terça-feira, 14 de abril de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (I.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

I
 

     Uma chama incendiou os olhos de Deneulin, enquanto seus punhos de homem amante dos governos fortes se fechavam de medo de ceder à tentação de agarrar alguém pelo pescoço. Preferiu discutir, argumentar. 

— Vocês querem cinco cêntimos, e concordo em que o trabalho vale isso. Mas eu não posso dá-los. Se desse, estaria perdido. Tratem de compreender que para vocês viverem é preciso que eu viva. E eu estou muito apertado, o menor aumento no preço da mão-de-obra me derrubaria. Lembrem-se de que dois anos atrás, quando da última greve, cedi, mas naquele tempo ainda podia. E saibam que essa alta de salário foi extremamente ruinosa para mim, que desde então me debato numa crise. Hoje, prefiro fechar esta joça agora mesmo a não saber onde, no mês que vem, arranjar dinheiro para pagar vocês.

     Chaval riu maldosamente ao ver aquele patrão falando tão francamente dos seus negócios. Os outros baixavam a cabeça obstinados, incrédulos, sem poderem compreender que um chefe não ganhasse milhões com os seus operários.
     Deneulin continuou insistindo. Explicou sua luta contra Montsou sempre à espreita, pronta a devorá-lo se ele, por descuido, caísse de mau jeito. Era uma concorrência desenfreada, que o forçava a fazer economia, tanto mais que a grande profundidade da Jean-Bart aumentava o preço da extração, condição desfavorável só compensada pela grande espessura das camadas de hulha. Nunca teria aumentado os salários após a última greve, se não fosse a necessidade de imitar Montsou, de receio de ver seus empregados abandonarem-no. Em seguida, ameaçou-os com o futuro, que só seria desfavorável para eles próprios: se o obrigassem a vender, ficariam sob o jugo terrível da outra administração. Ele não estava entronizado num tabernáculo ignorado e longínquo: não era desses acionistas que pagam a gerentes para explorar o mineiro e que este nunca viu; era um patrão, arriscava algo mais do que o seu dinheiro, punha em risco sua inteligência, sua saúde, sua vida. A suspensão do trabalho representaria a morte, certamente, porque não tinha estoque e precisava satisfazer às encomendas. Por outro lado, o capital que representava seu aparelhamento não podia ficar inerte. De que maneira manteria seus compromissos? Quem pagaria o juro das somas que lhe tinham confiado seus amigos? Seria a falência. 

— Isso é tudo, minha gente! — disse ele para terminar. — Gostaria de tê-los convencido... Não se pode pedir a um homem que se degole... E, se eu concordar com esses cinco cêntimos ou permitir que entrem em greve, será a mesma coisa que cortar o pescoço.

     Calou-se. Os murmúrios começaram a correr. Parte dos mineiros parecia hesitar. Diversos deles voltaram para perto do poço. 

— Que ao menos haja liberdade de escolha — disse um contramestre. — Quais são os que querem trabalhar?

     Catherine foi uma das primeiras a avançar, mas Chaval, furioso, empurrou-a, gritando: 

— Estamos todos de acordo, só os velhacos é que abandonam os companheiros! Desde esse momento a conciliação pareceu impossível. A gritaria recomeçou, os homens que se encontravam perto do poço foram arredados aos empurrões e quase esmagados contra as paredes. 0 diretor, desesperado, tentou, por um momento, lutar sozinho, arremeter violentamente contra a turba, mas seria uma loucura inútil, teve de se retirar. E ficou por alguns minutos no fundo do escritório do recebedor, jogado sobre uma cadeira, ofegando, tão confundido na sua impotência que não conseguia pensar em nada. Finalmente acalmou-se e mandou um vigia buscar Chaval. Quando este último aceitou conversar, despediu os demais com um gesto. 
— Deixem-nos sós.

     A intenção de Deneulin era descobrir o que aquele astuto estava amando. Às primeiras palavras já pôde ver que era um vaidoso, devorado pela paixão da inveja. Agarrou-o então pela lisonja, fingiu espantar-se de que um operário com seus méritos comprometesse dessa maneira seu futuro. Ouvindo-o, dir-se-ia que, há muito, eleja tinha Chaval na mira para um posto melhor. Terminou oferecendo-lhe à queima-roupa o lugar de contramestre, para mais tarde. Chaval escutava-o silencioso, a princípio com os punhos cerrados, depois gradualmente abertos. Seu cérebro trabalhava sem descanso: se insistisse na greve, nunca passaria de lugar tenente de Etienne, enquanto outra ambição florescia nele, a de ser um chefe. Um calor de orgulho lhe subia às faces e o embriagava. E, aliás, o grupo de grevistas que esperava toda a manhã não viria mais, a essa hora; algum obstáculo o detivera, talvez os policiais: era o momento da conciliação. Mas assim mesmo continuava a negacear com a cabeça, fingindo o homem incorruptível, batendo indignado no peito. Finalmente, sem falar ao patrão sobre a vinda dos grevistas de Montsou, prometeu acalmar os companheiros e convencê-los a descer.
     Deneulin permaneceu escondido, os próprios contramestres mantiveram-se afastados. Durante uma hora ouviram Chaval perorar, discutir, em pé sobre um vagonete de recepção. Parte dos operários começou a vaiá-lo, cento e vinte foram embora, exasperados, obstinando-se na resolução que ele os tinha feito tomar. Eram já mais de sete horas, raiava o dia, muito claro, um dia alegre de grande geada. E, de repente, o movimento da mina recomeçou, o trabalho parado seguiu o seu curso.
     Primeiro foi a máquina, cuja biela mergulhou, enrolando e desenrolando os cabos das bobinas. Depois, em meio à barulheira dos sinais, começou a descida; os elevadores enchiam-se, afundavam, subiam, o poço engolindo a sua ração de aprendizes, operadoras de vagonetes e britadores; enquanto isso, sobre o pavimento de ferro, os ascensoristas empurravam os vagonetes comum barulho ensurdecedor. 

— Diabo, ainda andas por aqui? — gritou Chaval a Catherine que esperava a sua vez. — Desce de uma vez e começa logo a trabalhar!

     Às nove horas, quando a Sra. Hennebeau chegou no seu carro acompanhada de Cécile, encontrou Lucie e Jeanne já prontas, muito elegantes apesar de seus vestidos vinte vezes reformados. Deneulin admirou-se ao ver Négrel, que acompanhava a caleça, a cavalo Então os homens também estavam convidados? A Sra. Hennebeau explicou com seu ar maternal que a haviam assustado dizendo que as estradas estavam cheias de gente mal-encarada, e achara por bem trazer consigo um defensor. Négrel riu e tranquilizou-as: nada de grave, cão que ladra não morde, ninguém ousaria atirar urna pedra a uma vidraça.
     Ainda alegre com o seu sucesso, Deneulin contou a revolta reprimida da Jean-Bart. Agora declarava-se perfeitamente tranquilo. E ali, na estrada de Vandame, enquanto as senhoritas subiam na carruagem, todos se mostravam felizes com aquele dia maravilhoso, sem adivinharem, ao longe, na campina, o grande frêmito que tomava corpo, o povo em marcha, de que ouviriam o avançar se tivessem colado o ouvido ao chão. 

— Muito bem, está combinado — disse a Sra. Hennebeau. — Esta noite o senhor vai buscar as suas filhas e janta conosco. A Sra. Grégoire também prometeu ir buscar Cécile. 
— Conte comigo — respondeu Deneulin.

     A caleça partiu para os lados de Vandame. Jeanne e Lucie debruçaram-se mais uma vez para fora e sorriram para o pai, que ficara parado à beira do caminho. Négrel trotava garbosamente atrás das rodas que fugiam.
     Atravessaram a floresta, tomaram a estrada que vai de Vandame a Marchiennes. Ao passarem por Tartaret, Jeanne perguntou à Sra. Hennebeau se conhecia Cote-Verte, e esta, apesar de já estar residindo na região há cinco anos, confessou não ter visitado aquelas bandas. Fizeram então um desvio.
     O Tartaret, na orla da floresta, era uma charneca inculta de uma esterilidade vulcânica, sob a qual, havia séculos, queimava uma jazida de hulha. Era uma lenda muito antiga, os mineiros da região contavam uma história sobre uma bola de fogo caindo do céu e atingindo aquela sodoma das entranhas da terra, onde as operadoras de vagonetes manchavam-se de abominações. O fogo se espalhara com tanta rapidez que elas não tinham tido tempo de escapar e ainda hoje ardiam no fundo daquele inferno. As rochas calcinadas, de um vermelho escuro, cobriam-se de uma eflorescência de alúmen, que era como uma lepra. O enxofre brotava em florações amarelas nas bordas das fissuras. De noite, os corajosos que ousavam espiar por esses buracos juravam ver as chamas e as almas criminosas debatendo se no braseiro interior. Labaredas errantes corriam à flor do solo, vapores quentes, expelindo o fedor da imunda cozinha do diabo fumegavam continuamente. E como um milagre de eterna primavera, .no meio daquela charneca maldita do Tartaret, a Côte-v-íte espraiava o seu prado sempre verde, as suas faias cujas folhas se renovavam sem cessar, suas semeaduras que chegavam a dar três colheitas. Era uma estufa natural, aquecida pelo incêndio das camadas profundas. Neve alguma resistia a tal temperatura. A enorme floração de verdura, ao lado das árvores despojadas da floresta, apresentava-se soberba naquele dia de dezembro, sem que a geada tivesse, sequer, queimado a extremidade de suas folhas.
     Dentro em pouco a caleça corria pela planície. Négrel desmistificava a lenda explicando como o fogo começava, o mais das vezes, no fundo de uma jazida pela fermentação da poeira do carvão; quando não se podia dominá-lo, ele ardia indefinidamente. Citou o caso de uma mina da Bélgica que tivera de ser inundada, desviando-se um rio do seu curso para lançá-lo no poço.
     Mas o engenheiro achou melhor calar-se, já que grupos de mineiros cruzavam agora a todo instante a carruagem. Passavam em silêncio, lançando olhares atravessados, examinando aquele luxo que os obrigava a abrir caminho. O seu número aumentava sempre, os cavalos tiveram de andar a passo na estreita ponte do Scarpe. Que estava acontecendo para que toda aquela gente andasse pelos caminhos? As damas começavam a ficar assustadas; Négrel farejava algo de mau naquela agitação. Foi com uma sensação de alívio que chegaram finalmente a Marchiennes. Esbatidas pelo sol, as baterias de fornalhas de coque e as chaminés dos altos-fornos expeliam fumaça, cuja sempiterna fuligem chovia no ar.

continua na página 254...
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Quarta Parte - (VII.a) / Quarta Parte - (VII.b) / Germinal: Quinta Parte - (I.a)Germinal: Quinta Parte - (I.b) /   
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/I — A Alcunha

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     I — A alcunha: modo de formar nomes de família

             Mário era nesta época um interessante rapaz, de estatura mediana, espessos cabelos negros, fronte alta e inteligente, narinas abertas e apaixonadas, ar sincero e sereno, e em todo o rosto certa indefinível expressão de altivez, melancolia e inocência. O seu perfil, cujos lineamentos eram suaves sem que deixassem de ser firmes, possuía a doçura germânica de que a fisionomia francesa participa pela Alsácia e pela Lorena, e a completa carência de ângulos que tornava tão conhecidos os sicambros entre os romanos e que distingue a raça leonina da raça aquilina. Mário achava-se na quadra da vida em que o espírito dos homens pensativos é composto quase em proporções iguais de gravidade e singeleza. Posta uma situação grave, Mário possuía tudo o que era necessário para ficar inerte, ou para se tornar sublime, se dessem à chave mais uma volta. As suas maneiras eram reservadas, frias, polidas e pouco expansivas. Dotado de uma linda boca, de lábios purpurinos, de dentes alvos como poucos, corrigia-lhe o sorriso a expressão severa da fisionomia. Em certas ocasiões tornava-se um singular contraste aquela fronte casta e aquele sorriso voluptuoso. Mário tinha olhos pequenos, mas o olhar grande.
     No tempo em que em piores circunstâncias se achara, o mancebo notava que as raparigas se voltavam para trás quando ele passava, e deitava a fugir ou se escondia, profundamente contristado. Julgava que elas o fitavam para se rirem do seu usado traje, mas a verdade era que elas só se voltavam, porque o achavam gracioso e que continuavam o seu caminho com ele no pensamento.
     Este mundo equívoco entre ele e as lindas transeuntes viera por último a torná-lo insociável. De entre tantas, o mancebo não escolheu uma só, pela concludente razão de que de todas fugia. Assim viveu por muito tempo estupidamente, como dizia Courfeyrac.
     Courfeyrac dizia-lhe também: 

— Não aspires a tornar-te venerável (os dois amigos tratavam-se por tu, ao que entre mancebos facilmente se chega). Um conselho, meu caro. Não leias tanto nos livros e olha alguma coisa para as codornizes. As brejeiras têm bocadinhos de ouro, Mário! A força de lhes fugir e de corar, hás de vir a embrutecer-te.

Outras vezes Courfeyrac encontrava-se com ele e dizia-lhe: 

— Olá, padre!

     Quando Courfeyrac lhe jogava algum gracejo desta natureza, Mário durante oito dias ainda mais fugia de se encontrar com mulheres e muito principalmente com Courfeyrac.
     Duas mulheres, porém, encerrava a imensa criação, de quem Mário não fugia nem nas quais fazia reparo. Realmente, se alguém lhe dissesse que as duas criaturas de que falamos eram mulheres, o mancebo ficaria admiradíssimo. Uma era a velha barbada que lhe arrumava o quarto e de quem Courfeyrac dizia: 

— Mário, como vê que a criada usa barbas, corta as dele.

     A outra era uma rapariga, se o era, que ele via muitas vezes, mas para quem nunca olhava.
     Havia mais de um ano que Mário numa álea deserta do Luxemburgo, a que corre paralela ao parapeito da Pepinière, notava um homem e uma jovem quase sempre sentados juntos no mesmo banco, na extremidade mais solitária da álea do lado da rua de Oeste. Todas as vezes que o acaso, que dirige os passeios das pessoas pensativas, conduzia Mário àquela álea, o que acontecia quase todos os dias, encontrava ele ali sempre aquele par. O homem, que indicava ter sessenta anos, parecia triste e sério; a sua figura oferecia o robusto, mas cansado aspecto de um militar reformado. Se ele trouxesse ao peito alguma condecoração, Mário diria: «É algum antigo oficial». Tinha um ar de bondade, mas pouco animador, e o seu olhar nunca se fixava em ninguém. O seu traje consistia numas calças azuis, um casacão da mesma cor, um chapéu de abas largas, que ainda pareciam novos, uma gravata preta e uma camisa de quaker, quer dizer de deslumbrante brancura, mas de pano grosso. Um dia, uma costureirinha ao passar por ele disse: 

— Ora aqui está o que se chama um viúvo asseado!

     Este personagem tinha os cabelos, alvíssimos.
     Quando a jovem que o acompanhava veio pela primeira vez sentar-se com ele no banco, que parecia terem ambos adotado, inculcava ter treze ou catorze anos, e era tão magra, que quase se tornava feia, desajeitada, insignificante, mas possuidora de uns olhos que prometiam vir a ser extremamente belos. Fitava-os, porém, com uma ousadia que causava má impressão. Usava o traje ao mesmo tempo senil e infantil das recolhidas de um convento, que consistia num desairoso vestido de grosseiro merino preto. Pareciam ser pai e filha.
     Mário examinou durante dois ou três dias este homem idoso, que ainda se não podia chamar velho, e esta jovem, que ainda se não podia chamar mulher, e depois não tornou mais a fazer reparo neles, que pela sua parte parecia que nem sequer viam o mancebo, conversando ambos com perfeita serenidade e indiferença. A jovem tagarelava sempre jovialmente; o velho falava pouco e de quando em quando fitava na donzela uns olhos cheios de uma inefável paternidade.
     Mário, que contraíra maquinalmente o hábito de ir passear para esta álea, encontrava-os ali sempre.
     Eis como o caso se passava:
     O mancebo chegava pela extremidade da álea oposta ao banco em que eles se achavam, caminhava pela álea adiante, passava por eles, depois voltava até à extremidade por onde tinha vindo e recomeçava como da primeira vez. Repetia este movimento de vaivém cinco ou seis vezes por semana, sem que entre ele e os dois personagens sentados no banco se chegasse alguma vez a trocar uma saudação. Conquanto, porém, aquele velho e aquela jovem parecessem, ou talvez por isso mesmo que pareciam evitar os olhares, tinham, como era natural, excitado mais ou menos a curiosidade dos cinco ou seis estudantes que de tempos a tempos iam passear para a Pepinière, os estudiosos depois das suas aulas, e outros depois da sua partida de bilhar. Courfeyrac, que era um dos segundos, observara-os algum tempo; porém, como a jovem lhe parecesse feia, retirou-se apressadamente e com todo o cuidado. Deitara a fugir como um lacedemónio, dardejando-lhes uma alcunha. Impressionado somente do vestido da jovem e dos cabelos do velho, pusera à filha o nome de Mademoiselle Lanoire, ao pai o de Monsieur Leblanc, e em tal hora foi, que, como ninguém lhes sabia o verdadeiro nome, a alcunha pegou e os estudantes diziam: 

— Lá está Monsieur Leblanc sentado no seu banco!

     E Mário do mesmo modo que os outros, achava cômodo tratar também por senhor Leblanc aquele desconhecido personagem.
     Faremos pois como eles e adotaremos a alcunha para maior facilidade da nossa narrativa.
     Assim os viu Mário quase todos os dias e à mesma hora durante um ano. O velho agradava-lhe, mas achava a jovem desengraçada.

continua na página 527...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - I — A Alcunha
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(a)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
 
          Ninguém que se ocupe dos testemunhos originais da vida religiosa deixará de espantar-se com o poder dos mortos. A existência de muitas tribos apresenta-se inteiramente impregnada de ritos a eles relacionados.
     O que chama a atenção em primeiro lugar e por toda parte é o medo que se tem dos mortos. Estes estão insatisfeitos e repletos de inveja dos parentes que deixaram para trás. Tentam vingar-se deles, às vezes por ofensas que lhes foram impingidas ainda em vida, mas, com frequência, também pelo simples fato de não estarem mais vivos. É a inveja dos mortos o que os vivos mais temem. Procuram atenuá-la adulando-os e oferecendo-lhes alimento. Dão-lhes tudo aquilo de que precisam para o caminho rumo à terra dos mortos, e o fazem apenas para que eles se mantenham bem distantes e não voltem mais para causar dano e atormentar os que ficaram. Os espíritos dos mortos enviam doenças ou trazem-nas eles próprios; exercem influência sobre o crescimento dos animais e o sucesso da colheita; interferem, enfim, de centenas de maneiras na vida dos homens.
     Uma sua verdadeira paixão que vive a manifestar-se é aquela de vir buscar os vivos. Como os invejam pelos objetos todos da vida cotidiana que tiveram de deixar para trás, era costume não conservar coisa alguma destes, ou apenas o mínimo possível. Eram todos colocados na cova ou incinerados junto com os mortos. Abandonava-se a cabana onde estes haviam morado e jamais se voltava lá. Com frequência, enterravam-se os mortos em sua própria casa, juntamente com todos os seus pertences, a fim de deixar-lhes claro que não se pretendia ficar com estes últimos. Tampouco isso bastava, porém, para desviar-lhes inteiramente a ira, pois a inveja maior dos mortos não se dirigia aos objetos — que podiam ser novamente produzidos ou adquiridos —, mas sim à própria vida.
     É, por certo, notável que, por toda parte, sob as mais variadas circunstâncias, se atribua aos mortos essa mesma disposição. Aparentemente, o mesmo sentimento domina os mortos de todos os povos. Eles sempre teriam preferido permanecer vivos. Aos olhos dos que ainda o estão, todo aquele que não está mais vivo sofreu uma derrota, a qual consiste no fato de se ter sobrevivido a ele. O morto não é capaz de conformar-se com isso, e é natural que deseje ele próprio impingir a outros essa dor suprema que lhe foi impingida.
     Todo morto é, portanto, alguém a quem se sobreviveu. Somente naquelas grandes e relativamente raras catástrofes nas quais todos sucumbem juntos é que tal situação se modifica. A morte solitária, aquela que nos interessa aqui, dá-se de modo a arrancar um único ser humano do seio de sua família e de seu grupo. Ele deixa para trás todo um bando de sobreviventes, e todos quantos possuem algum direito sobre o morto formam uma malta de pesar a lamentar por ele. Ao sentimento de enfraquecimento por sua morte vem juntar-se aquele do amor que se tinha por ele, e ambos esses sentimentos são amiúde inseparáveis. Lamenta-se pelo morto da maneira mais apaixonada, e, em seu cerne, tal lamento certamente constitui um sentimento genuíno. Se os que estão de fora tendem a suspeitar das manifestações desse lamento, tal se deve à natureza complexa, à multiplicidade de sentidos da própria situação.
     E isso porque as mesmas pessoas que têm motivo para lamentar-se são também sobreviventes. Elas lamentam na qualidade de pessoas que sofreram uma perda, mas, na condição de sobreviventes, sentem uma espécie de satisfação. Em geral, não admitirão nem mesmo para si próprias esse seu sentimento inadequado. Mas sempre saberão precisamente de que forma o morto o sente. Este só pode odiá-las, pois a vida de que elas desfrutam, ele não a tem mais. Chamam de volta sua alma a fim de convencê-lo de que não queriam sua morte. Lembram-no como foram boas para ele, quando ele estava ainda entre elas. Enumeram as provas concretas de que fazem tudo da maneira como ele teria desejado. Os últimos e manifestos desejos do morto, elas os cumprem de modo consciencioso. Em muitos lugares, esse último desejo tem força de lei. Em tudo o que as pessoas fazem encontra-se inabalavelmente pressuposta uma única coisa: o rancor do morto pelo fato de elas terem sobrevivido.
     Em Demerara, um menino índio adquirira o hábito de comer areia, o que o levou à morte. Seu corpo jazia num esquife aberto que seu pai encomendara a um marceneiro da vizinhança. Antes do sepultamento, a avó do menino postou-se ao lado do esquife e disse com voz lamentosa: “Meu filho, eu sempre te disse que você não devia comer areia. Eu nunca te dei areia, pois sabia que não te faria bem. Mas você sempre a procurou por conta própria. Eu te disse que isso era ruim. Agora você está vendo: a areia te matou. Não me faça nenhum mal; foi você mesmo quem se fez mal; alguma coisa ruim te fez comer areia. Veja: estou colocando uma flecha e um arco a teu lado, para que você se contente com eles. Eu sempre fui boa para você. Agora seja bom para mim também e não me faça nada”.
     Então, chorando, a mãe juntou-se à avó e, numa espécie de cantilena, disse: “Meu filho, eu te trouxe ao mundo para que você visse todas as coisas boas e se alegrasse com elas. Este peito te alimentou todas as vezes que você o pediu. Fiz coisas bonitas e belas camisas para você. Cuidei de você, te alimentei, brinquei com você e nunca te bati. Você tem que ser bom e não trazer nada de ruim para mim”.
     O pai da criança aproximou-se também, dizendo: “Meu filho, quando eu te disse que a areia ia te matar você não quis me ouvir, e agora veja: você está morto. Eu saí e arranjei um belo caixão para você. Vou ter de trabalhar para pagá-lo. Cavei tua cova num lugar bonito, onde você gostava de brincar. Vou te enterrar e te dar areia para comer, pois agora ela não poderá mais te fazer mal, e eu sei como você gosta de areia. Você não pode me trazer nenhuma desgraça; o melhor é que você vá atrás de quem te fez comer areia”.
     A avó, a mãe e o pai amaram essa criança, e, embora ela seja tão pequena, temem o seu rancor, pois eles continuam vivos. Garantem-lhe que não tiveram culpa por sua morte. A avó dá-lhe um arco e uma flecha. O pai comprou-lhe um caixão caro e colocará areia na cova para o filho comer, porque sabe o quanto ele gostava. O carinho singelo que demonstram para com a criança é comovente; e, no entanto, ele tem algo de sinistro, pois está impregnado de medo.
     Da crença na continuidade da vida dos mortos originou-se em alguns povos um culto aos antepassados. Onde quer que tal culto tenha assumido formas fixas a impressão que causa é a de que as pessoas souberam do mar os próprios mortos que são os que lhes importam. Concedendo-lhes regularmente aquilo que desejam — honra e alimento —, elas os mantêm satisfeitos. Se observado de acordo com todas as regras da tradição, esse cuidar dos mortos os transforma em aliados. O que foram nesta vida é o que serão também mais tarde; eles ocupam sua antiga posição. Quem, na terra, foi um poderoso cacique, isso é o que será também debaixo da terra. Nos sacrifícios e evocações, seu nome será citado em primeiro lugar. Sua suscetibilidade é prudentemente poupada; se ferida, ele pode tornar-se bastante perigoso. O morto interessa-se pela prosperidade de sua descendência; muita coisa depende dele, e seu bom humor é imprescindível. Gosta de deter-se nas proximidades de seus descendentes, e não se pode fazer coisa alguma para expulsá-lo dali.

continua página 401...
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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(a)

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

domingo, 12 de abril de 2026

Conseguem escolher... I Will Always Love You

Grandes Cantoras


- "Eu Sempre Vou Te Amar" é uma canção escrita e originalmente gravada em 1973 pela cantora e compositora americana Dolly Parton. Escrito como uma despedida de seu sócio e mentor Porter Wagoner, expressando a decisão de Parton de seguir carreira solo, o single country foi lançado em 1974. A música foi um sucesso comercial para Parton, alcançando duas vezes o topo da parada Billboard Hot Country Songs dos EUA: primeiro em junho de 1974, depois novamente em outubro de 1982, com uma regravação para a trilha sonora de The Best Little Whorehouse in Texas. -


Dolly Parton 



... um sussurro de amor ao seu ouvido


Whitney Houston




... como uma declaração para o mundo


Christina Aguilera





Jennifer Hudson -





e tem essa garotinha...

Ariana Grande cantando I Will Always Love You





Mercedes Jones/Amber Riley.
Gleen: 3/13




Se eu ficasse
If I should stay
Eu só te atrapalharia
I would only be in your way
Então eu vou embora, mas eu sei
So I will go, but I know
Que pensarei em você em cada passo do caminho
I'll think of you every step of the way

E eu sempre vou te amar
And I will always love you
Eu sempre vou te amar
I will always love you
Você, meu querido, você
You, my darling, you

Lembranças agridoces
Bittersweet memories
Isso é tudo que estou levando comigo
That is all I'm taking with me
Então adeus, por favor, não chore
So goodbye, please, don't cry
Nós dois sabemos que eu não sou o que você, você precisa
We both know I'm not what you, you need

E eu sempre vou te amar
And I will always love you
Eu sempre vou te amar, ah
I will always love you, oh

Eu espero que a vida te trate bem
I hope life treats you kind
E eu espero que você tenha tudo o que você sonhou
And I hope you'll have all you've dreamed of
E eu te desejo alegria e felicidade
And I wished you joy and happiness
Mas acima de tudo, te desejo amor
But above all this, I wish you love

E eu sempre vou te amar
And I will always love you
Eu sempre vou te amar
I will always love you
Eu sempre vou te amar
I will always love you
Eu sempre vou te amar
I will always love you
Eu sempre vou te amar
I will always love you
Eu, eu sempre vou te amar, você
I, I will always love you, you

Querido, eu amo você
Darling, I love you
E sempre irei, e sempre irei amar você
I'll always, I'll always love you


Porter Wagoner & Dolly Parton 
- If Tearsdrops Were Pennies (1973)





I will always love you: A História da música de Dolly Parton



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I Will Always Love You

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(c)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Quando nova, a tulipeira, ou liriodendron tulipiperum, a mais magnífica espécie das florestas americanas, tem um tronco singularmente liso e muitas vezes de uma grande altura, sem deitar ramos laterais; mas quando chega à maturidade, a casca torna-se rugosa e desigual e aparecem imensos rebentos de ramos. Por isso a escalada, no caso atual, era muito mais difícil na aparência do que na realidade. Enlaçando o melhor possível o enorme cilindro com os braços e os joelhos, e segurando com as mãos alguns dos rebentos, apoiando os pés descalços nos outros, Júpiter depois de ter escorregado uma ou duas vezes, içou se a custo até ao primeiro ramo e pareceu daí em diante encarar a tarefa como eficazmente realizada. Com efeito, o risco principal da empresa desapareceu, se bem que o valente negro se encontrasse a setenta pés do solo. 

— Para que lado é preciso que eu vá agora, massa Will? — perguntou-lhe. 
— Segue sempre o ramo mais grosso, o deste lado — disse Legrand. 

     O negro obedeceu-lhe prontamente, e, sem mostrar demasiada dificuldade, subiu, subiu sempre mais alto até que por fim o vulto forte que trepava desapareceu na espessura da folhagem e ficou por completo invisível. Então, a sua voz ouviu-se ao longe. Ele gritava: 

— Até onde é preciso subir ainda? 
— A que altura estás? — perguntou Legrand. 
— Tão alto, tão alto — respondeu o negro — que posso ver o céu através do cimo da árvore. 
— Não te importes com o céu, presta atenção ao que te digo. Vê o tronco e conta os ramos abaixo de ti, desse lado. Quantos ramos passaste? 
— Um, dois, três, quatro, cinco. Passei cinco ramos grossos, massa, deste lado daqui. 
— Então sobe mais um ramo.

     Passados alguns minutos, ouviu-se de novo a sua voz. Ele informava-o que havia atingido o sétimo ramo. 

— Agora, Júpiter — gritou Legrand, num estado evidente de agitação — é preciso que encontres o meio de avançares por cima desse ramo, tão longe quanto puderes. Se vires qualquer coisa de extraordinário nesse ramo, dir-me-ás.

     Desde então, algumas dúvidas que tinha tentado manter a respeito da demência do meu pobre amigo desapareceram completamente. Não podia já considerá-lo como tido por alienado mental e comecei a inquietar-me seriamente com a maneira de o levar para casa.

     Enquanto meditava sobre o que seria melhor, de novo se ouviu a voz de Júpiter: 

— Tenho medo de me encontrar um pouco mais longe neste ramo; é um ramo seco a quase todo o comprimento. 
— Júpiter, dizes que é um ramo morto? — gritou Legrand com uma voz trémula pela emoção. 
— Sim, massa, morto como o meu avô. Está completamente seco. 
— Valha-me Deus, que hei de fazer? — perguntou Legrand, que parecia verdadeiramente desesperado. — O que fazer? — disse-lhe, satisfeito por ter ocasião para dizer uma palavra razoável. — Volte para casa e vamo-nos deitar. Vamos, venha! Seja gentil, meu amigo. Faz-se tarde e, depois, recorde-se da sua promessa. 
— Júpiter — gritou Legrand, sem me ouvir sequer — ouves-me? 
— Sim, massa Will, ouço-o perfeitamente. 
— Corta, portanto, a madeira com a tua faca e diz-me se a encontras muito apodrecida. 
— Apodrecida, massa, bastante apodrecida — respondeu em seguida — mas não tão apodrecida como o meu avô. Poderia aventurar-me um pouco mais pelo ramo, mas sozinho. 
— Sozinho! O que queres dizer? 
— Quero falar do escaravelho. É bastante pesado. Se eu o deixasse primeiro, o ramo aguentaria bem, sem partir, só o peso de um negro. 
— Grande patife! — gritou Legrand que tinha um aspecto bastante aliviado. — Que tolices dizes dai? Se deixas cair o inseto, torço-te o pescoço. Presta atenção a isto, Júpiter. Ouves-me, não é verdade? 
— Sim, massa, não vale tratar assim um pobre negro. 
— Pois bem, escuta-me! Se te aventurares sobre o ramo tão longe que possas fazê-lo sem perigo e sem deixares cair o escaravelho, dar-te-ei de presente um dólar de prata, logo que desças. 
— Eu vou lá, massa Will. Já cá estou — respondeu o negro — estou quase na ponta. 
— Na ponta! — gritou Legrand, mais serenamente. — Queres dizer que estás na ponta do ramo? 
— Estarei em breve na ponta, massa; oh!, oh!, oh! Senhor Deus! Misericórdia! O que é que há em cima da árvore? 
— Pois bem — gritou Legrand no auge da alegria — o que é que há? 
— Eh! Apenas uma caveira; alguém que deixou a cabeça em cima da árvore e os corvos debicaram a carne toda. 
— Um crânio, dizes? Muito bem! Como está agarrado ao ramo? O que é que o segura? 
— Oh!, está bem preso. Mas é preciso ver... Ah!, é uma coisa curiosa, palavra! A caveira tem um prego grosso que a segura à árvore. 
— Bem!, agora, Júpiter, faz exatamente o que vou dizer-te. Ouves-me? 
— Sim, massa
— Presta muita atenção! Procura o olho esquerdo da caveira. 
— Oh!, oh! Vejam que estranho! Não tem vestígios do olho esquerdo. 
— Maldita estupidez! Sabes distinguir a tua mão direita da tua mão esquerda? 
— Sim, sei, eu sei tudo isso, mas a mão esquerda é aquela com que racho a lenha. 
— Sem dúvida, tu és canhoto; e o teu olho esquerdo está no mesmo lado que a tua mão esquerda. Agora, suponho que poderás encontrar o olho esquerdo da caveira, ou o lugar onde estava o olho esquerdo. Encontraste?

     Seguiu-se um longo silêncio; por fim o negro perguntou: 

— O olho esquerdo da caveira está do mesmo lado que a mão esquerda da caveira? Mas a caveira não tem mãos! Isso não interessa nada! Já encontrei o olho esquerdo, está aqui o olho esquerdo! O que é preciso fazer agora? 
— Deixa passar o escaravelho através dele, tão longe quanto possa ir o cordel. Mas toma bem nota de soltar a ponta do cordel quando chegar ao fim. 
— Já fiz isso, massa Will. É fácil fazer passar o escaravelho pelo buraco. Olhe, veja-o descer.

     Enquanto durou este diálogo, o corpo de Júpiter ficou invisível, mas o inseto que ele deixou passar aparecia agora na ponta do cordel e brilhava como uma bola de ouro polido pelos últimos raios do Sol poente, dos quais alguns iluminavam fracamente o ponto elevado em que estávamos colocados. O escaravelho, ao descer, emergia dos ramos, e se Júpiter o tivesse soltado imediatamente, teria caído aos nossos pés. Legrand pegou prontamente na foice, abriu um espaço circular de três ou quatro jardas de diâmetro, precisamente por baixo do inseto e, ao acabar esta tarefa, ordenou a Júpiter que soltasse o cordel e descesse da árvore.
     Com um escrupuloso cuidado, o meu amigo enterrou na terra uma cavilha, no sítio preciso onde o escaravelho caíra, e tirou do seu bolso uma fita métrica. Atou-a por uma ponta no sítio do tronco da árvore que estava mais perto da cavilha, desenrolou-a até à cavilha, e continuou assim a desenrolar na direção dada pelos dois pontos — a cavilha e o tronco — até à distância de cinquenta pés. Entretanto, Júpiter cortava com a foice as silvas em redor. No ponto assim achado, Legrand enterrou uma segunda cavilha, que tomou como centro, e em volta da qual descreveu grosseiramente um círculo de cerca de quatro pés de diâmetro.
     Pegou então numa pá, deu uma a Júpiter e outra a mim, e pediu-nos para cavar tão depressa quanto possível. Para falar francamente, nunca tivera muito gosto por semelhante distração, e no caso presente passaria bem sem isso porque a noite avançava e sentia-me razoavelmente fatigado pelo exercício que já fizera. Mas não via forma alguma de me esquivar e temia perturbar com a minha recusa a prodigiosa serenidade do meu pobre amigo. Se pudesse contar com a ajuda de Júpiter, não teria hesitado em levar à força o nosso doido para casa dele, mas eu conhecia muitíssimo bem o caráter do velho negro para esperar o seu auxílio no caso de uma luta corpo a corpo com o patrão e não importa em que circunstâncias. Não duvidava que Legrand tivesse o cérebro sugestionado por alguma das inumeráveis superstições do Sul, relativas aos tesouros escondidos e que esta ideia fosse confirmada pelo achado do escaravelho, ou talvez mesmo pela obstinação de Júpiter em afirmar que era um escaravelho de ouro autêntico. Um espírito desequilibrado podia muito bem deixar-se arrastar por semelhantes sugestões, sobretudo quando elas concordam com as suas ideias favoritas preconcebidas; depois recordava-me do discurso do pobre rapaz relativo ao escaravelho, indício da sua fortuna! Acima de tudo, estava cruelmente atormentado e embaraçado; mas, enfim, resolvi fazer das tripas coração e cavar de boa vontade, o mais depressa possível, para convencer o meu visionário o mais depressa possível, de uma maneira palpável, da inutilidade dos seus sonhos.
     Acendemos lanternas e cumprimos a nossa tarefa com um zelo digno de uma causa mais louvável e, enquanto a luz incidia sobre as nossas pessoas e a ferramenta, não pude deixar de pensar que compúnhamos um grupo verdadeiramente pitoresco, e que se algum intruso fosse parar por acaso junto de nós, julgaria que estávamos a fazer um trabalho bem estranho e suspeito.
     Nós cavámos sem descanso durante duas horas. Falávamos pouco. O nosso principal embaraço era causado pelos uivos do cão que tomava um interesse cada vez maior pelos nossos trabalhos. Com o decorrer do tempo, tornou-se de tal forma turbulento que receámos que ele alertasse alguns malfeitores — ou antes, era a grande preocupação de Legrand — porque no que me dizia respeito, eu ficaria regozijado com qualquer interrupção que me teria permitido levar o meu amigo para casa.
     Por fim, o estrondo foi sufocado, graças a Júpiter que se lançou para fora do buraco com um ar furioso; decidido, apertou as mandíbulas do animal com um dos seus suspensórios e depois voltou ao trabalho com um risinho de triunfo.

continua na página 424...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.