terça-feira, 7 de julho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo V - Da Maturidade à Velhice (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO V
DA MATURIDADE À VELHICE
 
continuando...

     Normalmente a avó domina sua hostilidade; por vezes obstina-se em ver no recém-nascido o filho de seu filho, e ama-o tiranicamente; mas geralmente a jovem mãe e a mãe desta o reivindicam; ciumenta, a avó nutre, pelo bebê uma dessas afeições ambíguas em que a inimizade se dissimula sob a figura da ansiedade.
     A atitude da mãe em relação à filha adulta é muito ambivalente: no filho é um deus que procura; na filha encontra um duplo. O "duplo" é um personagem ambíguo: assassina aquele de quem emana, como se vê nos contos de Poë, no Retrato de Dorian Grey, na história que conta Marecel Schwob. Assim a filha, tornando-se mulher, condena a mãe à morte; e, no entanto, permite-lhe sobreviver a si mesma. As condutas da mãe são muito diferentes segundo apreende, no desenvolvimento do filho, uma promessa de ruína ou de ressurreição.
     Muitas mães retesam-se na hostilidade; não aceitam ser suplantadas pela ingrata que lhes deve a vida; sublinhou-se o ciúme da coquete pela adolescente que lhe denuncia os artifícios: quem detesta uma rival em toda mulher, detestará a rival até em sua filha; afasta-se dela ou a sequestra, ou se empenha em lhe recusar quaisquer possibilidades. Quem se glorificava de ser, de maneira exemplar e única, a Esposa, a Mãe, não recusa menos ferozmente deixar-se destronar; continua a afirmar que a filha é uma criança, considera os empreendimentos dela como um jogo pueril; é jovem demais para se casar, frágil demais para procriar; se se obstina em querer um marido, um lar, filhos, é simplesmente por afetação; incansavelmente, a mãe critica, zomba, ou vaticina desgraças. Se lhe permitem, condena a filha a uma eterna infância; se não lhe permitem, tenta arruinar essa vida adulta que a outra se arroga. Vimos que amiúde o consegue: muitas jovens mulheres permanecem estéreis. Abortam, mostram-se incapazes de amamentar e educar os filhos, de dirigir a casa por causa dessa influência maléfica. Sua vida conjugal revela-se impossível. Infelizes, isoladas, só encontram refúgio nos braços soberanos da mãe. Se lhe resistem, um conflito perpétuo as oporá uma a outra; a mãe frustrada transporta em grande parte para o genro a irritação que provoca nela a insolente independência da filha.
     A mãe que se identifica apaixonadamente com a filha não é menos tirânica; o que quer é, munida de sua experiência madura, recomeçar a juventude; assim salvará seu passado em se salvando dele; escolherá ela própria um genro de acordo com o marido sonhado que não teve; coquete, meiga, imaginará de bom grado que é a ela que, em alguma região secreta do coração, ele desposa; através da filha satisfará seus velhos desejos de riqueza, de êxito, de glória. Foram muitas vezes descritas essas mulheres que "empurram" fogosamente as filhas pelos caminhos da galanteria, do cinema, do teatro; a pretexto de vigiá-las, apropriam-se de sua vida: citaram-me algumas que chegam a enfiar em suas camas os pretendentes à jovem. Mas é raro que esta suporte indefinidamente tal tutela; no dia em que tiver encontrado marido ou protetor sério, rebelar-se-á. A sogra que começara por adorar o genro torna-se então hostil a ele; geme sobre a ingratidão humana, apresenta-se como vítima; torna-se por sua vez uma mãe inimiga. Pressentindo essas decepções, muitas mulheres encerram-se na indiferença quando veem os filhos crescer, mas disso tiram então pouca alegria. É preciso à mãe uma mistura rara de generosidade e de desapego para encontrar na vida dos filhos um enriquecimento, sem se tornar tirana nem os transformar em carrascos.
     Os sentimentos da avó em relação aos netos prolongam os que ela dedica à filha: frequentemente transfere para eles sua hostilidade. Não é somente por preocupação com a opinião pública que tantas mulheres obrigam a filha seduzida a abortar, a abandonar o filho, a suprimi-lo: são muito felizes por proibir--lhes a maternidade; obstinam-se em querer deter para si mesmas esse privilégio. Mesmo à mãe legítima, aconselharão de bom grado a abortarem, a não amamentarem, a afastarem-no. Com sua indiferença, negarão essa pequena existência impudente; ou então estarão incessantemente ocupadas em ralhar com a criança, castigá-la e até maltratá-la. Ao contrário, a mãe que se identifica com a filha acolhe muitas vezes os filhos desta com maior ansiedade do que a jovem mulher: esta está desnorteada com a chegada do pequeno desconhecido; a avó reconhece-o: recua vinte anos no tempo, torna a ser uma jovem parturiente; todas as alegrias da posse e do domínio, que de há muito seus filhos não lhe davam mais, são-lhe devolvidas, todos os desejos de maternidade a que renunciara no momento da menopausa são milagrosamente satisfeitos; é ela a verdadeira mãe, assume o encargo do bebê com autoridade e, se lhe entregarem, a ele se dedicará com paixão. Infelizmente para a avó, a jovem mãe faz questão de afirmar seus direitos: a avó é tão somente autorizada a desempenhar o papel de assistente que outrora as mais velhas desempenharam junto dela; sente-se destronada; e depois é preciso contar com a mãe do genro de quem, naturalmente, tem ciúmes. O despeito perverte muitas vezes o amor espontâneo que a princípio devotava à criança. A ansiedade que amiúde se observa nas avós traduz a ambivalência de seus sentimentos: adoram o bebê na medida em que lhes pertence, são hostis ao pequeno que também é estranho a elas, têm vergonha dessa inimizade. Entretanto se, renunciando a possuí-los inteiramente, a avó conserva pelos netos uma verdadeira afeição, pode desempenhar na vida deles um papel privilegiado de divindade tutelar: não se reconhecendo nem direitos nem responsabilidades, ama-os comi uma generosidade pura; não acarinha sonhos narcisistas através deles, não lhes pede nada, não os sacrifica a um futuro a que não estará presente; o que adora são os pequenos seres de carne e osso que hoje se acham à sua frente, em sua contingência e em sua gratuidade; não é uma educadora; não encarna a justiça abstrata, a lei. Daí é que virão os conflitos que por vezes a opõem aos pais.
     Em certos casos a mulher não tem descendentes ou não se interessa pela posteridade; na ausência de laços naturais com filhos ou netos, ela tenta algumas vezes criar artificialmente homólogos. Propõe aos jovens uma ternura maternal; quer sua afeição permaneça platônica ou não, não é somente por hipocrisia que declara amar seu jovem protegido "como um filho": os sentimentos maternos, inversamente, são amorosos. É verdade que os êmulos de Mme de Warens se comprazem em satisfazer, em ajudar, em formar um homem com generosidade: querem ser fonte, condição necessária, fundamento de uma existência que as ultrapassa; fazem-se mães e buscam-se em seu amante muito mais sob esse aspecto do que sob o aspecto de uma amante. Também constantemente são as filhas que a mulher maternal adota: ainda assim suas relações revestem formas mais ou menos sexuais; mas, platônica ou carnalmente, o que ela procura em suas protegidas é um duplo milagrosamente rejuvenescido. A atriz, a dançarina, a cantora tornam-se pedagogas: formam alunas; a intelectual — como Mme de Charrière na solidão de Colombier — doutrina discípulos; a devota reúne filhas espirituais em torno de si. A mulher galante torna-se alcoviteira. Se emprestam a seu proselitismo tão ardoroso zelo, nunca é por simples interesse: procuram apaixonadamente reencarnar-se. Sua generosidade tirânica engendra mais ou menos os mesmos conflitos que entre a mãe e as filhas unidas pelos laços do sangue. É possível também adotar netos: as tias-avós, as madrinhas desempenham de bom grado um papel análogo ao das avós. Mas é, em todo caso, muito raro que a mulher encontre em sua posteridade — natural ou eleita — uma justificação para sua vida declinante: malogra em fazer sua a empresa de uma dessas jovens existências. Ou se obstina em seu esforço por anexá-la, ou se consome em lutas e dramas que a deixam desiludida, quebrada; ou se resigna a uma participação modesta. É o caso mais comum. A mãe envelhecida, a avó, reprimem seus desejos dominadores, dissimulam seus rancores; contentam-se com o que os filhos consentem em dar-lhes. Mas então não encontram mais socorro neles. Continuam disponíveis diante do deserto do futuro, presas da solidão, da saudade, do tédio.
     Abordamos aqui a lamentável tragédia da mulher idosa: ela sabe-se inútil; durante toda a sua vida, a mulher burguesa teve amiúde que resolver o problema irrisório: como matar o tempo? Mas, uma vez educados os filhos, o marido instalado na vida, os dias não acabam mais. Os "trabalhos femininos" foram inventados a fim de dissimular essa horrível ociosidade; as mãos bordam, fazem tricô, mexem; não se trata de um trabalho de verdade porque o objeto produzido não é o fim visado; tem pouca importância e muitas vezes é um problema saber a que destiná-lo: livram-se dele dando-o a uma amiga, a uma organização de caridade, atopetando lareiras e cômodas; não é tampouco um jogo que revela, em sua gratuidade, a pura alegria de existir; e é apenas um álibi, porquanto o espírito permanece desocupado: é o divertimento absurdo tal qual o descreve Pascal; com a agulha ou o crochê, a mulher tece tristemente o próprio vazio de seus dias. A aquarela, a música, a leitura têm quase o mesmo papel; a mulher desocupada não tenta, entregando-se a isso, adquirir um domínio sobre o mundo, busca apenas desentediar-se; uma atividade que não se abre para o futuro recai na vaidade da imanência; a ociosa abre um livro, larga-o, abre o piano, fecha-o, volta a seu bordado, boceja e acaba por ligar o telefone. Com efeito, é na vida mundana que ela prefere procurar socorro; sai, faz visitas, atribui — como Mrs. Dalloway — enorme importância a essas recepções; assiste a todos os casamentos, a todos os enterros; não tendo mais existência própria, nutre-se das presenças de outrem; de coquete, passa a comadre: observa, comenta; compensa sua inação dispersando em torno de si críticas e conselhos. Põe sua experiência a serviço de todos os que não lhe pedem. Se tem meios organiza um salão: espera assim apropriar-se das empresas e êxitos estranhos; sabe-se com que despotismo Mme du Deffand, Mme Verdurin governavam seus súditos. Ser um centro de atração, uma encruzilhada, uma inspiradora, criar um "ambiente" já é um sucedâneo da ação. Há outras maneiras discretas de intervir no mundo; na França existem "obras" e algumas "associações" mas é principalmente na América do Norte que as mulheres se reúnem em clubes onde jogam bridge, distribuem prêmios literários e meditam sobre melhoramentos sociais. O que nos dois continentes caracteriza a maior parte dessas associações é que elas são, em si, sua própria razão de ser: os objetivos que pretendem visar são apenas pretextos. As coisas passam-se exatamente como no apólogo de Kafka (As Armas da Cidade): ninguém se preocupa com edificar a torre de Babel; em torno de sua localização ideal constrói-se uma vasta aglomeração que consome todas as forças em se administrar, em se ampliar, em resolver questões intestinas. Assim vivem as senhoras que se ocupam de obras, organizando a maior parte do tempo sua organização; elegem uma diretoria, elaboram estatutos, discutem entre si e rivalizam com uma associação similar; é preciso que não lhes roubem seus pobres, seus doentes, seus feridos, seus órfãos; preferirão deixá-los que morram a cedê-los aos vizinhos. E estão muito longe de desejar um regime que, suprimindo as injustiças e os abusos, tornaria inútil sua dedicação; abençoam as guerras, as fomes que as transformam em benfeitoras da humanidade. É claro que, a seus olhos, xales e pacotes de presentes não se destinam aos soldados, nem aos esfaimados; estes é que são feitos de propósito para receber tricôs e pacotes.
     Apesar de tudo, alguns desses grupos alcançam resultados positivos. Nos Estados Unidos, a influência das Moms veneradas é poderosa; explica-se pelos lazeres que lhes proporciona uma existência parasitária: por isso é nefasta. "Não conhecendo nada de medicina, arte, ciência, religião, direito, saúde, higiene. .., diz Philipp Wyllie (Generation of Vipers), falando da Mom norte--americana, interessa-se raramente pelo que faz como membro de uma dessas inúmeras organizações: basta-lhe que seja alguma coisa." Seu esforço não se integra em um plano coerente e construtivo, não visa fins objetivos: tende apenas a manifestar seus gostos, preconceitos ou a servir seus interesses. No terreno cultural, por exemplo, desempenham um papel considerável: são elas que consomem maior número de livros; mas os leem como jogam uma paciência; a literatura assume seu sentido e dignidade quando se endereça a indivíduos empenhados em projetos, quando os ajuda a se ultrapassarem para horizontes mais amplos; cumpre que ela seja integrada no movimento da transcendência humana; ao passo que a mulher degrada livros e obras de arte abismando-os em sua imanência; o quadro torna-se bibelô, a música refrão vulgar, o romance um devaneio tão vão quanto uma coifa de crochê. São as americanas as responsáveis pelo aviltamento dos best-sellers: estes não somente pretendem agradar, como ainda agradar a ociosas ávidas de evasão. Quanto ao conjunto de suas atividades, Philipp Wyllie assim as define:
 
   Aterrorizam os políticos até os levarem a um servilismo choroso e terrificam os pastores; aborrecem os presidentes de bancos e pulverizam os diretores de escolas. A Mom multiplica as organizações cujo fim real é reduzir seus próximos a uma abjeta complacência para com seus desejos egoístas... expulsa da cidade e, se possível, do Estado, as jovens prostitutas... consegue que o ônibus passe por onde lhe seja prático, 'mais do que ao operário... organiza quermesses e festas de caridade prodigiosas entregando a renda ao porteiro para que compre cerveja, a fim de tratar da ressaca dos membros da diretoria no dia seguinte... Os clubes fornecem à Mom oportunidades incalculáveis de enfiar o nariz nos negócios dos outros.  

     Há muita verdade nesta sátira agressiva. Não sendo especializadas nem em política, nem em economia, nem em qualquer disciplina técnica, as velhas senhoras não têm nenhuma influência concreta na sociedade; ignoram os problemas que a ação coloca; são incapazes de elaborar algum programa construtivo. Sua moral é abstrata e formal como os imperativos de Kant; decretam proibições ao invés de procurar descobrir os caminhos do progresso; não tentam criar positivamente situações novas; atacam as que já existem a fim de eliminar o mal que comportam; é o que explica que sempre se coliguem contra alguma coisa: contra o álcool, a prostituição, a pornografia; não compreendem que um esforço puramente negativo é destinado ao malogro como o provou na América o malogro da "lei seca" e na França a lei que Marthe Richard fez votar. Enquanto a mulher permanecer parasita, não poderá eficientemente participar da elaboração de um mundo melhor.
     Pode acontecer, apesar de tudo, que certas mulheres se empenhem de corpo e alma numa empresa e tornem-se realmente ativas; então não procuram mais ocupar-se tão somente, visam certos fins; produtoras autônomas, evadem-se da categoria parasitária que aqui consideramos: mas essa conversão é rara. A maioria das mulheres, em suas atividades privadas ou públicas, visa não a um resultado a atingir e sim a se ocupar; e toda ocupação é vã quando é apenas um passatempo. Muitas delas sofrem com isso; tendo atrás de si uma vida já acabada, conhecem o mesmo desnorteamento que os adolescentes cuja vida não se abriu ainda; nada as solicita, em torno de ambos é o deserto; em face de todas as ações murmuram: para quê? Mas o adolescente, queira ou não, e arrastado para uma vida de homem que lhe desvenda responsabilidades, objetivos, valores; é jogado no mundo, toma partido, empenha-se. A mulher idosa, se lhe sugerem que parta novamente para o futuro, responde: tarde demais. Não porque o tempo seja agora medido: uma mulher é aposentada muito cedo; mas falta-lhe o entusiasmo, a confiança, a esperança, a cólera que lhe permitiriam descobrir novos objetivos ao redor de si. Ela se refugia na rotina que sempre constituiu seu quinhão; faz da repetição um sistema, entrega-se a manias caseiras; afunda cada vez mais profundamente na devoção; encerra-se no estoicismo como Mme de Charrière. Torna-se seca, indiferente, egoísta.
     É justamente no fim da vida, quando renunciou à luta, quando a aproximação da morte a liberta da angústia do futuro que a mulher velha encontra geralmente a serenidade. Amiúde o marido é mais idoso, ela assiste à sua decadência com silenciosa complacência: é seu revide; se ele morre em primeiro lugar, ela suporta displicentemente o luto; observou-se mais de uma vez que os homens ficam muito mais acabrunhados com uma viuvez tardia, auferem do casamento maiores benefícios do que as mulheres, principalmente na velhice, porque então o universo se concentrou dentro dos limites do lar; os dias presentes não transbordam mais sobre o futuro; ela é quem lhes garante o ritmo monótono e sobre eles reina. Quando perde suas funções públicas, o homem torna-se totalmente inútil; a mulher conserva pelo menos a direção da casa; ela é necessária ao marido ao passo que ele é somente importuno. De sua independência, orgulham-se as mulheres; põem-se afinal a olhar o mundo com os próprios olhos; dão-se conta de que foram iludidas e mistificadas durante toda a vida; lúcidas, desconfiadas, atingem frequentemente um cinismo saboroso. Em particular, a mulher que "viveu" tem um conhecimento dos homens que nenhum homem compartilha; porque ela não viu sua figura pública e sim o indivíduo contingente, que cada qual resolve ser na ausência de seus semelhantes; ela conhece também as mulheres que só se mostram em sua espontaneidade a outras mulheres; conhece o inverso do cenário. Mas, se sua experiência permite-lhe denunciar mistificações e mentiras, não basta porém para lhe revelar a verdade. Divertida ou amarga, a sabedoria da mulher velha permanece ainda inteiramente negativa: é contestação, acusação, recusa; é estéril. Em seus pensamentos, como em seus atos, a mais alta forma de liberdade que a mulher parasita pode conhecer é o desafio estoico ou a ironia cética. Em nenhuma idade de sua vida ela consegue ser ao mesmo tempo eficiente e independente.

continua página 363...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo V - Da Maturidade à Velhice (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Fuga e Aguilhão

Elias Canetti

A ORDEM

     A ordem: fuga e aguilhão

          "Uma ordem é uma ordem": o caráter definitivo e indiscutível que é próprio da ordem pode também ter contribuído para que tão pouco se tenha refletido a respeito dela. Ela é aceita como algo que sempre existiu assim; parece ser tão natural quanto indispensável. Desde pequeno se está acostumado às ordens; elas formam uma boa parte daquilo que chamamos educação; toda a vida adulta também está repleta delas, seja nas esferas do trabalho, da luta ou da fé. Praticamente ninguém se perguntou o que é exatamente uma ordem; se ela realmente é tão simples quanto parece ser; se, apesar da rapidez e da lisura com a qual provoca o previsto, não deixa outros vestígios mais profundos, talvez até mesmo hostis, no homem que obedece.
     A ordem é mais antiga do que a fala, caso contrário os cães não a poderiam entender. O adestramento dos animais baseia-se justamente em que eles, sem conhecer a fala, aprendem a compreender o que se espera deles. Por meio de ordens breves e muito claras, que em princípio não diferem das que são dadas aos homens, lhes é comunicada a vontade do domador. Eles obedecem a esta vontade, da mesma forma como acatam as proibições. Tem-se portanto todo o direito de buscar raízes mais antigas da ordem; pelo menos está mais do que claro que alguma forma de ordem existe também fora da sociedade humana.
     A forma mais antiga do efeito da ordem é a fuga. Ela é ditada ao animal por alguém mais forte, por uma criatura fora dele. A fuga é espontânea somente na aparência; o perigo sempre tem uma forma; e sem supor esta forma, animal algum fugiria. A ordem de fuga é tão forte e direta quanto o olhar.
     Desde o começo pertence à essência da fuga a diversidade de ambas as criaturas que desta maneira entram em relacionamento uma com a outra. Uma delas apenas dá a entender que quer devorar a outra: daí a seriedade mortal da fuga. A "ordem" obriga o animal mais fraco a se colocar em movimento, independentemente de ele ser perseguido logo em seguida ou não. Importa apenas a intensidade da ameaça: a intensidade da voz, do olhar, da forma que impõe o terror.
     A ordem é derivada, portanto, da ordem de fuga: em sua forma mais primitiva, ela ocorre entre animais de diferentes espécies, dos quais um ameaça o outro. A grande diferença de poder entre ambos, o fato de que um deles — poderíamos dizer — está acostumado a servir de presa ao outro, o inabalável desta relação que parece estar estabelecida desde sempre, tudo isto confere algo de absoluto e de irrevogável ao acontecimento. A fuga é a última instância à qual se pode apelar contra esta sentença de morte. O rugir de um leão que sai à caça realmente é uma sentença de morte: trata-se de um som de sua fala que todas as suas vítimas entendem; e é possível que esta ameaça seja a única coisa em comum entre elas, que são tão distintas entre si. A ordem mais antiga — dada muito antes de os homens existirem — é uma sentença de morte e obriga a vítima à fuga. Será bom lembrar isso quando abordarmos a questão da ordem entre os homens. A sentença de morte e o seu terror desapiedado transparecem por trás de toda ordem. O sistema das ordens entre os homens está constituído de tal forma que geralmente as pessoas escapam da morte; mas o terror em relação a ela, a ameaça, está sempre contido na ordem; além disso, a manutenção e a execução de verdadeiras sentenças de morte mantêm desperto o terror diante de cada ordem, diante das ordens de maneira geral.
     Mas agora esqueçamos por um momento o que já descobrimos a respeito da origem da ordem e vamos contemplá-la sem preconceitos, como se o fizéssemos pela primeira vez.
     A primeira coisa que chama a atenção numa ordem é o fato de ela provocar uma ação. Um dedo estendido apontando numa determinada direção pode ter o efeito de uma ordem: todos os olhos que percebem esse dedo viram-se na direção indicada. Parece portanto que a ação provocada, cuja direção está determinada, é tudo o que importa na ordem. Sua difusão numa direção é particularmente importante; sua reversão é tão imprópria quanto sua modificação.
     É próprio da ordem não admitir réplica. Ela não deve ser explicada, discutida ou colocada em dúvida. É clara e concisa, já que deve ser entendida imediatamente. Um atraso na recepção prejudica sua força. Em cada repetição que não for seguida de execução, a ordem perde um pouco de sua vida; após algum tempo ficará esgotada ou impotente, prostrada no solo; e nestas circunstâncias é melhor não tentar reavivá-la. Porque a ação que a ordem provoca está ligada ao seu instante. Ela também pode ser fixada para mais tarde, mas deve estar determinada, seja de forma expressa, seja de maneira claramente manifesta pela sua própria natureza.
     A ação que é executada em virtude de uma ordem é distinta de todas as demais ações. É considerada como algo estranho; sua lembrança tem algo de passageiro. Alguma coisa diferente passa junto à pessoa como um vento fugaz. A rapidez de execução que uma ordem exige talvez contribua para que ela seja vista como algo estranho; mas só isso não é suficiente para explicá-la. Para a ordem é importante que ela venha de fora. Sozinho, ninguém teria tido tal ideia. Ela pertence aos elementos da vida que são impostos; ninguém os desenvolve dentro de si mesmo. Mesmo quando aparecem repentinamente homens solitários com uma massa monstruosa de ordens tentando fundar uma nova fé, renovando uma fé antiga, a aparência de uma carga alheia, imposta, é estritamente mantida. Estas pessoas jamais falarão em seu próprio nome. O que elas exigem dos outros lhes foi ordenado; e, por mais que mintam em algumas coisas, neste ponto sempre são sinceros: acreditam ter sido enviados.
     A origem da ordem, que é algo estranho, também deve ser considerada como algo mais forte. Obedece-se porque não seria possível combater com perspectivas de êxito; quem vencesse, mandaria. O poder da ordem não deve ser colocado em dúvida; caso este poder tenha diminuído, ele deve estar disposto a reafirmar-se por meio de lutas. Na maior parte das vezes este poder é reconhecido durante muito tempo. É surpreendente notar quão poucas vezes se exigem novas decisões; os efeitos das decisões antigas perduram. Lutas vitoriosas continuam vivendo nas ordens; em cada ordem obedecida renova-se uma vitória antiga.
     Visto de fora, o poder de quem manda cresce de forma incessante. A menor ordem consegue acrescentar-lhe algo. Ela não é dada habitualmente apenas para ser útil a quem se utiliza dela; existe também na natureza da própria ordem, no reconhecimento que encontra, no espaço que atravessa, na sua pontualidade peremptória, algo que garante ao poder uma maior segurança e um crescimento de seu âmbito. O poder emite ordens como uma nuvem de flechas mágicas: as vítimas que são atingidas por elas se oferecem ao todo-poderoso, chamadas, tocadas e conduzidas por essas flechas.
     No entanto a simplicidade e a unidade da ordem que à primeira vista parecem ser absolutas e incontestáveis, quando examinadas com maior atenção revelam-se aparentes. A ordem pode ser decomposta. É necessário decompô-la, caso contrário jamais conseguiremos compreendê-la realmente.
     Toda ordem consta de um impulso e de um aguilhão. O impulso força o receptor à execução, de um modo adequado ao conteúdo da ordem. O aguilhão permanece dentro de quem executa a ordem. Quando as ordens funcionam normalmente, como se espera delas, nada se vê deste aguilhão. Ele é secreto, não se suspeita de sua existência; talvez se manifeste, levemente perceptível, numa pequena resistência antes de a ordem ser obedecida.
     Mas o aguilhão penetra fundo no homem que cumpriu uma ordem e permanece lá dentro, inalterável. Entre todas as configurações psíquicas não existe, qualquer outra coisa que seja menos mutável. O conteúdo da ordem mantém-se conservado no aguilhão; sua força, seu alcance, suas limitações, tudo foi prefigurado para sempre no momento em que a ordem foi dada. Podem-se passar anos ou décadas sem que esta parte aprofundada e armazenada da ordem (sua réplica em ponto pequeno) apareça novamente. Mas é importante saber que ordem alguma se perde; ela nunca se acaba realmente com sua execução — ela é armazenada para sempre.
     Os receptores de ordens mais afetados são as crianças. Parece um milagre que elas não sucumbam debaixo do peso de tantas ordens, que elas consigam sobreviver aos mandos e desmandos de seus educadores. O fato de elas, com a mesma crueldade de seus educadores, transmitirem posteriormente tudo isso aos seus próprios filhos é algo tão natural quanto mastigar e falar. Mas o que sempre causará surpresa é que elas tenham mantido intactas as ordens desde a mais tenra infância; estas ordens estão à disposição assim que a próxima geração ofereça suas vítimas. Nenhuma ordem foi modificada no menor detalhe sequer; ela poderia ter sido dada uma hora atrás apenas, mas na verdade ela foi dada há vinte, trinta ou mais anos. A força com que a criança recebe ordens, a tenacidade e fidelidade com que as guarda dentro de si não são um mérito individual. Inteligência ou talento especial nada têm a ver com isso. Toda a criança, até mesmo a mais comum, não perde nem perdoa nenhuma das ordens com as quais foi maltratada.
     É mais fácil que se modifique o aspecto de um homem, as características pelas quais os outros o reconhecem — a postura da cabeça, a expressão da boca, o modo de olhar —, do que a imagem da ordem que permaneceu dentro dele como um aguilhão e que foi armazenada de maneira inalterável. Inalterada, a ordem volta a ser expulsa, mas para isto é preciso que haja uma oportunidade; a nova situação na qual esta ordem se desprende deve assemelhar-se à situação antiga na qual foi recebida. A reconstrução destas situações primordiais, mas de maneira inversa, é uma das grandes fontes de energia psíquica do homem. O incentivo, a "espora", como se diz, para conseguir alcançar isto ou aquilo é o impulso mais profundo para desfazer-se de ordens recebidas no passado.
     Somente a ordem executada é que deixa o seu aguilhão cravado em quem a cumpriu. Quem evita as ordens também não precisa armazená-las. O homem "livre" é somente aquele que aprendeu a se desviar das ordens, e não aquele que somente mais tarde consegue se libertar delas, Mas quem necessita de mais tempo para esta libertação, ou quem não é capaz disso, sem dúvida alguma é a pessoa mais carente de liberdade.
     Nenhum homem imparcial considera como uma carência de liberdade obedecer a seus próprios impulsos. Mesmo quando estes impulsos se tornam mais fortes e sua satisfação leva às mais perigosas complicações, o indivíduo tem a impressão de que está agindo a partir de si mesmo. Mas, quando ele se opõe dentro de si à ordem que lhe foi dada de fora para dentro e que ele foi obrigado a executar, então fala-se de pressão, e a pessoa se reserva o direito de reversão ou de rebelião.

continua página 455...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

Edgar Allan Poe - Contos: Leonizando

Edgar Allan Poe - Contos


Leonizando
Todo mundo ficou 
na ponta dos pés, em exaltada admiração. 
Bispo Hall, Satires

     Sou — quer dizer, fui — um grande homem; mas não sou nem o autor de Junius, nem o homem da máscara, pois meu nome é John Smith, e nasci em algum lugar da cidade de Fum-Fudge. O primeiro ato de minha vida foi segurar meu nariz com as duas mãos. Minha mãe presenciou isso e chamou-me gênio; meu pai chorou de alegria, e comprou-me um tratado de Nosologia. Antes de usar calças compridas eu não só dominava o tratado como também coligira num caderno de apontamentos e citações tudo quanto é dito a respeito do tema por Plínio, Aristóteles, Alexander Ross, Minutius Felix, Hermanus Pictorius, Del Rio, Villarêt, Bartholinus e Sir Thomas Browne.
     Então comecei tateante a trilhar o caminho da ciência, e logo vim a compreender que, dado que um homem tivesse o nariz suϐicientemente grande, ele poderia, meramente o seguindo, alcançar a leonicidade. Mas minha atenção não permaneceu restrita a teorias somente; todas as manhãs eu entornava um ou dois tragos e dava em minha probóscide um bom par de puxões. Quando cheguei à idade adulta, meu pai solicitou, certo dia, que o acompanhasse ao seu gabinete.

“Meu filho”, disse ele, quando estávamos sentados, “qual é a principal finalidade da tua existência?” 
“Pai”, disse eu, “é o estudo da Nosologia.” 
“E o que, John”, prosseguiu, “vem a ser Nosologia?” 
“Meu senhor”, repliquei, “é a Ciência dos Narizes.” 
“E sabes me dizer”, perguntou, “qual o significado de um nariz?” 
“Um nariz, meu pai”, disse eu, “foi das mais variadas formas definido por cerca de mil autores diferentes. (Nisso, puxei meu relógio.) Agora é meio-dia, ou pouco mais ou menos; — creio que dispomos de tempo suficiente para passar por todos eles antes da meia-noite. Comecemos, pois. O nariz, segundo Bartholinus, é essa protuberância, esse inchamento, essa excrescência, ess—” 
“Isso basta, John”, disse o velho cavalheiro. “Estou abismado com a extensão de teus conhecimentos. Estou, positivamente — por minha alma. Vem aqui! (Nisso fechou os olhos e pôs a mão sobre o coração.) Vem aqui! (Nisso tomou-me pelo braço.) Tua educação ainda não pode ser dada por encerrada, e já está mais do que na hora de lutares por ti mesmo — e melhor não podes fazer do que meramente seguir teu nariz — então — então — então — (Nisso chutou-me pela escada abaixo e pela porta afora.) — então sai já da minha casa, e que Deus te abençoe!” 

     Como sentia dentro de mim o afflatus divino, considerei esse incidente antes afortunado do que outra coisa. Resolvi me deixar guiar pelo aconselhamento paterno. Determinei-me a seguir meu nariz. Apliquei-lhe um ou dois puxões sem mais delongas e redigi incontinente um opúsculo acerca da Nosologia.
     Toda Fum-Fudge ficou em polvorosa.

“Gênio prodigioso!”, disse a Quarterly. 
“Fisiologista soberbo!”, disse o Westminster. 
“Sujeito sabido!”, disse o Foreign. 
“Ótimo escritor!”, disse o Edinburgh. 
Pensador profundo!”, disse o Dublin. 
“Grande homem!”, disse Bentley. 
“Alma divina!”, disse Fraser. 
“Um de nós!”, disse Blackwood. 
“Quem pode ser?”, disse a sra. Bas-Bleu. 
“O que pode ser?”, disse a srta. Bas-Bleu, a grande. 
“Onde pode ser?”, disse a srta. Bas-Bleu, a pequena. — Mas não dei a menor atenção a essas pessoas — apenas fui para o ateliê de um artista.

     A Duquesa de Bless-My-Soul posava para um retrato; o Marquês de Soand-So segurava o poodle da duquesa; o Conde de This-and-That flertava com os sais dela; e Sua Alteza Real de Touch-me-Not reclinava contra o espaldar de sua poltrona.
     Aproximei-me do artista e empinei o nariz.

“Ah, lindo!”, suspirou sua Graça. 
“Minha nossa!”, ceceou o Marquês. 
“Oh, chocante!”, gemeu o Conde. 
“Oh, abominável!”, resmungou Sua Alteza Real. 
“Quanto quer por ele?”, perguntou o artista. 
“Por seu nariz!”, gritou Sua Graça. 
“Mil libras”, disse eu, sentando-me. 
“Mil libras?”, perguntou o artista, refletindo. 
“Mil libras”, disse eu. 
“Lindo!”, disse ele, enlevado. 
“Mil libras”, disse eu. 
“Dá-me garantia?”, perguntou ele, virando o nariz sob a luz. 
“Dou”, disse eu, assoando-o bem. 
“É totalmente original?”, inquiriu ele, tocando-o com reverência. 
“Humpf!”, disse eu, virando-o para o lado. 
Nenhuma cópia ainda foi feita?”, quis saber ele, examinando-o ao microscópio. 
“Nenhuminha”, disse eu, empinando-o. 
Admirável!”, ele exclamou, pegando-se completamente desprevenido com a beleza da manobra. 
“Mil libras”, disse eu. 
“Mil libras?”, disse ele. 
“Precisamente”, disse eu. 
“Mil libras?”, disse ele. 
“Nem mais, nem menos”, disse eu. 
“Tu as terás”, disse ele. “Que refinada obra de arte!” Assim, preencheu um cheque ali mesmo, e fez um esboço de meu nariz. Arranjei aposentos na Jermyn Street e enviei para Sua Majestade a nonagésima nona edição da Nosologia, com um retrato da probóscide. — Aquele libertinozinho desprezível, o Príncipe de Gales, convidou-me para um jantar.

     Éramos todos leões e recherchés.
     Havia um neoplatônico. Ele citou Porfírio, Jâmblico, Plotino, Proclo, Hiérocles, Máximo de Tiro e Siriano.
     Havia um estudioso da perfectibilidade humana. Ele citou Turgot, Price, Priestly, Condorcet, De Stäel e o Ambitious Student in Ill Health.
     Havia Sir Positive Paradox. Observou ele que todos os tolos eram filósofos, e que todos os filósofos eram tolos.
     Havia Æstheticus Ethix. Ele falou sobre fogo, unidade e átomos; alma biparte e alma preexistente; afinidade e discordância; inteligência primitiva e homeomeria.
     Havia Theologos Theology. Ele falou de Eusébio e de Ário; de heresia e do Concílio de Niceia; do puseyismo e do consubstancialismo; de homoousios e de homoouioisios.
     Havia Fricassée, do Au Rocher de Cancale. Ele mencionou a língua à l'écarlate; a couve-flor ao molho velouté; a vitela à la Sainte-Menehould; a marinada à la Saint-Florentin; e as geleias de laranja en mosaïques.
     Havia Bibulus O'Bumper. Ele comentou sobre o Latour e o Markbrünnen; sobre o Mousseaux e o Chambertin; sobre o Richebourg e o Saint-Georges; sobre o Haut-brion, o Léoville e o Médoc; sobre o Barsac e o Preignac; sobre o Graves, sobre o Sauterne, sobre o Lafitte e sobre o SaintPéray. Abanou a cabeça para o Clos de Vougeot e explicou, com os olhos fechados, a diferença entre xerez e amontillado.
     Havia o Signor Tintontintino, de Florença. Ele discorreu a respeito de Cimabue, D'Arpino, Carpaccio e Agostino — a respeito das sombras em Caravaggio, da amenidade de Albano, das cores em Ticiano, das bacantes de Rubens e das alegres cenas de Jan Steen.
     Havia o reitor da Universidade de Fum-Fudge. Ele era da opinião que a lua se chamava Bendis na Trácia, Bubastis no Egito, Diana em Roma e Ártemis na Grécia.
     Havia o Grão-Turco de Istambul. Ele não conseguia deixar de pensar que os anjos eram cavalos, galos e touros; que alguém no sexto paraíso tinha setenta mil cabeças; e que a Terra era suportada por uma vaca azul celeste com número incalculável de chifres verdes.
     Havia Delphinus Polyglott. Contou-nos o que se passara com as oitenta e três tragédias perdidas de Ésquilo; com os cinquenta e quatro discursos de Iseu; com os trezentos e noventa e um discursos de Lísias; com os cento e oitenta tratados de Teofrasto; com o oitavo livro das seções cônicas de Apolônio; com os hinos e ditirambos de Píndaro; e com quarenta e tantas tragédias de Homero Júnior.
     Havia Ferdinand Fiz-Fossilius Feltspar. Ele nos falou sobre fogos internos e formações terciárias; sobre aeriformes, ϐluidiformes e solidiformes; sobre quartzo e marga; sobre xisto e turmalina; sobre gipsita e basalto; sobre talco e calcário; sobre blenda e hornblenda; sobre malacacheta e conglomerado; sobre cianita e lepidolita; sobre hematita e tremolita; sobre antimônio e calcedônio; sobre manganês e o que mais quiseres.
     Havia eu mesmo. Falei de mim mesmo; — de mim, de mim, de mim; — de Nosologia, de meu opúsculo e de mim mesmo.

“Que homem maravilhosamente inteligente!”, disse o Príncipe. 
“Soberbo!”, disseram seus convidados: — e na manhã seguinte, Sua Graça de Bless-my-Soul me fez uma visita. 
“Gostarias de comparecer ao Almack's, linda criatura?”, disse ela, dando um soquinho em meu queixo. 
“Será uma honra”, disse eu. 
“Com nariz e tudo?”, perguntou ela. 
“Certamente”, repliquei. 
“Eis aqui então um convite, minha vida. Posso contar mesmo com tua presença?” 
“Querida Duquesa, irei de todo coração.” 
“Ora bolas, não! — virás com todo teu nariz?” 
“Cada pedacinho dele, meu amor”, disse eu: — então lhe apliquei uma ou duas torceduras, e vi-me no Almack's.

     Os salões estavam lotados ao ponto da sufocação.

“Aí vem ele!”, disse alguém na escadaria. 
“Aí vem ele!”, disse alguém mais no alto. 
“Aí vem ele!”, disse alguém ainda mais alto. 
“Ele veio!”, exclamou a Duquesa. “Ele veio, o amorzinho!” — e, tomando-me firmemente pelas duas mãos, beijou-me três vezes no nariz.

     Uma notável comoção se sucedeu imediatamente.

Diavolo!”, gritou o Conde Capricornutti. 
Dios Guarda!”, murmurou Don Stiletto. 
Mille tonnerres!”, exclamou o Príncipe de Grenouille. 
Tousand Teufel!”, resmungou o Eleitor de Bluddennuff.

     Aquilo era insuportável. Fiquei furioso. Virei abruptamente para Bluddennuff.

“Senhor!”, disse-lhe, “és um babuíno.” 
“Senhor”, replicou ele, após uma pausa, “Donner und Blitzen!”

     Isso era tudo quanto se poderia desejar. Trocamos cartões. Em ChalkFarm, na manhã seguinte, alvejei-lhe o nariz — e depois procurei meus amigos.

Bête!”, disse o primeiro. 
“Tolo!”, disse o segundo. 
“Pateta!”, disse o terceiro. 
“Asno!”, disse o quarto. 
“Idiota!”, disse o quinto. 
“Estúpido!”, disse o sexto. 
“Some daqui!”, disse o sétimo.

     Diante disso tudo, fiquei mortificado, e assim fui à procura de meu pai.

“Meu filho”, replicou ele, “isso ainda é o estudo da Nosologia; mas ao acertar o nariz do Reitor, erraste o alvo. Tens um belo nariz, é verdade; mas agora Bluddennuff não tem nenhum. Estás condenado, e ele se tornou o herói do dia. Garanto que em Fum-Fudge a grandeza de um leão é proporcional ao tamanho de sua probóscide — mas, bom Deus! não se pode competir com um leão que não tem probóscide alguma.”
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* Os autores aqui nomeados de fato trataram todos, em alguma extensão, do nariz. (N. do A.)
   
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 68 - A manta

Moby Dick

Herman Melville

68 - A manta
     Não dediquei pouca atenção a esse assunto um tanto incômodo, a pele da baleia. Entrei em discussões a esse respeito com experientes baleeiros de bordo e doutos naturalistas de terra. A minha opinião inicial ainda é a mesma; contudo, é apenas uma opinião.
     Eis o problema – o que é, e onde está, a pele da baleia? Você já sabe o que é sua gordura. A gordura tem algo da consistência firme e fibrosa da carne do boi, embora mais dura, mais elástica e compacta, com uma espessura de oito ou dez a doze ou quinze polegadas.
     Ora, por mais absurdo que pareça à primeira vista afirmar que uma criatura tenha uma pele com tal espessura e consistência, de fato não existem argumentos contra tal hipótese; porque não se encontra nenhuma outra camada densa envolvendo o corpo da baleia, salvo essa mesma gordura; e a mais externa camada que envolva qualquer animal, se consideravelmente densa, o que pode ser senão sua pele? De fato, raspando o corpo da baleia morta e ainda fresca com as próprias mãos você pode extrair uma substância infinitamente fina e transparente, que lembra um pouco a mais fina lâmina de cola de peixe, mas quase tão flexível e macia quanto o cetim; isto é, antes de ficar seca, quando não apenas se contrai e engrossa, como também se torna dura e quebradiça. Tenho vários desses pedaços secos, que uso para marcar meus livros sobre baleias. São transparentes, como disse antes; e quando colocados sobre a página impressa, muito me apraz imaginar que pudessem ter um efeito de aumento. De qualquer modo, é muito agradável ler sobre as baleias através de suas próprias lentes, por assim dizer. Mas eis aonde quero chegar. Aquela mesma substância infinitamente fina, a cola de peixe, que, digo, reveste o corpo todo da baleia, não pode ser considerada a pele do animal, mas a pele da pele, por assim dizer; pois seria simplesmente ridículo afirmar que a pele da imensa baleia é mais fina e macia do que a pele de um bebê recém-nascido. Mas vamos encerrar este assunto.
     Admitindo que a gordura seja mesmo a pele da baleia; então, quando essa pele, como no caso de um grande Cachalote, produz um volume de cem barris de óleo; e quando consideramos que em quantidade, ou melhor, em peso, tal óleo, em seu estado outrora referido, representa apenas três quartos, e não toda a substância do revestimento; teremos uma ideia da enormidade dessa massa viva, da qual uma simples parte do tegumento produz tamanho lago de óleo. Calculando dez barris por tonelada, você tem dez toneladas em peso líquido para apenas três quartos da pele da baleia.
     Em vida, a superfície visível do Cachalote não é a menor de suas muitas maravilhas. Quase sempre é inteiramente cruzada e recruzada por inúmeros traços retos em arranjo cerrado, como as linhas das melhores gravuras Italianas. Mas esses traços não parecem estar impressos na referida substância do revestimento, mas parecem atravessá-la, como se estivessem gravados no próprio corpo. Mas isso não é tudo. Em alguns casos, para um olhar rápido e perspicaz, aqueles traços lineares, como nas verdadeiras gravuras, apenas servem de base para vários outros desenhos. Esses são hieroglíficos; isto é, se você chama aqueles misteriosos criptogramas das paredes das pirâmides de hieróglifos, então essa é a palavra certa para se usar na presente ocasião. Por minha boa memória dos hieróglifos de um Cachalote em especial, impressionou-me sobremaneira um quadro que representava antigos caracteres Indígenas, traçado nas famosas paliçadas hieroglíficas dos barrancos do alto Mississippi. Assim como os enigmáticos rochedos, também a baleia assinalada de enigmas permanece indecifrada. Essa referência aos rochedos indígenas me fez lembrar de mais uma coisa. Além de todos os demais fenômenos exteriores que o Cachalote apresenta, ele amiúde dispõe de dorso, e ainda mais de flancos, desprovidos das visíveis linhas regulares, em razão dos numerosos e terríveis arranhões que lhe dão um aspecto acidental e irregular. Eu diria que esses rochedos no litoral da Nova Inglaterra, os quais, assim crê Agassiz, trazem as marcas de um violento contato abrasivo com enormes icebergs flutuantes – eu diria que tais rochedos revelam não pouca semelhança com o Cachalote neste particular. Também me parece que tais arranhões na baleia foram possivelmente feitos por um contato hostil com outras baleias; pois os vi em maior número nos machos grandes e adultos da espécie.
     Mais uma ou duas palavras sobre o assunto da pele ou gordura da baleia. Já foi dito que ela é arrancada da baleia em pedaços compridos, chamados de mantas. Como a maior parte dos termos náuticos, este é muito conveniente e significativo. Pois a baleia está de fato embrulhada em sua gordura como numa manta ou numa colcha; ou, melhor ainda, como num poncho Indígena, que enfiado pela cabeça chegasse até a outra ponta. É devido a essa proteção aconchegante de seu corpo que a baleia encontra meios de se sentir confortável em quaisquer condições climáticas, em todos os oceanos, tempos e marés. O que aconteceria com a baleia da Groenlândia, por exemplo, nos mares setentrionais frios e trépidos, se não dispusesse desse sobretudo aconchegante? Em verdade, outros peixes são encontrados bem vivos naquelas águas Hiperbóreas; mas esses, que fique claro, são peixes de sangue frio, desprovidos de pulmões, cujas barrigas são geladeiras; criaturas que se aquecem a sotavento de um iceberg, como um viajante no inverno se aqueceria diante de uma lareira numa estalagem; ao passo que, como os homens, a baleia tem pulmões e sangue quente. Congele seu sangue, e ela morrerá. Como é espantoso – salvo depois dessa explicação– que esse imenso monstro, para o qual o calor do corpo é tão indispensável quanto para o homem; como é espantoso que ele possa ser encontrado à vontade submerso até os lábios, para o resto da sua vida, naquelas águas Árticas! Lugar onde, quando caem para fora dos navios, os marinheiros são às vezes encontrados, depois de meses, perpendicularmente congelados no coração dos campos de gelo, como uma mosca encontrada presa ao âmbar. Mas ainda mais surpreendente é saber que, como foi demonstrado por experimento, o sangue de uma baleia Polar é mais quente do que o de um negro de Bornéu em pleno verão.
     Parece-me que aqui vemos a rara virtude de uma vitalidade individual poderosa, e a grande virtude das paredes espessas, e a grande virtude de uma imensidão interior. Ah, homem! Admira e espelha-te na baleia! Permanece aquecido, tu também, no gelo. Vive neste mundo, tu também, sem pertencer a ele. Sê frio no Equador; mantém o sangue correndo no Polo. Como a grande cúpula da Catedral de São Pedro, e como a grande baleia, mantém, ó, homem, a tua própria temperatura em todas as estações!
     Mas quão fácil e inútil é ensinar essas coisas belas! Das construções, quão poucas são as que têm uma cúpula como a Catedral de São Pedro! Das criaturas, quão poucas têm a magnitude da baleia!

continua na página 335...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
68 - A manta /                    
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

Cinema: Anna Kariênina

Drama Histórico


No final do século XIX, uma bela jovem casada com um homem honesto, Anna Karenina, recebe uma carta de seu irmão Stiva, que está passando por um momento difícil desde que sua esposa Dolly descobriu uma de suas infidelidades. Então Anna vai para a casa dele em Moscou. Ao mesmo tempo, Levin, um amigo de infância de Stiva, quer pedir Kitty, irmã de Dolly, em casamento. Chegando à estação de trem de Moscou, Anna conhece o irresistível Vronsky... e tá armada a confusão!

Diretor: 
Christian DUGUAY

Autores: 
Francesco ARLANCH
segundo Leo TOLSTOÏ autor do livro Anna Kariênina






Elenco:
Santiago Cabrera como Vronsky
Lou de Laâge como Kitty Scerbatskaya
Sydne Rome como Princess Scerbatskaya
Ángela Molina como Countess Vronskaya
Emanuela Postacchini como Sasha
Vittoria Puccini como Anna Kariênina
Benjamin Sadler como Karenin
Patricia Vico como Lidia Ivanovna
María Castro como Varenka
Pietro Sermonti como Stiva
Max von Thun como Levin
Sam Lucas Smith como Friedrich (narração)
Annemarie van de Mond como Agathea
Diana Krüger como Young Countess 
James Tratas como Wounded Soldier 
Sakalas Uždavinys como Vassiy
Donatas Simukauskas como Dolly's Butler
Carlotta Natoli como Dolly Scerbatskaya
Stasys Baltakis como Porter
Léa Bosco como Princess Betsy
Karina Stungyte como Kittie's Maid
Darius Miniotas como Nikolai
Sergio Ercolessi como Pension's Landlord
Gediminas Storpirstis como Attorney
Edgaras Cerniauskas como Young Nobleman #2
Kestutis Macijauskas como Priest
Ilja Bereznickas como Vronskiy's Man Servant
Dainius Jankauskas como Friedrich
Jonas Verseckas como Young Man
Karolina Reciugaite como Princess Sorokina
Kamile Sidarovaite como Tanya
Paulius Cinauskas como Vasia
Dylan Pierce como Seryozha



ANNA KARIÊNINA, de LIEV TOLSTÓI 




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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
16. Matilha Voraz / Anna Kariênina /