domingo, 16 de agosto de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Protecionismo e Livre-Câmbio nos Estados Unido (7)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     47. Protecionismo e Livre-Câmbio nos Estados Unidos: O êxito não foi obra de uma mão invisível
          
          Em 1865, enquanto a Tríplice Aliança anunciava a próxima destruição do Paraguai, o general Ulisses Grant celebrava, em Appomatox, a rendição do general Robert Lee. A Guerra da Secessão terminava com a vitória dos centros industriais do norte, protecionistas inveterados, sobre os plantadores livre-cambistas de algodão e de tabaco do sul. A guerra que selaria o destino colonial da América Latina nascia ao mesmo tempo em que morria a guerra que tornou possível a consolidação dos Estados Unidos como potência mundial. Convertido pouco depois em Presidente dos Estados Unidos, Grant afirmou: “Durante séculos a Inglaterra confiou na proteção, levando-a até seus extremos, e obteve com isto resultados satisfatórios. Não há dúvida de que deve sua força atual a esse sistema. Após dois séculos, a Inglaterra julgou conveniente adotar o livre comércio, pois entende que a proteção já nada lhe oferece. Muito bem, então, cavalheiros, meu conhecimento de meu país me leva a acreditar que, dentro de 200 anos, quando a América já tiver obtido da proteção tudo o que a proteção pode lhe dar, ela também adotará o livre-comércio”.¹

[1] Citado por FRANK, André Gunder. Capitalism and Underdevelopment in Latin America. New York, 1967.

     Dois séculos e meio antes, o adolescente capitalismo inglês transferira para as colônias do norte da América seus homens, seus capitais, suas formas de viver, sua energia, seus projetos. As treze colônias, válvulas de escape para a população europeia excedente, aproveitaram rapidamente o handicap que lhes dava a pobreza de seu solo e seu subsolo e geraram desde cedo uma consciência industrializadora que a metrópole deixou crescer sem maiores problemas. Em 1631, os recém-chegados colonos de Boston lançaram ao mar uma balandra de 30 toneladas, Blessing of the Bay, construída por eles, e desde então a indústria naval ganhou um assombroso impulso. O carvalho branco, abundante nos bosques, dava boa madeira para as pranchas profundas e as armações interiores dos barcos; de pinho faziam a coberta, os gurupês e os mastros. Massachusetts concedia subvenções à produção de cânhamo para cordas e sogas, e também estimulava a fabricação local de lonas e velames. Ao norte e ao sul de Boston, prósperos estaleiros cobriram as costas. Os governos das colônias concediam subvenções e prêmios às manufaturas de todos os tipos. Eram promovidos com incentivos o cultivo do linho e a produção de lã, matérias-primas para os tecidos de fio cru que, embora não fossem muito elegantes, eram resistentes e eram nacionais. Para explorar as jazidas de ferro de Lyn, em 1643 surgiu o primeiro forno de fundição; em pouco tempo, Massachusetts abastecia de ferro toda a região. Como os estímulos à produção têxtil não pareciam suficientes, esta colônia optou pela coação: em 1655, criou uma lei que, sob a ameaça de penas graves, obrigava cada família a ter ao menos um fiandeiro em contínua e intensa atividade. Cada condado de Virginia estava obrigado, nessa mesma época, a selecionar crianças para instruí-las na manufatura têxtil. Ao mesmo tempo, era proibida a exportação de couros, para que fossem transformados, nos limites da colônia, em botas, correias e arreios.
     “As desvantagens com que tem de lutar a indústria colonial procedem de qualquer parte, menos da política colonial inglesa”, diz Kirkland¹. Ao contrário, as dificuldades de comunicação faziam com que a legislação proibitiva perdesse quase toda a sua força a 3 mil milhas de distância, e favoreciam a tendência ao auto-abastecimento. As colônias do norte não enviavam à Inglaterra nem prata nem ouro nem açúcar, e em troca suas necessidades de consumo provocavam um excesso de importações que de algum modo era preciso sustar. Não eram intensas as relações comerciais através do mar; era imprescindível desenvolver as manufaturas locais para sobreviver. No século XVIII, a Inglaterra ainda prestava tão pouca atenção às colônias do norte que não impedia que se transferissem para suas fábricas as técnicas metropolitanas mais avançadas, num processo real que desmentia as proibições de papel do pacto colonial. Este não era o caso, por certo, das colônias latino-americanas, que proporcionavam o ar, a água e o sal ao capitalismo ascendente na Europa e podiam nutrir com abundância o consumo luxuoso de suas classes dominantes, que importavam de ultramar as manufaturais mais finas e mais caras. Na América Latina, as únicas atividades em expansão eram aquelas que pendiam para a exportação; e assim foi também nos séculos seguintes: os interesses econômicos e políticos da burguesia mineradora ou terra-tenente nunca coincidia com a necessidade de um desenvolvimento econômico para dentro, e os comerciantes não estavam ligados ao Novo Mundo em maior medida do que aos mercados estrangeiros dos metais e dos alimentos que vendiam, e às fontes estrangeiras dos artigos manufaturados que compravam.

[1] KIRKLAND, Edward C. Historia económica de Estados Unidos. México, 1941.

     Quando declarou sua independência, a população norte americana equivalia, em quantidade, à do Brasil. A metrópole portuguesa, tão subdesenvolvida quanto a espanhola, exportava seu subdesenvolvimento para a colônia. A economia brasileira foi instrumentalizada em proveito da Inglaterra, para abastecer suas necessidades de ouro ao longo de todo o século XVIII. A estrutura de classes da colônia refletia essa função provedora. Diferentemente dos Estados Unidos, a classe dominante do Brasil não era formada pelos granjeiros, fabricantes empreendedores e comerciantes internos. Os principais intérpretes dos ideais das classes dominantes nos dois países, Alexander Hamilton e o Visconde de Cairú, expressam claramente a distinção entre uma e outra¹. Ambos tinham sido discípulos de Adam Smith, na Inglaterra. No entanto, enquanto Hamilton se transformara num paladino da industrialização e promovia o estímulo e a proteção do Estado à manufatura nacional, Cairú acreditava na mão invisível que atua na magia do liberalismo: deixai fazer, deixai passar, deixar vender.

[1] FURTADO, op. cit.


     Enquanto morria o século XVIII, os Estados Unidos contavam já com a segunda frota mercante do mundo, totalmente formada por barcos construídos nos estaleiros nacionais, e as fábricas têxteis e siderúrgicas estavam em pleno e pujante crescimento. Pouco tempo depois, nasceu a indústria do maquinário: as fábricas já não precisavam comprar no estrangeiro seus bens de capital. Nas campinas da Nova Inglaterra os fervorosos puritanos do Mayflower tinham lançado as bases de uma nação; no litoral de baías profundas, ao longo dos grandes estaleiros, uma burguesia industrial havia prosperado ininterruptamente. O tráfico comercial com as Antilhas, que incluía a venda de escravos africanos, desempenhou, como vimos em outro capítulo, uma função capital neste sentido, mas a façanha norte americana não teria explicação se não tivesse sido, desde o princípio, animada pelo mais ardente dos nacionalismos. George Washington havia aconselhado em sua mensagem de adeus: os Estados Unidos deviam seguir uma rota solitária¹. Emerson proclamava em 1837: “Temos escutado por tempo demais as refinadas musas da Europa. Nós vamos andar com nossos pés, vamos trabalhar com nossas mãos e falar segundo nossas próprias convicções”.²

[1] FOHLEN, Claude. L’Amérique anglo-saxonne de 1815 à nos jours. Paris, 1965.
[2] SCHNER, op. cit.

     Os fundos públicos ampliavam as dimensões do mercado interno. O Estado estendia estradas e ferrovias, construía pontes e canais¹. Em meados do século, o estado da Pennsylvania participava da gestão de mais de 150 empresas de economia mista, além de administrar os 100 milhões de dólares investidos em empresas públicas. As operações militares de conquista, que arrebataram ao México mais de metade de sua superfície, também contribuíram em grande medida para o progresso do país. O Estado não participava do desenvolvimento somente através dos investimentos de capital e dos gastos militares orientados para a expansão; no Norte, tinha começado a aplicar um zeloso protecionismo aduaneiro. Os terras tenentes do Sul eram, ao contrário, livre-cambistas. A produção de algodão era duplicada a cada dez anos, e embora proporcionasse grandes rendas comerciais à nação inteira e alimentasse os modernos teares de Massachusetts, dependia sobretudo dos mercados europeus. A aristocracia sulista estava vinculada em primeiro lugar ao mercado mundial, no estilo latino-americano; do trabalho de seus escravos provinha 80 por cento do algodão usado nas fiações europeias. Quando o Norte somou a abolição da escravatura ao protecionismo industrial, a contradição resultou na eclosão da guerra. O Norte e o Sul enfrentavam dois mundos na verdade opostos, dois tempos históricos diferentes, duas antagônicas concepções do destino nacional. O século XX ganhou esta guerra contra o século XIX.

[1] “O capital do Estado assume o risco inicial (...). A ajuda oficial às ferrovias não somente facilita a reunião de capitais, como também reduz os custos da construção. Em alguns casos, entre outros para as linhas marginais, os fundos públicos tornaram possível a construção de ferrovias que não teriam sido feitas de outro modo. Em outro número de casos ainda mais importante, aceleraram a realização de projetos que a utilização de capitais privados teria certamente atrasado. PIERCE, Harry H. Railroads of New York. A Study of Government Aid 182-1875. Cambridge, Massachusetts, 1953.

Que todo homem livre cante... 
O velho Rei Algodão está morto e enterrado,

clamava o poeta do exército vitorioso¹. A partir da derrota do general Lee, adquiriram um valor sagrado as taxas aduaneiras, que tinham sido elevadas durante o conflito como um meio de conseguir recursos e foram mantidas para proteger a indústria vencedora. Em 1890, o Congresso votou a chamada tarifa McKinley, ultraprotecionista, e em 1897 a lei Dingley elevou novamente os direitos de alfândega. Pouco depois, os países desenvolvidos da Europa viram-se obrigados a impor barreiras aduaneiras frente à erupção das manufaturas norte-americanas perigosamente competitivas. A palavra truste tinha sido pronunciada pela primeira vez em 1882; o petróleo, o aço, os alimentos, as ferrovias e o tabaco estavam nas mãos de monopólios, que avançavam com botas de sete léguas.²

[1] FOHLEN, op. cit.
[2]  O Sul se transformou numa colônia interna dos capitalistas do Norte. Depois da guerra, a propaganda pró construção de fiações nas duas Carolinas, Geórgia e Alabama, assumiu o caráter de cruzada. Mas este não era o triunfo de uma causa moral, as novas indústrias não nasciam por puro humanitarismo: o Sul oferecia mão de obra menos cara, energia mais barata e lucros altíssimos, que às vezes chegavam a 75 por 100. Os capitais vinham do Norte para atar o Sul ao centro de gravidade do sistema. A indústria do tabaco, concentrada na Carolina do Norte, estava na dependência direta do truste Duke, que se mudou para Nova Jersey para aproveitar uma legislação mais favorável; a Tennessee Coal and Iron Co., que exportava o ferro e o carvão de Alabama, passou em 1907 ao controle da U. S. Steel, que desde então fixou preços e assim eliminou uma concorrência incômoda. No princípio do século, a renda per capita do Sul estava reduzida à metade do que era antes da guerra. WOODWARD, C. Vann. “Origins of the New South 1879-1913.” In: A history of the South. Baton Rouge, 1948.

     Antes da Guerra de Secessão, o general Grant participara do despojamento do México. Depois da Guerra de Secessão, o general Grant foi um presidente com ideias protecionistas. Tudo fazia parte do mesmo processo de afirmação nacional. A indústria do Norte conduzia a história e, já dona do poder político, zelava através do Estado pela boa saúde de seus interesses prevalentes. A fronteira agrícola voava para o Oeste e para o Sul, à custa dos índios e dos mexicanos, mas em sua marcha não ia criando latifúndios, antes semeava de pequenos proprietários os novos espaços abertos. A terra da promissão não atraía tão só camponeses europeus: os mestres artesãos dos mais diversos ofícios e os operários especializados em mecânica, metalurgia e siderurgia também vieram da Europa para fecundar a intensa industrialização norte-americana. Em fins do século passado, os Estados Unidos já eram a primeira potência industrial do planeta; em 30 anos, desde a guerra civil, as fábricas tinham multiplicado por sete sua capacidade de produção. O volume norte-americano de carvão já equivalia ao da Inglaterra, e o de aço o duplicava; as linhas férreas eram nove vezes mais extensas. O centro do universo capitalista começava a mudar de lugar.
     Como a Inglaterra, os Estados Unidos também exportará, a partir da Segunda Guerra Mundial, a doutrina do livre-câmbio, do livre-comércio e da livre concorrência, mas só para o consumo alheio. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial nasceram juntos para negar aos países subdesenvolvidos o direito de proteger suas indústrias nacionais, e para neles esmorecer a ação do Estado. Serão atribuídas infalíveis propriedades curativas à iniciativa privada. No entanto, os Estados Unidos não abandonarão uma política econômica que continua sendo, na atualidade, rigorosamente protecionista, e que por certo presta bom ouvido às vozes da própria história: no norte, nunca confundiram a doença com o remédio.

continua na página 328...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Protecionismo e Livre-Câmbio nos Estados Unido (7)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (IV.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

IV


     Ao saírem de Rasseneur, Etienne e Catherine caminharam em silêncio. O degelo começava, um degelo frio e lento, que sujava a neve sem derretê-la. No céu lívido notava-se a lua cheia por detrás de grandes nuvens, farrapos negros que uma ventania altíssima varria furiosamente. Na terra não soprava nenhuma aragem, só se ouvia o gotejar dos telhados, de onde caíam bolas brancas, numa queda suave.
     Etienne, embaraçado com a presença daquela mulher que lhe presenteavam, não sabia o que dizer, de tão sem jeito. A ideia de levá-la consigo e escondê-la em Réquillart parecia-lhe absurda. Preferia conduzi-la ao conjunto habitacional, para a casa dos pais, mas ela recusava, cheia de pavor: não, não, tudo menos voltar para a família depois de a ter deixado de maneira tão ignóbil. E nenhum dos dois conseguia dizer palavra, caminhavam ao acaso pelos caminhos que se transformavam em lodaçais. Primeiro tinham descido em direção à Voreux, depois dobraram à direita, passando entre o aterro e o canal. 

— Mas tens que dormir em algum lugar — disse ele afinal. — Se eu tivesse ao menos um quarto, levava-te comigo...

     Calou-se, cheio de timidez. Seu passado vinha-lhe à memória, seus enormes desejos de outrora, as delicadezas e as vergonhas que os tinham impedido de se juntarem. Acaso a quereria ainda, para se sentir tão confuso, com o coração pulsando cada vez mais forte de desejo renascido? A lembrança das bofetadas que ela lhe dera na Gaston-Marie agora o excitava, em vez de enchê-lo de rancor. E estava surpreendido; a ideia de levá-la para Réquillart já lhe parecia completamente natural e de fácil execução. 

— Vamos, decide-te, onde queres que te leve? Tu me detestas tanto que não queres vir comigo...

     Ela seguia-o lentamente, atrapalhada com os escorregões penosos dos tamancos nos sulcos do caminho. Sem erguer a cabeça, murmurou: 

— Já sou bastante desgraçada, pelo amor de Deus, não me faças sofrer mais! De que adianta dizer isso, agora que já tenho um homem e tu tens uma mulher?

     Referia-se à filha de Mouque. Julgava que viviam juntos, pois esse era o boato que corria havia uns quinze dias. E quando ele negou, jurando, ela balançou a cabeça e lembrou a noite em que os vira beijando-se na boca. 

— Não é uma pena todas essas besteiras? — continuou ele a meia voz e parando. — Nós nos teríamos entendido tão bem...

     A moça respondeu com estremecimento: 

— Vamos, não te lamentes, não estás perdendo grande coisa. Se soubesses o traste inútil que sou, magra como um esqueleto, tão mal acabada que nunca serei uma mulher, juro-te!

     E continuou a falar livremente, acusando-se como de uma falta, daquele longo atraso de sua puberdade.
     Isso, apesar de já ter tido um homem, diminuía-a, relegava-se às fileiras das meninas. Quando se pode ter um filho, ainda há desculpa. 

— Minha pobre criança! — murmurou Etienne, cheio de grande piedade.

     Encontravam-se ao pé do aterro, escondidos à sombra do monte enorme. Uma nuvem de chumbo passava justamente pela lua, não podiam ver um ao outro, e seus hálitos se misturavam, seus lábios se buscavam, para o beijo cujo desejo os atormentara durante meses. Mas a lua reapareceu de repente, e viram por cima deles, no alto das rochas brancas de luz, a sentinela perfilada, que guardava a mina. E, sem que se tivessem beijado, separou-os o pudor, esse pudor antigo onde havia cólera, uma vaga repugnância e muito de amizade. Recomeçaram a vagarosa caminhada, com lama até os tornozelos. 

— Então está decidido: tu não queres... — disse Etienne. 
— Não — respondeu ela. — Primeiro o Chaval, agora tu depois um outro... Não, tenho nojo disso. Ademais, não sinto prazer algum, para que fazer, então?

     Calaram-se, andaram mais cem passos, sem trocar palavra. 

— Mas ao menos sabes para onde é que vais? Não posso deixar-te ao deus-dará com uma noite dessa.

     Ela respondeu com naturalidade: 

— Volto para casa, para Chaval, é com ele que tenho de ficar. 
— Mas ele te prometeu uma surra!

     O silêncio recomeçou. Ela dera de ombros, resignada. Sim, ele a espancaria, e, quando estivesse cansado de bater, pararia; preferia isso a andar rolando pelas sarjetas, como uma meretriz. E depois, já estava acostumada a apanhar; dizia mesmo, para se consolar, que, em dez mulheres, oito não viviam melhor que ela. Se um dia Chaval quisesse casar, tudo estaria resolvido.
     Etienne e Catherine dirigiram-se inconscientemente para Montsou, e, à medida que se aproximavam, seus silêncios ficavam mais longos. Era como se não estivessem mais caminhando juntos. O rapaz não encontrava nada para dizer que pudesse convencê-la, apesar da grande tristeza que sentia de vê-la voltando para Chaval. Seu coração estava despedaçado, nada tinha a oferecer senão uma existência de miséria e fuga, uma noite sem amanhã, se a bala de algum soldado lhe varasse a cabeça. Talvez mesmo fosse mais sensato não procurar novos sofrimentos. E assim reconduziu-a à casa do amante, de cabeça baixa, e não fez um gesto de protesto quando, já na estrada real, ela parou à esquina do depósito da companhia, a vinte metros do Piquette, dizendo: 

— Volta daqui. Se ele te vê, vai querer brigar de novo. Davam onze horas na igreja, o botequim estava fechado, mas a luz passava pelas frestas da porta. 
— Adeus — murmurou a moça.

     Estendeu-lhe a mão, que ele prendeu entre as suas; com esforço, lenta e penosamente, ela retirou-a, para deixá-lo. Sem olhar para trás, entrou pela porta pequena, com sua chave. Mas o rapaz permaneceu onde estava, espiando a casa, ansioso por saber o que se passava lá dentro. Apurou o ouvido, tremia com receio de ouvir os gritos de uma mulher sendo espancada. A casa conservava-se escura e silenciosa, apenas via luz numa janela do primeiro andar; e, como essa janela se abrisse e ele reconhecesse a figura franzina que se debruçava sobre a estrada, avançou.
     Catherine, então, disse em voz muito baixa: 

— Ele não voltou ainda, vou deitar-me. Vai embora, pelo amor de Deus!

     Etienne partiu. O degelo aumentava, era como se a chuva rolasse dos telhados, um suor de umidade escorria das paredes, dos tapumes, de todas a» massas confusas daquela zona industrial, perdida na noite. Primeiro dirigiu-se para Réquillart, doente de tristeza e cansaço, querendo apenas desaparecer, ser tragado pela terra, mas, em seguida, começou a atormentá-lo a ideia da Voreux, dos operários belgas que iam começar a trabalhar ali, e vieram-lhe à memória os companheiros exasperados contra os soldados, resolvidos a não tolerar estrangeiros na sua mina. Dirigiu-se novamente para lá, costeando o canal, atolando-se nas poças de neve derretida.
     Quando se viu novamente perto do aterro, a lua surgiu, muito clara. Levantou os olhos, olhou o céu, onde havia uma cavalgada de nuvens impelidas pela ventania que soprava no alto. Agora, porém, elas estavam esbranquiçadas, esfiapadas, mais leves, de uma transparência baça de água turva sobre a face da lua, e correndo tão rápidas que o astro, velado por momentos, incessantemente reaparecia na sua limpidez.
     Com os olhos cheios daquela claridade pura, Etienne baixou a cabeça, detendo a vista num espetáculo que se desenrolava no cimo do aterro. A sentinela, entorpecida pelo frio, não mais conseguindo ficar parada, agora dava guarda andando vinte e cinco passos voltada para o lado de Marchiennes, fazia meia-volta e caminhava outro tanto, de frente para Montsou. Via-se o brilho prateado da baioneta pairando acima da silhueta escura do soldado, recortada nitidamente contra a palidez do céu. Mas o que interessava ao rapaz era uma sombra móvel, um bicho de rastos e à espreita, em quem logo reconheceu Jeanlin pelo dorso de fuinha, longo e desengonçado, emboscado por trás da cabana onde o velho Boa-Morte se abrigava nas noites de temporal. A sentinela não podia vê-lo, com certeza o pequeno bandido preparava alguma das suas, pois andava furioso com os soldados, perguntando quando se veriam livres daqueles assassinos, que ali estavam com seus fuzis para matar a gente.
     Etienne hesitou, não sabendo se devia chamá-lo, para evitar que fizesse alguma bobagem. Num dos momentos em que a lua se escondeu, viu-o preparando-se para saltar, só não o tendo feito porque o astro voltou a brilhar. Invariavelmente a sentinela avançava até a cabana, dava meia-volta e repetia o trajeto já feito. Repentinamente, aproveitando as sombras de uma nuvem, Jeanlin saltou nas costas do soldado com um pulo enorme de gato do mato e agarrou-se a ele com suas garras, cravando-lhe o canivete na garganta. Como o colarinho duro resistisse, empunhou a arma com ambas as mãos e abateu-a com todo o peso do corpo. Já estava acostumado a sangrar as galinhas que encontrava ciscando por perto das fazendas. Fez um trabalho tão rápido, que só se ouviu na noite um grito sufocado e o ruído cavo do fuzil caindo. A lua, muito branca, brilhava outra vez.
     Paralisado de espanto, Etienne continuava a olhar. Uma exclamação fora estrangulada no fundo do seu peito. No alto, o aterro estava deserto, já não se distinguia sombra alguma sob a fuga descontrolada das nuvens. Subiu correndo para encontrar Jeanlin de gatinhas diante do cadáver que caíra de costas e braços abertos. Na neve, ao luar, as calças vermelhas e o capote cinzento destacavam-se duramente. Não correra uma única gota de sangue, a faca ainda estava enterrada até o cabo na garganta.
     Com um soco furioso e irrefletido ele prostrou o menino ao lado do corpo. 

— Por que fizeste isso? — gaguejou, desesperado.

     Jeanlin soergueu-se, rastejou sobre as mãos, com o arqueamento felino do seu dorso magro; e as suas grandes orelhas, seus olhos verdes, suas maxilas salientes fremiam e faiscavam na excitação do crime. 

— Fala, demônio! Por que fizeste isso? 
— Sei lá, tive vontade.

     E insistiu naquela resposta. Havia três dias que tinha vontade de fazer aquilo. Só pensava nisso, chegava a andar com dor de cabeça de tanto pensar. Para que preocupar-se por causa desses soldados imundos que vinham incomodar os mineiros em suas próprias casas? Dos discursos violentos na floresta, dos gritos de devastação e morte ecoados nas minas, cinco ou seis palavras tinham ficado na sua memória, e ele agora as repetia, brincando de revolução. Outras explicações não sabia dar, ninguém o tinha empurrado, imaginara tudo sozinho, da mesma maneira que planejava roubar cebolas nas plantações.
     Etienne, abismado com aquele brotar surdo do crime no fundo de um cérebro de criança, escorraçou-o de novo com um pontapé, como a uma besta inconsciente. Temia que a guarnição da Voreux tivesse ouvido o grito abafado da sentinela e olhava para a mina a cada vez que a lua surgia. Mas nada se mexia, e ele debruçou-se sobre o cadáver, tocou as mãos que esfriavam, auscultou o coração arado sob o capote. Da faca só se via o cabo de osso, onde a divisa galante, a simples palavra "Amor", estava gravada em letras negras. Seus olhos correram da garganta para o rosto e ele reconheceu o soldadinho, era Jules, o recruta, com quem conversara num amanhecer. Sentiu uma enorme piedade diante daquele rosto de louro, cheio de sardas. Os olhos azuis, arregalados, contemplavam o céu com o mesmo olhar fixo com que o vira esquadrinhando o horizonte em busca da terra natal. Onde seria a região de Plogoff que lhe aparecia sob um sol resplandecente? Ah! longe, muito longe. Com aquela noite de temporal o mar bramia a distância. Esse vento que soprava tão alto tinha talvez passado pela charneca. Duas mulheres estavam paradas — a mãe, a irmã — de cabelos ao vento, olhando também, como se pudessem ver o que a esta hora estava fazendo o seu menino para além das léguas e léguas que os separavam. De agora em diante elas continuariam a esperá-lo. Que coisa detestável era isso, os pobres-diabos matarem-se entre si, pelos ricos!

continua na página 357...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

sábado, 15 de agosto de 2026

Reunião Dançante... Garajão 5

Garajão 5


Para ouvir aquele som do garajão
eu volto, não vou me perder
por que? o som que vem do chão

insiste em me refazer

E no meio desse retorno
percebo o que deixei passar
coisas que vi tão de leve

e que hoje não podem voltar

Há encontros que a gente vive, hoje eu sei
sem medir o seu valor
só depois que o tempo ensina

sentimos o peso de cada sabor

sei lá, nascemos para viver! 


o ano é 1972
Bread - Everything I Own




David Gates – vocais, guitarra, baixo, teclados, violino, viola, percussão (1968–1973, 1976–1978, 1996–1997)
Jimmy Griffin – vocais, guitarra, teclados, percussão (1968–1973, 1976–1977, 1996–1997; falecido em 2005)
Robb Royer – guitarra, baixo, flauta, teclados, percussão, flauta doce, vocais de apoio (1968–1971)
Mike Botts – bateria, percussão (1969–1973, 1976–1978, 1996–1997; falecido em 2005)
Larry Knechtel – teclados, baixo, guitarra, gaita (1971–1973, 1976–1978, 1996–1997; falecido em 2009)

Você me protegeu do mal
me manteve aquecido, me manteve aquecido
Você me deu a minha vida
me libertou, me libertou
Os melhores anos que eu conheci
foram todos os anos que estive com você
Eu daria qualquer coisa que eu possuo
daria a minha vida, o meu coração, a minha casa
Eu daria tudo que possuo
apenas para ter você de volta outra vez
Você me ensinou como amar
do que é feito o amor
Você nunca falou demais
e eu aprendi observando você
Ninguém mais poderia conhecer
a parte de mim que não pode desistir
Eu daria qualquer coisa que eu possuo
daria a minha vida, o meu coração, a minha casa
Eu daria tudo que possuo
apenas para ter você de volta outra vez
Existe alguém que você conhece
e que você o ama muito
mas você não lhe dá o devido valor?
Você pode perdê-lo algum dia
alguém os leva embora
E eles não ouvirão as palavras que você deseja dizer
Eu daria qualquer coisa que eu possuo
daria a minha vida, o meu coração, a minha casa
Eu daria tudo que possuo
apenas para ter você de volta outra vez
Apenas para te tocar mais uma vez


o ano é 1978
Born to be alive - Patrick Hernandez






o ano é 1978
Walk of life - Dire Straits





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Garajão 01: Alone again / Ben / Soley Soley
Garajão 02: One Day In Your Life / Dance, Little Lady Dance / More Than A Woman
Garajão 03: Não se esqueça de mim / Os seus botões / Café da manhã
Garajão 04: Daddy Cool / Ma Baker / Sunny  
Garajão 05: Everything I Own / Born to be alive / Walk of life

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / IV — Uma rosa na miséria

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     IV — Uma rosa na miséria

             Nem mais nem menos, uma rapariga se encontrava de pé junto à porta entreaberta. Como o postigo que dava luz para o quarto ficava justamente em frente da porta, a figura da rapariga destacava-se no meio de um clarão baço.
     Era uma criatura pálida, magra, de aspecto doentio, vestida apenas com uma camisa e uma saia, transida de frio, com um barbante na cinta e outro a atar-lhe os cabelos, os ombros a romperem-lhe a camisa, uma palidez esbranquiçada e linfática, as clavículas cor de terra, as mãos roxas, a boca meia aberta e com falta de alguns dentes, a vista embaciada, mas cheia de ousadia e dissimulação, formas de rapariga abortada e olhar de velha de maus costumes, cinquenta anos de envolta com quinze; uma dessas criaturas que são a um tempo frágeis e horríveis e que fazem estremecer os que não fazem chorar. 
     Mário erguera-se e contemplava com certo pasmo aquela criatura semelhante a uma sombra das que atravessam os sonhos.
     O mais pungente, sobretudo, era que aquela rapariga não viera ao mundo para ser feia. Na sua infância devia ter sido linda. As graças da idade lutavam ainda contra a hedionda velhice antecipada pela libertinagem e pela pobreza. Naquele rosto de dezesseis anos, fenecia um resto de beleza, como o descorado sol que desaparecera sob medonhas nuvens no despontar de um dia de Inverno.
     Àquele rosto não era de todo desconhecido de Mário. Parecia-lhe tê-lo já visto em alguma parte. 

— O que me quer, menina? — perguntou-lhe ele.

     A rapariga respondeu-lhe com a sua voz de forçado embriagado: 

— Trago uma carta para si, senhor Mário.

     Tratava-o pelo seu nome; não podia duvidar de que era a ele quem procurava; mas que rapariga era aquela? Como era que lhe sabia o nome?
     A rapariga sem esperar que a mandassem entrar, entrou; e entrou resolutamente, olhando com certa ousadia que apertava o coração, para todos os cantos e para a cama ainda por fazer. Estava descalça. Pelos grandes buracos que tinha na saia, viam-lhe as compridas e magras pernas Tremia de frio.
     Tinha com efeito na mão uma carta que apresentou a Mário.
     Mário abrindo-a reparou que a letra, muito grande, estava ainda molhada. A missiva não podia vir de muito longe. Eis o que leu nela:

Meu estimável vizinho:
Tive conhecimento da sua extrema bondade para comigo; soube que foi o senhor quem pagou por mim, há seis meses, um trimestre de renda da casa. Deus lhe pague, jovem. Minha filha mais velha lhe dirá que estamos sem um bocado de pão há dois dias, quatro pessoas, e minha mulher doente. Se o meu pensamento não ilude, julgo dever esperar que o seu coração generoso se humanizará com a exposição deste triste estado e lhe suscitará o desejo de me ser propício, prodigalizando-me um pequeno benefício.
Com toda a consideração que se deve aos benfeitores da humanidade, tenho a honra de me assinar Jondrette 
P.S. — Minha filha espera pelas suas ordens, meu caro senhor Mário.

     Esta carta, no meio da aventura que desde a noite antecedente preocupava Mário, foi como uma luz num subterrâneo. Tudo se lhe tornou de repente claro.
     Era uma carta que saíra de onde tinham saído as outras quatro. Era a mesma letra, o mesmo estilo, a mesma ortografia, o mesmo papel, o mesmo cheiro de tabaco.
     Havia ali cinco missivas, cinco histórias, cinco nomes, cinco assinaturas e um só signatário. O capitão espanhol D. Alvarez, a infeliz Belizard, o poeta dramático Genflot, o velho ator Fabantou, chamavam-se todos quatro Jondrette, se com efeito o próprio Jondrette se chamava assim.
     Havia já muito tempo que Mário morava no casebre e, como dissemos, em raras ocasiões tinha podido ver, ou mesmo entrever, a sua muito próxima vizinhança. Tinha o espírito noutra parte; e onde está o espírito está a vista. Devia ter mais de uma vez encontrado os Jondrette no corredor ou na escada, mas para ele não tinham passado de sombras; havia reparado tão pouco neles, que na véspera à noite levara no boulevard um encontrão das filhas de Jondrette, porque haviam sido evidentemente elas, e só com muito custo a que acabava de lhe entrar no quarto lhe despertara, através do desgosto e dó que lhe inspirara, uma vaga recordação de a ter visto nalguma parte.
     Agora via tudo claramente. Compreendia que o seu vizinho Jondrette tinha por indústria, na sua miséria, explorar a caridade das pessoas benfazejas; que obtinha diferentes moradas e que escrevia sob nomes supostos a pessoas que julgava ricas e caridosas, cartas que sua filha levava por sua conta e risco, porque aquele pai chegara a arriscar as filhas; jogava-as numa par da com o destino. Mário compreendia, que provavelmente, a julgar pela sua fuga da véspera, pelo seu terror e aspecto espavorido e pelas palavras de gíria que lhes ouvira, aquelas desventuradas se empregavam ainda em quaisquer misteres sombrios, e que de tudo isto resultava a existência, no meio da sociedade humana tal como está organizada, de dois miseráveis entes, que nem eram crianças, nem raparigas, nem mulheres; espécies de monstros impuros e inocentes produzidos pela miséria.
     Tristes criaturas sem nome, sem idade, sem sexo, às quais já não é possível o bem nem o mal, e que ao saírem da infância já não têm nada neste mundo, nem liberdade, nem virtude, nem responsabilidade. Almas desabrochadas ontem, emurchecidas hoje, semelhante às flores caídas na rua, manchadas por toda a sorte de lama, enquanto não as esmaga uma roda.
     Entretanto, enquanto Mário fitava na rapariga um olhar admirado e doloroso, girava ela pelo quarto com uma audácia de espectro, maneando-se sem se preocupar com a nudez em que estava. De vez em quando a camisa descosida e rota, caía-lhe quase até à cintura. Desarrumava as cadeiras, pegava em todos os objetos de toucador que estavam sobre a cómoda, apalpava o fato de Mário e esquadrinhava o que havia em todos os cantos. 

— Olha! — disse ela. — O senhor tem um espelho!

     E cantarolava, como se estivesse sozinha, coplas de algum vaudeville e estribilhos facetos, que a sua voz gutural e rouca tornava lúgubres. Sob todo este atrevimento, transparecia o que quer que era de constrangido, de inquieto e humilhado. O descaramento é uma vergonha. Não havia nada mais triste do que vê-la folgar e, para assim dizer, esvoaçar pelo quarto com os movimentos de um pássaro que a luz do dia assusta, ou que tem uma asa quebrada. Conhecia-se que com outras condições de educação e de sorte, o todo jovial e desembaraçado daquela rapariga teria podido ser suave e encantador. Nunca entre os animais a criatura nascida para ser pomba, se transforma em frango. Não se vê isto senão entre os homens.
     Mário pensava e deixava-a fazer quanto queria.
     A rapariga aproximou-se da mesa. 

— Ai, livros! — disse ela, iluminando lhe o olhar vítreo.

     Em seguida, exprimindo a felicidade de poder vangloriar-se de alguma coisa, ao que nenhuma criatura é insensível, continuou: 

— Eu sei ler.

     E, pegando no livro que estava aberto sobre a mesa, leu muito correntemente: 

— O general Bauduin recebeu ordem para tomar, com os cinco batalhões da sua brigada, o castelo de Hougomont, situado no meio da planície de Waterloo...

     Chegando aqui interrompeu-se: 

— Waterloo! Bem sei o que é. Foi uma batalha que houve há muito tempo. Meu pai esteve lá. Meu pai serviu nos exércitos. Olhe que em nossa casa são todos bonapartistas. Foi contra os ingleses, Waterloo.

     Depois disto largou o livro, pegou numa pena e exclamou: 

— Também sei escrever!

     Molhou a pena no tinteiro e voltou-se para Mário: 

— Quer ver? Vou escrever duas palavras para lhe mostrar.

     E, antes que ele vesse podido responder, escreveu numa folha de papel em branco, que estava na mesa: Chegaram os guitas.
     Feito isto pôs de parte a pena. 

— Pode ver; olhe que não tem erros de ortografia. Eu e minha irmã tivemos educação. Nem sempre fomos como somos. Não tínhamos nascido para...

     Calou-se, fitou o olhar extinto em Mário e soltou em seguida uma gargalhada, dizendo com uma entonação que continha todas as angústias sufocadas por todos os cinismos: 

— Ora adeus!

     E passou a cantarolar estas palavras, numa música alegre:

Meu paizinho, eu tenho fome, 
Dê-me pão para a matar. 
Minha mãe, eu tenho frio, 
Dê-me meias para calçar. 
Ai, tens frio? Vai ao rio, 
Cobre a capa 
De teu tio.

     Apenas terminou esta copla, exclamou: 

— Vai algumas vezes ao teatro, senhor Mário? Eu vou. Tenho um irmão pequeno que é amigo dos artistas e que me dá às vezes bilhetes. Dos bancos das galerias é que eu não gosto. Está-se ali muito mal. Muitas vezes está tudo cheio de gente, e gente que deita mau cheiro.

     Depois contemplou Mário, assumiu um ar estranho e disse-lhe: 

— O senhor Mário é um bonito rapaz!

     E, ocorrendo a ambos o mesmo pensamento, ela riu-se e ele corou.
     A rapariga aproximou-se dele, pousou-lhe uma das mãos no ombro e continuou: 

— O senhor nunca repara em mim, mas eu conheço-o muito bem, senhor Mário Tenho-o encontrado na escada, e tenho-o visto entrar às vezes, quando ando por aquelas bandas, para casa de um homem chamado Mabeuf, que mora do lado de Austerlitz. Fica-lhe muito bem o cabelo assim despenteado.

     A sua voz diligenciava tornar-se suave, e só conseguia ser muito baixa. Uma parte das palavras perdia-se no trajeto da laringe aos lábios, como num teclado onde há falta de teclas.    
     Mário recuara vagarosamente. 

— Menina — disse ele, com a sua fria gravidade —, tenho ali um embrulho que julgo pertencer-lhe.

     E apresentou-lhe o papel que continha as quatro cartas. 
     A rapariga bateu as palmas e exclamou: 

— Fartámo-nos de as procurar por toda a parte.

     Depois pegou avidamente no embrulho e abriu-o, dizendo: 

— Santo Deus! O que nós procurámos, minha irmã e eu! E foi o senhor que as encontrou! No boulevard, não é verdade? Foi por força no boulevard. Caiu-nos quando deitámos a correr. Foi minha irmã quem fez a asneira. Quando chegámos a casa é que demos pela falta. Como não queríamos levar a nossa conta, porque era coisa inútil, inteiramente inútil, absolutamente inútil, dissemos que tinhamos entregado as cartas e que nos tinham respondido: Nicles! E no fim, estão aqui as pobres cartas! Mas como soube o senhor que eram minhas? Ah, sim, por causa da letra! Então foi com o senhor que nós esbarrámos ontem à noite Não se via mesmo nada. Eu disse à minha irmã: «Era um senhor, não era?» E a minha irmã respondeu-me: «Parece-me que sim, que era um senhor.»

     E, falando deste modo, desdobrara a súplica dirigida «ao benfeitor da igreja de S. Jacques do Haut-Pas». 

— Olha! — exclamou ela. — Esta é para o velho que vai à missa. Agora são horas; vou lhe levar. Talvez nos dê para o almoço.

     E, depois de soltar uma risada, acrescentou: 

— Quer saber o que vale, se hoje almoçarmos? O almoço de hoje vale-nos pelo almoço de antes de ontem, pelo jantar de antes de ontem, pelo almoço de ontem, pelo jantar de ontem, tudo isto de uma vez, esta manhã. Apre! Seus cães! Se não estão contentes, que os leve a breca!

     Isto fez lembrar a Mário o fim para que a infeliz o tinha vindo procurar. Meteu a mão ao bolso, mas não achou nada.
     Entretanto, a jovem continuava a falar, porém como se já não tivesse consciência de que Mário a ouvisse. 

— Às vezes saio de tarde e não volto senão no outro dia. No Inverno passado, antes de para aqui virmos, a nossa casa era debaixo dos arcos das pontes. Minha irmã dava lhe para chorar. Realmente, a água é uma coisa que mete tristeza! Às vezes, quando me chegava vontade de me deitar a afogar, dizia eu: «Ui! Sempre está tão fria!» Eu cá saio quando quero; às vezes até durmo nos fossos. De noite, quando ando pelo boulevard, olho para as árvores e parecem-me forcas, olho para as casas e parecem-me negras e grandes como as torres de Nossa Senhora, afigura-me que as paredes são o rio, e digo comigo: «Mau! Temos água!» As estrelas parecem-me lampiões de iluminação, parece mesmo que deitam fumo e que se apagam com o vento, sinto-me atordoada, como se vesse uma parelha de cavalos a soprarem-me aos ouvidos; apesar de ser de noite, ouço realejos e um barulho de máquinas a trabalhar, mil coisas, eu sei lá! Afigura-me que me atiram pedras, e eu deito a fugir sem querer saber de mais nada, e anda-me tudo à roda. Quando ando sem comer, tenho sempre destas esquisitices.
    
     E pôs-se a olhar para o rapaz com ar desvairado.
     Mário tanto procurou nos bolsos, que por fim chegou a juntar cinco francos e dezesseis soldos, que eram todo o seu dinheiro naquela ocasião. «Para o jantar de hoje», disse ele consigo. «Sempre guardarei os dezesseis soldos; para o de amanhã veremos».
     E meteu outra vez ao bolso os dezesseis soldos, dando os cinco francos à jovem, que lançou mão deles. 

— Bom! Já temos Sol!

     E como se o Sol vesse a propriedade de lhe derreter no cérebro uma avalancha de gíria, prosseguiu: 

— Cinco francos! Um monarca luzente nas batas! Ai que léria! O senhor é um soce das pontas. Dois dias de soquideira pros gelfos! Agora é rustir como cobra! Cinco francos em prata nas minhas mãos! Custa-me a acreditar! O senhor é muito boa pessoa. São dois dias de alimento para a família! Agora podemos encher a barriga!

     E, puxando a camisa para os ombros, fez uma grande cortesia ao rapaz, depois um gesto familiar com a mão e encaminhou-se para a porta, dizendo: 

— Passe muito bem. É o mesmo. Sempre vou a casa do tal velhote.

     Ao passar, divisando sobre a cômoda uma côdea de pão seca já negra do pó, atirou-se a ela com sofreguidão, comendo-a e resmungando ao mesmo tempo: 

— É boa! Mas tão dura, que me quebra os dentes! 

     E saiu.

continua na página 555...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - IV — Uma rosa na miséria
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

George Orwell - 1984: Parte 2.1a (Era o meio da manhã)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

1.

     Era o meio da manhã, e Winston havia deixado o cubículo para ir ao banheiro.
     Uma figura solitária estava vindo em sua direção do outro extremo do longo corredor iluminado. Era a garota de cabelos escuros. Tinham passado quatro dias desde a noite em que ele a avistara fora da loja de sucata. Quando ela chegou mais perto, ele viu que seu braço direito estava protegido por uma tipoia, não perceptível à distância porque era da mesma cor que o macacão. Ela provavelmente havia esmagado sua mão enquanto manejava um dos grandes caleidoscópios nos quais as tramas dos romances eram “delineadas”. Era um acidente comum no Departamento de Ficção.
     Eles estavam a cerca de quatro metros de distância um do outro quando a garota tropeçou e caiu de cara no chão, emitindo um grito forte de dor. Ela deve ter caído bem em cima do braço ferido. Winston estava indo em sua direção, mas desistiu. A garota tinha se ajoelhado. O rosto dela tinha virado uma cor amarelo-leitosa contra a qual sua boca se destacava, mais avermelhada do que nunca. Seus olhos estavam fixos nos dele, com uma expressão apelativa que parecia mais medo do que dor.
     Uma emoção curiosa despertou no coração de Winston. Na sua frente estava um inimigo que tentava matá-lo; na sua frente, também, estava uma criatura humana, com dor e talvez com um osso quebra do. Instintivamente, ele já havia começado a avançar para ajudá-la. No momento em que a viu cair em cima do braço enfaixado, foi como se ele tivesse sentido a dor em seu próprio corpo.

“Você se machucou?”, disse. 
“Não é nada. Só meu braço. Já vai ficar tudo bem”.

     Ela falou como se seu coração estivesse agitado. Toda a cor tinha saído do seu rosto.

“Você não quebrou nada”? 
“Não, estou bem. Só doeu na hora”.

     Ela estendeu sua mão livre para ele, e ele a ajudou a levantar. Ela tinha recuperado um pouco de sua cor, e parecia muito melhor.

“Não é nada”, ela repetiu. “Só estalei meu pulso. Obrigada, camarada”!  

     E com isso ela caminhou na direção em que estava indo, tão rapidamente como se realmente não tivesse sido nada. O incidente inteiro não tinha demorado nem meio minuto. Não deixar os sentimentos aparecerem no rosto era um hábito que havia adquirido o status de instinto e, de qual quer forma, eles estavam em frente a um telescópio quando a coisa aconteceu. No entanto, tinha sido muito difícil não demonstrar uma surpresa momentânea, pois nos dois ou três segundos em que ele a ajudava, a garota tinha colocado algo em sua mão. Não havia dúvidas de que ela havia feito isso intencionalmente. Era algo pequeno e plano. Ao passar pela porta do lavatório, ele a transferiu para seu bolso e a sentiu com as pontas dos de dos. Era um pedaço de papel dobrado em forma de quadrado.
     Enquanto estava no urinol, ele conseguiu, com alguns movimentos da mão, desdobrá-lo. Obviamente, deve haver uma mensagem escrita nele. Por um momento, ele foi tentado a ir para um dos compartimentos e ler a mensagem imediatamente. Mas isso seria uma loucura escandalosa, ele bem sabia. Não se podia ter mais certeza de ser vigiado continua mente pelas teletelas em nenhum outro lugar além das cabines dos banheiros.
     Ele voltou para seu cubículo, sentou-se, jogou o fragmento de papel casualmente entre os outros papéis sobre a mesa, colocou seus óculos e puxou o ditaescritor na sua direção. “Cinco minutos”, disse para si mesmo, “pelo menos cinco minutos”! Seu coração batia em seu peito com um som assusta dor. Felizmente, o trabalho que ele estava fazendo era apenas rotina, a retificação de uma longa lista de dados, e não precisava de muita atenção.
     O que quer que estivesse escrito no papel, devia ter algum tipo de significado político. Até onde ele pode ver, havia duas possibilidades. Uma, muito mais provável, era que a garota fosse uma agente da Polícia do Pensamento, exatamente como ele temia. Ele não sabia por que a Polícia do Pensa mento deveria escolher entregar suas mensagens de tal forma, mas talvez eles tivessem suas razões. O que estava escrito no papel poderia ser uma ameaça, uma intimação, uma ordem para cometer suicídio, uma armadilha de algum tipo. Mas havia outra possibilidade, mais longínqua, que continuava surgindo na sua cabeça, embora ele tentasse em vão suprimi-la. Talvez a mensagem não viesse da Polícia do Pensamento, mas de algum tipo de organização clandestina. Talvez a Irmandade existisse afinal de contas! Talvez a garota fizesse parte dela! Sem dúvida, a ideia era absurda, mas havia surgido em sua mente no exato instante em que sentia o pedaço de papel em sua mão. Só alguns minutos depois é que a outra explicação, mais provável, lhe havia ocorrido. E mesmo agora, embora seu intelecto lhe dissesse que a mensagem provavelmente significava sua morte – ainda assim, não era isso que ele acreditava, e a esperança irracional persistia, e seu coração batia, e foi com dificuldade que ele impediu que sua voz tremesse enquanto murmurava os dados para o ditaescritor.
     Ele enrolou o pacote completo de trabalho e o deslizou para dentro do tubo. Oito minutos haviam passado. Ele reajustou seus óculos no nariz, sus pirou e puxou o próximo lote de trabalho na sua direção, com o pedaço de papel em cima dele. Ele o abriu. Estava escrito, com uma caligrafia grande e não treinada:

Eu te amo.

     Durante vários segundos ele ficou tão atordoado que sequer conseguiu jogar o papel incriminatório no buraco da memória. Quando o fez, embora soubesse muito bem o perigo de mostrar muito interesse, não resistiu a lê-lo novamente, só para ter certeza de que as palavras estavam realmente lá. 
     Foi muito difícil trabalhar durante o resto da manhã. O que era ainda pior do que ter que focalizar sua mente em uma série de trabalhos insignificantes era a necessidade de esconder sua agitação da teletela. Ele sentia como se um fogo estives se ardendo em sua barriga. O almoço na cantina quente, lotada e barulhenta era um tormento. Ele esperava ficar sozinho por algum tempo durante a hora do almoço, mas por azar o imbecil do Parsons surgiu ao seu lado, o cheiro do seu suor quase sobrepondo o cheiro metálico do cozido, e manteve um fluxo constante de conversa sobre os preparativos para a Semana do Ódio. Ele estava particularmente entusiasmado com um modelo de papel machê da cabeça do Grande Irmão de dois metros de largura que estava sendo feito para a ocasião pela tropa de espiões de sua filha. O mais irritante era que, no meio da barulheira de vozes, Winston mal podia ouvir o que Parsons dizia, e tinha que pedir constantemente que alguma observação inútil fosse repetida. Ele vislumbrou a menina apenas uma vez, em uma mesa com duas outras meninas ao fundo da sala. Ela parecia não tê-lo visto, e ele não olhou naquela direção novamente.
     A tarde foi mais suportável. Imediatamente após o almoço, chegou um trabalho delicado e difícil que levaria várias horas e exigia deixar tudo o resto de lado. Consistia em falsificar uma série de relatórios de produção de dois anos atrás, de modo a lançar o descrédito sobre um membro proeminente do Partido Interno, que agora estava sendo escrutinado. Este era o tipo de coisa em que Winston era bom, e por mais de duas horas ele conseguiu tirar a garota de sua mente por completo. Então a memória de seu rosto voltou e, com ela, um desejo irado e intolerável de ficar sozinho. Até que ele pudesse ficar sozinho, era impossível pensar neste novo acontecimento. Esta noite era uma de suas noites no Centro Comunitário. Ele comeu outra refeição de mau gosto na cantina, correu para o Centro, participou da solene tolice de um “grupo de discussão”, jogou duas partidas de tênis de mesa, engoliu vários copos de gin e sentou-se por meia hora através de uma palestra intitulada “Socing em relação ao xadrez”. Sua alma se encheu de tédio, mas pela primeira vez em muito tempo ele não sentia nenhum impulso para se esquivar de sua noite no Centro. Ao ver as palavras “Eu te amo”, havia brotado nele o desejo de permanecer vivo, e a ideia de correr pequenos riscos de repente pareceu estúpida. Não foi antes das vinte e três horas, quando ele estava em casa e na cama – na escuridão, onde você estava a salvo até mesmo da teletela se você se mantivesse em silêncio – que ele foi capaz de pensar continuamente.
     Era um problema físico que tinha que ser resolvi do: como entrar em contato com a garota e marcar um encontro. Ele não considerou mais a possibilidade de que ela pudesse estar armando algum tipo de armadilha para ele. Ele sabia que não era assim, por causa da agitação inconfundível dela quando ela lhe entregou o bilhete. Obviamente, ela também tinha ficado assustada, como deveria estar. Nem mesmo a ideia de recusar seus avanços lhe passou pela cabeça. Apenas cinco noites atrás ele havia contemplado esmagar o crânio dela com um paralelepípedo, mas isso não tinha importância. Ele pensou no corpo nu e jovem dela, como ele havia visto em seu sonho. Ele a havia imaginado uma tola como todas as outras, sua cabeça recheada de mentiras e ódio, sua barriga cheia de gelo. Uma espécie de febre o agarrou ao pensar que ele poderia perdê-la, o corpo jovem e branco poderia fugir dele! O que ele temia mais do que qualquer outra coisa era que ela simplesmente mudasse de ideia se ele não entrasse em contato com ela logo. Mas a dificuldade física de se encontrar era enorme. Era como tentar fazer um movimento no xadrez quando você já estava em mate. Seja qual for a forma com que você se virasse, a teletela o enfrentaria. Na verdade, todas as formas possíveis de comunicação com ela haviam lhe ocorrido em cinco minutos após a leitura da nota; mas agora, com tempo para pensar, ele passou por cada uma delas, como se estivesse colocando uma fileira de instrumentos sobre uma mesa.
     Obviamente, o tipo de encontro que havia acontecido esta manhã não podia ser repetido. Se ela trabalhasse no Departamento de Registros, isso seria relativamente simples, mas ele tinha apenas uma ideia muito vaga do paradeiro do Departamento de Ficção no prédio, e não tinha nenhum pretexto para ir até lá. Se ele soubesse onde ela morava, e a que horas ela saía do trabalho, ele poderia encontrá-la em algum lugar no caminho de casa; mas tentar segui-la não era seguro, porque isso significaria vagabundear fora do Ministério, o que era fácil de se notar. Quanto ao envio de uma carta através dos correios, estava fora de questão. Por conta de um procedimento que nem se quer era secreto, todas as cartas eram abertas em trânsito. Na verdade, poucas pessoas já tinham escrito cartas. Para as mensagens que ocasionalmente era necessário enviar, havia cartões postais impressos com longas listas de frases, e você eliminava as que não se aplicavam. Em qualquer caso, ele não sabia o nome da garota, muito menos o seu endereço. Finalmente ele decidiu que o lugar mais seguro era a cantina. Se ele pudesse encontrá-la em uma mesa sozinha, em algum lugar no meio do salão, não muito perto das teletelas, e com um burburinho suficiente de conversa por todos os lados – se estas condições durassem, digamos, trinta segundos, seria possível trocar algumas palavras.
     Durante uma semana depois disso, a vida foi como um sonho inquieto. No dia seguinte, ela não apareceu na cantina até que ele saísse depois do toque da campainha. Presumivelmente, ela havia sido colocada em um turno posterior. Eles passaram um pelo outro sem se olhar. No dia seguinte, ela estava na cantina no horário habitual, mas com outras três meninas e sentada quase na frente de uma teletela. Então, durante três dias terríveis, ela não apareceu. Toda sua mente e corpo pareciam estar aflitos com uma sensibilidade insuportável, uma espécie de transparência, que fazia de cada movimento, cada som, cada contato, cada palavra que ele tinha que falar ou ouvir, uma agonia. Mesmo durante o sono, ele não podia escapar completamente de sua imagem. Ele não tocou o diário durante aqueles dias. Se havia algum alívio, era seu trabalho, no qual às vezes ele era capaz de se esquecer de tudo por até dez minutos. Ele não tinha a menor ideia do que havia acontecido com ela. Não havia nenhuma indagação que ele pudesse fazer. Ela poderia ter sido vaporizada, poderia ter cometido suicídio, poderia ter sido transferi da para a outra ponta da Oceania; ou pior, e mais provável, ela poderia simplesmente ter mudado de ideia e decidido evitá-lo.

continua na página 234...
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Parte1:
Parte 2.1a (Era o meio da manhã) /                          
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.