sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Meu segredo)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MEU SEGREDO 
 Á SENHORA D. *** 

I

Eu tenho dentro d'alma o meu segredo 
 Guardado como a pérola do mar, 
 Occulto ao mundo como a flor silvestre 
 Escondida no valle a vicejar.

Eu guardo-o no meu peito... E' meu thesouro, 
 Meu único thesouro desta vida, 
 — Sonho de phantasia — flor ephemera, 
 Uma nuvem, talvez, no céo perdida... 

Mas que importa ? E' uma crença de minh'alma 
 — Gotta do orvalho d'alva da existência, 
 Ultima flor, que vive aos raios mornos 
 Do sol de amor na quadra da innocencia. 

Só,, quando a terra dorme solitária 
 E ergue-se á meia noite, branca, a lua, 
 E a brisa geme cantos de tristeza 
 Na rama do pinheiro que fluctúa;  

E quando o orvalho pende do arvoredo, 
 Que se debruça p'ra beijar o rio, 
 E as estrellas no céo scintillam languidas 
 — Pérolas soltas de um collar sem fio;

Então eu vou sentar-me sobre a relva, 
 Eu vou sonhar meus sonhos ao relento, 
 E só conto o segredo de minh'alma 
 Das horas mortas ao tristonho vento.

II

Eu sei como este mundo ri de escarneo, 
 Deste aéreo sonhar da phantasia. 
 Eu sei... P'ra cada crença de noss'alma, 
 Elle tem uma phrase de ironia... 
 Ah! deixai-me guardar o meu segredo! 
 Deste riso cruel eu tenho medo... 

Meu segredo? E' o canto de poesia 
 Que suspirou saudoso o gondoleiro, 
 Que vae morrer gemente sobre as praias; 
 — Da despedida pranto derradeiro, 
 Mais aéreo que as vozes da sereia, 
 Alta noite sentada sobre a areia. 

Meu segredo? E' o soluço d'alma triste 
 Que conta sua dor á brisa errante; 
 E' o pulsar tresloucado de meu peito 
 A repetir um nome delirante; 
 Indeciso anhelar de edeneo gozo, 
 Castello que eu creei vertiginoso.  

Creei-o numa noite não dormida, 
 Após vel-a entre todas — a rainha; 
 Creei-o nestas horas de delírio, 
 Em que sentira em fogo a fronte minha 
 E o sangue galopava-me nas veias, 
 E o cérebro doia-me de idéas... 

E quem na vida não amara um dia? 
 E nunca despertara ao som de um beijo? 
 Quem nunca na vigília empallecera, 
 Ao seguir com o pensar louco desejo? 
 Quem não sonhara ao collo voluptuoso 
 Da sultana louça morrer de gozo ?

Uma noite tentei fechar as palpebras, 
 Debalde revolvi-me sobre o leito... 
 A alma adejava em phantasias d'ouro, 
 Arfava ardente o coração no peito. 
 A imagem que eu seguia? E' meu segredo! 
 Seu nome? Não o digo... tenho medo. 

Ai! dóe muito calar dentro em noss'alma 
 Este anhelar fremente de desejos! 
 Ai! dóe muito calar o roseo sonho 
 Que sonhamos: — dormir entre mil beijos 
 Num seio que de amor todo estremece, 
 Quando o olhar de volupias esmorece... 

Dóe muito., mas dóe mais uma ironia, 
 Quando adeja o pensar no firmamento. 
 Dóe muito... mas dóe mais um desengano, 
 Quando se vive só de um sentimento, 
 Quando o peito cifrou sua esperança 
 Em beijar da mulher a negra trança. 

Que loucura! Aos teus languidos olhares, 
 Beber, louco de amor, seiva de vida... 
 Sorver perfume em teus cabellos negros, 
 Sentir a alma de si mesma esquecida... 
 E, de gozo de amar louco, sedento, 
 Viver a eternidade num momento! 

Que ventura! Sorver co'os lábios trêmulos 
 Em teus lábios — de amor o nome santo... 
 Que ventura! Fitar-te os negros olhos 
 Desmaiados de amor e de quebranto... 
 E, reclinada a fronte no teu seio, 
 Sentir languido arfar em doce enleio... 

Mas que louco sonhar... O' minha amante, 
 Que nunca nos meus braços desmaiaste, 
 Que nem sequer de amor uma palavra 
 Dos meus lábios em fogo inda escutaste, 
 Perdoa este sonhar vertiginoso! 
 Foi um sonho do peito deliroso! 

E, se um dia, entre as scismas de tu'alma, 
 Minha imagem passar um só momento, 
 Fita meus olhos, vê como elles falam 
 Do amor que eu te votei no esquecimento: 
 Recorda-te do moço que em segredo 
 Fez-te a fada gentil de um sonho ledo... 

Recorda-te do pobre que em silencio 
 De ti fez o seu anjo de poesia, 
 Que tresnoita scismando em tuas graças, 
 Que por ti, só por ti, é que vivia, 
 Que tremia aó roçar de teu vestido, 
 E que por ti de amor era perdido...

Sagra ao menos uma hora em tua vida 
 Ao pobre que sagrou-te a vida inteira, 
 Que em teus olhos, febril e delirante, 
 Bebeu de amor a inspiração primeira, 
 Mas que de um desengano teve medo, 
 E guardou dentro d'alma o seu segredo! 

Recife, Junho de 1863. 

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     Cf. com a primeira publicação em livro, na "5* 
 (VI) Edição das Espumas Fluctuantes, de Seraphim 
 José Alves, Rio de Janeiro (1881), "appendice": I. 
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continua página 64...
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Posias Lyricas
Meu segredo /  
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

Marcel Proust - A Prisioneira (Compreendi que duas horas queria dizer três horas)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Compreendi que duas horas queria dizer três horas, pois já passava das duas. Mas era, em Françoise, um dos defeitos particulares, permanentes e incuráveis, a que chamamos doentios, o de nunca poder olhar nem dizer exatamente a hora. Jamais pude compreender o que se passava na sua cabeça quando Françoise, tendo olhado o relógio, caso fossem duas horas dizia: é uma hora, ou são três horas; jamais pude compreender se o fenômeno que ocorria então tinha por ser do olhar de Françoise, o seu cérebro, ou a sua linguagem; o certo é que tal fenômeno ocorria sempre. A humanidade é muito velha. A hereditariedade e os cruzamentos deram uma força invencível a maus hábitos, a reflexos viciosos. Algumas pessoas espirram e respiram com dificuldade porque passam perto de um arbusto, outras têm erupções devido ao odor da tinta fresca; muitas têm cólicas se é preciso viajar, e netos de ladrões que agora são milionários generosos não resistem à tentação de nos roubar cinquenta francos. Quanto a saber em que consistia a impossibilidade em que se achava Françoise de dizer a hora exata, não foi dela que pude extrair qualquer esclarecimento a respeito. Pois, apesar da cólera que me davam habitualmente suas respostas inexatas, Françoise não procurava desculpar-se pelo erro, nem explicá-lo. Permanecia muda, dava a impressão de não me ouvir, o que acabava de me exasperar. Gostaria eu de ouvir uma palavra de justificação, ainda que fosse apenas para rebatê-la, mas nada; um silêncio indiferente. Em todo caso, quanto a hoje, nenhuma dúvida: Albertine ia voltar com Françoise às três horas, Albertine não veria Léa nem suas amigas. Assim, estando conjurado o perigo que ela renovasse suas relações com tais pessoas, esse perigo logo perdeu importância a meus olhos, e me espantei, ao ver a facilidade com que fora evitado, de ter pensado que não conseguiria que o fosse. Senti um vivo movimento de gratidão por Albertine, a qual, via bem, não fora ao Trocadero por causa das amigas de Léa, e que me mostrava, deixando a vesperal e voltando para casa a um sinal meu, que ela me pertencia para o futuro até mais do que eu imaginava. Maior ainda foi tal sentimento quando um ciclista me trouxe um bilhete dela para que eu tivesse paciência, bilhete em que havia amabilidades que lhe eram comuns: "Meu querido, meu caro Marcel, chego menos depressa que este ciclista, de cuja bicicleta gostaria de utilizar-me para estar mais cedo com você. Como pode imaginar que eu possa ficar aborrecida e que algo possa me agradar mais do que estar junto de você? Seria ótimo sairmos os dois juntos e melhor ainda seria nunca sairmos senão juntos. Que ideia são as suas, então? Esse Marcel! Toda sua, Albertine." 
     Até os vestidos que lhe comprava, o iate de que lhe falara, os peignoirs de Fortuny, tudo isso, tendo nesta submissão de Albertine não a sua compensação, mas o seu complemento, surgia-me como outros tantos privilégios que eu exercia; pois os deveres e os encargos de um senhor fazem parte de sua dominação e a definem e provam, tanto quanto os seus direitos. E esses direitos que ela me reconhecia dava precisamente à meus encargos o seu verdadeiro caráter: eu tinha uma mulher à minha disposição, a qual, ao primeiro recado que lhe enviasse de improviso, mandava-me telefonar, com deferência, que voltava, que se deixava reconduzir logo. Eu era mais senhor do que julgava. Mais senhor, isto é, mais escravo. Eu já não tinha nenhuma impaciência de ver Albertine. A certeza de que ela estava fazendo compras com Françoise, que regressaria com ela num momento próximo que eu de bom grado prorrogaria, iluminava como um astro radioso e pacífico um tempo que agora eu gostaria muito mais de passar sozinho. O amor por Albertine fizera erguer-me e me preparar para sair, mas me impediria de desfrutar a minha saída. Imaginava que, nesse domingo, operariazinhas, midinettes e cocotes iam passear no Bois. E com essas palavras, "midinettes", "operariazinhas" (como já me ocorrera muitas vezes com um nome próprio, um nome de moça lido no noticiário de um baile), com a imagem de um corpete branco, de uma saia curta, pois atrás disso eu punha uma criatura desconhecida e que poderia me amar, eu criava sozinho mulheres desejáveis, e dizia comigo: "Como devem ser gostosas!" Mas de que me serviriam que o fossem, visto que eu não saía só?
     Aproveitando o fato de que ainda estava sozinho, e entrecerrando as cortinas para que o sol não me impedisse de ler as notas, sentei-me ao piano e abri ao acaso a Sonata de Vinteuil que ali estava posta, e comecei a tocar porque, estando ainda meio distante a chegada de Albertine, mas em compensação sendo segura, eu dispunha de tempo e de paz de espírito. Banhado na espera, cheio de segurança pelo seu retorno na companhia de Françoise e de confiança em sua docilidade, como na beatitude de uma luz interior tão reaquecedora como a de fora, eu podia dispor do meu pensamento, desprendê-lo de Albertine, aplicá-lo à Sonata. Mesmo nesta, não me empenhei em reparar o quanto a combinação do motivo voluptuoso e do motivo ansioso respondia agora mais ao meu amor por Albertine, do qual o ciúme estivera por tão longo tempo ausente que eu havia podido confessar a Swann a minha ignorância de tal sentimento. Não, tomando a Sonata de um outro ponto de vista, encarando-a em si mesma como sendo a obra de um grande artista, eu era conduzido pelo fluxo sonoro em direção aos dias de Combray. Não quero dizer de Montjouvain e do lado de Méséglise, mas dos passeios pelos lados de Guermantes -quando eu próprio desejara ser artista. Abandonando de fato tal ambição, renunciara eu a alguma coisa real? Poderia a vida consolar-me da arte, haveria na arte uma realidade mais profunda em que nossa personalidade verdadeira encontrasse uma expressão que não lhe conferem as ações da vida? Todo grande artista parece de fato de tal modo diverso dos outros, e tanto nos dá aquela sensação de individualidade que em vão buscamos na existência cotidiana! No momento em que eu pensava nisto, um compasso da Sonata me impressionou, compasso que aliás eu conhecia bem; mas às vezes a atenção ilumina diversamente coisas já conhecidas no entanto há muito, e nas quais assinalamos o que nunca tínhamos percebido nelas. Tocando esse compasso, e conquanto Vinteuil estivesse exprimindo ali um sonho que deveria permanecer de todo estranho a Wagner, não pude evitar murmurar: "Tristão!"-com o sorriso que tem um amigo da família ao encontrar algo do avô numa entonação, num gesto do neto que não o conheceu. E como então se olha uma fotografia que permite precisar a semelhança, instalei na estante, por sobre a Sonata de Vinteuil, a partitura de Tristão, do qual tocavam, justamente naquela tarde, alguns trechos no Concert Lamoureux. Na minha admiração pelo mestre de Bayreuth, eu não tinha nenhum dos escrúpulos daqueles, como Nietzsche, a quem o dever lhes dita que fujam, na arte como na vida, da beleza que os provoca, repudiando Tristão como renegam Parsifal e, por ascetismo espiritual, de mortificação em mortificação, chegam, seguindo o mais sangrento dos caminhos da cruz, a elevar-se ao puro conhecimento e à adoração perfeita do Postilhão de Longjumeau. [Ópera-cômica de Adolphe Adam (1803-1856). (N. do T)]. Eu percebia tudo o que a obra de Wagner tem de real, revendo esses temas insistentes e fugazes que visitam um ato, afastando-se apenas para retornar, e às vezes distantes, entorpecidos, quase desligados, são, em outros momentos, mesmo sempre continuando vagos, tão próximos e prementes, tão internos, tão orgânicos, tão viscerais, que se diria serem a retomada menos de um motivo que de uma nevralgia.
     A música, bem diferente nisto da companhia de Albertine, ajudava-me a descer ao fundo de mim mesmo, e a descobrir aí coisas novas: a variedade que eu em vão buscara na vida, na viagem, cuja nostalgia no entanto me era dada por esse fluxo sonoro que fazia morrer a meu lado suas ondas ensolaradas. Dupla diversidade. Como o espectro exterioriza para nós a composição da luz, do mesmo modo a harmonia de um Wagner e a cor de um Elstir nos permitem conhecer aquela essência qualitativa das sensações de outrem, onde o amor por outra criatura não nos faz penetrar. Além disso, diversidade no seio da própria obra, pelo único meio que há de ser realmente diverso: reunir várias individualidades. Onde um músico qualquer julgaria estar pintando um escudeiro, ou um cavaleiro, ainda quando os fizesse cantar a mesma música, Wagner, ao contrário, coloca, sob cada denominação, uma realidade diferente e, cada vez que seu escudeiro aparece, trata-se de uma figura particular, a um tempo simplista e complicada, que, com um entrechoque de linhas radiante e feudal, inscreve-se na imensidade sonora. Decorre daí a plenitude de uma música de fato repleta de tantas músicas, cada uma das quais é um ser. Um ser ou a impressão que nos dá um aspecto momentâneo da natureza. Mesmo aquilo que é mais independente do sentimento que ela nos faz experimentar, conserva sua realidade exterior e inteiramente definida, o canto de um pássaro, o som da trompa de um caçador, a canção tocada por um pastor na sua flauta de cana, recortam no horizonte a sua silhueta sonora. Por certo Wagner ia fazê-la mais próxima, aproveitar-se dela, colocá-la numa orquestra, submetê-las às mais altas ideias musicais, todavia respeitando sua originalidade primitiva como um fabricante de arcas respeita as fibras, a essência particular da madeira que esculpe.
     Mas apesar da riqueza dessas obras em que a contemplação da natureza tem seu lugar ao lado da ação, ao lado de indivíduos que não são mais que nomes de personagens, mesmo assim eu imaginava o quanto essa obras participam do caráter de ser - ainda que maravilhosamente - sempre incompletas, que é o caráter de todas as grandes obras do século XIX, cujos maiores escritores deixaram em seus livros a marca de sua personalidade, mas, observando-se enquanto trabalhavam, como se fossem a um tempo o operário e o juiz, extraíram dessa autocontemplação uma beleza nova, exterior e superior à obra, impondo-lhe retroativamente uma unidade, uma grandeza que ela não possui. Sem nos determos naquele que viu em seus romances, depois de concluídos, uma Comédia Humana, nem naqueles que a poemas ou ensaios inconjuntos denominaram A Lenda dos Séculos e A Bíblia da Humanidade, não podemos, no entanto, dizer que este último encarna tão bem o século XIX, que as maiores belezas de Michelet devemos procurá-las menos na sua própria obra que nas atitudes que ele assume em face da mesma, não na sua História da França ou na sua História da Revolução, mas em seus prefácios a esses dois livros? Prefácios, ou seja, páginas escritas depois dos livros, onde ele os examina, e às quais convém acrescentar, aqui e ali, algumas frases, começando de hábito por um "Devo dizê-lo?" que não é uma cautela de sábio, mas uma cadência de músico. O outro músico, o que me deslumbrava no momento, Wagner, tirando de suas gavetas um trecho delicioso para fazê-lo entrar como tema retrospectivamente necessário em uma obra na qual não pensava no momento em que a compusera e, depois, tendo composto uma primeira ópera mitológica, depois uma segunda, depois ainda outras, e de súbito percebendo que acabava de fazer uma Tetralogia, deve ter sentido um pouco da mesma embriaguez de Balzac, quando este, lançando às suas obras um olhar a um tempo de um estranho e de um pai, achando neste romance a pureza de Rafael, neste outro a simplicidade do Evangelho, reparou bruscamente, ao lançar sobre eles uma iluminação retrospectiva, que ficariam mais belos reunidos num ciclo em que as mesmas personagens reaparecessem e acrescentou à sua obra, nesse ajustamento, uma pincelada, a derradeira e a mais sublime. Unidade ulterior, não artificial.
     Senão seria reduzida a pó como tantas sistematizações de escritores medíocres que, com grande reforço de títulos e subtítulos, desejam parecer que se deram ao esforço de perseguir um só e transcendente desígnio. Não fictícia, talvez mais real até por ser ulterior, por ter nascido de um momento de entusiasmo em que é descoberta entre pedaços que só precisam se unir, unidade que se ignorava, portanto vital e não lógica, que não proscreveu a variedade nem ressecou a execução. Ela é (mas aplicando-se desta vez ao conjunto) como determinado trecho composto à parte, nasceu de uma inspiração, não exigida pelo desenvolvimento artificial de uma tese, e que vem integrar-se a resto. Antes do grande movimento de orquestra que precede a volta de Isolda, foi à própria obra que atraiu para si a ária meio esquecida da flauta de um pastor.
     E, sem dúvida, assim como a progressão da orquestra, ao aproximar-se da nave, apodera-se dessas notas da flauta, transforma-as, associa-as à sua embriaguez, quebra o seu ritmo, aclara-lhes a tonalidade, acelera-lhes o movimento, multiplica-lhes a instrumentação, assim o próprio Wagner, sem dúvida, alegrou-se ao descobrir em sua memória a ária do pastor, agregou-a à sua obra, deu-lhe todo seu significado. De resto, semelhante alegria não o abandona jamais. Seja qual for a tristeza do poeta, ela é consolada nele, superada - quer dizer, infelizmente um pouco destruída pela alegria do fabricante. Mas então, tanto quanto pela identidade que eu havia notado há pouco entre a frase de Vinteuil e a de Wagner, sentia-me perturbado por essa habilidade vulcânica. Seria essa habilidade que confere, nos grandes artistas, a ilusão de uma originalidade intrínseca, irredutível, aparentemente um reflexo dê uma realidade mais que humana, e de fato o produto de um labor industrioso?
     Se a arte não passa disto, não é mais real do que a vida, e eu não tinha que lastimar o fato de não ser artista. Continuava a tocar Tristão. Separado de Wagner pelo tabique sonoro, ouvia-o exultar, convidar-me a partilhar da sua alegria, ouvia redobrar o riso imortalmente jovem e as marteladas de Siegfried, em quem, aliás, mais maravilhosamente marcadas eram tais frases, a habilidade técnica do operário só servindo para fazê-las mais livremente deixar a terra, pássaros idênticos não ao cisne de Lohengrin, mas àquele aeroplano que eu vira, em Balbec, mudar sua energia em elevação, planar acima das ondas e perder-se no céu. Talvez, como as aves que mais alto sobem, que voam mais depressa, têm uma asa mais possante, fossem necessários aparelhos realmente materiais para explorar o infinito, desses cento e vinte cavalos marca Mistério, nos quais entretanto, por mais alto que se voe, é-se um tanto impedido de desfrutar o silêncio dos espaços devido ao potente ronco do motor!
     Não sei por que o curso de meus devaneios, que até aqui havia seguido as recordações da música, desviou-se para aqueles que foram, em nossa época, os melhores executantes, e entre os quais, superestimando-o um pouco, eu situava Morel. E logo o meu pensamento fez um brusco desvio e foi sobre o caráter de Morel, e certas singularidades desse caráter, que me pus a devanear. Aliás, isto podia acrescentar-se mas não se confundir com a neurastenia que o atormentava-, Morel tinha o hábito de falar de sua vida, mas dando um retrato tão sombrio dela que era difícil distinguir alguma coisa. Por exemplo, colocava-se à inteira disposição do Sr. de Charlus, com a condição de ter as noites livres, pois desejava poder seguir o curso de álgebra depois do jantar. O Sr. de Charlus dava licença, mas pedia para vê-lo depois.

- Impossível, é uma velha pintura italiana-(este gracejo não faz qualquer sentido transcrito assim; mas o Sr. de Charlus fizera Morel ler A Educação Sentimental, em cujo penúltimo capítulo Fréderic Moreau diz esta frase; e, assim, Morel, de brincadeira, nunca dizia a palavra "impossível" sem fazê-la seguir por estas: "é uma velha pintura italiana") -, o curso dura muitas vezes até bem tarde e já é um grande incômodo para o professor, que naturalmente ficaria melindrado... 
- Mas não há necessidade de curso, álgebra não é como a natação, nem mesmo como o inglês, isto se aprende muito bem num livro - replicava o Sr. de Charlus, tendo logo adivinhado nesse curso de álgebra uma dessas imagens em que não se podia destrinçar nada. Talvez se tratasse da cópula com uma mulher, ou, se Morel procurava ganhar dinheiro por meios suspeitos e estivesse de combinação com a polícia secreta, de uma operação com agentes de segurança, ou, quem sabe, pior ainda, a espera de um gigolô de quem se poderá precisar num bordel. 
- Bem mais facilmente até pelos livros - respondia Morel ao Sr. de Charlus-, pois não se compreende nada num curso de álgebra. 
- Então por que não a estudas de preferência lá em casa, onde tens de fato todo o conforto? -poderia ter respondido o Sr. de Charlus; evitou, porém, dizê-lo, sabendo que, imediatamente, conservando apenas o mesmo caráter de necessidade para reservar as horas da noite, o curso de álgebra se mudaria numa aula obrigatória de dança ou de desenho. No que o Sr. de Charlus pôde perceber que se enganava, ao menos em parte: Morel, muitas vezes, na casa do barão, ocupava-se em resolver equações. O Sr. de Charlus objetava que a álgebra não podia servir em nada a um violinista. Morel retrucava que era uma distração para passar o tempo e combater a neurastenia. É claro que o Sr. de Charlus poderia procurar saber o que eram na verdade aquelas misteriosas e fatais aulas de álgebra, só ministradas à noite. Mas o Sr. de Charlus estava envolvido demais nas obrigações da sociedade para se ocupar em deslindar o emaranhado das ocupações de Morel.

     As visitas feitas ou recebidas, o tempo passado no círculo, os jantares na cidade e as noites no teatro impediam-no de pensar nisso, bem como naquela malvadez, a um tempo violenta e sorrateira, que Morel, dizia-se, fazia ao mesmo tempo brilhar e dissimular nos ambientes sucessivos, nas diferentes cidades por onde passara, e onde só falavam dele com um arrepio, baixando a voz, e sem coragem de contar coisa alguma. Infelizmente, foi a uma dessas explosões de nervosismo maldoso que tive ocasião de assistir naquele dia, quando, tendo deixado o piano, desci ao pátio para ir ao encontro de Albertine que ainda não tinha chegado. Passando em frente à loja de Jupien, onde Morel e aquela que eu julgava vir a ser em breve sua mulher estavam sozinhos, ouvi Morel gritando com toda a força, o que fazia sair dele uma entonação que não lhe conhecia, rude, habitualmente recalcada, e estranhíssima. As palavras não o eram menos, erradas do ponto de vista da língua francesa, mas ele conhecia tudo imperfeitamente. 

- Saia já daqui; sua grandessíssima puta, grandessíssima puta, grandessíssima puta- repetia ele à pobre moça, que certamente no começo não entendera o que ele queria dizer; e depois, trêmula e digna, permanecia imóvel diante dele. - Já lhe disse para sumir daqui, grandessíssima puta, grandessíssima puta, vá procurar o seu tio para que eu lhe diga o que você é, sua puta. -

     Justo naquele momento a voz de Jupien; que regressava conversando com um amigo, fez-se ouvir no pátio, e, como eu sabia que Morel era um tremendo poltrão, achei inútil juntar minhas forças à de Jupien e seu amigo, que num instante estariam dentro da loja, e voltei a subir, para evitar Morel, que, embora tivesse tanto desejado que chamassem Jupien (provavelmente para aterrorizar e dominar a moça com uma chantagem sem qualquer fundamento), apressou-se a sair logo que ouviu sua voz no pátio. As palavras reproduzidas não são nada, nem explicariam o bater do coração com que subi.
     Tais cenas a que assistimos na vida encontram um elemento de força incalculável no que os militares denominam, em matéria de ofensiva, a vantagem da surpresa, e, por maior que fosse a minha sensação de suave tranquilidade por saber que Albertine, em vez de ficar no Trocadero, ia voltar para junto de mim, nem por isso ressoava menos nos ouvidos o acento daquelas palavras dez vezes repetidas: "grandessíssima puta, grandessíssima puta", que tinham me perturbado tanto.
     Pouco a pouco minha agitação se acalmou. Albertine ia chegar. Eu a ouviria bater à porta dentro de um instante. Sentia que minha vida não era mais a mesma como poderia ter sido; e que ter assim uma mulher com a qual muito naturalmente, quando estivesse de volta, deveria sair, para cujo embelezamento iam ser cada vez mais desviadas as forças e a atividade do meu ser, fazia de mim como que uma haste acrescida, mas vergada ao peso do fruto opulento pelo qual passam todas as suas reservas. Contrastando com a ansiedade que eu experimentara uma hora antes, o sossego que me causava o regresso de Albertine era mais vasto do que o que eu sentira de manhã, antes de sua partida. Antecipando o futuro, de que a docilidade de minha amiga me tornava mais ou menos senhor, mais resistente, como que repleto e estabilizado pela presença iminente, importuna, inevitável e doce, era o sossego (dispensando-nos de buscar a felicidade em nós mesmos) que nasce de um sentimento familiar e de uma ventura doméstica: foi isso ainda, não menos que o sentimento que me trouxera tanta paz enquanto eu esperava Albertine, o que experimentei a seguir, passeando com ela. Ela tirou a luva por um momento, fosse para tocar a minha mão, fosse para me deslumbrar, deixando-me ver no seu dedo mindinho, ao lado daquele que recebera da Sra. Bontemps, um anel onde se estendia a larga e líqüida toalha de uma clara folha de rubis:

- Um novo anel, Albertine? Sua tia é tão generosa! 
- Não, este não veio da minha tia - disse ela, rindo. - Eu mesma é que o comprei, visto que, graças a você, posso fazer grandes economias. Nem mesmo sei a quem pertenceu. Um viajante que não tinha dinheiro o deixou para o dono de um hotel onde estive em Mans. O homem não sabia o que fazer dele e o teria vendido bem abaixo do seu valor. Mas ainda assim era muito caro. Agora que, graças a você, eu me torno uma dama elegante, mandei lhe perguntar se ele o possuía ainda. E aí está. 
- Tanto anel, Albertine. Onde vai pôr o que lhe vou dar? Em todo caso, este é muito bonito; não consigo distinguir os lavores em torno aos rubis, dir-se-ia uma cabeça humana fazendo caretas. Mas não tenho boa vista. 
- Mesmo que a tivesse, não adiantaria muito. Eu também não distingo nada.

     Antigamente, muitas vezes me ocorrera, ao ler um volume de memórias ou um romance, em que um homem sempre sai com uma mulher, merendam juntos, desejar poder fazer o mesmo. Às vezes julgara consegui-lo, por exemplo, levando comigo a amante de Saint-Loup, indo jantar com ela. Mas debalde eu invocava a ideia de que, naquele momento, representava bem a personagem que havia invejado no romance, essa ideia me convencia de que eu devia ter satisfação ao lado de Rachel e, todavia, não me proporcionava.
     É que, de cada vez que desejamos imitar alguma coisa, esquecemos que essa coisa foi produzida não pela vontade de imitar, mas por uma força inconsciente, também real. Mas essa impressão particular que não pudera me dar todo o meu desejo de sentir um prazer delicado ao passear com Rachel, eis que agora o sentia sem o ter procurado de forma alguma, mas por motivos completamente diversos, sinceros, profundos para citar um exemplo - porque meu ciúme impedia-me de estar longe de Albertine e, no momento em que eu podia sair, de deixá-la passear sem mim. Só o sentia agora porque o conhecimento é, não das coisas exteriores que desejamos observar, mas das sensações involuntárias; porque outrora uma mulher, por mais tempo que estivesse no mesmo carro que eu, não estava na realidade junto a mim, enquanto não a recriasse ali, a todo instante, uma necessidade dela como eu a tinha de Albertine, enquanto a carícia constante do meu olhar não lhe devolvesse permanentemente as cores que exigem ser perpetuamente refrescadas, enquanto os sentidos, mesmo apaziguados, mas que se recordam, não pusessem sob aquelas cores o sabor e a consistência, enquanto, unido aos sentidos e à imaginação que os exalta, o ciúme não mantivesse tal mulher em equilíbrio junto a mim por uma atração compensada, tão poderosa como a lei da gravidade.
     Nosso carro descia depressa pelos bulevares, pelas avenidas, cujos palacetes enfileirados, rósea congelação de sol e de frio, recordavam-me as visitas à casa da Sra. Swann, docemente iluminadas pelos crisântemos a esperada hora dos lampiões. Eu mal tinha tempo de avistar, tão separado delas atrás do vidro do automóvel como o teria estado atrás da janela do meu quarto, uma jovem caixeira da casa de frutas, uma moça da leiteria de pé diante da porta, iluminada pelo lindo dia como uma heroína que meu desejo bastava para empenhar em peripécias deliciosas, no limiar de um romance que eu nunca haveria de conhecer. Pois eu não podia pedir a Albertine que parássemos, e já não eram mais visíveis as moças, de quem meus olhos mal distinguiram as feições e mal puderam acariciar a frescura no louro vapor em que elas se banhavam. A emoção de que me sentia possuído ao avistar a filha de um comerciante de vinhos ou uma lavadeira conversando na rua era a emoção que se tem ao reconhecer as Deusas. Desde que o Olimpo já não existe, seus habitantes vivem na terra. E, quando, ao compor um quadro mitológico, os pintores fizeram posar, como Vênus ou Ceres, moças do povo que exerciam os ofícios mais vulgares, bem longe de cometer um sacrilégio, não fizeram mais que acrescentar-lhes, restituir-lhes a qualidade e os atributos divinos de que se achavam despojadas. 

- Como lhe pareceu o Trocadero, louquinha? 
- Estou muito contente de o ter deixado para passear com você. É de Davioud, creio. 
- Mas como a minha pequena Albertine é instruída! De fato, é de Davioud, mas eu o tinha esquecido.
- Enquanto você dormia li seus livros, grande preguiçoso. Como monumento, é bem feio, não acha? 
- Menina, você está mudando com tamanha rapidez e se torna de tal modo inteligente (é verdade, mas, além disso, gostava que ela tivesse a satisfação, à falta de outras, de pensar que pelo menos o tempo que passava em minha casa não era totalmente perdido), que lhe diria, quando necessário, algumas coisas que em geral seriam consideradas falsas e que correspondem a uma verdade que estou procurando. - Você sabe o que é o impressionismo?
- Sei. 
- Pois bem, veja o que pretendo dizer: lembra-se da igreja de Marcouville I'Orgueilleuse, que Elstir não apreciava porque era nova? Será que ele não está um tanto em contradição com o seu próprio impressionismo, quando retira assim esses monumentos da impressão global em que estão situados, leva-os para fora da luz onde estão dissolvidos e examina o seu valor intrínseco feito um arqueólogo? Quando pinta, por acaso um hospital, uma escola ou um cartaz numa parede não têm o mesmo valor que uma catedral inestimável que está perto, numa imagem indivisível? Lembre-se de como a fachada estava queimada pelo sol, como o relevo daqueles santos de Marcouville sobrenadavam na luz. Que importa que um monumento seja novo, se parece velho? E mesmo que não pareça! O que os velhos bairros têm de poético foi extraído até a última gota, porém certas casas recentemente construídas para pequenos burgueses endinheirados, nos bairros novos, onde a pedra muito branca mostra ter sido preparada há pouco, não rompem elas o ar tórrido do meio-dia em julho, à hora em que os comerciantes voltam para o almoço no subúrbio, com um grito tão ácido como o odor das cerejas, antes que a refeição seja servida na sala de jantar penumbrosa, onde os prismas de vidro para descanso das facas projetam focos multicores tão belos como os vitrais de Chartres? 
- Como você é delicioso de ouvir! Se algum dia eu me tornar inteligente, será graças a você. 
- Por que, num dia bonito, desviar os olhos do Trocadero cujas torres em forma de pescoço de girafa fazem pensar na cartuxa de Pavia? 
- Ele me lembrou também, dominando da mesma forma do alto da colina, uma reprodução de Mantegna que você possui, creio que é São Sebastião, onde existe ao fundo uma cidade em anfiteatro e onde se poderia jurar que fica o Trocadero. 
- Você observa bem! Mas como é que viu a reprodução de Mantegna? Você é surpreendente.

     Tínhamos chegado aos bairros mais populares, e a ereção de uma Vênus ancilar atrás de cada balcão fazia dele uma espécie de altar suburbano ao pé do qual eu gostaria de passar a minha vida. Como se faz às vésperas de uma morte prematura, eu recapitulava os prazeres de que me privava o ponto final que Albertine punha na minha liberdade. Em Passy, foi no próprio leito da rua, por causa do tráfego congestionado, que as moças, abraçadas pela cintura, deslumbraram-me com seu sorriso. Não tive tempo de o perceber muito bem, mas era pouco provável que o superestimasse; de fato, em qualquer multidão, em qualquer multidão de gente jovem, não é raro que se encontre a efígie de um nobre perfil. De modo que essas balbúrdias populares dos dias de festa são para o indivíduo voluptuoso tão preciosas como, para o arqueólogo, a desordem de uma terra onde uma escavação faz surgir medalhas antigas. Chegamos ao Bois. Eu pensava que, se Albertine não tivesse vindo comigo, poderia naquele instante, no Circo do Champs-Élysées, ouvir a tempestade wagneriana fazer gemer todos os instrumentos de corda da orquestra, atrair para si como leve espuma a ária da flauta que eu havia tocado há pouco, fazê-la voar, petrificá-la, deformá-la, dividi-la, arrastá-la num turbilhão crescente. Pelo menos, desejei que o nosso passeio fosse curto e que voltássemos cedo, pois, sem nada falar a Albertine, eu decidira ir à noite à casa dos Verdurin. Tinham-me ultimamente enviado um convite que eu jogara na cesta, como a todos os anteriores. Mas resolvera reconsiderar aquela noite, pois queria tentar saber que tipo de pessoas Albertine poderia esperar encontrar de tarde na casa deles. Para falar a verdade, eu chegara com Albertine àquele momento em que (se tudo continua como está, se as coisas se passam normalmente) uma mulher só serve para nós como transição para outra mulher. Ela ainda nos fala ao coração, mas muito pouco; temos pressa de ir encontrar desconhecidas todas as noites, e sobretudo desconhecidas que ela conhece, e que poderão nos contar a vida dela. Com efeito, já possuímos e esgotamos tudo o que ela consentiu em nos entregar de si mesma. Sua vida é ainda ela mesma, mas justamente a parte que não conhecemos, as coisas sobre as quais interrogamos em vão e que poderemos ouvir de lábios novos.

continua na página 70...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Compreendi que duas horas queria dizer três horas)

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino II

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 II

Foi no horror dessa noute tão funerea 
Que eu descobri, maior talvez que Vinci, 
Com a força visualistica do lynce, 
A falta de unidade na matéria! 

Os esqueletos desarticulados, 
Livres do acre fedor das carnes mortas, 
Rodopiavam, com as brancas tibias tortas, 
N'uma dança de números quebrados!

Todas as divindades malfazejas, 
Siva e Ahriman, os duendes, o Yn e os trasgos, 
Imitando o barulho dos engasgos, 
Davam pancadas no adro das igrejas.  

Nessa hora de monólogos sublimes, 
A companhia dos ladrões da noite, 
Buscando uma taverna que os açoite, 
Vae pela escuridão pensando crimes.

Perpetravam-se os actos mais funestos, 
E o luar, da côr de um doente de ictericia, 
Illuminava, a rir, sem pudicicia, 
A camisa vermelha dos incestos. 

Ninguém, de certo, estava ali, a espiar-me, 
Mas um lampeão, lembrava ante o meu rosto, 
Um suggestionador olho, ali posto 
De propósito, para hypnotisar-me ! 

Em tudo, então, meus olhos distinguiram 
Da miniatura singular de uma aspa, 
A' anatomia minima da caspa, 
Embryões de mundos que não progrediram! 

Pois quem não vê ahi, em qualquer rua, 
Com a fina nitidez de um claro jorro, 
Na paciência budhista do cachorro 
A alma embryonaria que não continua?! 

Ser cachorro! Ganir incomprehendidos 
Verbos! Querer dizer-nos que não finge, 
E a palavra embrulhar-se no larynge, 
Escapando-se apenas em latidos!

Despir a putrescivel fôrma tosca, 
Na atra dissolução que tudo inverte, 
Deixar cahir sobre a barriga inerte 
O appetite necróphago da mosca!

A alma dos animaes! Pégo-a, distingo-a, 
Acho-a nesse interior duello secreto 
Entre a anciã de um vocábulo completo 
E uma expressão que não chegou á lingua!   

Surprehendo-a em quatrilliões de corpos vivos, 
Nos anti-peristálticos abalos 
Que produzem nos bois e nos cavallos 
A contracção dos gritos instinctivos! 

Tempo viria, em que, daquelle horrendo 
Cháos de corpos orgânicos disformes. 
Rebentariam cérebros enormes,
Como bolhas febris de água, fervendo! 

Nessa épocha que os sábios não ensinam, 
A pedra dura, os montes argillosos 
Creariam feixes de cordões nervosos 
E o neuroplasmados que raciocinam!

Almas pygméas ! Deus subjuga-as, cinge-as 
A' imperfeição ! Mas vem o Tempo, e vence-O, 
 E o meu sonho crescia no silencio, 
Maior que a epopéas carolingias!

Era a revolta trágica dos typos 
Ontogénicos mais elementares, 
Desde os foraminiferos dos mares 
A' grey lilliputiana dos polypos. 

Todos os personagens da tragédia, 
Cansados de viver na paz de Budha, 
Pareciam pedir com a bocca muda 
A ganglionaria céllula intermédia.

A planta que a canicula ignea torra, 
E as coisas inorgânicas mais nulIas 
Apregoavam encéphalos. medullas 
Na alegria guerreira da desforra! 

Os protistas e o obscuro acervo rijo 
Dos espongiarios e dos infusorios 
Recebiam com os seus órgãos sensorios 
O triumpho emocional do regozijo! 

E apezar de já ser assim tão tarde, 
Aquella humanidade parasita, 
Como um bicho inferior, berrava, afflicta, 
No meu temperamento de covarde! 

Mas, reflectindo, a sós, sobre o meu caso, 
Vi que, igual a um amneota subterrâneo, 
Jazia atravessada no meu cráneo 
A intercessão fatídica do atrazo! 

A hypothese genial do microzyma 
Me estrangulava o pensamento guapo, 
E eu me encolhia todo como um sapo 
Que tem um pezo incómmodo por cima! 

Nas agonias do delirium-tremens, 
Os bebedos alvares que me olhavam, 
Com os copos cheios esterilisavam 
A substancia prolífica dos semens! 

Enterravam-as mãos dentro das guélas, 
E sacudidos de um tremor indómito 
Expelliam, na dor forte do vomito, 
Um conjuncto de gosmas amarellas.  

Iam depois dormir nos lupanares 
Onde, na gloria da concupiscencia, 
Depositavam quasi sem consciência  
As derradeiras forças musculares. 

Fabricavam dest'arte os blastodermas, 
Em cujo repugnante receptáculo 
Minha perscrutação via o espectaculo 
De uma progénie idiota de palermas.

Prostituição ou outro qualquer nome, 
Por tua causa, embora o homem te ácceite, 
E' que as mulheres ruins ficam sem leite 
E os meninos sem pae morrem de fome! 

Porque ha de haver aqui tantos enterros?! 
Lá no «Engenho» também, a morte é ingrata. 
Ha o malvado carbúnculo que mata 
A sociedade infante dos bezerros! 

Quantas moças que o túmulo reclama!
E após a podridão de tantas moças, 
Os porcos espojando-se nas poças 
Da virgindade reduzida á lama! 

Morte, ponto final da ultima scéna, 
Fôrma diffusa da matéria imbelle, 
Minha philosophia te repelle, 
Meu raciocínio enorme te condemna!

Deante de ti, nas cathedraes mais ricas, 
Rolam sem efficacia os amuletos
Oh! Senhora dos nossos esqueletos 
E das caveiras diárias que fabricas!  

E eu desejava ter, numa anciã rara, 
Ao pensar nas pessoas que perdera, 
A inconsciencia das máscaras de cera 
Que a gente prega, com um cordão, na cara!  

Era um sonho ladrão de submergir-me 
Na vida universal, e, em tudo immérso, 
Fazer da parte abstracta do Universo, 
Minha morada equilibrada e firme! 

Nisto, peor que o remorso do assassino, 
Reboou, tal qual, num fundo de caverna, 
Numa impressionadora voz interna, 
O echo particular do meu Destino: 

Continua na página 35...
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Leia também:
  O Deus-Verme / As Scismas do Destino I /  As Scismas do Destino II /  
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

MPB: Fio Maravilha

Jorge Ben Jor

Os alquimistas da bola
já passaram por aqui
eu vi eles chegando
Os alquimistas da bola
já passaram por aqui
discretos e silenciosos
Agora moram bem longe
muito longe dos gramados
esuascadeirasnumeradas
torcidasorganizadas
camarotescomwhiskyechampanhe
pessoasqueevitamqualquerrelaçãocompessoas
desde a trituração,           a fixação
a destilação e                   a coagulação
          esse temperamento sórdido
Fio Maravilha faz mais um pra gente vê

os alquimistas estão chegando




Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh

Os alquimistas
Estão chegando
Estão chegando
Os alquimistas

Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Ê, ê, ê, ê

Eles são discretos
E silenciosos
Moram bem longe dos homens
Escolhem com carinho
A hora e o tempo
Do seu precioso trabalho

São pacientes, assíduos
E perseverantes
Executam
Segundo as regras herméticas
Desde a trituração, a fixação
A destilação e a coagulação

Trazem consigo, cadinhos
Vasos de vidro
Potes de louça
Todos bem e iluminados
Evitam qualquer relação
Com pessoas
De temperamento sórdido
De temperamento sórdido

Ê, ê, ê, ê
Ê, ê, ê, ê

Os alquimistas
Estão chegando
Estão chegando
Os alquimistas

Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh



Jorge Ben Jor 
- Por Causa de Você, Menina / Chove Chuva / Mas que nada 
- na TV Espanhola






Jorge Ben Jor 
- MPB Especial 1972



"O apelido virou "Fio Maravilha", após marcar o gol da vitória (1–0) da equipe carioca contra o Benfica, de Portugal. Foi homenageado pelo cantor Jorge Ben Jor com a canção homônima, grande sucesso nacional, vencedora do Festival Internacional da Canção de 1972 (na voz de Maria Alcina), que narra o feito contra a equipe portuguesa: "Tabelou, driblou dois zagueiros/ Deu um toque driblou o goleiro/ Só não entrou com bola e tudo/ Porque teve humildade em gol". O gol "de anjo, um verdadeiro gol de placa", segundo Jorge Ben, aos 33 da segunda etapa e visto por 44 mil pessoas no Maracanã, ocorreu em 15 de janeiro de 1972 (4 dias antes de completar 27 anos), pelo Torneio Internacional do Rio de Janeiro, vencido pelo Flamengo, após essa vitória contra o time lusitano e outra sobre o Vasco da Gama (também por 1–0, mas com gol de Paulo César Cajú; Fio entrou no lugar de Caio Cambalhota). Pedido pela torcida, Zagallo o colocou no segundo tempo, após Arílson se machucar em dividida com o zagueiro Malta. Os dois zagueiros citados no hit eram o beque Messias e o lateral Artur; o goleiro era José Henrique, o “Zé Gato”; e a tabela foi feita com Rogério Hetmanek. Não existem gravações do lance. Detalhe que o contrato dele com o clube já havia expirado fazia 15 dias, que o renovou em razão do golaço."


Fio Maravilha explica problema com Jorge Ben Jor





Fio Maravilha
A história do gol que virou música



E novamente ele chegou com inspiração
Com muito amor, com emoção, com explosão, um gol
Sacudindo a torcida aos trinta e três minutos do segundo tempo
Depois de fazer uma jogada celestial, um gol

Tabelou, driblou dois zagueiros
Deu um toque, driblou o goleiro
Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade, um gol

Foi um gol de classe
Onde ele mostrou sua malícia e sua raça
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E que a galera agradecida assim cantava
Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa
E que a galera agradecida assim cantava

Fio Maravilha, nós gostamos de você
Fio Maravilha, faz mais um pra gente vê
Fio Maravilha, nós gostamos de você
Fio Maravilha, faz mais um pra gente vê

Fio Maravilha, nós gostamos de você
Fio Maravilha, faz mais um pra gente vê


o ano é 1972
Maria Alcina - Fio Maravilha (VII Festival Internacional da Canção)






Jorge Ben Jor - Filho Maravilha