sexta-feira, 3 de julho de 2026

MPB: Almirante Negro

O Mestre Sala dos Mares

Aldir Blanc e João Bosco


Versão proibida (pela ditadura militar de 64) de "O mestre-sala dos mares" - gravado em 1974 !
Elis Regina





Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu

Conhecido como Navegante Negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava, então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais

Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais

Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas salve

Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo


A REVOLTA DA CHIBATA 
| Eduardo Bueno





Documentário: João Cândido, o Almirante Negro - Revoltas





João Bosco - Corsário [Raridade]





Sem Censura Especial - João Bosco



O Mestre Sala dos Mares /     

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - Patron-Minette / III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sétimo — Patron-Minette

     III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse

             Quatro bandidos, Claquesous, Gueulemer, Babet e Montparnasse, governavam o entressolo de Paris, pelos anos de 1830 a 1835. Gueulemer era um Hércules em disponibilidade. O seu antro era o esgoto do Arche-Mariom. Tinha seis pés de altura, peito de mármore, músculos de bronze, uma respiração de caverna, cintura e ombros de colosso, crânio de pássaro. Dir-se-ia o Hércules Farnésio vestido com calças de cotim e jaqueta de veludinho. Construído desse modo escultural, Gueulemer seria capaz de domar monstros; achara, porém, mais simples ser ele mesmo um. Testa curta, fontes amplas, quarenta anos incompletos, e pés de pato, cabelo áspero e curto, faces salientes, barba como pelos de porco-espinho; eis o esboço deste homem. Os seus músculos solicitavam o trabalho, a sua estupidez rejeitava-o. Era uma grande força preguiçosa, um assassino por indolência. Dizia-se que este Gueulemer era crioulo. Como em 1815 fora carrejão em Avinhão, talvez tivesse convivido com o marechal Brune. Acabado este tempo de prática, passara a ser bandido.
     A transparência de Babet contrastava com a corpulência de Gueulemer. Babet era magro e instruído e, apesar de transparente, impenetrável. Via-se-lhe a luz através dos ossos, mas através das pupilas, nada. Declarava-se químico. Havia sido licorista no estabelecimento de Bobeche, palhaço com Bobino, e além disto ator de farsas em Saint Mihiel. Era um homem de propósito, bem falante, que sublinhava os seus sorrisos e punha comas nos seus gestos. Consistia o seu modo de «vida em andar a vender pelas ruas bustos de gesso e retratos do chefe do Estado. Além disto também tirava dentes. Em tempos andara mostrando fenômenos pelas feiras, nas quais levantava barraca, chamando os espectadores com trombetas e este cartaz: «Babet, artista dentista, membro das academias, faz experiências físicas sobre metais e metaloides, extirpa dentes, tira as arnelas abandonadas pelos seus colegas. Preços: um dente, um franco e cinquenta cêntimos: dois, dois francos; três, dois francos e cinquenta cêntimos. Aproveitar da ocasião». Este «aproveitar da ocasião» queria dizer: quanto maior número de dentes tirardes, melhor. Babet tinha casado e do filhas, porém não sabia o que era feito nem da mulher nem dos filhos. Perdera-os como quem perde o lenço. Por uma excepção, raríssima no obscuro mundo a que ele pertencia, Babet lia jornais. Uma ocasião, no tempo em que ele ainda trazia consigo a família na sua barraca ambulante, lera no Mensageiro que uma mulher tinha dado à luz uma vivedoura criança com focinho de touro, e exclamara: «Isto é que é ser feliz! Não é minha mulher capaz de me arranjar assim um pequeno!»
     Depois abandonara tudo para «tentar Paris», para nos servirmos da sua expressão.
     Quem vinha a ser Claquesous? Era a escuridão. Para se mostrar esperava que o céu se enfarruscasse de negro. À noite saía de um buraco, em que tornava a entrar antes de ser dia. Onde ficava essa cova? Ninguém o sabia No meio da mais completa escuridão, aos seus cúmplices só falava de costas voltadas. Chamava-se Claquesous? Não. O meu nome, dizia ele, é Nada. Se aparecia alguma vela, punha logo uma máscara. Era ventríloquo. Claquesous é um nocturno a duas vozes, dizia Babet, Claquesous era vago, errante, terrível. Não se sabia se ele tinha nome, visto que Claquesous era uma alcunha; não se sabia se tinha voz, visto que falava mais com o ventre do que com a boca; nem se tinha rosto, visto que nunca ninguém lhe Vira mais do que a máscara. Este homem desaparecia como uma visão e aparecia como quem irrompe das entranhas da terra.
     Criatura lúgubre, Montparnasse. Montparnasse era uma criança de vinte anos incompletos, bonito rosto, lábios rubros, lindos cabelos pretos, olhos resplandecentes do brilho da Primavera; Montparnasse tinha todos os vícios e aspirava a todos os crimes. Era o gaiato convertido em voyou e o voyou convertido em escarpa. Era gentil, efeminado, gracioso, robusto, lânguido feroz. Trazia a aba do chapéu revirada para dar lugar ao tufo dos cabelos, como era moda em 1829. Montparnasse vivia de roubar com violência. O casacão que trazia era bem feito, mas já usado Montparnasse era uma gravura de modas, cheia de miséria e cometendo homicídios. A causa de todos os atentados deste adolescente era o desejo de andar bem trajado. A primeira costureira que lhe disse:

— És belo! — impusera-lhe uma missão de trevas ao coração e fizera deste Abel um Caim.

     Achou-se bonito, quis ser elegante; ora a principal elegância é a ociosidade e a ociosidade do pobre é o crime. Poucos vadios havia mais temidos do que Montparnasse. Aos dezoito anos já tinha por trás de si um rasto de muitos cadáveres. Mais de um viandante jazia de braços estendidos na sombra deste miserável, com o rosto num lago de sangue. Frisado, embanhado, cintura delgada, espáduas de mulher, busto de oficial prussiano, admirado das pros tutas do boulevard, cassetete no bolso, flor ao peito; eis o retrato deste peralta do sepulcro.

continua na página 543...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sétimo - III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

MPB: Eu sei que vou te amar

Tom Jobim e Vinicius de Moraes


Essa música foi eleita pela edição brasileira da Rolling Stone como a 24ª maior canção brasileira.

a força do afeto
 a constância silenciosa
resistente
 ao vento
as promessas                                       desfeitas
   tudo muda de lugar
   não segue a lógica
nem obedece ao tempo
   permanece na impermanência 
nas horas                                                   lentas
     no silêncio     grande                  demais
        o silêncio do pequeno                               gesto
    cuidar do instante
      caminhar ao lado
    mãos  tocando mãos
   uma vigília suave
atento à vida






Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar

E cada verso meu será
Pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida



Composta no ano de 1958, foi regravada em 1959 na voz de Maysa, mantendo o ritmo e todos os arranjos originais, porém ganhando grande intensificação sentimental e tom de voz ímpar, de uma das mais célebres cantoras brasileiras.



Maysa - Eu sei que vou te amar 
/1959






Eu sei que vou te amar e Soneto da Fidelidade 
- Vinicius de Moraes com Maria Creuza e Toquinho





Soneto de Fidelidade




O Soneto de Fidelidade é uma obra famosa de Vinicius de Moraes, escrita em 1939, em Estoril, e publicada em 1946.

 
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

George Orwell - 1984: Parte 1.7b (Tudo se esmaecia na névoa)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

7.
continuando...

     Tudo se esmaecia na névoa. O passado fora anulado, o ato da anulação fora esquecido, a mentira se tornara verdade. Somente uma vez na vida ele possuíra — depois do acontecimento: era isso o que contava — um indício concreto, inquestionável, de um ato de falsificação. Esse indício estivera entre seus dedos por trinta segundos. Em 1973, talvez tivesse sido em 1973 — de qualquer modo foi mais ou menos na época em que ele e Katharine se separaram. Mas o dado realmente relevante ocorrera sete ou oito anos antes.
     Na verdade a história tivera início em meados dos anos 1960, época dos grandes expurgos, quando os líderes revolucionários originais haviam sido eliminados de uma vez por todas. Em 1970 já não restava um só deles, com exceção do próprio Grande Irmão. Os demais, àquela altura, haviam sido denunciados como traidores e contrarrevolucionários. Goldstein fugira e ninguém sabia onde ele se escondia; quanto aos outros, alguns tinham simplesmente desaparecido, enquanto a maioria fora executada depois de julgamentos públicos espetaculares, no decorrer dos quais confessavam seus crimes. Entre os últimos sobreviventes estavam três homens chamados Jones, Aaronson e Rutherford. Provavelmente esses três homens haviam sido presos em 1965. Como acontecia tantas vezes, levaram um sumiço de um ano mais ou menos, de modo que ninguém sabia se estavam vivos ou mortos; reapareceram de repente, para reconhecer a própria culpa da maneira usual. Confessaram colaboração com o inimigo (na época o inimigo também era a Eurásia), apropriação indébita de verbas públicas, assassinato de vários membros leais ao Partido, intrigas visando prejudicar a liderança do Grande Irmão — intrigas essas iniciadas bem antes da Revolução — e atos de sabotagem responsáveis pela morte de centenas de milhares de pessoas. Depois de confessar essas coisas, os três haviam sido perdoados, reconduzidos às fileiras do Partido e agraciados com postos que na verdade eram sinecuras, mas que transmitiam a sensação de ser importantes. Os três haviam publicado artigos longos e abjetos no Times, analisando as razões de sua deserção e jurando corrigir-se.
     Algum tempo depois da libertação, Winston por acaso avistou o trio no Café da Castanheira. Lembrou-se da espécie de fascínio aterrorizado com que os observara com o rabo do olho durante algum tempo. Eram homens bem mais velhos que ele, relíquias do mundo de antes, praticamente as últimas grandes figuras remanescentes dos primeiros e heroicos tempos do Partido. O glamour da luta clandestina e da guerra civil ainda envolvia suavemente suas figuras. Tinha a sensação — embora àquela altura fatos e datas já tivessem começado a perder a nitidez em sua mente — de que soubera seus nomes muitos anos antes de ter tomado conhecimento da existência do Grande Irmão. Ao mesmo tempo, sabia que eram foras-da-lei, inimigos, intocáveis, condenados, com absoluta certeza, à extinção em um ano ou dois. Ninguém que algum dia tivesse caído nas mãos da Polícia das Ideias se dava bem no final. Eles eram cadáveres à espera de ser mandados de volta para o túmulo.
     Não havia ninguém nas mesas próximas à deles. Não era prudente ser visto na vizinhança de gente daquela espécie. Estavam sentados em silêncio diante de copos de gim perfumado com cravo, especialidade do café. Dos três, o que mais impressionou Winston devido a sua aparência foi Rutherford. Outrora caricaturista famoso, Rutherford desenhava cenas brutais, que haviam contribuído para inflamar a opinião pública antes e durante a Revolução. Mesmo agora, a longos intervalos, seus cartuns saíam no Times, só que já não passavam de uma imitação banal de seu estilo anterior, eram pouco convincentes, desprovidos de vigor. Continuavam abordando os mesmos temas, só que requentados: favelas, crianças famintas, arruaças, capitalistas de cartola — mesmo no interior das barricadas, os capitalistas, aparentemente, não abriam mão de suas cartolas —, um esforço infinito, desesperado, no sentido de reinstalar-se no passado. Era um homem monstruoso, com uma juba de cabelo ensebado e grisalho, rosto balofo, marcado, grossos lábios negroides. Um dia devia ter sido imensamente forte; agora seu grande corpo estava adernado, vergado, arqueado, despencando em todas as direções. Rutherford parecia estar ruindo à vista de todos, como uma montanha desmoronando.
     Eram três da tarde, hora solitária. Winston já não se lembrava de como era possível que estivesse no café a uma hora daquelas. O lugar estava quase deserto. Uma música metálica escorria das teletelas. Os três homens estavam sentados quase imóveis no canto deles, sem abrir a boca. Sem que ninguém pedisse, o garçom serviu uma nova rodada de gim. Havia um tabuleiro de xadrez na mesa ao lado da deles, com as peças posicionadas, mas sem nenhuma partida iniciada. Nesse momento, durante cerca de meio minuto ao todo, aconteceu uma coisa estranha com as teletelas. A melodia que estava sendo tocada mudou, e a tonalidade da música também mudou. Como se a música tivesse sido invadida... Algo difícil, porém, de descrever. Era uma nota estranha, fragmentada, um clangor: Winston inventou um nome para aquele som: nota amarela. Depois uma voz começou a cantarolar na teletela:

Sob a ramada da castanheira 
Vendi você, você a mim, após: 
Ali estão eles, cá estamos nós 
Sob a ramada da castanheira.

     Os três homens não se moveram, mas quando Winston voltou a fitar o rosto arrasado de Rutherford, viu que os olhos dele estavam rasos de lágrimas. E pela primeira vez observou, com uma espécie de arrepio interno, e ao mesmo tempo sem saber o porquê daquele arrepio, que tanto Aaronson como Rutherford tinham o nariz quebrado.
     Dias depois, os três voltaram a ser presos. Ao que parece, haviam tornado a envolver-se em novas conspirações desde o instante em que foram postos em liberdade. No segundo julgamento, voltaram a confessar todos os antigos crimes, mais uma sucessão de novos. Foram executados, e o destino deles ficou registrado nos anais do Partido como advertência para a posteridade. Cerca de cinco anos depois que esses fatos se passaram, em 1973, Winston estava desenrolando uma pilha de documentos que acabavam de ser ejetados do tubo pneumático sobre o tampo de sua mesa, quando encontrou um fragmento de papel que evidentemente fora enfiado entre os outros e depois esquecido. No instante em que desamassou o papelzinho, entendeu sua importância. Era a metade de uma página arrancada de um número do Times de cerca de dez anos antes — a metade superior da página, de modo que a data aparecia ali — e continha uma fotografia dos delegados presentes a determinada efeméride do Partido realizada em Nova York. Destacavam-se, no centro do grupo, Jones, Aaronson e Rutherford. Não havia confusão possível; de todo modo o nome de cada um constava na legenda, embaixo.
     A questão era que nos dois julgamentos eles haviam confessado que naquela data se encontravam em solo eurasiano. Teriam partido de um campo de pouso secreto em território canadense e voado até algum ponto da Sibéria, onde haviam se reunido com membros do Estado-Maior Eurasiano, a quem haviam revelado importantes segredos militares. A data se fixara na memória de Winston porque casualmente coincidia com o solstício de verão; mas a história toda também devia estar registrada em outros incontáveis lugares. Só havia uma conclusão possível: as confissões eram mentirosas.
     Claro, isso em si não era nenhuma grande revelação. Mesmo naquela época, Winston não imaginava que as pessoas varridas da face da Terra nos expurgos haviam efetivamente cometido os crimes de que eram acusadas. Mas era uma prova concreta; um fragmento do passado abolido, como um osso fóssil que aparece no estrato errado e destrói uma teoria geológica. Bastava para pulverizar o Partido inteiro, se de uma ou outra maneira pudesse ter sido publicado para que o mundo visse e tomasse conhecimento de seu significado.
     Winston não interrompera seu trabalho. Assim que percebeu que fotografia era aquela e o que ela revelava, cobriu-a com outra folha de papel. Por sorte, no momento em que a desenrolara ela estava de cabeça para baixo do ponto de vista da teletela.
     Pôs a prancheta sobre o joelho e empurrou a cadeira para trás, de modo a ficar tão longe quanto possível da teletela. Não era difícil manter um rosto inexpressivo; até mesmo a respiração podia ser controlada, com algum esforço. Uma coisa, porém, você não conseguia controlar: o batimento do coração, e a teletela era suficientemente sensível para captá-lo. Deixou passar o que imaginou fossem dez minutos, atormentado o tempo todo pelo temor de que algum acidente — uma súbita corrente de ar que soprasse por cima da escrivaninha, por exemplo — o traísse. Depois, sem tornar a expô-la, introduziu a fotografia no buraco da memória, junto com outros papéis inúteis. Mais um minuto, provavelmente, e a foto teria virado cinzas.
     Essa cena se passara dez, onze anos antes. Hoje, provavelmente, ele teria guardado a fotografia. Era curioso que tê-la segurado entre os dedos lhe parecesse fazer diferença mesmo hoje, quando a foto propriamente dita, bem como o acontecimento que ela registrava, não passavam de uma lembrança. Será que o controle do Partido sobre o passado teria ficado menos poderoso, pensou, pelo fato de que uma prova material que já não existia havia um dia existido? 
     Mas hoje, supondo que de algum modo fosse possível ressuscitá-la das cinzas, a fotografia talvez nem chegasse a constituir uma prova. Na época em que ele fizera sua descoberta, a Oceania já não estava em guerra com a Eurásia, portanto devia ter sido para agentes provenientes da Lestásia que os três homens mortos haviam traído seu país. Desde então haviam surgido novas acusações — duas, três, ele já não se recordava quantas. Muito provavelmente as confissões haviam sido reescritas e reescritas tantas vezes que os fatos e as datas originais haviam perdido toda a importância. O passado não apenas mudava como mudava sem cessar. O que mais o afligia, o que lhe dava uma sensação de pesadelo, era nunca ter chegado a entender direito por que a grande impostura fora empreendida. As vantagens imediatas de falsificar o passado eram óbvias, mas a razão profunda era misteriosa. Voltou a erguer a caneta e escreveu:

          Entendo COMO, mas não entendo POR QUÊ.

     Considerou a hipótese, como tantas vezes antes, de ele próprio ser um doente mental. Talvez um doente mental fosse simplesmente uma minoria de um. Houvera um tempo em que se considerava sinal de loucura acreditar que a Terra girava em torno do Sol. Hoje, o sinal de loucura era acreditar que o passado era inalterável. Ele podia ser o único a acreditar naquilo e, se fosse o único, seria um doente mental. Mas a ideia de que talvez fosse um doente mental não chegava a perturbá-lo muito: o horror estava em também existir a possibilidade de que estivesse errado.
     Apanhou o livro de história para crianças e contemplou o retrato do Grande Irmão estampado no frontispício. Os olhos hipnóticos fitavam os dele. Era como se alguma força monumental exercesse pressão sobre Winston — uma coisa que invadia seu crânio, golpeava seu cérebro, aterrorizava-o a ponto de fazê-lo abandonar suas crenças, quase convencendo-o a rechaçar as provas que seus sentidos lhe forneciam. No fim o Partido haveria de anunciar que dois mais dois são cinco, e você seria obrigado a acreditar. Era inevitável que mais cedo ou mais tarde o Partido fizesse tal afirmação: a lógica de sua posição o exigia. Além da validade da experiência, a própria existência da realidade externa era tacitamente negada por sua filosofia. A heresia das heresias era o bom senso. E o aterrorizante não era o fato de poderem matá-lo por pensar de outra maneira, mas o fato de poderem ter razão. Porque, afinal de contas, como fazer para saber que dois e dois são quatro? Ou que a força da gravidade funciona? Ou que o passado é imutável? Se tanto o passado como o mundo externo existem apenas na mente, e se a própria mente é controlável — como fazer então?
     Mas não! De repente sua coragem pareceu cristalizar-se por decisão própria. O rosto de O’Brien, que nenhuma associação de ideias parecia convocar, entrara flutuando em sua mente. Ele concluiu, com mais certeza de que antes, que O’Brien estava do seu lado. Escrevia aquele diário para O’Brien — na intenção de O’Brien. Era como uma carta interminável que ninguém jamais leria, mas que era dirigida a uma pessoa específica e se nutria desse fato.
     O Partido lhe dizia para rejeitar as provas materiais que seus olhos e ouvidos lhe oferecessem. Essa era sua instrução final, a mais essencial de todas. O coração de Winston ficou pesado quando lhe veio ao espírito o imenso poderio reunido contra ele, a facilidade com que qualquer intelectual do Partido o derrotaria num debate, os argumentos sutis que não teria capacidade de entender, quanto mais de contestar. E, ainda assim, a razão estava com ele. Os outros estavam errados e ele certo. O óbvio, o tolo e o verdadeiro tinham de ser defendidos. Os truísmos são verdadeiros, não se esqueça disso. O mundo sólido existe, suas leis não mudam. As pedras são duras, a água é úmida e os objetos, sem base de apoio, caem na direção do centro da Terra. Com a sensação de estar falando com O’Brien e também de expor um axioma importante, escreveu:

          Liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro. Se isso for admitido, tudo o mais é decorrência.

continua na página 86...
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Parte 1.6 (Winston escrevia em seu diário:) / Parte 1.7a (Se é que havia esperança:) / Parte 1.7b (Tudo se esmaecia na névoa) /                   
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção IV.b)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção IV
Resposta às objeções
continuando...
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     Quanto àqueles que imaginam que a extensão é divisível in infinitum, não podem fazer uso desta resposta, nem estabelecer a igualdade de uma linha ou superfície pela enumeração das suas partes componentes. Pois dado que, segundo a sua hipótese, tanto as figuras menores como as maiores contêm um número infinito de partes e, rigorosamente falando, os números infinitos não podem ser nem iguais nem desiguais entre si, também a igualdade ou desigualdade de uma porção qualquer de espaço jamais pode depender de qualquer proporção no número das suas partes. É certo poder dizer-se que a desigualdade entre uma vara e uma jarda consiste na diferença no número de pés e entre um pé e uma jarda no número de polegadas de que se compõem. Mas como se supõe que a quantidade a que chamamos polegada é igual na primeira ao que chamamos polegada na segunda, e visto que a mente não pode descobrir esta igualdade prosseguindo até ao infinito com estas referências a quantidades inferiores, é evidente que temos de estabelecer finalmente um critério de igualdade diferente de uma enumeração das partes.
     Há quem¹ sustente que a igualdade se define melhor pela congruência e que duas figuras quaisquer são iguais quando, colocadas uma sobre a outra, todas as suas partes se tocam e correspondem umas às outras. Para ajuizar desta definição consideremos que, sendo a igualdade uma relação, não é, rigorosamente falando, propriedade intrínseca das figuras; origina-se apenas da comparação que a mente estabelece entre elas. Se portanto ela consiste nesta aplicação imaginária e no contacto mútuo das partes, temos de possuir pelo menos uma noção distinta destas partes e temos de conceber o seu contato. Ora está claro que nesta concepção quereríamos ir até às partes mais diminutas que pudéssemos conceber, visto que o contato de partes grandes jamais tornaria iguais as figuras. Mas as partes mais diminutas que podemos conceber são os pontos matemáticos e por conseguinte este critério da igualdade identifica-se com o critério originado na igualdade do número de pontos, o qual, conforme ficou já estabelecido, é um critério exato mas inútil. Temos portanto de procurar noutro lado a solução para a presente dificuldade.

[1] Ver as conferências matemáticas de Barrow.

     É evidente que os olhos, ou melhor, a mente, muitas vezes é capaz de determinar de uma mirada as proporções dos corpos e declará-los iguais, maiores ou menores uns do que os outros, sem examinar ou comparar o número das suas partes diminutas. Tais juízos são não apenas correntes, mas em muitos casos certos e infalíveis. Quando se apresentam à mente a medida de uma jarda e a de um pé, ela não pode pôr em dúvida que aquela é mais comprida do que esta, da mesma maneira que não pode duvidar dos princípios mais claros e mais intrinsecamente evidentes.
     Há portanto três proporções que a mente distingue na aparência geral dos seus objetos e a que dá as designações de maior, menor e igual. Mas embora as suas decisões sobre estas proporções sejam às vezes infalíveis, não o são sempre; e os nossos juízos sobre este assunto não estão mais isentos de dúvida e erro do que os juízos sobre qualquer outra matéria. Com frequência corrigimos a nossa primeira opinião mediante uma revisão e reflexão, declarando iguais objetos que a princípio considerávamos desiguais e considerando menor um objeto que anteriormente nos pare cia maior do que outro. E não é esta a única correção que sofrem estes juízos dos nossos sentidos: muitas vezes descobrimos o erro pela justaposição dos objetos, ou, sendo esta impraticável, pelo uso de uma qualquer medida comum e invariável que se aplica sucessivamente a cada objeto e assim nos informa das suas diferentes proporções. E mesmo esta correção é susceptível de nova correção e de diferentes graus de exatidão, conforme a natureza do instrumento usado para medir os corpos e o cuidado que pomos na comparação.
     Quando pois o espírito se acostumou a estes juízos e suas correções e descobre que esta mesma proporção que leva duas figuras a terem aos nossos olhos aquela aparência a que chamamos igualdade, também faz que elas se correspondam entre si e correspondam a qualquer medida comum com a qual sejam comparadas, formamos uma noção mista de igualdade derivada tanto dos menos como dos mais estritos métodos de comparação. Mas não nos contentamos com isto. Com efeito, visto que a sã razão nos convence de que há corpos imensamente mais pequenos do que aqueles que aparecem aos nossos sentidos; e visto que uma falsa razão nos persuadiria de que há corpos infinitamente mais pequenos, claramente percebemos que não possuímos um instrumento ou processo de medição que possa garantir--nos contra todo o erro e incerteza. Temos consciência de que a adição ou subtração de uma destas partes minúsculas não é discernível nem na aparência, nem mediante medição; e como imaginamos que duas figuras anteriormente iguais, não podem ser iguais depois desta subtração ou adição, admitimos pois um critério imaginário de igualdade que corrige rigorosamente aparências e medidas e reduz as figuras inteiramente a esta proporção. É um critério manifestamente imaginário. Com efeito, sendo a própria ideia de igualdade a de uma certa aparência particular, corrigida por justaposição ou por uma medida comum, a noção de qualquer correção que ultrapasse a que nos per mite formar os nossos instrumentos e a nossa arte é pura ficção do espírito, tão inútil como incompreensível. Mas, embora este critério seja apenas imaginário, contudo a ficção é muito natural; e nada é mais habitual do que o espírito perseverar deste modo numa ação, mesmo depois de ter desaparecido a razão que inicialmente o levou a começá-la. É o que aparece manifestamente com relação ao tempo: embora evidentemente não tenhamos método rigoroso para determinar as proporções das partes, nem sequer tão rigoroso como para a extensão, contudo as várias correções das nossas medidas e os seus diferentes graus de exatidão deram-no uma noção obscura e implícita de uma inteira e perfeita igualdade. Dá-se o mesmo caso quanto a muitos outros assuntos. Um músico, ao descobrir que o seu ouvido se torna cada vez mais apurado e que se corrige por reflexão e atenção, prolonga o mesmo ato mental mesmo quando lhe falta matéria e tem noção duma tercina ou duma oitava perfeita, sem ser capaz de dizer donde tira o seu critério. O pintor forma a mesma ficção relativa mente às cores, e o mecânico relativamente ao movimento. Um imagina que a luz e a sombra, o outro que a lentidão e a rapidez são susceptíveis de comparação e igualdade rigorosas, que ultrapassam os juízos dos sentidos.
     Podemos aplicar o mesmo raciocínio às linhas curvas e retas. Nada se impõe mais aos sentidos do que a distinção entre linha curva e reta; e não há ideias que formemos mais facilmente do que as ideias destes objetos. Mas, por mais facilmente que formemos estas ideias, é impossível apresentar uma definição delas que lhes fixe com precisão as fronteiras. Quando desenhamos linhas no papel ou em qualquer superfície contínua, há uma certa ordem segundo a qual as linhas vão de um ponto ao outro, para que elas produzam a impressão total da linha curva ou reta; mas esta ordem é perfeitamente desconhecida e não se nota outra coisa a não ser o aspecto de conjunto. Assim, mesmo no sistema dos pontos indivisíveis, apenas podemos formar uma noção aproximada de um certo critério desconhecido destes objetos. No da divisibilidade nem sequer podemos chegar a isto; ficamos reduzidos apenas ao aspecto geral, como regra que nos serve para determinar se as linhas são retas ou curvas. Mas embora não possamos dar uma definição perfeita destas linhas, nem propor um método muito rigoroso para as distinguir umas das outras, contudo esta impossibilidade não nos impede de corrigir a primeira aparência mediante exame mais cuidadoso e mediante comparação com alguma regra cujo valor nos seja mais garantido por repetidas tentativas. E é a partir destas correções e continuando a mesma ação intelectual, ainda mesmo quando desaparece toda a razão para continuar, que formamos a ideia imprecisa de um perfeito critério destas figuras, sem mesmo sermos capazes de o explicar ou compreender.
     E verdade que os matemáticos pretendem dar uma definição exata da linha reca quando dizem que é a mais curta distância entre dois pontos. Mas noto em primeiro lugar que isto é mais propriamente descobrir uma das propriedades da linha reta do que defini-la corretamente. Por que, pergunto eu, quando alguém fala duma rcta pensa imediatamente em tal aparência particular ou não será apenas casualmente que considera essa propriedade? Uma reta pode compreender-se isoladamente; mas esta definição é ininteligível sem a comparação com outras linhas que concebemos como sendo mais extensas. Na vida corrente estabeleceu-se como princípio que o caminho mais direito é sempre o mais curto, o que seria tão absurdo como dizer que o caminho mais curto é sempre o mais curto, se a nossa ideia de linha reta não fosse diferente da do mais curto caminho entre dois pontos.
     Em segundo lugar, repito o que já estabeleci: que não temos uma ideia precisa de igualdade e desigualdade, de mais curto e mais longo, como não a temos da linha reta e da curva e que por conseguinte uma jamais pode fornecer--nos um critério perfeito para a outra. Uma ideia precisa nunca pode construir-se sobre ideias imprecisas e indeterminadas.
     A ideia de superfície plana é tão pouco susceptível de critério preciso como a de linha reta, e não temos outro meio de distinguir tal superfície além do seu aspecto geral. É em vão que os matemáticos representam a superfície plana como produzida pela deslocação de uma linha reta. Imediatamente se objetará que a nossa ideia de superfície é tão independente deste método de gerar uma superfície, como a nossa ideia de elipse o é da ideia do cone; que a ideia de linha reta não é mais precisa do que a de superfície plana; que uma reta pode deslocar-se irregularmente, gerando assim uma figura muito diferente do plano; e que portanto devemos admitir que ela se desloca ao longo de duas linhas retas, paralelas uma à outra, e situadas no mesmo plano; ora esta definição explica uma coisa por si mesma, caindo pois num círculo.
     Parece portanto que as ideias mais essenciais à geometria, a saber, as de igualdade e desigualdade, de linha reta e superfície plana, estão longe de ser rigorosas e determinadas, segundo a nossa maneira corrente de as conceber. Não só somos incapazes de distinguir, em casos onde houver dúvida de qualquer grau, quando é que tais figuras particulares são iguais, tal linha é reta e tal superfície plana; além disso não podemos formar desta relação ou destas figuras uma ideia firme e invariável. Continuamos a apelar para aquele juízo fraco e falível que formamos em conformidade com a aparência dos objetos e que corrigimos mediante uma bússola ou uma medida comum; e se acrescentamos a hipótese de nova correção, esta é uma correção inútil ou imaginária. Em vão recorreríamos a um lugar comum e empregaríamos a hipótese de uma divindade, cuja omnipotência pode torná-lo capaz de formar uma figura geométrica perfeita e traçar uma reta sem curva nem inflexão. Visto que o critério último destas figuras não é tirado senão dos sentidos e da imaginação, é absurdo falar duma perfeição além daquela que estas faculdades podem julgar; com efeito, a verdadeira perfeição de uma coisa reside na sua conformidade ao seu critério.
     Ora, sendo estas ideias tão vagas e tão incertas, gostaria de perguntar ao matemático que certeza infalível tem ele não apenas das proposições mais intricadas e obscuras da sua ciência, mas ainda dos princípios mais banais e mais evidentes. Como pode ele demonstrar-me, por exemplo, que duas linhas retas não podem ter um segmento comum? Ou que é impossível desenhar mais de uma linha reta entre dois pontos? Se ele me dissesse que estas opiniões são manifestamente absurdas e repugnam às nossas ideias claras, eu responderia que não nego que, se duas retas são oblíquas uma em relação à outra num ângulo apreciável, é absurdo supor que têm um segmento comum. Mas, supondo que estas duas linhas se aproximam à razão de uma polegada em vinte léguas, não me parece absurdo afirmar que, ao encontrarem-se, elas se tornam uma só. Pois rogo--vos que me digais por que regra ou critério julgais quando afirmais que a linha, na qual supus que as outras duas se encontram, não pode formar a mesma linha reta com essas duas, que entre si fazem um ângulo tão pequeno. Certamente tendes da linha reta uma ideia com a qual esta linha não se conforma. Quereis dizer que ela não apresenta os pontos na mesma ordem e segundo a mesma regra, conforme é próprio e essencial à linha reta? Se assim é, devo informar-vos que, julgando desta maneira, além de concederdes que a extensão é composta de pontos indivisíveis (o que talvez ultrapasse as vossas intenções), além disto, acres cento, não é esse o critério pelo qual formamos a ideia de reta; e, mesmo que fosse, não há nos nossos sentidos ou na nossa imaginação firmeza bastante para determinar quando é que esta ordem é violada ou preservada. O critério inicial da reta em realidade não é outra coisa senão uma certa aparência geral; e é evidente que podemos fazer que duas retas se encontrem e contudo correspondam a este critério, mesmo corrigido por todos os meios praticáveis ou imagináveis.
     Isto pode abrir-nos um pouco os olhos e fazer-nos ver que nenhuma demonstração geométrica da divisibilidade da extensão até ao infinito pode ter tanta força quanta atribuímos naturalmente a todo o argumento que se apoia em pretensões tão grandiosas. Ao mesmo tempo podemos ficar a conhecer a razão por que a geometria carece de evidência apenas neste ponto, enquanto que todos os outros raciocínios seus têm o nosso mais completo assenti mento e aprovação. E certamente parece mais necessário apresentar a razão desta excepção do que mostrar que devemos efetivamente fazer tal excepção, e considerar inteiramente sofisticas todos os argumentos matemáticos em favor da divisibilidade até ao infinito. Pois é evidente que, não sendo infinitivamente divisível nenhuma ideia de quantidade, não se pode imaginar absurdo mais flagrante do que tentar provar que a própria quantidade admite tal divisão; e prová-lo mediante ideias que neste ponto são diretamente opostas. E visto que este absurdo é em si mesmo tão flagrante, não há argumento baseado nele que não seja acompanhado de novo absurdo e não envolva evidente contradição.
     Poderia dar como exemplos os argumentos a favor da divisibilidade até ao infinito que se tiram do ponto de contato. Sei que não há matemático que não se recuse a ser julgado pelos diagramas que traça no papel, os quais são, diz-nos ele, esboços imprecisos servindo unicamente para com maior facilidade nos comunicar certas ideias que são a verdadeira base de todo o nosso raciocínio. Contento-me com esta resposta e aceito restringir a controvérsia a estas ideias. Desejo pois que o nosso matemático forme ideias tão precisas quanto possível do círculo e da linha reta; pergunto depois se, quando concebe o seu contato, pode concebê-las como tocando-se num ponto matemático, ou se necessariamente tem de imaginar que elas se encontram nalgum espaço. Qualquer que seja a solução escolhida, ele cai em idênticas dificuldades. Se afirmar que ao traçar estas figuras na imaginação pode imaginar que elas se tocam apenas num ponto, admite a possibilidade dessa ideia, e consequentemente da coisa. Se disser que, ao conceber o contacto dessas linhas, tem de fazer que elas se encontrem, reconhece desse modo a falácia das demonstrações geométricas, quando levadas além de um certo grau de minúcia; porque com certeza ele tem tais demonstrações que se opõem à coincidência de um círculo e uma reta; por outras palavras, pode provar que uma ideia, a de coincidência, é incompatível com outras duas ideias, a de círculo e a de linha reta, embora reconheça ao mesmo tempo que estas ideias são inseparáveis.
 
continua na página 93...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IVa. / Seção IVb. /         
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.