Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
continuando...
Se as lágrimas não bastam para lhe exprimir a revolta, ela
se entregará a cenas cuja violência incoerente desnorteará ainda
mais o homem. Em certos meios, o homem espanca a mulher;
em outros, precisamente porque é o mais forte e porque seu punho
é um instrumento eficaz, ele evita toda violência. Mas a mulher,
como a criança, entrega-se a crises simbólicas: pode jogar-se
contra o homem, arranhá-lo; são gestos apenas. Mas, principalmente, ela se põe a mimar em seu corpo, através de ataques de
nervos, as recusas que não pode concretamente realizar. Não é
somente por razões fisiológicas que ela é sujeita a manifestações
convulsivas: a convulsão é uma interiorização de uma energia que, jogada no mundo, malogra em apreender qualquer objeto;
é um dispêndio no vácuo de todas as potências de negação sus
citadas pela situação. A mãe raramente tem crises de nervos em
face de seus filhos pequenos porque os pode bater, punir: é em
face do filho crescido, do marido, do amante, sobre os quais
não tem influência, que a mulher se entrega a desesperos furiosos. As cenas histéricas de Sofia Tolstoi são significativas; sem
dúvida ela cometeu o grande erro de nunca ter procurado entender o marido e através de seu diário não parece nem generosa, nem sensível, nem sincera, e está longe de se nos afigurar
uma pessoa atraente; mas, tenha ou não tido razão, em nada
modifica sua situação: durante toda a vida apenas suportou,
através de constantes recriminações, os amplexos conjugais, as
maternidades, a solidão, o modo de vida que seu marido lhe
impunha; quando as novas decisões de Tolstoi exasperaram o
conflito, ela se encontrou sem armas contra a vontade inimiga,
que recusava com toda a sua vontade impotente; jogou-se em
comédias de recusa — falsos suicídios, falsas doenças etc. —
odiosas aos seus e exaustivas para ela própria: não vemos que
outra saída lhe restava, posto que não tinha nenhuma razão
positiva para calar seus sentimentos de revolta, e nenhum meio
eficiente de exprimi-los.
Há uma saída para a mulher que chega ao fim de sua recusa:
suicídio. Mas parece que o emprega menos amiúde do que o
homem. As estatísticas são muito ambíguas a esse respeito¹. Considerando os suicídios, há muito mais homens do que mulheres que atentam contra a vida; mas as tentativas de suicídio são
mais frequentes entre as mulheres. Talvez porque se contentem
o mais das vezes com comédias: representam o suicídio mais do
que o homem, querem-no mais raramente. Isso também, em
parte, porque os meios brutais lhes repugnam: quase nunca empregam armas brancas, nem armas de fogo. Afogam-se de bom
grado, como Ofélia, manifestando a afinidade da mulher com a
água passiva e noturna e na qual parece que a vida pode passivamente dissolver-se. Em conjunto, observa-se aqui a ambiguidade que já assinalei: a mulher não procura sinceramente largar
o que detesta. Representa o drama da ruptura, mas finalmente
fica com o homem que a faz sofrer; finge abandonar a vida que
a molesta mas é relativamente raro que se mate. Não gosta das soluções definitivas: protesta contra o homem, contra a vida, contra sua condição, mas não se evade.
[1] Ver Halbwachs, Les Causes du Suicide.
Há muitas condutas femininas que devem ser interpretadas como protestos. Vimos que muitas vezes a mulher engana o marido por desafio, não por prazer; será avoada e gastadora só porque ele é metódico e econômico. Os misóginos que acusam a mulher de "estar sempre atrasada" pensam que ela carece do "senso da exatidão". Na verdade, vimos como se dobra docilmente às exigências do tempo. Seus atrasos são deliberadamente consentidos. Certas coquetes acreditam exasperar assim o desejo do homem e dar tanto maior valor à própria presença; mas, infligindo ao homem alguns momentos de espera, a mulher protesta principalmente contra a longa espera que é a sua própria vida. Em certo sentido, toda a sua existência é uma espera, pois que está encerrada no limbo da imanência, da contingência e que sua justificação se acha sempre nas mãos de outrem; ela espera as homenagens, os sufrágios masculinos, espera o amor, a gratidão e os elogios do marido, do amante; espera deles suas razões de existir, seu valor e seu próprio ser. Deles espera a subsistência: que tenha em mãos o talão de cheques ou que receba semanal ou mensalmente as importâncias que o marido lhe outorga, é preciso que ele receba, que tenha conseguido esse aumento para que ela possa pagar ao vendeiro ou comprar um vestido novo. Ela espera a presença dele; sua dependência econômica coloca-a à disposição dele; ela é apenas um elemento da vida masculina ao passo que o homem é toda sua vida; o marido tem ocupações fora do lar, a mulher suporta-lhe a ausência ao longo dos dias; é o amante — ainda que apaixonado — que decide das separações e dos encontros de acordo com as obrigações que tem. Na cama, ela aguarda o desejo do homem, espera, por vezes ansiosamente, seu próprio prazer. Tudo o que pode fazer é chegar atrasada ao encontro marcado pelo amante, é não estar pronta na hora que o marido designou; ela afirma assim a importância de suas próprias ocupações, reivindica sua independência, torna a ser, por um momento, o sujeito essencial cuja vontade o outro suporta passivamente. Mas trata-se de tímidos revides; por mais que se obstine em fazer os homens "esperar", nunca compensará as horas infinitas que passa a vigiar, a esperar, a submeter-se ao bel-prazer do homem.
De maneira geral, embora reconhecendo, em conjunto, a
supremacia dos homens, aceitando-lhes a autoridade, adorando-lhes os ídolos, ela vai contestar-lhes o reinado palmo a palmo;
daí o famoso "espírito de contradição" que amiúde lhe censuraram; não possuindo um domínio autônomo, não pode opor
verdades, valores positivos aos que os homens afirmam; pode,
entretanto, negá-los. Sua negação é mais ou menos sistemática
segundo a maneira por que nela se dosam respeito e rancor. Mas
o fato é que ela conhece todas as falhas do sistema masculino e
se apressa em denunciá-las.
As mulheres não têm domínio sobre o mundo masculino porque sua experiência não lhes ensina a manejar a lógica e a técnica: inversamente, o poder dos instrumentos masculinos abole-se às fronteiras do domínio feminino. Há toda uma região da experiência humana que o homem escolhe deliberadamente ignorar porque malogra em pensá-la: essa experiência, a mulher a vive. O engenheiro, tão preciso quando faz seus planos, conduz-se, em casa, como um demiurgo: uma palavra e eis servida a refeição, suas camisas engomadas, seus filhos silenciosos; procriar é um ato tão rápido quanto o golpe de vara de Moisés; ele não se espanta com tais milagres. A noção de milagre difere da ideia de magia; ela põe, no seio de um mundo racionalmente determinado, a descontinuidade radical de um acontecimento sem causa contra o qual todo pensamento se esboroa; ao passo que os fenômenos mágicos são unificados por forças secretas cujo devir contínuo uma consciência dócil — ainda que sem o compreender — pode desposar. 0 recém-nascido é milagroso para o pai demiurgo, mágico para a mãe que lhe suportou o amadurecimento no ventre. A experiência do homem é inteligível, mas pontilhada de vazios; a da mulher é, em seus limites próprios, obscura mas plena. Essa opacidade fá-la pesada; em suas relações com ela, o homem parece-lhe leve; ele tem a leveza dos ditadores, dos generais, dos juízes, dos burocratas, dos códigos e dos princípios abstratos. É o que sem dúvida queria dizer essa dona de casa que murmurava um dia, dando de ombros: "Os homens não pensam!" Elas dizem também: "Os homens não sabem, não conhecem a vida". Ao mito da fêmea do louva-a-deus, elas opõem o símbolo do zângão frívolo e importuno.
Compreende-se que nessa perspectiva a mulher recuse a lógica masculina. Não somente esta não lhe perturba a experiência, como ela sabe ainda que nas mãos dos homens a razão se torna uma forma matreira de violência; as afirmações peremptórias deles destinam-se a mistificar. Querem encerrá-la em um dilema: ou estas de acordo, ou não estás; em nome de todo o sistema dos princípios admitidos, ela deve estar de acordo: recusando sua adesão, é todo o sistema que recusa; não pode permitir-se semelhante escândalo; não tem os meios de reconstruir outra sociedade: contudo, não adere a esta. A meio caminho entre a revolta e a escravidão, resigna-se a contragosto à autoridade masculina. É pela violência que se faz preciso, em cada ocasião, obrigá-la a endossar as consequências de sua submissão incerta. O homem persegue a quimera de uma companheira livremente escrava: quer que, cedendo-lhe, ela ceda à evidência de um teorema; mas sabe que ele próprio escolheu os postulados a que se prendem suas rigorosas deduções; enquanto ela evita rediscuti-las, ele lhe tapa facilmente a boca; nem por isso a convence, porquanto ela adivinha a arbitrariedade dessas deduções. Por isso ele a acusará com irritação e obstinação de ilogismo: mas ela recusa participar do jogo porque sabe que os dados são viciados.
As mulheres não têm domínio sobre o mundo masculino porque sua experiência não lhes ensina a manejar a lógica e a técnica: inversamente, o poder dos instrumentos masculinos abole-se às fronteiras do domínio feminino. Há toda uma região da experiência humana que o homem escolhe deliberadamente ignorar porque malogra em pensá-la: essa experiência, a mulher a vive. O engenheiro, tão preciso quando faz seus planos, conduz-se, em casa, como um demiurgo: uma palavra e eis servida a refeição, suas camisas engomadas, seus filhos silenciosos; procriar é um ato tão rápido quanto o golpe de vara de Moisés; ele não se espanta com tais milagres. A noção de milagre difere da ideia de magia; ela põe, no seio de um mundo racionalmente determinado, a descontinuidade radical de um acontecimento sem causa contra o qual todo pensamento se esboroa; ao passo que os fenômenos mágicos são unificados por forças secretas cujo devir contínuo uma consciência dócil — ainda que sem o compreender — pode desposar. 0 recém-nascido é milagroso para o pai demiurgo, mágico para a mãe que lhe suportou o amadurecimento no ventre. A experiência do homem é inteligível, mas pontilhada de vazios; a da mulher é, em seus limites próprios, obscura mas plena. Essa opacidade fá-la pesada; em suas relações com ela, o homem parece-lhe leve; ele tem a leveza dos ditadores, dos generais, dos juízes, dos burocratas, dos códigos e dos princípios abstratos. É o que sem dúvida queria dizer essa dona de casa que murmurava um dia, dando de ombros: "Os homens não pensam!" Elas dizem também: "Os homens não sabem, não conhecem a vida". Ao mito da fêmea do louva-a-deus, elas opõem o símbolo do zângão frívolo e importuno.
Compreende-se que nessa perspectiva a mulher recuse a lógica masculina. Não somente esta não lhe perturba a experiência, como ela sabe ainda que nas mãos dos homens a razão se torna uma forma matreira de violência; as afirmações peremptórias deles destinam-se a mistificar. Querem encerrá-la em um dilema: ou estas de acordo, ou não estás; em nome de todo o sistema dos princípios admitidos, ela deve estar de acordo: recusando sua adesão, é todo o sistema que recusa; não pode permitir-se semelhante escândalo; não tem os meios de reconstruir outra sociedade: contudo, não adere a esta. A meio caminho entre a revolta e a escravidão, resigna-se a contragosto à autoridade masculina. É pela violência que se faz preciso, em cada ocasião, obrigá-la a endossar as consequências de sua submissão incerta. O homem persegue a quimera de uma companheira livremente escrava: quer que, cedendo-lhe, ela ceda à evidência de um teorema; mas sabe que ele próprio escolheu os postulados a que se prendem suas rigorosas deduções; enquanto ela evita rediscuti-las, ele lhe tapa facilmente a boca; nem por isso a convence, porquanto ela adivinha a arbitrariedade dessas deduções. Por isso ele a acusará com irritação e obstinação de ilogismo: mas ela recusa participar do jogo porque sabe que os dados são viciados.
A mulher não pensa positivamente que a verdade seja outra
que aquilo que os homens pretendem; ela admite antes que a
verdade não é. Não é somente o devir da vida que a faz desconfiar do princípio de identidade, nem são os fenômenos mágicos
de que se acha cercada que arruínam a noção de causalidade:
é no próprio coração do mundo masculino, é em si, enquanto pertencendo a esse mundo, que apreende a ambiguidade de todo
princípio, de todo valor, de tudo o que existe. Sabe que a moral
masculina, no que lhe diz respeito, é uma vasta mistificação. O
homem acena-lhe pomposamente com seu código de virtude e
honra, mas em surdina incita-a a desobedecer: espera mesmo
essa desobediência; sem esta, toda a bela fachada atrás da qual ele se abriga desmoronaria.
O homem de bom grado se apoia na ideia hegeliana, segundo
a qual o cidadão adquire sua dignidade ética transcendendo-se
para o universal: enquanto indivíduo singular, tem direito ao
desejo, ao prazer. Suas relações com a mulher situam-se pois
numa região contingente em que a moral não mais se aplica, em
que as condutas são indiferentes. Com os outros homens, ele tem
relações em que se empenham valores; ele é uma liberdade enfrentando outras liberdades segundo leis que todos universalmente reconhecem; mas junto da mulher — ela foi inventada
para esse fim — ele deixa de assumir sua existência, entrega-se a
miragem do em-si, situa-se num plano inautêntico; mostra-se tirânico, sádico, violento, ou pueril, masoquista, queixoso; tenta
satisfazer suas obsessões, suas manias; "distende-se", "relaxa-se, em nome dos direitos que adquiriu em sua vida pública. Sua mulher assusta-se por vezes — como Thérèse Desqueyroux — com o
contraste entre o alto nível de suas palavras, de suas condutas públicas e "suas pacientes invenções de sombra".
Prega a repopulação e mostra-se hábil em não engendrar
mais filhos do que os que lhe convém. Exalta as esposas castas
e fiéis, mas incita ao adultério a mulher do vizinho. Vimos
com que hipocrisia os homens decretam que o aborto é criminoso, quando todos os anos na França um milhão de mulheres
são colocadas pelo homem em situação de precisarem abortar;
muitas vezes o marido ou o amante lhe impõe tal solução; muitas vezes eles supõem tacitamente que, em caso de necessidade, ela
será adotada. Esperam confessadamente que a mulher consentirá em tornar-se culpada de um delito: sua "imoralidade" é
necessária à harmonia da sociedade moral respeitada pelos homens. O exemplo mais flagrante dessa duplicidade é a atitude do
homem em face da prostituição: é sua procura que cria a oferta;
disse eu com que ceticismo enojado as prostitutas encaram os senhores respeitáveis que profligam o vício, mas demonstram muita
indulgência por suas manias pessoais; entretanto consideram perversas e debochadas as mulheres que vivem de seu corpo, não os
homens que os usam. Uma anedota ilustra esse estado de espírito:
no fim do século passado, a polícia descobriu num bordel duas
meninas de 12 a 13 anos; houve um processo em que elas depuseram; falaram de seus fregueses, que eram homens importantes;
uma delas abriu a boca para revelar um nome. O procurador deteve-a precipitadamente: Não suje o nome de um homem honesto!
Um senhor condecorado com a Legião de Honra continua um
homem de bem quando deflora uma menina; tem suas fraquezas,
quem não as tem? Ao passo que a menina que não atinge a região ética do universal — que não é um magistrado, nem um
general, nem um grande francês, mas apenas uma menina —
joga seu valor moral na região contingente da sexualidade; é
uma perversa, uma transviada, uma viciada, boa para uma casa
de correção. O homem pode, em muitos casos e sem macular
sua "dignidade", perpetrar em cumplicidade com a mulher atos
que para ela são condenáveis, enxovalhantes. Ela compreende
mal tais sutilezas; o que compreende é que o homem não age
de conformidade com os princípios que proclama e pede-lhe que
a estes desobedeça. Ele não quer o que diz querer: por isso não
lhe dá ela o que finge dar-lhe. Será uma esposa casta e fiel e às
escondidas cederá aos próprios desejos; será uma mãe admirável mas praticará cuidadosamente o biríh-control e, se necessário, irá
até o aborto. O homem oficialmente a condena, é a regra do
jogo; mas mostra-se reconhecido a uma pela sua "pequena virtude" e a outra pela sua esterilidade. A mulher desempenha o
papel desses agentes secretos que deixam fuzilar, se são presos
e que enchem de recompensas, se logram êxito; cabe a ela endossar toda a imoralidade dos homens: não é somente a prostituta,
são todas as mulheres que servem de esgoto ao palácio luminoso
e saudável em que habitam as pessoas honestas. Quando, em seguida, lhes falam de dignidade, de honra, de lealdade, de todas
as grandes virtudes viris, cumpre não se espantar que se recusem
a "ir na onda". Escarnecem particularmente quando os homens
virtuosos as censuram por serem interesseiras, comediantes, mentirosas¹: bem sabem que não lhes oferecem nenhuma outra
saída. O homem também "se interessa" pelo dinheiro, pelo êxito:
mas tem os meios de conquistá-los pelo trabalho; à mulher assinalaram um papel de parasita: todo parasita é necessariamente
um explorador; ela precisa do homem para adquirir dignidade
humana, para comer, gozar, procriar; é através dos serviços que
presta com o sexo que assegura as generosidades masculinas; e
como a encerram nessa função, ela se transforma inteiramente
num instrumento de exploração. Quanto às mentiras, salvo no
caso da prostituição, não se trata, entre ela e o protetor, de um
negócio franco. O próprio homem reclama que ela represente
uma comédia: quer que ela seja o Outro; mas todo existente,
por mais perdidamente que se renegue, permanece sujeito; ele
a quer objeto: ela faz-se objeto; no momento em que ela se
faz ser, exerce uma livre atividade; aí está sua traição original;
a mais dócil, a mais passiva é ainda consciência; basta, por vezes, que o homem se aperceba de que, entregando-se a ele, ela o
encara e julga, para que ele se sinta enganado; ela deve ser apenas uma coisa oferecida, uma presa. Entretanto, essa coisa, o
homem exige também que ela a entregue livremente: pede-lhe
que sinta prazer no leito, que lhe reconheça sinceramente a superioridade e os méritos no lar; no instante em que obedece, a
mulher deve, pois, fingir independência enquanto, em outros momentos, representa ativamente a comédia da passividade. Ela mente para reter o homem que lhe assegura o pão quotidiano:
cenas, lágrimas, transportes de amor, crises de nervos. E ela
mente também para escapar à tirania que por interesse aceita.
O homem a incita a comédias de que se aproveitam seu imperialismo e sua vaidade: ela volta contra ele seus poderes de dissimulação; consegue também revides duplamente deliciosos: por
que enganando-o, satisfaz desejos singulares, experimenta o prazer de achincalhá-lo. A esposa, a cortesã mentem fingindo sensações que não têm; depois, divertem-se com um amante, com
amigas, zombando da ingênua vaidade de sua vítima: "Não somente eles falham, como ainda querem que nos cansemos de gritar de prazer", dizem com rancor. Tais conversas assemelham-se
às das criadas que, na copa, falam mal dos patrões. A mulher
tem os mesmos defeitos porque é vítima da mesma opressão paternalista; tem o mesmo cinismo, porque vê o homem de baixo
para cima, como o lacaio vê o patrão. Mas é claro que nenhum
de seus traços manifesta uma essência ou uma vontade original
pervertidas: refletem uma situação. "Há falsidade sempre que há
regime coercivo", diz Fourier. "A proibição e o contrabando são
inseparáveis, no amor como no comércio." E os homens sabem
tão bem que os defeitos da mulher manifestam a condição dela,
que, preocupados com manter a hierarquia dos sexos, incentivam,
em suas companheiras, os próprios traços que lhes permitem desprezá-las. Sem dúvida, o marido, o amante irritam-se com as
taras da mulher singular com quem vivem; entretanto, propugnando os encantos da feminilidade em geral, eles a imaginam
inseparável de tais taras. Se não é pérfida, fútil, covarde, indolente, a mulher perde sua sedução. Na Casa das Bonecas, Helmer
explica o quanto o homem se sente justo, forte, compreensivo, indulgente, quando perdoa as faltas pueris da frágil mulher. Assim
também os maridos de Bernstein se enternecem — com a cumplicidade do autor — diante da mulher ladra, má, adúltera; eles
medem, debruçando-se sobre ela com indulgência, a própria sabedoria viril. Os racistas americanos e os colonos franceses, desejam também que o negro se mostre gatuno, preguiçoso, mentiroso: com isso prova sua indignidade, põe o direito do lado dos
opressores; se se obstina em ser honesto, leal, olham-no como um
revoltado. Os defeitos da mulher exageram-se, pois, tanto mais
quanto ela tenta não combatê-los mas, ao contrário, faz deles um
adorno.
[1] "Todas com esse arzinho delicado de santa, acumulado por
todo um passado de escravidão, sem outra arma de salvação e ganha--pão senão esse ar sedutor involuntário que aguarda a hora propícia."
(Jules Laforgue.)
continua página 381...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (3)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"