domingo, 31 de maio de 2026

O Gênio da Geografia

Milton Santos  

| 27/05/2026

Nesta quarta-feira (27), às 22h30, a TV Cultura estreou o documentário inédito Milton Santos – O Gênio da Geografia, produção do Jornalismo da emissora que celebra o centenário de nascimento de um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. O filme revisita a trajetória pessoal, acadêmica e política do geógrafo baiano Milton Santos, reconhecido internacionalmente por sua visão crítica sobre a globalização e por suas reflexões sobre desigualdade, território e sociedade. A produção reúne depoimentos do professor Fernando Conceição, biógrafo autorizado de Milton Santos; do geógrafo e pesquisador Billy Malachias; e de Nina Santos, neta de Milton e doutora em Comunicação. O documentário também traz trechos de uma entrevista concedida por Milton Santos ao cineasta Silvio Tendler, quatro meses antes de sua morte.

Milton Santos O Gênio da Geografia mostra como o pensamento do intelectual brasileiro segue atual e influente no Brasil e no mundo, mais de duas décadas após sua morte.




00:00:05 – Introdução: O legado do geógrafo.
00:03:27 – Reconhecimento e importância mundial.
00:07:09 – Origens e formação na Bahia.
00:09:44 – Carreira acadêmica e o doutorado na França.
00:11:12 – Exílio, ditadura e trajetória internacional.
00:15:02 – Obra literária e visão de mundo.
00:17:06 – Conceitos: Natureza do espaço e informação.
00:18:31 – Milton Santos como fonte intelectual.
00:22:56 – A globalização: fábula, perversidade e possibilidade.
00:29:03 – Crítica à política e à "democracia de mercado".
00:31:07 – A importância das cidades.
00:32:44 – Racismo e o papel do intelectual negro.
00:52:49 – Centenário e homenagens (Museu das Favelas).

________________

Mais cinema-documentário:

O Gênio da Geografia /   

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Fazia mais que conhecê-la)

 em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Fazia mais que conhecê-la, era o pai dele. Algumas das lembranças afetuosas de Morel à memória de meu tio ligavam-se ao fato de que não tencionávamos permanecer sempre no palacete de Guermantes, aonde só fôramos morar por causa da minha avó! Às vezes, falava-se de uma possível mudança. Ora, para compreender os conselhos que a tal respeito me dava Charles Morel, é preciso saber que, antigamente meu tio-avô morava no bulevar Malesherbes 40 bis. Como nós íamos muito à casa de meu tio Adolphe, até o dia fatal em que fiz meus pais brigarem com ele ao contar a história da dama cor-de-rosa, resultou daí que, na família, em vez de se dizer "casa do seu tio", dizia-se "no 40-bis": Primas de minha mãe diziam com o ar mais natural do mundo: 

- Ah! Domingo não podemos visitar vocês, pois vão jantar no 40-bis. -  

     Se eu ia visitar uma parenta, recomendavam-me que passasse primeiro no 40-bis, para que meu tio não se melindrasse por não ter começado por ele. Ele era proprietário da casa e, para falar a verdade, mostrava-se muito difícil na escolha dos locatários, que eram todos seus amigos, ou ficariam sendo. O coronel barão de Vatry vinha todos os dias fumar um charuto com ele a fim de mais facilmente obter os consertos. A porta da rua estava sempre fechada. Se, numa janela, meu tio avistava uma roupa, um tapete, enfurecia-se e mandava retirá-los mais rapidamente do que hoje o faz a polícia. Mas afinal, nem por isso deixava de alugar uma parte da casa, reservando para seu uso apenas dois andares e as cavalariças. Apesar disso, sabendo que lhe agradava elogiassem a boa manutenção da casa, louvavam o conforto do "palacete" como se meu tio fosse o seu único ocupante, e ele deixava que o dissessem, sem opor o desmentido formal que seria de esperar. Seguramente o "palacete" era confortável (pois meu tio introduzia nele todas as invenções da época). Porém nada possuía de extraordinário. Só meu tio, embora dizendo com falsa modéstia "meu casebre", estava persuadido, ou pelo menos inculcara a seu criado de quarto, à mulher deste, ao cocheiro, à cozinheira a ideia de que não existia nada em Paris que se comparasse ao pequeno palacete em conforto, luxo e satisfação. Charles Morel crescera dentro dessa fé. E nela permanecera. Assim, mesmo nos dias em que não conversava comigo, se, no trem, eu falasse a alguma pessoa sobre a possibilidade de uma mudança, logo ele me sorria e, piscando o olho com ar de entendido, dizia: 

- Ah, o que o senhor precisaria era de alguma coisa do tipo do 40-bis! Aí é que haveria de sentir-se a gosto! Pode-se dizer que seu tio entendia dessas coisas. Estou certo de que em Paris inteira não existe nada que valha o 40-bis.

     Ao ar melancólico que o Sr. de Charlus assumira ao falar da princesa de Cadignan, bem senti que essa novela não o fazia pensar apenas no jardinzinho de uma prima muito indiferente. Caiu num profundo devaneio e, como que falando para si mesmo, exclamou: 

- Os Segredos da Princesa de Cadignan! Que obra-prima! Como é profunda, como é dolorosa essa má reputação de Diane, que tanto receia que o homem a quem ama o venha a saber! Que verdade eterna, e mais geral do que aparenta! Como vai longe isso! -

     O Sr. de Charlus pronunciou essas palavras com uma tristeza que, no entanto, a gente sentia que ele não achava sem atrativos. Provavelmente o Sr. de Charlus, não sabendo ao certo em que medida os seus costumes eram ou não conhecidos, estremecia desde algum tempo à ideia de que voltaria a Paris e que o encontrariam com Morel, a família deste acabasse por intervir e que, assim, a sua felicidade ficasse comprometida. Tal eventualidade provavelmente só lhe aparecera até então como algo de profundamente penoso e desagradável. Mas o barão era muito artista. E agora que, desde um momento, confundia sua situação com a descrita por Balzac, refugiava-se de algum modo na novela, e, ao infortúnio que talvez o ameaçasse e, de qualquer forma, não deixava de assustá-lo, ele tinha esse consolo de encontrar na própria ansiedade aquilo que Swann e o próprio Saint-Loup teriam denominado algo de "muito balzaquiano". Essa identificação com a princesa de Cadignan tornara-se fácil ao Sr. de Charlus graças à transposição mental que se lhe tornara um hábito e da qual já dera vários exemplos. Aliás, era o bastante para que a simples substituição da mulher, como objeto amado, por um rapaz desencadeasse imediatamente, em torno deste, todo o processo de complicações sociais que se desenvolvem ao redor de uma ligação comum. Quando, por um motivo qualquer, introduz-se de uma vez por todas uma mudança no calendário ou nos horários, se se faz principiar o ano algumas semanas mais tarde ou soar a meia-noite quinze minutos mais cedo, como os dias, mesmo assim, terão vinte e quatro horas e os meses trinta dias, tudo o que decorre da medida do tempo permanecerá idêntico. Tudo pode ter sido alterado sem causar nenhum transtorno, pois as relações entre os números são sempre as mesmas. Assim ocorre com os que seguem "a hora da Europa central" ou os calendários orientais. Parece até que o amor-próprio que se tem em sustentar uma atriz desempenhava um papel nesta ligação. Quando, desde o primeiro dia, o Sr. de Charlus tomara informações sobre Morel, certamente ficara sabendo que era de origem humilde; mas uma demi mondaine a quem amamos, nada perde de seu prestígio para nós por ser filha de gente pobre. Em compensação, os músicos conhecidos a quem ele mandara escrever nem mesmo por interesse, como os amigos que, apresentando Swann a Odette, haviam-na descrito como mais difícil e mais requisitada do que o era por simples banalidade de homens em evidência que exaltam um estreante, haviam respondido ao barão: 

- Ah, grande talento, boa situação, naturalmente considerando que é um jovem, muito apreciado pelos conhecedores, irá longe. -

     E, com a mania dos que ignoram a inversão, falando da beleza masculina: 

- E depois, dá gosto vê-lo tocar; faz melhor figura que ninguém num concerto; tem lindos cabelos, uma postura distinta; a cabeça é atraente e ele parece um violinista de retrato. -

     Assim o Sr. de Charlus, aliás sobrexcitado por Morel, que não o deixava ignorar de quantas propostas era objeto, sentia-se lisonjeado em trazê-lo consigo, de construir-lhe um pombal a que ele voltasse várias vezes. Pois desejava estar livre o restante do tempo, o que se fazia necessário para a sua carreira, que o Sr. de Charlus queria que Morel continuasse, por mais dinheiro que tivesse de lhe dar, fosse por causa daquela ideia muito Guermantes de que é necessário que um homem faça alguma coisa, de que as pessoas só valem pelo seu talento, e que a nobreza ou o dinheiro são somente o zero que multiplica um valor, fosse por ter medo de que, ocioso e sempre a seu lado, o violinista acabasse se aborrecendo. Enfim, não queria privar se do prazer que sentia consigo próprio, de dizer por ocasião de certos concertos de gala: "Este a quem aclamam no momento estará comigo esta noite." As pessoas elegantes, quando estão enamoradas, e de qualquer maneira que o estejam, põem sua vaidade naquilo que pode destruir as vantagens anteriores em que sua vaidade encontrou satisfação. Morel, sentindo que eu não tinha maldade com ele, sinceramente ligado ao Sr. de Charlus e, por outro lado, de uma indiferença física absoluta em relação a ambos, acabou por manifestar a meu respeito os mesmos sentimentos de calorosa simpatia de uma cocote que sabe que não a desejamos e que seu amante tem em nós um amigo sincero que não tentará fazê-lo romper com ela. Não só me falava exatamente como outrora Rachel, a amante de Saint-Loup, mas também, conforme o que me repetia o Sr. de Charlus, dizia de mim, na minha ausência, as mesmas coisas que Rachel falava sobre mim a Robert. Por fim, o Sr. de Charlus me dizia: 

- Ele gosta muito do senhor.

     Como Robert: - Ela gosta muito de ti. -
     E, como o sobrinho em nome da amante, era em nome de Morel que o tio me pedia muitas vezes que fosse jantar com eles. Além disso, não havia menos tempestades entre eles do que entre Robert e Rachel. Certo, quando Charlie (Morel) ia embora, o Sr. de Charlus não lhe poupava elogios, repetindo desvanecido que o violinista era muito bom para ele. Mas era visível, no entanto, que freqüentemente Charlie, mesmo diante de todos os fiéis, tinha um ar irritado em vez de parecer sempre feliz e submisso como o teria desejado o barão. Essa irritação chegou até, mais tarde, devido à fraqueza que fazia o Sr. de Charlus perdoar as atitudes inconvenientes de Morel, ao ponto de o violinista não mais ocultá-la, ou ainda a afetava. Vi o Sr. de Charlus entrando num vagão onde se achava Morel com alguns de seus amigos militares e ser recebido com um dar de ombros do músico, acompanhado com um piscar de olhos a seus amigos. Ou então fingia estar dormindo, como alguém a quem semelhante chegada é o cúmulo do aborrecimento. Ou punha-se a tossir; os outros riam, simulando, para divertir-se, o falar amaneirado de homens como o Sr. de Charlus; atraíam Charlie para um canto e este acabava por voltar, como que forçado, para junto do Sr. de Charlus, cujo coração era transpassado por todos esses maus-tratos. É inconcebível que os tenha suportado; e essas formas cada vez diferentes de sofrimento colocavam de novo para o Sr. de Charlus o problema da felicidade, forçavam-no não apenas a pedir mais, como também a desejar outra coisa, já que a combinação precedente se achava viciada por uma lembrança horrível. E no entanto, por mais penosas que fossem logo tais cenas, convém reconhecer que, nos primeiros tempos, se manifestava em Morel o gênio do homem do povo da França, emprestando-lhe formas encantadoras de simplicidade, de aparente franqueza, e até de uma altivez independente que parecia inspirada pelo desinteresse. Isso era falso, mas a vantagem da atitude estava bem mais a favor de Morel, considerando-se que, enquanto aquele que ama está sempre forçado a voltar à carga, a insistir, pelo contrário, é fácil ao que não ama seguir uma linha reta, inflexível e graciosa. Ela existia, por privilégio da raça, no rosto tão aberto desse Morel de coração tão fechado, nesse rosto adornado com a graça neo-helênica que floresce nas basílicas da Champagne. Apesar de sua altivez artificial, seguidamente, avistando o Sr. de Charlus no momento em que não o esperava, ficava constrangido diante do pequeno clã, enrubescia, baixava os olhos, para deslumbramento do barão que via naquilo todo um romance. Era simplesmente um sinal de irritação e de vergonha. A primeira por vezes se expressava; pois, por mais calma e energicamente decente que fosse a atitude de Morel, ele não passava sem desmentir-se com freqüência. Às vezes até, a alguma palavra que o barão lhe dissesse, estourava da parte de Morel uma réplica insolente, em tom duro, e com o qual todos ficavam chocados. O Sr. de Charlus baixava a cabeça com ar triste, nada respondia e, com a faculdade que têm os pais idólatras de achar que ninguém repara na frieza e dureza dos filhos, nem por isso deixava de entoar louvores ao violinista. Aliás, o Sr. de Charlus não era sempre tão submisso, mas suas rebeliões em geral não alcançavam seu objetivo, principalmente porque, tendo convivido com pessoas da alta sociedade, levava em conta, no cálculo das reações que podia despertar, a baixeza, se não original pelo menos adquirida pela educação. Ora, em vez disso, encontrava em Morel alguma veleidade plebéia de indiferença momentânea. Infelizmente para o Sr. de Charlus, ele não compreendia que, para Morel, tudo cedia diante das questões em que o Conservatório e a boa reputação no Conservatório (porém isto, que devia ser mais grave, não se colocava de momento) entravam em jogo. Assim, por exemplo, os burgueses mudam facilmente de nome por vaidade, os grão-senhores por vantagem. Para o jovem violinista, ao contrário, o nome de Morel estava indissoluvelmente ligado a seu prêmio de violino; logo, era impossível modificá-lo. O Sr. de Charlus gostaria que Morel tivesse tudo dele, mesmo o seu nome. Considerando que o prenome de Morel era Charles, que se assemelhava a Charlus, e que a propriedade em que eles se encontravam tinha o nome de Charmes, quis convencer Morel de que um belo nome, agradável de dizer, era a metade de uma reputação artística, e que o virtuoso devia sem hesitar tomar o nome de “Charmel", discreta alusão ao local de seus encontros. Deu de ombros Morel e, como último argumento, o Sr. de Charlus teve a infeliz idéia de acrescentar que tinha um criado de quarto que se chamava desse modo. Não fez mais que excitar a furiosa indignação do rapaz. 

- Houve um tempo em que meus antepassados sentiam-se orgulhosos do título de criado de quarto, de mordomo do rei. - Houve um outro - respondeu altivamente Morel - em que meus antepassados mandaram cortar o pescoço dos seus. -

     O Sr. de Charlus ficaria muito espantado se pudesse supor que, na falta de "Charmel", resignado a adotar Morel e a lhe dar um dos títulos da família de Guermantes de que dispunha, mas que as circunstâncias, conforme se verá, não lhe permitiram oferecer ao violinista, este o houvesse recusado, pensando na reputação artística ligada a seu nome de Morel e nos comentários que fariam na "classe". De tal modo colocava ele a rua Bergere acima do faubourg Saint-Germain! Ao Sr. de Charlus forçoso lhe foi contentar-se, no momento, em mandar fazer, para Morel, anéis simbólicos com a antiga inscrição: PLVS VLTRA CAROLVS. Por certo, diante de um adversário de uma espécie a que não conhecia, o Sr. de Charlus deveria mudar de tática. Mas quem é capaz de tal? Além disso, se o Sr. de Charlus tinha dessas inabilidades, tampouco Morel as deixava de ter. Bem mais do que a simples circunstância que provocou o rompimento, o que devia, ao menos provisoriamente (mas esse provisório veio a ser definitivo), perdê-lo ante o Sr. de Charlus é que nele não havia apenas a baixeza, que o fazia ser vulgar diante da severidade e responder com insolência à doçura. Paralelamente à natural baixeza, havia nele uma neurastenia complicada com a má educação, que, despertando em toda circunstância em que estivesse em falta ou dependesse de alguém, fazia com que, no próprio momento em que necessitaria de toda a sua gentileza, de toda a sua doçura, de toda a sua alegria para desarmar o barão, ele se tornasse sombrio, intratável; procurasse travar discussões em que sabia que divergiam dele, sustentava seu ponto de vista hostil com uma fraqueza de razões e uma violência cortante que só fazia aumentar essa mesma fraqueza. Pois bem depressa, à falta de argumentos, ainda assim os inventava, revelando destarte toda a extensão de sua tolice e ignorância. Estas mal se mostravam quando ele era amável e só procurava agradar. Pelo contrário, só elas é que apareciam em seus acessos de mau humor sombrio, nos quais, de inofensivas tornavam-se odiosas. Então o Sr. de Charlus sentia-se farto pondo toda a sua esperança num dia seguinte melhor, ao passo que Morel, esquecendo que o barão o fazia viver faustosamente, ostentava um sorriso irônico de piedade superior e dizia: 

- Nunca aceitei nada de ninguém. Desse modo, não há ninguém a quem eu deva um só muito obrigado.

     Nesse meio tempo, e como se tivesse de lidar com um homem da alta sociedade, o Sr. de Charlus continuava a exercer as suas cóleras, verdadeiras ou fingidas, porém agora inúteis. Entretanto, nem sempre o eram. Assim, um dia (que se coloca aliás após aquele primeiro período) em que o barão voltava comigo e Charlie de um almoço em casa dos Verdurin, julgando passar o fim da tarde e a noite com o violinista em Doncieres, a despedida deste, logo que o trem partiu, respondendo: 

- Não, tenho o que fazer -, causou ao Sr. de Charlus uma tão forte decepção que, embora tentasse mostrar boa cara diante do azar, vi que lágrimas dissolviam o cosmético de suas pestanas, enquanto que ele permanecia estupidificado diante do trem. Essa dor foi tamanha que, como Albertine e eu pretendêssemos acabar o dia em Doncieres, disse ao ouvido dela que não gostaria de deixar sozinho o Sr. de Charlus, que me parecia, não saber por quê, muito desgostoso. A querida pequena aceitou de bom grado. Então, perguntei ao Sr. de Charlus se não desejava que o acompanhasse um pouco. Ele também aceitou, mas recusou incomodar por isso a minha prima. Achei uma certa doçura (e sem dúvida pela última vez, pois estava decidido a romper com ela) em lhe ordenar suavemente, como se ela fosse minha mulher: 
- Volta sozinha, vou me encontrar contigo esta noite -, e em ouvi-la, como o faria uma esposa, dar-me licença de proceder como quisesse e aprovar que me pusesse à disposição do Sr. de Charlus, caso este, de quem muito gostava, precisasse de mim.   

     Fomos, o barão e eu, ele bamboleando a sua corpulência, com seus olhos de jesuíta baixos, eu seguindo-o até um café onde nos serviram cerveja. Senti os olhos do Sr. de Charlus presos pela inquietação a algum projeto. De súbito, pediu papel e tinta e pôs-se a escrever com rapidez singular. Enquanto enchia folha após folha, seus olhos brilhavam num devaneio raivoso. Depois de escrever oito páginas: 

- Posso pedir-lhe um grande obséquio? - indagou. - Desculpe-me fechar esta carta. Mas é necessário. O senhor vai tomar um carro, um auto se puder, para ir mais depressa. Certamente ainda encontrará Morel no seu quarto, aonde foi se trocar. Pobre menino, quis bancar o fanfarrão no momento de nos deixar, mas fique certo de que ele está com o coração mais pesado que eu. O senhor vai entregar-lhe esta carta e, se ele perguntar onde é que me viu, dirá que desembarcou em Doncieres (o que aliás era verdade) para ver Robert (o que talvez não seja verdade), mas que me encontrou com alguém a quem não conhecia, que eu parecia bastante encolerizado, que o senhor julgou surpreender palavras de envio de testemunhas (na verdade, bato-me amanhã). Principalmente, não lhe diga que peço para chamá-lo, nem procure trazê-lo, mas, se ele quiser voltar com o senhor, não o impeça. Vá, meu menino, é para o bem dele, o senhor pode evitar um grande drama. Enquanto estiver fora, vou escrever às minhas testemunhas. Impedi o senhor de ir passear com sua prima. Espero que ela não me queira mal por isso, e até o creio. Pois trata-se de uma alma nobre e sei que é daquelas que sabem não se furtar à grandeza das circunstâncias. Terá de agradecei-lhe em meu nome. Sou-lhe pessoalmente devedor e agrada-me que assim seja. -

     Sentia grande piedade pelo Sr. de Charlus; parecia-me que Charlie poderia impedir esse duelo, do qual talvez fosse a causa; e, se assim era, sentia-me revoltado que ele tivesse ido embora com aquela indiferença em vez de dar assistência a seu protetor. Minha indignação cresceu quando, ao chegar à casa em que residia Morel, reconheci a voz do violinista que, pela necessidade de expandir sua alegria, cantava a plenos pulmões: "Na noite de sábado, depois do batente!" Se o pobre Sr. de Charlus o ouvisse, justo ele que desejava que acreditassem, e sem dúvida acreditava, que Morel tinha o coração pesado naquele momento! Charlie pôs-se a dançar de prazer quando me viu. 

- Oh, meu velho (perdoe-me chamá-lo desse modo, mas com essa maldita vida de militar a gente adquire maus hábitos), que sorte que o vejo! Não tenho nada a fazer de noite. Vamos passá-la juntos, que tal? Ficaremos aqui, se isto lhe agrada; se achar melhor, vamos passear de bote, tocaremos música, não tenho qualquer preferência.

     Disse-lhe que era obrigado a jantar em Balbec, ele tinha muita vontade de que o convidasse, mas eu não queria.

- Mas, se está tão apressado, por que veio até aqui? 
- Trago-lhe uma carta do Sr. de Charlus. -

     A esse nome, toda a sua alegria desapareceu; seu rosto contraiu-se. 

- Como! Até aqui ele vem me importunar? Então eu sou um escravo! Meu velho, seja amável. Não vou abrir a carta. Você lhe dirá que não me encontrou. 
- Não seria melhor abri-la? Acho que contém algo de grave. 
- Cem vezes não, você não conhece as mentiras, as manhas infernais desse velho pirata. É um truque para que vá vê-lo. Pois bem! Não irei, quero ter paz esta noite. 
- Mas não haverá um duelo amanhã? - perguntei a Morel, que eu julgava a par de tudo. 
- Um duelo? -indagou com ar estupefato. - Não sei uma só palavra a respeito. Afinal, pouco me importa. Esse velho repulsivo bem pode se deixar esfaquear se lhe agrada. Mas olhe, você me deixou intrigado; em todo caso, vou ler a carta dele. Diga-lhe que a deixou aqui, para o caso de eu voltar para casa. -

     Enquanto Morel me falava, eu olhava com espanto os admiráveis livros que o Sr. de Charlus lhe dera e que atulhavam o quarto. Tendo o violinista recusado aqueles que traziam a divisa: "Pertenço ao barão, etc.", divisa que lhe parecia insultante para si próprio, como um sinal de posse, o barão, com o engenho sentimental em que se compraz o amor infeliz, tinha variado com outras, provenientes de ancestrais, porém encomendadas ao encadernador conforme as circunstâncias de uma amizade melancólica. Às vezes eram breves e confiantes, como Spes mea, ou como Exspectata non eludet; às vezes, apenas resignadas, como "Esperarei"; algumas galantes: Mesmes, prazer do Mestre, ou recomendando a castidade, como aquela tomada de empréstimo aos Simiane, semeada de torres de blau (azul) e de flores-de-lis, e desviada de seu sentido: Sustentant lilia turres; outras, enfim, desesperadas e marcando encontro no céu para quem não quisera saber dele na terra: Manet ultima coelo; e achando muito verdes as uvas que não podia alcançar, fingindo não ter procurado aquilo que não obtivera, o Sr. de Charlus dizia em uma: Non mortale quod opto. Mas não tive tempo de ver todas. Se o Sr. de Charlus, lançando no papel essa carta, parecera possuído do demônio da inspiração que fazia correr a sua pena, assim que Morel rompeu o selo: Atavis et armis.

[Tradução respectiva das expressões em latim: Spes mea, "minha esperança"; Exspectata non eludet, "Não decepcionará minhas expectativas"; Sustentant filia turres, "As torres sustentam os lírios"; Manet ultima coelo, "O fim pertence ao céu"; Non mortale quod opto, "Tenho a ambição de um imortal". Atavis et armis: "Pelos ancestrais e pelas armas." (N. do T)] 

     Acometido por um leopardo acompanhado de duas rosas de goelas, pôs-se a ler com tão grande febre como a que tivera o Sr. de Charlus ao escrever, e sobre essas páginas preenchidas ao acaso, o seu olhar não corria menos depressa que a pena do barão. 

- Ah, meu Deus! - gritou - só faltava mais essa! Mas onde encontrá-lo? Deus sabe onde estará agora. -

     Insinuei que, se a gente se apressasse, iria encontrá-lo ainda no mesmo café onde ele pedira cerveja para se refazer. 

- Não sei se voltarei - disse ele à governanta da casa, e acrescentou in petto: - Isso dependerá do aspecto que as coisas assumirem. -

     Minutos depois chegávamos ao café. Notei o aspecto do Sr. de Charlus ao me avistar. Vendo que eu não voltava sozinho, senti que a respiração e a vida lhe eram devolvidas. Estando naquela noite num estado de espírito em que não podia dispensar Morel, inventara que lhe tinham dito que dois oficiais do regimento haviam falado mal dele a propósito do violinista e que ele ia enviar-lhes suas testemunhas. Morel adivinhara o escândalo, sua vida ficaria impossível no regimento, e havia acorrido. No que absolutamente não procedera mal. Pois, para tornar mais verossímil a sua mentira, o Sr. de Charlus já escrevera a dois amigos (um deles era Cottard) para pedir que fossem suas testemunhas. E, se o violinista não tivesse vindo, é certo que, doido como era o Sr. de Charlus (e para mudar sua tristeza em furor), ele os teria enviado a um oficial qualquer, ao acaso, oficial com quem lhe seria um alívio bater-se. Durante esse tempo, o Sr. de Charlus, lembrando-se que era de mais pura estirpe que a Casa de França, dizia consigo que ele era muito bom por inquietar-se tanto por causa do filho de um mordomo, cujo patrão ele não se dignaria a frequentar. Por outro lado, se apenas lhe agradava agora a companhia dos crápulas, o hábito arraigado que têm estes de não responder a uma carta, de faltar a um encontro sem prevenir, sem se desculparem depois, dava-lhe, como se tratava muitas vezes de amores, tantas emoções, e, no resto de tempo, lhe causava tanta irritação, constrangimento e raiva, que às vezes chegava a lamentar a multiplicidade de caretas por um nada, a exatidão escrupulosa dos príncipes e embaixadores, os quais, se desgraçadamente lhe eram indiferentes, apesar de tudo davam-lhe uma espécie de repouso. Habituado aos modos de Morel e sabendo da pouca influência que tinha sobre ele e de como era incapaz de insinuar-se numa vida em que as camaradagens vulgares mais consagradas pelo hábito ocupavam excessivo lugar e tempo para que se reservasse uma hora ao grão-senhor repelido, orgulhoso e que implorava em vão, o Sr. de Charlus estava de tal modo persuadido de que o músico não viria, de tal maneira receava estar brigado para sempre com ele, por ter ido longe demais, que mal pôde reter um grito ao vê-lo. Porém, sentindo-se vencedor, fez questão de ditar as condições de paz e delas tirar as vantagens que pudesse. 

- Que vem fazer aqui? - disse-lhe. - E o senhor? - acrescentou, olhando-me - eu lhe havia recomendado, acima de tudo, que não o trouxesse. 
- Ele não queria me trazer - disse Morel, virando para o Sr. de Charlus, na ingenuidade de sua coqueteria, olhares convencionalmente tristes e langorosamente desusados, com um ar, que sem dúvida julgava irresistível, de querer beijar o barão e de ter vontade de chorar. - Fui eu que vim contra a vontade dele. Venho, em nome da nossa amizade, para suplicar de joelhos que não cometa essa loucura. 

     O Sr. de Charlus delirava de alegria. A reação era muito forte para os seus nervos; apesar disso, manteve-se senhor da situação. 

- A amizade, que o senhor invoca de modo bastante inoportuno - respondeu ele em tom seco - devia pelo contrário conseguir a aprovação de sua parte, quando acho que não devo deixar passar em branco as impertinências de um tolo. Além disso, se eu quisesse obedecer aos rogos de uma afeição que já conheci mais bem inspirada, não poderia mais fazê-lo, visto que as cartas já foram expedidas às minhas testemunhas e não duvido que sejam aceitas. O senhor sempre agiu comigo como um perfeito imbecil e, em vez de se orgulhar, como seria de seu direito, da predileção com que eu o assinalava, em vez de fazer compreender, à chusma de ajudantes ou de criados em meio aos quais a lei militar o força a viver, que motivo de incomparável orgulho era para o senhor uma amizade como a minha, procurou desculpar-se, quase transformando num mérito estúpido o fato de não ser devidamente reconhecido. Sei que nisso acrescentou, para não deixar perceber o quanto certas cenas o haviam humilhado o senhor só é culpado de ter-se deixado levar pelo ciúme dos outros. Mas como é que, na sua idade, pode ser tão criança (e criança mal-educada) para não ter adivinhado imediatamente que minha preferência pelo senhor e todas as vantagens que daí deviam resultar iriam provocar ciúmes? Que todos os seus camaradas, enquanto o incitavam a brigar comigo, iriam trabalhar para tomar o seu posto? Achei que não devia mostrar-lhe as cartas que recebi, sobre o assunto, de todos aqueles em quem mais confia. Desdenho tanto as investidas desses lacaios como suas vãs zombarias. A única pessoa que me preocupa é o senhor, porque muito o estimo, mas a afeição tem limites, e o senhor bem o deveria saber. -

continua na página 211...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Fazia mais que conhecê-la)
Volume 6
Volume 7

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (25 de março - Um dia branco de inverno.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     25 de março - Um dia branco de inverno.
 
          Eu li o que escrevi ontem, e cheguei perto de rasgar o caderno inteiro. Parece-me que meu estilo de narrativa é muito demorado e muito enjoativo. No entanto, como minhas lembranças remanescentes daquele período não apresentam nada alegre, a não ser a alegria daquela natureza peculiar que Lérmontoff tinha em vista quando disse que é uma coisa alegre e dolorosa tocar as úlceras de feridas antigas, então por que não deveria me observar? Mas eu não devo impor-me à bondade. Por isso, vou continuar sem lamentos.
     Pelo espaço de uma semana inteira, depois daquele passeio fora da cidade, minha posição não melhorou nada, embora a mudança em Liza se tornasse mais perceptível a cada dia. Como já afirmei, interpretei essa mudança da maneira mais favorável possível para mim mesmo.... A desgraça dos homens solitários e tímidos - aqueles que são tímidos pelo amor próprio - consiste precisamente nisto que eles, tendo olhos, e até mesmo mantendo-os olhando bem abertos, não veem nada, ou o veem sob uma falsa luz, como através de óculos coloridos. E seus próprios pensamentos e observações os atrapalham a cada passo.
     No início de nosso convívio, Liza havia me tratado com confiança e franqueza, como uma criança; talvez, até mesmo, em seu gosto por mim houvesse algo de simples, de afeto infantil... Mas quando aquela estranha, quase repentina crise ocorreu nela, depois de uma pequena perplexidade, ela se sentiu envergonhada na minha presença, se afastou de mim involuntariamente, e ao mesmo tempo ficou triste e pensativa... Ela estava esperando.... o quê? Ela mesma não sabia ..... mas eu ..... Eu, como já disse, me alegrei com aquela crise...... Como Deus é minha testemunha, eu quase desmaiei de arrebatamento, como diz o ditado. No entanto, estou disposto a admitir que qualquer outra pessoa no meu lugar também poderia ter sido enganada..... Quem é desprovido de amor-próprio? É desnecessário dizer que tudo isso só ficou claro para mim depois de um tempo, quando fui obrigado a dobrar minhas asas feridas, que na melhor das hipóteses não eram muito fortes.
     O mal-entendido que surgiu entre Liza e eu durou uma semana inteira, - e não há nada de surpreendente nisso: foi o meu destino ser testemunha de mal-entendidos que duraram anos e anos. E quem disse que só o verdadeiro é real? Uma mentira é tão tenaz da vida quanto a verdade, se não mais. É um fato, lembro-me, que mesmo durante aquela semana tive um surto de vez em quando.... mas um homem solitário como eu, direi mais uma vez, é tão incapaz de compreender o que se passa dentro dele quanto de compreender o que se passa diante de seus olhos. Sim, e mais do que isso: o amor é um sentimento natural? É natural para um homem amar? O amor é uma doença; e para uma doença, a lei não está escrita. Suponha que o meu coração às vezes se contraísse desagradavelmente dentro de mim; mas, então, tudo em mim estava virado de cabeça para baixo. Como pode um homem saber em tais circunstâncias o que é certo e o que é errado, qual é a causa, qual é o significado de cada sensação separada?
     Mas, seja como for, todos esses mal-entendidos, pressentimentos e esperanças foram resolvidos da seguinte maneira.
     Um dia,- era de manhã, por volta das onze horas,- antes de eu ter conseguido colocar o meu pé no Sr. A ante-sala de Ozhógin, uma voz estranha e estridente ressoava no salão, a porta voou aberta, e, acompanhado pelo dono da casa, apareceu no umbral um homem alto e imponente de vinte e cinco anos, que apressadamente jogou em seu manto militar, que estava deitado no banco, despediu-se afetuosamente de Kiríll Matvyéevitch, tocou seu boné negligentemente enquanto passava por mim - e desapareceu, apertando suas esporas.

"Quem é esse?" - perguntei a Ozhógin.
"Príncipe N****," -replicou este último, com uma cara perturbada;-"ele foi enviado de Petersburgo para receber os recrutas. Mas onde estão aqueles criados?" - prosseguiu ele com vexação:-"não havia ninguém para pendurar seu manto".

     Nós entramos no salão.

"Ele está aqui há muito tempo?" - perguntei.
"Dizem que ele veio ontem à noite. Eu lhe ofereci um quarto em minha casa, mas ele recusou. No entanto, ele parece ser um jovem muito simpático".
"Ele ficou muito tempo com você?"
"Cerca de uma hora. Ele me pediu para apresentá-lo à Olympiáda Nikítichna".
"E você o apresentou?"
"Certamente."
"E ele conheceu Lizavéta Kiríllovna?...."
"Sim, ele a conheceu, é claro".

     Eu não disse nada por um tempo.

"Ele veio para ficar por muito tempo, sabe?"
"Sim, acho que ele será obrigado a ficar aqui mais do que quinze dias."

     E Kiríll Matvyéevitch fugiu para se vestir.
     Subi e desci o corredor várias vezes. Não me lembro que a chegada do Príncipe N**** me causou uma impressão especial na época, exceto aquela sensação desagradável que costuma nos tomar posse no aparecimento de um novo rosto em nosso círculo doméstico. Talvez essa sensação se misturasse com algo na natureza da inveja do tímido e obscuro homem de Moscou pelo brilhante oficial de Petersburgo - "O Príncipe," - pensei - "é um elegante da capital; ele nos olhará de cima..."... Eu não o via há mais de um minuto, mas tinha conseguido notar que ele era bonito, alerta e de fácil educação.
     Depois de andar um pouco pelo salão, parei, finalmente, diante de um espelho, tirei do bolso um pente minúsculo, dei ao meu cabelo uma desordem pitoresca e, como às vezes acontece, de repente me envolvi na contemplação do meu próprio rosto. Lembro que minha atenção estava concentrada com particular solicitude em meu nariz; o contorno bastante flácido e indefinido daquela característica não me dava nenhuma gratificação especial - quando, de repente, nas profundezas escuras do vidro inclinado, que refletia quase toda a sala, a porta se abriu, e a graciosa figura de Liza fez sua aparição. Não sei porque não mexi e mantive a mesma expressão no meu rosto. Liza girava a cabeça para frente, olhava atentamente para mim e, levantando as sobrancelhas, mordendo os lábios e prendendo a respiração, como uma pessoa que se alegra de não ter sido vista, se retirava cautelosamente, e suavemente puxava a porta para atrás dela. A porta rangia levemente. Liza estremeceu, e ficou parada na hora. Eu não me mexi..... Novamente ela puxou o puxador da porta, e desapareceu. Não havia possibilidade de dúvida: a expressão do rosto de Liza à vista de minha pessoa não denotou nada além de um desejo de bater uma retirada bem sucedida, para evitar um encontro desagradável; o brilho rápido do prazer que consegui detectar em seus olhos, quando ela pensou que realmente tinha conseguido escapar impenetrável, - tudo isso dizia, mas com muita clareza: aquela jovem garota não estava apaixonada por mim. Durante muito, muito tempo não consegui desviar o olhar da porta imóvel e burra, que novamente se apresentava como uma mancha branca nas profundezas do espelho; tentei sorrir para a minha própria figura ereta - abracei a cabeça, voltei para casa e me atirei sobre o divã. Senti-me repentinamente pesado no coração, tão pesado que não consegui chorar................................ "Será que pode ser?" - Eu repetia incessantemente, deitado, como um morto, de costas, e com as mãos dobradas no peito..... Como você gosta desse "Pode ser?"...

continua em... 26 de março 
______________________

25 de março - Um dia branco de inverno /                 
__________________

Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Bom dia, Clássicas... Ária - J. S. Bach

Sopranos


     O Air (da Suíte nº 3 em Ré maior) não foi originalmente escrito para voz — é uma peça instrumental. Quando a soprano canta essa obra, ela precisa: transformar uma linha instrumental em fraseado vocal orgânico; manter pureza de timbre e controle absoluto do vibrato¹; sustentar longas frases com respiração impecável: evitar excessos, porque a peça exige serenidade e equilíbrio.

[1] O vibrato é uma das características mais marcantes e desejadas no canto — aquele ondulado natural na nota que dá vida, emoção e brilho à voz.


J.S.Bach - Air on the G String (Orchestral Suite No. 3)



A soprano deve cantar com pureza, controle, legato² contínuo e expressão contida — como um instrumento de Bach, não como uma diva romântica. 

[2] O legato é uma técnica musical que consiste em ligar as notas de forma contínua, sem interrupções audíveis entre elas. Essa técnica é fundamental para a interpretação de diversas peças musicais, pois proporciona uma fluidez que enriquece a expressividade da música. 


Kalinka Damiani - melodia vocal longa, contínua e lírica com uma atmosfera contemplativa




O papel das sopranos na música clássica é central, poderoso e historicamente simbólico. É a voz que conduz, emociona e simboliza a resposta curta. 


Delcy - uma mistura da técnica clássica com estética contemporânea




A voz soprano representa o auge da expressividade humana no registro agudo³, sendo usada para transmitir pureza, heroísmo, paixão, sofrimento e transcendência.

[3] O registro agudo da soprano é a região mais alta da voz feminina — aquela faixa brilhante, clara e penetrante que costuma dar o “brilho” característico às sopranos.


Wendy Kokkelkoren - pureza, estabilidade e serenidade emocional





J.S.Bach - Aria z III Suity Orkiestrowej D-dur BWV 1068




sábado, 30 de maio de 2026

MPB: Codinome beija-flor

Luiz Melodia








Pra que mentir, fingir que perdoou?
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
(Que coincidência é o amor)
A nossa música (nunca mais tocou)

Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções?
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos beija-flor

Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome beija-flor
Não responda nunca, meu amor, nunca
Pra qualquer um na rua, beija-flor

Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador

Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor







Cazuza - Entrevista - 1986





Luiz Melodia, Cássia Eller 
- Juventude Transviada (Ao Vivo No Rio De Janeiro / 1999)





Gente de Expressão - Luiz Melodia





Luiz Melodia - Pérola Negra (Ao Vivo)





Luiz Melodia e a brilhante estreia com PÉROLA NEGRA 
| ALBUM REVIEW





Feras que virão




Codinome Beija-flor /