sábado, 12 de setembro de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Toda criatura amada)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Toda criatura amada, e até, em certa medida, qualquer criatura, é para nós como o deus Jano, apresentando-nos a fronte que nos agrada, se essa criatura nos abandona, e a fronte sombria se a temos à nossa disposição permanente. Quanto a Albertine, a convivência duradoura com ela apresentava algo penoso de outra forma que não posso contar nesta narrativa. É terrível ter a vida de outra pessoa ligada à nossa como uma bomba que não podemos largar sem cometer um crime. Mas tomem-se como comparação os altos e baixos, os perigos, a inquietude, o medo de ver acreditadas mais tarde coisas falsas e verossímeis que já não será possível explicar, sentimentos por que se passa quando se tem na intimidade um louco. Por exemplo, eu sentia pena de que o Sr. de Charlus vivesse com Morel (logo a lembrança da cena da tarde me fez sentir o lado esquerdo do peito bem mais pesado que o outro); deixando de lado as relações que pudessem ter ou não juntos o Sr. de Charlus, no princípio, deveria ignorar que Morel era louco. A beleza desta; sua chatice e arrogância, deveriam ter desviado o barão de ir procurar tão longe, até aos dias de melancolia em que Morel acusava o Sr. de Charlus por sua tristeza, sem poder dar explicações, insultava-o por sua desconfiança com o auxílio de arrazos dos falsos, porém extremamente sutis, ameaçava-o com resoluções desesperadas - no meio das quais persistia a mais velhaca intenção do interesse mais imediato. Tudo isto é apenas comparação. Albertine não era louca.
     Para lhe fazer parecer menos penoso o seu jugo, o mais hábil se me afigurou fazê-la crer que eu próprio ia rompê-lo. Em todo caso, não podia confiar-lhe naquele momento semelhante projeto mentiroso, quando voltara tão amável do Trocadero, agora há pouco; o que eu podia fazer, muito longe de afligi-la com a ameaça de um rompimento, era quando muito calar os sonhos de perpétua vida comum que meu coração reconhecido formava. Olhando-a, esforçava-me por evitar desabafá-los, e talvez ela o percebesse.
     Infelizmente, a expressão deles não é contagiosa. O caso de um velho amaneirado como o Sr. de Charlus, que, à força de só ver, na imaginação, um rapaz simpático, julga tornar-se ele próprio um rapaz simpático e tanto mais quanto mais se torna amaneirado e ridículo, é o caso mais geral. E que desgraça para um amante apaixonado não perceber que, ao passo que vê um belo rosto à sua frente, sua amante está vendo o dele, que, ao contrário, não fica mais belo quando se deforma pelo prazer que nele faz surgir a vista da beldade. E o amor nem mesmo esgota toda a generalidade desse caso; não vemos o nosso corpo, que os outros veem, e "seguimos" o nosso pensamento, objeto invisível aos outros que está à nossa frente. Tal objeto, por vezes o artista o expõe em sua obra. Daí decorre que os admiradores desta sentem-se desiludidos pelo autor, em cujo rosto essa beleza interior imperfeitamente se refletiu.
     Guardando de meu sonho de Veneza apenas o que podia referir-se a Albertine e suavizar o tempo que ela passava em minha casa, falei-lhe de um vestido de Fortuny que era necessário que encomendássemos por aqueles dias. Eu procurava saber com que novos prazeres poderia distraí-la. Gostaria de poder fazer-lhe a surpresa de lhe dar, se fosse possível achá-las, peças de velha prataria francesa. De fato, quando tínhamos feito o projeto de possuir um iate, projeto julgado irrealizável por Albertine-e por mim mesmo, cada vez que pensava que ela fosse virtuosa e a vida com ela principiava logo a parecer-me tão ruinosa quanto impossível o nosso casamento-, tínhamos pedido conselhos a Elstir, sem que ela no entanto acreditasse que eu compraria um.
     Soube que naquele dia ocorrera um falecimento que me deu muita pena, o de Bergotte. Era sabido que sua enfermidade vinha de muito tempo. Evidentemente, não a que o afligira no começo, e que era natural. A natureza parece quase incapaz de produzir doenças que não sejam muito curtas. Mas a medicina acrescenta-lhes a arte de prolongá-las. Os remédios, a remissão que oferecem, o mal-estar que sua interrupção faz renascer, compõem um simulacro de doença que o hábito do paciente acaba por estabilizar, por estilizar, assim como as crianças tossem regularmente por muito tempo depois de estarem curadas da coqueluche. E depois os remédios agem menos, e aumentam-lhes sua dose, eles não fazem mais nenhum bem, mas começaram a fazer mal graças a essa indisposição duradoura. A natureza não lhes teria oferecido uma tão longa duração. É uma maravilha que a medicina, quase igualando a natureza, possa forçar o doente a ficar de cama, a continuar tomando, sob pena de morte, o uso de um medicamento. Desde então, a doença superficialmente fitada cria raízes, torna-se mal-estar secundário; porém verdadeira, com a diferença de que as doenças naturais se curam, mas nunca as que a medicina acredita, pois ela ignora o segredo da cura. Havia anos em que Bergotte já não saía de sua casa. Aliás, ele jamais gostara da sociedade. Fazia estar nela apenas um dia, para despreza-la como tudo o mais a sociedade que era a sua; não desprezar porque não podia obter, mas logo depois, por obtê-la. Vivia de modo tão simples que não se suspeitava quão era rico; logo depois que alguém o soubesse, estaria enganado julgando-o avaro; quando na verdade ninguém fora tão generoso. Era-o sobretudo com mulheres, com as meninas, que ficavam envergonhadas, pois sabiam que nunca poderiam receber tanto por tão pouco. Desculpava-se aos próprios olhos porque sabia que nunca podia produzir tão bem mesmo na atmosfera de se sentir enamorado. O amor, melhor dizendo, o prazer tanto entranhado na carne, auxilia no trabalho das letras; porque anula outros prazeres, por exemplo os prazeres da sociedade, que são os que aniquilam o mundo. E, mesmo se esse amor traz desilusões, ao menos também agita a superfície da alma, que sem isso se arriscaria a ficar estagnado. Desse modo o desejo não é inútil para o escritor, pois primeiro o afasta dos outros homens e de adaptar-se a eles; e em seguida restitui algum movimento a uma máquina espiritual que depois de certa idade, tende a se imobilizar. Não se chega ser feliz, entretanto conhece-se as razões que impedem de sê-lo e que sem as fendas bruscamente abertas pela decepção permaneceriam invisíveis. Os sonhos, não são realizáveis, bem sabemos; não os conceberíamos talvez sem o desejo, para os ver fracassarem e para que seu fracasso nos sirva de consolo útil. Assim Bergotte dizia consigo: "Gasto com essas meninas mais que os multimilionários. Mas, assim, os prazeres ou as decepções que me causam me fazem escrever livros e me dá dinheiro.” Do ponto de vista econômico, tal raciocínio absurdo certamente encontrava Bergotte algum contentamento em transmutar assim o ouro em carícias e as carícias em ouro. E depois, como antes da morte da minha avó, sua velhice fatigada amava o repouso. E no mundo não existe mais que a conversação. Ali ela é estúpida, mas tem o poder de suprimir as mulheres na sociedade; que se reduzem a perguntas e respostas. Fora da sociedade, as mulheres voltam a ser de novo o que é tão repousante para o velho cansado: um objeto de contemplação. Em todo caso agora já não se tratava de nada disso. Disse que Bergotte não saía mais; quando se levantava por uma hora em seu quarto, ficava envolto em mantas, tudo aquilo que serve para cobrir no momento em que está fazendo frio; ou ao subir para o vagão de um trem. Desculpava-se com um sorriso expor-se; mostrando suas cobertas aos raros amigos que ainda permitia que o visitassem e, dizia jovialmente: - Que se há de fazer, meu caro? Anaxágoras disse: a vida é uma viagem. - 
     Assim, ele ia se resfriando progressivamente, pequeno planeta que oferecia uma imagem antecipada dos últimos dias do grande, quando aos poucos se há de retirar da Terra o calor e depois a vida. Então a ressurreição terá chegado ao fim, pois, por mais que brilhem as obras dos homens nas gerações futuras, é necessário que os homens ainda existam. Se algumas espécies de animais resistem por mais tempo ao frio invasor, quando não houver mais homens e supondo que a glória de Bergotte dure até lá, vai extinguir-se bruscamente para sempre. Não serão os últimos animais que irão lê-lo, pois é pouco provável que, como os apóstolos no Pentecostes, eles possam compreender a linguagem dos diversos povos humanos sem a ter aprendido.
     Nos meses que precederam a sua morte, Bergotte sofria de insônias e, o que é pior, de pesadelos assim que adormecia, pesadelos que, se acordava, faziam com que evitasse voltar a dormir. Por muito tempo gostara dos sonhos, mesmo os maus sonhos, pois graças a eles, graças à contradição que apresentam com a realidade que temos diante de nós no estado de vigília, nos dão, o mais tardar logo que despertamos, a sensação profunda de que dormimos. Mas os pesadelos de Bergotte não eram assim. Quando ele falava de pesadelos, antigamente entendia por isso coisas desagradáveis que se passavam no seu cérebro. Agora, era como vindas de fora que sentia uma mão munida de um esfregão molhado que, passado em seu rosto por uma mulher malvada, esforçava-se por acordá-lo, intoleráveis cócegas nos quadris, a raiva porque Bergotte havia murmurado do sono que ele conduzia mal de um cocheiro louco furioso, que se atirava sobre o escritor e lhe mordia os dedos, e os serrava. Enfim, logo que no seu sono a escuridão era suficiente, a natureza se encarregava de uma espécie de ensaio, sem vestimenta, do ataque de apoplexia que o haveria de matar: Bergotte entrava num carro sob o pórtico do novo palacete dos Swann, queria descer. Uma vertigem fulminante pregava-o no banco, o porteiro tentava ajudá-lo a descer, ele ficava sentado sem poder se levantar e se firmar nas pernas. Procurava arrimar-se ao pilar de pedra que estava à sua frente, mas não achava apoio bastante para se pôr de pé. Consultou os médicos que, lisonjeados por terem sido chamados por ele, viram em suas virtudes de grande trabalhador (há vinte anos que ele já não fazia nada), no cansaço excessivo, a causa de seu mal estar. Aconselharam-no que não lesse contos de terror (ele não lia nada), a desfrutar mais do sol, "indispensável à vida" (devia ao fato de viver enclausurado alguns anos de relativa melhora), a se alimentar mais (o que o fez emagrecer e alimentou sobretudo os pesadelos). Sendo dotado do espírito de contrariar e irritar o próximo, um dos médicos, quando Bergotte o recebia na ausência dos outros e, para não constrangê-lo, submetia-lhe como ideias próprias o que os demais lhe haviam aconselhado, o contradizia, achando que Bergotte procurava que lhe receitassem alguma coisa que lhe agradava, e logo lhe proibia, muitas vezes com razões fabricadas tão depressa para as necessidades da causa que, diante da evidência das objeções materiais opostas por Bergotte, o médico que o contradizia era forçado a contradizer a si próprio na mesma frase, mas, por razões novas reforçava a mesma proibição. Bergotte retornava a um dos primeiros médicos, homem metido a espirituoso, sobretudo diante de um dos mestres da pena, e que; se Bergotte insinuava:

- Parece-me no entanto que o doutor X me havia dito (antigamente, é claro) que isto poderia congestionar-me o rim e o cérebro...- sorria, malicioso, erguia o dedo e pronunciava: 
- Eu disse usar, e não abusar. Fica entendido que todo remédio, se a gente exagera, torna-se uma faca de dois gumes.-

     Existe no nosso corpo um certo instinto daquilo que nos seja saudável, como no coração o do dever moral, e que nenhuma autorização de um doutor em medicina ou em teologia pode substituir. Sabemos que os banhos frios nos fazem mal; gostamos deles, achamos sempre um médico que os aconselhe, e não para impedir que eles nos façam mal. De cada um desses médicos Bergotte obteve licença para aquilo que, por cautela, abstivera-se durante anos. Ao fim de algumas semanas, os acidentes de outrora haviam reaparecido, e os mais recentes tinham se agravado. Atormentado por um sofrimento de todos os minutos, ao qual se acrescentava a insônia cortada de breves pesadelos, Bergotte não mais chamou nenhum médico e tentou com êxito, mas com excesso, diversos narcóticos, lendo confiantemente a bula que acompanhava cada um deles, bula que proclamava a necessidade do sono mas insinuava que todos os produtos que o provocam (salvo o contido no frasco que ela envolvia e que jamais causava intoxicação) eram tóxicos e por esse motivo faziam o remédio ficar pior que o mal. Bergotte experimentou todos. Alguns são de família diversa daqueles a que estamos habituados, derivados por exemplo da amila e do etilo. Não absorvemos o novo produto, de composição inteiramente diversa, senão com a deliciosa expectativa da ignorância. O coração bate como num primeiro encontro. Para que gêneros desconhecidos de sono, de sonhos, a recém-chegado vai nos levar? Está em nós agora, possui a direção do nosso pensamento. De que maneira vamos adormecer? E, uma vez que estivermos dormindo, por quais caminhos estranhos, sobre quais cimos, em que abismos inexplorados o mestre todo-poderoso vai nos comandar? Que novo grupamento de sensações vamos conhecer nessa viagem? Vai levar-nos ao mal-estar? À beatitude? À morte? A morte de Bergotte sobreveio na véspera daquele dia, quando ele se confiara assim a um desses amigos (amigo? inimigo?) excessivamente poderoso.
     Morreu nas seguintes circunstâncias: uma crise de uremia bem leve fora motivo para que lhe prescrevessem o repouso. Mas, tendo um crítico escrito que na Vísta de Delft, de Vermeer (emprestado pelo museu de Haia para uma exposição holandesa), quadro que ele adorava e julgava conhecer muito bem, havia um pequeno lanço de muro amarelo (de que não se lembrava) tão bem pintado que era, se lhe fixassem o olhar, como uma preciosa obra de arte chinesa, de uma beleza que não bastava em si mesma - Bergotte comeu algumas batatas, saiu da casa e foi à exposição. Logo aos primeiros degraus que teve de subir, sentiu tonteiras. Passou diante de vários quadros e teve a impressão de secura e da inutilidade de uma arte tão artificial, e que não valia as correntes de ar e os raios de sol de um palácio de Veneza, ou de uma simples casa à beira-mar. Por fim chegou diante do Vermeer que ele recordava ser mais cintilante, mais diverso de tudo o que conhecia, mas onde, graças ao artigo do crítico, reparou pela primeira vez em pequenos personagens em azul, e que a areia era rósea, e, afinal, a preciosa matéria do pedacinho bem pequeno de muro amarelo. Suas tonteiras aumentavam; não tirava os olhos do precioso pedacinho de muro amarelo, como procede a criança com uma borboleta amarela a que pretende agarrar.

- Assim é que eu deveria ter escrito – dizia.- Meus últimos livros são muito secos, seria preciso passar-lhes diversas camadas de cor, tornar a minha frase preciosa em si mesma, como este pedacinho de muro amarelo. - Entretanto, a gravidade de suas tonteiras não lhe escapava. Numa celeste balança lhe aparecia, deposta num dos pratos, sua própria vida, ao passo que o outro continha o pedacinho de muro tão bem pintado em amarelo. Sentia Bergotte haver dado imprudentemente a primeira pelo segundo.- No entanto não gostaria - disse consigo - de ser para os jornais vespertinos a nota sensacional desta exposição. - Repetia para si mesmo: "Pedacinho de muro amarelo com uma varanda, pedacinho de muro amarelo." Nisso deixou-se cair num canapé circular; e subitamente parou de pensar que a vida estava em jogo e, voltando ao otimismo, disse consigo: "É uma simples indigestão causada por aquelas batatas mal cozidas, não é nada." Uma nova crise o derrubou, fazendo-o rolar do canapé para o chão; acorreram todos os visitantes e guardas. Estava morto. Morto para sempre? Quem o pode afirmar? Certo, as experiências espíritas, não mais que os dogmas religiosos, não provam que a alma subsiste. O que se pode afirmar é que tudo se passa na nossa vida como se nela entrássemos com o fardo de obrigações contraídas numa vida anterior; nas nossas condições de vida neste mundo, não há motivo algum para que nos julguemos obrigados a praticar o bem, a ser delicados, ou mesmo corteses, e tampouco para que o artista ateu se julgue obrigado a recomeçar vinte vezes um trabalho, cuja admiração que suscitará pouco há de importar a seu corpo devorado pelos vermes, como o pedacinho de muro amarelo que com tanta ciência e requinte pintou um artista desconhecido para sempre, mal identificado pelo nome de Vermeer. Todas estas obrigações, que não têm sanção na vida presente, parecem pertencer a um outro mundo, fundado na bondade, no escrúpulo, no sacrifício, um mundo inteiramente diverso deste, e do qual saímos para nascer nesta terra, antes talvez de voltar a viver nele sob o império dessas leis desconhecidas, às quais temos obedecido porque trazíamos em nós o seu ensinamento, sem saber quem as fizera, essas leis das quais nos aproximam todo trabalho profundo de inteligência e que apenas são invisíveis -e ainda para os tolos. De modo que a ideia de que Bergotte não haja morrido para sempre não é inverossímil.
     Enterraram-no, mas durante toda a noite fúnebre, nas vitrinas iluminadas, seus livros, dispostos de três em três, velavam como anjos de asas abertas e pareciam, para aquele que não existia mais, o símbolo de sua ressurreição.
     Como disse, soube naquele dia que Bergotte morrera. E me espantei com a falta de exatidão dos jornais que reproduzindo uns e outros a mesma nota diziam que ele havia morrido na véspera. Ora, na véspera Albertine se encontrara com ele, conforme contou-me na mesma noite, o que até a atrasou um pouco, pois ele havia conversado com ela por muito tempo. Sem dúvida fora com ela que Bergotte havia tido a última conversa. Albertine o conhecia através de mim, que não o via há muito mais tempo, mas como tivera a curiosidade de lhe ser apresentada, eu escrevera um ano antes ao velho mestre pedindo lhe autorização para levá-la à sua presença. Ele concordara com o pedido, embora um tanto magoado, acho, por eu só ir revê-lo para agradar a outra pessoa, o que confirmava a minha indiferença por ele. Esses casos são freqüentes; por vezes, aquele ou aquela que imploramos não pelo prazer de conversar de novo com eles, mas por um terceiro, recusa de tal maneira obstinada que o nosso protegido julga que nos vangloriamos de um falso poder; mais comumente, o gênio ou a beldade célebre consentem, mas, humilhados em sua glória, feridos no seu afeto, só conservam por nós um sentimento diminuído, doloroso, um pouco depreciativo. Adivinhei, muito depois, que acusara falsamente os jornais de inexatidão, pois naquele dia Albertine de forma alguma se encontrara com Bergotte; porém no momento não suspeitara de nada, porque ela me havia contado aquilo de modo tão natural, e só mais tarde percebi a arte encantadora que ela possuía de mentir com simplicidade. O que ela dizia, o que confessava, possuía de tal forma as mesmas características das coisas evidentes - do que vemos, do que aprendemos de maneira irrefutável que ela semeava assim nos intervalos da vida os episódios de uma outra vida de cuja falsidade então eu ainda não desconfiava. Aliás, haveria muito a discutir sobre essa palavra falsidade. O universo é real para nós todos e dissemelhante para cada um. O testemunho dos meus sentidos, se eu estivesse fora naquele momento, talvez me dissesse que uma certa senhora não dera alguns passos em companhia de Albertine. Mas, se eu fosse informado do contrário, seria por um desses encadeamentos de raciocínio (onde as palavras daqueles em que depositamos confiança inserem fortes malhas) e não pelo testemunho dos sentidos. Para invocar tal testemunho, seria necessário que eu tivesse estado precisamente lá fora, o que não ocorrera. No entanto, pode-se imaginar que uma tal hipótese não é inverossímil. E então eu teria sabido que Albertine mentira. Mesmo assim, seria verdade? O testemunho dos sentidos é igualmente uma operação do espírito onde a convicção cria a evidência. Vimos muitas vezes o sentido da audição levar a Françoise não a palavra pronunciada, mas a que ela julgava ser a verdadeira, o que bastava para que não ouvisse a retificação implícita de uma pronúncia melhor. Nosso mordomo era feito da mesma massa. O Sr. de Charlus usava por essa época pois mudava muito calças demasiado claras e que seriam reconhecidas entre mil. Ora, o nosso mordomo, que julgava que a palavra pissotierez (palavra que designa o que o Sr. de Rambuteau ficara indignado por ouvir o duque de Guermantes denominar um "urinol Rambuteau") era pistiere, nunca ouviu em toda a vida uma só pessoa dizer pissotiere, embora muitas vezes assim a pronunciassem diante dele. Mas o erro é mais obstinado que a fé e não examina as próprias crenças. Constantemente o mordomo dizia:

[pistieere: mictório. N do T]


- Com certeza o Sr. barão de Charlus pegou uma doença para ficar assim tanto tempo numa pistiere. Eis o que acontece com quem anda sempre atrás de mulheres. Acaba metido nessas calças. Hoje de manhã, a patroa me mandou fazer compras em Neuilly. Na pistiere da rua de Bourgogne, vi entrar o Sr. barão de Charlus. Voltando de Neuilly, uma boa hora mais tarde, vi suas calças amarelas na mesma pistiere, no mesmo lugar, no meio, onde ele se põe sempre para que não o vejam. - 

     Eu não conhecia nada mais lindo, mais nobre nem mais jovem que uma certa sobrinha da Sra. de Guermantes. Mas ouvi o porteiro de um restaurante aonde ia às vezes dizer à sua passagem: 

- Olhem essa velha bruaca, que tipo! E tem pelo menos oitenta anos. - 

     Quanto à idade, parecia-me difícil que acreditasse no que dizia. Mas os criados que se agrupavam em torno dele e que troçavam cada vez que ela passava diante do hotel para visitar tão longe dali as duas tias-avós encantadoras, Sras. de Fezensac e de Balleroy, viram na fisionomia dessa jovem beleza os oitenta anos que, gracejando ou não, atribuíra o porteiro à "velha bruaca". Haveriam de se torcer de riso se lhes dissessem que a moça era mais distinta que uma das duas caixeiras do hotel e que, embora roída de eczemas, de uma gordura ridícula, parecia-lhes uma bela mulher. Talvez somente o desejo sexual teria sido capaz de impedi-los de caírem no seu erro, caso ele houvesse agido à passagem da pretensa "velha bruaca", e se aqueles criados tivessem de súbito cobiçado a jovem deusa.
     Mas, por motivos ignorados e que provavelmente deviam ser de ordem social, tal desejo não se manifestara.
     Mas afinal eu poderia ter saído e ter passado na rua à hora em que Albertine me dissera, naquela noite (sem me ter visto), que dera alguns passos em companhia da tal senhora. Uma obscuridade sagrada se apoderou de meu espírito, eu teria posto em dúvida que a vira sozinha, mal teria procurado compreender por que ilusão de ótica não havia percebido a senhora e não ficaria mais espantado por me haver iludido, pois o mundo dos astros é menos difícil de conhecer do que as ações reais dos seres, sobretudo nos seres a que amamos, fortificados que são contra nossa dúvida por fábulas destinadas a protegê-los. Durante quantos anos podem eles deixar que o nosso apático amor acredite que a mulher amada tem no estrangeiro uma irmã, um irmão, uma cunhada que jamais existiram! De resto, se não fôssemos obrigados, para a boa ordem da narrativa, a nos limitar a razões frívolas, quantas outras mais sérias nos permitiriam mostrara insignificância mentirosa do princípio deste volume, onde, do meu leito, ouço o despertar do mundo, ora num dia ensolarado, ora num dia chuvoso. Sim, fui obrigado a adelgaçar a coisa e a ser mentiroso, mas não é só um universo, são milhões de universos que despertam todas as manhãs, quase tão numerosos quantas são as pupilas e inteligências humanas.

continua na página 79...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Toda criatura amada)
Volume 6

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino IV

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 IV

Calou-se a voz. A noite era funesta. 
E os queixos, a exhibir trismos damnados, 
Eu puxava os cabellos desgrenhados 
Como o rei Lear, no meio da floresta!

Maldizia, com apóstrophes vehementes, 
No stentor de mil línguas insurrectas, 
O convencionalismo das Pandectas 
E os textos maus dos códigos recentes!

Minha imaginação atormentada 
Paria absurdos.     Como diabos juntos, 
Perseguiam-me os olhos dos defuntos 
Com a carne da esclerótica esverdeada

Seccára a chlorophylla das lavouras. 
Igual aos sostenidos de uma endeixa, 
Vinha-me ás cordas glótticas a queixa 
Das collectividades soffredoras. 
 
O mundo resignáva-se invertido 
Nas forças principaes do seu trabalho. 
A gravidade era um principio falho, 
A anályse espectral tinha mentido! 

O Estado, a Associação, os Municípios 
Eram mortos.   De todo aquelle mundo 
Restava um mecanismo moribundo 
E uma teleologia sem princípios. 

Eu queria correr, ir para o inferno, 
Para que, da psychê no occulto jogo, 
Morressem suffocadas pelo fogo 
Todas as impressões do mundo externo! 

Mas a Terra negava-me o equilíbrio. 
Na Natureza, uma mulher "de luto 
Cantava, espiando as árvores sem fructo, 
A canção prostituta do ludibrio!  

Continua na página 42...
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Leia também:
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Reunião Dançante... Garajão 8

Garajão 8


você e eu
e aquela canção de ninar
quando eu passei a saber
    existir
       crescemos juntos?
as coisas ruins assustam
     eu sei,
    não basta chorar,
mas é inevitável
    acalma nossos medos e
          se temos alguém para enxugá-las
    com uma canção de ninar
um sussurro íntimo
     delicado
um pensamento          que
não            nos deixa desabar
     um carinho de cuidado
porque há alguém ali
  embalando
você sabe que o                   choro
não           resolve tudo,
      ele exige presença,
    pede companhia, alguém para
tomar para si esse medo
o que acalma é a presença
é o pacto de ser estar lá
trazer a salvação
estender a mão, você percebe 
porque há amor


o ano é 1970

I'll Be There - THE JACKSON 5 




Eu Estarei Lá
I'll Be There

Você e eu devemos fazer um pacto
You and I must make a pact
Nós temos que trazer a salvação de volta
We must bring salvation back
Onde houver amor
Where there is love
Eu estarei lá (eu estarei lá)
I'll be there (I'll be there)

Estenderei minha mão para você (oh)
I'll reach out my hand to you (oh)
Terei fé em tudo o que você fizer
I'll have faith in all you do
Basta chamar o meu nome
Just call my name
E eu estarei lá (eu estarei lá)
And I'll be there (I'll be there)

E, oh, eu estarei lá pra te confortar
And, oh, I'll be there to comfort you
Construir meu mundo de sonhos ao seu redor
Build my world of dreams around you
Estou tão feliz que te encontrei
I'm so glad that I found you
Eu estarei lá com um amor que é forte
I'll be there with a love that's strong
Serei sua força
I'll be your strength
Continuarei persistindo
I'll keep holding on
(Persistindo, persistindo) sim, eu irei, sim, eu irei
(Holding on, holding on) yes, I will, yes, I will

Deixe-me preencher seu coração com alegria e risada
Let me fill your heart with joy and laughter
Juntos, bem, isso é tudo o que eu quero
Togetherness, well, that's all I'm after
Sempre que você precisar de mim
Whenever you need me
Eu estarei lá (eu estarei lá)
I'll be there (I'll be there)

Eu estarei lá pra te proteger (é, meu bem)
I'll be there to protect you (yeah, baby)
Com um amor altruísta, eu te respeito (oh)
With an unselfish love I respect you (oh)
Basta chamar o meu nome
Just call my name
E eu estarei lá (eu estarei lá)
And I'll be there (I'll be there)

E, oh, eu estarei lá pra te confortar
And, oh, I'll be there to comfort you
Construir meu mundo de sonhos ao seu redor
Build my world of dreams around you
Estou tão feliz que te encontrei
I'm so glad that I found you
Eu estarei lá com um amor que é forte
I'll be there with a love that's strong
Serei sua força
I'll be your strength
Continuarei persistindo
I'll keep holding on
(Persistindo, persistindo) sim, eu irei, sim, eu irei
(Holding on, holding on) yes, I will, yes, I will

Se você alguma vez encontrar alguém novo
If you should ever find someone new
Sei que é melhor ele ser bom pra você
I know he'd better be good to you
Porque, se ele não for
Cause if he doesn't
Eu estarei lá (eu estarei lá)
I'll be there (I'll be there)

Você não sabe, meu bem? É, é
Don't you know, baby? Yeah, yeah
Eu estarei lá
I'll be there
Eu estarei lá
I'll be there
Basta chamar o meu nome, eu estarei lá (estarei lá)
Just call my name, I'll be there (I'll be there)
(Basta olhar por cima do seu ombro, docinho, oh)
(Just look over your shoulders, honey, oh)

Eu estarei lá
I'll be there
Eu estarei lá
I'll be there
Sempre que você precisar de mim, eu estarei lá (eu estarei lá)
Whenever you need me, I'll be there (I'll be there)

Você não sabe, meu bem? É, é
Don't you know, baby? Yeah, yeah
Eu estarei lá
I'll be there
Eu estarei lá
I'll be there
Basta chamar o meu nome, eu estarei lá (estarei lá)
Just call my name, (I'll be there) I'll be there
Oh, oh, oh, oh
Oh, oh, oh, oh
Eu estarei lá
I'll be there

Composição: Hal Davis, Willie Hutch, Bob West, Berry Gordy


My Sweet Lord - George Harrison



Álbum: All Things Must Pass
Ano: 1970
A Espiritualidade em 'My Sweet Lord' de George Harrison
A canção 'My Sweet Lord', composta e interpretada por George Harrison, ex-membro da lendária banda The Beatles, é uma expressão profunda de sua busca espiritual e desejo de conexão com o divino. Lançada em 1970, no álbum 'All Things Must Pass', a música se tornou um dos maiores sucessos de Harrison em sua carreira solo, refletindo sua dedicação à espiritualidade e à filosofia hindu, que ele abraçou após a dissolução dos Beatles.
A letra de 'My Sweet Lord' é um clamor pela visão e compreensão de Deus, expressando o anseio do artista em estar perto do Senhor e conhecer a verdade espiritual. A repetição das frases 'I really want to see you' e 'Really want to be with you' ressalta a intensidade desse desejo. A música também reflete sobre a paciência necessária na jornada espiritual, como indicado pela linha 'But it takes so long, my Lord', sugerindo que a realização espiritual é um processo que requer tempo e dedicação.
O aspecto mais distintivo da música é a fusão de elementos cristãos com o mantra Hare Krishna, característico do Movimento de Consciência de Krishna, ao qual Harrison se associou. A inclusão de 'hallelujah' junto com 'Hare Krishna' e outros mantras védicos como 'Gurur Brahma' e 'Gurur Vishnu' demonstra a universalidade da busca espiritual de Harrison, transcendendo barreiras religiosas e destacando a unidade subjacente entre diferentes tradições de fé. 'My Sweet Lord' não é apenas uma canção, mas um hino que celebra a espiritualidade e a busca humana pelo divino, independentemente da forma como Ele é compreendido ou adorado.


o ano é 1972

Rock And Roll Lullaby - B.J Thomas 





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Garajão 01: Alone again / Ben / Soley Soley
Garajão 02: One Day In Your Life / Dance, Little Lady Dance / More Than A Woman
Garajão 03: Não se esqueça de mim / Os seus botões / Café da manhã
Garajão 04: Daddy Cool / Ma Baker / Sunny  
Garajão 05: Everything I Own / Born to be alive / Walk of life
Garajão 06: Never Be The Same / Arthur's Theme / Sailling
Garajão 07: Sacrifice / Reflections of my life / The House of the Rising Sun 
Garajão 08: I'll Be There / My Sweet Lord / Rock And Roll Lullaby



ROCK AND ROLL LULLABY - B.J. THOMAS
(Tema Original, Selva de Pedra /1972)



Odisseia: Parte II (Canto V.c)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto V

A Caverna de Calipso e a balsa de Ulisses

    “Formando uma segunda assembleia dos deuses, Zeus envia Hermes para Calipso mandando libertar Odisseu. Ela faz o que é ordenado. No décimo oitavo dia, Posido o vê e, se irritando, desfaz a balsa. Mas Ino lhe entrega o seu véu com ordem de o devolver assim que chegar à terra. Depois de muito sofrimento, salvo, chega à terra dos Feácios.” (Scholie P Q V)


continuando...

inumeráveis jogavam, em torno do morto Pelida. 
Honras funéreas teria e aos Aqueus minha fama espalharam. 
Ora é razão que pereça por modo assim mísero e escuro.” 
   Disse, no ponto em que uma onda mui grande se lança, de cima, 
terrivelmente, contra ele, abalando-lhe os paus da jangada, 
para atirá-lo bem longe, obrigando-o a soltar, desse modo, 
das mãos o leme. Partiu-se-lhe o mastro no meio, forçado 
por turbilhão tempestuoso de ventos num vórtice unidos. 
Longe nas ondas é a vela jogada com a verga ainda presa. 
Por muito tempo Odisseu submergido ficou, sem que do ímpeto

da onda pudesse livrar-se e surdir novamente à flor da água, 
pois lhe pesavam as vestes que a ninfa Calipso lhe dera, 
té que, por fim, veio à tona, expelindo da boca a salgada 
água amargosa, que em fio lhe escorre, também, da cabeça. 
Não se esqueceu da jangada, conquanto se achasse extenuado; 
mas, pelas ondas abrindo caminho, agarrou-se-lhe presto, 
sobe e se assenta no meio, escapando, com isso, da Morte. 
Ei-la jogada de um lado para outro por ondas enormes. 
Tal como Bóreas, soprando na vasta planície, os espinhos 
leva do cardo, que em número grande entre si se amontoam:

dessa maneira, no pélago os ventos a atiram sem rumo, 
ora por Noto lançada até Bóreas, que adiante a levasse, 
ora deixada por Euro ao capricho da sanha de Zéfiro.  
   Mas Leucoteia o avistou, a nascida de Cadmo com o nome 
de Ino, de pés bem-moldados, que voz de mortal já possuíra, 
e ora nas ondas do mar participa das honras dos deuses. 
Vendo Odisseu padecer à mercê da corrente, apiedou-se; 
qual mergulhão que surdisse das águas, à tona ela emerge, 
na bem-trançada jangada se assenta e o consola desta arte: 
   “Qual o motivo de estar contra ti tão zangado o que os muros

térreos sacode e que tanto te oprime com males sem conta? 
Não poderá aniquilar-te, apesar de que muito o deseje. 
Presta atenção ao que digo, não creio que o senso te falte: 
despe essas vestes e deixa a jangada ao sabor, tão somente, 
dos próprios ventos; a nado, depois, vê se à terra feácia 
podes chegar, onde o Fado te apresta encontrar salvamento. 
Toma este véu imortal e o traspassa por baixo do peito. 
Dessa maneira não temas nenhum sofrimento nem Morte. 
Mas, depois que com tuas mãos alcançar conseguires a terra, 
tira-o de novo e nas ondas escuras do mar o projeta,

longe da praia, mantendo em tudo isso teu rosto virado.” 
   Essas palavras, o véu entregando-lhe, a deusa lhe disse, 
para, em seguida, atirar-se de novo nas ondas marinhas, 
qual mergulhão. Pelas ondas escuras foi logo escondida. 
Mas fica em dúvida ainda Odisseu, o guerreiro solerte; 
vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Pobre de mim, tenho muito receio de que outra cilada 
queira um dos deuses fazer-me, mandando que largue a jangada. 
De forma alguma dar-lhe-ei atenção, pois mui longe dos olhos 
vejo o lugar em que disse haveria encontrar salvamento.

Antes farei doutro modo, que mais vantajoso parece: 
por quanto tempo no engaste ficarem as tábuas seguras, 
continuarei na jangada, a sofrer até o fim os trabalhos; 
mas, depois que pelas ondas divinas for toda desfeita, 
hei de nadar, pois não sei de outro plano de mais eficiência.” 
   No coração e no espírito dessa maneira reflete. 
Fez surgir logo Posido, que a terra sacode, uma vaga 
cheia de grandes perigos, que se arca e sobre ele desaba. 
Bem como vento impetuoso, que monte de palha desmancha, 
para levá-lo em remoinho de um lado para outro desfeito:

dessa maneira o mar forte os pranchões espalhou. Odisseu 
monta num deles, tal como se fosse cavalo de pista. 
Despe-se logo das roupas que a ninfa Calipso lhe dera, 
para que o véu imortal, apressado, no peito cingisse. 
Prono se lança no meio das ondas, os braços abrindo 
para nadar. Viu-o o deus que os pilares da terra sacode; 
move, zangado, a cabeça, e consigo comenta o seguinte: 
   “Voga, desta arte, no mar, continuando a sofrer tantos males, 
té que consigas chegar a indivíduos de Zeus descendentes. 
Mas, quero crer que nunca hás de queixar-te por falta de dores.

Tendo isso dito, os cavalos de crina formosa fustiga 
e se dirige para Egas, lugar de sua bela morada. 
   Palas, a filha de Zeus, outro plano engenhoso concebe: 
faz ela própria obstruir os caminhos de todos os ventos, 
tendo ordenado a eles todos que fossem dormir sossegados. 
Somente Bóreas ligeiro deixou, porque as ondas abrisse, 
té que aos Feácios, amantes do remo, chegasse o guerreiro 
filho de Zeus, e da Morte e do negro Destino escapasse. 
   Dessa maneira flutuou duas noites e dias nas ondas 
encapeladas, a ver muitas vezes a Morte ante os olhos

Mas, quando a Aurora, de tranças bem-feitas, mais um fez que viesse, 
eis que de súbito o vento se aplaca e tranquila se estende 
a calmaria. Com vista aguçada distingue o guerreiro, 
do alto de uma onda maior, que bem perto já a terra se achava. 
Bem como filhos que à vista do pai muito alegres se mostram, 
que por doença jazera a sofrer muitas dores atrozes, 
por longo tempo abatido, que nume funesto persegue, 
alegremente se vê pelos deuses liberto das dores: 
dessa maneira Odisseu se alegrou, quando viu terra e matas, 
pondo-se ansioso a nadar, porque a terra com os pés alcançasse.

Mas, ao chegar a distância de grito, somente, da praia, 
bem claro ouviu o barulho do mar ao quebrar-se nas pedras; 
ondas enormes troavam de encontro à aridez do terreno, 
com fragor grande, espalhando-se em tudo alva espuma salgada. 
Portos, enseadas e abrigos em parte nenhuma se viam, 
mas promontórios talhados na pedra, alcantis e rochedos. 
O coração de Odisseu se abalou, fraquejaram-lhe os joelhos. 
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Pobre de mim! Já que Zeus me concede ver terra tão perto, 
sem que o pensasse, e consigo vencer a voragem do abismo,

não vejo meio nenhum de livrar-me do mar pardacento. 
Tudo é cercado de pedras a prumo, e em redor vêm quebrar-se 
ondas ruidosas, que molham as rochas erguidas e nuas. 
A água é profunda demais, sem que ponto ofereça onde eu possa 
firmar os pés para, alfim, conseguir escapar dos perigos. 
Muito receio que uma onda me apanhe ao tentar sair da água 
e contra as pedras me atire. Será todo o esforço baldado. 
Mas, se, nadando, costear ainda um pouco, até ver se é possível 
porto abrigado encontrar, ou lugar de viável aclive, 
temo que mais uma vez a voragem das ondas me trague,

 e para o oceano piscoso me arraste por entre gemidos, 
ou que demônio potente do mar contra mim um dos monstros 
faça atirar-se, dos muitos que a ilustre Anfitrite alimenta. 
Sei quanto se acha zangado comigo o que a terra sacode.”¹ 
   No coração e no espírito dessa maneira reflete. 
Eis que uma vaga maior o lançou contra os duros recifes; 
e lacerara, sem dúvida, a pele, ou quebrara ali os ossos, 
se a de olhos glaucos, Atena, o expediente não lhe sugerisse 
de contra a rocha atirar-se, abarcando-a com as mãos resistentes, 
onde gemendo ficou, até que a vaga potente passasse.

Dessa maneira escapou; mas, ao vir, novamente, em refluxo, 
fere-o com força, atirando-o bem longe, no meio das ondas. 
Bem como o polvo, quando é do escond’rijo com força arrancado, 
traz nas ventosas um número grande de pedras pequenas: 
dessa maneira nas pedras a pele das mãos do guerreiro 
se lacerou, ficando ele coberto pela onda gigante. 
E, contra o próprio Destino, teria o infeliz perecido, 
se inspiração não lhe desse a donzela de Zeus de olhos glaucos. 
Tendo emergido das ondas, que se iam quebrar contra a terra, 
nada ao comprido da costa, a espiar para ver se podia

porto abrigado encontrar, ou terreno de viável aclive. 
À embocadura, porém, ao chegar de uma bela corrente 
o nadador, o lugar pareceu-lhe o mais próprio de todos, 
por não ter pedras e estar resguardado da fúria dos ventos. 
Reconheceu que era um rio, e a seguinte oração lhe dirige: 
   “Quem quer que sejas, atende-me, ó deus a quem muitos invocam! 
Venho fugindo do mar, das ameaças do divo Posido. 
São veneráveis, até para os deuses eternos, os homens, 
quando errabundos suplicam, tal como eu agora, que chego 
à tua corrente, depois de sofrer, e teus joelhos enlaço.

Tem compaixão, que eu também necessito de amparo nesta hora.” 
   Disse; a corrente ele susta de pronto, detendo suas ondas; 
junto do herói fez as águas tornarem-se calmas, salvando-o 
na embocadura do rio. Extenuado de tanta labuta 
nas ondas bravas, vergaram-lhe as pernas e os braços robustos. 
Intumescera-lhe a pele do corpo; da boca e narinas 
água abundante escorria; no solo prostrou-se, sem fala, 
quase de todo privado de fôlego pelo cansaço. 
Quando lhe vieram de novo os sentidos e a vida preciosa, 
o véu sagrado, que a deusa lhe dera, desprende depressa,

para lançá-lo, em seguida, no rio que ao mar se dirige. 
Uma onda grande o levou na corrente, de modo que logo 
Ino nas mãos o recebe. Afinal, libertado do rio, 
entra um juncal e se deita, beijando o terreno fecundo.² 
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Quão infeliz, ai de mim! Que me falta passar de mais grave? 
Se toda a noite afanosa passar aqui perto do rio, 
temo que a geada funesta e, também, a umidade do orvalho, 
pós o desmaio, consigam vencer este pouco de vida. 
Do rio cedo começa a soprar vento frio e cortante.

Mas, se subir o barranco e me for para a mata sombrosa, 
para dormir entre os ramos espessos, se o frio e o cansaço 
me abandonarem e o sono agradável de mim apossar-se, 
temo que venha também a ser presa e repasto das feras.” 
   Como tais coisas pensasse, afinal pareceu-lhe prudente 
ir para a mata. Encontrou-a, de fato, não longe do rio, 
em parte em torno visível. Debaixo duma árvore pôs-se, 
dupla, porém, tendo só uma raiz: zambujeiro e oliveira. 
Não conseguia vará-las o vento que traz umidade, 
nem com seus raios brilhantes o Sol o local clareava,

nem mesmo a chuva até lá penetrava, por tal modo unidas 
e entrelaçadas cresceram as árvores onde o guerreiro 
fora acolher-se. Arranjou, muito às pressas, com as mãos uma cama 
larga, pois tanta abundância de folhas havia no solo, 
que de coberta chegara, talvez, para dois ou três homens, 
quando no inverno, por mais rigoroso que entrado ele fosse. 
Vendo-a formada, o paciente e preclaro Odisseu alegrou-se 
e, bem no meio deitando-se, cobre-se todo com folhas. 
Tal como alguém, quando esconde um tição sob a cinza anegrada, 
na ponta extrema do campo, onde mora sem gente por perto

para não ter que ir buscar noutra parte a semente do fogo: 
dessa maneira Odisseu se escondeu entre as folhas. Atena 
deita-lhe sono nos olhos, porque libertado se visse, 
com o cerrar-se das pálpebras, logo dos graves trabalhos. 

continua página 743...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c /                    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1Odisseu, à beira do naufrágio, reflete sobre sua situação. Este é um dos momentos mais intensos do Canto V da Odisseia, pois revela o conflito interior do herói diante da morte iminente.
     Análise do monólogo de Odisseu diante da tempestade
1. Contexto narrativo - Odisseu está sendo perseguido por Posídon, que desencadeou uma tempestade devastadora. Sua balsa já foi destruída, e ele luta para sobreviver no mar. Neste momento, ele avista terra — mas não uma salvação imediata. O trecho registra seu monólogo interior, um recurso literário que Homero usa para revelar a mente do herói.
2. A estrutura emocional do monólogo
     Odisseu passa por três estados psicológicos:
a) Esperança inicial - Ele reconhece que Zeus permitiu que ele chegasse perto da terra: “Já que Zeus me concede ver terra tão perto…” Essa esperança é breve, quase irônica: ele vê a salvação, mas não pode alcançá-la.
b) Desespero racional - a costa é rochedo vertical, impossível de escalar; as ondas quebram violentamente contra as pedras; não há ponto de apoio para os pés; qualquer tentativa de aproximação pode resultar em morte. Ele não se entrega ao pânico: ele pensa, calcula, pondera.
c) Medo profundo - Ele teme: ser lançado contra as rochas; ser tragado novamente pelo mar; ser atacado por monstros marinhos (“dos muitos que Anfitrite alimenta”). Aqui surge o medo mítico: o mar não é apenas natureza, mas um reino habitado por forças hostis.
3. A inteligência de Odisseu como marca do herói
     Este trecho é exemplar da característica mais importante de Odisseu: a metis, a astúcia, a inteligência prática. Mesmo em desespero, ele: avalia o terreno; considera alternativas; prevê riscos; calcula probalidades. 
     Odisseu não é um guerreiro impulsivo: é um pensador, alguém que sobrevive porque pensa.
4. A presença do destino e da hostilidade divina
     O herói reconhece que Posídon está por trás de tudo: “Sei quanto se acha zangado comigo o que a terra sacode.” Essa consciência reforça dois temas centrais da Odisseia:
a) O conflito entre homem e deus - Odisseu não luta apenas contra o mar, mas contra a vontade de Posídon.
b) A inevitabilidade do sofrimento - Mesmo próximo da salvação, o herói ainda precisa enfrentar o último obstáculo. O retorno nunca é simples; o destino exige esforço extremo.
5. A paisagem como símbolo
     A costa descrita por Odisseu é mais do que cenário: é símbolo. Rochas verticais → obstáculos intransponíveis; Ondas violentas → forças caóticas da natureza e dos deuses; Mar profundo → perigo absoluto, ausência de controle; Monstros marinhos → o desconhecido, o medo primordial.
     A paisagem reflete o estado interior do herói: tudo é hostil, tudo ameaça sua vida.
6. A técnica narrativa de Homero
     Homero usa aqui:
a) Monólogo interior - Revela o pensamento íntimo do herói, criando empatia e tensão.
b) Realismo descritivo - A descrição do mar é precisa, física, concreta — quase documental.
c) Suspense - O leitor sabe que Odisseu deve sobreviver (o Fado o garante), mas não sabe como.
d) Humanização do herói - Odisseu não é invencível: ele teme, sofre, hesita.
7. Dimensão simbólica
     O trecho representa:
- A luta do homem contra forças superiores
- A fragilidade humana diante da natureza
- A persistência da esperança mesmo no limite da morte
- A inteligência como arma contra o caos
     Odisseu é o arquétipo do ser humano que enfrenta o mundo com coragem e pensamento.
8. Conclusão interpretativa
     Este monólogo é um dos momentos mais humanos da Odisseia. Odisseu, sozinho no mar, sem barco, sem ajuda, sem armas, enfrenta a morte com: medo, lucidez, reflexão, e uma vontade inquebrantável de sobreviver. Ele não é salvo pela força, mas pela razão — e pela capacidade de manter a calma diante do impossível. É um retrato poderoso da condição humana: mesmo cercado de perigos, o herói pensa, escolhe, luta — e continua.

[2] Análise do trecho: a súplica ao deus do rio e o resgate final
1. Contexto narrativo
     Odisseu acaba de sobreviver ao ataque de Posídon. Sua balsa foi destruída, ele quase morreu contra as rochas, e só conseguiu escapar graças ao véu de Ínô-Leucótea. Agora, à deriva, ele avista a foz de um rio — o primeiro lugar onde a água não o destrói, mas pode acolhê-lo. Este é o momento em que o herói passa da luta desesperada para a súplica ritual.
2. A súplica ao deus fluvial: humildade e sacralidade
     Odisseu não sabe qual deus habita o rio, mas isso não importa: ele reconhece que toda força natural possui um poder divino. “Quem quer que sejas, atende-me, ó deus a quem muitos invocam!” 
     Aqui vemos:
a) Humildade absoluta - O herói, que já enfrentou ciclopes, tempestades e monstros, agora se curva diante de um deus local.
b) Reconhecimento da sacralidade da natureza - Rios, montanhas, mares — tudo é habitado por divindades. Odisseu sabe que só sobreviverá se respeitar esse mundo.
c) A condição do suplicante - Ele se apresenta como alguém que “enlaça os joelhos” do deus — gesto ritual de súplica.
d) A ética da hospitalidade divina - “São veneráveis, até para os deuses eternos, os homens, quando errabundos suplicam…” 
     Odisseu apela para uma lei universal: o suplicante deve ser protegido, mesmo pelos deuses.
3. A resposta imediata do deus do rio
     O rio “susta de pronto” sua corrente e “torna as águas calmas”. Isso revela:
a) A eficácia da súplica - Odisseu é um homem que sabe falar aos deuses. Sua relação com o divino é baseada em respeito e inteligência.
b) A oposição ao caos de Posídon - O mar é destruição; o rio é acolhimento. Odisseu passa do domínio hostil de Posídon para o domínio benevolente de outra divindade.
c) A intervenção divina como parte do destino - O Fado exige que Odisseu sobreviva. O deus do rio cumpre essa função.
4. A exaustão física do herói
     Homero descreve Odisseu com realismo impressionante: pernas e braços vergados, pele intumescida, água saindo da boca e narinas, prostrado no solo, quase sem fôlego. Essa descrição:
a) Humaniza profundamente o herói - Ele não é invencível: é um homem no limite da morte.
b) Reforça a violência da tempestade - Posídon quase o destruiu completamente.
c) Cria contraste com a salvação - Quanto maior o sofrimento, maior o impacto da proteção divina.
5. O gesto ritual: devolver o véu
     Quando recupera os sentidos, Odisseu: “desprende depressa o véu sagrado… e o lança no rio.” Esse gesto é essencial: 
a) Cumpre a instrução de Ínô-Leucótea - Ela ordenou que o véu fosse devolvido ao mar.
b) Marca o fim da proteção sobrenatural - O véu era um objeto mágico. Ao devolvê-lo, Odisseu volta ao mundo humano.
c) Simboliza gratidão e respeito - Ele não retém o objeto divino para proveito próprio.
6. A recepção do véu por Ínô
     “Uma onda grande o levou… de modo que logo Ino nas mãos o recebe.” Isso reforça: a presença contínua da deusa, a ordem cósmica sendo respeitada, a relação harmoniosa entre Odisseu e o mundo divino.
7. O beijo da terra: símbolo máximo do retorno à vida
     “entra um juncal e se deita, beijando o terreno fecundo.” Este é um dos gestos mais belos da Odisseia.
a) O beijo da terra é gratidão pela sobrevivência - Depois de quase morrer no mar, tocar a terra é tocar a vida.
b) A terra é o oposto do mar - Mar = caos, morte, imprevisibilidade; Terra = estabilidade, acolhimento, futuro
c) É o primeiro passo rumo à Feácia - Odisseu finalmente alcança o espaço que o conduzirá de volta a Ítaca.
8. Conclusão interpretativa
     Este trecho é um dos mais simbólicos do Canto V. Ele representa:
- a vitória da vida sobre a morte,
a força da súplica e da humildade,
a benevolência dos deuses menores,
a passagem do caos para a ordem,
o renascimento do herói após o sofrimento extremo.
     Odisseu, ao beijar a terra, não apenas agradece por sobreviver: ele reafirma sua ligação com o mundo humano, com a mortalidade e com o destino que o conduz de volta ao lar.


Odisseia, de Homero - Canto 5 - Calipso liberta Odisseu



Odisseia: Parte II (Canto V.b)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto V

A Caverna de Calipso e a balsa de Ulisses

    “Formando uma segunda assembleia dos deuses, Zeus envia Hermes para Calipso mandando libertar Odisseu. Ela faz o que é ordenado. No décimo oitavo dia, Posido o vê e, se irritando, desfaz a balsa. Mas Ino lhe entrega o seu véu com ordem de o devolver assim que chegar à terra. Depois de muito sofrimento, salvo, chega à terra dos Feácios.” (Scholie P Q V)


continuando...

logo depois de sabida a mensagem que Zeus lhe mandara. 
Foi encontrá-lo assentado na praia. Corria-lhe a doce 
vida num pranto contínuo, que os olhos jamais se enxugavam, 
a suspirar pela volta, que a ninfa não mais lhe era grata. 
Era bem certo que à noite, forçado, dormia na gruta, 
participando, entediado, do leito da ninfa ardorosa. 
Mas todo o dia passava nos altos rochedos da praia, 
a alma desfeita em suspiros sentidos, e prantos, e dores. 
Lágrimas, pois, a verter, contemplava o infecundo oceano. 
Tendo-se a ele chegado, lhe disse a preclara das deusas:

“Basta, infeliz, de chorar. Não consumas, assim, a existência; 
sinto-me, agora, inclinada a deixar-te partir novamente. 
Vamos! Apresta uma grande jangada, lavrando com bronze 
troncos bem grossos. Estrado, depois, elevado lhe fixa, 
para que possa levar-te através do brumoso oceano. 
Água, e alimentos, e vinho vermelho hei de eu mesma trazer-te, 
em grande cópia, que possam livrar-te da fome na viagem. 
Vestes dar-te-ei; hei de ventos ponteiros mandar-te, igualmente, 
a fim que possas voltar para a pátria sem mais sofrimentos, 
caso o consintam os deuses que moram no céu estrelado,

que no pensar, não somente, nas próprias ações me superam.” 
   Estremeceu o divino e paciente Odisseu a tais vozes; 
pôs-se, em seguida, a falar, e lhe disse as palavras aladas: 
   “Outros desígnios, ó deusa, meditas, que não meu retorno, 
quando me ordenas cruzar em jangada o infinito das águas 
cheio de grandes perigos, que os próprios navios velozes 
jamais conseguem vencer, sem que Zeus lhes envie bons ventos. 
Nunca entrarei em jangada, se for contra tua vontade, 
a menos que te resolvas, ó deusa, a fazer juramento 
de que não tens intenção de outros males, agora, causar-me.”

Isso disse ele. Calipso sorriu-se, a divina entre as deusas; 
acariciou-o com a mão e, falando, lhe disse o seguinte: 
   “És, em verdade, um manhoso, que nunca vãmente excogita! 
Cheio de astúcia refletes e sabes dizer o que pensas. 
Pois tome a Terra ciência, bem como o Céu vasto de cima e 
a água do Estige, que se precipita — esta é a jura mais alta 
e mais terrível de todos os deuses bem-aventurados — 
de que não tenho intenção de outros males, agora, causar-te. 
Mas o que penso e proponho fazeres é como se eu própria 
me propusesse, se acaso me visse em igual conjuntura.

Equitativa é minha alma e à justiça inclinada; no peito 
não se me aninha um espírito férreo, senão compassivo.” 
   Tendo isso a deusa preclara enunciado, se pôs a guiá-lo 
rapidamente. Odisseu segue os passos da deusa donosa. 
Ambos, Calipso e o mortal, logo à côncava gruta chegaram, 
indo sentar-se Odisseu na poltrona em que há pouco estivera 
Hermes. A ninfa Calipso lhe serve variados manjares, 
de que comer e beber, de que os homens mortais se alimentam. 
Logo em seguida defronte do divo Odisseu foi sentar-se; 
Néctar e ambrósia na frente dos dois as criadas puseram.

Ambos as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
pôs-se a falar, em seguida, Calipso preclara e divina: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso, 
é, então, verdade que queres voltar para a pátria querida, 
sem mais delongas? Pois parte feliz, apesar do que sinto. 
Mas se pudesses saber o que o Fado te tem reservado 
de sofrimentos, primeiro que alcances a terra nativa, 
escolherias comigo ficar e guardar esta casa, 
como tornar-te imortal, apesar das saudades que sentes

longe da esposa, por causa de quem de contínuo suspiras. 
Mas me envaideço de em nada inferior ser à tua consorte, 
nem nas feições nem no porte, que aos seres mortais não compete 
vir disputar com os eternos na forma perfeita e na altura.” 
   Disse-lhe o muito solerte Odisseu o seguinte, em resposta: 
“Lusa potente, não queiras com isso agastar-te; conheço 
perfeitamente que a minha querida e prudente Penélope 
é de menor aparência e feições menos belas que as tuas. 
Ela é uma simples mortal; tu, eterna, a velhice não temes. 
Mas, apesar de tudo isso, consumo-me todos os dias

para que à pátria retorne e reveja o meu dia da volta. 
Mesmo que em meio do mar cor de vinho algum deus me atingisse, 
meu coração resistente isso tudo, decerto, sofrera. 
Já suportei muitas dores, passei numerosos trabalhos, 
tanto no mar que na guerra; que venham, por isso, mais esses.” 
   Disse, no tempo em que o Sol se deitou, vindo a noite em seguida. 
Para o interior ambos eles se foram da gruta escavada; 
dão-se aos deleites do amor, e bem juntos um do outro se ficam. 
   Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
sem mais demora, Odisseu veste a túnica e o manto veloso.

Ela, Calipso, se adorna com peplo bem grande e luzente, 
belo de ver e mui fino, que aperta no corpo com um cinto 
de ouro e lavrado; por último, o véu na cabeça coloca. 
Passa a pensar na maneira de como Odisseu retornasse. 
Dá-lhe uma grande bipene de bronze, de fácil manejo, 
com duplo bordo cortante, na qual ajustara um mui belo 
cabo tirado de pau de oliveira e bem fixo no furo. 
Dá-lhe, depois, uma enxó bem-lavrada, e lhe serve de guia 
ao ponto da ilha postremo, onde espessa floresta crescera, 
com muitos choupos e amieiros e abetos, que o céu atingiam,

todos sem seiva e já secos, que leves no mar o levassem. 
Tendo-lhe o ponto mostrado em que as árvores grandes cresciam, 
para o palácio retorna a preclara e divina Calipso. 
Troncos derruba Odisseu; facilmente o trabalho arremata. 
Vinte, por tudo, abateu, e com o bronze dos galhos os limpa; 
mui habilmente os lavrou, as distâncias tomando com fio. 
Trados lhe trouxe, entrementes, a deusa preclara Calipso. 
Todos, com eles, furou, ajustando, depois, uns aos outros, 
encavilhando-os de jeito e travessas metendo a martelo. 
Quanto experiente armador, que constrói um navio de carga,

largo e espaçoso, lhe tira a medida da parte do fundo: 
tanto em largura a jangada media do herói astucioso. 
Põe-lhe, depois, um jirau, sustentando-o com vigas bastantes, 
para, por fim, concluir a armadura com troncos ao longo. 
Mastro, também, levantou, adaptando-lhe no alto uma verga. 
Leme aprontou e ajustou-lhe, porque fosse fácil guiá-la. 
Para das ondas ficar protegida, em redor reforçou-a 
com bem-trançados cipós, pondo o lastro com muita madeira. 
Pano de linho lhe trouxe, entretanto, a divina Calipso, 
para que a vela aprestasse. Com arte soube ele cortá-la,

nela prendendo, por fim, as adriças, escotas e braços. 
Com alavanca a jangada arrastou para as ondas sagradas. 
   No quarto dia o trabalho ficou concluído a contento, 
e no seguinte a divina Calipso mandou que se fosse 
da ilha, depois de o banhar e prover de vestidos odoros. 
Pôs na jangada dois odres, um de água, bem grande, e um
de vinho de cor escura. Num saco de couro depôs, de igual modo, 
muitos manjares de fino sabor e variada feitura. 
Fez que soprasse, em seguida, um bom vento propício e agradável, 
ao qual as velas o divo Odisseu satisfeito desfralda.

Sempre sentado, o timão dirigia com arte e destreza, 
sem ter as pálpebras nunca de sono pesadas, as Plêiades 
a contemplar e o Boeiro, que tarde costuma deitar-se, 
bem como a Ursa, também pelo nome de Carro chamada, 
que gira sempre num ponto e não deixa de a Orião ter em vista, 
e que entre todas é a única que não se banha no Oceano, 
pois fora expressa recomendação da divina Calipso 
que ele tivesse à sinistra este signo durante o percurso. 
Dessa maneira singrou pelo dorso no mar dezessete 
dias; mas no outro surgiram os montes escuros da terra

onde os Feácios demoram, bem próximo donde ele estava, 
que parecia um escudo deixado no oceano brumoso. 
   Eis que Posidon, de volta dos homens Etíopes, o enxerga, 
dos altos montes dos povos Solimos. De pronto o percebe, 
que pelo mar navegava. Ainda mais se exaspera com isso; 
move indignado a cabeça e a si próprio dirige a palavra: 
   “Oh! Por sem dúvida os deuses por modo diverso acordaram 
sobre Odisseu, quando estive em visita entre as gentes Etíopes. 
Vejo-o bem perto da terra Feácia, onde é força que escape 
do laço extremo do Fado que sobre ele pesa sinistro.

Penso, porém, que ainda posso causar-lhe outra série de males.”² 
   Tendo isso dito, congloba os bulcões, deixa o mar agitado 
com o tridente. Suscita, depois, tempestade violenta 
dos ventos todos e em nuvens envolve cinzentas a terra 
conjuntamente com o mar. Baixa a Noite do céu entrementes. 
Euro mais Noto se chocam, e Zéfiro desagradável, 
bem como Bóreas, que do éter provém, portador de ondas grandes. 
O coração de Odisseu se abalou, fraquejaram-lhe os joelhos. 
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Quão infeliz! Ai de mim! Que me falta passar de mais grave? 

Pois bem receio que a deusa tivesse a verdade anunciado, 
quando falou dos trabalhos que na água eu passar deveria 
antes de a pátria alcançar. Ora tudo, de acordo, se cumpre. 
Com quantas nuvens esconde ora o céu Zeus Olímpico! As ondas 
como levanta, também, suscitando furiosos remoinhos 
dos ventos todos! É força que a Morte imatura me colha. 
Três, quatro vezes felizes os Dânaos que lá na planície 
da grande Troia morreram, por simples amor aos Atridas! 
Bem preferira cumprir o Destino e morrer ali mesmo, 
naquele dia em que os Teucros, visando-me lanças aêneas

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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c /                    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Esta parte da Odisseia marca a transição decisiva entre o sofrimento solitário de Odisseu e sua reintegração ao mundo humano. Aqui, Homero reúne três núcleos narrativos:
- O cativeiro de Odisseu na ilha de Calipso
- O naufrágio e a chegada à terra dos Feácios
- A acolhida na casa do rei Alcínoo, onde Odisseu finalmente narra suas aventuras.
     É o momento em que o herói deixa de ser apenas personagem das histórias dos outros (como na Telemaquia) e volta a ser protagonista de sua própria narrativa.
Canto V
- Odisseu está preso há sete anos na ilha de Ogígia, retido pela ninfa Calipso, que lhe oferece imortalidade se ele aceitar ficar com ela.
- Os deuses decidem que é hora de libertá-lo; Hermes leva a ordem a Calipso.
- O herói constrói uma balsa e parte, mas Posídon, ainda irado pelo episódio com Polifemo, provoca uma tempestade.
- Odisseu sobrevive por pouco e é lançado ao mar, agarrado a pedaços da embarcação.
[2] Uma análise do trecho em que Posídon avista Odisseu a caminho da terra dos Feácios e decide atacá‑lo novamente. Este é um dos momentos mais tensos do Canto V da Odisseia, pois revela o conflito direto entre o deus e o herói.
Contexto narrativo
     Posídon estava ausente — visitava os Etíopes — quando os deuses decidiram libertar Odisseu da ilha de Calipso. Ao retornar, vê o herói navegando em direção à Feácia, muito próximo de escapar definitivamente de seu ódio. Esse detalhe é crucial: Posídon não participou da decisão divina e, portanto, age movido por ressentimento e pela sensação de ter sido excluído.
A visão de Odisseu e o aumento da fúria
     Ao avistar Odisseu “dos altos montes dos povos Solimos”, Posídon:
Reconhece o herói imediatamente
Percebe que ele está prestes a escapar
Sente sua ira aumentar (“ainda mais se exaspera com isso”)
     A reação é instantânea e emocional. Posídon não é um deus racional: ele é impulsivo, vingativo e orgulhoso.
A fala de Posídon: ressentimento e desafio
     Posídon diz: "Oh! Por sem dúvida os deuses por modo diverso acordaram sobre Odisseu, quando estive em visita entre as gentes Etíopes.” Aqui ele expressa:
Ressentimento contra os outros deuses (Ele se sente traído: enquanto estava longe, os outros decidiram favorecer Odisseu.)
- Consciência do destino do herói 
     Posídon sabe que Odisseu está “perto da terra Feácia”, onde o Fado exige que ele escape.
     Isso é importante: Posídon reconhece que o destino de Odisseu é voltar para casa. Mas, mesmo assim, ele tenta atrasar ou dificultar esse retorno.
A vontade de causar mais sofrimento
     Penso, porém, que ainda posso causar-lhe outra série de males.” Essa frase revela a essência do conflito: Posídon não pode impedir o destino, mas pode prolongar o sofrimento.
O tema do conflito entre destino e vontade divina
     Este trecho é exemplar da tensão central da Odisseia:
O destino (Moira) determina que Odisseu deve voltar a Ítaca.
Posídon, porém, tenta constantemente atrasar esse retorno.
     Posídon não é capaz de anular o Fado, mas pode:
- criar tempestades,
- destruir embarcações,
- prolongar o sofrimento do herói.
     Essa tensão entre o inevitável e o contingente é uma marca da poesia épica.
A psicologia de Posídon
     Posídon é movido por:
a) Orgulho ferido - Odisseu cegou seu filho, Polifemo. Para Posídon, isso é uma afronta pessoal.
b) Desejo de vingança - Ele não quer apenas punir Odisseu: quer que o herói sinta o peso da ira divina.
c) Frustração - Ao ver Odisseu tão perto da salvação, Posídon percebe que sua vingança está ameaçada.
Função narrativa do episódio
     Este momento cumpre várias funções:
a) Intensifica o drama - Odisseu está quase salvo, mas ainda enfrenta um último ataque.
b) Prepara o naufrágio - Posídon desencadeia a tempestade que destruirá a balsa de Odisseu.
c) Introduz a intervenção de outras divindades - A deusa Ínô-Leucótea aparecerá para ajudar Odisseu, equilibrando a balança contra Posídon.
d) Reforça o papel dos Feácios - Eles são essenciais para o retorno do herói — e Posídon sabe disso.
Dimensão simbólica
     Posídon representa:
- As forças caóticas do mar
- O sofrimento inevitável da jornada humana
- A resistência do mundo contra o retorno ao lar
     Odisseu, por sua vez, simboliza:
a perseverança,
a inteligência,
a capacidade humana de resistir ao caos.
Conclusão interpretativa
     Este trecho mostra Posídon em seu momento mais humano: ressentido, frustrado, vingativo. Ele sabe que não pode impedir o destino, mas tenta atrasá-lo — e isso revela a complexidade do mundo divino na Odisseia. O conflito entre Posídon e Odisseu não é apenas físico: é moral, psicológico e simbólico.
     O herói está quase no fim da jornada, mas ainda precisa enfrentar a última tempestade — a última prova antes de ser acolhido pelos Feácios e finalmente retomar sua identidade e seu caminho para Ítaca.