sábado, 14 de março de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (a)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos


          Nos mares do Sul, entende-se por maná uma espécie de poder sobrenatural e impessoal, capaz de transferir-se de um ser humano para outro. Tal poder é altamente desejável, sendo possível aumentá-lo em indivíduos isolados. Um guerreiro valente pode adquiri-lo em grandes proporções. Devê-lo-á, porém, não a sua experiência em combate ou a seu vigor físico: tal poder transfere-se para ele na qualidade do maná do inimigo tombado.

Assim, nas ilhas Marquesas, um membro de uma tribo podia transformar-se num chefe guerreiro em função de sua valentia pessoal. Supunha-se que o guerreiro continha em seu corpo o maná de todos aqueles que havia matado. Seu próprio maná crescia proporcionalmente a sua valentia. Na imaginação dos nativos, no entanto, essa valentia era não a causa, mas o resultado de seu maná. A cada morte bem-sucedida, crescia também o maná de sua lança. O vitorioso numa luta homem a homem assumia o nome do inimigo tombado: esse era o sinal de que o poder do morto agora lhe pertencia. A fim de incorporar-lhe imediatamente o maná, o vitorioso comia-lhe a carne; e, a fim de, numa batalha, reter consigo esse crescimento de poder, a fim de assegurar-se dessa íntima relação com o maná capturado, carregava ainda consigo, como parte de seu equipamento de guerra, um resto mortal qualquer do inimigo derrotado — um osso, certa mão ressequida, por vezes até um crânio inteiro. 

     Não há expressão mais clara do efeito que a vitória provoca no sobrevivente. Tendo matado o outro, ele se fez mais forte, e esse aumento do maná o capacita para novas vitórias. Trata-se de uma espécie de bênção que arranca do inimigo, mas que só pode receber estando este já morto. A presença física do inimigo — vivo e morto — é imprescindível. É necessário que tenha havido luta e que se tenha matado; tudo depende do ato de matar. As partes do cadáver que o vitorioso carrega consigo — aquelas de que ele se assegura, as que incorpora e das quais se guarnece — lembram-no sempre do crescimento de seu poder. Graças a elas, ele se sente mais forte e desperta o pavor: cada novo inimigo que desafia estremece diante dele, com horror divisando na sua frente o seu próprio destino.
     A crença dos murngins da Terra de Arnhem, na Austrália, identifica uma relação mais pessoal, mas igualmente vantajosa, entre o matador e o morto. O espírito do morto penetra no corpo do matador, conferindo-lhe dupla força: ele se torna efetivamente maior. Pode-se supor que tal ganho atraia os jovens para a guerra. Cada um busca um inimigo para si, a fim de apoderar-se de sua força. Não obstante, tal propósito somente tem sucesso se o inimigo é morto durante a noite; ao longo do dia, a vítima vê seu matador, enraivecendo-se demasiado para penetrar-lhe o corpo.
     Esse processo da “penetração” foi já objeto de minuciosa descrição, e é tão notável que reproduzo a seguir uma boa parte dessa descrição.

Se, durante uma guerra, um homem matou outro, ele retorna para casa e não come nenhum alimento cozido até que a alma do morto se aproxime dele. Pode ouvi-la chegando, pois o cabo da lança pende ainda da ponta de pedra cravada no morto; o cabo arrasta-se pelo chão, batendo em arbustos e árvores e fazendo barulho quando o morto caminha. Estando o espírito já bastante próximo, o matador ouve sons provindos do ferimento do morto.
Pega, então, a lança, retira-lhe a ponta e coloca essa mesma extremidade entre o dedo grande e o seguinte do pé. A outra extremidade é recostada no ombro. A alma passa, então, pela ferida na qual se encontrava cravada a ponta da lança, sobe pela perna do matador e penetra-lhe o corpo. Caminha como uma formiga. Entra pelo estômago e o fecha. O homem sente náuseas e tem febre na barriga. Esfrega o próprio estômago e chama pelo nome daquele que matou. Isso o cura, e ele se sente bem novamente, pois o espírito deixa o estômago e adentra o coração. Uma vez no coração, o efeito que provoca é como se o sangue do morto estivesse agora no matador. É como se, antes de morrer, a vítima tivesse dado todo o seu sangue àquele que iria matá-la.
O matador, que se tornou maior e particularmente forte, adquire toda a energia vital que o morto possuía outrora. Quando sonha, a alma lhe diz que tem alimento para ele, apontando-lhe a direção onde encontrá-lo. “Lá embaixo, junto do rio”, diz ela, “encontrarás muitos cangurus”; ou: “Naquela velha árvore ali há um grande cacho de abelhas”; ou ainda: “Bem junto àquele banco de areia capturarás uma grande tartaruga com tua lança, e, na praia, encontrarás muitos ovos”.
O matador ouve com atenção e, passados alguns instantes, parte sorrateiramente do acampamento em direção à mata, onde encontra a alma do morto. Esta aproxima-se bastante dele e se deita. O matador se assusta e grita: “Quem é? Tem alguém aí?”. Volta-se, então, para o lugar onde estava o espírito do morto e encontra ali um canguru. Trata-se de um animal extraordinariamente pequeno. O matador o contempla e compreende o que aquilo significa: encontra-se exatamente no mesmo lugar onde ouvira os movimentos do espírito. Retira o suor da axila e o esfrega no braço. Ergue sua lança, grita o nome do morto e acerta o animal, que morre na hora, mas, ao morrer, cresce bastante. O matador tenta erguê-lo, mas descobre ser impossível fazê-lo, pois o animal cresceu muito. Deixa, então, a presa no chão e retorna ao acampamento, a fim de contar aos amigos o ocorrido. “Acabei de matar a alma do homem morto”, diz. “Não deixem que ninguém saiba disso: ele poderia enraivecer-se de novo.” Os amigos mais íntimos e parentes vão até lá com ele, para ajudá-lo a despelar o animal e prepará-lo como comida. Ao abri-lo, encontram gordura por toda parte, um petisco que consideram dos mais deliciosos. De início, pedaços bem pequenos são colocados no fogo. Saboreiam-nos cuidadosamente, e a carne tem sempre um sabor desagradável.
Em seguida, o animal inteiro é cozido, saboreando-se dele as partes mais apreciadas. O resto é trazido de volta ao acampamento principal. Os velhos o examinam: trata-se de um animal gigantesco. Postam-se todos à sua volta, e um deles pergunta:
     “Onde você o matou?”
     “Lá em cima, junto do rio.”
Os velhos decerto sabem que não se trata de uma presa comum, visto que há gordura por toda parte. Passados alguns instantes, um velho pergunta:
     “Você viu uma certa alma lá na mata?”
     “Não”, responde o jovem, mentindo.
Os velhos saboreiam a carne, mas seu gosto é diferente daquela de um canguru comum.
Balançam afirmativamente a cabeça e estalam as línguas: “É claro que você viu a alma do morto!”. 
 
     O sobrevivente obtém aí para si a força e o sangue de seu inimigo. Ele não é o único a avolumar-se; também sua presa faz-se mais gorda e maior. O proveito que retira do inimigo é pessoal e deveras imediato. Assim, o pensamento do jovem dirige-se desde muito cedo para a guerra. Como, porém, tudo se passa em segredo e durante a noite, bem pouco há aí em comum com a ideia tradicional do herói que conhecemos.
     O herói conforme o conhecemos, aquele que, destemido e sozinho, lança-se em meio aos inimigos, nós o encontramos nas ilhas Fidji. Uma lenda nos conta acerca de um menino que cresceu ao lado da mãe, sem conhecer o pai. Sob ameaças, ele a obriga a dizer-lhe o nome de seu pai. Tão logo ca sabendo que se trata do rei celestial, parte em busca dele. O pai decepciona-se com o lho, por este ser tão pequeno. Precisa de homens, não de meninos, pois encontra-se no meio de uma guerra. Os homens em torno do pai riem do menino, que, munido de um tacape, racha a cabeça de um dos que riam dele. Bastante encantado, o rei demanda-lhe que que.

Na manhã seguinte, bem cedo, os inimigos subiram até a cidade com seus gritos de guerra e gritaram: “Venha até nós, ó rei celestial, pois estamos famintos. Venha para fora, para que possamos comer”.
O menino, então, levantou-se e disse: “Que ninguém me siga. Fiquem todos na cidade!”. Tomou nas mãos o tacape que ele próprio fizera, lançou-se no meio dos inimigos e pôs-se a desferir raivosos golpes para todos os lados, à direita e à esquerda. A cada golpe matava um, até que, por fim, os inimigos fugiram dele. O menino sentou-se sobre um amontoado de cadáveres e gritou para sua gente na cidade: “Venham para fora e arrastem os mortos para longe!”. Saíram todos, cantaram seu canto fúnebre e arrastaram para longe os cadáveres dos 42 mortos, enquanto na cidade os tambores rufavam.
Por outras quatro vezes o menino derrotou os inimigos de seu pai, de modo que suas almas fizeram-se pequenas e eles vieram até o rei celestial com propostas de paz: “Tenha piedade de nós, ó senhor, e deixa-nos viver!”. Assim foi que o rei ficou sem inimigos, e sua soberania estendeu-se por todo o céu.

     Aqui, o menino enfrenta sozinho todos os inimigos; nenhum de seus golpes é em vão. Ao final, senta-se sobre um amontoado de cadáveres, tendo matado pessoalmente cada um daqueles sobre os quais se encontra sentado. Não se pense, porém, que isso se dá apenas na lenda. Em Fidji, há quatro substantivos distintos para designar os heróis. Koroi é o matador de um único homem. Koli chama-se aquele que matou dez; visa, o que matou vinte; e wangka, aquele que matou trinta. Um famoso chefe, autor de façanha ainda maior, era chamado koli-visa-wangka: fora o matador de dez + vinte + trinta, ou seja, de sessenta homens.
     As façanhas desses grandes heróis são, talvez, ainda mais imponentes do que as dos nossos, pois, após haverem matado seus inimigos, eles os comem também. Um chefe que nutra um ódio particular por alguém reserva se o direito de comê-lo sozinho, e dele realmente não dá um pedaço sequer a pessoa alguma.
     Todavia, o herói — poder-se-á objetar — não luta apenas contra seus inimigos. Nas lendas, sua principal área de atuação centra-se nos perigosos monstros dos quais ele liberta seu povo. Um monstro consome aos poucos um povo inteiro, e ninguém logra defender-se dele. Na melhor das hipóteses, chega-se a uma regulamentação do terror: tantos ou quantos homens ser-lhe-ão entregues anualmente, para que ele os devore. Então, o herói se apieda de seu povo, parte sozinho e abate com as próprias mãos, e sob grande perigo, o monstro. O povo fica-lhe grato; sua memória será fielmente preservada. Em sua invulnerabilidade, graças à qual ele salvou todos os demais, o herói aparece como uma figura de luz.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

Thomas Mann - A Montanha Mágica: O trovão - Finis operis

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
O trovão 


     Sete anos passou Hans Castorp com a gente ali de cima. Não é um número redondo ao gosto dos partidários do sistema decimal, é todavia um número bom, prático à sua maneira; um lapso de tempo com um cunho mítico e pitoresco, não há negá-lo, e mais satisfatório para a alma do que, por exemplo, uma árida meia dúzia. Comera ele em cada uma das sete mesas da sala de refeições, aproximadamente um ano em cada lugar. Por último achava-se à mesa dos “russos ordinários”, junto com dois armênios, dois fineses, um bucarense e um curdo. Achava-se ali, arvorando uma barbicha que deixara crescer nesse meio tempo, um cavanhaquezinho louro como o trigo, de forma indefinível, cuja existência devemos considerar como a expressão de certa indiferença filosófica quanto à sua apresentação. Temos até de ir mais longe, relacionando a ideia de uma tendência particular para descuidar-se de si próprio, com uma tendência análoga que o mundo exterior manifestava no que se referia a ele. As autoridades haviam cessado de inventar novas diversões para a sua pessoa. Verdade é que o conselheiro continuava a perguntar-lhe todas as manhãs se havia dormido bem. Mas, exceção feita dessa pergunta retórica, de caráter coletivo, só raras vezes lhe dirigia a palavra, e Adriática von Mylendonk – que na época de que tratamos andava com um terçol totalmente maduro – já não falava com ele nem sequer de vez em quando. Deixavam-no em paz, pouco mais ou menos como se faz com um aluno que goza do estado singularmente feliz de já não ser examinado nem ter necessidade de trabalhar, porque a “bomba” é um fato consumado e ninguém mais se preocupa com ele; um tipo orgiástico de liberdade – digamos isso de passagem, perguntando-nos se a liberdade pode jamais ter outra natureza que não precisamente esta. Fosse como fosse, Hans Castorp constituía um caso pelo qual as autoridades já não precisariam velar, visto ser certo que no seu peito nunca mais evoluiriam decisões indisciplinadas, subversivas. Era um paciente garantido, definitivo, que desde muito tempo cessara de saber para onde mais poderia ir e se tornara completamente incapaz de sequer ventilar a ideia do regresso à planície... Não se demonstrava um certo descuido com respeito à sua pessoa no simples fato de o terem transferido para a mesa dos “russos ordinários”? Com isso nada, absolutamente nada queremos dizer contra a chamada mesa dos “russos ordinários”. Não havia entre as sete mesas vantagens ou desvantagens manifestas. Era uma democracia de mesas de honra, para empregar uma metáfora audaciosa. A mesma comida superabundante era servida nessa mesa como em todas as demais. O próprio Radamanto jantava ali às vezes, conforme o turno, as manzorras gigantescas diante do seu prato, e os povos que em torno dela tomavam as refeições eram honrados membros da humanidade, se bem que não entendessem latim e não comessem com gestos excessivamente elegantes.
     O tempo – mas não aquele que marcam os relógios de estação, cujo ponteiro grande dá saltos bruscos, de cinco em cinco minutos, senão o indicado por relógios pequeninos, cujo movimento de agulhas permanece imperceptível, ou o tempo que a relva leva para crescer, sem que nenhum olho o perceba, apesar de ela fazê-lo constantemente, o que um belo dia se torna um fato inegável; o tempo, uma linha composta de um sem-número de pontos sem extensão – o malogrado Naphta perguntaria provavelmente como coisas desprovidas de extensão conseguem produzir uma linha –, o tempo, à sua maneira silenciosa, imperceptível, secreta e contudo ativa, havia continuado a trazer consigo transformações. O pequeno Teddy, para citar apenas um exemplo, deixara um dia – o que, naturalmente, não significa um dia determinado, senão uma época cujo começo é vago – de ser pequeno. As senhoras já não podiam sentá-lo no colo, nas ocasiões em que se levantava, trocava o pijama por uma roupa esporte e descia para ir ter com elas. Insensivelmente mudara a situação; agora era ele quem as sentava no seu colo, e isso produzia a ambas as partes o mesmo prazer, ou talvez ainda mais. Tornara-se adolescente; não queremos dizer que tivesse desabrochado, mas pelo menos espigara depressa. Hans Castorp não o notara, porém agora notou-o. Nem o tempo nem o espigamento trouxeram proveito ao adolescente Teddy, que não era talhado para eles. A vida temporal não lhe fez bem. Aos vinte e um anos sucumbiu à enfermidade, para a qual se mostrara predisposto, e o seu quarto foi desinfetado. Contamos a sua história em voz calma, já que não houve grande diferença entre o novo estado e o antigo.
     Houve, entretanto, óbitos mais importantes, óbitos na planície que interessavam mais ao nosso herói ou, ao menos, o teriam feito em outras épocas. Pensamos no passamento recente do velho Cônsul Tienappel, tio-avô e pai de criação de Hans, de remota lembrança. Evitando cuidadosamente expor-se a condições atmosféricas pouco saudáveis, deixara ele a tio James a oportunidade de tornar-se ridículo. Mesmo assim não lograra esquivar-se indefinidamente à apoplexia, e a notícia do seu finamento, transmitida num telegrama lacônico, porém redigido em termos delicados e cautelosos – em consideração ao defunto antes do que ao destinatário da mensagem –, essa notícia subiu um belo dia até a excelente espreguiçadeira de Hans Castorp. Depois de recebê-la, o jovem comprou papel tarjado de preto e escreveu aos tios-primos que ele, órfão de pai e mãe, tinha de considerar-se órfão pela terceira vez e sentia-se ainda mais aflito porque as circunstâncias não lhe permitiam e até lhe vedavam estritamente interromper a sua estada nessas alturas para acompanhar o tio-avô à sua última morada.
     Falar em luto seria exagerar as coisas. Contudo, mostravam os olhos de Hans Castorp, naqueles dias, expressão mais pensativa do que em geral. Essa morte, cujo efeito sentimental em época alguma teria sido grande e pelos aventurosos anos de separação quase chegara a ser nulo, significava sem embargo a ruptura de mais um laço, de mais uma relação que o ligava à esfera lá de baixo e completava aquilo que Hans Castorp, com razão, chamava de liberdade. Com efeito, nessa fase final a que nos referimos, estava totalmente interrompido o contato entre ele e a planície. Não escrevia cartas nem as recebia. Já não mandava vir os Maria Mancini. Encontrara ali em cima uma marca que lhe agradava, e à qual demonstrava a mesma fidelidade que àquela amiga de tempos passados. Era um produto que teria ajudado um explorador polar a suportar as piores privações no gelo eterno. Dispondo dele, podia-se ficar estendido como na praia e aguentar tudo quanto sucedesse. Tratava-se de um charuto especialmente bem-acabado, de nome Rütlischwur, um pouco mais grosso do que o Maria, de cor cinzenta como a do camundongo, com um anel azulado em torno, e que tinha caráter muito dócil e suave; ao consumir-se, convertia-se numa cinza branca que guardava a forma originária, na qual se salientavam as nervuras do invólucro. Esse processo realizava-se com tamanha regularidade, que o fumante podia servir-se do charuto em lugar de uma ampulheta, o que Hans Castorp realmente fazia, em caso de necessidade, pois deixara de usar o relógio de bolso. Este já não trabalhava. Certo dia caíra da mesinha de cabeceira, e Hans Castorp não tratara de mandar consertá-lo, para que reassumisse aquela cadenciada marcha circular, pela mesma razão por que havia muito renunciara a recorrer à folhinha, quer arrancando diariamente a folha, quer se informando de antemão acerca de certos dias ou festas. Agia assim em prol da “liberdade”, em homenagem ao “passeio pela praia”, a esse “sempre” constante e imóvel, ao feitiço hermético para o qual o jovem arrebatado a essas alturas se mostrara predisposto e que fora a aventura fundamental do seu espírito, aquela em cujo curso se haviam desenrolado todas as aventuras alquimísticas dessa singela matéria.
     Assim o jovem deixou-se estar, e assim o ano completou mais uma vez o seu ciclo, em pleno verão, época da sua chegada; era a sétima vez, mas o nosso herói não se deu conta do fato.
     Foi quando estrondeou...
     Mas a reserva e o pudor impedem-nos de empregar termos exagerados ao contar o que então ressoou e sucedeu. Justamente nesse ponto não cabem nem bravatas nem fanfarrices. Abafemos a voz para comunicar que de fato estrondeou aquele trovão, de que todo mundo tem conhecimento, a ensurdecedora detonação da sinistra mistura de tédio e de irritação de há muito acumulados; um trovão histórico – seja dito com discreta reverência – que abalou os alicerces da terra, e, para nós, o trovão que fez explodir a montanha mágica e arremessou o nosso dorminhoco brutalmente diante das portas. Estupefato, o jovem se acha sentado na relva e esfrega os olhos, como faz quem se omitiu, em que pesem numerosas admoestações, de ler os jornais.
     Seu amigo e mentor do Mediterrâneo sempre procurara remediar esse mal e se esforçara por informar o filho enfermiço dos seus esforços pedagógicos em grandes linhas a respeito daquilo que acontecia lá embaixo. Mas encontrara ouvidos moucos por parte de um discípulo que, ao “reinar”, imaginava, na verdade, isto ou aquilo das sombras espirituais das coisas, mas não se preocupava com as próprias coisas, devido a uma tendência arrogante para tomar as sombras pelas coisas e para ver nestas apenas sombras. E não devemos censurá-lo severamente por causa disso, visto a relação entre sombras e coisas não estar definitivamente esclarecida.
     Outrora, o Sr. Settembrini enchia o ambiente de repentina clareza, sentava-se à beira da cama do jovem e empenhava-se em exercer sobre ele uma influência corretiva em assuntos da vida e da morte. Agora já não era assim. Agora era Hans Castorp quem sentava, com as mãos entre os joelhos, à beira da cama do humanista, no pequeno cubículo, ou ao pé do divã onde Settembrini repousava de dia, no simpático gabinete do sótão, com as cadeiras do carbonário e com a garrafa de água. Fazia companhia ao italiano e escutava cortesmente seus comentários sobre a situação mundial. Haviam-se tornado raras as ocasiões em que o Sr. Lodovico se achava de pé. Para a natureza sensível do humanista, o fim cruento de Naphta, essa façanha terrorista do disputante sagaz e desesperado, tinha sido um choque violento do qual não conseguia refazer-se. Desde então sentia-se muito fraco e decrépito. Sua colaboração na Patologia sociológica estava interrompida. O dicionário de todas as obras beletrísticas relativas ao sofrimento humano deixara de progredir, e aquela liga esperava em vão pelo respectivo tomo da sua enciclopédia. O Sr. Settembrini via-se forçado a limitar à palavra falada as suas contribuições para a organização do progresso, e precisamente para esse fim lhe ofereciam as visitas amistosas de Hans Castorp uma oportunidade de que, sem elas, teria sentido falta.
     Embora em voz débil, dizia muitas coisas formosas que lhe vinham do coração. Falava sobre o aperfeiçoamento social que a própria humanidade devia realizar. Seu discurso avançava como sobre pés de pomba, mas quando chegava a tratar de assuntos como o da união dos povos liberados em prol da felicidade geral, ressoava logo nas suas palavras, sem que ele mesmo o quisesse ou soubesse, o rumor de asas de águia. A causa disso era sem dúvida a política, a herança do avô, que, unindo-se à herança humanística do pai, formava na alma de Lodovico o ideal das belas-letras, exatamente como a humanidade e a política se uniam no ideal sublime da civilização, essa ideia mansa como as pombas e denodada como as águias, que aguardava o dia de tornar-se realidade, a manhã dos povos em que o princípio da reação caísse derrotado e se efetuasse a santa aliança da democracia burguesa... Contudo, havia nesse ponto algumas desarmonias. O Sr. Settembrini era humanitário, mas, ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos, era quase explicitamente belicoso. Por ocasião do duelo com o sanguinário Naphta comportara-se humanamente; porém, em assuntos de maior importância, em que o espírito humano se aliava com entusiasmo à política, para gerar o ideal triunfante e dominador da civilização, e onde se glorificava o cidadão no altar da humanidade, tornava-se duvidoso saber se o Sr. Settembrini, objetivamente falando, desejava ou não evitar que sua mão derramasse sangue. E a situação íntima tinha por consequência que na sua bela alma o elemento do denodo aquilino se impusesse cada vez mais à brandura columbina.
     Frequentemente, a sua atitude em face das grandes constelações do mundo era contraditória, acossada de escrúpulos e perturbada por embaraços. Recentemente, fazia apenas ano e meio ou dois anos, a cooperação diplomática do seu país com a Áustria, na questão da Albânia, enchera de desassossego as suas explanações; essa cooperação que o satisfazia por ser dirigida contra a Semi-Ásia antilatina, contra o cnute e contra Schlüsselburg, ao mesmo tempo o atormentava por ser a mésalliance com o inimigo hereditário, com o princípio da reação e do avassalamento dos povos. No outono passado, o grande empréstimo que a França fizera à Rússia para a construção de uma vasta rede ferroviária na Polônia despertara nele sentimentos igualmente heterogêneos; ora, o Sr. Settembrini pertencia ao partido francófilo da sua terra, o que não nos deve admirar se nos lembrarmos que o avô comparara os dias da Revolução de Julho aos da criação do universo; e, no entanto, o acordo entre a república iluminada e o bizantinismo cítico deixava-o com dúvidas morais e lhe oprimia o peito. Mas também essa angústia não tardava em converter-se em esperança e alegria que lhe aceleravam a respiração, sempre que se recordava do significado estratégico dessas vias férreas. Então teve lugar o atentado contra o príncipe herdeiro, que para todos, exceção feita de alguns dorminhocos alemães, constituía um sinal de tempestade, um aviso aos iniciados, entre os quais temos toda a razão de incluir o Sr. Settembrini. Hans Castorp, na verdade, viu-o horrorizar-se como indivíduo diante desse ato terrorista, mas observou como o peito do humanista vibrava com o pensamento de que se tratava de uma façanha libertadora, brotada do seio de uma nação e dirigida contra a cidadela que ele mais odiava, posto que, ao mesmo tempo, tivesse de considerar esse feito como fruto de atividades moscovitas, o que o inquietava, porém não impedia de qualificar de insulto a humanidade e de crime hediondo o ultimato que a monarquia, três semanas mais tarde, endereçou à Sérvia. Assim agia em face das consequências que previa como conhecedor do assunto, e com as quais se regozijava, a ponto de respirar mais depressa de tanta exaltação...  
     Numa palavra, os sentimentos do Sr. Settembrini eram tão complexos quanto a fatalidade que ele via precipitar-se com imensa rapidez, e para a qual procurava por meio de palavras veladas preparar o seu discípulo, se bem que uma espécie de cortesia e de compaixão nacional o impedisse de falar sem rebuços a esse respeito. Nos dias das primeiras mobilizações e da primeira declaração de guerra adquirira o hábito de estender ambas as mãos ao visitante e de apertar as do nosso jovem simplório, como se lhe quisesse falar, senão ao cérebro, pelo menos ao coração. – Meu amigo! – dizia o italiano. – A pólvora e a imprensa, sim, é incontestável que foram inventadas por vocês. Mas se o senhor pensa que nós marcharemos contra a Revolução... Caro...
     Durante os dias de expectativa, os dias mais carregados de eletricidade, enquanto os nervos da Europa se achavam num verdadeiro leito de Procusto, Hans Castorp não foi ter com o Sr. Settembrini. Os jornais cheios de horrores chegavam agora diretamente da planície ao seu compartimento de sacada, empestando com o seu cheiro de enxofre a sala de refeições e mesmo os quartos dos doentes graves ou moribundos. Referimo-nos àqueles momentos em que o dorminhoco, sem saber o que lhe acontecera, se soerguia lentamente na relva, antes de sentar-se e de esfregar os olhos... Desenvolvamos essa imagem para analisar devidamente o que se passava no seu espírito. Encolheu-se, levantou-se e olhou em torno. Viu-se desencantado, redimido, livre – não pelo seu próprio esforço, como teve de confessar a si mesmo, envergonhado, senão expulso por forças elementares, exteriores, para as quais a libertação do nosso herói era um efeito completamente secundário. Mas, embora o seu pequeno destino se perdesse no destino geral, não se expressavam, contudo, nesse fato certa bondade e justiça que o miravam pessoalmente e portanto eram de origem divina? Se a vida uma vez mais acolhia o seu pecaminoso filho enfermiço, não podia fazê-lo por um preço barato, mas somente dessa forma grave e severa, impondo-lhe uma prova que para ele, o pecador, talvez não significasse a vida, mas justamente nesse caso extremo equivaleria a três salvas fúnebres. E assim Hans Castorp se pôs de joelhos, erguendo o rosto e as mãos ao céu, que estava sombrio, sulfurino, mas já não era o teto da gruta da montanha dos pecados.
     Foi nessa posição que o encontrou o Sr. Settembrini. É óbvio que falamos metaforicamente; pois, em realidade, o caráter reservado do nosso herói não permitia tal atitude teatral. Na fria realidade, o mentor encontrou-o ocupado a fazer as malas, porquanto Hans Castorp, desde o momento em que acordava, se via arrastado por uma torrente remoinhosa de partidas “em falso”, que o trovão abalador desencadeara no vale. A “pátria”, o Berghof, assemelhava-se a um formigueiro em pânico. De cinco mil pés de altura, seus habitantes precipitavam-se de cabeça para baixo em direção à planície, onde os aguardava a prova. Suspendiam-se nos estribos do trenzinho tomado de assalto, deixando atrás, se assim fosse necessário, as bagagens que em pilhas enfileiradas cobriam a plataforma da estação – a estação apinhada de gente, a cuja altura parecia chegar o bafo abrasador do incêndio da planície. E Hans precipitava-se tal qual os outros. No meio do tumulto abraçou-o Lodovico; abraçou-o literalmente, cingiu-o com os braços e beijou-lhe ambas as faces, à maneira meridional, mas também à maneira russa, o que, não obstante a emoção, não deixou de acanhar o nosso viajante “em falso”. Mas este quase perdeu a serenidade, quando, no último instante, o Sr. Settembrini o chamou pelo primeiro nome, a saber “Giovanni” e, abandonando a forma de tratamento habitualmente usada no Ocidente civilizado, serviu-se do “tu”. 

E cosi in giù – disse – in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! Eu teria preferido ver-te partir de outra forma. Mas vá lá que seja, uma vez que os deuses dispuseram assim e não de um modo diferente. Eu esperava despedir-me de ti, quando voltasses ao trabalho, e agora lutarás no meio da tua gente. Deus meu, é a ti que isso coube em sorte, e não ao nosso tenente. Como é estranho o jogo da vida!... Vai lutar valentemente, lá para onde te mandam os laços do sangue! Ninguém pode fazer mais, a esta hora. Mas perdoa-me se emprego o resto das minhas forças para concitar também o meu país à luta, ao lado daqueles que lhe indicam o espírito e o sagrado egoísmo. Addio!

     Hans Castorp enfiou a cabeça entre dez outras que enchiam o vão da janelinha. Abanou com a mão por cima delas. Também o Sr. Settembrini abanou com a direita, enquanto a ponta do dedo anular da esquerda tocava delicadamente o canto de um olho.


     Onde estamos? Que é isso? Aonde nos levou o sonho? Crepúsculo, chuva e barro, rubros clarões de fogo no céu turvo que sem cessar estruge atroadoramente; os úmidos ares invadidos e dilacerados por silvos agudos, por uivos raivosos que avançam como o cão dos infernos e terminam a sua órbita, entre estilhaços, jatos de terra, detonações e labaredas, por gemidos e por gritos, por clarinadas estridentes e pelo rufar de tambores, clamando depressa, cada vez mais depressa... Ali há um bosque do qual brotam enxames incolores, correndo, caindo, pulando. Acolá se estende uma cadeia de colinas diante do longínquo incêndio, cujas brasas às vezes se condensam em chamas flutuantes. Ao nosso redor espraiam-se campos aráveis, ondulosos, encharcados, revolvidos. Uma estrada rústica, barrenta, coberta de ramos quebrados alonga-se paralela ao bosque. Um atalho, sulcado e alagadiço, desvia-se dela e conduz em vasta curva rumo às colinas. Troncos de árvores erguem-se, nus e desgalhados, na chuva fria... Aí se vê um poste indicador. Não vale a pena consultá-lo. A penumbra velaria as inscrições, mesmo que da tabuleta não houvessem sido arrancadas lascas por um impacto direto. Leste ou oeste? É a planície, é a guerra. E nós somos tímidas sombras à beira do caminho, envergonhando-nos da segurança de sombras que gozamos, e não temos a menor intenção de nos entregar a bravatas e fanfarrices. Quem nos guiou até aqui foi o espírito da nossa história, para que possamos ver mais uma vez, antes de perdê-lo de vista, o rosto singelo de um dentre os camaradas cinzentos que ali correm e caem, impelidos pelos tambores, um rosto conhecido, o rosto do pecador ingênuo que acompanhamos pelo seu caminho durante tantos anos, e cuja voz tantas vezes ouvimos.
     Eles têm sido procurados, esses companheiros de armas, a fim de pôr o ponto final num combate que já se prolongou pelo dia inteiro e visa à reconquista das posições nas colinas e das aldeias em chamas, que se acham situadas atrás delas e dois dias antes haviam sido abandonadas ao inimigo. É um regimento de voluntários, composto de jovens, na maioria estudantes, com pouco tempo na frente de batalha. Foram avisados em plena noite, viajaram de trem até a madrugada e marcharam através da chuva até a tarde por caminhos péssimos, que nem eram caminhos. As estradas estavam atravancadas de veículos, de modo que tiveram de avançar por campos e pântanos, sete horas a fio, com o equipamento completo, e isso não foi absolutamente um passeio agradável, pois quem não quisesse perder as botas tinha de curvar-se quase a cada passo, para enfiar o dedo no puxador e livrar assim o pé do solo encharcado. Assim gastaram mais de uma hora para atravessar um pequeno prado. Finalmente alcançaram a meta; seu sangue jovem tem suportado todas as fadigas; os corpos, excitados e já exaustos, mas ainda mantidos num estado de tensão pelas mais íntimas reservas vitais, não se preocupam com a alimentação nem com o sono de que foram privados. Os rostos molhados, salpicados de lodo, emoldurados pela correia, ardem sob os capacetes revestidos de pano cinzento e revirados pela corrida. Estão inflamados pelo esforço e também pelo aspecto das baixas que sofreram durante a marcha através do bosque alagado. O inimigo, sabendo que eles estão próximos, lançou sobre o seu caminho uma barragem de Schrapnells e de granadas de grosso calibre; já no meio do bosque, estes se estilhaçaram, irrompendo nos seus grupos, e agora açoitam a vasta campina arada, uivando, vomitando chamas, arrojando terras para todos os lados.
     E eles devem passar por isso, esses três mil rapazotes febris; são os reforços que têm de decidir, com suas baionetas, o assalto às trincheiras cavadas diante e atrás da cadeia de colinas e às aldeias incendiadas; cabe-lhes levar o ataque até determinado ponto que se encontra assinalado na ordem que seu chefe traz no bolso. Há três mil deles, para que sobrem dois mil, quando chegarem às colinas e às aldeias, e aí está a explicação de serem em tão grande número. Formam um só corpo, composto de tal maneira que mesmo depois de graves perdas possam ainda agir, vencer e saudar o triunfo com um hurra de milhares de vozes, sem se importar com aqueles que se houverem desagregado, saindo de forma. Muitos já fizeram isso, não aguentando a marcha forçada para a qual eram demasiado jovens e fracos. Empalideciam cada vez mais; cambaleavam; cerrando os dentes, exigiam de si energias de homens, e todavia ficavam para trás. Arrastavam-se ainda por algum tempo ao lado da coluna em marcha; pelotão após pelotão ultrapassava-os, e por fim desaparecia, ficando estendidos onde não era bom deitar-se. Depois, veio o bosque despedaçado. Mesmo assim há ainda muitos que dele saem enxameando; três mil podem suportar uma boa sangria e continuam sendo uma multidão. Já estão inundando a terra açoitada pela chuva, a estrada, o atalho, os campos lamacentos. Nós, as sombras observadoras, à beira do caminho, achamo-nos entre eles. Na orla do bosque todos calam a baioneta com manobras destras. Os clarins clamam com insistência, os tambores rufam, ribombam num baixo profundo, e os homens, soltando gritos roucos, precipitam-se para a frente, o melhor que podem, como num pesadelo, com os pés chumbados pelos torrões que se grudam nas toscas botas.
     Atiram-se de bruços, para esquivar-se aos projéteis que se aproximam ululando. Novamente se levantam, avançam às pressas, encorajando-se com estridentes brados juvenis, cada vez que escapam ilesos. São alvejados, caem, agitando os braços, com um tiro na testa, no coração, nas entranhas. Jazem, com as faces na lama, imóveis já. Jazem, com as cabeças enterradas no barro, as costas despegadas da mochila, e agarram o ar com ambas as mãos. Mas o bosque envia outros que se atiram, que saltam, gritam ou avançam mudos, a passo trôpego, por entre os feridos.
     Ah, toda essa juventude, com suas mochilas e baionetas, com as capas e as botas enlameadas! Sonhando de modo humanístico-estético, poderíamos imaginá-la num quadro diferente. Poderíamos ter a seguinte visão: esses jovens montando e banhando cavalos numa enseada do mar, caminhando pela praia em companhia da namorada, achegando os lábios à orelha da meiga noiva, ou talvez ensinando uns aos outros, numa amizade feliz, o tiro de arco. Em lugar disso, jazem ali, com o nariz no barro bombardeado. Que façam isso com alegria, ainda que transidos de medo e cheios de saudades da mãe, é assunto à parte, que nos orgulha e envergonha, mas nunca nos deveria induzir a colocá-los nesta situação.
     Eis aí o nosso amigo, Hans Castorp! Já de longe o reconhecemos pela barbicha que deixou crescer, enquanto comia à mesa dos “russos ordinários”. Arde e está ensopado como os demais. Corre com os pés pesados, agarrando o fuzil com o braço caído. Vejam só: pisou na mão de um camarada que se desagregou; com a bota ferrada afunda essa mão no solo lamacento, salpicado de galhos lascados. E todavia é ele! Mas como? Ele canta? Canta, assim como se faz sem saber, de si para si, numa excitação surda, vazia de pensamentos, aproveitando a respiração ofegante para cantarolar a meia voz:

“Talhei em sua casca 
 Mil coisas que senti...” 

     Caiu. Não, atirou-se ao chão, porque um cão dos infernos chega uivando, um enorme obus, um asqueroso pão de açúcar, saído das trevas. Acha-se estendido, comprimindo o rosto no barro frio com as pernas escancaradas e os pés torcidos, colados ao chão. O produto de uma ciência barbarizada abate-se como o Diabo em pessoa a trinta passos dele, penetrando obliquamente no solo, onde explode com espantosa violência e joga à altura de uma casa um jorro de terra, fogo, chumbo, ferro e de humanidade despedaçada; pois nesse lugar havia dois jovens estendidos, eram amigos que se haviam atirado um ao lado do outro, no momento de perigo, e agora estão mesclados, sumidos.
     Ó vergonha da nossa segurança de sombras! Vamos embora! Não desejamos narrar isso. O nosso conhecido recebeu algum ferimento? Durante um momento, ele mesmo acreditou que sim. Um grande torrão lhe batera na canela. Aquilo doía, mas não era sério! Ele se põe em marcha; coxeando, prossegue a cambalear para a frente, com os pés pesados de barro. E canta inconscientemente:

“Os galhos sussurraavam, 
 Falando para mim...”

     E assim, no tumulto, na chuva, no crepúsculo, o perdemos de vista. 
     Felicidade, Hans Castorp, enfermiço e cândido filho da vida! Tua história terminou: contamo-la até o fim. Ela não foi nem breve nem longa; é uma história hermética. Contamo-la por amor a ela e não a ti, pois tu eras simples. Mas, afinal, era tua essa história, e como ela te coube em sorte, deves ter certas qualidades. Não dissimulamos a simpatia pedagógica que, ao narrá-la, começamos a nutrir por ti, e que seria capaz de nos induzir a tocar delicadamente o canto de um olho com a ponta do dedo, ao pensar que nunca mais tornaremos a te ver nem ouvir.  
     Adeus – para a vida ou para a morte! Tens poucas probabilidades a teu favor. O macabro baile ao qual te arrastaram durará ainda vários anos malignos. Não queremos apostar muita coisa na tua possibilidade de escapar. Para falar com franqueza, não sentimos grandes escrúpulos ao deixar indecisa essa questão. Certas aventuras da carne e do espírito, sublimando a tua singeleza, fizeram teu espírito sobreviver ao que tua carne dificilmente poderá resistir. Momentos houve em que, cheio de pressentimentos e absorto na tua obra de “rei”, viste brotar da morte e da luxúria carnal um sonho de amor. Será que também da festa universal da morte, da perniciosa febre que ao nosso redor inflama o céu desta noite chuvosa, surgirá um dia o amor? 

Finis operis  

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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
A grande irritação - [c] / O trovão - Finis operis.     
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Cinema: A Onda

Die Welle


É um filme alemão de 2008 dirigido por Dennis Gansel. É inspirado no livro homônimo de 1981 do autor americano Todd Strasser e no experimento social da Terceira Onda, realizado pelo professor de história norte-americano Ron Jones, e conta a experiência de um professor do ensino médio para mostrar a seus alunos como é a vida baixo uma ditadura que sai de controle quando ele forma uma unidade social com vida própria. O filme foi produzido por Christian Becker para a Rat Pack Filmproduktion. Obteve sucesso nas bilheterias alemãs e depois de dez semanas, 2,5 milhões de pessoas haviam assistido ao filme.






Elenco:
Jürgen Vogel como Rainer Wenger, o professor que começou o experimento em sua classe.
Frederick Lau como Tim, um estudante inseguro com problemas na escola. Antes do experimento ele era solitário, mas acaba descobrindo novas amizades n'A Onda.
Max Riemelt como Marco, jogador do time de polo aquático de Rainer e namorado de Karo.
Jennifer Ulrich como Karo, namorada de Marco, uma aluna inteligente que se recusa a entrar n'A Onda e por causa disso acaba tendo brigas com Marco e seus amigos.
Cristina do Rego como Lisa, uma garota tímida que nunca teve um namorado. Melhor amiga de Karo, elas brigam por causa de seu envolvimento na onda e Lisa acaba ficando brevemente com Marco.
Christiane Paul como Anke Wenger, esposa de Rainer e professora na mesma escola que ele. Ela tenta alertar Rainer o quanto o experimento fugiu ao seu controle, em vão.
Elyas M'Barek como Sinan, um estudante turco-alemão e jogador do time de polo aquático.
Maximilian Vollmar como Bomber, um bully que se torna mais gentil após entrar para A Onda.
Maximilian Mauff como Kevin, um aluno rico que se recusa a entrar n'A Onda de início mas muda de ideia mais tarde.
Jacob Matschenz como Dennis, um aluno da Alemanha Oriental que também se junta à Onda.
Ferdinand Schmidt-Modrow como Ferdi
Tim Oliver Schultz como Jens
Amelie Kiefer como Mona, uma aluna que desde o início se mostra contra A Onda e lidera o movimento de oposição ao grupo, com o apoio de Karo.
Odine Johne como Maja
Fabian Preger como Kaschi
Tino Mewes como Schädel
Maxwell Richter como um anarquista
Alexander Held como o pai de Tim
Dennis Gansel como Martin


Sugesstão: 
Leia o livro, A Onda - Todd Strasser

Todd Strasser, autor de "A Onda", se baseia em fatos reais ocorridos em 1969 em um colégio na Califórnia, para dramatizar o experimento social da Terceira Onda. O livro explora como o poder da pressão coletiva pode persuadir as pessoas a se juntar a um grupo e abrir mão de seus direitos individuais, às vezes causando grandes males aos outros. Strasser utiliza a história para questionar a facilidade com que uma sociedade democrática pode ser atraída pelo fascismo e pelo totalitarismo. O autor traz questionamentos bastante atuais sobre o fascismo e a intolerância, explorando de forma brilhante o papel da juventude idealista na consolidação desses discursos.



Sugestão: 
Assista também o filme abaixo, ele tem início com o professor de história Burt Ross explicando aos seus alunos a atmosfera da Alemanha, em 1930, a ascensão e o genocídio nazista. Os questionamentos dos alunos levam o professor a realizar uma arriscada experiência pedagógica que consiste em reproduzir na sala de aula alguns clichês do nazismo: usariam o slogan 'Poder, Disciplina e Superioridade', um símbolo gráfico para representar 'A onda', etc. O professor Ross se declara o líder do movimento da 'onda', exorta a disciplina e faz valer o poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes o obedecem cegamente. A tímida recusa de um aluno o obriga a conviver com ameaças e exclusão do grupo. A escola inteira é envolvida no fanatismo da Onda, até que um casal de alunos mais consciente alerta ao professor ter perdido o controle da experiência pedagógica que passou ao domínio da realidade cotidiana da comunidade escolar. 


A Onda [The Wave] 
Versão original para a televisão [1981] 
- Legendado PT-BR




Direção:
Alexander Grasshoff

Elenco: 
Bruce Davison / Ben Ross
Lori Lethin / Lauree
John Putch / David
Johnny Doran / Robert
Pasha Gray / Amy
Wesley Pfenning / Christy Ross
Marc Copage / Eric
Robert DeLapp
Matthew Dunn
Frank Lloyd
Danny Marmolejo
Michael Pasternak / Peter
Teri Ralston / Mrs. Saunders
Jamie Rose / Andrea
Larry Keith / Mr. Saunders
Tommy Bull / Don (não creditado)
Adolf Hitler / Self (cenas de arquivo) (não creditado)


Moby Dick: 54 - A História do Town-ho(b)

Moby Dick

Herman Melville

54 - A História do Town-ho (Tal como foi contada na Estalagem Dourada)
 
continuando...

“Portanto, em seu tom costumeiro, apenas entrecortado pelo cansaço em que se encontrava temporariamente, respondeu dizendo que varrer o convés não era sua obrigação, e que não o faria. E então, não mencionando a pá, apontou para os três rapazes que costumavam varrer o convés, os quais não tinham sido escalados para as bombas e portanto não tinham feito quase nada ou nada mesmo o dia inteiro. A isso, Radney respondeu com blasfêmias, repetindo incondicionalmente a sua ordem, de modo arrogante e insultante, ao mesmo tempo em que avançava para cima do lacustre, que continuava sentado, empunhando um martelo de toneleiro, que apanhara de um barril próximo.
“Esquentado e irritado pelo trabalho intermitente com as bombas, apesar daquele primeiro sentimento anônimo de abstenção, o suado Steelkilt mal podia suportar tal ousadia no imediato; mas de alguma forma, ainda abafando a conflagração dentro de si, sem falar nada, permaneceu obstinadamente preso ao seu assento até que o raivoso Radney sacudiu o martelo a poucos centímetros de seu rosto, ordenando furiosamente que obedecesse ao comando.
“Steelkilt levantou-se e, dando a volta ao sarilho, sempre seguido pelo imediato com o martelo ameaçador, repetiu deliberadamente o seu propósito de não obedecer. Ao perceber que a sua abstenção não surtia o menor efeito, por uma intimação algo terrível e indizível com o punho cerrado, preveniu o estúpido homem ensandecido; porém de nada adiantou. E, desse modo, os dois deram mais uma volta no sarilho, até que, resolvido a não recuar e achando já ter aguentado tudo o que podia aguentar, o lacustre parou na escotilha e assim falou ao oficial:
“‘Sr. Radney, não vou lhe obedecer. Tire esse martelo daqui ou então tome cuidado’. Mas o imediato predestinado, chegando ainda mais perto de onde o lacustre estava parado, sacudiu o pesado martelo a um centímetro dos seus dentes, enquanto repetia uma série de intragáveis maldições. Sem recuar um milésimo de centímetro; fulminando-o com o destemido punhal do seu olhar fito, Steelkilt, fechando sua mão direita atrás de si e trazendo-a para frente, disse a seu perseguidor que se o martelo apenas roçasse a sua face ele (Steelkilt) o mataria. Mas, senhores, o louco havia sido marcado pelos deuses para o morticínio. Naquele momento, o martelo tocou o seu rosto; no instante seguinte a mandíbula do oficial foi partida ao meio; ele caiu na escotilha jorrando sangue como uma baleia.
“Antes que o grito chegasse à popa, Steelkilt sacudiu um dos cabos do mastro, onde estavam dois colegas seus como gajeiros. Os dois eram Canalenses.”
“Canalenses?!”, gritou Don Pedro. “Já vi muitos baleeiros em nossos portos, mas nunca ouvi falar em Canalenses. Perdão, mas quem e o que são eles?”
“Canalenses, Don Pedro, são os barqueiros do nosso grande canal Erie. O senhor deve ter ouvido falar deles.”
“Não, señor; aqui nesta terra insípida, quente, ociosíssima e hereditária sabemos muito pouco sobre o seu norte vigoroso.”
“É mesmo? Bom, Don Pedro, encha o meu copo de novo. A sua chicha está muito boa; antes de prosseguir, vou contar-lhes quem são os nossos Canalenses, pois essa informação pode lançar alguma luz sobre a minha história.
“Por trezentas e sessenta milhas, senhores, na extensão total do Estado de Nova York; através de numerosas cidades populosas e vilarejos prósperos; através de grandes pântanos desabitados e sinistros, e campos cultivados e opulentos de fertilidade ímpar; nos bares e nos bilhares; através da mais sagrada das florestas sagradas; por arcos romanos sobre rios indígenas; sob o sol e sob a sombra; por corações felizes ou partidos; por todo o cenário contrastante da terra dos nobres Mohawk; e especialmente pelas fileiras de níveas capelinhas, cujas torres se erguem como marcos, onde corre o rio ininterrupto de uma corrupção veneziana e muitas vezes sem lei. Lá está, senhores, seu verdadeiro Axanti; lá se lamentam os pagãos; onde sempre se encontram, na porta ao lado; à sombra comprida, ao abrigo padroeiro das igrejas. Por uma curiosa fatalidade, como se nota muitas vezes entre os seus piratas metropolitanos, sempre acampados em torno aos palácios de justiça, assim também os pecadores, senhores, transbordam das sacras cercanias.”
“Será um frade passando?”, perguntou Don Pedro, olhando para a praça povoada, com uma preocupação divertida
“Que bom para o nosso amigo do norte que a Inquisição de Dona Isabel está acabando em Lima”, riu Don Sebastian. “Continue, senhor.”
“Um momento! Perdão!”, exclamou um outro do grupo. “Em nome de todos nós, Limenhos, desejo apenas lhe dizer, senhor marinheiro, que não nos passou despercebida a sua gentileza ao substituir a Lima de hoje pela remota Veneza, na sua comparação sobre a corrupção. Ah! Não precisa fazer cerimônia, nem mostrar-se surpreso; o senhor conhece o provérbio que corre por toda a costa: ‘Corrupta como Lima’. Por certo só faz corroborar a sua afirmação; ou seja, há mais igrejas sempre abertas do que salões de bilhar, e, no entanto, ‘Corrupta como Lima’. Assim também em Veneza; já estive lá; a cidade sagrada dos abençoados evangelistas, São Marcos! Que São Domingos a purifique! O seu copo! Agradecido, eu vou enchê-lo; bem, agora é a sua vez.”
“Livremente descrito por seus próprios dons, senhores, o Canalense daria um excelente herói dramático, tão abundantes e pitorescos são os seus ardis. Como Marco Antônio, por dias e dias ao longo de seu Nilo florido e verdejante, navega indolente, brincando descuidado com a sua Cleópatra de faces rosadas, amadurecendo a sua coxa adamascada ao sol no convés. Mas em terra toda essa efeminação acaba. A aparência bandoleira que o Canalense ostenta com tanto orgulho; seu chapéu de lado, alegre e enfeitado com fitas, auguram seu grandioso condão. Um terror para a inocência sorridente dos vilarejos por onde passa; de sua aparência trigueira e atitude arrogante tampouco se escapa nas cidades. Certa vez em que vagava por seu canal, recebi boa ajuda de um desses Canalenses; agradeço-lhe de coração; não quero ser ingrato; mas é frequentemente uma das principais qualidades compensatórias desse homem violento estender a mão para ajudar um pobre estrangeiro em apuros e saquear um rico. Em suma, senhores, a selvageria dessa vida no canal é enfaticamente provada por isto; e mesmo em nossa bravia pesca da baleia havendo tantos desses rematados tipos, quase nenhuma raça de homens, exceto os de Sidney, inspiram tanta desconfiança em nossos capitães baleeiros. O mais curioso é que, para milhares dos nossos garotos rústicos e jovens nascidos ao longo dessas águas, a prova da vida no Grand Canal representa uma simples transição entre ceifar um milharal cristão e singrar afoitamente as águas dos oceanos mais bárbaros.”
“Entendi! Entendi!”, exclamou com ímpeto Don Pedro, derramando a chicha em seus punhos argênteos. “Não há necessidade de viajar! O mundo inteiro é Lima. Eu achava que no seu norte temperado as gerações fossem frias e santas como os outeiros. Mas vamos à história.”
“Senhores, parei quando o lacustre sacudia o brandal. Nem bem o fizera quando foi cercado por três pilotos novatos e quatro arpoadores, que o empurraram para o convés. Mas, descendo pelas cordas tais malignos cometas, os dois Canalenses acudiram ao tumulto e tentaram arrastar seu homem para o castelo de proa. Outros marinheiros se juntaram a eles nessa tentativa, e formou se a balbúrdia infernal; enquanto o valente capitão, para ficar fora de perigo, movia para cima e para baixo um forcado de baleia, instigando os seus oficiais a deter aquele canalha atroz, para castigá-lo no tombadilho. De tempos em tempos, corria para perto da borda revoltosa da confusão e, abrindo o cerco com seu forcado, tentava espetar o objeto de seu ressentimento. Mas Steelkilt e seus celerados eram demais para eles: conseguiram ganhar o convés do castelo de proa, onde, rolando três ou quatro barris grandes, formando uma fileira com o sarilho, esses parisienses do mar entrincheiraram-se atrás da barricada.
“‘Saiam daí, seus piratas!’, rugiu o capitão, ameaçando-os com uma pistola em cada mão, que um camareiro acabara de lhe trazer. ‘Saiam daí, seus degoladores!’
“Steelkilt pulou para a barricada e, caminhando por ali a passos largos, desafiou o pior que as pistolas podiam fazer; mas fez com que o capitão entendesse claramente que a sua morte (a de Steelkilt) seria o sinal para um motim assassino por parte de todos. Receando profundamente que isso se tornasse verdade, o capitão recuou um pouco, mas ainda ordenou que os insurgentes voltassem imediatamente ao seu dever.
“‘O senhor promete que não seremos molestados se o fizermos?’, perguntou o líder do motim.
“‘Voltem! Voltem! – Não faço promessas. – Ao dever! Querem afundar o navio abandonando seus postos numa hora destas? Voltem!’, e levantou outra vez uma pistola.
“‘Afundar o navio?’, gritou Steelkilt. ‘É mesmo, pois que afunde. Nenhum de nós vai voltar, a não ser que você jure que não irá tocar em nenhum fio do nosso cabelo. O que acham, rapazes?’, virando-se para os seus companheiros. Como resposta, animadamente deram vivas.
“O lacustre agora patrulhava a barricada, o tempo todo de olho no Capitão, soltando frases como estas: – ‘A culpa não é nossa; nós não queríamos; eu disse a ele que tirasse o seu martelo da minha frente; isso é coisa de moleque; ele já devia me conhecer; falei para ele não mexer no vespeiro; acho que quebrei um dedo no maldito queixo dele; os facões não estão no castelo de proa?; vejam essas alavancas, meus caros. Capitão, pelo amor de Deus, veja bem; é só dizer; não seja tolo; esqueça tudo; estamos prontos para voltar; trate-nos decentemente e seremos os seus homens; mas não seremos açoitados’.
“‘Voltem! Não faço promessas. Repito, voltem!’
“‘Agora você vai ouvir’, gritou o lacustre, estendendo o braço na sua direção, ‘há poucos de nós aqui (e eu sou um deles) que embarcaram só pela viagem, entendeu? Ora, como o senhor bem sabe, podemos pedir para sermos dispensados assim que a âncora baixar; por isso não queremos uma rixa; não nos interessa; queremos ser pacíficos; estamos prontos para trabalhar, mas não seremos açoitados.’
“‘Voltem’, rugiu o Capitão.
“Steelkilt olhou a sua volta por um momento e disse – ‘Vou lhe dizer uma coisa, Capitão, em vez de matá-lo e ser enforcado por causa de um tratante miserável, não faremos nada contra o senhor a não ser que sejamos atacados; mas enquanto o senhor não der a sua palavra de que não seremos açoitados não mexeremos um dedo’.
“‘Para o castelo de proa, então, vão para lá. Vou deixá-los ali até que enjoem. Para lá.’
“‘Vamos descer, então?’, gritou o líder a seus homens. A maior parte era contra, mas por obediência a Steelkilt precederam-no na descida ao seu antro sinistro e desapareceram rosnando, como ursos numa caverna.
“Assim que a cabeça despida do lacustre chegou à altura das pranchas do convés, o capitão e a sua súcia pularam sobre a barricada e, puxando rapidamente a peça corrediça da escotilha, colocaram as suas mãos sobre ela e pediram em voz alta ao camareiro que trouxesse o cadeado pesado de bronze do tombadilho. Abrindo então um pouco a peça, o Capitão sussurrou algo pela fenda, fechou-a e girou sobre eles – em número de dez –, deixando no convés uns vinte ou mais que se mostraram neutros.
“Durante toda a noite manteve-se a vigília de todos os oficiais, na popa e na proa, especialmente no escotilhão do castelo de proa e na caverna-mestra; por onde temiam que os insurgentes pudessem emergir, caso arrombassem o tabique. Mas as horas de escuridão transcorreram em paz; os homens que continuaram cumprindo os seus deveres, trabalhando arduamente nas bombas, cujo troar e retroar na noite lúgubre sinistramente ressoavam por todo o navio.
“Quando o sol nasceu o Capitão foi para vante, e, batendo no convés, intimou os prisioneiros ao trabalho; mas, aos berros, eles se recusaram. Desceram-lhes então água, e alguns punhados de biscoitos lhes foram atirados em seguida; quando então novamente o Capitão girou a chave, e, colocando-a no bolso, voltou ao tombadilho. Isso se repetiu duas vezes por dia, durante três dias, mas na quarta manhã ouviu-se um tumulto que parecia uma briga, e depois um burburinho, quando as ordens costumeiras foram dadas; de repente, quatro homens assomaram ao castelo de proa, dizendo que estavam prontos para voltar. O fétido ar enclausurado, a dieta de fome, somados talvez a eventuais temores de uma retaliação definitiva, obrigaram-nos à rendição incondicional. Encorajado por isso, o Capitão reiterou a sua ordem para o resto, mas Steeklilt gritou-lhe que parasse com o falatório e fosse para o seu lugar. Na quinta manhã outros três amotinados irromperam ao ar livre, desvencilhando-se dos braços que tentavam segurá-los lá embaixo. Apenas três restaram. 
“‘É melhor voltar agora!’, disse o Capitão, zombando cruelmente.
“‘Tranque-nos de novo!’, gritou Steelkilt.
“‘Ah! Pois não!’, disse o Capitão, e a chave girou.
“Foi nessa hora, senhores, que, enraivecido pela deserção de sete dos seus companheiros, mordido pela voz zombeteira que o chamara, e enlouquecido pelo sepultamento de vários dias num lugar escuro como a entranha do desespero; foi aí que Steelkilt propôs aos dois Canalenses, que até então pareciam estar de acordo com ele, que saíssem do buraco na próxima intimação da guarda; e que, armados com suas facas afiadas (utensílios longos, pesados, em forma de crescente, com um cabo de cada lado), corressem do gurupés ao balaústre da popa; e, como que por um desespero diabólico, tomassem posse do navio. Quanto a ele, disse que o faria de qualquer jeito, caso se juntassem a ele ou não. Esta era a última noite que ele passaria naquele antro. Mas os outros dois não se opuseram ao plano; juraram que estavam prontos para aquilo, ou qualquer outra loucura, qualquer coisa, em suma, exceto a rendição. E, mais do que isso, ambos insistiram em ser o primeiro a subir ao convés, quando chegasse a hora de agir. Mas a isso seu líder opôs tenaz objeção, reservando a primazia para si mesmo; principalmente porque nenhum de seus dois companheiros cederia ao outro nessa questão, e ambos não poderiam subir juntos primeiro, pois a escada só permitia um homem por vez. E, aqui, senhores, a perfídia desses canalhas deve ser revelada.
“Ao ouvir o projeto ensandecido de seu líder, cada um deles arquitetou o mesmo golpe traiçoeiro no seu íntimo, a saber: ser o primeiro a sair, para ser o primeiro dos três, embora o último dos dez, a se entregar; e assim garantir qualquer mínima possibilidade de perdão que tal conduta merecesse. Mas, quando Steelkilt lhes fez saber sua determinação de liderá-los até o fim, de algum modo os dois, por uma química de sutil vilania, mesclaram todas juntas as suas traições secretas; e, quando o líder pegou no sono, expuseram verbalmente, um ao outro, as suas ideias em três sentenças; amarraram o adormecido com cordas, e o amordaçaram; e chamaram aos gritos o Capitão à meia-noite.
“Pressentindo a iminência de um assassinato, e farejando o sangue no ar escuro, ele e todos os seus companheiros armados e arpoadores avançaram para o castelo de proa. Em alguns minutos a escotilha foi aberta, e, de pés e mãos atados, o líder ainda se debatendo foi empurrado para cima por seus pérfidos aliados, que imediatamente quiseram receber o crédito pela prisão de um homem plenamente disposto ao assassinato. Mas foram os três encoleirados e arrastados pelo convés como reses mortas; e, lado a lado, foram içados ao cordame de mezena, como três quartos de carne, e ali ficaram pendurados até de manhã. ‘Diabos os carreguem!’, gritou o Capitão, andando de um lado para o outro à frente deles, ‘nem os abutres querem vocês, seus canalhas!’

Continua na página 245...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
53 - O Gam / 54 - A História do Town-ho(a) / 54 - A História do Town-ho(b) /      
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

O Sol é para todos: 2ª Parte (30)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

30

— Ele se chama sr. Arthur, querida — corrigiu Atticus com delicadeza. — Jean Louise, esse é o Sr. Arthur Radley. Acho que ele já conhece você.

     Só Atticus para, num momento como aquele, me apresentar a Boo Radley— Atticus era assim mesmo.
     Boo me viu correr instintivamente para a cama onde Jem dormia, pois o mesmo sorriso tímido se insinuou no rosto dele. Vermelha de constrangimento, tentei disfarçar cobrindo Jem. 

— Ah-ah, não mexa nele — disse Atticus.

     O sr. Tate olhava fixamente para Boo com os óculos de aro de tartaruga. Ia dizer alguma coisa, quando ouvimos o dr. Reynolds vindo pelo corredor. 

— Saiam todos — disse, ao chegar à porta. — Boa noite, Arthur, não vi que você estava aí.

     A voz do médico era tão jovial quanto o andar, como se ele tivesse feito aquele cumprimento todas as noites da sua vida, o que me deixou ainda mais perplexa do que estar no mesmo cômodo que Boo Radley. Claro… até Boo Radley às vezes ficava doente, pensei. Mas, por outro lado, não tinha tanta certeza.
     O dr. Reynolds estava carregando um grande pacote enrolado em jornal. Colocou-o sobre a escrivaninha de Jem e tirou o paletó.

— Então, está convencida de que ele está vivo? Vou dizer como eu sabia. Quando fui examiná-lo ele reagiu com um chute. Precisei colocá-lo fora de combate para conseguir tocá-lo. Agora vá — ele disse para mim. 
Ah… — fez Atticus, olhando para Boo. — Heck, vamos para a varanda da frente. Lá tem cadeiras suficientes e ainda está fazendo calor.

     Fiquei pensando por que Atticus tinha nos convidado para ir para a varanda e não para a sala, então entendi: as luzes da sala eram muito fortes.
     Saímos em fila, primeiro o sr. Tate.... Atticus ficou esperando na porta para que passássemos na frente dele, mas mudou de ideia e foi atrás do sr. Tate.
     As pessoas têm a mania de manter as rotinas diárias até nas situações mais estranhas. Eu não era exceção. 

— Venha, sr. Arthur, sei que não conhece bem a casa. Vou levá-lo até a varanda — ouvi eu mesma dizer.

     Ele olhou para mim e concordou com a cabeça.
     Levei-o através do corredor e da sala de visitas. 

— Não quer sentar, sr. Arthur? Esta cadeira de balanço é muito confortável.

     Lembrei da minha pequena fantasia com ele: ele estaria sentado na varanda… “Que dias bonitos tem feito, não, sr. Arthur?” “Sim, muito bonitos.” Sentindo-me um pouco irreal, levei-o para a cadeira mais distante de Atticus e do sr. Tate. Ficava bem no escuro. Boo se sentiria melhor assim.
     Atticus estava sentado no balanço e o sr. Tate numa cadeira ao lado. A luz forte que vinha da janela da sala incidia sobre eles. Sentei-me ao lado de Boo. 

— Bom, Heck — Atticus estava dizendo. — Acho que o melhor a fazer é… Meu Deus, estou perdendo a memória… — Atticus empurrou os óculos para cima e apertou os olhos com as mãos. — Jem ainda não fez treze anos… não, ele já tem treze... Não me lembro. De todo jeito, o caso vai ter que ser apresentado ao tribunal… 
— Que caso, Sr. Finch? — o sr. Tate descruzou as pernas e se inclinou para a frente. 
— É claro que foi legítima defesa, mas tenho de ir ao escritório e procurar… 
— O senhor acha que foi Jem que matou Bob Ewell, sr. Finch? Acha mesmo? 
— Você ouviu o que Scout disse, não há dúvida. Ela disse que Jem se levantou e tirou Ewell de cima dela… Deve ter pego a faca de Ewell no escuro… Bem, saberemos amanhã. 
— Espere um momento, sr. Finch. Jem não esfaqueou Bob Ewell — disse o sr. Tate.

     Atticus ficou em silêncio por um instante. Olhou para o sr. Tate como se gostasse do que tinha ouvido. Mas balançou a cabeça. 

— Heck, é muita gentileza sua, e sei que está falando isso porque tem um bom coração, mas não faça isso.

     O sr. Tate se levantou e foi até a beira da varanda. Cuspiu nos arbustos, pôs as mãos nos bolsos e olhou para Atticus. 

— Não faça o quê? — perguntou o sr. Tate. 
— Desculpe se fui ríspido, Heck, mas esse caso não vai ser abafado. Não sou assim. 
— Ninguém vai abafar nada, sr. Finch.

     O sr. Tate falava calmamente, mas suas botas estavam tão solidamente plantadas nas tábuas da varanda que pareciam ter crescido ali. Havia uma curiosa disputa sendo travada entre meu pai e o xerife cuja natureza eu não conseguia saber. 
     Foi a vez de Atticus levantar-se e ir até a beira da varanda. Pigarreou e deu uma cuspida no jardim. Pôs as mãos nos bolsos e olhou para o sr. Tate. 

— Heck, você não disse nada, mas sei o que está pensando e agradeço. Jean Louise… — ele se virou para mim —, você disse que Jem tirou o sr. Ewell de cima de você? 
— Sim, senhor, foi o que pensei… Eu… 
— Está vendo, Heck? Agradeço do fundo do meu coração, mas não quero que meu filho comece a vida com um peso desses nas costas. O melhor é deixar tudo às claras. Deixar que os moradores do condado venham para assistir e tragam seus sanduíches. Não quero que ele cresça com gente cochichando pelas costas dele: “Jem Finch? O pai pagou uma nota para abafar a história.” Quanto antes acabarmos com isso, melhor. 
— Sr. Finch, Bob Ewell caiu em cima da faca. Ele se matou.

     Atticus foi até o canto da varanda e olhou as glicínias. Cada um a seu modo, pensei, um era tão teimoso quanto o outro. Não dava para saber quem ia entregar os pontos primeiro. A teimosia de Atticus era tranquila e raras vezes evidente, mas de certa maneira ele era tão cabeça-dura quanto os Cunningham. O sr. Tate era menos culto e mais direto, mas era igual ao meu pai. 

— Heck — Atticus estava de costas para nós —, se isso for abafado, vai contradizer tudo o que sempre ensinei a Jem. Às vezes acho que sou um completo fracasso como pai, mas sou tudo o que eles têm. Antes de olhar para qualquer pessoa, Jem olha para mim, e procuro viver de modo que eu possa olhar diretamente para ele… Se eu for conivente com uma coisa dessas, não poderei olhá-lo nos olhos, e no dia em que não puder fazer isso, vou perdê-lo. Não quero perder nem ele nem a Scout, porque eles são tudo o que eu tenho. 
— Sr. Finch — o sr. Tate continuava com os pés plantados no chão da varanda —, Bob Ewell caiu em cima da faca, posso provar.

     Atticus girou nos calcanhares. As mãos se enterraram ainda mais nos bolsos. 

— Heck, pode ao menos tentar ver as coisas do meu ponto de vista? Você também tem filhos, mas sou mais velho. Quando os meus crescerem, serei um homem velho, se é que chegarei lá, mas agora… se eles não confiarem em mim, não vão confiar em ninguém. Jem e Scout sabem o que aconteceu. Se eles souberem que eu disse outra coisa na cidade, Heck, vou perdê-los. Não posso ser uma pessoa na cidade e outra em casa.

     O sr. Tate balançou-se nos calcanhares e disse, paciente: 

— Ele derrubou Jem, tropeçou na raiz da árvore e veja… posso mostrar.

     O sr. Tate procurou no bolso do paletó e tirou um longo canivete. Nesse momento, o dr. Reynolds apareceu na porta. 

— O filho da… O morto está embaixo daquela árvore, doutor, no pátio da escola. Tem uma lanterna? Se não tem, é melhor levar esta. 
— Posso ir de carro e ligar os faróis — disse o dr. Reynolds, mas pegou a lanterna do sr. Tate. — Jem está bem, vai dormir até amanhã, acredito, portanto, não se preocupem. Foi essa faca que o matou, Heck? 
— Não, senhor, a faca ainda está enfiada nele. Pelo cabo, parece faca de cozinha. Ken deve estar chegando lá com o rabecão, doutor. Boa noite.

     O sr. Tate abriu o canivete e disse: 

— Foi assim.

     Ele empunhou o canivete e fingiu tropeçar; quando caiu, o braço esquerdo ficou na frente dele. 

— Está vendo? Ele se apunhalou e a faca entrou no espaço entre as costelas. O peso dele enterrou a faca no corpo.

     O sr. Tate fechou o canivete e guardou-o no bolso outra vez. 

— Scout tem oito anos, estava muito assustada para saber o que aconteceu exatamente — ele concluiu. 
— Você ficaria surpreso — disse Atticus, entredentes. 
— Não estou dizendo que ela inventou, só que estava assustada demais para saber o que aconteceu exatamente. Estava escuro como breu. Precisava ser alguém muito acostumado com o escuro para ser uma boa testemunha… 
— Não estou convencido — disse Atticus baixinho. 
Pelo amor de Deus, não estou pensando em Jem!

     O sr. Tate bateu com tanta força as botas no chão que as luzes do quarto da srta. Maudie se acenderam. As da srta. Stephanie Crawford também. Atticus e o sr. Tate olharam para o outro lado da rua, depois se entreolharam. Esperaram.
     Quando o sr. Tate voltou a falar, mal dava para ouvir a voz dele. 

— Sr. Finch, não gosto de discutir com o senhor no estado em que se encontra agora. Nenhum homem deveria passar pela tensão pela qual o senhor passou esta noite. Não sei como ainda não está de cama, mas sei que pela primeira vez não está conseguindo juntar dois mais dois e temos de resolver isso agora, porque amanhã será tarde demais. Bob Ewell tem uma faca de cozinha enfiada na barriga.

     O sr. Tate disse ainda que papai não ia insistir que um garoto do tamanho de Jem, com um braço quebrado, teria força para atacar e matar um homem adulto, na escuridão total. 

— Heck, você mostrou um canivete. Onde arrumou? — perguntou Atticus. 
— Tirei de um bêbado — respondeu o sr. Tate, calmo.

     Tentei me lembrar: o sr. Ewell estava em cima de mim… Ele caiu… Jem deve ter se levantado. Pelo menos foi o que pensei… 

— Heck? 
— Eu disse que peguei de um bêbado na cidade esta noite. Ewell deve ter encontrado aquela faca no lixão. Pegou e esperou uma oportunidade… só isso.

     Atticus foi até o balanço e sentou-se. As mãos ficaram caídas no meio das pernas. Olhava para o chão. Mexia-se com a mesma lentidão daquela noite na frente da cadeia, quando achei que ele levou uma eternidade para dobrar o jornal e colocá-lo na cadeira.
     O sr. Tate continuava andando pesado pela varanda. 

— A decisão não é sua, Finch, é minha. A decisão e a responsabilidade são minhas. Pela primeira vez, se não conseguir ver as coisas como eu, não poderá fazer nada. Se tentar, vou chamá-lo de mentiroso na sua cara. Seu filho não esfaqueou Bob Ewell — disse, devagar. — Longe disso, e agora o senhor sabe. Ele só queria chegar em casa em segurança com a irmã.

     O sr. Tate parou de andar. Ficou de frente para Atticus e de costas para nós. 

— Posso não ser o melhor dos homens, mas sou o xerife do condado de Maycomb. Moro aqui desde que nasci e já vou fazer quarenta e três anos. Sei de tudo que aconteceu aqui desde antes de eu nascer. Um rapaz negro foi morto sem motivo e o responsável por isso também está morto. Vamos deixar os mortos enterrarem os mortos desta vez, sr. Finch. Vamos deixar os mortos enterrarem os mortos.

     O sr. Tate foi até o balanço e pegou o chapéu que estava ao lado de Atticus. Puxou os cabelos para trás e pôs o chapéu na cabeça. 

— Não sabia que era contra a lei alguém fazer todo o possível para evitar que um crime seja cometido, e foi exatamente isso que ele fez. Talvez o senhor ache que tenho a obrigação de contar tudo para a cidade inteira e não abafar nada. Sabe o que vai acontecer então? Todas as senhoras da cidade, inclusive a minha mulher, vão bater na porta dele levando bolos. Eu acho, sr. Finch, que colocar holofotes sobre um homem tímido e recluso que prestou um grande serviço ao senhor e à cidade… é um erro. E não quero ter esse erro na minha consciência. Se fosse outro homem, seria diferente. Mas não esse, sr. Finch.

     O sr. Tate tentava cavar um buraco no piso com o salto da bota. Passou a mão no nariz depois massageou o braço esquerdo. 

— Posso não ser grande coisa, sr. Finch, mas continuo sendo o xerife do condado de Maycomb e Bob Ewell caiu em cima da faca. Boa noite, senhor.

     O sr. Tate saiu pisando forte pela varanda e atravessou o jardim. Bateu a porta do carro e foi embora.
     Atticus ficou olhando para o chão por um bom tempo. Finalmente, levantou a cabeça. 

— Scout, o sr. Ewell caiu em cima da faca, consegue entender isso? — perguntou.

     Tive a impressão de que Atticus precisava de ânimo. Fui até ele, e o abracei e o beijei com força. 

— Consigo, sim. O sr. Tate está certo — garanti.

     Atticus desvencilhou-se do abraço e me encarou. 

— O que você quer dizer com isso? 
— Bom, seria como matar um rouxinol, não?

     Atticus enfiou o rosto nos meus cabelos e acariciou-os. Quando se levantou e foi até a parte escura da varanda, seus passos joviais tinham voltado. Antes de entrar em casa, parou na frente de Boo Radley. 

— Obrigado pelo que fez pelos meus filhos, Arthur — disse.

continua página 197...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) / O Sol é para todos: 2ª Parte (30)   
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.