sábado, 5 de setembro de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (V.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

V


     Acabavam de fechar todas as entradas da Voreux e os sessenta soldados, descansando armas, obstruíam a única porta que fora deixada livre, a que conduzia à recebedoria por uma escada estreita, para onde davam a sala dos contramestres e o vestiário. O capitão alinhara-os em duas fileiras, contra o muro de tijolos, para não poderem ser atacados pela retaguarda.
     A princípio, o grupo de mineiros vindos do conjunto habitacional manteve-se a distância. Eram no máximo uns trinta e faziam seus planos com palavras violentas e confusas.
     A mulher de Maheu, que fora a primeira a chegar, despenteada sob um lenço posto às pressas, tendo nos braços Estelle, que dormia, repetia com voz febril: 

— Que ninguém entre e ninguém saia! Temos que agarrá-los todos lá dentro!

     Maheu aprovava, no momento em que o velho Mouque chegou de Réquillart. Quiseram impedir sua passagem, mas ele se debateu, dizendo que os cavalos não podiam ficar sem comer sua aveia e que nada tinham a ver com a revolução. E, ainda por cima, havia um cavalo morto, estavam à sua espera para retirá-lo. Etienne libertou o velho cavalariço, que os soldados deixaram descer ao poço. Um quarto de hora mais tarde, quando o bando de grevistas já estava maior e tornava-se ameaçador, uma porta larga do térreo se abriu e apareceram homens arrastando o animal morto, um espetáculo horrível, ainda enfiado na rede de corda, e que abandonaram no meio das poças de neve derretida. Foi tamanha a comoção que ninguém os impediu de entrarem novamente e trancarem a porta. Todos tinham reconhecido o cavalo, pela cabeça dobrada e amarrada ao flanco. Ouviram se murmúrios: 

— Não é o Trombeta? É, sim, é o Trombeta.

     Realmente, era ele. Desde que descera, nunca pudera aclimatar-se Andava tristonho, sem gosto para o trabalho, como que torturado por uma nostalgia do sol. Em vão Batalha, o decano da mina, roçava-o amigavelmente com as costelas, mordiscava-lhe o pescoço, tentando incutir-lhe um pouco da resignação dos seus dez anos debaixo da terra. Estas carícias redobraram sua melancolia, seu pêlo fremia sob as confidencias do camarada que envelhecera nas trevas; e ambos, cada vez que se encontravam e relinchavam juntos, pareciam estar-se lamentando: o velho de já nem sequer recordar, o jovem de não conseguir esquecer. Na cavalariça, em manjedouras vizinhas, viviam de cabeça baixa, assoprando as narinas um ao outro, intercambiando seu contínuo sonho da luz, visões de pradarias, de estradas brancas, de claridades amarelas, sem fim. Depois, quando Trombeta, alagado em suor, agonizava na sua cama de palha, Batalha pusera-se a farejá-lo em desespero, resfolegando rapidamente, como se estivesse soluçando. Sentia que o outro estava esfriando, a mina arrebatava-lhe sua derradeira alegria, aquele amigo caído lá do alto, cheio de bons aromas que lhe recordavam sua juventude ao ar livre. E arrebentara a correia, relinchando de medo ao constatar que Trombeta não se mexia mais.
     Mouque vinha advertindo o capataz havia oito dias do que se estava passando, mas quem iria importar-se com um cavalo doente naquela ocasião?! E depois, a direção não gostava de mudar cavalos. Agora, portanto, só restava tirá-lo para fora. Na véspera, o cavalariço e mais dois homens haviam passado uma hora amarrando o cavalo morto. Atrelaram Batalha para levá-lo até o poço. Lentamente, o velho cavalo puxava o camarada morto, por uma galeria tão estreita que tinha de dar safanões, arriscando arrancar-lhe a pele. E, exausto, abanava a cabeça, ouvindo o longo arrastar daquela massa que ia ser esfolada. Na boca do poço, quando o desatrelaram, seguiu com um olhar triste os preparativos da subida, o corpo lançado sobre travessas, por cima do fosso, a rede amarrada por baixo de um elevador. Afinal os ascensoristas deram o sinal de corpo, ele ergueu a cabeça para vê-lo partir, primeiro devagar, em seguida engolfado nas trevas, desaparecido para sempre naquele buraco escuro. E assim permaneceu, de pescoço espichado, sua memória vacilante de animal recordando-se talvez das coisas da terra. Mas tudo estava terminado, o companheiro nunca mais veria nada, ele próprio seria assim envolto como um embrulho atroz, no dia em que subisse por ali. Suas pernas puseram-se a tremer, o ar puro que vinha dos prados distantes o deixava tonto; e parecia bêbado quando voltou vagarosamente para a cavalariça.
     No pátio, os mineiros continuavam sombrios diante do cadáver de Trombeta. Uma mulher disse a meia voz: 

— Mais um homem que vai descer, se quiser...

     Mas um novo grupo despontava vindo do conjunto habitacional, e Levaque, que marchava à frente, seguido da mulher e de Bouteloup, gritava: 

— Morram os belgas! Fora com os estrangeiros! Morram! Morram!

     Todos se precipitaram, Etienne teve de contê-los. Aproximou-se do capitão, um homem jovem, alto e delgado, com apenas vinte e oito anos, de fisionomia desesperada e resoluta. Começou a explicar-lhe tudo, tentando aliciá-lo, estudando o efeito das suas palavras. Para que arriscar um massacre inútil? Acaso a justiça não estava do lado dos mineiros? Eram todos irmãos, deviam entender-se. À palavra "república", o capitão fizera um gesto nervoso. Permaneceu todo o tempo numa postura militar, e disse bruscamente: 

— Caia fora! Não me force a cumprir com o meu dever. Três vezes Etienne recomeçou. Por trás dele os companheiros resmungavam. Corria o boato de que o Sr. Hennebeau estava na mina e falava-se em descê-lo ao fundo pelo pescoço para ver se ele, sozinho, conseguiria tirar carvão do veio. Mas era boato falso, lá dentro só estavam Négrel e Dansaert, que, por um momento, chegaram a aparecer numa janela da recebedoria: o capataz conservava-se atrás, embaraçado desde a sua aventura com a mulher de Pierron, ao passo que o engenheiro, corajosamente, esquadrinhava a multidão com seus olhinhos vivos, sorrindo com aquele desprezo trocista com que envolvia pessoas e coisas. Começaram as vaias e desapareceram. No seu lugar surgiu a cabeça loura de Suvarin; estava de serviço, não tinha abandonado sua máquina não tinha abandonado sua máquina um só dia, desde o início da greve, num mutismo absoluto, aos poucos absorvido por uma ideia fixa, que como um prego de aço parecia luzir no fundo dos seus olhos pálidos.

— Caiam fora! — repetiu gritando o capitão. — Não tenho nada que ouvir, tenho ordens de guardar o poço e vou cumpri-las... Se vocês se aproximarem dos meus homens, eu saberei como fazê-los recuar.

     Apesar da voz firme, sua inquietude e palidez eram cada vez maiores, diante do número sempre crescente de mineiros. Devia ser rendido ao meio-dia, mas, temendo não aguentar-se até lá, acabava de enviar a Montsou um mensageiro em busca de reforço.
     Recomeçaram as vociferações: 

— Morte aos estrangeiros! Morte aos belgas! Aqui nós somos os donos!

     Etienne recuou, abatido. Era o fim, só lhe restava lutar e morrer. Daquele momento em diante deu rédea solta aos companheiros. O boato avançou até o destacamento. Eram perto de quatrocentos e os conjuntos habitacionais das imediações também estavam chegando, prontos para a batalha. Todos gritavam a mesma coisa; Maheu e Levaque, furiosos, conclamavam os soldados: 

— Vão embora! Não temos nada contra vocês, desistam! 
— Isso não é assunto para soldado — gritava a mulher de Maheu. — Deixem a gente resolver o problema entre nós!

     Por trás dela, a mulher de Levaque acrescentava, ainda mais violenta: 

— Será que teremos de dar cabo de vocês para poder passar? Vamos, deem o fora!

     Ouviu-se até a voz esganiçada de Lydie, que se metera no meio da turba, acompanhada de Bébert, e gritava a plenos pulmões: 

— Soldados cretinos!

      Catherine, a poucos passos, olhava, escutava, como que aparvalhada com aquelas novas violências, no meio das quais a má sorte a fazia cair. Será que já não estava sofrendo bastante? Que pecado teria cometido para ser assim perseguida pela desgraça? Ainda na véspera, não tinha compreendido nada dessas violências grevistas que agora explodiam, e pensara que, quando já se tem o seu quinhão de maus-tratos, não se deve procurar mais. Mas agora seu coração enchia-se de ódio, lembrou-se do que Etienne dizia, quando procurava catequizá-los, e por isso procurou ouvir o que ele estava falando com os soldados. Etienne chamava-os de companheiros lembrava-lhes que também eram povo, que deviam estar do lado do povo, contra os exploradores da miséria.
     Mas, de repente, a multidão abriu alas, e apareceu uma velha Era a Queimada, horrendamente magra, com o pescoço e os braços descobertos, chegando num tal galope que quase não enxergava com o cabelo grisalho todo desgrenhado caindo-lhe nos olhos. 

— Raios os partam! Cheguei a tempo! — balbuciou ela respirando a custo. — O vendido do Pierron tinha-me fechado no porão!

     E, sem tomar fôlego, caiu sobre a tropa com a sua boca negra vomitando insultos: 

— Corja de canalhas! Corja de crápulas! Lambe-botas dos superiores, só são corajosos quando é para ir contra os pobres!

     Os outros, então, juntaram-se a ela e foi uma torrente de injúrias. Alguns ainda gritavam: "Vivam os soldados! Para o poço com o oficial!" Mas dentro em pouco só se ouvia um clamor: "Abaixo os calças vermelhas!" E esses homens, que tinham escutado impassíveis, de fisionomia imóvel e muda, os apelos à fraternidade, as tentativas amistosas de aliciamento, conservavam a mesma rigidez passiva sob aquela saraivada de insultos. Detrás deles o capitão desembainhara a espada. E, como a multidão apertava o cerco, ameaçando esmagá-los contra a parede, comandou preparar baioneta. Os soldados obedeceram, duas fileiras de pontas de aço vieram encostar-se ao peito dos grevistas. 

— Canalhas! — berrou a Queimada, recuando.

     Mas já estavam todos avançando novamente, num exaltado desprezo pela morte. Algumas mulheres se precipitaram, a de Maheu e a de Levaque clamavam: 

— Podem matar-nos, podem matar-nos! Queremos os nossos direitos!

     Levaque, em risco de se cortar, tinha agarrado nas mãos um feixe de baionetas, três baionetas, e sacudia-as, puxando-as para arrancá-las. E torcia-se com a força duplicada da sua cólera, enquanto Bouteloup, ao lado, arrependido de ter seguido o companheiro, olhava-o com toda a calma. 

— Vamos, ataquem! — repetia Maheu. — Ataquem, se têm coragem!

     E abriu a jaqueta e a camisa, mostrando o peito nu, cabeludo e tatuado pelo carvão. Começou a investir contra o aço, obrigando os soldados a recuarem, terrível na sua insolência e bravura. Uma das baionetas atingiu-o à altura do mamilo e ele, como doido, forçava-a que entrasse profundamente, querendo ouvir as costelas estalarem. 

— Covardes, não se atrevem... Há dez mil atrás de nós. Podem matar-nos, terão de matar mais dez mil.

     A posição dos soldados tornava-se crítica; tinham recebido ordem de só usarem suas armas em caso extremo. Mas como impedir aqueles loucos de se auto-imolarem? Por outro lado, o espaço diminuía, encontravam-se agora acuados contra a parede, na impossibilidade de continuar recuando. A pequena tropa, um punhado de homens, diante da avalanche de mineiros, continuava resistindo, executando com sangue-frio as ordens breves dadas pelo capitão. Este, com seus olhos claros, os lábios nervosamente adelgaçados, só temia uma coisa, vê-los perder a cabeça com as injúrias. Já um sargento jovem, alto e magro, com bigode ralo e em pé, piscava os olhos de uma maneira inquietadora. Ao lado dele, um velho cheio de condecorações, de pele curtida por inúmeras campanhas, ficara lívido ao ver sua baioneta torcida como uma palha. Outro, sem dúvida um recruta, ainda cheirando a terra lavrada, fazia-se rubro cada vez que era chamado crápula e canalha. E as violências não cessavam, os punhos estendidos, os palavrões, as torrentes de acusações e ameaças eram como bofetadas. Era necessária toda a força da disciplina para os conter assim, impassíveis, no altivo e triste silêncio da rigidez militar.
     Um choque parecia fatal, quando surgiu por trás da tropa o contramestre Richomme, com sua cabeça alva de policial bondoso, fremindo de emoção. Falou aos gritos: 

— Diabo os carregue, seus idiotas! Isso não pode continuar assim!

     E lançou-se entre as baionetas e os mineiros. 

— Companheiros, escutem... Vocês sabem muito bem que eu sou um velho operário e sempre fui um dos de vocês. Pois bem, raios me partam! Prometo-lhes que, se não forem justos com vocês, eu mesmo irei até os patrões para lhes dizer umas boas... Mas chega disto, não se lucra nada berrando palavrões a esta boa gente e querendo ficar espetado na ponta duma baioneta.

     Todos escutavam, hesitantes. No alto, infelizmente, voltou a delinear-se o perfil de Négrel. Temia, sem dúvida, ser acusado de enviar um contramestre, em vez de arriscar a própria pele. Tentou falar, mas sua voz perdeu-se no meio de tão espantoso tumulto, que teve de abandonar novamente a janela, depois de ter dado de ombros. Daí por diante, por mais que Richomme suplicasse em seu próprio nome, por mais que repetisse que aquilo devia ser decidido entre companheiros, repeliram-no, cheios de suspeitas; mas ele não arredou pé do meio dos grevistas. 

— Raios os partam! Podem rachar-me a cabeça, mas não saio daqui enquanto continuarem bancando os idiotas!

continua na página 368...
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Sexta Parte - (IV.b) / Sexta parte - (V.a) /       
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / VI — O homem bravio no seu covil

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     VI — O homem bravio no seu covil

             As cidades, do mesmo modo que as florestas, têm os seus antros, nos quais se oculta tudo o que têm de pior e mais temível A diferença é que nas cidades, o que assim se esconde é feroz, imundo e pequeno, isto é, feio; nas florestas, o que se oculta é feroz, selvagem e grande, quer dizer, belo. Tocas por tocas, as dos animais são preferíveis às dos homens. As cavernas têm muito mais valor do que as pocilgas.
     O que Mário via era uma pocilga.
     Mário era pobre, e o seu quarto indigente; mas pelo mesmo modo que a sua pobreza era nobre, o seu cubículo era asseado. A esterqueira em que naquele momento mergulhava a vista era abjecta, porca, fé da, infecta, tenebrosa, sórdida. Por únicos móveis uma cadeira de palhinha, uma mesa desconjuntada, alguns cacos, e em dois cantos duas camas indescritíveis; claridade só tinha a que recebia por uma janelinha de quatro vidros, toda guarnecida de teias de aranha Por esta fresta entrava exatamente a luz precisa para que o rosto de um homem parecesse o de um fantasma. As paredes apresentavam um aspecto leproso e estavam cobertas de costuras e de cicatrizes, como um rosto desfigurado por alguma horrível doença e ressumando certa humidade ramelosa. Distinguiam-se nelas alguns desenhos obscenos, feitos grosseiramente com carvão.
     O quarto que Mário ocupava tinha o pavimento de ladrilho e em muito mau estado; aquele nem era ladrilho nem assoalhado; o solo era formado pelo antigo entulho do pardieiro, enegrecido pelos pés que o pisavam Sobre este solo desigual onde a poeira estava como que encrostada, e que não tinha senão uma virgindade, a da vassoura, agrupavam-se caprichosamente constelações de loiça quebrada, de chinelos e de farrapos; e afinal aquele quarto tinha chaminé, o que lhe elevava a renda a quarenta francos anuais Nesta chaminé havia de tudo: um fogareiro, uma panela, trapos pendurados em pregos, uma gaiola de pássaro, cinza, e mesmo algum lume. Estavam ali dois tições, fumegando tristemente.
     Uma coisa que aumentava ainda o horror da pocilga, era o ser grande. Tinha saliências, ângulos, buracos escuros, baías e promontórios. Resultava de tudo isto a existência de cantos insondáveis onde parecia que deviam abrigar-se aranhas volumosas como punhos, bichos de conta do tamanho de um pé, e quem sabe mesmo se monstruosos entes humanos.
     Uma das camas estava ao pé da porta, a outra ao pé da janela. Tocavam ambas por uma extremidade na chaminé, e ficavam fronteiras a Mário. Num ângulo próximo à abertura por onde Mário estava espreitando, via-se pendurada na parede, numa moldura negra, uma gravura colorida, por baixo da qual se lia em grandes letras: O SONHO. Esta gravura representava uma mulher e uma criança adormecidas, uma águia no meio de uma nuvem, com uma coroa no bico, e a mulher mesmo a dormir, afastando a coroa da cabeça da criança; no fundo via-se Napoleão, encostado a uma coluna azul com capitel amarelo, ornada com esta inscrição:
MARINGO 
AUSTERLITZ 
VIENA 
WAGRAMME 
ELOT
     Por baixo deste quadro, via-se, encostado à parede uma espécie de caixilho mais comprido, de algum tosco painel, de uma almofada arrancada a alguma parede e ali esquecida à espera que a tornassem a pregar.
     Junto a mesa, sobre a qual Mário via uma pena, papel e tinta, estava sentado um homem de sessenta anos, pouco mais ou menos, baixo, magro, lívido, de olhar espantado e ar de finura, mas indicativo também de crueldade e receio; um velhaco hediondo.
     Se Lavater houvesse observado aquele rosto, nele encontraria o abutre misturado com o procurador; a ave de rapina e o homem de chicana afeando-se e completando-se um pelo outro; o homem de chicana tornando a ave de rapina ignóbil; a ave de rapina tornando o homem de chicana horrível.
     Este homem tinha umas compridas barbas grisalhas e vestia uma camisa de mulher, que lhe deixava a descoberto o peito cabeludo e os braços eriçados de pelos grisalhos. Por baixo da camisa via-se umas calças cheias de lama, que terminavam numas botas, pelas quais lhe saíam os dedos dos pés.
     Estava a fumar num cachimbo que lhe pendia da boca. Não havia pão naquela mansarda, mas ainda havia tabaco.
     Ocupava-se em escrever, provavelmente alguma carta como as que Mário lera.
     A um canto da mesa via-se um livro velho de cor avermelhada, cujo formato revelava um volume truncado de algum romance Lia-se na capa este pomposo título. Deus, o Rei, a Honra e as Damas, por Ducray-Dummu 1814.
     O homem, ao mesmo tempo que escrevia, falava em voz alta e Mário percebia-lhe estas palavras: 

— Ora esta! Nem sequer, depois da morte, haverá igualdade! Senão olhem para o que vai no Père-Lachaise. Os grandes, os ricos, estão em cima na rua, que é orlada de acácias e bem asseada. Podem ir até lá de carruagem. Os pequenos, os pobres, os infelizes, essa gente para aí, esses atiram com eles para um canto, onde a lama dá pelo joelho, para covas cheias de água! Atiram-nos para ali para eles se desfazerem mais depressa Ninguém lá pode ir vê-los sem se enterrar naquele lamaçal!

     Chegado a este ponto, calou-se, bateu com o punho fechado na mesa e exclamou, rangendo os dentes: 

— Oh, dá-me vontade de comer o mundo!

     Junto do fogão estava acocorada uma mulher gorda, que aparentava ter quarenta ou cem anos.
     Não tinha também por vestuário senão numa camisa e uma saia de malha, remendada com bocados de pano velho.
     Um avental muito grosseiro tapava metade da saia. Conquanto esta mulher es vesse dobrada e como amontoada sobre si mesma, via-se que era de elevada estatura. Era uma espécie de gigante ao pé de seu marido. Tinha os cabelos de um ruivo repugnante, já grisalhos, e que ela de vez em quando afastava da cara, com as suas enormes mãos de unhas chatas.
     Tinha junto de si, pousado no chão, um volume aberto, do mesmo formato que o outro, e talvez do mesmo romance.
     Sentada sobre uma das camas, entrevia Mário uma espécie de rapariga esguia e lívida, quase nua e com os pés pendentes, não tendo ar nem de quem escuta nem de quem vê nem de quem vive.
     Era de certo a irmã mais nova da que tinha ido ao quarto dele entregar-lhe a carta.
     Parecia à primeira vista ter onze ou doze anos. Ao examiná-la, porém, com atenção, conhecia-se que tinha catorze ou mais. Era a que na tarde do dia antecedente, ao escurecer, ia a dizer para a irmã, quando o rapaz as encontrou: «Por aqui me sirvo
     Pertencia à enfezada espécie que está muito tempo paralisada e depois cresce rápida e repentinamente. É a indigência a origem destas tristes plantas humanas. São criaturas que nem têm infância nem adolescência. Aos quinze anos parecem ter doze, aos dezesseis parece que têm vinte. Hoje raparigas, amanhã mulheres. Dir-se-ia que atravessam a vida de um salto, para mais depressa acabar.
     Naquela ocasião, aquele ente tinha ar de criança.
     Em toda a mansarda, nem sinais se viam que acusassem a presença de algum trabalho nem um utensílio nem um só objeto de ferramenta. Apenas, a um canto, alguns ferros velhos de duvidoso aspecto. Respirava tudo essa tristonha presença que se segue ao desespero e precede a agonia.
     Mário deteve-se a contemplar por algum tempo aquela mansão fúnebre, mais medonha que a mansão do túmulo, porque naquela se sentia a agitação da alma humana e o palpitar da vida.
     O sótão, a água-furtada, a espelunca, esses lugares por onde se rojam certos indigentes no mais fundo do edifício social, não são precisamente o sepulcro, são a sua antecâmara; à semelhança, porém, dos opulentos que ostentam as maiores magnificências à entrada dos seus palácios, parece que a morte, que está mesmo ao pé, coloca as suas maiores misérias neste vestíbulo.
     O homem calara-se, a mulher não falava, a jovem parecia que nem respirava. No meio deste profundo silêncio, apenas se ouvia o ranger da pena sobre o papel.
     Passado algum tempo, porém, o homem resmungou, sem parar de escrever: 

— Corja, corja É tudo uma corja!

     Esta variante do epifonema de Salomão arrancou um suspiro à mulher. 

— Sossega, amiguinho — disse ela. — Não te agonies, filho. Em escrever a toda essa gente mostras tu a tua bondade!

     Na miséria apertam-se os corpos uns contra os outros, como se os tomara o frio, mas afastam-se os corações. Segundo todas as aparências, aquela mulher amara decerto aquele homem com todo o amor de que era susceptível, mas esse amor extinguira-se, talvez por causa das quotidianas e recíprocas recriminações, motivadas pela horrível penúria de que toda aquela família era vítima. Já não existiam, nela mais do que cinzas de afeição.
     Contudo, sobreviveram à perda do amor os tratamentos carinhosos, como tantas vezes acontece. Ela dizia: «Filho, meu rico homem, amiguinho», mais só com a boca e sem que o coração nisto tomasse parte.
     O homem que um instante se interrompera continuava de novo a tarefa em que estava ocupado.

continua na página 560...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - VI — O homem bravio no seu covil
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

George Orwell - 1984: Parte 2.2a (Winston seguiu seu caminho)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

2.

     Winston seguiu seu caminho, subindo a pista através de luz e sombra, pisando em poças douradas, iluminadas pela luz sempre que os ramos deixavam o sol passar. Sob as árvores à esquerda o chão estava repleto de florezinhas azuis. Era como se o ar beijasse a pele. Era dia dois de maio. De algum lugar mais profundo, no coração da floresta, vinha o som de várias pombas.
     Ele estava um pouco adiantado. Não encontrara nenhuma dificuldade na viagem, e a garota parecia ter tanta experiência que ele ficou menos assustado do que normalmente teria ficado. Provavelmente ela era confiável para encontrar um lugar seguro. Em geral, não se podia supor que se estivesse muito mais seguro no interior do que em Londres. Não havia teletelas, é claro, mas sempre havia o perigo de microfones escondidos pelos quais sua voz poderia ser captada e reconhecida; além disso, não era fácil fazer uma viagem sozinho sem chamar a atenção. Não era necessário ter um visto no passaporte para viagens de menos de cem quilômetros de distância, mas às vezes havia patrulhas nas estações ferroviárias que examinavam os papéis e faziam perguntas incômodas para qualquer membro do Partido que encontrassem lá. Entretanto, nenhuma patrulha havia aparecido, e na caminhada da estação ele se certificou, através de olhares cautelosos para trás, de que não estava sendo seguido. O trem estava cheio de proles, em espírito de férias por causa do clima de verão. O vagão de madeira no qual ele viajava estava cheio até transbordar por uma única e enorme família, desde uma bisavó desdentada até um bebê de um mês de idade, saindo para passar uma tarde com “sogros” no campo, e, como explicaram livremente a Winston, para pegar um pouco de manteiga do mercado negro.
     A pista se alargou e em um minuto ele chegou ao caminho que ela havia lhe contado, uma mera trilha de gado que mergulhava entre os arbustos. Ele não tinha relógio, mas ainda não podia ser quinze. O campo estava agora tão cheio de flores azuis que era impossível não pisar nelas. Ele se ajoelhou e começou a colher algumas em parte para passar o tempo, mas também porque gostaria de ter um ramo de flores para oferecer à garota quando se encontrassem. Ele havia reunido um buquê grande e sentia o cheiro doentio das flores quando um som vindo de trás o congelou: o estalido inconfundível de um pé em galhos. Ele continuou colhendo as flores. Era a melhor coisa a fazer. Podia ter sido a própria menina, ou ele poderia ter sido segui do no fim das contas. Olhar em volta era mostrar culpa. Ele escolhia as flores. Uma mão encostou levemente em seu ombro.
     Ele olhou para cima. Era a garota. Ela balançou a cabeça, evidentemente como um aviso de que ele devia ficar em silêncio, depois separou os arbustos e rapidamente abriu caminho pela trilha estreita em direção ao bosque. Ela obviamente já estivera ali antes, pois se esquivou dos pedaços pantanosos como se fosse hábito. Winston seguiu-a, ainda segurando seu ramo de flores. Sua primeira sensação foi de alívio, mas enquanto observava o corpo forte e esbelto se movendo à sua frente, com a faixa escarlate que estava apertada o suficien te para ressaltar a curva de seus quadris, a sensação de sua própria inferioridade se pesou sobre ele. Mesmo agora parecia bastante provável que quando ela se voltasse e olhasse para ele, afinal de contas, ela voltaria atrás. A doçura do ar e o verde das folhas o assustavam. Já na caminhada da es tação o sol de maio o tinha feito sentir-se sujo e doentio, uma criatura de dentro de casa, com o pó fuliginoso de Londres nos poros de sua pele. Ocorreu-lhe que até agora ela provavelmente nunca o havia visto em plena luz do dia, ao ar livre. Eles foram até a árvore caída de que ela havia falado. A garota saltou e forçou uma abertura entre dois arbustos. Quando Winston a seguiu, ele descobriu que eles estavam em uma clareira natural, um minúsculo cerco de grama rodeado de mudas altas que a fechavam completamente. A garota parou e virou-se.

“Chegamos”, disse ela.

     Ele estava de frente para ela a vários passos de distância. Até agora, ele não ousara se aproximar dela mais do que isso.

“Eu não queria dizer nada na trilha”, continuou ela, “caso houvesse um microfone escondido. Suponho que não, mas pode haver. Há sempre a chance de um desses porcos reconhecer sua voz. Mas estamos seguros aqui”.

     Ele ainda não tivera coragem de se aproximar dela. “Estamos seguros aqui?”, ele repetiu estupidamente. 

“Sim. Olhe para as árvores”. Eram pequenos freixos, que em algum momento haviam sido cortados e haviam brotado novamente em uma floresta de mudas, nenhuma delas mais espessa do que o pulso. “Não há nada grande o suficiente para esconder um microfone. Além disso, eu já estive aqui antes”.   

     Eles estavam apenas de conversa. Ele tinha conseguido se aproximar dela agora. Ela estava muito erguida diante dele, com um sorriso no rosto que parecia levemente irônico, como se ela estivesse se perguntando por que ele era tão lento para agir. O buquê de florzinhas azuis estava esparramado no chão. Pareciam ter caído por sua própria vontade. Ele pegou a mão dela.

“Você acredita”, disse ele, “que até este momento eu não sabia de que cor eram seus olhos”? Eles eram marrons, ele notou, um tom bastante claro de marrom, com cílios escuros. “Agora que você viu como eu realmente sou, você ainda pode suportar olhar para mim”?
“Sim, facilmente”.
“Tenho trinta e nove anos de idade. Tenho uma es posa da qual não consigo me livrar. Tenho varico ses. Eu tenho cinco dentes falsos”. 
“Não me importo”, disse a moça.  

     No momento seguinte, e era difícil dizer de quem era a iniciativa, ela estava em seus braços. No iní cio, ele não tinha nenhum sentimento, exceto pura incredulidade. O corpo jovem estava tenso contra o seu, a massa de cabelo escuro estava contra o seu rosto, e sim! na verdade ela tinha virado o rosto para cima e ele estava beijando a boca larga e vermelha. Ela havia colocado seus braços sobre o pescoço dele, ela o chamava de querido, precioso, amado. Ele a tinha puxado para o chão, ela estava totalmente sem resistência, ele podia fazer o que quisesse com ela. Mas a verdade era que ele não tinha nenhuma sensação física, exceto a de mero contato. Tudo o que ele sentia era incredulidade e orgulho. Ele estava feliz por isso estar acontecendo, mas não tinha nenhum desejo físico. Era muito cedo, sua juventude e beleza o assustaram, ele estava muito acostumado a viver sem mulheres – ele não sabia ao certo a razão. A garota se levantou e tirou uma flor azul do cabelo. Ela se sentou contra ele, colocando seu braço em volta de sua cintura.

“Não se preocupe, querido. Não temos pressa. Temos a tarde inteira. Esse esconderijo não é maravilhoso? Encontrei-o quando me perdi uma vez em uma caminhada comunitária. Se alguém es tivesse vindo, daria para ouvi-los a cem metros de distância”.
“Como você se chama?”, disse Winston.
 “Júlia. Eu sei o seu nome. É Winston – Winston Smith”.
“Como você descobriu isso”?
“Espero ser melhor que você para descobrir coisas, querido. Mas me diga: o que você achava de mim antes daquele dia em que lhe dei o bilhete”?

     Ele não sentiu nenhuma tentação de contar mentiras para ela. Foi até uma espécie de oferta amo rosa começar contando o pior.  

“Eu odiava te ver”, disse ele. “Eu queria te estuprar e depois te matar. Há duas semanas, pensei seria mente em esmagar sua cabeça com um paralelepípedo. Se você realmente quer saber, eu imaginei que você tinha algo a ver com a Polícia do Pensamento”. 

     A garota riu com prazer, evidentemente tomando isto como uma homenagem à excelência de seu disfarce.

“Não! A Polícia do Pensamento não! Você realmente pensou isso?”
“Bem, talvez não exatamente isso. Mas por sua aparência geral – simplesmente porque você é jovem, forte e saudável, você entende – eu pensei que provavelmente...’’ 
“Você pensou que eu era um bom membro do Par tido. Puro em palavras e atos. Banners, procissões, slogans, jogos, caminhadas comunitárias, tudo isso. E você pensou que se eu tivesse um mínimo de chance eu o denunciaria como um criminoso do pensa mento e o faria morrer”? 
“Sim, algo desse tipo. Muitas garotas são assim, você sabe”.
“É culpa dessa porra aqui”, ela disse ela, arrancando a faixa escarlate da Liga Júnior Antissexo e atirando-a para o lado. Então, como se tocar sua cintura a tivesse lembrado de algo, ela colocou a mão no bolso de seu macacão e tirou uma pequena laje de chocolate. Ela o quebrou ao meio e deu um dos pedaços para Winston. Mesmo antes de pe gá-lo, ele sabia pelo cheiro que era um chocolate muito incomum. Era escuro e brilhante, e estava envolto em papel prata. Normalmente, o chocolate se esfarelava e tinha um sabor difícil de descrever de fumaça de fogo de lixo. Mas em algum momento, ele já tinha provado chocolate como esse. Só o seu cheiro já havia despertado alguma memória que ele não conseguia reprimir, poderosa e perturbadora. 
“Onde você conseguiu isso?”, ele perguntou.
“Mercado negro”, ela disse indiferente. “Na verdade, eu sou esse tipo de garota. Eu sou boa em jogos. Eu era líder de tropas nos espiões. Faço trabalho voluntário três noites por semana para a Liga Júnior Antissexo. Passei horas e horas colando sua maldita podridão por toda Londres. Sempre carrego uma das ponta do cartaz nas procissões. Sempre pareço alegre e nunca me esquivo de nada. Sempre grito com a multidão, é o que eu digo. É a única maneira de estar seguro”.

continua na página 258...
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Capítulo 1:
Parte 2.1a (Era o meio da manhã) / Parte 2.1b (No dia seguinte, ela reapareceu) / Parte 2.2a (Winston seguiu seu caminho) /        
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 3: Seção II)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade

Seção IV
Das partes componentes de nossos raciocínios acerca da causa e do efeito
     
     Embora a mente, em seus raciocínios partindo de causas ou efeitos, dirija sua atenção para além dos objetos que vê ou recorda, ela nunca deve perdê-los inteiramente de vista, nem raciocinar apenas com base em suas próprias ideias, sem combiná-las com impressões, ou ao menos com ideias da memória, que equivalem a impressões. Quando inferimos efeitos de causas, devemos estabelecer a existência dessas causas. E só temos dois meios de fazê-lo: por uma percepção imediata de nossa memória ou nossos sentidos, ou por uma inferência a partir de outras causas. Estas últimas, por sua vez, devem ser deter minadas da mesma maneira, ou seja, por uma impressão presente ou por uma inferência baseada em suas causas; e assim por diante, até chegarmos a um objeto que vemos ou recordamos. E impossível prosseguir com nossas inferências ao infinito; e a única coisa capaz de as deter é uma impressão da memória ou dos sentidos, além da qual não cabem dúvidas nem perquirições.
     Para ilustrar esse tema, podemos escolher um ponto qualquer da história, e examinar por que razão acreditamos nele ou o rejeitamos. Assim, por exemplo, acreditamos que César foi morto no Se nado nos idos de março, porque esse fato foi estabelecido com base no testemunho unânime dos historiadores, que concordam em atribuir esse momento e lugar precisos a tal acontecimento. Temos aqui certos caracteres e letras que estão presentes em nossa memória ou a nossos sentidos, e também nos lembramos de que esses caracteres foram usados como signos de certas ideias. Ora, essas ideias ou estavam nas mentes dos que se encontravam imediatamente presentes àquela ação, recebendo tais ideias diretamente da existência de tal ação; ou foram derivadas do testemunho de outras pessoas, e este novamente de outro testemunho, mediante um visível processo gradativo, até chegarmos às testemunhas oculares e espectadores do acontecimento. É óbvio que toda essa cadeia de argumentos, ou conexão de causas e efeitos, está fundada primeiramente nesses caracteres ou letras que são vistos ou recordados, e que, sem a autoridade, seja da memória seja dos sentidos, todo o nosso raciocínio seria quimérico e infundado. Nesse caso, cada elo da cadeia estaria preso a outro, mas não haveria nada afixado a um dos extremos, capaz de sustentar o todo; consequentemente, não haveria nem crença nem evidência. É isso o que de fato se passa com todos os argumentos hipotéticos, ou seja, raciocínios baseados em uma suposição; pois neles não há nenhuma impressão presente, nem tampouco crença em uma existência real.
     E desnecessário observar que não se trata de uma objeção legítima à presente doutrina dizer que podemos raciocinar com base em nossas conclusões ou princípios passados, sem ter de recorrer às impressões de que estes derivaram em primeiro lugar. Pois, mesmo supondo que essas impressões se apaguem inteiramente de nossa memória, a convicção por elas produzida pode ainda permanecer. Por isso, é igualmente verdadeiro que todo raciocínio acerca de causas e efeitos deriva originalmente de alguma impressão, do mesmo modo que a certeza de uma demonstração procede sempre de uma comparação de ideias, embora possa permanecer mesmo depois de esquecida essa comparação.

continua na página 108...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3     
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IV /                  
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.


Biografia David Hume (1711 / 1776)
 — O Cético que Revolucionou a Filosofia




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo I - A narcisista (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
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CAPÍTULO I
A NARCISISTA
 

     PRETENDEU-SE, por vezes, que o narcisismo era a atitude fundamental de toda mulher (cf. Helen Deutsch, Psychology of Women); mas em estendendo abusivamente essa noção destroem-na, como La Rochefoucauld arruinou a de egoísmo. Na realidade, o narcisismo é um processo de alienação bem definido: o eu é posto como um fim absoluto e o sujeito nele foge de si. Muitas outras atitudes — autênticas ou inautênticas — se encontram na mulher: já estudamos algumas. A verdade é que as circunstâncias convidam a mulher, mais do que o homem, a voltar-se para si mesma e a dedicar-se a seu amor.
     Todo amor reclama a dualidade de um sujeito e de um objeto. A mulher é levada ao narcisismo por dois caminhos convergentes. Como sujeito, ela se sente frustrada; em menina viu-se privada desse alter ego que o pênis é para o menino; mais tarde sua sexualidade agressiva permaneceu insatisfeita. E, o que e muito mais importante, as atividades viris lhe são proibidas. Ela se ocupa, mas não faz nada; através de suas funções de mãe, esposa, dona de casa, não é reconhecida em sua singularidade. A verdade do homem está nas casas que constrói, nas florestas que arroteia, nas doenças que cura: não podendo realizar-se através de projetos e objetivos, a mulher se esforçará por se apreender na imanência de sua pessoa. Parodiando palavras de Sieyès, Maria Bashkirtseff escrevia: "Que sou eu? Nada. Que gostaria de ser? Tudo". É porque nada são que numerosas mulheres limitam ferozmente seus interesses unicamente a seu eu, que hipertrofiam de maneira a confundi-lo com tudo. "Sou minha heroína", dizia ainda Maria Bashkirtseff. Um homem que age confronta-se necessariamente. Ineficiente, separada, a mulher não pode situar-se nem tomar sua própria medida; dá a si mesma uma importância soberana porque nenhum objeto importante lhe é acessível.
     Se assim pode propor-se a seus próprios desejos, é porque desde a infância se apresentou a si mesma como um objeto. Sua educação encorajou-a a alienar-se em todo seu corpo, a puberdade revelou-lhe esse corpo como passivo e admirável; é uma coisa para a qual pode voltar as mãos, que o cetim comove, o veludo, e que ela pode contemplar com um olhar de amante. No prazer solitário, a mulher pode desdobrar-se em um sujeito macho e um objeto fêmeo; assim Irene, cujo caso Dalbiex estudou¹, dizia: "Vou me amar", ou mais apaixonadamente: "Vou me possuir", ou em um paroxismo: "Vou me fecundar". Maria Bashkirtseff é também sujeito e objeto ao mesmo tempo quando escreve: "É pena entretanto que ninguém me veja os braços e o torso, todo esse frescor e toda essa juventude".

[1] La Psychanalyse. Em sua infância, Irene gostava de urinar como os meninos; via-se muitas vezes em sonho sob a forma de ondina, o que confirma as ideias de Havelock Ellis acerca da relação entre o narcisismo e o que chama "ondinismo", isto é, certo erotismo urinário.

     Em verdade, não é possível ser para si positivamente outro e apreender-se à luz da consciência como objeto. O desdobra mento é tão somente sonhado. É a boneca que materializa esse sonho na criança; ela se reconhece nesta mais concretamente do que em seu próprio corpo, porque há separação de uma a outra. Essa necessidade de ser dois para estabelecer um diálogo entre si e si. Mme de Noailles o exprimiu, entre outros, no Livre de ma vie.

   Gostava das bonecas, introduzia em sua imobilidade a animação de minha própria existência; não teria dormido sob o calor de uma coberta sem que elas estivessem também envolvidas de lã e pluma... Sonhava com experimentar realmente a pura solidão desdobrada... Essa necessidade de permanecer intata, de ser duas vezes eu mesma, sentia-a com avidez desde a minha mais remota infância... Ah! como desejei, nos instantes trágicos em que minha doçura sonhadora era o joguete das injuriosas lágrimas, ter a meu lado uma outra pequena Anna que poria os braços em volta de meu pescoço, que me consolaria, me compreenderia... No decorrer de minha vida, encontrei-a em meu coração e a retive com força; ela me socorreu não sob a forma do consolo que esperava, mas sob a forma da coragem.

     A adolescente deixa que suas bonecas durmam. Mas, ao longo de sua vida, a mulher será fortemente ajudada em seu esforço para se abandonar e se retomar na magia do espelho, Rank pôs em evidência a relação entre o espelho e o duplo nos mitos e nos sonhos. É principalmente no caso da mulher que o reflexo se deixa assimilar ao eu. A beleza masculina é indicação da transcendência, a da mulher tem a passividade da imanência: só a segunda é feita para deter o olhar e pode portanto ser pegada na armadilha de aço do espelho; o homem que se sente e se quer como atividade, subjetividade, não se reconhece em sua imagem parada; ela não tem grande atração para ele, porquanto o corpo do homem não se apresenta a ele como objeto de desejo; ao passo que a mulher sabendo-se, fazendo-se objeto, acredita realmente ver-se no espelho: passivo e dado, o reflexo é, como ela própria, uma coisa; e como deseja a carne feminina, sua carne, ela anima com sua admiração, seu desejo, as virtudes inertes que percebe. Mme de Noailles, que se conhecia, confia-nos:

   Era menos vaidosa dos dons do espírito, tão vigorosos em mim que não os punha em dúvida, do que da imagem refletida por um espelho amiudadamente consultado... Só o prazer físico contenta plenamente a alma.

     As palavras "prazer físico" são aqui vagas e impróprias. O que contenta a alma — enquanto o espírito tem que se provar — é que o rosto contemplado está presente, hoje, dado, indubitável. Todo o futuro se concentra nessa faixa de luz cujo quadro transforma em um universo; fora desses estreitos limites, as coisas são apenas um caos desordenado; o mundo reduz-se a esse pedaço de vidro em que resplende uma imagem: a Única. Cada mulher, envolvida em seu reflexo, reina sobre o espaço e o tempo, sozinha, soberana; tem todos os direitos sobre os homens, sobre a fortuna, a glória, a volúpia. Maria Bashkirtseff estava tão embriagada com sua beleza que queria fixá-la em um mármore
imperecível; ela própria é que se teria destinado assim à imortalidade:

   Ao voltar, dispo-me, ponho-me nua e fico impressionada com a beleza de meu corpo, como se nunca o tivesse visto. É preciso fazer minha estátua, mas como? Sem me casar é quase impossível. E é arranjar um marido, ainda que seja somente para mandar fazer minha estátua...

     Cécile Sorel, preparando-se para um encontro amoroso, assim se descreve:

   Estou diante de meu espelho. Gostaria de ser mais bela. Debato-me com minha crina de leoa. Faíscas desprendem-se de meu pente. Minha cabeça é um sol no meio de meus cabelos erguidos como raios de ouro.

     Lembro-me também de uma jovem mulher, que vi certa manhã no toilette de um café; segurava uma rosa na mão e também parecia estar um pouco embriagada; aproximava os lábios do espelho como que para beber a imagem e murmurava sorrindo: "Adorável, acho-me adorável". A um tempo sacerdotisa e ídolo, a narcisista flutua aureolada de glória no coração da eternidade e de outro lado das nuvens; criaturas ajoelhadas adoram--na: é Deus contemplando-se a si próprio. "Eu me amo, sou o meu Deus!", dizia Mme Mejerowsky. Tornar-se deus é realizar a impossível síntese do em-si e o para-si: os momentos em que o indivíduo imagina tê-lo conseguido são para ele momentos privilegiados de alegria, de exaltação, de plenitude. Com 19 anos, Roussel, um dia, numa granja, sentiu em volta da cabeça a aura da glória; nunca se curou. A moça que viu no fundo do espelho a beleza, o desejo, o amor, a felicidade, em seus próprios traços — animados, crê, pela sua própria consciência — tenta rá durante toda a vida cobrar as promessas dessa deslumbrante revelação. "És tu quem amo", confiará um dia Maria Bashkirtseff a seu reflexo. Escreve de outra feita: "Amo-me tanto, torno-me tão feliz que me senti como louca, ao jantar". Mesmo se não é de uma beleza perfeita, a mulher verá transparecerem em seu rosto as riquezas singulares de sua alma e isto bastará para sua embriaguez. No romance em que se pintou sob os traços de Valéria, Mme Krüdener assim se descreve:

   Ela tem algo particular que ainda não vi em nenhuma mulher. Pode-se ter a mesma graça, muito mais beleza e estar longe dela. Não a admiram talvez, mas ela tem qualquer coisa de ideal e de encantador que obriga a se interessarem por ela. Dir-se-ia, vendo-a tão delicada, esbelta, que é um pensamento.

     É um erro espantar-se com o fato de que mesmo as deserdadas possam por vezes conhecer o êxtase do espelho: comovem-se simplesmente com ser uma coisa de carne, presente; como o homem, basta para espantá-las a pura generosidade de uma jovem carne feminina; e desde que se apreendem como sujeito singular, com um pouco de má-fé, dotarão também de encanto singular suas qualidades específicas; descobrirão em seu rosto ou em seu corpo algum traço gracioso, raro, picante; acreditar-se-ão belas pelo simples fato de se sentirem mulheres.
     Demais, o espelho, embora privilegiado, não é o único instrumento de desdobramento. No diálogo interior, todos podem tentar criar um irmão gêmeo. Estando só grande parte do dia, aborrecendo-se com tarefas caseiras, a mulher tem o lazer de modelar, em sonho, sua própria imagem. Moça, ela sonhava com o futuro; encerrada em seu presente indefinido, ela conta sua história; retoca-a de maneira a introduzir nela uma ordem estética, transformando, desde antes da morte, sua vida contingente em um destino.
     Sabe-se quanto as mulheres se apegam a suas recordações de infância; testemunha-o a literatura feminina; a infância em geral só ocupa um lugar secundário nas autobiografias masculinas; as mulheres, ao contrário, restringem-se muitas vezes à narrati va de seus primeiros anos; estes constituem a matéria privilegiada de seus romances, seus contos. Uma mulher que se conta a uma amiga, a um amante, começa quase todas as suas histórias com estas palavras: "Quando eu era menina..." Guardam uma nostalgia desse período. É porque sentiam então sobre a cabeça a mão bondosa e imponente do pai, embora apreciando as alegrias da independência; protegidas e justificadas pelos adultos, eram indivíduos autônomos, diante dos quais um futuro livre se abria; ao passo que agora estão perfeitamente defendidas pelo casamento e o amor e se tornaram servas ou objetos, engaioladas no presente. Reinavam sobre o mundo, conquistavam-no dia após dia; e ei-las separadas do universo voladas à imanência e à repetição. Sentem-se diminuídas. Mas sofrem mais é por se acharem abismadas na generalidade: uma esposa, uma mãe, uma dona de casa, uma mulher entre milhares de outras; em criança, ao contrário, cada uma viveu sua condição de maneira singular; ignorava as analogias existentes entre o seu aprendizado do mundo e o de suas amigas; pelos seus pais, seus professores, suas amigas, era ela reconhecida em sua individualidade, acreditava-se incomparável a qualquer outra, com possibilidades únicas. Volta-se para essa irmã jovem cuja liberdade, de cujas exigências e soberania abdicou e que traiu, mais ou menos, A mulher que se tornou tem saudade do ser humano que foi; tenta reencontrar no fundo de si a criança morta. "Menina", esta palavra comove-a; mais ainda: "estranha menina", que ressuscitam a originalidade perdida.
     Ela não se restringe a maravilhar-se de longe com essa infância tão rara: tenta reavivá-la em si. Busca convencer-se de que seus gestos, suas ideias, seus sentimentos conservaram um insólito frescor. Perplexa, interrogando o vácuo, enquanto brinca com um colar ou mexe num anel, murmura: "Engraçado.. . eu, assim é que sou. . . Imagine, a água me fascina. . . Oh! adoro o campo". Cada preferência parece uma excentricidade, cada opinião um desafio ao mundo. Dorothy Parker mostra de maneira muito viva esse traço tão comum. Assim descreve Mrs. Welton:

   Gostava de se imaginar como uma mulher que não podia ser feliz sem se cercar de flores desabrochadas... Confessava às pessoas com pequenos sobressaltos confidenciais quanto amava as flores. Havia quase um tom de desculpa nessa pequena confissão, como se pedisse a seus auditores que não julgassem seu gosto demasiado insólito. Parecia esperar que seu interlocutor caísse de costas, tomado de espanto e exclamando: "Não, realmente! A que ponto chegamos!" De vez em quando confessava outras predileções miúdas; sempre com um pouco de perplexidade, como se na sua delicadeza se sentisse naturalmente chocada com pôr a nu o coração, dizia quanto gostava da cor, do campo, das distrações, de uma peça realmente interessante, de bonitos tecidos, de vestidos bem feitos, do sol. Mas era seu amor pelas flores que confessava o mais das vezes. Tinha a impressão de que este gosto mais do que qualquer outro a distinguia do comum dos mortais.

     A mulher procura de bom grado confirmar essas análises por suas condutas; escolhe uma cor: "O verde é minha cor"; tem uma flor preferida, um perfume, um músico predileto, superstições, manias que trata com respeito; e não é preciso que seja bela para exprimir sua personalidade em suas toaletes ou em seu lar. O personagem que apresenta tem mais ou menos coerência e originalidade segundo sua inteligência, sua obstinação e a profundeza de sua alienação. Algumas misturam apenas ao acaso alguns traços esparsos embaralhados; outras criam sistematicamente uma figura, cujo papel representam com constância. Já dissemos que a mulher mal separa esse jogo da verdade. Em torno da heroína, a vida organiza-se num romance triste ou maravilhoso, sempre algo estranho. Por vezes é um romance que já foi escrito. Não sei quantas moças disseram ter-se reconhecido na Judy de Poussière; lembro-me de uma velha senhora muito feia que tinha por hábito dizer: "Leia o Lys dans la Vallée, é minha história"; quando criança, eu olhava com estupor reverente esse lírio murcho. Outras mais vagamente murmuram: "Minha vida é um romance". Há uma estrela fasta ou nefasta sobre a fronte delas. "Essas coisas só acontecem a mim", dizem. Cécile Sorel escreve com essa ingenuidade que nunca abandona em suas memórias: Assim foi que fiz minha entrada no mundo. Meus primeiros amigos chamavam-se gênio e beleza". E no Livre de ma vie, documento fabuloso de narcisismo, Mme de Noailles escreve:
     
   As governantas um dia desapareceram: a sorte tomou-lhes o lugar. Maltratou, tanto quanto acumulou de bondades, a criatura forte e fraca, manteve-a acima dos naufrágios onde ela apareceu assim como uma Ofélia combativa, salvando suas flores e cuja voz sempre se amplia mais. Pediu-lhe que esperasse, que fosse realmente exata esta última promessa: os gregos utilizam a morte.

     Cumpre ainda citar como exemplo de literatura narcisista o trecho seguinte:

   Da robusta menina que eu era, de membros delicados mas bem feitos, de faces rosadas, fiquei com este caráter físico mais frágil, mais nebuloso que fez de mim uma adolescente patética a despeito da fonte de vida que pode jorrar de meu deserto, de minha fome, de minhas breves e misteriosas mortes tão estranhamente quanto do rochedo de Moisés. Não me vangloriarei de minha coragem, como teria o direito de fazê-lo. Assimilo-a a minhas forças, a minhas possibilidades. Poderia descrevê-la como se diz: tenho olhos verdes, cabelos pretos mão pequena e forte...

     E linhas adiante:

   Hoje é-me permitido reconhecer que, sustentada pela alma e suas forças de harmonia, vivi ao som de minha voz...

     Na falta de beleza, de brilho, de felicidade, a mulher escolherá uma personagem de vítima para si; obstinar-se-á em encarnar a mater dolorosa, a esposa incompreendida, será a seus próprios olhos "a mulher mais desgraçada do mundo". É o caso desta melancólica que Stekel descreve em A Mulher Fria:

   Todos os anos, no Natal, Mme H. W., pálida, vestida de es curo, vem a minha casa para se queixar da sorte. É uma história triste que conta vertendo lágrimas. Uma vida falhada, lar infeliz.
   Da primeira vez que veio, fiquei comovido até as lágrimas e prestes a chorar com ela... Entrementes, dois longos anos passaram e ela continua a habitar as ruínas de suas esperanças, chorando sua vida perdida. Sua fisionomia acusa os primeiros sintomas do declínio, o que lhe dá mais uma razão de se queixar. "Em que estado me encontro, eu cuja beleza foi tão admirada!" Multiplica as queixas, acentua seu desespero, porque todos os amigos conhecem sua desgraçada sorte. Aborrece todo mundo com suas lamentações... Trata-se de mais uma oportunidade para ela de se sentir infeliz, solitária e incompreendida. Não havia mais saída para esse labirinto de dores... Essa mulher encontrava seu gozo nesse papel trágico. Embriagava-se literalmente com o pensamento de ser a mulher mais infeliz da terra. Todos os esforços para fazê-la tomar parte na vida ativa malograram.

continua página 401...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo I - A narcisista (1)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"