Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto II
A Assembleia em Ítaca e a partida de Telêmaco
““Junto com a Aurora, Telêmaco, convocando para a assembleia os itacenses,
pede aos pretendentes que saiam da casa, e solicita um navio para viajar a Pilo e
a Esparta, que não consegue. Recebendo um navio de Noémone e as provisões
de sua ama Euricleia, parte escondido da mãe.” (Scholie H M S)
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina,
alça-se o filho do divo Odisseu de seu leito lavrado;
veste-se e no ombro, depois, deita a espada de gume cortante;
calça, a seguir, as formosas sandálias nos pés delicados
e sai do quarto, no aspecto semelho a um dos deuses eternos.
Manda aos arautos, de voz penetrante, que à praça convoquem,
para a assembleia, os Aquivos de soltos cabelos nos ombros.
Gritam, sem mora, o pregão; apressados aqueles concorrem.
Quando ao chamado acudiram e todos se achavam reunidos,
mas só ele não ia; dois rápidos cães acompanham-lhe os passos.
Palas Atena lhe infunde nos ombros a graça divina,
de modo tal que os do povo o admiravam à sua passagem.
Senta-se logo no posto do pai; os antigos lho cedem.
Abre a assembleia, arengando aos presentes, Egípcio preclaro,
que, pela idade encurvado, possui o saber da experiência.
Um de seus filhos queridos com o divo Odisseu também fora
para Ílio fértil, nutriz de corcéis, em navio bojudo.
Ántifo, exímio lanceiro, que o fero Ciclope matara
na gruta côncava, dele fazendo o repasto postremo.
Três filhos mais lhe restavam: um deles, Eurínomo, vive
aos pretendentes em meio; os demais, nas lavouras do velho.
Nunca deixava, porém, de chorar pela Morte daquele.
Lágrimas, pois, a verter, por sua causa, arengando, assim fala:
“Ora, Itacentes, prestai atenção no que tenho a dizer-vos.
Não mais tivemos sessão, nem ninguém convocou a assembleia
dês que o divino Odisseu embarcou no navio bojudo.
Quem, desta vez, nos convoca? E que causa premente o compele,
quer seja um moço dos nossos, quer mesmo um dos homens mais velhos?
Nova terá recebido da vinda de exército imigo,
do que pretende falar-nos, por ser o primeiro que o soube?
Ou sobre a causa do povo tenciona, talvez, dizer algo?
Nobre parece-me ser e de méritos grandes. Pudesse
Zeus outorgar-lhe a obtenção do desígnio que volve na mente.”
Disse; o presságio foi causa de muito alegrar-se Telêmaco.
P
or muito tempo não fica sentado; deseja falar-lhes;
põe-se de pé, da assembleia no meio; na mão dá-lhe o cetro,
logo, Pisénor, o arauto, que sabe prudentes conselhos.
E dirigindo-se ao velho em primeiro lugar, lhe responde:
“Velho, distante não se acha o que dizes; em breve hás de vê-lo.
Eu convoquei a assembleia, pois mais que ninguém me ressinto.
Não recebi nova alguma da vinda de exército imigo,
do que pretenda falar-vos, por ser o primeiro que o soube,
nem sobre a causa do povo tenciono, também, dizer algo,
mas a respeito das duas desgraças que em casa me pesam.
Uma, consiste na Morte de meu pai ilustre, que outrora
paternalmente benigno reinou sobre vós, os presentes;
ora outra muito mais grave ocorreu, e que breve há de a casa
completamente arruinar-me e destruir toda a minha fazenda.
A seu mau grado se vê minha mãe assediada e forçada
por pretendentes que filhos se dizem dos nobres da terra,
aos quais repugna buscar a morada de Icário, pai dela,
a quem compete fixar os presentes por modo aprazível,
para entregá-la a quem bem lhe aprouver e lhe seja do agrado.
Mas, em vez disso, instalaram-se todos em nosso palácio,
cabras e bois sacrificam e ovelhas de velo vistoso,
banqueteando-se a rodo e gastando do rútilo vinho,
desmesurados; as reses minguam, porque não achamos
como Odisseu nenhum homem capaz de livrar-nos a casa
da maldição, porque tal não podemos e até no futuro
fracos seremos, por certo, e sem meios de a tal nos opormos,
ainda que, só os expulsara, se força nos membros tivesse.
Incomportável é isso que fazem, nem é decoroso
que minha casa se perca. Também deveríeis mostrar-vos
todos contrários a isso, acatando os vizinhos de em torno,
da redondeza habitantes. Temei o castigo dos deuses,
não façam eles mudança, indignados com tais malefícios.
Por Zeus Olímpico faço-vos este pedido, e por Têmis,
que as assembleias dos homens dissolve, assim como os reúne:
tantos abusos, amigos, detende, e sozinho deixai-me
com minha dor, a não ser que meu pai, Odisseu, o bondoso,
haja algum mal praticado aos Aquivos de grevas bem-feitas
para, em vingança, outros males agora intentardes fazer-me,
dessa maneira a atiçá-los. Mor lucro, por certo, eu tivera
se fosseis vós os que os bens e os rebanhos, assim, me pilhassem.
Sim, se meus bens devorásseis, indenização obteria,
pois com palavras iria através da cidade, a pedir-vos
e reclamá-lo de todos, até que pudesse reavê-los.
Ora com dor insanável o peito acabais de ferir-me.”
Isso disse ele, indignado; e, rompendo num pranto copioso,
o cetro atira no chão. Todo o povo de dor é tomado.
Quedos mantêm-se os presentes; ninguém a objetar se atrevia
às expressões de Telêmaco, com palavras muito duras.
Somente Antínoo lhe diz, em resposta, as seguintes palavras:
“Altiloquente Telêmaco e de ânimo altivo, que dizes,
que nos ofende e que a todos será qual labéu desonroso?
Os pretendentes não somos culpados, nós outros Aquivos;
culpa a tua mãe, por demais entendida em processos escusos.
Já se passaram três anos, e em breve mais um será feito,
desde que ilude o desejo que os nobres Acaios anima.
Sabe manter esperanças em todos e a todos promete,
bem como envia mensagens, mas outros desígnios medita.
No mais recôndito soube engendrar o seguinte artifício:
Tendo estendido no quarto uma tela sutil e assaz grande,
pôs-se a tecer. A seguir nos engana com estas palavras:
‘Jovens, porque já não vive Odisseu, me quereis como esposa.
Mas não insteis sobres as núpcias, conquanto vos veja impacientes,
té que termine este pano, não vá tanto fio estragar-se,
para mortalha de Laertes herói, quando a Moira funesta
da Morte assaz dolorosa o colher e fizer extinguir-se.
Que por qualquer das Aquivas jamais censurada me veja,
por enterrar sem mortalha quem soube viver na opulência.’
Dessa maneira falou, convencendo-nos o ânimo altivo.
Passa ela, então, a tecer uma tela mui grande, de dia:
à luz dos fachos, porém, pela noite destece o trabalho.
Três anos isso; com dolo consegue embair os Aquivos.
Mas quando o quarto chegou, das sazões no decurso do estilo,
fez-nos saber a artimanha uma serva de tudo inteirada.
Dessa maneira a apanhamos, que o belo tecido esfazia,
tendo-se visto obrigada a acabar o trabalho, por força.
Dos pretendentes, agora recebe a resposta, que na alma
possas o alcance pesar-lhe e os Aquivos de tudo se inteirem:
manda tua mãe do palácio sair e lhe dizer que case
com quem o pai ordenar e a quem ela afeição não recuse.
Se persistir, desse modo, a enganar por mais tempo os Aquivos,
muito orgulhosa dos dons com que Atena abrindou a mancheias,
não só de méritos de alma, senão de perícia em trabalhos,
como de astúcia, por modo qual nunca soubemos das outras
que em priscos tempos viveram, Aquivas de tranças bem-feitas,
Tiro, não só, mas Alcmena e Micena, do belo diadema,
que não suportam confronto com o senso da nobre Penélope.
Mas desta vez não pensou plano digno de ser elogiado,
pois os seus bens e riquezas serão sem cessar consumidos
por quanto tempo ficar nesse intento que os deuses celestes
no coração lhe inspiraram. Se fama, com isso, ela adquire,
tu, por teu lado, só perda consegues na muita fazenda.
Sim, não sairemos daqui para os nossos domínios, ou de outrem,
antes de vê-la casada com um dos Aqueus de sua escolha.”
O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta:
“Não é possível, Antínoo, expulsar com violência de casa
quem me deu vida e educou. Noutras terras meu pai ora se acha.
É vivo ou morto? Difícil a Icário pagar me seria
o equivalente exigido, se eu próprio, por gosto, a expulsasse.
Males viria a sofrer de seu pai, como de divindades
outras, porque minha mãe chamaria as odientas Erínias,
se do palácio a tocasse; dos homens, também, a censura me alcançaria.
Portanto, recuso-me a dar-lhe tal ordem.
Se sois capazes, também, de sentir indignação por tais coisas,
abandonar-me o palácio por outros mais gratos banquetes,
alternadamente a hospedar-vos e à custa de vossa fazenda.
Mas, se julgardes melhor e mais cômodo assim continuardes
impunemente a gastar os haveres de um homem somente,
bem, prossegui, que implorar hei de aos deuses eternos do Olimpo.
Zeus me dará, porventura, alcançar a vingança almejada,
para que inultos venhais a morrer aqui dentro de casa.”
A essas palavras, Zeus grande, que ao longe discerne, lhe envia
águias a par deslizando do cimo elevado de um monte.
Ficam voando um momento, à mercê das correntes aéreas,
junto uma da outra, mantendo estendidas e firmes as asas.
Mas, quando da ágora ao meio chegaram, alfim, tumultuária,
eis que volteiam em círculo e batem as asas com força,
a contemplar as cabeças de todos com torvo presságio.
E ambas, então, arranhando-se o colo e a cabeça com as garras,
pela direita saíram, por sobre as casas e a cidade.
Todos ficaram tomados de pasmo ante a vista das aves,
dentro do peito a volver que futuro os sinais sugeriam.
Mas o guerreiro Haliterses Mastórida pôs-se a falar-lhes,
dentre os equevos o mais competente, sem dúvida, na arte
de conhecer os augúrios e ler pelo voo das aves.
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte:
“Ora, Itacenses, ouvi quanto passo prudente a dizer-vos.
Aos pretendentes com mais insistência darei este aviso.
Por cima deles já impende o perigo, porque muito tempo
não ficará Odisseu afastado daqui: já bem perto
ele se encontra, por certo, e maquina o extermínio de todos
e o cruel exício, que dele, também, há de vir para muitos
dos moradores desta ilha visível ao longe. Cuidemos,
pois, de refrear esse abuso, a não ser que eles próprios resolvam
não continuar, o que a todos de muita vantagem seria.
Não prognostico sem base nos fatos, mas bem experiente.
Todas as coisas que outrora afirmei, estou certo, se deram
sem discrepância, no ponto em que a Troia os Argivos se foram
e, juntamente, Odisseu, o guerreiro de mente fecunda.
Exp’rimentado em trabalhos, lhe disse, e com perda de todos
os companheiros, volvidos vinte anos e desconhecido,
regressaria ele a casa. Ora tudo, de acordo, se cumpre.”
Disse-lhe Eurímaco, filho de Pólibo, então, em resposta:
“Velho, é melhor que interpretes oráculos para teus filhos!
Vai para casa, não sejam colhidos por males futuros.
Muito melhor do que tu interpreto os sinais destes fatos.
Aves sem-número voam debaixo do Sol luminoso,
mas não são todas fatídicas. Morto é Odisseu, com certeza,
longe daqui. Fora bom que com ele, também, perecesses,
pois te pouparas, agora, de vir arengar profecias
e de instigar mais Telêmaco, que já se encontra irritado.
Só tens em mira pilhar para casa proventos mui pingues.
Ora uma coisa te quero dizer, que, sem falta, se cumpre:
Se, novamente, a este moço, com tua experiência vetusta
e essa parlenda sem fim contra nós irritado puseres,
ele, em primeiro lugar, há de ter mais molesto gravame,
pois coisa alguma consegue tentando a nós todos opor-se.
Quanto a ti, velho, uma multa te impomos, porque no imo peito
tenhas com que remoer-te; ser-te-á dissabor permanente.
Mas a Telêmaco, em face de todos, darei um conselho:
Faça com que sua mãe se recolha à morada de Icário,
que cuidará de suas núpcias, bem como do dote opulento,
como costumam fazer sempre os pais com suas filhas queridas.
Mas, antes disso, não creio que possam abster-se os Aquivos
de pretensão trabalhosa, porque nada medo nos causa,
seja Telêmaco, embora nos fale com tanta eloquência,
sejam quaisquer vaticínios vazios, que não nos importam,
como esses, velho, que fazes; com isso mais ódios te aprestas.
Sua fazenda será consumida sem paga nenhuma
por quanto tempo julgar conveniente adiar essas núpcias.
Prolongaremos, portanto, teimosos, a nossa compita
por suas altas virtudes, sem que outras mulheres busquemos
de condição como a nossa, com o fim de escolhermos esposa.”
O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta:
“Isso é impossível, Eurímaco, e vós, pretendentes ilustres.
Novos pedidos não hei de fazer-vos nem volto a falar-vos,
pois que os Aquivos o sabem, assim como os deuses eternos.
Dai-me, porém, uma rápida nau, tripulada com vinte
homens, que cortem comigo, em diversos sentidos, as águas,
para que a Esparta me vá, como a Pilo de solo arenoso,
em busca de informações de meu pai, que, de há muito, está ausente,
quer mo refira um mortal, quer a voz que de Zeus se origina,
que, sobretudo entre os homens, renome preexcelso concede.
Caso me digam que ainda está vivo e que a volta medita,
mesmo que muito me aflija, suporto a demora de um ano;
continua página 672...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a /
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.