A Felicidade ConjugalLiev TolstóiSegunda Parte
1
Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida na roça passaram
imperceptíveis, como parecia então; e, no entanto, dariam para a vida
inteira os sentimentos, a perturbação e a felicidade desses dois meses.
Os nossos sonhos sobre como ia arranjar-se a nossa vida na roça
realizaram-se de maneira completamente diversa do que esperávamos.
Mas a nossa existência não era pior que os nossos sonhos. Não havia
esse trabalho severo, o cumprimento de um dever de abnegação, de viver
para outrem, que eu imaginara quando noiva; existia pelo contrário um
sentimento de amor a si mesmo, em nosso amor, um pelo outro, um
desejo de ser amado, uma alegria contínua e sem motivo e o
esquecimento de tudo no mundo. É verdade, ele às vezes ia ocupar-se de
algo em seu escritório, por vezes partia para tratar de negócios na cidade
ou saía a cuidar da administração; mas eu via o quanto lhe era difícil
arrancar-se de perto de mim. E ele mesmo confessava depois que tudo
no mundo, onde eu não estava, parecia-lhe tamanha tolice que não
conseguia compreender como alguém podia tratar daquilo. Minha vida
decorria como antes. Eu lia, ocupava-me da música, da mãe dele, da
escola; porém tudo isso unicamente porque estava relacionado a ele e
merecia a sua aprovação; mas bastava o pensamento nele não se
acrescentar a alguma tarefa, as minhas mãos descaíam e parecia-me tão
divertido pensar que existia no mundo algo além dele. Talvez isto fosse
um sentimento ruim, de amor a mim mesma; mas ele dava-me felicidade
e elevava-me muito acima do mundo inteiro. Somente ele existia para
mim, e eu considerava-o como a pessoa mais bela, mais sem pecados no
mundo; e justamente por isso eu não conseguia viver para mais nada,
com exceção dele, só vivia para ser aos seus olhos aquilo que ele
esperava de mim. E ele, por sua vez, considerava-me a primeira, a mais
bela dentre as mulheres, que possuía todas as virtudes possíveis; e eu
procurava ser essa mulher aos olhos do primeiro e do melhor homem do
mundo.
De uma feita, ele entrou no meu quarto quando eu estava rezando a
Deus. Voltei-me para olhá-lo e continuei a rezar. Ele sentou-se à mesa, a
fim de não me estorvar, e abriu um livro. Mas tive a impressão de que
me olhava e tornei a virar-me. Ele sorriu, eu soltei uma risada e não
consegui prosseguir na oração.
— Já rezaste? — perguntei.
— Sim. Continua, eu vou embora.
— Tu rezas? Espero que sim.
Procurou sair dali sem responder, mas detive-o.
— Meu querido, por favor, faça isso por mim, reze comigo.
Colocou-se ao meu lado e, baixando desajeitado os braços, o rosto
sério, pôs-se a rezar, gaguejando. Voltava-se de raro em raro para mim,
procurava em meu rosto ajuda e aprovação.
Quando terminou, ri e abracei-o.
— Sempre tu, sempre tu! Como se eu tivesse de novo dez anos —
disse ele corando e beijando-me as mãos.
Nossa casa era uma dessas velhas casas de aldeia em que viveram
algumas gerações da mesma família, amando-se e respeitando-se. Tudo
cheirava a boas e honestas recordações familiares, as quais, apenas eu
entrara ali, tornaram-se como que também minhas recordações. Tatiana
Siemiônovna arrumava e administrava a casa à moda antiga. Não se
pode dizer que tudo fosse bonito e elegante; mas, desde a criadagem até
a mobília e a comida, era tudo farto, asseado, sólido, arrumado, e
infundia respeito. Na sala de visitas, a mobília estava disposta
simetricamente, pendiam retratos e, no chão, estendiam-se tapetes
caseiros e passadeiras. Na sala de repouso, havia um velho piano de
cauda, armários de dois modelos diversos, divãs e mesinhas com latão e
incrustações. No meu escritório, arrumado graças aos cuidados de
Tatiana Siemiônovna, estava a mobília melhor, de diferentes séculos e
modelos, além de um velho tremó, para o qual eu a princípio não podia
olhar sem ficar encabulada, mas que depois se tornou caro para mim,
como um velho amigo. Não se ouvia Tatiana Siemiônovna, porém tudo
em casa funcionava como um relógio, embora houvesse muita gente
supérflua. Mas toda essa gente, que usava botas macias, sem saltos
(Tatiana Siemiônovna considerava o ranger das solas de sapato e o bater
de saltos como a coisa mais desagradável no mundo), toda essa gente
parecia orgulhosa da sua condição, palpitavam ante a velha senhora,
olhavam para mim e meu marido com um carinho condescendente e
pareciam executar as suas tarefas com particular prazer. Todos os
sábados, infalivelmente, lavava-se o chão da casa e batiam-se os tapetes,
cada dia primeiro celebrava-se um ofício e esparzia-se água benta,
sempre que uma criança recebia o nome de Tatiana Siemiônovna, do seu
filho (e o meu, pela primeira vez, nesse outono), celebrava-se uma
festança, convidando-se todos os vizinhos. E tudo isso fazia-se
invariavelmente desde os primeiros tempos de que Tatiana Siemiônovna
se lembrava. O meu marido não se imiscuía na administração da casa e
ocupava-se somente com as coisas agrícolas e os camponeses, mas
ficava muito atarefado. Mesmo no inverno, levantava-se muito cedo, de
modo que, ao acordar, eu não o encontrava mais. Voltava geralmente
para o chá, que tomávamos a sós, e quase sempre nessa ocasião, depois
das correrias e preocupações decorrentes dos seus afazeres estava
naquela peculiar disposição alegre que nós chamávamos de entusiasmo
selvagem. Frequentemente, eu exigia que me contasse o que fizera de
manhã, e ele me dizia tais absurdos que nós quase morríamos de rir: às
vezes, eu exigia um relato sério, e ele o fazia, contendo o sorriso. Eu
fitava-o nos olhos, nos lábios que se moviam, e não compreendia nada,
apenas me alegrava de vê-lo e ouvir-lhe a voz.
— Bem, o que foi que eu disse? Repita — perguntava ele. Mas eu era
incapaz de fazê-lo. Era tão engraçado que ele me contasse coisas que
não se referiam a mim e a ele. Como se não me fosse indiferente tudo o
que fazia por lá. Somente bem mais tarde, comecei a compreender um
pouco as suas preocupações e a interessar-me por elas. Tatiana
Siemiônovna não saía do quarto antes do jantar, tomava chá sozinha e só
nos cumprimentava por meio de embaixadores. Em nosso mundinho
peculiar, loucamente feliz, ressoava tão estranhamente aquela voz vinda
de um outro canto, repassada de gravidade e boas maneiras, que eu
frequentemente não me continha e somente dava gargalhada, em
resposta à criada que, cruzando os braços, comunicava pausadamente
que Tatiana Siemiônovna mandara saber como dormimos depois do
passeio da véspera e comunicar que tivera a noite inteira uma dor do
lado e que um cachorro estúpido da aldeia latira, impedindo-a de dormir.
“E ainda mandou perguntar se gostaram das bolachas de hoje, e pediu
para observar que não foi Tarás quem as preparou, mas, por experiência,
pela primeira vez, o Nikolacha,¹ e saiu-se nada mal, principalmente
com as rosquinhas, mas não tirou as torradas a tempo do forno.” Até o
jantar, passávamos pouco tempo juntos. Eu tocava piano, lia sozinha, ele
escrevia, tornava a sair; mas, para o jantar, às quatro horas, reuníamo-nos na sala de visitas, a mãe dele deslizava para fora do seu quarto, e
apareciam umas pobres fidalgas em peregrinação, pois havia sempre
umas duas ou três hospedadas em casa. Todos os dias infalivelmente,
meu marido, seguindo velho costume, dava o braço à mãe, a fim de
conduzi-la para o jantar; mas ela exigia que me desse o outro, e
infalivelmente, todos os dias, ficávamos comprimidos e atrapalhados na
entrada da sala. Também a mãe presidia à mesa, e a conversa era sempre
conveniente, judiciosa e um tanto solene. As palavras simples que eu
trocava com meu marido destruíam agradavelmente a solenidade dessas
sessões de jantar. Às vezes, tinham lugar entre o filho e a mãe discussões
e caçoadas; eu gostava disso particularmente, pois nelas é que se
expressava com mais força o amor terno e firme que os unia. Depois do
jantar, maman sentava-se numa grande poltrona na sala de visitas e
picava fumo ou cortava as páginas de livros recém-recebidos, e nós
líamos em voz alta ou íamos à sala de repouso, para junto do piano.
Nessa época, líamos muito, juntos, mas a música era o nosso melhor e
mais amado prazer, atingindo cada vez novas cordas em nossos corações
e como que tornando a desvendar-nos um ao outro. Quando eu tocava as
suas peças prediletas, ele sentava-se num divã afastado, onde eu quase
não o via, e por vergonha do sentimento, procurava esconder a
impressão que a música lhe causava; mas frequentemente, quando ele
menos esperava, eu erguia-me do piano, aproximava-me dele e tentava
surpreender-lhe no rosto os vestígios de perturbação, o brilho pouco
natural e os olhos úmidos, que ele procurava em vão esconder de mim.
A mãe frequentemente tinha vontade de olhar para nós na sala de
repouso, mas, provavelmente temerosa de nos constranger, e às vezes
parecendo não nos olhar, cruzava a sala com um rosto fingidamente
sério e indiferente; mas eu sabia que ela não tinha motivo para ir ao seu
quarto e voltar tão depressa. Era eu quem servia o chá da noite, na
grande sala de visitas, e novamente todos se reuniam à mesa. Durante
muito tempo, eu ficava perturbada com esta sessão solene, junto ao
espelho do samovar, e com a distribuição de copos e xícaras. Eu tinha
continuamente a impressão de ser ainda indigna dessa honra, de ser
demasiado jovem e fútil, para virar a torneira de um samovar tão grande,
colocar o copo sobre a bandeja de Nikita e dizer: “A Piotr Ivânovitch, a
Mária Mínitchna”, perguntar: “Está doce?” e deixar torrões de açúcar
para a ama-seca e os criados mais merecedores. “Bonito, bonito —
acrescentava muitas vezes meu marido —, parece gente grande”, e isso
perturbava-me ainda mais.
[1] Diminutivo de Nikolai. (N. do T.)
Depois do chá, maman espalhava o jogo da paciência ou ouvia as
adivinhações de Mária Mínitchna; depois nos beijava a ambos, fazia
sobre nós o sinal da cruz, e íamos para o nosso quarto. No entanto,
quase sempre, ficávamos sentados até depois de meia-noite, e este era o
nosso tempo melhor e mais agradável. Ele me contava o seu passado,
fazíamos planos, às vezes filosofávamos e procurávamos dizer tudo a
meia-voz, para que não nos ouvissem em cima e não fossem denunciar
nos a Tatiana Siemiônovna, que exigia de nós que deitássemos cedo. Às
vezes, com fome, íamos às escondidas para a cozinha, obtínhamos a ceia
fria, graças à proteção de Nikita, e a comíamos à luz de uma só vela, em
meu escritório. Vivíamos os dois como estranhos nessa casa grande e
velha, em que pairava sobre todas as coisas o espírito severo do antigo,
bem como o de Tatiana Siemiônovna. Não apenas ela, mas os criados, as
solteironas, a mobília, os quadros, suscitavam o meu respeito, certo
medo e a consciência de que estávamos um pouco fora do nosso lugar, e
que precisávamos viver ali com muito cuidado e atenção. Ao lembrar
agora aqueles dias, vejo que muita coisa — aquela invariável ordem, que
nos amarrava, aquela infinidade de pessoas ociosas e indiscretas em
nossa casa — era incômoda e pesada; mas, naquele tempo, o próprio
constrangimento em que vivíamos vivificava ainda mais o nosso amor.
Não só eu, mas também ele, não dávamos mostra de que algo nos
desagradava. Ele parecia até esconder-se do que era ruim. O criado de
mamãe, Dmítri Sídorov, grande apreciador do cachimbo, ia
regularmente todos os dias, depois do jantar, quando estávamos na sala
de repouso, ao escritório de meu marido, a fim de apanhar fumo numa
gaveta; e era de se ver o medo alegre com que Sierguiéi Mikháilitch
acercava-se de mim na ponta dos pés e, fazendo ameaças com o dedo e
piscando um olho, apontava Dmítri Sídorovitch, que não suspeitava de
modo algum estar sendo visto. E quando Dmítri Sídorov ia embora sem
nos ter percebido, contente porque tudo acabara bem, como das vezes
anteriores, meu marido dizia que eu era uma pérola e beijava-me. Às
vezes, desagradavam-me essa tranquilidade, esse perdão de tudo, essa
como que indiferença: eu não percebia que o mesmo existia em mim, e
considerava-o uma fraqueza. “É como uma criança que não ousa mostrar
a sua vontade!” — pensava eu.
— Ah, minha amiga — respondeu-me de uma feita em que lhe disse
estar surpreendida com a sua fraqueza —, pode-se acaso estar
descontente com alguma coisa, quando se é tão feliz como eu? É mais
fácil nós mesmos cedermos do que subjugar a outrem, já me convenci
disso há muito tempo; e não existe uma situação em que não se possa
ser feliz. E nós estamos tão bem! Não posso ficar zangado; para mim
agora não existem coisas ruins, só existe o que é lastimável e o que é
divertido. E, sobretudo, le mieux est l'ennemi du bien.² Acreditas?
Quando ouço a campainha, quando recebo uma carta ou simplesmente
acordo, tenho medo. Medo de que seja preciso viver, de que algo vá
mudar; e não possa existir nada melhor que esta nossa vida de agora.
[2] Provérbio francês: “o melhor é inimigo do bom”. (N. do T.)
Eu acreditava, mas não o compreendia. Sentia-me bem, mas, ao
mesmo tempo, tinha a impressão de que, embora tudo isso fosse assim,
existia em alguma parte uma outra felicidade, ainda que não maior.
Assim decorreram dois meses, chegou o inverno com os seus frios e
tempestades de neve, e, embora ele estivesse comigo, comecei a sentir
me solitária, comecei a sentir que a vida se repetia, e não havia quer em
mim quer nele nada de novo, e que, pelo contrário, nós como que
voltávamos ao antigo. Ele começou a ocupar-se de negócios mais que
antes, e novamente passou a parecer-me que havia em seu íntimo certo
mundo peculiar, no qual ele não me queria deixar penetrar. A sua
tranquilidade de sempre irritava-me. Eu o amava não menos que antes, e
não menos que antes era feliz com o seu amor; mas o meu amor deteve
se e não crescia mais, e, além do amor, não sei que novo sentimento
inquieto começava a penetrar-me furtivamente a alma. Amar era pouco
para mim, depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por
ele. Eu queria movimento, e não uma fluência tranquila da vida. Queria
inquietação, perigos e autossacrifício em prol do sentimento. Havia em
mim um excesso de força, que não encontrava lugar em nossa vida
sossegada. Assaltavam-me repentes de angústia, que eu procurava
esconder dele, como algo ruim, e repentes de ternura desenfreada e
alegria, que o assustavam. Ele percebeu ainda antes de mim o meu
estado e propôs-me irmos para a cidade; mas eu lhe pedi para não o
fazermos, a fim de não mudar o nosso modo de vida, não alterar a nossa
felicidade. E realmente eu era feliz; mas atormentava-me o fato de que
essa felicidade não me custava nenhum trabalho, nenhum sacrifício,
enquanto as forças do trabalho e do sacrifício, reprimidas, me faziam
sofrer. Amava-o e via que era tudo para ele; mas eu queria que todos
vissem o nosso amor, que me impedissem de amá-lo e que eu o amasse
assim mesmo. A minha inteligência e até o meu sentimento estavam
ocupados, mas havia outro sentimento: de juventude, de necessidade de
movimento, e que não encontrava satisfação em nossa vida quieta. Por
que ele me dissera que podíamos ir para a cidade, logo que eu o
quisesse? Se não me dissesse isso, talvez eu tivesse compreendido que o
sentimento que me fazia sofrer era um absurdo pernicioso, do qual eu
era culpada, que o sacrifício procurado por mim estava ali, bem
próximo, e consistia em sufocar aquele sentimento. Vinha-me
involuntariamente o pensamento de que eu só podia salvar-me da
angústia mudando para a cidade; e, ao mesmo tempo, tinha escrúpulos e
lamentava arrancá-lo, para vantagem minha, de tudo o que ele amava. E,
enquanto isso, o tempo ia passando, a neve escondia cada vez mais as
paredes da casa, e nós sempre vivíamos sozinhos, e éramos sempre os
mesmos um em relação ao outro; e alhures, ao longe, multidões
humanas inquietas sofriam e alegravam-se, em meio ao brilho e ao
ruído, sem pensar em nós nem em nossa existência, que desaparecia. O
pior para mim estava no fato de que eu sentia como, dia a dia, os hábitos
da vida acorrentavam a nossa existência numa forma determinada, como
o nosso sentimento se tornava não livre, mas submetia-se à fluência
regular, desapaixonada, do tempo. De manhã, nós éramos alegres, na
hora do jantar respeitosos, à noitinha carinhosos. “O bem!... — dizia eu
a mim mesma. — É excelente praticar o bem e viver honestamente,
como ele diz; mas ainda teremos tempo para isso, e existe algo para o
qual somente agora eu tenho força.” Não era disso que eu precisava, mas
de luta; eu necessitava que o sentimento nos dirigisse na vida, e não que
a vida dirigisse o sentimento. Eu queria chegar com ele até um abismo e
dizer: mais um passo e vou lançar-me ali, mais um movimento e estou
perdida — e que ele empalidecesse à beira do abismo, me tomasse em
seus braços vigorosos, me segurasse um pouco sobre o precipício, a
ponto de meu coração ficar gelado, e me levasse para onde quisesse.
Esse estado afetou até a minha saúde e meus nervos começaram a
ficar abalados. Certa manhã, eu me senti pior que de costume; ele viera
mal-humorado do escritório da propriedade, o que raramente lhe
acontecia. Percebi isso no mesmo instante e perguntei-lhe o que tinha.
Mas ele não me quis contá-lo, dizendo que aquilo não valia a pena.
Conforme eu soube mais tarde, o isprávnik³ reunira os nossos
mujiques, e, por antipatia ao meu marido, exigira deles certos atos
ilegais e os ameaçara. Meu marido não pudera ainda aceitar tudo isso
como apenas ridículo e insignificante, estava irritado e por isso não
queria falar comigo. Mas eu tive a impressão de que era porque me
considerava uma criança, que não poderia compreender o que o
preocupava. Voltei-lhe o rosto, calei-me e mandei chamar para o chá
Mária Mínitchna, que estava hospedada em nossa casa. Depois do chá,
que eu terminei com peculiar rapidez, acompanhei-a à sala de repouso e
pus-me a falar alto com ela de não sei que tolices, que eram nada
divertidas para mim. Ele caminhou pela sala, dirigindo raramente os
olhos para nós. Por algum motivo, aqueles olhares atuavam sobre mim
de tal modo que eu tinha uma vontade cada vez maior de falar e, mesmo,
de rir; parecia-me engraçado tudo o que eu dizia, bem como tudo o que
dizia Mária Mínitchna. Sem me dizer nada, ele foi para o escritório e
fechou a porta atrás de si. Quando deixamos de ouvi-lo, toda a minha
alegria desapareceu num átimo, de modo que Mária Mínitchna ficou
surpreendida e começou a perguntar o que eu tinha. Sem lhe responder,
sentei-me no divã e tive vontade de chorar. “E o que ele está remoendo
agora? — pensei. — Alguma tolice, que lhe parece importante, mas é só
ele dizer-me, e eu lhe mostrarei que é tudo uma insignificância. Não, ele
precisa pensar que eu não compreenderei, precisa humilhar-me com a
sua tranquilidade altiva e sempre ter razão contra mim. Mas, em
compensação, também eu tenho razão quando sinto tédio e vacuidade,
quando quero viver, movimentar-me — pensei — em vez de ficar parada
no mesmo lugar e sentir como o tempo passa por cima de mim. Quero ir
para frente e, cada dia, cada hora, quero algo novo, e ele quer deter-se e
deter-me com ele. E como o contrário seria fácil para ele! Para isso, não
precisava levar-me para a cidade, para isso precisa ser apenas uma
pessoa como eu, não se violentar, não se frear, mas viver com
simplicidade. É exatamente isso que ele me aconselha, mas ele mesmo
não é simples. Aí é que está!”
[3] Chefe da polícia de um distrito, na Rússia tsarista. (N. do T.)
Senti que lágrimas me assediavam o coração e que eu estava irritada
com meu marido. Assustei-me com esta irritação e fui para junto dele.
Estava sentado no escritório, escrevendo. Ouvindo os meus passos,
olhou-me por um instante, com indiferença e tranquilidade, e continuou
a escrever. Este olhar não me agradou; em lugar de acercar-me dele,
cheguei-me à mesa em que escrevia e, abrindo um livro, pus-me a olhar.
Ele desviou mais uma vez os olhos do trabalho, dirigindo-os para mim.
— Macha! Estás de mau humor?
Respondi com um olhar frio, que significava: “Não precisas
perguntar! Que amabilidades são essas?”. Ele meneou a cabeça e sorriu
com timidez e carinho, mas, pela primeira vez, o meu sorriso não
respondeu ao seu.
— O que foi que te aconteceu hoje? — perguntei. — Por que não me
contaste?
— São bobagens! Um pequeno aborrecimento. Mas, agora, posso
contar-te. Dois mujiques foram à cidade...
Mas eu não deixei que terminasse.
— Por que não me contaste isso naquela hora em que te perguntei,
durante o chá?
— Teria dito alguma tolice, estava então muito zangado.
— Mas era justamente então que eu precisava disso.
— Para quê?
— Por que pensas que eu nunca posso ajudar-te em nada?
— Como: penso? — disse ele, largando a pena. — Eu penso que não
posso viver sem ti. Não só tu me ajudas em tudo, tudo, mas também
fazes tudo. Que coisa imaginaste! — riu ele. — Somente tu me fazes
viver. Tenho a impressão de que tudo está bem unicamente porque estás
aqui, porque preciso de ti...
— Sim, eu sei, sou uma criança querida, que é preciso tranquilizar
— disse eu com tal entonação que ele me olhou surpreso, como se visse
algo pela primeira vez. — Eu não quero tranquilidade, tu a possuis
bastante, bastante mesmo — acrescentei.
— Bem, estás vendo do que se trata? — começou ele apressado,
interrompendo-me, evidentemente com medo de me deixar dizer tudo.
— Como o resolverias?
— Agora não quero — respondi. Embora eu tivesse vontade de ouvi-lo, agradava-me tanto destruir a sua tranquilidade. — Eu não quero
brincar de vida, quero viver do mesmo modo que tu.
O seu rosto, onde tudo se refletia tão rápida e vivamente, expressou
dor e uma atenção concentrada.
— Quero viver contigo em concórdia, contigo...
Mas não consegui dizer até o fim o que pretendia: o seu rosto
expressou tanta tristeza, e tão profunda. Calou-se um pouco.
— E onde está a falta de concórdia na tua vida comigo? — disse ele.
— Estará no fato de que eu, e não tu, ocupo-me com o isprávnik e com
mujiques bêbados?...
— Não é só nisso — disse eu.
— Compreende-me, pelo amor de Deus, meu bem — prosseguiu ele
— eu sei que as inquietações sempre nos causam sofrimento, eu vivi e
aprendi isto. Eu te amo e, por conseguinte, não posso deixar de querer
livrar-te das inquietações. Nisso consiste a minha vida, no amor por ti;
mas, neste caso, não me impeças também de viver.
— Tens sempre razão! — disse eu, sem olhá-lo.
Eu sentia despeito pelo fato de que, novamente, tudo estava claro e
tranquilo em sua alma, enquanto em mim havia amargura e um
sentimento que se assemelhava a remorso.
— Macha! O que tens? — disse ele. — Não se trata de saber se tu ou
eu temos razão, mas de algo muito diverso: o que tens contra mim? Não
fales de repente, pensa um pouco, para me dizeres tudo o que pensas.
Estás descontente comigo, e tens provavelmente razão, mas deixa-me
compreender qual é a minha culpa.
Mas como podia eu expressar-lhe a minha alma? Perturbou-me ainda
mais que ele me tivesse compreendido com tanta rapidez, que eu fosse
novamente uma criança perante ele e nada pudesse fazer que ele não
compreendesse e não tivesse previsto.
— Não tenho nada contra ti — disse eu. — Simplesmente, tenho
tédio, e não quero senti-lo. Mas tu dizes que assim é que deve ser e,
mais uma vez, tens razão!
Dito isso, olhei para ele. Atingira o meu objetivo, sua tranquilidade
desaparecera, havia sofrimento e medo em seu rosto.
— Macha — começou ele, a voz baixa, perturbada. — O que
fazemos agora não é uma brincadeira. Está-se decidindo o nosso destino.
Peço-te não responder nada e prestar muita atenção. Por que pretendes
atormentar-me?
Mas eu o interrompi.
— Sei que terás razão. É melhor não falares, tens razão — disse eu
com frieza, como se não fosse eu, mas algum mau espírito, que falasse
em mim.
— Se soubesses o que fazes! — disse ele, a voz trêmula.
Chorei e me senti aliviada. Ele estava sentado ao meu lado,
silencioso. Eu tinha pena dele, vergonha por mim e aborrecimento por
aquilo que acabava de fazer. Não o olhava. Tinha a impressão de que,
nesse momento, ele devia me olhar severo ou com perplexidade. Espiei:
estava fixo em mim um olhar humilde, terno, como que pedindo perdão.
Tomei-lhe a mão e disse:
— Perdoa-me! Eu mesma não sei o que disse.
— Sim; mas eu sei o que disseste, e dizias a verdade.
— O quê? — perguntei.
— Que devemos viajar para Petersburgo — disse ele. Não temos
mais o que fazer aqui.
— Como queiras — disse eu.
Abraçou-me e beijou-me.
— Perdoa-me — disse ele. — Sou culpado em relação a ti.
Nessa noite, toquei piano para ele longamente, e ele ficou
caminhando pelo quarto, murmurando algo. Tinha o hábito de
murmurar, e eu perguntava-lhe com frequência o que murmurava, e,
depois de pensar um pouco, ele sempre me respondia exatamente o que
murmurara: na maioria dos casos, eram versos, às vezes umas tolices
tremendas, mas tolices pelas quais eu ficava conhecendo o seu estado de
espírito.
— O que estás murmurando hoje? — perguntei.
Parou, pensou um pouco e, sorrindo, respondeu com dois versos de
Liérmontov4 .
[4] O escritor e poeta romântico russo Mikhail Liérmontov (1814
1841). (N. do T.)
... E o insensato quer tormenta,
Como se nela houvesse paz!
“Não, ele é mais que uma pessoa; ele sabe tudo! — pensei — Como
não o amar?!”
Levantei-me, dei-lhe o braço e pus-me a andar com ele, procurando
acertar o passo.
— Sim? — perguntou, olhando-me com um sorriso.
— Sim — disse eu, num murmúrio; e não sei que disposição alegre
apossou-se de nós ambos, os nossos olhos riam, e dávamos passos cada
vez maiores, e cada vez nos erguíamos mais nas pontas dos pés. E para
grande indignação de Grigóri e espanto de mamãe, que estava
espalhando a sua paciência na sala de visitas, dirigimo-nos com o
mesmo passo, através de toda a casa, para a sala de jantar, onde nos
detivemos, olhamo-nos e soltamos uma gargalhada.
Duas semanas depois, nas vésperas de um feriado, já estávamos em
Petersburgo.
continua na página 78...
___________________
Leia também...
Primeira Parte:
Segunda Parte:
1- Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida /
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com