terça-feira, 7 de abril de 2026

Cinema: O Baile

Ettore Scola

Le Bal

A história da França no século XX é apresentada em um salão de baile.
Este filme não tem diálogo... apenas música. Conta parte da história da França, da década de 1930 até a década de 1980, os personagens são reunidos em um salão de dança. e através das recordações das pessoas, da música e da dança, o filme traça um panorama da evolução do país, da ocupação nazista ao surgimento do rock'n'roll.

Ricardo Buonanni





"É muito bonito, inteligente e muito diferente. Gestos, olhares, jeito de andar, sentar... É uma maneira diferente de contar estórias e falar da história."

Vamos ao filme... com seus movimentos de dança, música e moda que marcam a passagem do tempo dentro de um salão de dança parisiense, ao longo de cinquenta anos de história.


Le Bal (Musical, 1983) de Ettore Scola




Direção:
Ettore Scola

Roteiristas:
Jean-Claude Penchenat - cenário
Ruggero Maccari - cenário
Furio Scarpelli - cenário
Ettore Scola - cenário

Jean-Claude Penchenat - ideia

Elenco:
Geneviève Rey-Penchenat - O aristocrata
Nani Noël - A prostituta / A jovem judia / A refugiada / A jovem que pinta seu baixo
Raymonde Heudeline - A trabalhadora
Danielle Rochard - Entregadora de chapéus
Liliane Delval - A garota de cabelos compridos / A alcoólatra
Monica Scattini - A garota míope
Martine Chauvin - A jovem florista / A estudante
Anita Picchiarini - A amiga do trabalhador
Chantal Capron - A modelo
Rossana Di Lorenzo - A funcionária do banheiro
Arnault LeCarpentier - O jovem tipógrafo / O estudante
Michel Toty - O trabalhador qualificado
Régis Bouquet - O dono do salão / O camponês
François Pick - O jovem estudante
Olivier Loiseau - O irmão mais novo do trabalhador
Jean-Claude Penchenat - A 'cruz de fogo'
Aziz Arbia - O jovem trabalhador
Étienne Guichard - O jovem estudante do interior / O jovem professor
Christophe Allwright - O jovem bonito dos subúrbios
Marc Berman - O aristocrata / O preguiçoso / O colaborador
Jean-François Perrier - O sacristão apaixonado / O oficial alemão
Francesco De Rosa - Toni, o jovem garçom
Michel van Speybroeck - O homem que veio de longe / Jean Gabin


BarrabásO Baile /       

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Eu caía de sono)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Eu caía de sono. Fui levado de elevador até o meu andar não pelo ascensorista, mas pelo groom vesgo que travou conversa para me contar que sua irmã continuava a viver com o cavalheiro tão rico e que, certa vez, como ela tivesse vontade de voltar para casa em lugar de permanecer séria, o seu cavalheiro fora procurar a mãe do vesgo e dos outros filhos mais afortunados, a qual encaminhara o mais rápido possível a insensata à casa de seu amigo. 

- Saiba o senhor, é uma grande dama a minha irmã. Ela toca piano, fala espanhol. E o senhor não a acreditaria ser irmã do simples empregado que o faz subir no elevador; ela não se nega coisa alguma. Tem a sua camareira pessoal, e não me espantaria que um dia venha a ter o seu carro. É muito bonita, se o senhor a visse, um tanto orgulhosa, mas diabos! isto se compreende. Tem muito espírito. Nunca deixa um hotel sem se aliviar num armário, numa cômoda, para deixar uma lembrancinha à camareira que há de fazer a limpeza. Às vezes, até no carro ela faz isso e, depois de pagar a corrida, oculta-se num canto, coisa de muito rir, para ver reclamar o cocheiro que terá de lavar o carro. Meu pai também deu uma boa, ao encontrar para o meu irmão mais novo aquele príncipe indiano que havia conhecido antigamente. Naturalmente é outro gênero. Mas a posição é soberba. Se não fossem as viagens, seria o ideal. Até agora, só eu é que fiquei no desvio. Mas nunca se sabe. A sorte está na minha família; quero sabe se não serei um dia presidente da República? Mas estou fazendo-o tagarelar (eu não dissera uma só palavra e começava a dormir ao ouvir as suas). Boa-noite, senhor. Oh, obrigado, senhor! Se todo mundo tivesse tão bom coração como o senhor, não haveria mais desgraçados. Mas como diz a minha irmã, sempre é necessário que os haja para que, agora que sou rica, possa cagar neles um pouco. Desculpa a expressão. Boa-noite, senhor.  

     Talvez a cada noite aceitemos o risco de viver, dormindo, sofrimentos que consideramos nulos e não acontecidos, pois foram suportados no decorrer de um sono que julgamos sem consciência. Com efeito, nessas noites em que eu regressava tarde da Raspeliere, sentia muito sono. Porém, logo que chegaram os frios intensos eu não podia adormecer imediatamente, pois o fogo da lareira iluminava como se uma lâmpada se acendesse. Apenas, não passava de uma chama e também como uma lâmpada, como o dia quando cai a tarde sua luz muito viva não tardava a diminuir; e eu caía no sono, o qual é como um segundo apartamento que tivéssemos e onde, abandonando o nosso, fôssemos dormir. Tem campainhas próprias, e às vezes somos violentamente despertados por um rumor de timbre, perfeitamente escutado por nossos ouvidos, quando todavia ninguém tocou. Tem seus criados, seus visitantes particulares que vêm buscar nos para sair, de modo que estamos prontos para levantar-nos quando nos é forçoso constatar, por nossa quase imediata transmigração para o outro apartamento, o da véspera, que o quarto está vazio, que não veio ninguém. A raça que o habita, como a dos primeiros humanos, é andrógina. Ali, um homem, ao cabo de um instante, aparece sob o aspecto de uma mulher. As coisas ali possuem uma inclinação a se tornarem homens, e os homens em amigos e inimigos. O tempo que transcorre para o adormecido, durante esse sono, é absolutamente diverso do tempo em que se cumpre a vida do homem acordado. Ora seu curso é muito mais rápido: um quarto de hora parece um dia inteiro; às vezes, muito mais longo: julgamos ter dado um breve cochilo e dormimos o dia todo. Então, no carro do sono, descemos às profundezas em que a recordação não pode mais alcançá-lo e para aquém das quais o espírito foi obrigado a arrepiar caminho. A parelha de cavalos do sono, semelhante à do sol, caminha num passo tão igual, numa atmosfera onde não pode mais detê-lo nenhuma resistência, que é preciso algum pedregulho aerolítico estranho a nós (por qual Desconhecido dardejado do céu azul?) para atingir o sono regular (que, sem isso, não teria motivo algum para se deter e duraria, com um movimento igual, séculos afora) e fazê-lo, numa curva brusca, retornar ao real, queimar etapas, atravessar regiões próximas à vida ou breve o adormecido ouvirá, desta, os rumores quase vagos ainda, mas já perceptíveis, conquanto deformados e aterrissar de chofre no despertar. Então, desses sonos profundos, a gente acorda numa aurora, sem saber onde está, não sendo ninguém, novo, pronto para tudo, o cérebro vazio desse passado que era a vida até ali. E talvez ainda seja mais belo quando a aterrissagem do despertar se faz de maneira brutal e os nossos pensamentos do sono, ocultos por um manto de esquecimento, não têm tempo de regressar progressivamente antes que o sono acabe. Então, da negra tempestade que nos parece que atravessamos (mas nem sequer dizemos nós), saímos deitados, sem pensamentos: um nós que não tivesse conteúdo. - Que martelada a criatura ou a coisa que ali está recebeu a ponto de ignorar tudo; estupefata até o momento em que a memória, acorrendo, lhe restitua a consciência ou a personalidade? Ainda, para esses dois tipos de despertar, convém não adormecer, mesmo que profundamente, sob a lei do hábito. Pois o hábito vigia tudo o que encerra em suas redes; é preciso escapar a ele, adormecer no momento em que se julgava fazer coisa bem diversa do que dormir, numa palavra, receber um sono que não permanece sob a tutela da previdência, na companhia, mesmo oculta, da reflexão. Ao menos nesses despertares, tais como os que acabo de descrever, e que eram na maior parte do tempo os meus quando eu tinha jantado na véspera na Raspeliere, tudo se passava como se assim fosse, e posso testemunhá-lo, eu, o estranho humano que, esperando que a morte o venha libertar, vê os postigos fechados, não sabe nada do mundo, permanece imóvel feito uma coruja e, como esta, só vê um pouco de claridade nas trevas. Tudo se passa como se assim fosse, mas talvez somente uma camada de estopa impediu o adormecido de perceber o diálogo interior das lembranças e a incessante tagarelice do sono. Pois (o que aliás pode se explicar igualmente no primeiro sistema, mais amplo, mais misterioso, mais astral) no momento em que se produz o despertar, o adormecido ouve uma voz interior que lhe diz: "Não vem jantar esta noite, meu caro amigo? Como seria agradável!" e pensa: "Sim, como seria agradável, irei"; depois, acentuando-se o despertar, ele recorda de súbito: "Minha avó só tem algumas semanas de vida, afirma o doutor." Ele toca a campainha, chora à ideia de que não será, como antigamente, a sua avó, a sua avó agonizante, mas um criado-grave indiferente que virá atendê-lo. Todavia, mesmo que o sono o levasse para bem longe do mundo habitado pela recordação e pelo pensamento, através de um éter onde estivesse sozinho, mais que sozinho, sem nem sequer ter esse companheiro em que a gente se vê a si mesmo, estava ele fora do tempo e de suas medidas. E já entra o camareiro e ele não se anima a perguntar-lhe a hora, pois ignora se dormiu, ou quantas horas dormiu (indaga a si próprio se não foram dias, de tal modo retorna com o corpo exausto e o espírito descansado, o coração nostálgico, como de uma viagem demasiado distante para que não tenha durado muito tempo). Decerto pode-se pretender que só existe um tempo, pelo fútil motivo de que foi olhando para a pêndula que se constatou ser apenas um quarto de hora o que pensáramos fosse um dia inteiro. Mas, no momento em que o verificamos, somos justamente um homem desperto, mergulhado no tempo dos homens despertos; desertamos do outro tempo. Talvez até mais que de um outro tempo: de uma outra vida. Os prazeres que temos no sono, não os fazemos figurar na conta dos prazeres experimentados durante a existência. Para só aludirmos ao mais vulgarmente sensual de todos, qual de nós, ao despertar, não sentiu alguma irritação por ter experimentado, enquanto dormia, um prazer que, se não queremos nos cansar demais, já não podemos, uma vez despertos, renovar indefinidamente nesse dia? É como uma riqueza perdida. Tivemos prazer em uma outra vida que não a nossa. Sofrimentos e prazeres do sonho (que em geral se dissipam rapidamente ao despertar), se os fizéssemos figurar num orçamento, não seria no da vida corrente. Disse eu: dois tempos; talvez exista apenas um, não que o do homem desperto seja válido para o adormecido, mas talvez porque a outra vida, aquela em que se dorme, não esteja em sua parte profunda submetida à categoria do tempo. Assim eu o representava quando, no dia seguinte aos jantares na Raspeliere, adormecia tão completamente. Eis o porquê. Principiava a desesperar-me, ao acordar, vendo que, depois de ter chamado dez vezes, o criado-grave não aparecia. Na undécima vez ele entrava. Era apenas a primeira vez. As dez outras não tinham passado de esboços no meu sono, que durava ainda, do toque de campainha que eu desejava. Minhas mãos entorpecidas nem mesmo se haviam mexido. Ora, nessas manhãs (e é o que me faz dizer que o sono talvez ignore a lei do tempo), o meu esforço para me acordar consistia sobretudo em um esforço para adaptar o bloco obscuro, não definido, do sono que eu acabava de viver, aos quadros do tempo. Não é fácil tarefa; o sono, que não sabe se dormimos duas horas ou dois dias, não pode nos fornecer nenhum ponto de referência. E, se não o encontrarmos no exterior, não conseguindo retornar ao tempo, voltamos a adormecer, por cinco minutos que parecem três horas. Eu sempre disse e experimentei que o mais poderoso dos hipnóticos é o sono. Depois de ter dormido profundamente por duas horas, ter combatido tantos gigantes e de ter travado para sempre tantas amizades, é bem mais difícil despertar do que depois de ter tomado vários gramas de veronal. Pensando assim sobre um e outro, fiquei surpreendido ao saber, pelo filósofo norueguês, que o soubera pelo Sr. Boutroux, "seu eminente colega, perdão, confrade", o que o Sr. Bergson pensava das alterações particulares da memória devidas aos hipnóticos. "Está entendido", teria dito o Sr. Bergson ao Sr. Boutroux, a crer no filósofo norueguês, "que os hipnóticos tomados de vez em quando em doses moderadas não têm influência sobre essa memória sólida da nossa vida cotidiana, tão bem instalada em nós. Mas existem igualmente outras memórias, mais altas e também mais instáveis. Um de meus colegas está dando um curso de História antiga. Disse-me que, se na véspera havia tomado um comprimido para dormir, tinha dificuldade, durante a aula, de encontrar as citações gregas de que necessitava. O médico que lhe recomendara esses comprimidos assegurou-lhe que não tinham influência sobre a memória. É que o senhor talvez não tenha de fazer citações gregas, respondera o historiador, não sem um toque de “orgulho zombeteiro." Não sei se esta conversação entre o Sr. Bergson e o Sr. Boutroux estará correta. O filósofo norueguês, todavia tão profundo e claro, passionalmente atento, pode ter compreendido mal. Pessoalmente, minha experiência me proporcionou resultados opostos. Os momentos de olvidey que, no dia seguinte, se seguem à ingestão de certos narcóticos têm uma semelhança meramente parcial, mas perturbadora, com o esquecimento que reina no decurso de uma noite de sono profundo e natural. Ora, o que eu esqueço, num e noutro caso, não é determinado verso de Baudelaire, qual antes me fatiga, "assim como um tímpano", não é certo conceito de um dos filósofos citados, é a própria realidade das coisas vulgares que me cercam se durmo e cuja não-percepção faz de mim um louco; é se estou acordado e saio, logo após um sono artificial não o sistema de Porfírio ou de Plotino, que posso discutir tão bem como em qualquer outro dia, mas à resposta que prometi dar a um convite, cuja lembrança foi substituída por um branco total. A ideia elevada permaneceu em seu lugar; o que o hipnótico pôs fora de uso é o poder de agir nas pequenas coisas, em tudo o que exige atividade para recuperar bem a tempo, para agarrar determinada lembrança da vida cotidiana. Apesar de tudo o que se possa dizer da sobrevivência após a destruição do cérebro, reparo que a cada alteração do cérebro corresponde um fragmento de morte. Todos nós possuímos as nossas lembranças, se não a faculdade de recordá-las, diz, segundo Bergson, o grande filósofo norueguês, cuja linguagem não procurei imitar, para não demorar ainda mais. Se não a faculdade de recordá-las. Mas o que é uma lembrança da qual não se recorda? Porém vamos mais longe. Não nos recordamos das lembranças dos últimos trinta anos; mas elas nos banham por inteiro; por que então parar a trinta anos, por que não prolongar até além do nascimento essa vida anterior? Desde o momento em que não conheço toda uma parte das lembranças que estão por detrás de mim, desde o momento em que elas me são invisíveis, que não tenho a faculdade de chamá-las a mim, quem me diz que nessa massa desconhecida de mim não há recordações que remontam muito além da minha vida humana? Se posso ter em mim e a meu redor tantas lembranças de que não me recordo, esse olvido (ao menos olvido de fato, visto que não possuo a faculdade de nada ver) pode estender-se sobre uma vida que vivi no corpo de outro homem, até mesmo em outro planeta. Um mesmo esquecimento apaga tudo. Mas então, que significa essa imortalidade da alma, de que o filósofo norueguês afirmava a realidade? A criatura que serei após a morte não tem mais motivos de se lembrar do homem que sou desde o nascimento, assim como este último não se recorda do que eu fui antes de nascer.
     O criado-grave entrava. Eu não lhe dizia que havia tocado a campainha diversas vezes, pois já percebia que o fizera até então enquanto sonhava. No entanto, assustava-me pensar que semelhante sonho tivera a nitidez do conhecimento. Teria o conhecimento, reciprocamente, a irrealidade do sonho? Em compensação, perguntava-lhe quem havia tocado tanto aquela noite. Ele dizia "ninguém", e podia afirmá-lo, pois o "quadro" das chamadas o teria registrado. Entretanto, escutava os toques repetidos, quase furiosos, que ainda vibravam em meu ouvido e me deviam permanecer perceptíveis durante vários dias. No entanto, é raro que o sono lance desse modo, na vida desperta, lembranças que não morrem com ele. Podem-se contar esses aerólitos. Se se trata de uma ideia que o sono forjou, ela depressa se dissocia em fragmentos tênues, não encontrados. Porém aí o sono fabricara sons. Mais materiais e mais simples, duravam por mais tempo. Espantava-me a hora relativamente matinal que o camareiro me dizia. Nem por isso me sentia menos repousado. São os sonos leves que têm longa duração, porque, intermediários entre a vigília e o sono, mantendo da primeira uma noção um tanto apagada mas permanente, é-lhes necessário infinitamente mais tempo para repousar-nos do que um sono profundo, o qual pode ser de curta duração. Sentia-me bem disposto por outra razão. Se é bastante lembrarmo-nos de que estamos cansados para sentirmos penosamente o nosso cansaço, dizer para nós mesmos: "Estou descansado", basta para criar o repouso.
     Ora, havia sonhado que o Sr. de Charlus estava com cento e dez anos e acabara de dar um par de tapas na própria mãe, Sra. Verdurin, porque ela comprara um buquê de violetas por cinco bilhões; portanto, estava certo de ter dormido profundamente e sonhado às avessas todas as minhas noções da véspera e todas as possibilidades da vida corrente; bastava isso para que me sentisse inteiramente repousado. Teria deixado bem surpreendida a minha mãe, que não podia compreender a assiduidade do Sr. de Charlus na casa dos Verdurin, se lhe tivesse contado (precisamente no dia em que fora encomendada a touca de Albertine, sem nada lhe dizer e para lhe fazer uma surpresa) com quem o Sr. de Charlus fora jantar num salão do Grande Hotel de Balbec. O convidado não era outro senão o lacaio de uma prima dos Cambremer. Este lacaio vestia-se com grande elegância e, quando atravessou o hall com o barão, "fez-se de homem do mundo" aos olhos dos turistas, como teria dito Saint-Loup. Mesmo os jovens grooms, os "levitas" que desciam em bando os degraus do templo nesse instante, porque era o momento da rendição, não prestaram atenção nos dois recém-chegados, dos quais um o Sr. de Charlus, timbrava em mostrar, baixando os olhos, que eles pouco lhe importavam. Dava a impressão de abrir passagem no meio deles. "Prosperai, cara esperança de uma santa nação", citou ele, lembrando-se dos versos de Racine, ditos num sentido bem diverso. - O que diz, senhor? perguntou o lacaio, pouco a par dos clássicos. O Sr. de Charlus não lhe respondeu, pois punha um certo orgulho em não fazer caso das perguntas e em caminhar direito para a frente como se não houvesse outros fregueses no hotel e no mundo só existisse ele, barão de Charlus. Mas, tendo continuado os versos de Josabeth: “Vinde, vinde, minhas filhas", sentiu-se desgostoso e não acrescentou, como ela: "é preciso chamá-las", pois esses jovens ainda não tinham alcançado a idade em que o sexo está inteiramente formado e que agradava ao Sr. de Charlus. Aliás, se escrevera ao lacaio da Sra. de Chevregny, por não duvidar de sua docilidade, havia esperado que fosse mais viril. Ao vê-lo, achara-o mais efeminado do que o desejaria. Disse-lhe que pensara tratar com alguém diferente, pois conhecia de vista outro lacaio da Sra. de Chevregny, em quem de fato havia reparado no carro. Era um tipo de camponês bem rústico, completamente o oposto deste, que, julgando, pelo contrário, suas afetações como superioridades, e estando certo de que fossem essas qualidades de mundano que seduziriam o Sr. de Charlus, não compreendeu sequer de que é que o barão queria falar. 

- Mas não tenho nenhum companheiro, a não ser um, a quem o senhor não pode ter deitado o olho; é horroroso, parece um camponês brutamontes. -

     E, à ideia de que talvez semelhante rústico fosse o que o barão vira, sentiu uma pontada no seu amor-próprio. O barão o adivinhou e, ampliando o inquérito: 

- Mas eu não fiz um voto especial de só conhecer gente da Sra. de Chevregny -disse. - Será que aqui, ou em Paris, já que vai partir em breve, não poderia você apresentar-me muitos de seus companheiros, de uma casa ou de outra? 
- Oh, não respondeu o lacaio -, não frequento ninguém da minha classe. Só lhes falo sobre o serviço, mas há alguém muito distinto que poderei fazer com que conheça. 
- Quem? - indagou o barão. 
- O príncipe de Guermantes. -

     O Sr. de Charlus ficou despeitado de que só lhe oferecessem um homem daquela idade, e para o qual, aliás, não necessitava da recomendação de um lacaio. Assim, declinou a oferta em tom seco e, não se deixando desanimar pelas pretensões mundanas do criado, recomeçou a explicar-lhe o que desejava, o gênero, o tipo, mesmo que fosse um jóquei, etc. Receando que o tabelião que passava nesse momento o tivesse escutado, julgou prudente mostrar que falava de coisa bem diversa daquela que poderiam supor, e disse com insistência e como que para o público, mas feito não fizesse mais que continuar a conversação: 

- Sim, apesar da minha idade, mantive o gosto de comprar quinquilharias, o gosto pelos lindos bibelôs, faço loucuras por um velho bronze, por um lustre antigo. Adoro o Belo. -

     Mas, para fazer o lacaio entender a mudança de assunto que tão rapidamente consumara, o Sr. de Charlus acentuava de tal modo cada palavra e, mais ainda, para ser ouvido pelo tabelião, gritava-as todas com tanta força, que todo esse jogo de cena teria bastado para denunciar o que ele ocultava a ouvidos mais avisados que os do oficial do ministério. Este não desconfiou de coisa alguma, bem como nenhum outro hóspede do hotel, pois todos viram um elegante estrangeiro no lacaio tão bem vestido. Em compensação, se os homens da sociedade se equivocavam, tomando o por um americano muito elegante, mal apareceu diante dos criados foi logo adivinhado por eles, assim como um forçado reconhece outro, e até mesmo mais depressa, farejado a distância como um animal por certos animais. Os chefes da categoria ergueram os olhos. Aimé lançou um olhar suspeitoso. O copeiro, dando de ombros, disse por trás da mão, porque julgava isso cortês, uma frase injuriosa que todos ouviram. E até a nossa velha Françoise, cuja vista diminuía e que passava naquele momento ao pé da escada para ir jantar nos "mensageiros", ergueu a cabeça, reconheceu um criado onde os convivas do hotel não o suspeitavam como a velha ama Euricléia reconhece Ulisses bem antes dos pretendentes assentados no festim e, vendo o Sr. de Charlus andar familiarmente com ele, demonstrou uma expressão acabrunhada, como se de repente as maldades de que ouvira falar e em que não tinha acreditado houvessem adquirido a seus olhos uma pungente verossimilhança. Ela nunca me falou, nem a ninguém, deste incidente, o qual, todavia, deve ter dado trabalho considerável a seu cérebro, pois mais tarde, cada vez que, em Paris, teve ocasião de ver "Julien", que até então apreciara tanto, sempre se mostrou cortês com ele, mas de uma cortesia que se resfriara e estava sempre acrescida de forte dose de reserva. Esse mesmo incidente, ao contrário, levou alguém bem diverso a me fazer uma confidência; foi Aimé. Quando eu cruzara pelo Sr. de Charlus, este, que não esperava encontrar-me, gritou-me, erguendo a mão: "Boa-noite", com a indiferença, ao menos aparente, de um grão-senhor que julga que tudo lhe é permitido e que acha mais hábil dar a entender que não se esconde. Ora, Aimé, que nesse momento o observava com olhar desconfiado e viu que eu cumprimentava o companheiro daquele em que estava certo de ver um criado, perguntou-me nessa mesma noite de quem se tratava. Pois, desde algum tempo, Aimé gostava de conversar, ou melhor, como dizia, sem dúvida para marcar o caráter, segundo ele filosófico, dessas conversas, de "discutir" comigo. E, como várias vezes lhe dissesse que me sentia constrangido que ele ficasse de pé junto a mim enquanto eu jantava, em vez de sentar-se e compartilhar da minha refeição, declarava que jamais vira um freguês com "raciocínio tão justo". Naquele momento, conversava com dois garçons. Tinham me saudado; não sabia por quê; seus rostos eram-me desconhecidos, embora ressoasse, na sua conversa, um rumor que não me parecia novo. Aimé censurava-os por causa do noivado de ambos, que desaprovava. Tomou-me como testemunha; eu disse que não podia ter uma opinião, visto que não os conhecia. Eles recordaram-me os seus nomes e também que muitas vezes me haviam servido em Rivebelle. Mas um deixara crescer o bigode, o outro o raspara e havia cortado o cabelo à escovinha; e devido a isso, e apesar de ser a mesma cabeça de outrora que estava sobre seus ombros (e não uma outra, como nas restaurações errôneas da Notre Dame), ela me havia permanecido tão invisível como esses objetos que escapam às mais minuciosas perquirições, e que estão simplesmente aos olhos de todos, que não os percebem, acima de uma lareira. Logo que lhes soube os nomes, reconheci com exatidão a melodia incerta de suas vozes porque revi os rostos antigos que a determinavam. - Eles querem se casar e nem mesmo sabem o inglês! - disse Aimé, que não imaginava que eu estivesse pouco a par da profissão de hoteleiro e não conseguia compreender que, se não se conhecem as línguas estrangeiras, não se pode contar com uma boa situação. Eu, que pensava que ele facilmente saberia que o novo freguês era o Sr. de Charlus, e imaginava até que devia lembrar-se dele, por tê-lo servido, quando o barão viera visitar a Sra. de Villeparisis por ocasião da minha primeira temporada em Balbec, disse-lhe o seu nome. Ora, não só Aimé não se lembrava do barão de Charlus, mas também esse nome lhe pareceu causar uma profunda impressão. Disse-me que iria procurar, no dia seguinte, em seus guardados, uma carta que eu talvez pudesse explicar-lhe. Tanto mais espantado fiquei, pois que o Sr. de Charlus, quando quisera dar-me um livro de Bergotte, em Balbec, naquela temporada, tinha mandado chamar especialmente Aimé, a quem deve ter encontrado em seguida nesse restaurante de Paris onde eu jantara com Saint-Loup e a amante deste, e onde o Sr. de Charlus tinha ido nos espionar. É verdade que não pudera cumprir pessoalmente essas missões, estando deitado da primeira vez e, da segunda, ocupado em serviço. No entanto, eu sentia muitas dúvidas quanto à sua sinceridade, quando afirmava não conhecer o Sr. de Charlus. Por um lado, devia ser conveniente ao barão. Como todos os chefes de andar do hotel de Balbec, como vários camareiros do príncipe de Guermantes, Aimé pertencia a uma raça mais antiga que a do príncipe, e portanto mais nobre. Quando alguém pedia um salão, a princípio acreditava-se a sós. Mas em breve avistava na copa um escultural mordomo, desse gênero etrusco ruivo de que Aimé era o tipo, um tanto envelhecido pelos excessos de champanha e vendo aproximar-se a hora necessária da água de Contrexéville. 

[Contrexéville é uma estância hidromineral francesa, indicada para o tratamento de doenças urinárias e biliares, gota e obesidade. (N. do T)]

     Todos os fregueses só lhes pediam que os servissem. Os grooms, que eram jovens, escrupulosos, apressados, a quem uma amante esperava na cidade, tratavam de escapulir. Assim, Aimé lhes censurava o não serem sérios. Estava no seu direito. Sério, ele o era. Tinha mulher e filhos, e ambições para a família. Portanto, não repelia as tentativas que uma estrangeira ou um estrangeiro lhe faziam, mesmo que tivesse de ficar toda a noite. Pois o trabalho deve estar acima de tudo. De tal modo ele era do gênero que podia agradar ao Sr. de Charlus, que suspeitei que mentia quando me disse não conhecê-lo. Enganava-me. Era com toda a sinceridade que o groom havia dito ao barão que Aimé (que lhe passara uma reprimenda no dia seguinte) estava deitado (ou tinha saído) e, da outra vez, que estava de serviço. Mas a imaginação supõe além da realidade. E o embaraço do groom provavelmente causara, no Sr. de Charlus, quanto à sinceridade de suas desculpas, dúvidas que nele haviam ferido sentimentos dos quais Aimé não suspeitava. Viu-se também que Saint-Loup impedira que Aimé fosse ao carro onde o Sr. de Charlus que, não sei como, obtivera o novo endereço do mordomo, passara por uma nova decepção. Aimé, que não o percebera, experimentou o espanto que se pode imaginar quando, na mesma noite do dia em que eu almoçara com Saint-Loup e sua amante, recebeu uma carta lacrada com as armas de Guermantes e da qual citarei aqui algumas passagens, como exemplo de loucura unilateral de um homem inteligente que se dirigisse a um imbecil sensato. "Senhor, não pude conseguir, apesar dos esforços que assombrariam muitas pessoas que buscam inutilmente ser recebidas e saudadas por mim, que escutasse as poucas explicações que não me pedia, mas que eu julgava apresentar-lhe, devido à minha e à sua dignidade. Portanto, vou escrever aqui o que seria mais fácil dizer-lhe de viva voz. Não lhe ocultarei que da primeira vez que o vi, em Balbec, sua figura me pareceu francamente antipática. Seguiam-se então reflexões sobre a semelhança notada apenas no segundo dia com um amigo defunto, pelo qual o Sr. de Charlus sentira grande afeição. 

"Então, tive por um momento a idéia de que o senhor poderia, sem prejudicar em nada a sua profissão, vir jogar comigo partidas de cartas, com as quais a alegria desse amigo sabia dissipar a minha tristeza, para dar-me a ilusão de que ele não estava morto. Seja qual for a natureza das suposições mais ou menos tolas que o senhor provavelmente fez, e mais ao alcance de um serviçal (que nem merece tal nome, já que não quis servir) do que a compreensão de um sentimento tão elevado, julgou o senhor provavelmente dar-se importância, ignorando quem eu era e o que era, mandando responder, quando lhe mandava pedir um livro, que estava deitado; ora, é um erro supor que um mau procedimento acrescenta o que quer que seja à graça, de que aliás o senhor é inteiramente destituído. Teria eu ficado nisso, se por acaso, na manhã seguinte, não lhe pudesse falar. Sua semelhança com meu pobre amigo acentuou-se de tal maneira, fazendo até desaparecer a forma insuportável de seu queixo proeminente, que compreendi que era o defunto que, nesse momento, emprestava-lhe um pouco de sua expressão tão bondosa a fim de lhe permitir que voltasse a me impressionar e impedi-lo de perder a oportunidade única que se lhe oferecia. Com efeito, embora eu não deseje, visto que nada disso tem mais razão de ser e que não terei mais ocasião de encontrá-lo nesta vida, misturar a isso tudo brutais questões de interesse, ficaria muito feliz em obedecer às súplicas do morto (pois creio na comunhão dos santos e em sua veleidade de intervenção no destino dos vivos), de agir consigo como com ele, que tinha seu carro, seus criados, e a quem era muito natural que eu consagrasse a maior parte de minhas rendas, pois amava-o como a um filho. O senhor decidiu de outra forma. A meu pedido de que me trouxesse um livro, mandou responder que precisava sair. E esta manhã, quando mandei lhe pedir que viesse ao meu carro, o senhor, se posso lhe falar assim sem sacrilégio, renegou-me pela terceira vez. O senhor me desculpará por não colocar neste envelope as gorjetas elevadas que contava dar-lhe em Balbec, e nas quais muito penoso me seria insistir em relação a uma pessoa com que, por um instante, julguei que iria dividir tudo. Quando muito, poderia poupar-me fazer, junto ao senhor, em seu restaurante, uma quarta tentativa inútil e até à qual não iria a minha paciência. (E aqui o Sr. de Charlus dava o seu endereço, a indicação das horas em que seria encontrado, etc.) Adeus, senhor. Como creio que, sendo de tal modo parecido com o amigo que perdi, não deve ser inteiramente estúpido, a menos que a fisionomia se revele como uma ciência falsa, estou convencido de que um dia, se pensar de novo neste incidente, não o será sem experimentar uma certa pena e algum remorso. De minha parte, creia que bem sinceramente não lhe guardo amargura nenhuma. Teria preferido que nos separássemos com uma lembrança menos ruim do que a desta terceira tentativa inútil. Será logo esquecida. Somos como esses navios que o senhor deve ter avistado às vezes de Balbec, que se cruzam por um momento; poderia haver, para cada um deles, vantagens em parar; porém um julgou de modo diverso; em breve não se avistarão sequer no horizonte, e o encontro está apagado; mas, antes dessa separação definitiva, cada qual saúda o outro, e é o que faz aqui, senhor, desejando-lhe boa sorte, o barão de Charlus."

     Aimé nem sequer havia lido essa carta até o fim, pois não entendera nada e desconfiava de uma mistificação. Quando lhe expliquei quem era o barão, ele pareceu um tanto sonhador e sentiu aquela pena que o Sr. de Charlus lhe predissera. Nem mesmo juraria que ele então não tivesse escrito para se desculpar perante um homem que dava carros a seus amigos. Mas, nesse intervalo, o Sr. de Charlus travara relações com Morel. Quando muito, sendo essas relações talvez platônicas, o Sr. de Charlus buscava às vezes, por uma noite, uma companhia como aquela em que eu acabava de encontrá-lo no hall. Mas ele não podia mais desviar de Morel o sentimento violento que, livre alguns anos antes, desejara fixar-se em Aimé e que havia ditado a carta que me mostrara o mordomo e me fazia sentir constrangido pelo Sr. de Charlus. Por causa do amor antissocial que era o do Sr. de Charlus, constituía essa carta um exemplo mais impressionante da força poderosa e insensível dessas correntes da paixão e dentro das quais o enamorado, como um nadador que é arrastado sem o perceber, rapidamente perde a terra de vista. É claro que o amor de um homem normal também pode, quando o amoroso, pela invenção sucessiva de seus desejos, de suas penas, de suas decepções e de seus projetos, constrói todo um romance inteiro sobre uma mulher que ele não conhece, permitir que se meça um bem considerável afastamento das duas pontas de compasso. Todavia, um tal afastamento era singularmente ampliado pela natureza de uma paixão que em geral não é partilhada e pela diferença das condições de Aimé e do Sr. de Charlus.

continua na página 175...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Eu caía de sono)
Volume 6
Volume 7

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: ARTEMIO CRUZ e a segunda morte de EMILIANO ZAPATA (20)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     30. ARTEMIO CRUZ e a segunda morte de EMILIANO ZAPATA
          Exatamente um século depois da regulamentação da terra de Artigas, Emiliano Zapata pôs em prática, em sua comarca revolucionária do sul do México, uma profunda reforma agrária.
     Cinco anos antes, o ditador Porfirio Díaz havia celebrado, com grandes festas, o primeiro centenário do grito de Dolores: os cavalheiros de fraque, México oficial, ignoravam olimpicamente o México real, cuja miséria alimentava seus esplendores. Nesta república de párias, os salários dos trabalhadores não tinham aumentado um centavo sequer desde o histórico levante do padre Miguel Hidalgo. Em 1910, pouco mais de 800 latifundiários, muitos deles estrangeiros, eram donos de quase todo o território nacional. Eram bon-vivants da cidade, que viviam na capital ou na Europa, e só raramente visitavam as sedes de seus latifúndios, onde dormiam entrincheirados atrás de altas muralhas de pedra escura sustentadas por robustos contrafortes [1]. Do outro lado das muralhas, os peões se amontoavam em quartinhos de adobe. Doze milhões de pessoas, numa população total de quinze milhões, dependiam dos salários rurais; as diárias eram pagas, quase em sua totalidade, nos armazéns das fazendas, traduzidas a preços de fábula em feijões, farinha, aguardente. O cárcere, o quartel e a sacristia se encarregavam da luta contra os defeitos naturais dos índios, que nas palavras de um membro de uma ilustre família da época, já nasciam “preguiçosos, borrachos e ladrões”. Atado o trabalhador por dívidas que se herdavam ou por contrato legal, a escravidão era o real sistema de trabalho nas plantações de sisal de Yucatán, nos cultivos de tabaco do Valle Nacional, nos matos de madeira e frutas de Chiapas e Tabasco, e nas plantações de seringueiras, café, cana-de-açúcar, tabaco e frutas de Veracruz, Oaxaca e Morelos. John Kenneth Turner, escritor norte-americano, denunciou na memória de sua visita que “os Estados Unidos converteram Porfirio Díaz num virtual vassalo político, e em consequência tornaram o México uma colônia escrava” [2]. Os capitais norte americanos, direta ou indiretamente, obtinham robustos benefícios de sua associação com a ditadura. “A norte americanização do México, da qual Wall Street tanto se jacta”, dizia Turner, “está sendo executada como se fosse uma vingança.”
     Em 1845, os Estados Unidos tinham anexado os territórios mexicanos do Texas e da Califórnia, onde restabeleceram a escravatura em nome da civilização, e na guerra o México perdeu também os atuais estados norte americanos Colorado, Arizona, Novo México, Nevada e Utah. Mais de metade do país. O território roubado equivalia à atual superfície da Argentina. E diz-se desde então: “Pobrezinho do México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”. O resto de seu território mutilado sofreu depois a invasão dos investimentos norte-americanos no cobre, no petróleo, na borracha, no açúcar, no sistema bancário e nos transportes. A empresa American Cordage Trust, filial da Standard Oil, em absoluto não estava alheia ao extermínio dos índios maias e yaquis nas plantações de sisal iucateques, campos de concentração onde os homens e as crianças eram comprados e vendidos como animais, pois esta era a empresa que adquiria mais de metade do sisal produzido e lhe convinha dispor da fibra a preço mais em conta. Outras vezes, como descobriu Turner, a exploração da mão de obra escrava era direta. Um administrador norte-americano lhe contou que pagava 50 pesos por cabeça pelos lotes de peões recrutados “e os conservamos enquanto duram (...). Em menos de três meses enterramos mais da metade”. [3]
     Em 1910, chegou a hora do desquite. O México em armas se insurgiu contra Porfirio Díaz. Um caudilho do campo logo encabeçou a revolta do sul: Emiliano Zapata, o mais puro dos líderes da revolução, o mais leal à causa dos pobres, o mais fervoroso em sua vontade de redenção social.
     As últimas décadas do século XIX tinham sido tempos de feroz espoliação das comunidades agrárias de todo o México; os povoados e as aldeias de Morelos sofreram uma febril caçada às terras, às águas e aos braços, que as plantações de cana-de-açúcar devoravam em sua expansão. As fazendas açucareiras dominavam a vida do estado, e sua prosperidade tinha feito nascer engenhos modernos, grandes destilarias e ramais ferroviários para transportar o produto. Na comunidade de Anenecuilco, onde vivia Zapata, que a ela se dedicava de corpo e alma, os camponeses indígenas reivindicavam sete séculos de contínuo trabalho naquele solo: estavam ali desde antes da chegada de Hernán Cortez. Os que se queixavam em voz alta eram levados para os campos de trabalhos forçados de Yucatán. Como em todo o estado de Morelos, cujas melhores terras estavam nas mãos de dezessete proprietários, os trabalhadores viviam muito pior do que os cavalos de polo que os latifundiários mimavam em seus estábulos de luxo. Uma lei de 1909 determinou que novas terras fossem arrebatadas aos seus legítimos donos, e acabou por incendiar as já incandescentes contradições sociais. Emiliano Zapata, um ginete de poucas palavras, famoso por ser o maior domador do estado e unanimemente respeitado por sua honestidade e sua coragem, tornou-se guerrilheiro. “Agarrados à cola do cavalo do chefe Zapata”, os homens do sul formaram rapidamente um exército libertador. [4]
     Caiu Diaz, e Francisco Madero, na garupa da revolução, chegou ao governo. As promessas de reforma agrária se dissolveram em seguida numa nebulosa institucional. No dia de seu casamento, Zapata teve de interromper a festa: o governo enviara as tropas do general Victoriano Huerta para esmagá-lo. O herói, segundo os doutores da cidade, transformava-se em “bandido”. Em novembro de 1911, Zapata proclamou seu Plano de Ayala, ao mesmo tempo em que anunciava: “Estou disposto a lutar contra tudo e contra todos”. O plano propugnava a nacionalização total dos bens dos inimigos da revolução, a devolução a seus legítimos proprietários das terras roubadas pela avalanche latifundiária e a expropriação de uma terça parte das terras dos fazendeiros restantes. O Plano de Ayala tornou-se um imã irresistível que atraía milhares e milhares de camponeses às hostes do caudilho revolucionário. Zapata denunciava “a infame pretensão” de resumir tudo a uma simples mudança de pessoas no governo: a revolução não era feita para isso.
     Durou cerca de dez anos a luta. Contra Díaz, contra Madero, logo contra Huerta, o assassino, e mais tarde contra Venustiano Carranza. O longo tempo da guerra foi também um período de contínuas intervenções norte americanas: os marines se encarregaram de dois desembarques e vários bombardeios, os agentes diplomáticos tramaram inúmeras conjuras políticas, e o embaixador Henry Lane Wilson organizou com êxito o crime do presidente Madero e de seu vice. Mas as sucessivas mudanças no poder não alteravam a fúria das agressões contra Zapata e suas forças, porque elas eram a expressão não mascarada da luta de classes no fundo da revolução nacional: o perigo real. Os governos e os jornais clamavam contra “as hordas vandálicas” do general de Morelos. Poderosos exércitos foram enviados contra Zapata, um atrás do outro. Os incêndios, as matanças, a devastação dos povoados, sempre resultavam inúteis. Homens, mulheres e crianças morriam fuzilados ou enforcados como “espiões zapatistas”, e às carnificinas seguiam-se as proclamações de vitória: a limpeza tinha sido um êxito. Mas em pouco tempo voltavam a crepitar as fogueiras dos transumantes acampamentos revolucionários nas montanhas do sul. Em várias oportunidades as forças de Zapata contra-atacavam vitoriosamente até os subúrbios da capital. Depois da queda do regime de Huerta, Emiliano Zapata e Pancho Villa, o “Átila do Sul” e o “Centauro do Norte”, entraram na cidade do México a passo de vencedores e por um fugaz período compartilharam o poder. Em fins de 1914, abriu-se um breve ciclo de paz que permitiu a Zapata pôr em prática, em Morelos, uma reforma agrária ainda mais radical do que aquela anunciada no Plano de Ayala. O fundador do Partido Socialista e alguns militantes anarcossindicalistas influíram muito neste processo: radicalizaram a ideologia do movimento, sem ferir suas raízes tradicionais, e lhe proporcionaram uma imprescindível capacidade de organização.
     A reforma agrária se propunha “destruir na raiz e para sempre o injusto monopólio da terra, para construir um estado social que garanta plenamente o direito natural que todo homem tem sobre a extensão de terra necessária à sua subsistência e a de sua família”. Restituíam-se as terras às comunidades e aos indivíduos despojados a partir da lei de desamortização de 1856, fixavam-se os limites máximos de terra segundo o clima e a qualidade natural, e se declaravam de propriedade nacional os prédios dos inimigos da revolução. Esta última decisão política tinha, como na reforma agrária de Artigas, um claro sentido econômico: os inimigos eram os latifundiários. Formaram-se escolas de técnicos, fábricas de ferramentas e um banco de crédito rural; nacionalizaram-se os engenhos e as destilarias, que se tornaram serviços públicos. Um sistema de democracias locais colocava nas mãos do povo as fontes do poder político e a sustentação econômica. Nasciam e se difundiam as escolas zapatistas, organizavam-se juntas populares para a defesa e a promoção dos princípios revolucionários – uma democracia autêntica ganhava forma e força. Os municípios eram unidades nucleares de governo, e as pessoas elegiam suas autoridades, seus tribunais e suas polícias. Os chefes militares deviam submeter-se à vontade das populações civis organizadas. Não era a vontade dos burocratas e dos generais que impunha os sistemas de produção e de vida. A revolução se enlaçava com a tradição e operava “de conformidade com o costume e usos de cada lugar (...), isto é, se um dado lugar prefere o sistema comunal, que seja, e se um outro dado lugar deseja o fracionamento da terra para reconhecer sua pequena propriedade, assim será”. [5]
     Na primavera de 1915, todos os campos de Morelos já estavam cultivados, principalmente com milho e outros alimentos. A cidade do México, entrementes, padecia de uma iminente fome por falta de alimentos. Venustiano Carranza havia conquistado a presidência e, por sua vez, ditou uma reforma agrária, mas seus chefes em seguida se apossaram dos respectivos benefícios; em 1916, abalançaram-se com bons dentes sobre Cuernavaca, capital de Morelos, e as demais comarcas zapatistas. As culturas, que tinham voltado a dar frutos, os minerais, as peles e maquinários significavam um excelente butim para os oficiais que avançavam queimando tudo à sua passagem e, ao mesmo tempo, proclamando “uma obra de reconstrução e progresso”.
     Em 1919, um estratagema e uma traição acabaram com a vida de Emiliano Zapata. Mil homens emboscados descarregaram seus fuzis em seu corpo. Morreu com a mesma idade de Che Guevara. Sobreviveu-o a lenda: o cavalo alazão que galopava sozinho, para o sul, pelas montanhas. Mas não só a lenda. Toda Morelos se determinou a “consumar a obra do reformador, vingar o sangue do mártir e seguir o exemplo do herói”, e o país inteiro lhe fez eco. Passou o tempo, e com a presidência de Lázaro Cárdenas (1934-1940) as tradições zapatistas recobraram vida e vigor através da reforma agrária implantada em todo o México. Foram expropriados, sobretudo em seu período de governo, 67 milhões de hectares em poder de empresas estrangeiras e nacionais, e os camponeses receberam, além da terra, créditos, educação e meios de organização para o trabalho. A economia e a população do país tinham começado sua acelerada ascensão; multiplicou-se a produção agrícola ao mesmo tempo em que o país inteiro se modernizava e se industrializava. Cresceram as cidades e se ampliou, em extensão e profundidade, o mercado de consumo.
     Mas o nacionalismo mexicano não derivou para o socialismo e, em consequência, como ocorreu com outros países que tampouco deram o salto decisivo, não realizou cabalmente seus objetivos de independência econômica e justiça social. Um milhão de mortos haviam tributado seu sangue, nos longos anos de revolução e de guerra, “a um Huitzilopochtli mais cruel, mais duro e insaciável do que aquele adorado pelos nossos antepassados: o desenvolvimento capitalista do México, nas condições impostas pela subordinação ao imperialismo” [6]. Diversos estudiosos investigaram os sinais de deterioração das velhas bandeiras. Edmundo Flores afirma, em publicação recente, que “atualmente 60 por cento da população total do México têm uma renda inferior a 120 dólares por ano e passa fome” [7]. Oito milhões de mexicanos não consomem praticamente nada além de feijões, tortas de milho e pimenta [8]. O sistema não revela suas profundas contradições tão só quando tombam mortos 500 estudantes na matança de Tlatelolco. Recolhendo números oficiais, Alonso Aguilar chega à conclusão de que há no México uns 2 milhões de camponeses sem terra, 3 milhões de crianças que não recebem educação, cerca de 15 milhões de analfabetos e 5 milhões de pessoas descalças [9]. A propriedade coletiva das terras indígenas se pulveriza continuamente, e junto com a multiplicação dos minifúndios, que também se fragmentam, fizeram sua aparição um latifundismo de novo cunho e uma nova burguesia agrária dedicada à agricultura em grande escala. Os terras-tenentes e intermediários nacionais que conquistaram uma posição dominante trampolinando o texto e o espírito das leis são, por sua vez, dominados, e num livro recente são considerados incluídos nos termos “and company” da empresa Anderson Clayton [10]. No mesmo livro, o filho de Lázaro Cárdenas diz que “os latifúndios simulados se constituíram, preferencialmente, nas terras de melhor qualidade, nas mais produtivas”.
     O romancista Carlos Fuentes reconstituiu, a partir da agonia, a vida de um capitão do exército de Carranza que, na guerra e na paz, vai abrindo caminho a tiros e com a força da astúcia [11]. Homem de muito humilde origem, Artemio Cruz, com a passagem dos anos, vai deixando para trás o idealismo e o heroísmo da juventude: usurpa terras, funda e multiplica empresas, elege-se deputado e, em rutilante carreira, ascende aos píncaros sociais, acumulando fortuna, poder e prestígio através dos negócios, dos subornos, da especulação, dos grandes golpes de audácia e da repressão a sangue e fogo da indiada. O processo do personagem se parece com o processo do partido que monopoliza a vida política do país em nossos dias. Ambos caíram para cima.

continua na página 206...
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[1] SILVA HERZOG, Jesús. Breve historia de la revolución mexicana. México; uenos Aires, 1960.
[2] TURNER, John Kenneth. México bárbaro. México, 1967. Publicado nos Estados Unidos em 1911. 
[3] TURNER, op. cit. O México era o país preferido pelos investimentos norte americanos: reunia em fins do século pouco menos da terça parte dos capitais dos Estados Unidos aplicados no exterior. No estado de Chuihuahua e outras regiões do norte, William Randolph Hearst, o célebre Citizen Kane do filme de Welles, possuía mais de três milhões de hectares. CARMONA, Fernando. El drama de América Latina. El caso de México. México, 1964. 
[4] WOMACK JR., John. Zapata y la revolución mexicana. México, 1969. 
[5] WOMACK JR., op. cit. 
[6] CARMONA, op. cit.  
[7] FLORES, Edmundo. “Adónde va la economía de México?” In: Comercio Exterior, v.XX (1). México, janeiro de 1970. 
[8] FLORES, Ana María. La magnitude del hambre en México. México, 1961. 
[9] AGUILAR & CARMONA, op. cit. Veja-se também, dos mesmos autores e MONTAÑO, Guillermo, & CARRIÓN, Jorge. El milagro mexicano. México, 1970. 
[10] STAVENHAGEN, Rodolfo, PAZ SÁNCHEZ, Fernando, CÁRDENAS, Cuauhtémoc & ONILLA SÁNCHEZ, Arturo. Neolatifundismo y explotación. De Emiliano Zapata a Anderson Clayton and Co. México, 1968.
[11] FUENTES, Carlos. La muerte de Artemio Cruz. México, 1962.   
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: ARTEMIO CRUZ e a segunda morte de EMILIANO ZAPATA (20)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

MPB: Eu e a Brisa

Johnny Alf

Um dos maiores gênios da moderna musica brasileira: "GeniAlf". Negro, pobre, gay e suburbano, Johnny Alf, é o verdadeiro pai da bossa nova.

Eu e a Brisa 
(Johnny Alf) (1969)




Eu e a Brisa

Ah, se a juventude que essa brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só pra ser um sonho

Daí então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria

E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, ó brisa
Fica pois talvez, quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar

E depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, ó brisa
Fica pois talvez, quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar
Junto a mim queira ficar

Compositor: Johnny Alf.



JOHNNY ALF: 
A Vida E Obra De Um Dos PRECURSORES DA BOSSA NOVA





Programa do Jô Soares - Emílio Santiago canta JOHNNY ALF





Johnny Alf fala sobre o processo de composição de "Eu e a Brisa"
Entrevista feita para o documentário "Uma Noite em 67" que acabou não entrando no corte final. Quem conduz a entrevista é o Ricardo Calil






Johnny Alf - Rapaz De Bem (Ao Vivo No Rio De Janeiro / 2005)




Lindo lago do amor / Morte e Vida Severina / Eu e a Brisa /   

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (I.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

I
 

     As quatro horas da manhã, a lua já desaparecera e a noite era A muito escura. Tudo dormia ainda na casa dos Deneulin; a velha casa de tijolos permanecia muda e sombria, com portas e janelas fechadas, ao fundo de um vasto jardim maltratado, que a separava da galeria Jean-Bart. Do outro lado passava a estrada deserta de Vandame, um grande burgo, escondido por trás da floresta, a três quilômetros aproximadamente.
     Deneulin, cansado por ter passado na véspera boa parte do dia no fundo da mina, roncava voltado para a parede, quando sonhou que o chamavam. Acabou acordando e ouviu realmente uma voz; correu para a janela. Era um dos seus contramestres, em pé no jardim. 
— Que há? — perguntou ele. 
— Uma revolta, senhor! Metade dos homens não quer trabalhar e não deixa os outros descerem.

     Não compreendia direito, ainda com a cabeça pesada e cheia de sono, transido pelo grande frio, como por uma ducha gelada. 

— Obrigue-os a descer, com todos os diabos! — gaguejou ele. 
— Há uma hora que a coisa dura — continuou o contramestre. — Tivemos a ideia de chamá-lo. Só o senhor talvez consiga fazê-los voltar à razão. 
— Está bem, já vou.

     Vestiu-se correndo, o espírito já claro, muito inquieto. Poderiam pilhar a casa, nem a cozinheira nem p criado se teriam mexido. Mas do outro lado do patamar vozes alarmadas cochichavam. Ao sair. viu abrir-se a porta do quarto das filhas e ambas aparecerem, vestidas de roupões brancos, enfiados às pressas.

— Que está acontecendo, papai?

     A mais velha, Lucie, já tinha vinte e dois anos, era alta, trigueira, de aspecto magnífico, enquanto Jeanne, a caçula, com apenas dezenove anos, era pequena, de cabelos dourados, de uma graça meiga. 

— Nada grave — respondeu ele para acalmá-las. — Parece que uns baderneiros estão procurando barulho na mina. Vou ver.

     Mas elas reclamaram, não queriam deixá-lo partir sem antes tomar algo quente, senão voltaria doente, com o estômago arruinado, como sempre. Ele disse que não, jurou que tinha pressa. 

— Escuta — decidiu Jeanne saltando-lhe ao pescoço —, tu vais beber um copinho de rum e comer uns biscoitos, porque senão não te largo, e tens de me levar contigo.

     Teve de submeter-se, insistindo que os biscoitos iam fazer-lhe mal. Já elas desciam na frente dele, cada uma com seu castiçal. Embaixo, na sala de jantar, serviram-no às pressas, uma despejando o rum num cálice, a outra correndo à copa em busca de um pacote de biscoitos.
     Tendo perdido a mãe muito cedo, tinham-se educado sozinhas, bastante mal, estragadas pela indulgência do pai, a primogênita possuída pelo sonho de cantar em teatros, a mais jovem, louca por pintura, de uma ousadia de gosto que a singularizava. Mas, quando tiveram de diminuir os gastos, devido a grandes dificuldades nos negócios, brotaram de repente dessas moças de ar extravagante duas donas-de-casa muito sábias e espertas, cujo olho descobria erros de cêntimos nas contas. Hoje, com seus ares independentes de artistas, geriam o dinheiro, economizavam soldos, discutiam com os fornecedores, consertavam constantemente os vestidos, conseguiam, enfim, tornar aceitável a penúria crescente da casa. 

— Come, papai — disse Lucie.

     Notando a preocupação em que ele afundava, silencioso, sombrio, ficou cheia de medo. 

— É coisa assim tão grave para fazeres essa cara? Fala... Ficaremos contigo, poderão almoçar muito bem sem a gente.

     Falava de um passeio projetado para essa manhã. A Sra. Hennebeau devia ir na sua caleça buscar primeiro Cécile, na casa dos Gregoire, depois passaria para apanhá-las. Todas juntas iriam a Marchiennes, almoçar nas Forjas, aonde tinham sido convidadas pela mulher do diretor. Era uma ocasião para visitar as oficinas, os altos-fornos e as fornalhas de coque. 

— Claro que ficamos — declarou Jeanne por sua vez.

     Mas ele zangou-se. 

— Que ideia! Já disse que não é nada. Por favor, voltem para a cama e estejam prontas às nove horas, como ficou combinado.

     Beijou-as e deu-se pressa em partir. Ouviu-se o barulho de suas botas cada vez mais fraco na terra coberta de gelo do jardim.
     Jeanne fechou cuidadosamente a garrafa de rum, enquanto Lucie guardava os biscoitos a chave.
     A peça tinha a limpeza fria das salas onde a mesa é parcimoniosamente servida. Ambas aproveitaram aquela descida matinal para ver se tudo tinha sido arrumado de véspera. Um guardanapo fora deixado fora do lugar, teriam de chamar a atenção do criado. Por fim, subiram.
     Enquanto atalhava pelos caminhos estreitos da horta, Deneulin pensava na sua fortuna comprometida, no dinheiro de Montsou, no milhão que empatara, planejando decuplicá-lo, e que agora corria riscos tão sérios. Fora uma série ininterrupta de golpes de má sorte, de consertos enormes e imprevistos, de condições de exploração das mais ruinosas, e depois aquela catastrófica crise industrial, justamente no momento em que os lucros começavam. Se houvesse greve na sua mina, estaria perdido. Empurrou um pequeno portão: as edificações da mina eram contornos na treva, demarcados apenas por alguns lampiões.
     A Jean-Bart não tinha a importância da Voreux, mas as instalações renovadas faziam dela uma bela mina, segundo os engenheiros. Não se haviam contentado em alargar o poço para um metro e cinquenta e em aprofundá-lo até setecentos e oito metros, tinham-no reequipado totalmente: máquina nova, elevadores novos, todo o material novo, instalado segundo os últimos aperfeiçoamentos da ciência. Havia até um toque de elegância nas construções, o galpão da triagem com lambrequins recortados, torre do sino de rebate com relógio, a sala da recebedoria e a casa da máquina com uma abóbada estilo capela renascentista, encimada por uma chaminé em espiral axadrezada, feita de tijolos pretos e vermelhos. A bomba estava colocada no outro poço da concessão, na velha galeria Gaston-Marie, reservada unicamente para o esgoto. À direita e à esquerda da extração, a Jean-Bart só tinha dois poços, o do ventilador a vapor e o das escadas.
     De madrugada, a partir das três horas, Chaval já lá estava para convencer e incitar os camaradas, dizendo que era preciso imitar os trabalhadores de Montsou e pedir um aumento de cinco cêntimo por vagonete. Em breve, os quatrocentos operários da extração tinham abandonado o vestuário e aglomeravam-se na sala da recebedoria, num tumulto de gestos e gritos. Os que queriam trabalha empunhavam suas lâmpadas, estavam descalços e mantinham a pá ou a picareta debaixo do braço, ao passo que os outros, ainda de tamancos, o gibão sobre os ombros por causa do frio intenso, impediam o acesso ao poço. A essa altura, os contramestres já estavam roucos, tentando impor ordem, suplicando que fossem sensatos que deixassem descer aqueles que estavam dispostos a trabalhar.
     Chaval ficou fora de si ao ver Catherine de calças e jaqueta, a cabeça enrolada na coifa azul. Ao levantar-se ordenara-lhe brutalmente que ficasse deitada, mas ela, desesperada com aquela suspensão do trabalho, fora para a mina, porque ele nunca lhe dava dinheiro e, muitas vezes, era ela quem pagava por ambos. Que iria acontecer-lhe se ficasse sem ganhar nada? Um medo a obcecava, o medo de uma casa pública de Marchiennes, onde terminavam as operadoras de vagonetes sem pão e sem teto. 

— Diacho! — gritou Chaval. — Quem te mandou meter o nariz aqui?

     Ela tartamudeou que não tinha recursos e queria trabalhar. 

— Então estás contra mim, cadela? Volta já para casa ou eu te levo a pontapés na bunda!

     Cheia de medo, ela recuou, mas não foi embora, resolvida a ver como iam acabar as coisas.
     Deneulin chegava pela escada da triagem. Apesar da luz insuficiente dos lampiões, abarcou a cena com um olhar penetrante, estudando aquela multidão envolvida em treva, da qual conhecia todos os rostos: britadores, carregadores, ascensoristas, operadoras de vagonetes e até mesmo os meninos aprendizes. Dentro do galpão, ainda novo e limpo, o trabalho, parado, esperava; a máquina, sob pressão, emitia ligeiros assobios de vapor; os elevadores permaneciam suspensos dos cabos imóveis; os vagonetes, abandonados no caminho, atravancavam o recinto. Apenas oitenta lanternas tinham saído, as outras ainda flamejavam no depósito. Mas tinha certeza de que com uma palavra sua todo o trabalho recomeçaria.

— Então, qual é o problema, meus filhos? — perguntou ele com voz cheia. — Não estão contentes? Expliquem, porque havemos de entender-nos.

     Ainda que sempre exigindo grande esforço dos seus homens, de ordinário mostrava-se paternal com eles. Autoritário, de gestos bruscos, os procurava primeiro conquistá-los com uma bonomia que tinha lampejos altissonantes, e muitas vezes fazia-se querer; os operários respeitavam nele, sobretudo, o homem corajoso, sempre veios com eles, o primeiro no perigo, tão logo um acidente lançava pânico na mina. Já por duas vezes, após explosões de grisu, fora descido aos locais de perigo, amarrado pelos sovacos com uma corda, quando os mais valentes recuavam. 

— Espero que não façam que me arrependa por ter-me responsabilizado por vocês — continuou ele. — Bem sabem que não aceitei um destacamento de policiais aqui na mina... Falem calmamente, estou escutando.

     Todos se calaram, medrosos, procurando afastar-se dele. Foi Chaval quem acabou por dizer: 

— Sr. Deneulin, o que há é que não podemos continuar trabalhando sem um aumento de cinco cêntimos por vagonete.

     Ele pareceu surpreso. 

— O quê? Cinco cêntimos? A propósito de que esse pedido? Eu não me queixo do revestimento que vocês fazem, não quero impor-lhes uma nova tarifa, como a administração de Montsou. 
— É verdade, mas os companheiros de Montsou estão certos. Eles não aceitam a tarifa e exigem um aumento de cinco cêntimos porque não se consegue fazer bom trabalho com as atuais empreitadas... Queremos mais cinco cêntimos, não é verdade, pessoal?

     Alguns aprovaram, o murmúrio recomeçou, acompanhado de gestos violentos. Pouco a pouco iam apertando o círculo.

continua na página 254...
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Quarta Parte - (VII.a) / Quarta Parte - (VII.b) / Germinal: Quinta Parte - (I.a) /   
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.