quinta-feira, 4 de junho de 2026

Massa e Poder - Elementos do Poder: Poder e Velocidade

Elias Canetti

ELEMENTOS DO PODER

     Poder e Velocidade

          Toda velocidade, na medida em que se vincula à esfera do poder, traduz-se numa velocidade de perseguição ou de agarramento. Para ambas, o homem teve por modelo os animais. A perseguição, ele a aprendeu com os animais de rapina, especialmente o lobo. O agarramento pelo bote súbito foi-lhe mostrado pelos felinos, dos quais os mestres mais invejados e admirados foram o leão, o leopardo e o tigre. As aves de rapina juntam ambas as coisas, o perseguir e o agarrar. Na ave de rapina que se pode ver voando sozinha para um ataque a grande distância, o fenômeno manifesta-se em sua totalidade. Ela deu ao homem a flecha — durante muito tempo, a maior velocidade de que ele dispôs: com suas flechas, o homem voava rumo a sua presa.
     Assim, esses animais são também, desde muito tempo, símbolos do poder, representando ora os deuses ora os ancestrais do detentor de poder. Gêngis Khan teve por antepassado um lobo. O falcão Horus é o deus do faraó egípcio. Nos reinos africanos, o leão e o leopardo são os animais sagrados do clã do rei. Das chamas nas quais ardia o corpo do imperador romano, sua alma voava para o céu sob a forma de uma águia.
     O que há, porém, de mais rápido continua sendo o que sempre foi: o raio. O medo supersticioso do raio, do qual o homem não tem como se proteger, é algo bastante difundido. Os mongóis — conta o monge franciscano Rubruk, que os visitou como enviado de são Luís — temiam o trovão e o raio mais do que qualquer outra coisa. À sua presença, eles tocam os estranhos de suas iurtas, envolvem-se em feltro preto e ali permanecem escondidos até que tudo tenha passado. — Evitam comer a carne de um animal atingido por um raio, relata o historiador persa Rachid, que esteve a seu serviço, e não ousam nem mesmo aproximar-se dele. Todas as proibições possíveis que vigoram entre os mongóis têm por objetivo obter as graças do raio. Deve-se evitar tudo quanto possa atraí-lo. O raio é, frequentemente, a arma principal do deus mais poderoso.
     Seu súbito brilhar na escuridão possui o caráter de uma revelação. O raio persegue e ilumina. A partir de seu comportamento, procura-se tirar conclusões acerca da vontade dos deuses. Sob que forma ele brilha e em que parte do céu? De onde vem? Para onde vai? Entre os etruscos, tal decifração é tarefa de uma classe particular de sacerdotes, classe esta que os romanos adotaram na gura dos “fulguratores”.
     “O poder do soberano”, afirma um antigo texto chinês, “assemelha-se ao do raio, ainda que lhe seja inferior em pujança.” É espantosa a frequência com que os poderosos são atingidos por raios. As histórias a respeito podem nem sempre ser verdadeiras, mas o estabelecimento dessa vinculação é já, em si, significativo. Relatos desse tipo são numerosos entre os romanos e os mongóis. Ambos esse povos acreditam num deus celestial supremo, e ambos apresentam um senso de poder bastante desenvolvido. O raio é aí entendido como uma ordem sobrenatural. Quando ele atinge alguém é porque deve atingi-lo. Se atinge um poderoso, enviou-o alguém mais poderoso ainda. Cumpre, pois, a função do mais veloz e repentino dos castigos, e do mais visível também.
     Imitado pelos homens, o raio foi transformado numa espécie de arma: a arma de fogo. O clarão e o estrondo do tiro, o fuzil e particularmente os canhões sempre provocaram o medo dos povos que não os possuíam: estes os percebiam como o raio.
     Ainda antes, porém, os esforços do homem caminhavam já na direção de torná-lo um animal mais veloz. A domesticação do cavalo e o desenvolvimento dos exércitos de cavaleiros, em sua forma mais completa, conduziram às grandes invasões históricas provenientes do Oriente. Todos os relatos da época acerca dos mongóis destacam quão velozes eles eram. Sua aparição era sempre inesperada: eles surgiam tão repentinamente quanto desapareciam, e reapareciam de maneira ainda mais abrupta. Sabiam converter em ataque até mesmo a pressa da fuga: mal se começava a crer que haviam fugido, estava-se já novamente cercado por eles.
     Desde sempre, a velocidade física, como característica do poder, intensificou-se de todas as formas. Desnecessário faz-se abordar seus efeitos sobre nossa era tecnológica.
     À esfera da captura pertence também uma outra espécie bastante diversa de velocidade — a do desmascaramento. Está-se diante de um ser inofensivo ou submisso; arrancasse-lhe a máscara e, por trás dela, encontra-se um inimigo. Afim de ser eficaz, o desmascaramento deve ocorrer subitamente. A essa espécie de velocidade pode-se caracterizar como dramática. A perseguição limita-se aí a um espaço bem reduzido; ela se concentra. A troca de máscaras como instrumento de dissimulação é antiquíssima; seu negativo é o desmascaramento. Passando-se de uma máscara a outra, alcançam-se alterações decisivas das relações de poder. A dissimulação inimiga é combatida com a própria. Um soberano convida notáveis civis ou militares para um banquete. De repente, quando menos esperavam hostilidade, são todos mortos. A mudança de uma postura para outra corresponde exatamente a uma troca de máscaras. A velocidade do acontecimento é intensificada ao máximo; dela, e apenas dela, depende o sucesso da empreitada. O detentor de poder, consciente de suas próprias e constantes dissimulações, só pode esperar dos outros o mesmo comportamento. A velocidade com que se antecipa a eles parece-lhe lícita e imprescindível. Pouco o comoverá apanhar por equívoco um inocente: na complexidade das máscaras, o engano é possível. Mas se irritará profundamente se, pela falta de velocidade, um inimigo lhe escapar.

continua página 432...
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Massa e Poder - Elementos do Poder: Poder e Velocidade
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?

Edgar Allan Poe - Contos: O Mistério de Marie Roget (c)

 Edgar Allan Poe - Contos


O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842  

continuando...

     Foi pouco depois do cair da noite, nesse mesmo dia, que a senhora Deluc, assim como o filho mais velho, ouviu gritos de mulher nas proximidades do albergue. Os gritos foram violentos, mas não duraram muito tempo. A senhora Deluc reconheceu não só o xale encontrado entre as moitas, mas também o vestido que cobria o cadáver. Um condutor de ónibus, Valence, declarou então igualmente que tinha visto Marie Roget atravessar o rio, na companhia de um homem novo e moreno. Ele, Valence, conhecia Marie e não podia, portanto, ter se enganado quanto à sua identidade. Os objetos encontrados no bosque foram reconhecidos pela família de Marie.
     Esta amálgama de depoimentos e de informações que assim recolhi nos jornais, a pedido de Dupin, compreendia ainda um ponto, mas um ponto de capital importância. Parece que, imediatamente após a descoberta dos objetos acima citados, foi encontrado, na vizinhança do local onde se julgava então ter sido cometido o crime, o corpo inanimado ou quase inanimado de Saint Eustache, o noivo de Marie. Junto dele havia um frasco vazio, ostentando uma etiqueta onde se lia: « Láudano.» O seu hálito cheirava a veneno. Morreu sem pronunciar uma palavra. Num dos seus bolsos foi encontrada uma carta falando do seu amor por Marie e da sua intenção de suicidar-se.

— Creio não ter necessidade de dizer-lhe — afirmou Dupin, ao acabar de ler as minhas notas — que estamos em presença de um caso muito mais complicado do que o da Rua Morgue, do qual difere num ponto muito importante. É um exemplo de crime cruel, mas vulgar. Nele nada encontramos de particularmente estranho. Observe, peço-lhe, que foi exatamente por essa razão que o mistério pareceu simples, ainda que seja justamente a mesma razão que deveria tê-lo feito considerar como mais difícil de resolver. Por isso se julgou ao princípio supérfluo oferecer uma recompensa. Os homens de G... eram suficientemente fortes para compreender como e porquê uma tal atrocidade podia ser cometida. Não lhes era difícil imaginar um modo... vários modos... e um motivo... vários motivos. E como não era impossível que um desses numerosos modos e motivos fosse o único real, consideraram como demonstrado que o real devia ser um deles. Mas a facilidade com que conceberam estas diversas ideias, e até o caráter plausível de que cada uma delas se revestia, deveriam ter sido tomados como indícios da dificuldade e não da facilidade para a explicação do enigma. Já lhe fiz notar que é só através do que sobressai do plano ordinário das coisas que a razão deve encontrar a via na sua procura da verdade, e que, em casos como este, o importante não é perguntar: Quais são os fatos que se apresentam? mas sim: Quais são os factos que se apresentam e que nunca se apresentaram antes? Nas investigações efetuadas em casa da senhora L’Espanaye, os agentes de G... foram desencorajados por essa mesma estranheza que teria sido, para uma inteligência bem formada, o mais seguro presságio de êxito; e essa mesma inteligência seria mergulhada no desespero pelo caráter vulgar de todos os factos que se oferecem a exame no caso da jovem perfumista, que por enquanto nada revelaram de positivo, a não ser a presunção dos funcionários da Prefeitura.

« No caso da senhora L’Espanaye e da filha, não tivemos, logo a partir do começo da nossa investigação, a mais pequena dúvida de que fora cometido um crime. A ideia de suicídio estava imediatamente excluída. No caso presente, podemos igualmente excluir qualquer ideia de suicídio. O corpo encontrado na barreira do Roule foi pescado em circunstâncias tais que não nos permitem qualquer hesitação sobre este importante ponto. Mas insinuou-se que o corpo encontrado não é o de Marie Roget, cujo assassino ou assassinos não foram ainda encontrados. Ora, é oferecida uma recompensa pela descoberta desses assassinos e são eles o único objeto do nosso contrato com o prefeito. Tanto você como eu conhecemos esse cavalheiro. Não devemos fiar-nos demasiado nele. Ou seja, se, tomando o corpo encontrado como ponto de partida e seguindo a pista de um assassino, viermos a descobrir que esse corpo não é o de Marie, ou se, tomando como ponto de partida Marie ainda viva, acabarmos por encontrá-la não assassinada, teremos trabalhado em vão, pois é com o senhor G... que temos de entender-nos. Logo, para nosso próprio bem e para o bem da justiça, é indispensável que o nosso primeiro passo seja a verificação de que o corpo encontrado é realmente o de Marie Roget.
« Os argumentos de L'Étoile encontraram crédito junto do público, e o próprio jornal está convencido da sua importância, como se deduz do modo como inicia um dos artigos sobre o assunto em questão: Alguns dos jornais da manhã falam do concludente artigo de L’Étoile no seu número de segunda-feira. A mim, o artigo só me parece concludente no que respeita ao zelo do redator. Não devemos esquecer que, regra geral, o objetivo dos nossos jornais é criar uma sensação, provocar excitação, mais do que servir a causa da verdade. Este último objetivo só é perseguido quando parece coincidir com o primeiro. Jornal que se ponha de acordo com a opinião vulgar, por bem fundada que seja essa opinião, não encontra crédito entre as massas. A generalidade do povo só considera profundo aquele que emite contradições que briguem com a opinião geral. Na lógica, como na literatura, é o epigrama o gênero mais imediatamente e mais universalmente aceite. Em ambos os casos, é o género mais baixo na escala do mérito.

« Quero dizer que foi o caráter mesclado de epigrama e de melodrama, dessa ideia sugerida por L’Étoile, de que Marie Roget continua viva, e que, mais do que um verdadeiro caráter plausível, lhe garantiu um acolhimento favorável entre o público. Examinemos os pontos principais da argumentação desse jornal e atentemos bem na incoerência de que ela se reveste logo de início.

« O jornalista visa, antes de mais nada, provar-nos, através da brevidade do período transcorrido entre a desaparição de Marie e a descoberta do corpo flutuante, que esse corpo não pode ser o de Marie. Reduzir esse intervalo à mais pequena dimensão possível torna-se imediatamente um ponto capital para o argumentador. Na prossecução deste objetivo, lança-se de cabeça na pura suposição. É loucura — diz ele — supor que o crime, se crime houve, possa ter sido cometido com suficiente rapidez para permitir aos assassinos lançar o corpo ao rio antes da meia-noite. Perguntamos imediatamente, e muito naturalmente, porquê. Por que motivo é loucura supor que o crime foi cometido cinco minutos depois de a jovem ter saído de casa da mãe? Por que motivo é loucura supor que o crime foi cometido a um momento qualquer do dia? Cometem-se assassínios a todas as horas. Mas, ainda que o crime tenha tido lugar a qualquer momento entre as nove da manhã de domingo e a meia-noite menos um quarto, haveria sempre tempo suficiente para lançar o corpo ao rio antes da meia-noite. Esta suposição reduz-se, pois, ao seguinte: o crime não foi cometido no domingo, e, se permitirmos a L'Étoile que suponha isto, então teremos de conceder-lhe todas as liberdades possíveis. Pode imaginar-se que o parágrafo começando por: É loucura pensar que o crime, etc., ainda que impresso sob esta forma por L'Étoile, foi realmente concebido no cérebro do redator sob esta outra forma: É loucura supor que o crime, se crime houve, possa ter sido cometido com suficiente rapidez para permitir aos assassinos lançar o corpo ao rio antes da meia-noite. É uma loucura, dizemos nós, supor isto, e ao mesmo tempo supor (como nós quereríamos supor) que o corpo só tenha sido lançado à água passada a meia noite. Opinião relativamente mal deduzida, mas que mesmo assim não é tão irracional como a que foi impressa.

« Se eu tivesse simplesmente por objetivo — continuou Dupin — refutar esta passagem da argumentação do L'Étoile, poderia perfeitamente deixar as coisas como estão. Não é, porém, com L'Étoile que temos de entender-nos, mas com a verdade. A frase em questão, no caso atual, só tem um sentido e esse sentido estabeleci-o claramente. Mas é essencial que penetremos nas palavras para procurar uma ideia que essas palavras dão a entender, sem a exprimirem positivamente. O objetivo do jornalista era afirmar ser improvável, fosse qual fosse a hora do crime, no domingo, que os assassinos se tenham arriscado a levar o corpo para o rio antes da meia-noite. É precisamente aqui que reside a suposição de que me queixo. Supõe-se que o crime foi cometido num tal local e em tais circunstâncias que se tornou obrigatório transportar o corpo até ao rio. Ora, o assassínio pode perfeitamente ter sido cometido na margem do rio, ou no próprio rio. Assim, o lançamento do corpo à água, processo a que houve já quem recorresse a qualquer hora do dia ou da noite, ter-se-ia apresentado o modo de ação mais imediato, mais à mão. Compreenda que não estou a sugerir coisa alguma que me pareça mais provável ou que esteja mais de acordo com a minha própria opinião. Até este momento, não tenho em vista os próprios elementos da causa. Desejo apenas pô-lo em guarda contra o tom geral das sugestões de L’Étoile e chamar a sua atenção para o caráter de ideia preconcebida que se manifesta imediatamente.

« Tendo assim prescrevido um limite acomodado às suas ideias já feitas, tendo suposto que, se o corpo fosse o de Marie, só poderia ter permanecido na água durante muito pouco tempo, o jornal diz o seguinte:

«A experiência mostra que os corpos de afogados, ou lançados à água imediatamente após uma morte violenta, necessitam de um período que vai de seis a dez dias para que uma decomposição suficiente os faça voltar à superfície. Um cadáver sobre o qual se dispara um tiro de canhão, e que se eleva antes que a imersão tenha durado menos de cinco ou seis dias, volta a mergulhar se abandonado a si mesmo.

« Estas asserções foram tacitamente aceites por todos os jornais de Paris, com exceção do Moniteur. Este último esforça-se por combater a parte do parágrafo que se refere exclusivamente aos corpos de afogados, citando cinco ou seis casos de corpos de pessoas notoriamente afogadas que foram encontrados a flutuar após um lapso de tempo inferior ao fixado pelo L’Étoile. Mas há qualquer coisa de demasiado antifilosófico nesta tentativa que o Moniteur faz para refutar a afirmação geral de L'Étoile, militando contra essa afirmação com a citação de casos particulares. Mesmo que fosse possível alegar cinquenta casos, em vez de cinco, de cadáveres encontrados à superfície das águas ao cabo de dois ou três dias, esses cinquenta exemplos poderiam legitimamente ser considerados puras exceções à regra de L’Étoile, até que a própria regra fosse refutada. Admitida esta regra — e o Moniteur não a nega, insiste apenas nas exceções — a argumentação de L'Étoile conserva toda a sua força, pois esta argumentação não pretende implicar mais do que uma questão de probabilidade relativamente a um corpo poder ou não elevar-se até à superfície em menos de três dias, e essa probabilidade será a favor de L'Étoile até que os exemplos, tão puerilmente alegados, sejam em número suficiente para constituir uma regra contrária.

« O meu amigo compreendeu já que toda a argumentação deste gênero deve ser dirigida contra a própria regra e, com este objetivo, devemos fazer a análise racional dessa regra. Ora, o corpo humano não é, em geral, nem muito mais leve, nem muito mais pesado do que a água do Sena. Isto é: o peso específico do corpo humano, na sua condição natural, é aproximadamente igual ao volume de água doce que se desloca no rio. Os corpos dos indivíduos gordos e carnudos, com ossos pequenos, e geralmente os das mulheres, são mais leves do que os de indivíduos magros, de ossos grandes, geralmente os dos homens. E o peso específico da água de um rio é de algum modo influenciado pelo fluxo do mar. Mas, abstraindo-nos da maré, pode-se afirmar que poucos corpos humanos se submergirão, mesmo em água doce, espontaneamente, pela sua própria natureza. Quase todos, caindo num rio, poderão flutuar, se estabelecerem um equilíbrio conveniente entre o peso específico da água e o seu próprio peso, isto é: deixarem-se submergir completamente, à exceção do menor número de partes possível. A melhor posição para aquele que não sabe nadar é a vertical — tal como o homem que caminha em terra - com a cabeça completamente deitada para trás e submersa, deixando apenas a boca e as narinas acima do nível da água. Nessas condições poderemos todos flutuar sem dificuldades e sem esforço. É evidente, todavia, que o peso do corpo e do volume de água deslocado ficam então exatamente contrabalançados, e que um nada bastará para dar a preponderância a um ou ao outro. Um braço erguido acima da água, por exemplo, e consequentemente sem o apoio líquido, é um peso adicional suficiente para fazer mergulhar toda a cabeça, ao passo que o socorro acidental de um pedaço de madeira nos permitirá erguê-la suficientemente para olhar em torno. Ora, nos esforços de uma pessoa que não tenha a prática da natação, os braços erguem-se invariavelmente para o ar, e há do mesmo modo a teimosia de conservar a cabeça na sua posição normal, a vertical. O resultado é a imersão da boca e das narinas e, em consequência dos esforços para respirar debaixo de água, a introdução de líquido nos pulmões. O estômago absorve também uma grande quantidade de água, e todo o corpo se torna mais pesado, devido à diferença de peso entre o ar que anteriormente distendia essas cavidades e o líquido que agora as enche. Esta diferença basta, regra geral, para fazer mergulhar o corpo. Mas não é assim nos casos de pessoas que tenham ossos pequenos e uma quantidade anormal de matéria flácida ou adiposa. Essas flutuam, mesmo depois de se terem afogado.

continua na página 467...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (29 de março - Uma geada leve.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     29 de março. Uma geada leve; ontem à noite houve um descongelamento.
 
          Ontem não consegui continuar com meu diário; como Póprishshtchin, eu deitava a maior parte do tempo na cama, e conversava com Teréntievna. Tem uma mulher pra você! Há 60 anos atrás ela perdeu seu primeiro noivo da peste, ela sobreviveu a todos os seus filhos, ela mesma é velha de forma imperdoável, bebe chá à vontade, está bem alimentada, bem vestida; mas sobre o que você acha que ela falou comigo ontem? Eu tinha pedido que a capa de um velho casaco de farda fosse dada a outra velha completamente desnudada para um colete (ela usa uma peça de peito em forma de colete).... A capa foi muito bem comida pelas traças, então por que ela não deveria tê-la? "Bem, me surpreende que eu seja sua governanta.... O-okh, meu querido paizinho, é um pecado para você fazer isso..... E eu não tenho cuidado de você?".... e assim por diante. A velha impiedosa me desgastou bastante com suas reprovações.... Mas vamos voltar à história.
     Então, eu sofri como um cão que teve a parte traseira do seu corpo atropelada por uma roda. Só então, - somente depois da minha expulsão da casa dos Ozhógins, - fiquei definitivamente consciente do prazer que um homem pode ter com a contemplação de sua própria infelicidade. Oh, homens! na realidade, vós sois uma raça miserável!... Bem, mas isso está na natureza de um comentário filosófico.... Passei meus dias em total solidão, e só na mais rotunda e até mesmo na base é que pude descobrir o que estava acontecendo na família Ozhógin, o que o Príncipe estava fazendo. Meu criado conheceu a tia-avó da esposa de seu cocheiro. Esse conhecido me deu um alívio, e meu servo rapidamente foi capaz, a partir de minhas dicas e dons, de adivinhar o que lhe cabia falar com seu mestre, quando ele estava tirando as botas deste último à noite. Às vezes, eu me encontrava na rua com algum membro da família Ozhógin, Bizmyónkoff, ou com o Príncipe.... Com o Príncipe e o Bizmyónkoff eu troquei reverências, mas não entrei em conversa. Vi Liza três vezes ao todo: uma vez com sua mãe, em uma loja de farinha de milho, uma vez em uma festa aberta com seu pai, sua mãe e o Príncipe; uma vez na igreja. Claro que não me atrevi a me aproximar dela, e só a olhei de longe. Na loja, ela estava ansiosa, mas alegre.... Ela estava pedindo algo para si mesma, e tentando usar faixas de fita. Sua mãe olhava para ela, com as mãos presas no estômago, o nariz erguido, e se entregava àquele sorriso estúpido e afetuoso que só é admissível para as mães carinhosas. Liza estava na festa com o Príncipe.... Jamais esquecerei aquele encontro! Os velhos Ozhógins estavam sentados no banco de trás e o Príncipe e Liza na frente. Ela estava mais pálida do que de costume; duas raias cor-de-rosa mal eram perceptíveis em suas bochechas. Ela estava meio virada em direção ao Príncipe; apoiando-se na mão direita estendida (ela segurava seu guarda-sol à esquerda), e inclinando a cabeça, ela olhava diretamente no rosto dele com seus olhos expressivos. Naquele momento ela estava se entregando totalmente a ele, confiando nele de forma irrevogável. Não tive oportunidade de olhar bem para o rosto dele mas me pareceu que ele também estava profundamente comovido.
     A terceira vez que eu a vi foi na igreja. Não haviam passado mais de dez dias desde o dia em que eu a encontrei na festa com o Príncipe, não mais de três semanas desde o meu duelo. O negócio em razão do qual o Príncipe tinha chegado a O*** já estava há muito terminado; mas ele ainda adiou sua partida; ele relatou em Petersburgo que estava doente. Na cidade, as pessoas esperavam todos os dias uma proposta formal de sua parte para Kiríla Matvyéevitch. Eu mesmo só estava esperando este último golpe, para me retirar para sempre. A cidade de O**** tinha se tornado repugnante para mim. Eu não podia ficar parado em casa, e de manhã à noite eu me arrastava pelos subúrbios. Num dia cinzento e molhado, quando voltava de um passeio que tinha sido cortado pela chuva, entrei na igreja. O culto da noite estava apenas começando, havia muito poucas pessoas presentes; olhei à minha volta, e de repente, perto de uma janela, descobri um perfil familiar. No início não o reconheci; aquele rosto pálido, aquele olhar extinto, aquelas bochechas afundadas - poderia ser a mesma Liza que eu havia visto duas semanas antes? Envolvida num manto, sem chapéu na cabeça, iluminada de um lado por um raio frio de luz, que caiu pela ampla janela de vidro branco, ela olhava fixamente para a ikonostásis, e, aparentemente, fazendo um esforço violento de oração, esforçando-se para fugir de algum tipo de rigidez abatida. Uma face gorda, vermelha, com capas amarelas no peito, estava de pé atrás dela, com as mãos presas atrás das costas, e olhando com surpresa sonolenta para sua amante. Eu tremia por toda parte; comecei a ir até ela, mas parei curto. Um presságio torturante agarrou meu peito. Liza nunca se mexeu até o final das vésperas. Toda a congregação partiu, um cantor começou a varrer a igreja, e ainda assim ela não se mexeu de seu lugar. A capa se aproximou dela, tocou sua bata, olhou em volta, passou a mão sobre o rosto e foi embora. Eu a acompanhei, à distância, até sua casa, depois voltei para casa.

"Ela está arruinada!". exclamei, ao entrar no meu quarto.

     Sendo um homem, não sei até hoje qual era então a natureza das minhas sensações. Lembro-me que, dobrando os braços, atirei-me ao divã, e rebentei os olhos no chão; mas não sabia por que, só que, em meio à minha dor, parecia estar satisfeito com algo... Eu não teria admitido isso, de forma alguma, se não estivesse escrevendo por mim mesmo.... Eu realmente tinha sido torturado por pressentimentos dolorosos, terríveis.... e, quem sabe, talvez eu devesse ter ficado desconcertado se eles não tivessem sido cumpridos. "Tal é o coração humano", exclamava um professor russo de meia-idade neste ponto, com uma voz expressiva, levantando no alto seu grosso indicador adornado com um anel canelado. Mas que nos importa a opinião de um professor russo com uma voz expressiva, e um anel canelado no dedo?
     Seja como for, meus pressentimentos se mostraram corretos. A notícia espalhou-se de repente pela cidade de que o príncipe havia se despedido, em conseqüência, nominalmente, de uma ordem de Petersburgo; que ele havia ido embora sem ter feito qualquer proposta de casamento, nem com Kiríla Matvyéevitch nem com sua esposa, e que Liza continuaria a chorar sua perfídia até o final de seus dias. A partida do príncipe havia sido totalmente inesperada, pois, tão tarde quanto na noite anterior, seu cocheiro, de acordo com as afirmações do meu criado, não havia suspeitado minimamente da intenção de seu amo. Esta notícia me lançou em uma febre. Vesti-me imediatamente, estava a ponto de correr para a casa dos Ozhógins; mas depois de pensar no assunto, concluí que seria decoroso esperar até o dia seguinte. Porém, não perdi nada por ficar em casa. Naquela noite, correu para me ver um certo Pandopipópulo, um grego em suas viagens, que acidentalmente ficou preso em O***, uma fofoca de primeira grandeza, que, mais do que qualquer outro, tinha se apaixonado por mim em meu duelo com o Príncipe. Ele nem sequer deu tempo ao meu servo para anunciá-lo, mas forçou bastante sua entrada no meu quarto, sacudiu-me vigorosamente pela mão, fez mil desculpas para sua conduta, chamou-me modelo de magnanimidade e destemor, retratou o Príncipe nas cores mais negras, não poupou os velhos Ozhógins, a quem o destino, na sua opinião, justamente castigou; deu um golpe em Liza também de passagem, e fugiu, depois de me beijar no ombro. Entre outras coisas, aprendi dele que o Príncipe, en vrai grand seigneur, na véspera de sua partida, tinha respondido friamente a uma delicada dica de Kiríla Matvyéevitch, que não tinha a intenção de enganar ninguém e não estava pensando em se casar; tinha se levantado, e fez sua reverência, e essa foi a última vez que o viram...
     No dia seguinte, eu me dirigi à casa dos Ozhógins. O criado de pés de olhos claros, na minha aparência, saltou do banco da ante-sala com uma rapidez relâmpago; ordenei-lhe que me anunciasse. O lacaio se apressou e voltou imediatamente: "Por favor, entre", disse ele; "Tenho ordens para o convidar a entrar." Entrei no escritório de Kiríla Matvyéevitch.... Até amanhã.

continua em... 30 de março 
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29 de março - Uma geada leve /       
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Cinema: Os Irmãos Karamazov - Parte 2

OS IRMÃOS KARAMAZOV 

 - (URSS - 1969)

'Os Irmãos Karamazov' é um filme de drama soviético de 1969, dirigido por Kirill Lavrov, Ivan Pyryev e Mikhail Ulyanov. O filme é uma adaptação da obra de Dostoéievski e retrata a vida dos irmãos Karamazov na Rússia do século XIX, explorando temas de espiritualidade, amor, ambição e moralidade. O elenco principal inclui Mikhail Ulyanov, Kirill Lavrov e Lionella Pyryeva. O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 1970, representando a União Soviética.

Direção
Kirill Lavrov
Ivan Pyrev
Mikhail Ulyanov

Roteiristas
Fyodor Dostoevsky
Ivan Pyrev





Elenco
Mark Prudkin como Fyodor Pavlovich Karamazov
Mikhail Ulyanov como Dmitriy Karamazov
Kirill Lavrov como Ivan Karamazov
Andrey Myagkov como Alyosha Karamazov
Lionella Pyryeva como Agrafena 'Grushenka' Svetlova
Svetlana Korkoshko como Yekaterina Ivanovna Verkhovtseva
Valentin Nikulin como Pavel Smerdyakov
Pavel Pavlenko como Zosima
Andrei Abrikosov como Kuzma Samsonov
Gennadiy Yukhtin como Padre Paisiy
Anatoliy Adoskin como Nikolay Nelyudov - Juiz examinador
Rada Volshaninova como Gipsy
Tamara Nosova como Marya Kondratyevna
Nikita Podgorny como Mikhail Rakitin
Ivan Lapikov como Stepan 'Lyagavyy' Gorskiy
Varvara Popova como Matryona
Yevdokiya Urusova como Marfa Osipovna
Stanislav Chekan como filho de Samsonov
Aleksandra Danilova como Relative
Aleksandr Khvylya como Ferapont
Nikolai Ryzhov como Trifon Borisovich Plastunov
Nikolai Prokopovich como Mussyalovich
Evgeniy Teterin como Padre Iosif
Mark Pertsovskiy como Vrublyovskiy
Lyubov Korneva como Fedosya 'Fenya' Markovna
Sergei Kalinin como Sacerdote
Vladimir Osenev como Juiz
Nikolai Bubnov como Clerk
Viktor Filippov
Olga Gasparova como Maidservant
Georgiy Georgiu
Oleg Golubitsky
Grigore Grigoriu
Grigori Kirillov como Promotor
Viktor Kolpakov como Grigoriy
Nikolay Kutuzov como Monge Negro
Nikolay Parfyonov como Barman
Yuri Rodionov como Attorney
Ivan Savkin
V. Sokolov como gospodin v Sude
Georgiy Svetlani
Nikolay Svetlovidov como Maksimov
Ivan Vlasov como Pyotr Kalganov
Nikolay Sibeikin como Aparecendo (não creditado)


A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Diários de motocicleta / Nohime / Os irmãos Karamazov (1) / Os irmãos Karamazov (2) /         

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (IV. O terceiro filho:Aliócha)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
IV
O TERCEIRO FILHO: ALIÓCHA
    
     Tinha vinte anos (seus irmãos, Ivã e Dimítri, estavam então, respectivamente, com 24 e 28 anos). Devo prevenir que esse jovem Aliócha não era absolutamente um fanático, nem mesmo, pelo que creio, um místico. Na minha opinião, era simplesmente um filantropo na dianteira do seu tempo, e, se escolhera a vida monástica, era porque então somente ela o atraía e representava para ele a ascensão ideal para o amor radioso de sua alma liberta das trevas e do ódio daqui embaixo. Atraía-o essa via unicamente porque havia nela encontrado um ser excepcional a seus olhos, o nosso famoso stáriets3 Zósima, ao qual se ligara com todo o fervor noviço de seu coração sedento. Convenho que era ele já bastante estranho, tendo isso começado desde o berço. Já contei que, tendo perdido sua mãe aos quatro anos, dela se lembrou toda a sua vida, de seu rosto, de suas carícias, "como se eu a visse viva". Semelhantes recordações podem persistir (cada qual o sabe), mesmo numa idade mais tenra, mas não permanecem como pontos luminosos nas trevas, como o fragmento de um imenso quadro que tivesse desaparecido. Era o caso para ele: lembrava-se duma suave noite de verão, da janela aberta aos raios oblíquos do sol poente; a um canto do quarto, uma imagem santa com a lâmpada acesa e, diante da imagem, sua mãe ajoelhada, soluçando como numa crise de nervos, lançando gemidos e exclamações. Ela o tomara em seus braços, apertando-o a ponto de sufocá-lo, e implorava por ele à Santa Virgem, afrouxando seu amplexo para empurrá-lo para a imagem como a pô-lo sob sua proteção... mas a ama acorre e arranca-o, apavorada, dos braços de sua mãe. Tal era a cena! Aliócha lembrava-se do rosto de sua mãe, exaltado, mas sublime, segundo suas recordações. Mas não gostava de falar disso. Na sua infância e na sua mocidade, era antes concentrado e até mesmo taciturno, não por timidez ou selvageria, pelo contrário, mas por uma espécie de preocupação interior tão profunda que o fazia esquecer-se dos que o cercavam. Mas gostava de seus semelhantes, toda a sua vida teve fé neles, sem passar jamais por simplório ou ingênuo. Algo nele revelava que não queria ser o juiz alheio, nem censurar as pessoas ou condená-las por preço algum. Parecia mesmo tudo admitir, sem reprovação, embora muitas vezes com profunda melancolia. Bem mais ainda, conseguira neste sentido ficar inacessível ao espanto e ao medo, desde sua primeira mocidade. Chegado aos vinte anos à casa de seu pai, num foco de baixo deboche, ele, casto e puro, retirava-se em silêncio, quando a vida se lhe tornava intolerável, mas sem testemunhar a ninguém reprovação alguma nem desprezo. Tendo seu pai sido outrora parasita e, por consequência, sutil e sensível às ofensas, acolheu-o a princípio de má vontade. "Ele se cala", dizia ele, "mas nem por isso deixa de pensar. " Entretanto, não tardou em beijá-lo, em acariciá-lo; eram, na verdade, lágrimas e um enternecimento de bêbedo, mas via-se que o amava com um amor sincero, profundo, que até então fora incapaz de sentir por quem quer que fosse... Sim, aquele adolescente era amado por todos, em toda parte aonde fosse, e isto desde sua infância. Na família de seu benfeitor, Iefim Pietróvitch Poliénov, tinham-se de tal modo ligado a ele que todos o consideravam como filho da casa. Ora, entrara em casa deles numa idade em que a criança é ainda incapaz de cálculo e de astúcia, em que ignora as intrigas que atraem o favor e a arte de se fazer amar. Esse dom de despertar a simpatia era por consequência nele natural, espontâneo, sem artifício. O mesmo ocorria na escola e, no entanto, as crianças como Aliócha atraem a desconfiança de seus camaradas, suas zombarias e, por vezes, o ódio. Desde a infância, gostava ele, por exemplo, de isolar-se para sonhar, para ler num canto; contudo, foi objeto de afeição geral durante sua permanência na escola. Não era brincalhão, nem mesmo alegre; observando-se, via-se depressa que não era melancolia, mas, pelo contrário, uma disposição igual e serena. Entre seus condiscípulos, jamais queria pôr-se à frente. Por esta razão, talvez, jamais temia alguém e os rapazes notavam que, longe de orgulhar-se disso, parecia ignorar sua ousadia, sua intrepidez. Não era rancoroso. Uma hora após ter sido ofendido, respondia ao ofensor ou dirigia-lhe ele próprio a palavra, com um ar confiante, tranquilo, como se nada se tivesse passado entre eles. Não parecia então ter esquecido a ofensa, ou decidido perdoá-la, mas não se considerava ofendido e isto fazia com que conquistasse o coração dos meninos. Um só traço de seu caráter incitava frequentemente todos os seus camaradas a zombarem dele, não por maldade, mas por divertimento. Era dum pudor, duma castidade exaltada, feroz. Não podia suportar certas palavras e certas conversas a respeito de mulheres. Essas "certas" palavras e conversas são infelizmente tradicionais nas escolas. Jovens de alma e coração puros, quase crianças ainda, gostam muitas vezes de entre ter-se com cenas e imagens, a respeito das quais os próprios soldados nem sempre falam; aliás, estes últimos sabem menos a este respeito que os rapazes de nossa sociedade culta. Não há ainda aí, admito-o, corrupção moral, nem verdadeiro cinismo, mas a aparência disso; e isso passa frequentemente aos olhos deles como algo de delicado, de fino, digno de ser imitado. Vendo Aliócha Karamázov tapar rapidamente os ouvidos, quando se falava "daquilo", formavam por vezes círculos em redor dele, afastavam suas mãos à força e gritavam-lhe obscenidades. Alieksiéi debatia-se, deitava-se no chão, ocultando o rosto; suportava a ofensa em silêncio e sem se zangar. Por fim deixavam-no em repouso, cessavam de chamá-lo de "mocinha", sentiam mesmo compaixão por ele. Na classe, era um dos melhores alunos, mas nunca obteve o primeiro lugar.
     Após a morte de Iefim Pietróvitch, Aliócha passou ainda dois anos no ginásio. A viúva partiu em breve para uma longa viagem à Itália, com toda a sua família, que se compunha de mulheres. O rapaz foi morar em casa de parentes afastados do defunto, duas senhoras que ele jamais vira. Ignorava as condições; era aliás nele um traço bastante característico o jamais inquietar-se à custa de quem vivia. A este respeito, era totalmente o contrário de seu irmão mais velho, Ivã, que conhecera a pobreza nos seus dois primeiros anos de universidade, vivendo de seu trabalho, e que havia sofrido, desde sua infância, por ter de comer o pão de um benfeitor. Mas não se podia julgar severamente essa particularidade do caráter de Alieksiéi, porque bastava conhecê-lo um pouco para que se ficasse convencido de que era um desses inocentes capazes de dar todo o seu capital a uma boa obra, ou mesmo a um cavalheiro de indústria, se lho pedisse. Em geral ignorava o valor do dinheiro, em sentido figurado, entenda-se. Quando lhe davam dinheiro não sabia o que fazer dele durante semanas ou gastava-o num piscar de olhos. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, bastante meticuloso no que se refere a dinheiro e honestidade burguesa, tendo tido mais tarde ocasião de observar Alieksiéi, caracterizou-o desta maneira: "Eis talvez o único homem no mundo que, se ficasse sem recursos numa grande cidade desconhecida, não morreria de fome, nem de frio, porque imediatamente o nutririam, viriam em seu auxílio, senão ele mesmo se livraria logo de apertos, sem trabalho, nem humilhação, e seria um prazer para os outros prestar-lhe serviços". 
     No ginásio, não terminou seus estudos: restava-lhe ainda um ano, quando declarou de repente àquelas senhoras que partia para a casa de seu pai por causa de um negócio que lhe viera à cabeça. As senhoras lamentaram-no muito; não queriam deixá-lo partir. A viagem custava muito pouco, e não deixaram elas que ele empenhasse o relógio que lhe tinha dado a família de seu benfeitor, antes de partir para o estrangeiro; foi abundantemente provido de dinheiro, bem como de roupa branca e vestes, mas ele devolveu-lhes a metade da soma declarando que fazia questão de viajar em terceira classe. Como seu pai lhe perguntasse por que viera antes de ter acabado seus estudos, não respondeu nada, mas mostrou-se mais pensativo que de costume. Em breve verificou-se que ele procurava o tumulo de sua mãe. Confessou mesmo não ter vindo senão para isso. Mas não era provavelmente a única causa de sua chegada. Sem dúvida, ignorava então que não teria podido explicar ele mesmo com certeza o que havia de súbito surgido em seu íntimo para arrastá-lo irresistivelmente a uma via nova, desconhecida. Fiódor Pávlovitch não pôde indicar-lhe o tumulo de sua mãe, porque ali jamais voltara e esquecera o lugar após tantos anos...  
     Falemos de Fiódor Pávlovitch. Ficara muito tempo ausente de nossa cidade. Três ou quatro anos após a morte de sua segunda mulher, partiu para o sul da Rússia e chegou por fim a Odessa, onde passou vários anos. Travou conhecimento, segundo suas próprias palavras, com "muitos judeus, judias e judotes de toda laia", e acabou por ser recebido "não só em casa dos judeus, mas também em casa dos israelitas". É preciso crer que, durante esse período, aperfeiçoara a arte de juntar e de subtrair dinheiro. Reapareceu em nossa cidade três anos somente antes da chegada de Aliócha. Seus antigos conhecidos acharam-no bastante envelhecido, se bem que não fosse muito idoso. Mostrou-se mais descarado do que nunca: o antigo bufão experimentava agora a necessidade de rir à custa dos outros. Gostava de frequentar os bordéis duma maneira mais repugnante do que outrora e, graças a ele, novos cabarés abriram-se em nosso distrito. Atribuíam-lhe um capital de 100 000 rublos ou quase, e dentro em breve muitas pessoas tornaram-se seus devedores, em troca de sólidas garantias. Nos últimos tempos, ficara enrugado, começava a perder o equilíbrio temperamental e o controle de si mesmo; caiu numa espécie de idiotismo, começando por uma coisa e acabando por outra, incapaz de concentrar-se e embriagando-se cada vez mais. Sem aquele mesmo criado, Gregório, que havia também envelhecido muito e o vigiava por vezes como um guia. a existência de Fiódor Pávlovitch teria sido eriçada de dificuldades. A chegada de Aliócha influiu sobre ele do ponto de vista moral, e recordações, que dormiam desde muito tempo, despertaram-se na alma daquele velho prematuro. "Sabes", repetia ele a seu filho, observando-o, "que te pareces com a endemoniada?" Era assim que chamava sua segunda mulher. Foi o criado Gregório quem indicou a Aliócha o tumulo da "endemoniada". Conduziu-o ao cemitério, mostrou-lhe num canto afastado uma placa de ferro fundido, modesta mas decente, em que estavam gravados o nome, a condição, a idade da defunta, com a data de sua morte: embaixo figurava uma quadra, como se lê frequentemente sobre o tumulo das pessoas da classe média. Coisa de espantar: aquela laje era obra de Gregório. Fora ele que a colocara, às suas custas, sobre o tumulo da pobre - "endemoniada", depois de ter muitas vezes importunado seu patrão com suas alusões; este partira afinal para Odessa, dando de ombros a respeito de túmulos e de todas as suas recordações. Aliócha não mostrou nenhuma emoção especial diante do tumulo de sua mãe; prestou atenção ao relato grave que lhe fez Gregório a respeito da colocação da laje, permaneceu curvado e retirou-se sem ter pronunciado uma palavra. Depois, não voltou mais ao cemitério, talvez por um ano inteiro. Mas esse episódio produziu em Fiódor Pávlovitch um efeito bastante original. Pegou 1000 rublos e levou-os ao nosso mosteiro para o repouso da alma de sua mulher, não a segunda, a "endemoniada", mas a primeira, aquela que lhe batia. Na mesma noite, embriagou-se e falou mal dos monges na presença de Aliócha. Ele próprio estava longe de ter sentimentos religiosos; talvez jamais tivesse posto uma vela de 5 copeques diante de uma imagem. Os sentimentos e o pensamento de semelhantes indivíduos têm por vezes impulsos tão bruscos quanto estranhos.
     Já disse que ele havia ficado bastante enrugado. Sua fisionomia trazia então os traços reveladores da existência que levara. Às pequenas bolsas que pendiam sob seus olhinhos sempre descarados, desconfiados, maliciosos, às rugas profundas que sulcavam sua cara gorda vinha juntar se, sob seu queixo pontudo, um gordo pomo-de-adão, carnudo, que lhe dava o ar de um luxurioso repelente. Juntai a isto uma larga boca de carniceiro, de lábios intumescidos, em que apareciam os cacos enegrecidos de seus dentes apodrecidos. Espalhava saliva toda vez que falava. De resto, gostava de zombar de sua figura, se bem que ela lhe agradasse, sobretudo seu nariz, não muito grande, mas bastante reduzido e curvo. "Um verdadeiro nariz romano'*, dizia ele. "Com meu pomo-de-adão, dir-se-ia um perfeito patrício da decadência. '* Orgulhava-se disso.
     Algum tempo depois da descoberta do tumulo de sua mãe, declarou-lhe Aliócha, inesperadamente, que queria entrar para o convento onde os monges estavam dispostos a admiti-lo como noviço. Acrescentou que era seu mais caro desejo e que lhe implorava o consentimento paterno. O velho já sabia que o stáríets Zósima produzira sobre seu "manso rapaz" uma impressão particular.

— Esse stáríets é seguramente entre eles o monge mais honesto — declarou, depois de ter ouvido Aliócha, num silêncio pensativo, mas sem se espantar com o pedido dele. — Hum! Eis aonde queres ir, meu manso rapaz! — Estava meio bêbedo. Abria-se no seu rosto um sorriso de ébrio, marcado de astúcia e finura. — Hum! Previa que irias chegar a isso, imagina tu! Era bem isto que tinhas em visita. Pois bem, seja! Tens 2 000 rublos, será teu dote; quanto a mim, meu anjo, não te abandonarei nunca e pagarei por ti o que for preciso, se o pedirem. Senão, de que serve tomarmos compromisso, não é verdade? Precisas de tanto dinheiro quanto de alpiste um canário... Hum! Sabes? Há um convento, com um lugarejo, nos arredores da cidade, habitado, como ninguém o ignora, pelas "esposas dos monges", é assim que as chamam. São umas trinta, creio... Visitei-o. Ê interessante, no seu gênero. Interrompe a monotonia. Por desgraça, só se encontram ali russas, nem uma francesa. Poder-se-ia tê-las, não faltam fundos para isso. Quando o souberem, virão. Aqui, não há mulheres, mas duzentos monges. Jejuam conscientemente. Convenho... Hum! Com que então, queres fazer-te monge? Causas-me dó, Aliócha; na verdade, tinha-te criado afeição... Aliás, eis uma boa ocasião: reza por nós, pecadores de consciência sobrecarregada. Tenho muitas vezes perguntado a mim mesmo: quem rezará um dia por mim? Meu querido rapaz, sou totalmente ignorante a este respeito, talvez o saibas, não? Totalmente. Mas vês, malgrado minha estupidez, reflito por vezes; penso que os diabos me arrastarão com toda a certeza com seus ganchos, após a minha morte. E digo a mim mesmo: donde vêm esses ganchos? De que são? De ferro? Onde os forjam? Será que eles possuem uma fábrica? Os religiosos, por exemplo, estão convencidos de que o inferno tem teto. Ora, tenho muita vontade de acreditar no inferno, mas sem teto, é mais delicado, mais iluminado, como entre os luteranos. No fundo, não será a mesma coisa, com ou sem teto? Eis a dificuldade! Ora, se não há teto, então não há ganchos. Mas seria incrível: quem me arrastaria então, com ganchos? Porque, se não me arrastarem, onde estaria a justiça neste mundo? Seria preciso inventar esses ganchos, especialmente para mim, para mim só. Se soubesses, Aliócha, que descarado sou eu!...
— Não há ganchos lá — declarou Aliócha, em voz baixa, olhando seriamente para seu pai.
— Ah! só há sombras de ganchos. Sei, sei. Era assim que um francês descrevia o inferno. Vai vu Vombre d'un cocher qui, avec Vombre d*une brosse, frottait Vombre d'un carrosse. Donde sabes tu, meu caro, que não há ganchos? Uma vez entre os monges, mudaras de tom. Mas, afinal, parte, vai destrinçar a verdade e vem informar-me. Será mais fácil ir para o outro mundo sabendo o que lá se passa. Será mais conveniente para ti estar entre os monges do que em minha casa, velho bêbedo, com mulheres... se bem que estejas, como um anjo, acima de tudo isso. Talvez o mesmo aconteça lá e, se te deixo ir, é que conto com isso. Não és tolo. Teu ardor se extinguira e voltarás curado. Quanto a mim, esperar-te-ei, porque sinto que és o único neste mundo que não me censurou, meu querido rapaz, não posso deixar de senti-lo!...  

     E pôs-se a choramingar. Estava sentimental. Sim, era mau e sentimental.

continua na página 21...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.