Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto IV
Na Lacônia e a emboscada dos pretendentes
“Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos
pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e
da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença
de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena
encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho
aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)
té que a morada alcançaram do rei Menelau glorioso,
indo encontrá-lo em palácio, no meio de seus agregados,
que celebravam as núpcias do filho e da filha impecável.
Era esta ao filho, enviada, de Aquiles, o rompe fileiras,
pois desde Troia lhe havia asselado a solene promessa
de como esposa lha dar. Ora os deuses as núpcias realizam.
Manda-a, por esse motivo, com carro e cavalos, agora,
para a cidade famosa, em que reina, de heroicos Mirmídones.
Mas para o filho, de Esparta fez vir a nascida de Aléctor,
o varonil Megapentes, que teve em idade madura
de uma das servas; que os deuses a Helena negaram mais filhos
desde que Hermíone, bela e amorável, lhe fora nascida,
que à áurea Afrodite era igual na esbelteza e nos traços perfeitos.
Banqueteavam-se, pois, no palácio de teto elevado
os agregados do rei Menelau glorioso e os vizinhos,
alegremente. Cantava entre todos o aedo divino,
ao som da cítara, ao tempo, também, em que dois saltadores,
cabriolavam, seguindo o compasso, no meio de todos.
Nesse entrementes, o nobre Telêmaco e o ilustre Nestórida
Nesse entrementes, o nobre Telêmaco e o ilustre Nestórida
os corredores velozes defronte da porta refreiam.
Param; no meio da azáfama o nobre Eteoneu os viu logo,
o diligente criado do rei Menelau glorioso.
Volta, sem mais, para dar a notícia ao pastor de guerreiros.
Ao lado dele chegando, lhe disse as palavras aladas:
“Hóspedes novos, aluno de Zeus, Menelau, nos chegaram,
dois forasteiros; parecem ser filhos de Zeus poderoso.
Dize se devo tirar os cavalos velozes do carro,
ou enviá-los a alguém, que lhes faça amistosa acolhida.”
Muito indignado lhe diz Menelau, o de louros cabelos:
“Ó Eteoneu, de Boétoo nascido, primeiro não eras
louco assim; ora, como criança, realmente, só dizes tolices.
Vezes sem conta nós dois nos sentamos à mesa de estranhos,
antes de virmos de volta, esperando que Zeus nos livrasse
de sofrimentos futuros. Então? Desatrela os cavalos
e os forasteiros convida a assentarem-se em nosso banquete.”
Disse; Eteoneu, logo, a sala atravessa, a chamar pelo nome
dos diligentes escravos, porque fossem logo com ele.
Estes tiraram do jugo os corcéis, que suor estilavam,
e à manjedoura, depois, de cavalos, os levam e amarram,
e à manjedoura, depois, de cavalos, os levam e amarram,
onde deitaram mistura de espelta e de branca cevada.
Contra a parede de tons reluzentes encostam o carro
e os visitantes conduzem à régia divina do aluno
de Zeus potente, os quais ficam absortos perante o que viam,
pois um fulgor se espalhava semelho ao do Sol ou da Lua,
pela morada elevada do rei Menelau glorioso.
Mas, depois que na visão do espetáculo os olhos saciaram,
para banheiras polidas subiram, porque se banhassem,
onde zelosas escravas os lavam e esfregam com óleo,
mantos lanosos e túnicas sobre as espáduas lhes pondo.
Sentam-se ao lado do rei Menelau, em cadeiras lavradas.
Água lustral lhes ministra a criada, num jarro gracioso,
de ouro, deixando-a cair sobre as mãos em bacia de prata,
pondo diante dos dois, a seguir, uma mesa polida.
A despenseira zelosa aparece, que pão lhes reparte,
como, também, provisões abundantes, que dá prazenteira.
Vem, a seguir, o trinchante, trazendo nas mãos a travessa
com muita carne, e de todos ao lado áureos copos coloca.
Diz-lhes, saudando-os o rei Menelau, o de louros cabelos:
“Ora provai da comida e alegrai-vos. Depois que tiverdes
a refeição concluído, será minha a vez de inquirir-vos
quem sois vós outros, porque não se perde dos pais a ascendência.
De Zeus alunos, por certo, sois ambos, de reis descendentes,
que cetro empunham, pois vis não teriam tais filhos gerado.”
Disse; e um assado do lombo bem gordo, do boi, lhes presenta,
tendo levado nas mãos o pedaço melhor, que era dele.
Eles as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas.
Tendo, assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
vira-se o moço Telêmaco e diz ao Nestórida ilustre,
quase a falar-lhe no ouvido, porque ninguém mais o sentisse:
“Caro Nestórida, amado do meu coração, olha um pouco
como as paredes da sala sonora rebrilham de bronze,
de ouro e de electro, também, de marfim e de prata luzente.
Lembra-me a vista do pátio, por dentro, de Zeus Olímpico.
Quanta riqueza indizível! O espanto de mim se apodera.”
O louro herói Menelau percebeu-lhe o sentido das vozes;
vira-se, então, para os dois, e lhes diz as palavras aladas:
“Meus caros filhos, com Zeus emular nenhum homem consegue,
que imperecíveis são suas riquezas e o belo palácio.
Quanto aos mortais, pode algum em riqueza medir-se comigo,
ou que o não faça; custou-me sofrer muita dor, errabundo,
quanto nas naus para aqui transportei, decorridos oito anos,
tendo vagado por Chipre e Fenícia, assim como no Egito.
Té aos Sidônios cheguei e aos Erembos, bem como aos Etíopes
e à própria Líbia, onde aos anhos os chifres mui cedo lhes nascem,
e por três vezes no curso de um ano as ovelhas dão cria.
Nesse lugar nenhum chefe, ou pastor, de penúria padece,
não só de queijo, de carne também e do leite agradável,
pois estão sempre as ovelhas no ponto de serem mungidas
Mas enquanto eu por aquelas paragens reunia riquezas,
certo indivíduo, às escuras, privou-me do mano dileto,
por modo súbito, graças ao dolo da esposa funesta.
Esse o motivo de não alegrar-me com tanta opulência.
De vossos pais, porventura, o soubestes, quem quer que eles sejam,
pois não somente arrostei mil trabalhos; também vi perder-se
minha morada bem-feita e opulenta de todo o conforto.
Oh! Quem me dera viver com um terço dos bens no palácio,
contanto que vivos fossem os homens que outrora caíram
de Argos distantes, nutriz de corcéis, na planície de Troia.
Pois, em verdade, por todos expendo lamentos amargos,
muito amiúde sentado nas salas do nosso palácio,
ora alivio com lágrimas o coração, ora cesso
de derramá-las, que logo me farto do gélido choro.
Mas por nenhum me consumo, se bem que por todos me aflija,
como por um, que me faz odiar o repouso e a comida,
sempre que dele me lembro. Nenhum dos Aqueus sofreu tanto
como Odisseu suportou e sofreu; o futuro para ele
muitos trabalhos guardara, o que a mim aflições ocasiona
incomportáveis por tão longa ausência e porque ninguém sabe
se ainda se encontra com vida, ou se é morto; sua perda, por certo,
chora Laertes o velho, assim como a prudente Penélope,
como Telêmaco, que no palácio ainda infante deixara.”
Vivas saudades do pai despertaram-lhe aquelas palavras;
lágrimas correm-lhe a par para o chão, quando o ouviu nomeado.
Puxa com ambas as mãos para os olhos o manto purpúreo.
O louro filho de Atreu logo viu o que estava passando,
tendo ficado indeciso no peito ardoroso e no espírito,
se ainda convinha deixar que do pai ele próprio falasse,
ou se pergunta fizesse, primeiro, e de tudo inquirisse.
No coração e no espírito dessa maneira reflete.
Nesse momento, do tálamo odoro e elevado, tal como
Ártemis de fuso de ouro, vem vindo a amorável Helena.
Logo lhe Adrasta oferece poltrona de fino trabalho,
tendo-lhe Alcipe trazido tapete de velo macio;
Filo açafate de prata lhe traz, por Alcandra ofertado,
quando no Egito, a de Pólibo esposa, que em Tebas habita,
onde com muitas riquezas as casas se encontram pejadas.
A Menelau dera Pólibo um par de banheiras de prata,
trípodes duas e mais dez talentos, também, de ouro puro.
Por sua parte, a mulher fez presentes a Helena, mui belos:
de ouro uma roca, e um cestinho provido de rodas por baixo,
todo de prata; mas de ouro batido eram feitas as bordas.
Filo, a servente zelosa, o cestinho lhe traz, colocando-o,
logo, ao seu lado, repleto de fio torcido; por cima
põe uma roca, de lã carregada de cor de violeta.
Senta-se Helena em poltrona provida de um belo escabelo,
vira-se para o marido e de tudo procura informar-se:
“Ó Menelau, de Zeus grande discíp’lo, sabemos, acaso,
quem se gloriam de ser esses homens, que a casa nos chegam?
Minto, ou verdade enuncio? A falar me compele a vontade.
Não, não presumo ter visto jamais semelhança tão grande
entre quaisquer dos mortais — sou tomada de espanto indizível —
tanto com o filho do grande Odisseu este aqui se parece,
digo Telêmaco, que no palácio ainda infante deixara,
ele, o valente, no tempo em que vós, os Aquivos, lutastes
sob as muralhas de Troia por causa de minha insolência.”
Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos:
“Penso, ó mulher, de igual modo a respeito do que conjeturas.
Tinha esse mesmo feitio das mãos e dos pés, em verdade,
jeito de olhar, a cabeça e, por cima de tudo, os cabelos.
Quando falava a respeito do grande Odisseu, não faz muito,
a relembrar aflições e trabalhos, que tanto sofrera
por minha causa, dos cílios corria-lhe pranto copioso,
tendo, por isso, escondido no manto purpúreo a cabeça.”
Disse-lhe o filho do velho Nestor, em resposta. Pisístrato:
Ó Menelau, de Atreu filho e discíp’lo de Zeus, chefe de homens!
Este, realmente, é nascido daquele, conforme o disseste;
mas é dotado de grande prudência; pois sente vergonha
de, na primeira visita, aturdir-te com fúteis discursos,
pois tua voz nos ressoa qual fosse de um deus emanada.
Por isso tudo, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos,
quis que eu, também, o seguisse; ansiava bastante por ver-te,
para pedir-te lhe desses auxílio, ou sequer uns conselhos.
Sempre que ausente o pai se acha, padece trabalhos o filho
na própria casa, por falta de algum defensor, que o proteja,
tal como agora Telêmaco; ausente se encontra o pai dele,
sem que no povo haja alguém que nos males de amparo lhe sirva.”
Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos:
“Como! É, então, certo que a casa me veio de súbito o filho
do homem dileto que tantos trabalhos por mim tem sofrido?
do homem dileto que tantos trabalhos por mim tem sofrido?
Sempre a mim mesmo propus de maneira especial distingui-lo,
mais do que aos outros Argivos, se o Olímpico Zeus, de voz forte,
nos concedesse voltar pelas ondas nas céleres naves.
Destinar-lhe-ia uma bela cidade, das de Argos, com casa,
de Ítaca, sim, transferindo-o com o filho, os haveres e o povo,
pós haver feito evacuar uma só dentre as muitas cidades
da redondeza, entre quantas o mando supremo me acatam.
Perto dele estando, possível nos fora falar com frequência,
nada pudera cindir nosso afeto e o prazer do convívio,
té quando a nuvem escura da Morte a nós dois envolvesse.
Isso, talvez fosse causa da inveja da mesma deidade
que a ele somente, o infeliz, do regresso privou à sua pátria.”¹
Disse: invencível desejo de choro de todos se apossa.
Helena de Argos, nascida de Zeus, a chorar se pôs logo;
chora, também, Menelau, de Atreu filho, bem como Telêmaco;
nem foi possível manter olhos limpos o moço Nestórida,
pois evocou no seu ânimo o irrepreensível Antíloco,
a quem o filho admirável da Aurora brilhante matara.
Dele lembrando-se, diz as seguintes palavras aladas:
“Filho de Atreu, costumava Nestor, o ancião, elogiar-te
quando falava de ti, como de homem sensato entre todos,
em nossa casa, ao trocarmos ideias nos nossos colóquios.
Caso te seja possível, atende-me agora: não gosto
de ver tristezas à mesa; outra aurora, amanhã, matutina,
nos será dada; não julgo possível jamais de censura
quem se compraz em chorar por aqueles que as Moiras alcançam.
Somente uma honra podemos prestar aos mortais infelizes:
e essa é os cabelos cortarmos e o pranto deixarmos que corra.
No que me toca, morreu-me um irmão, que não era o mais fraco
entre os Argivos; por certo que o sabes, porque conhecê-lo
não me foi dado, nem vê-lo; mas dizem que os mais superava
não só no rápido curso, também nos combates de perto.”
Disse-lhe, então, Menelau, em resposta, o de louros cabelos:
“Tuas palavras, ó caro, parecem-me de homem sensato,
cujas ações ou discursos proviessem de idade provecta.
Falas com tanta prudência, qual filho do pai que tiveste.
A descendência de um homem é fácil de ser conhecida,
quando o haja Zeus distinguido, ao nascer e na escolha da esposa
como a ventura que teve Nestor no correr da existência,
______________
continua página 704...
__________________
Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a /
__________________
Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
______________
[1] Esse trecho é um dos momentos mais delicados e humanos do Canto IV da Ilíada. Depois de toda a violência, Homero insere uma fala de Menelau que funciona quase como uma confissão íntima — e é surpreendente ver isso no meio de um poema tão marcado pela fúria e pelo bronze.
Menelau fala sobre Odisseu — “o filho do homem dileto que tantos trabalhos por mim tem sofrido”.
Ele está comovido ao ver Odisseu aproximar-se, e isso desencadeia uma reflexão sobre:
amizade,lealdade,promessas feitas antes da guerra,o desejo de convivência após o retorno,e a dor causada pela intervenção dos deuses.
É um raro momento em que Menelau se mostra vulnerável, quase melancólico.
O que Menelau revela aqui é gratidão profunda (ele reconhece que Odisseu sofreu “tantos trabalhos” por sua causa — referência direta ao fato de que Odisseu foi um dos principais articuladores da expedição a Troia, e também um dos mais ativos durante toda a guerra.), promessa de recompensa (Menelau diz que, se Zeus permitisse o retorno seguro, ele daria a Odisseu: uma cidade inteira em Argos, uma casa, povo, haveres, e até transferiria Odisseu com sua família e bens. É uma promessa enorme, quase exagerada — e isso mostra o quanto Menelau valoriza Odisseu.), desejo de convivência (Menelau imagina os dois vivendo próximos, conversando sempre, até que “a nuvem escura da Morte” os envolvesse.
É uma imagem de intimidade e amizade duradoura, rara na épica.), a intervenção dos deuses (Ele termina lamentando que talvez uma divindade tenha sentido inveja dessa proximidade e por isso tenha privado Odisseu do retorno. Aqui Homero antecipa o tema central da Odisseia: o retorno negado, adiado, dificultado pelos deuses.)
Esse trecho funciona como uma ponte entre os dois grandes poemas:
Esse trecho funciona como uma ponte entre os dois grandes poemas:
- Na Ilíada, Odisseu é o estrategista, o diplomata, o homem da palavra.
- Aqui, Menelau já pressente que o destino dele será diferente — marcado pela ausência, pela demora, pela saudade.
É como se Homero estivesse dizendo: “A história de Odisseu não termina aqui; ela é grande demais para caber na Ilíada.”
Menelau, que costuma ser um personagem mais rígido, aqui se mostra:
- afetuoso,
- grato,
- imaginativo
- e até um pouco fatalista.
Essa fala humaniza profundamente o herói.