segunda-feira, 20 de julho de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Contragolpe e medo de mandar

Elias Canetti

A ORDEM

     Contragolpe e medo de mandar

          Uma ordem é como uma flecha. Ela é disparada e acerta. O mandatário faz pontaria antes de dispará-la. Ele irá acertar um alvo muito determinado com sua ordem; e a flecha também sempre tem uma direção que foi previamente escolhida.
     A ordem permanece cravada em quem foi atingido; este precisa extraí-1a e atirá-la por sua vez para livrar-se de sua ameaça. Na verdade o processo da transmissão de ordens se desenvolve como se o destinatário extraísse a ordem de si mesmo, retesasse seu próprio arco e voltasse a disparar outra vez a mesma a qual foi atingido. A ferida no seu próprio corpo sara deixando porém uma cicatriz. Cada cicatriz tem uma história e a marca deixada por uma determinada flecha.
     Mas o mandatário que dispara a flecha percebe um ligeiro contragolpe ao fazê-lo. O próprio efeito, por assim dizer, o contragolpe psíquico, ele o sente quando percebe que atingiu o alvo. Neste ponto termina a analogia com a flecha física. Mas é muito mais importante observar as marcas que o disparo bem-sucedido deixa no atirador contente.
     A satisfação pelas ordens cumpridas, ou seja, pelas ordens dadas com êxito, engana em grande parte sobre o que acontece com o atirador. Existe sempre como que a percepção de um contragolpe; o que a pessoa fez fica também estampado nela, não apenas na vítima. Muitos contragolpes se acumulam dando origem ao medo. Trata-se de um tipo especial de medo aquele que resulta da frequente repetição de ordens; por este motivo prefiro denominá-lo o medo de mandar. Ele é menor na pessoa que apenas transmite ordens. É tanto maior quanto mais perto esteja quem dá as ordens da fonte de mando propriamente dita.
     Não é difícil compreender como se produz este medo de mandar. Um disparo que mata um ser isolado não deixa após si perigo algum. O morto já não nos pode causar mal algum. Uma ordem que ameaça de morte, mas que apesar disso não mata, deixa a recordação da ameaça. Algumas ameaças se perdem e outras atingem o alvo; são justamente estas que jamais são esquecidas. Quem fugiu perante a ameaça ou quem cedeu a ela certamente irá se vingar. Pessoas nestas situações sempre se vingam quando chega o momento adequado e aquele de quem partiu a ameaça tem plena consciência disso; ele precisa fazer tudo o que lhe for possível para impedir que ocorra uma inversão dos papéis.
     Há um sentimento de perigo que consiste em saber que todo aquele a quem se deram ordens, a quem se ameaçou de morte, vive e se recorda; nesse perigo se sentiria alguém, se todos os que foram ameaçados de morte se unissem contra ele. Trata-se de um sentimento profundamente motivado, que no entanto é impreciso porque nunca se sabe quando os ameaçados passarão da lembrança para a ação. Este torturante, inesgotável e ilimitado sentimento de perigo eu defino como medo de mandar.
     Ele é tanto maior quanto mais elevada for a posição da pessoa. Na fonte da ordem, na pessoa que dá as ordens a partir de si mesma, que não as recebe de qualquer outra pessoa, que por assim dizer gera as próprias ordens, a concentração do medo de mandar alcança sua densidade máxima. Esse medo pode permanecer durante muito tempo domesticado e oculto nos detentores do poder. Ele pode ir aumentando no decorrer da vida de um governante, e manifestar-se numa espécie de delírio cesarista.

continua ...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

Edgar Allan Poe - Contos: William Wilson (b)

Edgar Allan Poe - Contos


William Wilson 

Que dizer dela? que dizer da austera consciência, 
Esse espectro em meu caminho? 
Chamberlain, Pharronida
continuando...

     Foi sem dúvida o anômalo estado de coisas existente entre nós que conduziu todos os meus ataques contra ele (e eram muitos, abertos ou disfarçados) pela senda da pilhéria ou da piada de mau gosto (provocando dor sob o pretexto do mero gracejo), e não de uma hostilidade mais grave e determinada. Mas meus esforços nesse sentido de modo algum conheciam sucesso uniforme, mesmo quando meus planos eram concebidos com a mais espirituosa das verves; pois meu homônimo tinha, em seu caráter, muito dessa austeridade despretensiosa e tranquila que, embora apreciadora da pungência de suas próprias piadas, jamais exibe seu calcanhar de Aquiles e se recusa absolutamente a ser ela própria objeto de zombaria. Eu de fato não conseguia encontrar senão um único ponto vulnerável, e este, residindo numa peculiaridade pessoal, oriunda, talvez, de uma enfermidade constitucional, teria sido poupada por qualquer antagonista menos falto de recursos como era o meu caso; — meu rival possuía uma debilidade no aparelho faucal ou gutural que o impedia completamente de erguer a voz acima de um sussurro baixo. Desse defeito eu não deixava de tirar toda mísera vantagem que estivesse em meu alcance.
     As retaliações de Wilson na mesma moeda eram muitas; e havia um procedimento de seu humor ferino que me transtornava além da medida. Como afinal de contas teve a sagacidade de descobrir que uma coisa tão insignificante era capaz de me atormentar, eis uma questão que jamais pude resolver; mas, tendo-a descoberto, praticava habitualmente a importunação. Eu sempre sentira aversão ao meu pouco refinado patronímico, bem como ao seu comuníssimo, se não plebeu, prenome. As duas palavras eram veneno para meus ouvidos; e quando, no dia de minha chegada, um segundo William Wilson também se apresentou no internato, fiquei furioso com ele por possuir esse nome, e duplamente desgostoso com o nome porque um estranho o carregava, alguém que seria causa de sua repetição duplicada, alguém que estaria constantemente em minha presença, e cujos interesses, na rotina ordinária dos assuntos escolares, deviam inevitavelmente, por conta da detestável coincidência, ser muitas vezes confundidos com os meus.
     O sentimento de irritação assim engendrado foi ficando mais forte a cada circunstância que tendia a mostrar a semelhança, moral ou física, entre mim e meu rival. Nessa época eu ainda não descobrira o fato notável de que tínhamos a mesma idade; mas percebia que éramos da mesma altura, e me dava conta de que éramos até singularmente parecidos na figura geral de nossas pessoas e no contorno de nossas feições. Exasperava-me também o rumor no tocante a nosso parentesco, e que se tornara cada vez mais corrente nas classes mais velhas. Numa palavra, nada podia me perturbar mais seriamente (embora eu ocultasse essa perturbação com o maior escrúpulo) do que qualquer alusão a uma semelhança de espírito, figura ou condição existindo entre nós. Mas, na realidade, eu não tinha motivo para acreditar que (com exceção da questão do parentesco, e no caso do próprio Wilson) essa similaridade tivesse jamais constituído tema de comentário, nem sequer sido notada pelos nossos colegas. Que ele a notasse em todos os seus aspectos, e tão fixamente quanto eu, era óbvio; mas que ele fosse capaz de descobrir em tais circunstâncias um veio tão rico de aborrecimentos é algo que só posso atribuir, como já disse, à sua argúcia acima do normal.
     Sua deixa, que era aperfeiçoar uma imitação de mim mesmo, residia tanto em suas palavras como em suas ações; e, nesse papel, seu desempenho era dos mais admiráveis. Minhas roupas eram coisa fácil de ser copiada; de meu andar e modos gerais ele, sem dificuldade, se apropriava; a despeito de seu defeito de constituição, nem sequer minha voz lhe escapava. Meus tons mais elevados, é claro, ficavam por tentar, mas o timbre era idêntico; e assim seu sussurro singular tornou-se o puro eco do meu.
     Em que medida esse retrato sobremodo elaborado me importunava (pois não se lhe faria justiça denominá-lo de caricatura), não me arriscarei a descrever. Eu não tinha senão um consolo — o fato de que a imitação, aparentemente, era notada apenas por mim e mais ninguém, e que eu precisava aturar os sorrisos conspiratórios e estranhamente sarcásticos tão somente de meu homônimo. Satisfeito de haver produzido em meu íntimo o efeito pretendido, ele parecia rir-se em segredo da ferroada infligida, e se mostrava tipicamente desdenhoso dos louvores públicos que o triunfo de seus espirituosos esforços teria tão facilmente logrado. Que a escola, de fato, não enxergasse seu intento, percebesse sua consumação e participasse de seu escárnio foi, por muitos angustiados meses, um enigma que não pude resolver. Talvez a gradatividade de sua cópia a tornasse não tão prontamente perceptível; ou, mais possivelmente, minha segurança estivesse em débito com o proceder proficiente do copista, que, desdenhando ater-se à letra (coisa que numa pintura é tudo que os obtusos conseguem ver), não oferecia o pleno espírito de seu original senão à minha contemplação e mortificação individual.
     Já falei mais de uma vez dos repulsivos ares protetores que assumia em relação a mim, e da interferência frequente e obsequiosa com minha vontade. Essa interferência muitas vezes ganhava o caráter indesejável de um conselho; conselho não abertamente dado, mas sugerido ou insinuado. Eu recebia isso com uma aversão que ficava mais forte a cada ano que passava. E contudo, neste dia distante, que me seja permitido lhe fazer a pura justiça de admitir que não consigo me recordar de uma ocasião sequer em que as sugestões de meu rival tenderam pelo lado desses erros ou tolices tão comuns a sua idade imatura e aparente inexperiência; que seu senso moral, no mínimo, quando não seus talentos gerais e sabedoria mundana, eram de longe muito mais penetrantes que os meus; e que eu poderia, hoje, ter me constituído num homem melhor e, desse modo, mais feliz, houvesse com menos frequência rejeitado os conselhos manifestados naqueles sussurros significativos que na época com tanta veemência odiei e com tanta amargura desprezei.
     Do modo como foi, acabei por me mostrar impaciente ao extremo sob sua tutela desagradável e a me ressentir cada vez mais abertamente do que considerava sua arrogância intolerável. Afirmei anteriormente que nos primeiros anos de nossa ligação como colegas de escola meus sentimentos em relação a ele poderiam facilmente ter amadurecido em amizade; mas, nos últimos meses em que residi na instituição, embora seus habituais modos intrusivos houvessem, sem a menor sombra de dúvida, em certa medida arrefecido, meus sentimentos, em proporção quase similar, inclinaram-se em grande parte pelo positivo ódio. Em certa ocasião ele o notou, creio, e depois disso passou a me evitar, ou deu mostras de fazê-lo.
     Foi mais ou menos nesse mesmo período, se me recordo corretamente, que, no decorrer de uma discussão violenta em que ele muito contra seu feitio baixou a guarda, e falou e agiu com uma franqueza de conduta estranha a sua natureza, percebi, ou imaginei perceber, em sua pronúncia, seus modos e sua aparência geral, algo que de início me alarmou e depois me deixou vivamente interessado, ao trazer-me à mente visões turvas de minha mais tenra infância — lembranças caóticas, confusas e precipitadas de um tempo em que a própria memória ainda estava por nascer. Não posso descrever melhor a sensação que me oprimiu do que afirmando como era difícil afastar de meu espírito a crença de que já havia conhecido aquela pessoa que estava diante de mim em alguma época muitíssimo remota — algum ponto do passado, ainda que infinitamente longínquo. A ilusão, entretanto, desvaneceu tão rapidamente quanto surgiu; e não a menciono aqui senão para marcar o dia da última conversa que ali mantive com meu singular homônimo.
     A casa antiga e imensa, com suas incontáveis subdivisões, possuía diversos aposentos amplos que se comunicavam entre si, onde dormia a maior parte dos alunos. Havia, entretanto (como deve ser forçoso ocorrer em um edifício tão complicadamente projetado), muitos desvãos e recessos, os recortes supérfluos da estrutura; e esses recantos a engenhosidade econômica do dr. Bransby transformara em mais dormitórios; ainda que, por serem meros cubículos, fossem capazes de acomodar apenas um indivíduo. Um desses pequenos alojamentos era ocupado por Wilson.
     Certa noite, ao final de meu quinto ano na escola, e imediatamente após a discussão que mencionei, vendo todos dormindo a sono solto, levantei-me da cama e, luminária na mão, dirigi-me furtivamente por um labirinto de passagens estreitas de meu próprio quarto ao do meu rival. Eu vinha planejando havia muito tempo uma dessas detestáveis peças de mau gosto às suas custas em que até então conhecera um fracasso tão invariável. Era minha intenção, agora, pôr meu plano em operação, e me determinara a fazê-lo sentir toda a extensão da malevolência de que estava imbuído. Tendo chegado a seu cubículo, entrei sem o menor ruído, deixando a luminária, com um quebra-luz, do lado de fora. Avancei um passo e escutei o som de sua respiração tranquila. Convicto de que dormia, voltei, apanhei a luz e tornei a me aproximar da cama. Cortinas fechadas a cercavam, as quais, dando prosseguimento a meu intento, silenciosamente puxei, quando os raios brilhantes caíram vivamente sobre o adormecido e meus olhos, nesse mesmo momento, sobre seu semblante. Olhei; — e um entorpecimento, uma gelidez de sensações instantaneamente invadiu meu corpo. Meu peito arfou, meus joelhos vacilaram, todo o meu espírito ficou possuído de um horror inapreensível, e contudo intolerável. Ofegando sem ar, baixei a luminária numa proximidade ainda maior de seu rosto. Eram aquelas — aquelas as feições de William Wilson? Eu via, de fato, que eram as suas, mas tremi como que num acesso febril imaginando que não eram. O que havia acerca delas que me confundia dessa maneira? Olhei fixamente; — enquanto minha cabeça girava com uma miríade de pensamentos incoerentes. Não era assim que ele me parecia — certamente não assim — na vivacidade de suas horas despertas. O mesmo nome! o mesmo contorno de figura! o mesmo dia de chegada na escola! E depois sua imitação obstinada e sem sentido de meu andar, minha voz, meus hábitos, minhas maneiras! Seria de fato verdade, dentro dos limites da possibilidade humana, que o que eu agora via fosse o resultado, meramente, da prática habitual de sua imitação sarcástica? Tomado de terror, e tremendo convulsivamente, apaguei a luminária, saí silenciosamente da alcova e deixei, incontinente, as dependências do antigo ateneu para nunca mais voltar.
     Após o lapso de alguns meses, passados em casa na pura ociosidade, achei-me estudando em Eton. O breve intervalo fora suficiente para enfraquecer minha memória dos acontecimentos no colégio do dr. Bransby, ou ao menos para operar uma mudança palpável na natureza dos sentimentos com os quais eu as recordava. A veracidade — a tragédia — do drama haviam sumido. Eu podia agora encontrar ensejo para duvidar da evidência de meus sentidos; e raramente chegava mesmo a pensar no assunto, a não ser com um quê de admiração ante a amplitude da credulidade humana, e um sorriso para a vívida força de imaginação que me fora hereditariamente legada. E tampouco era provável que essa espécie de ceticismo diminuísse com o caráter da vida que eu levava em Eton. O vórtice de excessos irrefletidos em que ali tão imediata e temerariamente mergulhei tudo tragava a não ser a ebulição trivial de minhas horas anteriores, engolfando de uma só vez qualquer impressão sólida ou séria e não deixando lembrança senão das mais absolutas leviandades de uma existência precedente.
     Não desejo, entretanto, traçar aqui o curso de minha licenciosidade desprezível — licenciosidade que desafiava as leis ao mesmo tempo que iludia a vigilância da instituição. Três anos de excessos, passados sem proveito, não fizeram senão arraigar os hábitos do vício, e ampliar, em grau até certo ponto incomum, meu calibre corporal, quando, após uma semana de maquinal dissipação, convidei um reduzido grupo dos mais dissolutos alunos para uma bebedeira sigilosa em meus aposentos. Encontramo-nos a uma hora avançada da noite; pois nossa pândega deveria se prolongar religiosamente até a manhã. O vinho correu livremente, e não havia carência de outras e talvez mais perigosas seduções; de modo que a aurora cinzenta já despontava debilmente a leste quando nossa extravagância delirante encontrava-se em seu auge. Descontroladamente exaltado com as cartas e a embriaguez, eu estava prestes a insistir num brinde de profanidade mais do que costumeira quando minha atenção foi desviada pela porta do quarto sendo aberta com brusquidão, embora apenas parcialmente, e pela voz ansiosa de um criado do lado de fora. Informava-me que uma pessoa, aparentemente com grande urgência, pedia para falar comigo na entrada da casa.
     Febrilmente animado pelo vinho, a inesperada interrupção antes me alegrou do que surpreendeu. Avancei cambaleante na mesma hora e uns poucos passos me conduziram ao vestíbulo. No cômodo baixo e exíguo não havia iluminação; e nesse momento luz alguma penetrava, salvo os raios extremamente tênues da aurora filtrando pela janela semicircular. Assim que pisei na soleira, dei pela presença de um jovem mais ou menos da minha própria altura, trajado com uma sobrecasaca de casimira branca, talhada na última moda, a exemplo da que eu mesmo vestia naquele momento. Isso a luz débil possibilitou-me perceber; mas as feições de seu rosto não pude distinguir. Quando entrei, avançou rapidamente a largas passadas até mim e, segurando-me pelo braço em um gesto de impaciência insolente, sussurrou as palavras “William Wilson!” em meu ouvido.
     Fiquei perfeitamente sóbrio num instante.
     Havia qualquer coisa nos modos do estranho, e no tremor hesitante de seu dedo, conforme o erguia entre meus olhos e a luz, que me encheu de um espanto absoluto; mas não fora isso que tão violentamente me emocionara. Foi a pregnância de solene admoestação em sua elocução singular, baixa, sibilante; e, acima de tudo, o caráter, o tom, o timbre daquelas poucas sílabas simples e familiares, ainda que sussurradas, que vieram com uma miríade de lembranças precipitadas de tempos idos, e que atingiram minha alma com o choque de uma pilha galvânica. Antes que pudesse recobrar o uso de meus sentidos ele havia partido.
     Embora o episódio não deixasse de causar um vívido efeito em minha imaginação desorientada, foi contudo tão evanescente quanto vívido. Por algumas semanas, de fato, ocupei-me de zelosa indagação, ou permaneci envolto numa nuvem de mórbida especulação. Não pretendia ocultar de minha percepção a identidade do singular indivíduo que tão perseverantemente interferia com meus assuntos e importunava-me com a insinuação de seus aconselhamentos. Mas quem e o que era aquele Wilson? — e de onde vinha? — e quais eram seus propósitos? Acerca de nenhuma dessas questões pude me satisfazer; meramente constatei, em relação a ele, que um súbito acidente em sua família levara a sua saída da instituição do dr. Bransby na tarde do dia em que eu próprio fugira. Mas em curto período deixei de pensar no assunto; minha atenção ficando inteiramente absorvida nos preparativos com uma transferência para Oxford. Para lá fui em pouco tempo; a impensada vaidade de meus pais provendo-me dos meios materiais e da permanência anual que me permitiriam abandonar-me ao meu bel-prazer ao luxo já tão caro ao meu coração — rivalizar em prodigalidade de gastos com os mais altivos herdeiros dos condados mais abastados na Grã-Bretanha.
     Estimulado por tal instrumentação para o vício, o temperamento de minha constituição aflorou com ardor redobrado, e repudiei até mesmo os refreamentos comuns da decência na tresloucada paixão de minhas esbórnias. Mas seria absurdo deter-me em detalhar minhas extravagâncias. Bastará dizer que, em esbanjamentos, superei em herodianismo o próprio Herodes, e que, dando nome a uma infinitude de inovadores desvarios, aditei um apêndice nada breve ao longo catálogo de vícios então em uso na universidade mais dissoluta da Europa.
     Dificilmente se poderia crer, entretanto, que mesmo nesse momento eu descera tão abaixo de minha distinta condição a ponto de aspirar a uma familiaridade com as vis artes do jogador por profissão e, tendo me tornado adepto dessa desprezível ciência, de praticá-la habitualmente como um meio de aumentar meus já enormes proventos às custas dos mais pobres de espírito dentre meus colegas. Tal, não obstante, foi o ocorrido. E a pura enormidade dessa ofensa contra todo e qualquer sentimento de hombridade e honra se provou, sem sombra de dúvida, a principal, se não a única razão da impunidade com a qual foi cometido. Com efeito, quem dentre meus mais dissolutos companheiros não haveria preferido antes ter duvidado da clara evidência de seus sentidos a suspeitar de tais condutas, o alegre, o franco, o generoso William Wilson — o mais nobre e liberal estudante de Oxford — aquele cujas loucuras (diziam seus parasitas) nada mais eram que as loucuras da juventude e da imaginação desenfreada — cujos erros nada além de inimitável capricho — cujo vício tenebroso nada além de extravagância negligente e chique?

continua página 31...
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William Wilson (a) / William Wilson (b) /              
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 70 - A esfinge

Moby Dick

Herman Melville

70 - A esfinge

     Não deveria ter sido omitido que, antes de esfolarem por completo o corpo do Leviatã, ele havia sido decapitado. Ora, a decapitação do Cachalote é uma proeza anatômica de ordem científica, da qual os experimentados cirurgiões de baleias se orgulham muito: e não sem motivo.
     Observe que a baleia não tem nada que possa propriamente ser chamado de pescoço; pelo contrário, a região onde sua cabeça e corpo parecem se juntar, ali, naquele ponto, encontramos sua parte mais grossa. Lembre-se também de que o cirurgião tem de operar do alto, com um espaço de cerca de oito a dez pés entre ele e o paciente, e que o paciente está quase oculto no mar opaco, ondulante e muitas vezes tumultuado. Também tenha em mente que, nessas circunstâncias pouco propícias, ele tem de fazer cortes profundos na carne; e que, desse modo subterrâneo, sem poder dar uma simples olhada na incisão, em contração contínua, ele deve evitar com habilidade todas as partes adjacentes e interditadas e dividir a espinha com exatidão num ponto crucial, junto à sua inserção no crânio. Pois então, não é surpreendente que Stubb, para sua glória, precisasse de apenas dez minutos para decapitar o Cachalote?
     Assim que é cortada, a cabeça cai para trás e é segura por um cabo, até que tirem a gordura do corpo. Feito isso, se ela pertencer a uma baleia pequena, ela é pendurada no convés para que se dê cabo dela adequadamente. Mas com um grande Leviatã, isso é impossível; pois a cabeça do Cachalote ocupa cerca de um terço de seu comprimento total, e suspender um volume desses, mesmo com as imensas talhas de um navio baleeiro, seria tão inútil quanto querer pesar um estábulo Holandês com uma balança de joalheiro.
     Estando a baleia do Pequod decapitada e seu corpo esfolado, sua cabeça foi içada contra o costado do navio – onde ficou meio suspensa na água, de modo que ainda podia, em grande parte, flutuar em seu elemento natural. Ali, com a embarcação tensionada e abruptamente inclinada sobre ela, devido à enorme tração para baixo exercida pelo topo do mastro, e todos os lais de verga daquele lado projetando-se como guindastes sobre as ondas; ali, a cabeça de sangue gotejante balançava no cintado do Pequod como a do gigante Holofernes no cinturão de Judite.
     Quando esta última tarefa foi cumprida era meio-dia, e os homens do mar foram para baixo almoçar. O silêncio reinava no convés outrora tumultuado, mas agora deserto. Uma intensa tranquilidade de cobre, como um universal lótus amarelo, abria aos poucos suas silenciosas e desmesuradas folhas sobre o oceano.
     Passou-se um curto espaço de tempo, e em meio àquele silêncio Ahab saiu sozinho de sua cabine. Dando algumas voltas no tombadilho, parou para observar além do costado e então, andando devagar por entre as correntes, pegou a pá comprida de Stubb – que ainda estava lá depois da degola – e, cravando-a na parte inferior da massa meio suspensa, colocou a outra ponta embaixo do braço como uma muleta e ficou assim, apoiado, com os olhos fixos e atentos voltados para a cabeça.
     Era uma cabeça negra e encapuzada; e pendurada ali no meio de uma calmaria tão intensa, ela parecia a da Esfinge no deserto. “Fala, extraordinária e venerável cabeça”, murmurou Ahab, “que, embora não agraciada com barbas, aqui e ali apresentas o musgo respeitável; fala, cabeça poderosa, conta-nos o segredo que guardas em ti. De todos os mergulhadores, tu mergulhaste mais fundo. Essa cabeça, sobre a qual o sol lá em cima brilha, moveu-se pelas fundações deste mundo. Onde nomes e navios esquecidos enferrujam, e esperanças e âncoras perdidas apodrecem; onde, em seu porão de morte, a nau terra encontra lastro nos ossos de milhões de afogados; ali, naquele terrível mundo aquático, ali era a tua moradia mais corriqueira. Estiveste onde sino e mergulhador jamais estiveram; dormiste ao lado de muitos marinheiros, onde mães insones teriam dado a vida para repousar. Viste os amantes abraçados saltando do navio em chamas; de corações unidos eles afundaram sob a onda triunfante; fiéis um ao outro, quando o céu lhes parecia falso. Viste o oficial assassinado, quando lançado do convés pelos piratas à meia-noite; durante horas caiu na mais profunda meia-noite de sua goela insaciável; e os assassinos continuaram navegando incólumes – enquanto raios velozes destroçavam o navio vizinho que podia estar trazendo um marido fiel para braços abertos e ansiosos. Ó, cabeça! Viste o suficiente para apartar os planetas e tornar Abraão descrente, e nem uma sílaba escuto de ti!”

“Vela à vista!”, gritou uma voz triunfal do alto do topo do mastro principal.
“É mesmo? Bem, isso sim é uma alegria”, gritou Ahab, aprumando-se de pronto, enquanto as nuvens tempestuosas se dissipavam de sua fronte. “Esse grito tão cheio de vida em meio a esse marasmo poderia converter um homem. – Onde está?”
“A três graus da proa, a estibordo, senhor, e trazendo a brisa com ela!”
“Cada vez melhor, meu rapaz. Que São Paulo também viesse junto e trouxesse com ele sua brisa para minha asfixia! Ó, natureza! Ó, alma do homem! Suas analogias vão além de todas as palavras! Nem o menor átomo se move ou vive na matéria sem que tenha uma sutil duplicata no espírito.”  

continua na página 337...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
68 - A manta / 69 - O funeral / 70 - A esfinge /                            
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

domingo, 19 de julho de 2026

Cinema: Malcolm X...

... e os Direitos Civis nos Estados Unidos



Baseado em fatos reais, este épico biográfico acompanha a vida de Malcolm X, desde sua juventude marcada pelo crime até sua transformação em um dos líderes mais importantes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Conheça a trajetória extraordinária de um dos líderes mais marcantes da história.

Direção: Spike Lee
Produção de 1992
Roteiristas: Arnold Perl, Spike Lee, Alex Haley





Elenco:
Denzel Washington como Malcolm X
Angela Bassett como Betty Shabazz
Albert Hall como Baines 
Al Freeman Jr. como Elijah Muhammad
Delroy Lindo como West Indian Archie
Spike Lee como Shorty
Theresa Randle como Laura
Kate Vernon como Sophia
Lonette McKee como Louise Little
Tommy Hollis como Earl Little
James McDaniel como Brother Earl
Ernest Thomas como Sidney
Jean-Claude La Marre como Benjamin 2X
O.L. Duke como Pete
Larry McCoy como Sammy
Maurice Sneed como Cadillac
Debi Mazar como Peg
Phyllis Yvonne Stickney como Honey
Scot Anthony Robinson como Daniel
Sonny Jim Gaines como Cholly(as James E. Gaines)
Joe Seneca como Toomer
LaTanya Richardson Jackson como Lorraine
Wendell Pierce como Ben Thomas
Michael Guess como William X
Leland Gantt como Wilbur Kinley
Giancarlo Esposito como Thomas Hayer
Leonard L. Thomas como Leon Davis
Roger Guenveur Smith como Rudy
Craig Wasson como TV Host
Graham Brown como Dr. Payson
Gerica Cox como Eva Marie
Kristan Rai Segure como Saudi
Lauren Padick como Lisha
Danielle Fletcher como Attalah
Frank Adu como Chuck
Aleta Mitchell como Sister Robin
Curt Williams como Mr. Cooper
John Ottavino como Blades
John Reidy como Simmons
Frances Foster como Woman Outside Audubon Ballroom
Reggie Montgomery como Dick Jones
David Patrick Kelly como Mr. Ostrowski
Gary L. Catus como Doctor
Sharon Washington como Augusta
Shirley Stoler como Mrs. Swerlin
Oran 'Juice' Jones como Hustler
Ricky Gordon como Lionel Hampton
George Lee Miles como Preacher
Raye Dowell como Sister Evelyn Williams
Veronica Webb como Sister Lucille Rosary
Abdul Salaam El Razzac como Fox
Keith Randolph Smith como Brother Gene
George Guidall como Mr. Holway
James L. Swain como Conductor
Peewee Love como Speedy
Lawrence James como Tully
Steve White como Brother Johnson
K. Smith como Roderick
Christopher Rubin como Sophia's Husband
Matthew Harris como Malcolm, 5 Years Old
Zakee Howze como Young Malcolm
Cytia Fontenette como Hilda, 3 Years Old
Marlaine Bass como Hilda, 8 Years Old
Benjamin Atwell como Philbert, 1 Years Old
Peter Dunn como Philbert, 6 Years Old
Dion Smack Jr. como Reginald, 2 Years Old
Darnell Smith como Elijah Muhammad's Grandson
TaiNesha Scott como Elijah Muhammad's Granddaughter
Chelsea Counts como Yvonne, 6 Months Old
Chela Counts como Yvonne, 6 Months Old(as Chéla Counts)
Natalie Clanton como Yvonne, 1 Year Old
Jessica Givens como Attalah
LaToyah Bigelow como Qubillah, 3 Years Old
Martaleah Jackson como Ilyasah, 2 and 3 Years Old
Tamaraleah Jackson como Ilyasah, 2 and 3 Years Old
Jasmine Smith como Ilyasah, 2 and 3 Years Old
Valentino Smith como Wilfred, 4 Years Old
David Thomas Jr. como Wilfred, 8 Years Old
Simon Do-Ley como Son of Elijah Muhammad and Secretary Evelyn Williams
Bill Goldberg como The 'John'
Jonathan Peck como Phone Voice
Leonard Parker como Jason
Lennis Washington como Mrs. Johnson
Dyan Humes como Maid at Open Air Market
Lizbeth Mackay como White Woman at Market
Terry Layman como CIA Agent
Terry Sumter como CIA Agent
Jasper McGruder como Hotel Clerk
Mary Alice Smith como Professora
Wyatt Tee Walker como Porta-voz do hospital
Hazel Medina como Cashier Person
Wendy E. Taylor como Numbers Woman
Ed Herlihy como Joe Louis Announcer
Ralph Cooper Sr. como Radio Announcer
Christian J. Dacosta como Passerby
Karen Duffy como Sophia's Friend(as Karen T. Duffy)
Walter Jones como Barber's Customer
Marc Phillips como Photographer
Showman Uneke como Hustler at Grand Central Station
Theara Ward como Moviegoer
Larry M. Cherry como Prison Barber
Clebert Ford como Barber
Grafton Trew como Barber
Rogers Simon como Barber
George T. Odom como Barber
Vincent Moscaritola coomo Prison Guard
Larry Attile como Guard Baines
Brendan Kelly como Guard Cone
John Griesemer como Guard Wilkins
Fia Porter como Coed
Billy J. Mitchell como Man #1
Kent C. Jackman como Man #2
Beatrice Winde como Elderly Woman
Fracaswell Hyman como Barman
Rion Johnson como Shoeshine Boy
Charles Weldon como Follower at Temple #7
Mike Hodge como Follower at Temple #7
Iris Little Thomas como Follower at Temple #7
Ilyasah Shabazz como Follower at Temple #7
Bahni Turpin como Follower at Temple #7
Aaron Blackshear como Student in Harlem Classroom
Nilyne Fields como Student in Harlem Classroom
John David Washington como Student in Harlem Classroom
Rudi Bascomb como Student in Harlem Classroom
Muhammad Parks como Student in Harlem Classroom
Chinere Parry como Student in Harlem Classroom
Ian Quiles como Student in Harlem Classroom
Sharmeek Martinez como Student in Harlem Classroom
Chuck Cooper como Cliente
Damon Chandler como Cliente
Shellye Broughton como Cliente
Nicholas Barnwell como Cliente
Sam Dixon como Cliente
Barbara Smith como Cliente
Rome Neal como Prisioneiro 
Earl Whitted como Prisioneiro
Michael C. Mahon como Prisioneiro
Addison Cook como Prisioneiro
Byron Utley como Prisioneiro
George Rafferty como Prisioneiro
Maxwell Sinovoi como Prisioneiro
Eric Howell Sharp como Prisioneiro
Stewart J. Zully como Repórter de TV
Colleen Cowan como Repórter de TV
Armand Schultz como Repórter de TV
Reade Kelly como Repórter de TV
Janet Zarish como Repórter de TV
Annie Corley como Repórter de TV
Stephen James como Repórter de TV
Steven Randazzo como Repórter de TV
Chris Skutch como Repórter de TV
William Swinton como Repórter de TV
Marcus Naylor como Repórter de TV
Anthony Nocerino como Repórter de TV
Gareth Williams como Repórter do caso JFK
Stephen Mo Hanan como Repórter do caso JFK
Richard Schiff como Repórter do caso JFK
David Berman como Repórter do caso JFK
Michael Imperioli como Repórter no local de um ataque com bombas incendiárias
Steve Stapenhorst como Repórter no local de um ataque com bombas incendiárias
Arthur French como Mensageiro da Pullman
Lex Monson como Mensageiro da Pullman
Judd Jones como Mensageiro da Pullman
C.E. Smith como Garçom de Sorveteria
Erika Smith-Brown como Garçonete
Raymond Anthony Thomas como Membro da multidão
Delilah Picart como Membro da multidão
Michael Ralph como Membro da multidão
Monique Cintron como Prostituta
Jake-Ann Jones como Prostituta
Sharon Ferguson como Prostituta / Roseland Dancer
Amelia Mimi Walker como Prostituta
Neisha Folkes como Prostituta
Karen Michaels como Prostituta
Lenore Pemberton como Prostituta
Elise Neal como Prostituta
Felicia Wilson como Prostituta
Yvette Brooks como Prostituta
Teresa Yvon Farley como Jovem Prostituta
Kiki Della Vecchia como Prostituta Adolescente
John Sayles como Agente do FBI
Martin Donovan como Agente do FBI
Jay Charbonneau como Policial no Audubon
Joe Pentangelo como Polícia Montada
Mike Farley como Polícia Montada
Nick Muglia como Polícia Montada
David Reilly como Polícia Montada
Nicholas Turturro como Policial de Boston
James Murtaugh como Policial na Estação do Harlem
William Fichtner como Policial na Estação do Harlem (apenas creditado)
Tim Kelleher como Policial na Estação do Harlem
Michael Cullen como Sargento de Dia
James MacDonald como Tenente
Steve Aronson como Líder da Legião Negra
Bill Anagnos como Membro da Legião Negra
Don Hewitt como Membro da Legião Negra
Jery Hewitt como Membro da Legião Negra
Joe Fitos como Membro da KKK
Manny Siverio como Membro da KKK
John Patrick McLaughlin como Membro da KKK
Shaun O'Neil como Membro da KKK
Andy Duppin como Membro da KKK
Elmer Licciardello como Membro da KKK
Matthew Underwood como DJ at the Harlem 'Y' Dance 
Renton Kirk como DJ at the Harlem 'Y' Dance
Tim Hutchinson como Fruit of Islam
Andre Blair como Fruit of Islam
Abdul Hakeem Hijrah como Fruit of Islam
Rony Clanton como Fruit of Islam
Scott Whitehurst como Malcolm's FOI
Eric Payne como Malcolm's FOI
Ali A. Wahhab como Malcolm's FOI
Terry Hodges como Malcolm's FOI
Kevan Gibbs como Malcolm's FOI
Dana Hubbard como Malcolm's FOI
David Reivers como Elijah Muhammad's FOI
Robert Jason como Elijah Muhammad's FOI
Kevin Rock como Elijah Muhammad's FOI
Mansoor Najee-ullah como Elijah Muhammad's FOI
Dion Graham como Elijah Muhammad's FOI
Zaahir Muhammad como Elijah Muhammad's FOI
Gregory Bargeman como Elijah Muhammad's FOI
Lee Summers como Elijah Muhammad's FOI
Rich Gordon como Elijah Muhammad's FOI
Larry Rushing como Elijah Muhammad's FOI
Monty Ross como MC - Roseland
Eddie Davis como Banda de Lionel Hampton – Trompete
Reggie Pittman como Banda de Lionel Hampton – Trompete
Patrick Rickman como Banda de Lionel Hampton – Trompete
Gerald Brazel como Banda de Lionel Hampton – Trompete
Clack Gaton como Banda de Lionel Hampton – Trombone
Richard Owens
como Banda de Lionel Hampton – Trombone
Douglas Purviance como Banda de Lionel Hampton – Trombone
Mark Gross como Banda de Lionel Hampton – Saxofone alto
Cleave Guyton Jr. como Banda de Lionel Hampton – Saxofone alto
Javon Jackson como Banda de Lionel Hampton – Saxofone tenor
Lance Bryant como Banda de Lionel Hampton – Saxofone tenor
Daniel Lemelle como Banda de Lionel Hampton – Saxofone barítono
David Fludd como Banda de Lionel Hampton – Piano
Marcus Lauper como Lionel Hampton Band – Baixo
Dwayne Cook Broadnax como Lionel Hampton Band – Bateria
Preston Vismale como Lionel Hampton Band – Assistente Musical
Miki Howard como Quarteto Billie Holiday - Billie Holiday
Terence Blanchard como Quarteto Billie Holiday - Trompete
Bruce David Barth como Quarteto Billie Holiday - Piano
Rodney Whitaker como Quarteto Billie Holiday - Baixo
William E. Kilson como Quarteto Billie Holiday - Bateria
Sonny Allen como Dançarino do Roseland
Vanessa Benton como Dançarina do Roseland
Cheryl Burr como Dançarina do Roseland
Leslie Dockery como Dançarina do Roseland
Cisco Drayton como Dançarino do Roseland
Byron Easley como Dançarino do Roseland
John Elejaide como Dançarino do Roseland
Debra Elkins como Dançarina do Roseland
Gina Ellis como Dançarina do Roseland
John Festa como Dançarino do Roseland
Robert H. Fowler III como Dançarino do Roseland
Ryan Francois como Dançarino do Roseland
Phillip Gilmore como Dançarino do Roseland
Jauquette Green como Dançarina do Roseland
Wendy King como Dançarina do Roseland
Jerome Jamal Hardeman como Dançarino do Roseland
Dawn Hampton como Dançarino do Roseland
Monique Harcum como Dançarina do Roseland
Raymond Harris como Dançarino do Roseland
Delphine T. Mantz como Dançarina do Roseland
Bernard Marsh como Dançarino do Roseland
Greta Martin como Dançarina do Roseland
Norma Miller como Dançarina do Roseland
Frances Morgan como Dançarina do Roseland
John Parks como Dançarino do Roseland
Greg Poland como Dançarino do Roseland
Judine Hawkins Richard como Dançarina do Roseland
Eartha Robinson como Dançarina do Roseland
Michelle Robinson como Dançarina do Roseland
Traci Robinson como Dançarina do Roseland
Ken Leigh Rogers como Dançarino do Roseland
Eddie Sanabria como Dançarino do Roseland
Eddie Shellman como Dançarino do Roseland
Lynn Sterling como Dançarina do Roseland
Keith Thomas como Dançarino do Roseland
Debbie Williams como Dançarina do Roseland
Charles Young como Dançarino do Roseland
Anthony Dewitt como Dançarino do Roseland
Cynthia Thomas como Shorty's Dance Partner
Sharon Brooks como Dançarina Skeleton Crew 
Laurieann Gibson como Dançarina Skeleton Crew 
El Tahara Ibrahim como Dançarina Skeleton Crew 
Keith Lewis como Dançarino Skeleton Crew 
Dereque Whithurs como Dançarino Skeleton Crew 
Steve ReedJohn F. Kennedy (cenas de arquivo)
Jodie FarberJackie Kennedy (cenas de arquivo)
Randy MeansGovernor Connally (cenas de arquivo)
Columbia DuboseNellie Connally (cenas de arquivo)
Vincent D'Onofrio / Bill Newman (cenas de arquivo)
Cliff Cudney / Limo Driver (cenas de arquivo)
George Marshall Ruge como Secret Service Man (cenas de arquivo)
Bobby Seale  como Orador #1
Al Sharpton como Orador #2
Christopher Plummer como Chaplain Gill
Karen Allen como Miss Dunne
Peter Boyle como Captain Green
William Kunstler como O Juiz
Nelson Mandela como Professor de Soweto
Ossie Davis como Orador de Elogio Fúnebre (narração)

Restante do elenco listado:

Ralph Abernathy / Self - Behind King and Malcolm (cenas de arquivo) (não creditado)
Michael Albanese como Harvard Law Student (não creditado)
Muhammad Ali / Self - Handshake with Malcolm (cenas de arquivo) (não creditado)
Denise S. Anderson como Crowd Member (não creditado)
MarkQuat Anu Amen-Ra / F.O.I (não creditado)
Ashanti como Estudante em uma sala de aula no Harlem (não creditado)
John D. Bair como Barman (não creditado)
Theodore Briseno / Self - LAPD Officer at Arrest of Rodney King (cenas de arquivo) (não creditado)
John Carlos / Self - Giving Black Power Salute at Olympics (cenas de arquivo) (não creditado)
Tracy Chapman / Self - End Credits (não creditado)
Gigi Coddington como Wife (não creditado)
Eugene 'Bull' Connor / Self - with Dark Hat (cenas de arquivo) (não creditado)
Bill Cosby / Self - End Credits (não creditado)
Angela Davis / Self - Giving Black Power Salute at Olympics (cenas de arquivo) (não creditado)
Matthew M. Dillon / DJ(não creditado)
Dave Droge como Barman (não creditado)
James Farmer / Self - Behind King and Young (cenas de arquivo) (não creditado)
Dan Gifford como Guarda prisional (não creditado)
Mark Gorham como Police Chief's Driver (não creditado)
Ralph Hughes como FOI Member (não creditado)
Janet Jackson / Self - End Credits (não creditado)
Jesse Jackson / Self (cenas de arquivo) (não creditado)
Joe James / Shooter (narração) (não creditado)
Tracie Jade Jenkins como Participante do discurso de Malcolm sobre o policial (não creditado)
Magic Johnson / Self - End Credits (não creditado)
Michael Jordan / Self - End Credits (não creditado)
ddie Kehler como Policial do Harlem (não creditado)
John F. Kennedy / Self - Funeral Procession (cenas de arquivo) (não creditado)
Fares Abdel Kerim / Muslim Pilgrim (não creditado)
Martin Luther King / Self (cenas de arquivo) (não creditado)
Rodney King / Self - Impaired Driver Beaten by LAPD Officers (cenas de arquivo) (não creditado)
Stacey Koon / Self - LAPD Officer at Arrest of Rodney King (cenas de arquivo) (não creditado)
Joe Louis / Self - After Fight with Billy Conn (cenas de arquivo) (não creditado)
Marva Trotter Louis / Self - with her Husband (cenas de arquivo) (não creditado)
Malcolm X / Self (cenas de arquivo) (não creditado)
Frankie Manning como Dançarino do Roseland (não creditado)
Willie Mays / Self (cenas de arquivo) (não creditado)
Charles Mitchell como Detento (não creditado)
im Monaco como Prisioneiro 'Marino' (não creditado)
Peter Norman / Self - Silver Medallist with Smith and Carlos (cenas de arquivo) (não creditado)
Laurence Powell / Self - LAPD Officer Bashing Rodney King (cenas de arquivo) (não creditado)
Jackie Robinson / Self(cenas de arquivo) (não creditado)
Betty Shabazz / Self - at Graveside (cenas de arquivo) (não creditado)
Tommie Smith / Self - Giving Black Power Salute at Olympics (cenas de arquivo) (não creditado)
Billy Marshall Thompson como Man in Temple (não creditado)
Irapaul Turner como Malcolm's FOI (não creditado)
Zan Turner / Crowd Extra (não creditado)
George Wallace / Self - Opposing Integration of University of Alabama
(cenas de arquivo) (não creditado)
Sonya Wallace / Crowd Member (não creditado)
Roy Wilkins / Self - 'Isn't It a Great Day' Speech (cenas de arquivo) (não creditado)
Timothy Wind / Self - LAPD Officer Bashing Rodney King (cenas de arquivo) (não creditado)
Andrew Young / Self - with King (cenas de arquivo) (não creditado)


Os Últimos Dias de Malcolm X
Documentário





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