segunda-feira, 29 de junho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência (1)

 O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     41. Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência
          Em 1823, George Canning, cérebro do império britânico, estava celebrando seus triunfos universais. O encarregado de negócios da França teve de suportar a humilhação deste brinde: “Vossa seja a glória do triunfo, seguida pelo desastre e pela ruína; nosso seja o tráfico sem glória da indústria e da prosperidade sempre crescente (...). A idade da cavalaria passou, sucedida pela idade dos economistas e dos calculistas”. Londres vivia o princípio de uma longa festa; Napoleão tinha sido derrotado alguns anos antes, e a era da pax britannica se abria sobre o mundo. Na América Latina, a independência garantira perpetuidade ao poder dos donos da terra e dos comerciantes enriquecidos nos grandes portos de exportação, à custa da antecipada ruína dos países nascentes. As antigas colônias espanholas, e também o Brasil, eram mercados ávidos para os tecidos ingleses e para as libras esterlinas a tantos por cento. Canning não se enganara ao escrever, em 1824: “A coisa está feita; o prego está pregado, a América espanhola é livre; e se não negligenciarmos tristemente os nossos assuntos, é inglesa”. [1]

[1] KAUFMANN, William W. La política británica y la independencia de la América Latina (1804-1828). Caracas, 1963.

     A máquina a vapor, o tear mecânico e o aperfeiçoamento da máquina de tecer tinham feito amadurecer vertiginosamente a revolução industrial na Inglaterra. Multiplicavam-se as fábricas e os bancos; os motores de combustão interna haviam modernizado a navegação e um sem-número de grandes navios rumavam para os quatro pontos cardeais universalizando a expansão industrial inglesa. A economia britânica pagava com tecidos de algodão os couros do rio da Prata, o guano e o nitrato do Peru, o cobre do Chile, o açúcar de Cuba, o café do Brasil. As exportações industriais, os fretes, os seguros, os juros dos empréstimos e os dividendos dos investimentos alimentariam, ao longo do século XIX, a pujante prosperidade da Inglaterra. Em verdade, antes das guerras de independência os ingleses já controlavam boa parte do comércio legal entre a Espanha e suas colônias, e haviam lançado às costas da América Latina um caudaloso e persistente fluxo de mercadorias de contrabando. O tráfico de escravos proporcionava um anteparo eficaz para o comércio clandestino, ainda que ao fim e ao cabo as alfândegas também registrassem, em toda a América Latina, uma esmagadora maioria de produtos que não provinham da Espanha. Nos fatos, o monopólio espanhol nunca existiu: “(...) a colônia já estava perdida para a metrópole muito antes de 1810, e a revolução não representou nada mais que um reconhecimento político de semelhante estado de coisas”. [2]

[2] KOSSOK, Manfred. El virreinato del Río de la Plata. Su estructura económico social. Buenos Aires, 1959.

     As tropas britânicas tinham conquistado Trinidad, no Caribe, ao preço de uma só baixa, mas o comandante da expedição, Sir Ralph Abercromby, estava convencido de que não seriam fáceis outras conquistas militares na América espanhola. Pouco depois, fracassaram as invasões inglesas no rio da Prata. A derrota fortaleceu a opinião de Abercromby sobre a ineficácia das expedições armadas e o momento histórico dos diplomatas, mercadores e banqueiros: uma nova ordem liberal nas colônias espanholas ofereceria à Grã-Bretanha a oportunidade de abocanhar as nove décimas partes do comércio da América espanhola [3]. A febre da independência fervia em terras hispano-americanas. A partir de 1810, Londres aplicou uma política serpejante e dúplice, cujas flutuações obedeceram à necessidade de favorecer o comércio inglês, impedir que a América Latina caísse nas mãos dos Estados Unidos ou da França e prevenir uma possível infecção interna do jacobinismo nos novos países que nasciam para a liberdade.

[3] FERNS, H. S. Gran Bretaña y Argentina en el siglo XIX. Buenos Aires, 1966.

     Quando se constituiu a junta revolucionária em Buenos Aires, em 25 de maio de 1810, uma salva de canhonaços dos navios britânicos a saudou desde o rio. O capitão do navio Mutine pronunciou, em nome de Sua Majestade, um inflamado discurso: o júbilo invadia os corações britânicos. Buenos Aires levou apenas três dias para eliminar certas proibições que dificultavam o comércio com estrangeiros; doze dias depois, reduziu de 50 para 7,5 por cento os impostos que incidiam sobre as vendas ao exterior de couros e sebo. Tinham passado seis semanas desde 25 de maio quando foi tornada sem efeito a proibição de exportar ouro e prata em moedas, de modo que pudessem circular em Londres sem inconvenientes. Em setembro de 1811, um triunvirato substituiu a junta como autoridade governante: foram novamente reduzidos, e em alguns casos abolidos, os impostos de exportação e importação. A partir de 1813, quando a Assembleia se declarou autoridade soberana, os comerciantes estrangeiros ficaram desobrigados de vender suas mercadorias através dos comerciantes nativos: “O comércio, em verdade, tornou-se livre” [4]. Já em 1812, alguns comerciantes britânicos comunicaram ao Foreign Office: “Conseguimos (...) substituir com êxito os tecidos alemães e franceses”. Tinham substituído também a produção dos tecedores argentinos, estrangulados pelo porto livre-cambista. E o mesmo processo se registrou, com variantes, em outras regiões da América Latina.

[4]  Ibid.

     De Yorkshire e Lancashire, dos Cheviots e Gales, brotavam sem cessar artigos de algodão e de lã, de ferro e de couro, de madeira e porcelana. Os teares de Manchester, as ferrarias de Shaffield, as olarias de Worcester e Staffordshire inundavam os mercados latino-americanos. O livre-comércio enriquecia os portos que viviam da exportação e elevava aos céus o nível de esbanjamento das oligarquias ansiosas por desfrutar de todo o luxo que o mundo oferecia, e arruinava as incipientes manufaturas locais e frustrava a expansão do mercado interno. As indústrias domésticas, precárias e de muito baixo nível técnico, tinham surgido no mundo colonial apesar das proibições da metrópole, e experimentaram uma culminância, às vésperas da independência, em consequência do afrouxamento dos laços opressores da Espanha e das dificuldades de abastecimento que a guerra europeia provocou. Nos primeiros anos do século XIX, as oficinas estavam ressuscitando depois dos mortíferos efeitos da decisão que o rei tomara em 1778, autorizando o livre-comércio entre os portos da Espanha e da América. Uma avalanche de mercadorias estrangeiras arrasara as manufaturas têxteis e a produção colonial de cerâmica e objetos de metal, e os artesãos não tiveram muitos anos para se recuperar do golpe: a independência abriu completamente as portas à livre concorrência da indústria já desenvolvida da Europa. Os vaivéns posteriores nas políticas aduaneiras dos governos da independência gerariam sucessivas mortes e renascimentos das manufaturas locais, sem a possibilidade de um desenvolvimento sustentado no tempo.

continua na página 282...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência (1)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (I.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

I



     Transcorreu a primeira quinzena de fevereiro, um frio inclemente prolongava o duro inverno, sem piedade dos miseráveis. Outra vez as autoridades tinham percorrido as estradas: o prefeito de Lille, um procurador e um general. E os policiais não foram suficientes, a tropa viera ocupar Montsou, um regimento inteiro, com seus homens acampando de Beaugnies a Marchiennes. Destacamentos armados guardavam os poços, havia soldados diante de cada máquina. O palacete do diretor, os depósitos da companhia, até mesmo as casas de certos burgueses estavam cercadas pelas baionetas. Ao longo das ruas só se ouvia agora o lento desfilar das patrulhas. No aterro da Voreux, uma sentinela permanente dava guarda, vigiando a planície rasa, sob o látego gelado do vento que soprava lá em cima. E de duas em duas horas, como em país inimigo, ressoavam os gritos da sentinela: 

— Quem vem lá?... Passe a senha!

     O trabalho ainda não recomeçara em lugar nenhum. Pelo contrário, a greve agravara-se: a Crèvecoeur, a Mirou, a Madeleine tinham suspendido a extração, como a Voreux; a Feufry-Cantel e a Victoire sofriam com uma diminuição diária do seu pessoal; na Saint-Thomas, até então indene, os trabalhadores estavam faltando. A greve transformara-se numa obstinação muda diante daquela exibição de força, que exasperava o orgulho dos mineiros. Os conjuntos habitacionais pareciam desertos no meio das plantações de beterraba. Não se avistava um único operário; se por acaso um homem surgia, estava isolado, olhava de soslaio, baixando a cabeça diante dos calças-vermelhas. E sob essa grande paz pressaga, naquela teimosia passiva de encontro aos fuzis, havia uma resignação mentirosa, a obediência forçada e passiva das feras enjauladas, que mantêm os olhos fixos no domador, prontas para lhe saltarem na nuca no momento em que ele dê as costas. A companhia, que tal paralisação do trabalho estava arruinando, andava dizendo que ia contratar os mineiros do Borinage, na fronteira belga, mas não se atrevia. De maneira que a batalha estava nesse pé, entre os operários que se encerravam em casa e as minas vazias, guardadas pela tropa.
     A partir do dia seguinte à jornada terrível, produzira-se essa paz, de uma só vez, acobertando tal pânico, que se falava o menos possível sobre os estragos e as atrocidades. O inquérito aberto estabelecia que Maigrat morrera com a queda e a horrenda mutilação do cadáver permanecia inexplicada, já envolta em lenda. Por seu lado, a companhia não confessava os prejuízos sofridos, e os Grégoire não tinham a intenção de comprometer sua filha no escândalo de um processo, onde ela teria de testemunhar. Mas assim mesmo algumas prisões tinham sido efetuadas, de gente com papel insignificante nos acontecimentos, como sempre, de imbecis e pobres diabos que não sabiam de nada. Por engano, Pierron tinha ido algemado até Marchiennes, fato de que os outros ainda riam. Rasseneur também quase foi parar lá, entre dois policiais. Na direção contentavam-se em preparar as listas de demissão, devolviam as carteiras de trabalho em massa: Maheu recebera a sua, Levaque também, assim como mais trinta e quatro dos seus companheiros, só do conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante. E toda a severidade recaía sobre Etienne, desaparecido desde a noite da revolta, e que estava sendo procurado, sem que pudessem encontrar traço seu. Chaval, no seu ódio, denunciara-o, recusando-se a nomear os outros, devido às súplicas de Catherine, que queria salvar seus pais. Os dias passavam, todos sentiam que nada acabara, esperava-se o desenlace com o peito oprimido por uma angústia.
     A partir daí, os burgueses de Montsou acordavam aos sobressaltos todas as noites, ouvindo toques de alerta imaginários, as narinas invadidas pelo mau cheiro da pólvora. Mas o que acabou de transtorná-los foi um sermão do novo pároco, o Padre Ranvier, esse sacerdote magro, de olhos ardentes como brasas, que sucedia o Padre Joire. Como se estava longe da prudência sorridente deste, da sua única preocupação de homem gordo e bondoso, que era viver em paz com todo o mundo! Pois não é que o Padre Ranvier tivera o desplante de tomar a defesa dos detestáveis bandidos que estavam desonrando a região? Encontrava desculpas para as atrocidades dos grevistas e atacava violentamente a burguesia, sobre a qual lançava das as responsabilidades. Era a burguesia que, espoliando a Igreja das suas liberdades antigas em proveito próprio, transformara este do num lugar maldito de injustiça e sofrimentos; era ela, a burguesia, que prolongava as disputas, que empurrava a sociedade para uma catástrofe horrível com seu ateísmo, sua recusa em voltar à crença, às tradições fraternais dos primeiros cristãos. Ousou mesmo ameaçar os ricos, advertindo-os de que, se continuassem teimando em não escutar a voz de Deus, certamente ele se poria ao lado dos pobres, tiraria as fortunas dos ricos incrédulos e as distribuiria entre os humildes desta terra, para sua maior glória. As beatas tremiam, o notário declarou que aquilo era o pior socialismo, todos viam o padre como cabeça de um bando, brandindo uma cruz, demolindo a sociedade burguesa de 89 a grandes golpes.
     Quando o Sr. Hennebeau foi cientificado, contentou-se em dizer, dando de ombros: 

— Se nos incomodar demasiado, o bispo nos livrará dele.

     E, enquanto o pânico soprava de uma ponta a outra da planície, Etienne morava nas entranhas da terra, no fundo de Réquillart, na toca de Jeanlin. Era ali que ele se escondia, ninguém o julgava tão perto. A tranquila audácia daquele refúgio, na própria mina, na via abandonada do velho poço, tinha feito malograr as buscas. Em cima, as ameixeiras silvestres e os espinheiros, crescidos por entre os caibros caídos da torre do sino de rebate, tapavam o buraco; ninguém se arriscava a entrar por ali, para tanto era preciso conhecer muito bem a manobra, pendurar-se nas raízes da sorveira, deixar-se cair sem receio, para atingir os degraus ainda firmes. Havia outros obstáculos que o protegiam: o calor sufocante do fosso, cento e vinte metros de descida perigosa, depois o penoso rastejar por um quarto de légua, entre os muros estreitos da galeria, antes de chegar à infame caverna, cheia de rapinas. Ali ele vivia na maior abundância, encontrara genebra, o resto do bacalhau seco, provisões de toda a espécie. A grande cama de palha era excelente, não havia corrente de ar naquela temperatura igual, de uma tepidez de banho. Apenas a luz ameaçava faltar. Jeanlin, que se fizera seu provedor, com uma prudência e uma discrição de selvagem, encantado de enganar os policiais, chegava a trazer-lhe até pomada, mas não conseguia pôr a mão num pacote de velas.
     A partir do quinto dia, Etienne só acendeu a luz para comer. Não conseguia engolir no escuro. Essa noite interminável, total, sempre da mesma escuridão, era o seu grande sofrimento. Não adiantava dormir em segurança, estar aquecido, ter o que comer sentia como nunca sentira aquela noite pesando sobre sua cabeça. Tinha a sensação de que ela estava esmagando seus pensamentos! E agora, ainda por cima, vivia de roubos! Apesar de suas teorias comunistas, os velhos escrúpulos de educação acordavam; então contentava-se com pão seco, diminuía sua ração. Mas que fazer? Tinha de continuar vivendo, sua tarefa ainda não estava concluída Outro remorso o afligia ao lembrar-se daquela bebedeira selvagem da genebra emborcada a sangue-frio, com o estômago vazio, e que o lançara contra Chaval, de faca em punho. Isso revolvia nele todo um desconhecimento apavorante, o mal hereditário, a longa hereditariedade da embriaguez, não bebendo sequer uma gota de álcool sem cair no furor homicida. Terminaria como assassino? Quando se vira abrigado, naquela sossegada profundidade da terra, saciado de violência, dormira dois dias consecutivos com um sono de animal empanturrado, embrutecido. E a repugnância persistia, sentia-se moído, com a boca amarga, a cabeça doente, como numa interminável ressaca. Transcorreu uma semana; os Maheu, avisados, não puderam enviar uma vela; teve de renunciar à claridade, mesmo para comer.   
     Agora, horas a fio, Etienne permanecia deitado na sua palha. IdEias obscuras, que não julgava ter, atormentavam-no. Era uma sensação de superioridade que o colocava acima dos seus camaradas, uma exaltação da sua pessoa, à medida que se ia instruindo. Nunca refletira tanto, perguntava se a causa daquele fastio no dia seguinte ao da furiosa sarabanda nas minas. Mas não ousava responder, repugnavam-lhe as coisas de que se lembrava: a baixeza das cobiças, a grosseria dos instintos, o fedor de toda aquela miséria sacudida aos quatro ventos. Apesar do tormento das trevas, chegava a temer a hora em que teria de voltar ao conjunto habitacional. Que náusea, todos aqueles miseráveis amontoados, comendo no cocho comum! Nenhum com quem se pudesse falar seriamente sobre política, uma existência de gado, sempre o mesmo ar empestado do cheiro de cebola em que se sufocava! Queria descortinar-lhes um horizonte mais vasto, elevá-los ao bem-estar e às boas maneiras da burguesia, fazer deles os senhores... Mas que caminho a percorrer! Já não se sentia com coragem para atingir a vitória naquele desterro da fome. Lentamente, a sua vaidade de ser o chefe, sua preocupação constante de pensar por eles o distanciavam, insuflando lhe a alma de um desses burgueses que execrava.
     Uma noite Jeanlin trouxe um coto de vela, roubado da lanterna de um carroceiro, e isso foi um grande alívio para Etienne. Quando trevas começavam a embrutecê-lo, pesando-lhe sobre a cabeça a ponto de sentir que ia enlouquecer, acendia a luz por um instante. Mas assim que expulsava o pesadelo, apagava a vela, avaro daquela claridade tão necessária à sua vida como o pão. O silêncio zumbia nos seus ouvidos, ouvia apenas a fuga de algum bando de ratos, os estalidos do madeirame velho, o levíssimo ruído de uma aranha fiando sua teia. E, com os olhos abertos naquele vazio absoluto, porém tépido. voltava à sua ideia fixa, ao que estariam fazendo os companheiros lá em cima. Uma defecção sua ter-lhe-ia parecido a última das covardias. Se se escondia assim era para permanecer livre, para aconselhar e agir.
     Suas longas meditações tinham delineado sua ambição: enquanto o melhor não acontecia, quisera ser Pluchart, largar o trabalho, viver unicamente para a política, mas sozinho, num quarto limpo, sob pretexto de que o trabalho intelectual absorve a vida inteira e exige muita calma.
     No começo da segunda semana, como o menino lhe dissesse que os policiais acreditavam que ele tivesse atravessado a fronteira para a Bélgica, Etienne ousou sair da sua toca, assim que a noite desceu. Desejava estudar a situação, ver se deveriam continuar obstinando-se. Na sua opinião, a partida estava comprometida; antes da greve, duvidava do resultado; apenas cedera aos fatos; agora, após a embriaguez da rebelião, voltava à sua primeira dúvida, desistindo de fazer ceder a companhia. Mas ainda não queria confessá-lo a si próprio, a angústia o torturava quando imaginava os horrores da derrota, toda a pesada responsabilidade de sofrimento que cairia sobre ele. O fim da greve não seria o fim do seu papel, sua ambição derrubada, sua existência caindo outra vez no embrutecimento da mina e no asco do conjunto habitacional mineiro? E, honestamente, sem raciocínios baixos e mentirosos, esforçava-se em readquirir a fé, em convencer-se de que a resistência ainda era possível, que o capital ia destruir-se a si mesmo ante o suicídio heroico do trabalho.

continua na página 325...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

domingo, 28 de junho de 2026

MPB: Papel Machê

João Bosco & José Carlos Capinan


vida é ser feliz
um suspiro que beija e abraça
no final de tudo, é sempre o amor
que ninguém vê, não pede licença
para ficar, não pede passagem
faz o que não precisa, me mantém vivo
me faz cantar assim
quando o amor acontece
festa do sol no seu colo
como um brinquedo de papel





Cores do mar, festa do Sol
Vida é fazer
Todo sonho brilhar
Ser feliz
No teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
Brinquedo de papel machê

Cores do mar, festa do Sol
Vida é fazer
Todo sonho brilhar
Ser feliz
No teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
Brinquedo de papel machê

Dormir no teu colo
É tornar a nascer
Violeta e azul
Outro ser
Luz do querer

Não vai desbotar
Lilás cor do mar
Seda cor de batom
Arco-íris crepom
Nada vai desbotar
Brinquedo de papel machê

Dormir no seu colo
É tornar a nascer
Violeta e azul
Outro ser
Luz do querer

Não vai desbotar
Lilás cor do mar
Seda cor de batom
Arco-íris crepom
Nada vai desbotar
Brinquedo de papel machê

Ai, ai, ai, ai, ai!
Iê lê lê lê lê lê
Lon lon lon lon, ah!
Iê lê lê lê lê lê
Lon lon lon lon, ah!
Iê lê lê laiuh luh, lon!

Ai, ai, ai, ai, ai!
Iê lê lê lê lê lê
Lon lon lon lon, ah!
Iê lê lê lê lê lê
Lon lon lon lon, ah!
Iê lê lê laiô luh, lon!

Ai, ai, ai, ai, ai!
Iê lê lê lê lê lê
Lon lon lon lon, ah!
Iê lê lê lê lê lê
Lon lon lon lon, ah!
Iê lê lê laiô luh, lon!

Composição: João Bosco, Capinan


Históriada música Papel Machê de João Bosco e Capinan





Perfil & Opinião | José Carlos Capinan 
| 31.10.2018




Caetano Veloso - Soy Loco Por Ti America 
(Ao Vivo)





Codinome Beija-flor / Madalena / Lua e Flor / Morro Velho / Papel Machê /          

Contos Africanos - Todos dependem da boca

Eu conto, tu contas, ele conta... 

Aldónio Gomes,

Estórias africanas (1999)


      Certo dia, a boca, com ar vaidoso, perguntou:

– Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante?

Os olhos responderam:

– O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas.
– Somos nós, porque ouvimos – disseram os ouvidos.
– Estão enganados. Nós é que somos mais importantes porque agarramos as coisas, disseram as mãos.

Mas o coração também tomou a palavra:

– Então e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo!
– E eu trago em mim os alimentos! – interveio a barriga.
– Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos.

Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas andaram... Mas a boca recusou comer. E continuou a recusar.

Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças... Então a boca voltou a perguntar:

– Afinal qual é o órgão mais importante no corpo?
– És tu boca, responderam todos em coro. Tu és o nosso rei!

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Comentando:
     "O conto popular de Moçambique conta uma história de competição. Quando os órgãos do corpo humano começam a brigar para decidir qual deles é o mais importante, todos passam a desvalorizar o papel dos seus "adversários" para sublinhar o seu.

     No final, a disputa tem um mau resultado: todos ficam sem comer e começam a se tornar cada vez mais fracos. A narrativa fala, então, sobre a necessidade de trabalhar em união e colaborar para um bem comum.

Outra questão que é realçada aqui é o valor do alimento. A boca acaba ganhando a discussão, já que a comida é essencial para manter a vida humana. Afinal, como costumamos dizer por aqui, saco vazio não para em pé".

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Leia também:

sábado, 27 de junho de 2026

2.000.000 de visitas

Entre hoje e amanhã

fazer 70 anos muda tudo? não sei... e receber 2 milhões de visitas?

"serve uma história aí."

parece uma marca inexpressiva, neste tempo de likes e bets, mas para um buteku de contos e poesias - com ritmo próprio para ler e publicar, às vezes, acho que não foi feito muito, é a preguiça, um desconforto, a saúde fraquejando, mas aí vem o lampejo: a resistência, a teimosia, um lugar onde se pode voltar devagar, sem pressa, um lugar que serve palavras que não monetizam, o prazer de servir a leitura - é uma marca para se comemorar...

... e seguir em frente... por aqui, livros que li e amei, livros que fui publicando e lendo, livros que fui lendo e publicando, um segredo dos leitores e das leitoras para você: nada supera a cobiça de infiltrar-se numa livraria para descobrir o que ler... sinta-se tentado ou tentada na livraria, o cheiro da palavra fresca no balcão, reconheço sorrindo esse vício, abrir a porta e me deixar entrar, ficar ou apenas passar - faça isso antes que elas se mudem para algum desvio no shopping -, tocar a lombada, sentir a respiração do título, cada estante promete um segredo que pode ser desvendado, um ritual, uma tentação clandestina, é bom conversar com o livreiro, pedir sugestões para a livreira, faça  perceberem que alguém sentou, leu e ficou um pouco, e não voltou por acaso, mas para contar um caso, e, aos livreiros e livreiras: obrigado por não terem desistido desse balcão!



Como é trabalhar numa livraria?




escrever 

repetir 
pensar 
as mãos brincando no papel 
esvoaçando o colorido da doidice 
o lápis 
a borracha 
os caprichos 
os enredos 
o ritmo das palavras 
as emoções saltitando
e então, o silêncio  
observo o traço que hesita 
a ideia que se esconde atrás da vírgula
o papel respira 
a mão insiste 
o verso nasce torto 
e no tropeço há música e borrão 
caminho e risco 
inventando o mundo mais uma vez
e o leitor?
é o cúmplice silencioso
o outro par de mãos que completa o gesto
aparece mesmo quando não é nomeado
e recolhe das migalhas 
o pensamento escapando entre as linhas
escuta o ritmo sugerido
preenche os espaços em branco com a própria memória
dança junto com as palavras soltas no ar
é o lugar onde o poema termina 
onde o texto respira
onde o texto vive.


explicando melhor...


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