quarta-feira, 22 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (III.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

III


     Naquele domingo, a partir das oito horas, Suvarin ficou sozinho na sala do Avantage, no seu lugar habitual, com a cabeça encostada ao muro. Já nenhum mineiro podia tomar seus dois soldos de cerveja; nunca as tabernas tiveram menos fregueses. Por isso, a Sra. Rasseneur, imóvel no balcão, guardava um silêncio irritado, enquanto o marido, em pé defronte ao fogão de ferro fundido, parecia seguir, com ar meditativo, a fumaça ruiva do carvão.
     Bruscamente, naquela paz pesada das peças muito aquecidas, três pequenas pancadas secas, batidas num vidro da janela, fizeram que Suvarin voltasse a cabeça. Ergueu-se, tinha reconhecido o sinal do qual já diversas vezes Etienne se servira para chamá-lo, quando o via lá de fora fumando seu cigarro, sentado a uma mesa vazia Mas, antes que o mecânico alcançasse a porta, Rasseneur a abrira e, reconhecendo, graças à luz da janela, quem estava ali, disse: 

— Será que tens medo de que eu te venda? Se querem conversar é melhor que o façam aqui dentro em vez de na estrada.

     Etienne entrou. A mulher lhe ofereceu cortesmente um copo de cerveja, que ele recusou com um gesto. O taberneiro acrescentou: 

— Há muito tempo que adivinhei onde te escondes. Se eu fosse um espião, como teus amigos dizem, já há oito dias teria mandado para lá os policiais. 
— Não precisas defender-te — respondeu o rapaz. — Sei muito bem que não farias isso. Podemos não ter as mesmas ideias e continuar sendo amigos.

     O silêncio voltou a reinar. Suvarin tornou à sua cadeira, de costas para a parede, os olhos vagando na fumaça do seu cigarro, mas seus dedos febris não paravam um momento; passava-os pelos joelhos procurando o pelo tépido de Polônia, que naquela noite não se encontrava ali; era um mal-estar inconsciente, faltava-lhe alguma coisa, sem que ele soubesse o quê.
     Sentado na outra extremidade da mesa, Etienne disse, enfim: 

— O trabalho recomeça amanhã na Voreux. Os belgas chegaram com Négrel. 
— De fato, chegaram quando já era noite fechada — murmurou Rasseneur, que ficara em pé. — Espero que não recomece a mortandade. — E levantando a voz: — Como vês, não quero continuar brigando contigo, mas isso terminará mal se vocês insistirem em fincar pé... Igualzinho à história da tal de Internacional... Anteontem fui a Lille resolver uns negócios e encontrei Pluchart; parece que a Internacional está desmoronando...

     Deu detalhes. A Associação, depois de ter conquistado os operários do mundo inteiro, num ímpeto propagandístico que ainda fazia tremer a burguesia, estava agora sendo devorada, destruída aos poucos pelas batalhas internas das vaidades e ambições. Desde que os anarquistas triunfaram, expulsando os evolucionistas de primeira hora, tudo estava indo por água abaixo; a finalidade principal, a reforma do salário, afundava em meio aos conflitos de seitas, os grupos mais experientes se desorganizavam devido ao ódio à disciplina. E já se podia prever o fracasso final desse levante de massa, que por um instante ameaçara varrer de um sopro a velha sociedade apodrecida. 

— Pluchart está sem voz, doente com tudo isso — prosseguiu Rasseneur. — Mas assim mesmo faz discursos, quer ir a Paris para falar... Por três vezes me disse que a nossa greve está perdida.

     Etienne, de cabeça baixa, não o interrompeu. Na véspera falara com alguns companheiros, sentia pesar sobre si ondas de rancor e suspeita; eram as primeiras vagas da impopularidade, anunciadoras da denota. Conservou se sombrio, não queria confessar seu abatimento a um homem que lhe predissera que também um dia seria vaiado pela multidão, quando esta se quisesse vingar de uma decepção. 

— A greve está perdida, sem dúvida, sei disso tão bem quanto.

     Pluchart — disse ele. — Era de prever. Aceitamos o movimento contra a vontade, não contávamos acabar com a companhia... O caso é que a gente se arrebata, espera coisas, e, quando tudo vai por água abaixo, esquece-se de que devia contar com isso, há lamentos e brigas como diante de uma catástrofe caída do céu. 

— Mas, então — perguntou Rasseneur —, se julgas a partida perdida, por que não fazes os demais companheiros entenderem isso?

     O rapaz olhou-o fixamente. 

— Olha, estou farto das tuas histórias! Tens as tuas ideias, eu tenho as minhas. Entrei na tua casa para mostrar que te estimo apesar de tudo, mas continuo a pensar que, se morrermos resistindo, nossas carcaças de esfomeados servirão melhor à causa do povo que toda a tua política de homem equilibrado... Ah! se ao menos um desses soldados nojentos me metesse uma bala no coração... Como seria formidável morrer assim!

     Seus olhos ficaram úmidos com esse grito onde explodia o secreto desejo do vencido, o refúgio onde gostaria de perder-se para sempre com seu tormento. 

— Muito bem! — exclamou a Sra. Rasseneur, que, com um olhar, lançava a seu marido todo o desdém das suas opiniões radicais.

     Suvarin, de olhar perdido, continuava a tatear com suas mãos nervosas, não parecendo ter ouvido. Seu rosto louro de moça, de nariz fino e dentes pequenos e pontiagudos, banhava-se de uma luz selvagem, de um devaneio místico, em que perpassavam visões sangrentas. E pôs-se a sonhar em voz alta, respondendo a uma frase de Rasseneur sobre a Internacional, pescada no meio da conversa: 

— São todos uns covardes, só havia um homem capaz de transformar a sua organização num instrumento terrível de destruição. Mas era preciso querer, ninguém quer nada, por isso a revolução abortará mais uma vez.

     E continuou a lamentar-se, cheio de asco pela imbecilidade dos homens, enquanto os outros quedavam perplexos ante aquelas confidencias de sonâmbulo, feitas para as trevas. Na Rússia estava tudo parado, sentia-se desesperado com as notícias que recebera. Seus antigos camaradas se transformavam em políticos, os famosos niilistas que faziam a Europa tremer, filhos de popel, de pequenos burgueses, de comerciantes, não viam mais que a libertação nacional, pareciam acreditar que o mundo seria redimido assim que eles matassem o déspota. E, logo que lhes falava em ceifar a humanidade velha como a uma plantação madura, sentia-se, a partir daí, incompreendido, suspeito, desclassificado, arrolado entre os príncipes frustrados do cosmopolitismo revolucionário. E no entanto seu coração de patriota debatia-se, era com uma amargura dolorosa que repetia seu termo favorito: 

— Besteiras!... Eles nunca conseguirão nada com as suas besteiras.

     Depois, baixando mais a voz, narrou em frases amargas o seu velho sonho de fraternidade. Não tinha renunciado ao seu título e à sua fortuna, só se colocara do lado dos operários com a esperança de ver fundada enfim essa sociedade nova do trabalho em comum. Todas as moedas que trazia no bolso tinham passado havia muito tempo para as mãos dos meninos do conjunto habitacional; fora de uma solidariedade de irmão para com os mineiros, sorrindo à sua desconfiança, conquistando-os com seu modo tranquilo de operário exato e pouco conversador. Mas, decididamente, a fusão não se realizava, permanecia um estranho, com seu desprezo por qualquer ligação amorosa, sua vontade de permanecer impoluto, fora das gloríolas e dos prazeres. E, sobretudo, ficara desesperado de manhã com a leitura de uma notícia que vinha nos jornais.
     Sua voz mudou, seus olhos iluminaram-se, fixos em Etienne, e dirigiu-se diretamente a ele. 

— Tu podes compreender isto? esses operários chapeleiros de Marselha que ganharam a sorte grande de cem mil francos e, imediatamente, foram comprar títulos, dizendo que de agora em diante iam viver sem fazer nada! Essa é a intenção de todos vocês, operários franceses: encontrar um tesouro e em seguida comê-lo sozinhos, refestelados no egoísmo e na vagabundagem. Gostam de gritar contra s ricos, mas não têm coragem de dar aos pobres o dinheiro que a sorte lhes envia... Vocês nunca serão dignos da felicidade enquanto possuírem alguma coisa, enquanto esse ódio aos burgueses for apenas o desejo desesperado de serem burgueses também.

     Rasseneur deu uma gargalhada; pensar que os dois operários de Marselha teriam de renunciar à sorte grande parecia-lhe estúpido. Mas Suvarin fremia, seu semblante descomposto tornava-se amedrontador, numa dessas cóleras religiosas que exterminam os povos. Gritou: 

— Vocês vão ser todos ceifados, derrubados, atirados à podridão! Há de nascer um dia aquele que dizimará sua raça de poltrões e gozadores. Aqui está! Vocês veem as minhas mãos? Se elas pudessem, agarrariam a terra, assim, e a sacudiriam até fazê-la em migalhas, para soterrar todos vocês nos seus escombros! 

— Muito bem! — repetiu a Sra. Rasseneur, no seu modo cortês e convicto.

     Fez-se outro silêncio. Em seguida Etienne falou dos operários belgas. Interrogou Suvarin sobre as disposições que tinham sido tomadas na Voreux, mas o mecânico, que voltara ao seu alheamento, mal respondia, apenas sabia que iam distribuir balas aos soldados que guardavam a mina. E a inquietação nervosa dos seus dedos sobre os joelhos chegou a tal ponto que acabou tomando consciência de que lhe faltava o pelo macio e calmante da coelha. 

— Onde está a Polônia? — perguntou ele.

     O taberneiro deu outra risada e olhou para a mulher. Depois de certa hesitação decidiu-se: 

— A Polônia? Está no quente.

     Desde a sua aventura com Jeanlin, a enorme coelha, certamente ferida, só tivera filhos mortos. E, para não alimentarem uma boca inútil, tinham decidido nesse mesmo dia fazê-la com batatas. 

— Comeste uma perna dela hoje na janta... Não estava bom? Chegaste a lamber os dedos...

     A princípio Suvarin não compreendeu. Depois ficou muito Pando e teve uma contração de náusea; apesar de sua vontade de ser estoico, duas grossas lágrimas encheram seus olhos.

continua na página 347...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / II — Achado

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     II — Achado

             Mário continuava a morar no casarão Gorbeau, sem se importar nem fazer reparo em nenhum dos outros moradores.
     Para bem dizer, nessa época, os únicos moradores do casarão eram ele e os tais Jondra e, a quem o jovem uma ocasião pagara o aluguer, sem, todavia, nunca ter falado nem com o homem, nem com a mulher, nem com as filhas. Os outros inquilinos tinham mudado ou morrido, ou sido expulsos por não pagarem.
     Num dia desse Inverno, na tarde do qual o Sol se mostrara, sem por isso deixar de infundir menos receios, pois estava-se a 2 de Fevereiro, dia da antiga festa de Candelária, cujo sol traiçoeiro, precursor de um frio de seis semanas, inspirou a Matheus Laenberg estes dois versos, que com justiça se tornaram clássicos:
Qu’il luise ou qu’il luiserne, 
L’ours rentre en sa caverne.
     
     Mário acabava de sair da sua caverna, ao cair da tarde. Era a hora do jantar, pois o rapaz vira-se na necessidade de continuar o seu antigo costume de jantar. Oh, fraquezas das paixões ideais!
     Acabava de transpor o limiar da porta que mame Bougon naquele momento andava a varrer, proferindo este memorável monólogo: 

— Hoje em dia que coisa deixa de estar cara? Nada. Está tudo pela hora da morte. A única coisa barata são os trabalhos deste mundo. Mas para que servem os trabalhos deste mundo? Para nada!

     Mário caminhava vagarosamente pelo boulevard, dirigindo-se para a barreira, a fim de tomar para a rua de S. Jacques, pensativo e de olhos fitos no chão, quando de súbito por entre a névoa sentiu um encontrão; voltou-se e viu duas jovens esfarrapadas, uma alta e magra, a outra mais baixa, que passaram rapidamente, esbaforidas, assustadas e -como quem foge, e que, ao passarem, como o não viram, tinham esbarrado com ele. Por entre o crepúsculo, Mário distinguiu-lhes os lívidos rostos, as cabeças descobertas, os cabelos soltos, as esfarrapadas saias e os pés descalços. Iam correndo e falando uma com a outra, e a mais alta dizia à sua companheira, em voz que se ouvia: 

— O caso é que os partazanas por um triz me não deitam o gatazio! Toma que te dou eu!.

     E a outra respondia. 

— Eu bem os vi, mas apenas lhes deitei o luzio, por aqui me sirvo!

     Através desta sinistra gíria, Mário entendeu que os gendarmes ou os cabos estiveram quase a apanhar aquelas duas crianças e que elas lhes tinham fugido. As duas raparigas embrenharam-se por baixo das árvores do boulevard, de onde o jovem vinha, e onde durante alguns instantes desenharam na escuridão uma espécie de vaga brancura que se desfez; e Mário, que parara um momento, dispôs-se a seguir para o seu destino.
     Ia, porém, a continuar o seu caminho, quando, olhando para o chão, avistou um embrulho pardo. Baixou-se e pegou nele. Era uma espécie de sobrescrito que parecia conter papéis. 

— Foram decerto aquelas infelizes que deixaram cair isto! — disse ele.

     Voltou atrás, chamou, porém não as tornou a ver; julgando, pois, que já iriam longe, meteu o embrulho no bolso e foi jantar.
     No caminho viu numa álea da rua de Mouffetard um caixão de um anjinho coberto com um pano preto, colocado em cima de três cadeiras e alumiado por uma vela. Voltaram-lhe então à lembrança as duas raparigas do anoitecer. 

— Pobres mães! — disse ele consigo. — Ainda há para vós coisa mais triste do que verdes morrer vossos filhos; é vê-los viver mal!

     Depois, estas sombras, que variavam a sua tristeza, saíram-lhe do pensamento e ele voltou às suas habituais preocupações. Principiou a pensar nos seus seis meses de amor e ventura, ao ar livre e à luz do meio-dia, debaixo das belas árvores do Luxemburgo. 

— Como se tornou sombria a minha vida! — dizia ele a sós consigo. — Ainda me aparecem as jovens, porém dantes eram anjos, agora são gaviões depenados!

continua na página 548...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - II — Achado
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

terça-feira, 21 de julho de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.8c (Neste momento, seu pensamento parou)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

8.

continuando...

     Neste momento, seu pensamento parou abruptamente. Ele parou e olhou para cima. Ele estava em uma rua estreita, com algumas lojinhas escuras, intercaladas entre as casas. Imediatamente acima de sua cabeça, penduraram três bolas de metal descoloridas que pareciam ter sido douradas uma vez. Ele parecia conhecer o lugar. É claro! Ele estava do lado de fora da loja de sucata onde havia comprado o diário.
     Uma pontinha de medo passou por ele. Para começo de conversa, comprar o livro já tinha sido um ato suficientemente precipitado, e ele tinha jurado nunca mais se aproximar do lugar. E no instante em que ele permitiu que seus pensamentos vagassem, seus pés o haviam trazido de volta para cá por vontade própria. Era precisamente contra impulsos suicidas deste tipo que ele esperava se proteger começando um diário. Ao mesmo tempo, ele notou que, apesar de serem quase vinte e uma horas, a loja ainda estava aberta. Com a sensação de que ele seria menos visível do lado de dentro do que de fora, ele pisou pela porta. Se questionado, ele poderia plausivelmente dizer que estava tentando comprar lâminas de barbear.
     O proprietário tinha acabado de acender uma lamparina de óleo que emitia um cheiro impuro, mas amigável. Ele era um homem de talvez sessenta anos, frágil e curvado, com um nariz longo e benevolente e olhos suaves distorcidos por lentes grossas. Seu cabelo era quase branco, mas suas sobrancelhas eram cheias e ainda negras. Seus óculos, seus movimentos suaves e agitados, e o fato de estar usando uma jaqueta envelhecida de veludo preto, davam-lhe um ar vago de intelectualidade, como se ele tivesse sido uma espécie de homem literário, ou talvez um músico. Sua voz era suave, como se estivesse desbotada, e seu sotaque menos rebaixado do que o da maioria dos proles.

“Eu o reconheci da calçada”, disse ele imediatamente. “Você é o cavalheiro que comprou o álbum de recordações da jovem senhora. Era um belo pedaço de papel. Papel vergé, costumava ser chamado. Não fazem mais papel assim há... oh, ouso dizer, cinquenta anos”. Ele espreitava Winston por cima de seus óculos. “Há algo especial que eu possa fazer por você? Ou você só queria dar uma olhada?’’.
“Eu estava passando”, disse Winston vagamente. “Eu só olhei para dentro. Eu não quero nada em particular”.
“Ainda bem”, disse o outro, “porque eu suponho que não poderia satisfazê-lo”. Ele fez um gesto apologético com sua mão suave. “Você consegue ver; é uma loja vazia, você poderia dizer. Cá entre nós, o comércio de antiguidades está quase terminado. Não há mais demanda, e também não há estoque. Móveis, porcelanas, vidros, tudo foi quebra do aos poucos. E, claro, o metal foi derretido em sua maioria. Não vejo um castiçal de latão há anos”. 

     O minúsculo interior da loja estava de fato desconfortavelmente cheio, mas não havia quase nada nele de valor. O espaço no chão era muito restrito, porque todas as paredes estavam empilhadas com inúmeras molduras empoeiradas. Na janela havia bandejas de porcas e parafusos, formões gastos, canivetes com lâminas quebradas, relógios manchados que nem sequer fingiam funcionar e outras porcarias diversas. Apenas em uma pequena mesa no canto havia uma ninhada de miudezas – caixas de rapé lacadas, broches de ágata e similares – que pareciam incluir algo interessante. Enquanto Winston caminhava em direção à mesa, seu olhar foi pego por uma coisa redonda e suave que brilhava suavemente sob a luz do lampião, e ele a pegou.
     Era um pedaço pesado de vidro, curvo de um lado, plano do outro, fazendo quase um hemisfério. Havia uma suavidade peculiar, como a da água da chuva, tanto na cor quanto na textura do vidro. No seu centro, ampliado pela superfície curva, havia um objeto estranho, rosado, convoluto, que lembrava uma rosa ou uma anêmona marinha.

“O que é isso?” disse Winston, fascinado.
“Isto é coral, é”, disse o velho. “Deve ter vindo do Oceano Índico. Costumavam incorporá-lo ao vidro. Isso não foi feito há menos de cem anos. Talvez até mais, pelo aspecto dele”.
“É uma coisa linda”, disse Winston. 
“É uma coisa linda”, o outro disse agradecido. “Mas não há muitos que digam isso hoje em dia”. Ele tossiu. “Agora, caso você quisesse comprá-lo, isso lhe custaria quatro dólares. Lembro-me quando uma coisa assim teria custado oito libras, e oito libras eram – bem, não posso calcular bem, mas era muito dinheiro. Mas quem se importa com as antiguidades genuínas hoje em dia, mesmo as poucas que restam”?

     Winston pagou imediatamente os quatro dólares e enfiou o cobiçado objeto em seu bolso. O que o atraía não era tanto sua beleza, mas o ar que parecia possuir de pertencer a uma época bem diferente da atual. O vidro macio como água da chuva não era como nenhum vidro que ele jamais havia visto. A coisa era duplamente atraente por causa de sua aparente inutilidade, embora ele pudesse adivinhar que uma vez deve ter sido concebido como um peso para papéis. Era muito pesado no bolso, mas, felizmente, não fazia muito volume. Era uma coisa estranha, até mesmo uma coisa comprometedora, para um membro do Partido ter em sua posse. Qualquer coisa antiga, e por isso mesmo qualquer coisa bonita, era sempre vagamente suspeita. O velho tinha ficado visivelmente mais alegre depois de receber os quatro dólares. Winston percebeu que teria aceitado três ou até dois.

“Há outra sala lá em cima, caso você talvez queira dar uma olhada”, disse ele. “Não há muito nela. Apenas algumas peças. Precisamos de uma luz se formos lá para cima”.

     Ele acendeu outra lâmpada e, com as costas curvadas, subiu lentamente as escadas íngremes e desgastadas e ao longo de uma pequena passagem, para uma sala que não dava para a rua, mas olhava para fora em um quintal pavimentado e uma floresta de chaminés. Winston notou que os móveis ainda estavam dispostos como se o quarto fosse habitado. Havia uma faixa de tapete no chão, uma ou duas imagens nas paredes e uma cadeira de braços profunda que levava até a lareira. Um relógio de vidro antiquado, de doze horas, fazia tique-taque sob a lareira. Sob a janela, e ocupando quase um quarto do quarto, estava uma cama enorme com o colchão ainda sobre ela.

“Vivemos aqui até a morte de minha esposa’’, disse o velho meio apologético. “Estou vendendo os móveis pouco a pouco. Essa é uma linda cama de mogno, ou pelo menos seria se você conseguisse tirar os insetos dela. Mas ouso dizer que você a acharia um pouco incômoda”. 

     Ele estava segurando a lâmpada bem alto, de modo a iluminar toda a sala, e na luz quente e fraca o lugar parecia curiosamente convidativo. Passou pela cabeça de Winston que provavelmente seria muito fácil alugar o quarto por alguns dólares por semana, se ele se atrevesse a correr o risco. Era uma noção selvagem, impossível, que precisava ser abandonada assim que surgiu; mas o quarto despertou nele uma espécie de nostalgia, uma espécie de memória ancestral. Parecia-lhe que ele sabia exatamente como era sentar-se em uma sala como esta, em uma cadeira de braços ao lado de uma fogueira com os pés no suporte e uma chaleira no fogão; totalmente sozinho, totalmente seguro, sem ninguém lhe observando, sem nenhuma voz lhe perseguindo, sem nenhum som a não ser o canto da chaleira e o tique-taque amigável do relógio.

“Não tem uma teletela”, ele murmurou sem conseguir evitar.
“Ah”, disse o velho, “eu nunca tive uma dessas coisas. Muito caro. E eu nunca senti a necessidade disso, de alguma forma. Aquela ali é uma bela mesa dobrável no canto. Embora, é claro, você teria que colocar novas dobradiças nela se quisesse usar as abas”.

     Havia uma pequena estante no outro canto, e Winston já havia gravitado em direção a ela. Não continha nada além de lixo. A caça e a destruição dos livros tinham sido feitas com a mesma minúcia nos bairros populares como em qualquer outro lugar. Era muito improvável que existisse em qualquer lugar da Oceania uma cópia de um livro impresso antes de 1960. O velho, ainda carregando a lâmpada, estava de pé diante de um quadro em uma moldura de pau-rosa que estava pendurado do outro lado da lareira, em frente à cama.

“Agora, se por acaso você estiver interessado em gravuras antigas”, ele começou delicadamente.
 
     Winston cruzou o quarto para examinar o quadro. Era uma gravura no aço de um edifício oval com janelas retangulares, e uma pequena torre na frente. Havia uma grade em volta do edifício e, na extremidade posterior, havia o que parecia ser uma estátua. Winston olhou para ela por alguns momentos. Parecia vagamente familiar, embora ele não se lembrasse da estátua.

“A moldura está fixada na parede”, disse o velho, “mas eu poderia desparafusá-la para você, ouso dizer”.
“Eu conheço aquele prédio”, disse Winston, finalmente. “Agora é uma ruína. Está no meio da rua do lado de fora do Palácio da Justiça”.
“É isso mesmo. Fora dos Tribunais de Justiça. Foi bombardeado em – oh, há muitos anos. Foi uma igreja, São Clemente dos Dinamarqueses, era seu nome”. Ele sorriu apologético, como se estivesse consciente de dizer algo um pouco ridículo, e acrescentou: “Sempre e geralmente, dizem os sinos de São Clemente”! 
“O que?”, disse Winston.
“Ah, ‘sempre e geralmente, dizem os sinos de São Clemente’. Essa era uma rima que tínhamos quando eu era menino. Não me lembro continuava, mas sei que o fim era: ‘Aí vem uma vela para até a cama te levar, aí vem um helicóptero para a sua cabeça cortar’. Era uma espécie de dança. Eles estendiam seus braços para você passar por baixo, e quando chegaram em ‘aí vem um helicóptero para a sua cabeça cortar eles baixaram seus braços e o pegavam. Eram apenas nomes de igrejas. Todas as igrejas de Londres estavam nela – todas as principais, pelo menos”.

     Winston se perguntava vagamente a que século a igreja pertencia. Sempre foi difícil determinar a idade de um edifício londrino. Qualquer coisa grande e impressionante, se era razoavelmente nova na aparência, era automaticamente reivindicada como tendo sido construída desde a Revolução, enquanto qualquer coisa que fosse obviamente de data anterior era atribuída a algum período obscuro chamado Idade Média. Os séculos de capitalismo foram considerados como não tendo produzido nada de valor algum. Não se podia aprender história com a arquitetura, assim como não se podia aprender com os livros. Estátuas, inscrições, pedras memoriais, os nomes das ruas – qualquer coisa que pudesse lançar luz sobre o passado tinha sido sistematicamente alterado.

“Eu nunca soube que tinha sido uma igreja”, disse ele.
“Na verdade, ainda há muitas delas”, disse o velho, “embora tenham sido colocadas para outros usos. Agora, como era mesmo a rima? Ah! Já sei”! 

“Sempre e geralmente, dizem os sinos de São Clemente 
De seda e linho, dizem os sinos de São Martinho...” 
“E lá, agora, isso é o mais longe que eu posso chegar. 
Seda e linho eram tecidos muito finos”. 

“Onde ficava São Martinho?”, perguntou Winston.
“São Martinho? Ainda está de pé. Está na Praça da Vitória, ao lado da galeria de imagens. Um prédio com uma espécie de varanda triangular e pilares na frente, e um grande lance de degraus”. 

     Winston conhecia bem o lugar. Era um museu usado para exposições de propaganda de vários tipos – modelos em escala de bombas de foguetes e Fortalezas Flutuantes, mesas de trabalho em cera ilustrando atrocidades inimigas, e coisas assim.

“Costumava ser chamada de São Martinho dos campos”, completou o velho, “embora eu não me lembre de nenhum campo em nenhuma dessas partes”. 

continua na página 211...
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Parte1:
Parte 1.8c (Neste momento, seu pensamento parou) /                         
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção VI)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção VI
Da ideia de existência e de existência externa

     Antes de passarmos a outro tema, talvez não seja fora de propósito explicar as ideias de existência e de existência externa, que, assim como as de espaço e de tempo, apresentam suas dificuldades próprias. Desse modo, e uma vez que tenhamos compreendido perfeitamente todas as ideias particulares que podem entrar em nossos raciocínios, estaremos mais bem preparados para examinar o conhecimento e a probabilidade.
     Não há impressão ou ideia de nenhum tipo, da qual tenhamos alguma consciência ou memória, que não seja concebida como existente. E é evidente que é dessa consciência que deriva a mais perfeita ideia e a certeza do ser. Com base nisso, podemos formular uma alternativa, a mais clara e conclusiva que se pode imaginar: já que nunca nos lembramos de nenhuma ideia ou impressão sem atribuir a ela uma existência, a ideia de existência deve, ou bem ser derivada de uma impressão distinta em conjunção com cada percepção ou objeto de nosso pensamento, ou então ser exatamente a mesma que a ideia da percepção ou objeto.
     Esse dilema é uma consequência evidente do princípio de que toda ideia procede de uma impressão similar, e por isso também não resta dúvida sobre qual das duas proposições do dilema escolheremos. Como não penso que existam duas impressões distintas que sejam inseparavelmente conjugadas, assim também estou longe de admitir que haja uma impressão distinta acompanhando cada ideia e cada impressão. Embora certas sensações possam estar unidas em determinado momento, nós rapidamente descobrimos que elas admitem uma separação, e podem se apresentar separadamente. Assim, embora toda impressão e ideia de que nos recordamos seja considerada como existente, a ideia de existência não é derivada de nenhuma impressão particular. 
     A ideia de existência, portanto, é exatamente a mesma que a ideia daquilo que concebemos como existente. A simples reflexão sobre uma coisa em nada difere da reflexão sobre essa coisa enquanto existente. A ideia de existência, quando conjugada com a ideia de um objeto, não acrescenta nada a esta. Tudo que concebemos, concebemos como existente. Qualquer ideia que quisermos formar será a ideia de um ser; e a ideia de um ser será qualquer ideia que quisermos formar.
     Quem se opuser a isso deverá necessariamente apontar a impressão distinta de que deriva a idia de entidade, e provar que essa im pressão é inseparável de toda percepção que acreditamos ser existente. Mas podemos concluir, sem hesitar, que isso é impossível.
     Nosso raciocínio anterior¹ a respeito da distinção de ideias na ausência de uma diferença real não nos servirá aqui de forma alguma. Esse tipo de distinção se baseia nas diferentes semelhanças que a mesma ideia simples pode ter com várias ideias diferentes. Mas não se pode apresentar nenhum objeto que se assemelhe a um segundo objeto no que concerne à sua existência, e que seja diferente de outros no que concerne a esse mesmo ponto - pois todo objeto que se nos apresenta deve necessariamente existir.

[1] Parte 1, Seção 7.

     Um raciocínio semelhante dará conta da ideia de existência externa. Podemos observar que todos os filósofos admitem, e aliás é bastante óbvio por si só, que nada jamais está presente à mente além de suas percepções, isto é, suas impressões e ideias; e que só conhecemos os objetos externos pelas percepções que eles ocasionam. Odiar, amar, pensar, sentir, ver - tudo isso não é senão perceber.
     Ora, como nada jamais está presente à mente além das percepções, e como todas as ideias são derivadas de algo anteriormente presente à mente, segue-se que nos é impossível sequer conceber ou formar uma ideia de alguma coisa especificamente diferente de ideias e impressões. Dirijamos nossa atenção para fora de nós mesmos tanto quanto possível; lancemos nossa imaginação até os céus, ou até os limites extremos do universo. Na realidade, jamais avançamos um passo sequer além de nós mesmos, nem somos capazes de conceber um tipo de existência diferente das percepções que apareceram dentro desses estreitos limites. Tal é o universo da imaginação, e não possuímos nenhuma ideia senão as que ali se produzem.
     O mais longe que podemos chegar no que diz respeito à concepção de objetos externos, quando se os supõe especificamente diferentes de nossas percepções, é formar deles uma ideia relativa, sem pretender compreender os objetos relacionados. Falando de um modo geral, nós não supomos que sejam especificamente diferentes; apenas atribuímos a eles relações, conexões e durações diferentes. Mas trataremos disso de maneira mais completa um pouco adiante².

[2] Parte 4, Seção 2.

continua na página 93...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 

     Muitos defeitos que lhes censuram — mediocridade, pequenez, timidez, mesquinharia, preguiça, frivolidade, servilismo — exprimem simplesmente o fato de que o horizonte lhes está barrado. A mulher é, dizem, sensual, chafurda na imanência; mas antes de mais nada aí a encerraram. A escrava presa no harém não experimenta nenhuma paixão mórbida pela geleia de rosas, pelos banhos perfumados: precisa passar o tempo; na medida em que sufoca em um morno gineceu — bordel ou lar burguês — a mulher se refugiará no conforto e no bem-estar; demais, se busca avidamente a volúpia é muitas vezes porque dela se acha frustrada; sexualmente insatisfeita, votada à gana do macho, "condenada às feiuras masculinas", consola-se com molhos cremosos, vinhos capitosos, veludos, carícias da água, do sol, de uma amiga, de um jovem amante. Se se apresenta ao homem como um ser "tão físico", é porque sua condição a incita a dar extrema importância à própria animalidade. A carne não grita mais forte nela do que no homem: mas fica atenta aos seus mais insignificantes murmúrios e os amplia; a volúpia, como a dor do sofrimento, é o fulminante triunfo do imediato; pela violência do instante, o futuro e o universo são negados: fora da centelha carnal, o que existe não é nada; durante essa breve apoteose ela não é mutilada nem frustrada. Mas, digamo-lo mais uma vez, ela só em presta tão grande valor a esses triunfos porque a imanência é seu quinhão. Sua frivolidade tem a mesma causa que seu "materialismo sórdido"; ela dá importância às pequenas coisas por não ter acesso às grandes: além disso, as futilidades que lhe enchem os dias são, muitas vezes, das mais sérias; à sua toilette, à sua beleza, deve seu encanto e possibilidades. Mostra-se frequente mente indolente, preguiçosa, mas as ocupações que a ela se pro põem são tão vãs quanto o simples escoar do tempo; se é tagarela, escrevinhadora, é para obviar a ociosidade: substitui palavras a atos impossíveis. O fato é que, quando se empenha numa empresa digna de um ser humano, a mulher sabe mostrar-se tão ativa, eficiente, silenciosa, ascética como um homem. Acusam-na de ser servil. Está sempre disposta, dizem, a deitar-se aos pés do senhor e a beijar a mão que a bateu; é verdade que carece geralmente de verdadeiro orgulho; os conselhos que os "consultórios sentimentais" dispensam às mulheres enganadas, às amantes abandonadas são inspirados em um espírito de abjeta submissão; a mulher esgota-se em cenas arrogantes e acaba colhendo as migalhas que o macho consente em deixar-lhe. Mas que pode fazer sem apoio masculino uma mulher para quem o homem é ao mesmo tempo o único meio e a única razão de viver? Bem que ela é obrigada a aceitar todas as humilhações; a escrava não pode ter o senso da dignidade humana; basta-lhe que dê um jeito. Enfim, se é "terra-a-terra", caseira, baixamente utilitária, é porque lhe impõem consagrar sua existência a preparar alimentos e limpar sujeiras: não é disso que pode tirar o sentido da grandeza. Ela deve assegurar a monótona repetição da vida em sua contingência e sua facticidade: é natural que ela própria repita, recomece, sem jamais inventar, que o tempo lhe pareça girar sobre si mesmo sem conduzir a nenhum lugar; ocupa-se sem nunca fazer nada; aliena-se pois no que tem; essa dependência em relação às coisas, consequências da dependência em relação aos homens, explica sua prudente economia, sua avareza. Sua vida não é mais dirigida para fins; absorve-se em produzir ou manter coisas que nunca passam de meios: alimento, roupas, residência; são intermediários inessenciais entre a vida animal e a livre existência; o único valor ligado ao meio inessencial e a utilidade; é no nível do útil que vive a dona-de-casa e ela só se vangloria de ser útil a seus parentes. Mas nenhum existente poderia satisfazer-se com um papel inessencial: logo transforma os meios em fins — como se verifica entre os políticos — e o valor dos meios torna-se a seus olhos valor absoluto. Assim a utilidade reina no céu da dona-de-casa mais alto do que a verdade, a beleza, a liberdade e é nessa perspectiva, que é a sua, que ela encara todo o universo; e é porque adota a moral aristotélica do justo meio-termo da mediocridade. Como encontraria em si audácia, ardor, desapego, grandeza? Tais qualidades só aparecem no caso em que uma liberdade se lança através de um futuro aberto emergindo além de todo o dado. Fecham a mulher numa cozinha ou num camarim e se espantam de que seu horizonte seja limitado; cortam suas asas e lamentam que não saiba voar. Que lhe abram o futuro e ela não será mais obrigada a instalar-se no presente.
     Dão prova da mesma inconsequência quando, fechando-a dentro dos limites de seu eu ou do lar, censuram-lhe o narcisismo, o egoísmo com seu cortejo: vaidade, suscetibilidade, maldade etc.; tiram-lhe toda possibilidade concreta de comunicação com outrem; ela não sente em sua experiência o apelo nem os benefícios da solidariedade, porquanto está inteiramente consagrada à sua própria família, separada; não se pode, por tanto, esperar que se supere em prol do interesse geral. Confina-se obstinadamente no único terreno que lhe é familiar, em que ela pode exercer um domínio sobre as coisas e no seio do qual reencontra uma soberania precária.
     Entretanto, por mais que feche as portas e as janelas, a mulher não encontra, em seu lar, uma segurança absoluta; esse universo masculino que ela respeita de longe, sem ousar aventurar-se nele bloqueia-a; e justamente porque é incapaz de apreendê-lo através de técnicas, de uma lógica segura, de conhecimentos articulados, ela se sente como a criança e o primitivo cercada de mistérios perigosos. Neles projeta sua concepção mágica da realidade: o curso das coisas parece-lhe fatal e, no entanto, tudo pode acontecer; ela mal distingue o possível do impossível; está disposta a acreditar em qualquer coisa; acolhe e propaga todos os rumores, provoca pânicos. Mesmo nos períodos de calma vive preocupada; à noite, na sonolência, o jacente inerte assusta-se com figuras de pesadelo que a realidade reveste; assim, para a mulher condenada à passividade, o futuro opaco é povoado pelos fantasmas da guerra, da revolução, da fome, da miséria; não podendo agir, ela se inquieta. O marido, o filho, quando são arrastados por um acontecimento, assumem seus riscos por sua própria conta: seus projetos, as normas a que obedecem traçam na obscuridade um caminho seguro; mas a mulher debate-se numa noite confusa; ela preocupa-se porque não faz nada; na imaginação, todos os possíveis têm a mesma realidade: o trem pode descarrilar, a operação pode falhar, o negócio malograr; o que ela tenta em vão conjurar, em suas longas ruminações melancólicas, é o espectro de sua própria impotência.
     A preocupação traduz a desconfiança em relação ao mundo dado; se ele se lhe afigura carregado de ameaças, prestes a soçobrar em obscuras catástrofes, é porque ela não se sente feliz. Na maior parte do tempo ela não se resigna em se resignar; sabe muito bem o que suporta, ela suporta contra sua vontade; é mulher sem ter sido consultada; não ousa revoltar-se; é irritada que se submete; sua atitude é uma recriminação constante. Todos os que recebem as confidencias das mulheres — médicos, padres, assistentes sociais — sabem que a maneira mais comum é a queixa; entre amigas, geme cada uma sobre seus próprios males e todas juntas sobre a injustiça da sorte, o mundo e os homens em geral. Um indivíduo livre somente a si censura seus malogros, assume-os, mas é através de outrem que tudo acontece à mulher, é outro que é responsável por suas desgraças. Seu desespero furioso recusa todos os remédios; propor soluções a uma mulher resolvida a queixar-se não arranja coisa alguma: nenhuma lhe parece aceitável. Ela quer viver sua situação precisamente como a vive: numa cólera impotente. Que lhe proponham uma mudança, ergue os braços ao céu: "Não faltava mais nada!" Sabe que seu mal-estar é mais profundo do que os pretextos que dá, e que não basta um expediente para libertá-la: ressente-se contra o mundo inteiro, porque foi edificado sem ela e contra ela; desde a adolescência, desde a infância, protesta contra sua condição; prometeram-lhe compensações, asseguraram-lhe que, se abdicasse suas possibilidades nas mãos de um homem, elas lhe seriam de volvidas centuplicadas e considera-se mistificada; acusa todo o universo masculino; o rancor é o reverso da dependência: quando se dá tudo, nunca se recebe bastante de volta. Entretanto, ela também tem necessidade de respeitar o universo masculino; sentir-se-ia em perigo sem um teto em cima da cabeça, se o contestasse em seu todo: ela adota a atitude maniqueísta que também lhe é sugerida pela sua experiência caseira. 0 indivíduo que age reconhece-se responsável do mesmo modo que os outros pelo mal e pelo bem, sabe que lhe cabe definir os fins e fazer com que triunfem; sente na ação a ambiguidade de toda solução; justiça e injustiça, lucros e perdas acham-se inextricavelmente mistura dos. Mas quem é passivo coloca-se fora do jogo e recusa-se a colocar, ainda que em pensamento, os problemas éticos: o bem deve ser realizado e, se não o é, há uma falta cujos culpados de vem ser punidos. Como a criança, a mulher representa o bem e o mal em simples imagens de Epinal; o maniqueísmo tranquiliza o espírito, suprimindo a angústia da escolha; escolher entre uma praga e outra menor, entre um benefício presente e um futuro maior, ter que definir o que é derrota, o que é vitória, é assumir riscos terríveis; para o maniqueísta, o trigo bom está claramente separado do joio e basta arrancar este último; a poeira condena-se a si própria e a limpeza é a perfeita ausência de sujeira; limpar é expulsar detritos e lama. Assim a mulher pensa que "tudo é culpa dos judeus" ou dos maçons, ou dos bolcheviques, ou do governo; ela é sempre contra alguém ou alguma coisa; entre os anti-dreyfusistas, as mulheres eram mais encarniçadas ainda do que os homens; elas nem sempre sabem onde reside o princípio maligno, mas o que esperam de um bom governo é que êle o expulse, como se expulsa a poeira da casa. Para as gaullistas fervorosas, De Gaulle se apresenta como o rei dos varredores; de espanadores e trapos nas mãos, elas o imaginam limpando e fazendo brilhar uma França "limpa".
     Mas essas esperanças situam-se sempre num futuro incerto; enquanto se espera, o mal continua a roer o bem; e como não tem à mão os judeus, os maçons, os bolcheviques, a mulher procura um responsável contra quem possa concretamente indignar-se: o marido é a vítima predileta. É nele que se encarna o universo masculino, é através dele que a sociedade masculina assumiu o encargo da mulher e a mistificou; ele suporta o peso do mundo e, se as coisas vão mal, é culpa dele. Quando volta, à noite, ela se queixa dos filhos, dos fornecedores, do lar, do custo de vida, de seu reumatismo, do tempo que faz: e quer que o esposo se sinta culpado. Muitas vezes alimenta em relação a ele ressentimentos particulares; mas o marido é culpado antes de tudo de ser um homem; também pode ter suas doenças, suas preocupações: "Não é a mesma coisa"; ele detém um privilégio que ela sente constantemente como uma injustiça. É de notar que a hostilidade que ela experimenta em relação ao marido, ao amante, a prenda a eles ao invés de a afastar; um homem que se pôs a detestar a mulher ou a amante procura fugir dela: mas ela quer ter na mão o homem que odeia, para fazê-lo pagar. Escolher recriminar, não é escolher desembaraçar-se de seus males e sim chafurdar neles; seu supremo consolo é apresentar-se como mártir. A vida, os homens venceram-na: ela fará dessa derrota uma vitória. Eis porque, como em sua infância, ela se entregará tão displicentemente ao frenesi das lágrimas e das cenas.
     É sem dúvida porque sua vida se constrói sobre um fundo de revolta impotente que a mulher chora tão facilmente; por certo tem ela fisiologicamente um menor controle do sistema nervoso e simpático do que o homem; sua educação ensinou-lhe a entregar-se: as normas de conduta desempenham aqui um grande papel: Diderot, Benjamin Constant vertiam dilúvios de lágrimas; mas os homens deixaram de chorar, desde que o costume o proibiu. Mas a mulher está sempre disposta a adotar em relação ao mundo uma conduta de malogro, porque nunca o enfrentou francamente. O homem aceita o mundo; a própria desgraça não mudará sua atitude, ele a enfrentará, não se deixará vencer; ao passo que basta uma contrariedade para pôr novamente a descoberto, para a mulher, a hostilidade do universo e a injustiça de sua sorte; então ela se precipita em seu mais seguro refúgio: ela mesma; essa esteira quente em suas faces, essa queimadura em suas órbitas é a presença sensível de sua alma dolorosa; doces na pele, ligeiramente salgadas na língua, as lágrimas são também uma terna e amarga carícia; o rosto queima sob um derrame de água clemente; as lágrimas são ao mesmo tempo queixa e consolo, febre e calmante frescor. São também um supremo álibi; bruscas como a borrasca, caindo intermitentes, ciclone, aguaceiro, chuvisco, metamorfoseiam a mulher numa fonte queixosa, num céu atormentado; seus olhos não veem mais, vela-os uma cerração; não são mais sequer um olhar, fundem-se em chuva. Cega, a mulher retorna à passividade das coisas naturais. Querem-na vencida: ela soçobra na derrota; vai a pique, afoga-se, escapa ao homem que a contempla, impotente como diante de uma cata rata, Ele julga o processo desleal: mas ela considera que a luta é desleal porque não lhe deram nenhuma arma eficaz, Ela recorre uma vez a uma conjuração mágica. E o fato de seus soluços exasperarem o homem fornece-lhe uma razão a mais para utilizá-los.

continua página 374...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"