quarta-feira, 8 de julho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Protecionismo e livre-câmbio na América Latina: O curto voo de Lucas Alamán (3)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     43. Protecionismo e livre-câmbio na América Latina: O curto voo de Lucas Alamán
          A expansão dos mercados latino-americanos acelerava a acumulação de capitais nas sementeiras da indústria britânica. Fazia já muito tempo que o Atlântico se tornara o eixo do comércio mundial, e os ingleses tinham sabido tirar proveito da localização de sua ilha, cheia de portos, a meio caminho do Báltico e do Mediterrâneo e apontando as costas da América. A Inglaterra organizava um sistema universal e se tornava a prodigiosa fábrica abastecedora do planeta: do mundo inteiro vinham as matérias-primas e no mundo inteiro se derramavam as mercadorias elaboradas. O império contava com o maior porto e o mais poderoso sistema financeiro de seu tempo; tinha o mais alto grau de especialização comercial, dispunha do monopólio mundial dos seguros e dos fretes, e dominava o mercado internacional do ouro. Friederich List, pai da união aduaneira alemã, havia advertido que o livre-comércio era o principal produto de exportação da Grã- Bretanha [1]. Nada enfurecia tanto os ingleses quanto o protecionismo aduaneiro, e às vezes faziam sabê-lo numa linguagem de sangue e fogo, como na Guerra do Ópio contra a China. No entanto, a livre concorrência nos mercados se converteu numa verdade revelada para a Inglaterra somente a partir do momento em que teve certeza de que era a mais forte, e depois de ter desenvolvido sua própria indústria têxtil ao abrigo da legislação protecionista mais severa da Europa. No difícil começo, quando a indústria britânica ainda levava desvantagem, o cidadão inglês que fosse surpreendido exportando lã crua, sem elaborar, era condenado a perder a mão direita, e se reincidia, era enforcado; estava proibido de enterrar um cadáver sem que antes o pároco do lugar garantisse que a mortalha provinha de uma fábrica nacional. [2]  

[1] Este economista alemão, nascido em 1789, propagou nos Estados Unidos e em sua própria pátria a doutrina do protecionismo aduaneiro e do fomento industrial. Suicidou-se em 1846, mas suas ideias se impuseram nos dois países.
[2]  VÉLIZ, Claudio. “La mesa de tres patas”. In: Desarrollo económico, v.3 (1 e 2). Santiago de Chile, setembro de 1963.

     “Todos os fenômenos deletérios suscitados pela livre concorrência no interior de um país”, observou Marx, “se reproduzem em proporções mais gigantescas no mercado mundial” [3]. O ingresso da América Latina na órbita britânica, da qual só sairia para se incorporar à órbita norte americana, ocorreu nos termos desse quadro geral, e nele se consolidou a dependência dos novos países independentes. A livre circulação de mercadorias e a livre circulação do dinheiro para os pagamentos, assim como a transferência de capitais, tiveram consequências dramáticas.

[3] “Não é estranho que os livre-cambistas sejam incapazes de compreender como um país pode enriquecer à custa de outro, pois estes mesmos senhores tampouco querem compreender como no interior de um país uma classe pode enriquecer à custa de outra. MARX, Karl. “Discurso sobre el libre cambio.” In: Miseria de la filosofía. Moscou, s.f.

     No México, Vicente Guerrero chegou ao poder, em 1829, “nos ombros do desespero dos artesãos, insuflados pelo grande demagogo Lorenzo de Zavala, que lançou sobre as lojas repletas de mercadorias inglesas do Parián uma turba faminta e desesperada” [4]. Pouco durou Guerrero no poder, e caiu em meio à indiferença dos trabalhadores, pois não quis ou não pôde opor um dique à importação de mercadorias europeias, “cuja abundância”, diz Chávez Orozco, “levava ao desemprego as massas artesãs das cidades, que antes da independência, sobretudo nos períodos bélicos da Europa, viviam com certa folga”. A indústria mexicana carecera de capitais, mão de obra suficiente e técnicas modernas; não tivera uma organização adequada, nem meios de comunicação e de transporte para chegar aos mercados e às fontes de abastecimento. “Sobraram-lhe unicamente interferências, restrições e impedimentos de toda ordem”, diz Alonso Aguilar [5]. Apesar disso, como notara Humboldt, a indústria havia despertado nos momentos de estancamento do comércio exterior, quando se interrompiam ou se tornavam problemáticas as comunicações marítimas, e começara a fabricar o aço e a fazer uso do ferro e do mercúrio. O liberalismo que a independência trouxe consigo agregava pérolas à coroa britânica e paralisava os estabelecimentos têxteis e metalúrgicos do México, Puebla e Guadalajara.

[4] CHÁVEZ OROZCO, Luis. “La industria de transformación mexicana (1821 1867).” In: ANCO NACIONAL DE COMERCIO EXTERIOR. Colección de documentos para la historia del comercio exterior de México. México, 1962. t.VII.
[5] AGUILAR MONTEVERDE, Alonso. Dialéctica de la economía mexicana. México, 1968.

     Lucas Alamán, um político conservador de grande capacidade, percebeu a tempo que as ideias de Adam Smith continham veneno para a economia nacional, e propiciou, como ministro, a criação de um banco estatal, o anco de Avio, com o fim de incrementar a industrialização. Um imposto aplicado aos tecidos estrangeiros de algodão proporcionaria ao país os recursos para comprar no exterior as máquinas e os meios técnicos que o México precisava para abastecer-se de tecidos de algodão de fabricação própria. O país dispunha de matéria-prima, contava com energia hidráulica mais barata do que o carvão e podia formar rapidamente bons operários. O anco nasceu em 1830, e pouco depois chegaram das melhores fábricas europeias as máquinas mais modernas para fiar e tecer algodão; além disso, o Estado contratou especialistas estrangeiros na técnica têxtil. Em 1844, as grandes fábricas de Puebla produziram um milhão e 400 mil cortes de manta grossa. A nova capacidade industrial do país ultrapassava a demanda interna; o mercado de consumo do “reino da desigualdade”, formado em sua grande maioria por índios famintos, não podia sustentar a continuidade daquele desenvolvimento fabril vertiginoso. Contra essa muralha se chocava o esforço de romper a estrutura herdada da colônia. A tal ponto se modernizara a indústria que as fábricas têxteis norte-americanas, por volta de 1840, contavam em média com menos fusos do que as fábricas mexicanas [6]. Dez anos depois, a proporção se invertera com sobras. A instabilidade política, as pressões dos comerciantes ingleses e franceses e seus poderosos sócios internos, as mesquinhas dimensões do mercado interno, de antemão estrangulado pela economia mineira e latifundiária, derrubaram a exitosa experiência. Antes de 1850 já se interrompera o progresso da indústria têxtil mexicana. Os criadores do anco de Avio tinham ampliado seu raio de ação, e quando ele se extinguiu, os créditos abarcavam também as tecelagens de lã, as fábricas de tapetes e a produção de ferro e de papel. Esteban de Antuñano sustentava, inclusive, a necessidade de que o México criasse o quanto antes uma indústria nacional de maquinarias, “para resistir ao egoísmo europeu”.

[6] AZANT, Jan. Estudio sobre la productividad de la industria algodonera mexicana en 1843-1845 (Lucas Alamán y la revolución industrial en México). In: Banco Nacional de Comercio Exterior, op. cit.

     O maior mérito do ciclo industrializador de Alamán e Antuñano reside em que ambos restabeleceram a identidade “entre a independência política e a independência econômica, e o fato de preconizar, como único meio de defesa contra os povos poderosos e agressivos, um enérgico impulso à economia industrial” [7]. O próprio Alamán se tornou industrial, criou o maior estabelecimento têxtil mexicano daquele tempo (chamava se Cocolapan e ainda existe) e organizou os industriais como grupo de pressão frente aos sucessivos governos livre-cambistas [8]. Mas Alamán, conservador e católico, não chegou a equacionar a questão agrária, porque ele mesmo se sentia ideologicamente ligado à velha ordem, e não percebeu que o desenvolvimento industrial estava de antemão condenado a ficar no meio do caminho, sem bases de sustentação, naquele país de latifúndios infinitos e miséria generalizada.

[7] CHÁVEZ OROZCO, op. cit.
[8] No tomo III da citada coleção de documentos do anco Nacional de Comércio Exterior são transcritos vários arrazoados protecionistas publicados en El Siglo XIX em fins de 1850: “Passada já a conquista da civilização espanhola com seus três séculos de dominação militar, entrou o México numa nova era, que também pode ser chamada de conquista, mas científica e mercantil (..). Sua potência são os navios mercantes; sua prédica é a absoluta liberdade econômica; sua norma poderosíssima em relação aos povos menos adiantados é a lei da reciprocidade (...). ‘Levai à Europa’, disse-nos, ‘quantas manufaturas possais (exceto, no entanto, as que nós proibimos); e em contrapartida permiti que tragamos quantas manufaturas possamos, ainda que arruinando vossas artes (...)’. Adotemos as doutrinas que eles (nossos senhores do outro lado do oceano e do rio Bravo) dão e não tomam, e nosso erário crescerá um pouco, se queiramos (..), mas não será fomentando o trabalho do povo mexicano, mas o dos povos inglês e francês, suíço e da América do Norte”.

continua na página 293...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Protecionismo e livre-câmbio na América Latina (3)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (II.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

II

     Durante dois dias a neve caíra; naquela manhã ela parara de cair, mas um lençol branco cobria tudo. Essa região escura, de estradas negras, com paredes e árvores cobertas de poeira de hulha, estava toda branca, de uma brancura única, que se estendia ao infinito. O conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante jazia sob a neve, como que desaparecido. Nem a mais leve fumaça escapava das chaminés. As casas sem fogo, tão frias como as pedras dos caminhos, não derretiam a grossa camada de neve sobre as telhas. O conjunto habitacional não era mais que um renque de lápides brancas, uma visão de vila morta, envolta na sua mortalha. Ao longo das ruas, só as patrulhas passando deixavam a marca lodosa dos seus cascos.
     Nos Maheu, a última pazada de lascas de carvão ardera na véspera; e procurar mais no aterro, com aquele tempo terrível, quando os próprios pardais não encontravam um talo de erva, era impossível. Alzire, por ter teimado em procurar na neve, estava morrendo. A mãe tivera de a enrolar num trapo de coberta, enquanto esperava o Dr. Vanderhaghen, à casa de quem já fora duas vezes sem o encontrar. A criada, no entanto, prometera que ele passaria pelo conjunto habitacional antes do anoitecer, e a mulher espiava agora pela janela, enquanto a pequena enferma, que tinha querido ficar embaixo, tiritava sobre uma cadeira, com a ilusão de que ali estava mais quente, perto do fogão apagado. O velho Boa-Morte, em frente, outra vez com as pernas endurecidas, parecia dormir. Lénore e Henri ainda não tinham voltado, andavam percorrendo as estradas em companhia de Jeanlin, pedindo esmolas. Pela sala nua, só Maheu caminhava pesadamente, tropeçando continuamente na parede, com o ar imbecilizado de um animal que já não vê mais sua jaula. O querosene também acabara, mas o reflexo da neve lá fora era tão branco, que iluminava vagamente a peça, apesar de já ser noite.
     Houve um barulho de tamancos, e a mulher de Levaque empurrou a porta como um furacão, fora de si, gritando do portal para a vizinha: 

— Então tu andaste dizendo que eu forçava meu inquilino pagar-me vinte soldos cada vez que ele dormia comigo?! 

     A outra deu de ombros. 

— Não chateies! Eu não disse nada... Mas quem te contou isso? 
— Disseram-me que tu tinhas dito, chega! E disseste também que escutavas, quando fazíamos a coisa, através das paredes, e que a sujeira era enorme na minha casa porque eu estava sempre de pernas abertas... Ainda tens coragem de negar? Fala!

     Brigas como essa eram diárias, por causa da língua das mulheres; sobretudo entre as famílias que viviam em paredes-meias, as desavenças e reconciliações não duravam um dia. Mas nunca antes maldade tão desabrida os atirara uns contra os outros. Desde a greve, a fome exasperava os rancores, todos tinham necessidade de brigar, uma explicação entre duas mulheres terminava sempre com uma luta de morte entre os dois maridos.
     Justamente nesse momento chegou Levaque, arrastando Bouteloup. 

— Aqui está o sujeito, que ele diga se já pagou vinte soldos à minha mulher para dormir com ela.

     O inquilino, que procurava esconder sua candura assustada com grandes barbas, balbuciou protestando: 

— Oh, não! Nunca, nunca paguei nada!

     Subitamente Levaque tornou-se ameaçador, com o punho no rosto de Maheu. 

— Isso agora não passa, ouviste? Quem tem uma mulher assim desanca-a de pancadas... Tu acreditas no que ela disse? 
— Mas com mil raios! — exclamou Maheu, furioso por ter sido arrancado do seu abatimento. — Vocês ainda encontram tempo para fazer intrigas? Será que a gente já não tem miséria que chegue? Deixa-me em paz ou eu te acachapo! Agora quero saber quem foi que disse que minha mulher falou isso! 
— Quem?... Foi a mulher do Pierron.

     A mulher de Maheu deu uma gargalhada sarcástica, e, voltando-se para a vizinha, disse: 

— Ah, então foi ela! Pois bem, agora vou dizer-te o que ela me disse. Ouve bem! Ela me disse que tu dormias com teus dois homens, um por cima e outro por baixo!

     A partir daí ninguém mais se entendeu. Todos estavam furiosos; os Levaque respondiam aos Maheu que a mulher de Pierron tinha dito poucas e boas a respeito deles: que tinham vendido Catherine e que estavam todos podres, até as crianças, contaminados por uma sujeira que Etienne apanhara no Volcan. 

— Ela disse isso? ela disse isso? — berrou Maheu. — Pois tudo bem, vou até lá, e, se repetir o que disse, rebento-lhe a cara.
 
     Lançou-se para a rua, os Levaque o seguiram para assistir à briga, enquanto Bouteloup, que tinha horror de disputas, voltava furtivamente para casa. Excitada pelo bate-boca, a mulher de Maheu também ia saindo quando foi retida por um gemido de Alzire. Cruzou as pontas da coberta sobre o corpo trêmulo da menina e voltou para a janela, os olhos vagando. E esse médico que não vinha!
     À porta dos Pierron, Maheu e os Levaque encontraram Lydie chafurdando na neve. A casa estava fechada, um fio de luz passava pela fenda da janela e a criança, a princípio, respondeu constrangida às perguntas: não, seu pai não estava, tinha ido ao lavadouro encontrar a Queimada, para trazer a trouxa de roupa. Depois ficou confusa, não quis dizer o que a mãe fazia naquele momento. Finalmente soltou a língua, com um riso sorrateiro de rancor: sua mãe a pusera para fora porque o Sr. Dansaert estava lá dentro e ela não os deixava conversar. O capataz passara toda a manhã no conjunto habitacional, com dois policiais, tentando recrutar operários, forçando os fracos, anunciando aos quatro ventos que, se não voltassem até segunda-feira ao trabalho, a companhia ia contratar mineiros belgas. E ao cair da tarde, tendo encontrado a mulher de Pierron sozinha, mandou embora os policiais. Depois instalara-se ali, bebendo genebra diante do fogo. 

— Psiu! Fiquem quietos, vamos espiá-los — murmurou Levaque com um riso impudente. — Em seguida tiraremos satisfações. Vai-te embora, cadelinha!

     Lydie recuou alguns passos enquanto ele punha um olho na fresta da janela. Em seguida começou a abafar risinhos, suas costas se arqueavam e fremiam. Por sua vez a mulher olhou também, mas disse, como se estivesse para vomitar, que sentia nojo. Maheu, que a empurrara, querendo ver também, declarou que já vira o bastante para poder desforrar-se. E os três recomeçaram, em fila, a olhar, como no teatro. A sala, reluzindo de tão limpa, era alegre graças ao belo fogo aceso na lareira; havia doces sobre a mesa, uma garrafa e dois copos; enfim, uma verdadeira farra. Era tanta coisa o que os dois homens viam que acabaram ficando exasperados com o que noutras circunstâncias os teria feito rir por seis meses.
     Que ela levantasse as saias e se empanturrasse de sexo até não poder mais, ainda tinha graça. Mas, diacho! não era mesmo urna sem-vergonhice fazer isso diante de um fogo tão agradável e à base dos biscoitos, quando os demais companheiros não tinham uma migalha de pão ou uma lasca de carvão? 

— Olha o papai! — gritou Lydie escapando.

     Pierron voltava tranqüilamente do lavadouro, a trouxa de roupa num ombro. Maheu foi logo interpelando-o: 

— Escuta aqui, disseram-me que tua mulher tinha falado que eu vendera Catherine e que lá em casa estávamos todos podres... E na tua, quanto paga à tua mulher o homem que neste momento está fazendo uso dela?

     Atordoado, Pierron não compreendia, quando a mulher, assustada com o vozerio, perdeu a cabeça a ponto de entreabrir a porta, para ver o que se passava. Estava toda afogueada, com o corpete aberto e a saia ainda levantada, presa à cintura, enquanto Dansaert, ao fundo, enfiava as calças, em pânico. O capataz escapou, desapareceu, temendo que uma história dessa chegasse aos ouvidos do diretor. Armou-se então um escândalo terrível, com gargalhadas, vaias e injúrias. 

— Tu que sempre andas dizendo que as outras são umas imundas — berrava a mulher de Levaque — não admira que sejas limpa, tens os chefes para te fazerem a limpeza. 
— Ah! assenta-lhe como uma luva falar mal dos outros! — continuou Levaque. — Pois não é que essa cadela disse que a minha mulher dormia comigo e o inquilino, um por cima e o outro por baixo?! Tens coragem de negar que disseste isso?

     A mulher de Pierron, porém, já dona de si, enfrentava os palavrões com um ar de desprezo, na certeza de ser a mais bonita e a mais rica. 

— O que disse está dito, e deixem-me em paz! O que é que vocês têm que ver com o que eu faço? Bando de invejosos, que nos odeiam só porque depositamos dinheiro na caixa econômica! Podem ir falar à vontade, meu marido sabe muito bem por que o Sr. Dansaert estava aqui em casa.

     E realmente Pierron se excitava, defendia a mulher. A briga tomou outros caminhos, chamaram-no de vendido, de espião, de lambe-botas da companhia; acusaram-no de fechar-se em casa para encher a barriga de guloseimas com que os chefes lhe pagavam as denúncias. Ele retrucava, dizia que Maheu enfiara um papel com ameaças por baixo de sua porta, onde estavam desenhadas duas tíbias em cruz, com um punhal por cima. E tudo aquilo terminou, forçosamente, por uma pancadaria entre os homens, como todas as intrigas de mulheres terminavam, visto que a fome punha fora de si mesmo os mais calmos. Maheu e Levaque atiraram-se sobre Pierron, massacrando-o; foi preciso separá-los. Quando a Queimada chegou do lavadouro, o sangue corria aos borbotões do nariz do genro. posta a par do que se passara, limitou-se a dizer: 

— Esse porco é a minha desonra.

     A rua ficou novamente deserta, nenhuma sombra manchava a brancura da neve. E o conjunto habitacional, imerso novamente na sua imobilidade de morte, estertorava de fome sob o frio intenso. 

— E o médico? — perguntou Maheu fechando a porta. 
— Não veio — respondeu a mulher, sempre em pé, à janela. 
— As crianças chegaram? 
— Ainda não.

     Maheu voltou ao seu caminhar pesado, de uma parede à outra, com o seu ar de boi encurralado. Entorpecido na cadeira, o velho Boa-Morte nem sequer erguera a cabeça. Alzire também permanecia silenciosa, procurava não tremer, para não os preocupar; mas, apesar de sua coragem no sofrimento, por momentos tremia tanto, que se ouviam por baixo da coberta os calafrios que percorriam seu corpinho esquelético de menina enferma, enquanto, de olhos arregalados, olhava para o teto, observando o pálido reflexo dos jardins todos brancos, que iluminavam a peça com uma claridade de luar.
     Entravam agora na última agonia, com a casa sem mais nada; era o desenlace. Atrás da lã, tinha ido para o brechó a fazenda dos colchões; depois foram os lençóis, a roupa branca, tudo aquilo que se podia vender. Uma tarde, venderam por dois soldos o lenço do avô. As lágrimas corriam a cada objeto doméstico de que tinham de se separar; e a mãe ainda se lamentava por ter levado um dia, enrolada na saia, a caixa de cartão cor-de-rosa, antigo presente do seu homem, como se tivesse sido um filho que abandonara a uma porta. Estavam nus, não tinham mais nada a vender a não ser a pele, tão carcomida, tão estragada, que ninguém daria um centavo por ela. Por isso nem se davam o trabalho de procurar, sabiam que não havia mais nada, que era o fim de tudo, que não deviam esperar nem uma vela, nem um pedaço de carvão, nem uma batata. Aguardavam apenas a morte; a única pena que sentiam era pelas crianças, revoltava-os aquela crueldade inútil, preferiam ter estrangulado Alzire a vê-la doente por causa deles. 

— Até que enfim, aí vem ele! — exclamou a mulher.

     Uma forma negra passou diante da janela. A porta se abriu. Mas não era o Dr. Vanderhaghen... Reconheceram o novo pároco, o Padre Ranvier, que não parecia surpreendido de ter entrado naquela casa morta, sem luz, sem fogo, sem pão. Acabava de sair das três casas contíguas, andava de família em família, recrutando homens de boa vontade, como Dansaert com seus policiais. Foi logo explicando-se com sua voz febril de sectário: 

— Por que não foram à missa no domingo, meus filhos? Estão errados, só a Igreja pode salvá-los... Vamos, prometam estar presentes no próximo domingo...

continua na página 336...
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Sexta Parte - (I.b) / Sexta Parte - (II.a) /   
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - Patron-Minette / IV — Composição da quadrilha

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sétimo — Patron-Minette

     IV — Composição da quadrilha

             Estes quatro bandidos juntos formavam uma espécie de Proteu, serpenteando por entre a polícia e forcejando por escapar às indiscretas vistas de Vidocq «sob diversa figura, árvore, chama, fonte», emprestando-se mutuamente os nomes e a lábia, escondendo-se na própria sombra, caixas de segredos e asilos uns dos outros, desfazendo as suas personalidades como quem tira um nariz postiço num baile de máscaras, às vezes simplificando-se a ponto de se tornarem num só, outras multiplicando-se a ponto do próprio Ooco-Lacouor os tomar por uma multidão. 
     Estes quatro homens não eram quatro homens, eram uma espécie de misterioso ladrão com quatro cabeças operando sobre Paris em ponto grande; eram o monstruoso pólipo do mal habitando a cripta da sociedade.
     Em consequência das suas ramificações e da rede subjacente das suas relações, Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse tinham a empresa geral das ciladas do departamento do Sena. Praticavam no transeunte o golpe de Estado inferior. Os descobridores de ideias neste gênero, os homens de imaginação noturna, dirigiam-se a eles para a execução. Fornecia-se aos quatro gatunos a lona e eles encarregavam-se de pôr o espetáculo em cena. Estavam sempre em circunstâncias de poder prestar um pessoal proporcional e conveniente a todos os atentados em que se tornasse necessário um empuxão de ombros e que fossem bastante lucrativos. A qualquer crime que andasse à busca de braços, eles alugavam-lhe cúmplices. Tinham uma companhia de atores de trevas à disposição de todas as tragédias de cavernas.
     De ordinário, reuniam-se ao anoitecer, hora do seu despontar nas steppes próximas à Salpêtrière, e aí conferenciavam sobre o emprego que dariam às doze horas de trevas que tinham diante de si.
     Patron-Minette, eis o nome que na Circulação subterrânea davam à associação destes quatro homens. Na antiga e extravagante linguagem popular, que vai gradualmente decaindo, Patron-Minette significa a manhã, assim como entre cão e lobo significa a noite. A denominação de Patron-Minette derivava, provavelmente, da hora a que terminava a sua missão, sendo a madrugada o momento da desaparição dos fantasmas e da separação dos bandidos. Estes quatro homens eram conhecidos sob esta rubrica. Quando o presidente do tribunal criminal foi à prisão interrogar Lacenaire sobre certo crime que ele negava, perguntou-lhe: «Quem fez isto?» Ao que Lacenaire deu a seguinte resposta enigmática para o magistrado, mas clara para a polícia:

— Talvez fosse Patron-Minette.

     Às vezes adivinha-se uma peça pelo enunciado dos personagens; do mesmo modo pode quase apreciar-se uma quadrilha pela lista dos bandidos. Eis as denominações dos principais filiados da associação Patron-Minette, denominações que sobrevivem nas memórias especiais:

Panchaud, ou Printanier ou Bigrenaille. 
Brujon (havia uma dinas a de Brujon, de que não nos damos por desobrigados de dizer alguma coisa).
Boulatruelle, o cantoneiro, de quem já nesta história fizemos menção. 
Laveuve. 
Finistère. 
Homero-Hogu, negro. 
Mardisoir. 
Dépêche. 
Fauntleroy, conhecido por Ramalheteira. 
Glorieux, forçado solto. 
Barrecarosse, conhecido por senhor Dupont. 
Lesplanade-du-Sud. 
Poussagrive. 
Carmagnolet. 
Kruideniers, conhecido por Bizarro. 
Mangedentelle. 
Les-pieds-en-air. 
Demi-liard, ou DeuxnMilliarids. 
Etc., etc.

     Omitimos outros, que não são dos piores. Estes nomes têm figuras. Não exprimem somente criaturas, mas espécies. Cada um destes nomes corresponde a uma variedade destes disformes tortulhos do subterrâneo da civilização.
     Estas criaturas, pouco pródigas dos seus rostos, não eram das que se veem pelas ruas. De dia, fatigados das noites ferozes que passavam, dormiam umas vezes nos fornos de cal, outras nas pedreiras abandonadas de Montmartre, ou Montrouge, e às vezes até nos canos. Metiam-se debaixo da terra.
     Que é feito de tais homens? Ainda existem e existiram sempre. Fala deles Horácio: Ambubaiarum collegia, pharmacopolee, mendice, mimes; e enquanto a sociedade for o que é, eles serão o que são. Sob o escuro teto das suas covas, renascem sempre da transudação social. Voltam, espectros sempre idênticos, apenas com a diferença de não usarem os mesmos nomes nem existirem dentro das mesmas peles.
     Extirpam-se os indivíduos, mas subsiste a tribo.
     As suas faculdades são sempre as mesmas. Desde o truão ao vadio, conserva-se pura a raça. Estes homens adivinham as bolsas nas algibeiras, farejam os relógios nos bolsos. O ouro e a prata para eles têm cheiro. Há burgueses simples de quem quase se pode dizer que têm cara de se deixarem roubar, estes homens seguem-nos pacientemente. Ao passar algum estrangeiro ou provinciano, sentem estremecimentos de aranha.
     Mete medo encontrar estes homens ou somente avistá-los à meia-noite em algum boulevard deserto. Não parecem homens, mas formas feitas de nevoeiro vivo; dir-se-ia que fazem montão com as trevas, que não são distintos delas, que não têm outra alma senão a escuridão, e que só momentaneamente e com o fim de viver alguns minutos de uma vida monstruosa é que eles se desagregam das trevas.
     Que é preciso para fazer esvaecer estas larvas? Luz. Luz a jorros. Nem um só morcego resiste ao clarão da aurora: Iluminai, portanto, o subterrâneo da sociedade.

continua na página 546...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - IV — Composição da quadrilha
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

terça-feira, 7 de julho de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.8a (De algum lugar no fundo de uma passagem)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

8.

     De algum lugar no fundo de uma passagem, o cheiro do café torrado – café de verdade, não Café da Vitória – veio flutuando para a rua. Winston fez uma pausa involuntária. Durante cerca de dois segundos ele voltara ao mundo meio esquecido de sua infância. Então uma porta bateu, parecendo cortar o cheiro tão abruptamente como se tivesse sido um som.
     Ele havia caminhado vários quilômetros sobre os pavimentos e sua úlcera varicosa estava latejante. Esta foi a segunda vez em três semanas que ele perdia uma noite no Centro Comunitário: um ato precipitado, já que com certeza o número de presenças no Centro era cuidadosamente verificado. Em princípio, um membro do Partido não tinha tempo livre, e nunca estava sozinho, exceto na cama. Presumia-se que, quando ele não estives se trabalhando, comendo ou dormindo, estaria participando de algum tipo de recreação comunitária: fazer qualquer coisa que sugerisse o gosto pela solidão, mesmo caminhar sozinho, era sempre um pouco perigoso. Havia uma palavra para isso na Novalíngua: vida própria, era chamada as sim, significando individualismo e excentricida de. Mas esta noite, quando ele saiu do Ministério, o ar ameno do mês de abril o havia tentado. O céu era de um azul mais quente do que ele havia visto naquele ano, e de repente a longa e barulhenta noite no Centro, os jogos chatos e exaustivos, as palestras e a camaradagem rangente regada de gin pareciam intoleráveis. Por impulso, ele havia se afastado da parada de ônibus e se desviado para o labirinto de Londres, primeiro ao sul, depois ao leste, depois ao norte novamente, perdendo-se entre ruas desconhecidas e dificilmente se preocupando em que direção ele estava indo.

Se há esperança”, ele havia escrito no diário, “ela está nos proles”. 

     As palavras, declaração de uma verdade mística e de um absurdo palpável, continuavam voltando para ele. Ele estava em algum lugar nas favelas vagas, de cor marrom ao norte e ao leste do que outrora fora a Estação Saint Pancras. Ele estava andando por uma rua de paralelepípedos, cercada por pequenas casas de dois andares com portas surradas que davam direto no pavimento e que de alguma forma eram curiosa mente parecidas com ninhos de ratos. Havia poças de água suja aqui e ali entre as calçadas. Dentro e fora das portas escuras, e por vielas estreitas que se ramificavam de ambos os lados, as pessoas se aglomeravam em números surpreendentes – me ninas em plena floração, com bocas pintadas com batom tosco, e jovens que perseguiam as meninas, e mulheres inchadas que se agitavam, que mostravam como seriam as meninas daqui a dez anos, e velhas criaturas curvadas se arrastando por aí com os pés esticados, e crianças descalças, vestindo trapos, brincando nas poças e depois se espalhavam aos gritos irados de suas mães. Talvez um quarto das janelas da rua estivessem quebradas e cobertas por tábuas. A maioria das pessoas não prestou atenção a Winston; alguns o olharam com uma espécie de curiosidade reservada. Duas mulheres monstruosas, com antebraços vermelhos como tijolos dobrados sobre os aventais, estavam falando do lado de fora de uma porta. Winston pegou pedaços de conversa enquanto se aproximava.

“’Sim’, eu digo para ela, ‘tá tudo muito bem’, digo. ‘Mas se cê tivesse no meu lugar cê teria feito a mesma coisa qu’eu. É fácil criticar’, digo, ‘mas cê não não tem os mesmos problemas qu’eu’”. 
Ah”, disse a outra. “É isso mesmo. É isso mesmo”. 

     As vozes estridentes pararam abruptamente. As mulheres o estudaram em silêncio hostil enquanto ele passava. Mas não foi exatamente hostilidade; foi apenas uma espécie de cuidado, um enrijecimento momentâneo, como na passagem de algum animal desconhecido. O macacão azul do Partido não podia ser uma visão comum em uma rua como esta. De fato, não era sensato ser visto em tais lugares, a menos que fosse resolver problemas específicos por ali. As patrulhas poderiam detê-lo se por acaso você se deparas se com eles.

Posso ver seus documentos, camarada? O que você está fazendo aqui? A que horas você saiu do trabalho? Este é seu caminho habitual para casa?” – e assim por diante. 

     Não que houvesse alguma regra contra voltar para casa por um caminho incomum: mas era suficiente para chamar a atenção para si mesmo se a Polícia do Pensamento soubesse disso.
     De repente, a rua inteira estava em alvoroço. Havia gritos de alerta de todos os lados. As pessoas estavam entrando nas portas como coelhos. Uma jovem saltou de uma porta um pouco à frente de Winston, agarrou uma criança pequena brincando em uma poça, chicoteou seu avental em volta dela, e saltou de volta, tudo em um só movimento. No mesmo instante, um homem de terno pre to parecido com uma harmônica, que havia saído de um beco lateral, correu em direção a Winston, apontando agitado para o céu.

Vapor!”, gritou. “Cuidado, chefe! Batida na cabeça! Deita logo!’’.

     “Vapor” era um apelido que, por alguma razão, os proles davam às bombas de foguete. Winston prontamente se atirou no chão com o rosto para baixo. Os proles estavam quase sempre certos quando lhe deram um aviso deste tipo. Eles pareciam possuir algum tipo de instinto que lhes dizia com vários segundos de antecedência quando um foguete estava chegando, embora os foguetes supostamente viajassem mais rápido que o som. Winston apertou seus antebraços acima de sua cabeça. Havia um rugido que parecia fazer a pavimentação se agitar; uma chuva de objetos leves se espalhou sobre suas costas. Quando ele se levantou, descobriu que estava coberto com fragmentos de vidro da janela mais próxima.
     Ele continuou andando. A bomba havia demolido um grupo de casas 200 metros acima da rua. Uma nuvem negra de fumaça estava pendurada no céu, e abaixo dela havia uma nuvem de pó de gesso na qual já se formava uma multidão ao redor das ruínas. Havia uma pequena pilha de gesso amontoada no pavimento à sua frente, e no meio dela ele podia ver uma risca vermelha brilhante. Quando se aproximou, viu que era uma mão humana arrancada pelo pulso. Além do coto sangrento, a mão estava completamente branqueada a ponto de se assemelhar a um molde de gesso.
     Ele chutou a coisa para a sarjeta e depois, para evitar a multidão, entrou à direita em uma rua lateral. Em três ou quatro minutos ele estava fora da área que a bomba havia afetado, e a sórdida movimentação da vida nas ruas estava acontecendo como se nada tivesse acontecido. Eram quase vinte horas, e as lojas de bebidas que os proles frequentavam (eles as chamavam de “pubs”) estavam entupidas de clientes. De suas portas basculantes sujas, que abriam e fechavam sem parar, saía um cheiro de urina, serragem e cerveja azeda. Em um ângulo formado por uma frente de casa saliente, três homens estavam muito próximos um do outro, o do meio segurando um jornal dobrado que os outros dois estavam estudando por cima de seu ombro. Mesmo antes que ele estivesse suficientemente perto para ver a expressão em seus rostos, Winston podia ver a absorção em cada linha de seus corpos. Era obviamente uma notícia séria que eles estavam lendo. Ele estava a alguns passos deles quando de repente o grupo se separou e dois dos homens estavam brigando. Por um momento, eles pareciam prestes a começar os golpes.

“Você não está ouvindo direito o que estou te dizendo? Estou dizendo que nenhum número que termine em sete foi sorteado há mais de quatorze meses”. 
“Foi sim!”
“Não, não foi! Lá em casa tenho todos eles, tudo ano tadinho num pedaço de papel. Eu anoto que nem um reloginho. E tô te dizendo, nenhum número que termina em sete–” 
“Mas um sete ganhou! Eu quase consigo te dizer a porra do número. Quatro zero sete, era esse o fim. Foi em fevereiro – segunda semana de fevereiro”.
“Fevereiro é sua mãe! Eu tenho tudo preto no branco. E to dizendo, nenhum número...”
“Oh, parem com isso!”, disse o terceiro homem. 

     Eles estavam falando sobre a loteria. Winston olhou para trás quando já estava trinta metros a frente. Eles ainda estavam discutindo, com expressões vívidas e passionais. A Loteria, com seu pagamento semanal de enormes prêmios, era o único evento público ao qual os proles prestavam bastante atenção. Era provável que houvesse alguns milhões de proles para os quais a Loteria era o principal, se não o único motivo para permanecerem vivos. Era o seu deleite, sua loucura, seu paliativo, seu estimulante intelectual. No que diz res peito à Loteria, mesmo as pessoas que mal sabiam ler e escrever pareciam capazes de cálculos intricados e proezas espantosas de memória. Havia uma tribo inteira de homens que ganhavam a vida simples mente vendendo sistemas, previsões e amuletos da sorte. Winston não tinha nada a ver com o funcionamento da loteria, que era administrada pelo Ministério da Abundância, mas ele estava ciente (na verdade todos no Partido estavam cientes) de que os prêmios eram em grande parte imaginários. Apenas pequenas somas eram realmente pagas, sendo que os ganhadores dos grandes prêmios eram pessoas inexistentes. Na ausência de qualquer intercomunicação real entre uma parte da Oceania e outra, isto não era difícil de conseguir.
     Mas se havia esperança, ela estava nos proles. Era necessário se agarrar a isso. Quando você colocava em palavras, parecia razoável: mas quando olhava para os seres humanos passando por você na calçada, se tornava um ato de fé. A rua em que ele havia se transformado desceu. Ele tinha a sensação de já ter estado neste bairro antes, e que havia uma rua principal não muito distante. De algum lugar adiante, veio um barulho de vozes altas. A rua deu uma curva brusca e depois terminou em um lance de degraus que o levou a um beco fundo onde alguns guardas estavam vendendo vegetais de aparência cansada. Neste momento Winston lembrou-se onde ele estava. A viela levava até a rua principal, e na curva seguinte, não a cinco minutos, estava a lojinha de parafernálias onde ele havia comprado o livro em branco que agora era seu diário. E em uma pequena papelaria não muito distante, ele havia comprado seu porta-lápis e seu pote de tinta.
     Ele parou por um momento na parte superior dos degraus. No lado oposto do beco havia um barzinho sujo cujas janelas pareciam ser foscas, mas na realidade estavam apenas cobertas de poeira. Um homem muito velho, curvado, mas ativo, com bigodes brancos que se movimentavam para frente como os de um camarão, empurrou a porta e entrou. Enquanto Winston observava, ocorreu--lhe que o velho, que deve ter no mínimo oitenta anos, já estava na meia-idade quando a Revolução aconteceu. Ele e alguns outros como ele eram os últimos laços que existiam agora com o mundo desaparecido do capitalismo. No próprio Partido não restavam muitas pessoas cujas ideias haviam sido formadas antes da Revolução. A geração mais velha havia sido dizimada em sua maioria nas grandes purgas dos anos cinquenta e sessenta, e os poucos que sobreviveram há muito tempo haviam ficado aterrorizados com a completa rendição intelectual. Se ainda houvesse alguém vivo que pudesse dar um relato verdadeiro das condições no início do século, só poderia ser um prole. De repente, a passagem do livro de história que ele havia copiado em seu diário voltou à mente de Winston, e um impulso lunático tomou conta dele. Ele entraria no pub, se familiarizaria com aquele velho e o questionaria. Ele lhe diria:

“Conte-me sobre sua vida quando você era um garoto. Como era naquela época? As coisas eram melhores do que são agora, ou eram piores”? 

continua na página 186...
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Parte1:
Parte 1.8a (De algum lugar no fundo de uma passagem) /                     
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção V.a)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção V
Continuação do mesmo tema
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     Se for verdadeira a segunda parte de meu sistema, a saber, que a ideia de espaço ou extensão não ê senão a ideia de pontos visíveis ou tangíveis distribuídos segundo uma certa ordem, segue-se que não podemos formar nenhuma ideia de vácuo, ou seja, de um espaço onde não existe nada visível ou tangível. Isso gera três objeções, que examinarei conjuntamente, já que a resposta que darei a uma delas será uma consequência da que utilizarei para rebater as outras.
     Em primeiro lugar, pode-se dizer que há séculos os homens discutem sobre o vácuo e o pleno, sem conseguir chegar a uma conclusão definitiva. E os filósofos, ainda hoje, acreditam-se livres para tomar partido de um lado ou de outro, ao sabor de sua fantasia. Mas seja qual for o fundamento que possa ter uma controvérsia a respeito dessas coisas mesmas, pode-se alegar que a própria discussão é decisiva no que concerne à ideia em questão, e é impossível que os homens tenham podido raciocinar há tanto tempo sobre um vácuo, fosse para negá-lo, fosse para afirmá-lo, sem ter uma noção daquilo que negavam ou afirmavam.
     Em segundo lugar, mesmo que se conteste esse argumento, a realidade ou, ao menos, a possibilidade da ideia de um vácuo poderia ser provada pelo seguinte raciocínio. Toda ideia é possível se é uma consequência necessária e infalível de ideias possíveis. Ora, mesmo que aceitemos que o mundo presente é um pleno, podemos facilmente concebê-lo desprovido de movimento; e com certeza se admitirá que essa ideia é possível. Deve-se também admitir que é possível conceber a aniquilação de uma parte qualquer da matéria pela onipotência divina, enquanto as outras partes permanecem em repouso. Porque como toda ideia distinguível é separável pela imaginação, e como toda ideia separável pela imaginação pode ser concebida existindo separadamente, é evidente que a existência de uma partícula de matéria implica tão pouco a existência de outra quanto o fato de um corpo possuir uma figura quadrada implica que todos os outros também a possuam. Uma vez aceito isso, pergunto agora: qual o resultado da concorrência dessas duas ideias possíveis, de repouso e de aniquilação, e o que devemos conceber que se segue à aniquilação de todo o ar e de toda a matéria sutil contida em um aposento, supondo-se que as paredes permaneçam iguais, sem nenhum movimento ou alteração? Alguns metafísicos respondem que, uma vez que matéria e extensão são a mesma coisa, a aniquilação de uma implica necessariamente a da outra; e, não havendo agora qualquer distância entre as paredes do aposento, essas paredes se tocam, do mesmo modo que minha mão toca o papel que se encontra imediatamente à minha frente. Embora tal resposta seja bastante comum, porém, desafio esses metafísicos a conceberem a matéria segundo sua hipótese, ou a imaginar o chão e o teto, juntamente com todos os lados opostos do aposento, tocando-se uns aos outros, ao mesmo tempo em que permanecem em repouso e preservam a mesma posição. Pois como é possível que as duas paredes que vão de norte a sul se toquem mutua mente, enquanto também tocam os extremos opostos das duas outras paredes, que vão de leste a oeste? E como é possível que o teto e o chão se encontrem, estando separados pelas quatro paredes situadas em posição contrária? Se alterarmos sua posição, estaremos supondo um movimento. Se concebermos alguma coisa entre eles, es aremos supondo que algo é criado. Ao contrário, se nos ativermos estritamente às duas ideias de repouso e aniquilação, é evidente que a ideia delas resultante não será a de um contato entre as partes, mas algo diferente, que podemos concluir ser a ideia de um vácuo.
     A terceira objeção vai ainda mais longe, afirmando que a ideia de um vácuo é não apenas real e possível, mas também necessária e inevitável. Essa asserção se funda no movimento que observamos nos corpos, e que, segundo se afirma, seria impossível e inconcebível sem um vácuo, para onde um corpo deve se mover a fim de abrir caminho a outro. Não me estenderei sobre essa objeção, porque ela diz respeito sobretudo à filosofia da natureza, que está fora de nossa esfera presente.
     Para responder a essas objeções, sem correr o risco de iniciar uma discussão antes de ter compreendido perfeitamente o objeto da controvérsia, devemos examinar profundamente a questão, considerando a natureza e a origem de diversas ideias. É evidente que a ideia de escuridão não é uma ideia positiva, mas a mera negação da luz ou, mais propriamente falando, de objetos coloridos e visíveis. Na total ausência de luz, um homem dotado de visão, por mais que olhe para todos os lados, não recebe outra percepção que aquela mesma que um cego de nascença receberia; e é certo que este último não possui nenhuma ideia de luz ou de escuridão. A conclusão disso é que não é pela mera supressão dos objetos visíveis que recebemos a impressão de uma extensão sem matéria; e que a ideia da escuridão total nunca poderia ser a mesma que a de um vácuo.
     Suponhamos agora um homem suspenso no ar, sendo transportado suavemente por algum poder invisível. É evidente que ele nada sente, e que jamais obtém a ideia de extensão, ou qualquer outra ideia, partindo desse movimento invariável. Mesmo supondo que mova suas pernas para a frente e para trás, isso não poderia lhe transmitir tal ideia. Nesse caso, ele teria alguma sensação ou impressão, cujas partes, sucedendo-se umas às outras, poderiam lhe dar a ideia de tempo; mas, certamente, essas partes não estariam dispostas da maneira necessária para lhe transmitir a ideia de espaço ou extensão.
     Vemos, assim, que a escuridão e o movimento, quando há total supressão de todo objeto visível e tangível, nunca poderiam nos dar a ideia da extensão sem matéria, ou seja, de um vácuo. A próxima questão é, pois, se poderiam nos transmitir essa ideia quando misturados a algo visível e tangível.
     Os filósofos comumente admitem que todos os corpos que se mostram à visão aparecem como se estivessem pintados sobre uma superfície plana, e que seus diferentes graus de afastamento em relação a nós são descobertos mais pela razão que pelos sentidos. Quando ergo minha mão espalmada, os dedos se mostram separados pela cor azul do firmamento de maneira tão perfeita quanto o seriam por qualquer objeto visível que eu pudesse inserir entre eles. Portanto, para saber se a visão é capaz de transmitir a impressão e a ideia, de um vácuo, temos de supor que, em meio a uma total escuridão, apresentam-se a nós corpos luminosos, cuja luz revela apenas eles mesmos, sem nos dar nenhuma impressão dos objetos circundantes.
     Devemos fazer uma suposição análoga a respeito dos objetos de nosso tato. Não convém supor a eliminação completa de todos os objetos tangíveis; devemos admitir que alguma coisa é percebida pelo tato; e que, após um intervalo e um movimento da mão ou de algum outro órgão da sensação, um outro objeto tangível é encontrado; e, largando-se este, um outro, e assim por diante, tão frequentemente quanto se queira. A questão é se esses intervalos não nos proporcionam a ideia da extensão sem nenhum corpo.
     Começando com o primeiro caso, é evidente que, quando apenas dois objetos luminosos aparecem à visão, podemos perceber se eles estão juntos ou separados; se estão separados por uma distância pequena ou grande; e, quando essa distância varia, podemos perceber seu aumento ou sua diminuição, juntamente com o movimento dos corpos. Mas como neste caso a distância não é algo colorido ou visível, pode-se pensar que existe aqui um vácuo ou extensão pura, não apenas inteligível à mente, mas evidente para os próprios sentidos.
     Esse é nosso modo mais natural e familiar de pensar; mas uma pequena reflexão nos ensinará a corrigi-lo. Podemos observar que, quando dois objetos se apresentam lá onde antes havia uma total escuridão, a única mudança que se pode descobrir está na aparição desses dois objetos; todo o resto continua como antes: uma perfeita negação da luz e de todo objeto colorido ou visível. Isso vale não apenas para aquilo que se pode considerar distante desses corpos, mas para a própria distância entre eles - e esta não é senão a escuridão ou negação da luz, sem partes, sem composição, invariável e indivisível. Ora, uma vez que essa distância não causa nenhuma percepção diferente daquela que um cego recebe de seus olhos, ou da quela que nos é transmitida na mais escura noite, ela deve partilhar das mesmas propriedades. E como a cegueira e a escuridão não nos proporcionam nenhuma ideia de extensão, é impossível que a distância obscura e indistinguível entre dois corpos possa jamais produzir tal ideia.
     A única diferença entre uma escuridão absoluta e a aparição de dois ou mais objetos luminosos e visíveis consiste, como disse antes, nos próprios objetos e na maneira como afetam nossos sentidos. Os ângulos que os raios de luz emanados desses objetos formam entre si; o movimento necessário ao olho para passar de um a outro; e as diferentes partes dos órgãos por eles afetados - isso é o que produz as únicas percepções que nos permitem julgar acerca da distância.¹ Como cada uma dessas percepções é simples e indivisível, porém, elas nunca poderão nos dar a ideia de extensão.

[1] Aproveitarei também esta oportunidade para confessar outros dois erros menos importantes, que uma reflexão mais madura me levou a descobrir em meu raciocínio. O primeiro pode-se encontrar no Livro 1, página 85, onde digo que a distância entre dois corpos é conhecida, entre outras coisas, pelos ângulos que os raios de luz emanados desses corpos formam entre si. O certo é que esses ângulos não são conhecidos pela mente e, como consequência, jamais podem revelar a distância.

     Isso pode ser ilustrado considerando-se o sentido do tato e a distância ou intervalo imaginário interposto entre objetos tangíveis ou sólidos. Suponho dois casos: o de um homem suspenso no ar e que movimenta suas pernas para a frente e para trás, sem encontrar nenhuma coisa tangível; e o de um homem que sente alguma coisa tangível, larga-a e, após um movimento ao qual é sensível, percebe outro objeto tangível. Pergunto então: em que consiste a diferença entre esses dois casos? Ninguém hesitará em afirmar que ela consiste meramente na percepção desses objetos, e que a sensação originada do movimento é a mesma nos dois casos. E, assim como essa sensação é incapaz de nos transmitir uma ideia de extensão quando não vem acompanhada de alguma outra percepção, ela tampouco pode nos dar essa ideia quando misturada às impressões de objetos tangíveis, uma vez que essa mistura não produz nela nenhuma alteração.
     Mas, embora nem o movimento nem a escuridão, quer quando isolados, quer quando acompanhados de objetos tangíveis e visíveis, possam nos transmitir qualquer ideia de um vácuo ou de uma extensão sem matéria, eles são as causas que nos levam a imaginar falsamente que somos capazes de formar tal ideia. Pois existe uma relação estreita entre, de um lado, tal movimento e escuridão e, de outro, uma extensão real ou composição de objetos visíveis e tangíveis.
     Primeiramente, podemos observar que dois objetos visíveis que aparecem em meio a uma total escuridão afetam os sentidos da mesma maneira, e os ângulos dos raios que deles emanam e se encontram no olho formam o mesmo ângulo que formariam se a distância entre eles estivesse preenchida por objetos visíveis que nos proporcionassem uma verdadeira ideia de extensão. A sensação do movimento também é a mesma, seja quando não há nada tangível interposto entre os dois corpos, seja quando sentimos um corpo composto, cujas diferentes partes estão dispostas umas ao lado das outras.
     Em segundo lugar, descobrimos pela experiência que dois corpos situados de forma a afetar os sentidos da mesma maneira que outros dois corpos entre os quais existe uma certa extensão de objetos visíveis, são capazes de receber a mesma extensão de objetos, sem sofrer nenhum impacto [impulse] ou penetração sensível, e sem que haja nenhuma alteração no ângulo com que aparecem aos sentidos. De modo semelhante, sempre que, para tocarmos um objeto após outro, for necessário um intervalo entre eles e a percepção dessa sensação que chamamos movimento de nossa mão ou órgão do tato, a experiência nos mostra que os mesmos objetos podem ser tocados com a mesma sensação de movimento, quando esta se acompanha da impressão interposta de objetos sólidos e tangíveis. Em outras palavras, uma distância invisível e intangível pode se tornar uma distância visível e tangível, sem nenhuma mudança nos objetos distantes.
     Em terceiro lugar, podemos observar outra relação entre esses dois tipos de distância, a saber, que elas têm quase o mesmo efeito sobre todos os fenômenos naturais. Uma vez que todas as qualidades, como calor, frio, luz, atração etc., diminuem proporcionalmente a distância, não se pode observar quase nenhuma diferença entre os casos em que essa distância é indicada por objetos compostos e sensíveis, e aqueles em que ela é conhecida apenas pela maneira como os objetos distantes afetam os sentidos.

continua na página 87...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IVa. / Seção IVb. / Seção Va. /          
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.