quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (3)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO II
A AMOROSA
 
continuando...

     Um deus degradado não é um homem, é uma impostura; o amante não tem outra alternativa senão provar que é realmente esse rei adulado, ou denunciar-se como usurpador. A partir do momento em que não o adoram, cumpre espezinhá-lo. Em nome dessa glória com que aureolou o amado, a amorosa proíbe-lhe qualquer fraqueza; desilude-se e irrita-se se ele não se molda à imagem que ela colocou em seu lugar; se está fatigado, estonteado, se tem fome ou sede fora de propósito, se se engana, se se contradiz, ela decreta que ele está "abaixo de si mesmo" e lhe censura. Por esse viés, chega a censurar-lhe todas as iniciativas que ela própria não aprecia; julga o juiz e, para que ele mereça continuar seu senhor, denega-lhe a liberdade. O culto que lhe rende satisfaz-se por vezes melhor com a ausência do que com a presença. Há mulheres, já vimos, que se consagram a heróis mortos ou inacessíveis, a fim de nunca os confrontar com seres de carne e osso; estes fatalmente contradizem os sonhos. Daí os slogans desabusados: "Não se deve acreditar em príncipe encantado. Os homens não passam de pobres diabos". Não pareceriam anões, se não se lhes pedisse para ser gigantes.
     É uma das maldições que pesam sobre a mulher apaixonada: sua generosidade converte-se desde logo em exigência. Tendo-se alienado em outrem, quer também recuperar-se: é-lhe necessário anexar esse outro que detém o seu ser. Não se dá inteiramente a ele, mas é preciso que ele esteja inteiramente disponível para receber dignamente esse dom. Ela dedica-lhe todos os seus instantes: é preciso que a cada instante ele esteja presente; ela quer viver unicamente por ele, mas quer viver; ele deve consagrar-se a fazê-la viver.

   Amo-o por vezes bobamente e nesses momentos não compreendo por que não poderia, não fosse e não devesse ser para você um pensamento absorvente como você o é para mim, escreve Mme d'Agoult a Liszt.

     Ela tenta refrear o desejo espontâneo: ser tudo para ele. Depara-se com idêntico apelo na queixa de Mlle de Lespinasse:

   Deus meu! Se soubesse que são os dias, que é a vida privada do interesse e do prazer de vê-lo! Meu amigo, a dissipação, a ocupação, o movimento lhe bastam; eu, minha felicidade é você, e só você; não quereria viver se não devesse vê-lo e amá-lo em todos os momentos da vida.

     A princípio, a amorosa encantava-se com satisfazer o desejo do amante; depois — como o bombeiro lendário que por amor ao ofício provocava incêndio por toda parte — em não conseguindo, sente-se humilhada, inútil a ponto de o amante fingir ardores que não experimenta. Fazendo-se escrava, encontra ela o meio mais seguro de acorrentá-lo. Trata-se de mais uma mentira do amor, que muitos homens — Lawrence, Montherlant — denunciaram com rancor: apresenta-se como um dom quando é uma tirania. Benjamin Constant em Adolphe pintou asperamente os ferros com que prende o homem a generosa paixão de uma mulher. "Ela não calculava seus sacrifícios porque estava preocupada com me fazer aceitá-los", diz ele com crueldade, de Eléonore. A aceitação é efetivamente um compromisso que amarra o amante, sem que ele tenha sequer o benefício de se apresentar como aquele que dá; a mulher quer que ele acolha com gratidão os fardos com que o esmaga. E sua tirania é insaciável. O homem amoroso é autoritário, mas quando obtém o que desejava, fica satisfeito; ao passo que não há limites para a dedicação exigente da mulher. Um amante que tem confiança em sua amante admite sem desprazer que ela se ausente, que se ocupe longe dele; certo de que ela lhe pertence, prefere possuir uma liberdade a possuir uma coisa. Ao contrário, a ausência do amante é sempre uma tortura para a mulher; ele é um olhar, um juiz, ele a frustra desde que deite os olhos em outra coisa que não ela; rouba-lhe tudo o que vê: longe dele, ela sente-se despojada de si mesma e do mundo; mesmo sentado ao lado dela, lendo, escrevendo, ele a está abandonando, traindo. Ela detesta-lhe o sono. Baudelaíre se enternece ante a mulher adormecida: "Teus belos olhos estão lassos, pobre amante". Proust encanta-se com olhar Albertine dormir¹; o ciúme masculino é simplesmente a vontade de uma posse exclusiva. A bem-amada não pertence a ninguém quando o sono lhe devolve a candura desarmada da infância; para o homem essa certeza basta. Mas o deus, o senhor, não deve abandonar-se ao repouso da imanência; é com um olhar hostil que a mulher contempla essa transcendência fulminada; ela detesta-lhe a inércia animal, o corpo que não mais existe para ela e sim em si, abandonado a uma contingência que deve pagar com sua própria contingência.
[1] O fato de Albertine ser um Albert não modifica nada; aqui atitude de Proust é, em todo caso, uma atitude viril.

     Violette Leduc exprimiu, em Je hais les dormeurs, com força esse sentimento:

   Detesto os homens que dormem. Debruço-me sobre eles com minhas más intenções. Sua submissão exaspera-me. Odeio sua serenidade inconsciente, sua falsa anestesia, sua fisionomia de cego estudioso, sua embriaguez sensata, sua aplicação de incapaz... Fiquei de atalaia, esperei durante muito tempo a bolha rósea que sairia da boca de meu dorminhoco. Só reclamava dele uma bolha de presença. Não a tive... Vi que suas pálpebras de noite eram pálpebras de morto... Refugiava-me na alegria de suas pálpebras quando esse homem era intratável. O sono é duro quando de verdade. Roubou-me tudo. Detesto este meu homem dormindo, capaz de com inconsciência criar para si uma paz que me é estranha. Detesto sua fronte de mel... No fundo de si mesmo está a preocupar-se com seu repouso. Recapitula não sei quê... Tínhamos levantado voo. Queríamos deixar a terra utilizando nosso temperamento. Tínhamos decolado, subido, espiado, e esperado, cantarolado, chegado, gemido, ganho e perdido ao mesmo tempo. Era uma vagabundagem séria. Tínhamos descoberto uma nova espécie de nada. Agora dormes. Teu retraimento não é honesto... Se meu dorminhoco se mexe, minha mão toca, sem querer, a semente. É o celeiro com cinquenta sacos de grãos que é abafante, despótico. As bolsas íntimas de um homem que dorme caíram sobre a minha mão. . . Possuo os saquinhos de sementes. Tenho nas mãos os campos que serão lavrados, os vergéis que serão tratados, a força das águas que será transformada, as quatro tábuas que serão pregadas, os toldos que serão erguidos. Tenho nas mãos os frutos, as flores, os animais selecionados. Tenho na mão o bisturi, o podão, a sonda, o revólver, o fórceps e tudo isso não me enche a mão. A semente do mundo que dorme não é senão o supérfluo oscilante do prolongamento da alma. . . Odeio-te quando dormes.

     É preciso que o deus não adormeça, sem o quê, faz-se barro, carne; é preciso que não deixe de estar presente, sem o quê, sua criatura soçobra no nada. Para a mulher, o sono do homem é avareza e traição. O amante desperta por vezes a amante; é para possuí-la. Ela o desperta simplesmente para que ele não durma, não se afaste, pense somente nela, esteja presente, fechado no quarto, no leito, em seus braços — como Deus no tabernáculo. E o que a mulher deseja: é uma carcereira.
     E, no entanto, ela não consente realmente em que o homem não seja senão seu prisioneiro. É esse um dos paradoxos dolorosos do amor: cativo, o deus despoja-se de sua divindade. Destinando-lhe sua transcendência, a mulher salva-a: mas é preciso que ele a transporte para o mundo inteiro. Se dois amantes se abismam juntos no absoluto da paixão, toda liberdade se degrada em imanência: só a morte pode então trazer uma solução. É o sentido do mito de Tristão e Isolda. Dois amantes que se destinam exclusivamente um a outro, já estão mortos: morrem de tédio. Em Terres Étrangères, Marcel Arland descreveu a agonia de um amor que se devora a si mesmo. A mulher conhece esse perigo. Salvo nas crises de ciúme frenético, ela própria deseja que o homem seja projeto, ação. Não é mais um herói, se não realiza nenhuma façanha. O cavaleiro que parte para novas proezas ofende sua dama, mas ela o despreza se permanece sentado aos pés dela. Essa, a tortura do amor impossível; a mulher quer ter todo o homem, mas exige dele que supere todo dado cuja posse seja possível: não se tem uma liberdade; ela quer encerrar aqui um existente que é, segundo Heidegger, "um ser dos longes" e ela bem sabe que a tentativa é condenada. "Meu amigo, amo-o como se deve amar, com excesso, loucura, transporte e desespero", escreve Julie de Lespinasse. O amor idólatra, se lúcido, só pode ser desesperado. Porque a amante que pede ao amante que seja herói, gigante, semideus, reclama por não ser tudo para ele, quando só pode conhecer a felicidade com a condição de o conter inteiro dentro de si.

   A paixão da mulher, renúncia total a toda espécie de direitos próprios, postula precisamente que o mesmo sentimento, o mesmo desejo de renúncia não exista para o outro sexo, pois se ambos renunciassem a si 'mesmos por amor,' disso resultaria não sei bem quê, digamos talvez o horror ao vácuo? A mulher quer ser possuída... ela exige por tanto alguém que possua, que não se dê a si próprio, que não se abandone, mas que queira, ao contrário, enriquecer seu eu no amor. . . A mulher dá-se, o homem aumenta-se com ela. . . (Nietzsche, Gaia Ciência).

     Pelo menos, a mulher poderá encontrar sua alegria nesse enriquecimento que traz ao bem-amado; ela não é Tudo para ele, mas tentará acreditar-se indispensável; não há graus na necessidade. Se ele "não pode viver sem ela", ela se considera como o fundamento de sua preciosa existência, e disso aufere seu próprio valor. Põe sua alegria em servi-lo: mas é preciso que ele reconheça esse serviço com gratidão; o dom torna-se exigência, segundo a dialética comum da dedicação¹. E uma mulher de espirito escrupuloso interroga-se: é realmente de mim que ele precisa? O homem ama-a, deseja-a com uma ternura e um desejo singular: mas não teria por outra um sentimento igualmente singular? Muitas mulheres apaixonadas deixam-se iludir: querem ignorar que o geral se acha envolvido no singular, e o homem facilita-lhes essa ilusão porque antes de tudo a partilha; há constantemente em seu desejo, um arrebatamento que parece desafiar o tempo; no instante em que quer essa mulher ele a quer com paixão e somente a ela: e sem dúvida o instante é um absoluto, mas o absoluto de um instante. Iludida, a mulher passa para o eterno. Divinizada pelo amplexo do senhor, ela acredita ter sido sempre divina e destinada ao deus: ela somente. Mas o desejo masculino é tão fugaz quão imperioso; uma vez satisfeito, morre assaz depressa, ao passo que é, o mais das vezes, depois do amor que a mulher se torna sua prisioneira. É o tema de toda uma literatura fácil de canções triviais. "Um jovem passava, uma mulher cantava... um jovem cantava, uma mulher chorava." E o fato de um homem permanecer duradouramente apegado à mulher não significa que ela lhe seja necessária. É entretanto o que ela reclama: sua abdicação só a salva com a condição de lhe restituir seu império; não se pode fugir ao jogo da reciprocidade. É preciso pois que ela sofra, que ela minta a si mesma. Na maioria das vezes ela se agarra primeiramente à mentira. Imagina o amor do homem como a exata contrapartida do que ela lhe dedica; com má-fé toma o desejo por amor, a ereção por desejo, o amor por uma religião. Força o homem a mentir: tu me amas? Como ontem? Tu me amarás sempre? Habilmente, faz as perguntas no momento em que não há tempo para respostas matizadas e sinceras, ou então em que as circunstâncias as impedem; é durante o amplexo amoroso, no limiar de uma convalescença, entre soluços ou na plataforma de uma estação que ela interroga imperiosamente; faz troféus das respostas arrancadas e, na falta de respostas, faz os silêncios falarem. Toda amorosa verdadeira é mais ou menos paranóica. Lembro-me de uma amiga que, ante o silêncio prolongado de um amante longínquo, declarava: "Quando se quer romper, escreve-se para anunciar a ruptura"; e depois de ter recebido uma carta sem ambiguidade: "Quando se quer realmente romper, não se escreve". É muitas vezes muito difícil verificar onde começa o delírio patológico ante as confidencias recebidas. Descrita pela apaixonada, em pânico, a conduta de um homem apresenta-se sempre como extravagante: é um neurótico, um inconsistente, um recalcado, um masoquista, um sádico, um demônio, um covarde ou tudo isso junto; desafia as explicações psicológicas mais sutis. "X. me adora, é loucamente ciumento, desejaria que eu usasse uma mascara quando saio; mas é um ser tão estranho e que desconfia tanto do amor que, quando lhe bato à porta, me recebe no patamar e não me deixa sequer entrar." Ou então: "Z. me adorava. Mas era demasiado orgulhoso para pedir-me que fosse residir em Lião, onde mora: fui e instalei-me em casa dele. Ao fim de oito dias, sem uma briga, mandou-me embora. Tornei a vê-lo duas vezes. Na terceira vez que lhe telefonei, bateu o telefone no meio da conversa. É um neurótico". Essas histórias misteriosas esclarecem-se quando o homem explica: "Não a amava absolutamente", ou "Tinha-lhe amizade, mas não teria suportado viver com ela um mês". Sendo demasiado obstinada, a má-fé conduz ao hospício: um dos traços constantes da erotomania, está em que as condutas do amante se apresentam como enigmáticas e paradoxais; por esse desvio, o delírio da doente consegue sempre quebrar as resistências da realidade. Uma mulher nor mal acaba sempre sendo vencida pela verdade, e reconhecendo que não é mais amada. Mas, enquanto não é acuada a essa confissão, trapaceia sempre um pouco. Mesmo no amor recíproco há entre os sentimentos dos amantes uma diferença fundamental que ela se esforça por mascarar. Pois é naturalmente preciso que o homem possa justificar-se sem ela, posto que ela espera ser justificada por ele. Se ele lhe é necessário, é porque foge de sua liberdade; mas se assume a liberdade sem a qual não seria nem herói nem simplesmente homem, nada nem ninguém lhe seriam necessários. A dependência que a mulher aceita vem de sua fraqueza: como encontraria uma dependência recíproca naquele que ela ama em sua força?
     Uma alma apaixonadamente exigente não poderia encontrar sossego no amor porque visa um fim contraditório. Torturada, atormentada, arrisca-se a tornar-se um fardo para aquele de quem se sonhava escrava; não podendo ser indispensável, torna-se importuna, odiosa. É isso também uma tragédia muito comum. Mais sensata, menos intransigente, a amorosa resigna-se. Não é tudo, não é necessária: basta-lhe ser útil; outra ocuparia facilmente seu lugar: ela contenta-se com ser a que está presente, Reconhece sua servidão sem pedir reciprocidade. Pode então experimentar uma felicidade modesta; mas, mesmo dentro de tais limites, essa felicidade não será sem nuvens. Muito mais dolorosamente do que a esposa, a amorosa espera. Se a própria esposa é exclusivamente uma amorosa, as tarefas caseiras, a maternidade, suas ocupações, seus prazeres não têm valor nenhum a seus olhos: é a presença do esposo que a arranca ao limbo do tédio. "Quando não estás presente, parece-me que não vale sequer a pena olhar o dia; tudo que me acontece é então como uma morte, não passo mais de um pequeno vestido vazio jogado sobre uma cadeira", escreve Cécile Sauvage nos primeiros tempos de seu casamento¹. E vimos que muitas vezes é fora do casamento que nasce e desabrocha o amor-paixão. Um dos mais notáveis exemplos de uma vida inteira dedicada ao amor é o de Juliette Drouet: ela é apenas uma espera indefinida. "Cumpre sempre voltar ao mesmo ponto de partida, isto é, a esperá-lo sempre", escreve ela a Victor Hugo. "Eu o espero como um esquilo na gaiola." "Deus meu! Como é triste para uma natureza como a minha esperar desde um fim da vida até o outro.'' "Que dia! Pensei que não passasse, a tal ponto te esperei, e agora acho que passou depressa demais porquanto não te vi..." "Acho o dia infindável..." "Espero-o porque afinal prefiro ainda esperar, a crer que não virá mais." É verdade que Victor Hugo, depois de Juliette romper com seu rico protetor, Príncipe Demidoff, confinara-a em um pequeno apartamento e durante doze anos proibiu-a de sair sozinha, a fim de que não reatasse com nenhum de seus amigos de outrora. Mesmo quando a sorte daquela que se intitulava "sua pobre vítima enclaustrada" se amenizou, não deixou ela de ter o amante como única razão de viver e de vê-lo bem pouco. "Amo-te, meu Victor bem amado", escreve em 1841, "mas tenho o coração triste e cheio de amargura; vejo-te tão pouco, e o pouco que te vejo me pertences tão pouco, que todos esses poucos fazem um todo de tristeza que me enche o coração e o espírito." Ela sonha conciliar a independência com o amor. "Gostaria de ser independente e escrava a um tempo, independente por uma situação de que viva e escrava unicamente de meu amor." Mas tendo definitivamente malogrado em sua carreira de atriz, teve de resignar-se "de um fim de vida a outro" a ser apenas uma amante. Apesar de seus esforços para prestar serviço ao ídolo, suas horas eram demasiado vazias: as 17.000 cartas que escreveu a Hugo, ao ritmo de 300 a 400 por ano, testemunham-no. Entre as visitas do senhor não lhe restava senão matar o tempo. O pior horror na condição da mulher de harém é serem seus dias uns desertos de tédio: quando o homem não usa esse objeto que ela é para ele, ela não é absolutamente mais nada. A situação da amorosa é análoga: ela só quer ser essa mulher amada, nada mais tem valor a seus olhos. Para existir, é-lhe preciso portanto que o amante esteja a seu lado, se ocupe com ela; ela espera a chegada, o desejo, o despertar dele. E logo que ele a deixa, recomeça a esperar. É a maldição que pesa sobre a heroína de Back Street, de Fanny Hurst, sobre a de Intempéries, de R. Lehman, sacerdotisas e vítimas do amor puro. É a dura punição infligida a quem não tomou o próprio destino nas mãos.
[1] É diferente o caso quando a mulher encontra sua autonomia no casamento; então o amor entre os cônjuges pode ser uma livre troca de dois seres que se bastam.

continua página 430...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: A inversão

Elias Canetti

A ORDEM

     A inversão

          "Pois o alimento que o homem comer neste mundo há de comer ele no outro". Esta frase enigmática e inquietante se encontra no Shatapatha-Brahmana, um dos antigos tratados de sacrifício dos hindus. Mais inquietante ainda é o relato que aparece neste mesmo tratado. Trata-se da excursão do vidente Bhrigu ao além.
     Bhrigu, um santo, era filho do deus Varuna; ele tinha adquirido uma grande sabedoria brâmane e isto lhe tinha subido à cabeça. Tornou-se arrogante e colocou-se acima do próprio deus seu pai. Este lhe quis demonstrar o quão pouco sabia e lhe recomendou visitar, uma depois da outra, as diferentes regiões celestes: Leste, Sul, Oeste e Norte. Deveria prestar o máximo de atenção a tudo quanto visse e, no regresso, contar-lhe tudo o que tinha presenciado.
     "Primeiro, ou seja, no Leste, Bhrigu viu homens que arrancavam a machadadas os membros de outros homens, um depois do outro, e os repartiam entre si dizendo: 'Isto pertence a você, isto pertence a mim'. Quando Bhrigu viu isso ficou espantado e as pessoas que esquartejavam os outros lhe deram como explicação o fato de que as vítimas tinham feito o mesmo com eles no mundo dos vivos e que eles agora nada mais faziam do que proceder da mesma forma.
     "Depois disso Bhrigu iniciou sua viagem para o Sul, e lá viu homens que cortavam os membros de outros homens, um depois do outro, e os repartiam entre si dizendo: 'Isto pertence a você, isto pertence a mim'. Quando perguntou o motivo, Bhrigu tornou a ouvir a mesma resposta: os que agora estavam sendo cortados tinham feito a mesma coisa no outro mundo com os que agora os cortavam. No Oeste, depois disso, Bhrigu viu pessoas que, caladas, devoravam outras pessoas, as quais, também caladas, se deixavam devorar. Exatamente desta forma eles tinham se comportado no outro mundo com os que os devoravam. No Norte, viu novamente homens que aos gritos devoravam outros homens que também gritavam, exatamente como estes tinham feito com aqueles no outro mundo.
     "Depois do seu retorno, Bhrigu foi convidado por seu pai Varuna a recitar sua lição como um aluno na escola. Mas Bhrigu disse: 'O que devo dizer? Não existe lição alguma!' Ele tinha visto coisas por demais pavorosas e tudo lhe parecia sem sentido.
     "Então Varuna soube que Bhrigu tinha visto essas coisas e lhe explicou: 'Os homens do Leste, que arrancavam com machados os membros de outros, eram árvores. Os homens do Sul, que cortavam os membros de outros, eram bois e vacas. Os homens do Oeste, que calados devoravam homens calados, eram ervas. Os homens do Norte, que gritando devoravam outros homens, eram as águas'."
     Para todos estes casos ele conhecia um remédio. Mediante determinados sacrifícios, que indicou ao filho, podiam evitar-se as consequências, no além, das próprias ações.
     Noutro tratado de sacrifícios, o Jaiminiya-Brahmana, a mesma história de Bhrigu é contada de forma algo diferente. Ele não percorre as várias direções cardeais, mas vai de um mundo para outro. Em vez das quatro cenas que foram narradas, existem apenas três. Primeiro Bhrigu vê árvores, que assumiram formas humanas no além, e agora cortam homens em pedaços e os devoram. Depois Bhrigu vê um homem que devora outro que grita. A este respeito dá-se uma explicação: "O gado que foi sacrificado e comido aqui assumiu no além uma figura humana e agora faz ao homem o que este lhe fez antes". Finalmente, ele vê um homem devorando outro que não diz coisa alguma. O arroz e a cevada assumiram forma humana e retribuem agora o que sofreram antes.
     Também aqui são indicados determinados sacrifícios. Quem os realiza corretamente escapa do destino de ser devorado no além pelas árvores, pelo gado ou pelo arroz e a cevada. Mas o que aqui nos interessa não são os antídotos contra o destino. O importante é a ideia popular que se oculta por trás do disfarce sacerdotal. O que fazemos aqui nos é feito no além. Não são instituídos servidores especiais de justiça para executar este castigo; pelo contrário, cada qual castiga seu próprio inimigo. Também não se trata de ações quaisquer, mas sim do próprio ato de comer. "Assim como neste mundo os homens comem animais e os consomem, da mesma forma, os animais no outro mundo comem os homens e os consomem".
     Esta frase de um outro Brahmana, semelhante ao que colocamos no início deste capítulo, encontra uma estranha confirmação no Código de Manu. Lá explica-se que não é pecado comer carne, porque este é o comportamento natural das criaturas. Mas promete-se uma recompensa especial a quem se abstiver da carne. A palavra em sânscrito para designar a carne, mamsa, se explica pela decomposição de suas sílabas: mam significa "a mim", sa significa "ele"; mamsa quer dizer "a mim-ele"; "a mim" "ele" lá no além irá comer, ele cuja carne eu comi aqui; isto é o que os sábios explicam como a "carnalidade da carne". Nisto consiste a natureza-carne da carne; este é o verdadeiro sentido da palavra carne.
     A inversão é reduzida aqui à mais concisa de todas as fórmulas, e é captada na imagem da carne. Eu a como, ela me come. A segunda parte, a consequência do que eu fiz, é então precisamente a palavra que designa a carne. O animal que nós comemos lembra-se de quem o comeu. A morte não acabou com este animal. Sua alma continua vivendo, e no além ela se trans ma em homem. Este aguarda então pacientemente a morte do seu devorador. Assim que este morre e chega ao além, a situação primitiva se inverte, transformando-se no oposto. A vítima encontra seu devorador, agarra-o, corta-o e come-o.
     A relação que tudo isso tem com nossa concepção da ordem e do aguilhão é evidente. Entretanto tudo foi levado a tais extremos, tudo se transforma em algo tão concreto que se começa a ter medo. Em vez de acontecer nesta vida, a inversão ocorre no outro mundo. Em vez da ordem, que apenas ameaça com a morte e que assim consegue por extorsão todos os tipos de serviço, trata-se realmente de morte em sua forma mais extrema, na qual o morto é devorado.
     Segundo nossa maneira de ver, que já não encara seriamente a existência no além, o aguilhão que a ameaça de morte provoca continua existindo enquanto a vítima vive. Se ela irá conseguir uma inversão é sempre algo duvidoso; de qualquer forma a vítima tentará consegui-la. Finalmente, o homem é governado por seus aguilhões, sua fisionomia interna é de terminada por eles; conseguindo ou não libertar-se deles, eles são o seu destino. Segundo a concepção hindu, para a qual o além é uma premissa segura, o aguilhão como núcleo duro da alma continua existindo no além, mesmo depois da morte; a inversão ocorre de qualquer maneira, ela se converte na atividade propriamente dita da existência no além. Faz-se exatamente o que nos foi feito, e somos nós mesmos que o fazemos.
     O fato de a mudança de aparência não constituir um obstáculo parece ser uma característica especial. Já não é o animal que comemos que nos agarra no além e que nos retalha: é um homem com a alma desse animal. Externamente a criatura se modificou completamente, mas o aguilhão continua sendo invariavelmente o mesmo. Nas visões de horror que são presenciadas por Bhrigu em sua viagem, o aguilhão aparece como o tema principal da alma; seria inclusive possível dizer que esta é formada inteiramente por aguilhões. A essência propriamente dita do aguilhão, do qual tanto se falou nesta análise da ordem, sua absoluta imutabilidade e a precisão da inversão à qual ele aspira encontram nesta crença hindu do devorado que deve devorar por sua vez sua expressão mais conclusiva.

continua na página 184...
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Leia também:

Massa e Poder - A Ordem: A inversão
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem respostas te incomodam?

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

MPB: É preciso saber viver

Titãs


A canção "É Preciso Saber Viver" foi regravada pelos Titãs em 1998 ( música composta por Erasmo Carlos e Roberto Carlos - originalmente gravada pela dupla Os Vips no álbum As 14 Mais – Vol XXII e, mais tarde, regravada pelo próprio Roberto em 1974 no álbum Roberto Carlos.), sendo uma das mais tocadas nas rádios brasileiras, ganhou destaque em várias cidades, incluindo São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Curitiba e Santos. No Brasil em geral, foi a quarta mais tocada. A música também foi indicada ao Prêmio Multishow de Música Brasileira 1999 na categoria Música do Ano e Melhor Clipe.


Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver

Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver






Márcio e Ronaldo Antonucci (OS VIPS) - "É preciso saber viver"




Os Vips - É Preciso Saber Viver






Wanderléa, Erasmo e Roberto Carlos - É preciso saber viver
Clipe do filme: Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa




Cinema: Roberto Carlos e O diamante cor-de-rosa

Uma estatueta comprada em um antiquário em Tóquio pode levar à descoberta de um grande tesouro.

Direção:
Roberto Farias

Roteiristas:
Berilo Faccio
Roberto Farias





Elenco:
Roberto Carlos
Erasmo Carlos
Wanderléa
José Lewgoy
Paulo Porto
Marly de Fátima
António Abreu
Takaesiro Aisaka
Olga Hamada
Hisako Iasaka
Joaquim Inoue
Hana Kruman
Teruo Nakatami
Glauce Rocha (narração)
Jorge Saito
Shigeru Sakai
Mário S. Takamine
Toshie Yatape

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Deus me proteja / Vem pra cá / Leva / Trem das Onze / Romaria / De janeiro a janeiro / É preciso saber viver /     

Edgar Allan Poe - Contos: O coração denunciador

Edgar Allan Poe - Contos


O coração denunciador¹
[1] Em 1845, Poe tornou-se proprietário e editor-chefe do Broadway Journal, de breve vida, no qual republicou vários de seus contos, incorporando correções manuscritas que izera em seu exemplar impresso dos Tales of the Grotesque and Arabesque (que planejava publicar com o novo título de Phantasy Pieces). Desse modo, quando julgou de interesse do leitor, a tradução procurou observar essas alterações ou assinalou as divergências nas edições. Aqui, a seguinte epígrafe de Longfellow foi então suprimida: “Art is long and Time is leeting/ And our hearts, though stout and brave,/ Still, like muf led drums, are beating/ Funeral marches to the grave” ( “A arte é longa, o Tempo, fugaz/ E nossos corações, embora fortes e corajosos,/ Ainda assim, como tambores abafados, seguem tocando/ Marchas fúnebres rumo ao túmulo”).

Com efeito! — nervoso — tenho andado terrivelmente nervoso, ando com os nervos à flor da pele; mas por que insistis que estou louco? A doença intensificou meus sentidos — não os destruiu — tampouco os embotou. Acima de tudo, aguçou o sentido da audição. Escutei todas as coisas no céu e na terra. Escutei muitas coisas no inferno. Como, então, posso estar louco? Sede todo ouvidos! e observai com que sensatez — com que calma sou capaz de contar a história toda.
     
     É impossível dizer em que momento a ideia penetrou em meu cérebro; porém, uma vez concebida, perseguiu-me dia e noite. Objetivo, não havia. Furor, não havia. Eu gostava do velho. Nunca me fizera mal. Nunca me ofendera. De seu ouro nunca tive desejo algum. Acho que era seu olho! sim, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre — um olho azul claro, velado pela catarata. Sempre que pousava sobre mim, meu sangue gelava; e assim, pouco a pouco — muito gradualmente —, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e desse modo me livrar daquele olhar para sempre.
     Ora, eis o problema. Imaginais que estou louco. Loucos nada sabem. Mas deveríeis ter me visto. Deveríeis ter visto quão sabiamente procedi — com que cautela — com que precaução — com que dissimulação empenhei-me na tarefa! Nunca fui tão bondoso com o velho quanto na semana toda que antecedeu seu assassinato. E toda noite, perto da meia-noite, eu girava o trinco da porta de seu quarto e a abria — ah, tão suavemente! E depois, após ter aberto uma fresta suficiente para minha cabeça, introduzia por ela uma lanterna escurecida, toda fechada, fechada, de modo que nenhuma luz dali irradiasse, e então enfiava a cabeça. Ah, teríeis rido em ver com que astúcia eu a enfiava! Eu a movia devagar — muito, muito devagar, de modo que não perturbasse o sono do velho. Levava uma hora para inserir minha cabeça inteira dentro da abertura até um ponto em que conseguisse enxergá-lo deitado em sua cama. Há! — um louco teria mostrado tamanho discernimento? E depois, quando minha cabeça estava dentro do quarto, eu abria a tampa da lanterna cautelosamente — ah, tão cautelosamente — cautelosamente (pois as dobradiças rangiam) — eu a abria o suficiente apenas para que um único facho estreito pousasse sobre o olho vulturino. E assim procedi por sete longas noites — toda noite, por volta da meia noite —, mas encontrava o olho sempre fechado; e era impossível executar o trabalho; pois não era o velho que me perturbava, mas seu Mau-Olhado. E toda manhã, quando o dia raiava, eu entrava audaciosamente em seu aposento, e falava corajosamente com ele, chamando-o pelo nome em um tom amistoso, e lhe perguntando como passara a noite. De modo que por aí já vedes como ele precisaria ser um velho bem perspicaz, deveras, para suspeitar que toda noite, exatamente à meia-noite, eu o observava enquanto dormia.
     Quando chegou a oitava noite tomei uma precaução mais do que costumeira ao abrir a porta. O ponteiro dos minutos em um relógio seria mais rápido do que minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira toda a extensão de minhas capacidades — de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo a porta, de pouco em pouco, e que ele nem sequer sonhava com meus atos ou pensamentos secretos. Cheguei até a rir com a ideia; e pode ser que houvesse me escutado; pois moveu-se no leito subitamente, como que assustado. Ora, pensaríeis talvez que recuei — mas não. Seu quarto estava escuro como breu nas trevas espessas (pois as folhas das janelas ficavam bem fechadas, por medo de ladrões), de modo que eu sabia que era incapaz de enxergar o vão da porta, e continuei a empurrá-la, mais um pouco, mais um pouco.
     Eu já enfiara toda a cabeça, e estava prestes a abrir a lanterna, quando meu polegar escorregou no ferrolho e o velho se aprumou na cama, gritando — “Quem está aí?”
     Permaneci imóvel e sem nada dizer. Por uma hora inteira não mexi um músculo e nesse meio-tempo não o ouvi voltar a se deitar. Ele continuava sentado na cama, escutando atentamente; — exatamente como eu ficava a fazer, noite após noite, de ouvidos esticados para os relógios da morte dentro das paredes.¹
[1] Deathwatch beetle (Xestobium ruffovillosum), um tipo de caruncho que ao penetrar na madeira emite estalidos, tidos como mau agouro.

     Em seguida escutei um ligeiro gemido, e soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de pesar — oh, não! —, era o som baixo e abafado que se ergue do fundo da alma quando oprimida pelo medo. Eu conhecia o som muito bem. Inúmeras noites, à meia-noite, quando o mundo inteiro dormia, ele brotara das profundezas de meu próprio peito, intensificando, com seu pavoroso eco, os terrores que me afligiam. Digo que o conhecia bem. Eu conhecia o sentimento que inquietava o velho, e me apiedei do homem, embora em meu íntimo risse. Sabia que ele estava acordado desde o primeiro leve ruído, quando se virara na cama. Seus medos haviam a partir desse momento crescido dentro dele. Estivera tentando imaginá-los sem fundamento, mas fora incapaz. Estivera dizendo a si mesmo — “Não é nada, apenas o vento na chaminé — apenas um camundongo correndo pelo soalho” ou “foi somente um grilo que cantou uma única vez”. Sim, ele estivera tentando se tranquilizar com essas suposições: mas descobrira que fora tudo em vão. Tudo em vão; porque a Morte, ao dele se aproximar, acossara-o com sua sombra negra, e se lançara sobre a vítima, envolvendo-a. E foi a influência fúnebre da sombra despercebida que o levou a sentir — embora sem nada ver ou escutar — a sentir a presença de minha cabeça dentro do quarto.
     Depois de ter esperado por um longo tempo, muito pacientemente, sem ouvi-lo se deitar, resolvi abrir uma pequena — muito pequena, minúscula — fresta na lanterna. Desse modo a abri — sereis incapazes de imaginar quão furtivamente, furtivamente — até que, finalmente, um único facho tênue como um filamento de teia brilhou através da fenda e pousou sobre o olho vulturino.
     O olho estava aberto — aberto, arregalado — e senti a fúria crescer dentro de mim ao fitá-lo. Enxerguei-o com perfeita nitidez — todo ele de um azul desbotado, com um véu hediondo a cobri-lo que gelou meus ossos até a medula; mas nada mais podia eu enxergar do rosto do velho ou de sua pessoa: pois dirigira o facho como que por instinto precisamente sobre o ponto maldito.
     Ora, mas já não vos expliquei que o que tomais equivocadamente por loucura não é senão acuidade dos sentidos? — pois agora, digo mais, chegava aos meus ouvidos um som baixo e surdo, como o que faz um relógio envolto em algodão. Esse som, eu também o conhecia bem. Era o batimento do coração do velho. Isso aumentou minha fúria, como as batidas do tambor que estimulam a coragem do soldado.
     Mas mesmo então me refreei e permaneci imóvel. Mal respirava. Segurava a lanterna sem um movimento. Tentava manter o mais fixamente possível a réstia sobre o olho. Nesse ínterim o infernal tamborilar do coração aumentava. Foi ficando mais rápido, mais rápido, e mais alto, mais alto a cada instante. O terror do velho devia ser extremo! Ficava mais alto, e digo mais, ficava mais alto a cada momento! — prestais bastante atenção em minhas palavras? Já vos expliquei como sou nervoso: sou, de fato. E agora, na calada da noite, em meio ao pavoroso silêncio daquela antiga casa, um ruído assim tão estranho enervou-me ao ponto de um terror incontrolável. E contudo, por mais alguns minutos, refreei-me e permaneci imóvel. Mas o batimento ficava mais alto, mais alto! Achei que o coração fosse explodir. E então uma nova angústia tomou conta de mim — o som alcançaria os ouvidos de algum vizinho! A hora do velho chegara! Com um poderoso urro, abri a lanterna completamente e pulei no quarto. Ele deu um grito — apenas um. Numa fração de segundo arrastei-o ao chão e puxei a pesada cama sobre ele. Então sorri alegremente, vendo a façanha até ali cumprida. Mas, por vários minutos, o coração seguiu batendo com um som abafado. Isso, entretanto, não me perturbou; não seria escutado através da parede. E enfim cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, ele estava morto, morto como uma pedra. Pousei a mão sobre o coração e a mantive ali por vários minutos. Não havia pulsação. Ele estava morto como uma pedra. Seu olho não mais me incomodaria.
     Se continuais a me reputar louco, não mais o ireis fazê-lo quando descrever as avisadas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava e trabalhei com presteza, mas em silêncio. Antes de mais nada desmembrei o cadáver. Decepei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.
     Em seguida removi três tábuas do soalho do aposento e depositei tudo em meio aos caibros. Depois recoloquei as pranchas com tal perícia, com tal astúcia, que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia ter detectado alguma coisa errada. Nada ficou por ser lavado — nenhuma mancha de espécie alguma — nenhum respingo de sangue. Eu fora extremamente cauteloso quanto a isso. Uma tina recolhera tudo — rá! Rá!
     Após ter dado cabo de todas essas tarefas, eram quatro da manhã — ainda escuro como a meia-noite. Quando o sino badalou a hora, uma batida se fez ouvir na porta da rua. Desci para atender com o coração leve — pois o que tinha eu agora a temer? Três homens entraram, e se apresentaram, com perfeita polidez, como agentes de polícia. Um grito ouvido por um vizinho durante a noite; isso levantara a suspeita de algum crime; alguém dera queixa na delegacia e eles (os policiais) haviam sido mandados para dar uma busca na casa.
     Sorri — pois o que tinha eu a temer? Dei as boas-vindas aos cavalheiros. O grito, expliquei, fora proferido por mim mesmo, em um sonho. O velho, acrescentei, se achava ausente, no interior. Levei meus visitantes por toda a casa. Convidei-os a investigar — investigar bem. Conduzi-os, enfim, ao quarto dele. Mostrei-lhes suas posses valiosas, em segurança, intocadas. No entusiasmo de minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto, e insisti que ficassem ali descansando de sua faina, enquanto de minha parte, com a irrefreável audácia de meu triunfo perfeito, punha minha própria cadeira exatamente sobre o ponto sob o qual repousava o corpo da vítima.
     Os policiais se deram por satisfeitos. Minha conduta os convencera. Eu estava singularmente à vontade. Sentaram e, enquanto eu respondia animadamente, conversaram sobre coisas familiares. Porém, em pouco tempo, senti que empalidecia e desejei que partissem. Minha cabeça doía e era como se um sino repicasse em meus ouvidos: mas eles continuavam sentados, conversando. O sino tornou-se mais distinto: — continuou, e tornou-se mais distinto: falei com maior desembaraço para me livrar da sensação: mas ela continuou, e ganhou materialidade — até que, finalmente, descobri que o ruído não estava dentro de meus ouvidos.
     Sem dúvida eu agora ficava muito pálido; — mas falava com maior fluência, e elevando a voz. Contudo, o som aumentou — e o que podia eu fazer? Era um som baixo, abafado, acelerado — muito parecido com o som que um relógio faz quando envolto em algodão. Fiquei sem ar — e contudo os policiais nada ouviam. Falei com maior rapidez — com maior veemência; mas o ruído aumentava e aumentava. Fiquei de pé e discuti trivialidades, em um tom esganiçado e gesticulando violentamente; mas o ruído aumentava e aumentava. Por que eles não iam embora? Andei pelo quarto de um lado ao outro com pesadas passadas, como que enervado até a fúria sob o escrutínio dos homens — mas o ruído aumentava e aumentava. Oh, Deus! o que podia eu fazer? Espumei — me encolerizei — praguejei! Girei a cadeira sobre a qual estivera sentado, e arrastei-a sobre as tábuas, mas o ruído se elevava acima de tudo e continuava a aumentar. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E mesmo assim os homens continuavam a conversar afavelmente, e sorriam. Era possível que não estivessem escutando? Deus Todo-Poderoso! — não, não! Eles escutavam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! — estavam escarnecendo de meu horror! — isso foi o que pensei então, e isso é o que penso agora. Mas qualquer coisa era melhor do que aquela agonia! Qualquer coisa era mais tolerável do que aquela zombaria! Eu não podia suportar aqueles sorrisos de hipocrisia por mais tempo! Senti que tinha de gritar ou morrer! — e então — outra vez! — escutai! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto! —
 
“Patifes!”, urrei, “basta de dissimulações! Admito o que fiz! — arrancai as tábuas! — aqui, aqui! — é o batimento de seu odioso coração!” 
continua página 101...
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O coração denunciador /                      
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 78 - A cisterna e os baldes

Moby Dick

Herman Melville

78 - A cisterna e os baldes 

     Lépido como um gato, Tashtego sobe no topo do mastro; e sem mudança em sua postura ereta corre sobre o lais da verga principal ao ponto onde esta mais exatamente se projeta sobre o Tonel suspenso. Leva consigo uma talha leve chamada candeliça, feita de duas partes apenas, que passa pelo cadernal de uma roldana. Amarrando o cadernal de modo a suspendê-lo do lais da verga, ele balança uma ponta da corda, até que um homem no convés consegue pegá-la e segurá-la com firmeza. Então, mão sobre mão, pela outra ponta da corda, o Índio se lança ao ar, até que pousa com agilidade no topo da cabeça. Naquele lugar– bem acima do resto da companhia, para a qual ele vivamente grita – ele se parece com um Muezim Turco chamando as pessoas de bem para as orações do alto de uma torre. Munido da pá afiada, o cabo curto, que lhe dão, ele procura com cuidado o lugar certo para começar a perfurar o Tonel. Esse trabalho ele realiza cheio de cuidados, como um caçador de tesouros numa mansão antiga, auscultando as paredes para encontrar o lugar onde o ouro está cimentado. Terminada tal sondagem cautelosa, um resistente balde de ferro, exatamente como um balde de poço, é amarrado a uma ponta da candeliça; enquanto a outra ponta, esticada sobre o convés, é segurada por dois ou três marinheiros atentos. Estes, então, colocam o balde ao alcance do Índio, a quem outra pessoa ergueu uma vara bem comprida. Inserindo a vara no balde, Tashtego o conduz para dentro do Tonel até que desapareça por inteiro; então, dando a ordem aos marinheiros com a candeliça, sobe o balde outra vez, tão espumante quanto um balde de leite fresco da moça do curral. Diligentemente descido de suas alturas, o recipiente repleto encontra as mãos de um marinheiro designado para isso e é rapidamente esvaziado numa enorme tina. Levado mais uma vez para o alto, o balde repete a mesma operação, até que a cisterna profunda não lhe ofereça mais nada. Próximo do fim, Tashtego tem de calcar sua vara mais e mais forte e mais e mais fundo dentro do Tonel, até que atinja uma profundidade de aproximadamente vinte pés.
     Ora, os homens do Pequod já baldeavam desse modo havia já um tempo; várias tinas apareciam repletas do espermacete perfumado; quando de súbito ocorreu um estranhíssimo acidente. Fosse porque Tashtego, o Índio selvagem, estivesse tão afoito e fosse tão descuidado a ponto de soltar por um instante o cabo das talhas grandes que seguravam a cabeça; ou porque o lugar onde ele estava fosse muito viscoso e traiçoeiro; ou porque o próprio Diabo tivesse preparado isso sem dar nenhuma explicação; como exatamente se sucedeu, não se soube; mas, de repente, enquanto o octogésimo ou nonagésimo balde vinha sendo puxado – meu Deus, coitado do Tashtego! – como o balde complementar num poço verdadeiro, ele caiu de cabeça no Grande Tonel de Heidelberg e, num horrível borbulhar de óleo, desapareceu de vista!

“Homem ao mar!”, gritou Daggoo, que em meio à consternação geral foi o primeiro a recobrar o juízo. “Mandem o balde para cá!”, e colocando um pé dentro dele, de modo a segurar melhor o cabo da candeliça escorregadia, os içadores o ergueram para o topo da cabeça, antes mesmo que Tashtego pudesse ter chegado ao fundo. Enquanto isso, criou-se um terrível tumulto. Olhando sobre o costado, eles viam a cabeça outrora sem vida palpitando e surgindo à superfície do mar, como se subitamente acometida de uma idéia importante; quando, no entanto, era apenas o coitado do Índio revelando inconscientemente por seus golpes a perigosa profundidade a que havia afundado.

     Naquele instante, enquanto Daggoo, no topo da cabeça, soltava a candeliça – que havia de alguma forma se enredado nas grandes talhas de cortar –, ouviu-se um barulho nítido de alguma coisa se quebrando; e, para o terror inenarrável de todos, um dos ganchos imensos que seguravam a cabeça se soltou, e com imensa trepidação a massa enorme balançou para os lados, até que o navio bêbado cambaleou e sacudiu como se tivesse sido atingido por um iceberg. O gancho que restava, sobre o qual estava todo o peso, parecia estar a ponto de ceder a qualquer momento; algo ainda mais provável devido aos movimentos violentos da cabeça.

“Desce daí! Desce daí!”, gritavam os marinheiros para Daggoo, mas segurando o cabo das talhas pesadas com uma das mãos, de modo que se a cabeça caísse ele continuaria suspenso; e, tendo desfeito o embaraço da linha, o negro então socou o balde para dentro do poço em colapso, sugerindo que o arpoador enterrado o agarrasse e assim pudesse ser puxado para fora.
“Pelo amor de Deus, homem!”, gritou Stubb, “O que você está socando? Um cartucho? Pare! Como você acha que vai ajudá-lo: acertando esse balde de ferro na cabeça dele? Pare!”
“Cuidado com a talha!”, gritou uma voz explosiva como um foguete.

     Quase no mesmo instante, com o estrondo de um trovão, a massa enorme caiu no mar, como a rocha de Niágara no redemoinho; o casco subitamente liberado se afastou para longe, afundando em seu cobre reluzente; e todos suspenderam a respiração quando, meio que balançando – ora sobre as cabeças dos marinheiros, ora sobre a água –, Daggoo, em meio a uma espessa névoa de vapor, se agarrava às talhas bambas, enquanto o pobre Tashtego, sepultado vivo, descia irremediavelmente às profundezas do mar! Contudo, mal havia se dissipado a neblina, um vulto nu com um sabre de abordagem na mão foi visto por um brevíssimo instante procurando equilíbrio sobre a amurada. Em seguida, um mergulho barulhento na água anunciava que meu corajoso Queequeg havia mergulhado para o salvamento. Uma horda avançou para o costado, e todos os olhos contavam cada onda, como um instante após o outro, e não havia sinal de afogado ou mergulhador. Alguns marinheiros pularam num bote ao lado e remaram um pouco para longe do navio.

“Ah! Ah!”, gritou Daggoo, de repente, do alto de seu agora calmo e balançante poleiro; e, olhando mais além do costado, vimos um braço retesado em meio às ondas azuis; uma visão estranha, como se fosse um braço retesado em meio à grama de uma sepultura.
“Os dois! Os dois! – São os dois!”, gritou Daggoo outra vez com alegria; e logo depois Queequeg foi visto buscando impulso corajosamente com uma mão, enquanto a outra agarrava o cabelo comprido do Índio. Puxados para o bote que os esperava, foram levados de pronto ao convés; mas Tashtego demorava a recobrar os sentidos, e Queequeg não parecia muito animado.

     Pois bem, como se realizara esse corajoso salvamento? Ora, mergulhando atrás da cabeça que afundava lentamente, Queequeg, com seu sabre bem afiado, desferira estocadas laterais nas proximidades de sua base, como se ali abrisse uma larga escotilha; então, soltando o sabre, forçou o braço para dentro e para cima e desse modo puxou o coitado do Tashtego para fora pela cabeça. Confessou que, quando enfiara o braço pela primeira vez, encontrara uma perna; mas bem sabendo que não deveria proceder desse modo, que isso poderia causar problemas, enfiara, então, a perna de volta, e, com hábeis e esforçados gestos, manobrara o corpo do Índio; de tal modo que na tentativa seguinte ele veio à luz da boa e velha maneira – com a cabeça em primeiro lugar. Quanto à cabeça grande, essa havia se comportado tão bem quanto se podia esperar.
     E assim, graças à coragem e à grande habilidade de Queequeg em obstetrícia, o parto, ou melhor, a libertação de Tashtego foi bem-sucedida, ainda que entre os dentes dos mais desfavoráveis e aparentemente intransponíveis impedimentos; o que é uma lição que não deve ser de modo algum esquecida. O ofício da parteira deveria ser ensinado tal como a esgrima, o pugilismo, a equitação e o remo.
     Sei que essa estranhíssima aventura do índio de Gay Head parecerá inacreditável para alguns homens terrestres, ainda que tenham visto, ou escutado histórias sobre pessoas que caíram em cisternas em terra; um acidente que raro acontece, por muito menos do que com o Índio, dada a condição excessivamente escorregadia da borda do poço do Cachalote.
     Mas, talvez se alegará com astúcia, como é possível? Pensávamos que a cabeça do Cachalote, sedosa e porosa, fosse sua parte mais leve, mais afeita à cortiça; mas tu a fazes afundar num elemento de densidade muito superior à dela. Pegamos-te. De modo algum, fui eu quem vos pegou; pois quando o coitado do Tash caiu lá dentro o estojo estava quase vazio de seus conteúdos mais leves, restando pouco mais do que a parede densa e tendinosa do poço – uma substância duas vezes unida e batida, como disse antes, muito mais pesada que a água do mar, um bloco da qual afunda quase como chumbo. Mas a tendência dessa substância para afundar rapidamente foi neutralizada pelo fato de se manter ligada às outras partes da cabeça, de tal modo que afundou devagar, dando uma boa chance para Queequeg fazer seu rápido trabalho de obstetra, como se pode dizer. Pois sim, foi um parto rápido, e como.
     Ora, se Tashtego tivesse morrido naquela cabeça, teria sido uma morte muito valorosa; sufocado no perfume do espermacete mais alvo e delicado; posto no ataúde, levado em cortejo fúnebre, e enterrado na câmara secreta do templo mais sagrado da baleia. Apenas um fim mais encantador pode de pronto ser lembrado – a morte deliciosa do caçador de abelhas de Ohio, que ao procurar mel na forquilha de uma árvore oca encontrou tamanho reservatório que, de muito debruçar-se sobre este, foi sugado e morreu embalsamado. Quantos outros, pensai, terão caído da mesma maneira na cabeça de mel de Platão, para ali morrer docemente?
continua na página 375...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete / 77 - O Grande Tonel de Heidelberg / 78 - A cisterna e os baldes /       
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?