segunda-feira, 20 de abril de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(b)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
 
continuando...

          Junto aos zulus, na África do Sul, esse convívio com os antepassados assume uma forma particularmente íntima. Os relatos que, há aproximadamente cem anos, o missionário inglês Callaway ali coletou e publicou constituem o testemunho mais genuíno que se pode encontrar a respeito do culto aos antepassados entre os zulus. Callaway deixa que seus informantes falem e registra-lhes as declarações na própria língua deles. Seu livro, The Religious System of the Amazulu, é raro e, por esse motivo, muito pouco conhecido; trata-se de um dos documentos fundamentais da humanidade.
     Os antepassados dos zulus transformam-se em cobras e andam debaixo da terra. Contrariamente ao que se poderia supor, porém, não são cobras míticas, que jamais se chega a ver. São espécimes bem conhecidos e apreciam perambular pelas proximidades das cabanas, as quais, aliás, adentram com frequência. As características físicas de algumas dessas cobras lembram antepassados específicos, reconhecidos como esses pelos vivos.
     Mas não são apenas cobras, pois, nos sonhos, aparecem para os vivos sob forma humana e conversam com eles. As pessoas esperam por esses sonhos, sem os quais a existência dos homens faz-se desagradável. Elas querem falar com seus mortos; fazem questão de, em seus sonhos, vê-los clara e nitidamente. Por vezes, a imagem dos antepassados se turva, tornando-se escura; tem-se então de, mediante determinados ritos, cuidar para que ela se faça novamente clara. De tempos em tempos — e, muito particularmente, em todas as ocasiões importantes —, sacrifícios são-lhes oferecidos. Cabras e bois são abatidos em sua homenagem e, de modo solene, os antepassados são invocados para que deles se sirvam. São chamados em voz alta e por seus títulos de glória, aos quais atribuem grande valor; são deveras pundonorosos, sendo considerado ofensivo esquecer ou omitir-lhes o respectivo título. O animal sacrificado deve berrar, a fim de que eles o ouçam; os antepassados adoram esse grito. Por isso mesmo, ovelhas, que morrem caladas, não devem ser utilizadas como vítimas. O sacrifício nada mais é aí do que uma refeição da qual compartilham mortos e vivos, uma espécie de comunhão destes com aqueles.
     Se se vive como os antepassados estavam acostumados a viver, conservando inalterados os velhos usos e costumes; se se oferecem regularmente sacrifícios a eles, ficam satisfeitos e favorecem a prosperidade de seus descendentes. Mas, tão logo alguém adoece ele saberá que provocou a insatisfação de um de seus antepassados e fará de tudo para descobrir o motivo dessa insatisfação.
     Os mortos nem sempre são justos. Foram seres humanos que as pessoas conheceram e de cujas fraquezas e erros elas se lembram bem. Nos sonhos, eles figuram em consonância com o caráter que tinham. Vale a pena destacar aqui um caso registrado com algum detalhe no livro de Callaway. Tal caso mostra que um rancor pelos que ficaram assalta até mesmo aqueles mortos bem assistidos e louvados, e isso simplesmente pelo fato de não estarem mais vivos. A história de um tal rancor, conforme se lerá a seguir, corresponde, traduzida para o nosso contexto, ao curso de uma doença perigosa.
     Um primogênito morreu. Suas posses e, muito particularmente, todo o seu gado — que é o que se considera sua verdadeira propriedade — passaram para o irmão mais novo. Tal ordem de sucessão é a usual; o irmão mais novo, que tomou posse da herança e realizou devidamente todos os sacrifícios, não tem consciência de ter cometido qualquer falta para com o morto. De súbito, porém, fica gravemente enfermo e, em sonho, aparece-lhe o irmão mais velho.
     “Sonhei que ele me batia e dizia: ‘Como pode você não saber mais quem eu sou?’. E eu respondi: ‘O que posso fazer para que você veja que eu te conheço? Sei que você é meu irmão!’. E ele perguntou: ‘Quando você sacrifica teus bois, por que você não me chama?’. E eu lhe disse: ‘Mas é claro que te chamo, e te honro com teu título de glória. Diga-me qual foi o boi que matei sem te chamar’. Ao que ele respondeu: ‘Eu quero carne’. Recusei-lhe a carne dizendo-lhe: ‘Não, meu irmão. Não tenho nenhum boi. Você está vendo algum no curral?’. ‘Mesmo que haja só um’, disse ele, ‘eu o exijo.’ Quando acordei, sentia uma dor no anco. Tentei respirar, mas não consegui: estava sem fôlego.”
     O homem era teimoso e não queria sacrificar boi algum. Disse: “Estou realmente doente e conheço a doença que está me abatendo”. As pessoas disseram-lhe: “Se você a conhece, por que não se livra dela? Pode um homem provocar deliberadamente a sua doença? Quando sabe que doença é essa, ele quer morrer? Sim pois quando o espírito está irado com alguém ele o destrói”.
     O homem, então, retrucou: “Não, meus senhores! Foi um homem que me fez doente. Eu o vejo quando durmo, quando me deito. Só porque sente vontade de comer carne ele me vem com artimanhas e diz que não o chamo quando mato o gado. Isso me deixa bastante surpreso, pois já matei tanto gado e nem uma única vez deixei de chamá-lo. Se ele quer carne, poderia simplesmente me dizer: ‘Meu irmão, eu queria carne’. Mas, em vez disso, diz que não o honro. Estou com raiva dele e acho que ele só quer me matar”.
     As pessoas, então, disseram: “Você acredita que o espírito ainda é capaz de entender, quando se fala com ele? Onde é que ele está, para que possamos dizer-lhe a nossa opinião? Estivemos sempre presentes nas ocasiões em que você abateu o gado. Você o louvou e chamou-o por seu título de glória, título que ele recebeu por sua valentia. Nós ouvimos e, se fosse possível a esse teu irmão ou a qualquer outro homem morto ressuscitar, nós conversaríamos com ele e lhe perguntaríamos: ‘Por que você diz essas coisas?’”.
     Ao que o doente respondeu: “Ora, meu irmão comporta-se dessa forma jactanciosa porque é o mais velho. Sou mais novo que ele. Espanto-me quando ele exige que eu acabe com o gado todo. Ele próprio não deixou o gado como herança ao morrer?”.
     E as pessoas disseram: “O homem morreu. Nós, porém, estamos falando com você de verdade, e teus olhos ainda nos fitam de fato. Por isso, no que se refere a ele, te dizemos: converse com ele calmamente e, ainda que você tenha apenas uma cabra, ofereça essa cabra a ele. É uma vergonha que ele venha e te mate. Por que você continua sempre vendo teu irmão ao dormir e fica doente? Um homem deveria sonhar com seu irmão e acordar saudável”.
     Então, o irmão mais novo respondeu: “Está bem, meus senhores. Vou dar a ele a carne que ele adora. Ele exige carne e está me matando. Está cometendo uma injustiça comigo. Sonho com ele todo dia e acordo com dores. Ele não é um homem; foi sempre um pobre coitado, um arruaceiro. Sim, porque ele era assim mesmo: a cada palavra, um soco. Quando alguém falava com ele, ele logo partia para o ataque. Então havia briga; ele a provocara e batia. Nunca compreendeu nem admitiu: ‘Cometi um erro e não deveria ter lutado com essas pessoas’. Seu espírito é como ele era. É mau e está sempre irado. Mas vou dar a ele a carne que ele exige. Se vir que ele vai me deixar em paz e que eu vou ficar saudável, amanhã vou abater o gado para ele. Ele deve deixar que eu me cure e respire, se é ele a causa de tudo isso. Minha respiração não deve mais me cortar como agora”.
     As pessoas concordaram: “Isso. Se amanhã você estiver bom, então saberemos que foi o espírito de teu irmão. Mas se você ainda estiver doente, então não diremos que foi teu irmão a causa da doença: diremos que se trata de uma doença comum”.
     Quando o sol se pôs, o irmão mais novo reclamou ainda das dores. Quando, porém, chegou a hora de ordenhar as vacas pediu comida. Pediu um caldo aguado e conseguiu engolir um pouco dele. Então, disse: “Me deem um pouco de cerveja. Estou com sede”. Suas mulheres deram-lhe cerveja e sentiram-se confiantes. Alegraram-se, pois haviam sentido muito medo e se perguntado: “Será que a doença é tão ruim a ponto de ele não comer nada?”. Alegraram-se em silêncio; não manifestaram sua alegria, mas apenas se entreolharam. Ele bebeu a cerveja e disse: “Me deem um pouco de rapé. Quero cheirar um pouquinho só”. Deram-lhe o rapé, ele o cheirou e deitou-se. Então, adormeceu.
     De noite, o irmão veio e lhe disse: “E então, você já separou o gado para mim? Vai matá-lo amanhã cedo?”.
     E, dormindo, ele lhe respondeu: “Sim, vou matar uma cabeça de gado para você. Por que você diz, meu irmão, que eu não te chamo, se sempre te honrei com teu título de glória ao matar o gado? Anal, você era corajoso e um bom guerreiro”.
     Ao que o irmão replicou: “Digo-o com razão, se tenho vontade de comer carne. Afinal, morri e te deixei uma aldeia. Você tem uma grande aldeia”. 
     “Está bem, está bem, meu irmão. Você me deixou uma aldeia. Mas ao deixá-la para mim e morrer, você matou todo o teu gado?” 
     “Não, não matei todo ele.” 
     “E agora, então, filho de meu pai, você exige de mim que eu acabe com tudo?” 
     “Não, não exijo que você acabe com tudo. Digo-te apenas: mate, para que tua aldeia seja grande!” 
     O irmão mais novo acordou; sentia-se bem e a dor passara. Sentou-se e cutucou a mulher: “Levanta, acenda o fogo”. A mulher acordou, atiçou o fogo e perguntou-lhe como se sentia. “Fique tranquila”, disse ele. “Ao acordar, senti um alívio no corpo. Falei com meu irmão. Quando acordei, estava curado.” Cheirou, então, um pouco de rapé e adormeceu de novo. O espírito do irmão retornou, dizendo-lhe: “Está vendo? Eu te curei. Mate o gado pela manhã!”.
     De manhã, ele se levantou e foi até o curral. Tinha ainda outros irmãos mais novos, que o acompanharam. “Digo a vocês que agora estou curado. Meu irmão diz que me curou.” Depois, mandou que trouxessem um boi. Eles o trouxeram. “Tragam aquela vaca estéril!” Trouxeram ambos. Foram até a parte de cima do curral e postaram-se ali, ao lado dele, que começou a rezar nos seguintes termos: “Comei, pois, gente da nossa casa. Que um espírito bom esteja conosco, para que as crianças cresçam e as pessoas permaneçam com saúde. Pergunto a ti, que és meu irmão, por que segues vindo até mim quando durmo. Por que sonho contigo e fico doente? Um bom espírito chega e traz boas notícias. Mas eu tenho de queixar-me o tempo todo de doenças. Que gado é esse que precisa devorar seu dono, pondo-o constantemente doente? Eu te digo: para com isso! Para de me fazer adoecer! E digo-te: venha até mim quando durmo, fale com calma e diga-me o que quiseres! — Mas tu vens para me matar! É evidente que, em vida, foste um mau sujeito. Mas segues sendo um mau sujeito embaixo da terra? Nunca esperei que teu espírito me visitasse amistosamente, trazendo me boas notícias. Mas por que vens com maldade? — tu, meu irmão mais velho, que deverias trazer coisas boas à aldeia, para que nada de mau lhe acontecesse; tu, que és, afinal, o dono da aldeia!”.
     Ao que, então, dando graças, disse ainda as seguintes palavras sobre o gado: “Aí está o gado que te ofereço. Eis aí um boi vermelho; eis aí uma vaca estéril, vermelha e branca. Mata-os! Digo-te: conversa amistosamente comigo, para que eu acorde sem dores. Digo-te: deixa que todos os espíritos desta casa se reúnam em torno de ti, que gostas tanto de carne!”.
     E ordenou: “Matem-nos!”. Um de seus irmãos pegou uma lança e cravou-a na vaca estéril, que caiu. Enfiou-a ainda no boi, que tombou também. Ambos berravam. Ele os matou; estavam mortos. Ordenou, então, que lhes tirassem o couro. Ambos foram despelados; o couro foi lhes tirado. Comeram os animais no curral. Os homens todos se reuniram e pediram comida. Levaram embora pedaço por pedaço. Comeram e estavam satisfeitos. Agradeceram e disseram: “Nós te agradecemos, filho de fulano de tal. Se um espírito te deixar doente, saberemos que se trata de teu irmão miserável. Não sabíamos, ao longo de tua grave enfermidade, se ainda comeríamos carne em tua companhia. Vemos agora que o miserável quer te matar. Alegra-nos que você esteja saudável novamente”.
     “Afinal, morri”, diz o irmão mais velho, e nessa afirmação encontra-se resumido o cerne da disputa, da perigosa enfermidade, do relato em si. Como quer que o morto se apresente, o que quer que demande, ele morreu e tem, assim, razão de sobra para a amargura. “Deixei-te uma aldeia”, afirma, logo acrescentando: “Você tem uma grande aldeia.” A vida do outro é essa aldeia, de modo que o morto poderia igualmente ter dito: “Eu estou morto e você continua vivo”.
     É essa reprimenda que o vivo teme, e, sonhando com ela, ele dá razão ao morto: sobreviveu a ele. A amplitude dessa injustiça, ao lado da qual todas as demais empalidecem, confere ao morto o poder de transformar reprimenda e amargura numa doença grave. “Ele quer me matar”, diz o irmão mais novo — pois está morto, pensa consigo. Sabe, pois, muito bem por que razão teme o irmão, e, para apaziguá-lo, concorda afinal com o sacrifício.
     Como se vê, a sobrevivência dos mortos vincula-se, para os que ficaram, a um considerável desconforto. Mesmo onde se estabeleceu uma forma de veneração regular, não se pode confiar inteiramente neles. Quanto mais poderoso foi o morto entre os homens na terra, tanto maior e mais perigoso é seu rancor no além.

continua página 401...
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Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(b)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

domingo, 19 de abril de 2026

Bom noite, Jazz... suave para relaxar

Jazz Etéreo para Piano Noturno 

- Música Jazz Suave para Dormir e Relaxamento


mergulhe neste charme suave 
crie um ambiente aconchegante 
melodias relaxantes de piano jazz 
acalme sua mente, 
ajuda-se a aliviar a insônia 
deixe-se guiar gentilmente 
para um sono profundo e tranquilo.
não, não é autoajuda,
apenas deixe essa calma do jazz
levar sua mente ao descanso,
melodias suaves de puro relaxamento. 
o dia foi longo, 
talvez não exista a música perfeita,
simplesmente 
aproveite 
esses momentos tranquilos da noite

Bom diaaa, Clássicas... Bach

Uma bela manhã...

... apesar dos tiros cruéis, das mortes estúpidas, dos medos, lá e aqui! as guerras são deselegantes e estimulam a concentração do cérebro para apenas sobreviver, provocam a desarmonia em meio as mortes fluidas de crianças, mulheres e velhos, dor inútil e desnecessária. nossa teimosia em viver com calma e inspiração nos pede Bach, sua música elegante em harmonia com rotinas matinais e começos produtivos estimula um outro começo de dia, uma outra vida possível, lá e aqui! quem sabe, né? experimente outras escolhas que a intolerância, a violência, as armas...





Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(d)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Decorridas duas horas, tínhamos atingido uma profundidade de cinco pés, e nenhum indício de tesouro se nos deparara. Descansámos todos e pensei que a farsa estivesse a chegar ao fim. Entretanto, Legrand, se bem que evidentemente desconcertado, enxugou a testa com um ar pensativo e tornou a pegar na pá. O buraco ocupava já toda a extensão do círculo de quatro pés de profundidade. Aumentámos ligeiramente este limite e cavámos ainda mais dois pés. Não apareceu nada. O meu pesquisador de ouro, do qual eu tinha imensa piedade, saltou por fim para fora do buraco com o mais espantoso desapontamento estampado no rosto e decidiu-se a vestir o casaco, que tirara antes de começar o trabalho. 
     Evitei fazer-lhe qualquer observação. Júpiter, a um sinal do patrão, começou a reunir a ferramenta. Feito isto, e depois de tirar o açaimo ao cão, voltamos a pôr-nos em marcha num silêncio profundo. Tínhamos dado talvez uma dúzia de passos quando Legrand, soltando uma terrível praga, saltou para Júpiter e agarrou-o pelo pescoço. O negro estupefato abriu os olhos e a boca a toda a largura, deixou cair as pás e caiu de joelhos. 
— Celerado! — gritava Legrand sibilando as sílabas entre dentes. — Negro do diabo! Vil negro! Fala, ordeno-te! Responde-me neste instante e, sobretudo, não mintas. Qual é o teu olho esquerdo? 
— Ah!, misericórdia, massa Will! não é este o meu olho esquerdo? — rugiu Júpiter espantado, colocando a mão sobre o olho direito, e mantinha-a agora com a força do desespero, como se receasse que o seu patrão lhe quisesse arrancar. 
— Eu já desconfiava! Bem o sabia! Bravo! — vociferou Legrand largando o negro, e dando uma série de saltos e cabriolas, com grande espanto do seu criado que se levantara e olhava, sem dizer palavra, para o patrão e para mim. 
— Vamos, é preciso voltar — disse ele ao negro. — A partida não está perdida.

     E dirigiu-se de novo para a tulipeira. 

— Júpiter — disse-lhe quando chegamos ao pé da árvore — vem aqui! O crânio está pregado com a face voltada para o exterior ou voltada para o centro do ramo? 
— A caveira está pregada ao ramo exterior, massa, de forma que os corvos puderam comer os olhos sem nenhuma dificuldade. 
— Bem. Então, foi por este olho ou pelo outro que fizeste escorregar o escaravelho? — E Legrand tocou alternadamente nos dois olhos de Júpiter. 
— Por este olho aqui, massa, pelo olho esquerdo, justamente como me havia dito.

     E era ainda o seu olho direito que indicava o pobre negro. 

— Vamos, vamos! É preciso recomeçar.

     Então o meu amigo, na loucura da qual agora eu via, ou julgava ver, certos indícios de método, colocou a cavilha que marcava o sítio onde o escaravelho caíra a três polegadas, para oeste, da sua primeira posição. Estendendo de novo o seu cordel do ponto mais próximo do tronco até à cavilha, como já tinha feito, e continuando a estender em linha reta a uma distância de cinquenta pés, marcou um novo ponto afastado várias jardas do sítio em que tínhamos anteriormente cavado.
     Em volta deste novo centro, foi traçado um círculo pouco mais largo do que o primeiro, e pusemo-nos de novo a trabalhar. Eu estava muitíssimo fatigado, mas sem me dar conta do que influíra para uma modificação no meu pensamento, não sentia já uma grande aversão pelo trabalho que me fora imposto. Interessei-me inexplicavelmente. Diria mais: sentia-me excitado. Talvez houvesse, em toda a estranha conduta de Legrand, um certo ar deliberado, um certo ar profético que me impressionava. Eu cavava ardentemente e, de vez em quando, surpreendia-me a procurar, por assim dizer, com os olhos, com um sentimento que se assemelhava ao da espera desse tesouro imaginário, cuja visão tinha transtornado o meu infortunado camarada. Num desses momentos em que as divagações se tinham apoderado estranhamente de mim, e quando tínhamos já trabalhado aproximadamente hora e meia, fomos novamente interrompidos pelos uivos do cão. A sua inquietação no primeiro caso não fora evidentemente senão o resultado de um capricho ou de uma alegria doida. Desta vez, porém, tinha um tom mais violento e mais caracterizado. Quando Júpiter se esforçou de novo a açaimá-lo, ele resistiu furiosamente e, saltando para a cova pôs-se a esgaravatar freneticamente a terra com as unhas. Passados alguns segundos, o cão tinha descoberto uma massa de ossos humanos, formada por dois esqueletos completos e misturados com vários botões de metal e outra coisa que nos pareceu ser lã velha, apodrecida e esfarelada. Uma ou duas pazadas fizeram saltar a lâmina de uma grande faca espanhola. Cavámos ainda mais e apareceram três ou quatro moedas de ouro e de prata espalhadas.
     Ao ver isto, Júpiter pôde a custo conter a sua alegria, mas a fisionomia do seu patrão exprimiu um desapontamento medonho. Pediu, no entanto, para continuarmos os nossos esforços, e mal acabara de falar, tropecei e caí para a frente, com a biqueira da minha bota metida num grande aro de ferro que jazia meio enterrado sob um monte de terra fresca. Recomeçamos o trabalho com um novo ardor. Eu nunca passara dez minutos de uma tão viva exaltação. Ao fim desse tempo, desenterrámos completamente um cofre de forma oblonga que, a julgar pelo seu perfeito estado de conservação e a sua espantosa resistência, devia ter sido submetido a qualquer processo de mineralização, talvez com cloreto de mercúrio. Este cofre tinha três pés e meio de profundidade. Estava solidamente reforçado por duas lâminas de ferro forjado pregadas e formando em volta uma espécie de grinalda. De cada lado do cofre, perto da tampa, havia três argolas de ferro, seis ao todo, por meio das quais seis pessoas podiam levantá-lo. Todos os nossos esforços reunidos, conseguiram movê-lo apenas ligeiramente do lugar. Vimos imediatamente a impossibilidade de levar um tão grande peso. Por felicidade, a tampa estava apenas presa por dois ferrolhos que fizemos deslizar, tremendo e cheios de ansiedade. De súbito, deparou-se-nos um tesouro de um valor incalculável. Os raios das lanternas incidiam na cova e faziam brilhar, numa mistura confusa, o ouro e as joias, com reflexos e esplendores que nos deslumbravam positivamente.
     Nunca poderei tentar descrever os sentimentos com que contemplei este tesouro. Como é de supor, a estupefação dominou todos os outros. Legrand parecia esgotado pela sua excitação e apenas pronunciava algumas palavras. Quanto a Júpiter, com o rosto de uma palidez mortal, se é possível numa cara negra, parecia estupefato, fulminado.
     Em breve, caiu de joelhos na cova e mergulhando os braços nus no ouro, até aos cotovelos, deixou-os estar demoradamente, como se gozasse da volúpia de um banho. 

— Enfim! — exclamou ele com um profundo suspiro, como se falasse com ele mesmo. — E tudo isto por causa do escaravelho de ouro? O lindo escaravelho de ouro! O pobre escaravelhozinho que tu injuriavas, que caluniavas. Não tens vergonha de ti mesmo, negro? Que tens para responder?

     Foi preciso, entretanto, que eu despertasse, por assim dizer, o patrão e o criado, e que lhes fizesse compreender que havia urgência em levar o tesouro.
     Já era tarde e era preciso empregar qualquer sistema, se queríamos que tudo ficasse em segurança em nossa casa antes de amanhecer.
     Não sabíamos que resolução deveríamos tomar e perdemos muito tempo a deliberar. Por fim, aliviamos o cofre levando dois terços do conteúdo e pudemos, enfim, mas não sem custo ainda, arrancá-lo da cova. Os objetos que nós tínhamos tirado foram colocados entre os cardos e confiados à guarda do cão, a quem Júpiter recomendou severamente que não se mexesse sob nenhum pretexto e que não abrisse a boca até ao nosso regresso.
     Então pusemo-nos precipitadamente a caminhar com o cofre; alcançamos a cabana sem incidentes, mas muito cansados e à uma hora da manhã. Esgotados como estávamos não pudemos entregarmo-nos imediatamente à tarefa, seria ultrapassar as forças humanas. Descansamos até às duas, depois ceamos; por fim, metemo-nos a caminho pelas montanhas com três sacos que encontramos, por sorte, na cabana. Chegamos um pouco antes das quatro horas à cova, e dividimos tão igualmente quanto possível o resto do achado, e sem nos darmos ao trabalho de taparmos o buraco, pusemo-nos a caminho para a nossa casa, onde colocamos os nossos preciosos fardos, precisamente quando os primeiros clarões da aurora apareciam a leste, por cima das árvores.
     Estávamos absolutamente exaustos; mas a profunda excitação impediu-nos de repousar. Depois de um sono inquieto de três ou quatro horas, levantámo-nos, como se estivéssemos combinados, para proceder ao exame do nosso tesouro.
     O cofre estava cheio até às bordas e passamos o dia inteiro e a maior parte da noite seguinte a inventariar o conteúdo. O cofre tinha sido cheio sem nenhuma ordem, de qualquer maneira. Quando fizemos cuidadosamente uma classificação geral, encontramo-nos de posse de uma fortuna que ultrapassava o que nós tínhamos pensado. Havia em espécies mais de quatrocentos e cinquenta mil dólares, valorizando as moedas tão rigorosamente quanto possível, segundo as cotações da época. No meio de tudo isso nem uma parcela de prata. Tudo de ouro muito antigo e de uma grande variedade: moedas francesas, espanholas e alemãs, alguns guinéus ingleses, e algumas moedas francesas de que nunca víramos nenhum exemplar. Havia várias moedas muito grandes e pesadas, mas tão gastas que nos foi impossível decifrar as inscrições. Nenhuma moeda americana. Quanto ao valor das joias, era um caso muito mais difícil. Encontrámos diamantes, dos quais alguns muito belos e de um tamanho invulgar — ao todo cento e dez — e nem um só era pequeno; dezoito rubis de um brilho notável; trezentas e dez esmeraldas, todas muito belas; vinte e uma safiras e uma opala. Todas essas pedras tinham sido arrancadas das suas armações e metidas de qualquer maneira no cofre. Quanto às armações, que pusemos numa categoria diferente do outro ouro, pareciam ter sido amachucadas à martelada, como que para ficarem irreconhecíveis. Além de tudo isso, havia uma enorme quantidade de ornamentos de ouro maciço. Perto de duzentos anéis ou brincos maciços; belas correntes, umas trinta, se a memória não me falha; oitenta e três crucifixos muito grandes e muito pesados; cinco incensórios de ouro de grande preço; uma gigantesca tigela de ouro, de grande valor, decorada com folhas de videira e figuras de bacantes cinzeladas; dois cabos de espada maravilhosamente trabalhados e enorme quantidade de outros artigos mais pequenos, dos quais não me recordo. O peso de todos estes valores ultrapassava as 350 libras; nesta avaliação omiti cento e noventa e sete relógios de ouro, que valiam, pelo menos quinhentos dólares cada um. Vários eram velhos, e sem nenhum valor como peças de relojoaria, pois tinham sofrido, mais ou menos, a ação corrosiva da terra, mas todos eram magnificamente ornados de pedrarias e as caixas de grande preço. Avaliamos, nessa noite, o conteúdo total do cofre num milhão e meio de dólares; e quando mais tarde demos destino joias e pedras, depois de termos guardado algumas para nosso uso pessoal, achamos que o tínhamos avaliado abaixo do seu justo valor.

continua na página 424...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 57 - Das baleias pintadas a óleo

Moby Dick

Herman Melville

57 - Das baleias pintadas a óleo; gravadas em dentes; medeira; metal; pedra; montanhas; estrelas   

     Em Tower-Hill, quando se desce para as docas de Londres, pode-se ver um mendigo aleijado (ou poita, como dizem os marinheiros), segurando uma tabuleta pintada, que representa a cena trágica em que perdeu sua perna. São três baleias e três botes; e um dos botes (onde se presume ainda estar a perna que falta em sua integridade original) está sendo triturado pela mandíbula da baleia em primeiro plano. A qualquer hora, nestes dez anos, segundo me disseram, esse homem está ali com esse quadro, expondo o toco de sua perna para um mundo cético. Mas é chegado o tempo de sua justificativa. Suas três baleias são tão boas quanto as que foram publicadas em Wapping, sob qualquer aspecto; e o seu toco é tão inquestionável quanto qualquer outro que se encontre em paragens ocidentais. Embora sempre montado naquela plataforma, jamais discursa o pobre baleeiro; e sim, de olhos baixos, contempla com pesar a própria amputação.
     Por todo o Pacífico, e também em Nantucket, e New Bedford, e Sag Harbor, deparam-se desenhos vívidos de baleias e cenas da pesca baleeira, talhados pelos próprios pescadores em dentes de Cachalotes, e espartilhos feitos de osso de Baleia Franca, e outros artigos de skrimshander, como os baleeiros chamam os numerosos objetos pequenos e originais que cuidadosamente esculpem naquela matéria-prima, em suas horas de lazer marítimo. Alguns deles possuem caixinhas de apetrechos que parecem de dentistas, destinados especialmente ao ofício do skrimshander. Mas, em geral, lavram apenas com os seus canivetes; e, com essa ferramenta quase onipotente, fazem qualquer coisa que se queira, segundo a fantasia dos marujos.
     O longo exílio da Cristandade e da civilização inevitavelmente devolve o homem àquela condição na qual Deus o colocou, i.e., a chamada selvageria. O verdadeiro caçador de baleias é tão selvagem quanto um Iroquês. Eu mesmo sou um selvagem, que só deve lealdade ao Rei dos Canibais; e pronto para, a qualquer momento, me rebelar contra ele.
     Ora, um dos traços característicos do selvagem, nas horas em que está em casa, é a sua fantástica e paciente engenhosidade. Uma clava guerreira, um antigo remo do Havaí, com os seus múltiplos e elaborados entalhes, são monumentos tão grandiosos da perseverança humana quanto um léxico Latino. Pois, com simples pedaços de conchas quebradas ou um dente de tubarão, essa complexidade milagrosa do rendilhado de madeira foi obtida; e isso custou longos anos de longa aplicação.
     Como o selvagem do Havaí, assim também é o selvagem marinheiro branco. Com a mesma paciência maravilhosa, e com o mesmo único dente de tubarão, com o seu único pobre canivete, ele fará uma escultura de osso, não tão bem acabada, mas cujo labirinto do desenho é tão intricado quanto o do selvagem Grego, do escudo de Aquiles; e repleta do espírito e de sugestões bárbaras como as estampas daquele bom e velho selvagem holandês, Albert Dürer.
     Baleias de madeira ou silhuetas de baleias entalhadas em pequenas tábuas escuras da madeira nobre dos navios dos Mares do Sul são encontradas com frequência nos castelos de proa dos navios baleeiros Norte-Americanos. Algumas foram feitas com muita exatidão.
     Em algumas velhas casas de campo com telhados de empena, veem-se baleias de metal suspensas pela cauda, servindo de aldrava na porta de entrada. Quando o porteiro está dormindo, a baleia cabeça de bigorna é a mais útil. Mas essas baleias de aldrava raramente são notáveis pela fidelidade do escopo. Nas agulhas das torres de antiquadas igrejas, veem-se baleias de ferro laminado a servir de cata-vento; mas ficam tão no alto, e, além disso, são rotuladas com todas as letras de “Não me toques!”, que não se pode vê-las de perto para julgar o seu mérito.
     Nas regiões descarnadas e escaveiradas da terra, onde, ao pé de altos penhascos escarpados, massas rochosas se espalham em conjuntos fantásticos sobre a planície, com frequência se descobrem imagens como que de formas petrificadas do Leviatã parcialmente imersas na vegetação, que um dia de vento faz quebrar contra elas numa arrebentação de ondas verdes.
     E ainda, nas regiões montanhosas, onde o viajante sempre está cingido por anfiteatrais alturas; aqui e ali, de algum venturoso ponto de vista, captam-se transitórios lampejos de perfis de baleias delineados ao longo dos sulcos ondulantes. Mas é preciso ser um rematado baleeiro para ver tais cenas; e não apenas isso, quando se quer voltar à mesma vista, há que ser criterioso e marcar a intersecção exata da latitude e da longitude do primeiro ponto de observação, caso contrário – tão casuais são essas observações das encostas –, recuperar o seu exato e primeiro ponto de vista requereria uma trabalhosa redescoberta; como as ilhas Salomão, que ainda são desconhecidas, embora o agitado Mendaña tenha ali pisado e o velho Figueroa as tenha descrito.
     Nem mesmo engrandecidamente elevado ao sublime pelo assunto, pode-se evitar distinguir enormes baleias nos céus estrelados, e botes a dar-lhes caça; como quando longamente tomadas por pensamentos bélicos as nações do Oriente viram exércitos a travar batalhas entre as nuvens. Assim no Norte estive no encalço do Leviatã, dando voltas ao redor do Polo, com as revoluções dos pontos luminosos que primeiramente o delinearam para mim. E, sob refulgentes céus Antárticos, abordei o Navio dos Argonautas e juntei-me à caçada da Baleia cintilante, muito além dos mais remotos domínios da Hidra e dos Peixes.
     Com âncoras de fragata a servir de freios, e feixes de arpões por esporas, quisera ser capaz de montar naquela baleia e subir ao mais alto firmamento, para ver se os céus fabulosos, com as suas inúmeras tendas, estão realmente acampados além de minha visão mortal!

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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
57 - Das baleias pintadas a óleo /            
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?