Simone de Beauvoir
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
TERCEIRA PARTE
JUSTIFICAÇÕES
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continuando...
Traço comum à pequena Mrs Welton, à soberba Mme de
Noailles, à infortunada doente de Stekel, à multidão das mulheres marcadas por um destino excepcional, é o se sentirem incompreendidas; os que as cercam não reconhecem sua singularidade — ou não o fazem suficientemente; elas traduzem positivamente essa ignorância, essa indiferença dos outros pela ideia de
que encerram em si um segredo. O fato é que muitas enterraram
silenciosamente episódios de infância que tinham para elas grande importância; sabem que sua biografia oficial não se confunde
com sua história verdadeira. Mas, principalmente por não se
realizar na vida, a heroína amada pela narcisista não passa de
uma coisa imaginária; sua unidade não lhe é conferida pelo mundo concreto; é um princípio escondido, uma espécie de "força",
de "virtude" tão obscura quanto o flogístico; a mulher crê em
sua presença, mas se a quisesse descobrir a outrem ficaria tão
embaraçada como o psicastênico encarniçando-se em confessar
crimes impalpáveis. Nos dois casos, o segredo reduz-se à convicção vazia de possuir no fundo de si uma chave que permite decifrar e justificar sentimentos e condutas. É sua abulia, sua inércia que dá aos psicastênicos essa ilusão; e é por não poder exprimir-se na ação quotidiana que a mulher também se acredita
habitada por um mistério inexprimível: o famoso mito do mistério feminino encoraja-a a isso e vê-se, em compensação, confirmado.
Rica de seus tesouros desconhecidos, marcada por uma estrela fasta ou nefasta, a mulher toma a seus próprios olhos a necessidade dos heróis de tragédia que um destino governa. Toda
sua vida se transfigura num drama sagrado. Sob o vestido escolhido com solenidade erguem-se a um tempo uma sacerdotisa
envergando as vestes sacerdotais e um ídolo adornado por mãos
fiéis e oferecido à adoração dos devotos. Sua casa torna-se o templo em que se realiza seu culto. Maria Bashkirtseff cuida
tanto do quadro que instala ao redor de si, quanto de seus
vestidos:
Junto da escrivaninha uma poltrona em estilo antigo, de maneira
que, quando entram, basta-me imprimir um movimento a essa poltrona
para me achar em face das pessoas... perto da escrivaninha pedantesca
com os livros no fundo, entre quadros e plantas, e as pernas e os
pés à vista, ao invés de ser cortada em dois como antes por essa
madeira escura. Em cima do sofá, acham-se pendurados os dois pandolins
e a guitarra. Colocai no meio de tudo isso uma moça loura e branca,
de mãos muito pequenas e finas, e veias azuis.
Quando se pavoneia nos salões, quando se abandona nos braços do amante, a mulher cumpre sua missão: é Vênus distribuindo ao mundo os tesouros de sua beleza. Não era ela própria,
era a Beleza que Cécile Sorel defendia, quando quebrou o vidro
da caricatura de Bib; vê-se em suas memórias que, em todos os
instantes de sua vida, convidou os mortais ao culto da arte. Assim também Isadora Duncan quando se descreve em Minha Vida:
Depois das representações, escreve, vestida com minha túnica e a
cabeleira coroada de rosas, estava tão bonita!
Por que não fazer que
aproveitassem esse encanto? Por que um homem que trabalha durante
o dia todo com o cérebro... não seria enlaçado por estes braços
esplêndidos e não encontraria algum consolo para suas penas e algumas
horas de beleza e esquecimento?
A generosidade da narcisista é-lhe aproveitável: mais do
que nos espelhos é nos olhos admirativos de outrem que ela divisa seu duplo aureolado de glória. Na falta de um público complacente, abre o coração a um confessor, a um médico, a um psicanalista; vai consultar quiromantes, videntes. "Não é porque
acredite nisso", dizia uma starlet aprendiz, "mas gosto tanto que
falem de mim!"; ela conta-se às amigas; no amante, mais avidamente do que em qualquer outro, busca uma testemunha; a amorosa esquece depressa o seu eu; mas muitas mulheres são incapazes de um amor verdadeiro, precisamente porque não se esquecem
nunca. À intimidade da alcova, preferem um palco mais vasto. Daí
a importância que assume para elas a vida mundana: precisam
de olhos para olharem-na, de ouvidos para ouvirem-na; à sua
personagem é indispensável o mais amplo público possível. Descrevendo mais uma vez seu quarto, Maria Bashkirtseff deixa escapar esta confissão:
Desta maneira estou no palco, quando entram e me encontram
escrevendo.
E adiante:
Estou decidida a criar para mim uma encenação considerável.
Vou construir uma residência mais bela que a de Sarah e ateliers
maiores...
Por sua vez Mme de Noailles escreve:
Amei e amo-a agora... Por isso mesmo pude muitas vezes tranquilizar os amigos que temiam importunar-me por causa do número
dos convivas, com esta confissão sincera: não gosto de representar
diante de bancos vazios.
A toalete, a conversa satisfazem em grande parte esse gosto
feminino de exibição. Mas uma narcisista ambiciosa almeja exibir-se de maneira mais rara e variada. Fazendo de sua vida uma
peça oferecida aos aplausos do público, comprazer-se-á, particularmente, em subir de verdade ao palco. Mme de Staël contou longamente em Corinne como encantou as multidões italianas
recitando poemas que acompanhava na harpa. Em Coppet, uma
de suas distrações prediletas era declamar papéis trágicos; sob a
figura de Phèdre, endereçava de bom grado aos jovens amantes,
que fantasiava de Hippolyte, declarações ardentes. Mme Krüdener especializava-se na dança do xale, que descreve em Valéria:
Valéria pediu o xale de musselina azul-escuro, afastou os cabelos
da fronte; pôs o xale na cabeça; caía ao longo das têmporas e dos
ombros; a fronte desenhou-se à maneira antiga, os cabelos desapareceram,
as pálpebras baixaram, o sorriso habitual dissipou-se pouco a pouco;
a cabeça inclinou-se, o xale caiu molemente sobre os braços cruzados,
sobre o seio, e essa vestimenta azul, esse semblante puro e meigo
pareciam ter sidos desenhados por Corregio para exprimir a resignação
serena; e quando os olhos se ergueram, quando os lábios esboçavam um
sorriso, teve-se a impressão de ver como Shakespeare a pintou, a Paciência sorrindo para a Dor, junto de um monumento...
É Valéria
que cumpre ver.
Ela, que é tímida, nobre, profundamente sensível,
perturba, arrasta, comove, arranca lágrimas ao mesmo tempo, e faz
o coração palpitar como palpita quando dominado por uma grande
ascendência; ela é que possui essa graça encantadora que não se pode
aprender, mas que a natureza revelou em segredo a alguns seres superiores.
Permitindo-lhe as circunstâncias, nada dará uma satisfação
mais profunda à narcisista do que se consagrar publicamente ao
teatro:
O teatro, diz Georgette Leblanc, dava-me o que nele sempre procurava: um motivo de exaltação. Hoje ele se me afigura uma caricatura da ação; algo indispensável aos temperamentos excessivos.
A expressão de que se serve é impressionante: não agindo, a
mulher inventa sucedâneos para a ação; o teatro representa para
algumas um ersatz privilegiado. A artista pode, de resto, visar
a fins muito diferentes. Para algumas, representar é um meio de ganhar a vida, uma simples profissão; para outras é o acesso
à fama, a ser explorada para fins galantes; para outras, ainda, o
triunfo de seu narcisismo; as maiores — Rachel, a Duse — são
artistas autênticas que se transcendem no papel que criam; a
cabotina, ao contrário, não se preocupa com o que realiza e sim
com a glória que disso lhe advém; procura antes de tudo valorizar-se. Uma narcisista obstinada será limitada em arte, como no
amor, por não saber dar-se.
Esse defeito far-se-á sentir gravemente em todas as suas atividades. Ela será tentada por todos os caminhos que podem conduzi-la à glória; mas nunca seguirá nenhum sem reserva. Pintura,
escultura, literatura são disciplinas que reclamam severo aprendizado e exigem um trabalho solitário; muitas mulheres as tentam, mas logo renunciam, se não são incentivadas por um desejo positivo de criação; muitas também das que perseveram não fazem senão fingir que trabalham, representam. Maria Bashkirtseff, tão ávida de glória, passava horas diante do cavalete, mas
amava-se a si mesma demais para gostar realmente de pintar.
Confessa-o, ela própria, após anos de despeito: "Sim, não me esforço por pintar, observei-me hoje, trapaceio..."
Quando uma
mulher vence, como Mme de Staël, Mme de Noailles, consegue
construir uma obra, é porque não está exclusivamente absorvida
pelo culto que se rende: mas uma das taras que pesam sobre numerosas escritoras é a complacência para consigo mesmas, que
prejudica sua sinceridade, que as limita e as diminui.
Muitas mulheres, imbuídas de sentimento de sua superioridade, não são entretanto capazes de manifestá-la aos olhos do
mundo; sua ambição será então utilizar, como instrumento, um
homem a quem convencerão dos méritos delas; não visam a valores singulares através de livres projetos; querem anexar valores feitos ao seu eu; voltar-se-ão portanto para os que detêm influência e glória, na esperança de se identificar com eles, fazendo-se musas, inspiradoras, egérias. Exemplo impressionante disso temos em Mabel Dodge, em suas relações com Lawrence:
Eu queria, diz, seduzir-lhe o espírito, constrangê-lo a produzir
certas coisas. . .
Tinha necessidade de sua alma, de sua vontade, de
sua imaginação criadora, de sua visão luminosa. Para me tornar senhora
desses instrumentos essenciais, era-me necessário dominar-lhe o sangue. . .
Sempre procurei fazer que os outros fizessem coisas, sem eu própria
procurar fazer qualquer coisa. Adquiria o sentimento de uma espécie
de atividade, de fecundidade por procuração.
Era uma espécie de
compensação ao sentimento desolado de não ter que fazer.
E adiante:
Queria que Lawrence conquistasse por mim, que se valesse de minha
experiência, de minhas observações, de meu Taos e formulasse tudo
isso numa magnífica criação artística.
Assim queria Georgette Leblanc ser para Maeterlinck "chama e alimento"; mas queria também ter o nome inscrito no livro
composto pelo poeta. Não se trata aqui de ambiciosas que escolheram objetivos pessoais e utilizaram homens para alcançá-los
— como fizeram a Princesa des Ursins, Mme de Staël — e sim
de mulheres animadas por um desejo inteiramente subjetivo de
importância, que não visam nenhum alvo objetivo e que pretendem apropriar-se da transcendência de um outro. Estão longe de
sempre o conseguir; mas são hábeis em mascarar o malogro e
persuadir-se de que são dotadas de uma irresistível sedução. Sabendo-se amáveis, desejáveis, admiráveis, sentem-se seguras de
ser amadas, desejadas, admiradas. Toda narcisista é Bélise. Mesmo a inocente Brett, dedicada a Lawrence, fabrica um pequeno
personagem de si mesma e ao qual empresta uma sedução grave:
Ergo os olhos para perceber que você me olha com malícia, cota
seu ar de fauno, uma luz provocante brilha em seus olhos, Pã. Encaro-o
com um ar solene e digno, até que a luz se apague em seu rosto.
Tais ilusões podem engendrar verdadeiros delírios; não é
sem razão que Clérambault considerava a erotomania como uma
"espécie de delírio profissional"; sentir-se mulher é sentir-se objeto desejável, é acreditar-se desejada e amada. É coisa notável
que, em dez doentes atingidos de "ilusão de ser amados", nove sejam mulheres. Vê-se claramente que o que procuram em seu
amante imaginário é uma apoteose de seu narcisismo. Querem-no dotado de um valor incondicionado: sacerdote, médico, advogado, homem superior; e a verdade categórica que essas condutas revelam é que a amante ideal é superior a todas as outras mulheres, que possui virtudes irresistíveis e soberanas.
A erotomania pode aparecer em diversas psicoses; mas seu
conteúdo é sempre o mesmo. O sujeito é iluminado e glorificado
pelo amor de um homem de grande valor, que foi bruscamente
fascinado por seus encantos — quando ela nada esperava dele —
e que manifesta seus sentimentos de maneira indireta mas imperiosa; essa relação permanece por vezes ideal, por vezes reveste
uma forma sexual; mas o que a caracteriza essencialmente é que
o semideus poderoso e glorioso ama mais do que é amado e manifesta sua paixão através de condutas estranhas e ambíguas.
Em meio ao grande número de casos relatados pelos psiquiatras,
eis um bem típico, que resumo de Ferdière, de sua obra L'Eroto
manie. Trata-se de uma mulher de 48 anos, Marie-Yvonne, que
faz a confissão seguinte:
Trata-se de mestre Achille, antigo deputado e subsecretário de
Estado, advogado e membro do Conselho da Ordem. Conheço-o desde 12 de maio de 1920; na véspera, eu tentara encontrá-lo no Palácio
de Justiça; observara de longe seu porte, mas não sabia quem era; provocou-me um arrepio nas costas.. .
Sim, há entre mim e ele uma
questão de sentimento, de sentimento recíproco: os olhos, os olhares
cruzaram-se. Desde a primeira vez que o vi, senti uma atração por ele;
com ele acontece a mesma coisa. . .
Em todo caso, foi o primeiro a
declarar-se; era no início de 1922; recebia-me em seu salão, sempre sozinha; de uma feita, chegou a mandar embora o filho...
Um dia...
levantou-se e veio para meu lado continuando a conversar. Compreendi imediatamente que era um impulso sentimental...
Disse-me palavras que o davam a entender. Mediante diferentes amabilidades levou-me a compreender que os sentimentos recíprocos se haviam encontrado.
De outra vez, sempre em seu escritório, aproximou-se de mim
dizendo:
"Sois vós, sois vós sozinha e não outra, Senhora, bem o entendeis". Fiquei tão surpreendida que não soube como responder; disse-lhe somente:
Mestre, obrigada!
Outra vez ainda, acompanhou-me
desde o escritório até a rua; até desvencilhou-se de um senhor que o
acompanhava, deu-lhe uma moeda na escada e disse-lhe:
Deixe-me,
rapaz, está vendo que estou em companhia da senhora! Tudo isso era
para me acompanhar e ficar só comigo. Apertava-me sempre as mãos
com força.
Durante sua primeira defesa, lançou uma indireta para
dar-me a entender que era celibatário.
Mandou um cantor ao pátio, para fazer com que eu compreendesse seu amor... olhava-me debaixo da janela; poderia cantar-vos a
canção. Fez desfilar diante de minha porta a banda da Comuna. Fui
tola.
Devia ter correspondido a suas tentativas. Arrefeci o ardor de
Mestre Achille... então ele pensou que eu o rechaçava e agiu; teria
sido melhor que falasse abertamente; vingou-se.
Mestre Achille pensava que eu tinha um sentimento por B... e tinha ciúme... Fez-me
sofrer por mandingas mediante uma fotografia minha; foi o que
descobri à força de estudos nos livros, nos dicionários. Ele trabalhou
suficientemente a fotografia: tudo vem daí...
Esse delírio transforma-se com efeito facilmente em um delírio de perseguição. E encontra-se esse processo mesmo nos casos normais. A narcisista não pode admitir que outros não se
interessem por ela apaixonadamente; se tem a prova evidente
de que não é adorada supõe imediatamente que a detestam. Atribui todas as críticas ao ciúme, ao despeito. Seus malogros são o
resultado de tenebrosas maquinações: e, deste modo, eles a confirmam na ideia de sua importância. Ela descamba facilmente para a megalomania ou para o delírio de perseguição, que é a
imagem invertida daquela: centro de seu universo e não conhecendo outro universo, ei-la centro absoluto do mundo.
Mas é a expensas da vida real que a comédia narcisista se
desenrola; um personagem imaginário solicita a admiração de
um público imaginário; a mulher tomada pelo seu eu perde todo
domínio sobre o mundo concreto, não se preocupa com estabelecer qualquer relação real com os outros; Mme de Staël não
houvera declamado Phèdre com tanto prazer, se tivesse pressentido as zombarias que seus "admiradores" anotavam à noite em
seus diários; mas a narcisista recusa-se a admitir que a vejam
de maneira diferente daquela com que se mostra: é o que explica
que, tão ocupada com se contemplar, consiga tão mal julgar-se
e soçobre tão facilmente no ridículo. Não ouve mais, fala e quando fala recita seu papel:
Diverte-me, escreve Maria Bashkirtseff. Não converso com ele, represento e sentindo-me diante de um bom público sou excelente de entoações infantis e fantasistas, e de atitudes.
Olha-se demais para ver alguma coisa; só compreende de
outrem o que dela reconhece nele. O que não pode assimilar a seu
caso, a sua história, permanece-lhe estranho. Compraz-se em multiplicar as experiências: quer conhecer a embriaguez e os tormentos da mulher apaixonada, as alegrias puras da maternidade,
a amizade, a solidão, as lágrimas, os risos; mas, nunca se podendo dar, seus sentimentos e emoções são fabricados. Sem dúvida,
Isadora Duncan chorou lágrimas de verdade quando da morte
dos filhos. Mas, quando lhes jogou as cinzas no mar, em um grande gesto teatral, era apenas uma comediante; e não se pode ler
sem sentir algum mal-estar este trecho de Minha Vida em que
evoca sua desgraça:
Sinto a mornidão de meu próprio corpo. Abaixo os olhos para
minhas pernas nuas que estico, para a doçura de meus seios, para meus
braços que nunca se imobilizam, mas flutuam sem cessar em doces ondulações, e vejo que há doze anos estou lassa, que este peito encerra uma
dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que,
quando estou só, estes olhos raramente secam.
No culto de seu eu, a adolescente pode haurir a coragem de
enfrentar o futuro inquietante; mas é uma etapa que cumpre
superar depressa: sem o quê, o futuro torna a fechar-se. A apaixonada que encerra o amante na imanência do casal destina-o consigo à morte: a narcisista, alienando-se em seu duplo imaginário, aniquila-se. Suas recordações coagulam-se, suas condutas
estereotipam-se, ela rumina as palavras, repete mímicas quase esvaziadas de qualquer conteúdo: daí a impressão de pobreza que
dão tantos "diários íntimos" ou "autobiografias" femininas; preocupada com se incensar, a mulher que não faz nada não se faz
nada e incensa um nada.
Sua desgraça está em que, apesar de toda a sua má-fé, ela
conhece esse nada. Não pode haver relação real entre um indivíduo e seu duplo, porque este duplo não existe. A narcisista
sofre um malogro radical. Não pode apreender-se como totalidade, plenitude, não pode manter a ilusão de ser em si — para
si.
Sua solidão como a de todo ser humano é experimentada
como contingência e abandono. E por isso — salvo numa conversão — ela é condenada a fugir de si sem cessar para a multidão, o ruído, os outros. Seria um erro grave acreditar que,
escolhendo-se como fim supremo, escape à dependência: vota-se,
ao contrário, à mais estrita escravidão; não se apoia em sua
liberdade, faz de si um objeto que se acha em perigo no mundo
e nas consciências estranhas. Não são somente seu corpo e seu
semblante uma carne vulnerável e que o tempo degrada. Mas
é praticamente um empreendimento custoso paramentar o ídolo,
erguer-lhe um pedestal, construir-lhe um templo: vimos que para
inscrever suas formas em um mármore imortal Maria Bashkirtseff teria consentido em casar por dinheiro. Fortunas masculinas pagaram o ouro, o incenso, a mirra que Isadora Duncan
ou Cécile Sorel depuseram aos pés de seu trono. Como é o
homem que encarna o destino para a mulher, é pelo número e a
qualidade dos homens submetidos a seu poder que as mulheres
medem em geral sua vitória. Mas a reciprocidade também importa aqui; a "fêmea do louva-a-deus", que tenta fazer do macho
seu instrumento, não consegue entretanto libertar-se dele, por
quanto, para encadeá-lo, precisa agradar-lhe. A mulher norte--americana, querendo ser ídolo, faz-se escrava de seus adoradores, não se veste, não vive, não respira senão pelo homem e
para ele. Na verdade, a narcisista é tão dependente quanto a
hetaira. Se escapa ao domínio de um homem singular, é aceitando
a tirania da opinião. Este laço que a prende a outrem não implica a reciprocidade da permuta: se procurasse fazer-se reconhecer pela liberdade de outrem em a reconhecendo também como
fim através das atividades, ela deixaria de ser narcisista. O paradoxo de sua atitude está em que ela reclama ser valorizada por um mundo ao qual nega qualquer valor, posto que só ela conta
a seus olhos. O sufrágio estranho é uma força inumana, misteriosa, caprichosa, que é preciso captar màgicamente. A despeito
de sua arrogância superficial, a narcisista sente-se ameaçada
eis por que é inquieta, suscetível, irritável, está sempre na expectativa; sua vaidade nunca se sacia; quanto mais envelhece, mais
procura ansiosamente elogios e êxitos, mais suspeita da exis ência de conjuras ao redor de si; desnorteada, obcecada, ela
afunda na noite da má-fé e acaba muitas vezes por edificar em
torno de si um delírio paranoico. A ela é que se aplicam singularmente as palavras: "Quem quer salvar a vida, perdê-la-á".
continua página 410...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo I - A narcisista (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"