Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Sexta Parte
III
Naquele domingo, a partir das oito horas, Suvarin ficou sozinho na
sala do Avantage, no seu lugar habitual, com a cabeça encostada ao muro.
Já nenhum mineiro podia tomar seus dois soldos de cerveja; nunca as
tabernas tiveram menos fregueses. Por isso, a Sra. Rasseneur, imóvel no
balcão, guardava um silêncio irritado, enquanto o marido, em pé defronte
ao fogão de ferro fundido, parecia seguir, com ar meditativo, a fumaça ruiva
do carvão.
Bruscamente, naquela paz pesada das peças muito aquecidas, três
pequenas pancadas secas, batidas num vidro da janela, fizeram que Suvarin
voltasse a cabeça. Ergueu-se, tinha reconhecido o sinal do qual já diversas
vezes Etienne se servira para chamá-lo, quando o via lá de fora fumando
seu cigarro, sentado a uma mesa vazia Mas, antes que o mecânico
alcançasse a porta, Rasseneur a abrira e, reconhecendo, graças à luz da
janela, quem estava ali, disse:
— Será que tens medo de que eu te venda? Se querem conversar é
melhor que o façam aqui dentro em vez de na estrada.
Etienne entrou. A mulher lhe ofereceu cortesmente um copo de
cerveja, que ele recusou com um gesto. O taberneiro acrescentou:
— Há muito tempo que adivinhei onde te escondes. Se eu fosse um
espião, como teus amigos dizem, já há oito dias teria mandado para lá os
policiais.
— Não precisas defender-te — respondeu o rapaz. — Sei muito
bem que não farias isso. Podemos não ter as mesmas ideias e continuar
sendo amigos.
O silêncio voltou a reinar. Suvarin tornou à sua cadeira, de costas
para a parede, os olhos vagando na fumaça do seu cigarro, mas seus dedos
febris não paravam um momento; passava-os pelos joelhos procurando o
pelo tépido de Polônia, que naquela noite não se encontrava ali; era um
mal-estar inconsciente, faltava-lhe alguma coisa, sem que ele soubesse o
quê.
Sentado na outra extremidade da mesa, Etienne disse, enfim:
— O trabalho recomeça amanhã na Voreux. Os belgas chegaram
com Négrel.
— De fato, chegaram quando já era noite fechada — murmurou
Rasseneur, que ficara em pé. — Espero que não recomece a mortandade. —
E levantando a voz: — Como vês, não quero continuar brigando contigo,
mas isso terminará mal se vocês insistirem em fincar pé... Igualzinho à
história da tal de Internacional... Anteontem fui a Lille resolver uns
negócios e encontrei Pluchart; parece que a Internacional está
desmoronando...
Deu detalhes. A Associação, depois de ter conquistado os operários
do mundo inteiro, num ímpeto propagandístico que ainda fazia tremer a
burguesia, estava agora sendo devorada, destruída aos poucos pelas batalhas
internas das vaidades e ambições. Desde que os anarquistas triunfaram,
expulsando os evolucionistas de primeira hora, tudo estava indo por água
abaixo; a finalidade principal, a reforma do salário, afundava em meio aos
conflitos de seitas, os grupos mais experientes se desorganizavam devido ao
ódio à disciplina. E já se podia prever o fracasso final desse levante de
massa, que por um instante ameaçara varrer de um sopro a velha sociedade
apodrecida.
— Pluchart está sem voz, doente com tudo isso — prosseguiu
Rasseneur. — Mas assim mesmo faz discursos, quer ir a Paris para falar...
Por três vezes me disse que a nossa greve está perdida.
Etienne, de cabeça baixa, não o interrompeu. Na véspera falara com
alguns companheiros, sentia pesar sobre si ondas de rancor e suspeita; eram
as primeiras vagas da impopularidade, anunciadoras da denota. Conservou
se sombrio, não queria confessar seu abatimento a um homem que lhe
predissera que também um dia seria vaiado pela multidão, quando esta se
quisesse vingar de uma decepção.
— A greve está perdida, sem dúvida, sei disso tão bem quanto.
Pluchart — disse ele. — Era de prever. Aceitamos o movimento
contra a vontade, não contávamos acabar com a companhia... O caso é que
a gente se arrebata, espera coisas, e, quando tudo vai por água abaixo,
esquece-se de que devia contar com isso, há lamentos e brigas como diante
de uma catástrofe caída do céu.
— Mas, então — perguntou Rasseneur —, se julgas a partida
perdida, por que não fazes os demais companheiros entenderem isso?
O rapaz olhou-o fixamente.
— Olha, estou farto das tuas histórias! Tens as tuas ideias, eu tenho
as minhas. Entrei na tua casa para mostrar que te estimo apesar de tudo,
mas continuo a pensar que, se morrermos resistindo, nossas carcaças de
esfomeados servirão melhor à causa do povo que toda a tua política de
homem equilibrado... Ah! se ao menos um desses soldados nojentos me
metesse uma bala no coração... Como seria formidável morrer assim!
Seus olhos ficaram úmidos com esse grito onde explodia o secreto
desejo do vencido, o refúgio onde gostaria de perder-se para sempre com
seu tormento.
— Muito bem! — exclamou a Sra. Rasseneur, que, com um olhar,
lançava a seu marido todo o desdém das suas opiniões radicais.
Suvarin, de olhar perdido, continuava a tatear com suas mãos
nervosas, não parecendo ter ouvido. Seu rosto louro de moça, de nariz fino
e dentes pequenos e pontiagudos, banhava-se de uma luz selvagem, de um
devaneio místico, em que perpassavam visões sangrentas. E pôs-se a sonhar
em voz alta, respondendo a uma frase de Rasseneur sobre a Internacional,
pescada no meio da conversa:
— São todos uns covardes, só havia um homem capaz de
transformar a sua organização num instrumento terrível de destruição. Mas
era preciso querer, ninguém quer nada, por isso a revolução abortará mais
uma vez.
E continuou a lamentar-se, cheio de asco pela imbecilidade dos
homens, enquanto os outros quedavam perplexos ante aquelas confidencias
de sonâmbulo, feitas para as trevas. Na Rússia estava tudo parado, sentia-se
desesperado com as notícias que recebera. Seus antigos camaradas se
transformavam em políticos, os famosos niilistas que faziam a Europa
tremer, filhos de popel, de pequenos burgueses, de comerciantes, não viam
mais que a libertação nacional, pareciam acreditar que o mundo seria
redimido assim que eles matassem o déspota. E, logo que lhes falava em
ceifar a humanidade velha como a uma plantação madura, sentia-se, a partir
daí, incompreendido, suspeito, desclassificado, arrolado entre os príncipes
frustrados do cosmopolitismo revolucionário. E no entanto seu coração de
patriota debatia-se, era com uma amargura dolorosa que repetia seu termo
favorito:
— Besteiras!... Eles nunca conseguirão nada com as suas besteiras.
Depois, baixando mais a voz, narrou em frases amargas o seu velho
sonho de fraternidade. Não tinha renunciado ao seu título e à sua fortuna, só
se colocara do lado dos operários com a esperança de ver fundada enfim
essa sociedade nova do trabalho em comum. Todas as moedas que trazia no
bolso tinham passado havia muito tempo para as mãos dos meninos do
conjunto habitacional; fora de uma solidariedade de irmão para com os
mineiros, sorrindo à sua desconfiança, conquistando-os com seu modo
tranquilo de operário exato e pouco conversador. Mas, decididamente, a
fusão não se realizava, permanecia um estranho, com seu desprezo por
qualquer ligação amorosa, sua vontade de permanecer impoluto, fora das
gloríolas e dos prazeres. E, sobretudo, ficara desesperado de manhã com a
leitura de uma notícia que vinha nos jornais.
Sua voz mudou, seus olhos iluminaram-se, fixos em Etienne, e
dirigiu-se diretamente a ele.
— Tu podes compreender isto? esses operários chapeleiros de
Marselha que ganharam a sorte grande de cem mil francos e,
imediatamente, foram comprar títulos, dizendo que de agora em diante iam
viver sem fazer nada! Essa é a intenção de todos vocês, operários franceses:
encontrar um tesouro e em seguida comê-lo sozinhos, refestelados no
egoísmo e na vagabundagem. Gostam de gritar contra s ricos, mas não têm
coragem de dar aos pobres o dinheiro que a sorte lhes envia... Vocês nunca
serão dignos da felicidade enquanto possuírem alguma coisa, enquanto esse
ódio aos burgueses for apenas o desejo desesperado de serem burgueses
também.
Rasseneur deu uma gargalhada; pensar que os dois operários de
Marselha teriam de renunciar à sorte grande parecia-lhe estúpido. Mas
Suvarin fremia, seu semblante descomposto tornava-se amedrontador, numa
dessas cóleras religiosas que exterminam os povos. Gritou:
— Vocês vão ser todos ceifados, derrubados, atirados à podridão! Há de nascer um dia aquele que dizimará sua raça de poltrões e
gozadores. Aqui está! Vocês veem as minhas mãos? Se elas pudessem,
agarrariam a terra, assim, e a sacudiriam até fazê-la em migalhas, para
soterrar todos vocês nos seus escombros!
— Muito bem! — repetiu a Sra. Rasseneur, no seu modo cortês e
convicto.
Fez-se outro silêncio. Em seguida Etienne falou dos operários
belgas. Interrogou Suvarin sobre as disposições que tinham sido tomadas na
Voreux, mas o mecânico, que voltara ao seu alheamento, mal respondia,
apenas sabia que iam distribuir balas aos soldados que guardavam a mina. E
a inquietação nervosa dos seus dedos sobre os joelhos chegou a tal ponto
que acabou tomando consciência de que lhe faltava o pelo macio e calmante
da coelha.
— Onde está a Polônia? — perguntou ele.
O taberneiro deu outra risada e olhou para a mulher. Depois de certa
hesitação decidiu-se:
— A Polônia? Está no quente.
Desde a sua aventura com Jeanlin, a enorme coelha, certamente
ferida, só tivera filhos mortos. E, para não alimentarem uma boca inútil,
tinham decidido nesse mesmo dia fazê-la com batatas.
— Comeste uma perna dela hoje na janta... Não estava bom?
Chegaste a lamber os dedos...
A princípio Suvarin não compreendeu. Depois ficou muito Pando e
teve uma contração de náusea; apesar de sua vontade de ser estoico, duas
grossas lágrimas encheram seus olhos.
continua na página 347...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.