sexta-feira, 1 de maio de 2026

Cinema: O Estrangeiro

Lo Straniero

O Estrangeiro (Lo straniero) é um filme franco-italiano de 1967, do gênero drama, dirigido por Luchino Visconti e baseado em livro homônimo de Albert Camus.

Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.

O filme é de Luchino Visconti  e o é de livro de Albert Camus 
- O Estrangeiro (publicado aqui no baitasar em 20abr2016)


A Constatação do Absurdo





Vamos ao filme... conferir esse Meursault, um homem estranho, um passageiro de algum trem, distante da imensa maioria das pessoas, e a sua profunda indiferença diante de tudo, de absolutamente tudo - e daí que foi à praia no dia seguinte ao enterro da mãe, e de por acaso ter encontrado na praia a bela Maria, que havia trabalhado como secretária na mesma empresa de Meursault, e de terem depois ido ao cinema ver uma comédia com Fernandel, e depois terem ido para a casa dele e ... – nada disso, a rigor, comprova uma personalidade anormal, diferente, doentia. Afinal, ninguém é obrigado a chorar copiosamente num velório ou enterro, nem a ficar olhando para o parente morto no caixão.





Elenco:
Marcello Mastroianni - Arthur Meursault
Anna Karina - Marie Cardona
Bernard Blier - Advogado de Defesa
Alfred Adam - O advogado geral
Pierre Bertin - Juiz
Angela Luce - Madame Masson
Jacques Herlin - Diretor de Assuntos Internos
Mimmo Palmara - Masson
Jean-Pierre Zola - Empregador
Joseph Marechal - Salamano
Jacques Monod - Guarda prisional
Mohamed Cheritel - Árabe
Vittorio Duse - Lawyer
Brahim Hadjadj - Árabe
Valentino Macchi
Saada Rahlem - Árabe
Marc Laurent - Emmanuel
Paolo Herzl

Direção:
Luchino Visconti

Roteiristas:
Albert Camus
Suso Cecchi D'Amico (uma das mais brilhantes roteiristas da História do cinema)
Georges Conchon
Emmanuel Robles

Wolfgang Amadeus Mozart / O Estrangeiro /    

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(f)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Ao dizer isto, Legrand, tendo de novo aquecido o pergaminho, submeteu-o a um exame meu. Apareceram os seguintes caracteres a vermelho, grosseiramente traçados entre a caveira e o cabrito:

53‡‡
+305))6*;4826)4‡.)4‡);806*;48+8π60))85;1‡(;:‡*8+83(88)5*+;46(;88*96*?;8)*‡(34;48)4‡;161;:188;‡?;

— Mas — disse-lhe ao devolver a tira de pergaminho — não compreendo lá muito bem. Se todos os tesouros do mundo fossem para mim o prémio da solução deste enigma, eu estaria absolutamente convencido de o não ganhar. 
— E, no entanto — disse Legrand — a solução não é assim tão difícil como parece à primeira vista. Estes caracteres, como pode adivinhar-se facilmente, formam um código, quer dizer, representam um sentido; mas, depois do que se sabe de Kidd, não o julgaria capaz de fabricar um mostruário de criptografia abstrusa. Pensei, pois, antes de tudo, que era de uma espécie bem simples — tal como deve parecer absolutamente indecifrável à inteligência rude de um marinheiro, sem a chave. 
— E você decifrou-o? 
— Muito facilmente. Já resolvei outros, dez mil vezes mais complicados. As circunstâncias e uma certa tendência espiritual, levaram-me a tomar interesse por esta espécie de enigmas e é na verdade duvidoso que o engenho humano possa criar um enigma deste género, que outro ser humano não consiga decifrar. Por isso, uma vez que consegui estabelecer uma série de caracteres legíveis, dignei-me apenas pensar na dificuldade de decifrar o significado dele.

« No caso presente — em suma, em todos os casos de código — a primeira pergunta a fazer é a língua dos algarismos; porque os princípios da solução, quando se trata dos números mais simples, dependem do caráter de cada idioma e podem ser modificados. Em geral, não há outro meio senão tentar sucessivamente, conforme as probabilidades, todas as línguas que são do seu conhecimento até que tenha encontrado a indicada! Mas, no hieróglifo de que nos ocupamos, qualquer dificuldade a esse respeito era resolvida pela assinatura. A procura sobre a palavra kidd não era possível senão em língua inglesa. Sem essa circunstância teria começado as minhas tentativas pelo espanhol e o francês, como sendo as línguas das quais um pirata dos mares espanhóis e franceses usaria para guardar um segredo desta natureza. Mas, no caso presente, eu presumia que o criptograma era inglês.
« Repare que não há espaço entre as palavras. Se houvesse espaços, a tarefa seria mais fácil. Neste caso, eu teria começado por fazer uma escolha e uma análise das palavras mais curtas e, se tivesse encontrado — como é sempre provável — uma palavra de uma só letra, a ou l (um, eu) por exemplo, teria considerado a solução como certa. Mas, já que não havia espaços, o meu primeiro dever era assinalar as letras predominantes, assim como as que se encontravam menos vezes. Contei-as todas e formei o seguinte quadro:

O caractere 8 encontra-se 33 vezes 
O caractere ; encontra-se 26 vezes 
O caractere 4 encontra-se 19 vezes 
Os caracteres ‡ e ) encontram-se 16 vezes 
O caractere * encontra-se 13 vezes 
O caractere 5 encontra-se 12 vezes 
O caractere 6 encontra-se 12 vezes 
O caractere ( encontra-se 10 vezes 
Os caracteres + e 1 encontram-se 8 vezes 
O caractere 0 encontra-se 6 vezes 
Os caracteres 9 e 2 encontram-se 5 vezes 
Os caracteres : e 3 encontram-se 4 vezes 
O caractere ? encontra-se 3 vezes 
O caractere π encontra-se 2 vezes 
O caractere - encontra-se 1 vez

« Ora a letra que se encontra mais frequentemente em inglês é e. As outras letras sucedem-se por esta ordem: a o i d h n r s t u y c f g l m w b k p q x z. E predomina tão estranhamente, que é muito raro encontrar uma frase de um certo comprimento em que não seja o caráter principal.
« Nós temos, pois, logo ao começar, um ponto de partida que é melhor do que uma simples conjetura. O uso geral que se pode fazer desta tabela é evidente; mas, para este código particular não nos serviremos muito dela. Visto que o nosso caráter dominante é 8, começaremos por o tomar pelo e do alfabeto natural. Para verificar esta suposição, vejamos se 8 se encontra muitas vezes em duplicado porque o e repete-se frequentemente em inglês; como por exemplo em: meet, fleet, speed, seen, been, agree, etc. Ora, no caso presente, nós vemos que não se repete menos de cinco vezes, se bem que o criptograma seja muito curto.
« Portanto, 8 representará e. Agora, de todas as palavras da língua, the é a mais usada; por consequência, é preciso ver se não a encontramos repetida várias vezes na mesma combinação de três caracteres, este 8 sendo o último dos três. Se encontramos repetições desse género elas representarão provavelmente a palavra the. Feita a verificação, encontrámo-la pelo menos 7 vezes; e os caracteres são :48. Podemos, pois, supor que : representa t, que 4 representa h, e que 8 representa e — o valor do último encontrando-se assim confirmado de novo. Há agora um passo andado.
« Nós determinámos apenas uma palavra, mas essa única palavra permite nos estabelecer um ponto muito mais importante, isto é, os princípios e as terminações de outras palavras. Vejamos, por exemplo, o antepenúltimo caso onde se apresenta a combinação ;48, quase ao fim do enigma. Sabemos que o ; que vem imediatamente depois é o princípio de uma palavra, e os seis caracteres que seguem esse the, não conhecemos menos de cinco. Substituamos, pois, estes caracteres pelas letras que representam, deixando um espaço para o desconhecido:

t eeth.

« Nós devemos antes de mais nada afastar o th como não podendo fazer parte da palavra que começa pelo primeiro t, pois nós vemos, experimentando sucessivamente todas as letras do alfabeto para combinar a falta, que é impossível formar uma palavra cujo th possa fazer parte. Reduzamos, portanto, os nossos caracteres a 

t ee,

e recomeçando todo o alfabeto, se for preciso, construímos a palavra tree (árvore), como a única versão possível. Ganhámos assim uma nova letra, r, representada por mais duas palavras justapostas the tree (a árvore).
« Um pouco mais longe encontrámos ;48, e servimo-nos dela como de uma terminação que precede imediatamente. Isso dá-nos a combinação seguinte:

the tree ;(‡?34 the,

ou, substituindo-lhe letras pelos caracteres que nós conhecemos,

the tree the ‡? 3h the,

Agora, se substituirmos os caracteres desconhecidos por espaços ou pontos, teremos:

the tree thr... h the,

e a palavra through (por, através) sobressai por assim dizer de si própria. Mas esta descoberta dá-nos três letras a mais, o, u e g, representadas por

‡ ? e 3

« Procuremos agora atentamente no criptograma as combinações dos caracteres conhecidos e encontraremos, não longe do princípio, a seguinte combinação:

83(88, ou egree,

que é evidentemente a terminação da palavra degree (grau), e que nos dá ainda um letra d, representado por +.
« Quatro letras mais longe de degree, segue-se a combinação: 

;46(;88*

de que traduzimos os caracteres conhecidos e representamos o desconhecido por um ponto; isso dá-nos

th . rtee,

arranjo que nos sugere imediatamente a palavra thirteen (treze), e nos acresce duas novas letras, e e n, representadas por 6 e *.
« Voltemos agora ao princípio do criptograma e acharemos a combinação

53‡‡+

Traduzido como temos feito, obteremos

good,

o que nos prova que a primeira letra é um a e que as duas primeiras palavras são a good (um bom, uma boa).
« É já tempo de evitar qualquer confusão, dispondo todas as nossas descobertas num quadro. Isso dar-nos-á um começo do enigma:

5 = a 
+ = d 
8 = e 
3 = g 
4 = h 
6 = i 
* = n 
‡ = o 
( = r 
; = t 
? = u 

« Assim, já temos nada menos de dez letras das mais importantes, e é inútil que prossigamos na solução através de todos os pormenores. Já lhe disse o bastante para o convencer de que enigmas desta natureza são fáceis de resolver e para lhe dar um vislumbre de análise raciocinada que serve para os desenredar. Mas tenha como certo que o espécime que vamos ler pertence à categoria dos mais simples da criptografia. Basta-me apenas dar a tradução completa do documento, como se nós tivéssemos decifrado sucessivamente todos os símbolos. Ei-la:

     A good glass in the bishop’s hostel in the devil’s seat forty-one degrees and thirteen minutes northeast and by north main branch seventh limb east side shoot from the left eye of the death’s-head a bee line from the tree through the shot fifty feet out.

(Um bom copo na estalagem do bispo na cadeira do diabo quarenta e um graus e treze minutos quadrante nordeste tronco principal sétimo ramo lado leste deitada no olho esquerdo da caveira uma linha de abelha da árvore através da bola cinquenta pés de largura.)

— Apesar da sua divisão — disse-lhe — continuo sem compreender. 
— Também me aconteceu o mesmo durante alguns dias — respondeu Legrand. — Durante esse tempo, investiguei pela vizinhança da ilha de Sullivan acerca de um prédio que devia chamar-se Estalagem do Bispo, porque não me inquietava a ortografia antiga da palavra. Como não tivesse tido nenhuma informação a esse respeito, procurava a forma de alargar o círculo das minhas averiguações e de proceder de uma maneira mais sistemática, quando, numa manhã, verifiquei que este bishop's hostel podia muito bem ter relação com uma antiga família chamada Bessop, que de longa data eram senhores do solar, a cerca de quatro milhas a norte da ilha. Fui portanto à plantação e recomecei com o meu inquérito entre os negros velhos do lugar. Enfim, uma das mulheres mais idosas, disse-me que ela ouvira falar de um sítio, chamado Bessop’s castle (castelo de Bessop) e que pensava poder conduzir-me até lá, mas que não era um castelo nem hospedaria, mas sim uns grandes rochedos.

« Ofereci-me para a recompensar bem pelo trabalho e, depois de hesitar, anuiu a acompanhar-me até àquele lugar. Descobrimo-lo sem grande dificuldade, despedi-me dela, e comecei a examinar o local. O castelo consistia num conjunto irregular de picos e de rochedos, sendo um deles notável pela sua altura, bem como pela sua configuração quase artificial. Trepei ao cume e ali fiquei muito tempo, sem saber o que fazer a seguir.
« Enquanto eu ali sonhava, os meus olhos repararam numa saliência estreita na face oriental do rochedo, a cerca de uma jarda abaixo da ponta onde eu estava colocado. Esta saliência projetava-se a 18 polegadas aproximadamente, e não teria nunca mais de um pé de largura; um nicho cavado no pico, mesmo por cima, tinha uma grosseira semelhança com as cadeiras de costas côncavas das quais se serviam os nossos antepassados. Não duvidava já que não fosse a cadeira do diabo da qual havia menção no manuscrito, e pareceu-me desde então que tinha o segredo do enigma.
«O bom copo, sabia-o, não podia significar outra coisa senão um vasto panorama; porque os marinheiros empregam raramente a palavra glass noutro sentido. Compreendi imediatamente que era preciso servir-me de um óculo colocando-o num ponto de mira definido e não admitindo nenhuma variante. Ora as frases: quarenta e um graus e treze minutos e nordeste quarto de norte — não hesitei um instante em crer — deviam dar a direção para orientar o óculo. Muito excitado por todas estas descobertas, precipitei-me para casa, e procurei um óculo, voltando depois ao rochedo.
« Deixei-me escorregar sobre a cornija, e apercebi-me que não me podia manter sentado senão numa certa posição. Este facto confirmou a minha conjetura. Pensei então em me servir do óculo. Naturalmente, os quarenta e um graus e treze minutos não podiam ter outra significação, referia-se acima do horizonte visível, pois que a direção horizontal era claramente indicada pelas palavras norte e um quarto de norte. Estabeleci esta direção por meio de uma bússola de algibeira, depois, apontando tanto quanto possível, pela aproximação, o meu óculo num ângulo de quarenta e um graus de elevação, fi-lo mover com precaução de alto a baixo e de baixo para cima até que a minha atenção se fixou numa espécie de buraco circular ou uma claraboia, por entre a folhagem de uma grande árvore que dominava todas as que estavam próximas na extensão visível. No centro desse buraco, avistei um ponto branco, mas não pude a princípio distinguir o que era.
« Depois de ter focado melhor o óculo, olhei novamente e certifiquei-me de que era uma caveira. Logo a seguir a esta descoberta, que me encheu de confiança, considerei o enigma como resolvido; porque a frase: principal tronco, sétimo ramo, lado leste, não podia ter outra indicação senão a de se referir à posição da caveira em cima da árvore, e esta: deitada do olho esquerdo da caveira, não admitia sequer outra interpretação, visto que se tratava da procura de um tesouro escondido. Compreendi que seria preciso deixar cair uma bola do olho esquerdo da caveira, e apenas uma linha de abelha, ou por outras palavras, uma linha reta partindo do ponto mais próximo do tronco e estendendo-se através da bola, isto é, através do ponto onde caísse a bola, indicaria o sítio certo, e por baixo desse lugar pensei que havia pelo menos a possibilidade de existir um depósito precioso que estava ainda escondido.»

— Tudo isso — disse-lhe — é excessivamente claro, e ao mesmo tempo engenhoso, simples e explícito. E quando saiu da Estalagem do Bispo que fez? 
— Tendo marcado cuidadosamente a minha árvore, a sua forma e a sua posição, voltei para a minha casa. Logo que saí da cadeira do diabo, o buraco circular desapareceu e, de qualquer lado que me voltasse era impossível doravante avistá-lo. O que me pareceu obra-prima do engenho em todo este caso, e que faz (porque eu repeti a experiência e estou convencido que era um facto) com que a abertura circular em causa não fosse visível senão de um único ponto, e este ponto de vista único era a estreita cornija no flanco do rochedo.

« Esta última expedição à Estalagem do Bispo fora seguida por Júpiter que observava, sem dúvida, há algumas semanas, o meu ar preocupado, e Unha um cuidado especial em não me deixar só. Mas, no dia seguinte, levantei-me muito cedinho, consegui escapar-lhe e corri para as montanhas à procura da minha árvore. Tive muita dificuldade em encontrá-la. Quando voltei para casa, à noite, o meu criado dispunha-se a dar-me pancada. Quanto ao resto da aventura, penso que já está tão bem informado como eu.»

— Suponho — disse — que, na nossa primeira escavação, errou o sítio por causa da estupidez de Júpiter que deixou cair o escaravelho pelo olho direito da caveira em vez de o deixar escorregar pelo esquerdo. 
— Precisamente. Este descuido provocou uma diferença de cerca de duas polegadas e meia em relação à bola, isto é, à posição da cavilha perto da árvore. Se o tesouro estivesse sob o sítio marcado pela bola, este erro era de pouca importância, mas a bola e o ponto mais aproximado da árvore eram dois pontos que apenas serviam para estabelecer uma linha de ligação; naturalmente o erro, muito pequeno a principio, aumentaria em proporção ao comprimento da linha, quando nós chegámos a uma distância de cinquenta pés, tínhamo-nos desviado por completo. Se não fosse ideia fixa de que estava possuído, que havia decerto ali, em qualquer ponto, um tesouro escondido, teriam sido em vão todos os nossos esforços. 
— Mas a sua ênfase, as suas atitudes solenes ao balancear o escaravelho! Que extravagâncias! Eu julgava-o completamente doido. E por que é que exigiu que deixasse cair da caveira o seu inseto em vez de uma bola? 
— Para ser franco, confesso que me sentia vexado pelas suas dúvidas relativas ao meu estado mental e resolvi castigá-lo calmamente, à minha maneira, com um bocadinho de fria mistificação. Eis porque balanceei o escaravelho e porque o quis deixar cair do cimo da árvore. Uma observação que você fez acerca do seu peso invulgar sugeriu-me esta última ideia. 
— Sim, compreendo. E agora, há apenas um ponto que atrapalha. Que dizer dos esqueletos encontrados na cova? 
— Ah!, é uma pergunta a que não poderia responder-lhe melhor do que você. Não vejo senão uma forma plausível de explicá-la e a minha hipótese implica uma tal atrocidade que é horrível de acreditar. É claro que Kidd — se é certo que foi ele que escondeu o tesouro, do que não duvido, pela minha parte — é claro que Kidd quis que o auxiliassem no seu trabalho. Mas, terminada a tarefa, ele julgou conveniente fazer desaparecer os que possuíam o segredo. Dois golpes fortes de enxada bastaram talvez, enquanto os seus ajudantes estavam ainda ocupados na fossa. Talvez tivesse precisado de lhes dar uma dúzia de golpes... Quem poderá dizer-nos? 

continua na página 445...
__________________

____________________

Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
__________________

Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 59 - Lula

Moby Dick

Herman Melville

59 - Lula
     Atravessando lentamente as pradarias de brit, o Pequod ainda seguia a sua viagem a nordeste, rumo à ilha de Java; uma brisa suave impelindo a quilha, de tal modo que na serenidade circundante seus três mastros altos e afilados balançassem brandamente, como três brandas palmeiras numa planície. E, com longos intervalos na noite prateada, o jato solitário e encantador ainda se avistava.
     Mas numa manhã azul e transparente, quando uma tranquilidade quase sobrenatural se espalhava por sobre o mar, embora desacompanhada de uma estanque calmaria; quando a clareira longamente polida do sol sobre as águas parecia um dedo de ouro, impondo-lhes algum segredo; quando as ondas de chinelos sussurravam juntas enquanto corriam suavemente; neste profundo sossego da esfera visível, um estranho espectro foi visto por Daggoo do topo do mastro principal.
     Na distância, um grande vulto branco ergueu-se preguiçosamente, e erguendo se cada vez mais, e destacando-se do azul, enfim cintilou diante da nossa proa como um trenó, que viesse descendo a neve da colina. Assim faiscante por um momento, também lentamente baixou, e submergiu. Então mais uma vez ergueu-se, e cintilou em silêncio. Não parecia uma baleia; mas será que é Moby Dick?, pensou Daggoo. Novamente desceu o fantasma, mas ao reaparecer mais uma vez, com uma voz cortante como um punhal que despertou todos os marinheiros de seu cochilo, o negro berrou – “Ali! Outra vez ali! Ali ela salta! Bem em frente! A Baleia Branca, a Baleia Branca!”.
     Com isso, os homens do mar correram para os lais das vergas, como na hora do enxame as abelhas buscam os galhos. Com a cabeça descoberta ao sol ardente, Ahab ficou no gurupés, e com uma das mãos bem estendida para trás, pronta para dar ordens ao timoneiro, lançou seu olhar ansioso na direção indicada no alto pelo braço imóvel de Daggoo.
     Quer tenha sido a fugaz aparição do jato solitário o que gradualmente agira sobre Ahab, de modo que agora estava preparado para associar as noções de brandura e repouso com a primeira visão da baleia específica que perseguia; mesmo que fosse isso, ou que sua ansiedade o tivesse traído; de qualquer modo que tenha sido, bastou-lhe distintamente perceber o vulto branco para, com instantânea intensidade dar as ordens de descer os botes.
     Os quatro botes logo estavam no mar; o de Ahab na frente, e todos tenazes remando em direção à presa. Logo esta mergulhou e, enquanto, com os remos suspensos, esperávamos que reaparecesse, oh, no mesmo ponto em que afundara, lentamente ressurgiu. Quase esquecendo por ora os pensamentos sobre Moby Dick, então contemplamos o mais maravilhoso fenômeno que os mares secretos já revelaram até ali aos homens. Um imenso vulto carnudo, com centenas de metros de comprimento e de largura, de reluzente coloração leitosa, flutuava na água, com inúmeros tentáculos compridos irradiando do centro, e se enrolavam e contorciam feito um ninho de anacondas, como que cegamente dispostos a apanhar algum desgraçado objeto ao seu alcance. Não tinha rosto ou face perceptível; nenhum indício concebível de sensação ou instinto; mas ondulava ali sobre as ondas, uma aparição sobrenatural, amorfa e fortuita da vida.
     Quando aquilo, com um som baixo e aspirado, desapareceu novamente, Starbuck, ainda fitando as águas agitadas onde aquilo mergulhara, com voz enfurecida exclamou – “Quase preferiria ter visto e lutado contra Moby Dick, a ter visto a ti, fantasma branco!”.

“O que foi aquilo, senhor?”, disse Flask. 
“A grande lula viva, a qual, dizem, poucos navios baleeiros viram e voltaram aos seus portos para contar.”

     Mas Ahab não disse nada; virou o seu bote e voltou ao navio; os demais, também mudos, seguiram-no.
     Quaisquer que fossem as superstições dos pescadores de Cachalotes quanto à visão desse objeto, é certo que, sendo raríssimo o seu vislumbre, tal circunstância foi o bastante para investir o encontro de maus presságios. Tão raramente é contemplada, que, embora muitos declarem ser a maior criatura animada do oceano, pouquíssimos têm uma vaga ideia de sua verdadeira natureza e forma; não obstante, acreditam que fornece ao Cachalote o seu único alimento. Pois embora outras espécies de baleias encontrem seu alimento na superfície da água, e possam ser vistas pelo homem no ato de se alimentar, o espermacete se alimenta em zonas desconhecidas, abaixo da superfície; e apenas por inferência é que alguém pode dizer em quê, precisamente, consiste tal alimento. Às vezes, quando seguido de muito perto, ele expele o que se supõe sejam tentáculos da lula; algumas delas assim expostas ultrapassam vinte ou trinta pés de comprimento. Pensavam que o monstro ao qual os tentáculos pertencem ficasse sempre preso por eles ao leito do oceano; e que o Cachalote, ao contrário das outras espécies, dispusesse de dentes para atacá-lo e destroçá-lo.
     Parece que há algum fundamento para imaginar que o grande Kraken, do bispo Pontoppidan, possa ser ao fim e ao cabo a própria Lula. O modo pelo qual o bispo o descreve, alternadamente emergindo e afundando, com alguns outros particulares que ele narra, tudo isso faz com que os dois se assemelhem. Mas é preciso dar um desconto em relação ao volume incrível que ele lhe atribui.
     Alguns naturalistas que ouviram rumores esparsos sobre a misteriosa criatura, de que falamos aqui, colocam-na na classe da siba, à qual, de fato, pareceria pertencer em alguns aspectos externos, mas apenas como o Enaque da tribo

Continua na página 265...
______________________

Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
57 - Das baleias pintadas a óleo / 58 - Brit / 59 - Lula /                
________________________
  
Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Espumas Flutuantes - Pelas sombras

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

PELAS SOMBRAS
Ao padre Francisco de Paula 
 C’est que je suis frappé du doute 
 C’est que l’étole de la foi 
 N’éclaire plus ma noire route: 
 Tout est abîme autour de moi!
La Morvonnais  
  
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos 
 Ladram na escuridão das Circes as cadelas... 
 As lívidas marés atiram, a meus olhos, 
 Cadáveres, que riem à face das estrelas!

Da garça do oceano as ensopadas penas 
 O mórbido suor enxugam-me da testa. 
 Na aresta do rochedo o pé se firma apenas... 
 No entanto ouço do abismo a rugidora festa!... 

Nas orlas de meu manto o vendaval s’enrola... 
 Como invisível destra açoita as faces minhas... 
 Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola... 
 “Quem foi?” perguntam rindo as solidões marinhas.

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante. 
 A treva me assoberba... Ó Deus! dá-me um clarão! 
 — 
 E uma Voz respondeu nas sombras triunfante: 
 “Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!” 

 ........................................................................ 

Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma 
 Pode a flama subir brilhante, loura, eterna; 
 Mas quando os vendavais, rugindo, passam n’alma, 
 Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada 
 Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva. 
 Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada 
 A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva. 

Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria! 
 Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara! 
 Na fronte do oceano — acende uma ardentia! 
 Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!

Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante — 
 Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!... 
 — 
 E uma Voz respondeu nas sombras triunfante: 
 “Acende, ó Viajor! a Fé no Coração!...” 
 Curralinho, 5 de junho de 1870  


ODE AO DOUS DE JULHO
Recitada no teatro de São Paulo  
 
Era no Dous de Julho. A pugna imensa 
 Travara-se nos serros da Bahia... 
 O anjo da morte pálido cosia 
 Uma vasta mortalha em Pirajá. 
 “Neste lençol tão largo, tão extenso, 
 “Como um pedaço roto do infinito... 
 O mundo perguntava erguendo um grito: 
 “Qual dos gigantes morto rolará?!... 

Debruçados do céu... a noite e os astros 
 Seguiam da peleja o incerto fado... 
 Era a tocha — o fuzil avermelhado! 
 Era o circo de Roma — o vasto chão! 
 Por palmas — o troar da artilharia! 
 Por feras — os canhões negros rugiam! 
 Por atletas — dous povos se batiam! 
 Enorme anfiteatro — era a amplidão! 

Não! Não eram dous povos, que abalavam 
 Naquele instante o solo ensanguentado... 
 Era o porvir — em frente do passado, 
 A liberdade — em frente à escravidão. 
 Era a luta das águias — e do abutre, 
 A revolta do pulso — contra os ferros, 
 O pugilato da razão — com os erros, 
 O duelo da treva — e do clarão!... 

No entanto a luta recrescia indômita... 
 As bandeiras — como águias eriçadas — 
 Se abismavam com as asas desdobradas 
 Na selva escura da fumaça atroz... 
 Tonto de espanto, cego de metralha 
 O arcanjo do triunfo vacilava... 
 E a glória desgrenhada acalentava 
 O cadáver sangrento dos heróis!...

 .............................................................. 
 .............................................................. 

Mas quando a branca estrela matutina 
 Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras 
 No verde leque das gentis palmeiras 
 Foram cantar os hinos do arrebol, 
 Lá do campo deserto da batalha 
 Uma voz se elevou clara e divina: 
 Eras tu — liberdade peregrina! 
 Esposa do porvir — noiva do sol!... 

Eras tu que com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra, 
 Livre sagravas a Colúmbia terra, 
 Sagravas livre a nova geração! 
 Tu que erguias, subida na pirâmide, 
 Formada pelos mortos do Cabrito, 
 Um pedaço de gládio — no infinito... 
 Um trapo de bandeira — n’amplidão!... 
 São Paulo, julho de 1868

continua pag 52...
____________________

No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração / Pelas sombras /                
________________

Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL
 
continuando...

     Afirmou-se muitas vezes que a mulher se vestia para excitar o ciúme das outras mulheres: este ciúme é com efeito um sinal visível de triunfo; mas não é a única coisa visada. Através dos sufrágios de inveja ou admiração, a mulher busca uma afirmação absoluta de sua beleza, de sua elegância, de seu gosto: de si mesma. Veste-se para se mostrar: mostra-se para se fazer ser. Submete-se assim a uma dolorosa dependência; a dedicação da dona de casa é útil mas não é reconhecida; o esforço da coquete é vão, se não se inscreve em alguma consciência. Ela procura uma valorização definitiva de si mesma; é uma pretensão ao absoluto que torna sua busca tão exaustiva; condenado por uma só opinião, este chapéu não é bonito; um cumprimento a lisonjeia mas um desmentido a arruína; e como o absoluto só se manifesta por uma série indefinida de aparições, ela vencerá completamente; eis por que a coquete é tão suscetível; eis por que também certas mulheres bonitas e aduladas podem estar convencidas de que não são nem belas nem elegantes, que lhes falta precisamente a aprovação suprema de um juiz que não conhecem: visam um em si que é irrealizável. Raras são as coquetes soberbas que encarnam elas próprias as leis da elegância, que ninguém pode surpreender em erro porque são elas que definem, por decretos, o êxito e o malogro; essas, durante seu reinado, podem pensar-se como um êxito exemplar. A desgraça está em que esse êxito não serve para nada nem para ninguém.
     A toalete implica desde logo passeios e recepções, está nisso aliás seu destino original. A mulher passeia de salão em salão seu tailleur novo e convida outras mulheres para vê-la reinar em seu "interior". Em certos casos particularmente solenes o marido acompanha-a em suas "visitas"; porém mais frequentemente, é enquanto o marido trabalha que ela cumpre seus "deveres mundanos". Descreveu-se mil vezes o tédio implacável dessas reuniões. Ele provém do fato de que essas mulheres reunidas pelas "obrigações mundanas" nada têm a se comunicar. Nenhum interesse comum liga a mulher do advogado à mulher do médico — nem tampouco a do Dr. Dupont à do Dr. Durant. Não é de bom-tom, numa reunião, numa conversa de ordem geral falar das travessuras dos filhos ou das preocupações domésticas. Fica-se, portanto, limitada a considerações sobre o tempo, o último romance em voga, algumas ideias gerais tiradas dos maridos. O hábito do dia "de Madame" tende sempre mais a desaparecer; mas sob diversas formas a obrigação da "visita" sobrevive na França. As norte-americanas substituem de bom grado a conversa pelo bridge, o que só constitui uma vantagem para as mulheres que gostam desse jogo.
     Entretanto, a vida mundana reveste formas mais atraentes do que essa ociosa execução de um dever de polidez. Receber não é apenas acolher os outros em sua residência particular; é transformar esta em um recanto encantado; a manifestação mundana é ao mesmo tempo festa e poílatch. A dona de casa expõe seus tesouros: prataria, toalhas, cristais; enche de flores o lar: efêmeras, inúteis, as flores encarnam a gratuidade das festas que são despesas e luxo; desabrochadas nos vasos, condenadas a uma morte rápida, são fogo de artifício, incenso e mirra, libação, sacrifício. A mesa enche-se de pratos requintados, de vinhos preciosos. Trata-se, satisfazendo as necessidades dos convivas, de inventar dons graciosos que lhes previnem os desejos; a refeição transmuda-se em misteriosa cerimônia. V. Woolf acentua esse caráter neste trecho de Mrs Dalloway:

   Então começou pelas portas de vento o vaivém silencioso e encantador das criadinhas de avental e boné brancos, não serventes necessárias porém sacerdotisas de um mistério, da grande mistificação operada pelas donas de casa de Mayfair de uma hora e meia a duas. A um gesto de mão, o movimento da rua cessa e em seu lugar ergue-se essa ilusão enganadora: primeiramente, eis os alimentos oferecidos de graça, depois a mesa cobre-se sozinha de cristais e prataria, de cestos, de gamelas com frutos vermelhos; um véu de creme escuro esconde o peixe; frangos destrinchados nadam em caçarolas, o fogo flameja cerimonioso; e com o vinho e o café — dados de graça — alegres visões erguem-se ante os olhos sonhadores, os olhos que meditam docemente, aos quais a vida se apresenta musical, misteriosa...

     A mulher que preside tais mistérios está orgulhosa de se sentir criadora de um momento perfeito, dispensadora da felicidade, da alegria. É através dela que os convivas se encontram reunidos, que um acontecimento ocorre, ela é fonte gratuita de alegria, de harmonia.
     É exatamente o que sente Mrs. Dalloway:

   Mas suponhamos que Peter lhe diga: Bem! Bem! Mas suas noitadas, qual a razão delas? Tudo o que pode responder é isto (tanto pior se ninguém entende): São uma oferenda... Eis Fulano que mora em South Kennington, Beltrano que vive em Bayswater e Sicrano, diga mos no Mayfair. Ela tem sempre o sentimento da existência deles; ela se diz: Que pena! Que saudade! E ela se diz: Por que não os reunir? quem? E os reúne. É uma oferenda; é combinar, criar. Mas para quem?
   Uma oferenda pela alegria de oferecer, talvez. seu presente. Ela não tem outra coisa... Em todo caso é seu presente. Ela não tem outra coisa...
   Outra pessoa, qualquer uma, poderia ter estado ali, fazer tão bem. Entretanto era um pouco admirável, pensava. Fizera com que as sim fosse.

     Se há nessa homenagem prestada a outrem pura generosidade, a festa é realmente uma festa. Mas a rotina social dentro em pouco transforma o potlatch em instituição, o dom em obriga ção e a festa em rito. Enquanto saboreia o jantar, a convidada pensa que será preciso pagá-lo: queixa-se amiúde de ter sido bem recebida demais. "Os X... quiseram embasbacar-nos", diz com azedume ao marido. Contaram-me, entre outras coisas, que durante a última guerra os chás se tinham tornado, numa pequena cidade de Portugal, o mais caro dos potlatchs: em cada reunião devia a dona da casa servir uma variedade e uma quantidade de doces maiores do que na reunião precedente; o fardo tornou-se tao pesado que um dia as mulheres decidiram de comum acordo nada mais oferecer com o chá. A festa em tais circunstâncias perde seu caráter generoso e magnífico; é uma corveia entre outras; os acessórios que exprimem a festividade não passam de uma fonte de preocupações: é preciso tomar conta dos cristais, da toalha, medir o champanha e os doces; uma xícara quebra da, a seda de uma poltrona queimada são desastres; amanhã será preciso limpar, arrumar, pôr em ordem: a mulher teme esse excesso de trabalho. Sente essa múltipla dependência que define o destino da dona de casa; depende do soufflé, do assado, do açougueiro, da cozinheira, do criado extra; depende do marido que franze o sobrolho, quando alguma coisa falha; depende dos convidados que avaliam os móveis, os vinhos e julgam se a noitada foi um êxito ou não. Somente as mulheres generosas ou seguras de si passarão serenamente por tal prova. Um triunfo pode dar-lhes uma grande satisfação. Mas muitas assemelham--se nesse ponto a Mrs. Dalloway, a propósito de quem V. Woolf nos diz: "Embora gostando desses triunfos. . . de seu brilho e da excitação que dão, sentia-lhes também o vazio, o artifício". A mulher só pode realmente comprazer-se nisso se não lhe empresta grande importância; sem o quê, conhecerá os tormentos da vaidade nunca satisfeita. Há, de resto, poucas mulheres sufi cientemente ricas para encontrar no "mundanismo" um emprego para sua vida. As que a ele se consagram inteiramente tentam em geral não somente render um culto a si mesmas como ainda ultrapassar essa vida mundana com vistas a outros fins: os ver dadeiros "salões" têm um caráter literário ou político. Elas se esforçam através desse meio por adquirir ascendência sobre os homens e desempenhar um papel pessoal. Evadem-se de sua condição de mulher casada. Esta, em geral, não encontra satisfação nos prazeres, nos triunfos efêmeros que lhes dispensam raramente e que muitas vezes representam para elas uma fadiga tanto quanto uma distração. A vida mundana exige que ela "represente", que se exiba, mas não cria entre ela e outrem uma verdadeira comunicação. Não a tira de sua solidão.
     "É doloroso pensar, escreve Michelet, que a mulher, o ser relativo que só pode viver a dois, se ache mais amiúde só do que o homem. Ele encontra a sociedade por toda parte, cria relações novas para si. Ela não é nada sem a família. E a família acabrunha-a; todo o peso lhe cai em cima." E, com efeito, a mulher encarcerada, separada, não conhece as alegrias da camaradagem que implica no esforço em comum para alcançar certos objetivos; seu trabalho não ocupa o espírito, sua formação não lhe deu nem o gosto nem o hábito da independência e, no entanto, ela passa os dias na solidão; vimos que era uma das desgraças de que se queixava Sofia Tolstói. Seu casamento afastou-a amiúde do lar paterno, das amizades da juventude. Colette descreveu em Mes Apprentissages o desarraigamento de uma mulher casada transportada da província para Paris: não encontra apoio senão na longa correspondência que troca com a mãe; mas as cartas não substituem uma presença e ela não pode confessar suas decepções a Sido. Geralmente não há verdadeira intimidade entre a jovem mulher e sua família: nem sua mãe nem suas irmãs são suas amigas. Hoje, em virtude da crise de habitação, muitas jovens recém-casadas vivem com a família ou a família do marido; mas essas presenças impostas estão longe de constituir uma verdadeira companhia para elas.
     As amizades femininas que a mulher consegue conservar ou criar ser-lhe-ão preciosas; têm um caráter muito diferente das relações que os homens conhecem; estes comunicam entre si, como indivíduos, através das ideias, os projetos que lhes são pessoais; as mulheres, encerradas na generalidade de seu destino, acham-se unidas por uma espécie de cumplicidade imanente. O que primeiramente procuram, umas junto de outras, é a afirmação do universo que lhes é comum. Não discutem opiniões: trocam confidencias e receitas; ligam-se para criar uma espécie de contra-universo cujos valores superem os valores masculinos; reunidas, encontram força para sacudir suas cadeias; negam o domínio sexual do homem, confiando umas às outras sua frieza, zombando cinicamente dos apetites do macho ou de sua inabilidade; contestam também com ironia a superioridade moral e intelectual do marido e dos homens em geral. Confrontam suas experiências; gravidez, partos, doenças dos filhos, doenças pessoais, cui dados caseiros tornam-se os acontecimentos essenciais da história humana. Seu trabalho não é uma técnica: transmitindo-se receitas de cozinha, receitas caseiras, dão-lhes a dignidade de uma ciência secreta baseada em tradições orais. Por vezes, examinam juntas problemas morais. A "pequena correspondência" dos jornais femininos oferece uma boa amostra dessas trocas; não há como imaginar uma "correspondência amorosa" reservada aos homens; eles se encontram no mundo, que é o mundo deles; ao passo que as mulheres têm que definir, medir, explorar seus domínios; comunicam principalmente conselhos de beleza, receitas de cozinha e de tricô, pedem opiniões; através de seu gosto pela tagarelice e pela exibição sentimos, por vezes, surgirem verdadeiras angústias. A mulher sabe que o código masculino não é o seu, que o próprio homem espera que ela não o observará, posto que a impele a abortos, a adultérios, a erros, a traições, a mentiras que oficialmente condena. Ela pede, portanto, às outras mulheres, que a ajudem a definir uma espécie de "lei" de seu meio, um código moral propriamente feminino. Não é somente por maldade que as mulheres comentam e criticam tão longamente as condutas das amigas: para julgá-las e para se orientarem é-lhes necessária muito mais invenção moral do que aos homens.
     O que dá valor a tais relações é a verdade que comportam. Diante do homem, a mulher está sempre representando; mente, fingindo aceitar-se como o outro inessencial, mente erguendo, à frente dele, mediante mímicas, toaletes, frases preparadas, uma personagem imaginária; essa comédia exige uma constante tensão; perto do marido, perto do amante, toda mulher pensa mais ou menos: não sou eu mesma. O mundo masculino é duro, tem arestas afiadas, as vozes são demasiado sonoras, as luzes demasiado cruas, os contatos rudes. Perto das outras mulheres, a mulher fica atrás do cenário; forja suas armas, não combate; combina a toalete, inventa uma maquilagem, prepara seus ardis: arrasta-se de chinelos e roupão pelos bastidores antes de subir ao palco; gosta dessa atmosfera morna, doce, repousante. Colette (Le Képi) descreve assim os momentos que passava com sua amiga Marco:

   Confidências rápidas, divertimentos de reclusas, horas que por vezes se assemelham às de uma reunião, por vezes aos lazeres de uma convalescença.

     Comprazia-se em desempenhar o papel de conselheira junto da mulher mais idosa:

   Nas tardes quentes, sob o estore do balcão, Marco cuidava de suas roupas. Cozia mal, mas com cuidado e eu me envaidecia com os conselhos que lhe dava... "Não se deve colocar fita azul-celeste nas camisas, o cor-de-rosa é mais bonito na roupa e junto da pele." Não tardei em dar-lhe outros conselhos acerca do pó de arroz, da cor do batom, do traço duro e negro com que cercava o belo desenho de sua pálpebra. "Acha? não cedia. Acha?", dizia-me ela. Minha jovem autoridade Pegava do pente, abria uma pequena brecha graciosa na sua franja fofa, mostrava-me perita em dar brilho a seu olhar, em acender uma aurora vermelha no alto de suas faces, perto das têmporas.

     Mais adiante mostra-nos Marco preparando-se ansiosamente para defrontar-se com um rapaz que desejava conquistar:

   ... Queria enxugar os olhos molhados, eu a impedia. 
   — Deixa-me fazê-lo. 
   Com os polegares, ergui as pálpebras superiores a fim de que as duas lágrimas prestes a escorrer se reabsorvessem e a pintura dos cílios não fundisse ao seu contato. 
   — Bem. Espera, não terminou ainda. 
   Retoquei todos os traços. A boca tremia um pouco. Deixou-se retocar pacientemente, suspirando como se a pensasse. Para acabar, enchi-lhe o arminho com um pó de arroz mais rosado. vamos, nem uma nem outra. 
   —... Que quer que aconteça — disse-lhe — não chore. De jeito nenhum te deixes dominar pelas lágrimas. 
   ... Ela passou a mão entre a franja e a fronte. 
   — Eu devia ter comprado sábado último aquele vestido preto que vi no revendedor. . . Escuta, não poderias emprestar-me meias muito finas? Nesta hora, não tenho mais tempo. 
   — Mas naturalmente, naturalmente. 
   — Obrigada. Não achas que uma flor pode clarear o vestido? Não, nada de flor na blusa. É verdade que o perfume de íris não está mais na moda? Parece-me que teria uma porção de coisas para te perguntar, uma porção de coisas...

continua página 305...
_______________

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (3) 
______________________

As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"