em busca do tempo perdidovolume IV
Sodoma e Gomorra
Capítulo Terceiro
Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.
Todos os dias eu saía com Albertine. Ela resolvera dedicar-se a pintura e havia escolhido
primeiramente, para trabalhar, a igreja de Saint-Jean-de-la-Haise, que não é mais frequentada por
ninguém, sendo muito mal conhecida, difícil de fazer-se indicar, impossível de descobrir sem guia
e demorada de se atingir em seu isolamento, a mais de meia hora da estação de Épreville, depois
de passadas há muito as últimas casas da aldeia de Quetteholme. Quanto ao nome de Épreville,
não encontrei concordância entre o livro do cura e as informações de Brichot. Para um, Épreville
era a antiga Sprevílla; o outro indicava como etimologia Aprívilla.
Da primeira vez, tomamos a pequena estrada de ferro em sentido oposto ao de Féterne,
ou seja, na direção de Grattevast. Mas era um dia de canícula e já fora terrível partir logo em
seguida do almoço. Eu teria preferido não sair tão cedo; o ar luminoso e ardente despertava ideias
de indolência e refrescamento. Sujeitava nossos quartos, o meu e o de minha mãe, conforme sua
exposição, a temperaturas desiguais, como quartos de estâncias balneárias. O gabinete de
toalete de mamãe, festoado pelo sol, de uma brancura fulgurante e mourisca, parecia estar
mergulhado no fundo de um poço, devido aos quatro muros de estuque para os quais dava, ao
passo que lá em cima, no quadrado vazio, o céu, cujas ondas macias e superpostas se viam
deslizar umas sobre as outras, parecia (por causa do desejo que tínhamos) estar situado num
terraço ou (visto às avessas em algum espelho pendurado à parede) ser uma piscina cheia de
uma água azul, reservada às abluções. Apesar dessa temperatura abrasadora, tínhamos tomado
o trem de uma da tarde. Porém Albertine sentira muito calor no vagão, e mais ainda durante o
longo trajeto a pé, e eu temia que ela se resfriasse ao ficar, em seguida, imóvel naquela
concavidade úmida que o sol não atingia. Por outro lado, e desde nossas primeiras visitas a Elstir,
tendo-me apercebido de que ela apreciava não apenas o luxo mas até um certo conforto, do qual
a privava sua falta de dinheiro, entendera-me com um locador de Balbec para que todos os dias
um carro viesse buscar-nos. Para sentir menos calor, tomávamos pela floresta de Chantepie. A
invisibilidade dos inúmeros pássaros, alguns meio marinhos, que se respondiam uns aos outros
ao nosso lado nas árvores, dava a mesma impressão de repouso de quando estamos de olhos
fechados. Ao lado de Albertine, preso em seus braços no fundo do carro, escutava essas
oceânides. E, quando por acaso via um desses músicos que passava de um ramo a outro, havia
tão pouca relação aparente entre ele e seus trinados, que não julgava enxergar a causa destes no
pequeno corpo saltitante, humilde, assustado e sem olhos. O carro não podia nos levar até a
igreja. Eu o mandava parar à saída de Quetteholme e me despedia de Albertine. Pois ela me
impressionara ao dizer dessa igreja, como de outros monumentos, ou de certos quadros:
- Que prazer seria ver tudo isto na sua companhia! -
E eu não me sentia capaz de dar-lhe esse prazer. Só o sentia diante das belas coisas se
estivesse sozinho, ou quando fingia estar e ficava calado. Mas já que ela pensara poder
experimentar, graças a mim, as sensações de arte que não se comunicam desse modo, achava
eu mais prudente dizer-lhe que a deixava e voltaria para buscá-la no fim do dia, mas que, até lá,
era preciso que regressasse com o carro para fazer uma visita à Sra. Verdurin ou aos
Cambremer, ou até passar uma hora com mamãe em Balbec, mas nunca mais distante que isso.
Pelo menos nos primeiros tempos. Pois, tendo-me dito Albertine uma vez por capricho:
"É aborrecido que a natureza tenha feito tão mal as coisas e que tenha posto Saint-Jean
dela-Haise de um lado, La Raspeliere de outro, e que a gente fique o dia inteiro aprisionado no
local que escolheu".
Logo que recebi a touca e o véu, encomendei para minha desgraça um automóvel em
Saint-Fargeau (Sanctus Ferreolus, segundo o livro do cura). Albertine, deixada por mim na
ignorância, e que viera me buscar, ficou surpresa ao ouvir diante do hotel o ronco do motor, e
encantada quando soube que esse automóvel era para nós dois. Fi-la subir por um instante para o
meu quarto. Ela pulava de alegria.
- Vamos visitar os Verdurin?
- Sim, mas é preferível que não vá desse jeito, pois vai ter o seu auto. Veja, ficará melhor
assim. -
E apresentei-lhe a touca e o véu que havia escondido.
- É para mim? Oh, como você é gentil! - exclamou ela, saltando-me ao pescoço, Aimé nos
encontrou na escada, orgulhoso da elegância de Albertine e do nosso meio de transporte, pois
esses autos eram bastante raros em Balbec, e deu-se o prazer de descer atrás de nós. Albertine,
desejando ser vista um pouco em sua nova toalete, pediu-me para suspender a capota, que se
baixaria depois para que ficássemos livremente juntos.
- Vamos - disse Aimé ao motorista, a que, aliás, não conhecia e que não se havia mexido -,
não ouves que te dizem para suspender a capota? -
Pois Aimé, curtido pela vida de hotel, onde de resto havia conquistado um cargo eminente,
não era tão tímido como o cocheiro do fiacre, para quem Françoise era uma "dama": apesar da
falta de apresentação prévia, tratava por tu os plebeus a quem nunca vira, sem que se soubesse
com certeza se era, de sua parte, desdém aristocrático ou fraternidade popular.
- Eu não sou livre - respondeu o motorista, que não me conhecia. - Fui chamado a serviço
da Srta. Simonet. Não posso levar o cavalheiro. -
Aimé desatou a rir:
- Mas ora, seu grande imbecil - respondeu ele ao motorista, a quem logo convenceu -, é
justamente a Srta. Simonet, e o cavalheiro que te manda erguer a capota é justamente o teu
patrão. -
E, como Aimé, embora não tivesse pessoalmente simpatia por Albertine, estava, por minha
causa, orgulhoso da toalete que ela vestia, segredou ao chofer:
- Se pudesses, hem! Bem que gostarias de conduzir todos os dias princesas como esta! -
Nesta primeira vez, não fui só eu quem pôde ir a La Raspeliere, como fiz outros dias enquanto
Albertine pintava; ela quis ir comigo até lá. Achava que poderíamos perfeitamente parar aqui e ali
na estrada, mas julgava impossível começar indo a Saint-Jean-dela-Haise, isto é, numa outra
direção, e fazer um passeio que parecia votado a um dia diferente. Ao contrário, soube pelo
motorista que nada era mais fácil do que ir a Saint-Jean, onde chegaríamos em vinte minutos, e
que poderíamos ali ficar, se quiséssemos, várias horas, ou então ir bem mais longe, pois de
Quetteholme a La Raspeliere ele não levaria mais que trinta e cinco minutos. Compreendemo-lo
assim que o automóvel, avançando, transpôs de um só ímpeto vinte passos de um excelente
cavalo. As distâncias são unicamente a relação entre o espaço e o tempo e variam com este.
Exprimimos a dificuldade que temos em nos dirigir a um local num sistema de léguas e
quilômetros que se torna falso desde que essa dificuldade diminui. Com isso, a arte também é
modificada, pois uma aldeia que parecia localizar-se num mundo bem diverso de outra, torna-se
vizinha sua numa paisagem cujas dimensões estão mudadas. Em todo caso, saber que talvez
exista um universo em que 2 mais 2 fazem 5 e onde a linha reta não seja o caminho mais curto
entre dois pontos, teria assombrado menos a Albertine do que ouvir o motorista dizer que era fácil
ir, numa mesma tarde, a Saint-Jean e à Raspeliere. Douville e Quetteholme, Saint-Mars-le-Vieux e
Saint-Marsle-Vêtu, Gourville e Balbec-le-Vieux, Tourville e Féterne, prisioneiros tão
hermeticamente fechados até ali na célula de dias distintos como outrora Méséglise e
Guermantes, e sobre as quais os mesmos olhos não podiam pousar numa única tarde, libertos
agora pelo gigante de botas de sete léguas, vieram reunir por volta da hora do nosso chá suas
torres e campanários, seus velhos jardins que o bosque, ao aproximar-se, se apressava a
descobrir. Chegando à estrada do precipício, o auto subiu de um só impulso, com um ruído
contínuo de motor, como uma faca que se afia, ao passo que o mar, rebaixado, se alargava aos
nossos pés. As casas antigas e rústicas de Montsurvent acorreram, mantendo presos contra si o
seu vinhedo ou o seu roseiral; os abetos de La Raspeliere, mais agitados que quando se erguia o
vento da tardinha, correram em todos os sentidos para nos evitar, e um criado novo, que eu ainda
não tinha visto, veio receber-nos na escadaria, enquanto o filho do jardineiro, revelando
disposições precoces, devorava com os olhos o local do motor. Como não era segunda-feira, não
sabíamos se haveríamos de encontrar a Sra. Verdurin, pois, a não ser naquele dia em que ela
recebia, era imprudente ir visitá-la de improviso. Sem dúvida, "em princípio" ela ficava em casa,
mas essa expressão, que a Sra. Swann empregava no tempo em que também procurava formar o
seu pequeno clã e atrair os convivas sem se mexer, conquanto muitas vezes não tirasse nem para
os gastos, e que ela, num contra-senso, traduzia "por princípio", significava apenas "em regra
geral", isto é, com numerosas exceções. Pois não só a Sra. Verdurin gostava de sair como
também levava muito longe os deveres da hospitalidade, e, quando tinha convidados para o
almoço, logo após o café, os licores e os cigarros (apesar do primeiro entorpecimento do calor e
da digestão quando se teria preferido contemplar, através das folhagens do terraço, a passagem
do paquete de Jersey pelo mar de esmalte), o programa compreendia uma série de passeios no
decurso dos quais os convivas, instalados à força num carro, eram conduzidos a contragosto para
um ou outro dos panoramas que se multiplicam em torno de Douville. Aliás, esta segunda parte da
festa não era (depois de cumprido o esforço de se levantar e subir para o carro) a que menos
agradava aos convivas, já preparados pelos pratos suculentos, os vinhos finos ou a cidra
espumante, a se deixar embriagar facilmente pela pureza da brisa e a magnificência dos sítios. A
Sra. Verdurin fazia com que estes lugares fossem visitados pelos estrangeiros um pouco feito os
anexos (mais ou menos distantes) de sua propriedade, e que não se podia deixar de ir ver, uma
vez que se vinha almoçar em casa dela e que, reciprocamente, não seria possível conhecer se
não se fosse recebido em casa da Patroa. Essa pretensão de arrogar-se um direito único sobre os
passeios, como sobre o recital de Morel e antigamente o de Dechambre, e de constranger as
paisagens a fazerem parte do pequeno clã, não era aliás tão absurda quanto parece à primeira
vista. A Sra. Verdurin troçava da falta de gosto que, segundo ela, os Cambremer demonstravam
não só no mobiliário de La Raspeliere e no arranjo do jardim, mas também nos passeios que
davam ou mandavam dar pelos arredores. Do mesmo modo que, a seu ver, La Raspeliere só
principiara a tornar-se o que deveria ter sido depois de se constituir no asilo do pequeno clã,
afirmava ela que os Cambremer, refazendo perpetuamente em sua caleche, ao longo da estrada
de ferro, à beira-mar, a única estrada ordinária que existe nas cercanias, moravam desde sempre
na região, mas não a conheciam. Havia um pouco de verdade nesta asserção. Fosse rotina, falta
de imaginação, curiosidade por uma região que parece batida de tão próxima, os Cambremer só
saíam de casa para ir sempre aos mesmos locais e pelos mesmos caminhos. Decerto, riam muito
da pretensão dos Verdurin em fazê-los conhecer sua própria terra. Mas, colocados entre a espada
e a parede, eles e até o seu cocheiro teriam sido incapazes de nos levar aos lugares esplêndidos,
e um tanto secretos, aonde nos conduzia o Sr. Verdurin, erguendo aqui a barreira de uma
propriedade particular, mas abandonada, onde outros não acreditariam ser possível aventurar-se;
ali, descendo de carro para seguir um caminho que não era carroçável, mas tudo isso com a
segura recompensa de uma paisagem maravilhosa. Digamos, além disso, que o jardim da
Raspeliere era de certa forma um resumo de todos os passeios que se podia fazer a muitos
quilômetros em derredor. Primeiro, por causa de sua posição dominante, olhando de um lado para
o vale, do outro para o mar, e depois porque, mesmo de um só lado, o do mar, por exemplo,
tinham sido abertas clareiras no meio das árvores, de tal maneira que daqui se avistava um
horizonte, dali um outro. Em cada uma dessas perspectivas existia um banco; a gente vinha
assentar-se alternativamente naquele de onde se avistava Balbec, ou Parville, ou Douville. Mesmo
numa só direção, fora colocado um banco mais ou menos a pique sobre a falésia, em local
relativamente retirado. Destes últimos, tinha-se um primeiro plano de verdura e um horizonte que
já parecia o mais vasto possível, mas que ia se ampliando indefinidamente se, continuando por
um estreito caminho, a gente andava até um banco seguinte, de onde se abrangia todo o círculo
do mar. Ali se percebia nitidamente o rumor das vagas, que, pelo contrário não chegava às partes
mais recônditas do jardim, lá onde as vagas ainda se deixavam avistar, porém não ouvir. Esses
locais de repouso tinham na Raspeliere, para os donos da casa, o nome de "vistas". E de fato,
reuniam em torno do castelo as mais belas "vistas" das regiões vizinhas, das praias, ou das
florestas, muito diminuídas pelo afastamento, como o imperador Adriano reunira em sua vida
reduções dos monumentos mais célebres de diversos países. O nome que se seguia à palavra
"vista" não era forçosamente o de um ponto do litoral, porém, muitas vezes da margem oposta da
baía e que se descortinava com certo relevo, apesar da extensão do panorama. Da mesma forma
que se pegava um livro na biblioteca do Sr. Verdurin: para ir ler durante uma hora na "vista de
Balbec", assim também, se o tempo estava bom, ia-se tomar licor na "vista de Rivebelle", desde
que não ventasse muito, pois, apesar das árvores plantadas de cada lado, o ar era bastante vivo
ali.
Voltando aos passeios de carro que a Sra. Verdurin organizava para a tarde, se a Patroa
encontrava na volta os cartões de algum mundano "de passagem pelo litoral", fingia estar
encantada, mas desolava-se por haver perdido essa visita e (embora ainda não viessem senão
para ver "a casa" ou conhecer por um dia uma mulher cujo salão artístico era célebre, porém não
frequentado em Paris) mandava convidá-lo sem demora pelo Sr. Verdurin, para que viesse jantar
na quarta-feira seguinte. Como muitas vezes o turista era obrigado a viajar antes, ou temia os
regressos tardios, a Sra. Verdurin havia convencionado que aos sábados encontrá-la-iam sempre
à hora da merenda. Essas merendas não eram extremamente numerosas, e eu já conhecera em
Paris outras mais brilhantes na casa da princesa de Guermantes, da Sra. de Galliffet ou da Sra.
d'Arpajon. Mas aqui justamente não era mais Paris, e o encanto do quadro não reagia para mim
sobre o aspecto aprazível da reunião, e sim sobre a qualidade dos visitantes. O encontro de
determinado mundano, que em Paris não me proporcionaria prazer nenhum, mas que na
Raspeliere, aonde viera de longe pela floresta de Chantepie ou por Féterne, mudava de caráter,
de importância, tornava-se um incidente agradável. Às vezes era alguém que eu conhecia
perfeitamente e a quem não teria dado um passo para encontrar na casa dos Swann. Mas seu
nome soava de outra forma naqueles alcantis, como o de um ator que se ouve muitas vezes num
teatro, impresso em cor diferente no cartaz; de um espetáculo extraordinário e de gala, onde sua
notoriedade se multiplica de repente, no imprevisto do contexto. Como no campo a gente não tem
cerimônia, frequentemente o mundano trazia por conta própria os amigos em cuja casa se
hospedava, alegando baixinho, como desculpa, à Sra. Verdurin, que não poderia deixá-los,
porque estava na casa deles; em compensação, a esses anfitriões, fingia ele oferecer, como uma
espécie de atenção, o divertimento de ir a um centro espiritual nessa vida monótona de praia, de
visitar uma residência magnífica e de saborear um chá excelente. Isto, em seguida, compunha
uma reunião de valor mediano; e, se um pequeno recanto de jardim com algumas árvores, que
pareceria mesquinho no campo, adquire um encanto extraordinário na avenida Gabriel ou então
na rua de Monceau, onde somente multimilionários podem permitir-se coisa semelhante,
inversamente, senhores que estão em segundo plano num sarau parisiense assumiam todo o seu
valor segunda-feira à tarde, em La Raspeliere. Mal sentavam-se em torno à mesa coberta de uma
toalha bordada de vermelho, e onde sob os tremós de camafeu serviam-lhes bolos folhados,
pastéis normandos, tortas em forma de barco, repletas de cerejas como pérolas de coral,
"diplomatas", e logo aqueles convidados sofriam, com a proximidade da profunda concha de azul
para a qual abriam as janelas e que não podia se deixar de ver, ao mesmo tempo que eles, uma
alteração, uma transmutação profunda que os mudava em algo mais precioso. Mais ainda, mesmo
antes de os ter visto, quando vinham na segunda-feira à casa da Sra. Verdurin, as pessoas que
em Paris apenas tinham olhares cansados pelo hábito para as atrelagens elegantes que
estacionavam diante de um palacete suntuoso, sentiam o coração bater à vista de duas ou três
feias carruagens paradas diante da Raspeliere, sob os grandes pinheiros. Sem dúvida, por ser
diferente o quadro agreste e porque as impressões mundanas, graças a essa transposição,
retomavam o seu frescor. Era também porque a má carruagem que se tornava para ir visitar a
Sra. Verdurin evocava um belo passeio e um custoso "trato" concluído com um cocheiro que havia
pedido "tanto" pela jornada. Mas a curiosidade levemente excitada, em relação aos que
chegavam, ainda impossíveis de distinguir, também provinha de que cada um indagava a si
próprio: "Quem poderá ser?", pergunta a que era difícil responder, por não se saber quem poderia
vir passar oito dias na casa dos Cambremer ou alhures, e que sempre se gosta de fazer nas vidas
agrestes e solitárias, onde o encontro de um ser humano que se deixou de ver havia muito tempo,
ou a apresentação a alguém que não se conhece, já não é mais essa coisa fastidiosa que é na
vida de Paris, e interrompe deliciosamente o espaço vazio das vidas demasiado isoladas, em que
até a hora do correio se torna agradável. E, no dia em que fomos de automóvel a Raspeliere,
como não se tratava de uma segunda-feira, o Sr. e a Sra. Verdurin deviam estar atormentados
pela necessidade de ver gente, necessidade que perturba os homens e as mulheres e dá ao
doente, que encerraram longe dos seus, para uma cura de isolamento, vontade de se atirar pela
janela. Pois, tendo-nos respondido o novo criado de pés mais rápidos, e já familiarizado com
essas expressões, que "se madame não tinha saído, devia estar na 'vista de Douville', e que ele ia
ver", voltou logo para dizer-nos que seríamos recebidos por ela. Encontramo-la um tanto
despenteada, pois estava chegando do jardim, do galinheiro e do pomar, aonde fora dar de comer
a seus pavões e galinhas, procurar ovos, colher frutas e flores para "fazer seu trilho de mesa",
trilho que lembrava em miniatura o do parque; mas, sobre a mesa, apresentava a diferença de só
fazê-lo suportar coisas úteis e boas para comer; pois, ao redor desses outros presentes do jardim
que eram as peras, os ovos batidos em ponto de neve, erguiam-se hastes elevadas de viperinas,
de cravos, de rosas e de coreópsis, entre as quais se viam, como entre estacas indicadoras e
floridas, deslocando-se pelos vidros da janela, os barcos ao largo. Pelo espanto que o Sr. e a Sra.
Verdurin, interrompendo o arranjo de flores para receber os visitantes anunciados, mostraram ao
ver que esses visitantes eram apenas Albertine e eu, percebi que o novo criado, cheio de zelo,
mas a quem seu nome ainda não era familiar, repetira-o mal e que a Sra. Verdurin, ouvindo o
nome de visitantes desconhecidos, mesmo assim dissera que os mandasse entrar, tanta a sua
necessidade de ver qualquer pessoa. E o novo criado contemplava da porta este espetáculo, a fim
de compreender o papel que desempenhávamos na casa. A seguir, afastou-se correndo, a
grandes pernadas, pois só estava contratado desde a véspera. Depois de ter mostrado bastante
sua touca e seu véu aos Verdurin, Albertine lançou-me um olhar para me lembrar de que não
tínhamos muito tempo à nossa frente para o que desejávamos fazer. A Sra. Verdurin queria que
esperássemos a hora do chá, porém recusamos, quando, de súbito, se apresentou um projeto que
liquidaria todos os prazeres que eu me prometia lucrar desse passeio com Albertine: a Patroa, não
podendo decidir-se a nos deixar, ou talvez a deixar escapar uma nova distração, queria voltar
conosco. Habituada desde muito a que oferecimentos desse gênero não causassem prazer, e
provavelmente não tendo certeza de que este nos causasse algum, dissimulou sob um excesso
de confiança a timidez que sentia ao nos fazê-lo, e nem sequer dando a impressão de supor que
pudesse haver dúvidas quanto à nossa resposta, não nos fez nenhuma pergunta, porém disse ao
marido, falando de Albertine e de mim como se nos fizesse um favor:
- Eu os levarei de volta. -
Ao mesmo tempo, um sorriso se lhe aplicou à boca, sorriso que não lhe pertencia
propriamente, sorriso que eu já vira em certas pessoas, quando diziam a Bergotte com ar finório:
- Comprei o seu livro, é assim-assim -, um desses sorrisos coletivos, universais, que,
quando as pessoas dele necessitam como a gente se utiliza da estrada de ferro ou dos carros de
mudança -, tomam emprestado, menos alguns muito refinados como Swann ou o Sr. de Charlus,
em cujos lábios nunca vi pousar tal sorriso. Desde aquele momento a minha visita estava
envenenada. Fiz cara de não haver compreendido. Após um instante, tornou-se evidente que o
Sr. Verdurin participaria da festa.
- Mas será um passeio muito longo para o Sr. Verdurin - objetei.
- Que nada! - replicou a Sra. Verdurin com ar condescendente e divertido - ele diz que
muito lhe agradará refazer com essa mocidade o caminho que tantas vezes percorreu outrora; se
necessário, ficará ao lado do wattman; isto não o assusta e nós dois voltaremos bem direitinho
pelo trem como bons esposos. Olhem, ele parece encantado. -
Ela dava a impressão de falar de um grande pintor velho cheio de bonomia que, mais
moço que os jovens, alegra-se em garatujar figuras para fazer rir seus netinhos. O que aumentava
a minha tristeza era que Albertine parecia não compartilhá-la e achar divertido circular desse
modo por toda a região com os Verdurin. Quanto a mim, o prazer que me havia prometido
desfrutar com ela era tão imperioso que não quis deixar que a Patroa o estragasse; inventei
mentiras que as irritantes ameaças da Sra. Verdurin tornavam desculpáveis, mas que Albertine, ai
de mim, contradizia.
- Mas temos uma visita a fazer - disse eu.
- Que visita? - perguntou Albertine.
- Eu lhe explicarei, é indispensável.
- Pois bem, nós os esperaremos - disse a Sra. Verdurin, resignada a tudo.
No último minuto, a angústia de sentir que me arrebatavam um prazer tão desejado deu-me coragem para ser descortês. Recusei redondamente, dizendo ao ouvido da Sra. Verdurin que,
por causa de um desgosto que Albertine havia tido e sobre o qual queria me consultar, era
absolutamente necessário que estivesse a sós com ela. A Patroa assumiu um aspecto irritado:
- Está bem, não iremos - disse-me, a voz trêmula de cólera.
Senti que estava tão zangada que, para parecer que cedia um pouco, disse:
- Mas a gente talvez pudesse...
- Não - retrucou ela, mais furiosa ainda; quando digo não, é não. -
Julguei que estávamos rompidos; mas ela nos chamou à porta para nos recomendar que
não "largássemos" a quarta-feira seguinte e que não viéssemos naquela máquina, que era
perigosa à noite, mas pelo trem com todo o pequeno grupo, e mandou parar o auto, já em marcha,
na descida do parque, pois o novo criado se esquecera de pôr na capota o pedaço de torta e os
sablés que ela mandara embrulhar para nós. Tornamos a partir, escoltados um momento pelas
casinhas, que acorriam com suas flores.
continua na página 186...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Todos os dias eu saía)
Volume 6
Volume 7