segunda-feira, 2 de novembro de 2026

MPB: Cálice

Chico e Gil

"Registro da censura à performance de Chico Buarque e Gilberto Gil durante o festival de música Phono 73. A dupla teve o som de seus microfones cortados para que não cantassem a letra da então recém-composta música "Cálice" que denunciava a repressão do regime. (OS CARAS SÃO F%DAS DEMAIS! Fazer isso em plena ditadura militar! Só de pensar que hj temos "artistas" que têm medo de se posicionar só pra não perder seguidores é de lascar. Muito inteligente o improviso do "arroz à la grega". Não entendeu? Ele está se referindo a própria censura dos jornais. É que quando as matérias dos jornais eram censuradas, as reportagens censuradas eram substituídas por receitas de comidas, e quando se via receitas de comidas nos jornais, era porque uma reportagem do jornal foi censurada, por isso o termo "arroz a grega".)"

Chico Buarque canta Cálice com Gilberto Gil 
 (audio censurado) Phono 73




Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga?
Tragar a dor, engolir a labuta?
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai (Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado, eu permaneço atento
Na arquibancada, pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai (Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda, a porca já não anda (cálice)
De muito usada, a faca já não corta
Como é difícil, (Pai) Pai, abrir a porta (cálice)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai (Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
(Pai), afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno (cálice)
Nem seja a vida um fato consumado (cálice, cálice)
Quero inventar o meu próprio pecado (cálice, cálice)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai) (cálice, cálice)
Quero perder de vez tua cabeça (cálice)
Minha cabeça perder teu juízo (cálice)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (cálice)
Me embriagar até que alguém me esqueça (cálice)


Cálice (Cale-se). Chico Buarque & Milton Nascimento





Cálice: A música que transformou o silêncio em denúncia (Análise Profunda)




E dito e escutado tudo isso, vamos contar a história na voz do Gil....


Gilberto Gil explica a música "Cálice"



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Marcel Proust - A Prisioneira (Mas o Sr. de Charlus gostava de mostrar que amava Morel)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Mas o Sr. de Charlus gostava de mostrar que amava Morel, de persuadir os outros, talvez de persuadir a si mesmo, de que era amado por ele. Punha em retê-lo junto a si o tempo todo, apesar do prejuízo que aquele rapazinho podia acarretar à sua posição mundana, uma espécie de amor-próprio. Pois (e o caso é frequente entre os homens esnobes e bem situados, que, por vaidade, rompem todas as relações para serem vistos em toda parte com uma amante de má fama ou uma senhora desacreditada, que ninguém recebe, e à qual entretanto lhe parece ser lisonjeiro estar ligado) havia chegado àquele ponto em que o amor-próprio põe todo o seu empenho em destruir os objetivos que atingiu, seja porque, sob a influência do amor, descobrimos um prestígio, que somos os únicos a perceber, em relações ostentatórias com quem amamos, seja porque, pelo enfraquecimento das ambições mundanas alcançadas, e a maré montante das curiosidades servis, tanto mais absorventes quanto mais platônicas, tenham estas não só atingindo como ultrapassado o nível onde a custo as outras se mantinham.
     Quanto aos outros rapazes, o Sr. de Charlus achava que ao seu gosto por eles a existência de Morel não era um obstáculo e que até a sua brilhante reputação de violinista ou sua fama nascente de compositor e jornalista poderiam em certos casos lhe ser um atrativo. Se apresentavam ao barão um jovem compositor de aparência agradável, era nos talentos de Morel que ele buscava a oportunidade para fazer uma cortesia ao recém-conhecido. - O senhor deveria - dizia-lhe - trazer-me suas composições para que Morel possa tocá-las no concerto ou numa turnê. Existe tão pouca música agradável escrita para violino! É uma fortuna encontrar uma nova composição. E os estrangeiros apreciam muito uma coisa dessas. Mesmo na província há pequenos círculos musicais onde ama-se a música com um fervor e uma inteligência admiráveis. -Sem mais sinceridade (pois tudo aquilo só servia de engodo e era raro que Morel se prestasse a realizações), como Bloch lhe havia dito que era um tanto poeta, "quando lhe dava na telha", acrescentara com o riso sarcástico que, de costume, fazia acompanhar uma banalidade quando não podia achar uma expressão original, o Sr. de Charlus me disse: 

- Diga então àquele jovem israelita, visto que ele faz versos, que deveria me trazer alguns para que os leve a Morel. Para um compositor, é sempre um problema encontrar uma coisa bonita para musicar. Poderíamos até pensar num libreto. Não seria desinteressante e chegaria a ter uma certa importância devido aos méritos do poeta, de minha proteção, de todo um encadeamento de circunstâncias auxiliares, entre as quais o talento de Morel ocupa o primeiro lugar. Pois ele está compondo muito atualmente, e escreve também e de modo lindo, vou conversar com você sobre isso. Quanto ao seu talento de executante (você sabe que ele já é um mestre completo), irá ver esta noite como esse menino toca bem a música de Vinteuil. Fico impressionado: na sua idade, ter tamanha compreensão e permanecer tão infantil, tão colegial! Oh, esta noite é um pequeno ensaio. O grande recital vai ocorrer dentro de alguns dias. Mas será muito mais elegante que hoje. Assim, ficamos encantados de que você tenha vindo - disse ele, empregando esse plural "ficamos", sem dúvida porque o rei diz "queremos". - Por causa do magnífico programa, aconselhei a Sra. Verdurin dar duas festas. Uma daqui a alguns dias, na qual estarão presentes todas as suas relações. Outra esta noite, em que a Patroa ficará, como se diz no jargão judicial desapropriada. Fui eu que fiz os convites e convoquei algumas pessoas agradáveis de outro ambiente, que podem ser úteis a Charlie e que os Verdurin terão prazer em conhecer. Sim, pois está muito bem que sejam ouvidas as mais lindas obras executadas pelos maiores artistas, mas a manifestação fica abafada como em algodão. O público é composto pela merceeira da casa defronte e pelo comerciante da esquina. Sabe o que penso do nível intelectual das pessoas da sociedade, mas elas podem desempenhar certos papéis muito importantes; entre eles, o papel que cabe à imprensa nos acontecimentos públicos, e que é o de ser um órgão de divulgação. Compreende o que quero dizer; por exemplo, convidei minha cunhada Oriane; não é certo que ela compareça, mas, em compensação, é certo que, se comparecer, não compreenderá absolutamente nada. Mas ninguém lhe pede que compreenda, o que está acima de seus meios, mas que fale, o que lhe fica admiravelmente apropriado, e ela nunca deixa de fazer. Consequência: a partir de amanhã, em vez do silêncio da merceeira e do comerciante, uma conversa animada na casa dos Mortemart, onde Oriane conta que ouviu coisas maravilhosas, que um certo Morel etc. A raiva indescritível das pessoas não convidadas, que dirão: "Sem dúvida Palamede julgou que éramos indignos; além disso, quem é essa gente em cuja casa se realizou tal coisa", reverso tão útil como os louvores de Oriane, pois o nome de Morel retorna o tempo todo e acaba por gravar-se na memória como uma lição que se lê dez vezes seguidas. Tudo isto forma um encadeamento de circunstâncias que pode ter o seu lucro para o artista, para a dona da casa, e, de algum modo, servir de megafone a uma manifestação que, assim, virá a ser ouvida por um público longínquo. Na verdade, vale a pena. Você verá o progresso que ele fez. Além do mais, descobriram-lhe um novo talento, meu caro, ele escreve como um anjo. Como um anjo, repito. "Você que conhece Bergotte, pensei que talvez pudesse, talvez refrescando-lhe a memória sobre a literatura desse adolescente, em suma, colaborar em ajudar-me a criar um encadeamento de circunstâncias capazes de favorecer o duplo talento de músico e de escritor que um dia pode adquirir o prestígio de Berlioz". Veja o que conviria dizer à Bergotte. Você sabe, as pessoas ilustres muitas vezes têm mais o que pensar, são aduladas, só se interessam por elas mesmas. Porém Bergotte, que é verdadeiramente simples e serviçal, deve mandar publicar no Gaulois, ou não sei mais onde, essas croniquetas, meio de humorista e meio de músico, que são de fato muito bonitas, e eu ficaria na verdade bem contente que Charlie acrescente ao violino essa peninha de Ingres. Sei muito bem que exagero facilmente quando se trata dele, como todas as velhas mamães-corujas do Conservatório. Como, meu caro, não o sabia? Mas é que não conhece o meu lado palerma. Canso-me de esperar de pé, durante horas, o resultado dos exames. Divirto-me demais. E, quanto a Bergotte, ele me garantiu que a prosa de Charlie era de fato muito boa."
     O Sr. de Charlus, que o conhecia há muito por intermédio de Swann, de fato o fora visitar e pedir lhe que conseguisse que Morel fosse escrever no jornal algumas crônicas meio humorísticas sobre a música. Ao visitá-lo, o Sr. de Charlus sentira um pouco de remorso, pois, grande admirador de Bergotte, percebia que jamais ia visitá-lo por ele mesmo, mas para, graças à consideração meio intelectual, meio social, que Bergotte lhe tributava, poder fazer um grande obséquio a Morel, à Sra. Molé e a muitos outros. Que já não se servisse da sociedade senão para isso não repugnava ao Sr. de Charlus, mas que agisse desse modo com Bergotte não lhe parecia bem, pois sentia que Bergotte não era utilitário como as pessoas da sociedade e merecia mais. Apenas, levava uma vida muito ocupada e não dispunha de tempo senão quando desejava muito uma coisa, por exemplo, algo que se relacionasse a Morel. Além disso, muito inteligente, a conversa de um homem inteligente era-lhe bem indiferente, sobretudo a de Bergotte, que era por demais homem de letras para seu gosto, e de outro clã, não se colocando no ponto de vista dele, Charlus. Quanto a Bergotte, percebia perfeitamente o utilitarismo das visitas de Charlus, mas não lhe queria mal por isso; pois era incapaz de uma bondade continuada, mas desejoso de dar uma alegria, compreensivo, indiferente ao prazer de dar uma lição. Quanto ao vício do Sr. de Charlus, não partilhava dele em nenhum grau, achando-lhe antes um elemento de cor no personagem, o fes et netas para um artista, consistindo não nos exemplos morais mas nas recordações de Platão ou do Sodoma.
[Fes et netas (latim): O lícito e o ilícito. Sodoma: nome pelo qual é conhecido o pintor italiano Giovanni Antonio (c.1477-1549). (N. do T)]

     O Sr. de Charlus não se lembrava de dizer que desde algum tempo, como aqueles grandes senhores do século XVII, que desdenhavam assinar e até escrever os seus libelos, mandava Morel redigir pequenos tópicos baixamente difamantes e dirigidos contra a condessa Molé. Parecendo já insolentes aos que os liam, quanto mais cruéis não o seriam para a jovem senhora, que neles achava, tão habilmente encaixados que ninguém senão ela percebia coisa alguma, passagens de carinho dela, textualmente citadas porém tomadas num sentido em que podiam transtorna-la como a mais feroz vingança. A jovem senhora acabou morrendo de desgosto. Mas, diria Balzac, é que se faz todos os dias em Paris uma espécie de jornal falado mais terrível que o outro. Veremos depois que essa imprensa verbal reduziu a nada o poder de um Charlus fora de moda e erigiu bem acima dele um Morel que não valia a milionésima parte de seu antigo protetor. Será pelo menos ingênua essa moda intelectual e de boa-fé acreditará na insignificância de um genial Charlus, autoridade incontestável de um estúpido Morel? O barão era menos inocente e suas vinganças implacáveis. Daí sem dúvida esse amargo veneno na boca, veneno cuja invasão parecia conferir-lhe às faces um tom amarelo quando ele se encolerizava, 

- Gostaria muito que ele comparecesse esta noite, pois poderia ouvir as coisas que ele na verdade toca melhor. Mas parece que ele não sai de casa, nem quer que o aborreçam, e tem razão. Mas você, bela juventude, ninguém o vê qual no cais Conti! Não abuse! - Informei que saía principalmente com minha prima. Vejam só! Saindo com a prima, que pureza! - disse o Sr. de Charlus para Brichot -dirigindo se de novo a mim: - Mas não estamos lhe pedindo contas do que anda fazendo, meu filho. Você é livre para fazer tudo o que lhe agradar. Apenas lamentamos não compartilhar de seus prazeres. De resto, você tem muito bom gosto, sua prima é encantadora, pergunte a Brichot, ele não pensava noutra coisa em Douville. Sentiremos a sua falta esta noite. Mas você talvez tenha agido bem em não trazê-la - É admirável a música de Vinteuil. Mas soube por Charlie, esta manhã, que devem estar presentes a filha do compositor e sua amiga, que são pessoas de reputação terrível. Sempre seria constrangedor para uma moça. Até eu me sinto meio incomodado por causa dos convivas. Mas, como têm quase todos a idade canônica, não terá o fato consequências para eles. Elas estarão lá, a menos que essas duas senhoritas não tenham podido vir, pois deveriam sem falta estar presentes a tarde inteira num ensaio de estudos que a Sra. Verdurin realizava hoje e para o qual só convida os importunos, a família, as pessoas que não deviam vir à noite. Ora, há pouco antes do jantar, Charlie me disse que o que chamamos as duas senhoritas Vinteuil, eram esperadas com toda a certeza, não tinham vindo. - Apesar da horrível dor que sentia em aproximar subitamente do efeito, só este conhecido a princípio, a causar por fim descoberta, do desejo que Albertine manifestara de vir, ou seja, a presença anunciada (mas que eu ignorava) da Srta. Vinteuil e de sua amiga, conservei em liberdade de espírito de reparar que o Sr. de Charlus, que nos dissera há pouco, ter visto Charlie desde a manhã, confessava irrefletidamente tê-lo visto antes do jantar. Mas o meu sofrimento era visível. - Que está sentindo? - indagou o barão. Você está verde; venha, entremos, você vai ficar resfriado, está muito abatido. - 
     Não era a primeira dúvida acerca da virtude de Albertine que as palavras do Sr. de Charlus acabavam de despertar em mim. Muitas outras já me haviam assaltado; a nova dúvida a gente acha que a medida está repleta, que não poderemos suportá-la, e depois lhe descobrimos um lugar de alguma forma. E, uma vez que ela é introduzida em nosso meio vital, entra em concorrência com tantos desejos de acreditar, com tantos motivos para esquecer, que bem depressa a ela nos acomodamos e acabamos por não mais lhe prestar atenção. E permanece apenas como uma dor mal curada, uma simples ameaça de sofrimento e que, sendo o avesso do desejo mas da mesma ordem que ele, e tornando-se como ele o centro de nossos pensamentos, irradia neles, a distâncias infinitas, tristezas sutis, como prazeres de origem irreconhecível, por toda parte onde alguma coisa pode se associar à ideia daquela a quem amamos. Mas a dor desperta quando uma nova dúvida, inteira, penetra em nós; por mais que nos digamos logo em seguida: "Vou me arranjar, haverá um sistema para não sofrer, isso não deve ser verdade", houve todavia um primeiro instante em que sofremos como se acreditássemos naquilo. Se possuíssemos apenas membros, como as pernas e os braços, a vida seria suportável. Infelizmente trazemos em nós esse pequeno órgão a que chamamos coração, o qual está sujeito a certas enfermidades em cujo decorrer ele se torna infinitamente impressionável a tudo que se refere à vida de uma certa pessoa, e assim uma mentira - essa coisa tão inofensiva e no meio da qual vivemos tão alegremente, quer seja dita por nós ou pelos outros - vinda dessa pessoa, dá a esse coraçãozinho, que deveria poder ser extraído cirurgicamente, crises intoleráveis. Nem falemos do cérebro, pois nosso pensamento, por mais que raciocinemos sem parar no decurso dessas crises, não as modifica em nada, assim como a nossa atenção não alivia uma dor de dentes. É certo que tal pessoa é culpada de nos haver mentido, pois tinha jurado dizer-nos sempre a verdade. Mas sabemos por nós próprios, pelos outros, o que valem tais juramentos. E desejáramos crer neles quando provinham dela, que tinha justamente todo o interesse em nos mentir, e, por outro lado, não fora por nós escolhida por suas virtudes. É verdade que posteriormente ela quase já não teria necessidade de nos mentir justamente quando o coração se tornasse indiferente à mentira porque não nos interessaremos mais pela sua vida. Sabemos disto e contudo sacrificamos de bom grado a nossa, ou porque nos matamos por essa pessoa, ou porque nos fazemos condenar à morte ao assassiná-la, ou simplesmente porque gastamos em poucos anos toda a nossa fortuna com ela, o que em seguida nos obriga ao suicídio, pois não temos mais nada. Aliás, por mais tranquilos que nos julguemos ao amar, sempre trazemos o amor no coração em estado de equilíbrio instável. Uma coisinha de nada basta para colocá-lo em posição de felicidade, ficamos radiantes, cobrimos de carinho não aquela a quem amamos, mas todos aqueles que nos fizeram valer a seus olhos, que a resguardaram contra qualquer tentação moral; julgamo-nos tranquilos e basta uma frase: "Gilberte não virá", "A Vinteuil está convidada", para que se aniquile toda a felicidade preparada a que nos lançávamos, para que o sol se esconda, para que gire a rosa-dos-ventos e se desencadeie a tempestade interior a que um dia já não seremos capazes de resistir. Nesse dia, o dia em que o coração se tornou tão frágil, amigos que nos admirara suportam que tais aniquilamentos, que certas criaturas possam nos fazer é provocar a nossa morte. Mas o que podem fazer? Se um poeta está agonizando com uma pneumonia infecciosa, será possível imaginar que seus amigos expliquem o pneumococo que esse poeta tem talento e que ele deveria deixá-lo curar-se? A dúvida no que se refere à Srta. Vinteuil não era absolutamente nova. Mas, mesmo sob esse aspecto, o meu ciúme da tarde, excitado por Léa e seus amigos, a tinha abolido. Uma vez afastado esse perigo do Trocadero, eu sentira, julgara ter reconquistado para sempre uma paz completa. Mas o que principalmente era novo para mim, era um certo passeio de que Andrée me havia dito: 

- Fomos a esse e àquele lugar, não encontramos ninguém -, e onde, ao contrário, a Srta. Vinteuil evidentemente marcara um encontro com Albertine na casa da Sra. Verdurin. Agora, eu de bom grado deixaria Albertine sair sozinha, fosse aonde quisesse ir, contanto que pudesse prender em algum lugar a Srta. Vinteuil e sua amiga e ter certeza de que Albertine não as veria. É que o ciúme geralmente é parcial, com localizações intermitentes, seja por tratar-se do doloroso prolongamento de uma ansiedade causada ora por uma pessoa, ora por outra, que nossa amiga poderia amar, seja pela exiguidade do nosso pensamento que só percebe aquilo que imagina, deixando o resto num território vago de que relativamente não podemos sofrer.

     No momento em que íamos entrar no pátio da casa, fomos alcançado por Saniette, que não nos reconhecera de imediato.

- Eu já os olhava entretanto faz algum tempo - disse-nos com voz ofegante. - Não é curioso que tenha hesitado? Est-cepas curieux - foi o que ele disse, pois N'est-il pas curieux lhe teria parecido um erro, e ele tomava com as antigas formas de linguagem uma familiaridade exagerada. - No entanto vocês são pessoas que se pode ter por amigos. - Seu rosto sombrio parecia iluminado pelo reflexo plúmbeo de uma tempestade. Seu ofegar que até o verão anterior só ocorria quando o Sr. Verdurin o "espinafrava", era agora constante. - Sei que uma obra inédita de Vinteuil vai ser executada por artistas excelentes, e singularmente por Morel. 
- Por que singularmente?- indagou o barão, que viu nesse advérbio uma crítica. - 
- Nosso amigo Saniette - se apressou a explicar Brichot, que fez o papel de intérprete - prefere falar, como excelente letrado que é, a linguagem de um tempo em que "singularmente" equivalia ao nosso "muito particularmente".

     Quando entrávamos na ante-sala da Sra. Verdurin, o Sr. de Charlus me perguntou se eu trabalhava, e, como lhe dissesse que não, mas que me interessava muito, naquele momento, pelas velhas baixelas de prata e de porcelana, ele falou que eu não poderia encontrar mais belas do que na casa dos Verdurin, que além disso, eu poderia vê-las na Raspeliere, visto que, a pretexto de que os objetos também são nossos amigos, eles cometiam a loucura de levar tudo consigo; seria menos cômodo tirar tudo dos armários num dia de recepção, mas que todavia ele, Charlus, pediria que me mostrassem o que eu quisesse. Roguei-lhe que não pedisse nada. O Sr. de Charlus desabotoou o sobretudo, tirou o chapéu; vi que principiava, aqui e ali, a fazer-se prateado o alto de sua cabeça. Mas, assim como um arbusto precioso que não só o outono colore, mas do qual se protegem certas folhas com envoltórios de algodão em rama ou mediante aplicações de gesso, o Sr. de Charlus só recebia desses poucos cabelos brancos, dispostos no alto do crânio, uns tons de pintura a mais, que se ajuntavam ao arrebique do rosto. E todavia, mesmo sob as camadas de expressões diversas, de cosméticos e de hipocrisia que tão mal o maquiavam, o rosto do Sr. de Charlus continuava a calar a quase todo mundo o segredo que ele me parecia gritar. Sentia-me quase constrangido pelos seus olhos, onde eu receava que me surpreendesse a lê-lo como a um livro aberto, por sua voz, que me parecia repetir tal segredo em todos os tons, com uma incansável indecência. Mas os segredos são bem ocultos pelas criaturas, pois todos os que delas se aproximam são feito cegos e surdos. As pessoas que sabiam da verdade por tê-la ouvido de um ou de outro, pelos Verdurin por exemplo, acreditavam nela, mas somente enquanto não conheciam o Sr. de Charlus. Sua fisionomia, longe de espalhar, dissipava os rumores maldosos. Pois, sobre certas entidades, fazemos uma ideia tão alta que não poderíamos identificá-la com os traços familiares de uma pessoa de nosso conhecimento. E dificilmente acreditamos nos vícios, assim como jamais acreditaríamos no gênio de uma pessoa com quem tivéssemos ido à ópera na véspera.
     O Sr. de Charlus estava entregando o seu sobretudo com as recomendações de conviva habitual. Mas o lacaio a quem o entregava era um empregado novo, muito jovem. Ora, o Sr. de Charlus muitas vezes agora perdia as estribeiras e já não percebia o que se faz e o que não se faz. O desejo louvável, que possuía em Balbec, de mostrar que certos indivíduos não o assustavam, de não ter medo de declarar, a propósito de alguém: "É um belo rapaz", em uma palavra, de dizer as mesmas coisas que poderiam ser ditas por alguém que não fosse como ele, ocorria-lhe agora traduzir esse desejo dizendo, pelo contrário, coisas que jamais teria podido dizer alguém que não fosse como ele, coisas para as quais seu espírito se voltava tão constantemente que chegava a esquecer-se de que não faziam parte da preocupação habitual de todas as pessoas. Assim, encarando o novo lacaio, ergueu o indicador ameaçadamente e, pensando fazer um excelente gracejo: 

- Proíbo-lhe piscar-me o olho desse modo - disse o barão e, voltando-se para Brichot: - Este menino tem uma cara divertida, um nariz engraçado - e, completando a pilhéria, ou cedendo a um desejo, abaixou o indicador horizontalmente, hesitou por um instante e depois, sem mais poder conter-se, impeliu-o irresistivelmente para o criado, tocando-lhe a ponta do nariz dizendo: - Pif! e logo a seguir, acompanhado de Brichot e de mim, e de Saniette, que nos informou que a princesa Sherbatoff havia morrido às seis horas, entrou no salão. 
- Que sujeito esquisito! - disse consigo o lacaio, que perguntou aos companheiros se o barão era farsante ou maluco.
- São as maneiras dele - respondeu o mordomo, que achava o barão meio "tantã", meio "gira"-, mas trata-se de um dos amigos de Madame, que sempre apreciei; tem bom coração.

     Nesse momento o Sr. Verdurin veio ao nosso encontro; só Saniette, não sem temer resfriar-se, pois a porta exterior se abria constantemente, esperava resignado que lhe pegassem os agasalhos. 

- Que é que faz aí nessa pose de cachorro perdigueiro? - perguntou-lhe o Sr. Verdurin. - Espero que uma dessas pessoas que tomam conta das roupas possa pegar o meu sobretudo e me dar um número. - Quis! e que está dizendo? - perguntou o Sr. Verdurin em tom severo: - "Qui surveillentaafx vêtements." Será que está ficando caduco? A gente diz: "surveillerles vêtements"' Será que é preciso que lhe ensinem de novo o francês, como se faz com as pessoas que sofreram um derrame? 
- Surveillerà quelque chose é a forma correta - murmurou Saniette com voz entrecortada - o abade Le Batteux... 
- O senhor me irrita - exclamou o Sr. Verdurin com voz terrível. - Como está resfolegando! Por acaso acaba de subir seis andares? -

     A grosseria do Sr. Verdurin teve como resultado que os homens do vestiário fizessem passar outras pessoas antes de Saniette e, quando este quis estender seus agasalhos, responderam: 

- Cada um por sua vez, senhor não seja tão apressado. 
- Aí estão homens que apreciam a ordem, aí estão as competências; muito bem, meus rapazes disse o Sr. Verdurin com um sorriso de simpatia, a fim de animá-los em sua disposição de fazer passar Saniette depois de todo mundo. - Venham - disse -, este animal quer nos matar na corrente de ar em que se diverte. Vamos nos aquecer um pouco no salão. Surveilleraux vêtements - repetiu, quando entramos no salão. 
[Saniette diz "tomam conta das roupas'', surveifier aux vêtements, em vez de surveiller les ve (N. do T)]

- Que imbecil! 
- Ele se deixa levar pelo imprevisto, mas não é má pessoa - disse Brichot. 
- Não disse que era má pessoa e sim que era um imbecil - replicou o Sr. Verdurin com azedume.
- O senhor volta este ano a Incarville? - perguntou-me Brichot.
- Creio a nossa Patroa tornou a alugar La Raspeliere, embora tenha estado brigando com os proprietários. Mas tudo isso não é nada, são nuvens que se dissipam - acrescentou no mesmo tom otimista dos jornais que dizem: "Houve erros, é claro, mas quem não os comete?" Ora, eu me lembrava em que estado de sofrimento tinha deixado Balbec e não desejava de modo algum voltar lá. Adiava sempre para o dia seguinte os meus projetos com Albertine. - Mas é evidente que ele há de voltar, nós o queremos, ele nos é indispensável - declarou o Sr. de Charlus com o egoísmo autoritário e incompreensivo da amabilidade.

     O Sr. Verdurin, a quem apresentamos nossas condolências pela princesa Sherbatoff, observou: 

- Sim, sei que ela está muito mal.
- Mas não, ela morreu às seis horas - exclamou Saniette.
- O senhor exagera sempre - retrucou brutalmente o Sr. Verdurin, que, já que a reunião noturna não fora cancelada, preferia a hipótese da doença.

     Entretanto a Sra. Verdurin estava em grande conferência com Cottard e Ski. Morel acabava de recusar, porque o Sr. de Charlus não poderia comparecer, um convite para a casa de amigos aos quais ela todavia prometera o concurso do violinista. O motivo da recusa de Morel em tocar na reunião dos amigos dos Verdurin, motivo ao qual vamos ver em breve somarem-se outros mais graves, pudera ganhar forças devido a um hábito próprio em geral aos ambientes ociosos, mas particularmente ao pequeno núcleo.
     Certo, se a Sra. Verdurin surpreendia entre um novato e um fiel uma palavra dita a meia voz e que podia dar a entender que eles já se conheciam, ou tivessem vontade de estreitar relações ("Então, na sexta, na casa de Fulano" ou: "Vá ao ateliê quando quiser, estou lá sempre até às cinco horas, o prazer será todo meu"), agitada, supondo que o novato dispunha de uma "situação" que podia transformá-lo numa aquisição brilhante para o pequeno núcleo, a Patroa, parecendo sempre não ter ouvido coisa alguma, e conservando em seu lindo olhar, onde o hábito de Debussy punha mais olheiras que a cocaína, o aspecto extenuado que lhe davam apenas as puras delícias da música, revolvia, sob a bela fronte arqueada por tantos quatuors e enxaquecas consecutivas, pensamentos que não eram exclusivamente polifônicos; e, não aguentando mais, não podendo esperar um segundo sequer a sua picada, atirava-se aos dois conversadores, arrastava-os à parte, e dizia ao novato designando o fiel: 

- Não quer vir jantar com ele, sábado, por exemplo, ou até no dia que lhe aprouver, com pessoas amáveis? Não fale muito alto, pois não vou convidar toda essa turba - termo que por cinco minutos designava o pequeno clã, momentaneamente desdenhado em favor do novato no qual se fundavam tantas esperanças.
continua na página 96...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Mas o Sr. de Charlus gostava de mostrar que amava Morel)
Volume 6

Augusto dos Anjos - Solilóquio de um. Visionário

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Solilóquio de um Visionário

Para desvirginar o labyrintho 
Do velho e metaphysico Mysterio, 
Comi meus olhos crus no cemitério, 
Numa anthropophagia de faminto!

A digestão desse manjar funereo 
Tornado sangue transformou-me o instincto 
De humanas impressões visuaes que eu sinto, 
Nas divinas visões do incola ethereo! 

Vestido de hydrogenio incandescente, 
Vaguei um século, improficuamente, 
Pelas monotonias sideraes. 

Subi talvez ás máximas alturas, 
Mas, si hoje volto assim, com a alma ás escuras, 
E' necessário que inda eu suba mais!


A um Carneiro Morto 

Misericordiosíssimo carneiro 
Esquartejado, a maldição de Pio 
Décimo caia em teu algoz sombrio 
E em todo aquelle que fôr seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio 
Que te vender as carnes por dinheiro, 
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro 
E guarda as carnes dos que estão com frio! 

Quando a faca rangeu no teu pescoço, 
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso 
Teus olhos — fontes de perdão — perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu symboliso, 
Si fosses Deus, no Dia de Juizo, 
Talvez perdoasses os que te mataram! 


Vozes da Morte

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos, 
Tamarindo de minha desventura, 
Tu, com o envelhecimento da nervura, 
Eu, com o envelhecimento dos tecidos! 

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! 
E a podridão, meu velho! 
E essa futura Ultra-fatalidade de ossatura, 
A que nos acharemos reduzidos! 

Não morrerão, porém, tuas sementes! 
E assim, para o Futuro, em differentes 
Florestas, valles, selvas, glebas, trilhos, 

Na multiplicidade dos teus ramos, 
Pelo muito que em vida nos amamos, 
Depois da morte, inda teremos filhos!  
Continua na página 53...
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Leia também:
Budhismo Moderno / Mater Originalis / Ultimo Crédo / Solilóquio de um Visionário /          
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

Max Weber - A Ética Protestante: O espírito do capitalismo (b)

A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

Max Weber
(1864-1920)

II
O espírito do capitalismo
continuando...

     E a auri sacra fames de um barqueiro napolitano, o barcaiolo, e certamente dos representantes asiáticos de semelhantes atividades, tanto quanto a dos artesãos dos países do sul da Europa e da Ásia é, como cada um poderá verificar por si, muito mais intensa, e especialmente menos escrupulosa do que, digamos, a de um inglês em circunstâncias similares.
     O predomínio universal da absoluta falta de escrúpulos na ocupação de interesses egoístas na obtenção do dinheiro tem sido uma característica daqueles países cujo desenvolvimento burguês capitalista, medido pelos padrões ocidentais, permaneceu atrasado.
     Como todo empregador sabe, à falta de consciência dos trabalhadores desses países por exemplo da Itália se comparada com a Alemanha, foi e ainda é em certa medida o principal obstáculo ao seu desenvolvimento capitalista. O capitalismo não pode se utilizar do trabalho daqueles que praticam a doutrina da liberum arbitrium indisciplinado, e menos ainda pode usar os homens de negócios que pareçam absolutamente inescrupulosos ao lidar com outros, como aprendemos de Franklin. Por isso, a diferença não está no grau de desenvolvimento de qualquer impulso de ganhar dinheiro. A auri sacra fames é tão velha quanto a história do homem. Veremos, porém, que aqueles que a ela se entregam sem reservas, como a um impulso descontrolado, como aquele capitão de mar holandês que “atravessaria o inferno por lucro, mesmo que chamuscasse suas velas”, não são de fato os representantes daquela atitude mental da qual deriva especificamente o espírito do moderno capitalismo, como fenômeno de massa, que é o que interessa. Em todos os períodos históricos, sempre que foi possível houve a aquisição cruel, desligada de qualquer norma ética. Como a guerra e a pirataria, o comércio tem sido, muitas vezes, irrestrito em suas relações com estrangeiros e com os externos ao grupo. A dupla ética permitiu o que era proibido negociar entre irmãos.
     A aquisição capitalista aventureira tem sido familiar em todos os tipos de sociedade econômica que conheceram o comércio com o uso do dinheiro e que ofereciam oportunidades mediante comenda, exploração de impostos, empréstimos de Estado, financiamento de guerras, cortes ducais e cargos públicos. Do mesmo modo, a atitude interior do aventureiro, que zomba de qualquer limitação ética, tem sido universal. A implacabilidade absoluta e voluntária na aquisição tem muitas vezes estado estritamente ligada à mais rígida conformidade com a tradição. De mais a mais, com o colapso do tradicionalismo e a quase total extensão da livre empresa econômica, mesmo no interior do grupo social, a novidade não foi, no geral, eticamente justificada e encorajada, mas apenas tolerada como um fato. E tal fato tem sido tratado como eticamente indiferente ou como repreensível, mas infelizmente inevitável. Isto não tem sido apenas a atitude normal de todos os ensinamentos éticos mas, o que é mais importante, expresso também na ação prática do homem médio dos tempos pré-capitalistas, pré-capitalistas no sentido de que a utilização racional do capital em empresas estáveis e a organização racional capitalista do trabalho não há viam ainda se tornado as forças dominantes na determinação da atividade econômica. Ora foi justa mente essa atitude que constituiu um dos mais fortes obstáculos internos encontrados por toda parte pela adaptação do homem às condições de uma economia burguesa capitalista ordenada.
     O mais importante oponente contra o qual o espírito do capitalismo, entendido como um padrão de vida definido e que clama por sanções éticas, teve de lutar, foi esse tipo de atitude e reação contra as novas situações, que poderemos designar como tradicionalismo. Também nesse caso, qualquer tentativa de definição final deve ser mantida em suspenso. Devemos, por outro lado, tentar dar um sentido provisório claro, citando alguns casos. Começaremos por baixo, pelos trabalhadores.
     Um dos meios técnicos de que os empregadores modernos lançam mão para garantir o maior volume possível de trabalho de seus homens é o sistema de pagamento por tarefa. Na agricultura, por exemplo, a colheita é um caso em que se requer a maior intensidade possível de trabalho, e, dada a possível instabilidade do tempo, a diferença entre bons lucros e grandes perdas pode depender da velocidade da colheita. Assim, o sistema de pagamento por tarefa é quase universal neste caso. E a medida que o interesse do empregador em acelerar a colheita aumenta com o aumentar dos resultados e da intensidade do trabalho, tem sido feita repetidamente a tentativa, aumentando o valor da tarefa dos trabalhadores, dando lhes assim a oportunidade de ganhar o que seria para eles altos salários e de interessá-los em aumentar sua eficiência. Mas com uma frequência surpreendente, foi encontrada uma dificuldade peculiar: o aumento do valor da tarefa resultou, muitas vezes, não no aumento mas no decréscimo do obtido no mesmo tempo, pois os trabalhadores reagiram não aumentando, mas diminuindo o volume de trabalho. Por exemplo, um homem que ganha 1 marco por acre ceifado, ceifa 2 e 1/2 acres por dia e ganha dois marcos e meio por dia; quando o valor da tarefa foi aumentado para 1,25 marcos por acre ceifado, não ceifou 3 acres, como poderia ter feito facilmente, ganhando 3,75 marcos, mas ceifou apenas 2 acres de modo a continuar ganhando os 2,5 marcos a que estava acostumado. A oportunidade de ganhar mais foi menos atraente do que trabalhar menos. Ele não se perguntava: quanto poderia ganhar em um dia se eu fizesse o maior trabalho possível? Em vez disso, perguntava se: quanto devo trabalhar para ganhar o salário, de 2,5 marcos que eu ganhava antes e que bastava para as minhas necessidades tradicionais?
     Este é um exemplo do que queremos significar aqui por tradicionalismo. O homem não deseja “naturalmente” ganhar mais e mais dinheiro, mas viver simplesmente como foi acostumado a viver e ganhar o necessário para isso. Onde quer que o capitalismo moderno tenha começado sua ação de aumentar a produtividade do trabalho humano aumentando sua intensidade, tem encontrado a teimosíssima resistência desse traço orientador do trabalho pré-capitalista. E ainda hoje a encontra, e por mais atrasadas que sejam as forças de trabalho (do ponto de vista capitalista) com que tenha de lidar.
     Para voltar ao nosso exemplo, outra possibilidade óbvia, visto que o apelo para o instinto aquisitivo através de maiores salários falhou, teria sido tentar a política oposta, para forçar o trabalhador, reduzindo o valor da tarefa, a trabalhar mais para ganhar o mesmo dinheiro que ganhava antes. Baixos salários e altos lucros, até nossos dias, parecem, para um observador superficial, estar relacionados; tudo o que é pago em salários parece envolver uma redução de lucros correspondente. Desde seu início, o capitalismo trilhou repetidas vezes esse caminho. Durante séculos foi artigo de fé que baixos salários eram produtivos, isto é, que aumentavam os resultados materiais do trabalho, tanto que, como veremos, em relação a isso Pieter de la Cour dizia há muito tempo, quase no espírito do antigo calvinismo, que as pessoas só trabalhavam porque e enquanto eram pobres.
     Mas a eficácia desse método, aparentemente tão eficiente, tem seus limites. Obviamente, um excesso de mão de obra que possa ser empregada a baixo preço no mercado de trabalho é uma necessidade para o desenvolvimento do capitalismo. Mas, embora tão grande exército de reserva possa em certos casos favorecer a expansão quantitativa, ele desafia seu desenvolvimento qualitativo, especialmente para as empresas que fazem uso mais intensivo do trabalho. Baixos salários não são sinônimo de trabalho barato. De um ponto de vista puramente quantitativo, a eficiência do trabalho diminui com um salário que seja fisiologicamente insuficiente, que, a longo prazo, signifique a sobrevivência da inépcia.
     O silesiano médio de nossos dias ceifa, quando exige o máximo de si, pouco mais que dois terços da terra que um pomeraniano ou um mecklemburguês, mais bem pagos e alimentados, e o polonês, quanto mais oriental for sua origem, produz progressivamente menos que o alemão. A política de baixos salários falha mesmo de um ponto de vista puramente comercial sempre que a questão de produzir bens que exijam qualquer tipo de trabalho especializado, ou o uso de maquinaria cara e facilmente danificável, ou, em geral, sempre que se requeira grande dose de atenção aguda ou de iniciativa. Nesses casos, os baixos salários não compensam, e seus efeitos são opostos ao que se pretendia. E isso não apenas porque é absolutamente indispensável um senso de responsabilidade, mas, em geral, também uma atitude, ao menos durante as horas de trabalho, livre de contínuos cálculos de como poder ganhar o salário habitual, com o maior conforto e o menor esforço possíveis. Ao contrário, o trabalho deve ser executado como se fosse um fim absoluto em si mesmo, como uma vocação. Contudo, tal atitude não é produto da natureza. Não pode ser estimulada apenas por baixos ou altos salários, mas só pode ser produzida por um longo e árduo processo educativo.
     O capitalismo de hoje, por estar em posição de comando, pode recrutar suas forças de trabalho com certa facilidade. No passado, sempre foi um problema extremamente difícil. E mesmo hoje provavelmente não o conseguiria, não fosse o apoio de um poderoso aliado que, como veremos, já estava a seu lado no tempo de seu desenvolvimento. O que queremos dizer, poderá novamente ser esclarecido por um exemplo. O tipo de mão de obra retrógrada tradicional é, com muita frequência exemplificado pelas mulheres trabalhadoras, especialmente as não casadas. Uma queixa quase universal dos empregadores de moças, moças alemãs por exemplo, é a de que são quase completamente incapazes e desinteressadas em abandonar métodos de trabalho herdados ou mesmo aprendidos para aprender outros métodos mais eficientes e a eles se adaptar, de aprender e de concentrar sua inteligência, ou mesmo usá-la. Explicações da possibilidade de tornar o trabalho mais fácil, acima de tudo mais proveitoso para elas mesmas, esbarram geralmente numa total falta de compreensão. Aumentos de salário esbarram impotentes contra a muralha do hábito. Em geral ocorre o contrário, e esse é um ponto de muita importância do nosso ponto de vista, apenas com garotas que receberam uma formação religiosa, especialmente a pietista. Ouvimos com frequência, e as estatísticas confirmam que, de longe, as melhores chances de uma educação econômica são encontradas entre os membros desse grupo. A habilidade de concentração mental, tanto quanto o sentimento de dever, absolutamente essencial, em relação ao trabalho, são aqui muitas vezes combinados com uma economia rígida, que calcula a possibilidade de altos ganhos, um frio autocontrole e frugalidade que, aumentam enormemente o desempenho.
     Isto fornece o fundamento mais favorável para a concepção do trabalho como um fim em si mesmo, como uma vocação necessária ao capitalismo: as oportunidades de superar o tradicionalismo são maiores por conta da formação religiosa. Essa observação do capitalismo atual sugere por si mesma a validade da indagação de como essa conexão entre adaptabilidade ao capitalismo e fatores religiosos possa ter surgido nos momentos iniciais de seu desenvolvimento. Que tais fatores estavam presentes então de forma muito semelhante, pode ser inferido de numerosos fatos. Por exemplo, a segregação e a perseguição sofrida pelos trabalhadores metodistas no século XVIII por parte de seus camaradas foram não só nem principalmente o resultado de suas diferenças religiosas, pois que a Inglaterra já vira outras, e bem mais estranhas. Deveram se, isto sim, como a destruição de suas ferramentas repetidamente mencionada nos relatórios sugere, à sua especial disposição para o trabalho, como diríamos hoje.
     Voltemos contudo ao presente, e agora para o empresário, para esclarecer o significado do tradicionalismo no caso deste.
     Sombart, na sua discussão sobre a gênese do capitalismo, fez a distinção entre satisfação das necessidades e aquisição como sendo os dois grandes princípios orientadores da história econômica. No primeiro caso, a obtenção dos bens necessários à satisfação das necessidades pessoais, e no segundo, a luta para obter lucros sem os limites impostos pelas necessidades, tem sido as finalidades controladoras da forma e da direção da atividade econômica. Aquilo que ele chama de economia de necessidades parece, à primeira vista, idêntico àquilo que é aqui descrito como tradicionalismo econômico. E pode ser esse o caso, se o conceito de necessidades for limitado às necessidades tradicionais. Contudo, se não for esse o caso, certo número de sistemas econômicos que podem ser considerados capitalistas de acordo com a definição que Sombart nos oferece em outro ponto do seu trabalho, deverão ser excluídos da categoria de economias aquisitivas e colocados entre as economias de necessidade. A saber, empresas dirigidas por empreendedores particulares utilizando capital (dinheiro ou bens com valor monetário) para obter lucro, comprando os meios de produção e vendendo o produto, isto é, empresas indubitavelmente capitalistas podem ao mesmo tempo ter um caráter, tradicionalista. Mesmo no curso da história da economia moderna isso pão tem sido um mero caso esporádico, mas antes uma regra com contínuas interrupções por parte das repetidas e sempre maus poderosas conquistas do espírito do capitalismo. Certamente, a forma capitalista de uma empresa e o espírito pelo qual ela se guia estão geralmente em uma relação de adequação, sem ser necessariamente interdependentes. Apesar disso, usamos provisoriamente a expressão do espírito do capitalismo (moderno) para designar a atitude que busca o lucro racional e sistematicamente, da maneira que ilustramos com o exemplo de Benjamin Franklin. Isso, contudo, se justifica pelo fato histórico de que aquela atitude mental tenha, de um lado, encontrado sua mais apropriada expressão na empresa capitalista e, por outro lado, essa tenha derivado do espírito do capitalismo sua força motivadora mais adequada.
     Porém as duas coisas podem muito bem ocorrer separadamente. Benjamin Franklin estava imbuído do espírito do capitalismo no tempo em que seus negócios de tipografia não tinham forma diferente de qualquer empresa artesanal. E veremos que no início dos tempos modernos os empreendedores capitalistas não estavam entre a aristocracia comercial, e que eram os únicos ou os predominantes suportes da atitude que aqui chamamos de espírito do capitalismo.` Estavam muito mais nas camadas emergentes dos pequenos industriais de classe média. Mesmo no século XIX, seus representantes clássicos não eram os cavaleiros elegantes de Liverpool e de Hamburgo, com suas fortunas comerciais acumuladas durante gerações, mas os novos ricos auto construídos de Manchester e da Westphalia, que muitas vezes ascenderam de condições muito modestas. Já no século XVI a situação era semelhante; as indústrias que cresceram nesse tempo foram criadas principalmente por novos ricos.
     Por exemplo, a administração de um banco, de um negócio atacadista de exportação, de um grande estabelecimento varejista ou de uma grande empresa que negocie com produtos feitos em casa, certamente só é possível na forma de empresa capitalista. E no entanto, todas podem ser dirigidas com espírito tradicionalista. De fato, os negócios de um grande banco emissor não podem ser dirigidos de outra maneira. O comércio exterior de épocas inteiras se baseou em monopólios e privilégios legais, de caráter estritamente tradicionalista. No comércio varejista e não estamos aqui falando de pequenos comerciantes sem capital que estão sempre implorando a ajuda do governo – a revolução que está pondo um fim no velho tradicionalismo está ainda em, plena marcha. Trata se do mesmo desenvolvimento que desbancou o velho sistema de produção, com o qual o sistema moderno de produção doméstica está relacionado apenas na forma. Como esta revolução ocorreu e qual o seu significado, apesar dessas coisas nos serem tão familiares, pode novamente ser aclarado por um exemplo concreto.
     Até meados do século passado, ao menos em muitos dos ramos da indústria têxtil do continente,` a vida de um produtor era o que poderíamos hoje considerar muito confortável.
     Podemos imaginar sua rotina como algo assim: os camponeses traziam seus tecidos, frequentemente feitos (no caso do linho) total ou parcialmente com matéria prima produzida por eles mesmos, para a cidade onde morava o produtor, e depois de cuidadosa avaliação da qualidade, muitas vezes oficial, recebiam o preço habitual pela mercadoria. Os clientes do produtor para mercados de alguma distância eram intermediários, que também iam até ele, não atraídos por amostras, mas procurando a tradicional qualidade e compravam a mercadoria do seu estoque ou, com antecedência, faziam pedidos que por sua vez eram provavelmente repassados aos camponeses. A visita pessoal aos clientes ocorria, se tanto, apenas a longos intervalos; a correspondência era suficiente, e por meio disso a remessa de amostras lentamente ganhou terreno. O número de horas gastas no negócio era muito modesto, talvez cinco ou seis por dia, e por vezes bem menos; maior durante a estação, quando houvesse. Os ganhos eram moderados; o suficiente para levar uma vida respeitável e, em tempos favoráveis, economizar um pouco. No geral, o relacionamento entre competidores era relativamente bom, com amplo grau de concordância quanto aos fundamentos do negócio. Longas visitas diárias à taverna, muitas vezes com fartura de bebida, e um círculo congenial de amigos tornavam a vida confortável e prazerosa.
     A forma de organização era, em todos os aspectos, capitalista; as atividades do empreendedor tinham um caráter puramente comercial; o uso do capital investido no negócio era indispensável, e finalmente, o aspecto objetivo do processo econômico, a contabilidade, era racional. Mas se considerarmos o espírito que animava o empresário, tratava se de um negócio tradicionalista: tradicional o modo de vida, tradicional a margem de lucro, tradicional a quantidade de trabalho, tradicional o modo de regular as relações com o trabalho e o essencialmente tradicional círculo de clientes e modo de atrair novos. Tudo isso dominava a conduta do negócio e, diríamos, estava na base do ethos desse grupo de homens de negócio.
continua na página... 28
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Sumário
03. O espírito do capitalismo (a) / 03. O espírito do capitalismo (b) / 

sábado, 31 de outubro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto IX.d - Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte III
O Relatos de Odisseu 
Canto IX

Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope 

    “Este canto contém o início do grande Relato: como zarpou Odisseu de Ítaca primeiro chegando à terra dos Cíconos, e pilharam a cidade, junto ao mar, chamada Ismaro. Passaram então por Maleia, extremidade da Lacônia, onde um forte vento levou-os para além de um grande pélago e chegam à terra dos Lotófagos. Depois chegam ao Ciclope. A grande parte da tropa permanece junto à Ilha... mas o Ciclope que foi cego, Polifemo, come seis dos doze que o acompanharam.” (Scolie H Q ... E P)

continuando...

“Isso lhe disse; enraivado ficou mais ainda o Ciclope. 
O cimo pega de grande montanha e, arrancando-o atirou-o 
do nosso lado, o qual veio cair junto à proa anegrada, 
perto; bem pouco faltou porque a ponta do leme apanhasse. 
Diante do baque da pedra o mar todo agitado empolou-se 
e, refluente de cima, levaram as ondas a nave 
da parte funda outra vez, obrigando-a a chegar para a praia. 
Mas eu, tomando nas mãos uma vara bastante comprida, 
longe da praia a impeli, tendo aos sócios dado ordens, depressa, 
por uns sinais com a cabeça, que todos com força remassem,

para fugir do perigo; inclinados aos remos se afincam. 
Quando percurso dobrado já havíamos feito nas ondas, 
volto outra vez a falar ao Ciclope; ao redor os meus sócios 
com termos brandos procuram por toda maneira impedir-me: 
   “‘Louco! por que provocar um selvagem feroz tal como esse, 
que há pouco ao mar um penhasco atirou, e o navio, de novo, 
nos arrastou para a praia, onde a Morte encontrar presumimos? 
Se nos ouvisse falar, por acaso, ou tua voz percebesse, 
no mesmo instante atirara-nos áspera rocha, e esmagara 
nossas cabeças e as vigas da nau; tão possante é o seu tiro.’¹

“Isso disseram, sem que convencessem meu peito magnânimo. 
Por tal motivo, com termos mordazes lhe disse de novo: 
   “‘Ouve, Ciclope! Se um dia, qualquer dos mortais inquirir-te 
sobre a razão vergonhosa de estares com o olho vazado, 
dize ter sido o potente Odisseu, eversor de cidades, 
que de Laertes é filho e que em Ítaca tem a morada.’ 
   “Isso lhe disse; e gemendo me torna ele, então, em resposta: 
   “‘Ai, em verdade atingiu-me veraz predição, muito antiga! 
Antigamente aqui havia adivinho muito bom e grande, 
Télemo, de Êurimo filho, excelente em fazer vaticínios,

que entre os Ciclopes chegou à velhice prevendo o futuro. 
Ele, de fato, predisse que havia de dar-se tudo isto: 
que pelas mãos de Odisseu eu seria privado da vista. 
Mas sempre fui de pensar que indivíduo de bela estatura 
fora o que viesse aqui ter, revestido de força gigante; 
e eis que da vista me priva um sujeito pequeno e sem força, 
um coisa-alguma, depois de me haver pelo vinho domado. 
Vem até aqui, Odisseu, porque dons hospitais te ofereça 
e ao deus Posido suplique que faça alcançares a pátria. 
ou dele filho, que muito se orgulha de pai me ter sido.

Ele, somente, me pode curar, se o quiser, nenhum outro, 
tanto entre os homens mortais, como até entre os deuses beatos.’ 
   “Isso falou; em resposta lhe disse as seguintes palavras: 
‘Fosse a mim dada a certeza de o alento e a existência tirar-te, 
e de mandar-te, também, para o de Hades escuro palácio, 
como não pode curar-te Posido, que a terra sacode!’
   “A essas palavras o monstro a Posido a implorar se pôs logo, 
para o alto céu tacho nado de estrelas as mãos levantando: 
   “‘Ouve-me, ó deus de cabelos escuros, que a terra sacode, 
se sou teu filho, em verdade, e te orgulhas de pai me ter sido,

dá que não possa voltar Odisseu, eversor de cidades, 
que de Laertes é filho e que em Ítaca tem a morada. 
Mas, se é do Fado que deva rever os amigos, e a casa 
bem-construída voltar, assim como ao torrão de nascença, 
que, miserável, o faça e mui tarde, perdidos os sócios, 
em um navio estrangeiro, e aflições vá encontrar no palácio.’ 
   “Dessa maneira implorou. Atendeu-o o de escuros cabelos. 
Pega o Ciclope, depois, doutra pedra bem mais volumosa 
e, tendo-a feito girar, atirou-a com ímpeto grande, 
que para trás foi cair do navio de proa anegrada,

perto, bem pouco faltou porque a ponta do leme colhesse. 
Diante do baque da pedra o mar todo agitado empolou-se; 
a onda o navio empurrou, obrigando-o a chegar para a praia.
   “Quando àquela ilha chegamos em que se encontravam reunidas 
as demais naves de boas cobertas, os sócios achamos 
todos sentados, chorando, sem tréguas, o nosso retorno.
Logo que aí fomos ter, arrastamos a nau para o seco, 
onde saltamos, depois, para a praia do mar sonorosa. 
O do Ciclope rebanho, tirado do bojo da nave, f
oi dividido, porque nenhum homem sem lote ficasse.

Mas, na partilha das reses, os sócios de grevas bem-feitas 
deram-me a mais o carneiro, que logo imolei junto à praia 
a Zeus, o filho de Crono, que em todos os deuses domina, 
tendo-lhe as coxas queimado. Mas Zeus recusou o sacrifício: 
antes pensou de que modo pudesse destruir os navios 
todos, de boas cobertas, e os meus companheiros diletos. 
   “Dessa maneira, portanto, até o Sol no ocidente deitar-se, 
nós estivemos sentados, comendo e bebendo à vontade. 
Logo que o Sol se acolheu e o crepúsculo à terra deitou-se, 
fomo-nos todos deitar pela praia onde as ondas se quebram.

Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
os companheiros tratei de exortar, instruções transmitindo 
para embarcarem, também, e as amarras de trás desprenderem. 
Sobem, por isso, os demais para bordo, e nos bancos se sentam, 
todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas. 
O coração apertado, vogamos dali para diante, 
ledos por termos da Morte escapado, com perda dos sócios.²
continua página 807...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Parte III
Canto IX.a / Canto IX.b / Canto IX.c / Canto IX.d /                                        
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] 
Este trecho é extremamente importante porque mostra o momento em que a maior virtude de Odisseu começa a se transformar em seu maior defeito. Até aqui, tudo havia dado certo: ele embriagara Polifemo; cegara o Ciclope; escondera-se sob os carneiros; conseguira salvar os sobreviventes; alcançara o navio. A vitória estava completa. Mas, quando já se encontra longe da costa, Odisseu não resiste à tentação de provocar o inimigo. Ele grita para Polifemo e o repreende publicamente por sua impiedade. O discurso contém uma ideia central da moral grega: quem viola as leis da hospitalidade acaba sofrendo a punição de Zeus. O problema é que os companheiros percebem imediatamente o perigo: "Louco! por que provocar um selvagem feroz tal como esse...?" Eles compreendem algo que Odisseu, naquele instante, esquece: sobreviver é mais importante que ostentar a vitória. A reação de Polifemo confirma seus temores. Mesmo cego, o Ciclope arranca o topo de uma montanha e o lança contra a embarcação. A pedra quase destrói o navio. O mar revolto empurra os gregos de volta para a costa, mostrando que o perigo está longe de terminar.
     * O tema do orgulho (hybris) - Na tradição grega, esse comportamento aproxima-se da hybris, a arrogância ou excesso de confiança que leva alguém a ultrapassar os limites da prudência. Odisseu venceu graças à inteligência, mas agora quer o reconhecimento de sua vitória. Ele deseja que Polifemo saiba que foi derrotado e que o castigo foi merecido. Essa necessidade de afirmar sua glória heroica contrasta com a atitude prática e cautelosa que havia garantido seu sucesso.
     * Um contraste com Aquiles - A Ilíada exalta heróis cuja grande qualidade é a coragem guerreira, como Aquiles. Já a Odisseia valoriza a sobrevivência, a prudência e a inteligência. Neste ponto do poema, Odisseu comporta-se mais como um herói da Ilíada do que da Odisseia: busca a honra pública e o triunfo verbal, quando a situação exigia silêncio e afastamento.
     * Preparação para a tragédia seguinte - A advertência dos companheiros é profética. Eles não temem apenas outra pedra. Temem que Odisseu continue provocando o Ciclope. E é exatamente isso que acontece nos versos seguintes: não satisfeito com a primeira provocação, Odisseu revelará seu verdadeiro nome e sua origem. Esse ato permitirá que Polifemo peça vingança ao pai, Poseidon, desencadeando boa parte dos sofrimentos que ocuparão o restante da Odisseia. Em outras palavras, a fuga da caverna foi o triunfo da inteligência; a provocação ao Ciclope é o início do preço que Odisseu pagará por seu orgulho.

[2] Este trecho encerra o episódio de Polifemo e marca uma transição importante na Odisseia: a vitória sobre o Ciclope já foi conquistada, mas suas consequências começam a aparecer. 
     * A vingança de Polifemo - Mesmo cego, Polifemo continua sendo uma força terrível. Depois da revelação da identidade de Odisseu (que ocorre nos versos imediatamente anteriores), ele lança uma pedra ainda maior contra a embarcação: "Pega o Ciclope, depois, doutra pedra bem mais volumosa..." A cena reforça a potência quase sobre-humana do gigante. Embora derrotado, ele ainda consegue quase destruir o navio dos gregos.
     * O sacrifício recusado por Zeus - Um dos aspectos mais significativos deste trecho é o momento em que Odisseu oferece um carneiro em sacrifício: "Mas Zeus recusou o sacrifício..." Isso é extraordinariamente importante. Na religião grega, o sacrifício servia para estabelecer uma relação favorável com os deuses. Quando Zeus rejeita a oferenda, Homero está anunciando ao leitor que dificuldades ainda maiores aguardam os viajantes. O poema explica o motivo: "antes pensou de que modo pudesse destruir os navios todos, de boas cobertas, e os meus companheiros diletos." Aqui surge um tema central da obra: embora Odisseu tenha escapado de Polifemo, seu destino continua marcado pelo sofrimento.
     * A ambiguidade da vitória - Os sobreviventes comemoram porque escaparam da morte, mas a alegria é incompleta. Homero termina o canto com um contraste poderoso: felicidade por terem sobrevivido; tristeza pelos companheiros devorados pelo Ciclope. O próprio Odisseu resume esse sentimento: "ledos por termos da Morte escapado, com perda dos sócios." Essa mistura de triunfo e perda é característica da épica homérica. Não existem vitórias perfeitas.
     * Um prenúncio do restante da viagem - Sob o ponto de vista narrativo, este trecho funciona como um aviso. O leitor poderia imaginar que, após derrotar Polifemo, o retorno a Ítaca será mais fácil. Homero faz exatamente o contrário: Zeus rejeita o sacrifício; os deuses não estão plenamente favoráveis; os companheiros ainda correm perigo; viagem está longe de terminar. A partir daqui, a Odisseia se torna não apenas uma história de aventuras, mas também uma reflexão sobre os limites da inteligência humana diante da vontade divina e do destino.
     Em resumo, o episódio de Polifemo termina com uma lição dupla: a astúcia de Odisseu salva seus homens da força bruta do Ciclope, mas seu orgulho e a hostilidade dos deuses já anunciam os sofrimentos que dominarão o restante de sua longa jornada de volta a Ítaca.



Odisseia, de Homero - Canto 9 - Os Cíconos, os Lotófagos e o Ciclope