A Montanha Mágica
Capítulo VII
A grande irritação
Durante o regresso e mais tarde, Hans Castorp teve momentos em que se sentia tomado
de vertigens diante da monstruosidade daquilo que tinham à sua frente; sobretudo quando se
manifestou que Naphta não queria saber de floretes ou de sabres, senão insistia num duelo a
pistola, e que realmente lhe cabia escolher as armas, já que, segundo os conceitos do código de
honra, era ele o ofendido. Houve, pois, momentos em que o jovem conseguiu até certo ponto
libertar-se daquele espírito que lavrava no ambiente, envolvendo e perturbando a todos. Dizia-se
então que aquilo era rematada loucura e devia ser evitado.
– Se, pelo menos, houvesse uma ofensa real! – exclamou numa conversa com os senhores
Settembrini e Ferge, e com Wehsal, a quem Naphta, já durante a viagem de volta, escolhera para
padrinho e que servia de intermediário entre as partes. – Um insulto de caráter meramente
convencional! Se o nome honrado de um fosse enxovalhado pelo outro, se se tratasse de uma
mulher ou de qualquer outro ponto vital, de uma situação em que não se visse nenhuma outra
possibilidade de compensação! Bem, num caso desses existe o duelo como último recurso.
Depois, quando se lavou a honra, quando tudo terminou sem grandes danos e se verifica que “os
adversários se separaram reconciliados”, pode-se até opinar que se trata de uma boa instituição,
de uma coisa salutar e prática em certos casos complicados. Mas que fez Naphta, afinal?
Absolutamente não quero defendê-lo. Pergunto apenas: que fez ele para ofender o senhor? Ele
derrubou as categorias. Privou, segundo a sua própria expressão, as ideias da sua dignidade
acadêmica. O senhor sentiu-se ofendido por isso. Com razão, vamos admiti-lo...
– Admiti-lo? – repetiu o Sr. Settembrini, encarando-o.
– Com razão, com razão! Ele ofendeu o senhor com isso. Mas não o insultou. Aí está a
diferença, permita-me que o diga! Trata-se de coisas abstratas, espirituais. Com coisas espirituais
pode-se ofender, mas não insultar uma pessoa. Esse é um axioma que todos os tribunais de
honra aceitariam, posso lhe garantir. E pelo mesmo motivo não há tampouco um insulto naquela
resposta do senhor, em que falou de “infâmia” e de “castigar devidamente”, já que também esses
termos estavam sendo empregados em sentido espiritual. Tudo se mantinha na esfera espiritual e
nada tinha que ver com a esfera pessoal. O espiritual nunca pode ser pessoal; este é o
complemento e a interpretação do axioma, e por isso...
– O senhor está enganado, caro amigo – replicou o Sr. Settembrini com os olhos
fechados. – Está enganado em primeiro lugar ao afirmar que o espiritual não pode assumir
caráter pessoal. O senhor não deveria pensar assim – continuou com um sorriso singularmente
frouxo e doloroso. – Antes de tudo, porém, equivoca-se na apreciação que faz do espírito em
geral, que evidentemente considera demasiado fraco para provocar conflitos e paixões da mesma
intensidade daqueles que acarreta a vida real e que não toleram outra solução que não a luta
armada. All’ incontro! O elemento abstrato, purificado, ideal, é ao mesmo tempo o absoluto, é o
que há de realmente rigoroso e encerra em si possibilidades muito mais profundas e mais radicais
de ódio, de oposição irrestrita e irreconciliável, do que a vida social. Admira-se o senhor ao ver
que o abstrato conduz, por caminhos mais diretos e mais inelutáveis do que esta, à situação em
que se trata de “um de nós dois, tu ou eu”, a situação propriamente radical, a do duelo, da luta
corporal? O duelo, meu amigo, não é uma “instituição” como qualquer outra. É um último
recurso, é a volta ao estado primevo da natureza, apenas levemente suavizada por certo código
cavalheiresco que não deixa de ser superficial. O característico dessa situação é o seu cunho
totalmente primitivo, a luta corporal, e cabe a todo homem, por mais que se distancie da
natureza, manter-se preparado para essa emergência. Ela pode ocorrer a qualquer instante. Quem
não é capaz de arriscar a vida, o braço, o sangue na defesa de um ideal não é digno dele. Em que
pese a nossa espiritualização, cumpre sermos homens.
Dessa forma, Hans Castorp recebera uma lição. Que se podia opor a isso? O jovem
permaneceu calado, meditando com o coração opresso. As palavras do Sr. Settembrini fingiam
ser calmas e lógicas, e todavia soavam estranhas, pouco naturais na sua boca. Esses pensamentos
não eram seus, como tampouco fora ele quem tivera a idéia do duelo, senão a aceitara daquele
terrorista que era o pequeno Naphta. Eram, sim, a expressão da mentalidade reinante em toda
parte, e que se apossara também de Settembrini, reduzindo a sua bela inteligência ao papel de seu
servo e instrumento. Mas como? O espírito, por ser rigoroso, deveria conduzir, inexoravelmente,
à bestialidade, à solução encontrada por meio da luta corporal? Hans Castorp.revoltava-se contra
essa concepção, ou melhor, tentava revoltar-se; e para maior espanto seu, verificava que também
ele era incapaz de fazê-lo. Também no seu próprio íntimo, ela se mostrava forte, essa
mentalidade, e ele tampouco era talhado para distanciar-se dela. Daquela zona das suas
recordações onde Wiedemann e Sonnenschein, desnorteados, se revolviam numa contenda
bestial, vinha-lhe uma inspiração tremenda, definitiva, e com horror percebia Hans Castorp que
ao fim de todas as coisas não restavam outros meios a não ser os do corpo, as unhas e os dentes.
Sim, sim, parecia necessário bater-se, porquanto assim se podia garantir aquela suavização do
estado primevo por meio do código cavalheiresco... E o jovem ofereceu ao Sr. Settembrini seus
serviços como padrinho.
Sua oferta foi rejeitada. Não, isso não convinha; não podia ser, foi a resposta que recebeu,
primeiramente do próprio Settembrini com um sorriso macio e doloroso, e, a seguir, após um
momento de reflexão, também de Ferge e de Wehsal, sem que ninguém justificasse essa opinião.
Achavam impossível Hans Castorp assistir ao duelo nessa função. Talvez pudesse ele comparecer
ao campo de luta como árbitro, pois a presença de uma pessoa com esse encargo estava prevista
nas regras cavalheirescas, destinadas a suavizar a bestialidade. O próprio Naphta, pela boca de
Wehsal, seu representante em assuntos de honra, manifestou-se nesse sentido, e Hans Castorp
conformou-se com isso. Padrinho ou árbitro, fosse o que fosse, em todo caso teria uma
oportunidade para exercer influência sobre as modalidades do combate, coisa que se manifestou
sumamente necessária.
As propostas de Naphta ultrapassavam todos os limites. Exigiu ele cinco passos de
distância e três trocas de balas, no caso de se tornar preciso. Na mesma noite do incidente
mandou transmitir essa loucura por Wehsal, que se identificava por completo com a tarefa de ser
porta-voz e representante dos caprichos selvagens do jesuíta e se aferrava a tais condições ora
porque recebera ordem de agir assim, ora porque correspondiam ao seu próprio gosto.
Settembrini, naturalmente, nada tinha que objetar, mas Ferge, como seu padrinho, e Hans
Castorp, o árbitro, mostraram-se indignados. Este chegou mesmo a ralhar com o desgraçado
Wehsal. Não tinha vergonha – perguntou – de trazer à baila essas sugestões desumanas e
antipáticas, embora se tratasse de um duelo puramente convencional, sem base em nenhum
insulto real? A exigência das pistolas já era muito forte, mas esses pormenores sanguinários eram
o cúmulo. Aí não se podia mais falar em espírito cavalheiresco. Por que não atirariam logo à
queima-roupa? Para Wehsal era fácil manifestar tamanha sede de sangue, porque não seria contra
ele que se daria um tiro de cinco metros de distância. E assim por diante. Wehsal encolheu os
ombros, indicando pelo seu silêncio que se achavam numa situação radical, e desarmando dessa
forma os seus oponentes, inclinados a esquecer esse fato. Mesmo assim conseguiram estes, no
decorrer das negociações do dia seguinte, reduzir as três trocas de tiros a uma única e chegar a
um acordo na questão da distância: os combatentes ficariam separados um do outro por quinze
passos e teriam o direito de avançar cinco passos antes de atirar. Mas também essa concessão não
foi obtida senão pela promessa de que não se fariam tentativas de reconciliação. Descobriram
então que nenhum deles possuía pistolas.
O Sr. Albin, porém, tinha. Além do pequeno e lustroso revólver, com o qual gostava de
assustar as senhoras, dispunha ainda de um par de pistolas de oficial, fabricadas na Bélgica e
guardadas num estojo comum. Eram Brownings automáticas com coronhas de madeira marrom,
que continham os depósitos das balas, com um mecanismo de aço azulado e com canos polidos,
sobre cujas bocas se achavam as miras. Em outra ocasião, Hans Castorp vira essas armas nas
mãos do fanfarrão, e contra as suas próprias convicções, por puro senso de imparcialidade,
ofereceu-se para pedi-las emprestado. E assim fez, não escondendo a finalidade em si, mas
envolvendo-a naquele segredo peculiar aos casos de honra e invocando, com êxito fácil, a
discrição cavalheiresca do rapaz. O Sr. Albin mesmo lhe ensinou como carregar as armas e
disparou-as diversas vezes ao ar livre, a título de experiência.
Tudo isso requereu tempo, e assim sucedeu que até a data do encontro transcorreram
dois dias e três noites. O lugar do duelo tinha sido proposto por Hans Castorp: era aquele sítio
pitoresco, que no verão se cobria de flores azuis, e onde o jovem costumava retirar-se para
“reinar”. Era ali que; na terceira manhã após a desinteligência, se liquidaria a querela, logo que
houvesse bastante luz. Somente na véspera, a altas horas da noite, Hans Castorp, que andava
muito nervoso, teve a ideia de que era necessário levar um médico ao campo de luta.
Foi imediatamente deliberar com Ferge sobre esse problema cuja solução se apresentou
bem difícil. Verdade era que Radamanto pertencera a um grêmio de estudantes que mantinha o
código de duelo, mas parecia impossível pedir ao chefe do estabelecimento que desse o seu apoio
a semelhante ato ilegal, tanto mais que se tratava de doentes. De modo geral, havia pouca
esperança de encontrar em Davos um médico que se dispusesse a assistir a um duelo a pistola
entre dois homens gravemente enfermos. No que se referia a Krokowski, não se sabia ao certo se
esse espírito refinado tinha muita prática na medicação de ferimentos.
Wehsal, igualmente consultado, declarou que Naphta já se opusera à presença de um
médico, alegando que não ia ao lugar do duelo para ser untado e pensado, mas para bater-se e
fazê-lo seriamente. Pouco se lhe dava o que acontecesse depois. Isso ficaria para mais tarde.
Embora essas palavras parecessem sinistras, Hans Castorp esforçou-se por interpretá-las no
sentido de que Naphta era intimamente de opinião que não haveria necessidade de um médico.
Não respondera também Settembrini, interpelado por Ferge, que achava melhor abandonar a
idéia, uma vez que não lhe interessava? Não era totalmente insensato esperar que os adversários,
no fundo do coração, tivessem ambos a intenção de não causar derramamento de sangue.
Haviam dormido duas noites desde aquela rixa, e tinham à sua frente uma terceira. O tempo
aclara o ambiente e arrefece os ânimos. Não há exaltação que resista à corrente das horas, sem
sofrer alterações. Amanhã de madrugada, com a arma na mão, nenhum dos dois brigões seria o
mesmo homem que fora na tarde do incidente. Agiriam automaticamente, sob o ditame da honra,
e não por viva e espontânea vontade, como teriam feito se tivessem agido na própria ocasião.
Deveria ser possível evitar que renegassem o seu espírito atual, a favor daquilo que pertencia ao
passado.
Hans Castorp não se enganava nessas suas reflexões; quer dizer que não se enganava num
sentido que jamais poderia ter imaginado. Tinha até perfeitamente razão no que tocava ao Sr.
Settembrini. Porém, se houvesse previsto em que sentido Leo Naphta no decorrer do tempo ou
no próprio momento decisivo modificaria os seus desígnios, nem sequer a situação íntima em que
tudo isso tinha a sua origem teria sido capaz de induzi-lo a admitir o que estava se preparando.
Às sete horas da manhã, o sol estava longe de surgir atrás da sua montanha, mas o dia
raiava penosamente por entre as brumas, quando Hans Castorp, após uma noite inquieta, saía do
Sanatório Berghof, a fim de se encaminhar ao lugar do encontro. As criadas que limpavam o
vestíbulo olharam-no com surpresa. No entanto achou aberto o portão principal. Ferge e Wehsal,
juntos ou separadamente, já o tinham transposto, um para guiar Settembrini e o outro para
acompanhar Naphta ao campo de combate. Hans Castorp ia sozinho, visto a sua função de
árbitro não lhe permitir associar-se a nenhuma das partes.
Ia maquinalmente, sob a coação da honra, forçado pelas circunstâncias. Era natural e
necessário que ele assistisse ao duelo. Seria impossível manter-se afastado a aguardar o resultado
na cama, em primeiro lugar porque... Mas o jovem, ao invés de desenvolver o primeiro motivo,
logo acrescentou o segundo: não se devia deixar que as coisas chegassem a seu termo. Por
enquanto não acontecera nada de grave, graças a Deus, e não era inevitável, era até mesmo
inverossímil que algo de grave acontecesse. Tiveram de se levantar à luz artificial e de sair, sem
terem tomado café, para reunir-se ao ar livre, no frio cortante da madrugada, já que assim havia
sido combinado. Mas Hans Castorp pensava que depois, sob o influxo da sua própria presença,
tudo tomaria rumos mais favoráveis e menos tristes, não se podia antever de que modo, e que era
melhor não querer adivinhar, porquanto a experiência ensinava que mesmo os mais simples dos
acontecimentos sempre transcorriam de forma diferente à antecipada pela imaginação.
Ainda assim, era a manhã mais desagradável de todas de que se recordava. Hans Castorp
sentia-se lasso e tresnoitado; seus dentes tendiam a bater nervosamente. Não precisava inquirir
seu íntimo para desconfiar dos pensamentos com que acabava de tranquilizar-se. Os tempos que
corriam eram tão invulgares... A senhora de Minsk, arruinada pela cólera, o colegial enfurecido,
Wiedemann e Sonnenschein, a história das bofetadas polacas – tudo isso se revolvia
confusamente no seu cérebro. Não podia imaginar que à sua frente, na sua presença, dois
homens fossem trocar tiros e derramar o sangue um do outro. Mas quando se lembrava do que,
ante os seus olhos, ocorrera entre Wiedemann e Sonnenschein, desconfiava de si próprio e do
seu mundo e arrepiava-se sob o casaco forrado de peles, não obstante a sensação do
extraordinário e do patético do momento, que o exaltava e animava, da mesma forma que os
elementos vivificadores do ar da manhã.
Tomado de sentimentos contraditórios, que variavam a cada instante, o jovem saía da
“aldeia”, através do lusco-fusco que lentamente se aclarava. Partindo do fim da pista de trenó,
galgava a encosta, subindo por uma vereda muito estreita. Alcançou o bosque oculto por espessa
camada de neve. Atravessou as pontes de madeira, por baixo das quais se estendia a pista, e
avançou, por entre as árvores, num caminho aberto antes pelos pés dos transeuntes do que pelas
pás. Como caminhasse velozmente, passou depois de pouco tempo por Settembrini e Ferge. Este
levava a caixa de pistolas sob a ampla capa. Hans Castorp não vacilou em unir-se a eles. Mal
chegara a seu lado, deparou com Naphta e Wehsal, que se achavam a pouca distância na frente.
– Que manhã fria! Menos dezoito graus – disse na melhor das intenções, mas,
assustando-se ele mesmo com a frivolidade das suas palavras, acrescentou: – Senhores, estou
convencido...
Os outros permaneceram silenciosos. Os bigodes joviais de Ferge subiam e desciam.
Alguns segundos após Settembrini estacou e, tomando a mão de Hans Castorp entre as suas,
disse:
– Meu amigo, eu não matarei. Não farei isso. Vou me expor à bala dele. É tudo o que a
honra pode exigir de mim. Mas eu não matarei, fique sossegado!
Soltou a mão do jovem e prosseguiu o caminho. Hans Castorp estava profundamente
emocionado, mas, depois de alguns passos, objetou:
– Acho maravilhoso da sua parte, Sr. Settembrini, mas... Se ele, da sua parte...
O Sr. Settembrini limitou-se a menear a cabeça. Hans Castorp, ponderando que, quando
um não atirava, o outro de modo algum poderia atrever-se a fazê-lo, chegou à conclusão de que
os auspícios eram felizes e suas esperanças começavam a confirmar-se. Sentiu-se bastante
aliviado.
Transpuseram a passadeira que cruzava a ravina, onde no verão caía a pitoresca cachoeira,
congelada e muda a essa época do ano. Naphta e Wehsal iam de cá para lá, pela neve, diante do
banco escondido sob espessa, camada branca. Era o mesmo banco em que Hans Castorp, certa
vez, se vira acossado por recordações singularmente vivas, enquanto esperava o fim de uma
hemorragia do nariz. Naphta fumava um cigarro, e Hans Castorp perguntou a si mesmo se não
sentia vontade de imitá-lo, mas verificou que absolutamente não estava disposto a fazê-lo e
deduziu disso que a atitude do outro tinha um fundo de afetação. Com a sensação de agrado que
sempre o invadia ali, contemplou a intimidade fria desse sítio que lhe pertencia e não era menos
formoso sob aquele aspecto glacial do que na época em que aparecia inundado de flores azuis. O
tronco e a ramagem do pinheiro, que formava uma linha diagonal através do quadro, dobravam
se sob a carga de neve.
– Bom dia! – exclamou o jovem com voz alegre, inspirado pelo desejo de introduzir no
ambiente, desde o começo, um tom natural, destinado a dissipar as nuvens. Mas teve pouca sorte
com essa intenção, pois ninguém respondeu. As saudações trocadas consistiam em reverências
mudas, tão cerimoniosas que se tornavam quase imperceptíveis. Mesmo assim, Hans Castorp
continuou decidido a lançar mão, sem demora, da emoção inicial, do aceleramento cordial da sua
respiração, do calor originado pela caminhada rápida através da manhã de inverno, e a aproveitá-los em prol da finalidade boa. Por isso começou dizendo:
– Senhores, estou convencido...
– O senhor tratará das suas convicções em outra oportunidade – atalhou-lhe Naphta
friamente a palavra. – As armas, por favor – acrescentou com a mesma arrogância. E Hans
Castorp, como se tivesse levado um tapa na boca, teve de ver Ferge tirar o estojo fatal de sob a
capa. Wehsal, que se aproximara dele, recebeu das suas mãos uma das pistolas, a fim de passá-la a
Naphta. A seguir, Ferge entregou a outra a Settembrini. Feito isso, pediu em voz baixa que
desembaraçassem o lugar e pôs-se a medir a passos o terreno e a marcar a distância. Riscou na
neve os limites externos com o tacão e assinalou as barreiras internas com duas bengalas, a sua e
a de Settembrini.
Que fazia ali o sofredor bonachão? Hans Castorp mal podia dar crédito a seus olhos.
Ferge tinha as pernas compridas e dava largas passadas, de maneira que os quinze passos
resultaram numa extensão considerável. Mas havia ainda as malditas barreiras, que realmente não
distavam muito uma da outra. Sem dúvida, Ferge estava bem intencionado. E todavia – que
perturbação forçava-o a dedicar-se a esses preparativos monstruosos?
Naphta atirara na neve a peliça, de modo que se via o forro de pele de marta do Canadá.
Com a pistola na mão, pôs o pé numa das marcações externas, logo que esta foi traçada,
enquanto Ferge ainda tratava das demais. Quando terminou, também Settembrini, com a jaqueta
surrada, amplamente aberta, ocupou a sua posição. Hans Castorp despertou da sua letargia e
apressadamente tornou a avançar.
– Senhores – disse em voz opressa –, não se precipitem! Apesar de tudo é do meu dever...
– Cale-se! – gritou Naphta em tom imperioso. – Exijo o sinal.
Mas ninguém dava o sinal. Haviam esquecido de se pôr de acordo sobre esse ponto. Era
lógico que alguém ordenasse: “Fogo!”, mas não tinham pensado, ou pelo menos não tinham
declarado que caberia ao árbitro pronunciar o comando terrível. Hans Castorp permaneceu
silencioso, e ninguém fez menção de substituí-lo.
– Vamos começar! – declarou Naphta. – Avance e atire, senhor! – gritou ao adversário, e
começou a avançar ele mesmo, com o braço estendido, apontando a pistola para o peito de
Settembrini. Foi um espetáculo fantástico. Settembrini fez o mesmo. Ao terceiro passo – o outro,
sem disparar, já alcançara a barreira – levantou a pistola muito alto e apertou o gatilho.
A detonação provocou um eco múltiplo. As montanhas repercutiram sucessivamente o
som. O vale encheu-se de vibrações com o choque, e Hans Castorp pensou que aquilo devia
alarmar os habitantes.
– O senhor atirou para o ar – disse Naphta, controlando-se, enquanto baixava a arma.
Settembrini replicou:
– Eu atiro como quero.
– Atire o senhor novamente.
– Nem penso nisso. Agora é a sua vez. – Com a cabeça erguida, o Sr. Settembrini olhava
o céu. Colocara-se quase de lado, não expondo o peito em cheio ao outro, o que era comovente
de se ver. Evidentemente alguém lhe aconselhara não oferecer ao adversário toda a largura do
corpo, e ele se inspirava por essa advertência.
– Covarde! – bradou Naphta, e com esse grito humano admitiu que era preciso maior
coragem para atirar do que para servir de alvo. Levantou então a pistola de um modo que nada
mais tinha em comum com um combate, e descarregou-a na própria cabeça.
Que cena trágica, inesquecível! Enquanto os cumes jogavam bolas com o ruído seco da
sua façanha medonha, Naphta cambaleou ou precipitou-se alguns passos para trás, arremessando
as pernas para o alto. Deu bruscamente meia-volta à direita e caiu com o rosto na neve.
Todos permaneceram imóveis durante um momento. Settembrini, depois de arrojar a
pistola para longe de si, foi o primeiro a aproximar-se de Naphta.
– Infelice! – exclamou. – Che cosa fai, per l’amor di Dio?
Hans Castorp ajudou-o a virar o corpo. Via-se o buraco vermelho, enegrecido, ao lado da
têmpora. Cobriram-lhe o rosto com o lenço de seda cuja ponta sobressaía do bolsinho do casaco
de Naphta.
continua pág 466...
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Leia também:
Capítulo I / A Chegada
Capítulo II / Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo V / Sopa eterna e clareza repentina (a)
Capítulo VI / Transformações (a)
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [c] / Coisas muito problemáticas - [a] / Coisas muito problemáticas - [b] /
Coisas muito problemáticas - [c] / Coisas muito problemáticas - [d] / A grande irritação - [a] / A grande irritação - [b] /
A grande irritação - [c] /
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.