domingo, 14 de junho de 2026

MPB: Lua e Flor

Oswaldo Montenegro

Escondido no tempo

"Nascido no bairro do Grajaú, Oswaldo Viveiros Montenegro é um caso excepcional de precocidade musical. Sem nunca ter estudado música regularmente, começou desde tenra infância a ser influenciado por ela. Primeiro, na casa de seus pais no Rio de Janeiro: sua mãe e os pais dela tocavam piano, seu pai tocava violão e cantava."

Eu amava como amava algum cantor
De qualquer clichê, 
de cabaré, 
de lua e flor

Eu sonhava como a feia na vitrine
Como carta que se assina em vão

Eu amava como amava um sonhador
Sem saber porquê 
e amava ter 
no coração

A certeza ventilada de poesia
De que o dia amanhece, não

Eu amava como amava um pescador
Que se encanta mais com a rede que com o mar
Eu amava como jamais poderia se soubesse
Como te encontrar

Eu amava como amava algum cantor
De qualquer clichê, 
de cabaré, 
de lua e flor

Eu sonhava como a feia na vitrine
Como carta que se assina em vão

Eu amava como amava um pescador
Que se encanta mais com a rede que com o mar
Eu amava como jamais poderia se soubesse
Como te encontrar

Eu amava como amava um pescador
Que se encanta mais com a rede que com o mar
Eu amava como jamais poderia se soubesse
Como te encontrar

Compositor: Oswaldo Montenegro



"Lua e Flor", de Oswaldo Montenegro e Madalena




"Oswaldo Viveiros Montenegro (Rio de Janeiro, 15 de março de 1956) é um músico brasileiro. Além de ser cantor, Montenegro compôs trilhas sonoras para peças de teatro, balés, cinema e televisão e foi casado com a atriz Paloma Duarte. Tem uma das parcerias mais fortes, a MPB, ao lado de Madalena Salles, acompanhando com suas flautas."



Temporada 1. 
"Nossas Histórias" 
- Cap. 1: "O dia em que conheci Oswaldo Montenegro"





Temporada 1.
"Nossas Histórias" 
- Cap. 3 : "Ao nosso filho, morena" (websérie sobre Oswaldo Montenegro)





Ao nosso filho, morena 
- Oswaldo Montenegro 
- Projeto Canção Nua





Como essa mulher faz falta. 
Marília Pêra, uma artista completa: cantava, dançava, atuava, recitava e era amor em tudo isso!






Gente de Expressão - Marília Pêra




Codinome Beija-flor / Madalena / Lua e Flor /     

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (4)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
 
continuando...

     Nenhum homem é definitivamente seu senhor. Mas elas têm a mais urgente necessidade do homem. A cortesã perde todos os seus meios de existência, se ele deixa de desejá-la; a estreante sabe que todo o seu futuro está nas mãos dele; a própria estrela, privada de apoio masculino, vê dissipar-se o seu prestígio: abandonada por Orson Welles, foi com um ar doentio de órfã que Rita Hayworth deambulou pela Europa antes de encontrar Ali Khan. A mais bela de todas nunca tem certeza do dia seguinte, porque suas armas são mágicas e a magia é caprichosa; ela está ligada a seu protetor — marido ou amante — quase tão estreitamente quanto uma esposa "honesta" ao seu esposo. Deve-lhe não somente o serviço da cama, mas precisa ainda suportar-lhe a presença, a conversa, os amigos e principalmente as exigências da vaidade dele. Pagando, à mulher que explora, sapatos de saltos altos, saias de cetim, o proxeneta faz um investimento que lhe dará uma renda; o industrial, o produtor, oferecendo pérolas e peles à amiga, afirma fortuna e poder através dela: que a mulher seja um meio para ganhar dinheiro ou um pretexto para gastá-lo, é sempre a mesma servidão. Os presentes com que a cumulam são cadeias. E esses vestidos, essas joias que ela usa, pertencem-lhe realmente? O homem, por vezes, reclama a restituição após a ruptura, como o fez outrora, com elegância, Sacha Guitry. Para "conservar" seu protetor sem renunciar a seus prazeres, a mulher utilizará espertezas e manobras, mentiras e hipocrisias que aviltam a vida conjugal; ainda que apenas se finja subserviente, já essa comédia é servil. Bela, célebre, ela pode escolher outro senhor, se o do momento se lhe afigura odioso. Mas a beleza é uma preocupação, um tesouro frágil; a hetaira depende estreitamente de seu corpo que o tempo impiedosamente degrada; é para ela que a luta contra a velhice assume seu aspecto mais dramático. Sendo dotada de grande prestígio, poderá sobreviver a sua ruína, à ruína de seu rosto e de suas formas. Mas o cuidado desse renome, que é seu bem mais precioso, submete-a à mais dura das tiranias: a da opinião. Sabe-se em que escravidão caem as vedettes de Hollywood. Seu corpo não lhes pertence mais; o produtor decide da cor dos cabelos, do peso, da linha, do tipo; para modificar a curva de um semblante arrancam-lhe dentes. Regimes, ginástica, provas, maquilagem são uma aborrecida tarefa diária. Sob a rubrica Personal appearance são previstos saídas e namoros; a vida privada não é senão um momento da vida pública. Na França, não há regulamento escrito, mas uma mulher prudente e hábil sabe o que sua "publicidade" exige dela. A vedette que se recusa a se submeter a tais exigências conhecerá quedas brutais ou lentas, mas inelutáveis. A prostituta que só entrega o corpo é talvez menos escrava do que a mulher que tem por profissão agradar. Uma mulher "consagrada", que tem nas mãos um ofício de verdade e cujo talento é reconhecido — atriz, cantora, dançarina — escapa à condição de hetaira; pode conhecer uma verdadeira independência; mas a maioria continua em perigo durante toda a vida; é-lhe necessário sem descanso seduzir novamente o público e os homens.
     Muitas e muitas vezes, a mulher que vive à custa de um amigo interioriza sua dependência; submetida à opinião, reconhece-lhe os valores; admira a sociedade elegante e adota-lhe os costumes; quer ser considerada segundo normas burguesas. Para sita da burguesia rica, adere às ideias dela; "pensa como se deve"; outrora punha amiúde as filhas num convento e, envelhecida, ia ela própria à missa, convertendo-se ruidosamente. Está do lado dos conservadores. É demasiado orgulhosa de ter conquistado um lugar neste mundo, para desejar que ele mude. A luta que trava para "vencer" não a predispõe a sentimentos de fraternidade e de solidariedade humana; pagou seus êxitos com exageradas complacências de escrava para desejar sinceramente a liberdade universal. Zola acentuou esse traço em Nana:

   Em matéria de livros e dramas, Nana tinha opiniões muito preciosas: queria obras ternas e nobres, coisas que a fizessem sonhar e lhe engrandecessem a alma. . . Exaltou-se contra os republicanos. Que queria então, essa gentinha que nunca se lavava? Não se era feliz? O Imperador não fizera tudo pelo povo? Uma bela porcaria, o povo! Conhecia-o, podia falar; não, vejam, seria uma grande desgraça para todo mundo, essa república deles. Ah, que Deus proteja o Imperador o mais tempo possível.

     Durante as guerras, ninguém exibe um patriotismo tão agressivo quanto as grandes prostitutas; pela nobreza dos sentimentos que afetam, esperam erguer-se ao nível das duquesas. Lugares--comuns, clichês, preconceitos, emoções convencionais constituem o fundo de suas conversas públicas e, muitas vezes, ela tem toda sinceridade até no segredo do coração. Entre a mentira e a hipérbole, a linguagem se destrói. Toda a vida da hetaira é uma parada: suas palavras, suas mímicas destinam-se não a exprimir pensamentos e sim a produzir um efeito. Representa com seu protetor a comédia do amor: por momentos representa-a para si mesma. Para a opinião representa comédias de decência e de prestígio: acaba por se acreditar um modelo de virtude e um ídolo sagrado. Uma má-fé obstinada governa-lhe a vida interior e permite a suas mentiras concertadas aparentarem a naturalidade da verdade. Há, por vezes, em sua vida, impulsos espontâneos: não ignora inteiramente o amor, tem "xodós", "caprichos", às vezes chega a ser "fisgada". Mas quem dá muito lugar ao capricho, ao sentimento, ao prazer, depressa perde sua "situação". Geralmente, ela põe em suas fantasias a prudência da esposa adúltera; esconde-se de seu protetor e da opinião; não pode portanto dar muito de si mesma a "seus amantes prediletos"; eles são apenas uma distração, uma trégua. Demais, ela se encontra demasiado obcecada pela preocupação do êxito para se esquecer em um amor de verdade. Quanto às outras mulheres, as hetairas as amam sensualmente, assaz amiudadamente; inimiga dos homens que lhe impõem seu domínio, ela encontrará nos braços de uma amiga um descanso voluptuoso e, ao mesmo tempo, um revide: assim Nana ao lado de Satin. Do mesmo modo por que deseja desempenhar no mundo um papel ativo a fim de empregar positivamente sua liberdade, compraz-se, também, em possuir outros seres: rapazes muito jovens que ela se divertirá até em "ajudar" ou moças muito moças que de bom grado sustentará, junto das quais, em todo caso, será um personagem viril. Seja ou não homossexual, terá com o conjunto das mulheres as re lações complexas de que falei: precisa delas como juízes e testemunhas, como confidentes e cúmplices, para criar esse "contra-universo" que reclama toda mulher oprimida pelo homem. Mas a rivalidade feminina atinge aqui seu paroxismo. A prostituta que faz comércio de sua generalidade tem concorrentes; mas há bastante trabalho para todas e, mesmo através de suas disputas, elas se sentem solidárias. A hetaira que procura "distinguir-se" é a priori hostil a quem almeja, como ela, um lugar privilegiado. É neste caso que os temas conhecidos acerca das "maldades" femininas encontram toda a sua verdade.
     A grande desgraça da hetaira provém de que não somente sua independência é o reverso mentiroso de mil dependências, mas ainda de que mesmo essa liberdade é negativa. Uma atriz como Raquel, uma dançarina como Isadora Duncan, ainda que auxiliadas por homens, têm um ofício que as exige e as justifica; elas alcançam, com um trabalho voluntário, querido, uma liberdade concreta. Mas, para a imensa maioria das mulheres, a arte, o ofício são apenas um meio; não empenham nisso projetos verdadeiros. O cinema, particularmente, que submete a vedette ao encenador, não lhe permite a invenção, os progressos de uma atividade criadora. Exploram o que ela é; ela não cria um objeto novo. E ainda, além disso, é muito difícil tornar-se uma vedette. Na "galanteria" propriamente dita, nenhum caminho se abre à transcendência. Aqui também o tédio acompanha o confinamento da mulher na imanência. Zola mostrou esse traço em Nana.

   Entretanto, em seu luxo, no meio dessa corte, Nana aborrecia-se mortalmente. Tinha homens para todos os minutos da noite e dinheiro até nas gavetas da sala de banho, mas isso não a contentava mais, ela sentia como um vazio algures, um buraco que a fazia bocejar. Sua vida arrastava-se sem ocupação, trazendo de volta as mesmas horas monótonas... Essa certeza de que a alimentariam deixava-a deitada o dia inteiro, sem um esforço, adormecida no fundo desse temor e dessa submissão de convento, como que encerrada em seu ofício de prostituta. Matava o tempo com prazeres tolos, na sua única espera do homem.

     A literatura norte-americana descreveu cem vezes esse tédio que esmaga Hollywood e que desde o dia da chegada sufoca o viajante; os atores e os figurantes aí se aborrecem, de resto, tanto quanto as mulheres cuja condição compartilham. Mesmo na França, as saídas oficiais assumem um caráter de corveia. O protetor que reina sobre a vida da starlet é um homem idoso, que tem por amigos homens de idade: suas preocupações são estranhas à jovem, suas conversas acabrunham-na; há um fosso muito mais profundo ainda do que no casamento burguês entre a estreante de 20 anos e o banqueiro de 45, que passam dias e noites juntos.
     O moloc a quem a hetaira sacrifica prazer, amor, liberdade, é sua carreira. O ideal da matrona é uma felicidade estática que envolve suas relações com o marido e os filhos. A "carreira" desenrola-se através do tempo, mas é contudo um objeto imanente que se resume em um nome. O nome cresce nos cartazes é nas bocas na medida em que, na escala social, degraus cada vez mais altos são vencidos. Segundo seu temperamento, a mulher administra sua empresa com prudência ou com audácia. Uma experimenta nisso as satisfações de dona de casa dobrando uma bela roupa branca no armário, outra a embriaguez da aventura. Ora a mulher se limita a manter, sem cessar, em equilíbrio, uma situação ininterruptamente ameaçada e que por vezes desmorona, ora ela edifica indefinidamente sua fama como uma torre de Babel visando em vão ao céu. Algumas, misturando a galanteria a outras atividades, surgem como verdadeiras aventureiras: são espiãs, como Mata Hari, ou agentes secretas; não têm, em geral, a iniciativa de seus projetos, são antes instrumentos nas mãos dos homens. Mas, em conjunto, a atitude da hetaira tem analogias com a do aventureiro; como este, ela se encontra muitas vezes a meio caminho entre a seriedade e a aventura propriamente dita, ela visa a valores feitos, convencionais: dinheiro, glória; mas dá ao fato de os conquistar tanta importância quanto a própria posse; e, finalmente, o valor supremo a seus olhos é seu êxito subjetivo. Justifica, ela também, esse individualismo por um niilismo mais ou menos sistemático, mas vivido coirí tanto maior convicção quanto é hostil aos homens e vê inimigas nas outras mulheres. Se é bastante inteligente para sentir a necessidade de uma justificação moral, invocará um nietzscheísmo mais ou menos bem assimilado; afirmará o direito do ser de elite sobre o vulgar. Sua pessoa apresenta-se-lhe como um tesouro cuja simples existência é um dom; de modo que, consagrando-se a si mesma, pretenderá servir a coletividade. O destino da mulher devotada ao homem é marcado pelo amor: a que explora o homem assenta no culto que rende a si mesma. Se atribui tanta importância a sua glória, não é somente por interesse econômico: procura nisso a apoteose de seu narcisismo.

continua página 338...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (4)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção III)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção III
Das outras qualidades das nossas ideias de espaço e tempo
     
     Não podia ter sido feita descoberta mais feliz para resolver todas as controvérsias relativas às ideias do que a mencionada acima, a saber, que as impressões precedem sempre as ideias e que todas as ideias de que a imaginação está fornecida fazem primeiro a sua aparição numa impressão correspondente. Estas últimas percepções são todas tão claras e evidentes que não admitem controvérsia; contudo, muitas das nossas ideias são tão obscuras que, mesmo para a mente que as forma, é quase impossível dizer exatamente a sua natureza e composição. Apliquemos este princípio para descobrir mais profundamente a natureza das nossas ideias de espaço e tempo.
     Quando abro os olhos e os dirijo para os objetos à minha volta, percebo muitos corpos visíveis, e quando os fecho de novo e considero a distância entre estes corpos, adquiro a ideia de extensão. Visto que toda a ideia se origina de alguma impressão que é exatamente similar a ela, as impressões similares a esta ideia de extensão têm de ser ou sensações originadas na visão ou impressões internas nascidas destas sensações.
     As nossas impressões internas são as paixões, emoções, desejos e aversões, nenhuma das quais, creio eu, será jamais tomada como o modelo donde deriva a ideia de espaço. Portanto, além dos sentidos, nada há que possa comunicar-nos a impressão original. Mas que impressão nos transmitem os sentidos? Esta é a questão principal, que decide sem apelo quanto à natureza da ideia.
     A mesa que se encontra em frente de mim é por si só suficiente, pela visão que dela obtenho, para me dar a ideia de extensão. Esta ideia é pois tirada de alguma impressão que aparece aos sentidos neste momento, e representa essa impressão. Mas os meus sentidos comunicam-me apenas as impressões de pontos coloridos, dispostos de certa maneira. Se os olhos percebem alguma coisa mais, gostaria que me indicassem. Mas se nada mais se pode mostrar podemos concluir com certeza que a ideia de extensão não é mais do que a cópia destes pontos coloridos e da maneira como aparecem.
     Suponhamos que no objeto extenso, ou na composição de pontos coloridos, donde primeiro recebemos a ideia de extensão, os pontos fossem de cor púrpura; resultaria daí que, em qualquer repetição desta ideia, não só colocaríamos os pontos na n1esma ordem uns em relação aos outros, mas ainda lhes atribuiríamos aquela precisa cor à qual estamos habituados. Mas depois, quando temos experiência doutras cores, tais como violeta, verde, vermelho, branco, preto e todas as diferentes combinações destas, e encontramos semelhança na disposição dos pontos colori dos de que elas são compostas, omitimos tanto quanto possível as peculiaridades de cor e formamos uma ideia abstrata apenas segundo essa disposição de pontos, ou modo de aparecimento, em que eles estão de acordo. Mais ainda: mesmo quando a semelhança ultrapassa os objetos de um sentido e se verifica que as impressões de tacto são similares às da vista na disposição das suas partes, tal não obsta a que a ideia abstrata as represente a ambas, em razão da sua semelhança. Todas as ideias abstratas na realidade não são mais do que ideias particulares, consideradas a uma luz determinada; nus, porque foram ligadas a termos gerais, podem representar uma grande diversidade e incluir objetos que, sendo semelhantes nalguns aspectos, noutros são muito diferentes entre si.
     A ideia de tempo, originada da sucessão das nossas percepções de toda a espécie, tanto ideias como impressões, e tanto impressões de reflexão como de sensação, proporcionar-nos-á um exemplo de ideia abstrata que compreende uma diversidade ainda maior do que a de espaço, sendo contudo representada na fantasia por uma certa ideia individual de uma determinada quantidade e qualidade.
     Assim como é da disposição de objetos visíveis e tangíveis que recebemos a ideia de espaço, assim também formamos a ideia de tempo a partir da sucessão de ideias e impressões, e em caso algum pode o tempo apresentar-se ou ser notado pelo espírito isoladamente. Uma pessoa a dormir profundamente ou inteiramente dominada por um pensamento é insensível ao tempo; e, conforme as suas percepções se sucedem com maior ou menor rapidez, a mesma duração parece à sua imaginação mais longa ou mais breve. Um grande filósofo¹ assinalou que as nossas percepções têm quanto a este aspecto certos limites, determinados pela natureza e constituição originais da mente, para além dos quais a influência dos objetos externos sobre os sentidos jamais pode acelerar ou retardar os nossos pensamentos. Se fizermos girar com rapidez um carvão em brasa, ele apresentará aos sentidos a imagem de um círculo de fogo e parecerá que não há nenhum intervalo de tempo entre as suas rotações, simplesmente porque as nossas percepções não podem suceder-se com a mesma rapidez com que o movimento pode ser comunicado aos objetos externos. Sempre que não temos percepções sucessivas não temos noção de tempo, mesmo que haja uma sucessão real de objetos. Podemos concluir destes fenómenos, bem como de muitos outros, que o tempo não pode apresentar-se à mente nem isoladamente, nem acompanhado de um objeto fixo e imutável, mas que se descobre sempre numa sucessão perceptível de objetos mutáveis.

[1] Locke.

     Para confirmar isto podemos acrescentar o argumento seguinte, que me parece perfeitamente decisivo e convincente. É evidente que o tempo ou duração se compõe de diferentes partes, pois se assim não fosse não poderíamos conceber uma duração mais longa ou mais breve. É também evidente que estas partes não são coexistentes, visto que essa qualidade da coexistência das partes pertence à extensão, e é o que a distingue da duração. Ora como o tempo é composto de partes não coexistentes, um objeto imutável, não produzindo senão impressões coexistentes, não produz nenhuma que possa dar-nos a ideia do tempo; por conseguinte esta ideia deve originar-se de uma sucessão de objetos mutáveis e, no seu primeiro aparecimento, o tempo não pode separar-se de tal sucessão.
     Tendo pois descoberto que o tempo, no seu primeiro aparecimento ao espírito, anda sempre ligado a uma sucessão de objetos mutáveis e que jamais pode doutra forma ser por nós notado, temos de examinar agora se podemos concebê-lo sem conceber uma sucessão de objetos e se ele pode, por si só, formar na imaginação uma ideia distinta.
     Para sabermos se quaisquer objetos que andam uni dos na impressão são separáveis na ideia, temos apenas de considerar se são diferentes um do outro; no caso afirmativo, é evidente que podem conceber-se separadamente. Tudo o que é diferente é distinguível, e tudo o que é distinguível pode separar-se, de acordo com os princípios já expostos. Se pelo contrário os objetos não forem diferentes, não são distinguíveis e, não sendo distinguíveis, não podem separar-se. Ora é precisamente o que se passa com o tempo, comparando-o com as nossas percepções sucessivas. A ideia de tempo não é derivada de uma impressão particular misturada com outras, e claramente distinguível delas: nasce unicamente da maneira como as impressões aparecem ao espírito, não sendo essa maneira uma nova impressão. Cinco notas tocadas numa flauta dão-nos a impressão e ideia de tempo, embora o tempo não seja uma sexta impressão que se apresenta ao ouvido ou a qualquer dos outros sentidos. Também não é uma sexta impressão que a mente encontre em si mesma por reflexão. Estes cinco sons, que aparecem desta maneira particular, não excitam emoção na mente, nem produzem uma afeição de qualquer espécie, cuja observação pudesse originar uma nova ideia. Porque isto é necessário para produzir uma nova ideia de reflexão; jamais pode o espírito, passando em revista milhares de vezes todas as suas ideias de sensação, extrair delas uma nova ideia original, a não ser que a natureza tenha forjado as suas faculdades de modo tal que ele sinta surgir de tal contemplação uma nova impressão original. Mas aqui ele apenas toma conhecimento da maneira como os diferentes sons fazem a sua aparição e pode seguidamente considerá-la, sem considerar esses sons particulares, e uni-la depois a quaisquer outros objetos. Ele necessariamente tem de ter as ideias de alguns objetos e não pode jamais sem estas chegar a qualquer concepção do tempo, o qual, visto que não aparece como uma impressão primária distinta, evidentemente não pode ser mais do que as diferentes ideias, ou impressões, ou objetos dispostos de certa maneira, isto é, sucedendo-se uns aos outros.
     Sei que há quem pretende que a ideia de duração se pode aplicar em sentido próprio a objetos perfeitamente imutáveis; é esta, segundo creio, a opinião corrente tanto dos filósofos como do vulgo. Mas para se ficar convencido da falsidade desta opinião basta refletir na conclusão precedente: que a ideia de duração tem sempre origem numa sucessão de objetos mutáveis e jamais pode ser transmitida ao espírito por qualquer coisa estável e imutável. Com efeito daqui resulta inevitavelmente que, não podendo a ideia de duração derivar de tal objeto, ela não se lhe pode aplicar com propriedade ou exatidão, nem se pode jamais dizer que qualquer coisa imutável tenha duração. As ideias representam sempre os objetos ou impressões de que derivam e não podem, sem ficção, representar ou aplicar-se a outros. Através de que ficção aplicamos a ideia de tempo mesmo ao que é imutável e, como correntemente sucede, supomos que a duração é a medida tanto do repouso como do movimento, é o que examinaremos mais adiante².

[2] Secção V (p. 87).

     Há outro argumento perfeitamente decisivo, o qual consolida a presente doutrina relativa às nossas ideias de espaço e tempo, e assenta apenas neste simples princípio: que as ideias que deles temos são compostas de partes, as quais são indivisíveis. Estes argumentos talvez mereça ser examinado.
     Visto que todas as ideias discerníveis são também separáveis, tomemos uma dessas ideias simples e indivisíveis de que se forma a ideia composta de extensão e, separando--a de todas as outras e considerando-a à parte, formemos um juízo acerca da sua natureza e qualidades.
     É claro que não é a ideia de extensão. Porque a ideia de extensão consta de partes, e esta ideia é, por hipótese, perfeitamente simples e indivisível. Não é portanto nada? Absolutamente impossível; pois dado que a ideia composta de extensão, sendo real, é composta de tais ideias, se estas fossem outros tantos nadas, uma existência real poderia ser composta de nadas; o que é absurdo. Tenho pois de perguntar aqui: qual é a nossa ideia de um ponto simples e indivisível? Não será de admirar se a minha resposta parecer um tanto nova, visto que até aqui a própria pergunta raramente foi considerada. É usual discutirmos a natureza dos pontos matemáticos, mas raras vezes discutimos a natureza das suas ideias.
     A ideia de espaço é transmitida à mente por dois sentidos, a vista e o tato; e nenhuma coisa pode jamais parecer extensa se não for visível ou tangível. A impressão composta que representa a extensão consiste em várias impressões menores, as quais são indivisíveis para a vista e o tato e podem ser chamadas impressões de átomos ou corpúsculos dotados de cor e solidez. Mas isto não é tudo. Não é apenas necessário que estes átomos sejam coloridos ou tangíveis para se revelarem aos nossos sentidos; é igualmente necessário que conservemos a ideia da sua cor ou tangibilidade afim de os abarcar pela imaginação. Somente a ideia da sua cor ou da sua tangibilidade pode torná-los susceptíveis de serem concebidos pelo espírito. Se se eliminarem as ideias destas qualidades sensíveis, os átomos ficam totalmente aniquilados para o pensamento ou imaginação.
     Ora, assim como são as partes, assim é o todo. Se um ponto não for considerado colorido ou tangível, não pode transmitir-nos ideia nenhuma; e consequentemente a ideia de extensão, que é composta das ideias destes pontos, não tem qualquer possibilidade de existir. Mas se a ideia de extensão pode existir realmente, como temos consciência de que pode, devem também existir as suas partes; e para tal têm de se considerar coloridas ou tangíveis. Portanto não temos ideia do espaço ou extensão senão quando o tomamos como objeto da vista ou do tato.
     O mesmo raciocínio provará que os momentos indivisíveis do tempo têm de ser preenchidos por qualquer objeto ou existência real, cuja sucessão forma a duração e a torna concebível pela mente.
  
continua na página 77...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II / Seção III /       
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

sábado, 13 de junho de 2026

MPB: Madalena

Ivan Lins

Composição: 
Ivan Lins, Ronaldo Monteiro de Souza





Oh! Madalena
O meu peito percebeu
Que o mar é uma gota
Comparado ao pranto meu...

Fique certa
Quando o nosso amor desperta
Logo o sol se desespera
E se esconde lá na serra...

Oh! Madalena
O que é meu não se divide
Nem tão pouco se admite
Quem do nosso amor duvide...

Até a lua
Se arrisca num palpite
Que o nosso amor existe
Forte ou fraco
Alegre ou triste...

Oh! Madalena
O meu peito percebeu
Que o mar é uma gota
Comparado ao pranto meu...

Fique certa
Quando o nosso amor desperta
Logo o sol se desespera
E se esconde lá na serra...

Oh! Madalena
O que é meu não se divide
Nem tão pouco se admite
Quem do nosso amor duvide...

Até a lua
Se arrisca num palpite
Que o nosso amor existe
Forte ou fraco
Alegre ou triste...

Oh! Madalena!
Oh! Madalena!
Oh! Madalena!
Oh! Madalena!...

Madalena! Madalena!

Oh Ma! Oh Madá! Oh Madalê Lê Lê Lê Lê Lena!...(4x)


Elis Regina





Ivan Lins
- MPB Especial - TV Cultura 1974





Ella Fitzgerald





Ivan Lins - Abre Alas (Cantando Historias)




Codinome Beija-flor / Madalena / Lua e Flor /           

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (III. As mulheres crentes)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
III
AS MULHERES CRENTES
    
     Embaixo da galeria de madeira que dava para o muro exterior do recinto apertavam-se umas vinte mulheres do povo. Tinham-nas prevenido de que o stáriets sairia afinal e haviam-se agrupado à espera. As proprietárias Khokhlakovi esperavam-no igualmente, mas num quarto da galeria, reservado às visitantes de qualidade. Eram duas: a mãe e a filha. A primeira, senhora rica e sempre trajada com gosto, era ainda bastante jovem e de exterior bastante agradável, de olhos vivos e quase negros. Tinha apenas 33 anos e estava viúva havia cinco. Sua filha, de catorze anos, tinha as pernas paralíticas. A pobre menina não andava mais havia seis meses; carregavam-na numa cadeira de rodas. Tinha um rosto delicioso, um pouco emagrecido pela doença, mas alegre. Algo de folgazão brilhava nos seus grandes olhos sombrios, de longas pestanas. Desde a primavera estava a mãe disposta a levá-la ao estrangeiro, mas trabalhos efetuados em suas terras haviam-nas retardado. Desde uma semana, viviam em nossa cidade, mais por negócios que por devoção, mas já haviam visitado o stáriets três dias antes. Agora voltavam e, embora sabendo que o stáriets não podia quase receber mais ninguém, suplicavam que lhes concedesse "a felicidade de ver o grande curador". Aguardando a vinda dele, a mãe estava sentada ao lado da poltrona de sua filha; a dois passos mantinha-se de pé um velho monge, vindo dum longínquo convento do norte e que desejava receber a bênção do stáriets. Mas este, quando apareceu na galeria, dirigiu-se diretamente ao povo. A multidão comprimia-se em torno do patamar de três degraus que reunia a galeria baixa ao solo. O stáriets manteve-se no degrau superior, revestiu-se da estola e pôs-se a abençoar as mulheres que o cercavam. Trouxeram-lhe uma possessa que seguravam pelas duas mãos. Assim que ela avistou o stáriets, foi tomada dum soluço, lançando gemidos e sacudida por espasmos, como numa crise de eclampsia. Tendo-lhe coberto a cabeça com a estola, pronunciou o stáriets sobre ela uma curta prece e ela acalmou-se imediatamente. Ignoro o que se passa agora, mas na minha infância tive muitas vezes ocasião de ver e de ouvir essas possessas, nas aldeias e nos conventos. Levadas à missa, ganiam e ladravam na igreja, mas quando traziam o santo sacramento e elas dele se aproximavam, a "crise demoníaca" cessava imediatamente e as doentes se acalmavam sempre por certo tempo. Ainda menino, isso me espantava e me surpreendia bastante. Ouvia então certos proprietários rurais e sobretudo professores da cidade responderem às minhas perguntas que era aquilo uma simulação para não trabalhar e que se podia sempre reprimi-la, mostrando severidade. Citavam-se em apoio disto diversas anedotas. Mais tarde, soube com espanto, de médicos especialistas, que não havia ali nenhuma simulação, que era uma terrível doença das mulheres, atestando, mais particularmente na Rússia, a dura condição de nossa camponesa. Provinha de trabalhos estafantes, executados muito cedo, após laboriosos partos mal efetuados, sem nenhuma ajuda médica; além disso, desespero, maus tratos, etc., etc., o que certas naturezas femininas não podem suportar, malgrado o exemplo geral. A cura estranha e súbita de uma possessa presa de convulsões, desde que a aproximavam das sagradas espécies, cura atribuída então à simulação e, além do mais, a um ardil empregado, por assim dizer, pelos próprios "clérigos", efetuava-se provavelmente também da maneira mais natural. As mulheres que conduziam a doente, e sobretudo ela própria, estavam persuadidas, como duma verdade evidente, de que o espírito impuro que a possuía não poderia jamais resistir na presença do santo sacramento, diante do qual inclinavam a infeliz. De modo que, numa mulher nervosa e psiquicamente doente, produzia-se sempre (e isto devia ser) como que um abalo nervoso de todo o organismo, abalo causado pela expectativa do milagre da cura e pela fé absoluta na sua realização. E ele se realizava, nem que fosse por um minuto. Foi o que ocorreu, assim que o stáriets cobriu a doente com a estola.
     Muitas das mulheres que se comprimiam em redor dele vertiam lágrimas de enternecimento e de entusiasmo, sob a impressão daquele minuto; outras avançavam para beijar nem que fosse a orla do hábito dele; algumas lamentavam-se. Ele as abençoava a todas e conversava com elas. Conhecia já a possessa, que morava numa aldeia a 6 verstas do mosteiro; não era a primeira vez que a traziam.

— Eis uma que vem de longe! — disse ele, apontando uma mulher ainda jovem, mas muito magra e desfeita, o rosto mais enegrecido que queimado. Estava de joelhos e fitava o stáriets com um olhar imóvel. Seu olhar tinha qualquer coisa de desvairado. 
— Venho de longe, bátiuchka, de longe, a 300 verstas daqui. De longe, meu pai, de longe — repetiu a mulher como um estribilho, balançando a cabeça da direita para a esquerda, com a face apoiada na palma de sua mão. Falava como que se lamentando. Há no povo uma dor silenciosa e paciente; entra em si mesma e se cala. Mas há uma outra que explode: manifesta-se por lágrimas e se expande em lamentações, sobretudo entre as mulheres. Não é mais ligeira que a dor silenciosa. As lamentações só se acalmam roendo e dilacerando o coração. Semelhante dor não quer consolações, repasta-se com a ideia de ser inextinguível. As lamentações são apenas a necessidade de irritar cada vez mais a ferida. 
— A senhora é da cidade, sem dúvida? — continuou o stáriets, olhando-a com curiosidade. 
— Moramos na cidade, bátiuchka; somos do campo, mas moramos na cidade. Vim para ver-te. Ouvimos falai de ti, bátiuchka. Enterrei meu filhinho bem novo, fui rogar a Deus, estive em três conventos e disseram-me: "Vai lá embaixo também, Nastássiuchka", isto é, vir ter com o senhor, bátiuchka, com o senhor. Vim, estava ontem de noite na igreja e eis-me aqui. 
— Por que choras? 
— Choro pelo meu filho, bátiuchka; ele estava com três anos, ia fazê-los dentro de três meses. Ê por causa dele que me atormento. Era o último; Nikítuchka e eu tivemos quatro, mas os meninos não ficam em nossa casa, bem-amado, não ficam. Enterrei os três primeiros, não tinha tanto pesar, mas este último, não posso esquecê-lo. É como se tivesse ficado diante de mim, não se vai embora. Estou de alma ressequida. Contemplo sua roupinha, sua camisinha, suas botinas, e soluço. Exponho tudo quanto restou depois dele, cada coisa, contemplo-as e choro. Digo a Nikítuchka, meu marido: "Ah, meu senhor, deixa-me ir em peregrinação". Ele é cocheiro, temos de tudo, meu pai, temos de tudo, vivemos por nossa conta, tudo nos pertence, os cavalos e os carros. Mas de que servem agora todos esses bens? Sem mim, meu Nikítuchka deve ter-se posto a beber, decerto, e, já antes, assim que eu me afastava fraquejava ele. Mas agora não penso mais nele, há três meses que abandonei a casa. Esqueci tudo e não quero mais lembrar-me de nada; que farei dele agora? Rompi com ele e com todos. E agora não desejaria ver minha casa e meus bens e preferiria mesmo ter perdido a vista. 
— Escuta, mãe — proferiu o stáriets. — Outrora um grande santo avistou no templo uma mãe que chorava como tu, também por causa de seu filho único que o Senhor havia igualmente chamado a si. "Não sabes", disse-lhe o santo, "como são atrevidas essas criancinhas diante do trono de Deus? Não há mesmo ninguém mais atrevido, no reino dos céus. 'Senhor. Tu nos deste a vida', dizem eles a Deus, 'mas apenas vimos o dia. Tu no-la tomaste.' Pedem e reclamam tão atrevidamente que o Senhor faz deles logo anjos. Por isso", disse o santo, "rejubila-te e não chores, teu filho acha se agora na casa do Senhor, no coro dos anjos." Eis o que disse, nos tempos antigos, o santo à mulher que chorava. Era um grande santo e nada podia dizer-lhe que não 'fosse verdade. Sabe pois, mãe, que teu filho também se acha decerto diante do trono do Senhor, regozija-se, diverte-se e roga a Deus por ti. Podes chorar, mas rejubila-te. 

     A mulher escutava-o, com a face na mão, inclinada. Suspirou pro fundamente.

— Era da mesma maneira que Nikítuchka me consolava: "Não és razoável", dizia ele, "por que chorar? Nosso filho, decerto, canta agora com os anjos junto do Senhor". Diz-me isto e ele mesmo chora, vejo suas lágrimas. "Eu sei", digo eu, "Nikítuchka. Onde estaria ele senão na casa do Senhor? Somente não está mais aqui conosco, neste momento, bem perto, como ficava outrora." Oh! se eu pudesse revê-lo uma vez, uma vez apenas, sem me aproximar dele, sem falar, ocultando-me em um canto. Vê-lo somente um minuto, ouvi-lo brincar lá fora, vir, como vinha por vezes, gritar com sua vozinha: "Mamãe, onde estás?" Se eu pudesse ouvir seus pezinhos trotarem pelo quarto; bem muitas vezes, lembro-me, corria para mim com gritos e risadas. Se pudesse ao menos ouvi-lo! Mas ele não está mais lá, bátiuchka, e não o ouvirei nunca mais! Eis o seu cinto, mas ele não está mais lá e tudo acabou para sempre!... 

     Tirou do seu seio o cinturãozinho de passamanaria de seu filho; assim que o olhou, foi abalada por soluços, ocultando os olhos com seus dedos através dos quais corriam torrentes de lágrimas. 

— Ah! — exclamou o stáriets —, isto é o antigo "Raquel chorando seus filhos sem poder ser consolada, porque eles não mais existem". Tal é a sorte que vos está destinada neste mundo, ó mães! Não te consoles, não é preciso que te consoles, chora, mas cada vez que chorares, lembra-te de que teu filho é um dos anjos de Deus, que, lá do alto, te olha e te vê, que se rejubila com tuas lágrimas e mostra-as ao Senhor; por muito tempo ainda tuas lágrimas maternais correrão, mas afinal tornar-se-ão uma alegria tranqüila, tuas lágrimas amargas serão lágrimas de enternecimento e de purificação, que salvam do pecado. Rogarei pelo repouso da alma de teu filho. Como se chamava ele? 
— Alieksiéi, bátiuchka
— Um belo nome. Tinha por santo padroeiro Alieksiéi, "homem de Deus"? 
— Sim, bátiuchka, Alieksiéi, "homem de Deus". 
— Que grande santo! Rogarei por ele, mãe, não esquecerei tua aflição em minhas preces; rogarei também pela saúde de teu marido, mas é um pecado abandoná-lo, volta para ele, toma bastante cuidado com ele. Lá do alto, teu filho vê que abandonaste seu pai e chora por vós. Por que perturbar a sua beatitude? Ele vive, porque a alma vive eternamente; não está em casa, mas encontra-se bem perto de vós, invisível. Como virá ele à tua casa, se dizes que a detestas? Para quem virá ele, se não vos encontra em casa, se não vos encontra juntos, o pai e a mãe? Ele te aparece agora e ficas atormentada; então enviar-te-á doces sonhos. Volta para teu marido, mãe, hoje mesmo.
— Irei, bem-amado, segundo a tua palavra; leste em meu coração. Nikítuchka, tu me esperas, meu querido, tu me esperas — começava a mulher a lamentar-se, mas já o stáriets se voltava para uma velhinha, vestida não de peregrina, mas de citadina. Pelos seus olhos, via-se que tinha um caso, que viera para comunicar alguma coisa. Era a viúva dum suboficial, morador de nossa cidade. Seu filho, Vássienhka, empregado num comissariado, partira para Irkutsk, na Sibéria. Escrevera duas vezes, mas havia um ano que estava ela sem notícias; havia-se informado, mas na verdade não sabia mesmo onde informar-se. 
— Um dia destes, Stiepanida Ilínichna Biedriáguina, uma rica comerciante, me dizia: "Escreve o nome de teu filho num papel, Prókhorovna, vai à igreja e encomenda preces pelo repouso de sua alma. Sua alma ficará angustiada e ele te escreverá. É este", afirmou Stiepanida Ilínichna, "um meio seguro e frequentemente posto em prática". Tenho somente dúvidas... Tu, que és nossa luz, dize-me se isso é verdade ou mentira, bem ou mal? 
— Guarda-te bem disso. É até vergonhoso pedi-lo. Como se pode rezar pelo repouso de uma alma viva, e ainda por cima sua própria mãe? É um grande pecado, como a feitiçaria; somente tua ignorância vale-te o perdão. Reza, antes, pela saúde dele à Rainha dos Céus, a Pronta Medianeira, Auxiliadora dos Pecadores, a fim de que ela te perdoe o teu erro. Escuta, Prókhorovna: ou teu filho voltará em breve para ti, ou enviará decerto uma carta. Fica sabendo. Vai em paz, teu filho está vivo, digo-te. 
— Bem-amado, que Deus te recompense, a ti, nosso benfeitor, que reza por nós todos e pelos nossos pecados... 

     Mas o stáriets já havia notado na multidão o olhar ardente, dirigido para ele, duma camponesa de aspecto de tuberculosa, acabada, se bem que ainda jovem. Ela olhava em silêncio, seus olhos imploravam alguma coisa, mas parecia temer aproximar-se. 

— Que queres, minha cara? 
— Alivia minha alma, bem-amado — murmurou ela, docemente. Sem pressa, pôs-se de joelhos, prosternou-se a seus pés. — Pequei, meu bom pai, e tenho medo do meu pecado.

     O stáriets sentou-se sobre o derradeiro degrau. A mulher aproximou-se dele, sempre de joelhos.  

— Sou viúva há três anos — começou ela à meia voz. — Era penoso viver com meu marido, era velho e batia-me duramente. Estava deitado, doente, e, pensava eu, olhando-o: "Mas se ele se restabelecer e se levantar de novo, que acontecerá então?" E esta ideia não me deixou mais... 
— Espera — disse o stáriets, e aproximou seu ouvido dos lábios dela. A mulher continuou com uma voz que mal se ouvia. Logo terminou. 
— Há três anos? — perguntou o stáriets
— Três anos. A princípio, não pensava nisso, mas a doença chegou e estou cheia de angústia. 
— Vens de longe? 
— Caminhei 500 verstas. 
— Confessaste-te? 
— Confessei-me duas vezes. 
— Foste admitida à comunhão? 
— Admitiram-me. Tenho medo; tenho medo de morrer. 
— Não temas nada e nunca tenhas medo, não te apoquentes. Contanto que o arrependimento perdure, Deus perdoa tudo. Não há pecado sobre a terra que Deus não perdoe àquele que se arrepende sinceramente. O homem não pode cometer pecado tão grande que esgote o amor infinito de Deus. Porque, poderá haver pecado que ultrapasse o amor de Deus? Sem cessar, não sonhes senão com o arrependimento e bane todo temor. Crê que Deus te ama como não podes imaginá-lo, se bem que te ame em teu pecado e com teu pecado. Haverá mais alegria nos céus por um pecador que se arrepende do que por dez justos. Não te aflijas a respeito dos outros e não te irrites com as injúrias. Perdoa em teu coração ao defunto todas as suas ofensas contra ti, reconcilia-te com ele em verdade. Se te arrependes, é que o amas. Ora, se amas, serás já de Deus... O amor tudo redime e tudo salva. Se eu, um pecador como tu, me enterneci, se tive piedade de ti, com mais forte razão o Senhor. O amor é um tesouro tão inestimável que em troca podes adquirir o mundo inteiro e redimir não só teus pecados, mas os dos outros. Vai e não temas nada.

     Fez três vezes sobre ela o sinal-da-cruz, tirou de seu pescoço uma pequena, imagem, passou-a no pescoço da pecadora, que se prosternou em silêncio até o chão. Ele se levantou e olhou alegremente uma mulher robusta que trazia nos braços um bebê. 

— Venho de Vichegórie, bem-amado. 
— Tu te cansaste andando 6 verstas com esse menino. Que queres? 
— Vim ver-te. Não é a primeira vez, já te esqueceste? Tens memória fraca, se não te lembras de mim. Dizia-se lá em nossa aldeia que estavas doente. "Pois bem", pensei, "eu mesma irei vê-lo!" Vejo que não tens nada. Viverás ainda vinte anos, palavra! Não rezam bastante por ti? Como haverias de cair doente? 
— Obrigado por tudo, minha cara. 
— A propósito, tenho um pequeno pedido a fazer-te. Aqui estão 60 copeques. Dá-os a uma outra mais pobre do que eu. Ao vir para cá, pensava: "Valerá melhor entregá-los a ele, que saberá a quem dá-los". 
— Obrigado, minha cara, obrigado, minha boa mulher, eu te amo. Não deixarei de fazer o que pedes. É uma menina que tens nos braços? 
— Uma menina, bem-amado, Lisavieta. 
— Que o senhor vos abençoe a todas duas, a ti e à pequena Lisavieta, Tu alegraste meu coração, mãe. Adeus, minhas queridas filhas.  

     Abençoou a todas e fez-lhes uma profunda reverência.

continua na página 50...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.