quinta-feira, 23 de julho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (5)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     45. A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai aniquilou a única experiência de desenvolvimento independente
          O homem viajava ao meu lado, silencioso. Seu perfil, nariz afilado, altos pômulos, recortava-se contra a forte luz do meio-dia. Íamos para Assunção, partindo da fronteira sul, num ônibus para vinte pessoas que, não sei como, transportava 50. Depois de algumas horas, uma parada. Sentamo-nos num pátio aberto, à sombra de uma árvore de folhas carnosas. Aos nossos olhos, abria-se o brilho ofuscante da vasta, despovoada, intacta terra vermelha: de horizonte a horizonte, nada perturba a transparência do ar do Paraguai. Fumamos. Meu companheiro, camponês de fala guarani, desabafou algumas palavras tristes em castelhano. “Os paraguaios somos pobres e poucos”, disse me. Explicou que havia descido até Encarnación à procura de trabalho, mas nada encontrara. Tinha conseguido apenas juntar uns pesos para a passagem de volta. Muitos anos antes, quando moço, tinha tentado a sorte em Buenos Aires e no sul do Brasil. Agora vinha a colheita do algodão e muitos braceros paraguaios pegavam a estrada, como em todos os anos, rumo às terras argentinas. “Mas eu já tenho 63 anos, meu coração já não suporta essas andanças enroladas.”
     Somam meio milhão os paraguaios que abandonaram definitivamente a pátria, nos últimos vinte anos. A miséria induz ao êxodo os habitantes do país que, até quase um século atrás, era o mais avançado da América do Sul. O Paraguai tem agora uma população que apenas duplica a que tinha então, e como a Bolívia, é um dos dois países sul americanos mais pobres e atrasados. Os paraguaios padecem a herança de uma guerra de extermínio que se integrou à história da América Latina como o seu capítulo mais infame. Chamou-se Guerra da Tríplice Aliança. Brasil, Argentina e Uruguai encarregaram-se do genocídio. Não deixaram pedra sobre pedra e tampouco habitantes varões entre os escombros. Embora a Inglaterra não tenha participado diretamente na horrorosa façanha, foram seus mercadores, seus banqueiros e seus industriais que resultaram beneficiados com o crime do Paraguai. A invasão foi financiada, do princípio ao fim, pelo Banco de Londres, pela casa Baring Brothers e pela banca Rothschild, através de empréstimos a juros leoninos que hipotecaram o destino dos países vencedores. [1]

[1] Para escrever este capítulo, o autor consultou as seguintes obras: AL ERDI, Juan Bautista. Historia de la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1962; OX, Pelham Horton. Los orígenes de la Guerra de la Triple Alianza. Buenos Aires; Asunción, 1958; CARDOZO, Efraim. El império del Brasil y el Rio de la Plata. Buenos Aires, 1961; CHAVES, Julio César. El presidente López. Buenos Aires, 1955; PEREYRA, Carlos. Francisco Solano López y la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1945; PÉREZ ACOSTA, Juan F. Carlos Antonio López, obrero máximo. Labor administrativa y constructiva. Asunción, 1948; ROSA, José Maria. La guerra del Paraguay y las montoneras argentinas. Buenos Aires, 1965; MITRE, Bartolomé & GÓMEZ, Juan Carlos. Cartas polémicas sobre la guerra del Paraguay. Buenos Aires, 1940. Prólogo de J. Natalício González; também um trabalho inédito de Vivian Trias sobre o tema.

     Até sua destruição, o Paraguaio se destacava como uma exceção na América Latina: a única nação que o capital estrangeiro não havia deformado. O longo governo de mão de ferro do ditador Gaspar Rodríguez de Francia (1814 1840) havia incubado, na matriz do isolamento, um desenvolvimento econômico autônomo e sustentado. O Estado onipotente, paternalista, ocupava o lugar de uma burguesia nacional que não existia, na tarefa de organizar a nação e orientar seus recursos e seu destino. Francia apoiara-se nas massas campesinas para esmagar a oligarquia paraguaia e conquistara a paz interior estendendo um estrito cordão sanitário nas fronteiras com os restantes países do vice-reinado do Rio da Prata. As expropriações, os desterros, as prisões, as perseguições e as multas não tinham servido de instrumentos para a consolidação do domínio interno dos latifundiários e comerciantes, mas, ao contrário, tinham sido usados para sua destruição. Não existiam, nem nasceriam mais tarde, as liberdades políticas e o direito de oposição, mas naquela etapa histórica só os saudosos dos privilégios perdidos estranhariam a falta de democracia. Não havia grandes fortunas privadas quando Francia morreu, e o Paraguai era o único país da América Latina que não tinha mendigos, famélicos ou ladrões [2]; os viajantes da época encontravam ali um oásis de tranquilidade em meio às demais comarcas convulsionadas por contínuas guerras. O agente norte americano Hopkins informava em 1845 ao seu governo que no Paraguai “não há criança que não saiba ler e escrever”. Era também o único país que não vivia com o olhar cravado no outro lado do mar. O comércio exterior não se constituía no eixo da vida nacional; a doutrina liberal, expressão ideológica da articulação mundial dos mercados, carecia de respostas para os desafios que o Paraguai, obrigado a crescer para dentro por causa de seu isolamento mediterrâneo, estava equacionando desde o princípio do século. O extermínio da oligarquia tornou possível a concentração das bases econômicas fundamentais nas mãos do Estado, para levar adiante esta política autárquica de desenvolvimento dentro das fronteiras.

[2] Francia integra, como um dos exemplares mais horrorosos, o bestiário da história oficial. As deformações ópticas impostas pelo liberalismo não são um privilégio das classes dominantes na América Latina; muitos intelectuais de esquerda, que costumam olhar com lentes alheias para a história de nossos países, também compartilham certos mitos da direita, suas canonizações e suas excomunhões. O Canto general, de Pablo Neruda ( Buenos Aires, 1955), esplêndida homenagem poética aos povos latino-americanos, exibe claramente este desacerto. Neruda ignora Artigas, Carlos Antonio e Francisco Solano López; em troca, identifica-se com Sarmiento. Qualifica Francia de “rei leproso, rodeado / pelas extensões de erva-mate”, que “fechou o Paraguai como um ninho / de sua majestade” e “amarrou tortura / e barro às fronteiras”. Com Rosas não é mais amável: clama contra os “punhais, gargalhadas de mazorca / sobre o martírio” de uma “Argentina roubada a coronhadas / no vapor da aurora, castigada / até sangrar e enlouquecer, vazia /  montada por rudes capatazes”.

     Os posteriores governos de Carlos Antonio López e seu filho Francisco Solano López continuaram e revigoraram a tarefa. A economia estava em pleno crescimento. Quando os invasores apareceram no horizonte, em 1865, o Paraguai contava com uma linha de telégrafos, uma ferrovia e uma boa quantidade de fábricas de materiais de construção, tecidos, lenços, ponchos, papel, tinta, louça e pólvora. Duzentos técnicos estrangeiros, muito bem pagos pelo Estado, colaboravam decisivamente. Desde 1850, a fundição de Ibycui fabricava canhões, morteiros e balas de todos os calibres; no arsenal de Assunção eram fabricados canhões de bronze, obuses e balas. A siderurgia nacional, como todas as demais atividades econômicas essenciais, estava nas mãos do Estado. O país dispunha de uma frota mercante nacional, e tinham sido construídos no estaleiro de Assunção muitos dos navios que ostentavam a bandeira paraguaia ao longo do rio Paraná ou cruzavam o Atlântico e o Mediterrâneo. O Estado virtualmente monopolizava o comércio exterior: a erva-mate e o tabaco abasteciam o consumo do sul do continente; as madeiras valiosas eram exportadas para a Europa. A balança comercial mostrava um expressivo superavit. O Paraguai tinha uma moeda forte e estável, e possuía suficiente riqueza para efetivar enormes investimentos públicos sem recorrer ao capital estrangeiro. O país não devia nem um centavo no exterior, e estava em condições de manter o melhor exército da América do Sul, contratar técnicos ingleses que se colocavam a serviço do país em vez de pôr o país a seu serviço, e enviar à Europa muitos jovens universitários paraguaios para que se aperfeiçoassem em seus estudos. O excedente econômico gerado pela produção agrícola não era esbanjado no luxo estéril de uma oligarquia inexistente, nem ia parar nos bolsos de atravessadores, nem nas mãos rapinantes dos usurários, nem na rubrica lucros que o Império britânico nutria com os serviços de fretes e seguros. A esponja imperialista não absorvia a riqueza que o país produzia. Noventa e oito por cento do território paraguaio era de propriedade pública: o Estado cedia aos camponeses a exploração das parcelas em troca da obrigação de povoá-las e cultivá-las de forma permanente e sem o direito de vendê-las. Além disso, havia 64 estâncias de la patria, fazendas que o Estado administrava diretamente. As obras de irrigação, represas e canais, e as novas pontes e estradas contribuíam em importante grau para a elevação da produtividade agrícola. Foi resgatada a tradição indígena das colheitas anuais, que fora descartada pelos conquistadores. O alento vivo das tradições jesuítas sem dúvida facilitava todo esse processo criador. [3]

[3] Os fanáticos monges da Companhia de Jesus, “guarda negra do Papa”, tinham assumido a defesa da ordem medieval frente às novas forças que irrompiam no cenário histórico europeu. Na América hispânica, contudo, as missões dos jesuítas se desenvolveram sob um signo progressista. Através do exemplo da abnegação e do ascetismo, vinham purificar uma igreja católica entregue ao ócio e ao gozo desenfreado dos bens que a conquista pusera à disposição do clero. Foram as missões do Paraguai as que alcançaram mais alto nível; em pouco mais de um século e meio (1603-1768) definiram a capacidade e os fins de seus criadores. Os jesuítas atraíram, mediante a linguagem da música, os índios guaranis que tinham buscado proteção na floresta ou que nela haviam permanecido sem integrar-se ao processo civilizatório dos encomenderos e dos latifundiários. Assim, 150 mil índios guaranis puderam reencontrar-se com sua organização comunitária primitiva e ressuscitar suas próprias técnicas nos ofícios e nas artes. Nas missões não existia o latifúndio; a terra era cultivada em parte para a satisfação das necessidades individuais e em parte para desenvolver obras de interesse geral e adquirir os instrumentos de trabalho necessários, que eram de propriedade coletiva. A vida dos índios estava sabiamente organizada; nas oficinas e nas escolas se tornavam músicos, artesãos, agricultores, tecedores, atores, pintores, construtores. O dinheiro não era conhecido; era proibida a entrada dos comerciantes, que deviam negociar instalados em hotéis a certa distância. A Coroa, finalmente, sucumbiu à pressão dos encomenderos criollos, e os jesuítas foram expulsos da América. Os latifundiários e os escravistas se lançaram à caça dos índios. Os cadáveres pendiam das árvores nas missões; povoados inteiros foram vendidos nos mercados de escravos do Brasil. Muitos índios voltaram a encontrar refúgio na selva. As bibliotecas dos jesuítas foram parar nos fornos, como combustível, ou utilizadas para fazer cartuchos de pólvora. RAMOS, Jorge Abelardo. Historia de la nación latinoamericana. Buenos Aires, 1968.

     O Estado paraguaio praticava um zeloso protecionismo da indústria nacional e do mercado interno, especialmente reforçado em 1864; os rios interiores não estavam abertos aos navios britânicos que bombardeavam o resto da América Latina com manufaturas de Manchester e Liverpool. O comércio inglês não dissimulava sua inquietude, não só porque se lhe afigurava invulnerável aquele último foco de resistência nacional no coração do continente, mas também e sobretudo pela força do exemplo que a experiência paraguaia irradiava perigosamente para a vizinhança. O país mais progressista da América Latina construía seu futuro sem investimentos estrangeiros, sem empréstimos da banca inglesa e sem as bênçãos do livre comércio
     Mas à medida que o Paraguai ia avançando neste processo, tornava-se mais aguda sua necessidade de romper a reclusão. O desenvolvimento industrial requeria contatos mais intensos e diretos com o mercado internacional e as fontes da técnica avançada. O Paraguai estava objetivamente bloqueado entre a Argentina e o Brasil, e os dois países podiam negar o oxigênio aos seus pulmões fechando-lhe, como fizeram Rivadavia e Rosas, as bocas dos rios, ou fixando impostos arbitrários para o trânsito de suas mercadorias. De outra parte, para seus vizinhos era imprescindível, em nome da consolidação do estado oligárquico, acabar com o escândalo daquele país que se bastava a si mesmo e não queria ajoelhar-se diante dos mercadores britânicos.
     O ministro inglês em Buenos Aires, Edward Thornton, participou ativamente dos preparativos da guerra. Às vésperas da deflagração, estava presente, como assessor do governo, nas reuniões do gabinete argentino, sentando se ao lado do presidente Bartolomeu Mitre. Diante de seu atento olhar foi maquinada a trama de provocações e de enganos que culminou com o acordo argentino-brasileiro e selou a sorte do Paraguai. Venâncio Flores invadiu o Uruguai, na garupa da intervenção dos dois grandes vizinhos, e depois da matança de Paysandú estabeleceu em Montevidéu seu governo devotado ao Rio de Janeiro e a Buenos Aires. A Tríplice Aliança estava em funcionamento. O presidente paraguaio havia ameaçado com a guerra se o Uruguai fosse tomado de assalto: ele sabia que assim se fechava a tenaz de ferro na garganta de seu país encurralado pela geografia e pelos inimigos. O historiador liberal Efraim Cardozo, no entanto, não vê nenhum inconveniente em sustentar que López confrontou o Brasil simplesmente porque estava ofendido: o imperador lhe negara a mão de uma de suas filhas. A guerra nascia. Não era obra de Cupido, mas de Mercúrio.
     A imprensa de Buenos Aires chamava o presidente paraguaio López de “Átila da América”. E clamavam os editoriais: “É preciso matá-lo como a um réptil”. Em setembro de 1864, Thornton enviou a Londres um extenso informe confidencial, datado de Assunção. Descrevia o Paraguai como Dante o inferno, mas punha em evidência o que realmente interessava: “Os impostos de importação de quase todos os artigos são de vinte a 25 por cento ad valorem; mas como este valor é calculado sobre o preço corrente dos artigos, o imposto que se paga chega frequentemente uma cifra entre 40 e 50 por cento do preço da fatura. Os impostos de exportação são de 10 a 20 por cento do valor...” Em abril de 1965, o Standard, diário inglês de Buenos Aires, já celebrava a declaração de guerra da Argentina contra o Paraguai, cujo presidente “infringiu todos os usos das nações civilizadas”, e anunciava que a espada do presidente argentino Mitre “levará em sua trajetória, além do peso das glórias passadas, o impulso irresistível da opinião pública por uma causa justa”. O tratado com o Brasil e o Uruguai foi assinado em 10 de maio de 1865; seus termos draconianos foram publicados um ano depois no diário britânico The Times, que o obteve dos banqueiros credores da Argentina e do Brasil: os futuros vencedores repartiam antecipadamente os despojos do vencido. A Argentina assegurava para si o território de Misiones e o imenso Chaco; o Brasil devorava uma imensa área a oeste de suas fronteiras. O Uruguai, governado por um títere das duas potências, não ficava com nada. Mitre anunciou que tomaria Assunção em três meses. A guerra, contudo, durou cinco anos. Foi uma carnificina, executada ao longo dos fortins que defendiam, de tanto em tanto, o rio Paraguai. O “oprobrioso tirano” Francisco Solano López encarnou heroicamente a vontade nacional de sobreviver; o povo paraguaio, que no último meio século não conhecera guerra alguma, imolou-se ao seu lado. Homens, mulheres, crianças e velhos: todos se bateram como leões. Os prisioneiros feridos arrancavam as ataduras para que não os obrigassem a lutar contra seus irmãos.
     Em 1870, López, à frente de um exército de espectros, velhos e meninos que punham barba postiça para impressionar de longe, internou-se na selva. Por traição real ou imaginária, fuzilou seu irmão e um bispo que com ele marchavam naquela caravana sem destino. Quando, finalmente, o presidente paraguaio foi assassinado à bala e lançaço na densa mata do cerro Corá, ainda conseguiu dizer: “Morro com minha pátria”, e era verdade.
     As tropas invasoras assaltaram os escombros de Assunção com a faca entre os dentes. Vinham para redimir o povo paraguaio, e o exterminaram. No começo da guerra, o Paraguai tinha uma população um pouco menor do que a da Argentina. Tão só 250 mil paraguaios, menos do que a sexta parte, sobreviviam em 1870. Era o triunfo da civilização. Os vencedores, arruinados pelo alto custo do crime, estavam nas mãos dos banqueiros ingleses que tinham financiado a aventura. O império escravista de Pedro II, cujas tropas se nutriam de escravos e de presos, ainda ganhou territórios, mais de 60 mil quilômetros quadrados, e mão de obra, pois muitos prisioneiros paraguaios foram levados para trabalhar nos cafezais paulistas com a marca de ferro da escravidão. A Argentina do presidente Mitre, que havia esmagado seus próprios caudilhos federais, ficou com 94 mil quilômetros quadrados de terra paraguaia e outros frutos do butim, segundo o próprio Mitre havia anunciado quando escreveu: “Os prisioneiros e demais artigos de guerra nós dividiremos na forma combinada”. O Uruguai, onde os herdeiros de Artigas já estavam mortos ou derrotados, e a oligarquia mandava, participou da guerra como sócio minoritário e sem recompensas. Alguns dos soldados uruguaios enviados à campanha do Paraguai tinham embarcado nos navios com as mãos amarradas. Os três países experimentaram uma bancarrota financeira que agravou a dependência da Inglaterra. A matança do Paraguai os marcou para sempre. [4]

[4] Solano López ainda arde na memória. Quando o Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro anunciou, em setembro de 1969, que inauguraria uma vitrina dedicada ao presidente paraguaio, os militares reagiram furiosamente. O general Mourão Filho, que desencadeara o golpe de Estado de 1964, declarou à imprensa: “Um vento de loucura varre o país (...). Solano López é uma figura que deve ser apagada para sempre de nossa história, como paradigma de ditador uniformizado sul-americano. Foi um sanguinário que destruiu o Paraguai, conduzindo-o a uma guerra impossível”.

     O Brasil havia cumprido a missão que o Império britânico lhe atribuíra desde os tempos em que os ingleses transladaram o trono português para o Rio de Janeiro. No princípio do século XIX, tinham sido claras as instruções de Canning ao embaixador, lorde Strangford: “Fazer do Brasil um empório para as manufaturas britânicas destinadas ao consumo de toda a América do Sul”. Pouco antes do início da guerra, o presidente da Argentina inaugurara uma nova linha férrea britânica em seu país e pronunciara um inflamado discurso: “Qual a força que impele o progresso? Senhores, é o capital inglês!” Do Paraguai derrotado não desapareceu só a população: também as tarifas aduaneiras, os fornos de fundição, os rios fechados ao comércio, a independência econômica e vastas zonas de seu território. Dentro das fronteiras reduzidas pelo espólio, os vencedores implantaram o livre-câmbio e o latifúndio. Tudo foi saqueado e tudo foi vendido: as terras e os matos, as minas, os ervais, os prédios das escolas. Sucessivos governos títeres seriam instalados em Assunção pelas forças estrangeiras de ocupação. Tão logo terminou a guerra, sobre as ruínas ainda fumegantes do Paraguai caiu o primeiro empréstimo estrangeiro de sua história. Era britânico, claro. Seu valor nominal alcançava um milhão de libras esterlinas, mas ao Paraguai chegou menos da metade; nos anos seguintes, os refinanciamentos elevaram a dívida a mais de três milhões. A Guerra do Ópio havia terminado quando foi assinado em Nanking o tratado de livre-comércio que assegurou aos comerciantes britânicos o direito de introduzir livremente a droga no território chinês. Também a liberdade de comércio foi garantida pelo Paraguai depois da derrota. Foram abandonadas as plantações de algodão, e Manchester arruinou a produção têxtil; a indústria nacional não ressuscitou jamais.
     O Partido Colorado, que hoje governa o Paraguai, especula alegremente com a memória dos heróis, mas ostenta ao pé de sua ata de fundação a assinatura de 22 traidores do marechal Solano López, “legionários” a serviço das tropas brasileiras de ocupação. O ditador Alfredo Stroessner, que nos últimos quinze anos converteu o Paraguai num grande campo de concentração, fez sua especialização militar no Brasil, e os generais brasileiros o devolveram ao seu país com altas qualificações e ardentes elogios: “É digno de um grande futuro...” Durante seu reinado, Stroessner descartou os interesses anglo argentinos, dominantes no Paraguai nas últimas décadas, em benefício do Brasil e seus donos norte-americanos. Desde 1870, Brasil e Argentina, que libertaram o Paraguai para comê-lo com duas bocas, alternam-se no aproveitamento dos despojos do país derrotado, mas, por sua vez, padecem o imperialismo da grande potência do momento. O Paraguai padece duas vezes: o imperialismo e o subimperialismo. Antes o Império britânico era o elo maior da corrente de dependências sucessivas. Atualmente, os Estados Unidos, que não ignoram a importância geopolítica desse país encravado no centro da América do Sul, mantém em solo paraguaio um sem-número de assessores que treinam e orientam as forças armadas, cozinham os planos econômicos, reestruturam a universidade ao seu arbítrio, inventam um novo esquema político democrático para o país e retribuem com empréstimos onerosos os bons serviços do regime [5]. Mas o Paraguai é também colônia de colônias. Usando a reforma agrária como pretexto, o governo de Stroessner, fazendo-se de distraído, derrogou a disposição legal que proibia a venda a estrangeiros de terras das zonas de fronteira seca, e hoje até os territórios fiscais caíram nas mãos de latifundiários brasileiros do café. A onda invasora atravessa o rio Paraná com a cumplicidade do presidente, associados a terras-tenentes que falam português. Cheguei à movediça fronteira do nordeste do Paraguai com cédulas que estampavam o rosto do vencido marechal Solano López, e ali pude descobrir que só têm valor aqueles que estampam a efígie do vitorioso imperador Pedro II. O resultado da Guerra da Tríplice Aliança, transcorrido um século, ganha ardente atualidade. Os guardas brasileiros exigem passaportes dos cidadãos paraguaios para que possam circular em seu próprio país; são brasileiras as bandeiras e as igrejas. A pirataria de terra abarca também os saltos do Guayrá, a maior fonte potencial de energia de toda a América Latina, que hoje se chamam, em português, Sete Quedas, e a zona de Itaipu, onde o Brasil vai construir a maior central hidrelétrica do mundo.

[5] Pouco antes das eleições de princípios de 1968, o general Stroessner visitou os Estados Unidos. “Quando me encontrei com o presidente Johnson”, declarou à France Press, “comentei que há doze anos desempenho as funções de primeiro magistrado por mandato das urnas. Johnson me respondeu que esta era uma razão a mais para continuar exercendo-as no período vindouro”.

     O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau, expressa-se de mil maneiras. Quando o presidente Johnson, em 1965, decidiu submergir em sangue os dominicanos, Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos para que colaborassem no serviço. O batalhão se chamou uma piada sinistra – “Marechal Solano López”. Os paraguaios atuavam sob as ordens de um general brasileiro, porque foi o Brasil que recebeu as honras da traição: o general Penasco Alvim comandou as tropas latino americanas cúmplices da matança. Exemplos outros e semelhantes podem ser citados. O Paraguai outorgou ao Brasil uma concessão de petróleo em seu território, mas o Brasil, negócio da distribuição de combustíveis e a petroquímica, no pertencem aos norte-americanos. A Missão Cultural Brasileira é dona da Faculdade de Filosofia e Pedagogia da universidade paraguaia, mas os norte americanos, em nossos dias, manejam as universidades do Brasil. O estado-maior do exército paraguaio recebe assessoramento não só de técnicos do Pentágono, mas também de generais brasileiros, que por sua vez respondem ao Pentágono como o eco responde à voz. Pela via aberta do contrabando, os produtos industriais do Brasil invadem o mercado paraguaio, mas muitas das respectivas fábricas em São Paulo são, desde a avalanche desnacionalizadora destes últimos anos, propriedade de corporações multinacionais.
     Stroessner se considera herdeiro dos López. Pode o Paraguai de um século atrás ser impunemente comparado com o Paraguai de agora, empório do contrabando na bacia do Prata e reino da corrupção institucionalizada? Num ato político em que o partido do governo, entre manifestações de júbilo e aplausos, identificava o Paraguai de outrora com o de hoje, um jovenzinho, com a bandeja apoiada no peito, vendia cigarros contrabandeados: a fervorosa assistência fumava nervosamente Kent, Marlboro, Camel e Benson & Hedges. Em Assunção, a escassa classe média bebe uísque Ballantine’s em vez da aguardente paraguaia. Veem-se nas ruas os últimos modelos dos mais luxuosos automóveis fabricados nos Estados Unidos ou Europa, trazidos ao país de contrabando ou através do pagamento prévio de minguados impostos, ao mesmo tempo em que circulam carretas de bois carregando lentamente os frutos para o mercado: a terra é trabalhada com arados de madeira e os táxis são Impalas 1970. Stroessner diz que o contrabando é “o preço da paz”: os generais enchem os bolsos e não conspiram. A indústria, no entanto, agoniza antes de crescer. O Estado sequer cumpre o decreto que manda preferir os produtos das fábricas nacionais nas aquisições públicas. Os únicos triunfos que, com orgulho, o Estado exibe nesta matéria, são as fábricas da Coca-cola, Crush e Pepsi-Cola, instaladas em fins de 1966 como contribuição norte-americana para o progresso do povo paraguaio.
     O Estado manifesta que só vai intervir diretamente na criação de empresas “quando o setor privado não demonstrar interesse” [6], e o anco Central comunica ao Fundo Monetário Internacional que “decidiu implantar um regime de mercado livre de câmbios e abolir as restrições ao comércio e às transações em divisas”; um folheto editado pelo Ministério de Indústria e Comércio informa aos investidores que o país outorga “concessões especiais para o capital estrangeiro”. Isentam-se as empresas estrangeiras do pagamento de impostos e de tarifas aduaneiras “para criar um clima propício aos investimentos”. Um ano depois de instalar-se em Assunção, o National City Bank de Nova York recupera integralmente o capital investido. A banca estrangeira, dona da poupança interna, proporciona ao Paraguai créditos externos que acentuam sua deformação econômica e hipotecam ainda mais sua soberania. No campo, 1,5 por cento dos proprietários dispõe de 90 por cento das terras exploradas, e se cultiva uma área equivalente a menos de 2 por cento da superfície total do país. O plano oficial de colonização no triângulo de Caaguazú oferece aos camponeses famintos mais tumbas do que prosperidade. [7]

[6] Presidencia de la Nación. Secretaría Técnica de Planificación. Plan nacional de desarrollo económico y social. Asunción, 1966.
[7] Muitos dos camponeses optaram por retornar à região minifundiária do centro do país ou seguiram o caminho do novo êxodo para o Brasil, onde seus braços baratos se oferecem nos ervais do Paraná e do Mato Grosso ou nas plantações de café do Paraná. É desesperadora a situação dos pioneiros que se encontram com a selva sem a menor orientação técnica e sem nenhuma assistência creditícia, com terras concedidas pelo governo, das quais terão de arrancar frutos suficientes para a alimentação e para poder pagá-las, pois se o camponês não paga pela terra o preço estipulado não recebe o título de propriedade.

     A Tríplice Aliança continua sendo um grande êxito.
     Os fornos da fundição de Ibycuí, onde foram forjados os canhões que defenderam a pátria invadida, estão num lugar que agora se chama “Mina-cué”, que em guarani significa “Foi mina”.
     Ali, entre pântanos e mosquitos, junto à caliça de um muro destruído, jaz ainda a base da chaminé que, há um século, os invasores explodiram com dinamite, e também os pedaços de ferro retorcido das instalações desfeitas. Vivem na zona uns poucos camponeses em farrapos, que nem sequer sabem qual foi a guerra que destruiu tudo aquilo. Contudo, dizem eles que em certas noites ali se escutam ruídos de máquinas e batidas de martelos, estampidos de canhões e alaridos de soldados.

continua na página 316...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: A Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (5)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (III.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

III


     Naquele domingo, a partir das oito horas, Suvarin ficou sozinho na sala do Avantage, no seu lugar habitual, com a cabeça encostada ao muro. Já nenhum mineiro podia tomar seus dois soldos de cerveja; nunca as tabernas tiveram menos fregueses. Por isso, a Sra. Rasseneur, imóvel no balcão, guardava um silêncio irritado, enquanto o marido, em pé defronte ao fogão de ferro fundido, parecia seguir, com ar meditativo, a fumaça ruiva do carvão.
     Bruscamente, naquela paz pesada das peças muito aquecidas, três pequenas pancadas secas, batidas num vidro da janela, fizeram que Suvarin voltasse a cabeça. Ergueu-se, tinha reconhecido o sinal do qual já diversas vezes Etienne se servira para chamá-lo, quando o via lá de fora fumando seu cigarro, sentado a uma mesa vazia Mas, antes que o mecânico alcançasse a porta, Rasseneur a abrira e, reconhecendo, graças à luz da janela, quem estava ali, disse: 

— Será que tens medo de que eu te venda? Se querem conversar é melhor que o façam aqui dentro em vez de na estrada.

     Etienne entrou. A mulher lhe ofereceu cortesmente um copo de cerveja, que ele recusou com um gesto. O taberneiro acrescentou: 

— Há muito tempo que adivinhei onde te escondes. Se eu fosse um espião, como teus amigos dizem, já há oito dias teria mandado para lá os policiais. 
— Não precisas defender-te — respondeu o rapaz. — Sei muito bem que não farias isso. Podemos não ter as mesmas ideias e continuar sendo amigos.

     O silêncio voltou a reinar. Suvarin tornou à sua cadeira, de costas para a parede, os olhos vagando na fumaça do seu cigarro, mas seus dedos febris não paravam um momento; passava-os pelos joelhos procurando o pelo tépido de Polônia, que naquela noite não se encontrava ali; era um mal-estar inconsciente, faltava-lhe alguma coisa, sem que ele soubesse o quê.
     Sentado na outra extremidade da mesa, Etienne disse, enfim: 

— O trabalho recomeça amanhã na Voreux. Os belgas chegaram com Négrel. 
— De fato, chegaram quando já era noite fechada — murmurou Rasseneur, que ficara em pé. — Espero que não recomece a mortandade. — E levantando a voz: — Como vês, não quero continuar brigando contigo, mas isso terminará mal se vocês insistirem em fincar pé... Igualzinho à história da tal de Internacional... Anteontem fui a Lille resolver uns negócios e encontrei Pluchart; parece que a Internacional está desmoronando...

     Deu detalhes. A Associação, depois de ter conquistado os operários do mundo inteiro, num ímpeto propagandístico que ainda fazia tremer a burguesia, estava agora sendo devorada, destruída aos poucos pelas batalhas internas das vaidades e ambições. Desde que os anarquistas triunfaram, expulsando os evolucionistas de primeira hora, tudo estava indo por água abaixo; a finalidade principal, a reforma do salário, afundava em meio aos conflitos de seitas, os grupos mais experientes se desorganizavam devido ao ódio à disciplina. E já se podia prever o fracasso final desse levante de massa, que por um instante ameaçara varrer de um sopro a velha sociedade apodrecida. 

— Pluchart está sem voz, doente com tudo isso — prosseguiu Rasseneur. — Mas assim mesmo faz discursos, quer ir a Paris para falar... Por três vezes me disse que a nossa greve está perdida.

     Etienne, de cabeça baixa, não o interrompeu. Na véspera falara com alguns companheiros, sentia pesar sobre si ondas de rancor e suspeita; eram as primeiras vagas da impopularidade, anunciadoras da denota. Conservou se sombrio, não queria confessar seu abatimento a um homem que lhe predissera que também um dia seria vaiado pela multidão, quando esta se quisesse vingar de uma decepção. 

— A greve está perdida, sem dúvida, sei disso tão bem quanto.

     Pluchart — disse ele. — Era de prever. Aceitamos o movimento contra a vontade, não contávamos acabar com a companhia... O caso é que a gente se arrebata, espera coisas, e, quando tudo vai por água abaixo, esquece-se de que devia contar com isso, há lamentos e brigas como diante de uma catástrofe caída do céu. 

— Mas, então — perguntou Rasseneur —, se julgas a partida perdida, por que não fazes os demais companheiros entenderem isso?

     O rapaz olhou-o fixamente. 

— Olha, estou farto das tuas histórias! Tens as tuas ideias, eu tenho as minhas. Entrei na tua casa para mostrar que te estimo apesar de tudo, mas continuo a pensar que, se morrermos resistindo, nossas carcaças de esfomeados servirão melhor à causa do povo que toda a tua política de homem equilibrado... Ah! se ao menos um desses soldados nojentos me metesse uma bala no coração... Como seria formidável morrer assim!

     Seus olhos ficaram úmidos com esse grito onde explodia o secreto desejo do vencido, o refúgio onde gostaria de perder-se para sempre com seu tormento. 

— Muito bem! — exclamou a Sra. Rasseneur, que, com um olhar, lançava a seu marido todo o desdém das suas opiniões radicais.

     Suvarin, de olhar perdido, continuava a tatear com suas mãos nervosas, não parecendo ter ouvido. Seu rosto louro de moça, de nariz fino e dentes pequenos e pontiagudos, banhava-se de uma luz selvagem, de um devaneio místico, em que perpassavam visões sangrentas. E pôs-se a sonhar em voz alta, respondendo a uma frase de Rasseneur sobre a Internacional, pescada no meio da conversa: 

— São todos uns covardes, só havia um homem capaz de transformar a sua organização num instrumento terrível de destruição. Mas era preciso querer, ninguém quer nada, por isso a revolução abortará mais uma vez.

     E continuou a lamentar-se, cheio de asco pela imbecilidade dos homens, enquanto os outros quedavam perplexos ante aquelas confidencias de sonâmbulo, feitas para as trevas. Na Rússia estava tudo parado, sentia-se desesperado com as notícias que recebera. Seus antigos camaradas se transformavam em políticos, os famosos niilistas que faziam a Europa tremer, filhos de popel, de pequenos burgueses, de comerciantes, não viam mais que a libertação nacional, pareciam acreditar que o mundo seria redimido assim que eles matassem o déspota. E, logo que lhes falava em ceifar a humanidade velha como a uma plantação madura, sentia-se, a partir daí, incompreendido, suspeito, desclassificado, arrolado entre os príncipes frustrados do cosmopolitismo revolucionário. E no entanto seu coração de patriota debatia-se, era com uma amargura dolorosa que repetia seu termo favorito: 

— Besteiras!... Eles nunca conseguirão nada com as suas besteiras.

     Depois, baixando mais a voz, narrou em frases amargas o seu velho sonho de fraternidade. Não tinha renunciado ao seu título e à sua fortuna, só se colocara do lado dos operários com a esperança de ver fundada enfim essa sociedade nova do trabalho em comum. Todas as moedas que trazia no bolso tinham passado havia muito tempo para as mãos dos meninos do conjunto habitacional; fora de uma solidariedade de irmão para com os mineiros, sorrindo à sua desconfiança, conquistando-os com seu modo tranquilo de operário exato e pouco conversador. Mas, decididamente, a fusão não se realizava, permanecia um estranho, com seu desprezo por qualquer ligação amorosa, sua vontade de permanecer impoluto, fora das gloríolas e dos prazeres. E, sobretudo, ficara desesperado de manhã com a leitura de uma notícia que vinha nos jornais.
     Sua voz mudou, seus olhos iluminaram-se, fixos em Etienne, e dirigiu-se diretamente a ele. 

— Tu podes compreender isto? esses operários chapeleiros de Marselha que ganharam a sorte grande de cem mil francos e, imediatamente, foram comprar títulos, dizendo que de agora em diante iam viver sem fazer nada! Essa é a intenção de todos vocês, operários franceses: encontrar um tesouro e em seguida comê-lo sozinhos, refestelados no egoísmo e na vagabundagem. Gostam de gritar contra s ricos, mas não têm coragem de dar aos pobres o dinheiro que a sorte lhes envia... Vocês nunca serão dignos da felicidade enquanto possuírem alguma coisa, enquanto esse ódio aos burgueses for apenas o desejo desesperado de serem burgueses também.

     Rasseneur deu uma gargalhada; pensar que os dois operários de Marselha teriam de renunciar à sorte grande parecia-lhe estúpido. Mas Suvarin fremia, seu semblante descomposto tornava-se amedrontador, numa dessas cóleras religiosas que exterminam os povos. Gritou: 

— Vocês vão ser todos ceifados, derrubados, atirados à podridão! Há de nascer um dia aquele que dizimará sua raça de poltrões e gozadores. Aqui está! Vocês veem as minhas mãos? Se elas pudessem, agarrariam a terra, assim, e a sacudiriam até fazê-la em migalhas, para soterrar todos vocês nos seus escombros! 

— Muito bem! — repetiu a Sra. Rasseneur, no seu modo cortês e convicto.

     Fez-se outro silêncio. Em seguida Etienne falou dos operários belgas. Interrogou Suvarin sobre as disposições que tinham sido tomadas na Voreux, mas o mecânico, que voltara ao seu alheamento, mal respondia, apenas sabia que iam distribuir balas aos soldados que guardavam a mina. E a inquietação nervosa dos seus dedos sobre os joelhos chegou a tal ponto que acabou tomando consciência de que lhe faltava o pelo macio e calmante da coelha. 

— Onde está a Polônia? — perguntou ele.

     O taberneiro deu outra risada e olhou para a mulher. Depois de certa hesitação decidiu-se: 

— A Polônia? Está no quente.

     Desde a sua aventura com Jeanlin, a enorme coelha, certamente ferida, só tivera filhos mortos. E, para não alimentarem uma boca inútil, tinham decidido nesse mesmo dia fazê-la com batatas. 

— Comeste uma perna dela hoje na janta... Não estava bom? Chegaste a lamber os dedos...

     A princípio Suvarin não compreendeu. Depois ficou muito Pando e teve uma contração de náusea; apesar de sua vontade de ser estoico, duas grossas lágrimas encheram seus olhos.

continua na página 347...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / II — Achado

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     II — Achado

             Mário continuava a morar no casarão Gorbeau, sem se importar nem fazer reparo em nenhum dos outros moradores.
     Para bem dizer, nessa época, os únicos moradores do casarão eram ele e os tais Jondra e, a quem o jovem uma ocasião pagara o aluguer, sem, todavia, nunca ter falado nem com o homem, nem com a mulher, nem com as filhas. Os outros inquilinos tinham mudado ou morrido, ou sido expulsos por não pagarem.
     Num dia desse Inverno, na tarde do qual o Sol se mostrara, sem por isso deixar de infundir menos receios, pois estava-se a 2 de Fevereiro, dia da antiga festa de Candelária, cujo sol traiçoeiro, precursor de um frio de seis semanas, inspirou a Matheus Laenberg estes dois versos, que com justiça se tornaram clássicos:
Qu’il luise ou qu’il luiserne, 
L’ours rentre en sa caverne.
     
     Mário acabava de sair da sua caverna, ao cair da tarde. Era a hora do jantar, pois o rapaz vira-se na necessidade de continuar o seu antigo costume de jantar. Oh, fraquezas das paixões ideais!
     Acabava de transpor o limiar da porta que mame Bougon naquele momento andava a varrer, proferindo este memorável monólogo: 

— Hoje em dia que coisa deixa de estar cara? Nada. Está tudo pela hora da morte. A única coisa barata são os trabalhos deste mundo. Mas para que servem os trabalhos deste mundo? Para nada!

     Mário caminhava vagarosamente pelo boulevard, dirigindo-se para a barreira, a fim de tomar para a rua de S. Jacques, pensativo e de olhos fitos no chão, quando de súbito por entre a névoa sentiu um encontrão; voltou-se e viu duas jovens esfarrapadas, uma alta e magra, a outra mais baixa, que passaram rapidamente, esbaforidas, assustadas e -como quem foge, e que, ao passarem, como o não viram, tinham esbarrado com ele. Por entre o crepúsculo, Mário distinguiu-lhes os lívidos rostos, as cabeças descobertas, os cabelos soltos, as esfarrapadas saias e os pés descalços. Iam correndo e falando uma com a outra, e a mais alta dizia à sua companheira, em voz que se ouvia: 

— O caso é que os partazanas por um triz me não deitam o gatazio! Toma que te dou eu!.

     E a outra respondia. 

— Eu bem os vi, mas apenas lhes deitei o luzio, por aqui me sirvo!

     Através desta sinistra gíria, Mário entendeu que os gendarmes ou os cabos estiveram quase a apanhar aquelas duas crianças e que elas lhes tinham fugido. As duas raparigas embrenharam-se por baixo das árvores do boulevard, de onde o jovem vinha, e onde durante alguns instantes desenharam na escuridão uma espécie de vaga brancura que se desfez; e Mário, que parara um momento, dispôs-se a seguir para o seu destino.
     Ia, porém, a continuar o seu caminho, quando, olhando para o chão, avistou um embrulho pardo. Baixou-se e pegou nele. Era uma espécie de sobrescrito que parecia conter papéis. 

— Foram decerto aquelas infelizes que deixaram cair isto! — disse ele.

     Voltou atrás, chamou, porém não as tornou a ver; julgando, pois, que já iriam longe, meteu o embrulho no bolso e foi jantar.
     No caminho viu numa álea da rua de Mouffetard um caixão de um anjinho coberto com um pano preto, colocado em cima de três cadeiras e alumiado por uma vela. Voltaram-lhe então à lembrança as duas raparigas do anoitecer. 

— Pobres mães! — disse ele consigo. — Ainda há para vós coisa mais triste do que verdes morrer vossos filhos; é vê-los viver mal!

     Depois, estas sombras, que variavam a sua tristeza, saíram-lhe do pensamento e ele voltou às suas habituais preocupações. Principiou a pensar nos seus seis meses de amor e ventura, ao ar livre e à luz do meio-dia, debaixo das belas árvores do Luxemburgo. 

— Como se tornou sombria a minha vida! — dizia ele a sós consigo. — Ainda me aparecem as jovens, porém dantes eram anjos, agora são gaviões depenados!

continua na página 548...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - II — Achado
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

terça-feira, 21 de julho de 2026

George Orwell - 1984: Parte 1.8c (Neste momento, seu pensamento parou)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

8.

continuando...

     Neste momento, seu pensamento parou abruptamente. Ele parou e olhou para cima. Ele estava em uma rua estreita, com algumas lojinhas escuras, intercaladas entre as casas. Imediatamente acima de sua cabeça, penduraram três bolas de metal descoloridas que pareciam ter sido douradas uma vez. Ele parecia conhecer o lugar. É claro! Ele estava do lado de fora da loja de sucata onde havia comprado o diário.
     Uma pontinha de medo passou por ele. Para começo de conversa, comprar o livro já tinha sido um ato suficientemente precipitado, e ele tinha jurado nunca mais se aproximar do lugar. E no instante em que ele permitiu que seus pensamentos vagassem, seus pés o haviam trazido de volta para cá por vontade própria. Era precisamente contra impulsos suicidas deste tipo que ele esperava se proteger começando um diário. Ao mesmo tempo, ele notou que, apesar de serem quase vinte e uma horas, a loja ainda estava aberta. Com a sensação de que ele seria menos visível do lado de dentro do que de fora, ele pisou pela porta. Se questionado, ele poderia plausivelmente dizer que estava tentando comprar lâminas de barbear.
     O proprietário tinha acabado de acender uma lamparina de óleo que emitia um cheiro impuro, mas amigável. Ele era um homem de talvez sessenta anos, frágil e curvado, com um nariz longo e benevolente e olhos suaves distorcidos por lentes grossas. Seu cabelo era quase branco, mas suas sobrancelhas eram cheias e ainda negras. Seus óculos, seus movimentos suaves e agitados, e o fato de estar usando uma jaqueta envelhecida de veludo preto, davam-lhe um ar vago de intelectualidade, como se ele tivesse sido uma espécie de homem literário, ou talvez um músico. Sua voz era suave, como se estivesse desbotada, e seu sotaque menos rebaixado do que o da maioria dos proles.

“Eu o reconheci da calçada”, disse ele imediatamente. “Você é o cavalheiro que comprou o álbum de recordações da jovem senhora. Era um belo pedaço de papel. Papel vergé, costumava ser chamado. Não fazem mais papel assim há... oh, ouso dizer, cinquenta anos”. Ele espreitava Winston por cima de seus óculos. “Há algo especial que eu possa fazer por você? Ou você só queria dar uma olhada?’’.
“Eu estava passando”, disse Winston vagamente. “Eu só olhei para dentro. Eu não quero nada em particular”.
“Ainda bem”, disse o outro, “porque eu suponho que não poderia satisfazê-lo”. Ele fez um gesto apologético com sua mão suave. “Você consegue ver; é uma loja vazia, você poderia dizer. Cá entre nós, o comércio de antiguidades está quase terminado. Não há mais demanda, e também não há estoque. Móveis, porcelanas, vidros, tudo foi quebra do aos poucos. E, claro, o metal foi derretido em sua maioria. Não vejo um castiçal de latão há anos”. 

     O minúsculo interior da loja estava de fato desconfortavelmente cheio, mas não havia quase nada nele de valor. O espaço no chão era muito restrito, porque todas as paredes estavam empilhadas com inúmeras molduras empoeiradas. Na janela havia bandejas de porcas e parafusos, formões gastos, canivetes com lâminas quebradas, relógios manchados que nem sequer fingiam funcionar e outras porcarias diversas. Apenas em uma pequena mesa no canto havia uma ninhada de miudezas – caixas de rapé lacadas, broches de ágata e similares – que pareciam incluir algo interessante. Enquanto Winston caminhava em direção à mesa, seu olhar foi pego por uma coisa redonda e suave que brilhava suavemente sob a luz do lampião, e ele a pegou.
     Era um pedaço pesado de vidro, curvo de um lado, plano do outro, fazendo quase um hemisfério. Havia uma suavidade peculiar, como a da água da chuva, tanto na cor quanto na textura do vidro. No seu centro, ampliado pela superfície curva, havia um objeto estranho, rosado, convoluto, que lembrava uma rosa ou uma anêmona marinha.

“O que é isso?” disse Winston, fascinado.
“Isto é coral, é”, disse o velho. “Deve ter vindo do Oceano Índico. Costumavam incorporá-lo ao vidro. Isso não foi feito há menos de cem anos. Talvez até mais, pelo aspecto dele”.
“É uma coisa linda”, disse Winston. 
“É uma coisa linda”, o outro disse agradecido. “Mas não há muitos que digam isso hoje em dia”. Ele tossiu. “Agora, caso você quisesse comprá-lo, isso lhe custaria quatro dólares. Lembro-me quando uma coisa assim teria custado oito libras, e oito libras eram – bem, não posso calcular bem, mas era muito dinheiro. Mas quem se importa com as antiguidades genuínas hoje em dia, mesmo as poucas que restam”?

     Winston pagou imediatamente os quatro dólares e enfiou o cobiçado objeto em seu bolso. O que o atraía não era tanto sua beleza, mas o ar que parecia possuir de pertencer a uma época bem diferente da atual. O vidro macio como água da chuva não era como nenhum vidro que ele jamais havia visto. A coisa era duplamente atraente por causa de sua aparente inutilidade, embora ele pudesse adivinhar que uma vez deve ter sido concebido como um peso para papéis. Era muito pesado no bolso, mas, felizmente, não fazia muito volume. Era uma coisa estranha, até mesmo uma coisa comprometedora, para um membro do Partido ter em sua posse. Qualquer coisa antiga, e por isso mesmo qualquer coisa bonita, era sempre vagamente suspeita. O velho tinha ficado visivelmente mais alegre depois de receber os quatro dólares. Winston percebeu que teria aceitado três ou até dois.

“Há outra sala lá em cima, caso você talvez queira dar uma olhada”, disse ele. “Não há muito nela. Apenas algumas peças. Precisamos de uma luz se formos lá para cima”.

     Ele acendeu outra lâmpada e, com as costas curvadas, subiu lentamente as escadas íngremes e desgastadas e ao longo de uma pequena passagem, para uma sala que não dava para a rua, mas olhava para fora em um quintal pavimentado e uma floresta de chaminés. Winston notou que os móveis ainda estavam dispostos como se o quarto fosse habitado. Havia uma faixa de tapete no chão, uma ou duas imagens nas paredes e uma cadeira de braços profunda que levava até a lareira. Um relógio de vidro antiquado, de doze horas, fazia tique-taque sob a lareira. Sob a janela, e ocupando quase um quarto do quarto, estava uma cama enorme com o colchão ainda sobre ela.

“Vivemos aqui até a morte de minha esposa’’, disse o velho meio apologético. “Estou vendendo os móveis pouco a pouco. Essa é uma linda cama de mogno, ou pelo menos seria se você conseguisse tirar os insetos dela. Mas ouso dizer que você a acharia um pouco incômoda”. 

     Ele estava segurando a lâmpada bem alto, de modo a iluminar toda a sala, e na luz quente e fraca o lugar parecia curiosamente convidativo. Passou pela cabeça de Winston que provavelmente seria muito fácil alugar o quarto por alguns dólares por semana, se ele se atrevesse a correr o risco. Era uma noção selvagem, impossível, que precisava ser abandonada assim que surgiu; mas o quarto despertou nele uma espécie de nostalgia, uma espécie de memória ancestral. Parecia-lhe que ele sabia exatamente como era sentar-se em uma sala como esta, em uma cadeira de braços ao lado de uma fogueira com os pés no suporte e uma chaleira no fogão; totalmente sozinho, totalmente seguro, sem ninguém lhe observando, sem nenhuma voz lhe perseguindo, sem nenhum som a não ser o canto da chaleira e o tique-taque amigável do relógio.

“Não tem uma teletela”, ele murmurou sem conseguir evitar.
“Ah”, disse o velho, “eu nunca tive uma dessas coisas. Muito caro. E eu nunca senti a necessidade disso, de alguma forma. Aquela ali é uma bela mesa dobrável no canto. Embora, é claro, você teria que colocar novas dobradiças nela se quisesse usar as abas”.

     Havia uma pequena estante no outro canto, e Winston já havia gravitado em direção a ela. Não continha nada além de lixo. A caça e a destruição dos livros tinham sido feitas com a mesma minúcia nos bairros populares como em qualquer outro lugar. Era muito improvável que existisse em qualquer lugar da Oceania uma cópia de um livro impresso antes de 1960. O velho, ainda carregando a lâmpada, estava de pé diante de um quadro em uma moldura de pau-rosa que estava pendurado do outro lado da lareira, em frente à cama.

“Agora, se por acaso você estiver interessado em gravuras antigas”, ele começou delicadamente.
 
     Winston cruzou o quarto para examinar o quadro. Era uma gravura no aço de um edifício oval com janelas retangulares, e uma pequena torre na frente. Havia uma grade em volta do edifício e, na extremidade posterior, havia o que parecia ser uma estátua. Winston olhou para ela por alguns momentos. Parecia vagamente familiar, embora ele não se lembrasse da estátua.

“A moldura está fixada na parede”, disse o velho, “mas eu poderia desparafusá-la para você, ouso dizer”.
“Eu conheço aquele prédio”, disse Winston, finalmente. “Agora é uma ruína. Está no meio da rua do lado de fora do Palácio da Justiça”.
“É isso mesmo. Fora dos Tribunais de Justiça. Foi bombardeado em – oh, há muitos anos. Foi uma igreja, São Clemente dos Dinamarqueses, era seu nome”. Ele sorriu apologético, como se estivesse consciente de dizer algo um pouco ridículo, e acrescentou: “Sempre e geralmente, dizem os sinos de São Clemente”! 
“O que?”, disse Winston.
“Ah, ‘sempre e geralmente, dizem os sinos de São Clemente’. Essa era uma rima que tínhamos quando eu era menino. Não me lembro continuava, mas sei que o fim era: ‘Aí vem uma vela para até a cama te levar, aí vem um helicóptero para a sua cabeça cortar’. Era uma espécie de dança. Eles estendiam seus braços para você passar por baixo, e quando chegaram em ‘aí vem um helicóptero para a sua cabeça cortar eles baixaram seus braços e o pegavam. Eram apenas nomes de igrejas. Todas as igrejas de Londres estavam nela – todas as principais, pelo menos”.

     Winston se perguntava vagamente a que século a igreja pertencia. Sempre foi difícil determinar a idade de um edifício londrino. Qualquer coisa grande e impressionante, se era razoavelmente nova na aparência, era automaticamente reivindicada como tendo sido construída desde a Revolução, enquanto qualquer coisa que fosse obviamente de data anterior era atribuída a algum período obscuro chamado Idade Média. Os séculos de capitalismo foram considerados como não tendo produzido nada de valor algum. Não se podia aprender história com a arquitetura, assim como não se podia aprender com os livros. Estátuas, inscrições, pedras memoriais, os nomes das ruas – qualquer coisa que pudesse lançar luz sobre o passado tinha sido sistematicamente alterado.

“Eu nunca soube que tinha sido uma igreja”, disse ele.
“Na verdade, ainda há muitas delas”, disse o velho, “embora tenham sido colocadas para outros usos. Agora, como era mesmo a rima? Ah! Já sei”! 

“Sempre e geralmente, dizem os sinos de São Clemente 
De seda e linho, dizem os sinos de São Martinho...” 
“E lá, agora, isso é o mais longe que eu posso chegar. 
Seda e linho eram tecidos muito finos”. 

“Onde ficava São Martinho?”, perguntou Winston.
“São Martinho? Ainda está de pé. Está na Praça da Vitória, ao lado da galeria de imagens. Um prédio com uma espécie de varanda triangular e pilares na frente, e um grande lance de degraus”. 

     Winston conhecia bem o lugar. Era um museu usado para exposições de propaganda de vários tipos – modelos em escala de bombas de foguetes e Fortalezas Flutuantes, mesas de trabalho em cera ilustrando atrocidades inimigas, e coisas assim.

“Costumava ser chamada de São Martinho dos campos”, completou o velho, “embora eu não me lembre de nenhum campo em nenhuma dessas partes”. 

continua na página 211...
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Parte1:
Parte 1.8c (Neste momento, seu pensamento parou) /                         
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção VI)

Da origem das nossas ideias

David Hume

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção VI
Da ideia de existência e de existência externa

     Antes de passarmos a outro tema, talvez não seja fora de propósito explicar as ideias de existência e de existência externa, que, assim como as de espaço e de tempo, apresentam suas dificuldades próprias. Desse modo, e uma vez que tenhamos compreendido perfeitamente todas as ideias particulares que podem entrar em nossos raciocínios, estaremos mais bem preparados para examinar o conhecimento e a probabilidade.
     Não há impressão ou ideia de nenhum tipo, da qual tenhamos alguma consciência ou memória, que não seja concebida como existente. E é evidente que é dessa consciência que deriva a mais perfeita ideia e a certeza do ser. Com base nisso, podemos formular uma alternativa, a mais clara e conclusiva que se pode imaginar: já que nunca nos lembramos de nenhuma ideia ou impressão sem atribuir a ela uma existência, a ideia de existência deve, ou bem ser derivada de uma impressão distinta em conjunção com cada percepção ou objeto de nosso pensamento, ou então ser exatamente a mesma que a ideia da percepção ou objeto.
     Esse dilema é uma consequência evidente do princípio de que toda ideia procede de uma impressão similar, e por isso também não resta dúvida sobre qual das duas proposições do dilema escolheremos. Como não penso que existam duas impressões distintas que sejam inseparavelmente conjugadas, assim também estou longe de admitir que haja uma impressão distinta acompanhando cada ideia e cada impressão. Embora certas sensações possam estar unidas em determinado momento, nós rapidamente descobrimos que elas admitem uma separação, e podem se apresentar separadamente. Assim, embora toda impressão e ideia de que nos recordamos seja considerada como existente, a ideia de existência não é derivada de nenhuma impressão particular. 
     A ideia de existência, portanto, é exatamente a mesma que a ideia daquilo que concebemos como existente. A simples reflexão sobre uma coisa em nada difere da reflexão sobre essa coisa enquanto existente. A ideia de existência, quando conjugada com a ideia de um objeto, não acrescenta nada a esta. Tudo que concebemos, concebemos como existente. Qualquer ideia que quisermos formar será a ideia de um ser; e a ideia de um ser será qualquer ideia que quisermos formar.
     Quem se opuser a isso deverá necessariamente apontar a impressão distinta de que deriva a idia de entidade, e provar que essa im pressão é inseparável de toda percepção que acreditamos ser existente. Mas podemos concluir, sem hesitar, que isso é impossível.
     Nosso raciocínio anterior¹ a respeito da distinção de ideias na ausência de uma diferença real não nos servirá aqui de forma alguma. Esse tipo de distinção se baseia nas diferentes semelhanças que a mesma ideia simples pode ter com várias ideias diferentes. Mas não se pode apresentar nenhum objeto que se assemelhe a um segundo objeto no que concerne à sua existência, e que seja diferente de outros no que concerne a esse mesmo ponto - pois todo objeto que se nos apresenta deve necessariamente existir.

[1] Parte 1, Seção 7.

     Um raciocínio semelhante dará conta da ideia de existência externa. Podemos observar que todos os filósofos admitem, e aliás é bastante óbvio por si só, que nada jamais está presente à mente além de suas percepções, isto é, suas impressões e ideias; e que só conhecemos os objetos externos pelas percepções que eles ocasionam. Odiar, amar, pensar, sentir, ver - tudo isso não é senão perceber.
     Ora, como nada jamais está presente à mente além das percepções, e como todas as ideias são derivadas de algo anteriormente presente à mente, segue-se que nos é impossível sequer conceber ou formar uma ideia de alguma coisa especificamente diferente de ideias e impressões. Dirijamos nossa atenção para fora de nós mesmos tanto quanto possível; lancemos nossa imaginação até os céus, ou até os limites extremos do universo. Na realidade, jamais avançamos um passo sequer além de nós mesmos, nem somos capazes de conceber um tipo de existência diferente das percepções que apareceram dentro desses estreitos limites. Tal é o universo da imaginação, e não possuímos nenhuma ideia senão as que ali se produzem.
     O mais longe que podemos chegar no que diz respeito à concepção de objetos externos, quando se os supõe especificamente diferentes de nossas percepções, é formar deles uma ideia relativa, sem pretender compreender os objetos relacionados. Falando de um modo geral, nós não supomos que sejam especificamente diferentes; apenas atribuímos a eles relações, conexões e durações diferentes. Mas trataremos disso de maneira mais completa um pouco adiante².

[2] Parte 4, Seção 2.

continua na página 93...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888


O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.