sábado, 13 de junho de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - O Sr. de Charlus estava assustado)

em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

    O Sr. de Charlus estava assustado como um provinciano que tem de atravessar os bulevares; e, para empregar uma comparação infinitamente menos sacrílega que o assunto representado nos capitéis do pórtico da velha igreja de Couliville, as vozes das jovens criadas repetiam mais baixo, sem se cansar, a ordem da subpatroa, como esses catecismos que ouvimos os alunos salmodiarem na sonoridade de uma igreja rural. Por mais medo que tivesse, o Sr. de Charlus, que na rua tremia à ideia de ser ouvido, convencendo-se de que Morel estava à janela, talvez não se assustasse tanto em meio ao ranger daquelas escadarias enormes, onde se compreendia que não era possível ouvir coisa alguma dos quartos. Afinal, no termo de seu calvário, encontrou a Srta. Noémie, que devia escondê-lo com Jupien, mas principiou por fechá-lo num salão persa extremamente suntuoso, de onde ele não via nada. Ela disse-lhe que Morel pedira uma laranjada e que, logo que a tivessem servido, introduziriam os dois viajantes num salão transparente. Enquanto isso, como a reclamassem, ela lhes prometeu, como num conto, que, para passarem o tempo, iria mandar-lhes "uma mulherzinha inteligente". Pois ela estava sendo chamada. A mulherzinha inteligente vestia um peígnoír persa, que desejava tirar. O Sr. de Charlus pediu-lhe que não fizesse nada, e ela mandou subir champanha, que custava quarenta francos a garrafa. Durante todo esse tempo, Morel na verdade estava com o príncipe de Guermantes; para salvar as aparências, fingira enganar-se de quarto, entrara num em que havia duas mulheres, as quais se apressaram a deixar os dois cavalheiros a sós. O Sr. de Charlus ignorava tudo isso, mas praguejava e queria abrir as portas; mandou chamar de novo a Srta. Noémie, a qual, tendo ouvido a mulherzinha inteligente dar ao Sr. de Charlus detalhes sobre Morel que não concordavam com os que ela mesma dera a Jupien, fê-la retirar-se e em breve enviou, para substituí-la, "uma mulherzinha gentil", que não lhes mostrou nada de mais, mas falou o quanto a casa era séria e também pediu champanha. O barão, espumando de ódio, mandou que a Srta. Noémie voltasse; esta lhes disse: 

- Sim, demora um pouco, essas damas tomam atitudes, não parece que ele tenha vontade de fazer alguma coisa. -

     Por fim, diante das promessas e ameaças do barão, a Srta. Noémie saiu com ar contrariado, assegurando-lhes que não esperariam mais de cinco minutos. Tais cinco minutos duraram uma hora, após o que Noémie conduziu, na ponta dos pés, o Sr. de Charlus, ébrio de furor, e Jupien, desolado, para uma porta entreaberta, dizendo:

- Os cavalheiros vão ver muito bem. Aliás, neste momento não é interessante, ele está com três damas e conta-lhes a sua vida no regimento. -

     Enfim o barão pôde ver pela abertura da porta e também nos espelhos. Mas um terror mortal o obrigou a apoiar-se à parede. Era Morel mesmo que ele tinha diante de si, mas, como se ainda existissem os mistérios pagãos e os enfeitiçamentos, era antes a sombra de Morel. Morel embalsamado, nem sequer Morel ressuscitado como Lázaro, uma aparição de Morel, um fantasma de Morel. Morel retornando ou evocado naquele quarto (onde por todo lado as paredes e os divãs repetiam emblemas de feitiçaria), que estava a poucos metros dele, de perfil, Morel tinha, como depois da morte, perdido todas as cores; entre aquelas mulheres, com as quais era de esperar que se entregasse a alegres folguedos, permanecia lívido, preso a uma imobilidade artificial; para beber a taça de champanha à sua frente, seu braço sem forças tentava estender-se devagar e tombava. Tinha-se a impressão desse equívoco que faz que uma religião fale de imortalidade, mas por isso entende alguma coisa que não exclui o Nada. As mulheres o atormentavam com perguntas. As perguntas das mulheres se faziam mais inquisitivas, mas Morel, inanimado não tinha força para lhes responder. Nem sequer se produzia o milagre de uma palavra murmurada. O senhor de Charlus teve um só instante de vacilação e compreendeu a verdade e que já por estupidez de Jupien quando fora acertar tudo, já fora por poder de expansão dos segredos confiados que nunca os conservara seja pelo caráter indiscreto dessas mulheres, seja por temor da polícia, tinham avisado Morel que dois senhores haviam pago muito caro para vê lo, tinham-no feito sair o príncipe de Guermantes, permutado em três mulheres e colocado o pobre Morel, tremente e paralisado de tal modo pelo estupor que se o senhor de Charlus o via mal, era porque ele estava apavorado e sem palavras, não se atrevia a tomar seu copo por temor a deixá-lo cair, vendo totalmente o barão.
     A história por outra parte não termina melhor para o príncipe de Guermantes. Quando o tinham feito sair para que não visse o senhor de Charlus, furioso por sua desilusão sem suspeitar quem era o autor, tinha suplicado ao Morel, sempre sem lhe deixar saber sua identidade, que se vissem na noite seguinte na pequena casa que havia alugado e que apesar do escasso tempo que devia ocupar, fora adornado, de acordo com o mesmo costume maníaco que já observamos em casa da senhora de Villeparisis, com grande quantidade de lembranças de família, para sentir se mais aclimado.
     Por isso no dia seguinte, Morel, que voltava com freqüência a cabeça, tremendo que o seguisse e o espiasse a mando do senhor de Charlus, tinha terminado por entrar na casa. Um serviçal o fez entrar em salão, dizendo que ia avisar ao senhor (seu amo lhe tinha recomendado que não pronunciasse seu título de príncipe temendo despertar suspeitas). Mas quando Morel estava sozinho e quis olhar no espelho para ver se sua mecha estava despenteada, foi como uma alucinação. Sobre a estufa, as fotografias identificáveis para o violinista, por ter visto em casa do senhor de Charlus, da princesa de Guermantes, da duquesa de Luxemburgo e da senhora de Villeparisis, petrificaram-no primeiro de assombro. No mesmo momento advertiu a do senhor de Charlus, que estava um pouco apartada. O barão parecia imobilizado à Morel com seu olhar estranho e fixo. Louco de medo, Morel, que voltava de seu primitivo estupor e não duvidava que essa não fosse uma cilada em que o tinha feito cair o senhor de Charlus, para comprovar se era fiel, desceu de quatro os poucos degraus da casa e saiu correndo pela estrada. Quando o príncipe de Guermantes (depois de ter feito esperar o que acreditou necessário a uma relação de passagem, não sem haver perguntado se era muito prudente e se o indivíduo não seria perigoso), entrou no salão, não encontrou ninguém. Por mais que explorasse toda a casa, com seu serviçal e com o revólver em punho a casa inteira, que não era grande, e os recantos do jardinzinho e o porão, desaparecera o companheiro cuja presença julgara certa.
     Encontrou-o várias vezes durante a semana seguinte. Mas de cada vez, era Morel, o sujeito perigoso, quem fugia, como se o príncipe fosse mais perigoso ainda. Renitente em suas suspeitas, Morel nunca as dissipou, e mesmo em Paris, a simples vista do príncipe de Guermantes bastava para pô-lo em fuga. Por onde se vê que o Sr. de Charlus foi protegido de uma infidelidade que o desesperava, e vingado sem jamais tê-lo imaginado, e nem principalmente de que modo.
     Mas as lembranças do que me contaram a respeito já não substituídas por outras, pois o B.C.N., retomando a sua marcha de "calhambeque", continua a largar ou apanhar os viajantes nas estações seguintes.
     Em Grattevast, onde morava sua irmã com quem fora passar a tarde, subia às vezes o Sr. Pierre de Verjus, conde de Crécy (a quem chamavam apenas conde de Crécy), fidalgo pobre mas de extrema distinção, que eu conhecera através dos Cambremer, a quem aliás era pouco ligado. Reduzido a uma vida extremamente modesta, quase miserável, sentia eu que um charuto, uma "consumação" eram coisas tão agradáveis para ele que tomei o hábito, quando não podia ver Albertine, de convidá-lo para vir a Balbec. Muito fino e expressando-se às mil maravilhas cabeça toda branca e encantadores olhos azuis, falava principalmente com o canto dos lábios, e muita delicadeza, dos confortos da vida senhorial, que evidentemente conhecera, e também de genealogias. Como lhe perguntasse o que estava gravado em seu anel, disse com um sorriso modesto: 

- É um ramo de verjus (agraço).

[Agraço: estado das uvas antes de amadurecerem. (N. do T)]

      E acrescentou com prazer de degustador: 

- Nossas armas são um ramo de agraço simbólico, pois me chamo Verjus com caule e folhas de sinople. -
  
     Creio, porém, que ficaria decepcionado se em Balbec eu só lhe oferecesse verjus para beber. Ele apreciava os vinhos mais caros, decerto por privação, pelo conhecimento profundo daquilo de que se achava privado, por gosto, talvez também por inclinação exagerada. Assim, quando o convidava para jantar em Balbec, ele encomendava a refeição com uma ciência requintada, mas comia um pouco demais, e sobretudo bebia, mandando guardar os vinhos que deviam ser bebidos logo, e gelar aqueles que deviam ficar no gelo. Antes e depois do jantar, indicava a data ou o número que desejava de um vinho do porto ou de um conhaque, como o teria feito para a ereção geralmente ignorada de um marquesado, mas que ele conhecia igualmente bem.  
     Como eu era para Aimé um freguês predileto, ficava ele encantado que eu desse esses jantares extras e gritava para os garçons: 

- Depressa, preparem a mesa 25; - ele nem mesmo dizia "preparem", mas "preparem-me", como se fosse para ele próprio. E, como a linguagem dos mordomos de hotel não é exatamente a mesma da dos chefes de mesa, subchefes, copeiros, etc., no momento em que eu pedia a nota, ele dizia ao garçom que nos servira, com um gesto repetido e apaziguador da palma da mão, como se quisesse acalmar um cavalo prestes a tomar o freio nos dentes: 
- Não avance muito (para a nota); vá devagarinho, bem devagarinho. -  

     Depois, como o garçom partisse com esse aviso, Aimé, receando que suas recomendações não fossem observadas com exatidão, tornava a chamá-lo:

- Espere, eu mesmo vou pôr os preços. -

     E, como eu lhe dissesse que aquilo não fazia diferença: 

- Tenho por princípio que, como se diz vulgarmente, não se deve burlar o freguês. -  

     Quanto ao gerente, observando as roupas simples, sempre as mesmas e bastante gastas do meu convidado (e contudo ninguém poria tão bem em prática a arte de se vestir com opulência, como um elegante de Balzac, se possuísse meios), limitava-se, por minha causa, a inspecionar de longe para ver se tudo corria bem e a exigir, com um olhar, que pusessem um calço no pé da mesa que não estava a prumo. Não que não soubesse meter a mão na massa como qualquer outro, embora ocultasse os seus começos como lava-pratos.
     Foi preciso, todavia, uma circunstância excepcional para que um dia ele próprio destrinchasse os perus. Eu havia saído, mas soube que ele o fizera com uma majestade sacerdotal, cercado, a respeitosa distância do trinchante, de um círculo de garçons que assim procuravam menos aprender do que se exibir, e tinham um ar beatífico de admiração. Aliás, não foram vistos de modo algum pelo gerente (que mergulhava num gesto lento no flanco das vítimas e sem despregar os olhos, compenetrados de sua alta função e como se devesse ler algum augúrio). O sacrificador nem sequer percebeu minha ausência. Quando o soube, ficou desolado.

- Como, o senhor não me viu decepar eu mesmo os perus? -

     Respondi que, não tendo podido ver até então Roma, Veneza, Siena, o museu do Prado, o museu de Dresde, as Índias, nem Sarah na Fedra, já conhecia a resignação e acrescentaria à lista o seu trinchamento dos perus. A comparação com a arte dramática (Sarah na Fedra) foi a única que ele pareceu compreender, pois sabia por mim que, nos dias de representações de gala, Coquelin sênior aceitara papéis de estreante, ou até o de personagens que só dizem uma frase ou nem dizem nada. 

- Tanto faz, estou desolado pelo senhor. Quando é que vou trinchar de novo? Seria preciso um acontecimento, seria preciso uma guerra. -  

     (Com efeito, foi necessário o armistício.) Desde esse dia, o calendário foi mudado, contava-se assim: "Foi no dia seguinte àquele em que trinchei pessoalmente os perus." - "Foi exatamente oito dias depois que o gerente trinchou ele próprio os perus." - Assim, aquela prossectomia serviu, como o nascimento de Cristo ou a Hégira, de ponto de partida para um calendário diverso dos demais, mas que não logrou sua extensão nem igualou sua duração.
     A tristeza da vida do Sr. de Crécy tanto provinha de não mais possuir cavalos e uma mesa suculenta, como de conviver com pessoas que imaginavam que Cambremer e Guermantes fossem uma só família. Quando viu que eu sabia que Legrandin, que agora se fazia chamar Legrand de Méséglise, a que não tinha o menor direito, aliás animado pelo vinho que bebia, teve uma espécie de acesso de alegria. Sua irmã me dizia com ar de compreensão: 

- Meu irmão jamais se sente tão feliz como quando pode conversar com o senhor. -

     De fato, ele sentia-se existir desde que descobrira alguém que conhecia a mediocridade dos Cambremer e a grandeza dos Guermantes, alguém para quem o universo social existia. Como se, após o incêndio de todas as bibliotecas do globo e a ascensão de uma raça totalmente ignorante, um velho latinista retomasse pé e confiança na vida ao ouvir alguém citar-lhe um verso de Horácio. Assim, se ele jamais saía do vagão sem me dizer: 

- Para quando, a nossa pequena reunião? - tanto era por avidez de parasita, como por gula de erudito, e porque considerava os ágapes de Balbec como uma ocasião para conversar, ao mesmo tempo, sobre assuntos que lhe eram caros e de que não podia falar com ninguém, e análogos nisso a esses jantares em que se reúnem em datas fixas, diante da mesa particularmente suculenta do Círculo da União, a Sociedade dos Bibliófilos. Muito modesto no que se referia à sua própria família, não foi pelo Sr. de Crécy que fiquei sabendo que ela era bem grande e um autêntico ramo, enraizado na França, da família inglesa que leva o título de Crécy. Quando soube que ele era um verdadeiro Crécy, contei-lhe que uma sobrinha da Sra. de Guermantes havia desposado um americano de nome Charles Crécy e lhe disse que pensava que o mesmo não tinha qualquer relação com ele. 
- Nenhum - disse-me. - Como também (apesar de que minha família não possui tanta ilustração) muitos americanos que se chamam Montgommery Berry, Chandos ou Capei não têm qualquer relação com as famílias de Pembroke, de Buckingham, d'Essex, ou com o duque de Berry. -

     Pensei várias vezes em lhe dizer, para diverti-lo, que conhecia a Sra. Swann, a qual, como cocote, era conhecida antigamente sob o nome de Odette de Crécy; mas, embora o duque d'Alençon não pudesse ficar constrangido que lhe falassem de Émilienne d'Alençon, não me julguei bastante íntimo do Sr. de Crécy para levar o gracejo a esse ponto. 

- Ele pertence a uma grande família - disse-me um dia o Sr. de Montsurvent. - Seu patronímico é Saylor. - E acrescentou que, no seu velho castelo acima de Incarville, aliás quase inabitável, e que, embora o Sr. de Crécy tivesse nascido muito rico, estava atualmente arruinado demais para poder reformá-lo, lia-se ainda a antiga divisa da família. Achei essa divisa muito bonita, aplicada aplicada à impaciência de uma raça de presa aninhada naquele ambiente de onde outrora devia alçar voo, seja, hoje, atribuída à contemplação do declínio, à espera da morte próxima naquele retiro selvagem e dominador. Com efeito, é nesse duplo sentido que essa divisa joga com o nome de Saylor: Ne sçais I'heure.

[Ne sçais l'heure, "não sei a hora" em francês arcaico. Notar a semelhança fônica com o nome de Saylor. (N. do T)]

      Em Hermonville, embarcava às vezes o Sr. de Chevregny, cujo nome, disse-me Brichot, significava (como o de Monsenhor de Cabrieres) "lugar onde se reúnem as cabras". Era parente dos Cambremer e, por causa disso, e devido a uma falsa apreciação da elegância, estes o convidavam frequentemente a Féterne, mas apenas quando não tinham convidados para exibir. Vivendo o ano inteiro em Beausoleil, o Sr. de Chevregny permanecera mais provinciano do que eles. Assim, quando ia passar algumas semanas em Paris, não tinha um só dia a perder para tudo o que "haveria de ver"; a tal ponto que às vezes, um pouco aturdido pelo número de espetáculos digeridos depressa demais, quando lhe perguntavam se tinha visto uma determinada peça, chegava a não ter certeza. O que era raro, pois ele conhecia as coisas de Paris com esse pormenor particular às pessoas que raramente a visitam. Aconselhava-me as "novidades" que convinha ir ver ("Isto vale a pena"), aliás considerando-as apenas do ponto de vista da noite agradável que fazem passar, e ignorando o ponto de vista estético até não desconfiar sequer que pudessem, de fato, constituir às vezes uma "novidade" na história da arte. Assim é que, falando de tudo sob um mesmo plano, ele nos dizia: 

- Uma vez fomos à ópera-Cômica, mas o espetáculo não era famoso. Chamava-se Pélleas et Mélisande. É insignificante. Périer representa sempre bem, mas é preferível vê-lo em outra coisa. Em compensação, no Gymnase, representava-se A Castelã. Voltamos duas vezes lá; não deixem de ir, merece ser vista. E depois, é representada às maravilhas. Verão Frévalles, Marie Magnier, Baronfils. -

     Citava-me até nomes de atores de que eu jamais ouvira falar, e sem fazê-los preceder de "senhor", "senhora" ou "senhorita", como o teria feito o duque de Guermantes, o qual falava no mesmo tom cerimoniosamente desdenhoso das "canções da Srta. Yvette Guilbert" e das "experiências do Sr. Charcot". O Sr. de Chevregny não procedia dessa forma; dizia Cornaglia e Dehelly, como teria dito Voltaire e Montesquieu. Nele, relativamente aos atores e a tudo quanto fosse parisiense, o desejo de se mostrar desdenhoso, que tinha o aristocrata, era vencido pelo de parecer familiar, próprio do provinciano. 
     Logo depois do meu primeiro jantar na Raspeliere com o que ainda se chamava em Féterne "o jovem casal", embora o Sr. e a Sra. de Cambremer já não fossem jovens, a velha marquesa me escrevera uma dessas cartas cuja caligrafia se reconhece entre milhares. Dizia-me: "Traga sua prima deliciosa encantadora -, agradável. Será um encanto, um prazer" falhando sempre com tal infalibilidade a progressão esperada por aquele que recebia a carta, que acabei por mudar de opinião acerca da natureza daqueles diminuendo, por julgá-los intencionais e por encontrar neles a mesma deterioração do gosto transposta para a ordem mundana que levava Sainte-Beuve a quebrar todas as alianças de palavras, a alterar toda expressão um tanto habitual. Dois métodos, sem dúvida ensinados por mestres diferentes, contrariavam-se nesse estilo epistolar, o segundo fazendo a Sra. de Cambremer compensar a banalidade dos adjetivos múltiplos ao empregá-los em escala descendente, e evitando acabar no acorde perfeito. Em troca, eu me inclinava a ver, nessas gradações inversas, não mais o requinte, como quando elas eram obra da velha marquesa, mas sim falta de jeito, todas as vezes em que eram empregadas pelo marquês, seu filho, ou por suas primas. Pois em toda a família, até um grau bastante afastado e por uma imitação admirável da tia Zélia, a regra dos três adjetivos era muito estimada, bem como uma certa maneira entusiasta de retomar a respiração ao falar. Imitação que aliás passara ao sangue; e, quando na família uma meninazinha, desde a infância, parava ao falar para engolir saliva, diziam: - Ela puxou à tia Zélia e sentiam que mais tarde o seu lábio teria uma rápida inclinação a sombrear-se de um leve buço, e prometiam cultivar nela as disposições que mostrasse para a música. As relações dos Cambremer não tardaram a ser menos perfeitas com a Sra. Verdurin do que comigo, e por motivos diversos. Desejavam convidar esta última. A "jovem" marquesa dizia-me com desdém: 

- Não vejo por que não havemos de convidar essa mulher; no campo, a gente visita qualquer um; isso não traz consequências. -   

     Mas no fundo, muito impressionados, não cessavam de me consultar sobre a maneira como deveriam realizar o seu desejo de polidez. Como nos haviam convidado para jantar, a mim e a Albertine, na companhia de amigos de Saint-Loup, pessoas elegantes da região, proprietários do castelo de Gourville, e que mais ou menos representavam a elite normanda, que a Sra. Verdurin apreciava, embora não quisesse aparentá-lo, aconselhei aos Cambremer que convidassem a Patroa também. Mas os castelães de Féterne, por medo (de tanto que eram tímidos) de descontentar seus nobres amigos, ou (de tanto que eram ingênuos) que o Sr. e a Sra. Verdurin se entediassem com pessoas que não eram intelectuais, ou ainda (como estavam impregnados de um espírito rotineiro que a experiência não fecundara), receando misturar os gêneros e cometer uma tolice, declararam que aquilo não "daria certo" em conjunto, que "estragaria", e que era melhor reservar a Sra. Verdurin (que haveriam de convidar com todo o seu pequeno grupo) para um outro jantar. Para o próximo o elegante, com os amigos de Saint-Loup do pequeno grupo só convidaram Morel, a fim de que o Sr. de Charlus fosse indiretamente informado sobre as pessoas brilhantes que eles recebiam, e também para que o músico fosse um elemento de distração para os convidados, pois pediram-lhe que levasse o seu violino. Acrescentaram-lhe Cottard, porque o Sr. de Cambremer declarou que ele era um sujeito animado e fazia boa figura num jantar; além do mais, seria conveniente estar em bons termos com um médico, para o caso de alguém ficar doente. Mas convidaram-no sozinho, para "não começar nada com a mulher". A Sra. Verdurin ficou indignada quando soube que dois membros do pequeno grupo tinham sido convidados sem ela para um jantar íntimo em Féterne. Ditou ao doutor, cujo primeiro movimento fora de aceitar o convite, uma altiva resposta em que dizia: "Nós jantamos esta noite na casa da Sra. Verdurin", plural que deveria ser uma lição para os Cambremer, e mostrar-lhes que ele era inseparável da Sra. Cottard. Quanto a Morel, a Sra. Verdurin não teve necessidade de lhe traçar uma conduta impolida, que ele próprio adotou espontaneamente. Eis por quê. Se, no que se refere aos seus prazeres, tinha ele, em relação ao Sr. de Charlus, uma independência que a este muito afligia, já vimos que a influência deste último se fazia sentir mais em outros domínios e que, por exemplo, ele havia ampliado seus conhecimentos musicais e apurado o estilo do virtuose. Porém, ao menos do ponto de vista da nossa narrativa, não passava de uma influência. Em compensação, havia um terreno sobre o qual aquilo que o barão dizia era cegamente acreditado e feito por Morel. Cega e loucamente, pois não só os ensinamentos do Sr. de Charlus eram falsos como também, ainda que válidos para um grão-senhor, tornavam-se grotescos aplicados ao pé da letra por Morel. O terreno em que Morel se tornava tão crédulo e era tão dócil ao mestre era o terreno mundano. O violinista que, antes de conhecer a Sr. de Charlus, não tinha noção alguma da sociedade, tomara ao pé da letra o esboço altivo e sumário que lhe traçara o barão: 

- Há um certo número de famílias preponderantes - dissera-lhe o Sr. de Charlus. - Antes de tudo os Guermantes, que contam quatorze alianças com a Casa de França, o que aliás é principalmente lisonjeiro à Casa de França, pois era a Aldonca de Guermantes e não a Luís o Gordo, seu irmão consanguíneo, porém segundo-gênito, que deveria ter voltado ao trono da França. Sob Luís XIV, pusemos luto pela morte de Monsenhor, pois tínhamos a mesma avó que o rei. Muito abaixo dos Guermantes, pode-se todavia citar os La Trémoïlle, descendentes dos reis de Nápoles e dos condes de Poitiers; os d'Uzes, pouco antigos como família mas que são os mais antigos pares; os Luynes, bem recentes, mas com o brilho das grandes alianças; os Choiseul, os Harcourt, os La Rochefoucauld. Acrescente ainda os Noailles, apesar do conde de Toulouse, os Montesquiou, os Castellane e, salvo esquecimento, isso é tudo. Quanto a todos esses fidalgotes que se chamam marquês de Cambremerda ou de Vaitefumar, não há nenhuma diferença entre eles e o último soldado do seu regimento. Que você vá fazer xixi na casa da condessa Cocô e cocô na da baronesa Xixi, é a mesma coisa, terá comprometido a sua reputação e tomado um trapo sujo por papel higiênico. É uma porcaria. -
  
     Morel recolhera piedosamente essa lição de história, talvez um tanto sumária; julgava as coisas como se ele próprio fosse um Guermantes e sonhava com uma ocasião de se encontrar com os falsos La Tour d'Auvergne para fazê-los sentir, com um soco desdenhoso, que ele não os levava a sério. Quanto aos Cambremer, eis que justamente podia mostrar-lhes que não valiam mais que "o último soldado de seu regimento". Não respondeu ao convite deles e na noite do jantar desculpou-se à última hora com um telegrama, deslumbrado como se acabasse de agir feito um príncipe de raça. Além disso, resta acrescentar que não se pode imaginar o quanto, de um modo geral, o Sr. de Charlus podia ser insuportável, minucioso, e até, ele tão fino, também imbecil, em todas as ocasiões em que entravam em jogo os defeitos do seu caráter. De fato, pode-se dizer que estes são como que uma enfermidade intermitente do espírito. Quem já não reparou no fato entre as mulheres, e até nos homens, dotados de inteligência notável porém afligidos de nervosismo? Quando estão felizes, sossegados, satisfeitos com o ambiente, fazem com que admiremos seus preciosos dotes; é literalmente a verdade que fala por sua boca. Uma enxaqueca, uma pequena picada de amor-próprio, basta para mudar tudo. A luminosa inteligência, convulsiva, brusca e acanhada, só reflete um ego irritado, perspicaz, caprichoso, fazendo todo o possível para desagradar.
     Foi intensa a cólera dos Cambremer; e, no intervalo, outros incidentes levaram a uma certa tensão em suas relações com o pequeno clã. Quando voltávamos, os Cottard, Charlus, Brichot, Morel e eu, de um jantar na Raspeliere e como os Cambremer, que tinham almoçado com amigos em Arembouville, tivessem feito na ida uma parte do trajeto conosco: 

- O senhor, que tanto aprecia Balzac e sabe reconhecê-lo na sociedade contemporânea dissera eu ao Sr. de Charlus -, deve achar que esses Cambremer saíram das Cenas da Vida Provinciana. -

     Mas o Sr. de Charlus, exatamente como se fosse amigo deles e eu o tivesse melindrado com minha observação, cortou-me bruscamente a palavra: 

- O senhor diz isto porque a mulher é superior ao marido - replicou ele em tom seco. 
- Oh, eu não queria dizer que ela era a Musa do Departamento, nem a Sra. de Bargeton, muito embora... - 

     O Sr. de Charlus interrompeu de novo: 

- Diga antes a Sra. de Mortsauf. - 

     O trem parou, e Brichot desceu. 

- Por mais que lhe fizéssemos sinais, o senhor é terrível. 
- Como? 
- Ora, não percebeu que Brichot está loucamente apaixonado pela Sra. de Cambremer? - 

     Pela atitude dos Cottard e de Charlie, vi que aquilo era aceito sem sombra de dúvida no pequeno núcleo. Creio que havia maldade da parte deles. 

- Pois não notou como ele ficou perturbado quando você falava dela? - continuou o Sr. de Charlus, que gostava de mostrar que tinha experiência com as mulheres e falava do sentimento que elas inspiram com um ar natural, e como se este sentimento fosse o que ele próprio sentisse habitualmente. Porém um certo ar de paternidade equívoca em relação a todos os jovens apesar de seu amor exclusivo por Morel acabou desmentindo, pelo tom, as opiniões de mulherengo que ele emitia: 
- Oh, esses meninos! - disse com voz aguda, piegas e cadenciada. - É preciso ensinar-lhes tudo, são inocentes como criança recém-nascida, não sabem reconhecer quando um homem está enamorado de uma mulher. Na sua idade eu era mais esperto - acrescentou, pois gostava de empregar as expressões do mundo apache, talvez por gosto, talvez para não parecer, evitando-as, que frequentava aqueles para quem tais expressões faziam parte do vocabulário corrente. Alguns dias mais tarde, fui obrigado a render-me à evidência e reconhecer que Brichot estava apaixonado pela marquesa. Desgraçadamente, aceitou vários almoços na casa dela. A Sra. Verdurin achou que era tempo de dar um basta naquilo. Fora a utilidade que ela via numa intervenção, para a política do pequeno núcleo, sentia por esses tipos de explicações e pelos dramas daí decorrentes um prazer cada vez mais vivo e que a ociosidade faz nascer tanto no mundo aristocrático como na burguesia. Foi um dia de grande emoção na Raspeliere quando se viu a Sra. Verdurin desaparecer durante uma hora com Brichot, a quem soube-se que ela dissera que a Sra. de Cambremer zombava dele, que ele era motivo de troça em seu salão, que ele ia desonrar a sua velhice, comprometer a sua posição no ensino. Chegou ao ponto de falar em termos tocantes da lavadeira com quem ele vivia em Paris, e de sua filhinha. Ela venceu, e Brichot deixou de ir a Féterne, mas seu desgosto foi tal que, durante dois dias, julgamos que perderia completamente a visão, e, em todo caso, sua enfermidade se agravou a um estágio que se tornou definitivo. Entretanto, os Cambremer, cuja raiva contra Morel era grande, convidaram uma vez, e de propósito, o Sr. de Charlus, mas sem o violinista. Não recebendo resposta do barão, recearam ter cometido uma gafe, e, achando que o rancor era mau conselheiro, escreveram um pouco tardiamente a Morel, servilismo que fez sorrir o Sr. de Charlus, mostrando-lhe o seu poder. 
- Responda por nós dois que aceito - disse o barão a Morel. 

continua na página 221...
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Leia também:

Volume 1
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Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - O Sr. de Charlus estava assustado)
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As Fontes Subterrâneas do Poder

     39. O petróleo, as maldições e as façanhas
          Como o gás natural, o petróleo é o principal combustível entre todos que põem em marcha o mundo contemporâneo, uma matéria-prima de crescente importância para a indústria química e o material estratégico primordial para as atividades militares. Nenhum outro ímã atrai tanto os capitais estrangeiros como o “ouro negro”, nem existe outra fonte tão fabulosa de lucros; o petróleo é a riqueza mais monopolizada em todo o sistema capitalista. Não há empresários cujo poder político se compare com o que exercem as grandes corporações petrolíferas. A Standard Oil e a Shell entronizam e destronam reis e presidentes, financiam conspirações palacianas e golpes de Estado, têm a seu serviço um sem-número de generais, ministros e James Bonds, e em todas as comarcas e em todos os idiomas decidem o curso da guerra e da paz. A Standard Oil Co. de Nova Jersey é a maior empresa industrial do mundo capitalista; e fora dos Estados Unidos não existe nenhuma empresa industrial mais poderosa do que a Royal Dutch Schell. As filiais vendem o petróleo cru para as subsidiárias, que o refinam e vendem os combustíveis às sucursais para sua distribuição: em todo esse circuito, o sangue não sai fora do aparelho circulatório interno do cartel, que além disso possui os oleodutos e grande parte da frota petroleira dos sete mares. Os preços são manipulados em escala mundial para reduzir os impostos a pagar e aumentar os lucros a cobrar: o petróleo cru sempre aumenta menos do que o refinado.
     Como acontece com o café ou com a carne, com o petróleo os países ricos ganham muito mais consumindo-o do que os países pobres produzindo-o. A diferença é de dez a um: dos onze dólares que custam os derivados de um barril de petróleo, os países exportadores da matéria-prima mais importante do mundo recebem apenas um dólar, resultado da soma dos impostos e dos custos da extração, ao passo que os países da área desenvolvida, onde se localizam as matrizes das corporações petrolíferas, ficam com dez dólares, resultado da soma de seus próprios impostos e taxas, oito vezes maiores do que os impostos dos países produtores, e dos custos e lucros do transporte, do refino, do processamento e da distribuição que as grandes empresas monopolizam. [1]

[1] Segundo dados publicados pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo. MIERES, Francisco. El petróleo y la problemática estructural venezolana. Caracas, 1969.

     O petróleo que brota nos Estados Unidos tem um alto preço (sua imensa frota de automóveis bebe gasolina barata graças aos subsídios públicos). Mas a cotação do petróleo da Venezuela e do Oriente Médio foi caindo, desde 1957, ao longo de toda a década de 60. Cada barril de petróleo venezuelano, por exemplo, valia em 1957, em média, 2,65 dólares. Em fins de 1970, o preço é de 1,86 dólares. O governo de Rafael Caldera anuncia que vai fixar unilateralmente um preço muito maior, mas de todos os modos o novo preço, segundo as cifras que os comentaristas manejam e apesar do escândalo que se pressente, não alcançará o nível de 1957. Os Estados Unidos são, ao mesmo tempo, os principais produtores e os principais importadores de petróleo no mundo. Na época em que a maior parte do petróleo cru vendido pelas corporações provinha do subsolo norte-americano, o preço mantinha-se alto; durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se converteram em importadores, e o cartel começou a aplicar uma nova política de preços: a cotação passou a cair sistematicamente. Curiosa inversão das “leis do mercado”: o preço do petróleo cai, embora não cesse de aumentar a demanda mundial, na medida em que se multiplicam as fábricas, os automóveis e as usinas geradoras de energia. E outro paradoxo: ainda que o preço do petróleo baixe, em todos os lugares sobem os preços que os consumidores pagam pelos combustíveis. Há uma desproporção descomunal entre o preço do cru e o dos derivados. Toda esta cadeia de absurdos é perfeitamente racional, não é necessário recorrer a forças sobrenaturais para encontrar uma explicação. Porque o negócio do petróleo no mundo capitalista está, como vimos, nas mãos de um cartel todo-poderoso.
     O cartel nasceu em 1928, num castelo do norte da Escócia rodeado pela bruma, quando a Standard Oil de Nova Jersey, a Shell e a Anglo-Iranian, hoje chamada British Petroleum, celebraram um acordo para dividir o planeta. A Standard de Nova York e a da Califórnia, a Gulf e a Texaco se integraram posteriormente ao núcleo dirigente do cartel [2]. A Standard Oil, fundada por Rockefeller em 1870, dividira-se em 35 diferentes empresas em 1911, pela aplicação da lei Sherman contra os trustes; a irmã maior da numerosa família Standard, em nossos dias, é a empresa de Nova Jersey. Suas vendas de petróleo, somadas às vendas da Standard de Nova York e da Califórnia, abarcam hoje em dia a metade das vendas totais do cartel. As empresas petrolíferas do grupo Rockefeller são de tal magnitude que somam nada menos do que a terça parte do total de proveitos que as empresas norte-americanas de qualquer tipo, em seu conjunto, tiram do mundo inteiro. A Jersey, típica corporação multinacional, obtém seus maiores lucros fora das fronteiras; a América Latina lhe dá mais lucros do que os Estados Unidos e o Canadá somados: ao sul do rio Bravo, sua taxa de lucros é quatro vezes mais alta [3]. As filiais da Venezuela produziram, em 1957, mais da metade dos ganhos da Standard Oil de Nova Jersey em todos os lugares; nesse mesmo ano, as filiais venezuelanas proporcionaram à Shell a metade de seus ganhos no mundo inteiro. [4]

[2] Informe do Senado dos Estados Unidos; Actas secretas del cártel petrolero. Buenos Aires, 1961; e O’CONNOR, Harvey. El império del petróleo. La Habana, 1961
[3] ARAN, Paul A. & SWEEZY, Paul M. El capital monopolista. México, 1970.
[4] MIERES, op. cit.

     Essas corporações multinacionais não pertencem às múltiplas nações onde operam: são multinacionais, simplesmente, na medida em que, desde os quatro pontos cardeais, arrastam grandes caudais de petróleo e dólares para os centros de poder do sistema capitalista. Por certo, não precisam exportar capitais para financiar a expansão de seus negócios: os lucros usurpados dos países pobres não só derivam em linha reta para as poucas cidades onde habitam seus maiores cortadores de cupons, como também são parcialmente reinvestidos para robustecer e estender a rede internacional de operações. A estrutura do cartel implica o domínio de numerosos países e a penetração em seus numerosos governos; o petróleo encharca presidentes e ditadores, e acentua as deformações estruturais das sociedades que ele põe a seu serviço. São as empresas que, com um lápis sobre o mapa do mundo, decidem quais serão as zonas de exploração e quais as de reserva, e são elas que fixam os preços que vão receber os produtores e vão pagar os consumidores. A riqueza natural da Venezuela e outros países latino-americanos com petróleo no subsolo, objetos do assalto e do saque organizado, tornou-se o principal instrumento de sua servidão política e de sua degradação social. Essa é uma longa história de façanhas e de maldições, infâmias e desafios.
     Cuba proporcionava, por vias complementares, robustos lucros à Standard Oil de Nova Jersey. A Jersey comprava petróleo cru da Creole Petroleum, sua filial na Venezuela, e o refinava e distribuía na ilha, e tudo a preços que melhor lhe convinham para cada uma das etapas. Em outubro de 1959, em plena efervescência revolucionária, o Departamento de Estado enviou uma nota oficial a Havana manifestando sua preocupação pelo futuro dos investimentos norte-americanos em Cuba: já tinham começado os bombardeios de aviões “piratas” procedentes do Norte, e as relações estavam tensas. Em janeiro de 1960, Eisenhower anunciou a redução da cota cubana de açúcar, e em fevereiro Fidel Castro assinou um acordo comercial com a União Soviética para permutar açúcar por petróleo e outros produtos a preços razoáveis. A Jersey, a Shell e a Texaco se negaram a refinar o petróleo soviético: em julho, o governo cubano interveio e as nacionalizou sem qualquer compensação.
     Encabeçadas pela Standard Oil de Nova Jersey, as empresas deram início ao bloqueio. Ao boicote do pessoal qualificado somaram-se o boicote das reposições essenciais do maquinário e o boicote dos fretes. O conflito era uma prova de soberania [5], e Cuba se saiu com honra. Ao mesmo tempo, deixou de ser uma estrela na constelação da bandeira dos Estados Unidos e uma peça da engrenagem mundial da Standard Oil.

[5] TANZER, Michael. The Political Economy of International Oil and the Underdeveloped Countries. Boston, 1969.

     O México sofrera, vinte anos antes, um embargo internacional decretado pela Standard Oil de Nova Jersey e pela Royal Dutch Shell. Entre 1939 e 1942, o cartel comandou o bloqueio das exportações mexicanas de petróleo e dos abastecimentos necessários para seus poços e refinarias. O presidente Lázaro Cárdenas havia nacionalizado as empresas. Nelson Rockefeller, que em 1930 graduara-se em Economia escrevendo uma tese sobre as virtudes de sua Standard Oil, foi ao México para negociar um acordo, mas Cárdenas não voltou atrás. A Standard e a Shell, que haviam repartido o território mexicano, abocanhando a primeira o norte e a segunda o sul, não só se negavam a aceitar as resoluções da Suprema Corte na aplicação das leis trabalhistas mexicanas, como também tinham arrasado as jazidas da famosa Faja de Oro numa velocidade vertiginosa, e obrigavam os mexicanos a pagar, por seu próprio petróleo, preços mais altos do que cobravam nos Estados Unidos e na Europa por esse mesmo petróleo [6]. Em poucos meses, a febre exportadora esgotara brutalmente muitos poços que poderiam continuar produzindo durante 30 ou 40 anos. “Tiraram do México”, escreve O’Connor, “seus depósitos mais ricos, e só lhe deixaram uma coleção de refinarias antiquadas, campos exaustos, o pobrerio da cidade de Tampico e amargas recordações.” Em menos de vinte anos, a produção reduzira-se à quinta parte. O México herdou uma indústria decrépita, orientada para a demanda estrangeira, e até desapareceram os meios de transporte. Cárdenas tornou a recuperação do petróleo uma grande causa nacional, contornando a crise à força de imaginação e de coragem. Pemex, Petróleos Mexicanos, a empresa criada em 1938 para encarregar-se de toda a produção e do mercado, é hoje a maior empresa não estrangeira de toda a América Latina. À custa dos lucros produzidos pela Pemex, o governo mexicano pagou, entre 1947 e 1962, vultuosas indenizações às empresas, embora, como diz bem Jesús Silva Herzog, “o México não é devedor dessas companhias piratas, mas seu legítimo credor” [7]. Em 1949, a Standard Oil interpôs veto a um empréstimo que os Estados Unidos concederiam à Pemex, e muito anos depois, já cicatrizadas as feridas por obra das generosas indenizações, a Pemex teve uma experiência semelhante no Banco Interamericano de Desenvolvimento.

[6] O’CONNOR, Harvey. La crisis mundial del petróleo. Buenos Aires, 1963. Este fenômeno continua sendo usual em vários países. Na Colômbia, por exemplo, onde o petróleo é exportado livremente e sem pagar impostos, a refinaria estatal compra das companhias estrangeiras o petróleo colombiano com um acréscimo de 37 por cento sobre o preço internacional, e é preciso que o valor seja pago em dólares. ALAMEDA OSPINA, Raúl, na revista Esquina. Bogotá, janeiro de 1968.
[7] SILVA HERZOG, Jesús. Historia de la exportación de las empresas petroleras. México, 1964.

     O Uruguai foi o país que criou a primeira refinaria estatal na América Latina. A ANCAP, Administração Nacional de Combustíveis, Álcool e Portland, nasceu em 1931, e o refino e a venda de petróleo cru figuravam entre suas principais atividades. Era a resposta nacional a uma longa historia de abusos do truste no rio da Prata. Paralelamente, o Estado contratou a compra de petróleo barato na União Soviética. De imediato, o cartel financiou uma furiosa campanha de desprestígio contra a empresa industrial do Estado uruguaio e começou sua tarefa de extorsão e ameaça. Afirmava-se que o Uruguai não encontraria quem lhe vendesse o maquinário e que iria ficar sem petróleo cru, que o Estado era um péssimo administrador e não podia se encarregar de tão complicado negócio. O golpe palaciano de março de 1933 exalava certo odor a petróleo: a ditadura de Gabriel Terra anulou o direito da ANCAP ao monopólio da importação de combustíveis, e em janeiro de 1938 assinou convênios secretos com o cartel, ominosos entendimentos que foram ignorados pelo público até um quarto de século depois e que hoje ainda se encontram em vigor. De acordo com seus termos, o país está obrigado a comprar 40 por cento de petróleo cru sem licitação e onde lhe indicarem a Standard Oil, a Shell, a Atlantic e a Texaco, a preços fixados pelo cartel. Além disso, o Estado, que conserva o monopólio do refino, paga todas as despesas das empresas, incluindo a propaganda, os salários privilegiados e o luxuoso mobiliário de seus escritórios [8]. Isto é progresso, canta a televisão, e o bombardeio de publicidade não custa um único centavo à Standard Oil. O advogado do Banco da República tem também a seu cargo as relações públicas da Standard Oil: o Estado lhe paga dois salários.

[8] TRIAS, Vivian. Imperialismo y petróleo en el Uruguay. Montevideo, 1963. Veja-se também o discurso do deputado Enrique Erro no diário de sessões da Câmara de Representantes , no 1.211, tomo 577, Montevideo, 8 de setembro de 1966.

     Por volta de 1939, a refinaria da ANCAP levantava, com êxito, suas torres chamejantes: a empresa tinha sido mutilada pouco depois de nascer, como vimos, mas ainda representava um exemplo de desafio vitorioso frente às pressões do cartel. O chefe do Conselho Nacional de Petróleo do rasil, general Horta Barbosa, esteve em Montevidéu e se entusiasmou com a experiência: durante o primeiro ano de funcionamento a refinaria uruguaia pagara quase a totalidade dos gastos de sua instalação. Graças aos esforços do general Barbosa, somados ao fervor de outros militares nacionalistas, a Petrobras, a empresa estatal brasileira, pôde iniciar suas operações em 1953 ao grito de O petróleo é nosso. Atualmente, a Petrobras é a maior empresa do Brasil [9]. Explora, extrai e refina o petróleo brasileiro. Mas também a Petrobras foi mutilada. O cartel lhe arrebatou duas grandes fontes de lucros: em primeiro lugar, a distribuição da gasolina, dos óleos, do querosene e de diversos fluídos, um estupendo negócio que a Esso, a Shell e a Atlantic manejam por telefone sem maiores dificuldades e com tão bom resultado que, depois da indústria automobilística, é a mais forte operação dos investimentos norte-americanos no Brasil; em segundo lugar, a indústria petroquímica, generoso manancial de proveitos, que há pouco tempo foi desnacionalizada pelo governo do marechal Castelo Branco. Recentemente, o cartel desencadeou uma ruidosa campanha destinada a despojar a Petrobras do monopólio do refino. Os defensores da Petrobras recordam que a iniciativa privada, que gozava de campo livre, não se ocupara do petróleo brasileiro antes de 1953 [10], e procuram devolver à frágil memória do público um episódio bem ilustrativo da boa vontade dos monopólios. Em novembro de 1960, a Petrobras encomendou a dois técnicos brasileiros que encabeçassem uma revisão geral das jazidas sedimentárias do país. Como resultado dessas pesquisas, o pequeno estado nordestino do Sergipe passou à vanguarda na produção de petróleo. Pouco antes, em agosto, o técnico norte-americano Walter Link, que tinha sido o principal geólogo da Standard Oil de Nova Jersey, recebera do Estado brasileiro meio milhão de dólares por uma montanha de mapas e um extenso informe que taxava de “inexpressiva” a espessura sedimentária de Sergipe: até então era considerada grau B, e Link a rebaixou para o grau C. Depois se soube que era grau A [11]. Segundo O’Connor, Link trabalhara todo o tempo como um agente da Standard, de antemão decidido a não encontrar petróleo, para que o Brasil continuasse a depender das importações da filial de Rockefeller na Venezuela.

[9] A Petrobras figurava em primeiro lugar na lista das 500 maiores empresas, publicada por Conjuntura econômica. Rio de Janeiro, 1970. (9) v.24.
[10] Declarações do engenheiro Márcio Leite Cesarino em Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1967.
[11]  O jornal Correio da Manhã publicou em 19 de fevereiro de 1967 um amplo extrato do documento.

     Também na Argentina as empresas estrangeiras e seus múltiplos ecos nativos sempre sustentam que o subsolo contém escasso petróleo, embora as investigações dos técnicos do YPF (Yacimientos Petrolíferos Fiscales) tenham indicado com toda a convicção que subjaz petróleo em cerca de metade do território nacional, e que também há petróleo abundante na vasta plataforma marítima da costa atlântica. Cada vez que se começa a falar na pobreza do subsolo argentino o governo autoriza uma nova concessão em benefício de algum membro do cartel. A empresa estatal, YPF, foi vítima de continuada e sistemática sabotagem desde suas origens até o presente. Não faz muitos anos, a Argentina foi um dos últimos cenários históricos da luta interimperialista entre a Inglaterra, no desesperado ocaso, e os ascendentes Estados Unidos. Os acordos do cartel não impediram que a Shell e a Standard disputassem o petróleo argentino por meios às vezes violentos: há uma série de eloquentes coincidências nos golpes de estado que se sucederam ao longo dos últimos 40 anos. O Congresso argentino se aprestava para votar a lei da nacionalização do petróleo, em 6 de setembro de 1930, quando o caudilho nacionalista Hipólito Ybargoyen foi derrubado da presidência do país por uma quartelada de José Félix Uriburu. O governo de Ramón Castillo caiu em junho de 1943, quando estava prestes a assinar um convênio que promovia a extração de petróleo por capitais norte-americanos. Em setembro de 1955, Juan Domingo Perón seguiu para o exílio quando o Congresso estava por aprovar uma concessão à California Oil Co. Arturo Frondizi desencadeou várias e agudas crises militares, nas três armas, ao anunciar o chamado à licitação que oferecia todo o subsolo do país às empresas interessadas em extrair petróleo: em agosto de 1959, a licitação foi declarada deserta. Em seguida ressuscitou e, em outubro de 1960, foi considerada sem efeito. Frondizi autorizou várias concessões em benefício das empresas norte-americanas do cartel, e os interesses britânicos – decisivos na Marinha e no setor “colorado” do exército – não foram alheios à sua queda em março de 1962. Arturo Illia anulou as concessões e foi derrubado em 1966; no ano seguinte, Juan Carlos Onganía promulgou uma lei de hidrocarburetos que favorecia os interesses norte-americanos nessa disputa interna.
     O petróleo não provocou apenas golpes de estado na América Latina. Também causou uma guerra, a do Chaco (1932-35), entre os povos mais pobres da América do Sul: a “Guerra dos soldados nus”, como René Zavaleta chamou a feroz matança recíproca entre Bolívia e Paraguai [12]. Em 30 de maio de 1934, o senador por Louisiana Huey Long sacudiu os Estados Unidos com um violento discurso em que denunciava que a Standard Oil de Nova Jersey provocara o conflito e que financiava o exército boliviano para, por seu intermédio, apoderar-se do Chaco paraguaio, necessário para que fosse estendido um oleoduto da Bolívia até o rio, e além disso presumivelmente rico em petróleo: “Estes criminosos foram lá e alugaram seus assassinos”, afirmou [13]. Os paraguaios, por sua vez, marchavam para o matadouro empurrados pela Shell: à medida que avançavam para o norte, os soldados descobriam as perfurações da Standard no cenário da discórdia. Era uma disputa entre duas empresas, inimigas e ao mesmo tempo sócias dentro do cartel, mas não lhes pertencia o sangue derramado. O Paraguai, finalmente, ganhou a guerra, mas perdeu a paz. Spruille Braden, notório representante da Standard Oil, presidiu a comissão de negociadores que preservou para a Bolívia, e para Rockefeller, vários mil quilômetros quadrados que os paraguaios reivindicavam.

[12] ZAVALETA MERCADO, René. Bolivia. El desarrollo de la conciencia nacional. Montevideo, 1967.
[13] O senador Long não economizou nenhum adjetivo para a Standard Oil: chamou-a de criminosa, malfeitora, facínora, assassina doméstica, assassina estrangeira, conspiradora internacional, covil de salteadores e ladrões rapaces, conjunto de vândalos e ladrões. Reproduzido na revista Guarania. Buenos Aires, novembro de 1934.

     Muito próximos do último território daquelas batalhas estão os poços de petróleo e as vastas jazidas de gás natural que a Gulf Oil Co., a empresa da família Mellon, perdeu na Bolívia em outubro de 1969. “Para os bolivianos terminou o tempo do desprezo”, clamou o general Alfredo Ovando ao anunciar a nacionalização das sacadas do Palacio Quemado. Quinze dias antes, quando ainda não tinha tomado o poder, Ovando jurara para um grupo de intelectuais nacionalistas que nacionalizaria a Gulf; tinha redigido o decreto, assinara-o e o guardara, sem data, num envelope. E cinco meses antes, no Cañadón del Arque, o helicóptero do general René Barrientos se chocara contra os fios do telégrafo e tombara. A imaginação não teria sido capaz de inventar uma morte tão perfeita. O helicóptero era um presente pessoal da Gulf Oil Co.; o telégrafo, como se sabe, pertence ao Estado. Junto com Barrientos arderam duas maletas de dinheiro que ele levava para repartir, cédula por cédula, entre os camponeses, e algumas submetralhadoras que tão logo se incendiaram começaram a disparar uma chuva de balas à volta do helicóptero, de tal modo que ninguém conseguiu se aproximar para resgatar o ditador enquanto era queimado vivo.
     Além de decretar a nacionalização, Ovando aboliu o Código do Petróleo, chamado Código Davenport em homenagem ao advogado que o redigira em inglês. Para a elaboração do Código, a Bolívia obtivera, em 1956, um empréstimo dos Estados Unidos; no entanto, o Eximbank, o sistema bancário privado de Nova York, e o anco Mundial, sempre haviam respondido negativamente às solicitações de crédito para o desenvolvimento do YPF , a empresa petrolífera do Estado. O governo norte-americano sempre assumia as privadas causas das corporações petrolíferas [14]. Em função do Código, a Gulf recebeu então, por um prazo de 40 anos, a concessão dos campos mais ricos de petróleo de todo o país. O Código fixava uma ridícula participação do Estado nos lucros da empresa: por muitos anos, apenas 11 por cento. O Estado era sócio nos gastos do concessionário, mas não tinha nenhum controle sobre esses gastos, e se chegou a uma situação extrema em matéria de oferendas: todos os riscos eram para a YPF , e nenhum para a Gulf. Na Carta de Intenções assinada pela Gulf em fins de 1966, durante a ditadura de Barrientos, estabeleceu-se, de fato, que nas operações conjuntas com a YPF, a Gulf recuperaria o total de seus capitais investidos na exploração de uma dada área, se nela não se encontrasse petróleo. Se o petróleo aparecesse, os gastos seriam recuperados através da exploração posterior, porém já de entrada seriam carregados no passivo da empresa estatal. E a Gulf fixaria as despesas segundo o seu paladar [15]. Nessa mesma Carta de Intenções, a Gulf se atribuiu, com toda a tranquilidade, a propriedade das jazidas de gás que em momento algum lhe fora concedida. O subsolo da Bolívia contém muito mais gás do que petróleo. O general Barrientos fez um gesto de quem se distrai: foi o suficiente. Uma simples troca de mãos para decidir o destino da principal reserva de energia da Bolívia. Mas a função ainda não havia terminado.

[14] Os exemplos abundam na história, a recente ou a distante. Irving Florman, embaixador dos Estados Unidos na Bolívia, informava para Donald Dawson, da Casa ranca, em 28 de dezembro de 1950: “Desde que cheguei aqui, tenho trabalhado diligentemente no projeto de abrir amplamente a indústria petrolífera da Bolívia para a penetração da empresa privada norte-americana, ajudando nosso programa de defesa nacional em larga escala”. E também: “Sabia que você se interessaria em ouvir que a indústria petrolífera da Bolívia e toda esta terra agora estão abertas à livre-iniciativa norte-americana. A Bolívia, portanto, é o primeiro país do mundo que fez a desnacionalização, ou uma nacionalização ao contrário, e eu me sinto orgulhoso por ter sido capaz de cumprir esta missão para meu país e para sua administração”. A cópia fotostática desta carta, extraída da biblioteca de Harry Truman, foi reproduzida em NACLA Newsletter. Nova York, fevereiro de 1969.
[15] Interpelação de 11 e 12 de outubro de 1966 de Marcelo Quiroga Santa Cruz na Câmara dos Deputados. Revista Jurídica, edição extraordinária. Cochabamba, 1967.

     Um ano antes da expropriação da Gulf na Bolívia pelo general Alfredo Ovando, outro general nacionalista, Juan Velasco Alvarado, tinha estatizado as jazidas e a refinaria da International Petroleum Co., filial da Standard Oil de Nova Jersey no Peru. Velasco tomara o poder à frente de uma junta militar e na crista da onda de um grande escândalo político: o governo de Fernando Balaúnde Terry havia perdido a página final do convênio de Talara, subscrito entre o Estado e a IPC. A página 11, misteriosamente evaporada, trazia a garantia do preço mínimo que a empresa norte americana devia pagar pelo petróleo cru nacional em sua refinaria. O escândalo não terminava ali. Ao mesmo tempo, tornou-se público que a subsidiária da Standard lesara o Peru, ao longo de meio século, em mais de um bilhão de dólares, através de impostos evitados, de regalias e outras e variadas formas de fraude e corrupção. O diretor da IPC entrevistara-se com o presidente Balaúnde em 60 ocasiões antes de chegar ao acordo que provocou o levante militar; durante dois anos, enquanto avançavam, interrompiam-se e começavam de novo as negociações com a empresa, o Departamento de Estado suspendeu todo tipo de ajuda ao Peru [16]. Virtualmente não sobrou tempo para reativar a ajuda, a vacilação selou a sorte do presidente acossado. Quando a empresa de Rockefeller apresentou seu protesto à corte judicial peruana, o público atirou moedinhas no rosto de seus advogados.

[16] Quando o escândalo explodiu, a embaixada dos Estados Unidos não guardou um prudente silêncio. Um de seus funcionários chegou a afirmar que não existia nenhum original do contrato de Talara. GOODWIN, Richard N. “El conflicto con a IPC: Carta de Peru”, reproduzido do New Yorker por Comercio Exterior. México, julho de 1969.

     A América Latina é uma caixa de surpresas; nunca se esgota a capacidade de assombrar desta torturada região do mundo. Nos Andes, o nacionalismo militar ressurgiu, com ímpeto, como um rio subterrâneo longamente escondido. Os mesmos generais que hoje estão levando adiante, num processo contraditório, uma política de reforma e de afirmação patriótica, pouco antes tinham aniquilado os guerrilheiros. Muitas das bandeiras dos caídos foram recolhidas pelos seus próprios vencedores. Os militares peruanos regaram com napalm algumas zonas guerrilheiras, em 1965, e tinha sido a International Petroleum Co., filial da Standard Oil de Nova Jersey, que lhes proporcionara a gasolina e o know-how para a elaboração das bombas na base aérea de Las Palmas, perto de Lima [17].

[17] GEYER, Georgie Anne. “Seized U.S. oil firm made napalm.” New York Post, 7 de abril de 1969.

continua na página 248...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: O petróleo, as maldições e as façanhas (7)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (VI.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

VI



     Etienne, sóbrio graças às bofetadas de Catherine, permaneceu à frente dos camaradas. Mas, enquanto os lançava contra Montsou com uma voz enrouquecida, ouvia dentro de si uma outra voz, a da razão, que, espantada, perguntava o porquê daquilo tudo. Ele não tinha querido aquelas coisas... Como, então, tendo partido para a Jean-Bart com o plano de agir friamente e impedir um desastre, acabava o dia de violência em violência, sitiando a residência do diretor?
     E, contudo, era ele quem acabava de gritar: "Chega!" A princípio, sua única ideia fora proteger os depósitos da companhia, que falavam em ir pilhar. E agora, que as pedras já arranhavam a fachada do palacete, procurava, sem encontrar, a presa legítima sobre a qual devia lançar o bando, para evitar desgraças maiores. Como estivesse sozinho, impotente no meio da estrada, alguém o chamou, um homem parado à porta do botequim Tison, cuja proprietária se dera pressa em fechar as janelas, só deixando aberta a entrada. 

— Sou eu... Vem aqui.

     Era Rasseneur. Uns trinta, homens e mulheres, quase todos do conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante, que permaneceram em casa durante a manhã, tinham vindo à tarde em busca de noticias, e, com a aproximação dos grevistas, haviam invadido aquele botequim. Zacharie e Philomène ocupavam uma mesa. Além, Pierron e a mulher, de costas, escondiam o rosto. Ninguém bebia, tinham-se refugiado ali, simplesmente.
     Etienne reconheceu Rasseneur e já se afastava quando este acrescentou: 

— Minha presença não te é agradável, já sei... Eu bem te preveni, as dores de cabeça vão começar. Agora vocês podem pedir pão, vão receber mas é chumbo.

     Ele, então, voltou e respondeu: 

— O que me desagrada são os covardes que, de braços cruzados olham, enquanto arriscamos a pele. 
— Então a tua ideia é pilhar aí em frente? — perguntou Rasseneur. 
— A minha ideia é ficar até o fim com meus amigos, até que nos matem a todos.

     Desesperado, Etienne voltou para o meio da turba, pronto para morrer. Na estrada, três crianças jogavam pedras e ele as afastou com um pontapé, gritando, para refrear os companheiros, que não adiantava nada quebrar os vidros.
     Bébert e Lydie, que acabavam de se reunir a Jeanlin, aprendiam com este a manejar a funda. Cada um lançava a sua pedra, para ver qual deles faria o estrago maior. Lydie, que ainda não tinha prática, quebrara a cabeça de uma mulher na multidão, e os dois meninos riam como loucos. Por trás deles, Boa-Morte e Mouque, sentados num banco, observavam-nos. As pernas inchadas de Boa-Morte doíam tanto, que a muito custo se arrastara até ali, sem que se soubesse que curiosidade o impelia, porque tinha a fisionomia terrosa dos dias em que não se podia arrancar-lhe uma palavra.
     Ninguém mais obedecia a Etienne. As pedras continuavam a chover, apesar das suas ordens em contrário. Ele sentia espanto, susto mesmo, diante daqueles selvagens que sublevara, tão lentos no começo e a seguir terríveis, de uma tenacidade feroz na cólera. Todo o velho sangue flamengo ali estava, pesado e calmo, levando meses para esquentar-se, atirando-se às violências mais inomináveis, sem querer ouvir nada, até que a besta ficasse ébria de atrocidades. No seu Meio-Dia, as multidões inflamavam-se mais depressa, mas trabalhavam menos. Teve de atracar-se com Levaque para arrancar-lhe o machado, não sabia mais como conter os Maheu, que atiravam pedras com ambas as mãos. Mas eram sobretudo as mulheres que o assustavam: a de Levaque, a filha de Mouque e as outras, possuídas de um furor assassino, os dentes e as unhas de fora, ladrando como cadelas, sob o comando da Queimada, que sobressaía dentre elas com seu corpo magro.
     Houve então uma parada súbita, a surpresa de um minuto impunha o pouco de calma que as súplicas de Etienne não podiam obter. Eram simplesmente os Grégoire que tinham decidido despedir-se do notário e dirigiam-se para a casa do diretor. E pareciam tão calmos, tinham o ar de acreditar numa simples brincadeira por arte dos seus bons mineiros, cuja resignação os alimentava havia século, que estes, espantados, tinham com efeito parado de jogar pedras, temendo atingir esse senhor idoso e essa velha dama, caídos do céu. Deixaram-nos entrar no jardim, subir as escadas, bater à porta fortificada, que não tinham pressa de lhes abrir. Mas, justamente nesse momento, Rose, a camareira, voltava do seu passeio, e ria aos operários furiosos, que conhecia muito bem por ser de Montsou. E foi ela quem, esmurrando a porta, acabou forçando Hippotyte a entreabri-la. Já não era sem tempo: mal os Grégoire desapareceram, a chuva de pedras recomeçou. Saída do seu pasmo, a multidão gritava mais forte: 

— Morte aos burgueses! Viva o socialismo!

     Rose continuava rindo, já no vestíbulo do palacete, como que divertida com a aventura, repetindo ao criado aterrado: 

— Eles não são maus, eu os conheço.

     O Sr. Grégoire pendurou metodicamente seu chapéu. Depois, tendo ajudado a esposa a tirar sua capa de fazenda grossa, disse, por sua vez: 

— Sem dúvida, no fundo não têm maldade alguma. Depois de gritarem bastante, irão jantar com mais apetite.

     Nesse momento o Sr. Hennebeau desceu do segundo andar. Assistira à cena e vinha receber seus convidados com seu jeito habitual, frio e polido. Só a palidez do semblante denunciava as lágrimas que o tinham agitado. Mas o homem já fora domado, só restava nele o administrador correto, resolvido a cumprir com o seu dever. 

— Sabem? — disse ele — as senhoras ainda não chegaram. Pela primeira vez uma inquietação apossou-se dos Grégoire.

     Cécile ainda não chegara! E como haveria de entrar se aquela brincadeira dos mineiros se prolongasse? 

— Pensei em fazer desimpedir a entrada — continuou o Sr. Hennebeau. — Acontece, porém, que estou sozinho aqui, e, aliás, não sei aonde enviar meu criado para trazer quatro soldados e um cabo para darem um jeito nessa canalha.

     Rose, que permanecera ali, atreveu-se a murmurar novamente: 

— Mas, meu senhor, eles não são maus...

     O diretor abanou a cabeça, enquanto o tumulto crescia do lado de fora e se ouviam os golpes surdos das pedras contra a fachada 

— Não lhes quero mal, até os desculpo, mas precisam ser muito estúpidos para acreditarem que queremos a sua desgraça. O caso é que sou responsável pela ordem. E dizer que os policiais, ao que me afirmam, estão percorrendo as estradas, e desde cedo não consegui um único!

     Interrompeu-se para deixar passar a Sra. Grégoire e continuou: 

— Passe, senhora, por favor, não fique aí, entre para o salão. Mas a cozinheira, exasperada, vindo do subsolo, reteve-os ainda alguns minutos no vestíbulo. Declarou não aceitar mais a responsabilidade do jantar, porque até agora esperava do pasteleiro de Marchiennes a massa para os pastéis, que encomendara para as quatro horas. Evidentemente o homem ficara pelo caminho, com medo daqueles bandidos. Talvez até tivessem roubado suas cestas. Via os pastéis bloqueados atrás de uma moita, sitiados, enchendo a barriga de três mil miseráveis que pediam pão. Em todo caso, o patrão estava prevenido, ela preferia atirar seu jantar ao fogo a vê-lo estragado por causa da revolução. 

— Tenha um pouco de paciência — disse o Sr. Hennebeau. — Nada está perdido, o pasteleiro ainda pode vir.

     E como se voltasse para a Sra. Grégoire, abrindo ele mesmo a porta do salão, ficou muito surpreso ao perceber, sentado na banqueta do vestíbulo, um homem que até o momento não tinha notado por causa do lusco-fusco. 

— Como? É você, Maigrat? Que aconteceu?

     Maigrat levantara-se e seu rosto apareceu, engordurado e lívido, descomposto pelo pavor. Tinha perdido seu aspecto de homem gordo e calmo. Explicou humildemente que viera até ali para pedir ajuda e proteção no caso de os bandidos assaltarem seu armazém. 

— Você bem vê que eu também estou ameaçado e não tenho ninguém para me proteger — respondeu o Sr. Hennebeau. — Teria feito melhor ficando em casa, para defender suas mercadorias. 
— Sim! Sim! Pus trancas de ferro e deixei minha mulher tomando conta.

     O diretor perdeu a paciência e não pode esconder seu desprezo. Que bela guarda, uma infeliz raquítica, saco de pancadas! 

— Já disse que não posso fazer nada, trate de se defender sozinho. Aliás, aconselho-o a voltar imediatamente para casa, porque eles já estão pedindo pão outra vez... Escute...

     Com efeito, o tumulto recomeçava e Maigrat chegou a ouvir u nome. Voltar não era mais possível, seria despedaçado. Mas ao esmo tempo a ideia da sua ruína transtornava-o. Encostou o rosto no vidro da porta, suando, tremendo, espreitando o desastre, enquanto os Grégoire se decidiam a passar para o salão.
     Tranquilamente, o Sr. Hennebeau fingia fazer as honras da casa. Em vão pediu aos seus convidados que se sentassem. A peça fechada, com barricadas nas janelas, iluminada por duas lâmpadas antes da noite, enchia se de terror a cada novo clamor chegado de fora. No abafamento das tapeçarias, a cólera da multidão retumbava muito mais inquietadora, prenhe de uma ameaça vaga e terrível. Mas assim mesmo conversaram, e, por mais que tentassem, sempre voltavam àquela inconcebível revolta. Ele admirava se de não a ter previsto; na verdade, seus informantes eram tão maus que se enfurecia sobretudo contra Rasseneur, de quem dizia reconhecer a odiosa influência. Mas os policiais tinham de chegar a qualquer momento, era impossível que o abandonassem dessa maneira. Quanto aos Grégoire, não pensavam senão na filha: pobrezinha! Assustava-se com tanta facilidade... Podia ser que, diante do perigo, a carruagem houvesse voltado para Marchiennes. A espera durou ainda um quarto de hora, exasperada pela algazarra da rua, pelo barulho das pedras batendo de vez em quando nas janelas fechadas e que ressoavam como tambores. A situação estava ficando intolerável, o Sr. Hennebeau disse que ia sair para enxotar sozinho os desordeiros e ir ao encontro da carruagem, quando Hippolyte surgiu gritando: 

— Sr. Hennebeau! Sr. Hennebeau! A senhora está aí fora, vão matá-la!

     Como o carro não pudera passar pela ruela de Réquillart por causa dos grupos que o ameaçavam, Négrel resolvera pôr em execução a sua ideia: fazer a pé os cem metros que os separavam do palacete e bater no portão do jardim que ficava ao lado das dependências de serviço; o jardineiro os ouviria, com certeza haveria alguém para abrir. No começo as coisas correram como o previsto; a Sra. Hennebeau e as senhoritas já batiam na entrada de serviço quando algumas mulheres, prevenidas, precipitaram-se para o beco. Nesse momento começaram as complicações. Ninguém abria o portão, Négrel tentou inutilmente arrombá-lo com o ombro. Havia cada vez mais mulheres, e ele, temendo não poder contê-las, tomou o partido desesperado de empurrar à sua frente a tia e as moças e chegar à entrada principal passando pelo meio da turba. Esta manobra, no entanto, teve resultado terrível: não os deixavam passar um grupo aos gritos os encurralou, enquanto o resto da multidão afluía de todos os lados, ainda sem compreender, espantado de ver aquelas damas bem vestidas perdidas no meio da batalha. Nesse momento foi tão grande a confusão que se deu um desses casos de desatino que não é possível explicar. Lucie e Jeanne, tendo chegado à escadaria, enfiaram-se pela porta que a camareira entreabria; a Sra. Hennebeau também entrou, seguida de Négrel, que voltou a pôr os ferrolhos, certo de que vira Cécile passar em primeiro lugar. Mas ela não entrara, tinha desaparecido no turbilhão, presa de tal medo que dera as costas à casa e se atirara no centro do perigo. Em seguida recomeçou o clamor: 

— Viva o socialismo! Morram os burgueses!

     Alguns, de longe, em razão do véu que lhe encobria o rosto, tomaram-na pela Sra. Hennebeau, outros por uma amiga dela, uma jovem casada com um industrial da vizinhança, odiada pelos seus operários. Mas isso pouco importava, eram seu vestido de seda, sua capa de peles, até aquela pluma branca do chapéu que os enlouqueciam. E estava perfumada, possuía um relógio, tinha uma pele fina de desocupada que não lidava com carvão. 

— Espera! — gritou a Queimada. — Vamos enfiar-te no rabo toda essa renda. 
— É da gente que essas cadelas roubam tudo isso — continuou a mulher de Levaque. — Enchem-se de peles enquanto nós morremos de frio... Arranquem tudo, que fique nua, vamos mostrar-lhe como se vive!

     Imediatamente a filha de Mouque investiu: 

— Claro, claro, e que leve uma boa surra!

     E as mulheres, naquela rivalidade selvagem, empurravam-se, agarravam-se pelos andrajos, cada uma querendo alguma coisa daquela moça rica. Na certa não tinha o traseiro mais bem feito do que qualquer outra. Muitas dessas elegantes até podres estavam por baixo dos atavios. A injustiça já estava durando demasiado, todas elas teriam de ser obrigadas a vestir-se como operárias, essas rameiras que tinham o desplante de pagar cinquenta soldos pela lavagem de uma saia!
     Em meio a essas fúrias, Cécile tiritava, as pernas paralisadas, balbuciando repetidamente a mesma frase: 

— Minhas senhoras, por favor, minhas senhoras, não me façam mal.

     Mas de repente soltou um grito rouco: umas mãos álgidas agarravam-na pelo pescoço. Era o velho Boa-Morte, para perto do qual fora empurrada pela multidão, que a segurava dessa maneira. Ele parecia estar ébrio de fome, embrutecido pela longa miséria, saído bruscamente do seu meio século de resignação, sem que se pudesse saber que impulso de rancor o fazia agir assim. Depois de ter durante sua vida, salvo da morte uma dúzia de companheiros, arriscando a pele no grisu e nos desabamentos, cedia a coisas até então desconhecidas para ele, a um desejo de fazer aquilo, à fascinação daquele pescoço branco de moça. E, como aquele era um dos dias em que não falava, apertava os dedos, com seu ar de velho animal enfermo, ruminando recordações. 

— Não! Não! — berraram as mulheres. — Queremos vê-la de bunda à mostra!

     No palacete, desde que se deram conta do que acontecia, Négrel e o Sr. Hennebeau abriram corajosamente a porta para correr em socorro de Cécile. Mas a multidão atirava-se agora contra a grade do jardim, e não era fácil sair. Começaram a lutar, enquanto os Grégoire, horrorizados, surgiam à porta. 

— Larga ela, velho! E a mocinha da Piolaine! — gritou a mulher de Maheu ao avô, quando reconheceu Cécile, a quem uma mulher rasgara o véu.

     Por seu lado, Etienne, chocado com aquelas represálias contra uma menina, esforçava-se por fazer o bando largar a presa. Tendo uma inspiração, brandiu o machado que tinha arrancado das mãos de Levaque. 

— Vamos para o Maigrat, que um raio o parta! Há pão lá dentro! Botemos o barraco de Maigrat abaixo!

     E, com presteza, deu a primeira machadada na porta do armazém. Alguns homens o seguiram, Levaque, Maheu e outros. Mas as mulheres não largavam a presa. Cécile caíra das mãos de Boa-Morte nas da Queimada. Engatinhando, e a mando de Jeanlin, Lydie e Bébert introduziam-se entre as saias, para verem como era o traseiro da dama. Já começavam os repelões, suas roupas se rompiam, quando apareceu um homem a cavalo, arrojando o animal, chicoteando os que não escapavam a tempo. 

— Canalhas! Vocês já chegaram ao ponto de bater nas nossas filhas!

     Era Deneulin que vinha para o jantar. De um salto estava em terra; agarrou Cécile pela cintura, enquanto com a outra mão manobrava o cavalo com uma destreza e uma força extraordinárias servindo-se dele como de uma cunha viva, fendendo a multidão que recuava diante dos coices. Na grade a batalha continuava, mas assim mesmo ele passou, esmagando membros. Esse socorro imprevisto veio na hora certa para Négrel e Hennebeau, que se encontravam em grande perigo, no meio de pragas e socos. E, enquanto o rapaz entrava finalmente, com Cécile desmaiada, Deneulin, que protegia o diretor com seu corpo enorme, no alto do patamar, recebeu uma pedrada que quase lhe quebrou o ombro. 

— Muito bem! — gritou ele. — Quebrem-me os ossos depois de quebrarem minhas máquinas!

     Com a rapidez de um raio, fechou a porta, e uma chuva de pedras bateu na madeira. 

— Que animais! — continuou ele. — Mais dois segundos e me rachavam o crânio como a uma cabaça vazia... É inútil tentar falar-lhes, vocês não acham? Estão loucos furiosos, só matando-os.

continua na página 314...
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Quinta Parte - (V.a) / Quinta Parte - (V.b) / Quinta Parte - (VI.a) /   
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas / IX — Eclipsa

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     IX — Eclipsa

             Viu-se já como Mário descobriu ou lhe pareceu descobrir que ela se chamava Úrsula. O amor é insaciável. Saber que ela se chamava Úrsula, que muito fora, já agora lhe parecia pouco: dentro de três ou quatro semanas devorara esta ventura, e, portanto, queria outra. Queria saber onde ela morava.
     Não contente, pois, com a sua primeira falta, que o fora e grande, deixar-se cair na armadilha do banco do Gladiador; não satisfeito com a segunda, que tão desassisadamente cometera em sair do Luxemburgo quando via que Leblanc chegava só; cometeu ainda terceira, e esta imensa seguiu Úrsula.
     A sua Úrsula morava no lugar mais deserto da rua do Oeste, numa casa nova de três andares, de modesta aparência.
     A partir desse dia, ao prazer de a ver no Luxemburgo, juntava Mário o de segui-la sempre até casa.
     A sua fome, porém, como a sede dos hidrópicos, que mais se ateia, se mais a tentam apagar, aumentava.
     Já sabia como ela se chamava, isto é, sabia-lhe o nome de batismo pelo menos; já sabia onde ela morava; quis também saber quem ela era. Para isto, depois de os ter seguido uma tarde até à entrada de casa e vê-los subir a escada que do portal comunicava com o interior, foi-lhes resolutamente no encalço e desassombradamente perguntou ao porteiro: 

— Este senhor que agora entrou, não é o que mora no primeiro andar? 
— Não, senhor. O que entrou mora no terceiro.

     Ousado com o próspero resultado, resolveu levar mais longe as averiguações.

— Para o lado da frente? — continuou ele. 
— Ora, a pergunta não está má! — exclamou o porteiro. 
— A casa não tem traseiras. 
— E que ocupação é a deste sujeito, sabe? — replicou Mário.

     É um rendeiro e homem de bons sentimentos.
     Conquanto não tenha lá grandes riquezas, favorece os infelizes como outros que têm muito e não o fazem.

— Sabe-me dizer como se chama? — tornou Mário.

     O porteiro, porém, em vez de responder à pergunta, fitou-lhe os olhos e disse-lhe: 

— O senhor é espião?

     Mário saiu dali corrido e vexado, porém sa sfeito com o feliz sucesso das suas pesquisas e informações que ia colhendo. 

— Bem — disse ele consigo. — Já sei que se chama Úrsula, que é filha de um rendeiro e que mora no terceiro andar daquela casa da rua do Oeste.

     No dia seguinte, Leblanc e a filha apareceram no Luxemburgo, porém demoraram-se muito menos do que o costume, retirando-se ainda dia claro, seguidos de Mário, que foi atrás deles até à entrada de casa, como costumava. Ao chegarem à porta, Leblanc deixou passar a filha adiante, parou antes de transpor o limiar da porta e depois voltou atrás e pôs-se a olhar fixamente para Mário.
     No outro dia, Mário esperou por eles, mas debalde. Os dois assíduos frequentadores do Luxemburgo não apareceram.
     Ao escurecer, Mário dirigiu-se para a rua do Oeste, e como nas janelas do terceiro andar visse luz, pôs-se a passear na rua até que a luz se apagou.
     No dia seguinte, nem vivalma no Luxemburgo. Mário esperou todo o dia, e como não visse quem ele esperava, foi fazer a sua ronda noturna debaixo das, janelas da casa da rua do Oeste, que durou até às dez horas. O seu jantar constava do que o acaso lhe deparava. A febre sustenta o enfermo, o amor o namorado.
     Desta maneira se passaram oito dias. No Luxemburgo nunca mais tornaram a aparecer nem Leblanc nem sua filha. Mário fazia tristes conjecturas, porém, receoso, não se atrevia a espionar de dia a modesta casa dos dois entes a que andava ligado o seu destino. Contentava-se em ir de noite contemplar o avermelhado clarão que se coava pelas vidraças, a espaços entenebrecido pelo perpassar de umas sombras, que lhe faziam pulsar o coração aligeirado nos estros da comoção.
     Ao oitavo dia, quando chegou debaixo das janelas, não viu luz. 

— Ora esta! Ainda não acenderam o candeeiro, não obstante ser já noite fechada! Terão eles saído?

     Dito isto, esperou até às dez horas, até à meia-noite, até à uma hora. Ao ver, porém, que em todo este tempo nem nas janelas do terceiro andar apareceu luz, nem para aquela casa entrava vivalma, saiu dali com o coração atribulado.
     No dia seguinte pois o mancebo vivia só das esperanças do outro dia, desde que para ele, permitam-nos a expressão, já não havia hojes no dia seguinte, não encontrando ninguém no Luxemburgo, como já esperava, dirigiu-se para a casa da rua do Oeste. Nem sinal de luz nas janelas; estavam corridas as persianas do terceiro andar e tudo completamente às escuras. Mário bateu à porta, entrou e disse para o porteiro: 

— O inquilino do terceiro andar está em casa? 
— Mudou-se — respondeu o porteiro.

     Mário cambaleou, mas perguntou ainda com voz sumida: 

— Há quanto tempo? 
— Ontem. 
— E onde mora agora, faz favor de me dizer? 
— Isso não sei. 
— Então ele não disse onde era a sua nova morada? 
— Não, senhor.

     E, como o porteiro o reconhecesse, exclamou: 

— Ah, é o senhor! O senhor decididamente é espião, não tem que ver!

continua na página 539...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - IX — Eclipsa
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira