quinta-feira, 30 de abril de 2026

Espumas Flutuantes - Pelas sombras

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

PELAS SOMBRAS
Ao padre Francisco de Paula 
 C’est que je suis frappé du doute 
 C’est que l’étole de la foi 
 N’éclaire plus ma noire route: 
 Tout est abîme autour de moi!
La Morvonnais  
  
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos 
 Ladram na escuridão das Circes as cadelas... 
 As lívidas marés atiram, a meus olhos, 
 Cadáveres, que riem à face das estrelas!

Da garça do oceano as ensopadas penas 
 O mórbido suor enxugam-me da testa. 
 Na aresta do rochedo o pé se firma apenas... 
 No entanto ouço do abismo a rugidora festa!... 

Nas orlas de meu manto o vendaval s’enrola... 
 Como invisível destra açoita as faces minhas... 
 Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola... 
 “Quem foi?” perguntam rindo as solidões marinhas.

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante. 
 A treva me assoberba... Ó Deus! dá-me um clarão! 
 — 
 E uma Voz respondeu nas sombras triunfante: 
 “Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!” 

 ........................................................................ 

Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma 
 Pode a flama subir brilhante, loura, eterna; 
 Mas quando os vendavais, rugindo, passam n’alma, 
 Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada 
 Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva. 
 Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada 
 A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva. 

Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria! 
 Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara! 
 Na fronte do oceano — acende uma ardentia! 
 Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!

Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante — 
 Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!... 
 — 
 E uma Voz respondeu nas sombras triunfante: 
 “Acende, ó Viajor! a Fé no Coração!...” 
 Curralinho, 5 de junho de 1870  


ODE AO DOUS DE JULHO
Recitada no teatro de São Paulo  
 
Era no Dous de Julho. A pugna imensa 
 Travara-se nos serros da Bahia... 
 O anjo da morte pálido cosia 
 Uma vasta mortalha em Pirajá. 
 “Neste lençol tão largo, tão extenso, 
 “Como um pedaço roto do infinito... 
 O mundo perguntava erguendo um grito: 
 “Qual dos gigantes morto rolará?!... 

Debruçados do céu... a noite e os astros 
 Seguiam da peleja o incerto fado... 
 Era a tocha — o fuzil avermelhado! 
 Era o circo de Roma — o vasto chão! 
 Por palmas — o troar da artilharia! 
 Por feras — os canhões negros rugiam! 
 Por atletas — dous povos se batiam! 
 Enorme anfiteatro — era a amplidão! 

Não! Não eram dous povos, que abalavam 
 Naquele instante o solo ensanguentado... 
 Era o porvir — em frente do passado, 
 A liberdade — em frente à escravidão. 
 Era a luta das águias — e do abutre, 
 A revolta do pulso — contra os ferros, 
 O pugilato da razão — com os erros, 
 O duelo da treva — e do clarão!... 

No entanto a luta recrescia indômita... 
 As bandeiras — como águias eriçadas — 
 Se abismavam com as asas desdobradas 
 Na selva escura da fumaça atroz... 
 Tonto de espanto, cego de metralha 
 O arcanjo do triunfo vacilava... 
 E a glória desgrenhada acalentava 
 O cadáver sangrento dos heróis!...

 .............................................................. 
 .............................................................. 

Mas quando a branca estrela matutina 
 Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras 
 No verde leque das gentis palmeiras 
 Foram cantar os hinos do arrebol, 
 Lá do campo deserto da batalha 
 Uma voz se elevou clara e divina: 
 Eras tu — liberdade peregrina! 
 Esposa do porvir — noiva do sol!... 

Eras tu que com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra, 
 Livre sagravas a Colúmbia terra, 
 Sagravas livre a nova geração! 
 Tu que erguias, subida na pirâmide, 
 Formada pelos mortos do Cabrito, 
 Um pedaço de gládio — no infinito... 
 Um trapo de bandeira — n’amplidão!... 
 São Paulo, julho de 1868

continua pag 52...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração / Pelas sombras /                
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL
 
continuando...

     Afirmou-se muitas vezes que a mulher se vestia para excitar o ciúme das outras mulheres: este ciúme é com efeito um sinal visível de triunfo; mas não é a única coisa visada. Através dos sufrágios de inveja ou admiração, a mulher busca uma afirmação absoluta de sua beleza, de sua elegância, de seu gosto: de si mesma. Veste-se para se mostrar: mostra-se para se fazer ser. Submete-se assim a uma dolorosa dependência; a dedicação da dona de casa é útil mas não é reconhecida; o esforço da coquete é vão, se não se inscreve em alguma consciência. Ela procura uma valorização definitiva de si mesma; é uma pretensão ao absoluto que torna sua busca tão exaustiva; condenado por uma só opinião, este chapéu não é bonito; um cumprimento a lisonjeia mas um desmentido a arruína; e como o absoluto só se manifesta por uma série indefinida de aparições, ela vencerá completamente; eis por que a coquete é tão suscetível; eis por que também certas mulheres bonitas e aduladas podem estar convencidas de que não são nem belas nem elegantes, que lhes falta precisamente a aprovação suprema de um juiz que não conhecem: visam um em si que é irrealizável. Raras são as coquetes soberbas que encarnam elas próprias as leis da elegância, que ninguém pode surpreender em erro porque são elas que definem, por decretos, o êxito e o malogro; essas, durante seu reinado, podem pensar-se como um êxito exemplar. A desgraça está em que esse êxito não serve para nada nem para ninguém.
     A toalete implica desde logo passeios e recepções, está nisso aliás seu destino original. A mulher passeia de salão em salão seu tailleur novo e convida outras mulheres para vê-la reinar em seu "interior". Em certos casos particularmente solenes o marido acompanha-a em suas "visitas"; porém mais frequentemente, é enquanto o marido trabalha que ela cumpre seus "deveres mundanos". Descreveu-se mil vezes o tédio implacável dessas reuniões. Ele provém do fato de que essas mulheres reunidas pelas "obrigações mundanas" nada têm a se comunicar. Nenhum interesse comum liga a mulher do advogado à mulher do médico — nem tampouco a do Dr. Dupont à do Dr. Durant. Não é de bom-tom, numa reunião, numa conversa de ordem geral falar das travessuras dos filhos ou das preocupações domésticas. Fica-se, portanto, limitada a considerações sobre o tempo, o último romance em voga, algumas ideias gerais tiradas dos maridos. O hábito do dia "de Madame" tende sempre mais a desaparecer; mas sob diversas formas a obrigação da "visita" sobrevive na França. As norte-americanas substituem de bom grado a conversa pelo bridge, o que só constitui uma vantagem para as mulheres que gostam desse jogo.
     Entretanto, a vida mundana reveste formas mais atraentes do que essa ociosa execução de um dever de polidez. Receber não é apenas acolher os outros em sua residência particular; é transformar esta em um recanto encantado; a manifestação mundana é ao mesmo tempo festa e poílatch. A dona de casa expõe seus tesouros: prataria, toalhas, cristais; enche de flores o lar: efêmeras, inúteis, as flores encarnam a gratuidade das festas que são despesas e luxo; desabrochadas nos vasos, condenadas a uma morte rápida, são fogo de artifício, incenso e mirra, libação, sacrifício. A mesa enche-se de pratos requintados, de vinhos preciosos. Trata-se, satisfazendo as necessidades dos convivas, de inventar dons graciosos que lhes previnem os desejos; a refeição transmuda-se em misteriosa cerimônia. V. Woolf acentua esse caráter neste trecho de Mrs Dalloway:

   Então começou pelas portas de vento o vaivém silencioso e encantador das criadinhas de avental e boné brancos, não serventes necessárias porém sacerdotisas de um mistério, da grande mistificação operada pelas donas de casa de Mayfair de uma hora e meia a duas. A um gesto de mão, o movimento da rua cessa e em seu lugar ergue-se essa ilusão enganadora: primeiramente, eis os alimentos oferecidos de graça, depois a mesa cobre-se sozinha de cristais e prataria, de cestos, de gamelas com frutos vermelhos; um véu de creme escuro esconde o peixe; frangos destrinchados nadam em caçarolas, o fogo flameja cerimonioso; e com o vinho e o café — dados de graça — alegres visões erguem-se ante os olhos sonhadores, os olhos que meditam docemente, aos quais a vida se apresenta musical, misteriosa...

     A mulher que preside tais mistérios está orgulhosa de se sentir criadora de um momento perfeito, dispensadora da felicidade, da alegria. É através dela que os convivas se encontram reunidos, que um acontecimento ocorre, ela é fonte gratuita de alegria, de harmonia.
     É exatamente o que sente Mrs. Dalloway:

   Mas suponhamos que Peter lhe diga: Bem! Bem! Mas suas noitadas, qual a razão delas? Tudo o que pode responder é isto (tanto pior se ninguém entende): São uma oferenda... Eis Fulano que mora em South Kennington, Beltrano que vive em Bayswater e Sicrano, diga mos no Mayfair. Ela tem sempre o sentimento da existência deles; ela se diz: Que pena! Que saudade! E ela se diz: Por que não os reunir? quem? E os reúne. É uma oferenda; é combinar, criar. Mas para quem?
   Uma oferenda pela alegria de oferecer, talvez. seu presente. Ela não tem outra coisa... Em todo caso é seu presente. Ela não tem outra coisa...
   Outra pessoa, qualquer uma, poderia ter estado ali, fazer tão bem. Entretanto era um pouco admirável, pensava. Fizera com que as sim fosse.

     Se há nessa homenagem prestada a outrem pura generosidade, a festa é realmente uma festa. Mas a rotina social dentro em pouco transforma o potlatch em instituição, o dom em obriga ção e a festa em rito. Enquanto saboreia o jantar, a convidada pensa que será preciso pagá-lo: queixa-se amiúde de ter sido bem recebida demais. "Os X... quiseram embasbacar-nos", diz com azedume ao marido. Contaram-me, entre outras coisas, que durante a última guerra os chás se tinham tornado, numa pequena cidade de Portugal, o mais caro dos potlatchs: em cada reunião devia a dona da casa servir uma variedade e uma quantidade de doces maiores do que na reunião precedente; o fardo tornou-se tao pesado que um dia as mulheres decidiram de comum acordo nada mais oferecer com o chá. A festa em tais circunstâncias perde seu caráter generoso e magnífico; é uma corveia entre outras; os acessórios que exprimem a festividade não passam de uma fonte de preocupações: é preciso tomar conta dos cristais, da toalha, medir o champanha e os doces; uma xícara quebra da, a seda de uma poltrona queimada são desastres; amanhã será preciso limpar, arrumar, pôr em ordem: a mulher teme esse excesso de trabalho. Sente essa múltipla dependência que define o destino da dona de casa; depende do soufflé, do assado, do açougueiro, da cozinheira, do criado extra; depende do marido que franze o sobrolho, quando alguma coisa falha; depende dos convidados que avaliam os móveis, os vinhos e julgam se a noitada foi um êxito ou não. Somente as mulheres generosas ou seguras de si passarão serenamente por tal prova. Um triunfo pode dar-lhes uma grande satisfação. Mas muitas assemelham--se nesse ponto a Mrs. Dalloway, a propósito de quem V. Woolf nos diz: "Embora gostando desses triunfos. . . de seu brilho e da excitação que dão, sentia-lhes também o vazio, o artifício". A mulher só pode realmente comprazer-se nisso se não lhe empresta grande importância; sem o quê, conhecerá os tormentos da vaidade nunca satisfeita. Há, de resto, poucas mulheres sufi cientemente ricas para encontrar no "mundanismo" um emprego para sua vida. As que a ele se consagram inteiramente tentam em geral não somente render um culto a si mesmas como ainda ultrapassar essa vida mundana com vistas a outros fins: os ver dadeiros "salões" têm um caráter literário ou político. Elas se esforçam através desse meio por adquirir ascendência sobre os homens e desempenhar um papel pessoal. Evadem-se de sua condição de mulher casada. Esta, em geral, não encontra satisfação nos prazeres, nos triunfos efêmeros que lhes dispensam raramente e que muitas vezes representam para elas uma fadiga tanto quanto uma distração. A vida mundana exige que ela "represente", que se exiba, mas não cria entre ela e outrem uma verdadeira comunicação. Não a tira de sua solidão.
     "É doloroso pensar, escreve Michelet, que a mulher, o ser relativo que só pode viver a dois, se ache mais amiúde só do que o homem. Ele encontra a sociedade por toda parte, cria relações novas para si. Ela não é nada sem a família. E a família acabrunha-a; todo o peso lhe cai em cima." E, com efeito, a mulher encarcerada, separada, não conhece as alegrias da camaradagem que implica no esforço em comum para alcançar certos objetivos; seu trabalho não ocupa o espírito, sua formação não lhe deu nem o gosto nem o hábito da independência e, no entanto, ela passa os dias na solidão; vimos que era uma das desgraças de que se queixava Sofia Tolstói. Seu casamento afastou-a amiúde do lar paterno, das amizades da juventude. Colette descreveu em Mes Apprentissages o desarraigamento de uma mulher casada transportada da província para Paris: não encontra apoio senão na longa correspondência que troca com a mãe; mas as cartas não substituem uma presença e ela não pode confessar suas decepções a Sido. Geralmente não há verdadeira intimidade entre a jovem mulher e sua família: nem sua mãe nem suas irmãs são suas amigas. Hoje, em virtude da crise de habitação, muitas jovens recém-casadas vivem com a família ou a família do marido; mas essas presenças impostas estão longe de constituir uma verdadeira companhia para elas.
     As amizades femininas que a mulher consegue conservar ou criar ser-lhe-ão preciosas; têm um caráter muito diferente das relações que os homens conhecem; estes comunicam entre si, como indivíduos, através das ideias, os projetos que lhes são pessoais; as mulheres, encerradas na generalidade de seu destino, acham-se unidas por uma espécie de cumplicidade imanente. O que primeiramente procuram, umas junto de outras, é a afirmação do universo que lhes é comum. Não discutem opiniões: trocam confidencias e receitas; ligam-se para criar uma espécie de contra-universo cujos valores superem os valores masculinos; reunidas, encontram força para sacudir suas cadeias; negam o domínio sexual do homem, confiando umas às outras sua frieza, zombando cinicamente dos apetites do macho ou de sua inabilidade; contestam também com ironia a superioridade moral e intelectual do marido e dos homens em geral. Confrontam suas experiências; gravidez, partos, doenças dos filhos, doenças pessoais, cui dados caseiros tornam-se os acontecimentos essenciais da história humana. Seu trabalho não é uma técnica: transmitindo-se receitas de cozinha, receitas caseiras, dão-lhes a dignidade de uma ciência secreta baseada em tradições orais. Por vezes, examinam juntas problemas morais. A "pequena correspondência" dos jornais femininos oferece uma boa amostra dessas trocas; não há como imaginar uma "correspondência amorosa" reservada aos homens; eles se encontram no mundo, que é o mundo deles; ao passo que as mulheres têm que definir, medir, explorar seus domínios; comunicam principalmente conselhos de beleza, receitas de cozinha e de tricô, pedem opiniões; através de seu gosto pela tagarelice e pela exibição sentimos, por vezes, surgirem verdadeiras angústias. A mulher sabe que o código masculino não é o seu, que o próprio homem espera que ela não o observará, posto que a impele a abortos, a adultérios, a erros, a traições, a mentiras que oficialmente condena. Ela pede, portanto, às outras mulheres, que a ajudem a definir uma espécie de "lei" de seu meio, um código moral propriamente feminino. Não é somente por maldade que as mulheres comentam e criticam tão longamente as condutas das amigas: para julgá-las e para se orientarem é-lhes necessária muito mais invenção moral do que aos homens.
     O que dá valor a tais relações é a verdade que comportam. Diante do homem, a mulher está sempre representando; mente, fingindo aceitar-se como o outro inessencial, mente erguendo, à frente dele, mediante mímicas, toaletes, frases preparadas, uma personagem imaginária; essa comédia exige uma constante tensão; perto do marido, perto do amante, toda mulher pensa mais ou menos: não sou eu mesma. O mundo masculino é duro, tem arestas afiadas, as vozes são demasiado sonoras, as luzes demasiado cruas, os contatos rudes. Perto das outras mulheres, a mulher fica atrás do cenário; forja suas armas, não combate; combina a toalete, inventa uma maquilagem, prepara seus ardis: arrasta-se de chinelos e roupão pelos bastidores antes de subir ao palco; gosta dessa atmosfera morna, doce, repousante. Colette (Le Képi) descreve assim os momentos que passava com sua amiga Marco:

   Confidências rápidas, divertimentos de reclusas, horas que por vezes se assemelham às de uma reunião, por vezes aos lazeres de uma convalescença.

     Comprazia-se em desempenhar o papel de conselheira junto da mulher mais idosa:

   Nas tardes quentes, sob o estore do balcão, Marco cuidava de suas roupas. Cozia mal, mas com cuidado e eu me envaidecia com os conselhos que lhe dava... "Não se deve colocar fita azul-celeste nas camisas, o cor-de-rosa é mais bonito na roupa e junto da pele." Não tardei em dar-lhe outros conselhos acerca do pó de arroz, da cor do batom, do traço duro e negro com que cercava o belo desenho de sua pálpebra. "Acha? não cedia. Acha?", dizia-me ela. Minha jovem autoridade Pegava do pente, abria uma pequena brecha graciosa na sua franja fofa, mostrava-me perita em dar brilho a seu olhar, em acender uma aurora vermelha no alto de suas faces, perto das têmporas.

     Mais adiante mostra-nos Marco preparando-se ansiosamente para defrontar-se com um rapaz que desejava conquistar:

   ... Queria enxugar os olhos molhados, eu a impedia. 
   — Deixa-me fazê-lo. 
   Com os polegares, ergui as pálpebras superiores a fim de que as duas lágrimas prestes a escorrer se reabsorvessem e a pintura dos cílios não fundisse ao seu contato. 
   — Bem. Espera, não terminou ainda. 
   Retoquei todos os traços. A boca tremia um pouco. Deixou-se retocar pacientemente, suspirando como se a pensasse. Para acabar, enchi-lhe o arminho com um pó de arroz mais rosado. vamos, nem uma nem outra. 
   —... Que quer que aconteça — disse-lhe — não chore. De jeito nenhum te deixes dominar pelas lágrimas. 
   ... Ela passou a mão entre a franja e a fronte. 
   — Eu devia ter comprado sábado último aquele vestido preto que vi no revendedor. . . Escuta, não poderias emprestar-me meias muito finas? Nesta hora, não tenho mais tempo. 
   — Mas naturalmente, naturalmente. 
   — Obrigada. Não achas que uma flor pode clarear o vestido? Não, nada de flor na blusa. É verdade que o perfume de íris não está mais na moda? Parece-me que teria uma porção de coisas para te perguntar, uma porção de coisas...

continua página 305...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (3) 
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção IV)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção IV
Da conexão ou associação das ideias


     Visto que a imaginação pode separar todas as ideias simples e uni-las de novo na forma que lhe aprouver, nada seria mais inexplicável do que as operações desta faculdade, se ela não fosse orientada por alguns princípios universais que a tornassem em certa medida uniforme em todos os tempos e lugares. Se as ideias fossem inteiramente soltas e desconexas, só o acaso as juntaria; e seria impossível que as mesmas ideias simples se agrupassem regularmente em ideias complexas (como correntemente sucede) sem estarem unidas por qualquer laço, qualquer qualidade associativa, mediante a qual uma ideia naturalmente introduz a outra. Este princípio de união entre as ideias não deve considerar-se uma conexão inseparável, pois tal conexão já foi excluída da imaginação; contudo não devemos concluir que sem ela, a mente é incapaz de juntar duas ideias, visto que nada há mais livre do que essa faculdade. Mas devemos apenas considerar este princípio de união como uma força suave que normalmente prevalece e é a causa que, entre outras coisas, produz a correspondência tão estreita das línguas entre si; a natureza de certo modo indicando a cada um as ideias simples que são mais apropriadas à união numa ideia complexa. As qualidades em que se origina esta associação e que desta maneira levam a mente de uma ideia para outra, são três: a semelhança, a contiguidade no tempo e no espaço e a relação de causa e feito.
     Julgo não ser muito necessário provar que estas qualidades produzem uma associação entre as ideias e que, ao aparecer uma ideia, naturalmente introduzem outra. Está claro que, no decorrer do nosso pensamento e na transformação constante das nossas ideias, a imaginação passa facilmente de uma ideia para qualquer outra que se lhe assemelhe, e que esta qualidade, por si só, constitui para a fantasia um laço e associação suficiente. É também evidente que, sendo os sentidos, ao mudarem os objetos, obrigados a mudarem-nos regularmente, tomando-os tal como se encontram contíguos uns aos outros, deve a imaginação, devido ao longo costume, adquirir o mesmo método de pensar, percorrendo as partes do espaço e do tempo ao conceber os seus objetos. Quanto à conexão que se opera pela relação de causa e efeito, a seguir teremos ocasião de a estudar a fundo, pelo que não insisto nela de momento. Basta notar que nenhuma relação produz na fantasia uma conexão mais forte, e faz uma ideia mais prontamente evocar outra, do que a relação de causa e efeito entre os seus objetos.
     Para compreendermos toda a extensão destas relações, é necessário considerar que dois objetos ficam ligados um ao outro na imaginação não apenas quando um deles é diretamente semelhante, contíguo ou causa do outro, mas ainda quando entre eles se interpõe um terceiro objeto que mantém com ambos qualquer destas relações. Pode levar-se longe esta conexão; contudo podemos ao mesmo tempo notar que cada deslocação enfraquece consideravelmente a relação. Os primos em quarto grau estão ligados por causalidade, se é que é lícito usar este termo, mas não tão intimamente como os irmãos e muito menos do que um filho aos seus pais. Em geral pode notar-se que todas as relações de consanguinidade dependem da relação de causa e efeito e consideram-se próximas ou remotas segundo o número de causas de ligação intercaladas entre as pessoas.
     Das três relações mencionadas acima, a de causalidade é a mais extensa. Dois objetos podem considerar-se nesta relação já quando um deles é causa de qualquer das ações ou movimentos do outro, já quando o primeiro é causa da existência do segundo. Com efeito, não sendo esta ação ou movimento senão o próprio objeto visto a determinada luz e continuando o objeto o mesmo em todas as suas diferentes situações, é fácil de imaginar como essa influência mútua dos objetos pode ligá-los na imaginação.
     Podemos ir mais longe e observar que dois objetos ficam ligados pela relação de causa e efeito, não só quando um deles produz no outro um movimento ou ação qualquer, mas ainda quando tem poder para produzi-lo. E podemos notar que esta é a origem de todas as relações de interesse e de dever pelas quais os homens se influenciam mutuamente na sociedade e ficam presos nos laços do governo e da subordinação. Patrão é o homem que, pela sua situação, originada na força ou num acordo, tem o poder de dirigir em certos pontos as ações doutro homem a quem chamamos servo. Juiz é um homem que nos casos de litígio pode, mediante a sua decisão, assegurar a posse ou propriedade de uma coisa qualquer a qualquer membro da sociedade. Quando uma pessoa é dotada de qualquer poder, nada mais é preciso para que este passe a ato do que o exercício da vontade; e este exercício considera-se possível em todos os casos, e provável em muitos deles, especialmente no caso da autoridade, em que a obediência do súb-dito é um prazer e uma vantagem para o superior.
     São estes portanto os princípios de união ou coesão das nossas ideias simples, os quais na imaginação preenchem o lugar dessa conexão inseparável por força da qual elas se unem na nossa memória. Há aqui uma espécie de atração, a qual veremos ter no mundo do espírito efeitos tão extraordinários como no mundo da natureza, e manifestar-se sob tantas e tão variadas formas como neste. Os seus efeitos são por toda a parte manifestos, mas as suas causas são na maioria dos casos desconhecidas e têm de se reduzir a qualidades originais da natureza humana, que não é minha pretensão explicar. O que mais se exige de um verdadeiro filósofo é que reprima o desejo imoderado de procurar causas e que, depois de ter estabelecido uma doutrina a partir de um número suficiente de experiências, se dê por satisfeito quando notar que um exame mais por menorizado o levaria a especulações obscuras e incertas. Neste caso a sua investigação seria mais bem empregada em examinar os efeitos do que as causas do seu princípio.
     Dentre os efeitos desta união ou associação de ideias, nenhuns há mais notáveis do que aquelas ideias complexas que são a matéria comum dos nossos pensamentos e raciocínio, e geralmente têm origem nalgum princípio de união entre as nossas ideias simples. Estas ideias complexas podem dividir-se em relações, modos e substâncias. Vamos examinar com brevidade cada uma delas por ordem, e acrescentaremos algumas considerações sobre as nossas ideias gerais e particulares, antes de deixarmos o presente assunto, que pode considerar-se como os elementos desta filosofia.

continua na página 43...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IV /   
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Cinema: Wolfgang Amadeus Mozart

Mozart


"Minha vizinha gostava tanto de Mozart que atirou um tijolo na minha janela só para poder ouvi-lo melhor. É interessante notar que em Requiem KV626, 7:46 Dies Irae e 20:40 Confutatis são mais pesadas ​​e intensas do que qualquer outra música Heavy Metal já feita."






Coleção TEMPUS - Edição e Criação Original - IP - Todos os direitos reservados.
Wolfgang (A. Mozart) - 1991 - TV | 1991 | Filme biográfico | Österreich, Tschechische Republik Hauptdaten Projektdaten - Regie Juraj Georg Herz - Drehbuch - Zdenek Mahler.

Elenco:
Alexander Lutz: Wolfgang Amadeus Mozart
Jakub Trasak: Wolferl - Menino
Toni Böhm: Leopold Mozart
Hana Militká: Ana María Mozart
Jitka Havlícková: Nannerl Mozart
Magdalena Reifová: Konstanze Weber Mozart
Barbara Wussow: Aloisia Weber Lange
Miguel Herz-Kestranec: Joseph Lange
Milena Sajdková: Caecilia Weber
Radoslav Brzobohatý: Arbishop Jerónimo von Colloredo
Frantisek Nemec: Joseph Haydn
Boris Rösner: Antonio Salieri
Vlastimil Harapes: Conte Walsseg
August Schmölzer: Emmanuel Schikaneder
Therese Herz: Annerl Gottlieb
Barbora Hrzánová: Bäsle
Zora Jandová: Josefina Duskova
Zdenek Martínek: Casanova
Petr Cepek: Ignaz Born
Zdenek Havránek: Fígaro
Ludek Vele: Leporello


Mozart - Biografia




5 Fatos e Curiosidades sobre Mozart




Mozart – Requiem KV626



0:00 Introitus: Requiem aeternam
4:49 Kyrie eleison

Sequenz
7:14 Dies irae
8:56 Tuba mirum
12:40 Rex tremendae
15:00 Recordare
20:40 Confutatis
22:59 Lacrimosa

Offertorium
26:30 Domine Jesu
29:54 Versus: Hostias et preces
33:54 Sanctus
35:39 Benedictus 
40:55 Agnus Dei
43:56 Communio: Lux aeterna
49:30 Credits

Wolfgang Amadeus Mozart – Requiem KV 626
Bartosz Michałowski – conductor
Sylwia Olszyńska – soprano
Agata Schmidt – mezzo-soprano
Karol Kozłowski – tenor
Adam Kutny – baritone
Polish Sinfonia Iuventus Orchestra
Warsaw Philharmonic Choir
Gravado em Novembro 01, 2019 no Warsaw Philharmonic Concert Hall

Wolfgang Amadeus Mozart /   

Boa noite, Poesia... O Amor

Vladimir Maiakovski


Chamado de "o poeta da Revolução", foi um poeta, dramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot, bem como "o maior poeta do futurismo".







Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.

Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.

Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.

Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.