domingo, 20 de setembro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto VI.b - Odisseu chega à Feácia)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VI

Odisseu chega à Feácia

    “Atena aparece em sonho para Nausícaa, filha de Alcínoo, e manda-a ir lavar suas roupas no rio, pois seu casamento está próximo. Ela faz o que é pedido. Depois, ela brinca com suas servas. Odisseu ouvindo-as, acorda. Pedindo a Nausícaa, recebe alimento e vestimentas, seguindo-a, então, até a cidade.” (Scholie P Q V)
continuando...

pois os meus olhos jamais contemplaram tão nobre vergôntea 
entre quaisquer dos mortais; reverente me deixa tua vista. 
Uma só vez coisa igual contemplei: junto às aras de Apolo, 
na ilha de Dela, rebento viçoso de esbelta palmeira. 
Fora, também, até lá, acompanhado de séquito grande, 
numa viagem que fonte de acerbo sofrer me seria. 
Da mesma forma fiquei muito tempo enlevado em mirá-la, 
pois uma planta como essa jamais pela terra nascera. 
Dessa maneira te admiro, mulher, extasiado, mas temo 
ir abraçar-te os joelhos, conquanto por males premido.

Ontem, após vinte dias, salvei-me do mar cor de vinho. 
Todo esse tempo, trouxeram-me as ondas e as atras procelas 
desde a ilha Ogígia. Afinal, arrojou-me um demônio a estas plagas, 
para sofrer, porventura, mais dores. Não creio que estejam 
para acabar-se, que os deuses, por certo, outros males me aprestam. 
Por isso tudo, senhora, te imploro piedade; primeiro 
que a ninguém mais te suplico na angústia, porque não conheço 
dos habitantes nenhum, que demoram por estas paragens. 
Mostra onde fica a cidade e um pedaço de pano me cede 
para cobrir-me, se acaso o trouxeste envolvendo tua roupa.

Deem-te os deuses obter quantos bens no mais íntimo almejas, 
casa e marido, assim como com ele viver em concórdia 
sem semelhante, pois nada é mais grato, nem mais de almejar-se, 
do que marido e mulher governarem, acordes, a casa, 
em comunhão de vontades. Com isso os imigos se irritam, 
mas os amigos exultam; ao máximo os dois rejubilam.” 
Diz-lhe Nausícaa, de cândidos braços, então, em resposta: 
“Não me parece que sejas estulto nem mau, estrangeiro. 
O próprio Olímpico Zeus dá variados presentes aos homens, 
a todos eles, os bons e os ruins, como o peito lhe pede.

Deu-te, também, a tua parte; ora cumpre sofrer com paciência. 
Visto, porém, teres vindo à cidade e país que habitamos, 
necessitado de roupa não hás de ficar por mais tempo, 
nem do restante que os pobres costumam pedir aos estranhos. 
Hei de mostrar-te a cidade e dizer qual o nome do povo. 
São os Feácios os que na cidade e na terra demoram. 
Enquanto a mim, sou nascida de Alcínoo, de peito magnânimo, 
que entre os Feácios impera e detém o governo e o comando.” 
   Disse; e às escravas de tranças bem-feitas ordena, em seguida: 
“Ora detende-vos, servas. Fugis só à vista de um homem? 

Ou presumis que ele vem para nós com malévolo intento? 
Nunca nasceu nenhum homem, que espere alcançar longa vida, 
nem há de haver, que chegasse aos Feácios e à terra em que moram, 
para algum dano causar-lhes, pois todos são caros aos deuses. 
Nós a de parte moramos de todos, no mar cheio de ondas, 
últimos seres humanos, sem termos contato com outros. 
Este, porém, que nos chega, é estrangeiro infeliz e vagante, de quem 
nos cumpre cuidar. Vêm de Zeus poderoso os mendigos 
e os estrangeiros; embora pequenas, são gratas as dádivas. 
Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida,

e ide banhá-lo no rio, em lugar protegido dos ventos.” 
   A essas palavras as servas detêm-se e entre si se encorajam. 
Para lugar abrigado, no rio, Odisseu conduziram, 
como Nausícaa o ordenara, de Alcínoo magnânimo filha. 
Para vestir-se puseram-lhe ao lado uma túnica e um manto, 
e um frasco de ouro no qual óleo havia, com que se esfregasse, 
e na corrente do rio o invitaram, depois, a banhar-se. 
Mas o divino Odisseu às criadas falou deste modo: 
   “Ora afastai-vos um pouco, que eu mesmo a salsugem marinha 
quero dos ombros tirar e esfregar-me, em seguida, com óleo,

pois o meu corpo, há bem tempo, carece de tantos desvelos. 
É-me impossível banhar-me na vossa presença; envergonho-me 
de desnudar-me na frente de moças de tranças bem-feitas.” 
   Disse; afastaram-se as servas e foram contá-lo à donzela. 
Lava-se, entanto, Odisseu na corrente, tirando da pele 
toda a salsugem deposta no dorso e nas largas espáduas, 
e dos cabelos a espuma empastada do mar infecundo. 
Quando acabou de banhar-se e esfregar todo o corpo com óleo, 
na roupa envolve-se que lhe a donzela pudica cedera. 
Fê-lo ficar a nascida de Zeus, de olhos glaucos, Atena

muito mais digno de ver e mais forte, caindo-lhe os cachos 
em caracóis, da cabeça, tal como os da flor do jacinto. 
Do mesmo modo que artista perito derrama na prata 
lâminas de ouro, discíp’lo que fora de Hefesto e de Palas 
em variados misteres, e faz admiráveis trabalhos: 
Palas, assim, na cabeça e nos ombros infunde-lhe graça. 
Este, afastando-se, foi assentar-se na praia marinha, 
resplandecente de graça e beleza. Admirou-o a donzela, 
e dirigindo-se às servas de tranças bem-feitas lhes disse: 
   “Ora atendei ao que digo, criadas de cândidos braços.

Não é, decerto, contrário à vontade dos deuses, que habitam 
o vasto Olimpo, ter vindo este herói aos deiformes Feácios. 
Logo a princípio, em verdade, indivíduo vulgar pareceu-me; 
mas vejo-o agora tal como um dos deuses, que moram no Olimpo. 
Se me coubesse por sorte alcançar um marido como este 
e lhe agradasse ficar aqui mesmo e entre nós ter morada! 
Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida.”¹
   Obedientes, as servas fizeram como ela ordenara, 
pondo bebida e alimentos ao lado do nobre guerreiro. 
Com avidez o divino e sofrido varão come e bebe,

pois muitos dias havia que estava em jejum doloroso. 
Outro artifício concebe Nausícaa de cândidos braços: 
manda dobrar toda a roupa e depô-la no carro bem-feito, 
fez que no jugo pusessem as mulas robustas, e sobe, 
por sua vez, concitando Odisseu da maneira seguinte: 
   “Hóspede, agora me segue à cidade; desejo mostrar-te 
onde reside meu pai valoroso. Verás lá reunidos 
em sua casa os mais nobres senhores do povo Feácio. 
Desta maneira procede; insensato não creio que sejas: 
enquanto apenas cortamos por campos lavrados por homens,

segue de perto as donzelas e as mulas robustas e o carro, 
com passo rápido; eu própria hei de à frente o caminho mostrar-te. 
Alcançaremos depois a cidade e seus muros altivos; 
ancoradouro aprazível em cada um dos lados ostenta; 
é pouco larga a passagem entre eles; no seco se encontram 
as naus simétricas, tendo cada uma um tendal ajustado. 
A ágora vê-se, também, junto ao templo de linhas perfeitas 
do deus Posido, construída com blocos cravados no solo. 
Só com os pertences das naves escuras os homens se ocupam, 
cordas e todo o velame, e também de falcar belos remos,

pois os Feácios, de fato, não cuidam de aljavas nem de arcos, 
mas só de mastros e remos e naves de linhas simétricas; 
isso para eles é festa, e vogar pelo mar pardacento. 
Quero evitar comentários do povo; não vá censurar-me, 
com ironia, um qualquer; insolentes não faltam na terra. 
Pode bem ser que encontremos um desses, que diga, maldoso: 
‘Quem será esse estrangeiro, que segue a Nausícaa, tão belo 
e de tal porte? Onde o achou? Com certeza o escolheu para esposo. 
É, porventura, transviado varão, que ela traz de um navio, 
desses de terras longínquas, pois perto de nós ninguém mora,

ou qualquer deus que baixasse do Olimpo, atendendo
a seus rogos, a quem constante suplica; ora sempre ao seu lado vai tê-lo. 
Foi bem melhor que ela própria quisesse buscar o consorte 
em terra estranha, uma vez que despreza os rapazes Feácios. 
Muitos a têm pretendido, entre os filhos mais nobres da terra.’ 
Isto, sem dúvida alguma, dirão, para minha vergonha. 
Mas eu, também, censurara donzela que assim procedesse, 
que à revelia dos que lhe são caros, dos pais ainda vivos, 
aparecesse entre os homens, sem ter ainda as núpcias firmado. 
Ora, estrangeiro, concede-me toda a atenção, porque possas

logo alcançar de meu pai companheiros, que à pátria te levem. 
Perto da estrada hás de ver o magnífico bosque de Atena, 
de negros álamos, onde há uma fonte; é cercado de um prado. 
Nesse lugar tem meu pai um florido jardim, seu terreno, 
que da cidade se encontra a distância somente de grito. 
Senta-te e espera, até vires que tempo tivemos bastante 
de penetrar na cidade e alcançar de meu pai o palácio. 
Mas, logo que presumires que a casa tenhamos chegado, 
podes, então, dirigir-te à cidade dos homens Feácios, 
onde te cumpre indagar da morada de Alcínoo guerreiro.

Ela é mui fácil de ser conhecida; até ingênua criança 
te indicará, pois nenhuma das casas dos outros Feácios 
tem semelhança com essa em que mora o magnânimo Alcínoo. 
Logo porém, que tiveres entrado na casa e no pátio, 
corta através dos salões, porque o posto alcançar logo possas 
de minha mãe, que se encontra sentada à lareira, fiando 
lã cor de púrpura ao brilho do fogo, espetác’lo admirável. 
Tem por encosto a coluna; por trás as criadas se encontram. 
Junto a essa mesma coluna se vê de meu pai a poltrona, 
onde costuma sentar-se, qual deus, a libar com bom vinho.

Não te detenhas aí, mas procura abraçar os joelhos 
de nossa mãe, porque possas rever o teu dia da volta 
sem mais demora, ainda mesmo que te aches mui longe da pátria. 
Caso te escute e em seu peito propícia se mostre à tua sorte, 
podes a esp’rança afagar de rever os amigos, e a casa 
bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença.” 
   Tendo assim dito, espertou com o brilhante chicote a parelha 
de fortes mulas, que céleres deixam o curso do rio, 
a percorrer o caminho, ora a trote, ora a passos medidos. 
Mui cautelosa, as dirige Nausícaa, estalando o chicote,

para que as servas, bem como Odisseu, para trás não ficassem. 
Punha-se o sol, quando todos o célebre bosque alcançaram 
à deusa Atena sagrado, onde o divo Odisseu se deteve, 
que logo faz suas preces à filha de Zeus poderoso: 
   “Ouve-me agora, ó donzela invencível, de Zeus proveniente! 
Dá-me atenção, já que dantes embalde te envicei meus gemidos, 
quando me fez naufragar o deus forte, que sacode a terra. 
Faze que os Feácios de mim se apiedem e amigos se mostrem.” 
   Dessa maneira suplica Odisseu. Ouve-o Palas Atena, 
mas não se atreve a visível ficar, porque ao tio paterno

teme, em verdade, o qual sempre e veemente se mostra indignado 
contra o deiforme Odisseu, té que à pátria não fosse chegado.²

continua página 755...
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Prelúdio
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Este trecho marca o instante em que Nausícaa, já tocada pela presença de Odisseu, deixa de vê‑lo como um náufrago desconhecido e passa a reconhecê‑lo como alguém digno de admiração — talvez até de afeto. É uma virada emocional delicada e decisiva na Odisseia.
     A mudança de percepção: do “vulgar” ao “quase divino”
Nausícaa confessa às servas que, à primeira vista, Odisseu lhe pareceu um homem comum, até rude. Mas agora, após ouvir sua fala e observar sua postura, ela o vê “como um dos deuses que moram no Olimpo”. Essa mudança é essencial: revela a sensibilidade da jovem; mostra o poder da palavra de Odisseu; prepara o terreno para a hospitalidade feácia. Odisseu, mesmo exausto, nu, coberto de sal e sofrimento, consegue irradiar dignidade — e Nausícaa percebe isso.
     O desejo velado: “Se me coubesse por sorte alcançar um marido como este…”
Este é um dos momentos mais humanos e belos do canto: Nausícaa imagina Odisseu como marido.
Não é uma declaração explícita de amor, mas um suspiro de possibilidade, típico da juventude e da delicadeza da personagem. Homero constrói Nausícaa como uma figura de pureza e graça, e aqui ela se permite sonhar — ainda que discretamente. Esse detalhe é fundamental para compreender: a ternura da cena; a abertura emocional da jovem; o contraste entre o mundo doméstico feácio e a dureza das aventuras de Odisseu.
     Hospitalidade: alimento e bebida ao hóspede
Depois de expressar sua admiração, Nausícaa dá instruções às servas: “Ora, criadas, ao hóspede dai alimento e bebida.” Esse gesto é mais que cortesia — é xenia, a hospitalidade sagrada que rege o mundo grego. Nausícaa assume o papel de anfitriã, mesmo sendo jovem, mostrando: liderança; generosidade; senso de dever; respeito às normas divinas. Atena, que guiou tudo desde o sonho, vê sua influência florescer aqui.
     Por que este trecho é tão importante na narrativa?
Humaniza Nausícaa, ela não é apenas princesa: é uma jovem que sente, imagina, admira.
Eleva Odisseu, mesmo em seu estado mais vulnerável, ele inspira respeito e encanto.
Marca o início da hospitalidade feácia, sem este gesto, Odisseu não chegaria ao palácio de Alcínoo.
Mistura o épico ao lírico, a cena tem um tom quase pastoral, suave, luminoso.
Cria tensão narrativa, há um brilho de romance possível — mas o destino de Odisseu é Ítaca.

[2] Este trecho conclui de maneira magistral o episódio do encontro entre Nausícaa e Odisseu, e prepara a transição para a chegada do herói ao palácio dos Feácios. A cena é cheia de simbolismo, delicadeza narrativa e intervenção divina.
     A partida da carruagem e o cuidado de Nausícaa
Nausícaa conduz a parelha de mulas com habilidade e cautela: alterna trote e passos medidos; mantém as servas e Odisseu próximos; age como guia e protetora. Esse detalhe reforça o caráter da jovem: ela é responsável, atenta, graciosa, e já exerce uma liderança natural entre as companheiras.
     O bosque de Atena: o ponto de transição
Ao pôr do sol, o grupo chega ao bosque sagrado de Atena. Ali, Odisseu se detém — e isso é significativo: ele respeita o espaço divino; reconhece a presença e a influência da deusa; prepara-se para entrar em um novo ciclo de sua jornada. O bosque funciona como limiar narrativo: é o ponto entre o sofrimento do naufrágio e a esperança da hospitalidade feácia.
     A prece de Odisseu: humildade e consciência divina
Odisseu ora à “donzela invencível”, Atena, pedindo: que os Feácios se mostrem piedosos; que o recebam como amigo; que sua sorte finalmente mude. Ele lembra que antes já havia clamado à deusa “embalde”, quando Poseidon o fez naufragar. Essa lembrança reforça a tensão entre as divindades: Atena o protege, mas Poseidon o persegue, e Odisseu está preso entre essas forças.
     Atena ouve — mas não aparece
Este é um dos detalhes mais sutis e importantes do canto: Atena escuta a prece, mas não ousa aparecer visivelmente. Por quê? Porque ela teme a ira de Poseidon, seu tio, que está furioso com Odisseu desde a cegueira de Polifemo. A deusa, portanto: age nos bastidores; protege sem se mostrar; guia sem intervir abertamente. É uma forma de intervenção discreta, típica da Odisseia, onde os deuses moldam o destino com delicadeza, não com estrondo.
Por que este trecho é tão importante?
- Marca o fim da fase de desamparo de Odisseu. Ele está prestes a entrar no mundo acolhedor dos Feácios.
- Mostra a maturidade de Nausícaa. Ela conduz, protege, organiza — e abre caminho para a hospitalidade. 
- Revela a relação complexa entre Atena e Poseidon. A deusa ajuda, mas com cautela, respeitando a hierarquia divina.
- Prepara o clima para o encontro com Alcínoo e Arete. odisseu está espiritualmente pronto para pedir auxílio.
- Mistura o épico ao sagrado. A narrativa passa do cotidiano (mulheres, mulas, roupas) ao divino (bosque, prece, intervenção).


Odisseia, de Homero - Canto 6 - Odisseu na Ilha dos Feácio


Odisseia: Parte II (Canto VI.a - Odisseu chega à Feácia)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto VI

Odisseu chega à Feácia

    “Atena aparece em sonho para Nausícaa, filha de Alcínoo, e manda-a ir lavar suas roupas no rio, pois seu casamento está próximo. Ela faz o que é pedido. Depois, ela brinca com suas servas. Odisseu ouvindo-as, acorda. Pedindo a Nausícaa, recebe alimento e vestimentas, seguindo-a, então, até a cidade.” (Scholie P Q V)


   Dessa maneira o divino e sofrido Odisseu repousava, 
pelo cansaço vencido e também pelo sono. Mas Palas 
se dirigiu para a terra e cidade dos homens Feácios, 
que em tempos idos moravam nas vastas planícies da Hipéria, 
junto dos homens Ciclopes, soberbos acima de todos, 
que lhes os bens depredavam por serem de muito mais força. 
Desse lugar conduziu-os Nausítoo de forma divina 
para o terreno da Esquéria, afastado dos homens industres. 
Fez circundar a cidade com muros, construir belas casas,

bem como templos aos deuses. O campo entre o povo divide. 
Mas, pela Parca apanhado, já havia descido para o Hades; 
era de Alcínoo o poder, que dos deuses obtinha conselhos. 
A de olhos glaucos, Atena, dirige-se para sua casa, 
a refletir como a volta do herói Odisseu aprestasse. 
Já pelo quarto de bela feitura penetra, onde encontra 
uma donzela a dormir, parecendo, no aspecto gracioso, 
deusa imortal: é Nausícaa, de Alcínoo magnânimo filha. 
Junto duas servas dormiam, das Graças irmãs favoritas, 
de cada lado da porta brilhante, que estava fechada.

Voa, qual sopro do vento, até o leito em que estava a donzela, 
fica-lhe junto à cabeça e lhe diz as seguintes palavras 
sob a aparência da filha do célebre nauta Dimante, 
que a mesma idade contava e Nausícaa entre as mais distinguia. 
A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, sob essa aparência: 
   “Como, Nausícaa, tua mãe te gerou descuidada a tal ponto? 
Sem nenhum trato abandonas, assim, teus vestidos brilhantes? 
Próximo é o dia de teu casamento, em que é força te ornares 
com belas roupas; estas, também, ofertares ao cortejo. 
Disso virá receberes do povo os mais altos encômios

e sobremodo alegrar-se teu pai e a consorte pudica. 
Eia! Apressemo-nos logo a lavar, mal que a Aurora desponte. 
Quero ir contigo a ajudar-te, a fim que possas tudo depressa 
determinar, porque inupta não hás de ficar muito tempo. 
Já requestada por moços distintos amiúde tens sido 
entre os Feácios, a que por nobreza de origem pertences. 
Vamos! Exorta teu pai, antes mesmo que a Aurora apareça, 
porque te apreste a carruagem e as mulas de cascos possantes 
para que os cintos e peplos e as belas cobertas te levem. 
Muito mais próprio é que vás desse modo, que a pé pela estrada.

Os lavadoiros se encontram mui longe daqui da cidade.”¹ 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao falar tais palavras, 
e retornou para o Olimpo, onde a sede, é sabido, se encontra, 
sempre tranquila, dos deuses. Por ventos jamais é abalada, 
nem por tormentas de chuva ou por neve; escampado, infinito, 
o éter por cima se estende, impregnado de luz irradiante. 
Todos os dias ali passam ledos os deuses beatos, 
para onde Atena retorna, depois de falar à donzela.
Logo que a Aurora de trono dourado surgiu no horizonte, 
do sono a jovem desperta. Admirou-se Nausícaa do sonho,

e aos genitores resolve contá-lo; à procura vai deles. 
Ambos despertos já estavam na sala interior do palácio. 
Junto do lar a mãe fiava, por servas prestantes cercada, 
lã cor de púrpura; ao pai a donzela encontrou justamente 
quando a soleira transpunha da porta para ir ao conselho 
dos altos príncipes Feácios, que o haviam, de pouco, chamado. 
Ao pai querido achegando-se, diz-lhe as seguintes palavras: 
   “Caro paizinho, seria possível o carro aprestares, 
alto e de rodas bem-feitas, a fim de que as roupas luzentes 
possa levar para o rio, que sujas bastante se encontram?

Fica-te muito mais próprio, com vestes bem limpas no corpo, 
entre os primeiros sentares-te, quando reunido o conselho. 
Meus cinco manos diletos também no palácio demoram: 
dois, já casados; os outros restantes, no viço da idade. 
Estes, só querem vestir-se com roupa lavada de pouco, 
sempre que vão para os bailes. É a mim que está afeto isso tudo.” 
   Disse, evitando, desta arte, por pejo, falar em noivado 
ao pai querido, que tudo compreende e lhe diz, em resposta: 
   “Nem te recuso essas mulas, ó filha, nem nada que peças. 
Vai que os criados o carro bonito irão logo aprontar-te,

alto e de rodas bem-feitas, provido, também, de capota.” 
   Tendo  isso dito, deu ordens aos servos, que logo obedecem. 
Do lado externo da casa aprontaram o carro de mulas, 
de boas rodas, e as mulas puseram no jugo e atrelaram. 
Sai dum dos quartos a serva trazendo os brilhantes vestidos, 
para depô-los em ordem, na caixa do carro polido, 
enquanto a mãe num cabaz gulodices gostosas dispunha, 
das mais variadas, além de manjares, enchendo de vinho 
odre de pele de cabra; a donzela subiu para o carro. 
Fez que levasse, também, óleo líquido num frasco de ouro

para com as servas ungir-se, depois que do banho saíssem. 
Toma das rédeas brilhantes Nausícaa e, também, do chicote, 
para que as mulas pudesse espertar, que arrancaram ruidosas, 
a galopar velozmente, levando a donzela e os vestidos, 
mas não sozinha, que a pé outras servas ao lado a seguiam. 
   Quando chegaram, por fim, ao lindíssimo curso do rio — 
lá se encontravam as fontes perenes, com água bastante, 
bela de ver e capaz de branquear até a roupa mais suja — 
foi nessa altura que as mulas tiraram do jugo do carro 
e as impeliram, depois, para a margem do rio revolto,

a fim de a grama gostosa pastarem. Do carro, no entanto, 
tomam as roupas nos braços e as levam para a água profunda, 
calcam-nas logo nos tanques, porfiando em perícia elas todas. 
Logo que as peças lavaram, limpando-as de todas as nódoas, 
em fila ao longo da praia estenderam-nas, por onde os seixos 
são pelas ondas lavados, que vêm contra a costa quebrar-se. 
Banho, depois, tomam todas, passando óleo puro no corpo, 
para, em seguida, almoçar junto à margem do rio elevada, 
onde ficaram à espera que o Sol toda a roupa secasse. 
Quando se acharam, porém, satisfeitas, Nausícaa e suas servas

de si lançaram os véus, entregando-se ao jogo da bola. 
Guia Nausícaa, de braços bonitos, as outras na dança. 
Ártemis dessa maneira costuma vagar pelos montes, 
quer no Taígeto longo, quer mesmo no próprio Erimanto, 
a deleitar-se na caça de cervos ou céleres gamos. 
Ninfas agrestes a seguem, as filhas de Zeus poderoso, 
a divertirem-se; no íntimo Leto também rejubila, 
e entre as demais sobressai, destacando-se a fronte e a cabeça; 
fácil será conhecê-la, conquanto as demais sejam belas: 
do mesmo modo salienta-se a casta donzela entre as servas.

Quando, porém, já pensava em voltar para casa de novo 
e pôr as mulas no carro e dobrar as esplêndidas roupas, 
a de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso 
para Odisseu acordar e ver logo a formosa donzela, 
que deveria levá-lo à cidade dos homens Feácios. 
Joga a princesa para uma das suas criadas a bola, 
sem que, porém, acertasse, indo a bola cair na corrente. 
Todas em grita prorrompem; desperta o divino guerreiro, 
senta-se e logo no espírito e no coração excogita: 
   “Pobre de mim! A que terra cheguei? Quais os homens que a habitam?

São, porventura, selvagens violentos, que as leis desconheçam, 
ou de estrangeiros amigos, e afeitos ao culto dos deuses? 
Como de moças, soou-me aos ouvidos um grito estridente, 
provavelmente de ninfas, que moram nos picos dos montes, 
pelas nascentes dos rios, ou mesmo nos prados ervosos. 
Eis-me, por certo, chegado ao convívio de gentes que falam. 
Vamos! Eu próprio hei de logo a verdade saber com meus olhos.” 
   Tendo isso dito, saiu de entre os ramos o divo guerreiro; 
quebra com mãos poderosas um galho da espessa floresta, 
cheio de folhas vivazes, a fim de esconder as vergonhas.

Como leão montanhês avançou, que, na força confiado, 
marcha, sem que possam ventos nem chuva detê-lo; cintilas 
lançam-lhe os olhos; no rasto se atira de bois e de ovelhas, 
ou mesmo corças silvestres; a fome a avançar o compele 
contra rebanhos e, até, a exp’rimentar-se em curral bem fechado: 
dessa maneira Odisseu se resolve a avançar para as moças 
de belas tranças, pesar de estar nu; era força fazê-lo. 
Desfigurado aparece-lhes pela salsugem marinha. 
Elas, com susto, correram de um lado para outro, até a margem. 
Somente a filha de Alcínoo ficou, pois lhe Atena infundira

grande coragem no peito, tirando-lhe o medo dos membros. 
Ante Odisseu se detém, enquanto ele reflete, indeciso, 
se, suplicante, os joelhos da bela menina abarcasse, 
ou, como estava, de longe a implorasse com termos melífluos, 
para mostrar-lhe a cidade e, também, qualquer roupa ceder-lhe. 
Tendo assim, pois, refletido, afinal pareceu-lhe mais certo 
de onde se achava, de longe, afetuosa linguagem falar-lhe, 
não fosse a jovem zangar-se, ao querer abraçar-lhe os joelhos. 
Por isso tudo, dá início ao discurso afetuoso e pensado: 
   “Os joelhos ora te abraço, senhora; és mortal ou divina?

Se uma das deusas tu fores, daquelas que o céu vasto habitam, 
é a Ártemis, principalmente, de Zeus poderoso nascida, 
que te comparo, na forma elegante e elevada estatura. 
Mas, se pertences à raça dos homens que vivem na terra,
julgo três vezes feliz ser teu pai e sua nobre consorte, 
três vezes, sim, teus irmãos. Quanto deve no peito estuar-lhes 
o coração, por tua causa, movido de pura alegria, 
ao contemplarem nos bailes criatura de tanta esbelteza! 
Mas, sobre todos, feliz no mais íntimo aquele que a casa 
vier a levar-te depois que exceler-se nos dotes da noiva,²

continua página 748...
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] A cena que você trouxe é um dos momentos mais delicados e encantadores da Odisseia: Atena, disfarçada, aparece a Nausícaa em sonho para incentivá‑la a ir lavar as roupas — ação que, no desenrolar do poema, levará ao encontro decisivo entre a jovem feácia e Odisseu.
     O sonho de Nausícaa: quando a deusa prepara o destino
- A deusa não surge em sua forma divina, mas disfarçada como uma amiga da jovem. Isso é típico da Odisseia: Atena age de modo sutil, doméstico, quase íntimo, moldando os acontecimentos sem violência.
- Ela repreende Nausícaa com doçura: A jovem está descuidada com seus vestidos; o casamento se aproxima; e é preciso preparar roupas bonitas para si e para o cortejo.
Esse detalhe é essencial: o casamento é o horizonte natural da vida de Nausícaa, e Atena usa esse tema para motivá‑la.
     Na cultura grega antiga, lavar e preparar roupas não é apenas tarefa doméstica: é um rito de passagem, ligado à maturidade, à honra familiar e à apresentação pública da mulher.
     Atena lembra que: o povo a louvará se ela se mostrar bem preparada; seus pais ficarão felizes; ela já é cortejada por jovens feácios. Ou seja, Nausícaa está entrando na idade adulta — e Atena a conduz nesse processo.
     A instrução prática da deusa
Atena orienta Nausícaa a: pedir ao pai a carruagem e as mulas; levar cintos, peplos e cobertas; ir aos lavadoiros, que ficam longe da cidade. Essa parte é quase prosaica, mas é justamente o que torna o episódio tão belo: o divino se mistura ao cotidiano. Atena não fala de batalhas, profecias ou monstros — fala de roupas, mulas e caminhos. E é essa simplicidade que abre espaço para o encontro com Odisseu.
     Por que este trecho é tão importante na narrativa?
É o início da virada da sorte de Odisseu, sem Nausícaa indo aos lavadoiros, ele não encontraria abrigo entre os feácios.
Mostra o cuidado de Atena, a deusa age como guia, protetora e estrategista, preparando o terreno para o herói.
Constrói Nausícaa como personagem, ela não é apenas uma princesa: é uma jovem à beira da vida adulta, sensível, responsável e graciosa.
Mistura o doméstico ao épico, a Odisseia é um poema que valoriza o cotidiano — e este episódio é exemplar.

[2] Este trecho é um outro dos momentos belos e delicados da Odisseia: o encontro entre Odisseu e Nausícaa, quando o herói, recém‑naufragado, precisa decidir como abordar a jovem princesa sem assustá‑la. É uma cena de extrema sensibilidade narrativa, e Homero trabalha aqui com nuances psicológicas raras na épica antiga.
     Odisseu diante de Nausícaa: hesitação, respeito e estratégia
Odisseu “reflete, indeciso” sobre como se aproximar:
Agarra os joelhos da jovem? Esse gesto é o símbolo máximo da súplica na cultura grega — mas também é íntimo demais para uma moça solteira.
Ou fala de longe, com doçura? Isso preservaria a dignidade da jovem e evitaria que ela se assustasse.
A escolha de Odisseu revela sua inteligência emocional: ele sabe que, sendo um desconhecido, nu, sujo e recém‑saído do mar, qualquer aproximação brusca poderia ser interpretada como ameaça.
     A decisão: falar de longe, com palavras melífluas. O herói opta por manter distância e usar a linguagem como ponte. Esse é um traço essencial de Odisseu: ele vence pela palavra antes de vencer pela força. Ele teme que Nausícaa se zangue se ele tocar seus joelhos — e essa preocupação mostra respeito, autocontrole e consciência social.
     O discurso: elogio, reverência e estratégia narrativa. Odisseu inicia sua fala com uma pergunta que mistura reverência e admiração: “És mortal ou divina?” Ele compara Nausícaa a Ártemis, deusa da juventude e da pureza — uma imagem que ressalta a beleza e a postura da jovem. 
Se ela for humana, Odisseu declara: 
feliz o pai, que gerou tal filha;
feliz a mãe, que a criou;
felizes os irmãos, que a veem brilhar nos bailes;
feliz sobretudo o futuro marido, que a levará para casa.
Esse elogio é mais que cortesia: é uma estratégia retórica perfeita.
Odisseu: exalta Nausícaa sem ultrapassar limites; mostra respeito à família; insinua que reconhece sua posição social; cria empatia e confiança. É o tipo de discurso que abre portas — e, de fato, abrirá.
     Por que este trecho é tão importante?
Marca o início da salvação de Odisseu. Sem Nausícaa, ele não chegaria ao palácio de Alcínoo nem retornaria a Ítaca.
Mostra o domínio absoluto de Odisseu sobre a palavra. Ele lê a situação, adapta o tom, escolhe a distância, molda o discurso.
Constrói Nausícaa como figura luminosa. Ela é pura, graciosa, acolhedora — e sua presença traz um sopro de serenidade ao poema.
Mistura o épico ao lírico. A cena é quase um encontro pastoral, suave, humano, em contraste com a violência da Ilíada.

Vozes femininas: Contraltos

Federica Moi

A voz contralto é o tipo vocal feminino mais raro e, ao mesmo tempo, o mais escuro e profundo. 

Características femininas da voz contralto
1. Extensão vocal, algumas alcançam notas ainda mais graves, chegando ao E₃ ou D₃, o que dá à voz um caráter excepcionalmente escuro.
2. Timbre é escuro, encorpado e maduro, é uma voz que transmite profundidade emocional e autoridade.
3. Registro predominante, o domínio do registro grave é o que define a identidade da contralto.
4. Agilidade vocal, em geral, a contralto não é caracterizada pela velocidade, e sim pela profundidade.
5. Projeção, é uma voz que “enche” o espaço com calor, não com brilho.
6. Apoio respiratório, a contralto trabalha muito com coluna de ar estável e ressonância baixa.
7. Articulação e dicção, a dicção é crucial para que o timbre escuro não comprometa a inteligibilidade.


Contralto - A Voz que tem mais notas...e as mulheres mais bravas!





Federica Moi - Gaude Felix Bethulia Laetare, Ozias





Federica Moi - Qui Sedes, Gloria di vivaldi






Federica Moi e soprano Silvija Radjen
Handel: Son nata a lagrimar (Duet from "Giulio Cesare")
- XXIII Belgrade Baroque Academy (2024)




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Vozes femininas
Sopranos
Contraltos:
Federica Moi /  

Vozes Femininas: Sopranos

Natalia Ushakova 


A soprano se define menos pela altura das notas e mais pelo conjunto de características vocais que formam esse tipo de voz.
1. Extensão vocal, algumas alcançam notas ainda muito altas, acima de duas oitavas do Dó médio
2. Timbre brilhante, leve e capaz de projetar a voz mesmo em registros altos sem perder a clareza
3. Registro predominante, a habilidade de manter o som homogêneo no registro agudo é essencial.
4. Agilidade vocal, extrema agilidade, escalas rápidas, saltos amplos, leveza e flexibilidade, linhas longas, expressividade, potência, densidade, projeção sobre orquestras grandes
5. Projeção, a soprano precisa projetar o som e ultrapassar a orquestra, mantendo a clareza nas notas altas e sustentando frases longas sem perder o apoio (muita técnica respiratória e ressonância)
6. Apoio respiratório, o controle do diafragma e da coluna de ar é o que permite cantar agudos com naturalidade.
7. Articulação e dicção bem, mesmo em regiões altas, mantendo a inteligibilidade quando adapta vogais para facilitar a emissão

Divirtam-se com a soprano Natalia Ushakova


Ecstasy of Gold at Hollywood in Vienna 2012





Natalia Ushakova (2020) - La ille du Regiment - Chacun le Sait





Conductor JOHANNES HARNEIT
CZECH VIRTUOSI ORCHESTRA


Natalia Ushakova (2020) - Norma - Casta Diva + Stretta





Natalia Ushakova em Retrato (não esqueça de ativar as legendas)





Rusalka “Canção para a Lua” Natalia Ushakova 
Gala Noite de Verão, 16 de julho de 2023



Canção à Lua da ópera Rusalka, de Antonín Dvořák
Interpretada por Natalia Ushakova, no Concerto ao Ar Livre Austríaco - Noite de Gala de Verão, 16 de julho de 2023, no SommerTheaterPark

Maestro Michael Zehetner, moderação de Kai Uwe Garrels, Orquestra Sinfônica de Savaria

Sua luz brilha longe nos céus
Sobre o mundo, vagando
Contemplando as moradas humanas
Sobre o mundo, vagando...

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Vozes femininas
Sopranos
Natalia Ushakova /  
Contraltos:

sábado, 19 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VI.b - O encontro de Heitor com Andrômaca)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VI - O encontro de Heitor com Andrômaca
 
“O exército Troiano começa a se curvar diante das forças Gregas. Heitor vai, pelo conselho de Heleno, pedir à sua mãe que invoque a proteção de Atena para que ela retire Diomedes da guerra. Diomedes encontra-se com Glauco, e reconhecem que são descendentes de famílias amigas. Os heróis trocam armas. As mulheres Troianas seguem em procissão até o Templo de Palas Atena. Heitor exorta Páris a retornar ao combate, e procura, então, sua esposa, Andrômaca, e a encontra perto das Portas Ceias.”
continuando...

grato fruíam, ao lado de suas esposas legítimas. 
Foi nessa altura que a mãe amorosa ao encontro lhe veio, 
que acompanhava até a casa a mais bela das filhas, Laódice. 
Toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Filho, a que vens até aqui? Por que causa deixaste o combate? 
Sim, certamente é mui grande a pressão dos malditos Acaios 
contra a cidade sagrada. Por isso, teu peito te trouxe, 
para que do alto da Acrópole a Zeus as mãos ambas alçasses. 
Para, aqui, um pouco, que vinho mais doce que o mel vou buscar-te, 
para que libes a Zeus e às demais divindades eternas, 

e tuas forças restaures, também, pós haveres bebido. 
Tônico é o vinho, excelente, para o homem no extremo das forças, 
tal como te achas, de tanto lutar em defesa da pátria.” 
   Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Mãe veneranda, não tragas a doce bebida; receio 
que os fortes braços me enerve, vindo eu a perder toda a força. 
A reverência me impede de vinho ofertar a Zeus grande 
com mãos impuras. É impróprio, assim, sujo de poeira e de sangue, 
preces alçar ao que nuvens cumula no Olimpo vastíssimo. 
Com muito incenso, no entanto, dirige-te ao templo de Palas,

a predadora, depois de as matronas haveres reunido. 
Toma do manto maior que na régia bem-feita encontrares, 
o de mais fino lavor e que ao peito mais caro te seja, 
e sobre os joelhos de Atena o coloca, de belos cabelos. 
Mais: doze vacas promete imolar no interior do santuário, 
ainda indomadas, apenas de um ano, sendo ela benigna 
para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos, 
longe mantendo dos muros sagrados de Troia o Tidida, 
suscitador poderoso do Medo guerreiro selvagem. 
Ao templo, pois, te dirige, de Palas Atena indomável,

enquanto eu vou à procura de Páris, a fim de incitá-lo 
para o combate, se ouvidos me der. Ah, se a terra se abrisse 
subitamente! Um fautor de desgraças nascer fez o Olimpo 
para o magnânimo Príamo, os filhos e o povo Troiano.      
Se concedido me fosse assistir-lhe à descida para o Hades, 
esquecer-se-ia minha alma, por certo, dos males presentes.”¹
Disse; ela, então, para casa voltou, tendo às servas dado ordens 
que as venerandas matronas, por toda a cidade, chamassem. 
Ao aposento flagrante baixou, logo após, onde peplos 
inumeráveis se achavam de grande brancura, tecidos

pelas mulheres Sidônias. O divo Alexandre os trouxera 
da populosa Sidão, justamente no tempo em que Helena, 
de nobilíssimo pai, por caminhos extensos raptara. 
Hécabe um desses tomou para a Palas Atena ofertá-lo, 
o mais bonito e maior, que se achava por baixo de todos, 
de brilho igual ao dos astros e enfeites de fino trabalho. 
Pelas matronas seguida, a caminho se pôs, sem demora. 
Logo que o templo de Atena alcançaram, no burgo elevado, 
Teano formosa, nascida do claro Cisseu, lhe abre as portas, 
filha e consorte do forte Antenor, domador de cavalos.

Sacerdotisa a elegeram, de Palas Atena, os Troianos. 
Todas a Palas elevam as mãos e, bradando, suplicam. 
Tendo tomado do peplo, Teano, de faces formosas, 
foi colocá-lo nos joelhos de Atena, de belos cabelos, 
e, em prece ardente, implorou à nascida de Zeus poderoso: 
   “Ó venerável Atena, defesa de nossa cidade, 
quebra do forte Diomedes a lança, ou o derruba tu própria 
das Portas Ceias em frente, de bruços no solo fecundo, 
que doze vacas ao templo, sem mora, viremos trazer-te, 
ainda indomadas, apenas de um ano, se fores benigna

para a cidade, as esposas dos Teucros e nossos filhinhos!” 
   Não foi a súplica, entanto, por Palas Atena acolhida. 
Enquanto à filha de Zeus poderoso elas todas oravam, 
encaminhava-se Heitor ao palácio do divo Alexandre, 
belo de ver, que ele próprio construíra com a ajuda de artífices 
de fama excelsa, os melhores da terra abençoada de Troia. 
Estes, o tálamo e a sala elevaram, e o pátio espaçoso, 
perto dos paços de Príamo e Heitor, no ponto alto da Acrópole. 
Entra o guerreiro, a Zeus caro, no belo palácio, levando 
a forte lança na mão, de onze cúbitos, com reluzente

extremidade de bronze firmada por círculo de ouro. 
Acha a Alexandre no tálamo, atento no exame das armas 
de primorosa feitura, a apalpar o arco forte e brunido. 
A Argiva Helena se achava a seu lado, no meio das servas, 
a dirigir os trabalhos que todas, cuidosas, faziam. 
Vendo-o, com termos violentos, Heitor o censura, dizendo: 
   “Recomendáveis não são, ó infelizes, esses teus sentimentos. 
Fora dos muros, o povo perece na crua peleja. 
Por tua causa, acendeu-se esta guerra, que em volta de Troia 
arde, sem pausa nenhuma. Tu próprio, quiçá, te indignaras,

caso encontrasses alguém que fugisse à defesa da pátria. 
Vamos; se não, logo, logo, há de a chama inimiga atingir-nos.” 
   Páris, de formas divinas, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“É justo, Heitor, o que dizes; contrário à razão não me falas. 
Por isso vou contestar-te, pedindo que ouvido me prestes. 
Certo, não foi achar-me agastado com os Troas, que ao tálamo 
me recolhi, mas por causa da dor que me o peito angustia. 
Neste momento, com doces palavras, a cara consorte 
me aconselhava a voltar para a luta. Eu, também, já pensara 
que é bem melhor desse modo. A vitória tem suas mudanças.

Por uns instantes espera que as armas de guerra eu envergue; 
ou melhor, vai; que em teus passos já sigo, esperando alcançar-te.” 
   Nada lhe disse, em resposta, o guerreiro do casco ondulante. 
Vira-se Helena para esse, com termos afáveis, e fala: 
   “Caro cunhado da pobre que apenas desgraças espalha! 
Fora melhor, bem melhor, que, no dia em que a luz vi do mundo, 
arrebatado me houvesse de casa terrível procela, 
para nos montes lançar-me, ou nas ondas do mar ressoante,
que me teriam tragado, evitando esta grande catástrofe. 
Mas já que os deuses quiseram que tudo, desta arte, se desse,

fosse-me, então, destinado marido melhor, que as censuras 
dos companheiros sentisse e a desonra daí decorrente. 
Este, porém, nunca teve firmeza, nem nunca há de tê-la. 
Por isso mesmo, estou certa, há de os frutos colher dentro em breve. 
Mas entra, um instante sequer, e repousa sobre esta cadeira, 
caro cunhado, que mais do que todos suportas o peso 
das consequências de minha cegueira e da culpa de Páris. 
Triste destino Zeus grande nos deu, para que nos celebrem, 
nas gerações porvindoiras, os cantos excelsos dos vates.” 
   Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante:

 “Não é possível, Helena, aceitar-te o convite amigável, 
pois o meu peito me incita a correr em ajuda dos nossos, 
que já se encontram, por certo, impacientes com a minha demora. 
A este, porém, manda-o logo, ou se apresse, espontâneo, a vestir-se, 
para que possa alcançar-me ainda dentro dos muros de Troia, 
enquanto a casa, de bela feitura, dirijo-me para 
mais uma vez ver os criados, a esposa dileta e o filhinho. 
É, por sem dúvida, incerto se possa voltar a revê-los, 
ou se por mão dos Aquivos os deuses à Morte me entregam.” 
   Tendo assim dito, afastou-se, a agitar o penacho do casco.

 Pouco depois alcançava o palácio de bela feitura; 
mas não achou no interior do aposento a formosa consorte, 
que, juntamente com o filho e uma serva de manto vistoso, 
no alto da torre se fora postar, a chorar aflitíssima. 
Não tendo Heitor no palácio encontrado a impecável Andrômaca, 
para a saída retorna, apressado, e às escravas pergunta: 
   “Toda a verdade, donzelas, dizei-me, sem nada ocultar-me: 
para onde foi a senhora, se dentro de casa não se acha? 
Foi, porventura, em visita às cunhadas de peplos formosos, 
ou, com as outras Troianas, ao templo de Palas Atena,

onde procuram a deusa tremenda aplacar com pedidos?” 
   A despenseira, solícita, disse-lhe, então, em resposta: 
“Já que me mandas, Heitor, informar-te de toda a verdade, 
nem em visita se encontra às cunhadas de peplos formosos, 
nem, com as outras Troianas, no templo de Palas Atena, 
onde procurem a deusa tremenda aplacar com pedidos. 
Foi, sim, à torre altanada, depois de saber que os Troianos 
cedem terreno ante a força maior dos guerreiros Acaios. 
Fora de si, para os muros correu, onde, agora, se encontra, 
como uma louca; o menino pela ama, também, foi levado.”

A essas palavras da serva, Heitor sai, novamente, de casa, 
a desandar o caminho de bela feitura, apressado. 
Quando, depois de correr pela grande cidade, alcançara 
as Portas Ceias, por onde devia passar para o campo, 
sai-lhe ao encontro, a correr, a consorte de dote copioso, 
a nobre filha de Eecião, o guerreiro magnânimo, Andrômaca, 
o grande Eecião, que o palácio construíra no Placo selvoso 
e comandava os Cilícios em Tebas, chamada a Hipoplácia. 
A filha a Heitor, como esposa, entregara, o guerreiro arnesado. 
Esta, ao encontro lhe veio, seguida de uma ama solícita,

a qual nos braços trazia o filhinho de Heitor, ainda infante, 
só comparável à vista inefável de um astro fulgente. 
O nome, Heitor, de Escamândrio, lhe pôs; mas as outras pessoas, 
o de Astianacte, que o pai era o amparo dos muros de Troia. 
Ao ver o filho, o guerreiro sorriu, sem dizer coisa alguma. 
Pôs-se-lhe ao lado a impecável Andrômaca, em pranto desfeita; 
toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Tua coragem te perde, cruel! Não te apiadas, ao menos, 
de teu filhinho inocente, ou de minha desdita, ficando 
cedo viúva de ti quando os feros Aqueus te matarem?

A ti, somente, eles visam. Bem mais vantajoso me fora 
que, antes de vir a perder-te, se abrisse o chão duro. Nenhuma 
outra esperança me resta, colhendo-te o negro Destino. 
Dores, somente; nem pai ora tenho nem mãe veneranda. 
Foi por Aquiles divino meu pai da existência privado, 
quando a cidade imponente dos homens Cilícios destruiu, 
Tebas, de portas muito altas. Aquiles a Eecião tira a vida, 
sem despojá-lo das armas, contudo; a consciência o impediu. 
Tendo-o queimado na pira com as armas de fino trabalho, 
um monumento lhe fez erigir, que as Oréades, logo,

de olmos vistosos cercaram, as filhas de Zeus poderoso. 
Meus sete irmãos, que comigo viviam em nosso palácio, 
em um só dia baixaram para o Hades de aspecto sombrio, 
o divo Aquiles, de rápidos pés, a eles todos deu morte, 
quando guardavam bois tardos e ovelhas de velo argentino. 
A minha mãe, tão somente, senhora do Placo selvoso, 
que para aqui ele trouxe, com seus opulentos haveres, 
deu liberdade, depois de exigir um vultoso resgate; 
ela, no entanto, por Ártemis foi no palácio frechada. 
És para mim, caro Heitor, assim pai como mãe veneranda,

és meu irmão, de igual modo, e marido na idade florente. 
Tem, pois, piedade de mim; fica um pouco na torre; não queiras 
órfão o filho deixar, nem viúva a consorte querida. 
Junto da grande figueira coloca mais gente, onde há acesso, 
para a cidade, mais fácil, que o muro permite escalada. 
Já por três vezes tentaram subi-lo os heróis mais valentes 
da companhia dos fortes Ajazes, dos claros Atridas, 
de Idomeneu valoroso e do forte e preclaro Tidida, 
ou por conselho de algum sabedor do fatal vaticínio,
ou pela própria coragem a assim proceder impelidos.”

Disse-lhe Heitor em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Tudo isso, esposa, também me preocupa; mas quanta vergonha 
dos outros homens e, assim, das Troianas de peplos compridos, 
eu sentiria se, infame, fugisse às pelejas cruentas. 
Isso meu peito proíbe, ensinando-me a ser valoroso 
e a combater sempre à frente dos fortes guerreiros de Troia, 
para mor lustre da glória paterna e de meu próprio nome. 
O coração claramente mo diz e a razão mo confirma: 
dia virá em que Troia sagrada será destruída, 
bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro.

Menos, porém, me acabrunha o destino que aos Teucros espera, 
ou mesmo o de Hécabe, ou a sorte que a Príamo está reservada, 
e a meus irmãos numerosos, que, embora valentes, na poeira 
hão de jogados ficar, sob os golpes de imigos ferozes, 
que imaginar-te arrastada por um desses duros Aquivos 
de vestes brônzeas, em prantos, sem nada dos dias felizes. 
Às ordens de outra mulher hás de, em Argos, tecer belos panos,
ou te verás obrigada a trazer, de Hipereia ou Messeida, 
água, bem contra a vontade, agravada por doestos pesados. 
E, porventura, dirá quem te vir humilhada chorando:

‘Eis aí a esposa de Heitor, o guerreiro mais forte e galhardo, 
quando, ao redor das muralhas de Troia, incessante era a luta.’ 
Isso dirão, aumentando-te a dor de não teres esposo, 
o homem capaz de livrar-te dos dias do vil cativeiro. 
É preferível que a terra fecunda meu corpo recubra, 
a ter de ouvir-te os lamentos, ao seres levada de rastos.” 
   Disse, e estendeu para o filho as mãos ambas, visando a abraçá-lo. 
Mas teve medo a criança do aspecto do pai; e, gritando, 
ao seio da ama acolheu-se, de bela cintura. Estranhara 
o inusitado fulgor do elmo aêneo de grande cimeira,

pelo galhardo e oscilante penacho de crina encimado. 
O pai e a mãe veneranda, a um só tempo, sorriram, de gozo. 
O refulgente elmo, então, da cabeça tirou o guerreiro, 
pondo-o, cuidoso, depois, ao seu lado, na terra fecunda. 
E, logo, o filho nos braços tomando, depois de beijá-lo, 
a Zeus e a todos os deuses eternos suplica, fervente: 
   “Zeus poderoso, e vós outros, ó deuses eternos do Olimpo, 
que venha a ser o meu filho como eu, distinguido entre os Teucros, 
de igual vigor, e que em Ílio, depois, venha a ter o comando. 
E que, ao voltar dos combates alguém diga, ao vê-lo: ‘É mais

ainda, que o pai!’ Possa a mãe veneranda à sua vista alegrar-se 
pós ter matado o inimigo, pesado de espólios cruentos!” 
   Disse, e nos braços da esposa dileta depõe o filhinho. 
Ela, afetuosa, o acolheu e o afagou no fragrante regaço, 
rindo, entre lágrimas. Mui comovido ante o quadro, o guerreiro, 
acariciando-a com a mão, lhe dirige as seguintes palavras: 
   “Minha tolinha, por que, desse modo, afliges tua alma? 
Homem nenhum poderá, contra o Fado, mandar-me para o Hades, 
pois quero crer que a ninguém é possível fugir ao destino, 
desde que nasça, seja ele um guerreiro de prol ou sem préstimo.

Para tua casa recolhe-te e cuida dos próprios lavores, 
roca e tear, assim como às criadas transmite tuas ordens, 
para que tudo executem, que aos homens que em Troia nasceram, 
mormente a mim, está afeto pensar quanto à guerra concerne.” 
   O elmo de equino penacho depois retomou o guerreiro. 
Para o palácio retorna, entrementes, a esposa, virando-se 
a cada passo, a verter, pela estrada, amaríssimo pranto. 
Quando chegou ao palácio de bela feitura do insigne 
e incontrastável guerreiro, cercada se viu pelas servas, 
que prorromperam, também, a chorar, quando aflita a enxergaram.

 Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam, 
pois esperança não tinham de que ele voltar conseguisse 
salvo das mãos dos Aquivos, à fúria da guerra escapando. 
   Páris, também, não ficou muito tempo na estância elevada, 
mas, tendo as armas de bronze vestido, de fino trabalho, 
corta, apressado, a cidade, nos rápidos pés confiado. 
Como galopa um cavalo habituado no estábulo, quando 
pode do laço escapar e, fogoso, a planície atravessa 
para ir banhar-se, impaciente, na bela corrente do rio, 
cheio de orgulho, soleva a cabeça; por sobre as espáduas

bate-lhe a crina, agitada; consciente da própria beleza, 
levam-no os pés para o prado, onde os outros cavalos se reúnem: 
Páris, o filho de Príamo, assim, desce do alto da Acrópole 
da sacra Pérgamo, envolto em couraça que a vista ofuscava. 
Vem exultante; seus rápidos pés o conduzem em pouco 
tempo aonde Heitor se encontrava, o divino guerreiro, que tinha 
precisamente deixado o local em que à esposa falara. 
Foi o primeiro a falar Alexandre, de formas divinas: 
   “Mano, bem vejo que muito te fiz esperar, quando tinhas 
tão grande pressa; não fui diligente, conforme o ordenaste.”

Disse-lhe Heitor, em resposta, o guerreiro do casco ondulante: 
“Páris, nenhuma pessoa de espírito justo pudera 
desconhecer teu valor nos combates, porque és corajoso. 
Mas, voluntário, te escusas; não queres lutar. Isto o peito 
muito me punge, quando ouço as censuras que soem fazer-te 
os picadores Troianos, que tanto por ti têm sofrido. 
Mas, por agora, sigamos; que disso, depois, cuidaremos, 
quando Zeus pai consentir que ofertemos a grande cratera 
da liberdade aos eternos, nos nossos palácios bem-feitos, 
quando dos muros de Troia expulsarmos os fortes Aquivos.”² 

continua página 198...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c / Canto V.d / Canto VI.a / Canto VI.b /                      
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1} Aqui outro momento extraordinário da Ilíada: Heitor falando com sua mãe, Hécuba, antes de ir ao encontro de Páris. É uma cena cheia de religiosidade, tensão e frustração. 
*    O que está acontecendo na cena: Heitor retorna à cidade durante a batalha e encontra sua mãe, Hécuba, que lhe oferece vinho para revigorar as forças. Ele recusa — e a recusa é significativa:
Vinho enfraquece os braços, diz ele, e um guerreiro não pode perder vigor.
- Além disso, não é correto oferecer libações a Zeus com as mãos sujas de sangue e poeira. Heitor demonstra respeito religioso e autocontrole.
     Em vez disso, ele pede que Hécuba vá ao templo de Atena, levando as mulheres da cidade para suplicar proteção.
 *    O pedido ritual de Heitor, ele instrui sua mãe a:
- reunir as matronas troianas;
- escolher o manto mais belo e precioso do palácio;
- colocá-lo sobre os joelhos da deusa Atena;
- prometer o sacrifício de doze novilhas de um ano, ainda indomadas.
     O objetivo é claro: implorar que Atena afaste Diomedes, o “Tidida”, que naquele canto está devastando os troianos com força quase sobre-humana. Esse detalhe é importante: Heitor reconhece que Diomedes é, naquele momento, o maior perigo no campo de batalha.
*     A frustração com Páris
     Depois de orientar sua mãe, Heitor diz que irá atrás de Páris, para fazê-lo voltar ao combate. E aqui surge o tom mais humano e amargo da passagem:
Ah, se a terra se abrisse subitamente! Um 
fautor de desgraças nascer fez o Olimpo para 
o magnânimo Príamo, os filhos e o povo 
troiano.”
     Heitor expressa sua exasperação: Páris é visto como a causa da guerra, um peso para a família e para a cidade. Ele deseja, quase desesperadamente, que Páris desapareça — e confessa que isso o faria esquecer todos os males presentes. É um dos momentos em que Heitor revela sua profundidade emocional: ele é o defensor de Troia, mas carrega o fardo das escolhas de outros.
*     Por que esse trecho é tão importante?
1. Mostra o caráter de Heitor: disciplinado, religioso, responsável, consciente da gravidade da guerra.
2. Revela a fragilidade de Troia: a cidade depende da proteção divina e sofre com a irresponsabilidade de Páris.
3. Constrói o clima para o encontro com Andrômaca, que virá logo depois — um dos momentos mais tocantes da Ilíada.
4. Expõe a tensão entre dever e família, tema central do canto VI.

[2] Aqui a continuação perfeita do episódio entre Heitor e Páris — e este trecho é especialmente rico para análise, porque mostra o contraste entre os dois irmãos e aprofunda o drama moral da Ilíada
*     O diálogo entre Heitor e Páris: coragem, vergonha e esperança
1. Páris fala primeiro — e tenta justificar-se (Páris, “de formas divinas”, começa reconhecendo que demorou e que não cumpriu o que Heitor lhe pediu. É uma fala suave, quase resignada, que tenta atenuar sua falta de prontidão.)
     Esse detalhe é importante: Páris não é covarde no sentido físico — ele luta bem quando quer — mas é irresponsável, volúvel, incapaz de assumir o peso das consequências de seus atos.
2. A resposta de Heitor: elogio e reprovação ao mesmo tempo
     Heitor responde com uma mistura de verdade e dor:
- Ele admite que ninguém de espírito justo negaria o valor de Páris no combate.
- Mas logo acrescenta: Páris evita lutar voluntariamente, e isso “punge” seu peito.
     Heitor sofre não apenas pela guerra, mas pela vergonha que Páris traz à família e à cidade. Os “picadores troianos” — os cidadãos comuns — murmuram contra Páris, e Heitor sente o peso dessas críticas. Esse é um dos momentos mais humanos do poema: Heitor ama o irmão, mas não consegue esconder sua frustração.
3. A promessa de futuro — quando Troia expulsar os aqueus
     Heitor tenta encerrar o assunto, porque a urgência da guerra não permite longas discussões. Ele diz:
Por agora, sigamos; que disso, depois, 
cuidaremos.”
     E então imagina um futuro idealizado:
- Zeus permitirá que os troianos ofereçam a “cratera da liberdade” aos deuses.
- Eles celebrarão nos palácios bem-feitos.
- Os aqueus serão expulsos dos muros de Troia.
     Esse momento é profundamente irônico: Heitor fala com esperança, mas o leitor sabe que Troia jamais verá essa celebração. A frase revela sua , sua honra, mas também sua tragédia.
*     Por que este trecho é tão significativo?
1. Constrói o contraste entre os irmãos:
     - Heitor: dever, disciplina, responsabilidade.
     - Páris: beleza, talento, mas falta de compromisso.
2. Mostra a tensão interna de Troia:
     A guerra não é apenas contra os aqueus — é também contra a desordem moral dentro da própria cidade.
3. Revela a liderança de Heitor:
     Ele não humilha Páris; ele o chama à luta, tentando preservar a unidade.
4. Antecipação trágica:
     A esperança de expulsar os aqueus é uma sombra do destino inevitável de Troia
.


Ilíada, de Homero - Canto VI