segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Ilíada: Homero (Canto III.a - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto III - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau
 
“Alexandre (Páris) provoca os Gregos mais fortes para que lutem com ele, mas acaba recuando diante de Menelau. Heitor o reprova veementemente e Alexandre decide combater Menelau. É feito um juramento, sancionado por Príamo, que aquele que vencer a batalha levará Helena. Esta sobe a muralha do palácio e aponta a Príamo os heróis Gregos. No combate de Alexandre e Menelau, este último sai vencedor, no entanto Afrodite salva Alexandre e o leva aos braços de Helena, a salvo atrás das muralhas de Troia. Helena o reprova e Agamémnone reclama vitória.”


   Logo que todos os homens e os chefes em ordem ficaram, 
põem-se em marcha os Troianos, com grita atroante, quais pássaros, 
do mesmo modo que a bulha dos grous ao Céu alto se eleva, 
no tempo em que, por fugirem do inverno e da chuva incessante, 
voam, com grita estridente, por cima do curso do oceano, 
à geração dos Pigmeus conduzindo o extermínio e a desgraça, 
para, mal surja a manhã, a batalha funesta iniciarem. 
Silenciosos, furor respirando, os Aquivos avançam, 
no coração desejosos de auxílio uns aos outros prestarem.

Tal como névoa que Noto nos cumes dos montes ajunta, 
pouco, ao pastor, agradável, sim, grata ao ladrão mais que a noite, 
por não poder nada ver-se à distância de um tiro de pedra: 
sob as passadas, desta arte, a poeira do solo se erguia 
quando os heróis avançavam, cortando, ligeiros, o campo. 
   Quando os dois corpos do exército perto se acharam um do outro, 
adiantou-se das forças Troianas o divo Alexandre 
com arco e espada, nos ombros a pele de um grande leopardo 
e duas lanças na mão, revestidas de ponta de bronze, 
desafiando, desta arte, os melhores guerreiros Acaios

a que com ele se viessem medir em duelo terrível. 
Logo que o viu Menelau, o guerreiro discípulo de Ares, 
como avançava com passo arrogante na frente do exército, 
muito exultante ficou, como leão esfaimado que encontra 
um cervo morto, de pontas em galho, ou uma cabra selvagem; 
avidamente o devora, ainda mesmo que cães mui ligeiros 
lhe venham vindo no encalço e pastores de aspecto robusto: 
dessa maneira, exultou Menelau quando Páris, o belo, 
teve ante os olhos, pensando que iria, por fim, castigá-lo. 
Rapidamente do carro pulou, sem que as armas soltasse.

Quando o formoso Alexandre, que um deus imortal parecia, 
o viu à frente dos outros, sentiu conturbar-se-lhe o peito 
e para o meio dos seus recuou, escapando da Morte. 
Como se dá quando alguém nos convales dos montes estaca 
em frente de uma serpente, a tremerem-lhe as pernas e os joelhos, 
e retrocede de um salto, com o rosto sem cor, todo medo: 
por esse modo afundou para o meio dos Teucros valentes 
Páris, o divo Alexandre, do filho de Atreu temeroso. 
Foi por Heitor percebido, porém, que de insultos o cobre: 
   “Páris funesto, de belas feições, sedutor de mulheres! 

Bem melhor fora se nunca tivesses nascido, ou se a Morte 
antes das núpcias te houvesse levado. Mais lucro tivéramos, 
do que nos seres opróbrio e de escárnio servires aos outros. 
Riem-se à grande os Aquivos de soltos cabelos nos ombros. 
Um dos primeiros julgavam que fosses, por seres de físico 
tão primoroso; no entanto, careces de força e coragem. 
Como é possível que, sendo qual és, em navios velozes 
o mar houvesses cruzado, reunido prestantes consócios 
e a gente estranha chegado, da qual a raptar te atreveste 
uma formosa mulher, peregrina, cunhada de príncipes,

para desgraça de teu próprio pai, da cidade e do povo, 
mofa tornando-te, assim, dos imigos, que exultam com isso? 
Não te atreveste a enfrentar Menelau, de Ares forte discípulo? 
Fora a ocasião de saberes de quem a mulher seduziste. 
Esses cabelos, a cítara, os dons de Afrodite, a beleza, 
não te valeram de nada ao te vires lançado na poeira. 
Se tão medrosos não fossem os Teucros, há muito vestiras 
uma camisa de pedras, por quantas desgraças causaste.” 
   Páris, de formas divinas, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“É justo, Heitor, o que dizes; contrário à razão não discorres.

Teu coração é tão duro quanto o aço: semelha ao machado 
que, manejado pelo homem lhe aumenta o poder e no tronco 
mui facilmente penetra, talhando-o para o uso das naves. 
Resolução tão intrépida encerras, assim, no imo peito. 
Não me censures por causa dos mimos da loura Afrodite, 
pois desprezíveis não são os presentes valiosos que os deuses, 
de seu bom grado, concedem; que, à força, ninguém os alcança. 
Mas, uma vez que desejas que eu vá combater novamente, 
faze que todos os homens de Troia e os Acaios se sentem, 
para que eu possa no meio do campo lutar com o aluno

de Ares, o herói Menelau, por Helena e suas muitas riquezas. 
O que provar que é o mais forte, vencendo o adversário na luta, 
leve consigo os tesouros e a casa conduza a consorte. 
Vós, entretanto, jurada a amizade, na Tróade fértil 
continuareis: os demais, para a Acaia de belas mulheres 
retornarão, ou para Argos, de solo de pingues pastagens.” 
   Grande alegria, ao ouvir tais palavras, Heitor manifesta; 
e, começando a correr, com a lança segura no meio,
manda que os Teucros parassem, os quais, prontamente, obedecem. 
Mas os Aquivos, de soltos cabelos nos ombros, sem pausa

pedras contra ele atiravam e setas dos arcos recurvos, 
té que o potente Agamémnone a todos desta arte gritasse: 
   “Homens de Acaia, parai! resistentes Argivos, detende-vos! 
que se dispõe a falar-nos Heitor, de penacho ondulante.” 
   Isso disse ele: os guerreiros sustaram a ação belicosa 
e se aquietaram; Heitor, avançando para eles, falou-lhes: 
   “Ora, guerreiros Troianos, grevados Acaios, vos digo 
o que vos manda propor Alexandre, fautor desta guerra: 
Pede que todos os homens Aqueus e Troianos deponham 
as belas armas na terra, nutriz de infinitos guerreiros,

para que possa no meio do campo lutar com o discípulo 
de Ares, o herói Menelau, por Helena e suas muitas riquezas. 
O que provar que é o mais forte, vencendo o adversário na luta,
leve consigo os tesouros e a casa conduza a consorte. 
Com juramento firmemos nós outros a paz duradoura.” 
   Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram. 
Vira-se, então, Menelau, de voz forte, e lhes diz o seguinte: “
   A mim, também, atenção concedei, porque a dor, mais que a todos, 
o coração me angustia. Concordo que Teucros e Aquivos 
devem pôr fim à discórdia, que muito já tendes sofrido

por minha causa e da ofensa provinda do divo Alexandre. 
   Que morra logo o que está pelo negro Destino fadado 
a perecer; conciliem-se os outros, sem mais perder tempo. 
Presto um cordeiro trazei para o Sol, de cor branca, e uma ovelha 
preta, também, para a Terra; que a Zeus um terceiro daremos. 
A majestade de Príamo desça, também, para as juras 
solenizar; que os seus filhos soberbos não são de confiança. 
Não venha alguém, com perjúrios, destruir o que Zeus prometer-nos. 
O coração dos mancebos costuma ser sempre volúvel, 
mas quando um velho intervém, o passado e o futuro perscruta,

para que tudo decorra do modo melhor para todos.” 
   Isso disse ele; os Aqueus e os Troianos alegres ficaram, 
pela certeza de verem concluída a campanha funesta. 
Os carros todos em fila puseram; depois, apeando-se 
e as armaduras despindo, de encontro ao chão duro as deixaram, 
umas bem perto das outras, que exíguo era o espaço entre todas. 
Dois mensageiros Heitor mandou logo à cidade de Troia, 
para que a Príamo fossem chamar e os cordeiros trouxessem. 
Por sua vez, o potente Agamémnone incumbe a Taltíbio 
de outro cordeiro trazer do navio de casco anegrado.

Executado foi logo o mandado do Atrida Agamémnone. 
   Íris a Helena, de braços bonitos, foi dar a notícia, 
tendo assumido as feições da cunhada Laódice, esposa 
do grande chefe Helicáone, filho do justo Antenor, 
a mais formosa e elegante entre todas as filhas de Príamo. 
Foi encontrá-la na sala, sentada no tear, quando um duplo 
manto tecia de púrpura. Nele bordava os combates 
que os picadores Troianos e Aqueus de couraça de bronze, 
por sua causa, travavam sob o ímpeto de Ares violento. 
Aproximando-se-lhe, Íris, de pés mui velozes, lhe fala:

 “Vem, cara filha, também contemplar as proezas magníficas 
dos picadores Troianos e Aqueus de couraça de bronze, 
eles, que até este momento, na vasta planície, pelo ímpeto 
de Ares lutuoso, cuidavam somente de pugnas lutuosas, 
ora se encontram calados, firmados nos grandes escudos; 
as lanças se acham no solo espetadas; a guerra está finda. 
Somente Páris e o herói Menelau, de Ares forte discípulo, 
vão, por tua causa, lutar, de hastas firmes e longas munidos. 
Hás de chamar-te consorte do herói que sair vitorioso.” 
   Na alma as palavras da deusa infundiram-lhe doce saudade

do seu primeiro marido, dos pais e da pátria grandiosa. 
Ei-la que o rosto recobre com o nítido véu, apressada, 
e, a derramar ternas lágrimas, sai do aposento luxuoso, 
mas não sozinha, que duas criadas ao lado a acompanham, 
Clímene de olhos de boi e Etra, filha do grande Piteu. 
Das Portas Ceias, assim, dentro em pouco o local alcançaram. 
   Junto de Príamo estavam os velhos Timetes e Panto, 
Lampo e, assim, Clício e Hicetáone, de Ares aluno dileto. 
Ucalegonte e Antenor, ambos sábios, também se encontravam 
das Portas Ceias, sentados, na torre. Eles todos, por velhos,

 já se encontravam isentos das lutas; contudo primavam 
pela eloquência eles todos, tal como cigarras, que o canto 
claro e agradável, pousadas nos ramos das árvores, soltam. 
Os chefes, pois, dos Troianos, na torre se achavam reunidos. 
Ao perceberem Helena, que vinha apressada para eles, 
uns para os outros, baixinho, palavras aladas disseram: 
   “É compreensível que os Teucros e Aquivos de grevas bem-feitas 
por tal mulher tanto tempo suportem tão grandes canseiras! 
Tem-se, realmente, a impressão de a uma deusa imortal estar vendo. 
Mas, ainda assim, por mais bela que seja, de novo reembarque;

não venha a ser, em futuro, motivo da ruína dos nossos.” 
   Isso diziam, mas Príamo a Helena chamou em voz alta: 
“Vem, minha filha; aqui mesmo bem perto de mim vem sentar-te, 
porque o primeiro marido, os parentes e amigos revejas. 
Não és culpada de nada; os eternos, somente, têm culpa, 
que nos mandaram a guerra dos fortes Aqueus, lacrimosa. 
Vem revelar-me quem seja aquele homem de aspecto imponente: 
como se chama esse Acaio tão belo e de tal corpulência? 
Outros heróis, é evidente, mais altos do que ele percebo; 
mas os meus olhos jamais admiraram tão belo conspecto,

nem majestade tão grande; assemelha-se, é fato, a um monarca.” 
   Disse-lhe Helena, a divina mulher, em resposta, o seguinte: 
“Sinto por ti, caro sogro, respeito e vergonha a um só tempo. 
Bem melhor fora se a Morte terrível me houvesse levado, 
antes de haver consentido em seguir o teu filho, deixando 
o lar e o esposo, minha única filha e as gentis companheiras. 
Mas não devia assim ser; essa a causa de todo o meu choro. 
Ora te vou responder a respeito do que perguntaste. 
Esse é Agamémnone, rei poderoso, de Atreu descendente, 
tão grande rei, chefe de homens, quão forte e notável guerreiro.

 Foi meu cunhado, se o foi algum dia, com minha cegueira!” 
   A essas palavras, o velho, admirado, lhe disse, em resposta: 
“Ó venturoso Agamémnone, filho dileto dos deuses, 
que sobre tantos guerreiros Acaios o mando exercitas! 
Já estive, certo, na Frígia, região de vinhedos famosos, 
onde um sem-número vi de nativos heróis cavaleiros, 
homens de Otreu e de Mígdone, herói semelhante a um dos deuses, 
que nesse tempo acampavam nas margens do rio Sangário. 
Como aliado tomei, também, parte com eles na guerra 
contra as viris Amazonas, no dia em que aqui elas vieram.

Mas muito mais numerosos são esses Aqueus de olhos vivos.” 
   Logo depois, a Odisseu divisando, pergunta de novo: 
“Filha querida, revela-me, agora, quem seja aquele outro, 
cuja estatura é menor que a do filho de Atreu, Agamémnone; 
mas é de espaldas mais largas de ver e de peito mais amplo. 
As armaduras deitou sobre a terra nutriz de guerreiros. 
Como um carneiro, percorre as fileiras em vários sentidos. 
Eu, pelo menos, só sei compará-lo a um guieiro veloso, 
quando no meio de um grande rebanho de ovelhas vistosas.” 
   Disse-lhe Helena, nascida de Zeus, em resposta, o seguinte:

“Esse é Odisseu, de Laertes nascido, astucioso guerreiro, 
de Ítaca oriundo, apesar de ser ilha de chão pedregoso, 
em toda sorte de ardis entendido e varão prudentíssimo.” 
   O experiente Antenor, em resposta, lhe disse o seguinte: 
“Tuas palavras, mulher, correspondem à estrita verdade. 
Embaixador, por tua causa, uma vez Odisseu já aqui esteve 
em companhia do herói Menelau, de Ares forte discípulo. 
Por isso mesmo que os dois hospedei no meu próprio palácio, 
de ambos fiquei conhecendo a figura exterior e o intelecto. 
Quando, nos nossos conselhos, de pé eles se mantinham

os ombros largos do herói Menelau sobranceiros ficavam; 
ambos sentados, porém, Odisseu era mais imponente. 
Mas se a falar se dispunham, tecendo apropriados discursos, 
com certa pressa exprimia-se o herói Menelau, é verdade, 
e por maneira concisa, porém num tom claro; conquanto 
muito mais moço, sabia falar sem do intento desviar-se. 
Quando, porém, Odisseu, o astucioso, assumia a postura 
para falar, vista baixa e olhos fixos no chão pedregoso, 
como indivíduo bisonho que o cetro na mão mantivesse 
sempre no mesmo lugar, sem movê-lo de um lado para o outro,

imaginaras, talvez, ser pessoa inexperta ou insensata. 
Mas se do peito fazia soar a voz forte e agradável 
e um turbilhão de palavras, qual neve no tempo do inverno, 
com Odisseu ninguém mais suportara qualquer paralelo. 
Todos, então, esquecíamos sua anterior aparência.” 
   Príamo, a Ajaz divisando, terceira pergunta formula: 
“Como se chama esse Acaio tão belo e de tal corpulência, 
de bem maior estatura e de espaldas mais largas que os outros?” 
   Disse-lhe Helena, de peplo elegante, a divina criatura:
“Esse é o baluarte dos homens Aquivos, Ajaz, o gigante

continua página 122...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a /        
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica

domingo, 16 de agosto de 2026

Cinema: Meu Pé Esquerdo

Christy Brown

O ano do filme é 1989

Christy Brown, nascido com paralisia cerebral, aprende a pintar e escrever com seu único membro controlável: seu pé esquerdo.

Um deficiente físico costuma enfrentar três camadas de obstáculos — familiares, sociais e simbólicos — antes de ter sua humanidade plenamente reconhecida. Cada camada contém barreiras concretas e emocionais que se acumulam e tornam o percurso longo, cansativo e, muitas vezes, injusto.

A família é o primeiro lugar onde a pessoa deveria ser vista como humana, inteira, complexa. Mas, na prática, muitos enfrentam:
Superproteção 
Invisibilização 
Vergonha social 

Obstáculos públicos para uma sociedade que ainda não sabe olhar, no espaço público, o deficiente físico enfrenta barreiras que vão muito além da acessibilidade:
Arquitetura hostil 
Olhar piedoso ou caritativo 
Desconfiança de competência 
Redução à inspiração 
Falta de autonomia real 
Baixa expectativa 

Obstáculos da crítica — o julgamento simbólico. Aqui entram mídia, arte, instituições, discursos públicos. Esse nível é crucial porque molda o imaginário coletivo. Sem reconhecimento simbólico, o indivíduo continua sendo visto como “outro”, não como igual:
Representações estereotipadas 
Narrativas capacitistas 
Falta de protagonismo 
Reconhecimento tardio 

A verdadeira inclusão acontece quando:
a família reconhece autonomia,
a sociedade reconhece cidadania,
a crítica reconhece subjetividade.

Direção:
Jim Sheridan

Roteiristas:
Shane Connaughton
Jim Sheridan
Christy Brown





Elenco:
Daniel Day-Lewis como Christy Brown
Brenda Fricker como Mrs. Brown
Alison Whelan como Sheila
Kirsten Sheridan como Sharon
Declan Croghan como Tom
Eanna MacLiam como Benny
Marie Conmee como Sadie
Cyril Cusack como Lord Castlewelland
Phelim Drew como Brian
Ruth McCabe como Mary
Fiona Shaw como Dr. Eileen Cole
Ray McAnally como Mr. Brown
Pat Laffan como Barman
Derry Power como Cliente no bar
Hugh O'Conor como Jovem Christy Brown
Darren McHugh como Young Benny
Owen Sharpe como Young Tom
Eileen Colgan como Nan
Keith O'Conor como Young Brian
Tom Hickey como Priest
Julie Hale como Rachel
Jacinta Whyte como Sally
Sarah Cronin-Stanley como Girlfriend
Jean Doyle como Woman with Pram
Britta Smith como Nurse
Adrian Dunbar como Peter
Lucy Vigne Welsh como Petra
Daniel Reardon como Tony
Conor Lambert como Punch & Judy Puppeteer
Martin Dunne como Waiter
Charlie Roberts como Enlutado #1
Jer O'Leary como Enlutado #2
Mil Fleming como Enlutado #3
Simon Kelly como Liam
Eileen Kohlmann como Violinista
Margaret Lyons como Pianista
Patricia Higgins como Violista
Hilery O'Donovan como Violoncelista
Don King como Contrabaixista
Jenny Bryne como Extra Especial
Linda Walker como Extra Especial
Albert Kavanagh como Extra Especial
Joe Swan como Extra Especial
Rita Lowe como Extra Especial
Gerard Hourigan como Extra Especial
Dawn Kursinczy como Extra Especial
Denis O'Leary como Criança
Lesley Ann Long como Criança
Caromy Corcoran como Criança
Cathy Corcoran como Criança
Lisa Jane Rowland como Criança
Aisling Murnane como Criança
Audrey Diffley como Criança
Oba Seagrave como Criança
Colm Rowland como Criança
Owen Sullivan como Criança
Dean Clifford como Criança
Sean Rowland como Criança
Barry Keane como Criança
Wayne Kearney como Criança
John Mark Knight como Criança
Deborah Pierce como Criança
Barry Lord como Criança
Tess Sheridan como Criança
Fiacra Sheridan como Criança
Eoghan O'Sullivan como Criança
Kerry Ellen Lawlor como Criança
Naomi Sheridan como Criança
Emily Hodge Barker como Criança


Christy Brown
(5 de junho de 1932 – 7 de setembro de 1981) foi um escritor e pintor irlandes. Ele tinha paralisia cerebral, o que permitia que ele escrevesse ou digitasse apenas com os dedos de um pé. Sua obra mais reconhecida é sua autobiografia, intitulada My Left Foot (1954). Posteriormente, foi adaptado para um filme de 1989 com o mesmo nome, vencedor do Oscar, estrelado por Daniel Day-Lewis como Brown.
Brown nasceu em uma família irlandesa da classe trabalhadora no Hospital Rotunda em Dublin, em junho de 1932. Seus pais eram Bridget Fagan (1901–1968) e Patrick Brown (1901-1955). Ele tinha vinte e um irmãos, nove dos quais morreram na infância. Em 1924, sua família mudou-se para o número 54 da Stannaway Road, em Kimmage, que seria sua casa de infância. Ele nasceu com paralisia cerebral severa, de modo que era quase totalmente espástico nos membros. Embora tenham sido incentivados a interná-lo em um hospital, os pais de Brown estavam determinados a criá-lo em casa. Durante a adolescência de Brown, um assistente social começou a visitar regularmente, trazendo livros e materiais de pintura para Brown, pois ele demonstrava grande interesse pelas artes e literatura. Brown aprendeu a escrever e desenhar com a perna esquerda, o único membro sobre o qual tinha controle efetivo. Brown rapidamente amadureceu e se tornou um artista sério. Embora Brown tenha recebido quase nenhuma educação formal durante sua juventude, ele frequentou a St Brendan's School-Clinic em Sandymount de forma intermitente. Em St Brendan's, ele entrou em contato com Robert Collis, um autor. Collis descobriu que Brown também era um romancista nato e, mais tarde, ajudou a usar suas próprias conexões para publicar My Left Foot, que já era um relato autobiográfico em gestação sobre a luta de Brown com a vida cotidiana em meio à vibrante cultura de Dublin.

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
01. Antonia / 02. O Quatrilho / 03. Meu Pé Esquerdo /        

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Protecionismo e Livre-Câmbio nos Estados Unido (7)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     47. Protecionismo e Livre-Câmbio nos Estados Unidos: O êxito não foi obra de uma mão invisível
          
          Em 1865, enquanto a Tríplice Aliança anunciava a próxima destruição do Paraguai, o general Ulisses Grant celebrava, em Appomatox, a rendição do general Robert Lee. A Guerra da Secessão terminava com a vitória dos centros industriais do norte, protecionistas inveterados, sobre os plantadores livre-cambistas de algodão e de tabaco do sul. A guerra que selaria o destino colonial da América Latina nascia ao mesmo tempo em que morria a guerra que tornou possível a consolidação dos Estados Unidos como potência mundial. Convertido pouco depois em Presidente dos Estados Unidos, Grant afirmou: “Durante séculos a Inglaterra confiou na proteção, levando-a até seus extremos, e obteve com isto resultados satisfatórios. Não há dúvida de que deve sua força atual a esse sistema. Após dois séculos, a Inglaterra julgou conveniente adotar o livre comércio, pois entende que a proteção já nada lhe oferece. Muito bem, então, cavalheiros, meu conhecimento de meu país me leva a acreditar que, dentro de 200 anos, quando a América já tiver obtido da proteção tudo o que a proteção pode lhe dar, ela também adotará o livre-comércio”.¹

[1] Citado por FRANK, André Gunder. Capitalism and Underdevelopment in Latin America. New York, 1967.

     Dois séculos e meio antes, o adolescente capitalismo inglês transferira para as colônias do norte da América seus homens, seus capitais, suas formas de viver, sua energia, seus projetos. As treze colônias, válvulas de escape para a população europeia excedente, aproveitaram rapidamente o handicap que lhes dava a pobreza de seu solo e seu subsolo e geraram desde cedo uma consciência industrializadora que a metrópole deixou crescer sem maiores problemas. Em 1631, os recém-chegados colonos de Boston lançaram ao mar uma balandra de 30 toneladas, Blessing of the Bay, construída por eles, e desde então a indústria naval ganhou um assombroso impulso. O carvalho branco, abundante nos bosques, dava boa madeira para as pranchas profundas e as armações interiores dos barcos; de pinho faziam a coberta, os gurupês e os mastros. Massachusetts concedia subvenções à produção de cânhamo para cordas e sogas, e também estimulava a fabricação local de lonas e velames. Ao norte e ao sul de Boston, prósperos estaleiros cobriram as costas. Os governos das colônias concediam subvenções e prêmios às manufaturas de todos os tipos. Eram promovidos com incentivos o cultivo do linho e a produção de lã, matérias-primas para os tecidos de fio cru que, embora não fossem muito elegantes, eram resistentes e eram nacionais. Para explorar as jazidas de ferro de Lyn, em 1643 surgiu o primeiro forno de fundição; em pouco tempo, Massachusetts abastecia de ferro toda a região. Como os estímulos à produção têxtil não pareciam suficientes, esta colônia optou pela coação: em 1655, criou uma lei que, sob a ameaça de penas graves, obrigava cada família a ter ao menos um fiandeiro em contínua e intensa atividade. Cada condado de Virginia estava obrigado, nessa mesma época, a selecionar crianças para instruí-las na manufatura têxtil. Ao mesmo tempo, era proibida a exportação de couros, para que fossem transformados, nos limites da colônia, em botas, correias e arreios.
     “As desvantagens com que tem de lutar a indústria colonial procedem de qualquer parte, menos da política colonial inglesa”, diz Kirkland¹. Ao contrário, as dificuldades de comunicação faziam com que a legislação proibitiva perdesse quase toda a sua força a 3 mil milhas de distância, e favoreciam a tendência ao auto-abastecimento. As colônias do norte não enviavam à Inglaterra nem prata nem ouro nem açúcar, e em troca suas necessidades de consumo provocavam um excesso de importações que de algum modo era preciso sustar. Não eram intensas as relações comerciais através do mar; era imprescindível desenvolver as manufaturas locais para sobreviver. No século XVIII, a Inglaterra ainda prestava tão pouca atenção às colônias do norte que não impedia que se transferissem para suas fábricas as técnicas metropolitanas mais avançadas, num processo real que desmentia as proibições de papel do pacto colonial. Este não era o caso, por certo, das colônias latino-americanas, que proporcionavam o ar, a água e o sal ao capitalismo ascendente na Europa e podiam nutrir com abundância o consumo luxuoso de suas classes dominantes, que importavam de ultramar as manufaturais mais finas e mais caras. Na América Latina, as únicas atividades em expansão eram aquelas que pendiam para a exportação; e assim foi também nos séculos seguintes: os interesses econômicos e políticos da burguesia mineradora ou terra-tenente nunca coincidia com a necessidade de um desenvolvimento econômico para dentro, e os comerciantes não estavam ligados ao Novo Mundo em maior medida do que aos mercados estrangeiros dos metais e dos alimentos que vendiam, e às fontes estrangeiras dos artigos manufaturados que compravam.

[1] KIRKLAND, Edward C. Historia económica de Estados Unidos. México, 1941.

     Quando declarou sua independência, a população norte americana equivalia, em quantidade, à do Brasil. A metrópole portuguesa, tão subdesenvolvida quanto a espanhola, exportava seu subdesenvolvimento para a colônia. A economia brasileira foi instrumentalizada em proveito da Inglaterra, para abastecer suas necessidades de ouro ao longo de todo o século XVIII. A estrutura de classes da colônia refletia essa função provedora. Diferentemente dos Estados Unidos, a classe dominante do Brasil não era formada pelos granjeiros, fabricantes empreendedores e comerciantes internos. Os principais intérpretes dos ideais das classes dominantes nos dois países, Alexander Hamilton e o Visconde de Cairú, expressam claramente a distinção entre uma e outra¹. Ambos tinham sido discípulos de Adam Smith, na Inglaterra. No entanto, enquanto Hamilton se transformara num paladino da industrialização e promovia o estímulo e a proteção do Estado à manufatura nacional, Cairú acreditava na mão invisível que atua na magia do liberalismo: deixai fazer, deixai passar, deixar vender.

[1] FURTADO, op. cit.


     Enquanto morria o século XVIII, os Estados Unidos contavam já com a segunda frota mercante do mundo, totalmente formada por barcos construídos nos estaleiros nacionais, e as fábricas têxteis e siderúrgicas estavam em pleno e pujante crescimento. Pouco tempo depois, nasceu a indústria do maquinário: as fábricas já não precisavam comprar no estrangeiro seus bens de capital. Nas campinas da Nova Inglaterra os fervorosos puritanos do Mayflower tinham lançado as bases de uma nação; no litoral de baías profundas, ao longo dos grandes estaleiros, uma burguesia industrial havia prosperado ininterruptamente. O tráfico comercial com as Antilhas, que incluía a venda de escravos africanos, desempenhou, como vimos em outro capítulo, uma função capital neste sentido, mas a façanha norte americana não teria explicação se não tivesse sido, desde o princípio, animada pelo mais ardente dos nacionalismos. George Washington havia aconselhado em sua mensagem de adeus: os Estados Unidos deviam seguir uma rota solitária¹. Emerson proclamava em 1837: “Temos escutado por tempo demais as refinadas musas da Europa. Nós vamos andar com nossos pés, vamos trabalhar com nossas mãos e falar segundo nossas próprias convicções”.²

[1] FOHLEN, Claude. L’Amérique anglo-saxonne de 1815 à nos jours. Paris, 1965.
[2] SCHNER, op. cit.

     Os fundos públicos ampliavam as dimensões do mercado interno. O Estado estendia estradas e ferrovias, construía pontes e canais¹. Em meados do século, o estado da Pennsylvania participava da gestão de mais de 150 empresas de economia mista, além de administrar os 100 milhões de dólares investidos em empresas públicas. As operações militares de conquista, que arrebataram ao México mais de metade de sua superfície, também contribuíram em grande medida para o progresso do país. O Estado não participava do desenvolvimento somente através dos investimentos de capital e dos gastos militares orientados para a expansão; no Norte, tinha começado a aplicar um zeloso protecionismo aduaneiro. Os terras tenentes do Sul eram, ao contrário, livre-cambistas. A produção de algodão era duplicada a cada dez anos, e embora proporcionasse grandes rendas comerciais à nação inteira e alimentasse os modernos teares de Massachusetts, dependia sobretudo dos mercados europeus. A aristocracia sulista estava vinculada em primeiro lugar ao mercado mundial, no estilo latino-americano; do trabalho de seus escravos provinha 80 por cento do algodão usado nas fiações europeias. Quando o Norte somou a abolição da escravatura ao protecionismo industrial, a contradição resultou na eclosão da guerra. O Norte e o Sul enfrentavam dois mundos na verdade opostos, dois tempos históricos diferentes, duas antagônicas concepções do destino nacional. O século XX ganhou esta guerra contra o século XIX.

[1] “O capital do Estado assume o risco inicial (...). A ajuda oficial às ferrovias não somente facilita a reunião de capitais, como também reduz os custos da construção. Em alguns casos, entre outros para as linhas marginais, os fundos públicos tornaram possível a construção de ferrovias que não teriam sido feitas de outro modo. Em outro número de casos ainda mais importante, aceleraram a realização de projetos que a utilização de capitais privados teria certamente atrasado. PIERCE, Harry H. Railroads of New York. A Study of Government Aid 182-1875. Cambridge, Massachusetts, 1953.

Que todo homem livre cante... 
O velho Rei Algodão está morto e enterrado,

clamava o poeta do exército vitorioso¹. A partir da derrota do general Lee, adquiriram um valor sagrado as taxas aduaneiras, que tinham sido elevadas durante o conflito como um meio de conseguir recursos e foram mantidas para proteger a indústria vencedora. Em 1890, o Congresso votou a chamada tarifa McKinley, ultraprotecionista, e em 1897 a lei Dingley elevou novamente os direitos de alfândega. Pouco depois, os países desenvolvidos da Europa viram-se obrigados a impor barreiras aduaneiras frente à erupção das manufaturas norte-americanas perigosamente competitivas. A palavra truste tinha sido pronunciada pela primeira vez em 1882; o petróleo, o aço, os alimentos, as ferrovias e o tabaco estavam nas mãos de monopólios, que avançavam com botas de sete léguas.²

[1] FOHLEN, op. cit.
[2]  O Sul se transformou numa colônia interna dos capitalistas do Norte. Depois da guerra, a propaganda pró construção de fiações nas duas Carolinas, Geórgia e Alabama, assumiu o caráter de cruzada. Mas este não era o triunfo de uma causa moral, as novas indústrias não nasciam por puro humanitarismo: o Sul oferecia mão de obra menos cara, energia mais barata e lucros altíssimos, que às vezes chegavam a 75 por 100. Os capitais vinham do Norte para atar o Sul ao centro de gravidade do sistema. A indústria do tabaco, concentrada na Carolina do Norte, estava na dependência direta do truste Duke, que se mudou para Nova Jersey para aproveitar uma legislação mais favorável; a Tennessee Coal and Iron Co., que exportava o ferro e o carvão de Alabama, passou em 1907 ao controle da U. S. Steel, que desde então fixou preços e assim eliminou uma concorrência incômoda. No princípio do século, a renda per capita do Sul estava reduzida à metade do que era antes da guerra. WOODWARD, C. Vann. “Origins of the New South 1879-1913.” In: A history of the South. Baton Rouge, 1948.

     Antes da Guerra de Secessão, o general Grant participara do despojamento do México. Depois da Guerra de Secessão, o general Grant foi um presidente com ideias protecionistas. Tudo fazia parte do mesmo processo de afirmação nacional. A indústria do Norte conduzia a história e, já dona do poder político, zelava através do Estado pela boa saúde de seus interesses prevalentes. A fronteira agrícola voava para o Oeste e para o Sul, à custa dos índios e dos mexicanos, mas em sua marcha não ia criando latifúndios, antes semeava de pequenos proprietários os novos espaços abertos. A terra da promissão não atraía tão só camponeses europeus: os mestres artesãos dos mais diversos ofícios e os operários especializados em mecânica, metalurgia e siderurgia também vieram da Europa para fecundar a intensa industrialização norte-americana. Em fins do século passado, os Estados Unidos já eram a primeira potência industrial do planeta; em 30 anos, desde a guerra civil, as fábricas tinham multiplicado por sete sua capacidade de produção. O volume norte-americano de carvão já equivalia ao da Inglaterra, e o de aço o duplicava; as linhas férreas eram nove vezes mais extensas. O centro do universo capitalista começava a mudar de lugar.
     Como a Inglaterra, os Estados Unidos também exportará, a partir da Segunda Guerra Mundial, a doutrina do livre-câmbio, do livre-comércio e da livre concorrência, mas só para o consumo alheio. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial nasceram juntos para negar aos países subdesenvolvidos o direito de proteger suas indústrias nacionais, e para neles esmorecer a ação do Estado. Serão atribuídas infalíveis propriedades curativas à iniciativa privada. No entanto, os Estados Unidos não abandonarão uma política econômica que continua sendo, na atualidade, rigorosamente protecionista, e que por certo presta bom ouvido às vozes da própria história: no norte, nunca confundiram a doença com o remédio.

continua na página 328...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Protecionismo e Livre-Câmbio nos Estados Unido (7)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (IV.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

IV


     Ao saírem de Rasseneur, Etienne e Catherine caminharam em silêncio. O degelo começava, um degelo frio e lento, que sujava a neve sem derretê-la. No céu lívido notava-se a lua cheia por detrás de grandes nuvens, farrapos negros que uma ventania altíssima varria furiosamente. Na terra não soprava nenhuma aragem, só se ouvia o gotejar dos telhados, de onde caíam bolas brancas, numa queda suave.
     Etienne, embaraçado com a presença daquela mulher que lhe presenteavam, não sabia o que dizer, de tão sem jeito. A ideia de levá-la consigo e escondê-la em Réquillart parecia-lhe absurda. Preferia conduzi-la ao conjunto habitacional, para a casa dos pais, mas ela recusava, cheia de pavor: não, não, tudo menos voltar para a família depois de a ter deixado de maneira tão ignóbil. E nenhum dos dois conseguia dizer palavra, caminhavam ao acaso pelos caminhos que se transformavam em lodaçais. Primeiro tinham descido em direção à Voreux, depois dobraram à direita, passando entre o aterro e o canal. 

— Mas tens que dormir em algum lugar — disse ele afinal. — Se eu tivesse ao menos um quarto, levava-te comigo...

     Calou-se, cheio de timidez. Seu passado vinha-lhe à memória, seus enormes desejos de outrora, as delicadezas e as vergonhas que os tinham impedido de se juntarem. Acaso a quereria ainda, para se sentir tão confuso, com o coração pulsando cada vez mais forte de desejo renascido? A lembrança das bofetadas que ela lhe dera na Gaston-Marie agora o excitava, em vez de enchê-lo de rancor. E estava surpreendido; a ideia de levá-la para Réquillart já lhe parecia completamente natural e de fácil execução. 

— Vamos, decide-te, onde queres que te leve? Tu me detestas tanto que não queres vir comigo...

     Ela seguia-o lentamente, atrapalhada com os escorregões penosos dos tamancos nos sulcos do caminho. Sem erguer a cabeça, murmurou: 

— Já sou bastante desgraçada, pelo amor de Deus, não me faças sofrer mais! De que adianta dizer isso, agora que já tenho um homem e tu tens uma mulher?

     Referia-se à filha de Mouque. Julgava que viviam juntos, pois esse era o boato que corria havia uns quinze dias. E quando ele negou, jurando, ela balançou a cabeça e lembrou a noite em que os vira beijando-se na boca. 

— Não é uma pena todas essas besteiras? — continuou ele a meia voz e parando. — Nós nos teríamos entendido tão bem...

     A moça respondeu com estremecimento: 

— Vamos, não te lamentes, não estás perdendo grande coisa. Se soubesses o traste inútil que sou, magra como um esqueleto, tão mal acabada que nunca serei uma mulher, juro-te!

     E continuou a falar livremente, acusando-se como de uma falta, daquele longo atraso de sua puberdade.
     Isso, apesar de já ter tido um homem, diminuía-a, relegava-se às fileiras das meninas. Quando se pode ter um filho, ainda há desculpa. 

— Minha pobre criança! — murmurou Etienne, cheio de grande piedade.

     Encontravam-se ao pé do aterro, escondidos à sombra do monte enorme. Uma nuvem de chumbo passava justamente pela lua, não podiam ver um ao outro, e seus hálitos se misturavam, seus lábios se buscavam, para o beijo cujo desejo os atormentara durante meses. Mas a lua reapareceu de repente, e viram por cima deles, no alto das rochas brancas de luz, a sentinela perfilada, que guardava a mina. E, sem que se tivessem beijado, separou-os o pudor, esse pudor antigo onde havia cólera, uma vaga repugnância e muito de amizade. Recomeçaram a vagarosa caminhada, com lama até os tornozelos. 

— Então está decidido: tu não queres... — disse Etienne. 
— Não — respondeu ela. — Primeiro o Chaval, agora tu depois um outro... Não, tenho nojo disso. Ademais, não sinto prazer algum, para que fazer, então?

     Calaram-se, andaram mais cem passos, sem trocar palavra. 

— Mas ao menos sabes para onde é que vais? Não posso deixar-te ao deus-dará com uma noite dessa.

     Ela respondeu com naturalidade: 

— Volto para casa, para Chaval, é com ele que tenho de ficar. 
— Mas ele te prometeu uma surra!

     O silêncio recomeçou. Ela dera de ombros, resignada. Sim, ele a espancaria, e, quando estivesse cansado de bater, pararia; preferia isso a andar rolando pelas sarjetas, como uma meretriz. E depois, já estava acostumada a apanhar; dizia mesmo, para se consolar, que, em dez mulheres, oito não viviam melhor que ela. Se um dia Chaval quisesse casar, tudo estaria resolvido.
     Etienne e Catherine dirigiram-se inconscientemente para Montsou, e, à medida que se aproximavam, seus silêncios ficavam mais longos. Era como se não estivessem mais caminhando juntos. O rapaz não encontrava nada para dizer que pudesse convencê-la, apesar da grande tristeza que sentia de vê-la voltando para Chaval. Seu coração estava despedaçado, nada tinha a oferecer senão uma existência de miséria e fuga, uma noite sem amanhã, se a bala de algum soldado lhe varasse a cabeça. Talvez mesmo fosse mais sensato não procurar novos sofrimentos. E assim reconduziu-a à casa do amante, de cabeça baixa, e não fez um gesto de protesto quando, já na estrada real, ela parou à esquina do depósito da companhia, a vinte metros do Piquette, dizendo: 

— Volta daqui. Se ele te vê, vai querer brigar de novo. Davam onze horas na igreja, o botequim estava fechado, mas a luz passava pelas frestas da porta. 
— Adeus — murmurou a moça.

     Estendeu-lhe a mão, que ele prendeu entre as suas; com esforço, lenta e penosamente, ela retirou-a, para deixá-lo. Sem olhar para trás, entrou pela porta pequena, com sua chave. Mas o rapaz permaneceu onde estava, espiando a casa, ansioso por saber o que se passava lá dentro. Apurou o ouvido, tremia com receio de ouvir os gritos de uma mulher sendo espancada. A casa conservava-se escura e silenciosa, apenas via luz numa janela do primeiro andar; e, como essa janela se abrisse e ele reconhecesse a figura franzina que se debruçava sobre a estrada, avançou.
     Catherine, então, disse em voz muito baixa: 

— Ele não voltou ainda, vou deitar-me. Vai embora, pelo amor de Deus!

     Etienne partiu. O degelo aumentava, era como se a chuva rolasse dos telhados, um suor de umidade escorria das paredes, dos tapumes, de todas a» massas confusas daquela zona industrial, perdida na noite. Primeiro dirigiu-se para Réquillart, doente de tristeza e cansaço, querendo apenas desaparecer, ser tragado pela terra, mas, em seguida, começou a atormentá-lo a ideia da Voreux, dos operários belgas que iam começar a trabalhar ali, e vieram-lhe à memória os companheiros exasperados contra os soldados, resolvidos a não tolerar estrangeiros na sua mina. Dirigiu-se novamente para lá, costeando o canal, atolando-se nas poças de neve derretida.
     Quando se viu novamente perto do aterro, a lua surgiu, muito clara. Levantou os olhos, olhou o céu, onde havia uma cavalgada de nuvens impelidas pela ventania que soprava no alto. Agora, porém, elas estavam esbranquiçadas, esfiapadas, mais leves, de uma transparência baça de água turva sobre a face da lua, e correndo tão rápidas que o astro, velado por momentos, incessantemente reaparecia na sua limpidez.
     Com os olhos cheios daquela claridade pura, Etienne baixou a cabeça, detendo a vista num espetáculo que se desenrolava no cimo do aterro. A sentinela, entorpecida pelo frio, não mais conseguindo ficar parada, agora dava guarda andando vinte e cinco passos voltada para o lado de Marchiennes, fazia meia-volta e caminhava outro tanto, de frente para Montsou. Via-se o brilho prateado da baioneta pairando acima da silhueta escura do soldado, recortada nitidamente contra a palidez do céu. Mas o que interessava ao rapaz era uma sombra móvel, um bicho de rastos e à espreita, em quem logo reconheceu Jeanlin pelo dorso de fuinha, longo e desengonçado, emboscado por trás da cabana onde o velho Boa-Morte se abrigava nas noites de temporal. A sentinela não podia vê-lo, com certeza o pequeno bandido preparava alguma das suas, pois andava furioso com os soldados, perguntando quando se veriam livres daqueles assassinos, que ali estavam com seus fuzis para matar a gente.
     Etienne hesitou, não sabendo se devia chamá-lo, para evitar que fizesse alguma bobagem. Num dos momentos em que a lua se escondeu, viu-o preparando-se para saltar, só não o tendo feito porque o astro voltou a brilhar. Invariavelmente a sentinela avançava até a cabana, dava meia-volta e repetia o trajeto já feito. Repentinamente, aproveitando as sombras de uma nuvem, Jeanlin saltou nas costas do soldado com um pulo enorme de gato do mato e agarrou-se a ele com suas garras, cravando-lhe o canivete na garganta. Como o colarinho duro resistisse, empunhou a arma com ambas as mãos e abateu-a com todo o peso do corpo. Já estava acostumado a sangrar as galinhas que encontrava ciscando por perto das fazendas. Fez um trabalho tão rápido, que só se ouviu na noite um grito sufocado e o ruído cavo do fuzil caindo. A lua, muito branca, brilhava outra vez.
     Paralisado de espanto, Etienne continuava a olhar. Uma exclamação fora estrangulada no fundo do seu peito. No alto, o aterro estava deserto, já não se distinguia sombra alguma sob a fuga descontrolada das nuvens. Subiu correndo para encontrar Jeanlin de gatinhas diante do cadáver que caíra de costas e braços abertos. Na neve, ao luar, as calças vermelhas e o capote cinzento destacavam-se duramente. Não correra uma única gota de sangue, a faca ainda estava enterrada até o cabo na garganta.
     Com um soco furioso e irrefletido ele prostrou o menino ao lado do corpo. 

— Por que fizeste isso? — gaguejou, desesperado.

     Jeanlin soergueu-se, rastejou sobre as mãos, com o arqueamento felino do seu dorso magro; e as suas grandes orelhas, seus olhos verdes, suas maxilas salientes fremiam e faiscavam na excitação do crime. 

— Fala, demônio! Por que fizeste isso? 
— Sei lá, tive vontade.

     E insistiu naquela resposta. Havia três dias que tinha vontade de fazer aquilo. Só pensava nisso, chegava a andar com dor de cabeça de tanto pensar. Para que preocupar-se por causa desses soldados imundos que vinham incomodar os mineiros em suas próprias casas? Dos discursos violentos na floresta, dos gritos de devastação e morte ecoados nas minas, cinco ou seis palavras tinham ficado na sua memória, e ele agora as repetia, brincando de revolução. Outras explicações não sabia dar, ninguém o tinha empurrado, imaginara tudo sozinho, da mesma maneira que planejava roubar cebolas nas plantações.
     Etienne, abismado com aquele brotar surdo do crime no fundo de um cérebro de criança, escorraçou-o de novo com um pontapé, como a uma besta inconsciente. Temia que a guarnição da Voreux tivesse ouvido o grito abafado da sentinela e olhava para a mina a cada vez que a lua surgia. Mas nada se mexia, e ele debruçou-se sobre o cadáver, tocou as mãos que esfriavam, auscultou o coração arado sob o capote. Da faca só se via o cabo de osso, onde a divisa galante, a simples palavra "Amor", estava gravada em letras negras. Seus olhos correram da garganta para o rosto e ele reconheceu o soldadinho, era Jules, o recruta, com quem conversara num amanhecer. Sentiu uma enorme piedade diante daquele rosto de louro, cheio de sardas. Os olhos azuis, arregalados, contemplavam o céu com o mesmo olhar fixo com que o vira esquadrinhando o horizonte em busca da terra natal. Onde seria a região de Plogoff que lhe aparecia sob um sol resplandecente? Ah! longe, muito longe. Com aquela noite de temporal o mar bramia a distância. Esse vento que soprava tão alto tinha talvez passado pela charneca. Duas mulheres estavam paradas — a mãe, a irmã — de cabelos ao vento, olhando também, como se pudessem ver o que a esta hora estava fazendo o seu menino para além das léguas e léguas que os separavam. De agora em diante elas continuariam a esperá-lo. Que coisa detestável era isso, os pobres-diabos matarem-se entre si, pelos ricos!

continua na página 357...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

sábado, 15 de agosto de 2026

Reunião Dançante... Garajão 5

Garajão 5


Para ouvir aquele som do garajão
eu volto, não vou me perder
por que? o som que vem do chão

insiste em me refazer

E no meio desse retorno
percebo o que deixei passar
coisas que vi tão de leve

e que hoje não podem voltar

Há encontros que a gente vive, hoje eu sei
sem medir o seu valor
só depois que o tempo ensina

sentimos o peso de cada sabor

sei lá, nascemos para viver! 


o ano é 1972
Bread - Everything I Own




David Gates – vocais, guitarra, baixo, teclados, violino, viola, percussão (1968–1973, 1976–1978, 1996–1997)
Jimmy Griffin – vocais, guitarra, teclados, percussão (1968–1973, 1976–1977, 1996–1997; falecido em 2005)
Robb Royer – guitarra, baixo, flauta, teclados, percussão, flauta doce, vocais de apoio (1968–1971)
Mike Botts – bateria, percussão (1969–1973, 1976–1978, 1996–1997; falecido em 2005)
Larry Knechtel – teclados, baixo, guitarra, gaita (1971–1973, 1976–1978, 1996–1997; falecido em 2009)

Você me protegeu do mal
me manteve aquecido, me manteve aquecido
Você me deu a minha vida
me libertou, me libertou
Os melhores anos que eu conheci
foram todos os anos que estive com você
Eu daria qualquer coisa que eu possuo
daria a minha vida, o meu coração, a minha casa
Eu daria tudo que possuo
apenas para ter você de volta outra vez
Você me ensinou como amar
do que é feito o amor
Você nunca falou demais
e eu aprendi observando você
Ninguém mais poderia conhecer
a parte de mim que não pode desistir
Eu daria qualquer coisa que eu possuo
daria a minha vida, o meu coração, a minha casa
Eu daria tudo que possuo
apenas para ter você de volta outra vez
Existe alguém que você conhece
e que você o ama muito
mas você não lhe dá o devido valor?
Você pode perdê-lo algum dia
alguém os leva embora
E eles não ouvirão as palavras que você deseja dizer
Eu daria qualquer coisa que eu possuo
daria a minha vida, o meu coração, a minha casa
Eu daria tudo que possuo
apenas para ter você de volta outra vez
Apenas para te tocar mais uma vez


o ano é 1978
Born to be alive - Patrick Hernandez






o ano é 1978
Walk of life - Dire Straits





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Garajão 01: Alone again / Ben / Soley Soley
Garajão 02: One Day In Your Life / Dance, Little Lady Dance / More Than A Woman
Garajão 03: Não se esqueça de mim / Os seus botões / Café da manhã
Garajão 04: Daddy Cool / Ma Baker / Sunny  
Garajão 05: Everything I Own / Born to be alive / Walk of life