sexta-feira, 29 de maio de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra (5)

 A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra


PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     37. Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra
          Há pouco menos de um século, um homem quase morto de fome lutava contra as rochas em meio às desolações do altiplano da Bolívia. A dinamite explodiu. Quando ele se aproximou para recolher os pedaços de pedra triturados pela explosão, deslumbrou-se. Tinha nas mãos cacos do mais rico veio de estanho do mundo. Ao amanhecer do dia seguinte, montou a cavalo rumo a Huanuni. A análise das amostras confirmou o valor do achado. O estanho podia ser levado diretamente do veio para o porto, sem necessidade de passar por processo algum de concentração. Aquele homem se tornou o rei do estanho, e quando morreu a revista Fortune afirmou que ele era um dos dez multimilionários mais multimilionários do planeta. Chamava se Simón Patiño. Da Europa, durante muitos anos, fez e derrubou presidentes e ministros bolivianos, planificou a fome dos operários e organizou suas matanças, ramificou e estendeu sua fortuna pessoal: a Bolívia era um país que existia só para servi-lo. 
     A partir das jornadas revolucionárias de abril de 1952, a Bolívia nacionalizou o estanho. No entanto, aquelas riquíssimas minas agora já eram pobres. No cerro Juan del Valle, onde Patiño descobrira o fabuloso filão, a lei do estanho se reduzira 120 vezes. Das 156 mil toneladas de rocha que saem mensalmente pelas bocas das minas, são recuperadas apenas 400. As perfurações já somam, em quilômetros, uma distância duas vezes maior do que aquela que separa a mina da cidade de La Paz: o cerro, por dentro, é um formigueiro atravessado por infinitas galerias, corredores, túneis e chaminés. Está a caminho de tornar-se uma casca oca. A cada ano perde um pouco mais de altura, e a lenta derrubada vai carcomendo sua crista: de longe, parece um dente cariado.
     Antenor Patiño não só recebeu uma considerável indenização pelas minas que seu pai espremeu, como também manteve o controle do preço e do destino do estanho expropriado. Da Europa, não cessava de sorrir. “Mister Patiño é o afável rei do estanho boliviano”, seguiriam comentando as crônicas sociais muitos anos depois da nacionalização [1]. Porque a nacionalização, conquista fundamental da revolução de 1952, não modificou o papel da Bolívia na divisão internacional do trabalho. A Bolívia seguiu exportando o material bruto, e quase todo o estanho ainda é refinado nos fornos de Liverpool da empresa Williams, Harvey and Co., que pertence a Patiño. A nacionalização das fontes de produção de qualquer matéria prima, como ensina a dolorosa experiência, não é suficiente. Um país pode continuar tão condenado à impotência como antes, ainda que, nominalmente, torne-se o dono de seu subsolo. Ao longo de sua história, a Bolívia produziu minerais brutos e discursos refinados. Abundam a retórica e a miséria; desde sempre, escritores afetados e doutores de fraque se devotaram à absolvição dos culpados. De cada dez bolivianos, seis ainda não sabem ler; a metade das crianças não frequenta a escola. Recém em 1971, a Bolívia terá em funcionamento sua própria fundição nacional de estanho, levantada em Oruro, ao cabo de uma história interminável de traições, sabotagens, intrigas e sangue derramado [2]. Esse país que, até agora, não podia produzir seus próprios lingotes, dá-se ao luxo de contar com oito faculdades de Direito, destinadas à fabricação de vampiros de índios.

[1The New York Times de 13 de agosto de 1969 o definia nesses termos, ao descrever em êxtase as férias do duque e da duquesa de Windsor no castelo do século XVI que Patiño possui nos arredores de Lisboa. “Agrada-nos dar aos empregados um pouco de calma e de paz”, confessava a senhora, enquanto explicava para Charlotte Curtis seu programa do dia.
      Depois, é o tempo das férias de montanha na Suíça; os fotógrafos e os jornalistas perseguem os condes e os artistas da moda em Saint Moritz. Uma milionária de 50 anos acaba de perder o segundo marido, vice-presidente da Ford, e sorri diante dos flashes: anuncia seu próximo casamento com um jovenzinho que a toma pelo braço e olha com olhos assustados. Ao lado, outro casal do grande mundo. Ele é um homem de baixa estatura e traços indígenas: sobrancelhas espessas, olhos duros, nariz achatado, pômulos salientes. Antenor Patiño continua parecendo boliviano. Numa revista, Antenor aparece fantasiado de príncipe oriental, com turbante e tudo, entre vários príncipes autênticos que se reuniram no palácio do barão Alexis de Rédé: a princesa Margarita da Dinamarca, o príncipe Enrique, María Pía de Saboya e seu primo o príncipe Miguel de Bourbon-Parma, o príncipe Lobckowitz e outros trabalhadores.
[2] Quando o general Alfredo Ovando anunciou, em julho de 1966, que se chegara a um acordo com a empresa alemã Klochner para a instalação dos fornos estatais, disse também que teriam um novo destino “essas pobres minas que, até agora, só serviram para abrir buracos nos pulmões de nossos irmãos mineiros”. Esses homens que dão sua vida ao mineral, escrevia Sergio Almaraz Paz (El poder y la caída. El estaño en la historia de Bolivia. La Paz; Cochabamba, 1967), “não o possuem. Nunca o possuíram, nem antes nem depois de 1952. Porque o que acontece é que o estanho, para aproveitamento imediato, nada vale senão com o brilhante aspecto de um lingote. O mineral, pó pesado de terroso aspecto, certamente não serve para nada, ou só serve para ser despejado à boca do forno.
      Almaraz Paz contou a história de um industrial, Mariano Peró, que ao longo de 30 anos sustentou uma guerra solitária para que o estanho boliviano fosse refinado em Oruro e não em Liverpool. Em 1946, poucos dias depois da queda do presidente nacionalista Gualberto Villarroel, Peró entrou no Palacio Quemado. Ia recolher dois lingotes de estanho. Eram os primeiros lingotes produzidos em sua fundição de Oruro, e já não havia sentido que aquele par de símbolos, que encarnavam a nação, continuassem decorando o gabinete do Presidente da República. Villarroel tinha sido enforcado num poste da Plaza Murillo e a partir de sua queda o poder da rosca oligárquica fora restaurado. Mariano Peró apanhou os lingotes e foi embora com eles. Estavam manchados de sangue seco.

     Contam que, há um século, o ditador Mariano Melgarejo obrigou o embaixador da Inglaterra a beber um barril inteiro de chocolate, como castigo por ter recusado um copo de chicha. Depois o embaixador teve de desfilar pela rua principal de La Paz, montado ao contrário num burro. E foi devolvido para Londres. Dizem que então a rainha Vitória, enfurecida, mandou trazer o mapa da América do Sul, desenhou com giz uma cruz sobre a Bolívia e decretou: “A Bolívia não existe”. Para o mundo, de fato, a Bolívia não existia e nem existiu depois: o saque da prata e, posteriormente, do estanho, não passaram de um exercício do direito natural dos países ricos. Afinal, as embalagens de lata identificam os Estados Unidos tanto quanto o emblema da águia e a torta de maçã. Mas tal embalagem não é só um símbolo pop dos Estados Unidos; embora não se saiba, é também um símbolo da silicose nas minas de Huanuni e Século XX: a lata contém estanho, e os mineiros bolivianos morrem com os pulmões apodrecidos para que o mundo possa consumir estanho barato. Meia dúzia de homens fixa seu preço mundial. Para os consumidores de conservas ou os manipuladores da Bolsa, que importa a dura vida do mineiro da Bolívia? Os norte-americanos compram a maior parte do estanho que é refinado no planeta: para manter em dado limite os preços, periodicamente ameaçam lançar no mercado suas enormes reservas do mineral, compradas por muito menos do que a cotação, a preços de “contribuição democrática” nos anos da Segunda Guerra Mundial. Segundo os dados da FAO, o cidadão médio dos Estados Unidos consome cinco vezes mais carne e leite e vinte vezes mais ovos do que um habitante da Bolívia. E os mineiros estão muito abaixo da média nacional. No cemitério de Catavi, onde os cegos rezam pelos mortos em troca de uma moeda, dói encontrar, entre as lápides escuras dos adultos, um sem-número de cruzes brancas sobre as tumbas pequeninas. De cada duas crianças nascidas nas minas, morre uma pouco tempo depois de abrir os olhos. A outra, a que sobrevive, seguramente vai ser mineira quando crescer. E antes dos 30 anos já não terá pulmões.
     O cemitério range. Debaixo dos túmulos, foram cavados incontáveis túneis, cavernas de boca estreita onde mal cabem os homens que ali se introduzem como viscachas, em busca do mineral. Novas jazidas de estanho se acumularam nos aterros ao longo dos anos, toneladas de resíduos sobre resíduos despejados em gigantescos montes cinzentos que, assim, somaram estanho ao estanho da paisagem. Quando cai a chuva com violência das nuvens próximas, os desempregados se agacham ao longo das ruas de terra de Llallagua, onde os homens se embriagam desesperadamente nas bodegas de chicha: vão recolhendo e calculando o peso do estanho arrastado pela chuva. Ali o estanho é um deus de lata que reina sobre os homens e as coisas, e está presente em todos os lugares. Não é só no ventre do velho cerro de Patiño que há estanho. Anunciado pelo brilho negro da cassiterita, há estanho até nas paredes de adobe dos acampamentos. Há estanho também na lama amarelada que avança arrastando as sobras da mina, e há estanho ainda nas águas envenenadas que correm da montanha; o estanho está presente na terra e na rocha, na superfície e no subsolo, nas areias e nas pedras do leito do rio Seco. Nessas terras áridas e pedregosas, a quase 4 mil metros de altitude, onde não cresce o pasto e onde tudo, até as pessoas, tem a cor escura do estanho, os homens sofrem estoicamente seu obrigado jejum e não conhecem a festa do mundo. Vivem em acampamentos, amontoados em casas de uma única peça de chão batido; o vento cortante entra pelas frestas. Um informe universitário sobre a mina de Colquiri revela que, de cada dez rapazes pesquisados, seis dormem na mesma cama de suas irmãs, e acrescenta: “Muitos pais se sentem constrangidos quando seus filhos os observam durante o ato sexual”. Não há banheiros; as latrinas são pequenos cubículos cheios de imundície e moscas: as pessoas preferem usar os quintais, áreas abertas, onde ao menos circula o ar, apesar do lixo e dos excrementos acumulados e dos porcos que se refocilam felizes. Também é coletivo o serviço de água: é preciso esperar que a água chegue e se apressar, fazer a fila, recolher a água do tanque público com latões de gasolina ou jarros de barro. A comida é escassa e de mau aspecto: batatas, macarrão, arroz, farinha, milho miúdo e um naco de carne dura.
     Estávamos no fundo do cerro Juan del Valle. O uivo penetrante de uma sirene, que chamava os trabalhadores do primeiro turno, ressoara no acampamento algumas horas antes. Recorrendo galerias, passávamos do calor tropical ao frio polar e novamente ao calor, sem sair, durante horas, de uma mesma atmosfera envenenada. Aspirando aquele ar espesso – umidade, gases, pó, fumaça –, podíamos compreender por que os mineiros, em poucos anos, perdem os sentidos do olfato e do gosto. Enquanto trabalhavam, todos mastigavam folhas de coca com cinza, e isto também era parte da obra de aniquilação, pois a coca, como se sabe, ao atenuar a fome e mascarar a fadiga, vai apagando o sistema de alarmas com que conta o organismo para continuar vivo. Mas o pior era o pó. Os capacetes com lâmpada acoplada irradiavam um rebuliço de círculos de luz que salpicavam a gruta negra e deixavam ver, à sua passagem, cortinas de um pó branco e denso: o implacável pó da sílica. O mortal alento da terra vai envolvendo pouco a pouco. No primeiro ano, sentem-se os primeiros sintomas, e em dez anos entra-se no cemitério. Dentro da mina são usadas perfuratrizes suecas em seus últimos modelos, mas os sistemas de ventilação e as condições de trabalho não melhoraram com o tempo. Na superfície, os trabalhadores independentes usam picareta e pesadas marretas de doze libras para lutar com a rocha, exatamente como há 100 anos, e peneiras, filtros, coadores para concentrar o material em campo aberto. Ganham centavos e trabalham como animais. No entanto, muitos deles têm, ao menos, a vantagem do ar livre. Dentro da mina, os obreiros são presos condenados sem apelação a morrer por asfixia.
     Cessara o estrépito das brocas e os operários faziam uma pausa enquanto aguardávamos a explosão de mais de vinte cargas de dinamite. A mina também proporciona mortes rápidas e sonoras: basta um erro na contagem das detonações ou que a mecha demore mais do que o normal para arder. Basta também que uma rocha solta, um pesado fragmento desprenda-se sobre um crânio. Ou basta o inferno da metralhadora: a noite de São João de 1967 foi a última conta de um longo rosário de matanças. De madrugada, os soldados tomaram posição nas colinas, joelhos no chão, e lançaram um furacão de balas sobre os acampamentos iluminados pelas fogueiras da festa [3]. Mas a morte lenta e silenciosa é a especialidade da mina. O vômito de sangue, a tosse, a sensação de um peso de chumbo nas costas e uma aguda opressão no peito são os sinais que a anunciam. Depois do exame médico vêm as peregrinações burocráticas, que nunca se acabam. Dão o prazo de três meses para desocupar a casa.

[3]  “Quando me sento, bêbado estou. Três, quatro, vejo as gentes. Não posso comer só. Uma huahua eu sou, pois. Uma criança.” Saturnino Condori, velho pedreiro do acampamento mineiro da mina Século XX, há mais de três anos está deitado numa cama do hospital de Catavi. É uma das vítimas da matança da noite de São João, em 1967. Ele nem sequer estivera a festejar. Ofereceram-lhe um pagamento triplo para que trabalhasse no sábado, 24, e então, diferentemente dos demais, resolveu não se afundar no delírio da chicha e da farra. Deitou-se cedo. Nessa noite sonhou que um cavaleiro atirava espinhos em seu corpo. “Me atirou espinhos grandes”. Despertou várias vezes, pois a chuva de balas sobre o acampamento começou às cinco da manhã. “Meu corpo se desarranjou, se desmanchou, uma mornidão me pegou e eu assustado, assustado, assim eu estava. Minha mulher disse: anda, foge. Mas eu não tinha feito nada, nem tinha ido a parte alguma. Anda, anda, ela disse. Tiroteios havia de noite, que será isso, que será, pap-pap-pap-pap-pap e eu despertando e dormindo assim, aos poucos, e nem assim escapei. Minha mulher disse: anda logo, anda, foge. Mas o que vão me fazer, eu digo, sou um pedreiro particular, o que vão me fazer?” Ele despertou por volta das oito da manhã. Ergueu-se na cama. A bala atravessou o teto, atravessou o chapéu de sua mulher e rebentou sua coluna vertebral.

     Já havia cessado o estrépito das brocas e a explosão logo estremeceria aquele veio escorregadio cor de café e lembrando uma cobra. Agora era possível falar. O volume da coca inflava as bochechas dos operários e pelas comissuras de seus lábios escorria uma baba esverdeada. Um mineiro passou, apressado, chapinhando no barro entre os trilhos da galeria. “Esse é novato”, disseram-me, “viu só? Com sua calça do exército e o blusão amarelo sobressai sua juventude. Ele entrou agorinha e como trabalha. Ainda é um bom braço. Ainda não sente nada.”
     Os tecnocratas e os burocratas não morrem de silicose, mas vivem dela. O gerente geral da COMI OL, Corporação Mineira Boliviana, ganha 100 vezes mais do que um obreiro. De um barranco que cai a pique no leito do rio, no limite de Llallagua, pode-se ver o pampa de María Barzola. Chama-se assim em homenagem a uma militante operária que, há quase 30 anos, à frente de uma manifestação, caiu com a bandeira da Bolívia cosida ao corpo pelas rajadas de metralhadoras. E além do pampa de María Barzola pode-se ver o melhor campo de golfe da Bolívia: é o campo usado pelos engenheiros e principais funcionários de Catavi. O ditador René Barrientos reduziu à metade o salário de fome dos mineiros, em 1964, ao mesmo tempo em que elevou a remuneração de técnicos e burocratas proeminentes. Os estipêndios do pessoal superior são secretos. Secretos e em dólares. Há um poderoso grupo assessor formado por técnicos do anco Interamericano de Desenvolvimento, da Aliança para o Progresso e da banca estrangeira credora, cujos conselhos orientam a mineração nacionalizada da Bolívia de tal modo que, nesta altura, a COMIBOL, convertida num Estado dentro do Estado, constitui uma propaganda viva contra a nacionalização de qualquer coisa. O poder da velha rosca oligárquica foi substituído pelo poder de numerosíssimos membros de uma “nova classe” que têm dedicado seus melhores esforços para sabotar por dentro a mineração estatal. Os engenheiros não só torpedearam todos os projetos e planos destinados à criação de uma fundição nacional, como também colaboraram para que as minas do Estado ficassem fechadas nos limites das velhas jazidas de Patiño, Aramayo e Hochschild, em acelerado processo de esgotamento de reservas. Entre fins de 1964 e abril de 1969, o general Barrientos rompeu a barreira do som na entrega dos recursos do subsolo boliviano ao capital imperialista, com a aberta cumplicidade de técnicos e gerentes. Sergio Almaraz, num de seus livros [4], conta a história da concessão dos aterros de estanho à International Mining Processing Co. Com um capital declarado de apenas cinco mil dólares, a empresa de tão pomposo nome obteve um contrato que lhe permitirá ganhar mais de 900 milhões.

[4] ALMARAZ PAZ, op. cit.

continua na página 248...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: Dentes de cobre sobre o Chile (4)
Primeira Parte: Os mineiros do estanho, por baixo e por cima da terra (5)

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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (24 de março)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     24 de março
 
          No mesmo dia da minha chegada à cidade de O***, os negócios governamentais acima mencionados me levaram a chamar um certo Ozhógin, Kiríll Matvyéevitch, um dos chefes do condado; mas conheci-o, ou, como diz o ditado, fiquei íntimo dele, duas semanas depois. Sua casa estava situada na rua principal, e se distinguia de todas as outras pelo seu tamanho, seu teto pintado, e dois leões no portão, pertencentes àquela raça de leões que carregam uma semelhança notável com os cães infrutíferos cujo local de nascimento é Moscou. Só desses leões é possível deduzir que Ozhógin era um homem opulento. E, na verdade, ele possuía quatrocentas almas de servos; ele recebeu em sua casa a melhor sociedade da cidade de O***, e teve a reputação de ser um homem hospitaleiro. O chefe de polícia veio até ele, em um grande carroção de cenoura puxada por um par de cavalos, um homem notavelmente grande, que parecia ter sido esculpido em material usado em lojas. Outros oficiais também o visitaram: o homenzinho, uma criatura amarelada e bastante maliciosa; o agitador, de origem alemã, com rosto de Tatár; o oficial de Caminhos de Comunicação, uma alma terna, um cantor, mas um escândalo; um ex-marechal da Nobreza do condado, um cavalheiro de cabelo pintado, e punhos amarrotados, calças com alças, e aquela expressão extremamente nobre do semblante, tão característica das pessoas que foram julgadas pelos tribunais. Foi visitado também por dois proprietários de terras, amigos inseparáveis, ambos não mais jovens, e até mesmo fios de cabelo com a idade, sendo que o mais jovem estava constantemente esborrachando o mais velho, e fechando a boca com uma e a mesma reprovação: "Venha, isso vai servir, Sergyéi Sergyéitch! O que você sabe sobre isso? Pois você escreve a palavra próbka [rolha] com a letra b.... Sim, cavalheiros, "- ele costumava continuar, com todo o calor da convicção, dirigindo-se aos presentes: - "Sergyéi Sergyéitch escreve não próbka, mas bróbka". E todos os presentes riram, embora, provavelmente, nenhum deles se tenha distinguido particularmente por sua habilidade em ortografia; e o infeliz Sergyéi Sergyéitch se calou, e curvou a cabeça com um sorriso pacífico. Mas estou esquecendo que meus dias estão contados, e estou entrando em detalhes demais. Assim, sem mais circunlóquios: Ozhógin era casado e tinha uma filha, Elizavéta Kiríllovna, e eu me apaixonei por essa filha.
     O próprio Ozhógin era um homem comum, nem bom nem mau; sua mulher começava a se parecer muito com uma galinha idosa; mas a filha deles não saía aos pais. Ela era muito decente, de disposição vivaz e gentil. Seus olhos cinzentos e brilhantes olhavam com naturalidade, e de maneira direta de baixo das sobrancelhas infantis; ela sorria quase que constantemente, e também ria com bastante frequência. Sua voz fresca tinha um toque muito agradável; ela se movia com facilidade, rapidamente, e corava alegremente. Ela não se vestia com muita elegância; vestidos extremamente simples lhe serviam perfeitamente.
     Em geral, eu nunca me conheci rapidamente, e se me senti à vontade com uma pessoa no primeiro encontro - o que, no entanto, quase nunca foi o caso - confesso que isso falou muito a favor do novo conhecido. Não soube de todo como me comportar com as mulheres, e na presença delas ou franzi o rosto e assumi uma expressão feroz, ou exibi meus dentes com um sorriso estúpido, e torci a língua na boca com vergonha. Com Elizavéta Kiríllovna, pelo contrário, me senti em casa desde o primeiro momento. Foi assim que aconteceu. Um dia chego na casa de Ozhógin antes do jantar e pergunto: 

"Ele está em casa? me disseram: "Sim, e ele está se vestindo; por favor, entre no corredor." 

     Eu entro no corredor; vejo uma jovem com um vestido branco de pé junto à janela, de costas para mim, e segurando uma gaiola nas mãos. Eu me enrolo um pouco, de acordo com meu hábito; mas, mesmo assim, tusso por conveniência. A moça se vira rapidamente, tão rápido que seus cachos a golpeiam no rosto, me veem, se curva, e com um sorriso me mostra uma caixinha, meio cheia de sementes.

"Você me dá licença?"

     É claro que, como é costume em tais circunstâncias, eu primeiro curvei a cabeça e, ao mesmo tempo, torci e endireitei os joelhos (como se alguém tivesse me batido por trás na parte de trás das pernas, o que, como todo mundo sabe, serve como um sinal de excelente procriação e agradável facilidade de comportamento), e depois sorri, levantei a mão e a acenei duas vezes com cautela e gentilmente no ar. A menina imediatamente se afastou de mim, tirou da jaula uma pequena tábua, e começou a raspá-la violentamente com uma faca, e de repente, sem mudar de atitude, proferiu as seguintes palavras:

"Esta é a barbatana de touro do papai... Você gosta de barbatanas de touro"?
"Eu prefiro pássaros canários", respondi, não sem um certo esforço.
"E também gosto de canário; mas basta olhar para ele, ver como ele é bonito. Veja, ele não tem medo" - o que me surpreendeu foi que eu não tivesse medo" - "Aproxime-se. O nome dele é Pópka".

     Eu subi, e me curvei.

"-Ele é muito charmoso, não é?"

     Ela virou o rosto para mim; mas estávamos tão próximos um do outro que ela foi obrigada a jogar um pouco a cabeça para trás, para me olhar com seus olhos brilhantes. Eu olhava para ela: todo o seu rosto jovem e rosado sorria de uma maneira tão amigável que eu também sorria, e quase ria de prazer em voz alta. A porta se abriu; o Sr. Ozhógin entrou. Fui imediatamente até ele, e comecei a conversar com ele de uma maneira muito desobediente; não sei como cheguei a ficar para jantar; passei a noite fora, e no dia seguinte, o lacaio de Ozhógin, um sujeito longo e pálido, já estava sorrindo para mim, como amigo da casa, enquanto ele tirava meu sobretudo.
     Encontrar um refúgio, tecer para mim mesmo até um ninho temporário, conhecer a alegria das relações e hábitos cotidianos, - essa era uma felicidade que eu, um homem supérfluo, sem lembranças domésticas, não havia experimentado até aquele momento. Se houvesse algo em mim sugestivo de uma flor, e se essa comparação não fosse tão grosseira, eu decidiria dizer que, a partir daquela hora, comecei a desabrochar em espírito. Tudo em mim e ao meu redor passou por uma mudança tão instantânea! Toda minha vida foi iluminada pelo amor, -literalmente toda minha vida, até os menores detalhes, - como uma câmara escura e deserta, na qual uma vela foi trazida. Deitei-me para dormir e me levantei, me vesti, me deitei e fumei meu cachimbo de uma maneira diferente do meu hábito; até pulei enquanto caminhava, - realmente o fiz, como se as asas tivessem brotado de repente em meus ombros. Lembro-me que não tive dúvidas nem por um minuto, quanto à sensação com que Elizavéta Kiríllovna me inspirou; e desde o primeiro dia me apaixonei por ela apaixonadamente, e desde o primeiro dia, também, soube que estava apaixonado. Eu a via todos os dias, durante três semanas. Essas três semanas foram o momento mais feliz da minha vida; mas a lembrança delas é dolorosa para mim. Não consigo pensar nelas sozinho: aquilo que as seguiu se levanta involuntariamente diante de mim, e a dor venenosa lentamente agarra o coração que acabava de se amolecer.
     Quando um homem está se sentindo muito bem, seu cérebro, como todos sabem, age muito pouco. Um sentimento calmo e alegre, um sentimento de satisfação permeia todo o seu ser; ele é engolido por ele; a consciência da individualidade desaparece nele - ele está em estado de bem-aventurança, como dizem poetas mal educados. Mas quando, finalmente, esse "feitiço" passa, um homem às vezes se sente irritado e arrependido, a ponto de, em meio à felicidade, ser tão despreocupado consigo mesmo que não redobra seus pensamentos, seus reflexos e suas lembranças, que não prolonga seu prazer... como se um homem "feliz" tivesse algum tempo, e como se valesse a pena refletir sobre suas próprias emoções! O homem feliz é como uma mosca ao sol. É por isso que, quando me lembro dessas três semanas, acho quase impossível reter em minha mente uma impressão precisa e definitiva, tanto mais que, como em todo esse tempo, nada de particular se deu entre nós..... Aqueles vinte dias se apresentam para mim como algo quente, jovem e perfumado, como uma espécie de raia brilhante em minha vida sombria e cinzenta. Minha memória de repente se torna implacavelmente fiel e clara, datando apenas do momento em que os golpes do destino desceram sobre mim, falando novamente nas palavras daqueles mesmos escritores malcriados.
     Sim, aquelas três semanas..... Mas não deixaram, precisamente, nenhuma imagem para trás em mim. Às vezes, quando penso muito nesse tempo, certas lembranças de repente flutuam da escuridão do passado - como as estrelas inesperadamente começam no céu noturno a encontrar olhos atentos. Especialmente memorável para mim é um passeio em um bosque fora da cidade. Éramos quatro: a velha Madame Ozhógin, Liza, eu, e um certo Bizmyónkoff, um pequeno funcionário da cidade de O***, um jovem de cabelos lisos, bem-humorado e manso. Terei ocasião de aludir a ele novamente. O Sr. Ozhógin permaneceu em casa: sua cabeça doeu, em conseqüência de ter dormido muito tempo. O dia estava esplêndido, quente e calmo. Devo observar que jardins de diversão e diversão pública não são ao gosto do russo. Nas cidades governamentais, nos chamados Jardins Públicos, nunca se encontrará uma alma viva em nenhuma estação do ano; possivelmente alguma velha mulher se sentará, grunhindo, num banco verde assado ao sol, nas proximidades de uma árvore doente, e isso somente quando não houver uma loja suja perto do portão. Mas se houver um pequeno bétula esparsa nas proximidades da cidade, os comerciantes, e às vezes os funcionários, irão lá de bom grado aos domingos e dias de festa, com seus samovár, patês, melão d'água, e colocarão todos aqueles bons presentes na grama empoeirada, bem ao lado da estrada, se sentarão ao redor, e comerão e beberão chá no suor de suas sobrancelhas até a noite. Exatamente esse tipo de pequeno bosque existia então dois versos distantes da cidade de O****. Nós fomos lá depois do jantar, bebemos chá na forma devida, e então todos nós quatro partimos para um passeio pelo bosque. Bizmyónkoff deu seu braço à velha Madame Ozhógin; eu dei o meu à Liza. O dia já estava inclinado para a noite. Eu estava então no mesmo ardor do primeiro amor (não havia passado mais de quinze dias desde que nos conhecemos), naquela condição de adoração apaixonada e atenta, quando toda sua alma segue inocente e involuntariamente cada movimento do ser amado; quando não pode saciar-se com sua presença, ou ouvir o suficiente de sua voz; quando sorri e parece uma criança convalescente, e qualquer homem de pouca experiência deve ver à primeira vista, a cem passos de distância, o que se passa em você.
     Até aquele dia, eu não tinha conseguido uma única vez estar de braço dado com Liza. Caminhei ao lado dela, pisando suavemente sobre a grama verde. Uma brisa leve parecia estar agitada ao nosso redor, entre os bolos brancos das bétulas, de vez em quando soprando a fita do chapéu dela no meu rosto. Com um olhar importuno eu a observei, até que, finalmente, ela se virou alegremente para mim, e nós sorrimos um para o outro. Os pássaros chilreavam com aprovação, o céu azul espreitava carinhosamente através da fina folhagem. A minha cabeça balançava com excesso de prazer. Eu me apresso a observar que Liza não estava nem um pouco apaixonada por mim. Ela gostava de mim; em geral, ela não era tímida com ninguém, mas eu não estava fadada a perturbar sua tranquilidade infantil. Ela andava de braço dado comigo, como com um irmão. Ela tinha dezessete anos de idade na época. E ainda, naquela mesma noite, na minha presença, começou nela aquela calma, a fermentação interior, que precede a conversão de uma criança em mulher..... Fui testemunha daquela mudança de todo o ser, daquela perplexidade inocente, daquela depressão tremenda; fui o primeiro a notar aquela súbita suavidade do olhar, aquela incerteza zumbida da voz - e, oh, estúpido tolo! oh, homem supérfluo! durante uma semana inteira não tive vergonha de assumir que eu, eu era a causa daquela mudança!
     Foi assim que aconteceu.
     Nós passeamos por um bom tempo, até a noite, e conversamos muito pouco. Eu me calei, como todos os amantes inexperientes, e ela, muito provavelmente, não tinha nada a me dizer; mas ela parecia estar meditando sobre algo, e balançou a cabeça de uma maneira estranha, mordiscando pensativamente uma folha que ela havia arrancado. Às vezes ela começava a avançar de uma maneira tão decidida... e de repente parou, esperou por mim e olhou fixamente para mim com as sobrancelhas levantadas e um sorriso ausente. Na noite anterior, tínhamos lido juntos "A Prisioneira do Cáucaso" Com que afã ela me escutou, com o rosto apoiado em ambas as mãos, e o peito encostado à mesa! Eu tentei falar sobre nossa leitura da noite anterior; ela corou, me perguntou se eu tinha dado a semente de cânhamo antes de começarmos, começou a cantar em voz alta alguma canção, e de repente parou. O bosque terminou de um lado em um penhasco bastante íngreme e alto; abaixo fluía um pequeno rio, serpenteando, e além dele, mais além do que o olho podia ver, estendia prados sem fim, agora inchando ligeiramente como ondas, agora se espalhando como uma toalha de mesa, aqui e ali se cruzando com ravinas. Liza e eu fomos os primeiros a emergir na beira do bosque; Bizmyónkoff ficou para trás com a velha senhora. Saímos, paramos, e ambos involuntariamente estreitamos os olhos: diretamente em frente a nós, no meio da névoa quente, o sol se punha, enorme e carmesim. Metade do céu estava incandescente e flamejante; os raios vermelhos batiam com um brilho suave sobre os prados, lançando um reflexo escarlate mesmo no lado sombrio do barranco, e se deitavam como chumbo ardente sobre o rio, onde não estava escondido debaixo de arbustos suspensos, e parecia estar repousando no colo do barranco e do bosque. Ficamos ali encharcados com o brilho abrasador. Está além do meu poder transmitir toda a solenidade apaixonada daquele quadro. Dizem que a cor vermelha apareceu a um cego como o som de uma trombeta; não sei até que ponto essa comparação é justa; mas, na verdade, havia algo desafiador naquele ouro flamejante do ar noturno, no brilho carmesim do céu e da terra. Eu gritei de arrebatamento, e imediatamente me voltei para Liza. Ela estava olhando diretamente para o sol. Eu me lembro, o brilho do pôr-do-sol era refletido em seus olhos em pequenas manchas flamejantes. Ela estava assustada, profundamente comovida. Ela fez não responder à minha exclamação, não mexeu por muito tempo, e pendurou a cabeça.... Eu estendi minha mão para ela; ela se afastou de mim, e de repente estourou em lágrimas. Olhei-a com segredo, quase alegre surpresa.... A voz de Bizmyónkoff tocou alguns passos de nós. Liza limpou os olhos apressadamente, e com um sorriso vacilante olhou para mim. A velha senhora emergiu do bosque, apoiada no braço de sua escolta de cabelos lisos; ambos, por sua vez, admiraram a vista. A velhinha fez uma pergunta a Liza, e eu me lembro que, involuntariamente, tremia quando, em resposta, a voz quebrada de sua filha, como vidro rachado, ressoava em resposta. Enquanto isso, o sol se punha, o brilho começava a se apagar. Nós refizemos nossos passos. Eu novamente dei meu braço a Liza. Ainda estava leve no bosque, e eu podia discernir claramente suas feições. Ela estava envergonhada, e não levantou os olhos. O rubor que se espalhou pelo rosto dela não desapareceu; ela parecia ainda estar de pé, nos raios do sol poente... O braço dela mal tocou o meu. Por muito tempo eu não conseguia iniciar uma conversa, tão violentamente meu coração batia. Tivemos vislumbres da carruagem longe, através das árvores; o cocheiro estava dirigindo para nos encontrar a um passo sobre a areia friável da estrada.

"Lizavéta Kiríllovna," - eu disse finalmente, - "por que você chorou?".
"Não sei," - respondeu ela após uma breve pausa, olhando para mim com seus olhos suaves, ainda molhados de lágrimas, - seu olhar me pareceu ter sofrido uma mudança, - e novamente caiu em silêncio.
"Eu vejo que você ama a natureza....". Eu continuei.- Isso não era o mínimo que eu queria dizer, e minha língua mal gaguejava até o fim a última frase. Ela balançou a cabeça. Eu não podia pronunciar mais uma palavra.... Eu estava esperando por algo.... não uma confissão - não, de fato! Eu estava esperando por um olhar confiante, uma pergunta..... Mas Liza olhou fixamente para o chão e se calou. Eu repeti mais uma vez, num tom mais baixo: "Por quê?" e não recebi resposta. Ela ficou envergonhada, quase envergonhada, eu vi isso.

     Um quarto de hora depois, estávamos todos sentados na carruagem e nos dirigindo em direção à cidade. Os cavalos avançaram em um trote rápido; corremos rapidamente através do ar úmido e escuro. De repente comecei a falar, me dirigindo incessantemente agora para Bizmyónkoff, agora para Madame Ozhógin. Não olhei para Liza, mas não pude deixar de perceber que do canto da carruagem seu olhar nunca descansou sobre mim. Em casa ela se recuperou com um começo, mas não quis ler comigo, e logo foi para a cama. A pausa - essa pausa da qual falei - foi feita nela. Ela havia deixado de ser uma menina; já começava a esperar... como eu.... algo ou outro. Ela não precisou esperar muito.
     Mas naquela noite voltei aos meus alojamentos num estado de total encantamento. A confusão, que não era exatamente um prenúncio, nem ainda uma suspeita, que havia surgido dentro de mim, desapareceu: Atribuí a súbita restrição do comportamento de Liza para comigo à modéstia de donzela, à timidez... Não teria eu lido mil vezes em muitas composições, que a primeira aparição do amor agita e alarma uma jovem garota? Eu me senti muito feliz, e já comecei a construir vários planos em minha própria mente....
     Se alguém tivesse então sussurrado no meu ouvido: "Tu mentes, meu caro amigo! isso não te espera, meu rapaz! Estás condenado a morrer sozinho numa casinha miserável, ao resmungo intolerável de uma velha camponesa, que mal pode esperar pela tua morte, para vender as tuas botas por uma canção..."
     Sim, diz-se involuntariamente, com o filósofo russo: "Como se sabe o que não se sabe?" - Até amanhã.

continua em... 25 de março 
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O médico acabou de me deixar / 21 de março / 22 de março / 23 de março / 24 de março /            
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Bom dia, Sexta-feira... Músicas antigas 1

Charles Aznavour, Joe Dassin, Michel Sardou, Frédéric François, C Jérome...


Às vezes, basta uma canção antiga tocando ao fundo para que as lembranças se abram inteiras dentro do peito. Não são as lembranças das fotos, mas as que vivem escondidas entre acordes — aquelas que só aparecem quando a manhã está calma e o coração, distraído. 

É uma sexta-feira destas manhãs.

A melodia francesa escorrendo como um perfume esquecido, e cada nota parece acender uma pequena lâmpada amarela, igual às que tremulam sobre as pontes do Sena. De repente, tudo ficou mais lento: o ar, os pensamentos, até o tempo pareceu tirar os sapatos para não fazer barulho.

E então veio a lembrança — talvez de alguém, um sentimento. Um amor que talvez tenha existido, talvez não. Um amor que poderia ter acontecido em qualquer esquina do mundo, mas que, por alguma razão, insiste em se imaginar eterno.

As músicas continuavam, cada uma sussurrando um segredo diferente. E eu, ali, de olhos fechados, percebi que o amor não é um lugar. É o instante em que a gente se permite sentir sem pressa, sem medo, sem explicação.

No fim, a canção acabou. Mas o silêncio que ficou tinha sotaque espanhol.

Não é sobre um lugar...





Love Songs Pro

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Músicas antigas 1 /   

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (V.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

V


     O Sr. Hennebeau fora à janela do seu gabinete para ver a partida da caleça que levava sua mulher para almoçar em Marchiennes. Por um instante, seu olhar seguira Négrel, que trotava ao lado da portinhola, depois foi sentar-se tranquilamente à sua mesa. A casa parecia vazia sem a presença buliçosa da mulher e do sobrinho. Justamente naquele dia era o cocheiro quem guiava a carruagem; Rose, a nova camareira, estava de licença até as cinco horas; só Hippolyte, o camareiro, permanecera, locomovendo-se à vontade pelas peças, e, naturalmente, a cozinheira, ocupada desde o amanhecer com suas panelas, toda entregue ao jantar que seus patrões dariam à noite. De modo que o Sr. Hennebeau planejara um dia de ande trabalho, na calma imensa da casa deserta.
     Lá pelas nove horas, Hippolyte, ainda que tivesse recebido ordem para não deixar ninguém entrar, tomou a liberdade de anunciar Dansaert que trazia notícias. Foi só então que o diretor soube da reunião da véspera, na floresta. E os detalhes eram a tal ponto pormenorizados que ele os escutou pensando nos amores do capataz com a mulher de Pierron, tão conhecidos, que duas ou três cartas anônimas por semana denunciavam os desregramentos do seu empregado: evidentemente o marido falara, aquela delação cheirava a travesseiro. Aproveitou a ocasião, deu a entender que sabia de tudo, mas apenas recomendou um pouco de prudência, para evitar escândalo. Assustado com aquelas acusações durante seu relatório, Dansaert negou, gaguejando desculpas, enquanto seu narigão confessava o crime, subitamente rubro. Mas não quis insistir, contente de se ver desculpado com tanta bonomia, porque, de ordinário, o diretor mostrava-se de uma severidade implacável de homem puro, quando algum empregado resolvia regalar-se com alguma moça bonita durante o trabalho. A conversa continuou sobre a greve; essa reunião da floresta não passava ainda de uma fanfarronada de baderneiros, não havia uma ameaça séria. Em todo o caso, certamente os conjuntos habitacionais mineiros não se mexeriam nos próximos dias, graças à impressão de medo e respeito que lhes fora inculcada pelo desfile militar da manhã.
     Quando o capataz partiu, o Sr. Hennebeau esteve a ponto de enviar um telegrama ao prefeito. Apenas o receio de dar provas de nervosismo o reteve. Já não se perdoava sua falta de faro, que o levara a dizer aos quatro ventos, e mesmo escrever à administração, que a greve não duraria mais do que uma quinzena. Para sua grande surpresa, ela se arrastava havia dois meses. Desesperava-se com isso, sentia-se humilhado, comprometido, forçado a imaginar algo brilhante, se queria voltar às boas graças dos administradores. Acabava de pedir-lhes instruções na eventualidade de alguma desordem. A resposta não vinha, esperava-a pelo correio da tarde. E perguntava-se se ainda estaria em tempo de enviar telegramas, pedindo a ocupação militar das minas, se essa fosse a opinião de Paris. Segundo ele, isso resultaria numa batalha, com sangue e mortos. Semelhante responsabilidade perturbava-o, apesar de sua habitual energia.
     Até as onze horas trabalhou sem ser incomodado, sem outro ruído na casa morta que o da escova de encerar que Hippolyte manejava, muito ao longe, numa peça do primeiro andar. Depois uma após a outra, recebeu duas mensagens, a primeira anunciando a invasão da Jean-Bart pelos grevistas de Montsou, a segunda falando dos cabos cortados, das fornalhas apagadas, de todos os estragos. Não podia compreender. Que tinham ido fazer os grevistas na concessão de Deneulin, em vez de atacarem uma mina da companhia? Aliás, que arrasassem Vandame à vontade, isso não fazia mais que ajudar o plano de conquista que tramava. Ao meio-dia almoçou sozinho na vasta sala, servido em silêncio pelo criado, do qual nem mesmo os passos ouvia. Esta solidão tornava ainda mais sombrias as suas preocupações. Sentiu o sangue gelando nas veias quando um contramestre, que viera correndo, foi introduzido e lhe contou a marcha do bando sobre a Mirou. Quase em seguida, quando acabava de tomar café, um telegrama lhe informou que a Madeleine e a Crèvecoeur também estavam ameaçadas. Desse momento em diante sentiu-se extremamente perplexo. Esperava o correio às duas horas: devia pedir tropas imediatamente? ou seria melhor esperar, para não agir antes de ter conhecimento das ordens da administração? Voltou ao gabinete, quis ler uma nota para o prefeito, que na véspera pedira a Négrel que redigisse, mas não conseguiu encontrá-la. Pensou que talvez o rapaz a tivesse deixado no seu quarto, onde muitas vezes escrevia durante a noite. E, sem tomar uma decisão, perseguido pela idéia da nota, subiu ao quarto do sobrinho para procurá-la.
     Ao entrar, o Sr. Hennebeau teve uma surpresa: o quarto não estava arrumado, sem dúvida por esquecimento ou preguiça de Hippolyte. Reinava ali um calor úmido, o calor abafado de uma noite inteira, aumentado pelo escapamento do calorífero que ficara aberto. Seu olfato foi açulado, quase sufocado com um perfume penetrante, que julgou ser o cheiro dos sais de banho, de que a bacia estava cheia. Uma grande desordem reinava na peça, roupas espalhadas, toalhas molhadas jogadas nos encostos das cadeiras, a cama descoberta, um lençol puxado, arrastando-se no tapete. Quando entrou, apenas lançou um olhar distraído a tudo aquilo, dirigindo-se para uma mesa coberta de papéis, em busca da nota desaparecida. Por duas vezes examinou os papéis, um por um, e decididamente o que buscava não estava entre eles. Onde diabo teria o desmiolado do Paul escondido o documento?
     E ao voltar para o centro do quarto, olhando por cima de cada móvel, percebeu, na cama descoberta, algo que brilhava como uma faísca. Aproximou-se maquinalmente e estendeu a mão. Era um pequeno frasco de ouro entre duas pregas do lençol. Imediatamente reconheceu-o como da Sra. Hennebeau, o frasco de éter do qual ela nunca se separava. Continuava sem compreender como aquele objeto viera parar na cama de Paul. Num átimo ele se transformara: estava horrivelmente pálido. Sua mulher tinha dormido ali. 

— Desculpe — murmurou Hippolyte da porta. — Como vi o senhor subir...

     O criado entrou, olhando espantado para a desordem da peça. 

— Meu Deus! É verdade que este quarto ainda não foi arrumado! Também, a Rose saiu, deixando tudo nas minhas costas..

     O Sr. Hennebeau escondia o frasco na mão, apertando-o com toda a força. 

— Quer alguma coisa? 
— Está aí outro homem... Veio da Crèvecoeur trazendo uma carta. 
— Está bem. Pode ir, e diga-lhe que me espere.

     Sua mulher tinha dormido ali! Correu o ferrolho da porta, abriu a mão e olhou o frasco, que lhe deixara um sinal vermelho na pele. E subitamente começou a compreender, a ver claro, aquela sujeira tinha lugar em sua casa havia meses. Lembrou-se da sua antiga suspeita, os ruídos leves contra as portas, os pés descalços caminhando de noite pela casa silenciosa. Era isso! Sua mulher subia para dormir ali...
     Caído sobre uma cadeira, em frente à cama que contemplava fixamente, permaneceu por algum tempo como se tivesse sido golpeado. Foi despertado por um barulho, alguém batia à porta, tentando abrir. Reconheceu a voz do criado: 

— Sr. Hennebeau... Ah! está fechado por dentro... 
— Que quer? 
— Parece que é urgente, os operários estão quebrando tudo. Há mais dois homens lá embaixo. Chegaram telegramas... 
— Deixe-me em paz! Já vou.

     A ideia de que Hippolyte teria descoberto o frasco, se tivesse arrumado o quarto de manhã, deixava-o gelado. Aliás, esse criado já devia saber: inúmeras vezes encontrara a cama ainda quente do adultério, cabelos da mulher caídos no travesseiro, manchas execrandas enodoando os lençóis. Se vinha a todo o momento importuná-lo, era por maldade.
     Quantas vezes não teria ficado com o ouvido colado à porta excitado com a devassidão dos patrões?
     O Sr. Hennebeau permaneceu imóvel, olhando para a cama. o longo passado de sofrimentos veio-lhe à memória, seu casamento com aquela mulher, o imediato mal-entendido, tanto físico como espiritual, os amantes que ela tivera sem que ele desconfiasse, aquele que tolerara por dez anos como se tolera uma perversão a uma doente. Depois, foi a chegada deles a Montsou, a louca esperança de curá-la, meses de languidez, de exílio modorrento, a aproximação da velhice, que enfim iria trazê-la de volta para ele. Mas surgia o sobrinho, esse Paul de quem ela se intitulava mãe, a quem falava do seu coração morto, enterrado em cinzas para todo o sempre. E ele, marido imbecil, nada via, na adoração por aquela mulher que era sua, que tantos homens tinham possuído e só ele não podia ter. Adorava-a com uma paixão vergonhosa, a ponto de cair de joelhos se ela resolvesse dar-lhe o resto dos outros. E o resto dos outros ela dava àquele rapaz.
     Nesse momento, um toque de campainha longínquo fez o Sr. Hennebeau estremecer. Reconheceu-o, era o toque que se dava, seguindo suas ordens, quando chegava o carteiro. Levantou-se, falou em voz alta, num assomo de vulgaridade que jorrava da garganta, escapando ao seu controle.

— Ah! Que um raio os parta! Pouco me importam os telegramas e as cartas dessa gente!

     Sentia-se invadido pelo ódio, necessitava de uma cloaca para nela enterrar toda essa imundície, esmagando-a com os pés. Aquela mulher era uma cadela! Procurava palavras indecorosas, para com elas emporcalhar a sua imagem. A repentina ideia do casamento entre Cécile e Paul, que ela arranjava com um sorriso tão inocente, acabou de exasperá-lo. Então nem sequer havia paixão, ou ciúme, em toda aquela sensualidade arrebatada? Na idade dela, já não devia ser mais do que um brinquedo perverso, a fixação no homem, uma recreação degustada como uma sobremesa a que estivesse acostumada. Acusava-a de tudo, quase inocentava o rapazinho que ela, com rejuvenescido apetite, mordera, como se morde o primeiro fruto verde, roubado na estrada. Quem mais devoraria, até onde desceria quando não houvesse mais sobrinhos condescendentes, bastante práticos para aceitarem em sua família, mesa, cama e mulher?
     Bateram timidamente na porta e Hippolyte disse, com medo, pelo buraco da fechadura: 

— O correio, Sr. Hennebeau... E está aí outra vez o Sr. Dansaert dizendo que se estão matando... 
— Inferno! Já vou!

     Que faria com eles? Expulsá-los quando voltassem de Marchiennes, como animais nojentos que não queria mais ter sob seu teto? Agarraria um pau e lhes gritaria que fossem espalhar longe dele o veneno de seu concubinato. Eram seus suspiros, seus hálitos confundidos que aumentavam o calor úmido daquele quarto; o cheiro penetrante que o sufocara era o cheiro de almíscar que exalava a pele de sua mulher, outro gosto depravado, uma necessidade carnal de perfumes violentos. Reconheceu então o calor, o cheiro de fornicação, o adultério vivendo nos vasos desarrumados, nas bacias ainda cheias, na desordem dos lençóis, dos móveis, da peça inteira, corrompida pelo vício. Um furor de impotência atirou-o para cima da cama aos murros, massacrou-a, amarfanhou os lugares onde via a marca dos dois corpos, furioso com as cobertas arrancadas, com os lençóis usados, moles e inertes sob seus golpes, como que também exaustos pela longa noite de amor.
     Mas de repente pareceu-lhe ouvir Hippolyte subindo outra vez. Envergonhado, parou.
     Ficou por um momento ainda ofegante, enxugando a testa, acalmando as batidas do coração. Em pé defronte de um espelho, contemplou seu rosto, tão descomposto que não chegava a reconhecê-lo. Depois, quando viu que voltava ao normal, por um supremo esforço de vontade, desceu.
     Embaixo, cinco mensageiros, sem contar Dansaert, esperavam. Todos traziam notícias de gravidade crescente sobre a marcha dos grevistas pelas minas. O capataz contou com detalhes os acontecimentos da Mirou, salva pelo valoroso comportamento do velho Quandieu. Ele escutava, balançava a cabeça, mas não sabia o que o outro estava dizendo; seu espírito ficara lá em cima, no quarto. Por fim disse que podiam ir, prometendo tomar medidas. Vendo-se outra vez só, sentado em frente à sua mesa, pareceu adormecer, a cabeça entre as mãos, os olhos abertos. A correspondência estava ah, sobre a mesa, e decidiu procurar a carta esperada, a resposta da administração, cujas linhas, a princípio, dançaram ante seus olhos Contudo, acabou por compreender que os administradores queriam uma reação; claro, não lhe ordenavam que piorasse as coisas, mas davam a entender que alguns choques apressariam o desenlace da greve, provocando uma repressão enérgica. Desse momento em diante não hesitou mais, enviou telegramas para toda parte, ao prefeito de Lille, ao quartel do exército de Douai, à polícia de Marchiennes. Era um alívio, agora podia encerrar-se em casa, fez até espalhar boatos de que estava com gota. E durante toda a tarde escondeu-se no seu gabinete, sem receber ninguém, lendo apenas os telegramas e cartas que continuavam a chover. Seguiu assim de longe o bando da Madeleine à Crèvecoeur, da Crèvecoeur à Victoire, da Victoire à Gaston-Marie. Por outro lado, chegavam-lhe informações sobre o desnorteamento dos policiais e da cavalaria, perdidos pela estrada, sempre saindo das minas que iam ser atacadas. Podiam matar se e destruir tudo, colocara novamente a cabeça entre as mãos, os dedos apertando os olhos, engolfados no grande silêncio da casa vazia, onde se ouvia apenas, e espaçadamente, o barulho das caçarolas da cozinheira preparando o jantar.
     O crepúsculo já escurecia a peça, eram cinco horas quando uma algazarra fez que o Sr. Hennebeau acordasse sobressaltado, saindo do torpor e da inércia em que se encontrava, sempre com os cotovelos fincados na mesa. Por um momento pensou que eram os dois miseráveis que voltavam. Mas o tumulto ia num crescendo, e ao aproximar-se da janela deu-se uma terrível explosão de vozes: 

— Pão! Pão! Pão!

     Eram os grevistas que invadiam Montsou, enquanto os policiais, acreditando em um ataque à Voreux, galopavam em sentido contrário para ocupar aquela mina.

continua na página 293...
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Quinta Parte - (V.a) /
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas / VII — Aventuras da letra U

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     VII — Aventuras da letra U entregue a conjecturas

             O isolamento, o desapego de tudo, o orgulho, a independência, o amor da natureza, a falta de atividade quotidiana e material, o viver íntimo, as secretas lutas da castidade, o êxtase benévolo em presença de todos os objetos da criação, haviam preparado Mário para essa posse chamada paixão. O culto que ele tributava a seu pai pouco a pouco convertera-se em religião, e, como toda a espécie de religião, retirara-se para o fundo da alma. Era, pois, necessário alguma coisa no primeiro plano. Veio o amor.
     Decorreu um mês, durante o qual Mário nem um só dia faltou no Luxemburgo. Chegada a hora, não havia forças que o retivessem.

— Está de serviço — dizia Courfeyrac.

     Mário vivia em sucessivos arrebatamentos, porque é caso averiguado que a donzela lhe fitava os olhos todas as vezes que podia.
     Mário, por último, viera a fazer-se ousado, aproximando-se o mais que podia do banco, sem, todavia, tornar a passar por diante dele, no que juntamente obedecia ao instinto da timidez e ao instinto da prudência dos namorados. Julgando útil, pois, não atrair a «atenção do pai», combinava as suas paragens por trás das árvores e dos pedestais das estátuas, com profundo maquiavelismo, de modo a tornar-se visível o mais que podia para a jovem e o menos possível ao velho que passava por seu pai. Às vezes permanecia imóvel por mais de meia hora à sombra de um Leónidas ou de um Espártaco, conforme os topava a jeito, segurando na mão um livro, por cima do qual iam os seus olhos meigamente fitar-se na donzela: ela voltava-se para o lado do mancebo com um sorriso vago que lhe expandia em graças o donairoso rosto, e ao mesmo tempo que natural e sossegadamente recreava os ouvidos do ancião com a meiguice das suas palavras, fazia estremecer o mancebo com a sensação que nele ia produzir o seu virginal e apaixonado olhar. Antigo manejo, de data imemorial, que Eva aprendeu no primeiro dia da existência do mundo e que todas as mulheres sabem desde o primeiro dia da sua vida! Com a boca respondia a um, com os olhos correspondia às mudas falas do coração do outro.
     Devemos porém acreditar que o senhor Leblanc viera, por último, a suspeitar de alguma coisa, porquanto às vezes, logo que Mário chegava, ele erguia-se e principiava a passear. Afinal, abandonara o costumado pouso dos seus passeios quotidianos e fora tomar posse do banco que ficava ao pé da estátua do Gladiador, na outra extremidade da rua, como para ver se Mário os seguiria. Mário, que não percebeu o ardil, cometeu, efetivamente, a falta de os seguir e, desde então, «o pai» principiou a ser menos exato nas regularidades dos seus passeios e a não trazer «a filha» quotidianamente como dantes, vindo algumas vezes só. Nesse caso, Mário não ficava. Outra falta.
     O mancebo, porém, não dava importância a estes sintomas. Da fase da timidez passara, por uma progressão natural, mas nem por isso menos fatal, à fase da cegueira. Só conhecia que o seu amor aumentava de dia a dia e que de noite não era outro o objeto constante dos seus sonhos. Para maior desgraça, sucedera-lhe uma aventura inesperada, que foi como um deitar pólvora no lume, um espessar-se mais a venda que já lhe tapava os olhos. Uma tarde, à luz crepuscular que lhe povoava o espaço de visões etéreas, encontrou no banco em que «o senhor Leblanc e sua filha» costumavam estar sentados, um lenço sem bordados nem lavores, mas branco, fino, que lhe pareceu rescender inefáveis aromas. Apoderou-se dele com transporte e viu que estava marcado com as iniciais U. F.; Mário nada sabia daquela graciosa jovem, nem a respeito da sua família, nem do seu nome, nem da sua morada; eram aquelas duas letras a primeira coisa que a respeito dela colhia, duas iniciais adoráveis, sobre as quais imediatamente começou a construir castelos movediços a qualquer empuxão da realidade. U, com certeza, era o nome de baptismo.

— Úrsula! — disse ele a sós consigo. — Que delicioso nome!

     E após haver beijado, aspirado, sorvido em sôfregos aulos os olores perfumados daquele tão simples, tão desornado lenço, colocou-o junto ao coração, junto à carne, de dia, e à noite sobre os lábios, para que mesmo dormindo lhe coassem bem dentro os eflúvios rescendentes daquela amorosa relíquia.

— Sinto a alma dela neste lenço! — exclamava ele.

     Aquele lenço tão apaixonadamente arrecadado pelo enamorado mancebo era do velho, que por inadvertência o deixara cair do bolso.
     Nos dias que se seguiram ao precioso achado, o mancebo aparecia sempre no Luxemburgo beijando o lenço e apertando-o contra o coração. A graciosa jovem não o percebia naquela linguagem muda da sua paixão e disso o advertia por meio de sinais imperceptíveis.

— Quanto pode o pudor! — dizia Mário.

continua na página 535...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - VII — Aventuras da letra U
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira