sexta-feira, 20 de março de 2026

Bom tarde, Outono... Autumn Leaves

Folhas de outono


"No silêncio de minha alma, repassando os momentos maravilhosos, me restou baixar a cabeça e chorar. A saudade é o amor que nunca morre!"


Les Feuilles Mortes_
Yves Montand - ele sempre se recusou a cantar Les Feuilles Mortes em inglês.
Olympia



"Raízes Francesas: A canção "Autumn Leaves" é a adaptação em inglês da canção francesa "Les Feuilles mortes", composta por Joseph Kosma em 1945. A poesia original foi escrita por Jacques Prévert. A letra em inglês foi posteriormente escrita por Johnny Mercer em 1947, tornando-a acessível a um público mais amplo."


As folhas que caem voam através da janela
As folhas do outono, vermelhas e douradas
Eu vejo seus lábios, os beijos de verão
As mãos queimadas de Sol que eu costumava segurar

Desde que você foi embora os dias ficaram longos
E em breve eu ouvirei velhas canções de inverno
Mas eu sinto mais saudade de você, minha querida
Quando as folhas de outono começam a cair

Desde que você foi embora os dias ficaram longos
E em breve eu ouvirei velhas canções de inverno
Mas eu sinto mais saudade de você, minha querida
Quando as folhas de outono começam a cair



Chet Baker and Ruth Young 
Autumn Leaves




The falling leaves drift by the window
The autumn leaves of red and gold
I see your lips, the summer kisses
The Sun-burned hands I used to hold

Since you went away the days grow long
And soon I'll hear old winters song
But I miss you most of all my darling
When autumn leaves start to fall

Since you went away the days grow long
And soon I'll hear old winters song
But I miss you most of all my darling
When autumn leaves start to fall

Composição: Joseph Kosma, Jacques Prévert, Johnny Mercer.


"Desde o seu lançamento, "Autumn Leaves" tornou-se uma das canções mais gravadas na história do jazz, com mais de mil gravações comerciais por diversos artistas, incluindo Nat King Cole, Frank Sinatra e Edith Piaf. É frequentemente celebrada por sua melodia comovente e profundidade emocional."


Nat King Cole 
- Autumn Leaves 
-1955




"A viúva do compositor, Lily Kosma, doou os direitos da canção para a cidade de Nice, sob a condição de que uma rua da cidade fosse nomeada em homenagem a Joseph Kosma. Uma pequena rua no distrito dos músicos leva o nome do compositor."


Autumn Leaves 
| Full Steam Jazzband | 2013





Hermeto Pascoal e Nelson Faria 
| Autumn Leaves



UM CAFÉ LÁ EM CASA


"Essa canção "Les Feuilles Mortes" foi escrita pelo poeta francês surrealista Jacques Prévert em 1945. A música foi criada antes por Joseph Kosma para o ballet "le rendez vous" em 1945 e Prévert escreveu depois a letra para o filme "Les portes de la nuit" (um filme de Marcel Carné - 1946), em 1945."


Les Feuilles Mortes 
- Poésie 
- Jacques Prévert



Les portes de la nuit
de Marcel Carné - 1946
Les Feuilles Mortes 
Nota¹ - Yves Montand sentado à mesa escrevendo
Nota² - não esqueça de exibir as legendas



"Jean Gabin e Marlene Dietrich iriam fazer os papéis principais, mas acabaram recusando em virtude do filme abordar questões da ocupação da França e que os dois tinham se envolvido profundamente. Um jovem cantor francês apresentado por Edith Piaf, Yves Montand, fez esse filme e cantou 'Les feuilles mortes'. O poema completo foi publicado, depois da morte de Jacques Prévert, no livro 'Sol da Noite' em 1980."
História com gosto


Oh! eu queria tanto que você se lembrasse
Dos dias felizes quando éramos amigos
Nesse tempo lá a vida era mais bela
E o sol mais forte do que hoje

As folhas mortas são recolhidas à pá
Você vê, eu não me esqueci
As folhas mortas são recolhidas à pá
Lembranças e remorsos também

E o vento norte as leva
Na noite fria do esquecimento
Você vê, eu não esqueci
A música que você cantou para mim

É uma canção que se assemelha a nós
Você, você me amou e eu te amei
E nós vivemos os dois juntos;
Você que me amava, Eu que te amava;

Mas a vida separa aqueles que se amam
Gentilmente, sem fazer barulho
E o mar apaga na areia
Os passos dos amantes separados

O Sol é para todos: 2ª Parte (31)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

31

     Quando Boo Radley se levantou, a luz que vinha das janelas da sala brilharam na testa dele. Todos os seus movimentos eram inseguros, como se ele não tivesse certeza de que as mãos e os pés podiam fazer contato com as coisas que tocavam. Tossiu a sua horrível tosse seca e ficou tão abalado que precisou sentar-se de novo. Enfiou a mão no bolso da calça e pegou um lenço. Tossiu nele e secou a testa.
     Eu estava tão acostumada com a ausência dele que achei incrível que estivesse sentado ao meu lado o tempo todo, presente. Em absoluto silêncio.
     Ele se levantou de novo. Virou-se para mim e fez sinal com a cabeça indicando a porta. 

— Quer se despedir de Jem, não é, sr. Arthur? Venha.

     Fui andando com ele pelo corredor. Tia Alexandra estava sentada ao lado da cama de Jem. 

— Entre, Arthur — ela convidou. — Jem ainda está dormindo. O dr. Reynolds deu um sedativo forte para ele. Jean Louise, seu pai está na sala? 
— Acho que sim, senhora. 
— Vou falar com ele um instante. O dr. Reynolds deixou algumas… — a voz dela desapareceu na distância.

     Boo tinha se esgueirado para um canto do quarto e estava com o queixo levantado, olhando Jem de longe. Peguei a mão dele, que era muito quente, apesar de tão branca. Puxei-a de leve e ele deixou que o levasse até a cama de Jem.
     O dr. Reynolds tinha feito uma espécie de armação no braço de Jem para que ficasse isolado, acho. Boo se debruçou sobre a armação e olhou; em seu rosto havia uma curiosidade tímida, como se ele nunca tivesse visto um menino. Abriu de leve a boca e olhou Jem dos pés à cabeça. Levantou a mão, mas deixou-a cair ao lado do corpo. 

— Pode fazer carinho nele, sr. Arthur, ele está dormindo. Se estivesse acordado, ele não deixaria… Vá em frente — expliquei.

     A mão de Boo pairou sobre a cabeça de Jem. 

— Vá em frente, ele está dormindo.

     Eu estava começando a entender a linguagem corporal dele. Ele apertou a minha mão, o que significava que queria ir embora.
     Levei-o até a varanda da frente, onde seus passos inseguros pararam. Continuava segurando a minha mão e parecia que não ia soltar. 

— Pode me levar em casa?

     Ele praticamente sussurrou, com a voz de uma criança com medo do escuro.
     Pisei no primeiro degrau da escada e parei. Eu podia conduzi-lo pela nossa casa, mas não podia conduzi-lo até a casa dele. 

— Sr. Arthur, dobre o braço assim. Isso, muito bem.

     Enfiei minha mão na dobra do braço dele.
     Ele teve de curvar-se um pouco para me dar o braço, mas se a srta. Stephanie Crawford estivesse olhando da janela dela, veria Arthur Radley me acompanhando pela calçada, como qualquer cavalheiro faria.
      Chegamos ao poste da esquina e pensei em quantas vezes Dill tinha ficado ali agarrado naquele mastro gordo, olhando, esperando, imaginando. E quantas vezes Jem e eu tínhamos feito aquele caminho, mas era a segunda vez na vida que eu entrava no portão dos Radley. Boo e eu subimos a escada da varanda. Ele segurou na maçaneta. Soltou minha mão delicadamente, abriu a porta, entrou e fechou a porta. Nunca mais o vi.
     As pessoas levam flores quando alguém morre e comida quando alguém adoece, e pequenos presentes em outras ocasiões. Boo era nosso vizinho. Ele nos deu dois bonecos esculpidos em sabão, um relógio quebrado com a corrente, duas moedas da sorte e nossas vidas. Mas os vizinhos retribuem. Nós nunca colocamos de volta na árvore o que tínhamos tirado de lá: não demos nada para ele em troca, e isso me entristecia.
     Virei-me para fazer o caminho de volta. Os postes piscavam na rua até a cidade. Eu nunca tinha visto o nosso bairro por aquele ângulo. Ali estavam a casa da srta. Maudie, a da srta. Stephanie... a nossa casa. Vi o balanço da varanda, a casa da srta. Rachel depois da nossa, perfeitamente visível. Dava para ver até a casa da sra. Dubose. Olhei para trás. À esquerda da porta marrom havia uma janela comprida, com venezianas. Fui até lá, fiquei na frente dela e me virei. De dia, pensei, dava para ver a esquina do correio.
      De dia… na minha cabeça, a noite desapareceu. Era dia e o bairro estava movimentado. A srta. Stephanie atravessava a rua para contar as últimas novidades para a srta. Rachel. A srta. Maudie estava debruçada sobre suas azáleas. Era verão e duas crianças iam pela calçada ao encontro de um homem. O homem acenou e as crianças correram até ele.
     Ainda era verão e as crianças se aproximaram. Um menino veio pela calçada equilibrando uma vara de pescar no ombro. Um homem ficou olhando, com as mãos na cintura. Verão, e os filhos dele brincavam no jardim com um amigo, encenando uma estranha peça que tinham inventado.
     Era outono e os filhos brigavam na calçada na frente da casa da sra. Dubose. O menino ajudou a irmã a se levantar e foram para casa. Outono, e os filhos iam e voltavam pela esquina, no rosto as derrotas e as vitórias do dia. Pararam num carvalho, encantados, confusos, apreensivos.
     Inverno, e os filhos dele tremiam de frio no portão da frente, as silhuetas recortadas contra uma casa consumida pelas chamas. Inverno e um homem veio andando pela rua, tirou os óculos e atirou num cachorro.
     Verão, e ele viu os filhos ficarem de coração partido. Outono de novo, e as crianças de Boo precisavam dele.
     Atticus tinha razão. Uma vez ele disse que a gente só conhece uma pessoa de verdade quando se coloca no lugar dela e fica lá um tempo. Ficar parada na varanda dos Radley foi o suficiente.
     A luz dos postes estava difusa sob a chuva fina que caía. Enquanto ia para casa, me senti muito velha, então olhei para a ponta do meu nariz e vi gotas minúsculas, mas fiquei tonta e parei com aquilo. Enquanto ia para casa, pensei em todas as coisas que tinha para contar a Jem no dia seguinte. Ele ia ficar com tanta raiva de ter perdido tudo que ia passar dias sem falar comigo. Enquanto ia para casa, pensei que Jem e eu íamos crescer mas não tínhamos mais muita coisa para aprender, a não ser, talvez, álgebra.
     Subi a escada correndo e entrei em casa. Tia Alexandra tinha ido dormir e o quarto de Atticus estava escuro. Fui ver se Jem tinha acordado. Atticus estava lá, sentado na cama de Jem. Estava lendo um livro. 

— Jem ainda não acordou? 
— Está dormindo tranquilo. Só vai acordar de manhã. 
— Ah. Você vai ficar aí com ele? 
— Só por uma hora, mais ou menos. Vá dormir, Scout. O dia foi longo. 
— Acho que vou ficar um pouco com você. 
— Como quiser — disse Atticus. Devia ser mais de meia-noite, e fiquei surpresa por ele ter concordado. Mas ele era mais esperto que eu: mal me sentei e comecei a ficar com sono. 
— O que você está lendo? — perguntei.

     Atticus me mostrou a capa do livro. 

— Um livro de Jem. Chama-se O fantasma cinzento.

     De repente, despertei. 

— Por que escolheu esse? 
— Querida, não sei. Só peguei. É um dos poucos livros que ainda não li — ele disse, direto. 
— Por favor, leia alto, Atticus. Esse livro dá muito medo. 
— Não, você já levou muito susto. O livro é bem… 
— Atticus, eu não tive medo.

     Ele franziu o cenho e eu protestei: 

— Só tive medo quando comecei a contar tudo para o sr. Tate. Jem não teve medo. Perguntei e ele respondeu que não estava com medo. Além do mais, só nos livros é que as coisas são assustadoras de verdade.

     Atticus abriu a boca para dizer alguma coisa, mas fechou de novo. Desmarcou a página que estava segurando com o dedo e voltou para a primeira página. Encostei a cabeça no joelho dele. 

— Hum, vejamos: O fantasma cinzento, de Seckatary Hawkins, Capítulo Um…

     Fiz um esforço para ficar acordada, mas a chuva estava tão fina, o quarto tão acolhedor, a voz dele tão agradável e o joelho tão confortável que adormeci.
     Segundos depois, ou pelo menos foi o que me pareceu, o sapato dele tocou de leve nas minhas costelas. Ele me levantou e me levou para o meu quarto. 

— Ouvi tudo o que você leu… não estava dormindo… é a história de um navio, Fred Três Dedos e o menino Stoner… — eu disse.

     Ele desabotoou o meu macacão, me encostou nele e tirou-o. Me segurou com uma das mãos e pegou o meu pijama com a outra. 

— E todos pensavam que era o menino Stoner que fazia bagunça no clube deles e jogava tinta por toda parte e…

     Ele me levou até a cama e me fez sentar. Levantou minhas pernas e me colocou embaixo das cobertas. 

— Eles o perseguiram, mas nunca conseguiam pegá-lo porque não sabiam como ele era e depois, Atticus, quando finalmente o encontraram viram que ele não tinha feito nada daquilo… Atticus, ele era muito bom…

     As mãos dele estavam embaixo do meu queixo, puxando as cobertas e ajeitando-as em volta de mim. 

— A maioria das pessoas é, Scout, quando enfim as conhecemos.

     Ele apagou a luz e foi para o quarto de Jem. Ele ia ficar lá a noite toda, e estaria lá quando Jem acordasse de manhã.

***

Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (31).   
__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Você sabia...

Vírgula NÃO é necessariamente pausa!


Domine a pontuação e escreva com clareza e precisão.


Os 5 erros de vírgula que todo mundo comete sem perceber.





Espumas Flutuantes - Poesia e Mendicidade

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

POESIA E MENDICIDADE
No álbum da Ex.ma Sr.a d. Maria Justina 
 Proença Pereira Peixoto 
 
I

Senhora! A poesia outrora era a Estrangeira, 
 Pálida, aventureira, errante a viajar, 
 Batendo em duas portas — ao grito das procelas — 
 Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar! 

Visão — de áureos lauréis — porém de manto esquálido, 
 Mulher — de lábio pálido — e olhar — cheio de luz. 
 Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam... 
 E os astros lhe resvalam — à flor dos ombros nus...

II

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa 
 Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu. 
 Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento, 
 De um marco poeirento um velho então se ergueu. 

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia... 
 Porém o que tateia aquela augusta mão?... 
 Talvez busca pegar o sol, que lento expira!... 
 Fado cruel..., mentira!... Homero pede pão! 

III

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos 
 Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai! 
 Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro... 
 O lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrai!  

Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura 
 Servem de compostura à sala vasta e chã. 
 A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia 
 A mão suave, esguia — a loura castelã. 

Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta 
 Pega da lira... canta... uma canção de amor... 
 Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa 
 Alonga pela ogiva um raio de langor! 

Dos ramos do carvalho a brisa se debruça... 
 Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?) 
 Súbito a nota extrema anseia, treme, rola... 
 Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!... 

Assim nos tempos idos a musa canta e pede... 
 Gênio e mendigo... vede!... o abismo de irrisões! 
 Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante... 
 Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.

IV

Bem sei, Senhora, que ao talento agora 
 Surgiu a aurora de uma luz amena. 
 Hoje há salário pra qualquer trabalho, 
 Cinzel, ou malho, ferramenta ou pena! 

 Melhor que o Rei sabe pagar o pobre 
 Melhor que o nobre — protetor verdugo —! 
 Foi surdo um trono... à maior glória vossa... 
 Abre-se a choça aos “Miseráveis” de Hugo. 

 Porém não sei se é por costume antigo, 
 Que inda é mendigo do cantor o gênio. 
 Mudem-se os panos do cenário a esmo 
 O vulto é o mesmo... num melhor proscênio... 

V

Hoje o Poeta — caminheiro errante, 
 Que tem saudades de um país melhor. 
 Pede uma pérola — à maré montante, 
 Do seio às vagas — pede — um outro amor. 

 Alma sedenta de ideal na terra 
 Busca apagar aquela sede atroz! 
 Pede a harmonia divinal, que encerra 
 Do ninho o chilro... da tormenta a voz! 

 E o rir da folha, o sussurrar da fala,  
Trenos da estrela no amoroso estio, 
 Voz que dos poros o Universo exala 
 Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!

Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo, 
 Ao fraco, ao forte... — preces, gritos, uivos... 
 Pede das águias o possante arrojo, 
 Para encontrar os meteoros ruivos. 

 Pede à mulher que seja boa e linda 
 — Vestal de um tipo que o ideal revela... 
 Pois ser formosa é ser melhor ainda... S
e és boa — és luz... mas se és formosa — estrela... 

 E pede à sombra, pra aljôfar de orvalhos 
 A fronte azul da solidão noturna, 
 E pede às auras, pra afagar os galhos. 
 E pede ao lírio, pra enfeitar a furna. 

 Pede ao olhar a maciez suave 
 Que tem o arminho e o edredom macio, 
 O aveludado da penugem d’ave, 
 Que afaga as plumas no palmar sombrio. 

...................................................................................

E quando encontra sobre a terra ingrata 
 Um reverbero do clarão celeste, 
 — Alma formada de uma essência grata, 
 Que a lua — doura, e que um perfume veste; 

 Um rir, que nasce como o broto em maio, 
 Mostrando seivas de bondade infinda, 
 Fronte que guarda — a claridade e o raio, 
 — Virtude e graça — o ser bondosa e linda... 

 Então, Senhora, sob tanto encanto 
 Pede o Poeta (que não tem renome) 
 — Versos — à brisa pra vos dar um canto... 
 Raios ao sol — pra vos traçar o nome!... 

 Bahia, 26 de janeiro de 1870


HINO AO SONO

Ó sono! ó noivo pálido 
 Das noites perfumosas,  
Que um chão de nebulosas 
 Trilhas pela amplidão! 
 Em vez de verdes pâmpanos, 
 Na branca fronte enrolas 
 As lânguidas papoulas, 
 Que agita a viração. 

Nas horas solitárias, 
 Em que vagueia a lua, 
 E lava a planta nua 
 Na onda azul do mar, 
 Com um dedo sobre os lábios 
 No voo silencioso, 
 Vejo-te cauteloso 
 No espaço viajar! 

Deus do infeliz, do mísero! 
 Consolação do aflito! 
 Descanso do precito, 
 Que sonha a vida em ti! 
 Quando a cidade tétrica 
 De angústias e dor não geme... 
 É tua mão que espreme 
 A dormideira ali. 

Em tua branca túnica 
 Envolves meio mundo... 
 É teu seio fecundo. 
 De sonhos e visões, 
 Dos templos aos prostíbulos, 
 Desde o tugúrio ao Paço, 
 Tu lanças lá do espaço 
 Punhados de ilusões!... 

Da vida o sumo rúbido, 
 Do hatchiz a essência 
 O ópio, que a indolência 
 Derrama em nosso ser, 
 Não valem, gênio mágico, 
 Teu seio, onde repousa 
 A placidez da lousa 
 E o gozo do viver... 

Ó sono! Unge-me as pálpebras... 
 Entorna o esquecimento 
 Na luz do pensamento, 
 Que abrasa o crânio meu. 
 Como o pastor da Arcádia, 
 Que uma ave errante aninha...
Minh’alma é uma andorinha... 
 Abre-lhe o seio teu. 

Tu, que fechaste as pétalas 
 Do lírio, que pendia, 
 Chorando a luz do dia 
 E os raios do arrebol, 
 Também fecha-me as pálpebras... 
 Sem Ela o que é a vida?... 
 Eu sou a flor pendida 
 Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias 
 Pra mim não é veneno... 
 Ouve-me, ó Deus sereno! 
 Ó Deus consolador! 
 Com teu divino bálsamo 
 Cala-me a ansiedade! 
 Mata-me esta saudade. 
 Apaga-me esta dor. 

Mas quando, ao brilho rútilo 
 Do dia deslumbrante, 
 Vires a minha amante 
 Que volve para mim, 
 Então ergue-me súbito... 
 É minha aurora linda... 
 Meu anjo... mais ainda... 
 É minha amante enfim! 

Ó sono! Ó Deus noctívago! 
 Doce influência amiga! 
 Gênio que a Grécia antiga 
 Chamava de Morfeu 
 Ouve!... E se minha súplicas 
 Em breve realizares... 
 Voto nos teus altares 
 Minha lira de Orfeu!... 

 São Paulo, 12 de julho de 1868

continua pag 42...
____________________

O “Adeus” de Teresa / A Maciel Pinheiro / Pedro Ivo / Oitavas de Napoleão / Adormecida / Poesia e Mendicidade /     
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (6)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     Entretanto, não sendo as circunstâncias inteiramente desfavoráveis, a mãe encontrará no filho um enriquecimento.

Era como uma resposta à realidade de sua própria existência... Por ele tinha a possibilidade de aprender todas as coisas e a si mesma para começar, 

escreve C. Audry a propósito de uma jovem mãe. 
     E empresta a outra estas palavras:

Pesava em meus braços, no meu peito como o que há de mais pesado no mundo, até o limite de minhas forças. Afundava-me na terra, no silêncio e na noite. De uma só vez jogara-me o peso do mundo sobre os ombros. É bem por isso que o quisera. Sozinha eu era leve demais.

     Se certas mulheres, que são mais "poedeiras" do que mães, se desinteressam do filho logo depois da desmama, logo depois do nascimento, e não desejam senão uma nova gravidez, muitas, ao contrário, consideram que é a própria separação que lhes dá o filho; este não é mais um pedaço indistinto de seu eu e sim uma parcela do mundo; não lhes habita mais surdamente o corpo, mas pode-se vê-lo, tocá-lo; após a melancolia do parto, Cécile Sauvage exprime a alegria da maternidade possessiva  

Eis-te meu pequeno amante 
No grande leito de tua mamãe 
Posso beijar-te, abraçar-te, 
Ponderar teu belo futuro; 
Bom dia, minha pequena estátua 
De sangue, de alegria e de carne nua, 
Meu pequeno duplo, minha emoção...¹

[1] Te voilà mon petit amant 
      Sur le grand lit de ta maman 
      Je peux t'embrasser, te tenir, 
     Soupeser ton bel avenir; 
     Bonjour ma petite statue 
     De sang, de joie et de chair nue, 
     Mon petit double, mon émoi...,

     Já se disse e repetiu que a mulher encontra felizmente no filho uma equivalência do pênis: é inteiramente inexato. Na realidade, o homem adulto deixou de ver no pênis um brinquedo maravilhoso; o valor que seu órgão conserva é o dos objetos desejáveis cuja posse ele assegura; do mesmo modo, a mulher adulta inveja ao homem a presa que ele anexa, não o instrumento da anexação; o filho satisfaz esse erotismo agressivo que o amplexo masculino não satisfaz: é o homólogo dessa amante que ela entrega ao homem e que este não é para ela; bem entendido não há equivalência exata: toda relação é original; mas a mãe encontra no filho — como o amante na amada — uma plenitude carnal e isso não na rendição mas no domínio; ela apreende nele o que o homem procura na mulher: um outro, a um tempo natureza e consciência, que seja sua presa, seu duplo. Ele encarna toda a natureza. A heroína de C. Audry diz-nos que encontrava no filho

A pele que era para meus dedos, que cumprira a promessa de todos os gatinhos, de todas as flores... 

     A carne dele tem essa doçura, essa elasticidade morna que, em criança, a mulher desejara através da carne materna, e mais tarde por toda parte no mundo. Ele é planta, bicho, há em seus olhos chuvas e riachos, o azul do céu e do mar, as unhas são de coral, os cabelos uma vegetação sedosa, é uma boneca viva, um pássaro, um gatinho; minha flor, minha pérola, meu pintinho, meu cordeirinho... a mãe murmura as palavras do amante e, como ele, serve-se avidamente do adjetivo possessivo; emprega os mesmos modos de apropriação: carícias, beijos; aperta o filho contra o corpo, envolve-o no calor dos braços, do leito. Por vezes essas relações revestem-se de um caráter nitidamente sexual. Assim é que se lê na confissão recolhida por Stekel e já citada.

Amamentava meu filho, mas sem alegria porque não crescia e ambos perdíamos peso. Isso representava algo sexual para mim e eu experimentava um sentimento de pudor dando-lhe o seio. Tinha a sensação adorável de sentir o corpinho quente que se achegava ao meu; arrepiava-me quando sentia suas mãozinhas me tocarem... Todo o meu amor se destacava de meu eu para se voltar para meu filho... O filho estava demasiado comigo. Logo que me via na cama, e tinha então dois anos, arrastava-se para o leito, tentando colocar-se sobre mim. Acariciava-me os seios com suas mãozinhas e queria descer com o dedo; o que me dava tanto prazer que tinha dificuldade em afastá-lo. Muitas vezes tive de lutar contra a tentação de brincar com o pênis dele...

     A maternidade assume novo aspecto quando o filho cresce; nos primeiros tempos, ele não passa de um "pequerrucho-standard", só existe em sua generalidade: pouco a pouco, individualiza-se. As mulheres muito dominadoras ou muito carnais esfriam-se então ; é nesse momento, ao contrário, que outras — como Colette — começam a se interessar por ele. A relação entre mãe e filho torna-se cada vez mais complexa: ele é um duplo e por vezes ela é tentada a alienar-se inteiramente nele, mas ele é um sujeito autônomo, logo rebelde; é hoje vivamente real, mas no fundo do futuro um adolescente, um adulto imaginário, uma riqueza, um tesouro; é também um fardo, um tirano. A alegria que a mãe pode encontrar nele é uma alegria de generosidade; é preciso que ela se compraza em servir, em dar, em criar felicidade, como a mãe que pinta C. Audry:  

Ele tinha pois uma infância feliz como nos livros, mas que estava para a infância dos livros como as rosas de verdade estão para as rosas dos cartões-postais. E essa felicidade dele saía de mim como o leite com que o amamentara. 

     Como a amorosa, a mãe encanta-se ao sentir-se necessária; é justificada pelas exigências a que atende; mas o que faz a dificuldade e a grandeza do amor materno é o fato de que não implica uma reciprocidade; a mulher não tem diante de si um homem, um herói, um semideus, e sim uma pequena consciência balbuciante, afogada em um corpo frágil e contingente; o filho não detém valor algum, nem pode conferir nenhum; diante dele a mulher permanece só; ela não espera nenhuma recompensa em troca de seus dons, cabe a sua própria liberdade justificá-los. Essa generosidade merece os louvores que os homens incansavelmente lhe outorgam; mas a mistificação começa quando a religião da maternidade proclama que toda mãe é exemplar. Por que o devotamento materno pode ser vivido numa perfeita autenticidade; mas o caso é raro, na realidade. De costume, maternidade é um estranho compromisso de narcisismo, de altruísmo, de sonho, de sinceridade, de má-fé, dedicação e cinismo.
     O grande perigo que nossos costumes fazem o filho correr é que a mãe, a quem o confiam de pés e mãos amarrados, é quase sempre uma mulher insatisfeita: sexualmente é fria ou irrealizada; socialmente, sente-se inferior ao homem; não tem domínio sobre o mundo e o futuro; procurará compensar através do filho todas as suas frustrações; quando se compreendeu a que ponto a situação atual da mulher lhe torna difícil sua plena realização, quantos desejos, revoltas, pretensões, reivindicações a habitam surdamente, espanta-nos que filhos sem defesa lhe sejam entregues. Suas condutas são simbólicas como no tempo que ora embalava a boneca, ora a torturava: mas esses símbolos tornam-se uma áspera realidade para o filho. Uma mãe que bate no filho não bate somente nele, em certo sentido não bate absolutamente na criança: vinga-se de um homem, do mundo, de si mesma; mas é o filho que recebe as pancadas. Mouloudji fez-nos sentir em Enrico esse mal-entendido penoso: Enrico compreende muito bem que não é nele que a mãe bate tão loucamente; e, despertando de seu delírio, ela soluça de remorso e de ternura; ele não guarda rancor, mas nem por isso é menos desfigurado pelas pancadas. Do mesmo modo, a mãe descrita em L'Asphyxie, de Violette Leduc, desencadeando-se contra a filha, vinga-se do sedutor que a abandonou, da vida que a humilhou e venceu. Sempre se conheceu esse aspecto cruel da maternidade; mas com um pudor hipócrita desfez-se a ideia de "mãe-má", inventando o tipo da madrasta; é a esposa de segundas núpcias que atormenta o filho de uma "boa mãe" defunta. Em verdade, em Mme Fichini, é uma mãe, exatamente igual à edificante Mme de Fleurville, que Mme de Ségur nos descreve. Depois de Poil de carotte, de Jules Renard, os atos de acusação multiplicaram-se: Enrico, L'Asphyxie, La Haine maternelle, de S. de Tervagnes, Vi père au poing de Hervé Bazin. Se os tipos descritos nesses romances são algo excepcionais, é porque em sua maioria as mulheres recalcam por moralidade e decência seus impulsos espontâneos; mas estes manifestam-se por momentos através de cenas, tapas, raivas, insultos, castigos etc. Ao lado das mães francamente sádicas, muitas há simplesmente caprichosas; o que as encanta é dominar; bem pequenino, o bebê é um brinquedo; se é menino, elas divertem-se sem escrúpulo com o sexo dele; se é menina, fazem dela uma boneca; mais tarde querem que um pequeno escravo lhes obedeça cegamente; vaidosas, exibem a criança como um animal ensinado; ciumentas e exclusivas, isolam-no do resto do mundo. Muitas vezes também a mulher não renuncia a uma recompensa pelos cuidados que deu à criança; modela através dela um ser imaginário que a reconhecerá com gratidão como uma mãe admirável e em quem esta se reconhecerá. Quando Cornélia, mostrando os filhos, dizia com orgulho: "Eis minhas joias dava o mais nefasto exemplo à posteridade; número demasiado grande de mães vivem na esperança de repetir um dia esse gesto orgulhoso; e não hesitam em sacrificar a esse objetivo o pequeno indivíduo de carne e osso cuja existência contingente, indecisa, não as satisfaz. Impõem-lhe que se assemelhe ao marido ou, ao contrário, que não se lhe assemelhe em nada, ou que reencarne um pai, uma mãe, um antepassado venerado; imitam um modelo prestigioso: uma socialista alemã admirava profundamente Lily Braun, conta H. Deutsch; a célebre agitadora tinha um filho genial e que morreu moço; sua imitadora obstinou-se em tratar o próprio filho como um futuro gênio e o resultado foi tornar-se ele um bandido. Nociva à criança, essa tirania desadaptada é sempre uma fonte de decepção para a mãe. H. Deutsch cita outro exemplo impressionante, o de uma italiana cuja história acompanhou durante vários anos.  

A Sra. Mazetti tinha numerosos filhos e queixava-se sem cessar de se achar em dificuldade com um ou outro; pedia ajuda, mas era difícil auxiliá-la porque ela se imaginava superior a todo mundo e principalmente ao marido e aos filhos; fora da família, conduzia-se com muita ponderação e altivez, mas em casa, ao contrário, mostrava-se muito excitada e fazia cenas violentas. Saíra de um meio pobre, inculto e sempre quisera "subir"; frequentava cursos noturnos e talvez houvesse realizado suas ambições se não se tivesse casado aos 16 anos com um homem que a atraía sexualmente e que a fizera mãe. Continuou a tentar sair de seu meio indo a cursos etc.; o marido era um bom operário especializado que a atitude agressiva e superior da mulher levou, como reação, ao alcoolismo; para vingar-se, talvez, foi que a engravidou tantas vezes. Separada do marido, após um período em que se resignou a sua situação, começou a tratar os filhos da mesma maneira que o pai; nos primeiros tempos, eles lhe deram satisfação: trabalhavam direito, tinham boas notas na escola etc. Mas quando Luísa, a mais velha, fez 16 anos, ela teve medo de que repetisse sua própria experiência: tornou-se tão severa e dura que Luísa, com efeito, teve, por vingança, um filho ilegítimo. Em conjunto, os filhos tomavam o partido do pai contra a mãe, que os aborrecia com suas exageradas exigências morais; ela era incapaz de se apegar ternamente a mais de um filho cada vez, nele pondo todas as suas esperanças; depois mudava de predileção, o que tornava os outros furiosos e ciumentos. Uma após outra, as filhas puseram-se a receber homens, a pegar sífilis e a trazer filhos ilegítimos para casa; os filhos tornaram-se ladrões, E a mãe não queria compreender que suas exigências ideais é que os haviam impelido a esse caminho. 

     Essa obstinação educadora e o sadismo caprichoso de que falei misturam-se muitas vezes; como pretexto para suas cóleras, a mãe afirma que deseja "formar" o filho; e, inversamente, o ma logro do empreendimento exaspera-lhe a hostilidade.

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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (6)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"