domingo, 27 de setembro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
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CAPÍTULO II
A AMOROSA
 

     A PALAVRA "amor" não tem em absoluto o mesmo sentido para um e outro sexo. E é isso uma fonte dos graves mal--entendidos que os separam. Byron disse, justamente, que o amor é apenas uma ocupação na vida do homem, ao passo que é a própria vida da mulher. É a mesma ideia que exprime Nietzsche em Gaia Ciência:

   A mesma palavra amor, diz, significa com efeito duas coisas diferentes para o homem e para a mulher. O que a mulher entende por amor é bastante claro: não é apenas a dedicação, é um dom total de corpo e alma, sem restrição, sem nenhuma atenção para o que quer que seja. É essa ausência de condição que faz de seu amor uma fé, a única que ela tem. Quanto ao homem, se ama uma mulher é esse amor que quer dela; ele está portanto muito longe de postular para si o mesmo sentimento que para a mulher; se houvesse homens que experimentassem também esse desejo de abandono total, por certo não seriam homens. (Os grifos são de Nietzsche.) 

     Em certos momentos de sua existência, alguns homens puderam ser amantes apaixonados, mas nenhum há que se possa definir como "um grande apaixonado"; nunca abdicam totalmente, mesmo em seus mais violentos transportes; ainda que caiam de joelhos diante de sua amante, o que desejam afinal e possuí-la, anexá-la; permanecem no coração de sua vida como sujeitos soberanos; a mulher amada não passa de um valor entre outros; querem integrá-la em sua existência, e não afundar nela uma existência inteira. Para a mulher, ao contrário, o amor é uma demissão total em proveito de um senhor.

   É preciso que a mulher esqueça sua própria personalidade quando ama, escreve Cécile Sauvage. É uma lei da natureza. Uma mulher não existe sem um senhor. Sem um senhor é um ramalhete esparso.

     Em verdade, não é de uma lei da natureza que se trata. É a diferença de suas situações que se reflete na concepção que o homem e a mulher têm do amor. O indivíduo que é sujeito, que é ele mesmo, tendo o gosto generoso da transcendência, esforça-se por ampliar seu domínio sobre o mundo: é ambicioso, age. Mas um ser inessencial não pode descobrir o absoluto no coração de sua subjetividade. Um ser votado à imanência não pode realizar-se em atos. Encerrada na esfera do relativo, destinada ao macho desde a infância, habituada a ver nele um soberano a quem não lhe é dado igualar-se, a mulher que não sufocou sua reivindicação de ser humano sonhará em ultrapassar-se para um desses seres superiores, em unir-se, confundir-se com o sujeito soberano. Não há para ela outra saída senão perder-se de corpo e alma em quem lhe designam como o absoluto, o essencial. Como de qualquer maneira se acha condenada à dependência, a obedecer a tiranos — pais, marido, protetor — prefere servir um Deus; escolhe querer tão ardorosamente sua escravidão que esta se apresentará a ela como a expressão de sua liberdade; esforçar-se-á por superar sua situação de objeto inessencial assumindo-a radicalmente; através de sua carne, de seus sentimentos, de suas condutas exaltará soberanamente o amado, pô-lo-á como a realidade e o valor supremos; aniquilar-se-á diante dele. O amor para ela torna-se uma religião.
     Vimos que a adolescente começa querendo identificar-se com os homens; quando a isso renuncia, procura então participar de sua virilidade, fazendo-se amar por um deles; não é a individualidade deste ou daquele homem que a seduz; ela está apaixonada pelo homem em geral. "E vós, homens que amarei, como vos espero!", escreve Irene Reweliotty. "Como me regozijo com vos conhecer muito breve: Tu principalmente, o primeiro." É preciso, naturalmente, que o homem pertença à mesma classe, à mesma raça: o privilégio do sexo só funciona dentro desse quadro; para que seja um semideus, ele deve, evidentemente, ser antes de tudo um ser humano; para a filha do oficial colonial o indígena não é um homem; se a jovem se entrega a um inferior é porque procura degradar-se, porque não se acredita digna do amor; normalmente ela procura o homem em quem se afirma a superioridade masculina; ela é logo levada a constatar que muitos indivíduos do sexo eleito são tristemente contingentes e terrestres; mas tem de início um preconceito favorável em relação a eles; cabe-lhes menos provar seu valor do que não o desmentir por demais grosseiramente. É o que explica tantos erros amiúde lamentáveis; a jovem ingênua prende-se ao espelho da virilidade. Segundo as circunstâncias, o valor masculino manifestar-se-á a seus olhos pela força física, a elegância, a riqueza, a cultura, a inteligência, a autoridade, a situação social, um uniforme militar: mas o que ela deseja sempre é que no amante se resuma a essência do homem. A familiaridade basta muitas vezes para destruir o prestígio; ele desmorona com o primeiro beijo, ou com o convívio quotidiano, ou durante a noite de núpcias. Entretanto, o amor à distância é apenas um fantasma, não uma experiência real. É quando carnalmente confirmado que o desejo de amor se torna um amor apaixonado. Inversamente, o amor pode nascer dos amplexos físicos, exaltando a mulher sexualmente dominada o homem que lhe parecia antes insignificante. Mas o que acontece constantemente é que a mulher não consiga transformar nenhum dos homens que conhece em um deus. O amor ocupa na vida feminina menor lugar do que sempre se pretendeu. Marido, filhos, lar, prazeres, vida mundana, vaidade, sexualidade, carreira, são muito mais importantes. Quase todas as mulheres sonharam com "o grande amor": conheceram sucedâneos deste, aproximaram-se dele; sob aspectos de figuras inacabadas, magoadas, irrisórias, imperfeitas, mentirosas, ele as visitou; mas muito poucas lhes consagraram realmente a existência. As grandes amorosas são, o mais das vezes, mulheres que não usaram o coração nos amores juvenis; aceitaram primeiramente o destino feminino tradicional: marido, casa, filhos; ou conheceram uma dura solidão; ou confiaram em alguma empresa que malogrou. Quando entreveem a possibilidade de salvar sua vida decepcionante, dedicando-a a um ser de elite, dão-se de corpo e alma a essa esperança. Mlle Aissé, Juliette Drouet, Mme d'Agoult tinham quase trinta anos no início de sua vida amorosa, Julie de Lespinasse quase quarenta; nenhum fim se propunha a elas, não estavam em condições de empreender coisa alguma que lhes parecesse interessante, não havia para elas outra saída senão o amor.
     Mesmo com a possibilidade de serem independentes, esse caminho é ainda o que se lhes afigura mais atraente; é angustiante assumir a empresa de sua vida; o adolescente volta-se também amiúde para mulheres mais idosas, nas quais procura um guia, uma educadora, uma mãe; mas sua formação, os costumes, as determinações que encontra em si mesmo proíbem-lhe deter-se definitivamente na solução fácil da abdicação; ele só encara tais amores como uma etapa. A sorte do homem — na idade adulta como na primeira infância — está em que o constrangem a enveredar pelos caminhos mais árduos mas também mais seguros; a desgraça da mulher está em que se acha cercada de tentações quase irresistíveis; tudo a incita a seguir o declive da facilidade: ao invés de convidá-la a lutar por sua conta, dizem-lhe que lhe basta deixar as coisas correrem para alcançar paraísos encantadores; quando percebe que foi vítima de uma miragem, é tarde demais; suas forças esgotaram-se na aventura.
     Os psicanalistas afirmam de bom grado que a mulher busca no amante a imagem do pai; mas é por ser homem e não por ser pai que ele deslumbra a criança, e todo homem participa dessa magia. A mulher não almeja reencarnar um indivíduo no outro e sim ressuscitar uma situação: a que conheceu menina, ao abrigo dos adultos. Integrada no lar, gozou a paz de uma quase passividade; o amor devolver-lhe-á a mãe, como o pai; devolver-lhe-á a infância. O que ela almeja é reencontrar um teto sobre a cabeça, muros que lhe escondam seu abandono no mundo, leis que a defendam contra sua liberdade. Esse sonho infantil povoa muitos amores femininos; a mulher sente-se feliz porque o amante a chama de "filhinha, criança querida"; os homens sabem muito bem que estas palavras: "Estás com uma cara de menininha" são das que mais comovem o coração das mulheres; vimos quantas sofreram com se tornar adultas; muitas se obstinam em "ser crianças", em prolongar indefinidamente a infância na atitude e nos vestidos. Tornar a ser criança nos braços de um homem as satisfaz amplamente. É o tema de certa cançoneta muito vulgarizada

Sinto-me em teus braços tão pequena 
tão pequena, ó meu amor...¹, 

tema que se repete sem cessar nas conversações e nas cor respondências amorosas. "Baby, meu bebê", murmura o amante; e a mulher diz de si mesma: "Tua menina, tua menininha . Irene Reweliotty escreve: "Quando chegará quem saberá dominar-me"? E acreditando tê-lo encontrado: "Gosto de te sentir um homem, e superior a mim". 

[1] Je me sens en tes bras si petite, si petite, ô mon amour...

     Uma psicastênica estudada por Janet (Les Obsessions et la Psychasthénie) ilustra de maneira impressionante essa atitude:

   Desde quando posso lembrar-me, todas as tolices ou todas as boas ações que pude praticar decorrem da mesma causa, uma aspiração a um amor perfeito e ideal em que possa entregar-me inteiramente, confiar todo o meu ser a um outro ser, Deus, homem ou mulher, tão superior a mim que não teria mais necessidade de pensar em me conduzir na vida ou em atentar para mim. Encontrar alguém que me amasse o bastante para cuidar de me fazer viver, alguém, a quem. eu obedeceria cegamente e com toda a confiança, certa de que me evitaria qualquer fraqueza e que me guiaria em linha reta, docemente e com muito amor para a perfeição. Quanto invejo o amor ideal de Maria Madalena e de Jesus: ser o discípulo ardoroso de um mestre adorado e que o mereça; viver, morrer para seu ídolo, acreditar nele sem nenhuma dúvida possível, ter enfim a vitória definitiva do Anjo sobre a Besta, aconchegar-me em seus braços, tão envolvida, tão pequena, tão encolhida à sua proteção, tão sua que não mais exista.

     Numerosos exemplos já nos provaram que esse sonho de aniquilamento é, na verdade, uma ávida vontade de ser. Em todas as religiões, a adoração de Deus confunde-se para o devoto com a preocupação de sua própria salvação; a mulher entregando-se inteiramente ao ídolo, espera que ele lhe dará a um tempo a posse de si mesma e a do universo que nele se resume. Na maioria das vezes é primeiramente a justificação, a exaltação de seu ego que ela pede ao amante. Muitas mulheres só se entregam ao amor sendo por sua vez amadas: e o amor que lhe manifestam basta algumas vezes para as tornar apaixonadas. A jovem sonhou-se través de olhos masculinos e é em olhos masculinos que a mulher acredita enfim encontrar-se.

   Andar a teu lado, escreve Cécile Sauvage, fazer que avançassem meus pezinhos que amavas, senti-los tão miúdos em seus sapatos altos de cano de feltro dava-me amor por todo o amor com que os cercavas. Os menores movimentos de minhas mãos em meu regalo, de meus braços, de meu rosto, as inflexões de minha voz enchiam-me de felicidade.

     A mulher sente-se dotada de um valor alto e seguro; tem enfim licença para se amar através do amor que inspira. Embriaga-se com encontrar uma testemunha no amante. É o que confessa La Vagabonde de Colette.

   Cedi, confesso-o, cedi permitindo a esse homem que voltasse amanhã, ao desejo de conservar nele não um amoroso, não um amigo, mas um espectador ávido de minha vida e de minha pessoa... É preciso envelhecer terrivelmente, disse-me um dia Margot, para renunciar à vaidade de viver diante de alguém.

     Em uma de suas cartas a Middleton Murry, Katherine Mansfield conta que acaba de comprar um delicioso corpete roxo; acrescenta logo: "Que pena que não haja ninguém para vê-lo!" Não há pior amargura do que se sentir a flor, o perfume, o tesouro que nenhum desejo exige: que é uma riqueza que não enriquece a mim mesma e que ninguém deseja receber? O amor é o revelador que faz aparecer em traços positivos e claros a pá lida imagem negativa tão vã quanto um clichê apagado; me diante esse revelador, o rosto da mulher, as curvas de seu corpo, suas recordações de infância, suas antigas lágrimas, seus vestidos, seus hábitos, tudo o que ela é, tudo o que lhe pertence escapa da contingência e torna-se necessária: ela é um presente maravilhoso ao pé do altar de seu deus.

   Antes que ele tivesse gentilmente pousado as mãos sobre os ombros dela, antes que seus olhos se tivessem saturado dela, ela não fora se não uma mulher não muito bonita em um mundo incolor e morno. Desde o momento em que ele a beijara, ela estava em pé na luz na cara da da imortalidade (M. Webb, O Peso das Sombras).

     Eis por que os homens dotados de prestígio social e hábeis em lisonjear a vaidade feminina suscitarão paixões ainda que sem nenhuma sedução física. Pela sua situação elevada encarnam a Lei, a Verdade: sua consciência desvenda uma realidade incontestada. A mulher que eles louvam sente-se transformada em um tesouro sem preço. Daí é que vinham, por exemplo, segundo Isadora Duncan (Minha Vida), os êxitos de d'Annunzio.

   Quando d'Annunzio ama uma mulher, ele ergue sua alma acima da terra até as regiões em que se move e resplende Beatriz. De cada vez ele faz cada mulher participar da essência divina, ergue-a tão alto, tão alto que ela se imagina realmente no plano de Beatriz... Sobre cada favorita ele jogava alternativamente um véu deslumbrante. Ela erguia-se acima dos outros mortais e caminhava aureolada de uma luz estranha. Mas quando o capricho do poeta chegava ao fim e ele a abandonava por outra, o véu de luz desaparecia, a auréola dissipava-se e a mulher retornava ao barro vulgar.. . Ouvir-se elogiar com essa magia peculiar a d'Annunzio é uma alegria comparável à que Eva pôde experimentar quando ouviu a voz da serpente no Paraíso. D'Annunzio pode dar a toda mulher a impressão de que ela é o centro do universo.

     É somente no amor que a mulher pode harmoniosamente conciliar seu erotismo com seu narcisismo; já vimos que há entre esses dois sistemas uma oposição que torna difícil a adaptação da mulher a seu destino sexual. Fazer-se objeto carnal, presa, contradiz o culto que ela rende a si mesma: parece-lhe que os amplexos lhe gastam e lhe emporcalham o corpo ou que lhe degradam a alma. Por isso é que certas mulheres escolhem a frieza, pensando manter assim a integridade de seu ego. Outras dissociam as volúpias animais dos sentimentos elevados. Caso muito característico é o de Mme D. S., narrado por Stekel e que já citei a propósito do casamento.

   Fria, com um marido respeitado, depois da morte deste, encontrou um homem igualmente artista, grande músico, e tornou-se sua amante. Esse amor era, e é ainda, tão absoluto que ela só se sente feliz perto dele. Toda sua vida se resume em Lothar. Mas, embora amando-o ardorosamente, continuava fria em seus braços. Outro homem cruzou-lhe o caminho. Era um camponês forte e brutal que, estando um dia a sós com ela, a possui simplesmente, sem mais histórias. Ela ficou tão atônita que o deixou fazer. Mas nos braços dele sentiu um orgasmo violento. "Nos braços dele, dizia ela, eu me restabeleço por um período de meses. É como uma embriaguez selvagem, mas seguida de um nojo indescritível quando penso em Lothar. Detesto Paul e amo Lothar. Paul porém me satisfaz. Em Lothar tudo me atrai. Mas parece que me transformo em puta para gozar, desde que como mulher de bem o gozo me é vedado." Ela recusa-se a casar com Paul mas continua a dormir com ele; nesses momentos, "transforma-se em um outro ser" e palavras cruas, como nunca ousaria pronunciar, escapam-lhe da boca.

continua página 416...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (1)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

sábado, 26 de setembro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Castrações religiosas: os skoptsys

Elias Canetti

A ORDEM

     Castrações religiosas: os skoptsys

          Sabe-se de alguns cultos religiosos que são celebrados com tanta intensidade que acabam induzindo à prática de castrações. Na Antiguidade, os sacerdotes da Grande Mãe Cibele eram conhecidos por esse motivo. Existiram milhares deles que num ataque de frenesi se castraram em homenagem à sua deusa. Em Comana, nas imediações do Ponto, onde se erguia um célebre santuário dedicado à deusa, dez mil seres humanos estavam a seu serviço nessas condições. Não eram apenas homens que se consagravam dessa forma. Mulheres que queriam expressar sua veneração emputavam os seios e se incorporavam à corte da deusa. Em sua obra Sobre a Deusa Síria, Luciano narra como os fiéis caem em delírio durante uma reunião e como um deles, cuja vez havia chegado, se castra. É um sacrifício que ele oferece à deusa para demonstrar-lhe de uma vez por todas o quanto a ama e que nenhum outro amor terá lugar em sua vida.
     A mesma prática se conhece também em relação à seita russa dos skoptsys, as "pombas brancas", cujo fundador, Silivanov, causou nos tempos da imperatriz Catarina II a maior das sensações devido ao êxito de suas pregações. Sob sua influência, centenas, talvez milhares de homens se castraram, e mulheres amputaram os seios como prova de sua fé. É impossível supor que exista alguma conexão histórica entre estas duas configurações religiosas. Esta última seita se originou a partir do Cristianismo russo, cerca de 1500 anos depois de terem terminado os excessos dos sacerdotes frígio-sírios.
     Os skoptsys se distinguem pela concentração sobre um escasso número de mandamentos e de proibições e também por constituírem pequenos grupos de prosélitos que se conhecem muito bem entre si. Concentrada ao máximo está também sua disciplina — o reconhecimento e a adoração de um Cristo vivo entre eles.
     Eles temem a distração causada pelos livros e quase não leem. Na Bíblia são poucas as passagens que significam alguma coisa para eles.
     Sua vida comunitária é muito densa, protegida por diversas maneiras mediante juramentos sagrados. O segredo desempenha para eles um papel extraordinário e decisivo. Sua atividade cultural se desenvolve principalmente à noite, isolada e oculta do mundo exterior. O centro de sua vida reside na quilo que eles devem guardar da maneira mais secreta: a castração, que eles chamam branqueamento.
     Mediante esta operação eles devem transformar-se em anjos puros e brancos. E passam a viver já na terra como se estivessem no céu. A complicada veneração que têm uns em relação aos outros, suas reverências e adorações, seus elogios mútuos são semelhantes àqueles que os anjos deveriam ter entre si.
     A mutilação à qual devem submeter-se tem o caráter rígido de uma ordem. Trata-se de uma ordem que vem de cima; eles a extraíram de certas frases de Cristo nos Evangelhos e também de uma frase dita por Deus a Isaías.
     Eles recebem esta ordem com uma força tremenda e é com esta mesma força que devem transmiti-la. A teoria do aguilhão pode muito bem ser aplicada a eles. A ordem neste caso é executada no próprio receptor. Faça ele o que fizer, o que realmente deve fazer é castrar-se.
     Para esclarecer as coisas, será necessário revisar uma série de ordens de índole especial.
     Considerando que se trata de ordens que são dadas dentro do âmbito de uma disciplina rígida, elas podem ser comparadas às ordens militares. Também o soldado é educado para expor-se ao perigo. Todo o seu treinamento serve para que ele no fim se apresente diante do inimigo, mesmo quando este o ameaça de morte. O fato de ele próprio tentar matá-lo não é reais importante do que sua resistência; sem esta, ele jamais seria capaz de realizar seu intento.
     O soldado, exatamente como o skoptsy, se oferece como vítima. Ambos têm esperança de sobreviver, mas contam com a possibilidade de serem feridos, com a dor, o sangue e a mutilação. Pela batalha o soldado espera tornar-se vencedor. pela castração o skoptsy se transforma em anjo e tem direito ao céu, no qual a partir desse momento ele já passa a viver.
     Mas trata-se dentro desta disciplina de uma ordem secreta, e assim ela somente é comparável à situação na qual se encontra quem está sob comando militar e que deve executar sozinho uma ordem secreta, sem que ninguém saiba do assunto. Para atingir esta finalidade ele não pode ser reconhecível pelo uniforme, devendo portanto disfarçar-se. O uniforme do skoptsy, aquilo que o iguala aos demais aos quais pertence, é sua castração, e esta por sua própria natureza permanece sempre secreta, não podendo jamais ser revelada.
     Seria possível dizer, portanto, que o skoptsy se assemelha a um membro daquela temida seita dos assassins, ao qual um superior ordenou um assassinato de que ninguém jamais terá conhecimento. Mesmo quando a execução é levada a termo, pessoa alguma ficará sabendo como foi realizada. A vítima pode ser atingida e o assassino capturado depois do ato; mesmo assim jamais se esclarecerá o procedimento propriamente dito. A ordem neste caso é uma sentença de morte e está desta forma muito próxima de sua origem biológica. O emissário é enviado a uma morte certa, mas isto não é levado em consideração, pois sua morte, que ele aceita voluntariamente, é usada para se atingir outra pessoa, a vítima escolhida. A ordem se amplia transformando-se numa dupla sentença de morte: uma delas não é formulada, apesar de se contar com ela; a outra é apontada com consciência clara e plena. O aguilhão, que pereceria com o subordinado, é desta forma utilizado antes de desaparecer.
     Os mongóis têm uma expressão muito gráfica para designar este matar precipitado, antes de a própria pessoa ser morta. Os heróis, em sua História Secreta, dizem de um inimigo que querem matar no último instante antes de morrer: "Eu o levarei comigo como travesseiro".
     Mas, se com esta consideração a respeito dos assassins nós conseguimos nos aproximar da situação do skoptsy, mesmo assim ainda não conseguimos apreendê-la com precisão. Pois o skoptsy é obrigado a atingir ou a mutilar sua própria pessoa, A ordem que ele aceitou somente pode ser executada em si mesmo, e somente executando esta ordem é que ele se transforma num membro efetivo do seu exército secreto.
     Não podemos deixar-nos confundir neste diagnóstico pelo fato de que a castração na maioria das vezes é realizada por outras pessoas. Seu sentido reside no fato de que é o próprio indivíduo quem se oferece voluntariamente à castração. Uma vez que ele se declarou disposto a permitir que isso aconteça, perde importância o como é feito. Posteriormente ele irá querer transmitir isso de todas as maneiras; seu aguilhão para tanto permanece sempre igual, uma vez que ele recebeu a ordem a partir de fora para dentro.
     Mesmo se, como é de se supor, houve uma primeira pessoa que começou a efetuar a operação em si mesma, ela também agiu em função de uma suposta ordem celeste. Ela está firmemente convencida disto. As passagens bíblicas que utiliza para converter outras pessoas são as que a levaram à conversão; ela transmite exatamente o que recebeu.
     O aguilhão adquire neste caso a forma visível de uma cicatriz física. Ela é menos secreta do que o aguilhão habitual da ordem. No entanto, ela permanece secreta diante de todos os que não pertencem à seita.
  
continua na página 181...
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Massa e Poder - A Ordem: Castrações religiosas: os skoptsys 
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

Edgar Allan Poe - Contos: O gato preto

Edgar Allan Poe - Contos


O gato preto

Para a narrativa sumamente extravagante e contudo sumamente trivial em que tomo da pena, não espero nem peço crédito. De fato, louco seria eu de esperar tal coisa, num episódio em que até meus próprios sentidos rejeitam o que testemunharam. Contudo, não estou louco — e, decerto, tampouco estou sonhando. Mas amanhã morrerei e hoje quero desafogar minha alma. Meu propósito imediato é expor diante do mundo, de modo direto, sucinto e sem comentários, uma série de simples eventos domésticos. Por suas consequências, esses eventos me aterrorizaram — torturaram — destruíram. Contudo, não farei uma tentativa de explicá-los. Para mim, pouco representaram além do Horror — para muitos, parecerão menos terríveis do que barrocos. Num futuro próximo, talvez, algum intelecto haverá de surgir para reduzir minha fantasmagoria ao lugar comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico e muito menos excitável do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias por mim detalhadas com assombro, nada mais do que uma ordinária sucessão de causas e efeitos perfeitamente naturais.
     
     Desde a infância sempre me fiz notar pela docilidade e humanidade de meu temperamento. Minha ternura de coração era de fato tão evidente que me tornava objeto de troça de meus companheiros. Tinha particular afeição por animais e fui mimado por meus pais com uma grande variedade de bichos de estimação. Com eles passava a maior parte do tempo e nunca me sentia tão feliz como nas ocasiões em que os alimentava e acariciava. Essa peculiaridade de caráter acompanhou-me ao crescer e, mais tarde, quando me tornei um homem, dela extraía uma das minhas principais fontes de prazer. Para aqueles que acalentaram afeição por um cão fiel e esperto, dificilmente preciso me dar o trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que disso pode advir. Há qualquer coisa no amor altruísta e abnegado de uma criatura bruta que cala fundo no coração de quem muitas vezes já teve ocasião de experimentar a amizade mesquinha e a fidelidade impalpável do mero Homem.
     Casei-me cedo, e tive a felicidade de encontrar em minha esposa uma disposição não incompatível com a minha própria. Observando meu apreço pelos animais domésticos, ela não perdia a oportunidade de obter os tipos mais agradáveis. Tivemos pássaros, peixes dourados, um ótimo cão, coelhos, um macaquinho e um gato.
     Este último era um animal notavelmente grande e belo, todo negro, e esperto em um grau espantoso. Falando de sua inteligência, minha esposa, que no fundo não era pouco imbuída de superstição, fazia frequente alusão à antiga crença popular que via em todos os gatos pretos bruxas disfarçadas. Não que em algum momento falasse a sério nesse sentido — e não toco no assunto por nenhum outro motivo além de acontecer, bem agora, de me vir à memória. 
     Pluto — esse o nome do gato — foi meu bicho e companheiro favorito. Somente eu o alimentava, e ele me seguia pela casa aonde quer que eu fosse. Era mesmo com dificuldade que conseguia impedi-lo de seguir-me pelas ruas.
     Nossa amizade durou, desse modo, por vários anos, durante os quais meu temperamento geral e caráter — por obra do Demônio da Intemperança — experimentaram (coro em confessar) uma radical alteração para pior. Tornei-me, a cada dia, mais taciturno, mais irritável, mais sem consideração pelos sentimentos alheios. Permitia-me o uso de uma linguagem destemperada com minha mulher. Por im, cheguei até a ameaçá-la de violência ísica. Meus bichos, é claro, também sofreram com minha mudança de disposição. Eu não só os negligenciava, como também os maltratava. Por Pluto, entretanto, ainda mostrava suficiente consideração para me abster de infligir-lhe maus-tratos, como fazia com os coelhos, o macaco ou mesmo o cão, quando, por acidente, ou talvez por afeto, entravam em meu caminho. Mas a doença ganhou corpo em mim — pois que doença se compara ao Álcool? — e no fim até mesmo Pluto, que a essa altura estava ficando velho e, consequentemente, um tanto malcriado — até mesmo Pluto começou a experimentar os efeitos de meu temperamento irascível.
     Certa noite, voltando para casa, muito embriagado, de uma de minhas tavernas pela cidade, julguei que o gato evitava minha presença. Agarrei-o; nisso, em seu medo de minha violência, ele me infligiu um leve ferimento na mão com os dentes. A fúria de um demônio apossou-se instantaneamente de mim. Eu não mais me reconhecia. Minha alma original pareceu, na mesma hora, levantar voo de meu corpo; e uma malevolência mais do que diabólica, inflamada a gim, convulsionou cada fibra de meu corpo. Tirei do bolso do colete um pequeno canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e deliberadamente arranquei um de seus olhos da órbita! Coro, enrubesço, estremeço conforme descrevo a abominável atrocidade.
     Quando a razão me voltou pela manhã — após ter dissipado no sono os vapores do desregramento noturno — experimentei um sentimento que era parte horror, parte remorso pelo crime do qual era culpado; mas foi, quando muito, um sentimento fraco e ambíguo, e a alma permaneceu intocada. Voltei a mergulhar em excessos e não tardei a afogar na bebida qualquer lembrança do ato.
     Entrementes, o gato lentamente se recuperou. A órbita do olho perdido apresentava, é verdade, uma aparência assustadora, mas ele não parecia sentir mais dor alguma. Andava pela casa como de costume, mas, como era de esperar, fugindo aterrorizado à minha aproximação. Restava-me su iciente de minha antiga afeição para que no início icasse magoado com esse evidente repúdio de parte de uma criatura que outrora tanto me amara. Mas esse sentimento em breve deu lugar à irritação. E então sobreveio, como que para minha ruína final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE. Desse espírito a filosofia não se ocupa. Contudo, não tenho tanta convicção sobre a existência de minha alma quanto tenho de que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano — uma das indivisíveis e primordiais faculdades, ou sentimentos, que orientam o caráter do Homem. Quem nunca se pegou, uma centena de vezes, cometendo algum ato vil ou tolo sem nenhum outro motivo além de saber que não deveria? Não mostramos uma perpétua inclinação, malgrado todo o nosso bom-senso, a violar essa coisa que chamamos Lei, meramente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, como disse, veio para minha ruína final. Foi esse inescrutável anseio da alma de atormentar a si mesma — de violentar sua própria natureza — de cometer o mal em nome do mal simplesmente — que me impeliu a continuar e finalmente consumar o agravo que já infligira à inofensiva criatura. Certa manhã, a sangue frio, passei um laço em torno de seu pescoço e o enforquei no galho de uma árvore; — enforquei-o com as lágrimas brotando de meus olhos, e com o remorso mais amargo no coração; — enforquei-o porque sabia que me amara, e porque sentia que não me dera o menor motivo para ressentimento; — enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado — um pecado mortal que poria minha alma imortal em perigo a ponto de deixá-la — se tal coisa era possível — fora de alcance até da misericórdia infinita do Deus Mais Misericordioso e Mais Terrível.
     Na noite do dia em que perpetrei essa cruel infâmia, fui despertado do sono pelos gritos de fogo. As cortinas de minha cama estavam em chamas. A casa toda ardia. Foi com grande dificuldade que minha esposa, uma criada e eu próprio conseguimos escapar da conflagração. A destruição foi completa. Todas minhas posses terrenas foram consumidas e entreguei-me dali em diante ao desespero.
     Não cedo à fraqueza de tentar estabelecer uma sequência de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade. Mas estou descrevendo uma cadeia de eventos — e não desejo deixar de fora nem sequer um possível elo. Certo dia após o incêndio iz uma visita às ruínas. As paredes, com exceção de uma só, haviam desabado. Essa exceção consistia de uma parede divisória interna, não muito grossa, mais ou menos no meio da casa, contra a qual ficava recostada a cabeceira de minha cama. O reboco havia, em grande parte, resistido à ação do fogo — ocorrência que atribuí ao fato de ter sido recentemente aplicado. Em torno dessa parede uma compacta multidão havia se reunido e muitas pessoas pareciam examinar uma área particular dela com atenção extremamente minuciosa e intensa. As palavras “estranho!”, “singular!” e outras expressões similares atiçaram minha curiosidade. Acerquei-me e vi, como que gravado em bas relief sobre a superfície branca, a figura de um gigantesco gato. A imagem se estampava com uma precisão realmente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.
     Quando contemplei a aparição — pois como menos que isso eu dificilmente podia encará-la — minha admiração e meu terror foram extremos. Até que enfim a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei, fora enforcado em um jardim adjacente à casa. Ao alarme de incêndio, esse jardim fora imediatamente tomado pela multidão — e alguém ali devia ter cortado a forca e jogado o animal por uma janela aberta dentro do meu quarto. Isso provavelmente fora feito com o intuito de me despertar de meu sono. A queda de outras paredes comprimira a vítima de minha crueldade na massa da alvenaria recém-aplicada; a cal do reboco, sob a ação do fogo, combinara-se ao amoníaco da carcaça para executar o esboço tal como eu o via.
     Embora desse modo procurasse eu prontamente prestar contas a minha razão, quando não, na medida do possível, a minha consciência, pelo fato alarmante que acabo de descrever, isso tampouco deixou de causar uma profunda impressão em minha imaginação. Por meses não consegui me libertar da imagem fantasmagórica do gato; e, durante esse período, voltou-me ao espírito um sentimento vago que parecia, mas não era, remorso. Cheguei a ponto de lamentar a perda do animal, e de procurar, nas sórdidas tavernas que agora me habituara a frequentar, outro bichano do mesmo tipo, e de aparência algo similar, com o qual suprir seu lugar.
     Certa noite, enquanto eu me sentava, meio entorpecido, num antro dos mais infames, minha atenção foi subitamente atraída por um objeto negro, repousando sobre a tampa de um imenso tonel de gim, ou rum, que constituía a principal peça de mobília do ambiente. Eu estivera a olhar fixamente para a tampa desse tonel por alguns minutos, e o que agora causava minha surpresa era o fato de não ter percebido antes o objeto que estava sobre ele. Aproximei-me e o toquei com a mão. Era um gato preto — muito grande — tão grande quanto Pluto, e muito parecido com ele em todos os aspectos, exceto um. Pluto não tinha um único pelo branco em todo o seu corpo; mas esse gato exibia uma mancha branca enorme, embora indefinida, a lhe cobrir toda a região do peito.
     No momento em que o toquei, ele se levantou de imediato, ronronou audivelmente, esfregou-se em minha mão e pareceu deliciado com a atenção concedida. Aquela, então, era exatamente a criatura que eu estava procurando. Ofereci-me na mesma hora para adquiri-lo junto ao dono; mas o homem afirmou que não lhe pertencia — que nada sabia do bicho — nunca o vira antes.
     Continuei com minhas carícias e quando me preparava para voltar para casa o animal evidenciou disposição de me acompanhar. Permiti que o fizesse; parando ocasionalmente e dando-lhe tapinhas carinhosos conforme andava. Quando cheguei em casa, ficou à vontade na mesma hora e imediatamente conquistou a predileção de minha mulher.
     De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém — não sei dizer como nem por que — sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus-tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente — muito gradualmente — comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.
     O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a descoberta, na manhã subsequente à noite em que o levei para casa, de que, como Pluto, ele também fora privado de um olho. Essa circunstância, entretanto, apenas o fez crescer em afeição perante minha esposa, que, como já disse, possuía, em elevado grau, essa humanidade de sentimentos que outrora havia sido meu traço característico, e a origem de muitos de meus prazeres mais singelos e puros.
     Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim pareceu aumentar. Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender. Sempre que me sentava, acomodava-se sob minha poltrona, ou pulava sobre meus joelhos, cobrindo-me com suas detestáveis carícias. Se eu me levantava para andar, metia-se entre meus pés e desse modo quase me derrubava, ou, cravando suas garras longas e afiadas em minha roupa, trepava, desse modo, até meu peito. Em momentos como esse, embora desejasse com todas as forças matá-lo de um só golpe, eu era contudo impedido de o fazer, em parte pela lembrança de meu antigo crime, mas principalmente — que eu o confesse logo de uma vez — por absoluto pavor da criatura.
     Esse pavor não era exatamente o pavor de um mal ísico — e contudo me faltariam palavras para de ini-lo de outro modo. Tenho quase vergonha de confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso, tenho quase vergonha de confessar — que o terror e o horror que esse animal me infundia haviam sido aumentados por uma das mais simples quimeras que seria possível conceber. Minha esposa chamara minha atenção, em mais de uma ocasião, para o caráter da mancha de pelo branco, da qual falei, e que constituía a única diferença visível entre o estranho animal e o outro que eu matara. O leitor haverá de recordar que essa mancha, embora grande, havia se mostrado originalmente muito indefinida; porém, mediante vagarosas gradações — gradações quase imperceptíveis, e que por longo tempo minha Razão lutou por rejeitar como fruto da imaginação —, assumira, finalmente, uma rigorosa precisão de contornos. Era agora a representação de um objeto que tremo em nomear — e por isso, acima de tudo, nutria ódio, e pavor, e teria me livrado do monstro caso ousasse — era agora, afirmo, a imagem de uma coisa hedionda — de uma coisa macabra — do PATÍBULO! — ah, pesaroso e terrível maquinismo de Horror e de Crime — de Agonia e de Morte!
     E agora eu estava de fato desgraçado para além da desgraça da mera Humanidade. E uma criatura bruta — cujo semelhante eu matara desprezivelmente — uma criatura bruta engendrara para mim — para mim, um homem, feito à imagem do Deus Altíssimo — tamanho e insuportável suplício! Ai de mim! nem de dia, nem de noite, conhecer a bênção do Descanso! Durante o dia, a criatura não me deixava mais um momento sozinho; e, à noite, eu acordava, de hora em hora, com pesadelos de indizível medo, para dar com o hálito quente da coisa sobre meu rosto, e seu vasto peso — a encarnação de um Súcubo que eu era impotente para repelir — oprimindo eternamente meu coração.
     Sob a pressão de tormentos como esses, o tênue resquício do que havia de bondade em mim cedeu. Pensamentos malignos tornaram-se meus únicos companheiros — os pensamentos mais negros e malignos. Meu temperamento habitualmente taciturno evoluiu num ódio por todas as coisas e por toda a espécie humana; ao passo que das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de uma fúria à qual eu agora cegamente me abandonava minha resignada esposa, ai de mim!, era a mais habitual e a mais paciente das vítimas.
     Certo dia ela me acompanhava, em algum serviço doméstico, ao porão da velha casa que nossa pobreza nos compelia a ocupar. O gato me seguiu pelos íngremes degraus e, quase me fazendo cair de frente, exasperou-me ao ponto da loucura. Erguendo um machado, e esquecendo, em minha ira, o pavor infantil que até então detivera minha mão, dirigi um golpe contra o animal que, sem dúvida, teria se provado instantaneamente fatal caso houvesse descido como eu desejara. Mas o golpe foi interrompido pela mão de minha esposa. Instigado por essa interferência numa fúria mais do que demoníaca, libertei meu braço e enterrei o machado em seu cérebro. Ela tombou morta imediatamente, sem um gemido.
     Executado o assassinato hediondo, procedi incontinente, e com total determinação, à tarefa de ocultar o corpo. Eu sabia que não poderia removê-lo da casa, de dia ou de noite, sem o risco de ser observado pelos vizinhos. Inúmeros planos passaram por minha mente. A certa altura, pensei em cortar o cadáver em pequenos pedaços e destruí-los no fogo. Em outro momento, resolvi cavar um buraco para enterrá-lo no chão do porão. Depois, considerei a possibilidade de jogá-lo no poço do quintal — ou de fazer um embrulho e encaixotá-lo, como se fosse uma mercadoria, tomando as usuais providências, de modo que um carregador viesse levá-lo da casa. Finalmente, ocorreu-me um expediente que julguei muito melhor do que todos esses. Decidi emparedá-lo no porão — como ouvira dizer que os monges da Idade Média faziam com suas vítimas.
     Para um tal propósito o porão se prestava bem. Suas paredes eram construídas sem firmeza, e haviam recentemente recebido uma camada grosseira de reboco, que a umidade do ambiente impedira de endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência, causada por uma falsa chaminé, ou lareira, que fora preenchida, de modo a se parecer com o restante do porão. Não tive dúvida de que seria capaz de remover facilmente os tijolos nesse lugar, inserir o cadáver e reconstruir a parede como antes, de modo que olho algum detectasse algo suspeito.
     E nesse cálculo não me equivoquei. Utilizando um pé de cabra, desloquei rapidamente os tijolos e, após escorar o corpo cuidadosamente contra a parede interna, mantive-o nessa posição, enquanto, com pouca dificuldade, refazia toda a estrutura como se mostrava originalmente. Tendo buscado argamassa, areia e crina, com todas as precauções possíveis, preparei um reboco que fosse indistinguível do antigo, e com ele procedi muito diligentemente à obra da nova alvenaria. Após terminar, observei satisfeito o trabalho bem-feito. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido perturbada. Recolhi o entulho no chão com cuidado mais do que minucioso. Olhei em torno em triunfo e disse comigo mesmo — “Aí está, pronto, meu trabalho não foi em vão”.
     Meu passo seguinte foi procurar pelo causador de tamanha desgraça; pois eu havia, en im, chegado à irme determinação de matá-lo. Tivesse eu sido capaz de encontrá-lo naquele momento, não resta dúvida sobre qual teria sido seu destino; mas ao que parecia a criatura astuciosa se alarmara com a violência de minha fúria precedente e evitava aparecer em meu presente estado de espírito. É impossível descrever, ou imaginar, a profunda, jubilosa, sensação de alívio que o sumiço do detestado animal ocasionou em meu peito. Ele não apareceu durante a noite — e assim, por uma noite, ao menos, desde que fora trazido à casa, dormi um sono profundo e tranquilo; sim senhor, dormi, mesmo com o fardo do assassinato em minha alma!
     O segundo e o terceiro dia se passaram, e ainda nem sinal de meu algoz. Eu voltava a respirar como um homem livre. O monstro, aterrorizado, fugira do lugar para sempre! Eu não o veria nunca mais! Minha felicidade era suprema! A culpa por meu ato tenebroso pouco me perturbava. Umas poucas perguntas haviam sido feitas, mas foram respondidas prontamente. Até mesmo uma busca fora empreendida — mas é claro que nada se descobrira. Eu contemplava minha futura felicidade como assegurada.
    No quarto dia após o crime, uma equipe policial veio, um tanto inesperadamente, ter à minha porta, e procedeu mais uma vez a uma rigorosa investigação da casa. Confiante, entretanto, na inescrutabilidade de meu esconderijo, mostrei grande desembaraço. Os policiais instaram que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram um único vão ou recesso por examinar. Finalmente, pela terceira ou quarta vez, desceram ao porão. Não tremi um músculo sequer. Meu coração batia tão calmamente como o de alguém no sono da inocência. Andei pelo porão de ponta a ponta. Cruzei os braços sobre o peito e perambulei para cá e para lá, tranquilo. Os policiais se deram totalmente por satisfeitos e se prepararam para ir embora. A exultação em meu coração era forte demais para ser reprimida. Eu ardia por dizer nem que fosse uma palavra, a título de triunfo, e tornar duplamente garantida sua certeza de minha inocência.
     “Senhores”, disse eu, enfim, quando os homens subiam pela escada, “alegra-me ter-lhes aplacado as suspeitas. Desejo saúde a todos, e lhes apresento mais uma vez meus respeitos. A propósito, senhores, esta — esta é uma casa muito bem construída.” (Em meu incontrolável desejo de dizer o que quer que fosse com naturalidade, eu mal fazia ideia do que falava.) — “Devo dizer, uma casa excelentemente bem construída. Estas paredes — já vão, senhores? — estas paredes são obra sólida”; e nisso, no pleno frenesi de minha bravata, bati fortemente, com a bengala que levava na mão, exatamente naquela parte da alvenaria atrás da qual jazia o cadáver de minha amantíssima esposa.
     Mas queira Deus me proteger e livrar das presas do Príncipe das Trevas! Nem bem a reverberação de minhas batidas mergulhou no silêncio, fui atendido por uma voz vinda da tumba! — por um gemido, inicialmente abafado e fraco, como de uma criança a soluçar, e depois se dilatando rapidamente em um grito longo, elevado e contínuo, inteiramente anômalo e inumano — um uivo — um guincho lamurioso, metade horror e metade triunfo, tal como só poderia ter brotado do inferno num esforço combinado das gargantas dos condenados em sua agonia e dos demônios que exultam na danação.
     De meus próprios pensamentos é tolice falar. Desfalecendo, cambaleei para a parede oposta. Por um instante, os policiais na escada permaneceram imóveis, num paroxismo de terror e perplexidade. No instante seguinte, uma dúzia de braços vigorosos avançava contra a parede. Ela veio toda abaixo. O cadáver, já grandemente decomposto e coberto de crostas de sangue, surgiu ereto ante os olhos dos presentes. Em sua cabeça, com a boca vermelha escancarada e um olho solitário de fogo, estava a hedionda criatura cuja astúcia me levara ao assassinato, e cuja voz delatora me condenara à corda do carrasco. Eu emparedara o monstro dentro da tumba!

continua página 83...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 76 - O aríete

Moby Dick

Herman Melville

76 - O aríete 

     Antes de deixar, por ora, a cabeça do Cachalote, gostaria que você, na condição de fisiologista prudente, apenas – particularmente reparasse no aspecto da fronte, em toda sua coesão e calma. Gostaria que a examinasse agora com o único objetivo de fazer uma avaliação inteligente e nada exagerada da força de aríete que possa estar contida ali. É uma questão crucial; pois ou você aceita esse evento como inquestionável, ou permanece descrente para todo o sempre de um dos fatos mais estarrecedores, porém verdadeiros, que receberam registro nos autos da história.
     Observe que, em sua posição comum de nado, a testa do Cachalote fica num plano quase totalmente vertical em relação à água; observe que a parte inferior de sua testa se inclina bem para trás, como se fosse um abrigo para o encaixe comprido que recebe a verga de sua mandíbula inferior; observe que a boca dele está por completo embaixo da cabeça, mais ou menos como se sua própria boca estivesse inteiramente sob seu queixo. Ademais, observe que a baleia não tem um nariz externo; e que o nariz que tem – o orifício do jato – fica no topo de sua cabeça; observe que seus olhos e orelhas ficam do lado da cabeça, a aproximadamente um terço do comprimento de seu corpo a partir da cabeça. Com isso, você deve ter percebido que a testa da cabeça do Cachalote é uma parede insensível e desprovida de aberturas, sem um único órgão ou protuberância frágil de qualquer espécie. Além disso, lembre-se de que apenas na parte inferior extrema da testa, inclinada para trás, existe algum vestígio de osso; e de que, antes de chegar a uns vinte pés da testa, você não encontrará um pleno desenvolvimento do crânio. Portanto, essa massa imensa e desossada é somente uma almofada. Como será revelado, enfim, seu conteúdo constitui-se, em parte, do óleo mais refinado; entretanto, agora você será informado da natureza da substância que reveste de modo tão inexpugnável toda essa aparente efeminação. Nalgum lugar acima, descrevi como a gordura envolve o corpo da baleia, à maneira da casca que envolve a laranja. Assim se dá com a cabeça; mas com esta particularidade: perto da cabeça, tal invólucro, embora não tão espesso, se faz de uma dureza desossada, inimaginável para alguém que jamais tenha tocado nele. O arpão mais afiado, a lança mais incisiva atirada pelo mais forte dos braços humanos, nela ricocheteiam impotentes. É como se a testa do Cachalote fosse pavimentada com cascos de cavalos. Não creio que qualquer sensibilidade exista ali.
     Considere ainda uma outra coisa. Quando dois avantajados e carregados navios mercantes da rota da Índia se empurram e se espremem nas docas, o que é que os marinheiros fazem? Não colocam entre eles, no ponto de contato, nenhuma substância rija como ferro ou madeira. Não, eles suspendem ali um enchimento grande e redondo de estopa e cortiça, enrolado no mais espesso e duro couro de boi. Este, valente e livre de dano, recebe a compressão que teria arrebentado escoras de carvalho e alavancas de ferro. Isso basta para demonstrar o fato óbvio a que me refiro. Mas, somando-se a esse fato, ocorreu-me a hipótese de que, como o peixe comum tem uma bexiga natatória, capaz de aumentar ou diminuir à vontade; e como o Cachalote, tanto quanto sei, não dispõe de tal recurso; considerando a maneira de outro modo inexplicável com que ora afunda inteiramente sua cabeça abaixo da superfície, ora nada com a cabeça bem elevada para fora da água; considerando a elasticidade jamais obstruída de seu invólucro; considerando a especialíssima parte interna de sua cabeça; ocorreu-me a hipótese, repito, de que seus misteriosos e alveolares favos pulmonares possam ter uma, até o presente momento, desconhecida e insuspeitada relação com o ar exterior, de modo a serem suscetíveis à expansão e contração atmosférica. Se assim for, imagine quão irresistível é tal poder, que conta com a contribuição do mais inalcançável e destrutivo de todos os elementos.
     Agora, atenção. Impelindo de modo implacável essa parede insensível, inexpugnável, invencível, e essa coisa que flutua dentro dela; ali nada, por trás de tudo isso, uma gigantesca massa de vida, que só pode ser adequadamente calculada como lenha empilhada – em cordéis; e que obedece a uma única vontade, como o menor inseto. De modo que, quando, mais adiante, eu explicar em detalhes todas as peculiaridades e concentrações de energia escondidas pelo corpo desse monstro expansível; quando eu mostrar algumas de suas mais ordinárias proezas craniais; creio que você renunciará a toda a incredulidade ignorante e estará pronto para aceitar isto: que ainda que o Cachalote arrebentasse uma passagem através do Istmo de Darien, misturando o Atlântico ao Pacífico, você não perderia um fio de cabelo. Pois, se não reconhecer uma baleia, você será apenas um provinciano e sentimentalista diante da Verdade. Mas a Verdade cristalina é uma coisa com a qual só as salamandras gigantes se deparam; como são pequenas, então, as chances de um provinciano! O que aconteceu com o jovem infirme que levantou o véu da temível deusa em Sais?

continua na página 369...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete /     
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Tchekhov - A mulher do farmacêutico

Alguns melhores contos


“Meu objetivo é matar dois pássaros com um tiro: descrever a vida de modo veraz e mostrar o quanto essa vida se desvia da norma. Norma desconhecida por mim, como é desconhecida por todos nós”
Anton Tchekhov

A mulher do farmacêutico

     O lugarejo de B.., formado por duas ou três ruazinhas tortas, dorme seu sono pesado. No ar espesso o silêncio é total. Ouve-se apenas, ao longe, fora dos limites da cidade, o latido ardido e líquido de um cão que aos poucos enrouquece. É quase o amanhecer.
     Há muito tempo que tudo está dormindo. A única que não dorme é a jovem mulher do boticário Tchornomordik, proprietário da farmácia de B… Já tentou deitar-se três vezes, mas, não sabe por quê, o sono teima em não querer chegar. Sentada, a janela aberta, veste apenas uma camisola e olha para a rua. Sente calor, tédio, desgosto. Tanto desgosto que lhe dá até vontade de chorar; de novo, não sabe por quê.
     Sente um nó no peito que de repente lhe chega a garganta… Poucos passos atrás dela, colado à parede, dorme Tchornomordik e ronca baixinho. Uma pulga esfomeada suga-o a raiz do nariz, mas ele não percebe e até sorri, pois está sonhando que todos na cidade estão com tosse e compram dele, interminavelmente, as gotas do rei da Dinamarca. Nenhuma picada poderia acordá-lo agora, nem um canhão, nem uma carícia.
     Como a farmácia encontra-se quase no limite da cidade, a mulher do boticário consegue ver o campo, ao longe… Vê como o céu aos poucos faz-se branco, do lado do leste, e depois se torna púrpura, como que devido a um grande incêndio. Inesperadamente, de trás de um longínquo arbusto desponta o grande rosto da lua. Ela é vermelha (não sabe por que a lua saindo detrás dos arbustos sempre tem um quê de terrivelmente confuso).
     De repente, no meio da calma noturna, ressoam passos e o retinir de esporas. Ouvem-se vozes.
     Pouco depois surgem dois vultos e dois uniformes brancos de oficiais: um é grande e gordo, o outro menor e mais fino… Arrastam, preguiçosos, uma perna atrás da outra, ao longo da sebe, e conversam ruidosamente. Diante da farmácia diminuem ainda mais o passo e olham para as janelas.

– Sente-se cheiro de farmácia… – diz o magro. – E é uma farmácia! Ah, estou lembrando… Na semana passada vim aqui comprar óleo de rícino. O farmacêutico tem um rosto azedo e uma queixada de burro. Pois é, meu amigo, a queixada! Aquela mesma com que Sansão deu cabo dos filisteus.
– Sim… – diz o gordo, com sua voz de baixo. – O farmacêutico dorme e dorme a mulher do farmacêutico. Por sinal, Obtiossov, ela não é de se atirar aos cães.
– Eu a vi. E gostei… Diga-me doutor, será que ela pode gostar de uma queixada dessas? O senhor acha isso possível?
– Não, provavelmente, não gosta – suspira o médico com uma expressão como que de pena pelo farmacêutico. – A mamãezinha está dormindo atrás das janelas. Que acha, Obtiossov? Deitou-se, de tanto calor… a boca entreaberta… a perna caída, fora da cama. E a besta do farmacêutico não está com nada… Para ele, provavelmente, uma mulher ou um vidro de fenol são a mesma coisa.
– Sabe de uma coisa, doutor? – diz o oficial, parando. 
– Que tal entrar na farmácia e comprar alguma coisa? Quem sabe a gente vê a farmacêutica?
– Imagine – de madrugada!
– E daí? De madrugada também tem de atender. Entremos, por favor…

     A farmacêutica escondida atrás da cortina ouve o som rouco da campainha. Olha para o marido que, como dantes, ronca baixinho e sorri. Veste rapidamente a roupa, calça o sapato sem meia e corre para a loja.
     Atrás da porta de vidro veem-se duas sombras… A farmacêutica aumenta a luz da lamparina e abre a porta depressa. Já não sente tédio, nem desgosto, nem vontade de chorar; apenas o coração bate, forte. Entram o doutor gorducho e o esbelto Obtiossov. Agora pode olhá-los à vontade. O doutor barrigudo é moreno, barbado e lerdo. Ao menor movimento seu uniforme estala e seu rosto cobre-se de gotas de suor. Ao contrário, o oficial é rosado, sem barba, feminino e flexível como um chicote inglês.

– O que desejam? – pergunta a farmacêutica, segurando com uma das mãos o decote do vestido.
– Bem… dê-nos quinze copeques de pastilhas de hortelã. Sem se apressar, a mulher retira da prateleira a lata e começa a pesar. Os clientes olham para ela, de costas, sem pestanejar: o médico de olhos semicerrados, como um gato satisfeito, e o tenente, sério.
– É a primeira vez que vejo uma senhora trabalhar numa farmácia – diz o médico. 
– Não há nada de estranho – responde a farmacêutica olhando de viés para o rosto rosado de Obtiossov. – Como meu marido não tem ajudantes, quem o ajuda sou eu.
– É assim? Pois a senhora tem uma linda farmácia! Um montão dessas… latas!  E a senhora não tem medo de estar sempre às voltas com venenos? Brrr!

     A farmacêutica embrulha as pastilhas e as entrega ao médico. Obtiossov dá-lhe uma moeda de quinze copeques. Meio minuto de silêncio.. Os homens entreolham-se, dão um passo em direção à porta, olham se de novo.

– Dê-me dez copeques de bicarbonato de sódio! – diz o médico.

     De novo a farmacêutica move-se devagar e estende lentamente o braço para a prateleira.

– Será que aqui na farmácia não tem alguma coisa…– resmunga Obtiossov mexendo os dedos -, alguma coisa, assim, a senhora sabe, de alegórico, algum licor revigorante… gasosa, isso! A senhora tem gasosa?
– Tenho – responde a farmacêutica.
– Excelente! A senhora não é uma mulher, é uma feiticeira. Arranje-nos então umas três garrafas.

     Ela embrulha o bicarbonato de sódio e desaparece na sombra atrás da porta.

– Uma fruta! – diz o medico, piscando; – Um ananás como esse, Obtiossov, você não encontra nem sequer na ilha da Madeira. Hem? O que você acha? Porém. está ouvindo o ronco? É o senhor farmacêutico que resolveu dormir em santa paz.

     Um minuto mais tarde a farmacêutica está de volta com cinco garrafas que coloca no balcão. Acaba de subir do porão, por isso ela está corada e um pouco agitada.

– Sss… mais baixinho – diz Obtiossov quando ela deixa cair o abridor, após ter destampado as garrafas. Não faça tanto barulho, senão acorda seu marido.
– E daí, o que é que tem se ele acordar?
– Ele dorme tão bem… está sonhando com a senhora… À sua saúde!
– Além do que – acrescenta o médico com sua voz de baixo, após um gole de gasosa -, quanto ao marido, é uma coisa tão maçante que seria bom ele dormir sempre. Eh, com essa água, até que um vinhozinho ia bem.
– O que mais o senhor quer inventar! – ri a farmacêutica.
– Seria magnífico. É uma pena que não se vendam bebidas alcoólicas em farmácia. Mas… a senhora deve vender vinho, como remédio. A senhora por acaso tem vinum gallicum rubrum?
– Tenho.
– Viva! Traga-o, traga-o, com os diabos!
– Quanto o senhor quer? 
– Quantum satis. Para começo de conversa, traga uma onça num copo de água, depois veremos… Não é assim, Obtiossov? Primeiro com a água, depois já per se…

     O médico e Obtiossov sentam-se perto do balcão, tiram seus quepes e começam a beber o vinho tinto.

– É preciso convir, é horrível. Vinum malissimum. Embora em companhia de… he, he, he… ele pareça um néctar. Madame, a senhora é encantadora! Beijo-lhe a mão em pensamento.
– E o que eu daria para não fazê-lo em pensamento! falou Obtiossov.
– Palavra de honra! Daria a vida.
– Deixe disso… – falou a senhora Tchernomódrik, corando e assumindo um ar de seriedade.
– E, no entanto, como a senhora é coquete – ri o doutor baixinho, olhando-a de baixo, maliciosamente. Seus olhos disparam: pam! pam! Parabéns, a senhora ganhou! Fomos atingidos!

     A farmacêutica olha para seus rostos corados, ouve suas palavras e logo ela também se anima. Entra na conversa, ri, flerta e até, após tantos pedidos, consente em beber duas onças de vinho tinto.

– Ah, se vocês oficiais viessem mais vezes do acampamento para a cidade – diz ela. – Aqui é tão aborrecido. Morro de tanto tédio.
– Não faça isso! – exclama o doutor horrorizado. Uma fruta dessas… um milagre da natureza nesse lugar perdido. Bem que Griboiédov disse: “Para o deserto, para Sarátov!” Infelizmente, já está na hora. Tive imenso prazer em conhecê-la... Imenso. Quanto lhe devemos?

     A farmacêutica levanta os olhos para o teto e move demoradamente os lábios.

– Doze rublos e quarenta e oito copeques – diz, afinal. Obtiossov tira do bolso uma carteira recheada, fica um tempão remexendo entre as notas e acerta a conta.
– Seu marido dorme em paz… sonha… – resmunga ele, apertando o braço da farmacêutica, ao despedir-se.
– Não gosto de ficar ouvindo besteiras…
– Mas que besteiras… Já Shakespeare dizia: “Feliz daquele que foi jovem quando jovem”.
– Solte meu braço!

     Finalmente, depois de longas conversas, os clientes beijam a mão da farmacêutica e, incertos, como se temessem ter esquecido alguma coisa, saem da farmácia.
     Ela corre logo para o quarto e senta-se à mesma janela. Vê que o doutor e o tenente, após terem saído da loja, andam uns vinte passos sem vontade, depois param e começam a bisbilhotar entre si. O coração dela bate. Sobre o que será? As têmporas também latejam, por quê, ela mesma não sabe… O coração bate forte, como se aqueles dois, bisbilhotando lá fora, fossem decidir seu destino.
     Uns cinco minutos depois o médico se afasta de Obtiossov e prossegue, enquanto o outro retorna. Passa pela farmácia uma, duas vezes… Para perto da porta, começa a andar de novo. Afinal, toca com cuidado a campainha.

– O que há? Quem está aí? – a farmacêutica ouve de repente a voz do marido. – Estão tocando e você não escuta? Que droga!

     Ele levanta, veste o robe e balançando, meio sonado, arrasta os chinelos e vai até a loja.

– O que… o senhor quer? – pergunta a Obtiossov.
– Dê-me… dê-me quinze copeques de pastilhas de hortelã.

     Tchornomordik sopra, boceja, anda dormindo, bate com os joelhos no banco, sobe na prateleira e apanha a lata.
     Dois minutos mais tarde a farmacêutica vê Obtiossov sair da loja e, depois de alguns passos, jogar na estrada poeirenta as pastilhas de hortelã. Da esquina o médico vem a seu encontro.. Ambos se juntam e, gesticulando com as mãos, desaparecem na bruma da manhã.

– Como eu sou infeliz! – diz a farmacêutica, olhando com ódio o marido que se despe depressa para deitar de novo.
– Oh, como eu sou infeliz! – repete ela, e de repente seus olhos se enchem de lágrimas. – E ninguém, ninguém desconfia…
– Esqueci quinze copeques no balcão – resmunga o marido desaparecendo sob o cobertor. Esconda-os na caixa, por favor…

Fim

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Leia também:
A mulher do farmacêutico /        .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.