terça-feira, 24 de março de 2026

Tratado da Natureza Humana: Introdução

Introdução


     Nada é mais corrente e mais natural do que aqueles que pretendem ·descobrir algo novo para o mundo no campo da filosofia e das ciências insinuarem o louvor dos seus próprios sistemas, desacreditando todos aqueles anteriormente apresentados. Na realidade, se eles se contentassem com lamentar a ignorância em que ainda estamos mergulhados em relação às questões mais importantes que se apresentam perante o tribunal da razão humana, poucos homens haveria que, estando familiarizados com as ciências, não concordassem prontamente com eles. Uma pessoa judiciosa e sabedora facilmente descobre a fraqueza de fundamentos daqueles sistemas que alcançaram o maior crédito e elevaram mais alto as suas pretensões à precisão e profundeza do raciocínio. Princípios admitidos sem demonstração, consequências incorretamente deduzidas, falta de coerência entre as partes e de evidência no todo, é isto o que se encontra por toda a parte nos sistemas dos filósofos mais eminentes, e parece ter lançado em descrédito a própria filosofia.
     Não é preciso possuir um conhecimento muito profundo para descobrir a atual imperfeição das ciências; a própria multidão das ruas pode aperceber-se, pelo barulho e clamor que escuta, de que lá dentro nem tudo corre bem. Não há coisa nenhuma que não seja objeto de discussão, e sobre a qual os homens de saber não tenham opiniões contrárias. Nem mesmo a questão mais trivial escapa à controvérsia, e nas mais importantes somos incapazes de chegar a uma decisão certa. Multiplicam-se as discussões, como se tudo fosse incerto, e estas discussões são conduzidas com o maior entusiasmo, como se tudo fosse certo. Em toda esta agitação não é a razão que alcança o prémio, mas sim a eloquência; e ninguém deve jamais desesperar de conseguir prosélitos para a hipótese mais extravagante, contanto que seja suficientemente hábil para a apresentar com cores favoráveis. Não alcançam a vitória os soldados em pé de guerra, manejando a lança e a espada, mas sim os corneteiros, os tambores e os músicos do exército.
     Aqui tem origem, na minha opinião, o preconceito corrente contra todas as formas de raciocínio metafisico, mesmo entre aqueles que se apresentam como sábios e apreciam no seu justo valor todos os outros gêneros de literatura. Por raciocínio metafisico não entendem eles o raciocínio num determinado ramo da ciência, mas toda a espécie de argumento que é obscuro em algum aspecto e que requer alguma atenção para ser compreendido. Tantas vezes temos desperdiçado o nosso esforço em semelhantes investigações que geralmente as rejeitamos sem hesitação e decidimos que, se temos que ficar sempre presos nas malhas de erros e ilusões, estes devem pelo menos ser naturais e agradáveis. Realmente só o ceticismo mais completo, associado a um alto grau de indolência, pode justificar esta aversão à metafisica. Com efeito, se é que a verdade se encontra ao alcance das faculdades humanas, ela deve certamente ser bem obscura e profunda; esperar atingi-la sem esforço, quando os maiores gênios não o conseguiram com os maiores esforços, temos de concordar que é bastante vaidade e presunção. Não reclamo tal vantagem para a filosofia que vou expor, e consideraria a sua grande facilidade e obviedade razão grave para dela suspeitar.
     E evidente que todas as ciências têm uma relação maior ou menor com a natureza humana; e, por muito que qualquer delas pareça afastar-se da mesma natureza, de uma maneira ou outra torna a ela. Mesmo a Matemática, a Filosofia Natural e a Religião Natural estão em certa medida dependentes da ciência do HOMEM, visto que são abrangidas pelo conhecimento dos homens e julgadas pelos seus poderes e faculdades. Não é possível prever que transformações e aperfeiçoamentos poderíamos realizar nestas ciências se tivéssemos um conhecimento perfeito da extensão e da força do entendimento humano, e pudéssemos explicar a natureza das ideias que empregamos e das operações que realizamos no nosso raciocínio. E tais aperfeiçoamentos são tanto mais de desejar na religião natural, pois esta não se satisfaz com instruir-nos acerca da natureza dos poderes superiores, mas leva sua visão mais longe, até à disposição deles para conosco e aos nossos deveres para com eles; pelo que nós próprios não somos apenas os seres que raciocinam, mas também um dos objetos acerca dos quais raciocinamos.
     Portanto se a Matemática, a Filosofia Natural e a Religião Natural são assim dependentes do conhecimento do homem, que poderemos esperar das outras ciências, cuja relação com a natureza humana é mais íntima e estreita? O fim único da lógica é explicar os princípios e as operações da nossa faculdade de raciocinar e a natureza das nossas ideias; a moral e a crítica ocupam-se dos nossos gostos e sentimentos; e a política considera os homens enquanto agrupados na sociedade e dependentes uns dos outros. Nestas quatro ciências, a Lógica, a Moral, a Crítica e a Política está abrangido quase tudo o que de qualquer modo pode ser do nosso interesse conhecer, ou o que pode tender quer para aperfeiçoar, quer para adornar o espírito humano.
     Eis aqui pois o único processo de que poderemos esperar êxito nas nossas investigações filosóficas: abandonar o método fastidioso e lento que seguimos até aqui e, em vez de tomar de quando em quando um castelo ou uma povoação fronteiriça, avançar diretamente sobre a capital ou centro destas ciências, sobre a própria natureza humana; se nos tornarmos senhores dela, podemos esperar alcançar fácil vitória quanto a todos os outros pontos. A partir desta posição podemos estender a nossa conquista a todas as outras ciências que mais intimamente dizem respeito à vida humana e podemos depois proceder despreocupadamente à descoberta mais completa das que são objeto de pura curiosidade. Não há nenhum problema importante cuja solução não seja abrangida pela ciência do homem, e não há nenhum que possa resolver-se com alguma certeza sem conhecermos esta ciência. Quando pois pretendemos explicar os princípios da natureza humana, de fato propomos um sistema completo das ciências, assente num fundamento quase inteiramente novo e que é o único sobre o qual elas podem estabelecer-se com alguma segurança.
     E assim como a ciência do homem é o único fundamento sólido para as outras ciências, assim também o único fundamento sólido que podemos dar à ciência do homem deve assentar na experiência e na observação. Não deve surpreender-nos constatar que a aplicação da filosofia experimental aos problemas morais se siga à aplicação da mesma aos problemas naturais com um intervalo de mais de um século; com efeito, nota-se que houve aproximadamente o mesmo intervalo entre as origens destas ciências, e que de Tales a Sócrates conta-se um espaço de tempo quase igual ao que medeia entre Lord Bacon e alguns filósofos¹ recentes da Inglaterra, os quais começaram a colocar a ciência do homem em nova base, atraindo as atenções e despertando a curiosidade do público. Assim a verdade é que, embora outras nações possam rivalizar conosco na poesia e exceder-nos em algumas outras artes aprazíveis, o progresso da razão e da filosofia não podem senão dever-se a um país de tolerância e liberdade.

¹ LOCKE, Lord Shaftsbury, Dr. Mandeville, Hutchinson, Dr. Butler, etc ..

     E não devemos pensar que este último progresso da ciência do homem proporcione menores honras ao nosso país do que o progresso anterior da filosofia natural; pelo contrário, devemos considerá-lo maior glória, em razão da maior importância desta ciência, assim como da necessidade em que se encontra de semelhante reforma. Pois parece--me evidente que, sendo a essência do espírito para nós tão desconhecida como a dos corpos exteriores, há de ser igualmente impossível formar qualquer noção dos seus poderes e qualidades, a não ser por meio de experiências cuidadosas e exatas e da observação daqueles efeitos particulares, resultantes das diferentes circunstâncias e situações em que o espírito se encontra. E embora devamos esforçar-nos por tornar os nossos princípios tão universais quanto possível, ampliando ao máximo as nossas experiências e explicando todos os efeitos pelas causas mais simples e menos numerosas, continua a ser certo que não podemos ir além da experiência e que qualquer hipótese que pretenda descobrir as qualidades originais últimas da natureza humana deve desde logo ser rejeitada como presunçosa e quimérica.
     Não creio que um filósofo que se dedicasse tão fervorosamente a explicar os princípios últimos da alma se revelaria grande mestre nessa mesma ciência da natureza humana, a qual ele pretende explicar, nem muito conhecedor daquilo que naturalmente satisfaz o espírito humano. Com efeito, nada há mais certo do que o fato de que o desespero tem sobre nós quase o mesmo efeito que a satisfação, e que tão depressa tomamos consciência da impossibilidade de satisfazer um desejo, logo esse mesmo desejo se dissipa. Quando vemos que alcançámos os limites extremos da razão humana, descansamos, satisfeitos, embora fiquemos em geral perfeitamente cônscios da nossa ignorância e compreendamos que não podemos apresentar qualquer razão para os nossos princípios mais gerais e mais sutis a não ser a nossa experiência da sua realidade; que é a razão do mero vulgo, cuja descoberta não exige qualquer estudo inicial em relação aos fenómenos mais particulares e mais extraordinários. E assim como esta impossibilidade de fazer qualquer novo progresso basta para satisfazer o leitor, assim também o autor pode tirar uma satisfação mais delicada da livre confissão da sua ignorância e da sua prudência em evitar aquele erro em que tantos caíram, de impor ao mundo as suas conjecturas e hipóteses como se fossem os mais certos princípios. Quando conseguirmos chegar a este contentamento e satisfação recíprocos de mestre e discípulo, não sei que mais possamos exigir da nossa filosofia.
     Mas se se deve considerar como uma deficiência da ciência do homem esta impossibilidade de explicar os princípios últimos, ousarei afirmar que esta deficiência é comum a todas as outras ciências e a todas as artes a que possamos dedicar-nos, quer sejam cultivadas nas escolas dos filósofos ou praticadas nas oficinas dos mais humildes artífices. Nenhum deles pode ir além da experiência ou estabelecer quaisquer princípios que não se fundamentem nessa autoridade. A filosofia moral tem sem dúvida uma desvantagem particular, que não se encontra na filosofia natural: não pode coligir as suas experiências deliberada e premeditadamente, e de modo tal que sempre se satisfaça a respeito de qualquer dificuldade que acaso surja. Quando pretendo conhecer os efeitos de um corpo sobre outro, em determinada situação, o que tenho a fazer é colocá-los nessa situação e observar os resultados. Mas se tentasse desfazer qualquer dúvida em filosofia moral pelo mesmo processo, colocando-me num caso igual àquele que considero, é evidente que esta reflexão e premeditação perturbariam de tal modo a operação dos meus princípios naturais, que tornariam impossível chegar a uma conclusão justa sobre o fenômeno. Devemos pois nesta ciência colher as nossas experiências de uma observação prudente da vida humana e tomá-las tais como aparecem no decurso habitual do mundo, através do comportamento dos homens em sociedade, em suas ocupações e em seus prazeres. Quando são judiciosamente reunidas e compara das experiências desta natureza, podemos esperar estabelecer a partir delas uma ciência, que não será inferior em certeza, e será muito superior em utilidade, a qualquer outra de compreensão humana.

continua na página 33...
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Prefácio / Introdução / 
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - O horror ao tédio)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     O horror ao tédio era agora, para a Sra. Verdurin, o motivo encarregado de explicar a composição do pequeno grupo. Ela ainda não recebia duquesas por ser incapaz de entediar-se, como era incapaz de fazer um cruzeiro marítimo por causa dos enjoos. Dizia comigo que o que a Sra. Verdurin proclamava não era absolutamente falso, e, nesse caso, mesmo que os Guermantes tivessem declarado Brichot o homem mais imbecil que já houvessem encontrado, eu ficaria incerto de que, se no fundo ele não era superior ao próprio Swann, era-o pelo menos às pessoas que, dotadas do espírito dos Guermantes e tendo o bom gosto de evitar e o pudor de enrubescer de suas facécias pedantescas, eu o indagava a mim mesmo, como se a natureza da inteligência pudesse esclarecer-se em alguma medida pela resposta que eu me daria com a seriedade de um cristão influenciado por Port-Royal, que se questiona o problema da Graça. 

- O senhor verá - continuou a Sra. Verdurin -, quando se tem gente da alta sociedade com pessoas verdadeiramente inteligentes, pessoas do nosso meio, aí é que é necessário vê-los, o aristocrata mais espirituoso no reino dos cegos não passa de um zarolho aqui. Além disso, acolhe com frieza os outros, que já não se sentem mais à vontade. Aí eu me pergunto se, em vez de tentar fusões que estragam tudo, não seria melhor arranjar umas séries só para os aborrecidos, de modo que pudéssemos gozar plenamente do nosso pequeno grupo. Concluindo, o senhor virá com sua prima. É conveniente. Bem. Pelo menos, aqui, ambos terão o que comer. Em Féterne, é a fome, é a sede. Ah, por exemplo, se gosta de ratos, vá logo para lá, será servido a contento. E lhe guardarão tanto quanto quiser. Aí sim, o senhor morre de fome. De resto, quando eu for lá, jantarei antes de partir. E para que fique mais alegre, o senhor deveria vir buscar-me. Tomaríamos um bom chá e cearíamos na volta. Gosta de tortas de maçã? Sim? Ótimo! Nosso cozinheiro-chefe prepara-as como ninguém. Bem vê que eu tinha razão de dizer que o senhor foi feito para viver aqui. Portanto, venha morar conosco. Sabe muito bem que há muito mais lugar em nossa casa do que parece. Não o digo para não atrair as pessoas aborrecidas. Poderia trazer sua prima para morar aqui. Ela respiraria um ar diferente do de Balbec. Com o ar daqui, tenho a pretensão de curar os incuráveis. Palavra que os curei, e não é de hoje. Pois morei outrora bem perto daqui, alguma coisa que havia desencovado, que obtive por um pedaço de pão e que possuía um caráter diferente do da Raspeliere deles. Vou mostrá-la, se formos passear. Porém reconheço que, mesmo aqui, o ar é realmente vivificante. Não desejo falar muito nisso, pois os parisienses começariam a apreciar o meu cantinho. Essa foi sempre a minha boa sorte. Enfim, fale nisso à sua prima. Vão lhe ser dados dois lindos quartos com vistas para o vale; verá o que é isso pela manhã, o sol na neblina! E quem-é esse Robert de Saint-Loup de que fala? - Acrescentou com ar inquieto, porque ouvira que eu deveria ir vê-lo em Doncieres e temia que ele me fizesse desertar. - Talvez fosse melhor trazê-lo para cá, se não é uma pessoa aborrecida. Ouvi falar dele por Morel; parece que é um de seus grandes amigos - disse a Sra. Verdurin, mentindo completamente, pois Saint-Loup e Morel nem sequer tinham noção da existência um do outro. Mas, tendo ouvido que Saint-Loup conhecia o Sr. de Charlus, pensava que era através do violinista e queria dar a impressão de estar ciente de tudo. - Por acaso ele não pratica a medicina, ou a literatura? O senhor sabe que, se tem necessidade de recomendações para os exames, Cottard pode tudo, e faço dele o que quero. Quanto à Academia, para mais tarde, pois julgo que ainda não tem idade para isso, disponho de vários votos. Seu amigo estaria aqui em terra conhecida e talvez o divertisse ver a casa. Donciers não tem graça nenhuma. Enfim, o senhor proceda como entender, como lhe parecer melhor - concluiu sem insistir, para não dar a impressão de que procurava a nobreza, e porque sua pretensão era de que o regime sob o qual fazia viver os fiéis, a tirania, fosse denominado liberdade. 
- Vamos, o que é que tens? - indagou ela, ao ver o Sr. Verdurin que, fazendo gestos de impaciência, alcançava o terraço de tábuas que se estendia sobre a sala, do lado do vale, como um homem que sufoca de raiva e precisa de ar. Foi ainda Saniette quem te irritou? Mas, visto que sabes que ele é um idiota, toma o teu partido e não fica nesse estado... Não gosto disto disse-me ela porque é mau para ele, deixa-o congestionado. Mas devo confesse! também que às vezes é necessário ter uma paciência de santo para aturar Saniette, e sobretudo lembrar que é uma caridade recolhê-lo. De minha parte, confesso que o esplendor da sua tolice é antes uma alegria. Pena que ouviu a frase dele depois do jantar: "Não sei jogar uíste, mas sei tom piano." Tremenda, não? É grande como o mundo, e aliás uma mentira, ele não sabe um nem outro. Porém meu marido, sob sua aparência rude, é muito sensível, muito bondoso, e essa espécie de egoísmo de Saniette, preocupado sempre com o efeito que vai fazer, deixa-o fora de si... Vamos, meu querido, acalma-te, sabes muito bem que Cottard te disse que faz mal para o teu fígado. E tudo acaba recaindo sobre mim - disse a Sra. Verdurin. - Amanhã Saniette vai ter a sua pequena crise de nervos e lágrimas. Pobre homem, está muito doente. Mas afinal isso não é motivo para que mate os outros. E, além disso, mesmo nos momentos em que mais sofre, quando a gente gostaria de sentir pena dele, sua tolice corta logo qualquer sentimento. Ele é por demais estúpido. Basta que lhe digas, muito gentilmente, que tais cenas fazem vocês dois ficarem doentes, que ele não volte aqui; como é o que ele mais teme, isso terá um efeito calmante sobre seus nervos - soprou a Sra. Verdurin a seu marido.

     Mal se distinguia o mar pelas janelas da direita. Mas as do outro lado mostravam o vale sobre o qual agora caíra a neve do luar. De vez em quando, ouvia-se a voz de Morel e a de Cottard. 

- Tem o trunfo? 
- Yes. 
- Ah, o senhor tem boas - disse a Morel, em resposta à sua pergunta, o Sr. de Cambremer, pois havia visto que o jogo do doutor estava repleto de trunfos. 
- Aqui está a dama de ouros - disse o doutor. 
- Isto é trunfo, sabia? Eu corto, eu faço a vaza... 
- Mas não há mais Sorbonne - disse o doutor ao Sr. de Cambremer; só existe a Universidade de Paris. - O Sr. de Cambremer confessou que ignorava o motivo pelo qual o doutor lhe fazia essa observação. - Eu julgava que o senhor estava falando da Sorbonne - replicou o doutor. - Tinha ouvido o senhor dizer: "tu nous la sors bonne" - acrescentou piscando o olho, para mostrar que se tratava de um trocadilho. - Espere - disse ele mostrando o adversário -, preparo lhe um golpe de Trafalgar. -

     E o golpe devia ser excelente para o doutor, pois, em sua alegria, ele se pôs a rir, movendo voluptuosamente os ombros, o que, na família, no "gênero" Cottard, era um traço quase zoológico de satisfação. Na geração anterior, o movimento de esfregar as mãos como se se ensaboassem, acompanhava o movimento. O próprio Cottard usara primeiro, simultaneamente, a dupla mímica; porém um dia, sem que se soubesse a que intervenção conjugal, magistral, quem sabe, aquilo era devido, o esfregar das mãos havia desaparecido. O doutor, mesmo no dominó, quando forçava o adversário a "pedir" e a ficar com o carroção, o que para ele era o mais vivo dos prazeres, contentava-se com o movimento dos ombros. E quando o mais raramente possível ia à sua terra natal por alguns dias, encontrando lá o seu primo-irmão, o qual ainda estava na fase da esfregação de mãos, dizia na volta à Sra. Cottard: 

- Achei bastante vulgar o pobre Renê. - Tem aquela coisinha? - disse ele, voltando-se para Morel. - Não? Então eu jogo este velho David. 
- Mas então o senhor tem cinco, e ganhou! 
- Eis uma bela vitória, doutor - disse o marquês. 
- Uma vitória de Pirro - disse Cottard, voltando-se para o marquês e encarando-o por sobre o seu lorgnon, para avaliar o efeito de sua tirada. 
- Se ainda temos tempo - disse ele a Morel -, dou-lhe a sua revanche. É a minha vez... Ah, não, eis os carros; ficará para a sexta, e eu lhe mostrarei um golpe todo especial. -
 
     Sr. e Sra. Verdurin nos conduziram para fora. A Patroa foi particularmente carinhosa com Saniette, a fim de assegurar-se de que ele voltaria no dia seguinte. 

- Mas não me parece que esteja bem agasalhado, meu filho - disse-me o Sr. Verdurin, cuja idade permitia esse tratamento paternal. - Tenho a impressão de que o tempo mudou. -

     Estas palavras encheram-me de alegria, como se a vida profunda, e o aparecimento de combinações diferentes que elas implicam na natureza, devesse anunciar outras mudanças, estas a cumprirem-se na minha vida e nela criar possibilidades novas. Mal se abria a porta para o parque antes de partir, e já se sentia que um outro "tempo" ocupava a cena desde alguns instantes; sopros frescos, volúpia estival, erguiam-se na mata de abetos (onde outrora a Sra. de Cambremer sonhava com Chopin) e quase imperceptivelmente, em meandros acariciadores, em remoinhos caprichosos, principiavam os seus leves noturnos. Recusei o agasalho que nas noites seguintes deveria aceitar quando Albertine estivesse presente, antes pelo segredo do prazer do que pelo perigo do frio. Procuraram em vão o filósofo norueguês. Sentira uma cólica? Teria medo de perder o trem? Um aeroplano viera buscá-lo? Fora arrebatado numa assunção? O fato é que desaparecera sem que ninguém percebesse, como um deus. 

- O senhor está errado - disse-me o Sr. de Cambremer -, faz um frio de pato. 
- Por que de pato? - indagou o doutor. 
- Cuidado com as sufocações - prosseguiu o marquês. 
- Minha irmã nunca sai à noite. De resto, ela está bem mal hipotecada, neste momento. Em todo caso, não fique de cabeça descoberta, ponha logo o seu boné. 
- Não são sufocações a frigore - disse Cottard sentenciosamente. 
- Ah, então - disse o Sr. de Cambremer, inclinando-se -, visto que é de seu aviso... 
-Aviso ao leitor! - exclamou Cottard, deslizando seus olhares para fora do lorgnon, a fim de sorrir. O Sr. de Cambremer riu, mas, convencido de que estava com a razão, insistiu. 
- No entanto - disse ele -, cada vez que minha irmã sai à noite, tem uma crise. 
- É inútil argumentar - respondeu o doutor, sem se dar conta de sua descortesia. - Aliás, não pratico a medicina à beira-mar, salvo se sou chamado em consulta. Estou aqui de férias. -

     De resto, ele o estava ainda mais talvez do que o desejaria. Tendo-lhe dito o Sr. de Cambremer, ao subir para o carro: 

- Temos a sorte de também ter perto de nós (não do seu lado da baía, mas do outro, mas ela é até apertada nesse local) uma outra celebridade médica, o Dr. Du Boulbon. - Cottard, que de hábito, por deontologia, abstinha-se de criticar os confrades, não pôde deixar de gritar, como o fizera diante de mim no dia funesto em que tínhamos ido ao pequeno cassino: 
- Mas isto não é um médico. Ele pratica a medicina literária, é a terapêutica fantasista, é charlatanismo. Aliás, nós estamos em bons termos. Tomaria o barco para ir visitá-lo uma vez se não estivesse obrigado a me ausentar. -

     Mas, pelo ar que assumira Cottard para falar de Du Boulbon ao Sr. de Cambremer, senti que o barco, no qual iria de bom grado visitá-lo, muito se parecia com o navio que, para arruinar as águas descobertas por um outro médico literário, Virgílio (o qual, assim, lhes roubava toda a clientela), os doutores de Salerno haviam fretado, mas que soçobrou com eles durante a travessia. 

- Adeus, meu bom Saniette, não deixe de vir amanhã; bem sabe que meu marido o aprecia muito. Aprecia o seu espírito, sua inteligência; mas, se, como sabe perfeitamente, gosta de atitudes bruscas, o fato é que não pode passar sem vê-lo. É sempre a primeira pergunta que me faz: "Será que Saniette vem? Gosto tanto de vê-lo." 
- Eu nunca falei isto - disse o Sr. Verdurin a Saniette com uma franqueza simulada que parecia conciliar perfeitamente o que dizia a Patroa com a maneira como ele tratava Saniette. Depois, consultando o relógio, sem dúvida para não prolongar as despedidas na umidade da noite, recomendou aos cocheiros que não se atrasassem, que fossem prudentes na descida, e assegurou-nos que chegaríamos antes do trem. Este devia deixar os fiéis, um numa estação, outro em outra, terminando por mim, pois nenhum ia a tão grande distância como Balbec, e principiando pelos Cambremer. Estes, para não fazerem os cavalos subirem de noite até La Raspeliere, tomaram o trem conosco em Douville-Féterne. Com efeito, a estação mais próxima da casa deles não era esta, que, já um pouco distante da aldeia, o é ainda mais do castelo, porém La Sogne.

     Chegando à gare de Douville-Féterne, o Sr. de Cambremer fez questão de dar "a peça", como dizia Françoise, ao cocheiro dos Verdurin (justamente o gentil cocheiro sensível de idéias melancólicas), pois o marquês era generoso e nisso antes "puxava à sua mamãe". Mas fosse porque o seu "lado do papai" interviesse aqui, e enquanto dava a moeda experimentava o escrúpulo de um erro cometido ou por ele, que, enxergando mal, dava por exemplo um sou em vez de um franco, ou pelo destinatário, que não perceberia da importância do que lhe davam. Assim, observou: 

- É mesmo um franco que lhe estou dando, não? - disse ao cocheiro, fazendo rebrilhar a moeda na luz, e para que os fiéis pudessem repeti-lo à Sra. Verdurin. - Não é? É mesmo de vinte sous, já que foi só uma pequena corrida. - Ele e a Sra. de Cambremer nos deixaram em La Sogne. - Eu direi à minha irmã - repetiu-me ele - que o senhor tem sufocações, estou certo de interessá-la. -

     Compreendi o que ele queria dizer: agradar-lhe. Quanto à sua mulher, empregou, ao despedir-se de mim, duas dessas abreviaturas que, mesmo escritas, me chocavam então numa carta, embora nos tenhamos habituado depois a isso, mas que, faladas, me pareciam, e até mesmo hoje, conter, em sua displicência intencional, em sua familiaridade adquirida, algo de insuportavelmente pedante: 

- Encantada por ter passado a noite com o senhor - disse-me ela. - Recomendações a Saint-Loup se o vir. -

     Dizendo-me esta frase, a Sra. de Cambremer pronunciou Saint-Loupe. Jamais pude saber quem o pronunciara assim diante dela, ou quem lhe tivera dado a entender que se devia pronunciar desse modo. Sempre é verdade que, durante algumas semanas, ela pronunciou Saint Loupe e que um homem que lhe tinha grande admiração, e que com ela fazia uma só pessoa, fez o mesmo. Se outras pessoas diziam Saint-Lou, eles insistiam, diziam com força Saint-Loupe, ou para dar indiretamente uma lição aos demais, ou para se distinguir deles. Mas, sem dúvida, mulheres mais brilhantes que a Sra. de Cambremer lhe disseram, ou lhe fizeram indiretamente compreender que não se devia pronunciar assim, e que o que ela tomava por originalidade era um erro que faria com que a julgassem pouco a par das coisas da sociedade, pois, pouco depois, a Sra. de Cambremer voltava a dizer Saint-Lou, e seu admirador igualmente deixou toda resistência, ou porque ela o tivesse advertido, ou porque tivesse ele percebido que ela já não fazia soar a final, dizendo consigo que, para que uma mulher daquele valor, daquela energia e de tanta ambição houvesse cedido, era preciso que fosse por uma boa razão. O pior de seus admiradores era o marido. A Sra. de Cambremer gostava de fazer aos outros brincadeiras muitas vezes bem impertinentes. Logo que ela investia desse modo contra mim ou contra algum outro, o Sr. de Cambremer punha-se a olhar a vítima, rindo. Como o marquês fosse vesgo o que dá uma intenção de espírito à própria graça dos imbecis -, o efeito daquele riso era o de trazer um pouco de pupila para o branco do olho, que sem isso ficaria completo. Da mesma forma, uma abertura põe um tanto de azul num céu coberto de nuvens. O monóculo protegia do resto essa operação delicada, como um vidro sobre um quadro precioso. Quanto à própria intenção do riso, não se sabe se por acaso seria amável: "Ah, tratante! Poderia considerar-se digno de inveja. Está recebendo os favores de uma mulher de espírito rude"; ou travessa: "Espero que se arranje, senhor, engolindo cobras e lagartos"; ou prestimosa: "O senhor sabe, aqui estou; levo a coisa a rir, pois é puro gracejo, mas não deixaria que o maltratassem"; ou cruelmente cúmplice: "Não tenho porque atirar o meu grãozinho de sal, mas bem vê que morro de rir com todas essas maldades que ela lhe prodigaliza. Gargalho como um corcunda, portanto aprovo, eu o marido. Agora, se lhe der na telha corcovear, achará quem lhe faça frente, meu senhor. Primeiro, lhe daria um par de bofetadas, com capricho, depois iríamos cruzar os ferros na floresta de Chantepie." Fosse qual fosse o resultado dessas diversas interpretações da alegria do marido, os gracejos da esposa rapidamente acabavam. Então o Sr. de Cambremer cessava de rir, a pupila momentaneamente desaparecia e, como a gente perdera havia alguns minutos o hábito daquele olho inteiramente branco, dava este àquele rubro normando algo a um tempo de exangue e de extático, como se o marquês acabasse de ser operado ou como se implorasse aos céus, sob o monóculo, as palmas do martírio.

continua na página 175...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - O horror ao tédio)
Volume 6
Volume 7

segunda-feira, 23 de março de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Primeira Reforma Agrária da América Latina (19)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     29. A Primeira Reforma Agrária da América Latina: Um século e meio de derrotas para José Artigas
          Com cargas de lança e golpes de facão foi que os despossuídos, ao despontar o século XIX, lutaram contra o poder espanhol nos campos da América. A independência não os recompensou: traiu as esperanças dos que tinham derramado seu sangue. Quando chegou a paz, com ela foi reaberto o tempo da infelicidade. Os donos da terra e os grandes mercadores aumentaram suas fortunas, enquanto aumentava a pobreza das massas populares.
     Ao mesmo tempo, e no ritmo dos novos donos da América Latina, os quatro vice-reinados do império espanhol saltaram em pedaços e múltiplos países nasceram como cacos da unidade nacional pulverizada. A ideia de “nação” que o patriciado latino-americano engendrou se parecia demais com a imagem de um porto ativo, habitado por uma clientela mercantil e financeira do império britânico, com latifúndios e socavões na retaguarda. A legião de parasitas que recebeu as notícias da independência dançando o minueto nos salões das cidades brindava pela liberdade de comércio com taças de cristal britânicas. Tornaram-se moda as mais altissonantes consignas republicanas da burguesia europeia: nossos países punham-se a serviço dos industriais ingleses e dos pensadores franceses. Mas que “burguesia nacional” era a nossa, formada pelos terras-tenentes, contrabandistas, mercadores, especuladores, politiqueiros de fraque e doutores desarraigados? A América Latina teve em seguida suas constituições burguesas, muito envernizadas de liberalismo, mas não teve, em troca, uma burguesia criativa, no estilo europeu ou norte-americano, que assumisse como missão histórica o desenvolvimento de um capitalismo nacional pujante. As burguesias destas terras nasceram como simples instrumentos do capitalismo internacional, prósperas peças da engrenagem mundial que sangrava as colônias e as semicolônias. Os burgueses de vitrine, usurários e comerciantes, que arrebataram o poder político, não tinham o menor interesse em impulsionar a ascensão das manufaturas locais, mortas no ovo quando o livre-câmbio abriu as portas para a avalanche de mercadorias britânicas. Por sua vez seus sócios, os donos de terras, não estavam interessados em resolver a “questão agrária”, a não ser na medida de suas próprias conveniências. O latifúndio se consolidou sobre a espoliação, tudo ao longo do século XIX. A reforma agrária, na região, foi uma bandeira precoce.
     Frustração econômica, frustração social, frustração nacional: uma história de traições seguiu-se à independência, e a América Latina, despedaçada por suas novas fronteiras, continuou condenada à monocultura e à dependência. Em 1824, Simón Bolívar expediu o Decreto de Trujillo para proteger os índios do Peru e reordenar ali o sistema da propriedade agrária: suas disposições legais em absoluto não afetaram os privilégios da oligarquia peruana, que a despeito dos bons propósitos do Libertador permaneceram intatos, e os índios continuaram tão explorados como sempre. No México, Hidalgo e Morelos já tinham sido derrotados, e decorreria ainda um século antes que rebrotassem os frutos de suas prédicas em favor da emancipação dos humildes e da reconquista das terras usurpadas.
     No sul, José Artigas encarnou a revolução agrária. Esse caudilho, com tanta fúria caluniado e tão desfigurado pela história oficial, liderou as massas populares dos territórios hoje ocupados pelo Uruguai e as províncias argentinas de Santa Fe, Corrientes, Entre Ríos, Misiones e Córdoba, no ciclo heroico de 1811 a 1820. Artigas quis lançar as bases econômicas, sociais e políticas de uma Pátria Grande nos limites do antigo Vice-Reinado do Rio da Prata, e foi o mais importante e lúcido dos chefes federais que lutaram contra o capitalismo aniquilador do porto de Buenos Aires. Lutou contra os espanhóis e contra os portugueses, e finalmente suas forças foram trituradas pelo jogo de pinças do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, instrumentos do império britânico, e pela oligarquia que, fiel ao seu estilo, traiu-o tão logo se sentiu traída pelo programa de reivindicações sociais do caudilho.
     Seguiam Artigas, lança na mão, os patriotas. Em sua maioria eram camponeses pobres, gaúchos rudes, índios que recuperavam na luta o sentido da dignidade, escravos que ganhavam a liberdade incorporando-se ao exército da independência. A revolução dos cavaleiros pastores incendiava a pradaria. A traição de Buenos Aires, que em 1811 deixara nas mãos do poder espanhol e das tropas portuguesas o território hoje ocupado pelo Uruguai, provocou o êxodo maciço da população para o norte. O povo em armas fez-se povo em marcha; homens e mulheres, velhos e crianças, abandonavam tudo no rastro do caudilho, uma caravana de peregrinos sem fim. No norte, junto do rio Uruguai, acampou Artigas com a cavalhada e as carroças, e no norte, pouco depois, estabelecia seu governo. Em 1815, Artigas controlava várias comarcas de seu acampamento de Purificación, em Paysandú. “Que acham que eu vi?”, narrava um viajante inglês [1]. “O Excelentíssimo Senhor Protetor de metade do Novo Mundo estava sentado numa cabeça de boi, junto de um fogo aceso no embarrado piso de seu rancho, comendo carne de espeto e bebendo gim num chifre de vaca! Rodeava-o uma dúzia de oficiais andrajosos (...)”. De todas as partes chegavam a galope soldados, ajudantes e exploradores. Caminhando com as mãos às costas, Artigas ditava os decretos revolucionários de seu governo. Dois secretários (não existia papel-carbono) tomavam nota. Assim nasceu a primeira reforma agrária da América Latina, que seria aplicada durante um ano na “Província Oriental”, hoje Uruguai, e que seria feita em pedaços por uma nova invasão portuguesa, quando a oligarquia abriu as portas de Montevidéu para o general Lecor, saudou-o como um libertador e o conduziu sob um pálio para um solene te déum – honra ao invasor – nos altares da catedral. Anteriormente, Artigas tinha promulgado também um regulamento alfandegário que fixava um oneroso imposto para mercadorias estrangeiras que concorressem com produtos das manufaturas e artesanatos locais, de considerável desenvolvimento em algumas regiões hoje argentinas e então compreendidas nos domínios do caudilho, ao mesmo tempo em que liberava a importação de bens de produção necessários ao desenvolvimento econômico e estipulava um gravame insignificante para os artigos americanos, como a erva e o tabaco do Paraguai [2]. Os coveiros da revolução também enterrariam o regulamento alfandegário. O código agrário de 1815 – terra livre, homens livres foi “a mais avançada e gloriosa constituição” [3] entre todas que os uruguaios chegariam a conhecer. As ideias de Campomanes e Jovellanos no ciclo reformista de Carlos III seguramente influenciaram o regulamento de Artigas, mas esse diploma, não menos seguramente, surgiu como uma resposta revolucionária à necessidade nacional de recuperação econômica e de justiça social. Decretava-se a expropriação e a partilha das terras dos “maus europeus e piores americanos” emigrados por causa da revolução e não indultados por ela. Confiscava-se a terra dos inimigos sem qualquer indenização, e aos inimigos pertencia, dado importante, a imensa maioria dos latifúndios. Os filhos não pagavam pela culpa dos pais: o regulamento lhes oferecia o mesmo que recebiam os patriotas pobres. As terras eram partilhadas de acordo com o princípio de que “os mais infelizes seriam os mais privilegiados”. Na concepção de Artigas, tinham os índios “o principal direito”. O sentido essencial dessa reforma agrária consistia na fixação dos pobres do campo à terra, convertendo em camponês o gaúcho acostumado à vida errante da guerra, às empresas clandestinas e ao contrabando em tempos de paz. Os governos posteriores na bacia do Prata vão abater o gaúcho a sangue e fogo, incorporando-o à força nas peonadas das grandes estâncias, ao passo que Artigas queria torná-lo um proprietário: “Os gaúchos alçados começavam a gostar do trabalho honrado, levantavam ranchos e mangueiras, plantavam suas primeiras sementeiras” [4].
     A intervenção estrangeira terminou com tudo. A oligarquia ergueu a cabeça e se vingou. Em seguida a legislação passou a desconhecer a validade das doações de terra feitas por Artigas. De 1820 até fins do século foram desalojados, a tiros, os patriotas pobres que tinham sido beneficiados pela reforma agrária. Não conservariam “outra terra além de suas tumbas”. Derrotado, Artigas se retirou para o Paraguai, para morrer tão só ao cabo de um longo exílio de austeridade e silêncio. Os títulos de propriedade que expediu não valiam nada: o fiscal do governo Bernardo Bustamante dizia, por exemplo, que se notava à primeira vista “a precariedade que caracteriza os indicados documentos”. Entrementes, seu governo se aprestava a celebrar, já restaurada a “ordem”, a primeira constituição do Uruguai independente, separado da pátria grande pela qual Artigas havia lutado em vão.
     O regulamento de 1815 continha disposições para evitar o acúmulo de terras em poucas mãos. Em nossos dias, o campo uruguaio oferece o espetáculo de um deserto: 500 famílias monopolizam a metade da terra total e constelação do poder – controlam também três quartas partes do capital investido na indústria e no sistema bancário [5]. Os projetos de reforma agrária se acumulam, uns sobre os outros, no cemitério parlamentar, enquanto o campo se despovoa: desempregados se somam a desempregados e há cada vez menos pessoas dedicadas às atividades agropecuárias, segundo o dramático registro de sucessivos censos. O país vive da lã e da carne, mas em seus campos, hoje, pastam menos ovelhas e reses do que no princípio do século. O atraso dos métodos de produção reflete-se nos baixos rendimentos da pecuária – sujeita à ação de touros e carneiros na primavera, às chuvas periódicas e à fertilidade natural do solo – e também na fraca produtividade das culturas agrícolas. A produção de carne por animal não chega nem à metade do que obtêm França ou Alemanha, e outro tanto ocorre com o leite em comparação com a Nova Zelândia, Dinamarca e Holanda; cada ovelha rende um quilo de lã a menos do que na Austrália. O rendimento do trigo por hectare é três vezes menor do que o da França, e no milho o rendimento dos Estados Unidos é sete vezes maior do que o do Uruguai [6]. Os grandes proprietários, que encaminham seus lucros para o exterior, passam seus verões em Punta del Este, e tampouco no inverno, de acordo com suas próprias tradições, moram em suas terras e só de vez em quando as visitam em seus aviões: há um século, quando foi fundada a Associação Rural, duas terças partes de seus membros tinham já seus domicílios na capital. A produção extensiva, obra da natureza e de peões famélicos, não implica maiores dores de cabeça.
     E seguramente dá lucro. As rendas e os lucros dos capitalistas pecuários, na atualidade, somam não menos de 75 milhões de dólares [7]. Os rendimentos produtivos são baixos, mas os benefícios são altos, por causa dos baixíssimos custos. Terra sem homens, homens sem terra: os maiores latifúndios empregam – e não no ano todo apenas duas pessoas por cada mil hectares. Nos rancherios à margem das estâncias se acumulam, miseravelmente, as reservas sempre disponíveis de mão de obra. O gaúcho das estampas folclóricas, tema de pinturas e poemas, têm pouco a ver com o peão que trabalha em extensas e alheias terras. As alpargatas desfiadas tomaram o lugar das botas de couro; um cinto comum, ou às vezes uma simples corda, substituiu o largo cinturão com enfeites de ouro e prata. Quem produz a carne perdeu o direito de comê-la: os criollos raramente têm acesso ao típico assado criollo, a carne suculenta e macia a dourar nas brasas. Embora as estatísticas internacionais sorriam exibindo médias enganosas, a verdade é que o ensopado, guisado de macarrão e tripas de capão, constitui a dieta básica, carente de proteínas, dos camponeses do Uruguai [8].

continua na página 197...
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[1] ROBERTSON, J. P. e G. P. La Argentina en la época de la revolución. Cartas sobre el Paraguay. Buenos Aires, 1920.
[2] REYES ABADIE, Washington, BRUSCHERA, Óscar & MELOGNO, Tabaré. El ciclo artiguista. Montevideo, 1968. t.4.
[3] TORRE, Nelson de la, RODRÍGUEZ, Julio C. & TOURON, Lucía Sala de. Artigas: TIERRA Y REVOLUCIÓN. Montevideo, 1967.
[4] TORRES, RODRÍGUEZ & TOURON, op. cit. Dos mesmos autores: Evolución económica de la Banda Oriental. Montevideo, 1967, e Estructura económico social de la colonia. Montevideo, 1968.
[5] TRIAS, Vivian. Reforma agraria en el Uruguay. Montevideo, 1962. Este livro constitui todo um prontuário, família por família, da oligarquia uruguaia
[6] GALEANO, Eduardo. “Uruguay: promise and betrayal”. In: Latin America: reform or revolution? Ed. J. Petras & M. Zeitlin. New York, 1968.
[7] INSTITUTO DE ECONOMÍA. El proceso económico del Uruguay. Contribución al estudio de su evolución y perspectivas. Montevideo, 1969. Na época do auge da indústria nacional, fortemente subsidiada e protegida pelo Estado, boa parte dos lucros do campo derivou para as fábricas que nasciam. Quando a indústria entrou em seu agônico ciclo de crises, os excedentes de capital da pecuária tomaram outras direções. As mais inúteis e luxuosas mansões de Punta del Este brotaram da desgraça nacional; a especulação financeira desencadeou, depois, a febre dos pescadores no revolto rio da inflação. No entanto, os capitais principalmente fugiram: os capitais e os lucros que, ano após ano, o país produz. Entre 1962 e 1966, segundo dados oficiais, 250 milhões de dólares voaram do Uruguai rumo aos seguros bancos da Suíça e dos Estados Unidos. Também os homens, os homens jovens, há vinte anos vieram do campo para a cidade oferecer seus braços à indústria em desenvolvimento e hoje partem, por terra e por mar, para o estrangeiro. É claro que seus destinos são diferentes. Os capitais são recebidos de braços abertos; quanto aos peregrinos, enfrentam uma vida dura o desenraizamento e as intempéries, a incerteza da aventura. O Uruguai de 1970, estremecido por uma crise feroz, já não é o mitológico oásis de paz e progresso que era prometido aos imigrantes europeus, mas um país turbulento que condena ao êxodo seus próprios habitantes. Produz violência e exporta homens tão naturalmente como produz e exporta carne e lã.
[8] WETTSTEIN, German & RUDOLF, Juan. La sociedad rural. In: coleção Nuestra Tierra (16), Montevideo, 1969.
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Primeira Reforma Agrária da América Latina (19)

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (VII.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

VII
 continuando...

     As mulheres deliravam; a de Maheu saindo da sua calma, presa da vertigem da fome; a de Levaque gritando; a velha Queimada, fora de si, agitando seus braços de bruxa; Philomene, sacudida por um acesso de tosse; e a filha de Mouque, num delírio, gritava palavras cheias de ternura para o orador.
     Dos homens, Maheu, conquistado, soltara um grito de cólera, entre Pierron, que tremia, e Levaque, que falava demais; os galhofeiros, Zacharie e o jovem Mouque, tentavam fazer graça, mas sentiam-se comovidos, admirados com o companheiro que pudera falar tanto tempo sem molhar a garganta. Mas era Jeanlin, encarapitado no monte de madeira, quem fazia mais estardalhaço, açulando Bébert e Lydie, agitando o cesto onde jazia Polônia. 
     O clamor era cada vez mais intenso. Etienne saboreava a embriaguez de sua popularidade. Era o seu poder que ele detinha ali, como que materializado naqueles três mil peitos, cujos corações fazia bater com uma palavra. Se Suvarin se tivesse dignado a vir, teria aplaudido suas ideias, à medida que as fosse reconhecendo, contente com os progressos anarquistas de seu discípulo, satisfeito com o programa, salvo o artigo sobre a instrução, um resto de tolice sentimental, já que a santa e salutar ignorância devia ser o banho de onde os homens surgiriam com nova têmpera. Quanto a Rasseneur, dava de ombros com desdém e cólera. 

— Tu vais deixar-me falar ou não? — gritou ele para Etienne. 

     Este saltou do tronco de árvore. 

— Fala, veremos se te escutam...

     Já Rasseneur o tinha substituído e pedia silêncio com um gesto. O barulho era cada vez maior; seu nome corria das primeiras fileiras, onde tinha sido reconhecido, às últimas, espalhadas por entre as faias. A multidão recusava-se a ouvi-lo, era um ídolo caído cuja vista bastava para enfurecer seus antigos fiéis. Sua elocução fácil, sua palavra cascateante e simpática, que por tanto tempo havia encantado, era chamada agora de tisana morna, para adormecer os covardes. Quis fazer o discurso de apaziguamento que trazia preparado sobre a impossibilidade de transformar o mundo mediante leis, sobre a necessidade de deixar à evolução social o tempo para amadurecer, mas ninguém lhe deu ouvidos; vaiaram-no, mandaram que se calasse; sua derrota do Bon-Joyeux agravou-se, tornou-se irremediável. Começaram a jogar punhados de musgo com gelo, uma mulher gritou com voz esganiçada: 

— Abaixo o traidor!

     Mas ele continuou explicando que a mina não podia ser propriedade dos mineiros, como é o tear do tecelão; declarou preferir a participação nos lucros, o operário interessado, transformado em filho da casa. 

— Abaixo o traidor! — repetiram mil vozes, enquanto as pedras começavam a voar.

     Nesse momento ele empalideceu e o desespero encheu seus olhos de lágrimas. Era o desmoronamento de sua existência, vinte anos de companheirismo ambicioso que afundavam sob a ingratidão das massas. Desceu do tronco com o coração despedaçado, sem forças para continuar. 

— Isso te faz rir? — balbuciou ele, dirigindo-se a Etienne triunfante. — Muito bem, desejo o mesmo para ti... Tua hora chegará, ouviste?

     E, como para eximir-se da responsabilidade nas desgraças que previa, fez um grande gesto e partiu sozinho através da campina muda e branca.
     A vaia continuava; todos ficaram surpresos ao verem em pé sobre o tronco o velho Boa-Morte, que falava sem levar em conta a gritaria. Até ali, Mouque e ele tinham-se conservado absortos, com aquele jeito deles, parecendo que estavam refletindo sobre coisas passadas. Sem dúvida entrara numa dessas crises repentinas de tagarelice, que às vezes mexiam tão violentamente com o seu passado fazendo que às lembranças viessem aos seus lábios aos borbotões e por horas a fio. Fizera-se um grande silêncio, todos escutavam aquele velho de uma palidez de espectro sob a lua. E, como ele contava coisas sem ligação imediata com o assunto em pauta, longas histórias que ninguém podia compreender, a emoção aumentou.
     Era da sua juventude que falava; narrava a morte dos seus dois tios esmagados na Voreux, a história da pneumonia que lhe carregara a mulher Mas a sua ideia central estava sempre presente no que dizia aquilo nunca andara bem e jamais andaria. Uma vez, tinham reunido quinhentos homens na floresta, porque o rei não queria diminuir a horas de trabalho. Em seguida, começou a contar a história de outra greve: vira tantas! Todas vinham desaguar sob tais árvores, aqui, no Plan-des-Dames, além, na Charbonnerie, ou mais longe ainda, no Saut-du-Loup. Em certas ocasiões fazia frio, em outras, calor. Uma noite chovera tanto que voltaram para casa sem poder falar. E os soldados do rei apareciam e as reuniões eram dispersadas a tiros. 

— Levantávamos a mão, assim, jurávamos não mais voltar à mina... Eu jurei muitas vezes, ah! se jurei!...

     A multidão escutava atônita, inquieta, quando Etienne, que acompanhava a cena, saltou para cima da árvore abatida e manteve o velho ao seu lado. Acabava de divisar Chaval entre os amigos da primeira fila. A ideia de que Catherine devia estar lá enchera-o de novo entusiasmo, da necessidade de ser aclamado diante dela.

— Camaradas, vocês ouviram bem o que ele disse. Aqui está um dos nossos anciãos, que falou dos seus sofrimentos e do que sofrerão nossos filhos, se não exterminarmos com os ladrões e os algozes.

     Foi terrível, nunca falara com tamanha violência. Com um braço ele segurava o velho Boa-Morte, empunhando-o como uma bandeira de miséria e de luto, clamando por vingança. Em frases rápidas referiu-se ao primeiro Maheu, citou toda aquela família gasta na mina, devorada pela companhia, continuando faminta após cem anos de trabalho. E, como contraponto, falou em seguida dos barrigas-cheias da administração, que suavam dinheiro, de toda a quadrilha de acionistas que, como manteúdos, viviam havia um século de não fazerem nada, apenas desfrutando dos corpos dos mineiros. Então não era horrível que toda uma população de mineiros, de pai para filho, rebentasse-se no fundo da terra, para que ministros pudessem receber seu dinheiro por baixo da mesa e gerações de fidalgos e burgueses dessem festas ou engordassem placidamente sentados junto à lareira? Estudara as doenças dos mineiros, citou todas com detalhes horripilantes: anemia, escrofulose, bronquite negra, asma sufocante, reumatismo que paralisa. Esses miseráveis, que serviam de pasto às máquinas, que eram encurralados como gado nos conjuntos habitacionais, as grande companhias absorviam aos poucos, regularizando assim a escravidão ameaçando arregimentar todos os trabalhadores de uma nação milhões de braços, para enriquecer um milhar de preguiçosos. Mas o mineiro não era mais o ignorantão, a besta esmagada nas entranhas da terra. Um verdadeiro exército brotava das profundezas das galerias, uma messe de cidadãos cuja semente germinava e faria estalar o chão num dia ensolarado. Saber-se-ia então se, no fim de quarenta anos de serviço, alguém se atreveria a oferecer cento e cinquenta francos de aposentadoria a um velho de sessenta anos que escarrava hulha e tinha as pernas minadas pela água dos veios. Sim! o trabalho acertaria suas contas com o capital, esse deus impessoal, desconhecido do operário, agachado em algum lugar, no mistério do seu tabernáculo, de onde sugava a vida dos mortos de fome que o alimentavam! Sim! iriam até ele, acabariam vendo sua cara à luz dos incêndios, afogariam em sangue esse porco imundo, esse ídolo monstruoso, empanturrado de carne humana!
     Calou-se, mas seu braço continuou estendido, apontando para o inimigo ao longe, não sabia onde ao certo, mas espalhado por toda a terra. Desta vez o clamor da multidão foi tão violento, que os burgueses de Montsou ouviram-no e olharam para os lados de Vandame, com medo de que fosse algum desabamento formidável. Os pássaros noturnos começaram a voar por cima do arvoredo, ao luar.
     Etienne quis concluir imediatamente: 

— Camaradas, qual é a decisão de vocês? Votam pela continuação da greve? 
— Sim! Sim! — gritaram todos. 
— E que medidas querem tomar? Nossa derrota é certa se alguns covardes decidirem trabalhar amanhã.

     As vozes voltaram num hausto de tempestade: 

— Morte aos covardes! 
— Vocês decidem então chamá-los ao dever, ao que foi jurado... Este é o plano que poderíamos pôr em prática: apresentarmo-nos nas minas e, com a nossa presença, trazer os traidores à ordem, mostrar à companhia que estamos todos de acordo e preferimos morrer a ceder. 
— É isso mesmo! Às minas! Às minas!

     Desde que começara a falar, Etienne procurava Catherine entre as cabeças pálidas que marulhavam à sua frente. Era certo que ela era. Mas Chaval continuava ali, dando de ombros e fingindo rir, devorado pela inveja, pronto a vender-se por um pouco daquela popularidade. 

— E se há espiões entre nós, camaradas, eles que tomem cuidado, nós já sabemos quem são... — continuou Etienne. — Sim, porque estou vendo mineiros de Vandame que não abandonaram o trabalho. 
— Isso é para mim? — perguntou Chaval com bravata. 
— É para aqueles a quem servir a carapuça... Mas, já que falas, devias compreender que aqueles que comem não deviam meter-se com os que têm fome. E tu trabalhas na Jean-Bart...

     Uma voz zombeteira o interrompeu: 

— Ele trabalha? Tem é uma mulher que trabalha para ele, isso sim...

     Chaval, de rosto afogueado, praguejou: 

— Vão para o inferno! Então é proibido trabalhar? 
— É! — gritou Etienne. — Quando os camaradas estão passando miséria para o bem de todos, é proibido ser egoísta e hipócrita e pôr-se do lado do patrão. Se a greve fosse geral, há muito tempo teríamos vencido... Então é correto que mesmo um único homem de Vandame se apresente ao trabalho enquanto Montsou está em greve? O grande golpe seria ter parado o trabalho em toda a região, tanto na mina de Deneulin como aqui, entendes? Só há traidores nos veios de Jean-Bart, todos vocês são uns traidores!

     Em torno de Chaval a turba estava ficando ameaçadora, punhos erguiam-se aos gritos de "Morra! Morra!", cada vez mais próximos; ele sentiu que o sangue lhe gelava nas veias, mas, no seu ódio a Etienne, na sua ânsia de vencê-lo, uma ideia fez que se aprumasse. 

— Escutem! Vão amanhã a Jean-Bart e vocês verão se eu trabalho!... Nós somos dos de vocês, mandaram-me aqui para dizer isto. É preciso apagar as caldeiras, é preciso que também os mecânicos entrem em greve. Tanto melhor se as bombas pararem, a água inundará as galerias e tudo irá para o inferno!

     Por sua vez ele foi furiosamente aplaudido, o próprio Etienne ficou ultrapassado. Sucediam-se os oradores no tronco da árvore, gesticulando no meio da gritaria, lançando propostas terríveis. Era o ataque de loucura da fé, a impaciência de uma seita religiosa que, cansada de esperar pelo milagre prometido, decidira-se finalmente a provocá-lo. As cabeças enfraquecidas pela fome enxergavam vermelho, sonhavam com incêndios e sangue em meio a uma glória de apoteose, de onde subia a felicidade universal. E a lua, tranquila banhava aquele mar agitado, a floresta imensa cingia com seu grande silêncio aquele grito de massacre. Só a relva gelada estalava sob os sapatos, enquanto as faias, eretas na sua força, com a delicada ramagem dos seus galhos negros, engastados no céu branco, não viam nem ouviam os seres miseráveis que se agitavam a seus pés.
     Todos se empurravam, a mulher de Maheu, de repente, encontrou se ao lado do marido, e ambos fora de si, arrebatados pela lenta exasperação que havia meses os minava, aprovavam Levaque, que exagerava, pedindo a cabeça dos engenheiros. Pierron tinha desaparecido. Boa-Morte e Mouque falavam ao mesmo tempo, diziam coisas vagas e violentas que ninguém compreendia. Por brincadeira, Zacharie pedia a demolição das igrejas, enquanto o jovem Mouque batia com o seu taco no chão, só para aumentar a barulheira. As mulheres pareciam possessas: a de Levaque, de mãos nos quadris, insultava Philomène, que ela acusava de ter rido; a filha de Mouque falava em descadeirar os policiais a pontapés em certo lugar; a Queimada, que acabava de espancar Lydie, ao encontrá-la sem cesto e sem salada, continuava a dar bofetões no vazio, em todos os patrões que ela gostaria de apanhar. Por um instante Jeanlin ficara assustado, quando Bébert lhe disse que soubera por um outro menino que a mulher de Rasseneur os vira roubando Polônia, mas, depois de decidir que iria furtivamente soltar o animal na porta do Avantage, gritou mais forte ainda, abrindo sua faca nova e brandindo-a para todos os lados, sentindo-se glorioso ao vê-la brilhar. 

— Camaradas! Camaradas! — repetia Etienne exausto, rouco, tentando obter um minuto de silêncio para se entenderem definitivamente.

     Por fim calaram para escutá-lo. 

— Camaradas! Amanhã de manhã na Jean-Bart. Está combinado? 
— Sim, sim, na Jean-Bart! Morram os traidores!

     O furacão daquelas três mil vozes encheu o céu, indo extinguir-se na claridade pura da lua.

continua na página 254...
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Quarta Parte - (VI.b) / Quarta Parte - (VII.a)Quarta Parte - (VII.b) /    
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / V — Pobreza, boa vizinha da miséria

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     V — Pobreza, boa vizinha da miséria

             Mário sentia grande predileção por esse velho cândido, que se via lentamente surpreendido pela indigência, o que lhe causava pouco a pouco um certo espanto sem contudo se entristecer.
     Mário encontrava Courfeyrac e procurava Mabeuf. Isto era contudo raro; sucedia, quando muito, uma ou duas vezes no mês.
     Mário gostava de dar longos passeios solitários pelos boulevards exteriores, ou pelo campo de Marte ou pelas ruas menos frequentadas do Luxemburgo. As vezes passava uma tarde inteira a olhar para uma horta, para os canteiros de cebolas, a ver esgaravatar as galinhas ou um cavalo a mover a roda de uma nora. Os que passavam contemplavam-no maravilhados e alguns achavam-lhe um aspecto suspeito e até sinistro. E ele não era mais do que um mancebo pobre, meditando ao acaso.
     Foi num desses passeios que ele descobriu o casebre Gorbeau, e como o tentasse o isolamento do lugar e o baixo preço da casa, alugou-a, sendo conhecido nela só pelo nome de senhor Mário.
     Alguns dos antigos generais ou dos antigos camaradas de seu pai, depois que souberam quem ele era, convidaram-no a ir visitá-los e Mário não recusava, porque eram ocasiões de falar de seu pai. Deste modo ia de tempos a tempos visitar o conde de Pajol, o general Bellavesne, o general Fririon, que estavam nos Inválidos. Tocava-se, cantava-se, e Mário nessas noites vestia o seu conjunto de casaco e calças dos dias solenes. Porém nunca ia a tais reuniões nem a tais bailes senão quando tudo estava coberto de geada, porque não podia pagar o aluguel de uma carruagem e queria chegar com as botas como espelhos.
     Nas horas de amargura, dizia ele algumas vezes: 

— Os homens são de tal modo organizados, que numa sala poder-se-á estar enlameado em toda a parte, menos nas botas. Numa sala ninguém nos exige, para sermos recebidos, senão uma coisa irrepreensível. Não é a consciência, são as botas.

     Todas as paixões, a não ser as do coração, se dissipam com o hábito da meditação. Foi assim que as febres políticas de Mário se desvaneceram A revolução de 1830 concorrera também para isso, satisfazendo-o e pacificando-o. Ficava o mesmo, menos, porém, quanto às suas iras, porque tinha ainda as mesmas opiniões, apenas algum tanto modificadas. Em rigor, o mancebo não tinha opiniões, tinha simpatias. De que partido era ele? Do partido da humanidade. De entre a humanidade, porém, escolhia a França; de entre a nação, o povo; de entre o povo, a mulher. Era para ela que a sua compaixão tendia principalmente. Atualmente preferia uma ideia a um fato, um poeta a um herói e ainda admirava mais um livro como Job do que um acontecimento como Marengo. Além disto, quando após um dia de meditação, voltava à noite pelos boulevards, e por entre os ramos das árvores divisava o espaço sem fundo, os clarões sem nome, o abismo, a escuridão, o mistério, tudo o que simplesmente é humano lhe parecia bem pequeno.
     Ele supunha ter, e talvez tivesse efetivamente, atingido a realidade da vida e da filosofia humana, chegando por fim a não contemplar senão o céu, única coisa que a verdade pode ver do fundo do seu poço.
     Todavia, isto não obstava a que ele multiplicasse os seus planos, combinações, castelos no ar e projetos de futuro. No estado de abstração em que andava, quem lhe tivesse devassado o que dentro dele se passava ficaria maravilhado da pureza daquela alma.
     Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consciência dos outros, julgaríamos com mais segurança um homem pelo que ele devaneia do que pelo que ele pensa. O pensamento é dominado pela vontade, o devaneio não. O devaneio, que é absolutamente espontâneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso espírito. Não há coisa que mais direta e profundamente saia do fundo da nossa alma do que as nossas aspirações irrefletidas e desmesuradas para esplendores do destino. Nestas aspirações é que se pode descobrir o verdadeiro carácter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras são o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o incógnito e o impossível, conforme a sua natureza.
     Por meados do ano de 1831, a velha que o servia, contou a Mário que iam ser postos na rua os seus mesquinhos vizinhos Jondrette. Mário, que quase era hóspede em casa, mal sabia que tinha vizinhos. 

— Porque os põem na rua? — perguntou ele. 
— Por não pagarem a renda, de que já devem dois meses. 
— E a quanto montam os alugueres vencidos? 
— A vinte francos — respondeu a velha. 
— Pegue lá — disse-lhe o mancebo. — Aí tem vinte e cinco francos. Pague o aluguel dessa pobre gente, dê-lhe os cinco francos e não diga que sou eu.

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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - V — Pobreza, boa vizinha da miséria 
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira