quinta-feira, 16 de julho de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Mas é claro que não lhe desejava)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Mas é claro que não lhe desejava nenhum mal. Mas que bom seria se, com seus cavalos, ela tivesse a boa ideia de partir não sei para onde, onde se sentisse feliz, e de nunca mais voltar para a minha casa! Como tudo se simplificaria se ela fosse viver feliz algures, e nem mesmo me importava saber onde!

- Oh, sei muito bem que você não sobreviveria quarenta e oito horas, acabaria se matando!

     Assim, trocávamos palavras mentirosas. Mas uma verdade mais profunda do que essa que proferiríamos se fôssemos sinceros pode às vezes ser expressa e prenunciada por outro meio que o da sinceridade.

- Esses barulhos todos na rua não o incomodam? - perguntou ela-; pois eu os adoro. Mas você que tem o sono tão leve?-

     Ao contrário, eu o tinha às vezes bem profundo (como já disse, mas como o episódio que se segue me obriga a recordá-lo) e sobretudo quando só adormecia pela manhã. Como tal sono foi em média quatro vezes mais repousante, parece ter sido quatro vezes mais longo àquele que dormiu, quando de fato foi quatro vezes mais curto. Magnífico erro de uma multiplicação por dezesseis que confere tanta beleza ao despertar e na vida introduz uma verdadeira inovação, semelhante àquelas grandes mudanças de ritmo que, na música, fazem com que uma colcheia, no andante, tenha a mesma duração que uma mínima num prestíssimo, e que são desconhecidas no estado de vigília. A vida aí é quase sempre a mesma, de onde as decepções da viagem. No entanto, bem parece que o sonho é feito às vezes da matéria mais grosseira da vida, mas tal matéria aí é tratada, amassada de tal modo, com um alongamento devido a que nenhum dos limites horários do estado de vigília a impede de desprender-se a tão enormes alturas, que ninguém mais a reconhece. Nas manhãs em que esta boa sorte me ocorria, em que a esponja do sono apagara do meu cérebro os sinais das ocupações diárias que nele são traçadas como num quadro-negro, eu precisava fazer reviver a minha memória; à força de vontade, pode-se reaver o que a amnésia do sono ou de um ataque fez olvidar e que renasce aos poucos, à medida que os olhos se abrem ou que a paralisia desaparece. Eu vivera tantas horas em alguns minutos que, desejando falar a Françoise, a quem chamara, numa linguagem conforme a realidade e de acordo com a hora, era obrigado a empregar todo o meu poder interno de compreensão para não dizer: "Ora, Françoise, já são cinco horas da tarde e não vejo você desde ontem à tarde." E para repelir os meus sonhos, em contradição com eles, mentindo para mim mesmo, eu dizia atrevidamente, e reduzindo-me com todas as minhas forças ao silêncio, palavras opostas:

- Françoise, já são dez horas! - 

     Eu nem dizia dez horas da manhã, mas simplesmente dez horas, para que essas dez horas, tão incríveis, dessem a impressão de ser pronunciadas no tom mais natural. Todavia, dizer essas palavras em vez daquelas que continuava a pensar, mal desperto, o dormidor que eu era ainda, exigia o mesmo esforço de equilíbrio que a alguém que, saltando de um trem em movimento e correndo por um instante ao longo da linha, consegue entretanto não cair. Corre por um instante porque o meio que abandona é um meio animado de grande velocidade, e muito diverso do solo inerte ao qual seus pés têm alguma dificuldade de se adaptar. Pelo fato de que o mundo do sono não é o mundo da vigília, daí não se segue que o mundo da vigília seja menos verdadeiro, pelo contrário. No mundo do sono as nossas percepções são de tal forma sobrecarregadas, cada qual engrossada por outra, superposta, que a reduplica e inutilmente a deixa cega, que nem sequer sabemos distinguir o que se passa no aturdimento do despertar; Françoise é quem viera ou fora eu que, cansado de chamá-la, tinha ido ao seu encontro? O silêncio naquele instante era o único meio de nada revelar, como no momento em que somos presos por um juiz instruído de circunstâncias que nos dizem respeito, mas das quais não temos conhecimento. Viera Françoise ou fora eu quem a chamara? Talvez Françoise é que dormia e eu a tinha despertado. Ainda mais, não estaria Françoise encerrada no meu peito, e a distinção das pessoas e sua interação existindo apenas nessa parda escuridão em que a realidade é tão pouco translúcida como no corpo de um porco-espinho, e onde a percepção quase nula talvez possa dar a ideia da de certos animais? Além disso, mesmo na límpida loucura que antecede esses sonos mais pesados, flutuam-se luminosamente alguns fragmentos de sabedoria, se os nomes de Taine e de George Eliot ali não são ignorados, nem por isso resta menos, para o mundo da vigília, aquela superioridade de ser possível continuar a cada manhã, o que não sucede a cada noite com o sonho. Mas talvez haja outros mundos mais reais que o da vigília. Aliás, temos visto que mesmo este é transformado a cada revolução nas artes, e muito mais, ao mesmo tempo, pelo grau de aptidão ou de cultura que diferencia um artista de um tolo ignorante.
     E muitas vezes uma hora de sono a mais é um ataque de paralisia após o qual é preciso reencontrar o uso dos membros, reaprender a falar. A vontade não o conseguiria.
     Dormiu-se demais, não se é mais. O despertar é apenas sentido mecanicamente e sem consciência, como o pode ser num tubo o fechamento de uma torneira. Sucede-se uma vida mais inanimada que a da medusa, na qual bem que se poderia imaginar que se está sendo retirado do fundo do mar ou voltando do banho, caso fosse possível pensar alguma coisa. Mas então, do alto dos céus, a deusa Mnemotecnia se inclina e nos confere, sob a forma "hábito de pedir o café com leite", a esperança da ressurreição. 

[Mnemotecnia: arte e técnica de desenvolver a memória. Aqui o termo é empregado em vez do nome da deusa da memória entre os gregos, Mnemósine. (N. do T)]

     E mesmo o dom súbito da memória nem sempre é tão simples. Temos muitas vezes junto a nós, nesses primeiros minutos em que nos deixamos deslizar para fora do sono, uma gama de realidades diversas onde julgamos poder escolher como num jogo de cartas. É manhã de sexta-feira e voltamos do passeio, ou então é a hora do chá à beira-mar.
     A ideia do sono e de que estamos deitados de camisola é muitas vezes a última que se nos apresenta. A ressurreição não chega de imediato, pensamos ter tocado a campainha e não o fizemos, agitamos palavras loucas no cérebro. Só o movimento é que nos devolve o raciocínio e, quando efetivamente tocamos a campainha, podemos dizer devagar mas com nitidez:

- Já são dez horas. Françoise, traga-me o café com leite.

     Ó milagre! Françoise não pudera imaginar o oceano de irrealidade que ainda me banhava todo e através do qual eu tivera a energia de fazer passar minha estranha pergunta. De fato, ela me respondeu:

- São dez e dez - o que me dava uma aparência razoável e me permitia não deixar perceber as conversas esquisitas que me haviam acalentado interminavelmente, nos dias em que não fora uma montanha do Nada que me cancelara a vida. A força de vontade eu me reintegrara no real. Desfrutava ainda dos destroços do sono, ou seja, da única invenção, do único renovo que existe no modo de contar, não comportando todas as narrativas em estado de vigília, ainda que embelezadas pela literatura, essas misteriosas diferenças de onde deriva a beleza. É fácil falar da que o ópio originou. Mas, para um homem habituado a só dormir sob o efeito de drogas, uma hora inesperada de sono natural desvendará a imensidão matinal de uma paisagem tão misteriosa e de maior frescura. Fazendo variar a hora, o local onde se adormece, provocando o sono de modo artificial, ou, pelo contrário, retornando por um dia ao sono natural o mais estranho de todos para qualquer pessoa que tenha o hábito de dormir tomando soporíferos-, chega-se a obter variedades de sono mil vezes mais numerosas do que as variedades de cravos e de rosas que obteríamos se fôssemos jardineiros. Estes obtêm flores que são deliciosos sonhos e outras também que se parecem a pesadelos. Quando eu adormecia de certo modo, despertava tiritando, julgando estar com sarampo ou, coisa bem mais dolorosa, que minha avó (em quem já nunca pensava) sofria porque eu zombara dela no dia em que, em Balbec, acreditando que ia morrer, ela quisera que eu tivesse uma fotografia sua. E depressa, apesar de acordado, queria explicar-lhe que ela não me havia compreendido. Porém já me reaquecia. O diagnóstico de sarampo estava afastado e minha avó se distanciava de mim a tal ponto que não mais fazia doer meu coração.
     Por vezes, abatia-se uma súbita escuridão sobre esses diferentes sonos. Eu sentia medo ao prolongar o meu passeio numa avenida completamente às escuras, onde ouvia passarem os vagabundos. De repente, erguia-se uma discussão entre um policial e uma dessas mulheres que muitas vezes exerciam a profissão de cocheiro e que, de longe, tomamos por um rapaz. Na sua boleia cercada de trevas eu não a enxergava, mas ela me falava e na sua voz eu lia as perfeições do seu rosto e a juventude do seu corpo. Caminhava na sua direção, dentro do negror, para subir no seu cupê antes que ela fosse embora. Estava longe. Felizmente, a discussão com o guarda se prolongava.
     Alcançava o carro, ainda parado. Este pedaço da avenida era iluminado por lampiões. A pessoa na boleia tornava-se visível. Era mesmo uma mulher, porém velha, alta e corpulenta, com cabelos brancos que lhe fugiam por debaixo do boné, e uma lepra vermelha no rosto. Afastava-me pensando: "É isso o que acontece com a mocidade das mulheres? Aquelas que encontramos, se de repente desejamos revê-las, tornam-se velhas? A jovem que desejamos será como um emprego de teatro, em que, pela decadência das criadoras de um papel, somos obrigados a confiá-lo a novas estrelas? Mas então já não é a mesma."
     Depois uma tristeza me invadia. Assim, temos em nosso sono numerosas Piedades, como as Pietà do Renascimento, mas não como elas executadas no mármore, mas pelo contrário, inconsistentes. Todavia, elas têm a sua utilidade, que é a de nos lembrar um certo ponto de vista mais enternecido e mais humano das coisas, que somos por demais tentados a esquecer no bom senso gelado da vigília, por vezes cheio de hostilidade. Assim me foi lembrada a promessa, que eu me fizera em Balbec, de sempre ser compassivo para com Françoise. E, ao menos durante toda aquela manhã, eu saberia me esforçar para não irritar-me com as rixas de Françoise e do mordomo, ser carinhoso com Françoise, a quem os outros tratavam com tão pouca bondade.
     Somente naquela manhã; e precisaria tentar estabelecer para mim um código mais estável; pois, assim como os povos não são governados durante muito tempo por uma política de puro sentimento, os homens não o são pela recordação de seus sonhos. Este já principiava a evolar-se. Buscando lembrá-lo para o descrever, fazia-o fugir ainda mais depressa. Minhas pálpebras já não estavam seladas com tanta força sobre meus olhos. Se tentava reconstituir meu sonho, elas se abririam totalmente. A todo instante é preciso escolher entre a saúde e a lucidez, de um lado, e os prazeres espirituais, de outro. Sempre tive a covardia de escolher a primeira. Aliás, o perigoso poder ao qual eu renunciava era-o ainda mais do que imaginamos. As Piedades e os sonhos não se dissipam sozinhos. Variando assim as condições em que adormecemos, não são apenas os sonhos que se dissipam, mas durante muitos dias, anos às vezes, a faculdade não só de sonhar mas de adormecer. O sono é divino, mas pouco estável; o mais leve choque deixa-o volátil. Amigo dos hábitos, estes o retêm cada noite, mais fixos do que ele, em seu lugar consagrado, preservam-no de todo choque. Mas, se o mudarmos de lugar, se não o mantivermos submisso, ele se desfaz como um vapor. Assemelha-se à juventude e aos amores, não o encontraremos mais.
     Nestes sonos diversos, ainda como na música, era o aumento ou a diminuição do intervalo que criava a beleza. Eu desfrutava dela, mas, em compensação, tinha perdido naquele sono, conquanto breve, uma boa parte dos pregões em que se nos torna sensível a vida circulante dos ofícios e dos alimentos de Paris. Assim, de hábito (sem prever, infelizmente, o drama que tais despertares tardios e minhas leis draconianas e persas de Assuero raciniano deviam em breve me acarretar), eu me esforçava por acordar cedo a fim de não perder coisa alguma daqueles pregões.
     Além da satisfação de conhecer o gosto de Albertine por eles e de sair de casa sem me erguer da cama, ouvia neles como o que o símbolo da atmosfera exterior, da perigosa vida turbulenta em cujo seio não a deixava circular sem minha tutela, num prolongamento exterior do sequestro, e de onde a retirava à hora que quisesse a fim de fazê-la voltar para junto de mim.
     Portanto, foi com a maior sinceridade do mundo que pude responder a Albertine:

- Pelo contrário, eles me agradam porque sei que você gosta deles. 
'Olha as ostras fresquinhas!' 
- Oh, as ostras! Tenho tanta vontade de comê-las! -

     Felizmente Albertine, meio inconstância, meio docilidade, esquecia depressa o que desejara e, antes que eu tivesse tempo de dizer que ela encontraria melhores ostras na casa Prunier, ela queria sucessivamente tudo o que ouvia ser apregoado pela vendedora de peixes: "Olha os camarões, os bons camarões, olha a arraia viva, vivinha!" - "Pescadas para fritar, para fritar!" - "Está chegando a cavala, cavala nova, cavala fresquinha!"-"Chegou a cavala, senhoras, é boa a cavala" - "Olha os mexilhões, bons e fresquinhos, os mexilhões!" - Contra a minha vontade, o pregão: "Está chegando a cavala" me fazia estremecer. Mas, como tais palavras não podiam aplicar-se ao nosso motorista," eu só pensei no peixe que detestava e minha inquietação logo se dissipou. 

- Ah, os mexilhões - disse Albertine -, gostaria tanto de comer os mexilhões. 
- Minha querida, isso era bom em Balbec, aqui não presta; peço que se lembre do que lhe disse Cottard a respeito dos mexilhões. -

     Porém a minha observação era tanto mais desastrada, pois a vendedora seguinte anunciava algo que Cottard proibia ainda mais: Alface romana, a boa alface! Não se vende, dá-se!
     Todavia Albertine consentiu-me o sacrifício da alface romana, contanto que lhe prometesse mandar comprar dali a uns dias à vendedora que apregoa: "Olha o belo aspargo de Argenteuil, olha o belo aspargo!" Uma voz misteriosa, e da qual seria de esperar as frases mais estranhas, insinuava: "Tonéis, tonéis!" Éramos obrigados a sentir a decepção de que se tratava apenas de tonéis, pois essa palavra era quase inteiramente abafada pelo pregão: "Vidrá, vidraceiro, vidraças quebradas, aqui está o vidrá, vidraceiro!", divisão gregoriana que, entretanto, lembrou-me menos a liturgia do que o fizera o grito do vendedor de roupas velhas, que reproduzia, sem o saber, uma dessas bruscas interrupções de sonoridades, no meio de uma prece, tão frequentes no ritual da Igreja: Praeceptis salutaribus moniti et divina institutione fomarti audemus dicere - ["Do latim: "Instruídos em seus preceitos salvadores e formados pelo seu ensinamento divino, ousamos dizer..." Fórmula ritual que na missa precede o Paternoster ('Padre-nosso') (N. do T)] - diz o padre, concluindo vivamente no dicere. Sem irreverência, como o piedoso povo da Idade Média, na própria igreja, representava as farsas e as soties, é nesse dicere que faz pensar o vendedor de roupas velhas, quando, depois de arrastar a voz por todas as palavras, diz a última sílaba com uma precipitação digna do acento regulado pelo grande papa do século VII: [" Papa Gregório I Magno (590-604). Deu ao ritual da missa a forma que se mantém até hoje. (N. do T)] : "Trapos, ferro-velho pra vender!" (tudo isto salmodiado lentamente, bem como as duas sílabas seguintes, ao passo que a última acaba mais vivamente que dicere), "peles de coê-lhos." - "Olha a laranja fresquinha, a Valência, a boa laranja de Valência!", os próprios alhos-porros modestos: "Olha os bonitos alhos-porros", as cebolas: "Oito tostões a minha cebola!", ressoavam para mim como um eco das vagas onde, livre, Albertine poderia perder-se, assumindo desse modo a doçura de um suave mari magno." "Olha as cenouras! só dois vinténs o molho!" 

- Oh! - exclamou Albertine-, couves, cenouras, laranjas. Só coisas que tenho vontade de comer. Mande Françoise comprá-las. Ela fará cenouras com creme. E além do mais, será muito bom comer tudo isso junto. Serão todos os ruídos que ouvimos transformados numa boa refeição. Oh, peço-lhe, diga a Françoise para preparar de preferência uma arraia frita na manteiga queimada. É tão gostoso! 
- Meu benzinho, está combinado. Não demore mais, senão vai querer tudo o que essas mulheres estão vendendo. 
- Está feito, vou indo, mas de agora em diante só quero para os nossos jantares as coisas que tivermos ouvido apregoar. É bem divertido. E dizer que precisamos ainda esperar dois meses para ouvir: "Ervilhas macias, ervilhas, olha a ervilha!". Como fica bem dizer "ervilhas macias"! Sabe que gosto delas finas, bem fininhas, escorrendo molho de vinagre, nem se diria que as estamos comendo, macias como o orvalho. Ai de mim! É o caso dos requeijõezinhos, estão mais longe ainda: "Olha o requeijão fresquinho, o requeijão!", e as uvas brancas de Fontainebleau: "Tenho belas uvas brancas." - E eu pensava com pavor em todo aquele tempo que teria de ficar com ela até à época das uvas brancas. - Escute, estava dizendo que só queria as coisas que tivermos ouvido apregoar, mas é claro que faço algumas exceções. De modo que não será impossível que você passe no Rebattet para encomendar sorvete para nós dois. Você vai dizer que ainda não é tempo, mas tenho tanta vontade! -

     Fui agitado pelo projeto sobre Rebattet, tornado mais certo e suspeito para mim devido a estas palavras: "Não será impossível." Era no dia em que os Verdurin recebiam e, desde que Swann lhes dissera que era a melhor casa, era no Rebattet que eles encomendavam sorvetes e bolinhos. 

- Não faço qualquer objeção a um sorvete, minha querida Albertine, mas deixe-o por minha conta, não sei mesmo se o encomendarei no Poiré-Blanche, no Rebattet, no Ritz, enfim, vou ver. 
- Então vai sair? - perguntou Albertine com ar desconfiado. Sempre dizia que ficaria encantada se eu saísse mais, mas se uma palavra minha podia deixar supor que eu não ficaria em casa, seu ar inquieto fazia pensar que a satisfação que ela teria em me ver sair com frequência talvez não fosse sincera. 
- Talvez saia, talvez não, você sabe perfeitamente que nunca faço projetos antecipados. Em todo caso, os sorvetes não são coisa que se apregoe, que se venda pelas ruas; por que você os deseja então? - E aí ela me respondeu com estas palavras que me provaram o quanto, de fato, a inteligência e o gosto latente se haviam bruscamente desenvolvido nela desde Balbec, com estas palavras do tipo daquelas que ela pretendia serem devidas unicamente à minha influência, à constante coabitação comigo, palavras que no entanto eu jamais teria dito, como se me tivesse sido feita alguma proibição, por um desconhecido, de empregar na conversa formas literárias. Talvez o futuro não devesse ser o mesmo para Albertine e para mim. Tive quase o pressentimento disso, ao vê-la apressar-se a empregar, falando, imagens tão escritas e que me pareciam reservadas para outro uso mais sagrado e que eu ainda ignorava. Ela me disse (e apesar de tudo fiquei profundamente enternecido, pois pensei: "Com certeza não falaria desse modo, sofreu profundamente a minha influência, portanto ela não pode me amar, é obra minha"): 
- O que eu amo nessas comidas apregoadas é uma coisa ouvida, como uma rapsódia, muda de natureza às refeições, e se dirige ao meu paladar. Quanto aos sorvetes (pois espero que você os encomende naquelas formas fora de moda que têm todas as configurações possíveis de arquitetura), todas as vezes que os tomo, templos, igrejas, obeliscos, rochedos, é como uma geografia pitoresca que olho primeiro e, a seguir, converto seus monumentos de framboesa ou de baunilha em frescor na minha garganta. -

     Eu achava que aquilo era um tanto bem enunciado demais, porém ela sentiu que eu achava que estava bem dito e continuou, parando por um momento quando obtinha uma comparação feliz, para rir com seu belo riso que me parecia tão cruel por ser tão voluptuoso: 

- Meu Deus, no hotel Ritz receio muito que você encontre colunas Vendôme de sorvetes, sorvete de chocolate ou de framboesa, e então será preciso vários para que se pareçam à colunas votivas ou pilares erguidos numa alameda à glória do Frescor. Fazem também obeliscos de framboesa que se levantarão de sítio em sítio no deserto ardente de minha sede e cujo granito róseo irei derreter no fundo da garganta e que eles irão desalterar melhor do que os oásis (e aqui estalou o riso profundo, fosse pela satisfação de falar bem, fosse por zombaria consigo mesma por expressar-se em imagens tão continuadas, fosse, ai de mim, pela volúpia física de sentir em si própria algo de tão bom, tão viçoso, que lhe causava o equivalente de um orgasmo). Esses picos de sorvete do Ritz lembram às vezes o monte Rose, e até, se o sorvete é de limão, não desgosto que não tenha forma monumental, que seja irregular, abrupto, como uma montanha de Elstir. Então, não é necessário que seja muito branco, mas um tanto amarelado, com aquele aspecto de neve suja e embaçada das montanhas de Elstir. O sorvete pode não ser grande, ser meio sorvete apenas, se quiser; mesmo assim, esses sorvetes de limão são montanhas reduzidas a uma escala bem pequena, mas a imaginação restabelece as proporções como no caso daquelas arvorezinhas japonesas anãs que se percebe muito bem serem cedros, carvalhos, mancenilhas, de modo que, pondo algumas delas ao longo de um pequeno sulco no meu quarto, eu teria uma imensa floresta descendo para um rio e onde as criancinhas poderiam perder-se. Da mesma forma, junto ao meu sorvete amarelado de limão, vejo perfeitamente postilhões, viajantes, seges de posta, sobre os quais a minha língua se encarrega de fazer desabar glaciais avalanches que os engolirão (a cruel volúpia com que ela falou isto excitou o meu ciúme); da mesma forma - acrescentou ela - encarrego-me de destruir com meus lábios, coluna por coluna, essas igrejas venezianas de um pórfiro que é morango, e de fazer cair sobre os fiéis o que eu tiver poupado. Sim, todos esses monumentos hão de passar de sua praça de pedra para o meu peito, onde já palpita o seu frescor que se derrete. Mas, olhe, mesmo sorvetes, nada é tão excitante nem dá sede como os anúncios de fontes termais. Em Montjouvain, na casa da Srta. Vinteuil, não existia um bom sorveteiro nas redondezas, mas nós fazíamos no jardim a nossa excursão pela França, bebendo a cada dia uma água mineral gasosa e diferente, como a água de Vichy, que, ao ser servida, levanta logo das profundezas do copo uma nuvem branca, que se abranda e se dissipa se não bebemos depressa. -

     Mas ouvir falar de Montjouvain era penoso demais para mim, de modo que a interrompia. 

- Estou sendo aborrecida, adeus querido. 

     Que mudança desde Balbec, onde duvido que o próprio Elstir pudesse ter adivinhado essas riquezas de poesia em Albertine. De uma poesia menos estranha, menos pessoal que a de Céleste Albaret, por exemplo, que ainda na véspera viera visitar-me e, encontrando-me deitado, exclamara: 

- Ó majestade do céu deposta numa cama! 
- Por que do céu, Céleste?
- Oh, porque o senhor não se parece com ninguém, está enganado se julga ter algo desses que viajam sobre essa nossa terra vil. 
- Em todo caso, por que "deposto"?
- Porque o senhor nada tem de um homem deitado, o senhor não está na cama, não se move, os anjos é que parecem ter descido para depô-lo aí. 

     Albertine jamais teria tido esse achado, mas o amor, mesmo quando parece a ponto de acabar, é parcial. Eu preferia a "geografia pitoresca" dos sorvetes, cuja graça excessivamente fácil me parecia um motivo para amar Albertine e uma prova de que eu tinha poder sobre ela, que ela me amava.


continua na página 54...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Mas é claro que não lhe desejava)

Augusto dos Anjos - Soneto

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Soneto
Ao meu primeiro filho nascido 
 morto com 7 mezes incompletos. 
 2 Fevereiro 1911, 

Aggregado infeliz de sangue e cal, 
Fructo rubro de carne agonisante, 
Filho da grande força fecundante 
De minha bronzea trama neuronial,

Que poder embryológico fatal 
Destruiu, com a synergia de um gigante, 
Em tua morphogénese de infante 
A minha morphogénese ancestral?!  

Porção de minha plásmica substancia, 
Em que logar irás passar a infância, 
Tragicamente anonymo, a feder?! 

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido, 
Pantheisticamente dissolvido 
Na noumenalidade do NÃO SER!


Versos a um Ção 

Que força poude, adstricta a embryões informes, 
Tua garganta estúpida arrancar 
Do segredo da céllula ovular 
Para latir nas solidões enormes?! 

Esta obnoxia inconsciencia, em que tu dormes, 
Sufficientissima é, para provar 
A incógnita alma, avoenga e elementar 
Dos teus antepassados vermiformes.

Cão ! —Alma de inferior rhapsôdo errante! 
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, affaga-a, acóde-a 
A escala dos latidos ancestraes. 

E irá assim, pelos séculos, adiante, 
Latindo a exquisitissima prosódia 
Da angustia hereditária dos seus pães!  

_________________________

Leia também:
__________________________

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Saxofonistas - Wayne Shorter

Gravidade Zero



Miles Davis Quintet com solo de Wayne Shorter ao vivo em 1964


Diretamente de Milão, Itália. Esta é a primeira parte de "Autumn Leaves" e apresenta solos de Miles e Wayne. O quinteto de 1964 era composto por: Miles (trompete), Wayne Shorter (saxofone tenor), Herbie Hancock (piano), Ron Carter (baixo) e Tony Williams (bateria). Gravado em 11 de outubro de 1964.
Perguntar



| Show Completo no Newport Jazz Festival (2004)



Herbie Hancock (piano), Wayne Shorter (sax), Dave Holland (baixo) e Brian Blade (bateria)

Testemunhe uma convergência lendária de maestria no jazz quando Herbie Hancock, Wayne Shorter, Dave Holland e Brian Blade sobem ao palco do Newport Jazz Festival para uma apresentação ao vivo transcendente. Com décadas de inovação em suas trajetórias, esses titãs do jazz moderno unem improvisação profunda, interação quase telepática e expressão espiritual em um repertório que é, ao mesmo tempo, íntimo e grandioso
Com composições originais como “Sonrisa”, “Pathways” e “Auung San Suu Kiy”, este concerto captura o poder da liberdade criativa e do diálogo musical no mais alto nível.
Gravado ao vivo: 15/08/2004 – Newport Jazz Festival (Newport, RI)

0:00:00 - Sonrisa
0:22:12 - Pathways
0:36:27 - Auung San Suu Kiy


Wayne Shorter com Art Blakey e The Jazz Messengers 
– I Didn't Know What Time It Was




Wayne Shorter: Gravidade Zero 
– Trailer Oficial | Prime Video





Perdeu os pais, o irmão, a filha, a esposa. Estava determinado a não ser derrubado por isso tudo.
Fé é não temer nada. 


Wayne Shorter: Gravidade Zero 
| Grande nome do jazz e inovador que inspirou com sua música e humanidade




Milton Nascimento Live 1990 Montreux com Wayne Shorter




1st song - Feito Nos
5:00 - Bola De Meia Bola De Gude (Sock, Ball, Marbles)
10:15 - Cravo e Canela
14:25 - Cais
20:10 - San Vicente
26:10 - Tarde (com Wayne Shorter)
34:00 - Milagre dos Peixes (com Wayne Shorter)
39:30 - Lilia (com Wayne Shorter)
47:37 - Para Lennon y McCartney
52:45 - Maria, Maria
57:55 - Band Credits



- Ponta De Areia (1975)
Wayne Shorter & Milton Nascimento 

Vocais — Milton Nascimento
Saxofone soprano — Wayne Shorter
Baixo — Dave McDaniel   
Bateria — Roberto Silva
Guitarra — Jay Graydon
Órgão — Wagner Tiso
Piano — Herbie Hancock
 
Engenheiro de som — Robert Fraboni*
Engenheiro de som [Assistente] — Joe Tuzen
Produtor — Jim Price




Wayne Shorter - Footprints (Live At Montreux 1991)
Wayne Shorter é um dos mais importantes músicos de jazz dos tempos modernos. Ele tocou com o grupo Jazz Messengers, de Art Blakey, e posteriormente com a banda de Miles Davis, na década de 1960, antes de cofundar o Weather Report com Joe Zawinul no início da década de 1970. Este show em Montreux, de 1996, traz o Wayne Shorter Quintet e ocorreu após o lançamento de seu álbum "High Life", vencedor do Grammy. A apresentação principal é complementada por faixas bônus de duas participações anteriores em Montreux, em 1991 e 1992, quando ele estava acompanhado pelo grande Herbie Hancock.





Álbum "High Life"
Wayne Shorter

- Children Of The Night 
- At The Fair
- Maya
- On The Milky Way Express
- Pandora Awakened
- Virgo Rising
- High Life
- Black Swan
- Elegant People

MPB: Pra dizer adeus

Titãs

Existe poesia,
existem músicas normais e
existem poesia em forma de música
essa com certeza
é uma poesia
em forma de música
a incerteza
a insegurança
o medo da perda
a vulnerabilidade do fim
a imaginação
aproxima o desejo
que se mostra com reticências
o pensamento vibra
não quer se explicar por completo
uma ponte entre o que queremos e
não ousamos dizer
o desejo como sussurro






Você apareceu do nada
E você mexeu demais comigo
Não quero ser só mais um amigo
Yeah, yeah, yeah, yeah

Você nunca me viu sozinho
E você nunca me ouviu chorar
Não dá pra imaginar quando
Yeah, yeah, yeah, yeah

É cedo ou tarde demais
Pra dizer adeus
Pra dizer jamais

Às vezes fico assim pensando
Essa distância é tão ruim
Por que você não vem pra mim?
Oh, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah

Eu já fiquei tão mal sozinho
Eu já tentei, eu quis chamar
Não dá pra imaginar quando
Yeah, yeah, yeah, yeah

É cedo (cedo) ou tarde demais
Pra dizer adeus
Pra dizer jamais
É cedo (cedo) ou tarde demais
Pra dizer adeus
Pra dizer jamais

Eu já fiquei tão mal sozinho
Eu já tentei, eu quis chamar
Não dá pra imaginar quando
Yeah, yeah, yeah, yeah

É cedo (cedo) ou tarde demais
Pra dizer adeus
Pra dizer jamais
É cedo (cedo) ou tarde demais
Pra dizer adeus
Pra dizer jamais

É cedo (cedo) ou tarde demais
Pra dizer adeus
Pra dizer jamais
É cedo (cedo) ou tarde demais
Pra dizer adeus
Pra dizer jamais

Composição: Toni Bellotto, Nando Reis


Titãs - DVD Acústico MTV 




O Mestre Sala dos Mares / Boca de sapo / O Ouro e a Madeira / Pra dizer adeus /      

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas (4)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     44. As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas
          Protecionismo contra livre-câmbio, o país contra o porto: no fundo, esta foi a luta que ardeu por trás das guerras civis argentinas durante o século passado. Buenos Aires, que no século XVII ainda era uma grande aldeia de 400 casas, apoderou-se da nação inteira a partir da Revolução de Maio e da independência. Era o porto único, e por ele tinham de passar todos os produtos que entravam e saíam do país. As deformações que a hegemonia portenha impôs à nação se notam claramente em nossos dias: a capital abarca, com seus subúrbios, mais de um terço da população total da Argentina, e exerce sobre as províncias diversas formas de proxenetismo. Naquela época, detinha o monopólio da renda aduaneira, dos bancos e da emissão de moeda, e prosperava vertiginosamente à custa das províncias do interior. A quase totalidade da receita de Buenos Aires provinha da alfândega nacional, que o porto usurpava em proveito próprio, e mais da metade se destinava aos gastos de guerra contra as províncias, que deste modo pagavam para ser aniquiladas. [1]

[1]  URGIN, Miron. Aspectos económicos del federalismo argentino. Buenos Aires, 1960.

     Da Sala de Comércio de Buenos Aires, fundada em 1810, os ingleses alongavam seus telescópios para vigiar a passagem dos navios e abasteciam os portenhos com tecidos finos, flores artificiais, guarda-chuvas, botões e chocolates, enquanto uma inundação de ponchos e estribos de fabricação inglesa fazia seus estragos no interior do país. Para aquilatar a importância que o mercado mundial então atribuía aos couros rio-platenses, é preciso remontar a uma época em que os plásticos e os revestimentos sintéticos não existiam nem mesmo como suspeita na imaginação dos químicos. Nenhum cenário mais propício que a fértil planície do litoral para a criação de gado em larga escala. Em 1816, descobriu-se um novo sistema que permitia conservar indefinidamente os couros, através de um tratamento de arsênico; de resto, prosperavam e se multiplicavam as charqueadas. O Brasil, as Antilhas e a África abriam seus mercados para a importação do charque, e na medida em que a carne salgada, cortada em mantas secas, ia ganhando consumidores estrangeiros, os consumidores argentinos notavam a mudança. Criaram-se impostos para o consumo interno da carne, ao mesmo tempo em que eram desoneradas as exportações; em poucos anos, o preço dos novilhos se multiplicou por três, e as estâncias valorizaram suas terras. Os gaúchos estavam acostumados a caçar livremente os novilhos a céu aberto, no pampa sem aramados, para comer o lombo e se desfazer do resto, com a única obrigação de entregar o couro ao dono do campo. As coisas mudaram. A reorganização da produção implicava a submissão do gaúcho nômade a uma nova dependência servil: um decreto de 1815 estabeleceu que todo homem do campo que não tivesse propriedades seria reputado servente, com a obrigação de portar uma papeleta assinada a cada três meses pelo seu patrão. Ou era servente, ou era vadio, e os vadios eram incorporados, à força, nos batalhões de fronteira [2]. O criollo rude, que servira de carne de canhão nos exércitos patriotas, era convertido em pária, em peão miserável ou em milico de fortim. Ou se rebelava, lança em punho, no redemoinho das montoneras [3]. Esse gaúcho arisco, despossuído de tudo exceto de glória e de coragem, nutriu as cargas de cavalaria que por vezes desafiaram os bem armados exércitos de linha de Buenos Aires. O surgimento da estância capitalista, no pampa úmido do litoral, colocava todo o país a serviço das exportações de couro e carne, e a marchar de mãos dadas com a ditadura do porto livre-cambista de Buenos Aires. O uruguaio José Artigas havia sido, até a derrota e o exílio, o mais lúcido dos caudilhos que lideraram o combate das massas criollas contra os comerciantes e os terras-tenentes atados ao mercado mundial, mas muitos anos depois Felipe Varela ainda foi capaz de desencadear uma grande rebelião no norte argentino porque, como constava em sua proclamação, “ser provinciano é ser mendigo sem pátria, sem liberdade, sem direitos”. Sua insurreição encontrou ressonância em todo o interior mediterrâneo. Foi o último montonero; morreu tuberculoso e na miséria, em 1870 [4]. O defensor da “União Americana”, projeto de ressurreição da Pátria Grande despedaçada, ainda é considerado um bandoleiro – como o era Artigas não faz muito – na história argentina ensinada nas escolas.

[2] ÁLVAREZ, Juan. Las guerras civiles argentinas. Buenos Aires, 1912.
[3] A montonera “nasce no descampado como os redemoinhos. Arremete, brada e despedaça como os redemoinhos e se detém, de repente, e morre como eles” . VEGA DÍAZ, Dardo de la. La Rioja heroica. Mendoza, 1955.
      José Hernández, que foi soldado da causa federal, cantou no Martín Fierro, o mais popular dos livros argentinos, as desditas do gaúcho desterrado de sua querência e perseguido pela autoridade: Vive el áquila en su nido, / el tigre vive en la selva, / el zorro en la cueva agena, / y en su destino inconstante, / sólo el gaucho vive errante / donde la suerte o lleva. / Porque: Para él son los calabozos, / para él las duras prisiones, / en su boca no hay razones / aunque la razón le sobre, / que son campanas de palo / las razones de los pobres.
      José Abelardo Ramos observa (Revolución y contrarrevolución en la Argentina. Buenos Aires, 1965) que os dois sobrenomes verdadeiros que aparecem no Martín Fierro são os de Anchorena y Gainza, nomes representativos da oligarquia que exterminou a criollaje em armas, e que hoje em dia se fundiram na família proprietária do diário La Prensa.
      Ricardo Güiraldes mostrou em Don Segundo Sombra ( Buenos Aires, 1939) o rosto oposto de Martín Fierro: o gaúcho domesticado, amarrado à diária, bajulador do patrão, bom para ser usado no folclore nostálgico ou para ser lastimado.
[4]  ORTEGA PEÑA, Rodolfo & DUHALDE, Eduardo Luis. Felipe Varela contra el Imperio Británico. Buenos Aires, 1966. Em 1870, também o Paraguai caía banhado em sangue pela invasão estrangeira. Era o único Estado latino americano que não tinha entrado na prisão imperialista.

     Felipe Varela nascera num pequeno povoado perdido entre as serras de Catamarca e tinha sido uma sentida testemunha da pobreza de sua província, arruinada pelo porto soberbo e distante. Em fins de 1824, quando Varela tinha três anos de idade, Catamarca não conseguiu pagar os gastos dos delegados que enviou ao Congresso Constituinte que se reuniu em Buenos Aires, e na mesma situação estavam Misiones, Santiago del Estero e outras províncias. O deputado catamarquenho Manuel Antonio Acevedo denunciava a “ominosa mudança” que a concorrência dos produtos estrangeiros havia provocado: “Catamarca tem olhado há algum tempo, sem poder solucionar, os problemas de nossa agricultura, com produtos inferiores às suas despesas; e também para sua indústria, sem um consumo capaz de alentar aqueles que a fomentam e a exercem, e para seu comércio, quase em total abandono [5]. O representante da província de Corrientes, general brigadeiro Pedro Ferré, resumia assim, em 1830, as consequências possíveis do protecionismo que ele propugnava: “Sim, sem dúvida, um pequeno número de homens de fortuna padecerá, pois estarão privados de excelentes vinhos e licores (...). As classes menos acomodadas não acharão muita diferença nos vinhos e licores que atualmente bebem, exceto no preço, e diminuirão o consumo, o que não me parece prejudicial. Nossos camponeses não usarão ponchos ingleses; não vão levar consigo boleadeiras e laços feitos na Inglaterra; não vestiremos roupas de estrangeiros; e outras regras que podemos fixar; mas em troca começará a ser menos desgraçada a condição de povoados inteiros de argentinos, e não nos perseguirá a lembrança da espantosa miséria a que hoje são condenados”. [6]

[5] URGIN, op. cit.
[6] ÁLVAREZ, op. cit.

     Dando um passo importante para a reconstrução da unidade nacional dilacerada pela guerra, o governo de Juan Manuel de Rosas, em 1835, editou uma lei aduaneira que extração protecionista. A lei proibia a importação de manufaturas de ferro e latão, arreios de cavalo, ponchos, cintos, faixas de lã ou de algodão, xergas, produtos granjeiros, rodas de carroças, velas de sebo e pentes, e estipulava pesados impostos à introdução de carruagens, sapatos, cordões, roupas, cavalgaduras, frutas secas e bebidas alcoólicas. Não era cobrado imposto sobre a carne transportada em navios de bandeira argentina, e eram estimuladas as correarias nacionais e a cultura do tabaco. Os efeitos foram notados sem demora. Até a batalha de Caseros, que derrubou Rosas em 1852, navegavam pelos rios escunas e navios construídos nos estaleiros de Corrientes e Santa Fé, havia em Buenos Aires mais de 100 fábricas prósperas, e todos os viajantes coincidiam na opinião de que eram excelentes os tecidos e os sapatos elaborados em Córdoba e Tucumán, os cigarros e os artesanatos de Salta, os vinhos e as aguardentes de Mendoza e San Juan. A marcenaria de Tucumán exportava para o Chile, Bolívia e Peru [7]. Dez anos depois da aprovação da lei, os navios de guerra da Inglaterra e da França rebentaram a canhonaços as correntes estendidas no rio Paraná, abrindo à navegação os rios interiores argentinos que Rosa mantivera, dir-se-ia, hermeticamente fechados. À invasão seguiu-se o bloqueio. Dez memoriais dos centros industriais de Yorkshire, Liverpool, Manchester, Leeds, Halifax e Bradford, assinados por 1.500 banqueiros, comerciantes e industriais, tinham instado o governo inglês a tomar providências contra as restrições impostas ao comércio no Prata.

[7] RAMOS, op.cit.

     A despeito dos progressos decorrentes da lei aduaneira, o bloqueio evidenciou as limitações da indústria nacional, que não estava capacitada para satisfazer a demanda interna. Na verdade, desde 1841 o protecionismo vinha enfraquecendo, ao invés de acentuar-se; Rosas representava como ninguém os interesses dos estancieiros charqueadores da província de Buenos Aires, e não existia, nem nasceu, uma burguesia industrial capaz de impulsionar o desenvolvimento de um capitalismo nacional autêntico e pujante: a grande estância ocupava o centro da vida econômica do país, e nenhuma política industrial podia ser empreendida com independência e vigor sem derrubar a onipotência do latifúndio exportador. Rosa, no fundo, sempre permaneceu fiel à sua classe. “O homem que era o melhor ginete da província” [8], guitarrista e bailarino, grande domador, que se orientava nas noites de tormenta e sem estrelas mastigando algumas ervas do pasto, e era um grande estancieiro produtor de carne seca e couros, os terras-tenentes tinham convertido em seu chefe. A lenda negra que logo foi urdida para difamá-lo não pode ocultar o caráter nacional e popular de muitos de seus atos de governo [9], mas a contradição de classes explica a ausência de uma política industrial dinâmica e sustentada, que ultrapassasse a cirurgia aduaneira, no governo do caudilho dos pecuaristas. Esta ausência não pode ser atribuída à instabilidade e às penúrias implícitas nas guerras nacionais e no bloqueio estrangeiro. Afinal, em meio ao torvelinho de uma revolução acossada, vinte anos antes José Artigas combinou suas normas industrialistas e integradoras com uma reforma agrária em profundidade.

[8] USANICHE, José Luis. Rosas visto por sus contemporáneos. Buenos Aires, 1955.
[9] José Rivera Indarte realizou, em suas célebres Tablas de sangre, um inventário dos crimes de Rosas, para estremecer a sensibilidade europeia. Segundo o Atlas de Londres, a casa bancária inglesa de Samuel Lafone pagou ao escritor um pêni por morto. Rosas havia proibido a exportação de ouro e prata, duro golpe no Império, e dissolvera o Banco Nacional, que era um instrumento do comércio britânico. CADY, John F. La intervención extranjera en el Río de la Plata. Buenos Aires, 1943.

     Num livro fecundo, Vivian Trías compara o protecionismo de Rosas com o ciclo de medidas que Artigas irradiou desde a anda Oriental, entre 1813 e 1815, para conquistar a verdadeira independência na área do vice reinado rio-platense. Rosas não proibiu os mercadores estrangeiros de exercer o comércio no mercado interno, nem devolveu ao país as rendas alfandegárias que Buenos Aires continuou usurpando, nem terminou com a ditadura do porto único. No entanto, a nacionalização do comércio interior e a quebra do monopólio portuário e alfandegário de Buenos Aires haviam sido capítulos fundamentais da política artiguista, assim como a questão agrária. Artigas pretendera a livre navegação nos rios interiores, mas Rosas nunca abriu às províncias essa chave de acesso ao comércio de ultramar. No fundo, Rosas também permaneceu fiel à sua privilegiada província. A despeito de todas essas limitações, o nacionalismo e o populismo do “gaúcho de olhos azuis” seguem gerando ódio nas classes dominantes argentinas. Rosas continua sendo “réu de lesa-pátria”, de acordo com uma lei de 1857 ainda vigente, e o país ainda se nega a abrir uma sepultura nacional para seus ossos enterrados na Europa. Sua imagem oficial é a imagem de um assassino.
     Superada a heresia de Rosas, a oligarquia se reencontrou com seu destino. Em 1858, o presidente da comissão diretora da exposição rural declarava inaugurado o evento com estas palavras: “Nós, que ainda estamos na infância, contentemo-nos com a humilde ideia de enviar àqueles bazares europeus os nossos produtos e matérias primas, para que nos devolvam transformados por meio dos poderosos agentes de que dispõem. O que pede a Europa são matérias-primas, para trocá-las por ricos artefatos”. [10]

[10] Discurso de Gervásio A. de Posadas, conf. CÚNEO, Dardo. Comportamiento y crisis de la clase empresaria. Buenos Aires, 1967. Em 1876, o ministro da Fazenda disse no Congresso: “Não devemos criar um direito exagerado que torne impossível a entrada do calçado, de modo que quatro remendões aqui floresçam, enquanto mil fabricantes de calçado estrangeiros não possam vender um só par de sapatos”.

     O ilustre Domingo Faustino Sarmiento e outros escritores liberais viram na montonera camponesa não mais do que o símbolo da barbárie, o atraso e a ignorância, o anacronismo das campanhas pastoris frente à civilização que a cidade encarnava: o poncho e o chiripá contra o fraque; a lança e o punhal contra a tropa de linha; o analfabetismo contra a escola [11]. Em 1861, Sarmiento escrevia a Mitre: “Não economize sangue dos gaúchos, é a única coisa que eles têm de humano. É preciso tornar útil para o país este adubo”. Tanto desprezo e tanto ódio revelavam uma negação da própria pátria que continha também, por certo, uma expressão de política econômica: “Não somos industriais nem navegantes”, afirmava Sarmiento, “e a Europa nos abastecerá de seus produtos por longos séculos, em troca de nossas matérias primas.” [12]

[11] AZÁN, Armando Raúl. Las bases sociales de la montonera. Revista de Historia Americana y Argentina. Mendoza (7-8), 1962-3.
[12] SARMIENTO, Domingo Faustino. Facundo. Buenos Aires, 1952. 

     O presidente artolomeu Mitre, a partir de 1862, levou adiante uma guerra de extermínio contra as províncias e seus últimos caudilhos. Sarmiento foi nomeado comandante da guerra e as tropas marcharam rumo ao norte para matar gaúchos, “animais bípedes de tão perversa condição”. Em La Rioja, Chacho Peñaloza, general das planícies, que irradiava sua influência até Mendoza e San Juan, era um dos últimos redutos da rebelião contra o porto, e Buenos Aires considerou que havia chegado a hora de acabar com ele. Cortaram-lhe a cabeça e a cravaram, em exibição, no centro da Praça de Olta. A ferrovia e as estradas arremataram a ruína de La Rioja, que havia começado a revolução em 1810: o livre-câmbio provocou a crise de seus artesanatos e acentuou a crônica pobreza da região. No século XX, os camponeses de La Rioja fogem de suas aldeias nas montanhas ou nas planícies e descem até Buenos Aires para oferecer seus braços: como os camponeses de outras províncias, só chegam às portas da cidade. Nos subúrbios encontram lugar junto a outros 700 mil habitantes das villas miserias e, bem ou mal, arranjam-se com as migalhas do banquete da grande capital. Você nota mudanças naqueles que foram embora e voltam de visita? – perguntaram os sociólogos aos 150 sobreviventes de uma aldeia de La Rioja, há poucos anos. Eles responderam, com inveja, que em Buenos Aires tinham melhorado o traje, os modos e a maneira de falar dos emigrados, e que alguns, inclusive, tinham voltado “mais brancos”. [13]

[13] MARGULIS, Mario. Migración y marginalidad en la sociedad argentina. Buenos Aires, 1968.


continua na página 302...
____________________
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas (4)
_____________________________

o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?