quarta-feira, 15 de julho de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas (4)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     44. As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas
          Protecionismo contra livre-câmbio, o país contra o porto: no fundo, esta foi a luta que ardeu por trás das guerras civis argentinas durante o século passado. Buenos Aires, que no século XVII ainda era uma grande aldeia de 400 casas, apoderou-se da nação inteira a partir da Revolução de Maio e da independência. Era o porto único, e por ele tinham de passar todos os produtos que entravam e saíam do país. As deformações que a hegemonia portenha impôs à nação se notam claramente em nossos dias: a capital abarca, com seus subúrbios, mais de um terço da população total da Argentina, e exerce sobre as províncias diversas formas de proxenetismo. Naquela época, detinha o monopólio da renda aduaneira, dos bancos e da emissão de moeda, e prosperava vertiginosamente à custa das províncias do interior. A quase totalidade da receita de Buenos Aires provinha da alfândega nacional, que o porto usurpava em proveito próprio, e mais da metade se destinava aos gastos de guerra contra as províncias, que deste modo pagavam para ser aniquiladas. [1]

[1]  URGIN, Miron. Aspectos económicos del federalismo argentino. Buenos Aires, 1960.

     Da Sala de Comércio de Buenos Aires, fundada em 1810, os ingleses alongavam seus telescópios para vigiar a passagem dos navios e abasteciam os portenhos com tecidos finos, flores artificiais, guarda-chuvas, botões e chocolates, enquanto uma inundação de ponchos e estribos de fabricação inglesa fazia seus estragos no interior do país. Para aquilatar a importância que o mercado mundial então atribuía aos couros rio-platenses, é preciso remontar a uma época em que os plásticos e os revestimentos sintéticos não existiam nem mesmo como suspeita na imaginação dos químicos. Nenhum cenário mais propício que a fértil planície do litoral para a criação de gado em larga escala. Em 1816, descobriu-se um novo sistema que permitia conservar indefinidamente os couros, através de um tratamento de arsênico; de resto, prosperavam e se multiplicavam as charqueadas. O Brasil, as Antilhas e a África abriam seus mercados para a importação do charque, e na medida em que a carne salgada, cortada em mantas secas, ia ganhando consumidores estrangeiros, os consumidores argentinos notavam a mudança. Criaram-se impostos para o consumo interno da carne, ao mesmo tempo em que eram desoneradas as exportações; em poucos anos, o preço dos novilhos se multiplicou por três, e as estâncias valorizaram suas terras. Os gaúchos estavam acostumados a caçar livremente os novilhos a céu aberto, no pampa sem aramados, para comer o lombo e se desfazer do resto, com a única obrigação de entregar o couro ao dono do campo. As coisas mudaram. A reorganização da produção implicava a submissão do gaúcho nômade a uma nova dependência servil: um decreto de 1815 estabeleceu que todo homem do campo que não tivesse propriedades seria reputado servente, com a obrigação de portar uma papeleta assinada a cada três meses pelo seu patrão. Ou era servente, ou era vadio, e os vadios eram incorporados, à força, nos batalhões de fronteira [2]. O criollo rude, que servira de carne de canhão nos exércitos patriotas, era convertido em pária, em peão miserável ou em milico de fortim. Ou se rebelava, lança em punho, no redemoinho das montoneras [3]. Esse gaúcho arisco, despossuído de tudo exceto de glória e de coragem, nutriu as cargas de cavalaria que por vezes desafiaram os bem armados exércitos de linha de Buenos Aires. O surgimento da estância capitalista, no pampa úmido do litoral, colocava todo o país a serviço das exportações de couro e carne, e a marchar de mãos dadas com a ditadura do porto livre-cambista de Buenos Aires. O uruguaio José Artigas havia sido, até a derrota e o exílio, o mais lúcido dos caudilhos que lideraram o combate das massas criollas contra os comerciantes e os terras-tenentes atados ao mercado mundial, mas muitos anos depois Felipe Varela ainda foi capaz de desencadear uma grande rebelião no norte argentino porque, como constava em sua proclamação, “ser provinciano é ser mendigo sem pátria, sem liberdade, sem direitos”. Sua insurreição encontrou ressonância em todo o interior mediterrâneo. Foi o último montonero; morreu tuberculoso e na miséria, em 1870 [4]. O defensor da “União Americana”, projeto de ressurreição da Pátria Grande despedaçada, ainda é considerado um bandoleiro – como o era Artigas não faz muito – na história argentina ensinada nas escolas.

[2] ÁLVAREZ, Juan. Las guerras civiles argentinas. Buenos Aires, 1912.
[3] A montonera “nasce no descampado como os redemoinhos. Arremete, brada e despedaça como os redemoinhos e se detém, de repente, e morre como eles” . VEGA DÍAZ, Dardo de la. La Rioja heroica. Mendoza, 1955.
      José Hernández, que foi soldado da causa federal, cantou no Martín Fierro, o mais popular dos livros argentinos, as desditas do gaúcho desterrado de sua querência e perseguido pela autoridade: Vive el áquila en su nido, / el tigre vive en la selva, / el zorro en la cueva agena, / y en su destino inconstante, / sólo el gaucho vive errante / donde la suerte o lleva. / Porque: Para él son los calabozos, / para él las duras prisiones, / en su boca no hay razones / aunque la razón le sobre, / que son campanas de palo / las razones de los pobres.
      José Abelardo Ramos observa (Revolución y contrarrevolución en la Argentina. Buenos Aires, 1965) que os dois sobrenomes verdadeiros que aparecem no Martín Fierro são os de Anchorena y Gainza, nomes representativos da oligarquia que exterminou a criollaje em armas, e que hoje em dia se fundiram na família proprietária do diário La Prensa.
      Ricardo Güiraldes mostrou em Don Segundo Sombra ( Buenos Aires, 1939) o rosto oposto de Martín Fierro: o gaúcho domesticado, amarrado à diária, bajulador do patrão, bom para ser usado no folclore nostálgico ou para ser lastimado.
[4]  ORTEGA PEÑA, Rodolfo & DUHALDE, Eduardo Luis. Felipe Varela contra el Imperio Británico. Buenos Aires, 1966. Em 1870, também o Paraguai caía banhado em sangue pela invasão estrangeira. Era o único Estado latino americano que não tinha entrado na prisão imperialista.

     Felipe Varela nascera num pequeno povoado perdido entre as serras de Catamarca e tinha sido uma sentida testemunha da pobreza de sua província, arruinada pelo porto soberbo e distante. Em fins de 1824, quando Varela tinha três anos de idade, Catamarca não conseguiu pagar os gastos dos delegados que enviou ao Congresso Constituinte que se reuniu em Buenos Aires, e na mesma situação estavam Misiones, Santiago del Estero e outras províncias. O deputado catamarquenho Manuel Antonio Acevedo denunciava a “ominosa mudança” que a concorrência dos produtos estrangeiros havia provocado: “Catamarca tem olhado há algum tempo, sem poder solucionar, os problemas de nossa agricultura, com produtos inferiores às suas despesas; e também para sua indústria, sem um consumo capaz de alentar aqueles que a fomentam e a exercem, e para seu comércio, quase em total abandono [5]. O representante da província de Corrientes, general brigadeiro Pedro Ferré, resumia assim, em 1830, as consequências possíveis do protecionismo que ele propugnava: “Sim, sem dúvida, um pequeno número de homens de fortuna padecerá, pois estarão privados de excelentes vinhos e licores (...). As classes menos acomodadas não acharão muita diferença nos vinhos e licores que atualmente bebem, exceto no preço, e diminuirão o consumo, o que não me parece prejudicial. Nossos camponeses não usarão ponchos ingleses; não vão levar consigo boleadeiras e laços feitos na Inglaterra; não vestiremos roupas de estrangeiros; e outras regras que podemos fixar; mas em troca começará a ser menos desgraçada a condição de povoados inteiros de argentinos, e não nos perseguirá a lembrança da espantosa miséria a que hoje são condenados”. [6]

[5] URGIN, op. cit.
[6] ÁLVAREZ, op. cit.

     Dando um passo importante para a reconstrução da unidade nacional dilacerada pela guerra, o governo de Juan Manuel de Rosas, em 1835, editou uma lei aduaneira que extração protecionista. A lei proibia a importação de manufaturas de ferro e latão, arreios de cavalo, ponchos, cintos, faixas de lã ou de algodão, xergas, produtos granjeiros, rodas de carroças, velas de sebo e pentes, e estipulava pesados impostos à introdução de carruagens, sapatos, cordões, roupas, cavalgaduras, frutas secas e bebidas alcoólicas. Não era cobrado imposto sobre a carne transportada em navios de bandeira argentina, e eram estimuladas as correarias nacionais e a cultura do tabaco. Os efeitos foram notados sem demora. Até a batalha de Caseros, que derrubou Rosas em 1852, navegavam pelos rios escunas e navios construídos nos estaleiros de Corrientes e Santa Fé, havia em Buenos Aires mais de 100 fábricas prósperas, e todos os viajantes coincidiam na opinião de que eram excelentes os tecidos e os sapatos elaborados em Córdoba e Tucumán, os cigarros e os artesanatos de Salta, os vinhos e as aguardentes de Mendoza e San Juan. A marcenaria de Tucumán exportava para o Chile, Bolívia e Peru [7]. Dez anos depois da aprovação da lei, os navios de guerra da Inglaterra e da França rebentaram a canhonaços as correntes estendidas no rio Paraná, abrindo à navegação os rios interiores argentinos que Rosa mantivera, dir-se-ia, hermeticamente fechados. À invasão seguiu-se o bloqueio. Dez memoriais dos centros industriais de Yorkshire, Liverpool, Manchester, Leeds, Halifax e Bradford, assinados por 1.500 banqueiros, comerciantes e industriais, tinham instado o governo inglês a tomar providências contra as restrições impostas ao comércio no Prata.

[7] RAMOS, op.cit.

     A despeito dos progressos decorrentes da lei aduaneira, o bloqueio evidenciou as limitações da indústria nacional, que não estava capacitada para satisfazer a demanda interna. Na verdade, desde 1841 o protecionismo vinha enfraquecendo, ao invés de acentuar-se; Rosas representava como ninguém os interesses dos estancieiros charqueadores da província de Buenos Aires, e não existia, nem nasceu, uma burguesia industrial capaz de impulsionar o desenvolvimento de um capitalismo nacional autêntico e pujante: a grande estância ocupava o centro da vida econômica do país, e nenhuma política industrial podia ser empreendida com independência e vigor sem derrubar a onipotência do latifúndio exportador. Rosa, no fundo, sempre permaneceu fiel à sua classe. “O homem que era o melhor ginete da província” [8], guitarrista e bailarino, grande domador, que se orientava nas noites de tormenta e sem estrelas mastigando algumas ervas do pasto, e era um grande estancieiro produtor de carne seca e couros, os terras-tenentes tinham convertido em seu chefe. A lenda negra que logo foi urdida para difamá-lo não pode ocultar o caráter nacional e popular de muitos de seus atos de governo [9], mas a contradição de classes explica a ausência de uma política industrial dinâmica e sustentada, que ultrapassasse a cirurgia aduaneira, no governo do caudilho dos pecuaristas. Esta ausência não pode ser atribuída à instabilidade e às penúrias implícitas nas guerras nacionais e no bloqueio estrangeiro. Afinal, em meio ao torvelinho de uma revolução acossada, vinte anos antes José Artigas combinou suas normas industrialistas e integradoras com uma reforma agrária em profundidade.

[8] USANICHE, José Luis. Rosas visto por sus contemporáneos. Buenos Aires, 1955.
[9] José Rivera Indarte realizou, em suas célebres Tablas de sangre, um inventário dos crimes de Rosas, para estremecer a sensibilidade europeia. Segundo o Atlas de Londres, a casa bancária inglesa de Samuel Lafone pagou ao escritor um pêni por morto. Rosas havia proibido a exportação de ouro e prata, duro golpe no Império, e dissolvera o Banco Nacional, que era um instrumento do comércio britânico. CADY, John F. La intervención extranjera en el Río de la Plata. Buenos Aires, 1943.

     Num livro fecundo, Vivian Trías compara o protecionismo de Rosas com o ciclo de medidas que Artigas irradiou desde a anda Oriental, entre 1813 e 1815, para conquistar a verdadeira independência na área do vice reinado rio-platense. Rosas não proibiu os mercadores estrangeiros de exercer o comércio no mercado interno, nem devolveu ao país as rendas alfandegárias que Buenos Aires continuou usurpando, nem terminou com a ditadura do porto único. No entanto, a nacionalização do comércio interior e a quebra do monopólio portuário e alfandegário de Buenos Aires haviam sido capítulos fundamentais da política artiguista, assim como a questão agrária. Artigas pretendera a livre navegação nos rios interiores, mas Rosas nunca abriu às províncias essa chave de acesso ao comércio de ultramar. No fundo, Rosas também permaneceu fiel à sua privilegiada província. A despeito de todas essas limitações, o nacionalismo e o populismo do “gaúcho de olhos azuis” seguem gerando ódio nas classes dominantes argentinas. Rosas continua sendo “réu de lesa-pátria”, de acordo com uma lei de 1857 ainda vigente, e o país ainda se nega a abrir uma sepultura nacional para seus ossos enterrados na Europa. Sua imagem oficial é a imagem de um assassino.
     Superada a heresia de Rosas, a oligarquia se reencontrou com seu destino. Em 1858, o presidente da comissão diretora da exposição rural declarava inaugurado o evento com estas palavras: “Nós, que ainda estamos na infância, contentemo-nos com a humilde ideia de enviar àqueles bazares europeus os nossos produtos e matérias primas, para que nos devolvam transformados por meio dos poderosos agentes de que dispõem. O que pede a Europa são matérias-primas, para trocá-las por ricos artefatos”. [10]

[10] Discurso de Gervásio A. de Posadas, conf. CÚNEO, Dardo. Comportamiento y crisis de la clase empresaria. Buenos Aires, 1967. Em 1876, o ministro da Fazenda disse no Congresso: “Não devemos criar um direito exagerado que torne impossível a entrada do calçado, de modo que quatro remendões aqui floresçam, enquanto mil fabricantes de calçado estrangeiros não possam vender um só par de sapatos”.

     O ilustre Domingo Faustino Sarmiento e outros escritores liberais viram na montonera camponesa não mais do que o símbolo da barbárie, o atraso e a ignorância, o anacronismo das campanhas pastoris frente à civilização que a cidade encarnava: o poncho e o chiripá contra o fraque; a lança e o punhal contra a tropa de linha; o analfabetismo contra a escola [11]. Em 1861, Sarmiento escrevia a Mitre: “Não economize sangue dos gaúchos, é a única coisa que eles têm de humano. É preciso tornar útil para o país este adubo”. Tanto desprezo e tanto ódio revelavam uma negação da própria pátria que continha também, por certo, uma expressão de política econômica: “Não somos industriais nem navegantes”, afirmava Sarmiento, “e a Europa nos abastecerá de seus produtos por longos séculos, em troca de nossas matérias primas.” [12]

[11] AZÁN, Armando Raúl. Las bases sociales de la montonera. Revista de Historia Americana y Argentina. Mendoza (7-8), 1962-3.
[12] SARMIENTO, Domingo Faustino. Facundo. Buenos Aires, 1952. 

     O presidente artolomeu Mitre, a partir de 1862, levou adiante uma guerra de extermínio contra as províncias e seus últimos caudilhos. Sarmiento foi nomeado comandante da guerra e as tropas marcharam rumo ao norte para matar gaúchos, “animais bípedes de tão perversa condição”. Em La Rioja, Chacho Peñaloza, general das planícies, que irradiava sua influência até Mendoza e San Juan, era um dos últimos redutos da rebelião contra o porto, e Buenos Aires considerou que havia chegado a hora de acabar com ele. Cortaram-lhe a cabeça e a cravaram, em exibição, no centro da Praça de Olta. A ferrovia e as estradas arremataram a ruína de La Rioja, que havia começado a revolução em 1810: o livre-câmbio provocou a crise de seus artesanatos e acentuou a crônica pobreza da região. No século XX, os camponeses de La Rioja fogem de suas aldeias nas montanhas ou nas planícies e descem até Buenos Aires para oferecer seus braços: como os camponeses de outras províncias, só chegam às portas da cidade. Nos subúrbios encontram lugar junto a outros 700 mil habitantes das villas miserias e, bem ou mal, arranjam-se com as migalhas do banquete da grande capital. Você nota mudanças naqueles que foram embora e voltam de visita? – perguntaram os sociólogos aos 150 sobreviventes de uma aldeia de La Rioja, há poucos anos. Eles responderam, com inveja, que em Buenos Aires tinham melhorado o traje, os modos e a maneira de falar dos emigrados, e que alguns, inclusive, tinham voltado “mais brancos”. [13]

[13] MARGULIS, Mario. Migración y marginalidad en la sociedad argentina. Buenos Aires, 1968.


continua na página 302...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: As lanças Montoneras e o ódio que sobreviveu a Juan Manuel Rosas (4)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (II.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

II
continuando...

     Maheu, após examiná-lo, pôs-se outra vez a caminhar pesadamente, sem dizer palavra. Foi a mulher quem respondeu:

— À missa, senhor pároco? Para quê? Será que Deus não se esqueceu da gente? Veja a minha menina, por exemplo, ardendo em febre... Que poderia ela ter feito para ser castigada dessa maneira? Não chega a miséria que já temos de suportar, ele a põe nesse estado, quando nem sequer posso dar uma xícara de chá quente.

     O padre começou então a perorar. Analisou a greve, a miséria atroz, o rancor exasperado da fome, com o ardor de um missionário que catequiza selvagens, para maior glória da sua religião. Disse que a Igreja estava com os pobres, que um dia ela faria a justiça triunfar, fulminando com a cólera de Deus as iniquidades dos ricos. E esse dia estava próximo, já que os ricos tinham tomado o lugar de Deus e governavam sem ele, roubando impiamente o poder. Mas, se os operários queriam a partilha justa dos bens terrestres, deviam entregar-se sem demora nas mãos dos padres, da mesma maneira que, quando Jesus morreu, os pequenos e os humildes tinham-se agrupado em torno dos apóstolos. Que força imensa teria o papa, de que exército disporia o clero, quando comandasse a multidão inumerável dos trabalhadores! Em uma semana o mundo estaria purgado dos malvados, os patrões indignos seriam expulsos, enfim o verdadeiro reino de Deus triunfaria, cada um recompensado segundo seus méritos, a lei do trabalho regendo a felicidade universal.
     Escutando-o, a mulher julgava ouvir Etienne durante os serões do outono, quando este lhes anunciava o fim dos seus males. A diferença era que ela nunca tivera confiança nas batinas.

— Tudo o que o senhor diz é muito bonito — disse ela. — Quer dizer que então já não se entende mais com os burgueses... Todos os outros párocos que tivemos costumavam jantar com o diretor, e ameaçavam-nos com o inferno assim que reclamávamos pão.

     Ele recomeçou, falou do deplorável mal-entendido entre a Igreja e o povo. Com frases veladas atacou os padres das cidades, os bispos, o alto clero amante dos prazeres, cumulado de poder, pactuando com a burguesia liberal, na imbecilidade da sua cegueira, sem ver que era justamente essa burguesia que o espoliava do comando do mundo. A libertação viria dos padres de aldeia, que se levantariam para restabelecer o reino de Cristo, com a ajuda dos miseráveis. E ele já parecia estar à frente deles, empertigava sua estatura angulosa, como um chefe de guerrilhas, como um revolucionário do Evangelho, os olhos resplandecentes, iluminando a sala escura. A ardente prédica era toda feita de palavras místicas, aquela pobre família já não podia compreendê-lo.

— Chega de tanto falatório — grunhiu bruscamente Maheu. — Teria feito melhor trazendo-nos pão.
— Vão domingo à missa — exclamou o padre. — Deus cuidará do resto!

     E partiu, entrou na casa dos Levaque para catequizá-los, voando tão alto no seu sonho do triunfo final da Igreja, desdenhando a tal ponto os fatos, que percorria os conjuntos habitacionais mineiros sem uma esmola, de mãos vazias através daquele exército morrendo de fome, verdadeiro pobre-diabo que considerava o sofrimento como o incentivo da salvação.
     Maheu continuava a esquadrinhar a peça, seus passos faziam tremer o soalho. Houve um ruído de roldana enferrujada, o velho Boa-Morte escarrou no fogão apagado. Depois a cadência dos passos recomeçou. Alzire, prostrada pela febre, delirava baixinho, ria, julgando que fazia calor e brincava ao sol.

— Maldita sorte! — murmurou a mulher, após tocar-lhe as faces. — Agora está queimando de tanta febre. Já não espero mais esse canalha, decerto aqueles bandidos o proibiram de vir.

     Referia-se ao médico e à companhia. Contudo, soltou uma exclamação de alegria ao ver a porta abrir-se de novo. Mas seus braços voltaram a cair, permaneceu muito tesa, com a fisionomia carrancuda.

— Boa noite — disse Etienne a meia voz, após ter fechado cuidadosamente a porta.

     Costumava aparecer assim, com a noite fechada. Desde o segundo dia os Maheu foram informados do seu esconderijo, mas guardavam o segredo, ninguém nas redondezas sabia ao certo o que acontecera com o rapaz. Isso o envolvia em lenda. Continuavam acreditando nele, corriam rumores misteriosos: ia reaparecer à frente de um exército, com caixas cheias de ouro; era sempre a expectativa religiosa de um milagre, o ideal realizado, a entrada repentina na cidade da justiça que lhes fora prometida. Uns diziam tê-lo visto no fundo de uma caleça, em companhia de três cavalheiros, na estrada de Marchiennes; outros afirmavam que ainda por dois dias ficaria na Inglaterra. Com o correr do tempo, no entanto, começou a desconfiança, certos pulhas acusavam-no de esconder-se numa toca, onde a filha de Mouque o mantinha aquecido; essa ligação, conhecida de todos, prejudicara-o. Era, em meio à sua popularidade, uma lenta baixa de afeição, a surda maré dos convictos tomados de desespero, e cujo número, pouco a pouco, iria engrossando.

— Que tempo detestável! — acrescentou ele. — Como vai a coisa com vocês? Nada de novo? Sempre de mal a pior? Disseram-me que o Négrel tinha ido à Bélgica para contratar operários. Nem quero pensar... Se for verdade, estamos fritos!

     Fora percorrido por um arrepio ao entrar na sala gelada e escura, seus olhos tiveram de se acostumar para poder ver os infelizes, que julgava estarem na parte mais escura da peça. Sentia a repugnância, o mal-estar do operário que não mais pertence à sua classe, refinado pelo estudo, insuflado pela ambição. Que miséria, quanto mau cheiro, e os corpos amontoados, e a imensa piedade que lhe dava um nó na garganta! O espetáculo dessa agonia desesperava-o a tal ponto que não encontrava palavras para aconselhá-los à submissão.
     Mas Maheu colocara-se violentamente diante dele, gritando:

— Belgas? Que se atrevam, esses filhos da mãe! Que tragam belgas para trabalhar aqui, se querem que nós destruamos as minas.

     Constrangido, Etienne explicou que não poderiam fazer nada, que os soldados que guardavam as minas protegeriam a descida dos operários belgas. Maheu cerrava os punhos, irritado sobretudo, como ele dizia, por ter as baionetas apontadas para as suas costas. Então os mineiros já não eram mais donos de si? Eram tratados como forçados, obrigados a trabalhar, sob a mira de um fuzil? Gostava do seu poço, sentia falta dele, já fazia dois meses que não descia... Por isso, sentia o sangue fervendo quando pensava em tal desaforo trazerem estrangeiros para ali trabalhar. Mas, ao lembrar-se de que lhe tinham devolvido a carteira de trabalho, seu coração baqueou.

— Não sei por que me zango — murmurou ele. — Nada mais tenho que ver com isso... Quando me expulsarem daqui, posso ir morrer por aí.
— Deixa disso! — contestou Etienne. — Se quiseres, amanhã eles te recebem de volta. Operários como tu não são despedidos.

     Interrompeu-se, espantado de ouvir Alzire, que ria suavemente, no delírio da febre. Até então só distinguira a sombra rija do velho Boa-Morte, e essa alegria da menina doente o apavorava. Era demais se até as crianças começassem a morrer! Com voz trêmula, decidiu-se:

— Isso não pode continuar, estamos perdidos... Temos que nos render...

     A mulher de Maheu, até esse momento silenciosa e imóvel, explodiu de repente, gritando-lhe no rosto, tratando-o por tu e praguejando como um homem:

— O que é que tu estás dizendo? Tu dizes isso? Raios te partam! Ele quis apresentar suas razões, mas ela não o deixou falar.
— Não repitas isso, com todos os diabos! Ou eu, mesmo sendo mulher, te mando esta mão na cara... Então estamos aqui morrendo de fome há dois meses, vendi tudo o que tinha dentro de casa, meus filhos caíram doentes, para nada, para a injustiça recomeçar? Ah, só de pensar, o sangue me sobe à cabeça! Não e não! Prefiro queimar tudo, agora estou disposta até a matar em vez de me render.

     Com um grande gesto ameaçador apontou para Maheu no escuro.

— Escuta bem, se o meu marido volta para a mina, serei a primeira a esperá-lo na estrada para cuspir-lhe na cara e chamá-lo de covarde.

     Etienne não a via, mas sentiu o calor, um bafejo de animal latindo, e recuou assustado diante daquela fúria, que era obra sua. Achava-a tão mudada que não reconhecia mais nela a mulher prudente de outrora, que exprobrava a sua violência, dizendo que não se devia desejar a morte de ninguém, e agora não queria ouvir nada, fechada à razão, falando em matar gente. Já não era ele, mas ela que falava em política, que queria varrer de um golpe os burgueses, que pedia a república e a guilhotina, para limpar a terra dos ladrões ricos, engordados com o suor dos miseráveis.

— Era capaz de arrancar-lhes a pele com as minhas próprias mãos... Chega! é a nossa vez, como tu bem o dizias... Quando penso que o pai, o avô, o pai do avô e todos aqueles antes deles sofreram o que nós estamos sofrendo, e o que nossos filhos e os filhos dos nossos filhos sofrerão ainda, fico louca, tenho vontade de apanhar uma faca e sair por aí... No outro dia fomos muito comedidos. Devíamos ter arrasado Montsou, até o último tijolo. E, sabes? só lastimo uma coisa, não ter deixado o velho estrangular a moça da Piolaine... Eles não estão matando meus filhos de fome?

     Suas palavras cortavam como machados em plena noite. O horizonte fechado não quisera abrir-se, o ideal impossível se transformava em veneno no fundo daquele cérebro enlouquecido pela dor.

— A senhora não me compreendeu — pôde enfim dizer Etienne, que batia em retirada. 
— Devia-se chegar a um acordo com a companhia; sei que os poços estão muito danificados e sem dúvida ela aceitaria uma conciliação. 
— Não, isso nunca! — berrou ela.

     Nesse momento Lénore e Henri entraram, de mãos abanando. Um homem lhes dera dois soldos, mas, como a irmã passava todo o tempo dando pontapés no irmão, o dinheiro se perdera na neve. Até Jeanlin os ajudara a procurar, mas inutilmente.

— E onde está Jeanlin? 
— Foi embora, mamãe, disse que tinha o que fazer.

     Etienne escutava, desesperado. Tempos atrás, a mulher ameaçava matá-los se os filhos ousassem estender a mão. Hoje era ela mesma quem os mandava para as estradas e falava até em irem todos, os dez mil mineiros de Montsou, com o bordão e a sacola dos mendigos velhos, invadindo a região apavorada.
     A angústia foi ainda maior na peça escura com a volta dos pequenos famélicos, que queriam comer. Por que não lhes davam comida de uma vez? Começaram a chorar e a brigar entre si, acabaram caindo sobre os pés da irmã agonizante, que soltou um gemido. Fora de si, a mãe espancou-os, ao acaso das trevas. Depois, como eles gritassem ainda mais forte, pedindo pão, desfez-se em pranto, caiu sentada no chão, cingiu-os num só abraço que abarcou a pequena enferma. E assim, por muito tempo, correram-lhe as lágrimas, num relaxamento nervoso que a deixou mole, aniquilada, balbuciando vinte vezes a mesma frase, chamando a morte: "Meu Deus, leva-nos para junto de ti! Meu Deus, tem piedade, leva-nos uma vez, para terminar com isto!" O avô conservou-se imóvel, uma velha árvore batida pelo vento e a chuva, enquanto o pai continuava a percorrer o espaço entre o fogão e o guarda-comida, sem olhar para nada.
     De repente a porta abriu-se, e desta vez era o Dr. Vanderhaghen.

— Diabo! — exclamou. — Um pouco de luz não vai estragar os olhos de vocês... Vamos, vamos que estou com pressa!

     Resmungava, como de hábito, esfalfado pelo trabalho. Felizmente traria fósforos; Maheu teve de acender seis, um a um, para que ele pudesse examinar a doente. Sem as cobertas, a menina tiritava sob a luz vacilante, magra como um passarinho agonizando na neve, tão fraca que só se lhe via a corcunda. E, contudo, sorria, um sorriso alucinado de moribunda, os olhos saltados, enquanto as mãozinhas se crispavam no vazio do peito. E, como a mãe, sufocada, perguntasse se era justo levar, antes dela, a única filha que a ajudava no trabalho da casa, tão inteligente, tão meiga, o doutor perdeu a paciência.

— Pois aí está, expirou... Morreu de fome, a desgraçada. E ela não é a única; agora mesmo vi outra ao lado. Todos vocês me chamam, mas eu não posso fazer nada, é de carne que precisam para se curarem.

     Maheu, com os dedos queimados, soltara o fósforo, e as trevas voltaram a cobrir o pequeno cadáver ainda quente. O médico partira, correndo. Etienne ouvia apenas na peça escura os soluços da mulher, invocando a morte, numa lamentação lúgubre e sem fim:

— Meu Deus, chegou a minha hora, leva-me também! Meu Deus, leva o meu marido, leva toda a minha família, por piedade, para terminar com isto!

continua na página 342...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / I — Mário procura uma mulher de chapéu

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     I — Mário procura uma mulher de chapéu e encontra um homem de boné

             Passou o Verão, o Outono e chegou o Inverno. Em todo este tempo nem Leblarac nem a jovem tornaram a aparecer no Luxemburgo. O constante pensamento de Mário era ver outra vez aquele meigo rosto tão querido. Procurava, pois, sempre e por toda a parte, mas nada encontrava. Mário já não era o sonhador entusiasta, o homem resoluto, ardente e firme, o ousado provocador do destino, o cérebro que planeava futuros sobre futuros, o espírito cheio de planos, projetos, orgulhos, ideias e vontades; era um cão perdido. Desalentado pelo infrutuoso resultado das suas buscas, caiu numa negra tristeza, expressão do seu grande sofrimento. Estava tudo acabado. Aborrecia-lhe o trabalho, a solidão, o passeio; a vasta natureza, outrora tão farta de formas, de fulgores, de vozes, de conselhos, de perspectivas, de horizontes, de lições, nada disto tinha agora para ele; parecia-lhe que tudo havia desaparecido.
     Pensava ainda, pois que não podia esquivar-se a isso, porem já não achava gosto nos seus pensamentos. A tudo o que eles de contínuo lhe propunham em voz baixa respondia ele misteriosamente: «Para quê?»
     A par disto, a si mesmo dirigia um sem-número de recriminações. «Para que a segui eu, se só o vê-la era já para mim tamanha felicidade! Ela fitava-me os olhos. Não era imenso? Dava mostras ”de amar-me. Não era tudo? Que mais queria eu? Daqui em diante não se pode passar, porque não há mais nada. Fui absurdo. O culpado sou eu!»
     Courfeyrac, a quem Mário, como era seu costume, nada confiava, mas que adivinhava parte das coisas, como também costumava, ao princípio, não sem admiração, dera a Mário os parabéns por estar enamorado; ultimamente, porém, vendo o rapaz a braços com a sua negra melancolia, dissera-lhe:

— Vejo que não passavas de um pateta. Deixa lá isso, vamos até à Chaumière.

     Uma ocasião, Mário, confiado num belo sol de Setembro, acedera aos rogos de Courfeyrac, Bossuet e Grantaire, acompanhando-os ao baile de Sceaux, esperançado — que sonho! — em que talvez lá a encontrasse. Escusado é dizer que as suas esperanças ficaram frustradas. Por mais que fizesse, não viu quem ele procurava.

— Ora esta. Mas aqui é que se encontram as mulheres perdidas —, murmurava Grantaire num aparte.

     Mário deixou os seus amigos no baile e voltou para casa a pé, só, cansado, a arder em febre, com os olhos turvos e tristes no meio da escuridão, aturdido com o barulho e com o pó levantado pelos carros cheios de joviais criaturas que voltavam da função e passavam por ele, cantando, ao passo que o jovem vinha desalentado, aspirando o cheiro acre das nogueiras da estrada para refrescar a cabeça.
     Principiou então a viver cada vez mais solitário, desvairado e triste, sempre a braços com a sua angústia íntima, girando em torno da sua dor como o lobo em roda do fosso, procurando por toda a parte a ausente, embrutecido pelo amor.
     Noutra ocasião teve um encontro que lhe causou uma singular sensação. Ao passar por uma das estreitas ruas próximas ao boulevard dos Inválidos, encontrou-se com um homem trajado a modo de operário, com um boné de pala comprida na cabeça, por baixo do qual lhe saíam umas farripas de alvíssimo cabelo. Impressionado com a beleza daqueles cabelos brancos, pôs-se a contemplar aquele homem que caminhava a passos lentos e como que absorvido em dolorosa meditação. Estranha coisa! Ao vê-lo, afigurou se a Mário reconhecer naquele velho o senhor Leblanc. Eram os mesmos cabelos, o mesmo aspecto, embora algum tanto modificado pelo trajo, o mesmo modo de andar, apenas com uma diferença para mais triste. Mas que queria dizer aquele trajo de operário? Que significava semelhante disfarce? Mário ficou maravilhado. Apenas voltou a si do seu pasmo, o seu primeiro pensamento foi seguir aquele homem, que talvez lhe fizesse achar os vestígios de quem ele baldadamente tinha procurado. Em todo o caso, era necessário ver o homem de perto e aclarar o enigma. Quando, porém, tomou esta resolução, era tarde, porque o homem já tinha desaparecido, tomando decerto por alguma viela, de modo que Mário não foi capaz de tornar a encontrá-lo.
     O jovem andou alguns dias preocupado com este encontro, ao cabo dos quais se lhe varreu da memória.

«Afinal de contas», disse ele consigo, «talvez não passasse de uma semelhança».

continua na página 547...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - I — Mário procura uma mulher de chapéu
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Cinema: O Julgamento de Nuremberg

Nuremberg 

| Trailer Oficial Dublado (2025)


Filme disponível no streaming da Prime!

O filme de 2025 dialoga com os filmes anteriores sobre o Julgamento de Nuremberg, mas é um salto no escuro quando rompe com a visão confortável que foi uma vitória da justiça. Depois da rendição, líderes nazistas são capturados e passam a ser avaliados. O julgamento não é o ponto de chegada, mas um experimento que escolhe olhar para o cenário das decisões políticas, morais e, principalmente, o fator humano (como explicamos o mal quando ele fala com calma, charme e convence com sua lógica própria?). 
O psiquiatra, Douglas Kelly,  precisa responder uma pergunta clínica e moral: Eles são insanos ou plenamente conscientes do que fizeram? E se a mente por trás do horror for normal, o que isso diz sobre a sociedade alemã? E o que isso diz sobre nós?
E claro, infelizmente, segundo o psiquiatra Douglas Kelly, acontecerá novamente porque deixamos acontecer! Os nazistas não foram únicos, existem pessoas como os nazistas em todos os países do mundo, HOJE! O padrão de personalidade dessas pessoas é simples: SÃO PESSOAS QUE QUEREM ESTAR NO PODER. Essa engrenagem do horror não nasce do nada e ela pode se normalizar.
Sim, HOJE, existem pessoas AQUI que subiram com prazer e deboche nos cadáveres de 700 mil brasileiros e brasileiras (esse crime foi normalizado de maneira consciente por pessoas moralmente vazias) acreditando que controlariam o restante das pessoas. Essas pessoas alimentam o ódio. Foi o que Hitler e Göring também fizeram. Está registrado. E, se vocês acham que, da próxima vez que isso acontecer, vamos reconhecê-las porque vão estar com uniformes assustadores, vocês estão delirando! O nazismo não foi inventado por homens berrando, mas por homens que sabiam conversar, tinham o dom da palavra, usavam a razão para justificar o injustificável na zona cinzenta da normalidade. Uma vez nazista sempre nazista!


Direção:
James Vanderbilt 

Roteiristas:
James Vanderbilt - escreveu o roteiro
Jack El-Hai - baseado no seu livro "O nazi e o Psiquiatra"

Abaixo, trailer de #Nuremberg, filme estrelado por Rami Malek e Russel Crowe.




Elenco:
Rami Malek como Douglas Kelley
Russell Crowe como Hermann Göring
Michael Shannon como Justice Robert H. Jackson
Leo Woodall como Sergeant Howie Triest
John Slattery como Colonel Burton Andrus
Richard E. Grant como Sir David Maxwell-Fyfe
Mark O'Brien como Colonel John Amen
Colin Hanks como Dr. Gustave Gilbert
Wrenn Schmidt como Elsie Douglas
Andreas Pietschmann como Rudolf Hess
Lydia Peckham como Lila McQuaide
Lotte Verbeek como Emmy Göring
...

Quando se escreve sobre "Nuremberg e cinema" quase sempre associamos a tribunal e julgamento dos líderes nazistas. Diversos filmes e documentários já abordaram o tema Nuremberg:
- Documentário: Nuremberg - Sua lição para hoje (1948)
- Tribunal de Nuremberg (1961) teve como tema o debate moral e jurídico
- Minissérie: Nuremberg em dois capítulos (2000) teve como tema reconstituição histórica em formato de drama
- Filme russo (2023) personagens fictícios com outra visão dramática sobre o julgamento



O Julgamento de Nuremberg - Produção de 2000
Dublado

No Youtube existem 2 versões.
Uma legendada com qualidade muito boa:
• O JULGAMENTO DE NUREMBERG 2000-Dublado-720p.
e uma dublada com qualidade muito ruim:
• Filme O Julgamento de Nuremberg - Dublado

O melhor de cada uma foi juntada nesse vídeo com qualidade para que possam assistir. A versão dublada continha alguns cortes de áudios que precisaram ser ajustados para encaixar nas falas, claro que deu um certo trabalho para organizar.
(uma cena de mais ou menos 1:30min foi removida por que estava sem áudio, porém não era uma cena relevante que impacta na trama)




Elenco:
Alec Baldwin como Justice Robert H. Jackson
Brian Cox como Reichsmarschall Hermann Göring
Christopher Plummer como Sir David Maxwell-Fyfe
Jill Hennessy como Elsie Douglas
Christopher Heyerdahl como Ernst Kaltenbrunner
Roger Dunn como Col. Robert Storey
David McIlwraith como Col. John Harlan Amen
Christopher Shyer como Gen. Telford Taylor
Hrothgar Mathews como Thomas J. Dodd
Herbert Knaup como Albert Speer
Frank Moore como Hans Frank
Frank Fontaine como Generalfeldmarschall Wilhelm Keitel
Raymond Cloutier como Großadmiral Karl Dönitz
Bill Corday como Generaloberst Alfred Jodl 
Ken Kramer como Fritz Sauckel
Sam Stone como Julius Streicher
...

O que aconteceu com a família de 
Hermann Görin após a Segunda Guerra Mundial?





O psiquiatra Douglas Kelley descreveu a personalidade de Hermann Göring no Julgamento de Nuremberg. Esse vídeo é preciso assistir no Youtube, clique AQUI.



Documentário - 
Nuremberg: Sua lição de hoje 
(não esqueça de ativar as legendas e nas configurações escolher o idioma)



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Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:

George Orwell - 1984: Parte 1.8b (Apressadamente, para que ele não tivesse tempo)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 1

8.

continuando...

     Apressadamente, para que ele não tivesse tempo de ficar com medo, ele desceu os degraus e atravessou a rua estreita. Era uma loucura, é claro. Como sempre, não havia nenhuma regra definitiva contra falar com os proles e frequentar seus bares, mas era uma ação muito incomum para passar despercebida. Se as patrulhas aparecessem, ele poderia alegar um ataque de fraqueza, mas não era provável que acreditassem nele. Ele empurrou a porta e um cheiro horrível de cerveja azeda o atingiu no rosto. Ao entrar no recinto, o barulho das vozes caiu pela metade. Atrás de suas costas, ele podia sentir todos olhando para seu macacão azul. Um jogo de dardos que acontecia no outro extremo da sala se interrompeu por talvez até trinta segundos. O velho que ele havia seguido estava de pé no bar, tendo algum tipo de briga com o barman, um jovem grande, robusto, com um nariz em formato de gancho, com enormes antebraços. Um grupo, de pé e com copos na mão, observava a cena.

“Eu pedi direitinho, não pedi?”, disse o velho, endireitando os ombros agressivamente. “Cê tá me dizendo que não tem um pint de cerveja nessa porra?”
“E que porra é um pint?”, disse o barman, inclinando-se para frente com as pontas dos dedos no balcão.
“Ô só pr’ele! Diz que é um barman mas não sabe o que é um pint? Um pint é metade de um quarto, e tem quatro quartos no galão. Tenho que te ensinar o abc também?”
“Nunca ouvi falar disso”, disse o barman. “Litro e meio litro. É isso que servimos. Os copos estão na prateleira na sua frente”.
“Mas eu queria um pint”, insistiu o velho. “Você poderia fácil servir um pint para mim. A gente não tinha essa porra de litros quando eu era jovem”
“Quando você era jovem, vivíamos no alto das árvores”, disse o barman lançando um olhar para os outros clientes. 

     Houve um riso estrondoso, e o mal-estar causado pela entrada de Winston parecia estar desaparecendo. O rosto do velho tinha ficado cor-de-rosa. Ele se virou, murmurando para si mesmo, e es barrou em Winston. Winston o pegou gentilmente pelo braço.

“Posso oferecer-lhe uma bebida?”, disse ele.
“Você é um cavalheiro”, disse o outro, endireitando os ombros novamente. Ele parecia não ter notado o macacão azul de Winston. “Um pint”, ele acrescentou agressivamente ao barman. “Um pint de wallop!”.
  
     O barman encheu dois copos grossos, que ele tinha lavado em um balde embaixo do balcão, com dois meios litros de cerveja marrom-escura. A cerveja era a única bebida que se podia obter em bares da prole. Os proles não tinham permissão de beber gin, embora na prática eles conseguissem se apoderar dele facilmente. O jogo de dardos estava novamente em pleno andamento, e o grupo de homens no bar tinha começado a falar de bilhetes de loteria. A presença de Winston foi esquecida por um momento. Havia uma mesa discreta debaixo da janela onde ele e o velho podiam conversar sem medo de serem ouvidos. Era horrível mente perigoso, mas de qualquer forma não havia nenhuma teletela na sala, um ponto que Winston tinha conferido assim que entrou no lugar.

“Ele podia ter servido um pint”, resmungou o velho enquanto se assentava atrás do copo. “Meio litro não é suficiente. Não satisfaz. E um litro é demais. Ataca minha bexiga. Sem contar o preço”.
“Você deve ter visto grandes mudanças desde que era um jovem’’, tentou Winston.

     Os olhos azuis pálidos do velho se moveram do tabuleiro de dardos para o bar, e do bar para a porta do banheiro, como se fosse na sala do bar que ele esperava que as mudanças tivessem ocorrido.

“A cerveja era melhor”, disse ele finalmente. “E mais barata! Quando eu era jovem, a cerveja suave – chamada de ‘wallop’ – era quatro centavos por litro. Isso foi antes da guerra, é claro”.
“Que guerra era essa mesmo?”, disse Winston.
“É tudo guerra”, disse o velho vagamente. Ele pegou seu copo e endireitou novamente os ombros. “Um brinde a sua saúde”!

     Era possível ver seu pomo de Adão, bem pontiagudo na garganta magra, fazendo um movimento surpreendentemente rápido para cima e para baixo enquanto a cerveja desaparecia. Winston foi para o bar e voltou com mais dois meio litros. O velho parecia ter esquecido seu preconceito contra beber um litro inteiro.

“Você é muito mais velho do que eu”, disse Winston. “Você deve ter sido um homem adulto antes de eu nascer. Você pode se lembrar como era nos velhos tempos, antes da Revolução. As pessoas da minha ida de não sabem realmente nada sobre esses tempos. Só podemos ler sobre eles em livros, e o que está escrito nos livros pode não ser verdade. Gostaria de saber sua opinião sobre isso. Os livros de história dizem que a vida antes da Revolução era completamente diferente do que é agora. Havia a mais terrível opressão, injustiça, pobreza pior do que qualquer coisa que possamos imaginar. Aqui em Londres, a grande massa do povo nunca teve o suficiente para comer desde o nascimento até a morte. Metade deles não tinha nem mesmo botas nos pés. Eles trabalhavam doze horas por dia, saíam da escola às nove, dormiam dez em uma sala. E ao mesmo tempo havia um grupo pequeno de pessoas, composto por apenas alguns milhares – os capita listas, eram chamados – que eram ricos e poderosos. Eles eram donos de tudo o que havia para possuir. Vi viam em grandes casas belíssimas com trinta criados, andavam em carruagens com quatro cavalos, bebiam champanhe, usavam cartolas...”

     O homem ficou animado de repente.

“Cartolas!”, disse ele. “Engraçado você falar de cartolas. Pensei nisso ainda ontem, nem sei o porquê. Eu estava brincando que faz anos que não vejo uma cartola. Desapareceram, elas. A última vez que usei um foi no funeral da minha cunhada. E isso foi – bem, não seria nem capaz de te dar uma data, mas deve ter sido há cinquenta anos. Claro que foi apenas emprestado para a ocasião, você sabe”.
“Mas as cartolas não são o mais importante”, disse Winston pacientemente. “A questão é que estes capitalistas – eles e alguns advogados e padres e assim por diante, que viviam às custas deles – eram os senhores da terra. Tudo existia para seu benefício. Vocês – o povo comum, os trabalhadores – eram seus escravos. Eles podiam fazer o que quisessem com vocês. Eles podiam enviar você para o Canadá como gado. Eles podiam dormir com suas filhas, se quisessem. Podiam ordenar que você fosse açoitado com algo chamado ‘chicote’. Você tinha que tirar seu chapéu quando eles passavam. Todo capitalista andava com um bando de lacaios que...”

     O homem voltou a se animar.

“Lacaios!”, disse ele. “Agora taí uma palavra que eu não ouço desde muito tempo. Lacaios! Isso me leva de volta, isso sim. Eu me lembro, oh, muitos anos atrás – eu costumava às vezes ir no parque no domingo de tarde para ouvir os discursos dos caras. Exército da Salvação, católicos romanos, judeus, indianos – tinha de tudo que é tipo de gente. E tinha um cara – bem, eu não podia lhe dar um nome, mas um orador realmente poderoso era. E ele não fazia nem metade do que podia. ‘Lacaios!’, ele disse, ‘lacaios da burguesia! Criados da classe dominante!’ Parasitas – essa era outra – e hienas, ele definitivamente os chamou de hienas. É claro que se referia ao Partido Trabalhista, você entendeu”.

     Winston tinha a sensação de que eles não estavam se entendendo muito.

“Mas o que eu realmente queria saber é”, disse ele, “se você sente que tem mais liberdade agora do que tinha naquela época? Você é tratado mais como um ser humano? Antigamente, as pessoas ricas, as pessoas no topo...”
“A casa dos senhores”, disse o velhote com um tom nostálgico.
“A casa dos senhores, é claro. O que eu pergunto é: essas pessoas eram capazes de tratá-lo como um inferior, simplesmente porque eles eram ricos e você era pobre? É verdade que você tinha que tratá-los de ‘senhor’ e tirar o chapéu quando passavam”?

     O velho parecia pensar profundamente. Ele bebeu cerca de um quarto de sua cerveja antes de responder.

“Sim”, disse ele. “Eles gostaram que você tocasse seu chapéu para eles. Demonstrava respeito, tipo. Eu não concordava com isso, mas fiz com bastante frequência. Tinha que fazer, você poderia dizer”.
“E era normal – estou apenas citando o que li nos livros de história – era normal que essas pessoas e seus criados o empurrassem da calçada para dentro da sarjeta”?
“Um deles me empurrou uma vez”, disse o velho. “Eu me lembro como se fosse ontem. Era a noite da Corrida de Barco – eles ficavam uns arruaceiros na noite de Corrida de Barco – e eu me deparo com um jovem na avenida Shaftesbury. Um cavalheiro, ele – com camisa, cartola, casaca preta. E estava andando em zigue-zague pelo pavimento, e a gente se es barra por acidente. E ele diz: ‘Por que você não olha para onde está indo?’, ele diz. Eu digo, ‘Cê acha que você pagou a porra da rua’? Aí ele diz, ‘vou explodir sua cabeça se você começar a brincar comigo’. Eu digo: ‘Você está bêbado. Vou chamar a polícia’, eu digo. E se você acreditar em mim, não é que ele pôs a mão no meu peito e me empurrou quase para de baixo das rodas de um ônibus? Bem, eu era jovem nesses dias, e ia dar uma nele também, mas…” 

     Uma sensação de desamparo tomou conta de Winston. A memória do velho não era nada além de um monte de detalhes. Podia questioná-lo o dia todo sem obter nenhuma informação real. As histórias do Partido ainda podem ser verdadeiras, de certa maneira: podem muito bem ser completamente ver dadeiras. Ele fez uma última tentativa.

“Talvez eu não tenha me feito entender”, disse ele. “O que eu estou tentando dizer é o seguinte. Você está vivo há muito tempo; você viveu metade de sua vida antes da Revolução. Em 1925, por exemplo, você já era adulto. Você diria, pelo que consegue se lembrar, que a vida em 1925 era melhor do que é agora, ou pior? Se você pudesse escolher, você preferiria viver naquela época ou agora”?

     O velho olhou meditativamente para o quadro de dardos. Ele terminou sua cerveja, mais lentamente do que antes. Quando ele falou foi com um ar filosófico tolerante, como se a cerveja o tivesse amadurecido.

“Eu sei o que você espera que eu diga”, disse ele. “Você espera que eu diga como se eu fosse mais jovem novamente. A maioria das pessoas diria que mais cedo seriam jovens, se você fosse jovem. Você tem saúde e força quando você é jovem. Quando você chega ao meu tempo de vida, você nunca está bem. Eu sofro algo perverso nos meus pés, e minha bexiga é uma piada terrível. Seis ou sete vezes por noite, é como se eu dormisse fora da cama. Por outro lado, há grandes vantagens em ser um homem velho. Você não tem as mesmas preocupações. Nenhum problema com mulheres, e isso é uma coisa ótima. Faz trinta anos que não fico com uma mulher, pode acreditar. E nem quis, ainda por cima”.

     Winston sentou-se de costas contra o parapeito da janela. Não adiantava continuar assim. Ele estava prestes a comprar mais cerveja quando o velho se levantou de repente e entrou rapidamente no urinol fedorento ao lado da sala. O meio litro a mais já estava trabalhando nele. Winston sentou-se por um ou dois minutos olhando para seu copo vazio, e mal notou quando seus pés o levaram para a rua novamente. Dentro de vinte anos, no máximo, ele refletiu, a enorme e simples pergunta: “A vida era melhor antes da Revolução do que é agora...” não poderia mais ser respondida. Mas, na verdade, ainda hoje ela era incontestável, já que os poucos sobreviventes dispersos do mundo antigo eram incapazes de comparar uma idade com outra. Eles se lembravam de um milhão de coisas inúteis, uma briga com um colega de trabalho, uma caça a uma bomba de bicicleta perdida, a expressão no rosto de uma irmã há muito morta, os redemoinhos de poeira em uma manhã ventosa há setenta anos: mas todos os fatos relevantes estavam fora do alcance de sua visão. Eles eram como a formiga, que pode ver objetos pequenos, mas não grandes. E quando a memória falhasse e os registros escritos fossem falsificados – quando isso acontecesse, a alegação do Partido de ter melhorado as condições da vida humana teria que ser aceita, porque não existia, e nunca mais poderia existir, qualquer parâmetro contra o qual pudesse ser comparada.
continua na página 186...
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Parte1:
Parte 1.8a (De algum lugar no fundo de uma passagem) / Parte 1.8b (Apressadamente, para que ele não tivesse tempo) /                      
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.