quinta-feira, 9 de julho de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Havia esquecido a mentira)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Havia esquecido a mentira que me dissera uma noite acerca da dama suscetível em cuja casa era de todo necessário que fosse tomar chá, ainda que, indo visitar essa dama, corresse o risco de perder minha amizade e ter de se matar. Não lhe recordei a mentira. Mas fiquei acabrunhado. E adiei o rompimento para outra ocasião. Não é necessária a sinceridade, e nem mesmo a destreza na mentira, para ser amado. Aqui, chamo de amor uma tortura recíproca. Nessa noite, eu não achava de modo algum repreensível falar-lhe como minha avó, tão perfeita, fizera comigo, nem, para lhe dizer que a acompanharia à casa dos Verdurin, ter adotado a maneira brusca de meu pai, o qual jamais nos comunicava uma decisão a não ser do jeito que nos pudesse causar o máximo de uma agitação desproporcionada, nesse grau, à própria decisão. De modo que estava coberto de razão quando nos achava absurdos de mostrarmos tanta angústia por tão pequena coisa, angústia que de fato correspondia à comoção que nos causara. E como (da mesma forma que o bom senso inflexível de minha avó) essas veleidades arbitrárias de meu pai viessem completar em mim a natureza sensível a que tinham permanecido por tanto tempo alheias, e a qual durante toda a minha infância fizeram sofrer tanto, essa natureza sensível informava-se bem exatamente sobre os pontos que deviam visar com eficácia: não existe melhor delator que um antigo ladrão, ou do que um súdito da nação que se guerreia. Em certas famílias mentirosas, um irmão que vem visitar outro irmão sem motivo aparente e lhe pede casualmente, à porta da rua, ao sair, uma informação que nem sequer parece ouvir, por isso mesmo dá a entender ao irmão que tal informação era a finalidade de sua visita, pois o irmão bem conhece aquele ar desligado, aquelas palavras ditas como que entre parênteses no último minuto, pois ele próprio as empregou várias vezes. Ora, existem igualmente famílias patológicas, sensibilidades aparentadas, temperamentos fraternos, iniciados nesse tácito idioma que faz com que em família as pessoas se compreendam sem falar. Assim, quem mais que um nervoso pode ser enervante? E além do mais, talvez houvesse na minha conduta, nesses casos, uma causa mais geral, mais profunda. É que, nesses momentos breves, porém inevitáveis, quando se detesta a quem se ama - esses momentos que duram às vezes toda a vida com as pessoas de quem não se gosta -, não desejamos parecer bons, para que não tenham pena de nós; queremos ao mesmo tempo ser malvados e cruéis o mais possível para que nossa felicidade seja verdadeiramente odiosa e ulcere a alma do nosso inimigo ocasional ou duradouro. Diante de quantas pessoas não fui eu mentirosamente caluniado, apenas para que meus "êxitos" lhes parecessem imorais e os encarniçassem ainda mais contra mim! Seria preciso seguir o caminho inverso, mostrar sem orgulho que temos bons sentimentos, em vez de os esconder tanto. O que seria fácil se soubéssemos jamais odiar, amar sempre. Pois então seríamos tão felizes por só dizer as coisas que podem dar alegria aos outros, enternecê-los, fazer com que nos amem!
     Decerto eu sentia um pouco de remorso por ser tão irritante para com Albertine, e dizia comigo: "Se não a amasse, ela me teria maior reconhecimento, pois eu não seria ruim com ela; mas não, isto se compensaria, pois eu também seria menos amável." E, para me justificar, poderia lhe dizer que a amava. Mas a confissão desse amor, além de não trazer novidade alguma a Albertine, talvez a deixasse mais fria a meu respeito do que as durezas e ardis de que justamente o amor era a única desculpa.
     É tão natural ser duro e ardiloso com quem se ama! Se o interesse que demonstramos aos outros não nos impede de sermos doces com eles e complacentes com aquilo que desejam, é que esse interesse é uma mentira. O próximo nos é indiferente, e a indiferença não convida à maldade.
     A noite passava; antes que Albertine fosse deitar-se, não havia tempo a perder se quiséssemos fazer as pazes e recomeçar com os beijos. Nenhum de nós ainda tomara a iniciativa.
     Sentindo que ela estava realmente zangada, aproveitei para lhe falar de Esther Lévy.

- Bloch me disse (o que não era verdade) que você conhecera muito bem a sua prima Esther. 
- Eu nem sequer a reconheceria - disse Albertine com ar vago.
- Vi a fotografia dela - acrescentei furioso. Ao dizer isto, não encarava Albertine, de modo que não vi sua expressão, que teria sido a única resposta, pois ela não disse nada.

     Já não era o sossego do beijo de minha mãe em Combray o que eu sentia junto de Albertine nessas noites, mas, ao contrário, a angústia daqueles dias em que minha mãe mal me dava boa-noite, ou até nem subia para o meu quarto, ou porque estivesse zangada comigo ou porque a retivessem os convidados. Essa angústia, não a sua transposição para o amor, não, essa própria angústia, que por algum tempo se especializara no amor, que se destinara unicamente a ele, depois de operada a partilha, a divisão das paixões, agora parecia de novo estender-se a todas, tornada outra vez indivisa, assim como na minha infância, como se todos os meus sentimentos, que estremeciam à ideia de não poder conservar Albertine junto ao meu leito, a um tempo como amante, como irmã, como filha, como mãe igualmente, de cujo boa-noite cotidiano eu recomeçava a sentir a necessidade pueril, tivessem começado a reunir-se, a se unificar na noite prematura da minha vida, que parecia ser tão breve como um dia de inverno. Mas, se eu experimentava a angústia de minha infância, a mudança da criatura que me fazia senti-la, a diferença de sentimento que ela me inspirava, a própria transformação do meu caráter, tornavam impossível reclamar-lhe o alívio como outrora à minha mãe. Eu já não sabia dizer: "Estou triste."
     Com a morte na alma, limitava-se a falar de coisas indiferentes que não me adiantavam em nada para uma solução feliz. Repisava em dolorosas banalidades. E com aquele egoísmo intelectual que, por menos que uma verdade insignificante se refira ao nosso amor, nos faz ter em grande conta aquele que a encontrou, talvez tão casualmente como a cartomante que nos anunciou um fato banal mas que desde então se cumpriu, eu não estava muito longe de acreditar Françoise superior a Bergotte e a Elstir, porque me dissera em Balbec:

- Essa moça lhe dará desgostos.

     Cada minuto me aproximava do boa-noite de Albertine, que por fim ela me dava. Mas naquela noite o seu beijo, de onde ela própria estava ausente e que não me encontrava, fazia-me tão ansioso que, o coração palpitante, eu a contemplava ir até a porta, pensando: "Se quero achar um pretexto para chamá-la, retê-la, fazer as pazes, preciso apressar-me, ela só precisa de mais alguns passos para sair do quarto, mais dois, mais um, ela gira a maçaneta, abre, é tarde, já fechou a porta." Talvez não fosse tarde demais, apesar de tudo. Como antigamente em Combray, quando minha mãe me havia deixado sem me sossegar com seu beijo, eu queria lançar-me no encalço de Albertine, sentia que não teria sossego enquanto não a visse de novo, que o fato de revê-la iria tornar-se algo imenso como ainda não ocorrera até ali, e que, se não conseguisse me livrar sozinho dessa tristeza, talvez adquirisse o hábito vergonhoso de ir mendigar aos pés de Albertine; saltei da cama quando ela já estava em seu quarto, andava para cá e para lá no corredor, esperando que ela saísse e me chamasse; permanecia imóvel diante de sua porta, para não me arriscar a não ouvir um débil chamado, entrava por um instante em meu quarto para ver se minha amiga por felicidade não tinha esquecido um lenço, uma bolsa, alguma coisa que eu pudesse fingir recear que lhe fizesse falta e que me desse o pretexto de ir a seu quarto. Não, nada. Voltava a postar-me diante de sua porta. Mas na frincha desta já não havia luz, Albertine já a apagara, estava deitada, eu ficava lá, imóvel, esperando não sei que oportunidade que não vinha; e muito tempo depois, gelado, tornava a me deitar sob os cobertores e chorava a noite inteira.
     Assim, às vezes, em certas noites, recorria um ardil que me proporcionava o beijo de Albertine. Sabendo o quanto era rápido o seu adormecimento logo que se estendia na cama (ela também o sabia, pois instintivamente, quando se deitava, descalçava as sandálias que eu lhe dera, e o anel, que punha a seu lado, como fazia em seu quarto ao se acomodar), sabendo o quanto era profundo o seu sono e carinhoso o seu despertar, agarrava-me a um pretexto para ir buscar alguma coisa, fazia-a estender-se em minha cama. Quando voltava, ela adormecera, e eu via diante de mim aquela outra mulher em que se transformava quando estava inteiramente de frente. Mas ela mudava depressa de personalidade, pois eu me estendia a seu lado e a reencontrava de perfil. Podia pôr a minha mão na sua, nos seus ombros, no seu rosto, que Albertine continuava a dormir. Podia segurar sua cabeça, virá-la, encostá-la nos meus lábios, rodear meu pescoço com seus braços, e ela continuava a dormir como um relógio de bolso que não para, como um bicho que continua vivendo qualquer que seja a posição que lhe deem, como uma trepadeira, uma ipomeia que continua a estender seus ramos, seja qual for o arrimo de que disponha. Apenas o seu arfar se modificava a cada um dos meus contatos, como se ele fosse um instrumento que eu tocasse e ao qual fizesse executar modulações, tirando notas diferentes de uma, depois de outra de suas cordas. Meu ciúme se acalmava, pois sentia que Albertine transformada num ser que respira, que não é outra coisa, como o indicava o sopro regular pelo qual se exprime essa pura função fisiológica, a qual, inteiramente fluida, não possui a espessura da palavra nem do silêncio e, em sua ignorância de todo mal, ofegar extraído antes de um caniço oco que de um ser humano, realmente paradisíaco para mim, que naqueles momentos sentia Albertine subtraída de tudo, não só material mas moralmente, era o puro cântico dos anjos. No entanto, por aquele hálito eu de súbito considerava que talvez muitos nomes humanos, trazidos pela memória, deveriam passar.
     Às vezes, até a voz humana se acrescentava a essa música. Albertine pronunciava algumas palavras. Como desejaria obter-lhes o sentido! Acontecia que o nome de uma pessoa de quem tínhamos falado e que excitava o meu ciúme, subia-lhe aos lábios, mas sem me fazer infeliz, pois a recordação que trazia parecia ser apenas a das conversas que ela tivera comigo sobre o assunto. Entretanto, certa noite, de olhos fechados, meio que acordada, disse carinhosamente dirigindo-se a mim: "Andrée." Dissimulei minha emoção. 

- Estás sonhando, não sou Andrée - retruquei rindo. Ela também sorriu: 
- Não, eu queria te perguntar o que te disse Andrée há pouco. 
- Pensei que já tinhas deitado assim junto dela.
- Não, nunca. - disse Albertine.

     Unicamente, antes de responder isto, escondera por um instante o rosto nas mãos. Logo, seus silêncios eram apenas véus, seus carinhos superficiais no fundo somente retinham milhares de lembranças que teriam me dilacerado sua vida, portanto, era repleta desses fatos cuja narrativa trocista e cuja crônica risonha constituem nossos mexericos diários a respeito dos outros, dos indiferentes, mas que, enquanto uma criatura permanece extraviada em nosso coração, nos parecem um esclarecimento tão precioso de sua vida que, para conhecer esse mundo subjacente, daríamos de bom grado a nossa. Então o seu sono me surgia como um mundo maravilhoso e mágico, onde por instantes se eleva, do fundo do elemento apenas translúcido, a confissão de um segredo que não se compreenderá. Mas em geral, quando Albertine dormia, parecia-me que reencontrava sua inocência. Na atitude que eu lhe atribuíra mas que em seu sono ela depressa tornava sua, dava a impressão de confiar-se a mim. Sua fisionomia perdera toda e qualquer expressão de manha ou de vulgaridade, e entre ela e mim, para quem erguia o braço, sobre quem descansava a mão, parecia haver um abandono completo, um elo indissolúvel. Aliás, o seu sono não a separava de mim, deixando subsistir nela a noção de nossa ternura, tendo antes por efeito abolido o resto; eu a beijava, dizia que ia dar alguns passos lá fora, ela entreabria os olhos e me dizia, com ar espantado -e de fato já era noite: 

- Mas aonde vais desse jeito, meu querido?-e, chamando-me pelo meu prenome, logo voltava a adormecer.

     Seu sono era apenas uma espécie de apagamento do resto da vida, um silêncio uniforme onde, de vez em quando, erguiam voo palavras familiares de carinho. Aproximando-as umas das outras, teria sido possível compor a conversação sem mistura, a secreta intimidade de um amor puro. Este sono tão calmo encantava-me como encanta à mãe, que o considera uma qualidade, o bom sono de seu filho. E com efeito o sono de Albertine era o de uma criança. Outrossim o seu despertar, e é tão natural, tão carinhoso, antes mesmo que ela se desse conta de onde estava, que às vezes eu me perguntava, com terror, se ela tivera o hábito, antes de viver comigo, de não dormir sozinha e de encontrar alguém a seu lado ao abrir os olhos. Mas sua graça infantil era mais forte. Tal uma mãe, ainda maravilha-me que sempre acordasse de bom humor. Ao cabo de alguns instantes, ela readquiria a consciência, dizia palavras encantadoras, sem relação umas com as outras, um pipilar apenas. Por uma espécie de contradança, o seu pescoço, habitualmente pouco notado, e agora quase belo demais, tomara a importância enorme que seus olhos fechados pelo sono haviam perdido, seus olhos, meus habituais interlocutores e aos quais já não podia me dirigir desde o cerrar das pálpebras. Da mesma forma que os olhos fechados conferem uma beleza inocente e grave ao rosto, suprimindo tudo o que os olhares expressam demais, nas palavras, não sem sentido, mas entrecortadas de silêncio, que Albertine pronunciava ao despertar, havia uma beleza pura que não é a todo instante manchada, como o é a conversação, de hábitos verbais, de lenga-lengas, de vestígios de defeitos. Além disso, quando me decidia a acordar Albertine, podia fazê-lo sem medo, pois sabia que seu despertar não estaria de modo algum relacionado com a noite que acabáramos de passar, mas sairia do seu sono como da noite sai a manhã. Logo que ela entreabria os olhos sorrindo, estendia-me os lábios e, antes que dissesse alguma coisa, eu já lhe saboreara o frescor, calmante como o de um jardim ainda silencioso antes do despontar do dia.
     No dia seguinte àquela noite em que Albertine me dissera que talvez fosse à casa dos Verdurin, e depois que não iria, eu acordei cedo e, ainda meio adormecido, minha alegria informou-me que era, interpolado no inverno, um dia de primavera. Lá fora, temas populares finamente escritos por instrumentos variados, desde a buzina do consertador de porcelana, ou a corneta do empalhador de cadeiras, até a flauta do cabreiro que parecia num dia lindo ser um pastor da Sicília, orquestravam de leve o ar matinal numa "Abertura para um dia de festa". A audição, este sentido delicioso, traz até nós a companhia da rua, da qual retraça todas as linhas, desenha todas as formas que passam, mostrando-nos o seu colorido. As cortinas de ferro da padaria, da leiteria, que haviam abaixado a noite anterior sobre todas as possibilidades de ventura feminina, erguiam-se agora como as leves polés de um navio que aparelha e vai zarpar, cruzando o mar transparente, sobre um sonho de jovens empregadas. Este rumor da cortina de ferro que está sendo erguida talvez fosse o meu único prazer num bairro diferente. Neste meu, cem outros formavam a minha alegria, e nem um só eu quisera perder dormindo até mais tarde. O encanto dos velhos bairros aristocráticos é serem igualmente populares. Como às vezes os tiveram as catedrais, não longe das portadas (às quais ocorreu mesmo conservarem-lhes o nome, como o da catedral de Ruão, chamada dos "Livreiros", porque junto a ela expunham estes a sua mercadoria ao ar livre), diversos pequenos ofícios, mas ambulantes, passavam diante do nobre palacete de Guermantes, e por vezes faziam pensar na França eclesiástica de outrora. Pois o apelo que lançavam às pequenas residências vizinhas nada possuía com raras exceções, de uma canção. Diferia dela tanto quanto da declamação - mal colorida por variações insensíveis de Boris Godunov e de Pélleas; mas, por outro lado, lembrava o salmodiar de um padre no decurso dos ofícios, dos quais estas cenas de rua são apenas a contrapartida ingênua, forânea, todavia meio litúrgica. Eu jamais sentira tanto prazer com elas desde que Albertine morava comigo; parecia-me um alegre sinal de seu despertar e, interessando-me pela vida lá fora, faziam-me sentir melhor a virtude calmante de uma presença querida, tão constante como a desejava.
     Certos alimentos gritados na rua, e que eu pessoalmente achava detestáveis, eram muito do gosto de Albertine, de modo que Françoise os mandava comprar pelo seu jovem lacaio, que talvez se sentisse humilhado por se ver confundido na multidão plebeia. Naquele bairro tão tranquilo (em que os rumores já não eram um motivo de tristeza para Françoise e haviam se tornado a razão de doçura para mim) chegavam-me, cada qual com sua modulação diversa, os recitativos declamados por aquelas pessoas do povo, como o seriam na música, tão popular, de Boris, onde uma entonação inicial quase não se altera pela inflexão de uma nota que sobre outra se debruça, música da multidão que antes é uma linguagem do que uma música. Era: "Olha o marisco, olha o marisco por dez tostões!", atraindo a freguesia para os cestos onde eram vendidas essas horríveis conchinhas que, não fosse Albertine, teriam me causado repugnância, assim como os caramujos que eu ouvia serem vendidos à mesma hora. Aqui, ainda era na declamação apenas lírica de Mussorgsky que fazia pensar o vendedor, mas não somente nela. Pois, após ter quase "falado": "Os caramujos estão fresquinhos, estão bonitos", era com a tristeza e a vaguidão de Maeterlinck, musicalmente transpostas por Debussy, que o vendedor de caramujos, num desses dolorosos finais com que o autor de Pélleas se parece com Rameau ("Se devo ser vencida, serás tu o meu vencedor?"), acrescentava com sua melancolia cantante: "A trinta tostões a dúzia..."
     Sempre me foi difícil compreender porque aquelas palavras tão claras eram suspiradas num tom tão pouco adequado, misterioso, como o segredo que faz com que todos tenham a fisionomia triste no velho palácio a que Mélisande não conseguiu levar a alegria, e profundo como um pensamento do velho Arkel, que busca proferir em palavras muito simples toda a sabedoria e o destino. As próprias notas em que se eleva com doçura crescente a voz do velho rei de Allemonde, ou a de Golaud, para dizer: "Não se sabe o que acontece aqui. Isto pode parecer estranho. Talvez não existam ocorrências inúteis", ou então: "Não precisas te assustar... Era uma pobre criaturinha misteriosa, como todo mundo", eram as que serviam ao vendedor de caramujos para repetir, numa cantilena indefinida: "A trinta tostões a dúzia..." Porém essa lamentação metafísica não tinha tempo de expirar à beira do infinito; era interrompida por uma forte trombeta. Desta vez não se tratava de comidas, as palavras do libreto eram: "Tosamos cachorros, cortamos gatos, as caudas e as orelhas."
     Certo, a fantasia e o espírito de cada vendedor ou vendedora introduziam, com frequência, variantes nas frases de todas essas músicas que eu ouvia da cama. Entretanto, uma parada ritual, pondo um silêncio em meio a uma frase, sobretudo quando era repetida duas vezes, evocava constantemente a lembrança de velhas igrejas. Em seu pequeno carro, conduzido por uma burrinha que ele fazia parar diante de todas as casas para entrar nos pátios, o vendedor de roupa, segurando um chicote, salmodiava: "Roupas, vendem-se roupas, rou... pas" com a mesma pausa, entre as duas sílabas de "roupas", com que teria entoado em cantochão: "Per omnia saecula saeculo... rum" ou: "Requiescat in pa... ce", embora não acreditasse na eternidade de suas roupas e nem tampouco as oferecesse como sudário para o supremo repouso na paz. E da mesma forma, como os motivos principiavam a cruzar-se desde aquela hora matinal, uma vendedora de hortaliças, empurrando o seu carrinho, usava para a sua ladainha a divisão gregoriana: As hortaliças, as hortaliças Alcachofras macias e bonitas Alca-chofras embora ela fosse provavelmente ignorante do antifonário e dos sete tons que simbolizam, quatro as ciências do quadrívio e três as do trívio.
     Tirando de uma flautinha, de uma gaita de foles, as melodias de sua região meridional, cuja luz combinava bem com os dias claros, um homem de blusa, tendo à mão um vergalho e na cabeça uma boina basca, parava diante das casas. Era o cabreiro com dois cães e, à sua frente, o rebanho de cabras. Como vinha de longe, passava bem tarde no nosso bairro; e as mulheres acorriam com uma tigela para recolher o leite que devia fortalecer os seus filhinhos. Mas às melodias pirenaicas daquele pastor benfazejo misturava-se já a campainha do amolador, que gritava: "Facas, tesouras, navalhas." Com ele não podia lutar o amolador de serrotes, pois, destituído de instrumento, contentava-se em chamar: "Quem tem serrotes para amolar? Olha o amolador!", ao passo que, mais alegre, o funileiro, depois de ter enumerado os caldeirões, as caçarolas, tudo quanto ele soldava, entoava o refrão: Tão, tão, tão Conserto até o chão/ Ponho fundo em tudo/ E tapo buracos/ Raco, raco, raco e italianinhos, carregando grandes caixas de ferro pintadas de vermelho, onde estavam marcados os números perdedores e ganhadores-, e tocando matraca, convidavam:
     "Venham, venham, minhas senhoras, eis a grande diversão." Françoise me trouxe o Fígaro. Bastou um só olhar para ver que o meu artigo ainda não fora publicado. Ela me disse que Albertine indagava se podia vir ao meu quarto e me mandava dizer que, em todo caso, desistira de fazer uma visita aos Verdurin e esperava ir, como eu lhe aconselhara, à vesperal "extraordinária" do Trocadero (o que hoje chamaríamos, para coisa muito menos importante, uma vesperal de gala) depois de um passeiozinho a cavalo que faria com Andrée. Agora que eu sabia que ela renunciara a seu desejo, talvez perverso, de ir visitar a Sra. Verdurin, respondi rindo:  

- Que venha! - e disse para mim mesmo que ela podia ir aonde bem quisesse, pois para mim seria indiferente. Sabia que, no fim da tarde, quando chegasse o crepúsculo, eu sem dúvida seria um outro homem, triste, dando às menores idas e vindas de Albertine uma importância que elas não tinham naquela hora matinal, e quando o dia era tão lindo. Pois a minha despreocupação era seguida pela noção bem clara de sua causa, mas sem ser alterada por ela. 
- Françoise me assegurou que você estava acordado e que eu não incomodaria - disse Albertine entrando. E, como aquele de me causar frio abrindo a janela num momento mal escolhido, o maior medo de Albertine era o de entrar no meu quarto quando eu cochilava: 
- Espero não ter feito mal - acrescentou. - Receava que você me dissesse: Que mortal insolente vem procurar a morte?'

     E ela riu com aquele riso que tanto me perturbava. Respondi-lhe no mesmo tom gracejador:

- Foi para vós que se deu ordem tão severa? 

     E de medo que ela a infringisse alguma vez, acrescentei:

- Embora ficasse furioso se você me acordasse.
- Eu sei, eu sei, não tenha medo - disse Albertine.

     E, para suavizar, acrescentei, continuando a representar com ela a cena de Esther, ao passo que na rua prosseguiam os apelos que ficavam confusos devido à nossa conversa:

- Somente em vós encontro uma tal ou qual graça. Que me deslumbra sempre, mas jamais me cansa. (e comigo mesmo dizia: "Sim, ela me cansa muitas vezes"). E lembrando-me do que ela dissera na véspera, e agradecendo-lhe com exagero por ter renunciado ir aos Verdurin, para que de outra vez me obedecesse da mesma forma nisso ou naquilo, observei: 
- Albertine, você desconfia de mim, que muito a amo, e tem confiança em pessoas que não gostam de você (como se não fosse natural desconfiar das pessoas que nos amam e são as únicas que têm interesse em nos mentir para saber, para nos opor obstáculos).

     E acrescentei estas palavras mentirosas: 

- No fundo, você não acredita que eu a ame, é engraçado. De fato, não a adoro. -

     Ela por sua vez mentiu, dizendo que só confiava em mim, e a seguir foi sincera, garantindo que sabia muito bem que eu a amava. Mas tal afirmação não parecia implicar que ela não me julgasse mentiroso e capaz de espioná-la. E parecia perdoar-me, como se visse aí a consequência insuportável de um grande amor, ou como se ela mesma se achasse menos bondosa. 

- Peço-lhe, minha querida, nada de cabriolas como fez outro dia. Pense, Albertine, se lhe ocorre um acidente! -


continua na página 50...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Havia esquecido a mentira)

Cinema: Sinédoque

Somos fantasias de nós mesmos?


Drama

Título original: Synecdoche, New York

Um diretor de teatro inicia um ambicioso projeto em um galpão em Nova York, construindo uma cidade réplica que começa a consumir sua vida real. Questionando sobre o ser, o existir... somos fantasias de nós mesmos?

Uma sinopse mais detalhada
"Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) é um diretor de teatro que está preparando uma nova peça, ao mesmo tempo em que enfrenta problemas pessoais. Sua esposa, Adele Lack (Catherine Keener), resolveu deixá-lo para morar em Berlim, levando consigo a filha Olive (Sadie Goldstein). Madeleine Gravis (Hope Davis), sua terapeuta, aparenta estar mais interessada em divulgar seu best seller do que em ajudá-lo. Preocupado com a vida e seu estado de saúde, cada vez mais debilitado, Caden decide reunir um grupo de atores em um armazém de Nova York. Lá ele pode enfim dar vazão à sua criatividade, buscando uma peça que seja cada vez mais um paralelo de sua própria vida."

Direção:
Charlie Kaufman

Roteirista:
Charlie Kaufman





"A sinédoque é uma figura de linguagem semelhante à metonímia. Ela se caracteriza pela substituição de um termo por outro e indica a parte mais restrita pela mais extensa, o todo, ou o todo pela parte. Sendo assim, podemos dizer que a Sinédoque é uma figura de inclusão em que ocorre substituição da parte pelo todo, ou vice-versa. Em exemplos práticos, é o que acontece com: chaminé pela fábrica, o telhado pela casa, o singular pelo plural, a substância pelo produto, a nação pelo governo, o gênero pela espécie."
Exemplo: 
Nunca tive um teto para me abrigar. – teto como representação da casa
O aluno deverá manter o silêncio na biblioteca. – aluno como representação de todos os alunos.
Ao cair da tarde, o bronze soa triste. – o bronze como representação do sino.

Elenco:
Philip Seymour Hoffman como Caden Cotard
Catherine Keener como Adele Lack
Sadie Goldstein como Olive (4 anos)
Tom Noonan como Sammy Barnathan
Peter Friedman como Médico de Pronto-Socorro
Charles Techman como Paciente extremamente pontual
Josh Pais como Oftalmologista
Daniel London como Tom
Robert Seay como David
Michelle Williams como Claire Keen
Stephen Adly Guirgis como Davis
Samantha Morton como Hazel
Hope Davis como Madeleine Gravis
Frank Girardeau como Plumber
Jennifer Jason Leigh como Maria
Amy Wright como Corretor de Imóveis da Casa em Chamas
Paul Sparks como Derek
Jerry Adler como O pai de Caden
Lynn Cohen como A mãe de Caden
Deirdre O'Connell como A mãe de Ellen
Kat Peters como Ellen (10 years old)
John Rothman como Dentista
Amanda R. Phillips como Enfermeira da Sala de Emergência
Frank Wood como Médico responsável por serviços de avaliação
Deanna Storey como Cantora de jazz
Elizabeth Marvel como Corretor de Imóveis para Armazém
Laura Odeh como Toystore Clerk
Mark Lotito como Ministro
Daisy Tahan como Ariel
Erica Fae como Mulher alemã
Raymond Angelic Sr. como Médico alemão
Cliff Carpenter como Velho
Timothy Doyle como Michael
Amy Spanger como Atriz de novela que é enfermeira
Nick Wyman como Ator de novela/médico
Portia como Atriz em terapia
Dan Ziskie como Médico especialista em tremor nas pernas
Chris McGinn como A senhora na casa da mãe do Caden
Robin Weigert como Olive adulto
Gerald Emerick como Homem na fila
Alvin Epstein como Homem com sangramento nas
Rosemary Murphy como Frances
Emily Watson como Tammy
Tim Guinee como Ator Needleman
Kristen Bush como Atriz que interpreta Claire
Greg McFadden como Ator que interpreta Needleman
Barbara Haas como Atriz de Armazém
William Ryall como Jimmy
Dianne Wiest como Ellen Bascomb/Millicent Weems
Joe Lisi como Maurice
Alice Drummond como Atriz que interpreta Frances
Michael Higgins como Ator interpretando um homem com sangramento nasal
Stanley Krajewski como Ator como Caden
Tom Greer como Medico
Christopher Evan Welch como Pastor
Michael Medeiros como Eric
Pete Brennan como Ator (não creditado)
David Collihan como Pintor de Letreiros (não creditado)
Brie Eley como Ator de Armazém (não creditado)
Alan Gary como Primeiro Frequentador de Burlesco (não creditado)
Don Gomez como Ator que interpreta 'Davis' na peça (não creditado)
Brigitte Hagerman como A irmã de Claire Keen (não creditado)
Scott Hatfield como Ator psiquiatra (não creditado)
Takako Haywood como Garota em comercial de TV (não creditado)
Kyle Knauf  como Operador de Armazém (não creditado)
Amelia Martin como Atriz: Tammy (como Hazel) (não creditado)
Rebecca Merle como Frequentador de teatro no interior do estado (não creditado)
Brenna Palughi como Atriz no papel de Claire (não creditado)
Sal Rinella como Mecenas de Galeria de Arte (não creditado)
Tomasz Smolarski como Patrono alemão (não creditado)
Misha Zubarev como Patrono alemão (não creditado)

__________________

Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
16. Matilha Voraz / Anna Kariênina / Sinédoque /          

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Augusto dos Anjos - O Lázaro da Pátria

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


O Lázaro da Pátria

Filho podre de antigos Goytacazes, 
Em qualquer parte onde a cabeça ponha, 
Deixa circunferências de peçonha, 
Marcas oriundas de úlceras e anthrazes.  

Todos os cynocéphalos vorazes 
Cheiram seu corpo. A' noite, quando sonha, 
Sente no thorax a pressão medonha 
Do bruto embate férreo das tenazes. 

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos 
 hedionda elephantiasis dos dedos. 
Há um cansaço no Cosmos. Anoitece. 

Riem as meretrizes no Casino, 
E o Lázaro caminha em seu destino 
Para um fim que elle mesmo desconhece !  


Idealização da Humanidade futura

Rugia nos meus centros cerebraes 
A multidão dos séculos futuros 
— Homens que a herança de Ímpetos impuros 
Tornara ethnicamente irracionaes! —

Não sei que livro, em lettras garrafaes, 
Meus olhos liam! No húmus dos monturos, 
Realisavam-se os partos mais obscuros, 
Dentre as genealogias animaes! 

Como quem esmigálha protozoarios 
Metti todos os dedos mercenários 
Na consciência daquella multidão. 

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama, 
Somente achei moléculas de lama 
E a mosca alegre da putrefacção!  

_________________________

Leia também:
__________________________

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Protecionismo e livre-câmbio na América Latina: O curto voo de Lucas Alamán (3)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     43. Protecionismo e livre-câmbio na América Latina: O curto voo de Lucas Alamán
          A expansão dos mercados latino-americanos acelerava a acumulação de capitais nas sementeiras da indústria britânica. Fazia já muito tempo que o Atlântico se tornara o eixo do comércio mundial, e os ingleses tinham sabido tirar proveito da localização de sua ilha, cheia de portos, a meio caminho do Báltico e do Mediterrâneo e apontando as costas da América. A Inglaterra organizava um sistema universal e se tornava a prodigiosa fábrica abastecedora do planeta: do mundo inteiro vinham as matérias-primas e no mundo inteiro se derramavam as mercadorias elaboradas. O império contava com o maior porto e o mais poderoso sistema financeiro de seu tempo; tinha o mais alto grau de especialização comercial, dispunha do monopólio mundial dos seguros e dos fretes, e dominava o mercado internacional do ouro. Friederich List, pai da união aduaneira alemã, havia advertido que o livre-comércio era o principal produto de exportação da Grã- Bretanha [1]. Nada enfurecia tanto os ingleses quanto o protecionismo aduaneiro, e às vezes faziam sabê-lo numa linguagem de sangue e fogo, como na Guerra do Ópio contra a China. No entanto, a livre concorrência nos mercados se converteu numa verdade revelada para a Inglaterra somente a partir do momento em que teve certeza de que era a mais forte, e depois de ter desenvolvido sua própria indústria têxtil ao abrigo da legislação protecionista mais severa da Europa. No difícil começo, quando a indústria britânica ainda levava desvantagem, o cidadão inglês que fosse surpreendido exportando lã crua, sem elaborar, era condenado a perder a mão direita, e se reincidia, era enforcado; estava proibido de enterrar um cadáver sem que antes o pároco do lugar garantisse que a mortalha provinha de uma fábrica nacional. [2]  

[1] Este economista alemão, nascido em 1789, propagou nos Estados Unidos e em sua própria pátria a doutrina do protecionismo aduaneiro e do fomento industrial. Suicidou-se em 1846, mas suas ideias se impuseram nos dois países.
[2]  VÉLIZ, Claudio. “La mesa de tres patas”. In: Desarrollo económico, v.3 (1 e 2). Santiago de Chile, setembro de 1963.

     “Todos os fenômenos deletérios suscitados pela livre concorrência no interior de um país”, observou Marx, “se reproduzem em proporções mais gigantescas no mercado mundial” [3]. O ingresso da América Latina na órbita britânica, da qual só sairia para se incorporar à órbita norte americana, ocorreu nos termos desse quadro geral, e nele se consolidou a dependência dos novos países independentes. A livre circulação de mercadorias e a livre circulação do dinheiro para os pagamentos, assim como a transferência de capitais, tiveram consequências dramáticas.

[3] “Não é estranho que os livre-cambistas sejam incapazes de compreender como um país pode enriquecer à custa de outro, pois estes mesmos senhores tampouco querem compreender como no interior de um país uma classe pode enriquecer à custa de outra. MARX, Karl. “Discurso sobre el libre cambio.” In: Miseria de la filosofía. Moscou, s.f.

     No México, Vicente Guerrero chegou ao poder, em 1829, “nos ombros do desespero dos artesãos, insuflados pelo grande demagogo Lorenzo de Zavala, que lançou sobre as lojas repletas de mercadorias inglesas do Parián uma turba faminta e desesperada” [4]. Pouco durou Guerrero no poder, e caiu em meio à indiferença dos trabalhadores, pois não quis ou não pôde opor um dique à importação de mercadorias europeias, “cuja abundância”, diz Chávez Orozco, “levava ao desemprego as massas artesãs das cidades, que antes da independência, sobretudo nos períodos bélicos da Europa, viviam com certa folga”. A indústria mexicana carecera de capitais, mão de obra suficiente e técnicas modernas; não tivera uma organização adequada, nem meios de comunicação e de transporte para chegar aos mercados e às fontes de abastecimento. “Sobraram-lhe unicamente interferências, restrições e impedimentos de toda ordem”, diz Alonso Aguilar [5]. Apesar disso, como notara Humboldt, a indústria havia despertado nos momentos de estancamento do comércio exterior, quando se interrompiam ou se tornavam problemáticas as comunicações marítimas, e começara a fabricar o aço e a fazer uso do ferro e do mercúrio. O liberalismo que a independência trouxe consigo agregava pérolas à coroa britânica e paralisava os estabelecimentos têxteis e metalúrgicos do México, Puebla e Guadalajara.

[4] CHÁVEZ OROZCO, Luis. “La industria de transformación mexicana (1821 1867).” In: ANCO NACIONAL DE COMERCIO EXTERIOR. Colección de documentos para la historia del comercio exterior de México. México, 1962. t.VII.
[5] AGUILAR MONTEVERDE, Alonso. Dialéctica de la economía mexicana. México, 1968.

     Lucas Alamán, um político conservador de grande capacidade, percebeu a tempo que as ideias de Adam Smith continham veneno para a economia nacional, e propiciou, como ministro, a criação de um banco estatal, o anco de Avio, com o fim de incrementar a industrialização. Um imposto aplicado aos tecidos estrangeiros de algodão proporcionaria ao país os recursos para comprar no exterior as máquinas e os meios técnicos que o México precisava para abastecer-se de tecidos de algodão de fabricação própria. O país dispunha de matéria-prima, contava com energia hidráulica mais barata do que o carvão e podia formar rapidamente bons operários. O anco nasceu em 1830, e pouco depois chegaram das melhores fábricas europeias as máquinas mais modernas para fiar e tecer algodão; além disso, o Estado contratou especialistas estrangeiros na técnica têxtil. Em 1844, as grandes fábricas de Puebla produziram um milhão e 400 mil cortes de manta grossa. A nova capacidade industrial do país ultrapassava a demanda interna; o mercado de consumo do “reino da desigualdade”, formado em sua grande maioria por índios famintos, não podia sustentar a continuidade daquele desenvolvimento fabril vertiginoso. Contra essa muralha se chocava o esforço de romper a estrutura herdada da colônia. A tal ponto se modernizara a indústria que as fábricas têxteis norte-americanas, por volta de 1840, contavam em média com menos fusos do que as fábricas mexicanas [6]. Dez anos depois, a proporção se invertera com sobras. A instabilidade política, as pressões dos comerciantes ingleses e franceses e seus poderosos sócios internos, as mesquinhas dimensões do mercado interno, de antemão estrangulado pela economia mineira e latifundiária, derrubaram a exitosa experiência. Antes de 1850 já se interrompera o progresso da indústria têxtil mexicana. Os criadores do anco de Avio tinham ampliado seu raio de ação, e quando ele se extinguiu, os créditos abarcavam também as tecelagens de lã, as fábricas de tapetes e a produção de ferro e de papel. Esteban de Antuñano sustentava, inclusive, a necessidade de que o México criasse o quanto antes uma indústria nacional de maquinarias, “para resistir ao egoísmo europeu”.

[6] AZANT, Jan. Estudio sobre la productividad de la industria algodonera mexicana en 1843-1845 (Lucas Alamán y la revolución industrial en México). In: Banco Nacional de Comercio Exterior, op. cit.

     O maior mérito do ciclo industrializador de Alamán e Antuñano reside em que ambos restabeleceram a identidade “entre a independência política e a independência econômica, e o fato de preconizar, como único meio de defesa contra os povos poderosos e agressivos, um enérgico impulso à economia industrial” [7]. O próprio Alamán se tornou industrial, criou o maior estabelecimento têxtil mexicano daquele tempo (chamava se Cocolapan e ainda existe) e organizou os industriais como grupo de pressão frente aos sucessivos governos livre-cambistas [8]. Mas Alamán, conservador e católico, não chegou a equacionar a questão agrária, porque ele mesmo se sentia ideologicamente ligado à velha ordem, e não percebeu que o desenvolvimento industrial estava de antemão condenado a ficar no meio do caminho, sem bases de sustentação, naquele país de latifúndios infinitos e miséria generalizada.

[7] CHÁVEZ OROZCO, op. cit.
[8] No tomo III da citada coleção de documentos do anco Nacional de Comércio Exterior são transcritos vários arrazoados protecionistas publicados en El Siglo XIX em fins de 1850: “Passada já a conquista da civilização espanhola com seus três séculos de dominação militar, entrou o México numa nova era, que também pode ser chamada de conquista, mas científica e mercantil (..). Sua potência são os navios mercantes; sua prédica é a absoluta liberdade econômica; sua norma poderosíssima em relação aos povos menos adiantados é a lei da reciprocidade (...). ‘Levai à Europa’, disse-nos, ‘quantas manufaturas possais (exceto, no entanto, as que nós proibimos); e em contrapartida permiti que tragamos quantas manufaturas possamos, ainda que arruinando vossas artes (...)’. Adotemos as doutrinas que eles (nossos senhores do outro lado do oceano e do rio Bravo) dão e não tomam, e nosso erário crescerá um pouco, se queiramos (..), mas não será fomentando o trabalho do povo mexicano, mas o dos povos inglês e francês, suíço e da América do Norte”.

continua na página 293...
____________________
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Protecionismo e livre-câmbio na América Latina (3)
_____________________________

o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (II.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

II

     Durante dois dias a neve caíra; naquela manhã ela parara de cair, mas um lençol branco cobria tudo. Essa região escura, de estradas negras, com paredes e árvores cobertas de poeira de hulha, estava toda branca, de uma brancura única, que se estendia ao infinito. O conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante jazia sob a neve, como que desaparecido. Nem a mais leve fumaça escapava das chaminés. As casas sem fogo, tão frias como as pedras dos caminhos, não derretiam a grossa camada de neve sobre as telhas. O conjunto habitacional não era mais que um renque de lápides brancas, uma visão de vila morta, envolta na sua mortalha. Ao longo das ruas, só as patrulhas passando deixavam a marca lodosa dos seus cascos.
     Nos Maheu, a última pazada de lascas de carvão ardera na véspera; e procurar mais no aterro, com aquele tempo terrível, quando os próprios pardais não encontravam um talo de erva, era impossível. Alzire, por ter teimado em procurar na neve, estava morrendo. A mãe tivera de a enrolar num trapo de coberta, enquanto esperava o Dr. Vanderhaghen, à casa de quem já fora duas vezes sem o encontrar. A criada, no entanto, prometera que ele passaria pelo conjunto habitacional antes do anoitecer, e a mulher espiava agora pela janela, enquanto a pequena enferma, que tinha querido ficar embaixo, tiritava sobre uma cadeira, com a ilusão de que ali estava mais quente, perto do fogão apagado. O velho Boa-Morte, em frente, outra vez com as pernas endurecidas, parecia dormir. Lénore e Henri ainda não tinham voltado, andavam percorrendo as estradas em companhia de Jeanlin, pedindo esmolas. Pela sala nua, só Maheu caminhava pesadamente, tropeçando continuamente na parede, com o ar imbecilizado de um animal que já não vê mais sua jaula. O querosene também acabara, mas o reflexo da neve lá fora era tão branco, que iluminava vagamente a peça, apesar de já ser noite.
     Houve um barulho de tamancos, e a mulher de Levaque empurrou a porta como um furacão, fora de si, gritando do portal para a vizinha: 

— Então tu andaste dizendo que eu forçava meu inquilino pagar-me vinte soldos cada vez que ele dormia comigo?! 

     A outra deu de ombros. 

— Não chateies! Eu não disse nada... Mas quem te contou isso? 
— Disseram-me que tu tinhas dito, chega! E disseste também que escutavas, quando fazíamos a coisa, através das paredes, e que a sujeira era enorme na minha casa porque eu estava sempre de pernas abertas... Ainda tens coragem de negar? Fala!

     Brigas como essa eram diárias, por causa da língua das mulheres; sobretudo entre as famílias que viviam em paredes-meias, as desavenças e reconciliações não duravam um dia. Mas nunca antes maldade tão desabrida os atirara uns contra os outros. Desde a greve, a fome exasperava os rancores, todos tinham necessidade de brigar, uma explicação entre duas mulheres terminava sempre com uma luta de morte entre os dois maridos.
     Justamente nesse momento chegou Levaque, arrastando Bouteloup. 

— Aqui está o sujeito, que ele diga se já pagou vinte soldos à minha mulher para dormir com ela.

     O inquilino, que procurava esconder sua candura assustada com grandes barbas, balbuciou protestando: 

— Oh, não! Nunca, nunca paguei nada!

     Subitamente Levaque tornou-se ameaçador, com o punho no rosto de Maheu. 

— Isso agora não passa, ouviste? Quem tem uma mulher assim desanca-a de pancadas... Tu acreditas no que ela disse? 
— Mas com mil raios! — exclamou Maheu, furioso por ter sido arrancado do seu abatimento. — Vocês ainda encontram tempo para fazer intrigas? Será que a gente já não tem miséria que chegue? Deixa-me em paz ou eu te acachapo! Agora quero saber quem foi que disse que minha mulher falou isso! 
— Quem?... Foi a mulher do Pierron.

     A mulher de Maheu deu uma gargalhada sarcástica, e, voltando-se para a vizinha, disse: 

— Ah, então foi ela! Pois bem, agora vou dizer-te o que ela me disse. Ouve bem! Ela me disse que tu dormias com teus dois homens, um por cima e outro por baixo!

     A partir daí ninguém mais se entendeu. Todos estavam furiosos; os Levaque respondiam aos Maheu que a mulher de Pierron tinha dito poucas e boas a respeito deles: que tinham vendido Catherine e que estavam todos podres, até as crianças, contaminados por uma sujeira que Etienne apanhara no Volcan. 

— Ela disse isso? ela disse isso? — berrou Maheu. — Pois tudo bem, vou até lá, e, se repetir o que disse, rebento-lhe a cara.
 
     Lançou-se para a rua, os Levaque o seguiram para assistir à briga, enquanto Bouteloup, que tinha horror de disputas, voltava furtivamente para casa. Excitada pelo bate-boca, a mulher de Maheu também ia saindo quando foi retida por um gemido de Alzire. Cruzou as pontas da coberta sobre o corpo trêmulo da menina e voltou para a janela, os olhos vagando. E esse médico que não vinha!
     À porta dos Pierron, Maheu e os Levaque encontraram Lydie chafurdando na neve. A casa estava fechada, um fio de luz passava pela fenda da janela e a criança, a princípio, respondeu constrangida às perguntas: não, seu pai não estava, tinha ido ao lavadouro encontrar a Queimada, para trazer a trouxa de roupa. Depois ficou confusa, não quis dizer o que a mãe fazia naquele momento. Finalmente soltou a língua, com um riso sorrateiro de rancor: sua mãe a pusera para fora porque o Sr. Dansaert estava lá dentro e ela não os deixava conversar. O capataz passara toda a manhã no conjunto habitacional, com dois policiais, tentando recrutar operários, forçando os fracos, anunciando aos quatro ventos que, se não voltassem até segunda-feira ao trabalho, a companhia ia contratar mineiros belgas. E ao cair da tarde, tendo encontrado a mulher de Pierron sozinha, mandou embora os policiais. Depois instalara-se ali, bebendo genebra diante do fogo. 

— Psiu! Fiquem quietos, vamos espiá-los — murmurou Levaque com um riso impudente. — Em seguida tiraremos satisfações. Vai-te embora, cadelinha!

     Lydie recuou alguns passos enquanto ele punha um olho na fresta da janela. Em seguida começou a abafar risinhos, suas costas se arqueavam e fremiam. Por sua vez a mulher olhou também, mas disse, como se estivesse para vomitar, que sentia nojo. Maheu, que a empurrara, querendo ver também, declarou que já vira o bastante para poder desforrar-se. E os três recomeçaram, em fila, a olhar, como no teatro. A sala, reluzindo de tão limpa, era alegre graças ao belo fogo aceso na lareira; havia doces sobre a mesa, uma garrafa e dois copos; enfim, uma verdadeira farra. Era tanta coisa o que os dois homens viam que acabaram ficando exasperados com o que noutras circunstâncias os teria feito rir por seis meses.
     Que ela levantasse as saias e se empanturrasse de sexo até não poder mais, ainda tinha graça. Mas, diacho! não era mesmo urna sem-vergonhice fazer isso diante de um fogo tão agradável e à base dos biscoitos, quando os demais companheiros não tinham uma migalha de pão ou uma lasca de carvão? 

— Olha o papai! — gritou Lydie escapando.

     Pierron voltava tranqüilamente do lavadouro, a trouxa de roupa num ombro. Maheu foi logo interpelando-o: 

— Escuta aqui, disseram-me que tua mulher tinha falado que eu vendera Catherine e que lá em casa estávamos todos podres... E na tua, quanto paga à tua mulher o homem que neste momento está fazendo uso dela?

     Atordoado, Pierron não compreendia, quando a mulher, assustada com o vozerio, perdeu a cabeça a ponto de entreabrir a porta, para ver o que se passava. Estava toda afogueada, com o corpete aberto e a saia ainda levantada, presa à cintura, enquanto Dansaert, ao fundo, enfiava as calças, em pânico. O capataz escapou, desapareceu, temendo que uma história dessa chegasse aos ouvidos do diretor. Armou-se então um escândalo terrível, com gargalhadas, vaias e injúrias. 

— Tu que sempre andas dizendo que as outras são umas imundas — berrava a mulher de Levaque — não admira que sejas limpa, tens os chefes para te fazerem a limpeza. 
— Ah! assenta-lhe como uma luva falar mal dos outros! — continuou Levaque. — Pois não é que essa cadela disse que a minha mulher dormia comigo e o inquilino, um por cima e o outro por baixo?! Tens coragem de negar que disseste isso?

     A mulher de Pierron, porém, já dona de si, enfrentava os palavrões com um ar de desprezo, na certeza de ser a mais bonita e a mais rica. 

— O que disse está dito, e deixem-me em paz! O que é que vocês têm que ver com o que eu faço? Bando de invejosos, que nos odeiam só porque depositamos dinheiro na caixa econômica! Podem ir falar à vontade, meu marido sabe muito bem por que o Sr. Dansaert estava aqui em casa.

     E realmente Pierron se excitava, defendia a mulher. A briga tomou outros caminhos, chamaram-no de vendido, de espião, de lambe-botas da companhia; acusaram-no de fechar-se em casa para encher a barriga de guloseimas com que os chefes lhe pagavam as denúncias. Ele retrucava, dizia que Maheu enfiara um papel com ameaças por baixo de sua porta, onde estavam desenhadas duas tíbias em cruz, com um punhal por cima. E tudo aquilo terminou, forçosamente, por uma pancadaria entre os homens, como todas as intrigas de mulheres terminavam, visto que a fome punha fora de si mesmo os mais calmos. Maheu e Levaque atiraram-se sobre Pierron, massacrando-o; foi preciso separá-los. Quando a Queimada chegou do lavadouro, o sangue corria aos borbotões do nariz do genro. posta a par do que se passara, limitou-se a dizer: 

— Esse porco é a minha desonra.

     A rua ficou novamente deserta, nenhuma sombra manchava a brancura da neve. E o conjunto habitacional, imerso novamente na sua imobilidade de morte, estertorava de fome sob o frio intenso. 

— E o médico? — perguntou Maheu fechando a porta. 
— Não veio — respondeu a mulher, sempre em pé, à janela. 
— As crianças chegaram? 
— Ainda não.

     Maheu voltou ao seu caminhar pesado, de uma parede à outra, com o seu ar de boi encurralado. Entorpecido na cadeira, o velho Boa-Morte nem sequer erguera a cabeça. Alzire também permanecia silenciosa, procurava não tremer, para não os preocupar; mas, apesar de sua coragem no sofrimento, por momentos tremia tanto, que se ouviam por baixo da coberta os calafrios que percorriam seu corpinho esquelético de menina enferma, enquanto, de olhos arregalados, olhava para o teto, observando o pálido reflexo dos jardins todos brancos, que iluminavam a peça com uma claridade de luar.
     Entravam agora na última agonia, com a casa sem mais nada; era o desenlace. Atrás da lã, tinha ido para o brechó a fazenda dos colchões; depois foram os lençóis, a roupa branca, tudo aquilo que se podia vender. Uma tarde, venderam por dois soldos o lenço do avô. As lágrimas corriam a cada objeto doméstico de que tinham de se separar; e a mãe ainda se lamentava por ter levado um dia, enrolada na saia, a caixa de cartão cor-de-rosa, antigo presente do seu homem, como se tivesse sido um filho que abandonara a uma porta. Estavam nus, não tinham mais nada a vender a não ser a pele, tão carcomida, tão estragada, que ninguém daria um centavo por ela. Por isso nem se davam o trabalho de procurar, sabiam que não havia mais nada, que era o fim de tudo, que não deviam esperar nem uma vela, nem um pedaço de carvão, nem uma batata. Aguardavam apenas a morte; a única pena que sentiam era pelas crianças, revoltava-os aquela crueldade inútil, preferiam ter estrangulado Alzire a vê-la doente por causa deles. 

— Até que enfim, aí vem ele! — exclamou a mulher.

     Uma forma negra passou diante da janela. A porta se abriu. Mas não era o Dr. Vanderhaghen... Reconheceram o novo pároco, o Padre Ranvier, que não parecia surpreendido de ter entrado naquela casa morta, sem luz, sem fogo, sem pão. Acabava de sair das três casas contíguas, andava de família em família, recrutando homens de boa vontade, como Dansaert com seus policiais. Foi logo explicando-se com sua voz febril de sectário: 

— Por que não foram à missa no domingo, meus filhos? Estão errados, só a Igreja pode salvá-los... Vamos, prometam estar presentes no próximo domingo...

continua na página 336...
____________________

Sexta Parte - (I.b) / Sexta Parte - (II.a) /   
 ____________________

O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.