terça-feira, 11 de agosto de 2026

Moby Dick: 72 - A corda de macaco

Moby Dick

Herman Melville

72 - A corda de macaco

     No trabalho tumultuado de cortar e de cuidar da baleia, há muita correria de lá para cá em meio à tripulação. Ora os marinheiros são necessários em um lugar, ora são chamados em outro lugar. Ninguém para em lugar algum; pois tudo tem de ser feito ao mesmo tempo e em toda parte. Acontece o mesmo com quem pretende descrever a cena. É preciso que voltemos um pouco. Foi mencionado que antes de começar a cortar o dorso da baleia se coloca um gancho no buraco original feito pelas pás dos imediatos. Mas como se pode fixar o gancho no buraco de um volume tão desajeitado e pesado? Ele foi colocado ali pelo meu dileto amigo Queequeg, cujo dever, como arpoador, era subir no dorso do monstro com o referido propósito. Mas em muitos casos as circunstâncias exigem que o arpoador permaneça na baleia até que a operação de despelar e de esfolar termine. A baleia, bom que se observe, está quase inteiramente submersa, salvo as partes nas quais se está trabalhando. Ali, portanto, a dez pés abaixo do nível do convés, o pobre arpoador mal se sustenta, parte sobre a baleia e parte na água, enquanto a enorme massa se revolve como um moinho abaixo dele. Nessa presente ocasião, Queequeg vestia roupas da Highland – uma saia e meias– nas quais aos meus olhos, pelo menos, parecia insolitamente elegante; e ninguém teve oportunidade melhor de observá-lo, como se verá em seguida.
     Sendo o proeiro do selvagem, ou seja, o sujeito que manobrava o remo de proa em seu bote (o segundo da frente para trás), era meu prazeroso dever ajudá-lo em sua difícil escalada sobre o dorso da baleia morta. Você já viu meninos italianos tocadores de realejo segurando um macaquinho com um cordão comprido. Do mesmo jeito, do costado íngreme do navio, segurei Queequeg lá embaixo no mar, por meio do que, na pescaria, é tecnicamente chamado de corda de macaco, presa a um cinto de lona forte amarrado ao redor de sua cintura.
     Era uma tarefa engraçada e perigosa para nós dois. Pois, antes de prosseguir, é preciso dizer que a corda de macaco estava presa às duas extremidades; presa ao cinto largo de lona de Queequeg e presa ao meu cinto estreito de couro. De modo que, para o bem ou para o mal, nós dois, naquele momento, estávamos unidos; e caso o coitado do Queequeg afundasse para não voltar mais, tanto o costume quanto a honra exigiam que, em vez de cortar a corda, ela deveria me arrastar junto a ele. Assim, portanto, uma alongada ligadura Siamesa nos unia. Queequeg era meu inseparável irmão gêmeo; nem podia eu, de forma alguma, livrar-me das perigosas responsabilidades que o liame de cânhamo envolvia.
     De modo tão intenso e metafísico eu compreendia minha situação que, enquanto vigiava diligentemente seus movimentos, parecia perceber com clareza que minha própria individualidade havia se fundido com outra numa sociedade conjunta de ações: que meu livre-arbítrio recebera um golpe mortal; e que o erro ou azar do outro poderia me dragar, um inocente como eu, para um desastre ou morte imerecida. Consequentemente, vi que aquilo era uma espécie de interregno da Providência; pois sua justiça sempre presente jamais poderia ter sancionado uma injustiça tão flagrante. E seguindo adiante em meus pensamentos – enquanto às vezes o puxava de entre a baleia e o navio, que ameaçava esmagá-lo –, repito, seguindo adiante em meus pensamentos, percebi que essa minha situação era rigorosamente igual à de todo mortal que respira; apenas, na maioria dos casos, de um modo ou de outro ele tem essa ligação Siamesa com vários outros mortais. Se seu banqueiro falir, você quebra; se seu boticário por engano colocar veneno em suas pílulas, você morre. Claro, você pode achar que, com extremo cuidado, possivelmente se escapa dessas e de uma infinidade de outras fatalidades da vida. Mas, mesmo lidando tão cuidadosamente com a corda de macaco de Queequeg quanto possível, às vezes ele lhe dava trancos tão fortes que fiquei muito perto de cair para fora do barco. Tampouco podia esquecer que, fizesse o que fosse, eu tinha apenas o controle de uma das suas pontas.¹

[1] Todos os navios baleeiros têm cordas de macacos, mas apenas no Pequod o macaco e seu auxiliar ficavam amarrados dessa forma. O aperfeiçoamento do costume original foi feito por ninguém menos do que Stubb, para proporcionar ao arpoador em perigo uma garantia quanto à fidelidade e à vigilância de seu auxiliar com a corda. [N. A.]

     Antes dei a entender que tinha de puxar com frequência o coitado do Queequeg de entre a baleia e o navio – onde vez por outra caía por conta do incessante balançar e rolar de ambos. Mas esse não era o único risco de ser esmagado a que estava exposto. Em nada amedrontados pelo massacre perpetrado à noite, os tubarões, refeitos em suas forças e ainda mais atraídos pelo sangue outrora encerrado que começava a fluir da carcaça as furiosas criaturas se aglomeravam em torno da carcaça como abelhas em torno da colmeia.
     E bem no centro desses tubarões estava Queequeg; que muitas vezes tentava afastá-los batendo com seus pés instáveis. Uma coisa incrível é que, se não atraído por uma presa como uma baleia morta, o de outro modo ecumenicamente carnívoro tubarão raras vezes ataca o homem.
     Não obstante, pode-se bem acreditar que, uma vez que tivessem se posto ali com tanta voracidade, seria prudente ficar bem atento a eles. Portanto, além da corda de macaco, com a qual vez por outra eu puxava o pobre coitado para afastá-lo das imediações de uma goela que pudesse pertencer a um tubarão especialmente feroz – ele ainda dispunha de outra proteção. Suspensos junto ao costado numa das plataformas, Tashtego e Daggoo brandiam sem parar duas afiadas pás de baleia sobre sua cabeça, com as quais abatiam tantos tubarões quantos pudessem alcançar. Era certo que tal gesto viesse da benevolência e da abnegação desses homens. Eles queriam o bem de Queequeg, tenho de concordar; mas em sua ânsia precipitada de ajudá-lo, e porque Queequeg e os tubarões, por vezes, ficavam às vezes meio escondidos na água turvada de sangue, aquelas suas pás imprudentes pareciam mais propensas a amputar uma perna do que uma cauda. Mas ao coitado do Queequeg, imagino eu, arfando e entregando toda sua força àquele gancho de ferro imenso – ao coitado do Queequeg, imagino eu, só lhe restou rezar para seu Yojo e entregar a própria vida às mãos de seus deuses.
     Bem, bem, meu dileto amigo e irmão gêmeo, pensei eu, enquanto trazia e então lentamente soltava a corda a cada onda do mar – o que importa, afinal de contas? Você não é a preciosa imagem de todos nós, homens, nesse mundo baleeiro? O oceano insondável no qual você está ofegante é a Vida; aqueles tubarões, seus inimigos; aquelas pás, seus amigos; e entre tubarões e pás você está em aperto e apuro, meu pobre rapaz.
     Mas, coragem! Um estoque de alegria ainda te aguarda, Queequeg. Pois quando, de lábios azuis e olhos vermelhos de sangue, o exausto selvagem por fim subiu pelas correntes, ele inteiro pingando e tremendo sobre o costado; o camareiro avança, e com um olhar benevolente e consolador lhe oferece – O quê? Um conhaque quente? Não! Ó, deuses, não! Ele lhe oferece uma xícara de gengibre quente com água!

“Gengibre? É cheiro de gengibre?”, perguntou Stubb, desconfiado, aproximando-se. “Sim, deve ser gengibre”, espiando a ainda intocada xícara. Depois, parado por uns instantes como se não acreditasse, seguiu calmamente na direção do camareiro estupefato dizendo-lhe pausadamente: “Gengibre? Gengibre? Quer ter a bondade de me explicar, senhor Dough-Boy, de que serve o gengibre? Gengibre! Seria o gengibre uma espécie de combustível que se usa, Dough-Boy, para acender o fogo desse canibal trêmulo? Gengibre! – Que diabos vem a ser o gengibre? Carvão do mar? – Lenha? – Fósforos de Lúcifer? – Isca? – Pólvora? – O que vem a ser esse gengibre, repito, que você oferece a este nosso coitado Queequeg?”.
“Há um movimento dissimulado da Sociedade da Abstinência nisso”, acrescentou de repente, aproximando-se de Starbuck, que acabava de chegar da proa. “O senhor poderia dar uma olhada nesta kannakin; por favor, sinta o cheiro.” Depois, observando a expressão do oficial, acrescentou: “Senhor Starbuck, o camareiro teve o desplante de oferecer calomelano com jalapa ao Queequeg, aqui, neste instante saído da baleia. Seria o camareiro um boticário, senhor? Posso saber se isso é um tipo de fole com o qual espera trazer de volta a respiração de um homem que quase se afogou?
“Não creio que seja”, disse Starbuck, “é muito pouca coisa.”
“Sim, sim, camareiro”, gritou Stubb, “vamos lhe ensinar como medicar um arpoador; nada desses seus remédios de boticário aqui; queres nos envenenar, não é? Tens apólices de seguro sobre nossas vidas e quer nos assassinar a todos para embolsar a grana, não é?”
“Não fui eu!”, gritou Dough-Boy, “Foi a tia Charity que trouxe o gengibre a bordo; e ordenou-me que nunca desse álcool aos arpoadores, apenas um trago de gengibre – como ela mesma disse.”
“Trago de gengibre! Seu tratante de gengibre! Toma isto! Corre para os armários e me traz algo melhor. Espero não estar errado, senhor Starbuck. São ordens do capitão – grog para o arpoador que vier da baleia.”
“Basta”, respondeu Starbuck, “não batas nele outra vez, senão –”
“Oras, eu nunca machuco quando bato, a não ser que seja uma baleia ou algo parecido; esse sujeito é uma fuinha. O que o senhor dizia?”
“Apenas isto: desce com ele e pega o que tu queres.”

     Quando Stubb voltou, veio com um frasco escuro numa mão, e uma espécie de caixa de chá na outra. O primeiro continha uma bebida forte e foi entregue a Queequeg; a segunda era o presente de tia Charity, que foi oferecido gratuitamente às ondas.

continua na página 351...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 70 - A esfinge / 71 - A história de Jerobão / 72 - A corda de macaco /                                
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

Tchekhov - A dama do cachorrinho (IV)

 A dama do cachorrinho e outras histórias


Anton Tchekhov


A dama do cachorrinho

IV

     Ana Sierguéievna passou a viajar a Moscou, para vê-lo. Cada dois, três meses, saía de S., dizendo ao marido que ia consultar um professor de Medicina sobre sua doença de senhora, e o marido acreditava e não acreditava ao mesmo tempo. Em Moscou, hospedava-se no "Bazar Eslavo" e, logo após sua chegada, mandava um recado a Gurov, por um homem de chapéu vermelho. Gurov ia vê-la e ninguém em Moscou sabia disso.
     Certa manhã de inverno, ele estava indo assim a seu encontro (o criado que lhe fora levar o recado na véspera, ao anoitecer, não o encontrara). A filha caminhava ao lado, pois ele quisera levá-la ao colégio, que ficava a caminho. Caía uma neve graúda, molhada.

- Temos três graus acima de zero e, no entanto, cai neve - dizia Gurov à filha. - Mas este calor existe somente na superfície da terra, nas camadas superiores da atmosfera há uma temperatura bem inferior.
- Papai, e por que não há trovões no inverno?

     Explicou-lhe isso também. Enquanto falava, pensava em que estava indo para uma entrevista de amor e que nem viva alma sabia disso e, provavelmente, jamais o saberia. Tinha duas vidas: uma, aparente, que viam e conheciam todos os que o queriam, repassada de verdade e de mentiras convencionais, completamente semelhante às vidas de seus conhecidos e amigos, e outra que decorria em segredo. E por um estranho, talvez casual, acúmulo de circunstâncias, tudo o que era para ele importante, interessante, indispensável, aquilo em que ele era sincero e não enganava a si mesmo, o que constituía o cerne de sua vida, ocorria às ocultas dos demais, enquanto tudo o que formava a sua mentira, a membrana exterior, em que se escondia, para ocultar a verdade, como, por exemplo, seu trabalho no banco, as discussões no clube, a "raça inferior", a ida com a mulher aos espetáculos comemorativos, tudo isso era aparente. E julgava os outros por si mesmo, não acreditava no que via, e sempre supunha que em cada homem decorre, sob o manto do mistério, como sob o manto da noite, a sua vida autêntica e mais interessante. Cada existência individual baseia-se no mistério e talvez seja, em parte, esta a razão por que o homem culto se afana tão nervosamente para ver respeitado o mistério individual.
     Tendo acompanhado a filha ao colégio, Gurov dirigiu-se ao "Bazar Eslavo". Tirou a peliça, subiu a escada e bateu mansamente na porta. Ana Sierguéievna, que estava com o vestido cinzento da predileção de Gurov, esperava-o desde a tarde anterior, estava cansada da viagem e da espera. Pálida, olhou-o sem sorrir e, mal ele entrou no quarto, ela se atirou a seu peito. O beijo que se deram foi prolongado, como se não se tivessem visto uns dois anos.

- Bem, como vai a tua vida lá?- perguntou ele. Que há de novo?
- Espere, vou dizer daqui :a pouco... Não posso.

     Ela não podia falar, devido às lágrimas. Virou a cabeça e apertou o lenço contra os olhos.
     
"Bem, que chore um pouco; enquanto isso, vou ficar sentado aí", pensou ele e sentou-se numa poltrona.

     Depois, tocou a campainha e mandou trazer chá. Enquanto o tomava, ela continuava de pé, a cabeça voltada para a janela... Chorava de emoção, da consciência angustiosa de que a vida deles dispusera-se de modo tão triste; viam-se apenas em segredo, escondiam-se das pessoas, como ladrões! Não estava destruída a vida de ambos?

- Ora, basta!- disse Gurov.

     Era evidente, para ele, que aquele amor não acabaria logo. Ana Sierguéievna afeiçoava-se a ele com intensidade crescente, adorava-o e seria inconcebível dizer-lhe que tudo aquilo deveria ter fim, um dia; aliás, ela nem acreditaria nisso.
     Aproximou-se dela, segurou-lhe os ombros, para acarinhá-la e gracejar um pouco e, naquele momento, viu-se no espelho.
     A cabeça dele já estava começando a ficar grisalha. Pareceu-lhe estranho que, nos últimos anos, tivesse envelhecido tanto e ficado mais feio. Os ombros, em que haviam pousado as mãos dele, eram cálidos e estremeciam. Compadeceu-se daquela vida, que era ainda tão tépida e bonita, mas que, provavelmente, estava próxima de empalidecer e fanar-se, como a vida dele. Por que ela o amava assim? Ele sempre parecera às mulheres uma pessoa diferente daquela que era na realidade e elas amavam nele não a sua própria pessoa, mas um homem criado pela imaginação e que elas procuravam sequiosamente na vida; depois, percebido o engano, continuavam, todavia, a amá-lo. E nenhuma delas fora feliz com ele. O tempo passava, Gurov travava relações, unia-se a mulheres, separava-se delas, mas nenhuma vez amara, aquilo podia ser tudo, menos amor.
     E somente agora, quando sua cabeça já estava grisalha, ele amava devidamente, verdadeiramente, pela primeira vez na vida.
     Ana Sierguéievna e ele amavam-se como gente próxima e querida, como marido e mulher, como dois ternos amigos. Parecia-lhes que o próprio fado destinara-os um ao outro e era incompreensível por que ele estava casado e ela também. Lembravam dois pássaros de arribação, macho e fêmea, caçados e obrigados a viver em gaiolas separadas. Perdoaram um ao outro tudo aquilo de que se envergonhavam em seu passado, perdoavam-se tudo no presente e sentiam que aquele amor os transformara.
     Anteriormente, nos momentos de tristeza, ele procurara consolar-se com toda espécie de reflexões, mas agora afastava-as, sentia uma profunda compaixão, queria ser sincero, carinhoso...

- Basta, minha boa, menina. - dizia ele - Chorou e chega... Vamos agora conversar, ver se nos ocorre alguma ideia.
- Corno? Como?- perguntava ela, pondo as mãos à cabeça. - Como?

     Tinham a impressão de que mais um pouco encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.

(1899)
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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV).     

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (VII. Uma controvérsia)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
VII
UMA CONTROVÉRSIA
  
     Ora, a burra de Balaão pôs-se a falar de repente e a respeito de um tema estranho. De manhã, achando se Gregório na venda do comerciante Lukiánov, ouviu-o contar o seguinte: um soldado russo foi feito prisioneiro, numa região afastada, por asiáticos que o intimaram, sob ameaça de tortura e morte, a abjurar o cristianismo e a converter-se ao Islão. Tendo recusado trair sua fé, sofreu o martírio, deixou-se esfolar, morreu glorificando o Cristo. Esse fim heroico era relatado no jornal recebido naquela mesma manhã. Gregório falou disso à mesa. 
     Fiódor Pávlovitch sempre gostara, à sobremesa, de brincar e tagarelar, mesmo com Gregório. 'Estava desta vez de humor jovial, sentindo um relaxamento agradável. 
     Depois de ter escutado a notícia, bebericando seu conhaque, insinuou que deveriam ter canonizado aquele soldado e transferido sua pele para um mosteiro. "O povo cobri-la-ia de dinheiro." Gregório fechou a cara, vendo que Fiódor Pávlovitch, longe de se emendar, continuava a zombar das coisas santas.
     Naquele momento, Smierdiákov, que se mantinha perto da porta, sorriu. Já antes era muitas vezes admitido na sala de jantar, ao fim da refeição. Desde a chegada de Ivã Fiódorovitch, ali comparecia quase diariamente.

— Pois bem? O quê? — perguntou Fiódor Pávlovitch, compreendendo que aquele sorriso visava a Gregório.
— Penso naquele bravo soldado — disse, de repente, Smierdiákov, em voz alta. — Seu heroísmo é sublime, mas na minha opinião não teria havido, em semelhante caso, nenhum pecado em renegar o nome do Cristo e o batismo, para assim salvar sua vida e consagrá-la às boas obras, que resgatariam um momento de fraqueza.
— Como, nenhum pecado? Mentes; isto te valerá ir para o inferno, onde te assarão como a um carneiro — replicou Fiódor Pavlovitch.

     Foi então que chegou Aliócha, para grande satisfação de Fiódor Pavlovitch, como se viu.

— Trata-se de teu tema favorito — continuou ele, com um riso de escárnio, fazendo Aliócha sentar-se.
— Tolices tudo isso, não haverá nenhuma punição, não deve haver, em toda justiça — afirmou Smierdiákov.
— Como em toda justiça? — exclamou Fiódor Pavlovitch, redo- brando de alegria e empurrando Aliócha com os joelhos.  
— Um desavergonhado, eis o que ele é! — deixou escapar Gregório, fitando Smierdiákov com cólera. 
— Quanto a isso de desavergonhado, refreie-se, Gregório Vassílievitch! — replicou Smierdiákov, conservando seu sangue-frio. — Pense antes que, caído em poder dos que torturam os cristãos, e intimado por eles a maldizer o nome de Deus e renegar meu batismo, minha própria razão me autoriza a isso plenamente, porque não pode haver aí nenhum pecado. 
— Já o disseste, não divagues, mas prova-o! — gritou Fiódor Pavlovitch. 
— Queima-panelas! — murmurou Gregório com desprezo.
— Queima-panelas, espere um pouco, e sem palavrões, julgue você mesmo, Gregório Vassílievitch. Porque, logo que dissesse a meus carrascos: "Não, não sou cristão e maldigo o verdadeiro Deus", tornar-me-ia anátema aos olhos da justiça divina, seria separado da santa Igreja, como um pagão, de sorte que, no instante mesmo, não de proferir essas palavras, mas de pensar em proferi-las, estou excomungado, não é verdade, sim ou não, Gregório Vassílievitch? — Smierdiákov dirigia-se com satisfação visível a Gregório, embora respondendo somente às perguntas de Fiódor Pavlovitch; dava-se perfeitamente conta disso, mas fingia crer que era Gregório quem lhe fazia tais perguntas. 
— Ivã! — exclamou Fiódor Pavlovitch. — Chega perto de meu ouvido. Toda essa peroração dele é para ti, quer receber teus elogios. Dá- lhe esse prazer.

     Ivã ouviu com grande seriedade a observação de seu pai.

— Espera um minuto, Smierdiákov — continuou Fiódor Pavlovitch. — Ivã, aproxima-te de novo.

     Ivã inclinou-se, sempre com o mesmo ar sério.

— Amo-te tanto quanto a Aliócha. Não vás crer que não te amo. Um pouco de conhaque?

— De boa vontade. "Tu pareces já ter passado da conta", disse Ivã a si mesmo, fitando o pai. Observava Smierdiákov com extrema curiosidade.
— Já és agora maldito e anátema — explodiu Gregório — e como ousas, depois disso, desavergonhado, discutir se...
— Nada de injúrias, Gregório, acalma te! — interrompeu-o Fiódor Pavlovitch.
— Tenha paciência, Gregório Vassílievitch, ainda que seja um momentinho, e continue a escutar, porque ainda não acabei. No momento em que renego a Deus, nesse instante mesmo, tornei-me uma espécie de pagão, meu batismo apagou-se e não conta para nada, não é bem isto?
— Apressa-te em concluir, meu caro — estimulou-o Fiódor Pávlovitch, bebericando, deleitado.
— Ora, se não sou mais cristão, não menti então aos meus carrascos, quando perguntaram: "És cristão ou não?", porque já estava "descristianizado" pelo próprio Deus, em consequência apenas de minha intenção e antes de ter aberto a boca. Ora, se estou decaído, como e com que direito me pedirão contas no outro mundo, na qualidade de cristão, por ter abjurado o Cristo, quando, pela simples premeditação, já teria sido desbatizado? Se não sou mais cristão, não posso mais abjurar o Cristo, porque isto já estaria feito. Quem pois, mesmo no céu, pedirá contas a um tártaro pagão por não ter nascido cristão e quem quererá puni-lo? Não diz o provérbio que não se deverá esfolar duas vezes o mesmo touro? Se o Todo-Poderoso exige contas a um tártaro, por ocasião de sua morte, suponho que o punirá levemente (não podendo absolvê-lo totalmente), estimando não ser culpa dele o ter nascido pagão, de pais que o eram. Será que o Senhor pode pegar à força um tártaro e dizer dele que era cristão? Seria o mesmo que dizer então que o Todo-Poderoso profere uma verdadeira mentira. Ora, pode ele mentir, ele que reina sobre a terra e nos céus, ainda mesmo por uma só de suas palavras? Gregório ficou estupefato e examinou o orador, de olhos escanca- rados. Embora não compreendendo bem do que se tratava, apanhara uma parte daquele galimatias e assemelhava-se a um homem que dera com a cabeça de encontro a um muro.

     Fiódor Pávlovitch acabou de beber seu copinho e explodiu numa risada aguda. 

— Aliócha, Aliócha, que homem! Ah! o casuísta! Deve ter frequentado os jesuítas, em algum lugar, Ivã, Tresandas a jesuíta, quem pois te instruiu? Mas tu mentes desavergonhadamente, casuísta, tu divagas. Não te desoles, Gregório, vamos reduzi-lo a pó. Responde a isto, burra: tens razão perante teus carrascos, seja, mas abjuraste a fé em teu coração e dizes tu mesmo que foste logo atingido de anátema. Ora, como tal, não te passarão a mão pelos cabelos no inferno. Que pensas disso, meu bom padre jesuíta? 
— É fora de dúvida que abjurei em meu coração, no entanto não há nisso nenhum pecado especialmente, quando muito um pecado dos mais veniais.
— Como? Dos mais veniais?
— Mentes, maldito! — murmurou Gregório. 
— Julgue você mesmo, Gregório Vassílievíich — continuou comedidamente Smierdiákov, consciente de sua vitória, mas fazendo-se de generoso para com um adversário abatido —, julgue você mesmo; está dito na Escritura que se tiverdes fé, ainda que seja do tamanho de um grão de mostarda, disserdes a uma montanha que se precipite no mar, ela irá, sem nenhuma demora, assim que derdes a primeira ordem. Pois bem, Gregório Vassilievitch, se não sou crente e se você o é, a ponto de me invectivar sem cessar, tente você mesmo dizer a essa montanha que vá, não para o mar (porque está ele muito longe daqui), mas mesmo para aquele riacho infecto que corre por trás de nosso jardim, e verá logo que ela não se moverá e que não haverá mudança alguma, por mais que você grite. Ora, isto significa que você não crê da maneira que convém, Gregório Vassílievitch, e que, em compensação, você invectiva os outros. Suponhamos ainda que ninguém, em nossa época, não somente você, mas ninguém decididamente, desde as pessoas mais altamente colocadas até o derradeiro mujique, possa empurrar as montanhas para o mar, a não ser um homem no mundo inteiro, dois quando muito, ainda assim talvez aqueles que tratam de sua salvação, ocultamente, no deserto do Egito e que não podem ser encontrados. Se assim é, se todos os outros são incréus, será possível que estes, isto é, a população do mundo inteiro, com exceção dos dois anacoretas, sejam amaldiçoados pelo Senhor, e que não perdoe ele a nenhum, dada a sua misericórdia bem conhecida? De modo que espero que minhas dúvidas me serão perdoadas, quando derramar lágrimas de arrependimento.
— Espera! — guinchou Fiódor Pávlovitch, no cumulo do entusiasmo. — De modo que supões que há dois homens capazes de mover montanhas? Ivã, nota esse detalhe, nota bem. O homem russo inteiro está aí!
— O senhor notou com bastante justeza que é esse um sinal da fé popular — disse Ivã Fiódorovitch, com um sorriso de aprovação.
— Estás de acordo? É então verdade, já que estás de acordo. É exato, Aliócha? Assemelha-se isso perfeitamente à fé russa?
— Não, Smierdiákov não tem de todo a fé russa — declarou Aliócha, num tom sério e firme. 
— Não falo de sua fé, mas desse detalhe, desses dois anacoretas, nada mais do que esse detalhe: não é bem russo?
— Sim, esse detalhe é perfeitamente russo — aprovou Aliócha, sorrindo.
— Essa frase merece 1 ducado, burra, e eu te enviarei hoje mesmo, mas quanto ao resto tu mentes, tu divagas; fica sabendo, imbecil, que neste mundo todos nós não cremos somente por frivolidade, mas porque falta tempo; os negócios nos absorvem, os dias só têm 24 horas, não temos tempo não só de nos arrependermos, mas de dormir à vontade. Mas tu, tu abjuraste diante dos carrascos, quando não tinhas de pensar senão em tua fé e que era preciso justamente testemunhá-la! Isto constitui um pecado, meu caro, penso eu!  
— Decerto, constitui um, mas um pecado venial, julgue você mesmo, Gregório Vassílievitch. Porque se tivesse eu então crido na verdade, como importa crer nela, teria sido verdadeiramente um pecado não sofrer o martírio e converter-me à maldita religião de Maomé. Mas não teria sofrido o martírio, porque me bastaria dizer àquela montanha: marcha e esmaga o carrasco, para que ela se pusesse logo em movimento e o esmagasse como a uma barata, e ter-me-ia retirado como se de nada se tratasse, glorificando e louvando a Deus. Mas, se naquele momento já o tivesse tentado e gritado à montanha: esmaga os carrascos, sem que ela me obedecesse, como então, diga-me, não teria eu duvidado naquela hora terrível de pavor mortal? Fora isto, já sei que não obterei inteiramente o reino dos céus (porque se a montanha não se moveu à minha voz é que minha fé não goza de muito crédito lá em cima e que a recompensa que me espera no outro mundo não é bastante elevada); por que, pois, ainda por cima, deixar-me-ia esfolar sem nenhum proveito? Porque, mesmo esfolado até a metade das costas, minhas palavras ou meus gritos não deslocariam aquela montanha. Num tal minuto, não somente a dúvida pode invadir-nos, mas o medo pode tirar-nos a razão e impedir-nos de decidir. Por consequência, sou tão culpado assim, se salvo pelo menos a pele, não vendo em parte alguma um proveito ou uma recompensa? Assim, confiante na misericórdia divina, espero ser inteiramente perdoado... 

continua na página 190...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 3 - A partir desse dia)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
3

     A partir desse dia, transformaram-se completamente nossa vida e nossas relações. Não sentíamos o mesmo prazer de outrora em ficar a sós. Havia problemas que evitávamos com circunlóquios, e conversávamos mais facilmente em presença de um terceiro. Apenas se abordava a nossa vida na roça ou num baile, ficávamos atordoados e com vergonha de olhar um para o outro. Era como se ambos sentíssemos o lugar onde ficava o abismo que nos separava, e temêssemos aproximar nos dele. Eu estava certa de que ele era orgulhoso e irritadiço e que devia tomar cuidado, a fim de não tocar nas suas fraquezas. Ele tinha certeza de que eu não podia viver longe da sociedade, que a vida rural não me aprazia e que era preciso submeter-se a este gosto infeliz. Ambos evitávamos conversas diretas sobre esses temas, e fazíamos juízo falso um sobre o outro. Havia muito tempo já que deixáramos de ser um para o outro a pessoa mais perfeita do mundo, já fazíamos comparações com gente conhecida e, em segredo, julgávamos um ao outro. Fiquei adoentada antes do dia da partida e, em lugar de irmos para o campo, mudamo-nos para nossa casa de veraneio, nas proximidades, de onde meu marido viajou sozinho para junto da mãe. Quando ele estava de partida, eu já me restabelecera o suficiente para acompanhá-lo, mas ele convenceu-me a ficar ali, como se temesse pela minha saúde. Percebi que o seu temor não era pela saúde, mas que estava com medo de que não viveríamos bem no campo; não insisti muito e fiquei. Na sua ausência, senti vazio e solidão, mas, quando voltou, percebi que ele não acrescentava mais à minha vida o que lhe acrescentara outrora. As nossas relações de antes, quando todo pensamento ou impressão não comunicados a ele pesavam-me como um crime, quando toda ação, toda palavra dele pareciam-me um exemplo de perfeição, quando, de alegria, dava-nos vontade de rir, ao olharmo-nos, essas relações transformaram se tão imperceptivelmente que nem o notamos. Apareceram para cada um de nós interesses e preocupações próprios, específicos, e que não tentávamos mais fazer comuns. Deixou de confundir-nos o fato de cada um ter o seu mundo isolado, estranho para o outro. Acostumamo-nos com esta ideia, e um ano depois até deixamos de ficar atordoados, quando nos encarávamos. Desapareceram completamente os seus acessos de alegria na minha presença, o comportamento juvenil, desapareceram o seu perdão e indiferença em relação a tudo, que antes me indignavam, não lhe apareceu mais o olhar profundo que, antes, sempre me deixava confusa e me alegrava, sumiram as orações, os êxtases em comum, deixamos até de ver-nos com frequência, ele estava continuamente de viagem, e não temia, não lamentava deixar-me sozinha; eu aparecia continuamente na sociedade, onde não precisava dele. 
     Não havia mais entre nós cenas e desavenças, eu procurava agradar lhe, ele satisfazia todas as minhas vontades, e parecíamos amar-nos.
     Quando ficávamos a sós, o que já acontecia raramente, eu não experimentava alegria, nem perturbação, nem encabulamento, como se estivesse a sós comigo mesma. Eu sabia muito bem que ele era o meu marido, não algum homem novo, desconhecido, mas um homem bom, o meu marido, que eu conhecia como a mim mesma. Estava certa de saber tudo o que ele faria e diria, e como olharia; e se ele fazia algo ou olhava de maneira diversa da que eu esperava, tinha a impressão de que fora ele quem se enganara. Não esperava dele nada. Numa palavra, era meu marido e nada mais. Parecia-me que tudo devia ser assim mesmo, que não existiam relações de outro tipo e que elas nunca existiram entre nós. Quando ele partia, sobretudo nos primeiros tempos, eu me sentia solitária, assustava-me, na sua ausência sentia mais intensamente a significação do seu apoio para mim; quando ele chegava, atirava-me de alegria ao seu pescoço, embora duas horas depois esquecesse completamente essa alegria e não tivesse mais o que falar com ele. Apenas nos momentos de uma ternura quieta, moderada, que havia entre nós, eu tinha a impressão de que algo não estava bem, que algo me machucava o coração, e parecia-me ler o mesmo nos seus olhos. Eu sentia essa fronteira da ternura que ele agora como que não queria, e que eu não podia transpor. Isso entristecia-me às vezes, mas não havia tempo para se ficar pensando fosse no que fosse, e eu procurava esquecer essa tristeza da mudança confusamente percebida, entregando-me a divertimentos que estavam continuamente à minha disposição. A vida de sociedade, que a princípio me deixou ofuscada com o brilho e com as lisonjas ao amor-próprio, logo apossou-se totalmente dos meus gestos, tornou-se um hábito, impôs-me suas cadeias e ocupou em minha alma todo o lugar disponível ali para o sentimento. Agora, nunca mais ficava a sós comigo mesma e temia pensar na minha situação. Todo o meu tempo, desde tarde da manhã até tarde da noite, estava ocupado e não me pertencia, mesmo que eu não saísse de casa. Isto não me alegrava nem entediava mais, mas dava a impressão de que tudo sempre devia ser assim e não de outra maneira.
     Passaram-se três anos, no decorrer dos quais as nossas relações permaneceram as mesmas, como que se detiveram, estratificaram-se, e não podiam já tornar-se melhores ou piores. Nesses três anos, houve em nossa vida familiar dois acontecimentos importantes, mas que não alteraram a minha existência. Foram o nascimento de meu primeiro filho e a morte de Tatiana Siemiônovna. Nos primeiros tempos, o sentimento maternal apossou-se de mim com tamanha força e causou-me um êxtase tão inesperado que eu pensei estar em vias de iniciar-se para mim uma vida nova; mas, decorridos dois meses, quando tornei a frequentar a sociedade, este sentimento, diminuindo sempre, transformou-se num hábito e na fria execução de um dever. O meu marido, pelo contrário, por ocasião do nascimento de nosso primeiro filho, voltou a ser o homem tranquilo, pacato e caseiro de antes e transferiu para a criança toda a sua ternura e alegria de outros tempos. Muitas vezes, ao entrar de vestido de baile no quarto da criança, a fim de fazer sobre esta o sinal da cruz, antes que adormecesse, e encontrando ali meu marido, eu notava o seu olhar como que de censura e severamente atento, fixo em mim, e ficava envergonhada. Horrorizava-me de repente com a minha indiferença pela criança e perguntava de mim para mim: “Serei eu pior que as outras mulheres? Mas o que fazer? Amo o meu filho, mas não posso ficar sentada com ele dias a fio, tenho tédio; e de modo algum vou fingir”. A morte da mãe causou-lhe grande aflição; conforme dizia, era lhe penoso, depois disso, viver em Nikólskoie, e embora eu a lastimasse e partilhasse o desgosto do meu marido, era-me agora mais agradável, mais tranquilo, viver no campo. Passamos a maior parte daqueles três anos na cidade, eu ia à aldeia somente por dois meses, e no terceiro ano viajamos para o estrangeiro.
     No verão íamos a estações de águas.
     Eu tinha então vinte e um anos, as nossas finanças, pensava, eram florescentes, e da vida familiar eu não exigia nada além daquilo que ela me dava; todos os nossos conhecidos pareciam gostar de mim; tinha boa saúde, os meus vestidos eram os melhores na estação de águas, eu sabia que era bonita, o tempo estava lindo, cercava-me uma atmosfera de elegância e beleza e eu me sentia muito alegre. Não era a mesma alegria que em Nikólskoie, quando eu sentia ser feliz no próprio imo, feliz por ter merecido essa felicidade, que o meu sentimento era grande, mas devia ser ainda maior, quando sentia desejar mais e mais felicidade. Então, era outra coisa; mas, mesmo nesse verão, eu me sentia bem. Não queria nada, não esperava nada, não temia nada, minha vida, parecia me, estava repleta, e minha consciência parecia tranquila. Entre a mocidade dessa estação não havia nenhum homem que eu distinguisse dos demais de algum modo, ou mesmo do velho príncipe K., nosso embaixador, e que me fazia a corte. O jovem e o velho, o inglês muito louro e o francês de barbicha, todos eram iguais para mim, mas todos indispensáveis. Eram todos vultos por igual indiferentes, que formavam a alegre atmosfera de vida ao redor de mim. Apenas um deles, o marquês italiano D., chamou minha atenção mais que os restantes, graças à ousadia com que expressou o seu entusiasmo por mim. Não perdia nenhuma ocasião de estar comigo, de dançar, de passear comigo a cavalo, de acompanhar-me ao cassino etc. e de dizer-me que eu era bela. Vi-o da janela algumas vezes, nas proximidades de nossa casa, e o olhar fixo, frequentemente desagradável, dos seus olhos brilhantes obrigava me a enrubescer e a desviar o rosto. Era moço, bonito, elegante e, sobretudo, lembrava o meu marido pelo sorriso e pela expressão da fronte, embora fosse muito mais belo. Ele espantava-me com esta semelhança, ainda que tivesse de modo geral, nos lábios, no olhar, no queixo comprido, em lugar da encantadora expressão de bondade e de tranquilidade ideal de meu marido, algo animal e grosseiro. Eu supunha então que ele me amasse apaixonadamente, e pensava nele às vezes, com uma orgulhosa comiseração. Queria às vezes acalmá-lo, levá-lo a um tom de confiança tranquila, meio amigável, mas ele repelia abruptamente todas essas tentativas e continuava a perturbar-me desagradavelmente com a sua paixão inconfessada, mas sempre pronta a confessar-se. Embora não desse conta disso a mim mesma, eu temia aquele homem e, contra a minha vontade, pensava nele com frequência. O meu marido conhecia-o e tratava-o com frieza e altivez, de maneira ainda mais acentuada do que em relação aos nossos demais conhecidos, para os quais ele era apenas o marido de sua mulher. No fim da estação, adoeci e passei duas semanas sem sair de casa. Quando, depois da doença, saí pela primeira vez à noitinha a fim de ouvir música, soube que, na minha ausência, chegara Lady S., havia muito esperada e famosa pela sua beleza. Formou-se junto a mim um círculo, fui recebida com satisfação, mas o círculo formado junto à leoa recém-chegada era ainda melhor. À minha volta, todos só falavam dela e da sua beleza. Ela me foi mostrada, e realmente era encantadora, mas impressionou-me desfavoravelmente a presunção em seu rosto, e eu disse isto. Nesse dia, pareceu-me aborrecido tudo o que antes era tão alegre. No dia seguinte, Lady S. organizou uma excursão a um castelo, mas recusei-me a participar. Quase ninguém ficou para me fazer companhia, e tudo se alterou definitivamente aos meus olhos. Tudo e todos me pareceram estúpidos e enfadonhos, quis chorar, terminar o quanto antes a cura de águas e regressar à Rússia. Tinha no íntimo certo sentimento mau, mas eu ainda não o confessava a mim mesma. Alegando que estava fraca, deixei de aparecer em sociedade numerosa, somente de manhã ia de raro em raro tomar as águas, sozinha, ou visitava as redondezas, na companhia de L. M., uma russa minha conhecida. Meu marido fora passar alguns dias em Heidelberg, onde esperaria o fim de meu tratamento, a fim de voltarmos para a Rússia, e raramente vinha visitar-me.
     De uma feita, Lady S. atraiu toda a sociedade para uma caçada e, depois do jantar, L. M. e eu fomos visitar o castelo. Enquanto avançávamos a passo em nossa caleça, sobre a estrada tortuosa de macadame, em meio aos castanheiros seculares, entre os quais se viam ao longo as bonitas e elegantes redondezas de Baden-Baden, iluminadas pelo poente, começamos a conversar a sério, como jamais o fizéramos. L. M., que eu conhecia desde muito tempo, apareceu-me então pela primeira vez como uma mulher boa, inteligente, com quem se podia falar a respeito de tudo e de quem era agradável ser amiga. Falamos de família, de filhos, do vazio daquela vida na estação de águas, tivemos vontade de voltar para a Rússia, para a aldeia, e sentimos ao mesmo tempo tristeza e bem-estar. Sob o influxo deste mesmo sentimento sério, penetramos no castelo. Entre os seus muros, havia sombra, frescor; em cima, sobre as ruínas, cintilava o sol, ouviam-se passos e vozes. Pela porta, como se fosse moldura, via-se o panorama de Baden, belo, mas frio para nós, russos. Sentamo-nos para descansar e olhamos em silêncio o sol que se punha. As vozes ressoaram com maior nitidez, e eu tive a impressão de distinguir o meu sobrenome. Comecei a prestar atenção e involuntariamente ouvi tudo o que se dizia. As vozes eram conhecidas: tratava-se do marquês D. e de um francês, seu amigo, e que eu conhecia também. Falavam de mim e de Lady S. O francês comparava-me com ela e pormenorizava a beleza de ambas. Não dizia nada de ofensivo, mas o sangue afluiu-me ao coração, quando distingui as suas palavras. Explicava minuciosamente o que eu tinha de bonito e o que havia de bonito em Lady S. Eu tinha já um filho, e Lady S. estava com dezenove anos; eu tinha trança mais bela, mas, em compensação, Lady possuía um vulto mais gracioso; Lady era uma grande dama, enquanto esta “sua — disse ele — é mais ou menos uma dessas princesinhas russas que deram para aparecer aqui com tanta frequência”. Concluiu dizendo que eu fazia muito bem não tentando lutar com Lady S., e que em Baden-Baden, eu estava morta e enterrada.

— Tenho pena dela. 
— Só se ela não quiser consolar-se com você — acrescentou ele, com um riso alegre e cruel. 
— Se ela partir daqui, vou segui-la — disse rudemente uma voz com sotaque italiano. 
— Que feliz mortal! Ele ainda pode amar! — riu o francês. 
— Amar! — disse a voz e calou-se um pouco. — Eu não posso deixar de amar! Sem isto, não há vida. Fazer da vida um romance é o que pode haver de bom. O meu romance nunca se interrompe no meio, e também este eu hei de levar ao fim. 
— Bonne chance, mon ami¹ — disse o francês.

[1] Em francês no original: “Boa sorte, meu amigo”. (N. do T.)

     Não ouvimos mais nada, pois eles dobraram uma esquina, e os seus passos ressoaram do outro lado. Desciam a escada e, instantes mais tarde, surgiram por uma porta lateral e ficaram muito surpreendidos ao encontrar-nos. Corei quando o marquês D. aproximou-se de mim e fiquei com medo quando, ao sairmos do castelo, ele me deu o braço. Não podia recusá-lo, e dirigimo-nos para a caleça, seguindo L. M., que ia na frente com o amigo dele. Eu estava ofendida com o que dissera de mim o francês, embora tivesse consciência, secretamente, de que ele apenas nomeara o que eu mesma sentia; mas as palavras do marquês surpreenderam-me e deixaram-me indignada com a sua brutalidade. Atormentava-me o pensamento de que eu ouvira as suas palavras e que, apesar disso, ele não me temia. Tinha asco de senti-lo tão perto; e, sem olhar para ele, sem lhe responder, procurando segurar o braço de modo a não sentir o contato, caminhei apressada atrás de L. M. e do francês. O marquês dizia algo sobre a vista magnífica, sobre a felicidade inesperada de me encontrar e alguma coisa mais, porém eu não o ouvia. Nessa ocasião, pensava em meu marido, no filho, na Rússia; envergonhava-me de algo, queria algo, e apressava-me para chegar o quanto antes ao meu quarto solitário no Hôtel de Bade, a fim de refletir bem, em liberdade, em tudo o que acabara de se levantar em meu íntimo. Mas L. M. caminhava suavemente, ainda estávamos longe da caleça, e o meu cavalheiro, parecia-me, diminuía obstinadamente o passo, como que tentando deter-me. “Não pode ser!” — pensei e apressei-me decididamente. Mas sem dúvida alguma ele me retinha, e até me apertava o braço. L. M. dobrou uma curva da estrada e ficamos completamente a sós. Tive medo.

— Desculpe — disse eu com frieza e tentei retirar o braço, mas a renda da minha manga prendeu-se num botão dele. O marquês inclinou para mim o peito, pôs-se a separar a manga do botão, e os seus dedos sem luva tocaram-me o braço. Um sentimento novo para mim, não sei se de horror, não sei se de prazer, percorreu-me frígido a espádua. Olhei-o, a fim de expressar com um olhar frio todo o desprezo que sentia por ele; porém o meu olhar expressou outra coisa: susto e perturbação. Os seus olhos incendiados, úmidos, bem junto ao meu rosto, olhavam-me apaixonados, o meu pescoço, o meu peito, as suas mãos mexiam em meu braço, pouco acima do punho, os seus lábios abertos diziam algo, diziam que ele me amava, que eu era tudo para ele, e esses lábios aproximavam-se de mim, as suas mãos apertavam-me os braços com mais força e queimavam-me. O fogo percorria-me as veias, minha visão obscurecia-se, eu tremia, e as palavras, com que eu queria detê-lo, secavam-se na garganta. De repente, senti um beijo sobre a face e, toda trêmula e fria, estaquei, olhando para ele. Sem forças para falar, nem para me mexer, horrorizada, eu esperava e desejava algo. Tudo isso durou um instante. Mas esse instante foi terrível! Nesse instante, eu o via inteiro e tão bem. O seu rosto era tão compreensível para mim: essa testa abrupta e baixa, que lhe aparecia sob o chapéu de palha e que lembrava a testa de meu marido, esse nariz bonito, reto, de narinas dilatadas, esses bigodes compridos, untados, em ponta, essa barbicha, essas faces bem escanhoadas e esse pescoço queimado.

     Odiava-o e temia-o, ele me era tão estranho; mas, nesse momento, repercutiam tão fortemente em meu íntimo a perturbação e a paixão desse homem odioso, estranho para mim! Eu queria tão incoercívelmente entregar-me aos beijos dessa boca rude e bonita, ao carinho dessas mãos brancas de veias finas e com anéis nos dedos. Tinha tanta vontade de me atirar de cabeça no abismo de repente aberto, e que me atraía, o abismo das delícias proibidas...

“Sou tão infeliz — pensei —, pois bem, que mais e mais desgraças se acumulem sobre a minha cabeça.”

     Ele me envolveu com um dos braços e abaixou-se para o meu rosto. “Que mais e mais vergonha e pecado se acumulem sobre a minha cabeça.”

Je vous aime² — murmurou ele com uma voz que era tão parecida com a voz de meu marido. Lembrei-me de meu marido e do filho como criaturas queridas, que tivessem existido havia muito tempo e com as quais eu tivesse acabado qualquer relação. Mas eis que ressoou além da curva a voz de L. M., que me chamava. Voltei a mim, desvencilhei o braço e, sem olhar para ele, quase corri na direção de L. M. Sentamo-nos na caleça e somente então olhei-o. Tirara o chapéu e perguntava algo, sorrindo. Não compreendia a repugnância inexprimível que eu sentia por ele nesse instante.

[2] Em francês no original: “Eu te amo”. (N. do T.)

     Minha vida pareceu-me tão infeliz, o futuro tão sem esperança, o passado tão negro! L. M. falava comigo, mas eu não compreendia suas palavras. Tinha a impressão de que ela falava comigo unicamente por compaixão, a fim de ocultar o desprezo que eu suscitava nela. Em cada palavra, em cada olhar seu, eu parecia perceber esse desprezo e uma comiseração ofensiva. Aquele beijo queimava-me a face com a vergonha, e era insuportável para mim a lembrança de meu marido e do filho. Ficando sozinha no quarto, eu esperava refletir sobre a minha situação, mas tinha medo de estar sozinha. Não acabei de tomar o chá que me serviram, e, eu mesma sem saber para quê, com uma pressa febril, pus-me no mesmo instante a arrumar as malas para viajar naquela noite para Heidelberg, a fim de reunir-me a meu marido.
     Quando me sentei com a empregada no vagão vazio, quando o trem partiu e recebi ar fresco pela janela, comecei a voltar ao normal e a representar melhor, para mim mesma, meu passado e meu futuro. Toda a minha vida de casada, desde o dia de nossa mudança para Petersburgo, apareceu-me de repente sob uma luz nova e depositou-se sobre a minha consciência como uma censura. Pela primeira vez, lembrei vivamente os nossos primeiros tempos na aldeia, os nossos projetos, pela primeira vez surgiu-me na cabeça a pergunta: quais foram, afinal, as alegrias dele no decorrer de todo esse tempo? E me senti culpada perante ele. “Mas por que ele não me deteve, por que foi insincero comigo, por que evitou explicações, por que me ofendeu? — perguntei a mim mesma. — Por que não utilizou sobre mim o poderio do seu amor? Ou não me amava?” Mas, por mais culpa que ele tivesse, o beijo de um homem estranho estava ali sobre a minha face, e eu o sentia. Quanto mais eu me aproximava de Heidelberg, mais nitidamente imaginava o meu marido e tanto mais terrível me parecia a próxima entrevista. “Vou dizer-lhe tudo, tudo, resgatarei tudo perante ele com lágrimas de arrependimento — pensei — e ele há de me perdoar.” Mas eu mesma não sabia o que era aquele “tudo” que eu lhe diria, e não acreditava em que ele me perdoasse.
     Mas apenas entrei no quarto de meu marido e vi o seu rosto tranquilo, ainda que surpreendido, senti que não tinha nada a dizer-lhe, não tinha o que confessar nem motivo para lhe pedir perdão. A aflição inconfessada e o arrependimento deviam conservar-se dentro de mim.

— Como foi que tiveste esta ideia? — disse ele. — Imagina que eu pretendia ir amanhã para junto de ti. — Mas, examinando mais de perto o meu rosto, pareceu assustar-se. — O que tens? O que te aconteceu? 
— Nada — respondi, mal contendo as lágrimas. — Vim de vez. Vamos para casa, para a Rússia, nem que seja amanhã.

     Olhou-me bastante tempo, em silêncio e com atenção.

— Mas conta-me o que te aconteceu. — disse.

     Corei sem querer e baixei os olhos. Nos dele faiscou um sentimento de ofensa e ira. Assustei-me com os pensamentos que podiam acudir-lhe à mente, e disse com uma força de fingimento que nem suspeitava em mim:

— Não aconteceu nada, apenas senti tristeza e tédio sozinha, e pensei muito em ti e em nossa vida em comum. Faz tanto tempo que sou culpada diante de ti! Por que viajas comigo para lugares que não te atraem? Faz muito tempo que sou culpada diante de ti — repeti, e lágrimas voltaram-me aos olhos. — Vamos para a roça, e que seja para sempre.
— Ah! meu bem, livra-me de cenas sentimentais — disse ele com frieza —, é excelente que tu queiras ir para a roça, inclusive porque estamos com pouco dinheiro; mas, quanto a viver lá para sempre, é apenas um sonho. Eu sei que não vais tolerar. E agora, toma o teu chá, isto será melhor — concluiu, erguendo-se para chamar o garção.

     Eu imaginava tudo o que ele podia estar pensando a meu respeito, e ofendi-me com os pensamentos terríveis que atribuí a ele, quando encontrei, fixo em mim, o seu olhar indeciso e como que envergonhado. Não! Ele não queria e não podia compreender-me! Eu disse que ia olhar a criança, e afastei-me dele. Tive vontade de ficar sozinha e chorar, chorar, chorar...


Continua na página 101...
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Primeira Parte:
Segunda Parte: 
3 - A partir desse dia / 
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Prologo e Dedicatoria

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Prologo

     Era por uma d'essas tardes em que o azul do céu oriental — é pallido e saudoso, em que o rumor do vento nas vergas — é monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio — é queixoso e tetrico.
     Das bandas do occidente o sol se atufava nos mares "como um brigue em chammas"... e d'aquelle vasto incêndio do crepúsculo alastrava-se a cabeça loura das ondas.
      Além... os cerros de granito d'essa formosa terra de Guanabara, vacillantes, á luctarem com a onda invasora de azul, que descia das alturas... recortavam-se indecisos na penumbra do horisonte.
     Longe, inda mais longe... os cimos phantasticos da serra dos Órgãos embebiam-se na distancia, su miam-se, abysmavam-se n'uma espécie de naufrágio celeste. 
     Só e triste, encostado á borda do navio, eu seguia com os olhos aquelle esvaecimento indefinido e mi nha alma apegava-se á forma vacillante das montanhas — derradeiras atalaias dos meus arraiaes da mocidade.  
     E' que lá d'essas terras do sul, para onde eu levara o fogo de todos os enthusiasmos,. o viço de todas as illusões, os meus vinte annos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de gloria e de futuro;... é que d'essas terras do sul, onde eu penetrara "como o moço Raphael subindo as escadas do Vaticano;"... volvia agora silencioso e alque brado... trazendo por única ambição — a esperança de repouso em minha pátria.
     Foi então que, em face d'estas duas tristezas — a noite que descia dos céus, — a solidão que subia do oceano —, recordei-me de vós, ó meus amigos!
     E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem se quer a lembrança d'esta alma, que comvosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara...
     O' espíritos errantes sobre a terra! O' velas enfunadas sobre os mares!... Vós bem sabeis quanto sois ephemeros... — passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
     E quando — comediantes do infinito — vos obumbraes nos bastidores do abysmo, o que resta de vós?

— Uma esteira de espumas... — flores perdidas na vasta indifferença do oceano. — Um punhado de versos... — espumas fluctuantes no dorso fero da vida!... 

     E o que são na verdade estes meus cantos?...
     Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, elles são filhos da musa — este sopro do alto; do coração — este pelago da alma.
     E como as espumas são, ás vezes, a flora sombria da tempestade, elles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do latego da desgraça.
     E como também o aljofre dourado das espumais reflecte as opalas, rutilantes do arco-iris, elles por acaso reflectiram o prisma phantastico da ventura ou do enthusiasmo — estes signos brilhantes da alliança de Deus com a juventude!
     Mas, como as espumas fluctuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lagrima saudosa do marujo... possam elles, ó meus amigos! — ephemeros filhos de minh'alma — levar uma lembrança de mim ás vossas plagas!...

S. Salvador — Fevereiro de 1870. 
 CASTRO ALVES. 


DEDICATÓRIA

 A pomba d'alliança o vôo espraia 
 Na superfície azul do mar immenso, 
 Rente... rente da espuma já desmaia 
 Medindo a curva do horizonte extenso... 
 Mas um disco se avista ao longe... 
A praia Rasga nitente o nevoeiro denso!... 
O' po.uso! ó monte! ó ramo de oliveira!
Ninho amigo da pomba forasteira!...

Assim, meu pobre livro as asas larga 
 N'este oceano sem fim, sombrio, eterno... 
 O mar atira-lhe a saliva amarga, 
 O céu lhe atira o temporal de inverno... 
 O triste verga á tão pesada carga! 
 Quem abre ao triste um coração paterno?... 
 E' tão bom ter por arvore — uns carinhos! 
 E' tão bom de uns affectos — fazer ninhos!

Pobre orphão! Vagando nos espaços 
 Embalde ás solidões mandas um grito! 
 Que importa? De uma cruz ao longe os braços 
 Vejo abrirem-se ao misero precito... 
 Os túmulos dos teus dão-te regaços! 
 Ama-te a sombra do salgueiro afflicto... 
 Vai, pois, meu livro! e como louro agreste 
 Traz'-me no bico um ramo de... cypreste! 

 Bahia., Janeiro de 1870. 
Espumas Fluctuantes, Edição original, I.

continua página 59...
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921