Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto III - Juramentos, muralhas de observação e o combate singular de Alexandre e Menelau
“Alexandre (Páris) provoca os Gregos mais fortes para que lutem com ele, mas
acaba recuando diante de Menelau. Heitor o reprova veementemente e
Alexandre decide combater Menelau. É feito um juramento, sancionado por
Príamo, que aquele que vencer a batalha levará Helena. Esta sobe a muralha do
palácio e aponta a Príamo os heróis Gregos. No combate de Alexandre e
Menelau, este último sai vencedor, no entanto Afrodite salva Alexandre e o leva
aos braços de Helena, a salvo atrás das muralhas de Troia. Helena o reprova e
Agamémnone reclama vitória.”
Logo que todos os homens e os chefes em ordem ficaram,
põem-se em marcha os Troianos, com grita atroante, quais pássaros,
do mesmo modo que a bulha dos grous ao Céu alto se eleva,
no tempo em que, por fugirem do inverno e da chuva incessante,
voam, com grita estridente, por cima do curso do oceano,
à geração dos Pigmeus conduzindo o extermínio e a desgraça,
para, mal surja a manhã, a batalha funesta iniciarem.
Silenciosos, furor respirando, os Aquivos avançam,
no coração desejosos de auxílio uns aos outros prestarem.
Tal como névoa que Noto nos cumes dos montes ajunta,
pouco, ao pastor, agradável, sim, grata ao ladrão mais que a noite,
por não poder nada ver-se à distância de um tiro de pedra:
sob as passadas, desta arte, a poeira do solo se erguia
quando os heróis avançavam, cortando, ligeiros, o campo.
Quando os dois corpos do exército perto se acharam um do outro,
adiantou-se das forças Troianas o divo Alexandre
com arco e espada, nos ombros a pele de um grande leopardo
e duas lanças na mão, revestidas de ponta de bronze,
desafiando, desta arte, os melhores guerreiros Acaios
Logo que o viu Menelau, o guerreiro discípulo de Ares,
como avançava com passo arrogante na frente do exército,
muito exultante ficou, como leão esfaimado que encontra
um cervo morto, de pontas em galho, ou uma cabra selvagem;
avidamente o devora, ainda mesmo que cães mui ligeiros
lhe venham vindo no encalço e pastores de aspecto robusto:
dessa maneira, exultou Menelau quando Páris, o belo,
teve ante os olhos, pensando que iria, por fim, castigá-lo.
Rapidamente do carro pulou, sem que as armas soltasse.
Quando o formoso Alexandre, que um deus imortal parecia,
o viu à frente dos outros, sentiu conturbar-se-lhe o peito
e para o meio dos seus recuou, escapando da Morte.
Como se dá quando alguém nos convales dos montes estaca
em frente de uma serpente, a tremerem-lhe as pernas e os joelhos,
e retrocede de um salto, com o rosto sem cor, todo medo:
por esse modo afundou para o meio dos Teucros valentes
Páris, o divo Alexandre, do filho de Atreu temeroso.
Foi por Heitor percebido, porém, que de insultos o cobre:
“Páris funesto, de belas feições, sedutor de mulheres!
Bem melhor fora se nunca tivesses nascido, ou se a Morte
antes das núpcias te houvesse levado. Mais lucro tivéramos,
do que nos seres opróbrio e de escárnio servires aos outros.
Riem-se à grande os Aquivos de soltos cabelos nos ombros.
Um dos primeiros julgavam que fosses, por seres de físico
tão primoroso; no entanto, careces de força e coragem.
Como é possível que, sendo qual és, em navios velozes
o mar houvesses cruzado, reunido prestantes consócios
e a gente estranha chegado, da qual a raptar te atreveste
uma formosa mulher, peregrina, cunhada de príncipes,
para desgraça de teu próprio pai, da cidade e do povo,
mofa tornando-te, assim, dos imigos, que exultam com isso?
Não te atreveste a enfrentar Menelau, de Ares forte discípulo?
Fora a ocasião de saberes de quem a mulher seduziste.
Esses cabelos, a cítara, os dons de Afrodite, a beleza,
não te valeram de nada ao te vires lançado na poeira.
Se tão medrosos não fossem os Teucros, há muito vestiras
uma camisa de pedras, por quantas desgraças causaste.”
Páris, de formas divinas, lhe disse, em resposta, o seguinte:
“É justo, Heitor, o que dizes; contrário à razão não discorres.
Teu coração é tão duro quanto o aço: semelha ao machado
que, manejado pelo homem lhe aumenta o poder e no tronco
mui facilmente penetra, talhando-o para o uso das naves.
Resolução tão intrépida encerras, assim, no imo peito.
Não me censures por causa dos mimos da loura Afrodite,
pois desprezíveis não são os presentes valiosos que os deuses,
de seu bom grado, concedem; que, à força, ninguém os alcança.
Mas, uma vez que desejas que eu vá combater novamente,
faze que todos os homens de Troia e os Acaios se sentem,
para que eu possa no meio do campo lutar com o aluno
de Ares, o herói Menelau, por Helena e suas muitas riquezas.
O que provar que é o mais forte, vencendo o adversário na luta,
leve consigo os tesouros e a casa conduza a consorte.
Vós, entretanto, jurada a amizade, na Tróade fértil
continuareis: os demais, para a Acaia de belas mulheres
retornarão, ou para Argos, de solo de pingues pastagens.”
Grande alegria, ao ouvir tais palavras, Heitor manifesta;
e, começando a correr, com a lança segura no meio,
manda que os Teucros parassem, os quais, prontamente, obedecem.
Mas os Aquivos, de soltos cabelos nos ombros, sem pausa
pedras contra ele atiravam e setas dos arcos recurvos,
té que o potente Agamémnone a todos desta arte gritasse:
“Homens de Acaia, parai! resistentes Argivos, detende-vos!
que se dispõe a falar-nos Heitor, de penacho ondulante.”
Isso disse ele: os guerreiros sustaram a ação belicosa
e se aquietaram; Heitor, avançando para eles, falou-lhes:
“Ora, guerreiros Troianos, grevados Acaios, vos digo
o que vos manda propor Alexandre, fautor desta guerra:
Pede que todos os homens Aqueus e Troianos deponham
as belas armas na terra, nutriz de infinitos guerreiros,
para que possa no meio do campo lutar com o discípulo
de Ares, o herói Menelau, por Helena e suas muitas riquezas.
O que provar que é o mais forte, vencendo o adversário na luta,
leve consigo os tesouros e a casa conduza a consorte.
Com juramento firmemos nós outros a paz duradoura.”
Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram.
Vira-se, então, Menelau, de voz forte, e lhes diz o seguinte:
“
A mim, também, atenção concedei, porque a dor, mais que a todos,
o coração me angustia. Concordo que Teucros e Aquivos
devem pôr fim à discórdia, que muito já tendes sofrido
por minha causa e da ofensa provinda do divo Alexandre.
Que morra logo o que está pelo negro Destino fadado
a perecer; conciliem-se os outros, sem mais perder tempo.
Presto um cordeiro trazei para o Sol, de cor branca, e uma ovelha
preta, também, para a Terra; que a Zeus um terceiro daremos.
A majestade de Príamo desça, também, para as juras
solenizar; que os seus filhos soberbos não são de confiança.
Não venha alguém, com perjúrios, destruir o que Zeus prometer-nos.
O coração dos mancebos costuma ser sempre volúvel,
mas quando um velho intervém, o passado e o futuro perscruta,
para que tudo decorra do modo melhor para todos.”
Isso disse ele; os Aqueus e os Troianos alegres ficaram,
pela certeza de verem concluída a campanha funesta.
Os carros todos em fila puseram; depois, apeando-se
e as armaduras despindo, de encontro ao chão duro as deixaram,
umas bem perto das outras, que exíguo era o espaço entre todas.
Dois mensageiros Heitor mandou logo à cidade de Troia,
para que a Príamo fossem chamar e os cordeiros trouxessem.
Por sua vez, o potente Agamémnone incumbe a Taltíbio
de outro cordeiro trazer do navio de casco anegrado.
Executado foi logo o mandado do Atrida Agamémnone.
Íris a Helena, de braços bonitos, foi dar a notícia,
tendo assumido as feições da cunhada Laódice, esposa
do grande chefe Helicáone, filho do justo Antenor,
a mais formosa e elegante entre todas as filhas de Príamo.
Foi encontrá-la na sala, sentada no tear, quando um duplo
manto tecia de púrpura. Nele bordava os combates
que os picadores Troianos e Aqueus de couraça de bronze,
por sua causa, travavam sob o ímpeto de Ares violento.
Aproximando-se-lhe, Íris, de pés mui velozes, lhe fala:
“Vem, cara filha, também contemplar as proezas magníficas
dos picadores Troianos e Aqueus de couraça de bronze,
eles, que até este momento, na vasta planície, pelo ímpeto
de Ares lutuoso, cuidavam somente de pugnas lutuosas,
ora se encontram calados, firmados nos grandes escudos;
as lanças se acham no solo espetadas; a guerra está finda.
Somente Páris e o herói Menelau, de Ares forte discípulo,
vão, por tua causa, lutar, de hastas firmes e longas munidos.
Hás de chamar-te consorte do herói que sair vitorioso.”
Na alma as palavras da deusa infundiram-lhe doce saudade
do seu primeiro marido, dos pais e da pátria grandiosa.
Ei-la que o rosto recobre com o nítido véu, apressada,
e, a derramar ternas lágrimas, sai do aposento luxuoso,
mas não sozinha, que duas criadas ao lado a acompanham,
Clímene de olhos de boi e Etra, filha do grande Piteu.
Das Portas Ceias, assim, dentro em pouco o local alcançaram.
Junto de Príamo estavam os velhos Timetes e Panto,
Lampo e, assim, Clício e Hicetáone, de Ares aluno dileto.
Ucalegonte e Antenor, ambos sábios, também se encontravam
das Portas Ceias, sentados, na torre. Eles todos, por velhos,
já se encontravam isentos das lutas; contudo primavam
pela eloquência eles todos, tal como cigarras, que o canto
claro e agradável, pousadas nos ramos das árvores, soltam.
Os chefes, pois, dos Troianos, na torre se achavam reunidos.
Ao perceberem Helena, que vinha apressada para eles,
uns para os outros, baixinho, palavras aladas disseram:
“É compreensível que os Teucros e Aquivos de grevas bem-feitas
por tal mulher tanto tempo suportem tão grandes canseiras!
Tem-se, realmente, a impressão de a uma deusa imortal estar vendo.
Mas, ainda assim, por mais bela que seja, de novo reembarque;
não venha a ser, em futuro, motivo da ruína dos nossos.”
Isso diziam, mas Príamo a Helena chamou em voz alta:
“Vem, minha filha; aqui mesmo bem perto de mim vem sentar-te,
porque o primeiro marido, os parentes e amigos revejas.
Não és culpada de nada; os eternos, somente, têm culpa,
que nos mandaram a guerra dos fortes Aqueus, lacrimosa.
Vem revelar-me quem seja aquele homem de aspecto imponente:
como se chama esse Acaio tão belo e de tal corpulência?
Outros heróis, é evidente, mais altos do que ele percebo;
mas os meus olhos jamais admiraram tão belo conspecto,
nem majestade tão grande; assemelha-se, é fato, a um monarca.”
Disse-lhe Helena, a divina mulher, em resposta, o seguinte:
“Sinto por ti, caro sogro, respeito e vergonha a um só tempo.
Bem melhor fora se a Morte terrível me houvesse levado,
antes de haver consentido em seguir o teu filho, deixando
o lar e o esposo, minha única filha e as gentis companheiras.
Mas não devia assim ser; essa a causa de todo o meu choro.
Ora te vou responder a respeito do que perguntaste.
Esse é Agamémnone, rei poderoso, de Atreu descendente,
tão grande rei, chefe de homens, quão forte e notável guerreiro.
Foi meu cunhado, se o foi algum dia, com minha cegueira!”
A essas palavras, o velho, admirado, lhe disse, em resposta:
“Ó venturoso Agamémnone, filho dileto dos deuses,
que sobre tantos guerreiros Acaios o mando exercitas!
Já estive, certo, na Frígia, região de vinhedos famosos,
onde um sem-número vi de nativos heróis cavaleiros,
homens de Otreu e de Mígdone, herói semelhante a um dos deuses,
que nesse tempo acampavam nas margens do rio Sangário.
Como aliado tomei, também, parte com eles na guerra
contra as viris Amazonas, no dia em que aqui elas vieram.
Mas muito mais numerosos são esses Aqueus de olhos vivos.”
Logo depois, a Odisseu divisando, pergunta de novo:
“Filha querida, revela-me, agora, quem seja aquele outro,
cuja estatura é menor que a do filho de Atreu, Agamémnone;
mas é de espaldas mais largas de ver e de peito mais amplo.
As armaduras deitou sobre a terra nutriz de guerreiros.
Como um carneiro, percorre as fileiras em vários sentidos.
Eu, pelo menos, só sei compará-lo a um guieiro veloso,
quando no meio de um grande rebanho de ovelhas vistosas.”
Disse-lhe Helena, nascida de Zeus, em resposta, o seguinte:
“Esse é Odisseu, de Laertes nascido, astucioso guerreiro,
de Ítaca oriundo, apesar de ser ilha de chão pedregoso,
em toda sorte de ardis entendido e varão prudentíssimo.”
O experiente Antenor, em resposta, lhe disse o seguinte:
“Tuas palavras, mulher, correspondem à estrita verdade.
Embaixador, por tua causa, uma vez Odisseu já aqui esteve
em companhia do herói Menelau, de Ares forte discípulo.
Por isso mesmo que os dois hospedei no meu próprio palácio,
de ambos fiquei conhecendo a figura exterior e o intelecto.
Quando, nos nossos conselhos, de pé eles se mantinham
os ombros largos do herói Menelau sobranceiros ficavam;
ambos sentados, porém, Odisseu era mais imponente.
Mas se a falar se dispunham, tecendo apropriados discursos,
com certa pressa exprimia-se o herói Menelau, é verdade,
e por maneira concisa, porém num tom claro; conquanto
muito mais moço, sabia falar sem do intento desviar-se.
Quando, porém, Odisseu, o astucioso, assumia a postura
para falar, vista baixa e olhos fixos no chão pedregoso,
como indivíduo bisonho que o cetro na mão mantivesse
sempre no mesmo lugar, sem movê-lo de um lado para o outro,
imaginaras, talvez, ser pessoa inexperta ou insensata.
Mas se do peito fazia soar a voz forte e agradável
e um turbilhão de palavras, qual neve no tempo do inverno,
com Odisseu ninguém mais suportara qualquer paralelo.
Todos, então, esquecíamos sua anterior aparência.”
Príamo, a Ajaz divisando, terceira pergunta formula:
“Como se chama esse Acaio tão belo e de tal corpulência,
de bem maior estatura e de espaldas mais largas que os outros?”
Disse-lhe Helena, de peplo elegante, a divina criatura:
“Esse é o baluarte dos homens Aquivos, Ajaz, o gigante
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a / Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d / Canto III.a /
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica