quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Odisseia: Parte I (Canto III.a)

 Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto III

Em Pilo

    “Telêmaco chega a Pilo junto com Atena na forma de Mentor e encontra os Pílios terminando um sacrifício de touros para Posido. Perguntando sobre seu pai, Nestor expõe alguns dos relatos de Troia. Depois disso, Atena vai embora em forma de pássaro. Nestor oferece um sacrifício a ela e envia Telêmaco para Lacônia junto com seu filho Pisístrato.” (Scholie P S V)


   E, quando o Sol se elevou, tendo o lago mui belo deixado, 
em rumo à abóbada brônzea, para iluminar os eternos 
deuses e os homens mortais, por sobre essa terra fecunda, 
ei-los em Pilo, cidade do velho Neleu, de muralha 
bem-construída. Na praia, uma oferenda de touros faziam, 
negros, sem mácula, ao deus de cabelos escuros, Posido. 
Nove fileiras de bancos havia, com homens quinhentos 
em cada fila e na frente dos grupos, também, nove touros. 
Chegam no ponto em que os Pílios aos deuses as coxas queimavam

pós das entranhas comerem; as cândidas velas da nave
baixam, cuidosos, e as dobram, saltando, depois, para terra. 
Desce da nave Telêmaco; serve-lhe Atena de guia. 
A de olhos glaucos, Atena, em primeiro lugar é quem fala: 
   “Deves, agora, Telêmaco, pôr a vergonha de lado, 
pois empreendeste a viagem com o fim de saber, tão somente, 
qual o destino que teve teu pai e em que terra se esconde. 
Sem vacilar te dirige a Nestor, domador de cavalos, 
porque saibamos que sábio conselho em seu peito se oculta. 
Tu próprio deves pedir-lhe que fale conforme a verdade.

Como sensato varão, não dirá falsidade nenhuma.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“De que maneira, Mentor, me apresento, e como hei de falar-lhe? 
Não sou versado em dizer bem-tecidos discursos, e tanto 
mais que um mancebo se acanha ao falar com pessoa mais velha.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“Hás de encontrar em ti próprio, Telêmaco, alguns pensamentos; 
outros serão por qualquer divindade inspirados, pois creio 
que vieste ao mundo e cresceste não contra a vontade dos deuses.” 
   Palas Atena, depois que assim disse, se pôs a guiá-lo

rapidamente. As pegadas da deusa seguia Telêmaco. 
Ei-los chegados ao ponto em que os Pílios estavam sentados, 
onde encontraram Nestor com seus filhos. Em torno, os mais sócios 
tratam da festa; uns as carnes espetam, do assado outros cuidam. 
Logo que viram pessoas de fora, vieram reunidos; 
trocam apertos de mão e os convidam, sem mais, a assentar-se. 
Aproximou-se-lhes, presto, Pisístrato, o claro Nestórida, 
que, pelas mãos os tomando, os invita, cortês, a assentar-se 
em velos brandos, que estavam na areia da praia estendidos, 
junto do irmão Trasimedes e ao lado também do pai dele.

Parte das vísceras dá-lhes; depois, tendo enchido de vinho 
áurea cratera, dirige-se à filha de Zeus poderoso, 
Palas Atena, e lhe diz as seguintes palavras aladas: 
   “Ora, estrangeiro, também, a Posido, monarca dos mares, 
cujo banquete aqui vieste encontrar, no decurso da viagem. 
Logo que tenhas orado e libado, de acordo com o uso, 
passa, também, para o outro a cratera de vinho melífluo, 
para que libe, pois penso que sabe cultuar os divinos. 
Todos os homens precisam da ajuda dos deuses eternos. 
Mas ainda é moço; regula, talvez, em idade, comigo;

Eis o motivo por que a áurea cratera te oferto primeiro.” 
   Isso dizendo, lhe passa a cratera da doce bebida. 
Palas se alegra por ver a prudência do justo guerreiro, 
que a áurea cratera em primeiro lugar ofertado lhe havia, 
e ao soberano Posido dirige seus votos ferventes: 
   “Ouve-me, ó deus, que circundas a terra, não queiras negar-nos 
que se realizem os votos e súplicas, que ora fazemos. 
Glória, em primeiro lugar, em Nestor e seus filhos derrama; 
aos moradores de Pilo concede também recompensa 
grata por esta hecatombe solene; e, por último, dá-nos,

enquanto a mim e a Telêmaco, irmos de volta na negra 
nave, depois que tivermos concluído o objetivo da viagem.” 
   Dessa maneira suplica, e ela própria realiza seus votos, 
Passa a Telêmaco uma bela cratera com alça dupla, 
para que o filho do claro Odisseu de igual modo libasse. 
Logo que a carne por fora tostou, dos espetos a tiram, 
cortam-na em postas e se banqueteiam esplendidamente. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
toma a palavra o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
   “Ora que os hóspedes já se alegraram no nosso banquete,

é permitido fazer-lhes perguntas porque se nomeiem. 
Ó estrangeiro, quem sois? Donde vindes nas úmidas vias? 
É por algum interesse, ou à toa cruzais o mar vasto, 
como piratas, que vagam sem rumo, arriscando suas vidas 
enquanto vão conduzindo a desgraça a pessoas estranhas?” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta, 
sem se tolher, pois Atena coragem lhe havia infundido, 
para que acerca de seu pai ausente pergunta fizesse, 
como também conquistasse entre os homens um nome preclaro: 
   “Filho do grande Neleu, ó Nestor, dos Aquivos orgulho!

já que perguntas a terra de origem, vou logo dizer-to. 
De Ítaca viemos, que está edificada na base do Neio, 
não por negócio do povo, mas, como o direi, no meu próprio. 
Pus-me no rasto da fama sem par de meu pai, para novas 
obter do divo e paciente Odisseu, que contigo, assim dizem, 
tendo lutado com os homens de Troia, saqueou-lhes o burgo. 
Temos notícias de como tombaram na Morte lutuosa 
quantos em Troia lutaram, na guerra com seus defensores, 
menos aquele, a que o filho de Crono deu fim ignorado, 
pois ninguém sabe dizer, com que certeza, onde a vida perdesse,

quer fosse em terra, contra homens em luta, que imigos seriam, 
quer sobre o mar agitado, nas ondas da deusa Anfitrite. 
Venho, por isso, implorar aos teus joelhos, porque me refiras 
sobre seu fim lastimável, quer tenhas a tudo assistido 
com os próprios olhos, quer tenhas por outro vagante sabido 
notícias dele, que a mãe concebeu como ser desditoso. 
Nada atenues por pena, talvez, ou até mesmo respeito, 
mas tudo conta sem falha, tal como tu próprio o observaste. 
Eu te suplico, se acaso meu pai, Odisseu, de alta fama, 
ou por palavras, ou obras, se desempenhou de promessa

feita na terra troiana, onde muito os Aqueus padecestes. 
Ora te lembra de tudo, e me conta conforme a verdade.” 
   Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
“Filho, uma vez que me lembras o que de trabalhos passamos 
quando entre os povos Troianos os fortes guerreiros Aquivos, 
quer percorrendo em navios o mar nebuloso, à procura 
do que pilharmos, para onde quisesse levar-nos Aquiles, 
quer combatendo em redor da cidade soberba de Príamo. 
Sim, lá tombaram sem vida os heróis mais notáveis e fortes; 
lá, sepultado, se encontra o mavórtico Ajaz; lá, o Pelida;

lá, também, Pátroclo, bom conselheiro, qual deus sempiterno, 
como meu filho querido, que à força aliava a beleza, 
o meu Antíloco, mestre na pugna e veloz na carreira. 
Outros trabalhos, ainda, aturamos; e quem poderia 
enumerar todos eles, dos homens mortais que hoje vivem? 
Nem que cinco anos aqui demorasses, ou seis, porventura, 
a perguntar que de dores sofreram os divos Acaios, 
antes, cansado, à tua pátria, de novo, tornar escolheras. 
Muitos trabalhos lhes demos durante noves anos, a braços 
com numerosas insídias, alfim pelo Crônida esfeitas¹.

Mas, quanto à astúcia ninguém suportava confronto com ele, 
que, na inventiva de ardis, sobre-estava a qualquer companheiro, 
teu genitor, o divino Odisseu. Se, de fato, tu fores 
dele oriundo; ao mirar-te, me sinto tomado de espanto. 
Muito pareces com ele, na fala; ninguém suporia 
que, por tal modo condigno, um rapaz conseguisse expressar-se. 
Por todo o tempo em que lá demoramos, jamais dissentimos, 
eu e o divino Odisseu, nos conselhos, assim como na ágora; 
sempre, porém, com um só pensamento e conselhos prudentes, 
dávamos nossa opinião aos Aqueus, só visando à vitória.

Mas, quando a excelsa cidade de Príamo, enfim, destruímos, 
às naus subimos velozes; um deus dispersou os Aquivos. 
Zeus planejou no mais íntimo triste regresso aos Acaios, 
visto nem todos se terem mostrado sensatos e justos. 
Disto proveio tocar à mor parte um destino funesto, 
pela zizânia terrível que a filha do pai poderoso, 
a de olhos glaucos, Atena, lançou entre fortes Atridas. 
Estes resolvem reunir a assembleia-geral dos Acaios, 
inoportunos e contra os costumes, depois do Sol posto. 
E, quando os nobres Aquivos, pesados de vinho, chegaram,

tomam, então, a palavra, e o motivo do apelo apresentam. 
Primeiramente, exortou Menelau os guerreiros Aquivos 
a se lembrarem da volta e sulcarem das águas o dorso. 
Mas Agamémnone o alvitre rejeita; deter pretendia 
todos os homens, a fim de ofertar hecatombes sagradas, 
para que a cólera grande de Atena pudesse aplacar-se. 
Tolo! De fato, ignorava que lhe era impossível dobrá-la, 
pois não se muda assim, prestes, a mente dos deuses eternos. 
Dessa maneira ficaram, trocando palavras azedas. 
Alçam-se, logo, os Aquivos ornados de grevas bem-feitas,

com indizível clamor, divididos, também, em dois grupos. 
Por toda a noite ficamos volvendo propósitos graves, 
desencontrados, pois Zeus preparava maiores desgraças. 
Pela manhã arrastamos a nau para as ondas sagradas, 
dentro metendo as riquezas e escravas de baixa cintura. 
Mas a metade do povo resolve ficar ali mesmo 
com Agamémnone, pastor do povo, de Atreu descendente. 
   “Nossa metade, embarcando-se, afasta-se logo; velozes 
vogam, por ter um dos deuses o mar cor de vinho aplanado. 
Mal aportamos em Tênedo, sacrificamos aos deuses

por nossa volta; mas Zeus inda não resolvera o retorno. 
Que crueldade! De novo entre nós a discórdia suscita. 
Uns, tendo à frente Odisseu, de prudentes e sábios conselhos, 
fazem mudar a derrota da nave de pontas recurvas, 
para fazerem, de novo, a vontade do Atrida Agamémnone. 
Eu, por meu lado, e os navios velozes, que formam meu séquito, 
logo, fugimos, por vermos que um deus meditava arruinar-nos; 
foge o guerreiro Tidida, também, concitando a companhia. 
O louro herói Menelau vem mais tarde reunir-se conosco, 
na ilha de Lesbo, ao tratarmos da rota que urgia fazermos:

se pela ilha de Psira, por cima de Quio escabrosa, 
tendo aquela outra à sinistra, se rumo seguindo diverso, 
indo por baixo de Quio, a costear o Mimante ventoso. 
Todos, então, suplicamos ao deus nos mandasse um presságio. 
Deu-nos sinal, ordenando cortarmos o mar para Eubeia, 
para que cedo pudéssemos todos fugir dos perigos. 
Logo começa a soprar a viração; os navios apartam 
rapidamente o caminho piscoso, até que, pela noite, 
vão fundear em Geresto. De bois muitas coxas queimamos 
ao deus Posido, por termos o pélago imenso medido.

Nas naus simétricas a Argos chegamos após quatro dias, 
onde ficaram os sócios do forte Tidida, Diomedes, 
o picador. Para Pilo voguei, sem deixar de ter nunca 
vento propício, que um deus nos fazia soprar de contínuo. 
   “Dessa maneira, meu filho, voltei, sem ter outras notícias 
quanto ao destino ulterior dos Acaios, quais mortos, quais vivos. 
Mas quanto soube, depois que aqui vivo em o nosso palácio, 
vou relatar-te, como é de justiça, sem falha nenhuma. 
Dizem que os fortes Mirmídones sem contratempos chegaram, 
sob o comando do filho preclaro do excelso Pelida,

como, também, Filocretes, filho notável de Peante. 
Idomeneu para Creta, também, trouxe os sócios, sem perdas, 
quantos da guerra escaparam; nenhum pelo mar foi tragado. 
O que respeita ao Atrida, soubeste-lo, embora distantes, 
de sua volta e do fim desditoso, que Egisto lhe urdiu.
Este, porém, já pagou ignominiosamente seu feito. 
Nada melhor para o herói, quando morre, do que deixar filho 
homem, também, pois aquele se vinga de Egisto assassino, 
que, com traiçoeira artimanha, matara seu pai muito ilustre. 
Tu, também, caro! Crescido te vejo e com bela aparência.

Sê corajoso, porque também possam vindouros louvar-te.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Filho do grande Neleu, ó Nestor, dos Aquivos orgulho, 
sobejamente vingou-se, de fato, e os Acaios imensa 
glória hão de dar-lhe, que há de chegar sem deslustre aos vindouros. 
Oh, quem me dera que os deuses tal força, também, me outorgassem, 
para que, enfim, conseguisse vingar a molesta protérvia² 
dos pretendentes soberbos que iníquas ações me maquinam. 
Tanta ventura, porém, os eternos do Olimpo não deram 
nem a meu pai nem a mim; ora cumpre sofrer com paciência.”

Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
“Filho, uma vez que mo lembras, por teres falado em tal coisa, 
dos pretendentes contaram-me, de tua mãe, numerosos, 
que, a teu mau grado, em tua casa praticam ações revoltantes. 
Dize-me se te submetestes voluntariamente, ou se o povo 
se mostra às claras infenso, atendendo de um deus às palavras? 
Quem nos dirá que não volte e consiga infligir-lhes castigo, 
quer venha só, quer seguido de todos os homens Aquivos? 
Se a de olhos glaucos, Atena, quisesse também distinguir-te 
como ao preclaro Odisseu distinguia entre todos, outrora,

nos vastos plainos de Troia, onde muito os Aqueus padecemos! 
Nunca me foi tão patente a afeição das eternas deidades, 
como ante a clara assistência que Palas, então, lhe dicava. 
Caso quisesse dignar-se de amar-te e querer-te, em sua alma, 
muitos, por certo, a lembrança das bodas perder haveriam.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Tal vaticínio, ó ancião, não presumo que venha a efetuar-se; 
é por demais excessivo e me espanta; esperar não me atrevo 
tal conjuntura, ainda mesmo que os deuses eternos o queiram.” 
   A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, em resposta, o seguinte: 

“Mas que palavras, Telêmaco, deixas fugir dessa boca?
Mesmo de longe é mui fácil a um deus socorrer qualquer homem. 
Sim, preferira sofrer em minha alma trabalhos sem conta, 
mas para a pátria tornar e rever o meu dia de volta, 
a me finar no meu próprio palácio, tal como Agamémnone, 
que sucumbiu ante a fraude de sua mulher e de Egisto. 
Mas para todos a Morte é uma só, nem conseguem os deuses, 
indo ao mais caro dos homens, sequer defendê-lo, ao ser ele 
pelo Destino exicial alcançado, da Moira funesta.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta:

“Não mais falemos, Mentor, disso agora, conquanto apreensivos. 
Não é possível que volte; o que é certo é que os deuses eternos 
o condenaram à Morte, entregando-o ao escuro Destino. 
Ora desejo saber outra coisa e também informar-me, 
junto a Nestor, que, em justiça e prudência, aos demais sobre-excede, 
pois, dizem todos, que em três gerações já estendeu o seu mando. 
Quando o contemplo, parece que vejo um dos deuses eternos. 
Ora, Neleio Nestor, a verdade inconcussa me narra: 
Como morreu Agamémnone, o Atrida de extensos domínios? 
E Menelau, onde estava? Que dolos valeram a Egisto

ontinua página 688...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a /       
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

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[1] A frase “alfim pelo Crônida esfeitas” é uma tradução poética, em português arcaizante. Vamos destrinchar cada parte para entender o sentido.
Crônida = “filho de Crono”, isto é, Zeus. É uma forma tradicional, usada em traduções mais literárias, para se referir ao deus.
Esfeitas = forma arcaica de “feitas”, “realizadas”, “executadas”.
Alfim = aqui está o ponto mais obscuro. Em algumas traduções antigas, “alfim” aparece como forma poética para “alvo”, “branco”, “puro”, ou como adaptação de termos gregos ligados a “resplendor” ou “proteção”. Em certos contextos da Odisseia, pode estar ligado a armas, dádivas, sinais divinos ou ações.
     Sentido provável da frase, tomando o conjunto, a expressão deve significar algo como:
obras (ou feitos) alvos/puros realizados pelo Crônida (Zeus)” ou “ações resplandecentes feitas por Zeus
Em outras palavras, trata-se de uma referência poética aos feitos de Zeus, destacando sua autoridade e grandeza.
[2] Molesta protérvia:
protérvia = insolência, arrogância, atrevimento desmedido.
molesta = dolorosa, incômoda, odiosa. Juntas, formam algo como “a odiosa insolência”.
vingar - Aqui no sentido clássico: punir, retribuir, fazer pagar.
conseguisse vingar - Expressa um desejo ou hipótese: “se pudesse punir”, “se lograsse retribuir”.
A “protérvia” é quase sempre associada a hýbris, a arrogância que exige castigo.
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Odisseia, de Homero - Canto 3 
- Telêmaco chega a Pilo em busca de notícias de Odisseu



terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cinema: O Pagador de Promessas

Glória Menezes e Leonardo Vilar

o ano é 1962

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, é até hoje o único filme brasileiro a conquistar a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes.

Diretor:
Anselmo Duarte

Roteiristas:
Anselmo Duarte
Dias Gomes

O filme acompanha Zé do Burro, homem simples que cruza o sertão até Salvador para cumprir um voto ligado à fé e à promessa de justiça social. Abordando intolerância religiosa e crítica social com atuações marcantes e fotografia memorável, é considerado um marco do cinema brasileiro, um filme para quem aprecia dramas profundos e culturalmente ricos.
Zé do Burro vive com Rosa, sua mulher, numa pequena propriedade perto de Salvador. Um dia, seu burro é atingido por um raio. Em um terreiro de candomblé, ele faz uma promessa a Santa Bárbara para salvar o animal, que se recupera. Para cumprir sua palavra, Zé doa metade de seu sítio e segue a pé para a capital baiana, carregando uma enorme cruz de madeira. Na cidade, Rosa se apaixona por um cafetão, e padre Olavo, responsável pela igreja de Santa Bárbara, não deixa que Zé entre no templo porque a promessa foi feita em um terreiro de candomblé. 
O filme é uma adaptação da peça teatral homônima escrita em 1959 por Dias Gomes






Elenco:
Leonardo Villar como Zé do Burro
Glória Menezes como Rosa
Dionísio Azevedo como Padre Olavo
Geraldo Del Rey como Bonitão
Roberto Ferreira como Dede
Norma Bengell como Marly
Othon Bastos como Reporter
Antônio Pitanga como Coca
Gilberto Marques como Galego
Milton Gaúcho como Policial
Enoch Torres como Inspetor de Polícia
Carlos Torres como Coca's Friend
João Di Sordi como Police Detective
Veveldo Dinizcomo Sacristão
Maria Conceição como Tia
Irenio Simões como Editor
Walter da Silveira como Bispo
Napoleao Lopes Filho como Bispo
Cecília Rabelo como Sacristão
Jurema Penna como Sacristão
Alair Liguori como Sacristão
Canjiquinha como Capoeirista
Américo Coimbra como Bonitão
Ignácio de Loyola Brandão (não creditado)
Garibaldo Matos (não creditado)


Dias Gomes - Alfredo de Freitas Dias Gomes, mais conhecido pelo sobrenome Dias Gomes (Salvador, 19 de outubro de 1922 — São Paulo, 18 de maio de 1999), foi um romancista, dramaturgo, autor de telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras. Também conhecido pelo seu casamento com a também escritora Janete Stocco Emmer (Janete Clair).

Alfredo Dias Gome
- 12/06/1995




Telenovelas:

1969
A Ponte dos Suspiros   
1970
Verão Vermelho
1970/1971
Assim na Terra como no Céu
1971/1972
Bandeira 2
1973
O Bem-Amado
1974
O Espigão
1975
Roque Santeiro (versão censurada)
1976
Saramandaia
1978/1979
Sinal de Alerta
1985/1986
Roque Santeiro
1987
Expresso Brasil
1987/1988
Mandala
1990/1991
Araponga
1995
Irmãos Coragem
1996
O Fim do Mundo

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
01. Antonia / 02. O Quatrilho / 03. Meu Pé Esquerdo / 04. O Pagador de Promessas /    

Ilíada: Homero (Canto III.b - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto III - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau
 
“Alexandre (Páris) provoca os Gregos mais fortes para que lutem com ele, mas acaba recuando diante de Menelau. Heitor o reprova veementemente e Alexandre decide combater Menelau. É feito um juramento, sancionado por Príamo, que aquele que vencer a batalha levará Helena. Esta sobe a muralha do palácio e aponta a Príamo os heróis Gregos. No combate de Alexandre e Menelau, este último sai vencedor, no entanto Afrodite salva Alexandre e o leva aos braços de Helena, a salvo atrás das muralhas de Troia. Helena o reprova e Agamémnone reclama vitória.”

continuando...

Idomeneu do outro lado diviso, qual um dos eternos 
entre os Cretenses, cercado por todos os chefes de Creta. 
Mais de uma vez Menelau, de Ares forte discípulo, o teve 
em nossa casa hospedado, ao chegar de viagem de Creta. 
Posso, também, distinguir muitos outros Aqueus de olhos vivos. 
Reconhecê-los ser-me-ia mui fácil, nomear a eles todos. 
Só perceber não consigo os dois chefes insignes de povos, 
o domador de cavalos, Castor, e o belaz Polideuces, 
o pugilista, os meus caros irmãos, de uma só mãe nascidos. 
Ou não vieram da terra saudosa de Lacedemônia, 

ou para aqui os trouxeram as naves de rápido curso, 
mas resolveram de todo evitar as batalhas dos homens, 
envergonhados da grande desonra que a todos fui causa.” 
   Eles, porém, pela terra, que a vida produz incessante, 
já se encontravam cobertos, na pátria querida, a Lacônia. 
   Pela cidade os arautos, no entanto, as ovelhas levavam, 
bem como o vinho jucundo, produto da terra frutífera, 
num odre feito de pele de cabra; Ideu traz a cratera, 
o nobre arauto de Príamo, e os cálices de ouro maciço. 
Apresentando-se ao velho, o apressou, com dizer-lhe o seguinte:

“Sus, Laomedôncio, levanta-te, que os mais notáveis guerreiros 
dos picadeiros Troianos, e Aqueus de couraça de bronze, 
pedem que desças, a fim de firmares os pactos solenes. 
Somente Páris e o herói Menelau, de Ares forte discípulo, 
vão por Helena lutar, de hastas firmes e longas munidos. 
O que sair vencedor, ficará com a mulher e as riquezas; 
nós, entretanto, jurada a amizade, na Tróade fértil 
continuaremos; os mais, para a Acaia de belas mulheres 
retornarão, ou para Argos, de solo de pingues pastagens.” 
   Estremeceu, ante a nova, o bom velho; mas logo deu ordem

aos companheiros que o carro aprontassem, no que lhe obedecem. 
Príamo sobe primeiro, tomando nas mãos, logo, as rédeas; 
ao lado dele Antenor assentou-se, no carro belíssimo. 
Os corredores velozes a vasta planície atravessam. 
Quando, porém, aos guerreiros Troianos e Aqueus alcançaram, 
da carruagem desceram, pisando a alma terra fecunda, 
sempre a avançar pelo espaço deixado entre Aquivos e Teucros. 
Põe-se de pé, sem detença, Agamémnone, rei poderoso, 
e o mui solerte guerreiro Odisseu; os arautos magníficos 
trazem as vítimas sacras a um ponto; na grande cratera,

mesclam o vinho, deitando, depois, água às mãos dos monarcas. 
O nobre filho de Atreu, Agamémnone, tira o cutelo 
que sempre ao lado da bainha da espada cortante trazia, 
e das ovelhas o pelo da testa cortou, que os arautos 
distribuíram por todos os nobres Aquivos e Teucros. 
No meio deles o Atrida alça as mãos, implorando em voz alta: 
   “Zeus pai, que no Ida demoras, senhor poderoso e supremo, 
Hélio, que tudo divisas e todas as coisas escutas, 
rios e terra, também, e vós outros, ó deuses de baixo, 
que castigais nas moradas subtérreas os homens perjuros,

vós testemunhas nos sede e fiadores dos votos sagrados: 
se a Menelau conseguir Alexandre matar na contenda, 
dono de Helena há de ser e de todas as suas riquezas, 
enquanto nós cruzaremos, de novo, nas naves, as ondas. 
Se o louro Atrida, porém, da existência privar a Alexandre, de 
presto nos deem os Troianos a Helena, assim como as riquezas, 
sobre se verem forçados a multa pagar aos Argivos, 
porque a memória do feito entre as gentes vindouras se estenda. 
Se se escusarem, porém, uma vez Páris morto, ou vencido, 
Príamo e os filhos, porque não me paguem a multa devida,

hei de seguir combatendo, visando a cobrar essa multa, 
sem nos movermos daqui, até vermos o fim da contenda.” 
   Tendo assim dito, com bronze cruel degolou as ovelhas, 
que, sobre a terra feraz colocou, nos arrancos agônicos, 
todas da vida privadas, que o bronze o vigor dissolvera. 
O vinho, logo depois, da cratera, nos copos deitaram 
e suplicaram aos deuses eternos e beatos do Olimpo. 
Os Teucros todos e os homens Acaios desta arte imploraram: 
   “Zeus gloriosíssimo e forte, e vós outros, ó deuses eternos! 
que se derramem, tal como este vinho, no chão os miolos

de quantos quebrem as juras solenes firmadas nesta hora, 
e os de seus filhos, ficando as mulheres escravas de estranhos.” 
   Isso diziam; mas Zeus não lhes quis atender o pedido. 
Príamo, o neto de Dárdano, aos outros, então, se dirige: 
   “Ora, guerreiros Troianos, grevados Acaios, ouvi-me! 
Vou retornar para Troia, a cidade varrida por ventos, 
por me faltar a coragem de ver com meus olhos a luta 
que com o herói Menelau vai travar meu querido Alexandre. 
Zeus, porventura, já sabe, e os mais deuses eternos e beatos, 
a qual dos dois o Destino reserva ser presa da Morte.”

Com majestade divina, no carro as ovelhas coloca 
Príamo e sobe primeiro, tomando nas mãos, logo, as rédeas; 
ao lado dele Antenor assentou-se no carro belíssimo. 
Rapidamente voltaram para Ílio, batida por ventos. 
   O nobre filho de Príamo, Heitor, e Odisseu astucioso 
primeiramente o terreno mediram; depois agitaram 
o elmo de bronze, no qual duas marcas haviam deposto, 
para que a sorte apontasse o primeiro a atirar a aênea lança. 
Súplices, todos imploram, aos deuses as mãos elevando. 
Os Aqueus todos e os homens Troianos desta arte imploravam:

“Zeus pai, que no Ida demoras, senhor poderoso e supremo! 
faze que venha a encontrar o fim triste e para o Hades afunde 
o causador desta guerra, que veio por sobre nós todos. 
Mas, alcançada a concórdia, os demais amizade juremos.” 
   Isso diziam; Heitor, entrementes, as sortes agita 
no elmo, com o rosto virado; saltou a marcada por Páris. 
Todos, então, sem quebrar as fileiras, no chão se assentaram, 
onde os cavalos briosos se achavam e as armas lavradas. 
O divo Páris, marido de Helena de belos cabelos, 
em torno aos membros ajusta a armadura de fino trabalho:

as caneleiras, primeiro, lavradas, nas pernas ataca,
belas de ver, por fivelas de prata maciça ajustadas; 
em torno ao peito coloca, depois, a couraça magnífica, 
que a seu irmão pertencia, Licáone, e bem se lhe ajusta; 
lança nos ombros a espada de bronze com cravos de prata 
e um grande escudo sobraça, maciço e de largos contornos: 
o elmo de fino lavor na cabeça admirável coloca, 
no qual, por modo terrível, penacho de crina ondulava; 
toma, por fim, de uma lança bem forte, de fácil manejo. 
Do mesmo modo se armou Menelau, de Ares forte discípulo.

Quando os aprestos concluíram, cada um no seu campo, avançaram 
pelo terreno deixado entre os homens Aqueus e os Troianos, 
ambos com aspecto terrível; o espanto se apossa de todos, 
dos picadores Troianos e Aquivos de grevas bem-feitas. 
Precisamente no meio da liça eles dois se encontraram, 
as lanças ambos brandindo, sem que o ódio ocultar conseguissem. 
Páris primeiro jogou sua lança de sombra comprida, 
a qual no escudo redondo do filho de Atreu foi dobrar-se, 
sem que o metal o rompesse, contudo, que a ponta se amolga 
na resistência do escudo. Atirou Menelau, em seguida, 

a sua lança, também, dirigindo a Zeus grande uma súplica: 
   “Dá-me, Zeus pai, que consiga castigo infligir a Alexandre, 
causa de minha desonra! Que sob meus golpes sucumba, 
para de exemplo servir aos vindouros, que horror manifestem 
de retribuir com vilezas a lhana e amistosa hospedagem.” 
   Joga, ao dizer esta súplica, a lança de sombra comprida, 
que foi bater bem no escudo redondo do filho de Príamo. 
A arma terrível o escudo de aspecto brilhante atravessa, 
indo encravar-se na cota de bela e variada textura, 
e atravessando, também, junto ao flanco, a preciosa camisa.

Páris, entanto, encurvou-se, escapando da lívida Morte. 
O nobre filho de Atreu sacou logo da espada e, elevando-se, 
na crista do elmo tremenda pancada atirou; mas a espada 
veio ali mesmo fazer-se pedaços, das mãos lhe escapando. 
O louro herói Menelau para o céu volta os olhos e exclama: 
   “Zeus pai, nenhum dos eternos te pode vencer em crueldade, 
pois esperava, realmente, vingar-me da injúria de Páris! 
Mas, em vez disso, quebrou-se-me a espada nas mãos e, frustrânea,
foi minha lança atirada, sem ter o alvo certo atingido.” 
   Tendo isso dito, de um salto o elmo, ornado de crina, segura,

e para os homens Aquivos procura arrastar Alexandre. 
O delicado pescoço apertado ficou pela tira 
que, por debaixo da barba, servia de freio para o elmo. 
E, porventura, o arrastara, colhendo, com isso, alta glória, 
se o não tivesse Afrodite, a donzela de Zeus, percebido, 
que fez romper-se a correia tirada de um boi morto à força. 
O elmo vazio, as mãos fortes do herói, tão somente, acompanha, 
que o fez rolar para o meio dos homens Aquivos, ornados 
de belas grevas; os fidos consórcios depressa o acolheram. 
Dá Menelau novo salto, disposto a matar o inimigo

com a lança brônzea; porém Afrodite dali — era deusa — 
mui facilmente o afastou. Em espessa neblina envolvendo-o, 
foi colocá-lo no tálamo odoro e de enfeites ornado. 
Passa a chamar logo Helena. Encontrou-a, realmente, num quarto 
da torre excelsa, rodeada por muitas mulheres Troianas. 
Toca-lhe, então, levemente, nas vestes de essência divina, 
tendo assumido a feição exterior de uma velha encurvada, 
que lã sabia cardar e que muitos trabalhos para ela, 
quando em Esparta, fizera, entre todas a mais distinguida. 
Tendo essa forma assumido, Afrodite lhe disse o seguinte:

“Vem, cara filha, comigo, que Páris chamar-te mandou-me. 
Ele te espera no quarto, onde se acha, no leito torneado, 
belo de ver, irradiante e vestido a primor; não disseras 
que de um combate saiu, senão que ora, cuidoso, se apresta 
para ir dançar ou que, lasso do baile, ao repouso se entrega.” 
   Essas palavras revolta no peito de Helena espertaram. 
Reconheceu logo a deusa, com ver-lhe o pescoço belíssimo, 
os seios ricos de encantos e os olhos inquietos e vivos. 
Fica tomada de espanto; depois, a increpou deste modo: 
   “Falsa, por que procurar iludir-me com tantos embustes?

Naturalmente, com o fim de poderes mais longe levar-me, 
à bem-construída cidade da Frígia ou da Meônia formosa, 
onde dileto mortal, destituído de senso, escolheste. 
Por isso mesmo que o herói Menelau derrotou em combate 
ao divo Páris, e quer para a casa fatal conduzir-me, 
vieste até aqui meditando iludir-me com novas insídias? 
Vai tu, sozinha, e a seu lado te assenta; dos deuses te afasta: 
não voltes mais a pisar o caminho altanado do Olimpo, 
mas permanece ao seu lado, sofrendo e cuidando só dele, 
té que, por fim, como esposa te aceite, ou, talvez, como escrava.

Não voltarei para o tálamo, pois vergonhoso seria 
participar-lhe do leito; as Troianas, sem dúvida, haviam 
de murmurar; já sobejam as dores que na alma suporto.” 
   Cheia de cólera, a deusa Afrodite lhe disse, em resposta: 
“Não me provoques, criatura infeliz, porque não aconteça 
que te abandone e te venha a odiar quanto agora te prezo. 
Se entre os Acaios e Teucros fizesse surgir ódio infausto 
contra tu própria, haverias de ter um destino bem triste.” 
   Cheia de medo ficou a nascida de Zeus poderoso, 
e, sem dizer mais palavra, se foi, no véu branco envolvida,

sem que as Troianas a vissem; servia de guia o demônio. 
Logo que o belo palácio do divo Alexandre alcançaram, 
para os trabalhos usuais retornaram depressa as criadas, 
enquanto Helena, a divina, ingressava no esplêndido tálamo. 
Uma cadeira Afrodite, dos risos amante, lhe trouxe, 
indo depô-la defronte de Páris, o divo Alexandre. 
Senta-se Helena, a nascida de Zeus, sem olhar para o lado 
onde o marido se achava. Começa exprobrando-o desta arte: 
“Como! voltaste da guerra? Prouvera que a Morte encontrasses 
sob as mãos fortes do herói valoroso que foi meu marido.

Antes da guerra gabavas-te, sim, de que tinhas mais força 
que Menelau, mais arrojo e destreza no jogo da lança. 
Vai provocar, então, logo, o discípulo de Ares potente, 
para, outra vez, vos medirdes em duelo. Aliás, aconselho-te 
a que não faças tamanha tolice, pensando que podes 
com o louro herói Menelau contender numa luta corpórea, 
que em pouco tempo sua lança potente há de ao solo prostrar-te.” 
   O divo Páris, então, lhe retruca as seguintes palavras: 
“Não me acabrunhes o peito, mulher, com teus ditos sarcásticos. 
Por esta vez Menelau me venceu com o auxílio de Atena,

mas amanhã serei eu o vencedor, que outros deuses nos prezam. 
Ora, concordes, gozemos do amor as carícias, no leito, 
pois nunca tive os sentidos tomados por tanta ebriedade, 
nem mesmo quando em navios velozes te trouxe da pátria, 
Lacedemônia querida, no tempo em que foste raptada 
e de numa ilha rochosa o primeiro conúbio gozarmos. 
Hoje, mais doce paixão, por tua casa, de mim se apodera.” 
   Tendo isso dito, subiu para o leito; seguiu-o a consorte. 
Enquanto os dois, no belíssimo leito, do sono fruíam, 
o louro filho de Atreu, Menelau, percorria as fileiras,

como uma fera, à procura de Páris, de formas divinas. 
Mas nem os Teucros, nem mesmo seus fidos aliados, podiam 
ao grande herói Menelau indicar onde estava Alexandre, 
que se o tivesse enxergado, nenhum, por amor, o ocultara, 
pois como a lívida Morte era odiado, realmente, por todos. 
O nobre Atrida Agamémnone, então, se expressou deste modo: 
   “Teucros, Dardânios e aliados, agora atenção concedei-me! 
É incontestável que coube ao herói Menelau a vitória. 
Cumpre-vos, Teucros, por isso, entregar-nos Helena e os tesouros 
acrescentados de multa vultosa, que ao caso convenha,

porque a memória do feito entre as gentes vindouras se estenda.” 
   Isso disse ele: os guerreiros Acaios em peso o aplaudiram. 

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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a / Canto III.b /          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica


Ilíada, de Homero - Canto III




segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Ilíada: Homero (Canto III.a - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto III - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau
 
“Alexandre (Páris) provoca os Gregos mais fortes para que lutem com ele, mas acaba recuando diante de Menelau. Heitor o reprova veementemente e Alexandre decide combater Menelau. É feito um juramento, sancionado por Príamo, que aquele que vencer a batalha levará Helena. Esta sobe a muralha do palácio e aponta a Príamo os heróis Gregos. No combate de Alexandre e Menelau, este último sai vencedor, no entanto Afrodite salva Alexandre e o leva aos braços de Helena, a salvo atrás das muralhas de Troia. Helena o reprova e Agamémnone reclama vitória.”


   Logo que todos os homens e os chefes em ordem ficaram, 
põem-se em marcha os Troianos, com grita atroante, quais pássaros, 
do mesmo modo que a bulha dos grous ao Céu alto se eleva, 
no tempo em que, por fugirem do inverno e da chuva incessante, 
voam, com grita estridente, por cima do curso do oceano, 
à geração dos Pigmeus conduzindo o extermínio e a desgraça, 
para, mal surja a manhã, a batalha funesta iniciarem. 
Silenciosos, furor respirando, os Aquivos avançam, 
no coração desejosos de auxílio uns aos outros prestarem.

Tal como névoa que Noto nos cumes dos montes ajunta, 
pouco, ao pastor, agradável, sim, grata ao ladrão mais que a noite, 
por não poder nada ver-se à distância de um tiro de pedra: 
sob as passadas, desta arte, a poeira do solo se erguia 
quando os heróis avançavam, cortando, ligeiros, o campo. 
   Quando os dois corpos do exército perto se acharam um do outro, 
adiantou-se das forças Troianas o divo Alexandre 
com arco e espada, nos ombros a pele de um grande leopardo 
e duas lanças na mão, revestidas de ponta de bronze, 
desafiando, desta arte, os melhores guerreiros Acaios

a que com ele se viessem medir em duelo terrível. 
Logo que o viu Menelau, o guerreiro discípulo de Ares, 
como avançava com passo arrogante na frente do exército, 
muito exultante ficou, como leão esfaimado que encontra 
um cervo morto, de pontas em galho, ou uma cabra selvagem; 
avidamente o devora, ainda mesmo que cães mui ligeiros 
lhe venham vindo no encalço e pastores de aspecto robusto: 
dessa maneira, exultou Menelau quando Páris, o belo, 
teve ante os olhos, pensando que iria, por fim, castigá-lo. 
Rapidamente do carro pulou, sem que as armas soltasse.

Quando o formoso Alexandre, que um deus imortal parecia, 
o viu à frente dos outros, sentiu conturbar-se-lhe o peito 
e para o meio dos seus recuou, escapando da Morte. 
Como se dá quando alguém nos convales dos montes estaca 
em frente de uma serpente, a tremerem-lhe as pernas e os joelhos, 
e retrocede de um salto, com o rosto sem cor, todo medo: 
por esse modo afundou para o meio dos Teucros valentes 
Páris, o divo Alexandre, do filho de Atreu temeroso. 
Foi por Heitor percebido, porém, que de insultos o cobre: 
   “Páris funesto, de belas feições, sedutor de mulheres! 

Bem melhor fora se nunca tivesses nascido, ou se a Morte 
antes das núpcias te houvesse levado. Mais lucro tivéramos, 
do que nos seres opróbrio e de escárnio servires aos outros. 
Riem-se à grande os Aquivos de soltos cabelos nos ombros. 
Um dos primeiros julgavam que fosses, por seres de físico 
tão primoroso; no entanto, careces de força e coragem. 
Como é possível que, sendo qual és, em navios velozes 
o mar houvesses cruzado, reunido prestantes consócios 
e a gente estranha chegado, da qual a raptar te atreveste 
uma formosa mulher, peregrina, cunhada de príncipes,

para desgraça de teu próprio pai, da cidade e do povo, 
mofa tornando-te, assim, dos imigos, que exultam com isso? 
Não te atreveste a enfrentar Menelau, de Ares forte discípulo? 
Fora a ocasião de saberes de quem a mulher seduziste. 
Esses cabelos, a cítara, os dons de Afrodite, a beleza, 
não te valeram de nada ao te vires lançado na poeira. 
Se tão medrosos não fossem os Teucros, há muito vestiras 
uma camisa de pedras, por quantas desgraças causaste.” 
   Páris, de formas divinas, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“É justo, Heitor, o que dizes; contrário à razão não discorres.

Teu coração é tão duro quanto o aço: semelha ao machado 
que, manejado pelo homem lhe aumenta o poder e no tronco 
mui facilmente penetra, talhando-o para o uso das naves. 
Resolução tão intrépida encerras, assim, no imo peito. 
Não me censures por causa dos mimos da loura Afrodite, 
pois desprezíveis não são os presentes valiosos que os deuses, 
de seu bom grado, concedem; que, à força, ninguém os alcança. 
Mas, uma vez que desejas que eu vá combater novamente, 
faze que todos os homens de Troia e os Acaios se sentem, 
para que eu possa no meio do campo lutar com o aluno

de Ares, o herói Menelau, por Helena e suas muitas riquezas. 
O que provar que é o mais forte, vencendo o adversário na luta, 
leve consigo os tesouros e a casa conduza a consorte. 
Vós, entretanto, jurada a amizade, na Tróade fértil 
continuareis: os demais, para a Acaia de belas mulheres 
retornarão, ou para Argos, de solo de pingues pastagens.” 
   Grande alegria, ao ouvir tais palavras, Heitor manifesta; 
e, começando a correr, com a lança segura no meio,
manda que os Teucros parassem, os quais, prontamente, obedecem. 
Mas os Aquivos, de soltos cabelos nos ombros, sem pausa

pedras contra ele atiravam e setas dos arcos recurvos, 
té que o potente Agamémnone a todos desta arte gritasse: 
   “Homens de Acaia, parai! resistentes Argivos, detende-vos! 
que se dispõe a falar-nos Heitor, de penacho ondulante.” 
   Isso disse ele: os guerreiros sustaram a ação belicosa 
e se aquietaram; Heitor, avançando para eles, falou-lhes: 
   “Ora, guerreiros Troianos, grevados Acaios, vos digo 
o que vos manda propor Alexandre, fautor desta guerra: 
Pede que todos os homens Aqueus e Troianos deponham 
as belas armas na terra, nutriz de infinitos guerreiros,

para que possa no meio do campo lutar com o discípulo 
de Ares, o herói Menelau, por Helena e suas muitas riquezas. 
O que provar que é o mais forte, vencendo o adversário na luta,
leve consigo os tesouros e a casa conduza a consorte. 
Com juramento firmemos nós outros a paz duradoura.” 
   Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram. 
Vira-se, então, Menelau, de voz forte, e lhes diz o seguinte: “
   A mim, também, atenção concedei, porque a dor, mais que a todos, 
o coração me angustia. Concordo que Teucros e Aquivos 
devem pôr fim à discórdia, que muito já tendes sofrido

por minha causa e da ofensa provinda do divo Alexandre. 
   Que morra logo o que está pelo negro Destino fadado 
a perecer; conciliem-se os outros, sem mais perder tempo. 
Presto um cordeiro trazei para o Sol, de cor branca, e uma ovelha 
preta, também, para a Terra; que a Zeus um terceiro daremos. 
A majestade de Príamo desça, também, para as juras 
solenizar; que os seus filhos soberbos não são de confiança. 
Não venha alguém, com perjúrios, destruir o que Zeus prometer-nos. 
O coração dos mancebos costuma ser sempre volúvel, 
mas quando um velho intervém, o passado e o futuro perscruta,

para que tudo decorra do modo melhor para todos.” 
   Isso disse ele; os Aqueus e os Troianos alegres ficaram, 
pela certeza de verem concluída a campanha funesta. 
Os carros todos em fila puseram; depois, apeando-se 
e as armaduras despindo, de encontro ao chão duro as deixaram, 
umas bem perto das outras, que exíguo era o espaço entre todas. 
Dois mensageiros Heitor mandou logo à cidade de Troia, 
para que a Príamo fossem chamar e os cordeiros trouxessem. 
Por sua vez, o potente Agamémnone incumbe a Taltíbio 
de outro cordeiro trazer do navio de casco anegrado.

Executado foi logo o mandado do Atrida Agamémnone. 
   Íris a Helena, de braços bonitos, foi dar a notícia, 
tendo assumido as feições da cunhada Laódice, esposa 
do grande chefe Helicáone, filho do justo Antenor, 
a mais formosa e elegante entre todas as filhas de Príamo. 
Foi encontrá-la na sala, sentada no tear, quando um duplo 
manto tecia de púrpura. Nele bordava os combates 
que os picadores Troianos e Aqueus de couraça de bronze, 
por sua causa, travavam sob o ímpeto de Ares violento. 
Aproximando-se-lhe, Íris, de pés mui velozes, lhe fala:

 “Vem, cara filha, também contemplar as proezas magníficas 
dos picadores Troianos e Aqueus de couraça de bronze, 
eles, que até este momento, na vasta planície, pelo ímpeto 
de Ares lutuoso, cuidavam somente de pugnas lutuosas, 
ora se encontram calados, firmados nos grandes escudos; 
as lanças se acham no solo espetadas; a guerra está finda. 
Somente Páris e o herói Menelau, de Ares forte discípulo, 
vão, por tua causa, lutar, de hastas firmes e longas munidos. 
Hás de chamar-te consorte do herói que sair vitorioso.” 
   Na alma as palavras da deusa infundiram-lhe doce saudade

do seu primeiro marido, dos pais e da pátria grandiosa. 
Ei-la que o rosto recobre com o nítido véu, apressada, 
e, a derramar ternas lágrimas, sai do aposento luxuoso, 
mas não sozinha, que duas criadas ao lado a acompanham, 
Clímene de olhos de boi e Etra, filha do grande Piteu. 
Das Portas Ceias, assim, dentro em pouco o local alcançaram. 
   Junto de Príamo estavam os velhos Timetes e Panto, 
Lampo e, assim, Clício e Hicetáone, de Ares aluno dileto. 
Ucalegonte e Antenor, ambos sábios, também se encontravam 
das Portas Ceias, sentados, na torre. Eles todos, por velhos,

 já se encontravam isentos das lutas; contudo primavam 
pela eloquência eles todos, tal como cigarras, que o canto 
claro e agradável, pousadas nos ramos das árvores, soltam. 
Os chefes, pois, dos Troianos, na torre se achavam reunidos. 
Ao perceberem Helena, que vinha apressada para eles, 
uns para os outros, baixinho, palavras aladas disseram: 
   “É compreensível que os Teucros e Aquivos de grevas bem-feitas 
por tal mulher tanto tempo suportem tão grandes canseiras! 
Tem-se, realmente, a impressão de a uma deusa imortal estar vendo. 
Mas, ainda assim, por mais bela que seja, de novo reembarque;

não venha a ser, em futuro, motivo da ruína dos nossos.” 
   Isso diziam, mas Príamo a Helena chamou em voz alta: 
“Vem, minha filha; aqui mesmo bem perto de mim vem sentar-te, 
porque o primeiro marido, os parentes e amigos revejas. 
Não és culpada de nada; os eternos, somente, têm culpa, 
que nos mandaram a guerra dos fortes Aqueus, lacrimosa. 
Vem revelar-me quem seja aquele homem de aspecto imponente: 
como se chama esse Acaio tão belo e de tal corpulência? 
Outros heróis, é evidente, mais altos do que ele percebo; 
mas os meus olhos jamais admiraram tão belo conspecto,

nem majestade tão grande; assemelha-se, é fato, a um monarca.” 
   Disse-lhe Helena, a divina mulher, em resposta, o seguinte: 
“Sinto por ti, caro sogro, respeito e vergonha a um só tempo. 
Bem melhor fora se a Morte terrível me houvesse levado, 
antes de haver consentido em seguir o teu filho, deixando 
o lar e o esposo, minha única filha e as gentis companheiras. 
Mas não devia assim ser; essa a causa de todo o meu choro. 
Ora te vou responder a respeito do que perguntaste. 
Esse é Agamémnone, rei poderoso, de Atreu descendente, 
tão grande rei, chefe de homens, quão forte e notável guerreiro.

 Foi meu cunhado, se o foi algum dia, com minha cegueira!” 
   A essas palavras, o velho, admirado, lhe disse, em resposta: 
“Ó venturoso Agamémnone, filho dileto dos deuses, 
que sobre tantos guerreiros Acaios o mando exercitas! 
Já estive, certo, na Frígia, região de vinhedos famosos, 
onde um sem-número vi de nativos heróis cavaleiros, 
homens de Otreu e de Mígdone, herói semelhante a um dos deuses, 
que nesse tempo acampavam nas margens do rio Sangário. 
Como aliado tomei, também, parte com eles na guerra 
contra as viris Amazonas, no dia em que aqui elas vieram.

Mas muito mais numerosos são esses Aqueus de olhos vivos.” 
   Logo depois, a Odisseu divisando, pergunta de novo: 
“Filha querida, revela-me, agora, quem seja aquele outro, 
cuja estatura é menor que a do filho de Atreu, Agamémnone; 
mas é de espaldas mais largas de ver e de peito mais amplo. 
As armaduras deitou sobre a terra nutriz de guerreiros. 
Como um carneiro, percorre as fileiras em vários sentidos. 
Eu, pelo menos, só sei compará-lo a um guieiro veloso, 
quando no meio de um grande rebanho de ovelhas vistosas.” 
   Disse-lhe Helena, nascida de Zeus, em resposta, o seguinte:

“Esse é Odisseu, de Laertes nascido, astucioso guerreiro, 
de Ítaca oriundo, apesar de ser ilha de chão pedregoso, 
em toda sorte de ardis entendido e varão prudentíssimo.” 
   O experiente Antenor, em resposta, lhe disse o seguinte: 
“Tuas palavras, mulher, correspondem à estrita verdade. 
Embaixador, por tua causa, uma vez Odisseu já aqui esteve 
em companhia do herói Menelau, de Ares forte discípulo. 
Por isso mesmo que os dois hospedei no meu próprio palácio, 
de ambos fiquei conhecendo a figura exterior e o intelecto. 
Quando, nos nossos conselhos, de pé eles se mantinham

os ombros largos do herói Menelau sobranceiros ficavam; 
ambos sentados, porém, Odisseu era mais imponente. 
Mas se a falar se dispunham, tecendo apropriados discursos, 
com certa pressa exprimia-se o herói Menelau, é verdade, 
e por maneira concisa, porém num tom claro; conquanto 
muito mais moço, sabia falar sem do intento desviar-se. 
Quando, porém, Odisseu, o astucioso, assumia a postura 
para falar, vista baixa e olhos fixos no chão pedregoso, 
como indivíduo bisonho que o cetro na mão mantivesse 
sempre no mesmo lugar, sem movê-lo de um lado para o outro,

imaginaras, talvez, ser pessoa inexperta ou insensata. 
Mas se do peito fazia soar a voz forte e agradável 
e um turbilhão de palavras, qual neve no tempo do inverno, 
com Odisseu ninguém mais suportara qualquer paralelo. 
Todos, então, esquecíamos sua anterior aparência.” 
   Príamo, a Ajaz divisando, terceira pergunta formula: 
“Como se chama esse Acaio tão belo e de tal corpulência, 
de bem maior estatura e de espaldas mais largas que os outros?” 
   Disse-lhe Helena, de peplo elegante, a divina criatura:
“Esse é o baluarte dos homens Aquivos, Ajaz, o gigante,

continua página 122...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a / Canto III.b /          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica

domingo, 16 de agosto de 2026

Cinema: Meu Pé Esquerdo

Christy Brown

O ano do filme é 1989

Christy Brown, nascido com paralisia cerebral, aprende a pintar e escrever com seu único membro controlável: seu pé esquerdo.

Um deficiente físico costuma enfrentar três camadas de obstáculos — familiares, sociais e simbólicos — antes de ter sua humanidade plenamente reconhecida. Cada camada contém barreiras concretas e emocionais que se acumulam e tornam o percurso longo, cansativo e, muitas vezes, injusto.

A família é o primeiro lugar onde a pessoa deveria ser vista como humana, inteira, complexa. Mas, na prática, muitos enfrentam:
Superproteção 
Invisibilização 
Vergonha social 

Obstáculos públicos para uma sociedade que ainda não sabe olhar, no espaço público, o deficiente físico enfrenta barreiras que vão muito além da acessibilidade:
Arquitetura hostil 
Olhar piedoso ou caritativo 
Desconfiança de competência 
Redução à inspiração 
Falta de autonomia real 
Baixa expectativa 

Obstáculos da crítica — o julgamento simbólico. Aqui entram mídia, arte, instituições, discursos públicos. Esse nível é crucial porque molda o imaginário coletivo. Sem reconhecimento simbólico, o indivíduo continua sendo visto como “outro”, não como igual:
Representações estereotipadas 
Narrativas capacitistas 
Falta de protagonismo 
Reconhecimento tardio 

A verdadeira inclusão acontece quando:
a família reconhece autonomia,
a sociedade reconhece cidadania,
a crítica reconhece subjetividade.

Direção:
Jim Sheridan

Roteiristas:
Shane Connaughton
Jim Sheridan
Christy Brown





Elenco:
Daniel Day-Lewis como Christy Brown
Brenda Fricker como Mrs. Brown
Alison Whelan como Sheila
Kirsten Sheridan como Sharon
Declan Croghan como Tom
Eanna MacLiam como Benny
Marie Conmee como Sadie
Cyril Cusack como Lord Castlewelland
Phelim Drew como Brian
Ruth McCabe como Mary
Fiona Shaw como Dr. Eileen Cole
Ray McAnally como Mr. Brown
Pat Laffan como Barman
Derry Power como Cliente no bar
Hugh O'Conor como Jovem Christy Brown
Darren McHugh como Young Benny
Owen Sharpe como Young Tom
Eileen Colgan como Nan
Keith O'Conor como Young Brian
Tom Hickey como Priest
Julie Hale como Rachel
Jacinta Whyte como Sally
Sarah Cronin-Stanley como Girlfriend
Jean Doyle como Woman with Pram
Britta Smith como Nurse
Adrian Dunbar como Peter
Lucy Vigne Welsh como Petra
Daniel Reardon como Tony
Conor Lambert como Punch & Judy Puppeteer
Martin Dunne como Waiter
Charlie Roberts como Enlutado #1
Jer O'Leary como Enlutado #2
Mil Fleming como Enlutado #3
Simon Kelly como Liam
Eileen Kohlmann como Violinista
Margaret Lyons como Pianista
Patricia Higgins como Violista
Hilery O'Donovan como Violoncelista
Don King como Contrabaixista
Jenny Bryne como Extra Especial
Linda Walker como Extra Especial
Albert Kavanagh como Extra Especial
Joe Swan como Extra Especial
Rita Lowe como Extra Especial
Gerard Hourigan como Extra Especial
Dawn Kursinczy como Extra Especial
Denis O'Leary como Criança
Lesley Ann Long como Criança
Caromy Corcoran como Criança
Cathy Corcoran como Criança
Lisa Jane Rowland como Criança
Aisling Murnane como Criança
Audrey Diffley como Criança
Oba Seagrave como Criança
Colm Rowland como Criança
Owen Sullivan como Criança
Dean Clifford como Criança
Sean Rowland como Criança
Barry Keane como Criança
Wayne Kearney como Criança
John Mark Knight como Criança
Deborah Pierce como Criança
Barry Lord como Criança
Tess Sheridan como Criança
Fiacra Sheridan como Criança
Eoghan O'Sullivan como Criança
Kerry Ellen Lawlor como Criança
Naomi Sheridan como Criança
Emily Hodge Barker como Criança


Christy Brown
(5 de junho de 1932 – 7 de setembro de 1981) foi um escritor e pintor irlandes. Ele tinha paralisia cerebral, o que permitia que ele escrevesse ou digitasse apenas com os dedos de um pé. Sua obra mais reconhecida é sua autobiografia, intitulada My Left Foot (1954). Posteriormente, foi adaptado para um filme de 1989 com o mesmo nome, vencedor do Oscar, estrelado por Daniel Day-Lewis como Brown.
Brown nasceu em uma família irlandesa da classe trabalhadora no Hospital Rotunda em Dublin, em junho de 1932. Seus pais eram Bridget Fagan (1901–1968) e Patrick Brown (1901-1955). Ele tinha vinte e um irmãos, nove dos quais morreram na infância. Em 1924, sua família mudou-se para o número 54 da Stannaway Road, em Kimmage, que seria sua casa de infância. Ele nasceu com paralisia cerebral severa, de modo que era quase totalmente espástico nos membros. Embora tenham sido incentivados a interná-lo em um hospital, os pais de Brown estavam determinados a criá-lo em casa. Durante a adolescência de Brown, um assistente social começou a visitar regularmente, trazendo livros e materiais de pintura para Brown, pois ele demonstrava grande interesse pelas artes e literatura. Brown aprendeu a escrever e desenhar com a perna esquerda, o único membro sobre o qual tinha controle efetivo. Brown rapidamente amadureceu e se tornou um artista sério. Embora Brown tenha recebido quase nenhuma educação formal durante sua juventude, ele frequentou a St Brendan's School-Clinic em Sandymount de forma intermitente. Em St Brendan's, ele entrou em contato com Robert Collis, um autor. Collis descobriu que Brown também era um romancista nato e, mais tarde, ajudou a usar suas próprias conexões para publicar My Left Foot, que já era um relato autobiográfico em gestação sobre a luta de Brown com a vida cotidiana em meio à vibrante cultura de Dublin.

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
01. Antonia / 02. O Quatrilho / 03. Meu Pé Esquerdo / 04. O Pagador de Promessas /