxada do coveiro que trabalha 
 A revolver o pó.

Não te maldigo, não!... Em vasto campo 
 Julguei-te — estrela, — e eras — pirilampo 
 Em meio à cerração... 
 Prometeu — quis dar luz á fria argila... 
 Não pude... Pede a Deus, louca Dalila, 
 A luz da redenção!!...
Recife, 1864. 

continua pag 59...
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A Luís /                    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.