domingo, 19 de julho de 2026

MPB: Açaí

Djavan

Djavan Caetano Viana (Maceió, 27 de janeiro de 1949)


assombração da luz, 
          tocando a manhã
       dedilha um violão triste 
  um sax refogado
ilusão, 
            peso de solidão 
                vigia o peito 
   sentinela do mundo
    vento soprou  
rajadas tortas, 
      dança invisível, 
    e a paixão surgia como fera
tubarão 
  o silêncio
       E no fim, 
castelo de areia
                            desfeito com elegância, 
                                                                    grãos que o mar leva.


Açaí - Djavan (1986)
Djavan no festival "Jazzvision Made in America" em 1986 em Los Angeles.
Voz: Djavan Caetano Viana
Banda Sururu de Capote:
Sax Soprano: Zé Nogueira
Tenor: Widor Santiago
Trompete: Nelson Henrique
Trombone: Jorge Simões
Percussão: Armando Marçal
Baixo: Sizão Machado
Bateria: Theo Lima
Teclados: Hugo Fatoruzo.





Solidão de manhã
Poeira tomando assento
Rajada de vento
Som de assombração
Coração, sangrando toda palavra sã

A paixão, puro afã
Místico clã de sereia
Castelo de areia
Ira de tubarão, ilusão
O sol brilha por si

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã

Branca é a tez da manhã

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Solidão de manhã
Poeira tomando assento
Rajada de vento
Som de assombração
Coração, sangrando toda palavra sã

La pasión, puro afã
Místico clã de sereia
Castelo de areia
Ira de tubarão, ilusão
O sol brilha por si

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã

Açaí, guardiã
Zum de besouro, um ímã
Branca é a tez da manhã...



Açaí - Gal Costa e Djavan
Gal Costa e Djavan cantam "Açaí" em 1982.





Djavan, Chico Buarque e Gal Costa - Nuvem Negra

"Chico parece sempre mais encantado de estar presente e assistir os outros do que de participar propriamente." "A voz da Gal é surreal, e a capacidade lírica do Djavan e do Chico Buarque é impressionante. Três dos maiores gênios das gerações de sempre."




Não adianta me ver sorrir, espelho meu
Meu riso é seu
E eu estou ilhada
Hoje não ligo a TV nem mesmo pra ver o Jô
Não vou sair, se ligarem não estou
À manhã que vem nem bom dia eu vou dar
Se chegar alguém
A me pedir um favor eu não sei
Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo
Passa nuvem negra, larga o dia
E vê se leva o mal que me arrasou
Pra que não faça sofrer mais ninguém
Esse amor que é raro
E é preciso
Pra nos levantar me derrubou
Não sabe parar de crescer e doer
Passa nuvem negra, larga o dia
E vê se leva o mal que me arrasou
Pra que não faça sofrer mais ninguém
Esse amor que é raro
E é preciso
Pra nos levantar me derrubou
Não sabe parar de crescer e doer

Não adianta me ver sorrir, espelho meu
Meu riso é seu
Eu estou ilhada
Hoje não ligo a TV nem mesmo pra ver o Jô
Não vou sair, se ligarem não estou
À manhã que vem nem bom dia eu vou dar
Se chegar alguém
A me pedir um favor eu não sei
Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo
Passa nuvem negra, larga o dia
E vê se leva o mal que me arrasou
Pra que não faça sofrer mais ninguém
Esse amor que é raro
E é preciso
Pra nos levantar me derrubou
Não sabe parar de crescer e doer
Passa nuvem negra, larga o dia
E vê se leva o mal que me arrasou
Pra que não faça sofrer mais ninguém
Esse amor que é raro
E é preciso
Pra nos levantar me derrubou
Não sabe parar de crescer e doer

Composição: Djavan

sábado, 18 de julho de 2026

Tchekhov - A dama do cachorrinho (II)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

II

     Fazia uma semana que a conhecia. Era dia feriado. Dentro de casa, o ar estava sufocante e, na rua, o vento arrastava a poeira em turbilhão e arrancava os chapéus. Dava sede o dia inteiro, e Gurov entrava com frequência no pavilhão, oferecendo a Ana Sierguéievna ora água com xarope, ora sorvete. Ficava-se sem saber onde se meter.
     Ao anoitecer, depois que o tempo amainou um pouco, foram até o quebra-mar, para assistir à chegada de um navio. Havia muita gente passeando no cais; reunira-se um grupe, com flores, para esperar alguém. Distinguiam-se nitidamente duas particularidades da bem vestida gente de Ialta: as senhoras de idade trajavam-se como jovens e havia muitos generais.
     Em virtude do mar agitado; o navio chegou tarde, quando o sol já se havia posto, e, antes de encostar ao cais, ficou, por muito tempo, fazendo manobra. Ana Sierguéievna olhava por um lorgnon para o navio e para os passageiros, como se estivesse à procura de gente conhecida, e seus olhos fulguravam quando se dirigia a Gurov. Falava muito, fazia perguntas entrecortadas, e ela própria esquecia imediatamente o que havia perguntado. Acabou perdendo o lorgnon.
     A multidão bem vestida estava se dissolvendo, não se distinguiam mais os rostos, o vento amainara de todo, mas Gurov e Ana Sierguéievna permaneciam parados, como se esperassem a descida de mais alguém do navio. Ela estava já silenciosa, cheirando flores, sem olhar para Gurov.

- O tempo melhorou - disse ele.- Aonde iremos agora? Vamos tomar um carro?

     Ela não respondeu.
     Ele a olhou então fixamente e, de súbito, abraçou-a e beijou-lhe os lábios; foi envolvido pelo perfume e pela umidade das flores e, no mesmo instante, espiou assustado em redor, para certificar-se de que ninguém os vira.

- Vamos a sua casa...- disse em voz baixa.
 
     E caminharam depressa.
     O ambiente do quarto dela era sufocante e cheirava a perfumes, que havia, comprado numa loja japonesa. Olhando-a agora, Gurov pensou: "Quantos encontros diferentes acontecem na vida!", O passado deixara-lhe a lembrança de mulheres despreocupadas, benevolentes, alegres de amor, e que lhe eram agradecidas pela felicidade, embora muito breve, que lhes proporcionava; de outras, como, por exemplo, sua mulher, que amavam sem sinceridade, com palavras supérfluas, afetadamente, com histeria, com, uma expressão que parecia significar não ser aquilo amor, nem paixão, mas algo mais significativo; e ainda de outras duas ou três, muito bonitas, frias, em cujo rosto aparecia, de repente, uma expressão rapace, um desejo insistente de tirar, arrancar da vida mais do que esta pode dar, e eram mulheres que não estavam mais na primeira juventude, birrentas, voluntariosas, pouco inteligentes; quando Gurov tornava-se indiferente a elas, sua beleza passava a despertar nele ódio e julgava, ver escamas no rendado de suas roupas brancas.
     Mas ali persistia a falta de coragem, uma angulosidade de juventude inexperiente, um sentimento de timidez; e havia ainda uma sensação de perturbação, como se alguém tivesse, de repente, batido na porta. Ana Sierguéievna, esta dama do cachorrinho, encarou o que sucedera de um modo particular, muito seriamente, como se fosse a sua perdição; assim parecia, e era estranho e fora de propósito. Murcharam-Ihe os traços e os cabelos compridos penderam-lhe triste mente dos lados do rosto; ficou pensativa, em atitude desolada, como a pecadora de um quadro antigo.

- Isto não está bem- disse ela.- Você, agora, é o primeiro a não me estimar.

     No quarto, havia uma melancia sobre a mesa. Gurov cortou um pedaço e começou a comê-lo, sem se apressar. Decorreu pelo menos meia hora em silêncio.
     Ana Sierguéievna estava tocante, emanava dela a pureza de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco. A vela solitária, que ardia sobre a mesa, mal lhe iluminava o rosto, mas se via que estava sofrendo.

- Por que é que eu poderia deixar de estimá-la? perguntou Gurov.- Você mesma não sabe o que diz.
- Que Deus me perdoe!- disse ela e seus olhos marejaram-se.- Isto é horrível. 
- Você parece que está se justificando.
- Com que vou me justificar? Sou uma mulher má, ignóbil, desprezo-me e nem penso em me defender. Não enganei o marido, mas a mim mesma. E não foi somente agora, mas há muito que me engano. Meu marido talvez seja um homem bom, honesto, mas é um lacaio! Não sei direito o que faz na repartição e como cumpre as obrigações, mas sei somente que é um lacaio. Quando me casei com ele, tinha vinte anos, torturava-me a curiosidade, eu queria encontrar algo melhor. Dizia-me: "Existe, afinal, uma outra vida". Tinha vontade de viver! Viver e viver ainda... Abrasou-me a curiosidade... você não 'compreende isto, mas, juro por Deus, eu não me possuía mais, algo me sucedia, ninguém me poderia deter. Disse ao marido que estava doente e vim para cá. . . E, aqui, estava sempre andando como que atordoada, como uma louca. . . e eis que me tornei uma mulher infame, vulgar, e qualquer um pode me desprezar.

     Gurov já estava se aborrecendo de ouvir aquilo, irritava-o aquele tom ingênuo, aquele arrependimento tão inesperado e fora de propósito. Não fossem as lágrimas nos olhos e poder-se-ia pensar que ela estava brincando ou desempenhando um papel.

- Não compreendo - disse ele suavemente. - O que é que você quer? 

     Ela escondeu o rosto em seu peito e apertou-se contra ele.

- Acredite, acredite em mim, eu lhe imploro... Amo uma vida honesta, pura, o pecado me repugna, eu mesma não sei o que faço. A gente do povo diz: o diabo tentou. E eu posso também dizer agora, a meu respeito, que o diabo me tentou.
- Basta, basta... - balbuciou ele.

     Olhava-a nos olhos imóveis, assustados, beijava-a, falava-lhe com ternura, e ela, aos poucos, acalmou-se e voltou-lhe a alegria. Puseram-se a rir.
     Depois, quando saíram, não havia viva alma à beira-mar. A cidade com seu ciprestes parecia completamente morta, mas o mar ainda fazia ruído e batia contra a margem. Uma barcaça balançava-se sobre as ondas e tremeluzia nela, sonolenta, uma pequena lanterna. 
     Encontraram um carro de aluguel e foram a Oreanda.

- Ainda há pouco, soube no vestíbulo o teu sobrenome: na portaria está escrito "Von Dideritz"- disse Gurov. Teu marido é alemão?
- Não, parece que tinha um avô alemão, mas ele próprio é ortodoxo. 

     Em Oreanda, ficaram sentados num banco, perto da igreja, olhando em silêncio o mar. Ialta mal se via através da névoa matinal, nuvens brancas permaneciam imóveis, junto aos cumes das montanhas. A folhagem não se movia sobre as árvores, gritavam cigarras, e o som monótono, abafado, do mar, que chegava de baixo, falava de descanso, do sono eterno que nos aguarda. Assim tumultuara lá embaixo, quando ainda não existiam Ialta, nem Oreanda; o mesmo ruído faz agora e fará, do mesmo modo indiferente e abafado, quando não existirmos mais. E nessa permanência, nessa completa indiferença em relação à vida e à morte de cada um de nós, oculta-se talvez o fundamento de nossa eterna salvação, do incessante movimento de vida sobre a terra, da perfeição imorredoura. Sentado ao lado da jovem mulher, que, ao alvorecer, parecia tão bonita, acalmado e embevecido face ao ambiente encantado, face ao mar, às montanhas, às nuvens, ao amplo céu, Gurov pensava em como, na realidade, se se refletir direito sobre isto, tudo é belo neste mundo, tudo, com exceção do que nós mesmos pensamos e fazemos, quando nos esquecemos dos objetivos elevados da existência e de nossa própria dignidade humana.
     Acercou-se deles um homem, provavelmente um guarda, olhou-os e se afastou. E este pormenor pareceu igualmente misterioso e belo. Viu-se chegar de Feodóssia um navio, iluminado pela aurora e já de luzes apagadas. 

- A erva está coberta de orvalho- disse Ana Sierguéievna, depois de um silêncio.
- Sim. É tempo de ir para casa. 

     Regressaram à cidade.
     Depois, encontravam-se sempre ao meio-dia, à beira-mar, almoçavam juntos, jantavam, passeavam, encantavam-se com o mar. Ela queixava-se de insônia e de que o coração lhe batia de modo alarmante, fazia-lhe sempre as mesmas perguntas, perturbada ora pelo ciúme, ora pelo temor de que ele não a estimasse o suficiente. E muitas vezes, no parque ou em algum jardinzinho público, quando não havia ninguém nas proximidades, ele a atraía de repente para si e beijava-a apaixonado, Aquele ócio. completo, aqueles beijos em pleno dia, repassados do temor de serem surpreendidos, o calor, a maresia e o perpassar incessante de gente ociosa, bem vestida e nutrida, pareceram havê-la transformado completamente. Dizia a Ana Sierguéievna como ela era bonita e tentadora, demonstrava uma impaciência apaixonada, não a deixava por um momento. Ela ficava frequentemente pensativa, pedindo-lhe sempre para confessar que não a estimava, não a amava um pouco sequer, e que via nela simplesmente uma mulher vulgar. Quase sempre, quando já estava adiantado o anoitecer, iam para fora da cidade, para Oreanda ou para a cachoeira. Os passeios eram sempre bem sucedidos, deixando invariavelmente impressões magníficas, grandiosas.
     Esperavam a vinda do mando. Mas chegou dele uma carta, em que informava estar com a vista dolorida e implorava à mulher que regressasse o quanto antes. Ana Sierguéievna apressou-se a voltar.

- É bom que eu parta - disse ela a Gurov.- É próprio destino.

     Partiu de carro e ele a acompanhou. Viajaram um dia inteiro. No vagão do trem-correio, ao soar o segundo sinal, ela disse:

- Deixe que olhe para você mais uma vez. .. uma vez mais... Assim.

     Não chorava, mas estava triste, parecia doente, e tremia-lhe o rosto... 

- Vou pensar em você... lembrar - disse ela. - Fique com Deus. Não guarde má lembrança de mim. É uma despedida para sempre, tem que ser assim, pois nem nos devíamos ter encontrado. Bem, vá com Deus.

     O trem partiu veloz, suas luzes desapareceram e, instantes depois, não se ouvia mais qualquer ruído, como se tudo se tivesse combinado propositalmente, para fazer cessar o quando antes aquele doce alheamento, aquela loucura. Sozinho na plataforma da estação, e olhando para a negra distância, Gutov ficou ouvindo o canto dos grilos e a zoada dos fios telegráficos, com a sensação de haver acordado somente naquele instante. Pensava que em sua vida ocorrera mais uma aventura, um episódio, que também terminara, deixando apenas uma recordação... Estava comovido, triste, e sentia um ligeiro arrependimento. Aquela mulher jovem, que não veria mais, não fora feliz com ele. Tinha sido com ela afável, afetuoso, mas, apesar de tudo, em seu modo de tratá-la, no tom de sua voz e nos carinhos que lhe fizera transparecia a sombra de uma ligeira ironia, o sentimento algo rude de uma superioridade de homem feliz, que, além do mais, tinha quase o dobro de idade. Durante todo o tempo, ela o chamara de bondoso, extraordinário, superior. Certamente, Gurov aparecia-lhe como alguém diferente do que era na realidade; por conseguinte enganava-a sem querer...
     Na estação, já cheirava a outono, a noite estava fresca.

"É tempo de partir também para o norte~ pensou Gurov, saindo da plataforma. "É tempo!"

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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta / A dama do cachorrinho (I) / A dama do cachorrinho (II) /     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (V. Confissão de um coração ardente e debocado)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
V
CONFISSÃO DE UM CORAÇÃO ARDENTE E DESBOCADO
  
— Pois bem! — disse Aliócha. — Conheço agora a primeira parte do caso. 
— Isto é, um drama, que se passou lá. A segunda parte será uma tragédia e se desenrolará aqui. 
— Não compreendo nada dessa segunda parte. 
— E eu, será que eu compreendo alguma coisa? 
— Escuta, Dimítri, há um ponto importante. Dize-me, ainda és noivo? 
— Não fiquei noivo imediatamente, mas só três meses depois daquele acontecimento. No dia seguinte, disse a mim mesmo que estava tudo liquidado, terminado, que não haveria consequências. Ir pedi-la em casamento pareceu-me uma baixeza. De seu lado, não me deu ela sinal de vida durante as seis semanas que passou ainda na cidade. De parte uma exceção, entretanto: no dia seguinte à sua visita, a arrumadeira delas introduziu-se em minha casa e, sem dizer uma palavra, entregou-me um envelope a mim endereçado. Abro-o: continha o restante dos 5.000 rublos. Fora preciso restituir 4.500, a perda de venda da obrigação ultrapassava 200 rublos. Ela me restituía 260, creio — não me lembro exatamente —, e sem uma palavra de explicação. Procurei no pacote um sinal qualquer a lápis, nada! Fiz farra com o que me restava de meu dinheiro, a tal ponto que o novo major se viu forçado a fazer-me censuras. O tenente coronel entregara sua caixa intacta, para espanto geral, porque acreditava-se a coisa impossível. Depois do que, caiu doente, ficou três semanas de cama e sucumbiu em cinco dias a um amolecimento cerebral. Enterraram-no com honras militares, porque não tivera ele tempo de ser reformado. Catarina Ivânovna, sua irmã e sua tia, dez dias após o enterro, partiram para Moscou. No dia de sua partida somente (não as havia revisto), recebi um bilhete azul, com esta única linha escrita a lápis: 

"Escrever-lhe-ei. Espere. C." 

"Em Moscou, os negócios delas arranjaram-se duma maneira tão rápida quão extraordinária, tal como um conto das Mil e Uma Noites. A principal parenta de Catarina Ivânovna, uma generala, perdeu bruscamente suas duas sobrinhas, suas herdeiras mais próximas, mortas, na mesma semana, de varíola. Transtornada, ligou-se a Cátia como à sua própria filha, vendo nela sua derradeira esperança, refez seu testamento em seu favor e deu-lhe — de mão para mão — 80.000 rublos de dote, para dispor deles à sua vontade. É histérica; tive ocasião de observá-la mais tarde em Moscou. Uma bela manhã, recebo pelo correio 4.500 rublos, com extrema surpresa minha, bem entendido. Três dias depois chega a carta prometida. Tenho-a ainda, conservá-la ei até minha morte; queres que ta mostre? Não deixes de lê-la: oferece-se ela mesma a partilhar minha vida. 'Amo-o loucamente; que não me ame, não me importa, contente-se em ser meu marido. Não se espante, não o incomodarei em nada; serei um de seus móveis, o tapete sobre o qual você anda... Quero amá-lo eternamente, salvá-lo-ei de você mesmo...' Aliócha, sou mesmo indigno de repetir estas linhas em minha vil linguagem, com o tom de que jamais pude corrigir- me! Até agora, essa carta traspassou-me o coração e acreditas que me sinto à vontade hoje? Respondi-lhe imediatamente (era-me impossível ir a Moscou). Escrevi com minhas lágrimas. Envergonhar-me-ei eternamente de lhe ter lembrado que era ela agora rica e dotada — e eu sem recursos. Falei de dinheiro. Deveria ter-me contido, mas minha pena traiu-me. Escrevi também a Ivã, então em Moscou, e expliquei-lhe tudo quanto era possível, uma carta de seis páginas; mandei Ivã à casa dela. Que tens que te faz olhar-me? Sim, Ivã apaixonou-se por ela; ainda o está agora, sei disso. Cometi uma tolice, do ponto de vista mundano, mas talvez seja essa tolice que nos salvará a todos. Não vês que ela o honra, que o estima? Pode ela, depois de ter-nos comparado um com o outro, amar um homem tal como eu, sobretudo depois do que se passou aqui?"

— Estou persuadido de que é um homem como tu que ela devo amar, e não um homem como ele.
— É sua própria virtude que ela ama e não a mim — deixou Dimítri escapar, malgrado seu, com irritação. Pôs-se a rir, mas de súbito seus olhos cintilaram; tornou-se totalmente vermelho e deu um violento murro sobre a mesa. 
— Juro-o, Aliócha — exclamou ele, num acesso de furor não fingido contra si mesmo —, podes crê-lo ou não, mas, tão verdade como Deus é santo e que o Cristo é Deus, e, se bem que haja eu zombado de seus nobres sentimentos, não duvido da angélica sinceridade deles; sei que minha alma é um milhão de vezes mais vil que a dela. É nesta certeza que consiste a tragédia. A bela desgraça! Declame-se um pouco! Eu também declamo e, no entanto, sou perfeitamente sincero. Quanto a Ivã, imagino que deve ele maldizer a natureza, ele que é tão inteligente! Quem teve a preferência? Um monstro tal como eu, que não pude arrancar-me da devassidão, quando todos me observavam e isto sob os olhos de minha noiva! E sou eu preferido? Mas por quê? Porque aquela moça quer, como prova de reconhecimento, constranger se a uma existência desgraçada! É absurdo! Jamais falei a Ivã neste sentido, e ele, bem entendido, jamais fez a menor alusão a isso; mas o destino se cumprirá, cada qual segundo seus méritos; o réprobo afundar-se-á definitivamente no lamaçal de que gosta. Estou dizendo incoerências, as palavras não exprimem meu pensamento, como se as empregasse ao acaso, mas o que fixei realizar-se-á. Afogar-me- ei na lama e ela casará com Ivã. 
— Irmão, espera — interrompeu Aliócha, numa agitação extraordinária. — Há um ponto que ainda não me explicaste; continuas seu noivo. Como queres romper, se ela a isso se opõe?  
— Sou noivo, recebemos a bênção oficial. Ocorreu em .Moscou, quando cheguei em grande cerimônia, com os ícones. A generala nos abençoou; imagina que chegou mesmo a felicitar Cátia: "Escolheste bem", disse ela. "Leio em seu coração." Quanto a Ivã, não lhe agradou; ela não lhe dirigiu nenhum cumprimento. Em Moscou tive longas conversas com Cátia; pintei-me nobremente, tal como era, com toda a sinceridade. Ela tudo escutou:
Houve um enleio encantador 
E ternas palavras ouviram-se... 
Houve também palavras altivas. Arrancou-me a promessa de corrigir-me. Prometi. E eis em que ponto estou.
— Chamei-te, trouxe-te aqui hoje, lembra-te, para enviar-te hoje mesmo à casa de Catarina Ivânovna, e...
— Que mais?
— Dize-lhe que não irei mais à casa dela, cumprimentando-a de minha parte. 
— Será possível?
— Não, é impossível; assim, peço-te que vás lá em meu lugar, não poderia dizer-lhe isto eu mesmo. 
— E tu, aonde irás? 
— Voltarei ao meu lodaçal. 
— Isto é, à casa de Gruchka! — exclamou tristemente Aliócha, juntando as mãos. — Rakítin tinha, pois, razão. E eu que acreditava que era apenas uma ligação passageira!  
— Um noivo com uma amante!. Seria possível, com tal noiva e aos olhos de todos? Não perdi de todo a honra. Desde o momento em que passei a frequentar Grúchenhka, deixei de ser noivo e homem honesto, dou-me conta disso. Que tens para me olhar assim? Fui à casa dela a primeira vez na intenção de bater-lhe. Soubera, e sei agora de fonte limpa, que aquele capitão, delegado por meu pai, entregara a Grúchenhka uma ordem de pagamento assinada por mim; tratava-se de processar-me na justiça, na esperança de abater-me e de obter minha desistência. Queriam amedrontar-me. Ia eu pois surrá-la. Já tivera ocasião de vê-la ligeiramente. Uma mulher muito ordinária. Sabia da estória daquele velho comerciante seu amante, que não durará muito mais tempo, mas lhe deixará uma bela soma. Sabia que ela era também gananciosa, emprestando com usura, velhaca e debochada, sem compaixão! Fui para dar-lhe uma correção e fiquei em casa dela. Aquela mulher é a peste. Contaminei-me, tenho-a na pele. Tudo está acabado doravante, não há mais outra perspectiva. O ciclo dos tempos passou. Eis onde me encontro. Como que de propósito tinha eu então 3.000 rublos no bolso. Fomos a Mókroie, a 25 verstas daqui, mandei buscar ciganos, ofereci champanha a todos os mujiques, às mulheres e às moças do local. Três dias depois, estava sem nada. E pensas que obtive o mínimo favor? Nada ela me mostrou. Asseguro-te, é toda sinuosa. A intrujona, seu corpo lembra uma cobra, vê-se isso em suas pernas, até o dedo mindinho de seu pé esquerdo que tem essa sinuosidade. Vi-o e beijei-o, mas foi tudo, juro-te. Ela me disse: "Queres, casarei contigo, embora pobre. Se me prometes não me bater e deixar-me fazer tudo quanto quiser, talvez me case", e riu, e ri também agora!
 
     Dimítri Fiódorovitch ergueu-se presa duma espécie de furor. Tinha ar de ébrio. Seus olhos estavam injetados de sangue.

— Pretendes seriamente casar com ela? — Se ela consentir, será imediatamente; se recusar, ficarei ainda assim com ela, serei seu criado. Tu, tu... Aliócha...

     Parou diante dele e se pôs a sacudi-lo violentamente pelos ombros.

— Sabes tu, inocente, que tudo isso é delírio, um delírio inconcebível, porque há nisso uma tragédia?
— Fica sabendo, Aliócha, que posso ser um homem perdido, de paixões vis, mas que Dimítri Karamázov jamais será um ladrão, um vulgar ratoneiro. Pois bem, fica sabendo agora que sou esse ladrão, esse ratoneiro! Quando ia eu à casa de Grúchenhka para castigá-la, naquela manhã mesma Catarina Ivânovna mandou-me chamar e pediu-me com grande segredo (ignoro por qual motivo) que eu fosse à sede da província enviar 3.000 rublos a Agáfia Ivânovna, em Moscou. Ninguém devia saber disso na cidade. Fui à casa de Grúchenhka com aqueles 3.000 rublos no bolso e serviram eles para pagar nossa excursão a Mókroie. Em seguida, fiz que ia à sede da província, que tinha enviado o dinheiro; quanto ao recibo, "esqueci-me" de lhe levar, malgrado minha promessa. Agora, que pensas? Irás dizer-lhe: "Ele manda cumprimentá-la". Ela te perguntará: "E o dinheiro?" E tu lhe responderás: "Ele é uma criatura de uma sensualidade animal, uma criatura vil, incapaz de conter-se. Em lugar de enviar seu dinheiro, gastou-o, não podendo resistir à tentação". Mas podes também acrescentar: "Dimítri Fiódorovitch não é um ladrão; aqui estão os seus 3 000 rublos que ele restitui, envie-os a senhorita mesma a Agáfia Ivânovna e receba as homenagens dele". Seria apenas meio mal, não, porém, se ela te perguntar: "Onde está o dinheiro?"
— Mítia, és desgraçado, mas não tanto quanto pensas. Não te mates de desespero!
— Pensas que vou estourar os miolos, se não conseguir reembolsar esses 3.000 rublos? Absolutamente. Não tenho a mínima coragem agora; mais tarde, talvez... agora vou à casa de Gruchenhka... Lá deixarei a pele. 
— Então?
— Casarei com ela, se ela me quiser; quando seus amantes chegarem, passarei para o quarto vizinho. Estarei lá para engraxar os sapatos deles, aquecer o samovar, levar recados...
— Catarina Ivânovna compreenderá tudo — declarou solenemente Aliócha. — Compreenderá teu profundo pesar e te perdoará. Tem espírito elevado, verá que não se pode ser mais desgraçado do que tu. — Ela não perdoará tudo — sorriu Mítia. — Há nisso uma coisa imperdoável aos olhos de toda mulher. Sabes o que vale mais a pena fazer?
— Que é?
— Entregar-lhe os 3.000 rublos.
— Onde arranjá-los? Escuta, tenho 2.000, Ivã dar-te á 1.000, e estará completa a conta. 
— Quando receberei os teus 3.000 rublos? És ainda menor, quanto ao mais é preciso absolutamente que rompas com ela por mim, hoje mesmo, entregando o dinheiro ou não, porque não posso demorar mais tempo, no ponto em que estão as coisas. Amanhã, já seria demasiado tarde. Vai à casa de papai. 
— À casa de nosso pai?
— Sim, primeiro à casa dele. Pede-lhe o dinheiro. 
— Mítia, ele jamais o dará.
— Ora essa, sei bem disso! Alieksiéi, sabes o que seja o desespero? 
— Sim. 
— Escuta, juridicamente, ele não me deve nada. Recebi minha parte, sei disso. Mas, moralmente, deve-me ele alguma coisa, sim ou não? Foi com os 28.000 rublos de minha mãe que ele ganhou 100.000. Que me dê apenas 3.000 rublos, não mais, e terá salvo minha alma do inferno e muitos pecados lhe serão perdoados. Contentar-me-ei com essa soma, juro-te, ele não ouvirá mais falar de mim. Forneço-lhe uma derradeira ocasião de ser um pai. Dize-lhe que é Deus que lhe oferece. 
— Mítia, ele não os dará a preço algum.
— Sei bem disso, tenho a certeza. Agora sobretudo! Mas há melhor. Nestes últimos dias, soube ele pela primeira vez seriamente (note este advérbio) que Gruchenhka não estava brincando e se decidiria talvez a dar o salto, a casar-se comigo. Conhece o caráter daquela gata. Pois bem, dar-me-ia ele dinheiro ainda por cima, para favorecer a coisa, quando está louco por ela? Não é tudo, escuta isto. Há já cinco dias, pôs ele de parte 3.000 rublos em notas de 100, num grande envelope com cinco sinetes, amarrado por uma fita cor-de-rosa. Vês como estou a par? O envelope traz escrito: "Para meu anjo, Grúchenhka, se consentir em vir à minha casa". Ele mesmo rabiscou isso, às ocultas, e todo mundo ignora que tem ele esse dinheiro, exceto o criado Smierdiákov, em quem confia ele tanto quanto em si mesmo. Há três ou quatro dias que aguarda Grúchenhka, na esperança de que ela irá buscar o envelope; ela fê-lo saber "que talvez fosse". Se ela for à casa do velho, poderei eu esposá-la? Compreendes tu agora por que me escondo aqui e tocaio? 
— Ela?
— Sim. As proprietárias cederam um quartinho a Fomá, antigo soldado de nossa guarnição. Está a serviço delas, monta guarda de noite e caça tetrazes durante o dia. Instalei-me em casa dele; essas mulheres e ele ignoram meu segredo, isto é, que estou aqui de tocaia.
— Somente Smierdiákov o sabe? 
— Sim. Será ele quem me advertirá, se Grúchenhka for à casa do velho. 
— Foi ele quem te falou do pacote?  
— Com efeito. É um grande segredo. O próprio Ivã ignora. O velho mandou-o dar um passeio a Tchermachniá por dois ou três dias; apareceu um comprador para a madeira, oferecendo 8 000 rublos; o velho pediu a Ivã que o ajudasse, que fosse em lugar dele. Quer afastá-lo para receber Grúchenhka. 
— Ele a espera, por conseguinte, hoje? 
— Não, ela não irá hoje, de acordo com certos indícios. Decerto que não! — exclamou Mítia. — É também a opinião de Smierdiákov. Papai está agora à mesa com Iva, a beber. Vai, pois, Alieksiéi, e pede lhe esses 3.000 rublos. 
— Mítia, meu caro, que tens pois? — exclamou Aliócha, saltando de seu lugar para examinar o rosto desvairado de Dimítri. 

     Acreditou por um instante que ele estivesse louco.

— Pois bem! O quê? Não perdi a razão — declarou ele, de olhar fixo e quase solene. — Não temas. Sei o que digo, creio nos milagres.
— Nos milagres?
— Nos milagres da Providência. Deus conhece meu coração. Vê meu desespero. Permitiria ele que se realizasse tal horror? Aliócha, creio nos milagres, vai! 
— Irei. Dize-me, esperar-me-ás aqui?
— Decerto. Compreendo que será demorado, não se pode abordá-lo diretamente. Está bêbedo agora. Esperarei aqui, três, quatro, cinco horas, mas fica sabendo que hoje, até mesmo à meia-noite, deves ir à casa de Catarina, com ou sem dinheiro. Dirás: "Dimítri Fiódorovitch pediu-me que lhe apresentasse seus cumprimentos". Quero que lhe repitas esta frase exatamente.
— Mítia! E se Grúchenhka for hoje... ou amanhã, ou depois de amanhã? 
— Grúchenhka? Vigiarei, forçarei a porta, impedirei. 
— Mas se... 
— Então, matarei. Não suportarei isso. 
— A quem matarás? 
— O velho. Nela não tocarei. 
— Irmão, que dizes? 
— Não sei, não sei... Talvez mate, talvez não mate. Receio que sua cara se me torne odiosa, naquele momento. Odeio sua papada, seu nariz, seus olhos, seu sorriso impudente. Dão-me náuseas. Esse ódio é que me causa medo. Não poderia resistir a ele.
— Irei, Mítia. Creio que Deus arranjará tudo da melhor forma possível e nos poupará essas coisas horríveis.
— E eu aguardarei o milagre. Mas se ele não se realizar, então...

      Aliócha, pensativo, dirigiu-se para a casa de seu pai.
 
continua na página 176...
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Leia também:
Livro 1
Livro 2
Livro 3 
I. Na antecâmara / II. Lisavieta Smirdiáchtchaia / III. Confissão de um coração ardente em versos / 
IV. Confissão de um coração ardente - anedotas / V. Confissão de um coração ardente e desbocado /                                       
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Leia também: 
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 1- Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
1

     Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida na roça passaram imperceptíveis, como parecia então; e, no entanto, dariam para a vida inteira os sentimentos, a perturbação e a felicidade desses dois meses. Os nossos sonhos sobre como ia arranjar-se a nossa vida na roça realizaram-se de maneira completamente diversa do que esperávamos. Mas a nossa existência não era pior que os nossos sonhos. Não havia esse trabalho severo, o cumprimento de um dever de abnegação, de viver para outrem, que eu imaginara quando noiva; existia pelo contrário um sentimento de amor a si mesmo, em nosso amor, um pelo outro, um desejo de ser amado, uma alegria contínua e sem motivo e o esquecimento de tudo no mundo. É verdade, ele às vezes ia ocupar-se de algo em seu escritório, por vezes partia para tratar de negócios na cidade ou saía a cuidar da administração; mas eu via o quanto lhe era difícil arrancar-se de perto de mim. E ele mesmo confessava depois que tudo no mundo, onde eu não estava, parecia-lhe tamanha tolice que não conseguia compreender como alguém podia tratar daquilo. Minha vida decorria como antes. Eu lia, ocupava-me da música, da mãe dele, da escola; porém tudo isso unicamente porque estava relacionado a ele e merecia a sua aprovação; mas bastava o pensamento nele não se acrescentar a alguma tarefa, as minhas mãos descaíam e parecia-me tão divertido pensar que existia no mundo algo além dele. Talvez isto fosse um sentimento ruim, de amor a mim mesma; mas ele dava-me felicidade e elevava-me muito acima do mundo inteiro. Somente ele existia para mim, e eu considerava-o como a pessoa mais bela, mais sem pecados no mundo; e justamente por isso eu não conseguia viver para mais nada, com exceção dele, só vivia para ser aos seus olhos aquilo que ele esperava de mim. E ele, por sua vez, considerava-me a primeira, a mais bela dentre as mulheres, que possuía todas as virtudes possíveis; e eu procurava ser essa mulher aos olhos do primeiro e do melhor homem do mundo.
     De uma feita, ele entrou no meu quarto quando eu estava rezando a Deus. Voltei-me para olhá-lo e continuei a rezar. Ele sentou-se à mesa, a fim de não me estorvar, e abriu um livro. Mas tive a impressão de que me olhava e tornei a virar-me. Ele sorriu, eu soltei uma risada e não consegui prosseguir na oração.

— Já rezaste? — perguntei. 
— Sim. Continua, eu vou embora. 
— Tu rezas? Espero que sim.

     Procurou sair dali sem responder, mas detive-o.

— Meu querido, por favor, faça isso por mim, reze comigo.

     Colocou-se ao meu lado e, baixando desajeitado os braços, o rosto sério, pôs-se a rezar, gaguejando. Voltava-se de raro em raro para mim, procurava em meu rosto ajuda e aprovação.
     Quando terminou, ri e abracei-o.

— Sempre tu, sempre tu! Como se eu tivesse de novo dez anos — disse ele corando e beijando-me as mãos.

     Nossa casa era uma dessas velhas casas de aldeia em que viveram algumas gerações da mesma família, amando-se e respeitando-se. Tudo cheirava a boas e honestas recordações familiares, as quais, apenas eu entrara ali, tornaram-se como que também minhas recordações. Tatiana Siemiônovna arrumava e administrava a casa à moda antiga. Não se pode dizer que tudo fosse bonito e elegante; mas, desde a criadagem até a mobília e a comida, era tudo farto, asseado, sólido, arrumado, e infundia respeito. Na sala de visitas, a mobília estava disposta simetricamente, pendiam retratos e, no chão, estendiam-se tapetes caseiros e passadeiras. Na sala de repouso, havia um velho piano de cauda, armários de dois modelos diversos, divãs e mesinhas com latão e incrustações. No meu escritório, arrumado graças aos cuidados de Tatiana Siemiônovna, estava a mobília melhor, de diferentes séculos e modelos, além de um velho tremó, para o qual eu a princípio não podia olhar sem ficar encabulada, mas que depois se tornou caro para mim, como um velho amigo. Não se ouvia Tatiana Siemiônovna, porém tudo em casa funcionava como um relógio, embora houvesse muita gente supérflua. Mas toda essa gente, que usava botas macias, sem saltos (Tatiana Siemiônovna considerava o ranger das solas de sapato e o bater de saltos como a coisa mais desagradável no mundo), toda essa gente parecia orgulhosa da sua condição, palpitavam ante a velha senhora, olhavam para mim e meu marido com um carinho condescendente e pareciam executar as suas tarefas com particular prazer. Todos os sábados, infalivelmente, lavava-se o chão da casa e batiam-se os tapetes, cada dia primeiro celebrava-se um ofício e esparzia-se água benta, sempre que uma criança recebia o nome de Tatiana Siemiônovna, do seu filho (e o meu, pela primeira vez, nesse outono), celebrava-se uma festança, convidando-se todos os vizinhos. E tudo isso fazia-se invariavelmente desde os primeiros tempos de que Tatiana Siemiônovna se lembrava. O meu marido não se imiscuía na administração da casa e ocupava-se somente com as coisas agrícolas e os camponeses, mas ficava muito atarefado. Mesmo no inverno, levantava-se muito cedo, de modo que, ao acordar, eu não o encontrava mais. Voltava geralmente para o chá, que tomávamos a sós, e quase sempre nessa ocasião, depois das correrias e preocupações decorrentes dos seus afazeres estava naquela peculiar disposição alegre que nós chamávamos de entusiasmo selvagem. Frequentemente, eu exigia que me contasse o que fizera de manhã, e ele me dizia tais absurdos que nós quase morríamos de rir: às vezes, eu exigia um relato sério, e ele o fazia, contendo o sorriso. Eu fitava-o nos olhos, nos lábios que se moviam, e não compreendia nada, apenas me alegrava de vê-lo e ouvir-lhe a voz.

— Bem, o que foi que eu disse? Repita — perguntava ele. Mas eu era incapaz de fazê-lo. Era tão engraçado que ele me contasse coisas que não se referiam a mim e a ele. Como se não me fosse indiferente tudo o que fazia por lá. Somente bem mais tarde, comecei a compreender um pouco as suas preocupações e a interessar-me por elas. Tatiana Siemiônovna não saía do quarto antes do jantar, tomava chá sozinha e só nos cumprimentava por meio de embaixadores. Em nosso mundinho peculiar, loucamente feliz, ressoava tão estranhamente aquela voz vinda de um outro canto, repassada de gravidade e boas maneiras, que eu frequentemente não me continha e somente dava gargalhada, em resposta à criada que, cruzando os braços, comunicava pausadamente que Tatiana Siemiônovna mandara saber como dormimos depois do passeio da véspera e comunicar que tivera a noite inteira uma dor do lado e que um cachorro estúpido da aldeia latira, impedindo-a de dormir. “E ainda mandou perguntar se gostaram das bolachas de hoje, e pediu para observar que não foi Tarás quem as preparou, mas, por experiência, pela primeira vez, o Nikolacha,¹ e saiu-se nada mal, principalmente com as rosquinhas, mas não tirou as torradas a tempo do forno.” Até o jantar, passávamos pouco tempo juntos. Eu tocava piano, lia sozinha, ele escrevia, tornava a sair; mas, para o jantar, às quatro horas, reuníamo-nos na sala de visitas, a mãe dele deslizava para fora do seu quarto, e apareciam umas pobres fidalgas em peregrinação, pois havia sempre umas duas ou três hospedadas em casa. Todos os dias infalivelmente, meu marido, seguindo velho costume, dava o braço à mãe, a fim de conduzi-la para o jantar; mas ela exigia que me desse o outro, e infalivelmente, todos os dias, ficávamos comprimidos e atrapalhados na entrada da sala. Também a mãe presidia à mesa, e a conversa era sempre conveniente, judiciosa e um tanto solene. As palavras simples que eu trocava com meu marido destruíam agradavelmente a solenidade dessas sessões de jantar. Às vezes, tinham lugar entre o filho e a mãe discussões e caçoadas; eu gostava disso particularmente, pois nelas é que se expressava com mais força o amor terno e firme que os unia. Depois do jantar, maman sentava-se numa grande poltrona na sala de visitas e picava fumo ou cortava as páginas de livros recém-recebidos, e nós líamos em voz alta ou íamos à sala de repouso, para junto do piano. Nessa época, líamos muito, juntos, mas a música era o nosso melhor e mais amado prazer, atingindo cada vez novas cordas em nossos corações e como que tornando a desvendar-nos um ao outro. Quando eu tocava as suas peças prediletas, ele sentava-se num divã afastado, onde eu quase não o via, e por vergonha do sentimento, procurava esconder a impressão que a música lhe causava; mas frequentemente, quando ele menos esperava, eu erguia-me do piano, aproximava-me dele e tentava surpreender-lhe no rosto os vestígios de perturbação, o brilho pouco natural e os olhos úmidos, que ele procurava em vão esconder de mim. A mãe frequentemente tinha vontade de olhar para nós na sala de repouso, mas, provavelmente temerosa de nos constranger, e às vezes parecendo não nos olhar, cruzava a sala com um rosto fingidamente sério e indiferente; mas eu sabia que ela não tinha motivo para ir ao seu quarto e voltar tão depressa. Era eu quem servia o chá da noite, na grande sala de visitas, e novamente todos se reuniam à mesa. Durante muito tempo, eu ficava perturbada com esta sessão solene, junto ao espelho do samovar, e com a distribuição de copos e xícaras. Eu tinha continuamente a impressão de ser ainda indigna dessa honra, de ser demasiado jovem e fútil, para virar a torneira de um samovar tão grande, colocar o copo sobre a bandeja de Nikita e dizer: “A Piotr Ivânovitch, a Mária Mínitchna”, perguntar: “Está doce?” e deixar torrões de açúcar para a ama-seca e os criados mais merecedores. “Bonito, bonito — acrescentava muitas vezes meu marido —, parece gente grande”, e isso perturbava-me ainda mais.

[1] Diminutivo de Nikolai. (N. do T.) 

     Depois do chá, maman espalhava o jogo da paciência ou ouvia as adivinhações de Mária Mínitchna; depois nos beijava a ambos, fazia sobre nós o sinal da cruz, e íamos para o nosso quarto. No entanto, quase sempre, ficávamos sentados até depois de meia-noite, e este era o nosso tempo melhor e mais agradável. Ele me contava o seu passado, fazíamos planos, às vezes filosofávamos e procurávamos dizer tudo a meia-voz, para que não nos ouvissem em cima e não fossem denunciar nos a Tatiana Siemiônovna, que exigia de nós que deitássemos cedo. Às vezes, com fome, íamos às escondidas para a cozinha, obtínhamos a ceia fria, graças à proteção de Nikita, e a comíamos à luz de uma só vela, em meu escritório. Vivíamos os dois como estranhos nessa casa grande e velha, em que pairava sobre todas as coisas o espírito severo do antigo, bem como o de Tatiana Siemiônovna. Não apenas ela, mas os criados, as solteironas, a mobília, os quadros, suscitavam o meu respeito, certo medo e a consciência de que estávamos um pouco fora do nosso lugar, e que precisávamos viver ali com muito cuidado e atenção. Ao lembrar agora aqueles dias, vejo que muita coisa — aquela invariável ordem, que nos amarrava, aquela infinidade de pessoas ociosas e indiscretas em nossa casa — era incômoda e pesada; mas, naquele tempo, o próprio constrangimento em que vivíamos vivificava ainda mais o nosso amor. Não só eu, mas também ele, não dávamos mostra de que algo nos desagradava. Ele parecia até esconder-se do que era ruim. O criado de mamãe, Dmítri Sídorov, grande apreciador do cachimbo, ia regularmente todos os dias, depois do jantar, quando estávamos na sala de repouso, ao escritório de meu marido, a fim de apanhar fumo numa gaveta; e era de se ver o medo alegre com que Sierguiéi Mikháilitch acercava-se de mim na ponta dos pés e, fazendo ameaças com o dedo e piscando um olho, apontava Dmítri Sídorovitch, que não suspeitava de modo algum estar sendo visto. E quando Dmítri Sídorov ia embora sem nos ter percebido, contente porque tudo acabara bem, como das vezes anteriores, meu marido dizia que eu era uma pérola e beijava-me. Às vezes, desagradavam-me essa tranquilidade, esse perdão de tudo, essa como que indiferença: eu não percebia que o mesmo existia em mim, e considerava-o uma fraqueza. “É como uma criança que não ousa mostrar a sua vontade!” — pensava eu.

— Ah, minha amiga — respondeu-me de uma feita em que lhe disse estar surpreendida com a sua fraqueza —, pode-se acaso estar descontente com alguma coisa, quando se é tão feliz como eu? É mais fácil nós mesmos cedermos do que subjugar a outrem, já me convenci disso há muito tempo; e não existe uma situação em que não se possa ser feliz. E nós estamos tão bem! Não posso ficar zangado; para mim agora não existem coisas ruins, só existe o que é lastimável e o que é divertido. E, sobretudo, le mieux est l'ennemi du bien.² Acreditas? Quando ouço a campainha, quando recebo uma carta ou simplesmente acordo, tenho medo. Medo de que seja preciso viver, de que algo vá mudar; e não possa existir nada melhor que esta nossa vida de agora.

[2] Provérbio francês: “o melhor é inimigo do bom”. (N. do T.)

     Eu acreditava, mas não o compreendia. Sentia-me bem, mas, ao mesmo tempo, tinha a impressão de que, embora tudo isso fosse assim, existia em alguma parte uma outra felicidade, ainda que não maior.
     Assim decorreram dois meses, chegou o inverno com os seus frios e tempestades de neve, e, embora ele estivesse comigo, comecei a sentir me solitária, comecei a sentir que a vida se repetia, e não havia quer em mim quer nele nada de novo, e que, pelo contrário, nós como que voltávamos ao antigo. Ele começou a ocupar-se de negócios mais que antes, e novamente passou a parecer-me que havia em seu íntimo certo mundo peculiar, no qual ele não me queria deixar penetrar. A sua tranquilidade de sempre irritava-me. Eu o amava não menos que antes, e não menos que antes era feliz com o seu amor; mas o meu amor deteve se e não crescia mais, e, além do amor, não sei que novo sentimento inquieto começava a penetrar-me furtivamente a alma. Amar era pouco para mim, depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por ele. Eu queria movimento, e não uma fluência tranquila da vida. Queria inquietação, perigos e autossacrifício em prol do sentimento. Havia em mim um excesso de força, que não encontrava lugar em nossa vida sossegada. Assaltavam-me repentes de angústia, que eu procurava esconder dele, como algo ruim, e repentes de ternura desenfreada e alegria, que o assustavam. Ele percebeu ainda antes de mim o meu estado e propôs-me irmos para a cidade; mas eu lhe pedi para não o fazermos, a fim de não mudar o nosso modo de vida, não alterar a nossa felicidade. E realmente eu era feliz; mas atormentava-me o fato de que essa felicidade não me custava nenhum trabalho, nenhum sacrifício, enquanto as forças do trabalho e do sacrifício, reprimidas, me faziam sofrer. Amava-o e via que era tudo para ele; mas eu queria que todos vissem o nosso amor, que me impedissem de amá-lo e que eu o amasse assim mesmo. A minha inteligência e até o meu sentimento estavam ocupados, mas havia outro sentimento: de juventude, de necessidade de movimento, e que não encontrava satisfação em nossa vida quieta. Por que ele me dissera que podíamos ir para a cidade, logo que eu o quisesse? Se não me dissesse isso, talvez eu tivesse compreendido que o sentimento que me fazia sofrer era um absurdo pernicioso, do qual eu era culpada, que o sacrifício procurado por mim estava ali, bem próximo, e consistia em sufocar aquele sentimento. Vinha-me involuntariamente o pensamento de que eu só podia salvar-me da angústia mudando para a cidade; e, ao mesmo tempo, tinha escrúpulos e lamentava arrancá-lo, para vantagem minha, de tudo o que ele amava. E, enquanto isso, o tempo ia passando, a neve escondia cada vez mais as paredes da casa, e nós sempre vivíamos sozinhos, e éramos sempre os mesmos um em relação ao outro; e alhures, ao longe, multidões humanas inquietas sofriam e alegravam-se, em meio ao brilho e ao ruído, sem pensar em nós nem em nossa existência, que desaparecia. O pior para mim estava no fato de que eu sentia como, dia a dia, os hábitos da vida acorrentavam a nossa existência numa forma determinada, como o nosso sentimento se tornava não livre, mas submetia-se à fluência regular, desapaixonada, do tempo. De manhã, nós éramos alegres, na hora do jantar respeitosos, à noitinha carinhosos. “O bem!... — dizia eu a mim mesma. — É excelente praticar o bem e viver honestamente, como ele diz; mas ainda teremos tempo para isso, e existe algo para o qual somente agora eu tenho força.” Não era disso que eu precisava, mas de luta; eu necessitava que o sentimento nos dirigisse na vida, e não que a vida dirigisse o sentimento. Eu queria chegar com ele até um abismo e dizer: mais um passo e vou lançar-me ali, mais um movimento e estou perdida — e que ele empalidecesse à beira do abismo, me tomasse em seus braços vigorosos, me segurasse um pouco sobre o precipício, a ponto de meu coração ficar gelado, e me levasse para onde quisesse.
     Esse estado afetou até a minha saúde e meus nervos começaram a ficar abalados. Certa manhã, eu me senti pior que de costume; ele viera mal-humorado do escritório da propriedade, o que raramente lhe acontecia. Percebi isso no mesmo instante e perguntei-lhe o que tinha. Mas ele não me quis contá-lo, dizendo que aquilo não valia a pena. Conforme eu soube mais tarde, o isprávnik³ reunira os nossos mujiques, e, por antipatia ao meu marido, exigira deles certos atos ilegais e os ameaçara. Meu marido não pudera ainda aceitar tudo isso como apenas ridículo e insignificante, estava irritado e por isso não queria falar comigo. Mas eu tive a impressão de que era porque me considerava uma criança, que não poderia compreender o que o preocupava. Voltei-lhe o rosto, calei-me e mandei chamar para o chá Mária Mínitchna, que estava hospedada em nossa casa. Depois do chá, que eu terminei com peculiar rapidez, acompanhei-a à sala de repouso e pus-me a falar alto com ela de não sei que tolices, que eram nada divertidas para mim. Ele caminhou pela sala, dirigindo raramente os olhos para nós. Por algum motivo, aqueles olhares atuavam sobre mim de tal modo que eu tinha uma vontade cada vez maior de falar e, mesmo, de rir; parecia-me engraçado tudo o que eu dizia, bem como tudo o que dizia Mária Mínitchna. Sem me dizer nada, ele foi para o escritório e fechou a porta atrás de si. Quando deixamos de ouvi-lo, toda a minha alegria desapareceu num átimo, de modo que Mária Mínitchna ficou surpreendida e começou a perguntar o que eu tinha. Sem lhe responder, sentei-me no divã e tive vontade de chorar. “E o que ele está remoendo agora? — pensei. — Alguma tolice, que lhe parece importante, mas é só ele dizer-me, e eu lhe mostrarei que é tudo uma insignificância. Não, ele precisa pensar que eu não compreenderei, precisa humilhar-me com a sua tranquilidade altiva e sempre ter razão contra mim. Mas, em compensação, também eu tenho razão quando sinto tédio e vacuidade, quando quero viver, movimentar-me — pensei — em vez de ficar parada no mesmo lugar e sentir como o tempo passa por cima de mim. Quero ir para frente e, cada dia, cada hora, quero algo novo, e ele quer deter-se e deter-me com ele. E como o contrário seria fácil para ele! Para isso, não precisava levar-me para a cidade, para isso precisa ser apenas uma pessoa como eu, não se violentar, não se frear, mas viver com simplicidade. É exatamente isso que ele me aconselha, mas ele mesmo não é simples. Aí é que está!”

[3] Chefe da polícia de um distrito, na Rússia tsarista. (N. do T.)

     Senti que lágrimas me assediavam o coração e que eu estava irritada com meu marido. Assustei-me com esta irritação e fui para junto dele. Estava sentado no escritório, escrevendo. Ouvindo os meus passos, olhou-me por um instante, com indiferença e tranquilidade, e continuou a escrever. Este olhar não me agradou; em lugar de acercar-me dele, cheguei-me à mesa em que escrevia e, abrindo um livro, pus-me a olhar. Ele desviou mais uma vez os olhos do trabalho, dirigindo-os para mim. 

— Macha! Estás de mau humor?

     Respondi com um olhar frio, que significava: “Não precisas perguntar! Que amabilidades são essas?”. Ele meneou a cabeça e sorriu com timidez e carinho, mas, pela primeira vez, o meu sorriso não respondeu ao seu.

— O que foi que te aconteceu hoje? — perguntei. — Por que não me contaste? 
— São bobagens! Um pequeno aborrecimento. Mas, agora, posso contar-te. Dois mujiques foram à cidade...

     Mas eu não deixei que terminasse.

— Por que não me contaste isso naquela hora em que te perguntei, durante o chá? 
— Teria dito alguma tolice, estava então muito zangado. 
— Mas era justamente então que eu precisava disso. 
— Para quê? 
— Por que pensas que eu nunca posso ajudar-te em nada? 
— Como: penso? — disse ele, largando a pena. — Eu penso que não posso viver sem ti. Não só tu me ajudas em tudo, tudo, mas também fazes tudo. Que coisa imaginaste! — riu ele. — Somente tu me fazes viver. Tenho a impressão de que tudo está bem unicamente porque estás aqui, porque preciso de ti... 
— Sim, eu sei, sou uma criança querida, que é preciso tranquilizar — disse eu com tal entonação que ele me olhou surpreso, como se visse algo pela primeira vez. — Eu não quero tranquilidade, tu a possuis bastante, bastante mesmo — acrescentei. 
— Bem, estás vendo do que se trata? — começou ele apressado, interrompendo-me, evidentemente com medo de me deixar dizer tudo. 
— Como o resolverias? 
— Agora não quero — respondi. Embora eu tivesse vontade de ouvi-lo, agradava-me tanto destruir a sua tranquilidade. — Eu não quero brincar de vida, quero viver do mesmo modo que tu.

     O seu rosto, onde tudo se refletia tão rápida e vivamente, expressou dor e uma atenção concentrada.

— Quero viver contigo em concórdia, contigo...

     Mas não consegui dizer até o fim o que pretendia: o seu rosto expressou tanta tristeza, e tão profunda. Calou-se um pouco.

— E onde está a falta de concórdia na tua vida comigo? — disse ele. — Estará no fato de que eu, e não tu, ocupo-me com o isprávnik e com mujiques bêbados?... 
— Não é só nisso — disse eu. 
— Compreende-me, pelo amor de Deus, meu bem — prosseguiu ele — eu sei que as inquietações sempre nos causam sofrimento, eu vivi e aprendi isto. Eu te amo e, por conseguinte, não posso deixar de querer livrar-te das inquietações. Nisso consiste a minha vida, no amor por ti; mas, neste caso, não me impeças também de viver. 
— Tens sempre razão! — disse eu, sem olhá-lo.

     Eu sentia despeito pelo fato de que, novamente, tudo estava claro e tranquilo em sua alma, enquanto em mim havia amargura e um sentimento que se assemelhava a remorso.

— Macha! O que tens? — disse ele. — Não se trata de saber se tu ou eu temos razão, mas de algo muito diverso: o que tens contra mim? Não fales de repente, pensa um pouco, para me dizeres tudo o que pensas. Estás descontente comigo, e tens provavelmente razão, mas deixa-me compreender qual é a minha culpa.

     Mas como podia eu expressar-lhe a minha alma? Perturbou-me ainda mais que ele me tivesse compreendido com tanta rapidez, que eu fosse novamente uma criança perante ele e nada pudesse fazer que ele não compreendesse e não tivesse previsto.

— Não tenho nada contra ti — disse eu. — Simplesmente, tenho tédio, e não quero senti-lo. Mas tu dizes que assim é que deve ser e, mais uma vez, tens razão!

     Dito isso, olhei para ele. Atingira o meu objetivo, sua tranquilidade desaparecera, havia sofrimento e medo em seu rosto.

— Macha — começou ele, a voz baixa, perturbada. — O que fazemos agora não é uma brincadeira. Está-se decidindo o nosso destino. Peço-te não responder nada e prestar muita atenção. Por que pretendes atormentar-me?

     Mas eu o interrompi.

— Sei que terás razão. É melhor não falares, tens razão — disse eu com frieza, como se não fosse eu, mas algum mau espírito, que falasse em mim. 
— Se soubesses o que fazes! — disse ele, a voz trêmula. 

     Chorei e me senti aliviada. Ele estava sentado ao meu lado, silencioso. Eu tinha pena dele, vergonha por mim e aborrecimento por aquilo que acabava de fazer. Não o olhava. Tinha a impressão de que, nesse momento, ele devia me olhar severo ou com perplexidade. Espiei: estava fixo em mim um olhar humilde, terno, como que pedindo perdão. Tomei-lhe a mão e disse:

— Perdoa-me! Eu mesma não sei o que disse. 
— Sim; mas eu sei o que disseste, e dizias a verdade. 
— O quê? — perguntei. 
— Que devemos viajar para Petersburgo — disse ele. Não temos mais o que fazer aqui. 
— Como queiras — disse eu.

     Abraçou-me e beijou-me.

— Perdoa-me — disse ele. — Sou culpado em relação a ti.

     Nessa noite, toquei piano para ele longamente, e ele ficou caminhando pelo quarto, murmurando algo. Tinha o hábito de murmurar, e eu perguntava-lhe com frequência o que murmurava, e, depois de pensar um pouco, ele sempre me respondia exatamente o que murmurara: na maioria dos casos, eram versos, às vezes umas tolices tremendas, mas tolices pelas quais eu ficava conhecendo o seu estado de espírito.

— O que estás murmurando hoje? — perguntei.

     Parou, pensou um pouco e, sorrindo, respondeu com dois versos de Liérmontov4 .

[4] O escritor e poeta romântico russo Mikhail Liérmontov (1814 1841). (N. do T.)

... E o insensato quer tormenta, 
Como se nela houvesse paz!

“Não, ele é mais que uma pessoa; ele sabe tudo! — pensei — Como não o amar?!”

     Levantei-me, dei-lhe o braço e pus-me a andar com ele, procurando acertar o passo.

— Sim? — perguntou, olhando-me com um sorriso. 
— Sim — disse eu, num murmúrio; e não sei que disposição alegre apossou-se de nós ambos, os nossos olhos riam, e dávamos passos cada vez maiores, e cada vez nos erguíamos mais nas pontas dos pés. E para grande indignação de Grigóri e espanto de mamãe, que estava espalhando a sua paciência na sala de visitas, dirigimo-nos com o mesmo passo, através de toda a casa, para a sala de jantar, onde nos detivemos, olhamo-nos e soltamos uma gargalhada.

     Duas semanas depois, nas vésperas de um feriado, já estávamos em Petersburgo.

continua na página 78...
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Leia também...
Primeira Parte:
Segunda Parte: 
1- Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida /  
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro (a)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


O MAIOR POETA BRASILEIRO

     Cincoenta annos volvidos depois da sua morte, como ainda em vida, continua Castro Alves com a sua causa ganhada perante a opinião publica: desta vez, porem, essa opinião é já a Posteridade. 
     No seu tempo, a sua formosa mocidade, aureolada pelo gênio, e a turba vibratil das academias, do Recife a S. Paulo, passando pela Bahia e pelo Rio de Janeiro, a quem de preferencia se dirigia, faziam-no, pelas idéas e sentimentos que elle exprimia nos seus poemas arrebatadores, o guia ou o chefe dessa geração, adornada, entretanto, dos mais fulgurantes e depois consagrados nomes de nossa historia politica e social, nesse meio século transcorrido.  
     Quando elle apparecia, nos saráus literários ou na platéa dos theatros, bello e forte como um jovem heroe, irreprehensivelmente vestido de negro, o que lhe resaltava por contraste a pallidez romântica, saudavam-no applausos calorosos, e, das mulheres, talvez commovidos; depois, o silencio profundo de uma espectativa ansiosa antecedia os accentos mágicos de sua voz harmoniosa e retumbante, "encanto" de um órgão irresistível, "um desses que transfiguram o orador e o poeta"¹, com que recitava algumas das suas mais candentes estrophes, preferidas e reclamadas pela multidão. Depõe um contemporâneo: "O grande Castro Alves ! como diziam todos, na academia, e fora delia", — "toda gente que o ouvia tinha arrepios de assombro e enxergava na esbelta e sympathica pessoa do jovem acadêmico mais um semi-deus do que um poeta, menos um poeta que um vidente"; "o auditório sorria ou chorava, permanecia mudo pela cotnmoção fortíssima ou prorompia em bravos enthusiasticos"². Vinha abaixo o theatro, na phrase consagradora desses successos, sob o clamor das ovações.

[1] "...e fazem pensar no glorioso arauto de Agammemnon, immortalizado por Homero, Thaltybios, semelhante aos deuses pela voz". RUY BARBOSA — Elogio de Castro Alves, Bahia, 1881, p. 6.
[2] CARLOS FERREIRA — Feituras e Feições, Campinas, 1905,

     Mas não só entre os rapazes predispostos das academias, ou na assembléa confinada dos espectaculos, também na praça publica, no tumulto do Povo, ou no concilio dos mais conspicuos e acatados desse tempo, tinha o nosso Poeta admiração e respeito. Recebido José Bonifácio em S. Paulo, no delírio das acclamações, diz "O Ypiranga", de 2 de Agosto de 1868, Castro Alves "soube, num rapto sublime, manifestar a commoção de quantos acompanham o representante dos foros populares". Dias depois, num grande banquete político, em que falaram José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Salvador de Mendonça, Martim Cabral, Ruy Barbosa, Américo Brasiliense, Barros Pimentel, que saudavam as idéas e os homens de maior vulto do país, levanta-se Américo de Campos para brindar a Castro Alves, "como representante do pensamento democrático das províncias do Norte". Tinha elle então apenas os seus 21 annos...
     Nessa idade, nenhum dos nossos grandes homens, de pensamento ou de acção, teve tamanhas consagrações do reconhecimento publico. Rarissimos teriam alguma vez na vida gloriosa: Ruy Barbosa e Joaquim Nabuco esperariam mais de dez annos; Rodrigues Alves e Affonso Penna — e cito apenas dentre os seus collegas — chegariam, com a política, ás alturas do poder, após quarenta annos. Elles e outros, se tivessem passado, como Castro Alves, aos vinte e quatro annos, nem a memória dos nomes lhes teria ficado: e durante esse pouco tem po, o outro grangeou a fama, duradoira, de maior poeta do Brasil...
     Já o era no seu tempo, como o é ainda agora, não pelo consenso de algum critico parcial, ou pelos concursos literários — tão parecidos com as outras eleições políticas, falseada a sinceridade pelos corrilhos, excluindo pela inveja, ou adoptando por interesse, — mas pela admiração anonyma, e espontânea, dos leitores, que essa é a fama e a posteridade dos grandes escriptores. Os sábios distinguem e julgam, só o Povo ratifica a justiça ou o gosto dessas sentenças. Ainda não faltou a Castro Alves tal confirmação.

*

     Não foram, porém, os motivos de consagração os mesmos, hontem e hoje: mas o gênio do nosso Poeta bastou, na sua abundância e na sua riqueza, para satisfazer o espirito diverso dos tempos.
     Tivera, além dos mares, a voz possante de Victor Hugo, echos espaçados em José Bonifácio, em Pedro Luís e outros menores; nenhum, antes ou de pois de Castro Alves se pôde alçar ao diapazão daquelles cantos, que constituem a grande poesia heróica contemporânea.
     Castro Alves que se inspirou nessa fôrma épica teve, porém, uma humanidade mais intima e mais ampla, dedicando-a ao serviço da liberdade, com o que, superior ao seu grande mestre, batalhou pela emancipação de uma raça e aspirou á republica para os seus concidadãos. Havia no seu tempo a guerra, no Paraguay, ou entre França e Prússia, mas o assumpto bárbaro não o tocou, senão na com movida piedade ás victimas, lembrando "Quem dá aos pobres empresta a Deus", em favor dos orphãos brasileiros, ou, pelos franceses, "No Meeting do Comitê du Pain".
     Depois da cessação do trafico de africanos, sonharia certamente o Brasil com a abolição da es cravatura, na mente generosa de algum político sem influencia ou de escriptor sem repercussão, mas também sem deixar vinco sequer na opinião publica. Não apparecera ainda o grande abolicionista que foi D. Pedro II,—a quem o Visconde de Jequitinhonha e Silveira da Motta dariam suggestões e projectos, que foram base de leis ulteriores, — que receberia, pelo mesmo tempo, em 66, o appello de Guizot, Montalembert, Broglie, Henri Martin, La boulaye, Pressensé... da Junta Franoesa de Emancipação e á qual faria responder officialmente que a liberdade dos escravos era uma decisão tomada, que apenas pedia tempo para se realizar — e já nas falas do throno de 67 e 68 se referia ao elemento servil, para em seguida, tentando com Pimenta Bueno, ou conseguindo com Rio Branco, em 71, dar-lhe o primeiro grande golpe mortal, com a lei do ventre livre¹: não havia entretanto apparecido.

[1] "A lei dos nascituros foi a expressão da generosidade da Coroa, o seu grande rasgo de philantrophia". RUY BARBOSA — Discurso na Bahia, 1874. Embora irônicas as expressões, porque achava apoucada a dádiva, não é menos incisiva a attribuição delia.

     Aliás, apesar delle, o estado de espirito da quasi totalidade dos brasileiros seria, — francamente, aquelle de Silveira Martins quando disse, mais tarde: "amo mais ao meu país, que ao negro", querendo affirmar que o trabalho escravo era indispensável á prosperidade dó Brasil, ou para alguns raros, — hypocritamente, o de Martinho de Campos, que se enternecia com os seus "negrinhos", mas era "escravocrata da gemma", porque a abolição seria o extermínio dos escravos, "uma hecatombe de innocentes victimas..." Todos estavam com estes e entre estes.
     Pois bem, desde 63, principalmente em 65, quando compôs quasi completamente o poema d'Os Escravos", nos annos seguintes em que lhe accrescentou novas poesias, e seria representado o Gonzaga, neste tempo, em que as recitou por todas as tribunas cultas ou populares, no Recife, na Bahia, no Rio e em S. Paulo, os centros dirigentes do país, foi Castro Alves o apóstolo, incansável e persuasivo, da liberdade dos escravos. Não convenceria á geração endurecida pelo interesse, dos que governavam e constituíam então o Brasil representativo, mas os seus versos, que commoviam o coração e impressionavam a intelligencia, ouvidos, applaudidos, decorados e repetidos por moços que iam ser donas e varões, e que iriam ainda commover e impressionar a crianças, rapazes e donzellas, prepararam a geração que, vinte annos mais tarde, faria a Abolição. Joaquim Serra, Ferreira de Menezes, Patrocínio... na imprensa, Antônio Bento, João Clapp, José Mariano... nas ruas, Dantas, Nabuco, Ruy Barbosa... no parlamento, a Princesa Redemptora e o Minis tério Libertador... no governo, foram sequazes e collaboradores de Castro Alves, cujos versos heróicos e commovidos, das "Vozes d África", do "Navio Negreiro", d'"0 Século", do "Adeus, meu canto", da "A Cachoeira de Paulo Affonso", mudaram a alma nacional nesses vinte annos, dando lhes a sympathia para serem ouvidos, persuadirem e levarem o País até a victoria da liberdade, em 1888. Ferreira Vianna, um dos libertadores, dez annos depois da sua morte, dizia delle: "a lyra emmudeceu, mas os sons por ella vibrados ainda rebôam cheios de vigor, em nossos ouvidos."¹.

[1] FERREIRA VIANNA — Castro Alves — "Homenagem da Faculdade de S. Paulo", 20 de Julho de 1881.

     Por isso, pelos accentos possantes dessa voz, pelas idéas humanitárias e políticas que ella exprimia, a geração de seu tempo só viu nelle o poeta social. Nabuco, em 73¹, ainda sem as razões, bem humanas..., de attribuir á Câmara de 1879² (da qual foi figura primacial na campanha abolicionista) — o fiat creador da Abolição, dizia delle: "Castro Alves foi uma inspiração elevada e uma intelligencia nobre; seu maior titulo é o de ter posto seu talento ao serviço da causa da emancipação, da liberdade e da pátria. As suas mais felizes idéas, seus versos mais melodiosos foram-lhe inspirados pela sorte dos captivos". "A idéa abolicionista foi a alma de seu melhor poema..." "Esse é o titulo serio á gratidão do país... Nunca o poeta subiu tanto como nesses dias, em que... se apoderou resolutamente de uma grande idéa e se deixou dominar por um forte sentimento. E' esse o mérito que antes de qualquer outro eu queria attribuir ao poeta..." Um de hoje, Amadeu Amaral, pôde repetir: "Elle foi o querido da mocidade e do povo, o mais amado, o mais fascinador, o mais comprehendido dos nossos poetas". Porque "não foi apenas um poeta... foi um apóstolo, um propagandista,. um luctador, sciente e consciente dos frutos bons e dos frutos amargos de sua semeadura"³.

[1] JOAQUIM NABUCO — Castro Alves, I "A Reforma", Rio, ao de Abril de 1873.
[2] JOAQUIM NABUCO — Minha formação — ed. *Carnier — Rio, Paris,' 1900, p 230.
[3] AMADEU AMARAL — Letras floridas — Rio, 1920, P- M5.

     A razão dessa investidura sagrada, que o gênio de Castro Alves recebera de sua terra e de seu povo, nesse momento histórico, dera-a, desde 68, José de Alencar: "Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos "¹. Muito mais tarde, José Veríssimo diria a mesma coisa: "A sua influencia foi enorme..." "as cousas sociaes e humanas as viu e entendeu e as cantou como poeta", "poeta nacional, se não mais, nacionalista, poeta social, humano e humanitário...².

[1] JOSÉ DE ALENCAR — Um poeta, "Correio Mercantil", de 22 Fevereiro, 1868.
[2] JOSÉ VERÍSSIMO — Historia da Literatura Brasileira, ed. Alves, Rio, 1916, p. 337.

     Por isso, mereceu o nome que lhe deram, por consagração, de "Poeta dos Escravos". E' que, disse Ruy Barbosa, em 1881: "Castro Alves escreveu o poema da nossa grande questão social e da profunda aspiração nacional que a tem de resolver"¹.

[1] RUY BARBOSA — Elogio a Castro Alves, cit. p. 46.

     Aspiração nacional que previu, no movimento irresistível das ruas, da imprensa, das câmaras, do governo, que a haviam de realizar um dia, tão longe entretanto delle... "A sua grandeza está nisto, diz Euclydes da Cunha: elle os viu antes e melhor do que seus contemporâneos", chegando entretanto a tempo para o prever, como vidente: "apparecimento... certo, opportuno, como o de todo grande homem..."¹. Aspiração nacional que ajudou ou começou a realizar, podemos hoje insistir, e é ainda por isso que o nome delle "ha de ligar-se indelevelmente a uma das phases mais decisivas da historia nacional"².

[1] EUCLYDES DA CUNHA — Castro Alves e seu tempo — 1907, p. 9-10.
[2] RUY BARBO.A — Op. cit p. 46.

continua página 13...
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O Maior Poeta Brasileiro(a) / 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921