quarta-feira, 18 de março de 2026

Tratado da Natureza Humana: Prefácio

Prefácio

4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

     David Hume nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 1711. Seus pais possuíam uma pequena propriedade rural, Ninewells, onde Hume passou a maior parte da infância. Aos doze anos iniciou os estudos universitários em Edimburgo - feito que ao tempo não era raro entre os adolescentes excepcionalmente dotados - onde realizou quatro anos de estudos clássicos. Aos dezesseis anos decidiu voltar para Ninewells, dedicando-se à leitura dos clássicos latinos, dos grandes escritores ingleses da época e de filósofos como o céptico francês Pierre Bayle e o newtoniano inglês Samuel Clarke.
     Depois de alguns projetos de vida mal sucedidos, morou algum tempo em França, notadamente em Reims, acabando a partir de 1735 por passar no colégio jesuíta de La Fleche - que um século antes fora frequentado por Descartes - um período de dois anos de intenso trabalho filosófico, incluindo os primeiros esboços do Tratado da Natureza Humana. Em 1737 foi para Londres, passando mais dois anos a concluir a redacção desta obra, cujos primeiros dois volumes publicou em 1739, deixando para o ano seguinte a publicação do terceiro.
     Além da recepção desfavorável da sua obra, à qual voltaremos mais adiante, sofreu também o desaire, em 1745, de ver recusada a sua candidatura a professor de ética na Universidade de Edimburgo, sob as acusações de cepticismo, infidelidade, heresia e ateísmo, fundadas nos textos da mesma obra - onde efetivamente a prova ontológica da existência de Deus, por exemplo, recebe argumentos fortemente contrários. Mais tarde tentaria ocupar a cadeira de lógica na Universidade de Glasgow, pretensão igualmente rechaçada, e também sob acusações de ateísmo. No mesmo ano de 1745, o seu amigo Henry Home publicou, anonimamente como era de regra nessa época, uma carta contendo uma extensa defesa de David Hume contra essas acusações, a qual só viria a ser republicada, com a autoria devidamente identificada, no nosso século, em 1967. Esforço análogo ao que o próprio Hume fizera cinco anos antes, com a publicação, igualmente anônima, destinada a dar maior repercussão ao seu Tratado, de um Abstract ou sumário dessa obra - durante muito tempo atribuído ao seu conterrâneo e amigo Adam Smith, tendo sido republicado, com a autoria comprovada pelas investigações de Lord Key11es, apenas em 1937. Hume obteve posteriormente um lugar de tutor do jovem Marquês de Annandale, sendo pouco depois nomeado secretário do general Saint Clair e partindo com ele numa expedição militar contra a França, expedição que redundou num total desastre, conforme ele mesmo conta num dos seus memorandos. Seguidamente foi secretário do mesmo general em missões diplomáticas nas cortes de Viena e Turim, tentando preparar uma aliança contra a França.
     Mais uma vez regressado a Ninewells, a partir de 1749 Hume dedicou-se a escrever outras obras filosóficas, entre as quais os Diálogos sobre a Religião Natural, que só postumamente foram publicados - devido à sua contundente crítica da religião estabelecida, e mesmo da religião mais esotérica de alguns filósofos apesar dos seus esforços para conseguir apoio e autorização para essa edição. No seu testamento encarregou Adam Smith da publicação, mas este declinou dessa talvez perigosa honra, acabando a edição por sair apenas em 1779, três anos após a morte do filósofo, sob os cuidados de um sobrinho com o mesmo nome de David Hume. Hume conseguia também o lugar de Conservador da Biblioteca dos Advogados de Edimburgo, oportunidade que aproveitava para estudar os milhares de livros e manuscritos aí existentes e a partir daí compor, num longo período terminado em 1762, os seis grossos volumes da sua História da Inglaterra, que lhe valeram maior fama do que as suas obras filosóficas, as quais entretanto iam recebendo uma aceitação relativamente compensadora do fracasso do juvenil Tratado.
     No entanto, e tipicamente na vida do nosso filósofo, Hume foi acusado de introduzir livros licenciosos na Biblioteca, ao mesmo tempo que se multiplicavam em Inglaterra as reações hostis à sua crítica do fanatismo e da superstição, tanto na História como nos Ensaios Morais e Políticos, e desta vez foi ele que decidiu demitir-se. Regressou à atividade diplomática, tendo ocupado o posto de Secretário da Embaixada britânica em Paris, a partir de 1763. Frequentou assiduamente os salões e os amores parisienses, com um lugar de honra para a famosa Madame de Boufflers, e tornou-se amigo dos maiores pensadores franceses da época - os quais certamente não deram importância às suas anteriores atividades contra esse país - como Helvetius, Buffon, Rousseau, D ' Holbach e os enciclopedistas Diderot e D'Alembert, entre muitos outros.
     Voltou depois ao sossego de Ninewells, onde veio a morrer em 1776, não sem antes escrever a pequena autobiografia intitulada A Minha Vida. Hoje é possível visitar, em Edimburgo, a David Hume Tower - que é o moderno edifício onde se situa o Departamento de Filosofia da Universidade de Edimburgo. A sua obra levou Bertrartd Russell a declará-lo o maior filósofo da língua inglesa, e é bem conhecida a influência que exerceu sobre Adam Smith, e depois sobre Kant - levando o filósofo alemão a abandonar a metafísica racionalista e tornando possível a redação da Crítica da Razão Pura - bem como sobre centenas de outros filósofos até aos nossos dias. Mas a maior herança que deixou é sem dúvida a sua obra filosófica - a começar pelo controvertido Tratado da Natureza Humana.
     Hume tinha 28 anos quando publicou o Tratado, e nas suas cartas lamenta a sua pressa de publicar tão cedo e tão descuidadamente uma obra de tamanha ambição. A obra pretendia nada menos do que a total renovação da filosofia da experiência, com a construção de uma "ciência do homem" capaz de emular a ciência newtoniana, com a conclusão da estrada aberta por Bacon, e com a substituição da metafísica racionalista pelo que viria a chamar "a verdadeira metafísica" - no primeiro capítulo da Investigação sobre o Entendimento Humano, onde nove anos depois, em 1748, reapresentava mais resumidamente a teoria do conhecimento do Livro I do Tratado.
     Mas ao longo de toda a sua vida Hume não se desviou da realização do projeto iniciado com o Tratado: o estudo rigoroso dos princípios e mecanismos da natureza humana. Logo na Introdução da obra se anuncia a intenção de constituir uma autêntica "ciência do homem", peça central para a constituição de qualquer outra forma de conhecimento, quer seja histórico ou natural. No sentido mais preciso que a expressão "natureza humana" possui na teoria de Hume, os Livros I e II dão conta das suas "partes principais", o entendimento e as paixões. A moral, discutida no Livro III, é para Hume um fenômeno social derivado dos princípios expostos nos Livros I e II e das condições da vida em sociedade - ela não constitui uma terceira "parte" da natureza do homem, é apenas um conjunto de fenômenos explicáveis em parte como decorrência de alguns dos princípios fundamentais dessa natureza.
     De um modo geral, o esforço teórico de Hume concentra-se na formulação de conjecturas plausíveis acerca de princípios da natureza humana encarados como inatos. Mas isso não significa que "entendimento" e "paixões" sejam nomes de tais princípios inatos. O primeiro destes termos, "entendimento", não é inteiramente unívoco nos textos humeanos - às vezes designa simplesmente a razão abstrata e dedutiva - mas o sentido predominante é o do trabalho da imaginação (esta sim, um poder inato do espírito humano) quando ela se rege pelos padrões derivados da experiência da regularidade da natureza. Quando a imaginação não se rege por esses princípios mais gerais e estabelecidos, ela recebe frequentemente o nome de 'fantasia ", juntando ideias de modo livre e às vezes caprichoso, ou no máximo seguindo os caminhos sugeridos pela associação de ideias - por semelhança, por contiguidade ou por causação. Desaparece portanto a simples oposição cartesiana entre a imaginação, do lado do corpo e do erro, e o entendimento visto como razão "pura" e fonte de verdades absolutas.
     Não é muito diferente, sob o ponto de vista indicado, o caso das paixões, também chamadas "afectos" ou "afecções" (os "afeitos" da língua de Camões). Nesta área, há um princípio da natureza humana inequivocamente inato, que é a tendência para procurar obter prazer e evitar a dor, cuja centralidade já fora apontada desde a antiguidade, e na época moderna por filósofos como Hobbes. Este "princípio de prazer" - assim chamado apenas por Freud, muito mais tarde e com outras acepções - gera as paixões de modo mediato, pois estas são, nos termos do filósofo, "impressões de reflexão", ou seja, fenômenos mentais que, se são sentidos e não pensados, e por isso se chamam impressões, por outro lado não derivam diretamente do princípio de prazer, porque se geram a partir de um certo jogo de ideias, e por isso se chamam "de reflexão". Para tomar um caso mais simples, o de uma paixão chamada "direta" como o desejo - há paixões indiretas, como por exemplo o orgulho, de gênese mais complexa - temos na base a tendência para preferir o que produz prazer, mas essa paixão só se forma no espírito a partir de uma reflexão sobre um objeto dotado de determinadas qualidades e a sua relação com o sujeito da ação, que o constrói como digno.. . objeto de desejo. O mesmo ocorre com os outros afetos, que são para Hume os verdadeiros motores da ação. A razão apenas busca meios para atingir os fins ditados pelas paixões - por isso a famosa metáfora do Tratado a considera uma "escrava das paixões».
     A teoria da moral desenvolvida no Livro III apoia-se em duas teses fundamentais: a primeira diz-nos ser a vida em sociedade o que torna possível, e além disso indispensável, a existência de um sistema de regras morais; a segunda diz-nos que essas regras podem ser obedecidas e respeitadas graças a uma característica da natureza humana por Hume chamada "simpatia". Trata-se daquela identificação com o outro que nos faz participar das suas dores e alegrias, e hoje seria talvez melhor chamada "empatia". Vinte anos depois, Rousseau desenvolveria o seu conceito de "piedade", que é como que apenas o lado negativo dessa tendência, como capacidade de participar das dores dos outros. De qualquer modo, a simpatia humeana tem em comum com o entendimento o fato de, não deixando tal como ele de ser um mecanismo fundamental na vida humana, também tal como ele não ser propriamente inata, mas derivada de princípios da natureza humana que, esses sim, só podem ser considerados inatos.
     O primeiro dos princípios inatos da associação de ideias, o de associação por semelhança, gera na imaginação de cada um de nós uma certa facilidade de transição entre a ideia do eu e a ideia do outro - apropriadamente chamado nosso semelhante - uma transição espontânea que leva às vezes a sentirmos como nossa a satisfação, ou a dor, que nos é transmitida pela expressão do outro. Ora uma vez estabelecidas regras de justiça como o direito de propriedade, quando alguém é vítima de roubo ou espoliação a sua dor como que se reflete em nós, sentimo-la quase como se fosse nossa, e a obrigação social de respeitar a propriedade adquire uma nova dimensão, mais além ainda do interesse da sociedade, e é interiorizada como regra, sendo tal obrigação "moral" em dois sentidos: no sentido ético hoje ainda comum, e também no sentido hoje mais raro de regra "psicologicamente efetiva", num sentido próximo àquele em que se fala de "certeza moral", em sentido não ético.
     Estranha teoria esta, onde alguns princípios da natureza humana derivam a sua força do papel que desempenham na sobrevivência do homem enquanto indivíduo - a associação permite formar ideias complexas a partir das simples, e só com estas seríamos incapazes de pensar o mundo e de nele sobreviver; o hábito leva à crença causal e à formação do entendimento, como um instinto que nos põe em harmonia com a natureza e sem o qual cada indivíduo também não sobreviveria; o princípio de prazer, fonte da paixão e condição de toda e qualquer ação, é essencial, como diz Hume nos Diálogos sobre a Religião Natural (Parte XI) para "o grande trabalho da autopreservação ". Mas os mecanismos associativos da simpatia estão ao serviço da sobrevivência da espécie humana de modo mais indireto e subtil.
     A fantasia em si mesma é o lado fraco e irregular da imaginação, o lado oposto ao do poderoso e indispensável entendimento - fora da vida social, ela é praticamente inútil, e até fonte de superstições e outros erros. Mas é a partir dela que a associação por semelhança gera a simpatia, sem a qual seria impossível a obediência espontânea às regras morais. Sem as regras morais, por sua vez, as sociedades em que se organiza a vida dos homens seriam dilaceradas pelo conflito, não numa "guerra de todos contra todos" hobbesiana, mas em lutas intestinas que de qualquer modo a destruiriam. Ora uma das mais centrais teses de Hume diz-nos que sem a sociedade a espécie humana seria incapaz de sobreviver, por várias razões, como a sua relativa fraqueza física ou a longa e indefesa infância por onde começa a vida de cada ser humano. O círculo argumentativo fecha-se: a fantasia acaba por se tornar também um princípio da natureza humana indispensável à sobrevivência individual, através da mediação da simpatia, da moral e da preservação da sociedade. O que é talvez um dos aspectos mais originais desde Tratado que revolucionou a filosofia do século XVIII. E dos séculos seguintes também.
     Embora os três grandes Livros em que a obra se divide sejam, cada um deles, dominados pelos temas indicados nos seus títulos - entendimento, paixões, moral - algumas das Partes e Seções em que se dividem esses livros possuem, ou um carácter mais geral e amplo, ou um carácter mais restrito e especial, em ambos os casos transbordando dos limites desses temas. No Livro I, é mais a Terceira Parte que é dedicada ao tema do entendimento humano, sendo às outras distribuídos papéis diferentes. A Primeira Parte possui um carácter introdutório à filosofia desenvolvida no Tratado, embora seja precedida de uma Introdução ao projeto geral humeano. A tese da primeira Seção, a célebre divisão dos conteúdos da mente humana, que Hume chama "percepções" e não mais "ideias", como Descartes, Locke ou Berkeley, em dois grandes tipos - as impressões por um lado, e por outro as ideias em sentido humeano, como cópias das impressões, tem esse cunho introdutório, pois esta distinção vai perpassar a obra inteira e determinar a maior parte dos seus argumentos. Já vimos um exemplo a propósito das impressões de reflexão, mas o ponto mais básico desde o início da obra é o papel de alicerce atribuído às impressões de sensação, diretamente derivadas da experiência do mundo exterior.
     De maneira semelhante, nessa mesma Parte I a Seção sobre a associação de ideias também tem depois numerosas e variadas aplicações, quer na Parte III, a propósito da crença causal, quer na Parte IV, a propósito do problema da identidade pessoal; e ao longo dos outros dois livros são numerosas as teorias e explicações, acerca dos mais variados aspectos da ação humana, da vida social e política e das regras morais, que encontram na teoria humeana da associação a sua principal base filosófica.
     A Parte II do Livro I é mais especializada, concentrando-se nos modos como as ideias de espaço e tempo se formam a partir dos princípios da natureza humana. E a Parte IV e última começa com os problemas do cepticismo, da legitimidade da dúvida, da incerteza fundamental do saber humano, passando depois à comparação crítica entre a filosofia antiga e a filosofia moderna e à discussão de tópicos especiais como a imaterialidade da alma e a já mencionada identidade pessoal. Certamente o mais polêmico dos setores da obra, esta quarta parte foi ocasião de ferozes ataques dos adversários conservadores de Hume, e de várias acusações de cepticismo e ateísmo - não esqueçamos que o bispo Berkeley havia dedicado os seus Três Diálogos ao combate contra estas duas "seitas" - ataques esses que vimos como o prejudicaram na sua vida profissional, mas não o conseguiram diminuir como filósofo, aos olhos de sucessores como Kant e Schopenhauer.
     Tanto mais que o próprio autor teve o cuidado, numa nota apensa à última edição dos seus Ensaios e Tratados, publicada em 1777, ano seguinte ao da sua morte, de chamar a atenção para algumas "negligências" de raciocínio e expressão nessa sua obra juvenil, que sempre recusou republicar. Quais foram essas negligências o autor não disse, mas uma delas teve consequências para a sua interpretação nos mais de dois séculos que se seguiram. O leitor atento poderá notar que na já referida seção sobre a associação o próprio conceito de associação de ideias difere consideravelmente daquele lançado por Locke meio século antes, que era o conceito de uma forma de conexão entre certas ideias inteiramente devida "ao acaso ou ao costume" (Ensaio sobre o Entendimento Humano, II, XXIII, 5), conexão essa que geralmente levava ao erro e à ilusão. Um conceito de associação depois retomado por Francis Hutcheson e Peter Gay, na explicação do fenômeno da moralidade.
     O conceito humeano de associação é muito diferente, na medida em que, quando por exemplo uma ideia é associada a outra por semelhança, a conexão nada deve ao hábito, e muito menos ao acaso. No capítulo seguinte do Tratado (I, i, 5),fica claro, primeiro, que não há no mundo duas coisas que não tenham algum grau de semelhança entre si, caso contrário seria impossível compará-las; e segundo, que quando a semelhança entre dois objetos é uma qualidade muito geral não somos levados a associar um ao outro. Só quando há um grau de semelhança suficientemente alto tendemos a pensar num depois de pensar no outro, devido ao primeiro princípio de associação. Mas este processo associativo nada tem a ver com o costume, pois simplesmente constatamos essa relação entre dois objetos, sem necessidade de qualquer experiência repetida. O que temos nesta seção da obra humeana é a construção de um novo conceito de associação de ideias, radicalmente distinto do anterior.
     É certo que a propósito do segundo princípio de associação, a contiguidade, Hume remete para o hábito: "sendo os sentidos, ao mudarem de objetos, obrigados a mudarem-nos regularmente, tomando-os tal como se encontram contíguos uns aos outros, deve a imaginação, devido ao longo costume, adquirir o mesmo método de pensar, percorrendo as partes do espaço e do tempo ao conceber os seus objetos". É certo também que a terceira forma de associação se estabelece entre uma causa e o seu efeito, e reciprocamente, e a teoria humeana vai depois explicar a relação causal a partir da ação do hábito sobre a imaginação. Mas o caso da contiguidade nada mais tem em comum com a associação habitual lockeana, pois aqui não se trata de juízos ou opiniões, mas da mera capacidade que, por exemplo, uma ideia como a de "praia" tem para evocar uma ideia como a de "mar", simplesmente porque se trata de objetos contíguos, isto é, comummente encontrados juntos. Por último, no caso da causação humeana a associação só pode ocorrer depois de estabelecida a crença causal - só podemos associar, por exemplo, ferida e dor depois de estarmos convencidos de que uma é causa da outra - enquanto que na associação lockeana a ação do costume ocorre antes do surgimento de qualquer crença. O conceito humeano de associação de ideias é portanto muito diferente daquele que Hume podia ter encontrado nos seus antecessores.
     Embora o filósofo nunca tenha identificado as "negligências" do seu Tratado, talvez se possa considerar como uma delas o fato de, após voltar ao seu tema da associação de ideias na Parte III (Seção 6), introduzir o tema do costume ou hábito confirmando "reconhecer que ele é um verdadeiro princípio de associação entre ideias", numa aparente homenagem à tradição lockeana no trato com essa noção, mas sem notar (ou pelo menos sem anotar) que com isso efetua um recuo para um conceito de associação que não é o seu - um conceito lockeano que aliás abandona totalmente na reformulação da sua teoria do conhecimento que apresentou nove anos depois, na Investigação sobre o Entendimento Humano. Esse recuo contribuiu para o surgimento de uma lenda interpretativa acerca da origem do raciocínio causal na associação, segundo a filosofia de Hume - quando esse raciocínio é atribuído apenas ao costume ou hábito. Uma lenda da qual Hume talvez seja em parte responsável, ao apresentar o costume como uma quarta forma de associação, quando nas suas obras, no Tratado como na primeira Investigação, sempre insiste que os princípios associativos são apenas três. Outros exemplos poderiam ser procurados, mas neste breve prefácio devemo-nos limitar apenas a este.
     Essa versão resumida e definitiva da teoria humeana do conhecimento que é a Investigação dissipa algumas dúvidas naturais no leitor da primeira obra - além do estatuto preciso da associação de ideias, eliminado que fica qualquer vestígio do conceito lockeano, também é esclarecido o carácter do "cepticismo mitigado" do autor (agora solidamente ligado a uma teoria da racionalidade cognitiva), ao mesmo tempo que são abandonados os temas poléêmicos da identidade pessoal e da imaterialidade da alma. Mas aquele monumental Tratado de juventude conserva para a grande maioria dos leitores, pelo menos desde os finais do século XIX (depois de um período de relativo eclipse) o intenso fascínio de um desafio intelectual inaudito, que tudo põe em questão e tudo quer renovar.
     Esse fascínio talvez tenha até consequências exageradas na maioria dos especialistas em Hume, que tendem a ignorar as declarações explícitas do autor - reconhecendo como sua filosofia definitiva apenas a da maturidade, na obra já citada e também na Investigação sobre os Princípios da Moral (que reformula o Livro III do Tratado) e na Dissertação sobre as Paixões (que reformula o livro II) - encarando o Tratado no mesmo plano que as suas revisões assumidas e definitivas, em vez de partirem daquelas três obras da maturidade como o corpus humeano principal, recorrendo à obra de juventude mais a título complementar. A genialidade desta obra, apesar dos seus reconhecidos defeitos, foi e continua a ser tão impressionante para os leitores que a compreendem que se chega às vezes até a conceder-lhe a primazia na análise da filosofia humeana.
     Será esta uma glória imerecida? Sim e não, segundo penso. Sim, pelas razões apontadas: as obras da maturidade não apenas são as únicas assumidas pelo autor, como além disso foram por ele revistas em oito edições sucessivas, ao longo de mais de vinte anos, e sobretudo o seu exame cuidadoso pode revelar a eliminação das apressadas inconsistências da juventude do filósofo, entre as quais as acima indicadas. A estas se devem talvez alguns mitos persistentes na interpretação de Hume, como a redução da sua filosofia a um mero cepticismo, ou a um puro psicologismo, ou à negação de toda e qualquer racionalidade do conhecimento causal ou da esfera da moralidade. Mas creio que também devemos responder que não, porque apesar de tudo esta obra juvenil é mais completa do que o conjunto das três obras que a substituíram.
     Para o investigador interessado, por exemplo, na filosofia humeana do espaço e do tempo, é insuficiente a consideração apenas das cinco páginas dedicadas ao tema na Investigação sobre o Entendimento (XII, ii), sendo indispensável percorrer também as quarenta páginas da já referida Parte II do Livro I do Tratado, para uma compreensão aprofundada da teoria de Hume acerca dessas questões. Para mencionar apenas mais um exemplo, as cerca de cinquenta páginas da Dissertação sobre as Paixões mal chegam para resumir, como pretendem, as quase duzentas que compõem o Livro II do Tratado. Além dos temas totalmente retirados, que apesar das suas possíveis inconsistências poderiam ter sido revistos em vez de simplesmente eliminados.
     Tudo indica que Hume, ao desistir de tentar novas edições da obra de juventude, foi fortemente motivado pela aqui já referida decepção sentida perante a quase completa incompreensão com a qual o público filosófico da época a recebeu. A sua correspondência dá amplo testemunho desse duro período da vida do filósofo. O público britânico simplesmente não estava preparado para obras com a profundidade filosófica e a amplitude argumentativa do Tratado da Natureza Humana. Não apenas por desilusão com o seu auditório, mas também por estratégia intelectual, Hume passou desde logo, a partir de 1741, à intensa publicação de ensaios, sobre temas políticos, morais, literários e até puramente filosóficos, cujo tom mais leve e acessível não impedem que os seus mais de quarenta Ensaios se tenham tornado outro dos grandes monumentos que compõem a sua obra, ao lado do Tratado e da hoje relativamente ignorada História da Inglaterra. A redação das duas Investigações e da Dissertação corresponde ao esforço do filósofo, claramente explicitado na Secção I da primeira destas obras, de aliar as qualidades do ensaismo menos complexo às da especulação metafísica mais profunda.
     É tradicional qualificar a filosofia humeana, a do Tratado e a das outras obras, como um "empirismo" - termo que o autor jamais usou. Em sentido estrito essa tradição justifica-se, apenas na medida em que o termo designe a tese da raiz experimental do conhecimento, da incapacidade da razão para por si mesma gerar saber acerca do mundo - na linha de Bacon, Hutcheson, Locke e Berkeley. Mas em outros sentidos mais ambiciosos é simplesmente um erro qualificar sumariamente como empirista a filosofia de Hume.
     Em primeiro lugar devido ao já apontado inatismo dessa filosofia, para a qual não são derivados da experiência vários dos princípios fundamentais da natureza humana: o hábito ou costume entendido como instinto, a tendência para a associação de ideias, a capacidade para "copiar" as impressões sob a forma de ideias, ou o poder demonstrativo da razão nas ciências matemáticas (onde apenas as ideias, não os raciocínios, têm origem empírica), para ficarmos apenas no plano cognitivo - tudo isto são elementos de uma ampla teoria dos princípios a priori que determinam o conhecimento humano. São princípios a priori, no sentido preciso de serem inatos e anteriores a qualquer experiência, que Hume entende em sentido naturalista, ou seja, com a natureza humana concebida como parte da Natureza em geral, a cuja "sabedoria" Hume atribui alguns daqueles princípios.
     Em segundo lugar, porque essa teoria naturalista dos princípios da natureza da nossa espécie não se constrói nem pretende se construir diretamente a partir da observação do comportamento humano, através de uma metodologia meramente empírica. A teoria elabora teorias e hipóteses, às vezes explicitamente assumidas como tais, solidamente ancoradas na observação e na experiência, mas que postulam os princípios inatos humeanos sem pretender, nem poder fazê-lo, que todos eles sejam "dados" na experiência, ou que foi por generalização indutiva que eles puderam ser descobertos. A complexidade dessa construção conjectural na filosofia de Hume às vezes obscurece esse ponto, mas a leitura atenta da sua obra revela ao leitor prevenido a riqueza de um pensamento que é também uma crítica do empirismo, além de, sem dúvida, ser também uma poderosa crítica do racionalismo de cepa cartesiana. É nesta medida que esta filosofia, longe de se limitar a fechar um ciclo, como quer o mito do Hume que teria "levado o empirismo às últimas consequências", muito pelo contrário se caracteriza como uma abertura para o futuro - influenciando de diversas maneiras toda a tradição da filosofia de língua inglesa, e parte importante de outras também, até aos nossos dias. Ler e entender a fundo este Tratado da Natureza Humana é o primeiro e indispensável passo para compreender devidamente essa abertura e essa influência. 
 João Paulo Monteiro

continua na página 25...
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Prefácio

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Mas o doutor gostava tanto de contradizer como de troçar)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Mas o doutor gostava tanto de contradizer como de troçar e, principalmente não admitia que um profano lhe fosse falar de medicina. 

- Ninguém imagina que não dorme - decretou em tom dogmático. 
- Ah, - respondeu o marquês, inclinando-se respeitosamente como o teria feito Cottard outrora. 
- Bem se vê - prosseguiu Cottard que o senhor não administrou, como eu, até dois gramas de trional sem chegar a provocar sonolência. 
- É verdade, é verdade - respondeu o marquês, rindo com ar de presumido - nunca tomei trional, nem nenhuma dessas drogas que logo não fazem mais efeito, mas desarranjam o estômago. Quando se caça a noite inteira, como eu na floresta de Chantepie, asseguro-lhe que não é necessário trional para poder dormir. 
- São os ignorantes que dizem isso - respondeu o professor. - O trional recupera às vezes de modo notável o tônus nervoso. O senhor fala do trional, mas sabe ao menos o que é? 
- Mas...Já ouvi dizer que é um medicamento para dormir. 
- O senhor não respondeu à minha pergunta - replicou doutoralmente o professor, que, três vezes por semana, estava "de exame" na Faculdade. - Não lhe pergunto se faz ou não dormir, mas de que se trata. Pode me dizer o que contém em partes de amila e etila? 
- Não - respondeu o Sr. de Cambremer, embaraçado. 
- Prefiro um bom cálice de aguardente fina ou até vinho do Porto 345. 
- Que são dez vezes mais tóxicos - interrompeu o professor. 
- Quanto ao trional - animou-se o Sr. de Cambremer -, minha mulher usa todas essas coisas; seria melhor que o senhor falasse com ela. 
- Que deve saber mais ou menos tanto quanto o senhor. Em todo caso, se a sua mulher toma trional para dormir, o senhor está vendo que a minha não precisa disso. - Vamos, Léontine, mexe-te, vais ficar anquilosada; por acaso eu durmo depois do jantar? Que vai ser de ti aos sessenta, se hoje dormes como uma velha? Vais engordar, paralisas a circulação... Ela nem sequer me ouve mais. - Fazem mal à saúde esses cochilos após o jantar, não é, doutor? - disse o Sr. de Cambremer para reabilitar-se junto a Cottard. - Depois de comer bastante, seria preciso fazer exercício. 
- Histórias! -respondeu o doutor. - Examinou-se igual quantidade de alimento do estômago de um cão que permanecera em repouso, e no estômago de um cão que havia corrido, e ficou no primeiro que a digestão estava mais adiantada. 
- Então é o sono que interrompe a digestão? 
- Isto depende se se trata de uma digestão esofágica, estomacal ou intestinal; é inútil lhe dar explicações que o senhor não compreenderia, visto que não fez estudos de medicina. Vamos, Léontine, de pé! Está na hora de partir. -

     Não era verdade, pois o doutor apenas ia continuar seu jogo de cartas, mas assim ele esperava contrariar, da maneira mais brusca, o sono da mulher a quem dirigia as mais sábias exortações, sem obter resposta. Ou porque uma vontade de dormir persistia na Sra. Cottard, mesmo em estado de sono, ou porque a poltrona não desse apoio à sua cabeça, esta última foi lançada mecanicamente da esquerda para a direita, e de baixo para cima, no vácuo, como um objeto inerte, e a Sra. Cottard, de cabeça oscilante, ora tinha o ar de quem ouvia música, ora parecia entrar na última fase da agonia. Lá onde fracassavam as admoestações cada vez mais veementes do marido, o sentimento da própria idiotice venceu: 

- O banho está bom de temperatura - murmurou ela -, mas as plumas do dicionário... - exclamou, endireitando-se. - Oh, meu Deus, como sou tola! Que estou dizendo? Estava pensando no meu chapéu, devo ter dito alguma asneira, um pouco mais e eu ia adormecer; é esse maldito fogo. -

     Todo mundo se pôs a rir, pois não havia nenhum fogo aceso. 

- Estão zombando de mim - disse a Sra. Cottard, rindo ela própria. Mão na testa, ela apagou, com a leveza do magnetizador e uma habilidade de mulher que arruma o penteado, os últimos vestígios do sono; desejo apresentar minhas humildes escusas à querida Sra. Verdurin e dela saber a verdade. -

     Mas seu sorriso tornou-se logo triste, pois o professor, sabendo que a mulher buscava agradá-lo e temia não o conseguir, acabava de gritar-lhe: 

- Olha-te no espelho, estás vermelha como se tivesses uma erupção de acne, pareces uma velha camponesa. 
- Sabem, ele é encantador - disse a Sra. Verdurin; - tem um bonito lado de bonomia, malícia. E depois, trouxe meu marido das portas do túmulo quando toda a Faculdade já o dava por perdido. Passou três noites junto dele, sem ir deitar-se. Assim, Cottard, para mim, já sabem acrescentou num tom grave e quase ameaçador, erguendo a mão para as duas esferas de mechas brancas suas têmporas musicais, e como se quiséssemos tocar no doutor: - é agrado! Poderia pedir tudo o que quisesse. Aliás, não o chamo de doutor Cottard, chamo-o de doutor Deus! E, mesmo dizendo isto, calunio-o, por este Deus repara, na medida do possível, uma parte das desgraças o outro é responsável. 
- Jogue trunfo - disse a Morel o Sr. de Charlus com ar feliz. 
- Trunfo, para ver - disse o violinista. 
- Seria preciso anunciar primeiro o rei - volveu o Sr. de Charlus -, o senhor está distraído, mas como joga bem! 
- Tenho o rei - disse Morel. 
- É um belo homem - respondeu o professor. 
- Que negócio é este com essas estacas? - indagou a Sra. Verdurin, mostrando ao Sr. de Cambremer um soberbo escudo esculpido acima da lareira. 
- São suas armas? - acrescentou com desdém irônico. 
- Não, não são as nossas - respondeu o Sr. de Cambremer. - Nós usamos escudo de ouro com três faixas ameadas contra-ameadas de goles, com cinco peças, cada uma carregada de um relevo de ouro. Não, essas aí pertencem aos d'Arrachepel, que não eram da nossa linhagem, mas de quem herdamos a casa; e nunca os de nossa linhagem quiseram mudar aqui fosse o que fosse. Os Arrachepel (antigamente Pervilain, dizem) usavam escudo de ouro com cinco estacas pontiagudas de goles. Quando se aliaram aos Féterne, o seu escudo mudou, porém permaneceu, cantonada de vinte cruzetas recruzetadas, a estaca diminuída; fincada, de ouro, acompanhada à destra de um voo de arminho. - Pegue essa - disse baixinho a Sra. de Cambremer. - Minha bisavó era um d'Arrachepel, ou de Rachepel se preferir, pois os dois nomes são encontrados nas velhas cartas - continuou o Sr. de Cambremer, que enrubescia vivamente, pois só então lhe ocorrera a idéia de que sua mulher lhe tinha horror e receou que a Sra. Verdurin aplicasse a si mesma palavras que de modo algum a visavam. - A História pretende que, no século XI, o primeiro Arrachepel, Macé, dito Pelvilain, tenha demonstrado especial habilidade nos cercos para arrancar estacas. De onde o cognome de Arrachepel, com o qual foi nobilitado, e os bastiões que a gente vê persistir em suas armas através dos séculos. Trata-se dos bastiões que, para tornar mais inabordáveis as fortificações, plantavam, fincavam em terra permita-me a expressão diante delas, e que eram ligados entre si. São os que a senhora muito chamava de estacas e que não tinham nada dos bastões flutuantes do La Fontaine. Pois tinham fama de tornar uma praça inexpugnável. Evidentemente, com a artilharia moderna isto faz sorrir. Mas é preciso lembrar que se trata do século XI. 
[Alusão à fábula "Os camelos e os bastões flutuantes”-N.doT.] 
- Falta-lhe atualidade - disse a Sra. Verdurin. - 
- Mas a pequena campânula tem caráter. A senhora tem - disse Cottard uma veia de... turlututu [palavra que seguidamente empregava para evitar o termo de Moliere.] 
[A Palavra de Moliére é cocu ("cornudo"). Turtututu, como interjeição, significa "caluda!", indicando suspensão do que se diria. (N. do T)] 
- Sabem por que foi reformado o rei de ouros?- perguntou Cottard. 
- Bem que eu desejaria estar em seu posto - disse Morel, a quem entediava o serviço militar. 
- Ah! O mau patriota - exclamou o Sr. de Charlus, que não pôde conter-se de beliscar a orelha do violinista. 
- Não, não sabem por que o rei de ouros foi reformado? - repetiu Cottard, que insistia em seus gracejos. - É porque só tem um olho. 
- O senhor tem um parceiro forte, doutor - disse o Sr. de Cambremer, para mostrar a Cottard que sabia quem ele era. 
- Este rapaz é espantoso - interrompeu ingenuamente o Sr. de Charlus, assinalando Morel. - Joga como um deus. -

     Esta reflexão não agradou muito ao doutor, que respondeu: 

- Quem viver verá. Para espertalhão, espertalhão e meio. 
- A dama, o ás - anunciou triunfalmente Morel, a quem a sorte favorecia.   

     O doutor curvou a cabeça como não pudesse negar essa boa sorte e confessou, fascinado: 

- É belo. 
- Ficamos muito contentes em jantar com o Sr. de Charlus - disse a Sra. de Cambremer à Sra. Verdurin. 
- Não o conheciam? É extremamente agradável, é especial, é de uma época (teria ficado muito embaraçado para dizer qual) - respondeu a Sra. Verdurin com o sorriso satisfeito de uma diletante, de um juiz e de uma dona-de-casa.

     A Sra. de Cambremer perguntou-me se eu iria a Féterne com Saint-Loup. Não pude deixar de soltar um grito de admiração ao ver a lua suspensa, como um lampião alaranjado, à abóbada dos carvalhos que partia do castelo. 

- Isso ainda não é nada; daqui a pouco, quando a lua estiver mais alta e o vale ficar iluminado, será mil vezes mais lindo. Eis o que não têm em Féterne! - disse a Sra. Verdurin em tom desdenhoso à Sra. de Cambremer, a qual não sabia o que responder, não querendo depreciar a sua propriedade, sobretudo diante dos locatários. 
- A senhora ainda fica por algum tempo na região? - Perguntou o Sr. de Cambremer à Sra. Cottard, o que podia passar por uma vaga intenção de convidá-la e que dispensava por ora encontros mais precisos. 
- Oh, certamente, senhor, faço muita questão desse êxodo anual por causa das crianças. Digam o que disserem, elas têm necessidade de ar livre. Talvez eu seja muito primitiva nisso, mas creio que curativo algum vale mais, para as crianças, que o ar livre, ainda que me provem o contrário por A mais B. Seus rostinhos já estão mudados. A Faculdade queria mandar-me para Vichy; mas lá é sufocante demais e eu cuidarei do meu estômago quando os rapazes já estiverem bem grandes. E depois, o professor, com os exames, tem sempre muito trabalho, e os calores o cansam muito. Acho que uma pessoa tem necessidade de repouso total quando esteve o ano inteiro muito atarefada. De qualquer maneira, ficaremos ainda um bom mês. 
-Ah, então nos veremos de novo. 
- Aliás, eu tanto mais sou obrigada a ficar porque meu marido deve ir dar uma volta pela Savóia, e só dentro de uma quinzena é que vai fixar-se aqui. Prefiro o lado do vale ao do mar prosseguiu a Sra. Verdurin. 
- Vão ter um tempo esplêndido na volta. - Era preciso mesmo ver se os carros estão prontos, para o caso que o senhor faça absolutamente questão de regressar esta noite a Balbec disse-me o Sr. Verdurin -, pois não vejo necessidade disso. Nós o mandaríamos levar de carro amanhã de manhã. Certamente vai fazer um dia lindo. As estradas estão admiráveis. -

     Eu disse que era impossível. 

- Mas, em todo caso, ainda não é hora - objetou a Patroa. - Deixe-os sossegados, têm tempo de sobra. Nada adiantará chegar uma hora antes na estação. Estão melhor aqui. E você, meu pequeno Mozart - disse ela a Morel, não ousando dirigir-se diretamente a Charlus - não quer ficar? Temos belos quartos que dão para o mar. 
- Mas ele não pode - respondeu o Sr. de Charlus pelo jogador que, absorvido, não ouvira. - Só tem licença até meia-noite. Precisa voltar para dormir, como um menino muito obediente e bem comportado - acrescentou em tom complacente, amaneirado, insistente, feito sentisse uma sádica volúpia em empregar essa casta comparação e igualmente em apoiar de passagem a sua voz sobre o que se referisse a Morel, em tocá-lo, na falta de mão, com palavras que pareciam apalpá-lo.

     Pelo sermão que me dirigira Brichot, o Sr. de Cambremer concluíra que eu era dreyfusista. Como fosse tão antidreyfusista quanto possível, por cortesia para com um inimigo, pôs-se a fazer o elogio de um coronel judeu que sempre fora muito correto com um primo dos Chevreny e lhe conseguira a promoção que ele merecia. 

- E meu primo tinha ideias absolutamente contrárias - disse o Sr. de Cambremer, deixando no vago o que seriam essas ideias, mas que eu senti serem tão antigas e malformadas como o seu rosto, ideias que algumas famílias de certas cidadezinhas deveriam ter há muito tempo. - Pois bem, o senhor sabe, acho isso muito bonito. - concluiu o Sr. de Cambremer.

     É verdade que ele não empregava "bonito" no sentido estético em que designaria para sua mãe ou sua mulher, obras diversas, mas obras de arte. O Sr. de Cambremer servia-se antes desse qualificativo para felicitar, por exemplo, uma pessoa de saúde frágil que houvesse engordado um pouco. 

- Como, recuperou três quilos em dois meses? Fique sabendo que isto é bonito! -

     Estavam servidos refrescos numa mesa. A Sra. Verdurin convidou os senhores para irem escolher pessoalmente a bebida que lhes agradasse. O Sr. de Charlus foi beber o seu copo e voltou rapidamente a sentar-se perto da mesa de jogo e não se moveu mais dali. A Sra. Verdurin lhe perguntou: 

- Não provou da minha laranjada? -
  
     Então o Sr. de Charlus, com um gracioso sorriso, num tom cristalino que raramente ostentava e com mil trejeitos da boca e requebros do talhe, respondeu: 

- Não, preferi o seu vizinho, o refresco de morango, acho, é delicioso. -

     É singular que uma certa ordem de atos secretos tenha como consequência exterior uma forma de falar ou de gesticular que os revela. Se uma pessoa crê ou não na Imaculada Conceição ou na inocência de Dreyfus, ou na pluralidade dos mundos, e deseja calar-se a respeito, não se achará na sua voz, nem no seu modo de andar, coisa alguma que permita entrever seu pensamento. Mas, ao ouvir o Sr. de Charlus dizer com aquela voz aguda e com esse sorriso e esses gestos: 

- Não, preferi o seu vizinho, o refresco de morango -, a gente podia dizer: - Vejam, ele ama o sexo forte com certeza igual à que permite a um juiz condenar um criminoso que não confessou, e um médico a um paralítico geral que talvez não conheça a sua enfermidade, mas que comete tais erros de pronúncia que deles se pode deduzir que morrerá dentro de três anos. Talvez as pessoas que concluam da maneira de dizer: - Não, preferi o seu vizinho, o refresco de morango por um amor chamado antifísico, não precisem de tanta ciência. Mas dá-se que aqui existe uma relação mais direta entre o signo revelador e o segredo. Sem dizê-lo precisamente, sente-se que é uma doce e risonha dama que nos responde e que parece amaneirada porque se faz passar por um homem, e que a gente não está acostumada a ver os homens fazerem tantos trejeitos. E talvez seja mais gracioso pensar que, há muito tempo, um certo número de mulheres angélicas foram arroladas por engano no sexo masculino, onde, exiladas, enquanto batem as asas em vão para os homens, a quem inspiram uma repulsa física, sabem arrumar um salão, compõem "interiores". O Sr. de Charlus não se importava que a Sra. Verdurin ficasse de pé, e permanecia instalado em sua poltrona para estar mais perto de Morel. 
- Não acha um crime - disse a Sra. Verdurin ao barão - que este aí, que poderia encantar nos com seu violino, esteja numa mesa de écarté? Quando se toca violino como ele! 
- Ele joga cartas muito bem, faz tudo muito bem, é extremamente inteligente - disse o Sr. de Charlus, enquanto olhava o jogo, a fim de dar conselhos a Morel. Esta, aliás, não era a única razão para que ele não se levantasse da poltrona diante da Sra. Verdurin. Com o singular amálgama que fizera de suas concepções sociais, a um tempo de grão-senhor e de apreciador de arte, em vez de ser polido, da mesma forma como o seria um homem do seu meio, fazia para si próprio, segundo Saint-Simon, como que quadros vivos; e, naquele momento divertia-se em figurar o marechal d'Huxelles, o qual o interessava ainda sob outros aspectos e de quem se dizia que era presunçoso a ponto de não se, erguer de sua cadeira, com um ar de preguiça, diante do que havia de mais distinto na Corte. 
- Diga então, - ao Charlus falou a Sra. Verdurin, que principiava a tomar familiaridades -, não teria o senhor em seu bairro algum velho nobre arruinado que pudesse me servir de porteiro? 
- Como não?... Como não?... - respondeu o Sr. de Charlus, sorrindo com ar de bons- cheirice. - Mas não lhe aconselho. 
- Por quê? 
- Recearia pela senhora; que os convidados elegantes não passassem além da portaria. - Foi a primeira escaramuça entre eles. A Sra. Verdurin mal lhe deu atenção. Infelizmente deveria haver outras em Paris. O Sr. de Charlus continuou sem abandonar sua poltrona. Aliás, não podia deixar de sorrir imperceptivelmente ao ver o quanto a submissão, tão facilmente obtida, da Sra. Verdurin confirmava suas máximas favoritas acerca do prestígio da aristocracia e da covardia dos burgueses. A Patroa não parecia de modo algum espantada pela postura do barão e, se o deixou, foi apenas porque se inquietara de me ver importunar do pelo Sr. de Cambremer. Mas antes disso, queria esclarecer as relações do Sr. de Charlus com a condessa Molé. 
- O senhor me disse que conhecia a Sra. Molé. Costuma ir à casa dela? - indagou, conferindo às palavras "ir à casa dela" o sentido de ser recebido em sua casa, de ter recebido autorização de ir visitá-la.

     O Sr. de Charlus respondeu com um acento de desdém, uma afetação de precisão e um tom de salmodia: 

- Ora, às vezes. -

     Este "às vezes" provocou dúvidas na Sra. Verdurin, que perguntou: 

- Não tem encontrado lá o duque de Guermantes? 
- Ah, não me lembro. 
- Ah - disse a Sra. Verdurin -, o senhor não conhece o duque de Guermantes? 
- Mas como não haveria de conhecê-lo? - respondeu o Sr. de Charlus, a quem um sorriso fez ondular a boca. O sorriso era irônico; mas, como o barão temia deixar ver um dente de ouro, quebrou o sorriso com um refluxo dos lábios, de modo que a sinuosidade dali resultante foi a de um sorriso de benevolência: 
- Por que o senhor diz: "Como não haveria de conhecê-lo?" 
- É que ele é meu irmão - disse negligentemente o Sr. de Charlus, deixando a Sra. Verdurin imersa na estupefação e na incerteza de saber se o seu convidado zombava dela, se era um filho natural ou filho de outro leito. A idéia de que o irmão do duque de Guermantes se chamasse barão de Charlus não lhe ocorreu ao espírito. Dirigiu-se a mim: 
- Agora há pouco ouvi que o Sr. de Cambremer o convidava para jantar. O senhor compreende, para mim tanto faz. Porém, no seu interesse, espero que o senhor não vá. Em primeiro lugar, aquilo está infestado de gente aborrecida. Ah! Se o senhor gosta de jantar com condes e marqueses provincianos que ninguém conhece, estará bem servido. 
- Creio que serei obrigado a comparecer uma ou duas vezes. Aliás, não estou muito livre, pois tenho uma jovem prima que não posso deixar sozinha (achava que essa pretensa parenta simplificaria as coisas para que eu saísse com Albertine). Mas, quanto aos Cambremer, como já a apresentei a eles... 
- Faça o que quiser. O que posso lhe dizer é que é excessivamente malsão; quando apanhar um catarro, ou esses reumatismos de família, vai ficar bem arranjado. 
- Mas o local não é bem bonito? 
- Mmm... sim, se quiserem. Quanto a mim, confesso francamente que prefiro cem vezes a vista daqui para este vale. Primeiro, ainda que nos pagassem, eu não teria ficado com outra casa, porque o ar marinho é fatal ao Sr. Verdurin. Por pouco que a sua prima seja nervosa... Mas de resto o senhor é nervoso, creio... tem sufocações. Pois bem! O senhor verá. Vá por uma vez, que não dormirá durante oito dias. Mas isto não é da nossa conta. - E sem pensar no que sua nova frase ia ter de contraditório com as anteriores: - Se lhe diverte ver a casa que não é má, bonita seria demais, mas enfim divertida, com o velho fosso, a velha ponte levadiça, como é preciso que eu dê um jeito e jante lá uma vez, pois bem! Venha nesse dia, tratarei de levar todo o meu pequeno círculo, e então será galante. Depois de amanhã iremos a Arembouville de carro. A estrada é magnífica, há uma cidra deliciosa. Venha então. O senhor, Brichot, virá também. E o senhor também, Ski. Será uma excursão que aliás o meu marido já deve ter arrumado. Não sei exatamente a quem ele convidou. Sr. de Charlus, não é dos tais? -

     O barão, que somente ouvira esta última frase e não sabia que se falava de uma excursão a Arembouville, teve um sobressalto: 

- Estranha pergunta murmurou num tom malicioso, que deixou irritada a Sra. Verdurin. 
- Aliás - disse-me ela -, enquanto espera o jantar dos Cambremer, por que não traz aqui a sua prima? Será que ela gosta de conversação, de pessoas inteligentes? E agradável? Sim? Pois muito bem! Venha com ela. Não existem só os Cambremer no mundo. Compreendo que se sintam felizes em convidá-la, pois não conseguem apanhar ninguém. Aqui ela terá bons ares, e sempre homens inteligentes. Em todo caso, espero que não me largue na próxima quarta. Ouvi dizer que o senhor tinha um chá em Rivebelle com sua prima, o Sr. de Charlus e não sei quem mais. Devia arranjar um modo de trazer tudo isso para cá, seria interessante uma pequena chegada em massa. As comunicações não podem ser mais fáceis, os caminhos são encantadores; em caso de necessidade, mandarei buscá-lo. De resto, não sei o que pode atraí-lo em Rivebelle, está infestada de mosquitos. Decerto acredita na reputação das tortas. Meu cozinheiro as faria bem melhor. Eu mesma lhe darei a torta normanda, a verdadeira, e sablés, só lhe digo isto. Ah, se o senhor faz questão da porcaria que se serve em Rivebelle, que assim seja; eu não assassino os meus convidados, Senhor, e, mesmo que o quisesse, meu cozinheiro recusaria fazer essa coisa inominável e mudaria de casa. As tortas de lá a gente não sabe de que são feitas. Conheço uma pobre menina a quem aquilo causou uma peritonite que a levou em três dias. Tinha só dezessete anos. É triste devido à sua pobre mãe - acrescentou a Sra. Verdurin com ar melancólico, sob as esferas de suas têmporas carregadas de experiência e dor. - Mas enfim, vá merendar em Rivebelle se lhe diverte ser explorado e atirar dinheiro pela janela. Unicamente, peço-lhe, é uma missão de confiança que lhe atribuo: quando for seis horas, traga todo o seu pessoal para cá, não vá deixar as pessoas voltarem cada qual para sua casa, em debandada. Poderá trazer quem quiser. Não diria isso a qualquer um. Mas estou certa de que seus amigos são gentis, vejo logo que havemos de nos compreender. Além do pequeno núcleo, quarta-feira vêm justamente pessoas muito agradáveis. Não conhece a pequena Sra. de Longpont? Ela é deslumbrante e cheia de espirito, nada esnobe, verá que ela lhe agradará muito. E ela também deve trazer todo um bando de amigos - acrescentou a Sra. Verdurin, para me mostrar que isso era distinto e me animar pelo exemplo. - Veremos quem é que terá maior influência e quem trará mais gente, Barbe de Longpont ou o senhor. E depois, creio que também se deve trazer Bergotte - acrescentou com ar vago, já que esse concurso de uma celebridade se tornara muito improvável devido a uma nota aparecida nos jornais pela manhã, anunciando que a saúde do grande escritor inspirava os mais sérios cuidados. - Enfim, o senhor verá que há de ser uma de minhas quartas de maior êxito, não quero ter mulheres aborrecidas. De resto, não avalie por esta noite, que falhou inteiramente. Não proteste, não deve ter-se entediado mais que eu, pois eu mesma a achei cacetíssima. Saiba que não será sempre como hoje. Aliás, não falo dos Cambremer, que são impossíveis, mas conheci gente da alta sociedade que passava por ser agradável. Pois bem! Ao lado de meu pequeno núcleo, não existiam. Ouvi-o dizer que achava Swann inteligente. Primeiro, minha opinião é que era muito exagerado, mas sem mesmo abordar o caráter do homem, que sempre considerei fundamente antipático, sorrateiro, dissimulado, tive-o diversas vezes no jantar das quartas. Pois bem! O senhor pode indagar aos outros, mesmo ao lado de Brichot, que está longe de ser uma águia, que é um bom professor de segunda que fiz entrar para o Instituto, mesmo assim, Swann não valia nada. Era tão apagado! - E como eu externasse uma opinião contrária: - É assim. Não quero lhe dizer nada contra ele, visto que era seu amigo; aliás, gostava muito do senhor falou-me a seu respeito de modo delicioso, mas pergunte a estes se ele jamais disse alguma coisa de interessante em nossos jantares. Isso afinal é a pedra de toque. Pois bem! Não sei por quê, mas Swann, aqui em casa, não dava nada, não rendia coisa alguma. E o pouco que ele ainda valia, adquiriu-o aqui. - Assegurei-lhe que ele era inteligente. - Não, o senhor só acreditava nisso porque o conhecia há menos tempo do que eu. No fundo, bem depressa a gente lhe dava a volta. A mim, ele aborrecia. (Tradução: ele comparecia à casa dos La Trémoïlle e à dos Guermantes, e sabia que eu não ia.) E eu posso tolerar tudo, menos o tédio. Ah, isso não! -

continua na página 171...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Mas o doutor gostava tanto de contradizer como de troçar)
Volume 6
Volume 7

terça-feira, 17 de março de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Quem desencadeou a violência na Guatemala? (18)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     29. Quem desencadeou a violência na Guatemala?
          Em 1944, Ubico caiu de seu pedestal, varrido pelos ventos de uma revolução de cunho liberal, encabeçada por alguns jovens oficiais e universitários de classe média. Juan José Arévalo, eleito presidente, pôs em marcha um vigoroso plano educacional e ditou um novo código do trabalho para proteger os trabalhadores do campo e das cidades. Nasceram vários sindicatos; a United Fruit, dona de vastas terras, das ferrovias, do porto, virtualmente isenta de impostos e livre de controles, deixou de ser onipotente em suas propriedades. Em 1951, em seu discurso de despedida, Arévalo revelou que teve de escapar de 32 conspirações patrocinadas pela empresa. O governo de Jacob Arbenz continuou e aprofundou o ciclo de reformas. As estradas e o novo porto de San José rompiam o monopólio da United Fruit no transporte e na exportação. Com capital nacional, e sem estender a mão pedinte a bancos estrangeiros, foram efetivados vários projetos de desenvolvimento que conduziam à conquista da independência. Em junho de 1952, foi aprovada a reforma agrária, que beneficiou mais de 100 mil famílias, ainda que só abrangesse as terras improdutivas e pagasse uma indenização, em bônus, aos proprietários expropriados. A United Fruit só cultivava 8 por cento de suas terras, estendidas entre ambos os oceanos.
     A reforma agrária se propunha a “desenvolver a economia capitalista camponesa e a economia capitalista da agricultura em geral”, mas uma furiosa campanha internacional de propaganda se desencadeou contra a Guatemala: “A cortina de ferro está descendo sobre a Guatemala”, vociferavam as emissoras de rádio, os jornais e os próceres da OEA [1]. O coronel Castillo Armas, graduado em Fort Leavenworth, Kansas, comandou contra seu próprio país tropas treinadas e equipadas nos Estados Unidos. O bombardeio de F-47, com pilotos norte-americanos, respaldou a invasão. “Tivemos de nos livrar de um governo comunista que havia assumido o poder”, diria Dwight Eisenhower [2] nove anos depois. As declarações do embaixador norte-americano em Honduras a uma subcomissão do Senado dos Estados Unidos, em 27 de julho de 1961, revelaram que a operação libertadora de 1954 foi realizada por uma equipe da qual faziam parte, além dele mesmo, os embaixadores na Guatemala, Costa Rica e Nicarágua. Allen Dulles, que naquela época era o homem número 1 da CIA, enviou-lhes telegramas cumprimentando os pela missão cumprida. Anteriormente, o bom Allen integrara a diretoria da United Fruit Co. Um ano depois da invasão, sua cadeira na empresa foi ocupada por outro dirigente da CIA, o general Walter Bedell Smith. Foster Dulles, irmão de Allen, estava impaciente ao extremo na conferência da OEA que autorizou a expedição militar contra a Guatemala. Casualmente, tinham sido redigidas em seu escritório de advogado, ao tempo do ditador Ubico, as minutas dos contratos da United Fruit.
     A queda de Arbenz marcou a fogo a história posterior do país. As mesmas forças que bombardearam a cidade da Guatemala, Puerto arrios e San José, no entardecer do dia 18 de junho de 1954, estão hoje no poder. Várias e ferozes ditaduras sucederam-se à intervenção estrangeira, incluído o período de Julio César Méndez Montenegro (1966-70), que deu à ditadura uma aparência de regime democrático. Méndez Montenegro, que prometera uma reforma agrária, limitou-se a assinar uma autorização para que os terras tenentes portassem armas e as usassem. A reforma agrária de Arbenz se despedaçou quando Castillo Armas desincumbiu-se de sua tarefa, devolvendo as terras à United Fruit e a outros terras-tenentes expropriados.
     O ano de 1967 foi o pior do ciclo de violência inaugurado em 1954. Um sacerdote católico norte americano expulso da Guatemala, o padre Thomas Melville, informou ao National Catholic Reporter, em janeiro de 1968: em pouco mais de um ano, os grupos terroristas de direita assassinaram mais de dois mil e 800 intelectuais, estudantes, dirigentes sindicais e camponeses que “tentaram combater as enfermidades da sociedade guatemalteca”. O cálculo do padre Melville foi feito com base nas informações da imprensa, mas da maioria dos cadáveres ninguém jamais ficou sabendo: eram índios sem origem e sem nome conhecidos, que o exército de vez em quando incluía, só como números, nos comunicados sobre as vitórias contra a subversão. A repressão indiscriminada era parte da campanha militar de “cerco e aniquilação” de movimentos guerrilheiros. De acordo com o novo código em vigência, os membros das forças de segurança não tinham responsabilidade penal por homicídios, e os comunicados policiais ou militares eram considerados provas plenas em juízo. Os fazendeiros e seus administradores foram legalmente equiparados à qualidade de autoridades locais, com direito a porte de arma e de organizar forças repressivas. Não vibraram os teletipos do mundo com os “furos” da sistemática chacina, não chegaram à Guatemala jornalistas ávidos de notícias, não se ouviram vozes de condenação. O mundo virava as costas enquanto a Guatemala sofria uma longa noite de São Bartolomeu. A aldeia Cajón del Río ficou sem homens, os da aldeia Tituque tiveram as tripas revolvidas a punhal, os de Piedra Parada foram escalpelados vivos, e queimados vivos os de Agua Blanca de Ipala, depois de baleados nas pernas; no centro da praça de São Jorge cravaram numa haste a cabeça de um camponês rebelde. Em Cerro Gordo, encheram de alfinetes as pupilas de Jaime Velázquez; o corpo de Ricardo Miranda foi encontrado com 38 perfurações, e a cabeça de Haroldo Silva, sem o corpo de Haroldo Silva, foi parar à beira da estrada para São Salvador; em Los Mixcos, cortaram a língua de Ernesto Chinchilla; na fonte de Ojo de Agua, os irmãos Oliva Aldana foram costurados a tiros com as mãos atadas às costas e os olhos vendados; o crânio de José Guzmán se tornou um quebra-cabeça de minúsculas lascas atiradas pelo caminho; dos poços de San Lucas Sacatepequez emergiam mortos em vez de água; os homens amanheciam sem mãos e sem pés na fazenda Miraflores. Às ameaças seguiam-se as execuções, ou chegava a morte, sem aviso, pela nuca; nas cidades, eram marcadas com cruzes negras as portas dos sentenciados. Eram metralhados ao sair, e seus corpos lançados em barrancos.
     A violência não cessou depois. Ao longo do tempo de desprezo e cólera inaugurado em 1954, a violência foi e continua sendo uma transpiração natural da Guatemala. Continuaram aparecendo, um a cada cinco horas, os cadáveres nos rios ou à beira das estradas, os rostos irreconhecíveis, desfigurados pela tortura, que jamais serão identificados; também continuaram, e com maior intensidade, as matanças mais secretas: os corriqueiros genocídios da miséria. Outro sacerdote expulso, o padre Blase Bonpane, denunciava no Washington Post, em 1968, essa sociedade enferma: “Das 70 mil pessoas que a cada ano morrem na Guatemala, 30 mil são crianças. A taxa de mortalidade infantil da Guatemala é 40 vezes mais alta do que a dos Estados Unidos”.

continua na página 185...
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[1] GALEANO, Eduardo. Guatemala, país ocupado. México, 1967.
[2] Discurso na American Booksellers Association, Washington, 10 de junho de 1963.

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O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Quem desencadeou a violência na Guatemala? (18)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Boa tarde, Poesia... Te Espero

¿Es eso AMOR IMPOSIBLE? 


- Mario Benedetti 

- Voz Feneté
 


 


Te quiero...




Tus manos son mi caricia
mis acordes cotidianos
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro

tu boca que es tuya y mía
tu boca no se equivoca
te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

y por tu rostro sincero
y tu paso vagabundo
y tu llanto por el mundo
porque sos pueblo te quiero

y porque amor no es aureola
ni cándida moraleja
y porque somos pareja
que sabe que no está sola

te quiero en mi paraíso
es decir que en mi país
la gente viva feliz
aunque no tenga permiso

si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.


Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (VII.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

VII
 .
     Era no Plan-des-Dames, na vasta clareira que uma derrubada acabava de abrir. Ela estendia-se em declive suave, cingida pela floresta espessa, por faias magníficas cujos troncos retos e regulares a envolviam de colunas brancas, esverdeadas de liquens. Os gigantes abatidos ainda jaziam sobre a grama; à esquerda, um monte de toros cortados mais parecia um cubo geométrico. O frio aumentara com o crepúsculo, o musgo gelado estalava sob os pés. Na terra já era noite fechada, os ramos altos recortavam-se contra o céu pálido, onde a lua cheia, subindo no horizonte, ia apagar as estrelas.
     Perto de três mil mineiros tinham comparecido à reunião; era uma multidão fervilhante, homens, mulheres e crianças enchendo pouco a pouco a clareira, transbordando por baixo do arvoredo; e os retardatários continuavam a chegar; a maré de cabeças, afogada na sombra, espraiava-se até os cortes vizinhos. Um bramido subia daquele mar humano, igual a um vento de tempestade na floresta imóvel e gelada.
     No alto, dominando o declive, encontrava-se Etienne, acompanhado de Rasseneur e Maheu. Estourara uma briga, ouviam-se seus ecos ressoando, intermitentes. Perto dos que discutiam estavam Levaque, de punhos cerrados, Pierron, que logo se pôs de costas, muito nervoso por não ter podido pretextar mais febres, e mais o velho Boa-Morte e o velho Mouque, ombro a ombro sentados num tronco, com ar de profunda meditação. Por trás deles agrupavam-se os trocistas: Zacharie, o jovem Mouque e outros ainda, que tinham vindo para se divertir, enquanto as mulheres, recolhidas e graves como numa igreja, formavam grupo à parte. A mulher de Maheu, muda, balançava a cabeça ouvindo o surdo praguejar da mulher de Levaque. Philomène tossia, atacada de bronquite com a chegada do inverno. Só a filha de Mouque ria com todos os dentes, divertida pela maneira com que a velha Queimada falava da filha, chamando-a de desnaturada, que a mandava sair para empanturrar-se com coelho, uma vendida que engordava graças à falta de caráter do marido. E sobre o monte de madeira encarapitara-se Jeanlin, içando Lydie e obrigando Bébert a segui-lo, ficando os três acima dos outros.
     O responsável pela disputa era Rasseneur, que queria proceder formalmente à eleição da mesa. A derrota que sofrerá no Bon-Joyeux enfurecera-o, e tinha jurado tirar a desforra, gabando-se de reconquistar sua autoridade antiga quando se encontrassem frente a frente, não mais como delegados, mas como mineiros. Etienne, revoltado, achou imbecil a ideia da mesa, em plena floresta. Tinham que agir revolucionariamente, como selvagens, já que estavam sendo caçados como lobos.
     Vendo que a discussão não terminava mais, subiu num tronco de árvore e apoderou-se subitamente da multidão, gritando: 

— Camaradas! Camaradas!

     O rumor confuso extinguiu-se num longo suspiro, enquanto Maheu abafava os protestos de Rasseneur. Etienne continuou com uma voz poderosa: 

— Camaradas, uma vez que nos proíbem de falar, uma vez que a polícia nos persegue como se fôssemos bandidos, é aqui que temos de nos reunir! Aqui somos livres, estamos em nossa casa, ninguém virá para nos fazer calar, da mesma forma que não conseguem calar os pássaros e os animais!

     Uma torrente de gritos e exclamações foi a resposta: 

— Sim, sim, a floresta é nossa, temos o direito de conversar... Faia!

     Etienne permaneceu por um momento imóvel sobre o tronco de árvore. A lua, ainda baixa no horizonte, só iluminava os galhos mais altos, a multidão permanecia envolta em trevas, pouco a pouco acalmada e silenciosa. Ele, igualmente no escuro, fazia por cima dela, no cimo do declive, uma mancha de sombra.
     Levantou um braço num gesto lento e começou. Sua voz, no entanto, não ribombava mais, adotara o tom frio de um simples mandatário do povo prestando contas. Finalmente fazia o discurso que o comissário de polícia fizera gorar no Bon-Joyeux. Começou com um histórico rápido da greve, afetando uma eloquência científica: fatos, nada mais que fatos. Primeiro referiu-se à sua repugnância pela greve: os mineiros não a tinham querido, a direção os provocara com a nova tarifa de revestimentos. Depois lembrou a primeira visita dos delegados ao diretor, a má-fé da administração, e mais tarde, quando da segunda visita, sua concessão tardia, os dois cêntimos que devolvia depois de ter tentado roubá-los. Agora estavam nisso; começou a dar números provando que a caixa de previdência estava vazia, indicou o emprego dos socorros enviados, desculpando em algumas frases a Internacional, Pluchart e os outros, por não terem podido fazer mais por eles, devido às preocupações que tinham com seus planos de conquista do mundo. A situação agravava-se dia a dia, a companhia despedindo e ameaçando contratar operários na Bélgica; além disso intimidava os fracos, convencera certo número de mineiros a voltar ao trabalho. Toda essa fala foi pronunciada em tom monótono, como para ressaltar essas más notícias. Falou ainda da fome vitoriosa, da esperança morta, da luta já nos últimos haustos da coragem. De repente terminou, sem elevar a voz: 

— E nestas circunstâncias, camaradas, que vocês devem tomar uma decisão esta noite. Querem a continuação da greve? E, nesse caso, que pretendem fazer para triunfar sobre a companhia?

     Um silêncio profundo caiu do céu estrelado. A multidão, engolfada na escuridão, permanecia muda sob o peso daquelas palavras que lhe esmagavam o coração. Apenas se ouvia sua respiração angustiada por entre as árvores.
     Mas Etienne já prosseguia noutro tom. Não era mais o secretário da associação que falava, era o chefe de bando, o apóstolo portador da verdade. Então havia covardes que faltavam à palavra empenhada? Então tinha-se sofrido um mês inutilmente para depois voltar às minas de cabeça baixa e recomeçar a eterna miséria? Não valeria mais a pena morrer de uma vez, tentando destruir essa tirania do capital que levava o trabalhador à inanição? Continuar submetendo-se à fome até o momento em que ela, novamente, revoltaria até os mais calmos não era um jogo estúpido que não podia continuar existindo? E mostrou os mineiros explorados, suportando sozinhos resultados da crise, obrigados a não mais comer no momento em que as necessidades da concorrência fizessem baixar os preços da mão-de-obra. Não! A tarifa do revestimento era inaceitável, não passava de uma economia disfarçada, queriam roubar de cada homem uma hora de seu trabalho diário. Desta vez era demais, estava chegando a hora em que os miseráveis, levados até o último degrau da sua miséria, fariam justiça.
     Ficou de braços erguidos.
     A multidão, à palavra "justiça", sacudida por um longo estremecimento, desatou em aplausos que rolaram com um barulho de folhas secas. Vozes gritaram: 

— Justiça! Chegou a hora da justiça!

     Aos poucos Etienne inflamava-se. Não possuía a abundância fácil e cascateante de Rasseneur. Muitas vezes, as palavras não lhe vinham, tinha de torturar a frase e dela saía com um esforço que ressaltava com um movimento de ombros. Mas nesses contínuos tropeços descobria imagens de uma energia familiar que empolgavam seu auditório. Da mesma forma, seus gestos de mineiro, os cotovelos para trás, depois estendendo-se e lançando os punhos para a frente, sua mandíbula repentinamente avançando, como para morder, exerciam também uma ação extraordinária sobre os camaradas. Todos o diziam, ele não era um espetáculo, mas prendia a atenção. 

— O sistema assalariado é uma nova forma de escravidão — continuou ele com a voz ainda mais vibrante. — A mina deve ser do mineiro, como o mar é do pescador, como a terra é do camponês. Compreendam isso de uma vez por todas: a mina é de vocês, de todos vocês, que há um século a vêm pagando com tanto sangue e tanta miséria!

     Com a maior sem-cerimônia abordou problemas obscuros de direito, a enfiada de leis especiais sobre minas em que ele se perdia. O subsolo, assim como o solo, pertencia à nação; apenas um privilégio odioso assegurava o monopólio às companhias. Para Montsou, a pretensa legalidade das concessões complicava-se com tratados passados outrora com proprietários de antigos feudos, segundo o velho costume de Hainaut. Os mineiros, portanto, só tinham que reconquistar sua propriedade. E com as mãos estendidas ele mostrava a região inteira, para além da floresta. Nesse momento, a lua, que subia no horizonte, escorregando pelos ramos mais altos, iluminou-o. Quando a multidão, ainda no escuro, divisou-o assim, todo iluminado, distribuindo a fortuna com suas mãos abertas, aplaudiu de novo, prolongadamente. 

— Sim, sim, ele tem razão! Bravo!

     A partir daí Etienne cavalgou no seu plano favorito: a distribuição de instrumentos de trabalho à coletividade, como ele dizia numa frase, cuja barbárie o comichava deliciosamente. Nele, agora, a evolução era completa. Tendo partido da fraternidade humilde dos catecúmenos, da necessidade de reformar o sistema assalariado, acabara na idéia política de o suprimir. Depois da reunião no Bon-Joyeux, seu coletivismo, ainda humanitário e sem fórmula, enrijecera num programa complicado, que ele ia discutindo cientificamente, artigo por artigo. Primeiro disse que a liberdade só podia ser conseguida com a destruição do Estado; quando o povo tivesse tomado o poder, as reformas seriam feitas: volta à comuna primitiva; substituição da família moral e opressiva pela família igualitária e livre; igualdade absoluta, civil, política e econômica; garantia da independência individual graças à possessão e ao produto integral dos instrumentos de trabalho; enfim, instrução profissional e gratuita, paga pela coletividade. Isso levaria a uma reforma da sociedade velha e podre. Atacou o casamento, o direito de fazer testamento, regulamentou a fortuna particular, pôs abaixo o monumento iníquo dos séculos mortos com um grande gesto, sempre o mesmo, o gesto do ceifador que derruba a colheita madura. Com a outra mão foi reconstruindo, erguendo a futura humanidade, o edifício da verdade e da justiça surgindo na aurora do século XX. Diante de tal tensão cerebral a razão perdeu pé, restou apenas a idéia fixa do sectário. Os escrúpulos da sua sensibilidade e do seu bom senso evaporaram-se, nada era mais fácil do que a realização desse mundo novo; previra tudo, falava dele como de uma máquina que montaria em duas horas, sem levar em conta o fogo e o sangue. 

— Chegou a nossa vez! — gritou, numa última explosão. — Agora depende de nós conseguirmos o poder e a riqueza!

     Uma aclamação rolou até ele, vinda dos confins da floresta. A lua, agora, iluminava toda a clareira, recortava em arestas brilhantes o mar de cabeças por toda a confusa lonjura da mata de corte e por entre os enormes troncos cinzentos. E naquele ar glacial havia u; ricto feroz nos rostos, olhos faiscantes, bocas abertas... Era todo u: povo em delírio de possessão, homens, mulheres e crianças famélicos, prontos para o assalto justo aos antigos bens de que estavam sendo esbulhados. Já nem sentiam mais frio, aquelas palavras ardentes aqueceram-nos até as entranhas. Uma exaltação religiosa fazia-os pairar sobre a terra, era a febre de esperança dos primeiros cristãos da Igreja esperando o reino próximo da justiça. Muitas frases obscuras lhes tinham escapado, quase nada entendiam daqueles raciocínios técnicos e abstratos, mas a própria obscuridade, a abstração, tornava ainda maior o campo das promessas, arrebatava-os num deslumbramento. Que sonho! serem eles os senhores, cessarem de sofrer, usufruírem finalmente da felicidade! 

— É isso mesmo, com todos os diabos! Chegou a nossa vez!

     Morte aos exploradores!

continua na página 242...
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Quarta Parte - (VI.b) / Quarta Parte - (VII.a) /  
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.