quarta-feira, 11 de março de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Este, mantendo o ouvido mais penetrante)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Este, mantendo o ouvido mais penetrante que a vista, lançou à Patroa um olhar logo desviado de míope e de filósofo. Se esses olhos eram menos agudos, os de seu espírito em compensação lançavam sobre as coisas um olhar mais vasto. Via o pouco que se podia esperar das afeições humanas, e resignava-se. Certamente sofria com isso. Ocorre que, mesmo aquele que numa só noite, num meio onde tem o hábito de agradar, adivinha que o acharam ou muito frívolo, ou por demais pedante, ou demasiado canhestro, ou excessivamente atrevido, etc., volta infeliz para casa. Muitas vezes, foi por causa de uma questão de opiniões, sistema, que ele pareceu absurdo ou antiquado aos outros. Muitas vezes sabe perfeitamente que esses outros não se lhe igualam em valor. Pode facilmente dissecar os sofismas de que os outros se valeram para condená-los tacitamente, quer ir fazer uma visita, escrever uma carta: mais prudente, não faz nada, espera o convite da semana seguinte. Por vezes também essa desgraças, em vez de terminarem numa noite, duram meses. Devidas à instabilidade dos julgamentos humanos, aumentam-nas ainda mais. Pois apenas sabe que a Sra. X... o despreza, sentindo que é estimado na casa da Sra. Y.., declara ser esta bem superior e emigra para o seu salão. Aliás, não é aqui o local de pintar esses homens, superiores à vida mundana, mas que não tendo sabido realizar-se fora dela, felizes por serem acolhidos, amargurados quando os desconhecem, descobrindo todos os anos as taras da dona da casa a quem incentivavam, e o gênio da que não tinham apreciado seu devido valor, arriscando-se a retornar a seus primeiros amores quando tiverem sofrido os inconvenientes que igualmente traziam os segundos, e quando os desses primeiros estiverem um tanto esquecidos. Por essas pequenas desgraças pode-se avaliar o desgosto que causava a Brichot aquela que ele sabia definitiva. Não ignorava que a Sra. Verdurin ria às vezes publicamente dele, e até de suas enfermidades, e, sabendo o pouco que se deve esperar das afeições humanas, submetera-se, e nem por isso deixava de considerar a Patroa como sua melhor amiga. Mas, ao rubor que se espalhou pelo rosto do universitário, a Sra. Verdurin compreendeu que ele, ouvira e prometeu a si mesma ser amável com ele durante a noite. Não puder deixar de lhe dizer que ela era muito pouco para com Saniette. 

- Como não sou amável! Mas ele nos adora, o senhor não sabe o que somos para ele! Meu marido fica às vezes um pouco irritado com sua estupidez, e é preciso convir que tem razão, mas, nesses momentos, por que é que ele não reage um pouco mais em vez de assumir esses ares de cão escorraçado? Não é franco. Não gosto disto. O que não impede que eu tente sempre acalmar o meu marido, porque, se ele vai muito longe, Saniette poderia não voltar; e isso eu não desejaria, pois, aqui para nós, ele não tem um só tostão, precisa desses jantares. E depois, afinal, se ele fica melindrado, se não volta mais, não é da minha conta; quando se tem necessidade dos outros que se procure não ser tão idiota. 
- O ducado de Aumale esteve durante muito tempo na nossa família, antes de passar para a Casa da França - explicava o Sr. de Charlus ao Sr. de Cambremer, diante de Morel embasbacado e para quem, a falar a verdade, toda essa dissertação era, se não endereçada, ao menos destinada. - Tínhamos precedência sobre todos os príncipes estrangeiros; poderia dar-lhe cem exemplos. A princesa de Croyl, tendo desejado, no enterro de Monsieur, pôr-se de joelhos junto da minha trisavó, esta lhe observou abertamente que ela não tinha direito ao lajedo, mandou retirá-la pelo oficial de serviço e levou o caso ao rei, que ordenou à Sra. de Croy que pedisse desculpas à Sra. de Guermantes na casa desta. Tendo o duque de Borgonha vindo à nossa casa com os aguazis, a varinha erguida, obtivemos do rei que a mandasse abaixar. Sei que não fica bem falar das virtudes dos seus. Mas é bem conhecido que os nossos sempre estiveram à frente na hora do perigo. Nosso grito de armas, quando deixamos o dos duques de Brabant, foi "Passavant". De modo que esse direito de ser em toda parte os primeiros, que tínhamos reivindicado durante séculos na guerra, é bem legítimo em suma que o tenhamos depois obtido na Corte. E, que diabo, ali sempre nos foi reconhecido. Dar-lhe-ei ainda como prova a princesa de Baden. Como se esquecera do seu posto, chegando até a disputar o lugar a essa mesma duquesa de Guermantes de que lhe falei há pouco, e quisera entrar primeiro no Paço, aproveitando um movimento de hesitação que talvez tivesse tido minha parenta (embora não houvesse razão para tal), o rei exclamou vivamente: "Entre, entre, minha prima; a senhora de Baden sabe muito bem o que lhe deve." E era como duquesa de Guermantes que possuía esse lugar, embora por si mesma tivesse uma origem bastante elevada, visto que era, pelo lado materno, sobrinha da rainha da Polônia, da rainha da Hungria, do Eleitor Palatino, do príncipe de Savóia-Carignan e do príncipe de Hanôver, depois rei da Inglaterra. 
- Maecenas atavus edite regibus!" - [Citação de Horácio (Odes, livro I, 1, primeiro verso): "Mecenas, descendente de régios ancestrais." Mecenas era o protetor de Virgílio e Horácio, e seu nome se tornou sinônimo de protetor das artes. (N. do T)] - disse o Sr. de Brichot, dirigindo-se ao Sr. de Charlus, que respondeu com uma leve inclinação de cabeça a essa cortesia. 
- Que está dizendo? - perguntou a Sra. Verdurin a Brichot, a quem desejaria reparar as palavras ditas pouco antes. 
- Eu falava, Deus me perdoe, de um dândi que era a flor da sociedade (a Sra. Verdurin franziu as sobrancelhas) lá pelo século de Augusto (a Sra. Verdurin, tranqüilizada pela distância dessa sociedade, assumiu uma expressão mais serena), de um amigo de Virgílio e Horácio, os quais levavam a adulação ao ponto de dizer-lhe na cara as suas ascendências mais que aristocráticas, régias; numa palavra, referia-me a Mecenas, um rato de biblioteca que era amigo de Horácio, de Virgílio e de Augusto. Estou certo de que o Sr. de Charlus sabe muito bem, sob todos os aspectos, quem foi Mecenas. -

     Olhando graciosamente de esguedelha para a Sra. Verdurin, porque a ouvira convidar Morel daí a dois dias, e receando não ser convidado, o Sr. de Charlus disse:

- Creio que Mecenas era algo como o Verdurin da Antigüidade. -

     A Sra. Verdurin só pôde reprimir a meio um sorriso de satisfação. Dirigiu-se a Morel: 

- É muito agradável o amigo de seus pais - disse. - Vê-se que é um homem instruído, bem educado. Fará boa figura no nosso pequeno núcleo. Onde mora ele em Paris?

     Morel guardou um silêncio altivo e pediu somente para jogar uma partida de cartas. A Sra. Verdurin exigiu primeiro um pouco de violino. Para espanto geral, o Sr. de Charlus, que jamais falava de seus grandes dons, acompanhou no mais puro estilo o último trecho (inquieto, atormentado, schumanesco, mas enfim anterior à sonata de Franck) da sonata para piano e violino de Fauré. Senti que ele daria a Morel, maravilhosamente dotado para o som e o virtuosismo, precisamente o que lhe faltava, a cultura e o estilo. Mas pensei com curiosidade naquilo que une, num mesmo homem, uma tara física e um dom do espírito. O Sr. de Charlus não era muito diferente do irmão, o duque de Guermantes. Ainda há pouco (e isso era raro), falara num francês tão ruim como o deste. Censurando-me (sem dúvida para que eu falasse em termos elogiosos de Morel à Sra. Verdurin) por jamais ir visitá-lo, e invocando minha discrição, dissera me: 

- Mas já que sou eu quem lhe pede, só eu é que poderia formalizar-me. -

     Isto poderia ser dito pelo duque de Guermantes. Em resumo, o Sr. de Charlus não passava de um Guermantes. Mas bastara que a natureza desequilibrasse suficientemente nele o sistema nervoso para que, em vez de uma mulher, como o teria feito seu irmão, ele preferisse um pastor de Virgílio ou um aluno de Platão; e logo as qualidades desconhecidas do duque de Guermantes e freqüentemente ligadas a esse desequilíbrio tinham feito do Sr. de Charlus um delicioso pianista, um pintor amador que possuía um certo gosto, um conversador eloqüente. O estilo rápido, ansioso, encantador, com que o Sr. de Charlus executava o trecho schumanesco da sonata de Fauré quem poderia discernir que esse estilo tinha o seu correspondente (não me atrevo a dizer a sua causa) nas características inteiramente físicas, nas imperfeições nervosas do Sr. de Charlus? Mais tarde explicaremos esta expressão - "imperfeição nervosa" e por quais motivos um grego dos tempos de Sócrates e um romano dos tempos de Augusto podiam ser o que se sabe enquanto permaneciam homens absolutamente normais, e não homens-fêmeas como os vemos atualmente. Assim como reais inclinações artísticas, não chegadas a termo, o Sr. de Charlus tinha, bem mais que o duque, amado sua mãe, amado a esposa, e até anos depois, quando lhe falavam nelas, brotavam-lhe lágrimas, porém superficiais, como a transpiração de um homem muito gordo, cuja testa por um nada se umedece de suor. Com a diferença de que a este se diz: "Como o senhor está com calor!" enquanto se finge não ver o choro dos outros. Finge-se, isto é, finge-o a sociedade; pois o povo se inquieta de ver chorar, como se um soluço fosse mais grave que uma hemorragia. A tristeza que se seguiu à morte da esposa, graças ao hábito de mentir, não excluía no Sr. de Charlus uma vida que não lhe era adequada. Ainda mais tarde, ele teve a ignomínia de dar a entender que, durante a cerimônia fúnebre, achara um meio de pedir o nome e o endereço ao menino do coro. E talvez fosse verdade. Findo o trecho musical, permiti-me reclamar Franck, o que pareceu causar tanto sofrimento à Sra. de Cambremer que não insisti. 

- O senhor não pode gostar disso - disse-me ela. Em seu lugar, pediu as festas de Debussy, o que fez gritarem: 
- Ah, é sublime! desde a primeira nota.

     Porém Morel percebeu que só conheciam os primeiros compassos e, por brincadeira, sem qualquer intenção de mistificar, principiou uma marcha de Meyerbeer. Infelizmente, como fez poucas transições e não avisou nada, todo mundo acreditou que ainda se tratava de Debussy, e continuaram a exclamar "Sublime!" Morel, revelando que o autor não era o de Pelléas, mas o de Roberto o Diabo, causou certa frieza. A Sra. de Cambremer não teve tempo de o sentir por si mesma, pois acabava de descobrir um caderno de Scarlatti e se lançara sobre ele num ímpeto de histérica. 

- Oh, toque isto, tome, este aqui, é divino! - gritava.

     No entanto, desse autor por tanto tempo desprezado, e erguido há pouco às mais altas honrarias, o que ela escolhia em sua impaciência febril era um desses trechos malditos que muitas vezes nos impediram de dormir, e que uma aluna desapiedada recomeça indefinidamente no andar vizinho ao nosso. Mas Morel estava farto de música, e, como fazia questão de jogar cartas, o Sr. de Charlus, para participar da partida, desejaria um uíste. 

- Há pouco, ele disse ao Patrão que era príncipe - disse Ski à Sra. Verdurin -, mas isto não é verdade; ele pertence a uma simples família burguesa de pequenos arquitetos. 
- Quero saber o que o senhor dizia de Mecenas. Isto me diverte, e muito! - repetiu a Sra. Verdurin a Brichot, com uma amabilidade que o deixou exaltado. Assim, para brilhar aos olhos da Patroa e talvez aos meus: 
- Mas, para falar a verdade, senhora, Mecenas me interessa principalmente por ter sido o primeiro apóstolo marcante desse Deus chinês que hoje conta na França mais seguidores do que Brama, que o próprio Cristo, o todo-poderoso Deus Que-Mim-Porta. -

     A Sra. Verdurin já não se contentava, nesses casos, em mergulhar a cabeça nas mãos. Abatia-se com o ímpeto dos insetos chamados efêmeros sobre a princesa Sherbatoff; se esta estivesse a pouca distância, a Patroa se agarrava à axila da princesa, fincava-lhe as unhas e, por alguns instantes, ocultava a cabeça como uma criança que brinca de esconde-esconde. Dissimulada por esse anteparo protetor, podia ela pretender que ria até as lágrimas e também podia perfeitamente não pensar, em nada, como as pessoas que, enquanto fazem uma oração um tanto longo, têm a sábia precaução de esconder o rosto nas mãos. A Sra. Verdurin imitava ao ouvir os quartetos de Beethoven, a um tempo para mostrar que os considerava como uma oração, e para que não vissem que dormia. 

- Falo com toda a seriedade, senhora - disse Brichot. - Acho que hoje é demasiado grande o número de pessoas que passam o tempo todo considerando que seu umbigo é o centro do mundo. Em boa doutrina, não tenho coisa alguma a objetar e não sei qual nirvana que tende a nos dissolver no grande Todo (o qual, como Munique e Oxford, está muito mais perto de Paris do que Asnieres ou Bois-Colombes), mas não é nem de um bom francês, nem mesmo de um bom europeu, quando os japoneses estão talvez às portas da nossa Bizâncio, que antimilitaristas socializados discutam gravemente acerca das virtudes cardeais do verso livre. -

     A Sra. Verdurin julgou que podia largar a espádua machucada da princesa e deixou reaparecer seu rosto, não sem fingir que enxugava os olhos e recuperar o fôlego duas ou três vezes. Mas Brichot queria que eu tivesse a minha parte no festim, e, tendo aprendido, nas sustentações de teses a que presidia como ninguém, que nunca se lisonjeia tanto a juventude como repreendendo-a, dando-lhe importância, fazendo-se tratar por ela de reacionário: 

- Eu não gostaria de blasfemar contra os deuses da juventude - disse ele, lançando-me esse olhar furtivo que um orador dirige às escondidas a alguém presente no auditório, e de quem cita o nome. - Não gostaria de ser condenado como herético e relapso na capela mallarmaica, onde o nosso novo amigo, como todos de sua idade, deve ter ajudado a missa esotérica, ao menos como menino de coro, e ter se mostrado deliquescente ou rosa-cruz. Mas, na verdade, já vimos muitos desses intelectuais adorando a Arte com um A maiúsculo e que, quando já não lhes basta embriagarem-se com Zola, tomam injeções de Verlaine. Tornando-se eterômanos por devoção baudelairiana, não mais seriam capazes do esforço viril que a pátria pode lhes pedir um dia ou outro, anestesiados que estão pela grande nevrose literária na atmosfera quente, enervante, pesada de odores malsãos, de um simbolismo de casa de ópio. -

["Rosa-cruz" aqui, trata-se não do grupo de iluminados alemães do século XVII, mas de um movimento estético e intelectual de escritores e artistas do final do século XIX. (N. do T)]

     Incapaz de fingir a menor sombra de admiração pela tirada inepta e diversificada de Brichot, voltei-me para Ski e lhe garanti que se equivocava inteiramente sobre a família a que pertencia o Sr. de Charlus; respondeu-me que estava seguro do que afirmara e acrescentou que eu até lhe dissera que o verdadeiro nome dele era Gandin, Le Gandin. 

- Eu lhe disse - respondi - que a Sra. de Cambremer era irmã de um engenheiro, Sr. Legrandin. Nunca lhe falei do Sr. de Charlus. Há tanta relação de nascimento entre ele e a Sra. de Cambremer, como entre os Grande Condé e Racine. 
- Ah, eu pensava - disse Ski descuidadamente, sem se desculpar pelo seu erro, como não se desculpara pelo que, algumas horas antes, quase nos fizera perder o trem. 
- Pretende o senhor ficar muito tempo no litoral? - perguntou a Sra. Verdurin ao Sr. de Charlus, em quem pressentia um fiel, tremendo à idéia de que ele voltasse logo para Paris. 
- Meu Deus, a gente nunca sabe - respondeu o Sr. de Charlus num tom arrastado e fanhoso. - Gostaria de ficar até fins de setembro. 
- O senhor tem razão - disse a Sra. Verdurin; - é a ocasião das belas tempestades. 
- Para falar a verdade, não seria isso o que me decidiria a permanecer. Faz algum tempo que tenho negligenciado demais o arcanjo São Miguel, meu padroeiro, e gostaria de compensá-lo ficando até o dia de sua festa, a 29 de setembro, na abadia do Mont. 
- Essas coisas lhe interessam muito? - indagou a Sra. Verdurin, que talvez conseguisse calar o seu anticlericalismo ferido, caso não temesse que uma tão longa excursão fizesse o violinista e o barão "largarem" por 48 horas. 
- Talvez a senhora esteja atacada de surdez intermitente - disse o Sr. de Charlus com insolência. - Eu lhe disse que São Miguel era um de meus gloriosos padroeiros. - Depois, sorrindo num êxtase benévolo, os olhos fixos na distância, a voz erguida numa exaltação que me pareceu mais do que estética, conquanto religiosa: - É tão belo, no ofertório, quando Miguel se mantém de pé junto do altar, de manto branco, balançando um turíbulo de ouro, e com tal quantidade de perfumes que o odor sobe até Deus! 
- A gente poderia ir até lá em bando - sugeriu a Sra. Verdurin, apesar de seu horror ao clero. 
- Nesse momento, desde o ofertório - prosseguiu o Sr. de Charlus, que, por outros motivos, mas da mesma maneira que os bons oradores da Câmara, jamais respondia a uma interrupção e fingia não a ter ouvido-, seria um deslumbramento ver o nosso amigo palestrinizando e executando até uma ária de Bach. Ficaria louco de júbilo, e o bom abade também; e seria a maior homenagem, ao menos a maior homenagem pública, que eu poderia fazer ao meu santo padroeiro. Que exemplo edificante para os fiéis! Logo falaremos sobre isso ao jovem Angélico musical, militar como São Miguel.

     Saniette, chamado para fazer o papel de morto, declarou que não sabia jogar uíste. E Cottard, vendo que não havia mais tempo antes da hora do trem, pôs-se logo a começar uma partida de écarfé com Morel. O Sr. Verdurin, furioso, caminhou com ar terrível para Saniette: 

- Você não sabe jogar nada! - gritou, danado por ter perdido uma oportunidade de jogar uíste e encantado por ter encontrado um modo de injuriar o antigo arrivista. Este, aterrorizado, resolveu ser espirituoso: 
- Sim, sei tocar piadas - disse. Cottard e Morel estavam sentados frente a frente. - Ao senhor que honra - disse Cottard. 
- E se nos aproximássemos um pouco da mesa de jogo? - sugeriu ao Sr. de Cambremer.

     O Sr. de Charlus, inquieto por ver-se violinista na companhia de Cottard. 

- É tão interessante como essas questões de etiqueta, que já não significam grande coisa no nosso tempo, os únicos reis que nos restam, pelo menos na França, são os reis do baralbê, e me parece que eles vêm a rodo às mãos do jovem virtuoso - acrescentou a seguir, com uma admiração por Morel que se estendia até a sua maneira de jogar, igualmente para lisonjeá-lo e, por fim, para explicar o movimento que fazia debruçando-se sobre o ombro do violinista. 
- Eu corto! - disse Cottard, imitando o sotaque rastaqüera; seus filhos riram às gargalhadas, como faziam seus alunos e o chefe da clínica, quando o Mestre, mesmo à cabeceira de um doente em estado grave, lançava, com a máscara impassível do epiléptico, uma de suas facécias de costume. 
- Não sei beth o que devo jogar - disse Morel, consultando o Sr. de Cambremer. 
- Quanto quiser; de qualquer modo será derrotado, desse jeito ou de outro, será igual, - Igual... Galli-Marié? - comentou o doutor, escorregando para o Sr. de Cambremer um olhar insinuante e benévolo. 
- Era o que chamávamos a verdadeira diva, era o sonho, uma Cármen como nunca mais se verá. Era,a mulher para o papel. Gostava também de ouvir Ingalli-Marié.

[Trocadilho com o nome de duas cantoras: Marie Célestino Laurence Galli-Marié (1840-1905), famosa criadora da Cármen na ópera de Bizet, e Speranza Engally a partir da palavra égal, igual. (N. do T)] 

     O marquês se ergueu com essa vulgaridade desdenhosa das pessoas bem-nascidas que não compreendem que insultam o dono da casa parecendo não estar certo de poder frequentar os seus convidados e que se desculpam como hábito inglês para empregar uma expressão depreciativa: 

- Quem é este senhor que está jogando cartas? Que faz na vida? O que é que ele vende? Gosto muito de saber com quem me encontro, para não me ligar com qualquer um. Ora, não ouvi o seu nome quando o senhor deu-me a honra de me apresentar a ele. -

     Se o Sr. Verdurin, autorizando-se com estas últimas palavras, tivesse de fato apresentado aos convidados o Sr. de Cambremer, este o levaria a mal. Mas sabendo que o contrário é que ocorrera, achava gracioso parecer bom moço e modesto sem perigo. O orgulho que tinha o Sr. Verdurin de sua intimidade com Cottard só fez aumentar desde que o doutor se tornara um professor ilustre. Porém, já não se exprimia sob a forma ingênua de outrora. Então, quando Cottard mal era conhecido, se falavam ao Sr. Verdurin das nevralgias faciais de sua esposa: 

- Não há nada a fazer - dizia ele, com o ingênuo amor-próprio das pessoas que acham ilustre o que lhes diz respeito, e que todos conhecem o professor de canto da sua filha. - Se ela tivesse um médico de segunda categoria, a gente poderia tentar outro tratamento, mas, quando este médico se chama Cottard (nome que ele pronunciava como se fosse Bouchard ou Charcot), o remédio é aguentar firme. -

     Utilizando um procedimento inverso, sabendo que o Sr. de Cambremer certamente já ouvira falar no famoso professor Cottard, o Sr. Verdurin assumiu um ar simplório. 

- É o nosso médico de família, um grande coração, que nós adoramos e que se faria esquartejar por nós; não é um médico, é um amigo; não creio que o senhor o conheça nem que o seu nome lhe diga alguma coisa; em todo caso, para nós é o nome de um bom homem, de um caríssimo amigo, Cottard. -

     Este nome, murmurado com ar modesto, enganou o Sr. de Cambremer, que julgou tratar se de outra pessoa. 

- Cottard? O senhor não está falando do professor Cottard? -

     Ouviu-se precisamente a voz do dito professor que, atrapalhado com uma jogada, dizia, segurando as cartas: 

- Foi aqui que os atenienses se aterraram. 
 Ah, sim, justamente, ele é professor - disse o Sr. Verdurin. 
- O quê! O professor Cottard! O senhor não está enganado? Tem certeza de que se trata do mesmo? O que mora na rua de Bac! 
- Sim, ele mora na rua de Bac, 43. O senhor o conhece? 
- Mas todo mundo conhece o professor Cottard. É uma sumidade! É como se o senhor me perguntasse se eu conhecia Bouffe de Saint-Blaise ou Courtois-Suffit. Bem que eu havia reparado, ao ouvi-lo falar, que não era um homem comum e foi por isso que me permiti perguntar lhe. 
- Vamos, o que é preciso ajuntar? Trunfo? - perguntava Cottard.

     Depois, bruscamente, com uma vulgaridade que teria sido irritante mesmo numa circunstância heróica, em que um soldado quer emprestar uma expressão familiar ao desprezo pela morte, mas que se tornava duplamente estúpido no passatempo sem perigo das cartas, Cottard, decidindo-se a jogar trunfo, tomou um aspecto sombrio, "cabeça tonta", e, por alusão aos que arriscam a pele, jogou sua carta como se fosse a sua vida, gritando: 

- Afinal de contas, dane-se! - 

     Não era o que precisava jogar, mas teve um consolo. No meio do salão, numa larga poltrona, a Sra. Cottard, cedendo ao efeito, irresistível nela, da digestão, depois de vãos esforços, havia cedido ao sono vasto e leve que dela se apoderava. Por mais que se endireitasse às vezes para sorrir, seja por zombaria dela própria, seja com receio de deixar sem resposta alguma palavra amável que lhe dirigissem, sem querer recaía no mal delicioso e implacável. Mais que o ruído, o que a despertava assim por um segundo apenas era o olhar (que, por ternura, ela via mesmo de olhos fechados, e previa, pois a mesma cena se verificava todas as noites e obcecava o seu sono, como a hora em que é preciso que nos levantemos), o olhar pelo qual o professor assinalava o sono da esposa às pessoas presentes. Para começar, contentava-se em olhá-la e sorrir, pois, se como médico censurava esse sono após o jantar (pelo menos, dava essa razão científica para se zangar no fim, mas não é certo que ela fosse determinante, tal a variedade de pontos de vista que possuía a respeito), como marido todo-poderoso e zombeteiro ficava encantado em troçar da mulher, de a princípio só a despertar pela metade, a fim de que ela voltasse a adormecer e ele tivesse o prazer de despertá-la novamente. Agora, a Sra. Cottard dormia a sono solto. 

- Ora, ora, Léontine, estás pescando? - gritou-lhe o professor. 
- Estou escutando o que diz a Sra. Swann, meu caro - respondeu debilmente a Sra. Cottard, que recaiu; na sua letargia. 
- É loucura! - exclamou Cottard; - daqui a pouco vai garantir que não dormiu. É como os pacientes que vão a uma consulta e afirmam que nunca dormem.
- Talvez o imaginem - disse rindo a Sra. de Cambremer.

continua na página 160...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Este, mantendo o ouvido mais penetrante)
Volume 6
Volume 7

terça-feira, 10 de março de 2026

Cinema: Interlúdio

Alfred Hitchcock


Após seu pai alemão ser condenado como espião, uma jovem mulher passa a se refugiar em bebida e homens. É assim que se aproxima de um agente do governo, que pergunta se ela concorda em ser uma espiã americana no Rio de Janeiro, onde nazistas amigos do pai dela estão operando. Ela acaba se casando com um espião nazista, mas se apaixona pelo seu contato no governo americano.


Nome do Filme: 
Interlúdio

Título Original: 
Notorious

Ano: 1946
Gênero: 
Drama, Romance

Direção:
Alfred Hitchcock






Estrelando:
Cary Grant / Devlin
Ingrid Bergman / Alicia Huberman
Claude Rains / Alexander Sebastian
Louis Calhern / Paul Prescott
Leopoldine Konstantin / Mme. Sebastian
Reinhold Schünzel / 'Dr. Anderson'
Moroni Olsen / Walter Beardsley
Ivan Triesault / Eric Mathis
Alexis Minotis /Joseph
Wally Brown / Mr. Hopkins
Charles Mendl / Comodoro
Ricardo Costa / Dr. Barbosa
E.A. Krumschmidt / Hupka
Fay Baker / Ethel
Bernice Barrett / Arquivista (não creditado)
Bea Benaderet / Arquivista (não creditado)
Lulu Mae Bohrman / Convidada da festa (não creditado)
Candido Bonsato / Garçom (não creditado)
Charles D. Brown / Juiz (não creditado)
Eddie Bruce / Repórter (não creditado)
Paul Bryar / Fotógrafo (não creditado)
Aileen Carlyle / Mulher na festa (não creditado)
Beulah Christian / Mulher (não creditado)
Richard Clarke / Homem (não creditado)
Tom Coleman / Estenógrafo judicial (não creditado)
Alfredo DeSa / Ribero (não creditado)
Ben Erway / Repórter (não creditado)
Bess Flowers / Convidada da festa (não creditado)
Almeda Fowler / Mulher (não creditado)
Gavin Gordon / Ernest Weylin (não creditado)
William Gordon / Adams (não creditado)
Virginia Gregg / Arquivista (não creditado)
Harry Hayden / Advogado de Defesa (não creditado)
Alfred Hitchcock / Homem bebendo champanhe na festa (não creditado)
Art Howard / Convidado da festa (não creditado)
Warren Jackson / Promotor Distrital (não creditado)
Ted Kelly / Garçom (não creditado)
Donald Kerr / Repórter (não creditado)
James Logan / Repórter (não creditado)
Leota Lorraine / Mulher (não creditado)
George Lynn / Fotógrafo (não creditado)
Frank Marlowe / Fotógrafo (não creditado)
Thomas Martin / Mordomo (não creditado)
Francis McDonald / Homem (não creditado)
Frank McLure / Homem atravessa porta ao sair do tribunal (não creditado)
Tina Menard / Empregada doméstica (não creditado)
Howard M. Mitchell / Oficial de justiça (não creditado) 
Bert Moorhouse / Convidado da festa (não creditado)
Antonio Moreno / Senhor Ortiza (não creditado)
Sandra Morgan / Mulher (não creditado)
Howard Negley / Fotógrafo (não creditado)
Ramon Nomar / Dr. Silva (não creditado)
Fred Nurney / John Huberman (não creditado)
Garry Owen / Policial de motocicleta (não creditado)
Jeffrey Sayre / Convidado da festa (não creditado)
Louis Serrano / Autoridade brasileira (não creditado)
Patricia Smart / Mrs. Jackson (não creditado)
Dink Trout / Escrivão do Tribunal (não creditado)
Lenore Ulric / Cavaleira com Sebastian (não creditado)
Emmett Vogan / Repórter (não creditado)
Friedrich von Ledebur / Knerr (não creditado)
Peter von Zerneck / Wilhelm Rossner (não creditado)
John Vosper / Repórter (não creditado)
Alan Ward / Repórter (não creditado)
Lillian West / Mulher (não creditado)
Frank Wilcox / Agente do FBI (não creditado)
Elizabeth Wilson / Mulher em festa (não creditado)
Herbert Wyndham / Mr. Cook (não creditado)


HITCHCOCK, 125 Anos!

No dia 13 de agosto de 1899, nascia Alfred Hitchcock. Neste OTV especial, Hessel e Forlani comentam seus filmes favoritos do lendário diretor, de Psicose e Um Corpo Que Cai a Pássaros e muito mais!





O Assalto do Trem PagadorInterlúdio /    

Curta: Tras la piel

LGBTI transgênero


     Após muitos anos longe de casa, Duna retorna à sua cidade natal para se reencontrar com seu pai doente. Ao chegar, ela se depara com a rejeição e a incompreensão dele devido à sua identidade transgênero.

PRÊMIOS: 
Prêmio do Público - Festival Internacional de Cinema de Almería 2017
Prêmio do Público - Festival Internacional de Cinema de Valladolid (Cinhomo) 2017
Melhor Curta-Metragem Transgênero - Festival Internacional de Cinema LesBiGayTrans do Paraguai 2017
Melhor Curta-Metragem - 1º Festival de Cinema Trans de Alicante
Melhor Direção - 1º Festival de Cinema Trans de Alicante
Melhor Atriz - Rocío Alzueta - 1º Festival de Cinema Trans de Alicante
Melhor Ator - Joan Verdú - 1º Festival de Cinema Trans de Alicante
Melhor Arte Promocional - Prêmio BelMag
Melhor Direção - Prêmio BelMag
Melhor Roteiro - Prêmio BelMag

"Meu pai, sendo muito conservador, não falou comigo por mais de cinco anos. Ainda me arrependo de não ter tentado entrar em contato com ele durante esse tempo. Mais tarde, comecei a namorar um militar e fomos morar juntos. Meu pai adoeceu e, por uma ironia do destino, veio morar comigo nos seus últimos meses de vida. Minha mãe, minha irmã e eu cuidamos dele até que ele falecesse. Alguns dias antes de ele partir, pedi perdão por não ter sido o filho que ele queria. A única coisa que ele respondeu foi que não importava mais, que sempre me amou e me agradeceu por tudo. Amo meu pai e agradeço a Deus por ter podido falar com ele e estar com ele quando ele morreu. Sou muito grato àquele militar por ter sido tão bom para mim e para minha família. Às vezes, sinto muita saudade dele e gostaria de vê-lo, mas sei que um dia o verei novamente. Agora sou casado e minha mãe mora comigo. Minha querida mãe é a coisa mais linda que ainda tenho e estarei com ela até que Deus a leve. Sou transgênero e minha vida não tem sido fácil, mas tenho orgulho de quem sou." jamis2031





Uma produção Ufquearte!

Escrito e dirigido por Antonio Ufarte.

Protagonizado por :
Rocío Alzueta
Joan Verdú
Encarna Hernando
Adrián Aires
Margarita Hernández

Diretor de Fotografia: Javier de Usabel
Assistente de Direção: Daniel Sánchez del Rey
Operador de Câmera: Javier de Usabel
Assistente de Câmera: Letícia Iniesta
Eletricistas: Cristian D. Higueruela e Alejandro Lázaro
Som: Ana García e Roberto Iznaola
Música: Ángel Salazar
Fotografia: Jaume Verdú e Antonio Ufarte
Pós-produção sonora: Eduardo Rosa
Classificação de cores: Javier de Usabel
Edição e Design Gráfico: Antonio Ufarte
Figurino: Moisés Oliva


"Sempre senti o verdadeiro apoio e compreensão da minha família em relação às minhas preocupações e medos. Quando viajei para a Europa e pude me tornar a mulher que sempre senti que era, não tive coragem de voltar ao meu país para me despedir do meu pai em seu leito de morte. E essa será sempre uma dor que carregarei pelo resto da minha vida. A vida de uma mulher trans NUNCA é fácil... sempre haverá mais lágrimas do que risos..." anarivas23

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Tras la piel /      

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: A Crise dos Anos 30 (17)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     28. A Crise dos Anos 30: "Matar uma Formiga é Crime Maior que Matar um Homem"
          O café dependia do mercado norte-americano, de sua capacidade de consumo e de seus preços; as bananas eram um negócio norte-americano para os norte-americanos. E prorrompeu, de repente, a crise de 1929. O crack da Bolsa de Nova York, que fez tremer as bases do capitalismo mundial, caiu no Caribe como um gigantesco bloco de pedra numa poça d’água. Baixaram verticalmente os preços do café e da banana, e não menos verticalmente baixou o volume de vendas. A expulsão dos camponeses recrudesceu com violência febril, o desemprego multiplicou-se no campo e nas cidades, e começou uma onda de greves; extinguiram-se bruscamente os créditos, os investimentos e os gastos públicos, e os salários dos funcionários do Estado foram reduzidos à metade em Honduras, na Guatemala e na Nicarágua [1]. A equipe de ditadores chegou em seguida para emudecer as tampas das marmitas; inaugurava-se a época da política de Boa Vizinhança em Washington, mas era preciso conter a ferro e fogo a agitação social que fervia em toda parte. Ao redor de vinte anos permaneceram no poder, uns mais e outros menos, Jorge Ubico na Guatemala, Maximiliano Hernández Martínez em El Salvador, Tiburcio Carías em Honduras e Anastasio Somoza na Nicarágua.
     A epopeia de Augusto César Sandino comovia o mundo. A longa luta do chefe guerrilheiro derivava de reivindicações de terra e mantinha acesa a ira campesina. Durante sete anos seu pequeno exército em farrapos lutou, ao mesmo tempo, contra doze mil invasores norte-americanos e contra membros da Guarda Nacional. As granadas eram feitas com latas de sardinha cheias de pedras, os fuzis Springfield eram arrebatados do inimigo e não faltavam facões; a haste da bandeira era vara sem descascar, e em vez de botas os camponeses usavam, para mover-se no emaranhado das montanhas, uma tira de couro chamada caite. Com a música de Adelita, os guerrilheiros cantavam: [2]

Na Nicarágua, senhores, 
é o rato que pega o gato.

     Nem o poder de fogo da infantaria da Marinha nem as bombas lançadas de aviões eram suficientes para esmagar os rebeldes de Las Segovias. Tampouco as calúnias que espalhavam pelo mundo inteiro as agências internacionais Associated Press e United Press, cujos correspondentes na Nicarágua eram dois norte-americanos que tinham nas mãos a alfândega do país [3]. Em 1932, Sandino pressentia: “Não vou viver muito tempo”. Um ano depois, sob o influxo da política norte-americana de Boa Vizinhança, celebrava-se a paz. O chefe guerrilheiro foi convidado pelo presidente para uma reunião decisiva em Manágua. No caminho, caiu morto numa emboscada. O assassino, Anastasio Somoza, sugeriu depois que a execução tinha sido ordenada pelo embaixador norte-americano Arthur Bliss Lane. Somoza, então chefe militar, não demorou muito para instalar-se no poder. Governou a Nicarágua durante um quarto de século, e seus filhos herdaram o cargo. Antes de cruzar no peito a faixa presidencial, Somoza condecorara a si mesmo com a Cruz do Valor, a Medalha da Distinção e a Medalha Presidencial ao Mérito. Já no poder, organizou várias matanças e grandes celebrações, nas quais fantasiava seus soldados de romanos, com sandálias e elmos; tornou-se o maior produtor de café do país, com 46 fazendas, e também se dedicou à pecuária em outras 51 fazendas. Nunca lhe faltou tempo, no entanto, para semear também o terror. Durante sua longa gestão no governo, verdade seja dita, não passou maiores dificuldades, e recordava com certa tristeza os anos de juventude, quando precisava falsificar moedas de ouro para divertir-se.
     Igualmente em El Salvador explodiram as tensões em consequência da crise. Quase a metade dos trabalhadores da banana de Honduras eram salvadorenhos e muitos foram obrigados a retornar a seu país, onde não havia trabalho para ninguém. Na região de Izalco, houve um grande levante campesino em 1932, que rapidamente se propagou em todo o ocidente do país. O ditador Martínez enviou soldados, com armamento moderno, para combater os “bolcheviques”. Os índios lutaram com facões contra metralhadoras, e o episódio chegou ao fim com dez mil mortos. Martínez, um bruxo vegetariano e teósofo, sustentava que “matar uma formiga é crime maior do que matar um homem, porque o homem ao morrer reencarna, enquanto a formiga morre definitivamente” [4]. Dizia estar protegido por “legiões invisíveis”, que lhe revelavam todas as conspirações, e mantinha comunicação telepática direta com o presidente dos Estados Unidos. Um relógio de pêndulo sobre o prato lhe indicava se a comida estava envenenada, e colocado sobre um mapa assinalava onde se escondiam os inimigos políticos ou a localização de tesouros dos piratas. Costumava enviar notas de condolência aos pais de suas vítimas, e no pátio do palácio pastavam cervos. Governou até 1944.
     As matanças se sucediam em todos os lugares, Em 1933, Jorge Ubico fuzilou na Guatemala uma centena de dirigentes sindicais, estudantes e políticos, ao mesmo tempo em que reimplantava as leis contra a “vadiagem” dos índios. Cada índio devia portar uma caderneta onde constavam seus dias de trabalho; se não fossem suficientes, pagava a dívida no cárcere ou arqueando as costas sobre a terra, gratuitamente, durante meio ano. Na insalubre costa do Pacífico, os homens trabalhavam com barro até os joelhos para receber 30 centavos por dia, e a United Fruit demonstrava que Ubico a obrigara a rebaixar os salários. Em 1944, pouco antes da queda do ditador, o Reader’s Digest publicou um artigo repleto de elogios: aquele profeta do Fundo Monetário Internacional tinha evitado a inflação baixando os salários, de um dólar para 25 centavos, na construção de uma estrada militar de emergência, e de um dólar para 50 centavos nos trabalhos da base aérea na capital. Por essa época, Ubico deu aos senhores do café e às empresas bananeiras permissão para matar: “Estarão isentos de responsabilidade criminal os proprietários das fazendas...”. O decreto tinha o número 2.795 e foi restabelecido em 1967, durante o democrático e representativo governo de Méndez Montenegro.
     Como todos os tiranos do Caribe, Ubico achava que era Napoleão. Vivia rodeado de bustos e quadros do imperador, cujo perfil, segundo ele mesmo, era quase igual ao seu. Acreditava na disciplina militar: militarizou os correios, as crianças nas escolas e a orquestra sinfônica. Os integrantes da orquestra ganhavam nove dólares mensais e tocavam de uniforme as peças que Ubico escolhia, e com a técnica e os instrumentos por ele dispostos. Considerava que hospitais eram para os maricas, de modo que os pacientes recebiam assistência no chão das calçadas e dos corredores, se eram desgraçados ao ponto de serem pobres além de doentes.

continua na página 185...
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[1] TORRES-RIVAS, op. cit.
[2] SELSER, Gregorio. Sandino, general de hombres livres. uenos Aires, 1959. 
[3] EALS, Carleton. América ante América. Santiago de Chile, 1940.
[4] KREHM, op. cit. Krehm viveu longos anos na América Central como correspondente da revista norte-americana Time.       

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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: A Crise dos Anos 30 (17)

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (VI.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

VI
 .


     Ainda não largara o bacalhau e pôs-se a limpar com grande afinco a sujeira das moscas com uma ótima faca nova, um desses pequenos punhais com cabo de osso onde se gravam provérbios. No dele lia-se a palavra "Amor", simplesmente. 

— Tens uma bela faca — observou Etienne. 
— É um presente de Lydie — respondeu Jeanlin, que deixou de contar que Lydie o roubara, por ordem dele, de um vendedor ambulante de Montsou, defronte do botequim Tête-Coupée.

     E, sem parar de raspar, acrescentou com orgulho: 

— Então, a minha casa não é boa? É mais aquecida que lá em cima e cheira muito melhor.

     Etienne sentara-se e estava resolvido a fazê-lo falar. Sua cólera passara, agora só tinha interesse por aquela criança perversa, tão valente e decidida em todos os seus vícios. Com efeito, gozava-se de certo bem-estar no fundo daquele buraco; o calor não era demasiado, a temperatura sempre igual em qualquer estação, uma tepidez de banho, enquanto lá em cima o rude dezembro gretava a pele dos miseráveis. Com o envelhecimento, as galerias se purificavam de todos os gases nocivos, o grisu desaparecera, sentia-se ali somente o cheiro fermentado das madeiras antigas, um odor sutil de éter, como que adocicado por uma pitada de cravo-da-índia. Aliás, era até agradável olhar para essas madeiras, que tinham adquirido uma palidez amarelecida de mármore, franjadas de uma renda esbranquiçada, de vegetações esponjosas que pareciam envolvê-las numa passamanaria entretecida de seda e pérolas. Outras, ainda, estavam recobertas de cogumelos. E havia uma revoada de borboletas brancas, de moscas e aranhas de neve, uma população descolorida, que nunca veria a luz do sol. 

— Mas tu não tens medo? — perguntou Etienne.

     Jeanlin encarou-o admirado. 

— Medo de quê? Estou compl etamente sozinho...

     Nesse ponto, o bacalhau já estava completamente limpo; acendeu um fogo baixo, esparramou as brasas e o pôs a assar. Em seguida, cortou um pão em dois pedaços. Era uma comida excessivamente salgada, mas assim mesmo deliciosa para estômagos sólidos.
     Etienne aceitara sua parte. 

— Agora não me espanta mais de te ver engordando enquanto emagrecemos. Sabes que o que estás fazendo é uma patifaria? Não pensas nos outros? 
— Ora! E por que os outros são bobos? 
— Aliás, fazes bem em esconder-te, porque se teu pai vier a saber que andas roubando estás frito. 
— Como se os burgueses não roubassem também! Tu é que dizes isso. Quando furtei este pão dos Maigrat, foi para descontar um que ele nos devia.

     O rapaz calou-se, com a boca cheia, perturbado. O menino fitava-o com aquela cara de rato, onde brilhavam dois olhos verdes e sobressaía um enorme par de orelhas, em toda a sua degenerescência de aborto humano, mas de uma inteligência cheia de meandros e de uma manha selvagem, lentamente reconquistada pela animalidade ancestral. A mina, que o tinha engendrado, acabara sua obra quebrando-lhe as pernas. 

— E a Lydie? — perguntou novamente Etienne. — Costumas trazê-la aqui?

     Jeanlin riu com desprezo. 

— A menina? Essa é boa! As mulheres falam muito.

     E continuou rindo, cheio de um imenso desdém por Lydie e Bébert. Não havia ninguém mais tolo do que eles. A ideia de que aceitavam cegamente todas as suas lorotas e sempre acabavam de mãos abanando, enquanto ele comia refesteladamente o seu bacalhau, dava-lhe uma comichão de prazer. Em seguida, concluiu com uma gravidade de pequeno filósofo: 

— E melhor estar só, assim não há discussões.

     Etienne acabara de comer seu pão. Bebeu um gole de genebra. Chegou a perguntar-se se era direito aceitar a hospitalidade de Jeanlin, se não seria melhor arrastá-lo para cima, proibindo-lhe novos roubos, sob a ameaça de tudo contar a seu pai. Mas, ao examinar aquele esconderijo subterrâneo, uma ideia começou a tomar corpo na sua cabeça: quem sabe não viria a precisar dele, para os companheiros ou para si, no caso de as coisas piorarem lá por cima? Fez o menino jurar que não mais dormiria fora de casa, como costumava fazer, preferindo aquela cama de feno ao lar. Depois, apanhando um pedaço de vela, partiu na frente, deixando-o a arrumar tranquilamente seus pertences.
     A filha de Mouque esperava-o, já cheia de angústia, sentada num caibro, apesar do frio intenso. Ao avistá-lo saltou-lhe ao pescoço. Foi como se lhe cravassem uma faca no coração, quando ele anunciou a sua vontade de não mais revê-la. Deus do céu! Por quê? Então ela não o amava bastante?
     Temendo sucumbir ao desejo de entrar na sua casa, encaminhou-a para a entrada, explicando-lhe o mais docemente possível que ela o comprometia aos olhos dos camaradas, que comprometia a causa política. Ela admirou-se; que tinha aquilo que ver com a política? Disse então que ele tinha era vergonha de ser visto ao seu lado; mas não estava magoada com isso, era bastante natural. Teve uma ideia: ofereceu-se para levar uma bofetada diante de todo mundo, para mostrar que estavam rompidos. Mas tinha de tornar a vê-la, pelo menos uma vezinha de tempos em tempos. Suplicou desesperadamente, jurou que ficaria escondida, que de agora em diante só o reteria por cinco minutos.
     Ele, muito comovido, continuou a recusar. Não tinha outro jeito... Ao despedir-se, quis ao menos beijá-la. Caminhando, tinham chegado à entrada de Montsou e continuavam abraçados sob a lua cheia, quando uma mulher passou junto deles com um brusco sobressalto, como se tivesse tropeçado numa pedra. 

— Quem é? — perguntou Etienne inquieto. 
— Catherine — respondeu a outra. — Está voltando da Jean-Bart.

     A mulher, agora, caminhava de cabeça baixa e pernas frouxas, com ar de muito cansada. O rapaz continuou a observá-la, desesperado de ter sido visto por ela, o coração invadido por um remorso sem causa. Então ela não estava com um homem? Não o fizera sofrer do mesmo sofrimento, ali mesmo, na estrada de Réquillart, quando se entregara a esse homem? Mas assim mesmo sentia-se deprimido por ter-lhe pago com a mesma moeda. 

— Queres que te diga uma coisa? — murmurou a filha de Mouque, ao partir, debulhada em lágrimas. — Se não me queres é porque tens outra.

     No dia seguinte o tempo estava esplêndido: um céu claro de da, um desses maravilhosos dias de inverno, quando a terra dura soa como um cristal debaixo dos pés.
     Jeanlin escapou de casa à uma hora, mas teve de esperar Bébert por trás da igreja e quase tiveram de partir sem Lydie, que a mãe mantinha fechada no porão. Acabava de ser solta, mas puseram-lhe um cesto nos braços, dizendo-lhe que, se não voltasse com ele cheio de dentes-de-leão, seria novamente encerrada com os ratos a noite inteira. Por isso, cheia de medo, quis ir colher a salada imediatamente, mas Jeanlin dissuadiu-a; veriam isso mais tarde.
     Havia muito tempo que Polônia, a enorme coelha de Rasseneur, preocupava-o; passava justamente defronte do Avantage, quando a coelha saiu para a rua. Agarrou-a de um salto pelas orelhas, enfiou-a no cesto da menina e saíram correndo. Iam divertir-se à grande, fazendo-a correr como um cão até a floresta.
     Mas pararam para ver Zacharie e o jovem Mouque, que, depois de terem bebido uma cerveja com mais dois companheiros, iniciavam sua grande partida de críquete. Tinham apostado um boné novo e um lenço vermelho, depositados no Rasseneur. Os quatro jogadores, dois a dois, tiraram a sorte para o primeiro turno, da Voreux à fazenda Paillot, cerca de três quilômetros; foi Zacharie quem ganhou; ele apostara em sete lances, ao passo que o jovem Mouque pedira oito. Tinham pousado a bola, o pequeno ovo torneado de raiz de buxo, no chão da estrada, com a ponta para cima. Todos empunhavam seus tacos, ou maços de ferro oblíquos, de cabos longos e enrolados em barbante muito apertado. Davam duas horas quando iniciaram a partida. Zacharie, magistralmente, no seu primeiro turno, composto de uma série de três lances, enviou a bola a mais de quatrocentos metros através dos campos de beterraba, pois era proibido jogar nas aldeias e estradas, onde já tinha morrido gente por causa desse esporte. O jovem Mouque, igualmente forte, arremessou a bola com tanto ímpeto, que ela foi cair cento e cinquenta metros para trás. E a partida continuou, uma equipe avançando, a outra fazendo recuar, ambas correndo, todos com os pés contundidos pelas arestas geladas da terra lavrada.
     A princípio, Jeanlin, Bébert e Lydie tinham corrido atrás dos jogadores, entusiasmados com as grandes tacadas. Depois, lembraram-se de Polônia, que eles sacudiam no cesto, e, abandonando a partida já no campo aberto, soltaram a coelha para ver se era capaz de correr muito. Em liberdade, ela saiu desabaladamente e os três correndo atrás; foi uma caçada de hora, em alta velocidade, cheia de desvios bruscos, gritos e bracejar no vazio. Se a coelha não estivesse com um início de gravidez, nunca a teriam apanhado.
     Ainda esbaforidos, ouviram pragas que os fizeram voltar a cabeça. Encontravam-se novamente no meio do jogo de críquete e era Zacharie quem praguejava, porque por um triz não rachara a cabeça do irmão.
     Os jogadores já estavam na quarta rodada: da fazenda Paillot tinham ido aos Quatre-Chemins, dos Quatre-Chemins a Montoire, e agora, em seis lances, de Montoire ao Pré-des-Vaches. Tinham ' percorrido duas léguas e meia em uma hora, tendo ainda parado no ! botequim do Vincent e na venda Trois-Sages, para beberem cerveja. Desta vez o jovem Mouque era mão. Tinha apenas dois lances para fazer, sua vitória estava assegurada quando Zacharie, usando do seu direito, sempre escarnecendo dos adversários, lançou a bola para trás com tanta destreza, que esta foi cair num fosso profundo. O parceiro do jovem Mouque não conseguiu tirá-la dali, foi um desastre. Os quatro jogadores começaram a discutir aos gritos, a partida estava no seu auge, e, devido ao empate, teriam de recomeçá-la. Do Pré-des-Vaches ao início das Herbes-Rousses não havia mais do que dois quilômetros, que seriam vencidos em cinco lances. Lá beberiam mais umas cervejas no Lerenard.
     Jeanlin teve uma ideia. Deixou-os partir, tirou um barbante do bolso e amarrou-o à pata traseira esquerda de Polônia. Isso transformou-se numa grande brincadeira; a coelha corria adiante dos três garotos, puxando da perna, desancando de uma maneira tão ridícula, que eles riam como loucos. Depois amarraram-na pelo pescoço, fazendo-a galopar; como ela já estivesse cansada, arrastaram-na de barriga, de costas, como se fosse um carrinho de brinquedo. Como aquilo já durasse mais de uma hora e o animal estivesse estertorando, meteram-no outra vez no cesto ao ouvirem, perto do bosque, em Cruchot, os jogadores, cujo caminho atravessavam mais uma vez.
     Agora, Zacharie, o jovem Mouque e os outros dois devoravam os quilômetros sem outro descanso que o tempo necessário para esvaziar copos em todas as tabernas do caminho. Das Herbes-Rousses tinham ido parar em Buchy, depois na Croix-de-Pierre, depois em Chamblay. A terra estremecia sob o calcar dos seus pés correndo sem descanso atrás da bola que pulava sobre a neve. O tempo estava bom, não se atolavam, nem corriam o risco de quebrar as pernas. No ar seco, as grandes tacadas espocavam como tiros. As mãos musculosas seguravam o cabo enrolado em barbante e o corpo inteiro se lançava, como para abater o boi. E isso durante horas, de um extremo a outro da planície, por cima dos fossos, das cercas, dos taludes dos caminhos, dos muros baixos dos cerrados. Era preciso ter bons foles no peito e juntas de ferro nos joelhos. Os britadores desenferrujavam-se com paixão nesse esporte. Havia fanáticos de vinte e cinco anos que chegavam a jogar num raio de dez léguas. Aos quarenta anos, já pesados, não jogavam mais.
     Davam cinco horas, o crepúsculo já começava. Mais um jogo até a floresta de Vandame, para decidir quem ganharia o boné e o lenço. Zacharie gracejou, com a sua indiferença zombeteira pela política: seria engraçado se caíssem bem no meio dos camaradas.
     Quanto a Jeanlin, desde a saída do conjunto habitacional, tinha por meta a floresta, apesar do seu jeito de estar apenas correndo os campos. Com um gesto indignado ameaçou Lydie, que, cheia de remorso e medo, falou em voltar à Voreux para colher dentes-de-leão. Então iam perder a reunião? Ele queria ouvir o que os velhos diriam. Empurrou Bébert, propôs alegrar o resto do caminho até as árvores desamarrando Polônia e perseguindo-a a pedradas. Seu plano secreto era matá-la; desejava levá-la para a sua toca de Réquillart e ali comê-la. A coelha recomeçou sua fuga, de focinho levantado e orelhas caídas: uma pedra esfolou-lhe o lombo, outra arrancou-lhe o rabo; apesar da escuridão crescente, os garotos a teriam matado se não tivessem visto, no centro de uma clareira, Etienne e Maheu parados. Atiraram-se sobre o animal, pondo-o mais uma vez dentro do cesto. Quase no mesmo momento, Zacharie e os companheiros davam a última tacada, lançando a bola, que foi cair a poucos metros da clareira. Estavam todos em pleno local da reunião.
     Por toda a região, nas estradas e sendas da planície rasa, havia, desde o cair da tarde, uma longa fila, um deslizar de sombras silenciosas, caminhando isoladas ou em grupos, em direção às fímbrias violáceas da floresta. Todas as aldeias se esvaziavam, até as mulheres e crianças partiam como para um passeio sob o grande céu claro. Agora que os caminhos se tornavam escuros, não se distinguia mais essa multidão em marcha esgueirando-se para o mesmo local; sentia-se apenas o seu bater de pés, confusa, arrebatada por um único desejo. Ao longo das cercas, entre as moitas, apenas havia um roçar leve, um rumor vago de vozes noturnas.
     O Sr. Hennebeau, que nesse momento justamente voltava para casa montado na sua égua, apurava o ouvido para aquele rumor perdido. Encontrara casais que passeavam lentamente naquele belo anoitecer de inverno. Mais namorados que, beijando-se, iam esconder-se por trás dos muros para alguns momentos de prazer. Não eram esses os seus encontros habituais, moças deitadas no fundo dos fossos, indigentes enchendo-se da única alegria que não custava nada? E aqueles imbecis ainda se queixam da vida, quando tinham, à farta, a felicidade única de se amarem! De bom grado teria estourado de fome como eles, se pudesse recomeçar a existência com uma mulher que se entregasse sobre os cascalhos com todo o corpo e de coração aberto. Não encontrava consolo para a sua desgraça, invejava aqueles miseráveis. De cabeça baixa voltava para casa, guiado pelo passo moroso da sua égua, desesperado com aqueles ruídos longos que se perdiam na amplidão do campo em trevas, nos quais só distinguia beijos.

continua na página 242...
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Quarta Parte - (VI.b) / 
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.