sábado, 4 de julho de 2026

Saxofonistas - John Coltrane

100 anos - Um Amor Supremo


John William Coltrane (23 de setembro de 1926 – 17 de julho de 1967) foi um saxofonista de jazz, líder de banda e compositor americano. Ele está entre as figuras mais influentes e aclamadas da história do jazz e da música do século XX.

A Love Supreme




Part I - Acknowledgement 0:00
Part II - Resolution 7:42
Part III - Pursuance 15:02
Part IV - Psalm 25:44

Banda:
John Coltrane - líder da banda, notas do encarte, vocais, saxofone soprano e tenor
Jimmy Garrison - contrabaixo
Elvin Jones - bateria
McCoy Tyner - piano


Álbuns de estúdio da Prestige Records
1957 
Álbum: Coltrane (relançado como The First Trane!) 
Banda:
Johnnie Splawn, 
Sahib Shihab, 
Red Garland, 
Mal Waldron, 
Paul Chambers, 
Albert "Tootie" Heath 
Data da gravação: 1957-05-31

1958 
Álbum: John Coltrane com o Red Garland Trio (relançado como Traneing In) 
Banda:
Red Garland, 
Paul Chambers, 
Art Taylor 
Data da gravação: 1957-08-23

1958 
Álbum: Soultrane 
Banda:
Red Garland, 
Paul Chambers, 
Art Taylor 
Data da gravação: 1958-02-07


John Coltrane, Wynton Kelly, Paul Chambers, Jimmy Cobb, Stan Getz, Oscar Peterson
Jazz at the Philharmonic, Dusseldorf, Germany, August 27, 1960.
Presented by Michael Steinman for JAZZ LIVES




John Coltrane, tenor saxofone; 
Wynton Kelly, piano; 
Paul Chambers, contrabaixo; 
Jimmy Cobb, bateria. 
ON GREEN DOLPHIN STREET / WALKIN' / THE THEME / AUTUMN LEAVES (Kelly) - 
WHAT'S NEW? (Coltrane) - 
MOONLIGHT IN VERMONT (Stan Getz, tenor saxofone) - 
RIFFTIDE (HACKENSACK) Oscar Peterson, piano, substitui Kelly: Coltrane, Getz, Chambers, Cobb 


Álbuns de estúdio da Savoy Records

1958
Álbum: Tanganyika Strut (co-líder)
Banda:
Wilbur Harden (co-líder), 
Curtis Fuller, 
Tommy Flanagan, 
Howard Williams, 
Alvin Jackson, 
Art Taylor
Data da gravação: 1958-05-13 / 1958-06-24
1958
Álbum: Jazz Way Out (co-líder)
Wilbur Harden (co-líder), 
Curtis Fuller, 
Tommy Flanagan, 
Alvin Jackson, 
Art Taylor 
Data da gravação: 1958-06-24
1976
Álbum: Countdown (Originalmente lançado como álbum Mainstream 1958 de Wilbur Harden em 1958)
Banda:
Wilbur Harden (co-líder), 
Tommy Flanagan, 
Doug Watkins, 
Louis Hayes
Data da gravação: 1958-03-13


A Biografia que destruiu o mito 
- O erro de Coltrane





John Coltrane 
- Blue train



Álbum de estúdio Blue Note Records
1958
John Coltrane – saxofone tenor 
Lee Morgantrumpete
Curtis Fullertrombone
Kenny Drewpiano
Paul Chamberscontrabaixo
Philly Joe Jonesbateria
Data da gravação: 1957-09-15



AQUI a discografia do saxofonista
líder de banda americano de jazz 
John Coltrane (1926–1967).



Ballads / John Coltrane Quartet



1. Say It (Over And Over Again)
2. You Don't Know What Love Is
3. Too Young To Go Steady
4. All Or Nothing At All

John Coltrane Quartet
John Coltrane (tenor sax)
McCoy Tyner (piano)
Jimmy Garrison (baixo)
Elvin Jones (bateria)
Rudy Van Gelder Studio, Englewood Cliffs, NJ, November 13, 1962



John Coltrane Quartet en "Ralph Gleason's Jazz Casual"




Apresentação do Quarteto de John Coltrane na televisão, em um dos episódios de "Jazz Casual", do crítico de jazz Ralph Gleason.

Músicas: 
1. Impressions
2. Alabama
3. Afro Blue
Músicas extraídas de seu álbum de 1963 "Live at birdland".

John Coltrane, saxofones soprano e tenor 
McCoy Tyner, piano 
Jimmy Garrison, contrabaixo
Elvin Jones, bateria




John Coltrane Quartet 
My Favorite Things 
Live in Comblain-La-Tour (Bélgica), 1 Agosto de 1965


John Coltrane - Saxofone Soprano 
Mccoy Tyner - Piano 
Jimmy Garrison - Contrabaixo
Elvin Jones  - Bateria



Giant Steps (Mono)



John Coltrane - Saxofone Tenor
Art Taylor - Piano
Nesuhi Ertegun - Bateria
Phil Iehle - Contrabaixo

Produtor: Paul Chambers
Engenheiro: Tom Dowd
Engenheiro: Tommy Flanagan

Compositor: John Coltrane

℗ 1960 Atlantic Recording Corporation for the United States and WEA International Inc. for the world outside of the United States.

escutar...
pare de falar um pouco
e escute, 
quando você não sabe o que dizer... escute

_____________________

Saxofonistas - John Coltrane / 

Marcel Proust - A Prisioneira (Se eu não amava Albertine)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Se eu não amava Albertine (coisa de que não estava certo), este lugar que ela ocupava junto a mim nada tinha de extraordinário: nós só vivemos com o que não amamos, com o que só fizemos viver conosco para matar o insuportável amor, trate-se de uma mulher, de um país, ou ainda de uma mulher que em si mesma encerra todo um país. E teríamos muito medo de recomeçar a amar se ocorresse de novo a ausência. Quanto a Albertine, eu ainda não chegara a tal ponto. Suas mentiras e confissões deixavam-me por acabar a tarefa de esclarecer a verdade. Suas mentiras, tão numerosas porque ela não se contentava em mentir como toda criatura que se julga amada, mas porque, fora isso, ela era por natureza mentirosa, e aliás tão mutável que, mesmo dizendo-me de cada vez a verdade sobre o que, por exemplo, pensava das pessoas, de cada vez teria dito coisas diferentes; suas confissões, porque de tão raras, de tão interrompidas, deixavam entre elas, no que se referia ao passado, grandes lacunas inteiramente em branco, e sobre cuja extensão era-me preciso traçar, e para isso primeiro conhecer, a sua vida. No que respeita ao presente, tanto quanto eu podia interpretar as palavras sibilinas de Françoise, não era apenas sobre pontos particulares mas sobre todo um conjunto que Albertine me mentia, e eu veria "num belo dia" aquilo que Françoise aparentava saber, o que ela não queria dizer-me, o que eu não ousava lhe perguntar. Aliás, era sem dúvida por causa do mesmo ciúme que tivera outrora em relação a Eulalie, que Françoise falava as coisas mais incríveis, de tal modo vagas que se poderia ver nelas, quando muito, a insinuação bastante inverossímil de que a pobre cativa (que amava as mulheres) preferia um casamento com alguém que não parecia de modo algum ser eu. Se assim era, como, apesar de suas radio-telepatias, o teria sabido Françoise? Certamente os relatos de Albertine não podiam de maneira nenhuma esclarecer-me, pois eram todos os dias tão opostos como as cores de um pião quase parado. Além disso, parecia que era sobretudo o ódio que fazia falar Françoise. Não passava um dia sem que me dissesse, e eu não suportasse na ausência de minha mãe, palavras como estas: 

- Decerto, o senhor é amável e eu jamais esquecerei o reconhecimento que lhe devo (isto provavelmente para que eu criasse títulos à sua gratidão). Mas a casa está empestada desde que a amabilidade instalou aqui a trapaça, e que a inteligência protege a pessoa mais cretina que já se viu, depois que a finura, as boas maneiras, o espírito, a dignidade em todas as coisas, a aparência e a realidade de um príncipe se deixaram dominar e enganar, permitindo que eu, que há quarenta anos estou na família, fosse humilhada pelo vício, pelo que há de mais vulgar e mais baixo.

     A aversão de Françoise por Albertine decorria principalmente do fato de receber ordens de alguém que não fosse nós, de um aumento do trabalho de casa e de um cansaço que, alterando a saúde de nossa velha criada (que apesar disso não queria ser auxiliada no trabalho, não se julgando "uma pessoa sem serventia"), bastaria para explicar esse nervosismo, essa cólera odiosa. Decerto, ela gostaria que Albertine-Esther fosse banida. Era o voto de Françoise. E isto, consolando-a, já teria sossegado nossa velha criada. Mas, na minha opinião, não se tratava só disso. Um ódio dessa natureza só poderia ter nascido num corpo exausto. E, mais ainda que de cuidados, Françoise precisava de sono.
     Enquanto Albertine ia mudar de roupa, eu, para providenciar o mais depressa possível, peguei o receptor do telefone, invoquei as divindades implacáveis, mas não fiz mais que excitar a sua fúria, que se traduziu por estas palavras: 

- Está ocupado. -

     De fato, Andrée estava conversando com alguém. Enquanto aguardava que ela terminasse a ligação, eu me perguntava por que motivo, já que tantos pintores buscam renovar os retratos femininos do século XVIII, em que a engenhosa encenação é um pretexto para as expressões da espera, do arrufo, do interesse e do devaneio, por que motivo nenhum dos nossos modernos Boucher ou Fragonard pintou, em vez de La Lettre ['A Carta'] ou o Clavecin ['Cravo'], etc., esta cena, que poderia chamar-se: Diante do telefone, e na qual nasceria espontaneamente nos lábios da ouvinte um sorriso tanto mais verdadeiro por saber que não era visto. Finalmente, Andrée me ouviu: 

- Você vem buscar Albertine amanhã? e, ao pronunciar este nome de Albertine, pensava eu na inveja que me havia inspirado Swann quando me dissera, no dia da festa na casa da princesa de Guermantes:
- Venha ver Odette - e eu ficara pensando no que, apesar de tudo, havia de forte num prenome que aos olhos de todos, e da própria Odette, somente na boca de Swann possuía aquele sentido absolutamente possessivo.

     E como semelhante embargo - resumido num vocábulo - sobre uma existência inteira me havia parecido, de cada vez que eu estava apaixonado, dever ser tão doce! Mas na realidade, quando se é possível dizê-lo, ou isto se tornou indiferente, ou então o hábito não embotou a ternura, mas ela mudou as doçuras em mágoas. A mentira é muito pouco, vivemos no meio dela não fazendo mais que sorrir, praticamo-la julgando não fazer mal a ninguém, mas o ciúme sofre por causa dela e enxerga mais do que ela oculta (muitas vezes a nossa amiga se recusa a passar a noite conosco e vai ao teatro simplesmente para que não lhe vejamos a fisionomia abatida), assim como frequentes vezes se mostra cego ao que esconde a verdade. Mas o ciúme não pode obter coisa alguma, pois aquelas que juram não mentir recusariam, até o último instante, confessar o seu caráter. Sabia que somente eu podia dizer daquele modo "Albertine" a Andrée. E no entanto, para Albertine, para Andrée e para mim mesmo, eu sentia que não era nada. E compreendia a impossibilidade em que tropeça o amor. Imaginamos que ele tenha por objeto uma criatura que pode estar deitada diante de nós, fechada num corpo. Infelizmente ele é a extensão dessa criatura a todos os pontos do espaço e do tempo que ela ocupou e ocupará. Se não possuímos o seu contato com determinado lugar, com determinada hora, não a possuímos. Ora, não podemos tocar todos esses pontos. Ainda se nos fossem designados, talvez pudéssemos estender-nos até eles. Porém tateamos sem encontrá-los. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um tempo precioso a seguir uma pista absurda e passamos sem desconfiar ao lado da verdade. Porém já uma das divindades irascíveis, de servas vertiginosamente ágeis, irritava-se não mais porque eu falava, mas porque não dizia nada. 

- Mas fale, está livre! Há tempos que está em comunicação; se não falar, desligo. -

     Mas ela não fez nada e, ao mesmo tempo que suscitava a presença de Andrée, envolveu-a, grande poeta que é sempre uma telefonista, da atmosfera peculiar à casa, ao bairro, à própria vida da amiga de Albertine. 

- É você? - disse Andrée, cuja voz era projetada até mim com uma velocidade instantânea pela deusa que tem o privilégio de tornar os sons mais rápidos que o relâmpago.
- Escute - respondi - vá aonde quiser, menos à casa da Sra. Verdurin. É preciso a todo custo amanhã afastar Albertine de lá. 
- Mas é que justamente ela deve ir lá amanhã. 
- Ah!

     Mas eu era obrigado a me interromper por um instante e fazer gestos ameaçadores, pois, se Françoise continuava como se se tratasse de coisa tão desagradável como a vacina ou tão perigosa como o aeroplano a não querer aprender a telefonar, o que, se nos teria aliviado das comunicações de que ela poderia ficar sabendo sem inconveniente, em compensação entrava imediatamente no meu quarto quando me dispunha a dar telefonemas bastante secretos para que fizesse questão de lhes ocultar.
     Por fim, quando ela saiu do quarto, não sem demorar-se apanhando vários objetos que ali estavam desde a véspera e onde poderiam ter permanecido uma hora a mais sem incomodar ninguém por nada neste mundo, e para recolocar uma acha de lenha no fogo, medida totalmente inútil devido ao calor abrasador que me davam a presença da intrusa e o medo de ter a ligação cortada: 

- Perdão - disse eu a Andrée -, fui atrapalhado. Tem certeza absoluta de que ela devia ir amanhã à casa dos Verdurin?
- Absoluta, mas posso dizer a ela que isto o aborrece. 
- Não, pelo contrário, é possível que eu vá com vocês.
- Ah! - fez Andrée com voz contrariada e como que surpresa pela minha audácia, que aliás não fez mais que se afirmar.
- Então, deixo-a, e desculpe por tê-la incomodado por nada. 
- De modo algum - disse Andrée, e (como agora o uso do telefone se tornara comum, em torno dele desenvolvera-se o adorno de frases especiais, como antigamente ao redor dos "chás") acrescentou: -Tenho grande prazer em ouvir a sua voz.

     Eu poderia dizer outro tanto, e mais verdadeiramente que Andrée, pois acabara de ficar infinitamente sensível à sua voz, não tendo até então reparado que era tão diferente das outras. Então, lembrei-me de outras vozes mais, sobretudo vozes de mulheres, umas vagarosas por causa da precisão de uma pergunta e devido à atenção do espírito; outras sufocadas, até mesmo interrompidas, pela onda lírica do que estão contando; lembrei-me, uma a uma, das vozes das moças que havia conhecido em Balbec, depois da de Gilberte, depois da de minha avó, depois da Sra. de Guermantes, achei-as todas dissemelhantes, moldadas numa linguagem particular a cada uma, tocando todas um instrumento diverso, e disse comigo que pífio concerto devem dar no Paraíso os três ou quatro anjos músicos dos velhos pintores, quando eu via elevar-se para Deus, às dezenas, às centenas, aos milhares, a harmoniosa e multissonora saudação de todas as Vozes. Não desliguei o telefone sem agradecer, com algumas palavras propiciatórias, àquela que reina sobre a velocidade dos sons, por ter querido usar em favor de minhas humildes palavras, de um poder que as tornava cem vezes mais rápidas que o trovão. Mas minhas ações de graça não tiveram como resposta senão o serem cortadas.
     Quando Albertine voltou para o meu quarto, usava um vestido de cetim preto que contribuía para torná-la mais pálida, fazer dela a parisiense lívida, ardente, estiolada pela falta de ar, pela atmosfera das multidões e talvez pelo hábito do vício, e cujos olhos pareciam mais inquietos porque não os animava o rubor das faces. 

- Adivinhe - disse eu - a quem acabo de telefonar: a Andrée. 
- A Andrée?! - exclamou Albertine em tom estridente, surpreso, emocionado, que uma notícia tão simples não comportava. - Espero que ela pensou em lhe dizer que tínhamos encontrado a Sra. Verdurin outro dia.
- A Sra. Verdurin? Não me lembro - respondi, parecendo estar pensando em outra coisa, a um tempo para mostrar-me indiferente a tal encontro e para não trair Andrée, que me dissera aonde Albertine iria no dia seguinte. Mas quem sabe se a própria Andrée não me trairia, se amanhã não contaria a Albertine que eu lhe pedira que evitasse, seja a que preço fosse, que ela comparecesse aos Verdurin, e se ela já não lhe revelara que várias vezes eu lhe tinha feito recomendações análogas? Ela me garantira jamais tê-las repetido, mas o valor dessa afirmação era contrabalançado em meu espírito pela impressão de que já não via mais no rosto de Albertine a confiança que durante tanto tempo ela tivera em mim.

     No amor, o sofrimento cessa por instantes, mas para assumir um aspecto diverso. Choramos ao ver a mulher a quem amamos já não ter para conosco aqueles impulsos de simpatia, aqueles avanços amorosos do princípio; sofremos ainda mais ao ver que, não os tendo mais conosco, tenha-os com outros; depois somos distraídos desse sofrimento por um novo mal, mais atroz, a suspeita de que ela nos mentiu sobre a noite da véspera, onde ela sem dúvida nos traiu; tal suspeita igualmente se dissipa, a gentileza demonstrada por nossa amiga nos acalma; mas então uma frase esquecida nos volta ao espírito, disseram-nos que ela era ardente no gozo, e todavia sempre a conhecêramos tranquila; tentamos imaginar o que teriam sido os seus frenesis com outros, percebemos o pouco que somos para ela, reparamos num ar de tédio, de nostalgia, de tristeza, enquanto falamos, reparamos, como se fossem um céu negro, nos vestidos descuidados que ela põe quando está conosco, guardando para os outros aqueles com que procurava a princípio deslumbrar-nos. Se, ao contrário, ela é carinhosa, que alegria por um instante! Mas, vendo essa linguinha esticada como para um chamado dos olhos, pensamos naquelas a quem tantas vezes era dirigido esse chamado, que, mesmo talvez junto a mim, sem que Albertine pensasse nelas, tinha persistido como um sinal maquinal, por causa de um longo hábito. Depois, retorna a sensação de que a aborrecemos. Mas, subitamente, tal sofrimento se reduz a bem pouco ao pensarmos nos maus procedimentos desconhecidos de sua vida, nos lugares, impossíveis de conhecer, em que ela esteve, aonde vai ainda nas horas em que não estamos a seu lado, se mesmo ela não tenciona viver definitivamente nesses lugares, lugares em que está longe de nós, não é nossa, e sente-se mais feliz do que conosco. Tais são as eventualidades do ciúme.
     O ciúme é também um demônio que não pode ser exorcizado, e sempre reaparece, encarnado sob uma nova forma. Mesmo que chegássemos a exterminar todas elas, a guardar perpetuamente aquela a quem amamos, o Espírito do Mal tomaria então uma outra forma, ainda mais patética, o desespero de não ter obtido a fidelidade senão pela força, o desespero de não ser amado.
     Entre Albertine e mim havia muitas vezes o obstáculo de um silêncio feito sem dúvida de agravos que ela calava, pois julgava-os irreparáveis. Por mais terna que se mostrasse em certas noites, Albertine já não possuía aqueles movimentos espontâneos que eu lhe conhecera em Balbec quando ela me dizia: 

- Mas como você é gentil! -e o fundo do seu coração parecia vir até mim sem a reserva de nenhum desses agravos que ela tinha agora, e que calava, pois sem dúvida julgava-os irreparáveis, impossíveis de esquecer, inconfessados, mas que, nem por isso deixavam de erguer entre nós a significativa prudência de suas palavras ou o intervalo de um silêncio intransponível. 
- E pode-se saber por que telefonou a Andrée? 
- Para perguntar se não ficaria contrariada se eu me juntasse à vocês amanhã e, assim, fazer aos Verdurin a visita que lhes prometo desde a Raspeliere.
- Como quiser. Mas previno-o de que há um terrível nevoeiro esta noite e que certamente haverá outro amanhã. Digo isto porque não gostaria que você passasse mal. Sabe muito bem que, por mim, prefiro que venha conosco. Aliás - acrescentou com ar preocupado - não sei absolutamente se irei à casa dos Verdurin. Fizeram-me tantas gentilezas que, no fundo, eu deveria ir. Depois de você, foram as pessoas que me trataram melhor, mas há umas coisinhas que me desagradam na casa deles. É absolutamente necessário que eu vá ao Bon Marché ou aos Trois Quartiers para comprar um lenço branco para o pescoço, pois este vestido é escuro demais.

     Deixar Albertine ir sozinha à uma grande loja percorrida por tantas pessoas em quem a gente se esfrega, dotada de tantas saídas que se pode alegar que não se encontrou o carro, que esperava um pouco além, era coisa que eu estava resolvido a não consentir, mas sobretudo sentia-me infeliz. E no entanto, não percebia que de há muito deveria ter cessado de ver Albertine, pois para mim, ela havia entrado naquele período lamentável em que uma criatura, disseminada no espaço e no tempo, já não é para nós uma mulher, mas uma série de eventos sobre os quais não podemos fazer luz, uma série de problemas insolúveis, um mar que ridiculamente procuramos, como Xerxes, chicotear para puni-lo pelo que engoliu. Uma vez principiado esse período, estamos forçosamente derrotados. Felizes aqueles que o compreendem logo para não prolongar uma batalha inútil, exaustiva, cercada de todas as partes pelos limites da imaginação e onde o ciúme se debate tão vergonhosamente que o mesmo homem que outrora, se os olhares da que estava sempre a seu lado se dirigiam para um outro, imaginava uma intriga e experimentava tantos tormentos, resigna-se depois a deixá-la sair sozinha, às vezes com aquele que sabe ser seu amante, preferindo, ao que não pode conhecer, essa tortura ao menos conhecida! É uma questão de ritmo a adotar e que é seguido por hábito. Nervosos que não poderiam faltar a um jantar e que bem depois fazem curas de repouso nunca suficientemente longas; mulheres, ainda recentemente levianas, vivem na penitência; ciumentos que, para espionar a mulher amada, privam-se do sono, do repouso, sentindo que os desejos dela, o mundo tão vasto e tão secreto, e o tempo são mais fortes que eles, deixam-na sair sem a sua companhia, e depois viajar, e depois se separam. Assim, o ciúme acaba por falta do que alimentar-se e só durou tanto devido a tê-los reclamado sem parar. Eu estava bem longe desse estado.
     É claro que o tempo de Albertine me pertencia em quantidades superiores que em Balbec. Agora eu era livre para passear com ela quantas vezes quisesse. Como não demorara que se construíssem campos de aviação ao redor de Paris, e que são para os aeroplanos o que os portos representam para os navios, e como, desde o dia em que, perto da Raspeliere, o encontro quase mitológico com um aviador, cujo voo fizera encabritar o meu cavalo, tinha sido para mim como uma imagem da liberdade, eu gostava muitas vezes que, ao entardecer, o fim das nossas jornadas - aliás agradável à Albertine, apaixonada por todos os esportes -fosse um desses aeródromos. Íamos para lá, atraídos ambos por essa vida incessante de partidas e chegadas que conferem tanto encanto aos passeios pelo cais ou apenas pela praia para aqueles que apreciam o mar, e às andanças em torno de um centro de aviação, para os que gostam do céu. A todo instante, por entre o descanso dos aparelhos inertes e como que ancorados, víamos um deles sendo tirado penosamente por vários mecânicos, como é arrastado sobre a areia um barco pedido por um turista que deseja dar um passeio no mar. Depois o motor era posto em funcionamento, o aparelho corria, tomava impulso e por fim, de repente, em ângulo reto, elevava-se lentamente no êxtase rígido, como que imobilizado, de uma velocidade horizontal súbito transformada em majestosa ascensão vertical. Albertine não podia conter o júbilo e pedia explicações aos mecânicos que regressavam, agora que o aparelho se pusera a voar. Entretanto, o passageiro não tardava a transpor quilômetros, e o grande esquife sobre o qual não cessávamos de fixar os olhos não era mais no azul do que um ponto quase indistinto, o qual, aliás, ia retomando aos poucos a sua materialidade, sua grandeza, seu volume, quando, aproximando-se do fim o tempo do passeio, chegava o momento de voltar a seu porto. Albertine e eu olhávamos com inveja, no instante em que saltava em terra, o passeante que desse modo fora desfrutar ao largo, naqueles horizontes solitários, o sossego e a limpidez da tarde. Depois, fosse do aeródromo, fosse de algum museu ou igreja que tivéssemos ido visitar, voltávamos juntos para a hora do jantar. E todavia eu não regressava calmo, como me sentia em Balbec, depois dos passeios mais raros de que me orgulhava durassem toda uma tarde, e que contemplava a seguir, destacando-se em belos maciços de flores sobre o resto da vida de Albertine como sobre um céu vazio diante do qual a gente sonha suavemente, sem pensar. O tempo de Albertine, por essa época, não me pertencia em quantidades tão amplas como hoje. No entanto, parecia-me então muito mais meu, porque eu só levava em consideração o meu amor regozijando-se como se fosse uma dádiva as horas que ela passava comigo; agora o meu ciúme procurando nelas, com inquietude, a possibilidade de uma traição; eu só levava em conta as horas que ela passava sem mim. Ora, amanhã ela iria desejar que houvesse tais horas. Seria preciso escolher entre cessar de sofrer e deixar de amar. Pois, assim como no princípio é formado pelo desejo, o amor, depois, só é mantido pela ansiedade dolorosa. Sentia que uma parte da vida de Albertine me escapava. O amor, tanto na ansiedade dolorosa como no desejo feliz, é a exigência de um todo. Ele só nasce, só subsiste se resta uma parte a conquistar. Só se ama aquilo que não se possui completamente. Albertine mentia ao dizer que certamente não iria visitar os Verdurin, como eu mentia ao dizer que desejava ir à casa deles. Ela procurava somente impedir-me de sair em sua companhia, e eu, devido ao brusco anúncio desse projeto, que de modo algum contava pôr em execução, queria ferir nela o ponto que adivinhava ser o mais sensível, atacar o desejo que ela ocultava e forçá-la a confessar que minha presença junto dela amanhã, a impediria de satisfazê-la. Em suma, ela o fizera ao deixar bruscamente de querer ir à casa dos Verdurin.

- Se você não quer ir visitar os Verdurin -disse eu -, há no Trocadero uma representação magnífica de caráter beneficente.-

     Ela ouvia a minha sugestão com ar dolente.
     Voltei a ser duro com ela, como em Balbec, nos tempos do meu primeiro ciúme. Seu rosto refletia uma decepção e empreguei para censurar a minha amiga os mesmos motivos que tantas vezes me haviam sido dados por meus pais quando eu era criança e que me tinham parecido desinteligentes e cruéis à minha infância incompreendida. 

- Não. - apesar do seu ar triste dizia eu à Albertine - não posso lamentá-la; lamentaria se você estivesse enferma, se lhe houvesse acontecido uma desgraça, se tivesse perdido um parente; o que talvez não lhe desse nenhum pesar, devido ao desperdício de falsa sensibilidade que você faz por um nada. Além disso, não aprecio a sensibilidade de pessoas que tanto pretendem nos amar, sem serem capazes de nos prestar o menor serviço e cujo pensamento, ao se voltar para nós, as deixa tão distraídas que se esquecem de levar a carta que lhes confiamos e da qual depende o nosso futuro.

     Tais palavras, pois uma grande parte do que dizemos não passa de um recitativo, eu as ouvira pronunciar todas por minha mãe, a qual (explicando-me de bom grado que não convinha confundira verdadeira sensibilidade, o que, dizia ela, os alemães, cujo idioma admirava bastante, apesar do horror de meu pai por aquele país, denominavam Empfindung, com o sentimentalismo, Empfindelei) chegara certa vez a ponto de dizer, quando eu estava chorando, que Nero talvez fosse nervoso e não era melhor por causa disso. Na verdade, como essas plantas que se desdobram ao crescer, havia agora, diante da criança sensitiva que eu exclusivamente fora, um homem completamente diverso, cheio de bom senso, severo para com a sensibilidade doentia dos outros, um homem parecido com o que meus pais tinham sido para mim.
     Sem dúvida, visto que cada um deve fazer continuar em si a vida dos seus, o homem ponderado e zombeteiro, inexistente em mim no começo, juntara-se ao sensível, e era natural que eu por minha vez fosse igual ao que meus pais tinham sido. Ademais, no momento em que este novo eu se formava, encontrava a sua linguagem já pronta na lembrança da outra, irônica e rabugenta, que empregaram comigo e que eu agora usava com os outros, e saía muito naturalmente da minha boca, seja porque a evocasse por mimetismo e associação de lembranças, seja também porque as delicadas e misteriosas incrustações do poder genésico tivessem desenhado em mim, sem que o soubesse, como sobre a folha de uma planta, as mesmas entonações, os mesmos gestos, as mesmas atitudes que tinham tido aqueles de quem me originara. Pois, às vezes, bancando o homem prudente quando falava a Albertine, parecia estar ouvindo minha avó. De resto, não sucedera a minha mãe (de tantas obscuras correntes inconscientes refletirem em mim, até aos menores movimentos dos meus dedos para arrastá-los nos mesmos ciclos que meus pais) acreditar que se tratava de meu pai entrando, de tal modo eu tinha a mesma forma de bater que ele? Por outro lado, o acoplamento de elementos contrários é a lei da vida, o princípio da fecundação e, conforme veremos, a causa de muitas infelicidades. De hábito, detestamos o que nos é semelhante, e nossos próprios defeitos vistos de fora nos exasperam. Ainda mais quando alguém, que passou da idade em que os expressamos ingenuamente e que, por exemplo, assume um ar glacial nos momentos mais ardentes, execra os mesmos defeitos se se trata de outro, mais jovem ou mais ingênuo, ou mais bobo, que os exprime! Há pessoas sensíveis para quem a visão, nos olhos alheios, de lágrimas que eles próprios contêm, é exasperadora.
     É a máxima semelhança que faz com que, apesar da afeição, e às vezes quanto maior é a afeição, reine a divisão nas famílias. Talvez em mim, e em muitos, o segundo homem em que eu me tornara era simplesmente uma face do primeiro, exaltado e sensível ao lado de si mesmo, sábio Mentor para os outros. Talvez o mesmo ocorresse com meus pais, conforme fossem considerados em relação a mim ou em si mesmos. E, quanto a minha avó e minha mãe, era bastante visível que a severidade delas comigo era proposital e até mesmo lhes custava, mas talvez até no meu pai não seria a frieza apenas um aspecto exterior de sua sensibilidade? Pois não era talvez a verdade humana desse duplo aspecto, aspecto da vida interior e aspecto da vida das relações sociais, o que se expressava nestas palavras que outrora me pareciam tão falsas em seu sentido quanto plenas de banalidade em sua forma, quando se dizia, falando de meu pai: 

- Sob sua frieza glacial, esconde uma sensibilidade extraordinária; o que ele possui, acima de tudo, e o pudor de sua sensibilidade. -

     No fundo, não ocultava incessantes e secretas tempestades, aquela calma semeada, se preciso, de reflexões sentenciosas, de ironia pelas manifestações desastradas da sensibilidade, calma que era a sua, mas que agora também eu afetava diante de todos e de que não me afastava, em certas circunstâncias, diante de Albertine?
     Creio que, naquele dia, eu verdadeiramente ia decidir a nossa separação e seguir para Veneza. O que me prendeu de novo à minha ligação disse respeito à Normandia, não que Albertine manifestasse alguma intenção de viajar àquela região, onde eu tinha tido ciúmes dela (pois, por sorte, os seus projetos nunca tocavam nos pontos dolorosos das minhas recordações), mas porque, tendo-lhe dito: 

- É como se eu lhe falasse da amiga de sua tia que mora em InfreviIle-, ela respondera, encolerizada, feliz como toda pessoa que discute e que deseja para si o maior número possível de argumentos, para mostrar que eu estava errado e ela certa: 
- Mas minha tia jamais conheceu alguém em Infreville, e eu mesma nunca estive lá. -

continua na página 45...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Se eu não amava Albertine)

Augusto dos Anjos - Psicologia de um vencido

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco 
Monstro de escuridão e rutilância, , 
Sofro, desde a epigênese da infância, 
A influência má dos signos do zodíaco.  

Produndissimamente hipocondríaco,   
Este ambiente me causa repugnância... 
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme -- este operário das ruínas 
Que o sangue podre das carnificinas 
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-lo 
E há de deixar-me apenas os cabelos 
Na frialdade inorgânica da terra! 


A ideia

De onde ela vem?! De que matéria bruta 
Vem essa luz que sobre as nebulosas 
Cai de incógnitas criptas misteriosas 
Como as estalactites duma gruta?! 

Vem da psicogenética e alta luta 
Do feixe de moléculas nervosas, 
Que, em desintegrações maravilhosas, 
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe
Chega em seguida às cordas da laringe
Tísica, tênue, mínima, raquítica... 

Quebra a força centrípeta que a amarra, 
Mas, de repente, e quase morta, esbarra 
No molambo da língua paralítica! 


_________________________

Leia também:
Monologo de uma sombra / Agonia de um filósofo / Psicologia de um vencido / 
__________________________

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.

Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Cinema: O desafio de Marguerite

A vida além da universidade

Título original: Marguerite's Theorem

Uma jovem e brilhante matemática é a única mulher em seu campo de pesquisa. Após um devastador erro em sua tese, ela precisará descobrir a vida além da universidade.

Direção;
Anna Novion

Roteiristas:
Anna Novion
Mathieu Robin
Marie-Stéphane Imbert



pensamentos ecoando                             — essa mistura de destino, 
talento e as curvas inesperadas da vida 
alguém nasce com um dom  
uma pequena mudança de direção 
vira tudo                              de cabeça pra baixo... 
assusta,                     às vezes liberta
conhecimento tem essa força
não depende só do dom, 
       depende da curiosidade
  da coragem de olhar para o mundo  
                  dizer “quero entender mais” 
    essa paixão carrega uma vantagem enorme                                              — porque 
mesmo quando o caminho muda,  
                continua empurrando para frente
O aprendizado mantém a chama acesa 
desafia quando a vida resolve bagunçar o roteiro
faz revelações
uma porta é só uma porta
      atrás dela existem outras salas, 
   outras possibilidades, 
outras versões de si mesma esperando para serem vividas.






Elenco:
Ella Rumpf como Marguerite Hoffmann
Jean-Pierre Darroussin como Laurent Werner
Clotilde Courau como Suzanne
ulien Frison como Lucas Savelli
Sonia Bonny como Noa
Xiaoxing Cheng como M. Kong
Idir Azougli como Yanis
Camille de Sablet como Treinadora
Karl Ruben Noel como Dançarino
Ava Baya como A namorada do dançarino
Gautier Boxebeld como Gerente
Esdras Registe como Colega
Leïla Muse como Jornalista
Édouard Sulpice como Estudante
Dominique Ratonnat como Professor
Pakirathan Sulakshan como Matemático
Tien Shue como O dono do restaurante
Yun-Ping He como Oponente de Mahjong
Fang Chen como Oponente de Mahjong
Min Man Ma como Oponente de Mahjong
David Hattery como Matemático de língua inglesa
Daniel Wolf como Matemático de língua inglesa
Pierre Banderet como Um matemático em Lausanne
Tian Long Bai como Oponente de Mahjong
Paul Kai Te como Jogador de Mahjong

__________________

Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
11. Os Órfãos / 12. O Tempero da Vida / 13. Duas mulheres / 14. Tio Vânia / 15. O desafio de Marguerite /   

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: As dimensões do infanticídio industrial (2)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     42. As dimensões do infanticídio industrial
          Quando nascia o século XX, Alexander von Humboldt calculou o valor da produção manufatureira do México em uns sete ou oito milhões de pesos, a maior parte correspondente a manufaturas têxteis. Os estabelecimentos especializados elaboravam panos, tecidos de algodão e linho; mais de 200 teares ocupavam, em Querétaro, 1.500 operários, e em Puebla trabalhavam 1.200 tecedores de algodão [1]. No Peru, os toscos produtos da colônia nunca alcançaram a perfeição dos tecidos indígenas anteriores à chegada de Pizarro, “mas em compensação, sua importância econômica foi muito grande” [2]. A indústria repousava sobre o trabalho forçado dos índios, encarcerados em seus locais de trabalho desde o clarear do dia até tarde da noite. A independência aniquilou o precário desenvolvimento alcançado. Em Ayacucho, Cacamorsa, Tarma, os trabalhos eram de considerável magnitude. O povoado inteiro de Pacaicasa, hoje morto, “formava um só e vasto estabelecimento de teares com mais de mil operários”, diz Romero em sua obra; Paucarcolla, que abastecia de cobertores de lã uma vasta região, está desaparecendo “e atualmente não existe ali nem uma só fábrica” [3]. No Chile, uma das mais distantes possessões espanholas, o isolamento favoreceu o desenvolvimento de uma atividade industrial incipiente desde a alvorada do período colonial. Havia fiações, tecelagens, curtumes; as cordas chilenas proviam todos os navios do Mar do Sul; fabricavam-se artigos de metal, desde alambiques e canhões até joias, baixelas finas e relógios. Construíam-se embarcações e veículos [4]. Também no Brasil os estabelecimentos têxteis e metalúrgicos, que vinham ensaiando seus modestos primeiros passos desde o século XVIII, foram arrasados pelas importações estrangeiras. Essas duas atividades manufatureiras tinham conseguido progredir consideravelmente apesar dos obstáculos impostos pelo pacto colonial com Lisboa, mas desde 1807 a monarquia portuguesa instalada no Rio de Janeiro era apenas um joguete nas mãos britânicas, e o poder de Londres tinha outra força. “Até a abertura dos portos”, diz Caio Prado Júnior, “as deficiências do comércio português funcionavam como barreira protetora de uma pequena indústria local; pobre indústria artesanal, é verdade, mas assim mesmo suficiente para satisfazer uma parte do consumo interno. Essa pequena indústria não vai sobreviver à livre concorrência estrangeira, nem mesmo nos produtos mais insignificantes.” [5]

[1] HUMOLDT, Alexander von. Ensayo sobre el reino de la Nueva España. México, 1944.
[2] ROMERO, Emilio. Historia económica del Perú. buenos Aires, 1949.
[3] Ibid.
[4] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Antecedentes económicos de la independencia de Chile. Santiago de Chile, 1959.
[5] PRADO JÚNIOR, Caio. Historia económica del Brasil. Buenos Aires, 1960. 

     A Bolívia era o centro têxtil mais importante do vice-reinado rio-platense. Em Cochabamba, no fim do século, havia 80 mil pessoas dedicadas à fabricação de lenços de algodão, panos diversos e toalhas, segundo o testemunho do intendente Francisco de Viedma. Em Oruro e La Paz também tinham surgido estabelecimentos que, junto com os de Cochabamba, ofereciam mantas, ponchos e baetas muito resistentes à população, às tropas de linha do exército e às guarnições da fronteira. De Mojos, Chiquitos e Guarayos provinham finíssimos tecidos de linho e de algodão, chapéus de palha, vicunha ou carneiro, e charutos de folha. “Todas essas indústrias desapareceram com a concorrência de artigos similares estrangeiros”, constatava, sem grande tristeza, um volume dedicado à Bolívia no primeiro centenário de sua independência. [6]

[6] THE UNIVERSITY SOCIETY. Bolivia en el primer centenario de su independencia. La Paz, 1925.

     O litoral da Argentina era a região mais atrasada e menos povoada do país, antes que a independência deslocasse para Buenos Aires, em prejuízo das províncias mediterrâneas, o centro de gravidade da vida econômica e política. No princípio do século XIX, apenas a décima parte da população argentina residia em Buenos Aires, Santa Fé e Entre Ríos [7]. Com ritmo lento e através de meios rudimentares desenvolvera-se uma indústria nativa nas regiões do centro e do norte, enquanto no litoral, segundo dizia em 1795 o procurador Larramendi, não existia “nenhuma arte nem manufatura”. Em Tucumán e Santiago del Estero, que atualmente são poços de subdesenvolvimento, floresciam as oficinas têxteis, que fabricavam ponchos de três classes distintas, e em outros estabelecimentos produziam-se excelentes carroças, charutos, cigarros, couros e solas. Em Catamarca, lenços de todos os tipos, tecidos finos, baetilhas de algodão preto para uso dos clérigos; Córdoba fabricava mais de 70 mil ponchos, vinte mil cobertores e 40 mil varas de baeta por ano, sapatos e artigos de couro, cinchas e chicotes, tapetes e cordovãos. Os curtumes e as correarias mais importantes estavam em Corrientes. Eram famosos os finos arreios de Salta. Mendoza produzia entre 2 e 3 milhões de litros de vinho por ano, em nada inferiores aos de Andaluzia, e San Juan destilava 350 mil litros anuais de aguardente. Mendoza e San Juan formavam “a garganta do comércio” entre o Atlântico e o Pacífico na América do Sul. [8]

[7] ALEN LISCANO, Luis C. Imperialismo y comercio libre. buenos Aires, 1963.
[8] SANTOS MARTÍNEZ, Pedro. Las industrias durante el virreinato (177-1810). Buenos Aires, 1969.

     Os agentes comerciais de Manchester, Glasgow e Liverpool percorreram a Argentina e copiaram os modelos dos ponchos santiaguinos e cordoveses e dos artigos de couro de Corrientes, além dos estribos de madeira “ao uso do país”. Os ponchos argentinos valiam sete pesos, os de Yorkshire, três. A indústria têxtil mais desenvolvida do mundo triunfava a galope contra as tecelagens nativas, e outro tanto ocorria com a produção de botas, esporas, relhos, freios e até pregos para ferraduras. A miséria assolou as províncias do interior argentino, que prontamente se insurgiram contra a ditadura do porto de Buenos Aires. Os principais mercadores (Escalada, Belgrano, Pueyrredón, Vieytes, Las Heras, Cerviño) haviam empolgado o poder que fora arrebatado à Espanha [9] e o comércio lhes oferecia a possibilidade de comprar sedas e facas inglesas, panos de Louviers, tecidos finos de Flandres, sabres suíços, gim holandês, presunto de Westfalia e charutos de Hamburgo. Em troca, a Argentina exportava couro, sebo, ossos, carne salgada, e os pecuaristas da província de Buenos Aires aumentavam seus mercados graças ao livre comércio. O cônsul inglês no Prata, Woodbine Parish, descrevia em 1837 para um gordo gaúcho dos pampas: “Todas as peças da tua roupa e, exceto o que for de couro, tudo o que está ao teu redor: há alguma coisa que não seja inglesa? Se tua mulher tem uma saia, há dez possibilidade contra uma que tenha sido fabricada em Manchester. A chaleira e a panela em que vocês cozinham, a louça em que comem todos os dias, a faca, as esporas, o freio, o poncho que agasalha, todos são artigos trazidos da Inglaterra” [10]. A Argentina trazia da Inglaterra até as pedras das calçadas. Aproximadamente na mesma época, James Watson Webb, embaixador dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, relatava: “Em todas as fazendas do Brasil, os amos e seus escravos se vestem com manufaturas do trabalho livre, e nove décimos desses produtos são ingleses. A Inglaterra provê o capital necessário para os melhoramentos internos do Brasil e fabrica todos os utensílios de uso corrente, da enxada para cima, e quase todos os artigos de luxo ou de uso prático, desde o alfinete ao mais caro vestido. A cerâmica inglesa, os artigos ingleses de vidro, ferro e madeira são tão comuns quanto os panos de lã e tecidos de algodão. A Grã- Bretanha fornece ao Brasil seus barcos a vapor e a vela, faz o calçamento e arruma as ruas, ilumina com gás as cidades, constrói as ferrovias, explora suas minas, é o seu banqueiro, estende seus fios telegráficos, faz o transporte postal, constrói seus móveis, motores, vagões (...)” [11]. A euforia da livre importação enlouquecia os mercadores dos portos; naqueles anos, o Brasil recebia também ataúdes, já forrados e prontos para receber os mortos, selas de montaria, candelabros de cristal, caçarolas e até patins para gelo, de uso mais do que improvável nas ardentes costas do trópico; também carteiras, embora ainda não existisse no Brasil o papel-moeda, e uma quantidade inexplicável de instrumentos de matemática [12]. O Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810 atribuía à importação de produtos ingleses uma tarifa menor do que a aplicada aos produtos portugueses, e seu texto tinha sido tão precariamente traduzido que a palavra policy, por exemplo, em português passou a significar polícia em vez de política [13]. Os ingleses gozavam no Brasil do direito de justiça especial, que os subtraía da jurisdição da justiça nacional: o Brasil era “um membro não oficial do império econômico da Grã- Bretanha”. [14]

[9] LEVENE, Ricardo. Introducción a Documentos para la historia argentina, 1919. In: Obras completas. Buenos Aires, 1962.
[10] PARISH, Woodbine. Buenos Aires y las provincias del Río de la Plata. Buenos Aires, 1958.
[11] SCHILLING, Paulo. Brasil para extranjeros. Montevideo, 1966.
[12] MANCHESTER, Alan K. British preeminence in Brazil: its rise and decline. Chapel Hill, North Carolina, 1933.
[13] FURTADO, Celso. Formación económica del Brasil. México; Buenos Aires, 1959.
[14] NORMANO, J. F. Evolução econômica do Brasil. São Paulo, 1934.

     Em meados do século, um viajante sueco chegou a Valparaíso e foi testemunha da dissipação e da ostentação que a liberdade de comércio facilitava ao Chile. Ele escreveu: “A única forma de se mostrar superior é submeter-se aos ditames das revistas da moda de Paris, ao fraque preto e todos os acessórios que lhe correspondem (...). A senhora compra um elegante chapéu que a faz sentir-se uma consumada parisiense, enquanto o marido coloca um duro e alto gravatão e se considera no pináculo da cultura europeia” [15]. Três ou quatro casas inglesas tinham açambarcado o mercado do cobre chileno, e manejavam os preços segundo os interesses das fundições de Swansea, Liverpool e Cardiff. Em 1838, o cônsul-geral da Inglaterra informava ao seu governo sobre o “prodigioso incremento” das exportações do cobre, que era transportado “principalmente, se não completamente, em barcos britânicos ou a serviço de britânicos” [16]. Os comerciantes ingleses monopolizavam o comércio em Santiago e Valparaíso, e o Chile, em ordem de importância para os produtos ingleses, era o segundo mercado latino americano.

[15] EYHAUT, Gustavo. Raíces contemporáneas de América Latina. Buenos Aires, 1964.
[16] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Historia del imperialismo en Chile. Santiago do Chile, 1960.

     Os grandes portos da América Latina, escalas de trânsito das riquezas extraídas do solo e do subsolo destinadas a longínquos centros de poder, consolidavam-se como instrumentos de conquista e dominação contra os países aos quais pertenciam, e eram os drenos por onde se escoava a renda nacional. Os portos e as capitais queriam se parecer com Paris ou Londres, e na retaguarda tinham o deserto.

continua na página 288...
____________________
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência (1)
Segunda Parte: As dimensões do infanticídio industrial (2)
_____________________________

o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?