Terceira Parte - Mário
Em todas as suas provações sentia-se alentado e às vezes impelido por uma oculta
força que lhe vinha de dentro. A alma ajuda o corpo e chega mesmo algumas vezes a
ampará-la. É a única ave que sustenta a gaiola em que está encerrada.Livro Quinto — Excelência do Infortúnio
II — Mário pobre
Sucede com a miséria como sucede com tudo. Chega esta a tornar-se possível; vem a
tomar forma e a arredondar-se, e por fim, vegetamos, quer dizer, vivemos como que
entorpecidos, mas não privados inteiramente de sentimento.
Eis de que modo Mário conseguira regular a sua existência.
O desfiladeiro em que ele caíra ia gradualmente alargando. A poder de trabalho, de
coragem, de perseverança e vontade, chegara a realizar setecentos francos por ano.
Aprendera o alemão e o inglês e auxiliado por Courfeyrac, que o relacionara com o
livreiro seu amigo, Mário representava na literatura-livraria o modesto papel de
utilidade. Fazia prospectos, traduzia jornais, anotava edições, compilava biografias, etc.,
produto líquido, uns anos por outros, setecentos francos, com os quais passava menos
mal, como vamos dizer.
Mário ocupava no casebre Gorbeau um cubículo sem fogão, arvorado em gabinete,
pelo qual pagava trinta francos de renda, e em que, quanto a móveis, só havia os
indispensáveis, que eram propriamente dele. Dava três francos por mês à velha principal
locatária para lhe varrer o quarto e levar-lhe todos os dias pela manhã uma pouca de
água quente, um ovo e um pão de um soldo, em que consistia o seu almoço, cujo preço
variava de três a quatro soldos, conforme os ovos estavam, caros ou baratos. As seis
horas da tarde saía e ia jantar ao Rousseau, na rua de S. Jacques, defronte de Basset,
com loja de estampas à esquina da rua dos Mathurins. Não comia sopa. Pedia uma ração
de carne de seis soldos, meia ração de legumes, que custava três, e por igual quantia tinha a sobremesa. Pão, por três soldos tinha quanto pudesse comer. Quanto a vinho,
em vez dele, bebia água. Depois dirigia-se ao mostrador, ao qual se achava
majestosamente sentada Madame Rousseau, nesse tempo ainda gorda e fresca; pagava,
dava um soldo ao criado, recebia um sorriso de Madame Rousseau e saía. Por dezesseis
soldos tinha pois o mancebo um sorriso e um jantar.
O restaurante Rousseau, onde se esvaziavam tão poucas garrafas de vinho e tantas de
água, era mais um calmante do que um restaurante. Já não existe. O dono tinha a
engraçada alcunha de Rousseau o aquático.
Deste modo, jantando por dezesseis soldos e almoçando por quatro, ficava-lhe o dia
por vinte soldos, que perfaziam a quantia de trezentos e sessenta e cinco francos por
ano. Acrescente-se a isto os trinta francos da renda da casa e os trinta e seis à velha, e
mais algumas despesas miúdas, e ver-se-á que Mário por quatrocentos e cinquenta
francos tinha casa, criada e comida. Em roupa e calçado gastava cento e cinquenta
francos, a lavadeira ficava-lhe por cinquenta, o que dava tudo um total de seiscentos e
cinquenta francos, ficando-lhe ainda um resto de cinquenta francos. Era rico, portanto,
achando-se em circunstâncias de poder emprestar dez francos a um amigo se este lhe pedisse. Uma vez chegara a emprestar sessenta francos a Courfeyrac. Quanto à despesa
com o fogão, como não o tinha, eliminara essa verba.
Mário tinha sempre dois vestuários completos: um mais velho «para o uso ordinário»,
outro novo para as ocasiões extraordinárias. Eram ambos pretos. Camisas tinha três: a
que trazia no corpo, uma que tinha guardada e outra na lavadeira. Conforme as ia
rompendo, assim as ia renovando. Como, porém, nenhuma delas deixava de estar mais
ou menos rota, abotoava o casaco até ao pescoço para não se ver.
Para Mário chegar a esta florescente situação levou anos. Anos rudes, cheios de
dificuldades e provações. O mancebo, porém, nem um só dia desanimara, sofrendo toda
a qualidade de privações, resignando-se a tudo, menos a contrair dívidas. Quando volvia
os olhos para o seu passado, sentia prazer em poder asseverar que nunca devera um
soldo a ninguém. Na sua opinião, uma dívida era um princípio de escravidão, e ainda ia
mais longe: dizia ele que um credor é pior que um senhor, porque um senhor possui
apenas a pessoa do escravo, enquanto que o credor possui a dignidade do devedor e
pode esbofeteá-la. Antes de se resolver a pedir emprestada qualquer soma, primeiro
esgotaria o mancebo todos os recursos, sujeitando-se mesmo a passar sem comer. Dias
sem comer passara ele muitos. Conhecendo que todos os extremos se tocam e que, se
não há a devida cautela, a falta de meios pode levar a falta de honra, tinha todo o
cuidado em conservar intacta a sua. Às vezes uma fórmula, um passo que em qualquer
outra situação lhe teria parecido uma deferência, afigurava-se-lhe uma baixeza, e o
mancebo não se resolvia a pô-la em prática. Para se não ver forçado a recuar, não se
aventurava coisa nenhuma. No rosto de visava-se-lhe um rubor severo. A sua timidez
tocava as raias da intratabilidade.
Ao lado do nome de seu pai, Mário tinha gravado no coração outro nome o nome de
Thenardier. O mancebo, dotado de uma natureza entusiástica e arrojada, cercava de
uma espécie de auréola o homem a quem, no seu conceito, devia a vida de seu pai, o
intrépido sargento que salvara o coronel no meio das granadas de Waterloo. Não
separava nunca a recordação desse homem da de seu pai, associando-se ambas na sua
veneração. Era uma espécie de culto em dois altares, o mais alto para o coronel, o mais
baixo para Thenardier. O que ainda mais aumentava a intensidade dos seus sentimentos
de gratidão para com aquele homem era a lembrança do infortúnio de que ele sabia que
Thenardier era vítima. Mário soubera em Montfermeil, quando ali foi indagar da
existência do estalajadeiro, da sua quebra e desaparecimento. Depois fizera todos os
esforços possíveis para dar com ele no tenebroso abismo da miséria, em que ele caíra.
Mário percorreu toda a localidade; foi a Chelles, a Bondy, a Gournay, a Nogent, a Lagny.
Durante três anos não afrouxou do seu propósito, gastando nessas pesquisas o pouco
dinheiro, fruto das suas economias. Nem uma só pessoa, porém, encontrou que lhe
desse novas de Thenardier, todos eram de opinião que o estalajadeiro se tinha retirado
para algum país estrangeiro. Os credores também o tinham procurado com menos amor
do que Mário, porém com a mesma insistência, e não tinham conseguido dar com ele.
Mário acusava-se e lançava em rosto a si próprio não ter tirado resultado nenhum das
suas investigações. Era a única dívida que o coronel lhe deixara para pagar, e por isso o
mancebo julgava que era da sua honra solvê-la.
— Pois quê! — dizia ele consigo. — Quando meu pai jazia moribundo no campo de
batalha, Thenardier soube dar com ele por entre o fumo e o granizo das balas, e levá-lo
às costas para lugar seguro, sem nada lhe dever; e eu, que devo tanto a Thenardier, não
hei-de dar com ele por entre a escuridão em que agoniza, para também o arrancar à
morte e restituí-lo à vida? Oh, hei-de dar com ele!
Mário, efetivamente, de bom grado teria dado um braço para o encontrar e todo o
seu sangue para o arrancar da miséria. Encontrar Thenardier, prestar-lhe um serviço de
qualquer qualidade, dizer-lhe: «Você não me conhece, mas conheço-o eu. Aqui estou,
disponha de mim!» Era o mais doce e magnífico sonho de Mário.
continua na página 513...
______________
Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
_________________________
Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - II — Mário pobre
_______________________
Victor Hugo
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira