terça-feira, 16 de junho de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Mistério de Marie Roget (e)

Edgar Allan Poe - Contos


O Mistério de Marie Roget
Título original: The Mystery of Marie Roget
Publicado em 1842  

continuando...

« Também em relação à veracidade que pareça ainda revestir a argumentação do Commercial, essa veracidade ficará bastante diminuída se considerarmos a hora a que a jovem saiu. Foi — diz o jornal — numa altura em que as ruas estão cheias de gente. Mas isto não é verdade. Eram nove horas da manhã. Ora, às nove horas da manhã, durante toda a semana, exceto ao domingo, as ruas da cidade estão, é verdade, cheias de gente. As nove da manhã de domingo, cada um está geralmente em sua casa, preparando-se para ir à igreja. Não há razoável observador que não tenha notado o aspecto particularmente deserto da cidade, ao domingo, entre as oito e as dez da manhã. Entre as dez e as onze, as ruas estão cheias de gente, mas nunca a uma hora tão matinal como a que foi designada.
« Há um outro ponto em que o espírito de observação parece ter faltado ao Commercial. Um pedaço de uma das saias da infeliz jovem, com sessenta centímetros de comprimento e trinta de largura, tinha sido arrancado, amarrado em torno do pescoço e preso atrás com um nó, provavelmente para impedi-la de gritar. Isto foi feito por indivíduos que nem sequer tinham um lenço de bobo. Se esta ideia tem ou não fundamento é o que tentaremos mais tarde examinar; mas com as palavras indivíduos que nem sequer tinham um lenço de bolso, o editor pretende designar a mais vil classe de patifes. No entanto, esse é justamente o ênero de gente que tem sempre lenços, mesmo quando não tem camisa. Já teve ocasião de observar a que ponto, nestes últimos anos, o lenço de bolso se tornou um objete que o perfeito patife não pode dispensar.

— E que devemos pensar — perguntei — do artigo do Soleil? 
— Que é uma pena que o seu redator não tenha nascido papagaio, pois nesse caso teria sido o mais ilustre espécime da sua raça. Limitou-se simplesmente a repetir fragmentos das opiniões individuais já expressas, que foi buscar, com uma louvável habilidade, a tal ou tal diário. Os objetos — afirma o Soleil — estiveram no local, segundo toda a evidência, durante pelo menos três ou quatro semanas... Não é pois possível duvidar de que foi finalmente descoberto o teatro do abominável caso. Os factos aqui novamente enunciados pelo Soleil não bastam para dissipar as minhas próprias dúvidas quanto a este ponto, e teremos de examiná-los mais particularmente nas suas implicações com uma outra parte da questão.

« De momento, devemos ocupar-nos de outras investigações. Decerto não deixou de notar uma extrema negligência no exame do cadáver. É verdade que a questão da identidade foi facilmente resolvida, ou deve tê-lo sido, mas havia outros pontos a verificar. Teria sido o corpo, de algum modo, despojado? Teria a defunta alguns artigos de bijuteria consigo quando saiu de casa? Se tinha, foram esses artigos encontrados no corpo? São perguntas importantes, absolutamente negligenciadas pelo inquérito, e há outras de um valor igual que não atraíram a mínima atenção. Tentaremos responder-lhes através de uma investigação pessoal. O caso de Saint-Eustache necessita ser novamente examinado. Não tenho suspeitas contra esse indivíduo, mas procedamos com método. Verificaremos escrupulosamente a veracidade das atestações referentes aos lugares onde foi visto nesse domingo. Esse género de testemunhos escritos são muitas vezes meios de mistificação. Se nada encontrarmos, poremos Saint Eustache fora de causa. O seu suicídio, se bem que pareça corroborar as suspeitas, caso encontremos qualquer trapaça nos affidavit, não é uma circunstância inexplicável ou que deva fazer-nos desviar de uma linha de análise ordinária.
« No seguimento do que agora lhe proponho, afastaremos os pontos ocultos do drama e concentraremos a nossa atenção no contorno exterior. Em investigações deste gênero, comete-se frequentemente o erro de limitar o inquérito aos fatos imediatos e desprezar absolutamente os factos colaterais ou acessórios. É a detestável rotina dos tribunais criminais: confinar a instrução e a discussão ao domínio do relativo aparente. No entanto, a experiência provou, e a verdadeira filosofia prová-lo-á sempre, que uma vasta parte da verdade, talvez a mais considerável, brota de elementos aparentemente estranhos à questão. Foi pelo espírito, se não mesmo pela letra deste princípio, que a ciência moderna chegou a calcular sobre o imprevisto. Mas talvez não me compreenda? A história da ciência humana mostra-nos, de uma forma tão contínua, que é aos factos colaterais, fortuitos e acidentais, que devemos as nossas mais numerosas e mais preciosas descobertas, que se tornou finalmente necessário, em todo o balanço do progresso futuro, dar uma parte não só muito grande, mas a maior possível, às invenções que nascerão do acaso, e que estão completamente fora das previsões normais. Doravante já não é filosófico ter por base uma visão do que há de ser. O acidente deve ser admitido como parte da criação. Fazemos do acaso a matéria para um cálculo rigoroso. Submetemos o inesperado e o inconcebível às fórmulas matemáticas das escolas.
« Repito: é um fato provado que a melhor parte da verdade nasce do acessório, do indireto; e é conformando-me com simplicidade ao princípio implicado neste facto que gostaria, no caso presente, de desviar a instrução do batido e infrutuoso terreno do acontecimento em si, e levá-la para as circunstâncias contemporâneas que o rodeiam. Enquanto o meu amigo verifica a validade dos affidavit, tratarei de examinar os jornais de um modo mais geral. Até agora, limitámo-nos ao reconhecimento do campo de investigação, mas seria verdadeiramente estranho que um exame compreensivo dos jornais, tal como tenciono fazê-lo, não nos trouxesse quaisquer pequenas informações que servirão para dar uma nova diretriz às averiguações.
De acordo com a ideia de Dupin, fui verificar escrupulosamente os affidavit. O resultado deste exame foi uma firme convicção da sua validade e, consequentemente, da inocência de Saint-Eustache. Ao mesmo tempo, o meu amigo aplicava-se, com uma minúcia que me parecia absolutamente supérflua, ao exame de coleções de diversos jornais. Ao cabo de uma semana, colocou sob os meus olhos os seguintes extratos:

   a) « Há seis meses, pouco mais ou menos, foi provocada uma emoção semelhante pelo desaparecimento da mesma Marie Roget, da perfumaria do senhor Le Blanc, no Palais Royal. No entanto, ao cabo de uma semana, a jovem reapareceu atrás do seu balcão habitual, com excelente aspeto, se excetuarmos uma leve palidez que lhe cobria as faces. A mãe da jovem e o senhor Le Blanc limitaram-se a declarar que Marie tinha ido visitar quaisquer parentes residentes no campo, e o assunto foi prontamente esquecido. Presumimos que a sua ausência atual é da mesma natureza, e que ao fim de uma semana ou de um mês a veremos voltar ao nosso convívio.» Journal du Soir, segunda-feira, 23 de junho.
   b) « Um jornal da tarde, no seu número de ontem, recorda uma primeira e misteriosa ausência da menina Roget. É do conhecimento geral que, durante essa ausência da perfumaria Le Blanc, que durou uma semana, esteve na companhia de um jovem oficial da Marinha, conhecido pelos seus gostos depravados. Uma zanga providencial, ao que se supõe, levou-a a regressar a casa. Sabemos o nome do Lotário em questão, que se encontra atualmente de licença em Paris, mas, por razões facilmente compreensíveis, abstemo-nos de publicá-lo.» Le Mercure, terça-feira, 24 de junho.
   c) « Um atentado dos mais odiosos foi cometido nos arredores desta cidade durante o dia de anteontem. Ao cair da noite, um cavalheiro, com a mulher e a filha, desejando atravessar o rio, contratou os serviços de seis jovens que andavam pelo Sena numa lancha, aparentemente sem destino. Chegados à margem oposta, os três passageiros puseram pé em terra, e tinham-se já afastado bastante da margem, quando a jovem se apercebeu de que havia deixado a sua sombrinha na embarcação. Voltou, para reavê-la, mas foi agarrada pelo bando de energúmenos, transportada para o rio, amordaçada, terrivelmente maltratada e, finalmente, deposta num ponto da margem não muito distante daquele onde tinha primitivamente subido para o barco na companhia dos pais. Os miseráveis escaparam de momento à ação da Polícia, que todavia lhes anda na pista, e alguns deles não tardarão a ser capturados.» Journal du Matin, 25 de junho.
   d) «Recebemos uma ou duas comunicações que têm como objetivo imputar a Mennais o odioso crime recentemente cometido. Uma vez, porém, que este cavalheiro ficou ilibado por um inquérito judiciário, e como os argumentos do nosso correspondente parecem marcados mais por excitação do que por sagacidade, não consideramos conveniente publicá-los.» Journal du Matin, 28 de junho.
   e) « Recebemos várias cartas energicamente escritas, que parecem provir de fontes diversas e afirmam ser um facto consumado que a infortunada Marie Roget foi vitima de um dos numerosos bandos de energúmenos que infestam, ao domingo, os arredores da cidade. A nossa própria opinião é decididamente a favor desta tese. Tentaremos de futuro expor aqui alguns dos argumentos apresentados.» Journal du Soir, segunda-feira, 30 de junho.
   f) « Na segunda-feira, um dos bateleiros afetos ao serviço do fisco viu no Sena um barco abandonado e vogando ao sabor da corrente. As velas estavam arriadas no tombadilho. O bateleiro rebocou o barco até junto da delegação das autoridades fluviais. Na manhã seguinte, verificou-se que este barco fora desamarrado e desaparecera sem que qualquer dos funcionários o notasse. O respetivo leme ficou na delegação.» La Diligence, quinta-feira, 26 de junho.

     Ao ler estes diferentes extratos, não só me pareceram alheios à questão, como não me foi possível descobrir qualquer modo de relacioná-los com ela. Fiquei à espera de uma explicação de Dupin.

— Não é de momento minha intenção — disse-me ele — demorar-me no exame do primeiro e do segundo desses extratos. Copiei-os, sobretudo, para lhe mostrar a extrema negligência dos agentes da Polícia, que, a acreditar no prefeito, não se preocuparam absolutamente nada com o oficial de marinha mencionado. No entanto, seria loucura afirmar que não temos o direito de supor uma relação entre a primeira e a segunda ausência de Marie. Admitamos que a primeira fuga teve como resultado uma zanga entre os dois amantes e o regresso da jovem traída. Mais do que o resultado de novas propostas por parte de um segundo indivíduo, podemos considerar um segundo rapto — se soubermos que houve um segundo rapto — indício de novas tentativas por parte do traidor. Pode considerar-se esta nova fuga mais como o recomeço do antigo amor do que o início de um novo. Ou aquele que já uma vez fugira com Marie lhe propôs uma nova evasão, ou Marie teria aceitado propostas semelhantes feitas por um outro indivíduo. Mas há duas probabilidades contra uma a favor da primeira suposição. E aqui permita-me chamar a sua atenção para o facto de o período decorrido entre a primeira e a segunda evasões ultrapassar poucos meses apenas o período normal de cruzeiro dos nossos navios de guerra. O amante, interrompido na sua primeira infâmia pela necessidade de voltar ao mar, aproveitou a primeira oportunidade, após o regresso, para renovar as vis tentativas, até então não coroadas de êxito, ou, pelo menos para ele, não absolutamente satisfeitas? Sobre todas estas coisas nada sabemos.

« Dir-me-á, talvez, que no segundo caso a fuga que supomos não se consumou. Certamente que não. Mas podemos afirmar que não houve uma tentativa falhada? Com exceção de Saint-Eustache, e talvez de Beauvais, não sabemos de nenhuns amantes de Marie reconhecidos, declarados, honestos. Não se falou de qualquer outro. Quem é então o amante secreto de que os parentes — pelo menos na sua maioria — nunca ouviram falar, mas com quem Marie se encontrou no domingo de manhã, e em quem confia tanto que não hesita em ficar com ele até que as sombras da noite comecem a envolver os bosques solitários da barreira do Roule? Quem é, repito, esse amante secreto de que a maioria dos parentes nunca ouviu falar? E que significam estas estranhas palavras da senhora Roget, na manhã do domingo em que Marie desapareceu: Receio nunca mais voltar a vê-la?
« Ora, mesmo que a senhora Roget não tivesse conhecimento do projeto de fuga, não poderemos ao menos imaginar que esse projeto foi concebido pela filha? Ao sair de casa, deu a entender que ia visitar uma tia, residente na Rua Drômes, e Saint-Eustache foi encarregado de ir buscá-la ao fim da tarde. Ora, à primeira vista, este facto milita fortemente contra a minha opinião; mas reflitamos um pouco. Que ela encontrou algum companheiro, que atravessou com ele o rio e chegou à barreira do Roule a uma hora bastante adiantada, cerca das três da tarde — tudo isso é sabido. Mas, ao consentir em acompanhar o tal indivíduo, com qualquer desígnio conhecido ou não da mãe, deve ter pensado na desculpa dada ao sair de casa, assim como na surpresa e nas suspeitas que nasceriam no coração do noivo, Saint-Eustache, quando, ao ir buscá-la à Rua Drômes à hora combinada, lhe fosse dito que ela não tinha aparecido, e quando, além disso, ao regressar à pensão com esta alarmante notícia, soubesse da sua prolongada ausência de casa. Deve, repito, ter pensado em tudo isto. Deve ter previsto o desgosto de Saint-Eustache, as suspeitas de todos os seus amigos. É possível que lhe tenha faltado a coragem para regressar e enfrentar estas suspeitas. Mas tais suspeitas deixariam de ter a mínima importância para ela, se supusermos que a sua intenção inicial era não regressar.
« Podemos imaginar que raciocinou deste modo:
« Tenho um encontro com uma certa pessoa, com o objetivo de fugir com ela ou com vista a certos outros projetos de que só eu sei. É preciso eliminar toda a possibilidade de ser surpreendida. É necessário que tenhamos todo o tempo necessário para iludir qualquer perseguição. Darei a entender que vou visitar a minha tia e que passarei o dia em sua casa, na Rua Drômes. Direi a Saint Eustache para só lá ir buscar-me ao fim da tarde. Deste modo, a minha ausência de casa, prolongada o mais possível sem provocar suspeitas nem inquietação, poderá explicar-se, e ganharei bastante tempo. Se pedir a Saint-Eustache que vá buscar-me ao fim da tarde, ele decerto o fará mais cedo, mas, se deixar de pedir-lhe que vá buscar-me, o tempo de que disporei para a fuga ficará consideravelmente diminuído, pois esperar-me-ão cedo de regresso. Ora, se fosse minha intenção regressar, se tivesse em vista um simples passeio com a pessoa em questão, não seria de boa política pedir a Saint-Eustache que fosse buscar-me, pois, ao chegar, ele não deixaria de aperceber-se de que tinha sido enganado, coisa que poderia esconder-lhe indefinidamente saindo de casa sem dar parte da minha intenção, regressando antes da noite e dizendo então que fui passar o dia com a minha tia. Mas, uma vez que o meu projeto é não voltar... pelo menos antes que passem várias semanas ou até que tenha conseguido esconder certas coisas... a necessidade de ganhar tempo é a única coisa com que devo inquietar-me. 
« Terá observado, nas suas notas, que a opinião geral sobre este triste caso é, e sempre foi, de que a jovem foi vítima de um bando de patifes. Ora, em determinadas condições, a opinião popular não deve ser desdenhada. Quando surge por si mesma, quando se manifesta de um modo absolutamente espontâneo, devemos considerá-la um fenômeno análogo a essa intuição que é a idiossincrasia do homem de gênio. Em noventa por cento dos casos, confiarei nas suas decisões. Mas é muito importante que não se descubram traços palpáveis de uma sugestão exterior. A opinião deve ser rigorosamente o pensamento pessoal do público, e é muitas vezes difícil captar esta distinção e mantê-la. No caso presente, parece-me, a mim, que esta opinião pública, relativa a um bando, foi inspirada pelo acontecimento paralelo e acessório relatado no terceiro dos meus extratos.
« Paris inteira fica excitada pela descoberta do cadáver de Marie, uma jovem bela e conhecida. Este cadáver é encontrado com marcas de violência e flutuando no rio. Mas está agora provado que no mesmo dia em que se supõe ter a jovem sido assassinada, um atentado semelhante ao sofrido pela defunta, ainda que menos sensacional, foi consumado, por um bando de jovens patifes, sobre uma outra jovem. Será de surpreender, se o primeiro atentado conhecido tiver influenciado o julgamento popular relativamente ao outro, ainda obscuro? Este julgamento aguardava uma direção, e o atentado conhecido parecia indicá-la com tanta oportunidade! Também Marie foi encontrada no rio; e foi nesse mesmo rio que o atentado conhecido fora consumado. A conexão dos dois acontecimentos tinha em si qualquer coisa de tão palpável, que seria milagre o povo não a captar e não se apoderar dela. De fato, porém, um atentado cujo processo de execução se torna conhecido, é indício — e o mais seguro — de que o outro, cometido numa época quase coincidente, não foi cometido da mesma maneira. Na verdade, poder-se-ia considerar um espanto se, enquanto um bando de patifes consumava, num dado local, um determinado atentado, um outro bando semelhante, na mesma zona da mesma cidade, nas mesmas circunstâncias, cometesse, com os mesmos meios e os mesmos processos, um crime semelhante, e precisamente na mesma altura! E a que, pergunto-lhe, nos levaria a acreditar a opinião pública, acidentalmente sugerida, senão nesta espantosa série de coincidências?

continua na página 481...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Leituras: Só Nua Eu Te Podia Ler

Mia Couto


António Emílio Leite Couto


leituras onde cada linha parece conversar e se dobrar para dentro, como se respirasse comigo e o silêncio desabasse aos meus pés, quente e úmido, sem gemidos ou olhares (...) apenas nossa respiração e a nossa pele que se encosta sem tocar, murmúrios que não precisam de voz, você não parece saber meu nome, esqueceu. eu não pareço lembrar, não consigo esquecer, você respira comigo, eu penso que sei. (...) preciso tua voz para existir


 
Carta de Marta para Marcelo




   "Sou mulher, sou Marta e só posso escrever. Afinal, talvez seja oportuna a tua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse da minha própria voz. Se viesses agora, Marcelo, ficaria sem fala. A minha voz emigrou para um corpo que já foi meu. E quando me escuto nem eu mesma me reconheço. Em assuntos de amor só posso escrever. Não é de agora, sempre foi assim, mesmo quando estavas presente. 
   E escrevo como as aves redigem o voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E não tenho para te dizer do que seremos. (...) Não tenho saudade, não tenho memória: meu ventre nunca gerou vida, meu sangue não se abriu em outro corpo. É assim que envelheço em mim, véu esquecido num banco de igreja. 
   Só te amei a ti, Marcelo. Essa fidelidade levou-me ao mais penoso dos exílios: esse amor afastou-me da possibilidade de amar. Agora, entre todos os nomes, só me resta o teu nome. Só a ele te posso pedir o que antes te pedia a ti: que me faça nascer! De nascer outra, longe de mim, longe do meu tempo. Estou exausta, Marcelo. Exausta, mas não vazia. para se estar vazia é preciso ter dentro. E eu perdi a minha interioridade.
   Por que não escreveste nunca? Não é de te ler que mais tenho saudade. É o som da faca rasgando o envelope que trazia a tua carta. E sentir, de novo, uma carícia na alma, como se algures estivessem golpeando um cordão umbilical. Engano meu: não há faca, não há carta. Não há parto de nada, nem de ninguém.
   Vês como fico pequena escrevendo para ti? (...)
   - És parecida com a terra. Essa é a tua beleza. 
   Era assim que dizias. E quando nos beijávamos e eu perdia a respiração e, entre suspiros perguntavas: em que dia nasceste? E me respondias, voz trêmula: estou nascendo agora. E a tua mão ascendia por entre o vão das minhas pernas e eu voltava a perguntar: onde nasceste? E tu, quase sem voz, respondias: estou nascendo em ti, meu amor.
   Era assim que dizias. Marcelo, tu eras um poeta. Eu era a tua poesia. E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. Porque te recebia não em meus olhos, mas com o meu corpo todo, linha por linha, poro por poro. (...)
   Esta noite cumpri o ritual: despi-me toda para ler as velhas cartas de Marcelo.
   O meu amor escrevia de modo tão profundo que, no decurso da leitura, eu sentia o braço dele roçando o meu corpo e era como se desabotoasse o vestido e as roupas desabassem a meus pés."

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Leituras:
Só Nua Eu Te Podia Ler /  

Moby Dick: 65 - A baleia como um prato

Moby Dick

Herman Melville

65 - A baleia como um prato
    Que um mortal se alimente da criatura que alimenta sua lamparina, e, que, como Stubb, coma o animal sob sua própria luz, como se pode dizer; é uma coisa que parece tão estranha que se faz necessário entrar um pouco na história e na filosofia desse fato.
     Consta dos livros que, há três séculos, a língua da Baleia Franca era considerada uma deliciosa iguaria na França, chegando a alcançar altos preços. Também se diz que, no tempo de Henrique VIII, um certo cozinheiro da Corte recebeu uma recompensa generosa por ter inventado um molho excelente para acompanhar as marsopas grelhadas, que, como se há de lembrar, são um tipo de baleia. As marsopas, de fato, são até hoje consideradas um prato refinado. A carne é preparada em bolinhos do tamanho aproximado de bolas de bilhar, e quando bem temperadas e condimentadas podem passar por bolinhos de tartaruga ou de vitela. Os monges antigos de Dunfermline apreciavam-nas muitíssimo. A Coroa tinha-lhes feito uma grande doação de marsopas.
     Fato é que, entre os seus caçadores, pelo menos, a baleia teria sido por todos considerada um prato nobre, não fosse ela tão abundante; mas, quando você chega a se sentar diante de um bolo de carne de quase cem pés de comprimento, ele leva embora seu apetite. Apenas um sujeito tão sem preconceitos quanto Stubb consegue, hoje em dia, desfrutar das baleias cozidas; mas os Esquimós não são tão exigentes. Todos sabemos como baseiam sua vida nas baleias, possuindo raros e antigos estoques de um óleo de primeira linha. Zogranda, um dos seus mais afamados médicos, recomenda tiras de gordura para as crianças, por serem muito saborosas e nutritivas. Isso me traz à mente que alguns Ingleses – há muito tempo deixados por acaso na Groenlândia por um navio baleeiro – se alimentaram por meses a fio dos pedaços bolorentos que haviam sido deixados em terra depois de retirada a gordura. Os baleeiros Holandeses chamam esses despojos de “fritadas”; com as quais guardam de fato grande semelhança, pois são marrons e tostadas, com um cheiro semelhante ao das rosquinhas ou bolinhos fritos que as donas-de-casa de Amsterdã fazem, quando frescos. Têm um aspecto tão apetitoso que o mais sóbrio dos estrangeiros não consegue se conter.
     No entanto, o que deprecia ainda mais a baleia como um prato civilizado é a sua gordura excessiva. Ela é o touro premiado do mar, gordo demais para ser apreciado. Veja sua corcova, que poderia ser uma iguaria tão requintada quanto a do búfalo (que é considerada um prato raro), não fosse uma pirâmide tão sólida de gordura. Mas o espermacete, que cremoso e suave ele é; igual à polpa transparente e gelatinosa de um coco no terceiro mês de sua maturação, porém gorduroso demais para servir de substituto à manteiga. No entanto, muitos baleeiros têm um método de combinar a gordura com outras substâncias e então ingeri-la. Nas longas vigílias noturnas em que se derrete a gordura, é comum ver um marinheiro mergulhar seu biscoito numa enorme frigideira e deixá-lo ali, fritando por algum tempo. Várias ceias gostosas eu fiz desse modo.
     No caso de um Cachalote pequeno, o cérebro é tido em conta como iguaria. A caixa craniana é quebrada com um machado, e os dois lobos arredondados e esbranquiçados são retirados (lembram exatamente dois grandes pudins), misturados com farinha, e cozidos até que se tornem um delicioso manjar, com sabor semelhante ao da cabeça de vitela, que é prato estimado por alguns gastrônomos; e todo mundo sabe que alguns janotas entre os gastrônomos, de tanto comer o cérebro da vitela, pouco a pouco começaram a experimentar seus próprios cérebros, para conseguir diferenciar a cabeça da vitela de suas próprias, o que requer um extraordinário discernimento. Esse é o motivo pelo qual um janota de ar inteligente diante de uma cabeça de vitela é, de certo modo, uma das cenas mais tristes que se pode ver. A cabeça parece lançar-lhe algum tipo de reprimenda, como se dissesse “Et tu Brute!”.
     Talvez não seja tanto por causa da excessiva gordura da baleia que os homens da terra pareçam considerar com nojo a possibilidade de comê-la; tal sensação deriva, de certo modo, da consideração outrora mencionada: i.e., do fato de comer um animal marinho recentemente morto, e usando-o, para tanto, também como iluminação. Mas não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino; talvez tenha sido enforcado; e, se tivesse sido levado a julgamento por bois, certamente o teria sido; e certamente o teria merecido, se é que algum assassino merece tal fim. Vá ao mercado de carnes, num sábado à noite, e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos. Esse espetáculo não tira um dos dentes do maxilar dos canibais? Canibais? Quem não é um canibal? Garanto a você que o Juízo Final será mais tolerante com um providente Fidjiano que salgou um missionário magro em sua adega para se prevenir contra a fome do que contigo, gourmand civilizado e esclarecido, que prendes os gansos no chão e te refestelas com seus fígados dilatados em teu paté de foie gras.
     Mas Stubb, ele come a baleia à luz de seu próprio óleo, não? E isso é somar insulto à injúria, não é? Olhe para o cabo de sua faca, meu caro gourmand civilizado e esclarecido a comer um rosbife, do que é feito o cabo? – do quê, senão dos ossos do irmão do mesmo boi que você está comendo? E com o que você palita os dentes, depois de devorar aquele ganso gordo? Com uma pena da mesma ave. E com que pena o Secretário da Sociedade de Supressão de Crueldade aos Gansos escreve suas circulares? Há apenas um ou dois meses essa sociedade tomou a decisão de patrocinar somente penas de aço.

Continua na página 291...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
63 - A Forquilha / 64 - A ceia de Stubb / 65 - A baleia como um prato /               
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

Espumas Flutuantes - Aves de arribação

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

AVES DE ARRIBAÇÃO

Pensava em ti nas horas de tristeza 
 Quando estes versos pálidos compus. 
 Cercavam-me planícies sem beleza, 
 Pesava-me na fronte um céu sem luz.

Ergue este ramo solto no caminho.
Sei que em teu seio asilo encontrará. 
 Só tu conheces o secreto espinho 
 Que dentro d’alma me pungindo está!  
Fagundes Varela

Aves, é primavera! à rosa! à rosa! 
 Tomás Ribeiro

 
I
Era o tempo em que as ágeis andorinhas 
 Consultam-se na beira dos telhados, 
 E inquietas conversam, perscrutando 
 Os pardos horizontes carregados...  

Em que as rolas e os verdes periquitos 
 Do fundo do sertão descem cantando... 
 Em que a tribo das aves peregrinas 
 Os Zíngaros do céu formam-se em bando!

Viajar! viajar! A brisa morna 
 Traz de outro clima os cheiros provocantes. 
 A primavera desafia as asas, 
 Voam os passarinhos e os amantes!... 

II
Um dia Eles chegaram. Sobre a estrada 
 Abriram à tardinha as persianas; 
 E mais festiva a habitação sorria 
 Sob os festões das trêmulas lianas.  

Quem eram? Donde vinham? — Pouco importa 
 Quem fossem da casinha os habitantes. 
 — São noivos —: as mulheres murmuravam! 
 E os pássaros diziam: — São amantes — !

Eram vozes — que uniam-se co’as brisas! 
 Eram risos — que abriam-se co’as flores! 
 Eram mais dous clarões — na primavera! 
 Na festa universal — mais dous amores!

Astros! Falai daqueles olhos brandos. 
 Trepadeiras! Falai-lhe dos cabelos! 
 Ninhos d’aves! dizei, naquele seio, 
 Como era doce um pipilar d’anelos. 

Sei que ali se ocultava a mocidade... 
 Que o idílio cantava noite e dia... 
 E a casa branca à beira do caminho 
 Era o asilo do amor e da poesia.  

Quando a noite enrolava os descampados, 
 O monte, a selva, a choça do serrano, 
 Ouviam-se, alongando a paz dos ermos, 
 Os sons doces, plangentes de um piano.

Depois suave, plena, harmoniosa 
 Uma voz de mulher se alevantava... 
 E o pássaro inclinava-se das ramas 
 E a estrela do infinito se inclinava. 

E a voz cantava o tremolo medroso 
 De uma ideal sentida barcarola... 
 Ou nos ombros na noite desfolhava 
 As notas petulantes da Espanhola! 

III
Às vezes, quando o sol nas matas virgens 
 A fogueira das tardes acendia, 
 E como a ave ferida ensanguentava 
 Os píncaros da longa serrania, 

Um grupo destacava-se amoroso, 
 Tendo por tela a opala do infinito, 
 Dupla estátua do amor e mocidade 
 Num pedestal de musgos e granito. 

E embaixo o vale a descantar saudoso 
 Na cantiga das moças lavadeiras!... 
 E o riacho a sonhar nas canas bravas, 
 E o vento a s’embalar nas trepadeiras. 

Ó crepúsculos mortos! Voz dos ermos! 
 Montes azuis! Sussurros da floresta! 
 Quando mais vós tereis tantos afetos 
 Vicejando convosco em vossa festa?...

E o sol poente inda lançava um raio 
 Do caçador na longa carabina... 
 E sobre a fronte d’Ela por diadema 
 Nascia ao longe a estrela vespertina.

IV
É noite! Treme a lâmpada medrosa 
 Velando a longa noite do poeta... 
 Além, sob as cortinas transparentes 
 Ela dorme... formosa Julieta! 

Entram pela janela quase aberta
  Da meia-noite os preguiçosos ventos 
 E a lua beija o seio alvinitente 
 — Flor que abrira das noites aos relentos.

O Poeta trabalha!... A fronte pálida 
 Guarda talvez fatídica tristeza... 
 Que importa? A inspiração lhe acende o verso 
 Tendo por musa — o amor e a natureza! 

E como o cacto desabrocha a medo 
 Das noites tropicais na mansa calma, 
 A estrofe entreabre a pétala mimosa 
 Perfumada da essência de sua alma. 

No entanto Ela desperta... num sorriso 
 Ensaia um beijo que perfuma a brisa... 
 ... A Casta-diva apaga-se nos montes... 
 Luar de amor! acorda-te, Adalgisa! 

V
Hoje a casinha já não abre à tarde 
 Sobre a estrada as alegres persianas. 
 Os ninhos desabaram... no abandono 
 Murcharam-se as grinaldas de lianas. 

Que é feito do viver daqueles tempos! 
 Onde estão da casinha os habitantes? 
 ... A primavera, que arrebata as asas..., 
 Levou-lhe os passarinhos e os amantes!... 
Curralinho, 1870 


OS PERFUMES
A L.
O sândalo é o perfume das mulheres 
 de Istambul, e das huris do profeta; como 
 as borboletas, que se alimentam do 
 mel, a mulher do Oriente vive com as 
 gotas dessa essência divina. 
José de Alencar

O perfume é o invólucro invisível, 
 Que encerra as formas da mulher bonita. 
 Bem como a salamandra em chamas vive, 
 Entre perfumes a sultana habita.

Escrínio aveludado onde se guarda
— Colar de pedras — a beleza esquiva, 
 Espécie de crisálida, onde mora 
 A borboleta dos salões — a Diva.  

Alma das flores — quando as flores morrem, 
 Os perfumes emigram para as belas, 
 Trocam lábios de virgens — por boninas, 
 Trocam lírios — por seios de donzelas! 

E ali — silfos travessos, traiçoeiros 
 Voam cantando em lânguido compasso 
 Ocultos nesses cálices macios 
 Das covinhas de um rosto ou dum regaço. 

Vós, que não entendeis a lenda oculta, 
 A linguagem mimosa dos aromas, 
 De Madalena a urna olhais apenas 
 Como um primor de orientais redomas 

E não vedes que ali na mirra e nardo 
 Vai toda a crença da Judia loura... 
 E que o óleo, que lava os pés do Cristo, 
 É uma reza também da pecadora. 

Por mim eu sei que há confidências ternas, 
 Um poema saudoso, angustiado, 
 Se uma rosa de há muito emurchecida, 
 Rola acaso de um livro abandonado.

O espírito talvez dos tempos idos 
 Desperta ali como invisível nume... 
 E o poeta murmura suspirando: 
 “Bem me lembro... era este o seu perfume!”

E que segredo não revela acaso 
 De uma mulher a predileta essência? 
 Ora o cheiro é lascivo e provocante! 
 Ora casto, infantil, como a inocência! 

Ora propala os sensuais anseios 
 D’alcova de Ninon ou Margarida, 
 Ora o mistério divinal do leito, 
 Onde sonha Cecília adormecida. 

Aqui, na magnólia de Celuta 
 Lambe a solta madeixa, que se estira. 
 Unge o bronze do dorso da caboc’la, 
 E o mármore do corpo da Hetaira. 

É que o perfume denuncia o espírito 
 Que sob as formas feminis palpita... 
 Pois como a salamandra em chamas vive, 
 Entre perfumes a mulher habita. 
 Curralinho, 21 de junho de 1870  

continua pag 76...
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A Luís / As duas ilhas / Os Anjos da Meia-Noite / O hóspede / Aves de arribação /                             
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (IV. Uma dama sem muita fé)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
IV
UMA DAMA SEM MUITA FÉ
    
     A dama proprietária, recentemente chegada, testemunha dessa conversação com as mulheres do povo e da bênção, vertia suaves lágrimas que enxugava com seu lenço. Era uma mulher da sociedade, sensível, de tendências virtuosas. Quando o stáriets a abordou, por fim, acolheu-o com entusiasmo.

— Experimentei uma tal impressão, contemplando essa cena enternecedora... — a emoção cortou-lhe a palavra. — Oh! Compreendo que o povo vos ame, eu mesma amo o povo. Como não se haveria de amar nosso excelente povo russo, tão ingênuo na sua grandeza? 
— Como vai sua filha? Quis de novo entreter-se comigo? 
— Oh! Pedi instantemente, tenho suplicado, estava pronta a me pôr de joelhos e a ficar três dias diante de vossas janelas, até que me deixásseis entrar. Vimos, grande curador, exprimir-vos todo o nosso reconhecimento entusiasta. Porque fostes vós que curastes Lisa, completamente, quinta feira, rezando diante dela e impondo-lhe as mãos. Tínhamos pressa em beijar essas mãos, em testemunhar nossos sentimentos e nossa veneração. 
— Eu a curei, diz a senhora? Ela, porém, está ainda deitada em sua poltrona. 
— Mas as febres noturnas desapareceram completamente há dois dias, a partir de quinta-feira — disse a dama com uma solicitude nervosa. — Não é tudo: suas pernas fortificaram-se. Esta manhã, levantou-se de boa saúde. Olhai suas cores e seus olhos que brilham. Chorava constantemente, agora já, está alegre, jovial. Hoje, exigiu que a pusessem de pé e manteve-se um minuto sozinha, sem nenhum apoio. Quer apostar comigo que dentro de quinze dias dançará uma quadrilha? Mandei chamar o Doutor Herzenstube; ele levanta os olhos e diz: "Estou admirado, não compreendo nada disso". E queríeis vós que não vos incomodássemos, que não acorrêssemos aqui, para agradecer-vos? Lisa, vamos, agradece!  

     O rostinho de Lisa tornou-se subitamente sério. Ergueu-se de sua poltrona tanto quanto pôde e, fitando o stáriets, juntou as mãos, mas não pôde conter-se e pôs-se a rir.

— É dele que rio, dele — disse ela, mostrando Aliócha, contrariada por não poder impedir-se de rir. Observando-se o rapaz, que se mantinha por trás do stáriets, ter-se-ia visto que suas faces se cobriam dum rápido rubor. Seus olhos brilharam e ele os baixou. 
— Ela tem um recado para você, Alieksiéi Fiódorovitch... Como vai você? — continuou ela dirigindo-se a Aliócha e estendendo-lhe a mão deliciosamente enluvada. O stáriets voltou-se e examinou Aliócha. Este aproximou-se de Lisa e estendeu-lhe a mão, sorrindo acanhadamente. Lisa assumiu um ar grave.

— Catarina Ivânovna pediu-me que lhe remetesse isto — e entre gou-lhe uma pequena carta. — Ela lhe pede que vá vê-la o mais cedo possível e sem falta. 
— Ela me pede que eu vá à casa dela? Por quê?... — murmurou Aliócha com profundo espanto. Seu rosto tornou-se preocupado. 
— Oh! Ê a propósito de Dimítri Fiódorovitch e... de todos esses últimos acontecimentos — explicou rapidamente a mãe. — Catarina Ivânovna firmou-se agora numa decisão... mas para isso deseja vê-lo ... Por quê? Ignoro-o, decerto, mas pediu ela que fosse o mais cedo possível e você não deixará de ir lá, os sentimentos cristãos o obrigam a isto. 
— Vi-a uma vez ao todo — continuou Aliócha, sempre perplexo. 
— Oh! É uma criatura tão nobre, tão inacessível!... Quando menos pelos seus sofrimentos... Considere o que tem ela suportado, o que ela suporta agora e o que a espera... Tudo isto é horrível, horrível! 
— Está bem, irei — decidiu Alieksiéi, depois de ter lido o bilhete, curto e enigmático, que não continha nenhuma explicação, a não ser a súplica instante para que ele fosse. 
— Ah! Como é gentil de sua parte — exclamou Lisa, animadamente. — Dizia eu a mamãe: "Ele jamais irá, está tratando de sua salvação". Como você é bom! Sempre pensei que você era bom. É um prazer dizer-lhe agora! 
— Lisa! — disse gravemente a mãe, que, aliás, sorriu. 
— Você nos esqueceu, Alieksiéi Fiódorovitch, não quer absolutamente visitar-nos. Entretanto, Lisa me disse duas vezes que só se encontrava bem em sua companhia. — Aliócha ergueu seus olhos baixos, corou de novo e sorriu sem saber por quê. Aliás o stáriets não o observava mais. Entrara em conversa com o monge que aguardava sua vinda, como o dissemos, ao lado da cadeira de Lisa. Era, pelo que se via, um monge duma condição das mais modestas, de ideias estreitas e paradas, mas crente e obstinado a seu modo. Contou que vivia longe, no norte, em Obdorsk, no Convento de São Silvestre, pobre mosteiro, que só contava nove monges. O stáriets - abençoou-o, convidou-o a vir à sua cela, quando bem lhe parecesse.
— Como tentais semelhantes coisas? — perguntou o monge, mostrando gravemente Lisa. Fazia alusão à sua "cura".
— É ainda demasiado cedo para falar disso. Um alívio não é a cura completa e pode ter outras causas. Mas o que pôde passar-se é unicamente devido à vontade de Deus. Tudo vem dele. Venha ver-me, padre — acrescentou ele —, eu não poderei vir sempre; estou doente e sei que meus dias estão contados. 
— Oh! não, não, Deus não vos arrebatará de nós, vivereis ainda muito tempo, muito tempo — exclamou a mãe. — Além disso, qual a vossa doença? Pareceis de tão bom aspecto, alegre e feliz. 
— Sinto-me muito melhor hoje, mas sei que não é por muito tempo. Conheço agora a fundo minha doença. Se lhe pareço tão alegre, nada me pode causar mais prazer que ouvi-la dizer isso. Porque a felicidade é o fim do homem, e aquele que tem sido completamente feliz tem o direito de dizer a si mesmo: "Cumpri a lei divina nesta terra". Os justos, os santos, os mártires todos foram felizes. 
— Oh! As ousadas, as sublimes palavras! — exclamou a mãe. — Elas nos traspassam! Entretanto, onde está a felicidade? Quem pode dizer-se feliz? Oh! já que tivestes a bondade de permitir que vos viéssemos ser ainda hoje, escutai tudo quanto não vos disse na derradeira vez, tudo quanto não ousava dizer-vos, aquilo de que sofro desde tanto tempo! Porque eu sofro, desculpai-me, eu sofro... —' e, num ímpeto de fervor, juntou as mãos diante dele. 
— De que, particularmente? 
— Sofro... porque não creio... 
— Não crê em Deus? 
— Oh! Não, não, não ouso pensar nisso, mas a vida futura, que enigma! E ninguém pode responder a isto! Escutai-me, vós que conheceis a alma humana e a curais; sem dúvida, não ouso pedir-vos que me acrediteis absolutamente, mas asseguro-vos, da maneira mais solene, que não é por leviandade que falo agora, essa ideia da vida de além-túmulo me emociona até o sofrimento, até o espanto e o pavor... E não sei a quem dirigir-me, não ousei toda a minha vida... Agora me permito dirigir-me a vós... Oh! Deus! Por quem me tomais?

     Bateu as mãos uma contra a outra.

— Não se inquiete com a minha opinião — respondeu o stáriets. — Creio perfeitamente na sinceridade de sua angústia. 
— Oh! Como vos sou grata! Vede: fecho os olhos e sonho. Se todos acreditam, donde vem isto? Assegura-se que tudo isto provém a princípio do medo, inspirado pelos fenômenos grandiosos da natureza, mas que nada existe. Pois bem! penso eu, acreditei toda a minha vida; morrerei e não haverá nada e somente "a relva brotará sobre o tumulo", como se exprime um escritor. É horrível! Como recuperar a fé? Aliás, cri somente na minha infância, mecanicamente, sem pensar em nada... Como me convencer? Vim inclinar-me diante de vós e rogar-vos que me esclareçais. Porque se deixo passar a ocasião presente nunca mais me responderão. Como persuadir-me? De acordo com que provas? Quanto sou infeliz! Em redor de mim, ninguém se preocupa com isto, quase ninguém; ora, não posso suportar isto sozinha. É esmagador! 
— Decerto, é esmagador. Mas onde nada se pode provar, pode a gente persuadir-se. 
 — Como? De que maneira? 
— Pela experiência do amor que age. Esforce-se por amar seu próximo com ardor e sem cessar. À medida que progredir no amor, convencer-se-á a senhora da existência de Deus e da imortalidade de sua alma. Se for até a abnegação total no seu amor ao próximo, então acreditará indubitavelmente e nenhuma dúvida mesmo poderá aflorar sua alma. Está isto demonstrado pela experiência. 
— O amor que age! Eis ainda uma questão, e que questão! Vede: amo tanto a humanidade que, acreditaríeis vós?, sonho por vezes abandonar tudo quanto tenho, deixar Lisa e fazer-me irmã de caridade. Fecho os olhos, sonho e devaneio; nesses momentos, sinto em mim uma força invisível. Nenhum ferimento, nenhuma chaga purulenta poderia horrorizar-me. Eu as pensarei, as lavarei com minhas próprias mãos, serei a enfermeira desses pacientes, prestes a beijar suas úlceras... 
— Já é muito que a senhora tenha tais pensamentos. Por acaso acontecer-lhe-á praticar verdadeiramente uma boa ação. 
— Sim, mas poderia eu suportar muito tempo tal existência? — continuou a dama, apaixonadamente, com um ar quase desvairado. — Eis a questão capital, a que mais me atormenta. Fecho os olhos e pergunto a mim mesma: "Persistidas muito tempo nessa via? Mas se o doente, cujas úlceras tu lavas, te pagar com ingratidão, se puser a atormentar-te com seus caprichos, sem apreciar nem notar teu devotamento, se gritar contra ti, se se mostrar exigente e queixar-se mesmo à diretoria (como acontece muitas vezes quando se sofre muito), farás então o quê? Continuará o teu amor?" Imaginai que já decidi, com um arrepio: "Se há alguma coisa que possa esfriar imediatamente meu amor *que age* em favor da humanidade, é unicamente a ingratidão". Numa palavra: trabalho por um salário, exijo-o imediatamente, sob forma de elogios e de amor em troca do meu. De outro modo, não posso amar ninguém.

     Depois de haver-se assim fustigado, num acesso de sinceridade, ela fitou o stáriets com um atrevimento provocante.

— É exatamente o que me contava, há muito tempo, aliás, um médico — observou o stáriets.-—- Era um homem de idade madura e verdadeiramente inteligente, exprimia-se tão francamente quanto a senhora, se bem que brincando, mas com tristeza. "Eu amo", dizia ele, "a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse verdadeiramente subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, muito embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei-o por experiência. Desde que alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor próprio e constrange minha liberdade. Em 24 horas, posso mesmo antipatizar com. as melhores pessoas uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, porque está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo, dos homens, apenas se acham eles em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas em particular, tanto mais ardo de amor pela humanidade em geral." 
— Mas que fazer? Que fazer em semelhante caso? É de desesperar. 
— Não, porque basta que a senhora fique desolada. Faça o que puder e ser-lhe-á levado isso em conta. A senhora já fez muito para ser capaz de conhecer-se a si mesma, de maneira tão profunda, tão sincera. Se me falou agora com tal franqueza, unicamente para receber meus elogios pela sua veracidade, não atingirá nada, seguramente, no domínio do amor que age. Tudo se limitará a sonhos e sua vida escoar-se-á como um sonho. Então, naturalmente, esquecerá a vida futura e para o fim tranquilizar-se-á duma maneira ou de outra. 
— Vós me acabrunhais! Compreendo somente agora, como acabais de dizer-me, que, ao contar-vos o horror que sinto pela ingratidão, esperava vossos elogios à minha sinceridade, e nada mais. Sugerisies, captastes meus pensamentos para mos revelardes. 
— Fala sério? Pois bem! depois de tal confissão, creio que a senhora é boa e sincera. Se não atingir a felicidade, lembre-se sempre de que está no bom caminho e trate de não sair dele. Sobretudo, evite toda mentira, particularmente a mentira para consigo mesma. Observe sua mentira, examine-a a cada instante. Evite também a repugnância para com os outros e para consigo mesma: o que lhe parece mau na senhora mesma está purificado, pelo simples fato de que o notou na senhora. Evite também o temor, se bem que seja ele somente a consequência de toda mentira. Não tema jamais sua própria covardia na procura do amor, não se deixe mesmo atemorizar demais pelas suas más ações a esse propósito. Lamento nada poder dizer-lhe de mais rejubilante, porque o amor que age, comparado com o amor contemplativo, é algo de cruel e de atemorizante. O amor contemplativo tem sede de realização imediata e de atenção geral. Chega-se ao ponto de dar sua vida, com a condição de que isso não dure muito tempo, e que tudo se acabe rapidamente, como no palco, sob os olhares e os elogios. O amor atuante é o trabalho e o domínio de si, e para alguns toda uma ciência. Ora, predigo-lhe que no momento mesmo em que a senhora verificar com terror que, malgrado todos os seus esforços, não somente não se aproximou a senhora do alvo, mas até mesmo dele se afastou — nesse momento, predigo-lhe —, a senhora atingirá o alvo e verá acima da senhora a força misteriosa do Senhor, que a terá guiado com amor, sem que a senhora soubesse. Desculpe-me não poder demorar mais tempo com a senhora. Esperam-me. Adeus.

     A dama chorava.

— Lisa, Lisa, abençoai-a — disse ela com ímpeto.
— Ela não merece ser amada. Vi-a divertir-se todo o tempo — brincou o stáriets. — Por que zombou de Alieksiéi?  

     Lisa, com efeito, dedicara-se todo o tempo a isso. Desde muito tempo, desde o ano anterior, notara que Aliócha se perturbava na sua presença, evitava olhá-la, e isto tornou-se muito divertido para ela. Fitava o, buscava seu olhar. Não resistindo àquele olhar fixo obstinadamente sobre ele, Aliócha, impelido por uma força invisível, olhava-a por sua vez; imediatamente ela se abria num sorriso triunfante. Isto aumentava a confusão e o despeito de Aliócha. Afinal, afastou-se completamente dela, ocultando-se por trás do stáriets. Ao fim de alguns minutos, como que hipnotizado, voltou-se para ver se o olhavam. Lisa, quase fora de sua cadeira, observava-o de viés e esperava impacientemente que ele a olhasse; tendo assim captado o olhar dele, explodiu em tal gargalhada que o stáriets não pôde conter-se.

— Por que, sua brejeira, faz você que ele core dessa maneira?

     Lisa ficou toda vermelha, seus olhos brilharam, seu rosto ficou sério e com voz lamentosa, indignada, disse nervosamente:

— Por que esqueceu ele tudo? Quando eu era bem pequenina, carregava-me em seus braços, brincávamos juntos. Foi ele quem me ensinou a ler, sabíeis? Há dois anos, ao partir, disse que não o esqueceria jamais, que éramos amigos para sempre, para sempre! E ei-lo agora que tem medo de mim, como se eu fosse comê-lo. Por que não se aproxima e não quer falar? Por qual razão não nos vem ver? Não é porque vós o retenhais, pois sabemos que ele vai a toda parte. Não é conveniente para mim convidá-lo. Deveria ele lembrar-se por primeiro, se não esqueceu. Não, agora trata de sua salvação! Por que o revestistes desse hábito de longas abas?... Se correr, cairá...

     De súbito, não suportando mais, ocultou o rosto nas mãos e rebentou numa gargalhada nervosa, prolongada, silenciosa, que a sacudia toda. O stáriets, que a havia escutado sorrindo, abençoou-a com ternura; ao beijar-lhe a mão, ela a apertou contra seus olhos e se pôs a chorar.

— Não vos zangueis comigo, sou uma bobinha, não valho coisa alguma... Aliócha tem talvez razão em não querer ir à casa duma moça tão ridícula.
— Eu o mandarei lá, sem falta — cortou o stáriets

continua na página 50...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.