quinta-feira, 16 de abril de 2026

Curta: Três minutos

O que eu fiz da minha vida?


... já se perguntou?


Curta-metragem brasileiro premiado


Três minutos. O tempo de passar o bastão e correr 1600 metros. De cozinhar um ovo. O tempo de tomar uma decisão que pode mudar a sua vida, antes que caia a ficha.







Capítulos
00:00 – Abertura
00:15 – Três Minutos
04:45 – Créditos




Direção: 
Ana Luiza Azevedo
Roteiro: 
Jorge Furtado
Produção: 
Nora Goulart e Luciana Tomasi
Direção de Fotografia: 
Alex Sernambi
Direção de Arte: 
Fiapo Barth
Música: 
Leo Henkin
Montagem: 
Giba Assis Brasil
Elenco: 
Lisa Becker, Werner Schünemann
 
1999 © Casa de Cinema de Porto Alegre


"Três Minutos" recebeu prêmios no 27º Festival de Gramado, 32º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília, 10º Festival Internacional de Curtas-metragens de São Paulo, 1º Grande Prêmio Cinema Brasil, entre outros, além de ter sido o único curta-metragem brasileiro selecionado para a competição oficial do 53º Festival de Cannes.


Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Todos os dias eu saía)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Todos os dias eu saía com Albertine. Ela resolvera dedicar-se a pintura e havia escolhido primeiramente, para trabalhar, a igreja de Saint-Jean-de-la-Haise, que não é mais frequentada por ninguém, sendo muito mal conhecida, difícil de fazer-se indicar, impossível de descobrir sem guia e demorada de se atingir em seu isolamento, a mais de meia hora da estação de Épreville, depois de passadas há muito as últimas casas da aldeia de Quetteholme. Quanto ao nome de Épreville, não encontrei concordância entre o livro do cura e as informações de Brichot. Para um, Épreville era a antiga Sprevílla; o outro indicava como etimologia Aprívilla.  
     Da primeira vez, tomamos a pequena estrada de ferro em sentido oposto ao de Féterne, ou seja, na direção de Grattevast. Mas era um dia de canícula e já fora terrível partir logo em seguida do almoço. Eu teria preferido não sair tão cedo; o ar luminoso e ardente despertava ideias de indolência e refrescamento. Sujeitava nossos quartos, o meu e o de minha mãe, conforme sua exposição, a temperaturas desiguais, como quartos de estâncias balneárias. O gabinete de toalete de mamãe, festoado pelo sol, de uma brancura fulgurante e mourisca, parecia estar mergulhado no fundo de um poço, devido aos quatro muros de estuque para os quais dava, ao passo que lá em cima, no quadrado vazio, o céu, cujas ondas macias e superpostas se viam deslizar umas sobre as outras, parecia (por causa do desejo que tínhamos) estar situado num terraço ou (visto às avessas em algum espelho pendurado à parede) ser uma piscina cheia de uma água azul, reservada às abluções. Apesar dessa temperatura abrasadora, tínhamos tomado o trem de uma da tarde. Porém Albertine sentira muito calor no vagão, e mais ainda durante o longo trajeto a pé, e eu temia que ela se resfriasse ao ficar, em seguida, imóvel naquela concavidade úmida que o sol não atingia. Por outro lado, e desde nossas primeiras visitas a Elstir, tendo-me apercebido de que ela apreciava não apenas o luxo mas até um certo conforto, do qual a privava sua falta de dinheiro, entendera-me com um locador de Balbec para que todos os dias um carro viesse buscar-nos. Para sentir menos calor, tomávamos pela floresta de Chantepie. A invisibilidade dos inúmeros pássaros, alguns meio marinhos, que se respondiam uns aos outros ao nosso lado nas árvores, dava a mesma impressão de repouso de quando estamos de olhos fechados. Ao lado de Albertine, preso em seus braços no fundo do carro, escutava essas oceânides. E, quando por acaso via um desses músicos que passava de um ramo a outro, havia tão pouca relação aparente entre ele e seus trinados, que não julgava enxergar a causa destes no pequeno corpo saltitante, humilde, assustado e sem olhos. O carro não podia nos levar até a igreja. Eu o mandava parar à saída de Quetteholme e me despedia de Albertine. Pois ela me impressionara ao dizer dessa igreja, como de outros monumentos, ou de certos quadros:

- Que prazer seria ver tudo isto na sua companhia! -

     E eu não me sentia capaz de dar-lhe esse prazer. Só o sentia diante das belas coisas se estivesse sozinho, ou quando fingia estar e ficava calado. Mas já que ela pensara poder experimentar, graças a mim, as sensações de arte que não se comunicam desse modo, achava eu mais prudente dizer-lhe que a deixava e voltaria para buscá-la no fim do dia, mas que, até lá, era preciso que regressasse com o carro para fazer uma visita à Sra. Verdurin ou aos Cambremer, ou até passar uma hora com mamãe em Balbec, mas nunca mais distante que isso. Pelo menos nos primeiros tempos. Pois, tendo-me dito Albertine uma vez por capricho: 

"É aborrecido que a natureza tenha feito tão mal as coisas e que tenha posto Saint-Jean dela-Haise de um lado, La Raspeliere de outro, e que a gente fique o dia inteiro aprisionado no local que escolheu".  

     Logo que recebi a touca e o véu, encomendei para minha desgraça um automóvel em Saint-Fargeau (Sanctus Ferreolus, segundo o livro do cura). Albertine, deixada por mim na ignorância, e que viera me buscar, ficou surpresa ao ouvir diante do hotel o ronco do motor, e encantada quando soube que esse automóvel era para nós dois. Fi-la subir por um instante para o meu quarto. Ela pulava de alegria. 

- Vamos visitar os Verdurin? 
- Sim, mas é preferível que não vá desse jeito, pois vai ter o seu auto. Veja, ficará melhor assim. -

     E apresentei-lhe a touca e o véu que havia escondido. 

- É para mim? Oh, como você é gentil! - exclamou ela, saltando-me ao pescoço, Aimé nos encontrou na escada, orgulhoso da elegância de Albertine e do nosso meio de transporte, pois esses autos eram bastante raros em Balbec, e deu-se o prazer de descer atrás de nós. Albertine, desejando ser vista um pouco em sua nova toalete, pediu-me para suspender a capota, que se baixaria depois para que ficássemos livremente juntos. 
- Vamos - disse Aimé ao motorista, a que, aliás, não conhecia e que não se havia mexido -, não ouves que te dizem para suspender a capota? -

     Pois Aimé, curtido pela vida de hotel, onde de resto havia conquistado um cargo eminente, não era tão tímido como o cocheiro do fiacre, para quem Françoise era uma "dama": apesar da falta de apresentação prévia, tratava por tu os plebeus a quem nunca vira, sem que se soubesse com certeza se era, de sua parte, desdém aristocrático ou fraternidade popular. 

- Eu não sou livre - respondeu o motorista, que não me conhecia. - Fui chamado a serviço da Srta. Simonet. Não posso levar o cavalheiro. -

     Aimé desatou a rir: 

- Mas ora, seu grande imbecil - respondeu ele ao motorista, a quem logo convenceu -, é justamente a Srta. Simonet, e o cavalheiro que te manda erguer a capota é justamente o teu patrão. -

     E, como Aimé, embora não tivesse pessoalmente simpatia por Albertine, estava, por minha causa, orgulhoso da toalete que ela vestia, segredou ao chofer: 

- Se pudesses, hem! Bem que gostarias de conduzir todos os dias princesas como esta! - Nesta primeira vez, não fui só eu quem pôde ir a La Raspeliere, como fiz outros dias enquanto Albertine pintava; ela quis ir comigo até lá. Achava que poderíamos perfeitamente parar aqui e ali na estrada, mas julgava impossível começar indo a Saint-Jean-dela-Haise, isto é, numa outra direção, e fazer um passeio que parecia votado a um dia diferente. Ao contrário, soube pelo motorista que nada era mais fácil do que ir a Saint-Jean, onde chegaríamos em vinte minutos, e que poderíamos ali ficar, se quiséssemos, várias horas, ou então ir bem mais longe, pois de Quetteholme a La Raspeliere ele não levaria mais que trinta e cinco minutos. Compreendemo-lo assim que o automóvel, avançando, transpôs de um só ímpeto vinte passos de um excelente cavalo. As distâncias são unicamente a relação entre o espaço e o tempo e variam com este. Exprimimos a dificuldade que temos em nos dirigir a um local num sistema de léguas e quilômetros que se torna falso desde que essa dificuldade diminui. Com isso, a arte também é modificada, pois uma aldeia que parecia localizar-se num mundo bem diverso de outra, torna-se vizinha sua numa paisagem cujas dimensões estão mudadas. Em todo caso, saber que talvez exista um universo em que 2 mais 2 fazem 5 e onde a linha reta não seja o caminho mais curto entre dois pontos, teria assombrado menos a Albertine do que ouvir o motorista dizer que era fácil ir, numa mesma tarde, a Saint-Jean e à Raspeliere. Douville e Quetteholme, Saint-Mars-le-Vieux e Saint-Marsle-Vêtu, Gourville e Balbec-le-Vieux, Tourville e Féterne, prisioneiros tão hermeticamente fechados até ali na célula de dias distintos como outrora Méséglise e Guermantes, e sobre as quais os mesmos olhos não podiam pousar numa única tarde, libertos agora pelo gigante de botas de sete léguas, vieram reunir por volta da hora do nosso chá suas torres e campanários, seus velhos jardins que o bosque, ao aproximar-se, se apressava a descobrir. Chegando à estrada do precipício, o auto subiu de um só impulso, com um ruído contínuo de motor, como uma faca que se afia, ao passo que o mar, rebaixado, se alargava aos nossos pés. As casas antigas e rústicas de Montsurvent acorreram, mantendo presos contra si o seu vinhedo ou o seu roseiral; os abetos de La Raspeliere, mais agitados que quando se erguia o vento da tardinha, correram em todos os sentidos para nos evitar, e um criado novo, que eu ainda não tinha visto, veio receber-nos na escadaria, enquanto o filho do jardineiro, revelando disposições precoces, devorava com os olhos o local do motor. Como não era segunda-feira, não sabíamos se haveríamos de encontrar a Sra. Verdurin, pois, a não ser naquele dia em que ela recebia, era imprudente ir visitá-la de improviso. Sem dúvida, "em princípio" ela ficava em casa, mas essa expressão, que a Sra. Swann empregava no tempo em que também procurava formar o seu pequeno clã e atrair os convivas sem se mexer, conquanto muitas vezes não tirasse nem para os gastos, e que ela, num contra-senso, traduzia "por princípio", significava apenas "em regra geral", isto é, com numerosas exceções. Pois não só a Sra. Verdurin gostava de sair como também levava muito longe os deveres da hospitalidade, e, quando tinha convidados para o almoço, logo após o café, os licores e os cigarros (apesar do primeiro entorpecimento do calor e da digestão quando se teria preferido contemplar, através das folhagens do terraço, a passagem do paquete de Jersey pelo mar de esmalte), o programa compreendia uma série de passeios no decurso dos quais os convivas, instalados à força num carro, eram conduzidos a contragosto para um ou outro dos panoramas que se multiplicam em torno de Douville. Aliás, esta segunda parte da festa não era (depois de cumprido o esforço de se levantar e subir para o carro) a que menos agradava aos convivas, já preparados pelos pratos suculentos, os vinhos finos ou a cidra espumante, a se deixar embriagar facilmente pela pureza da brisa e a magnificência dos sítios. A Sra. Verdurin fazia com que estes lugares fossem visitados pelos estrangeiros um pouco feito os anexos (mais ou menos distantes) de sua propriedade, e que não se podia deixar de ir ver, uma vez que se vinha almoçar em casa dela e que, reciprocamente, não seria possível conhecer se não se fosse recebido em casa da Patroa. Essa pretensão de arrogar-se um direito único sobre os passeios, como sobre o recital de Morel e antigamente o de Dechambre, e de constranger as paisagens a fazerem parte do pequeno clã, não era aliás tão absurda quanto parece à primeira vista. A Sra. Verdurin troçava da falta de gosto que, segundo ela, os Cambremer demonstravam não só no mobiliário de La Raspeliere e no arranjo do jardim, mas também nos passeios que davam ou mandavam dar pelos arredores. Do mesmo modo que, a seu ver, La Raspeliere só principiara a tornar-se o que deveria ter sido depois de se constituir no asilo do pequeno clã, afirmava ela que os Cambremer, refazendo perpetuamente em sua caleche, ao longo da estrada de ferro, à beira-mar, a única estrada ordinária que existe nas cercanias, moravam desde sempre na região, mas não a conheciam. Havia um pouco de verdade nesta asserção. Fosse rotina, falta de imaginação, curiosidade por uma região que parece batida de tão próxima, os Cambremer só saíam de casa para ir sempre aos mesmos locais e pelos mesmos caminhos. Decerto, riam muito da pretensão dos Verdurin em fazê-los conhecer sua própria terra. Mas, colocados entre a espada e a parede, eles e até o seu cocheiro teriam sido incapazes de nos levar aos lugares esplêndidos, e um tanto secretos, aonde nos conduzia o Sr. Verdurin, erguendo aqui a barreira de uma propriedade particular, mas abandonada, onde outros não acreditariam ser possível aventurar-se; ali, descendo de carro para seguir um caminho que não era carroçável, mas tudo isso com a segura recompensa de uma paisagem maravilhosa. Digamos, além disso, que o jardim da Raspeliere era de certa forma um resumo de todos os passeios que se podia fazer a muitos quilômetros em derredor. Primeiro, por causa de sua posição dominante, olhando de um lado para o vale, do outro para o mar, e depois porque, mesmo de um só lado, o do mar, por exemplo, tinham sido abertas clareiras no meio das árvores, de tal maneira que daqui se avistava um horizonte, dali um outro. Em cada uma dessas perspectivas existia um banco; a gente vinha assentar-se alternativamente naquele de onde se avistava Balbec, ou Parville, ou Douville. Mesmo numa só direção, fora colocado um banco mais ou menos a pique sobre a falésia, em local relativamente retirado. Destes últimos, tinha-se um primeiro plano de verdura e um horizonte que já parecia o mais vasto possível, mas que ia se ampliando indefinidamente se, continuando por um estreito caminho, a gente andava até um banco seguinte, de onde se abrangia todo o círculo do mar. Ali se percebia nitidamente o rumor das vagas, que, pelo contrário não chegava às partes mais recônditas do jardim, lá onde as vagas ainda se deixavam avistar, porém não ouvir. Esses locais de repouso tinham na Raspeliere, para os donos da casa, o nome de "vistas". E de fato, reuniam em torno do castelo as mais belas "vistas" das regiões vizinhas, das praias, ou das florestas, muito diminuídas pelo afastamento, como o imperador Adriano reunira em sua vida reduções dos monumentos mais célebres de diversos países. O nome que se seguia à palavra "vista" não era forçosamente o de um ponto do litoral, porém, muitas vezes da margem oposta da baía e que se descortinava com certo relevo, apesar da extensão do panorama. Da mesma forma que se pegava um livro na biblioteca do Sr. Verdurin: para ir ler durante uma hora na "vista de Balbec", assim também, se o tempo estava bom, ia-se tomar licor na "vista de Rivebelle", desde que não ventasse muito, pois, apesar das árvores plantadas de cada lado, o ar era bastante vivo ali.

     Voltando aos passeios de carro que a Sra. Verdurin organizava para a tarde, se a Patroa encontrava na volta os cartões de algum mundano "de passagem pelo litoral", fingia estar encantada, mas desolava-se por haver perdido essa visita e (embora ainda não viessem senão para ver "a casa" ou conhecer por um dia uma mulher cujo salão artístico era célebre, porém não frequentado em Paris) mandava convidá-lo sem demora pelo Sr. Verdurin, para que viesse jantar na quarta-feira seguinte. Como muitas vezes o turista era obrigado a viajar antes, ou temia os regressos tardios, a Sra. Verdurin havia convencionado que aos sábados encontrá-la-iam sempre à hora da merenda. Essas merendas não eram extremamente numerosas, e eu já conhecera em Paris outras mais brilhantes na casa da princesa de Guermantes, da Sra. de Galliffet ou da Sra. d'Arpajon. Mas aqui justamente não era mais Paris, e o encanto do quadro não reagia para mim sobre o aspecto aprazível da reunião, e sim sobre a qualidade dos visitantes. O encontro de determinado mundano, que em Paris não me proporcionaria prazer nenhum, mas que na Raspeliere, aonde viera de longe pela floresta de Chantepie ou por Féterne, mudava de caráter, de importância, tornava-se um incidente agradável. Às vezes era alguém que eu conhecia perfeitamente e a quem não teria dado um passo para encontrar na casa dos Swann. Mas seu nome soava de outra forma naqueles alcantis, como o de um ator que se ouve muitas vezes num teatro, impresso em cor diferente no cartaz; de um espetáculo extraordinário e de gala, onde sua notoriedade se multiplica de repente, no imprevisto do contexto. Como no campo a gente não tem cerimônia, frequentemente o mundano trazia por conta própria os amigos em cuja casa se hospedava, alegando baixinho, como desculpa, à Sra. Verdurin, que não poderia deixá-los, porque estava na casa deles; em compensação, a esses anfitriões, fingia ele oferecer, como uma espécie de atenção, o divertimento de ir a um centro espiritual nessa vida monótona de praia, de visitar uma residência magnífica e de saborear um chá excelente. Isto, em seguida, compunha uma reunião de valor mediano; e, se um pequeno recanto de jardim com algumas árvores, que pareceria mesquinho no campo, adquire um encanto extraordinário na avenida Gabriel ou então na rua de Monceau, onde somente multimilionários podem permitir-se coisa semelhante, inversamente, senhores que estão em segundo plano num sarau parisiense assumiam todo o seu valor segunda-feira à tarde, em La Raspeliere. Mal sentavam-se em torno à mesa coberta de uma toalha bordada de vermelho, e onde sob os tremós de camafeu serviam-lhes bolos folhados, pastéis normandos, tortas em forma de barco, repletas de cerejas como pérolas de coral, "diplomatas", e logo aqueles convidados sofriam, com a proximidade da profunda concha de azul para a qual abriam as janelas e que não podia se deixar de ver, ao mesmo tempo que eles, uma alteração, uma transmutação profunda que os mudava em algo mais precioso. Mais ainda, mesmo antes de os ter visto, quando vinham na segunda-feira à casa da Sra. Verdurin, as pessoas que em Paris apenas tinham olhares cansados pelo hábito para as atrelagens elegantes que estacionavam diante de um palacete suntuoso, sentiam o coração bater à vista de duas ou três feias carruagens paradas diante da Raspeliere, sob os grandes pinheiros. Sem dúvida, por ser diferente o quadro agreste e porque as impressões mundanas, graças a essa transposição, retomavam o seu frescor. Era também porque a má carruagem que se tornava para ir visitar a Sra. Verdurin evocava um belo passeio e um custoso "trato" concluído com um cocheiro que havia pedido "tanto" pela jornada. Mas a curiosidade levemente excitada, em relação aos que chegavam, ainda impossíveis de distinguir, também provinha de que cada um indagava a si próprio: "Quem poderá ser?", pergunta a que era difícil responder, por não se saber quem poderia vir passar oito dias na casa dos Cambremer ou alhures, e que sempre se gosta de fazer nas vidas agrestes e solitárias, onde o encontro de um ser humano que se deixou de ver havia muito tempo, ou a apresentação a alguém que não se conhece, já não é mais essa coisa fastidiosa que é na vida de Paris, e interrompe deliciosamente o espaço vazio das vidas demasiado isoladas, em que até a hora do correio se torna agradável. E, no dia em que fomos de automóvel a Raspeliere, como não se tratava de uma segunda-feira, o Sr. e a Sra. Verdurin deviam estar atormentados pela necessidade de ver gente, necessidade que perturba os homens e as mulheres e dá ao doente, que encerraram longe dos seus, para uma cura de isolamento, vontade de se atirar pela janela. Pois, tendo-nos respondido o novo criado de pés mais rápidos, e já familiarizado com essas expressões, que "se madame não tinha saído, devia estar na 'vista de Douville', e que ele ia ver", voltou logo para dizer-nos que seríamos recebidos por ela. Encontramo-la um tanto despenteada, pois estava chegando do jardim, do galinheiro e do pomar, aonde fora dar de comer a seus pavões e galinhas, procurar ovos, colher frutas e flores para "fazer seu trilho de mesa", trilho que lembrava em miniatura o do parque; mas, sobre a mesa, apresentava a diferença de só fazê-lo suportar coisas úteis e boas para comer; pois, ao redor desses outros presentes do jardim que eram as peras, os ovos batidos em ponto de neve, erguiam-se hastes elevadas de viperinas, de cravos, de rosas e de coreópsis, entre as quais se viam, como entre estacas indicadoras e floridas, deslocando-se pelos vidros da janela, os barcos ao largo. Pelo espanto que o Sr. e a Sra. Verdurin, interrompendo o arranjo de flores para receber os visitantes anunciados, mostraram ao ver que esses visitantes eram apenas Albertine e eu, percebi que o novo criado, cheio de zelo, mas a quem seu nome ainda não era familiar, repetira-o mal e que a Sra. Verdurin, ouvindo o nome de visitantes desconhecidos, mesmo assim dissera que os mandasse entrar, tanta a sua necessidade de ver qualquer pessoa. E o novo criado contemplava da porta este espetáculo, a fim de compreender o papel que desempenhávamos na casa. A seguir, afastou-se correndo, a grandes pernadas, pois só estava contratado desde a véspera. Depois de ter mostrado bastante sua touca e seu véu aos Verdurin, Albertine lançou-me um olhar para me lembrar de que não tínhamos muito tempo à nossa frente para o que desejávamos fazer. A Sra. Verdurin queria que esperássemos a hora do chá, porém recusamos, quando, de súbito, se apresentou um projeto que liquidaria todos os prazeres que eu me prometia lucrar desse passeio com Albertine: a Patroa, não podendo decidir-se a nos deixar, ou talvez a deixar escapar uma nova distração, queria voltar conosco. Habituada desde muito a que oferecimentos desse gênero não causassem prazer, e provavelmente não tendo certeza de que este nos causasse algum, dissimulou sob um excesso de confiança a timidez que sentia ao nos fazê-lo, e nem sequer dando a impressão de supor que pudesse haver dúvidas quanto à nossa resposta, não nos fez nenhuma pergunta, porém disse ao marido, falando de Albertine e de mim como se nos fizesse um favor:

- Eu os levarei de volta. -

     Ao mesmo tempo, um sorriso se lhe aplicou à boca, sorriso que não lhe pertencia propriamente, sorriso que eu já vira em certas pessoas, quando diziam a Bergotte com ar finório: 

- Comprei o seu livro, é assim-assim -, um desses sorrisos coletivos, universais, que, quando as pessoas dele necessitam como a gente se utiliza da estrada de ferro ou dos carros de mudança -, tomam emprestado, menos alguns muito refinados como Swann ou o Sr. de Charlus, em cujos lábios nunca vi pousar tal sorriso. Desde aquele momento a minha visita estava envenenada. Fiz cara de não haver compreendido. Após um instante, tornou-se evidente que o Sr. Verdurin participaria da festa. 
- Mas será um passeio muito longo para o Sr. Verdurin - objetei. 
- Que nada! - replicou a Sra. Verdurin com ar condescendente e divertido - ele diz que muito lhe agradará refazer com essa mocidade o caminho que tantas vezes percorreu outrora; se necessário, ficará ao lado do wattman; isto não o assusta e nós dois voltaremos bem direitinho pelo trem como bons esposos. Olhem, ele parece encantado. -  

    Ela dava a impressão de falar de um grande pintor velho cheio de bonomia que, mais moço que os jovens, alegra-se em garatujar figuras para fazer rir seus netinhos. O que aumentava a minha tristeza era que Albertine parecia não compartilhá-la e achar divertido circular desse modo por toda a região com os Verdurin. Quanto a mim, o prazer que me havia prometido desfrutar com ela era tão imperioso que não quis deixar que a Patroa o estragasse; inventei mentiras que as irritantes ameaças da Sra. Verdurin tornavam desculpáveis, mas que Albertine, ai de mim, contradizia. 

- Mas temos uma visita a fazer - disse eu. 
- Que visita? - perguntou Albertine. 
- Eu lhe explicarei, é indispensável. 
- Pois bem, nós os esperaremos - disse a Sra. Verdurin, resignada a tudo.

     No último minuto, a angústia de sentir que me arrebatavam um prazer tão desejado deu-me coragem para ser descortês. Recusei redondamente, dizendo ao ouvido da Sra. Verdurin que, por causa de um desgosto que Albertine havia tido e sobre o qual queria me consultar, era absolutamente necessário que estivesse a sós com ela. A Patroa assumiu um aspecto irritado: 

- Está bem, não iremos - disse-me, a voz trêmula de cólera.

     Senti que estava tão zangada que, para parecer que cedia um pouco, disse: 

- Mas a gente talvez pudesse... 
- Não - retrucou ela, mais furiosa ainda; quando digo não, é não. -

     Julguei que estávamos rompidos; mas ela nos chamou à porta para nos recomendar que não "largássemos" a quarta-feira seguinte e que não viéssemos naquela máquina, que era perigosa à noite, mas pelo trem com todo o pequeno grupo, e mandou parar o auto, já em marcha, na descida do parque, pois o novo criado se esquecera de pôr na capota o pedaço de torta e os sablés que ela mandara embrulhar para nós. Tornamos a partir, escoltados um momento pelas casinhas, que acorriam com suas flores.

continua na página 186...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Todos os dias eu saía)
Volume 6
Volume 7

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: O latifúndio multiplica as bocas, mas não os pães(21)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     31. O latifúndio multiplica as bocas, mas não os pães
          A produção agropecuária por habitante na América Latina é hoje menor do que na véspera da Segunda Guerra Mundial. Transcorreram 30 longos anos. No mundo, a produção de alimentos, nesse período, cresceu na mesma proporção em que diminuiu em nossas terras. A estrutura do atraso do campo latino-americano opera também como uma estrutura do desperdício: desperdício da força de trabalho, da terra disponível, dos capitais, do produto e, sobretudo, desperdício das esquivas oportunidades históricas de desenvolvimento. O latifúndio e seu parente pobre, o minifúndio, constituem, em quase todos os países latino americanos, o gargalo da garrafa que estrangula o crescimento agropecuário e o desenvolvimento de toda a economia. O regime da propriedade imprime sua marca no regime da produção: 1,5 por cento dos proprietários agrícolas latino-americanos possui a metade das terras cultiváveis, e a América Latina gasta anualmente mais de 500 milhões de dólares para comprar no estrangeiro alimentos que facilmente poderia produzir em suas imensas e férteis terras. Apenas 5 por cento da superfície total está cultivada: a mais baixa proporção do mundo e, portanto, o maior desperdício [1]. De resto, nas escassas terras cultivadas os rendimentos são muito baixos. E as técnicas modernas de produção, virtual monopólio das grandes empresas agrícolas, em sua maioria estrangeiras, são empregadas de tal modo que em vez de ajudar os solos os envenenam para ganhar o máximo num mínimo de tempo. [2]
     O latifúndio integra, às vezes como Rei Sol, uma constelação de poder que, na feliz expressão de Maza Zavala, multiplica os famintos, mas não os pães [3]. Em vez de absorver mão de obra, o latifúndio a expulsa: em 40 anos, os trabalhadores latino-americanos do campo foram reduzidos em mais de 20 por cento. Sobram tecnocratas dispostos a afirmar, aplicando mecanicamente receitas prontas, que este é um índice de progresso: a urbanização acelerada, a migração massiva da população campesina. Os desempregados, que o sistema vomita sem descanso, de fato migram para as cidades, aumentando seus subúrbios. Mas as fábricas, que também segregam desempregados na medida em que se modernizam, não oferecem oportunidades a essa mão de obra excedente e não especializada. Os progressos tecnológicos do campo, quando ocorrem, agravam o problema. Crescem os lucros dos terras-tenentes quando são implementados meios mais modernos de exploração de suas propriedades, mas mais braços resultam inativos e se torna maior a brecha que separa ricos e pobres. A introdução de equipamentos motorizados, por exemplo, elimina mais empregos rurais do que aqueles que cria. Os latino-americanos que produzem os alimentos, em jornadas de sol a sol, normalmente sofrem de desnutrição: seus ganhos são miseráveis, e a renda que o campo gera é gasta nas cidades ou viaja para o exterior. As melhores técnicas para aumentar os magros rendimentos do solo, e que deixam intato o regime de propriedade vigente, ainda que contribuam para o progresso geral, não representam nenhuma bênção para os camponeses. Não aumentam seus salários nem sua participação nas colheitas. O campo irradia pobreza para muitos e riqueza para bem poucos. Os aviões privados sobrevoam os desertos miseráveis, multiplica-se o luxo estéril nos grandes balneários e a Europa ferve de turistas latino-americanos transbordantes de dinheiro, que não cuidam do cultivo de suas terras mas não deixam de cuidar do cultivo de seus espíritos.
     Paul Bairoch atribui a principal debilidade da economia do Terceiro Mundo ao fato de que sua produtividade agrícola média só alcance a metade do nível alcançado, às vésperas da Revolução Industrial, pelos países hoje desenvolvidos [4]. De fato, a indústria, para expandir-se harmoniosamente, requereria um aumento muito maior da produção de alimentos e de matérias-primas agropecuárias. Alimentos, porque as cidades crescem e comem; matérias-primas, para as fábricas e para a exportação, de modo que diminuam as importações agrícolas e aumentem as vendas para o exterior, gerando as divisas que o desenvolvimento requer. De outra parte, o sistema de latifúndios e minifúndios implica o raquitismo do mercado interno de consumo e sem sua expansão a indústria nascente perde o pé. Os salários de fome no campo e o exército de reserva cada vez mais numeroso de desempregados conspiram neste sentido: os emigrantes rurais que vêm bater às portas das cidades empurram para baixo o nível geral dos ganhos dos operários.
     Desde que a Aliança para o Progresso proclamou aos quatro ventos a necessidade da reforma agrária, a oligarquia e a tecnocracia não cessaram de elaborar projetos. Dezenas de projetos gordos, magros, largos, estreitos, dormem nas estantes dos parlamentos de todos os países latino-americanos. A reforma agrária já não é um assunto maldito: os políticos aprenderam que a melhor maneira de não fazê-la consiste em não parar de falar nela. Os processos simultâneos de concentração e pulverização da propriedade continuam seu andamento, olimpicamente, na maioria dos países. No entanto, as exceções começam a pedir passagem.
     Porque o campo não é tão só uma sementeira de pobreza: é também uma sementeira de rebeliões, embora as agudas tensões sociais amiúde se ocultem, mascaradas pela aparente resignação das massas. O Nordeste do Brasil, por exemplo, impressiona à primeira vista como um bastião do fatalismo, cujos habitantes aceitam morrer de fome tão passivamente como aceitam a chegada da noite ao fim de cada dia. Mas não está tão longe no tempo a explosão mística dos nordestinos que lutaram junto com seus messias, extravagantes apóstolos, erguendo a cruz e os fuzis contra os exércitos, para trazer a esta terra o reino dos céus, nem as furiosas ondas de violência dos cangaceiros: os fanáticos e os bandoleiros, utopia e vingança, deram curso ao protesto social, cego ainda, dos camponeses desesperados [5]. As ligas camponesas recuperariam mais tarde, aprofundando-as, essas tradições de luta.
     A ditadura militar que usurpou o poder no Brasil em 1964 em seguida tratou de anunciar sua reforma agrária. O Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, como observou Paulo Schilling, é um caso único no mundo: em vez de distribuir terra aos camponeses, dedica-se a expulsá-los, para restituir aos latifundiários as extensões espontaneamente invadidas ou expropriadas por governos anteriores. Em 1966 e 1967, antes que a censura da imprensa fosse aplicada com maior rigor, os jornais costumavam dar conta dos saques, dos incêndios e das perseguições que as tropas policiais levavam a cabo por ordem do atarefado instituto. Outra reforma agrária digna de uma antologia é a que foi proclamada no Equador em 1964. O governo só distribuiu terras improdutivas, ao mesmo tempo em que facilitava a concentração de solos de melhor qualidade nas mãos de grandes proprietários. A metade das terras distribuídas pela reforma agrária da Venezuela, a partir de 1960, eram de propriedade pública; as grandes plantações comerciais não foram tocadas, e os latifundiários expropriados receberam tão altas indenizações que, com tais esplêndidos lucros, puderam comprar novas terras em outras áreas.
     O ditador argentino Juan Carlos Onganía esteve a ponto de antecipar em dois anos sua queda quando, em 1968, tentou aplicar um novo regime de impostos às propriedades rurais. O projeto pretendia tributar as improdutivas llanuras peladas mais severamente do que as terras produtivas. A oligarquia vacum bradou aos céus, mobilizou suas próprias espadas no estado maior e Onganía teve de esquecer suas heréticas intenções. A Argentina, como o Uruguai, dispõe de pradarias naturalmente férteis que, ao influxo da benignidade do clima, permitiu-lhe desfrutar de uma relativa prosperidade na América Latina. Mas a erosão vai mordendo sem piedade as imensas planuras abandonadas, que não se destinam ao cultivo nem ao pastoreio, e outro tanto ocorre com grande parte dos milhões de hectares dedicados à extensiva exploração da criação de gado. Como no caso do Uruguai, embora em menor grau, nessa exploração extensiva está a origem da crise que sacudiu a economia argentina nos anos 60. Os latifundiários argentinos não mostraram interesse bastante em introduzir inovações técnicas em seus campos. A produtividade ainda é baixa, porque convém que o seja; a lei do lucro pode mais do que todas as outras leis. A ampliação das propriedades, através da compra de novos campos, é mais lucrativa e menos arriscada do que o investimento em meios que a moderna tecnologia proporciona para a produção intensiva. [6]
     Em 1931, a Sociedade Rural opunha o cavalo ao trator: “Agricultores pecuaristas”, clamavam seus dirigentes, “trabalhar com cavalos nas tarefas agrícolas é proteger seus próprios interesses e os do país”. Vinte anos depois, insistia em suas publicações: “É mais fácil”, disse um conhecido militar, “que chegue o pasto ao estômago do cavalo do que a gasolina ao tanque de um pesado caminhão” [7]. Segundo dados da CEPAL, a Argentina tem, em proporção aos hectares da superfície arável, dezesseis vezes menos tratores do que a França, e dezenove vezes menos do que o Reino Unido. Também em proporção, o país consome 140 vezes menos fertilizantes do que a Alemanha Ocidental os [8]. Os rendimentos do trigo, do milho e do algodão da agricultura argentina são muito mais baixos do que rendimentos destas culturas nos países desenvolvidos.
     Juan Domingo Perón desafiou os interesses da oligarquia dona de terras na Argentina quando impôs o estatuto do peão e a adoção do salário mínimo rural. Em 1944, a Sociedade Rural afirmava: “Na fixação dos salários é primordial determinar o padrão de vida do peão comum. Suas necessidades materiais são às vezes tão limitadas que valores a mais podem ter destinos socialmente pouco interessantes”. A Sociedade Rural continua falando dos peões como se fossem animais, e a profunda meditação a propósito das escassas necessidades de consumo dos trabalhadores oferece, involuntariamente, uma boa chave para a compreensão das limitações do desenvolvimento industrial argentino: o mercado interno não se estende nem se aprofunda na medida suficiente. A política de desenvolvimento econômico implantada pelo próprio Perón nunca rompeu a estrutura do subdesenvolvimento agropecuário. Em junho de 1952, num discurso que proferiu no Teatro Colón, Perón desmentiu que tivesse a intenção de fazer uma reforma agrária, e a Sociedade Rural comentou, oficialmente: “Foi uma dissertação magistral”.
     Na Bolívia, graças à reforma agrária de 1952, melhorou visivelmente a alimentação em vastas zonas rurais do altiplano, tanto que até foram comprovadas mudanças na estatura dos camponeses. No entanto, o conjunto da população boliviana ainda consome somente uns 60 por cento das proteínas necessárias à dieta mínima e uma quinta parte do cálcio, e nas áreas rurais o deficit é ainda mais agudo do que estas médias. Não se pode dizer, de modo algum, que a reforma tenha fracassado, mas a divisão das terras altas não bastou para impedir que, em nossos dias, a Bolívia gaste a quinta parte de suas divisas para importar alimentos do estrangeiro.
     A reforma agrária que, desde 1969, o governo do Peru pôs em prática, está a mostrar-se como uma experiência de mudança em profundidade. E quanto à expropriação de alguns latifúndios chilenos por parte do governo de Eduardo Frei, é justo reconhecer que abriu caminho para a reforma agrária mais radical anunciada pelo novo presidente, Salvador Allende, enquanto escrevo estas páginas.

continua na página 213...
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[1] FAO. Anuario de la producción. v.19, 1965. 
[2] BALTRA CORTÉS, Alberto. Problemas del subdesarrollo económico latinoamericano. Buenos Aires, 1966.
[3} MAZA ZAVALA, D. F. Explosión demográfica y crecimiento económico. Caracas, 1970.
[4] AROICH, Paul. Diagnostic de l’évolution économique du Tiers Monde 1900 - 1966. Paris, 1967.
[5] FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos. Rio de Janeiro, 1965.
[6] A pastagem artificial, do ponto de vista do capitalista pecuário, representa uma migração de capital para um investimento mais pesado, mais arriscado e simultaneamente menos rentável do que o investimento tradicional em pecuária extensiva. Assim, o interesse privado do produtor entra em contradição com o interesse da sociedade em seu conjunto: a qualidade do gado e seus rendimentos só podem ser incrementados, a partir de certo ponto, através do aumento do poder nutritivo do solo. O país necessita que o gado produza mais carne e as ovelhas mais lã, mas os donos da terra ganham mais do que o suficiente, no nível dos rendimentos atuais. As conclusões do Instituto de Economia da Universidade do Uruguai (op. cit.), em certo sentido, são também aplicáveis à Argentina.
[7] CÚNEO, Dardo. Comportamiento y crisis de la classe empresaria. Buenos Aires, 1967.
[8] CEPAL. Estudio económico de América Latina. Santiago de Chile, 1964 y 1966, e El uso de fertilizantes en América Latina. Santiago de Chile, 1966.       
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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: O latifúndio multiplica as bocas, mas não os pães(21)

terça-feira, 14 de abril de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (I.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

I
 

     Uma chama incendiou os olhos de Deneulin, enquanto seus punhos de homem amante dos governos fortes se fechavam de medo de ceder à tentação de agarrar alguém pelo pescoço. Preferiu discutir, argumentar. 

— Vocês querem cinco cêntimos, e concordo em que o trabalho vale isso. Mas eu não posso dá-los. Se desse, estaria perdido. Tratem de compreender que para vocês viverem é preciso que eu viva. E eu estou muito apertado, o menor aumento no preço da mão-de-obra me derrubaria. Lembrem-se de que dois anos atrás, quando da última greve, cedi, mas naquele tempo ainda podia. E saibam que essa alta de salário foi extremamente ruinosa para mim, que desde então me debato numa crise. Hoje, prefiro fechar esta joça agora mesmo a não saber onde, no mês que vem, arranjar dinheiro para pagar vocês.

     Chaval riu maldosamente ao ver aquele patrão falando tão francamente dos seus negócios. Os outros baixavam a cabeça obstinados, incrédulos, sem poderem compreender que um chefe não ganhasse milhões com os seus operários.
     Deneulin continuou insistindo. Explicou sua luta contra Montsou sempre à espreita, pronta a devorá-lo se ele, por descuido, caísse de mau jeito. Era uma concorrência desenfreada, que o forçava a fazer economia, tanto mais que a grande profundidade da Jean-Bart aumentava o preço da extração, condição desfavorável só compensada pela grande espessura das camadas de hulha. Nunca teria aumentado os salários após a última greve, se não fosse a necessidade de imitar Montsou, de receio de ver seus empregados abandonarem-no. Em seguida, ameaçou-os com o futuro, que só seria desfavorável para eles próprios: se o obrigassem a vender, ficariam sob o jugo terrível da outra administração. Ele não estava entronizado num tabernáculo ignorado e longínquo: não era desses acionistas que pagam a gerentes para explorar o mineiro e que este nunca viu; era um patrão, arriscava algo mais do que o seu dinheiro, punha em risco sua inteligência, sua saúde, sua vida. A suspensão do trabalho representaria a morte, certamente, porque não tinha estoque e precisava satisfazer às encomendas. Por outro lado, o capital que representava seu aparelhamento não podia ficar inerte. De que maneira manteria seus compromissos? Quem pagaria o juro das somas que lhe tinham confiado seus amigos? Seria a falência. 

— Isso é tudo, minha gente! — disse ele para terminar. — Gostaria de tê-los convencido... Não se pode pedir a um homem que se degole... E, se eu concordar com esses cinco cêntimos ou permitir que entrem em greve, será a mesma coisa que cortar o pescoço.

     Calou-se. Os murmúrios começaram a correr. Parte dos mineiros parecia hesitar. Diversos deles voltaram para perto do poço. 

— Que ao menos haja liberdade de escolha — disse um contramestre. — Quais são os que querem trabalhar?

     Catherine foi uma das primeiras a avançar, mas Chaval, furioso, empurrou-a, gritando: 

— Estamos todos de acordo, só os velhacos é que abandonam os companheiros! Desde esse momento a conciliação pareceu impossível. A gritaria recomeçou, os homens que se encontravam perto do poço foram arredados aos empurrões e quase esmagados contra as paredes. 0 diretor, desesperado, tentou, por um momento, lutar sozinho, arremeter violentamente contra a turba, mas seria uma loucura inútil, teve de se retirar. E ficou por alguns minutos no fundo do escritório do recebedor, jogado sobre uma cadeira, ofegando, tão confundido na sua impotência que não conseguia pensar em nada. Finalmente acalmou-se e mandou um vigia buscar Chaval. Quando este último aceitou conversar, despediu os demais com um gesto. 
— Deixem-nos sós.

     A intenção de Deneulin era descobrir o que aquele astuto estava amando. Às primeiras palavras já pôde ver que era um vaidoso, devorado pela paixão da inveja. Agarrou-o então pela lisonja, fingiu espantar-se de que um operário com seus méritos comprometesse dessa maneira seu futuro. Ouvindo-o, dir-se-ia que, há muito, eleja tinha Chaval na mira para um posto melhor. Terminou oferecendo-lhe à queima-roupa o lugar de contramestre, para mais tarde. Chaval escutava-o silencioso, a princípio com os punhos cerrados, depois gradualmente abertos. Seu cérebro trabalhava sem descanso: se insistisse na greve, nunca passaria de lugar tenente de Etienne, enquanto outra ambição florescia nele, a de ser um chefe. Um calor de orgulho lhe subia às faces e o embriagava. E, aliás, o grupo de grevistas que esperava toda a manhã não viria mais, a essa hora; algum obstáculo o detivera, talvez os policiais: era o momento da conciliação. Mas assim mesmo continuava a negacear com a cabeça, fingindo o homem incorruptível, batendo indignado no peito. Finalmente, sem falar ao patrão sobre a vinda dos grevistas de Montsou, prometeu acalmar os companheiros e convencê-los a descer.
     Deneulin permaneceu escondido, os próprios contramestres mantiveram-se afastados. Durante uma hora ouviram Chaval perorar, discutir, em pé sobre um vagonete de recepção. Parte dos operários começou a vaiá-lo, cento e vinte foram embora, exasperados, obstinando-se na resolução que ele os tinha feito tomar. Eram já mais de sete horas, raiava o dia, muito claro, um dia alegre de grande geada. E, de repente, o movimento da mina recomeçou, o trabalho parado seguiu o seu curso.
     Primeiro foi a máquina, cuja biela mergulhou, enrolando e desenrolando os cabos das bobinas. Depois, em meio à barulheira dos sinais, começou a descida; os elevadores enchiam-se, afundavam, subiam, o poço engolindo a sua ração de aprendizes, operadoras de vagonetes e britadores; enquanto isso, sobre o pavimento de ferro, os ascensoristas empurravam os vagonetes comum barulho ensurdecedor. 

— Diabo, ainda andas por aqui? — gritou Chaval a Catherine que esperava a sua vez. — Desce de uma vez e começa logo a trabalhar!

     Às nove horas, quando a Sra. Hennebeau chegou no seu carro acompanhada de Cécile, encontrou Lucie e Jeanne já prontas, muito elegantes apesar de seus vestidos vinte vezes reformados. Deneulin admirou-se ao ver Négrel, que acompanhava a caleça, a cavalo Então os homens também estavam convidados? A Sra. Hennebeau explicou com seu ar maternal que a haviam assustado dizendo que as estradas estavam cheias de gente mal-encarada, e achara por bem trazer consigo um defensor. Négrel riu e tranquilizou-as: nada de grave, cão que ladra não morde, ninguém ousaria atirar urna pedra a uma vidraça.
     Ainda alegre com o seu sucesso, Deneulin contou a revolta reprimida da Jean-Bart. Agora declarava-se perfeitamente tranquilo. E ali, na estrada de Vandame, enquanto as senhoritas subiam na carruagem, todos se mostravam felizes com aquele dia maravilhoso, sem adivinharem, ao longe, na campina, o grande frêmito que tomava corpo, o povo em marcha, de que ouviriam o avançar se tivessem colado o ouvido ao chão. 

— Muito bem, está combinado — disse a Sra. Hennebeau. — Esta noite o senhor vai buscar as suas filhas e janta conosco. A Sra. Grégoire também prometeu ir buscar Cécile. 
— Conte comigo — respondeu Deneulin.

     A caleça partiu para os lados de Vandame. Jeanne e Lucie debruçaram-se mais uma vez para fora e sorriram para o pai, que ficara parado à beira do caminho. Négrel trotava garbosamente atrás das rodas que fugiam.
     Atravessaram a floresta, tomaram a estrada que vai de Vandame a Marchiennes. Ao passarem por Tartaret, Jeanne perguntou à Sra. Hennebeau se conhecia Cote-Verte, e esta, apesar de já estar residindo na região há cinco anos, confessou não ter visitado aquelas bandas. Fizeram então um desvio.
     O Tartaret, na orla da floresta, era uma charneca inculta de uma esterilidade vulcânica, sob a qual, havia séculos, queimava uma jazida de hulha. Era uma lenda muito antiga, os mineiros da região contavam uma história sobre uma bola de fogo caindo do céu e atingindo aquela sodoma das entranhas da terra, onde as operadoras de vagonetes manchavam-se de abominações. O fogo se espalhara com tanta rapidez que elas não tinham tido tempo de escapar e ainda hoje ardiam no fundo daquele inferno. As rochas calcinadas, de um vermelho escuro, cobriam-se de uma eflorescência de alúmen, que era como uma lepra. O enxofre brotava em florações amarelas nas bordas das fissuras. De noite, os corajosos que ousavam espiar por esses buracos juravam ver as chamas e as almas criminosas debatendo se no braseiro interior. Labaredas errantes corriam à flor do solo, vapores quentes, expelindo o fedor da imunda cozinha do diabo fumegavam continuamente. E como um milagre de eterna primavera, .no meio daquela charneca maldita do Tartaret, a Côte-v-íte espraiava o seu prado sempre verde, as suas faias cujas folhas se renovavam sem cessar, suas semeaduras que chegavam a dar três colheitas. Era uma estufa natural, aquecida pelo incêndio das camadas profundas. Neve alguma resistia a tal temperatura. A enorme floração de verdura, ao lado das árvores despojadas da floresta, apresentava-se soberba naquele dia de dezembro, sem que a geada tivesse, sequer, queimado a extremidade de suas folhas.
     Dentro em pouco a caleça corria pela planície. Négrel desmistificava a lenda explicando como o fogo começava, o mais das vezes, no fundo de uma jazida pela fermentação da poeira do carvão; quando não se podia dominá-lo, ele ardia indefinidamente. Citou o caso de uma mina da Bélgica que tivera de ser inundada, desviando-se um rio do seu curso para lançá-lo no poço.
     Mas o engenheiro achou melhor calar-se, já que grupos de mineiros cruzavam agora a todo instante a carruagem. Passavam em silêncio, lançando olhares atravessados, examinando aquele luxo que os obrigava a abrir caminho. O seu número aumentava sempre, os cavalos tiveram de andar a passo na estreita ponte do Scarpe. Que estava acontecendo para que toda aquela gente andasse pelos caminhos? As damas começavam a ficar assustadas; Négrel farejava algo de mau naquela agitação. Foi com uma sensação de alívio que chegaram finalmente a Marchiennes. Esbatidas pelo sol, as baterias de fornalhas de coque e as chaminés dos altos-fornos expeliam fumaça, cuja sempiterna fuligem chovia no ar.

continua na página 254...
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Quarta Parte - (VII.a) / Quarta Parte - (VII.b) / Germinal: Quinta Parte - (I.a)Germinal: Quinta Parte - (I.b) /   
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/I — A Alcunha

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     I — A alcunha: modo de formar nomes de família

             Mário era nesta época um interessante rapaz, de estatura mediana, espessos cabelos negros, fronte alta e inteligente, narinas abertas e apaixonadas, ar sincero e sereno, e em todo o rosto certa indefinível expressão de altivez, melancolia e inocência. O seu perfil, cujos lineamentos eram suaves sem que deixassem de ser firmes, possuía a doçura germânica de que a fisionomia francesa participa pela Alsácia e pela Lorena, e a completa carência de ângulos que tornava tão conhecidos os sicambros entre os romanos e que distingue a raça leonina da raça aquilina. Mário achava-se na quadra da vida em que o espírito dos homens pensativos é composto quase em proporções iguais de gravidade e singeleza. Posta uma situação grave, Mário possuía tudo o que era necessário para ficar inerte, ou para se tornar sublime, se dessem à chave mais uma volta. As suas maneiras eram reservadas, frias, polidas e pouco expansivas. Dotado de uma linda boca, de lábios purpurinos, de dentes alvos como poucos, corrigia-lhe o sorriso a expressão severa da fisionomia. Em certas ocasiões tornava-se um singular contraste aquela fronte casta e aquele sorriso voluptuoso. Mário tinha olhos pequenos, mas o olhar grande.
     No tempo em que em piores circunstâncias se achara, o mancebo notava que as raparigas se voltavam para trás quando ele passava, e deitava a fugir ou se escondia, profundamente contristado. Julgava que elas o fitavam para se rirem do seu usado traje, mas a verdade era que elas só se voltavam, porque o achavam gracioso e que continuavam o seu caminho com ele no pensamento.
     Este mundo equívoco entre ele e as lindas transeuntes viera por último a torná-lo insociável. De entre tantas, o mancebo não escolheu uma só, pela concludente razão de que de todas fugia. Assim viveu por muito tempo estupidamente, como dizia Courfeyrac.
     Courfeyrac dizia-lhe também: 

— Não aspires a tornar-te venerável (os dois amigos tratavam-se por tu, ao que entre mancebos facilmente se chega). Um conselho, meu caro. Não leias tanto nos livros e olha alguma coisa para as codornizes. As brejeiras têm bocadinhos de ouro, Mário! A força de lhes fugir e de corar, hás de vir a embrutecer-te.

Outras vezes Courfeyrac encontrava-se com ele e dizia-lhe: 

— Olá, padre!

     Quando Courfeyrac lhe jogava algum gracejo desta natureza, Mário durante oito dias ainda mais fugia de se encontrar com mulheres e muito principalmente com Courfeyrac.
     Duas mulheres, porém, encerrava a imensa criação, de quem Mário não fugia nem nas quais fazia reparo. Realmente, se alguém lhe dissesse que as duas criaturas de que falamos eram mulheres, o mancebo ficaria admiradíssimo. Uma era a velha barbada que lhe arrumava o quarto e de quem Courfeyrac dizia: 

— Mário, como vê que a criada usa barbas, corta as dele.

     A outra era uma rapariga, se o era, que ele via muitas vezes, mas para quem nunca olhava.
     Havia mais de um ano que Mário numa álea deserta do Luxemburgo, a que corre paralela ao parapeito da Pepinière, notava um homem e uma jovem quase sempre sentados juntos no mesmo banco, na extremidade mais solitária da álea do lado da rua de Oeste. Todas as vezes que o acaso, que dirige os passeios das pessoas pensativas, conduzia Mário àquela álea, o que acontecia quase todos os dias, encontrava ele ali sempre aquele par. O homem, que indicava ter sessenta anos, parecia triste e sério; a sua figura oferecia o robusto, mas cansado aspecto de um militar reformado. Se ele trouxesse ao peito alguma condecoração, Mário diria: «É algum antigo oficial». Tinha um ar de bondade, mas pouco animador, e o seu olhar nunca se fixava em ninguém. O seu traje consistia numas calças azuis, um casacão da mesma cor, um chapéu de abas largas, que ainda pareciam novos, uma gravata preta e uma camisa de quaker, quer dizer de deslumbrante brancura, mas de pano grosso. Um dia, uma costureirinha ao passar por ele disse: 

— Ora aqui está o que se chama um viúvo asseado!

     Este personagem tinha os cabelos, alvíssimos.
     Quando a jovem que o acompanhava veio pela primeira vez sentar-se com ele no banco, que parecia terem ambos adotado, inculcava ter treze ou catorze anos, e era tão magra, que quase se tornava feia, desajeitada, insignificante, mas possuidora de uns olhos que prometiam vir a ser extremamente belos. Fitava-os, porém, com uma ousadia que causava má impressão. Usava o traje ao mesmo tempo senil e infantil das recolhidas de um convento, que consistia num desairoso vestido de grosseiro merino preto. Pareciam ser pai e filha.
     Mário examinou durante dois ou três dias este homem idoso, que ainda se não podia chamar velho, e esta jovem, que ainda se não podia chamar mulher, e depois não tornou mais a fazer reparo neles, que pela sua parte parecia que nem sequer viam o mancebo, conversando ambos com perfeita serenidade e indiferença. A jovem tagarelava sempre jovialmente; o velho falava pouco e de quando em quando fitava na donzela uns olhos cheios de uma inefável paternidade.
     Mário, que contraíra maquinalmente o hábito de ir passear para esta álea, encontrava-os ali sempre.
     Eis como o caso se passava:
     O mancebo chegava pela extremidade da álea oposta ao banco em que eles se achavam, caminhava pela álea adiante, passava por eles, depois voltava até à extremidade por onde tinha vindo e recomeçava como da primeira vez. Repetia este movimento de vaivém cinco ou seis vezes por semana, sem que entre ele e os dois personagens sentados no banco se chegasse alguma vez a trocar uma saudação. Conquanto, porém, aquele velho e aquela jovem parecessem, ou talvez por isso mesmo que pareciam evitar os olhares, tinham, como era natural, excitado mais ou menos a curiosidade dos cinco ou seis estudantes que de tempos a tempos iam passear para a Pepinière, os estudiosos depois das suas aulas, e outros depois da sua partida de bilhar. Courfeyrac, que era um dos segundos, observara-os algum tempo; porém, como a jovem lhe parecesse feia, retirou-se apressadamente e com todo o cuidado. Deitara a fugir como um lacedemónio, dardejando-lhes uma alcunha. Impressionado somente do vestido da jovem e dos cabelos do velho, pusera à filha o nome de Mademoiselle Lanoire, ao pai o de Monsieur Leblanc, e em tal hora foi, que, como ninguém lhes sabia o verdadeiro nome, a alcunha pegou e os estudantes diziam: 

— Lá está Monsieur Leblanc sentado no seu banco!

     E Mário do mesmo modo que os outros, achava cômodo tratar também por senhor Leblanc aquele desconhecido personagem.
     Faremos pois como eles e adotaremos a alcunha para maior facilidade da nossa narrativa.
     Assim os viu Mário quase todos os dias e à mesma hora durante um ano. O velho agradava-lhe, mas achava a jovem desengraçada.

continua na página 527...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - I — A Alcunha
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira