sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Cinema: O feio, o mau e o bom

Faroeste

O feio, o mau e o bom, (Três Homens em Conflito), é um épico spaghetti western teuto-americano-hispano-italiano, 1966, de Sergio Leone ambientado na Guerra Civil Americana, onde três pistoleiros tão habilidosos quanto traiçoeiros formam alianças instáveis numa corrida para encontrar uma fortuna em ouro enterrada em um cemitério remoto. A trama gira em torno de três pistoleiros competindo para descobrir um fortuna em ouro confederado enterrado em meio ao violento caos de tiroteios, enforcamentos, batalhas da guerra e campos de prisioneiros. Com direção estilizada, tensão crescente, fotografia marcante e trilha icônica de Ennio Morricone, é considerado um dos maiores clássicos do faroeste e do cinema, valendo a pena pela atmosfera, atuações e influência cultural.


Para assistir... clique AQUI!





Diretor: 
Sergio Leone

Roteiristas:
Luciano Vincenzoni (história)
Sergio Leone (história)
Agenore Incrocci (roteiro)
Furio Scarpelli (roteiro)
Luciano Vincenzoni (roteiro)
Sergio Leone (roteiro)
Mickey Knox (diálogo)

Elenco:
Clint Eastwood como Biondo / Blondie
Eli Wallach como Tuco
Lee Van Cleef como Sentenza /Angel Eyes
Aldo Giuffrè como Capitão da União Alcoólatra
Luigi Pistilli como Padre Pablo Ramirez
Rada Rassimov como Maria
Enzo Petito como Almoxarife
Claudio Scarchilli como Peão mexicano
John Bartha como Sherife
Livio Lorenzon como Baker
Antonio Casale como Jackson / Bill Carson
Sandro Scarchilli como Peão mexicano
Benito Stefanelli como Membro da gangue de Angel Eyes
Angelo Novi como Monk
Antonio Casas como Stevens
Aldo Sambrell como Membro da gangue de Angel Eyes
Al Mulock como Caçador de Recompensas de Um Braço Só
Sergio Mendizábal como Caçador de Recompensas 
Antonio Molino Rojo como Capt. Harper
Lorenzo Robledo como Clem
Mario Brega como Cabo Wallace
Abilio Abad como Monk (não creditado)
Richard Alagich como Soldado da União sendo preso (não creditado)
Chelo Alonso como A esposa de Stevens (não creditado)
Fortunato Arena como 1º Espectador do Sombrero no 1º Hangin do Tucog (não creditado)
Román Ariznavarreta como Caçador de Recompensas (não creditado)
Silvana Bacci como Mexicana com Biondo (não creditado)
Joseph Bradley como Velho Soldado (não creditado)
Frank Braña como Caçador de Recompensas #2 (não creditado)
Amerigo Castrighella como 2º Espectador do Sombrero no 1º Enforcamento do Tuco (não creditado)
Saturno Cerra como Caçador de Recompensas (não creditado)
Luigi Ciavarro como Membro da gangue de Angel Eyes (não creditado)
William Conroy como Soldado Confederado (não creditado)
Antonio Contreras como Violinista no Campo (não creditado)
Domingo Contreras como Extra (não creditado)
Axel Darna como Soldado Confederado Moribundo (não creditado)
Antonio Decembrino como Sombrero (não creditado)
Tony Di Mitri como Delegado (não creditado)
Gianni Di Segni como Delegado na 1ª Execução por Enforcamento (não creditado)
Alberigo Donadeo como Espectador do primeiro enforcamento (não creditado)
Attilio Dottesio como 3º Espectador de Sombrero no 1º Enforcamento do Tuco (não creditado)
Luis Fernández de Eribe como Soldado de casaco (não creditado)
Veriano Ginesi como Espectador careca assistiu ao primeiro enforcamento de Tuco (não creditado)
Jesús Guzmán como Pardue, o dono do hotel (não creditado)
Víctor Israel como Sargento no Forte Confederado (não creditado)
Antonio Montoya como Caçador de Recompensas Mexicano (não creditado)
Nazzareno Natale como Caçador de Recompensas Mexicano (não creditado)
Ricardo Palacios como Barista em apuros (não creditado)
Antonio Palombi como Velho Sargento (não creditado)
Julio Martínez Piernavieja como Corista no Campo (não creditado)
Jesús Porras como Tocador de gaita no campo (não creditado)
Romano Puppo como Membro da gangue de Angel Eyes (não creditado)
Luis Rodríguez como Caçador de Recompensas Mexicano (não creditado)
Antoñito Ruiz como O filho mais novo de Stevens (não creditado)
Aysanoa Runachagua como Pistolero Recrutado por Tuco na Caverna (não creditado)
Enrique Santiago como Caçador de Recompensas Mexicano (não creditado)
José Terrón como Thomas 'Shorty' Larson (não creditado)
Hans Thorner como Padre Enforcado (não creditado)
Franco Tocci como Soldado da União com charuto (não creditado)
Alfonso Veady como Meio soldado (não creditado)

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
15. Guerra e Paz (Parte 4) / 16. O feio, o mau e o bom /        


The Good, the Bad and the Ugly - The Danish National Symphony Orchestra (Live)



A trilha sonora foi composta pelo colaborador frequente de Leone, Ennio Morricone, cujas composições originais características, contendo disparos de armas, assovios (por John O'Neill) e iodelei permeiam o filme. O tema principal, que se assemelha ao uivo de um coiote (que se mistura ao uivo de um coiote real na primeira cena após os créditos de abertura), é uma melodia de duas notas que é um motivo frequente, e é usada para os três personagens principais. Um instrumento musical diferente foi usado para cada um: flauta para Lourinho, ocarina para Angel Eyes e vozes para Tuco. A trilha sonora complementa o cenário da Guerra de Secessão do filme, contendo a balada melancólica La Storia Di Un Soldato (A história de um soldado), que é cantada pelos prisioneiros de guerra enquanto Tuco é torturado por Angel Eyes. O clímax do filme, um impasse mexicano com os três protagonistas, começa com a melodia de L'estasi dell'oro (O Êxtase do Ouro) e é seguido por Il Triello (O trio). Atualmente o tema icônico é considerado uma das maiores composições musicais para filmes de todos os tempos.

Guitarristas - Mark Knopfler

Dire Straits / Tunnel of Love

não é nostalgia, isso é para sempre... ainda escutando esses caras!


Live Wembley Arena 1985






Aos 74 anos, Mark Knopfler finalmente admite por que o Dire Straits nunca se reunirá.





Dire Straits & Hank Marvin - Going Home 
(Theme From Local Hero) (Live at Wembley 1985)





Cena final de Local Hero 
Going Home (Mark Knopfler)





não esqueci... kkkk... aqui embaixo está ela! (legendada) 
a música que ninguém quis no começou
acabou redefinindo o rock daqueles dias


Sultans of Swing - Dire Straits




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01. Mark Knopfler /   


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (V.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

V

continuando...

     Etienne, a quem ele pedia que o ajudasse a demover os companheiros, fez um gesto de impotência. Era tarde demais, os grevistas já eram mais de quinhentos. E já não eram só os revoltados vindos para expulsar os belgas; formavam-se grupos de curiosos de trocistas que se divertiam com a briga. No meio de um grupo, a pouca distância, Zacharie e Philomène olhavam, como se estivessem num teatro, tão despreocupados que tinham até trazido os dois filhos, Achille e Désirée. De Réquillart chegou um novo bando e nele vinham os filhos de Mouque; ele foi logo bater no ombro do seu amigo Zacharie, fazendo piadas; ela, cheia de entusiasmo, correu para a primeira fila dos cabeças-quentes.
     Enquanto isso, o capitão olhava a todo momento para a estrada de Montsou. O reforço pedido não chegava, os seus sessenta homens já não podiam continuar resistindo.
     Por fim, decidiu, em desespero de causa, assustar a multidão, e mandou carregar armas. Os soldados executaram a voz de comando, mas a agitação redobrou, com fanfarronadas e piadas. 

— Olhem, os vagabundos vão fazer exercícios de tiro! — diziam as mulheres, a Queimada, a esposa de Levaque e as outras.

     A mulher de Maheu, com o peito coberto pelo corpinho de Estelle, que tinha acordado e chorava, aproximou-se tanto, que o sargento lhe perguntou o que ela vinha fazer ali com aquela pobre criança. 

— É da tua conta? — respondeu ela. — Atira, se tens coragem. Os homens abanavam a cabeça, cheios de desprezo. Nenhum acreditava que atirassem neles. 
— Os cartuchos não têm bala — disse Levaque. 
— Será que nós somos cossacos? — gritou Maheu. — Não se atira em franceses, desgraçados!

     Outros diziam que, tendo feito a campanha da Criméia, não mais tinham medo de chumbo. E todos continuavam a atirar-se de encontro aos fuzis. Uma descarga naquele momento teria ceifado a multidão. Na primeira fileira, a filha de Mouque estava rouca de tanto gritar furiosa só de pensar que os soldados queriam assassinar mulheres. Já lhes havia cuspido todo o seu repertório de palavrões não encontrava mais uma injúria que fosse bastante ofensiva, quando de repente, não restando senão essa mortal ofensa para ela bombardear a tropa, mostrou o traseiro. Levantou as saias com ambas as mãos até a cintura e pôs à mostra as nádegas enormes. 

— Toma pra vocês! E até que é limpo demais, nem merecem, seus porcos!

     Dobrava-se, punha-se de bruços e ia-se virando para que cada um tivesse o seu quinhão, ao mesmo tempo que dizia: 

— Pro oficial! Pro sargento! Pros soldados todos! 

     Houve uma verdadeira tempestade de gargalhadas, Bébert e Lydie se retorciam, o próprio Etienne, apesar da sua sombria expectativa, aplaudiu aquela nudez insultante. Todos, brincalhões e brigões, começaram a vaiar os soldados, como se os vissem cobertos de dejetos. Só Catherine, à parte, em pé sobre um monte de madeira velha, permanecia calada, com o sangue latejando nas têmporas, invadida por aquele ódio cujo calor sentia aumentar paulatinamente.
     Começaram os incidentes mais graves. O capitão, para acalmar seus homens, decidiu-se a fazer prisões. De um salto a filha de Mouque escapou, metendo-se por entre as pernas da multidão. Três mineiros, Levaque e mais dois, foram apanhados no grupo dos mais violentos e guardados à vista, no fundo da sala dos contramestres.
     Do alto, Négrel e Dansaert gritaram ao capitão para que entrasse e se fechasse com eles. Este recusou, sentia que essas edificações, de portas sem fechaduras, iam ser tomadas de assalto, e ele passaria pela vergonha de ser desarmado. Seu minúsculo destacamento já estava grunhindo de impaciência, não se podia fugir diante daqueles miseráveis de tamancos. Os sessenta, apertados contra a parede, de fuzis carregados, continuaram fazendo frente ao bando.
     A princípio houve um recuo, um profundo silêncio. Os grevistas permaneciam espantados com aquele golpe de força, mas em seguida ergueu-se um clamor, exigindo os prisioneiros, reclamando sua liberdade imediata. Começou a correr um rumor de que estavam sendo esfaqueados lá dentro. E, sem terem combinado, levados pelo mesmo ímpeto, pelo mesmo desejo de desforra, todos correram aos montes de tijolos que ficavam ao lado, tijolos feitos com o barro do terreno margoso e que eram cozidos ali mesmo. As crianças os traziam um a um, as mulheres enchiam as saias. Dentro em pouco todos tiveram um monte de munição aos pés e começou batalha a pedradas.
     Foi a Queimada quem começou a atirar; quebrava os tijolos na aresta aguda dos joelhos, e com ambas as mãos arremessava os dois pedaços. A mulher de Levaque quase destrancava os ombros de tão gorda e mole, e teve de se aproximar para não errar o alvo, apesar das súplicas de Bouteloup, que a puxava por trás, na esperança de levá-la para casa, agora que o marido estava engaiolado. A excitação era geral; a filha de Mouque, não querendo ferir as pernas flácidas com os tijolos, preferiu jogá-los inteiros. Até as crianças entraram na batalha. Bébert ensinava Lydie a atirar por baixo do braço. Era uma verdadeira saraivada de pedras, pedaços enormes que soavam surdamente. E, subitamente, no meio daquelas fúrias, lá estava Catherine, com os punhos no ar, brandindo também pedaços de tijolos, arremessando-os com toda a força dos seus braços finos. Se lhe perguntassem, não saberia dizer por que estava fazendo aquilo, sentia apenas que estava sufocada, desesperada, querendo destruir o mundo. Será que essa maldita existência de infortúnios não teria um fim breve? Estava farta de ser espancada e escorraçada por seu homem, de chafurdar como um animal acuado no lodo das estradas, sem ao menos pedir um pedaço de pão ao seu pai, que, como ela, não tinha nada para comer. Desde que se conhecia por gente sua vida fora horrível, e ia de mal a pior. E por isso partia os tijolos e arremessava-os, com a única ideia de tudo destruir, tão cega de ódio que nem via em quem acertava.
     Etienne, que permanecera diante dos soldados, por pouco não teve a cabeça quebrada. Sua orelha inchava, voltou-se estremecendo ao compreender que o tijolo partira das mãos febris de Catherine; e, arriscando ser morto, ficou onde estava, a olhá-la. Muitos outros também permaneceram sem tomar parte, fascinados pela batalha. O jovem Mouque julgava os golpes, como se estivesse assistindo a um jogo: este acertou, aquele outro não teve sorte! Gracejava, mostrava a Zacharie, que brigava com Philomène, esta zangada por ele ter espancado Achille e Désirée, recusando-se a pô-los às costas para que vissem. Havia espectadores, aglomerados ao longe, ao longo da estrada. E no alto da ladeira, na entrada do conjunto habitacional, o velho Boa-Morte acabava de surgir, arrastando se com a ajuda de uma bengala, imóvel agora, ereto contra o céu cor de ferrugem.
     Quando começaram a chover os primeiros tijolos, o contramestre Richomme pusera-se outra vez entre soldados e mineiros. Suplicava exortava outros, sem levar em conta o perigo, tão desesperado que suas grossas lágrimas lhe corriam pelo rosto. Não se podiam entender suas palavras no meio do barulho, via-se apenas seu grande bigode grisalho que tremia.
     Mas a saraivada de tijolos era cada vez mais forte. Os homens, a exemplo das mulheres, também atiravam.
     Nesse momento a mulher de Maheu percebeu que o marido f cara para trás, de mãos vazias e ar sombrio. 

— Que há contigo? Fala! — gritou ela. — Será possível que vais abandoná-los? Terás a coragem de deixar teus companheiros na cadeia? Ah! se eu não estivesse com esta criança tu verias!

     Estelle, que se tinha agarrado ao seu pescoço, berrando, impedia-a de juntar-se à Queimada e às outras. E, como seu marido parecia não ouvir, ela empurrou com o pé alguns tijolos para junto dele. 

— Raio de homem! Anda, pega isso! Ou será que serei obrigada a cuspir-te na cara diante de todo mundo para te dar ânimo?

     Muito vermelho, ele começou a quebrar tijolos e a arremessá-los. Ela fustigava-o, aturdia-o, uivava por trás dele gritos de guerra, esmagando a criança contra o peito com os braços crispados. Ele avançou sempre encontrando-se finalmente diante dos fuzis. Sob aquela tempestade de pedras, a pequena guarnição desaparecia. Felizmente as pedras batiam alto, a parede estava crivada. Que fazer? A idéia de bater em retirada, de voltar as costas, enrubesceu por um momento o rosto pálido do capitão; mas nem esse movimento era já possível, ao menor gesto seriam despedaçados. Um tijolo acabava de quebrar a pala do seu quepe, gotas de sangue corriam-lhe da testa. Muitos dos seus homens estavam feridos e ele sentia-os fora de si, no estágio desesperado da defesa pessoal, em que se cessa de obedecer aos chefes. O sargento havia largado uma praga, com o ombro direito meio deslocado, a carne ferida por uma pancada surda, semelhante ao ruído que faz a lavadeira quando bate a roupa. Já por duas vezes atingido, o recruta tinha um polegar esmagado e uma queimadura ardente no joelho direito: por quanto tempo ainda teriam de suportar tudo aquilo? Como uma pedra, fazendo ricochete, tivesse atingido o velho soldado de carreira na barriga, este ficou lívido, sua arma tremeu e apontou, segura por seus braços magros. Por três vezes o capitão esteve a ponto de dar voz de fogo, mas uma angústia impedia-o, uma luta interminável de alguns segundos que acordava dentro dele ideias, deveres, todas as suas crenças de homem e de soldado. A chuva de tijolos era cada vez mais forte e ele ia abrir a boca para gritar "Fogo!" quando os fuzis começaram a disparar, primeiro três tiros, depois cinco, depois um tiroteio de pelotão e por fim um disparo sozinho, muito depois no profundo silêncio.
     Houve um momento de estupor. Eles tinham atirado, a multidão boquiaberta permanecia imóvel, ainda sem poder acreditar. Mas gritos dilacerantes elevaram-se, enquanto o clarim tocava o cessar fogo. Seguiu-se um pânico tremendo, um galope de gado metralhado, uma fuga sem rumo pela lama.
     Bébert e Lydie caíram um sobre o outro aos primeiros tiros, ela ferida na cabeça, ele abaixo do ombro esquerdo. A menina, fulminada, não se mexia mais; Bébert, porém, ainda tinha movimentos e abraçava-a nas convulsões da agonia, como se quisesse repetir o gesto que fizera no fundo do buraco escuro, onde tinham passado a sua última noite. E Jeanlin, que justamente naquele momento chegava de Réquillart, ainda sonolento, capengando no meio da fumaça, viu o amigo abraçar-se à sua mulherzinha e morrer.
     Os outros cinco tiros tinham atingido a Queimada e o contramestre Richomme. Ferido pelas costas, no momento em que suplicava aos camaradas, o homem caíra de joelhos e, tombando para um lado, agonizava por terra, com os olhos arrasados das lágrimas que tinha chorado. A velha, com a garganta estraçalhada, caíra reta e rangendo como um feixe de lenha seca, gaguejando uma última praga por entre os borbotões de sangue.
     A essa altura, o fogo do pelotão já varria o terreno, ceifava a cem passos os grupos de curiosos que riam da batalha. Uma bala entrou pela boca do jovem Mouque, derrubando-o, esfacelado, aos pés de Zacharie e Philomène, tendo as duas crianças ficado todas respingadas de sangue. No mesmo momento a filha de Mouque recebia duas balas na barriga. Tinha visto os soldados fazerem pontaria e correra, num movimento instintivo de mulher bondosa, para proteger Catherine, gritando-lhe que tivesse cuidado; e deu um urro de dor, caindo de costas com o choque das balas. Etienne correu, quis levantá-la e carregá-la, mas com um gesto ela disse que estava tudo acabado. Depois, no arranco da morte, não deixou de sorrir a um e outro, como se estivesse feliz de vê-los juntos, agora que se ia.
     Parecia tudo terminado, o furacão de balas fora perder-se ao Longe, atingindo mesmo as fachadas do conjunto habitacional, quando o último tiro partiu, isolado, com atraso.
     Maheu, atingido no coração, rodopiou e caiu com o rosto numa poça de água, negra de carvão.
     Imbecilizada, a esposa abaixou-se. 

— Eh, meu velho, levanta-te! Vamos! estás sentindo alguma coisa?

     Com as mãos ocupadas por Estelle, teve de pô-la debaixo de um braço, para voltar a cabeça do seu homem. 

— Vamos, fala! Onde é que estás ferido?

     Maheu tinha os olhos vidrados, a boca escorrendo uma baba sanguinolenta. Ela compreendeu: o marido estava morto. Ficou então sentada no lodo, a filha debaixo do braço como um pacote, olhando estupefata para o seu homem.
     A mina estava livre. Com o seu gesto nervoso, o capitão tirara e tornara a pôr o quepe rasgado por uma pedra; e conservava o mesmo aprumo, lívido diante daquele desastre da sua vida, enquanto seus homens, impassíveis, voltavam a carregar as armas. Surgiram na janela da recebedoria os rostos assustados de Négrel e Dansaert. Suvarin estava por trás deles, com a testa cortada por uma grande ruga, como se o prego da sua idéia fixa tivesse vindo cravar-se ali, ameaçador. Do outro lado do horizonte, na borda do planalto, Boa-Morte não se movera, com uma das mãos apoiadas na bengala e a outra fazendo uma pala sobre os olhos, para ver melhor, embaixo, o extermínio dos seus. Os feridos gemiam, os mortos esfriavam em posturas indefinidas, enlameados pelo lodo líquido do degelo, com a sujeira do carvão boiando ao seu redor e emoldurados pela neve imunda. E no meio desses cadáveres de homens pequenos, pobres e esqueléticos de tanta miséria, jazia o cadáver de Trombeta, um monte de carne sem vida, monstruoso e atroz.
     Etienne não morrera. Continuava a esperar, ao lado de Catherine, caída de fadiga e angústia, quando uma voz vibrante o fez estremecer. Era o Padre Ranvier, que voltava da sua missa e, com os braços erguidos, num furor de profeta, pedia para os assassinos a cólera de Deus. Anunciava a era da justiça, a próxima exterminação da burguesia pelo fogo do céu, já que ela levava ao cúmulo os seus crimes, massacrando os trabalhadores e os deserdados deste mundo.
  
continua na página 375...
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Sexta Parte - (IV.b) / Sexta parte - (V.a) / Sexta parte - (V.b) /     
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / VII — Estratégia e tática

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     VII — Estratégia e tática

             Ia Mário a descer do seu improvisado observatório, com o coração confrangido pelo que vira, quando um ruído o atraiu e o fez permanecer no seu lugar.
     Acabava de abrir-se de chofre a porta da mansarda e de assomar no seu limiar a filha mais velha. Trazia calçados uns grandes sapatos de homem, cheios de lama, que lhe salpicava os tornozelos, e pendente dos ombros uma manta esfarrapada, que Mário não lhe vira uma hora antes, porque decerto a tinha deixado à entrada da porta para inspirar mais compaixão, tornando-a a cobrir depois que saiu. Entrou, fechou a porta, parou para tomar a respiração, porque vinha esbaforida, e em seguida exclamou, com expressão de triunfo e alegria:

— Ele aí vem!

     O pai voltou os olhos, a mulher voltou a cabeça, a irmã mais nova não se mexeu.

— Quem? — perguntou o pai. 
— O tal senhor. 
— O filantropo? 
— Sim, senhor. 
— Da igreja de S. Jacques? 
— Sim, senhor. 
— O velho? 
— Sim, senhor. 
— E vem aí? 
— Não tarda 
— Sabes isso com certeza? 
— Com toda a certeza. 
— Realmente ele vem aí? 
— Vem, sim, senhor; vem de carruagem. 
— De carruagem! É Rothschild!

     O homem levantou-se.

— Como sabes tu isso com certeza? Como é que, se ele vem de carruagem, tu chegas primeiro do que ele? Disseste-lhe ao menos tu bem onde nós moramos? Disseste-lhe bem que era na última porta, ao fim do corredor, do lado direito? Se ele se engana! Então encontraste-o na igreja? Ele leu a minha carta? E que disse? 
— Devagar, devagar — exclamou a jovem. — Como vais a galope, paizinho! Aí vai como foi: Entrei na igreja e pesquei-o logo no lugar do costume; fiz-lhe uma cortesia, entreguei-lhe a carta, ele leu-a e perguntou-me: «Onde moras, minha filha?» Eu disse lhe: «Eu vou com o senhor para lhe ensinar o caminho». E vai ele disse-me: «Nada, diz me antes onde moras, porque, como minha filha tem de sair a fazer algumas compras, eu vou alugar uma carruagem e chegarei a tua casa ao mesmo tempo que tu». Disse-lhe então onde morávamos, mas quando lhe disse, parece que ele ficou assim admirado, sem saber o que havia de responder, até que por fim disse: «É o mesmo, irei». No fim da missa vi-o sair da igreja com a filha e meteram-se ambos num carro. Mas eu disse-lhe bem que a nossa porta era a última ao fim do corredor, do lado direito. 
— Mas como sabes tu que ele vem? 
— Porque avistei agora mesmo o carro, que vinha ao princípio da rua do Petit Banquier. 
— Como sabes tu que o carro era o mesmo? 
— Ora! Porque tomei sentido no número. 
— E que número é? 
— 440. 
— Bem, és uma rapariga esperta!

     A filha olhou ousadamente para o pai e acrescentou, mostrando-lhe os sapatos que trazia nos pés: 

— Pois serei uma rapariga esperta, mas o que eu digo é que não torno a calçar estes sapatos e que os não quero: primeiro por causa da saúde, segundo por causa da limpeza. Cá para mim não há coisa que mais me agrade do que umas chinelas jus tinhas ao pé, que façam gji, gji, gji quando a gente vai a andar. De outro modo antes quero andar descalça. 
— Tens razão — respondeu o pai num tom de brandura que contrastava com a indocilidade da jovem — mas é que assim não te deixavam entrar nas igrejas. Os pobres não têm remédio senão andar descalços. Na casa de Deus não se entra descalço! — disse ele com azedume. E em seguida acrescentou, voltando ao objeto que naquela ocasião o preocupava: — Mas tu sabes com certeza que ele vem aí? 
— E não tarda cá muitos minutos.

     O homem levantou-se. O seu rosto como que se tinha iluminado. 

— Mulher! — exclamou ele. — Bem ouviste que vem aí o filantropo, por isso apaga o lume.

     A mulher, de estupefata que ficara, não se moveu. Jondrette, com a agilidade de um saltimbanco, pegou num cântaro esbotenado que estava em cima do fogão e despejou a água nos tições.
     E, dirigindo-se em seguida para a sua filha mais velha, disse: 

— Tu arromba a cadeira, anda!

     A filha, porém, não percebeu. Ele pegou então na cadeira e arrombou-a, assentando-lhe o pé em cheio no meio da palhinha, de modo que ficou com a perna metida no rombo. 

— Está frio, rapariga? — perguntou ele, tirando a perna do buraco da cadeira 
— Muito! Está a nevar com toda a força!

     O pai voltou-se então para a filha mais nova, que estava sentada na cama ao pé da janela, e gritou-lhe com voz de trovão: 

— Já abaixo da cama, sua perdida! Nunca há de prestar senão para comer! Quebre já um vidro!

     A criança saltou abaixo da cama a tremer. 

— Quebre já um vidro — tornou ele.

     A criança, porém, ainda ficou vacilante. 

— Tu não ouves? — repetiu o pai. — Eu disse-te que quebrasses um vidro!

     A filha, levada da obediência do medo, pôs-se em bicos de pés e deu um murro num vidro, que quebrou, caindo com grande estrondo, 

— Está bem! — disse o pai.

     Jondrette estava com aspecto severo e agastado. O seu olhar percorria todos os cantos da mansarda.
     Dir-se-ia um general fazendo os últimos preparativos no instante em que vai principiar a batalha.
     A mulher, que ainda não tinha proferido uma só palavra, levantou o corpo e perguntou com voz lenta e surda, como se as palavras lhe saíssem geladas dos lábios: 

— Filho, tu que queres fazer? 
— Mete-te na cama! — respondeu o homem.

     A entoação com que ele disse isto não admitia réplica. A mulher obedeceu, portanto, atirando-se com todo o peso do corpo para cima de uma das camas.
     Ao mesmo tempo gritou, ouvindo soluçar a um canto: 

— Que vem a ser isso?

     A filha mais nova, sem sair do canto onde Se tinha acocorado, mostrou a mão ensanguentada. Ao quebrar o vidro, cortara-se e fora sentar-se ao pé da cama de sua mãe, chorando em silêncio.
     A mulher levantou-se então e exclamou: 

— Vês o que fazem as tuas tolices? Fizeste com que a pequena se cortasse, ao quebrar o vidro! 
— Melhor! — disse o homem. — Isso já eu esperava. 
— O quê, melhor? — tornou a mulher. 
— Pouca bulha! — replicou ele. — Suprimo a liberdade de imprensa!

     Em seguida rasgou a camisa de mulher que trazia vestida, tirou-lhe uma tira, com que à pressa envolveu o dedo em que a filha se cortara, e, feito isto, disse, olhando com satisfação para a camisa rasgada: 

— E até a camisa! Tudo se ajusta!

     Pelo vidro quebrado, através do qual se via cair a neve lá fora, penetrava uma corrente de ar frigidíssimo e o nevoeiro exterior, que se dilatava pelo quarto como uma nuvem de algodão espalhada por dedos invisíveis. O frio prometido no dia antecedente pelo sol da Candelária efetivamente viera.
     O homem circunvagou a vista em volta de si, como para se certificar que não esquecia coisa alguma. Pegou numa pá velha e deitou uma pouca de cinza sobre os tições molhados de modo que ficassem completamente escondidos.
     Depois levantou-se e disse, encostando-se ao fogão: 

— Agora pode vir o filantropo quando quiser, que nós estamos prontos para o receber.

continua na página 563...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - VII — Estratégia e tática
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

George Orwell - 1984: Parte 2.2b (O primeiro pedaço de chocolate)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

2.
continuando...

     O primeiro pedaço de chocolate tinha derretido na língua de Winston. O sabor era delicioso. Mas ain da havia aquela memória se movendo nas bordas de sua consciência, algo forte, mas não redutível à forma definida, como um objeto visto pelo canto do olho. Ele a afastou dele, consciente apenas de que era a memória de alguma ação que ele gosta ria de desfazer, mas não podia.  

“Você é muito jovem”, ele disse. “Você é dez ou quinze anos mais jovem do que eu. O que você vê em um homem como eu”? 
“Era algo na sua expressão. Pensei em arriscar. Sou boa em identificar pessoas que não pertencem a este mundo. Assim que te vi, sabia que estava contra eles”. 
“Eles”, parecia, se referia ao Partido, e sobretudo ao Partido Interno, sobre o qual ela falava com um ódio aberto que fazia Winston se sentir inquieto, embora ele soubesse que eles estavam seguros aqui se pudessem estar seguros em qualquer lugar. Uma coisa que o espantou nela foi a rudeza de sua linguagem. Os membros do Partido não deveriam falar palavrões, e o próprio Winston muito raramente fazia isso, de qualquer forma, em voz alta. Júlia, entretanto, parecia incapaz de mencionar o Partido, e especialmente o Partido Interno, sem usar o tipo de palavras. Não é que ele não gostou. Era apenas um sintoma de sua revolta contra o Partido e todas as suas formas, e de alguma forma parecia natural e saudável, como o espirro de um cavalo que cheira um feno ruim. Eles tinham deixado a clareira e vagueavam de novo pela sombra axadrezada, com os braços à volta da cintura um do outro sempre que o caminho permitisse que andassem lado a lado. Ele notou o quanto a cintura dela parecia mais macia agora que a faixa tinha desaparecido. A conversa entre eles não passava de um sussurro. Fora da clareira, disse Júlia, era melhor ir em silêncio. Atualmente, eles tinham chegado à borda da pequena floresta. Ela o deteve.
“Não vá para o lado de fora. Pode haver alguém observando. Estaremos bem se nos mantivermos atrás dos ramos”.

     Eles estavam à sombra de arbustos de aveleira. A luz do sol, filtrando através de inúmeras folhas, ainda estava quente em seus rostos. Winston olhou para o campo além deles, e sofreu um curioso e lento choque de reconhecimento. Ele o conhecia de vista. Um pasto velho e bem próximo, com um caminho de pé que perambulava por ele e um monte de terra aqui e ali. Na sebe desgarrada do lado oposto, os ramos dos olmos balançavam de forma perceptível na brisa, e suas folhas se agitavam levemente em massas densas como os cabelos das mulheres. Certamente em algum lugar próximo, mas fora de vista, deve haver um riacho com poças verdes onde peixes nadavam...

“Não há um riacho por aqui”?, sussurrou ele.
“É verdade, há um riacho. Na verdade, está na borda do próximo campo. Há peixes nele, bem grandes. Você pode vê-los deitados nas piscinas sob os salgueiros, balançando suas caudas”. 
“É o quase o Condado Dourado”, ele murmurou.
“Condado Dourado”?
“Não, nada. É só uma paisagem que eu vejo às vezes em um sonho”.  
“Olha!”, sussurrou Julia.

     Um sabiá tinha pousado em um galho a menos de cinco metros de distância, quase na altura de seus rostos. Talvez ele não os tivesse visto. Estava ao sol, eles à sombra. Ele estendeu suas asas, colocou-as cuidadosamente no lugar novamente, abaixou a cabeça por um momento, como se fizesse uma espécie de reverência ao sol, e então começou a derramar uma torrente de canções. No silêncio da tarde, o volume do som era assustador. Winston e Julia se abraçaram, fascinados. A música continuava e continuava, minuto após minuto, com variações surpreendentes, nunca se repetindo, quase como se o pássaro estivesse mostrando deliberadamente sua virtuosidade. Às vezes ele parava por alguns segundos, se espalhava e ajeitava suas asas, depois inchava seu peito salpicado e estourava novamente em canções. Winston o observava com uma espécie de reverência vaga. Para quem, para quê, aquele pássaro estava cantando? Nenhum companheiro, nenhum rival o observava. O que o fez sentar à beira do bosque solitário e derramar sua música no nada? Ele se perguntava se afinal de contas havia um microfone escondido em algum lugar próximo. Ele e Julia haviam falado apenas em sussurros baixos, e ele não pegaria o que eles haviam dito, mas pegaria o sabiá. Talvez na outra ponta do instrumento algum homem pequeno, parecido com um besouro, estivesse ouvindo aten tamente – ouvindo isso. Mas, pouco a pouco, a en xurrada de música fez com que todas as especulações saíssem de sua mente. Era como se fosse um tipo de coisa líquida se derramasse sobre ele, se misturando com a luz do sol que chegava através das folhas. Ele parou de pensar e apenas sentiu. A cintura da garota na dobra de seu braço era macia e quente. Ele a puxou, de modo que eles estavam de peito a peito; o corpo dela parecia derreter no dele. Para onde quer que suas mãos se movessem, tudo era tão flexível quanto água. Suas bocas se agarravam; era bem diferente dos beijos duros que haviam trocado antes. Quando voltaram a separar seus rostos, os dois sus piravam profundamente. O pássaro se assustou e fugiu com um tilintar de asas.
     Winston colocou seus lábios contra a orelha dela.

“Agora”, ele sussurrou.
“Aqui não”, sussurrou ela de volta. “Vamos voltar para o esconderijo. É mais seguro”.

     Rapidamente, com um crepitar ocasional de galhos, eles trilharam seu caminho de volta para a clareira. Uma vez dentro do anel de mudas, ela se virou e o enfrentou. Ambos respiravam rápido, mas o sorriso havia reaparecido nos cantos de sua boca. Ela ficou olhando para ele por um instante, depois abriu o zíper de seu macacão. E, sim!, foi quase como em seu sonho. Quase tão rápido quanto ele havia imaginado, ela havia rasgado suas roupas, e quando as jogou de lado foi com aquele mesmo gesto magnífico pelo qual toda uma civilização parecia estar aniquilada. O corpo dela brilhava branco ao sol. Mas por um momento ele não olhou para o corpo dela; seus olhos estavam ancorados pelo rosto de sardas com seu sorriso tênue e ousado. Ele se ajoelhou diante dela e pegou as mãos dela nas dele.

“Você já fez isso antes”?
“Claro que sim. Centenas de vezes... bem, dezenas de vezes pelo menos”. 
“Com membros do Partido”. 
“Sim, sempre com membros do Partido”. 
“Com membros do Partido Interno”? 
“Não, nunca com esses porcos, não. Mas muita coisa aconteceria se eles tivessem meia chance. Eles não são tão santos quanto fazem parecer”.

     Seu coração saltou. Ela já tinha feito dezenas de vezes: ele desejava que tivessem sido centenas, milhares. Qualquer coisa que insinuasse corrupção sempre o enchia de uma esperança selvagem. Quem diria, talvez o Partido estivesse podre sob a superfície, seu culto à tenacidade e à abnegação simplesmente uma farsa que escondia a iniquidade. Se ele pudesse ter infectado todos eles com lepra ou sífilis, como ele teria feito isso com prazer! Tudo para apodrecer, para enfraquecer, para minar! Ele a puxou para baixo, de modo que eles estavam ajoelhados frente a frente.

“Ouça. Quanto mais homens você teve, mais eu a amo. Você entende isso”? 
“Entendo perfeitamente”. 
“Odeio pureza, odeio bondade! Eu não quero que nenhuma virtude exista em nenhum lugar. Eu quero que todos sejam corruptos até os ossos”. 
“Bem, então, eu vou servir, querido. Sou inteira corrupta”. 
“Você gosta de fazer isso? Não me refiro simplesmente a mim: Quero dizer a coisa em si”? 
“Eu amo”.

     Isso era, acima de tudo, o que ele queria ouvir. Não apenas o amor de uma pessoa, mas o instinto animal, o simples desejo indiferenciado: essa era a força que desfazia o Partido em pedaços. Ele a pressionou sobre a grama, entre as flores caídas. Desta vez, não houve dificuldade. A subida e descida de seus seios diminuíam à velocidade normal e, numa espécie de desamparo agradável, eles se desfaziam. O sol parecia ter ficado mais quente. Ambos estavam adormecidos. Ele procurou os macacões descartados e os puxou parcialmente sobre ela. Quase imediatamente eles adormeceram e dormiram por cerca de meia hora.
     Winston acordou primeiro. Ele se sentou e observou o rosto sardento, ainda pacificamente adormecido, almofadado na palma de sua mão. Exceto por sua boca, não se podia chamá-la de linda. Havia uma ou duas linhas em volta dos olhos, se você olhasse bem. O cabelo curto e escuro era extraordinariamente grosso e macio. Ocorreu-lhe que ele ainda não sabia o sobrenome dela ou onde morava.
     O corpo jovem e forte, agora desamparado no sono, despertou nele um sentimento de piedade e proteção. Mas a ternura sem sentido que ele havia sentido sob a aveleira, enquanto o tordo cantava, não havia voltado completamente. Ele puxou o macacão para o lado e estudou o flanco branco suave dela. Nos velhos tempos, ele pensou, um homem olhava para o corpo de uma garota e viu que era desejável, e isso era o fim da história. Mas hoje em dia não se podia ter puro amor ou pura luxúria. Nenhuma emoção era pura, porque tudo estava misturado com medo e ódio. O abraço deles tinha sido uma batalha, o clímax uma vitória. Foi um golpe contra o Partido. Foi um ato político.

continua na página 269...
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Capítulo 1:
Parte 2.2b (O primeiro pedaço de chocolate) /         
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.