A Montanha Mágica
Capítulo VII
A grande irritação
À medida que se sucediam os anos, um certo quê começou a pairar sobre o Sanatório
Berghof, um espírito que, como Hans Castorp vagamente sentia, era o descendente direto do
demônio cujo nome maligno já citamos em outra ocasião. O jovem estudara aquele demônio com
a curiosidade irresponsável de um viajeiro em busca de formação e até descobrira na sua própria
alma perigosas aptidões para desempenhar um papel importante no culto abominável que todo
mundo lhe devotava. Segundo a sua índole, o nosso herói não era feito para se entregar ao vício
que a essa altura dos acontecimentos se pôs a grassar, ao passo que antes só existira, tal e qual
aquele outro, endemicamente ou em surtos espaçados. Contudo notou Hans Castorp, com
espanto, que bastava relaxar um pouquinho para que, também ele, na sua fisionomia, nas suas
palavras, no seu comportamento, sucumbisse a uma infecção à qual ninguém, nesse ambiente,
conseguia subtrair-se.
Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espírito rixento. Uma irritação aguda. Uma
impaciência indizível. Uma tendência geral para discussões venenosas, para acessos de raiva e
mesmo para lutas corporais. Querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte surgiam
todos os dias entre indivíduos ou grupos inteiros, e o característico era que aqueles que não
tomavam parte nos conflitos, ao invés de sentir-se desgostosos diante da conduta dos respectivos
adversários ou de servir de pacificadores, simpatizavam com a explosão de sentimentos e
intimamente se abandonavam à mesma vertigem. Ficavam pálidos ou estremeciam ao ver uma
cena dessas. Os olhos brilhavam agressivamente. As bocas crispavam-se de tanta paixão.
Invejava-se aos protagonistas do momento o direito, a oportunidade de berrar. O premente
desejo de imitá-los atormentava as almas e os corpos, e quem não tinha a força necessária para
refugiar-se na solidão era irresistivelmente arrastado pelo torvelinho. As brigas por motivos
fúteis, as recriminações mútuas em presença das autoridades empenhadas em reconciliar os
digladiantes, mas que sucumbiam elas próprias, com espantosa facilidade, vítimas da tendência
geral para a gritaria grosseira – tudo isso se tornara frequente no Sanatório Berghof. Os que saíam
de casa mais ou menos tranquilos eram incapazes de prever em que estado voltariam. Uma
pensionista que tinha o seu lugar à mesa dos “russos distintos”, moça muito elegante da cidade
provinciana de Minsk, ainda jovem e apenas levemente enferma – só três meses lhe haviam sido
impostos –, desceu certo dia à vila para comprar alguma coisa na loja francesa de blusas. Ali teve
um atrito tão violento com a modista que, ao regressar possuída da mais viva excitação, teve uma
forte hemoptise e, tendo chegado a esse ponto, era agora incurável. Mandaram vir o marido e
informaram-no de que ela estava condenada a permanecer para sempre ali em cima.
Este é um exemplo do estado de espírito que se alastrava. Muito a contragosto citaremos
outros casos. Um ou outro leitor talvez se lembre ainda de certo colegial, ou ex-colegial, que
usava óculos de aros redondos e comia à mesa da Srª. Salomon, aquele rapaz macilento que tinha
o hábito de cortar toda a comida em pedaços, a ponto de obter uma espécie de picadinho, que
então engolia vorazmente, com os cotovelos apoiados na mesa, interrompendo-se apenas para
passar de vez em quando o lenço por trás das lentes espessas. Assim fizera durante todo o tempo,
continuando a ser um colegial, ou um ex-colegial, sempre abarrotando-se de comida e enxugando
os olhos, sem dar motivo para se prestar à sua pessoa uma atenção mais do que passageira. Um
belo dia, porém, durante o café da manhã, teve, inopinadamente, sem mais nem menos, um
ataque de cólera que causou escândalo geral e agitou o ambiente da sala de refeições. Ouviu-se
um barulho que partia do lugar onde se achava o rapaz. E ali estava ele sentado, lívido, a gritar,
dirigindo-se à anã que se encontrava de pé a seu lado. – É mentira sua! – gritou em voz
esganiçada. – O chá está frio! O chá que me trouxe está frio como gelo. Não o quero! Prove-o
você mesma antes de mentir. Então vai ver que é uma água morna e já usada, intragável para
gente que se preze. Como se pode atrever a servir-me um chá gelado assim, como pode ter a
ousadia de me oferecer essa porcaria morna na esperança de que eu beba?! Eu não! Não tomarei
isso! – vociferou e meteu-se a esmurrar a mesa com ambos os punhos, de modo que a baixela
tinia e dançava. – Eu quero é chá quente! Quero chá fervendo. Tenho direito a isso perante Deus
e os homens! Não aceito isto. Faço questão que me sirvam chá quentíssimo! Antes morrer
imediatamente do que tomar um só gole de... Maldita aleijada! – uivou de repente, abandonando,
por assim dizer, de golpe, os últimos restos de controle e avançando com arrebatamento até os
derradeiros limites da raiva. Ameaçou Emerentia com os punhos cerrados e mostrou-lhe
literalmente os dentes cobertos de espuma. Prosseguiu dando murros na mesa, batendo o pé no
chão e urrando aqueles “Eu quero” ou “Eu não quero”, enquanto na sala se repetia o espetáculo
de sempre. Uma simpatia veemente, de alta intensidade, estava sendo dedicada ao colegial
raivoso. Alguns pensionistas acabavam de se levantar de um pulo. Enquanto contemplavam o
rapaz, também eles tinham os punhos cerrados, os dentes rilhando e os olhos chamejantes.
Outros permaneciam sentados, pálidos, com os olhos baixos, sacudidos de tremor. E esse estado
persistia ainda, quando o colegial, completamente exausto, havia muito se achava diante de uma
xícara de chá novo, sem tocar nela.
Que era isso?
Um homem entrou na comunidade do Berghof, um trintão, antigo comerciante, febril
desde muito tempo e que passava os anos indo de sanatório em sanatório. Era inimigo dos
judeus, anti-semita por princípio e por esporte; era-o com um fanatismo soberbo, e essa atitude
negativa constituía todo o seu orgulho e o conteúdo da sua vida. Tinha sido comerciante; já não o
era, não era nada no mundo a não ser inimigo dos judeus. Estava gravemente enfermo; sofria de
penosos ataques de tosse; às vezes dava a impressão de espirrar pelos pulmões, um só espirro
agudo, breve, sinistro. Mas não era judeu, e precisamente isso é que nele havia de positivo.
Chamava-se Wiedemann, tinha um nome cristão e não um nome impuro. Era assinante de uma
revista intitulada A Tocha Ariana, e dizia coisas como as seguintes:
– Hospedei-me no Sanatório X., em B... Estou a ponto de me instalar no alpendre de
repouso. Quem é que vejo na espreguiçadeira à minha esquerda? O Sr. Hirsch! E quem está
deitado à direita? O Sr. Wolf! Claro que parti imediatamente... – E assim por diante.
“Logo você!”, pensou Hans Castorp, cheio de aversão, ao ouvir isso.
Wiedemann tinha um característico olhar rápido e insidioso. Literalmente, era como se
andasse com uma borla suspensa diante do nariz, em que cravasse os olhos com malícia, sem
nada enxergar atrás dela. A ideia fixa, absurda, que o acossava, convertera-se numa desconfiança
pruriente, numa constante mania de perseguição, que o impelia a catar qualquer impureza oculta
ou disfarçada que porventura existisse a seu redor, e a expô-la ao desprezo público. Fosse onde
fosse, remoqueava, suspeitava, detratava. Em suma, o que lhe absorvia os dias era a tarefa de
levar ao pelourinho todas as criaturas vivas que não tivessem aquela qualidade única que ele
possuía.
As circunstâncias internas que estamos empenhados em descrever agravaram
extraordinariamente a birra desse homem, e como fosse inevitável que topasse também aqui em
cima com criaturas que padecessem do defeito de que ele, Wiedemann, estava livre, essas
circunstâncias contribuíram para provocar uma cena lamentável que Hans Castorp não pôde
deixar de presenciar, e que nos oferece mais um exemplo daquilo que estamos explanando.
É que existia por ali um outro homem. Não havia nada que desmascarar nele. O caso era
claro. O homem chama-se Sonnenschein, e como não se pudesse imaginar nome mais imundo, a
pessoa de Sonnenschein formava, desde o primeiro dia, a borla suspensa diante do nariz de
Wiedemann, e que este olhava de esguelha, com olhares rápidos e maliciosos; a borla em que
batia com a mão, menos para afastá-la do que para fazê-la balouçar a fim de se irritar ainda mais
com ela.
Sonnenschein tinha sido comerciante, tal qual o outro. Também ele estava gravemente
enfermo e distinguia-se por uma suscetibilidade doentia. Era homem amável, nada estúpido, de
índole bem-humorada. Mas odiava Wiedemann, devido àquelas indiretas e batidas na borla;
odiava-o cegamente. E certa tarde, todo mundo acudiu correndo ao vestíbulo onde Wiedemann e
Sonnenschein se engalfinhavam de modo desregrado e bestial.
Era um espetáculo medonho, deplorável. Os dois atracavam-se como meninos, mas com
o desespero de homens adultos que chegaram até esse ponto. Arranhavam-se a cara; agarravam
se pela garganta e pelo nariz, enquanto se golpeavam mutuamente; cingiam-se com os braços;
revolviam-se pelo chão, com uma seriedade pavorosa, radical; cuspiam, davam pontapés, puxões
e socos, espumando de raiva. O pessoal da “administração”, que acorreu às pressas, teve muito
trabalho em separar os contendores enlaçados e ferrenhos. Wiedemann, babando e deitando
sangue, com o rosto atoleimado de tanta cólera, apresentava o fenômeno dos cabelos eriçados.
Hans Castorp nunca vira tal coisa e pensava que aquilo não acontecesse em realidade. O Sr.
Wiedemann, cujos cabelos conservavam-se eriçados, abandonou o recinto precipitadamente,
enquanto o Sr. Sonnenschein, com um dos olhos desaparecido sob uma mancha azul, e com uma
lacuna sangrenta na coroa de cabelos pretos que lhe rodeava a calva, era conduzido ao escritório,
onde se sentou e chorou amargamente com o rosto enterrado entre as mãos.
Foi o que se deu entre Wiedemann e Sonnenschein. Todos os que haviam assistido a essa
cena continuaram trêmulos durante horas a fio. Em confronto com tal miséria, é relativamente
agradável falar de um autêntico ajuste de honra, que se desenrolou nesse mesmo período e
merece essa qualificação até as raias do ridículo, por causa da solenidade formal com que foi
tratado. Hans Castorp não presenciou as diferentes fases do caso, mas informou-se sobre seu
curso complicado e dramático por meio de documentos, declarações e termos referentes à
questão, cujas cópias eram difundidas no Sanatório Berghof e fora dele, não só em Davos, no
cantão e no país, mas também no estrangeiro, inclusive na América, e remetidas mesmo a pessoas
a quem certamente essa história não despertaria o menor interesse.
Era um assunto polaco, uma querela de honra, originada num grupo de poloneses que
recentemente se reunira no Berghof. Era uma verdadeira coloniazinha que ocupava a mesa dos
“russos distintos”. (Hans Castorp – seja dito de passagem – já não tinha o seu lugar, ali, mas
passara, no decorrer do tempo, pelas mesas da Kleefeld e da Salomon, indo parar na da Srta.
Levi.) Aquela roda era de tal modo elegante, cavalheiresca e polida, que o observador só podia
arregalar os olhos e preparar-se intimamente para toda sorte de incidentes. Havia lá um casal,
bem como uma senhorita que mantinha relações amigáveis com um dos cavalheiros. O resto do
grupo era formado exclusivamente por cavalheiros. Chamavam-se Von Zutawski, Cieszynski,
Von Rosinski, Michael Lodygowski, Leo von Asarapetian, etc. Ora, aconteceu que no restaurante
Berghof um certo Japoll, ao beber champanha em companhia de dois outros cavalheiros, fizera
com respeito à esposa do Sr. von Zutawski e à Srta. Krylow, amiga íntima do Sr. Lodygowski,
considerações que não é possível repetir. Disso resultaram as providências, os atos e as
formalidades que constituíam o conteúdo das atas distribuídas e remetidas a todo mundo. Hans
Castorp lia o seguinte:
“Declaração traduzida do original polonês: A 27 de março de 19..., o Sr. Stanislav von
Zutawski dirigiu-se aos senhores Dr. Antoni Cieszynski e Stefan von Rosinski, solicitando-lhes
que fossem em seu nome ter com o Sr. Kasimir Japoll, para pedir-lhe, em conformidade com o
código de honra, satisfação pela grave ofensa e difamação que o Sr. Kasimir Japoll infligiu à Srª.
Jadwiga von Zutawski, sua esposa, por ocasião de uma conversa com os senhores Janusz Teofil
Lenart e Leo von Asarapetian.
“Quando o Sr. von Zutawski há poucos dias teve por via indireta conhecimento da
referida conversa, ocorrida em fins de novembro do ano passado, fez imediatamente o necessário
para obter a mais absoluta certeza quanto aos fatos e ao caráter da ofensa perpetrada. No dia de
ontem, a 27 de março de 19..., a difamação e a ofensa foram confirmadas pela boca do Sr. Leo
von Asarapetian, testemunha auricular da conversa no decorrer da qual foram pronunciadas as
palavras e insinuações ofensivas. Em virtude disso, o Sr. von Zutawski viu-se induzido a dirigir
se, sem perda de tempo, aos abaixo-assinados, a fim de confiar-lhes o mandato para instaurar um
processo contra o Sr. Kasimir Japoll perante um tribunal de honra.
“Os abaixo-assinados fazem a seguinte declaração:
“1.° – Baseando-se no termo lavrado à instância de uma das partes no dia 9 de abril de
19..., redigido em Lemberg pelos Srs. Zdzistaw Zygulski e Tadeusz Kadyi, na demanda do Sr.
Ladislaw Goduleczni contra o Sr. Kasimir Japoll, atendo-se, outrossim, à declaração do Tribunal
de Honra, pronunciada a 18 de junho de 19..., em Lemberg, no mesmo caso, verificam que
ambos esses documentos acham-se em completo acordo quanto ao fato de que o Sr. Kasimir
Japoll, em virtude das suas reiteradas faltas às exigências da honra, não pode ser considerado
cavalheiro.
“2.° – Os abaixo-assinados tiram as últimas consequências do acima relatado, deduzindo
ser absolutamente impossível julgar o Sr. Kasimir Japoll capaz de dar uma satisfação de qualquer
espécie.
“3.° – No que se refere às suas próprias pessoas, os abaixo-assinados são de parecer que é
inadmissível instaurar perante um tribunal de honra um processo contra um homem que se
colocou fora do terreno da honra, e intervir num assunto dessa espécie.
“Em face dessa situação, os abaixo-assinados chamam a atenção do Sr. Stanislaw von
Zutawski para o fato de ser inútil defender os seus direitos contra o Sr. Kasimir Japoll mediante
um processo de honra e aconselham-no a recorrer à justiça criminal, a fim de evitar futuros
prejuízos que lhe possam ser causados por parte de uma personalidade tão incapaz de dar a
devida satisfação como o é o Sr. Kasimir Japoll. – Datado e assinado: Dr. Antoni Cieszynski,
Stefan von Rosinski.”
Além disso, Hans Castorp teve oportunidade de ler o seguinte:
“Ata das testemunhas do incidente havido entre os senhores Stanislaw von Zutawski e
Michael Lodygowski, de um lado, e os senhores Kasimir Japoll e Janusz Teofil Lenart, do outro,
no bar do cassino de D., a 2 de abril de 19..., entre as 7,30 e as 7,45 da tarde.
“O Sr. Stanislaw von Zutawski, depois de refletir maduramente sobre as declarações feitas
pelos seus representantes, os senhores Dr. Antoni Cieszynski e Stefan von Rosinski, com
referência ao caso do Sr. Kasimir Japoll, chegou à convicção de que a recomendada denúncia
criminal contra o Sr. Kasimir Japoll não lhe poderia dar plena satisfação pela grave ofensa e
difamação de sua esposa Jadwiga,
“1.° – considerando que há justas razões para temer que o Sr. Kasimir Japoll no momento
preciso deixe de comparecer perante o tribunal, e que a sua perseguição ulterior se possa tornar
não somente difícil, senão até impossível, dada a sua nacionalidade austríaca, e
“2.° – considerando que uma condenação judicial do Sr. Kasimir Japoll não poderia
expiar a ofensa pela qual este senhor procurou aviltar caluniosamente o nome e a estirpe do Sr.
Stanislaw von Zutawski e de sua esposa Jadwiga;
“em vista disso, o Sr. Stanislaw von Zutawski escolheu o caminho mais breve, que,
segundo a sua convicção, era também o mais radical e, devido às circunstâncias, o mais oportuno,
especialmente após ter recebido, por via indireta, a informação de que o Sr. Kasimir Japoll
tencionava partir desta cidade no dia seguinte.
“Assim sendo, encaminhou:se a 2 de abril de 19..., entre as 7,30 e as 7,45 da tarde, ao
American Bar do cassino daqui, acompanhado de sua esposa Jadwiga e dos senhores Michael
Lodygowski e Ignaz von Mellin. Ali encontrou o Sr. Kasimir Japoll, que consumia bebidas
alcoólicas, em companhia do Sr. Janusz Teofil Lenart e de duas moças desconhecidas, e
esbofeteou-o diversas vezes.
“Imediatamente depois, o Sr. Michael Lodygowski esbofeteou o Sr. Kasimir Japoll,
acrescentando que isso era a punição das graves ofensas infligidas à Srta. Krylow e a ele mesmo.
“A seguir, o Sr. Michael Lodygowski esbofeteou o Sr. Janusz Teofil Lenart, em desforra
das inqualificáveis injúrias que este senhor assacara contra o casal Von Zutawski, depois do que,
“sem perda de um instante, também o Sr. Stanislaw Zutawski esbofeteou repetidas vezes
o Sr. Janusz Teofil Lenart, por ter manchado caluniosamente a honra de sua esposa e da Srta.
Krylow.
“Os senhores Kasimir Japoll e Janusz Teofil mantiveram-se completamente passivos
durante todo esse incidente.
“Datado e assinado: Michael Lodygowski, Ign. von Mellin.”
O estado de espírito em que Hans Castorp se achava a essa altura dos acontecimentos
não lhe permitia rir-se dessa metralha de bofetadas oficiais, como o teria feito em outros tempos.
Estremeceu ao ler o relatório. O pundonor inatacável de uma das partes e a desonra vil,
desprezível, da outra, que os documentos patenteavam aos olhos do leitor – tudo isso o
emocionou intensamente pelo contraste pouco vivo e todavia impressionante. O mesmo ocorreu
a todo mundo. Onde quer que se fosse, eram vistas pessoas que estudavam apaixonadamente e
comentavam com os dentes a rilhar a querela de honra dos polacos. Uma réplica do Sr. Kasimir
Japoll, difundida por meio de um folheto, esfriou algum tanto os espíritos. Dizia ele que, tempos
atrás, em Lemberg, alguns almofadinhas presunçosos o haviam declarado incapaz de dar
satisfação, e que Zutawski tivera perfeito conhecimento desse fato, de maneira que todas as suas
medidas tomadas de inopino tinham sido pura comédia, visto ele saber de antemão que não teria
necessidade de se bater em duelo. Por outro lado renunciara Zutawski a fazer queixa contra ele,
Japoll, unicamente porque sua esposa Jadwiga, como ninguém ignorava, nem sequer o próprio
Zutawski, o presenteara com uma verdadeira coleção de cornos, coisa que ele, Japoll, com a
maior felicidade, poderia ter provado perante a justiça. Também com respeito à Srta. Krylow,
uma citação em juízo teria sido pouco honrosa, dada a sua conduta habitual. De resto, existiam
provas da incapacidade de dar satisfação somente no que se referia à pessoa do autor dessas
linhas, o próprio Japoll, e não com respeito a seu interlocutor, Lenart; mas Zutawski servira-se de
um pretexto para não correr perigo. Do papel que o Sr. Asarapetian desempenhara em toda essa
história nem era bom falar. E quanto àquela cena no bar do cassino, convinha levar em conta que
ele, Japoll, embora mordaz e propenso a pilhérias, era homem muitíssimo débil. Zutawski, por
sua vez, chegara acompanhado dos seus amigos e da esposa, mulher de grande robustez, de
modo que tinha a seu favor a superioridade física. Acrescia a isso que as duas senhoritas que se
encontravam junto com ele, Japoll, e Lenart, eram criaturas muito alegres, sim, mas medrosas
como galinhas. Para evitar um pugilato brutal e um escândalo público, ele mesmo rogara a
Lenart, que fazia menção de reagir, que se mantivesse tranquilo e tolerasse, por amor de Deus, o
contato passageiro e inconvencional com os senhores Von Zutawski e Lodygowski, uma vez que
esse contato não era doloroso e os vizinhos julgariam que se tratava de uma brincadeira de
amigos.
Assim rezava o folheto de Japoll, que, naturalmente, poucas possibilidades tinha de salvar
as aparências. Suas emendas não conseguiram anular senão superficialmente o belo contraste
entre a honra e a covardia que as declarações da outra parte acabavam de estabelecer, tanto mais
que ele, não dispondo dos meios de ampla divulgação do partido de Zutawski, se limitava a
espalhar pelo público algumas cópias datilografadas da sua réplica. Aquelas atas que acabamos de
transcrever eram, por sua vez, acessíveis a todo mundo, sendo remetidas até a pessoas
completamente desinteressadas, como, por exemplo, Naphta e Settembrini, que também as
tinham recebido. Hans Castorp viu-as nas suas mãos e notou com surpresa que até eles as liam
com fisionomias contraídas, singularmente arrebatadas. A zombaria alegre que ele mesmo, devido
à mentalidade que reinava no Berghof, era incapaz de forjar – esperara-a ao menos da parte do
Sr. Settembrini. Mas aquela epidemia que Hans Castorp via grassar a seu redor contagiara
também o espírito claro do maçom com uma força que lhe tirava a vontade de rir e o tornava
facilmente acessível à fascinação provocante da história das bofetadas. Além disso, sentia-se ele, o
lutador, deprimido em face do seu estado de saúde, que piorava lenta, porém inexoravelmente,
apenas com melhoras passageiras e ilusórias. O humanista praguejava contra essa miséria, tinha
vergonha e desdém de si próprio, e no entanto, já por essa época, não podia evitar de se acamar
de vez em quando.
Naphta, o seu vizinho e adversário, tampouco ia melhor. Minando-lhe interiormente o
organismo, ia em progresso a doença que havia sido a causa física – ou deve-se dizer o pretexto? – de ter a sua carreira na ordem chegado a um fim prematuro. As virtudes do ar rarefeito das
alturas em que se vivia ali em cima não conseguiam deter o andamento do mal. Também ele tinha
de ir para a cama com muita freqüência, e a sua voz soava mais rachada do que nunca, cada vez
que falava. E, à medida que a aumentava, tornava-se ainda mais loquaz, mais penetrante e mais
cáustico. Aquela oposição idealista à doença e à morte, cuja derrota diante da superioridade
esmagadora da natureza infame tanto afligia o Sr. Settembrini, tinha de ser alheia ao pequeno
Naphta, e a sua maneira de reagir contra a piora do seu estado de saúde não consistia, por
conseguinte, em mágoa e pesar, senão numa animação sarcástica, numa agressividade sem limite,
numa necessidade maníaca de duvidar, de negar, de criar confusão, que irritava gravissimamente a
melancolia do italiano e incitava cada vez mais as divergências intelectuais. Era claro que Hans
Castorp só podia falar das discussões a que assistia. Mas o jovem tinha quase certeza de não
perder nenhuma delas, pois a sua presença, ao tratar-se de um tema pedagógico, era indispensável
para dar grandeza aos colóquios. E conquanto não se pudesse poupar ao Sr. Settembrini o
desgosto de ver que Hans Castorp se interessava pelos ditos maliciosos de Naphta, era forçoso
admitir que estes ultrapassavam nos últimos tempos todas as medidas e amiúde os próprios
limites de um raciocínio são.
Esse enfermo não tinha nem a força nem a boa vontade de se elevar acima da doença,
senão que via o mundo sob a imagem e o signo dela. Para desespero do Sr. Settembrini, que
gostaria de mandar para fora do quarto o discípulo atento ou de tapar-lhe os ouvidos, declarava
Naphta que a matéria era uma substância por demais imprestável para que o espírito pudesse
completar-se numa habitação feita dela. Esforçar-se por conseguir isso não passava de tolice. Em
que dava tal esforço? Numa caricatura! O resultado prático da tão elogiada Revolução Francesa
era o Estado capitalista burguês – deveras um belo produto que alguns esperavam melhorar
universalizando essa abominação! A república universal traria a felicidade, pois sim. O progresso?
Infelizmente podia-se comparar este com o famoso caso do enfermo que sempre estava
mudando de posição porque nisso esperava encontrar algum alívio. Um desejo não confessado,
mas muito difundido, secretamente, o de ver rebentar uma guerra, era a expressão dessa atitude.
Ela não deixaria de vir, essa guerra, e isso era bom, se bem que acarretasse efeitos bem diferentes
daqueles que aguardavam seus autores. Naphta menosprezava o Estado burguês, preocupado
exclusivamente com a sua segurança. Veio a falar nisso num dia de outono, durante um passeio
pela rua principal, quando começava a chover e todo mundo de repente, como a uma ordem de
comando, abriu os guarda-chuvas. Aquilo se lhe afigurava como um símbolo da covardia e da
efeminação vulgar que a civilização produzia. Um incidente como o naufrágio do navio Titanic
tinha um sentido atávico e todavia edificante. Depois reclamavam todos, em altos brados, maior
segurança dos meios de transporte. Em geral reinava a mais violenta indignação sempre que a
“segurança” se via ameaçada. Isso era miserável, e essa moleza humanitária formava uma
harmonia curiosa com a crueldade perversa e bestial daquele campo de batalha econômica que
constituía o Estado burguês. Guerra, guerra! Ele, por si, era a favor, e a impaciência com que
todos a almejavam parecia-lhe relativamente honrosa.
continua pág 445...
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Leia também:
Capítulo I / A Chegada
Capítulo II / Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo V / Sopa eterna e clareza repentina (a)
Capítulo VI / Transformações (a)
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [c] / Coisas muito problemáticas - [a] / Coisas muito problemáticas - [b] /
Coisas muito problemáticas - [c] / Coisas muito problemáticas - [d] / A grande irritação - [a] /
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.