em busca do tempo perdidovolume V
A Prisioneira
continuando...
Mas o Sr. de Charlus gostava de mostrar que amava Morel, de persuadir os outros, talvez de
persuadir a si mesmo, de que era amado por ele. Punha em retê-lo junto a si o tempo todo, apesar do
prejuízo que aquele rapazinho podia acarretar à sua posição mundana, uma espécie de amor-próprio.
Pois (e o caso é frequente entre os homens esnobes e bem situados, que, por vaidade, rompem todas as
relações para serem vistos em toda parte com uma amante de má fama ou uma senhora desacreditada,
que ninguém recebe, e à qual entretanto lhe parece ser lisonjeiro estar ligado) havia chegado àquele
ponto em que o amor-próprio põe todo o seu empenho em destruir os objetivos que atingiu, seja porque,
sob a influência do amor, descobrimos um prestígio, que somos os únicos a perceber, em relações
ostentatórias com quem amamos, seja porque, pelo enfraquecimento das ambições mundanas
alcançadas, e a maré montante das curiosidades servis, tanto mais absorventes quanto mais platônicas,
tenham estas não só atingindo como ultrapassado o nível onde a custo as outras se mantinham.
Quanto aos outros rapazes, o Sr. de Charlus achava que ao seu gosto por eles a existência de
Morel não era um obstáculo e que até a sua brilhante reputação de violinista ou sua fama nascente de
compositor e jornalista poderiam em certos casos lhe ser um atrativo. Se apresentavam ao barão um
jovem compositor de aparência agradável, era nos talentos de Morel que ele buscava a oportunidade
para fazer uma cortesia ao recém-conhecido. - O senhor deveria - dizia-lhe - trazer-me suas composições para que Morel possa tocá-las no
concerto ou numa turnê. Existe tão pouca música agradável escrita para violino! É uma fortuna encontrar
uma nova composição. E os estrangeiros apreciam muito uma coisa dessas. Mesmo na província há
pequenos círculos musicais onde ama-se a música com um fervor e uma inteligência admiráveis. -Sem
mais sinceridade (pois tudo aquilo só servia de engodo e era raro que Morel se prestasse a realizações),
como Bloch lhe havia dito que era um tanto poeta, "quando lhe dava na telha", acrescentara com o riso
sarcástico que, de costume, fazia acompanhar uma banalidade quando não podia achar uma expressão
original, o Sr. de Charlus me disse:
- Diga então àquele jovem israelita, visto que ele faz versos, que
deveria me trazer alguns para que os leve a Morel. Para um compositor, é sempre um problema encontrar
uma coisa bonita para musicar. Poderíamos até pensar num libreto. Não seria desinteressante e chegaria
a ter uma certa importância devido aos méritos do poeta, de minha proteção, de todo um encadeamento
de circunstâncias auxiliares, entre as quais o talento de Morel ocupa o primeiro lugar. Pois ele está
compondo muito atualmente, e escreve também e de modo lindo, vou conversar com você sobre isso.
Quanto ao seu talento de executante (você sabe que ele já é um mestre completo), irá ver esta noite
como esse menino toca bem a música de Vinteuil. Fico impressionado: na sua idade, ter tamanha
compreensão e permanecer tão infantil, tão colegial! Oh, esta noite é um pequeno ensaio. O grande
recital vai ocorrer dentro de alguns dias. Mas será muito mais elegante que hoje. Assim, ficamos
encantados de que você tenha vindo - disse ele, empregando esse plural "ficamos", sem dúvida porque o
rei diz "queremos". - Por causa do magnífico programa, aconselhei a Sra. Verdurin dar duas festas. Uma
daqui a alguns dias, na qual estarão presentes todas as suas relações. Outra esta noite, em que a Patroa
ficará, como se diz no jargão judicial desapropriada. Fui eu que fiz os convites e convoquei algumas
pessoas agradáveis de outro ambiente, que podem ser úteis a Charlie e que os Verdurin terão prazer em
conhecer. Sim, pois está muito bem que sejam ouvidas as mais lindas obras executadas pelos maiores
artistas, mas a manifestação fica abafada como em algodão. O público é composto pela merceeira da
casa defronte e pelo comerciante da esquina. Sabe o que penso do nível intelectual das pessoas da
sociedade, mas elas podem desempenhar certos papéis muito importantes; entre eles, o papel que cabe
à imprensa nos acontecimentos públicos, e que é o de ser um órgão de divulgação. Compreende o que
quero dizer; por exemplo, convidei minha cunhada Oriane; não é certo que ela compareça, mas, em
compensação, é certo que, se comparecer, não compreenderá absolutamente nada. Mas ninguém lhe
pede que compreenda, o que está acima de seus meios, mas que fale, o que lhe fica admiravelmente
apropriado, e ela nunca deixa de fazer. Consequência: a partir de amanhã, em vez do silêncio da
merceeira e do comerciante, uma conversa animada na casa dos Mortemart, onde Oriane conta que
ouviu coisas maravilhosas, que um certo Morel etc. A raiva indescritível das pessoas não convidadas, que
dirão: "Sem dúvida Palamede julgou que éramos indignos; além disso, quem é essa gente em cuja casa
se realizou tal coisa", reverso tão útil como os louvores de Oriane, pois o nome de Morel retorna o tempo
todo e acaba por gravar-se na memória como uma lição que se lê dez vezes seguidas. Tudo isto forma
um encadeamento de circunstâncias que pode ter o seu lucro para o artista, para a dona da casa, e, de
algum modo, servir de megafone a uma manifestação que, assim, virá a ser ouvida por um público
longínquo. Na verdade, vale a pena. Você verá o progresso que ele fez. Além do mais, descobriram-lhe
um novo talento, meu caro, ele escreve como um anjo. Como um anjo, repito. "Você que conhece
Bergotte, pensei que talvez pudesse, talvez refrescando-lhe a memória sobre a literatura desse
adolescente, em suma, colaborar em ajudar-me a criar um encadeamento de circunstâncias capazes de
favorecer o duplo talento de músico e de escritor que um dia pode adquirir o prestígio de Berlioz". Veja o
que conviria dizer à Bergotte. Você sabe, as pessoas ilustres muitas vezes têm mais o que pensar, são
aduladas, só se interessam por elas mesmas. Porém Bergotte, que é verdadeiramente simples e serviçal,
deve mandar publicar no Gaulois, ou não sei mais onde, essas croniquetas, meio de humorista e meio de
músico, que são de fato muito bonitas, e eu ficaria na verdade bem contente que Charlie acrescente ao
violino essa peninha de Ingres. Sei muito bem que exagero facilmente quando se trata dele, como todas
as velhas mamães-corujas do Conservatório. Como, meu caro, não o sabia? Mas é que não conhece o
meu lado palerma. Canso-me de esperar de pé, durante horas, o resultado dos exames. Divirto-me
demais. E, quanto a Bergotte, ele me garantiu que a prosa de Charlie era de fato muito boa."
O Sr. de Charlus, que o conhecia há muito por intermédio de Swann, de fato o fora visitar e pedir
lhe que conseguisse que Morel fosse escrever no jornal algumas crônicas meio humorísticas sobre a
música. Ao visitá-lo, o Sr. de Charlus sentira um pouco de remorso, pois, grande admirador de Bergotte,
percebia que jamais ia visitá-lo por ele mesmo, mas para, graças à consideração meio intelectual, meio
social, que Bergotte lhe tributava, poder fazer um grande obséquio a Morel, à Sra. Molé e a muitos outros.
Que já não se servisse da sociedade senão para isso não repugnava ao Sr. de Charlus, mas que agisse
desse modo com Bergotte não lhe parecia bem, pois sentia que Bergotte não era utilitário como as
pessoas da sociedade e merecia mais. Apenas, levava uma vida muito ocupada e não dispunha de tempo
senão quando desejava muito uma coisa, por exemplo, algo que se relacionasse a Morel. Além disso,
muito inteligente, a conversa de um homem inteligente era-lhe bem indiferente, sobretudo a de Bergotte,
que era por demais homem de letras para seu gosto, e de outro clã, não se colocando no ponto de vista
dele, Charlus. Quanto a Bergotte, percebia perfeitamente o utilitarismo das visitas de Charlus, mas não
lhe queria mal por isso; pois era incapaz de uma bondade continuada, mas desejoso de dar uma alegria,
compreensivo, indiferente ao prazer de dar uma lição. Quanto ao vício do Sr. de Charlus, não partilhava
dele em nenhum grau, achando-lhe antes um elemento de cor no personagem, o fes et netas para um
artista, consistindo não nos exemplos morais mas nas recordações de Platão ou do Sodoma.
[Fes et netas (latim): O lícito e o ilícito. Sodoma: nome pelo qual é conhecido o pintor italiano Giovanni
Antonio (c.1477-1549). (N. do T)]
O Sr. de Charlus não se lembrava de dizer que desde algum tempo, como aqueles grandes
senhores do século XVII, que desdenhavam assinar e até escrever os seus libelos, mandava Morel redigir
pequenos tópicos baixamente difamantes e dirigidos contra a condessa Molé. Parecendo já insolentes
aos que os liam, quanto mais cruéis não o seriam para a jovem senhora, que neles achava, tão
habilmente encaixados que ninguém senão ela percebia coisa alguma, passagens de carinho dela,
textualmente citadas porém tomadas num sentido em que podiam transtorna-la como a mais feroz
vingança. A jovem senhora acabou morrendo de desgosto. Mas, diria Balzac, é que se faz todos os dias
em Paris uma espécie de jornal falado mais terrível que o outro. Veremos depois que essa imprensa
verbal reduziu a nada o poder de um Charlus fora de moda e erigiu bem acima dele um Morel que não
valia a milionésima parte de seu antigo protetor. Será pelo menos ingênua essa moda intelectual e de
boa-fé acreditará na insignificância de um genial Charlus, autoridade incontestável de um estúpido Morel?
O barão era menos inocente e suas vinganças implacáveis. Daí sem dúvida esse amargo veneno na
boca, veneno cuja invasão parecia conferir-lhe às faces um tom amarelo quando ele se encolerizava,
- Gostaria muito que ele comparecesse esta noite, pois poderia ouvir as coisas que ele na verdade
toca melhor. Mas parece que ele não sai de casa, nem quer que o aborreçam, e tem razão. Mas você,
bela juventude, ninguém o vê qual no cais Conti! Não abuse! - Informei que saía principalmente com
minha prima. Vejam só! Saindo com a prima, que pureza! - disse o Sr. de Charlus para Brichot -dirigindo
se de novo a mim: - Mas não estamos lhe pedindo contas do que anda fazendo, meu filho. Você é livre
para fazer tudo o que lhe agradar. Apenas lamentamos não compartilhar de seus prazeres. De resto,
você tem muito bom gosto, sua prima é encantadora, pergunte a Brichot, ele não pensava noutra coisa
em Douville. Sentiremos a sua falta esta noite. Mas você talvez tenha agido bem em não trazê-la - É
admirável a música de Vinteuil. Mas soube por Charlie, esta manhã, que devem estar presentes a filha do
compositor e sua amiga, que são pessoas de reputação terrível. Sempre seria constrangedor para uma
moça. Até eu me sinto meio incomodado por causa dos convivas. Mas, como têm quase todos a idade
canônica, não terá o fato consequências para eles. Elas estarão lá, a menos que essas duas senhoritas
não tenham podido vir, pois deveriam sem falta estar presentes a tarde inteira num ensaio de estudos que
a Sra. Verdurin realizava hoje e para o qual só convida os importunos, a família, as pessoas que não
deviam vir à noite. Ora, há pouco antes do jantar, Charlie me disse que o que chamamos as duas
senhoritas Vinteuil, eram esperadas com toda a certeza, não tinham vindo. - Apesar da horrível dor que
sentia em aproximar subitamente do efeito, só este conhecido a princípio, a causar por fim descoberta, do
desejo que Albertine manifestara de vir, ou seja, a presença anunciada (mas que eu ignorava) da Srta.
Vinteuil e de sua amiga, conservei em liberdade de espírito de reparar que o Sr. de Charlus, que nos
dissera há pouco, ter visto Charlie desde a manhã, confessava irrefletidamente tê-lo visto antes do jantar.
Mas o meu sofrimento era visível. - Que está sentindo? - indagou o barão. Você está verde; venha,
entremos, você vai ficar resfriado, está muito abatido. -
Não era a primeira dúvida acerca da virtude de Albertine que as palavras do Sr. de Charlus
acabavam de despertar em mim. Muitas outras já me haviam assaltado; a nova dúvida a gente acha que
a medida está repleta, que não poderemos suportá-la, e depois lhe descobrimos um lugar de alguma
forma. E, uma vez que ela é introduzida em nosso meio vital, entra em concorrência com tantos desejos
de acreditar, com tantos motivos para esquecer, que bem depressa a ela nos acomodamos e acabamos
por não mais lhe prestar atenção. E permanece apenas como uma dor mal curada, uma simples ameaça
de sofrimento e que, sendo o avesso do desejo mas da mesma ordem que ele, e tornando-se como ele o
centro de nossos pensamentos, irradia neles, a distâncias infinitas, tristezas sutis, como prazeres de
origem irreconhecível, por toda parte onde alguma coisa pode se associar à ideia daquela a quem
amamos. Mas a dor desperta quando uma nova dúvida, inteira, penetra em nós; por mais que nos
digamos logo em seguida: "Vou me arranjar, haverá um sistema para não sofrer, isso não deve ser
verdade", houve todavia um primeiro instante em que sofremos como se acreditássemos naquilo. Se
possuíssemos apenas membros, como as pernas e os braços, a vida seria suportável. Infelizmente
trazemos em nós esse pequeno órgão a que chamamos coração, o qual está sujeito a certas
enfermidades em cujo decorrer ele se torna infinitamente impressionável a tudo que se refere à vida de
uma certa pessoa, e assim uma mentira - essa coisa tão inofensiva e no meio da qual vivemos tão
alegremente, quer seja dita por nós ou pelos outros - vinda dessa pessoa, dá a esse coraçãozinho, que
deveria poder ser extraído cirurgicamente, crises intoleráveis. Nem falemos do cérebro, pois nosso
pensamento, por mais que raciocinemos sem parar no decurso dessas crises, não as modifica em nada,
assim como a nossa atenção não alivia uma dor de dentes. É certo que tal pessoa é culpada de nos
haver mentido, pois tinha jurado dizer-nos sempre a verdade. Mas sabemos por nós próprios, pelos
outros, o que valem tais juramentos. E desejáramos crer neles quando provinham dela, que tinha
justamente todo o interesse em nos mentir, e, por outro lado, não fora por nós escolhida por suas
virtudes. É verdade que posteriormente ela quase já não teria necessidade de nos mentir justamente
quando o coração se tornasse indiferente à mentira porque não nos interessaremos mais pela sua vida.
Sabemos disto e contudo sacrificamos de bom grado a nossa, ou porque nos matamos por essa pessoa,
ou porque nos fazemos condenar à morte ao assassiná-la, ou simplesmente porque gastamos em poucos
anos toda a nossa fortuna com ela, o que em seguida nos obriga ao suicídio, pois não temos mais nada.
Aliás, por mais tranquilos que nos julguemos ao amar, sempre trazemos o amor no coração em estado de
equilíbrio instável. Uma coisinha de nada basta para colocá-lo em posição de felicidade, ficamos
radiantes, cobrimos de carinho não aquela a quem amamos, mas todos aqueles que nos fizeram valer a
seus olhos, que a resguardaram contra qualquer tentação moral; julgamo-nos tranquilos e basta uma
frase: "Gilberte não virá", "A Vinteuil está convidada", para que se aniquile toda a felicidade preparada a
que nos lançávamos, para que o sol se esconda, para que gire a rosa-dos-ventos e se desencadeie a
tempestade interior a que um dia já não seremos capazes de resistir. Nesse dia, o dia em que o coração
se tornou tão frágil, amigos que nos admirara suportam que tais aniquilamentos, que certas criaturas
possam nos fazer é provocar a nossa morte. Mas o que podem fazer? Se um poeta está agonizando com
uma pneumonia infecciosa, será possível imaginar que seus amigos expliquem o pneumococo que esse
poeta tem talento e que ele deveria deixá-lo curar-se? A dúvida no que se refere à Srta. Vinteuil não era
absolutamente nova. Mas, mesmo sob esse aspecto, o meu ciúme da tarde, excitado por Léa e seus
amigos, a tinha abolido. Uma vez afastado esse perigo do Trocadero, eu sentira, julgara ter reconquistado
para sempre uma paz completa. Mas o que principalmente era novo para mim, era um certo passeio de
que Andrée me havia dito:
- Fomos a esse e àquele lugar, não encontramos ninguém -, e onde, ao contrário, a Srta. Vinteuil
evidentemente marcara um encontro com Albertine na casa da Sra. Verdurin. Agora, eu de bom grado
deixaria Albertine sair sozinha, fosse aonde quisesse ir, contanto que pudesse prender em algum lugar a
Srta. Vinteuil e sua amiga e ter certeza de que Albertine não as veria. É que o ciúme geralmente é parcial,
com localizações intermitentes, seja por tratar-se do doloroso prolongamento de uma ansiedade causada
ora por uma pessoa, ora por outra, que nossa amiga poderia amar, seja pela exiguidade do nosso
pensamento que só percebe aquilo que imagina, deixando o resto num território vago de que
relativamente não podemos sofrer.
No momento em que íamos entrar no pátio da casa, fomos alcançado por Saniette, que não nos
reconhecera de imediato.
- Eu já os olhava entretanto faz algum tempo - disse-nos com voz ofegante. - Não é curioso que
tenha hesitado? Est-cepas curieux - foi o que ele disse, pois N'est-il pas curieux lhe teria parecido um
erro, e ele tomava com as antigas formas de linguagem uma familiaridade exagerada. - No entanto vocês
são pessoas que se pode ter por amigos. - Seu rosto sombrio parecia iluminado pelo reflexo plúmbeo de
uma tempestade. Seu ofegar que até o verão anterior só ocorria quando o Sr. Verdurin o "espinafrava",
era agora constante. - Sei que uma obra inédita de Vinteuil vai ser executada por artistas excelentes, e
singularmente por Morel.
- Por que singularmente?- indagou o barão, que viu nesse advérbio uma crítica. -
- Nosso amigo Saniette - se apressou a explicar Brichot, que fez o papel de intérprete - prefere
falar, como excelente letrado que é, a linguagem de um tempo em que "singularmente" equivalia ao
nosso "muito particularmente".
Quando entrávamos na ante-sala da Sra. Verdurin, o Sr. de Charlus me perguntou se eu
trabalhava, e, como lhe dissesse que não, mas que me interessava muito, naquele momento, pelas
velhas baixelas de prata e de porcelana, ele falou que eu não poderia encontrar mais belas do que na
casa dos Verdurin, que além disso, eu poderia vê-las na Raspeliere, visto que, a pretexto de que os
objetos também são nossos amigos, eles cometiam a loucura de levar tudo consigo; seria menos cômodo
tirar tudo dos armários num dia de recepção, mas que todavia ele, Charlus, pediria que me mostrassem o
que eu quisesse. Roguei-lhe que não pedisse nada. O Sr. de Charlus desabotoou o sobretudo, tirou o
chapéu; vi que principiava, aqui e ali, a fazer-se prateado o alto de sua cabeça. Mas, assim como um
arbusto precioso que não só o outono colore, mas do qual se protegem certas folhas com envoltórios de
algodão em rama ou mediante aplicações de gesso, o Sr. de Charlus só recebia desses poucos cabelos
brancos, dispostos no alto do crânio, uns tons de pintura a mais, que se ajuntavam ao arrebique do rosto.
E todavia, mesmo sob as camadas de expressões diversas, de cosméticos e de hipocrisia que tão mal o
maquiavam, o rosto do Sr. de Charlus continuava a calar a quase todo mundo o segredo que ele me
parecia gritar. Sentia-me quase constrangido pelos seus olhos, onde eu receava que me surpreendesse a
lê-lo como a um livro aberto, por sua voz, que me parecia repetir tal segredo em todos os tons, com uma
incansável indecência. Mas os segredos são bem ocultos pelas criaturas, pois todos os que delas se
aproximam são feito cegos e surdos. As pessoas que sabiam da verdade por tê-la ouvido de um ou de
outro, pelos Verdurin por exemplo, acreditavam nela, mas somente enquanto não conheciam o Sr. de
Charlus. Sua fisionomia, longe de espalhar, dissipava os rumores maldosos. Pois, sobre certas entidades,
fazemos uma ideia tão alta que não poderíamos identificá-la com os traços familiares de uma pessoa de
nosso conhecimento. E dificilmente acreditamos nos vícios, assim como jamais acreditaríamos no gênio
de uma pessoa com quem tivéssemos ido à ópera na véspera.
O Sr. de Charlus estava entregando o seu sobretudo com as recomendações de conviva habitual.
Mas o lacaio a quem o entregava era um empregado novo, muito jovem. Ora, o Sr. de Charlus muitas
vezes agora perdia as estribeiras e já não percebia o que se faz e o que não se faz. O desejo louvável,
que possuía em Balbec, de mostrar que certos indivíduos não o assustavam, de não ter medo de
declarar, a propósito de alguém: "É um belo rapaz", em uma palavra, de dizer as mesmas coisas que
poderiam ser ditas por alguém que não fosse como ele, ocorria-lhe agora traduzir esse desejo dizendo,
pelo contrário, coisas que jamais teria podido dizer alguém que não fosse como ele, coisas para as quais
seu espírito se voltava tão constantemente que chegava a esquecer-se de que não faziam parte da
preocupação habitual de todas as pessoas. Assim, encarando o novo lacaio, ergueu o indicador
ameaçadamente e, pensando fazer um excelente gracejo:
- Proíbo-lhe piscar-me o olho desse modo - disse o barão e, voltando-se para Brichot: - Este
menino tem uma cara divertida, um nariz engraçado - e, completando a pilhéria, ou cedendo a um desejo,
abaixou o indicador horizontalmente, hesitou por um instante e depois, sem mais poder conter-se,
impeliu-o irresistivelmente para o criado, tocando-lhe a ponta do nariz dizendo: - Pif! e logo a seguir,
acompanhado de Brichot e de mim, e de Saniette, que nos informou que a princesa Sherbatoff havia
morrido às seis horas, entrou no salão.
- Que sujeito esquisito! - disse consigo o lacaio, que perguntou aos companheiros se o barão era
farsante ou maluco.
- São as maneiras dele - respondeu o mordomo, que achava o barão meio "tantã", meio "gira"-,
mas trata-se de um dos amigos de Madame, que sempre apreciei; tem bom coração.
Nesse momento o Sr. Verdurin veio ao nosso encontro; só Saniette, não sem temer resfriar-se,
pois a porta exterior se abria constantemente, esperava resignado que lhe pegassem os agasalhos.
- Que é que faz aí nessa pose de cachorro perdigueiro? - perguntou-lhe o Sr. Verdurin. - Espero
que uma dessas pessoas que tomam conta das roupas possa pegar o meu sobretudo e me dar um
número. - Quis! e que está dizendo? - perguntou o Sr. Verdurin em tom severo: - "Qui surveillentaafx
vêtements." Será que está ficando caduco? A gente diz: "surveillerles vêtements"' Será que é preciso que
lhe ensinem de novo o francês, como se faz com as pessoas que sofreram um derrame?
- Surveillerà quelque chose é a forma correta - murmurou Saniette com voz entrecortada - o abade
Le Batteux...
- O senhor me irrita - exclamou o Sr. Verdurin com voz terrível. - Como está resfolegando! Por
acaso acaba de subir seis andares? -
A grosseria do Sr. Verdurin teve como resultado que os homens do vestiário fizessem passar
outras pessoas antes de Saniette e, quando este quis estender seus agasalhos, responderam:
- Cada um por sua vez, senhor não seja tão apressado.
- Aí estão homens que apreciam a ordem, aí estão as competências; muito bem, meus rapazes
disse o Sr. Verdurin com um sorriso de simpatia, a fim de animá-los em sua disposição de fazer passar
Saniette depois de todo mundo. - Venham - disse -, este animal quer nos matar na corrente de ar em que
se diverte. Vamos nos aquecer um pouco no salão. Surveilleraux vêtements - repetiu, quando entramos
no salão.
[Saniette diz "tomam conta das roupas'', surveifier aux vêtements, em vez de surveiller les ve (N. do T)]
- Que imbecil!
- Ele se deixa levar pelo imprevisto, mas não é má pessoa - disse Brichot.
- Não disse que era má pessoa e sim que era um imbecil - replicou o Sr. Verdurin com azedume.
- O senhor volta este ano a Incarville? - perguntou-me Brichot.
- Creio a nossa Patroa tornou a alugar La Raspeliere, embora tenha estado brigando com os
proprietários. Mas tudo isso não é nada, são nuvens que se dissipam - acrescentou no mesmo tom
otimista dos jornais que dizem: "Houve erros, é claro, mas quem não os comete?" Ora, eu me lembrava
em que estado de sofrimento tinha deixado Balbec e não desejava de modo algum voltar lá. Adiava
sempre para o dia seguinte os meus projetos com Albertine. - Mas é evidente que ele há de voltar, nós o
queremos, ele nos é indispensável - declarou o Sr. de Charlus com o egoísmo autoritário e
incompreensivo da amabilidade.
O Sr. Verdurin, a quem apresentamos nossas condolências pela princesa Sherbatoff, observou:
- Sim, sei que ela está muito mal.
- Mas não, ela morreu às seis horas - exclamou Saniette.
- O senhor exagera sempre - retrucou brutalmente o Sr. Verdurin, que, já que a reunião noturna
não fora cancelada, preferia a hipótese da doença.
Entretanto a Sra. Verdurin estava em grande conferência com Cottard e Ski. Morel acabava de
recusar, porque o Sr. de Charlus não poderia comparecer, um convite para a casa de amigos aos quais
ela todavia prometera o concurso do violinista. O motivo da recusa de Morel em tocar na reunião dos
amigos dos Verdurin, motivo ao qual vamos ver em breve somarem-se outros mais graves, pudera
ganhar forças devido a um hábito próprio em geral aos ambientes ociosos, mas particularmente ao
pequeno núcleo.
Certo, se a Sra. Verdurin surpreendia entre um novato e um fiel uma palavra dita a meia voz e que
podia dar a entender que eles já se conheciam, ou tivessem vontade de estreitar relações ("Então, na
sexta, na casa de Fulano" ou: "Vá ao ateliê quando quiser, estou lá sempre até às cinco horas, o prazer
será todo meu"), agitada, supondo que o novato dispunha de uma "situação" que podia transformá-lo
numa aquisição brilhante para o pequeno núcleo, a Patroa, parecendo sempre não ter ouvido coisa
alguma, e conservando em seu lindo olhar, onde o hábito de Debussy punha mais olheiras que a cocaína,
o aspecto extenuado que lhe davam apenas as puras delícias da música, revolvia, sob a bela fronte
arqueada por tantos quatuors e enxaquecas consecutivas, pensamentos que não eram exclusivamente
polifônicos; e, não aguentando mais, não podendo esperar um segundo sequer a sua picada, atirava-se
aos dois conversadores, arrastava-os à parte, e dizia ao novato designando o fiel:
- Não quer vir jantar com ele, sábado, por exemplo, ou até no dia que lhe aprouver, com pessoas
amáveis? Não fale muito alto, pois não vou convidar toda essa turba - termo que por cinco minutos
designava o pequeno clã, momentaneamente desdenhado em favor do novato no qual se fundavam
tantas esperanças.
continua na página 96...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Mas o Sr. de Charlus gostava de mostrar que amava Morel)
Volume 6