sábado, 17 de outubro de 2026

MPB: De janeiro a janeiro

Roberta Campos e Nando Reis







Não consigo olhar no fundo dos seus olhos
E enxergar as coisas que me deixam no ar, deixam no ar
As várias fases, estações que me levam com o vento
E o pensamento bem devagar

Outra vez eu tive que fugir
Eu tive que correr pra não me entregar
Às loucuras que me levam até você
Me fazem esquecer que eu não posso chorar

Olhe bem no fundo dos meus olhos
E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar
O Universo conspira a nosso favor
A consequência do destino é o amor
Pra sempre vou te amar

Mas talvez você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor não será passageiro
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar

Até o mundo acabar
Até o mundo acabar
Até o mundo acabar

Mas talvez você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor não será passageiro
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar

Até o mundo acabar
Até o mundo acabar
Até o mundo acabar

De janeiro a janeiro

Composição: Roberta Campos



Nando Reis - 50 fatos sobre a amizade com Cássia Eller




Cássia Eller - All Star





Roberta Campos - Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor



“Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” é uma canção que Milton Nascimento lançou no álbum Pietá (2005), composta por Márcio Borges e Lô Borges.


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Deus me proteja / Vem pra cá / Leva / Trem das Onze / Romaria / De janeiro a janeiro /                     

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 4 (II. Alócha em casa de seu pai)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


SEGUNDA PARTE
LIVRO IV
OS TUMULTOS
II
ALIÓCHA EM CASA DE SEU PAI
 
     Aliócha começou por ir em primeiro lugar à casa de seu Ao aproximar-se, lembrou-se da recomendação feita na véspera, de entrar sem que Ivã ficasse sabendo. "Por quê?", perguntou a si mesmo. "Se meu pai quer fazer-me uma confidência, é esta uma razão para entrar furtivamente? Queria, sem dúvida, na sua emoção, dizer-me outra coisa ontem e não pôde", decidiu ele. No entanto, sentiu se satisfeito ao saber de Marfa Ignátievna, que lhe abriu a porta do jardim (Gregório estava deitado, doente), que Ivã saíra havia duas horas.

— E meu pai?
— Levantou-se, está tomando seu café — respondeu a velha. 

     Aliócha entrou.
     O velho, sentado à sua mesa, de chinelos e com um casaco bastante surrado, examinava contas para se distrair, sem grande interesse de resto. Encontrava-se sozinho na casa, tendo Smierdiákov saído para comprar provisões. Sua atenção estava alhures. Se bem que se tivesse levantado bem cedo e bancado o corajoso, parecia fatigado, fraco. Sua testa, onde, durante a noite, se haviam formado equimoses, estava enrolada num lenço de seda vermelha. O nariz, muito inchado, dava a seu rosto uma expressão particularmente má, irritada. O velho dava-se conta disso e acolheu Aliócha com um olhar pouco amigável.

— O café está frio — disse ele num tom seco —, não te ofereço. Hoje, meu caro, tenho apenas uma magra sopa de peixe e não convido ninguém. Por que vieste? 
— Vim saber notícias suas — declarou Aliócha.
— Sim. Aliás, tinha-te pedido ontem que viesses. Tolices tudo isso. Tu te incomodaste em vão. Sabia bem que haverias de vir... 

     Suas palavras refletiam o sentimento mais hostil. Entretanto, havia se levantado e examinava ansiosamente seu nariz no espelho (pela quadragésima vez talvez desde a manhã). Arranjou com extremo cuidado seu lenço vermelho na testa. 

— O vermelho assenta melhor, o branco lembra imediatamente o hospital — observou ele, num tom sentencioso.
— Pois bem! Que há de novo? Como vai teu stáriets? 
— Está muito mal, morrerá talvez hoje — disse Aliócha; mas seu pai não lhe prestou atenção.
— Ivã saiu — disse ele, de repente. — Esforça-se por furtar a noiva de Mítia. Por isso é que permanece aqui — acrescentou com raiva, a boca contraída, olhando Aliócha.
— Ele mesmo lhe disse? 
— Desde muito tempo, há já três semanas. Não foi para assassinar-me às ocultas que ele veio; tem pois um fito.
— Como! Por que diz isso? — perguntou Aliócha, com angústia.
— Não pede dinheiro, é verdade; aliás, não terá nada. Eu, meu caríssimo Alieksiéi Fiódorovitch, tenho a intenção de viver o mais tempo possível, toma nota disso; assim, tenho necessidade de todo o meu dinheiro, e quanto mais avançar em idade, mais precisarei — continuou Fiódor Pávlovitch, com as mãos nos bolsos de seu casaco manchado, de durante amarela. — Agora, aos 55 anos, conservo minha força viril, e conto bem que isso durará ainda vinte anos; ora, envelhecerei, tornar-me-ei repulsivo, as mulheres não virão mais de boa vontade; então, precisarei de dinheiro. Eis por que, agora, amealho o mais possível, para mim só, meu caro filho Alieksiéi Fiódorovitch, fica sabendo bem, porque quero viver até o fim na libertinagem. É a existência mais agradável; todo mundo deblatera contra ela e todo mundo nela vive, mas às ocultas, e eu, em pleno dia. É por causa de minha franqueza que todos os canalhas me caíram em cima. Quanto ao teu paraíso, Alieksiéi Fiódorovitch, fica sabendo que não o quero, é até mesmo inconveniente para um homem às direitas, se é que existe. A gente dorme para não mais despertar, eis minha ideia. Manda dizer uma missa por mim, se quiseres, senão, que o diabo te leve! Eis minha filosofia. Ontem, Ivã falou bem a este respeito, no entanto, estávamos bêbedos. É um falador desprovido de erudição... não tem instrução, cala-se e ri da gente em silêncio, eis todo o seu talento.

     Aliócha escutava sem dizer palavra.

— Por que não me fala ele? E, quando fala, faz-se malicioso; é um miserável o teu Ivã! Casarei imediatamente com Grúchenhka, se quiser. Porque com dinheiro basta querer. Alieksiéi Fiódorovitch, tem-se tudo. É disto que Ivã tem medo, vigia-me para impedir meu casamento, e com este fito impele Mítia a fazer dela sua esposa; dessa maneira, entende preservar-me de Gruchka (na esperança de herdar, se não me casar com ela!); por outra parte, se Mítia se casar com ela, toma-lhe Ivã sua rica noiva, eis seu cálculo! É um miserável o teu Ivã!
— Como está o senhor irascível! É o resultado de ontem; o senhor deveria deitar-se — disse Aliócha.
— Tuas palavras não me irritam — observou o velho —, ao passo que vindas de Ivã me zangariam; somente contigo tenho tido bons momentos, porque sou mau. 
— O senhor não é mau, o senhor tem é o espírito corrompido — sorriu Aliócha. 
— Pois seja, eu queria mandar prender aquele bandido do Mítia e agora não sei que partido tomar. Sem dúvida, em nosso tempo, passa por preconceito respeitar pai e mãe; entretanto, as leis não permitem ainda arrastar um pai pelos cabelos, bater lhe no rosto com golpes de botas, em sua própria casa, e ameaçá-lo, diante de testemunhas, de vir liquidá-lo. Se eu quisesse, domá-lo-ia e poderia mandá-lo prender por causa da cena de ontem. 
— Então, não quer dar queixa? 
— Ivã dissuadiu-me disso. Zombo de Ivã, mas há uma coisa... Inclinou-se para Aliócha e continuou num tom confidencial: — Se mandar prender o canalha, ela ficará sabendo e correrá para ele. Mas se souber que ele quase me mata, a mim, débil velho, abandoná-lo-á talvez e virá ver-me... Tal é seu caráter, só age contraditoriamente. Conheço-a a fundo! Não queres conhaque? Toma café frio, servir-te-ei um quarto de cálice, isto dá bom gosto.  
— Não, obrigado. Levarei este pão, se o permitir — disse Aliócha, pegando um pãozinho francês de 3 copeques, que meteu no bolso de sua batina. — O senhor não deveria beber mais conhaque — aconselhou, timidamente, lançando uma olhadela furtiva para o velho.
— Tens razão, isto irrita. Mas só um copinho...

     Abriu o armário, serviu-se um copinho, tornou a fechar o armário e a pôr a chave no bolso. 

— Isto basta, não rebentarei por causa dum copinho...
— Ei-lo melhor! 
— Hum! Gosto de ti, mesmo sem conhaque, e sou um canalha para os canalhas! Ivã não parte para Tchermachniá porque tem intenção de espionar-me. Quer saber quanto darei a Grúchenhka, se ela vier. Todos uns miseráveis! Aliás, renego Ivã, não o compreendo. Donde vem ele? Sua alma não é como a nossa. Conta com minha herança. Mas não deixarei testamento, fica sabendo. Quanto a Mítia, eu o esmagarei como a uma barata; faço-as rebentar à noite sob meu chinelo; teu Mítia rebentará da mesma maneira. Digo "teu" Mítia porque o amas. mas isto não me faz medo. Se fosse Ivã que o amasse, temeria por mim mesmo. Mas Ivã não ama ninguém, não é dos nossos, as pessoas como ele, meu caro, não são semelhantes a nós, são poeira... Se o vento sopra, essa poeira se levanta... Foi uma fantasia que se apoderou de mim ontem, quando te disse que viesses hoje; queria informar-me por meio de ti a respeito de Mítia; será que em troca de 1 000 ou 2 000 rublos aquele tratante, aquele bandido, consentiria em ir-se daqui por cinco anos, ou melhor, por 35 anos, e em renunciar a Grúchenhka? Hein? — Eu... eu lhe perguntarei — murmurou Aliócha. — Por 3 000 rublos, talvez ele...
— Não, senhor! Não é preciso perguntar nada agora! Mudei de ideia. Foi um capricho que me deu ontem. Não darei nada. nem 1 níquel, eu mesmo tenho necessidade de meu dinheiro. (O velho teve um gesto expressivo. ) De qualquer maneira, esmagá-lo ei como a uma barata. Não lhe digas nada, senão vai imaginar coisas. Mas tu mesmo nada tens a fazer em minha casa, vai-te. E sua noiva, Catarina Ivânovna, que sempre ocultou de mim tão cuidadosamente, casar-se-á com ela ou não? Estavas ontem em casa dela, certo? 
— Ela não quer abandoná-lo por preço nenhum.
— Eis os indivíduos a quem essas ternas senhoritas amam: farristas, malandros! Não valem nada essas pálidas criaturas. Que idéia! Pois bem, se tivesse a juventude dele e meu corpo de então (porque aos 28 anos era melhor do que ele), lograria o mesmo êxito. Canalha, sim!... Mas não terá Grúchenhka, não a terá... Eu o esmagarei... — tornou-se de novo colérico ao proferir estas últimas palavras. — Vai-te também, nada tens a fazer em minha casa hoje — disse, secamente.  

     Aliócha aproximou-se dele para despedir-se e beijou o no ombro.

— Por quê? — espantou-se o velho. — Nós nos tornaremos a ver, ou pensas que é a derradeira vez? 
— Absolutamente, foi por acaso...
— Eu também... digo isto por dizer... — declarou o velho, fitando- o. — Escuta, escuta — gritou ele às costas de Aliócha —, volta em breve, haverá uma sopa de peixe famosa, não como hoje. Vem amanhã, ouviste? 

     Assim que Aliócha saiu, voltou o velho ao armário e tomou meio copo. 

— Basta — murmurou ele, resfolegando.

     Tornou a fechar o armário, repôs a chave no bolso, depois, já sem forças, foi estender-se sobre seu leito, onde adormeceu imediatamente.
      continua na página 248...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (XII - Mon cher Boris)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
XII

     — Mon cher Boris — disse a princesa Ana Mikhailovna a seu filho, quando a carruagem da condessa Rostov, que os levava, atravessou a rua coberta de palha e entrou no grande pátio do conde Kiril Vladimirovitch Bezulchov —, mon cher Boris — repetiu, tirando a mão do velho casacão e pegando tímida e ternamente o braço do filho —, sê carinhoso e atento. O conde Kiril Vladimirovitch é teu padrinho, e dele depende teu futuro. Não esqueças, meu filho, sê tão gentil quanto possível; como sabes ser…
     
— Se ao menos tivesse a certeza de que isso daria algum resultado além da humilhação… — respondeu o filho. — Mas já lhe prometi fazer tudo por sua causa.

     O porteiro examinou dos pés à cabeça mãe e filho (que, sem se fazerem anunciar, entravam diretamente no vestíbulo envidraçado, entre duas fileiras de estátuas dentro dos seus nichos), e, olhando o velho casacão com um ar importante, perguntou-lhes quem queriam ver: as princesas ou o conde. Apesar de já haver outros carros no pátio, quando soube que era o conde, informou que, estando pior, Sua Excelência não receberia ninguém.

— Podemos ir — disse o filho em francês. 
— Mon ami — instou a mãe em voz suplicante, tocando-lhe novamente a mão, como se, por esse simples contato, pudesse acalmá-lo ou entusiasmá-lo.

     Boris calou-se, e, sem tirar o sobretudo, olhou interrogativamente para a mãe.

— Meu caro — disse Ana Mikhailovna docemente ao porteiro —, sei que o conde Kiril Vladimirovitch está muito doente… é o motivo de minha vinda… sou parenta, não quero incomodá-lo, meu caro, mas preciso ver o príncipe Vassili Sergueievitch. Ele está aqui. Poderias nos anunciar?

     O porteiro puxou a campainha do primeiro andar e retirou-se contrariado.

— A princesa Drubetzkaia anuncia-se ao príncipe Vassili Sergueievitch — gritou ao lacaio de casaca, meias e sapatos, que acorrera e olhava pelo vão de escada.

     A mãe arrumou como pôde o vestido de seda tingida, olhou-se num espelho de Veneza fixo à parede e, corajosamente, com seus sapatos grosseiros, pisou o tapete da escada.

— Você me prometeu, querido — disse novamente ao filho, tocando-lhe no braço.

     O rapaz acompanhou-a docilmente de olhos baixos.
     Entraram na sala que dava para os aposentos do príncipe Vassili.
     Quando mãe e filho, parados no meio da sala, iam perguntar o caminho a um velho lacaio que se levantara ao vê-los entrar, o trinco de uma das portas girou, e o príncipe Vassili, que vestia uma jaqueta caseira de veludo, com uma única condecoração, o que para ele era sinal de estar à vontade, apareceu acompanhando um belo homem de cabelos pretos.
     Era Lorrain, o célebre médico de Petersburgo. 

— Então é certo? — perguntou o príncipe. 
— Mon prince, errare humanum est, mas… — respondeu o médico, carregando nos rr e pronunciando o latim como se fosse francês. 
— Muito bem, muito bem…

     Ao perceber Ana Mikhailovna e o filho, o príncipe Vassili despediu-se do médico com um meneio de cabeça e, em silêncio, aproximou-se deles com um ar interrogativo. Boris, notando uma profunda expressão de pesar nos olhos de sua mãe, sorriu imperceptivelmente. 

— Em que triste circunstância nos encontramos, príncipe… E o nosso querido enfermo? — perguntou, como se não percebesse o olhar frio e contundente que a fixava.

     Interrogativamente, admirado mesmo, o príncipe Vassili olhou-a, e depois fitou Boris. Este o cumprimentou polidamente. Sem retribuir ao cumprimento, o príncipe voltou-se para Ana Mikhailovna e respondeu à sua pergunta com um movimento de cabeça e de lábios que significava: poucas esperanças para o doente. 

— Realmente! — exclamou a princesa. — Ah! É terrível! Nem quero pensar… Este é meu filho — acrescentou, mostrando Boris. — Ele queria agradecer-lhe pessoalmente. — Mais uma vez, Boris o cumprimentou polidamente. 
— Creia, príncipe, que o coração de uma mãe não esquecerá nunca o que fez por nós. 
— Fico feliz por lhe ter sido útil, minha cara Ana Mikhailovna — disse o príncipe Vassili, arrumando o colarinho de renda e demonstrando no gesto e na voz que em Moscou, diante de sua protegida Ana Mikhailovna, ainda era mais importante que na festa de Ana Pavlovna, em Petersburgo. — Procure bem servir e ser digno — acrescentou, dirigindo-se severamente a Boris. — Ficarei contente… Está em licença? — perguntou com indiferença. 
— Aguardo ordens para apresentar-me, Excelência — respondeu Boris sem mostrar-se chocado com o tom rude do príncipe, nem desejoso de entabular uma conversa, mas em tom tão tranquilo e respeitoso que o príncipe o olhou fixamente. 
— Vive com sua mãe? 
— Moro na casa da condessa Rostov — disse Boris, dando-lhe novamente o tratamento de Excelência. 
— É o mesmo Ilia Rostov que casou com Natália Chinchina — disse Ana Mikhailovna. 
— Eu sei, eu sei — tornou o príncipe com sua voz monótona. — Nunca pude compreender como Natália resolveu casar-se com esse urso mal domesticado. Um indivíduo completamente estúpido e ridículo. E jogador, segundo dizem. 
— Mas muito boa pessoa, príncipe — observou Ana Mikhailovna, sorrindo discretamente, dando a entender que o conde Rostov merecia esse conceito, mas que, entretanto, ela queria ser indulgente com o pobre velho. — O que dizem os médicos? — perguntou depois de um curto silêncio, dando, novamente, uma expressão de profundo pesar a seu semblante choroso. 
— Pouca esperança — disse o príncipe. 
— E eu queria tanto agradecer uma última vez a meu tio tudo que ele fez por mim e por Boris. E seu afilhado — acrescentou, como se essa notícia devesse ser-lhe extremamente agradável.

     O príncipe Vassili, franzindo a testa, refletia. Ana Mikhailovna compreendeu que ele temia encontrar nela uma rival no testamento do conde Bezukhov. Apressou-se em tranquilizá-lo. 

— Se não fosse a verdadeira afeição e devotamento que tenho a meu tio. — As duas palavras “meu tio” saíam com segurança e num tom despreocupado. — Conheço seu caráter nobre, direito, mas aqui tem só as princesas a seu lado… ainda tão jovens… — Inclinou a cabeça e cochichando perguntou: — Terá ele cumprido seus últimos deveres, príncipe? Como são preciosos os últimos momentos! Isso não o prejudicará; se está tão mal, é necessário prepará-lo. Príncipe, nós, mulheres (sorriu ternamente), sabemos sempre como falar nessas coisas. É necessário que eu o veja, por mais que isso me magoe, estou acostumada a sofrer.

     O príncipe compreendeu muito bem, como da primeira vez, que lhe seria difícil desembaraçar-se de Ana Mikhailovna. 

— Mas esse encontro não lhe será penoso? Esperemos até a noite, o médico prevê uma crise. 
— Mas, príncipe, não se pode esperar num momento como este. Olhe que se trata da salvação da sua alma… Ah, como são terríveis os deveres de um cristão!

     A porta que levava aos aposentos interiores abriu-se e entrou uma das princesas, sobrinha do conde. Tinha a fisionomia carregada e fria, o busto grande demais para a estatura. O príncipe voltou-se para ela. 

— Então, como vai ele? 
— No mesmo. E não pode ser de outra forma… esse barulho… — disse a princesa, olhando Ana Mikhailovna como a uma desconhecida. 
— Ah! Chère, eu não a tinha reconhecido! — disse Ana Mikhailovna com um sorriso feliz, aproximando-se sutilmente da sobrinha do conde. — Acabo de chegar e estou à tua disposição para ajudar a cuidar de meu tio. Faço ideia do quanto tens sofrido — acrescentou, levantando os olhos penalizados.

     A princesa não disse nada, nem sequer sorriu, e retirou-se em seguida. Ana Mikhailovna tirou as luvas, e, com um ar vencedor, instalou-se numa poltrona, convidando o príncipe para sentar-se a seu lado.

— Boris! — disse ao filho num sorriso — Vou ver o conde, meu tio, e tu, mon ami, enquanto esperas, vai procurar Pierre e não te esqueças de transmitir-lhe o convite dos Rostov. Eles o convidam para jantar — disse ao príncipe. — Creio que não irá. 
— Ao contrário — retrucou este com visível mau humor. — Ficaria muito satisfeito se a senhora me livrasse desse rapaz. Ele está aqui. O conde não perguntou por ele uma única vez. — Sacudiu os ombros.

     Um lacaio conduziu Boris aos aposentos de Piotr Kirillovitch por outra escada.
continua na página.... 31
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
XI - Queria conversar em particular / XII - Mon cher Boris /                          
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (O vôo do genio)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma introducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

O VÔO DO GENIO 
 A ACTRIZ EUGENIA CÂMARA.

Um dia, em que na terra a sós vagava 
Pela estrada sombria da existência, 
Sem rosas — nos vergeis da adolescência, 
Sem luz d'estrella — pelo céu do amor; 
Senti as asas de um archanjo errante 
Roçar-me brandamente pela fronte, 
Como o cysne, que adeja sobre a fonte, 
A's vezes toca a solitária flor.

E disse então: "Quem és, pallido archanjo! 
Tu, que o poeta vens erguer do pego? 
Eras acaso tu, que Milton cego 
Ouvia em sua noite erma de sol? 
Quem és tu? Quem és tu? — "Eu sou o gênio", 
Disse-me o anjo, "vem seguir-me o passo, 
Quero comtigo me arrojar no espaço, 
Onde tenho por c'roas o arrebol."  

"Onde me levas, pois?..." — "Longe te levo 
Ao país do ideal, terra das flores, 
Onde a brisa do céu tem mais amores 
E a phantasia — lagos mais azues..." 
E fui... e fui... ergui-me no infinito, 
Lá onde o vôo d'aguia não se eleva... 
Abaixo — via a terra — abysmo em treva! 
Acima — o firmamento — abysmo cm luz! 

"Archanjo! archanjo! que ridente sonho!" 
—"Não, poeta, é o vedado paraíso, 
Onde os lírios mimosos do sorriso 
Eu abro em todo o seio, que chorou, 
Onde a loura comedia canta alegre, 
Onde eu tenho o condão de um genio infindo, 
Que a sombra de Molière vem sorrindo 
Beijar na fronte, que o Senhor beijou..."

"Onde me levas mais/anjo divino?" 
—"Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas, 
O canto das espheras namoradas, 
Quando eu encho de amor o azul do céu. 
Quero levar-te das paixões nos mares. 
Quero levar-te a dedalos profundos, 
Onde refervem soes... e céus... e mundos... 
Mais soes... mais mundos, e onde tudo é meu..." 

"Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia: 
A brisa morna, a sombra do arvoredo, 
A lympha clara, que murmura a medo, 
A luz que abraça a flor e o céu ao mar. 
O' princesa, a razão já se me perde, 
E's a sereia da encantada Scylla, 
Anjo, que transformaste-te em Dalila, 
Sansão de novo te quisera amar!

"Porém não paras n'este vôo errante! 
A que outros mundos elevar-me tentas ? 
Já não sinto o soprar de auras sedentas, 
Nem bebo a taça de um fogoso amor. 
Sinto que rolo em barathros profundos... 
Já não tens asas, águia da Thessalia, 
Maldição sobre ti... tu és Omphalia, 
Ninguém te ergue das trevas e do horror.

"Porém silencio! No maldicto abysmo, 
Onde cahi comtigo criminosa, 
Canta uma voz, sentida e maviosa, 
Que arrependida sobe a Jehovah! 
Perdão! Perdão! Senhor, p'ra quem soluça, 
Talvez seja algum anjo peregrino... 
... Mas não! inda eras tu, gênio divino, 
Também sabes chorar, como Eloah! 

"Não mais, ó seraphim! suspende as asas! 
Que, através das estrellas arrastado, 
Meu ser arqueja louco, deslumbrado, 
Sobre as constellações e os céus azues. 
Archanjo! Archanjo! basta... Já comtigo 
Mergulhei das paixões nas vagas cerulas... 
Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas — 
Mas na minh'alma — já não cabe — luz!..." 

Recife, Maio de 1866. 

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   Espumas Fluctuantes, Edição original: XIV. 
   1) Molière (4." estância, v. 7) João Baptista Poquelin Molière (1622-1673), genial comediographo e cômico francês. O e mudo final do nome sôa aqui, para inteireza do verso.
   2) Oh Princeza, a razão já se me perde... (6.* estância, v. 5). Palavras que André Roswein, o apaixonado poeta e compositor, diz á Princeza Leonora Falconieri, traduzidas do original: "Madame... vous jouez avec ma raison". (Dalila, de Octavio Feuillet, Acto II, quadro II, se. VI, Paris, 1857). Eugenia Câmara representava no palco essa Dalila moderna, e já então amava-a o Poeta, transpondo em realidade a ficção daquellas palavras.
   3) Tambem sabes chorar, como Eloah! (8.* estân cia, v. 8). Eloa, nascida de uma lagrima de Christo, do poema homonymo de Alfredo de Vigny (1824), é a mulher-anjo que se commove ao pranto de Satan
   La Vierge dans le ciei n'avait pas vu des larmes
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   Eloa vient et pleure...
Eloa, chant. III, 214-20.  

continua página 83...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração / Hebréa / O vôo do genio /              
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Um som de trovão

Ray Bradbury


Um Som de Trovão, de Ray Bradbury, é um conto de ficção científica que explora as consequências imprevisíveis das viagens no tempo. Na história, um grupo de caçadores paga para voltar à pré-história e caçar um dinossauro, mas uma pequena infração às regras – o pisar em uma simples borboleta – desencadeia mudanças drásticas no futuro. Com uma narrativa tensa e envolvente, Bradbury introduz o conceito do “Efeito Borboleta”, mostrando como pequenas ações podem ter impactos imensos. O conto é um clássico da literatura especulativa, combinando aventura, reflexão e uma atmosfera de suspense crescente.


                                          Um Som de Trovão (Ray Bradbury)

SAFARIS NO TEMPO, INC.
SAFARIS PARA QUALQUER ANO DO PASSADO
VOCÊ DIZ QUE ANIMAL.
NÓS O LEVAMOS LÁ.
VOCÊ O ABATE.

     Uma flegma quente acumulou-se na garganta de Eckels; engoliu e empurrou-a para baixo. Os músculos ao redor de sua boca forma­ram um sorriso enquanto ele estendeu sua mão lentamente pelo ar, e naquela mão, balançava-se um cheque de dez mil dólares, para o ho­mem atrás da escrivaninha.

— Este safári garante que eu volte vivo?
— Não garantimos nada — falou o funcionário — exceto os dinos­sauros. — Voltou-se. — Este é o Sr. Travis, seu Guia, no safári ao pas­sado. Ele vai dizer-lhe o que e aonde atirar. Se ele disser para não ati­rar, não se atira. Se desobedecer às instruções, há uma pesada multa de mais de dez mil dólares, mais um possível processo do governo, quando voltar.

     Eckels olhou, através do amplo escritório, numa completa con­fusão disforme, de fios entrelaçados e caixas de aço zumbindo, para uma aurora que agora reluzia laranja, então prateada, e então, azul. Havia um som como uma descomunal pira queimando todo o Tempo, todos os anos e todos os calendários, todas as horas empilhadas e incendiadas.
     Um toque da mão e esta queima, instantaneamente, se reverteria lindamente. Eckels lembrou-se literalmente das palavras da propagan­da. De carvões e cinzas, da poeira e das brasas, como salamandras douradas, os velhos tempos, os anos jovens, podem saltar; rosas sua­vizando o ar; cabelo branco enegrecendo-se, rugas desaparecendo; tu­do ,voltando totalmente à origem, fugir à morte, precipitar-se para o começo de tudo, o sol nascendo nos céus ocidentais, e pondo-se glo­riosamente no leste, luas devorando-se a si mesmas no sentido oposto ao costumeiro, e tudo se sobrepondo, como caixas chinesas, coelhos em cartolas, tudo e todos retornando à morte viva, a morte da se­mente, a morte verde, ao tempo de antes do começo. O toque da mão poderia fazê-lo, o mero toque da mão.

— Inacreditável. — Eckels respirava, com a luz da Máquina sobre seu rosto fino. — Uma verdadeira Máquina do Tempo. — Abanou a cabeça. — É de fazer pensar. Se a eleição tivesse ido mal ontem, eu poderia estar agora me afastando dos resultados. Felizmente Keith ganhou. Será um bom presidente para os Estados Unidos.
— Sim — falou o homem por trás da mesa. — Temos sorte. Se Deutscher tivesse ganho, teríamos a pior ditadura. Há sempre um homem anti-tudo, um militarista, um anti-Cristo, anti-humano, anti-intelectual. O povo nos requisitou, sabe, como que brincando, mas a sério. Diziam que se Deutscher se tornasse presidente, queriam vi­ver em 1492. Claro, não é o nosso negócio conduzir Fugas, mas orga­nizar Safáris. De qualquer maneira, Keth é o presidente, agora. Tudo com que precisa preocupar-se agora é...
— Caçar meu dinossauro — Eckels acabou para ele.
— Um Tyranossaurus rex. O Lagarto Tirano, o monstro mais ina­creditável de toda a história. Assine este termo. O que quer que aconteça com você, não somos responsáveis. Esses dinossauros são muito vorazes.

     Eckels animou-se, nervoso. 

— Tentando assustar-me!
— Francamente, sim. Não queremos que vá alguém que entre em pânico ao primeiro tiro. Seis lideres de safári foram mortos no ano passado, e uma dúzia de caçadores. Estamos aqui para dar-lhe a maior emoção que um caçador de verdade jamais almejou. Mandá-lo de volta sessenta milhões de anos, para pegar a maior caça de to­dos os tempos. Seu cheque ainda está aqui. Pode rasgá-lo.

O Sr. Eckels olhou para o cheque. Seus dedos retorceram-se.

— Boa-sorte — falou o homem atrás da escrivaninha. — Sr. Tra­vis, ele é todo seu.
Moveram-se silenciosamente, atravessando a sala, levando suas armas com eles, em direção à Máquina, rumo ao metal prateado e às luzes gritantes.

     Primeiro, um dia e então uma noite e então um dia e então uma noite, e então era dia-noite-dia-noite-dia. Uma semana, um mês, um ano. uma década! 2055 a.D., 2019 a.D., 1999! 1957! Partida! A máquina rugia. Puseram suas máscaras de oxigênio e testaram os intercomunica­dores.
     Eckels inclinou-se no assento estofado, rosto pálido, maxilar enrijecido. Sentia o tremor em seus braços, olhou para baixo e achou suas mãos firmes no novo rifle. Haviam quatro outros homens na Máquinas. Travis, o líder do Safári, seu assistente, Lesperance, e mais dois outros caçadores, Billings e Kramer. Sentavam-se olhando uns para os outros, e os anos ardiam à volta deles.

— Estas armas podem dar conta de um dinossauro? — Eckels sentiu sua boca dizendo.
— Se os acertar direito — disse Travis pelo rádio do capacete. — Alguns dinossauros têm dois cérebros, um na cabeça e outro no fim da espinha. Ficamos longe destes. É abusar da sorte. Atire as duas primeiras vezes nos olhos, se puder, e cegue-os, e volte a atirar no cérebro.

     A Máquina bramia. O Tempo era um filme passado ao contrá­rio. Os sóis voavam e dez milhões de luas, atrás deles. 

— Pense só — disse Eckels. — Todos os caçadores que jamais viveram nos inveja­riam hoje. Isto faz a África parecer com o Illinois.

     A Máquina desacelerou; seu grito caiu para um sussurro. A Má­quina parou.
     O sol parou no céu.
     A névoa que envolvera a Máquina dissipou-se e estavam num tempo antigo, muito antigo mes

— Cristo ainda não nasceu — disse Travis. — Moisés ainda não foi à montanha, para falar com Deus. As pirâmides ainda estão na terra, esperando para serem recortadas e montadas. Lembrem-se disso. Ale­xandre; César; Napoleão; Hitler; nenhum deles existe.

     O homem fez que sim.

— Aquilo. — Apontou o Sr. Travis — é a selva de sessenta milhões dois mil e cinqüenta e cinco anos antes do presidente Keith.

     Mostrou o caminho de metal que cruzava o verde selvagem, so­bre um amplo pântano, por entre fetos e palmeiras.

— E aquele — disse — é o Caminho, colocado por Safáris no Tem­po, para seu uso. Flutua a seis polegadas acima da terra. Não toca se­não no máximo uma grama, flor ou árvore. É um metal antigravitacional. Seu propósito é evitar que vocês toquem, de qualquer manei­ra que seja, este mundo do passado. Fiquem no Caminho. Não saiam dele. Repito. Não saiam. Por qualquer razão que seja! Se caírem, se­rão multados. E não disparem em nenhum animal que não aprove­mos.
— Por quê? — perguntou Eckels.

     Sentaram-se, na floresta antiga. Gritos distantes de pássaros vie­ram com o vento, e o cheiro de alcatrão e de um velho oceano salga­do, grama úmida, e flores da cor de sangue.

— Não queremos mudar o Futuro. Não pertencemos ao Passado. O governo não gosta de nós aqui. Temos que pagar muita propina para garantir nossa licença. A Máquina do Tempo é um negócio ex­tremamente delicado. Sem saber, poderíamos matar um animal im­portante, um pequeno pássaro, uma barata; mesmo uma flor, assim destruindo um elo importante, numa espécie em evolução.
— Isso não fica muito claro, — falou Eckels.
— Está bem — continuou Travis, — suponhamos que acidental­mente matemos um rato, aqui. Isso quer dizer que todos as futuras famílias deste rato, em particular, serão destruídas, certo?
— Certo.
— E todas as famílias das famílias, daquele rato! Com um pisão de seu pé, você aniquila primeiro um, então uma dúzia, então mil, um milhão, um bilhão de ratos, possivelmente!
— Então estarão mortos; e daí?
— E daí? — Travis torceu o nariz. — Bem, e as raposas que preci­sariam daqueles ratos para sobreviver? Para cada dez ratos a menos, morre uma raposa. Para cada dez raposas a menos, um leão morre de fome. Para cada leão a menos, insetos, abutres, infinitos bilhões de formas de vida são lançados ao caos e à destruição. Eventualmente, tudo recai no seguinte: cinqüenta e nove milhões de anos depois, um troglodita, um, de uma dúzia no mundo inteiro, vai caçar javalis ou tigres de dentes de sabre para comer. Mas você, amigo, pisou em todos os tigres daquela região. Pisando num só rato. Assim o troglodita morre de fome. E este homem das cavernas, note bem, não é qualquer um dispensável, não senhor! Ele é toda uma nação futura. Dele, teriam saído dez filhos. E destes, mais cem, e assim por diante, até a civilização. Destruindo este único homem, destrói-se uma raça, um povo, toda uma história. É comparável a matar um neto de Adão. O pisão de seu pé, num rato, poderia principiar um terremoto, cujos efeitos poderiam abalar nossa terra e destinos pelo Tempo afo­ra, até seus alicerces. Com a morte daquele troglodita, um bilhão de outros ainda não nascidos são mortos no útero. Talvez Roma nunca se erga sobre suas sete colinas. Talvez a Europa fique para sempre uma floresta espessa, e apenas a Ásia cresça, forte e saudável. Pise num rato e esmagará as Pirâmides. Pise num rato e deixará sua mar­ca, como um Grand Canyon, pela Eternidade. A rainha Elizabete poderá nunca nascer. Washington poderá não cruzar o Delaware, po­derá nunca haver Estados Unidos. Portanto, seja cuidadoso. Fique no caminho. Nunca pise fora!
— Percebo — comentou Eckels. — Então não poderíamos nem tocar a grama?
— Exato. Esmagar certas plantas poderia causar somas infinitesi­mais. Um erro mínimo seria multiplicado por sessenta milhões de anos, desmesuradamente. Claro, talvez nossa teoria esteja errada. Tal­vez o Tempo não possa ser alterado por nós. Ou talvez só possa ser alterado de maneiras sutis. Um rato morto aqui causa um desequilí­brio dos insetos ali, uma desproporção populacional mais tarde, uma colheita má mais adiante, uma depressão, fome, e finalmente uma mudança no temperamento social em países remotos. Algo muito mais sutil, como isso. Talvez algo ainda muito mais sutil. Talvez ape­nas uma respiração, um sussurro, um cabelo, um pólen no ar, uma mudança tão levezinha que se olhasse atentamente, não notaria. Quem sabe? Quem pode dizer que realmente sabe? Não sabemos. Estamos só adivinhando. Mas até que tenhamos certeza, se nossos passeios pelo Tempo podem fazer um barulhão ou um barulhinho na História, seremos cuidadosos.. Esta Máquina, este Caminho, suas rou­pas e corpo, foram esterilizados, como sabem, antes da viagem. Usa­mos estes capacetes de oxigênio de modo que não possamos introdu­zir bactérias nesta atmosfera primitiva.
— Como sabemos que animais abater?
— Estão marcados com tinta vermelha — explicou Travis. — Ho­je, antes da viagem, mandamos Lesperance aqui com a Máquina. Ele veio a esta época em particular e seguiu certos animais.
— Estudando-os?
— Isso — falou Lesperance. — Sigo-os por toda sua vida, obser­vando quais vivem mais. Quantas vezes se acasalam. Poucas vezes. A sua vida é curta. Quando vejo que algum vai morrer com uma árvore caindo em cima dele, ou um que se afoga num poço de alcatrão, ano­to a hora, minuto, e segundos exatos. Disparo um revólver de tinta. Deixa uma marca vermelha em seus flancos. Não podemos nos enga­nar. Então correlaciono com a chegada ao Caminho, de modo que encontremos o monstro a não mais de dois minutos de sua morte, inevitável. Desta forma, matamos apenas animais sem futuro, que nunca vão se acasalar de novo. Vê como somos cuidadosos?
— Mas se esta manhã você voltou no tempo, deve ter cruzado conosco mesmos, nosso safári! Como nos saímos? Tivemos sucesso? Conseguimos voltar todos... vivos?
Travis e Lesperance entreolharam-se.
— Isso seria um paradoxo, — falou este último. — O tempo não permite esse tipo de confusão; um homem encontrando a si mesmo. Quando há o risco de tais situações, o tempo desvia-se. Como um avião passando por um vácuo. Sentiu a Máquina pular antes de pararmos? Éramos nós passando por nós mesmos, a caminho do Futuro. Não vimos nada. Não há meio de dizer se esta expedição teve suces­so; se pegamos nosso monstro, ou se todos nós, isto é, o senhor, Sr. Eckels, saiu vivo.

     Eckels sorriu, palidamente.

— Parem com essa conversa — interrompeu Travis. — Todos de pé!

     Estavam prontos para deixar a Máquina.
     A selva era alta, a selva era larga, e a selva era todo o mundo, pa­ra sempre. Sons como música, e sons como tendas voando, encheram o ar, e eram pterodátilos planando com cavernosas asas cinzentas, morcegos gigantescos de delírio e febre noturna. Eckels, equilibrado no estreito Caminho, apontou seu rifle, bem-humorado.

— Pare! — falou Travis. — Não aponte nem mesmo por brinca­deira, idiota! Se a arma dispara...

     Eckels enrubesceu. 

— Aonde está nosso Tyranossaurus?

     Lesperance checou seu relógio de pulso. 

— Logo à frente. Vamos estar no caminho dele em sessenta segundos. Atenção para a tinta vermelha! Não atire até que eu mande. Fique no caminho. Fique no Caminho!

     Moveram-se adiante, pelo vento da manhã.

— Estranho — murmurou Eckels. — Lá adiante, daqui a sessenta milhões de anos, fim das eleições. Keith presidente. Todos celebran­do. E aqui estamos, perdidos num milhão de anos, e eles não existem ainda. As coisas que nos preocuparam por meses, por uma vida intei­ra, nem nasceram nem foram idealizadas, ainda.
— Soltar as travas, todos! — ordenou Travis. Você dá o primeiro tiro, Eckels, Billings o segundo, e Kramer o terceiro.
— Já cacei tigre, javali, búfalo, elefante, mas agora, isto é incomparável — disse Eckels. — Estou tremendo como uma criança.
— Ah — fez Travis. Todos pararam.

     Travis ergueu a mão. 

— À frente — falou, em voz baixa. — Na ne­blina. Lá está ele. Ali está Sua Majestade Real, agora.

     A selva era ampla, e cheia de gorjeios, farfalhares, murmúrios e suspiros.
     Subitamente, tudo cessou, como se alguém tivesse fechado a porta.
     Silêncio.
     Um som de trovão.
     Da neblina, a cem jardas, vinha o Tyranossaurus rex.

— É ele — cochichou Eckels, — é ele... —Psss!

     Ele veio sobre grandes pernas, oleosas, resilientes. Erguia-se a trinta pés, acima da metade das árvores, um grande deus do mal, do­brando suas delicadas garras de relojoeiro perto de seu peito oleoso, reptílico. Cada pata inferior era um pistão, mil libras de osso branco, mergulhadas em grossas cordas de músculos, revestidas por um brilho de uma pele pedregosa, como a malha de um terrível guerreiro. Cada coxa, uma tonelada de carne, marfim, e aço trançado. E da grande gaiola arquejante da parte superior do corpo, aqueles dois braços de­licados pendurados para a frente, braços que poderiam erguer e exami­nar os homens como brinquedos, enquanto se dobrava o pescoço de serpente. E a cabeça mesmo, uma tonelada de pedra esculpida, ergui­da com facilidade contra o céu. Sua boca escancarava-se, expondo uma cerca de dentes como dardos. Seus olhos rolavam, ovos de aves­truz, vazios de qualquer expressão, exceto fome. Fechava a boca num sorriso da morte. Corria, seus ossos pélvicos derrubando para os lados árvores e arbustos, seus pés, com garras, afundando-se na terra úmida, deixando marcas de seis polegadas de profundidade aonde quer que apoiasse seu peso. Corria com um passo deslizante de ballet, muito aprumado e equilibrado para suas dez toneladas. Movia-se, cansado, numa arena ensolarada, suas mãos lindamente reptilianas tateando o ar.

— Ora, vejam — Eckels torceu a boca. — Poderia esticar-se e pegar a lua.
— Pssst! — fez Travis, nervoso. — Ele ainda não nos viu.
— Não pode ser morto. — Eckels pronunciou seu veredito, quie­to, como se não pudesse haver discussão. Tinha avaliado a evidência, e era esta sua abalizada opinião. O rifle em sua mão parecia uma ar­ma de brinquedo. — Fomos loucos de ter vindo. Isto é impossível.
— Cale-se! — silvou Travis.
— Pesadelo.
— Dê meia volta — comandou Travis. — Vá em silêncio para a Máquina. Podemos reembolsar-lhe metade de sua passagem.
— Não percebia como seria grande, — falou Eckels. — Avaliei mal, foi isso. E agora, quero desistir.
— Ele nos viu!

     Lá está a tinta vermelha em seu peito!
     O Lagarto Tirano levantou-se. Sua carne de armadura rebrilhava como mil moedas verdes. As moedas, com uma crosta de lama, fer­viam. No lodo, pequenos insetos esperneavam, de modo que todo o corpo parecia retorcer-se e ondular, mesmo enquanto o monstro não se movia. Expirou. O cheiro de carne crua foi soprado pelos ermos.

— Deixe-me sair daqui — disse Eckels. — Nunca foi como isto, agora. Eu sempre estava certo de que poderia sair vivo. Eu tinha bons guias, bons safáris, e segurança. Desta vez, enganei-me. Encontrei algo que me supera, e reconheço. É demais para eu enfrentar.
— Não corra — falou Lesperance. — Dê a volta. Esconda-se na Máquina.
— Sim, — Eckels parecia entorpecido. Olhou para seus pés, como que tentando fazê-los mover-se. Deu um grunhido, incapaz.
— Eckels!

     Deu alguns passos, piscando, hesitante,

— Não por aí!

     O Monstro, ao primeiro movimento, impulsionou-se para a fren­te com um grito terrível. Cobriu cem jardas em seis segundos. Os rifles ergueram-se rapidamente e iluminaram-se, com o fogo. Um ven­daval da boca da besta engolfou-os na fedentina do lodo, e sangue envelhecido. O Monstro rugiu, dentes brilhando ao sol.
     Eckels, sem olhar para trás, caminhou cegamente para a borda do Caminho, sua arma carregada frouxamente em seus braços, saiu do caminho, e andou, inadvertidamente, pela floresta. Seus pés afun­daram em musgo verde. Suas pernas o carregavam, e ele se sentia só e afastado dos eventos lá atrás.
     Os rifles dispararam de novo. O som perdeu-se no grito e no tro­vão do lagarto. O grande volume da cauda do animal lançou-se para cima, e para o lado. Árvores explodiram em nuvens de folhas e ra­mos. O Monstro torceu suas mãos de joalheiro para acariciar os ho­mens, para dobrá-los ao meio, para esmagá-los, como frutinhas, para empurrá-los para seus dentes e sua garganta ruidosa. Seus olhos, quais rochedos, estavam ao nível dos homens. Viram-se espelhados. Dispararam nas pálpebras metálicas e na luminosa íris.
     Como um ídolo de pedra, como uma avalanche de montanha, o Tyranossaurus caiu. Trovejando, agarrou árvores, e puxou-as consigo. Agarrou e cortou o Caminho. Os homens precipitaram-se para trás, e para longe. O corpo abateu-se, dez toneladas de carne fria e pedra. Os rifles dispararam. O Monstro brandiu sua cauda blindada, crispou suas mandíbulas de serpente, e imobilizou-se. Uma fonte de sangue jorrava de sua garganta. Em algum lugar lá dentro, um saco de fluido estourou. Borbotões nauseantes inundaram os caçadores. Lá estavam vermelhos, brilhantes.
     O trovão dissipou-se.
     A selva estava silenciosa. Depois da avalanche, uma paz verde. Depois do pesadelo, o amanhecer.
     Billings e Kramer praguejavam pesadamente, com seus rifles ain­da fumegando.
     Na Máquina do Tempo, face abatida, Eckels tremia. Tinha con­seguido voltar ao caminho, e subira na Máquina.
     Travis chegou, olhou para Eckels, pegou gaze de algodão e, virou-se para os outros, que estavam sentados sobre o Caminho.

— Limpem-se.

     Limparam o sangue de seus capacetes. Começaram a resmungar, também. O Monstro jazia ali como uma montanha de carne. Dentro dele, podia-se ouvir os sopros e murmúrios, enquanto seus recessos iam morrendo, os órgãos parando de funcionar, líquidos circulando um último instante, de saco para a bolsa, para vesícula, tudo des­ligando-se, parando para sempre. Era como ficar perto de uma loco­motiva acidentada, ou uma escavadeira a vapor, no momento de des­ligar, com todas as válvulas sendo desativadas. Ossos estalavam; a tonelagem de sua própria carne, desequilibrada, peso morto, quebrava os delicados braços, do lado de baixo. A carne se assentava aos tre­mores.
     Outro estalido. Mais acima, um enorme galho de árvore partiu de sua pesada ancoragem, caiu. Golpeou certeiramente a fera morta.

— Pronto. — Lesperance verificou seu relógio. — Bem na hora. Essa era a grande árvore que deveria cair e matar este animal, origi­nalmente. — Olhou para os dois caçadores. — Querem tirar a foto de troféu?
— Quê?
— Não podemos levar o troféu para o Futuro. O corpo deve fi­car aqui, aonde deveria originalmente morrer, de modo que os inse­tos, pássaros, e bactérias possam devorá-lo, como devem. Tudo equi­librado. O corpo fica. Mas podemos tirar uma fotografia de vocês a seu lado.

     Os dois homens fizeram força para pensar, mas desistiram, aba­nando as cabeças.
     Deixaram-se guiar ao longo do Caminho de metal. Afundaram cansados, nos assentos da Máquina. Olharam de novo para o Monstro arruinado, o montículo em estagnação, aonde já estranhos pássaros reptilianos e insetos dourados estavam ocupados com a fumegante armadura.
     Um som no chão da Máquina do Tempo deixou-os tensos. Eckels estava lá, tremendo.

— Lamento muitíssimo — disse.
— Levante-se! — gritou Travis. Eckels levantou-se.
— Vá para o Caminho sozinho — falou Travis, com seu rifle apontado. Não vai voltar para a Máquina. Vamos deixá-lo aqui!

     Lesperance agarrou o braço de Travis. — Espere...

— Fique fora disto! — Travis desvencilhou-se de sua mão. — Este louco quase matou-nos. Mas isso não é tanto assim. Vejam seus sapa­tos! Vejam! Ele saiu do Caminho. Isso nos arruína! Seremos multa­dos! Milhares de dólares de seguro! Garantimos que ninguém deixa o Caminho, e ele o deixou. Ora, o louco! Terei de informar o Governo
Poderão cancelar nossa licença para viajar. Quem sabe o que ele fez ao Tempo, à História!
— Calma, tudo o que ele fez foi pisar em alguma sujeira.
— Como saber? — gritou Travis. — Não sabemos nada! É um mistério! Saia, Eckels!
Eckels mexeu em sua camisa. — Pago qualquer coisa. Mil dóla­res!

     Travis olhou para o talão de cheques de Eckels e cuspiu. 

— Saia. O Monstro está perto do Caminho. Afunde os braços até os cotove­los na boca dele. Então poderá voltar conosco.
— Isto é irrazoável!
— O Monstro está morto, seu idiota. As balas! As balas não po­dem ser deixadas para trás. Elas não pertencem ao Passado; poderão mudar alguma coisa. Aqui está a minha faca. Cave-as!

     A selva estava viva de novo, cheia de antigos tremores e do baru­lho dos pássaros. Eckels voltou-se lentamente para olhar o monte de carniça primordial, aquela montanha de pesadelos e terror. Depois de um longo tempo, como um sonâmbulo, arrastou-se ao longo do Caminho.
     Voltou, tremendo, cinco minutos depois, com seus braços enso­pados e vermelhos até os cotovelos. Estendeu as mãos. Cada uma se­gurava algumas balas de aço. Então caiu e ficou lá, imóvel.

— Você não precisava obrigá-lo a isso — comentou Lesperance.
— Não? É cedo ainda para dizer. — Travis tocou o corpo, com o pé. — Viverá. Da próxima vez não vai sair para caçar este tipo de ca­ça. OK. — Ergueu o polegar para Lesperance. — Dê a partida. Vamos para casa. 1492. 1776. 1812.

     Limparam suas mãos e faces. Trocaram de roupa. Eckels estava de pé de novo, mudo. Travis olhou para ele por dez minutos.

— Não olhe para mim, — exclamou Eckels. — Não fiz nada.
— Quem pode saber?
— Apenas saí do Caminho, foi tudo, um pouco de lama em meus sapatos; que quer que eu faça? Que me ajoelhe e reze?
— Talvez precisemos disso. Estou lhe avisando, Eckels! Posso matá-lo, ainda. Minha arma está engatilhada.
— Estou inocente. Não fiz nada! 1999. 2000. 2055.

     A Máquina parou.

— Saia — ordenou Travis.

     A sala lá estava, tal como quando saíram. Mas não exatamente a mesma. O mesmo homem atrás da mesma escrivaninha. Mas o mes­mo homem não parecia estar sentado exatamente atrás da mesma escrivaninha.
     Travis olhou em volta, depressa. 

— Tudo em ordem por aqui? — foi logo perguntando.
— Claro. Bem vindos ao lar!

     Travis não relaxou. Parecia estar olhando para os próprios áto­mos do ar, e para o modo pelo qual o sol entrava pela janela alta.

— OK, Eckels, saia. E nunca mais volte. Eckels não podia mover-se.
— Ouviu-me, — falou Travis. — Para o quê está olhando? Eckels ficou, cheirando o ar, e havia algo no ar, uma substância tão tênue, tão sutil, que apenas um fraco aviso de seus sentidos su­bliminares avisavam-lhe que estava ali. As cores, branco, cinza, azul, laranja, na parede, na mobília, no céu, pela janela, eram... eram... E havia uma sensação. Sua carne crispava-se. Ficou bebendo aquela estranheza com os poros de seu corpo. Em algum lugar, alguém devia estar soprando naqueles apitos que só os cães podem ouvir. Seu cor­po gritava silenciosamente, em resposta. Além deste aposento, além desta parede, além deste homem, que não era exatamente o mesmo homem que estava sentado àquela mesa, que não era bem a mesma mesa... estava todo um mundo de ruas e gente. Que espécie de mun­do era agora, não havia como dizer. Ele podia senti-los mover-se ali, além das paredes, quase, como peças de xadrez por um vento quen­te...
     Mas a coisa mais imediata era o anúncio pintado na parede do escritório, o mesmo que havia lido hoje ao entrar. De alguma forma, o anúncio havia mudado:

SEFARIS NU TENPO, INC.
SEFARIS PRA QUALQUER ANO PAÇADO.
CÊ DIS QUI ANIMAU.
NÔIS LEVAMOS CÊ LÃ.
CÊOABAT.

     Eckels sentiu-se caindo numa cadeira. Ficou mexendo, como louco, na lama em suas botas. Ergueu um pedaço de algo enlameado, tremendo. — Não, não pode ser, não uma coisinha assim, não!
     Embebida na lama, brilhando em verde e dourado e preto, havia uma borboleta, muito bela, e muito morta.

— Não uma coisa assim! Não uma borboleta! — gritou Eckels.

     Caiu ao chão, uma coisa exótica, pequena, que poderia desman­char equilíbrios e derrubar uma fila de dominós pequenos, e então grandes dominós, e então dominós gigantes, por todos os anos atra­vés do Tempo. A mente de Eckels turbilhonava. Não podia mudar as coisas. Matar uma borboleta não podia ser tão importante! Ou pode­ria?
Seu rosto estava frio. Sua boca hesitava, ao perguntar: — Quem... quem ganhou a eleição presidencial ontem?
O homem atrás da escrivaninha riu-se. — Está brincando? Sabe muito bem. Deutscher, claro! Quem mais? Não aquele maluco pusi­lânime do Keith. Temos um homem de ferro, agora, um homem de peito! — O funcionário parou. — O que há de errado?

     Eckels gemeu. Caiu de joelhos. Examinava a borboleta dourada com dedos trêmulos. 

— Não podemos — implorava ao mundo, a si mesmo, aos funcionários, à Máquina. — Não podemos levá-la de vol­ta, não podemos fazê-la viver de novo? Não podemos recomeçar? Não poderíamos...
     Não se moveu. Olhos fechados, esperou, abalado. Ouviu Travis ofegando, na sala; ouviu Travis apontar o rifle, destravá-lo.
     Houve um som de trovão.

Fim
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