sábado, 3 de outubro de 2026

Cinema: Jango

Como, quando e por que se derruba um presidente...

Lançamento em 1984

     Vinte anos depois do golpe de 1964, o documentário Jango refaz a trajetória política do presidente João Goulart, deposto nas primeiras horas do dia primeiro de abril daquele ano por uma junta militar. A partir de uma extensa pesquisa de arquivo que incorpora cinejornais da época, fotografias e manchetes de jornais, a obra percorre desde o início da carreira de João Goulart, passando pelos governos Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, até a sua morte, doze anos depois de ter deixado o país rumo ao exílio no Uruguai.
     O filme examina a luta ideológica que foi travada durante o governo Jango, onde a máquina de propaganda de setores da direita fez de Cuba, modelo para a esquerda, um pretexto para radicalizar do debate público, vendo em qualquer medida um sinal de comunização. Jango remonta a escalada de tensão de um governo marcado por forte oposição das classes dominantes, que levou a crises sucessivas desde os primeiros instantes após da renúncia de Jânio Quadros. Através de depoimentos e textos em off, o filme relembra fatos decisivos, como o Comício da Central do Brasil, as marchas pedindo sua deposição, a revolta dos marinheiros e fuzileiros navais, os últimos dias do governo, primeiros instantes após o golpe e as tentativas de resistência ao golpe, avançando até a consolidação do governo Castello Branco.
     Prêmio Especial do Júri, Melhor Filme do Júri Popular e Melhor Trilha Sonora do Festival de Gramado (1984). Prêmio Especial do Júri, Festival de Havana (1984). Festival Internacional Del Nuevo Cine Latinoamericano de Cuba (1984), Prêmio especial do júri. Troféu Margarida de Prata – C.N.B.B. (1984). Bilheteria: 1 milhão de espectadores.





Direção: 
Silvio Tendler

Roteiro: 
Silvio Tendler
Maurício Dias

Elenco:
José Wilker (narrador)
João Goulart (imagens de arquivo)
Juscelino Kubitschek (imagens de arquivo)
Leonel Brizola
Frei Betto
Magalhães Pinto
Tancredo Neves (imagens de arquivo)
Jânio Quadros (imagens de arquivo)

Agradecimentos Especiais: Caetano Veloso / Eduardo Chuahy
Musicas Cedida Pela EMI – ODEON: Menino (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), Trem Mineiro (Wagner Tiso)
Musicas Cedida pela POLYGRAM: Enquanto seu lobo nao vem (Caetano Veloso) – Temas Musicais de Milton Nascimento, Abertura: Tema de Che Guevara (Versão de San Vicente) Tema FInal – Músicos de Milton Nascimento: Paulinho Carvalho/ Neném / Marcos Viana / Paulinho Santos / Tulio Mourao / Sergio Alves – Temas Musicais de Wagner Tiso: Noites Moscou ( tema Original de Soloviev e Sedoy) – O Encouraçado PotemKim ( Tema Original de Dmitri Shostakovich)
Músicos de Wagner Tiso: Ari Sperling / Andre Sperling / Mauro Senize

A edição foi conduzida por Francisco Sérgio Moreira e os produtores associados foram Denise Goulart (filha do ex-presidente) e Hélio Paulo Ferraz.


Coração de Estudante

     A melodia da canção foi originalmente composta por Wagner Tiso em 1983 como um tema instrumental para a trilha sonora do documentário Jango, dirigido por Silvio Tendler, que narra a vida de João Goulart, presidente deposto pelo golpe militar de 1964. 
     Após assistir a algumas cenas do documentário, Milton Nascimento se emocionou com o tema de Tiso e, em um momento raro de sua carreira onde não costumava ser o letrista, decidiu adicionar versos à melodia. A letra, permeada por metáforas de esperança ("há que se cuidar do broto / pra que a vida nos dê flor e fruto") e denúncia ("já podaram seus momentos / desviaram seu destino"), foi inspirada na luta e nas mortes de estudantes durante o regime militar, com menção específica a Edson Luís de Lima Souto, morto em 1968. O título da canção faz referência ao nome de uma flor popular em Minas Gerais, terra natal dos compositores.
     Coração de Estudante foi gravada no álbum Milton Nascimento Ao Vivo e rapidamente se tornou um hino não-oficial do movimento pró-democracia Diretas Já, sendo considerada uma das obras mais emblemáticas da música brasileira na fase final da Ditadura Militar.


Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar

Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor

Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu

Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor
Flor e fruto

Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade

Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, planta e sentimento
Folhas, coração, juventude e fé


Milton Nascimento / Show TV Cultura 1983 - Coração De Estudante




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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:


O Estudante Que a Ditadura Matou a Tiro (E o Brasil Nunca Esqueceu)

Em 28 de março de 1968, um estudante de 18 anos foi morto a tiro por um policial dentro de um restaurante popular no Rio de Janeiro. O nome dele era Edson Luís de Lima Souto — e sua morte mudou o rumo da ditadura militar no Brasil.



Enterro Edson Luís de Lima Souto, 29 de Março de 1968




O assassinato do estudante Edson Luís, pela Ditadura Cívico-Militar de 1964, completou 58 anos.




Marcel Proust - A Prisioneira (Para retornar às realidades)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Para retornar às realidades mais genéricas, foi dessa morte prevista e contudo inesperada de Swann que ouvira o próprio Brichot falar à duquesa de Guermantes, na noite da festa na casa da prima desta. Era a mesma morte cuja estranheza específica e impressionante me afastara na noite em que eu folheara o jornal e a notícia me fizera estacar de súbito, como se traçada em misteriosas linhas inoportunamente intercaladas. Haviam bastado para fazer de um vivo alguém que já não pode responder ao que lhe dizem, um nome, um nome escrito, repentinamente passado do mundo real para o reino do silêncio. Eram elas que me davam ainda neste momento o desejo de conhecer melhor a residência onde outrora haviam morado os Verdurin e onde Swann, que então não era apenas algumas letras impressas no jornal, jantara tantas vezes com Odette. É preciso acrescentar igualmente (e isto me tornou, por muito tempo ainda, mais dolorosa do que qualquer outra a morte de Swann, embora esses motivos não se relacionassem com a estranheza individual de sua morte) que eu não fora visitar Gilberte como lhe havia prometido na casa da princesa de Guermantes; que ele, Swann, não me havia exposto aquela "outra razão" a que aludira nessa noite, para a qual me escolhera como confidente de sua conversa com o príncipe, que mil perguntas me vinham à cabeça (como bolhas que sobem do fundo da água) e que eu desejaria fazer-lhe a respeito dos mais diversos assuntos: sobre Vermeer, sobre o Sr. de Mouchy, sobre ele mesmo, sobre uma tapeçaria de Boucher, sobre Combray, perguntas - é claro de pouca urgência, visto que as adiara dia após dia, mas que me pareciam capitais desde que, estando selados os seus lábios, a resposta já não viria. 
     A morte dos outros é como uma viagem que nós próprios faríamos e durante a qual recordamos, a cem quilômetros de Paris, ter esquecido de duas dúzias de lenços, de deixar uma chave para a cozinheira, de nos despedirmos do tio, de perguntar o nome da cidade onde se acha a fonte antiga que desejamos ver. Enquanto estes esquecimentos que nos acossam e que narramos em voz alta, por pura formalidade, ao amigo que viaja conosco, têm por única resposta o começo da aceitação do banco estofado, o nome da estação gritado pelo chefe do trem só faz afastar-nos ainda mais das realizações dali em diante impossíveis, de maneira que, desistindo de pensar nas coisas irremediavelmente olvidadas, desfazemos o embrulho das comidas e permutamos jornais e revistas.

- Mas não - replicou Brichot-, não era aqui que Swann se encontrava com sua futura mulher; ou, pelo menos, só foi aqui nos últimos tempos, depois do sinistro que destruiu parcialmente a primeira residência da Sra. Verdurin.

     Infelizmente, com receio de ostentar aos olhos de Brichot um luxo que me parecia deslocado, visto que o universitário não tomava parte nele, eu havia descido com muita precipitação do carro, e o cocheiro não compreendera o que lhe recomendara às pressas para ter tempo de me afastar antes que Brichot me avistasse. O resultado foi que o cocheiro veio ao nosso encontro e perguntou se devia voltar para me apanhar; disse-lhe rapidamente que sim e redobrei de respeito para com o universitário, que chegara de ônibus. 

- Ah, o senhor está de carro - disse-me ele em tom grave. - Meu Deus, pelo maior dos acasos; isto não acontece nunca, sempre ando de ônibus ou a pé. Porém, desse modo talvez tenha a grande honra de levá-lo até em casa esta noite, se o senhor consentir em me acompanhar nesse calhambeque; ficaremos um pouco apertados. Mas o senhor é tão bondoso comigo. -

     Ai de mim; propondo-lhe aquilo não me privo de nada, pensei, visto que serei obrigado da mesma forma a regressar por causa de Albertine. Sua presença em minha casa, numa hora em que ninguém podia visitá-la, permitia-me dispor tão livremente de meu tempo como de tarde, quando sabia que ela ia voltar do Trocadero e eu não tinha pressa em revê-la. Mas afinal, também como de tarde, sentia eu que tinha uma mulher e que, voltando para casa, não conheceria a exaltação revigorante da solidão. 

- Aceito de coração - respondeu Brichot. - Na época a que o senhor alude, aos nossos amigos moravam na rua Montalivet, num magnífico andar térreo com água furtada dando para um jardim, menos suntuoso, é claro, e que no entanto prefiro ao palacete da Embaixada de Veneza. -

     Brichot contou-me que naquela noite havia o "cais Conti" (era assim que os fiéis denominavam o salão Verdurin desde que, se mudara para lá), um grande "tra-la-lá" musical, organizado pelo Sr. de Charly, - Acrescentou que, no tempo antigo de que eu falava, o pequeno núcleo era outro; o tom bem diferente, não só porque os fiéis eram muito jovens. Contou-me as farsas de Elstir (o que denominava "puras patacoadas"), como num dia em que este, tendo fingido que roera a corda, viera disfarçado de mordomo extra e, enquanto passava os pratos, dissera graçolas ao ouvido da muito pudica baronesa Putbus vermelha de espanto e raiva; depois, desaparecendo antes do fim do jantar, mandara trazer ao salão uma banheira cheia d'água, de onde, quando saíam todos da mesa, emergira completamente nu soltando palavrões; e também das ceias onde todos apareciam em roupas de papel, desenhadas, cortadas e pintadas por Elstir que eram obras-primas, tendo Brichot certa ocasião vestido a de um grande fidalgo da corte de Carlos VII, com sapatos de bico revirado, e, de outra vez, a de Napoleão, para a qual Elstir havia feito a grande insígnia da Legião de Honra com lacre. Em suma, recordando Brichot o salão de outrora, com seus janelões, seus canteiros baixos comidos pelo sol do meio-dia e que fora preciso substituir, declarava preferi-lo ao de hoje. Por certo, eu bem compreendia que, por "salão", Brichot queria dizer-como o vocábulo "igreja" não indica apenas o edifício religioso mas a comunidade de fiéis não apenas a água-furtada, mas as pessoas que a frequentavam em busca de prazeres especiais que vinham procurar ali e aos quais, em sua memória, tinham dado sua forma aqueles canapés, em que, quando vinham visitar a Sra. Verdurin de tarde, esperavam que ela se aprontasse, enquanto as flores róseas dos castanheiros, lá fora, e os cravos nos vasos sobre a lareira pareciam, num pensamento de graciosa simpatia pelo visitante, traduzido nas risonhas boas-vindas de suas cores rosadas, mirar fixamente a chegada tardia da dona da casa. Mas se este "salão" lhe parecia superior ao atual, era talvez porque o nosso espírito é o velho Proteu, não pode permanecer escravo de nenhuma forma e, mesmo no terreno mundano, desprende-se subitamente de um salão, que chegou lenta e dificilmente a seu ponto de perfeição, para preferir um salão menos brilhante, assim como as fotografias "retocadas" que Odette mandara fazer no fotógrafo Otto, nas quais estava elegantíssima em seu rico vestido de princesa e ondulada por Lenthéric, não agradavam tanto a Swann quanto um cartãozinho postal de Nice, onde, numa capelinha de pano modesto, os cabelos mal toucados saindo para fora de um chapéu de palha bordado de amores-perfeitos e com um laço de veludo negro (pois as mulheres em geral parecem mais velhas quanto mais antigas forem as fotografias), vinte anos mais moça em elegância, parecia uma criadinha vinte anos mais velha. Talvez Brichot também tivesse a satisfação de me gabar aquilo que eu não havia conhecido, em mostrar-me que desfrutara de prazeres que eu não poderia ter. Conseguia-o, aliás, pois, citando apenas os nomes de duas ou três pessoas que já não existiam e a cujo encanto atribuía algo de misterioso por sua maneira de falar delas e dessas intimidades deliciosas, eu indagava a mim mesmo sobre o que ele poderia ter sido, sentia que tudo aquilo que me haviam contado acerca dos Verdurin era excessivamente grosseiro; e até Swann, que eu conhecera, censurava-me por não ter prestado atenção nele, de não lhe ter prestado atenção com suficiente desinteresse, de não o ter escutado bem quando, à espera de que sua mulher regressasse para o almoço, ele me recebia e me mostrava belas coisas, agora que eu sabia que ele era comparável aos melhores conversadores de antigamente.
     No momento de chegar à casa da Sra. Verdurin, avistei o Sr. de Charlus que vinha navegando em direção a nós com seu corpo enorme, arrastando atrás, sem querer, um desses apaches ou mendigos que agora a sua passagem fazia infalivelmente surgir até mesmo dos cantos aparentemente mais desertos, e dos quais aquele monstro poderoso era escoltado bem contra sua vontade, embora a certa distância, como o tubarão pelo peixe piloto, afinal, contrastando de tal modo com o forasteiro altivo do primeiro ano em Balbec, de aspecto severo e com sua afetação de virilidade, que me pareceu descobrir, acompanhado de seu satélite, um astro num período totalmente diverso de sua revolução e que agora se começa a ver em sua fase cheia; ou um enfermo invadido agora pelo mal que, anos antes, não passava de uma leve borbulha que ele facilmente dissimulava e de cuja gravidade ninguém suspeitava. Embora uma operação que Brichot sofrera lhe houvesse restituído um pouquinho da visão que para sempre tinha perdido, não sei se perceberei, o vagabundo que seguia o barão. Aliás, pouco importava, pois desde La Raspelier e apesar da amizade que o universitário tinha por ele, a presença do Sr. de Charlus lhe dava um certo mal-estar. Sem dúvida para cada homem a vida de outrem prolonga na escuridão caminhos de que não se tem qualquer ideia. A mentira, contudo; tantas vezes enganadora, e pasto de todas as conversas, esconde menos perfeitamente um sentimento de inimizade ou de interesse, ou uma visita que desejamos, dar a impressão que não foi feita, ou uma escapada com uma amante de um dia queremos ocultar à nossa mulher - do que uma boa reputação o segredo dos maus costumes de que ninguém desconfia. Esses maus costumes podem ficar ignorados a vida inteira; revela-os o súbito acaso de um encontro à noite, num cais; mas esse acaso é muitas vezes mal compreendido e é preciso que um terceiro, já, conhecedor do segredo, forneça-nos o seu sentido oculto, que todos ignoram. Porém uma vez conhecidos, eles impressionam, pois percebemos que raiam pela loucura muito mais do que por serem imorais. A Sra. de Surgis não possuía um sentimento moral muito desenvolvido e teria admitido qualquer comportamento; de seus filhos desde que aviltado e explicado pelo interesse, o que é compreensível em todos os homens. Mas proibiu-lhes que continuassem a frequentar o Sr. de Charlus quando soube que, por uma espécie de relógio de repetição, o barão era fatalmente levado, em cada visita, a beliscar-lhes o queixo e a fazer com que ambos, se beliscassem um ao outro. Experimentou aquela sensação de inquietude do mistério físico, que faz com que nos indaguemos se o vizinho, com quem tem boas relações, não estará atacado de antropofagia; e às repetidas perguntas ao barão: 

- Quando é que verei de novo os rapazes? - respondeu, sabendo os furores que acumularia contra a sua pessoa, que eles estavam ocupados com os estudos, os preparativos de uma viagem, etc. A irresponsabilidade agrava as culpas e até os crimes, digam o que disserem. Landru (supondo que ele tenha de fato matado as mulheres), se o fez por interesse, coisa a que se pode resistir, pode ser perdoado; mas não se o fez por um sadismo irresistível.

[Henri Désiré Landru (1869-1922) foi preso e acusado da morte de dez mulheres, a quem teria proposto casamento, e que nunca mais foram vistas. Condenado, sofreu pena de morte na guilhotina sem jamais ter confessado os crimes (1920). Dos episódios da vida real mencionados na Em Busca do Tempo Perdido, este é o de data recente. (N. do T)]

     Os pesados gracejos de Brichot, no começo de sua amizade com o barão, tinham dado lugar, quando já não se tratava de dizer lugares-comuns mas de compreender, a um sentimento desagradável que encobria o contentamento. Ele sossegava recitando páginas de Platão, versos de Virgílio, porque, igualmente cego de espírito, não compreendia que então amar um rapaz era como hoje (os gracejos de Sócrates revelam-no melhor do que as teriam de Platão) sustentar uma dançarina e depois arranjar um bom casamento. O próprio Sr. de Charlus mal o teria entendido, ele que confundia a sua mania com a amizade, que não se lhe parece a coisa alguma, e os atletas de Praxíteles com dóceis pugilistas. Não queria ver que há mil e novecentos anos ("um cortesão devoto sob um príncipe devoto teria sido ateu sob um príncipe ateu", disse La Bruyere) todo o homossexualismo de costume e dos rapazes de Platão como o dos pastores de Virgílio desaparecera, que sobrenada e se multiplica apenas o involuntário, o nervoso, o que se oculta aos outros e se disfarça aos próprios olhos. E o Sr. de Charlus teria errado em não renegar francamente a genealogia pagã. Em troca de um pouco de beleza plástica, quanta superioridade moral! O pastor de Teócrito que suspira por um rapaz, mais tarde não terá motivo algum para ser menos duro de coração e mais fino de espírito que o outro pastor, cuja flauta ressoa por Amarílis. Pois o primeiro não é atacado por um mal, apenas obedece à moda de seu tempo. É o homossexualismo sobrevivente, apesar dos obstáculos, vergonhoso, desonrado, o único verdadeiro, o único a poder corresponder, num mesmo indivíduo, um refinamento das qualidades morais. Assusta-nos a relação que o físico possa ter com estas quando se pensa na pequena aberração de gosto puramente físico, na ligeira tara de um sentido, que explicam por que o universo dos poetas e dos músicos, tão fechado ao duque de Guermantes, entreabre-se para o Sr. de Charlus.
     Que este demonstre gosto no arranjo de sua residência, como uma dona de casa colecionadora de bibelôs, não é coisa que surpreenda; mas a estreita fenda que abre para Beethoven e Veronese! Nem por isso, no entanto, as pessoas sãs de espírito deixam de ter medo quando um louco, que fez um poema sublime, depois de lhes explicar pelos motivos mais justos que está internado por engano, pela maldade de sua mulher, pede que intervenham junto ao diretor do asilo, queixando-se das promiscuidades que lhe impõem, concluindo assim: 

- Olhem, este que virá falar-me no pátio, cujo contato sou obrigado a suportar, acredita ser Jesus Cristo. Ora, isto é o bastante para me provar com que espécie de alienados me prendem; ele não pode ser Jesus Cristo, pois Jesus Cristo sou eu! -

     Um momento antes, estavam prontos para denunciar o erro ao médico alienista. Diante dessas últimas palavras, e mesmo levando em conta o admirável poema em que esse homem trabalha todos os dias, as pessoas se afastam, como os filhos da Sra. de Surgis se afastavam do Sr. de Charlus, não que este lhes tenha feito algum mal, mas devido ao luxo de convites dos quais a finalidade era lhes beliscar os queixos. É de lamentar que o poeta, que não dispõe de nenhum Virgílio para guiá-lo, precise atravessar os círculos de um inferno de pez e de enxofre, de se lançar a um fogo que desce do céu, para dali trazer alguns habitantes de Sodoma. Nenhum encanto em sua obra; a mesma severidade na sua vida que na daqueles que seguem a regra do mais casto celibato para que não possam atribuir o terem largado a batina a outra coisa que não a perda da fé. Todavia, não ocorre sempre do mesmo modo com esses escritores. Qual o médico de loucos que não terá tido, à força de assisti-los, sua crise de loucura? Feliz ainda se pode afirmar que não se trata de uma loucura anterior e latente que o tivesse feito dedicar se a eles. O objeto de seus estudos, um psiquiatra, muitas vezes age de novo sobre ele. Mas antes disso, esse objeta, que obscura inclinação, que terror fascinante o fizera escolhê-lo?
     Fingindo não ver o indivíduo suspeito que ajustava seus passos pelos dele (quando o barão se aventurava pelos bulevares ou atravessava a sala de espera da estação de Saint-Lazare, semelhantes seguidores se contavam por dúzias que, na esperança de ganhar dinheiro, não o largavam) e com receio de que, o outro se animasse a dirigir-lhe a palavra, o barão baixava em devotamento os cílios enegrecidos que, contrastando com as faces cobertas de pó-de-arroz, faziam-no parecer-se a um grande inquisidor pintado por El Greco. Mas tal padre causava medo e se assemelhava a um padre suspenso das ordens, pois os diversos expedientes a que tivera de recorrer por necessidade, a fim de satisfazer o seu vício e proteger seu segredo, tinham tido por efeito trazer à superfície do rosto precisamente aquilo que o barão tentava ocultar, uma vida crapulosa atestada pela decadência moral. De fato, seja qual for a sua causa, facilmente se lê, pois não demora a materializar-se, a proliferar sobre um rosto, especialmente nas faces e ao redor dos olhos, tão fisicamente quanto o amarelo ocre numa pessoa que sofre do fígado ou os vermelhos repugnantes de uma doença de pele. Aliás, não era apenas nas faces, ou melhor nas bochechas desse rosto pintado, no peito de mamas salientes, nas nádegas proeminentes desse corpo entregue à indolência e invadido pela gordura, que sobrenadava agora, espalhado como óleo, o vício outrora tão intimamente resguardado pelo Sr. de Charlus no ponto mais secreto de si mesmo. Transbordava agora de suas frases. 

- Quer dizer, Brichot, que você anda passeando à noite com um belo rapaz? - disse aos abordar nos, enquanto que o tal tipo, desapontado, afastava-se - Muito bonito. Vou dizer aos seus alunozinhos da Sorbonne que você não é tão sério assim. Aliás, a companhia da juventude lhe faz bem, senhor professor, deixa-o fresco feito uma rosinha. E você, meu caro, como vai?- disse-me ele, abandonando seu tom de gracejo. - Não é visto muitas vezes no cais Conti, bela juventude. Pois bem, e sua prima, como está? Não veio com você. Lamentamos, pois é encantadora. Poderemos vê-la esta noite? Oh, ela é bem bonita. E o seria mais ainda se cultivasse amiúde a arte, tão rara, que possui naturalmente, de bem vestir-se. - 

     Aqui devo dizer que o Sr. de Charlus "possuía", o que o tornava o exato oposto, o antípoda de mim, o dom de observar minuciosamente, de distinguir os detalhes tanto de vestido como de uma tela. Quanto aos vestidos e chapéus, certas más línguas determinados teóricos radicais dirão que, num homem, a inclinação pelos atrativos masculinos tem por compensação o gosto inato, o estudo e a ciência da total feminina. E com efeito, isso ocorre às vezes, como se os homens, tendo açambarcado todo o desejo físico, toda a profunda ternura de um Charlus, o outro sexo em troca se achasse gratificado com tudo o que fosse gosto "platônico" (adjetivo bastante impróprio), ou tout court, de tudo que fosse gosto, com os mais sábios e seguros requintes. Sob tal aspecto, o Sr. de Charlus teria merecido a alcunha que lhe deram mais tarde, "a Costureira". Mas seu gosto e espírito de observação se estendiam a muitas outras coisas. Na noite em que fui vê-lo depois de um jantar na casa da duquesa de Guermantes, vimos que eu só percebera as obras-primas que ele possuía em casa à medida que ele as ia mostrando a mim. Reconhecia de imediato aquilo a que pessoa alguma jamais prestara atenção, e isso tanto nas obras de arte como nas iguarias de um jantar (e da pintura à cozinha todo o meio-termo ficava compreendido).
     Sempre lamentei que o Sr. de Charlus, em vez de limitar seus dons artísticos à pintura de um leque oferecido de presente à cunhada (vimos a duquesa de Guermantes segurando-o na mão e abrindo o, menos para se abanar do que para gabar-se, fazendo ostentação da amizade de Palamede) e ao aperfeiçoamento de sua execução pianística a fim de acompanhar sem erros o desempenho do violino de Morel, repito, sempre lamentei, e lamento ainda, que o Sr. de Charlus nunca tenha escrito coisa alguma.
     É claro que não posso extrair da eloqüência de sua conversação e até de sua correspondência a conclusão de que ele teria sido um escritor de talento. Esses méritos não cabem no mesmo plano. Temos visto obras primas escritas por enfadonhos alinhadores de banalidades, e reis da conversação mostrarem-se inferiores ao mais medíocre quando tentam escrever. Apesar disso, creio que o Sr. de Charlus teria experimentado a prosa, e, para começar com aqueles temas artísticos que ele conhecia bem, o fogo teria irrompido, o clarão brilharia, e o homem mundano se tornaria um senhor escritor. Disse lhe isto várias vezes, e ele jamais quis tentar, talvez apenas por preguiça ou devido ao tempo ocupado com festas brilhantes e divertimentos sórdidos, ou uma necessidade própria de Guermantes de prolongar indefinidamente os falatórios. Tanto mais o lamento porque, em sua mais brilhante conversa, o espírito nunca se separava do temperamento, os achados de um da insolência do outro. Se tivesse escrito livros, em vez de detestá-lo mesmo admirando-o como se fazia num salão onde, em seus mais curiosos instantes de inteligência, ele ao mesmo tempo espezinhava as fábulas, vingava-se de quem não o insultara, procurava de maneira vil fazer que amigos brigassem se tivesse escrito livros, teriam todos avaliado isoladamente o seu valor espiritual, decantado do mal; nada teria perturbado a admiração e muitos aspectos despertariam a amizade.
     Em todo caso, mesmo que eu me engane sobre o que ele teria podido realizar na menor página, teria ele prestado um raro serviço escrevendo, pois, se distinguia tudo, de tudo o que ele distinguia conhecia o nome. Certamente, conversando com ele, se não aprendi a ver (meu espírito e meu sentimento tinham tendência a estar alhures), pelo menos vi coisas que, sem ele, teriam-me ficado despercebidas, porém o nome delas, que me teria auxiliado a reencontrar o seu desenho, suas cores, esse nome eu sempre esqueci bem depressa. Se tivesse escrito livros ainda que ruins; e não creio que o fossem -, que delicioso dicionário, que repertório inesgotável! Afinal de contas, quem sabe? Em vez de pôr no livro todo o conhecimento e seu gosto, talvez devido a esse demônio que muitas vezes contraria o nosso destino, ele houvesse escrito folhetins desenxabidos, inúteis narrativas de viagens e de aventuras.

- Sim, ela sabe se vestir ou, mas exatamente, enfeitar-se - continuou o Sr. de Charlus a propósito de Albertine. - Minha única dúvida é se ela se arruma em conformidade com sua beleza particular, e eu talvez seja um tanto responsável por isso, por causa dos conselhos não muito ponderados que lhe dei. O que muitas vezes lhe disse ao ir à Raspeliere e que era antes ditado talvez - e disso me arrependo pela natureza da região e pela proximidade das praias do que pelo caráter individual de tipo da sua prima, fê-la acentuar um pouco demais o gênero leve. Reconheço que a vi usar lindas tarlatanas, encantadoras écharpes de gaze, uma determinada touca cor-de-rosa onde uma pequena pluma rósea não fazia má figura. Mas acho que sua beleza, que é real e maciça, exige mais do que belos enfeites. Conviria a touca a essa cabeleira enorme que um kakochnyk (penteado em diadema das mulheres russas) não faria mais que ressaltar? Há poucas mulheres a quem convenham os vestidos antigos que dão um aspecto de fantasia de teatro. Mas a beleza dessa moça, já mulher, abre uma exceção e mereceria um vestido antigo de veludo de Gênova (logo pensei em Elstir - e nos vestidos de Fortuny) que eu não recearia tornar mais pesado ainda com incrustações ou pingentes de maravilhosas pedras desusadas (é o mais belo elogio que se pode fazer a tal respeito) como a olivina, a marcassita e a incomparável labradorita. Aliás, ela mesma parece possuir o instinto do contrapeso, que exige uma beleza um tanto pesada. Lembre-se, para ir jantar na Raspeliere, de todo esse acompanhamento de belos estojos, de bolsas pesadas, nos quais, quando se caso ela poderá colocar mais do que a brancura do pó-de-arroz ou o carmim da pintura do rosto, mas num cofrezinho de lápis-lazúli não muito cor de anil; também pérolas e rubis não reconstituídos, creio, pois ela pode fazer um casamento rico.
- Ora, ora, barão - interrompeu Brichot, temendo que eu me aborrecesse com essas últimas palavras, pois tinha dúvidas sobre a pureza de minhas relações e a autenticidade do parentesco de Albertine comigo -, aí está como você se ocupa com as senhoritas!
- Faça o favor de se calar diante deste menino, língua viperina - troçou o Sr. de Charlus abaixando, num gesto para impor silêncio a Brichot, a mão que não deixou de apoiar em meu ombro.- Incomodei-os; vocês pareciam divertir-se como duas louquinhas e não precisavam de uma velha vovó desmancha-prazeres como eu. Não irei confessar-me por causa disso, pois vocês já estavam quase chegando. - 

     O barão estava de muito bom humor, tanto mais que ignorava completamente a cena da tarde, pois Jupien julgara mais útil proteger a sobrinha contra nova ofensiva de Morel do que ir prevenir o Sr. de Charlus. Assim, este sempre acreditava no casamento e se regozijava com isso. Dir-se-ia que é um consolo, para esses grandes solitários, conferir a seu trágico celibato o alívio de uma paternidade fictícia. 

- Mas palavra de honra, Brichot - acrescentou ele, voltando-se a rir para nós -, que tenho escrúpulos em vê-lo em tão galante companhia. Vocês pareciam dois namorados. De braços dados, que liberdades são essas, hem Brichot? -

continua na página 79...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Para retornar às realidades)
Volume 6

Augusto dos Anjos - Mater 0riginalis

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Mater 0riginalis

Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mísera e mofina,
Como quasi impalpavel gelatina,
Nos estados prodrómicos da vida;

O hierophante que leu a minha sina
Ignorante é de que és, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

Nenhuma ignota união ou nenhum nexo
A' contingência orgânica do sexo
A tua estacionaria alma prendeu.

Ah! de ti foi que, autônoma e sem normas,
Oh! Mãe original das outras fôrmas,
A minha fôrma lugubre nasceu!


O Lupanar 

Ah! Porque monstruosissimo motivo 
Prenderam para sempre, nesta rede, 
Dentro do angulo diédro da parede, 
A alma do homem polygamo e lascivo?! 

Este logar, moços do mundo, vede: 
E' o grande bebedouro collectivo, 
Onde os bandalhos, como um gado vivo, 
Todas as noites, vêm matar a sede! 

E' o aphrodistico leito do hetaírismo, 
A antecámara lúbrica do abysmo, 
Em que é mister que o gênero humano entre, 

Quando a promiscuidade aterradora 
Matar a ultima força geradora 
E comer o ultimo óvulo do ventre.


Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! 
O amor na Humanidade é uma mentira. 
E' E é por isto que na minha lyra 
De amores futeis poucas vezes falo. 

O amor! Quando virei por fim a amal-o?! 
Quando, si o amor que a Humanidade inspira 
E' o amor do sybarita e da hetaira, 
De Messalina e de Sardanapálo?! 

Pois é mister que, para o amor sagrado, 
O mundo fique immaterialisado 
— Alavanca desviada do seu fulcro — 

E haja só amizade verdadeira 
Duma caveira para outra caveira, 
Do meu sepulchro para o teu sepulchro?!

Continua na página 48...
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Leia também:
Budhismo Moderno / Mater Originalis /     
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

Max Weber - A Ética Protestante: Filiação religiosa

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

Max Weber
(1864-1920)

I
Filiação religiosa e estratificação social

     Uma simples olhada nas estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa mista mostrará, com notável frequência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas e nos congressos católicos, principalmente na Alemanha: o fato que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante.
     Este fato não se verifica apenas onde a diferença de religião coincide com uma nacionalidade, e portanto com seu desenvolvimento cultural, como no caso da Alemanha oriental e da Polônia. Observamos a mesma coisa onde se fez levantamentos de filiação religiosa, por onde quer que o capitalismo, na época de sua grande expansão, pôde alterar a distribuição social conforme suas necessidades e determinar a estrutura ocupacional. Quanto maior foi a liberdade de ação, mais claro o efeito apontado.
     É bem verdade que a maior participação relativa dos Protestantes na propriedade do capital, na direção e nas esferas mais altas das modernas empresas comerciais e industriais pode em parte ser explicada pelas circunstâncias históricas oriundas de um passado distante, nas quais a filiação religiosa não poderia ser apontada como causa de condição econômica, mas até certo ponto parece ser resultado daquela.
     A participação nas funções econômicas envolve geralmente alguma posse de capital e uma dispendiosa educação e, muitas vezes, de ambas. Hoje tais coisas são largamente dependentes da posse de riqueza herdada, ou, no mínimo, de certo bem estar material. Certo número dos domínios do velho império, que eram mais economicamente desenvolvidos, mais favorecidos pela situação e recursos naturais, particularmente a maioria das cidades mais ricas, aderiram ao Protestantismo no século XVI.
     Os resultados de tais circunstâncias favorecem os protestantes, até hoje, na sua labuta pela existência econômica. Surge assim a indagação histórica: porque os lugares de maior desenvolvimento econômico foram, ao mesmo tempo, particularmente propícios a uma revolução dentro da Igreja? A resposta não é tão simples como se poderia pensar.
     A emancipação do tradicionalismo econômico parece sem dúvida ser um fator que apóia grandemente o surgimento da dúvida quanto à santidade das tradições religiosas e de todas as autoridades tradicionais. Devemos porém notar, fato muitas vezes esquecido, que a Reforma não implicou na eliminação do controle da Igreja sobre a vida quotidiana, mas na substituição por uma nova forma de controle. Significou de fato o repúdio de um controle que era muito frouxo e, na época praticamente imperceptível, pouco mais que formal, em favor de uma regulamentação da conduta como um todo, que penetrando em todos os setores da vida pública e privada, era infinitamente mais opressiva e severamente imposta.
     A regra da Igreja Católica ,”punindo o herege, mas perdoando o pecador”, mais no passado do que no presente, é hoje tolerada pelas pessoas de caráter econômico completamente moderno, e nasceu entre as camadas mais ricas e economicamente mais avançadas do mundo por volta do século XV. Por outro lado, a regra do Calvinismo como foi imposta no século XVI em Genebra e na Escócia, entre o século XVI e XVII em grande parte da Holanda e no século XVII na Nova Inglaterra e, por algum tempo na própria Inglaterra, se tornaria a forma mais intolerável de controle eclesiástico do indivíduo que já pôde existir. E foi exatamente isso que foi sentido por uma grande parte da velha aristocracia comercial da época de Genebra, da Holanda e da Inglaterra. E a queixa dos reformadores, nesta regiões de grande desenvolvimento econômico, não era o excesso de controle da vida por parte da Igreja, mas a sua falta.
     Como, pois, aconteceu que os países mais economicamente avançados da época, e suas classes médias burguesas, não só não se opuseram a esta tirania inédita do Puritanismo, como chegaram a desenvolver sua heroica defesa? A burguesia raramente mostrara tal heroísmo antes e nunca ó mostrou depois. Foi o “nosso último heroísmo”, como disse Carlyle não sem-razão.
     Além disso há algo especialmente importante: pode ser, como já foi aventado, que a maior participação dos protestantes nas posições de proprietário e de dirigente na moderna vida econômica seja entendida hoje, pelo menos em parte, simplesmente como resultado da maior riqueza material herdada por eles. Contudo, há certos fenômenos que não podem ser explicados por esse caminho. Só para citar alguns, há uma grande diferença perceptível, em Baden, na Baviera e na Hungria, no tipo de educação superior que católicos e protestantes proporcionam a seus filhos. O fato de a porcentagem de católicos entre os estudantes e os formados nas instituições de ensino superior ser proporcionalmente inferior à população total, pode, certamente, ser largamente explicado em termos de riqueza herdada. Porém, entre os próprios formados católicos, a porcentagem dos que receberam formação em instituições que preparam especialmente para os estudos técnicos e ocupações comerciais e industriais, e em geral para a vida de negócios de classe média, é muito inferior à dos protestantes. Por sua vez, os católicos preferem o tipo de aprendizagem oferecido pelos ginásios humanísticos. Essa é uma circunstância à qual não se aplica a explicação acima apontada, mas que, ao contrário, é uma das razões do pequeno engajamento dos católicos nas empresas capitalistas.
     Mais notável ainda é um fato que explica parcialmente a menor proporção de católicos entre os trabalhadores especializados na moderna indústria. Sabe se que as fábricas arregimentaram boa parte de sua mão de obra especializada entre os jovens artesãos; contudo, isso é muito mais verdadeiro para os diaristas protestantes que para os católicos.
     Em outras palavras, entre os diaristas católicos parece preponderar uma forte tendência a permanecer em suas oficinas, e tornar com frequência mestres artesãos, enquanto os protestantes são fortemente atraídos para as fábricas, para nelas ocuparem cargos superiores de mão de obra especializada e posições administrativas.
     A explicação desses casos é, sem dúvidas que as peculiaridades mentais e espirituais adquiridas do meio ambiente, especialmente do tipo de educação favorecido pela atmosfera religiosa da família e do lar, determinaram a escolha da ocupação e, por isso, da carreira.
     A menor participação dos católicos na moderna vida de negócios da Alemanha é tão notável justamente porque contraria a tendência observada em todos os tempos,” até mesmo no presente.
     As minorias nacionais ou religiosas, em posição de subordinação em relação a um grupo de governantes, pela sua exclusão voluntária ou involuntária das posições de influência política, são aparentemente engajadas com especial vigor nas atividades econômicas. Seus membros mais aptos buscam o reconhecimento de suas habilidades nesse campo, uma vez que não há oportunidades a serviço do Estado.
     Isso, sem dúvida, mostrou se verdadeiro com os poloneses na Rússia e na Prússia Oriental, onde, contrariamente ao que ocorreu na Galícia, de onde provinham, conseguiram um desenvolvimento econômico mais rápido. O mesmo ocorreu em outros tempos com os huguenotes, na França de Luís XIV, com os não conformistas e quakers na Inglaterra, e finalmente com os judeus durante os últimos dois mil anos. Mas os católicos da Alemanha não mostraram nenhuma evidência desse tipo. Também no passado, contrariamente aos protestantes quer da Holanda quer da Inglaterra, na época em que eram perseguidos ou apenas tolerados, não alcançaram desenvolvimento econômico relevante. Resta, por outro lado, observar o fato de os protestantes (especialmente certos ramos do movimento, que serão amplamente discutidos adiante), quer como classe dirigente, quer como subordinada, tanto em maioria como em minoria, terem mostrado uma especial tendência para desenvolver o racionalismo econômico, fato que não pode ser observado entre os católicos em qualquer das situações citadas.` A explicação principal de tais diferenças deve pois ser procurada no caráter intrínseco permanente de sua crenças religiosas, e não apenas em suas situações temporárias externas, históricas e políticas.
     Nossa tarefa será investigar essas religiões com o intuito de descobrir as particularidades que têm ou que tiveram, que resultaram no comportamento descrito acima. Numa análise superficial, e com base em certas impressões comuns, poderíamos ser tentados a admitir que a menor mundanidade do catolicismo, o caráter ascético de seus mais altos ideais tenha induzido seus seguidores a uma maior indiferença para com as boas coisas deste mundo. E tal explicação reflete a tendência de julgamento popular de ambas as religiões.
     Do lado protestante, é usada como base das críticas de tais ideais ascéticos (reais ou imaginários) do modo de viver católico, enquanto os católicos respondem com a acusação de que o materialismo resulta da secularização de todos os ideais pelo protestantismo.
     Um escritor contemporânea tentou definir a diferença de atitudes diante da vida econômica da seguinte maneira: “O católico é mais quieto, tem menor impulso aquisitivo; prefere uma vida a mais segura possível, mesmo tendo menores rendimentos, a uma vida mais excitante e cheia de riscos, mesmo que esta possa lhe propiciar a oportunidade de ganhar honrarias e riquezas. Diz o provérbio, jocosamente: “Coma ou durma bem”. Neste caso, o protestante prefere comer bem, e o católico, dormir sossegado”.
     De fato, esse desejo de “comer bem” pode ser encarado como uma caracterização correta, embora incompleta, da motivação de muitos dos protestantes da Alemanha atual. Mas as coisa nem sempre foram assim: os puritanos ingleses, americanos e holandeses tinham a característica exatamente oposta à alegria de viver, um fato que é, como veremos, da maior importância para o nosso estudo. Além disso, os protestantes franceses, entre outros, conservaram e ainda conservam, em certa medida até hoje, as características das igrejas calvinistas de todos os países, especialmente as sob a cruz do tempo das guerras religiosas.
     Não obstante, tais características foram (ou talvez tenham sido até as causas, como indagaremos mais adiante) sabidamente um dos mais importantes fatores de desenvolvimento do capitalismo e da indústria na França, e assim permaneceu, na pequena escala permitida pelas perseguições que sofreram. Se pudermos chamar essa seriedade e predominância de interesses religiosos na conduta geral da vida de alheamento da matéria, então os calvinistas franceses foram e ainda são tão desapegados do mundo quanto os católicos do norte da Alemanha, para os quais sua fé é tão vital como para poucos povos no mundo.
     Ambos diferem de modo semelhante da tendência religiosa predominante em seus respectivos países. Os católicos da França são, em seus escalões inferiores, grandemente interessados nos prazeres da vida e, nas camadas superiores, francamente hostis à religião. Os protestantes da Alemanha, do mesmo modo, são absorvidos pelas atividades econômicas diuturnas e, nas suas camadas superiores, são muito indiferentes à religião.
     Dificilmente alguma coisa poderá mostrar tão claramente como essa comparação que, tais vagas ideias, como o suposto desapego do Catolicismo e da suposta alegria materialista do Protestantismo, e outras semelhantes, de nada servem para o nosso propósito. Tais termos gerais de diferenciação não refletem os fatos de hoje, e certamente nem mesmo os passados.
     Se contudo alguém quiser delas se utilizar, deverá associar lhe diversas outras observações que sugiram que o aparente conflito entre o desapego, o ascetismo e a devoção eclesiástica de um lado, e a participação na aquisição de bens materiais do outro, possam de fato vir a apresentar um íntimo relacionamento.
     Um fato que nos parece certamente notável, para começar com uma observação superficial, é o grande número de representantes das formas mais espirituais da fé cristã que se originaram nos círculos comercias. O Pietismo, em particular, tem grande número de seus seguidores mais zelosos com essas origens. Isso pode ser explicado como uma espécie de reação contra a cobiça por parte das naturezas sensíveis não adaptadas à vida comercial e, como no caso de Francisco de Assis, muitos pietistas interpretaram sua conversão desse modo.
     Do mesmo modo, é uma notável circunstância que muitos dos maiores empreendedores capitalistas – até Cecil Rhodes – tenham tido origem em famílias de clérigos, o que pode ser interpretado como uma reação contra a sua formação ascética.
     Essa forma de explicação, contudo, torna se falha quando se combinam um extraordinário senso capitalístico dos negócios com as mais intensas formas religiosas nas mesmas pessoas e grupos, e que lhes penetra e direciona a vida toda.
     Esses casos não são isolados, mas seus traços são característicos de muitas das mais importantes Igrejas e seitas da história do Protestantismo. O Calvinismo, em especial, por onde quer que tenha surgido, mostrou essa combinação. Embora de pouca monta no tempo da expansão da Reforma, ele (como qualquer outra crença protestante) estava associado a certas classes sociais específicas, e é característico e até típico que, nas Igrejas dos Huguenotes da França, monges de negócios (comerciantes e artesãos) fossem especialmente numerosos entre os fiéis, especialmente no tempo das perseguições.” Mesmo os espanhóis sabiam que a heresia (isto é, o Calvinismo holandês) promovia os negócios, e isso coincide com as opiniões que Sir William Petty manifestou em sua discussão sobre as razões do desenvolvimento capitalista da Holanda. Gothein$ qualifica corretamente a diáspora calvinista como a semente da economia capitalista. Mesmo em tais casos poderia se considerar como fator decisivo a superioridade das culturas econômicas francesa e holandesa de onde se originaram tais comunidades, ou talvez a imensa influência desses na quebra das relações tradicionais. Mas a situação na França, como sabemos pela luta de Colbert, era a mesma até o século XVII. Mesmo a Áustria, para não citar outros países, importava diretamente artífices protestantes.
     Mas nem todas as ramificações protestantes parecem ter tido a mesma poderosa influência nesse sentido. A do Calvinismo, mesmo na Alemanha, parece ter sido das mais fortes, e a fé reformada” parece ter promovido o desenvolvimento do espírito do capitalismo no Wupperthal como em outro lugares. Muito mais que o Luteranismo, parecem prová-lo comparações gerais e particulares, especialmente no Wupperthal. Buckle e, entre os poetas ingleses, Keats, enfatizaram essa mesma relação com a Escócia. Ainda mais notável, e que deve ser só mencionada, é a ligação entre um modo de vida religioso e o mais intenso desenvolvimento da acuidade comercial entre aquelas seitas cujo desapego do mundo é tão proverbial quanto sua riqueza, especialmente os Quaker e menonitas. O papel que os primeiros desempenharam na Inglaterra e na América do Norte, coube aos últimos na Alemanha e na Holanda.
     Os menonitas foram tolerados por Frederico Guilherme I, na Prussi a Oriental por tê-los como indispensáveis para a indústria, a despeito de sua absoluta recusa de prestar serviço militar; e esse é um dos numerosos e conhecidos fatos que, considerando o caráter daquele monarca, torna se dos mais significativos. Por fim, essa combinação de intensa religiosidade com igualmente forte desenvolvimento da acuidade comercial, característica comum aos Pietistas, é um fato amplamente conhecido.
     É desnecessário acumular mais exemplos nesta discussão meramente introdutória; esses poucos já deixam claro um ponto: que o espírito de intenso trabalho, de progresso, ou como se queira chamá-lo e cujo despertar se esteja propenso a atribuir ao Protestantismo, não deve ser entendido, como é a tendência, como uma alegria de viver ou por qualquer outro sentido ligado ao Iluminismo. O velho Protestantismo de Lutero, Calvino, Knox e Voet tinha bem pouco a ver com o que é hoje chamado de progresso.
     Aquele era abertamente hostil a aspectos inteiros da vida moderna, que hoje não são mais contestados nem pelos religiosos mais ferrenhos. Se quisermos encontrar uma relação interna entre certas expressões do velho espírito protestante e a cultura capitalista moderna, deveremos tentar encontrá-la, bem ou mal, não na alegria de viver mais ou menos materialista, ou ao menos anti-ascética, mas nas suas características puramente religiosas.
     Mostesquieu (Esprit des Lois, Livro XX, cap, 7) diz dos ingleses que “foram, de todos os povos, os que mais progrediram em três coisa importantes: na religião, no comércio e na liberdade”. Não seria possível que sua superioridade comercial e sua adaptação às instituições políticas liberais tivessem, de algum modo, relação com a religiosidade que Mostesquieu lhes atribui?
     Ocorre-nos um grande número de relações possíveis, vagamente percebidas, quando colocamos a questão nesses termos. Será agora nossa tarefa formular com a maior clareza possível aquilo que percebemos confusamente, considerando a infindável diversidade de todo o material histórico. Mas para chegar a isso, é necessário deixarmos de lado os conceitos vagos e gerais com os quais lidamos até aqui, e tentar penetrar nas características peculiares e nas diferenças entre esses grandes mundos do pensamento religioso que existiram historicamente nos vários ramos do Cristianismo. Contudo, antes de continuarmos, se fazem necessárias algumas observações, primeiro quanto às peculiaridades do fenômeno do qual buscamos uma explicação histórica, e depois quanto ao sentido em que tal explicação é possível dentro dos limites dessas investigações

continua na página... 18
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Sumário
02. Filiação religiosa 


MAX WEBER | A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo




Max Weber - A Ética Protestante: Introdução do autor

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

Max Weber
(1864-1920)

“Die Protestantische Ethik Und Der Geits des 
Kapitalismus”. In: Archiv für Sozialwissenschaft 
und Sozialpolitik.– Tübinger, 1904/5. Vols.: XX e XXI.  

Introdução do autor

     Ao estudarmos qualquer problema da história universal, o produto da moderna civilização europeia estará sujeito à indagação de quais combinações de circunstâncias se pode atribuir o fato de na civilização ocidental, e só nela, terem aparecido fenômenos culturais que, como queremos crer, apresentam uma linha de desenvolvimento de significado e valor universais.
     Apenas no Ocidente existe uma ciência num estágio de desenvolvimento que reconhecemos, hoje, como válido. O conhecimento empírico, as reflexões sobre o universo e a vida, a sabedoria filosófica e teológica das mais profundas não estão aqui confinadas, embora no caso desta última o pleno desenvolvimento da teologia sistemática deva ser creditado ao cristianismo sob a influência do helenismo, uma vez que dela houve apenas fragmentos no islamismo e numas poucas seitas hindus. Em poucas palavras, conhecimento e observação de grande finura sempre existiram em toda parte, principalmente na índia, na China, na Babilônia e no Egito. Mas à astronomia da Babilônia e às demais faltavam – o que torna seu desenvolvimento mais assombroso – as bases matemáticas recebidas primeiramente dos gregos. A geometria hindu não tinha provas racionais, que foram outro produto do intelecto grego, criador também da mecânica e da física. As ciências naturais da índia, embora de todo desenvolvidas sobre a observação, careciam de método de experimentação o que foi, longe de seus alvores na Antiguidade, um produto essencialmente do Renascimento, assim como o moderno laboratório. A medicina, especialmente na índia, embora altamente desenvolvida quanto às técnicas empíricas, carecia de fundamentos biológicos e particularmente bioquímicos. Uma química racional tem estado ausente de todas as áreas dá cultura que não a ocidental.
     A erudição histórica chinesa, altamente desenvolvida, não possuía o método de Tucídides. É verdade que Maquiavel teve predecessores na índia; mas todo o pensamento político da índia carecia de um método sistematizado como o de Aristóteles e, de fato, de conceitos racionais. Nem todas as antecipações da índia (Escola de Mimamsa), nem as extensas codificações, especialmente no Oriente Próximo, nem todos os livros de leis da índia e de outros lugares possuíam formas estritamente sistemáticas de pensamento, tão essenciais a uma jurisprudência racional como a lei romana e o direito ocidental por ela influenciado. Uma estrutura como o cânone jurídico é conhecida apenas no Ocidente.
     A mesma observação é válida no tocante às artes. O ouvido musical dos outros povos era, provavelmente, de sensibilidade até mais desenvolvida do que o nosso; e certamente não o era menos. A música polifônica de diversos tipos era amplamente distribuída sobre o planeta. Diversos instrumentos tocando em conjunto, assim como o canto de partes da música, existiram em toda parte. Todos os nossos intervalos racionais de tons eram conhecidos e calculados. Mas a música de harmonia racional tanto o contraponto quanto a harmonia , a formação do tom básico sobre três tríades com o terceiro harmônico; nossa cromática e enarmônica, não interpretadas em termos de espaço mas, desde o Renascimento, em termos de harmonia; nossa orquestra, com seu núcleo de quarteto de cordas e a organização do conjunto de sopros; nosso acompanhamento de graves; nosso sistema de notação, que tornou possível a composição e o moderno trabalho musical e, pois, a sua própria sobrevivência; nossas sonatas, sinfonias, óperas e, finalmente, nossos instrumentos fundamentais que são expressão daquelas: o órgão, o piano, o violino etc. Todas essas coisas são conhecidas apenas no Ocidente, embora a música descritiva, a poesia tonal, as alterações de tonalidade e cromáticas tenham existido como meios de expressão de várias tradições musicais.
     Em arquitetura, o arco ogival tem sido usado em toda parte como meio de decoração, na Antiguidade e na Ásia; presumivelmente, a combinação do arco ogival com a abóbada em cruz não era desconhecida no Oriente. Mas o uso racional da abóbada gótica como meio de distribuição de cargas e cobertura de espaços de todas as formas e, como um princípio construtivo de grandes edificações monumentais e como fundamento de um estilo, extensivo à escultura e à pintura, como as criadas pela Idade Média, não ocorreu em nenhum outro lugar. As bases técnicas de nossa arquitetura nos vieram do Oriente. Nelas porém faltava a solução do problema da cúpula e o tipo de racionalização de toda a as artes – no caso da pintura, a utilização racional das linhas e a perspectiva espacial que o Renascimento criou. Houve a impressão na China, mas a literatura impressa, projetada apenas para a impressão e por ela possibilitada e, acima de tudo, a Imprensa e os periódicos, apareceram só no Ocidente.
     As instituições de educação superior, de todos os tipos possíveis, mesmo algo semelhantes, superficialmente, às nossas Universidades, ou pelo menos, às nossas Academias, existiram na China e no Islão. Mas a busca racional, sistemática e especializada da ciência por parte de pessoal treinado e especializado existiu somente no Ocidente, num sentido que se aproxima de seu papel dominante na nossa cultura atual. Isso é verdadeiro, acima de tudo, no tocante ao funcionário público treinado, pilar tanto do Estado moderno quanto da vida econômica do Ocidente. Este constitui um tipo do qual antigamente só se encontraram sugestões, que nunca apresentaram, nem remotamente, a importância que tem no presente para a ordem social. Naturalmente o funcionário público, mesmo o especializado, é um constituinte muito antigo das mais diversas sociedades. Mas nenhuma época e nenhum país experimentaram jamais, no mesmo sentido do Ocidente atual, a absoluta e completa dependência de sua existência, de suas condições econômicas, políticas e técnicas, de uma organização de funcionários especialmente treinados. As funções mais importantes da vida diária da sociedade são desempenhadas por funcionários públicos treinados técnica, comercial, e acima de tudo legalmente.
     A organização de grupos políticos e sociais era uma coisa comum na estrutura feudal. Mas mesmo o estado feudal do rex et regnum no sentido ocidental só foi conhecido na nossa cultura. Os parlamentos de representantes eleitos periodicamente, com a liderança de demagogos e chefes de partido como ministros responsáveis perante o parlamento, são peculiaridade nossa, embora naturalmente sempre tenha havido partidos no mundo todo, no sentido de uma organização que exerce influência e busca ganhar o controle do poder político. De fato, o próprio Estado, tomado como uma associação política com uma constituição racionalmente redigida, leis racionalmente ordenadas é uma administração coordenada por regras racionais ou leis, administrado por funcionários treinados, é conhecido, nessa combinação de características, apenas no Ocidente, a despeito de todas as outras que dele se aproximam.
     E o mesmo é verdade também para a mais decisiva força da nossa vida moderna: o capitalismo. O impulso para o ganho, a persecução do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem, em si mesma, nada que ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiu entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários desonestos, soldados, nobres, cruzados, apostadores, mendigos etc... Pode-se dizer que tem sido comum à toda sorte e condição humanas em todos os tempos e em todos os países da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade objetiva para tanto. É coisa do jardim de infância da história cultural a noção de essa idéia ingênua de capitalismo deva ser eliminada definitivamente. A ganância ilimitada de ganho não se identifica, nem de longe, com o capitalismo, e menos ainda com seu “espírito”. O capitalismo, pode eventualmente se identificar com a restrição, ou pelo menos com uma moderação racional desse impulso irracional. O capitalismo, porém identifica-se com a busca do lucro, do lucro sempre renovado por meio da empresa permanente, capitalista e racional. Pois assim deve ser: numa ordem completamente capitalista da sociedade, uma empresa individual que não tirasse vantagem das oportunidades de obter lucros estaria condenada à extinção.
     Definamos agora nossos termos com uma precisão algo maior do que a usual. Definiremos como ação econômica capitalista aquela que repousa na expectativa de lucros pela utilização das oportunidades de troca, isto é, nas possibilidades (formalmente) pacíficas de lucro. A aquisição pela força, (formalmente e de fato) segue suas próprias leis particulares, e não seria conveniente, embora não se possa proibi-lo, colocá-la na mesma categoria da ação que é, em última análise, orientada para o lucro por meio da troca. Onde a aquisição capitalista é obtida racionalmente, a ação correspondente é ajustada por cálculo em termos de capital. Isso significa que a ação é adaptada à utilização sistemática dos recursos ou dos serviços pessoais como meio de aquisição, de modo que, ao término de um período de negócios, o balanço da empresa, em termos de dinheiro (ou, no caso de empresa permanente, o valor monetário estimado de seus bens) exceda o capital, isto é, o valor estimado dos meios materiais de produção utilizados para â aquisição na troca. Não importa que isso envolva uma quantidade de bens in natura confiados a um caixeiro viajante, cuja renda podem ser outros bens in natura adquiridos em troca ou que envolva uma empresa manufatureira cujos ativos sejam prédios, máquinas, liquidez monetária, matéria prima, produtos completa ou parcialmente acabados, tudo contabilizado contra os compromissos. O fato importante é que o cálculo do capital é sempre feito em dinheiro, quer pelos modernos métodos de contabilidade, quer por qualquer outro método, por mais primitivo e grosseiro que seja. Tudo é feito em termos de balanços: um balanço inicial no começo da empresa; outro antes de qualquer decisão individual, como cálculo de sua provável lucratividade e um balanço final para apurar o lucro obtido.
     Por exemplo, o balanço inicial de uma transação por commenda pode determinar um valor monetário acordado dos bens negociados (até que não esteja ainda expresso em dinheiro), e o balanço final poderá dar uma estimativa básica da distribuição dos lucros e perdas no final. Quando a transação é racional, o cálculo é a base de toda ação individual dos parceiros. O fato de poder não existir um cálculo realmente preciso de o procedimento ser mera adivinhação ou simplesmente tradicional e convencional ocorre ainda hoje em todas as formas de empreendimento capitalista nas quais as circunstâncias não exijam grande precisão. Contudo, esses pontos afetam apenas o grau da racionalidade da aquisição capitalista.
     Para os propósitos desta concepção, o importante é ocorrer um verdadeiro ajuste da ação econômica no cotejo entre o dinheiro que entra e as despesas, não importando o quão primitiva possa ser sua forma. Ora, nesse sentido, o capitalismo e as empresas capitalistas, inclusive com uma considerável racionalização do cálculo, existiram em todos os países civilizados do planeta, até onde a documentação econômica nos permite avaliar; isso na China, na índia, na Babilônia, no Egito, na Antiguidade Mediterrânea e na Idade Média tanto quanto nos tempos modernos. O que havia não eram meramente empreendimentos isolados, mas empresas econômicas inteiramente dependentes da contínua renovação dos empreendimentos capitalistas e até de operações contínuas. Contudo, o comércio em especial não teve, por longo tempo, a continuidade dos nossos empreendimentos atuais, mas consistiu essencialmente numa série de empreendimentos individuais. Foi só gradualmente que tais atividades, mesmo as dos grandes comerciantes, adquiriram uma coerência interna (com a urbanização de ramificações etc.) Em todos os casos, a empresa capitalista e o empresário capitalista, não só como ocasionais, mas como empreendimentos estáveis, são muito antigos e difundidos pelo mundo.
     Contudo, o Ocidente desenvolveu o capitalismo tanto em sua dimensão quantitativa, sem abrir mão daquele desenvolvimento, como em tipos, formas e direções que nunca existiram antes em parte alguma. Pelo mundo inteiro têm havido comerciantes, atacadistas e varejistas, locais e envolvidos em comércio exterior. Têm sido feitos empréstimos de todo tipo e tem havido bancos com as mais diversas funções, comparáveis, digamos, aos nossos do século XVI. Empréstimos marítimos, commenda, transações e associações semelhantes à Kommanditgesellschaft tem sido muito disseminados, mesmo como negócio constante. Por onde existiram financiamentos monetários de corporações, apareceram os agiotas, como na Babilônia, na Grécia, na índia, na China, e em Roma. Financiaram guerras e piratarias, contratos e operações de construção de todo tipo. Na política de ultramar, funcionaram como empreendedores colonialistas, como plantadores escravistas ou com trabalho direta ou indiretamente forçado, arrendaram domínios, repartições e, sobretudo tudo, impostos. Financiaram líderes partidários em eleições e condottieri em guerras civis. E finalmente, tem sido especuladores das oportunidades de ganho monetário de todos os tipos. Esse tipo de empreendedor, o aventureiro capitalista, existiu em toda parte. Suas atividades, à exceção do comércio e do crédito, assim como das transações bancárias, eram de caráter predominantemente irracional e especulativo, ou direcionado para a aquisição pela força, sobretudo a aquisição do botim, tanto na guerra como na exploração fiscal contínua das pessoas a eles sujeitas.
     O capitalismo dos patrocinadores, dos grandes especuladores, dos caçadores de concessões e muito do moderno capitalismo financeiro, mesmo em tempos de paz mas, acima de tudo, aquele capitalismo envolvido com a exploração da guerra, ostenta essa marca mesmo nos modernos países do Ocidente, e uma parte – e apenas uma parte – do grande comércio internacional está estritamente relacionado com isso, hoje como sempre.
     Modernamente, porém, o Ocidente desenvolveu, além desse, uma forma muito diferente de capitalismo, que nunca havia aparecido antes: a organização capitalista racional do trabalho livre (pelo menos formalmente). Dele encontramos apenas sugestões noutras partes. Até a organização do trabalho escravo encontrou um nível considerável de racionalidade apenas nas plantações, e em num grau muito pequeno na Ergasteria da Antiguidade. Nos feudos, as oficinas, a indústria caseira e as propriedades movidas pelo trabalho servil foram provavelmente ainda menos desenvolvidas. E mesmo as industrias caseiras reais com trabalho livre existiram comprovadamente em apenas poucos casos isolados fora do Ocidente. O uso frequente de trabalhadores diaristas levou; em pouquíssimos casos, – especialmente em monopólios estatais que eram muito diferentes da moderna organização industrial; – à criação de organizações manufatureiras, mas nunca à organização racional do aprendizado das habilidades como na nossa Idade Média.
     A organização industrial racional, voltada para um mercado regular e não para as oportunidades especulativas de lucro, tanto políticas como irracionais, não é, contudo, a única peculiaridade do capitalismo ocidental. A moderna organização racional das empresas capitalistas não teria sido possível sem dois outros fatores importantes em seu desenvolvimento: a separação dos negócios da moradia da família, fato que domina completamente a vida econômica e, estritamente ligada a isso, uma contabilidade racional. A separação espacial entre os locais de trabalho e os de residência existia em outros lugares, como nos bazares orientais ou nas Ergasteria de outras culturas. O desenvolvimento de associações capitalistas auto suficientes é também encontrado no Extremo Oriente, no Oriente Próximo e na Antiguidade. Comparadas porém com a independência das modernas empresas de negócios, constituem se apenas em tímidos primórdios. A razão disso era, particularmente, que estavam completamente ausentes, ou estavam apenas começando a se desenvolver, os requisitos indispensáveis de sua independência, como nossa contabilidade racional e nossa separação legal entre as propriedades particulares e as da empresa. A tendência generalizada era o crescimento das empresas aquisitivas como parte de uma casa real ou feudal – do oikos – que era, como o percebeu Rodbertus, com toda a sua semelhança superficial, um desenvolvimento basicamente diferente, e até oposto.
     Contudo, todas essas peculiaridades do capitalismo ocidental derivaram seu significado, em última análise, apenas de sua associação com a organização capitalista do trabalho. Mesmo o que é geralmente chamado de comercialização – o desenvolvimento de títulos negociáveis e a racionalização da especulação, das trocas etc., estão a ela ligadas. De fato, sem a organização capitalista do trabalho, tudo isso, até onde fosse possível, não teria o mesmo significado, quanto à estrutura social e todos, os problemas específicos ocidentais da atualidade que daquela derivam. O cálculo exato, base para as demais coisas, só é possível se baseado no trabalho livre.
     E assim como o mundo não conheceu uma organização racional do trabalho fora do Ocidente moderno, ou talvez por causa disso mesmo, tampouco conheceu um socialismo racional. Na verdade, existiram a economia cívica, uma política de abastecimento cívico, o mercantilismo, a política de bem estar social dos príncipes, o racionamento, a regulamentação da vida econômica, o protecionismo e teorias do laissez faire (como na China). O mundo conheceu também experiências socialistas e comunistas de vários tipos: familiar, religioso, militar, o socialismo de Estado (no Egito), cartéis monopolistas, e organizações de consumidores. Mas embora tenha havido em toda parte privilégios de mercado urbano, companhias, corporações e toda sorte de diferenças legais entre a cidade e o campo, o conceito de cidadão e o de burguesia não existiram fora do moderno Ocidente. Do mesmo modo, o proletariado como classe não poderia ter existido, pois não existia uma organização racional do trabalho livre sob disciplina metodizada. As lutas de classe entre as parcelas credoras e devedoras; proprietários rurais e sem terra, servos ou meeiros; interesses comerciais e consumidores ou senhores de terras existiram em toda parte nas mais diversas combinações. Mas mesmo as lutas medievais entre empreiteiros e seus trabalhadores existiram, noutros lugares, apenas no começo. O atual conflito entre o empreendedor industrial de grande escala e os trabalhadores livres era totalmente ausente. E por isso, não poderia haver os problemas com o socialismo.
     Assim, numa história universal da cultura, mesmo de um ponto de vista puramente econômico, não é, em última análise, o desenvolvimento da atividade capitalista como tal, diferindo nas diversas culturas apenas quanto à forma: o tipo aventureiro, o capitalismo do comércio, da guerra, da política ou da administração como fontes de lucro e que é o ponto chave. É antes a origem desse sóbrio capitalismo burguês com sua organização racional do trabalho. Ou, em termos de história da cultura, o problema é o da origem da classe burguesa ocidental e suas peculiaridades, um problema que está com certeza estritamente ligado ao da origem da organização capitalista do trabalho, embora não se trata da mesma coisa. Pois os burgueses como classe existiam antes dó desenvolvimento das modernas formas peculiares do capitalismo, embora de fato, apenas no hemisfério ocidental.
     À primeira vista, a forma especial do moderno capitalismo ocidental teria sido fortemente influenciada pelo desenvolvimento das possibilidade técnicas. Sua racionalidade é hoje essencialmente dependente da calculabilidade dos fatores técnicos mais importantes. Mas isso significa basicamente que é dependente da ciência moderna, especialmente das ciências naturais baseadas na matemática e em experimentações exatas e racionais. Por outro lado, o desenvolvimento de tais ciências e das técnicas que nelas se apóiam recebe, agora importante estímulo dos interesses capitalistas quanto a suas aplicações econômicas práticas. É verdade que a origem da ciência ocidental não pode ser atribuída a tais interesses. O cálculo, mesmo com decimais, e a álgebra, foram adotados na índia, onde o sistema decimal foi inventado; mas seu uso foi desenvolvido apenas pelo capitalismo no Ocidente, pois na índia isso não levou à moderna aritmética e contabilidade. Nem podemos dizer que as origens da matemática e da mecânica tenham sido determinadas pelos interesses capitalistas. Mas a utilização técnica do conhecimento científico, tão importante para as condições de vida da massa do povo, foi certamente incentivada pelas considerações econômicas, que lhe eram extremamente favoráveis no mundo ocidental. Esse incentivo, porém, derivava das peculiaridades da estrutura social no Ocidente. Devemos mesmo perguntar de qual parte de tais estruturas derivava, uma vez que nem todas poderiam ter sido da mesma importância.
     Entre os fatores de importância incontestável estão as estruturas racionais das leis e da administração, pois que o moderno capitalismo racional não necessita apenas dos meios técnicos de produção, mas também de um sistema legal calculável e de uma administração baseada em termos de regras formais. Sem isso, o capitalismo aventureiro e de comércio especulativo e todo tipo de capitalismo politicamente determinado seriam possíveis, mas não o empreendimento racional da iniciativa privada, com capital fixo e cálculos certeiros. Tais tipos de sistemas legais e de administração, num grau relativo de perfeição legal e formal, têm sido disponíveis para a atividade econômica apenas no Ocidente. Devemos pois perguntar de onde se originou esse sistema legal. Entre outras circunstâncias, o interesse capitalista, por sua vez, sem dúvida contribuiu para preparar o caminho à predominância do direito.e,à administração a de uma classe de juristas especialmente treinados na legislação nacional, embora não tenha sido o único nem o principal. Forças bem diferentes atuaram no seu desenvolvimento. E porque os interesses capitalistas não fizeram o mesmo na índia ou na China? Porque lá o desenvolvimento científico, artístico, político ou econômico não tomou o mesmo caminho de racionalização que é peculiar ao Ocidente? Porque em todos os casos acima o problema é o racionalismo peculiar e específico da cultura ocidental. Ora, nesses termos, pode-se entender coisas muito diferentes, como a discussão a seguir mostrará repetidamente. Temos, por exemplo, a racionalização da contemplação mística, atitude que, vista sob outro prisma da vida, é especialmente irracional, e temos também como temos as racionalizações da vida econômica, da técnica, da pesquisa científica, do treino militar, do direito e da administração. Além disso, cada um desses campos pode ser racionalizado em termos consoantes com valores últimos e finalidades muito diferentes, e o que é racional de um certo ponto de vista, poderá ser irracional de outro. Racionalizações dos mais variados tipos têm existido em vários setores da vida, em todas as áreas da cultura. Para caracterizar suas diferenças de um ponto de vista da história da cultura é necessário saber quais setores foram racionalizados e em que direção. Por isso, nossa primeira preocupação é desvendar e explicar a gênese e a peculiaridade do racionalismo ocidental e, por esse enfoque, sua forma moderna.
     Cada tentativa de explicação deve, reconhecendo a importância fundamental do fator econômico, tomar em consideração, acima de tudo as condições econômicas. Mas ao mesmo tempo, não se deve deixar de considerar a correlação oposta. E isso porque o desenvolvimento do racionalismo econômico é parcialmente dependente da técnica e do direito racionais, mas é ao mesmo tempo determinado pela habilidade e disposição do homem em adotar certos tipos de conduta racional prática. Quando tais tipos de conduta têm sido obstruídos por obstáculos espirituais, o desenvolvimento da conduta econômica racional encontrou também séria resistência interna. As forças mágicas e religiosas e as ideias éticas de dever nelas baseadas têm estado sempre, no passado, entre as mais importantes influências formativas da conduta. Nos estudos aqui coletados, ocuparemos nos de tais forças.
     Dois ensaios anteriores foram colocados no início, como tentativa de abordar um ponto importante do problema que é geralmente mais difícil de ser apanhado: a influência de certas ideias religiosas no desenvolvimento de um espírito econômico, ou o ethos de um sistema econômico. Nesse caso estamos lidando com a conexão do espírito da moderna vida econômica com a ética racional da ascese protestante. Assim, tratamos aqui apenas de um lado do encadeamento causal. Os estudos posteriores sobre Ética Econômica das Religiões Mundiais tentam uma visão geral das relações entre as mais importantes religiões, a vida econômica e a estratificação social de seu meio, para seguir ambas as relações causais até onde for necessário para achar pontos de comparação com o desenvolvimento ocidental.
     Só desse modo se pode tentar uma avaliação causal daqueles elementos da ética econômica das religiões ocidentais que as diferenciam das outras, na esperança de obter ao menos um grau tolerável de aproximação. Daí tais estudos não terem a pretensão de serem análises culturais completas, ainda que breves. Pelo contrário, enfatizam propositalmente, em cada cultura, os elementos que as diferenciam da civilização ocidental. São eles, pois, orientados definitivamente para os problemas que parecem importantes para a compreensão da cultura ocidental desse ponto de vista. Com tal objetivo em mente, não seria possível qualquer outro procedimento. Mas, para evitar mal entendidos, devemos dar uma ênfase especial às limitações do nosso propósito.
     Por outro lado, os não iniciados devem ser, no mínimo, alertados para não exagerar a importância de tais investigações. O sinólogo, indólogo, o semitólogo ou egiptólogo não encontrarão aqui, logicamente, nenhuma novidade. Esperamos apenas que não encontrem nada de definitivamente errado nos pontos essenciais. O autor não sabe até que ponto um não especialista pôde se aproximar desse ideal. É bem evidente que qualquer um que seja obrigado a confiar em traduções e, mais ainda, no uso e avaliação de fontes monumentais, documentais ou literárias, deve se valer de literatura específica, muitas vezes controvertida, e cujos méritos não é capaz de avaliar corretamente; tal escritor só pode achar modesto o valor do seu trabalho. E, ademais, a quantidade de traduções disponíveis de fontes verdadeiras (isto é, de inscrições e documentos) é ainda muito pequena, especialmente em relação à China, em comparação com tudo o que existe de importante. De tudo isso se depreende o caráter decididamente provisório destes estudos, especialmente das partes relativa à Ásia. Apenas o especialista tem competência para um julgamento definitivo. E naturalmente, os presentes estudos foram escritos apenas porque ainda hão foram feitos estudos especializados com este intuito particular e deste particular ponto de vista. Eles estão destinados a ser ultrapassados, num sentido muito mais importante, digamos, que um trabalho científico. Mas uma invasão de outro campos específicos, por mais reprovável que possa ser, não pode ser evitada num estudo comparativo; e disso se devem assumir as consequências, resignando se às grandes dúvidas quanto ao grau de sucesso alcançado.
     A moda e o zelo dos literati nos faz considerar, hoje, o especialista como dispensável, ou relegá-lo à posição subalterna de observador. Quase todas as ciências devem algo aos diletantes, com frequência pontos de vista muito valiosos. O diletantismo¹ porém, como princípio, seria o fim da ciência. Aquele que tiver vontade de ver pode ir ao cinema, embora hoje lhe seja também oferecido, fartamente, o presente campo de investigação na forma literária. Nada está mais longe destes estudos, profundamente sérios, que tal atitude. E posso acrescentar, quem quiser ouvir um sermão, que vá a um convento. A questão do valor relativo das culturas aqui comparadas, não recebe uma palavra sequer. É bem verdade que os caminhos do destino humano só podem amedrontar a quem dele observa apenas um segmento. Mas será oportuno que guarde para si a esses pequenos comentários pessoais, como se faz à vista do mar ou de montanhas majestosas, a menos que se ache com vocação e capacidade para lhes dar expressão artística ou forma profética. Em muitos outros casos, a volumosa conversa sobre intuição nada mais faz senão ocultar uma falta de perspectiva em relação ao objeto, que merece o mesmo julgamento que a semelhante falta de perspectiva para com o homem.

[1] Diletantismo - Comportamento de quem age com imaturidade diante das regras e das normas que uma atividade pode requerer; amadorismo. Dedicação a alguma coisa somente pelo prazer que ela lhe proporciona. Característica da pessoa que gosta do que está relacionado com as artes ou com a literatura; gosto direcionado para as artes ou para a música. Característica do que se realiza ou se desenvolve de maneira desinteressada, sem apuro ou cuidado. 

     É necessária uma justificativa para o fato de não ter sido utilizado o material etnográfico numa extensão compatível com o valor que sua contribuição naturalmente mereceria em qualquer investigação profunda, especialmente quanto às religiões asiáticas. Tal limitação não foi apenas imposta pelo restrito potencial humano de trabalho. A omissão pareceu nos permissível por estarmos aqui, necessariamente, tratando da ética religiosa das classes que foram as vigas mestras da cultura em seus respectivos países. O que interessa é a influência que sua conduta teve. É bem verdade que esta só pode ser completamente conhecida em todos os detalhes quando comparada com a etnografia¹ e com o folclore. Devemos pois admitir expressamente e enfatizar que essa é uma falha a que o etnógrafo porá, legitimamente, objeções. Espero contribuir de algum modo para o preenchimento dessa lacuna, com um estudo sistemático da Sociologia da Religião. Tal empreendimento teria extrapolado os limites desta investigação e de seu propósito circunscrito. Ela teve de se contentar em trazer à luz os pontos de comparação com as nossas religiões ocidentais, tanto quanto o possível.

[1] Etnografia - é um método de pesquisa qualitativa que descreve e interpreta práticas culturais, sociais e simbólicas de grupos humanos, baseado principalmente na observação participante e no trabalho de campo prolongado.

     Por fim, podemos fazer referência ao lado antropológico do problema. Quando achamos, repetidamente, mesmo em setores da vida aparentemente independentes, que certos tipos de racionalização se desenvolveram no Ocidente, e só aqui no Ocidente, seria natural suspeitar que a razão mais importante das diferenças estivesse na hereditariedade. O autor admite estar inclinado a pensar que a importância da hereditariedade biológica seja muito grande. Mas apesar dos notáveis achados da pesquisa antropológica, não vejo, até o presente, como medir, exata ou aproximadamente, quer a extensão, quer, sobretudo, a forma de sua influência no desenvolvimento aqui investigado. Deve ser uma das primeiras tarefas da investigação sociológica e histórica analisar todas as influências e relações causais que possam ser explicadas satisfatoriamente em termos de reações ao meio ambiente. Só então, e quando a neurologia e psicologia raciais comparativas tiverem progredido além dos atuais e de certo modo promissores estágios, poderemos esperar por uma probabilidade de resposta satisfatória para essa questão. Por ora, essa condição me parece não existir, e um apelo à hereditariedade envolveria assim uma renúncia prematura à possibilidade de um conhecimento atingível agora, e deslocaria o problema para fatores ainda desconhecidos no presente.

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Sumário
01. Introdução

 
Max Weber | Resumo