segunda-feira, 19 de outubro de 2026

MPB: É preciso saber viver

Titãs


A canção "É Preciso Saber Viver" foi regravada pelos Titãs em 1998 ( música composta por Erasmo Carlos e Roberto Carlos - originalmente gravada pela dupla Os Vips no álbum As 14 Mais – Vol XXII e, mais tarde, regravada pelo próprio Roberto em 1974 no álbum Roberto Carlos.), sendo uma das mais tocadas nas rádios brasileiras, ganhou destaque em várias cidades, incluindo São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Curitiba e Santos. No Brasil em geral, foi a quarta mais tocada. A música também foi indicada ao Prêmio Multishow de Música Brasileira 1999 na categoria Música do Ano e Melhor Clipe.


Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver

Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver






Márcio e Ronaldo Antonucci (OS VIPS) - "É preciso saber viver"




Os Vips - É Preciso Saber Viver






Wanderléa, Erasmo e Roberto Carlos - É preciso saber viver
Clipe do filme: Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa




Cinema: Roberto Carlos e O diamante cor-de-rosa

Uma estatueta comprada em um antiquário em Tóquio pode levar à descoberta de um grande tesouro.

Direção:
Roberto Farias

Roteiristas:
Berilo Faccio
Roberto Farias





Elenco:
Roberto Carlos
Erasmo Carlos
Wanderléa
José Lewgoy
Paulo Porto
Marly de Fátima
António Abreu
Takaesiro Aisaka
Olga Hamada
Hisako Iasaka
Joaquim Inoue
Hana Kruman
Teruo Nakatami
Glauce Rocha (narração)
Jorge Saito
Shigeru Sakai
Mário S. Takamine
Toshie Yatape

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Deus me proteja / Vem pra cá / Leva / Trem das Onze / Romaria / De janeiro a janeiro / É preciso saber viver /     

Edgar Allan Poe - Contos: O coração denunciador

Edgar Allan Poe - Contos


O coração denunciador¹
[1] Em 1845, Poe tornou-se proprietário e editor-chefe do Broadway Journal, de breve vida, no qual republicou vários de seus contos, incorporando correções manuscritas que izera em seu exemplar impresso dos Tales of the Grotesque and Arabesque (que planejava publicar com o novo título de Phantasy Pieces). Desse modo, quando julgou de interesse do leitor, a tradução procurou observar essas alterações ou assinalou as divergências nas edições. Aqui, a seguinte epígrafe de Longfellow foi então suprimida: “Art is long and Time is leeting/ And our hearts, though stout and brave,/ Still, like muf led drums, are beating/ Funeral marches to the grave” ( “A arte é longa, o Tempo, fugaz/ E nossos corações, embora fortes e corajosos,/ Ainda assim, como tambores abafados, seguem tocando/ Marchas fúnebres rumo ao túmulo”).

Com efeito! — nervoso — tenho andado terrivelmente nervoso, ando com os nervos à flor da pele; mas por que insistis que estou louco? A doença intensificou meus sentidos — não os destruiu — tampouco os embotou. Acima de tudo, aguçou o sentido da audição. Escutei todas as coisas no céu e na terra. Escutei muitas coisas no inferno. Como, então, posso estar louco? Sede todo ouvidos! e observai com que sensatez — com que calma sou capaz de contar a história toda.
     
     É impossível dizer em que momento a ideia penetrou em meu cérebro; porém, uma vez concebida, perseguiu-me dia e noite. Objetivo, não havia. Furor, não havia. Eu gostava do velho. Nunca me fizera mal. Nunca me ofendera. De seu ouro nunca tive desejo algum. Acho que era seu olho! sim, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre — um olho azul claro, velado pela catarata. Sempre que pousava sobre mim, meu sangue gelava; e assim, pouco a pouco — muito gradualmente —, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e desse modo me livrar daquele olhar para sempre.
     Ora, eis o problema. Imaginais que estou louco. Loucos nada sabem. Mas deveríeis ter me visto. Deveríeis ter visto quão sabiamente procedi — com que cautela — com que precaução — com que dissimulação empenhei-me na tarefa! Nunca fui tão bondoso com o velho quanto na semana toda que antecedeu seu assassinato. E toda noite, perto da meia-noite, eu girava o trinco da porta de seu quarto e a abria — ah, tão suavemente! E depois, após ter aberto uma fresta suficiente para minha cabeça, introduzia por ela uma lanterna escurecida, toda fechada, fechada, de modo que nenhuma luz dali irradiasse, e então enfiava a cabeça. Ah, teríeis rido em ver com que astúcia eu a enfiava! Eu a movia devagar — muito, muito devagar, de modo que não perturbasse o sono do velho. Levava uma hora para inserir minha cabeça inteira dentro da abertura até um ponto em que conseguisse enxergá-lo deitado em sua cama. Há! — um louco teria mostrado tamanho discernimento? E depois, quando minha cabeça estava dentro do quarto, eu abria a tampa da lanterna cautelosamente — ah, tão cautelosamente — cautelosamente (pois as dobradiças rangiam) — eu a abria o suficiente apenas para que um único facho estreito pousasse sobre o olho vulturino. E assim procedi por sete longas noites — toda noite, por volta da meia noite —, mas encontrava o olho sempre fechado; e era impossível executar o trabalho; pois não era o velho que me perturbava, mas seu Mau-Olhado. E toda manhã, quando o dia raiava, eu entrava audaciosamente em seu aposento, e falava corajosamente com ele, chamando-o pelo nome em um tom amistoso, e lhe perguntando como passara a noite. De modo que por aí já vedes como ele precisaria ser um velho bem perspicaz, deveras, para suspeitar que toda noite, exatamente à meia-noite, eu o observava enquanto dormia.
     Quando chegou a oitava noite tomei uma precaução mais do que costumeira ao abrir a porta. O ponteiro dos minutos em um relógio seria mais rápido do que minha mão. Nunca antes daquela noite eu sentira toda a extensão de minhas capacidades — de minha sagacidade. Eu mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que lá estava eu, abrindo a porta, de pouco em pouco, e que ele nem sequer sonhava com meus atos ou pensamentos secretos. Cheguei até a rir com a ideia; e pode ser que houvesse me escutado; pois moveu-se no leito subitamente, como que assustado. Ora, pensaríeis talvez que recuei — mas não. Seu quarto estava escuro como breu nas trevas espessas (pois as folhas das janelas ficavam bem fechadas, por medo de ladrões), de modo que eu sabia que era incapaz de enxergar o vão da porta, e continuei a empurrá-la, mais um pouco, mais um pouco.
     Eu já enfiara toda a cabeça, e estava prestes a abrir a lanterna, quando meu polegar escorregou no ferrolho e o velho se aprumou na cama, gritando — “Quem está aí?”
     Permaneci imóvel e sem nada dizer. Por uma hora inteira não mexi um músculo e nesse meio-tempo não o ouvi voltar a se deitar. Ele continuava sentado na cama, escutando atentamente; — exatamente como eu ficava a fazer, noite após noite, de ouvidos esticados para os relógios da morte dentro das paredes.¹
[1] Deathwatch beetle (Xestobium ruffovillosum), um tipo de caruncho que ao penetrar na madeira emite estalidos, tidos como mau agouro.

     Em seguida escutei um ligeiro gemido, e soube que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido de dor ou de pesar — oh, não! —, era o som baixo e abafado que se ergue do fundo da alma quando oprimida pelo medo. Eu conhecia o som muito bem. Inúmeras noites, à meia-noite, quando o mundo inteiro dormia, ele brotara das profundezas de meu próprio peito, intensificando, com seu pavoroso eco, os terrores que me afligiam. Digo que o conhecia bem. Eu conhecia o sentimento que inquietava o velho, e me apiedei do homem, embora em meu íntimo risse. Sabia que ele estava acordado desde o primeiro leve ruído, quando se virara na cama. Seus medos haviam a partir desse momento crescido dentro dele. Estivera tentando imaginá-los sem fundamento, mas fora incapaz. Estivera dizendo a si mesmo — “Não é nada, apenas o vento na chaminé — apenas um camundongo correndo pelo soalho” ou “foi somente um grilo que cantou uma única vez”. Sim, ele estivera tentando se tranquilizar com essas suposições: mas descobrira que fora tudo em vão. Tudo em vão; porque a Morte, ao dele se aproximar, acossara-o com sua sombra negra, e se lançara sobre a vítima, envolvendo-a. E foi a influência fúnebre da sombra despercebida que o levou a sentir — embora sem nada ver ou escutar — a sentir a presença de minha cabeça dentro do quarto.
     Depois de ter esperado por um longo tempo, muito pacientemente, sem ouvi-lo se deitar, resolvi abrir uma pequena — muito pequena, minúscula — fresta na lanterna. Desse modo a abri — sereis incapazes de imaginar quão furtivamente, furtivamente — até que, finalmente, um único facho tênue como um filamento de teia brilhou através da fenda e pousou sobre o olho vulturino.
     O olho estava aberto — aberto, arregalado — e senti a fúria crescer dentro de mim ao fitá-lo. Enxerguei-o com perfeita nitidez — todo ele de um azul desbotado, com um véu hediondo a cobri-lo que gelou meus ossos até a medula; mas nada mais podia eu enxergar do rosto do velho ou de sua pessoa: pois dirigira o facho como que por instinto precisamente sobre o ponto maldito.
     Ora, mas já não vos expliquei que o que tomais equivocadamente por loucura não é senão acuidade dos sentidos? — pois agora, digo mais, chegava aos meus ouvidos um som baixo e surdo, como o que faz um relógio envolto em algodão. Esse som, eu também o conhecia bem. Era o batimento do coração do velho. Isso aumentou minha fúria, como as batidas do tambor que estimulam a coragem do soldado.
     Mas mesmo então me refreei e permaneci imóvel. Mal respirava. Segurava a lanterna sem um movimento. Tentava manter o mais fixamente possível a réstia sobre o olho. Nesse ínterim o infernal tamborilar do coração aumentava. Foi ficando mais rápido, mais rápido, e mais alto, mais alto a cada instante. O terror do velho devia ser extremo! Ficava mais alto, e digo mais, ficava mais alto a cada momento! — prestais bastante atenção em minhas palavras? Já vos expliquei como sou nervoso: sou, de fato. E agora, na calada da noite, em meio ao pavoroso silêncio daquela antiga casa, um ruído assim tão estranho enervou-me ao ponto de um terror incontrolável. E contudo, por mais alguns minutos, refreei-me e permaneci imóvel. Mas o batimento ficava mais alto, mais alto! Achei que o coração fosse explodir. E então uma nova angústia tomou conta de mim — o som alcançaria os ouvidos de algum vizinho! A hora do velho chegara! Com um poderoso urro, abri a lanterna completamente e pulei no quarto. Ele deu um grito — apenas um. Numa fração de segundo arrastei-o ao chão e puxei a pesada cama sobre ele. Então sorri alegremente, vendo a façanha até ali cumprida. Mas, por vários minutos, o coração seguiu batendo com um som abafado. Isso, entretanto, não me perturbou; não seria escutado através da parede. E enfim cessou. O velho estava morto. Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, ele estava morto, morto como uma pedra. Pousei a mão sobre o coração e a mantive ali por vários minutos. Não havia pulsação. Ele estava morto como uma pedra. Seu olho não mais me incomodaria.
     Se continuais a me reputar louco, não mais o ireis fazê-lo quando descrever as avisadas precauções que tomei para ocultar o corpo. A noite avançava e trabalhei com presteza, mas em silêncio. Antes de mais nada desmembrei o cadáver. Decepei-lhe a cabeça, os braços e as pernas.
     Em seguida removi três tábuas do soalho do aposento e depositei tudo em meio aos caibros. Depois recoloquei as pranchas com tal perícia, com tal astúcia, que nenhum olho humano — nem mesmo o dele — poderia ter detectado alguma coisa errada. Nada ficou por ser lavado — nenhuma mancha de espécie alguma — nenhum respingo de sangue. Eu fora extremamente cauteloso quanto a isso. Uma tina recolhera tudo — rá! Rá!
     Após ter dado cabo de todas essas tarefas, eram quatro da manhã — ainda escuro como a meia-noite. Quando o sino badalou a hora, uma batida se fez ouvir na porta da rua. Desci para atender com o coração leve — pois o que tinha eu agora a temer? Três homens entraram, e se apresentaram, com perfeita polidez, como agentes de polícia. Um grito ouvido por um vizinho durante a noite; isso levantara a suspeita de algum crime; alguém dera queixa na delegacia e eles (os policiais) haviam sido mandados para dar uma busca na casa.
     Sorri — pois o que tinha eu a temer? Dei as boas-vindas aos cavalheiros. O grito, expliquei, fora proferido por mim mesmo, em um sonho. O velho, acrescentei, se achava ausente, no interior. Levei meus visitantes por toda a casa. Convidei-os a investigar — investigar bem. Conduzi-os, enfim, ao quarto dele. Mostrei-lhes suas posses valiosas, em segurança, intocadas. No entusiasmo de minha confiança, trouxe cadeiras para o quarto, e insisti que ficassem ali descansando de sua faina, enquanto de minha parte, com a irrefreável audácia de meu triunfo perfeito, punha minha própria cadeira exatamente sobre o ponto sob o qual repousava o corpo da vítima.
     Os policiais se deram por satisfeitos. Minha conduta os convencera. Eu estava singularmente à vontade. Sentaram e, enquanto eu respondia animadamente, conversaram sobre coisas familiares. Porém, em pouco tempo, senti que empalidecia e desejei que partissem. Minha cabeça doía e era como se um sino repicasse em meus ouvidos: mas eles continuavam sentados, conversando. O sino tornou-se mais distinto: — continuou, e tornou-se mais distinto: falei com maior desembaraço para me livrar da sensação: mas ela continuou, e ganhou materialidade — até que, finalmente, descobri que o ruído não estava dentro de meus ouvidos.
     Sem dúvida eu agora ficava muito pálido; — mas falava com maior fluência, e elevando a voz. Contudo, o som aumentou — e o que podia eu fazer? Era um som baixo, abafado, acelerado — muito parecido com o som que um relógio faz quando envolto em algodão. Fiquei sem ar — e contudo os policiais nada ouviam. Falei com maior rapidez — com maior veemência; mas o ruído aumentava e aumentava. Fiquei de pé e discuti trivialidades, em um tom esganiçado e gesticulando violentamente; mas o ruído aumentava e aumentava. Por que eles não iam embora? Andei pelo quarto de um lado ao outro com pesadas passadas, como que enervado até a fúria sob o escrutínio dos homens — mas o ruído aumentava e aumentava. Oh, Deus! o que podia eu fazer? Espumei — me encolerizei — praguejei! Girei a cadeira sobre a qual estivera sentado, e arrastei-a sobre as tábuas, mas o ruído se elevava acima de tudo e continuava a aumentar. Ficou mais alto — mais alto — mais alto! E mesmo assim os homens continuavam a conversar afavelmente, e sorriam. Era possível que não estivessem escutando? Deus Todo-Poderoso! — não, não! Eles escutavam! — eles suspeitavam! — eles sabiam! — estavam escarnecendo de meu horror! — isso foi o que pensei então, e isso é o que penso agora. Mas qualquer coisa era melhor do que aquela agonia! Qualquer coisa era mais tolerável do que aquela zombaria! Eu não podia suportar aqueles sorrisos de hipocrisia por mais tempo! Senti que tinha de gritar ou morrer! — e então — outra vez! — escutai! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto! —
 
“Patifes!”, urrei, “basta de dissimulações! Admito o que fiz! — arrancai as tábuas! — aqui, aqui! — é o batimento de seu odioso coração!” 
continua página 101...
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O coração denunciador /                      
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 78 - A cisterna e os baldes

Moby Dick

Herman Melville

78 - A cisterna e os baldes 

     Lépido como um gato, Tashtego sobe no topo do mastro; e sem mudança em sua postura ereta corre sobre o lais da verga principal ao ponto onde esta mais exatamente se projeta sobre o Tonel suspenso. Leva consigo uma talha leve chamada candeliça, feita de duas partes apenas, que passa pelo cadernal de uma roldana. Amarrando o cadernal de modo a suspendê-lo do lais da verga, ele balança uma ponta da corda, até que um homem no convés consegue pegá-la e segurá-la com firmeza. Então, mão sobre mão, pela outra ponta da corda, o Índio se lança ao ar, até que pousa com agilidade no topo da cabeça. Naquele lugar– bem acima do resto da companhia, para a qual ele vivamente grita – ele se parece com um Muezim Turco chamando as pessoas de bem para as orações do alto de uma torre. Munido da pá afiada, o cabo curto, que lhe dão, ele procura com cuidado o lugar certo para começar a perfurar o Tonel. Esse trabalho ele realiza cheio de cuidados, como um caçador de tesouros numa mansão antiga, auscultando as paredes para encontrar o lugar onde o ouro está cimentado. Terminada tal sondagem cautelosa, um resistente balde de ferro, exatamente como um balde de poço, é amarrado a uma ponta da candeliça; enquanto a outra ponta, esticada sobre o convés, é segurada por dois ou três marinheiros atentos. Estes, então, colocam o balde ao alcance do Índio, a quem outra pessoa ergueu uma vara bem comprida. Inserindo a vara no balde, Tashtego o conduz para dentro do Tonel até que desapareça por inteiro; então, dando a ordem aos marinheiros com a candeliça, sobe o balde outra vez, tão espumante quanto um balde de leite fresco da moça do curral. Diligentemente descido de suas alturas, o recipiente repleto encontra as mãos de um marinheiro designado para isso e é rapidamente esvaziado numa enorme tina. Levado mais uma vez para o alto, o balde repete a mesma operação, até que a cisterna profunda não lhe ofereça mais nada. Próximo do fim, Tashtego tem de calcar sua vara mais e mais forte e mais e mais fundo dentro do Tonel, até que atinja uma profundidade de aproximadamente vinte pés.
     Ora, os homens do Pequod já baldeavam desse modo havia já um tempo; várias tinas apareciam repletas do espermacete perfumado; quando de súbito ocorreu um estranhíssimo acidente. Fosse porque Tashtego, o Índio selvagem, estivesse tão afoito e fosse tão descuidado a ponto de soltar por um instante o cabo das talhas grandes que seguravam a cabeça; ou porque o lugar onde ele estava fosse muito viscoso e traiçoeiro; ou porque o próprio Diabo tivesse preparado isso sem dar nenhuma explicação; como exatamente se sucedeu, não se soube; mas, de repente, enquanto o octogésimo ou nonagésimo balde vinha sendo puxado – meu Deus, coitado do Tashtego! – como o balde complementar num poço verdadeiro, ele caiu de cabeça no Grande Tonel de Heidelberg e, num horrível borbulhar de óleo, desapareceu de vista!

“Homem ao mar!”, gritou Daggoo, que em meio à consternação geral foi o primeiro a recobrar o juízo. “Mandem o balde para cá!”, e colocando um pé dentro dele, de modo a segurar melhor o cabo da candeliça escorregadia, os içadores o ergueram para o topo da cabeça, antes mesmo que Tashtego pudesse ter chegado ao fundo. Enquanto isso, criou-se um terrível tumulto. Olhando sobre o costado, eles viam a cabeça outrora sem vida palpitando e surgindo à superfície do mar, como se subitamente acometida de uma idéia importante; quando, no entanto, era apenas o coitado do Índio revelando inconscientemente por seus golpes a perigosa profundidade a que havia afundado.

     Naquele instante, enquanto Daggoo, no topo da cabeça, soltava a candeliça – que havia de alguma forma se enredado nas grandes talhas de cortar –, ouviu-se um barulho nítido de alguma coisa se quebrando; e, para o terror inenarrável de todos, um dos ganchos imensos que seguravam a cabeça se soltou, e com imensa trepidação a massa enorme balançou para os lados, até que o navio bêbado cambaleou e sacudiu como se tivesse sido atingido por um iceberg. O gancho que restava, sobre o qual estava todo o peso, parecia estar a ponto de ceder a qualquer momento; algo ainda mais provável devido aos movimentos violentos da cabeça.

“Desce daí! Desce daí!”, gritavam os marinheiros para Daggoo, mas segurando o cabo das talhas pesadas com uma das mãos, de modo que se a cabeça caísse ele continuaria suspenso; e, tendo desfeito o embaraço da linha, o negro então socou o balde para dentro do poço em colapso, sugerindo que o arpoador enterrado o agarrasse e assim pudesse ser puxado para fora.
“Pelo amor de Deus, homem!”, gritou Stubb, “O que você está socando? Um cartucho? Pare! Como você acha que vai ajudá-lo: acertando esse balde de ferro na cabeça dele? Pare!”
“Cuidado com a talha!”, gritou uma voz explosiva como um foguete.

     Quase no mesmo instante, com o estrondo de um trovão, a massa enorme caiu no mar, como a rocha de Niágara no redemoinho; o casco subitamente liberado se afastou para longe, afundando em seu cobre reluzente; e todos suspenderam a respiração quando, meio que balançando – ora sobre as cabeças dos marinheiros, ora sobre a água –, Daggoo, em meio a uma espessa névoa de vapor, se agarrava às talhas bambas, enquanto o pobre Tashtego, sepultado vivo, descia irremediavelmente às profundezas do mar! Contudo, mal havia se dissipado a neblina, um vulto nu com um sabre de abordagem na mão foi visto por um brevíssimo instante procurando equilíbrio sobre a amurada. Em seguida, um mergulho barulhento na água anunciava que meu corajoso Queequeg havia mergulhado para o salvamento. Uma horda avançou para o costado, e todos os olhos contavam cada onda, como um instante após o outro, e não havia sinal de afogado ou mergulhador. Alguns marinheiros pularam num bote ao lado e remaram um pouco para longe do navio.

“Ah! Ah!”, gritou Daggoo, de repente, do alto de seu agora calmo e balançante poleiro; e, olhando mais além do costado, vimos um braço retesado em meio às ondas azuis; uma visão estranha, como se fosse um braço retesado em meio à grama de uma sepultura.
“Os dois! Os dois! – São os dois!”, gritou Daggoo outra vez com alegria; e logo depois Queequeg foi visto buscando impulso corajosamente com uma mão, enquanto a outra agarrava o cabelo comprido do Índio. Puxados para o bote que os esperava, foram levados de pronto ao convés; mas Tashtego demorava a recobrar os sentidos, e Queequeg não parecia muito animado.

     Pois bem, como se realizara esse corajoso salvamento? Ora, mergulhando atrás da cabeça que afundava lentamente, Queequeg, com seu sabre bem afiado, desferira estocadas laterais nas proximidades de sua base, como se ali abrisse uma larga escotilha; então, soltando o sabre, forçou o braço para dentro e para cima e desse modo puxou o coitado do Tashtego para fora pela cabeça. Confessou que, quando enfiara o braço pela primeira vez, encontrara uma perna; mas bem sabendo que não deveria proceder desse modo, que isso poderia causar problemas, enfiara, então, a perna de volta, e, com hábeis e esforçados gestos, manobrara o corpo do Índio; de tal modo que na tentativa seguinte ele veio à luz da boa e velha maneira – com a cabeça em primeiro lugar. Quanto à cabeça grande, essa havia se comportado tão bem quanto se podia esperar.
     E assim, graças à coragem e à grande habilidade de Queequeg em obstetrícia, o parto, ou melhor, a libertação de Tashtego foi bem-sucedida, ainda que entre os dentes dos mais desfavoráveis e aparentemente intransponíveis impedimentos; o que é uma lição que não deve ser de modo algum esquecida. O ofício da parteira deveria ser ensinado tal como a esgrima, o pugilismo, a equitação e o remo.
     Sei que essa estranhíssima aventura do índio de Gay Head parecerá inacreditável para alguns homens terrestres, ainda que tenham visto, ou escutado histórias sobre pessoas que caíram em cisternas em terra; um acidente que raro acontece, por muito menos do que com o Índio, dada a condição excessivamente escorregadia da borda do poço do Cachalote.
     Mas, talvez se alegará com astúcia, como é possível? Pensávamos que a cabeça do Cachalote, sedosa e porosa, fosse sua parte mais leve, mais afeita à cortiça; mas tu a fazes afundar num elemento de densidade muito superior à dela. Pegamos-te. De modo algum, fui eu quem vos pegou; pois quando o coitado do Tash caiu lá dentro o estojo estava quase vazio de seus conteúdos mais leves, restando pouco mais do que a parede densa e tendinosa do poço – uma substância duas vezes unida e batida, como disse antes, muito mais pesada que a água do mar, um bloco da qual afunda quase como chumbo. Mas a tendência dessa substância para afundar rapidamente foi neutralizada pelo fato de se manter ligada às outras partes da cabeça, de tal modo que afundou devagar, dando uma boa chance para Queequeg fazer seu rápido trabalho de obstetra, como se pode dizer. Pois sim, foi um parto rápido, e como.
     Ora, se Tashtego tivesse morrido naquela cabeça, teria sido uma morte muito valorosa; sufocado no perfume do espermacete mais alvo e delicado; posto no ataúde, levado em cortejo fúnebre, e enterrado na câmara secreta do templo mais sagrado da baleia. Apenas um fim mais encantador pode de pronto ser lembrado – a morte deliciosa do caçador de abelhas de Ohio, que ao procurar mel na forquilha de uma árvore oca encontrou tamanho reservatório que, de muito debruçar-se sobre este, foi sugado e morreu embalsamado. Quantos outros, pensai, terão caído da mesma maneira na cabeça de mel de Platão, para ali morrer docemente?
continua na página 375...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete / 77 - O Grande Tonel de Heidelberg / 78 - A cisterna e os baldes /       
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

domingo, 18 de outubro de 2026

Tchekhov - Angústia

Alguns melhores contos


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”
Anton Tchekhov

Angústia

     Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Yona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boleia, sem se mover.
     Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la… Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão de ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.
     Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo…
     Faz muito tempo que Yona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta. 

— Cocheiro, para a Víborgskaia! — ouve Yona. — Cocheiro! Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz. — Para a Viborgskaia! — repete o militar. — Está dormindo? Para a Víborgskaia!

     Em sinal de consentimento, Yona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo… O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão… 

— Onde vai, demônio?! — ouve, logo depois, Yona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. — Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita! — Não sabe dirigir! Olha a direita — zanga-se o militar.

     O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boleia, Yona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali. 

— Que gente canalha! — graceja o militar. — Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.

     Combinaram isso. Yona volta-se para o passageiro e move os lábios… Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta. 

— O quê? — pergunta o militar.

     Yona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia: 

— Pois é, meu senhor, assim é… perdi um filho esta semana. — Hum!… De que foi que morreu? Yona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz: — Quem é que pode saber! Acho que foi de febre… Passou três dias no hospital e morreu… Deus quis. — Dá a volta, diabo! — ressoa nas trevas uma voz. — Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar! — Anda, anda… — diz o passageiro. — Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!

     O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, para diante de uma taverna, encurva-se sobre a boleia e fica novamente imóvel… A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora… outra…
     Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda. 

— Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! — grita o corcunda, com voz surda. — Damos vinte copeques… os três! Yona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço… Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros… Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé? Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor. 
— Bem, faz o cavalo andar! — grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Yona. — Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo… — Hi-i… hi-i… — ri Yona. — Assim é… — Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço? — Estou com a cabeça estalando… — diz um dos moços compridos. — Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska tornamos quatro garrafas de conhaque. Não compreendo para que mentir! — irrita-se o outro moço comprido. — Mente como um animal. — Que Deus me castigue, é verdade… — Tão verdade como um piolho tossindo. — Hi-i! — ri Yona entre dentes. — Que senhores alegres! — Irra, com todos os diabos!… — indigna-se o corcunda. — Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!

     Yona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Yona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia: 

— Esta semana… assim, perdi meu filho! — Todos vamos morrer. — suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. — Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais? — Você deve animá-lo um pouco… umas pancadas no pescoço! — Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch*? Ou você não se importa com o que a gente diz? E Yona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço. — Hi-i… — ri ele. — Senhores alegres… que Deus lhes dê saúde! — Cocheiro, você é casado? — pergunta um dos compridos.

     Eu? Hi-i… que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria… Hi-ho-ho… O túmulo, quer dizer!… Meu filho morreu, e eu continuo vivo… Coisa esquisita, a morte errou de porta… Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho… E Yona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Yona fica por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele… A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Yona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia… Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Yona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz… Yona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa. 

— Que horas são, meu caro? — pergunta. — Mais de nove… Por que você parou aqui? Passa!

     Yona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia… Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas… Não pode mais. 

“Para casa”, pensa, “para casa”.

     E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Yona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante… Yona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa… “Não ganhei nem para a aveia”, pensa. “Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício… que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma…” Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde de água. 

— Ficou com sede? — pergunta Yona. — Com sede, sim! — Bem… Que lhe faça bom proveito… Pois é, irmão, e eu perdi um filho… Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital… Que coisa!

     Yona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça… Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo… É preciso falar com método, lentamente… É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu… É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia… É preciso falar sobre ela também… De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar… E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras. 

“É bom ir ver o cavalo”, pensa Yona. “Sempre há tempo para dormir…”

     Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Yona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo… Estando sozinho, não pode pensar no filho… Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável…
     Está mastigando? — pergunta Yona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. — Ora, mastiga, mastiga… Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno… Sim… Já estou velho para trabalhar de cocheiro… O filho é que devia trabalhar, não eu… Era um cocheiro de verdade… Só faltou viver mais…
     Yona permanece algum tempo em silêncio e prossegue: — Assim é, irmão, minha egüinha… Não existe mais Kuzmá Iônitch… Foi-se para o outro mundo… Morreu assim, por nada… Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho… E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo… Dá pena, não é verdade?
     O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo… Yona anima-se e conta-lhe tudo...
     A neve que Yona Potapov traz nas costas é tão fria quanto as relações humanas, sendo preciso um cavalo para que Yona desabafasse. 

Fim
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Leia também:
A mulher do farmacêutico / A obra de arte / Angústia /            .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

"Tchekhov denuncia a indiferença, a apatia; o que diria dos “tempos líquidos” em que vivemos? Os meios digitais, as redes sociais, constroem laços cada vez mais fluidos, passageiros. A expectativa que uma mensagem causa, denota o quão solitários estamos. Estamos doentes, vivendo em uma sociedade egocêntrica, onde ninguém tem tempo para ouvir. E se damos bom dia para cavalo, é porque sabemos que dele não virá um coice.'

Cinema: Acordes e Desacordos

Woody Allen 


Sweet and Lowdown (Acordes e Desacordos, no Brasil), filme de 1999 escrito e dirigido por Woody Allen.

Um dos retratos mais interessantes já feitos sobre artistas talentosos e contraditórios, o filme nos apresenta Emmet Ray, um protagonista fictício, guitarrista de jazz brilhante que vive nos anos 1930. Apesar de sua habilidade incomum com o instrumento, ele é incapaz de controlar os próprios impulsos, acumulando fracassos amorosos, vícios e conflitos pessoais. Entre momentos cômicos e dramáticos, a narrativa mostra que o sucesso artístico nem sempre caminha ao lado da realização pessoal, criando um retrato humano, divertido e profundamente melancólico. O personagem é interpretado por Sean Penn e retratado como um brilhante guitarrista de jazz dos anos 1930, considerado por muitos o segundo melhor do mundo, atrás apenas de seu ídolo, Django Reinhardt. O grande contraste do personagem está justamente na distância entre seu talento extraordinário e sua vida pessoal caótica. Vaidoso, impulsivo, mulherengo e autodestrutivo, Emmet frequentemente sabota seus próprios relacionamentos e oportunidades, tornando-se um exemplo de como o dom artístico não garante maturidade emocional ou felicidade.

Diretor:
Woody Allen

Roteirista:
Woody Allen






Elenco:
Woody Allen como Woody Allen
Ben Duncan como Ben Duncan
Daniel Okrent como A.J. Pickman
Dan Moran como Chefe
Tony Darrow como Ben
Chris Bauer como Ás - Jogador de Sinuca
 Sean Penn como Emmet Ray
Constance Shulman como Hazel - Prostituta #1
Kellie Overbey como Iris - Prostituta #2
Darryl Alan Reed como Don
Marc Damon Johnson como Omer
Ron Cephas Jones como Alvin
Steve Bargonetti como Amigo músico
Benjamin Franklin Brown como Amigo músico
James Urbaniak como Harry
Vince Giordano como Baixista #1
Emme Kemp como Músico de Jam Session
Clark Gayton como Músico de Jam Session
Marcus McLaurine  como Músico de Jam Session
Carolyn Saxon como Filis
Brian Markinson como Bill Shields
Drummond Erskine como Primeiro Vagabundo
Joe Ambrose como Segundo Vagabundo
Molly Price como Ann
Joseph Rigano como Técnico de palco (como Joe Rigano)
Denis O'Hare como Jake
Dennis Stein como Dick Ruth - Dono do Clube
Nat Hentoff como Nat Hentoff
Katie Hamill como Mary
Samantha Morton como Hattie
Kaili Vernoff como Gracie
Carole Bayeux como Rita - Anfitriã da Festa do Ópio
Paula Parrish como Convidada da festa
Cory Solar como Convidada da festa
Lexi Egz como Convidado da festa
Yvette Mercedes como Convidada da festa
Peter Leung como Convidado da festa
John Waters como Mr. Haynes
William Addy como Mestre de cerimônias
Dick Monday como Chester Weems
Mary Stout como Felicity Thomson - Cantora amadora
Dick Mingalone como Birdman
Mr. Spoons como Spoon Player
Carol Woods como Helen Minton
Josh Mowery como Movie Director
Fred Goehner como William Weston
Eddy Davis como Bass Player #2
Vincent Guastaferro como Sid Bishop
Ralph Pope como Panhandler
Douglas McGrath como Douglas McGrath
Jerome Richardson como Músico do clube
Earl P. McIntyre como Músico do clube
James Williams como Músico do clube
Frank Wess como Músico do clube
Al Bryant como Músico do clube
Ray Garvey como Club Manager
Sally Placksin como Sally Jillian
Uma Thurman como Blanche
Lola Pashalinski como Blanche's Friend
Simon Wettenhall como Jam Session Musician
Orange Kellin como Jam Session Musician
Brooks Giles III como Jam Session Musician
Anthony LaPaglia como Al Torrio
Brad Garrett como Joe Bedloe
Alfred Sauchelli Jr. como Ned - Pool Player
Michael Peter Bolus como Lynch - Bar Room Friend
Mick O'Rourke como Holdup Man 
John Patrick McLaughlin como Holdup Man
Chuck Lewkowicz como Police Officer
Rick Mowat como Flat Tire Man
Ted Wilkins como Gas Station Proprietor
Michael Sprague como Django Reinhardt
Gretchen Mol como Ellie
Scott Beehner como Jay (não creditado)
Gary Cowling como Amigo músico (não creditado)
Michael Criscuolo como Vendedor de Carnaval (não creditado)
Stanley Crouch como Stanley Crouch (não creditado)
Anna Damergis como Manicure (não creditado)
Catherine Dudley-Rose como Bisbilhoteiro (não creditado)
Jesse Dyer como Gritando Eddie (não creditado)
Kenneth Edelson como Convidado da Festa (não creditado)
Eddie Eisele como Proprietário de Carro Packard (não creditado)
Rick Hickman como Homem da Cidade Irritado (não creditado)
Fiona Jones como Esposa do Fazendeiro (não creditado)
Jon M. McDonnell como Entusiasta da Música (não creditado)
Trish McGettrick como Padrão (não creditado)
George F. Miller como Cena da lua - Extra (não creditado)
Maria Ottavia como Mãe com Família no Calçadão (não creditado)
Phil Parlapiano como Papel Secundário na Cena da Lua (não creditado)
Adam Sietz como John (não creditado)
Alan Francis Sullivan como Convidado da Festa (não creditado)
John H. Tobin como Barman servindo Emmet (não creditado)


O Gênio Musical de Hermeto Pascoal

Já viu e escutou muitas coisas no universo musical?  Não perca o solo de jazz na xícara de café, 1 em um milhão!
Autumn Leaves (Joseph Kosma, Jacques Prévert e Johnny Mercer)





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