Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Quinta Parte
I
Uma chama incendiou os olhos de Deneulin, enquanto seus punhos
de homem amante dos governos fortes se fechavam de medo de ceder à
tentação de agarrar alguém pelo pescoço. Preferiu discutir, argumentar.
— Vocês querem cinco cêntimos, e concordo em que o trabalho
vale isso. Mas eu não posso dá-los. Se desse, estaria perdido. Tratem de
compreender que para vocês viverem é preciso que eu viva. E eu estou
muito apertado, o menor aumento no preço da mão-de-obra me derrubaria.
Lembrem-se de que dois anos atrás, quando da última greve, cedi, mas
naquele tempo ainda podia. E saibam que essa alta de salário foi
extremamente ruinosa para mim, que desde então me debato numa crise.
Hoje, prefiro fechar esta joça agora mesmo a não saber onde, no mês que
vem, arranjar dinheiro para pagar vocês.
Chaval riu maldosamente ao ver aquele patrão falando tão
francamente dos seus negócios. Os outros baixavam a cabeça obstinados,
incrédulos, sem poderem compreender que um chefe não ganhasse milhões
com os seus operários.
Deneulin continuou insistindo. Explicou sua luta contra Montsou
sempre à espreita, pronta a devorá-lo se ele, por descuido, caísse de mau
jeito. Era uma concorrência desenfreada, que o forçava a fazer economia,
tanto mais que a grande profundidade da Jean-Bart aumentava o preço da
extração, condição desfavorável só compensada pela grande espessura das
camadas de hulha. Nunca teria aumentado os salários após a última greve,
se não fosse a necessidade de imitar Montsou, de receio de ver seus
empregados abandonarem-no. Em seguida, ameaçou-os com o futuro, que
só seria desfavorável para eles próprios: se o obrigassem a vender, ficariam
sob o jugo terrível da outra administração. Ele não estava entronizado num
tabernáculo ignorado e longínquo: não era desses acionistas que pagam a
gerentes para explorar o mineiro e que este nunca viu; era um patrão,
arriscava algo mais do que o seu dinheiro, punha em risco sua inteligência,
sua saúde, sua vida. A suspensão do trabalho representaria a morte,
certamente, porque não tinha estoque e precisava satisfazer às encomendas.
Por outro lado, o capital que representava seu aparelhamento não podia
ficar inerte. De que maneira manteria seus compromissos? Quem pagaria o
juro das somas que lhe tinham confiado seus amigos? Seria a falência.
— Isso é tudo, minha gente! — disse ele para terminar. — Gostaria
de tê-los convencido... Não se pode pedir a um homem que se degole... E,
se eu concordar com esses cinco cêntimos ou permitir que entrem em greve,
será a mesma coisa que cortar o pescoço.
Calou-se. Os murmúrios começaram a correr. Parte dos mineiros
parecia hesitar. Diversos deles voltaram para perto do poço.
— Que ao menos haja liberdade de escolha — disse um
contramestre. — Quais são os que querem trabalhar?
Catherine foi uma das primeiras a avançar, mas Chaval, furioso,
empurrou-a, gritando:
— Estamos todos de acordo, só os velhacos é que abandonam os
companheiros! Desde esse momento a conciliação pareceu impossível. A
gritaria recomeçou, os homens que se encontravam perto do poço foram
arredados aos empurrões e quase esmagados contra as paredes. 0 diretor,
desesperado, tentou, por um momento, lutar sozinho, arremeter
violentamente contra a turba, mas seria uma loucura inútil, teve de se
retirar. E ficou por alguns minutos no fundo do escritório do recebedor,
jogado sobre uma cadeira, ofegando, tão confundido na sua impotência que
não conseguia pensar em nada. Finalmente acalmou-se e mandou um vigia
buscar Chaval. Quando este último aceitou conversar, despediu os demais
com um gesto.
— Deixem-nos sós.
A intenção de Deneulin era descobrir o que aquele astuto estava
amando. Às primeiras palavras já pôde ver que era um vaidoso, devorado
pela paixão da inveja. Agarrou-o então pela lisonja, fingiu espantar-se de
que um operário com seus méritos comprometesse dessa maneira seu
futuro. Ouvindo-o, dir-se-ia que, há muito, eleja tinha Chaval na mira para
um posto melhor. Terminou oferecendo-lhe à queima-roupa o lugar de
contramestre, para mais tarde. Chaval escutava-o silencioso, a princípio
com os punhos cerrados, depois gradualmente abertos. Seu cérebro
trabalhava sem descanso: se insistisse na greve, nunca passaria de lugar
tenente de Etienne, enquanto outra ambição florescia nele, a de ser um
chefe. Um calor de orgulho lhe subia às faces e o embriagava. E, aliás, o
grupo de grevistas que esperava toda a manhã não viria mais, a essa hora;
algum obstáculo o detivera, talvez os policiais: era o momento da
conciliação. Mas assim mesmo continuava a negacear com a cabeça,
fingindo o homem incorruptível, batendo indignado no peito. Finalmente,
sem falar ao patrão sobre a vinda dos grevistas de Montsou, prometeu
acalmar os companheiros e convencê-los a descer.
Deneulin permaneceu escondido, os próprios contramestres
mantiveram-se afastados. Durante uma hora ouviram Chaval perorar,
discutir, em pé sobre um vagonete de recepção. Parte dos operários
começou a vaiá-lo, cento e vinte foram embora, exasperados, obstinando-se
na resolução que ele os tinha feito tomar. Eram já mais de sete horas, raiava
o dia, muito claro, um dia alegre de grande geada. E, de repente, o
movimento da mina recomeçou, o trabalho parado seguiu o seu curso.
Primeiro foi a máquina, cuja biela mergulhou, enrolando e
desenrolando os cabos das bobinas. Depois, em meio à barulheira dos
sinais, começou a descida; os elevadores enchiam-se, afundavam, subiam, o
poço engolindo a sua ração de aprendizes, operadoras de vagonetes e
britadores; enquanto isso, sobre o pavimento de ferro, os ascensoristas
empurravam os vagonetes comum barulho ensurdecedor.
— Diabo, ainda andas por aqui? — gritou Chaval a Catherine que
esperava a sua vez. — Desce de uma vez e começa logo a trabalhar!
Às nove horas, quando a Sra. Hennebeau chegou no seu carro
acompanhada de Cécile, encontrou Lucie e Jeanne já prontas, muito
elegantes apesar de seus vestidos vinte vezes reformados. Deneulin
admirou-se ao ver Négrel, que acompanhava a caleça, a cavalo Então os
homens também estavam convidados? A Sra. Hennebeau explicou com seu
ar maternal que a haviam assustado dizendo que as estradas estavam cheias
de gente mal-encarada, e achara por bem trazer consigo um defensor.
Négrel riu e tranquilizou-as: nada de grave, cão que ladra não morde,
ninguém ousaria atirar urna pedra a uma vidraça.
Ainda alegre com o seu sucesso, Deneulin contou a revolta
reprimida da Jean-Bart. Agora declarava-se perfeitamente tranquilo. E ali,
na estrada de Vandame, enquanto as senhoritas subiam na carruagem, todos
se mostravam felizes com aquele dia maravilhoso, sem adivinharem, ao
longe, na campina, o grande frêmito que tomava corpo, o povo em marcha,
de que ouviriam o avançar se tivessem colado o ouvido ao chão.
— Muito bem, está combinado — disse a Sra. Hennebeau. — Esta
noite o senhor vai buscar as suas filhas e janta conosco. A Sra. Grégoire
também prometeu ir buscar Cécile.
— Conte comigo — respondeu Deneulin.
A caleça partiu para os lados de Vandame. Jeanne e Lucie
debruçaram-se mais uma vez para fora e sorriram para o pai, que ficara
parado à beira do caminho. Négrel trotava garbosamente atrás das rodas que
fugiam.
Atravessaram a floresta, tomaram a estrada que vai de Vandame a
Marchiennes. Ao passarem por Tartaret, Jeanne perguntou à Sra.
Hennebeau se conhecia Cote-Verte, e esta, apesar de já estar residindo na
região há cinco anos, confessou não ter visitado aquelas bandas. Fizeram
então um desvio.
O Tartaret, na orla da floresta, era uma charneca inculta de uma
esterilidade vulcânica, sob a qual, havia séculos, queimava uma jazida de
hulha. Era uma lenda muito antiga, os mineiros da região contavam uma
história sobre uma bola de fogo caindo do céu e atingindo aquela sodoma
das entranhas da terra, onde as operadoras de vagonetes manchavam-se de
abominações. O fogo se espalhara com tanta rapidez que elas não tinham
tido tempo de escapar e ainda hoje ardiam no fundo daquele inferno. As
rochas calcinadas, de um vermelho escuro, cobriam-se de uma eflorescência
de alúmen, que era como uma lepra. O enxofre brotava em florações
amarelas nas bordas das fissuras. De noite, os corajosos que ousavam espiar
por esses buracos juravam ver as chamas e as almas criminosas debatendo
se no braseiro interior. Labaredas errantes corriam à flor do solo, vapores
quentes, expelindo o fedor da imunda cozinha do diabo fumegavam
continuamente. E como um milagre de eterna primavera, .no meio daquela
charneca maldita do Tartaret, a Côte-v-íte espraiava o seu prado sempre
verde, as suas faias cujas folhas se renovavam sem cessar, suas semeaduras
que chegavam a dar três colheitas. Era uma estufa natural, aquecida pelo
incêndio das camadas profundas. Neve alguma resistia a tal temperatura. A
enorme floração de verdura, ao lado das árvores despojadas da floresta,
apresentava-se soberba naquele dia de dezembro, sem que a geada tivesse,
sequer, queimado a extremidade de suas folhas.
Dentro em pouco a caleça corria pela planície. Négrel
desmistificava a lenda explicando como o fogo começava, o mais das vezes,
no fundo de uma jazida pela fermentação da poeira do carvão; quando não
se podia dominá-lo, ele ardia indefinidamente. Citou o caso de uma mina da
Bélgica que tivera de ser inundada, desviando-se um rio do seu curso para
lançá-lo no poço.
Mas o engenheiro achou melhor calar-se, já que grupos de mineiros
cruzavam agora a todo instante a carruagem. Passavam em silêncio,
lançando olhares atravessados, examinando aquele luxo que os obrigava a
abrir caminho. O seu número aumentava sempre, os cavalos tiveram de
andar a passo na estreita ponte do Scarpe. Que estava acontecendo para que
toda aquela gente andasse pelos caminhos? As damas começavam a ficar
assustadas; Négrel farejava algo de mau naquela agitação. Foi com uma
sensação de alívio que chegaram finalmente a Marchiennes. Esbatidas pelo
sol, as baterias de fornalhas de coque e as chaminés dos altos-fornos
expeliam fumaça, cuja sempiterna fuligem chovia no ar.
continua na página 254...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.