terça-feira, 21 de abril de 2026

Ah! Essas cordas... Europa

Carlos Santana


"Europa (Earth's Cry Heaven's Smile)" é um instrumental do álbum Amigos de Santana, escrito por Carlos Santana e Tom Coster. É uma das composições mais populares de Santana e alcançou o topo da parada de singles espanhola em julho de 1976.







Amigos do Santana
Dance Sister Dance (Baila Mi Hermana)





Ah! Esse sax tenor...
Santana & Gato Barbieri "Europa
(Live, 1977)





Cinema: Vlado - 30 anos depois

Vlado - 30 anos depois


Aldir Blanc e João Bosco... e o tal Bêbado e o Equilibrista, cena extraída do filme "Vlado - 30 anos depois", de João Batista de Andrade.






Agora, o filme... Vlado - 30 Anos Depois




O filme revela a trajetória de Herzog, desde a infância na Iugoslávia até sua posse como diretor de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo. A reação de Clarice (sua esposa), dos amigos e da sociedade, recusando a farsa montada para justificar a morte do jornalista, tornou o fato um marco na luta pela redemocratização do país.

Direção e Roteiro
João Batista de Andrade

Empresas Produtoras
Oeste Filmes Brasileiros, Tao Produção Artísticas

Produção Executiva e Direção de Produção
Ariane Porto 

Diretor de Fotografia
Fabiano Pierri 

Fotografia Adicional
Carlos Eber, ABC

Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicletaVlado - 30 anos depois /    

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A VIDA DE VLADO | 50 ANOS DO CASO HERZOG

O documentário, dirigido por Simão Scholz e narrado pelo jornalista Chico Pinheiro, reconstrói a trajetória pessoal e profissional de Herzog e o impacto de sua morte na luta pela redemocratização do país durante a ditadura militar. A produção também aborda o legado preservado pelo Instituto Vladimir Herzog, em São Paulo. O documentário traz depoimentos dos filhos Ivo e André Herzog, colegas de profissão e de ex-presos políticos, como os jornalistas Paulo Markun, Dilea Frate, Sérgio Gomes e Anthony de Cristo, e do médico Ubiratan de Paula Santos – todos detidos e torturados na mesma época do assassinato de Vlado no Doi-Codi, em 1975.






Dica de leitura...
Brasil Nunca Mais

Dom Paulo Evaristo Arns e Jaime Wright




MPB: Quando O Amor Acontece

João Bosco 

-  (Ao Vivo)


uma canção de João Bosco lançada em 1986, conhecida por sua letra poética e melodia envolvente, "Coração sem perdão / Diga, fale por mim / Quem roubou toda a minha alegria? / O amor me pegou, me pegou / Pra valer".






Coração sem perdão
Diga, fale por mim
Quem roubou toda a minha alegria?

O amor me pegou, me pegou
Pra valer
Aí que a dor do querer
Muda o tempo e a maré
Vendaval sobre o mar azul

Tantas vezes chorei
Quase desesperei
E jurei nunca mais seus carinhos

Ninguém tira do amor, ninguém tira
Pois é
Nem doutor nem pajé
O que queima e seduz, enlouquece
O veneno da mulher

O amor quando acontece
A gente esquece logo
Que sofreu um dia
Ilusão

O meu coração marcado
Tinha um nome tatuado
Que ainda doía
Pulsava só a solidão

O amor quando acontece
A gente esquece logo
Que sofreu um dia
Esquece sim

Quem mandou chegar tão perto
Se era certo um outro engano
Coração cigano
Agora eu choro assim

O amor quando acontece
A gente esquece logo
Que sofreu um dia
Esquece sim

Quem mandou chegar tão perto
Se era certo um outro engano
Coração cigano
Agora eu choro assim


Memória Da Pele





Corsário





Arnaldo Antunes: “Rubras cascatas / Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas”, quando morre o autor de um verso como esse, entre tantos outros memoráveis, só nos resta chorar e reverenciar. “Glória a todas as lutas inglórias”. Viva Aldir Blanc! Mais uma das 700 mil mortes do genocídio da pandemia...



O Bêbado e o Equilibrista

Elis Regina transformou uma música em hino de resistência. Mas o que Winnicott, Henfil e Chaplin têm a ver com isso? utilizo o equilibrista no título por utilizar o texto de Winnicott, no caso o equilibrista é o Winnicott




Em 1979, no álbum "Essa Mulher", Elis Regina gravou "O Bêbado e a Equilibrista" — composição de João Bosco e Aldir Blanc. A música virou símbolo da luta pela Lei da Anistia e pelo fim da ditadura militar brasileira. Mas por quê essa música tocou tão fundo? O que ela ativou nas pessoas?

CAPÍTULOS
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0:00 — Natal de 1977: Charles Chaplin morre no Rio
0:20 — "Caía a tarde feito um viaduto" — a música começa
1:00 — João Bosco, Aldir Blanc e a censura
2:10 — Henfil e o irmão exilado
3:01 — A mesa de mata-borrão e o que foi escrito nela
4:00 — O equilibrista: quem é esse personagem?
5:30 — Winnicott e o espaço entre a dor e a esperança
7:30 — As Marias e as Clarices que seguraram o país
9:30 — Betinho, a Lei da Anistia e o que sobrou

REFERÊNCIAS
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▸ "O Bêbado e o Equilibrista" — João Bosco e Aldir Blanc (1979)
▸ Álbum "Essa Mulher" — Elis Regina (1979)
▸ D.W. Winnicott — "O Espaço Potencial"
▸ Henfil — cartunista, irmão de Betinho
▸ Herbert de Souza (Betinho) — exilado político, fundador da Ação da Cidadania
▸ Lei da Anistia — Brasil, 1979


O que faz um ser humano resistir em vez de desistir?

Quando O Amor Acontece /        
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sempre tem um jeito diferente no detalhe...

Quando o amor acontece



Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (II.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

II
 

     Na Jean-Bart, havia já uma hora que Catherine empurrava os vagonetes até o entroncamento. Estava tão alagada de suor que parou um momento para enxugar o rosto.
     Do fundo do desmonte, onde britava no veio com seus companheiros de empreitada, Chaval admirou-se de não ouvir mais o barulho das rodas. As lâmpadas iluminavam mal, a poeira do carvão não deixava ver nada. 

— Que aconteceu? — gritou ele.

     Quando ela respondeu que estava desfazendo-se em suor e que sentia o coração saltando do peito, respondeu furioso: 

— Burra! pois tira a camisa, como a gente!

     Estavam a setecentos e oito metros, ao norte, na primeira via do veio Désirée, separados por três quilômetros do poço. Quando falavam daquela parte da mina, os mineiros da região empalideciam e baixavam a voz, como se estivessem falando do inferno. No mais das vezes limitavam se a abanar a cabeça, preferindo calar sobre aquelas profundidades que ardiam como brasas. A medida que avançavam para o norte, as galerias aproximavam-se do Tartaret, penetrando assim no incêndio interno que, em cima, calcinava as rochas. O veio, no ponto a que se chegara, tinha uma temperatura média de quarenta e cinco graus. Estava-se em plena cidade maldita, no meio das chamas que os passantes da planície viam pelas fissuras, cuspindo enxofre e vapores nauseabundos.
     Catherine, que já tirara a jaqueta, hesitou, depois tirou também as calças. E de braços e pernas nus, a camisa amarrada na cintura por uma corda, como se fosse uma blusa, pôs-se de novo a empurrar. 

— Assim talvez melhore — disse ela em voz alta.

     Sentia-se inquieta por estar seminua. Havia cinco dias que trabalhavam ali e que pensava nas histórias com que fora embalada na infância, nas operadoras de vagonetes de outrora que ardiam no Tartaret, como castigo por coisas que não se ousava repetir. Sem dúvida, já tinha idade bastante para não acreditar em tais bobagens, mas que faria ela, se repentinamente visse sair do muro uma moça rubra como um fogareiro e com olhos parecendo tições? A esta ideia, suava mais ainda.
     No entroncamento, a oitenta metros do desmonte, outra operadora recebia o vagonete e empurrava-o mais oitenta metros. Dali ele era expedido pelo recebedor, com os demais que desciam das vias superiores.

—  Puxa que coragem! — disse a outra operadora de vagonetes, uma viúva magra de trinta anos, ao ver Catherine em camisa. — Eu é que não posso andar assim... Os garotos do plano inclinado não me deixam em paz com os seus palavrões. 
— Pois eu — replicou Catherine — não ligo para o que dizem os homens. Estou sentindo muito calor.

     E tornou a partir, empurrando um vagonete vazio. O pior era que naquela via do fundo outra causa vinha juntar-se à vizinhança do Tartaret para tornar o calor insuportável. Ao lado, havia uma galeria abandonada da Gaston-Marie, muito profunda, onde uma explosão de grisu, dez anos antes, incendiara o veio, que ainda ardia por trás do muro de greda, que fora construído ali para estancar o fogo e vivia sob contínuos reparos, a fim de limitar o desastre. Sem ar, o incêndio devia ter-se apagado, mas sem dúvida correntes de ar desconhecidas o mantinham aceso. Durando já dez anos, esse fogo esquentava a argila do muro como os tijolos de um forno, a ponto de se receber o seu bafo na passagem. E era ao longo dessa muralha de mais de cem metros que se fazia o transporte, a uma temperatura de sessenta graus.
     Após duas viagens, Catherine sentiu-se novamente abafada. Felizmente a via era larga e cômoda no veio Désirée, um dos mais espessos da região. A camada tinha um metro e noventa, os operários podiam trabalhar em pé; mas eles teriam preferido cavar curvados e ter um pouco de ar fresco para respirar. 

— Mais esta! Já estás dormindo? — gritou violentamente Chaval quando não mais ouviu Catherine movimentar-se. — Que castigo para mim ter conseguido uma estropiada dessa! Vais ou não vais encher teu vagonete e empurrá-lo?

     Ela estava na parte de baixo do veio, apoiada na pá; olhava a todos com um ar imbecilizado, sem obedecer, presa de um súbito mal-estar. Mal podia vê-los à luz avermelhada das lâmpadas, inteiramente nus, como animais, tão negros e sujos de suor e carvão, que sua nudez não a incomodava. Era um trabalho feito na obscuridade, espinhas de macacos que se espichavam, uma visão infernal de membros chamuscados, esgotando-se em meio aos golpes surdos e aos gemidos. Mas eles, sem dúvida, viam-na melhor, porque pararam de bater com as picaretas e começaram a fazer brincadeiras ao perceberem que estava sem calças. 

— Ei, cuidado, não deixes que te resfries! 
— Que pernas que ela tem! Como é, Chaval? Dá bem para dois! 
— Queremos ver! Levanta mais um pouco! Mais alto! Mais alto, Chaval, sem se zangar com aquela pândega, insultou-a de novo. 
— Diacho! Para ouvir palavrões ela é boa, poderia ficar ali até amanhã.

     Num supremo esforço, Catherine decidiu-se a encher o vagonete e depois empurrou-o. A galeria era larga demais para que ela pudesse encostar-se nas madeiras dos lados, seus pés descalços não se mantinham sobre os trilhos, onde buscava um ponto de apoio enquanto empurrava o carro lentamente, os braços retesados e o corpo curvado. E, assim que ladeava o muro de greda, o suplício do fogo recomeçava, o suor voltava a correr por todo o corpo, em gotas enormes, como uma chuva de tempestade.
     Apenas a um terço do entroncamento, ficou inundada, cega, coberta também de lama negra. Sua camisa estreita, como que encharcada em tinta, colada à pele, subira até os rins com o movimento das pernas. Sentia-se tão dolorosamente manietada, que teve de parar o trabalho outra vez.
     Afinal, que estava acontecendo com ela naquele dia? Nunca se sentira tão mole. Devia ser o ar contaminado. Não havia ventilação no fundo daquela via longínqua. Respirava-se toda espécie de vapores que saíam do carvão com uma efervescência de fonte, e às vezes com tal abundância que as lâmpadas apagavam-se. Sem falar do grisu, do qual ninguém se ocupava mais, tal a sua quantidade, intoxicando os mineiros, do princípio ao fim da quinzena. Ela conhecia bem esse ar contaminado, esse ar morto, como dizem os mineiros: embaixo pesados gases asfixiantes, em cima gases leves que se incendeiam e fulminam uma mina inteira e centenas de homens num relâmpago. Desde a sua infância respirara-o tanto, que se espantava de não poder suportá-lo agora, os ouvidos zumbindo, a garganta em fogo.
     Não podendo mais, sentiu necessidade de tirar a camisa. Aquela roupa, cujas menores pregas pareciam entrar na carne, estava-se transformando numa tortura. Resistiu e quis continuar empurrando, mas foi forçada a endireitar a espinha. Num repente, dizendo-se que voltaria a vestir-se no entroncamento, tirou tudo, a corda e a camisa, com tanta ânsia que teria arrancado a pele, se pudesse. E agora, nua, deplorável, rebaixada ao trote de fêmea ganhando a vida pela lama dos caminhos, esfalfava-se, com a garupa coberta de fuligem e barro até a barriga, como uma égua de carroça. De quatro patas, ela empurrava o vagonete.
     Sentiu que estava ficando desesperada, a nudez não a aliviara. Que mais havia de tirar? Estava surda com aquele zumbido nos dos parecia-lhe ter um torniquete nas têmporas. Caiu de joelhos. A lâmpada, enfiada nos fragmentos de carvão do vagonete, foi diminuindo. No meio das suas ideias confusas, uma única era clara: subir o pavio da lâmpada. Por duas vezes quis examiná-la, e em ambas, à medida que a pousava diante de si, no chão, notou que se extinguia, como se a ela também faltasse a respiração. De repente a lâmpada apagou-se e tudo foi engolfado pelas trevas. Sua cabeça parecia um moinho girando, seu coração foi parando de bater, entorpecido pelo mesmo imenso cansaço que lhe atingira o corpo. Caíra de boca para baixo e agonizava no ar asfixiante, rente ao chão. 

— Inferno! Garanto que ela anda outra vez fazendo das suas! — trovejou a voz de Chaval.

     Pôs-se a escutar do alto do veio e não ouviu o barulho das rodas. 

— Ei, Catherine! Diabo de mulher!

     A voz perdia-se ao longe, na galeria escura, e nem um suspiro respondia. 

— Queres que eu vá fazer-te andar?

     Nada se movia, sempre o mesmo silêncio de morte. Furioso, ele desceu e saiu correndo com a sua lâmpada, quase tropeçando no corpo da operadora de vagonetes, que barrava a via. Boquiaberto, olhou-a demoradamente. Que teria ela? Não estaria fingindo, para tirar uma soneca? Mas a lâmpada, que baixara para iluminar o rosto da mulher, quase se apagou. Levantou-a, baixou-a novamente e acabou por compreender: devia ser um golpe de ar asfixiante. Sua violência desaparecera, a solidariedade do mineiro acordava diante do companheiro em perigo. Gritou para que lhe trouxessem a camisa dela, tomou nos braços a moça nua e desmaiada, erguendo-a o mais alto possível. Assim que lhe puseram nos ombros a roupa de ambos, partiu correndo, sustentando com uma das mãos o seu fardo, carregando na outra as duas lâmpadas. As galerias profundas desenrolavam-se na sua frente, enquanto corria, dobrando à esquerda e à direita, em busca da vida no ar gelado da planície, que o ventilador soprava. Finalmente parou ao ouvir um ruído de fonte, o borbulhar de uma infiltração vazando na rocha. Encontrava-se na encruzilhada de uma grande galeria carroçável, que antigamente era utilizada pela Gaston-Marie. Nesse ponto a ventilação soprava como uma tempestade, o frescor era tão grande que ele foi sacudido por um arrepio ao sentar-se por terra, encostando-se ao revestimento e com a amante ainda desacordada e de olhos fechados. 

— Chega de brincadeiras, Catherine! Como é?... Vê se podes sustentar-te sozinha por um instante enquanto eu molho isto na água...

     Estava assustado com a placidez dela. Mas assim mesmo conseguiu molhar sua camisa na fonte e lavar-lhe o rosto. Ela mais parecia uma morta, já enterrada, com seu corpo delicado de moça tardia, onde as formas da puberdade eram ainda hesitantes. De repente, um frêmito percorreu seu colo de criança, indo terminar no ventre e no sexo de pequena miserável, deflorada antes da idade. Abrindo os olhos, sussurrou: 

— Tenho frio. 
— Ah! agora sim, estou gostando... — exclamou Chaval, aliviado. Vestiu-a, enfiando-lhe facilmente a camisa, e praguejou devido à dificuldade que encontrava para enfiar-lhe as calças. Ainda atordoada e sem movimentos, ela não sabia onde se encontrava nem por que estava nua. Ao lembrar-se, ficou envergonhada. Como tivera a coragem de tirar tudo! Perguntou: tinha sido vista assim, sem ao menos um lenço na cintura? Ele, rindo, inventou história, contou que desfilara com ela nua por entre os companheiros que abriam alas. Também, que idéia ter ouvido seu conselho e pôr-se de bunda à mostra! Em seguida deu a sua palavra de que os camaradas nem ficaram sabendo se ela tinha o traseiro redondo ou quadrado, tanto ele correra.
— Com a breca! Estou morrendo de frio! — disse, vestindo-se também. 

     Nunca ela o vira tão carinhoso. De ordinário, para uma palavra boa, saíam logo duas grosseiras da sua boca. Seria tão bom se pudessem viver em paz! Ainda lânguida de fadiga, foi invadida pela ternura. Sorrindo, murmurou: 

— Beija-me! 

     Ele beijou-a e deitou-se ao seu lado, enquanto esperava que ela pudesse caminhar. 

— Estás vendo? — continuou a moça. — Não tinhas razão de gritar comigo lá no veio. Juro que já não podia mais. Onde vocês trabalham é menos quente, mas se tu soubesses como a gente cozinha no fundo da via... 
— Claro — respondeu ele. — A gente estaria melhor a céu aberto. Tens sofrido um bocado nesta mina, minha pobre menina; disso não duvido. 

     Ficou tão comovida ouvindo-o concordar, que se fez de corajosa. 

— É que hoje o ar está envenenado e eu tive uma indisposição. Mas em seguida verás se sou preguiçosa. Quando é preciso trabalhar, trabalha-se, não é verdade? Prefiro morrer a ficar sem fazer nada...

     Houve um silêncio. Ele segurava-a pela cintura, abrigando-a contra o peito. Ela, embora sentindo-se já com forças para voltar ao trabalho, entregava-se, deliciada. 

— Eu só queria que fosses mais carinhoso — disse ela baixinho. — A gente podia viver tão bem se houvesse um pouco de amor... 

     E pôs-se a chorar mansamente. 

— Mas eu te amo! — exclamou ele. — A prova é que te levei para viver comigo.

continua na página 254...
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Germinal: Quinta Parte - (II.a) /     
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/II — Lux facta est

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     II — Lux facta est

             Precisamente no segundo ano, no ponto desta história a que o leitor chegou, sucedeu que Mário sem que mesmo soubesse porquê, interrompeu aquele hábito de ir ao Luxemburgo, estando perto de seis meses sem pôr os pés no seu caminho repleto de árvores favorito. Um dia, enfim, voltou ali; era uma serena manhã de verão e Mário sentia-se alegre, como sucede quando o tempo está agradável. Parecia-lhe que tinha no coração o canto de todas as aves que ouvia e todas as porções de folhagem do arvoredo.
     Foi direito à «sua álea», e quando chegou ao fim, avistou ainda no mesmo banco, o par já conhecido. Quando se aproximou viu que o homem era o mesmo que dantes; a pequena é que lhe pareceu mudada. A jovem que agora via, era uma alta e bela criatura, tendo todas as formas mais encantadoras da mulher no momento preciso em que elas se combinam ainda com as mais ingênuas graças da criança; momento fugitivo e puro, que só se pode traduzir pelas duas palavras: quinze anos. Tinha admiráveis cabelos castanhos escuros com certos cambiantes doirados, uma fronte que parecia de mármore, faces que se diriam compostas de folhas de rosas, mas um tanto pálidas, uma alvura transparente, uma boca primorosa, donde o sorriso saía como uma claridade e a palavra como uma música, uma cabeça que Rafael teria dado a Maria, sobre um pescoço que Jean Goujon teria dado a Vênus. Enfim, para que nada faltasse àquela encantadora fisionomia, o nariz não era belo, era bonito; nem reto nem curvo, nem italiano nem grego; era o nariz parisiense, com o não sei quê de espirituoso, de fino, de irregular e de puro, que desespera os pintores e encanta os poetas.
     Quando Mário passou por diante dela não pôde ver-lhe os olhos, que conservava constantemente baixos. Apenas lhe viu as compridas pestanas castanhas, carregadas de sombra e de pudor.
     Isto não impedia que a linda criança se sorrisse ouvindo o que lhe dizia o homem dos cabelos brancos; e não havia nada tão arrebatador como aquele fresco sorriso com os olhos baixos.
     No primeiro momento, Mário julgou que era outra filha do mesmo homem, uma irmã, sem dúvida, da primeira. Mas quando o invariável itinerário do passeio o fez passar segunda vez junto do banco e a examinou com mais atenção, reconheceu ser a mesma. Em seis meses tornara-se a menina quase uma senhora; eis toda a diferença. Não há fenômeno mais frequente do que este. Há um momento em que as meninas desabrocham num abrir e fechar de olhos, e em que de repente se tornam rosas. Ontem deixaram-se crianças, hoje acham-se inquietadoras.
     Aquela não só tinha crescido, mas tinha-se idealizado. Como três dias de abril são suficientes a certas árvores para se cobrirem de flores, assim seis meses lhe bastaram para ela se cobrir de beleza. Também tinha chegado o seu abril.
     Veem-se às vezes pessoas que, pobres e mesquinhas, parecem despertar passando subitamente da indigência ao fausto, principiando a fazer despesas de toda a qualidade, tornando-se de repente salientes, pródigas e magnificentes. É o efeito de alguma grande pensão, cujo primeiro prazo se venceu ontem. Do mesmo modo a donzela chegara também ao termo do seu semestre.
     Já não era a recolhida de outrora com o seu chapéu de pelica, o seu vestido de merino, os seus sapatos de rapaz de escola e as suas mãos vermelhas; com a beleza viera-lhe o gosto; era uma jovem bem trajada com uma espécie de simples, rica e despretensiosa elegância. Trazia um vestido de damasco preto, um mantelete da mesma fazenda e um chapelinho de crepe branco. Adivinhava-se-lhe através das alvas luvas a delicadeza daquela mão que brincava com o cabo de uma sombrinha de marfim chinês, e desenhava-lhe o borzeguim de seda a pequenez do pé. Quem por ela passava sentia um penetrante olor de juventude exalando-se-lhe da roupa.
     Quanto ao velho que a acompanhava, em nada tinha mudado.
     Da segunda vez que Mário passou por diante da jovem, esta levantou as pálpebras e deixou ver uns profundos olhos azuis celestes, mas a expressão do seu olhar era ainda simplesmente a do olhar de uma criança. Olhou para Mário com a mesma indiferença com que olharia para o gaiatozinho, que andava a brincar debaixo dos sicómoros, ou para o vaso de mármore que assombrava o banco em que ela se achava; e Mário continuou também o seu passeio com o pensamento noutra coisa.
     Passou depois mais quatro ou cinco vezes próximo dela, mas sem ao menos lhe deitar os olhos.
     Nos dias que se seguiram voltou, como de costume, ao Luxemburgo; como de costume, lá encontrou o «pai e a filha», porém não mais fez reparo neles. Tanto pensava na jovem agora que ela era bela, como quando ela era feia. Continuava a passar próximo do banco em que ela ia sentar-se, porque era esse o seu costume.


continua na página 528...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - II — Lux facta est
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira