domingo, 18 de outubro de 2026

Tchekhov - Angústia

Alguns melhores contos


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”
Anton Tchekhov

Angústia

     Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Yona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boleia, sem se mover.
     Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la… Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão de ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.
     Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo…
     Faz muito tempo que Yona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta. 

— Cocheiro, para a Víborgskaia! — ouve Yona. — Cocheiro! Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz. — Para a Viborgskaia! — repete o militar. — Está dormindo? Para a Víborgskaia!

     Em sinal de consentimento, Yona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo… O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão… 

— Onde vai, demônio?! — ouve, logo depois, Yona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. — Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita! — Não sabe dirigir! Olha a direita — zanga-se o militar.

     O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boleia, Yona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali. 

— Que gente canalha! — graceja o militar. — Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.

     Combinaram isso. Yona volta-se para o passageiro e move os lábios… Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta. 

— O quê? — pergunta o militar.

     Yona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia: 

— Pois é, meu senhor, assim é… perdi um filho esta semana. — Hum!… De que foi que morreu? Yona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz: — Quem é que pode saber! Acho que foi de febre… Passou três dias no hospital e morreu… Deus quis. — Dá a volta, diabo! — ressoa nas trevas uma voz. — Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar! — Anda, anda… — diz o passageiro. — Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!

     O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, para diante de uma taverna, encurva-se sobre a boleia e fica novamente imóvel… A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora… outra…
     Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda. 

— Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! — grita o corcunda, com voz surda. — Damos vinte copeques… os três! Yona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço… Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros… Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé? Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor. 
— Bem, faz o cavalo andar! — grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Yona. — Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo… — Hi-i… hi-i… — ri Yona. — Assim é… — Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço? — Estou com a cabeça estalando… — diz um dos moços compridos. — Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska tornamos quatro garrafas de conhaque. Não compreendo para que mentir! — irrita-se o outro moço comprido. — Mente como um animal. — Que Deus me castigue, é verdade… — Tão verdade como um piolho tossindo. — Hi-i! — ri Yona entre dentes. — Que senhores alegres! — Irra, com todos os diabos!… — indigna-se o corcunda. — Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!

     Yona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Yona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia: 

— Esta semana… assim, perdi meu filho! — Todos vamos morrer. — suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. — Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais? — Você deve animá-lo um pouco… umas pancadas no pescoço! — Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch*? Ou você não se importa com o que a gente diz? E Yona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço. — Hi-i… — ri ele. — Senhores alegres… que Deus lhes dê saúde! — Cocheiro, você é casado? — pergunta um dos compridos.

     Eu? Hi-i… que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria… Hi-ho-ho… O túmulo, quer dizer!… Meu filho morreu, e eu continuo vivo… Coisa esquisita, a morte errou de porta… Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho… E Yona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Yona fica por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele… A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Yona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia… Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Yona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz… Yona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa. 

— Que horas são, meu caro? — pergunta. — Mais de nove… Por que você parou aqui? Passa!

     Yona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia… Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas… Não pode mais. 

“Para casa”, pensa, “para casa”.

     E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Yona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante… Yona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa… “Não ganhei nem para a aveia”, pensa. “Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício… que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma…” Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde de água. 

— Ficou com sede? — pergunta Yona. — Com sede, sim! — Bem… Que lhe faça bom proveito… Pois é, irmão, e eu perdi um filho… Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital… Que coisa!

     Yona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça… Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo… É preciso falar com método, lentamente… É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu… É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia… É preciso falar sobre ela também… De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar… E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras. 

“É bom ir ver o cavalo”, pensa Yona. “Sempre há tempo para dormir…”

     Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Yona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo… Estando sozinho, não pode pensar no filho… Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável…
     Está mastigando? — pergunta Yona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. — Ora, mastiga, mastiga… Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno… Sim… Já estou velho para trabalhar de cocheiro… O filho é que devia trabalhar, não eu… Era um cocheiro de verdade… Só faltou viver mais…
     Yona permanece algum tempo em silêncio e prossegue: — Assim é, irmão, minha egüinha… Não existe mais Kuzmá Iônitch… Foi-se para o outro mundo… Morreu assim, por nada… Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho… E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo… Dá pena, não é verdade?
     O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo… Yona anima-se e conta-lhe tudo...
     A neve que Yona Potapov traz nas costas é tão fria quanto as relações humanas, sendo preciso um cavalo para que Yona desabafasse. 

Fim
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Leia também:
A mulher do farmacêutico / A obra de arte / Angústia /            .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.

"Tchekhov denuncia a indiferença, a apatia; o que diria dos “tempos líquidos” em que vivemos? Os meios digitais, as redes sociais, constroem laços cada vez mais fluidos, passageiros. A expectativa que uma mensagem causa, denota o quão solitários estamos. Estamos doentes, vivendo em uma sociedade egocêntrica, onde ninguém tem tempo para ouvir. E se damos bom dia para cavalo, é porque sabemos que dele não virá um coice.'

Cinema: Acordes e Desacordos

Woody Allen 


Sweet and Lowdown (Acordes e Desacordos, no Brasil), filme de 1999 escrito e dirigido por Woody Allen.

Um dos retratos mais interessantes já feitos sobre artistas talentosos e contraditórios, o filme nos apresenta Emmet Ray, um protagonista fictício, guitarrista de jazz brilhante que vive nos anos 1930. Apesar de sua habilidade incomum com o instrumento, ele é incapaz de controlar os próprios impulsos, acumulando fracassos amorosos, vícios e conflitos pessoais. Entre momentos cômicos e dramáticos, a narrativa mostra que o sucesso artístico nem sempre caminha ao lado da realização pessoal, criando um retrato humano, divertido e profundamente melancólico. O personagem é interpretado por Sean Penn e retratado como um brilhante guitarrista de jazz dos anos 1930, considerado por muitos o segundo melhor do mundo, atrás apenas de seu ídolo, Django Reinhardt. O grande contraste do personagem está justamente na distância entre seu talento extraordinário e sua vida pessoal caótica. Vaidoso, impulsivo, mulherengo e autodestrutivo, Emmet frequentemente sabota seus próprios relacionamentos e oportunidades, tornando-se um exemplo de como o dom artístico não garante maturidade emocional ou felicidade.

Diretor:
Woody Allen

Roteirista:
Woody Allen






Elenco:
Woody Allen como Woody Allen
Ben Duncan como Ben Duncan
Daniel Okrent como A.J. Pickman
Dan Moran como Chefe
Tony Darrow como Ben
Chris Bauer como Ás - Jogador de Sinuca
 Sean Penn como Emmet Ray
Constance Shulman como Hazel - Prostituta #1
Kellie Overbey como Iris - Prostituta #2
Darryl Alan Reed como Don
Marc Damon Johnson como Omer
Ron Cephas Jones como Alvin
Steve Bargonetti como Amigo músico
Benjamin Franklin Brown como Amigo músico
James Urbaniak como Harry
Vince Giordano como Baixista #1
Emme Kemp como Músico de Jam Session
Clark Gayton como Músico de Jam Session
Marcus McLaurine  como Músico de Jam Session
Carolyn Saxon como Filis
Brian Markinson como Bill Shields
Drummond Erskine como Primeiro Vagabundo
Joe Ambrose como Segundo Vagabundo
Molly Price como Ann
Joseph Rigano como Técnico de palco (como Joe Rigano)
Denis O'Hare como Jake
Dennis Stein como Dick Ruth - Dono do Clube
Nat Hentoff como Nat Hentoff
Katie Hamill como Mary
Samantha Morton como Hattie
Kaili Vernoff como Gracie
Carole Bayeux como Rita - Anfitriã da Festa do Ópio
Paula Parrish como Convidada da festa
Cory Solar como Convidada da festa
Lexi Egz como Convidado da festa
Yvette Mercedes como Convidada da festa
Peter Leung como Convidado da festa
John Waters como Mr. Haynes
William Addy como Mestre de cerimônias
Dick Monday como Chester Weems
Mary Stout como Felicity Thomson - Cantora amadora
Dick Mingalone como Birdman
Mr. Spoons como Spoon Player
Carol Woods como Helen Minton
Josh Mowery como Movie Director
Fred Goehner como William Weston
Eddy Davis como Bass Player #2
Vincent Guastaferro como Sid Bishop
Ralph Pope como Panhandler
Douglas McGrath como Douglas McGrath
Jerome Richardson como Músico do clube
Earl P. McIntyre como Músico do clube
James Williams como Músico do clube
Frank Wess como Músico do clube
Al Bryant como Músico do clube
Ray Garvey como Club Manager
Sally Placksin como Sally Jillian
Uma Thurman como Blanche
Lola Pashalinski como Blanche's Friend
Simon Wettenhall como Jam Session Musician
Orange Kellin como Jam Session Musician
Brooks Giles III como Jam Session Musician
Anthony LaPaglia como Al Torrio
Brad Garrett como Joe Bedloe
Alfred Sauchelli Jr. como Ned - Pool Player
Michael Peter Bolus como Lynch - Bar Room Friend
Mick O'Rourke como Holdup Man 
John Patrick McLaughlin como Holdup Man
Chuck Lewkowicz como Police Officer
Rick Mowat como Flat Tire Man
Ted Wilkins como Gas Station Proprietor
Michael Sprague como Django Reinhardt
Gretchen Mol como Ellie
Scott Beehner como Jay (não creditado)
Gary Cowling como Amigo músico (não creditado)
Michael Criscuolo como Vendedor de Carnaval (não creditado)
Stanley Crouch como Stanley Crouch (não creditado)
Anna Damergis como Manicure (não creditado)
Catherine Dudley-Rose como Bisbilhoteiro (não creditado)
Jesse Dyer como Gritando Eddie (não creditado)
Kenneth Edelson como Convidado da Festa (não creditado)
Eddie Eisele como Proprietário de Carro Packard (não creditado)
Rick Hickman como Homem da Cidade Irritado (não creditado)
Fiona Jones como Esposa do Fazendeiro (não creditado)
Jon M. McDonnell como Entusiasta da Música (não creditado)
Trish McGettrick como Padrão (não creditado)
George F. Miller como Cena da lua - Extra (não creditado)
Maria Ottavia como Mãe com Família no Calçadão (não creditado)
Phil Parlapiano como Papel Secundário na Cena da Lua (não creditado)
Adam Sietz como John (não creditado)
Alan Francis Sullivan como Convidado da Festa (não creditado)
John H. Tobin como Barman servindo Emmet (não creditado)


O Gênio Musical de Hermeto Pascoal

Já viu e escutou muitas coisas no universo musical?  Não perca o solo de jazz na xícara de café, 1 em um milhão!
Autumn Leaves (Joseph Kosma, Jacques Prévert e Johnny Mercer)





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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:

sábado, 17 de outubro de 2026

MPB: De janeiro a janeiro

Roberta Campos e Nando Reis







Não consigo olhar no fundo dos seus olhos
E enxergar as coisas que me deixam no ar, deixam no ar
As várias fases, estações que me levam com o vento
E o pensamento bem devagar

Outra vez eu tive que fugir
Eu tive que correr pra não me entregar
Às loucuras que me levam até você
Me fazem esquecer que eu não posso chorar

Olhe bem no fundo dos meus olhos
E sinta a emoção que nascerá quando você me olhar
O Universo conspira a nosso favor
A consequência do destino é o amor
Pra sempre vou te amar

Mas talvez você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor não será passageiro
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar

Até o mundo acabar
Até o mundo acabar
Até o mundo acabar

Mas talvez você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor não será passageiro
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar

Até o mundo acabar
Até o mundo acabar
Até o mundo acabar

De janeiro a janeiro

Composição: Roberta Campos



Nando Reis - 50 fatos sobre a amizade com Cássia Eller




Cássia Eller - All Star





Roberta Campos - Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor



“Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” é uma canção que Milton Nascimento lançou no álbum Pietá (2005), composta por Márcio Borges e Lô Borges.


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Deus me proteja / Vem pra cá / Leva / Trem das Onze / Romaria / De janeiro a janeiro /                     

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 4 (II. Alócha em casa de seu pai)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


SEGUNDA PARTE
LIVRO IV
OS TUMULTOS
II
ALIÓCHA EM CASA DE SEU PAI
 
     Aliócha começou por ir em primeiro lugar à casa de seu Ao aproximar-se, lembrou-se da recomendação feita na véspera, de entrar sem que Ivã ficasse sabendo. "Por quê?", perguntou a si mesmo. "Se meu pai quer fazer-me uma confidência, é esta uma razão para entrar furtivamente? Queria, sem dúvida, na sua emoção, dizer-me outra coisa ontem e não pôde", decidiu ele. No entanto, sentiu se satisfeito ao saber de Marfa Ignátievna, que lhe abriu a porta do jardim (Gregório estava deitado, doente), que Ivã saíra havia duas horas.

— E meu pai?
— Levantou-se, está tomando seu café — respondeu a velha. 

     Aliócha entrou.
     O velho, sentado à sua mesa, de chinelos e com um casaco bastante surrado, examinava contas para se distrair, sem grande interesse de resto. Encontrava-se sozinho na casa, tendo Smierdiákov saído para comprar provisões. Sua atenção estava alhures. Se bem que se tivesse levantado bem cedo e bancado o corajoso, parecia fatigado, fraco. Sua testa, onde, durante a noite, se haviam formado equimoses, estava enrolada num lenço de seda vermelha. O nariz, muito inchado, dava a seu rosto uma expressão particularmente má, irritada. O velho dava-se conta disso e acolheu Aliócha com um olhar pouco amigável.

— O café está frio — disse ele num tom seco —, não te ofereço. Hoje, meu caro, tenho apenas uma magra sopa de peixe e não convido ninguém. Por que vieste? 
— Vim saber notícias suas — declarou Aliócha.
— Sim. Aliás, tinha-te pedido ontem que viesses. Tolices tudo isso. Tu te incomodaste em vão. Sabia bem que haverias de vir... 

     Suas palavras refletiam o sentimento mais hostil. Entretanto, havia se levantado e examinava ansiosamente seu nariz no espelho (pela quadragésima vez talvez desde a manhã). Arranjou com extremo cuidado seu lenço vermelho na testa. 

— O vermelho assenta melhor, o branco lembra imediatamente o hospital — observou ele, num tom sentencioso.
— Pois bem! Que há de novo? Como vai teu stáriets? 
— Está muito mal, morrerá talvez hoje — disse Aliócha; mas seu pai não lhe prestou atenção.
— Ivã saiu — disse ele, de repente. — Esforça-se por furtar a noiva de Mítia. Por isso é que permanece aqui — acrescentou com raiva, a boca contraída, olhando Aliócha.
— Ele mesmo lhe disse? 
— Desde muito tempo, há já três semanas. Não foi para assassinar-me às ocultas que ele veio; tem pois um fito.
— Como! Por que diz isso? — perguntou Aliócha, com angústia.
— Não pede dinheiro, é verdade; aliás, não terá nada. Eu, meu caríssimo Alieksiéi Fiódorovitch, tenho a intenção de viver o mais tempo possível, toma nota disso; assim, tenho necessidade de todo o meu dinheiro, e quanto mais avançar em idade, mais precisarei — continuou Fiódor Pávlovitch, com as mãos nos bolsos de seu casaco manchado, de durante amarela. — Agora, aos 55 anos, conservo minha força viril, e conto bem que isso durará ainda vinte anos; ora, envelhecerei, tornar-me-ei repulsivo, as mulheres não virão mais de boa vontade; então, precisarei de dinheiro. Eis por que, agora, amealho o mais possível, para mim só, meu caro filho Alieksiéi Fiódorovitch, fica sabendo bem, porque quero viver até o fim na libertinagem. É a existência mais agradável; todo mundo deblatera contra ela e todo mundo nela vive, mas às ocultas, e eu, em pleno dia. É por causa de minha franqueza que todos os canalhas me caíram em cima. Quanto ao teu paraíso, Alieksiéi Fiódorovitch, fica sabendo que não o quero, é até mesmo inconveniente para um homem às direitas, se é que existe. A gente dorme para não mais despertar, eis minha ideia. Manda dizer uma missa por mim, se quiseres, senão, que o diabo te leve! Eis minha filosofia. Ontem, Ivã falou bem a este respeito, no entanto, estávamos bêbedos. É um falador desprovido de erudição... não tem instrução, cala-se e ri da gente em silêncio, eis todo o seu talento.

     Aliócha escutava sem dizer palavra.

— Por que não me fala ele? E, quando fala, faz-se malicioso; é um miserável o teu Ivã! Casarei imediatamente com Grúchenhka, se quiser. Porque com dinheiro basta querer. Alieksiéi Fiódorovitch, tem-se tudo. É disto que Ivã tem medo, vigia-me para impedir meu casamento, e com este fito impele Mítia a fazer dela sua esposa; dessa maneira, entende preservar-me de Gruchka (na esperança de herdar, se não me casar com ela!); por outra parte, se Mítia se casar com ela, toma-lhe Ivã sua rica noiva, eis seu cálculo! É um miserável o teu Ivã!
— Como está o senhor irascível! É o resultado de ontem; o senhor deveria deitar-se — disse Aliócha.
— Tuas palavras não me irritam — observou o velho —, ao passo que vindas de Ivã me zangariam; somente contigo tenho tido bons momentos, porque sou mau. 
— O senhor não é mau, o senhor tem é o espírito corrompido — sorriu Aliócha. 
— Pois seja, eu queria mandar prender aquele bandido do Mítia e agora não sei que partido tomar. Sem dúvida, em nosso tempo, passa por preconceito respeitar pai e mãe; entretanto, as leis não permitem ainda arrastar um pai pelos cabelos, bater lhe no rosto com golpes de botas, em sua própria casa, e ameaçá-lo, diante de testemunhas, de vir liquidá-lo. Se eu quisesse, domá-lo-ia e poderia mandá-lo prender por causa da cena de ontem. 
— Então, não quer dar queixa? 
— Ivã dissuadiu-me disso. Zombo de Ivã, mas há uma coisa... Inclinou-se para Aliócha e continuou num tom confidencial: — Se mandar prender o canalha, ela ficará sabendo e correrá para ele. Mas se souber que ele quase me mata, a mim, débil velho, abandoná-lo-á talvez e virá ver-me... Tal é seu caráter, só age contraditoriamente. Conheço-a a fundo! Não queres conhaque? Toma café frio, servir-te-ei um quarto de cálice, isto dá bom gosto.  
— Não, obrigado. Levarei este pão, se o permitir — disse Aliócha, pegando um pãozinho francês de 3 copeques, que meteu no bolso de sua batina. — O senhor não deveria beber mais conhaque — aconselhou, timidamente, lançando uma olhadela furtiva para o velho.
— Tens razão, isto irrita. Mas só um copinho...

     Abriu o armário, serviu-se um copinho, tornou a fechar o armário e a pôr a chave no bolso. 

— Isto basta, não rebentarei por causa dum copinho...
— Ei-lo melhor! 
— Hum! Gosto de ti, mesmo sem conhaque, e sou um canalha para os canalhas! Ivã não parte para Tchermachniá porque tem intenção de espionar-me. Quer saber quanto darei a Grúchenhka, se ela vier. Todos uns miseráveis! Aliás, renego Ivã, não o compreendo. Donde vem ele? Sua alma não é como a nossa. Conta com minha herança. Mas não deixarei testamento, fica sabendo. Quanto a Mítia, eu o esmagarei como a uma barata; faço-as rebentar à noite sob meu chinelo; teu Mítia rebentará da mesma maneira. Digo "teu" Mítia porque o amas. mas isto não me faz medo. Se fosse Ivã que o amasse, temeria por mim mesmo. Mas Ivã não ama ninguém, não é dos nossos, as pessoas como ele, meu caro, não são semelhantes a nós, são poeira... Se o vento sopra, essa poeira se levanta... Foi uma fantasia que se apoderou de mim ontem, quando te disse que viesses hoje; queria informar-me por meio de ti a respeito de Mítia; será que em troca de 1 000 ou 2 000 rublos aquele tratante, aquele bandido, consentiria em ir-se daqui por cinco anos, ou melhor, por 35 anos, e em renunciar a Grúchenhka? Hein? — Eu... eu lhe perguntarei — murmurou Aliócha. — Por 3 000 rublos, talvez ele...
— Não, senhor! Não é preciso perguntar nada agora! Mudei de ideia. Foi um capricho que me deu ontem. Não darei nada. nem 1 níquel, eu mesmo tenho necessidade de meu dinheiro. (O velho teve um gesto expressivo. ) De qualquer maneira, esmagá-lo ei como a uma barata. Não lhe digas nada, senão vai imaginar coisas. Mas tu mesmo nada tens a fazer em minha casa, vai-te. E sua noiva, Catarina Ivânovna, que sempre ocultou de mim tão cuidadosamente, casar-se-á com ela ou não? Estavas ontem em casa dela, certo? 
— Ela não quer abandoná-lo por preço nenhum.
— Eis os indivíduos a quem essas ternas senhoritas amam: farristas, malandros! Não valem nada essas pálidas criaturas. Que idéia! Pois bem, se tivesse a juventude dele e meu corpo de então (porque aos 28 anos era melhor do que ele), lograria o mesmo êxito. Canalha, sim!... Mas não terá Grúchenhka, não a terá... Eu o esmagarei... — tornou-se de novo colérico ao proferir estas últimas palavras. — Vai-te também, nada tens a fazer em minha casa hoje — disse, secamente.  

     Aliócha aproximou-se dele para despedir-se e beijou o no ombro.

— Por quê? — espantou-se o velho. — Nós nos tornaremos a ver, ou pensas que é a derradeira vez? 
— Absolutamente, foi por acaso...
— Eu também... digo isto por dizer... — declarou o velho, fitando- o. — Escuta, escuta — gritou ele às costas de Aliócha —, volta em breve, haverá uma sopa de peixe famosa, não como hoje. Vem amanhã, ouviste? 

     Assim que Aliócha saiu, voltou o velho ao armário e tomou meio copo. 

— Basta — murmurou ele, resfolegando.

     Tornou a fechar o armário, repôs a chave no bolso, depois, já sem forças, foi estender-se sobre seu leito, onde adormeceu imediatamente.
      continua na página 248...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - Guerra e Paz: Primeira Parte (XII - Mon cher Boris)

Guerra e paz

Liev Tolstói

Primeira Parte
XII

     — Mon cher Boris — disse a princesa Ana Mikhailovna a seu filho, quando a carruagem da condessa Rostov, que os levava, atravessou a rua coberta de palha e entrou no grande pátio do conde Kiril Vladimirovitch Bezulchov —, mon cher Boris — repetiu, tirando a mão do velho casacão e pegando tímida e ternamente o braço do filho —, sê carinhoso e atento. O conde Kiril Vladimirovitch é teu padrinho, e dele depende teu futuro. Não esqueças, meu filho, sê tão gentil quanto possível; como sabes ser…
     
— Se ao menos tivesse a certeza de que isso daria algum resultado além da humilhação… — respondeu o filho. — Mas já lhe prometi fazer tudo por sua causa.

     O porteiro examinou dos pés à cabeça mãe e filho (que, sem se fazerem anunciar, entravam diretamente no vestíbulo envidraçado, entre duas fileiras de estátuas dentro dos seus nichos), e, olhando o velho casacão com um ar importante, perguntou-lhes quem queriam ver: as princesas ou o conde. Apesar de já haver outros carros no pátio, quando soube que era o conde, informou que, estando pior, Sua Excelência não receberia ninguém.

— Podemos ir — disse o filho em francês. 
— Mon ami — instou a mãe em voz suplicante, tocando-lhe novamente a mão, como se, por esse simples contato, pudesse acalmá-lo ou entusiasmá-lo.

     Boris calou-se, e, sem tirar o sobretudo, olhou interrogativamente para a mãe.

— Meu caro — disse Ana Mikhailovna docemente ao porteiro —, sei que o conde Kiril Vladimirovitch está muito doente… é o motivo de minha vinda… sou parenta, não quero incomodá-lo, meu caro, mas preciso ver o príncipe Vassili Sergueievitch. Ele está aqui. Poderias nos anunciar?

     O porteiro puxou a campainha do primeiro andar e retirou-se contrariado.

— A princesa Drubetzkaia anuncia-se ao príncipe Vassili Sergueievitch — gritou ao lacaio de casaca, meias e sapatos, que acorrera e olhava pelo vão de escada.

     A mãe arrumou como pôde o vestido de seda tingida, olhou-se num espelho de Veneza fixo à parede e, corajosamente, com seus sapatos grosseiros, pisou o tapete da escada.

— Você me prometeu, querido — disse novamente ao filho, tocando-lhe no braço.

     O rapaz acompanhou-a docilmente de olhos baixos.
     Entraram na sala que dava para os aposentos do príncipe Vassili.
     Quando mãe e filho, parados no meio da sala, iam perguntar o caminho a um velho lacaio que se levantara ao vê-los entrar, o trinco de uma das portas girou, e o príncipe Vassili, que vestia uma jaqueta caseira de veludo, com uma única condecoração, o que para ele era sinal de estar à vontade, apareceu acompanhando um belo homem de cabelos pretos.
     Era Lorrain, o célebre médico de Petersburgo. 

— Então é certo? — perguntou o príncipe. 
— Mon prince, errare humanum est, mas… — respondeu o médico, carregando nos rr e pronunciando o latim como se fosse francês. 
— Muito bem, muito bem…

     Ao perceber Ana Mikhailovna e o filho, o príncipe Vassili despediu-se do médico com um meneio de cabeça e, em silêncio, aproximou-se deles com um ar interrogativo. Boris, notando uma profunda expressão de pesar nos olhos de sua mãe, sorriu imperceptivelmente. 

— Em que triste circunstância nos encontramos, príncipe… E o nosso querido enfermo? — perguntou, como se não percebesse o olhar frio e contundente que a fixava.

     Interrogativamente, admirado mesmo, o príncipe Vassili olhou-a, e depois fitou Boris. Este o cumprimentou polidamente. Sem retribuir ao cumprimento, o príncipe voltou-se para Ana Mikhailovna e respondeu à sua pergunta com um movimento de cabeça e de lábios que significava: poucas esperanças para o doente. 

— Realmente! — exclamou a princesa. — Ah! É terrível! Nem quero pensar… Este é meu filho — acrescentou, mostrando Boris. — Ele queria agradecer-lhe pessoalmente. — Mais uma vez, Boris o cumprimentou polidamente. 
— Creia, príncipe, que o coração de uma mãe não esquecerá nunca o que fez por nós. 
— Fico feliz por lhe ter sido útil, minha cara Ana Mikhailovna — disse o príncipe Vassili, arrumando o colarinho de renda e demonstrando no gesto e na voz que em Moscou, diante de sua protegida Ana Mikhailovna, ainda era mais importante que na festa de Ana Pavlovna, em Petersburgo. — Procure bem servir e ser digno — acrescentou, dirigindo-se severamente a Boris. — Ficarei contente… Está em licença? — perguntou com indiferença. 
— Aguardo ordens para apresentar-me, Excelência — respondeu Boris sem mostrar-se chocado com o tom rude do príncipe, nem desejoso de entabular uma conversa, mas em tom tão tranquilo e respeitoso que o príncipe o olhou fixamente. 
— Vive com sua mãe? 
— Moro na casa da condessa Rostov — disse Boris, dando-lhe novamente o tratamento de Excelência. 
— É o mesmo Ilia Rostov que casou com Natália Chinchina — disse Ana Mikhailovna. 
— Eu sei, eu sei — tornou o príncipe com sua voz monótona. — Nunca pude compreender como Natália resolveu casar-se com esse urso mal domesticado. Um indivíduo completamente estúpido e ridículo. E jogador, segundo dizem. 
— Mas muito boa pessoa, príncipe — observou Ana Mikhailovna, sorrindo discretamente, dando a entender que o conde Rostov merecia esse conceito, mas que, entretanto, ela queria ser indulgente com o pobre velho. — O que dizem os médicos? — perguntou depois de um curto silêncio, dando, novamente, uma expressão de profundo pesar a seu semblante choroso. 
— Pouca esperança — disse o príncipe. 
— E eu queria tanto agradecer uma última vez a meu tio tudo que ele fez por mim e por Boris. E seu afilhado — acrescentou, como se essa notícia devesse ser-lhe extremamente agradável.

     O príncipe Vassili, franzindo a testa, refletia. Ana Mikhailovna compreendeu que ele temia encontrar nela uma rival no testamento do conde Bezukhov. Apressou-se em tranquilizá-lo. 

— Se não fosse a verdadeira afeição e devotamento que tenho a meu tio. — As duas palavras “meu tio” saíam com segurança e num tom despreocupado. — Conheço seu caráter nobre, direito, mas aqui tem só as princesas a seu lado… ainda tão jovens… — Inclinou a cabeça e cochichando perguntou: — Terá ele cumprido seus últimos deveres, príncipe? Como são preciosos os últimos momentos! Isso não o prejudicará; se está tão mal, é necessário prepará-lo. Príncipe, nós, mulheres (sorriu ternamente), sabemos sempre como falar nessas coisas. É necessário que eu o veja, por mais que isso me magoe, estou acostumada a sofrer.

     O príncipe compreendeu muito bem, como da primeira vez, que lhe seria difícil desembaraçar-se de Ana Mikhailovna. 

— Mas esse encontro não lhe será penoso? Esperemos até a noite, o médico prevê uma crise. 
— Mas, príncipe, não se pode esperar num momento como este. Olhe que se trata da salvação da sua alma… Ah, como são terríveis os deveres de um cristão!

     A porta que levava aos aposentos interiores abriu-se e entrou uma das princesas, sobrinha do conde. Tinha a fisionomia carregada e fria, o busto grande demais para a estatura. O príncipe voltou-se para ela. 

— Então, como vai ele? 
— No mesmo. E não pode ser de outra forma… esse barulho… — disse a princesa, olhando Ana Mikhailovna como a uma desconhecida. 
— Ah! Chère, eu não a tinha reconhecido! — disse Ana Mikhailovna com um sorriso feliz, aproximando-se sutilmente da sobrinha do conde. — Acabo de chegar e estou à tua disposição para ajudar a cuidar de meu tio. Faço ideia do quanto tens sofrido — acrescentou, levantando os olhos penalizados.

     A princesa não disse nada, nem sequer sorriu, e retirou-se em seguida. Ana Mikhailovna tirou as luvas, e, com um ar vencedor, instalou-se numa poltrona, convidando o príncipe para sentar-se a seu lado.

— Boris! — disse ao filho num sorriso — Vou ver o conde, meu tio, e tu, mon ami, enquanto esperas, vai procurar Pierre e não te esqueças de transmitir-lhe o convite dos Rostov. Eles o convidam para jantar — disse ao príncipe. — Creio que não irá. 
— Ao contrário — retrucou este com visível mau humor. — Ficaria muito satisfeito se a senhora me livrasse desse rapaz. Ele está aqui. O conde não perguntou por ele uma única vez. — Sacudiu os ombros.

     Um lacaio conduziu Boris aos aposentos de Piotr Kirillovitch por outra escada.
continua na página.... 31
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Guerra e Paz
Primeira Parte:
XI - Queria conversar em particular / XII - Mon cher Boris /                          
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Leia também:
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz (entre 1865 e 1869) e Anna Karenina (entre 1875 e 1878).
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
Em 1862 casa-se com Sófia Andréievna Behrs, então com dezessete anos, com quem teria treze filhos.