sábado, 20 de junho de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção IV.a)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção IV
Resposta às objeções

     O nosso sistema acerca do espaço e do tempo consta de duas partes intimamente ligadas entre si. A primeira depende da seguinte cadeia de raciocínio. A capacidade da mente não é infinita; por conseguinte, nenhuma ideia de extensão ou de duração é composta de um número infinito de partes ou ideias inferiores, mas de um número finito, sendo as partes simples e indivisíveis; portanto é possível que o espaço e o tempo existam conformemente a esta ideia; e, se isso é possível, certamente que eles de fato existem em conformidade com esta ideia, visto que a sua infinita divisibilidade é totalmente impossível e contraditória.
     A outra parte do nosso sistema é uma consequência disto. As partes nas quais se decompõem as ideias de espaço e tempo tornam-se finalmente indivisíveis; e estas partes indivisíveis, nada sendo em si mesmas, são inconcebíveis se não forem preenchidas por algo real e existente. As ideias de espaço e tempo não são portanto ideias separadas ou distintas; são unicamente as ideias da maneira ou ordem na qual os objetos existem; ou, por outras palavras, é impossível conceber um vácuo ou uma extensão sem matéria, ou um tempo onde não haja sucessão ou mudança em qualquer existência real. A íntima conexão entre estas partes do nosso sistema é a razão por que examinaremos em conjunto as objeções que foram formuladas contra uma e outra, começando pelas objecções contra a divisibilidade finita da extensão.

     I. A primeira dessas objecções que vou considerar é mais apropriada para provar a conexão e dependência de uma das partes em relação à outra do que para destruir qual quer delas. Muitas vezes se tem sustentado nas escolas que a extensão tem de ser divisível in infinítum porque o sistema dos pontos matemáticos é absurdo; e que este sistema é absurdo porque um ponto matemático é um nada e consequentemente não pode, pela sua conjunção com outros pontos, formar uma existência real. Isto seria perfeitamente decisivo se não houvesse um meio termo entre a divisibilidade infinita da matéria e o nada dos pontos matemáticos. Mas evidentemente há um meio termo, que consiste em conferir cor e solidez a estes pontos, e o absurdo de ambos os extremos demonstra a verdade e realidade deste meio termo. O sistema dos pontos físicos, que é outro meio termo, é demasiado absurdo para merecer refutação. Uma extensão real, como deve supor-se que seja um ponto físico, jamais pode existir sem partes diferentes umas das outras; e sempre que os objetos são diferentes, podem ser distinguidos e separados pela imaginação. 

     II. A segunda objeção deriva da necessidade que existiria de penetração, se a extensão consistisse em pontos matemat1cos. Um átomo simples e indivisível, tocando noutro, tem necessariamente de o penetrar, porque é impossível que possa tocar-lhe pelas suas partes exteriores, em razão da própria suposição da sua perfeita simplicidade, a qual exclui todas as partes. Deve pois tocar-lhe intima mente e em toda a sua essência, secundum se, tota et totaliter, o que é a definição mesma de penetração. Mas a pene tração é impossível; portanto os pontos matemáticos são igualmente impossíveis.
     Respondo a esta objeção apresentando uma ideia mais razoável da penetração. Suponhamos dois corpos que, não contendo vácuo no interior da sua circunferência, se aproximam um do outro e se unem de tal modo que o corpo resultante da união não é mais extenso do que nenhum deles: é o que se deve entender quando se fala de penetração. Mas evidentemente que esta penetração não é senão o aniquilamento de um destes corpos e a conservação do outro, sem que sejamos capazes de distinguir especialmente o corpo conservado e o aniquilado. Antes de se aproximarem, temos ideia de dois corpos; depois temos ideia de um só. A mente não pode conservar a noção duma diferença entre dois corpos da mesma natureza, existindo no mesmo lugar ao mesmo tempo.  
     Tomando assim a penetração no sentido de aniquilação de um corpo ao aproximar-se doutro, pergunto se se vê necessidade em que um ponto colorido ou tangível seja aniquilado na aproximação doutro ponto colorido ou tangível. Pelo contrário, não se compreende claramente que da união destes pontos resulta um objeto composto e divisível, que pode cindir-se em duas partes, preservando cada parte a sua existência distinta e separada, apesar de contígua à outra parte? Auxilie-se a fantasia concebendo estes pontos como sendo de diferentes cores, o que é tanto melhor para impedir a sua mistura e confusão. Um ponto vermelho e um ponto azul podem. certamente ficar contíguos sem qualquer penetração ou aniquilamento. Se não, que pode vir a suceder-lhes? Qual deles será aniquilado, o vermelho ou o azul? Ou, se estas cores se fundirem numa só, que nova cor vão eles produzir com a sua fusão?
     O que principalmente origina estas objecções e ao mesmo tempo torna difícil dar-lhes uma resposta satisfatória é a enfermidade e instabilidade natural tanto da nossa imaginação como dos nossos sentidos, quando se ocupam de objetos tão diminutos. Coloquemos uma mancha de tinta num papel e afastemo-nos para uma distância tal que a mancha se torne completamente invisível; ao voltar a aproximar-nos notaremos que a mancha primeiro se torna visível em breves intervalos e depois fica sempre visível; em seguida adquire apenas uma nova torça de coloração, sem aumentar de dimensões; depois, quando aumentou até ao ponto de ser realmente extensa, torna-se ainda difícil para a imaginação dividi-la nas suas partes componentes, em razão da dificuldade que encontra em conceber um objeto tão pequeno como um ponto simples. Esta enfermidade afeta muitos dos nossos raciocínios sobre a matéria em questão e torna quase impossível responder de modo inteligível e com expressões apropriadas a muitas das perguntas que podem surgir.  

     III. Têm sido tiradas da matemática muitas objeções contra a indivisibilidade das partes da extensão, embora à primeira vista esta ciência pareça favorável à doutrina em questão e, se é contrária nas demonstrações, está perfeitamente de acordo com ela nas definições. A minha tarefa do momento há-de ser portanto defender as definições e refutar as demonstrações.
     A definição de uma superfície é que tem comprimento e largura, sem profundidade; uma linha tem comprimento, sem largura nem profundidade; um ponto não tem nem comprimento, nem largura, nem profundidade. Evidentemente que isto é completamente ininteligível em qualquer outra hipótese que não seja a da composição da extensão por pontos indivisíveis ou átomos. Como é que doutra forma poderia existir uma coisa sem comprimento, nem largura, nem profundidade?
     Noto que foram dadas duas respostas diferentes a este argumento, nenhuma das quais me parece satisfatória. A primeira é que os objetos da geometria, aquelas superfícies, linhas e pontos cujas proporções e posições ela estuda, são puras ideias da mente, jamais tendo existido, nem podendo existir na natureza. Nunca existiram: porque ninguém pretenderá traçar uma linha ou fazer uma superfície inteiramente de acordo com a definição; e jamais podem existir: porque dessas ideias mesmas podemos extrair demonstrações que provam a sua impossibilidade. 
     Mas poder-se-á imaginar um raciocínio mais absurdo e mais contraditório do que este? Tudo aquilo que pode conceber-se por uma ideia clara e distinta necessariamente implica possibilidade de existência; e quem pretende provar a impossibilidade da sua existência mediante qualquer argumento tirado de uma ideia clara, na realidade afirma que não temos dele ideia clara, porque temos uma ideia clara. Em vão se procurará uma contradição em qualquer coisa distintamente concebido pelo espírito. Se implicasse contradição jamais poderia ser concebida.
     Não há portanto meio termo entre admitir pelo menos a possibilidade dos pontos indivisíveis e negar a ideia deles; e é neste último princípio que se fundamenta a segunda resposta ao argumento precedente. Há quem¹ sustente que, embora seja impossível conceber um comprimento sem qualquer largura, podemos contudo por uma abstração sem separação considerar uma sem atentar na outra; da mesma maneira como podemos pensar no comprimento do caminho entre duas cidades, desprezando a sua largura. O comprimento é inseparável da largura tanto na natureza como nas nossas mentes; mas isto não exclui uma consideração parcial e uma distinção de razão, da maneira explicada acima.
     Ao refutar esta resposta não insistirei no argumento, já por mim suficientemente explicado, de que, se se torna impossível para a mente chegar a um mínimo nas suas ideias, ela precisa de ter uma capacidade infinita para abranger o número infinito de partes de que se comporia a sua ideia de extensão. Tentarei aqui encontrar alguns novos absurdos deste raciocínio.
     A superfície delimita o sólido, a linha delimita a superfície, o ponto delimita a linha; ora eu afirmo que, se as ideias de ponto, linha ou superfície não fossem indivisíveis, jamais poderíamos conceber estes limites. Pois suponhamos que estas ideias são infinitamente divisíveis, e que a imaginação procura depois fixar-se na ideia da última superfície, da última linha, ou do último ponto; ela descobre imediatamente que a ideia se divide em partes e, ao procurar captar a última destas partes, perde-a mediante uma nova divisão, e assim por diante in infinitum, sem qualquer possibilidade de chegar a uma ideia concludente. Um número elevado de frações não a leva mais próximo da última divisão do que a primeira ideia que ela formou. Cada partícula evita ser apreendida mediante um novo fracionamento, como o mercúrio quando procuramos segurá-lo. Mas, como de fato tem de haver algo que delimite a ideia de toda a quantidade finita e como esta ideia-limite não pode consistir em partes ou ideias inferiores, senão seria a última das suas partes que terminaria a ideia e assim por diante; isto é prova clara de que as ideias das superfícies, linhas e pontos não admitem qualquer divisão: as superfícies não a admitem em profundidade, as das linhas em largura e profundidade, as dos pontos em nenhuma dimensão.
     Os escolásticos estavam tão cientes da força deste argumento que alguns deles sustentavam que a natureza misturou àquelas partículas de matéria que são divisíveis in infinitum um certo número de pontos matemáticos, afim de assegurar um limite aos corpos; outros evitavam a força deste raciocínio mediante uma série de argúcias e distinções ininteligíveis. Uns e outros davam-se igualmente por vencidos. O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
     Assim, parece que as definições da matemática invalidam as pretensas demonstrações e que, se temos uma ideia de pontos indivisíveis, de linhas e superfícies conforme à definição, a sua existência é com certeza possível; mas não tendo nós tal ideia, jamais nos é possível conceber a limitação de uma figura qualquer, concepção sem a qual não pode haver demonstração geométrica.
     Mas vou mais longe e sustento que nenhuma destas demonstrações pode ter peso suficiente para estabelecer um princípio corno o da infinita divisibilidade; isto porque relativamente a objetos assim diminutos não se trata propriamente de demonstrações, visto basearem-se em ideias que não são exatas e em máximas que não são precisa mente verdadeiras. Quando a geometria apresenta uma asserção relativa às proporções de quantidade, não devemos procurar a máxima precisão e exatidão. Nenhuma das suas provas tem alcance tão grande. Ela toma as dimensões e proporções das figuras corretamente, mas de maneira tosca e com certa liberdade. Os seus erros nunca são importantes e nem mesmo erraria se não aspirasse a uma perfeição tão absoluta.
     Em primeiro lugar pergunto aos matemáticos o que querem dizer quando afirmam que uma linha ou superfície é igual, maior ou menor do que outra? Responda um deles, qualquer que seja a escola a que pertence; quer defenda a compos1çao da extensão por pontos indivisíveis, quer por quantidades divisíveis in infinitum. Esta pergunta confundirá uns e outros.
     Há poucos ou nenhuns matemáticos que defendam a hipótese dos pontos indivisíveis; contudo são eles que mais pronta e justamente respondem à pergunta em questão. Têm apenas a responder que as linhas e superfícies são iguais quando são iguais os números de pontos em cada uma delas e que a proporção das linhas e superfícies varia, assim como varia a proporção dos números. Mas embora esta resposta seja exata, bem como óbvia, contudo afirmo que este critério de igualdade é inteiramente inútil e que nunca é por uma tal comparação que determinamos a igualdade ou desigualdade de objetos entre si. Com efeito, visto que os pontos que entram na composição de qualquer linha ou superfície, sejam eles apreendidos pela vista ou pelo tacto, são tão diminutos e tão confundidos uns com os outros que é completamente impossível o espírito calcular-lhes o número, tal cálculo jamais nos fornecerá um critério que nos permita ajuizar das proporções. Ninguém poderá jamais determinar por uma contagem rigorosa que a polegada tem menos pontos do que o pé e o pé menos pontos do que a vara ou outra qualquer medida maior, razão por que raramente ou nunca consideramos esta contagem corno critério de igualdade ou desigualdade.

continua na página 84...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IVa. /         
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (VI. Por que tal homem existe?)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
VI
POR QUE TAL HOMEM EXISTE?
    
     Dimítri Fiódorovitch, jovem homem de 28 anos, de estatura média e de presença agradável, parecia, no entanto, notavelmente mais velho. Era musculoso e adivinhava-se nele uma força física considerável; no entanto, seu rosto magro, de faces chupadas, a tez dum amarelo doentio, tinha uma expressão enfermiça. Seus olhos negros, à flor da testa, mostravam um olhar vago, se bem que parecesse obstinado. Mesmo quando estava agitado e falava com irritação, seu olhar não correspondia a seu estado de alma e exprimia algo de diferente, por vezes nada em harmonia com o minuto presente. "É difícil saber em que ele pensa", costumavam dizer os que falavam com ele. Em certos dias, seu riso súbito, atestando ideias alegres e travessas, surpreendia aqueles que o acreditavam, no mesmo momento, pelos seus olhos, pensativo e tristonho. Aliás, sua expressão um pouco sofredora naquele momento nada tinha de espantoso; todo mundo estava a par de sua vida agitada e dos excessos a que se entregava naqueles últimos tempos, da mesma maneira que se conhecia a exasperação que dele se apoderava em suas discussões com seu pai, por questões de dinheiro. Circulavam na cidade anedotas a este respeito. Na verdade, era irascível por natureza, "de um espírito impetuoso e irregular", como o caracterizou numa reunião nosso juiz de paz Siemion Ivânovitch Katchálhnikov. Entrou vestido de modo elegante e irreprochável, com a sobrecasaca abotoada, de luvas pretas, a cartola na mão. Como oficial desde pouco tempo reformado, só trazia no momento os bigodes. Seus cabelos castanhos estavam cortados curtos e penteados para a frente. Caminhava a grandes passadas, com ar decidido. Tendo parado um instante na soleira da porta, passeou o olhar pela assistência e dirigiu-se diretamente ao stáriets, adivinhando nele o dono da casa. Fez-lhe uma profunda vênia e pediu-lhe a bênção. Tendo-se levantado o stáriets para dar-la, Dimítri Fiódorovitch beijou-lhe a mão com respeito e declarou com agitação e com um ar quase irritado: 

— Queira desculpar-me por me ter feito esperar tanto. Mas como insistisse em conhecer a hora da entrevista, o criado Smierdiákov, enviado por meu pai, respondeu-me duas vezes, categoricamente, que estava marcada para 1 hora. E, agora, venho a saber... 
— Não se atormente — disse o stáriets —, não é nada, o senhor está um pouco atrasado, não há mal nisso. 
— Sou-lhe muito grato e não esperava menos de sua bondade. Depois destas palavras lacônicas, Dimítri Fiódorovitch inclinou-se de novo, depois, voltando-se para o lado de seu pai, fez-lhe a mesma saudação profunda e respeitosa. Via-se que havia ele premeditado aquela saudação, com sinceridade, considerando como uma obrigação exprimir assim sua deferência e suas boas intenções. Fiódor Pávlovitch, se bem que apanhado de improviso, saiu-se à sua maneira: em resposta à saudação do filho, levantou-se de sua cadeira e retribuiu-lhe igualmente. Seu rosto se tornou grave e imponente, o que não deixava de dar-lhe um aspecto mau. Depois de ter respondido em silêncio às saudações dos presentes, Dimítri Fiódorovitch dirigiu-se com seu passo decidido para a janela e ocupou o único assento livre, não longe do Padre Paísi; inclinado sobre sua cadeira, preparou-se para escutar a continuação da conversa interrompida.

     A chegada de Dimítri Fiódorovitch passara-se em dois ou três mi nutos e a conversação prosseguiu. Mas desta vez Piotr Alieksándrovitch não creu necessário responder à pergunta premente e quase irritada do Padre Paísi. 

— Permitam-me que abandone esse assunto — declarou ele, com certa, desenvoltura mundana. — É aliás um assunto delicado. Vejam lva Fiódorovitch sorrindo para meu lado; tem provavelmente algo de curioso a dizer a esse propósito. Perguntem-lhe. 
— Não de particular — respondeu logo Ivã Fiódorovitch. — Farei somente observar que, desde muito tempo já, o liberalismo europeu em geral e mesmo nosso diletantismo liberal russo confundem frequentemente os resultados finais do socialismo com os do cristianismo. Essa conclusão extravagante é aliás um traço característico. Por outro lado, como se vê, não somente os liberais e os diletantes confundem em muitos casos o socialismo e o cristianismo, há também os gendarmes, no estrangeiro, bem entendido. A anedota parisiense do senhor é bastante característica a esse respeito, Piotr Alieksándrovitch. 
— Em geral, peço de novo permissão para abandonar o assunto — repetiu Piotr Alieksándrovitch. — Contar-lhes-ei antes outra anedota bastante interessante e bastante característica, a propósito de Ivã Fiódorovitch. Há cinco dias, numa reunião em que se achavam sobretudo senhoras, declarou ele solenemente, no curso duma discussão, que nada no mundo obrigava as pessoas a amar seus semelhantes, que não existia nenhuma lei natural ordenando ao homem que amasse a humanidade; que se o amor havia reinado até o presente sobre a terra, era isto devido não à lei natural, mas unicamente à crença das pessoas em sua imortalidade. Ivã Fiódorovitch acrescentou entre parênteses que nisso está toda a lei natural, de sorte que se destruís no homem a fé em sua imortalidade, não somente o amor secará nele, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não haverá então nada de imoral, tudo será autorizado, até mesmo a antropofagia. Não é tudo: terminou afirmando que para cada indivíduo — nós agora, por exemplo — que não acredita nem em Deus, nem em sua imortalidade, a lei moral da natureza devia imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa; que o egoísmo, mesmo levado até a perversidade, devia não somente ser autorizado, mas reconhecido como a saída necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. De acordo com tal paradoxo, julguem o resto, senhores, julguem o que o nosso querido e excêntrico Ivã Fiódorovitch acha bom proclamar e suas intenções eventuais... 
— Com licença — exclamou de súbito Dimítri Fiódorovitch. — Se bem entendi, "a perversidade deve não somente ser autorizada, mas reconhecida como a saída mais necessária e a mais razoável de cada ateu"! É bem isto? 
— É exatamente isso — disse o Padre Paísi. 
— Haverei de lembrar-me!

     Dito isto, Dimítri Fiódorovitch calou-se tão subitamente quanto tinha tomado parte na conversa. Todos o olharam com curiosidade. 

— Será possível que o senhor encare dessa forma as consequências do desaparecimento nas pessoas da crença na imortalidade da alma? — perguntou de súbito o stáriets a Ivã Fiódorovitch. 
— Sim, afirmei-lo Não há virtude sem imortalidade. 
— É feliz se assim acredita; pode-se ser muito infeliz! 
— Por que infeliz? — objetou Ivã Fiódorovitch, sorrindo. 
— Porque, segundo toda aparência, não crê o senhor nem na imortalidade da alma, nem mesmo no que escreveu a respeito da questão da Igreja. 
— Talvez tenha o senhor razão!... No entanto, não brinquei absolutamente — confessou de modo estranho Ivã Fiódorovitch, corando imediatamente. 
— O senhor não brincou absolutamente, é verdade. Essa ideia não está ainda resolvida no seu coração e tortura-o. Mas o mártir também gosta por vezes de divertir-se com seu desespero, igualmente como para esquecê-lo. No momento, é por desespero que o senhor se diverte com artigos de revistas e com discussões mundanas, sem acreditar na sua dialética e zombando dela dolorosamente a sós consigo. Esta questão não está ainda resolvida no senhor, e é isso que causa seu tormento, porque reclama ela imperiosamente uma solução. 
— Mas pode ela ser resolvida em mim, resolvida no sentido positivo? — perguntou ainda de modo estranho Ivã Fiódorovitch, olhando o stáriets com um sorriso inexplicável. 
— Se não puder ser resolvida no sentido positivo, não o será nunca no sentido negativo; o senhor mesmo conhece essa propriedade de seu coração; é isso que o tortura. Mas agradeça ao Criador o ter-lhe dado um coração sublime, capaz de assim atormentar-se, "de meditar nas coisas celestes e procurá-las, porque nossa morada está nos céus". Que Deus lhe conceda encontrar a solução ainda aqui embaixo e abençoe os seus caminhos!

     O stáriets ergueu a mão e quis, de seu lugar, fazer o sinal-da-cruz sobre Ivã Fiódorovitch. Mas este se levantou, foi até ele, recebeu sua bênção e, tendo-lhe beijado a mão, voltou a seu lugar sem dizer uma palavra. Tinha o ar firme e sério. Essa atitude e toda a sua conversa precedente com o stáriets, que não era esperada de sua parte, impressionaram a todos por não sei que de enigmático e solene; de sorte que um silêncio geral reinou por um instante e o rosto de Aliócha exprimia quase terror. Mas Miúsov ergueu os ombros ao mesmo tempo que Fiódor Pávlovitch se levantava. 

— Divino e santo stáriets — exclamou ele, designando Ivã Fiódo rovitch —, eis meu filho bem amado, a carne de minha carne! É por assim dizer o meu muito reverencioso Karl Moor, mas eis meu outro filho que acaba de chegar, Dimítri Fiódorovitch, contra o qual exijo satisfação perante o senhor — é o irreverentíssimo Frantz Moor —, ambos tirados de Os Bandidos, de Schiller; e eu, nesta circunstância, sou o Regierender Graf von Moor! Julgue-nos e salve-nos! Temos necessidade não somente de suas preces, mas de seus vaticínios! 
— Fale duma maneira ajuizada e não comece por ofender seus próximos — respondeu o stáriets com voz extenuada. Sua fadiga aumentava e suas forças decresciam visivelmente.
— É uma comédia indigna que eu previa, ao vir aqui! — exclamou com indignação Dimítri Fiódorovitch, que também se havia erguido. — Desculpe-me, reverendo padre, sou pouco instruído e ignoro mesmo como o chamam, mas enganaram-no, e foi o senhor demasiado bom para nos conceder esta entrevista em sua casa. Meu pai tinha necessidade absoluta de escândalo. Com que fim? É negócio dele. Só age calculadamente. Mas agora creio saber por quê... 
— Todo mundo me acusa! — gritou por sua vez Fiódor Pávlovitch — inclusive Piotr Alieksándrovitch. Sim, o senhor me acusou, Piotr Alieksándrovitch! — prosseguiu, voltando-se para Miúsov, se bem que este não pensasse absolutamente em interrompe-lo. — Acusam-me de ter ocultado o dinheiro de meu filho e de não lhe ter dado um vintém sequer! Mas, pergunto-lhes, não há tribunais? Ali, Dimítri Fiódorovitch, de acordo com seus recibos, de acordo com as cartas e convênios, far-se-á a conta do que você tinha, de suas despesas e do que lhe resta! Por que evita Piotr Alieksándrovitch pronunciar-se? Dimítri Fiódorovitch não lhe é estranho. É porque estão todos contra mim; ora, Dimítri Fiódorovitch continua a dever-me, não uma pequena soma, mas vários milhares de rublos, do que posso dar as provas. Seus excessos provocam conversinhas da cidade inteira. Nas suas antigas guarnições gastou mais de 1 milhar de rublos para seduzir moças honestas; nós o sabemos, Dimítri Fiódorovitch, da maneira mais circunstanciada, e demonstrá-lo-ei... Reverendo padre, acreditaria o senhor que fez com que se apaixonasse por ele uma moça das mais distintas, de excelente família com fortuna, filha de seu antigo chefe, um bravo coronel que serviu meritoriamente à pátria, condecorado com o colar de Santa Ana com gládios? Essa moça, que ele comprometeu, oferecendo-se para casar com ela, mora agora aqui, órfã, é sua noiva, e aos olhos dela frequenta ele uma sereia. Se bem que esta última tenha vivido em união livre com um homem respeitável, mas de caráter independente, é uma fortaleza inexpugnável para todos, tal como uma mulher legítima, porque ela é virtuosa, sim, meus reverendos padres, ela é virtuosa! Ora, Dimítri Fiódorovitch quer abrir aquela fortaleza com uma chave de ouro, eis por que faz-se de bravo agora comigo, quer subtrair-me dinheiro, já gastou milhares de rublos por causa dessa sereia; além disso anda pedindo dinheiro emprestado sem cessar, e a quem, sabem os senhores? Devo dizê-lo ou não, Mítia? 
— Cale-se! — exclamou Dimítri Fiódorovitch. — Espere que eu me retire, evite enodoar na minha presença a mais nobre das moças... Ê já uma vergonha para ela que tenha ousado fazer alusão a isso... Não o tolerarei!

     Estava sufocado. 

— Mítia, Mítia! — gritou Fiódor Pávlovitch, nervoso e fazendo força para chorar. — E a bênção paterna, que fazes dela? Se eu te amaldiçoar, que acontecerá? 
— Tartufo sem-vergonha! — rugiu Dimítri Fiódorovitch. 
— É assim que trata a seu pai, a seu pai! Como o fará aos outros? Escutem, senhores, há aqui um homem pobre, mas honrado; capitão reformado, que foi dispensado em consequência de uma desgraça, mas não em virtude de um julgamento, de reputação intata, sobrecarregado de numerosa família. Há três semanas, o nosso Dimítri Fiódorovitch agarrou o pela barba num botequim, arrastou-o pela rua e surrou-o em público, pela mera razão de estar esse homem secretamente encarregado de meus interesses em determinado negócio. 
— Mentira tudo isso! Aparentemente é verdade, no fundo, pura mentira! — disse Dimítri Fiódorovitch, tremendo de cólera. — Meu pai, não justifico minha conduta; sim, convenho publicamente que fui brutal para com esse capitão. Agora lamento isso e minha brutalidade me causa horror, mas esse capitão, encarregado de seus negócios, foi procurar aquela pessoa que o senhor chama de sereia e lhe propôs de parte do senhor avalizar minhas promissórias, que estão em seu poder, a fim de perseguir-me e mandar-me prender, no caso de apertá-lo eu demais a propósito de nosso ajuste de contas. Se o senhor quer atirar-me na prisão é unicamente por ciúme dela, porque o senhor mesmo começou a andar em roda dessa mulher — estou ao corrente de tudo. Ela só fez rir, está ouvindo? E foi zombando do senhor que o repeliu. Tal é, meus reverendos padres, esse homem, esse pai que censura a má conduta de seu filho. Os senhores, que são testemunhas, perdoem minha cólera, mas pressentia eu que esse pérfido velho os convocara a todos aqui para provocar um escândalo. Vim na intenção de perdoar, se ele me estendesse a mão, de perdoar-lhe e de pedir-lhe perdão! Mas como acaba ele de insultar não somente a mim, mas à moça mais nobre, cujo nome não ouso pronunciar em vão, porque a respeito, decidi desmascará-lo publicamente, se bem que seja meu pai.

     Não pôde continuar. Seus olhos faiscavam, respirava com dificuldade. Todos os presentes estavam emocionados, exceto o stáriets, todos se haviam levantado, agitados. Os religiosos olhavam com olhar severo, mas aguardavam a vontade do stáriets. Este último estava pálido, não de emoção, mas de fraqueza doentia. Um sorriso suplicante desenha va-se em seus lábios; erguia por vezes a mão como para conter aqueles furiosos. Teria podido, com um só gesto, pôr fim à cena; mas parecia esperar qualquer coisa e olhava fixamente, como se quisesse ainda com preender um ponto que lhe teria escapado. Por fim, Piotr Alieksándrovitch sentiu-se definitivamente humilhado, atingido na sua dignidade. 

— No escândalo que acaba de desenrolar-se, somos todos culpados! — declarou ele, apaixonadamente. — Mas não previa tudo isso vindo aqui, se bem que soubesse com quem tratava... É preciso acabar com isso sem tardar. Meu reverendo padre, fique certo de que não conhecia eu exatamente todos os detalhes revelados aqui, não queria acreditar neles e fico conhecendo-os pela primeira vez. O pai está com ciúmes de seu filho por causa de uma mulher de má vida e entende-se com essa criatura para lançá-lo na prisão... E é em semelhante companhia que me fizeram vir aqui... Enganaram-me, declaro ter sido enganado tanto quanto os outros... 
— Dimítri Fiódorovitch! — gritou de súbito Fiódor Pávlovitch, com uma voz que não era a sua. — Se não fosse você meu filho, eu o desafiaria agora mesmo a um duelo... a pistola, a três passos... através de um lenço, através de um lenço — terminou ele, sapateando.

     Há nos velhos mentirosos que representaram comédia a vida inteira momentos em que entram de tal maneira em seu papel que tremem e choram com verdadeira emoção, se bem que no mesmo instante possam dizer a si mesmos (ou logo depois): 'Tu mentes, velho descarado, és um ator - mesmo agora, malgrado tua santa cólera".
     Dimítri Fiódorovitch ficou sombrio, mirando seu pai com um desprezo indizível. Eu pensava... — disse ele em voz baixa — eu pensava voltar ao país natal com aquele anjo, minha noiva, para cuidar da velhice dele, e que vejo? Um debochado luxurioso e um vil comediante! 

— A um duelo! — gritou de novo o velho, ofegante e babando a cada palavra. — Quanto ao senhor, Piotr Alieksándrovitch Miúsov, fique sabendo que em toda a sua linhagem não há talvez mulher mais nobre e mais honesta — está entendendo? —, mais honesta do que essa criatura, como se permitiu o senhor chamá-la ainda há pouco! Quanto a você, Dimítri Fiódorovitch, que substituiu sua noiva por essa "criatura*', você mesmo julgou que sua noiva não valia a sola dos sapatos dela! 
— É vergonhoso! — deixou escapar o Padre Iósif. 
— É vergonhoso e infame! — gritou com uma voz juvenil, trêmula de emoção, o rosto rubro, Kolgánov, que havia até então guardado silêncio. 
— Por que tal homem existe? — rugiu surdamente Dimítri Fiódorovitch, a quem a cólera quase enlouquecia. Ergueu os ombros a ponto de parecer corcunda. — Não, dizei-me, pode-se permitir ainda que ele desonre a terra? — Lançou um olhar circundante e apontou para o velho com a mão. Falava num tom lento, medido. 
— Estais ouvindo, monges, estais ouvindo o parricida?! — exclamou Fiódor Pávlovitch, dirigindo-se ao Padre Iósif. — Eis a resposta ao vosso "Ê vergonhoso!" Que é que é vergonhoso? Essa "criatura", essa "mulher de má vida" é talvez mais santa que vós todos, senhores religiosos, que tratais de vossa salvação! Ela caiu talvez na sua juventude, vítima do meio, mas "muito amou". Ora, o Cristo também perdoou aquela que muito amou... 
— O Cristo não perdoou tal amor... — deixou escapar em sua impaciência o manso Padre Iósif. 
— Não, foi esse amor mesmo, monges, esse mesmo. Cuidais de vossa salvação comendo couves e vos acreditais sábios. Comeis cadozes, um por dia, e pensais poder comprar Deus com cadozes. 
— É intolerável, intolerável! — ouviu-se de todos os lados.

     Mas essa cena escandalosa cessou da maneira mais inesperada. De súbito, o stáriets se levantou. Alieksiéi, que quase enlouquecera de medo por ele e por todos, pôde, no entanto, segurá-lo pelo braço. O stáriets dirigiu-se para o lado de Dimítri Fiódorovitch e, ao chegar bem perto, ajoelhou-se diante dele. Aliócha pensou que ele tivesse caído de fraqueza, mas não era nada disso. Uma vez de joelhos, o stáriets prosternou-se aos pés de Dimítri Fiódorovitch numa profunda saudação, precisa e consciente; sua testa aflorou mesmo a terra. Aliócha ficou de tal maneira estupefato que nem mesmo o ajudou a levantar-se. Um leve sorriso pairava-lhe nos lábios. 

— Perdoem, perdoem todos! — disse ele, saudando seus hóspedes para todos os lados.

     Dimítri Fiódorovitch ficou alguns instantes como que petrificado: prosternar-se diante dele! Que significava aquilo? Por fim exclamou: "Ô Deus!", cobriu o rosto com as mãos e lançou-se para fora do quarto. Todos os hóspedes seguiram-no em fila, tão perturbados que se esqueceram de despedir-se do dono da casa e de cumprimentá-lo. Somente os religiosos se aproximaram para receber-lhe a bênção. 

— Por que se prosternou ele? Será algum símbolo? — Fiódor Pávlovitch, de súbito acalmado, procurava assim travar uma conversa, não ousando, aliás, dirigir-se a alguém em particular. Transpunham naquele momento a cerca do eremitério. 
— Não respondo por alienados — respondeu logo Piotr Alieksándrovitch, com aspereza. — Mas, em compensação, desembaraço-me de sua companhia, Fiódor Pávlovitch, e acredite que é para sempre. Onde está aquele monge de há pouco?...

     "Aquele monge", isto é, o que os havia convidado a jantar com o padre abade, não se fizera esperar. Encontrara os hóspedes a tempo, no momento em que estes desciam o patamar, como se tivesse estado todo o tempo à espera deles.

— Tenha a bondade, reverendo padre, de assegurar ao padre abade o meu profundo respeito e apresentar-lhe minhas desculpas; em consequência de circunstâncias imprevistas, é-me impossível, malgrado todo o meu desejo, aceitar o convite — declarou Piotr Alieksándrovitch ao monge, com irritação. 
— A circunstância imprevista sou eu! — interveio logo Fiódor Pávlovitch. — Escute, meu padre, é que Piotr Alieksándrovitch não quer ficar a meu lado, senão iria agora mesmo. Vá, Piotr Alieksándrovitch, não deixe de ir à casa do padre abade, e bom apetite! Fique sabendo que sou eu que me escapulo e não o senhor. Volto para casa, lá poderei comer, aqui, sinto-me incapaz, meu bem-amado parente. 
— Não sou seu parente, jamais o fui, vil indivíduo. 
— Disse isto de propósito para fazer-lhe raiva, porque o senhor repudia este parentesco embora seja meu parente, malgrado seus ares de importância, provar-lhe-ei pelo almanaque eclesiástico; enviar-te-ei o carro, Ivã, fica também, se quiseres. Piotr Alieksándrovitch, as conveniências lhe ordenam que se apresente em casa do padre abade; é preciso pedir desculpas das tolices que cometemos lá. 
 — É verdade que se vai embora? Não está mentindo? 
— Piotr Alieksándrovitch, como o ousaria eu depois do que se passou? Deixei-me arrebatar, senhores, perdoem-me. Além disso, estou transtornado! E tenho vergonha. Senhores, pode-se ter o coração de Alexandre da Macedônia ou o de um cãozinho. Eu me assemelho ao cãozinho Fidelhka. Tornei-me tímido. Pois bem! Como ir ainda jantar depois de tal leviandade, encher-me dos assados do- mosteiro? Tenho vergonha, não posso, desculpem-me! 

     "O diabo sabe de que é ele capaz! Não terá ele a intenção de nos enganar?" Miúsov parou, irresoluto, seguindo com um olhar perplexo o palhaço que se afastava. Este voltou-se e, vendo que Piotr Alieksándrovitch o observava, enviou-lhe com a mão um beijo. 

— Vai à casa do padre abade? — perguntou Miúsov a Ivã Fiódorovitch, num tom brusco. 
— Por que não? Ele mandou convidar-me especialmente desde ontem. 
— Por desgraça, sinto-me verdadeiramente quase obrigado a com parecer a esse maldito jantar — continuou Miúsov no mesmo tom de irritação amarga, sem mesmo tomar cuidado com o mongezinho que o ouvia. — É preciso pelo menos desculpar-nos do que se passou e explicar que não fomos nós... Que pensa disto? 
— Sim, é preciso explicar que não fomos nós. Além disso, meu pai não estará lá — observou Ivã Fiódorovitch. 
— Era só o que faltava que seu pai estivesse lá! Maldito jantar.

     No entanto todos para ele se dirigiam. O mongezinho escutava em silêncio. Ao atravessar o bosque, fez notar que o padre abade esperava desde muito tempo e estava atrasado mais de meia hora. Não lhe responderam. Miúsov mirava Ivã Fiódorovitch com um ar cheio de ódio.

"Ele vai ao jantar como se nada se tivesse passado", pensava ele. "Uma testa de bronze e uma consciência de Karamázov!" 
 
continua na página 77...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Leituras: O Amor, Meu Amor

Mia Couto


António Emílio Leite Couto


para além da saudade, da falta, do silêncio, e que espera nesse invisível fio que me costura a pele como quem conhece o destino, se recolhe, mas não deixa de ser, e eu, que me desfio em nada, quase desisto de reaprender, escondido do escuro na luz, já não sei por onde recomeço o gesto de florescer com cor e risos, continuo rasgado, pelo avesso, permaneço quando não permaneço, respiro essa sensação de estar vivo e ferido ao mesmo tempo, dói manter em pé esse quebra-cabeças, um sopro que não obriga, apenas lembra


O Amor, Meu Amor




Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.


Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.



Leituras:
Só Nua Eu Te Podia Ler / O Amor, Meu Amor /  

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Chegado o dia do jantar)

em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 
continuando...

    Chegado o dia do jantar, esperavam no grande salão de Féterne. Na realidade, os Cambremer davam o jantar para a fina flor da elegância que eram o Sr. e a Sra. Féré. Mas de tal modo temiam desagradar o Sr. de Charlus que, embora tivessem conhecido os Féré através do Sr. de Chevregny, a Sra. de Cambremer sentiu-se febril ao ver, no dia do jantar, que este os vinha visitar em Féterne. Inventaram todos os pretextos para mandá-lo para Beausoleil o mais rápido possível, mas não tão depressa que ele não cruzasse no pátio com o casal Féré, os quais ficaram tão chocados por vê-lo assim mandado embora, como ele envergonhado. Mas, custasse o que custasse, os Cambremer queriam poupar ao Sr. de Charlus a vista do Sr. de Chevregny, achando que este era provinciano, devido a matizes que se deixam passar em família e só se levam em conta diante de estranhos, que são precisamente os únicos a não perceberem tal. Mas ninguém gosta de exibir os parentes que permanecem aquilo que tanto nos esforçamos por deixar de ser. Quanto ao Sr. e à Sra. Féré, eram no mais alto grau aquilo que se chama pessoas de muita distinção. Aos olhos dos que assim os qualificavam, sem dúvida os Guermantes, os Rohan e vários outros também eram pessoas muito distintas, mas o seu nome dispensava de dizê-lo. Como nem todos sabiam do elevado nascimento da mãe do Sr. Féré nem da mãe da Sra. Féré, e do círculo extraordinariamente fechado que ela e o marido frequentavam, quando diziam os seus nomes, sempre acrescentavam, para explicar, que se tratava "do que há de melhor". O seu nome obscuro acaso lhes ditava uma espécie de sobranceira reserva? Sempre é fato que os Féré não tinham relações com pessoas que os La Trémoille teriam frequentado. Fora necessário a posição de rainha do litoral, que a velha marquesa de Cambremer possuía na Mancha, para que os Féré viessem a uma de suas vesperais todos os anos. Tinham-nos convidado para jantar, e muito contavam com o efeito que o Sr. de Charlus ia produzir neles. Anunciaram discretamente que ele estava no número dos convivas. Por acaso, a Sra. Féré não o conhecia. A Sra. de Cambremer teve com isso uma grande satisfação, e pelo seu rosto perpassou o sorriso do químico que vai pôr em contato, pela primeira vez, dois corpos especialmente importantes. A porta se abriu, e a Sra. de Cambremer esteve a ponto de desmaiar ao ver Morel entrar sozinho. Como um secretário encarregado de desculpar o seu ministro, como uma esposa morganática a exprimir o pesar que tem o príncipe de estar doente (assim fazia a Sra. de Clinchamp em relação ao duque d'Aumale), Morel disse, no tom mais leviano: 

- O barão não poderá vir. Está um pouco indisposto; pelo menos, acho que é por causa disso; não estive com ele esta semana - acrescentou, desesperando até com essas últimas palavras a Sra. de Cambremer, que dissera ao casal Féré que Morel estava com o Sr. de Charlus em todas as horas do dia. Os Cambremer fingiram que a ausência do barão era um atrativo a mais para a recepção, e, sem que Morel ouvisse, diziam aos convidados: 
- Passaremos bem sem ele, não é mesmo? Até será mais agradável. -

     Mas estavam furiosos, suspeitaram de uma intriga urdida pela Sra. Verdurin, e, em represália, quando esta voltou a convidá-los para La Raspeliere, o Sr, de Cambremer, não podendo resistir ao prazer de rever sua casa e de se reencontrar com o pequeno grupo, compareceu, mas só, dizendo que a marquesa estava desolada, pois seu médico lhe ordenara que não deixasse o quarto. Com essa meia presença, os Cambremer julgaram, a um tempo, dar uma lição ao Sr. de Charlus e mostrar aos Verdurin que não lhes deviam senão uma polidez restrita, como as princesas de sangue outrora acompanhavam as duquesas, mas unicamente até o meio do segundo quarto. Ao fim de algumas semanas, estavam quase brigados. O Sr. de Cambremer me dava explicações: 

- Direi que com o Sr. de Charlus era mesmo difícil. Ele é extremamente dreyfusista... 
- Mas não! 
- Sim... em todo caso seu primo, o príncipe de Guermantes, o é; falam muito mal dele por isso. Tenho parentes que notam muito essas coisas. Não posso frequentar essas pessoas; acabaria brigando com minha família. 
- Visto que o príncipe de Guermantes é dreyfusista, tanto melhor - disse a Sra. de Cambremer; pois Saint-Loup, que dizem que vai casar com a sobrinha deles, também é. Talvez até seja este o motivo do casamento. 
- Ora, minha cara, não diga que Saint-Loup, de quem tanto gostamos, é dreyfusista. Não convém espalhar levianamente essas alegações - disse o Sr. de Cambremer- - Você o deixaria malvisto no exército! 
- Ele foi, mas não o é mais - disse eu ao Sr. de Cambremer. 
- Quanto ao seu casamento com a Srta. de Guermantes-Brassac, é certo mesmo? 
- Só se fala nisso, mas o senhor está em condições de sabê-lo. 
- Mas eu repito que ele disse a mim mesma que era dreyfusista - insistiu a Sra. de Cambremer. 
- De resto, é muito desculpável; os Guermantes são meio alemães. 
- Quanto aos Guermantes da rua de Varenne, pode dizer que o são inteiramente - observou Cancan. - Mas Saint-Loup é vinho de outra pipa; ainda que tenha toda uma parentela alemã, seu pai reivindicava, acima de tudo, o seu título de grão-senhor francês; voltou à ativa em 1871 e foi morto durante a guerra da maneira reais bela. Por muito que eu seja intransigente sobre a matéria, não é preciso exagerar num sentido ou noutro. In medio... virtus, ah! não consigo me lembrar. É algo que diz o doutor Cottard. Eis aí um que tem sempre a palavra pronta. Deveriam ter aqui um Petit Larousse. -

     Para evitar pronunciar-se sobre a citação latina e abandonar o assunto Saint-Loup em que seu marido parecia achar que ela carecia de tato, a Sra. de Cambremer tocou no caso da Patroa, cujo estremecimento com eles ainda era necessário explicar. 

- Alugamos La Raspeliere à Sra. Verdurin com toda a boa vontade - disse a marquesa. Apenas, ela parece ter acreditado que, com a casa e tudo o que achou meios de se atribuir, a utilização do prado, as velhas tapeçarias, todas as coisas que absolutamente não estavam no contrato, teria ainda mais direito a ligar-se a nós. São coisas inteiramente distintas. Nosso erro foi o de não ter mandado fazer as coisas por um procurador ou uma agência. Em Féterne isso não tem importância, mas creio que daqui estou vendo a cara que faria a tia de Ch'nouville se visse aparecer, no meu dia de recepção, a velha Verdurin toda descabelada. Quanto ao Sr. de Charlus, naturalmente ele conhece pessoas muito distintas, mas também gente de muito má posição. -

     Perguntei quem. Pressionada, a Sra. de Cambremer acabou por dizer: 

- Afirma-se que é ele quem sustenta um senhor Moreau, Morille, Morue, já nem sei mais. Nenhuma relação, é claro, com Morel, o violinista - acrescentou enrubescendo. - Quando senti que a Sra. Verdurin imaginava que, por ser nossa locatária na Mancha, teria o direito de me fazer visitas em Paris, compreendi ser necessário cortar as amarras.

     Apesar dessa desavença com a Patroa, os Cambremer não estavam de mal com os fiéis, subindo de bom grado ao nosso vagão quando se achavam na linha. Quando estávamos prestes a chegar a Douville, Albertine, pegando uma última vez o seu espelho, julgava conveniente às vezes mudar as luvas ou tirar por um momento o chapéu e, com o pente de tartaruga que eu lhe dera e que ela trazia nos cabelos, alisava os coques, ajeitava os fofos e, caso necessário, erguia o rolo de cabelos acima das ondulações que caíam em vales regulares até a nuca. Uma vez dentro dos carros que nos esperavam, a gente absolutamente não sabia mais onde estava; as estradas não tinham iluminação; pelo ruído mais forte das rodas, reconhecíamos estar atravessando uma aldeia, julgávamos ter chegado, e nos achávamos em pleno campo, ouvíamos sinos ao longe, esquecíamos estar de smoking, e tínhamos quase adormecido quando, no fim dessa longa margem de escuridão que, devido à distância percorrida e aos incidentes característicos de todo trajeto em estrada de ferro, parecia ter nos levado até uma hora avançada da noite e quase à metade do caminho de volta a Paris de repente, depois que o rodar do carro sobre uma areia mais fina revelara que acabávamos de entrar no parque, explodiam, reintegrando-nos na vida mundana, as ofuscantes luzes do salão e, depois, da sala de jantar, onde sentíamos um vivo movimento de recuo ao ouvir soar aquelas oito horas que acreditávamos passadas há muito, enquanto que os numerosos serviços e os vinhos finos iam suceder-se ao redor dos homens de fraque e das mulheres meio decotadas, num jantar de claridade rutilante como um verdadeiro jantar na cidade e a que apenas cercava, desse modo mudando o seu caráter, a dupla écharpe sombria e singular que haviam tecido, desviadas por essa utilização mundana de sua primitiva solenidade, as horas noturnas, campestres e marinhas da ida e da volta. Esta, com efeito, nos forçava a deixar o esplendor radiante e logo esquecido do salão luminoso, pelos carros onde eu me acomodava com Albertine para que minha amiga não pudesse estar com os outros sem mim, e muitas vezes por uma outra causa ainda, que era nós dois podermos fazer muita coisa num carro escuro, onde, no caso de se filtrar um súbito raio de luz, os solavancos da descida aliás nos desculpariam de estarmos agarrados um ao outro. Quando o Sr. de Cambremer ainda não havia brigado com os Verdurin, ele me perguntava: 

- Não acha que vai ter sufocações, com esse nevoeiro? Minha irmã teve sufocações terríveis esta manhã. Ah, o senhor também teve - dizia com satisfação. - Vou contar a ela esta noite. Sei que, logo que eu chegar, ela imediatamente vai se informar se o senhor não as tem há muito tempo. -

     Aliás, ele só me falava das minhas sufocações para chegar às da irmã, e me fazia descrever as particularidades das primeiras apenas para assinalar melhor as diferenças existentes entre as duas. Mas apesar destas, como as sufocações da irmã lhe parecessem dever constituir autoridade, não podia crer que o que "aprovava" nas suas não fosse indicado para as minhas, e irritava-se por ver que eu não o experimentava, pois há uma coisa ainda mais difícil do que seguir um regime: é não impô-lo aos outros. 

- Aliás, que digo eu, um profano, quando o senhor está aqui diante do areópago, na fonte. Que pensa disso o professor Cottard? Além disso, voltei a ver sua mulher uma outra vez porque ela dissera que rainha "prima" era um tipo esquisito e eu quis saber o que ela entendia por isso. Ela negou que o havia dito, mas terminou por confessar que falara de uma pessoa que julgara encontrar com minha prima. Não lhe sabia o nome e disse afinal que, se não se enganava, era a mulher de um banqueiro, a qual se chamava Lina, Linétte, Lisette, Lia, enfim, alguma coisa desse gênero.

     Eu pensava que "mulher de um banqueiro" fora posto ali apenas para maior delimitação. Quis indagar a Albertine se aquilo era verdade. Mas preferia aparentar ser aquele que sabe a ser o que faz perguntas. Além disso, Albertine não teria respondido nada, ou um "não", cujo "n" seria hesitante demais e o "ão" acentuado em excesso. Albertine jamais contava fatos que pudessem prejudicá-la, e sim outros que só podiam explicar-se pelos primeiros, pois a verdade é antes uma corrente que parte do que nos dizem, e que captamos, por invisível que seja, do que a própria coisa que nos disseram. Assim, quando lhe afirmei que uma mulher que ela havia conhecido em Vichy era de mau gênero, jurou-me que essa mulher não era de modo algum aquilo que eu imaginava e jamais tentara induzi-la a nada. Mas, noutro dia, como lhe falasse de minha curiosidade por esse tipo de gente, acrescentou que a dama de Vichy também tinha uma amiga que ela, Albertine, não conhecia, mas que a dama lhe havia "prometido apresentar". Para que o tivesse prometido, era portanto necessário que Albertine o desejasse, ou que a dama soubesse, ao oferecê-lo, que lhe causava prazer. Mas, se eu o objetasse a Albertine, daria a impressão de que só dispunha de revelações por meio dela, e logo as teria interrompido. Não saberia de mais nada e teria deixado de me fazer temido. Aliás, estávamos em Balbec, a dama de Vichy e sua amiga moravam em Menton; o afastamento e a impossibilidade do perigo destruiriam logo as minhas suspeitas. Muitas vezes, quando o Sr. de Cambremer me interpelava da plataforma da estação, eu acabava de aproveitar-me das trevas com Albertine, e com tanto mais dificuldade porque ela se debatera um pouco, receando que as trevas não fossem bem completas. 

- Sabe que tenho certeza de que Cottard nos viu; de resto, mesmo sem ver, ele bem que ouviu a sua voz sufocada, justo no momento em que se falava das suas sufocações de outro gênero - dizia-me Albertine ao chegar à gare de Douville, onde retomávamos o trenzinho para o regresso. Mas esse regresso, bem como a ida, ao dar-se certa impressão de poesia, revelava em mim o desejo de fazer viagens, de levar uma vida nova, e, desse modo, fazia-me desejar abandonar qualquer projeto de casamento com Albertine, e até acabar definitivamente com as nossas relações, e assim me tornava, devido mesmo à sua natureza contraditória, mais fácil esse rompimento. Pois na volta, como na ida, em cada estação havia conhecidos que embarcavam conosco ou nos cumprimentavam da plataforma; acima dos prazeres furtivos da imaginação, dominavam estes, contínuos, da sociabilidade, que são tão apaziguadores, tão calmantes. Antes das próprias estações, já seus nomes (que tanto me haviam feito sonhar, desde o dia em que os ouvira, na primeira tarde em que viajara com minha avó) tinham se humanizado, tinham perdido sua singularidade desde a noite em que Brichot, a pedido de Albertine, nos explicara mais completamente suas etimologias. Eu achara um encanto essa "flor" (fleur) com que terminavam certos nomes, como Figuefleur, Honfleur, Flers, Barfleur, Harfleur, etc., e divertido o "boi" (boeut) que existe no fim de Bricqueboeuf. Mas a flor e o boi desapareceram quando Brichot (e isto ele me dissera no primeiro dia no trem) nos informara que fleur quer dizer "porto" (como fiord) e que boeuf, em normando budh, quer dizer cabana. Como citava diversos exemplos, o que me parecera particular se generalizava: Bricqueboeuf juntava-se a Elbeuf, e, mesmo num nome à primeira vista tão individual como o local, feito o nome de Pennedepie, onde as estranhezas mais impossíveis de elucidar pela razão me pareciam amalgamadas desde um tempo imemorial em um vocábulo vilão, saboroso e endurecido como determinado queijo normando, fiquei desolado ao encontrar o pen gaulês que significa "montanha" e se encontra tanto em Penmarch como nos Apeninos. Como a cada parada do trem eu sentisse que teríamos mãos amigas para apertar, dizia à Albertine: 
- Trate logo de perguntar a Brichot os nomes que quer saber. Você me falou de Marcouville-l'Orgueilleuse. 
- Sim, gosto muito desse orgulho, é uma aldeia altiva - disse Albertine. 
- Achá-la-ia mais altiva ainda - respondeu Brichot - se em vez de sua forma francesa, ou até de baixa latinidade, tal como a encontramos no cartulário do bispo de Bayeux, Marcovilla superba, tomasse a forma mais antiga, mais vizinha do normando, Marculphivífia superba, a aldeia, o domínio de Marculph. Em quase todos estes nomes que terminam em ville, vocês ainda poderiam ver, erguido sobre esta costa, o fantasma dos rudes invasores normandos. Em Hermonville, você não teve, de pé à pontinhola do vagão, mais que o nosso excelente doutor que, evidentemente, não tem nada de chefe normando. Porém, fechando os olhos, poderia ver o ilustre Herimund (Herimundivifa). Conquanto eu não saiba por que se vai por estas estradas, compreendidas entre Loigny e Balbec-Plage, em vez das outras, bem mais pitorescas, que levam de Loigny ao velho Balbec, a Sra. Verdurin talvez já o tenha levado de carro para aquelas bandas. Então deve ter visto Incarvillle, ou aldeia de Wiscar, e Tourville, antes de chegar à casa da Sra. Verdurin, é a aldeia de Turold. Além disso, não houve só normandos. Parece que os alemães chegaram até aqui (Aumenancourt, Alemanicurtis); não o digamos àquele jovem oficial que vejo daqui; seria capaz de não mais querer ir visitar seus primos. Houve também saxões, como o testemunha a fonte de Sissone (um dos passeios prediletos da Sra. Verdurin, e com toda a razão), tanto como na Inglaterra o Middlesex, o Wessex. Coisa inexplicável, parece que os godos, gueux como diziam, vieram até cá, e mesmo os mouros, pois Mortagne provém de Mauretania. Ficou o vestígio deles em Gourville (Gothorumvifia). Aliás, também subiste algum vestígio dos latinos: Lagny (Latiniacum). 
- Quanto a mim, peço a explicação de Thorpehomme - disse o Sr. de Charlus. - Compreendo "homme" - acrescentou, enquanto Cottard e o escultor trocavam um olhar de inteligência. - Mas Thorp? 
- "Homme" não significa de modo algum aquilo que o senhor é naturalmente levado a crer, barão - respondeu Brichot, olhando maliciosamente para o escultor e Cottard. - "Homme" nada tem a ver aqui com o sexo a que não devo minha mãe. "Homme" é Holm, que significa "ilhota", etc. Quanto a Thorp, ou "aldeia", encontramo-lo em cem palavras com que já aborreci o nosso jovem amigo. Assim, em Thorpehomme não existe nome de chefe normando, mas palavras do idioma normando. Veja como toda esta região foi germanizada. 
- Creio que ele exagera - disse o Sr. de Charlus. 
- Estive ontem em Orgeville... - Desta vez devolvo-lhe o homem que havia tirado em Thorpehomme, barão. Seja dito sem pedantismo; uma carta de Roberto I nos dá para Orgeville, Otgerivifia, o domínio de Otger. Todos estes nomes são os de antigos senhores. Orgeville-la Venelle corresponde a I'Avenel. Os Avenel eram uma família conhecida na Idade Média. Bourguenolles, aonde a Sra. Verdurin nos levou outro dia, escrevia-se "Bourg de Môles", pois essa aldeia pertenceu no século XI a Baudouin de Môles, bem como La Chaise-Baudouin; mas eis-nos em Doncieres. 
- Meu Deus, quantos tenentes vão tentar embarcar! - disse o Sr. de Charlus com simulado pavor. - Digo-o pelos senhores; quanto a mim, não me incomoda, pois vou descer aqui. 
- Está ouvindo, doutor? - disse Brichot. - O barão tem medo de que os oficiais lhe passem por cima do corpo. E contudo estão no seu papel, encontrando-se agrupados aqui, pois Doncieres é exatamente Saint-Cyr, dominus Cyriacus. Há muitos nomes de cidades onde sanctus e sancta são substituídos por dominus e domina. Ademais, esta cidade tranqüila e militar apresenta às vezes falsos ares de Saint-Cyr, de Versalhes e até de Fontainebleau.

     Durante esses regressos (como nas idas), eu dizia a Albertine que se arrumasse, pois sabia muito bem que em Amancourt, em Doncieres, em Épreville e em Saint-Vast, nós teríamos de receber visitas breves. Aliás, tais visitas não eram desagradáveis, fosse, em Hermonville (o domínio de Herimund), a do Sr. de Chevregny, aproveitando a oportunidade de que tinha vindo receber convidados para me convidar a ir almoçar no dia seguinte em Montsurvent, ou, em Doncieres, a brusca invasão de um dos encantadores amigos de Saint-Loup, enviado por este (se não estivesse livre) para me transmitir um convite do capitão de Borodino, do grupo de oficiais no Coq Hardi, ou dos suboficiais no Faisan Doré. Saint-Loup vinha muitas vezes pessoalmente, e, durante todo o tempo em que ele ali se encontrava, eu, sem que ninguém percebesse, mantinha Albertine prisioneira sob meu olhar, aliás inutilmente vigilante. Entretanto, por uma vez interrompi a guarda. Como houvesse uma longa parada, Bloch, tendo-nos cumprimentado, retirou-se quase imediatamente para se juntar ao pai, o qual acabava de herdar do tio, e, tendo alugado um castelo que se chamava La Commanderie, achava bem próprio de um grão-senhor só circular em sege de posta, com postilhões de libré. Bloch pediu-me que o acompanhasse até a carruagem. 

- Mas apressa-te, pois esses quadrúpedes são impacientes; vêm, homem caro aos deuses, que darás alegria a meu pai. -

     Mas eu sofria muito em deixar Albertine no trem com Saint-Loup; eles poderiam falar-se enquanto eu estivesse de costas, ir para outro vagão, sorrir-se, tocar-se; meu olhar aderente a Albertine não podia destacar-se dela enquanto Saint-Loup ali estivesse. Ora, vi muito bem que Bloch, que me havia pedido como um serviço que fosse cumprimentar seu pai, primeiro achou pouco gentil que eu recusasse, visto que nada me impedia, já que os empregados tinham avisado que o trem ainda ficaria pelo menos um quarto de hora na estação, e que quase todos os passageiros, sem os quais o trem não partiria, haviam descido; e a seguir não duvidou de que fosse porque, decididamente minha conduta nessa ocasião lhe servia de prova decisiva -, eu era um esnobe. Pois não ignorava o nome das pessoas com quem eu me achava. De fato, o Sr. de Charlus me dissera, algum tempo antes e sem se lembrar ou importar-se que isso já fora feito outrora para se aproximar dele: 

- Mas apresente-me o seu companheiro. O que você faz é uma falta de respeito para comigo - e havia conversado com Bloch, que parecera agradar-lhe imensamente, tanto que o havia gratificado com um "espero tornar a vê-lo". 
- Então é irrevogável, não queres andar estes cem metros para cumprimentar meu pai, a quem isso daria tanta satisfação? - indagou Bloch.

     Sentia-me desgraçado por dar a impressão de que faltava com a boa camaradagem, ainda mais pelo motivo suposto por Bloch, e por ver que ele imaginava que eu já não era o mesmo para com meus amigos burgueses na presença de pessoas "bem-nascidas". Desde esse dia, deixou de me testemunhar a mesma amizade e, o que me era mais penoso, não teve mais a mesma estima pelo meu caráter. Mas, para desenganá-lo quanto ao motivo que me fizera permanecer no vagão, teria de lhe dizer alguma coisa a saber, que eu tinha ciúmes de Albertine -, o que me seria ainda mais doloroso do que deixá-lo crer que eu era estupidamente mundano. É assim que, teoricamente, achamos que deveríamos sempre nos explicar com toda a franqueza, evitar mal entendidos. Mas com muita freqüência a vida os combina de tal maneira que, para dissipá-los, nas raras circunstâncias em que isso seria possível, teríamos de revelar o que não é o caso presente - algo que deixaria o nosso amigo ainda mais ofendido do que a culpa imaginária de que nos acusa, ou um segredo cuja divulgação e era o que me acabava de ocorrer nos parece ainda pior que o mal-entendido. E além disso, mesmo sem explicar a Bloch, visto que não podia fazê-lo, a razão pela qual eu não o acompanhara, se eu lhe tivesse pedido que não ficasse magoado, não teria feito mais que aumentar essa mágoa, mostrando que dela me apercebera. Não havia o que fazer senão inclinar-se diante desse fato que havia desejado que a presença de Albertine me impedisse de acompanhá-lo e que acreditasse pelo contrário que era dessa gente brilhante a que, embora o tivesse sido cem vezes mais, só teria por efeito que me ocuparia então exclusivamente de Bloch e o reservasse toda minha cortesia. Bastou assim acidentalmente, absurdamente um incidente (neste caso a presença de Albertina e de Saint-Loup) interpor-se entre dois destinos cujas linhas convergiam uma para outra, para que se desviassem, apartassem-se mais e mais e já não pudessem aproximar-se. E há amizades mais formosas que as de Bloch e a minha, que se viram destruídas sem que o involuntário autor do desgosto tenha podido lhe explicar nunca ao aborrecido o que sem dúvida curasse seu amor próprio e devolvesse sua simpatia decrescente. Amizades mais formosas que a de Bloch não seria por outra parte dizer muito. Tinha todos os defeitos que mais me desgostavam. Minha ternura pela Albertina era acidentalmente o que me permitia suportá-los. Assim nesse singelo momento em que eu conversei com ele enquanto vigiada com um olho ao Roberto, Bloch me disse que havia almoçado em casa da senhora de Bontemps e que todos haviam falado com os maiores elogios de mim até o declinar de Hélios. Bom, pensei, como a senhora de Bontemps acredita que Bloch é um gênio, o sufrágio entusiasta que me terá concedido produzirá mais pelo que todos outros pudessem haver dito, e isso chegará de volta até Albertina. De um dia ao outro, não pode deixar de inteirar-se, e me assombra que sua tia não lhe haja dito ainda que sou um homem superior. 

- Sim, - adicionou Bloch, - todos fizeram seu elogio. Eu só guardei um silêncio tão profundo como se em lugar do almoço, por outra parte medíocre que nos serviam, tivesse absorvido papoula, de cara ao bem-aventurado irmão de Tanathos e da Letea, o divino Hypnos que envolve com doces ligaduras o corpo e a língua; e não é que o admire menos que essa banda de cães ávidos com os quais haviam-me convidado. Mas eu o admiro porque o compreendo e eles admiram-lhe sem o compreender. Para dizê-lo melhor, admiro-o muito para falar assim de você, em público; tivesse-me parecido uma profanação elogiar em voz alta o que levo no mais fundo de meu coração. Por mais que perguntassem a seu respeito, um pudor sagrado, filho de Kronion, fez-me emudecer.

     Não tive o mau gosto de parecer descontente, mas esse pudor me pareceu parente muito mais que de Kronion; desse pudor que impede a um crítico que nos admira, falar de nós para que o templo secreto no qual reinamos não seja invadido pela turfa dos leitores ignorantes e os jornalistas; com o pudor do homem de estado que não nos condecora para que não confundam-nos em meio da gente que não vale o mesmo que nós; com o pudor do acadêmico que não vota por nós para nos economizar a vergonha de ser colega de X ..., que não tem talento; com o pudor enfim mais respeitável e mais criminoso; entretanto dos filhos que rogam-nos não escrevamos de seus pais defuntos, que teve muitos méritos para lhes assegurar o silêncio e o descanso, impedir que se mantenha a vida e se crie glória ao redor do pobre morto, que preferiria seu nome pronunciado pelas bocas dos homens às coroas conduzidas, muito piedosamente por outra parte, até sua tumba. Se enquanto Bloch me desesperava por não compreender os motivos que me impediam de saudar seu pai, fala-me irritado ao me confessar que me descuidasse em casa da senhora de Bontemps (agora compreendia por que Albertina não tinha aludido nunca a esse almoço e ficava em silêncio quando lhe falava do afeto de Bloch por mim) o jovem israelita produziu no senhor de Charlus uma impressão muito distinta a chateação. Na verdade Bloch acreditava agora que não só não podia eu estar nem um segundo longe da gente elegante, mas sim ciumento das iniciativas que puderam ter com ele (como o senhor de Charlus) tratava de lhe pôr travas e lhe impedia de vincular-se, com eles; mas por sua parte o barão lamentava não ter visto mais a meu companheiro. Segundo seu costume, cuidou-se de demonstrá-lo. Começou por me fazer, sem aparentá-lo, algumas pergunta a respeito de Bloch, mas com um tom tão negligente, com um interesse que parecia de tal modo simulado que ninguém podia acreditar que ouvisse as respostas. Com um ar desprendido, com uma melancolia que mais que indiferença indicava distração e como uma simples cortesia por mim. 

- Parece inteligente, disse que escrevia tem talento?

     Disse-lhe ao senhor de Charlus que tinha sido muito amável ao lhe dizer que esperava voltar a vê-lo. Nem por um momento revelou o barão que tinha ouvido minha frase e como a repeti quatro vezes sem ter resposta, acabei por duvidar se não teria sido vítima de uma miragem acústica quando acreditei ouvir o que havia dito o senhor de Charlus. 

- Vive em Balbec? - cantarolou o barão, com um aspecto tão pouco inquisitivo que é irritante que o idioma francês não possua outro sinal além disso do de interrogação para terminar essas frases aparentemente tão pouco interrogativas. É verdade que esse sinal não serviria ao senhor de Charlus. Não, alugara perto daqui, a Encomenda.

     Uma vez que soube o que desejava o senhor de Charlus fingiu desprezar Bloch. 

- Que horror!, - exclamou devolvendo à voz todo seu vigor de clarim. Todas as localidades ou propriedades chamadas A Encomenda. foram construídas ou possuídas pelos Cavaleiros da Ordem de Malta (a qual pertenço) como os lugares chamados o Templo ou a Cavalaria dos Templários. Se eu habitasse a Encomenda seria muito natural. Mas um judeu...

     Por outra parte não me assombra; isso depende de um curioso afã pelo sacrilégio próprio dessa raça. Assim que um judeu tem bastante dinheiro para comprar um castelo, escolhe sempre um que se chama o Priorado, a Abadia, o Monastério, a Casa de Deus. Tive que ver isso com um funcionário judeu, adivinhem onde vivia? Em Pont-l.Evêque. Cansado da desgraça deu um jeito de o mandarem à Bretanha, no Pont-l.Abbè. Quando na Semana Santa dão esses espetáculos indecentes que se chamam A Paixão, a metade da sala está cheia de judeus, encantados de pensar que vão crucificar pela segunda vez à Jesus, pelo menos em efígie. No concerto do Lamoureux, tinha uma vez por vizinho um rico banqueiro judeu. Tocaram a Infância do Cristo, de Berlioz, e causava pena. Mas logo recuperou a beatitude que lhe é habitual para ouvir o encantamento da Sexta-Feira Santa. 

- Seu amigo vive na Encomenda, desgraçado! que sadismo! Você me indicará o caminho -adicionou voltando para seu ar indiferente; para que um dia possa ir ver como suportam nossos antigos domínios semelhante profanação. É uma desgraça, porque é educado e parece fino. Só faltaria viver na rua do Templo, em Paris.

     O senhor de Charlus parecia com essas palavras querer encontrar unicamente um novo exemplo de sua teoria; mas em realidade me expor uma pergunta com dois objetos cujo principal era saber a direção de Bloch. Com efeito, fez notar Brichot, a rua do Templo se chamava rua da Cavalaria do Templo. 

- E a esse respeito permite uma observação, barão? - disse o universitário. 
- O que? O que é? - disse secamente o senhor de Charlus, ao que essa observação impedia conseguir seu relatório. 
- Não, nada, - respondeu Brichot, embaralhado. - Era a propósito da etimologia de Balbec que me pediram. A rua do Templo se chamava antes Varre du Bac, porque a Abadia do Bac, na Normandia, tinha aí, em Paris, sua vara da justiça.

     O senhor de Charlus nada respondeu e aparentou não ter ouvido, o que nele constituía uma das formas de insolência. 

- Onde vive seu amigo em Paris? Como as três quartas partes das ruas tiram seu nome de uma igreja ou uma abadia, há probabilidade de que continue o sacrilégio. Não se pode impedir que os judeus vivam no bulevar de Madalena, no bairro de São Honorato ou na praça de São Agustin. Enquanto não chegam ao pérfido refinamento de escolher domicílio na praça do átrio de Nossa Senhora, na rua do Arcebispado, na rua Canonesa ou na de Ave-Maria, terá que lhes ter em conta as dificuldades.  

     Não pudemos informar ao senhor de Charlus qual era a atual direção de Bloch, nos era desconhecida. Mas eu sabia que os escritórios do pai estavam na rua dos Mantos Brancos. 

- Oh! é o cúmulo da perversidade! - exclamou o senhor de Charlus, que pareceu achar uma profunda satisfação em seu próprio grito de irônica indignação. Rua dos Mantos Brancos! repetiu, espremendo cada sílaba com uma risada. -Que sacrilégio! Pensem que esses Mantos Brancos profanados pelo senhor Bloch eram os dos frades mendicantes, ditos servos da Santa Virgem, que São Luís assentou ali. E a rua sempre pertenceu à ordens religiosas. A profanação é tanto mais diabólica porque, a dois passos da rua dos Blancs-Manteaux, existe uma rua cujo nome não me lembro e que é inteira concedida aos judeus; há caracteres hebraicos nas lojas, fábricas de pães ázimos, açougues judeus, é a perfeita Judengasse de Paris. O Sr. de Rochegude a denomina gueto parisiense. Era aí que o Sr. Bloch deveria morar. Naturalmente - prosseguiu num tom bastante enfático e altaneiro, e dando, para sustentar conceitos estéticos com uma resposta que lhe dirigia,- malgrado seu, a sua hereditariedade, um ar de velho mosqueteiro de Luís XIII à sua cabeça atirada para trás só me ocupo de tudo isso do ponto de vista da arte. A política não é da minha competência, e eu não posso condenar em bloco, visto tratar-se de Bloch, uma nação que conta Spinoza entre seus membros ilustres. E admiro bastante Rembrandt para não reconhecer a beleza que se pode extrair da freqüência à sinagoga. Mas enfim, um gueto é tanto mais belo quanto mais homogêneo e mais completo. Aliás, fique certo, de tal modo o instinto prático e a cupidez se misturam nesse povo ao sadismo, que a proximidade da rua hebraica de que lhe falo, a comodidade de ter à mão os açougues de Israel, fez com que o seu amigo escolhesse a rua dos Blancs-Manteaux. Como é curioso! Aliás, é por ali que residia um estranho judeu que mandara ferver hóstias, após o que imagino que o fizeram ferver a ele próprio, o que é mais estranho ainda, já que isso parece significar que o corpo de um judeu pode valer tanto quanto o corpo do bom Deus. Talvez fosse possível combinar com seu amigo para que ele nos leve a visitar a igreja dos Blancs-Manteaux. Considere que foi lá que deixaram exposto o corpo de Luís de Orléans depois de seu assassinato por João sem Medo, o qual, infelizmente, não nos livrou dos Orléans. De resto, dou-me pessoalmente muito bem com meu primo, o duque de Chartres, mas, enfim, trata-se de uma raça de usurpadores, que mandaram assassinar Luís XVI e despojar Carlos X e Henrique V. Além disso, têm a quem sair, pois contam entre seus antepassados a Monsenhor, a quem assim chamavam sem dúvida por ser a mais espantosa das velhas damas, o Regente e o resto. Que família! -

     Esse discurso anti-semita ou pró-semita conforme se leve em conta o exterior das frases ou as intenções que elas revelam me fora comicamente interrompido por uma frase que Morel me sussurrou e que teria desesperado o Sr. de Charlus. Morel, que havia reparado na impressão que Bloch produzira, agradecia-me ao ouvido o tê-lo "despachado", acrescentando cinicamente: 

- Ele bem que desejaria ficar, isso tudo é ciúmes; gostaria de tomar o meu posto. É bem típico de um judeu! 
- Poderíamos aproveitar essa parada que se prolonga para pedir algumas explicações rituais ao seu amigo. Será que não podia trazê-lo de volta? - perguntou-me o Sr. de Charlus com a ansiedade da dúvida. 
- Não, é impossível; ele já se foi de carro e, além disso, aborrecido comigo. 
- Obrigado, obrigado - me sussurrou Morel. 
- A desculpa é absurda, sempre se pode alcançar um carro, nada o impediria de tomar um auto - respondeu o Sr. de Charlus, como homem acostumado a que todos se inclinassem diante dele. Mas, reparando no meu silêncio: - Qual é esse carro mais ou menos imaginário? perguntou me com insolência e numa última esperança. - É uma sege de porta aberta e que já deve ter chegado à Commanderie. - Diante do impossível, o Sr. de Charlus se resignou e pareceu gracejar. - Compreendo que tenham recuado diante do cupê redundante. Pois, seria um recupê - 

[Trocadilho intraduzível, em português, pois faz alusão à circuncisão dos judeus. (em francês coupé, ou sela, "cortado"), (N. do T)]

     Finalmente fomos avisados de que o trem ia partir, e Saint-Loup nos deixou. Mas esse dia foi o único em que ele, subindo para o nosso vagão, me fez involuntariamente sofrer com a idéia de ter de deixá-lo por um instante com Albertine para acompanhar Bloch. Das outras vezes a sua presença não me torturou. Pois, por si mesma, Albertine, para me evitar qualquer inquietação, colocava-se, sob um pretexto qualquer, de tal forma que nem mesmo sem querer poderia roçar em Robert, que ficava quase longe demais até para lhe estender a mão; desviando dele os olhos, logo que ele se achava presente, ela punha-se a conversar ostensivamente, e quase com afetação, com qualquer outro dos passageiros, continuando nesse jogo até que Saint-Loup descesse. De modo que, assim, as visitas que ele nos fazia em Doncieres não me causavam nenhum sofrimento, nem sequer nenhum incômodo, não constituíam qualquer exceção entre as outras, pois todas eram agradáveis, trazendo-me de certa maneira a homenagem e o convite daquela terra. Já desde o fim do verão, no nosso trajeto de Balbec a Douville, quando eu avistava de longe aquela estação de Saint-Pierre-des-lfs, onde à tardinha cintilava por um instante a crista das falésias, toda rosada como ao sol poente a neve de uma montanha, ela já não me fazia pensar (não falo nem mesmo na tristeza que a vista de seu estranho relevo subitamente me causara na primeira noite, ao me dar tão grande vontade de tomar o trem de volta para Paris em vez de continuar até Balbec) no espetáculo que de manhã se podia ter dali, segundo me dissera Elstir, na hora que precede o nascer do sol em que todas as cores do arco-íris se refratam sobre os rochedos, e onde tantas vezes ele havia despertado o menino que, durante um ano, lhe servira de modelo, a fim de pintá-lo inteiramente nu na areia da praia. O nome de Saint-Pierre-des-lfs anunciava-me apenas que ia aparecer um qüinquagenário estranho, espirituoso e maquilado, com quem eu poderia falar sobre Chateaubriand e Balzac. E agora, nas névoas da tarde, detrás daquela falésia de Incarville que tanto me fizera sonhar outrora, o que eu via, como se a sua greda antiga se tornasse transparente, era a bela casa de um tio do Sr. de Cambremer e na qual eu sabia que ficariam sempre contentes em me acolher caso não quisesse jantar na Raspeliere ou voltar a Balbec. Assim, não eram somente os nomes de lugares dessa região que haviam perdido o seu mistério inicial, mas os próprios lugares. Os nomes, já meio vazios de um mistério que a etimologia substituíra pelo raciocínio, tinham baixado ainda mais um grau. Em nossos regressos a Hermonville, a Saint-Vast, a Arembouville, no momento em que o trem parava, avistávamos sombras que a princípio não reconhecíamos e que Brichot, que não via coisa alguma, poderia talvez ter tomado, de noite, por fantasmas de Herimund, de Wíscar e de Herimbald. Era simplesmente o Sr. de Cambremer, completamente rompido com os Verdurin, que reconduzia convidados e que, da parte de sua mãe e da esposa, vinha me perguntar se eu não queria que ele me "raptasse" para hospedar-se alguns dias em Féterne, onde iam apresentar-se uma excelente musicista que me cantaria todo o Glück e um renomado jogador de xadrez com quem eu disputaria excelentes partidas que não prejudicariam a pesca e o iatismo na baía, nem mesmo os jantares dos Verdurin, para os quais o marquês se comprometia, sob palavra de honra, a "emprestar-me", mandando que me levassem e trouxessem para maior facilidade, e também para maior segurança. 

- Mas não posso crer que seja bom para o senhor ir até tão alto. Sei que minha irmã não o poderia suportar. Voltaria num tal estado! Aliás, no momento ela não anda muito bem... Na verdade, o senhor teve uma crise tão forte! Amanhã não poderá ficar de pé! - E se torcia de riso, não por maldade, mas pelo mesmo motivo por que não podia, sem rir, ver um coxo estatelar-se na rua ou conversar com um surdo. - E então? O quê, o senhor não tem um acesso há quinze dias? Pois saiba que isso é ótimo! Verdadeiramente, deveria vir instalar-se em Féterne, conversaria com minha irmã sobre suas sufocações. -

     Em Incarville, era o marquês de Montpeyroux que, não tendo podido ir a Féterne, pois ausentara-se para caçar, tinha vindo "ao trem" de botas e com o chapéu ornado com uma pluma de faisão, a fim de apertar a mão de parentes e anunciar-me, na mesma ocasião, para o dia que eu quisesse, a visita de seu filho, que ele me agradecia que eu recebesse e gostaria muito que o fizesse ler um pouco; ou então o Sr. de Crécy, que vinha fazer a sua digestão, dizia ele, fumando seu cachimbo, aceitando um ou até vários charutos, e que me dizia: 

- Pois bem, o senhor não marca um dia para a nossa próxima reunião à Lúculo? Não temos nada a nos dizer? Permita-me que lhe lembre que deixamos em aberto no trem a questão das duas famílias Montgommery. É preciso que encerremos o assunto. Conto com o senhor. -

     Outros vinham apenas comprar jornais. E também muitos conversavam conosco, tanto que eu sempre desconfiei acharem-se ali na plataforma, na estação mais próxima de seu pequeno castelo, somente por não terem o que fazer senão encontrar num momento pessoas conhecidas. Em suma, um quadro da vida mundana como qualquer outro, eram essas paradas do trenzinho. Este parecia ter consciência do papel que lhe cabia, adquirira uma certa amabilidade humana: paciente, de temperamento dócil, esperava pelos retardatários o tempo que eles quisessem, e até mesmo, depois de ter partido, parava para recolher os que lhe faziam sinal; estes então corriam atrás dele, resfolegando, no que se pareciam a ele, mas com a diferença de que o alcançavam a toda velocidade, ao passo que ele só se utilizava de uma sábia lentidão. Assim Hermonville, Arembouville, Incarville já nem sequer me evocavam as rudes grandezas da conquista normanda, não satisfeitas de se haverem totalmente despojado da inexplicável tristeza em que as banhara outrora na umidade da noite. Doncieres! Para mim, mesmo depois de a ter conhecido e de haver despertado do meu sonho, o quanto não restava nesse nome, por muito tempo, das ruas agradavelmente gélidas, das vitrinas iluminadas, das aves suculentas! Doncieres! Agora, nada mais era que a estação onde embarcava Morel; Égleville (Aquilaevilla), aquela em que geralmente nos esperava a princesa Sherbatoff; Maineville, a estação em que descia Albertine nas noites de bom tempo, quando, não estando muito cansada, tinha vontade de se demorar ainda um momento comigo, visto que, por um atalho, não precisava caminhar muito mais do que se tivesse descido em Parville (Paterni villa). Não só eu já não sentia o temor ansioso do isolamento que me oprimira na primeira noite, como também não mais tinha que recear a sua renovação, nem de sentir-me desenraizado ou de me achar sozinho nessa terra que produzia não apenas castanheiros e tamargueiras, mas também amizades que, ao longo do percurso, formavam uma longa cadeia, interrompida como a das colinas azuladas, por vezes ocultas na anfratuosidade do rochedo ou por detrás das tílias da avenida, mas delegando a cada estação um amável gentil homem que vinha, com um cordial aperto de mão, interromper o meu caminho, impedir-me de sentir sua extensão e, se preciso, oferecer-se para continuá-la comigo. Um outro estaria na estação seguinte, de forma que o apito do trenzinho não nos fazia deixar um amigo senão para permitir que encontrássemos outros. Entre os castelos mais afastados e o trem de ferro que os costeava quase ao passo de uma pessoa que caminha depressa, tão curta era a distância que no momento em que, na plataforma, diante da sala de espera, os seus proprietários nos interpelavam, quase poderíamos acreditar que o faziam da soleira de sua porta, da janela do seu quarto, como se a pequena via férrea departamental não passasse de uma rua de província e o solar isolado de um hotel citadino; e até nas raras estações em que eu não ouvia o "boanoite" de ninguém, o silêncio possuía uma plenitude nutritiva e calmante, pois eu o sabia formado pelo sono de amigos que se deitavam cedo na mansão próxima, onde a minha vinda seria saudada com alegria se eu precisasse despertá-los para lhes pedir um serviço de hospitalidade. Além do que, o hábito preenche de tal modo o nosso tempo que, no fim de alguns meses, não nos resta um só instante livre numa cidade em que, ao chegarmos, o dia nos dava a disponibilidade de suas doze horas; se por acaso uma hora ficasse vaga, não mais teria a ideia de empregá-la em visitar uma igreja pela qual outrora eu tinha vindo a Balbec, nem mesmo confrontar um local pintado por Elstir com o esboço que eu vira em casa dele, mas ir jogar mais uma partida de xadrez em casa do Sr. Féré. Com efeito, era a influência degradante, como também o encanto, que tivera essa região de Balbec de se converter para mim numa verdadeira terra de conhecidos; se sua repartição territorial, sua semeadura extensiva ao longo do litoral em culturas diversas conferiam obrigatoriamente às visitas que eu fazia a esses diferentes amigos a forma de viagem, também restringiam essa viagem a não ter mais que o agrado social de uma série de visitas. Os próprios nomes de lugares, tão perturbadores para mim outrora, que o simples annuaire des châteaux, folheado no capítulo do departamento da Mancha, me causava tanta emoção como o Indicador das estradas de ferro, tinham-se tornado tão familiares que eu podia até consultar esse mesmo Indicador, na página Balbec-Douville por Doncieres, com a mesma tranquilidade de um catálogo de endereços. Nesse vale por demais social, a cujos flancos eu sentia grudada, visível ou não, uma comparsaria de amigos numerosos, o grito poético da noite já não era o da coruja ou da rã, e sim o "Como vai?'' do Sr. de Criquetot ou o "Kairé!" de Brichot. A atmosfera já não despertava angústias e, carregada de eflúvios puramente humanos, era facilmente respirável, até mesmo excessivamente calmante. O benefício que eu dela tirava era, pelo menos, o de só ver as coisas do ponto de vista prático. O casamento com Albertine me parecia uma loucura.

continua na página 237...
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