quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Poço e o Pêndulo (a)

Edgar Allan Poe - Contos


O Poço e o Pêndulo 

Aqui por muito tempo os impiedosos torturadores nutriram 
o insaciável furor da turba pelo sangue dos inocentes. 
Agora que a pátria está a salvo, e o antro fúnebre foi destruído, 
onde antes havia morte surgem vida e bem-estar.
(Quadra composta para os portões de um mercado a ser erguido 
no local onde ficava o Clube dos Jacobinos, em Paris.)

     Eu estava esgotado — mortalmente esgotado por aquela longa agonia; e quando enfim me desataram, e foi-me dada a permissão de sentar, percebi que os sentidos me faltavam. A sentença — a pavorosa sentença de morte — foi a última de distinta articulação a chegar aos meus ouvidos. Depois disso, o som das vozes inquisitoriais pareceu fundir-se em um único murmúrio vago e onírico. Ele transmitia à alma a ideia de rotação — talvez por associar-se em minha imaginação ao rumor de uma roda de moinho. Isso por um curto período, apenas; pois em breve nada mais ouvi. E contudo, por um tempo, eu vi; mas com que terrível exagero! Vi os lábios dos juízes em seus mantos negros. Pareceram-me brancos — mais brancos que a folha em que traço estas palavras — e finos ao ponto mesmo do grotesco; finos com a intensidade de suas expressões de intransigência — de inamovível determinação — de austero desprezo pelo suplício humano. Vi que os decretos do que para mim era o Destino ainda saíam por aqueles lábios. Vi que se contorciam em mortal elocução. Vi que formavam as sílabas do meu nome; e estremeci, pois som nenhum adveio. Vi também, por alguns momentos de horror delirante, a suave e quase imperceptível ondulação dos reposteiros cor de sable que revestiam as paredes da sala. E então meu olhar recaiu sobre as sete velas altas em cima da mesa. No início, exibiam o aspecto da caridade, e pareciam esguios anjos brancos que me salvariam; mas então, de repente, a náusea mais mortífera tomou conta de meu espírito, e senti cada fibra do corpo vibrar como se eu houvesse tocado o io de uma pilha galvânica, enquanto as formas angelicais tornavam-se espectros sem sentido, com cabeças de fogo, e vi que dali nenhum conforto adviria. E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo. O pensamento se insinuou vagaroso e furtivo, e pareceu transcorrer longo tempo antes que atingisse a plena apreciação; mas no exato momento em que meu espírito enfim o sentiu e o acolheu propriamente, as figuras dos juízes desvaneceram, como que por mágica, diante de meus olhos; as longas velas mergulharam no vazio; suas chamas se extinguiram por completo; o negror das trevas sobreveio; todas as sensações pareceram tragadas num assalto violento e furioso como o da alma pelo Hades. Então o universo se tornou silêncio, imobilidade e noite.
     Desmaiara; mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo — não! No delírio — não! Em um desmaio — não! Na morte — não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia), não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloquentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é — o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba? Mas e se as impressões do que denominei como primeiro estágio não são, voluntariamente, recordadas, acaso, após um longo intervalo, elas não voltam mesmo sem ser convidadas, enquanto imaginamos admirados de onde podem ter surgido? Aquele que jamais desfaleceu, não é ele que encontra palácios estranhos e rostos perturbadoramente familiares nas brasas incandescentes; não é ele que contempla, flutuando em pleno ar, as tristes visões que à maioria são vedadas; não é ele que pondera sobre o perfume de alguma flor incomum — não é ele cujo cérebro fica mais e mais atônito com o significado de alguma cadência musical que nunca antes prendeu sua atenção.
     Em meio aos frequentes e diligentes esforços por lembrar; em meio às obstinadas lutas para recuperar alguma recordação do estado de aparente inexistência em que minha alma mergulhara, houve momentos em que sonhei com o êxito; houve períodos breves, muito breves, em que conjurei lembranças que, segundo me assegura a razão lúcida de uma época posterior, poderiam referir-se apenas àquela condição de aparente inconsciência. Essas sombras de memória evocam, vagamente, figuras altas que me ergueram e me carregaram em silêncio, descendo — descendo — descendo mais —, até que uma medonha vertigem me oprimiu ante a mera ideia da natureza interminável da descida. Evocam também um vago horror em meu coração, por conta da anormal tranquilidade desse mesmo coração. Então segue-se uma sensação de súbita imobilidade de todas as coisas; como se aqueles que me carregavam (um cortejo espectral!) houvessem ultrapassado, em sua descida, os limites do ilimitado, e parado com a exaustão do esforço hercúleo. Depois disso vêm-me à mente horizontalidade e umidade; e então tudo é insanidade — a insanidade de uma lembrança se insinua em meio a coisas proibidas.
     Muito subitamente regressaram-me à alma movimento e som — o tumultuoso movimento do coração e, aos meus ouvidos, o som de seu batimento. Então uma pausa em que tudo é vácuo. Então outra vez som, e movimento, e tato — uma sensação de formigamento permeando meu corpo. Então a mera consciência da existência, sem pensamento — condição que durou longamente. Então, muito subitamente, pensamento, e trêmulo terror, e obstinado esforço de compreender meu verdadeiro estado. Então um forte desejo de mergulhar na insensibilidade. Então uma violenta reanimação da alma e um vitorioso esforço de me mover. E depois a completa lembrança do julgamento, dos juízes, dos negros reposteiros, da sentença, do esgotamento, do desfalecimento. Então o total esquecimento de tudo que se seguiu; de tudo que um dia posterior e grande obstinação de esforço possibilitaram-me vagamente recordar.
     Até esse momento, eu não abrira os olhos. Senti que jazia de costas, desatado. Estiquei a mão, e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa úmida e dura. Deixei-me aí ficar por vários minutos, enquanto me empenhava em imaginar onde e no que podia estar. Ansiava, e contudo não ousava, empregar a visão. Aterrorizava-me o impacto inicial dos objetos em torno de mim. Não que eu temesse ver coisas horríveis, mas fui invadido por um crescente pavor de não haver nada para ver. Finalmente, com descontrolado desespero no coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. O negror da noite eterna me engolfava. Lutei para respirar. A intensidade das trevas parecia me oprimir e sufocar. A atmosfera era intoleravelmente opressiva. Continuei deitado, imóvel, e esforcei-me por exercitar a razão. Evoquei em minha mente o processo inquisitorial, e tentei a partir desse ponto inferir minha real condição. A sentença fora proferida; e a mim me pareceu que um intervalo muito longo de tempo transcorrera desde então. Contudo, nem sequer por um momento supus que estivesse morto de fato. Tal suposição, não obstante o que lemos na ficção, é completamente inconsistente com a existência real; — mas onde e em que estado eu me encontrava? Os condenados à morte, eu sabia, eram normalmente executados nos autos de fé, e um desses fora realizado na exata noite de meu julgamento. Estaria eu sendo mantido sob custódia em meu calabouço, a fim de aguardar o sacrifício seguinte, que não teria lugar senão dali a muitos meses? Percebi na mesma hora que tal não podia ser. As vítimas haviam sido reclamadas de imediato. Além do mais, meu calabouço, assim como as celas de todos os condenados em Toledo, tinha piso de pedra, e a luz não era completamente excluída.
     Uma assustadora ideia agora de repente fez o sangue fluir incontrolavelmente em meu coração e, por um breve período, mais uma vez recaí na insensibilidade. Assim que me recuperei, fiquei de pé na mesma hora, tremendo convulsivamente em cada fibra. Agitei os braços freneticamente acima e em torno de mim, em todas as direções. Nada senti; contudo, hesitava em dar um passo, com receio de ser bloqueado pelas paredes de uma tumba. O suor brotava de cada poro, e formava grossas gotas em minha fronte. A agonia do suspense cresceu até se tornar intolerável e cuidadosamente me movi para a frente, com os braços estendidos, e meus olhos esforçando-se em suas órbitas, na esperança de captar algum débil raio de luz. Avancei vários passos; mas o negror e o vazio continuaram. Respirei mais facilmente. Parecia evidente que o meu não era, ao menos, o mais hediondo dos destinos.
     E então, conforme continuava a andar cautelosamente adiante, invadiu me a memória, num tropel, uma infinidade de vagos rumores sobre os horrores de Toledo. Daqueles calabouços estranhas coisas se contavam — fábulas, eu sempre as reputara —, porém por demais estranhas, e por demais macabras, para serem repetidas, salvo num sussurro. Teria sido eu deixado para morrer de fome nesse mundo subterrâneo de trevas; ou que destino, talvez ainda mais assustador, me aguardava? Que o resultado seria a morte, e morte de uma pungência mais do que costumeira, eu conhecia bem demais o caráter de meus juízes para duvidar. O modo e o momento eram tudo que me ocupava ou distraía.
     Minhas mãos estendidas enfim encontraram alguma obstrução sólida. Era uma parede, em alvenaria de pedra, aparentemente — muito lisa, musgosa e fria. Acompanhei sua superfície; pisando com toda a cuidadosa desconfiança que determinados relatos antigos haviam me inspirado. Esse processo, entretanto, não me possibilitou meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; uma vez que podia completar seu circuito, e regressar ao ponto onde começara, sem dar-me conta do fato; tão perfeitamente uniforme parecia a parede. Procurei desse modo a faca que havia em meu bolso, quando levado à câmara inquisitorial; mas ela se fora; minhas roupas haviam sido trocadas por um camisolão de sarja grosseira. Meu pensamento fora forçar a lâmina em alguma minúscula fenda da alvenaria, de modo a identificar o ponto de partida. A dificuldade, todavia, era apenas trivial; muito embora, na desordem de minha imaginação, parecesse em princípio insuperável. Rasguei um pedaço da bainha em meu robe e dispus a tira de comprido, em ângulo reto com a parede. Ao tatear meu caminho em torno da prisão, não teria como deixar de encontrar o trapo quando completasse o circuito. Assim, ao menos, raciocinei: mas eu não contara com a extensão do calabouço, ou com minha própria debilidade. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleei para a frente por algum tempo, até pisar em falso e cair. Minha fadiga excessiva induziu-me a permanecer prostrado; e ali deitado o sono em breve se apossou de mim.
     Ao despertar, e esticando um braço, encontrei ao meu lado um pão e uma jarra com água. Estava exausto demais para refletir sobre essa circunstância, mas comi e bebi com avidez. Pouco depois, retomei meu reconhecimento do circuito da prisão, e com grande labor, cheguei enfim ao pedaço de sarja. Até o momento de minha queda, eu contara cinquenta e dois passos, e, após retomar minha caminhada, contara quarenta e oito mais — quando cheguei ao pedaço de pano. Havia ao todo, desse modo, cem passos; e, considerando cada dois passos como um metro, inferi que o calabouço tinha um perímetro de cem metros. Eu havia topado, entretanto, com muitos ângulos na parede, e assim não podia formar suposição alguma sobre o formato da cripta; pois uma cripta era o que eu não podia deixar de supor que fosse.
     Eu tinha pouco propósito — certamente nenhuma esperança — nessas investigações; mas uma vaga curiosidade impeliu-me a continuá-las. Deixando por ora a parede, decidi cruzar a área de meu cárcere. No início, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente de material sólido, era traiçoeiro devido ao musgo. Finalmente, entretanto, tomei coragem, e não hesitei em pisar com firmeza — empenhando-me em atravessar numa linha a mais reta possível. Avançara dez ou doze passos dessa maneira quando o que restava da bainha rasgada em meu robe enroscou-se entre minhas pernas. Pisei nela e caí violentamente de bruços.
     Na confusão, preocupando-me com minha queda, não me dei conta imediatamente de uma circunstância um tanto alarmante, que contudo, poucos segundos depois, e enquanto eu ainda jazia prostrado, prendeu minha atenção. Foi o seguinte: meu queixo estava pousado no chão da prisão, mas meus lábios, e a parte superior de minha cabeça, embora aparentemente com uma elevação inferior à do queixo, não tocavam coisa alguma. Ao mesmo tempo, minha testa parecia banhada em um vapor viscoso, e o odor peculiar de fungo em decomposição subia às minhas narinas. Estiquei o braço, e estremeci ao descobrir que caíra bem na beirada de um poço circular, cuja extensão, é claro, eu não tinha meios de averiguar no momento. Tateando a alvenaria logo abaixo da extremidade, consegui deslocar um pequeno fragmento, e deixei que caísse no abismo. Por vários segundos, estiquei os ouvidos para suas reverberações conforme colidia contra as laterais da garganta em sua queda: finalmente, sobreveio um lúgubre mergulho na água, seguido de ecos elevados. No mesmo instante, escutei um ruído similar ao de uma porta no alto sendo rapidamente aberta, e prontamente fechada, enquanto um tênue raio de luz tremeluziu subitamente através da escuridão, e subitamente sumiu.
     Enxerguei claramente a sina que me havia sido preparada e dei graças em silêncio pelo oportuno acidente que me possibilitara dela escapar. Mais um passo antes de minha queda, e o mundo não mais me veria. E a morte que acabara de evitar era exatamente o que eu costumava encarar como a típica história fantasiosa e pitoresca relativa à Inquisição. Às vítimas de sua tirania cabia a escolha da morte com suas mais desesperadoras agonias ou da morte com seus mais hediondos horrores morais. A mim fora reservada esta última. O longo sofrimento abalara meus nervos, a ponto de eu estremecer ao som de minha própria voz e me tornar em todos os aspectos uma vítima sob medida para as variedades de tortura que me aguardavam.
     Tremendo em cada membro do corpo, tateei meu caminho de volta à parede — determinado a aí perecer, em lugar de me arriscar aos terrores dos poços cuja existência eu agora imaginava haver em variados pontos espalhados pelo calabouço. Em outras condições de espírito, talvez tivesse a coragem de dar cabo de minha miséria na mesma hora, mergulhando num daqueles abismos; mas nesse momento eu era o mais rematado dos covardes. E tampouco esquecia o que havia lido a respeito desses poços — que a extinção súbita da vida não fazia parte de seu mais horrendo desígnio.
     A agitação de espírito manteve-me acordado por muitas horas intermináveis; mas finalmente voltei a adormecer. Ao despertar, descobri ao meu lado, como antes, um pão e uma jarra de água. Uma sede excruciante me consumia, e esvaziei o recipiente de um só trago. Devia haver alguma droga ali — pois, mal terminei de beber, senti um torpor irresistível. Um sono profundo se apossou de mim — um sono que era como a morte. Quanto tempo durou é algo que decerto não sei dizer; mas quando, mais uma vez, abri os olhos, os objetos em torno de mim estavam visíveis. Por meio de uma fulguração difusa e sulfurosa, cuja origem não pude inicialmente determinar, fui capaz de ver a extensão e o aspecto da prisão.
     Quanto ao tamanho eu me equivocara redondamente. O perímetro completo de suas paredes não excedia os vinte e cinco metros. Por alguns minutos, o fato ocasionou-me um mundo de vãs preocupações; vãs, de fato — pois o que podia ser menos importante, nas terríveis circunstâncias em que me encontrava, do que as meras dimensões de meu calabouço? Mas minha alma assumiu um descontrolado interesse em banalidades e concentrei-me diligentemente em esclarecer o erro que havia cometido ao fazer minhas medições. A verdade enfim se me afigurou. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinquenta e dois passos até o momento da queda: eu devia ali estar a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, eu praticamente completara o perímetro da cripta. E então adormeci — e, ao acordar, devo ter refeito meus passos —, pressupondo assim o perímetro como tendo quase o dobro do que de fato tinha. Minha confusão mental impediu-me de observar que iniciei o percurso tendo a parede à esquerda, e que o terminei com a parede à minha direita.
     Eu havia sido iludido, também, com respeito à forma do cárcere. Tateando meu caminho, topara com diversos ângulos, e assim inferi uma ideia de grande irregularidade; tão poderoso é o efeito da escuridão absoluta ao despertarmos da letargia ou do sono! Os ângulos nada mais eram que umas poucas depressões ligeiras, ou nichos, a intervalos variáveis. O formato geral da prisão era quadrado. O que eu tomara por alvenaria parecia agora ser ferro, ou algum outro metal, em imensas placas, cujas suturas ou junções ocasionavam a depressão. A superfície inteira do recinto de metal estava grosseiramente pintada com todas essas lucubrações hediondas e repulsivas às quais a sepulcral superstição dos monges havia dado origem. Figuras diabólicas em posturas ameaçadoras, com formas esqueléticas e outras imagens de fato ainda mais assustadoras, espalhavam-se e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos das monstruosidades eram suficientemente distintos, mas que as cores pareciam esmaecidas e borradas, como que por efeito da umidade da atmosfera. Eu agora notava também o chão, que era de pedra. No centro esbeiçava-se o poço circular de cujas mandíbulas eu escapara; mas era o único no calabouço.

continua página 49...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Moby Dick: 72 - A corda de macaco

Moby Dick

Herman Melville

72 - A corda de macaco

     No trabalho tumultuado de cortar e de cuidar da baleia, há muita correria de lá para cá em meio à tripulação. Ora os marinheiros são necessários em um lugar, ora são chamados em outro lugar. Ninguém para em lugar algum; pois tudo tem de ser feito ao mesmo tempo e em toda parte. Acontece o mesmo com quem pretende descrever a cena. É preciso que voltemos um pouco. Foi mencionado que antes de começar a cortar o dorso da baleia se coloca um gancho no buraco original feito pelas pás dos imediatos. Mas como se pode fixar o gancho no buraco de um volume tão desajeitado e pesado? Ele foi colocado ali pelo meu dileto amigo Queequeg, cujo dever, como arpoador, era subir no dorso do monstro com o referido propósito. Mas em muitos casos as circunstâncias exigem que o arpoador permaneça na baleia até que a operação de despelar e de esfolar termine. A baleia, bom que se observe, está quase inteiramente submersa, salvo as partes nas quais se está trabalhando. Ali, portanto, a dez pés abaixo do nível do convés, o pobre arpoador mal se sustenta, parte sobre a baleia e parte na água, enquanto a enorme massa se revolve como um moinho abaixo dele. Nessa presente ocasião, Queequeg vestia roupas da Highland – uma saia e meias– nas quais aos meus olhos, pelo menos, parecia insolitamente elegante; e ninguém teve oportunidade melhor de observá-lo, como se verá em seguida.
     Sendo o proeiro do selvagem, ou seja, o sujeito que manobrava o remo de proa em seu bote (o segundo da frente para trás), era meu prazeroso dever ajudá-lo em sua difícil escalada sobre o dorso da baleia morta. Você já viu meninos italianos tocadores de realejo segurando um macaquinho com um cordão comprido. Do mesmo jeito, do costado íngreme do navio, segurei Queequeg lá embaixo no mar, por meio do que, na pescaria, é tecnicamente chamado de corda de macaco, presa a um cinto de lona forte amarrado ao redor de sua cintura.
     Era uma tarefa engraçada e perigosa para nós dois. Pois, antes de prosseguir, é preciso dizer que a corda de macaco estava presa às duas extremidades; presa ao cinto largo de lona de Queequeg e presa ao meu cinto estreito de couro. De modo que, para o bem ou para o mal, nós dois, naquele momento, estávamos unidos; e caso o coitado do Queequeg afundasse para não voltar mais, tanto o costume quanto a honra exigiam que, em vez de cortar a corda, ela deveria me arrastar junto a ele. Assim, portanto, uma alongada ligadura Siamesa nos unia. Queequeg era meu inseparável irmão gêmeo; nem podia eu, de forma alguma, livrar-me das perigosas responsabilidades que o liame de cânhamo envolvia.
     De modo tão intenso e metafísico eu compreendia minha situação que, enquanto vigiava diligentemente seus movimentos, parecia perceber com clareza que minha própria individualidade havia se fundido com outra numa sociedade conjunta de ações: que meu livre-arbítrio recebera um golpe mortal; e que o erro ou azar do outro poderia me dragar, um inocente como eu, para um desastre ou morte imerecida. Consequentemente, vi que aquilo era uma espécie de interregno da Providência; pois sua justiça sempre presente jamais poderia ter sancionado uma injustiça tão flagrante. E seguindo adiante em meus pensamentos – enquanto às vezes o puxava de entre a baleia e o navio, que ameaçava esmagá-lo –, repito, seguindo adiante em meus pensamentos, percebi que essa minha situação era rigorosamente igual à de todo mortal que respira; apenas, na maioria dos casos, de um modo ou de outro ele tem essa ligação Siamesa com vários outros mortais. Se seu banqueiro falir, você quebra; se seu boticário por engano colocar veneno em suas pílulas, você morre. Claro, você pode achar que, com extremo cuidado, possivelmente se escapa dessas e de uma infinidade de outras fatalidades da vida. Mas, mesmo lidando tão cuidadosamente com a corda de macaco de Queequeg quanto possível, às vezes ele lhe dava trancos tão fortes que fiquei muito perto de cair para fora do barco. Tampouco podia esquecer que, fizesse o que fosse, eu tinha apenas o controle de uma das suas pontas.¹

[1] Todos os navios baleeiros têm cordas de macacos, mas apenas no Pequod o macaco e seu auxiliar ficavam amarrados dessa forma. O aperfeiçoamento do costume original foi feito por ninguém menos do que Stubb, para proporcionar ao arpoador em perigo uma garantia quanto à fidelidade e à vigilância de seu auxiliar com a corda. [N. A.]

     Antes dei a entender que tinha de puxar com frequência o coitado do Queequeg de entre a baleia e o navio – onde vez por outra caía por conta do incessante balançar e rolar de ambos. Mas esse não era o único risco de ser esmagado a que estava exposto. Em nada amedrontados pelo massacre perpetrado à noite, os tubarões, refeitos em suas forças e ainda mais atraídos pelo sangue outrora encerrado que começava a fluir da carcaça as furiosas criaturas se aglomeravam em torno da carcaça como abelhas em torno da colmeia.
     E bem no centro desses tubarões estava Queequeg; que muitas vezes tentava afastá-los batendo com seus pés instáveis. Uma coisa incrível é que, se não atraído por uma presa como uma baleia morta, o de outro modo ecumenicamente carnívoro tubarão raras vezes ataca o homem.
     Não obstante, pode-se bem acreditar que, uma vez que tivessem se posto ali com tanta voracidade, seria prudente ficar bem atento a eles. Portanto, além da corda de macaco, com a qual vez por outra eu puxava o pobre coitado para afastá-lo das imediações de uma goela que pudesse pertencer a um tubarão especialmente feroz – ele ainda dispunha de outra proteção. Suspensos junto ao costado numa das plataformas, Tashtego e Daggoo brandiam sem parar duas afiadas pás de baleia sobre sua cabeça, com as quais abatiam tantos tubarões quantos pudessem alcançar. Era certo que tal gesto viesse da benevolência e da abnegação desses homens. Eles queriam o bem de Queequeg, tenho de concordar; mas em sua ânsia precipitada de ajudá-lo, e porque Queequeg e os tubarões, por vezes, ficavam às vezes meio escondidos na água turvada de sangue, aquelas suas pás imprudentes pareciam mais propensas a amputar uma perna do que uma cauda. Mas ao coitado do Queequeg, imagino eu, arfando e entregando toda sua força àquele gancho de ferro imenso – ao coitado do Queequeg, imagino eu, só lhe restou rezar para seu Yojo e entregar a própria vida às mãos de seus deuses.
     Bem, bem, meu dileto amigo e irmão gêmeo, pensei eu, enquanto trazia e então lentamente soltava a corda a cada onda do mar – o que importa, afinal de contas? Você não é a preciosa imagem de todos nós, homens, nesse mundo baleeiro? O oceano insondável no qual você está ofegante é a Vida; aqueles tubarões, seus inimigos; aquelas pás, seus amigos; e entre tubarões e pás você está em aperto e apuro, meu pobre rapaz.
     Mas, coragem! Um estoque de alegria ainda te aguarda, Queequeg. Pois quando, de lábios azuis e olhos vermelhos de sangue, o exausto selvagem por fim subiu pelas correntes, ele inteiro pingando e tremendo sobre o costado; o camareiro avança, e com um olhar benevolente e consolador lhe oferece – O quê? Um conhaque quente? Não! Ó, deuses, não! Ele lhe oferece uma xícara de gengibre quente com água!

“Gengibre? É cheiro de gengibre?”, perguntou Stubb, desconfiado, aproximando-se. “Sim, deve ser gengibre”, espiando a ainda intocada xícara. Depois, parado por uns instantes como se não acreditasse, seguiu calmamente na direção do camareiro estupefato dizendo-lhe pausadamente: “Gengibre? Gengibre? Quer ter a bondade de me explicar, senhor Dough-Boy, de que serve o gengibre? Gengibre! Seria o gengibre uma espécie de combustível que se usa, Dough-Boy, para acender o fogo desse canibal trêmulo? Gengibre! – Que diabos vem a ser o gengibre? Carvão do mar? – Lenha? – Fósforos de Lúcifer? – Isca? – Pólvora? – O que vem a ser esse gengibre, repito, que você oferece a este nosso coitado Queequeg?”.
“Há um movimento dissimulado da Sociedade da Abstinência nisso”, acrescentou de repente, aproximando-se de Starbuck, que acabava de chegar da proa. “O senhor poderia dar uma olhada nesta kannakin; por favor, sinta o cheiro.” Depois, observando a expressão do oficial, acrescentou: “Senhor Starbuck, o camareiro teve o desplante de oferecer calomelano com jalapa ao Queequeg, aqui, neste instante saído da baleia. Seria o camareiro um boticário, senhor? Posso saber se isso é um tipo de fole com o qual espera trazer de volta a respiração de um homem que quase se afogou?
“Não creio que seja”, disse Starbuck, “é muito pouca coisa.”
“Sim, sim, camareiro”, gritou Stubb, “vamos lhe ensinar como medicar um arpoador; nada desses seus remédios de boticário aqui; queres nos envenenar, não é? Tens apólices de seguro sobre nossas vidas e quer nos assassinar a todos para embolsar a grana, não é?”
“Não fui eu!”, gritou Dough-Boy, “Foi a tia Charity que trouxe o gengibre a bordo; e ordenou-me que nunca desse álcool aos arpoadores, apenas um trago de gengibre – como ela mesma disse.”
“Trago de gengibre! Seu tratante de gengibre! Toma isto! Corre para os armários e me traz algo melhor. Espero não estar errado, senhor Starbuck. São ordens do capitão – grog para o arpoador que vier da baleia.”
“Basta”, respondeu Starbuck, “não batas nele outra vez, senão –”
“Oras, eu nunca machuco quando bato, a não ser que seja uma baleia ou algo parecido; esse sujeito é uma fuinha. O que o senhor dizia?”
“Apenas isto: desce com ele e pega o que tu queres.”

     Quando Stubb voltou, veio com um frasco escuro numa mão, e uma espécie de caixa de chá na outra. O primeiro continha uma bebida forte e foi entregue a Queequeg; a segunda era o presente de tia Charity, que foi oferecido gratuitamente às ondas.

continua na página 351...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 70 - A esfinge / 71 - A história de Jerobão / 72 - A corda de macaco /                                
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

Tchekhov - A dama do cachorrinho (IV)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

IV

     Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo. Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo tempo. Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.
     Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera, ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado, pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho. Caía uma neve graúda, molhada.

- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai neve - dizia Gurov à filha. - Mas este calor existe somente na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera há uma temperatura bem inferior.
- Papai, e por que não há trovões no inverno?

     Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os que o queriam, repassada de verdade e de mentiras convencionais, completamente semelhante às vidas de seus conhecidos e amigos, e outra que decorria em segredo. E por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior", a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso era aparente. E julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o manto da noite, a sua vida autêntica e mais interessante. Cada existência individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver respeitado o mistério individual.
     Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida, olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como se não se tivessem visto uns dois anos.

- Bem, como vai a tua vida lá?- perguntou ele. Que há de novo?
- Espere, vou dizer daqui :a pouco... Não posso.

     Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça e apertou o lenço contra os olhos.
     
"Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.

     Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões! Não estava destruída a vida de ambos?

- Ora, basta!- disse Gurov.

     Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.
     Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele momento, viu-se no espelho.
     A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor.
     E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez na vida.
     Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos. Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e era incompreensível por que ele estava casado e ela também. Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele amor os transformara.
     Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...

- Basta, minha boa, menina. - dizia ele - Chorou e chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma ideia.
- Corno? Como?- perguntava ela, pondo as mãos à cabeça. - Como?

     Tinham a impressão de que mais um pouco encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.

(1899)
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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV).     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (VII. Uma controvérsia)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
VII
UMA CONTROVÉRSIA
  
     Ora, a burra de Balaão pôs-se a falar de repente e a respeito de um tema estranho. De manhã, achando se Gregório na venda do comerciante Lukiánov, ouviu-o contar o seguinte: um soldado russo foi feito prisioneiro, numa região afastada, por asiáticos que o intimaram, sob ameaça de tortura e morte, a abjurar o cristianismo e a converter-se ao Islão. Tendo recusado trair sua fé, sofreu o martírio, deixou-se esfolar, morreu glorificando o Cristo. Esse fim heroico era relatado no jornal recebido naquela mesma manhã. Gregório falou disso à mesa. 
     Fiódor Pávlovitch sempre gostara, à sobremesa, de brincar e tagarelar, mesmo com Gregório. 'Estava desta vez de humor jovial, sentindo um relaxamento agradável. 
     Depois de ter escutado a notícia, bebericando seu conhaque, insinuou que deveriam ter canonizado aquele soldado e transferido sua pele para um mosteiro. "O povo cobri-la-ia de dinheiro." Gregório fechou a cara, vendo que Fiódor Pávlovitch, longe de se emendar, continuava a zombar das coisas santas.
     Naquele momento, Smierdiákov, que se mantinha perto da porta, sorriu. Já antes era muitas vezes admitido na sala de jantar, ao fim da refeição. Desde a chegada de Ivã Fiódorovitch, ali comparecia quase diariamente.

— Pois bem? O quê? — perguntou Fiódor Pávlovitch, compreendendo que aquele sorriso visava a Gregório.
— Penso naquele bravo soldado — disse, de repente, Smierdiákov, em voz alta. — Seu heroísmo é sublime, mas na minha opinião não teria havido, em semelhante caso, nenhum pecado em renegar o nome do Cristo e o batismo, para assim salvar sua vida e consagrá-la às boas obras, que resgatariam um momento de fraqueza.
— Como, nenhum pecado? Mentes; isto te valerá ir para o inferno, onde te assarão como a um carneiro — replicou Fiódor Pavlovitch.

     Foi então que chegou Aliócha, para grande satisfação de Fiódor Pavlovitch, como se viu.

— Trata-se de teu tema favorito — continuou ele, com um riso de escárnio, fazendo Aliócha sentar-se.
— Tolices tudo isso, não haverá nenhuma punição, não deve haver, em toda justiça — afirmou Smierdiákov.
— Como em toda justiça? — exclamou Fiódor Pavlovitch, redo- brando de alegria e empurrando Aliócha com os joelhos.  
— Um desavergonhado, eis o que ele é! — deixou escapar Gregório, fitando Smierdiákov com cólera. 
— Quanto a isso de desavergonhado, refreie-se, Gregório Vassílievitch! — replicou Smierdiákov, conservando seu sangue-frio. — Pense antes que, caído em poder dos que torturam os cristãos, e intimado por eles a maldizer o nome de Deus e renegar meu batismo, minha própria razão me autoriza a isso plenamente, porque não pode haver aí nenhum pecado. 
— Já o disseste, não divagues, mas prova-o! — gritou Fiódor Pavlovitch. 
— Queima-panelas! — murmurou Gregório com desprezo.
— Queima-panelas, espere um pouco, e sem palavrões, julgue você mesmo, Gregório Vassílievitch. Porque, logo que dissesse a meus carrascos: "Não, não sou cristão e maldigo o verdadeiro Deus", tornar-me-ia anátema aos olhos da justiça divina, seria separado da santa Igreja, como um pagão, de sorte que, no instante mesmo, não de proferir essas palavras, mas de pensar em proferi-las, estou excomungado, não é verdade, sim ou não, Gregório Vassílievitch? — Smierdiákov dirigia-se com satisfação visível a Gregório, embora respondendo somente às perguntas de Fiódor Pavlovitch; dava-se perfeitamente conta disso, mas fingia crer que era Gregório quem lhe fazia tais perguntas. 
— Ivã! — exclamou Fiódor Pavlovitch. — Chega perto de meu ouvido. Toda essa peroração dele é para ti, quer receber teus elogios. Dá- lhe esse prazer.

     Ivã ouviu com grande seriedade a observação de seu pai.

— Espera um minuto, Smierdiákov — continuou Fiódor Pavlovitch. — Ivã, aproxima-te de novo.

     Ivã inclinou-se, sempre com o mesmo ar sério.

— Amo-te tanto quanto a Aliócha. Não vás crer que não te amo. Um pouco de conhaque?

— De boa vontade. "Tu pareces já ter passado da conta", disse Ivã a si mesmo, fitando o pai. Observava Smierdiákov com extrema curiosidade.
— Já és agora maldito e anátema — explodiu Gregório — e como ousas, depois disso, desavergonhado, discutir se...
— Nada de injúrias, Gregório, acalma te! — interrompeu-o Fiódor Pavlovitch.
— Tenha paciência, Gregório Vassílievitch, ainda que seja um momentinho, e continue a escutar, porque ainda não acabei. No momento em que renego a Deus, nesse instante mesmo, tornei-me uma espécie de pagão, meu batismo apagou-se e não conta para nada, não é bem isto?
— Apressa-te em concluir, meu caro — estimulou-o Fiódor Pávlovitch, bebericando, deleitado.
— Ora, se não sou mais cristão, não menti então aos meus carrascos, quando perguntaram: "És cristão ou não?", porque já estava "descristianizado" pelo próprio Deus, em consequência apenas de minha intenção e antes de ter aberto a boca. Ora, se estou decaído, como e com que direito me pedirão contas no outro mundo, na qualidade de cristão, por ter abjurado o Cristo, quando, pela simples premeditação, já teria sido desbatizado? Se não sou mais cristão, não posso mais abjurar o Cristo, porque isto já estaria feito. Quem pois, mesmo no céu, pedirá contas a um tártaro pagão por não ter nascido cristão e quem quererá puni-lo? Não diz o provérbio que não se deverá esfolar duas vezes o mesmo touro? Se o Todo-Poderoso exige contas a um tártaro, por ocasião de sua morte, suponho que o punirá levemente (não podendo absolvê-lo totalmente), estimando não ser culpa dele o ter nascido pagão, de pais que o eram. Será que o Senhor pode pegar à força um tártaro e dizer dele que era cristão? Seria o mesmo que dizer então que o Todo-Poderoso profere uma verdadeira mentira. Ora, pode ele mentir, ele que reina sobre a terra e nos céus, ainda mesmo por uma só de suas palavras? Gregório ficou estupefato e examinou o orador, de olhos escanca- rados. Embora não compreendendo bem do que se tratava, apanhara uma parte daquele galimatias e assemelhava-se a um homem que dera com a cabeça de encontro a um muro.

     Fiódor Pávlovitch acabou de beber seu copinho e explodiu numa risada aguda. 

— Aliócha, Aliócha, que homem! Ah! o casuísta! Deve ter frequentado os jesuítas, em algum lugar, Ivã, Tresandas a jesuíta, quem pois te instruiu? Mas tu mentes desavergonhadamente, casuísta, tu divagas. Não te desoles, Gregório, vamos reduzi-lo a pó. Responde a isto, burra: tens razão perante teus carrascos, seja, mas abjuraste a fé em teu coração e dizes tu mesmo que foste logo atingido de anátema. Ora, como tal, não te passarão a mão pelos cabelos no inferno. Que pensas disso, meu bom padre jesuíta? 
— É fora de dúvida que abjurei em meu coração, no entanto não há nisso nenhum pecado especialmente, quando muito um pecado dos mais veniais.
— Como? Dos mais veniais?
— Mentes, maldito! — murmurou Gregório. 
— Julgue você mesmo, Gregório Vassílievíich — continuou comedidamente Smierdiákov, consciente de sua vitória, mas fazendo-se de generoso para com um adversário abatido —, julgue você mesmo; está dito na Escritura que se tiverdes fé, ainda que seja do tamanho de um grão de mostarda, disserdes a uma montanha que se precipite no mar, ela irá, sem nenhuma demora, assim que derdes a primeira ordem. Pois bem, Gregório Vassilievitch, se não sou crente e se você o é, a ponto de me invectivar sem cessar, tente você mesmo dizer a essa montanha que vá, não para o mar (porque está ele muito longe daqui), mas mesmo para aquele riacho infecto que corre por trás de nosso jardim, e verá logo que ela não se moverá e que não haverá mudança alguma, por mais que você grite. Ora, isto significa que você não crê da maneira que convém, Gregório Vassílievitch, e que, em compensação, você invectiva os outros. Suponhamos ainda que ninguém, em nossa época, não somente você, mas ninguém decididamente, desde as pessoas mais altamente colocadas até o derradeiro mujique, possa empurrar as montanhas para o mar, a não ser um homem no mundo inteiro, dois quando muito, ainda assim talvez aqueles que tratam de sua salvação, ocultamente, no deserto do Egito e que não podem ser encontrados. Se assim é, se todos os outros são incréus, será possível que estes, isto é, a população do mundo inteiro, com exceção dos dois anacoretas, sejam amaldiçoados pelo Senhor, e que não perdoe ele a nenhum, dada a sua misericórdia bem conhecida? De modo que espero que minhas dúvidas me serão perdoadas, quando derramar lágrimas de arrependimento.
— Espera! — guinchou Fiódor Pávlovitch, no cumulo do entusiasmo. — De modo que supões que há dois homens capazes de mover montanhas? Ivã, nota esse detalhe, nota bem. O homem russo inteiro está aí!
— O senhor notou com bastante justeza que é esse um sinal da fé popular — disse Ivã Fiódorovitch, com um sorriso de aprovação.
— Estás de acordo? É então verdade, já que estás de acordo. É exato, Aliócha? Assemelha-se isso perfeitamente à fé russa?
— Não, Smierdiákov não tem de todo a fé russa — declarou Aliócha, num tom sério e firme. 
— Não falo de sua fé, mas desse detalhe, desses dois anacoretas, nada mais do que esse detalhe: não é bem russo?
— Sim, esse detalhe é perfeitamente russo — aprovou Aliócha, sorrindo.
— Essa frase merece 1 ducado, burra, e eu te enviarei hoje mesmo, mas quanto ao resto tu mentes, tu divagas; fica sabendo, imbecil, que neste mundo todos nós não cremos somente por frivolidade, mas porque falta tempo; os negócios nos absorvem, os dias só têm 24 horas, não temos tempo não só de nos arrependermos, mas de dormir à vontade. Mas tu, tu abjuraste diante dos carrascos, quando não tinhas de pensar senão em tua fé e que era preciso justamente testemunhá-la! Isto constitui um pecado, meu caro, penso eu!  
— Decerto, constitui um, mas um pecado venial, julgue você mesmo, Gregório Vassílievitch. Porque se tivesse eu então crido na verdade, como importa crer nela, teria sido verdadeiramente um pecado não sofrer o martírio e converter-me à maldita religião de Maomé. Mas não teria sofrido o martírio, porque me bastaria dizer àquela montanha: marcha e esmaga o carrasco, para que ela se pusesse logo em movimento e o esmagasse como a uma barata, e ter-me-ia retirado como se de nada se tratasse, glorificando e louvando a Deus. Mas, se naquele momento já o tivesse tentado e gritado à montanha: esmaga os carrascos, sem que ela me obedecesse, como então, diga-me, não teria eu duvidado naquela hora terrível de pavor mortal? Fora isto, já sei que não obterei inteiramente o reino dos céus (porque se a montanha não se moveu à minha voz é que minha fé não goza de muito crédito lá em cima e que a recompensa que me espera no outro mundo não é bastante elevada); por que, pois, ainda por cima, deixar-me-ia esfolar sem nenhum proveito? Porque, mesmo esfolado até a metade das costas, minhas palavras ou meus gritos não deslocariam aquela montanha. Num tal minuto, não somente a dúvida pode invadir-nos, mas o medo pode tirar-nos a razão e impedir-nos de decidir. Por consequência, sou tão culpado assim, se salvo pelo menos a pele, não vendo em parte alguma um proveito ou uma recompensa? Assim, confiante na misericórdia divina, espero ser inteiramente perdoado... 

continua na página 190...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 3 - A partir desse dia)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
3

     A partir desse dia, transformaram-se completamente nossa vida e nossas relações. Não sentíamos o mesmo prazer de outrora em ficar a sós. Havia problemas que evitávamos com circunlóquios, e conversávamos mais facilmente em presença de um terceiro. Apenas se abordava a nossa vida na roça ou num baile, ficávamos atordoados e com vergonha de olhar um para o outro. Era como se ambos sentíssemos o lugar onde ficava o abismo que nos separava, e temêssemos aproximar nos dele. Eu estava certa de que ele era orgulhoso e irritadiço e que devia tomar cuidado, a fim de não tocar nas suas fraquezas. Ele tinha certeza de que eu não podia viver longe da sociedade, que a vida rural não me aprazia e que era preciso submeter-se a este gosto infeliz. Ambos evitávamos conversas diretas sobre esses temas, e fazíamos juízo falso um sobre o outro. Havia muito tempo já que deixáramos de ser um para o outro a pessoa mais perfeita do mundo, já fazíamos comparações com gente conhecida e, em segredo, julgávamos um ao outro. Fiquei adoentada antes do dia da partida e, em lugar de irmos para o campo, mudamo-nos para nossa casa de veraneio, nas proximidades, de onde meu marido viajou sozinho para junto da mãe. Quando ele estava de partida, eu já me restabelecera o suficiente para acompanhá-lo, mas ele convenceu-me a ficar ali, como se temesse pela minha saúde. Percebi que o seu temor não era pela saúde, mas que estava com medo de que não viveríamos bem no campo; não insisti muito e fiquei. Na sua ausência, senti vazio e solidão, mas, quando voltou, percebi que ele não acrescentava mais à minha vida o que lhe acrescentara outrora. As nossas relações de antes, quando todo pensamento ou impressão não comunicados a ele pesavam-me como um crime, quando toda ação, toda palavra dele pareciam-me um exemplo de perfeição, quando, de alegria, dava-nos vontade de rir, ao olharmo-nos, essas relações transformaram se tão imperceptivelmente que nem o notamos. Apareceram para cada um de nós interesses e preocupações próprios, específicos, e que não tentávamos mais fazer comuns. Deixou de confundir-nos o fato de cada um ter o seu mundo isolado, estranho para o outro. Acostumamo-nos com esta ideia, e um ano depois até deixamos de ficar atordoados, quando nos encarávamos. Desapareceram completamente os seus acessos de alegria na minha presença, o comportamento juvenil, desapareceram o seu perdão e indiferença em relação a tudo, que antes me indignavam, não lhe apareceu mais o olhar profundo que, antes, sempre me deixava confusa e me alegrava, sumiram as orações, os êxtases em comum, deixamos até de ver-nos com frequência, ele estava continuamente de viagem, e não temia, não lamentava deixar-me sozinha; eu aparecia continuamente na sociedade, onde não precisava dele. 
     Não havia mais entre nós cenas e desavenças, eu procurava agradar lhe, ele satisfazia todas as minhas vontades, e parecíamos amar-nos.
     Quando ficávamos a sós, o que já acontecia raramente, eu não experimentava alegria, nem perturbação, nem encabulamento, como se estivesse a sós comigo mesma. Eu sabia muito bem que ele era o meu marido, não algum homem novo, desconhecido, mas um homem bom, o meu marido, que eu conhecia como a mim mesma. Estava certa de saber tudo o que ele faria e diria, e como olharia; e se ele fazia algo ou olhava de maneira diversa da que eu esperava, tinha a impressão de que fora ele quem se enganara. Não esperava dele nada. Numa palavra, era meu marido e nada mais. Parecia-me que tudo devia ser assim mesmo, que não existiam relações de outro tipo e que elas nunca existiram entre nós. Quando ele partia, sobretudo nos primeiros tempos, eu me sentia solitária, assustava-me, na sua ausência sentia mais intensamente a significação do seu apoio para mim; quando ele chegava, atirava-me de alegria ao seu pescoço, embora duas horas depois esquecesse completamente essa alegria e não tivesse mais o que falar com ele. Apenas nos momentos de uma ternura quieta, moderada, que havia entre nós, eu tinha a impressão de que algo não estava bem, que algo me machucava o coração, e parecia-me ler o mesmo nos seus olhos. Eu sentia essa fronteira da ternura que ele agora como que não queria, e que eu não podia transpor. Isso entristecia-me às vezes, mas não havia tempo para se ficar pensando fosse no que fosse, e eu procurava esquecer essa tristeza da mudança confusamente percebida, entregando-me a divertimentos que estavam continuamente à minha disposição. A vida de sociedade, que a princípio me deixou ofuscada com o brilho e com as lisonjas ao amor-próprio, logo apossou-se totalmente dos meus gestos, tornou-se um hábito, impôs-me suas cadeias e ocupou em minha alma todo o lugar disponível ali para o sentimento. Agora, nunca mais ficava a sós comigo mesma e temia pensar na minha situação. Todo o meu tempo, desde tarde da manhã até tarde da noite, estava ocupado e não me pertencia, mesmo que eu não saísse de casa. Isto não me alegrava nem entediava mais, mas dava a impressão de que tudo sempre devia ser assim e não de outra maneira.
     Passaram-se três anos, no decorrer dos quais as nossas relações permaneceram as mesmas, como que se detiveram, estratificaram-se, e não podiam já tornar-se melhores ou piores. Nesses três anos, houve em nossa vida familiar dois acontecimentos importantes, mas que não alteraram a minha existência. Foram o nascimento de meu primeiro filho e a morte de Tatiana Siemiônovna. Nos primeiros tempos, o sentimento maternal apossou-se de mim com tamanha força e causou-me um êxtase tão inesperado que eu pensei estar em vias de iniciar-se para mim uma vida nova; mas, decorridos dois meses, quando tornei a frequentar a sociedade, este sentimento, diminuindo sempre, transformou-se num hábito e na fria execução de um dever. O meu marido, pelo contrário, por ocasião do nascimento de nosso primeiro filho, voltou a ser o homem tranquilo, pacato e caseiro de antes e transferiu para a criança toda a sua ternura e alegria de outros tempos. Muitas vezes, ao entrar de vestido de baile no quarto da criança, a fim de fazer sobre esta o sinal da cruz, antes que adormecesse, e encontrando ali meu marido, eu notava o seu olhar como que de censura e severamente atento, fixo em mim, e ficava envergonhada. Horrorizava-me de repente com a minha indiferença pela criança e perguntava de mim para mim: “Serei eu pior que as outras mulheres? Mas o que fazer? Amo o meu filho, mas não posso ficar sentada com ele dias a fio, tenho tédio; e de modo algum vou fingir”. A morte da mãe causou-lhe grande aflição; conforme dizia, era lhe penoso, depois disso, viver em Nikólskoie, e embora eu a lastimasse e partilhasse o desgosto do meu marido, era-me agora mais agradável, mais tranquilo, viver no campo. Passamos a maior parte daqueles três anos na cidade, eu ia à aldeia somente por dois meses, e no terceiro ano viajamos para o estrangeiro.
     No verão íamos a estações de águas.
     Eu tinha então vinte e um anos, as nossas finanças, pensava, eram florescentes, e da vida familiar eu não exigia nada além daquilo que ela me dava; todos os nossos conhecidos pareciam gostar de mim; tinha boa saúde, os meus vestidos eram os melhores na estação de águas, eu sabia que era bonita, o tempo estava lindo, cercava-me uma atmosfera de elegância e beleza e eu me sentia muito alegre. Não era a mesma alegria que em Nikólskoie, quando eu sentia ser feliz no próprio imo, feliz por ter merecido essa felicidade, que o meu sentimento era grande, mas devia ser ainda maior, quando sentia desejar mais e mais felicidade. Então, era outra coisa; mas, mesmo nesse verão, eu me sentia bem. Não queria nada, não esperava nada, não temia nada, minha vida, parecia me, estava repleta, e minha consciência parecia tranquila. Entre a mocidade dessa estação não havia nenhum homem que eu distinguisse dos demais de algum modo, ou mesmo do velho príncipe K., nosso embaixador, e que me fazia a corte. O jovem e o velho, o inglês muito louro e o francês de barbicha, todos eram iguais para mim, mas todos indispensáveis. Eram todos vultos por igual indiferentes, que formavam a alegre atmosfera de vida ao redor de mim. Apenas um deles, o marquês italiano D., chamou minha atenção mais que os restantes, graças à ousadia com que expressou o seu entusiasmo por mim. Não perdia nenhuma ocasião de estar comigo, de dançar, de passear comigo a cavalo, de acompanhar-me ao cassino etc. e de dizer-me que eu era bela. Vi-o da janela algumas vezes, nas proximidades de nossa casa, e o olhar fixo, frequentemente desagradável, dos seus olhos brilhantes obrigava me a enrubescer e a desviar o rosto. Era moço, bonito, elegante e, sobretudo, lembrava o meu marido pelo sorriso e pela expressão da fronte, embora fosse muito mais belo. Ele espantava-me com esta semelhança, ainda que tivesse de modo geral, nos lábios, no olhar, no queixo comprido, em lugar da encantadora expressão de bondade e de tranquilidade ideal de meu marido, algo animal e grosseiro. Eu supunha então que ele me amasse apaixonadamente, e pensava nele às vezes, com uma orgulhosa comiseração. Queria às vezes acalmá-lo, levá-lo a um tom de confiança tranquila, meio amigável, mas ele repelia abruptamente todas essas tentativas e continuava a perturbar-me desagradavelmente com a sua paixão inconfessada, mas sempre pronta a confessar-se. Embora não desse conta disso a mim mesma, eu temia aquele homem e, contra a minha vontade, pensava nele com frequência. O meu marido conhecia-o e tratava-o com frieza e altivez, de maneira ainda mais acentuada do que em relação aos nossos demais conhecidos, para os quais ele era apenas o marido de sua mulher. No fim da estação, adoeci e passei duas semanas sem sair de casa. Quando, depois da doença, saí pela primeira vez à noitinha a fim de ouvir música, soube que, na minha ausência, chegara Lady S., havia muito esperada e famosa pela sua beleza. Formou-se junto a mim um círculo, fui recebida com satisfação, mas o círculo formado junto à leoa recém-chegada era ainda melhor. À minha volta, todos só falavam dela e da sua beleza. Ela me foi mostrada, e realmente era encantadora, mas impressionou-me desfavoravelmente a presunção em seu rosto, e eu disse isto. Nesse dia, pareceu-me aborrecido tudo o que antes era tão alegre. No dia seguinte, Lady S. organizou uma excursão a um castelo, mas recusei-me a participar. Quase ninguém ficou para me fazer companhia, e tudo se alterou definitivamente aos meus olhos. Tudo e todos me pareceram estúpidos e enfadonhos, quis chorar, terminar o quanto antes a cura de águas e regressar à Rússia. Tinha no íntimo certo sentimento mau, mas eu ainda não o confessava a mim mesma. Alegando que estava fraca, deixei de aparecer em sociedade numerosa, somente de manhã ia de raro em raro tomar as águas, sozinha, ou visitava as redondezas, na companhia de L. M., uma russa minha conhecida. Meu marido fora passar alguns dias em Heidelberg, onde esperaria o fim de meu tratamento, a fim de voltarmos para a Rússia, e raramente vinha visitar-me.
     De uma feita, Lady S. atraiu toda a sociedade para uma caçada e, depois do jantar, L. M. e eu fomos visitar o castelo. Enquanto avançávamos a passo em nossa caleça, sobre a estrada tortuosa de macadame, em meio aos castanheiros seculares, entre os quais se viam ao longo as bonitas e elegantes redondezas de Baden-Baden, iluminadas pelo poente, começamos a conversar a sério, como jamais o fizéramos. L. M., que eu conhecia desde muito tempo, apareceu-me então pela primeira vez como uma mulher boa, inteligente, com quem se podia falar a respeito de tudo e de quem era agradável ser amiga. Falamos de família, de filhos, do vazio daquela vida na estação de águas, tivemos vontade de voltar para a Rússia, para a aldeia, e sentimos ao mesmo tempo tristeza e bem-estar. Sob o influxo deste mesmo sentimento sério, penetramos no castelo. Entre os seus muros, havia sombra, frescor; em cima, sobre as ruínas, cintilava o sol, ouviam-se passos e vozes. Pela porta, como se fosse moldura, via-se o panorama de Baden, belo, mas frio para nós, russos. Sentamo-nos para descansar e olhamos em silêncio o sol que se punha. As vozes ressoaram com maior nitidez, e eu tive a impressão de distinguir o meu sobrenome. Comecei a prestar atenção e involuntariamente ouvi tudo o que se dizia. As vozes eram conhecidas: tratava-se do marquês D. e de um francês, seu amigo, e que eu conhecia também. Falavam de mim e de Lady S. O francês comparava-me com ela e pormenorizava a beleza de ambas. Não dizia nada de ofensivo, mas o sangue afluiu-me ao coração, quando distingui as suas palavras. Explicava minuciosamente o que eu tinha de bonito e o que havia de bonito em Lady S. Eu tinha já um filho, e Lady S. estava com dezenove anos; eu tinha trança mais bela, mas, em compensação, Lady possuía um vulto mais gracioso; Lady era uma grande dama, enquanto esta “sua — disse ele — é mais ou menos uma dessas princesinhas russas que deram para aparecer aqui com tanta frequência”. Concluiu dizendo que eu fazia muito bem não tentando lutar com Lady S., e que em Baden-Baden, eu estava morta e enterrada.

— Tenho pena dela. 
— Só se ela não quiser consolar-se com você — acrescentou ele, com um riso alegre e cruel. 
— Se ela partir daqui, vou segui-la — disse rudemente uma voz com sotaque italiano. 
— Que feliz mortal! Ele ainda pode amar! — riu o francês. 
— Amar! — disse a voz e calou-se um pouco. — Eu não posso deixar de amar! Sem isto, não há vida. Fazer da vida um romance é o que pode haver de bom. O meu romance nunca se interrompe no meio, e também este eu hei de levar ao fim. 
— Bonne chance, mon ami¹ — disse o francês.

[1] Em francês no original: “Boa sorte, meu amigo”. (N. do T.)

     Não ouvimos mais nada, pois eles dobraram uma esquina, e os seus passos ressoaram do outro lado. Desciam a escada e, instantes mais tarde, surgiram por uma porta lateral e ficaram muito surpreendidos ao encontrar-nos. Corei quando o marquês D. aproximou-se de mim e fiquei com medo quando, ao sairmos do castelo, ele me deu o braço. Não podia recusá-lo, e dirigimo-nos para a caleça, seguindo L. M., que ia na frente com o amigo dele. Eu estava ofendida com o que dissera de mim o francês, embora tivesse consciência, secretamente, de que ele apenas nomeara o que eu mesma sentia; mas as palavras do marquês surpreenderam-me e deixaram-me indignada com a sua brutalidade. Atormentava-me o pensamento de que eu ouvira as suas palavras e que, apesar disso, ele não me temia. Tinha asco de senti-lo tão perto; e, sem olhar para ele, sem lhe responder, procurando segurar o braço de modo a não sentir o contato, caminhei apressada atrás de L. M. e do francês. O marquês dizia algo sobre a vista magnífica, sobre a felicidade inesperada de me encontrar e alguma coisa mais, porém eu não o ouvia. Nessa ocasião, pensava em meu marido, no filho, na Rússia; envergonhava-me de algo, queria algo, e apressava-me para chegar o quanto antes ao meu quarto solitário no Hôtel de Bade, a fim de refletir bem, em liberdade, em tudo o que acabara de se levantar em meu íntimo. Mas L. M. caminhava suavemente, ainda estávamos longe da caleça, e o meu cavalheiro, parecia-me, diminuía obstinadamente o passo, como que tentando deter-me. “Não pode ser!” — pensei e apressei-me decididamente. Mas sem dúvida alguma ele me retinha, e até me apertava o braço. L. M. dobrou uma curva da estrada e ficamos completamente a sós. Tive medo.

— Desculpe — disse eu com frieza e tentei retirar o braço, mas a renda da minha manga prendeu-se num botão dele. O marquês inclinou para mim o peito, pôs-se a separar a manga do botão, e os seus dedos sem luva tocaram-me o braço. Um sentimento novo para mim, não sei se de horror, não sei se de prazer, percorreu-me frígido a espádua. Olhei-o, a fim de expressar com um olhar frio todo o desprezo que sentia por ele; porém o meu olhar expressou outra coisa: susto e perturbação. Os seus olhos incendiados, úmidos, bem junto ao meu rosto, olhavam-me apaixonados, o meu pescoço, o meu peito, as suas mãos mexiam em meu braço, pouco acima do punho, os seus lábios abertos diziam algo, diziam que ele me amava, que eu era tudo para ele, e esses lábios aproximavam-se de mim, as suas mãos apertavam-me os braços com mais força e queimavam-me. O fogo percorria-me as veias, minha visão obscurecia-se, eu tremia, e as palavras, com que eu queria detê-lo, secavam-se na garganta. De repente, senti um beijo sobre a face e, toda trêmula e fria, estaquei, olhando para ele. Sem forças para falar, nem para me mexer, horrorizada, eu esperava e desejava algo. Tudo isso durou um instante. Mas esse instante foi terrível! Nesse instante, eu o via inteiro e tão bem. O seu rosto era tão compreensível para mim: essa testa abrupta e baixa, que lhe aparecia sob o chapéu de palha e que lembrava a testa de meu marido, esse nariz bonito, reto, de narinas dilatadas, esses bigodes compridos, untados, em ponta, essa barbicha, essas faces bem escanhoadas e esse pescoço queimado.

     Odiava-o e temia-o, ele me era tão estranho; mas, nesse momento, repercutiam tão fortemente em meu íntimo a perturbação e a paixão desse homem odioso, estranho para mim! Eu queria tão incoercívelmente entregar-me aos beijos dessa boca rude e bonita, ao carinho dessas mãos brancas de veias finas e com anéis nos dedos. Tinha tanta vontade de me atirar de cabeça no abismo de repente aberto, e que me atraía, o abismo das delícias proibidas...

“Sou tão infeliz — pensei —, pois bem, que mais e mais desgraças se acumulem sobre a minha cabeça.”

     Ele me envolveu com um dos braços e abaixou-se para o meu rosto. “Que mais e mais vergonha e pecado se acumulem sobre a minha cabeça.”

Je vous aime² — murmurou ele com uma voz que era tão parecida com a voz de meu marido. Lembrei-me de meu marido e do filho como criaturas queridas, que tivessem existido havia muito tempo e com as quais eu tivesse acabado qualquer relação. Mas eis que ressoou além da curva a voz de L. M., que me chamava. Voltei a mim, desvencilhei o braço e, sem olhar para ele, quase corri na direção de L. M. Sentamo-nos na caleça e somente então olhei-o. Tirara o chapéu e perguntava algo, sorrindo. Não compreendia a repugnância inexprimível que eu sentia por ele nesse instante.

[2] Em francês no original: “Eu te amo”. (N. do T.)

     Minha vida pareceu-me tão infeliz, o futuro tão sem esperança, o passado tão negro! L. M. falava comigo, mas eu não compreendia suas palavras. Tinha a impressão de que ela falava comigo unicamente por compaixão, a fim de ocultar o desprezo que eu suscitava nela. Em cada palavra, em cada olhar seu, eu parecia perceber esse desprezo e uma comiseração ofensiva. Aquele beijo queimava-me a face com a vergonha, e era insuportável para mim a lembrança de meu marido e do filho. Ficando sozinha no quarto, eu esperava refletir sobre a minha situação, mas tinha medo de estar sozinha. Não acabei de tomar o chá que me serviram, e, eu mesma sem saber para quê, com uma pressa febril, pus-me no mesmo instante a arrumar as malas para viajar naquela noite para Heidelberg, a fim de reunir-me a meu marido.
     Quando me sentei com a empregada no vagão vazio, quando o trem partiu e recebi ar fresco pela janela, comecei a voltar ao normal e a representar melhor, para mim mesma, meu passado e meu futuro. Toda a minha vida de casada, desde o dia de nossa mudança para Petersburgo, apareceu-me de repente sob uma luz nova e depositou-se sobre a minha consciência como uma censura. Pela primeira vez, lembrei vivamente os nossos primeiros tempos na aldeia, os nossos projetos, pela primeira vez surgiu-me na cabeça a pergunta: quais foram, afinal, as alegrias dele no decorrer de todo esse tempo? E me senti culpada perante ele. “Mas por que ele não me deteve, por que foi insincero comigo, por que evitou explicações, por que me ofendeu? — perguntei a mim mesma. — Por que não utilizou sobre mim o poderio do seu amor? Ou não me amava?” Mas, por mais culpa que ele tivesse, o beijo de um homem estranho estava ali sobre a minha face, e eu o sentia. Quanto mais eu me aproximava de Heidelberg, mais nitidamente imaginava o meu marido e tanto mais terrível me parecia a próxima entrevista. “Vou dizer-lhe tudo, tudo, resgatarei tudo perante ele com lágrimas de arrependimento — pensei — e ele há de me perdoar.” Mas eu mesma não sabia o que era aquele “tudo” que eu lhe diria, e não acreditava em que ele me perdoasse.
     Mas apenas entrei no quarto de meu marido e vi o seu rosto tranquilo, ainda que surpreendido, senti que não tinha nada a dizer-lhe, não tinha o que confessar nem motivo para lhe pedir perdão. A aflição inconfessada e o arrependimento deviam conservar-se dentro de mim.

— Como foi que tiveste esta ideia? — disse ele. — Imagina que eu pretendia ir amanhã para junto de ti. — Mas, examinando mais de perto o meu rosto, pareceu assustar-se. — O que tens? O que te aconteceu? 
— Nada — respondi, mal contendo as lágrimas. — Vim de vez. Vamos para casa, para a Rússia, nem que seja amanhã.

     Olhou-me bastante tempo, em silêncio e com atenção.

— Mas conta-me o que te aconteceu. — disse.

     Corei sem querer e baixei os olhos. Nos dele faiscou um sentimento de ofensa e ira. Assustei-me com os pensamentos que podiam acudir-lhe à mente, e disse com uma força de fingimento que nem suspeitava em mim:

— Não aconteceu nada, apenas senti tristeza e tédio sozinha, e pensei muito em ti e em nossa vida em comum. Faz tanto tempo que sou culpada diante de ti! Por que viajas comigo para lugares que não te atraem? Faz muito tempo que sou culpada diante de ti — repeti, e lágrimas voltaram-me aos olhos. — Vamos para a roça, e que seja para sempre.
— Ah! meu bem, livra-me de cenas sentimentais — disse ele com frieza —, é excelente que tu queiras ir para a roça, inclusive porque estamos com pouco dinheiro; mas, quanto a viver lá para sempre, é apenas um sonho. Eu sei que não vais tolerar. E agora, toma o teu chá, isto será melhor — concluiu, erguendo-se para chamar o garção.

     Eu imaginava tudo o que ele podia estar pensando a meu respeito, e ofendi-me com os pensamentos terríveis que atribuí a ele, quando encontrei, fixo em mim, o seu olhar indeciso e como que envergonhado. Não! Ele não queria e não podia compreender-me! Eu disse que ia olhar a criança, e afastei-me dele. Tive vontade de ficar sozinha e chorar, chorar, chorar...


Continua na página 101...
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Primeira Parte:
Segunda Parte: 
3 - A partir desse dia / 
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
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