Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Sexta Parte
V
Acabavam de fechar todas as entradas da Voreux e os sessenta
soldados, descansando armas, obstruíam a única porta que fora deixada
livre, a que conduzia à recebedoria por uma escada estreita, para onde
davam a sala dos contramestres e o vestiário. O capitão alinhara-os em duas
fileiras, contra o muro de tijolos, para não poderem ser atacados pela
retaguarda.
A princípio, o grupo de mineiros vindos do conjunto habitacional
manteve-se a distância. Eram no máximo uns trinta e faziam seus planos
com palavras violentas e confusas.
A mulher de Maheu, que fora a primeira a chegar, despenteada sob
um lenço posto às pressas, tendo nos braços Estelle, que dormia, repetia
com voz febril:
— Que ninguém entre e ninguém saia! Temos que agarrá-los todos
lá dentro!
Maheu aprovava, no momento em que o velho Mouque chegou de
Réquillart. Quiseram impedir sua passagem, mas ele se debateu, dizendo
que os cavalos não podiam ficar sem comer sua aveia e que nada tinham a
ver com a revolução. E, ainda por cima, havia um cavalo morto, estavam à
sua espera para retirá-lo. Etienne libertou o velho cavalariço, que os
soldados deixaram descer ao poço. Um quarto de hora mais tarde, quando o
bando de grevistas já estava maior e tornava-se ameaçador, uma porta larga
do térreo se abriu e apareceram homens arrastando o animal morto, um
espetáculo horrível, ainda enfiado na rede de corda, e que abandonaram no
meio das poças de neve derretida. Foi tamanha a comoção que ninguém os
impediu de entrarem novamente e trancarem a porta. Todos tinham
reconhecido o cavalo, pela cabeça dobrada e amarrada ao flanco. Ouviram
se murmúrios:
— Não é o Trombeta? É, sim, é o Trombeta.
Realmente, era ele. Desde que descera, nunca pudera aclimatar-se
Andava tristonho, sem gosto para o trabalho, como que torturado por uma
nostalgia do sol. Em vão Batalha, o decano da mina, roçava-o
amigavelmente com as costelas, mordiscava-lhe o pescoço, tentando
incutir-lhe um pouco da resignação dos seus dez anos debaixo da terra.
Estas carícias redobraram sua melancolia, seu pêlo fremia sob as
confidencias do camarada que envelhecera nas trevas; e ambos, cada vez
que se encontravam e relinchavam juntos, pareciam estar-se lamentando: o
velho de já nem sequer recordar, o jovem de não conseguir esquecer. Na
cavalariça, em manjedouras vizinhas, viviam de cabeça baixa, assoprando
as narinas um ao outro, intercambiando seu contínuo sonho da luz, visões
de pradarias, de estradas brancas, de claridades amarelas, sem fim. Depois,
quando Trombeta, alagado em suor, agonizava na sua cama de palha,
Batalha pusera-se a farejá-lo em desespero, resfolegando rapidamente,
como se estivesse soluçando. Sentia que o outro estava esfriando, a mina
arrebatava-lhe sua derradeira alegria, aquele amigo caído lá do alto, cheio
de bons aromas que lhe recordavam sua juventude ao ar livre. E arrebentara
a correia, relinchando de medo ao constatar que Trombeta não se mexia
mais.
Mouque vinha advertindo o capataz havia oito dias do que se estava
passando, mas quem iria importar-se com um cavalo doente naquela
ocasião?! E depois, a direção não gostava de mudar cavalos. Agora,
portanto, só restava tirá-lo para fora. Na véspera, o cavalariço e mais dois
homens haviam passado uma hora amarrando o cavalo morto. Atrelaram
Batalha para levá-lo até o poço. Lentamente, o velho cavalo puxava o
camarada morto, por uma galeria tão estreita que tinha de dar safanões,
arriscando arrancar-lhe a pele. E, exausto, abanava a cabeça, ouvindo o
longo arrastar daquela massa que ia ser esfolada. Na boca do poço, quando
o desatrelaram, seguiu com um olhar triste os preparativos da subida, o
corpo lançado sobre travessas, por cima do fosso, a rede amarrada por baixo
de um elevador. Afinal os ascensoristas deram o sinal de corpo, ele ergueu a
cabeça para vê-lo partir, primeiro devagar, em seguida engolfado nas trevas,
desaparecido para sempre naquele buraco escuro. E assim permaneceu, de
pescoço espichado, sua memória vacilante de animal recordando-se talvez
das coisas da terra. Mas tudo estava terminado, o companheiro nunca mais
veria nada, ele próprio seria assim envolto como um embrulho atroz, no dia
em que subisse por ali. Suas pernas puseram-se a tremer, o ar puro que
vinha dos prados distantes o deixava tonto; e parecia bêbado quando voltou
vagarosamente para a cavalariça.
No pátio, os mineiros continuavam sombrios diante do cadáver de
Trombeta. Uma mulher disse a meia voz:
— Mais um homem que vai descer, se quiser...
Mas um novo grupo despontava vindo do conjunto habitacional, e
Levaque, que marchava à frente, seguido da mulher e de Bouteloup,
gritava:
— Morram os belgas! Fora com os estrangeiros! Morram! Morram!
Todos se precipitaram, Etienne teve de contê-los. Aproximou-se do
capitão, um homem jovem, alto e delgado, com apenas vinte e oito anos, de
fisionomia desesperada e resoluta. Começou a explicar-lhe tudo, tentando
aliciá-lo, estudando o efeito das suas palavras. Para que arriscar um
massacre inútil? Acaso a justiça não estava do lado dos mineiros? Eram
todos irmãos, deviam entender-se. À palavra "república", o capitão fizera
um gesto nervoso. Permaneceu todo o tempo numa postura militar, e disse
bruscamente:
— Caia fora! Não me force a cumprir com o meu dever. Três vezes
Etienne recomeçou. Por trás dele os companheiros resmungavam. Corria o
boato de que o Sr. Hennebeau estava na mina e falava-se em descê-lo ao
fundo pelo pescoço para ver se ele, sozinho, conseguiria tirar carvão do
veio. Mas era boato falso, lá dentro só estavam Négrel e Dansaert, que, por
um momento, chegaram a aparecer numa janela da recebedoria: o capataz
conservava-se atrás, embaraçado desde a sua aventura com a mulher de
Pierron, ao passo que o engenheiro, corajosamente, esquadrinhava a
multidão com seus olhinhos vivos, sorrindo com aquele desprezo trocista
com que envolvia pessoas e coisas. Começaram as vaias e desapareceram.
No seu lugar surgiu a cabeça loura de Suvarin; estava de serviço, não tinha
abandonado sua máquina não tinha abandonado sua máquina um só dia,
desde o início da greve, num mutismo absoluto, aos poucos absorvido por
uma ideia fixa, que como um prego de aço parecia luzir no fundo dos seus
olhos pálidos.
— Caiam fora! — repetiu gritando o capitão. — Não tenho nada
que ouvir, tenho ordens de guardar o poço e vou cumpri-las... Se vocês se
aproximarem dos meus homens, eu saberei como fazê-los recuar.
Apesar da voz firme, sua inquietude e palidez eram cada vez
maiores, diante do número sempre crescente de mineiros. Devia ser rendido
ao meio-dia, mas, temendo não aguentar-se até lá, acabava de enviar a
Montsou um mensageiro em busca de reforço.
Recomeçaram as vociferações:
— Morte aos estrangeiros! Morte aos belgas! Aqui nós somos os
donos!
Etienne recuou, abatido. Era o fim, só lhe restava lutar e morrer.
Daquele momento em diante deu rédea solta aos companheiros. O boato
avançou até o destacamento. Eram perto de quatrocentos e os conjuntos
habitacionais das imediações também estavam chegando, prontos para a
batalha. Todos gritavam a mesma coisa; Maheu e Levaque, furiosos,
conclamavam os soldados:
— Vão embora! Não temos nada contra vocês, desistam!
— Isso não é assunto para soldado — gritava a mulher de Maheu.
— Deixem a gente resolver o problema entre nós!
Por trás dela, a mulher de Levaque acrescentava, ainda mais
violenta:
— Será que teremos de dar cabo de vocês para poder passar?
Vamos, deem o fora!
Ouviu-se até a voz esganiçada de Lydie, que se metera no meio da
turba, acompanhada de Bébert, e gritava a plenos pulmões:
— Soldados cretinos!
Catherine, a poucos passos, olhava, escutava, como que
aparvalhada com aquelas novas violências, no meio das quais a má sorte a
fazia cair. Será que já não estava sofrendo bastante? Que pecado teria
cometido para ser assim perseguida pela desgraça? Ainda na véspera, não
tinha compreendido nada dessas violências grevistas que agora explodiam,
e pensara que, quando já se tem o seu quinhão de maus-tratos, não se deve
procurar mais. Mas agora seu coração enchia-se de ódio, lembrou-se do que
Etienne dizia, quando procurava catequizá-los, e por isso procurou ouvir o
que ele estava falando com os soldados. Etienne chamava-os de
companheiros lembrava-lhes que também eram povo, que deviam estar do
lado do povo, contra os exploradores da miséria.
Mas, de repente, a multidão abriu alas, e apareceu uma velha Era a
Queimada, horrendamente magra, com o pescoço e os braços descobertos,
chegando num tal galope que quase não enxergava com o cabelo grisalho
todo desgrenhado caindo-lhe nos olhos.
— Raios os partam! Cheguei a tempo! — balbuciou ela respirando
a custo. — O vendido do Pierron tinha-me fechado no porão!
E, sem tomar fôlego, caiu sobre a tropa com a sua boca negra
vomitando insultos:
— Corja de canalhas! Corja de crápulas! Lambe-botas dos
superiores, só são corajosos quando é para ir contra os pobres!
Os outros, então, juntaram-se a ela e foi uma torrente de injúrias.
Alguns ainda gritavam: "Vivam os soldados! Para o poço com o oficial!"
Mas dentro em pouco só se ouvia um clamor: "Abaixo os calças
vermelhas!" E esses homens, que tinham escutado impassíveis, de
fisionomia imóvel e muda, os apelos à fraternidade, as tentativas amistosas
de aliciamento, conservavam a mesma rigidez passiva sob aquela saraivada
de insultos. Detrás deles o capitão desembainhara a espada. E, como a
multidão apertava o cerco, ameaçando esmagá-los contra a parede,
comandou preparar baioneta. Os soldados obedeceram, duas fileiras de
pontas de aço vieram encostar-se ao peito dos grevistas.
— Canalhas! — berrou a Queimada, recuando.
Mas já estavam todos avançando novamente, num exaltado
desprezo pela morte. Algumas mulheres se precipitaram, a de Maheu e a de
Levaque clamavam:
— Podem matar-nos, podem matar-nos! Queremos os nossos
direitos!
Levaque, em risco de se cortar, tinha agarrado nas mãos um feixe
de baionetas, três baionetas, e sacudia-as, puxando-as para arrancá-las. E
torcia-se com a força duplicada da sua cólera, enquanto Bouteloup, ao lado,
arrependido de ter seguido o companheiro, olhava-o com toda a calma.
— Vamos, ataquem! — repetia Maheu. — Ataquem, se têm
coragem!
E abriu a jaqueta e a camisa, mostrando o peito nu, cabeludo e
tatuado pelo carvão. Começou a investir contra o aço, obrigando os
soldados a recuarem, terrível na sua insolência e bravura. Uma das
baionetas atingiu-o à altura do mamilo e ele, como doido, forçava-a que
entrasse profundamente, querendo ouvir as costelas estalarem.
— Covardes, não se atrevem... Há dez mil atrás de nós. Podem
matar-nos, terão de matar mais dez mil.
A posição dos soldados tornava-se crítica; tinham recebido ordem
de só usarem suas armas em caso extremo. Mas como impedir aqueles
loucos de se auto-imolarem? Por outro lado, o espaço diminuía,
encontravam-se agora acuados contra a parede, na impossibilidade de
continuar recuando. A pequena tropa, um punhado de homens, diante da
avalanche de mineiros, continuava resistindo, executando com sangue-frio
as ordens breves dadas pelo capitão. Este, com seus olhos claros, os lábios
nervosamente adelgaçados, só temia uma coisa, vê-los perder a cabeça com
as injúrias. Já um sargento jovem, alto e magro, com bigode ralo e em pé,
piscava os olhos de uma maneira inquietadora. Ao lado dele, um velho
cheio de condecorações, de pele curtida por inúmeras campanhas, ficara
lívido ao ver sua baioneta torcida como uma palha. Outro, sem dúvida um
recruta, ainda cheirando a terra lavrada, fazia-se rubro cada vez que era
chamado crápula e canalha. E as violências não cessavam, os punhos
estendidos, os palavrões, as torrentes de acusações e ameaças eram como
bofetadas. Era necessária toda a força da disciplina para os conter assim,
impassíveis, no altivo e triste silêncio da rigidez militar.
Um choque parecia fatal, quando surgiu por trás da tropa o
contramestre Richomme, com sua cabeça alva de policial bondoso,
fremindo de emoção. Falou aos gritos:
— Diabo os carregue, seus idiotas! Isso não pode continuar assim!
E lançou-se entre as baionetas e os mineiros.
— Companheiros, escutem... Vocês sabem muito bem que eu sou
um velho operário e sempre fui um dos de vocês. Pois bem, raios me
partam! Prometo-lhes que, se não forem justos com vocês, eu mesmo irei
até os patrões para lhes dizer umas boas... Mas chega disto, não se lucra
nada berrando palavrões a esta boa gente e querendo ficar espetado na
ponta duma baioneta.
Todos escutavam, hesitantes. No alto, infelizmente, voltou a
delinear-se o perfil de Négrel. Temia, sem dúvida, ser acusado de enviar um
contramestre, em vez de arriscar a própria pele. Tentou falar, mas sua voz
perdeu-se no meio de tão espantoso tumulto, que teve de abandonar
novamente a janela, depois de ter dado de ombros. Daí por diante, por mais
que Richomme suplicasse em seu próprio nome, por mais que repetisse que
aquilo devia ser decidido entre companheiros, repeliram-no, cheios de
suspeitas; mas ele não arredou pé do meio dos grevistas.
— Raios os partam! Podem rachar-me a cabeça, mas não saio daqui
enquanto continuarem bancando os idiotas!
continua na página 368...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.