segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Cinema: O Poço e o Pêndulo

Gênero: Terror

Classificação: 16 anos
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Filme conhecido entre a critica por ser um Filme B, mas além de ser um dos raros filmes que falam sobre a Inquisição Ibérica e Tomas de Torquemada, o roteiro é cheio de símbolos e rituais que, de fato o Santo Oficio Ibérico tinha. Pra quem curte o tema é um bom filme pra pesquisa. RARÍSSIMO...................

No século XVI, Francis Barnard viaja à Espanha para esclarecer as estranhas circunstâncias da morte de sua irmã, depois que ela se casou com o filho de um cruel inquisidor espanhol. É isso, em meio ao terror da Inquisição Espanhola, um padeiro tenta desesperadamente salvar a pessoa amada, acusada injustamente de bruxaria. O terrível Grande Inquisidor manipula a fé e a dor para impor seu domínio absoluto, forçando confrontos brutais entre a devoção religiosa e o amor humano.

Ano de Lançamento: 1961

Direção:
Roger Corman

Roteiristas:
Richard Matheson
Edgar Allan Poe






Elenco:
Vincent Price como Nicholas
John Kerr como Francis
Barbara Steele como Elizabeth
Luana Anders como Catherine
Antony Carbone como Doctor Leon
Patrick Westwood como Maximillian
Lynette Bernay como Maria
Larry Turner como Nicholas como criança
Mary Menzies como Isabella
Charles Victor como Bartolome
Randee Lynne Jensen como Extra (não creditado)



O Poço e o Pêndulo

Classificação: 16 anos
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Ano de Lançamento: 1991

O filme aposta no terror gótico e psicológico, inspirado no conto de Edgar Allan Poe.
Na Espanha do século XVI, durante a Inquisição Espanhola. Francis Barnard investiga a misteriosa morte de sua irmã em um castelo sombrio, onde vive Nicholas Medina, seu cunhado mentalmente instável. Ao explorar o local, Francis descobre segredos macabros, torturas cruéis e um clima de loucura crescente, culminando no uso do temido poço e do pêndulo. 

Direção:
Stuart Gordon

Roteiristas:
Edgar Allan Poe
Dennis Paoli






Elenco:
Lance Henriksen como Torquemada
Stephen Lee como Gomez
William Norris como Dr. Huesos
Mark Margolis como Mendoza
Carolyn Purdy-Gordon como Contessa D'Alba Molina
Barbara Bocci como O Filho da Condessa
Benito Stefanelli como Carrasco
Jeffrey Combs como Francisco
Tom Towles como Don Carlos
Rona De Ricci como Maria
Jonathan Fuller como Antonio
Geoffrey Copleston como Butcher
Larry Dolgin como Sargento da Guarda
Tunny Piras como Guarda
Fabio Carfora como Beggar
Frances Bay como Esmeralda
Fabrizio Fontana como Judeu
Oliver Reed como Cardeal
Michael Deak como Guarda (não creditado)

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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
06. O Poço e o Pêndulo /         

Edgar Allan Poe - Contos: O Poço e o Pêndulo (b)

Edgar Allan Poe - Contos


O Poço e o Pêndulo 

Aqui por muito tempo os impiedosos torturadores nutriram 
o insaciável furor da turba pelo sangue dos inocentes. 
Agora que a pátria está a salvo, e o antro fúnebre foi destruído, 
onde antes havia morte surgem vida e bem-estar.
(Quadra composta para os portões de um mercado a ser erguido 
no local onde ficava o Clube dos Jacobinos, em Paris.)
continuando...

     Tudo isso enxerguei indistintamente e com grande esforço — pois minha situação pessoal se alterara grandemente durante o sono. Eu agora jazia deitado de costas, e com o corpo inteiro, em algum tipo de estrutura de madeira pouco elevada. Prendia-me fortemente a isso uma longa correia parecida com uma sobrecilha. Ela passava em muitas voltas pelos meus membros e meu corpo, deixando em liberdade apenas minha cabeça, e meu braço esquerdo, numa extensão tal que eu pudesse, por meio de enorme esforço, servir-me da comida em um prato de cerâmica que jazia ao meu lado no chão. Vi, para meu horror, que a jarra fora retirada. Digo para meu horror — pois a mim me consumia uma sede intolerável. Sede que aparentemente era parte do plano de meus algozes estimular — pois a comida no prato era uma carne de tempero pungente.
     Olhando para cima, perscrutei o teto de minha prisão. Ficava a cerca de dez ou doze metros de altura, e era construído bem à feição das paredes. Em um de seus painéis uma figura muito singular captou minha completa atenção. Era a figura pintada do Tempo como é normalmente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava o que, a um olhar casual, supus ser a imagem pintada de um imenso pêndulo, tal como se veem em relógios antigos. Havia alguma coisa, entretanto, na aparência dessa máquina que me levou a olhar para ela mais atentamente. Enquanto eu a fitava diretamente (pois sua posição era imediatamente acima de onde me encontrava), julguei vê-la se movimentar. Um instante depois minha imaginação foi confirmada. Seu vaivém foi breve, e, é claro, vagaroso. Fiquei olhando por alguns minutos para aquilo, em certa medida com medo, porém antes admirado. Cansando-me enfim de observar seu moroso movimento, desviei os olhos para os outros objetos na cela.
     Um ligeiro ruído chamou minha atenção e, olhando para baixo, vi inúmeros ratos enormes passando pelo chão. Haviam saído do poço, que eu mal podia enxergar à minha direita. Mesmo então, enquanto os observava, eles subiam aos bandos, apressados, com olhos famintos, atiçados pelo cheiro da carne. Desse momento em diante foi-me exigido tremendo esforço e concentração para espantá-los.
     Isso talvez tenha se dado meia hora antes, ou quem sabe uma hora (pois me era impossível manter uma percepção senão imperfeita do tempo), que eu me pegasse dirigindo o olhar outra vez para o alto. O que vi nesse momento ocasionou-me confusão e assombro. O vaivém do pêndulo aumentara em cerca de um metro de extensão. Como consequência natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que mais me perturbou foi a ideia de que havia perceptivelmente descido. Eu observava agora — com que horror é desnecessário dizer — que sua extremidade inferior era formada por um crescente de aço cintilante, com cerca de trinta centímetros de extensão de um corno a outro; os cornos curvados para o alto, e a parte de baixo evidentemente tão afiada quanto uma navalha de barbeiro. Como uma navalha igualmente, parecia maciça e pesada, a ilando-se a partir do gume em uma sólida e larga estrutura acima. O instrumento era afixado a uma pesada barra de bronze e a peça toda sibilava em suas oscilações através do ar.
     Não havia mais como duvidar da sina para mim preparada pela engenhosidade em tortura dos monges. Minha descoberta do poço chegara ao conhecimento dos inquisidores — o poço, cujos horrores haviam sido destinados a um herege ousado como eu —, o poço, emblemático do inferno, e disseminado de boca em boca como a Ultima Thule de todas suas punições. O mergulho nesse poço, eu o evitara apenas pelo mais casual dos acidentes, e tinha consciência de que a surpresa, ou uma armadilha de tormento, compunha importante elemento de todo o grotesco dessas mortes no calabouço. Tendo-me furtado à queda, não fazia parte dos planos do demônio empurrar-me para o abismo; e assim (por não haver alternativa) uma aniquilação diferente e mais branda me aguardava. Mais branda! Quase sorri em minha agonia ao pensamento de aplicar dessa forma um tal termo.
     De que adianta contar sobre as horas intermináveis de horror mais do que mortal, durante as quais fiquei a enumerar as sibilantes oscilações do aço! Polegada por polegada — linha por linha — com um avanço descendente apreciável apenas a intervalos que se davam como eras — descendo, descendo! Dias se passaram — podia ter acontecido de muitos dias terem se passado — até se deslocar tão próximo de mim que me abanava com seu acre hálito. O odor do aço afiado invadiu-me as narinas. Orei — enfastiei os céus de tanto orar por uma descida mais rápida. A fúria da loucura se apossou progressivamente de mim e lutei para forçar o corpo contra o vaivém da temível cimitarra. E então fiquei subitamente calmo, e aguardei sorrindo a morte cintilante, como uma criança diante de algum raro bibelô.
     Houve mais um outro intervalo de total insensibilidade; foi breve; pois, ao voltar de novo à vida, mais nenhuma descida perceptível do pêndulo se fazia notar. Mas podia acontecer de ter sido longo — pois eu sabia haver demônios observando meu desfalecimento, e que poderiam se comprazer em deter as oscilações. Ao recobrar os sentidos, também, senti-me deveras — ah, indizivelmente — esgotado e fraco, como que a voltar de longa inanição. Mesmo em meio às agonias desse período, a natureza humana clamava por alimento. Com doloroso esforço, estendi o braço esquerdo o mais longe que minhas correias permitiam, e me apossei da pequena sobra que os ratos haviam me deixado. Ao enfiar a porção entre meus lábios, invadiu-me a mente um pensamento incipiente de alegria — de esperança. E contudo, o que queria eu com a esperança? Foi, como disse, um pensamento incipiente — o homem tem tantos desses que jamais são completados. Senti que era de alegria — de esperança; mas senti também que havia perecido já ao se formar. Em vão lutei por completá-lo — por recuperá-lo. O sofrimento prolongado quase aniquilara todas as minhas faculdades comuns de pensamento. Eu era um imbecil — um idiota.
     A oscilação do pêndulo se dava em ângulo reto com o comprimento de meu corpo. Vi que o crescente estava destinado a cruzar a região do coração. Iria desfiar a sarja de meu robe — iria voltar e repetir a operação — outra vez — e outra vez. Não obstante o vaivém terrivelmente extenso (cerca de dez metros ou mais) e o vigor sibilante de sua descida, suficiente para cindir as próprias paredes de ferro, ainda assim o esfiapar de minha roupa seria tudo que, por vários minutos, ele realizaria. E, ao me sobrevir esse pensamento, hesitei. Não ousava ir além dessa reflexão. Demorei-me nele com uma atenção obstinada — como se, ao fazê-lo, pudesse manter aí a descida do aço. Forcei-me a ponderar sobre o som do crescente quando passasse através do pano — sobre a peculiar sensação de estremecimento que a fricção de tecido produz nos nervos. E ponderei sobre toda essa frivolidade até ficar com os nervos à flor da pele.
     Descendo — descendo lenta e regularmente. Extraí um prazer maníaco de contrastar seu movimento para baixo com sua velocidade lateral. Para a direita — para a esquerda — por toda parte — guinchando como um espírito maldito! em meu íntimo, com o passo furtivo do tigre! E alternadamente ria e gemia, conforme uma ou outra ideia ganhava a predominância.
     Descendo — resolutamente, descendo inexoravelmente! Ele vibrava a um palmo de meu peito! Lutei violentamente — furiosamente — para liberar meu braço esquerdo. Estava livre apenas do cotovelo à mão. Eu conseguia esticá-la, pegando do prato ao meu lado e levando-a à boca, com grande esforço, mas nada além disso. Pudesse eu ter rompido as amarras acima do cotovelo, teria agarrado e tentado deter o pêndulo. Poderia perfeitamente ter tentado deter uma avalanche!
     Descendo — ainda incessantemente — ainda descendo, implacavelmente! Eu ofegava e me contorcia a cada vibração. Encolhia convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos acompanhavam esses ciclos para os lados ou para cima com a avidez do mais absurdo desespero; cerravam-se espasmodicamente ao vê-lo descer, embora a morte teria sido um alívio, ah, quão inefável! Mesmo assim, eu estremecia em cada nervo de pensar quão insignificante bastava ser a descida do maquinário para precipitar aquele machado afiado e cintilante contra meu peito. Era a esperança que impelia os nervos a tremer — o corpo a encolher. Era a esperança — a esperança que triunfa na tortura — que sussurra para o condenado à morte até mesmo nos calabouços da Inquisição.
     Percebi que mais dez ou doze oscilações trariam a lâmina a um contato efetivo com meu robe — e ao observar isso de repente baixou sobre meu espírito toda a tranquilidade lúcida, serena, do desespero. Pela primeira vez em muitas horas — ou talvez dias — eu pensava. Agora me ocorria que a amarra, ou sobrecilha, que me cingia era a única coisa. Eu não estava preso por nenhuma outra atadura. O primeiro golpe transversal daquela navalha em meia-lua contra qualquer parte da cinta a soltaria de tal modo que talvez eu pudesse livrá-la de meu corpo com o uso da mão esquerda. Mas quão terrível, nesse caso, a proximidade da lâmina! O resultado do mais leve esforço, quão mortal! Seria plausível, além do mais, que os subordinados do torturador não tivessem previsto e se precavido contra essa possibilidade? Haveria alguma probabilidade de que a faixa cruzasse meu peito no trajeto do pêndulo? Receando ver minha débil e, ao que tudo indicava, derradeira esperança frustrada, ergui ao máximo a cabeça para obter uma visão desobstruída de meu tórax. A sobrecilha envolvia estreitamente meus membros e meu corpo em todas as direções — exceto no caminho do crescente aniquilador.
     Mal deixara cair a cabeça para trás em sua posição original, quando lampejou em minha mente o que não posso descrever melhor do que a metade informe daquela ideia de libertação à qual aludi previamente, e da qual apenas uma metade flutuava incertamente por meu cérebro quando eu levava a comida aos meus lábios em fogo. O pensamento todo agora se me apresentava — fraco, no limiar da insanidade, no limiar da materialidade — mas ainda assim completo. Procedi de pronto a tentar sua execução, com a energia nervosa do desespero.
     Havia horas que a proximidade imediata da estrutura baixa de madeira na qual eu jazia literalmente enxameava de ratos. Selvagens, ousados, famintos — seus olhos vermelhos brilhando em minha direção como se só esperassem a imobilidade de minha parte para tornar-me sua presa. “Com que alimento”, pensei eu, “acostumaram-se eles no poço?”
     Haviam devorado, a despeito de todos os meus esforços para impedi-los, tudo, exceto um pequeno resto do que continha o prato. Eu me habituara a um movimento de sobe e desce, um abano de mão, na imediação do prato; e, com o tempo, a uniformidade inconsciente do movimento privou-o de seu efeito. Em sua voracidade, as criaturas daninhas frequentemente cravavam suas presas afiadas em meus dedos. Com as partículas da vianda gordurosa e condimentada que ainda restavam, esfreguei exaustivamente a correia em todos os pontos que fui capaz de alcançar; então, removendo a mão do piso, permaneci imóvel, quase sem respirar.
     No início, os animais famintos ficaram sobressaltados e atemorizados com a mudança — com a cessação de movimento. Recuaram alarmados; muitos buscaram o poço. Mas isso durou apenas um instante. Eu não contara em vão com sua voracidade. Observando que continuava imóvel, um ou dois mais audaciosos saltaram sobre o estrado e farejaram a sobrecilha. Isso pareceu a deixa para um tropel generalizado. Vieram correndo do poço em novos bandos. Agarraram-se à madeira — correram sobre ela e pularam às centenas em cima de mim. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbou nem um pouco. Evitando seus golpes, ocupavam-se com a amarra besuntada. Pululando — enxameando sobre mim em amontoados cada vez maiores. Contorcendo-se por minha garganta; seus lábios frios tocando os meus; eu quase sufocava com suas hordas fervilhantes; um asco para o qual o mundo não tem nome intumesceu meu peito e enregelou, com uma pesada viscosidade, meu coração. Contudo, mais um minuto e eu sentia que a luta chegaria ao fim. Percebi claramente o afrouxamento da amarra. Sabia que em mais de um ponto ela já devia estar partida. Com resolução mais do que humana permaneci imóvel.
     Eu não havia errado em meus cálculos — eu não havia suportado aquilo em vão. Finalmente, senti que estava livre. A sobrecilha pendeu em tiras de meu corpo. Mas os golpes do pêndulo já se precipitavam sobre meu peito. O instrumento atravessara a sarja do robe. Cortara até a camisa de linho que eu vestia por baixo. Duas vezes mais oscilou, e uma aguda sensação de dor espicaçou cada nervo. Mas o momento da fuga chegara. Ao abanar a mão, meus libertadores fugiram em tumulto. Com um movimento confiante — cauteloso, lateral, contido e vagaroso — deslizei do abraço da correia e para fora do alcance da cimitarra. Naquele momento, ao menos, eu estava livre.
     Livre! — e nas garras da Inquisição! Nem bem deixei a madeira em meu leito de horror e passei ao piso de pedra da prisão, o movimento da máquina infernal cessou, e fiquei assistindo, conforme se recolhia, por alguma força invisível, para dentro do teto. Foi uma lição que aprendi em desespero. Cada movimento meu era sem dúvida observado. Livre! — eu apenas escapara da morte em uma forma de agonia para ser confiado a uma outra qualquer pior que a morte. Com esse pensamento passeei os olhos nervosamente em torno pelas barreiras de ferro que me cercavam. Alguma coisa incomum — alguma mudança que, de início, não pude perceber distintamente —, isso era óbvio, havia ocorrido no ambiente. Por diversos minutos absorto em um transe trêmulo entreguei-me a conjecturas vãs e desconexas. No transcorrer desse período tomei consciência, pela primeira vez, da origem da luz sulfúrea que alumiava a cela. Ela provinha de uma fissura, com cerca de um dedo de largura, que se estendia por todo o perímetro da prisão na base das paredes, que desse modo pareciam, e de fato estavam, completamente separadas do piso. Tentei, mas certamente em vão, olhar através da abertura.
     Quando me levantava após a tentativa, o mistério da alteração na câmara veio-me subitamente à compreensão. Eu observara que, embora os contornos das figuras nas paredes fossem suficientemente nítidos, as cores contudo pareciam borradas e indefinidas. Mas essas cores haviam assumido agora, e assumiam progressivamente, a cada momento, um brilho assustador e mais intenso, que emprestava às imagens espectrais e diabólicas um aspecto que teria talvez abalado nervos até mais firmes que os meus. Olhos demoníacos, de vivacidade selvagem e macabra, fuzilavam-- me de mil direções, quando nenhum havia sido visível antes, e cintilavam com o fantasmático fulgor de um fogo que eu era incapaz de forçar minha imaginação a interpretar como ilusão.
     Ilusão! — No momento em que respirei penetrou em minhas narinas o vapor do ferro aquecido! Um odor asfixiante tomou conta da prisão! Uma incandescência mais profunda ardia a cada momento naqueles olhos que se arregalavam para minhas agonias! Um matiz mais rico de escarlate se difundia pelos horrores de sangue ali retratados. Eu ofegava! Tentava respirar! Não restava dúvida quanto ao que tramavam meus carrascos — ah! os mais implacáveis! ah! os mais demoníacos dos homens! Recuei do metal incandescente em direção ao centro da cela. Em meio aos pensamentos da iminente destruição pelo fogo, a ideia do frescor do poço invadiu minha alma como um bálsamo. Aproximei-me rapidamente de sua beirada mortal. Lancei o olhar para suas profundezas. O fulgor do teto inflamado iluminava seus recessos mais ocultos. E contudo, em um momento de desvario, meu espírito se recusou a compreender o significado do que vi. Após um instante enfim aquilo se impôs — aquilo abriu caminho à força até minha alma — aquilo ficou marcado a ferro e fogo em minha razão trêmula. Ah! quem dera eu tivesse voz para falar! — ah! horror! — ah! qualquer outro horror que não aquilo! Com um uivo, fugi da beirada, e enterrei o rosto nas mãos — chorando amargamente.
     O calor aumentou rápido, e mais uma vez ergui o rosto, tremendo como que num acesso de febre. Uma segunda mudança se efetuara na cela — e agora a mudança era obviamente na forma. Como antes, foi em vão que de início empenhei-me em avaliar ou compreender o que estava ocorrendo. Mas a dúvida não persistiu por muito tempo. A vingança dos inquisidores fora precipitada por minha dupla fuga, e pusera um basta ao meu flerte com o Rei dos Terrores¹. O recinto, antes, era quadrado. Agora eu via que dois de seus ângulos de ferro estavam agudos — os outros dois, consequentemente, obtusos. A assustadora diferença aumentava rapidamente com uma reverberação grave, um som de gemido. Em um instante o ambiente alterara seu formato para o de um losango. Mas a mudança não parou por aí — eu não esperava nem tampouco desejava que o fizesse. Eu teria sido capaz de estreitar as paredes vermelhas junto ao peito como se fossem as vestes da paz eterna. “Morte”, eu disse, “qualquer morte exceto o poço!” Tolo! como podia eu ignorar que era para dentro do poço que o ferro em brasa visava me impelir? Seria eu capaz de resistir a sua incandescência? ou, mesmo que pudesse, como conseguiria resistir a sua pressão? E então, cada vez mais achatado se tornava o losango, com uma rapidez que não me deixava mais tempo algum para a contemplação. Seu centro e, é claro, sua maior largura, debruçavam-se na beira da bocarra escancarada. Recuei — mas as paredes se fechando me empurravam para a frente, era inútil resistir. Até que por im, para o meu corpo queimado e contraído, já não havia mais do que uma polegada onde pisar no sólido chão da prisão. Desisti de lutar, mas a agonia de minha alma buscou desafogo em um agudo, prolongado e derradeiro grito de desespero. Senti que cambaleava sobre a borda — desviei os olhos…

[1] King of Terrors: a Morte (em inglês, death é masculino).


     De repente o burburinho dissonante de vozes humanas! De repente o sopro estridente de inúmeras cornetas! De repente o rangido áspero como de mil trovões! As paredes ardentes recuaram! Um braço se esticou para agarrar o meu quando eu tombava, desfalecendo, dentro do abismo. Era o do general Lasalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição caíra nas mãos de seus inimigos

Fim
continua página 59...
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William Wilson (a) / William Wilson (b) / William Wilson (c) / O Poço e o Pêndulo (a) / O Poço e o Pêndulo (b) /               
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 73 - Stubb e Flask matam uma Baleia Franca

Moby Dick

Herman Melville

73 - Stubb e Flask matam uma baleia Franca; e depois conversam a respeito dela

     É preciso ter em mente que, durante todo esse tempo, tivemos uma prodigiosa cabeça de Cachalote balançando no costado do Pequod. Mas será preciso deixá-la ali pendurada por algum tempo até que tenhamos condições de lhe dar atenção. No momento, outros são os assuntos urgentes, e o melhor que podemos fazer pela cabeça, por ora, é rezar aos céus para que as talhas aguentem.
     Ora, durante a noite e pela manhã, o Pequod havia sido levado aos poucos para um mar que, por suas áreas ocasionais de brit amarelo, revelava indícios inusitados da presença de Baleias Francas nos arredores, uma espécie do Leviatã que poucos imaginavam àquela época estar se movendo em quaisquer imediações. Embora, em geral, os marinheiros desprezassem a captura daquelas criaturas inferiores; embora o Pequod não estivesse autorizado a persegui-las, e embora tivesse encontrado várias delas perto das ilhas Crozet sem ter descido os botes; no entanto, uma vez que um Cachalote havia sido levado para o navio e decapitado, para a surpresa de todos, foi anunciado que uma Baleia Franca deveria ser capturada naquele dia, caso houvesse oportunidade.
     E a oportunidade não tardou. Jatos altos foram vistos a sotavento; e dois botes, os de Stubb e Flask, foram destacados para a perseguição. Vogando sempre para longe, eles por fim ficaram praticamente invisíveis para os homens no topo do mastro. Mas subitamente, a distância, avistaram uma grande quantidade de água branca em movimento, e em seguida notícias do topo informavam que um dos botes ou ambos deviam estar indo depressa. Passado um tempo, os botes surgiram inteiros aos olhos dos gajeiros, ambos arrastados em direção ao navio pela baleia rebocadora. Tão perto a baleia chegou do casco que, de início, parecia que tinha intenções malignas; mas afundando de repente num redemoinho, a cerca de cinquenta pés das pranchas, ela desapareceu completamente da vista, como se mergulhasse sob a quilha. “Cortar, cortar!”, foi o grito que saiu do navio para os botes, que, por um instante, pareciam a ponto de se chocar mortalmente contra o costado do veleiro. Mas, havendo linha suficiente nas selhas, e a baleia não tendo mergulhado muito depressa, soltaram a corda em abundância e, ao mesmo tempo, remaram com toda a força para ficar à frente do navio. Por alguns minutos, a luta foi intensamente travada; pois, enquanto ainda afrouxavam a linha esticada em uma direção, e ainda impunham aos remos a contrária, a tração conflituosa ameaçava afundá-los. Mas ganhar alguns metros na dianteira era tudo o que queriam. E insistiram até que os ganharam; quando, subitamente, se sentiu um breve tremor correndo como um relâmpago ao longo da quilha, enquanto a ostaxa esticada, arranhando a base do navio, reapareceu de repente sob a proa, estalando e vibrando; e lançando tão violentamente suas gotas d’água que elas caíam como cacos de vidro na água, enquanto a baleia mais adiante também reaparecia, e mais uma vez os botes ficavam livres para correr. Mas a baleia cansada diminuiu a velocidade e, alterando seu rumo às cegas, deu a volta na popa do navio rebocando os dois botes, de forma que percorreram um circuito completo.
     No entretempo, eles puxaram mais e mais suas ostaxas, até que, flanqueando a baleia de perto pelos dois lados, Stubb e Flask arremessaram suas lanças; e assim, a batalha continuou, dando voltas no Pequod, enquanto as multidões de tubarões que antes nadavam em torno do corpo do Cachalote correram para o sangue fresco que derramava, bebendo-o com sede a cada novo corte, como os ávidos Israelitas o fizeram nas fontes novas que brotaram da rocha fendida.
     Por fim seu sopro ficou espesso e, com um tranco e um vômito horrível, a baleia virou de costas, um cadáver.
     Enquanto os dois oficiais se ocupavam de amarrar as cordas à cauda da baleia, nesse sentido cuidando para que a massa pudesse ser rebocada, iniciaram uma conversa.

“O que será que o velho deseja com esse monte de banha fétida?”, disse Stubb, não sem alguma aversão à ideia de ter de lidar com um Leviatã tão desprezível. 
“O que deseja?”, disse Flask, enrolando a ostaxa sobressalente na proa do bote, “você nunca escutou falar que desde que um navio traga a cabeça de um Cachalote pendurada a estibordo, e ao mesmo tempo a de uma Baleia Franca a bombordo; Stubb, você nunca escutou que esse navio nunca mais poderá naufragar?” 
“Por que não?”
“Eu não sei, mas escutei Fedallah, aquele fantasma amarelo, dizer isso e parece que sabe tudo a respeito de feitiços de navios. Mas às vezes acho que ele vai enfeitiçar o navio com maldade. Não gosto nem um pouco daquele sujeito, Stubb. Você já percebeu que aquela presa dele parece entalhada na cabeça de uma cobra, Stubb?” 
“Afogue-o! Nunca olho para ele; mas se eu tiver uma oportunidade, numa noite escura, e ele estiver ocupado em sua vigília na amurada, com ninguém por perto; olha lá, Flask” – apontando para o mar com um gesto específico de ambas as mãos – “Sim, eu o faço! Flask, tenho para mim que Fedallah é o demônio disfarçado. Você acredita naquela história sem pé nem cabeça de que ele veio a bordo como clandestino? Ele é o demônio, vá por mim. A gente só não vê o rabo dele porque ele o esconde; acho que enrolado em seu bolso. Maldito seja! Pensando nisso, ele sempre pede estopa para colocar na ponta das suas botas.”
“Ele dorme em suas botas, não é? Ele não tem rede; mas eu já dei com ele deitado sobre um rolo de cordame.” 
“Sem dúvida, e isso é por causa de seu maldito rabo; ele o deixa enrolado no olho do cordame.” 
“O que será que o velho tanto quer com ele?” 
“Uma troca ou uma barganha, creio.” 
“Barganha? – de quê?”
“Ora, preste atenção, o velho está empenhado na caça da Baleia Branca, e o diabo está tentando envolvê-lo, aliciá-lo em troca de seu relógio de prata, ou de sua alma, ou de qualquer coisa do gênero, para depois lhe entregar Moby Dick.” 
“Ora essa! Stubb, você está de brincadeira; como Fedallah pode fazer uma coisa dessas?” 
“Não sei, Flask, mas o diabo é um sujeito curioso e bem malvado, posso lhe garantir. Pois bem, dizem que certa vez foi dar um passeio numa velha nau capitânia, abanando a cauda de modo diabólico e cavalheiresco e perguntando se o velho comandante estava em casa. Bem, ele estava em casa e perguntou ao diabo o que queria. O diabo, batendo os cascos, se levanta e diz, ‘Quero o John’. ‘Para quê?’, pergunta o velho comandante. ‘O que você tem com isso?’, disse o diabo, ficando irritado, – ‘Quero usá-lo!’. ‘Leve-o’, diz o comandante – e, pelo amor de Deus, Flask, se o diabo não castigou John com a cólera Asiática antes de acabar com ele, eu como essa baleia em uma bocada. Mas cuidado – você ainda não ‘tá pronto? Bem, puxe daí, e vamos deixar a baleia ao longo do costado.”
“Acho que me lembro de uma história como essa que você contou”, disse Flask, quando, por fim, os dois botes avançavam lentamente com a carga em direção ao navio, “mas não consigo me lembrar de onde.” 
“Nos Três espanhóis? As aventuras dos três soldados sanguinários? Você leu ali, Flask? Acho que sim.” 
“Não: nunca vi tal livro; já ouvi falar dele, de todo modo. Mas agora me diga uma coisa, Stubb, você acha que o diabo de quem você estava falando agora é o mesmo que você diz estar a bordo do Pequod?”
“Sou o mesmo homem que ajudou a matar essa baleia? O diabo não vive para sempre? Quem já ouviu falar que o diabo morreu? Você já viu algum padre enlutado por causa do diabo? Se o diabo tem uma chave de cadeado para entrar na cabine do almirante, você não acha que ele pode rastejar pela vigia? Responda, senhor Flask.” 
“Quantos anos você acha que Fedallah tem, Stubb?”
“Você está vendo o mastro principal ali?”, apontando para o navio; “bem, esse é o número um; agora pegue todos os aros do porão do Pequod e os coloque enfileirados atrás do mastro, no lugar dos zeros, entendeu? Bem, isso não daria para o começo da idade de Fedallah. Nem todos os toneleiros trabalhando juntos poderiam oferecer aros em número suficiente para tantos zeros.” 
“Mas vê bem, Stubb, agora mesmo achava você um pouco cheio de bravata, quando disse que jogaria Fedallah ao mar, se houvesse oportunidade. Ora, se ele é tão velho quanto esses seus aros dizem, se ele vai viver para sempre, de que adiantaria jogá-lo ao mar – quer me dizer?”
“Ele ao menos ganharia um bom mergulho.” 
“Mas ele voltaria.” 
“E que ele mergulhasse de novo; e assim continuasse, mergulho após mergulho.” 
“E se ele tivesse a ideia de fazer você mergulhar também – sim, e afogá-lo –, e então?”
“Gostaria de vê-lo tentar; eu lhe daria dois olhos tão roxos que ele não ousaria mais mostrar seu rosto na cabine do almirante por um bom tempo, muito menos naquele bailéu, onde ele vive, e no tombadilho, por onde se move sorrateiro. Dane-se o diabo, Flask; você pensa que tenho medo do diabo? Quem tem medo dele, a não ser o velho comandante, que não ousa agarrá-lo e algemá-lo, como merece, mas o deixa andar por aí roubando pessoas? Sim, e assinou um contrato com ele permitindo que fritasse todas as pessoas que tivesse roubado. Que comandante!” 
“Você acredita que Fedallah queira roubar o Capitão Ahab?”
“Se acredito? Logo vai saber, Flask. Mas agora vou ficar de olho nele; e, se eu vir alguma coisa suspeita acontecendo, vou agarrá-lo pelo colarinho e dizer – Olha aqui, Belzebu, você não vai fazer isso; e se ele fizer algum estardalhaço, juro por Deus que tiro o rabo dele do bolso, levo para o cabrestante e dou-lhe tantos puxões e trancos que seu rabo vai ficar tão pequeno quanto um coto – entendeu? E depois disso, creio que quando se vir atracado daquele jeito esquisito, decepado, vai rastejar daqui sem nem ao menos sentir alegria de ter o rabo entre as pernas.” 
“E o que você vai fazer com o rabo, Stubb?”
“O que vou fazer? Vendê-lo como um chicote de boi quando voltarmos para casa – o que mais?” 
“Ora, você está falando a sério? Você está falando a sério desde o começo, Stubb?” 
“Sério ou não, agora chegamos ao navio.”

     Os botes foram chamados para rebocar a baleia para o costado de bombordo, onde correntes para a cauda e outros apetrechos haviam sido preparados para prendê-la.

“Não falei?”, disse Flask; “sim, em breve você vai ver a cabeça dessa baleia franca pendurada do lado oposto à do Cachalote.”

     Não muito depois, as palavras de Flask provaram ser verdadeiras. Antes o Pequod havia se inclinado abruptamente na direção da cabeça do Cachalote; agora, com o contrapeso das duas cabeças, a quilha retomou a posição de sempre; embora isso lhe custasse muito esforço, acredite. Assim, quando você iça de um lado a cabeça de Locke, vai-se para esse lado; mas então erga a cabeça de Kant do outro lado, e você volta à posição anterior; mas num estado deplorável. Desse modo, certas mentes estão sempre tentando retomar o prumo. Ó, insensatos! Jogai ao mar todas essas cabeças retumbantes e navegareis direto e reto.
     Arrumando o corpo de uma baleia franca, quando trazida para o costado do navio, segue-se o mesmo procedimento preliminar dedicado ao Cachalote; apenas, no caso do último, a cabeça é cortada por inteiro, enquanto no primeiro lábios e língua são retirados e pendurados separadamente no convés, com a conhecida barbatana escura presa à chamada coroa. Mas, nesse caso, nada disso foi feito. As carcaças das duas baleias foram deixadas para trás; e o navio levando as duas cabeças parecia uma mula carregando dois cestos muito pesados.
     Enquanto isso, Fedallah olhava tranquilamente para a cabeça da baleia franca, e, de vez em quando, seus olhos passavam das rugas profundas do animal para as linhas de sua própria mão. E Ahab estava numa posição tal, que o Parse ocupava sua sombra; enquanto, se é que o Parse tinha uma sombra, esta se fundiu com a de Ahab, encompridando-a. Enquanto os marinheiros trabalhavam, faziam conjecturas Lapônicas a respeito de todas as coisas acontecidas.

continua na página 357...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
73 - Stubb e Flask matam uma Baleia Franca                                
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

domingo, 23 de agosto de 2026

Reunião Dançante... Garajão 6

Garajão 6


então, 
desaparece de vista
de vez na vida
sem saber ou sem querer saber
o coração se transforma
sempre vai tocar desse jeito
acordo e nada mudou
a sensação daquele primeiro abraço
aquele primeiro beijo
você sabe o que encontrou
nunca mais o mesmo
e você ali,
entre a Lua e a cidade,
escondida na multidão,
onde anda aquele amor?
parece loucura
o que posso fazer?
navegando
preso em devaneios
você vai acreditar?
         não sei
ainda escuto aquela sinfonia em mim


o ano é 1979

Never Be The Same
Christopher Cross




quer cantar junto? dançar?

It was good for me
It was good for you
Now nothing either of us can say or do
Can change the way you feel tonight
Sometimes love just slips out of sight

Just one thing before you go
Just one thing that you've got to know
No one will ever touch me that way
The way that you did that very first day

And I'll
Never be the same without you here
I'll live alone
Hide myself behind my tears
And I'll
Never be the same without your love
I'll live alone
Try so hard to rise above

The years go by
There's always someone new
To try and help me forget about you
Time and again it does me no good
Love never feels the way that it should

I loved you then I guess I'll love you forever
And even though I know we could never stay together
I think about how it could have been
If we could just start all over again

And I'll
Never be the same without you here
I'll live alone
Hide myself behind my tears
And I'll
Never be the same without your love
I'll live alone
Try so hard to rise above

It was good for me
It was good for you
Now nothing either of us can say or do
Can change the way you feel today
Sometimes love just slips away

Just one thing before you go
Just one thing that you've got to know
No one will ever touch me that way
The way that you did that very first day

And I'll
Never be the same without you here
I'll live alone
Hide myself behind my tears
And I'll
Never be the same without your love
I'll live alone
Try so hard to rise above

o ano é 1981

Arthur's Theme
Christopher Cross



"Arthur's Theme" foi co-escrito por Christopher Cross, Burt Bacharach, Carole Bayer Sager e Peter Allen. Serviu como tema principal do filme "Arthur", estrelado por Dudley Moore e Liza Minnelli.

  
a Lua e a cidade...

Once in your life you will find her
Someone who turns your heart around
And next thing you know
Yor're closing down the town
Wake up and it's still with you
Even though you left her way across town
Wonderin' to yourself
Hey what have I found

When you get caught
Between the moon and New York City
I know it's crazy but it's true
If you get caught
Between the moon and New York City
The best that you can do
The best that you can do
Is fall in love

Arthur, he does as he pleases
All of his life his master's toys
And deep in his heart he's just
He's just a boy
Living his life one day at a time
He's showing himself a pretty good time
He's laughing about the way
They want him to be


o ano é 1979

Sailing
Christopher Cross



"Sailing" é uma canção de soft rock de 1979 escrita e gravada por Christopher Cross. Foi lançado em maio de 1980 como o segundo single de seu primeiro álbum, Christopher Cross (1979), que já havia sido certificado como ouro nessa época.


Well, it's not far down to paradise, at least it's not for me
And if the wind is right you can sail away and find tranquility
Oh, the canvas can do miracles, just you wait and see
Baby believe me

It's not far to never-never land, no reason to pretend
And if the wind is right you can find the joy of innocence again
Oh, the canvas can do miracles, just you wait and see
Baby believe me

Sailing takes me away to where I've always heard it could be
Just a dream and the wind to carry me
And soon I will be free

Fantasy, it gets the best of me
When I'm sailing
All caught up in the reverie, every word is a symphony
Won't you believe me?

Sailing takes me away to where I've always heard it could be
Just a dream and the wind to carry me
And soon I will be free

Well it's not far back to sanity, at least it's not for me
And if the wind is right you can sail away and find serenity
Oh, the canvas can do miracles, just you wait and see
Baby believe me

Sailing takes me away to where I've always heard it could be
Just a dream and the wind to carry me
And soon I will be free


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Garajão 01: Alone again / Ben / Soley Soley
Garajão 02: One Day In Your Life / Dance, Little Lady Dance / More Than A Woman
Garajão 03: Não se esqueça de mim / Os seus botões / Café da manhã
Garajão 04: Daddy Cool / Ma Baker / Sunny  
Garajão 05: Everything I Own / Born to be alive / Walk of life
Garajão 06: Never Be The Same / Arthur's Theme / Sailling


Christopher Cross: foi APAGADO pela Indústria




Cinema
ARTHUR, o Milionário Sedutor (1981): 
O Melhor Que Você Pode Fazer *Tema de Arthur*



Tchekhov - O bilhete premiado

 O bilhete premiado


Anton Tchekhov

O bilhete premiado

     Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

– Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando a mesa. – Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.
– Saiu – respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não penhorou seu bilhete?
– Não. Paguei os juros na terça.
– Qual é o número?
– A série é 9499, bilhete 26.
– Então… Vejamos… 9499 e 26.

     Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, como que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e como se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.

– Macha – disse com voz surda -, o 9499 está aqui. A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando. 
– 9499? – Perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.
– Sim, sim… Está, de verdade!
– E o número do bilhete?
– É mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência… espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?…

     Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. É tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!

– A nossa série está – disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. – Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!
– Está bem, mas agora, olhe.
– Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se está na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o número 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?

     Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas Os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a ideia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.
     Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.

– E se tivermos ganho? – disse. – Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, 25 mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova… uma viagem… pagamento de dívidas e assim por diante. Os 40 mil restantes colocaria no banco, para render juros…
– Realmente, uma propriedade seria ótimo – disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. Nalgum canto, na região de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.

     E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranquilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília… Faz calor… O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ir ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão.
     Ao pôr do sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai n’água. Na água, Os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces… À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.

– Sim, seria bom comprar uma propriedade – diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.

     Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto – tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra… Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se…
     Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas – não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!
     Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.

– Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.

     E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália… Para a Índia!

– Eu também iria para o estrangeiro correndo – disse a mulher. – Mas olhe o número do bilhete!
– Espere! Daqui a pouco...

     Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro…

“Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”

     E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.

“Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas… para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo… Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio… Iria escondê-lo de mim… Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.

     Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.
     Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam lhe agora odiosos, repulsivos.

“São uns canalhas”, ele pensou.

     E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.
     Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas ideias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.

“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.

     O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:

– Série 9499, bilhete 46! Não 26!

     A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.

– Só o diabo sabe – disse Ivan Dmítritch, começando a implicar.
– Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

Fim
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Leia também:
A dama do cachorrinho (III) / A dama do cachorrinho (IV) / O bilhete premiado /     .     
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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
A dama do cachorrinho (III) /  LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante". 
Como contista se tornou insuperável. Seus contos, tanto quanto suas peças, são, em geral, obras-primas que harmonizam perfeitamente a forma e a precisão vocabulares a uma sedutora e corretíssima fluência verbal, sem deixar de conter também um conteúdo lírico dos mais densos. Melancolicamente pessimista e aproveitando ao máximo todas as experiências humanas e sociais, Tchekhov seria o criador de uma escola literária que encontraria mais tarde, mesmo nos países ocidentais, enorme repercussão.