terça-feira, 19 de maio de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Um grande músico)

 em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Um grande músico, membro do Instituto, alto dignitário oficial e que conhecia Ski, passou por Arembouville, onde tinha uma sobrinha, e compareceu a uma quarta-feira na casa dos Verdurin. O Sr. de Charlus mostrou-se particularmente amável com ele (a pedido de Morel) e sobretudo para que, quando de regresso a Paris, o acadêmico lhe permitisse assistir a diversas sessões privadas, ensaios, etc., em que tocava o violinista. O acadêmico, lisonjeado e aliás pessoa encantadora, prometeu e cumpriu a promessa. O barão ficou muito comovido com todas as gentilezas que esse personagem (que aliás, de sua parte, amava profunda e exclusivamente as mulheres) teve para com ele, com todas as facilidades que lhe proporcionou para ver Morel em lugares oficiais, onde os profanos não entram, com todas as oportunidades oferecidas pelo célebre artista ao jovem virtuoso para se apresentar; fazer-se conhecido, designando-o, de preferência a outros de igual talento, para audições que deviam ter uma repercussão especial. Mas o Sr. de Charlus não desconfiava que devia tanto maior reconhecimento ao mestre, visto que este, duplamente merecedor, ou, se preferem, duas vezes culpado, não ignorava coisa alguma acerca das relações entre o violinista e seu nobre protetor. Ele as favoreceu, certamente sem simpatia por elas, não podendo compreender outro amor que não o da mulher, que havia inspirado toda a sua música, mas por indiferença moral, complacência e servilismo profissionais, amabilidade mundana, esnobismo. Quanto às dúvidas sobre o caráter dessas relações, tinha-as tão poucas que, desde o primeiro jantar em La Raspeliere, perguntara a Ski, falando do Sr. de Charlus e de Morel como se falasse de um homem e sua amante:

- Faz muito tempo que estão juntos? -

     Porém, mundano demais para deixar transparecer fosse o que fosse aos interessados, pronto, se aparecessem falatórios entre os colegas de Morel, a reprimi-los e a tranqüilizar Morel, dizendo-lhe paternalmente: 

- Dizem isso de todo mundo, hoje em dia -, não deixou de cumular o barão de gentilezas que este achava encantadoras, embora naturais, incapaz de supor no ilustre mestre tanto vício ou tanta virtude. Pois as palavras que se diziam na ausência do Sr. de Charlus, as insinuações sobre Morel, ninguém era de alma tão baixa que fosse repeti-las. E no entanto, esta simples situação basta para mostrar que mesmo esta coisa universalmente desacreditada, que em parte alguma encontraria um defensor o mexerico; também ele, ou que tenha por objeto a nós mesmos e se nos torne desse modo particularmente desagradável, ou que nos informe sobre um terceiro algo que ignorávamos, tem seu valor psicológico. Ele impede o espírito de adormecer sobre a visão artificial do que julga serem as coisas e que não passa da aparência destas. Revira esta última com a destreza mágica de um filósofo idealista e rapidamente nos apresenta uma ponta insuspeitada do avesso do tecido. Poderia o Sr. de Charlus imaginar estas palavras ditas por certa amável parenta: 
- Como queres que Mémé esteja apaixonado por mim? Então esqueces que sou uma mulher?! -

     E, no entanto, ela nutria uma amizade verdadeira e profunda pelo barão. Como então espantar-se, no caso dos Verdurin, com cuja bondade e afeto ele não tinha direito nenhum de contar, de que as palavras que diziam longe dele (e não foram só palavras, conforme se verá) fossem tão diversas do que ele imaginava, ou seja, simples reflexo das que ouvia quando se achava presente? Somente estas ornavam de inscrições afetuosas o pequeno pavilhão ideal onde por vezes o Sr. de Charlus vinha sonhar sozinho, quando por um instante introduzia a sua imaginação na ideia que os Verdurin faziam dele. Ali a atmosfera é tão simpática, tão cordial, o repouso tão reconfortante, que, quando o Sr. de Charlus, antes de adormecer, vinha ali descansar um momento de suas preocupações, nunca saía sem um sorriso. Mas, para cada um de nós, esse gênero de pavilhão é dúplice: diante daquele que julgamos ser o único existe outro, normalmente invisível para nós, o verdadeiro, simétrico em relação ao que conhecemos, porém muito diferente e cuja ornamentação, em que não achamos nada do que esperávamos ver, nos assombraria como se fosse feita com os símbolos odiosos de uma hostilidade insuspeitada. Que pasmo para o Sr. de Charlus, se ele penetrasse num desses pavilhões adversos graças a um mexerico, como por uma dessas escadas de serviço onde, à porta dos apartamentos, são rabiscados a carvão grafitos obscenos por fornecedores descontentes ou criados despedidos! Mas, da mesma forma como somos privados desse senso de orientação de que são dotados certos pássaros, falta-nos o sentido da visibilidade, como o das distâncias, e julgamos estar próxima a atenção interessada de pessoas que, pelo contrário, jamais pensam em nós, e não suspeitamos que, durante esse tempo, somos para os outros a sua única preocupação. Assim, o Sr. de Charlus vivia iludido como o peixe que julga que a água em que nada se estende para além do vidro de seu aquário, que lhe apresenta o reflexo dessa água, ao passo que não vê a seu lado, na sombra, o passeante divertido que segue suas evoluções ou o piscicultor todo-poderoso que, no momento imprevisto e fatal, diverso desse momento em relação ao barão (para quem o piscicultor, em Paris, será a Sra. Verdurin), irá tirá-lo sem piedade do ambiente em que gostava de viver para arremessá-lo a outro. De resto, os povos, na qualidade de coleções de indivíduos, podem oferecer exemplos mais ampliados, porém idênticos em cada uma de suas partes, desta cegueira profunda, obstinada e desconcertante. Até aqui, se ela fora causa de que o Sr. de Charlus mantivesse, no pequeno clã, conversas de uma habilidade inútil ou de uma audácia que fazia sorrir às escondidas, ainda não tivera para ele, nem deveria tê-lo em Balbec, consequências graves. Um pouco de albumina, de açúcar, de arritmia cardíaca não impede que a vida continue de modo normal para aquele que nem sequer percebe isso, enquanto que só o médico vê no caso um presságio de catástrofes. No momento presente, o gosto platônico ou não do Sr. de Charlus por Morel somente impelia o barão a dizer de bom grado, na ausência de Morel, que o achava muito bonito, pensando que isso será ouvido com toda a inocência, e nisso agia como um homem fino que, chamado a depor diante do tribunal, não se acanhará de entrar em detalhes que aparentemente lhe são desvantajosos, mas que, por isso mesmo, têm maior naturalidade e menos vulgaridade do que os protestos convencionais de um réu de teatro. Com a mesma liberdade, sempre entre Doncieres-Oeste e Saint-Martin-du-Chêne ou vice-versa; o Sr. de Charlus falava de bom grado acerca das pessoas que, segundo parece, têm costumes bem estranhos, e até mesmo acrescentava: 

- Afinal de contas, digo "estranhos" não sei por quê, pois isso nada possui de tão estranho -para mostrar a si próprio como se sentia à vontade com seu público. E ele o era de fato, com a condição de que fosse ele a tomar a iniciativa das operações e soubesse que a galeria estava muda e risonha, desarmada pela credulidade ou pela boa educação. Quando o Sr. de Charlus não falava de sua admiração pela beleza de Morel, como se não tivesse nenhuma relação com um gosto chamado vício, tratava desse vício, mas como se de modo algum fosse o seu. Por vezes até não hesitava em chamá-lo pelo seu nome. Como, depois de haver observado a bela encadernação de seu Balzac, eu lhe perguntasse o que preferia na Comédia Humana, respondeu me, dirigindo seu pensamento para uma ideia fixa: 
- Tanto faz, as pequenas miniaturas, como O Cura de Tours e A Mulher Abandonada, ou os grandes afrescos, como a série das Ilusões Perdidas. Como! Não conhece as Ilusões Perdidas? É tão belo! O momento em que Carlos Herrera indaga o nome do castelo pelo qual está passando a sua caleche: é Rastignac, a moradia do rapaz a quem ele amou outrora. E o abade nesse momento cai num devaneio que Swann denominava, o que era bem espirituoso, a "Tristeza de Olímpio" da pederastia. E a morte de Lucien! Já não me lembro qual foi o homem de gosto que teve esta resposta, a quem lhe perguntava que acontecimento mais o afligira em toda a sua vida: "A morte de Lucien de Rubempré em Esplendores e Misérias". 
["Tristeza de Olímpio" é um célebre poema de Victor Hugo, em que o poeta revê com melancolia os locais onde principiou seu amor por Juliette Drouet. (N. do T)] 
- Sei que Balzac vai passando muito bem este ano, como no ano passado o pessimismo - interrompeu Brichot. - Mas com o risco de entristecer as almas atacadas de deferência balzaquiana, sem pretender, Deus me livre!, o papel de guarda das letras e abrir processo contra erros de gramática, confesso que o copioso improvisador de quem o senhor parece sobrestimar singularmente as espantosas elucubrações, pareceu-me sempre um escriba insuficientemente meticuloso. Eu li estas Ilusões Perdidas de que nos fala, barão, torturando-me para atingir um fervor de iniciado, e confesso com toda a simplicidade de alma que esses romances-folhetins redigidos em pathos, em algaravia dupla ou tripla ("Esther feliz", "Aonde levam os maus caminhos", "Por quanto o amor fica aos velhos"), sempre me deram o efeito dos mistérios de Rocambole, promovido por inexplicável favor à condição precária de obra-prima. 
- O senhor diz isso porque não conhece a vida - retrucou o barão, duplamente irritado, pois sentia que Brichot não haveria de compreender suas razões de artista nem quaisquer outras. 
- Entendo perfeitamente - respondeu Brichot- que, para falar como mestre Rabelais, o senhor quer dizer que sou muito sorbonagra, sorbonícola e sorboniforme.19 Entretanto, assim como os camaradas, gosto que um livro dê impressão de sinceridade e de vida, não sou desses clérigos...
[Brichot sem ligar para adjetivos usados por Rabelais para debicar dos universitários da Sorbonne. (N. do T)]
- O quarto de hora de Rabelais - interrompeu Cottard, com um ar não mais de dúvida, mas de espirituosa segurança - ... que fazem voto de literatura seguindo a regra da Abbaye-aux-Bois, na obediência do Sr. visconde de Chateaubriand, grande mestre do chique, segundo a regra estrita dos humanistas. O Sr. visconde de Chateaubriand 
- Chateaubriand com batatas? - interrompeu o doutor Cottard. - É ele o patrono da confraria - continuou o gracejo do doutor, o qual em compensação, alarmado pela frase do universitário, olhou inquieto para o Sr. de Charlus. Era uma falta de tato de Brichot, segundo Cottard, cujo trocadilho fizera aflorar um fino sorriso aos lábios da princesa Sherbatoff. 
- Com o professor, a ironia mordaz do perfeito cético jamais perde os seus direitos - disse ela por amabilidade e para mostrar que a "palavra" do médico não lhe passara despercebida. 
- O sábio é forçosamente cético - respondeu o doutor. 
- Que sei eu? "Conhece-te a ti mesmo." dizia Sócrates. É muito justo, o excesso é um defeito em tudo. Mas fico embasbacado quando penso que bastou isso para fazer durar o nome de Sócrates até nossos dias. O que existe nessa filosofia? Pouca coisa, em suma. Quando se pensa que Charcot e outros realizaram trabalhos mil vezes mais notáveis, e que pelo menos se apoiam em alguma coisa, a respeito da supressão do reflexo pupilar como síndrome da paralisia geral, e que estão quase esquecidos! Em suma, Sócrates não é extraordinário. Trata-se de pessoas que não tinham nada para fazer, que passavam o dia inteiro a passear, a discutir. É como Jesus Cristo: Amai-vos uns aos outros... Muito bonito! 
- Meu amigo... - implorou a Sra. Cottard. 
- Naturalmente a minha mulher protesta, todas elas são umas neuróticas. 
- Mas, meu doutorzinho, eu não sou neurótica - murmurou a Sra. Cottard. 
- Como? Ela não é neurótica? Quando seu filho está doente, ela apresenta fenômenos de insônia. Mas, afinal, reconheço que Sócrates e o resto são necessários para uma cultura superior, para se obter talentos de exposição. Costumo citar sempre a meus alunos no primeiro ano. O padre Bouchard, que soube disso, felicitou-me. 
- Não sou dos cultores da forma pela forma e também não entesouraria como poesia a rima milionária - retorquiu Brichot. - Mas ainda assim A Comédia Humana (bem pouco humana) é por demais o oposto dessas obras em que a arte excede o fundo, como diz a besta do Ovídio. E é permitido preferir uma trilha a meia encosta, que leve ao curato de Meudon ou à ermida de Ferney, a igual distância da Vallée-aux-Loups, onde Renê cumpria magnificamente os deveres de um pontificado sem mansuetude, e Jardies, onde Honoré de Balzac, atormentado pelos esbirros, não parava de cacografar para uma polonesa, como apóstolo zeloso da algaraviada. 
- Chateaubriand está muito mais vivo do que o senhor diz, e Balzac mesmo assim é um grande escritor - respondeu o Sr. de Charlus, ainda por demais impregnado do gosto de Swann para não se sentir irritado com Brichot - e Balzac conheceu até mesmo essas paixões que todo mundo ignora ou só estuda para as difamar. Sem voltar a falar das imortais Ilusões Perdidas, Sarrazine, A Menina dos Olhos de Ouro, Uma Paixão no Deserto, até a bastante enigmática A Falsa Amante salta em meu apoio. Quando eu falava a Swann sobre esse aspecto "fora da natureza" de Balzac, ele me dizia: - O senhor é da mesma opinião de Taine. Eu não tive a honra de conhecer o Sr. Taine - acrescentou o Sr. de Charlus (com esse hábito irritante do "senhor" inútil que têm as pessoas da sociedade, como se julgassem que, tachando de senhor a um grande escritor, lhe conferiam uma honra, talvez guardassem as distâncias e davam a entender que o não conheciam) eu não conhecia o Sr. Taine, mas me sentia muito honrado de ser da mesma opinião que ele. -  

     Aliás, malgrado esses ridículos hábitos mundanos, o Sr. de Charlus era muito inteligente, e é provável que, se algum casamento antigo tivesse estabelecido laços entre a sua família e a de Balzac, ele teria sentido (de resto, não menos que Balzac) uma satisfação de que, no entanto, não poderia deixar de vangloriar-se como de um sinal de admirável condescendência.
     Às vezes, na estação seguinte a Saint-Martin-du-Chêne, rapazes embarcavam no trem. O Sr. de Charlus não podia deixar de olhá-los, mas como abreviava e disfarçava a atenção que lhes prestava, esta parecia ocultar um segredo, mais especial até que o verdadeiro; dir-se-ia que o barão os conhecia; deixava-o transparecer contra a sua vontade, depois de ter aceito o seu sacrifício, antes de virar-se para nós, como esses meninos que, devido a uma briga dos pais, foram proibidos de cumprimentar seus camaradas, mas que, ao se encontrarem, não podem deixar de erguer a cabeça antes de recair sob a férula do preceptor. À expressão grega de que o Sr. de Charlus, falando de Balzac, fizera seguir a alusão à "Tristeza de Olímpio" em Esplendores e Misérias, Ski, Brichot e Cottard se entreolharam com um sorriso, talvez menos irônico de que impregnado da satisfação que sentiriam os convivas que tivessem conseguido que Dreyfus falasse sobre o seu próprio caso, ou a imperatriz do seu reinado. Contavam levá-lo um pouco mais adiante no assunto, mas já estávamos em Doncieres, onde Morel se reuniria a nós. Diante dele, o Sr. de Charlus vigiava cuidadosamente a sua conversa, e, quando Ski desejou fazê-lo voltar ao amor de Carlos Herrera por Lucien de Rubempré, o barão mostrou-se contrariado, misterioso, e por fim (vendo que não o escutavam), assumiu o ar severo e justiceiro de um pai que ouvisse dizer indecências diante da filha. Tendo Ski teimado um pouco para que ele continuasse, o Sr. de Charlus, de olhos fora das órbitas, erguendo a voz, disse em tom significativo e apontando para Albertine, que todavia não podia escutar-nos, ocupada em conversar com a Sra. Cottard e a princesa Sherbatoff, e no tom ambíguo de alguém que pretende dar uma lição a pessoas mal-educadas: 

- Creio que não faltará ocasião de falar dessas coisas que podem interessar a essa moça.

     Mas eu compreendi perfeitamente que, para ele, a "moça" não era Albertine e sim Morel; mais tarde, aliás, comprovou ele a justeza da minha interpretação, com as frases de que se serviu ao pedir que não mais se conversasse sobre tais assuntos na presença de Morel. 

- O senhor sabe - disse-me ele, falando do violinista - que ele absolutamente não é o que poderiam acreditar; é um menino muito honrado, que sempre teve muito juízo, um menino muito sério. -

     Sentia-se por essas palavras que o Sr. de Charlus considerava a inversão sexual como um perigo tão ameaçador para os jovens como a prostituição para as mulheres, e que se ele se servia do epíteto de "sério" para Morel, era no mesmo sentido que tem quando aplicado a uma operariazinha. Então Brichot, para mudar de conversa, perguntou se eu pretendia ficar ainda muito tempo em Incarville. Por mais que eu lhe tivesse observado várias vezes que não morava em Incarville, mas em Balbec, ele recaía sempre no mesmo erro, pois era sob o nome de Incarville, ou Balbec-lncarville, que designava aquela parte do litoral. Assim, há pessoas que falam da mesma coisa que nós, chamando-as por nomes um pouco diferentes. Certa dama do faubourg Saint-Germain me perguntava sempre, quando queria falar da duquesa de Guermantes, se fazia muito tempo que eu não via Zénaïde, ou Oriane-Zénaïde, e o resultado é que eu não compreendia no primeiro instante. Provavelmente, houvera um tempo em que, chamando-se Oriane uma parenta da Sra. de Guermantes, chamavam a esta de Oriane-Zénaïde para evitar confusões. Talvez também houvesse no começo apenas uma estação em Incarville, e de onde se ia de carro até Balbec. 

- De que estavam falando, então? - indagou Albertine, espantada com o tom solene de pai de família que o Sr. de Charlus acabara de assumir. 
- De Balzac - apressou-se a responder o barão - e você hoje está precisamente com a toalete da princesa de Cadignan, não a primeira, a do jantar, mas a segunda. -

     Esta circunstância decorria de que, para escolher as toaletes de Albertine, eu me inspirava no gosto que ela havia formado graças a Elstir, o qual muito apreciava uma sobriedade que poderia chamar-se britânica, não fosse temperada de uma certa doçura, certa languidez francesa. Na maioria das vezes, seus vestidos prediletos ofereciam aos olhos uma harmoniosa combinação de tons cinzentos, como a de Diane de Cadignan. Não havia ninguém como o Sr. de Charlus para saber apreciar em seu justo valor as toaletes de Albertine; logo em seguida, seus olhos descobriam o que lhes formava a raridade, o valor; jamais teria dito o nome de um tecido em vez de outro, e reconhecia os costureiros. Só que apreciava para as mulheres um pouco mais de brilho e de cor do que o tolerado por Elstir. Assim, naquela noite, lançou-me ela um olhar meio risonho, meio inquieto, franzindo seu narizinho róseo de gata. Com efeito, cruzada sobre sua saia de crepe da China cinzenta, sua jaqueta de cheviote cor-de-cinza fazia crer que Albertine estivesse toda de gris. Mas, fazendo-me sinal para que a ajudasse, pois suas mangas bufantes precisavam ser abaixadas ou erguidas para tirar ou botar sua jaqueta, Albertine despiu esta e, como essas mangas eram escocesas de um tom muito suave, róseo, azul pálido, esverdeado, furta-cor, foi como se num céu cinzento se formasse um arco-íris. E ela se perguntava se aquilo iria agradar ao Sr. de Charlus. 

- Ah! - exclamou este encantado - eis um raio de luz, um prisma de cores. Apresento-lhe os meus cumprimentos. 
- Mas este Senhor aqui é que possui todos os méritos - respondeu gentilmente Albertine, designando-me, pois gostava de mostrar o que lhe provinha de minha parte. 
- Só as mulheres que não sabem se vestir é que receiam a cor - continuou o Sr. de Charlus. - Pode-se ser deslumbrante sem vulgaridade, e suave sem ser insosso. Além disso, você não tem os mesmos motivos que a Sra. de Cadignan para querer parecer desligada da vida, pois era a idéia que ela desejava incutir em d'Arthez com essa toalete gris. -

     Albertine, a quem interessava essa muda linguagem dos vestidos, fez perguntas ao Sr. de Charlus acerca da Princesa de Cadignan. 

- Oh, é uma novela refinada - disse o barão num tom sonhador. 
- Conheço o jardinzinho em que Diane de Cadignan passeava com a Sra. d'Espard. É o jardim de uma de minhas primas. 
- Todas essas questões do jardim de sua prima – murmurou Brichot a Cottard - podem, assim como a sua genealogia, ter importância para este excelente barão. Mas que interesse tem isso para nós, que não temos o privilégio de passear nele, nem conhecemos essa dama e não possuímos títulos de nobreza? -

     Pois Brichot não imaginava que fosse possível alguém interessar-se por um vestido ou um jardim como por uma obra de arte, e que era como em Balzac que o Sr. de Charlus revia as pequenas alamedas da Sra. de Cadignan. O barão continuou: 

- Mas o senhor a conhece - disse-me ele, falando daquela prima e para me lisonjear, dirigindo-se a mim como a alguém que, exilado no pequeno clã, se não era propriamente de seu mundo para o Sr. de Charlus, ao menos o frequentava. - Em todo caso, deve tê-la visto na casa da Sra. de Villeparisis. 
- A marquesa de Villeparisis, a quem pertence o castelo de Baucreux? - perguntou Brichot com ar submisso. 
- Sim, conhece-a? - indagou secamente o barão. 
- De forma alguma - respondeu Brichot -, mas nosso colega Norpois passa, todos os anos, uma parte de suas férias em Baucreux. Já tive ocasião de lhe escrever para lá. -

     Disse eu a Morel, pensando interessar-lhe, que o Sr. de Norpois era amigo de meu pai. Mas nenhum movimento de seu rosto mostrou que ele tivesse ouvido, de tal modo considerava meus pais como gente sem importância, e que não estavam muito longe do que havia sido o meu tio-avô, em cuja casa o pai dele fora criado de quarto e que; aliás, contrariamente ao restante da família, como gostava de "fazer encrencas", deixara em seus criados uma recordação fascinante. - Parece que a Sra. de Villeparisis é uma mulher superior; porém, nunca me foi dado julgá-lo por mim mesmo, assim como o resto dos meus colegas. Pois Norpois, que aliás é cheio de cortesia e afabilidade no Instituto, não apresentou nenhum de nós à marquesa. Não sei de ninguém recebido por ela, a não ser o nosso amigo Thureau-Dangin, que tinha com ela antigas relações de família, e também Gaston Boissier, a quem ela desejou conhecer devido a um estudo que a interessava muito especialmente. Jantou lá uma vez e voltou fascinado. E o fato é que a Sra. Boissier não foi convidada.
     A esses nomes, Morel sorriu enternecido: 

- Ah, Thureau-Dangin - disse-me ele, tão interessado agora como fora indiferente ao ouvir falar do marquês de Norpois e de meu pai. - Thureau-Dangin e seu tio formavam um bom par de amigos. Quando uma dama queria um bom lugar para uma recepção da Academia, o seu tio dizia: "Escreverei a Thureau-Dangin." E naturalmente o lugar era logo enviado, pois bem compreende que ele não negaria coisa alguma a seu tio, que se desforraria de volta. Diverte-me igualmente ouvir o nome de Boissier, pois era lá que seu tio-avô mandava comprar todos os presentes para as senhoras no Ano-Novo. Sei disso, pois conheço a pessoa encarregada de fazê-lo. -

continua na página 211...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Um grande músico)
Volume 6
Volume 7

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Dentes de cobre sobre o Chile (4)

 A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra


PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     36. Dentes de cobre sobre o Chile
          O cobre não demorou muito para ocupar o lugar do salitre na economia chilena, ao mesmo tempo em que a hegemonia britânica abria passagem ao domínio dos Estados Unidos. Às vésperas da crise de 1929, os investimentos norte-americanos no Chile ascendiam a mais de 400 milhões de dólares, quase todos destinados à exploração e ao transporte do cobre. Até a vitória eleitoral das forças da Unidade Popular em 1970, as maiores jazidas do metal vermelho continuavam nas mãos da Anaconda Copper Mining Co. e da Kennecott Copper Co., duas empresas intimamente ligadas entre si, como parte do mesmo consórcio mundial. Em meio século, ambas remeteram do Chile para suas matrizes quatro bilhões de dólares, caudaloso sangue que se evadiu sob diversos títulos, e em contrapartida tinham efetivado, segundo suas próprias e infladas cifras, um investimento total que não passava de 800 milhões, quase tudo proveniente de lucros arrancados ao país [1]. A hemorragia fora aumentando na medida em que a produção crescia, até superar os 100 milhões por ano nos últimos tempos. Os donos do cobre eram os donos do Chile.
     Enquanto escrevo isto, em fins de 1970, Salvador Allende fala da sacada do palácio do governo para uma multidão fervorosa; anuncia que assinou o projeto de reforma constitucional que tornará possível a nacionalização da mineração. Em 1969, diz ele, a Anaconda alcançou no Chile lucros de 79 milhões de dólares, que equivalem a 80 por cento de suas rendas em todo o mundo: no entanto, acrescenta, a Anaconda tem no Chile menos da sexta parte de seus investimentos no exterior. A guerra bacteriológica da direita, uma planejada campanha de propaganda destinada a semear o terror para evitar a nacionalização do cobre e as demais reformas de estrutura anunciadas pela esquerda, foi tão intensa quanto nas eleições anteriores. Os jornais publicaram fotos mostrando tanques soviéticos movimentando-se diante do palácio presidencial de La Moneda; nas paredes de Santiago apareciam cartazes que mostravam guerrilheiros barbados arrastando jovens inocentes para a morte; tocavam a campainha de cada casa e aparecia uma senhora: “Você tem quatro filhos? Dois irão para a União Soviética e dois para Cuba”. Tudo foi inútil. O cobre, anuncia Allende, será chileno.
     Os Estados Unidos, por sua vez, com as pernas presas na armadilha das guerras do sudeste asiático, não ocultaram o mal-estar oficial diante da marcha dos acontecimentos ao sul da cordilheira dos Andes. O Chile, contudo, não está ao alcance de uma súbita expedição dos marines, e Allende, de resto, é presidente com todos os requisitos da democracia representativa que o país do norte formalmente prega. O imperialismo atravessa as primeiras etapas de um novo ciclo crítico, cujos signos já são nítidos em sua economia; sua função de polícia mundial tornou-se mais cara e mais difícil. E a guerra de preços? Agora a produção chilena é vendida em mercados diversos, e pode abrir mercados novos entre os países socialistas; os Estados Unidos carecem de meios para bloquear, em escala universal, as vendas do cobre que os chilenos querem recuperar. Muito diferente, por certo, era a situação do açúcar cubano doze anos atrás, integralmente destinado ao mercado norte-americano e inteiramente dependente de seu preço. Quando Eduardo Frei ganhou as eleições em 1964, a cotação do cobre subiu de imediato com visível alívio; quando Allende ganhou as de 1970, o preço, que já vinha baixando, caiu mais ainda. Mas o cobre, habitualmente sujeito às severas flutuações de preços, havia desfrutado de preços razoavelmente altos nos últimos anos, e como a demanda excede a oferta, a escassez impede que o nível tenha quedas consideráveis. Embora o alumínio, em grande medida, tenha ocupado o lugar do cobre como condutor de eletricidade, o alumínio também requer cobre, e também não foram encontrados sucedâneos mais baratos e eficazes para substituí-lo na indústria do aço e na indústria química, e o metal vermelho continua sendo a principal matéria-prima nas fábricas de pólvora, latão e arame. [2]
     Ao longo das faldas da cordilheira, o Chile possui as maiores reservas de cobre do mundo, uma terça parte do total até agora conhecido. O cobre chileno geralmente aparece associado a outros metais, como o ouro, a prata e o molibdênio. É um fator adicional para estimular a exploração. Além disso, os obreiros chilenos, para as empresas, são baratos: com seus baixíssimos custos no Chile, a Anaconda e a Kennecott financiam com sobras seus altos custos nos Estados Unidos, do mesmo modo que o cobre chileno paga, pela via dos “gastos no exterior”, mais de dez milhões anuais para a manutenção de seus representantes em Nova York. O salário médio das minas chilenas mal alcançava, em 1964, a oitava parte do salário básico nas refinarias da Kennecott nos Estados Unidos, ainda que a produtividade tanto de uns quanto de outros estivesse no mesmo nível [3]. Não eram iguais, portanto, e nem o são, as condições de vida. Os mineiros chilenos, geralmente, vivem em estreitos e sórdidos quartinhos, separados de suas famílias, que moram em casinholas miseráveis de arrabalde; afastados, decerto, do pessoal estrangeiro, que nas grandes minas habita um universo à parte, minúsculos estados dentro do Estado, onde só se fala inglês e até são editados jornais para sua exclusiva leitura. A produtividade obreira no Chile foi aumentando na medida em que as empresas mecanizavam seus meios de exploração. Desde 1945, a produção de cobre aumentou em 50 por cento, mas o número de operários empregados nas minas reduziu-se a uma terça parte.
     A nacionalização dará um fim a um estado de coisas que se tornou insuportável para o país, e evitará que se repita com o cobre a experiência de saque e queda no vazio que sofreu o Chile no ciclo do salitre. Porque os impostos que as empresas pagam ao Estado não compensam de modo algum o inflexível esgotamento dos recursos minerais que a natureza concedeu e não renovará. De resto, os impostos diminuíram em termos relativos, desde que, em 1955, foi estabelecido o sistema de tributação decrescente de acordo com os aumentos da produção, e desde a “chilenização” do cobre determinada pelo governo de Frei. Em 1965, Frei tornou o Estado sócio da Kennecott e permitiu às empresas pouco menos que triplicar seus lucros, através de um regime tributário que lhes foi muito propício. No novo regime, os gravames foram aplicados sobre um preço médio de 29 centavos a libra, ainda que o preço, empurrado pela grande demanda mundial, tenha subido até 70 centavos. Com a diferença de impostos entre o preço fictício e o preço real, o Chile perdeu uma enorme quantidade de dólares, como reconheceu o próprio Radomiro Tomic, o candidato eleito para suceder Frei no período seguinte. Em 1969, o governo de Frei celebrou com a Anaconda um acordo para lhe comprar 51 por cento das ações em quotas semestrais, em condições tais que desencadearam um novo escândalo político e deram maior impulso ao crescimento das forças de esquerda. O presidente da Anaconda dissera previamente ao presidente do Chile, segundo a versão divulgada pela imprensa: “Excelência, os capitalistas não conservam os bens por motivos sentimentais, mas por razões econômicas. É normal que uma família guarde um roupeiro que pertenceu a um avô; as empresas, no entanto, não têm avô. A Anaconda pode vender todos os seus bens. Depende só do preço que lhe paguem”.

continua na página 239...
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[1] As mesmas empresas industrializavam o mineral chileno em suas fábricas longínquas. Anaconda American rass, Anaconda Wire and Cable e Kennecott Wire and Cable figuram entre as principais fábricas de bronze e arame do mundo inteiro. CADEMARTORI, José. La economía chilena. Santiago de Chile, 1968.
[2] As mesmas empresas industrializavam o mineral chileno em suas fábricas longínquas. Anaconda American rass, Anaconda Wire and Cable e Kennecott Wire and Cable figuram entre as principais fábricas de bronze e arame do mundo inteiro. CADEMARTORI, José. La economía chilena. Santiago de Chile, 1968.
[3] VERA, Mario & CATALÁN, Elmo. La encrucijada del cobre. Santiago de Chile, 1965.

domingo, 17 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (IV.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

IV


     Sem que soubessem de onde partia, uma nova palavra de ordem lançou-os para outra mina. 

— À Victoire! À Victoire!

      Será que não havia policiais ou cavalaria na Victoire? Não sabiam. Todos pareciam tranquilizados. E, dando meia volta, desceram para o lado de Beaumont, atalhando pelos campos para voltarem à estrada de Joiselle. O leito da estrada de ferro barrava a passagem; atravessaram-no pondo abaixo as cercas. Agora aproximavam-se de Montsou, a lenta ondulação dos terrenos era mais baixa, alargando o mar das plantações e beterraba, muito ao longe, até as casas escuras de Marchiennes.
      Desta vez era uma caminhada de cinco quilômetros bem contados. Tamanho entusiasmo os empurrava que nem sentiam o cansaço atroz, os pés alquebrados e esfolados. O bando era cada vez maior, aumentando sempre com os companheiros apanhados pelo caminho e nos conjuntos habitacionais. Quando atravessaram o canal pela ponte Magache e se apresentaram diante da Victoire, já eram dois mil. Mas já tinham dado três horas, o trabalho terminara, não havia um só homem no fundo da mina. A decepção que sentiram explodiu em vãs ameaças, a única coisa que fizeram foi receber a cacos de tijolos os operários do desaterro que chegavam para pegar o trabalho. Invadiram a mina, que, deserta, passou a pertencer-lhes. E, no seu desapontamento por não terem uma cara de traidor para esbofetear, atiraram-se às coisas. Um bolsão de rancor rebentava neles, uma pústula envenenada, que se enchera aos poucos. Anos e anos de fome os torturavam com uma sede de massacre e destruição.
     Atrás de um galpão, Etienne divisou uns carregadores que enchiam uma carroça de carvão. 

— Deem o fora! — ordenou ele. — Daqui não sai um pedaço!

     À sua ordem, acorreram uns cem grevistas, e os carregadores mal tiveram tempo de escapar. Enquanto uns desatrelavam os cavalos, que, assustados, partiram a galope, ferroados nas ancas, outros emborcavam a carroça e quebravam os varais.
     Levaque, com violentas machadadas, destruía os cavaletes para pôr abaixo os passadiços. Como resistissem, teve a ideia de arrancar os trilhos, de cortar a linha de um extremo a outro do pátio. Em seguida, todo o bando trabalhava para o mesmo fim. Maheu fez saltar os suportes de ferro fundido dos carris com a sua barra de ferro, que usava como alavanca. Enquanto isso, a Queimada, liderando as mulheres, invadia o depósito de lâmpadas, onde os porretes, dirigidos para todos os lados, cobriam o chão de estilhaços. A mulher de Maheu, fora de si, batia tão forte como a de Levaque. Todas elas ficaram cobertas de azeite, a filha de Mouque limpava as mãos na saia, rindo de ver-se tão suja. Por brincadeira, Jeanlin tinha-lhe despejado uma lâmpada pescoço abaixo.
     Mas essas vinganças não enchiam a barriga. Os estômagos gritavam mais alto. E a grande lamentação dominou outra vez o tumulto: 

— Pão! Pão! Pão!

     Justamente na Victoire, um antigo contramestre tinha uma cantina. Certamente com medo, abandonara a sua barraca. Quando as mulheres voltaram, tendo os homens acabado de destruir a linha férrea assediaram a cantina, cujas janelas cederam imediatamente. Não encontraram pão, só havia dois pedaços de carne crua e um de batatas. Mas, enquanto pilhavam, descobriram umas cinquenta garrafas de genebra, que desapareceram como uma gota de água na areia.
     Etienne, que já esvaziara seu cantil, pôde reabastecê-lo. Pouco a pouco, uma embriaguez perigosa, a embriaguez dos famintos, congestionava seus olhos, fazia que seus dentes parecessem de lobo entre os lábios pálidos. De repente notou que Chaval tinha escapado durante o tumulto. Pôs-se a praguejar e alguns homens correram para caçar o fugitivo, que se escondia com Catherine por trás de um monte de lenha. 

— Ah! cachorro sem-vergonha! — berrou Etienne. — Então tens medo de te comprometer? E eras tu que na floresta pedias a greve dos mecânicos para parar as bombas!... Agora queres escapar, deixando-nos sozinhos na enrascada, hem? Pois muito bem, com mil raios! Vamos voltar à Gaston-Marie, eu quero que tu quebres a bomba. É isso! com mil raios! tu vais quebrá-la!

     Estava bêbado, ele próprio lançava seus homens contra a bomba que tinha salvo algumas horas antes. 

— À Gaston-Marie! A Gaston-Marie!

     Todos o aclamaram e se precipitaram, enquanto Chaval, agarrado pelos ombros, arrastado, empurrado violentamente, continuava a pedir que o deixassem lavar-se. 

— Vai-te embora! — gritou Maheu a Catherine, que também corria.

     Desta vez ela nem sequer recuou, levantando para seu pai uns olhos ardentes, e continuou a correr.
     Outra vez o bando invadiu a planície rasa. Voltava sobre seus passos, pelas compridas estradas retas, pelas terras cada vez mais amplas. Eram quatro horas; o sol, que se punha no horizonte, lançava no solo gelado as sombras daquelas hordas, de grandes gestos furiosos.
     Desviaram-se de Montsou, dirigindo-se mais para cima, para a estrada de Joiselle. E, para não darem a volta pela Fourche-aux-Boeufs, passaram pelos muros da Piolaine. Naquele momento, precisamente, os Grégoire acabavam de sair para visitar o notário, antes de irem jantar com os Hennebeau, onde deveriam encontrar Cécile. A propriedade parecia dormir, com sua avenida de tílias deserta, sua horta e seu pomar pelados pelo inverno. Nada se movia na casa, cujas janelas fechadas se embaciavam devido ao aquecimento interno. E do profundo silêncio emanava uma impressão de bonomia e bem-estar, a sensação patriarcal de camas fofas e mesa farta, de felicidade tranquila em que decorria a existência dos proprietários.
     Sem parar, o bando lançou olhares sombrios através das grades, ao longo dos muros protetores, eriçados de cacos de garrafa. E o grito recomeçou: 

— Pão! Pão! Pão!

     Apenas os cães responderam com latidos furiosos, dois enormes dinamarqueses de pelo fulvo, que se punham nas patas traseiras, de goelas arreganhadas. E, por trás de uma persiana fechada, não havia mais que as duas criadas. Melanie, a cozinheira, e Honorine, a camareira, atraídas por aquele grito, suando de medo, empalidecendo ao verem desfilar aquele bando de selvagens. As duas caíram de joelhos, julgando-se mortas, ouvindo uma pedra, uma só, que quebrava o postigo da janela ao lado. Era mais uma de Jeanlin, que fabricara uma funda com um pedaço de corda, e, de passagem, enviava lembranças aos Grégoire. Mas já voltara a soprar a sua cometa e a turba sumia-se ao longe, com o grito cada vez mais fraco: 

— Pão! Pão! Pão!

     Quando chegaram à Gaston-Marie, eram ainda em maior número, mais de dois mil e quinhentos furiosos, quebrando tudo, varrendo tudo, com a força impetuosa de uma torrente. Os policiais tinham passado por ali uma hora antes, seguindo depois para os lados da Saint-Thomas, mal informados por camponeses, sem mesmo tomarem a precaução, na sua pressa, de deixar uma guarnição de alguns homens, para proteger a mina. Em menos de quinze minutos as fornalhas foram emborcadas, as caldeiras, esvaziadas, as construções, invadidas e devastadas. Mas a bomba era o alvo principal. Não bastou que parasse com um último sopro de vapor, atiravam-se contra ela como a uma pessoa viva, a quem quisessem tirar a vida. 

— Dá o primeiro golpe! — repetia Etienne, metendo um martelo na mão de Chaval. — Vamos! Não juraste como os outros?

     Chaval tremia, recuava. E no acotovelamento o martelo caiu, enquanto os outros, sem esperar mais, destruíram a bomba com barras de ferro, tijolos, com tudo o que encontravam à mão. Alguns chegaram a esbordoá-la com varas. Os parafusos saltavam, as peças, de aço e de cobre deslocavam-se, como membros arrancados. Um golpe de enxada violentíssimo fez em pedaços o corpo de ferro fundido e a água jorrou. A bomba, ao esvaziar-se, fez um ruído de gargarejo, semelhante a um arranco de agonia.
     Era o fim. O bando voltou para fora, enlouquecido, atropelando-se atrás de Etienne, que não largava Chaval. 

— Morte para o traidor! Ao poço! Ao poço!

     O infeliz, lívido, gaguejava, voltando, com a obstinação imbecil da idéia fixa, à sua necessidade de se lavar. 

— Espera; se isso te incomoda — disse a mulher de Levaque —, aqui está a tina!

     Havia ali um charco, uma infiltração das águas da bomba. Estava branco, coberto por uma espessa camada de gelo. Empurraram-no naquela direção, quebraram o gelo e forçaram-no a mergulhar a cabeça na água gélida. 

— Vamos, mergulha! — repetia a Queimada. — Diabo! se não entrares, jogamos-te aí dentro... E agora vais beber um trago, vais, sim! como os animais, com o focinho no cocho!

     E ele teve de beber de quatro pés. Todos riam, com a maior crueldade. Uma mulher puxou-lhe as orelhas, outra jogou-lhe no rosto um punhado de esterco que encontrara na estrada, ainda fresco. Seu velho suéter não prestava mais, todo esfarrapado. E ele, desvairado, dava encontrões, empurrava, tentando fugir.
     Maheu o maltratava, a mulher estava entre as mais ferozes, ambos dando vazão ao seu antigo rancor; a própria filha de Mouque, que de ordinário permanecia em bons termos com seus namorados, estava fora de si, chamava-lhe inútil, dizia que ia arrancar-lhe as calças para ver se ele ainda era um homem.
     Etienne fez que se calasse. 

— Chega! Com esse, apenas um de nós pode dar conta do recado... Se queres, eu e tu resolvemos o problema.

     Seus punhos se fecharam, seus olhos iluminavam-se com um furor homicida, a embriaguez transformava-se em desejo de matar. 

— Estás pronto? Um de nós dois vai ficar aqui... Deem-lhe uma faca. Eu já tenho a minha.

     Catherine, esgotada, apavorada, olhava para ele. Lembrava-se das suas confidências, da sua necessidade de dar cabo de alguém quando bêbado, envenenado a partir do terceiro copo, a tal ponto seus pais viciados no álcool tinham injetado aquela peçonha no seu corpo. Bruscamente ela arremeteu contra ele, esbofeteou-o com suas mãos de mulher, gritando-lhe na cara, sufocada de indignação: 

— Covarde! Covarde! Covarde!... Já não chegam todas essas atrocidades? Queres assassiná-lo, agora que ele não pode mais manter-se em pé!

     Virou-se para o pai e para a mãe, para todos os outros. 

— Vocês não passam de uns covardes! Covardes, ouviram? Pois matem-me com ele. Arranco os olhos de vocês, se o tocarem outra vez. Covardes!

     E pôs-se na frente do seu homem, defendendo-o; esquecia as surras, esquecia a vida de miséria, arrebatada pela ideia de que pertencia a ele, já que por ele fora escolhida, e que era uma vergonha para si própria que o destruíssem assim.
     Etienne, com os tapas da moça, ficara pálido. O primeiro ímpeto foi de atacá-la, mas depois, tendo passado a mão pelo rosto, num gesto de homem que se desembriaga, disse a Chaval, no meio de um grande silêncio: 

— Ela tem razão, chega disso... Vai-te embora!

     Sem mais esperar, Chaval saiu correndo, e Catherine atrás dele. A multidão, boquiaberta, viu-os desaparecer na volta do caminho. A mulher de Maheu murmurou então: 

— Você errou, devia mantê-lo conosco. Certamente ele vai fazer alguma traição.

     Mas o bando pusera-se novamente em marcha. Já eram quase cinco horas; o sol, rubro como brasa na fímbria do horizonte, incendiava a imensa planície. Um vendedor ambulante que passava informou-lhes que a cavalaria estava descendo para os lados da Crèvecoeur. A notícia fê-los retroceder e espalhou-se outra palavra de ordem: 

— Para Montsou! À direção! Pão! Pão! Pão!

continua na página 293...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

sábado, 16 de maio de 2026

Cinema: Che - O Argentino (Parte 2)

Che, o maior revolucionário do seu tempo

Parte Dois

Parte final da cinebiografia do revolucionário Ernesto "Che" Guevara, personagem histórico importantíssimo para a revolução cubana.


Direção
Steven Soderbergh

Roteiristas
Peter Buchman
Ernesto 'Che' Guevara : memórias "Reminiscências da Guerra Revolucionária Cubana"






Elenco
Julia Ormond como Lisa Howard  
Benicio Del Toro como Ernesto Che Guevara
Oscar Isaac como Interpreter
Pablo Guevara como Convidado para o jantar #1
Franklin Díaz como Convidado para o jantar #2
Armando Suárez Cobián como Convidado para o jantar #3
Rodrigo Santoro como Raúl Castro
María Isabel Díaz Lago como María Antonia
Demián Bichir como Fidel Castro
Mateo Gómez como Diplomata Cubano #1
Ramon Fernandez como Héctor
Yul Vazquez como Alejandro Ramírez
Jose Caro como Esteban
Pedro Adorno como Epifanío Díaz
Jsu Garcia como Jorge Sotús
Luis Alfredo Rodríguez Sánchez como Mensageiro Rebelde #1
Santiago Cabrera como Camilo Cienfuegos
Roberto Santana como Juan Almeida
Vladimir Cruz como Ramiro Valdés Menéndez
Marisé Álvarez como Vilma Espín
Jorge Perugorría como Vilo (Juan Vitalo Acuña)
Elvira Mínguez como Celia Sánchez
Unax Ugalde como Vaquerito (Roberto Rodríguez)
Christian Nieves como Oñate Cantinflás
Andres Munar como Joel Iglesias Leyva
Lidy Paoli López como Quike Escalona
Francisco Cabrera como Rebel Guide
Pedro Telémaco como Eligio Mendoza
Milo Adorno como Mario Leal
Miguel Ángel Suárez como Médico do Exército
Alfredo De Quesada como Israel Pardo
Roberto Urbina como Guile Pardo
Juan Pedro Torriente como Pedro Chape
Io Bottoms como Maquiadora
Manuel Cabral como Homem cubano no bar #1
Oscar A. Colon como Homem cubano no bar #2
Sam Robards como Tad Szulc
Jay Potter como Richard Hottelet
Stephen Mailer como Paul Niven
René Lavan como Diplomata Cubano #2
Octavio Gómez Berríos como Otto 
Blanca Lissette Cruz como María
Laura Andújar como Laura
Georgina Borri como Velha #1
Alejandro Renteria como Umberto
Israel Lugo como Omar
Bryant Huffman como Cuervo
Xavier Antonio Morales como Cúmplice de Esteban
José Luis Gutiérrez como Polo
Jon DeVries como Sen. Eugene McCarthy
Leslie Lyles como Foliona #1
Meg Gibson como Foliona #2
Alex Manette como Folião #3
Elvis Nolasco como Folião #4
Sheridan Lowell
como Folião #5
Eugenio Monclova como Emilio Cabrera
Luis Gonzaga Hernandez como Lalo Sardiñas
Jose A. Nieves como Dr. Julio Martínez Páez
Joksan Ramos como Raúl Chibás
Javier Ortiz como Felipe Pazos
Edgar Ramírez como Ciro Redondo García
Luis Rosario como Rebelde Luís
Osmin Hernandez como Gustavo (Santa Fé)
Julio Cesar Morales como Jesús 
Leonardo Castro como Médico do Exército
Oscar De La Fe Colon como Cara da Bazuca #1
Luis Arriaga como Cara da Bazuca #2
Monique Gabriela Curnen como Secretária
P.J. Benjamin como Capitão Stanton
Al Espinosa como Manifestante furioso #1
Ana Maria Andricain como Manifestante furiosa #2
Michael Countryman como Embaixador dos EUA - Stevenson
Victor Rasuk como Rogelio Acevedo
Jorge Armando como Enrique Acevedo
Kahlil Mendez como Leonardo Tamayo Núñez
Aris Mejias como Carmen
Carlitos Ruiz Ruiz como Ventríloquo (Albertico)
Armando Riesco como Benigno (Dariel Alarcón Ramírez)
Othello Rensoli como Pombo (Harry Villegas)
Victoria Espinosa como Velha #2
Joe Urla como Embaixador da Nicarágua 
Diego Arria como Embaixador da Venezuela 
Omar Chagall como Embaixador do Panamá  
Eduardo Cortés como Sánchez Mosquera
Joaquín Méndez como Faustino Pérez
Pablo Venegas Colón como René Ramos Latour
Jerry Nelson Soto como Nico Torres
Jose Brocco como Ovidio Díaz Rodríguez 
Norman Santiago como Tuma (Carlos Coello)
Juan Carlos Arvelo como Rolando Cubela
Roy Sánchez-Vahamondes como Faure Chomón
Yamil Collazo como Enrique Oltuski
Alejandro Carpio como Eloy Gutiérrez Menoyo
Andres Santiago Bravo como Hermes Peña Torres
Aurelio Lima como Victor Bordón Machado
Catalina Sandino Moreno como Aleida March
Alba Caraballo como Amiga de Aleida
Doel Alicea como Mensageiro de Oltusk
Rafael Alvarez como Tenente Pérez Valencia
osé Cotté como Dr. Fernández Mell
Naya Tanya Rivera como Mulher na multidão
Néstor Rodulfo como Miguel (Manuel Hernández Osorio)
Luis Alberto García como Coronel Joaquín Casillas Lumpuy
Teofilo Torres como Coronel Hernández
Ernesto Faxas como Fernández Suero
Ricardo Alvarez como Antonio Jiménez
Miguel Rodarte como Homem com marreta
Rafael Simón como Mensageiro Rebelde #2
Bruno Bichir como Coronel Rojas
Gerardo Albarrán como Policial
Guillermo Ríos como Comandante Gómez Calderón
Victor Angulo Villacis como Trabalhador da Cruz Vermelha
Fernando Gutiérrez Vargas como Assessor de Hernández
Ramiro Garza Balboa como Homem cumprimentando Che
Carmen Mahiques como Cozinheira na Embaixada de Cuba
Euriamis Losada como Carlos
Jorge Alberti como Soldado Hector (não creditado)
Fernando Arroyo como Soldado (não creditado)
Javier Bellido Cintron como Soldado Jose (não creditado)
Lou D'Amato como Delegado da ONU (não creditado)
Ramiro 'Ramir' Delgado Ruiz como Rebelde Ferido (não creditado)
Dave Dyshuk como Fotógrafo de imprensa (não creditado)
Jonathan Fret como Companheiro de Aleida (não creditado)
Rodyniel Gonzalez como Menino Galinha (não creditado)
Gilbert Guash como Soldado Rebelde (não creditado)
Brian Hopson como Delegado das Nações Unidas (não creditado)
Lemaris Lorenzo como Estudante (não creditado)
Fran Mendez como Rebelde Cubana (não creditado)
Rebecca Merle como Manifestante nas Nações Unidas (não creditado)
Keila Michelle como Convidada para a festa de Ano Novo (não creditado)
Robert Myers como Diplomata da ONU (não creditado) 
Ragini Parmar como Embaixador do Paquistão (não creditado)
Jean Pierre Prats como Soldado (não creditado)
Alexandra Tejeda Rieloff como Manifestante da ONU (não creditado)
Ektor Rivera como Soldado Batista (não creditado)
Naya Taina Rivera como Senhora na multidão (não creditado)
Kent Sladyk como Diplomata romeno em ONU (não creditado)
Susie Stewart Rubio como Manifestante #2 (não creditado)
Bernat Tort-Ortiz como Rebelde Cubano (não creditado)
Guillermo Valedon como David Salvador (não creditado)
Gerardo Vega como Cuban Rebel (não creditado)
Tania Vega como Filha de Juan Carlos Esteves

A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Quilombo / Casanova de Fellini / Che: O Argentino (Parte 1)Che: O Argentino (Parte 2) /   
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  • Lisa Howard: 
  • Qual é a qualidade mais importante que um revolucionário deve possuir?
  • Ernesto Che Guevara: 
  • O amor.
  • Lisa Howard: 
  • Amor?
  • Ernesto Che Guevara: 
  • Amor pela humanidade... pela justiça e pela verdade. Um verdadeiro revolucionário vai aonde é necessário.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas / VI — Mário prisioneiro

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     VI — Mário prisioneiro

             Estava Mário, num dos últimos dias da semana, como costumava, sentado no seu banco, com um livro aberto na mão, do qual havia duas horas não voltava uma única folha. De repente estremeceu. Passava-se o que quer que era no extremo em que estava o outro banco. O senhor Leblanc e sua filha acabavam de se levantar, a jovem dera o braço a seu pai e dirigiam-se ambos para o meio da álea onde estava Mário; este fechou o livro, tornou depois a abri-lo, e fez diligência para ler. Mário tremia. A auréola tomava a sua direção. «Meu Deus!» pensava ele. «Nem terei tempo de tomar uma atitude». Entretanto, o homem de cabelos brancos e a jovem continuavam a avançar. Mário julgava que isto durava havia um século, quando não era mais do que um segundo. «O que vêm eles fazer para este lado?» perguntou a si mesmo. «O quê! Pois ela vem passar por aqui Os seus pés vão pisar a areia desta álea a dois passos de mim!» Sentia-se transtornado, desejava ser belo, quisera ter ao peito uma condecoração. Ouvia aproximar-se o ruído suave e cadente de seus passos e imaginava que o senhor Leblanc lhe lançava olhos irritados. «Dar-se-á o caso que me venha falar?» pensava. Em seguida baixou a cabeça; quando a ergueu vi-os quase ao pé de si. A jovem passou e olhou para ele e fitou-o com uma doçura pensativa, que o fez estremecer desde os pés até a cabeça. Pareceu-lhe que o repreendia de ter estado tanto tempo sem se lhe aproximar e que lhe dizia: Sou eu que me aproximo. Mário sentiu-se deslumbrado na presença daquelas pupilas cheias de raios e de abismos, que lhe acendiam como que uma fogueira no cérebro. Vir ela ter com ele, que júbilo! E olhá-lo como ela o olhou! Mais bela do que nunca se lhe afigurou naquela hora! Bela de uma beleza a um tempo feminina e angélica, de uma beleza completa que faria cantar Petrarca e curvar o joelho a Dante. Parecia-lhe que se sentia librado na amplidão do espaço, quando realmente o torturava a aflição de se ver com as botas cobertas de pó.
     E Mário acreditava piamente que ela lhe tinha olhado também para as botas.
     Seguiu-a com os olhos até a perder de vista e depois principiou a passear pelo Luxemburgo como um louco. É provável que por vezes se risse consigo só e falasse em voz alta. É certo que fitava com tal ternura as amas de meninos que por ali andavam também a passear, que cada qual o julgava enamorado de si.
     Passado algum tempo saiu do Luxemburgo, na esperança de se tornar a encontrar com a donzela na rua.
     Ao chegar às arcadas do Odeon, encontrou Courfeyrac e disse-lhe: 

— Anda daí jantar comigo!

     E lá foram ambos para o Rousseau, onde gastaram seis francos. Mário comeu como um lobo. Deu seis soldos ao criado que os serviu e à sobremesa disse para Courfeyrac: 

— Já leste o jornal onde vem o belo discurso de Audry de Puyraveau?

     O mancebo estava loucamente enamorado.
     Depois de jantar disse para Courfeyrac: 

— Anda daí ao teatro, que eu pago!

     E foram a caminho da Porta de S. Martinho ver o ator Frederico na Estalagem dos Adrefs. Mário divertiu-se a não poder mais.
     Nem assim, porém, o abandonou o predomínio da sua natural intratabilidade. Na ocasião em que saiu do teatro voltou a cara para não ver as pernas a uma modista que ia a saltar uma enxurrada, e ao ouvir dizer a Courfeyrac: «Quem me dera cá para a minha coleção!», estremeceu quase horrorizado.
     Courfeyrac convidou-o para irem no dia seguinte almoçar ao café Voltaire. Mário foi e comeu ainda mais do que no dia antecedente. Estava pensativo, mas muito alegre. Dir-se-ia que aproveitava todas as ocasiões de rir às gargalhadas. Apresentaram-lhe um provinciano que nunca na sua vida conhecera e ele abraçou-o com toda a cordialidade. Havendo-se formado em volta da mesa um círculo de estudantes, que se entretinham a falar das tolices vomitadas do alto das cadeiras da Sorbonna, tolices que ficavam ao Estado por bom dinheiro, a conversa recaiu sobre as faltas e lacunas dos dicionários, e prosódias de Quicherat, e quando a discussão estava mais animada, Mário interrompeu-a para exclamar. 

— Mas hão-de confessar que é uma agradável coisa o ser condecorado! 
— Ora isto é que é uma ratice! — disse Courfeyrac em voz baixa a Jean Prouvaire. 
— E eu digo que é uma coisa muito séria — respondeu Jean Prouvaire.

     E era-o, efetivamente. Mário estava nessa primeira hora violenta e cheia de encantos que preludia as grandes paixões.
     Tudo isto operara-o um olhar.
     Quando se acha carregada a mina, quando estão aparelhados os materiais do incêndio, não há coisa mais simples. Um olhar é uma faísca.
     Acabara tudo. Mário amava uma mulher. O seu destino principiava a envolver-se nas dobras do mistério.
     O olhar das mulheres assemelhava-se a certas máquinas de numerosas rodas, na aparência tranquilas, na realidade medonhas. Todos os dias passamos por elas sossegados, alheados do pensamento de um perigo, impunes da nossa descuidosa serenidade. Uma ocasião chega em que até da sua existência nos mostramos olvidados. Giramos em torno a elas, falamos, rimos e de repente sentimo-nos apanhados, e tudo acaba! Travou de nós a máquina, apanhou-nos o olhar. Apanhou-nos, pouco importa porque parte ou como, por qualquer parte do vosso pensamento que andava alheada, por alguma distração que veste. Estais perdido. Sereis arrebatado em peso por esse olhar. Apoderar-se-á de vós um encadeamento de forças misteriosas. Em vão vos debateis, que todo o socorro dos homens se vos torna impossível. Ides cair de roda em roda, de angústia em angústia, de tortura em tortura, vós, o vosso espírito, a vossa fortuna, o vosso porvir, a vossa alma; e dessa horrorosa máquina saireis, ou desfigurado pela vergonha ou transfigurado pela paixão, conforme verdes caído, ou em poder de uma criatura má ou em poder de um nobre coração.

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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - VI — Mário prisioneiro
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira