quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Tchekhov - O inimigo

O bilhete premiado


Anton Tchekhov

O inimigo

     A noite desceu há muito sobre a paisagem de neve, uma noite escura e profunda, que envolve seres e coisas no silêncio e na paz. Àquela hora, talvez somente Varka esteja ainda acordada, debruçada sobre o berço onde o menino não quer dormir. Varka tem apenas treze anos, é pouco mais que menina, e seus olhos sonolentos são tristes e vagos. Agora impulsiona suavemente o berço e canta baixinho, com voz branda, uma canção de ninar. “Dorme, menino bonito, que o bicho vem pegar…” Uma lamparina verde, acesa junto ao ícone, enche o quarto com sua luz fraca e incerta; peças de roupa, pendidas de uma corda que atravessa o compartimento, flutuam de leve. A luz projeta no teto um grande círculo verde, as sombras das peças de roupa se agitam como se fossem sacudidas pelo vento, e tremem inquietas sobre a estufa, sobre Varka e sobre o berço.
     Tudo assume um aspecto carregado e denso como a noite, a atmosfera cheira a fel. O menino chora, está rouco de tanto gritar, mas continua chorando sempre, com todas as suas forças. Varka tem um sono terrível, seus olhos se cerram apesar de todos os esforços; e ela acha que o menino jamais se acalmará. Por mais esforço que faça, sente que as pálpebras se ligam, começa a cabecear, tonta, muito tonta. Pode apenas mover os lábios. Dentro dela cresce uma impressão estranha, parece-lhe que o rosto é de madeira e que a cabeça é pequena, como a de um alfinete. “Dorme, menino bonito…” Sua voz é apenas perceptível, um cicio trêmulo na noite profunda. Ouve-se agora o canto monótono de um grilo escondido em qualquer greta da estufa. No quarto ao lado roncam o mestre, e o aprendiz Afanas; o berço geme, tristíssimo.
     Todos esses ruídos se misturam com a voz suave de Varka, produzindo uma doce música, boa para fazer dormir. Mas Varka não pode deitar-se, nem sequer pode encostar-se, pois sabe que, se dormir, os patrões a pegam, talvez lhe batam. Por isso aquela música acalentadora deixa-a desesperada, aumenta o sono terrível que a subjuga. Quando poderá estender-se no chão e dormir, dormir profundamente, dormir e não acordar nunca mais?
     A lamparina está a ponto de apagar-se, a chama tênue oscila incerta. O círculo verde do teto e as sombras continuam a agitar-se ante os olhos semicerrados de Varka, em sua cabeça meio adormecida nascem sonhos vagos e fantásticos. Através dos sonhos ela vê nuvens negras correndo no céu, nuvens que choram aos gritos, como crianças de peito. O vento, porém, varre todas as nuvens, e Varka pode ver agora um caminho largo e cheio de lodo, por onde passam coches, pessoas com sacos às costas e sombras, muitas sombras. Num e noutro lado do caminho existem bosques cobertos de neve. Subitamente os caminhantes e as sombras se estendem sobre o solo lodoso. Muito espantada, Varka pergunta então:

– Por que é que vocês fazem isso?
– Para dormir! – dizem todos. Queremos dormir!

     E dormem tranquilamente, a sono solto, indiferentes e calmos. Varka observa o ritmo das respirações, o arfar suave dos peitos desnudos, e sente uma vontade imensa de chorar.
     De repente percebe que muitos corvos, pousados no fio do telégrafo, fazem tudo para despertá-los. “Dorme, menino bonito…” Entre os sonhos a voz de Varka é mais débil ainda.
     Pouco depois sonha que está em casa de seu pai, uma casa velha e escura, isolada e muito triste. Seu pai chamava-se Efim Stepanov, já morreu há muito tempo, mas ela o sente agora revolvendo-se no chão. Não pode vê-lo, mas ouve os seus gemidos prolongados, profundos gemidos de dor. Sofre muito, atacado de uma doença que ela desconhece, e nem sequer pode falar. Contorce se e range os dentes.
     A mãe de Varka saiu correndo, rumo à casa senhorial, para dizer que o marido está morrendo, e ainda não voltou. Por que estaria ela demorando tanto? Foi há muito tempo, já devia ter chegado.
     Varka está encostada na estufa, continua sonhando e ouvindo o pai ranger os dentes. De repente, dentro daquele sonho ruim, ela ouve o trotar de cavalos, sente pessoas que se aproximam. Da casa senhorial enviaram um médico ainda moço para ver o agonizante. Entra em silêncio. Varka não consegue vê-lo na obscuridade, mas ouve a sua tosse e o ranger da chave fechando a porta.

– Acenda a luz – diz ele, por fim.

     Efim Stepanov range os dentes em resposta e a mãe de Varka anda de um lado para outro no quarto escuro, à procura de velas. Depois de um longo silêncio o doutor tira uma do bolso e acende-a.
     As faces do doente estão roxas, as pupilas brilham intensamente e os olhares parecem fundir-se estranhamente agudos no doutor e nas paredes.

– Que é isso, homem? – pergunta o médico inclinando-se sobre ele. – Há muito tempo que está doente?
– Chegou na hora, doutor – respondeu Efim Stepanov penosamente. – Não tenho ilusões.
– Não diga tolices. Você vai ver como fica bom.
– Obrigado, doutor. Eu sei, porém, que não há remédio. Quando a morte diz “aqui estou”, é inútil lutar contra ela.

     O médico olha demoradamente o velho e declara:

– Já não posso fazer nada. É preciso levá-lo ao hospital para ser operado imediatamente. Ainda que seja tarde, não importa. Darei um bilhete para o diretor e ele receberá você. Mas sem perda de tempo!
– Doutor, como havemos de levá-lo? – pergunta a mãe. – Não temos cavalos.

     O médico olha-a um instante e depois diz:

– Não tem importância. Explicarei isso lá na casa senhorial e eles mandarão um.

     O médico se vai, a vela se apaga, e de novo se ouve o ranger de dentes do moribundo.
     Meia hora depois um coche para à porta e em seguida se distancia conduzindo Efim para o hospital.
     Passa enfim a noite e sai o sol, a manhã clara e bonita se abre nos campos de neve, tudo parece alegre e vivo, mas na verdade Varka está triste. Sua mãe foi ao hospital ver como passa o marido e ainda não voltou. Varka olha a paisagem através da janela meio carcomida, contempla a extensão de neve, o coração se confrange a solidão pesa sobre ela como um mau agouro. Um menino chora, uma canção suave quebra a paz de neve, e Varka, sem saber por que, julga que é a sua própria voz que canta.
     Agora vê na distância o vulto negro de sua mãe na larga faixa branca, uma pequena mancha que vem crescendo para ela. Entra em casa persignando-se.

– Acabaram de operá-lo, mas ele morreu! Deus o tenha no céu. O doutor disse que a operação foi feita demasiado tarde.

     Varka sai de casa e se dirige para o bosque, ao longe. Cresce dentro dela um profundo sentimento de dor e de mágoa, a terra lhe parece vazia e grande demais para ela sozinha. Ainda sem saber como, o corpo dolorido, os pés terrivelmente frios a enterrarem-se na neve. Talvez nunca chegue ao bosque, a distância aumenta cada vez mais…
     Nesse momento do sonho, em que ela se sente horrivelmente abandonada, recebe uma tremenda pancada na nuca, um soco que a faz dobrar para a frente, por cima do berço. Acorda e vê com terror a cara tirânica do patrão, que grita:

– Peste! O menino chorando e tu dormindo!

     O patrão ainda lhe puxa as orelhas com força brutal, deixa-a humilde e atônita e sai indiferente ao seu sofrimento. Agora ela sacode a cabeça com força, para afugentar o sono irresistível, e põe-se de novo a embalar o berço, cantando com voz afogada.
     O círculo verde do teto e as sombras produzem um efeito letal sobre Varka. Um minuto depois que o patrão sal ela volta a dormir, começa outra vez a sonhar – e o largo caminho cheio de lodo se estende a perder de vista, uma infinidade de gente dorme sobre a terra úmida. Ela também quer deitar-se, mas sua mãe caminha ao lado e não deixa. Varka não pode dormir, ambas se dirigem a uma grande cidade em busca de trabalho. De repente a mãe olha a multidão, para e estende a mão, pedindo:

– Uma esmolinha, pelo amor de Deus! Compadecei-vos de nós, bons cristãos!

     Mas uma voz bem conhecida de Varka ressoa desmanchando os fragmentos do sonho, partindo a visão que lhe resta da mãe.

– Dá-me o menino! Outra vez dormindo, peste!

     Ela se levanta bruscamente, olha em torno e toma pé na realidade; não há caminho nem caminhantes, nem a mãe está junto dela. Só vê a patroa, que veio dar de mamar ao menino, empurrando-a sem piedade, os olhos vermelhos de rancor.
     Enquanto o menino mama, ela espera de pé, pacientemente, meio tonta, esforçando-se para não dormir diante da patroa.
     O espaço começa a azular-se atrás dos vitrais, o círculo verde do teto e as sombras vão empalidecendo, desmaiando nas paredes, a manhã vem surgindo maravilhosamente branca.
     A patroa acaba de amamentar o menino, esconde o seio e abotoa a camisa. Volta-se para Varka berrando:

– Toma o menino! Não sei o que está acontecendo. Sempre chorando, chorando!

     Ela estende os braços, deita a criança no berço e embala-o. O círculo verde e as sombras, menos perceptíveis a cada instante, já não exercem nenhuma influência sobre Varka, que já não os percebe. Apesar disso, entretanto, ela tem sono, um sono terrível, e sua necessidade de dormir é imperiosa, irresistível. Apoia a cabeça na borda do berço e deixa o corpo embalar-se, acompanhando o movimento rítmico, que provoca um ruído seco e monótono, como um gemido. Os olhos estão quase a fechar-se, mas ela ouve a voz da patroa, gritando do outro lado da porta:

– Varka! acende a estufa!

     Já é dia, vai começar agora o trabalho mais exaustivo e penoso. Ela deixa o berço, corre à estufa. Anima-se um pouco, acha mais fácil resistir ao sono andando do que assentada. A névoa que envolvia sua cabeça vai-se dissipando.

– Varka! prepara o samovar! – grita a patroa.

     As ordens não cessam, são muitas e confundem-na.

– Varka, limpa as botinas do patrão!

     Enquanto limpa as botinas, pensa que seria delicioso meter a cabeça num daqueles sapatões e dormir um tempo enorme. Subitamente a botina que estava limpando cresce, parece tomar um espaço enorme, côncava e macia, boa para recostar o corpo. E Varka deixa a escova escorregar da mão lentamente, põe-se a dormir.
     Um minuto apenas, e acorda sobressaltada, faz um grande esforço, sacode a cabeça, abre os olhos o mais que pode.

– Varka! Vai lavar a escada! Está tão suja que sinto vergonha quando o padre sobe por ela.

     Varka lava a escada, varre os quartos, acende depois outra estufa, anda pela casa num vaivém interminável. São tantos os afazeres que ela não tem um momento livre. O que lhe parece mais penoso é ficar de pé, imóvel, diante da mesa da cozinha, descascando batatas. A cabeça se inclina, sem que lhe seja possível evitá-lo, e chega quase a tocar a mesa. As batatas tomam formas fantásticas, suas mãos já não podem sustentá-las. Mas não pode deixar-se vencer pelo sono, tem de reagir sempre, abrir muito os olhos. Ali está a patroa, gorda e má, indiferente ao seu suplício. Há momentos em que a invade um violento desejo de estender-se no chão e dormir, dormir, dormir.
     Transcorre o dia igual aos demais, sempre o trabalho excessivo, as ordens infindáveis, os cílios prestes a ligarem-se pesados, o grande esforço para não dormir e os gritos da patroa.
     Enfim chega a noite e Varka olha as trevas através da janela, sente aquela mesma impressão estranha de que seu rosto é de madeira. Sorri de modo estúpido, completamente sem motivo. As trevas alagam seus olhos, fazem renascer na sua alma a esperança de poder dormir.
     Há uma visita naquela noite, movimentos diferentes, vozes confusas.

– Varka, acende o samovar!

     O samovar é pequeno, e para que todos possam tomar chá, é necessário acendê-lo muitas vezes. Servido o chá, Varka fica de pé a pequena distância, aguardando outras ordens, os olhos fixos nos visitantes.

“Varka, serve a vodca! Varka, onde está isso? Varka, limpa um arenque!”

     Finalmente a visita se vai, apagam-se as luzes, os patrões se recolhem. E ela ouve a última ordem:

– Varka, pega o menino.

     Novamente o quarto, a atmosfera carregada, o cheiro de fel. O grilo canta escondido numa greta qualquer da estufa, o círculo verde do teto e as sombras voltam a agitar-se ante os seus olhos meios cerrados, deixando–lhe a cabeça enevoada. “Dorme, menino bonito…”
     A mesma voz sonolenta de Varka, aquela voz triste e arrastada, abafada pelos gritos do menino que chora como um condenado, a ponto de perder o fôlego.
     Meio adormecida, ela sonha de novo com o caminho largo e enlodado, com sua mãe; sente confusamente a figura do pai moribundo crescer. A realidade lhe foge, desfaz-se a presença de tudo que a cerca. Só sabe que alguma coisa a paralisa e pesa sobre seu corpo cansado, impedindo-a de viver. Faz um esforço supremo e abre os olhos assombrados para a noite, indagando de si mesma que força, que potência é essa, tão estranha e tão grande, que a faz sofrer dessa maneira, que a paralisa e não a deixa dormir. Mas não compreende nada, nenhuma ideia precisa lhe acode. Já sem forças, trêmula e abatida, olha o círculo verde e as sombras.
     Exatamente nesse momento o menino chora, e seu grito repercute no coração de Varka, enche-lhe a cabeça cansada, como uma súbita revelação. Durante um segundo ela se interroga e faz a descoberta. “Esse é o inimigo que não me deixa viver. O inimigo é o menino.” Põe-se a rir, acha estranho não ter compreendido isso até agora, a ideia lhe parece clara e simples. “O inimigo é o menino.” Completamente absorvida por esse pensamento, levanta-se e, sempre sorrindo, dá alguns passos pelo quarto. Sente uma grande alegria ao pensar que em breve se libertará do menino inimigo. É só matá-lo, e depois poderá dormir o tempo que quiser, tranquilamente.
     Rindo muito, cada vez mais calma, Varka dobra o corpo, pisca os olhos maliciosamente e se aproxima do berço, pisando de leve. Inclina-se sobre o menino, qualquer coisa de trágico empresa uma extrema naturalidade aos seus gestos. Tudo lhe parece agora simples, objetivo – uma sensação de leveza em todos os seus movimentos. As mãos ágeis apalpam o pequeno corpo, sobem até a garganta, e vão apertando, apertando, entrelaçadas, como elos de aço. O menino torna-se azul, contorce-se num rápido e último movimento de desespero, depois estremece apenas, o corpinho frágil e distendido se aquieta para sempre. Está morto.
     Então Varka se estende no soalho, alegre e imensamente feliz, a alma alagada de uma doce sensação de liberdade. E submerge-se num grande sono, profundo e sem sonhos.

Fim
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Leia também:
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (IX. Os sensuais)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
IX
OS SENSUAIS
 
     Gregório e Smierdiákov acorriam atrás de Dimítri. No vestíbulo, tinham lutado com ele, para impedi-lo de entrar (de conformidade com as instruções dadas por Fiódor Pávlovitch alguns dias antes).       Aproveitando-se do fato de ter Dimítri Fiódorovitch, ao penetrar na sala, parado um minuto para orientar-se, deu Gregório volta à mesa, fechou os dois batentes da porta do fundo, que dava para os aposentos interiores, e conservou-se diante dessa porta, de braços estendidos em cruz, pronto a defender-lhe a entrada até o derradeiro suspiro. Vendo isso, Dimítri rugiu mais do que gritou e precipitou-se contra Gregório.

— Então ela está aí! Foi lá que a esconderam! Para trás, patife!

     Quis afastar Gregório, mas este o repeliu. Louco de raiva, Dimítri ergueu a mão e golpeou Gregório com toda a sua força. O velho caiu como que ceifado e Dimítri, pulando por cima de seu corpo, forçou a porta. Smierdiákov, pálido e tremendo, ficara na outra extremidade da mesa, apertado contra Fiódor Pávlovitch.  

— Ela está aqui — gritou Dimítri Fiódorovitch. — Acabo de vê-la dirigir-se para esta casa, mas não pude alcançá-la. Onde está ela? Onde está ela?

     Aquele grito de "ela está aqui" causou uma impressão inexplicável em Fiódor Pávlovitch; todo o seu pavor desapareceu.

— Detenham-no, de tenham-no! — guinchou ele, precipitando-se no encalço de Dimítrí.

     Enquanto isso, Gregório havia-se levantado, mas ainda estava zonzo. Ivã Fiódorovitch e Aliócha correram para deter seu pai. No quarto vizinho, ouviu-se o barulho de um objeto que caía e se quebrava. Era um grande vaso de vidro (de pouco valor), sobre um pedestal de mármore em que Dimítri tropeçara ao passar.

— Socorro! — urrou o velho. 

     Ivã e Aliócha alcançaram-no e arrastaram-no à força para a sala de jantar. 

— Por que o persegue? Ele seria capaz de matá-lo! — exclamou com cólera Ivã Fiódorovitch. 
— Vânia, Aliócha! Ela está aqui, Grúchenhka; ele mesmo disse que a viu entrar. 

     Fiódor Pávlovitch perdia o fôlego. Não esperava Grúchenhka naquela ocasião e a notícia imprevista de sua presença perturbava sua razão. Estava todo tremente, como que perdera o espírito. 

— O senhor mesmo viu que ela não veio — gritou Ivã.
— Mas talvez pela outra entrada?
— Está fechada essa entrada, e o senhor tem a chave...

     Dimítri tornou a aparecer na sala de jantar. Naturalmente, havia encontrado aquela entrada fechada e era mesmo Fiódor Pávlovitch que tinha a chave dela em seu bolso. Todas as janelas estavam igualmente fechadas; Grúchenhka não pudera, pois, entrar nem sair por nenhuma via de acesso. 

— Detenham-no! — vociferou Fiódor Pávlovitch, assim que avistou Dimítri. — Roubou dinheiro no meu quarto de dormir! — arrancando-se dos braços de Ivã, lançou-se de novo contra Dimítri. Este ergueu as mãos e, agarrando o velho pelos dois únicos tufos de cabelo que lhe restavam nas têmporas, fê-lo dar uma pirueta e atirou-o violentamente no soalho. Deu- lhe ainda dois ou três golpes com o tacão no rosto, quando ele estava caído. O velho lançou um gemido agudo. Ivã, embora mais fraco que Dimítri, agarrou-o pelo braço e afastou-o do velho. Aliócha, ajudando-o com todas as suas forças, agarrara seu irmão pela frente. 
 
— Louco, tu o mataste! — gritou Ivã.
— Tem o que merece! — exclamou Dimítri, ofegante. — Se não o matei; voltarei. Vocês não o resguardarão.
— Dimítri, fora daqui agora mesmo! — gritou imperiosamente Aliócha.
— Alieksiéi! Só tenho confiança em ti; dize-me se Grúchenhka estava aqui há pouco ou não. Eu mesmo a vi costear a sebe e desaparecer nesta direção. Chamei-a, ela fugiu... 
— Juro-te que ela não estava aqui e que ninguém a esperava!
— Mas eu a vi... portanto ela... Saberei agora mesmo onde ela está... Adeus, Alieksiéi! Nem uma palavra a Esopo a respeito do dinheiro, mas vai imediatamente à casa de Catarina Ivânovna e dize lhe: "Ele me ordenou que a saudasse, precisamente que a saudasse e tornasse a saudar!" Descreve-lhe a cena.

     Enquanto isso, Ivã e Gregório tinham levantado e instalado o velho numa poltrona. Seu rosto estava ensanguentado, mas não perdera os sentidos. Parecia-lhe sempre que Grúchenhka se encontrava em alguma parte da casa. Dimítri lançou-lhe um olhar de ódio ao retirar-se. 

— Não me arrependo de ter derramado teu sangue! — exclamou ele. — Toma cuidado, velho, vigia teu sonho, porque eu também tenho um. Eu mesmo te maldigo e te renego para sempre...

     Lançou-se para fora da sala.

— Ela está aqui, ela está certamente aqui — estertorou o velho com uma voz mal perceptível, fazendo sinal a Smierdiátov. 
— Não, ela não está aqui, velho insensato — gritou com raiva Ivã. — Bem! ei-lo que desmaia! Água, um guardanapo! Apressa-te, Smierdiákov!

     Smierdiákov correu a buscar água. Depois que lhe tiraram a roupa, levaram o velho para o quarto de dormir e deitaram no na cama. Cercaram-lhe a cabeça com um guardanapo molhado. Enfraquecido pelo conhaque, pelas emoções violentas e pelos golpes, fechou ele os olhos e adormeceu assim que pousou a cabeça no travesseiro. 
     Ivã Fiódorovitch e Aliócha voltaram ao salão. Smierdiákov retirou os cacos do vaso partido. Gregório mantinha-se perto da mesa, sombrio, de cabeça baixa.

— Devias também molhar tua cabeça e deitar-te — disse-lhe Aliócha. — Nós cuidaremos dele; meu irmão golpeou-te violentamente a cabeça. 
— Ele o ousou! — proferiu Gregório, com ar sombrio. 
— Ousou também contra seu pai, não somente contra ti! — observou Ivã, com os lábios contraídos. 
— Lavei-o pequenino na gamela e ele ousou! — repetiu Gregório.
— Com os diabos! Se eu não o tivesse retido, tê-lo-ia matado. Pouco faltou a Esopo para morrer — murmurou Ivã a Aliócha.
— Que Deus o preserve! — exclamou Aliócha.
— Por quê? — continuou Ivã, no mesmo tom, com o rosto numa contração de ódio. — Que os répteis se devorem entre si, tal é seu destino!

     Aliócha estremeceu. 

— Bem entendido, não deixarei que se dê um assassinato, como fiz agora. Fica aqui, Aliócha, vou andar no pátio, começo a ter dor de cabeça.

     Aliócha foi para o quarto de dormir e ficou uma hora à cabeceira de seu pai, por trás do biombo. De súbito, o velho abriu os olhos e olhou-o muito tempo em silêncio, esforçando-se visivelmente por coordenar suas lembranças. Uma agitação extraordinária pintou-se em seu rosto. 

— Aliócha — cochichou ele, apreensivo —, onde está Ivã? 
— No pátio; está com dor de cabeça. De guarda a nós. 
— Dá-me o espelhinho que está ali.  

     Aliócha entregou-lhe um espelhinho oval, que se achava sobre a cômoda. O velho mirou-se nele. O nariz estava bastante inchado e, na testa, acima da sobrancelha esquerda, via-se uma equimose roxa.

 — Que diz Ivã? Aliócha, meu querido, meu único filho, tenho medo de Ivã; tenho mais medo dele do que do outro. Só de ti ê que não tenho medo. 
 — Não tenha medo tampouco de Ivã; ele se zanga, mas o defenderá. 
— Aliócha, e o outro? Correu para a casa de Grúchenhka? Meu anjo, dize-me a verdade: estava Grúchenhka ainda há pouco aqui ou não? 
— Ninguém a viu! É uma ilusão, ela não estava ali! 
— Mítia quer casar com ela, sabes? 
— Ela não quererá.
— Ela não quererá, ela não quererá a preço nenhum — exclamou o velho, fremente de alegria, como se nada lhe pudessem dizer de mais agradável no momento.

     No seu entusiasmo, agarrou a mão de Aliócha e a apertou contra seu coração. Lágrimas mesmo brilharam em seus olhos. 

— Toma essa imagem da Virgem de que falei ainda há pouco, leva-a contigo. E permito que voltes ao mosteiro... Estava brincando, não te zangues. A cabeça me dói, Aliócha... tranquiliza-me, sê meu bom anjo, dize a verdade!
— Sempre a mesma ideia, se ela veio ou não — disse tristemente Aliócha. 
— Não, não, acredito em ti. Mas vai à casa de Grúchenhka ou procura vê-la; pergunta-lhe o mais breve possível — penetra seu segredo — quem ela prefere, ele ou eu? Podes ou não? 
— Se a encontrar, perguntar-lhe-ei — murmurou Aliócha, confuso. 
— Não, ela não te dirá — interrompeu o velho —, é uma criança terrível. Começará por beijar-te, dizendo que é a ti que ela quer. É astuta e descarada, não, não podes ir à casa dela. 
— Com efeito, meu pai, não estaria absolutamente bem.
— Aonde te enviava ele, ainda há pouco, quando gritou: "Vai", ao retirar-se? 
 — À casa de Catarina Ivânovna. 
 — Para lhe pedir dinheiro? 
 — Não, para isso não. 
— Ele não tem dinheiro, nem 1 copeque. Escuta, Aliócha, refletirei durante a noite. Vai-te... talvez a encontres. Vem ver-me amanhã de manhã sem falta. Tenho alguma coisa para dizer-te. Virás? 
— Virei. 
 — Terás o ar de vir saber notícias de mim. Não digas a ninguém que te chamei. Nem uma palavra a Ivã.
— Está entendido. 
— Adeus, meu anjo. Tomaste minha defesa, ainda há pouco, não o esquecerei nunca. Dir-te-ei uma palavra amanhã... mas isto exige reflexão. 
— Como se sente agora? 
— Amanhã estarei de pé, completamente restabelecido, de perfeita saúde!... 

     No pátio, Aliócha encontrou Ivã sentado em um banco, perto do portão; anotava qualquer coisa a lápis no seu caderno. Aliócha informou-o de que o velho recuperara os sentidos e deixava que ele passasse a noite no mosteiro.

— Aliócha, sentiria grande prazer em ver-te amanhã de manhã — disse Ivã, num tom amável, de todo inesperado para Aliócha.
— Estarei amanhã em casa das senhoras Khokhlakovi, talvez também em casa de Catarina Ivânovna, se não a encontrar em casa agora. 
— Vais lá mesmo? É para "saudá-la, saudá-la" — pilheriou Ivã. 

     Aliócha perturbou-se.  

— Penso ter compreendido as exclamações de Dimítri e um pouco o que se passou. Ele pediu que fosse vê-la para dizer-lhe que ele... pois bem... numa palavra, para despedir-se. 
— Meu irmão, como terminará esse pesadelo para Dimítri e para nosso pai? — exclamou Aliócha.
— É difícil adivinhá-lo. Talvez dê tudo em nada. Aquela mulher é um monstro. Em todo caso, é preciso que o velho fique em casa e que Dimítri aqui não entre.
— Meu irmão, permite-me ainda uma pergunta. Pode dar-se que cada qual tenha o direito de julgar seus semelhantes e de decidir quem é digno de viver e quem não o é? 
— Que vem fazer aqui a apreciação dos méritos? O coração humano não se baseia sobre os méritos para resolver essa questão, mas sobre outros motivos bem mais naturais. Quanto ao direito, quem, pois, não tem o direito de desejar?  
— Não a morte de outrem. 
— E por que não a morte? De que serve mentir a si mesmo, quando todos vivem assim e sem dúvida não podem viver de outro modo? Pensas no que disse ainda há pouco, que "os dois répteis se devoram um ao outro"? Crês-me capaz, como Dimítri, de derramar o sangue de Esopo, de matá-lo, enfim? 
— Que dizes, Ivã? Jamais me veio tal idéia! E não creio que Dimítri... 
— Obrigado — disse Ivã, sorrindo. — Fica sabendo que o defenderei sempre. Mas, no caso particular, deixo o campo livre a meus desejos. Até amanhã. Não me julgues, não me olhes como a um celerado — acrescentou. 

     Apertaram-se as mãos mais cordialmente do que jamais o fizeram. Aliócha compreendeu que seu irmão se aproximava dele com um certo fim, intencionalmente.

continua na página 206...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (V - Pierre era desajeitado e pesadão)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
V

Agradecendo a Ana Pavlovna pela festa encantadora, os convidados começaram a retirar-se.


     Pierre era desajeitado e pesadão, de estatura incomum e tinha mãos enormes e vermelhas. Era incapaz de dizer duas ou três amabilidades ao entrar ou sair de uma sala. Ao levantar-se, em lugar do seu chapéu, pegou o tricórnio de plumas do general, e ficou a abanar-se com o penacho até o dono pedir-lhe que o devolvesse. Mas a franqueza, simplicidade e modéstia compensavam-lhe a atrapalhação e falta de traquejo social. Voltando-se para ele, Ana Pavlovna cumprimentou-o, exprimindo-lhe, com doçura cristã, o perdão pelas suas inconveniências. 

— Espero tornar a vê-lo, mas também espero que mude suas opiniões, meu caro senhor Pierre.

     Pierre apenas inclinou-se e, sem responder, sorriu a todos novamente, como se quisesse dizer: “As opiniões são as opiniões, e todos estão vendo que sou um bom e simpático rapaz.” E todos, até Ana Pavlovna, involuntariamente pensavam assim.

     Passando para o vestíbulo, o príncipe André ouvia com indiferença a conversa de sua mulher com o príncipe Hippolyte, enquanto o criado lhe vestia o sobretudo. O príncipe Hippolyte rodeava insistentemente a linda princesinha grávida, fixando-a com a luneta. 

— Vamos, Annette, você vai adoentar-se — disse a princesinha despedindo-se de Ana Pavlovna. — Está resolvido — acrescentou em voz baixa.

     Ana Pavlovna já havia falado a Lisa sobre o casamento que projetara de sua cunhada com Anatole. 

— Conto com a senhora, minha querida — disse Pavlovna, também em voz baixa —, escreva-lhe e não se esqueça de dizer qual é a atitude do pai. Au revoir. — E saiu.

     O príncipe Hippolyte aproximou-se da princesinha e disse-lhe, muito perto do rosto, qualquer coisa, em voz baixa.
     Dois criados, o seu e o da princesa, um usando um sobretudo, outro, um xale, esperavam que terminassem de falar, ouvindo a conversa em francês, incompreensível para eles, mas que fingiam entender sem querer demonstrá-lo. Como sempre, falando e ouvindo, a princesinha sorria. 

— Estou muito contente por não ter ido à festa do embaixador — dizia o príncipe Hippolyte —, é aborrecido aquilo lá… Uma reunião muito encantadora esta, não é? 
— Dizem que o baile vai estar muito animado — respondeu a princesinha, erguendo o pequeno lábio. — Todas as mulheres bonitas da sociedade estarão lá. 
— Nem todas, já que você não irá — respondeu o príncipe Hippolyte, rindo alegremente. Tomando o xale das mãos do lacaio, cobriu os ombros da princesa. Por falta de jeito ou voluntariamente (não se pode saber), depois de posto o xale, levou muito tempo para retirar as mãos, que envolviam o pescoço dela. Parecia apertar a linda criatura.

     Ela, sempre sorrindo, afastou-se graciosamente e, ao voltar-se, olhou o marido. O príncipe André estava de olhos fechados, parecia ter adormecido de cansaço. 

— Está pronta? — perguntou ele, percorrendo-a com os olhos.

     O príncipe Hippolyte pôs rapidamente o sobretudo, que, na moda de então, caía até o salto dos sapatos, e, todo atrapalhado, correu até a pequena escada junto da princesa, que o lacaio auxiliava a subir na carruagem. 

Princesse, au revoir — gritou, com a língua tão atrapalhada quanto os pés.

     A princesa, levantando o vestido, entrava na carruagem; o marido arrumava o sabre. O príncipe Hippolyte, a pretexto de auxiliar, estorvava a todos. 

— Com licença — disse secamente o príncipe André, dirigindo-se em russo ao príncipe Hippolyte, que o impedia de passar. 
— Pierre, espero por você — acrescentou com voz serena e terna.

     O cocheiro puxou as rédeas e a carruagem movimentou-se. O príncipe Hippolyte, rindo entrecortadamente, esperava, na pequena escada, o visconde, que prometera levar em casa.

***

— Pois, meu caro, a sua princesinha é muito linda, muito linda — disse o visconde, instalando-se no carro. — Um amor. — Beijou a ponta dos dedos.— É absolutamente francesa.

     Hippolyte não podia mais de tanto rir. 

— E sabe que é terrível com aquele arzinho inocente — continuou o visconde. — Eu lamento é o marido, esse oficialzinho que se dá ares de príncipe reinante.

     Hippolyte estourou novamente e entre risadas disse: 

— E você dizia que as damas russas não valiam as francesas! É preciso saber levá-las.

     Tendo chegado na frente, Pierre, na qualidade de amigo da casa, foi diretamente para o gabinete do príncipe André. Pegando um livro ao acaso (eram as memórias de César) estirou-se no divã e começou a ler no meio. 

— O que foste fazer a Mademoiselle Scherer? Ela vai adoecer! — disse o príncipe André, entrando e esfregando as mãos, pequenas e brancas.

     Pierre virou-se tão rapidamente que o divã estalou. Fitando o príncipe André com uma expressão animada e sorridente, fez um gesto com a mão. 

— Não, o abade é muito interessante, mas não compreende as coisas como elas são… Para mim, a paz universal é possível, mas não posso explicar… Em todo o caso, não será com o equilíbrio político.

     Era evidente que o príncipe André não se interessava por esses assuntos abstratos. 

Mon cher, nem sempre se pode dizer o que se pensa. E afinal! Decidiste alguma coisa? Entras para a guarda ou queres ser diplomata? — perguntou o príncipe André depois de um momento de silêncio.

     Pierre sentou-se no divã como que agachado. 

— Creia, ainda não sei. Nenhuma das duas coisas me agrada. 
— Mas é preciso decidir. Teu pai espera.

     Com a idade de dez anos Pierre fora mandado para o exterior com um abade por preceptor, e lá ficara até os vinte. Quando voltou a Moscou, o pai despediu o abade e disse ao rapaz:

“Agora, vai a Petersburgo, olha e escolhe, concordarei com tudo. Levas aqui uma carta para o príncipe Vassili e o dinheiro necessário. Depois, escreve-me, conta comigo para qualquer ajuda.” Havia três meses Pierre ocupava-se com a escolha de uma carreira, e ainda nada decidira. Era a escolha de que lhe falava o príncipe André. Passou a mão na testa.

— Mas ele deve ser maçom! — exclamou, pensando no abade Morio. 
— Tudo isso é fantasia — atalhou o príncipe André. — Falemos antes de teus negócios. Foste ao esquadrão de cavalaria? 
— Não, não fui; mas me veio uma coisa à cabeça, que eu queria dizer-lhe: agora, estamos em guerra com Napoleão; se fosse uma guerra pela liberdade, eu compreenderia, e seria o primeiro a alistar-me, mas auxiliar a Inglaterra e a Áustria contra o maior homem do mundo… não está certo.

     O príncipe André limitou-se a sacudir os ombros ouvindo essas palavras infantis. Seu modo parecia significar que, contra semelhantes tolices, nada havia a opor. Realmente, a tal ingenuidade era difícil responder de outra forma. 

— Se todos fizessem a guerra por convicção, não haveria guerras. 
— Isso é que seria bonito! — exclamou Pierre.

     O príncipe André sorriu. 

— Sim, é possível que seja bonito, mas não acontecerá nunca… 
— E você, por que vai para a guerra? — perguntou Pierre. 
— Por quê? Nem sei. É necessário. Além disso também… — interrompeu-se. — Vou porque a vida que estou levando aqui não me convém!

continua na página... 15
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
III - O sarau de Ana Pavlovna corria animado / IV - Ana Pavlovna prometeu, sorrindo / V - Pierre era desajeitado e pesadão /          
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos. 

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Mocidade e Morte)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MOCIDADE E MORTE 
 
                   E perto avisto o porto
Immenso, nebuloso e sempre noite
            Chamado — Eternidade. — 
                                          LAURINDO. 
 
Laeciate ogni speranza, vol ch'entrate.
                                              DANTE.

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Oh! eu quero viver, beber perfumes 
 Na flor silvestre, que embalsama os ares; 
 Ver minh'alma adejar pelo infinito, 
 Qual branca vela n'amplidão dos mares. 
 No seio da mulher ha tanto aroma... 
 Nos seus beijos de fogo ha tanta vida... 
 — Árabe errante, vou dormir á tarde 
 A' sombra fresca da palmeira erguida. 

Mas uma voz responde-me sombria: 
 Terás o somno sob a lagea fria. 

Morrer... quando este mundo é um paraiso, 
 E a alma um cysne de douradas plumas: 
 Não! o seio da amante é um lago virgem... 
 Quero boiar á tona das espumas.
 Vem! formosa mulher — camelia pallida, 
 Que banharam de pranto as alvoradas, 
 Minh'alma é a borboleta, que espaneja 
 O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrível, 
 Com gargalhar sarcástico: — impossível!

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. 
 Vejo além um futuro radiante: 
 Avante! — brada-me o talento n'alma 
 E o echo ao longe me repete — avante! — 
 O futuro... o futuro... no seu seio... 
 Entre louros e bênçãos dorme a gloria! 
 Após — um nome do universo n'alma, 
 Um nome escripto no Pantheon da historia. 

E a mesma voz repete funerária: 
 Teu Pantheon — a pedra mortuaria! 

Morrer — é ver extincto dentre as nevoas 
 O phanal, que nos guia na tormenta: 
 Condemnado,— escutar dobres de sino, — 
Voz da morte, que a morte lhe lamenta — 
 Ai! morrer — é trocar astros por cirios, 
 Leito macio por esquife immundo, 
 Trocar os beijos da mulher — no visco 
 Da larva errante no sepulcro fundo. 

Ver tudo findo... só na lousa um nome, 
 Que o viandante a perpassar consome. 

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito 
 Um mal terrível me devora a vida: 
 Triste Ahasverus, que no fim da estrada, 
 Só tem por braços uma cruz erguida. 
 Sou o cypreste, qu'inda mesmo flórido, 
 Sombra de morte no ramal encerra! 
 Vivo — que vaga sobre o chão da morte, 
 Morto — entre os vivos a vagar na terra. 

Do sepulcro escutando triste grito 
 Sempre, sempre bradando-me: maldito! — 

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência, 
 Quando a sede e o desejo em nós palpita... 
 Levei aos lábios o dourado pomo, 
 Mordi no fruto podre do Asphaltita. 
 No triclinio da vida — novo Tantalo — 
 O vinho do viver ante mim passa... 
 Sou dos convivas da legenda Hebraica, 
 O stylete de Deus quebra-me a taça. 

E' que até minha sombra é inexorável, 
 Morrer ! morrer! soluça-me implacável. 

Adeus, pallida amante dos meus sonhos! 
 Adeus, vida! Adeus, gloria! amor! anhelos! 
 Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga 
 Os prantos de meu pae nos teus cabellos. 
 Fora louco esperar! fria rajada 
 Sinto que do viver me extingue a lampa... 
 Resta-me agora por futuro — a terra, 
 Por gloria — nada, por amor — a campa.

Adeus!... arrasta-me uma voz sombria 
 Já me foge a razão na noite fria!... 

1864

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     Espumas Fluctuantes, Edição original: VII. 
     Pbl. em S. Paulo, por volta de 1868-69, s°b o titulo "O Phtysico" (titulo que encontrei no índice das poesias que deviam formar os Dramas d'alma — Poesias de Castro Alves — Bahia — e que depois se chamaram Espumas Fluctuantes, manuscripto do Poeta cm. por D. Adelaide de Castro Alves Guimarães) apenas com uma alteração no texto, na 7* estância, v. 6, que diz: 
"Já da tremula vida extingue a lampa..." 
     Isto consta de um livro manuscripto de poesias de Castro Alves, que colleccionou Joaquim Polycarpo Aranha Júnior, contemporâneo e admirador do Poeta, e que as transcrevia á medida que eram publicadas nos jornaes do tempo, segundo me informa Alberto Faria. Alem desta, ahi se encontram "As três irmãs do Poeta"; "Ode ao 2 de julho"; "Quem dá aos pobres empresta a Deus"; "Gonzaga" (Epílogo de um drama); "A Maciel Pinheiro"; "Um dia Pygmalião o estatuario..." (Ao actor Joaquim Augusto); "Vozes d'Africa"; "Hebréa (a uma judia)"; "Perseverando"; "Pedro Ivo"; "Dalila"; "O laço de fita"; "E tarde"; "Adeus"; "As duas ilhas"; "Bôa-noite"; "Basta de covardia! A hora sôa" (Adeus meu canto); "A Bôa Vista"; "A Bailada do Desesperado"; "Fatalidade", o "Phantasma e a Canção", "O derradeiro amor de Byron"; "Rezas"; "Anceios" (Devaneios, ou ****, ou, definitivamente, "Pensamento de Amor") ; "O Século"; "O Navio Negreiro". A propósito de cada uma indicarei as raras variantes. Esse titulo "O Phtysico", depois felizmente substituído, denuncia, já em 1864, se não a certeza, as apprehensões de Castro Alves, sobre a doença que o ameaçava.
     1) Mordi no fruto podre do Asphaltita (estância 6* v. 4). Nas margens do Lago Asphaltita ou Mar Morto ha duas espécies vegetaes, cujos frutos receberam o nome de pomos de Sodoma: uma asclepiadacea, Calotropis procera, dá frutos amarellos, do tamanho de uma pequena laranja, cheios de uma paina sedosa, que se pode tecer; a outra, solanacea, Solaneum sodomeum, o limão de Lot, dos Árabes, fruto enganador, de conteúdo escuro e granuloso, como areia, acre, como cinza. Talvez seja este o da tradição, que chamou Castro Alves — o fruto podre do Asphaltita.

continua página 64...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte /    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921


3º Ciclo de Conferências - "O adeus de Castro Alves"





A ORGIA DOS DUENDES 
 Bernardo Guimarães 

...

IV 
 Do batuque infernal, que não finda, 
 Turbilhona o fatal rodopio; 
 Mais veloz, mais veloz, mais ainda 
 Ferve a dança como um corrupio.  

Mas eis que no mais quente da festa 
Um rebenque estalando se ouviu, 
Galopando através da floresta 
Magro espectro sinistro surgiu  

Hediondo esqueleto aos arrancos 
Chocalhava nas abas da sela; 
Era a Morte, que vinha de tranco 
Amontada numa égua amarela.  

O terrível rebenque zunindo 
A nojenta canalha enxotava; 
E à esquerda e à direita zurzindo 
Com voz rouca desta arte bradava:  

"Fora, fora! esqueletos poentos, 
Lobisomes, e bruxas mirradas! 
Para a cova esses ossos nojentos! 
Para o inferno essas almas danadas!” 

Um estouro rebenta nas selvas, 
Que recendem com cheiro de enxofre; 
E na terra por baixo das relvas 
Toda a súcia sumiu-se de chofre.  

V 
 E aos primeiros albores do dia 
 Nem ao menos se viam vestígios 
 Da nefanda, asquerosa folia, 
 Dessa noite de horrendos prodígios.  

E nos ramos saltavam as aves 
Gorjeando canoros queixumes, 
E brincavam as auras suaves 
Entre as flores colhendo perfumes.  

E na sombra daquele arvoredo, 
Que inda há pouco viu tantos horrores, 
Passeando sozinha e sem medo 
Linda virgem cismava de amores.



A POLCA 
(A Uma Virgem)
Vitoriano Palhares





O ADEUS DE TERESA
Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
Adeus eu disse-lhe a tremer coa fala...

E ela, corando, murmurou-me: adeus.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
Adeus lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: adeus!

Passaram tempos... séclos de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
. . . Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse -- Voltarei!... descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: adeus!

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz dEla e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! . . . Ela me olhou branca . . . surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: adeus!

São Paulo, 1868

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Se minha vida com Albertine)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Se minha vida com Albertine devia impedir-me de ir a Veneza, de viajar, pelo menos eu teria podido, há pouco, se estivesse sozinho, conhecer as jovens midinettes espalhadas ao sol daquele belo domingo e em cuja beleza eu colocava uma grande parte da vida desconhecida que as animava. Os olhos que vemos não estão inteiramente penetrados por um olhar cujas imagens, lembranças, expectativas, desdéns não conhecemos e dos quais não os podemos separar? Essa existência, que é a da criatura que passa, não haverá de dar, conforme ela seja, um valor variável ao franzir das sobrancelhas, à dilatação das narinas? A presença de Albertine me impedia de ir ter com elas e talvez, desse modo, de cessar de desejá-las. Aquele que quer manter em si mesmo o desejo de continuar a viver e a crença em algo mais delicioso que as coisas costumeiras, deve passear; pois as ruas e as avenidas estão cheias de Deusas. Mas as Deusas não permitem que nos aproximemos delas. Aqui e ali, entre as árvores, à entrada de qualquer botequim, uma criada velava como uma ninfa à entrada de um bosque sagrado, enquanto que ao fundo três moças estavam sentadas junto ao imenso arco de suas bicicletas colocadas a seu lado, como três imortais debruçadas da nuvem ou do fabuloso corcel sobre o qual realizavam suas viagens mitológicas. Reparei que de cada vez que Albertine encarava aquelas moças por um instante, com profunda atenção, logo se voltava para mim. Mas eu não me atormentava muito nem com a intensidade dessa contemplação, nem com a brevidade que a intensidade compensava; de fato, quanto a esta última; ocorria muitas vezes que Albertine, fosse por cansaço, fosse por maneira de olhar própria de pessoa atenta, considerava assim, numa espécie de meditação, seja meu pai ou seja Françoise; e, quanto à sua rapidez em voltar-se para mim, podia ser motivada pelo fato de que Albertine, conhecendo minhas suspeitas, podia querer, mesmo não sendo justificadas, evitar provocá-las. Aliás, essa atenção, que teria me parecido culposa da parte de Albertine (e tanto quanto o seria se tivesse por objeto os rapazes), eu a dava, sem me sentir absolutamente culpado - e achando que Albertine o era por me impedir, com sua presença, de parar e descer-, a toda às midinettes. A gente acha inocente desejar e atroz que o outro deseje. E esse contraste entre o que diz respeito, ou a nós ou então àquela a quem amamos, não se refere unicamente ao desejo, mas também à mentira. Haverá coisa mais usual que ela, quer se trate, por exemplo, de encobrir as fraquezas diárias de uma saúde que se deseja impingir como boa, quer se trate de dissimular um vício, ou de ir, sem causar mágoa a outrem, à coisa que se prefere? A mentira é o instrumento mais necessário de conservação, e o mais utilizado. Ora, justo ela que temos a pretensão de banir da vida daquela a quem amamos, é ela que espionamos, é ela que farejamos, que detestamos por todo canto. Ela nos perturba, é bastante para provocar um rompimento, parece esconder as maiores faltas, a menos que não as esconda tão bem que não as suspeitemos. Estranho estado esse em que ficamos de tal modo sensíveis a um agente patogênico que a sua difusão universal torna inofensivo para os outros e tão grave para o infeliz que acaba por não ter mais imunidade contra ele! A vida dessas lindas jovens (devido a meus longos períodos de reclusão, eu as encontrava tão raramente) me parecia, como se dá com todos aqueles a quem a facilidade de realizações não amorteceu a potência de conceber, algo tão diverso do que eu conhecia, tão desejável, como as mais maravilhosas cidades que a viagem promete. A decepção causada pelas mulheres que eu conhecera, nas cidades aonde fora, não me impedia de me deixar levar pela atração de outras e de crer na sua realidade. 
     Assim, da mesma forma que ver Veneza - Veneza, de quem eu sentia também a nostalgia naqueles dias primaveris e que o casamento com Albertine me impediria de conhecer - ver Veneza num panorama que Ski talvez tivesse declarado ser mais belo de tonalidade que a cidade real, em nada me teria substituído a viagem a Veneza, viagem cuja distância, determinada sem minha participação, parecia me indispensável transpor da mesma forma, por mais bonita que fosse a midinette que uma alcoviteira me obtivesse artificialmente, não poderia em nada substituir, para mim, aquela que, rebolando os quadris, passava naquele instante sob as árvores, rindo com uma amiga. A que eu pudesse ter encontrado num bordel, ainda que fosse mais bonita, não seria a mesma coisa, pois não olhamos para os olhos de uma garota que não conhecemos como o faríamos para uma plaqueta de opala ou de ágata. Sabemos que o pequeno raio de luz que os irisa ou os grãos de brilhante que os fazem cintilar são tudo o que podemos ver de um pensamento, de uma vontade, de uma memória, onde residem a casa de família que não conhecemos, os amigos queridos que invejamos. Chegara apossar-nos de tudo isso, que é tão difícil, tão arisco, é o que dá ao olhar o seu valor, muito mais do que a simples beleza material (pelo que se pode explicar que um rapaz desperte todo um romance na imaginação de uma mulher que ouviu dizer que ele era o príncipe de Gales, e que não lhe dê mais atenção ao saber que se enganou); encontrar a midinette no bordel é encontrá-la vazia dessa vida ignorada que a penetra, e que aspiramos possuir com ela, é nos aproximarmos de olhos que de fato se tornaram simples pedras preciosas, de um nariz cujo franzir é tão destituído de significado como o de uma flor. Não, essa midinette desconhecida que ali passava, e da qual me parecia tão indispensável, se eu quisesse continuar a crer na sua realidade, experimentar-lhe as resistências adaptando-lhes o meu procedimento, arriscando-me a ouvir desaforos, voltando à carga, obtendo um encontro, esperando-a à saída do emprego, conhecendo episódio por episódio tudo o que compunha a vida dessa garota, atravessando aquilo de que se formava para ela o prazer que eu procurava e a distância que seus hábitos diversos e sua vida especial colocavam entre mim e a atenção, o favor que eu queria atingir e captar quanto fazer uma longa viagem de trem se eu quisesse acreditar na realidade de Pisa, que eu veria e que não seria apenas um espetáculo de exposição universal. Mas as próprias semelhanças que existem entre o desejo e a viagem fizeram com que eu prometesse a mim mesmo penetrar um pouco mais fundo na natureza dessa força invisível mas tão poderosa como as crenças, ou como, no mundo físico, a pressão atmosférica, que erguia tão alto as cidades, as mulheres, enquanto eu não as conhecia, e que se ocultava debaixo delas logo que eu me aproximava, fazendo-as desabar repentinamente no terra-a-terra da mais trivial realidade. Mais adiante, uma outra mocinha estava de joelhos junto a sua bicicleta, consertando-a. Uma vez terminados os reparos, a jovem ciclista montou na bicicleta, mas sem cavalgá-la como o teria feito um homem. Por um momento a bicicleta balançou, e o jovem corpo parecia ter adquirido um véu, uma asa imensa, e logo vimos afastar-se a toda velocidade a jovem criatura meio humana, meio alada, anjo ou perl prosseguindo a sua viagem.
     Eis do que exatamente me privava a presença de Albertine, a minha vida com Albertine. Do que me privava? Não deveria eu pensar do que, ao contrário, ela me gratificava?
     Se Albertine não vivesse comigo, se ela fosse livre, eu teria imaginado, e com razão, todas essas mulheres como objetos possíveis e prováveis do seu desejo, do seu prazer. Elas me apareceriam todas como essas dançarinas que, num balé diabólico, representando as Tentações para uma pessoa, atiram suas flechas no coração de outra. As midinettes, as moças, as atrizes, como as teria odiado! Objeto de horror, seriam excluídas por mim da beleza do universo. O cativeiro de Albertine, permitindo-me não mais sofrer por causa delas, restituía-as à beleza do mundo.
     Inofensivas, tendo perdido o aguilhão que enfia no coração o ciúme; era-me permitido admirá-las, afagá-las com o olhar, talvez mais intimamente em outro dia. Encerrando Albertine, eu ao mesmo tempo devolvera ao universo todas aquelas asas reluzentes que sussurravam nas avenidas, nos bailes, nos teatros, e que se tornavam tentadoras para mim porque ela já não podia sucumbir à sua tentação: Elas compunham a beleza do mundo. Tinham feito antigamente a de Albertine. Porque a vira como um pássaro misterioso, depois como uma grande atriz da praia, desejada, talvez conquistada, é que eu a achara maravilhosa. Uma vez cativo em minha casa o pássaro que eu tinha visto uma tarde caminhar a passos vagarosos sobre o molhe, cercado da congregação das outras jovens semelhantes à gaivotas vindas não se sabe de onde, Albertine perdera todas as suas cores, com todas as chances que os outros tinham de a possuir. Aos poucos perdera a sua beleza. Eram necessários passeios como este, em que eu a imaginava sem mim, abordada por tal mulher ou tal rapaz, para que eu a revisse no esplendor da praia, ainda que o meu ciúme estivesse num plano diverso do que o declínio dos prazeres de minha imaginação. Mas, apesar desses bruscos sobressaltos em que, desejada por outros, ela se me tornava bela outra vez, eu bem podia dividir sua temporada em minha casa em dois períodos: o primeiro, em que ela era ainda, embora menos a cada dia, a reluzente atriz da praia; e o segundo, em que, transformada na sombria prisioneira, reduzida a seu eu amortecido, eram-lhe precisos esses clarões, em que eu me recordava do passado, para lhe restituir as cores.
     Às vezes, nas horas em que ela me era mais indiferente, voltava-me a lembrança de um momento longínquo em que, na praia, quando ainda não a conhecia, não longe de certa senhora com quem eu estava em muito maus termos e com a qual agora estava quase seguro de que ela tivera relações, Albertine desatava a rir, olhando-me de modo insolente. O mar, brunido e azul, sussurrava em torno; ao sol da praia, Albertine, no meio de suas amigas, era a mais bela, era uma garota magnífica, que, no quadro habitual de águas imensas, infligira-me aquela afronta, preciosa para a dama que a admirava. Tal afronta era definitiva, pois a dama talvez voltasse a Balbec, talvez constatasse a ausência de Albertine na praia luminosa e sussurrante. Ignorava, porém, que a moça vivia em minha casa, só para mim. As águas imensas e azuis, o esquecimento das preferências que tinha por esta moça e que se dirigiam a outras, haviam recaído sobre a afronta que me fizera Albertine, prendendo-a num deslumbrante e infrangível escrínio. Então o ódio por aquela mulher me mordia o coração; também por Albertine, mas um ódio mesclado de admiração pela bela jovem adulada, de maravilhosa cabeleira, e cujo estalar de riso na praia era uma afronta. A vergonha, o ciúme, a recordação dos primeiros desejos e do quadro cintilante haviam devolvido a Albertine a sua beleza, o seu valor de outrora. E assim alternava, com o tédio um tanto pesado que eu sentia junto dela, um desejo fremente, cheio de imagens magníficas e saudades, conforme ela estivesse a meu lado no quarto, ou eu lhe restituísse a liberdade em minha memória, no molhe, em seus alegres trajes de praia, ao sabor dos instrumentos de música do mar. Albertine, ora saída desse ambiente, possuída e sem grande valor, ora mergulhada nele, escapando-me num passado que eu não poderia conhecer, ofendendo-me junto àquela senhora, junto da amiga, tanto quanto o salpico das ondas ou a ofuscação do sol, Albertine recolocada na praia ou reposta no meu quarto, numa espécie de amor anfíbio.
     Além, um grupo numeroso jogava bola. Todas essas meninas tinham querido aproveitar o sol, pois esses dias de fevereiro, mesmo quando são tão brilhantes, não duram até tarde, e o esplendor de sua luz não atrasa a vinda de seu declínio. Antes que este chegasse, tivemos um pouco de penumbra, porque, depois de descer até o Sena, onde Albertine admirou -e com sua presença me impediu de admirar os reflexos de velas vermelhas sobre a água azul e invernal, uma casa de telhas acocorada ao longe como uma única papoula no claro horizonte de que Saint-Coud parecia, mais longe ainda, a petrificação fragmentária, friável e cheia de pregas, saltamos do carro e caminhamos por muito tempo. Durante alguns momentos eu até lhe dava o braço, e parecia-me que o anel que o seu braço fazia sob o meu unia numa só criatura nossas pessoas e ligava nossos destinos um ao outro. A nossos pés, nossas sombras paralelas, mais juntas e aproximadas, formavam um desenho encantador. Sem dúvida já me parecia maravilhoso em casa que Albertine morasse comigo, que fosse ela quem se estendesse em minha cama.
     Mas era como a exportação para fora, em plena natureza, que diante daquele lago de Bois, de que eu tanto gostava, ao pé das árvores, que fosse justamente a sua sombra, a sombra pura e simplificada de sua perna, de seu busto, que o sol tivesse de pintar numa aquarela, ao lado da minha, sobre a areia da alameda. E eu achava um encanto, mais imaterial sem dúvida, porém não menos íntimo, na aproximação, na fusão de nossas sombras do que na de nossos corpos. Depois voltamos para o carro. E este tomou por pequenas alamedas sinuosas onde as árvores de inverno, vestidas de heras e de sarças, como ruínas, pareciam levar à casa de um mágico. Mal saímos de sua cobertura ensolarada, encontramos, para deixar o Bois; o dia claro, tão claro ainda que eu julgava ter tempo de fazer tudo o que desejava antes de jantar, quando, só alguns instantes depois, no momento em que nosso carro se aproximava do Arco do Triunfo, foi com um brusco movimento de surpresa e pavor que avistei, sobre Paris, a lua cheia e prematura, como o mostrador de um relógio parado que nos faz pensar que estamos atrasados. Tínhamos dito ao cocheiro que voltasse para casa. Para Albertine, era também voltar para a minha casa. A presença das mulheres que precisam nos deixar para regressar a casa, por mais amadas que sejam, não nos dá essa paz que eu desfrutava na presença de Albertine, sentada no fundo do carro a meu lado, presença que nos encaminhava; não ao vazio das horas em que se fica separado, mas à reunião mais estável ainda e melhor definida dentro do meu lar, que também era o seu símbolo material do meu poder sobre ela. É claro que, para possuir, é preciso ter desejado. Não passamos uma linha, uma superfície, um volume, sem que nosso amor o ocupe. Mas Albertine não fora para mim, durante nosso passeio, como Rachel o fora antigamente, uma poeira vã de carne e tecidos. A imaginação de meus olhos, de meus lábios, de minhas mãos, tinha, em Balbec, tão solidamente construído e tão ternamente cinzelado o seu corpo, que agora naquele carro, para tocar esse corpo, por contê-lo, eu não tinha necessidade de me apertar contra Albertine, nem mesmo vê-la, bastava-me ouvi-la, e, se ela se calava, sabê-la junto a mim; meus sentimentos retrançados envolviam-na inteirinha e, quando, chegando em frente da casa, ela desceu com toda a naturalidade, eu parei um instante para dizer ao chofer que voltasse para me buscar, mas meus olhares ainda a envolviam, enquanto ela desaparecia sob o arco, e era sempre essa mesma calma inerte e doméstica o que eu desfrutava ao vê-la assim pesada, purpúrea, opulenta e cativa, entrar naturalmente em casa comigo, como uma mulher que fosse minha, e, protegida pelos muros, desaparecerem nossa casa.
     Infelizmente, ela parecia sentir-se prisioneira e ser da opinião daquela Sra. de La Rochefoucauld, que, como lhe perguntassem se não estava contente por viver numa residência tão bonita como Liancourt, respondeu que "não existe uma bela prisão", a julgar pelo ar tristonho e cansado que exibiu aquela noite durante o jantar, nós dois sozinhos no seu quarto. A princípio não reparei nisso; e eu é que fiquei desolado ao pensar que, se não fosse Albertine (pois com ela eu teria de morrer de ciúmes num hotel onde ela ficaria o dia todo em contato com tantas pessoas), poderia naquele instante estar jantando em Veneza, numa daquelas pequenas salas de jantar de teto rebaixado como um porão de navio, e de onde se vê o Grande Canal através de janelinhas arqueadas em molduras mouriscas.
     Devo acrescentar que Albertine admirava muito, em nossa casa, um grande bronze de Barbedienne, que com muita razão Bloch achava extremamente feio. Tinha-a menos talvez de se admirar que eu o conservasse. Eu jamais buscara, como ele, fazer um conjunto de mobílias artísticas, compor peças, era preguiçoso demais para isso, muito indiferente ao que estivesse habituado a ter diante dos olhos. Já que o meu gosto não se preocupava, eu tinha o direito de não matizar os interiores. Apesar disso, poderia talvez me desfazer do bronze. Mas as coisas feias e extravagantes são utilíssimas, pois têm, junto às pessoas que não nos compreendem, que não têm o nosso gosto, e das quais podemos estar enamorados, um prestígio que não teria uma peça ilustre que não revela a sua beleza. Ora, as pessoas que não nos compreendem são justamente as únicas junto às quais pode nos ser útil usar de um prestígio diante de criaturas superiores apenas por sermos inteligentes. Por mais que Albertine principiasse a ter um certo gosto, ela ainda mostrava algum respeito por aquele bronze; e esse respeito se refletia sobre mim numa consideração que, vindo dela, importava-me infinitamente mais do que conservar um bronze um tanto desonroso, visto que amava Albertine.
     Mas a ideia da minha escravidão cessou de repente de me pesar, e eu aspirava a prolongá-la ainda mais, pois parecia-me perceber que Albertine sentia cruelmente a sua. Sem dúvida, cada vez que eu lhe perguntava se não se aborrecia em minha casa, dizia-me sempre que não sabia onde poderia ser mais feliz. Muitas vezes, porém, tais palavras eram desmentidas por um ar de nostalgia, de nervosismo.
     Certamente, se ela tivesse os gostos que eu julgara que possuísse, esse impedimento de jamais satisfazê-los deveria ser tão irritante para ela como tranquilizador para mim; tranquilizador a ponto de que a hipótese de que a acusara injustamente teria me parecido a mais verossímil, se nela não encontrasse muita dificuldade em explicar aquele cuidado extraordinário que Albertine punha em nunca estar sozinha, nunca estar livre, em nunca parar um momento diante da porta ao entrar, em se fazer acompanhar ostensivamente, cada vez que ia telefonar, por alguém que pudesse me repetir as suas palavras, por Françoise, por Andrée, em me deixar sempre sozinho com esta última, sem dar a impressão que fosse de propósito quando tinham saído juntas, para que eu pudesse obter um relatório minucioso de sua saída. Com essa maravilhosa docilidade, contrastavam certos movimentos de impaciência, logo reprimidos, que me fizeram especular se Albertine não teria formado o projeto de romper as cadeias. Alguns fatos acessórios apoiavam minha suposição. Assim, um dia em que eu saíra sozinho, tendo encontrado Gisele perto de Passy, conversamos de uma coisa ou outra.
     Em pouco, muito feliz de poder informá-la, disse-lhe que via Albertine constantemente. Gisele me perguntou onde poderia encontrá-la, pois tinha justamente uma coisa a lhe dizer.

- O que é? 
- Coisas das amiguinhas dela. 
- Que amiguinhas? Eu podia talvez lhe informar, o que não impediria que você a procurasse depois. 
- Oh, amigas de antigamente; não me recordo os seus nomes - respondeu Gisele com um ar vago, batendo em retirada.

     Deixou-me, julgando ter falado com tanta prudência que tudo só me poderia parecer bem claro. Mas a mentira é tão pouco exigente, necessita de tão pouco para se manifestar! Se se tratasse de amiguinhas de antigamente, de quem ela nem mesmo recordava os nomes, por que precisaria justamente falar delas a Albertine? Este advérbio, bem parecido a uma expressão cara à Sra. Cottard: "isso vem a calhar" - só podia aplicar-se a uma coisa especial, oportuna, talvez urgente, referindo-se a pessoas determinadas. Aliás, nada como a forma de abrir a boca, como quando se vai bocejar, com um ar vago ao me dizer (e quase recuando com o corpo, desde que dava marcha a ré a partir daquele momento na nossa conversa): 

- Ah, não sei, não me lembro dos seus nomes - para fazer de seu rosto e, combinado com ele, da sua voz, um rosto de mentira, da mesma forma que o ar bem diverso, conciso, animado, indiscreto do "tinha justamente", significava uma verdade. Nada mais perguntei a Gisele. De que adiantaria? Certo, ela não mentia da mesma maneira que Albertine.

     E evidentemente as mentiras desta me doíam mais. Porém havia entre elas um ponto comum, o próprio fato da mentira que, em certos casos, é uma evidência. Não da realidade que se oculta sob essa mentira. Sabemos que, embora cada assassino em particular pense ter, realizado tão bem o seu trabalho que nunca será descoberto, ele é quase sempre é capturado. Contrariamente, os mentirosos raramente são apanhados e, entre eles; mais especialmente as mulheres que amamos. Ignoramos aonde ela foi, o quê andou fazendo lá, mas, no momento mesmo em que ela fala, quando fala de outra coisa sob a qual está o que ela não diz, a mentira é logo descoberta. E o nosso ciúmes redobra, pois percebemos a mentira e não chegamos a conhecer a verdade. Em Albertine, a sensação da mentira era dada por diversas particularidades que já vimos no decorrer desta narrativa, mas principalmente pelo fato de que, ao mentir, o seu relato pecava ou por insuficiência, omissão, inverossimilhança, ou, ao contrário, por excesso de pequenos fatos destinados a torná-lo verossímil. O verossímil, apesar do que o mentiroso imagina, não é de modo algum a verdade. Quando, ao se ouvir alguma coisa verdadeira, escuta-se algo que é apenas verossímil, que o é talvez mais que a verdade, que o é talvez demais, o ouvido um tanto musical sente que não é exatamente aquilo, como se dá com um verso errado, ou uma palavra lida em voz alta por outra pessoa. O ouvido o sente e, se amamos, o coração se alarma. Por que não considerarmos então, quando mudamos toda a nossa vida por não sabermos se uma mulher passou pela rua de Berri ou pela rua Washington, por que não considerarmos que esses poucos metros de diferença, e a própria mulher, serão reduzidos a um centésimo milionésimo de seu tamanho (isto é, a uma grandeza que não podemos distinguir), para isso bastando-nos ter a prudência de ficar alguns anos sem ver tal mulher, e o que era um Gulliver, em bem maiores proporções, se tornará uma liliputiana que nenhum microscópio-ao menos o do coração, pois o da memória indiferente é mais poderoso e menos frágil-terá condições de perceber. Seja como for, se havia um ponto em comum -a própria mentira-entre as de Albertine e de Gisele, esta, contudo, não mentia da mesma forma que Albertine, tampouco da mesma maneira que Andrée, mas suas respectivas mentiras se encaixavam tão bem umas nas outras, apresentando sempre grande variedade, que o pequeno grupo exibia a solidez impenetrável de certas firmas comerciais, de livraria ou de imprensa por exemplo, onde o infeliz autor jamais há de chegar a saber, a despeito da diversidade das personalidades componentes, se está sendo logrado ou não. O diretor do jornal ou da revista mente com uma atitude de sinceridade tanto mais solene quanto precisa dissimular em várias ocasiões que faz exatamente a mesma coisa, e se entrega às mesmas práticas mercantis que condena em outros diretores de jornal ou de teatro, em outros editores, quando tomou partido, erguendo contra eles o estandarte da Sinceridade. O fato de ter proclamado (como chefe de um partido político, como qualquer coisa) ser atroz mentir, obriga na maioria das vezes a mentir mais que os outros, sem por isso abandonar a máscara solene, nem depor a tiara augusta da sinceridade. O sócio do "homem sincero" mente de outra forma e de modo mais ingênuo. Engana o autor como engana a mulher, com truques de vaudeville. O secretário da redação, homem honesto e grosseiro, mente com simplicidade, como o arquiteto que nos promete que nossa casa ficará pronta numa ocasião em que ela nem sequer estará começada. O redator-chefe, alma angélica, rodopia entre outros três, e, sem saber de que se trata, leva-lhes, por escrúpulo fraterno e carinhosa solidariedade, o auxílio precioso de uma palavra insuspeita.
     Estes quatro personagens vivem em constantes dissensões que a chegada do autor faz cessar. Acima das rixas particulares, cada qual se lembra do grande dever militar devida em ajuda ao "corpo" ameaçado. Sem o perceber, eu há muito vinha exercendo o papel desse autor diante do "pequeno grupo". Se Gisele havia pensado, ao dizer "justamente", em determinada amiguinha de Albertine disposta a viajar com ela desde que minha amiga, sob qualquer pretexto, deixasse-me, e em avisar Albertine de que era chegada a hora, ou que em breve chegaria, teria preferido deixar-se fazer em pedaços a dizê-lo. Então, era de todo inútil fazer-lhe perguntas.
     Encontros como os de Gisele não eram os únicos a acentuar as minhas dúvidas. Por exemplo, eu admirava as pinturas de Albertine. E estas, distrações comoventes da cativa, impressionaram-me tanto que lhe dei meus parabéns. 

- Não, são muito ruins, e eu nunca tive uma aula sequer de desenho. 
- Mas certa noite, em Balbec, você me disse que tinha ficado para ter uma aula de desenho.

     Lembrei-lhe o dia e falei que entendera logo que não se davam lições de desenho àquela hora.
     Albertine enrubesceu. 

- É verdade -disse -, eu não tomava lições de desenho, menti muito para você a princípio, isto eu reconheço. Mas não minto mais. - 

     Eu tanto quisera saber quais eram as numerosas mentiras do princípio! Mas de antemão sabia que suas confissões seriam novas mentiras. Assim, limitei-me a beijá-la. Perguntei-lhe apenas qual era uma dessas mentiras. Respondeu: 

- Por exemplo: sim, que o ar marinho me fazia mal. - 

     Deixei de insistir diante daquela má vontade.

continua na página 75...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Se minha vida com Albertine)


Por que é tão difícil ler EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, de Marcel Proust?