PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
29. Quem desencadeou a violência na Guatemala?
Em 1944, Ubico caiu de seu pedestal, varrido pelos ventos
de uma revolução de cunho liberal, encabeçada por alguns
jovens oficiais e universitários de classe média. Juan José
Arévalo, eleito presidente, pôs em marcha um vigoroso
plano educacional e ditou um novo código do trabalho para
proteger os trabalhadores do campo e das cidades.
Nasceram vários sindicatos; a United Fruit, dona de vastas
terras, das ferrovias, do porto, virtualmente isenta de
impostos e livre de controles, deixou de ser onipotente em
suas propriedades. Em 1951, em seu discurso de despedida,
Arévalo revelou que teve de escapar de 32 conspirações
patrocinadas pela empresa. O governo de Jacob Arbenz
continuou e aprofundou o ciclo de reformas. As estradas e o
novo porto de San José rompiam o monopólio da United
Fruit no transporte e na exportação. Com capital nacional, e
sem estender a mão pedinte a bancos estrangeiros, foram
efetivados vários projetos de desenvolvimento que
conduziam à conquista da independência. Em junho de
1952, foi aprovada a reforma agrária, que beneficiou mais
de 100 mil famílias, ainda que só abrangesse as terras
improdutivas e pagasse uma indenização, em bônus, aos
proprietários expropriados. A United Fruit só cultivava 8 por
cento de suas terras, estendidas entre ambos os oceanos.
A reforma agrária se propunha a “desenvolver a
economia capitalista camponesa e a economia capitalista
da agricultura em geral”, mas uma furiosa campanha
internacional de propaganda se desencadeou contra a
Guatemala: “A cortina de ferro está descendo sobre a
Guatemala”, vociferavam as emissoras de rádio, os jornais e
os próceres da OEA
[1]. O coronel Castillo Armas, graduado
em Fort Leavenworth, Kansas, comandou contra seu próprio
país tropas treinadas e equipadas nos Estados Unidos. O
bombardeio de F-47, com pilotos norte-americanos,
respaldou a invasão. “Tivemos de nos livrar de um governo
comunista que havia assumido o poder”, diria Dwight
Eisenhower
[2] nove anos depois. As declarações do
embaixador norte-americano em Honduras a uma
subcomissão do Senado dos Estados Unidos, em 27 de julho
de 1961, revelaram que a operação libertadora de 1954 foi
realizada por uma equipe da qual faziam parte, além dele
mesmo, os embaixadores na Guatemala, Costa Rica e
Nicarágua. Allen Dulles, que naquela época era o homem
número 1 da CIA, enviou-lhes telegramas cumprimentando
os pela missão cumprida. Anteriormente, o bom Allen
integrara a diretoria da United Fruit Co. Um ano depois da
invasão, sua cadeira na empresa foi ocupada por outro
dirigente da CIA, o general Walter Bedell Smith. Foster
Dulles, irmão de Allen, estava impaciente ao extremo na
conferência da OEA que autorizou a expedição militar contra
a Guatemala. Casualmente, tinham sido redigidas em seu
escritório de advogado, ao tempo do ditador Ubico, as
minutas dos contratos da United Fruit.
A queda de Arbenz marcou a fogo a história posterior do
país. As mesmas forças que bombardearam a cidade da
Guatemala, Puerto arrios e San José, no entardecer do dia
18 de junho de 1954, estão hoje no poder. Várias e ferozes
ditaduras sucederam-se à intervenção estrangeira, incluído
o período de Julio César Méndez Montenegro (1966-70), que
deu à ditadura uma aparência de regime democrático.
Méndez Montenegro, que prometera uma reforma agrária,
limitou-se a assinar uma autorização para que os terras
tenentes portassem armas e as usassem. A reforma agrária
de
Arbenz se despedaçou quando Castillo Armas
desincumbiu-se de sua tarefa, devolvendo as terras à United
Fruit e a outros terras-tenentes expropriados.
O ano de 1967 foi o pior do ciclo de violência
inaugurado em 1954. Um sacerdote católico norte
americano expulso da Guatemala, o padre Thomas Melville,
informou ao National Catholic Reporter, em janeiro de 1968:
em pouco mais de um ano, os grupos terroristas de direita
assassinaram mais de dois mil e 800 intelectuais,
estudantes, dirigentes sindicais e camponeses que
“tentaram combater as enfermidades da sociedade
guatemalteca”. O cálculo do padre Melville foi feito com
base nas informações da imprensa, mas da maioria dos
cadáveres ninguém jamais ficou sabendo: eram índios sem
origem e sem nome conhecidos, que o exército de vez em
quando incluía, só como números, nos comunicados sobre
as vitórias contra a subversão. A repressão indiscriminada
era parte da campanha militar de “cerco e aniquilação” de
movimentos guerrilheiros. De acordo com o novo código em
vigência, os membros das forças de segurança não tinham
responsabilidade penal por homicídios, e os comunicados
policiais ou militares eram considerados provas plenas em
juízo.
Os fazendeiros e seus administradores foram
legalmente equiparados à qualidade de autoridades locais,
com direito a porte de arma e de organizar forças
repressivas. Não vibraram os teletipos do mundo com os
“furos” da sistemática chacina, não chegaram à Guatemala
jornalistas ávidos de notícias, não se ouviram vozes de
condenação. O mundo virava as costas enquanto a
Guatemala sofria uma longa noite de São Bartolomeu. A
aldeia Cajón del Río ficou sem homens, os da aldeia Tituque
tiveram as tripas revolvidas a punhal, os de Piedra Parada
foram escalpelados vivos, e queimados vivos os de Agua Blanca de Ipala, depois de baleados nas pernas; no centro
da praça de São Jorge cravaram numa haste a cabeça de
um camponês rebelde. Em Cerro Gordo, encheram de
alfinetes as pupilas de Jaime Velázquez; o corpo de Ricardo
Miranda foi encontrado com 38 perfurações, e a cabeça de
Haroldo Silva, sem o corpo de Haroldo Silva, foi parar à
beira da estrada para São Salvador; em Los Mixcos,
cortaram a língua de Ernesto Chinchilla; na fonte de Ojo de
Agua, os irmãos Oliva Aldana foram costurados a tiros com
as mãos atadas às costas e os olhos vendados; o crânio de
José Guzmán se tornou um quebra-cabeça de minúsculas
lascas atiradas pelo caminho; dos poços de San Lucas
Sacatepequez emergiam mortos em vez de água; os
homens amanheciam sem mãos e sem pés na fazenda
Miraflores. Às ameaças seguiam-se as execuções, ou
chegava a morte, sem aviso, pela nuca; nas cidades, eram
marcadas com cruzes negras as portas dos sentenciados.
Eram metralhados ao sair, e seus corpos lançados em
barrancos.
A violência não cessou depois. Ao longo do tempo de
desprezo e cólera inaugurado em 1954, a violência foi e
continua sendo uma transpiração natural da Guatemala.
Continuaram aparecendo, um a cada cinco horas, os
cadáveres nos rios ou à beira das estradas, os rostos
irreconhecíveis, desfigurados pela tortura, que jamais serão
identificados;
também continuaram, e com maior
intensidade, as matanças mais secretas: os corriqueiros
genocídios da miséria. Outro sacerdote expulso, o padre Blase Bonpane, denunciava no Washington Post, em 1968,
essa sociedade enferma: “Das 70 mil pessoas que a cada
ano morrem na Guatemala, 30 mil são crianças. A taxa de
mortalidade infantil da Guatemala é 40 vezes mais alta do
que a dos Estados Unidos”.
continua na página 185...
____________________
____________________
[1] GALEANO, Eduardo. Guatemala, país ocupado. México, 1967.
[2] Discurso na American Booksellers Association, Washington, 10 de junho de
1963.
__________________
Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Quem desencadeou a violência na Guatemala? (18)