terça-feira, 17 de março de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Quem desencadeou a violência na Guatemala? (18)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     29. Quem desencadeou a violência na Guatemala?
          Em 1944, Ubico caiu de seu pedestal, varrido pelos ventos de uma revolução de cunho liberal, encabeçada por alguns jovens oficiais e universitários de classe média. Juan José Arévalo, eleito presidente, pôs em marcha um vigoroso plano educacional e ditou um novo código do trabalho para proteger os trabalhadores do campo e das cidades. Nasceram vários sindicatos; a United Fruit, dona de vastas terras, das ferrovias, do porto, virtualmente isenta de impostos e livre de controles, deixou de ser onipotente em suas propriedades. Em 1951, em seu discurso de despedida, Arévalo revelou que teve de escapar de 32 conspirações patrocinadas pela empresa. O governo de Jacob Arbenz continuou e aprofundou o ciclo de reformas. As estradas e o novo porto de San José rompiam o monopólio da United Fruit no transporte e na exportação. Com capital nacional, e sem estender a mão pedinte a bancos estrangeiros, foram efetivados vários projetos de desenvolvimento que conduziam à conquista da independência. Em junho de 1952, foi aprovada a reforma agrária, que beneficiou mais de 100 mil famílias, ainda que só abrangesse as terras improdutivas e pagasse uma indenização, em bônus, aos proprietários expropriados. A United Fruit só cultivava 8 por cento de suas terras, estendidas entre ambos os oceanos.
     A reforma agrária se propunha a “desenvolver a economia capitalista camponesa e a economia capitalista da agricultura em geral”, mas uma furiosa campanha internacional de propaganda se desencadeou contra a Guatemala: “A cortina de ferro está descendo sobre a Guatemala”, vociferavam as emissoras de rádio, os jornais e os próceres da OEA [1]. O coronel Castillo Armas, graduado em Fort Leavenworth, Kansas, comandou contra seu próprio país tropas treinadas e equipadas nos Estados Unidos. O bombardeio de F-47, com pilotos norte-americanos, respaldou a invasão. “Tivemos de nos livrar de um governo comunista que havia assumido o poder”, diria Dwight Eisenhower [2] nove anos depois. As declarações do embaixador norte-americano em Honduras a uma subcomissão do Senado dos Estados Unidos, em 27 de julho de 1961, revelaram que a operação libertadora de 1954 foi realizada por uma equipe da qual faziam parte, além dele mesmo, os embaixadores na Guatemala, Costa Rica e Nicarágua. Allen Dulles, que naquela época era o homem número 1 da CIA, enviou-lhes telegramas cumprimentando os pela missão cumprida. Anteriormente, o bom Allen integrara a diretoria da United Fruit Co. Um ano depois da invasão, sua cadeira na empresa foi ocupada por outro dirigente da CIA, o general Walter Bedell Smith. Foster Dulles, irmão de Allen, estava impaciente ao extremo na conferência da OEA que autorizou a expedição militar contra a Guatemala. Casualmente, tinham sido redigidas em seu escritório de advogado, ao tempo do ditador Ubico, as minutas dos contratos da United Fruit.
     A queda de Arbenz marcou a fogo a história posterior do país. As mesmas forças que bombardearam a cidade da Guatemala, Puerto arrios e San José, no entardecer do dia 18 de junho de 1954, estão hoje no poder. Várias e ferozes ditaduras sucederam-se à intervenção estrangeira, incluído o período de Julio César Méndez Montenegro (1966-70), que deu à ditadura uma aparência de regime democrático. Méndez Montenegro, que prometera uma reforma agrária, limitou-se a assinar uma autorização para que os terras tenentes portassem armas e as usassem. A reforma agrária de Arbenz se despedaçou quando Castillo Armas desincumbiu-se de sua tarefa, devolvendo as terras à United Fruit e a outros terras-tenentes expropriados.
     O ano de 1967 foi o pior do ciclo de violência inaugurado em 1954. Um sacerdote católico norte americano expulso da Guatemala, o padre Thomas Melville, informou ao National Catholic Reporter, em janeiro de 1968: em pouco mais de um ano, os grupos terroristas de direita assassinaram mais de dois mil e 800 intelectuais, estudantes, dirigentes sindicais e camponeses que “tentaram combater as enfermidades da sociedade guatemalteca”. O cálculo do padre Melville foi feito com base nas informações da imprensa, mas da maioria dos cadáveres ninguém jamais ficou sabendo: eram índios sem origem e sem nome conhecidos, que o exército de vez em quando incluía, só como números, nos comunicados sobre as vitórias contra a subversão. A repressão indiscriminada era parte da campanha militar de “cerco e aniquilação” de movimentos guerrilheiros. De acordo com o novo código em vigência, os membros das forças de segurança não tinham responsabilidade penal por homicídios, e os comunicados policiais ou militares eram considerados provas plenas em juízo. Os fazendeiros e seus administradores foram legalmente equiparados à qualidade de autoridades locais, com direito a porte de arma e de organizar forças repressivas. Não vibraram os teletipos do mundo com os “furos” da sistemática chacina, não chegaram à Guatemala jornalistas ávidos de notícias, não se ouviram vozes de condenação. O mundo virava as costas enquanto a Guatemala sofria uma longa noite de São Bartolomeu. A aldeia Cajón del Río ficou sem homens, os da aldeia Tituque tiveram as tripas revolvidas a punhal, os de Piedra Parada foram escalpelados vivos, e queimados vivos os de Agua Blanca de Ipala, depois de baleados nas pernas; no centro da praça de São Jorge cravaram numa haste a cabeça de um camponês rebelde. Em Cerro Gordo, encheram de alfinetes as pupilas de Jaime Velázquez; o corpo de Ricardo Miranda foi encontrado com 38 perfurações, e a cabeça de Haroldo Silva, sem o corpo de Haroldo Silva, foi parar à beira da estrada para São Salvador; em Los Mixcos, cortaram a língua de Ernesto Chinchilla; na fonte de Ojo de Agua, os irmãos Oliva Aldana foram costurados a tiros com as mãos atadas às costas e os olhos vendados; o crânio de José Guzmán se tornou um quebra-cabeça de minúsculas lascas atiradas pelo caminho; dos poços de San Lucas Sacatepequez emergiam mortos em vez de água; os homens amanheciam sem mãos e sem pés na fazenda Miraflores. Às ameaças seguiam-se as execuções, ou chegava a morte, sem aviso, pela nuca; nas cidades, eram marcadas com cruzes negras as portas dos sentenciados. Eram metralhados ao sair, e seus corpos lançados em barrancos.
     A violência não cessou depois. Ao longo do tempo de desprezo e cólera inaugurado em 1954, a violência foi e continua sendo uma transpiração natural da Guatemala. Continuaram aparecendo, um a cada cinco horas, os cadáveres nos rios ou à beira das estradas, os rostos irreconhecíveis, desfigurados pela tortura, que jamais serão identificados; também continuaram, e com maior intensidade, as matanças mais secretas: os corriqueiros genocídios da miséria. Outro sacerdote expulso, o padre Blase Bonpane, denunciava no Washington Post, em 1968, essa sociedade enferma: “Das 70 mil pessoas que a cada ano morrem na Guatemala, 30 mil são crianças. A taxa de mortalidade infantil da Guatemala é 40 vezes mais alta do que a dos Estados Unidos”.

continua na página 185...
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[1] GALEANO, Eduardo. Guatemala, país ocupado. México, 1967.
[2] Discurso na American Booksellers Association, Washington, 10 de junho de 1963.

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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Quem desencadeou a violência na Guatemala? (18)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Boa tarde, Poesia... Te Espero

¿Es eso AMOR IMPOSIBLE? 


- Mario Benedetti 

- Voz Feneté
 


 


Te quiero...




Tus manos son mi caricia
mis acordes cotidianos
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro

tu boca que es tuya y mía
tu boca no se equivoca
te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

y por tu rostro sincero
y tu paso vagabundo
y tu llanto por el mundo
porque sos pueblo te quiero

y porque amor no es aureola
ni cándida moraleja
y porque somos pareja
que sabe que no está sola

te quiero en mi paraíso
es decir que en mi país
la gente viva feliz
aunque no tenga permiso

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.


Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (VII.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

VII
 .
     Era no Plan-des-Dames, na vasta clareira que uma derrubada acabava de abrir. Ela estendia-se em declive suave, cingida pela floresta espessa, por faias magníficas cujos troncos retos e regulares a envolviam de colunas brancas, esverdeadas de liquens. Os gigantes abatidos ainda jaziam sobre a grama; à esquerda, um monte de toros cortados mais parecia um cubo geométrico. O frio aumentara com o crepúsculo, o musgo gelado estalava sob os pés. Na terra já era noite fechada, os ramos altos recortavam-se contra o céu pálido, onde a lua cheia, subindo no horizonte, ia apagar as estrelas.
     Perto de três mil mineiros tinham comparecido à reunião; era uma multidão fervilhante, homens, mulheres e crianças enchendo pouco a pouco a clareira, transbordando por baixo do arvoredo; e os retardatários continuavam a chegar; a maré de cabeças, afogada na sombra, espraiava-se até os cortes vizinhos. Um bramido subia daquele mar humano, igual a um vento de tempestade na floresta imóvel e gelada.
     No alto, dominando o declive, encontrava-se Etienne, acompanhado de Rasseneur e Maheu. Estourara uma briga, ouviam-se seus ecos ressoando, intermitentes. Perto dos que discutiam estavam Levaque, de punhos cerrados, Pierron, que logo se pôs de costas, muito nervoso por não ter podido pretextar mais febres, e mais o velho Boa-Morte e o velho Mouque, ombro a ombro sentados num tronco, com ar de profunda meditação. Por trás deles agrupavam-se os trocistas: Zacharie, o jovem Mouque e outros ainda, que tinham vindo para se divertir, enquanto as mulheres, recolhidas e graves como numa igreja, formavam grupo à parte. A mulher de Maheu, muda, balançava a cabeça ouvindo o surdo praguejar da mulher de Levaque. Philomène tossia, atacada de bronquite com a chegada do inverno. Só a filha de Mouque ria com todos os dentes, divertida pela maneira com que a velha Queimada falava da filha, chamando-a de desnaturada, que a mandava sair para empanturrar-se com coelho, uma vendida que engordava graças à falta de caráter do marido. E sobre o monte de madeira encarapitara-se Jeanlin, içando Lydie e obrigando Bébert a segui-lo, ficando os três acima dos outros.
     O responsável pela disputa era Rasseneur, que queria proceder formalmente à eleição da mesa. A derrota que sofrerá no Bon-Joyeux enfurecera-o, e tinha jurado tirar a desforra, gabando-se de reconquistar sua autoridade antiga quando se encontrassem frente a frente, não mais como delegados, mas como mineiros. Etienne, revoltado, achou imbecil a ideia da mesa, em plena floresta. Tinham que agir revolucionariamente, como selvagens, já que estavam sendo caçados como lobos.
     Vendo que a discussão não terminava mais, subiu num tronco de árvore e apoderou-se subitamente da multidão, gritando: 

— Camaradas! Camaradas!

     O rumor confuso extinguiu-se num longo suspiro, enquanto Maheu abafava os protestos de Rasseneur. Etienne continuou com uma voz poderosa: 

— Camaradas, uma vez que nos proíbem de falar, uma vez que a polícia nos persegue como se fôssemos bandidos, é aqui que temos de nos reunir! Aqui somos livres, estamos em nossa casa, ninguém virá para nos fazer calar, da mesma forma que não conseguem calar os pássaros e os animais!

     Uma torrente de gritos e exclamações foi a resposta: 

— Sim, sim, a floresta é nossa, temos o direito de conversar... Faia!

     Etienne permaneceu por um momento imóvel sobre o tronco de árvore. A lua, ainda baixa no horizonte, só iluminava os galhos mais altos, a multidão permanecia envolta em trevas, pouco a pouco acalmada e silenciosa. Ele, igualmente no escuro, fazia por cima dela, no cimo do declive, uma mancha de sombra.
     Levantou um braço num gesto lento e começou. Sua voz, no entanto, não ribombava mais, adotara o tom frio de um simples mandatário do povo prestando contas. Finalmente fazia o discurso que o comissário de polícia fizera gorar no Bon-Joyeux. Começou com um histórico rápido da greve, afetando uma eloquência científica: fatos, nada mais que fatos. Primeiro referiu-se à sua repugnância pela greve: os mineiros não a tinham querido, a direção os provocara com a nova tarifa de revestimentos. Depois lembrou a primeira visita dos delegados ao diretor, a má-fé da administração, e mais tarde, quando da segunda visita, sua concessão tardia, os dois cêntimos que devolvia depois de ter tentado roubá-los. Agora estavam nisso; começou a dar números provando que a caixa de previdência estava vazia, indicou o emprego dos socorros enviados, desculpando em algumas frases a Internacional, Pluchart e os outros, por não terem podido fazer mais por eles, devido às preocupações que tinham com seus planos de conquista do mundo. A situação agravava-se dia a dia, a companhia despedindo e ameaçando contratar operários na Bélgica; além disso intimidava os fracos, convencera certo número de mineiros a voltar ao trabalho. Toda essa fala foi pronunciada em tom monótono, como para ressaltar essas más notícias. Falou ainda da fome vitoriosa, da esperança morta, da luta já nos últimos haustos da coragem. De repente terminou, sem elevar a voz: 

— E nestas circunstâncias, camaradas, que vocês devem tomar uma decisão esta noite. Querem a continuação da greve? E, nesse caso, que pretendem fazer para triunfar sobre a companhia?

     Um silêncio profundo caiu do céu estrelado. A multidão, engolfada na escuridão, permanecia muda sob o peso daquelas palavras que lhe esmagavam o coração. Apenas se ouvia sua respiração angustiada por entre as árvores.
     Mas Etienne já prosseguia noutro tom. Não era mais o secretário da associação que falava, era o chefe de bando, o apóstolo portador da verdade. Então havia covardes que faltavam à palavra empenhada? Então tinha-se sofrido um mês inutilmente para depois voltar às minas de cabeça baixa e recomeçar a eterna miséria? Não valeria mais a pena morrer de uma vez, tentando destruir essa tirania do capital que levava o trabalhador à inanição? Continuar submetendo-se à fome até o momento em que ela, novamente, revoltaria até os mais calmos não era um jogo estúpido que não podia continuar existindo? E mostrou os mineiros explorados, suportando sozinhos resultados da crise, obrigados a não mais comer no momento em que as necessidades da concorrência fizessem baixar os preços da mão-de-obra. Não! A tarifa do revestimento era inaceitável, não passava de uma economia disfarçada, queriam roubar de cada homem uma hora de seu trabalho diário. Desta vez era demais, estava chegando a hora em que os miseráveis, levados até o último degrau da sua miséria, fariam justiça.
     Ficou de braços erguidos.
     A multidão, à palavra "justiça", sacudida por um longo estremecimento, desatou em aplausos que rolaram com um barulho de folhas secas. Vozes gritaram: 

— Justiça! Chegou a hora da justiça!

     Aos poucos Etienne inflamava-se. Não possuía a abundância fácil e cascateante de Rasseneur. Muitas vezes, as palavras não lhe vinham, tinha de torturar a frase e dela saía com um esforço que ressaltava com um movimento de ombros. Mas nesses contínuos tropeços descobria imagens de uma energia familiar que empolgavam seu auditório. Da mesma forma, seus gestos de mineiro, os cotovelos para trás, depois estendendo-se e lançando os punhos para a frente, sua mandíbula repentinamente avançando, como para morder, exerciam também uma ação extraordinária sobre os camaradas. Todos o diziam, ele não era um espetáculo, mas prendia a atenção. 

— O sistema assalariado é uma nova forma de escravidão — continuou ele com a voz ainda mais vibrante. — A mina deve ser do mineiro, como o mar é do pescador, como a terra é do camponês. Compreendam isso de uma vez por todas: a mina é de vocês, de todos vocês, que há um século a vêm pagando com tanto sangue e tanta miséria!

     Com a maior sem-cerimônia abordou problemas obscuros de direito, a enfiada de leis especiais sobre minas em que ele se perdia. O subsolo, assim como o solo, pertencia à nação; apenas um privilégio odioso assegurava o monopólio às companhias. Para Montsou, a pretensa legalidade das concessões complicava-se com tratados passados outrora com proprietários de antigos feudos, segundo o velho costume de Hainaut. Os mineiros, portanto, só tinham que reconquistar sua propriedade. E com as mãos estendidas ele mostrava a região inteira, para além da floresta. Nesse momento, a lua, que subia no horizonte, escorregando pelos ramos mais altos, iluminou-o. Quando a multidão, ainda no escuro, divisou-o assim, todo iluminado, distribuindo a fortuna com suas mãos abertas, aplaudiu de novo, prolongadamente. 

— Sim, sim, ele tem razão! Bravo!

     A partir daí Etienne cavalgou no seu plano favorito: a distribuição de instrumentos de trabalho à coletividade, como ele dizia numa frase, cuja barbárie o comichava deliciosamente. Nele, agora, a evolução era completa. Tendo partido da fraternidade humilde dos catecúmenos, da necessidade de reformar o sistema assalariado, acabara na idéia política de o suprimir. Depois da reunião no Bon-Joyeux, seu coletivismo, ainda humanitário e sem fórmula, enrijecera num programa complicado, que ele ia discutindo cientificamente, artigo por artigo. Primeiro disse que a liberdade só podia ser conseguida com a destruição do Estado; quando o povo tivesse tomado o poder, as reformas seriam feitas: volta à comuna primitiva; substituição da família moral e opressiva pela família igualitária e livre; igualdade absoluta, civil, política e econômica; garantia da independência individual graças à possessão e ao produto integral dos instrumentos de trabalho; enfim, instrução profissional e gratuita, paga pela coletividade. Isso levaria a uma reforma da sociedade velha e podre. Atacou o casamento, o direito de fazer testamento, regulamentou a fortuna particular, pôs abaixo o monumento iníquo dos séculos mortos com um grande gesto, sempre o mesmo, o gesto do ceifador que derruba a colheita madura. Com a outra mão foi reconstruindo, erguendo a futura humanidade, o edifício da verdade e da justiça surgindo na aurora do século XX. Diante de tal tensão cerebral a razão perdeu pé, restou apenas a idéia fixa do sectário. Os escrúpulos da sua sensibilidade e do seu bom senso evaporaram-se, nada era mais fácil do que a realização desse mundo novo; previra tudo, falava dele como de uma máquina que montaria em duas horas, sem levar em conta o fogo e o sangue. 

— Chegou a nossa vez! — gritou, numa última explosão. — Agora depende de nós conseguirmos o poder e a riqueza!

     Uma aclamação rolou até ele, vinda dos confins da floresta. A lua, agora, iluminava toda a clareira, recortava em arestas brilhantes o mar de cabeças por toda a confusa lonjura da mata de corte e por entre os enormes troncos cinzentos. E naquele ar glacial havia u; ricto feroz nos rostos, olhos faiscantes, bocas abertas... Era todo u: povo em delírio de possessão, homens, mulheres e crianças famélicos, prontos para o assalto justo aos antigos bens de que estavam sendo esbulhados. Já nem sentiam mais frio, aquelas palavras ardentes aqueceram-nos até as entranhas. Uma exaltação religiosa fazia-os pairar sobre a terra, era a febre de esperança dos primeiros cristãos da Igreja esperando o reino próximo da justiça. Muitas frases obscuras lhes tinham escapado, quase nada entendiam daqueles raciocínios técnicos e abstratos, mas a própria obscuridade, a abstração, tornava ainda maior o campo das promessas, arrebatava-os num deslumbramento. Que sonho! serem eles os senhores, cessarem de sofrer, usufruírem finalmente da felicidade! 

— É isso mesmo, com todos os diabos! Chegou a nossa vez!

     Morte aos exploradores!

continua na página 242...
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Quarta Parte - (VI.b) / Quarta Parte - (VII.a) /  
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / IV — O senhor Mabeuf

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     IV — O senhor Mabeuf 

             Na ocasião em que o senhor Mabeuf dissera a Mário: — Certamente, aprovo as opiniões políticas —, exprimia o verdadeiro estado do seu espírito. Todas as opiniões políticas lhe eram indiferentes e aprovava-as todas sem distinção, para que elas o deixassem tranquilo, pelo mesmo modo que os gregos chamavam às Fúrias «belas, bondosas e encantadoras» Euménides.
     O senhor Mabeuf tinha por opinião política a apaixonada afeição às plantas, e sobretudo aos livros. Possuía como toda a gente a sua determinação em ista, sem a qual ninguém teria podido viver naquele tempo; mas não era nem realista, nem bonapartista, nem cartista, nem orleanista, nem anarquista; era alfarrabista.
     Não compreendia que os homens se ocupassem a odiar-se por causa de ninharias como a Carta, a democracia, a legitimidade, a monarquia, a república, etc., quando havia no mundo toda a espécie de musgos, de ervas e de arbustos que eles podiam contemplar, e montões de in-fólios e até de livros em formato de 32, que podiam folhear. O senhor Mabeuf tinha o maior cuidado em não ser inútil; ter livros não o impedia de ler, ser botânico, não o privava de ser jardineiro. Quando conhecera Pontmercy, o que determinara a simpatia entre eles fora que o coronel faria pelas flores o que ele fazia pelos frutos.
     O senhor Mabeuf tinha chegado a produzir peras de semente, tão saborosas como as de S. Germano; é de uma destas combinações que nasceu, segundo parece, a ameixa amarela de Outono, tão célebre hoje, e não menos perfumada do que a de Verão. Ouvia missa mais por doçura de carácter do que por devoção e porque, gostando da presença dos homens, mas odiando o seu ruído, só na igreja os achava reunidos e silenciosos.
     Conhecendo que era preciso ser alguma coisa, adotara a vida de sacristão. Enquanto ao mais, nunca conseguira amar tanto uma mulher como uma cebola de túlipa, ou estimar mais um homem do que os caracteres elzeverianos. Tinha já passado havia muito tempo os sessenta anos quando um dia lhe perguntaram: 

— Nunca se casou? 
— Não me lembra — disse ele.

     Quando lhe sucedia algumas vezes — a quem não sucede isto? — dizer: «Se eu fosse rico» Não era nunca mirando uma bonita rapariga, como Gillenormand fazia, mas quando contemplava um alfarrábio. Vivia só com uma velha governanta. Era um tanto gotoso nas mãos, e quando dormia, os seus velhos dedos, pela força do reumatismo, curvavam-se todos nas dobras dos lençóis. Coligira e publicara Uma Flora dos arrabaldes de Cauferefz com gravuras coloridas, obra assaz estimada, de que ele possuía as chapas, e que por si mesmo vendia. Todos os dias batiam duas ou três vezes à sua porta, na rua Mezières, por este motivo. Obtinha assim os seus dois mil francos por ano; o que resumia toda a sua fortuna. Ainda que pobre, tivera o talento de juntar, à força de paciência, de privações e de tempo, uma colecção preciosa de exemplares raros em todos os gêneros. Nunca saía de casa sem levar um livro debaixo do braço, mas voltava sempre trazendo dois. A única decoração das quatro salas do rés-do-chão que, com um jardinzinho, compunham a sua habitação, consistia em herbários emoldurados e gravuras de velhos mestres. A presença de um sabre ou de uma espingarda gelava-o. Nunca na sua vida se aproximara de uma peça de artilharia, nem mesmo nos Inválidos. Tinha um estômago sofrível, um irmão cura, os cabelos todos brancos, completa falta de dentes tanto na boca como no espírito, tremura em todo o corpo, pronunciado acento picardo, riso infantil, a maior facilidade em se assustar, e o todo de um velho cordeiro. Para juntar a tudo isto, não tinha outra amizade ou relações entre os vivos, senão um velho livreiro da porta S. Jacques, chamado Royol. O seu grande sonho era naturalizar o anil em França. 
     A sua governanta era também uma das variedades da inocência. A pobre e excelente velha conservara-se solteira. O seu gato, chamado Sultão, que teria podido miar o miserere de Allegri na capela Sistina, preenchera-lhe o coração e absorvera-lhe toda a quantidade de paixão de que era susceptível. Nenhum dos seus sonhos chegara até ao homem. Não pudera nunca ultrapassar o seu gato; e tinha barbas como ele. Passava o tempo, ao domingo, depois da missa, a contar a roupa que possuía na sua caixa, e a estender sobre a cama diferentes cortes de vestido, que comprava e nunca fazia. Sabia ler. O senhor Mabeuf pusera-lhe o apelido de tia Plufarco.
     Mabeuf simpatizava com Mário, porque, sendo moço e de uma índole meiga, lhe aquecia a velhice sem assustar a timidez. A mocidade com doçura produz nos velhos o efeito do sol sem vento.
     Quando Mário estava saturado de glória militar, de pólvora, de marchas e contramarchas, e de todas as prodigiosas batalhas em que seu pai dera e recebera tão grandes cutiladas, e ia visitar Mabeuf, este falava-lhe do herói debaixo do ponto de vista das flores.
     Em 1830 morrera-lhe o irmão, abade, e quase imediatamente, como quando vem chegando a noite, se lhe toldara o horizonte de cerrada escuridão. Com a falência de certo banqueiro perdeu uns dez mil francos, que era a quanto subiam todos os seus haveres e os que herdara de seu irmão. A revolução de Julho produziu uma crise no comércio de livros. Em tempos críticos a primeira coisa que deixa de se vender é uma Flora. Por conseguinte, o consumo da Flora dos arredores de Cauferetz cessou de súbito. Passavam-se semanas sem se vender um só exemplar. Às vezes, Mabeuf estremecia a um toque de campainha, cuidando que seria algum comprador. A tia Plutarco, porém, chegava-se a ele e dizia-lhe tristemente: «É o aguadeiro». Em suma, um dia, Mabeuf deixou a rua de Mezières, abdicou das funções de sacristão, renunciou a S. Sulpício, vendeu uma parte, não dos seus livros, mas das estampas que era o que menos apreciava e foi estabelecer-se numa casinha do boulevard Montparnasse, onde, todavia, morou apenas três meses, por duas razões: a primeira porque o andar térreo e o jardim custavam trezentos francos, e ele não ousava gastar mais do que duzentos para renda de casa; a segunda, porque ficava próximo à escola de tiro de Fatou, e por consequência a cada instante estava a ouvir tiros de pistola, o que se lhe tornava insuportável.
     Pegou, pois, na sua Flora, nas chapas, nos seus ervários, carteiras e livros, e foi estabelecer-se ao pé da Salpêtrière, numa espécie de choupana da aldeia de Austerlitz, onde, por cinquenta escudos anuais, tinha três salas e um jardim, murado por uma sebe e com poço. Aproveitou-se desta mudança para vender quase todos os seus móveis. No dia em que deu entrada na sua nova morada, andou sempre muito alegre e foi ele próprio que pregou os pregos para as gravuras e ervários, gastando o resto do dia em tirar as ervas ao jardim. A noite, vendo a tia Plutarco com ar triste e modo pensativo, bateu-lhe no ombro e disse-lhe, sorrindo: «O anil temos nós!»
     Só duas pessoas, o livreiro da porta de S. Jacques e Mário, tinham permissão de visitá-lo na sua choupana de Austerlitz, nome bombástico que, a falar a verdade, lhe era sumamente desagradável.
     Como acabamos de indicar, os cérebros absorvidos numa ciência ou numa mania, ou, o que frequentes vezes se dá, em ambas as coisas juntamente, apenas lentamente se tornam permeáveis às coisas da vida. Até do próprio destino andam remotos. Resulta, portanto, destas concentrações numa possibilidade, que, se fosse razoável, pareceria filosofia. Declina o indivíduo, desce, exaure-se, abate-se, quase sem dar por tal. Acaba isto sempre, é verdade, por um despertar, porém tardio. No entanto, parece que se conserva neutro na luta que se trava entre a sua boa e má sorte. É ele o objeto da luta e olha para ela com indiferença.
     Foi assim que por entre a escuridão que se operava em torno de Mabeuf, e desvanecendo-se todas as suas esperanças uma após outra, ele ficara sereno, algum tanto pueril, porém profundamente. Os hábitos do seu espírito tinham o movimento oscilatório de uma pêndula.
     Uma vez que uma ilusão lhe desse corda, trabalhava por muito tempo, mesmo depois de ter acabado a ilusão. Um relógio não para repentinamente na ocasião em que perdemos a chave dele.
     Mabeuf tinha prazeres inocentes. Eram prazeres pouco custosos e inesperados; o menor acaso os ocasionava.
     Um dia, a tia Plutarco lia um romance em voz alta a um canto do quarto, parecendo-lhe que assim compreendia melhor o que lia. Ler em voz alta é afirmar cada um a si mesmo o que lê. Há pessoas que leem em voz tão alta que parecem estar a asseverar a si mesmas debaixo de palavra de honra aquilo que leem.
     A tia Plutarco lia pois com essa energia o romance que tinha na mão e Mabeuf ouvia sem a escutar.
     No decurso da sua leitura, tratando-se nela de um oficial de dragões e de uma bela, chegou à seguinte frase: 

«...A bela boudha e o dragão...»

     Neste ponto interrompeu-se para limpar os óculos. 

— Boudha e o Dragão — repetiu Mabeuf a meia voz. — É isso, não há dúvida; houve um dragão que do fundo do seu antro lançava chamas pela boca, as quais incendiavam o céu. Já muitas estrelas haviam sido queimadas por este monstro, que de mais a mais tinha garras de tigre. Então Boudha foi ao antro dele e conseguiu converter o dragão. É um bom livro esse que está a ler, tia Phutarco. Não há lenda mais bonita.

     Em seguida embrenhou-se em profunda meditação.

continua na página 519...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - IV — O senhor Mabeuf 
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

domingo, 15 de março de 2026

Boa noite, Poesia... As Mãos de Meu Pai

Mário Quintana







As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram 
da nobre cólera dos justos...

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, 
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam 
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, 
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah! como os fizeste arder, fulgir, 
com o milagre das tuas mãos!

E é, ainda, a vida 
que transfigura as tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.


Mario Quintana, Antologia Poética


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