Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Sem que soubessem de onde partia, uma nova palavra de ordem
lançou-os para outra mina.
— À Victoire! À Victoire!
Será que não havia policiais ou cavalaria na Victoire? Não sabiam.
Todos pareciam tranquilizados. E, dando meia volta, desceram para o lado
de Beaumont, atalhando pelos campos para voltarem à estrada de Joiselle.
O leito da estrada de ferro barrava a passagem; atravessaram-no pondo
abaixo as cercas. Agora aproximavam-se de Montsou, a lenta ondulação
dos terrenos era mais baixa, alargando o mar das plantações e beterraba,
muito ao longe, até as casas escuras de Marchiennes.
Desta vez era uma caminhada de cinco quilômetros bem contados.
Tamanho entusiasmo os empurrava que nem sentiam o cansaço atroz, os pés
alquebrados e esfolados. O bando era cada vez maior, aumentando sempre
com os companheiros apanhados pelo caminho e nos conjuntos
habitacionais. Quando atravessaram o canal pela ponte Magache e se
apresentaram diante da Victoire, já eram dois mil. Mas já tinham dado três
horas, o trabalho terminara, não havia um só homem no fundo da mina. A
decepção que sentiram explodiu em vãs ameaças, a única coisa que fizeram
foi receber a cacos de tijolos os operários do desaterro que chegavam para
pegar o trabalho. Invadiram a mina, que, deserta, passou a pertencer-lhes. E,
no seu desapontamento por não terem uma cara de traidor para esbofetear,
atiraram-se às coisas. Um bolsão de rancor rebentava neles, uma pústula
envenenada, que se enchera aos poucos. Anos e anos de fome os torturavam
com uma sede de massacre e destruição.
Atrás de um galpão, Etienne divisou uns carregadores que enchiam
uma carroça de carvão.
— Deem o fora! — ordenou ele. — Daqui não sai um pedaço!
À sua ordem, acorreram uns cem grevistas, e os carregadores mal
tiveram tempo de escapar. Enquanto uns desatrelavam os cavalos, que,
assustados, partiram a galope, ferroados nas ancas, outros emborcavam a
carroça e quebravam os varais.
Levaque, com violentas machadadas, destruía os cavaletes para pôr
abaixo os passadiços. Como resistissem, teve a ideia de arrancar os trilhos,
de cortar a linha de um extremo a outro do pátio. Em seguida, todo o bando
trabalhava para o mesmo fim. Maheu fez saltar os suportes de ferro fundido
dos carris com a sua barra de ferro, que usava como alavanca. Enquanto
isso, a Queimada, liderando as mulheres, invadia o depósito de lâmpadas,
onde os porretes, dirigidos para todos os lados, cobriam o chão de
estilhaços. A mulher de Maheu, fora de si, batia tão forte como a de
Levaque. Todas elas ficaram cobertas de azeite, a filha de Mouque limpava
as mãos na saia, rindo de ver-se tão suja. Por brincadeira, Jeanlin tinha-lhe
despejado uma lâmpada pescoço abaixo.
Mas essas vinganças não enchiam a barriga. Os estômagos gritavam
mais alto. E a grande lamentação dominou outra vez o tumulto:
— Pão! Pão! Pão!
Justamente na Victoire, um antigo contramestre tinha uma cantina.
Certamente com medo, abandonara a sua barraca. Quando as mulheres
voltaram, tendo os homens acabado de destruir a linha férrea assediaram a
cantina, cujas janelas cederam imediatamente. Não encontraram pão, só
havia dois pedaços de carne crua e um de batatas. Mas, enquanto pilhavam,
descobriram umas cinquenta garrafas de genebra, que desapareceram como
uma gota de água na areia.
Etienne, que já esvaziara seu cantil, pôde reabastecê-lo. Pouco a
pouco, uma embriaguez perigosa, a embriaguez dos famintos,
congestionava seus olhos, fazia que seus dentes parecessem de lobo entre os
lábios pálidos. De repente notou que Chaval tinha escapado durante o
tumulto. Pôs-se a praguejar e alguns homens correram para caçar o fugitivo,
que se escondia com Catherine por trás de um monte de lenha.
— Ah! cachorro sem-vergonha! — berrou Etienne. — Então tens
medo de te comprometer? E eras tu que na floresta pedias a greve dos
mecânicos para parar as bombas!... Agora queres escapar, deixando-nos
sozinhos na enrascada, hem? Pois muito bem, com mil raios! Vamos voltar
à Gaston-Marie, eu quero que tu quebres a bomba. É isso! com mil raios! tu
vais quebrá-la!
Estava bêbado, ele próprio lançava seus homens contra a bomba
que tinha salvo algumas horas antes.
— À Gaston-Marie! A Gaston-Marie!
Todos o aclamaram e se precipitaram, enquanto Chaval, agarrado
pelos ombros, arrastado, empurrado violentamente, continuava a pedir que
o deixassem lavar-se.
— Vai-te embora! — gritou Maheu a Catherine, que também corria.
Desta vez ela nem sequer recuou, levantando para seu pai uns olhos
ardentes, e continuou a correr.
Outra vez o bando invadiu a planície rasa. Voltava sobre seus
passos, pelas compridas estradas retas, pelas terras cada vez mais amplas.
Eram quatro horas; o sol, que se punha no horizonte, lançava no solo gelado
as sombras daquelas hordas, de grandes gestos furiosos.
Desviaram-se de Montsou, dirigindo-se mais para cima, para a
estrada de Joiselle. E, para não darem a volta pela Fourche-aux-Boeufs,
passaram pelos muros da Piolaine. Naquele momento, precisamente, os
Grégoire acabavam de sair para visitar o notário, antes de irem jantar com
os Hennebeau, onde deveriam encontrar Cécile. A propriedade parecia
dormir, com sua avenida de tílias deserta, sua horta e seu pomar pelados
pelo inverno. Nada se movia na casa, cujas janelas fechadas se embaciavam
devido ao aquecimento interno. E do profundo silêncio emanava uma
impressão de bonomia e bem-estar, a sensação patriarcal de camas fofas e
mesa farta, de felicidade tranquila em que decorria a existência dos
proprietários.
Sem parar, o bando lançou olhares sombrios através das grades, ao
longo dos muros protetores, eriçados de cacos de garrafa. E o grito
recomeçou:
— Pão! Pão! Pão!
Apenas os cães responderam com latidos furiosos, dois enormes
dinamarqueses de pelo fulvo, que se punham nas patas traseiras, de goelas
arreganhadas. E, por trás de uma persiana fechada, não havia mais que as
duas criadas. Melanie, a cozinheira, e Honorine, a camareira, atraídas por
aquele grito, suando de medo, empalidecendo ao verem desfilar aquele
bando de selvagens. As duas caíram de joelhos, julgando-se mortas,
ouvindo uma pedra, uma só, que quebrava o postigo da janela ao lado. Era
mais uma de Jeanlin, que fabricara uma funda com um pedaço de corda, e,
de passagem, enviava lembranças aos Grégoire. Mas já voltara a soprar a
sua cometa e a turba sumia-se ao longe, com o grito cada vez mais fraco:
— Pão! Pão! Pão!
Quando chegaram à Gaston-Marie, eram ainda em maior número,
mais de dois mil e quinhentos furiosos, quebrando tudo, varrendo tudo, com
a força impetuosa de uma torrente. Os policiais tinham passado por ali uma
hora antes, seguindo depois para os lados da Saint-Thomas, mal informados
por camponeses, sem mesmo tomarem a precaução, na sua pressa, de deixar
uma guarnição de alguns homens, para proteger a mina. Em menos de
quinze minutos as fornalhas foram emborcadas, as caldeiras, esvaziadas, as
construções, invadidas e devastadas. Mas a bomba era o alvo principal. Não
bastou que parasse com um último sopro de vapor, atiravam-se contra ela
como a uma pessoa viva, a quem quisessem tirar a vida.
— Dá o primeiro golpe! — repetia Etienne, metendo um martelo na
mão de Chaval. — Vamos! Não juraste como os outros?
Chaval tremia, recuava. E no acotovelamento o martelo caiu,
enquanto os outros, sem esperar mais, destruíram a bomba com barras de
ferro, tijolos, com tudo o que encontravam à mão. Alguns chegaram a
esbordoá-la com varas. Os parafusos saltavam, as peças, de aço e de cobre
deslocavam-se, como membros arrancados. Um golpe de enxada
violentíssimo fez em pedaços o corpo de ferro fundido e a água jorrou. A
bomba, ao esvaziar-se, fez um ruído de gargarejo, semelhante a um arranco
de agonia.
Era o fim. O bando voltou para fora, enlouquecido, atropelando-se
atrás de Etienne, que não largava Chaval.
— Morte para o traidor! Ao poço! Ao poço!
O infeliz, lívido, gaguejava, voltando, com a obstinação imbecil da
idéia fixa, à sua necessidade de se lavar.
— Espera; se isso te incomoda — disse a mulher de Levaque —,
aqui está a tina!
Havia ali um charco, uma infiltração das águas da bomba. Estava
branco, coberto por uma espessa camada de gelo. Empurraram-no naquela
direção, quebraram o gelo e forçaram-no a mergulhar a cabeça na água
gélida.
— Vamos, mergulha! — repetia a Queimada. — Diabo! se não
entrares, jogamos-te aí dentro... E agora vais beber um trago, vais, sim!
como os animais, com o focinho no cocho!
E ele teve de beber de quatro pés. Todos riam, com a maior
crueldade. Uma mulher puxou-lhe as orelhas, outra jogou-lhe no rosto um
punhado de esterco que encontrara na estrada, ainda fresco. Seu velho
suéter não prestava mais, todo esfarrapado. E ele, desvairado, dava
encontrões, empurrava, tentando fugir.
Maheu o maltratava, a mulher estava entre as mais ferozes, ambos
dando vazão ao seu antigo rancor; a própria filha de Mouque, que de
ordinário permanecia em bons termos com seus namorados, estava fora de
si, chamava-lhe inútil, dizia que ia arrancar-lhe as calças para ver se ele
ainda era um homem.
Etienne fez que se calasse.
— Chega! Com esse, apenas um de nós pode dar conta do recado...
Se queres, eu e tu resolvemos o problema.
Seus punhos se fecharam, seus olhos iluminavam-se com um furor
homicida, a embriaguez transformava-se em desejo de matar.
— Estás pronto? Um de nós dois vai ficar aqui... Deem-lhe uma
faca. Eu já tenho a minha.
Catherine, esgotada, apavorada, olhava para ele. Lembrava-se das
suas confidências, da sua necessidade de dar cabo de alguém quando
bêbado, envenenado a partir do terceiro copo, a tal ponto seus pais viciados
no álcool tinham injetado aquela peçonha no seu corpo. Bruscamente ela
arremeteu contra ele, esbofeteou-o com suas mãos de mulher, gritando-lhe
na cara, sufocada de indignação:
— Covarde! Covarde! Covarde!... Já não chegam todas essas
atrocidades? Queres assassiná-lo, agora que ele não pode mais manter-se
em pé!
Virou-se para o pai e para a mãe, para todos os outros.
— Vocês não passam de uns covardes! Covardes, ouviram? Pois
matem-me com ele. Arranco os olhos de vocês, se o tocarem outra vez.
Covardes!
E pôs-se na frente do seu homem, defendendo-o; esquecia as surras,
esquecia a vida de miséria, arrebatada pela ideia de que pertencia a ele, já
que por ele fora escolhida, e que era uma vergonha para si própria que o
destruíssem assim.
Etienne, com os tapas da moça, ficara pálido. O primeiro ímpeto foi
de atacá-la, mas depois, tendo passado a mão pelo rosto, num gesto de
homem que se desembriaga, disse a Chaval, no meio de um grande silêncio:
— Ela tem razão, chega disso... Vai-te embora!
Sem mais esperar, Chaval saiu correndo, e Catherine atrás dele. A
multidão, boquiaberta, viu-os desaparecer na volta do caminho. A mulher
de Maheu murmurou então:
— Você errou, devia mantê-lo conosco. Certamente ele vai fazer
alguma traição.
Mas o bando pusera-se novamente em marcha. Já eram quase cinco
horas; o sol, rubro como brasa na fímbria do horizonte, incendiava a imensa
planície. Um vendedor ambulante que passava informou-lhes que a
cavalaria estava descendo para os lados da Crèvecoeur. A notícia fê-los
retroceder e espalhou-se outra palavra de ordem:
— Para Montsou! À direção! Pão! Pão! Pão!
continua na página 293...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.