Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu
na Ilha de Calipso e na Feácia¹
Canto V
A Caverna de Calipso e a balsa de Ulisses
“Formando uma segunda assembleia dos deuses, Zeus envia Hermes para
Calipso mandando libertar Odisseu. Ela faz o que é ordenado. No décimo oitavo
dia, Posido o vê e, se irritando, desfaz a balsa. Mas Ino lhe entrega o seu véu
com ordem de o devolver assim que chegar à terra. Depois de muito sofrimento,
salvo, chega à terra dos Feácios.” (Scholie P Q V)
para que a luz aos eternos levasse e aos mortais transitórios,
quando nos tronos os deuses se foram sentar, tendo ao meio
Zeus, cuja voz é atroante, de força e poder muito grandes.
Palas a todos contava do divo Odisseu os trabalhos,
dele lembrando-se, que ainda se achava na casa da ninfa:
“Zeus, nosso pai, e vós outros, ó deuses eternos e beatos,
que doravante nenhum rei cetrado jamais se revele
nobre, sensato e bondoso, nem cheio de retos desígnios,
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[1] Esta parte da Odisseia marca a transição decisiva entre o sofrimento solitário de Odisseu e sua reintegração ao mundo humano. Aqui, Homero reúne três núcleos narrativos:
mas, ao contrário, só pense austerezas e viva maldades,
pois entre o povo ninguém do divino Odisseu se recorda,
que sobre todos reinou como pai de bondade extremada.
Vive numa ilha jogado, a sofrer indizível martírio,
em o palácio da ninfa Calipso, que à força o tem preso,
sem que ele possa, por isso, voltar para a terra nativa.
Faltam-lhe naves providas de remos, assim como sócios
que pelo dorso do mar extensíssimo possam levá-lo.
Ora o projeto concebem de o filho querido matar-lhe,
quando de volta estiver, pois à Pilo sagrada e à divina
Lacedemônia viajou, porque novas do pai alcançasse.”
Zeus, que bulcões acumula, lhe disse o seguinte, em resposta:
“Filha, por que tais palavras de encerro da boca soltaste?
Não foste tu que, por própria deliberação, resolveste
que se vingasse Odisseu deles todos, ao vir de tornada?
Guia Telêmaco com teus conselhos — ser-te-á muito fácil
para que incólume possa voltar outra vez para a pátria
e os pretendentes retornem nas naus com os intuitos frustrados.”
Disse; e, para Hermes voltando-se, o filho querido, lhe fala:
“Hermes — já estás habituado a servir-me nas minhas mensagens —
dize a Calipso, de tranças bem-feitas, nosso propósito
irrevogável de à pátria o divino Odisseu voltar logo.
Mas nenhum deus lhe fará companhia, ou qualquer dos humanos;
sim, em bem-feita jangada, depois de trabalhos pesados,
vá ter à Esquéria fecunda, ao raiar o vigésimo dia,
terra dos nobres Feácios, parentes chegados dos deuses,
que de mui boa vontade o honrarão qual se deus ele fosse,
e o levarão de tornada em navio até a pátria querida,
dando-lhe vestes em tanta abundância, bem como ouro e bronze,
como jamais Odisseu obteria do saco de Troia,
caso tivesse tornada feliz com sua parte da presa,
pois lhe reserva Destino rever os amigos, e a casa
de alto telhado voltar, assim como ao torrão de nascença.”
O mensageiro brilhante, de pronto, ao mandato obedece.
Calça, sem perda de tempo, nos pés as bonitas sandálias
de ouro e divinas, que por sobre as águas, sem mais, o conduzem,
como, também, pela terra infinita, qual sopro do vento;
arma-se do caduceu com que os olhos dos homens encanta
como lhe apraz, ou consegue fazer despertar os que dormem.
Tendo-o seguro na mão, voa o forte e brilhante correio.
Paira por cima de Piéria, e desde o éter no oceano se atira,
a deslizar pelo dorso das ondas, tal como gaivota
quando nos seios terríveis do mar infecundo mergulha
para pescar e umedece nas ondas as asas robustas.
Hermes, por essa maneira, desliza por cima das ondas.
Mas, quando o ponto alcançou em que a ilha remota se achava,
deixa o domínio das ondas escuras e à terra se atira,
para que a gruta espaçosa atingisse onde a ninfa Calipso,
de belas tranças, morava. Encontrou-a, de fato, lá dentro.
Ardem no lar grandes chamas, que espalham ao longe, pela ilha,
de achas bem-feitas de cedro e de tuia o perfume agradável,
quando queimadas. Com voz inefável, dentro, ela cantava,
junto do tear passeando, em que tece com áurea naveta.
Luxuriante floresta se estende por fora da gruta,
com numerosos amieiros e choupos e odoros ciprestes,
onde seus ninhos as aves constroem, de extensos remígios,
como corujas, falcões e assim gralhas de língua comprida,
dessas do mar, que se aprazem nas lides da pesca marinha.
De crescimento admirável, a vinha os pimpolhos estende
da gruta côncava em torno, a vergar com o peso dos cachos.
Água mui clara promana de quatro nascentes vizinhas,
que juntas surdem, mas abrem caminhos por partes diversas.
Prados macios em torno se viam, com aipo e violeta,
cheios de viço. Até um deus imortal que ali viesse, por certo
se admiraria com tal espetáculo, na alma folgando.
Dessa maneira, admirado, ali esteve o brilhante correio.
Quando, porém, se saciou na visão do espetác’lo inefável,
sem mais demora dirige-se à gruta espaçosa. Calipso,
deusa entre as deusas, o identificou, quando o viu diante dela.
Reconhecerem-se é fácil a todos os deuses do Olimpo,
mesmo que tenham construído as moradas em pontos distantes.
Dentro da gruta não foi encontrar Odisseu de alma grande,
que, como sempre, a chorar, se encontrava sentado na praia,
a alma desfeita em suspiros sentidos, e prantos, e dores.
Lágrimas, pois, a verter, contemplava o infecundo oceano.
A Hermes, entanto, dirige a palavra a divina Calipso,
ao convidá-lo a assentar-se num lúcido e esplêndido trono:
“Qual o motivo de aqui vires ter, deus do caduceu de ouro,
que tanto estimo e venero? És estranho por estas paragens.
Fala o que queres, que o peito me manda acatar-te o desejo,
se for, de fato, exequível e em mim estiver realizá-lo.
Antes, porém, me acompanha, que dons hospitais te ofereça.”
Tendo isso dito, apresenta-lhe a deusa uma mesa pequena
cheia de ambrósia, e mistura-lhe o néctar vermelho a contento.
Come à vontade, e assim bebe, o correio, o divo Argeifontes.
Tendo concluído o repasto e do peito os desejos saciado,
vira-se, então, para a deusa e lhe diz as seguintes palavras:
“Deusa, perguntas a um deus a razão de sua vinda. Vou logo,
por tal motivo, a verdade dizer-te, uma vez que o desejas.
Vim até aqui contra minha vontade, por Zeus sou mandado;
pois quem, por gosto, atravessa tão grande extensão do mar salso
e o infindo espaço? Não vemos por perto nenhuma cidade,
onde hecatombes perfeitas os homens aos deuses ofertem.
Mas é impossível, até para um deus, esquivar-se à vontade,
ou procurar infringir os desígnios de Zeus poderoso.
Diz ele achar-se nesta ilha o varão mais sofrido de quantos
outros heróis na cidade de Troia indefesos lutaram
por anos nove, e no décimo, alfim, conseguiram derruí-la.
Mas, na viagem de volta, ofenderam a Palas Atena,
que ondas furiosas contra eles soltou e, assim, ventos funestos.
Todos os seus companheiros valentes aí pereceram;
só, ele aqui veio ter, pelas ondas e ventos jogado.
Ora deseja que o mandes de volta o mais cedo possível.
Não é dos Fados que morra distante dos que lhe são caros,
pois lhe reserva o Destino rever os amigos, e a casa
de alto telhado voltar, assim como ao torrão de nascença.”
Treme Calipso, preclara entre as deusas, ouvindo tal coisa;
põe-se, em seguida, a falar, e lhe diz as palavras aladas:
“Duros sois todos os deuses e mais invejosos
que os homens,
que vos zangais, quando, acaso, uma deusa se acolhe no leito
de homem mortal e resolve esposar quem na terra lhe agrade,
tal como a Aurora, de dedos de rosa, que o Orião foi juntar-se.
Todos ficastes zangados, ó deuses de vida tranquila!
té que na Ortígia achegou-se-lhe a deusa do trono dourado,
Ártemis, para privá-lo da vida com raios suaves.
Do mesmo modo Deméter, de tranças bem-feitas, cedendo
ao próprio impulso, se uniu a Jasão em amplexo amoroso,
num campo arado três vezes. De tudo Zeus soube sem custo;
priva-o da vida, atirando sobre ele o seu raio brilhante.
Ora me tendes inveja por ter um mortal ao meu lado.
Foi ele salvo por mim, quando veio, sozinho, na quilha
de seu navio veloz abraçado, que Zeus atingira
longe, no mar cor de vinho, fendendo-o com o raio brilhante.
Todos os seus companheiros valentes aí pereceram,
só, ele aqui veio ter, pelas ondas e ventos jogado.
Dei-lhe hospital agasalho e o provi de alimento; mais, ainda:
fiz-lhe a promessa de eterno torná-lo e das cãs sempre livre.
Mas, visto ser impossível a um deus esquivar-se à vontade,
ou procurar infringir os desígnios de Zeus poderoso,
que parta, então, visto Zeus o ordenar e incitar a fazê-lo,
por sobre o mar infecundo. Mas nada farei para o embarque;
faltam-me naves providas de remos, assim como sócios
que pelo dorso do mar extensíssimo possam levá-lo;
sim, de bom grado, conselhos darei, sem velar coisa alguma,
para que possa, sem nada sofrer, retornar para a pátria.”²
Disse-lhe, então, em resposta, o correio de aspecto brilhante:
“Deixa-o partir e na cólera pensa do filho de Crono,
para evitar que se zangue e te advenha, daí, sofrimento.”
Tendo isso dito, retira-se o poderoso Argeifontes.
A nobre ninfa Calipso procura Odisseu de alma grande,
continua página 731...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /
Parte II
Canto V.a / Canto V.b /
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Esta parte da Odisseia marca a transição decisiva entre o sofrimento solitário de Odisseu e sua reintegração ao mundo humano. Aqui, Homero reúne três núcleos narrativos:
- O cativeiro de Odisseu na ilha de Calipso
- O naufrágio e a chegada à terra dos Feácios
- A acolhida na casa do rei Alcínoo, onde Odisseu finalmente narra suas aventuras.
É o momento em que o herói deixa de ser apenas personagem das histórias dos outros (como na Telemaquia) e volta a ser protagonista de sua própria narrativa.Canto V
- O naufrágio e a chegada à terra dos Feácios
- A acolhida na casa do rei Alcínoo, onde Odisseu finalmente narra suas aventuras.
É o momento em que o herói deixa de ser apenas personagem das histórias dos outros (como na Telemaquia) e volta a ser protagonista de sua própria narrativa.Canto V
- Odisseu está preso há sete anos na ilha de Ogígia, retido pela ninfa Calipso, que lhe oferece imortalidade se ele aceitar ficar com ela.
- Os deuses decidem que é hora de libertá-lo; Hermes leva a ordem a Calipso.
- O herói constrói uma balsa e parte, mas Posídon, ainda irado pelo episódio com Polifemo, provoca uma tempestade.
- Odisseu sobrevive por pouco e é lançado ao mar, agarrado a pedaços da embarcação.
[2] O discurso de Calipso no Canto V é um momento decisivo da narrativa, carregado de tensão emocional, crítica aos deuses e revelação de caráter da ninfa.
- Os deuses decidem que é hora de libertá-lo; Hermes leva a ordem a Calipso.
- O herói constrói uma balsa e parte, mas Posídon, ainda irado pelo episódio com Polifemo, provoca uma tempestade.
- Odisseu sobrevive por pouco e é lançado ao mar, agarrado a pedaços da embarcação.
[2] O discurso de Calipso no Canto V é um momento decisivo da narrativa, carregado de tensão emocional, crítica aos deuses e revelação de caráter da ninfa.
O trecho ocorre quando Hermes transmite a ordem de Zeus: Calipso deve libertar Odisseu. A ninfa, contrariada, responde com esse discurso. É a primeira vez que ela expressa abertamente sua indignação diante da decisão dos deuses.
* Tema central: a hipocrisia divina - Calipso acusa os deuses — especialmente os masculinos — de serem invejosos e injustos. Ela denuncia um padrão: quando uma deusa se une a um mortal, os deuses se enfurecem. Exemplos citados por Calipso:
* Tema central: a hipocrisia divina - Calipso acusa os deuses — especialmente os masculinos — de serem invejosos e injustos. Ela denuncia um padrão: quando uma deusa se une a um mortal, os deuses se enfurecem. Exemplos citados por Calipso:
- Aurora e Orião: Aurora amou o mortal, e os deuses enviaram Ártemis para matá-lo.
- Deméter e Jasão: Deméter se uniu ao mortal, e Zeus o fulminou com um raio.
Esses exemplos reforçam a ideia de que os deuses não toleram relações entre divindades femininas e homens mortais, revelando um duplo padrão:
- Zeus e outros deuses masculinos têm inúmeras amantes mortais.
- Mas quando uma deusa faz o mesmo, é punida ou impedida.
Calipso expõe essa contradição com força retórica, revelando a dimensão política e moral do mundo olímpico.
- Deméter e Jasão: Deméter se uniu ao mortal, e Zeus o fulminou com um raio.
Esses exemplos reforçam a ideia de que os deuses não toleram relações entre divindades femininas e homens mortais, revelando um duplo padrão:
- Zeus e outros deuses masculinos têm inúmeras amantes mortais.
- Mas quando uma deusa faz o mesmo, é punida ou impedida.
Calipso expõe essa contradição com força retórica, revelando a dimensão política e moral do mundo olímpico.
* A posição de Calipso: amor, frustração e impotência. Calipso se apresenta como:
- Protetora de Odisseu (“salvo por mim”).
- Benfeitora (“dei-lhe agasalho e alimento”).
- Amante dedicada (“prometi torná-lo eterno e livre das cãs”).
- Mas também impotente diante da ordem de Zeus.
Ela reconhece que nenhum deus pode contrariar Zeus, o que reforça a hierarquia rígida do Olimpo.
* A dor de Calipso
Há uma camada emocional forte: Ela não apenas perde Odisseu — perde também a possibilidade de viver um amor que transcende a mortalidade.
Sua frustração é dupla:
- Perde o amado.
- É humilhada pelos deuses, que interferem em sua vida íntima.
* A ambiguidade moral da personagem. Calipso não é vilã. Ela é uma figura complexa:
- Ama Odisseu sinceramente, mas o mantém preso.
- Oferece imortalidade, mas isso implicaria renunciar à humanidade do herói.
- Reclama da injustiça, mas também age contra a vontade de Odisseu.
Essa ambiguidade é essencial: Homero constrói uma personagem que é ao mesmo tempo divina, apaixonada, poderosa e vulnerável.
* Conclusão interpretativa
O discurso de Calipso é um dos momentos mais ricos da Odisseia. Ele revela:
- A hipocrisia dos deuses
- A força emocional da deusa
- A centralidade da mortalidade na identidade humana
- A determinação do destino sobre o desejo individual
- A complexidade das relações entre deuses e mortais
Calipso emerge como uma figura trágica: ama um homem que não pode ter, e é obrigada a libertá-lo por uma ordem divina que ela não pode contestar.