segunda-feira, 8 de junho de 2026

Mulheres na MPB: Dolores Duran

Viveu em 29 anos mais que em 100 anos!


Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem

Hoje eu quero paz de criança dormindo
E abandono de flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, eu quero o amor, o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero ternura de mãos se encontrando
Para enfeitar a noite do meu bem

Ah, como esse bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar
Toda pureza que quero lhe dar


Por Toda Minha Vida - Dolores Duran




Nasceu em uma casa humilde, em uma vila, na rua do Propósito, no bairro da Saúde, Zona Central do Rio de Janeiro, onde morou por alguns anos. Teve uma infância pobre e não conheceu seu pai biológico. Cresceu ao lado de sua mãe, Josepha Silva da Rocha, seu padrasto, Armindo José da Rocha, e suas duas meias-irmãs, Solange e Denise. Ainda na infância mudou-se para um cortiço no bairro da Piedade, onde foi criada. 

Dolores Duran canta ''Tião'' (1957)




Desde criança gostava de cantar e sonhava em ser famosa. Aos oito anos de idade contraiu uma febre reumática, que quase a levou à morte, e que deixou como sequela um sopro cardíaco gravíssimo.


A noite do meu bem




Somos a vida e o sonho
Nós somos o amor

Por causa de você



Com uma carreira de sucesso especialmente durante os anos cinquenta, em 1958, Dolores alcançou o seu ápice ao cantor fora do país - no Uruguai e na União Soviética. Durante essa viagem, a jovem realizou dos seus maiores sonhos que era conhecer Paris.

Dolores Duran em aparição rara cantando Se Avexe Não - ( 1956 )




Amou demais
sofreu o dobro


Ela disse que "ia dormir até morrer" O Trágico fim de Dolores Duran



Na música Dolores emprestou a sua voz especialmente para canções apaixonadas. As mais famosas foram: Canção da Volta, Fim de caso, Se é por falta de adeus, Solidão e Tião.

Da parceria com o compositor Tom Jobim surgiram canções de sucesso como Por causa de você, O negócio é amar e Estrada do sol.


Maysa fala de Dolores Duran




Solidão



________________________

Mulheres na MPB
Dolores Duran / 

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (3)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
 
continuando...

     Em sua maioria, as prostitutas acham-se moralmente adaptadas à sua condição; isto não quer dizer que sejam hereditárias ou congenitamente imorais, mas sim que se sentem, com razão, integradas numa sociedade que reclama seus serviços. Sabem que os discursos do policial que as identifica são simples palavrório e os sentimentos elevados que seus fregueses exibem fora do bordel intimidam-nas bem pouco. Marie Thérèse explica à padeira, em casa de quem reside, em Berlim:

   Gosto de todo mundo. Quando se trata de "gaita", minha senhora. . . Sim, porque dormir com um homem, a troco de nada, de graça, ele diz a mesma coisa da gente, é uma puta, e quando se exige pagamento, ele julga a gente também como puta, mas esperta; porque, quando se pede dinheiro a um homem, pode-se estar certa de que ele diz logo depois: "Ah, não sabia que tinhas este ofício" ou "Tens um homem". É isso, paga ou não, para mim é a mesma coisa. "Ah, sim, responde ela, você tem razão." Porque, eu lhe digo, você vai fazer fila meia hora por dia para poder comprar um par de sapatos. Eu, numa meia hora, dou uma trepada. Tenho os sapatos. Para pagar? ao contrário, se conheço meu trabalho ainda sou paga por cima. A senhora vê então que tenho razão.

     Não é a situação moral e psicológica que torna penosa a existência das prostitutas. Sua condição material é que é, na maioria dos casos, deplorável. Exploradas pelo cáften, pela proxeneta, vivem na insegurança e três quartos delas não têm dinheiro. Ao fim de cinco anos de profissão, cerca de 75% estão com sífilis, diz o Dr. Bizard, que tratou de tantas. Entre outras, as menos experientes são contaminadas com uma assustadora facilidade; cerca de 25% devem ser operadas, em consequência de complicações blenorrágicas. Uma, em vinte, tem tuberculose, 60% tornam-se alcoólatras ou toxicômanas, 40% morrem antes dos 40 anos. É preciso acrescentar que, apesar das precauções, algumas vezes ficam grávidas e são operadas em más condições. A baixa prostituição é um ofício penoso em que a mulher oprimida sexual e economicamente, submetida à arbitrariedade da polícia, a uma humilhante fiscalização médica, aos caprichos dos fregueses, presa dos micróbios, da doença e da miséria, é realmente degradada ao nível de uma coisa¹.

[1] Não é evidentemente com medidas negativas e hipócritas que se pode modificar a situação. Para que a prostituição desapareça, são necessárias duas condições: que uma profissão decente seja assegurada a todas as mulheres; que os costumes não oponham nenhum obstáculo à liberdade do amor. É somente suprimindo as necessidades a que atende que se suprimirá a prostituição.

     Da baixa prostituição à grande hetaira, há numerosos de graus. A diferença essencial consiste em que a primeira negocia com sua pura generalidade, de modo que a concorrência a mantém num nível de vida miserável, ao passo que a segunda se esforça por se fazer reconhecer em sua singularidade: vencendo, pode aspirar a um grande destino. A beleza, o encanto, o sex-appeal são necessários, mas não bastam: é preciso que a mulher seja distinguida pela opinião. É através de um desejo de homem que muitas vezes seu valor se desvendará; mas só será "lançada" quando o homem tiver proclamado seu valor aos olhos do mundo. No século passado, era o palacete, eram as pérolas que testemunhavam a ascendência conquistada por uma cocotte sobre seu protetor e que a elevavam à condição de demi-mondaine; seu mérito se afirmava na medida em que homens continuavam a arruinar-se por ela. As mudanças sociais e econômicas aboliram o tipo das Blanche d'Antigny. Não há mais um demi-monde, dentro do qual se possa afirmar uma reputação. É de outra maneira que uma mulher ambiciosa se esforçará por conquistar celebridade. É a "estrela" a última encarnação da hetaira. Com um marido ao lado — condição rigorosamente exigida por Hollywood — ou um amigo sério, ela se aparenta contudo a Frinéia, Impéria, Casque d'Or. A hetaira entrega a Mulher aos sonhos dos homens, que em troca lhe dão fortuna e glória.
     Houve sempre entre a prostituição e a arte uma passagem incerta, em virtude de se associarem de maneira equívoca a beleza e a volúpia; na verdade não é a Beleza que engendra o desejo; mas a teoria platônica do amor propõe hipócritas justificações para a lubricidade. Frinéia desnudando o seio oferece ao areópago a contemplação de uma ideia pura. A exibição de um corpo sem véu torna-se um espetáculo de arte; os "burlescos" americanos fizeram um drama do despir-se. 0 "nu é casto", afirmam os velhos que, sob a denominação de "nus artísticos", colecionam fotografias obscenas. No bordel, o momento da "escolha" já é uma parada; ao complicar-se, têm-se os "quadros vivos", as "poses artísticas" que se oferecem aos fregueses. A prostituta que as pira a adquirir um valor singular não se limita mais a mostrar passivamente a carne; esforça-se por mostrar talentos particulares. As "tocadoras de flauta" gregas encantavam os homens com sua música e suas danças. As Uled-Nail executam a dança do ventre, as espanholas que dançam e cantam no Barrio-Chino não fazem senão oferecer-se de maneira requintada à escolha do apreciador. É para achar "protetores" que Nana sobe ao palco. Certos music-halls, como outrora certos cafés-concerto, não passam de bordéis. Todos os ofícios em que a mulher se exibe podem' ser utilizados para fins galantes. Há, sem dúvida, girls, taxi-girls, dançarinas nuas e outras, pin-ups, manequins, cantoras, que não permitem que sua vida erótica se imiscua em seu trabalho; quanto mais este implique em técnicas, invenção, mais poderá ser considerado como um fim em si; mas, frequentemente, uma mulher que se apresenta em público para ganhar a vida é tentada a comerciar com seus encantos. Inversamente, a cortesã deseja um ofício que lhe sirva de álibi. Raras, como a Léa, de Colette, responderiam a um amigo que as chamasse "Cara artista": "Artistas? Realmente meus amantes são muito indiscretos". Dissemos que sua reputação é que lhe confere um valor comercial: é no palco ou na tela que se pode conquistar "nome", que se tornará um capital.
     Cinderela nem sempre sonha com o Príncipe Encantado: teme que, marido ou amante, ele se transforme em tirano; prefere sonhar com sua própria imagem rindo às portas dos cinemas. Porém, o mais das vezes, é graças a "proteções" masculinas que ela alcança seu objetivo; e são os homens — marido, amante, pretendente — que lhe confirmam o triunfo, fazendo-a participar de seu renome ou de sua fortuna. É essa necessidade de agradar a indivíduos, à multidão, que aproxima a vedette da hetaira. Elas desempenham na sociedade um papel análogo: empregarei a palavra hetaira para designar todas as mulheres que tratam, não do corpo somente, mas também de sua pessoa como de um capital a ser explorado. Sua atitude é muito diferente da de um criador que, transcendendo-se em sua obra, supera o dado e apela em outrem para uma liberdade a que abre o futuro; a hetaira não desvenda o mundo, não abre nenhum caminho à transcendência humana²: ao contrário, procura captá-la em proveito próprio; oferecendo-se aos sufrágios de seus admira dores, não renega sua feminilidade passiva que a destina ao homem: dota-a de um poder mágico que lhe permite pegar os homens na armadilha de sua presença e deles alimentar-se; arrasta-os consigo em sua imanência.

[2] Pode ela ser também uma artista que, procurando agradar, invente e crie. Pode então acumular as duas funções ou ultrapassar o estádio da galantaria e entrosar-se na categoria das mulheres atrizes, cantoras, dançarinas etc, de que falaremos adiante.

   Por esse caminho, a mulher consegue conquistar certa independência. Entregando-se a vários homens, não pertence definitivamente a nenhum; o dinheiro que junta, o nome que "lança" como se lança um produto, asseguram-lhe uma autonomia econômica. As mulheres mais livres da Antigüidade grega não eram nem as matronas nem as baixas prostitutas: eram as he tairas. As cortesãs do Renascimento, as gueixas japonesas gozam de uma liberdade infinitamente maior do que suas contemporâ neas. Na França, a mulher que se nos afigura mais virilmente independente é talvez Ninon de Lenclos. Paradoxalmente, essas mulheres que exploram ao extremo sua feminilidade criam para si uma situação quase equivalente à de um homem; partindo desse sexo que as entrega aos homens como objeto, reencontram-se como sujeitos. Não somente ganham a vida como os homens, mas ainda vivem em uma companhia quase exclusivamente mas culina; livres de costumes e de propósitos, podem elevar-se — como Ninon de Lenclos — à mais rara liberdade de espírito. As mais distintas vêem-se, amiúde, cercadas de artistas e escri tores que as "mulheres honestas" aborrecem. É na hetaira que os mitos masculinos encontram sua mais sedutora encarnação; ela é, mais do que qualquer outra, carne e consciência, ídolo, inspiradora, musa; pintores e escultores querem-na como modelo; ela alimenta os sonhos dos poetas; é nela que o intelectual explora os tesouros da "intuição" feminina; ela é mais facilmente inteligente do que a matrona, menos afetada na hipocrisia. As que são superiormente dotadas não se contentarão com esse papel de Egéria; sentirão necessidade de manifestar, de maneira autônoma, o valor que o sufrágio alheio lhes confere; gostarão de transformar suas virtudes passivas em atividades. Emergindo no mundo como sujeitos soberanos, escrevem versos ou prosa, pintam, compõem. Assim, Impéria se tornou célebre entre as cortesãs italianas. Pode acontecer também que, utilizando o homem como instrumento, ela exerça funções viris por intermédio dele: as "grandes favoritas" participaram do governo do mundo através de seus poderosos amantes ³.

[3] Assim como certas mulheres utilizam o casamento para alcançar certos fins, outras empregam os amantes como meios para atingir objetivos políticos, econômicos etc. como as outras a de matrona. Superam a situação de hetaira como as outras de matrona.

     Essa libertação pode traduzir-se no terreno erótico, entre outros. No dinheiro ou nos serviços que presta ao homem, a mulher pode encontrar uma compensação para o complexo de inferioridade feminina; e dinheiro tem um papel purificador; abole a luta dos sexos. Se muitas mulheres que não são profissionais fazem questão de arrancar cheques e presentes do amante, não é somente por cupidez: fazer o homem pagar — pagar-lhe também como se verá adiante — é transformá-lo em instrumento. Com isso a mulher nega-se a sê-lo: talvez o homem pense tê-la, mas essa posse sexual é ilusória; ela é que o tem no terreno muito mais sólido da economia. Seu amor-próprio está satis feito. Pode entregar-se aos amplexos do amante, não cede a uma vontade estranha, o prazer não lhe poderá ser "infligido", apresentar-se-á antes como um benefício suplementar; não será "tomada" porquanto é paga.
     Entretanto, a cortesã tem a reputação de ser fria. É-lhe útil saber governar o coração e o ventre: sentimental ou sensual, arrisca-se a sofrer a ascendência de um homem que a explorará ou a açambarcará ou a fará sofrer. Entre as aventuras que aceita, muitas há — principalmente no início da carreira — que a humilham; sua revolta contra a arrogância masculina exprime-se pela frigidez. As hetairas, como as matronas, confiam-se de bom grado os "truques" que lhes permitem "fingir". Esse desprezo, esse nojo pelo homem mostra bem que no jogo explorador-explorado elas não estão inteiramente certas de ter ganho. Com efeito, na imensa maioria dos casos, é ainda a dependência seu quinhão.
 
continua página 333...
_______________

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (3)
______________________

As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

domingo, 7 de junho de 2026

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (1º de abril - O tempo acabou.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     1º de abril. 
          O tempo acabou. A vida está terminada. Eu realmente vou morrer hoje. Está calor fora das portas... quase sufocante... ou é que o meu peito já está se recusando a respirar? A minha pequena comédia já foi passada. A cortina está caindo.
     Ao ser aniquilado, deixarei de ser supérfluo...
     Akh, como aquele sol é brilhante! Esses raios poderosos exalam a eternidade...
     Adeus, Teréntievna!... Esta manhã, ao sentar-se junto à janela, ela caiu a chorar.... talvez por causa de mim... e talvez, porque ela mesma deve morrer em breve também. Eu a fiz prometer "não fazer mal" a Trésor.
     É difícil para mim escrever...... Eu larguei a minha caneta... É hora! A morte já se aproxima com crescente estrondo, como uma carruagem à noite na calçada: está aqui, está pairando ao meu redor, como aquele sopro tênue que fez os cabelos do profeta ficarem eretos na sua cabeça...
     Eu estou morrendo... Vive, vive.
     E que a vida jovem brinque
     Na entrada da cova,
     E a Natureza a indiferente
     Com feixe de beleza para sempre!
Ivan Turgueniev

______________________

1º de abril - O tempo acabou /              
__________________

Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (I. A chegada ao mosteiro)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
I
A CHEGADA AO MOSTEIRO
    
    Estava um dia magnífico, quente e claro. Era no fim de agosto. A entrevista com o stáriets fora marcada para imediatamente depois da última missa, às 11h30. Os nossos visitantes chegaram quase no fim da cerimônia, em duas carruagens. A primeira, uma elegante caleça puxada por dois cavalos de preço, estava ocupada por Piotr Alieksán-drovitch Miúsov e um parente afastado, Piotr Fomitch Kolgánov, de vinte anos de idade. Este rapaz preparava-se para entrar na universidade. Miúsov, de quem era ele hóspede, propunha-lhe levá-lo ao estrangeiro, a Zurique ou a Iena, para ali acabar seus estudos, mas ele não havia ainda tomado decisão. Pensativo e distraído, tinha um aspecto agradável, uma constituição robusta, a estatura bastante elevada. De olhar estranhamente fixo, o que é próprio das pessoas distraídas, olhava-nos por vezes muito tempo sem ver-nos; taciturno e algo embaraçado, acontecia-lhe — somente na intimidade — mostrar-se de repente bastante loquaz, veemente, jovial, rindo só Deus sabe de quê. Mas sua imaginação não passava de um fogo de palha, assim que se acendia logo se apagava. Andava sempre bem vestido e até mesmo com apuro. Possuidor de certa fortuna, tinha ainda mais em perspectiva. Entretinha com Aliócha relações amigáveis.
     Fiódor Pávlovitch e seu filho tinham tomado lugar em uma caleça de aluguel bastante estragada, mas espaçosa, atrelada a dois velhos cavalos malhados de preto e branco, que seguiam a uma distância respeitável. Dimítri tinha sido prevenido na véspera da hora da entrevista, mas estava atrasado. Os visitantes deixaram suas carruagens perto da cerca, na hospedaria, e transpuseram a pé as portas do mosteiro. Exceto Fiódor Pávlovitch, os três outros jamais tinham visto o mosteiro e Miúsov havia trinta anos que não entrava numa igreja. Olhava com certa curiosidade, assumindo um ar desenvolto. Mas o interior do mosteiro, de parte a igreja e as dependências, aliás bastante banais, nada oferecia a seu espírito observador. Os derradeiros fiéis que saíam da igreja benziam-se de gorros nas mãos. Entre o povinho viam-se também pessoas de uma posição mais elevada: duas ou três damas, um velho general, todos hospedados na pousada. Mendigos cercaram nossos visitantes, mas ninguém lhes deu esmola. Somente Pietrucha Kolgánov tirou JO copeques de seu porta-moedas e, acanhado Deus sabe por que, introduziu-os rapidamente na mão de uma mulher* murmurando: "Reparta-os". Nenhum de seus companheiros lhe fez qualquer observação, o que teve como resultado aumentar-lhe a confusão.
     Coisa estranha: deveriam deveras esperá-los e até mesmo testemunhar-lhes algumas atenções; um deles acabava de fazer um donativo de 1000 rublos, o outro era um proprietário bastante rico, que mantinha os monges mais ou menos sob sua dependência, no que dizia respeito à pesca, de acordo com o rumo que tomasse o processo. No entanto, nenhuma personalidade oficial se encontrava lá para recebê-los. Miúsov contemplava com ar distraído as lápides tumulares em redor da igreja e quis fazer a observação de que os ocupantes daqueles túmulos deviam ter pago bastante caro o direito de ser enterrados em um lugar tão "santo**, mas manteve-se em silêncio: sua ironia de liberal dava lugar à irritação.

— A quem, diabo, devemos dirigir-nos nesta casa onde todos mandam?... Seria preciso sabê-lo, porque o tempo passa — murmurou ele, como consigo mesmo. 

     De repente, aproximou-se deles uma personagem calva, de idade madura, numa ampla veste de verão e de olhos ternos. De chapéu na mão, apresentou-se, ceceando, como o proprietário de terras Maksímov, do governo de Tula. Deu-se conta imediatamente do embaraço daqueles senhores. 

— O stáriets Zósima mora no eremitério, à parte, a quatrocentos passos do mosteiro; é preciso atravessar o bosquezinho... 
— Sei bem — respondeu Fiódor Pávlovitch. — Não nos lembramos bem da estrada, pois faz muito tempo que não venho por aqui. 
— Passem por aquela porta, depois sigam diretamente pelo bosquezinho. Permitam-me que os acompanhe... eu mesmo... por aqui. por aqui...

     Saíram da cerca e meteram-se no bosque. O proprietário Maksímov, de uns sessenta anos de idade, caminhava, ou antes, corria ao lado deles, examinando-os a todos com uma curiosidade incômoda. Esbugalhava os olhos. 

— Fique o senhor sabendo que nós vamos à casa desse stáriets para tratar de um negócio pessoal — observou friamente Miúsov. — Obtivemos, por assim dizer, "uma audiência" dessa personagem; de modo que, malgrado nossa gratidão, não lhe propomos que entre conosco. 
— Já estive ali... Un chevalier parfait — declarou, dando um piparote no ar, o proprietário. 
— Quem é ce chevalier? — perguntou Miúsov. 
— O stáriets, o famoso stáriets... a glória e a honra do mosteiro, Zósima. Aquele stáriets, vejam...

     Sua tagarelice foi interrompida por um monge, com capuz, de pequena estatura, pálido e desfeito, que alcançou o grupo. Fiódor Pávlovitch e Miúsov pararam. O monge saudou-os com grande polidez e lhes disse: 

— Senhores, o padre abade convida-os a todos a jantar, depois da visita ao eremitério. É à 1 hora em ponto. O senhor também — disse ele a Maksímov.
— Não haverei de faltar — exclamou Fiódor Pávlovitch, encantado pelo convite. — O senhor sabe que todos prometemos portar-nos decentemente... E o senhor virá, Piotr Alieksándrovitch? 
— Como não? Por que estou aqui, senão para observar os costumes deles? Uma só coisa me embaraça, Fiódor Pávlovitch, é encontrar-me agora com o senhor. 
— Sim, Dimítri Fiódorovitch ainda não chegou. 
— Seria perfeito se ele faltasse; acredita o senhor que seja isso uni prazer para mim, essa estória dos senhores e o senhor ainda de quebra? Estaremos lá para o almoço; agradeça ao padre abade — disse ele ao monge. 
— Perdão, tenho de conduzi-los à casa do stáriets — respondeu este. 
— Neste caso vou diretamente à casa do padre abade, sim, vou durante este tempo à casa do padre abade — gorjeou Maksímov. 
— O padre abade está muito ocupado neste momento, mas será como o senhor quiser... — disse o monge, perplexo. 
— Que sujeito cacete esse velho! — observou Miúsov, quando Maksímov voltou ao mosteiro. 
— Parece-se com Von Sohn — declarou, de repente, Fiódor Pávlovitch. 
— É tudo quanto o senhor sabe... Em que se parece ele com Von Sohn? O senhor mesmo já o viu? 
— Vi-lhe a fotografia. Se bem que as feições não sejam idênticas, há qualquer coisa de indefinível. É totalmente o sósia de Von Sohn. Reconheço-o apenas pela fisionomia. 
— Ah! Talvez seja o senhor entendido nisso. Todavia, Fiódor Pávlovitch, o senhor acaba de lembrar que prometemos portar-nos decentemente; não se esqueça disto. Digo-lhe que se contenha. Se o senhor começa a fazer-se de palhaço, não tenho eu a intenção de ser metido no mesmo cesto que o senhor. Veja esse homem — disse ele dirigindo-se ao monge —, tenho medo de ir com ele à casa de pessoas distintas. 

     Um pálido sorriso, não desprovido de astúcia, apareceu nos lábios exangues do monge, que, no entanto, nada respondeu, deixando ver claramente que se calava pela consciência de sua própria dignidade. Miúsov franziu ainda mais o cenho. 

 "Oh! Que o diabo leve a todas essas criaturas de exterior plasmado pelos séculos, mas cujo íntimo não é senão charlatanismo e absurdo!", dizia ele entre si.

— Eis o eremitério, chegamos — gritou Fiódor Pávlovitch, que se pôs a fazer grandes sinais-da-cruz diante dos santos pintados por cima e de lado do portal. 
— Cada qual vive como lhe agrada — declarou ele. — E o provérbio russo diz com razão: "A monge duma outra ordem não imponhas tua regra". Há aqui 25 bons padres que tratam de sua salvação, contemplam se uns aos outros e comem couves. E nem uma mulher transpôs esse portal, eis o que é espantoso. No entanto, ouvi dizer que o stáriets recebia senhoras — disse ele ao monge. 
— As mulheres do povo esperam-no lá embaixo, perto da galeria, veja, estão sentadas no chão. Para as senhoras da sociedade prepararam dois quartos na própria galeria, mas fora da cerca, veja aquelas janelas; o stáriets ali chega por um corredor interno, quando sua saúde o permite. Há uma Senhora Khokhlakova, proprietária em Khárkov, que quer consultá-lo a respeito de sua filha, atacada de fraqueza. Teve de prometer vir vê-las, se bem que nestes últimos tempos esteja muito fraco e não se mostre em público. 
— Há, pois, no eremitério uma porta entreaberta do lado das senhoras. Não estou fazendo mau juízo, meu padre! No Monte Atos, o senhor deve saber, não somente são proibidas as visitas femininas, mas não se tolera nenhuma mulher, nem fêmea, galinhas, peruas, bezerras... 
— Fiódor Pávlovitch, vou-me embora e deixo-o sozinho. Vão mandá-lo embora a braços, sou eu que lho predigo. 
— Em que é que eu o incomodo, Piotr Alieksándrovitch? Olhe! — exclamou ele, de repente, uma vez transposta a cerca. — Veja em que vale de rosas eles moram!

     Efetivamente, se bem que não houvesse então rosas, via-se uma profusão de flores outonais, magníficas e raras. Mãos experimentadas deviam cuidar delas. Havia canteiros em redor das igrejas e entre os túmulos. Flores cercavam ainda a casinha de madeira, um rés-do-chão, precedido duma galeria, onde se encontrava a cela do stáriets.

— Era assim também no tempo do stáriets precedente, Varsonófi? Dizem que ele não gostava da elegância, arrebatava-se e recebia mesmo as senhoras às bengaladas — observou Fiódor Pávlovitch, subindo o patamar. 
— O stáriets Varsonófi parecia por vezes, com efeito, um pobre de espírito, mas exagera-se muito a este respeito. Nunca bateu em ninguém com o báculo — respondeu o monge. Agora, senhores, um minuto, vou anunciá-los. 
— Fiódor Pávlovitch, pela derradeira vez lhe digo, comporte-se bem, do contrário, ai do senhor! — murmurou ainda uma vez Miúsov. 
— Gostaria bem de saber o que o comove dessa maneira — observou Fiódor Pávlovitch, zombeteiro. — São seus pecados que o amedrontam? Porque dizem que, com um simples olhar, adivinha ele com quem está tratando. Mas como pode fazer tal caso da opinião deles o senhor, um parisiense, um progressista? Palavra, o senhor me espanta! 

     Miúsov não teve oportunidade de responder a este sarcasmo: convidavam-nos a entrar. Sentiu ligeira irritação. "Pois bem! Sei de antemão que, nervoso como estou, irei discutir, acalorar-me... rebaixar-me, a mim e a minhas ideias", disse a si mesmo.

continua na página 34...
_____________________
_______________

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Bom tarde com Bolero... história de algum amor

História de um Amor


Carlos Eleta Almarán e suas narrativas possíveis nesta história de um amor... primeiros encontros e paixões intensas, despedidas e perdas dolorosas, sacrifícios e dedicação a quem se ama, amor próprio e relações familiares. Uma obra musical icônica sobre nós... o amor inesquecível de cada amor.


French Latino





Já não estás mais ao meu lado, coração
E minh'alma está cansada de chorar
Sei que já não posso ver-te
Porque Deus me fez querer-te
Me fazendo sofrer mais

Sempre foste a razão do meu viver
Adorar-te foi a minha religião
Em teus beijos encontrei
O calor que era um brinde
Ao amor e a paixão

Esta é a história de um amor
Que aumentou o meu sofrer
Que me fez compreender
Todo o mal de querer

Tu me deste luz e vida
Destruindo-me depois
Ah, que vida amargurada
Vivo só sem teu calor
Vivo só sem teu amor

Esta é a história de um amor
Que aumentou o meu sofrer
Que me fez compreender
Todo o mal de querer

Tu me deste luz e vida
Destruindo-me depois
Ah, que vida amargurada
Vivo só sem teu calor
Vivo só sem teu amor


Pedro Infante




Assim nasceu este bolero...


A incrível história de um amor. 
Uma grande tristeza transformada em canção. 





1ª gravação em 20/04/1955
La Sonora Matancera - Historia De Un Amor (Audio) | Discos Fuentes




Guadalupe Pineda



____________________

Boleros:
História de um amor /