Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
continuando...
Justamente a dois quilômetros das primeiras casas, um pouco
abaixo do cruzamento da estrada real com o caminho de Vandame, a Sra.
Hennebeau e suas convidadas acabavam de assistir ao desfile do bando. O
dia em Marchiennes passara-se alegremente, com um almoço delicioso na
casa do diretor das Forjas e com uma interessante visita às oficinas e a uma
fábrica de vidros das vizinhanças, como programa da tarde. Quando enfim
voltavam, naquele límpido fim de um belo dia de inverno, Cécile tivera a
fantasia de beber um copo de leite numa pequena fazenda da beira da
estrada. Todos desceram da caleça. Négrel galantemente apeou do cavalo. A
camponesa, assustada ao ver gente tão distinta, não sabia o que fazer, dizia
que ia colocar uma toalha antes de servir. Mas Lucie e Jeanne quiseram ver
a
ordenha e todos foram para o estábulo com os copos na mão,
transformando a idéia num piquenique, rindo muito ao afundarem-se na
palha.
A Sra. Hennebeau, sempre dando-se ares de mãe condescendente,
sorvia o leite aos golinhos, quando um barulho estranho vindo de fora e que
ia num crescendo a inquietou.
— Que é isso?
O estábulo, construído à beira da estrada, possuía uma porta larga,
para carroça, porque servia ao mesmo tempo de palheiro. As moças já
tinham espichado os pescoços e espantavam-se com o que viam à esquerda:
uma vaga negra, uma multidão que desembocava ululante do caminho de
Vandame.
— Diabo! — murmurou Négrel, que também tinha saído. — Será
que os nossos gabolas decidiram brigar?
— Devem ser outra vez os mineiros — disse a camponesa. — Já
passaram por aqui duas vezes. Parece que a coisa vai mal, eles estão donos
da região.
Dizia cada palavra com cautela, observando o efeito que produzia.
Quando notou o pavor de todos, a profunda ansiedade em que aquele
encontro os lançava, apressou-se a concluir:
— São uns patifes!
Négrel, vendo que era tarde demais para subirem à carruagem e
voltarem a Montsou, deu ordem ao cocheiro para que abrigasse depressa a
caleça no pátio da fazenda, onde a parelha de cavalos ficou escondida por
trás de um galpão. Ele mesmo amarrou dentro desse galpão o seu cavalo,
que um garoto segurava pela rédea. Ao voltar, encontrou sua tia e as moças
fora de si, prontas a seguirem a camponesa, que lhes propusera refugiarem
se dentro de casa. Mas ele foi de opinião que ali estavam mais seguros,
certamente ninguém viria procurá-los dentro da palha. A porta do estábulo
não fechava direito e tinha tantos buracos, que se via a estrada por entre
suas tábuas apodrecidas.
— Vamos, coragem! — disse ele. — Venderemos caro a nossa vida.
Essa brincadeira aumentou o medo. O barulho aproximava-se, mas
ainda não se via nada; na estrada deserta parecia soprar um vento agreste,
igual a essas rajadas bruscas que precedem as tempestades.
— Não, não quero ver — disse Cécile, indo encolher-se na palha.
A Sra. Hennebeau, muito pálida, cheia de ódio contra aquela
gentalha que estragava um dos seus prazeres, mantinha-se atrás lançando
olhares oblíquos e enojados, enquanto Lucie e Jeanne, apesar de trêmulas,
espiavam por uma fresta, não querendo perder nada do espetáculo.
O ribombar de trovão aproximava-se, a terra foi sacudida e Jeanlin
passou na vanguarda, soprando a sua cometa.
— Apanhem os sais, é o suor do povo que está passando —
murmurou Négrel, que, apesar das suas convicções republicanas, gostava de
rir da canalha em companhia das senhoras.
Mas seu gracejo foi carregado pelo furacão dos gestos e gritos. As
mulheres tinham aparecido, cerca de mil, cabelos ao vento, desgrenhados
pela correria, os farrapos deixando à mostra a pele nua, nudez de fêmeas
exaustas de parir mortos-de-fome. Algumas traziam os filhos nos braços, e
levantavam-nos, agitando-os como uma bandeira de luto e vingança.
Outras, mais jovens, com peitos estufados de guerreiras, brandiam paus,
enquanto as velhas, monstruosas, berravam tão alto que as veias dos seus
pescoços descarnados pareciam rebentar. Em seguida vieram os homens,
dois mil furiosos, aprendizes, britadores, consertadores, verdadeira massa
compacta que rolava como se fosse feita de um só bloco, apertada,
confundida, a ponto de não se distinguirem as calças desbotadas ou os
suéteres esfarrapados, esbatidos na mesma uniformidade terrosa. Os olhos
faiscavam, viam-se apenas os buracos negros das bocas cantando a
Marselhesa, cujas estrofes se perdiam num bramido confuso acompanhada
pelo bater dos tamancos na terra dura. Acima das cabeças, entre a floresta
de barras de ferro, passou um machado, bem ao alto. Esse único machado,
que era como o estandarte do bando, desenhava no céu claro o perfil
aguçado de um cutelo de guilhotina.
— Que caras horrendas! — balbuciou a Sra. Hennebeau. Négrel
disse entre dentes:
— O diabo me carregue se eu reconheço um único! De onde terão
saído esses bandidos?
Realmente, a cólera, a fome, os dois meses de sofrimentos e aquela
correria desenfreada pelas minas tinham transformado em mandíbulas de
animais ferozes as feições plácidas dos mineiros de Montsou. Naquele
momento o sol desaparecia; os últimos raios, de um púrpuro sombrio,
pareciam ensangüentar a planície. E a estrada também pareceu lavada em
sangue; as mulheres e os homens continuavam marchando, cobertos de
sangue, como carniceiros em plena matança.
— Oh! maravilhoso! — disseram a meia voz Lucie e Jeanne,
tocadas, no seu gosto de artistas, por aquele belo hórrido.
Mas mesmo assim tinham medo, recuando para perto da Sra.
Hennebeau, que se apoiava numa manjedoura. Gelava-lhes o sangue nas
veias pensar que bastava um olhar por entre as frestas daquela porta
desconjuntada para que fossem massacrados. Também Négrel, que de
ordinário era corajoso, sentia-se empalidecer, presa de um pavor mais forte
que a sua valentia, um desses pavores que sopram do desconhecido. Cécile,
aninhada na palha, nem se movia. E os outros, apesar do seu desejo de
desviarem os olhos, não podiam, continuavam olhando.
Era a visão vermelha que arrastaria a todos, fatalmente, numa
dessas noites sangrentas desse fim de século. Sim, uma noite, o povo em
torrentes, desenfreado, correria assim pelos caminhos, gotejando o sangue
burguês, exibindo cabeças, semeando o ouro dos cofres arrombados. As
mulheres gritariam, os homens abririam suas queixadas de lobos, prontos
para morderem. Sim, seriam os mesmos farrapos, o mesmo matraquear de
tamancos grosseiros, a mesma turba assustadora, suja, de hálito fétido,
varrendo o mundo caduco com a sua irresistível avalanche de bárbaros.
Arderiam incêndios, nas cidades não ficaria pedra sobre pedra, regredir-se
ia à vida selvagem das florestas após o grande cio, o grande rega-bofe, em
que os pobres, numa só noite, extenuariam as mulheres e esvaziariam as
adegas dos ricos. Não sobraria nada, as fortunas e os títulos das situações
adquiridas desapareceriam, até o dia em que talvez desabrochasse uma nova
sociedade. Sim, eram essas coisas que estavam passando pela estrada, como
uma força da natureza, e vinha delas o vento terrível que lhes açoitava os
rostos.
Um enorme clamor se elevou, dominando a Marselhesa:
— Pão! Pão! Pão!
Lucie e Jeanne abraçaram-se à Sra. Hennebeau, que parecia sem
sentidos, enquanto Négrel se colocava diante delas como para protegê-las
com seu corpo. Seria naquela mesma noite que a velha sociedade viria
abaixo? O que viram então acabou de atordoá-los. O bando escoava, na
frente do estábulo passava agora um grupo de retardatários, quando surgiu a
filha de Mouque. Ela sempre ficava para trás, espiando os burgueses pelos
portões dos jardins, pelas janelas das casas. Quando descobria um, não
podendo cuspir-lhe no rosto, mostrava-lhe o que era para ela o cúmulo do
desprezo Sem dúvida tinha descoberto algum, porque, de repente, levantou
as saias, espichou as nádegas, mostrou seu enorme traseiro, completamente
nu aos últimos raios do sol. Aquela massa disforme não tinha nada de
obsceno nem fazia rir, era antes feroz.
Como tinha vindo, desaparecera; a onda rolava agora para Montsou
pela estrada em ziguezagues, por entre as casas baixas pintadas de cores
vivas. A caleça foi novamente para fora, mas o cocheiro disse que não se
responsabilizava em levar de volta para casa a senhora e as senhoritas com
os grevistas ocupando a estrada. E o pior era que não havia outro caminho.
— Mas temos de voltar, o jantar nos espera! — disse a Sra.
Hennebeau fora de si, exasperada pelo medo. — Essa escória foi escolher
logo hoje, quando tenho convidados. Vá-se fazer bem a uma gentalha como
essa!
Lucie e Jeanne tentavam retirar Cécile da palha; esta debatia-se,
pensando que os selvagens ainda estavam desfilando, e repetindo que não
queria ver. Finalmente todas entraram no carro e Négrel, já a cavalo, teve a
ideia de passar pelas ruelas de Réquillart.
— Dirija devagar — disse ele ao cocheiro —, porque o caminho é
muito ruim. Se mais adiante algum bando o impedir de voltar à estrada,
pare atrás da mina velha e nós iremos a pé, entrando pelo portão do jardim,
enquanto você guarda o carro e os cavalos no galpão da primeira estalagem
que encontrar.
E, assim, partiram. O bando, ao longe, espalhava-se por Montsou.
Após terem visto passar por duas vezes os policiais e a cavalaria, os
habitantes do lugar agitavam-se, cheios de pânico. Corriam histórias
terríveis, falava-se de cartazes manuscritos ameaçando os burgueses com
uma carnificina. Ninguém os tinha lido, mas assim mesmo citavam frases
textuais. Sobretudo em casa do notário o terror estava no auge, porque ele
acabava de receber por baixo da porta uma carta anônima em que o
advertiam de que um barril de pólvora estava enterrado na sua adega,
pronto para explodir se ele não se declarasse a favor do povo.
Os Grégoire, que justamente protelavam o fim de sua visita em
razão da chegada dessa carta, discutiam-na, afirmando ser obra de algum
trocista, quando a invasão do bando acabou de apavorar a casa. Eles
sorriam e espiavam por uma fresta de cortina, recusando-se a admitir um
perigo qualquer, certos de que tudo terminaria amigavelmente, como
diziam. Como eram apenas cinco horas, tinham tempo, esperariam que a
rua estivesse livre para ir jantar defronte, na casa dos Hennebeau, onde
Cécile, certamente já de volta devia esperá-los. Mas em Montsou ninguém
parecia partilhar da confiança deles, pessoas passavam correndo, portas e
janelas fechavam-se violentamente. Perceberam Maigrat, do outro lado da
estrada, entrincheirando seu armazém com trancas de ferro, tão pálido e
trêmulo, que sua raquítica mulherzinha é quem tinha de apertar os
parafusos.
O bando concentrara-se diante do palacete do diretor e gritava sem
parar:
— Pão! Pão! Pão!
O Sr. Hennebeau estava em pé à janela quando Hippolyte entrou
para fechar os postigos, temendo que os vidros fossem quebrados a
pedradas. Fechou assim todo o térreo e passou ao primeiro andar; ouviam
se distintamente os rangidos dos fechos e o bater das persianas.
Infelizmente não se podia fechar da mesma forma o respiradouro da
cozinha, no subsolo, uma abertura perigosa onde se refletia o fogo das
panelas e da assadeira.
Maquinalmente, o Sr. Hennebeau, que queria ver, subiu novamente
ao segundo andar, ao quarto de Paul; era o mais bem situado, à esquerda,
permitindo descortinar a estrada até os depósitos da companhia. E
escondeu-se atrás da persiana, dominando a multidão. Mas o quarto
apoderou-se dele uma outra vez, o toucador limpo e em ordem, o leito frio,
com os lençóis trocados e lisos. Toda a sua raiva da tarde, a furiosa batalha
que tivera lugar no âmago do grande silêncio da sua solidão, transformava
se num imenso cansaço. O seu ser era agora como aquele quarto, arrefecido,
varrido das imundícies da manhã, de volta à ordem habitual. De que serviria
um escândalo? Sua mulher tinha simplesmente um amante a mais; o grave
era que o escolhera dentro da família. Mas talvez houvesse uma vantagem;
dessa maneira salvava as aparências. Encheu-se de autopiedade ao lembrar
se do seu ciúme louco. Que ridículo ter esmurrado a cama! Já não tinha
tolerado outro homem? Podia muito bem tolerar este. Seria apenas o
problema de mais um pouco de desprezo. Um amargor terrível envenenava
lhe a boca, a inutilidade de tudo, a eterna dor de viver, a vergonha de si
próprio, que continuava a adorar e desejar essa mulher, mesmo na
imundície em que a abandonava.
Embaixo da janela os gritos explodiram com redobrada violência:
— Pão! Pão! Pão!
— Imbecis! — disse o Sr. Hennebeau por entre os dentes
fechados.
Ouvia que o injuriavam por receber ordenados polpudos, que o
chamavam de vagabundo, barrigudo, de canalha que tinha indigestões de
iguarias enquanto o operário morria de fome.
As mulheres haviam descoberto a cozinha e houve uma verdadeira
tempestade de imprecações contra o faisão que assava contra os molhos
cujo cheiro gorduroso aguilhoava seus estômago vazios. Ah, burgueses
imundos, haviam de empanturrá-los d champanha e trufas até verem suas
tripas estourar!
— Pão! Pão! Pão!
— Imbecis! — repetiu o Sr. Hennebeau. — Acaso eu sou feliz!
Enchia-se de cólera contra aquela gente que não compreendia.
Dar-lhes-ia com prazer seu polpudo ordenado para ter, como eles, o
couro resistente, a cópula fácil e sem remorso. Com que prazer os poria à
sua mesa, os cevaria com seu faisão, enquanto ele iria fornicar atrás das
sebes, derribar as moças, rindo daqueles que já tinham feito o mesmo com
elas antes dele! Daria tudo, sua educação, seu bem-estar, seu luxo, sua
autoridade de diretor, para ser, por um dia, o último dos miseráveis que lhe
obedeciam, liberto da sua carne, bastante patife para bater na esposa e ir
procurar seu prazer com as vizinhas. E queria também morrer de fome, ter a
barriga vazia, o estômago contraído pelas cãibras e o cérebro com vertigens,
talvez isso matasse a eterna dor. Ah! viver como um animal, nada ter de
seu, acampar nos trigais com a operadora de vagonetes mais feia, mais suja,
e ter a capacidade de ser feliz!
— Pão! Pão! Pão!
Fora de si, gritou furiosamente no meio do alarido:
— Pão! Só isso chega, imbecis?
Ele comia, mas assim mesmo estertorava de tanto sofrimento. Seu
lar destruído, toda a sua vida de amargura subia-lhe à garganta num
espasmo de morte. Era um desgraçado porque tinha pão. Quem era o idiota
que punha a felicidade deste mundo na repartição da riqueza? Esses
revolucionários sonhadores podiam destruir a sociedade e criar uma nova,
mas não tomariam maior a alegria da humanidade, nem diminuiriam suas
tristezas, cortando a cada um a sua fatia de pão. O que fariam seria
aumentar as desgraças da terra, levando até os cães a uivar de desespero ao
se verem arrancados da tranquila satisfação dos instintos para serem
elevados ao sofrimento insaciável das paixões. Não, o único bem era não
ser, ou, sendo, ser a árvore, a pedra, menos ainda, o grão de areia que não
pode sangrar sob o tacão dos viandantes.
E no auge do seu tormento, seus olhos encheram-se de lágrimas que
começaram a escorrer em gotas ardentes pelo rosto. O crepúsculo engolfava
a estrada, quando as pedras começara a esburacar a fachada do palacete. Já
incapaz de cólera contra aqueles famintos, fendo apenas com a chaga em
fogo do seu coração, continuou a balbuciar por entre lágrimas:
— Imbecis! Imbecis!
Mas o grito das barrigas vazias foi mais forte; como uma
tempestade varrendo tudo, soprou o bramido:
— Pão! Pão! Pão!
continua na página 306...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.