quinta-feira, 13 de agosto de 2026

MPB: Lafayette

LAFAYETTE - o gênio esquecido da Jovem Guarda


Lafayette emprestou o talento de seu estilo único - com seu órgão Hammond - a várias músicas consagradas da Jovem Guarda.

 





Lafayette, o primeiro tecladista da história do Rock. Essa foi a primeira vez que se usou o órgão em uma música de rock.

Roberto Carlos
- Quero Que Vá Tudo Pro Inferno



"Quero Que Vá Tudo Pro Inferno" 
(Roberto Carlos, Erasmo Carlos)
De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar
Se você não vem e eu estou a lhe esperar
Só tenho você no meu pensamento
E a sua ausência é todo o meu tormento
Quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
De que vale a minha boa vida de playboy
Se entro no meu carro e a solidão me dói
Onde quer que eu ande tudo é tão triste
Não me interessa o que de mais existe
Quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
Não suporto mais você longe de mim
Quero até morrer do que viver assim
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
Oh, oh,
E que tudo mais vá pro inferno
Não suporto mais você longe de mim
Quero até morrer do que viver assim
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno


Roberto Carlos - Namoradinha De Um Amigo




O órgão da Jovem Guarda - Não quero ver você triste




"Não me vejo sem a música", diz Lafayette no Thunderview - Parte 1




LAFAYETTE 
The Legend of Xanadu @ Projeto Terças Musicais Light, Rio, 2012



O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (4)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 continuando...

     Recusando os princípios lógicos, os imperativos morais, cética diante das leis da natureza, a mulher não tem o senso do universal; o mundo apresenta-se-lhe como um conjunto confuso de casos singulares; eis por que acredita mais facilmente nos mexericos de uma vizinha do que numa exposição científica; sem dúvida, respeita o livro impresso, mas esse respeito desliza ao longo das páginas escritas sem apreender-lhes o conteúdo: ao contrário, a anedota contada por um desconhecido numa fila ou num salão reveste-se imediatamente de uma esmagadora autoridade; em seu domínio, tudo é magia; fora, tudo é mistério; ela não conhece o critério da verossimilhança; só a experiência imediata conquista sua convicção, sua própria experiência ou a de outrem, desde que a afirme com suficiente força. Quanto a ela, por se achar isolada em seu lar, não se confronta ativamente com outras mulheres, considera-se espontaneamente como um caso singular; está sempre à espera de que o destino e os homens façam uma exceção em seu favor; muito mais do que nos raciocínios válidos para todos, ela crê nas iluminações que a atravessam; admite facilmente que lhes são enviadas por Deus ou por qual quer espírito obscuro do mundo; com relação a certas desgraças, a certos acidentes, ela pensa tranquilamente: "A mim isso não acontecerá"; inversamente imagina que "para mim haverá uma exceção": o comerciante fará um desconto, ou o guarda a dei xará passar sem que tenha prioridade. Ensinaram-lhe a superestimar o valor de seu sorriso e esqueceram de lhe dizer que todas as mulheres sorriem. Não acontece isso porque ela se imagine mais extraordinária do que sua vizinha, mas sim porque não se compara; pela mesma razão, é raro que a experiência lhe inflija algum desmentido: experimenta um malogro, outro, mas não os totaliza.
     É por isso que as mulheres não conseguem construir solidamente um contra-universo, de onde possam desafiar os homens; esporadicamente, deblateram contra os homens em geral, contam--se histórias de cama e de parto, trocam horóscopos e receitas de beleza. Mas, para edificar realmente esse "mundo do ressenti mento" que seu rancor almeja, carecem de convicção; sua atitude em relação ao homem é demasiado ambivalente. Este é, com efeito, uma criança, um corpo contingente e vulnerável, um ingênuo, um zangão importuno, um tirano mesquinho, um egoísta, um vaidoso: mas é também o" herói libertador, a divindade que distribui valores. Seu desejo é um apetite grosseiro, seus amplexos são uma tarefa degradante: entretanto, o entusiasmo, a força viril apresentam-se também como uma energia demiúrgica. Quando uma mulher diz com êxtase: "É um homem!" evoca ao mesmo tempo o vigor sexual e a eficiência social do macho que admira: em uma e outra coisa se exprime a mesma soberania criadora; ela não imagina que ele seja um grande artista, um grande homem de negócios, um general, um chefe, sem ser um amante vigo roso; os êxitos sociais dele têm sempre uma atração sexual; inversamente, ela se mostra disposta a emprestar gênio ao macho que a satisfaz. É, de resto, um mito masculino que ela retoma aqui. O falo, para Lawrence e muitos outros, é, ao mesmo tempo, uma energia viva e a transcendência humana. Pode assim a mulher ver nos prazeres da cama uma comunhão com o espírito do mundo. Dedicando ao homem um culto místico, perde-se e se reencontra na glória masculina. A contradição é, aqui, facilmente suprimida graças à pluralidade dos indivíduos que participam da virilidade. Alguns — aqueles cuja contingência ela experimenta na vida quotidiana — são a encarnação da miséria humana; em outros exalta-se a grandeza do homem. Mas a mulher aceita até que essas duas figuras se confundam em uma só. "Se eu me tornar célebre, escrevia uma jovem apaixonada por um homem que considerava superior, R... casará certamente comigo porque sua vaidade será lisonjeada; estufaria o peito passeando de braço dado comigo." No entanto, ela o admirava loucamente. O mesmo indivíduo pode muito bem ser, aos olhos da mulher, avarento, mesquinho, vaidoso, irrisório e Deus: afinal os deuses têm suas fraquezas. Temos por um indivíduo que amamos em sua liberdade, em sua humanidade, essa exigente severidade que é o inverso de uma autêntica estima; ao passo que uma mulher ajoelhada diante de seu homem pode muito bem ufanar-se de "saber dominá-lo", de saber "manobrá-lo"; lisonjeia-lhe complacentemente "as pequenas qualidades" sem que êle se dispa de seu prestígio; é a prova de que ela não tem amizade especificamente por sua pessoa, tal qual se realiza em atos reais; ela prosterna-se cegamente diante da essência geral de que o ídolo participa: a virilidade é uma aura sagrada, um valor dado, está tico, que se afirma a despeito das falhas do indivíduo que a tem; este não conta; ao contrário, a mulher, com ciúme de seu privilegio, compraz-se em tomar atitudes de maligna superioridade sobre ele.
     A ambiguidade dos sentimentos que a mulher dedica ao homem reencontra-se em sua atitude geral para consigo mesma e o mundo; o domínio em que se acha encerrada é investido pelo universo masculino; mas é habitado por forças obscuras de que os próprios homens são joguetes. Aliando-se a essas virtudes mágicas, ela conquistará, por sua vez, o poder. A sociedade escraviza a Natureza, mas a Natureza a domina; o Espírito afirma-se além da Vida; mas dissipa-se, se a vida não o sustenta mais. A mulher apoia-se nesse equívoco para dar maior importância a um jardim do que a uma cidade, a uma doença do que a uma ideia, a um parto do que a uma revolução; esforça-se para restabelecer esse reinado da terra, da Mãe, sonhado por Baschoffen a fim de reencontrar o essencial em face do inessencial. Mas como é, ela também, um existente que habita uma transcendência, só poderá valorizar a região em que se acha confinada transfigurando-a; empresta-lhe uma dimensão transcendente. O homem vive num universo coerente que é uma realidade pensada. A mulher está às voltas com uma realidade mágica que não se deixa pensar: ela se evade dela através de pensamentos privados de conteúdo real. Ao invés de assumir sua existência, contem plano céu a pura Ideia de seu destino; em vez de agir, ergue sua estátua no imaginário; em vez de raciocinar, sonha. Daí vem que sendo "tão física" seja também tão artificial, que sendo tão terrestre se faça tão etérea. Passa a vida limpando caçarolas e é um romance maravilhoso; vassala do homem, acredita ser seu ídolo; humilhada em sua carne, exalta o amor. Porque está condenada a só conhecer a facticidade contingente da vida, faz-se sacerdotisa do Ideal.
     Essa ambivalência marca-se na maneira por que a mulher apreende o próprio corpo. É um fardo; roído pela espécie, sangrando todos os meses, proliferando passivamente, não é para ela o instrumento puro de seu domínio sobre o mundo, mas uma presença opaca; não lhe assegura com certeza o prazer e cria dores que a atormentam; encerra ameaças: ela sente-se em perigo nos seus "interiores". É um corpo "histérico", por causa das íntimas ligações das secreções endócrinas com os sistemas nervoso e simpático que comandam músculos e vísceras; exprime reações que a mulher se recusa a assumir: nos soluços, nas convulsões, nos vômitos, ele lhe escapa, ele a trai; ele é sua verdade mais íntima, mas é uma verdade vergonhosa e que ela esconde. E, no entanto, ele é também seu duplo maravilhoso; ela contempla-o com deslumbramento ao espelho; é promessa de felicidade, obra de arte, estátua viva; ela o modela, enfeita, exibe. Quando se sorri ao espelho, ela esquece sua contingência carnal; no amplexo amoroso, na maternidade, a imagem aniquila-se. Mas, amiúde, sonhando consigo mesma, ela se espanta com ser ao mesmo tempo essa heroína e essa carne.
     A Natureza oferece-lhe simetricamente uma dupla face: ela trata da sopa e incita às efusões místicas. Tornando-se dona de casa mãe, a mulher renuncia a suas livres escapadas por prados bosques, prefere cultivar calmamente sua horta, domestica flores coloca-as em vasos; entretanto, exalta-se ainda diante dos luares e dos crepúsculos. Na fauna e na flora terrestres, ela vê antes de tudo alimentos, ornatos; no entanto, nelas circula uma seiva que é generosidade e magia. A Vida não é apenas imanência e repetição: tem também uma deslumbrante face de luz; nos prados em flor ela se revela como Beleza. Ligada à Natureza pela fertilidade de seu ventre, a mulher sente-se igualmente varrida pelo sopro que a anima e que é espírito. E na medida em que permanecer insatisfeita, em que se sentir como a jovem irrealizada, ilimitada, sua alma também se engolfará pelas estra das indefinidamente desenroladas em direção a horizontes ilimitados. Escravizada ao marido, aos filhos, ao lar, com embriaguez é que se encontrará sozinha, soberana, no flanco das colinas; não é mais esposa, mãe, dona de casa, e sim um ser humano; contempla o mundo passivo; lembra-se de que é toda uma consciência, uma irredutível liberdade. No mistério da água, na vertigem das alturas, a supremacia do homem fica abolida; quando anda através das urzes, quando mergulha a mão no regato, não vive para outrem, vive para si. A mulher que manteve sua independência através de todas as suas servidões, amará ardentemente na Natureza sua própria liberdade. As outras nessa Natureza encontrarão somente um pretexto para êxtases distintos; hesitarão ao crepúsculo ante o receio de pegar um resfriado e o gozo intenso da alma.
     Essa dupla dependência do mundo carnal e do mundo "poético define a metafísica, a sabedoria a que adere mais ou menos explicitamente a mulher; ela se esforça por confundir vida e transcendência; isso equivale a dizer que recusa o cartesianismo e todas as doutrinas que a ele se aparentam; encontra-se à vontade em um naturalismo análogo ao dos estoicos ou dos neoplatônicos do século XVI: não é de espantar que as mulheres, com Margarida de Navarra à frente, se tenham apegado a uma filosofia ao mesmo tempo tão material e tão espiritual. Socialmente maniqueísta, a mulher tem profunda necessidade de ser ontologicamente otimista: as morais da ação não lhe convém porque lhe é proibido agir; ela suporta o dado, cumpre, por tanto, que o dado seja o Bem; mas um Bem que como o de Espinosa se reconhece pela razão, ou como o de Leibniz pelo uma Harmonia viva e no seio do qual ela se situa pelo único fato de viver. A noção de harmonia é uma das chaves do uni verso feminino: implica a perfeição na imobilidade, a justificação imediata de cada elemento a partir do todo e sua participação passiva na totalidade. Em um mundo harmônico, a mulher atinge, assim, o que o homem procurará na ação: age sobre o mundo, é por ele exigida, coopera para o triunfo do Bem. Os momentos que as mulheres consideram como revelações são aqueles em que descobrem seu acordo com uma realidade repousando em paz sobre si mesma: são os momentos de luminosa felicidade que V. Woolf — em Mrs. Dalloway, em Passeio ao Farol — que K. Mansfield, em toda a sua obra, concedem a suas heroínas como uma recompensa suprema. A alegria, que é um movimento, um impulso de liberdade, está reservada ao homem; o que a mulher conhece é uma impressão de sorridente plenitude¹. Compreende-se que a simples ataraxia possa assumir a seus olhos um grande valor, porquanto ela vive normalmente na tensão da recusa, da recriminação, da reivindicação; e não se pode censurá-la por apreciar uma bela tarde ou a doçura de uma noite. Mas é uma ilusão buscar nisso a definição verdadeira da alma recôndita do mundo. O Bem não é; o mundo não é harmonia e nenhum indivíduo tem nele um lugar necessário.

[1] Entre um punhado de textos, citarei estas linhas de Mabel Dodge, em que a passavam a uma visão global dó mundo não se acha explícita mas é claramente sugerida. "Era um dia calmo de outono, todo ouro e púrpura, Frieda e eu escolhíamos frutas e estávamos sentadas no chão, com as maçãs vermelhas empilhadas ao redor de nós. Tínhamos parado um momento. O sol e a terra fecunda aqueciam-nos e perfumavam-nos e as maçãs eram sinais vivos de plenitude, de paz e abundância. A terra transbordava uma seiva que nos escorria nas veias e sentíamo-nos alegres, indomáveis e carregadas de riquezas! como vergéis. Por um minuto estávamos unidas nesse sentimentos que as mulheres têm por vezes de ser perfeitas, de se bastar inteiramente a si mesmas, e que provinha de. nossa saúde rica e feliz."

continua página 386...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (4)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Massa e Poder - A Ordem: Espera de ordens

Elias Canetti

A ORDEM

     Espera de ordens

          O soldado em serviço apenas cumpre ordens. É possível que tenha vontade de fazer isto ou aquilo, mas como é soldado isso não conta. Ele não pode encontrar-se diante de encruzilhadas; e mesmo que se encontrasse não seria ele quem iria decidir qual dos caminhos tomar. Sua vida ativa está restringida por todos os lados. Ele faz o que todos os demais soldados fazem com ele; e faz o que lhe é ordenado. A eliminação de todas as demais ações, que os demais homens executam, livremente (ou assim pensam), o deixa ávido das ações que tem de executar. 
     A sentinela, que permanece imóvel durante horas em seu posto, é o melhor exemplo da constituição psíquica do soldado. Ela não pode se afastar, não pode adormecer, não pode se movimentar, a não ser que lhe tenham sido prescritos certos movimentos, fixados nos menores detalhes. Seu serviço propriamente dito é a resistência a qualquer tentação de abandonar seu posto, seja qual for a forma sob a qual esta tentação possa aparecer. Esse negativismo do soldado, como poderia ser definido, é sua espinha dorsal. Todos os motivos habituais de ação, como os desejos, o temor, a inquietude, que constituem a essência da vida do homem, são reprimidos dentro dele. E ele os combate melhor quando nem sequer chega a confessá-los.
     Todo ato que ele então realmente executa deve estar sancionado por uma ordem. Como é muito difícil para um homem não fazer coisa alguma, acumula-se dentro dele uma grande expectativa pelo que lhe é permitido empreender. O desejo de ação se represa e cresce até atingir proporções desmedidas. Mas, como antes da ação existe uma ordem, a expectativa se volta para esta: o bom soldado está sempre em estado de consciente espera de ordens. Esta espera é ampliada de todas as formas possíveis pela educação; ela se manifesta claramente nas posturas e nas fórmulas militares. O momento vital na existência do soldado é o da posição de atenção diante de seu superior. Num estado de tensão e de receptividade máximas, ele se coloca diante do superior e a fórmula que pronuncia — "Às suas ordens!" — expressa com grande precisão do que se trata.
     A educação do soldado começa no momento em que lhe são proibidas muito mais coisas do que aos demais homens. Para as menores transgressões existem castigos severos. A esfera do proibido, com a qual já está familiarizado desde criança, se amplia até atingir o gigantesco para o soldado. Muros e mais muros são construídos em torno dele; muros que são iluminados para ele, e que dão a impressão de crescer diante dele. Sua altura e severidade se igualam à sua claridade. Constantemente fala-se a respeito desses muros; o soldado não pode alegar desconhecê-los. Começa então a se movimentar como se eles estivessem sempre ao seu redor. O aspecto anguloso do soldado é como um eco, em seu corpo, da dureza e da lisura desses muros; ele adquire algo de uma figura estereométrica. É um prisioneiro que se adaptou aos seus muros; um prisioneiro que está satisfeito; que se defende tão pouco contra a situação em que se encontra quanto os muros que o moldam. Enquanto outros prisioneiros vivem apenas de uma única ideia (como conseguir saltar ou perfurar seus muros), o soldado os aceita como uma nova natureza, como um ambiente natural ao qual se adapta, no qual ele mesmo acaba se transformando.
     Somente quem incorporou dentro de si, desta maneira intensa, a medida plena das proibições, quem através dos afazeres de todos os dias — e isto dia após dia — demonstrou que sabe se esquivar da maneira mais precisa de todas as coisas que são proibidas é que passa realmente a ser soldado. Para ele, a ordem tem um valor superior. É como a saída de uma fortaleza, dentro da qual se tenha permanecido durante tempo demasiado. A ordem o atinge como um raio que o lança contra os muros do que é proibido; como um raio que mata apenas esporadicamente. Neste enorme deserto monótono das coisas proibidas que se estende por todos os lados em torno dele, a ordem acontece como uma redenção: a figura estereométrica se anima e se coloca em movimento ao ouvir a voz de comando.
     Faz parte da formação do soldado que ele aprenda a receber ordens de duas maneiras; sozinho ou na companhia de outros. Os exercícios o habituaram a movimentos que são executados juntamente com os demais; todos devem realizá-los de maneira absolutamente idêntica. Trata-se de uma espécie de precisão que se aprende melhor pela imitação dos demais do que sozinho. Desta forma o indivíduo torna-se igual aos outros; estabelece-se uma igualdade que eventualmente pode ser utilizada para transformar a divisão do exército em massa. Normalmente, porém, deseja-se exatamente o contrário: igualar o mais possível os soldados, sem que eles se transformem em massa.
     Quando estão juntos como unidade, eles reagem a todas as ordens dadas em conjunto. No entanto, deve continuar existindo a possibilidade de separá-los: um, dois, três homens, metade deles, quantos o comandante desejar. O fato de eles marcharem juntos deve ser exterior; a divisibilidade da divisão constitui sua utilidade. A ordem deve sempre poder atingir o número que se quiser: um, vinte ou a divisão inteira. Sua eficiência não pode depender da quantidade dos que são atingidos. É a mesma ordem, pouco importando que seja apenas um quem a recebe ou todos. Esta natureza invariável da ordem é da maior importância: ela a subtrai de todas as influências da massa.
     A pessoa que deve dar ordens num exército deve poder manter-se livre de toda e qualquer massa — fora dele, dentro ele. Ela aprendeu isso tendo sido educada para esperar ordens.

continua na página 176...
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Leia também:

Massa e Poder - A Ordem: Espera de ordens
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

MPB: Jorge Maravilha

Julinho da Adelaide


A partir da gravação de Apesar de Você, interpretada pelas autoridades da ditatura militar como uma ofensa a Armando Falcão, Ministro da Justiça do Brasil durante o governo Ernesto Geisel (1974-1979), os censores do Serviço de Censura de Diversões Públicas tornaram-se bastante rígidos com o compositor. Todas as letras assinadas por Buarque recebiam o carimbo interditada. Para escapar das limitações, especialmente após as proibições impostas a peça Calabar, Chico Buarque criou o heterônimo Julinho da Adelaide. A estratégia funcionou, e músicas como Acorda amor, Milagre brasileiro e Jorge Maravilha escaparam da censura.






Tem nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Ela gosta do tango, do dengo
Do mengo, domingo e de cosca
Ela pega e me bisca, belisca, petisca
Me arrisca e me enrosca

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Tem nada como um dia após o outro dia
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Ela gosta do tango, do dengo
Do mengo, domingo e de cosca
Ela pega e me bisca, belisca, petisca
Me arrisca e me enrosca

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta


Jorge Maravilha - A história por trás da música.





Apesar de você - Chico Buarque e MPB4





Acorda amor - Julinho da Adelaide





É o Milagre brasileiro quanto mais trabalho menos vejo o dinheiro...



Calabar - Chico Buarque





Você já leu peça de teatro em livro?
Calabar - Chico Buarque e Ruy Guerra





Novos Baianos | Jorge maravilha

Com direito ao Paulinho Boca de Cantor tirando um sarro da 
censura na ditadura cívico-militar de 64!




Um dia de domingo / Se eu quiser falar com Deus / Jorge Maravilha / Lafayette /       

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Poço e o Pêndulo (a)

Edgar Allan Poe - Contos


O Poço e o Pêndulo 

Aqui por muito tempo os impiedosos torturadores nutriram 
o insaciável furor da turba pelo sangue dos inocentes. 
Agora que a pátria está a salvo, e o antro fúnebre foi destruído, 
onde antes havia morte surgem vida e bem-estar.
(Quadra composta para os portões de um mercado a ser erguido 
no local onde ficava o Clube dos Jacobinos, em Paris.)

     Eu estava esgotado — mortalmente esgotado por aquela longa agonia; e quando enfim me desataram, e foi-me dada a permissão de sentar, percebi que os sentidos me faltavam. A sentença — a pavorosa sentença de morte — foi a última de distinta articulação a chegar aos meus ouvidos. Depois disso, o som das vozes inquisitoriais pareceu fundir-se em um único murmúrio vago e onírico. Ele transmitia à alma a ideia de rotação — talvez por associar-se em minha imaginação ao rumor de uma roda de moinho. Isso por um curto período, apenas; pois em breve nada mais ouvi. E contudo, por um tempo, eu vi; mas com que terrível exagero! Vi os lábios dos juízes em seus mantos negros. Pareceram-me brancos — mais brancos que a folha em que traço estas palavras — e finos ao ponto mesmo do grotesco; finos com a intensidade de suas expressões de intransigência — de inamovível determinação — de austero desprezo pelo suplício humano. Vi que os decretos do que para mim era o Destino ainda saíam por aqueles lábios. Vi que se contorciam em mortal elocução. Vi que formavam as sílabas do meu nome; e estremeci, pois som nenhum adveio. Vi também, por alguns momentos de horror delirante, a suave e quase imperceptível ondulação dos reposteiros cor de sable que revestiam as paredes da sala. E então meu olhar recaiu sobre as sete velas altas em cima da mesa. No início, exibiam o aspecto da caridade, e pareciam esguios anjos brancos que me salvariam; mas então, de repente, a náusea mais mortífera tomou conta de meu espírito, e senti cada fibra do corpo vibrar como se eu houvesse tocado o io de uma pilha galvânica, enquanto as formas angelicais tornavam-se espectros sem sentido, com cabeças de fogo, e vi que dali nenhum conforto adviria. E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo. O pensamento se insinuou vagaroso e furtivo, e pareceu transcorrer longo tempo antes que atingisse a plena apreciação; mas no exato momento em que meu espírito enfim o sentiu e o acolheu propriamente, as figuras dos juízes desvaneceram, como que por mágica, diante de meus olhos; as longas velas mergulharam no vazio; suas chamas se extinguiram por completo; o negror das trevas sobreveio; todas as sensações pareceram tragadas num assalto violento e furioso como o da alma pelo Hades. Então o universo se tornou silêncio, imobilidade e noite.
     Desmaiara; mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo — não! No delírio — não! Em um desmaio — não! Na morte — não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia), não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloquentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é — o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba? Mas e se as impressões do que denominei como primeiro estágio não são, voluntariamente, recordadas, acaso, após um longo intervalo, elas não voltam mesmo sem ser convidadas, enquanto imaginamos admirados de onde podem ter surgido? Aquele que jamais desfaleceu, não é ele que encontra palácios estranhos e rostos perturbadoramente familiares nas brasas incandescentes; não é ele que contempla, flutuando em pleno ar, as tristes visões que à maioria são vedadas; não é ele que pondera sobre o perfume de alguma flor incomum — não é ele cujo cérebro fica mais e mais atônito com o significado de alguma cadência musical que nunca antes prendeu sua atenção.
     Em meio aos frequentes e diligentes esforços por lembrar; em meio às obstinadas lutas para recuperar alguma recordação do estado de aparente inexistência em que minha alma mergulhara, houve momentos em que sonhei com o êxito; houve períodos breves, muito breves, em que conjurei lembranças que, segundo me assegura a razão lúcida de uma época posterior, poderiam referir-se apenas àquela condição de aparente inconsciência. Essas sombras de memória evocam, vagamente, figuras altas que me ergueram e me carregaram em silêncio, descendo — descendo — descendo mais —, até que uma medonha vertigem me oprimiu ante a mera ideia da natureza interminável da descida. Evocam também um vago horror em meu coração, por conta da anormal tranquilidade desse mesmo coração. Então segue-se uma sensação de súbita imobilidade de todas as coisas; como se aqueles que me carregavam (um cortejo espectral!) houvessem ultrapassado, em sua descida, os limites do ilimitado, e parado com a exaustão do esforço hercúleo. Depois disso vêm-me à mente horizontalidade e umidade; e então tudo é insanidade — a insanidade de uma lembrança se insinua em meio a coisas proibidas.
     Muito subitamente regressaram-me à alma movimento e som — o tumultuoso movimento do coração e, aos meus ouvidos, o som de seu batimento. Então uma pausa em que tudo é vácuo. Então outra vez som, e movimento, e tato — uma sensação de formigamento permeando meu corpo. Então a mera consciência da existência, sem pensamento — condição que durou longamente. Então, muito subitamente, pensamento, e trêmulo terror, e obstinado esforço de compreender meu verdadeiro estado. Então um forte desejo de mergulhar na insensibilidade. Então uma violenta reanimação da alma e um vitorioso esforço de me mover. E depois a completa lembrança do julgamento, dos juízes, dos negros reposteiros, da sentença, do esgotamento, do desfalecimento. Então o total esquecimento de tudo que se seguiu; de tudo que um dia posterior e grande obstinação de esforço possibilitaram-me vagamente recordar.
     Até esse momento, eu não abrira os olhos. Senti que jazia de costas, desatado. Estiquei a mão, e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa úmida e dura. Deixei-me aí ficar por vários minutos, enquanto me empenhava em imaginar onde e no que podia estar. Ansiava, e contudo não ousava, empregar a visão. Aterrorizava-me o impacto inicial dos objetos em torno de mim. Não que eu temesse ver coisas horríveis, mas fui invadido por um crescente pavor de não haver nada para ver. Finalmente, com descontrolado desespero no coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. O negror da noite eterna me engolfava. Lutei para respirar. A intensidade das trevas parecia me oprimir e sufocar. A atmosfera era intoleravelmente opressiva. Continuei deitado, imóvel, e esforcei-me por exercitar a razão. Evoquei em minha mente o processo inquisitorial, e tentei a partir desse ponto inferir minha real condição. A sentença fora proferida; e a mim me pareceu que um intervalo muito longo de tempo transcorrera desde então. Contudo, nem sequer por um momento supus que estivesse morto de fato. Tal suposição, não obstante o que lemos na ficção, é completamente inconsistente com a existência real; — mas onde e em que estado eu me encontrava? Os condenados à morte, eu sabia, eram normalmente executados nos autos de fé, e um desses fora realizado na exata noite de meu julgamento. Estaria eu sendo mantido sob custódia em meu calabouço, a fim de aguardar o sacrifício seguinte, que não teria lugar senão dali a muitos meses? Percebi na mesma hora que tal não podia ser. As vítimas haviam sido reclamadas de imediato. Além do mais, meu calabouço, assim como as celas de todos os condenados em Toledo, tinha piso de pedra, e a luz não era completamente excluída.
     Uma assustadora ideia agora de repente fez o sangue fluir incontrolavelmente em meu coração e, por um breve período, mais uma vez recaí na insensibilidade. Assim que me recuperei, fiquei de pé na mesma hora, tremendo convulsivamente em cada fibra. Agitei os braços freneticamente acima e em torno de mim, em todas as direções. Nada senti; contudo, hesitava em dar um passo, com receio de ser bloqueado pelas paredes de uma tumba. O suor brotava de cada poro, e formava grossas gotas em minha fronte. A agonia do suspense cresceu até se tornar intolerável e cuidadosamente me movi para a frente, com os braços estendidos, e meus olhos esforçando-se em suas órbitas, na esperança de captar algum débil raio de luz. Avancei vários passos; mas o negror e o vazio continuaram. Respirei mais facilmente. Parecia evidente que o meu não era, ao menos, o mais hediondo dos destinos.
     E então, conforme continuava a andar cautelosamente adiante, invadiu me a memória, num tropel, uma infinidade de vagos rumores sobre os horrores de Toledo. Daqueles calabouços estranhas coisas se contavam — fábulas, eu sempre as reputara —, porém por demais estranhas, e por demais macabras, para serem repetidas, salvo num sussurro. Teria sido eu deixado para morrer de fome nesse mundo subterrâneo de trevas; ou que destino, talvez ainda mais assustador, me aguardava? Que o resultado seria a morte, e morte de uma pungência mais do que costumeira, eu conhecia bem demais o caráter de meus juízes para duvidar. O modo e o momento eram tudo que me ocupava ou distraía.
     Minhas mãos estendidas enfim encontraram alguma obstrução sólida. Era uma parede, em alvenaria de pedra, aparentemente — muito lisa, musgosa e fria. Acompanhei sua superfície; pisando com toda a cuidadosa desconfiança que determinados relatos antigos haviam me inspirado. Esse processo, entretanto, não me possibilitou meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; uma vez que podia completar seu circuito, e regressar ao ponto onde começara, sem dar-me conta do fato; tão perfeitamente uniforme parecia a parede. Procurei desse modo a faca que havia em meu bolso, quando levado à câmara inquisitorial; mas ela se fora; minhas roupas haviam sido trocadas por um camisolão de sarja grosseira. Meu pensamento fora forçar a lâmina em alguma minúscula fenda da alvenaria, de modo a identificar o ponto de partida. A dificuldade, todavia, era apenas trivial; muito embora, na desordem de minha imaginação, parecesse em princípio insuperável. Rasguei um pedaço da bainha em meu robe e dispus a tira de comprido, em ângulo reto com a parede. Ao tatear meu caminho em torno da prisão, não teria como deixar de encontrar o trapo quando completasse o circuito. Assim, ao menos, raciocinei: mas eu não contara com a extensão do calabouço, ou com minha própria debilidade. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleei para a frente por algum tempo, até pisar em falso e cair. Minha fadiga excessiva induziu-me a permanecer prostrado; e ali deitado o sono em breve se apossou de mim.
     Ao despertar, e esticando um braço, encontrei ao meu lado um pão e uma jarra com água. Estava exausto demais para refletir sobre essa circunstância, mas comi e bebi com avidez. Pouco depois, retomei meu reconhecimento do circuito da prisão, e com grande labor, cheguei enfim ao pedaço de sarja. Até o momento de minha queda, eu contara cinquenta e dois passos, e, após retomar minha caminhada, contara quarenta e oito mais — quando cheguei ao pedaço de pano. Havia ao todo, desse modo, cem passos; e, considerando cada dois passos como um metro, inferi que o calabouço tinha um perímetro de cem metros. Eu havia topado, entretanto, com muitos ângulos na parede, e assim não podia formar suposição alguma sobre o formato da cripta; pois uma cripta era o que eu não podia deixar de supor que fosse.
     Eu tinha pouco propósito — certamente nenhuma esperança — nessas investigações; mas uma vaga curiosidade impeliu-me a continuá-las. Deixando por ora a parede, decidi cruzar a área de meu cárcere. No início, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente de material sólido, era traiçoeiro devido ao musgo. Finalmente, entretanto, tomei coragem, e não hesitei em pisar com firmeza — empenhando-me em atravessar numa linha a mais reta possível. Avançara dez ou doze passos dessa maneira quando o que restava da bainha rasgada em meu robe enroscou-se entre minhas pernas. Pisei nela e caí violentamente de bruços.
     Na confusão, preocupando-me com minha queda, não me dei conta imediatamente de uma circunstância um tanto alarmante, que contudo, poucos segundos depois, e enquanto eu ainda jazia prostrado, prendeu minha atenção. Foi o seguinte: meu queixo estava pousado no chão da prisão, mas meus lábios, e a parte superior de minha cabeça, embora aparentemente com uma elevação inferior à do queixo, não tocavam coisa alguma. Ao mesmo tempo, minha testa parecia banhada em um vapor viscoso, e o odor peculiar de fungo em decomposição subia às minhas narinas. Estiquei o braço, e estremeci ao descobrir que caíra bem na beirada de um poço circular, cuja extensão, é claro, eu não tinha meios de averiguar no momento. Tateando a alvenaria logo abaixo da extremidade, consegui deslocar um pequeno fragmento, e deixei que caísse no abismo. Por vários segundos, estiquei os ouvidos para suas reverberações conforme colidia contra as laterais da garganta em sua queda: finalmente, sobreveio um lúgubre mergulho na água, seguido de ecos elevados. No mesmo instante, escutei um ruído similar ao de uma porta no alto sendo rapidamente aberta, e prontamente fechada, enquanto um tênue raio de luz tremeluziu subitamente através da escuridão, e subitamente sumiu.
     Enxerguei claramente a sina que me havia sido preparada e dei graças em silêncio pelo oportuno acidente que me possibilitara dela escapar. Mais um passo antes de minha queda, e o mundo não mais me veria. E a morte que acabara de evitar era exatamente o que eu costumava encarar como a típica história fantasiosa e pitoresca relativa à Inquisição. Às vítimas de sua tirania cabia a escolha da morte com suas mais desesperadoras agonias ou da morte com seus mais hediondos horrores morais. A mim fora reservada esta última. O longo sofrimento abalara meus nervos, a ponto de eu estremecer ao som de minha própria voz e me tornar em todos os aspectos uma vítima sob medida para as variedades de tortura que me aguardavam.
     Tremendo em cada membro do corpo, tateei meu caminho de volta à parede — determinado a aí perecer, em lugar de me arriscar aos terrores dos poços cuja existência eu agora imaginava haver em variados pontos espalhados pelo calabouço. Em outras condições de espírito, talvez tivesse a coragem de dar cabo de minha miséria na mesma hora, mergulhando num daqueles abismos; mas nesse momento eu era o mais rematado dos covardes. E tampouco esquecia o que havia lido a respeito desses poços — que a extinção súbita da vida não fazia parte de seu mais horrendo desígnio.
     A agitação de espírito manteve-me acordado por muitas horas intermináveis; mas finalmente voltei a adormecer. Ao despertar, descobri ao meu lado, como antes, um pão e uma jarra de água. Uma sede excruciante me consumia, e esvaziei o recipiente de um só trago. Devia haver alguma droga ali — pois, mal terminei de beber, senti um torpor irresistível. Um sono profundo se apossou de mim — um sono que era como a morte. Quanto tempo durou é algo que decerto não sei dizer; mas quando, mais uma vez, abri os olhos, os objetos em torno de mim estavam visíveis. Por meio de uma fulguração difusa e sulfurosa, cuja origem não pude inicialmente determinar, fui capaz de ver a extensão e o aspecto da prisão.
     Quanto ao tamanho eu me equivocara redondamente. O perímetro completo de suas paredes não excedia os vinte e cinco metros. Por alguns minutos, o fato ocasionou-me um mundo de vãs preocupações; vãs, de fato — pois o que podia ser menos importante, nas terríveis circunstâncias em que me encontrava, do que as meras dimensões de meu calabouço? Mas minha alma assumiu um descontrolado interesse em banalidades e concentrei-me diligentemente em esclarecer o erro que havia cometido ao fazer minhas medições. A verdade enfim se me afigurou. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinquenta e dois passos até o momento da queda: eu devia ali estar a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, eu praticamente completara o perímetro da cripta. E então adormeci — e, ao acordar, devo ter refeito meus passos —, pressupondo assim o perímetro como tendo quase o dobro do que de fato tinha. Minha confusão mental impediu-me de observar que iniciei o percurso tendo a parede à esquerda, e que o terminei com a parede à minha direita.
     Eu havia sido iludido, também, com respeito à forma do cárcere. Tateando meu caminho, topara com diversos ângulos, e assim inferi uma ideia de grande irregularidade; tão poderoso é o efeito da escuridão absoluta ao despertarmos da letargia ou do sono! Os ângulos nada mais eram que umas poucas depressões ligeiras, ou nichos, a intervalos variáveis. O formato geral da prisão era quadrado. O que eu tomara por alvenaria parecia agora ser ferro, ou algum outro metal, em imensas placas, cujas suturas ou junções ocasionavam a depressão. A superfície inteira do recinto de metal estava grosseiramente pintada com todas essas lucubrações hediondas e repulsivas às quais a sepulcral superstição dos monges havia dado origem. Figuras diabólicas em posturas ameaçadoras, com formas esqueléticas e outras imagens de fato ainda mais assustadoras, espalhavam-se e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos das monstruosidades eram suficientemente distintos, mas que as cores pareciam esmaecidas e borradas, como que por efeito da umidade da atmosfera. Eu agora notava também o chão, que era de pedra. No centro esbeiçava-se o poço circular de cujas mandíbulas eu escapara; mas era o único no calabouço.

continua página 49...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.