terça-feira, 16 de junho de 2026

Massa e Poder - Elementos do Poder: O Segredo

Elias Canetti

ELEMENTOS DO PODER

     O Segredo

          O segredo encontra-se no mais recôndito cerne do poder. O ato de espreitar é, por sua própria natureza, secreto. O observador se esconde ou se amolda a seu entorno e não se deixa reconhecer por um único movimento sequer. À espreita, ele desaparece por completo; reveste-se do segredo como que de uma nova pele, e persiste por um longo tempo em seu refúgio. Nesse seu estado, caracteriza-o uma peculiar mistura de paciência e impaciência. Quanto mais tempo ele permanecer assim, tão mais intensa será sua esperança de conseguir um sucesso repentino. Contudo, para que ele enfim obtenha êxito, sua paciência deve crescer até o infinito. Esgotando-se ela um só minuto mais cedo, tudo terá sido em vão, e ele, carregado de decepção, precisará começar tudo de novo. 
     Se a captura em si dá-se abertamente, pois deseja intensificar seu efeito com o auxílio do terror, a partir do início da incorporação tudo volta a desenrolar-se na escuridão. A boca é escura, e escuros são também o estômago e o intestino. Ninguém fica sabendo ou reflete sobre a atividade incessante em seu interior. Em grande parte, esse primitivíssimo processo da incorporação permanece um segredo. Ele principia ativamente com o segredo que o próprio observador, à espreita, cria; e termina, desconhecido e passivo, na escuridão secreta do corpo. Entre uma coisa e outra, somente o momento da captura rebrilha com fulgor, semelhante a um raio iluminando seu próprio e fugaz instante.
     O segredo mais verdadeiro é o que se passa no interior do corpo. Um curandeiro, atuando a partir de seu conhecimento dos processos corporais, tem de, antes de exercer seu ofício, submeter-se a operações bastante singulares em seu próprio corpo.
     Entre os arandas da Austrália, o homem que deseja iniciar-se como curandeiro caminha até a entrada da caverna onde moram os espíritos. Ali, antes de mais nada, sua língua é perfurada. Ele está completamente sozinho, e de sua iniciação faz parte que ele tenha muito medo dos espíritos. A coragem da solidão, e justamente num lugar especialmente perigoso, parece constituir pré-requisito para esse ofício. Mais tarde — conforme acredita —, ele é morto por uma lança que lhe atravessa a cabeça de orelha a orelha, e deitado pelos espíritos em sua caverna, onde estes vivem juntos numa espécie de além. Do nosso mundo, ele perdeu a consciência; no outro, todos os seus órgãos interiores são-lhe extraídos, e órgãos novos ocupam o lugar dos antigos. É de se supor que tais órgãos sejam melhores do que os habituais; invulneráveis, talvez, ou menos expostos às interferências da magia. O iniciante é, pois, fortalecido para seu ofício, mas o é de dentro para fora: seu novo poder começa em suas entranhas. Esteve morto antes de lhe ser permitido começar, mas sua morte serve apenas à penetração total de seu corpo. Seu segredo, somente ele e os espíritos conhecem; ele jaz no interior de seu corpo. 
     Uma característica notável é a ornamentação do feiticeiro com uma grande quantidade de pequenos cristais. Ele os carrega em seu corpo, e eles são imprescindíveis para seu ofício: no tratamento dos doentes, tem sempre lugar uma intensa atividade com essas pedrinhas. Algumas vezes, o próprio feiticeiro as distribui; outras, ele recolhe algumas delas dos pontos afetados do corpo do doente. Sólidas e estranhas partículas no corpo deste último causaram-lhe o sofrimento. É como uma estranha unidade monetária da doença, cuja taxa de câmbio só é conhecida dos feiticeiros. 
     À exceção desse tratamento absolutamente íntimo dos doentes, a feitiçaria ocorre sempre à distância. O feiticeiro prepara em segredo toda sorte de a ados pauzinhos mágicos e, a grande distância, os dirige contra a vítima, que, sem ter ideia do que está ocorrendo, é acometida do efeito terrível da magia. É do segredo da espreita que o feiticeiro se beneficia aqui. Com más intenções, pequenas lanças são atiradas; às vezes, sob a forma de cometas, elas se fazem visíveis no céu. O ato propriamente dito é rápido, mas pode levar algum tempo até que ele surta efeito.
     A prática do mal em atos individuais de feitiçaria é possível a todo aranda. A defesa contra esse mal está nas mãos apenas dos curandeiros. Pela iniciação e pela prática, eles possuem outras defesas. Alguns curandeiros bastante idosos podem causar o mal a grupos inteiros de homens. Tem-se, portanto, algo como três graus de intensidade do poder. O mais poderoso é aquele que é capaz de levar a doença a muitos, simultaneamente.
     Bastante temido é o poder mágico de estranhos que moram em lugares distantes. É provável que estes sejam os mais temidos porque os antídotos contra sua magia não são tão desconhecidos quanto os próprios feitiços. Além disso, inexiste aí a responsabilidade pelas maldades que sempre existe no interior de um mesmo grupo.
     Na defesa contra o mal e no tratamento de doenças, o poder do curandeiro é visto como bom. De mãos dadas com este caminha, porém, a prática do mal em grandes proporções. Nada de ruim acontece por si só; tudo é provocado por um homem ou espírito malévolo. O que quer que chamemos causa é para eles culpa. Toda morte é um assassinato, e, enquanto tal, tem de ser vingada.
     Espantosa é aí a proximidade absoluta com o mundo do paranoico. Nos dois capítulos sobre o caso Schreber, ao final deste livro, ficar-se-á sabendo mais a esse respeito. Até mesmo o ataque a órgãos internos é descrito ali com detalhes: após a sua completa destruição e um longo sofrimento, os órgãos se restabelecem, invulneráveis.
     O duplo caráter do segredo segue apegado a ele também em todas as formas superiores de poder. Um único passo separa o curandeiro primitivo do paranoico. E não é maior a distância que separa ambos do detentor de poder, conforme este se desenvolveu ao longo da história, em muitos e bem conhecidos exemplos.
     Neste último, o segredo tem sua esfera ativa. O detentor de poder que se vale do segredo o conhece com precisão e sabe muito bem avaliá-lo de acordo com seu significado. Ele sabe o que espreitar, quando quer conseguir alguma coisa, e sabe quem de seus auxiliares empregar na espreita. Sendo muitos os seus desejos, ele possui muitos segredos, e os reúne num sistema no qual eles se guardam uns aos outros. Confidencia uma coisa a um, outra coisa a outro, e cuida para que seus confidentes jamais possam unir-se.
     Todo aquele que sabe alguma coisa é vigiado por um outro, o qual jamais descobre o que realmente está vigiando no primeiro. O vigilante tem de registrar cada palavra e cada movimento daquele que lhe coube vigiar, e, relatando com frequência o que registrou, transmite a seu senhor uma imagem do pensamento do vigiado. Contudo, também o vigilante é, por sua vez, vigiado, e o relato daquele que o vigia corrige o seu. Assim, o detentor de poder está sempre a par da confiabilidade e da segurança dos recipientes nos quais deposita seus segredos, e é capaz de avaliar quais desses recipientes estão tão repletos que podem transbordar. Somente ele tem a chave do sistema completo de caixas que abriga seus segredos. Se a confia inteiramente a alguém, ele se sente em perigo.
      Uma distribuição desigual da capacidade de percepção faz parte do poder. O poderoso percebe o que abrigam os outros, mas não permite que percebam o que ele próprio abriga. Ele tem de ser o que mais cala. A ninguém é permitido conhecer-lhe o pensamento e a intenção.
     Um caso clássico dessa impenetrabilidade foi o de Filippo Maria, o último dos Visconti. Seu ducado, Milão, era uma grande potência na Itália do século XV. Ninguém igualava o duque em sua capacidade de ocultar o que abrigava em seu íntimo. Ele jamais dizia abertamente o que queria, mas encobria tudo com uma maneira peculiar de se expressar. Se não gostava mais de alguém, seguia louvando-o; se distinguira alguém com honrarias e presentes, inculpava-o de impetuosidade ou burrice, fazendo-o sentir que não era digno de sua sorte. Se desejava ter alguém à sua volta, atraía-o longamente, incutindo-lhe esperanças e, depois, abandonando-o. Quando, então, o envolvido acreditava-se já esquecido, o duque o chamava de volta. Se concedia uma graça a pessoas que lhe haviam prestado bons serviços, com notável astúcia perguntava a outras a respeito, como se nada soubesse do benefício concedido. De um modo geral, dava às pessoas algo diferente do que lhe fora pedido, e sempre de um modo diferente do desejado. Quando queria oferecer um presente ou uma honraria a alguém, costumava, dias antes, inquiri-lo sobre os assuntos mais irrelevantes, de modo que o bene ciado não lograva adivinhar-lhe a intenção. A m de não revelar a pessoa alguma seu mais recôndito propósito, chegava mesmo a queixar-se com frequência da concessão de favores que ele próprio concedera, ou ainda da execução de penas de morte que ele próprio decretara.
     Neste último caso, a impressão que se tem é que ele busca guardar seus segredos até mesmo de si próprio. O caráter consciente e ativo destes se perde para ele, que anseia por aquela forma passiva do segredo que carregamos na escuridão das cavidades de nosso corpo, que guardamos num lugar onde jamais o descobriremos novamente e que nós mesmos esquecemos.
     “Constitui um direito dos reis preservar seus segredos de seu pai, mãe, de seus irmãos, mulheres e amigos.” Assim afirma o Livro da coroa dos árabes, que contém muitas e antigas tradições datando da corte dos sassânidas.
     O rei persa Cósroes II, o Vitorioso, inventou métodos bastante particulares para testar a discrição daqueles que pretendia empregar. Se sabia que uma íntima amizade unia duas pessoas de seu círculo, uma união em tudo e por tudo, trancava-se com uma delas e confiava-lhe um segredo acerca da outra: comunicava-lhe que decidira mandar executá-la, proibindo-a, sob ameaça de castigá-la, de revelar tal segredo ao amigo. A partir daí, observava as atitudes do amigo condenado em suas idas e vindas pelo palácio; observava-lhe a coloração do rosto e seu comportamento quando diante do rei. Se constatava que tal comportamento não se modificara, sabia então que o outro não lhe revelara o segredo. Incluía, então, este último entre os de sua maior confiança, tratava-o com particular distinção, elevava-lhe o posto e fazia-o sentir suas graças. Depois, a sós com ele, dizia-lhe: “Eu tinha a intenção de mandar executar aquele homem em razão de algumas informações que chegaram até mim, mas, investigando melhor, descobriu-se que era tudo mentira”.
     Se, pelo contrário, notava que o condenado mostrava medo, mantinha-se afastado e desviava o olhar, compreendia que o segredo fora revelado. Nesse caso, lançava-se impiedoso sobre o traidor, degradava-o e o tratava duramente. Ao outro, fazia saber que pretendera apenas testar-lhe o amigo, confiando-lhe um segredo.
     Assim, somente confiava no silêncio de um cortesão após havê-lo obrigado a uma traição mortal para com seu melhor amigo. Assegurava-se, pois, da mais elevada discrição. “Quem não se presta a servir ao rei”, dizia, “não possui valor algum para si próprio, e aquele que nada vale nem mesmo para si próprio, deste não se pode tirar proveito algum.”
     O poder do silêncio foi sempre muito estimado. Ele significa que uma pessoa é capaz de resistir a todas as inumeráveis oportunidades que se lhe oferecem para falar. Uma tal pessoa não dá resposta alguma, como se jamais lhe houvessem feito qualquer pergunta. Não dá a perceber se gosta disto ou daquilo. É muda sem se calar. Mas ouve. Em seu extremo, a virtude estoica da imperturbabilidade haveria de conduzir necessariamente ao silêncio.
     O silêncio pressupõe ainda um conhecimento preciso daquilo que se cala. Como, na prática, ninguém permanece calado para sempre, o que se faz é escolher entre o que pode ser dito e o que cumpre calar. O que se cala é o que melhor se conhece. É algo mais preciso e mais valioso; algo que o silêncio não apenas protege, mas concentra. Um homem que cala bastante dá sempre a impressão de uma concentração maior. Quando cala, supõe-se que ele saiba muito, e que pensa bastante em seu segredo. Encontra-se com ele a cada vez que tem de protegê-lo.
     Aquele que silencia não pode, pois, esquecer-se de seu segredo. É respeitado pelo fato de esse segredo arder-lhe mais e mais, crescer dentro dele, e de ele, ainda assim, não revelá-lo.
     O silêncio isola: quem silencia está mais só do que os que falam. Atribui-se-lhe, assim, o poder do isolamento. Ele é o guardião de um tesouro, e esse tesouro está dentro dele.
     E o silêncio atua contrariamente à metamorfose. Aquele que monta guarda em seu posto interior jamais é capaz de distanciar-se dele. O silente pode disfarçar-se, mas apenas de um modo rígido. Ele pode vestir uma determinada máscara, mas aferra-se a ela. A fluidez da metamorfose é-lhe vedada. O efeito que esta provoca é demasiado incerto; uma vez entregue a ela, não se pode prever onde é que se vai parar. Sempre que não deseja metamorfosear-se o homem silencia. No silêncio, rompem-se todos os ensejos para a metamorfose. É por meio da fala que se tecem as relações entre os homens; no silêncio, tudo se enrijece.
     Aquele que silencia tem a vantagem da expectativa maior por sua manifestação. Dá-se a esta maior valor. Sucinta e isolada, sua fala aproxima-se mais da transmissão de uma ordem.
     A distinção artificial entre aquele que ordena e aquele a quem cabe obedecer a ele significa que eles não falam a mesma língua. Não devem conversar um com o outro, como se não fossem capazes de fazê-lo. Sob quaisquer circunstâncias, a ficção segundo a qual inexiste entendimento entre eles exteriormente à esfera da ordem é mantida. Assim, na esfera de sua função, os que possuem voz de comando fazem-se silentes. Desse modo, as pessoas acostumam-se também a esperar dos silentes, quando estes finalmente falam, manifestações que são como ordens.
     A desconfiança que se sente em relação a todas as formas mais livres de governo — um desdém por tais formas, como se elas fossem incapazes de realmente funcionar — vincula-se à ausência do segredo. Os debates nos parlamentos desenrolam-se entre centenas de pessoas; seu verdadeiro sentido reside em seu caráter público. Opiniões as mais diversas confrontam-se e medem-se umas com as outras. Mesmo as sessões declaradas secretas dificilmente permanecem inteiramente em segredo. A curiosidade profissional da imprensa e o interesse do mundo das finanças conduzem frequentemente a indiscrições.
     O indivíduo isolado — crê-se —, ou um grupo bastante reduzido de criaturas ao seu redor, é capaz de guardar um segredo. No tocante a discussões deliberativas, o mais seguro, aparentemente, é que elas se desenrolem no interior de grupos bastante reduzidos, formados com o objetivo de guardar segredo e que tenham estabelecido sanções as mais rigorosas para a traição. Quanto à decisão, porém, o melhor — julga-se — é que ela que a cargo de uma única pessoa. Esta pode inclusive desconhecê-la antes de tomá-la, mas, uma vez tomada a decisão, esta, na qualidade de uma ordem, encontra cumprimento imediato.
     Uma boa parte do prestígio vinculado às ditaduras reside no fato de se atribuir a elas a força concentrada do segredo, a qual, nas democracias, é diluída e repartida entre muitos. Com escárnio, enfatiza-se que nestas tudo é discutido à exaustão. Todos palpitam, todos interferem em tudo e nada acontece, pois tudo era sabido já de antemão. Aparentemente, reclamasse aí da falta de decisão, mas, na realidade, a causa dessa decepção é a ausência do segredo.
     As pessoas estão dispostas a suportar muita coisa, desde que essas coisas se deem de forma violenta e sem conhecimento prévio algum. Quando não se é nada, ir parar na barriga de um poderoso parece constituir um ímpeto servil de um tipo muito especial. Não se sabe o que realmente se passa nem quando irá acontecer: é possível que outros tenham a precedência do ingresso no monstro. Aguarda-se humildemente, estremece-se, nutre-se a esperança de se vir a tornar-se a vítima escolhida. Pode-se identificar nessa postura uma apoteose do segredo. Tudo o mais é subordinado à sua glorificação. O que importa é não tanto o que se passa, mas sim que aconteça com a ardente subtaneidade de um vulcão — inesperada e inapelavelmente.
     Mas o acúmulo de todos os segredos de um só lado e em uma só mão há de ser, por fim, fatal. E fatal não apenas para seu possuidor — o que, em si, não teria maior importância —, mas também para todos os envolvidos, o que é de enorme importância. Todo segredo é explosivo e se intensifica em seu próprio calor interno. O juramento que o sela é precisamente o ponto no qual ele voltará a se abrir.
     Em que grande medida o segredo é perigoso, somente hoje consegue se percebê-lo claramente. Ele se carregou de um poder cada vez maior nas esferas mais distintas, as quais apenas aparentemente independem uma da outra. Nem bem estava morto o ditador contra o qual, reunido, o mundo todo guerreou, e ressurgia já o segredo sob a forma da bomba atômica — mais perigoso do que nunca, e intensificando-se rapidamente em seus rebentos.
     Designa-se concentração do segredo a relação entre o número daqueles por ele afetados e o número dos que o guardam. A partir dessa definição, pode-se facilmente perceber que nossos modernos segredos tecnológicos são os mais concentrados e perigosos que já existiram. Eles afetam a todos, mas somente um pequeno número de pessoas sabe a seu respeito, dependendo de cinco ou dez homens a possibilidade de eles virem a ser empregados.

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Massa e Poder - Elementos do Poder: O Segredo 
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

Edgar Allan Poe - Contos: O Mistério de Marie Roget (e)

Edgar Allan Poe - Contos


O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842  

continuando...

« Também em relação à veracidade que pareça ainda revestir a argumentação do Commercial, essa veracidade ficará bastante diminuída se considerarmos a hora a que a jovem saiu. Foi — diz o jornal — numa altura em que as ruas estão cheias de gente. Mas isto não é verdade. Eram nove horas da manhã. Ora, às nove horas da manhã, durante toda a semana, exceto ao domingo, as ruas da cidade estão, é verdade, cheias de gente. As nove da manhã de domingo, cada um está geralmente em sua casa, preparando-se para ir à igreja. Não há razoável observador que não tenha notado o aspecto particularmente deserto da cidade, ao domingo, entre as oito e as dez da manhã. Entre as dez e as onze, as ruas estão cheias de gente, mas nunca a uma hora tão matinal como a que foi designada.
« Há um outro ponto em que o espírito de observação parece ter faltado ao Commercial. Um pedaço de uma das saias da infeliz jovem, com sessenta centímetros de comprimento e trinta de largura, tinha sido arrancado, amarrado em torno do pescoço e preso atrás com um nó, provavelmente para impedi-la de gritar. Isto foi feito por indivíduos que nem sequer tinham um lenço de bobo. Se esta ideia tem ou não fundamento é o que tentaremos mais tarde examinar; mas com as palavras indivíduos que nem sequer tinham um lenço de bolso, o editor pretende designar a mais vil classe de patifes. No entanto, esse é justamente o ênero de gente que tem sempre lenços, mesmo quando não tem camisa. Já teve ocasião de observar a que ponto, nestes últimos anos, o lenço de bolso se tornou um objete que o perfeito patife não pode dispensar.

— E que devemos pensar — perguntei — do artigo do Soleil? 
— Que é uma pena que o seu redator não tenha nascido papagaio, pois nesse caso teria sido o mais ilustre espécime da sua raça. Limitou-se simplesmente a repetir fragmentos das opiniões individuais já expressas, que foi buscar, com uma louvável habilidade, a tal ou tal diário. Os objetos — afirma o Soleil — estiveram no local, segundo toda a evidência, durante pelo menos três ou quatro semanas... Não é pois possível duvidar de que foi finalmente descoberto o teatro do abominável caso. Os factos aqui novamente enunciados pelo Soleil não bastam para dissipar as minhas próprias dúvidas quanto a este ponto, e teremos de examiná-los mais particularmente nas suas implicações com uma outra parte da questão.

« De momento, devemos ocupar-nos de outras investigações. Decerto não deixou de notar uma extrema negligência no exame do cadáver. É verdade que a questão da identidade foi facilmente resolvida, ou deve tê-lo sido, mas havia outros pontos a verificar. Teria sido o corpo, de algum modo, despojado? Teria a defunta alguns artigos de bijuteria consigo quando saiu de casa? Se tinha, foram esses artigos encontrados no corpo? São perguntas importantes, absolutamente negligenciadas pelo inquérito, e há outras de um valor igual que não atraíram a mínima atenção. Tentaremos responder-lhes através de uma investigação pessoal. O caso de Saint-Eustache necessita ser novamente examinado. Não tenho suspeitas contra esse indivíduo, mas procedamos com método. Verificaremos escrupulosamente a veracidade das atestações referentes aos lugares onde foi visto nesse domingo. Esse género de testemunhos escritos são muitas vezes meios de mistificação. Se nada encontrarmos, poremos Saint Eustache fora de causa. O seu suicídio, se bem que pareça corroborar as suspeitas, caso encontremos qualquer trapaça nos affidavit, não é uma circunstância inexplicável ou que deva fazer-nos desviar de uma linha de análise ordinária.
« No seguimento do que agora lhe proponho, afastaremos os pontos ocultos do drama e concentraremos a nossa atenção no contorno exterior. Em investigações deste gênero, comete-se frequentemente o erro de limitar o inquérito aos fatos imediatos e desprezar absolutamente os factos colaterais ou acessórios. É a detestável rotina dos tribunais criminais: confinar a instrução e a discussão ao domínio do relativo aparente. No entanto, a experiência provou, e a verdadeira filosofia prová-lo-á sempre, que uma vasta parte da verdade, talvez a mais considerável, brota de elementos aparentemente estranhos à questão. Foi pelo espírito, se não mesmo pela letra deste princípio, que a ciência moderna chegou a calcular sobre o imprevisto. Mas talvez não me compreenda? A história da ciência humana mostra-nos, de uma forma tão contínua, que é aos factos colaterais, fortuitos e acidentais, que devemos as nossas mais numerosas e mais preciosas descobertas, que se tornou finalmente necessário, em todo o balanço do progresso futuro, dar uma parte não só muito grande, mas a maior possível, às invenções que nascerão do acaso, e que estão completamente fora das previsões normais. Doravante já não é filosófico ter por base uma visão do que há de ser. O acidente deve ser admitido como parte da criação. Fazemos do acaso a matéria para um cálculo rigoroso. Submetemos o inesperado e o inconcebível às fórmulas matemáticas das escolas.
« Repito: é um fato provado que a melhor parte da verdade nasce do acessório, do indireto; e é conformando-me com simplicidade ao princípio implicado neste facto que gostaria, no caso presente, de desviar a instrução do batido e infrutuoso terreno do acontecimento em si, e levá-la para as circunstâncias contemporâneas que o rodeiam. Enquanto o meu amigo verifica a validade dos affidavit, tratarei de examinar os jornais de um modo mais geral. Até agora, limitámo-nos ao reconhecimento do campo de investigação, mas seria verdadeiramente estranho que um exame compreensivo dos jornais, tal como tenciono fazê-lo, não nos trouxesse quaisquer pequenas informações que servirão para dar uma nova diretriz às averiguações.
De acordo com a ideia de Dupin, fui verificar escrupulosamente os affidavit. O resultado deste exame foi uma firme convicção da sua validade e, consequentemente, da inocência de Saint-Eustache. Ao mesmo tempo, o meu amigo aplicava-se, com uma minúcia que me parecia absolutamente supérflua, ao exame de coleções de diversos jornais. Ao cabo de uma semana, colocou sob os meus olhos os seguintes extratos:

   a) « Há seis meses, pouco mais ou menos, foi provocada uma emoção semelhante pelo desaparecimento da mesma Marie Roget, da perfumaria do senhor Le Blanc, no Palais Royal. No entanto, ao cabo de uma semana, a jovem reapareceu atrás do seu balcão habitual, com excelente aspeto, se excetuarmos uma leve palidez que lhe cobria as faces. A mãe da jovem e o senhor Le Blanc limitaram-se a declarar que Marie tinha ido visitar quaisquer parentes residentes no campo, e o assunto foi prontamente esquecido. Presumimos que a sua ausência atual é da mesma natureza, e que ao fim de uma semana ou de um mês a veremos voltar ao nosso convívio.» Journal du Soir, segunda-feira, 23 de junho.
   b) « Um jornal da tarde, no seu número de ontem, recorda uma primeira e misteriosa ausência da menina Roget. É do conhecimento geral que, durante essa ausência da perfumaria Le Blanc, que durou uma semana, esteve na companhia de um jovem oficial da Marinha, conhecido pelos seus gostos depravados. Uma zanga providencial, ao que se supõe, levou-a a regressar a casa. Sabemos o nome do Lotário em questão, que se encontra atualmente de licença em Paris, mas, por razões facilmente compreensíveis, abstemo-nos de publicá-lo.» Le Mercure, terça-feira, 24 de junho.
   c) « Um atentado dos mais odiosos foi cometido nos arredores desta cidade durante o dia de anteontem. Ao cair da noite, um cavalheiro, com a mulher e a filha, desejando atravessar o rio, contratou os serviços de seis jovens que andavam pelo Sena numa lancha, aparentemente sem destino. Chegados à margem oposta, os três passageiros puseram pé em terra, e tinham-se já afastado bastante da margem, quando a jovem se apercebeu de que havia deixado a sua sombrinha na embarcação. Voltou, para reavê-la, mas foi agarrada pelo bando de energúmenos, transportada para o rio, amordaçada, terrivelmente maltratada e, finalmente, deposta num ponto da margem não muito distante daquele onde tinha primitivamente subido para o barco na companhia dos pais. Os miseráveis escaparam de momento à ação da Polícia, que todavia lhes anda na pista, e alguns deles não tardarão a ser capturados.» Journal du Matin, 25 de junho.
   d) «Recebemos uma ou duas comunicações que têm como objetivo imputar a Mennais o odioso crime recentemente cometido. Uma vez, porém, que este cavalheiro ficou ilibado por um inquérito judiciário, e como os argumentos do nosso correspondente parecem marcados mais por excitação do que por sagacidade, não consideramos conveniente publicá-los.» Journal du Matin, 28 de junho.
   e) « Recebemos várias cartas energicamente escritas, que parecem provir de fontes diversas e afirmam ser um facto consumado que a infortunada Marie Roget foi vitima de um dos numerosos bandos de energúmenos que infestam, ao domingo, os arredores da cidade. A nossa própria opinião é decididamente a favor desta tese. Tentaremos de futuro expor aqui alguns dos argumentos apresentados.» Journal du Soir, segunda-feira, 30 de junho.
   f) « Na segunda-feira, um dos bateleiros afetos ao serviço do fisco viu no Sena um barco abandonado e vogando ao sabor da corrente. As velas estavam arriadas no tombadilho. O bateleiro rebocou o barco até junto da delegação das autoridades fluviais. Na manhã seguinte, verificou-se que este barco fora desamarrado e desaparecera sem que qualquer dos funcionários o notasse. O respetivo leme ficou na delegação.» La Diligence, quinta-feira, 26 de junho.

     Ao ler estes diferentes extratos, não só me pareceram alheios à questão, como não me foi possível descobrir qualquer modo de relacioná-los com ela. Fiquei à espera de uma explicação de Dupin.

— Não é de momento minha intenção — disse-me ele — demorar-me no exame do primeiro e do segundo desses extratos. Copiei-os, sobretudo, para lhe mostrar a extrema negligência dos agentes da Polícia, que, a acreditar no prefeito, não se preocuparam absolutamente nada com o oficial de marinha mencionado. No entanto, seria loucura afirmar que não temos o direito de supor uma relação entre a primeira e a segunda ausência de Marie. Admitamos que a primeira fuga teve como resultado uma zanga entre os dois amantes e o regresso da jovem traída. Mais do que o resultado de novas propostas por parte de um segundo indivíduo, podemos considerar um segundo rapto — se soubermos que houve um segundo rapto — indício de novas tentativas por parte do traidor. Pode considerar-se esta nova fuga mais como o recomeço do antigo amor do que o início de um novo. Ou aquele que já uma vez fugira com Marie lhe propôs uma nova evasão, ou Marie teria aceitado propostas semelhantes feitas por um outro indivíduo. Mas há duas probabilidades contra uma a favor da primeira suposição. E aqui permita-me chamar a sua atenção para o facto de o período decorrido entre a primeira e a segunda evasões ultrapassar poucos meses apenas o período normal de cruzeiro dos nossos navios de guerra. O amante, interrompido na sua primeira infâmia pela necessidade de voltar ao mar, aproveitou a primeira oportunidade, após o regresso, para renovar as vis tentativas, até então não coroadas de êxito, ou, pelo menos para ele, não absolutamente satisfeitas? Sobre todas estas coisas nada sabemos.

« Dir-me-á, talvez, que no segundo caso a fuga que supomos não se consumou. Certamente que não. Mas podemos afirmar que não houve uma tentativa falhada? Com exceção de Saint-Eustache, e talvez de Beauvais, não sabemos de nenhuns amantes de Marie reconhecidos, declarados, honestos. Não se falou de qualquer outro. Quem é então o amante secreto de que os parentes — pelo menos na sua maioria — nunca ouviram falar, mas com quem Marie se encontrou no domingo de manhã, e em quem confia tanto que não hesita em ficar com ele até que as sombras da noite comecem a envolver os bosques solitários da barreira do Roule? Quem é, repito, esse amante secreto de que a maioria dos parentes nunca ouviu falar? E que significam estas estranhas palavras da senhora Roget, na manhã do domingo em que Marie desapareceu: Receio nunca mais voltar a vê-la?
« Ora, mesmo que a senhora Roget não tivesse conhecimento do projeto de fuga, não poderemos ao menos imaginar que esse projeto foi concebido pela filha? Ao sair de casa, deu a entender que ia visitar uma tia, residente na Rua Drômes, e Saint-Eustache foi encarregado de ir buscá-la ao fim da tarde. Ora, à primeira vista, este facto milita fortemente contra a minha opinião; mas reflitamos um pouco. Que ela encontrou algum companheiro, que atravessou com ele o rio e chegou à barreira do Roule a uma hora bastante adiantada, cerca das três da tarde — tudo isso é sabido. Mas, ao consentir em acompanhar o tal indivíduo, com qualquer desígnio conhecido ou não da mãe, deve ter pensado na desculpa dada ao sair de casa, assim como na surpresa e nas suspeitas que nasceriam no coração do noivo, Saint-Eustache, quando, ao ir buscá-la à Rua Drômes à hora combinada, lhe fosse dito que ela não tinha aparecido, e quando, além disso, ao regressar à pensão com esta alarmante notícia, soubesse da sua prolongada ausência de casa. Deve, repito, ter pensado em tudo isto. Deve ter previsto o desgosto de Saint-Eustache, as suspeitas de todos os seus amigos. É possível que lhe tenha faltado a coragem para regressar e enfrentar estas suspeitas. Mas tais suspeitas deixariam de ter a mínima importância para ela, se supusermos que a sua intenção inicial era não regressar.
« Podemos imaginar que raciocinou deste modo:
« Tenho um encontro com uma certa pessoa, com o objetivo de fugir com ela ou com vista a certos outros projetos de que só eu sei. É preciso eliminar toda a possibilidade de ser surpreendida. É necessário que tenhamos todo o tempo necessário para iludir qualquer perseguição. Darei a entender que vou visitar a minha tia e que passarei o dia em sua casa, na Rua Drômes. Direi a Saint Eustache para só lá ir buscar-me ao fim da tarde. Deste modo, a minha ausência de casa, prolongada o mais possível sem provocar suspeitas nem inquietação, poderá explicar-se, e ganharei bastante tempo. Se pedir a Saint-Eustache que vá buscar-me ao fim da tarde, ele decerto o fará mais cedo, mas, se deixar de pedir-lhe que vá buscar-me, o tempo de que disporei para a fuga ficará consideravelmente diminuído, pois esperar-me-ão cedo de regresso. Ora, se fosse minha intenção regressar, se tivesse em vista um simples passeio com a pessoa em questão, não seria de boa política pedir a Saint-Eustache que fosse buscar-me, pois, ao chegar, ele não deixaria de aperceber-se de que tinha sido enganado, coisa que poderia esconder-lhe indefinidamente saindo de casa sem dar parte da minha intenção, regressando antes da noite e dizendo então que fui passar o dia com a minha tia. Mas, uma vez que o meu projeto é não voltar... pelo menos antes que passem várias semanas ou até que tenha conseguido esconder certas coisas... a necessidade de ganhar tempo é a única coisa com que devo inquietar-me. 
« Terá observado, nas suas notas, que a opinião geral sobre este triste caso é, e sempre foi, de que a jovem foi vítima de um bando de patifes. Ora, em determinadas condições, a opinião popular não deve ser desdenhada. Quando surge por si mesma, quando se manifesta de um modo absolutamente espontâneo, devemos considerá-la um fenômeno análogo a essa intuição que é a idiossincrasia do homem de gênio. Em noventa por cento dos casos, confiarei nas suas decisões. Mas é muito importante que não se descubram traços palpáveis de uma sugestão exterior. A opinião deve ser rigorosamente o pensamento pessoal do público, e é muitas vezes difícil captar esta distinção e mantê-la. No caso presente, parece-me, a mim, que esta opinião pública, relativa a um bando, foi inspirada pelo acontecimento paralelo e acessório relatado no terceiro dos meus extratos.
« Paris inteira fica excitada pela descoberta do cadáver de Marie, uma jovem bela e conhecida. Este cadáver é encontrado com marcas de violência e flutuando no rio. Mas está agora provado que no mesmo dia em que se supõe ter a jovem sido assassinada, um atentado semelhante ao sofrido pela defunta, ainda que menos sensacional, foi consumado, por um bando de jovens patifes, sobre uma outra jovem. Será de surpreender, se o primeiro atentado conhecido tiver influenciado o julgamento popular relativamente ao outro, ainda obscuro? Este julgamento aguardava uma direção, e o atentado conhecido parecia indicá-la com tanta oportunidade! Também Marie foi encontrada no rio; e foi nesse mesmo rio que o atentado conhecido fora consumado. A conexão dos dois acontecimentos tinha em si qualquer coisa de tão palpável, que seria milagre o povo não a captar e não se apoderar dela. De fato, porém, um atentado cujo processo de execução se torna conhecido, é indício — e o mais seguro — de que o outro, cometido numa época quase coincidente, não foi cometido da mesma maneira. Na verdade, poder-se-ia considerar um espanto se, enquanto um bando de patifes consumava, num dado local, um determinado atentado, um outro bando semelhante, na mesma zona da mesma cidade, nas mesmas circunstâncias, cometesse, com os mesmos meios e os mesmos processos, um crime semelhante, e precisamente na mesma altura! E a que, pergunto-lhe, nos levaria a acreditar a opinião pública, acidentalmente sugerida, senão nesta espantosa série de coincidências?

continua na página 481...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Leituras: Só Nua Eu Te Podia Ler

Mia Couto


António Emílio Leite Couto


leituras onde cada linha parece conversar e se dobrar para dentro, como se respirasse comigo e o silêncio desabasse aos meus pés, quente e úmido, sem gemidos ou olhares (...) apenas nossa respiração e a nossa pele que se encosta sem tocar, murmúrios que não precisam de voz, você não parece saber meu nome, esqueceu. eu não pareço lembrar, não consigo esquecer, você respira comigo, eu penso que sei. (...) preciso tua voz para existir


 
Carta de Marta para Marcelo




   "Sou mulher, sou Marta e só posso escrever. Afinal, talvez seja oportuna a tua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse da minha própria voz. Se viesses agora, Marcelo, ficaria sem fala. A minha voz emigrou para um corpo que já foi meu. E quando me escuto nem eu mesma me reconheço. Em assuntos de amor só posso escrever. Não é de agora, sempre foi assim, mesmo quando estavas presente. 
   E escrevo como as aves redigem o voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E não tenho para te dizer do que seremos. (...) Não tenho saudade, não tenho memória: meu ventre nunca gerou vida, meu sangue não se abriu em outro corpo. É assim que envelheço em mim, véu esquecido num banco de igreja. 
   Só te amei a ti, Marcelo. Essa fidelidade levou-me ao mais penoso dos exílios: esse amor afastou-me da possibilidade de amar. Agora, entre todos os nomes, só me resta o teu nome. Só a ele te posso pedir o que antes te pedia a ti: que me faça nascer! De nascer outra, longe de mim, longe do meu tempo. Estou exausta, Marcelo. Exausta, mas não vazia. para se estar vazia é preciso ter dentro. E eu perdi a minha interioridade.
   Por que não escreveste nunca? Não é de te ler que mais tenho saudade. É o som da faca rasgando o envelope que trazia a tua carta. E sentir, de novo, uma carícia na alma, como se algures estivessem golpeando um cordão umbilical. Engano meu: não há faca, não há carta. Não há parto de nada, nem de ninguém.
   Vês como fico pequena escrevendo para ti? (...)
   - És parecida com a terra. Essa é a tua beleza. 
   Era assim que dizias. E quando nos beijávamos e eu perdia a respiração e, entre suspiros perguntavas: em que dia nasceste? E me respondias, voz trêmula: estou nascendo agora. E a tua mão ascendia por entre o vão das minhas pernas e eu voltava a perguntar: onde nasceste? E tu, quase sem voz, respondias: estou nascendo em ti, meu amor.
   Era assim que dizias. Marcelo, tu eras um poeta. Eu era a tua poesia. E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. Porque te recebia não em meus olhos, mas com o meu corpo todo, linha por linha, poro por poro. (...)
   Esta noite cumpri o ritual: despi-me toda para ler as velhas cartas de Marcelo.
   O meu amor escrevia de modo tão profundo que, no decurso da leitura, eu sentia o braço dele roçando o meu corpo e era como se desabotoasse o vestido e as roupas desabassem a meus pés."

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Leituras:
Só Nua Eu Te Podia Ler /  

Moby Dick: 65 - A baleia como um prato

Moby Dick

Herman Melville

65 - A baleia como um prato
    Que um mortal se alimente da criatura que alimenta sua lamparina, e, que, como Stubb, coma o animal sob sua própria luz, como se pode dizer; é uma coisa que parece tão estranha que se faz necessário entrar um pouco na história e na filosofia desse fato.
     Consta dos livros que, há três séculos, a língua da Baleia Franca era considerada uma deliciosa iguaria na França, chegando a alcançar altos preços. Também se diz que, no tempo de Henrique VIII, um certo cozinheiro da Corte recebeu uma recompensa generosa por ter inventado um molho excelente para acompanhar as marsopas grelhadas, que, como se há de lembrar, são um tipo de baleia. As marsopas, de fato, são até hoje consideradas um prato refinado. A carne é preparada em bolinhos do tamanho aproximado de bolas de bilhar, e quando bem temperadas e condimentadas podem passar por bolinhos de tartaruga ou de vitela. Os monges antigos de Dunfermline apreciavam-nas muitíssimo. A Coroa tinha-lhes feito uma grande doação de marsopas.
     Fato é que, entre os seus caçadores, pelo menos, a baleia teria sido por todos considerada um prato nobre, não fosse ela tão abundante; mas, quando você chega a se sentar diante de um bolo de carne de quase cem pés de comprimento, ele leva embora seu apetite. Apenas um sujeito tão sem preconceitos quanto Stubb consegue, hoje em dia, desfrutar das baleias cozidas; mas os Esquimós não são tão exigentes. Todos sabemos como baseiam sua vida nas baleias, possuindo raros e antigos estoques de um óleo de primeira linha. Zogranda, um dos seus mais afamados médicos, recomenda tiras de gordura para as crianças, por serem muito saborosas e nutritivas. Isso me traz à mente que alguns Ingleses – há muito tempo deixados por acaso na Groenlândia por um navio baleeiro – se alimentaram por meses a fio dos pedaços bolorentos que haviam sido deixados em terra depois de retirada a gordura. Os baleeiros Holandeses chamam esses despojos de “fritadas”; com as quais guardam de fato grande semelhança, pois são marrons e tostadas, com um cheiro semelhante ao das rosquinhas ou bolinhos fritos que as donas-de-casa de Amsterdã fazem, quando frescos. Têm um aspecto tão apetitoso que o mais sóbrio dos estrangeiros não consegue se conter.
     No entanto, o que deprecia ainda mais a baleia como um prato civilizado é a sua gordura excessiva. Ela é o touro premiado do mar, gordo demais para ser apreciado. Veja sua corcova, que poderia ser uma iguaria tão requintada quanto a do búfalo (que é considerada um prato raro), não fosse uma pirâmide tão sólida de gordura. Mas o espermacete, que cremoso e suave ele é; igual à polpa transparente e gelatinosa de um coco no terceiro mês de sua maturação, porém gorduroso demais para servir de substituto à manteiga. No entanto, muitos baleeiros têm um método de combinar a gordura com outras substâncias e então ingeri-la. Nas longas vigílias noturnas em que se derrete a gordura, é comum ver um marinheiro mergulhar seu biscoito numa enorme frigideira e deixá-lo ali, fritando por algum tempo. Várias ceias gostosas eu fiz desse modo.
     No caso de um Cachalote pequeno, o cérebro é tido em conta como iguaria. A caixa craniana é quebrada com um machado, e os dois lobos arredondados e esbranquiçados são retirados (lembram exatamente dois grandes pudins), misturados com farinha, e cozidos até que se tornem um delicioso manjar, com sabor semelhante ao da cabeça de vitela, que é prato estimado por alguns gastrônomos; e todo mundo sabe que alguns janotas entre os gastrônomos, de tanto comer o cérebro da vitela, pouco a pouco começaram a experimentar seus próprios cérebros, para conseguir diferenciar a cabeça da vitela de suas próprias, o que requer um extraordinário discernimento. Esse é o motivo pelo qual um janota de ar inteligente diante de uma cabeça de vitela é, de certo modo, uma das cenas mais tristes que se pode ver. A cabeça parece lançar-lhe algum tipo de reprimenda, como se dissesse “Et tu Brute!”.
     Talvez não seja tanto por causa da excessiva gordura da baleia que os homens da terra pareçam considerar com nojo a possibilidade de comê-la; tal sensação deriva, de certo modo, da consideração outrora mencionada: i.e., do fato de comer um animal marinho recentemente morto, e usando-o, para tanto, também como iluminação. Mas não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino; talvez tenha sido enforcado; e, se tivesse sido levado a julgamento por bois, certamente o teria sido; e certamente o teria merecido, se é que algum assassino merece tal fim. Vá ao mercado de carnes, num sábado à noite, e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos. Esse espetáculo não tira um dos dentes do maxilar dos canibais? Canibais? Quem não é um canibal? Garanto a você que o Juízo Final será mais tolerante com um providente Fidjiano que salgou um missionário magro em sua adega para se prevenir contra a fome do que contigo, gourmand civilizado e esclarecido, que prendes os gansos no chão e te refestelas com seus fígados dilatados em teu paté de foie gras.
     Mas Stubb, ele come a baleia à luz de seu próprio óleo, não? E isso é somar insulto à injúria, não é? Olhe para o cabo de sua faca, meu caro gourmand civilizado e esclarecido a comer um rosbife, do que é feito o cabo? – do quê, senão dos ossos do irmão do mesmo boi que você está comendo? E com o que você palita os dentes, depois de devorar aquele ganso gordo? Com uma pena da mesma ave. E com que pena o Secretário da Sociedade de Supressão de Crueldade aos Gansos escreve suas circulares? Há apenas um ou dois meses essa sociedade tomou a decisão de patrocinar somente penas de aço.

Continua na página 291...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
63 - A Forquilha / 64 - A ceia de Stubb / 65 - A baleia como um prato /               
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

Espumas Flutuantes - Aves de arribação

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

AVES DE ARRIBAÇÃO

Pensava em ti nas horas de tristeza 
 Quando estes versos pálidos compus. 
 Cercavam-me planícies sem beleza, 
 Pesava-me na fronte um céu sem luz.

Ergue este ramo solto no caminho.
Sei que em teu seio asilo encontrará. 
 Só tu conheces o secreto espinho 
 Que dentro d’alma me pungindo está!  
Fagundes Varela

Aves, é primavera! à rosa! à rosa! 
 Tomás Ribeiro

 
I
Era o tempo em que as ágeis andorinhas 
 Consultam-se na beira dos telhados, 
 E inquietas conversam, perscrutando 
 Os pardos horizontes carregados...  

Em que as rolas e os verdes periquitos 
 Do fundo do sertão descem cantando... 
 Em que a tribo das aves peregrinas 
 Os Zíngaros do céu formam-se em bando!

Viajar! viajar! A brisa morna 
 Traz de outro clima os cheiros provocantes. 
 A primavera desafia as asas, 
 Voam os passarinhos e os amantes!... 

II
Um dia Eles chegaram. Sobre a estrada 
 Abriram à tardinha as persianas; 
 E mais festiva a habitação sorria 
 Sob os festões das trêmulas lianas.  

Quem eram? Donde vinham? — Pouco importa 
 Quem fossem da casinha os habitantes. 
 — São noivos —: as mulheres murmuravam! 
 E os pássaros diziam: — São amantes — !

Eram vozes — que uniam-se co’as brisas! 
 Eram risos — que abriam-se co’as flores! 
 Eram mais dous clarões — na primavera! 
 Na festa universal — mais dous amores!

Astros! Falai daqueles olhos brandos. 
 Trepadeiras! Falai-lhe dos cabelos! 
 Ninhos d’aves! dizei, naquele seio, 
 Como era doce um pipilar d’anelos. 

Sei que ali se ocultava a mocidade... 
 Que o idílio cantava noite e dia... 
 E a casa branca à beira do caminho 
 Era o asilo do amor e da poesia.  

Quando a noite enrolava os descampados, 
 O monte, a selva, a choça do serrano, 
 Ouviam-se, alongando a paz dos ermos, 
 Os sons doces, plangentes de um piano.

Depois suave, plena, harmoniosa 
 Uma voz de mulher se alevantava... 
 E o pássaro inclinava-se das ramas 
 E a estrela do infinito se inclinava. 

E a voz cantava o tremolo medroso 
 De uma ideal sentida barcarola... 
 Ou nos ombros na noite desfolhava 
 As notas petulantes da Espanhola! 

III
Às vezes, quando o sol nas matas virgens 
 A fogueira das tardes acendia, 
 E como a ave ferida ensanguentava 
 Os píncaros da longa serrania, 

Um grupo destacava-se amoroso, 
 Tendo por tela a opala do infinito, 
 Dupla estátua do amor e mocidade 
 Num pedestal de musgos e granito. 

E embaixo o vale a descantar saudoso 
 Na cantiga das moças lavadeiras!... 
 E o riacho a sonhar nas canas bravas, 
 E o vento a s’embalar nas trepadeiras. 

Ó crepúsculos mortos! Voz dos ermos! 
 Montes azuis! Sussurros da floresta! 
 Quando mais vós tereis tantos afetos 
 Vicejando convosco em vossa festa?...

E o sol poente inda lançava um raio 
 Do caçador na longa carabina... 
 E sobre a fronte d’Ela por diadema 
 Nascia ao longe a estrela vespertina.

IV
É noite! Treme a lâmpada medrosa 
 Velando a longa noite do poeta... 
 Além, sob as cortinas transparentes 
 Ela dorme... formosa Julieta! 

Entram pela janela quase aberta
  Da meia-noite os preguiçosos ventos 
 E a lua beija o seio alvinitente 
 — Flor que abrira das noites aos relentos.

O Poeta trabalha!... A fronte pálida 
 Guarda talvez fatídica tristeza... 
 Que importa? A inspiração lhe acende o verso 
 Tendo por musa — o amor e a natureza! 

E como o cacto desabrocha a medo 
 Das noites tropicais na mansa calma, 
 A estrofe entreabre a pétala mimosa 
 Perfumada da essência de sua alma. 

No entanto Ela desperta... num sorriso 
 Ensaia um beijo que perfuma a brisa... 
 ... A Casta-diva apaga-se nos montes... 
 Luar de amor! acorda-te, Adalgisa! 

V
Hoje a casinha já não abre à tarde 
 Sobre a estrada as alegres persianas. 
 Os ninhos desabaram... no abandono 
 Murcharam-se as grinaldas de lianas. 

Que é feito do viver daqueles tempos! 
 Onde estão da casinha os habitantes? 
 ... A primavera, que arrebata as asas..., 
 Levou-lhe os passarinhos e os amantes!... 
Curralinho, 1870 


OS PERFUMES
A L.
O sândalo é o perfume das mulheres 
 de Istambul, e das huris do profeta; como 
 as borboletas, que se alimentam do 
 mel, a mulher do Oriente vive com as 
 gotas dessa essência divina. 
José de Alencar

O perfume é o invólucro invisível, 
 Que encerra as formas da mulher bonita. 
 Bem como a salamandra em chamas vive, 
 Entre perfumes a sultana habita.

Escrínio aveludado onde se guarda
— Colar de pedras — a beleza esquiva, 
 Espécie de crisálida, onde mora 
 A borboleta dos salões — a Diva.  

Alma das flores — quando as flores morrem, 
 Os perfumes emigram para as belas, 
 Trocam lábios de virgens — por boninas, 
 Trocam lírios — por seios de donzelas! 

E ali — silfos travessos, traiçoeiros 
 Voam cantando em lânguido compasso 
 Ocultos nesses cálices macios 
 Das covinhas de um rosto ou dum regaço. 

Vós, que não entendeis a lenda oculta, 
 A linguagem mimosa dos aromas, 
 De Madalena a urna olhais apenas 
 Como um primor de orientais redomas 

E não vedes que ali na mirra e nardo 
 Vai toda a crença da Judia loura... 
 E que o óleo, que lava os pés do Cristo, 
 É uma reza também da pecadora. 

Por mim eu sei que há confidências ternas, 
 Um poema saudoso, angustiado, 
 Se uma rosa de há muito emurchecida, 
 Rola acaso de um livro abandonado.

O espírito talvez dos tempos idos 
 Desperta ali como invisível nume... 
 E o poeta murmura suspirando: 
 “Bem me lembro... era este o seu perfume!”

E que segredo não revela acaso 
 De uma mulher a predileta essência? 
 Ora o cheiro é lascivo e provocante! 
 Ora casto, infantil, como a inocência! 

Ora propala os sensuais anseios 
 D’alcova de Ninon ou Margarida, 
 Ora o mistério divinal do leito, 
 Onde sonha Cecília adormecida. 

Aqui, na magnólia de Celuta 
 Lambe a solta madeixa, que se estira. 
 Unge o bronze do dorso da caboc’la, 
 E o mármore do corpo da Hetaira. 

É que o perfume denuncia o espírito 
 Que sob as formas feminis palpita... 
 Pois como a salamandra em chamas vive, 
 Entre perfumes a mulher habita. 
 Curralinho, 21 de junho de 1870  

continua pag 76...
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A Luís / As duas ilhas / Os Anjos da Meia-Noite / O hóspede / Aves de arribação /                             
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.