quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ilíada: Homero (Canto II.d - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
 
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”

.continuando...

que das canções se esquecesse e, também, de pulsar o instrumento: 
pelo Gerênio Nestor, domador de cavalos, trazidos, 
esses, ao todo, perfazem noventa navios bojudos. 
   Os que na Arcádia moravam, nas faldas do monte Cilena, 
perto da campa de Epítio, guerreiro de prol todos eles; 
os de Feneu e de Orcómeno, zona em rebanhos mui rica, 
os de Estratia e de Ripa, bem como os de Enispa ventosa, 
de Mantineia formosa os guerreiros, da fértil Tegeia, 
os moradores de Estínfalo e quantos Parrásio habitavam, 
sob o comando do filho de Anceu, Agapénor, chegaram

em naus sessenta. Pejadas se achavam de ousados guerreiros,
homens da Arcádia eles todos, famosos no ofício da guerra. 
O poderoso Agamémnone, chefe de heróis, lhes cedera 
naus resistentes, que por sobre o mar cor de vinho trouxessem, 
pois ignoravam, de todo, os problemas das lidas marinhas. 
   Os de Buprásio, os guerreiros que na Élide sacra habitavam, 
desde a cidade de Hirmine até a sede postrema de Mírsino, 
que a pétrea Olênia limita, bem como a cidade de Alísio, 
com quatro chefes chegaram. Cada um conduzia dez naves 
de veloz curso, equipados com muitos Epeios famosos.

Uns, o comando recebem de Anfímaco e Tálpio; este, filho 
de Eurito, o grande; de Ctéato, aquele; ambos de Áctor nasceram. 
Diores, o filho do forte Amarinco, outro grupo comanda. 
O quarto, alfim, traz Políxeno, o herói de presença divina, 
filho de Agástenes, rei que de Áugias possante descende. 
   Os de Dulíquio habitantes e os homens das sacras Equínades, 
ilhas que se acham mui longe no mar, defrontando com a Élide, 
vêm por Megete mandados, no porte semelho a Ares forte, 
que de Fileu picador descendia, querido dos deuses, 
o qual, brigado com o pai, em Dulíquio assentou o palácio:

esses, perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Os Cefalênios magnânimos traz Odisseu astucioso, 
de Ítaca os homens, também, e os de Nérito, monte frondoso, 
de Crocileia os guerreiros, bem como os da pétrea Egilipe, 
os de Zacinto habitantes, de Samo e de seus arredores, 
do continente, e os que pastos possuem na terra fronteira: 
trá-los o divo Odisseu, no saber só a Zeus comparável: 
doze navios de casco vermelho ao seu mando obedecem. 
   Toante, de Andrêmone filho, os guerreiros da Etólia comanda, 
que nas cidades moravam de Oleno. Pilene e Pleurona,

em Calidona fragosa e onde Cálcide as ondas refletem. 
Visto já terem morrido os dois filhos de Eneu de alma grande, 
é o próprio Eneu, como o louro Meléagro, no Hades se acharem, 
fora-lhe dado o comando de todos os homens da Etólia: 
esses perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Idomeneu, de hasta invicta, nos homens de Creta imperava, 
que demoravam em Cnosso e em Gortina cingida por muros, 
Licto, Mileto e Licasto de solo calcário brilhante, 
em Rítio e Festo, também, ambas elas de aspecto magnífico, 
e outras das cem povoações que pela Ilha de Creta se encontram.

Idomeneu, de hasta invicta, o comando sobre estes exerce 
como Meríones forte, igual a Ares Eniálio homicida: 
esses, oitenta navios de negro costado equipavam. 
   O valoroso e membrudo Tlepólemo, de Héracles filho, 
nove navios comanda, pejados de Ródios pugnazes. 
Rodes era a ilha de origem, em três povoações dividida: 
Lindo, uma delas; Ialiso; e a terceira, Camiro fulgente. 
Nestes, o mando exercia Tlepólemo, de hasta invencível, 
filho da bela Astioqueia, que de Héracles forte o gerara, 
que a trouxe de Éfira, sita na margem do rio Seloente,

quando destruiu numerosas cidades de heróis distinguidos. 
Pós ter crescido Tlepólemo dentro da casa bem-feita, 
a morte ao tio materno do pai, a Licímnio, deu ele, 
que já alcançara a velhice e era de Ares aluno preclaro. 
Sem perder tempo, equipou várias naus, reuniu muita gente, 
para, desta arte, escapar, que o ameaçavam os filhos e netos 
de Héracles forte, de peito leonino, se acaso o encontrassem. 
Pós trabalhosa viagem, consegue chegar até Rodes. 
Três povoações fundou logo, segundo as famílias, benquistas 
todas de Zeus, que dos deuses o império detém e dos homens.

Fez-lhes chover abundantes riquezas o filho de Crono. 
   Trouxe Nireu da cidade de Sime três naves simétricas. 
De ser nascido de Aglaia, Nireu se orgulhava, e de Cáropo. 
Era Nireu o mais belo, debaixo dos muros de Troia, 
entre os do exército Acaio, se excluirmos o grande Pelida; 
mas era imbele; bem poucos heróis perfaziam-lhe o séquito. 
   Os de Nisiro habitantes, de Crápato e Caso, bem como 
os da cidade de Eurípilo, Cós, da ilha bela Calidna, 
vieram trazidos por Ántifo e Fídipo, filhos de Téssalo, 
rei poderoso e valente, que de Héracles forte nascera:

estes, em trinta navios dispostos em fila, embarcaram. 
Ora, menção seja feita dos de Argos Pelasga habitantes, 
dos do Alo e Alope, de Ftia, e de quantos Trequina cultivam, 
bem como os da Hélade, célebre pelas mulheres formosas, 
como Mirmídones todos nomeados, Helenos e Aquivos: 
destes, cinquenta navios Aquiles herói conduzira. 
Mas deslembrados agora se achavam dos prélios horríssonos, 
pois careciam de chefe que a todos guiasse às batalhas. 
O divo Aquiles, de céleres pés, junto às naves estava, 
a suspirar pela filha de Brises, de belas madeixas,

que de Lirnesso, com grande trabalho, trouxera cativa, 
quando a cidade destruiu e as muralhas altivas de Tebas, 
e de Minete e de Epístrofo a doce existência tirara, 
filhos de Evénor, o rei por Selépio famoso gerado. 
Ela o tornara inativo, mas breve haveria de alçar-se. 
   Os moradores de Fílace e Píraso, terra de flores, 
sacra a Deméter, de Itone que nutre rebanhos de ovelhas, 
os da marítima Antrona e os de Ptéleo de prados vistosos, 
Protesilau, quando vivo, o notável herói, comandava. 
A terra negra, porém, já acolhera em seu meio o guerreiro.

Ambas as faces, em Fílace, a esposa a arranhar deixou ele 
e, inacabado, o palácio; matou-o um guerreiro Dardânio, 
quando saltou do navio muito antes dos outros Acaios. 
Ainda que o chefe chorassem, sem guia os heróis não se achavam, 
pois instrução de Podarces lhes vinha, discípulo de Ares, 
de Íficlo filho, nascido de Fílaco, chefe opulento, 
que era legítimo irmão do magnânimo Protesilau, 
mas bem mais moço; nascido primeiro e mais forte era aquele, 
Protesilau! grande herói! Entretanto, sem chefe os seus homens 
não se encontravam; sua grande virtude, contudo, choravam.

Esses, perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Os moradores de Feras, ao lado do lago de Bébide, 
os da cidade bem-feita de Iaolco, de Gláfira e Beba, 
em onze naus, com Eumelo, nascido de Admeto, chegaram. 
Fora sua mãe a divina entre todas as jovens, Alceste, 
a mais formosa de quantas nasceram de Pélias guerreiro. 
   Os que lavravam Metone, bem como os heróis de Taumácia, 
de Melibeia, também, e Olizona de chão pedregoso, 
por Filoctetes trazidos chegaram, archeiro famoso, 
em sete naves, contendo cada uma cinquenta remeiros,

todos dotados de força e habituados ao tiro com o arco. 
Ele, entretanto, ficara a sofrer indizíveis tormentos 
na Ilha de Lemno divina, onde o haviam deixado os Acaios 
vítima de úlcera feita por dente de serpe nociva. 
Lá se encontrava, a gemer; mas em breve, ao redor de seus barcos, 
de Filoctetes haviam lembrar-se os Aquivos guerreiros. 
Ainda que o chefe chorassem, sem guia os heróis não se achavam, 
pois de Medonte, bastardo de Oileu, instrução recebiam, 
devastador de cidades, que o teve de Rena formosa. 
   Os moradores de Trica e de Itome de vários andares,

e os da cidade de Ecália, onde o mando exercia o grande Êurito, 
sob o comando dos filhos de Asclépio vieram, Macáone 
e Podalírio, ambos médicos e ambos, também, já famosos: 
esses, em trinta navios dispostos em fila, embarcaram. 
   Os da cidade de Ormênia, bem como os de Fonte Hipereia 
e os moradores de Astéria e os do cimo do branco Titânio, 
trá-lo Eurípilo, o filho preclaro de Evémone excelso: 
esses, perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Os moradores de Argissa e os guerreiros, também, de Girtone, 
bem como os de Orta e de Elone e os da branca cidade de Oloossona,

sob o comando do herói Polípetes intrépido vieram, 
filho do grande Pirítoo, de Zeus imortal descendente. 
Fora nascido, realmente, da bela e gentil Hipodâmia, 
no mesmo dia em que o pai castigara os hirsutos Centauros. 
Longe do Pélio os tocou, para o meio dos povos Etícios. 
Compartilhava do mando Leonteu, o discípulo de Ares, 
neto de Cene magnânimo e filho do grande Corono: 
esses, perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Em vinte e dois barcos veio Guneu da cidade de Cifo, 
com os Eniênios guerreiros e heróis destemidos Perebos;

junto a Dodona moravam, região de muito áspero inverno; 
os que morada assentaram nos campos amenos do rio 
de Titareso, que ao claro Peneu vai levar suas águas, 
sem que, no entanto, se mesclem no curso argentino desse último; 
sim, sobrenadam naquele, tal como se de óleo elas fossem, 
pois são do Estige um dos braços, o rio da jura terrível. 
   Prótoo conduz os Magnetas, o filho do forte Tentrédone, 
que ao derredor do Peneio e do Pélio frondoso moravam. 
Esses, ao mando de Prótoo obedecem, o herói velocíssimo: 
todos, quarenta navios de casco anegrado perfazem.

Os condutores dos Dânaos, os chefes supremos, são estes. 
Musa, revela-me, agora, qual era o melhor dos guerreiros 
que com o Atrida vieram, bem como os mais fortes cavalos. 
   Entre os corcéis distinguiam-se as éguas de Eumelo, de Feras, 
filho de Admeto, velozes tal como se pássaros fossem. 
Eram de igual pelo as duas, bem como do mesmo tamanho. 
Por Febo Apolo, o frecheiro que vibra o arco argênteo, elas ambas 
foram criadas; consigo o terror das batalhas levavam. 
Entre os guerreiros, Ajaz Telamônio era o mais distinguido 
enquanto Aquiles esteve afastado, o mais forte de todos

e possuidor dos melhores cavalos; em tudo primava. 
Mas esse, agora, se achava nas naves recurvas e céleres, 
estomagado com o chefe de heróis, o possante Agamémnone, 
filho de Atreu. Junto à praia do mar sonoroso seus homens 
se divertiam no jogo dos discos, de flechas e lanças. 
Junto dos carros de guerra se achavam, também, os cavalos, 
que aipo palustre, inativos, pastavam, e o loto gostoso. 
Dentro das tendas, cobertos se achavam os carros, enquanto 
os heróis todos, sentidos com a ausência do chefe aguerrido, 
desorientados vagavam, mas sem combater, pelo campo.

Os outros Dânaos avançam qual fogo que o solo abrasasse. 
Tal como a Terra, que geme ao mostrar-se agastado Zeus grande, 
que como os raios se apraz, quando em torno a Tifeu a vergasta, 
entre os Arimos, local onde se acha Tifeu, é o que dizem: 
do mesmo modo estrondava com o peso dos pés o chão todo, 
quando os heróis avançavam, cortando, ligeiros, o campo. 
   Íris, de pés mais velozes que o vento, de Zeus por mandado, 
que a égide vibra, aos Troianos baixou com uma triste notícia. 
Esses, em frente ao palácio de Príamo estavam reunidos 
em assembleia, eles todos, os moços e os velhos da terra.

Íris, de rápidos pés, aproxima-se deles e fala, 
tendo imitado as feições de Polites, nascido de Príamo, 
que era o atalaia dos Teucros. Confiado nos pés ligeiríssimos, 
no alto do túmulo vinha postar-se o velho Esietes, 
sempre a espreitar o momento em que os Dânaos das naus se moviam. 
Íris, de rápidos pés, sob a forma aludida, lhes fala: 
   “Como se em paz estivéssemos, velho, te agradam discursos 
intermináveis: a guerra, no entanto, nos calca impiedosa. 
Certo, em muitíssimas pugnas achado me tenho presente, 
mas tais e tantos guerreiros, como esses, jamais tenho visto.

Mais semelhantes à areia do mar ou às folhas das matas, 
movem-se todos no plaino, visando a atacar nossos muros. 
Por isso, Heitor, recomendo-te agora que faças desta arte: 
muitos aliados se encontram na grande cidade de Príamo, 
de diferentes países, e línguas de vária estrutura. 
Que cada grupo receba instrução de seus guias nativos, 
que hão de saber coordená-los e à guerra, depois, conduzi-los.” 
Reconheceu, logo, Heitor que provinha de um deus o conselho; 
fez dissolver a assembleia: os guerreiros às armas correram; 
abrem-se todas as portas, porque se franqueasse a saída,

aos combatentes de pé e aos de carro era imenso o estrupido. 
   Há na planície uma excelsa coluna, fronteira à cidade, 
completamente isolada e visível de todos os lados, 
denominada Batieia por todos os homens terrenos, 
mas pelos deuses eternos, o túmulo da ágil Mirina. 
Lá, se puseram em ordem os Teucros e seus aliados. 
Sobre os Troianos Heitor comandava, o herói de elmo ondulante, 
filho de Príamo. Muitos guerreiros, dos mais distinguidos, 
com ele as armas empunham, de a pugna encetar desejosos. 
Sobre os Dardânios o mando exercia o nascido de Anquises

e da divina Afrodite, o guerreiro notável Eneias, 
pós haver no Ida selvoso a um mortal uma deusa se unido. 
Mas de Antenor os dois filhos, do mando, também, compartilham, 
ambos prudentes varões, Acamante e o notável Arquéloco. 
   Os de Zeleia habitantes, da falda contérmina do Ida, 
gente opulenta, que as águas escuras do Esepo bebiam, 
sob o comando se achavam de Pândaro, o filho notável 
do alto Licáone, o mesmo a quem Febo o arco dera em lembrança. 
   Os habitantes dos muros de Adresta, os do povo de Apeso, 
os de Pitieia e os que moram no monte escarpado de Téria,

ordens cumpriam de Adrasto e de Anfião, de couraça de linho, 
ambos de Mérope filhos, o herói de Percote, o mais sábio 
dos adivinhos. Opôs-se, em verdade, a que os filhos partissem 
para a campanha sangrenta; contudo nenhum quis ouvir-lhe 
os bons conselhos, que à lívida Morte o Destino os levava. 
   Os de Percote e os que as margens do Práctio cuidosos lavravam, 
os moradores de Sesto e de Abido, os da Arisba divina, 
vieram por Ásio trazidos, o Hirtácida, chefe eminente, 
de Hírtaco o filho notável, que veio de Arisba, em carruagem, 
desde o Seloente revolto, puxado por fulvos ginetes.

Os valorosos lanceiros Pelasgos Hipótoo comanda, 
esses que as casas construíram nos campos da fértil Larissa. 
Compartilhava do mando Pileu, de Ares forte discípulo, 
filho, também, do Teutâmida Leto, Pelasgo valente. 
Píroo e Acamante valentes conduzem os homens da Trácia, 
quantos guerreiros demoram nas margens do estuoso Helesponto. 
   Os heróis Cíconos fortes, Eufemo galhardo chefia, 
que de Trezeno provinha, a Zeus caro, nascido de Ceas. 
   Trouxe de longe, de Amídone, Piracme, os Peônios belazes, 
de arcos recurvos, que no Áxio demoram, de curso imponente, 

 o Áxio, o mais belo dos rios que, ufanos, se alargam na terra. 
   Os Paflagônios Pilêmenes trouxe, de peito veloso. 
Ênetos, sim, da região onde mulas selvagens se criam. 
Esses moravam em Cítoro, os campos lavravam de Sésamo, 
e do Partênio nas várzeas, magníficas casas construíram, 
em Crômnia e Egilo e na celsa Eritina, de solo vermelho. 
   Os Halizônios, Epístrofo e Odio de longe conduzem, 
lá da cidade de Alibe, onde prata em jazidas se encontra. 
   Os Mísios vieram trazidos por Crômis e o arúspice Enomo, 
cujo saber não o livrou de ser presa da lívida Morte;

vítima foi do Pelida de pés velocíssimos, quando 
no próprio rio privou da existência a outros muitos Troianos. 
Fórcis e Ascânio divino trouxeram da Ascânia longínqua 
Frígios guerreiros, que só desejavam entrar em combate. 
Ántifo e Mestle guerreiros o mando dos Meônios dividem. 
De Talamenes provinham, bem como da ninfa Gigeia. 
Esses, os chefes dos Meônios oriundos da fralda do Tmolo. 
Nastes os Cários comanda, guerreiros de bárbara língua, 
homens de Ftiro e Mileto, região montanhosa e de matas; 
os da corrente do Meandro e os dos picos do monte Micale

sob o comando chegaram de Anfímaco e Nastes guerreiros, 
Nastes e Anfímaco, os filhos preclaros do grande Momíone. 
Veio o primeiro com ouro bastante, qual moça enfeitada. 
Tolo! de nada serviu para a Morte o livrar dolorosa 
o ouro, que vítima foi, finalmente, do Eácida, quando 
no próprio rio o alcançou. Toma as joias Aquiles prudente. 
   Os Lícios, Glauco sem-par e Sarpédone exímio conduzem 
da terra Lícia longínqua, das margens do Xanto revolto. 

continua página 114...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d /           
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.
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Ilíada, de Homero - Canto II




Ilíada: Homero (Canto II.c - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
 
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”

.continuando...

Quem, sacrifícios a um deus; quem, a um outro, perfeitos, fazia, 
a suplicarem que de Ares sangrento e da Morte o salvassem. 
O próprio Atrida Agamémnone, chefe prestante, uma vítima 
sacrificou de cinco anos ao filho de Crono tortuoso. 
Para o conselho dos velhos fez vir os mais nobres Acaios: 
o velho Pílio Nestor em primeiro lugar; depois dele, 
Idomeneu, os Ajazes e o filho do grande Tideu; 
sexto, fez vir Odisseu, que de Zeus tinha o senso elevado. 
Vem Menelau sem convite, o guerreiro de voz retumbante, 
pois bem sabia os cuidados que na alma do irmão se agitavam.

Com bolos sacros nas mãos, ao redor do animal se postaram. 
Súplice a voz levantou Agamémnone, rei poderoso: 
   “Máximo Zeus poderoso, que no éter as nuvens cumulas, 
dá que não desça o Sol fúlgido, nem sobre nós venha a Noite, 
sem que eu atire por terra a cumeeira de Príamo, escura 
pela fuligem, e às chamas ardentes as portas entregue; 
sem que do peito de Heitor rasgue a túnica brônzea com minha 
lança, e em redor dele os sócios, também, veja todos de bruços, 
uns sobre os outros, na areia amontoados, mordendo o chão duro.” 
   Por esse modo, implorava; mas Zeus não lhe atende o pedido:

 o sacrifício aceitou, mas trabalhos sem conta lhe apresta. 
Tendo concluída a oração e espalhada a farinha do rito, 
as reses, postas a jeito, degolam, os couros lhes tiram, 
as coxas, cortam, peritos, e em dupla camada da própria 
graxa as envolvem, jogando por cima pedaços de músculos, 
que, depois disso, na lenha, de folhas privada, queimaram. 
Nas labaredas, enfim, espetadas, as vísceras tostam. 
Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas, 
logo o restante retalham, espetos enfiam nas postas, 
e cuidadosos as queimam, tirando-as, depois, dos espetos.

Findo todo esse trabalho, e o convívio, desta arte, aprontado, 
se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
pôs-se a falar o Gerênio Nestor, domador de cavalos: 
   “Filho de Atreu, gloriosíssimo, chefe de heróis, Agamémnone, 
não prossigamos com ocas palavras, nem fique mais tempo 
sem ser levada a bom termo esta empresa, que um deus nos destina. 
Faze que logo os arautos convoquem por todas as naves, 
em altos brados, as gentes aquivas, de túnicas brônzeas. 
Nós, entretanto, corramos ao longo das filas do exército,

para que logo espertemos em todos o ardor dos combates.” 
   Obedeceu-lhe ao conselho Agamémnone, rei poderoso. 
Manda, sem mora, aos arautos, de voz penetrante, que chamem 
para os combates os homens Aquivos, de soltos cabelos. 
Gritam, de fato, o pregão; apressados, aqueles concorrem. 
Os reis, alunos de Zeus, reunidos à volta do Atrida, 
os ordenavam prestantes, com Palas Atena a ajudá-los; 
a égide sacra e imortal empunhava, de preço infinito, 
da qual pendiam cem franjas, trabalho de fino traçado, 
de ouro sem mescla, valendo cada uma o que valem cem bois.

A sobraçá-la, irradiante, atravessa as fileiras Acaias, 
a estimular os guerreiros, fazendo acordar-lhes no peito 
o irresistível ardor de aos combates, sem pausa, entregarem-se. 
Para eles todos, realmente, mais doce era entrar nos combates 
do que voltar para a pátria querida nas côncavas naves. 
   Tal como o fogo voraz que se ateia em floresta densíssima 
pelas cumeadas de um monte, espalhando o fulgor a distância: 
do mesmo modo pelo éter o brilho até o Céu alcançava, 
das armaduras infindas, que, à marcha, ainda mais, esplendiam.
   Bem como bando infinito de seres alados, revoantes,

gansos ou gralhas ou cisnes dotados de longos pescoços, 
que no Ásio plaino se abate, ao redor do Caístro sinuoso, 
alegremente estadeando a plumagem de um lado para outro, 
té se assentarem com grande alarido, que o prado estremece: 
número infindo de heróis, desse modo, das naus e das tendas 
para a planície concorre do Xanto, de forma que o solo 
terrivelmente retumba ao passar dos heróis e cavalos. 
Nas veigas, pois, do Escamandro florido eles se acham, quais folhas 
primaveris, infinitas, e flores que nascem vivazes. 
Do mesmo modo que enxames de moscas, de número infindo,

pelos currais dos pastores volteiam, sem pausa nenhuma, 
na primavera, no tempo em que os jarros de leite transbordam: 
tantos guerreiros Aquivos, de coma flutuante, se viam 
pela planície dos Teucros, sedentos de a todos vencerem. 
   Tal como um hábil pastor facilmente põe ordem nos fatos 
esparramados de cabras, quando estas, no prado, se mesclam: 
os comandantes, assim, os guerreiros, cuidosos, dispunham 
para a batalha. No meio se achava Agamémnone, ao grande 
fulminador semelhante, no olhar e feitio do rosto, 
a Ares no talho do cinto e a Posido no peito fortíssimo.

Bem como o touro de grande manada, que a todos os outros 
bois sobre-excede, e após si vai levando, reunidas, as vacas:
tal aparência emprestou nesse dia Zeus grande a Agamémnone, 
para que fosse o primeiro entre tantos heróis excelentes. 
   Musas, que o Olimpo habitais, vinde agora, sem falhas, contar-me 
pois sois divinas e tudo sabeis; sois a tudo presentes; 
nós, nada vimos; somente da fama tivemos notícia — 
os nomes, sim, revelai-me, dos chefes supremos dos Dânaos. 
Da multidão não direi coisa alguma, nem mesmo os seus nomes, 
em que tivesse dez bocas e dez, também, línguas tivesse,

voz incansável e forte, e de bronze infrangível o peito, 
se vós, ó Musas, nascidas de Zeus portador da grande égide, 
não me quisésseis nomear os que os campos de Troia pisaram. 
Dos chefes, pois, dos navios, direi, do conjunto das naves. 
   Vieram trazidos, os homens da Beócia, por Lito valente, 
Arcesilau, Peneleu, Protoénor e Clônio fortíssimo, 
de Áulide pétrea habitante, dos campos da Hiria e de Esqueno, 
os de Eteono, de montes e selvas, de Escono e de Escolo, 
Téspio, também, Micalesso, de vastas campinas, e Graia; 
mais: os que à volta habitavam de Iléssio, de Eritras e de Harma;

os moradores, ainda, de Eleona, Peteona, Ocaleia, 
de Hila e Medeona, cidade de muros de forte estrutura, 
Copas, Eutrésis e Tisbe, onde pombas adejam ruidosas: 
de Coroneia os que moram na ervosa Haliarto vieram, 
os de Plateia habitantes, bem como os campônios de Glissa; 
os de Hipotebas, ainda, cidade de aspecto imponente, 
da sacra Onquesto, onde o bosque se encontra do divo Posido: 
de Arne, também, pampinosa, chegaram, da extensa Mideia, 
Nisa divina e de Antedo postrema, lugar fronteiriço: 
todos, armaram cinquenta navios, e cada um dos cascos

com cento e vinte guerreiros da Beócia se achava pejado. 
   Os moradores de Orcómeno Mínia e da fértil Asplédone 
vieram trazidos por Iálmeno e Ascálafo, filhos de Astíoque, 
na casa de Áctor, o filho de Azeu, e do deus Ares forte, 
que ao aposento do andar superior conseguiu esgueirar-se, 
onde, às ocultas, do leito partilha da virgem pudica: 
esses, em trinta navios dispostos em fila, embarcaram. 
   Aos moradores da Fócida, Epístrofo e Esquédio trouxeram, 
de Ífito filhos, magnânimo, e netos de Náubolo grande; 
de Ciparisso, também, de Pitão, região pedregosa,

Crisa divina e de Dáulide, assim como de Panopeia; 
vieram, também, de Anemória, os que vivem à volta do Hiâmpole, 
e os que nas margens do divo Cefisso as moradas construíram, 
bem como os que pelas fontes dele, ainda, em Lilaia, habitavam: 
todos, quarenta navios perfazem, de casco anegrado. 
Os comandantes, os homens Focenses, cuidosos, dispunham 
ao lado esquerdo dos Beócios, que juntos nos prélios entrassem. 
   O leste Ajaz, descendente de Oileu, trouxe os Lócrios pugnazes. 
De bem menor estatura que o Ajaz Telamônio era esse outro; 
sim, bem menor; cobre o corpo franzino com roupa de linho,

mas os Acaios vencia e os Helenos no jogo da lança. 
Os Lócrios, pois, de Opoenta e Caliaro vieram, de Cino, 
de Bessa e Escarfe, bem como de Augeia de amena paisagem, 
de Trônio e Tarfe, que se acham construídas nas margens do Boágrio: 
esses, quarenta navios de casco anegrado perfazem; 
vieram das terras que se acham além da ilha sacra de Eubeia. 
   Os corajosos Abantes chegaram, guerreiros de Eubeia, 
Cálcide, Erétria e Istieia, onde as uvas são sempre abundantes, 
Dio rochosa e Cerinto, que à beira do mar foi construída; 
Vieram, também, de Caristo os guerreiros, os homens de Estira, 

por Elefénor mandados, guerreiro que de Ares descende, 
o Calcodôncio valente, que rege os guerreiros Abantes, 
sim, os Abantes, que deixam crescer os cabelos na nuca, 
todos armados de lanças de freixos, vibrando sedentos 
de atravessar a couraça, que o corpo do imigo protege: 
esse, quarenta navios de casco anegrado perfazem. 
   Vieram, também, os guerreiros de Atenas, cidade bem-feita, 
gente do herói Erecteu de alma grande, nascido da terra 
e por Atena educado, a donzela do pai poderoso, 
no próprio templo magnífico, dentro dos muros de Atenas,

onde, anualmente, nas festas, os moços nativos procuram 
com sacrifícios de bois e de ovelhas torná-lo propício. 
Por Menesteu, de Peteu descendente, eram todos mandados. 
Homem nenhum, sobre a terra arrumar, tal como ele, sabia 
os combatentes de carro e os que lutam armados de escudo, 
com exceção de Nestor, por ser muito mais velho do que ele: 
esse, cinquenta navios de casco anegrado perfazem. 
   De Salamina Ajaz trouxe, também, doze naves simétricas, 
indo postá-las a par com as falanges dos homens de Atenas. 
   De Argos os homens, heróis de Tirinto, por muros cingida,

os moradores de Hermíone e Asina, no golfo profundo, 
os de Trezena, os de Eione e Epidauro, abundosa em vinhedos, 
bem como os moços Acaios guerreiros de Egina e Maseta, 
por Diomedes vieram trazidos, de voz poderosa, 
e por Esténelo, o filho do herói Capaneu valoroso. 
Como terceiro, guiava-os Euríalo, qual um dos deuses, 
que descendia do rei Mecisteu, o viril Talaiônida. 
Era, porém, de Diomedes, o forte, o comando supremo: 
esses, oitenta navios de casco anegrado perfazem. 
   Os moradores, também, de Micenas, de bela feitura,

 os da opulenta Corinto, os de Cleona, de casas bem-feitas, 
os que lavravam de Ornias a terra, os da bela Aretira, 
e os de Sicíone amena, onde Adrasto reinou, a princípio, 
os de Hiperésia, bem como os heróis de Gonoessa altanada, 
os de Pelene habitantes, os de Egio, também, moradores, 
e, finalmente, os de Egíalo e os da zona extensíssima de Hélice, 
em cem navios chegaram, trazidos pelo alto Agamémnone. 
O continente melhor esses formam, em número e brio. 
Cheio de orgulho, no meio das tropas, o bronze ardoroso 
ele envergava, entre os fortes guerreiros o mais distinguido,

por nobilíssimo ser e haver gente infinita trazido. 
   Os que moravam no vale escavado de Lacedemônia, 
dentro de Esparta, de Fáride e Messa, cidade de pombas; 
os habitantes, também, de Brísias e Augias amena, 
e os que em Amicla demoram e em Helo, cidade marítima, 
bem como os homens de Etilo e os que os muros de Laia habitavam, 
trá-los o irmão de Agamémnone, o herói Menelau de voz forte, 
dentro de naves sessenta; a de parte eles todos se armavam. 
No próprio ardor confiado, as fileiras o chefe percorre, 
a estimulá-los. Pedia-lhe o peito ardoroso vingar-se

dos sofrimentos passados por causa do rapto de Helena. 
Vieram de Pilo os guerreiros, bem como os de Arena agradável, 
os de Épi bem-construída e os de Trio, onde o Alfeu dá passagem, 
os de Anfigênia habitantes e os homens de Ciparessenta, 
os de Pteleu, de Elo forte e os de Dório, onde vieram as Musas 
o Trácio vate Tamíris buscar e o privarem do canto, 
quando da casa voltava do alto Eurito, nado na Ecália. 
Vangloriava-se, sim, de vencer em compita até mesmo 
as próprias Musas, as filhas de Zeus, se com ele cantassem. 
Elas, por isso, indignadas, da vista o privaram, fazendo

continua página 105...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica

Ilíada: Homero (Canto II.b - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
 
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”

.continuando...

 “Para essa bulha, covarde, e atenção presta aos ditos dos outros, 
que são melhores que tu, pois te mostras imbele e sem préstimo. 
Não vales nada na guerra, ou, sequer, nas reuniões dos Argivos. 
Reis não queiramos ser todos que, aqui, nos achamos reunidos. 
É mau que muitos comandem; um, só, tenha o posto supremo; 
um, seja o rei, justamente a quem Zeus, descendente de Crono, 
deu cetro e leis, para o mando no povo exercer inconteste.” 
   Como senhor, percorria ele as filas. Reflui novamente 
a multidão, que concorre das tendas e naves simétricas, 
tumultuando, tal como onda grande do mar ressoante 

vem sobre a praia quebrar-se, fazendo que o mar todo ecoe. 
   Todos, então, se sentaram calados, cada um no seu posto. 
Unicamente Tersites sem pausa a falar continuava, 
pois tinha sempre o bestunto repleto de frases ineptas, 
que contra os reis costumava atirar, sem propósito ou regra, 
contanto que provocasse dos nobres Argivos o riso. 
Era o mais feio de quantos no cerco de Troia se achavam. 
Pernas em arco, arrastava um dos pés; as espáduas, recurvas, 
se lhe caíam no peito e, por cima dos ombros, em ponta, 
o crânio informe se erguia, onde raros cabelos flutuavam.

Tanto Odisseu como o divo Pelida ódio grande lhe tinham, 
pois, de contínuo, os pungia. Mas ora insultava Agamémnone 
com voz de timbre estridente, com quem os guerreiros Acaios 
aborrecidos estavam e muito agastados no espírito. 
Em altos berros, portanto, a Agamémnone increpa insultuoso: 
“Por que resmungas, Atrida, e que mais, ainda, julgas faltar-te? 
As tuas tendas transbordam de bronze e de lindas escravas, 
todas a dedo escolhidas, que os homens Aqueus te ofertamos 
sempre em primeiro lugar, ao tomarmos alguma cidade. 
Ou, porventura, desejas mais ouro, que, acaso, um Troiano 

da alta cidade te traga, em resgate do filho querido 
que, porventura, eu prendesse, ou qualquer dos guerreiros Aquivos. 
Ou nova escrava ambicionas, que, à parte, sozinho, retenhas 
para saciar teus amores? Não fica decente a um monarca, 
que o mando exerce, lançar os Acaios em tantas desgraças. 
Bando covarde e imprestável de aquivas, não digo de Aquivos! 
Sim, para casa voguemos, deixando-o nos plainos de Troia, 
a digerir quantos dons lhe couberam por sorte. Que sinta 
se de vantagem lhe somos, ou não, nos perigos da guerra, 
já que o divino Pelida, que tão superior lhe é em tudo,

muito ofendeu: sua escrava tomou e dela, ora, se goza. 
Mas esse Aquiles mostrou ser pessoa sem fel; é indolente. 
Caso contrário, Agamémnone, o último ultraje fora esse.” 
   Por esse modo, Tersites o Atrida possante insultava. 
Mas sem demora o divino Odisseu veio pôr-se-lhe ao lado, 
e com terrível olhar, encarando-o, increpou-o desta arte: 
   “Néscio Tersites, conquanto orador de palavra fluente, 
cala essa boca, não queiras sozinho com reis abarbar-te. 
És o mais vil e insolente de quantos guerreiros vieram 
para lutar sob os muros de Troia, seguindo os Atridas.

Não queiras vir concionar tendo o nome de rei nessa boca, 
nem cumulá-lo de insultos, cuidando somente da fuga. 
Ainda ignoramos, ao certo, que fim há de ter isso tudo, 
se para os homens Acaios a volta será vantajosa. 
Cessa, portanto, de insultos lançar no pastor de guerreiros, 
o grande filho de Atreu, a quem muitos Argivos distinguem 
com copiosos presentes. Somente a ti coube insultá-lo. 
Vou revelar-te com toda a clareza o que vai realizar-se. 
Ao te encontrar novamente dizendo impropérios como esses 
não mais nos ombros de herói Odisseu continue a cabeça,

nem mais me orgulhe de ser designado por pai de Telêmaco, 
se sobre ti não puser logo as mãos, arrancando-te as vestes, 
o manto e a própria camisa e o que mais as vergonhas encobre, 
para enviar-te, depois, a chorar, para as rápidas naves, 
das reuniões expulsando-te com boa dose de açoites.” 
   Ao dizer isso, golpeou-o com o cetro nas costas e espáduas, 
o que o obrigou a encurvar-se, nadando-lhe os olhos em lágrimas. 
Incha-lhe, logo, nas costas sanguíneo vergão da pancada 
do cetro de ouro. Sentar-se foi ele a tremer, temeroso, 
apatetado, a enxugar, dolorido, dos olhos as lágrimas.

Riram-se todos do mísero, embora enfadados se achassem. 
Muitos dentre eles falavam, virando-se para o mais próximo: 
   “Que maravilha! Odisseu já se orgulha de inúmeros feitos, 
quer como bom conselheiro, quer quando os combates dirige. 
Mas esta ação, por sem dúvida, a todas as outras supera, 
pois obrigou a calar-se de vez esse vil maldizente. 
O coração temerário não mais quererá, com certeza, 
sobre a pessoa do rei atirar insultuosas palavras.” 
   A chusma assim se expressava. Odisseu, eversor de cidades, 
o cetro empunha, de pé. Sob a forma do arauto, ao seu lado,

a de olhos glaucos, Atena, ordenava silêncio às fileiras, 
para que todos os homens Acaios, de perto e de longe, 
suas palavras ouvissem e, após, orientar-se soubessem. 
Cheio de bons pensamentos lhe diz, arengando, o seguinte: 
   “Filho de Atreu, soberano, os guerreiros Aquivos desejam 
que ante o universo dos homens mortais infamado tu fiques. 
Não querem dar cumprimento às promessas com que se empenharam 
ao virem de Argos, nutriz de corcéis, sob o teu regimento: 
que voltariam somente depois de destruir Ílio forte. 
Como se fossem mulheres a quem falta o esposo, ou crianças,

uns para os outros se queixam, chorando o almejado retorno. 
Grande é, realmente, a fadiga, e o desejo da volta, explicável. 
Quem fica apenas um mês afastado da esposa querida, 
muito se queixa na nave provida de remos, se acaso 
as tempestades do inverno no mar o detêm agitado. 
Nós, entretanto, já vimos nove anos completos passarem, 
sempre detidos aqui. Não censuro, por isso, aos Acaios 
por se angustiarem nas naves recurvas. Mas é vergonhoso 
com mãos vazias voltarmos depois de demora tão longa. 
Caros amigos, paciência! Esperai mais um pouco, até vermos

 se de Calcante os augúrios nos saem verazes ou falsos. 
Sim, todos vós, que da Morte escapastes, ainda no espírito 
tendes presente a ocorrência, do que podeis dar testemunho. 
Ontem, parece, ou anteontem, se achavam reunidos em Áulide 
as naves todas que a Príamo e a Troia a desgraça trouxeram. 
Junto das aras sagradas, ao pé de uma fonte, nós todos 
às divindades do Olimpo hecatombes perfeitas fazíamos, 
sob a frescura de um plátano, donde fluía água límpida. 
Nisso, um prodígio nos veio: uma serpe com dorso sanguíneo, 
monstro terrível, que à luz fora enviado por Zeus poderoso.

Do supedâneo surgindo, do altar, subiu logo pela árvore, 
onde a ninhada se achava de um pássaro, míseros seres, 
sob as folhinhas ocultos, no ramo mais alto do plátano; 
oito eram eles; incluindo-se a mãe, que os gerou, nove ao todo. 
Por entre pios sentidos ali devorou todos eles 
e a própria mãe, que, gemente, esvoaçava ao redor dos filhinhos: 
o bote atira-lhe o monstro, apanhando-a por uma das asas. 
Mas, pós haver o dragão os filhotes e a mãe devorado, 
foi pelo deus, que o enviara, mudado num grande prodígio; 
petrificou-o ali mesmo o nascido de Crono tortuoso.

Quantos ao fato assistíamos, cheios de espanto ficamos. 
Mas, vaticínios Calcante começa ali mesmo a tecer-nos 
sobre o terrível prodígio, que em meio do ofício nos viera: 
‘Por que calados ficastes, Aquivos de soltos cabelos? 
Esse prodígio por Zeus grande e sábio nos foi enviado. 
Vai demorar; veio tarde; mas fama vai ter sempiterna. 
Do mesmo modo que o drago os filhotes matou e a mãe deles — 
oito eram eles, incluindo-se a mãe, que os gerou, nove ao todo — 
o mesmo número de anos devemos passar nesta guerra, 
mas no dezeno, haveremos de entrar a cidade espaçosa.’

Foi esse o seu vaticínio, que se há de cumprir sem demora. 
Por isso tudo, esforçados Acaios, ficai mais um pouco, 
té que possamos tomar a espaçosa cidade de Príamo.” 
   Dessa maneira concluiu, provocando estrondosos aplausos 
dos Aqueus todos, grevados, que as naves recurvas atroam; 
tão agradável lhes fora o discurso do divo Laertíada. 
O domador de cavalos, Nestor, de Gerena, lhes disse: 
   “Caso inaudito, que todos faleis como crianças ingênuas, 
que não possuem nenhuma experiência das coisas da guerra! 
Para onde as juras se foram, e os votos, que todos fizemos?

Sejam lançados ao fogo os desígnios e planos de todos, 
as libações impolutas e apertos de mão, que trocamos. 
Só com palavras sabemos brigar, sem que achemos caminho 
para as ações eficientes, pesar de aqui estarmos há muito. 
Como o costumas, Atrida, mantém teu propósito firme, 
e para os prélios terríveis conduze os guerreiros Argivos. 
Que este e outros poucos se percam, que têm por costume aos Acaios 
dar maus conselhos. Porém jamais hão de alcançar seus intentos, 
de retornarmos para Argos, sem termos obtido, primeiro, 
de Zeus potente a certeza se falso ou veraz prometeu-nos.

Sou de opinião, entretanto, que o filho potente de Crono 
nos falou certo no dia em que as naves entramos velozes 
para trazer a estas gentes de Troia o extermínio e a desgraça: 
fez-nos surgir um relâmpago à destra, sinal infalível. 
Por isso tudo, ninguém mais insista em voltar para a pátria, 
sem que, primeiro, haja ao leito subido de esposa Troiana 
e ressarcido os trabalhos e o choro por causa de Helena. 
Mas se houver quem ainda insista em voltar para a pátria querida, 
e ouse tocar no navio anegrado, de boa coberta, 
seja o primeiro a ser presa do Fado inditoso e da Morte.

Eia, senhor, aconselha-te bem, mas aceita outros planos, 
que não será de somenos valor o que passo a dizer-te: 
Teus homens todos, Atrida, por tribos divide e famílias 
que cada tribo se ajude e uns aos outros os membros de um grupo. 
Caso me aceites o alvitre, e os Acaios, também, te obedeçam, 
fácil será de saber qual dos chefes, qual dentre os do povo, 
fraco, ou de prol, se revela; que à parte eles todos combatem. 
Hás de, então, ver se a cidade resiste por causa dos deuses, 
ou por fraqueza dos homens, nas coisas da guerra inexpertos.” 
   Disse-lhe, então, em resposta Agamémnone, rei poderoso:

“Tornas, ó ancião, a vencer os Acaios com tua eloquência. 
Fosse do gosto de Zeus, e de Palas Atena, e de Apolo, 
dez conselheiros assim nas fileiras Acaias mostrarem-me! 
Em pouco tempo cairia a cidade potente de Príamo, 
por nossos braços vencida e por nós arrasada e saqueada. 
Mas sofrimentos me deu Zeus potente, nascido de Crono, 
com me lançar em litígios inúteis e vão falatório. 
Por causa, sim, de uma escrava, eu e Aquiles Peleio brigamos 
com termos ásperos, tendo partido de mim as ofensas. 
Mas se algum dia concordes ficarmos de novo, não há de

demorar muito a ruína de Troia, um momento que seja. 
Ide, no entanto, comer, porque logo encetemos a luta. 
Todos, as lanças agucem; a ponto os escudos preparem; 
Deem ração abundante aos cavalos de patas velozes 
e aos carros passem revista, pensando no próximo embate, 
pois todo o dia teremos de a luta manter espantosa. 
Pausa nenhuma há de haver, um momento sequer de repouso, 
enquanto a Noite não vier aplacar o furor dos guerreiros. 
Há de correr muito suor pelo bálteo dos altos escudos, 
e, do maneio da lança, hão de os braços tombar de cansados;

muito hão de suar os cavalos, do esforço de os carros puxarem. 
Mas se eu alguém vir do prélio sangrento afastado, querendo 
nas curvas naus ocultar-se, remédio nenhum, com certeza, 
há de livrá-lo de pasto tornar-se de cães e de abutres.” 
   Disse; os Argivos romperam em grande alarido, tal como 
quando vem onda quebrar-se, por Noto impelida, de encontro 
a promontório elevado; outras muitas, constantes, o cercam, 
que, pelos ventos, de todos os lados, ali são jogadas: 
em direção dos navios, desta arte, eles todos se espalham, 
fogo nas tendas acendem e logo ao repasto se entregam.

continua página 98...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c /          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.

Ilíada: Homero (Canto II.a - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
 
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”


.
   Os outros deuses e os homens, que em carros combatem, dormiam 
a noite toda. Somente Zeus pai não gozava do sono, 
a revolver no imo peito a maneira de honrar o Pelida e
de morrerem à volta das naves Acaios inúmeros. 
Dos vários planos pensados, alfim o melhor pareceu-lhe 
ao poderoso Agamémnone um Sonho mandar mentiroso. 
Vira-se, então, para o Sonho, e lhe diz as palavras aladas: 
   “Vai, Sonho falso, até as naves velozes dos homens Acaios, 
e, quando a tenda alcançares do filho de Atreu, Agamémnone,

exatamente o recado lhe dá, que ora passo a dizer-te: 
Manda que apreste os guerreiros Aquivos, de soltos cabelos, 
sem perder tempo; é o momento, talvez, de expugnar a cidade 
ampla dos homens Troianos, que os deuses do Olimpo cindidos 
não mais se encontram, pois Hera, afinal, conseguiu convencê-los 
com suas súplicas. Sobre os Troianos as dores impendem.” 
   O Sonho, logo, dali se partiu, pós ouvir o recado. 
Rapidamente, aos navios velozes chegou aos Acaios, 
e para o Atrida Agamémnone foi, que se achava deitado, 
dentro da tenda, a dormir, pelo sono divino cercado.

Sob a figura do velho Neleio, Nestor, lhe aparece, 
dos conselheiros aquele que o Atrida entre todos prezava. 
Disse-lhe o Sonho divino, depois de tomar essa forma: 
   “Dormes, Atrida prudente e viril, domador de cavalos? 
Não fica bem para um príncipe em quem todo o povo confia 
e de quem tudo depende, dormir, sem parar, toda a noite. 
Presta atenção ao que digo; da parte de Zeus sou mandado, 
que se interessa por ti, muito embora distante, e se apiada. 
Manda que aprestes os homens Aquivos, de soltos cabelos, 
sem perder tempo; é o momento, talvez, de expugnar a cidade

ampla dos homens Troianos, que os deuses do Olimpo cindidos 
não mais se encontram, pois Hera, afinal, conseguiu convencê-los 
com suas súplicas. Sobre os Troianos as dores impendem, 
que Zeus lhes manda. Retém na memória todo este recado; 
não aconteça o esqueceres, no instante de o sono deixar-te.” 
   Tendo isso dito, voltou logo o Sonho, deixando Agamémnone 
a refletir no imo peito o que nunca viria a cumprir-se. 
Imaginava, o insensato, tomar a cidade dos Troas 
no mesmo dia, ignorante dos planos que Zeus concebera. 
Este, realmente, aprestara iminentes trabalhos e dores

para os Aqueus e os Troianos, que os duros combates trariam. 
Do sono, pois, despertou, o recado de Zeus ainda ouvindo; 
salta do leito, com pressa, e vestiu logo a túnica fina, 
nova e brilhante, por cima da qual pôs um manto bem cômodo; 
calça, a seguir, as formosas sandálias nos pés delicados, 
nos ombros largos a espada lançou, cravejada de prata, 
e o cetro, alfim, empunhando, que herdara do pai, incorrupto, 
foi para as naves dos homens Aqueus, revestidos de bronze. 
A diva Aurora, entrementes, já estava a caminho do Olimpo, 
para que a Zeus e às demais divindades o dia anunciasse,

quando Agamémnone ordena aos divinos arautos que chamem 
para a assembleia os Acaios de soltos cabelos nos ombros. 
Gritam, sem mora, o pregão; apressados, aqueles concorrem. 
Primeiramente, o conselho reuniu dos magnânimos velhos 
junto da nave do sábio Nestor, que reinava nos Pílios. 
Vendo-os ali reunidos, por modo discreto lhes disse: 
   “Caros, ouvi-me! No sono me veio uma imagem divina, 
na noite suave, que o ilustre Nestor por demais parecia, 
não só na altura e no aspecto, também na imponência do gesto. 
Junto, bem junto à cabeça, me disse as seguintes palavras:

‘Dormes, Atrida, prudente e viril domador de cavalos? 
Não fica bem para um príncipe em que todo o povo confia 
e de quem tudo depende, dormir, sem parar, toda a noite. 
Presta atenção ao que digo; da parte de Zeus sou mandado, 
que se interessa por ti, muito embora distante, e se apiada. 
Manda que aprestes os homens Aquivos de soltos cabelos, 
sem perder tempo; é o momento, talvez, de expugnar a cidade 
ampla dos homens Troianos, que os deuses do Olimpo cindidos 
já não se encontram, pois Hera, afinal, conseguiu convencê-los 
com suas súplicas. Sobre os Troianos as dores impendem,

que Zeus lhes manda. Retém na memória todo esse recado.’ 
Disse e voou, no momento em que o sono se foi, justamente. 
Eia! Vejamos se armar conseguimos os homens Aquivos. 
Procurarei com palavras, primeiro, como é mais factível, 
aconselhar a que fujam nas naves providas de remos. 
Por outro lado, vós todos tentai da intenção demovê-los.” 
   Tendo isso dito, voltou novamente a assentar-se. Levanta-se 
logo Nestor, o monarca de Pilo de solo arenoso. 
Cheio de bons pensamentos, lhes diz, arengando, o seguinte: 
   “Vós, conselheiros e guias dos povos Acaios, ouvi-me!

Se outro qualquer dos Argivos houvesse contado este sonho, 
de mentiroso eu o tachara, sem dar-lhe importância nenhuma. 
Mas quem afirma que o viu é o mais nobre dos chefes Acaios. 
Eia! Vejamos se armar conseguimos os homens Aquivos.” 
   Tendo isso dito, foi ele o primeiro a sair do conselho. 
Obedientes ao filho de Atreu, os demais reis cetrados 
se levantaram, também. Acudiu, logo, o povo em balbúrdia. 
Do mesmo modo que enxames copiosos de abelhas prorrompem 
do oco da pedra, zumbindo, a que bandos, sem pausa, se seguem, 
e umas, pendentes em cachos, à volta se ficam das flores

primaveris, enquanto outras variados caminhos percorrem: 
dessa maneira afluíram das tendas e naves simétricas 
povos sem conta, ao comprido da praia do mar, mui profunda, 
para a assembleia. Inflamara-se entre eles a Fama ligeira, 
a mensageira de Zeus, concitando-os de novo a reunirem-se. 
A ágora tumultuava; rimbomba o chão duro ao sentarem-se 
tantos guerreiros; por tudo é algazarra; esforçavam-se arautos, 
nove a um só tempo, por ver se o tumulto aplacar conseguiam, 
para que ouvidos os reis, descendentes de Zeus, fossem logo. 
A multidão, afinal, se conteve; sentaram-se todos;

cessa, de vez, o barulho. Levanta-se o forte Agamémnone, 
nas mãos o cetro que Hefesto com muito artifício forjara 
para presente fazer a Zeus pai, que de Crono nascera. 
O mensageiro veloz, por sua vez, foi por Zeus presenteado, 
Hermes, que a Pélope o entrega, o senhor domador de cavalos; 
Pélope, então, o passou para Atreu, o pastor de guerreiros, 
que para Tiestes o deixa ao morrer, opulento em rebanhos; 
para Agamémnone Tiestes o deu, porque, firme, o empunhasse 
e em muitas ilhas o mando tivesse, bem como em toda Argos. 
Nele apoiando-se, vira-se para os Argivos e fala:

“Caros amigos, heroicos Aqueus, de Ares forte sequazes! 
O grande Crônida, Zeus, em terrível desgraça me enleia, 
ele, o maldoso, que havia asselado, antes disso, a promessa 
de retornar para a pátria, depois de destruir Ílio forte. 
Ora resolve enganar-me, ordenando que volte, de novo, 
sem nenhum brilho para Argos, depois de perder tanta gente. 
Isso, por certo, há de ser agradável a Zeus poderoso, 
que já estruiu muitos muros e grandes e fortes cidades, 
e há de arrasar outras mais, pois imenso é o poder de seu braço. 
Té mesmo aos pósteros há de chegar o labéu vergonhoso

de que um exército Acaio, de tantos e fortes guerreiros, 
haja sem êxito feito esta guerra, conquanto lutando 
contra tão poucos imigos, sem nunca lhe vermos o cabo. 
Pois, em verdade, se os Troas e Aquivos quiséssemos todos 
tréguas jurar para, assim, facilmente, contar nossos homens, 
caso os Troianos o número exato dos seus nos dissessem, 
e dividíssemos, logo, os Acaios, em várias dezenas, 
e cada grupo elegesse escanção um dos homens de Troia, 
a muitas décadas, certo, faltaria quem vinho mexesse. 
Por tal maneira, presumo, ultrapassam os homens Aquivos

aos moradores dos muros de Troia. Porém numerosos 
auxiliares lanceiros lhes vieram de muitas cidades, 
que por maneira sensível me impedem de ao plano dar corpo 
de Ílio sagrada expugnar, o baluarte de muros fortíssimos.
Já são corridos nove anos, mandados por Zeus poderoso; 
os lenhos todos já podres se encontram, delidos os cabos; 
nossas esposas queridas e os filhos infantes, ainda, 
em nossas casas se encontram, saudosos, enquanto nós outros
vemos frustrada esta empresa, que a todos em Troia reúne. 
Ora façamos conforme o aconselho; obedeçam-me todos:

para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves, 
pois é impossível tomar a cidade espaçosa dos Teucros.” 
   O coração no imo peito ficou sobremodo abalado 
de toda a turba, que ausente se achara ao conselho dos velhos. 
A ágora, então, se agitou, como o fazem as ondas furiosas 
no Ponto Icário, que são percutidas por Euro e por Noto, 
quando das nuvens irrompem, mandados por Zeus poderoso. 
Do mesmo modo que Zéfiro agita uma grande lavoura, 
impetuoso a soprar, e as espigas, forçadas, se curvam: 
a multidão correu logo, revolta, com grande alarido,

em direção dos navios velozes. Bastante poeira 
os pés faziam subir; afanosos, exortam-se todos 
para lançar mãos às naves e às ondas sagradas deitá-las. 
Todos, os regos alimpam e as naus dos espeques libertam. 
Sobe ao Céu alto o alarido dos que para casa voltavam. 
E para a pátria, talvez, retomassem, pesar do Destino, 
se para Atena divina, Hera, alfim, não tivesse falado: 
   “Palas Atena indomável, donzela de Zeus poderoso, 
é, então, possível, que fujam, desta arte, os guerreiros Argivos 
no dorso extenso do mar, para a terra dos pais, extremosa?

E deixarão que Troianos e Príamo tanto enaltecem, 
a Argiva Helena, por quem tantos homens Aquivos morreram 
longe da pátria, jogados nas vastas planícies de Troia! 
Vamos! Dirige-te aos homens Acaios, vestidos de bronze, 
e com palavras afáveis procura detê-los a todos, 
não consentindo que lancem ao mar os navios simétricos.” 
   A de olhos glaucos, Atena, ao conselho, sem mais, lhe obedece. 
Célere baixa, passando por cima dos cumes do Olimpo. 
Rapidamente, chegou aos navios Acaios velozes; 
quedo encontrou a Odisseu, que de Zeus tinha o sendo elevado.

Nem levemente ele havia tocado em sua nave coberta, 
de cor escura, que dor excruciante lhe o peito angustiava. 
A de olhos glaucos, Atena, lhe foi deste modo dizendo: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso! 
É, então, possível que todos fujais para a pátria querida, 
precipitando-vos, cegos, nas naves providas de remos? 
E deixareis que Troianos e Príamo tanto enaltecem, 
a Argiva Helena, por quem tantos homens Aquivos morreram 
longe da pátria, jogados nas vastas planícies de Troia? 
Vamos! Dirige-te aos homens Acaios, sem perda de tempo,

e com palavras afáveis procura detê-los a todos, 
não consentindo que lancem ao mar os navios simétricos.” 
Isso disse ela; Odisseu compreendeu que era a voz de uma deusa. 
Corre, atirando de si longe o manto, que foi por Euríbates, 
o fiel arauto, apanhado, Itacense, que a ponto o acompanha. 
Chega-se para Agamémnone, o filho de Atreu poderoso, 
e o incorruptível bastão lhe tomou, que de Atreu recebera. 
Com ele foi para as naves dos fortes guerreiros Aquivos. 
   Se, porventura, encontrava um dos reis, ou pessoa graduada, 
com termos brandos tentava detê-lo, embargando-lhe os passos:

“Não fica bem, caro amigo, mostrar o temor do homem baixo; 
cuida, isso sim, de acalmar-te; concita essa gente a assentar-se, 
pois desconheces em todo o seu âmbito os planos do Atrida. 
Ora procura tentar-nos, mas breve há de a pena infligir-nos. 
Nem todos nós percebemos o que ele externou no conselho. 
Não aconteça, colérico, males causar aos Argivos. 
Sempre é violento o rancor do monarca de Zeus descendente. 
A majestade e o poder ele os herda de Zeus poderoso.” 
   Mas se encontrava, a gritar, um qualquer dentre os homens do povo, 
o percutia com o cetro, increpando-o, desta arte, em voz alta:

continua página 85...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b     
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Cinema: Antonia

Uma sinfonia


Baseado na história real de Antonia Brico que, na Nova Iorque de 1930, tornou-se a primeira mulher a conduzir, com sucesso, uma orquestra. Ela ousou seguir o sonho de se tornar uma maestrina, embora ninguém acreditasse ser possível.

Diretora: 
Maria Peters

Roteirista;
Maria Peters

Gênero: Filme de Drama
Título original: The Conductor






Elenco:
Christanne de Bruijn como Antonia Brico
Benjamin Wainwright como Frank Thomsen
Scott Turner Schofield como Robin Jones
Seumas Sargent como Mark Goldsmith
Annet Malherbe como Mãe de Antonia
Raymond Thiry como Pai de Antonia
Gijs Scholten van Aschat como Willem Mengelberg
Richard Sammel como Karl Muck
Sian Thomas como Mrs. Thomsen
Tim Ahern como Mr. Thomsen
Sara Visser como Emma
Michael Watson-Gray como Miss Denise
James Sobol Kelly como Diretor Barnes
Peter Basham como Maestro do concerto
Nastassia Firestone como A lanterninha Marjorie
Anja Antonowicz como Mrs. Goldsmith
Adrian Solaimani como Crianças Goldsmith
Bram Olijerhoek como Crianças Goldsmith
Casper Segers como Crianças Goldsmith
Douwe Kerkkamp como Crianças Goldsmith
Ediah Apolloni como Crianças Goldsmith
Jayden de Ruijter como Crianças Goldsmith
Liran Apolloni como Crianças Goldsmith
Noor Kerkkamp como Crianças Goldsmith
Stacy Thunes como Chefe de Datilografia
Wynn Heliczer como Requerente
Jeremiah Fleming como Porteiro Versátil
Samantha Newman como Dançarina de Revista
Gemma Blower como Dançarina de Revista
Enora Oplinus como Dançarina de Revista
Flory Curescu como Dançarina de Revista
Lisa Ball como Dançarina de Revista
Malou Linders como Dançarina de Revista
Paola Ghadini como Dançarina de Revista
Sarah Mancini como Dançarina de Revista
Guido Grünbauer como Variety Trumpet Player
David Lukács como Variety Clarinettist
Louis van der Mespel como Variety Bass Player
Ramon van Gammeren como Variety Banjo Player
Christof May como Variety Clarinettist #2
Johnny Barendsen como Variety Drummer
Kok-Hwa Lie como Mordomo
Kirila Kraal como Opera Singer
Dirk Palermo Bellers como Garoto da Vizinhança
Kit Verboom como Garoto da Vizinhança
Chip Bray como Policial
Ruut Ootes como Post Horn Player
Loes Schnepper como Nun
Mara van Vlijmen como Sister Louigiana
Gert Jan Ronner como Albert Schweitzer
Fleur Aarts como Jovem Antonia
Annemarie Feltmann como Empregada doméstica Mr. Muck
Tom Jaspers como Waiter
Cantate Domino como Boys Choir
Benjamin Gijzel como Recepcionista
Adele Atzert como Senhoria
Boris Saran como Funcionário de banco
Céline Purcell como Senhora Mayer
Ronald Armbrust como Tailor
Judith van der Werff como Cabeleireira
James Carroll Jordan como Sacerdote
Lee M. Ross como Repórter
Marie-Claire Witlox como 1º Violinista
Heidi Groen como Amigo do Mrs. Thomson
Judith Edixhoven como Secretária
Carole Street como Eleanor Roosevelt
Pontus Olgrim como Apresentador de rádio
Ayal Tamam como Filho Frank
Jawad Abbas como Opera Musician (não creditado)
Guido Den Broeder como Soup Kitchen Guest; Theater Visitor (não creditado)
Thijs Feldberg como  German student / American party guest (não creditado)
Miguel Martins como Musician (não creditado)
Isabel Nolte como Lady in night club (não creditado)
Stijn Vandeput como Servant (não creditado)

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
01. Antonia /