terça-feira, 30 de junho de 2026

Tchekhov - O enxoval

A dama do cachorrinho e outras histórias

Anton Tchekhov


O enxoval

     Na minha vida, vi muitas casas, grandes e pequenas, de pedra e de madeira, velhas e novas. Mas uma em particular gravou-se na minha memória. Essa, aliás, não é uma casa, é uma casinha. Uma casinha de um andar, com três janelas, terrivelmente parecida com uma velhinha pequena, corcunda e de touca. É rebocada e pintada de branco, coberta de telhas, com uma chaminé semidestruída. Está mergulhada na folhagem verde de amoreiras, acácias e álamos, plantados ali pelos avós e bisavós dos atuais proprietários. A casa não é visível atrás dessa verdura. A propósito, essa massa verde não a impede de ser uma casa urbana. Seu largo pátio está enfileirado, lado a lado, com outros pátios, também largos e verdes, formando a rua Moskóvskaia. Ninguém jamais passa de carro por essa rua, e é raro alguém andar a pé por ela.
     As persianas dessa casinha estão sempre fechadas: os moradores não necessitam de luz. A luz é dispensável para eles. As janelas nunca se abrem, porque os habitantes da casinha não gostam de ar fresco. Pessoas que vivem permanentemente entre amoreiras, acácias e bardanas são indiferentes à natureza. Somente aos veranistas das casas de campo é que Deus deu a capacidade de compreender a beleza da natureza; já o restante da humanidade atola-se em profunda ignorância. As pessoas não valorizam o que possuem. “Não conservamos o que é nosso” – costuma-se dizer. Mais do que isso: nós não amamos aquilo que é nosso. Em torno da casinha, há um paraíso terrestre, verde, cheio de pássaros alegres; já dentro da casinha, um horror! No verão, é tórrido e abafado; no inverno, quente como uma sauna, com um ar viciado e um enorme tédio...
     A primeira vez que visitei essa casinha foi há muito tempo, e eu tinha uma incumbência: viera para transmitir os cumprimentos do dono da casa, coronel Tchikamássov, a sua esposa e a sua filha. Lembro-me perfeitamente dessa minha primeira visita, e não poderia ser diferente.
     Imagine uma mulherzinha sem traquejo social, de uns quarenta anos, que olha para você com espanto e pavor no momento em que você passa do vestíbulo para a sala. Você é um “estranho”, uma visita, “um jovem rapaz” – e isso já é suficiente para despertar espanto e pavor. Você não tem na mão nem maça, nem machado, nem revólver; você está sorrindo amistosamente, mas é recebido com ansiedade.

– A quem eu tenho a honra e a satisfação de receber? – pergunta com voz trêmula a senhora de meia-idade, que você identifica como a senhora Tchikamássova. 

     Você diz o seu nome e explica o motivo de sua vinda. O pavor e o espanto são substituídos por um “ah!” estridente e alegre, acompanhado de um revirar de olhos. Esse “ah”, como um eco, é transmitido do vestíbulo para a sala de visitas, da sala de visitas para a sala de jantar e desta para a cozinha... assim chegando até a adega. Em pouco tempo, toda a casinha se enche de muitos tipos de “ah”, alegres e variados. Cinco minutos depois, você já está sentado na sala de jantar, num grande divã, macio e quente, ouvindo toda a rua Moskóvskaia exclamar “ah”.
     Sentia-se um cheiro de pó para traças e de uns sapatos novos, de pele de cabra, que estavam sobre a cadeira ao lado, enrolados num lenço. Nas janelas havia gerânios e retalhos de musselina. Nos retalhos, um monte de moscas de barriga cheia. Na parede pendia o retrato de um arcipreste, pintado a óleo, coberto por um vidro com um cantinho quebrado. Partindo do arcipreste, começava uma fileira de antepassados com fisionomias amarelo-limão, parecendo ciganos. Sobre a mesa estavam um dedal, um novelo de linha e um pé de meia não totalmente tecido; no chão havia moldes e uma blusinha preta com linhas de um colorido vivo. No quarto ao lado, duas velhinhas assustadas e apressadas apanhavam do chão moldes e retalhos...

– Está uma desordem terrível aqui, nos desculpe! – disse Tchikamássova.

     Ela conversava comigo e olhava confusa para a porta, atrás da qual as senhoras estavam catando os moldes. A porta, também de modo confuso, ora se entreabria, ora se fechava.

– O que você quer? – disse Tchikamássova em direção à porta.
Où est mon cravatte, lequel mon père m’avait envoyé de Koursk¹? perguntou de trás da porta uma voz feminina. 

[1] Onde está minha gravata, aquela que meu pai me mandou de Kursk?

Ah, est ce que, Marie, que²... Ah, será possível? Nous avons donc chez nous un homme très peu connu par nous³... Pergunte à Lukéria...

[2] Ah, Marie, é isso mesmo?
[3] Temos aqui um homem que nos é muito pouco conhecido.

“Mas como nós falamos bem francês!” – li nos olhos de Tchikamássova, que estava corada de satisfação.

     Logo depois, a porta se abriu e eu vi uma donzela alta e magra, de uns dezenove anos, com um vestido longo de musselina e um cinto dourado, do qual, me recordo, pendia um leque de madrepérola. Ela entrou, sentou-se e enrubesceu. Inicialmente enrubesceu seu nariz comprido, um pouquinho bexiguento; dali, o rubor caminhou para os olhos e, de lá, para as têmporas.

– Esta é a minha filha! – disse Tchikamássova com voz cantada. – E este, Mánetchka, é o jovem que...

     Eu me apresentei e expressei meu espanto pela enorme quantidade de moldes. Mãe e filha baixaram os olhos.

– No dia da Ascensão houve aqui uma feira – disse a mãe. – Nós sempre compramos uma grande quantidade de tecidos na feira, e depois passamos o ano inteiro costurando, até a próxima feira. Nunca entregamos a costura para outros fazerem. Meu Piotr Semiônytch não ganha muito e não podemos nos permitir luxos. Temos de costurar nós mesmas.
– Mas quem aqui usa tal quantidade de roupas? Pois vocês são só duas.
– Ah... Será que isso se pode usar? Não é para usar. Isso é o enxoval!
– Ah, maman, o que está dizendo! – disse a filha, corando. – Este senhor vai de fato pensar que... Eu nunca me casarei! Nunca!

     Ela disse isso, mas na palavra “casarei” seus olhinhos brilharam.
     Trouxeram chá, torradas, geleia, manteiga, depois serviram framboesas com creme. Às sete da noite, houve um jantar composto de seis pratos, e durante o jantar eu ouvi um bocejo alto no quarto ao lado. Olhei espantado para a porta: um bocejo assim só pode ser de homem.

– É o irmão de Piotr Semiônytch, Iegor Semiônytch... – esclareceu Tchikamássova, notando meu espanto. – Ele mora conosco desde o ano passado. Desculpe-o, ele não pode aparecer para o senhor. É meio selvagem... Fica confuso na presença de estranhos. Pretende ir para um mosteiro... Alguém o ofendeu no trabalho... E agora, por causa da mágoa...

     Depois do jantar, Tchikamássova mostrou uma epitrakhil, que Iegor Semiônytch bordara pessoalmente para dar de presente à igreja. Por um instante, Mánetchka despiu-se de sua timidez e mostrou-me uma bolsa para tabaco que ela havia bordado para o seu paizinho. Quando demonstrei estar surpreso com o seu trabalho, ela ficou toda vermelha e cochichou algo no ouvido da mãe. Esta ficou exultante e me propôs ir com ela ao depósito, onde vi uns cinco baús grandes e uma infinidade de caixas e baús pequenos.

– Isto... é o enxoval! – sussurrou a mãe. – Nós mesmas confeccionamos.

     Depois de ver esses sombrios baús, comecei a me despedir das hospitaleiras proprietárias. Exigiram que eu desse minha palavra de que voltaria algum dia.
     Tive oportunidade de cumprir o que prometera uns sete anos depois da minha primeira visita, quando fui enviado àquela cidadezinha como perito em um caso judiciário. Ao entrar na casinha, já minha conhecida, ouvi os mesmos “ah!”... Elas me reconheceram... Como não haveria de ser? Minha primeira visita fora um grande acontecimento na vida delas e, onde acontece pouca coisa, isso se recorda durante muito tempo... Quando entrei na sala de visitas, a mãe, ainda mais gorda e já com cabelos grisalhos, arrastava-se pelo chão e cortava um tecido azul-escuro; a filha estava sentada no divã, bordando. Os mesmos moldes, o mesmo cheiro de pó para traças, o mesmo retrato com o cantinho quebrado. Contudo, ocorreram mudanças. Ao lado do retrato do arcipreste, pendia o retrato de Piotr Semiônytch, e as duas senhoras estavam de luto. Piotr Semiônytch havia morrido uma semana depois de sua promoção a general.
     Começaram as recordações... A viúva do general derramou algumas lágrimas.

– É uma tristeza enorme para nós! – disse ela. – Piotr Semiônytch – o senhor conhece? – Já não está mais conosco. Eu e ela estamos órfãs e temos de cuidar de nós mesmas. Mas Iegor Semiônytch está vivo, e não podemos falar nada de bom sobre ele. Não o aceitaram no mosteiro, porque... bebe demais. E agora está bebendo ainda mais, de tristeza. Estou pensando em ir me queixar ao decano da nobreza. Imagine o senhor que várias vezes ele abriu os baús, pegou peças do enxoval de Mánetchka e deu para os romeiros. Aos poucos ele esvaziou dois baús! Se continuar assim, minha Mánetchka vai ficar completamente sem dote...
– Que a senhora está dizendo, maman! – disse Mánetchka embaraçada. – Só Deus sabe o que esse senhor vai pensar... Eu nunca, nunca vou me casar!

     Mánetchka olhou inspirada e com esperança para o teto, pelo visto não acreditando no que dizia.
     Pelo vestíbulo esgueirou-se uma pequena figura masculina, com uma calva profunda, casaco marrom e galochas em vez de botas, provocando um leve rumor, como um rato.

“Deve ser Iegor Semiônytch” – pensei.

     Dei uma olhada na mãe e na filha: ambas haviam envelhecido muito, estavam macilentas. A cabeça da mãe cobria-se de prata, a filha desbotara, murchara, e parecia que a mãe era mais velha do que a filha uns cinco anos no máximo.

– Pretendo ir procurar o decano da nobreza – disse a velha, esquecendo-se de que já havia dito isso. – Quero fazer uma queixa! Iegor Semiônytch tira tudo que confeccionamos e doa não sei a quem para salvar sua alma. Minha Mánetchka ficou sem seu enxoval!

     Mánetchka corou, mas dessa vez não disse nada.

– Será preciso fazer tudo de novo, mas Deus sabe que não somos ricaças, de modo algum! Nós duas estamos órfãs!
– Estamos órfãs! – repetiu Mánetchka.

     No ano passado, o destino novamente me atirou naquela casinha que eu conhecia. Entrei na sala de visitas e vi a velha Tchikamássova toda de preto, com crepes na roupa, sentada no divã, costurando algo. Ao seu lado estava um velhinho de casaco marrom e de galochas em vez de botas. Ao me ver, o velhinho levantou-se de um salto e correu para fora da sala... Em resposta ao meu cumprimento, a velhinha sorriu e disse:

Je suis charmée de vous revoir, monsieur4.

[4] É com grande prazer que o vejo novamente, senhor.

– O que a senhora está costurando? – perguntei, passado algum tempo.
– Uma camisa. Eu faço e levo para o padre esconder, senão Iegor Semiônytch carrega. Agora dou tudo para o padre esconder – disse ela, sussurrando.

     E, dando uma olhada para o retrato da filha sobre a mesa próxima, suspirou e disse:

– Como vê, estamos órfãos!

     Mas onde está a filha? Onde está Mánetchka? Não perguntei; não queria interrogar a velhinha vestida de luto profundo. Durante o tempo todo que passei na casinha, e também quando já estava de saída, Mánetchka não apareceu, e nem ao menos ouvi sua voz, ou seus passos leves, tímidos... Tudo ficou claro. Saí com um peso no coração...

Agosto de 1883.
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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval /  

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (II. Lisavieta Smirdiáchtchaia)


Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO IIi
OS SENSUAIS
II
LISAVIETA SMIERDIÁCHTCHAIA
    
     Havia ali uma circunstância particular que impressionou profunda mente Gregório e acabou de fortificar nele uma suspeita desagradável e repugnante. Aquela Lisavieta Smierdiáchtchaia era uma moça de estatura muito pequena, "um pouco mais de 2 archini"; assim se lembravam dela com enternecimento, após sua morte, bondosas velhas de nossa cidade. Seu rosto de vinte anos, sadio, largo, vermelho, era completamente idiota, o olhar fixo e desagradável, se bem que plácido. Tanto no inverno quanto no verão andava sempre de pés descalços, vestida apenas de uma camisa de cânhamo. Seus cabelos quase negros, extraordinariamente espessos, frisados como uma lã amontoavam-se em sua cabeça à maneira de um enorme boné. Além disso estavam muitas vezes sujos de terra, de lama, entremeados de folhas, de raminhos, de cavacos, porque ela dormia sempre no chão e na lama. Seu pai, Iliá, pequeno burguês sem domicílio, arruinado e valetudinário, fortemente dado à bebida, permanecia desde muitos anos, na qualidade de operário, em casa dos mesmos senhores opulentos, igualmente burgueses de nossa cidade. A mãe de Lisavieta morrera desde muito tempo. Sempre doentio e mal-humorado, Iliá batia sem piedade em sua filha quando chegava ela em casa. Mas ali ia raramente, sendo acolhida por toda parte na cidade como uma débil mental sob a proteção de Deus. Os patrões de Iliá, o próprio Iliá e muitas pessoas caridosas, sobretudo entre os negociantes e as negociantes, tinham tentado por várias vezes vestir Lisavieta de uma maneira mais decente, fazendo-a usar no inverno uma peliça de carneiro e calçar botas; habitualmente sujeitava-se ela docilmente a isso, depois ia-se embora e, em alguma parte, de preferência sob o pórtico da igreja, despojava-se de tudo quanto lhe haviam dado — quer fosse um lenço, uma saia, uma peliça, botas —, abandonava tudo no lugar e lá se ia de pés descalços, vestida com sua camisa como antes. Aconteceu que um novo governador, inspecionando nossa cidade, sentiu-se ferido nos seus melhores sentimentos à vista de Lisavieta e, muito embora tivesse percebido que se tratava de uma inocente, como aliás o informaram, fez no entanto observar "que uma moça vagando em camisa infringia a decência e que aquilo devia cessar no futuro". Mas, depois que o governador partiu, deixaram Lisavieta como era. Por fim, seu pai morreu, tornando-se ela mais querida a todas as pessoas piedosas da cidade como órfã. Com efeito, todos pareciam amá-la; os próprios garotos não mexiam com ela nem a maltratavam; ora, entre nós, os garotos, sobretudo os colegiais, são uma raça agressiva. Entrava ela em casas desconhecidas e ninguém a expulsava; pelo contrário, todos a tratavam bem e lhe davam um meio copeque. As moedinhas que lhe davam, levava-as ela logo para metê-las em um tronco qualquer, na igreja ou na prisão. Se recebia, no mercado, um sequilho ou um pãozinho, não deixava de fazer presente dele ao primeiro menino que encontrasse, ou então detinha uma de nossas damas mais ricas para lhe oferecer; e esta o aceitava até mesmo com alegria. Ela própria não se nutria senão de pão preto e água. Entrava por vezes numa rica loja, sentava-se, tendo junto de si mercadorias de valor: dinheiro; jamais os proprietários desconfiavam dela, sabendo que não tomaria um copeque, mesmo se pusessem milhares de rublos a seu alcance e fossem esquecidos. Ia raramente à igreja, dormia sob os pórticos, ou num pomar qualquer, depois de ter pulado a cerca (ainda agora há entre nós muitas cercas em lugar de paiiçadas). Ia geralmente uma vez por semana à casa dos patrões de seu defunto pai, no inverno todos os dias, mas somente à noite, que ela passava no vestíbulo ou no estábulo. Causava espanto que pudesse ela suportar tal existência, mas estava a ela acostumada; se bem que de pequena estatura, tinha uma constituição excepcionalmente robusta. Certas pessoas da sociedade achavam que ela fazia tudo isso unicamente por orgulho, mas não havia motivo para tal; não sabia ela dizer uma palavra, por vezes somente mexia a língua e resmungava; que tinha de ver com isso o orgulho? Ora, numa noite de setembro, clara e quente, em que a lua era cheia, a uma hora já bastante tardia para nossos hábitos, um bando de cinco ou seis farristas, embriagados, voltava do clube para suas casas pelo caminho mais curto. Dos dois lados, a ruela que eles seguiam era bordada por uma cerca por trás da qual se estendiam os pomares das casas ribeirinhas; terminava num passadiço lançado sobre o longo pântano infecto que se batiza por vezes entre nós com o nome de rio. Perto da cerca, entre as urtigas e as barbanas, o nosso grupo percebeu Lisavieta adormecida. Aqueles cavalheiros embriagados pararam perto dela, explodiram em risadas e puseram-se a pilheriar da maneira mais cínica. Um filho de família imaginou de repente uma questão totalmente excêntrica, a respeito de um assunto impossível. "Pode-se", disse ele, "não importa quem, aceitar um tal monstro como uma mulher, etc." Todos decidiram, com nobre aversão, que não se podia. Mas Fiódor Pávlovitch, que fazia parte do bando, adiantou-se logo, declarou que se podia perfeitamente aceitá-la como mulher e que havia mesmo ali alguma coisa de picante no seu gênero, etc. Naquela época, comprazia-se ele com afetação no seu papel de palhaço, gostava de dar-se em espetáculo e divertir os ricos, como um verdadeiro farsante, malgrado a igualdade aparente. Com um crepe no chapéu, porque acabava de saber da morte de sua primeira mulher, levava então uma vida tão crapulosa que alguns, mesmo libertinos endurecidos, se sentiam constrangidos à sua vista. Aquela opinião paradoxal de Fiódor Pávlovitch provocou a hilaridade do bando; um deles começou mesmo a provocá-lo, os outros mostraram ainda mais aversão, mas sempre com uma viva alegria; por fim todos seguiram seu caminho. Posteriormente, jurou ele que se afastara com os outros; talvez dissesse a verdade, ninguém nunca soube de nada ao certo. Mas cinco ou seis meses mais tarde, a gravidez de Lisavieta excitava a indignação de toda a cidade e procurou-se descobrir quem pudera ultrajar a pobre criatura. Um boato terrível circulou em breve, acusando Fiódor Pávlovitch. Donde vinha ele? Do bando farrista não restava então na cidade senão um homem de idade madura, conselheiro de Estado, pai de filhas adultas, o qual nada teria contado, mesmo se se tivesse passado qualquer coisa; os outros tinham-se dispersado. Mas o boato persistente continuava a apontar Fiódor Pávlovitch. Ele não se deu por achado e desdenhou responder a lojistas e pequenos burgueses. Era orgulhoso então e não dirigia a palavra senão à sua sociedade de funcionários e de nobres, a quem tanto divertia. Foi então que Gregório tomou energicamente o partido de seu amo; não somente defendeu-o contra qualquer insinuação, mas discutiu bastante calorosamente a esse respeito e conseguiu mudar a opinião de muitos. "A culpa é dela mesma, daquela criatura", afirmava ele, e seu sedutor não era outro senão Karp, o Parafuso (assim se chamava um detento bastante perigoso, que se havia evadido da prisão da capital e se ocultara em nossa cidade). Esta conjetura pareceu plausível; foi lembrado que Karp vagueara por aquelas mesmas noites de outono e saqueara três pessoas. Mas essa aventura e esses rumores, longe de desviar as simpatias pela pobre idiota, valeram-lhe um redobramento de solicitude. Uma viúva bastante rica, a negociante Kondrátievna, decidiu recolhê-la em sua casa, no fim de abril, para que ela ali desse à luz. Vigiavam-na severamente. Apesar de tudo, uma noite, no dia mesmo de seu parto, Lisavieta fugiu da casa de sua protetora e foi cair no jardim de Fiódor Pávlovitch. Como pudera ela, no seu estado, transpor uma paliçada tão alta? Isso permaneceu um enigma. Uns asseguravam que a haviam carregado, outros viam naquilo uma intervenção sobrenatural. Tudo leva a crer que, aquilo se realizou de uma maneira engenhosa, mas natural, e que Lisavieta, habituada a penetrar através das sebes nos pomares, para neles passar a noite, trepou, apesar de seu estado, sobre a paliçada de Fiódor Pávlovitch, donde saltou, ferindo-se no jardim. Gregório correu a buscar sua mulher para os primeiros cuidados; ele mesmo foi à procura de uma velha parteira que morava bem perto. Salvou-se o menino, mas Lisavieta morreu ao romper do dia. Gregório pegou o recém-nascido, levou-o para o pavilhão e depositou-o sobre os joelhos de sua mulher: "Eis um filho de Deus, um órfão de que seremos os pais. É o pequeno morto que lhe envia. Nasceu de um filho de Satanás e duma justa. Cria-o e não chores mais doravante". Foi assim que Marfa ígnátievna criou o menino. Foi batizado pelo nome de Páviel, ao qual toda a gente ajuntou, e eles também, Fiódorovitch como nome patronímico. Fiódor Pávlovitch não fez objeção e achou mesmo a coisa divertida, negando porém energicamente aquela paternidade. Aprovaram-no por ter recolhido o órfão. Mais tarde, deu-lhe como nome de família Smierdiákov, de acordo com o sobrenome da mãe dele, Smierdiáchtchaia. Servia ele a Fiódor Pávlovitch como segundo criado e vivia, no começo de nossa narrativa, no pavilhão, ao lado do velho Gregório e da velha Marfa. Tinha o emprego de cozinheiro. Seria preciso consagrar-lhe um capítulo especial, mas tenho escrúpulo de reter por tanto tempo a atenção do leitor para simples criados e continuo esperando que se tratará muito naturalmente de Smierdiákov no curso da narrativa.

continua na página 95...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - A Felicidade Conjugal (3b: Quando nos encontrámos de novo junto de Macha)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

3

continuando...

     Quando nos encontrámos de novo junto de Macha, que nos jurou que não tinha dormido e que tudo ouvira, tranquilizei-me e ele tentou retomar o seu tom de paternal proteção. Mas este ensaio não lhe surtiu efeito e não me enganou; tinha ainda viva na lembrança uma certa conversação que dois dias antes houvera entre ambos.
     Macha emitira a opinião de que um homem ama mais facilmente do que uma mulher e de que sabe também mais facilmente exprimir o seu amor. Resumira a sua ideia nestas palavras: 

— Um homem pode dizer que ama e uma mulher não. 
— E a mim parece-me que um homem não pode nem deve dizer que ama — replicara ele.

     Perguntei-lhe o motivo. 

— Porque isso será sempre uma mentira. Que significa a descoberta de que um homem ama? Como se lhe bastasse pronunciar esta palavra para que daí surgisse um não sei quê de extraordinário, um fenómeno qualquer, fazendo súbita explosão! Parece-me que essas pessoas que dizem solenemente: «Amo-a», ou eles próprios se enganam ou, pior ainda, enganam os outros. 
— Nesse caso, segundo a sua opinião, uma mulher saberá que a amam sem que lhe digam? — perguntou Macha. 
— Isso não sei; cada homem tem a sua maneira de falar. Mas há um sentimento que sabe fazer-se compreender. Quando leio romances, procuro sempre fantasiar com o aspecto embaraçado do tenente Crelski ou de Alfredo, quando dizem: «Leonor, amo-te!» e que pensam que, de súbito, se produzirá alguma coisa extraordinária, quando nenhuma alteração se nota em qualquer deles: rosto, olhar e o resto ficam na mesma.

     Neste gracejo, julguei discernir um sentido sério que podia referir-se a mim, mas Macha não permitia de bom grado que se profundassem os heróis de romance. 

— Sempre paradoxos! — exclamou. — Vamos, seja franco, nunca declarou o seu o seu amor a mulher alguma? 
— Nunca o fiz, nunca dobrei um joelho — respondera ele rindo — e nunca o farei.

«Sim, não precisa dizer que me ama», pensava eu, lembrando-me agora tão vivamente daquela conversação. «Ama-me e eu sei-o.» E todos os seus esforços para parecer indiferente não poderiam arrancar-me esta convicção.

     Durante toda a noite falou-me muito pouco; mas em cada uma das suas palavras, em cada um dos seus movimentos e dos seus olhares eu sentia o amor e não conservava dúvida alguma. A única coisa que me causava despeito e pesar era ver que ele julgava necessário ainda ocultar e fingir frieza, quando já tudo estava tão claro e quando poderíamos tão facilmente e tão simplesmente ser felizes, além mesmo do possível. Mas, por outro lado, atormentava-me como se fora um crime o ter saltado ao ginjal para me juntar a ele e parecia-me sempre que Sérgio deveria deixar de me estimar e mostrar algum ressentimento contra mim.
     Depois do chá, fui para o piano e ele seguiu-me. 

— Toque alguma coisa, Katia; há muito tempo que não a ouço — disse-me ao chegarmos ao salão. 
— Pois sim... Sérgio Mikailovitch!

     E de repente fitei-o, mergulhando os meus olhos nos dele. 

— Não está zangado comigo? 
— E porquê? 
— Por lhe não ter obedecido esta tarde — disse corando.

     Compreendeu-me, abanou a cabeça e sorriu. E este sorriso significava que desejaria ter-me repreendido, com efeito, mas que se não sentiria com forças. 

— Está acabado, não é assim? E estamos outra vez bons amigos? — disse eu sentando-me ao piano. 
— Assim o creio.

     Nesta grande sala, de teto muito alto, não havia senão duas velas no piano e o resto da casa ficava mergulhado numa meia obscuridade. Pelas janelas abertas descortinavam-se os aspetos luminosos de uma noite de verão. Por toda a parte reinava o mais perfeito sossego, que só era perturbado de vez em quando pelo ruído dos passos de Macha na sala contígua e pelo cavalo de Sérgio Mikailovitch que, preso por baixo de uma das janelas, rinchava e destruía as plantas com os cascos. Sentou-se atrás de mim, de modo que não o podia ver; mas no seio das trevas incompletas daquela sala, nos sons que a enchiam, no meu íntimo eu sentia a sua presença. Cada um dos seus olhares, dos seus movimentos, que entretanto não podia distinguir, penetrava e ressoava no meu coração. Toquei a sonata fantasia de Mozart, que Sérgio me trouxera e que tinha aprendido diante dele e para ele. Não pensava absolutamente no que tocava, mas parecia-me que o fazia bem e a seu contento. Compartilhava a alegria que ele sentia e, sem o ver, compreendia que os seus olhares estavam fitos em mim. Por um movimento completamente involuntário, enquanto os meus dedos continuavam a percorrer o teclado sem consciência do que faziam, olhei para ele; a sua cabeça destacava-se sobre o fundo luminoso da noite. Estava sentado, a fronte encostada à mão e contemplava-me atentamente com os seus olhos radiantes. Sorri surpreendendo este olhar e deixei de tocar. Sérgio sorriu também, inclinou a cabeça sobre as notas com ar de censura, como para me pedir que continuasse. Quando acabei, a lua, no ponto culminante da sua carreira, despedia vivos clarões e, a par da débil luz das velas, espalhava na sala, pelas janelas, jorros de uma outra claridade toda argentina que inundava o chão com os seus reflexos. Macha disse que ficara no mais belo trecho e que tinha tocado mal; Sérgio protestou que jamais o fizera tão bem como naquele dia, pondo-se em seguida a passear da sala para o salão, que estava às escuras, e de novo do salão para a sala e de cada vez contemplava-me sorrindo. Eu sorria também e mesmo sem motivo algum; tinha desejos de rir, tão feliz eu me sentia pelo que se havia passado nesse dia e mesmo naquele momento. Enquanto a porta me ocultava um instante, saltei ao pescoço de Macha e comecei a beijá-la no meu lugar predileto, no rechonchudo pescoço e por baixo do queixo; depois, desde que Sérgio reapareceu, retomei um aspetco sério e sustive a custo uma gargalhada. 

— O que sucedeu hoje à Katia? — perguntou-lhe Macha.

     Mas ele não respondeu e limitou-se a gracejar a meu respeito. Sabia bem o que me acontecia.

— Veja um pouco, que linda noite! — disse Sérgio do salão onde estava de pé, diante da janela que dava para o jardim.

     Fomos ter com ele e, efetivamente, era uma noite como não tornei a ver outra semelhante. A lua cheia brilhava por detrás de nós, por cima da casa, com um fulgor que nunca mais lhe encontrei; metade das sombras projetadas pelos telhados, pelos pilares e pelo toldo do terraço estendiam-se obliquamente sobre a areia das ruas e o grande oval de relva. Tudo o mais resplandecia de luz e estava coberto de um orvalho que prateava os reflexos da lua. Um largo caminho, todo orlado de flores, que atravessava, sobre uma das bordas, a sombra das dálias, verdadeira vereda luminosa e fresca onde cintilavam pedras angulosas, alongava-se pela atmosfera. Por detrás das árvores via-se brilhar os telhados da estufa das laranjeiras e do fundo do barranco elevava-se um nevoeiro que a cada instante se tornava mais ténue. Os maciços de lilás, já um pouco desguarnecidos, estavam iluminados até aos pés das hastes. Refrescados pelo orvalho, as flores podiam-se agora distinguir umas das outras. Nas alamedas, a sombra e a luz confundiam-se de tal maneira que não se imaginaria serem árvores e ruas, mas edifícios transparentes e agitados por brandas virações.
     À direita, na sombra da casa, tudo era negro, indistinto, quase medonho. Mas um pouco além sobressaía, mais resplandecente ainda sobre esta zona obscura, a coma fantástica de um choupo que, não sei por que estranho efeito, ficava muito perto e por cima da casa numa auréola de luz viva, em lugar de acabar nas profundidades longínquas daquele céu de um azul sombrio. 

— Vamos passear — disse eu.

     Macha consentiu, mas acrescentou que eu devia calçar galochas. 
     
— Não é necessário — respondi. — O Sérgio Mikailovitch dar-me-á o braço.

     Como se isto pudesse impedir-me de molhar os pés! Mas naquele momento, para cada um de nós três era admissível semelhante loucura e nada tinha de extraordinário. Nunca me tinha dado o braço e agora eu mesmo lhe tomei e ele não pareceu surpreendido. Descemos, os três, ao terraço. Todo aquele universo, aquele céu, aquele jardim, aquele ar que respirávamos não me pareciam os que eu havia sempre conhecido.
     Quando olhava na minha frente, na alameda onde entravamos, pareceu-me que não podia ir mais longe, que acabava ali o mundo possível e que tudo devia ali ficar fixado para sempre na sua beleza presente!
     Contudo, à medida que avançávamos, aquela muralha encantada, feita de pura beleza, afastava-se diante de nós, dava-nos passagem e tornava-me a encontrar então no meio de objetos familiares, jardim, árvores, caminhos, folhas secas. E era exatamente nestas ruas onde passeávamos e nos círculos luminosos alternados com outras esferas de trevas que atravessávamos que as folhas secas estalavam com ruído sob os nossos pés e que tenros raminhos me vinham afagar o rosto. Era realmente ele que, caminhando junto de mim com passos lentos e iguais, deixava apoiar no seu o meu braço com reserva e circunspeção. Era na verdade a lua no alto dos céus que nos iluminava por entre os ramos imóveis.
     Contemplei-o um momento. Não havia uma única tília que se elevasse na parte da alameda que atravessávamos e o seu rosto aparecia-me em plena claridade. Estava tão belo e parecia tão feliz...
     Sérgio pergunta-me: «Não tem medo?» e eu ouvia-o dizer: «Amo-te, querida Katia! Amo-te! Amo-te!» O seu olhar repetia-o e o seu braço também; e a luz e a sombra, e o ar e todas as coisas repetiam-no igualmente.
     Percorremos assim todo o jardim. Macha caminhava perto de nós, com passinho curto e respirando a custo, de tal modo se sentia fatigada. Disse que era tempo de voltar e fazia-me pena, grande pena, a pobre criatura. «Porque não sente ela o mesmo que nós?», pensei eu. «Porque não é toda a gente jovem, feliz? Como esta noite respira mocidade e ventura e nós também!»
     Voltamos para casa, mas Sérgio não nos deixou por muito tempo ainda. Macha esquecia-se de nos lembrar que era tarde; falávamos de tantas coisas diferentes, muito fúteis, é verdade, ficando sentados juntos uns dos outros, sem pensarmos sequer que fossem três horas da manhã. Os galos tinham soltado o seu terceiro canto quando ele partiu. Despediu-se de nós exatamente como de ordinário e sem nada dizer de particular. Mas eu sabia sem me restar dúvida que a partir daquele dia era meu e que não o podia mais perder. Desde que reconheci bem que o amava, contei tudo a Macha. Ficou alegre e comovida, mas a pobre mulher não pôde dormir aquela noite e eu fiquei bastante tempo, muito tempo ainda, a passear no terraço, a percorrer o jardim, procurando recordar-me de cada palavra, de cada facto, tornando a passar pelas alamedas onde junto havíamos passado. Não me deitei em toda a noite e, pela primeira vez na minha vida, vi nascer o sol e soube o que era a madrugada. Nunca mais tornei a ver uma noite semelhante nem manhã igual. Só perguntava a mim mesma porque não me dizia muito simplesmente que me amava. Porque, pensei eu, inventa ele tal ou qual dificuldade, porque se chama velho quando tudo é tão simples e tão belo? Porque perder assim um tempo precioso que talvez jamais voltará? Que diga pois que ama, que o diga em termos próprios, que aperte a minha mão na sua, que incline a cabeça e que diga: amo-te! Que todo ruborizado baixe os olhos diante de mim e então eu lhe direi tudo. Ou antes, nada lhe direi, estreitá-lo-ei nos meus braços e chorarei. Mas se me enganasse, se me não amasse? Este pensamento atravessou-me de repente o espírito.
     Receei o meu próprio sentimento. Deus sabe onde Sérgio me teria podido conduzir e já a recordação da sua confusão e da minha no ginjal¹ quando corri para junto dele me pesava, me oprimia o coração. Os olhos umedeceram-se de lágrimas e rezei. Perpassou-me pela mente, então, um estranho pensamento que me causou um grande alívio e fez renascer em mim a esperança. Resolvi começar as minhas devoções e escolher o dia do meu nascimento para me tornar sua noiva.

[1] A história do Ginjal perde-se na noite dos tempos… Foi, sem dúvida, um dos principais pontos estratégicos do concelho, de forte actividade industrial e comercial. Desde os princípios da segunda metade do século XIX, o Ginjal era já um importante aglomerado operário e industrial, com estaleiros navais de Hugo Parry; armazéns de vinhos, vinagres, aguardentes e azeite da Família Teotónio Pereira; oficinas de tanoaria; fábricas de conserva de peixe; empresa de recuperação de estanho; armazéns de isco e frigoríficos para apoio dos navios de pesca alto, o Grémio do Bacalhau; fábrica de cal; fábrica de manipulação de cortiça, entre outros estabelecimentos. Um cais de lenços brancos e até de lágrimas, quando os navios de pesca do bacalhau no Grémio partiam para mares distantes, de águas gélidas.

     Como e porquê? Como podia isso acontecer? Não sabia. Mas neste mesmo momento acreditei que seria assim. Entretanto já o dia ia alto e todos se levantavam quando recolhi ao meu quarto.

continua na página 31...
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Leia também...
3b: Quando nos encontrámos de novo junto de Mach /       
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

Espumas Flutuantes - Canção do Boêmio

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

CANÇÃO DO BOÊMIO
Recitativo da “Meia Hora de Cinismo” 
 
COMÉDIA DE COSTUMES ACADÊMICOS
Música de Emílio do Lago 

Que noite fria! Na deserta rua 
 Tremem de medo os lampiões sombrios. 
 Densa garoa faz fumar a lua 
 Ladram de tédio vinte cães vadios.

Nini formosa! por que assim fugiste? 
 Embalde o tempo à tua espera conto. 
 Não vês, não vês?... Meu coração é triste 
 Como um calouro quando leva ponto

A passos largos eu percorro a sala 
 Fumo um cigarro, que filei na escola... 
 Tudo no quarto de Nini me fala 
 Embalde fumo... tudo aqui me amola

Diz-me o relógio cinicando a um canto 
 “Onde está ela que não veio ainda?” 
 Diz-me a poltrona “por que tardas tanto? 
 Quero aquecer-te, rapariga linda.” 

Em vão a luz da crepitante vela 
 De Hugo clareia uma canção ardente; 
 Tens um idílio — em tua fronte bela... 
 Um ditirambo — no teu seio quente...

Pego o compêndio... inspiração sublime 
 Pra adormecer... inquietações tamanhas... 
 Violei à noite o domicílio, ó crime! 
 Onde dormia uma nação... de aranhas... 

Morrer de frio quando o peito é brasa... 
 Quando a paixão no coração se aninha!?... 
 Vós todos, todos, que dormis em casa, 
 Dizei se há dor, que se compare à minha!...

Nini! o horror deste sofrer pungente 
 Só teu sorriso neste mundo acalma... 
 Vem aquecer-me em teu olhar ardente... 
 Nini! tu és o cache-nez dest’alma.  

Deus do Boêmio!... São da mesma raça 
 As andorinhas e o meu anjo louro... 
 Fogem de mim se a primavera passa 
 e já nos campos não há flores de ouro... 

E tu fugiste, pressentindo o inverno, 
 Mensal inverno do viver boêmio... 
 Sem te lembrar que por um riso terno 
 Mesmo eu tomara a primavera a prêmio... 

No entanto ainda do Xerez fogoso 
 Duas garrafas guardo ali... Que minas
 Além de um lado o violão saudoso  
Guarda no seio inspirações divinas... 

Se tu viesses... de meus lábios tristes 
 Rompera o canto... Que esperança inglória!... 
 Ela esqueceu o que jurar-lhe vistes 
 Ó Paulicéia, ó Ponte grande, ó Glória!... 

Batem!... Que vejo! Ei-la afinal comigo... 
 Foram-se as trevas... fabricou-se a luz... 
 Nini! pequei... dá-me exemplar castigo! 
 Sejam teus braços... do martírio a cruz! 
São Paulo, junho de 1868


É TARDE! 
Olha-me, ó virgem, a fronte 
 Olha-me os olhos sem luz 
 A palidez do infortúnio 
 Por minhas faces transluz; 
 Olha, ó virgem — não te iludas — 
 Eu só tenho a lira e a cruz. 
 Junqueira Freire 

 É tarde! É muito tarde! 
 Mont’Alverne 

É tarde! É muito tarde! O templo é negro... 
 O fogo-santo já no altar não arde. 
 Vestal! não venhas tropeçar nas piras... 
 É tarde! É muito tarde! 

Treda noite! E minh’alma era o sacrário, 
 A lâmpada do amor velava entanto, 
 Virgem flor enfeitava a borda virgem 
 Do vaso sacrossanto;

Quando Ela veio — a negra feiticeira — 
 A libertina, lúgubre bacante, 
 Lascivo olhar, a trança desgrenhada, 
 A roupa gotejante. 

Foi minha crença — o vinho dessa orgia, 
 Foi minha vida — a chama que apagou-se, 
 Foi minha mocidade — o toro lúbrico, 
 Minh’alma — o tredo alcouce.

E tu, visão do céu! Vens tateando  
O abismo onde uma luz sequer não arde? 
 Ai! não vás resvalar no chão lodoso... 
 É tarde! É muito tarde! 

Ai! não queiras os restos do banquete! 
 Não queiras esse leito conspurcado! 
 Sabes? meu beijo te manchara os lábios 
 Num beijo profanado. 

A flor do lírio de celeste alvura 
 Quer da lucíola o pudico afago... 
 O cisne branco no arrufar das plumas 
 Quer o aljôfar do lago. 

É tarde! A rola meiga do deserto 
 Faz o ninho na moita perfumada... 
 Rola de amor! não vás ferir as asas 
 Na ruína gretada. 

Como o templo, que o crime encheu de espanto, 
 Ermo e fechado ao fustigar do norte, 
 Nas ruínas d’esta alma a raiva geme... 
 E cresce o cardo — a morte —. 

Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite! 
 Vós povoais-me a solidão sombria, 
 Quando nas trevas a tormenta ulula 
 Um uivo de agonia!... 

Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite! 
 Vós povoais-me a solidão sombria, 
 Quando nas trevas a tormenta ulula 
 Um uivo de agonia!... 

 ................................................................ 

É tarde! Estrela-d’alva! o lago é turvo. 
 Dançam fogos no pântano sombrio. 
 Pede a Deus que dos céus as cataratas 
 Façam do brejo — um rio! 

 Mas não!... Somente as vagas do sepulcro 
 Hão de apagar o fogo que em mim arde... 
 Perdoa-me, Senhora!... eu sei que morro... 
 É tarde! É muito tarde!... 
 Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1869

continua pag 81...
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Canção do Boêmio /                                 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Para retornar às jovens passante)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Para retornar às jovens passantes, Albertine jamais teria olhado para uma senhora idosa ou um velho com tanta fixidez ou, pelo contrário, com reserva e como se não os visse. Os maridos enganados que não sabem de nada, ainda assim sabem de tudo. Mas é necessário um dossiê mais materialmente documentado para estabelecer uma cena de ciúme. Além disso, se o ciúme nos ajuda a descobrir, na mulher que amamos, uma certa propensão a mentir, ele centuplica essa propensão quando a mulher já descobriu que somos ciumentos. Ela mente (nas mesmas proporções em que nunca nos mentiu antes), seja por piedade ou medo, ou se furta instintivamente por uma fuga simétrica às nossas investigações. Decerto existem amores em que, desde o começo, uma mulher leviana afetou ser virtuosa aos olhos do homem que a ama. Mas quantas outras compreendem dois períodos perfeitamente contrastantes! No primeiro, a mulher fala quase com facilidade, com simples atenuantes, sobre o seu gosto pelo prazer pela vida galante que ele lhe proporcionou, coisas essas que negará inteiramente a seguir, com a máxima energia, ao mesmo homem, mas porque o percebeu enciumado dela e a espiona-la. Ela chega a ter saudades do tempo daquelas primeiras confidências, mas cuja lembrança o tortura. Se a mulher ainda as fizesse lhe forneceria, quase por si mesma, o segredo das culpas que ele persegue inutilmente todos os dias. E depois, que entrega não provaria isso, que confiança, que amizade! Se ela não pode viver sem engana-lo, pelo menos o enganaria como amiga, relatando-lhe seus prazeres, associando-o a eles. E ele lamenta semelhante vida que os começos de seu amor pareciam esboçar, que a sua continuação tornou impossível, transformando esse amor em algo atrozmente doloroso, que tornará uma separação, conforme o caso, inevitável ou impossível.
     Às vezes a escrita em que eu decifrava as mentiras de Albertine, sem ser ideográfica, necessitava simplesmente ser lida às avessas; foi assim que naquela noite ela me lançara com ar negligente esta mensagem destinada a passar quase despercebida: 

- É possível que amanhã eu vá à casa dos Verdurin, não sei absolutamente se irei, não tenho muita vontade. - 

     Anagrama infantil desta confissão: "Amanhã irei à casa dos Verdurin, é absolutamente certo, pois dou muita importância a isso." Esta aparente hesitação significava uma vontade resolvida e tinha por finalidade diminuir a importância da visita pelo fato de me anuncia-la. Albertine sempre usava o tom dúbio para as resoluções irrevogáveis. A minha não o era menos: eu trabalharia para que a visita à Sra. Verdurin não se realizasse. Muitas vezes, o ciúme não passa de uma necessidade inquieta de tirania aplicada às coisas do amor. Sem dúvida eu herdara de meu pai esse brusco desejo arbitrário de ameaçar as criaturas que eu mais amava nas esperanças em que se embalavam com uma segurança que eu queria mostrar-lhes ser ilusória; quando eu via que Albertine havia combinado, à minha revelia, ocultando de mim, o plano de um passeio que eu teria feito tudo no mundo para torna-lo mais fácil e mais agradável se ela me houvesse confidenciado, eu dizia com negligência, para fazê-la tremer, que esperava sair nesse dia.
     Pus-me a sugerir a Albertine outros objetivos de passeio que teriam tornado impossível a visita aos Verdurin, em palavras carregadas de uma fingida indiferença sob a qual eu tentava disfarçar meu nervosismo. Mas ela já a havia despistado. E meu sentimento encontrava nela a força elétrica de uma vontade oposta que o repelia com vivacidade; nos olhos de Albertine, eu via essa força soltar suas faíscas. De resto, de que adiantava cuidar do que diziam as pupilas naquele instante? Como é que eu não havia percebido há muito que os olhos de Albertine pertenciam à família dos que (mesmo numa pessoa medíocre) parecem feitos de vários pedaços, por causa de todos os lugares onde ele deseja encontrar-se e ocultar que quer achar-se nesse dia? Olhos, por mentira sempre imóveis e passivos, mas dinâmicos, mensuráveis pelos metros e quilômetros que é preciso transpor para chegar ao local do encontro marcado, implacavelmente marcado, olhos que sorriem menos ainda ao prazer que os seduz do que se aureolam da tristeza e do desânimo de que talvez existam obstáculos para ir a esse encontro. Entre nossas próprias mãos, tais seres são criaturas em fuga. Para compreender as emoções que causam e que outros seres até mais belos não causam, e preciso calcular que eles estão, não imóveis, mas em movimento, e acrescentar à sua pessoa um sinal correspondente ao que em física é o sinal que indica velocidade.
     Se perturbamos o seu dia, eles nos confessam o prazer que nos tinham ocultado: "Queria tanto ir tomar chá às cinco horas com tal pessoa amiga!" Pois bem, se seis meses depois acabamos conhecendo a pessoa em questão, saberemos que nunca a moça, cujos projetos transtornáramos, e que, apanhada em flagrante nos confessara, para que a deixássemos livre, o chá que assim tomava com uma pessoa querida todos os dias à hora em que não a víamos, saberemos que essa pessoa nunca a recebeu, que elas jamais tomaram chá juntas, que a moça dizia viver muito presa exatamente por nossa culpa.
     Assim, a pessoa com quem ela confessara que ia tomar chá, com quem ela suplicara que a deixássemos tomar chá, essa pessoa, razão confessada pela necessidade, não era aquela mas outra, e não se tratava de chá mas de outra coisa! Outra coisa, o quê? Uma outra, quem? Ai de nós, os olhos fragmentados, tristes, partindo para longe, talvez permitissem medir as distâncias, mas não indicam as direções. Estende-se o campo infinito das possibilidades e se, por acaso, o real se apresentava diante de nós, estaria de tal modo tão fora dos possíveis que, num súbito aturdimento, cairíamos para trás, indo bater contra essa parede inesperada. O movimento e a fuga verificados nem sequer são indispensáveis, basta que os induzamos. Ela nos havia prometido uma carta, estávamos tranquilos, já não a amávamos. A carta não chegou, nenhum correio a trouxe, "que se passa?", a ansiedade renasce e com ela o amor. São principalmente tais seres que nos inspiram o amor, para nosso tormento. Pois cada nova ansiedade que sentimos por causa deles, rouba-lhes aos nossos olhos um pouco de sua personalidade. Estávamos resignados ao sofrimento, crendo amar fora de nós, e nos damos conta de que nosso amor é uma função da nossa tristeza, que nosso amor é talvez nossa tristeza, e que o objeto dele só em parte diminuta é a moça de cabeleira negra. Mas enfim, são principalmente tais seres que nos inspiram o amor. Na maioria das vezes, o amor não tem por objeto um corpo, a não ser quando nele se fundem uma emoção, o medo de perdê-lo, a incerteza de reencontrá-lo. Ora, esse tipo de ansiedade tem muita afinidade pelos corpos. Ela acrescenta-lhes uma qualidade que ultrapassa a própria beleza, o que é um dos motivos por que vemos homens, indiferentes às mulheres mais belas, amarem apaixonadamente algumas que nos parecem feias. A essas criaturas, a essas criaturas de fuga, sua natureza e a nossa inquietação emprestam asas. E até junto a nós o seu olhar parece dizer que vão alçar voo. A prova dessa beleza, que excede a beleza acrescentada pelas asas, é que, muitas vezes, para nós, uma mesma criatura é sucessivamente alada e sem asas. Basta recearmos perdê-la para esquecermos todas as outras. Certos de conservá-la, comparamo-la a essas outras, que logo preferimos a ela. E, como essas emoções e certezas podem alternar-se de uma semana para outra, uma criatura pode, numa semana, ver sacrificarem-lhe tudo o que lhe agradava, na semana seguinte ser sacrificada, e assim por diante durante muito tempo. O que seria incompreensível, se não soubéssemos pela experiência que todo homem tem de ter em sua vida, ao menos uma vez, deixado de amar, esquecido uma mulher, o pouco em si mesma que é uma criatura quando já não o é mais, ou não é ainda permeável às nossas emoções. E ficamos bem entendidos que o que dizemos dessas criaturas de fuga é igualmente verdadeiro para as criaturas em prisão, mulheres cativas que julgamos jamais poder possuir. Desse modo, os homens detestam as alcoviteiras, pois elas facilitam a fuga, fazem brilhar a tentação; mas, se amam uma mulher enclausurada, procuram de bom grado as alcoviteiras para fazê-las saírem de sua prisão e conduzi-las a eles. O motivo pelo qual as uniões com mulheres raptadas são menos duradouras que outras, é que o medo de não chegarmos a obtê-las ou a inquietação de vê-las fugir compõe todo o nosso amor e que, uma vez roubadas a seu marido, arrancadas a seu teatro, curadas da tentação de nos abandonar, numa palavra, dissociadas de nossa emoção, seja qual for, elas são apenas elas próprias, ou seja, quase nada e, tão longamente cobiçadas, são logo abandonadas por aquele mesmo que tanto temera ser abandonado por elas.
     Eu disse: "Mas como é que não adivinhei?" Mas não o adivinhara desde o primeiro dia em Balbec? Não adivinhara em Albertine uma dessas meninas sob cujo envoltório carnal palpitam mais criaturas ocultas, já não digo que num baralho ainda na caixa, que numa catedral fechada ou num teatro antes que entremos, porém mais do que na multidão imensa e renovada? Não apenas tantas criaturas, mas o desejo, a lembrança voluptuosa, a busca inquieta por tantas criaturas. Em Balbec, eu não ficara perturbado, pois nem sequer supusera que um dia haveria de seguir pistas mesmo falsas. Não importa, para mim aquilo dera a Albertine a plenitude de um ser cheio até as bordas pela superposição de tantas criaturas, de tantos desejos e de lembranças voluptuosas de criaturas. E agora que ela me dissera um dia:

- Srta. Vinteuil -, eu desejaria, não arrancar-lhe o vestido para ver seu corpo, mas, através do corpo, ver toda a sua agenda de recordações e de seus próximos e ardentes encontros marcados.

     Como as coisas provavelmente mais insignificantes assumem de repente um valor extraordinário quando uma criatura a quem amamos (ou a quem só falta aquela duplicidade para que a amemos) as esconde! Em si mesmo, o sofrimento não nos causa obrigatoriamente sentimentos de amor ou ódio pela pessoa que o provocou: um cirurgião que nos causa dor nos deixa indiferente. Mas uma mulher que nos afirmou durante algum tempo que éramos tudo para ela, sem que ela própria fosse tudo para nós, uma mulher que temos prazer em ver, beijar, em ter sobre os nossos joelhos, muito admirados ficamos ao descobrir, por uma súbita resistência, que não dispomos dela.
     A decepção acorda então às vezes em nós a lembrança esquecida de uma velha angústia, que no entanto sabemos não ter sido provocada por essa mulher, mas por outras cujas traições se escalonam sobre o nosso passado. E, além disso, como se tem a coragem de desejar viver, como se pode fazer um movimento para se preservar da morte num mundo em que o amor só é causado pela mentira e consiste apenas em nossa aspiração de ver acalmadas nossas dores pela criatura que nos fez sofrer? Para sair do acabrunhamento que sentimos ao descobrir essa mentira e essa resistência, há o triste remédio de procurar agir, contra a vontade dela, com a ajuda de pessoas que sentimos serem mais ligadas à sua vida do que nós próprios, sobre aquela que nos resiste e nos mente, usar de astúcia nós também, fazer nos detestar. Mas o sofrimento de um tal amor é desses que invencivelmente levam o enfermo a procurar, numa mudança de posição, um bem-estar enganoso. Tais meios de ação não nos faltam, ai de nós! E o horror desses amores, que somente a inquietude gerou, decorre de que viramos e reviramos sem cessar dentro em nós frases insignificantes; sem contar que raramente as criaturas pelas quais os sentimos nos agradam fisicamente de maneira completa, visto que não é o nosso gosto deliberado, mas o acaso de um minuto de angústia, minuto indefinidamente prolongado pela nossa fraqueza de caráter, a qual refaz todas as noites as experiências e se rebaixa aos calmantes, que fez a escolha por nós.
     Sem dúvida o meu amor por Albertine não era o mais miserável daqueles até onde, por falta de vontade, a gente pode decair, pois não era inteiramente platônico; ela concedia-me satisfações carnais, e além disso era inteligente. Porém tudo isto era supérfluo. O que me ocupava o espírito não era o que ela pudesse dizer de inteligente, mas certa frase que acordava em mim uma dúvida sobre seus atos. Eu tentava me lembrar se ela dissera isto ou aquilo, com que ar, em que momento, em resposta a que palavras, reconstituir toda a cena de seu diálogo comigo, em que momento ela quisera ir à casa dos Verdurin, que palavra minha dera o ar contrariado a seu rosto. Se se tratasse do mais importante acontecimento, eu não teria me dado a tanto trabalho para restabelecer a verdade, para lhe recompor a atmosfera e o colorido exatos. Tais inquietudes, é evidente, depois de terem atingido um grau em que nos são insuportáveis, conseguimos por vezes acalmá-las de todo por uma noite. A festa a que deve comparecer a amiga que amamos, e sobre cuja verdadeira natureza o nosso espírito vinha trabalhando há dias, somos também convidados a ela; nossa amiga só tem olhos e palavras para nós, levamo-la de volta para casa, e conhecemos então, dissipadas as inquietações, um sossego tão completo, tão reparador, como o que se observa por vezes no sono profundo que ocorre após as longas caminhadas. Mas, na maioria das vezes, apenas mudamos de inquietação. Uma das palavras da frase que devia nos acalmar põe nossas suspeitas em outra pista. E sem dúvida um repouso desses merece que o paguemos bem caro. Mas não teria sido mais simples não comprarmos nós mesmos, voluntariamente, a ansiedade, e mais caro ainda? Além disso, sabemos muito bem que, por mais profundos possam ser esses desafogos momentâneos, a inquietação ainda assim será mais forte. Muitas vezes até, ela é renovada pela frase cujo fim era nos trazer repouso. As exigências do nosso ciúme e a cegueira da nossa credulidade são maiores do que o podia imaginar a mulher que amamos. Quando, espontaneamente, ela nos jura que determinado homem só é um amigo, deixa-nos transtornados ao nos informar coisa de que não suspeitávamos que para ela tratava-se de um amigo. Enquanto nos conta, para mostrar sua sinceridade, de que modo eles tomaram juntos o chá naquela mesma tarde, a cada palavra que ela diz, o invisível, o insuspeitado adquire forma à nossa frente. Ela confessa que ele lhe pediu que se tornasse sua amante e nós sofremos o martírio de que ela tenha podido ouvir as suas propostas. Recusou-as, diz ela. Mas dali a pouco, lembrando-nos de seu relato, nós nos indagaremos se a recusa é de fato verdadeira, pois entre as diversas coisas que ela nos disse há aquela ausência de nexo lógico e necessário que, mais do que os fatos contados, é o sinal da verdade. E, além disso, ela usou daquela terrível entonação desdenhosa: 

- Eu lhe disse não, - de modo categórico que se encontra em todas as classes da sociedade quando uma mulher mente. Cumpre no entanto agradecer-lhe por haver recusado, encorajá-la pela nossa bondade a continuar no futuro a nos fazer confidências tão cruéis. Quando muito, fazemos uma objeção: 
- Mas se ele já fizera propostas, por que aceitou tomar chá em sua companhia? 
- Para que ele não se aborrecesse comigo nem dissesse que eu não fora amável.- E não temos coragem de lhe dizer que, se recusasse, teria sido talvez mais amável conosco.

     Aliás, Albertine me assustava declarando que eu tinha razão de dizer, para não prejudicá-la, que não era seu amante, pois na verdade, acrescentava, "o fato é que você não o é". Com efeito, eu talvez não fosse inteiramente seu amante, mas então seria necessário pensar que todas as coisas que fazíamos juntos, será que ela também as fazia com todos os homens de quem me jurava não ter sido amante? Querer conhecer a todo custo o que Albertine pensava, o que ela via, o que ela amava - como era estranho que eu sacrificasse tudo a tal necessidade, pois havia experimentado a mesma necessidade de saber, a respeito de Gilberte, nomes próprios e fatos que hoje me eram tão indiferentes! Eu percebia muito bem que em si mesmas as ações de Albertine já não tinham interesse. É curioso que um primeiro amor, se, pela fragilidade que deixa em nosso coração, abre caminho aos amores seguintes, não nos dê, ao menos pela identidade mesma dos sintomas e das dores, a maneira de curá-los. Além disso, há necessidade de se conhecer um fato? Pois, de um modo geral, não conhecemos logo a própria mentira e discrição dessas mulheres que têm algo a esconder? Existe aí alguma possibilidade de erro? Elas acham que é uma virtude ficarem caladas, ao passo que gostaríamos tanto de fazê-las falar. E sentimos que elas afirmaram a seu cúmplice:- Nunca digo nada. Não é por mim que se há de saber alguma coisa, eu nunca digo nada.
     Damos a nossa fortuna, a nossa vida, por uma criatura, e no entanto sabemos muito bem que, com dez anos de intervalo, mais cedo ou mais tarde, negaríamos a essa criatura tal fortuna, preferiríamos conservar a vida. Pois já então essa criatura estaria desligada de nós, sozinha, isto é, seria nula. O que nos une às criaturas são essas mil raízes, esses fios inumeráveis que formam as lembranças do sarau da véspera, as esperanças da vesperal do dia seguinte; é essa trama contínua de hábitos de que não podemos nos livrar. Da mesma forma que existem os avarentos que economizam por generosidade, nós somos pródigos que gastamos por avareza, e é menos a uma criatura que sacrificamos nossa vida, do que a tudo o que ela pôde prender a si mesma de nossas horas, de nossos dias, daquilo em comparação do que a nossa vida ainda não vivida, a vida relativamente futura, nos parece uma vida mais longínqua, mais desligada, menos íntima e menos nossa. Necessário seria desfazermo-nos desses laços que de fato têm muito mais importância que a pessoa, mas cujo efeito é criar em nós deveres momentâneos para com ela, deveres que nos levam a não ter coragem de deixá-la por medo de sermos mal interpretados, ao passo que mais tarde ousaríamos, pois, livre de nós, ela não seria mais nós e a verdade é que só criamos deveres para nós mesmos (ainda que estes possam, por uma aparente contradição, nos levar ao suicídio).

continua na página 40...
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A Prisioneira (Para retornar às jovens passante)