quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 4 (I. O Padre Fierapont)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


SEGUNDA PARTE
LIVRO IV
OS TUMULTOS
I
O PADRE FIERAPONT
 
     Aliócha despertou antes do amanhecer. O stáriets já não dormia e se sentia bastante fraco, mas quis levantar-se e sentar se numa cadeira. Estava em plena consciência. Seu rosto, embora esgotado, refletia uma alegria serena, o olhar alegre, afável, atraía.

— Talvez não veja o fim deste dia — disse ele a Aliócha.

     Quis logo confessar-se e comungar. Seu diretor habitual era o Padre Paísi. Depois administraram-lhe a extrema-unção. Os religiosos reuniram-se; a cela, pouco a pouco, encheu-se; o dia amanhecera; vieram também monges do mosteiro. Depois do ofício, o stáriets quis despedir-se de todos e beijou a todos. Tendo em vista a exiguidade da cela, os primeiros chegados cediam lugar aos outros. Aliócha mantinha-se junto do stáriets, de novo sentado em sua cadeira. Falava e ensinava de acordo com suas forças; sua voz, embora fraca, era ainda bastante nítida. "Desde tantos anos vos instruo pela palavra, que se tornou isso para mim um hábito tal que o silêncio me seria quase mais penoso, caros padres e irmãos, mesmo agora, em meu estado de fraqueza", disse ele, brincando, olhando com ar enternecido aqueles que se acotovelavam em redor dele. Aliócha lembrou-se depois de algumas de suas palavras. Mas, muito embora sua voz fosse distinta e suficientemente firme, sua fala era bastante desconexa. Falou muito, como se tivesse querido, naquela hora suprema, exprimir tudo quanto não pudera dizer durante sua vida, não com o único fim de instruir, mas para fazer todos partilharem de sua alegria e de seu êxtase, expandir por uma derradeira vez seu coração...

— Amai-vos uns aos outros, meus padres — ensinava o stáriets (segundo as recordações de Aliócha). — Amai ò povo cristão. Não somos mais santos do que os leigos, por ter vindo encerrar-nos dentro destas paredes; pelo contrário, todos aqueles que estão aqui têm reconhecido, pelo simples fato de sua presença, ser piores do que os leigos e do que todo mundo... E quanto mais o religioso viver em seu retiro, tanto mais deverá ter consciência disso. De outro modo não valeria a pena vir para cá. Quando compreender que não somente é pior que todos os leigos, mas culpado de tudo para com todos, de todos os pecados coletivos e individuais, então somente o fim de nossa união será atingido. Porque, sabei, meus irmãos, que cada um de nós é certamente culpado aqui na terra de tudo para com todos, não somente pela falta coletiva da humanidade, mas de cada um individualmente, por todos os outros na terra inteira. Esta consciência de nossa culpabilidade é o coroamento da carreira religiosa, bem como de cada homem na terra. Porque os religiosos não são homens à parte, mas somente tais como deveriam ser todas as pessoas neste mundo. Então somente vosso coração será penetrado dum amor infinito, universal, jamais saciado. Então cada um de vós será capaz de ganhar o mundo inteiro pelo amor e de lavar-lhe os pecados com suas lágrimas... Que cada qual entre em si mesmo e se confesse sem cessar. Não temais vosso pecado, mesmo se tiverdes consciência dele, contanto que vos arrependais, mas não imponhais condições a Deus. Eu vo-lo repito, não vos orgulheis, nem diante dos pequenos nem diante dos grandes. Não odieis aqueles que vos repelem, vos desonram, aqueles que vos insultam e vos caluniam. Não odieis os ateus, os professores do mal, os materialistas, mesmo os maus dentre eles, porque muitos são bons, sobretudo em nossa época. Lembrai-vos deles em vossas orações, dizei: "Salvai, Senhor, aqueles por quem ninguém reza, salvai aqueles que não querem rezar a vós". E acrescentai: "Não é por orgulho que vos dirijo esta prece, Senhor, porque sou eu mesmo vil entre todos... " Amai o povo cristão, não abandoneis vosso rebanho aos estrangeiros, porque, se adormecerdes na cupidez, virão de todos os países para arrebatar vosso rebanho. Não vos canseis de explicar o Evangelho ao povo... Não vos entregueis à avareza... Não vos ligueis ao ouro e à prata... Tende fé, mantende firme e alto o estandarte... 

     O stâriets exprimia-se, aliás, duma maneira mais desconexa do que foi acima exposta e do que Aliócha a escreveu depois. Por vezes parava completamente, como para reunir suas forças, ofegava, mas estava como em êxtase. Escutavam no com enternecimento, muito embora muitos se espantassem com suas palavras e as achassem obscuras...
     Posteriormente, todos se recordaram delas. Quando Aliócha deixou a cela por um instante, ficou impressionado com a agitação geral e com a expectativa da comunidade que se comprimia na cela e em redor. Aquela expectativa era em alguns quase ansiosa, em outros, solene. Todos aguardavam alguma coisa de grande imediatamente após o desenlace do stâriets. Muito embora em certo sentido fosse essa expectativa quase frívola, os monges mais severos estão a ela sujeitos. O rosto mais sério era o do Padre Paísi. Aliócha só se ausentara porque um monge o chamava de parte de Rakítin, que viera da cidade com uma carta da Senhora Khokhlakova para ele. Comunicava curiosa notícia chegada muito a propósito. Na véspera, entre as mulheres do povo, que eram crentes e tinham vindo prestar homenagem ao stáriets e receber sua bênção, encontrava-se uma velha da cidade, Prókhorovna, viúva dum suboficial. Perguntara ao stâriets se se podia mencionar como defunto, na oração pelos mortos, seu filho Vássienhka, que partira para seu serviço militar em Irkutsk, na Sibéria, do qual estava ela sem notícias havia um ano. Ele lhe havia severamente proibido, tratando tal prática de análoga à feitiçaria. Mas, indulgente para com a ignorância dela, acrescentara uma consolação, "como se visse no livro do futuro" (segundo a expressão da Senhora Khokhlakova); o filho dela, Vássia, estava certamente vivo, chegaria em breve ou lhe escreveria, tendo ela apenas de ficar esperando em casa. E então, acrescentava a Senhora Khokhlakova, entusiasmada, "a profecia cumprira-se ao pé da letra e mesmo além".
     Assim que a boa mulher regressara à sua casa, entregaram-lhe uma carta da Sibéria, que a esperava. Mais ainda, nessa carta, escrita de. Ekatierinburg, Vássia informava sua mãe de que voltava para a Rússia em companhia dum funcionário, e que, duas ou três semanas após o recebimento daquela carta, esperava beijar sua mãe.
     A Senhora Khokhlakova rogava insistentemente a Aliócha que comunicasse o novo milagre daquela predição ao padre abade e a toda a comunidade. "É importante que todos o saibam!", exclamava ela ao fim de sua carta, escrita à pressa: a emoção refletia-se nela em cada linha. Mas Aliócha nada tinha de comunicar à comunidade, todos já o sabiam. Ao enviar o monge à sua procura, encarregara-o Rakítin, além disso, de informar respeitosamente sua reverência, o Padre Paísi, de que tinha de comunicar- lhe um caso sem demora, visto sua importância, e rogava-lhe humildemente que lhe perdoasse a ousadia. Tendo o monge transmitido em primeiro lugar ao Padre Paísi o pedido de Rakítin, não restava a Aliócha, depois de ter lido a carta, senão comunicá-la ao padre, a título de documentário. E eis que aquele homem rude, desconfiado, lendo, de sobrancelhas contraídas, a notícia do "milagre", não foi inteiramente senhor de seu sentimento íntimo. Seus olhos brilharam, mostrou um sorriso grave, penetrante.

— Veremos bem mais outros — deixou ele escapar.
— Veremos bem mais outros! — repetiram os monges; mas o Padre Paísi, franzindo de novo as sobrancelhas, rogou a todos que não falassem a ninguém no momento, "até que isto se confirme, porque há muita frivolidade nas notícias do mundo, e aquele caso podia ter ocorrido duma maneira natural", concluiu ele, prudentemente, como para desencargo de consciência, mas quase sem acrescentar fé ele próprio à sua reserva, o que observaram muito bem seus ouvintes.

     Na mesma hora, naturalmente, o "milagre" era conhecido de todo o mosteiro, e até mesmo de muitos leigos, vindos para assistir à missa. O mais impressionado parecia ser o monge chegado de véspera de São Silvestre, pequeno mosteiro de Obdorsk, no norte longínquo, o que prestara homenagem ao stáriets ao lado da Senhora Khokhlakova e lhe perguntara com ar penetrante, designando a filha daquela senhora: "Como ousa fazer tais coisas?" Estava agora presa de certa perplexidade e não sabia quase mais em quem crer.
     Na véspera, à noite, fizera visita ao Padre Fierapont em sua cela particular, por trás do apiário, e trouxera dessa entrevista um impressão lúgubre. O Padre Fierapont era aquele velho monge, grande jejuador e observador do silêncio, que já citamos como adversário do stáriets Zósima e sobretudo do "starietismo", que considerava uma novidade nociva e frívola. Era um adversário bastante temível, se bem que, taciturno, não falasse quase com ninguém. Era sobretudo perigoso por causa da sincera simpatia que lhe testemunhava a maioria da comunidade; muitos leigos o veneravam como um grande justo e um asceta, vendo nele ao mesmo tempo um verdadeiro insensato. Mas sua loucura cativava.
     O Padre Fierapont não ia nunca à casa do stáriets Zósima. Se bem que vivesse no eremitério, não lhe impunham demasiado a regra, porque tinha ele um proceder de inocente. Tinha 75 anos, se não mais, e morava por trás do apiário, no ângulo de um muro, numa cela de madeira, caindo quase em ruínas, instalada havia bastante tempo, ainda no último século, por outro grande jejuador e taciturno, o Padre Iona, que vivera até 105 anos e cujas façanhas constituíam ainda o objeto de narrativas bastante curiosas, no mosteiro e nos arredores.
     O Padre Fierapont obtivera por fim permissão de instalar-se naquela ceia isolada, uma simples isbá, mas que se assemelhava bastante a uma capela, porque continha grande quantidade de ícones com lâmpadas a ar- derem perpetuamente; provinham de donativos e o Padre Fierapont parecia encarregado de guardá-las e acendê-las. Comia, pelo que se contava (e era verdade), somente 2 libras de pão em três dias, não mais; era o guarda do apiário, que morava no local, quem lhe trazia, mas trocava raramente uma palavra com aquele homem. Aquelas 4 libras, com o pão bento do domingo, enviado regularmente ao inocente pelo padre abade, constituíam sua alimentação da semana. Renovava se cada dia a água de seu jarro. Assistia raramente ao ofício. Seus admiradores encontravam-no por vezes dias inteiros em oração, sempre ajoelhado e sem olhar em torno de si. Se entrava em conversa com eles, mostrava-se lacônico, brusco, estranho e quase sempre grosseiro. Havia, no entanto, casos muito raros em que conversava com os visitantes, mas a maior parte das vezes contentava-se com pronunciar uma palavra estranha que intrigava sempre seu interlocutor; em seguida, a despeito de todos os rogos, não dava jamais uma palavra de explicação. Jamais fora ordenado padre.
     Circulava um boato estranho, na verdade, entre os mais ignorantes, segundo o qual o Padre Fierapont estava em relação com os espíritos celestes e se entretinha somente com eles, o que explicava seu silêncio com as pessoas. O monge de Obdorsk, que entrara no apiário depois da indicação do guarda, monge igualmente sombrio e taciturno, dirigiu-se para o ângulo em que se erguia a cela do Padre Fierapont. "Talvez queira ele falar-te pela tua qualidade de estranho, talvez também nada consigas dele", prevenira- o o guarda. O monge aproximou-se, como o contou mais tarde, com um grande medo. Já se fazia tarde. O Padre Fierapont estava sentado num banquinho, diante de sua cela. Acima de sua cabeça rumorejava levemente um velho olmo gigantesco. Caía o frescor da noite. O monge prosternou-se diante do recluso e pediu-lhe a bênção.

— Queres tu, monge, que também eu me prosterne diante de ti? — proferiu o Padre Fierapont. — Levanta-te.

     O monge levantou-se.

— Abençoante e abençoado, senta-te ali. Donde vens?

     O que impressionou mais o pobre mongezinho foi que o Padre Fierapont, a despeito de seus jejuns prolongados e de sua idade avançada, tinha ainda o ar de ancião vigoroso, de elevada estatura, mantendo-se ereto, o rosto fresco, se bem que magro, mas sadio. Tinha certamente conservado uma força notável e era de constituição atlética. Malgrado sua avançada idade, seus cabelos, outrora negros e espessos, bem como sua barba, não estavam todos grisalhos. Tinha grandes olhos cinzentos, luminosos, mas bastante salientes, o que chamava a atenção. Falava acentuando fortemente a letra "o". Seu hábito consistia num longo gabão avermelhado, de pano grosseiro, como para os prisioneiros, com uma corda à guisa de cinturão. O pescoço e o peito estavam nus. Uma camisa de pano muito grosso, quase enegrecida, que ele usava durante meses, aparecia sob o gabão. Dizia-se que carregava consigo correntes de 35 libras. Estava calçado com velhos sapatos quase desfeitos.

— Acabo de chegar do pequeno mosteiro de Obdorsk, de São Silvestre — respondeu humildemente o visitante, observando o asceta com seus olhos vivos e curiosos, mas um pouco inquietos.
— Estive no teu São Silvestre. Vivi ali. Passa ele bem?

     O monge perturbou-se.

— Vós sois gente de poucas luzes! Que jejum observais?
— Nossa mesa é regulada segundo o antigo uso monacal. Durante a Quaresma, nas segundas, quartas e sextas, não se servem alimentos. Nas terças e quintas, dá-se à comunidade pão branco, uma tisana com mel, amoras silvestres ou couves salgadas, e farinha de aveia. No sábado, sopa de couve, aletria com ervilhas, trigo mourisco com azeite de cânhamo. No domingo, acrescentam se à sopa peixe seco e trigo mourisco. Na Semana Santa, da segunda ao sábado à noite, pão, água, e somente legumes não cozidos, em quantidade moderada; ainda assim não se deve comer todos os dias, mas conformar-se com as instruções dadas para a primeira semana da Quaresma. Na sexta-feira santa, jejum completo; no sábado, até as 3 horas da tarde, quando se pode tomar um pouco de pão e de água, e beber um copo de vinho. Na quinta-feira santa, comemos alimentos cozidos sem manteiga, bebemos vinho e observamos o uso de alimentos secos. Porque já o concilio de Laodicéia se exprime assim a respeito da quinta-feira santa: "Não convém romper o jejum na quinta-feira da última semana e desonrar assim a Quaresma inteira". Eis o que se passa entre nós. Mas que é isto em comparação convosco, eminente padre —- acrescentou o monge, que havia retomado coragem —, que o ano inteiro, mesmo na Páscoa, só vos nutris de pão e água? O pão que consumimos em dois dias basta-vos para a semana inteira. Vossa abstinência é verdadeiramente maravilhosa.
— E os cogumelos? — perguntou de súbito o Padre Fierapont.
— Os cogumelos? — repetiu o monge com espanto. — Justamente. Passo sem o pão deles, não tenho nenhuma necessidade dele, mesmo na floresta; nutro-me de cogumelos ou de bagas, eles não podem passar sem pão, estão pois ligados ao demônio. Agora, pretendem os pagãos que é inútil jejuar tanto. Tal é o raciocínio deles, arrogante e ímpio.
— Ai, sim! — suspirou o monge. 
— Viste os diabos em casa deles? — perguntou o Padre Fierapont.
— Em casa de quem? — informou se timidamente o monge. 
— No ano passado, fui à casa do padre abade, em Pentecostes. Depois não voltei mais lá. Vi um diabo escondido no peito de um monge, sob a batina, aparecendo somente os chifres; um segundo tinha um no seu bolso, espiando, de olhos vivos. Eu lhe fazia medo; um terceiro dava asilo a um diabinho nas suas entranhas impuras, enfim um outro carregava um, suspenso a seu pescoço, agarrado, sem o ver.
— Vós... víeis? — perguntou o monge.
— Digo-te que vejo, vejo através. Ao deixar o padre abade, avistei um diabo que se escondia de mim atrás da porta, era de bela estatura, 1 archin e meio ou mais, a cauda espessa, fulva, comprida; a ponta ficou presa na fenda, não hesitei e fechei violentamente a porta, apertando o rabo dele. O meu diabo pôs-se a gemer, a debater-se. Fiz sobre ele três vezes o sinal da-cruz. Rebentou ali mesmo como uma aranha esmagada. Deve ter apodrecido num canto, fede, mas eles não o veem, nem o sentem. Há um ano que não vou mais lá. A ti somente, como estranho, revelo isto. 
— Vossas palavras são terríveis! Dizei me, eminente e bem-aventurado padre, é verdade o que relatam de vós nas terras mais longínquas, que estaríeis em relação permanente com o Espírito Santo?
— Ele desce por vezes sobre mim.
— Sob que forma?
— A forma dum pássaro. 
— O Espírito Santo sob a forma de uma pomba?
— Isto é o Espírito Santo, sim, mas falo do Santo Espírito, que é diferente. Pode descer sob a forma dum outro pássaro, uma andorinha ou um pintassilgo, por vezes um melharuco.
— Como podeis reconhecê-lo? 
— Ele fala. 
— Como fala ele, em que língua?
— Na língua humana. 
— E que vos diz? 
— Hoje, anunciou-me a visita de um imbecil que me faria perguntas ociosas. Monge, és bem curioso. 
— Vossas palavras são temíveis, bem-aventurado e venerando padre. — o monge abanava a cabeça, mas a desconfiança aparecia nos seus olhos medrosos. 
— Vês aquela árvore? — perguntou, após uma pausa, o Padre Fierapont. 
— Vejo-a, bem-aventurado padre. 
— Para ti, é um olmo, mas para mim, outro quadro. 
— Qual? — e o monge esperou ansiosamente. 
— Vês aqueles dois ramos? De noite, por vezes, são os braços do Cristo que se estendem para mim e me procuram, vejo-o claramente e estremeço. Oh! é terrível! 
— Por que terrível, se é o próprio Cristo?
— Ele me agarrará e me levará.
— Vivo? 
— Não sabes então nada da glória de Elias? Ele vos agarra e vos leva...  

     Depois dessa conversa, o monge de Obdorsk regressou à cela que lhe haviam designado; estava bastante perplexo, mas seu coração o inclinava mais para o Padre Fierapont que para o Padre Zósima. Nosso monge estimava mais que tudo o jejum e não lhe causava surpresa que um grande jejuador como o Padre Fierapont visse maravilhas. Suas palavras tinham ar de absurdas, evidentemente, mas Deus sabia o que elas significavam e muitas vezes os inocentes, por amor do Cristo, falam e agem duma maneira ainda mais estranha. Sentia prazer em crer sinceramente no diabo e no seu rabo preso, não somente no sentido alegórico, mas literal. Além do mais, desde antes de sua chegada ao mosteiro, tivera grande prevenção contra o "starietismo", que considerava segundo muitos outros como uma inovação nociva. Durante o dia passado no mosteiro, pudera notar o murmúrio secreto de certos grupos frívolos, opostos àquela instituição. Além disso, era uma natureza insinuante e sutil, testemunhando por tudo grande curiosidade.
     Assim, a notícia do novo "milagre" realizado pelo stáriets Zósima mergulhou-o numa profunda perplexidade. Mais tarde, Aliócha lembrou-se, entre os religiosos que se comprimiam em torno do stáriets e de sua cela, da frequente aparição daquele hóspede curioso que se intrometia em toda parte, prestando ouvidos e interrogando todo mundo. Não lhe deu atenção então... Tinha outra grande coisa na cabeça: o stáriets, que voltara a deitar-se, sentindo lassitude, lembrou-se dele ao despertar e reclamou sua presença. Aliócha acorreu. Em redor do moribundo não havia então senão o Padre Paísi, o Padre Iósif e o noviço Porfírio. O velho, fixando Aliócha com seus olhos fatigados, perguntou-lhe:

— Será que os teus te esperam, meu filho?

     Aliócha ficou embaraçado.

— Não têm eles necessidade de ti? Prometeste a alguém ir vê-lo hoje? 
— Prometi a meu pai... a meus irmãos... a outras pessoas também... 
— Estás vendo? Vai imediatamente e não te aflijas. Fica sabendo, não morrerei sem ter pronunciado diante de ti minhas supremas palavras aqui na terra. É a ti que as legarei, meu caro filho, porque sei que me amas. E agora, vai cumprir tua promessa. 

     Aliócha submeteu-se logo, se bem que lhe custasse afastar-se. Mas a promessa de ouvir as derradeiras palavras de seu mestre, como um legado pessoal, arrebatava-o de alegria. Apressava-se, a fim de poder voltar mais depressa, depois de ter terminado tudo. Justamente, o Padre Paísi lhe dirigiu, antes de sua partida, palavras que o impressionaram profundamente. Foi depois de haverem deixado a cela.

— Lembra-te sempre, rapaz — começou o padre, sem preâmbulos —, de que a ciência do mundo, tendo-se desenvolvido neste século sobretudo, dissecou nossos livros santos e, após uma análise impiedosa, nada deixou subsistir. Mas, dissecando as partes, perderam de vista o conjunto, e sua cegueira é de causar espanto. O conjunto se ergue diante dos olhos deles, tão inabalável quanto antes, e o inferno não prevalecerá contra ele. Será que o Evangelho não tem dezenove séculos de existência, não vive ainda agora nas almas dos indivíduos e nos movimentos das massas populares? Subsiste mesmo, sempre inabalável, nas almas dos ateus destruidores de toda crença! Porque os que renegaram o cristianismo e se revoltam contra ele, esses mesmos permaneceram no íntimo à imagem do Cristo, porque nem sua sabedoria nem sua paixão puderam criar outro modelo para o homem, superior ao indicado outrora pelo Cristo. As tentativas neste sentido não passaram de monstruosidades. Lembra-te disto sobretudo, rapaz, pois teu stariets moribundo te envia para o mundo. Talvez lembrando-te deste grande dia, não esqueças minhas palavras, dirigidas para teu bem, porque és jovem, as tentações do mundo são grandes e não tens força para suportá-las. E agora vai, pobre órfão. 

     Ao terminar, o Padre Paísi deu-lhe sua benção. Refletindo nessas palavras imprevistas, compreendeu Aliócha que encontrara novo amigo e um guia cheio de amor naquele monge até então rigoroso e rude para com ele, como se o stariets Zósima lho houvesse legado ao morrer. "Talvez se hajam entendido entre si", pensou Aliócha. A dissertação que acabara de ouvir atestava somente o zelo do Padre Paísi: apressava-se em armar aquele jovem espírito para a luta contra as tentações e em preservar aquela jovem alma que lhe legavam, elevando em torno dela o baluarte mais sólido que pôde imaginar.

continua na página 243...
_____________________
___________________
_______________

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (XI - Queria conversar em particular)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
XI

     A condessa estava tão cansada das visitas que deu ordem de não receberem mais ninguém, e o porteiro foi somente encarregado de convidar para o jantar os que viessem trazer seus cumprimentos.

     Queria conversar em particular com sua amiga de infância, a princesa Ana Mikhailovna, que ainda não havia visto desde sua volta de São Petersburgo. Ana Mikhailovna, com a fisionomia lacrimosa e sorridente, aproximou-se da poltrona da condessa.

— Contigo serei absolutamente franca — disse Ana Mikhailovna. — Já nos restam poucos velhos amigos, e é por isso que aprecio tanto tua amizade. — Olhou Vera e interrompeu-se.

     A condessa apertou a mão de sua amiga.

— Vera — disse ela à filha, que parecia não ser muito querida —, tu não tens noção das coisas. Não sentes que estás sobrando aqui? Vai procurar tuas irmãs ou…

     A bela Vera, sem mostrar-se ofendida, sorriu desdenhosamente.

— Se tivesses me dito antes, mamãe, já teria saído.

     Ela se dirigiu para seu quarto. Mas, atravessando uma saleta, percebeu, perto das janelas simétricas, dois pares sentados. Parou e sorriu com desprezo. Sônia estava sentada perto de Nicolau, que copiava para ela os primeiros versos que escrevera. Boris e Natacha, à outra janela, falavam baixinho e calaram-se quando Vera entrou. Sônia e Natacha olharam-na com uma expressão culpada, que denunciava seus sentimentos, e feliz.
     Era alegre e tocante, ao mesmo tempo, ver essas duas garotinhas apaixonadas, mas a cena não provocou nenhum sentimento agradável em Vera.

— Quantas vezes já pedi — disse ela — para não mexerem no que é meu. Vocês têm seu quarto.

     Pegou o tinteiro que Nicolau estava usando.

— Um momento, um momento — pediu ele, molhando a pena.
— Vocês não têm a menor compostura — continuou Vera. — Ainda há pouco entraram na sala de tal jeito que todo mundo ficou constrangido. — Como tudo que ela dizia era perfeitamente razoável, ninguém lhe respondeu e os quatro se olharam entre si. Vera parou no centro do cômodo com o tinteiro na mão. — Nessa idade, que segredos pode haver entre Boris e Natacha e entre vocês dois! Só bobagens, é ridículo.
— Mas o que te importa isso, Vera? — disse Natacha em voz doce. Evidentemente, nesse dia estava mais bem-disposta com todos e mais meiga que de costume. 
— Bobagens — replicou Vera. — Fico envergonhada por vocês. Segredos? 
— Cada um tem os seus. Nós te deixamos quieta com Berg — respondeu Natacha, exaltando-se. 
— Vocês me deixam em paz porque não podem censurar as minhas ações. Já tu, vou dizer a mamãe como te comportas com Boris. 
— Natália Ilinichna porta-se muito bem comigo — interveio Boris. — Não tenho por que reclamar. 
— Deixe, Boris, você é muito diplomata… (a palavra diplomata era frequentemente empregada pelas crianças num sentido peculiar que elas lhe davam). É insuportável essa sua mania de me provocar sempre — disse Natacha com a voz trêmula de indignação. — Tu nunca compreendes nada, porque nunca amaste ninguém — continuou dirigindo-se a Vera. — Não tens sentimento, não passas de uma Madame de Genlis (apelido considerado muito ofensivo que Nicolau havia posto em Vera) e teu maior prazer é incomodar os outros. Mostre-se para Berg quanto quiseres — concluiu com vivacidade. 
— Sim, eu! Mas não ando correndo atrás de um rapaz na frente das visitas… 
— Está bem! Já conseguiste o que querias — interveio Nicolau. — Já disseste uma porção de coisas desagradáveis e já incomodaste todo mundo. Vamos para o quarto das crianças. — E os quatro saíram como um bando de passarinhos assustados. 
— Eu que ouvi uma porção de desaforos e não respondi nada — concluiu Vera. 
— Madame de Genlis, Madame de Genlis! — gritaram, rindo atrás da porta. 

     A linda Vera, que sempre causava tão má impressão, sorria sem preocupar-se com o que ouvia. Aproximou-se do espelho e arrumou a echarpe e o cabelo. Contemplando o lindo rosto, ficou sensivelmente mais fria e mais calma.
     Na sala a conversação continuava.

— Ah, chère! — disse a condessa. — Na minha vida também, nem tudo é cor-de-rosa. Então eu não sei que no pé em que vamos nossa fortuna não irá longe? E tudo isso devido ao clube e à bondade dele. E quando estamos no campo, pensas que descansamos? Os teatros, as caçadas e Deus sabe o que mais. Mas não falemos de mim. Fico sempre admirada contigo, Annette, viajando sozinha, na tua idade, de Moscou para Petersburgo, procurando gente do alto escalão, ministros e conseguindo tudo que pedes. Francamente, fico admirada, e não compreendo como consegues tudo com essa gente! 
— Ah, minha amiga! — respondeu a princesa Mikhailovna. — Que Deus te poupe saber o que é ser viúva, sem nenhum apoio, amando um filho até a adoração. Aprende-se tudo — continuou com certo orgulho. — Meu processo ensinou-me muita coisa. Se preciso ver algum peixe grande, escrevo um bilhete: “A princesa fulana deseja falar com sicrano”, e volto duas, três e mesmo quatro vezes, até conseguir o que pretendo. Pouco importa o que pensem de mim. 
— Mas a quem pediste que se interessasse por Borenka? — perguntou a condessa. — Ele já é oficial da guarda, enquanto Nicolau é apenas aspirante; e nós não sabemos que passos dar. Quem foi teu padrinho? 
— O príncipe Vassili. Foi muito gentil. Sem se mostrar rogado, fez o pedido ao imperador — disse com entusiasmo a princesa Ana Mikhailovna, esquecendo completamente a humilhação sofrida. 
— E… está muito envelhecido? — perguntou a condessa. — Não o vejo desde o espetáculo dos Rumiantzev. Creio que não se lembra mais de mim, mas àquela época fazia-me a corte — recordou, sorrindo. 
— Sempre o mesmo — respondeu Ana Mikhailovna. — Amável, encantador. As grandezas não lhe viraram a cabeça. “Lamento não poder fazer mais, cara princesa, ordene”, me disse. E um homem direito, um bom parente. Tu sabes como adoro meu filho. Não sei o que não faria pela sua felicidade. Mas meus negócios vão mal — continuou com tristeza, baixando a voz. — Tão mal que me encontro na mais aflitiva das situações. Essa demanda infeliz come tudo que tenho e não vai para a frente. Imagina, eu não tenho dez kopeks, ao pé da letra, e não sei como pagar o uniforme de Boris. — Tirou o lenço e chorou. — Preciso de quinhentos rublos, e só tenho uma nota de vinte e cinco. Estou nessa situação… Minha única esperança é o conde Kiril Vladimirovitch Bezukhov. Se não quiser amparar o afilhado, ele é padrinho de Boris, e dar-lhe qualquer coisa com que possa manter-se, todo o meu esforço terá sido em vão. Não poderei comprar o uniforme.

   A condessa chorava e, em silêncio, refletia.

— Penso muitas vezes, talvez seja pecado — disse a princesa —, por que vive um homem como o príncipe Kiril Vladimirovitch Bezukhov, com essa imensa fortuna… sozinho… Para ele a vida é um fardo, enquanto que Boris apenas começa a viver. 
— É provável que ele deixe alguma coisa a Boris — disse a condessa. 
— Só Deus o sabe, chère amie; esses nobres ricos são tão egoístas. Em todo caso irei vê-lo com Boris e lhe explicarei francamente de que se trata. Pensem de mim o que quiserem, para mim é indiferente quando o futuro de meu filho está em causa. — A princesa levantou-se. — Agora são duas horas e o jantar é às quatro, terei tempo de estar de volta.

     E parecendo uma dama ocupadíssima de São Petersburgo, que sabe aproveitar seu tempo, mandou chamar o filho e dirigiu-se ao vestíbulo.

— Adeus, minha cara — disse à condessa, que a acompanhou até a porta. — Deseja-me sorte — acrescentou em voz baixa para que Boris não ouvisse. 
— Vai à casa do príncipe Kiril Vladimirovitch, ma chère? — perguntou o conde, entrando no vestíbulo. — Se estiver melhor, convide Pierre para jantar conosco. Ele visitou-me e dançou com as crianças. Convide-o sem falta, ma chère. Bem! agora vejamos o que fez Tarass. Disse que nem com conde Orlov houve jantar como este que temos hoje.
ontinua na página.... 27
__________________
Guerra e Paz
Primeira Parte:
XI - Queria conversar em particular /                         
__________________

Leia também:
__________________

Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Hebréa)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

HEBRÉA  
 Fios caimpi et liliuni convalium. 
 Cant. doa Cânticos.

Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos! 
Lirio do valle oriental, brilhante! 
Estrella vesper do pastor errante! 
Ramo de muita a rescender cheirosa!... 

Tu és, ó filha de Israel formosa... 
Tu és, ó linda, seductora Hebréa... 
Pallida rosa da infeliz Judéa 
Sem ter o orvalho, que do ceu deriva!

Porque descoras, quando a tarde esquiva 
Mira-se triste sobre o azul das vagas? 
Serão saudades das infindas plagas, 
Onde a oliveira no Jordão se inclina?  

Sonhas acaso, quando o sol declina, 
A terra santa do oriente immenso? 
E as caravanas no deserto extenso? 
E os pegureiros da palmeira á sombra?!...

Sim, fora bello na relvosa alfombra, 
Juncto da fonte, onde Rachel gemera, 
Viver comtigo qual Jacob vivera 
Guiando escravo teu feliz rebanho...  

Depois nas águas de cheiroso banho 
— Como Suzanna a estremecer de frio — 
Fitár-te, ó flor do Babylonio rio, 
Fítàr-te a medo no salgueiro occulto...

Vem pois!... Comtigo no deserto inculto 
Fugindo ás iras de Saul embora, 
Se Michol fosses, teu David eu fora, 
Vibrando na harpa do propheta o canto...

Não vês?... Do seio me gotteja o pranto 
Qual da torrente do Cedron deserto!... 
Como luctara o patriarcha incerto 
Luctei, meu anjo, mas cahi vencido.

Eu sou o Lothus para o chão pendido, 
Vem ser o orvalho oriental, brilhante! 
Ai! guia o passo ao viajor perdido, 
Estrella vesper do pastor errante!... 

Bahia, 1866. 
_______________

   Espumas Fluctuantes, Edição original: III. 
   Pbl. na "Imprensa Acadêmica" de S. Paulo, n°. 2, de 28 de Maio de 1868, onde vem com o sub-titulo: "a uma Judia"; sem a epigraphe; apenas com uma variante na 7." estância, 3.0 verso que adoptei em vez do verso que o substituiu nas Espumas Fluctuantes, edição original e seguintes:
   David eu fora, se Michol tu foras.
   O verso é perfeito, e de Castro Alves; já não ficará nesta poesia a jaca de uma rima imprópria. 
   A mesma data: "Bahia 1866", repetida na Edição original.
1) Hebréa (titulo). Foi de facto "a uma bella judia", Simy Àmzalack, depois sra. Alberto Henschel, depois ainda sra. Almirante José Carlos de Carvalho, dedicada esta poesia. O Poeta enviara-a com o dístico "á mais bella", travandò-se entre a "definitiva" destinataria e a talvez "intencional", sua formosa irmã Esther, lucta pela posse de um tropheu de tanto valor. Apesar de m'a haver confirmado D. Simy Carvalho esta lendária dedicatória, sua irmã mais moça, D. Mary Mesquita, suppõe que a "Hebréa" foi, como o "Pensamento de Amor", dedicada também á linda irmã de ambas, D. Esther, que era a predilecta de Castro Alves.
   Tobias Barreto ouviu a "Hebréa" cantada em uma das egrejas do Norte do Brasil, mudada a intenção pelos crentes, que se dirigiam á Virgem Maria, também hebréa (Estudos allemães, Recife, 1882, pag. 101, nota). 
2) A data da "Hebréa": "Bahia 1866", foi levia namente contestada, dizendo-se que tal não podia ser, pois nesse anno não estivera Castro Alves na sua terra; seria antes a data exacta "1871" ( !). Em primeiro logar um autographo do Poeta, que me communicou D. Adelaide de Castro Alves Guimarães, traz esta data "Bahia, 1866". Nesse anno de 1866, na Bahia, falleceu o Dr. Antônio José Alves, e seu Filho, que o viera visitar, por gravemente enfermo, assistiu-lhe ao trespasse. Como se não bastasse ha um testemunho; conta Alfredo de Carvalho, referindo palavras de Regueira Costa, o amigo fiel de Castro Alves no Recife: "o mais precioso, porem dos autographos do Poeta, que possuo, diz-me, mostrando-o, é este da lindissima poesia "Hebréa" que elle a principio intitulou "A uma judia" e onde se observa apenas uma variante, comparando-a com a que está nas Espumas Fluctuantes: "Guiando escravo teu gentil rebanho". Esta poesia deu-m'a elle ao voltar da Bahia em 1866, declarando-me havê-la de dicado a uma judia de nome Simy Amzalack (?)" (Castro Alves em Pernambuco, Recife, 1905, p. 27.) Castro Alves não tornou ao Recife depois de 1867 e só podia, ahi, ter dado um dos seus originaes a seu collega Regueira Costa, antes desta data. Outro depoimento: na "Imprensa Acadêmica", citada acima, que publicou a poesia em 1868, vem a data "1866". Finalmente, na Edição original das Espumas Fluctuantes, preparada e publicada por Castro Alves em 1870, essa mesma data de "1866" se repete. Como pois, senão levianamente, e sem uma só prova, attribui-la a 1871?! Assim se faz critica histórica e literária no Brasil...  
continua página 79...
_________________

Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila / O coração / Hebréa /           
_________________

Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
_______________

LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

sábado, 3 de outubro de 2026

Cinema: Jango

Como, quando e por que se derruba um presidente...

Lançamento em 1984

     Vinte anos depois do golpe de 1964, o documentário Jango refaz a trajetória política do presidente João Goulart, deposto nas primeiras horas do dia primeiro de abril daquele ano por uma junta militar. A partir de uma extensa pesquisa de arquivo que incorpora cinejornais da época, fotografias e manchetes de jornais, a obra percorre desde o início da carreira de João Goulart, passando pelos governos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, até a sua morte, doze anos depois de ter deixado o país rumo ao exílio no Uruguai.
     O filme examina a luta ideológica que foi travada durante o governo Jango, onde a máquina de propaganda de setores da direita fez de Cuba, modelo para a esquerda, um pretexto para radicalizar do debate público, vendo em qualquer medida um sinal de comunização. Jango remonta a escalada de tensão de um governo marcado por forte oposição das classes dominantes, que levou a crises sucessivas desde os primeiros instantes após da renúncia de Jânio Quadros. Através de depoimentos e textos em off, o filme relembra fatos decisivos, como o Comício da Central do Brasil, as marchas pedindo sua deposição, a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais, os últimos dias do governo, primeiros instantes após o golpe e as tentativas de resistência ao golpe, avançando até a consolidação do governo Castello Branco.
     Prêmio Especial do Júri, Melhor Filme do Júri Popular e Melhor Trilha Sonora do Festival de Gramado (1984). Prêmio Especial do Júri, Festival de Havana (1984). Festival Internacional Del Nuevo Cine Latinoamericano de Cuba (1984), Prêmio especial do júri. Troféu Margarida de Prata – C.N.B.B. (1984). Bilheteria: 1 milhão de espectadores.





Direção: 
Silvio Tendler

Roteiro: 
Silvio Tendler
Maurício Dias

Elenco:
José Wilker (narrador)
João Goulart (imagens de arquivo)
Juscelino Kubitschek (imagens de arquivo)
Leonel Brizola
Frei Betto
Magalhães Pinto
Tancredo Neves (imagens de arquivo)
Jânio Quadros (imagens de arquivo)

Agradecimentos Especiais: Caetano Veloso / Eduardo Chuahy
Musicas Cedida Pela EMI – ODEON: Menino (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), Trem Mineiro (Wagner Tiso)
Musicas Cedida pela POLYGRAM: Enquanto seu lobo nao vem (Caetano Veloso) – Temas Musicais de Milton Nascimento, Abertura: Tema de Che Guevara (Versão de San Vicente) Tema FInal – Músicos de Milton Nascimento: Paulinho Carvalho/ Neném / Marcos Viana / Paulinho Santos / Tulio Mourao / Sergio Alves – Temas Musicais de Wagner Tiso: Noites Moscou ( tema Original de Soloviev e Sedoy) – O Encouraçado PotemKim ( Tema Original de Dmitri Shostakovich)
Músicos de Wagner Tiso: Ari Sperling / Andre Sperling / Mauro Senize

A edição foi conduzida por Francisco Sérgio Moreira e os produtores associados foram Denise Goulart (filha do ex-presidente) e Hélio Paulo Ferraz.


Coração de Estudante

     A melodia da canção foi originalmente composta por Wagner Tiso em 1983 como um tema instrumental para a trilha sonora do documentário Jango, dirigido por Silvio Tendler, que narra a vida de João Goulart, presidente deposto pelo golpe militar de 1964. 
     Após assistir a algumas cenas do documentário, Milton Nascimento se emocionou com o tema de Tiso e, em um momento raro de sua carreira onde não costumava ser o letrista, decidiu adicionar versos à melodia. A letra, permeada por metáforas de esperança ("há que se cuidar do broto / pra que a vida nos dê flor e fruto") e denúncia ("já podaram seus momentos / desviaram seu destino"), foi inspirada na luta e nas mortes de estudantes durante o regime militar, com menção específica a Edson Luís de Lima Souto, morto em 1968. O título da canção faz referência ao nome de uma flor popular em Minas Gerais, terra natal dos compositores.
     Coração de Estudante foi gravada no álbum Milton Nascimento Ao Vivo e rapidamente se tornou um hino não-oficial do movimento pró-democracia Diretas Já, sendo considerada uma das obras mais emblemáticas da música brasileira na fase final da Ditadura Militar.


Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar

Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu

Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor
Flor e fruto

Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade

Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, planta e sentimento
Folhas, coração, juventude e fé


Milton Nascimento / Show TV Cultura 1983 - Coração De Estudante




_________________

Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:


O Estudante Que a Ditadura Matou a Tiro (E o Brasil Nunca Esqueceu)

Em 28 de março de 1968, um estudante de 18 anos foi morto a tiro por um policial dentro de um restaurante popular no Rio de Janeiro. O nome dele era Edson Luís de Lima Souto — e sua morte mudou o rumo da ditadura militar no Brasil.



Enterro Edson Luís de Lima Souto, 29 de Março de 1968




O assassinato do estudante Edson Luís, pela Ditadura Cívico-Militar de 1964, completou 58 anos.




Marcel Proust - A Prisioneira (Para retornar às realidades)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Para retornar às realidades mais genéricas, foi dessa morte prevista e contudo inesperada de Swann que ouvira o próprio Brichot falar à duquesa de Guermantes, na noite da festa na casa da prima desta. Era a mesma morte cuja estranheza específica e impressionante me afastara na noite em que eu folheara o jornal e a notícia me fizera estacar de súbito, como se traçada em misteriosas linhas inoportunamente intercaladas. Haviam bastado para fazer de um vivo alguém que já não pode responder ao que lhe dizem, um nome, um nome escrito, repentinamente passado do mundo real para o reino do silêncio. Eram elas que me davam ainda neste momento o desejo de conhecer melhor a residência onde outrora haviam morado os Verdurin e onde Swann, que então não era apenas algumas letras impressas no jornal, jantara tantas vezes com Odette. É preciso acrescentar igualmente (e isto me tornou, por muito tempo ainda, mais dolorosa do que qualquer outra a morte de Swann, embora esses motivos não se relacionassem com a estranheza individual de sua morte) que eu não fora visitar Gilberte como lhe havia prometido na casa da princesa de Guermantes; que ele, Swann, não me havia exposto aquela "outra razão" a que aludira nessa noite, para a qual me escolhera como confidente de sua conversa com o príncipe, que mil perguntas me vinham à cabeça (como bolhas que sobem do fundo da água) e que eu desejaria fazer-lhe a respeito dos mais diversos assuntos: sobre Vermeer, sobre o Sr. de Mouchy, sobre ele mesmo, sobre uma tapeçaria de Boucher, sobre Combray, perguntas - é claro de pouca urgência, visto que as adiara dia após dia, mas que me pareciam capitais desde que, estando selados os seus lábios, a resposta já não viria. 
     A morte dos outros é como uma viagem que nós próprios faríamos e durante a qual recordamos, a cem quilômetros de Paris, ter esquecido de duas dúzias de lenços, de deixar uma chave para a cozinheira, de nos despedirmos do tio, de perguntar o nome da cidade onde se acha a fonte antiga que desejamos ver. Enquanto estes esquecimentos que nos acossam e que narramos em voz alta, por pura formalidade, ao amigo que viaja conosco, têm por única resposta o começo da aceitação do banco estofado, o nome da estação gritado pelo chefe do trem só faz afastar-nos ainda mais das realizações dali em diante impossíveis, de maneira que, desistindo de pensar nas coisas irremediavelmente olvidadas, desfazemos o embrulho das comidas e permutamos jornais e revistas.

- Mas não - replicou Brichot-, não era aqui que Swann se encontrava com sua futura mulher; ou, pelo menos, só foi aqui nos últimos tempos, depois do sinistro que destruiu parcialmente a primeira residência da Sra. Verdurin.

     Infelizmente, com receio de ostentar aos olhos de Brichot um luxo que me parecia deslocado, visto que o universitário não tomava parte nele, eu havia descido com muita precipitação do carro, e o cocheiro não compreendera o que lhe recomendara às pressas para ter tempo de me afastar antes que Brichot me avistasse. O resultado foi que o cocheiro veio ao nosso encontro e perguntou se devia voltar para me apanhar; disse-lhe rapidamente que sim e redobrei de respeito para com o universitário, que chegara de ônibus. 

- Ah, o senhor está de carro - disse-me ele em tom grave. - Meu Deus, pelo maior dos acasos; isto não acontece nunca, sempre ando de ônibus ou a pé. Porém, desse modo talvez tenha a grande honra de levá-lo até em casa esta noite, se o senhor consentir em me acompanhar nesse calhambeque; ficaremos um pouco apertados. Mas o senhor é tão bondoso comigo. -

     Ai de mim; propondo-lhe aquilo não me privo de nada, pensei, visto que serei obrigado da mesma forma a regressar por causa de Albertine. Sua presença em minha casa, numa hora em que ninguém podia visitá-la, permitia-me dispor tão livremente de meu tempo como de tarde, quando sabia que ela ia voltar do Trocadero e eu não tinha pressa em revê-la. Mas afinal, também como de tarde, sentia eu que tinha uma mulher e que, voltando para casa, não conheceria a exaltação revigorante da solidão. 

- Aceito de coração - respondeu Brichot. - Na época a que o senhor alude, aos nossos amigos moravam na rua Montalivet, num magnífico andar térreo com água furtada dando para um jardim, menos suntuoso, é claro, e que no entanto prefiro ao palacete da Embaixada de Veneza. -

     Brichot contou-me que naquela noite havia o "cais Conti" (era assim que os fiéis denominavam o salão Verdurin desde que, se mudara para lá), um grande "tra-la-lá" musical, organizado pelo Sr. de Charly, - Acrescentou que, no tempo antigo de que eu falava, o pequeno núcleo era outro; o tom bem diferente, não só porque os fiéis eram muito jovens. Contou-me as farsas de Elstir (o que denominava "puras patacoadas"), como num dia em que este, tendo fingido que roera a corda, viera disfarçado de mordomo extra e, enquanto passava os pratos, dissera graçolas ao ouvido da muito pudica baronesa Putbus vermelha de espanto e raiva; depois, desaparecendo antes do fim do jantar, mandara trazer ao salão uma banheira cheia d'água, de onde, quando saíam todos da mesa, emergira completamente nu soltando palavrões; e também das ceias onde todos apareciam em roupas de papel, desenhadas, cortadas e pintadas por Elstir que eram obras-primas, tendo Brichot certa ocasião vestido a de um grande fidalgo da corte de Carlos VII, com sapatos de bico revirado, e, de outra vez, a de Napoleão, para a qual Elstir havia feito a grande insígnia da Legião de Honra com lacre. Em suma, recordando Brichot o salão de outrora, com seus janelões, seus canteiros baixos comidos pelo sol do meio-dia e que fora preciso substituir, declarava preferi-lo ao de hoje. Por certo, eu bem compreendia que, por "salão", Brichot queria dizer-como o vocábulo "igreja" não indica apenas o edifício religioso mas a comunidade de fiéis não apenas a água-furtada, mas as pessoas que a frequentavam em busca de prazeres especiais que vinham procurar ali e aos quais, em sua memória, tinham dado sua forma aqueles canapés, em que, quando vinham visitar a Sra. Verdurin de tarde, esperavam que ela se aprontasse, enquanto as flores róseas dos castanheiros, lá fora, e os cravos nos vasos sobre a lareira pareciam, num pensamento de graciosa simpatia pelo visitante, traduzido nas risonhas boas-vindas de suas cores rosadas, mirar fixamente a chegada tardia da dona da casa. Mas se este "salão" lhe parecia superior ao atual, era talvez porque o nosso espírito é o velho Proteu, não pode permanecer escravo de nenhuma forma e, mesmo no terreno mundano, desprende-se subitamente de um salão, que chegou lenta e dificilmente a seu ponto de perfeição, para preferir um salão menos brilhante, assim como as fotografias "retocadas" que Odette mandara fazer no fotógrafo Otto, nas quais estava elegantíssima em seu rico vestido de princesa e ondulada por Lenthéric, não agradavam tanto a Swann quanto um cartãozinho postal de Nice, onde, numa capelinha de pano modesto, os cabelos mal toucados saindo para fora de um chapéu de palha bordado de amores-perfeitos e com um laço de veludo negro (pois as mulheres em geral parecem mais velhas quanto mais antigas forem as fotografias), vinte anos mais moça em elegância, parecia uma criadinha vinte anos mais velha. Talvez Brichot também tivesse a satisfação de me gabar aquilo que eu não havia conhecido, em mostrar-me que desfrutara de prazeres que eu não poderia ter. Conseguia-o, aliás, pois, citando apenas os nomes de duas ou três pessoas que já não existiam e a cujo encanto atribuía algo de misterioso por sua maneira de falar delas e dessas intimidades deliciosas, eu indagava a mim mesmo sobre o que ele poderia ter sido, sentia que tudo aquilo que me haviam contado acerca dos Verdurin era excessivamente grosseiro; e até Swann, que eu conhecera, censurava-me por não ter prestado atenção nele, de não lhe ter prestado atenção com suficiente desinteresse, de não o ter escutado bem quando, à espera de que sua mulher regressasse para o almoço, ele me recebia e me mostrava belas coisas, agora que eu sabia que ele era comparável aos melhores conversadores de antigamente.
     No momento de chegar à casa da Sra. Verdurin, avistei o Sr. de Charlus que vinha navegando em direção a nós com seu corpo enorme, arrastando atrás, sem querer, um desses apaches ou mendigos que agora a sua passagem fazia infalivelmente surgir até mesmo dos cantos aparentemente mais desertos, e dos quais aquele monstro poderoso era escoltado bem contra sua vontade, embora a certa distância, como o tubarão pelo peixe piloto, afinal, contrastando de tal modo com o forasteiro altivo do primeiro ano em Balbec, de aspecto severo e com sua afetação de virilidade, que me pareceu descobrir, acompanhado de seu satélite, um astro num período totalmente diverso de sua revolução e que agora se começa a ver em sua fase cheia; ou um enfermo invadido agora pelo mal que, anos antes, não passava de uma leve borbulha que ele facilmente dissimulava e de cuja gravidade ninguém suspeitava. Embora uma operação que Brichot sofrera lhe houvesse restituído um pouquinho da visão que para sempre tinha perdido, não sei se perceberei, o vagabundo que seguia o barão. Aliás, pouco importava, pois desde La Raspelier e apesar da amizade que o universitário tinha por ele, a presença do Sr. de Charlus lhe dava um certo mal-estar. Sem dúvida para cada homem a vida de outrem prolonga na escuridão caminhos de que não se tem qualquer ideia. A mentira, contudo; tantas vezes enganadora, e pasto de todas as conversas, esconde menos perfeitamente um sentimento de inimizade ou de interesse, ou uma visita que desejamos, dar a impressão que não foi feita, ou uma escapada com uma amante de um dia queremos ocultar à nossa mulher - do que uma boa reputação o segredo dos maus costumes de que ninguém desconfia. Esses maus costumes podem ficar ignorados a vida inteira; revela-os o súbito acaso de um encontro à noite, num cais; mas esse acaso é muitas vezes mal compreendido e é preciso que um terceiro, já, conhecedor do segredo, forneça-nos o seu sentido oculto, que todos ignoram. Porém uma vez conhecidos, eles impressionam, pois percebemos que raiam pela loucura muito mais do que por serem imorais. A Sra. de Surgis não possuía um sentimento moral muito desenvolvido e teria admitido qualquer comportamento; de seus filhos desde que aviltado e explicado pelo interesse, o que é compreensível em todos os homens. Mas proibiu-lhes que continuassem a frequentar o Sr. de Charlus quando soube que, por uma espécie de relógio de repetição, o barão era fatalmente levado, em cada visita, a beliscar-lhes o queixo e a fazer com que ambos, se beliscassem um ao outro. Experimentou aquela sensação de inquietude do mistério físico, que faz com que nos indaguemos se o vizinho, com quem tem boas relações, não estará atacado de antropofagia; e às repetidas perguntas ao barão: 

- Quando é que verei de novo os rapazes? - respondeu, sabendo os furores que acumularia contra a sua pessoa, que eles estavam ocupados com os estudos, os preparativos de uma viagem, etc. A irresponsabilidade agrava as culpas e até os crimes, digam o que disserem. Landru (supondo que ele tenha de fato matado as mulheres), se o fez por interesse, coisa a que se pode resistir, pode ser perdoado; mas não se o fez por um sadismo irresistível.

[Henri Désiré Landru (1869-1922) foi preso e acusado da morte de dez mulheres, a quem teria proposto casamento, e que nunca mais foram vistas. Condenado, sofreu pena de morte na guilhotina sem jamais ter confessado os crimes (1920). Dos episódios da vida real mencionados na Em Busca do Tempo Perdido, este é o de data recente. (N. do T)]

     Os pesados gracejos de Brichot, no começo de sua amizade com o barão, tinham dado lugar, quando já não se tratava de dizer lugares-comuns mas de compreender, a um sentimento desagradável que encobria o contentamento. Ele sossegava recitando páginas de Platão, versos de Virgílio, porque, igualmente cego de espírito, não compreendia que então amar um rapaz era como hoje (os gracejos de Sócrates revelam-no melhor do que as teriam de Platão) sustentar uma dançarina e depois arranjar um bom casamento. O próprio Sr. de Charlus mal o teria entendido, ele que confundia a sua mania com a amizade, que não se lhe parece a coisa alguma, e os atletas de Praxíteles com dóceis pugilistas. Não queria ver que há mil e novecentos anos ("um cortesão devoto sob um príncipe devoto teria sido ateu sob um príncipe ateu", disse La Bruyere) todo o homossexualismo de costume e dos rapazes de Platão como o dos pastores de Virgílio desaparecera, que sobrenada e se multiplica apenas o involuntário, o nervoso, o que se oculta aos outros e se disfarça aos próprios olhos. E o Sr. de Charlus teria errado em não renegar francamente a genealogia pagã. Em troca de um pouco de beleza plástica, quanta superioridade moral! O pastor de Teócrito que suspira por um rapaz, mais tarde não terá motivo algum para ser menos duro de coração e mais fino de espírito que o outro pastor, cuja flauta ressoa por Amarílis. Pois o primeiro não é atacado por um mal, apenas obedece à moda de seu tempo. É o homossexualismo sobrevivente, apesar dos obstáculos, vergonhoso, desonrado, o único verdadeiro, o único a poder corresponder, num mesmo indivíduo, um refinamento das qualidades morais. Assusta-nos a relação que o físico possa ter com estas quando se pensa na pequena aberração de gosto puramente físico, na ligeira tara de um sentido, que explicam por que o universo dos poetas e dos músicos, tão fechado ao duque de Guermantes, entreabre-se para o Sr. de Charlus.
     Que este demonstre gosto no arranjo de sua residência, como uma dona de casa colecionadora de bibelôs, não é coisa que surpreenda; mas a estreita fenda que abre para Beethoven e Veronese! Nem por isso, no entanto, as pessoas sãs de espírito deixam de ter medo quando um louco, que fez um poema sublime, depois de lhes explicar pelos motivos mais justos que está internado por engano, pela maldade de sua mulher, pede que intervenham junto ao diretor do asilo, queixando-se das promiscuidades que lhe impõem, concluindo assim: 

- Olhem, este que virá falar-me no pátio, cujo contato sou obrigado a suportar, acredita ser Jesus Cristo. Ora, isto é o bastante para me provar com que espécie de alienados me prendem; ele não pode ser Jesus Cristo, pois Jesus Cristo sou eu! -

     Um momento antes, estavam prontos para denunciar o erro ao médico alienista. Diante dessas últimas palavras, e mesmo levando em conta o admirável poema em que esse homem trabalha todos os dias, as pessoas se afastam, como os filhos da Sra. de Surgis se afastavam do Sr. de Charlus, não que este lhes tenha feito algum mal, mas devido ao luxo de convites dos quais a finalidade era lhes beliscar os queixos. É de lamentar que o poeta, que não dispõe de nenhum Virgílio para guiá-lo, precise atravessar os círculos de um inferno de pez e de enxofre, de se lançar a um fogo que desce do céu, para dali trazer alguns habitantes de Sodoma. Nenhum encanto em sua obra; a mesma severidade na sua vida que na daqueles que seguem a regra do mais casto celibato para que não possam atribuir o terem largado a batina a outra coisa que não a perda da fé. Todavia, não ocorre sempre do mesmo modo com esses escritores. Qual o médico de loucos que não terá tido, à força de assisti-los, sua crise de loucura? Feliz ainda se pode afirmar que não se trata de uma loucura anterior e latente que o tivesse feito dedicar se a eles. O objeto de seus estudos, um psiquiatra, muitas vezes age de novo sobre ele. Mas antes disso, esse objeta, que obscura inclinação, que terror fascinante o fizera escolhê-lo?
     Fingindo não ver o indivíduo suspeito que ajustava seus passos pelos dele (quando o barão se aventurava pelos bulevares ou atravessava a sala de espera da estação de Saint-Lazare, semelhantes seguidores se contavam por dúzias que, na esperança de ganhar dinheiro, não o largavam) e com receio de que, o outro se animasse a dirigir-lhe a palavra, o barão baixava em devotamento os cílios enegrecidos que, contrastando com as faces cobertas de pó-de-arroz, faziam-no parecer-se a um grande inquisidor pintado por El Greco. Mas tal padre causava medo e se assemelhava a um padre suspenso das ordens, pois os diversos expedientes a que tivera de recorrer por necessidade, a fim de satisfazer o seu vício e proteger seu segredo, tinham tido por efeito trazer à superfície do rosto precisamente aquilo que o barão tentava ocultar, uma vida crapulosa atestada pela decadência moral. De fato, seja qual for a sua causa, facilmente se lê, pois não demora a materializar-se, a proliferar sobre um rosto, especialmente nas faces e ao redor dos olhos, tão fisicamente quanto o amarelo ocre numa pessoa que sofre do fígado ou os vermelhos repugnantes de uma doença de pele. Aliás, não era apenas nas faces, ou melhor nas bochechas desse rosto pintado, no peito de mamas salientes, nas nádegas proeminentes desse corpo entregue à indolência e invadido pela gordura, que sobrenadava agora, espalhado como óleo, o vício outrora tão intimamente resguardado pelo Sr. de Charlus no ponto mais secreto de si mesmo. Transbordava agora de suas frases. 

- Quer dizer, Brichot, que você anda passeando à noite com um belo rapaz? - disse aos abordar nos, enquanto que o tal tipo, desapontado, afastava-se - Muito bonito. Vou dizer aos seus alunozinhos da Sorbonne que você não é tão sério assim. Aliás, a companhia da juventude lhe faz bem, senhor professor, deixa-o fresco feito uma rosinha. E você, meu caro, como vai?- disse-me ele, abandonando seu tom de gracejo. - Não é visto muitas vezes no cais Conti, bela juventude. Pois bem, e sua prima, como está? Não veio com você. Lamentamos, pois é encantadora. Poderemos vê-la esta noite? Oh, ela é bem bonita. E o seria mais ainda se cultivasse amiúde a arte, tão rara, que possui naturalmente, de bem vestir-se. - 

     Aqui devo dizer que o Sr. de Charlus "possuía", o que o tornava o exato oposto, o antípoda de mim, o dom de observar minuciosamente, de distinguir os detalhes tanto de vestido como de uma tela. Quanto aos vestidos e chapéus, certas más línguas determinados teóricos radicais dirão que, num homem, a inclinação pelos atrativos masculinos tem por compensação o gosto inato, o estudo e a ciência da total feminina. E com efeito, isso ocorre às vezes, como se os homens, tendo açambarcado todo o desejo físico, toda a profunda ternura de um Charlus, o outro sexo em troca se achasse gratificado com tudo o que fosse gosto "platônico" (adjetivo bastante impróprio), ou tout court, de tudo que fosse gosto, com os mais sábios e seguros requintes. Sob tal aspecto, o Sr. de Charlus teria merecido a alcunha que lhe deram mais tarde, "a Costureira". Mas seu gosto e espírito de observação se estendiam a muitas outras coisas. Na noite em que fui vê-lo depois de um jantar na casa da duquesa de Guermantes, vimos que eu só percebera as obras-primas que ele possuía em casa à medida que ele as ia mostrando a mim. Reconhecia de imediato aquilo a que pessoa alguma jamais prestara atenção, e isso tanto nas obras de arte como nas iguarias de um jantar (e da pintura à cozinha todo o meio-termo ficava compreendido).
     Sempre lamentei que o Sr. de Charlus, em vez de limitar seus dons artísticos à pintura de um leque oferecido de presente à cunhada (vimos a duquesa de Guermantes segurando-o na mão e abrindo o, menos para se abanar do que para gabar-se, fazendo ostentação da amizade de Palamede) e ao aperfeiçoamento de sua execução pianística a fim de acompanhar sem erros o desempenho do violino de Morel, repito, sempre lamentei, e lamento ainda, que o Sr. de Charlus nunca tenha escrito coisa alguma.
     É claro que não posso extrair da eloqüência de sua conversação e até de sua correspondência a conclusão de que ele teria sido um escritor de talento. Esses méritos não cabem no mesmo plano. Temos visto obras primas escritas por enfadonhos alinhadores de banalidades, e reis da conversação mostrarem-se inferiores ao mais medíocre quando tentam escrever. Apesar disso, creio que o Sr. de Charlus teria experimentado a prosa, e, para começar com aqueles temas artísticos que ele conhecia bem, o fogo teria irrompido, o clarão brilharia, e o homem mundano se tornaria um senhor escritor. Disse lhe isto várias vezes, e ele jamais quis tentar, talvez apenas por preguiça ou devido ao tempo ocupado com festas brilhantes e divertimentos sórdidos, ou uma necessidade própria de Guermantes de prolongar indefinidamente os falatórios. Tanto mais o lamento porque, em sua mais brilhante conversa, o espírito nunca se separava do temperamento, os achados de um da insolência do outro. Se tivesse escrito livros, em vez de detestá-lo mesmo admirando-o como se fazia num salão onde, em seus mais curiosos instantes de inteligência, ele ao mesmo tempo espezinhava as fábulas, vingava-se de quem não o insultara, procurava de maneira vil fazer que amigos brigassem se tivesse escrito livros, teriam todos avaliado isoladamente o seu valor espiritual, decantado do mal; nada teria perturbado a admiração e muitos aspectos despertariam a amizade.
     Em todo caso, mesmo que eu me engane sobre o que ele teria podido realizar na menor página, teria ele prestado um raro serviço escrevendo, pois, se distinguia tudo, de tudo o que ele distinguia conhecia o nome. Certamente, conversando com ele, se não aprendi a ver (meu espírito e meu sentimento tinham tendência a estar alhures), pelo menos vi coisas que, sem ele, teriam-me ficado despercebidas, porém o nome delas, que me teria auxiliado a reencontrar o seu desenho, suas cores, esse nome eu sempre esqueci bem depressa. Se tivesse escrito livros ainda que ruins; e não creio que o fossem -, que delicioso dicionário, que repertório inesgotável! Afinal de contas, quem sabe? Em vez de pôr no livro todo o conhecimento e seu gosto, talvez devido a esse demônio que muitas vezes contraria o nosso destino, ele houvesse escrito folhetins desenxabidos, inúteis narrativas de viagens e de aventuras.

- Sim, ela sabe se vestir ou, mas exatamente, enfeitar-se - continuou o Sr. de Charlus a propósito de Albertine. - Minha única dúvida é se ela se arruma em conformidade com sua beleza particular, e eu talvez seja um tanto responsável por isso, por causa dos conselhos não muito ponderados que lhe dei. O que muitas vezes lhe disse ao ir à Raspeliere e que era antes ditado talvez - e disso me arrependo pela natureza da região e pela proximidade das praias do que pelo caráter individual de tipo da sua prima, fê-la acentuar um pouco demais o gênero leve. Reconheço que a vi usar lindas tarlatanas, encantadoras écharpes de gaze, uma determinada touca cor-de-rosa onde uma pequena pluma rósea não fazia má figura. Mas acho que sua beleza, que é real e maciça, exige mais do que belos enfeites. Conviria a touca a essa cabeleira enorme que um kakochnyk (penteado em diadema das mulheres russas) não faria mais que ressaltar? Há poucas mulheres a quem convenham os vestidos antigos que dão um aspecto de fantasia de teatro. Mas a beleza dessa moça, já mulher, abre uma exceção e mereceria um vestido antigo de veludo de Gênova (logo pensei em Elstir - e nos vestidos de Fortuny) que eu não recearia tornar mais pesado ainda com incrustações ou pingentes de maravilhosas pedras desusadas (é o mais belo elogio que se pode fazer a tal respeito) como a olivina, a marcassita e a incomparável labradorita. Aliás, ela mesma parece possuir o instinto do contrapeso, que exige uma beleza um tanto pesada. Lembre-se, para ir jantar na Raspeliere, de todo esse acompanhamento de belos estojos, de bolsas pesadas, nos quais, quando se caso ela poderá colocar mais do que a brancura do pó-de-arroz ou o carmim da pintura do rosto, mas num cofrezinho de lápis-lazúli não muito cor de anil; também pérolas e rubis não reconstituídos, creio, pois ela pode fazer um casamento rico.
- Ora, ora, barão - interrompeu Brichot, temendo que eu me aborrecesse com essas últimas palavras, pois tinha dúvidas sobre a pureza de minhas relações e a autenticidade do parentesco de Albertine comigo -, aí está como você se ocupa com as senhoritas!
- Faça o favor de se calar diante deste menino, língua viperina - troçou o Sr. de Charlus abaixando, num gesto para impor silêncio a Brichot, a mão que não deixou de apoiar em meu ombro.- Incomodei-os; vocês pareciam divertir-se como duas louquinhas e não precisavam de uma velha vovó desmancha-prazeres como eu. Não irei confessar-me por causa disso, pois vocês já estavam quase chegando. - 

     O barão estava de muito bom humor, tanto mais que ignorava completamente a cena da tarde, pois Jupien julgara mais útil proteger a sobrinha contra nova ofensiva de Morel do que ir prevenir o Sr. de Charlus. Assim, este sempre acreditava no casamento e se regozijava com isso. Dir-se-ia que é um consolo, para esses grandes solitários, conferir a seu trágico celibato o alívio de uma paternidade fictícia. 

- Mas palavra de honra, Brichot - acrescentou ele, voltando-se a rir para nós -, que tenho escrúpulos em vê-lo em tão galante companhia. Vocês pareciam dois namorados. De braços dados, que liberdades são essas, hem Brichot? -

continua na página 79...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Para retornar às realidades)
Volume 6