Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
TERCEIRA PARTE
JUSTIFICAÇÕES
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CAPÍTULO II
A AMOROSA
A PALAVRA "amor" não tem em absoluto o mesmo sentido
para um e outro sexo. E é isso uma fonte dos graves mal--entendidos que os separam. Byron disse, justamente, que o amor
é apenas uma ocupação na vida do homem, ao passo que é a própria vida da mulher. É a mesma ideia que exprime Nietzsche
em Gaia Ciência:
A mesma palavra amor, diz, significa com efeito duas coisas diferentes para o homem e para a mulher. O que a mulher entende por amor é bastante claro: não é apenas a dedicação, é um dom total de corpo e alma, sem restrição, sem nenhuma atenção para o que quer que seja. É essa ausência de condição que faz de seu amor uma fé, a única que ela tem. Quanto ao homem, se ama uma mulher é esse amor que quer dela; ele está portanto muito longe de postular para si o mesmo sentimento que para a mulher; se houvesse homens que experimentassem também esse desejo de abandono total, por certo não seriam homens. (Os grifos são de Nietzsche.)
Em certos momentos de sua existência, alguns homens puderam ser amantes apaixonados, mas nenhum há que se possa definir como "um grande apaixonado"; nunca abdicam totalmente, mesmo em seus mais violentos transportes; ainda que caiam de joelhos diante de sua amante, o que desejam afinal e possuí-la, anexá-la; permanecem no coração de sua vida como sujeitos soberanos; a mulher amada não passa de um valor entre outros; querem integrá-la em sua existência, e não afundar nela uma existência inteira. Para a mulher, ao contrário, o amor é uma demissão total em proveito de um senhor.
É preciso que a mulher esqueça sua própria personalidade quando ama, escreve Cécile Sauvage. É uma lei da natureza. Uma mulher não existe sem um senhor. Sem um senhor é um ramalhete esparso.
Em verdade, não é de uma lei da natureza que se trata. É a diferença de suas situações que se reflete na concepção que o homem e a mulher têm do amor. O indivíduo que é sujeito, que é ele mesmo, tendo o gosto generoso da transcendência, esforça-se por ampliar seu domínio sobre o mundo: é ambicioso, age. Mas um ser inessencial não pode descobrir o absoluto no coração de sua subjetividade. Um ser votado à imanência não pode realizar-se em atos. Encerrada na esfera do relativo, destinada ao macho desde a infância, habituada a ver nele um soberano a quem não lhe é dado igualar-se, a mulher que não sufocou sua reivindicação de ser humano sonhará em ultrapassar-se para um desses seres superiores, em unir-se, confundir-se com o sujeito soberano. Não há para ela outra saída senão perder-se de corpo e alma em quem lhe designam como o absoluto, o essencial. Como de qualquer maneira se acha condenada à dependência, a obedecer a tiranos — pais, marido, protetor — prefere servir um Deus; escolhe querer tão ardorosamente sua escravidão que esta se apresentará a ela como a expressão de sua liberdade; esforçar-se-á por superar sua situação de objeto inessencial assumindo-a radicalmente; através de sua carne, de seus sentimentos, de suas condutas exaltará soberanamente o amado, pô-lo-á como a realidade e o valor supremos; aniquilar-se-á diante dele. O amor para ela torna-se uma religião.
Vimos que a adolescente começa querendo identificar-se com
os homens; quando a isso renuncia, procura então participar de
sua virilidade, fazendo-se amar por um deles; não é a individualidade deste ou daquele homem que a seduz; ela está apaixonada pelo homem em geral. "E vós, homens que amarei, como
vos espero!", escreve Irene Reweliotty. "Como me regozijo com
vos conhecer muito breve: Tu principalmente, o primeiro." É
preciso, naturalmente, que o homem pertença à mesma classe, à
mesma raça: o privilégio do sexo só funciona dentro desse quadro; para que seja um semideus, ele deve, evidentemente, ser
antes de tudo um ser humano; para a filha do oficial colonial o
indígena não é um homem; se a jovem se entrega a um inferior
é porque procura degradar-se, porque não se acredita digna do
amor; normalmente ela procura o homem em quem se afirma a
superioridade masculina; ela é logo levada a constatar que muitos indivíduos do sexo eleito são tristemente contingentes e terrestres; mas tem de início um preconceito favorável em relação a
eles; cabe-lhes menos provar seu valor do que não o desmentir
por demais grosseiramente. É o que explica tantos erros amiúde lamentáveis; a jovem ingênua prende-se ao espelho da virilidade. Segundo as circunstâncias, o valor masculino manifestar-se-á a seus olhos pela força física, a elegância, a riqueza, a
cultura, a inteligência, a autoridade, a situação social, um uniforme militar: mas o que ela deseja sempre é que no amante se
resuma a essência do homem. A familiaridade basta muitas vezes para destruir o prestígio; ele desmorona com o primeiro beijo, ou com o convívio quotidiano, ou durante a noite de núpcias.
Entretanto, o amor à distância é apenas um fantasma, não uma
experiência real. É quando carnalmente confirmado que o desejo de amor se torna um amor apaixonado. Inversamente, o
amor pode nascer dos amplexos físicos, exaltando a mulher sexualmente dominada o homem que lhe parecia antes insignificante. Mas o que acontece constantemente é que a mulher não
consiga transformar nenhum dos homens que conhece em um
deus. O amor ocupa na vida feminina menor lugar do que sempre se pretendeu. Marido, filhos, lar, prazeres, vida mundana,
vaidade, sexualidade, carreira, são muito mais importantes. Quase todas as mulheres sonharam com "o grande amor": conheceram sucedâneos deste, aproximaram-se dele; sob aspectos de
figuras inacabadas, magoadas, irrisórias, imperfeitas, mentirosas, ele as visitou; mas muito poucas lhes consagraram realmente
a existência. As grandes amorosas são, o mais das vezes, mulheres que não usaram o coração nos amores juvenis; aceitaram
primeiramente o destino feminino tradicional: marido, casa, filhos; ou conheceram uma dura solidão; ou confiaram em alguma empresa que malogrou. Quando entreveem a possibilidade
de salvar sua vida decepcionante, dedicando-a a um ser de elite,
dão-se de corpo e alma a essa esperança. Mlle Aissé, Juliette
Drouet, Mme d'Agoult tinham quase trinta anos no início de
sua vida amorosa, Julie de Lespinasse quase quarenta; nenhum
fim se propunha a elas, não estavam em condições de empreender
coisa alguma que lhes parecesse interessante, não havia para elas
outra saída senão o amor.
Mesmo com a possibilidade de serem independentes, esse
caminho é ainda o que se lhes afigura mais atraente; é angustiante assumir a empresa de sua vida; o adolescente volta-se
também amiúde para mulheres mais idosas, nas quais procura
um guia, uma educadora, uma mãe; mas sua formação, os costumes, as determinações que encontra em si mesmo proíbem-lhe
deter-se definitivamente na solução fácil da abdicação; ele só
encara tais amores como uma etapa. A sorte do homem — na idade adulta como na primeira infância — está em que o constrangem a enveredar pelos caminhos mais árduos mas também
mais seguros; a desgraça da mulher está em que se acha cercada de tentações quase irresistíveis; tudo a incita a seguir o
declive da facilidade: ao invés de convidá-la a lutar por sua
conta, dizem-lhe que lhe basta deixar as coisas correrem para
alcançar paraísos encantadores; quando percebe que foi vítima
de uma miragem, é tarde demais; suas forças esgotaram-se na
aventura.
Os psicanalistas afirmam de bom grado que a mulher busca
no amante a imagem do pai; mas é por ser homem e não por ser
pai que ele deslumbra a criança, e todo homem participa dessa
magia. A mulher não almeja reencarnar um indivíduo no outro
e sim ressuscitar uma situação: a que conheceu menina, ao abrigo dos adultos. Integrada no lar, gozou a paz de uma quase passividade; o amor devolver-lhe-á a mãe, como o pai; devolver-lhe-á a infância. O que ela almeja é reencontrar um teto sobre
a cabeça, muros que lhe escondam seu abandono no mundo, leis
que a defendam contra sua liberdade. Esse sonho infantil povoa
muitos amores femininos; a mulher sente-se feliz porque o amante a chama de "filhinha, criança querida"; os homens sabem
muito bem que estas palavras: "Estás com uma cara de menininha" são das que mais comovem o coração das mulheres; vimos
quantas sofreram com se tornar adultas; muitas se obstinam em
"ser crianças", em prolongar indefinidamente a infância na atitude e nos vestidos. Tornar a ser criança nos braços de um
homem as satisfaz amplamente. É o tema de certa cançoneta
muito vulgarizada
Sinto-me em teus braços tão pequenatão pequena, ó meu amor...¹,
tema que se repete sem cessar nas conversações e nas cor respondências amorosas. "Baby, meu bebê", murmura o amante; e a mulher diz de si mesma: "Tua menina, tua menininha . Irene Reweliotty escreve: "Quando chegará quem saberá dominar-me"? E acreditando tê-lo encontrado: "Gosto de te sentir um homem, e superior a mim".
[1] Je me sens en tes bras si petite, si petite, ô mon amour...
Uma psicastênica estudada por Janet (Les Obsessions et la Psychasthénie) ilustra de maneira impressionante essa atitude:
Uma psicastênica estudada por Janet (Les Obsessions et la Psychasthénie) ilustra de maneira impressionante essa atitude:
Desde quando posso lembrar-me, todas as tolices ou todas as boas ações que pude praticar decorrem da mesma causa, uma aspiração a um amor perfeito e ideal em que possa entregar-me inteiramente, confiar todo o meu ser a um outro ser, Deus, homem ou mulher, tão superior a mim que não teria mais necessidade de pensar em me conduzir na vida ou em atentar para mim. Encontrar alguém que me amasse o bastante para cuidar de me fazer viver, alguém, a quem. eu obedeceria cegamente e com toda a confiança, certa de que me evitaria qualquer fraqueza e que me guiaria em linha reta, docemente e com muito amor para a perfeição. Quanto invejo o amor ideal de Maria Madalena e de Jesus: ser o discípulo ardoroso de um mestre adorado e que o mereça; viver, morrer para seu ídolo, acreditar nele sem nenhuma dúvida possível, ter enfim a vitória definitiva do Anjo sobre a Besta, aconchegar-me em seus braços, tão envolvida, tão pequena, tão encolhida à sua proteção, tão sua que não mais exista.
Numerosos exemplos já nos provaram que esse sonho de aniquilamento é, na verdade, uma ávida vontade de ser. Em todas as religiões, a adoração de Deus confunde-se para o devoto com a preocupação de sua própria salvação; a mulher entregando-se inteiramente ao ídolo, espera que ele lhe dará a um tempo a posse de si mesma e a do universo que nele se resume. Na maioria das vezes é primeiramente a justificação, a exaltação de seu ego que ela pede ao amante. Muitas mulheres só se entregam ao amor sendo por sua vez amadas: e o amor que lhe manifestam basta algumas vezes para as tornar apaixonadas. A jovem sonhou-se través de olhos masculinos e é em olhos masculinos que a mulher acredita enfim encontrar-se.
Andar a teu lado, escreve Cécile Sauvage, fazer que avançassem meus pezinhos que amavas, senti-los tão miúdos em seus sapatos altos de cano de feltro dava-me amor por todo o amor com que os cercavas. Os menores movimentos de minhas mãos em meu regalo, de meus braços, de meu rosto, as inflexões de minha voz enchiam-me de felicidade.
A mulher sente-se dotada de um valor alto e seguro; tem enfim licença para se amar através do amor que inspira. Embriaga-se com encontrar uma testemunha no amante. É o que confessa La Vagabonde de Colette.
Cedi, confesso-o, cedi permitindo a esse homem que voltasse amanhã, ao desejo de conservar nele não um amoroso, não um amigo, mas um espectador ávido de minha vida e de minha pessoa... É preciso envelhecer terrivelmente, disse-me um dia Margot, para renunciar à vaidade de viver diante de alguém.
Em uma de suas cartas a Middleton Murry, Katherine Mansfield conta que acaba de comprar um delicioso corpete roxo; acrescenta logo: "Que pena que não haja ninguém para vê-lo!" Não há pior amargura do que se sentir a flor, o perfume, o tesouro que nenhum desejo exige: que é uma riqueza que não enriquece a mim mesma e que ninguém deseja receber? O amor é o revelador que faz aparecer em traços positivos e claros a pá lida imagem negativa tão vã quanto um clichê apagado; me diante esse revelador, o rosto da mulher, as curvas de seu corpo, suas recordações de infância, suas antigas lágrimas, seus vestidos, seus hábitos, tudo o que ela é, tudo o que lhe pertence escapa da contingência e torna-se necessária: ela é um presente maravilhoso ao pé do altar de seu deus.
Antes que ele tivesse gentilmente pousado as mãos sobre os ombros dela, antes que seus olhos se tivessem saturado dela, ela não fora se não uma mulher não muito bonita em um mundo incolor e morno. Desde o momento em que ele a beijara, ela estava em pé na luz na cara da da imortalidade (M. Webb, O Peso das Sombras).
Eis por que os homens dotados de prestígio social e hábeis em lisonjear a vaidade feminina suscitarão paixões ainda que sem nenhuma sedução física. Pela sua situação elevada encarnam a Lei, a Verdade: sua consciência desvenda uma realidade incontestada. A mulher que eles louvam sente-se transformada em um tesouro sem preço. Daí é que vinham, por exemplo, segundo Isadora Duncan (Minha Vida), os êxitos de d'Annunzio.
Quando d'Annunzio ama uma mulher, ele ergue sua alma acima da terra até as regiões em que se move e resplende Beatriz. De cada vez ele faz cada mulher participar da essência divina, ergue-a tão alto, tão alto que ela se imagina realmente no plano de Beatriz... Sobre cada favorita ele jogava alternativamente um véu deslumbrante. Ela erguia-se acima dos outros mortais e caminhava aureolada de uma luz estranha. Mas quando o capricho do poeta chegava ao fim e ele a abandonava por outra, o véu de luz desaparecia, a auréola dissipava-se e a mulher retornava ao barro vulgar.. . Ouvir-se elogiar com essa magia peculiar a d'Annunzio é uma alegria comparável à que Eva pôde experimentar quando ouviu a voz da serpente no Paraíso. D'Annunzio pode dar a toda mulher a impressão de que ela é o centro do universo.
É somente no amor que a mulher pode harmoniosamente
conciliar seu erotismo com seu narcisismo; já vimos que há entre esses dois sistemas uma oposição que torna difícil a adaptação
da mulher a seu destino sexual. Fazer-se objeto carnal, presa,
contradiz o culto que ela rende a si mesma: parece-lhe que os
amplexos lhe gastam e lhe emporcalham o corpo ou que lhe degradam a alma. Por isso é que certas mulheres escolhem a frieza, pensando manter assim a integridade de seu ego. Outras dissociam
as volúpias animais dos sentimentos elevados. Caso muito característico é o de Mme D. S., narrado por Stekel e que já citei a
propósito do casamento.
Fria, com um marido respeitado, depois da morte deste, encontrou um homem igualmente artista, grande músico, e tornou-se sua amante. Esse amor era, e é ainda, tão absoluto que ela só se sente feliz perto dele. Toda sua vida se resume em Lothar. Mas, embora amando-o ardorosamente, continuava fria em seus braços. Outro homem cruzou-lhe o caminho. Era um camponês forte e brutal que, estando um dia a sós com ela, a possui simplesmente, sem mais histórias. Ela ficou tão atônita que o deixou fazer. Mas nos braços dele sentiu um orgasmo violento. "Nos braços dele, dizia ela, eu me restabeleço por um período de meses. É como uma embriaguez selvagem, mas seguida de um nojo indescritível quando penso em Lothar. Detesto Paul e amo Lothar. Paul porém me satisfaz. Em Lothar tudo me atrai. Mas parece que me transformo em puta para gozar, desde que como mulher de bem o gozo me é vedado." Ela recusa-se a casar com Paul mas continua a dormir com ele; nesses momentos, "transforma-se em um outro ser" e palavras cruas, como nunca ousaria pronunciar, escapam-lhe da boca.
continua página 416...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (1)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"