terça-feira, 26 de maio de 2026

Cinema: Nohime

O Japão e a era dos Estados Combatentes - o perigoso Período Sengoku


     Um drama especial que retrata a vida secreta de Nohime, a esposa do lendário conquistador Oda Nobunaga. Filha do temível Saito Dosan, Nohime é uma figura misteriosa com poucos registros históricos. Em meio ao caos da era dos Estados Combatentes, descubra a complexa relação entre ela e Nobunaga. Uma nova e épica perspectiva sobre três figuras audaciosas que, unidas pelo destino, desafiaram as convenções para criar uma nova era sob o fogo e o aço.

     Dotada de bravura e sabedoria, Nohime (Arisa Mizuki) recebe de seu pai, Saito Dosan (Kotaro Satomi), a ordem de um casamento político com Oda Nobunaga (Yu Shirota). Ao entrar no domínio de Nobunaga, apelidado de "o tolo", um evento crucial faz Nouhime descobrir a face oculta de seu marido: por trás da reputação de rebelde inconsequente, reside o gênio de um homem pronto para unificar uma nação fragmentada.





Produção de 2012


     Essa exposição precoce às complexidades da política feudal e das alianças lançou as bases para seu futuro como figura diplomática durante o reinado de seu marido.
     Em 1565, o casamento de Nohime com Oda Nobunaga foi arranjado, consolidando uma aliança estratégica entre os clãs Oda e Azai.
     Essa união não apenas aumentou a influência de Nobunaga, mas também marcou Nohime como uma figura central no cenário político da época.
     Embora inicialmente vista principalmente como uma peça política, ela rapidamente provou seu valor ao facilitar alianças importantes e navegar pelas águas traiçoeiras da política Sengoku.
     Embora Nohime não fosse uma guerreira no sentido tradicional, seu impacto estava mais em sua capacidade de influenciar o marido e outras figuras políticas.
     Ela conseguiu fomentar a lealdade entre os vassalos Oda e conduziu habilmente as relações diplomáticas.
     Seu papel foi crucial em tempos de conflito, especialmente porque Nobunaga enfrentava inúmeros adversários que buscavam minar seu poder.
     Nohimes transcende seu casamento com Nobunaga.
     Após sua morte em 1582, ela continuou a desempenhar um papel significativo nas lutas contínuas pelo poder, demonstrando que sua influência ia muito além de fornecer herdeiros.
     Ela é lembrada como uma mulher forte e inteligente que navegou pelas complexidades da política feudal do Japão durante uma de suas eras mais tumultuadas.
     Nohime continua sendo um símbolo da agência feminina em uma época em que as mulheres eram frequentemente relegadas a um segundo plano, mostrando que inteligência e perspicácia política podem ser tão formidáveis quanto a habilidade marcial.


A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Diários de motocicleta / Nohime /    

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Massa e Poder - Elementos do Poder: Força e Poder

Elias Canetti

ELEMENTOS DO PODER

     Força e Poder

          À força [Gewalt], costuma-se associar a ideia de algo que se encontra próximo e presente. Ela é mais coercitiva e imediata do que o poder [Macht]. Fala-se, enfatizando-a, em força física. O poder, em seus estágios mais profundos e animais, é antes força. Uma presa é capturada pela força, e pela força levada à boca. Dispondo de mais tempo, a força transforma-se em poder. Mas no momento crítico que, então, invariavelmente chega — o momento da decisão é da irrevocabilidade —, volta a ser força pura. O poder é mais universal e mais amplo; ele contém muito mais, e já não é tão dinâmico. É mais cerimonioso e possui até um certo grau de paciência. A própria palavra Macht deriva de um antigo radical gótico — magan, significando “poder, capacidade” —, e não possui parentesco algum com o verbo machen [fazer].
     A diferença entre força e poder deixa-se demonstrar de um modo bastante simples: no relacionamento entre gato e rato.
     O rato, uma vez capturado, encontra-se à mercê da força do gato. Este o apanhou, mantém-no cativo e vai matá-lo. Tão logo, porém, começa a brincar com ele um novo elemento se apresenta. O gato o solta novamente e permite-lhe correr um pouco. Mal o rato dá-lhe as costas e põe-se a correr, ele já não se encontra mais à mercê daquela força. O gato, porém, dispõe do poder para apanhá-lo de volta. Se o deixa correr inde nidamente, permite-lhe escapar de sua esfera de poder. Mas até o ponto em que está certo de poder alcançá-lo, o rato estará sob seu poder. O espaço sobre o qual o gato projeta sua sombra; os instantes de esperança que permite ao rato, mas tendo-o sob sua estrita vigilância, sem perder o interesse nele e em sua destruição — tudo isso junto (o espaço, a esperança, a vigilância e o interesse na destruição) poder-se-ia designar como o corpo propriamente dito do poder, ou, simplesmente, como o poder em si.
     Do poder, pois, faz parte — em contraposição à força — uma certa ampliação do espaço e do tempo. Já se expressou aqui a suposição de que a prisão pode ter tido na boca a sua origem; a relação de ambas exprime a relação entre poder e força. No interior da boca já não resta nenhuma esperança real; ali não se tem mais espaço ou tempo. Em ambos esses aspectos, a prisão é como uma ampliação da boca. Na primeira, podem-se dar alguns passos para um lado e para o outro, assim como o rato sob os olhos do gato; e, por vezes, o prisioneiro tem o olhar do carcereiro às suas costas. Ele dispõe de tempo e da esperança de, dentro desse tempo, escapar ou ser solto; e sente continuamente o interesse na sua destruição que tem o aparato em cuja cela se encontra, mesmo quando esse interesse parece temporariamente inexistir.
     Contudo, mesmo numa esfera inteiramente diversa, na das múltiplas nuances da devoção religiosa, a diferença entre poder e força faz-se visível. Todo crente em Deus encontra-se sempre à mercê da força divina e, à sua maneira, ajustou-se a essa situação. Para muitos, porém, isso não é suficiente. Estes esperam por uma severa intervenção, por um ato direto de força divina que possam reconhecer e sentir como tal. Encontram-se na expectativa de uma ordem. Para eles, Deus possui as características mais rudes de um soberano. A vontade ativa de Deus e sua submissão ativa em todas as circunstâncias, em cada manifestação, transformam-se para eles no cerne da fé. As religiões desse tipo tendem a enfatizar a predestinação, sob o comando de Deus; seus adeptos têm, assim, oportunidade de perceber tudo o que lhes acontece como expressão direta da vontade divina. São capazes de submeter-se com maior frequência, e até o m. É como se vivessem já na boca de Deus, a qual, no instante seguinte, vai triturá-los. Nesse seu terrível presente, porém, têm de, impávidos, seguir vivendo e fazer o que é certo.
     O islamismo e o calvinismo são as religiões mais conhecidas por essa tendência. Seus adeptos anseiam pela força divina. O poder de Deus não lhes basta: é demasiado genérico e distante, deixando coisas demais em suas mãos. Decisivo é o efeito que essa expectativa constante por uma ordem produz naqueles que a ela se renderam definitivamente, implicando consequências as mais graves em seu próprio comportamento para com os outros. Ela produz um tipo soldadesco de crente, para o qual a batalha constitui a mais exata expressão da vida — um crente que não teme a batalha, pois sente-se continuamente nela. Abordar-se-á mais detidamente esse tipo na investigação que, mais adiante, será dedicada à ordem.

continua página 428...
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Massa e Poder - Elementos do Poder: Força e Poder
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (22 de março)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     22 de março
 
          Hoje está frio e nublado novamente. Este clima é muito mais adequado. Está de acordo com o meu trabalho. Ontem, de forma pouco sazonal, evocou em mim uma multidão de sentimentos e lembranças desnecessárias. Isso não vai se repetir. As efusões emocionais são como as raízes da bebida: quando você toma sua primeira dose, não parece mal, mas deixa um gosto muito ruim na boca depois. Vou narrar a história da minha vida de forma simples e silenciosa.
     Então, nós fomos morar em Moscou....
     Mas ocorreu-me: vale mesmo a pena contar a história da minha vida?
     Não, decididamente não vale a pena..... Minha vida não é de forma alguma diferente da vida de uma massa de outras pessoas. A casa dos pais, a universidade, o serviço em posições inferiores, a aposentadoria, um pequeno círculo de conhecidos, a pobreza, os prazeres modestos, as ocupações humildes, os desejos moderados - diga-me, por misericórdia, quem não sabe tudo isso? E eu, em particular, não contarei a história da minha vida, seja porque estou escrevendo para meu próprio prazer; e se o meu passado não me apresenta nada muito alegre, nem mesmo muito triste, isso significa que realmente não pode haver nada nele digno de atenção. É melhor eu tentar analisar meu próprio caráter para mim mesmo.
     Que tipo de homem sou eu?... Alguém pode comentar que ninguém me pergunta sobre isso... Concordo. Mas, veja, estou morrendo, -Deus é minha testemunha, estou morrendo, - e realmente antes da morte o desejo de saber que tipo de pessoa eu tenho sido é perdoável, eu acho.
     Depois de ter ponderado a fundo essa importante questão, e de não ter, além disso, necessidade de me expressar amargamente sobre meu próprio ponto de vista, como as pessoas que estão fortemente convencidas de seus méritos, devo confessar uma coisa: tenho sido um homem totalmente supérfluo neste mundo, ou, se você gosta de colocar dessa maneira, um pássaro totalmente inútil. E pretendo provar isso amanhã, porque hoje estou tossindo como uma ovelha velha, e minha enfermeira, Teréntievna, não me dará paz. "Deite-se, meu querido paizinho meu", diz ela, "e beba seu chá"... Eu sei porque ela me preocupa: ela mesma quer um pouco de chá! Pois bem! Muito bem! Por que não permitir que a pobre velhinha extraia, no final, todo o lucro possível do seu mestre.... O tempo para isso ainda não se esgotou.

continua em... 23 de março 
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O médico acabou de me deixar / 21 de março / 22 de março /      
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

domingo, 24 de maio de 2026

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (21 de março)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     21 de março
 
          O tempo está maravilhoso hoje. Está quente e brilhante; o sol está brincando alegremente sobre a neve escorregadia; tudo está brilhando, fumegando, pingando; os pardais estão gritando como criaturas loucas ao redor das cercas escuras e suadas; o ar úmido irrita meu peito docemente mas completamente assustador. A primavera, a primavera está chegando! Estou sentado junto à janela, e olhando para os campos do outro lado do pequeno rio. Ó Natureza! Natureza! Eu te amo tanto, mas saí do teu ventre incapaz mesmo para a vida. Ali está um pardal masculino pulando com asas estendidas; ele grita - e cada som de sua voz, cada pena desfeita em seu minúsculo corpo respira saúde e força.
     O que se deve concluir disso? Nada. Ele é saudável e tem o direito de gritar e de dar ruídos em suas penas; mas eu estou doente e devo morrer - isso é tudo. Não vale a pena dizer mais nada a esse respeito. E os apelos lacrimais à natureza são comicamente absurdos. Voltemos à minha história.
     Eu cresci, como já disse, mal e não alegremente. Eu não tinha irmãos nem irmãs. Fui educado em casa. E, de fato, o que minha mãe teria que ocupar se eu tivesse sido enviado para um colégio interno ou para um instituto governamental? É para isso que servem as crianças - para evitar que seus pais se aborreçam. Vivíamos principalmente no campo, e às vezes íamos a Moscou. Eu tinha governantas e professores, como é costume. Um alemão cadavérico e choroso, Riechmann, permaneceu particularmente memorável para mim, - um ser notavelmente melancólico, aleijado pelo destino, que foi consumido inutilmente por um anseio angustiado pela sua terra natal. O meu criado, Vasíly, apelidado de "O Ganso", sentava-se, sem barba, em sua eterna capa de friso azul, ao lado do fogão, na atmosfera assustadoramente sufocante da ante-sala próxima, impregnada pelo odor azedo do velho kvas, -sentaria e jogaria cartas com o cocheiro, Potáp, que acabara de ganhar um novo casaco de pele de carneiro, branco como a neve, e botas de alcatrão invencíveis,- enquanto Riechmann estaria cantando do outro lado da divisória:

"Coração, meu coração, por que tão triste?
O que está te incomodando tanto"?
"É tão legal em uma terra estranha
Coração, meu coração, o que mais você quer"?

     Após a morte de meu pai, nós nos retiramos definitivamente para Moscou. Eu tinha então doze anos de idade. Meu pai morreu durante a noite de um derrame de apoplexia. Eu nunca esquecerei aquela noite. Eu estava dormindo profundamente, pois todas as crianças têm o hábito de dormir; mas lembro-me, que até mesmo o meu sono me pareceu ouvir uma respiração pesada e laboriosa. De repente, senti alguém me agarrar pelo ombro e me sacudir. Abro os olhos: na minha frente está o meu criado. - "Qual é o problema?" - "Venha, venha, Alexyéi Mikhaílitch está morrendo....". Eu salto da cama como uma criatura louca, e vou para o quarto. Eu olho: meu pai está deitado com a cabeça jogada para trás, todo vermelho no rosto, e chocalhado na garganta com muita dor. Os criados, com rostos assustados, empurram as portas; na ante-sala alguém pergunta com voz rouca: "Mandaram chamar o médico?". No pátio, um cavalo está sendo conduzido para fora do estábulo, o portão está rangendo, uma vela de sebo está queimando na sala de estar situada no térreo; a mamãe também está lá, esmagada, mas sem perder nem o decoro, nem a consciência de sua própria dignidade. Eu me atirei no peito do meu pai, abracei-o e gaguejei para fora: "Papai, papai!"... Ele ficou imóvel e enrugou os olhos de uma maneira estranha. Eu o olhei no rosto - horror insuportável parou minha respiração; eu guinchei de terror, como um pássaro rastejado. Eles me arrastaram dele e me levaram para longe. Só que na noite anterior, como se tivesse um presságio de sua morte se aproximando, ele me acariciou tão fervorosamente e tão tristemente.
     Eles trouxeram um médico desgrenhado e sonolento, com um forte cheiro de vodka adocicada. Meu pai morreu sob sua lanceta, e no dia seguinte, completamente estupefato de dor, fiquei de pé com uma vela na mão em frente à mesa sobre a qual estava o cadáver, e escutei a entonação de voz grossa do cântico, ocasionalmente quebrada pela voz fraca do sacerdote; lágrimas continuavam correndo pelas minhas bochechas, sobre meus lábios, meu colarinho e minhas algemas; Eu me consumia de lágrimas, olhava fixamente para o rosto imóvel de meu pai, como se estivesse esperando que ele fizesse alguma coisa; e minha mãe, enquanto isso, lentamente fazia reverências ao chão, lentamente se elevava e, enquanto se cruzava, pressionava fortemente os dedos na testa, nos ombros e no corpo. Não havia um único pensamento na minha cabeça; eu tinha ficado pesado por toda parte, mas senti que algo terrível estava acontecendo comigo..... Foi então que a Morte olhou para o meu rosto, e fez uma nota de mim.
     Nós mudamos nossa residência para Moscou, após a morte de meu pai, por uma razão muito simples: todos os nossos bens foram vendidos sob o pregão por dívida, -positivamente tudo, com exceção de uma pequena e miserável aldeia, aquela em que eu agora estou terminando minha magnífica existência. Confesso que, apesar de jovem na época, sofri com a venda do nosso ninho, ou seja, na realidade, só sofri com a venda do nosso parque. Com esse parque estão ligadas as minhas únicas lembranças brilhantes. Lá, numa tranquila noite de primavera, enterrei meu melhor amigo, um cachorro velho com um rabo de bob e patas tortas-Trixie; lá, me escondendo na grama alta, eu costumava comer maçãs roubadas, vermelhas, doces maçãs Nóvgorod; lá, em conclusão, eu pela primeira vez me vi através dos arbustos de framboesas maduras, Klaudia a criada, que apesar de seu nariz arrebitado, e seu hábito de rir no lenço, despertou em mim uma paixão tão terna que em sua presença eu mal respirava, me sentia como se estivesse desmaiando, e era estúpido. Mas um dia, no Domingo Brilhante, quando chegou a vez dela de beijar minha nobre mão, eu me atirei para baixo e beijei seus sapatos de pele de cabra remendados. Santo Deus! Pode ter passado vinte anos desde que tudo isso aconteceu? Não parece muito tempo desde que eu costumava cavalgar meu cavalo de pelúcia, castanho, ao longo da velha cerca reluzente do nosso parque, e, levantando-me nos estribos, arrancar as folhas de dupla face dos choupos. Enquanto um homem vive, ele não está consciente de sua própria vida; como um som, ele se torna inteligível para ele um pouco depois.
     Oh, meu parque! Ai, meus caminhos superabundados ao longo do pequeno lago! Oh, infeliz lugar debaixo da represa decrépita, onde eu costumava pegar vairões e cadozes! E vocês, bétulas, com ramos longos e pendentes, de trás dos quais, da estrada do campo, a melancólica canção do camponês costumava ser dançada, desigualmente quebrada pelos solavancos da carroça áspera... Eu lhes envio minhas últimas despedidas! Enquanto me separo da vida, estendo minhas mãos para você sozinho. Gostaria, mais uma vez, de inalar o frescor amargo do absinto, o cheiro doce do trigo sarraceno colhido nos campos do meu lugar natal; gostaria, mais uma vez, de ouvir, de longe, o modesto jorrar do sino rachado na nossa igreja paroquial; mais uma vez deitar na sombra fria sob o bosque de carvalho na encosta do barranco da família; mais uma vez seguir com meus olhos o rastro do vento, que voava como uma raia escura sobre a grama dourada do nosso prado. ...
     Ekh, para que fim é tudo isso? Mas eu não posso continuar hoje. Até o amanhã.

continua em... 22 de março 
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O médico acabou de me deixar / 21 de março / 22 de março /      
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (O médico acabou de me deixar.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev


     O médico acabou de me deixar. Finalmente eu obtive uma resposta categórica! Por mais que ele se esquivava, não podia deixar de dizer o que pensava, finalmente. Sim, eu vou morrer em breve, muito em breve. Os córregos estão se abrindo, e eu vou flutuar para longe, provavelmente com a última neve.... para onde? Só Deus sabe! Para o mar também. Bem, tudo bem! Se eu tiver que morrer, então é melhor morrer na primavera. Mas não é ridículo começar um diário, talvez quinze dias antes da morte? Onde está o mal? E de que forma são quatorze dias a menos de quatorze anos, quatorze séculos? Na presença da eternidade, dizem, tudo não tem conta - sim; mas, nesse caso, a eternidade também não tem conta. Estou caindo em especulações, acho eu: isso é um mau sinal - não estou começando a me tornar covarde... Será melhor se eu narrar alguma coisa. É cru e ventoso fora das portas, - estou proibido de sair. Mas o que eu devo narrar? Um homem bem criado não fala de seus males; compor um romance, ou algo do gênero, não está na minha linha; reflexões sobre temas exaltados estão além dos meus poderes; descrições da vida em torno de mim nem me interessam; e não fazer nada é cansativo; ler é ociosidade. Eh! Vou narrar para mim mesmo a história da minha própria vida. Uma ideia capital! Quando a morte se aproxima, é própria, e não pode ofender ninguém. Eu começo.
     Nasci há trinta anos, filho de um proprietário de terras bastante rico. Meu pai era um jogador apaixonado; minha mãe era uma senhora com caráter... uma senhora muito virtuosa. Só que eu nunca conheci uma mulher cuja virtude proporcionasse menos satisfação. Ela sucumbiu sob o peso de seus méritos, e torturou a todos, começando por si mesma. Durante todos os cinquenta anos de sua vida, nunca descansou, nunca dobrou as mãos; estava eternamente agitada e inquieta, como uma formiga - e sem resultado algum, o que não se pode dizer da formiga. Uma minhoca implacável a roía dia e noite. Só uma vez eu a vi perfeitamente quieta, em seu caixão, no primeiro dia após a sua morte. Ao olhar para ela, realmente me pareceu que seu rosto expressava uma leve surpresa; os lábios semi-abertos, as bochechas afundadas, e os olhos suavemente movimentados pareciam respirar as palavras: "Como é bom não mexer!" Sim, 't é bom, 't é bom finalmente se separar da fadigosa consciência da vida, do sentido importuno e desconfortável da existência! Mas a questão não é essa.
     Eu cresci mal, e não alegremente. Tanto meu pai quanto minha mãe me amavam, mas isso não facilitou as coisas para mim. Meu pai não tinha poder em sua própria casa, nem importância, na qualidade de um homem entregue a um vício vergonhoso e ruinoso. Ele admitiu sua queda e, sem ter forças para renunciar à sua paixão predileta, esforçou-se, pelo menos, por sua sempre afetuosa e discreta inteligência, por sua humildade submissa, para conquistar a indulgência de sua esposa exemplar. Minha mãe, de fato, suportou seu infortúnio com aquele magnífico e ostentoso longínquo sofrimento de virtude que contém tanto orgulho de si mesmo. Ela nunca censurou meu pai por nada, entregou-lhe silenciosamente seu último centavo, e pagou-lhe as dívidas; ele a louvou no rosto e nas costas dela, mas não gostou de ficar em casa, e me acariciou às escondidas, como se ele mesmo tivesse medo de me contaminar pela sua presença. Mas seus traços desgrenhados exalavam tanta bondade naqueles momentos, o sorriso febril em seus lábios foi substituído por um sorriso tão comovente, seus olhos castanhos, rodeados de rugas finas, transportados de tanto amor, que eu, involuntariamente, pressionava minha bochecha até sua face, úmida e quente de lágrimas. Limpei essas lágrimas com meu lenço, e elas fluíram novamente, sem esforço, como a água em um copo cheio de água. Eu me pus a chorar, e ele me acalmou, me deu um tapinha nas costas com a mão, me beijou em todo o rosto com seus lábios trêmulos. Mesmo agora, mais de vinte anos após sua morte, quando me lembro de meu pobre pai, soluços estúpidos sobem em minha garganta, e meu coração bate tão quente e amargo, definha com tanta compaixão dolorosa, como se ainda tivesse muito tempo para bater e como se houvesse alguma coisa para sentir compaixão!
     Minha mãe, pelo contrário, sempre me tratou de uma maneira, afetuosa, mas fria. Tais mães, morais e justas, são frequentemente encontradas nos livros infantis. Ela me amava, mas eu não a amava. Sim! Eu evitava minha mãe virtuosa, e amava apaixonadamente meu pai cruel.
     Mas chega para o dia de hoje. Eu fiz um começo, e não há motivo para eu me sentir ansioso com o fim, seja ele qual for. Minha maldade vai atender a isso.

continua em... 21 de março 
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O médico acabou de me deixar / 21 de março /    
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.