terça-feira, 4 de agosto de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 continuando...

     Se as lágrimas não bastam para lhe exprimir a revolta, ela se entregará a cenas cuja violência incoerente desnorteará ainda mais o homem. Em certos meios, o homem espanca a mulher; em outros, precisamente porque é o mais forte e porque seu punho é um instrumento eficaz, ele evita toda violência. Mas a mulher, como a criança, entrega-se a crises simbólicas: pode jogar-se contra o homem, arranhá-lo; são gestos apenas. Mas, principalmente, ela se põe a mimar em seu corpo, através de ataques de nervos, as recusas que não pode concretamente realizar. Não é somente por razões fisiológicas que ela é sujeita a manifestações convulsivas: a convulsão é uma interiorização de uma energia que, jogada no mundo, malogra em apreender qualquer objeto; é um dispêndio no vácuo de todas as potências de negação sus citadas pela situação. A mãe raramente tem crises de nervos em face de seus filhos pequenos porque os pode bater, punir: é em face do filho crescido, do marido, do amante, sobre os quais não tem influência, que a mulher se entrega a desesperos furiosos. As cenas histéricas de Sofia Tolstoi são significativas; sem dúvida ela cometeu o grande erro de nunca ter procurado entender o marido e através de seu diário não parece nem generosa, nem sensível, nem sincera, e está longe de se nos afigurar uma pessoa atraente; mas, tenha ou não tido razão, em nada modifica sua situação: durante toda a vida apenas suportou, através de constantes recriminações, os amplexos conjugais, as maternidades, a solidão, o modo de vida que seu marido lhe impunha; quando as novas decisões de Tolstoi exasperaram o conflito, ela se encontrou sem armas contra a vontade inimiga, que recusava com toda a sua vontade impotente; jogou-se em comédias de recusa — falsos suicídios, falsas doenças etc. — odiosas aos seus e exaustivas para ela própria: não vemos que outra saída lhe restava, posto que não tinha nenhuma razão positiva para calar seus sentimentos de revolta, e nenhum meio eficiente de exprimi-los.
     Há uma saída para a mulher que chega ao fim de sua recusa: suicídio. Mas parece que o emprega menos amiúde do que o homem. As estatísticas são muito ambíguas a esse respeito¹. Considerando os suicídios, há muito mais homens do que mulheres que atentam contra a vida; mas as tentativas de suicídio são mais frequentes entre as mulheres. Talvez porque se contentem o mais das vezes com comédias: representam o suicídio mais do que o homem, querem-no mais raramente. Isso também, em parte, porque os meios brutais lhes repugnam: quase nunca empregam armas brancas, nem armas de fogo. Afogam-se de bom grado, como Ofélia, manifestando a afinidade da mulher com a água passiva e noturna e na qual parece que a vida pode passivamente dissolver-se. Em conjunto, observa-se aqui a ambiguidade que já assinalei: a mulher não procura sinceramente largar o que detesta. Representa o drama da ruptura, mas finalmente fica com o homem que a faz sofrer; finge abandonar a vida que a molesta mas é relativamente raro que se mate. Não gosta das soluções definitivas: protesta contra o homem, contra a vida, contra sua condição, mas não se evade.

[1] Ver Halbwachs, Les Causes du Suicide.

     Há muitas condutas femininas que devem ser interpretadas como protestos. Vimos que muitas vezes a mulher engana o marido por desafio, não por prazer; será avoada e gastadora só porque ele é metódico e econômico. Os misóginos que acusam a mulher de "estar sempre atrasada" pensam que ela carece do "senso da exatidão". Na verdade, vimos como se dobra docilmente às exigências do tempo. Seus atrasos são deliberadamente consentidos. Certas coquetes acreditam exasperar assim o desejo do homem e dar tanto maior valor à própria presença; mas, infligindo ao homem alguns momentos de espera, a mulher protesta principalmente contra a longa espera que é a sua própria vida. Em certo sentido, toda a sua existência é uma espera, pois que está encerrada no limbo da imanência, da contingência e que sua justificação se acha sempre nas mãos de outrem; ela espera as homenagens, os sufrágios masculinos, espera o amor, a gratidão e os elogios do marido, do amante; espera deles suas razões de existir, seu valor e seu próprio ser. Deles espera a subsistência: que tenha em mãos o talão de cheques ou que receba semanal ou mensalmente as importâncias que o marido lhe outorga, é preciso que ele receba, que tenha conseguido esse aumento para que ela possa pagar ao vendeiro ou comprar um vestido novo. Ela espera a presença dele; sua dependência econômica coloca-a à disposição dele; ela é apenas um elemento da vida masculina ao passo que o homem é toda sua vida; o marido tem ocupações fora do lar, a mulher suporta-lhe a ausência ao longo dos dias; é o amante — ainda que apaixonado — que decide das separações e dos encontros de acordo com as obrigações que tem. Na cama, ela aguarda o desejo do homem, espera, por vezes ansiosamente, seu próprio prazer. Tudo o que pode fazer é chegar atrasada ao encontro marcado pelo amante, é não estar pronta na hora que o marido designou; ela afirma assim a importância de suas próprias ocupações, reivindica sua independência, torna a ser, por um momento, o sujeito essencial cuja vontade o outro suporta passivamente. Mas trata-se de tímidos revides; por mais que se obstine em fazer os homens "esperar", nunca compensará as horas infinitas que passa a vigiar, a esperar, a submeter-se ao bel-prazer do homem.
     De maneira geral, embora reconhecendo, em conjunto, a supremacia dos homens, aceitando-lhes a autoridade, adorando-lhes os ídolos, ela vai contestar-lhes o reinado palmo a palmo; daí o famoso "espírito de contradição" que amiúde lhe censuraram; não possuindo um domínio autônomo, não pode opor verdades, valores positivos aos que os homens afirmam; pode, entretanto, negá-los. Sua negação é mais ou menos sistemática segundo a maneira por que nela se dosam respeito e rancor. Mas o fato é que ela conhece todas as falhas do sistema masculino e se apressa em denunciá-las.
     As mulheres não têm domínio sobre o mundo masculino porque sua experiência não lhes ensina a manejar a lógica e a técnica: inversamente, o poder dos instrumentos masculinos abole-se às fronteiras do domínio feminino. Há toda uma região da experiência humana que o homem escolhe deliberadamente ignorar porque malogra em pensá-la: essa experiência, a mulher a vive. O engenheiro, tão preciso quando faz seus planos, conduz-se, em casa, como um demiurgo: uma palavra e eis servida a refeição, suas camisas engomadas, seus filhos silenciosos; procriar é um ato tão rápido quanto o golpe de vara de Moisés; ele não se espanta com tais milagres. A noção de milagre difere da ideia de magia; ela põe, no seio de um mundo racionalmente determinado, a descontinuidade radical de um acontecimento sem causa contra o qual todo pensamento se esboroa; ao passo que os fenômenos mágicos são unificados por forças secretas cujo devir contínuo uma consciência dócil — ainda que sem o compreender — pode desposar. 0 recém-nascido é milagroso para o pai demiurgo, mágico para a mãe que lhe suportou o amadurecimento no ventre. A experiência do homem é inteligível, mas pontilhada de vazios; a da mulher é, em seus limites próprios, obscura mas plena. Essa opacidade fá-la pesada; em suas relações com ela, o homem parece-lhe leve; ele tem a leveza dos ditadores, dos generais, dos juízes, dos burocratas, dos códigos e dos princípios abstratos. É o que sem dúvida queria dizer essa dona de casa que murmurava um dia, dando de ombros: "Os homens não pensam!" Elas dizem também: "Os homens não sabem, não conhecem a vida". Ao mito da fêmea do louva-a-deus, elas opõem o símbolo do zângão frívolo e importuno.
     Compreende-se que nessa perspectiva a mulher recuse a lógica masculina. Não somente esta não lhe perturba a experiência, como ela sabe ainda que nas mãos dos homens a razão se torna uma forma matreira de violência; as afirmações peremptórias deles destinam-se a mistificar. Querem encerrá-la em um dilema: ou estas de acordo, ou não estás; em nome de todo o sistema dos princípios admitidos, ela deve estar de acordo: recusando sua adesão, é todo o sistema que recusa; não pode permitir-se semelhante escândalo; não tem os meios de reconstruir outra sociedade: contudo, não adere a esta. A meio caminho entre a revolta e a escravidão, resigna-se a contragosto à autoridade masculina. É pela violência que se faz preciso, em cada ocasião, obrigá-la a endossar as consequências de sua submissão incerta. O homem persegue a quimera de uma companheira livremente escrava: quer que, cedendo-lhe, ela ceda à evidência de um teorema; mas sabe que ele próprio escolheu os postulados a que se prendem suas rigorosas deduções; enquanto ela evita rediscuti-las, ele lhe tapa facilmente a boca; nem por isso a convence, porquanto ela adivinha a arbitrariedade dessas deduções. Por isso ele a acusará com irritação e obstinação de ilogismo: mas ela recusa participar do jogo porque sabe que os dados são viciados.
     A mulher não pensa positivamente que a verdade seja outra que aquilo que os homens pretendem; ela admite antes que a verdade não é. Não é somente o devir da vida que a faz desconfiar do princípio de identidade, nem são os fenômenos mágicos de que se acha cercada que arruínam a noção de causalidade: é no próprio coração do mundo masculino, é em si, enquanto pertencendo a esse mundo, que apreende a ambiguidade de todo princípio, de todo valor, de tudo o que existe. Sabe que a moral masculina, no que lhe diz respeito, é uma vasta mistificação. O homem acena-lhe pomposamente com seu código de virtude e honra, mas em surdina incita-a a desobedecer: espera mesmo essa desobediência; sem esta, toda a bela fachada atrás da qual ele se abriga desmoronaria.
     O homem de bom grado se apoia na ideia hegeliana, segundo a qual o cidadão adquire sua dignidade ética transcendendo-se para o universal: enquanto indivíduo singular, tem direito ao desejo, ao prazer. Suas relações com a mulher situam-se pois numa região contingente em que a moral não mais se aplica, em que as condutas são indiferentes. Com os outros homens, ele tem relações em que se empenham valores; ele é uma liberdade enfrentando outras liberdades segundo leis que todos universalmente reconhecem; mas junto da mulher — ela foi inventada para esse fim — ele deixa de assumir sua existência, entrega-se a miragem do em-si, situa-se num plano inautêntico; mostra-se tirânico, sádico, violento, ou pueril, masoquista, queixoso; tenta satisfazer suas obsessões, suas manias; "distende-se", "relaxa-se, em nome dos direitos que adquiriu em sua vida pública. Sua mulher assusta-se por vezes — como Thérèse Desqueyroux — com o contraste entre o alto nível de suas palavras, de suas condutas públicas e "suas pacientes invenções de sombra".
     Prega a repopulação e mostra-se hábil em não engendrar mais filhos do que os que lhe convém. Exalta as esposas castas e fiéis, mas incita ao adultério a mulher do vizinho. Vimos com que hipocrisia os homens decretam que o aborto é criminoso, quando todos os anos na França um milhão de mulheres são colocadas pelo homem em situação de precisarem abortar; muitas vezes o marido ou o amante lhe impõe tal solução; muitas vezes eles supõem tacitamente que, em caso de necessidade, ela será adotada. Esperam confessadamente que a mulher consentirá em tornar-se culpada de um delito: sua "imoralidade" é necessária à harmonia da sociedade moral respeitada pelos homens. O exemplo mais flagrante dessa duplicidade é a atitude do homem em face da prostituição: é sua procura que cria a oferta; disse eu com que ceticismo enojado as prostitutas encaram os senhores respeitáveis que profligam o vício, mas demonstram muita indulgência por suas manias pessoais; entretanto consideram perversas e debochadas as mulheres que vivem de seu corpo, não os homens que os usam. Uma anedota ilustra esse estado de espírito: no fim do século passado, a polícia descobriu num bordel duas meninas de 12 a 13 anos; houve um processo em que elas depuseram; falaram de seus fregueses, que eram homens importantes; uma delas abriu a boca para revelar um nome. O procurador deteve-a precipitadamente: Não suje o nome de um homem honesto! Um senhor condecorado com a Legião de Honra continua um homem de bem quando deflora uma menina; tem suas fraquezas, quem não as tem? Ao passo que a menina que não atinge a região ética do universal — que não é um magistrado, nem um general, nem um grande francês, mas apenas uma menina — joga seu valor moral na região contingente da sexualidade; é uma perversa, uma transviada, uma viciada, boa para uma casa de correção. O homem pode, em muitos casos e sem macular sua "dignidade", perpetrar em cumplicidade com a mulher atos que para ela são condenáveis, enxovalhantes. Ela compreende mal tais sutilezas; o que compreende é que o homem não age de conformidade com os princípios que proclama e pede-lhe que a estes desobedeça. Ele não quer o que diz querer: por isso não lhe dá ela o que finge dar-lhe. Será uma esposa casta e fiel e às escondidas cederá aos próprios desejos; será uma mãe admirável mas praticará cuidadosamente o biríh-control e, se necessário, irá até o aborto. O homem oficialmente a condena, é a regra do jogo; mas mostra-se reconhecido a uma pela sua "pequena virtude" e a outra pela sua esterilidade. A mulher desempenha o papel desses agentes secretos que deixam fuzilar, se são presos e que enchem de recompensas, se logram êxito; cabe a ela endossar toda a imoralidade dos homens: não é somente a prostituta, são todas as mulheres que servem de esgoto ao palácio luminoso e saudável em que habitam as pessoas honestas. Quando, em seguida, lhes falam de dignidade, de honra, de lealdade, de todas as grandes virtudes viris, cumpre não se espantar que se recusem a "ir na onda". Escarnecem particularmente quando os homens virtuosos as censuram por serem interesseiras, comediantes, mentirosas¹: bem sabem que não lhes oferecem nenhuma outra saída. O homem também "se interessa" pelo dinheiro, pelo êxito: mas tem os meios de conquistá-los pelo trabalho; à mulher assinalaram um papel de parasita: todo parasita é necessariamente um explorador; ela precisa do homem para adquirir dignidade humana, para comer, gozar, procriar; é através dos serviços que presta com o sexo que assegura as generosidades masculinas; e como a encerram nessa função, ela se transforma inteiramente num instrumento de exploração. Quanto às mentiras, salvo no caso da prostituição, não se trata, entre ela e o protetor, de um negócio franco. O próprio homem reclama que ela represente uma comédia: quer que ela seja o Outro; mas todo existente, por mais perdidamente que se renegue, permanece sujeito; ele a quer objeto: ela faz-se objeto; no momento em que ela se faz ser, exerce uma livre atividade; aí está sua traição original; a mais dócil, a mais passiva é ainda consciência; basta, por vezes, que o homem se aperceba de que, entregando-se a ele, ela o encara e julga, para que ele se sinta enganado; ela deve ser apenas uma coisa oferecida, uma presa. Entretanto, essa coisa, o homem exige também que ela a entregue livremente: pede-lhe que sinta prazer no leito, que lhe reconheça sinceramente a superioridade e os méritos no lar; no instante em que obedece, a mulher deve, pois, fingir independência enquanto, em outros momentos, representa ativamente a comédia da passividade. Ela mente para reter o homem que lhe assegura o pão quotidiano: cenas, lágrimas, transportes de amor, crises de nervos. E ela mente também para escapar à tirania que por interesse aceita. O homem a incita a comédias de que se aproveitam seu imperialismo e sua vaidade: ela volta contra ele seus poderes de dissimulação; consegue também revides duplamente deliciosos: por que enganando-o, satisfaz desejos singulares, experimenta o prazer de achincalhá-lo. A esposa, a cortesã mentem fingindo sensações que não têm; depois, divertem-se com um amante, com amigas, zombando da ingênua vaidade de sua vítima: "Não somente eles falham, como ainda querem que nos cansemos de gritar de prazer", dizem com rancor. Tais conversas assemelham-se às das criadas que, na copa, falam mal dos patrões. A mulher tem os mesmos defeitos porque é vítima da mesma opressão paternalista; tem o mesmo cinismo, porque vê o homem de baixo para cima, como o lacaio vê o patrão. Mas é claro que nenhum de seus traços manifesta uma essência ou uma vontade original pervertidas: refletem uma situação. "Há falsidade sempre que há regime coercivo", diz Fourier. "A proibição e o contrabando são inseparáveis, no amor como no comércio." E os homens sabem tão bem que os defeitos da mulher manifestam a condição dela, que, preocupados com manter a hierarquia dos sexos, incentivam, em suas companheiras, os próprios traços que lhes permitem desprezá-las. Sem dúvida, o marido, o amante irritam-se com as taras da mulher singular com quem vivem; entretanto, propugnando os encantos da feminilidade em geral, eles a imaginam inseparável de tais taras. Se não é pérfida, fútil, covarde, indolente, a mulher perde sua sedução. Na Casa das Bonecas, Helmer explica o quanto o homem se sente justo, forte, compreensivo, indulgente, quando perdoa as faltas pueris da frágil mulher. Assim também os maridos de Bernstein se enternecem — com a cumplicidade do autor — diante da mulher ladra, má, adúltera; eles medem, debruçando-se sobre ela com indulgência, a própria sabedoria viril. Os racistas americanos e os colonos franceses, desejam também que o negro se mostre gatuno, preguiçoso, mentiroso: com isso prova sua indignidade, põe o direito do lado dos opressores; se se obstina em ser honesto, leal, olham-no como um revoltado. Os defeitos da mulher exageram-se, pois, tanto mais quanto ela tenta não combatê-los mas, ao contrário, faz deles um adorno.

[1] "Todas com esse arzinho delicado de santa, acumulado por todo um passado de escravidão, sem outra arma de salvação e ganha--pão senão esse ar sedutor involuntário que aguarda a hora propícia." (Jules Laforgue.)
continua página 381...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Massa e Poder - A Ordem: A Ordem a muitos

Elias Canetti

A ORDEM

     A Ordem a muitos

          É preciso distinguir entre a ordem dada a um indivíduo e a que é dada simultaneamente a muitos.
     Já na origem biológica da ordem existe essa diferença. Alguns animais vivem isolados e recebem a ameaça dos seus inimigos de forma individual. Outros vivem em bandos e são ameaçados coletivamente. No primeiro caso o animal foge ou se esconde sozinho. No segundo caso foge o bando todo. Um animal que normalmente vive em bandos, mas que por casualidade é surpreendido sozinho pelo inimigo, procura fugir e reintegrar-se no bando. A fuga individual e a fuga em massa são diferentes a partir da própria base. O medo em massa de um bando que foge é o mais antigo e, seria possível dizer, o mais familiar de todos os estados de massa que se conhecem.
     É muito provável que a partir desse medo de massa tenha se derivado o sacrifício. Um leão que está perseguindo um bando de gazelas, todas fugindo juntas com medo dele, cessa sua perseguição assim que consegue agarrar um dos animais. Este animal é sua oferenda no sentido mais amplo da palavra. Ele proporciona tranquilidade aos demais companheiros do bando. Assim que o leão obtém o que quer e os demais animais percebem que isso acontece, o medo diminui. Da fuga de massa, eles tornam a entrar no estado normal do bando: cada animal pasta livremente e faz o que deseja. Se as gazelas tivessem religião, se o leão fosse o deus delas, elas poderiam, para saciar sua avidez, entregar-lhe por iniciativa própria uma gazela. Exatamente isto é o que acontece entre os homens: a partir do estado de medo de massa, deriva-se entre eles o sacrifício religioso. Graças a ele detêm-se a perseguição e a fome do poder perigoso durante um certo tempo.
     A massa, em estado de medo, quer permanecer junta. No auge do seu perigo ela se sente protegida apenas quando sente a proximidade dos outros. Ela é massa principalmente pela direção comum da fuga. Um animal que escapa e que se locomove numa direção própria está mais exposto do que os demais. Além disso ele sente o perigo com maior intensidade porque está só: seu medo é muito maior. A direção comum dos animais que fogem poderia ser chamada sua "convicção"; o que os mantém unidos os empurra para a frente com maior vigor. Eles não sentem pânico enquanto não estejam abandonados, enquanto cada animal ao lado faça a mesma coisa e esteja realizando exatamente os mesmos movimentos. Esta fuga em massa, pelo movimento paralelo das patas, dos pescoços e das cabeças, assemelha-se ao que, entre os seres humanos, eu chamaria de massa palpitante ou rítmica.
     Entretanto, assim que os animais estão cercados, a imagem se modifica. Uma direção comum de fuga já não é mais possível. A fuga em massa se transforma agora em pânico: cada animal procura salvar-se a si próprio e atrapalha o outro. O anel em torno deles se contrai sempre mais. No massacre que agora tem início, um animal é inimigo do outro, uma vez que todos se bloqueiam mutuamente o caminho da salvação.
     Mas voltemos à ordem propriamente dita. A ordem dada a indivíduos, dissemos, é diferente da ordem dada a muitos. Antes de fundamentar esta frase, é recomendável falar a respeito de sua exceção mais importante.
     Um acúmulo artificial de muitos é o que se dá no exército. Nele anulam-se as espécies diferentes de ordens; justamente isto constitui sua essência. Que a ordem se dirija a indivíduos, sejam poucos ou muitos, aqui não faz diferença. Um exército existe somente se a ordem é equivalente e constante. Ela vem de cima e permanece estritamente isolada. Desta forma o exército nunca pode ser uma massa.
     Porque na massa a ordem se expande horizontalmente entre seus membros. No começo é possível que ela alcance um indivíduo isolado, vinda de cima. Porém, como existem outros iguais a ele a seu redor, ela se transmite também a eles. No seu medo, o indivíduo se aproxima mais dessas pessoas. Imediatamente os demais passam a ser contagiados. Primeiro alguns se colocam em movimento; pouco depois outros seguem esse exemplo, e logo todos estão se movimentando. Pela expansão instantânea da mesma ordem, essas pessoas se transformaram em massa. Agora todos fogem juntos.
     Uma vez que a ordem é imediatamente difundida, ela não deixa aguilhão ou espinho. Não existe tempo para que isso aconteça; o que se teria convertido num elemento permanente é imediatamente dissolvido. A ordem dada à massa não deixa aguilhão. A ameaça, que leva à fuga em massa, se dissolve precisamente nessa fuga.
     É a situação de ordem isolada exclusivamente que nos leva à formação do aguilhão-ordem. A ameaça, que comporta uma ordem dada a um ser singular, não pode dissolver-se completamente. Qualquer pessoa que tenha cumprido uma ordem sozinha conserva sua resistência como aguilhão, como espinho dentro de si, um duro cristal de rancor. Somente consegue desfazer-se dele, dando ela mesma uma ordem idêntica. Seu aguilhão nada mais é do que o retrato fiel e oculto da ordem que recebeu e que não pôde transmitir no mesmo momento. Somente na forma desse retrato fiel é que a pessoa consegue libertar-se do aguilhão.
     Uma ordem dada a muitos tem portanto um caráter muito peculiar. Sua meta é transformar uma maioria numa massa e, à medida que consegue fazer isso, não dá origem ao medo. A "palavra de ordem" de um orador que impõe uma direção aos homens reunidos tem exatamente esta função, e pode ser considerada como uma ordem dada a muitos. Do ponto de vista da massa, que gostaria de se formar rapidamente e manter-se como unidade, essas palavras de ordem são úteis e indispensáveis. A arte do orador consiste em conseguir resumir e expressar vigorosamente tudo o que deseja em palavras de ordem que ajudam a constituição e a manutenção da massa. Ele gera a massa e a mantém viva através de uma ordem superior. Depois de ter conseguido isso, não tem muita importância o que ele realmente irá exigir dela. O orador pode insultar e ameaçar um aglomerado de indivíduos isolados da maneira mais terrível; mesmo assim eles o amarão, se dessa maneira ele conseguir formá-los como massa.

continua ...
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Massa e Poder - A Ordem: A Ordem a muitos
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: William Wilson (c)

Edgar Allan Poe - Contos


William Wilson 

Que dizer dela? que dizer da austera consciência, 
Esse espectro em meu caminho? 
Chamberlain, Pharronida
continuando...

     Ocupava-me dessa vida com sucesso havia dois anos quando chegou à universidade um jovem nobre parvenu, Glendinning — tão rico, diziam os rumores, quanto Herodes Ático —, sua fortuna, também, facilmente conquistada. Não tardou para que eu percebesse a fraqueza de seu intelecto e é claro que o marquei como um alvo apropriado para minhas habilidades. Eu o atraía frequentemente à mesa de jogo e permitia, com a usual perícia do jogador, que ganhasse somas consideráveis, de modo a enredá-lo com mais eficácia na armadilha. Finalmente, meu plano estando amadurecido, reunimo-nos (sendo minha plena intenção de que esse encontro fosse final e decisivo) no aposento de um colega (o sr. Preston), igualmente íntimo de ambos, mas que, justiça lhe seja feita, não tinha a mais remota desconfiança de meu intento. Para contribuir com o disfarce, eu providenciara a presença de um grupo com cerca de oito ou dez outros alunos e fui solicitamente cuidadoso para que o surgimento das cartas parecesse acidental e originado na proposta daquele próprio a quem visava ludibriar. Para ser breve acerca de um tópico vil, nada da degradada arte foi omitido, algo tão costumeiro em ocasiões similares que só pode constituir motivo de admiração ainda haver aqueles tão aparvalhados a ponto de dela caírem vítimas. 
     Havíamos prosseguido nisso até altas horas da noite quando enfim consegui efetuar a manobra de fazer de Glendinning meu único adversário. O jogo, também, era meu écarté favorito. Os demais presentes, interessados na magnitude de nossa jogatina, haviam abandonado seus próprios carteados, e ajeitaram-se em torno como espectadores. O parvenu, que fora induzido por meio de meus ardis na primeira parte da noite a beber pesadamente, agora embaralhava, dava as cartas ou jogava de uma maneira nervosa e precipitada que sua embriaguez, assim pensei, poderia explicar em parte, mas não inteiramente. Em um período muito curto de tempo tornara-se meu devedor por vultosa soma, quando, após virar um longo trago de porto, fez precisamente o que eu viera friamente antecipando — propôs dobrar nossas já extravagantes apostas. Com uma bem fingida afetação de relutância, e somente depois que minhas repetidas recusas persuadiram-no a proferir algumas palavras furiosas que emprestaram uma aparência de pique6 a minha aquiescência, finalmente cedi. O resultado, claro, apenas provou quão irremediavelmente a presa caíra em minha armadilha; em menos de uma hora ele havia quadruplicado sua dívida. Já havia algum tempo que seu semblante vinha perdendo o ruborizado matiz advindo do vinho; mas agora, para meu assombro, percebi que atingira uma palidez verdadeiramente assustadora. Digo para meu assombro. Minhas ansiosas sondagens haviam-me levado a crer que Glendinning era incomensuravelmente rico; e os montantes que até então perdera, embora em si vastos, não poderiam, assim supunha eu, perturbá-lo muito seriamente, menos ainda deixá-lo tão violentamente agitado daquele modo. Que estivesse subjugado pela quantidade de vinho que acabara de tomar foi a ideia que mais prontamente me veio; e, antes com vistas à preservação de meu próprio caráter aos olhos de meus colegas do que por qualquer outro motivo menos interesseiro, eu estava prestes a insistir, peremptoriamente, na interrupção do jogo, quando algumas coisas ditas à minha volta entre o grupo e uma exclamação evidenciando completo desespero da parte de Glendinning levaram-me a compreender que eu efetuara sua total ruína sob circunstâncias que, tornando-o objeto da piedade geral, deveriam tê-lo protegido dos ofícios maléficos até de um demônio.
     No que agora devia ter constituído minha conduta é difícil dizer. A condição lastimável de minha vítima fizera descer uma atmosfera de sombrio constrangimento sobre todos os presentes; e, por alguns momentos, um profundo silêncio se manteve, durante os quais não pude deixar de sentir meu rosto queimando com os inúmeros olhares intensos de desprezo ou reprovação lançados sobre mim pelos menos depravados do grupo. Admitirei ainda que um intolerável peso de angústia foi por breve instante tirado de meu peito pela súbita e extraordinária interrupção que se seguiu. As amplas e pesadas portas duplas do aposento foram subitamente abertas, por completo, com uma impetuosidade vigorosa e violenta que apagou, como que por encanto, todas as velas do quarto. A luz, no momento em que elas se extinguiam, possibilitaram-me perceber apenas que um estranho havia entrado, mais ou menos da minha própria altura, e cuidadosamente encapotado em um manto. A escuridão, entretanto, agora era total; e podíamos apenas sentir sua presença ali em nosso meio. Antes que qualquer um de nós conseguisse se recuperar da extrema perplexidade em que aquela grosseria nos lançara a todos, escutamos a voz do intruso.

“Senhores”, disse, num baixo, distinto e inesquecível sussurro que me fez tremer até a medula, “abstenho-me de pedir quaisquer desculpas por meu comportamento, pois, desse modo me comportando, não estou senão cumprindo um dever. Os senhores encontram-se, sem sombra de dúvida, desinformados sobre o verdadeiro caráter da pessoa que ganhou no écarté esta noite uma enorme soma de dinheiro de Lord Glendinning. Vou desse modo lhes propor um método diligente e conclusivo de obter essa informação absolutamente indispensável. Por favor examinem, com vagar, o forro interno do punho de sua manga esquerda, e os diversos pequenos pacotes que podem ser encontrados nos bolsos razoavelmente espaçosos de seu roupão bordado.”

     Enquanto falava, tão profundo foi o silêncio que se poderia ter escutado a queda de um alfinete no soalho. Ao terminar, partiu na mesma hora, e tão abruptamente quanto entrara. Poderei — conseguirei descrever minhas sensações? — deverei dizer que senti todos os horrores da danação? Asseguro que tive pouco tempo para refletir. Inúmeras mãos agarraram me brutalmente ali mesmo e as luzes tornaram imediatamente a ser acesas. Fui revistado. No forro de minha manga encontraram-se todas as cartas essenciais do écarté e, nos bolsos de meu roupão, uma série de baralhos, idênticos aos usados em nossas noitadas, com a única exceção de que os meus eram dessa espécie tecnicamente chamada de arrondies¹; as honras sendo ligeiramente convexas no alto e embaixo, as cartas menores, ligeiramente convexas nas laterais. Com esse arranjo, a vítima que corta, como de costume, no sentido longitudinal do baralho, invariavelmente descobrirá que dá uma honra ao seu adversário; ao passo que o jogador trapaceiro, cortando na largura, com o mesmo grau de certeza nada dará ao seu oponente que possa contar para o triunfo no jogo.

[1] No original arrondées: forma inexistente, refere-se sem dúvida a arrondi (masculino singular), ou cartas arrondies, “arredondadas” (aqui e nos demais casos, a tradução optou por simplesmente corrigir os ocasionais erros de grafia e acentuação cometidos por Edgar Allan Poe em determinadas palavras estrangeiras). E, adiante, “honras”: as quatro ou cinco cartas mais altas em jogos como uíste e seus derivados (como o próprio écarté e também o bridge, por exemplo).

     Qualquer explosão de indignação com a descoberta teria me afetado menos do que o desprezo silencioso ou a sarcástica compostura com que ela foi recebida.

“Senhor Wilson”, disse nosso anfitrião, curvando-se para remover de sob seus pés um manto sumamente luxuoso de peles raras, “senhor Wilson, isto é de sua propriedade.” (Fazia frio; e ao deixar meu quarto, eu jogara um manto por cima de meu robe de chambre, tirando-o ao chegar ao local da jogatina.) “Presumo que será supérfluo procurar aqui (relanceando as dobras do traje com um sorriso amargo) por qualquer evidência adicional de sua destreza. Com efeito, já tivemos o suficiente. O senhor compreenderá a necessidade, espero, de deixar Oxford — de todo modo, de deixar meus aposentos imediatamente.”

     Humilhado, rebaixado à desonra como então fiquei, é provável que tivesse reagido a essas palavras exasperantes com violência pessoal imediata, não fosse minha atenção naquele momento ser atraída para um fato da natureza mais surpreendente. O manto que eu agora vestia era de uma rara qualidade de pele; quão rara, e quão extravagantemente cara, não ousarei dizer. Seu feitio, também, era de minha própria invenção fantasiosa; pois eu era fastidioso a um grau absurdo de afetação em matérias dessa natureza frívola. Quando, desse modo, o sr. Preston estendeu-me o que havia recolhido do chão, e ao me aproximar das portas duplas do aposento, foi com um assombro beirando o terror que percebi meu próprio manto já dobrado em meu braço (onde eu sem dúvida sem me dar conta o havia pendurado) e que aquele que me fora oferecido não era senão sua exata contrapartida em todas e mais minuciosas particularidades possíveis. A singular criatura que tão funestamente me desmascarara havia permanecido encapotada, lembro-me, em um manto; e nenhum outro membro de nosso grupo usava um, com exceção de mim mesmo. Conservando alguma presença de espírito, aceitei o que me fora entregue por Preston; coloquei-o, despercebido, sobre o meu; deixei o apartamento com uma expressão determinada de desafio; e, na manhã seguinte, antes do alvorecer do dia, iniciei uma apressada viagem de Oxford para o continente, numa perfeita agonia de horror e vergonha.
     Fugi em vão. Meu destino maligno perseguiu-me como que em exultação e provou, de fato, que o exercício de seu misterioso domínio ainda estava apenas por começar. Mal pus os pés em Paris, obtive nova evidência do detestável interesse assumido por esse Wilson em meus assuntos. Anos se passaram sem que eu conhecesse alívio. Patife! — em Roma, quão inoportunamente, e contudo, com que diligência mais fantasmagórica, ele se interpôs entre mim e minha ambição! Em Viena, também — em Berlim — e em Moscou! Onde, na verdade, não tinha eu uma razão amarga para amaldiçoá-lo do fundo do coração? De sua inescrutável tirania enfim fugi, tomado de pânico, como que da peste; e para os próprios confins da terra eu fugi em vão.
     E novamente, e novamente, em secreta comunhão com meu próprio espírito, fazia eu as perguntas “Quem é ele? — de onde veio — e quais são seus objetivos?”. Porém nenhuma resposta era encontrada. E agora eu examinava, com escrutínio minucioso, as formas, os métodos, as características principais de sua vigilância impertinente. Mas mesmo aí havia muito pouco sobre o que basear uma conjectura. Era com efeito notável que em nenhuma das múltiplas ocasiões em que recentemente cruzara meu caminho ele não o tivesse feito senão para frustrar planos ou estorvar ações que, se levados a um termo, poderiam ter resultado em amarga injúria. Que pobre justificativa, na realidade, para uma autoridade tão arrogantemente presumida! Que pobre reparação para direitos naturais de autogoverno tão tenazmente, tão insultuosamente negados!
     Fora-me também forçoso notar que meu algoz, por um período muito longo (ao mesmo tempo que escrupulosamente, e com destreza sobrenatural, prosseguia em seu capricho de trajar-se de forma idêntica à minha), agira de tal maneira, na execução de sua variada interferência com minha vontade, que eu jamais visse, em momento algum, as feições de seu rosto. Fosse quem fosse Wilson, isso, ao menos, era a mais extrema das afetações, ou das tolices. Seria possível ele supor, por um instante, que em meu admoestador de Eton — no destruidor de minha honra em Oxford — naquele que frustrara minha ambição em Roma, minha vingança em Paris, meu amor apaixonado em Nápoles, ou no que ele falsamente chamou de minha avareza no Egito — que nele, meu arqui-inimigo e gênio do mal, eu pudesse deixar de reconhecer o William Wilson de meus dias escolares — o homônimo, o companheiro, o rival — o odiado e temido rival na instituição do dr. Bransby? Impossível! — Mas que me seja permitido passar rapidamente à derradeira cena memorável do drama.
     Até esse momento eu sucumbira letargicamente a seu arrogante domínio. O sentimento de profunda reverência com que habitualmente encarava o caráter elevado, a sabedoria majestosa, a aparente onipresença e onipotência de Wilson, combinado a um outro de semelhante terror que determinados outros traços em sua natureza e pressuposições me inspiravam, havia até ali agido de modo a imprimir em mim uma ideia de minha própria fraqueza e desamparo e a sugerir uma submissão implícita, ainda que amargamente relutante, à arbitrariedade de sua vontade. Mas, por essa época, eu me entregara completamente ao vinho; e a influência exasperante da bebida sobre meu temperamento hereditário tornou-me cada vez mais intolerante ao controle. Comecei a resmungar — a hesitar — a resistir. E seria apenas a fantasia que me induzia a acreditar que, com o aumento de minha firmeza, a de meu algoz conheceu diminuição proporcional? Fosse como fosse, comecei assim a sentir a inspiração de uma esperança ardente, e acabei por nutrir secretamente em meus pensamentos uma austera e desesperada resolução de não mais me submeter àquele jugo.
     Foi em Roma, durante o Carnaval de 18—, que compareci a uma mascarada no palacete do duque napolitano Di Broglio. Eu me entregara mais livremente do que o habitual aos excessos do vinho; e agora a atmosfera sufocante dos ambientes abarrotados irritava-me além do suportável. Também a dificuldade de abrir caminho entre a confusão de gente contribuía em larga medida para a perturbação de meu temperamento; pois eu procurava ansiosamente (que me seja permitido não revelar o indigno motivo) a jovem, alegre e linda esposa do velho e tolo Di Broglio. Com confiança mais do que inescrupulosa ela me fizera comunicar previamente o segredo dos trajes com que estaria fantasiada, e agora, após avistar sua pessoa, eu tentava apressadamente abrir caminho até sua presença. — Nesse momento senti o toque leve de uma mão pousando em meu ombro, e aquele inesquecível, grave e execrável sussurro em meu ouvido.
     Num absoluto frenesi de ira, virei-me na mesma hora para aquele que desse modo me interrompera e agarrei-o violentamente pelo colarinho. Estava vestido, como era de esperar, com uma fantasia em tudo similar à minha; trajava uma capa espanhola de veludo azul, cingida em torno da cintura por um cinto escarlate sustentando uma rapieira. Uma máscara de sede negra cobria inteiramente seu rosto.

“Canalha!”, exclamei, numa voz rouca de fúria, e cada sílaba pronunciada parecia renovar o ardor de minha cólera, “canalha! impostor! vilão amaldiçoado! não irás — não irás me caçar até a morte! Segue-me, ou provarás minha lâmina aqui mesmo!” — e abri caminho do salão de baile até uma pequena antecâmara anexa — arrastando-o irresistivelmente comigo conforme o fazia.
   
     Ao entrar, empurrei-o furiosamente para longe de mim. Ele cambaleou contra a parede, enquanto eu fechava a porta com uma imprecação e lhe ordenava que desembainhasse sua arma. Ele hesitou por um instante; depois, com um ligeiro suspiro, puxou a espada em silêncio e se pôs em guarda.
     O duelo foi breve deveras. Eu estava desvairado com todo tipo de agitação selvagem e senti em um único braço a energia e o poder de uma multidão. Em poucos segundos empurrei-o à pura força contra os lambris e desse modo, tendo-o à minha mercê, cravei a espada com brutal ferocidade, repetidamente, por todo o seu peito.
     Nesse instante alguém tentou abrir a porta. Apressei-me a impedir qualquer intromissão e depois imediatamente voltei ao meu antagonista moribundo. Mas que linguagem humana pode retratar adequadamente aquele espanto, aquele horror que se apossaram de mim diante do espetáculo que então se apresentou aos meus olhos? O breve momento em que desviei a atenção havia sido suficiente para produzir, aparentemente, uma mudança palpável no canto superior ou mais distante do quarto. Um grande espelho — assim de início me pareceu, em minha confusão — agora se via onde antes nada disso era perceptível; e, quando caminhei em sua direção tomado por extremos de terror, minha própria imagem, mas com as feições pálidas e salpicadas de sangue, avançou para ir ao meu encontro com um andar débil e vacilante.
     Assim me parecia, afirmei, mas não. Era meu antagonista — era Wilson, que então se punha de pé diante de mim, sofrendo as agonias da morte. Sua máscara e a capa jaziam onde ele as jogara, sobre o piso. Não havia sequer um fio em todo o seu traje — sequer uma linha em todos os marcados e singulares contornos de seu rosto que não fossem, mesmo na mais absoluta identidade, os meus próprios!
     Era Wilson; porém não mais falava num sussurro, e eu poderia ter imaginado que era eu mesmo quem falava quando disse:

Venceste, e me rendo. E contudo, daqui por diante também estás morto — morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim existias — e, em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua própria, quão absolutamente assassinaste a ti mesmo.” 

continua página 41...
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William Wilson (a) / William Wilson (b) / William Wilson (c) /                 
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Moby Dick: 71 - A história do Jerobão

Moby Dick

Herman Melville

71 - A história do Jerobão

     De mãos dadas, navio e brisa avançavam; mas a brisa era mais rápida, e o Pequod logo começou a balançar.
     Dentro em pouco, vistos pelo binóculo, os botes e os topos de mastro guarnecidos provaram ser de um navio baleeiro. Mas como estava muito distante a barlavento, e correndo a velas cheias, aparentemente de passagem para outra zona de pesca, o Pequod não conseguia alcançá-lo. Assim, o sinal foi dado para ver que resposta receberiam.
     Seja dito que, à semelhança dos navios de guerra, os navios da Frota Baleeira Norte-Americana têm cada qual seu sinal particular; uma vez que todos os sinais estão reunidos num livro junto aos nomes dos respectivos navios, todos os capitães dispõem de um exemplar. Dessa forma, os comandantes baleeiros são capazes de reconhecer uns aos outros no oceano, mesmo a grandes distâncias, e com não pouca facilidade.
     O sinal do Pequod foi por fim respondido por um sinal do estranho; o qual provou ser o Jeroboão, de Nantucket. Ajustando as vergas, ele reduziu a vela, colocou-se de atravessado a sotavento do Pequod e prontamente arriou um bote; este logo se aproximou; mas enquanto a escada estava sendo armada por ordens de Starbuck para receber o capitão visitante, o estranho em questão acenou da popa de seu bote em sinal de que o procedimento era inteiramente desnecessário. Descobriu-se que uma epidemia maligna havia acometido o Jeroboão, e que Mayhew, seu capitão, receava contaminar a tripulação do Pequod. Pois, embora ele próprio e a tripulação do bote não estivessem doentes, e embora seu navio estivesse a uma distância de meio tiro de rifle, e um mar e uma atmosfera incorruptíveis rolassem e fluíssem entre ambos; ainda assim, sustentando conscientemente a quarentena de terra, recusou-se peremptoriamente a travar contato direto com o Pequod.
     Mas isso de modo algum lhes obstou o diálogo. Impondo a distância de algumas jardas entre si e o navio, o bote do Jeroboão às vezes se valendo dos remos manteve-se paralelo ao Pequod, enquanto este avançava com dificuldade (pois naquele momento havia pouca brisa), com a gávea para trás; ainda que, às vezes pelo súbito assalto de uma grande onda que rolasse, o bote fosse empurrado para a frente; no entanto, logo retomava a posição. Expostos a isso e a outras ocasionais interrupções semelhantes, os dois grupos mantiveram a conversa; mas não sem outra interrupção, esta de natureza bem diversa.
     Puxando um remo no bote do Jeroboão, havia um homem de aspecto peculiar, mesmo para aquela selvagem vida baleeira, em que singularidades constroem totalidades. Era um jovem, baixo e franzino, com o rosto manchado de sardas e o cabelo excessivamente amarelo. Um casaco comprido, de um castanho desbotado e cortado de modo cabalístico, o vestia; suas mangas longas apareciam enroladas nos punhos. Um delírio profundo, fixo e fanático transparecia em seus olhos.
     Tão logo esse vulto foi avistado, Stubb exclamou – “É ele! É ele! – o bufão de casaco comprido; era a respeito dele que a tripulação do Town Ho falava!” Stubb referia-se a uma estranha história do Jeroboão, e de um certo homem de sua tripulação, sabida havia algum tempo, de quando o Town-Ho e o Pequod se encontraram. Segundo esse relato e o que se soube mais tarde, parece que o bufão em questão havia conquistado grande influência sobre quase todos os tripulantes do Jeroboão. A história era a seguinte:
     Ele havia sido originalmente criado no seio da louca comunidade dos Shakers de Neskyeuna, onde fora um conhecido profeta; em suas doidas reuniões secretas havia descido várias vezes do céu por meio de um alçapão, anunciando a abertura da sétima âmbula, que guardava no bolso do colete; mas que em lugar de conter pólvora, se supunha estar cheia de láudano. Tendo sido tomado por uma estranha fantasia apostólica, foi de Neskyeuna a Nantucket, onde, com a astúcia própria da loucura, assumiu uma aparência razoável e correta e ofereceu-se como novato para a viagem do Jeroboão. Contrataram-no; mas assim que o navio se afastou da terra sua loucura veio à tona. Anunciou-se como o arcanjo Gabriel e ordenou que o capitão saltasse ao mar. Publicou um manifesto, no qual se declarava libertador das ilhas do mar e vigário-geral de toda a Oceânica. A seriedade inabalável com que declarou estas coisas; – o jogo ousado e sombrio de sua imaginação insone e agitada, e todos os terrores sobrenaturais do delírio real uniram-se para que, aos olhos da maioria da tripulação ignara, esse Gabriel fosse investido de uma atmosfera de santidade. Afora isso, temiam-no. Uma vez que um homem desses não trouxesse benefícios para o navio, especialmente porque se recusava a trabalhar, a não ser quando queria, o capitão incrédulo logo tentou se livrar dele; mas, ao ser informado de que o capitão tinha a intenção de desembarcá-lo no primeiro porto que aparecesse, o arcanjo sem demora abriu todos os seus lacres e âmbulas – que levariam o navio e os marinheiros à perdição total, caso o plano fosse levado a cabo. Tão eficaz foi seu poder sobre seus discípulos da tripulação, que um grupo deles se dirigiu ao capitão, para dizer-lhe que se Gabriel fosse expulso do navio nenhum marinheiro restaria a bordo. Por isso, o capitão foi forçado a desistir do plano. Também não permitiriam que Gabriel fosse maltratado, não importando o que dissesse ou fizesse; de tal modo que Gabriel passou a ter liberdade total no navio. A consequência disso foi que o arcanjo não se importou mais com o capitão e seus imediatos; e, depois que se deflagrou a epidemia, seu poder aumentou mais do que nunca; declarou que a praga, como era chamada, estava unicamente sob suas ordens; e que não cessaria caso ele não o desejasse. Os marinheiros, uns pobres coitados em sua maioria, se encolhiam, quando não se curvavam diante de sua presença; em obediência às suas instruções, por vezes rendiam-lhe homenagens como se fosse um deus. Essas coisas parecem incríveis; apesar de espantosas, são verdadeiras. Nem é a história do fanatismo tão surpreendente pela autossugestão excessiva do próprio fanático, quanto por seu poder excessivo de enganar e atormentar sem misericórdia tantas pessoas. Mas é hora de voltarmos ao Pequod. 

“Não temo a tua epidemia, homem”, disse Ahab da amurada ao Capitão Mayhew, que estava de pé na popa do bote; “vem a bordo”.

     Mas Gabriel ficou de pé.

“Pensa, pensa na febre, amarela e biliosa! Cuidado com a praga terrível!” 
“Gabriel, Gabriel!”, gritou o capitão Mayhew, “Deves também –” Mas naquele momento uma onda impetuosa atirou o bote para longe, e a espuma afogou-lhe todas as palavras. 
“Viste a Baleia Branca?”, perguntou Ahab, quando o bote descaiu para trás. 
“Pensa, pensa no teu bote baleeiro, avariado e afundado! Atenção à cauda terrível!” 
“Vou dizer mais uma vez, Gabriel, que –”, mas o bote foi lançado para a frente de novo como se puxado por demônios. Por alguns instantes nada foi dito, enquanto corria uma sucessão de ondas rebeldes, que por um desses fortuitos caprichos do mar faziam o bote tombar, em vez de seguir adiante. Enquanto isso, a cabeça pendurada do Cachalote sacudia violentamente, e notou-se que Gabriel a olhava com um temor bem maior do que sua natureza de arcanjo lhe permitia.

     Quando esse interlúdio findou, o Capitão Mayhew deu início a uma terrível história sobre Moby Dick; não, porém, sem as interrupções frequentes de Gabriel, sempre que seu nome fosse mencionado, e do mar enfurecido, que parecia ter-se aliado a ele.
     Não havia decorrido muito tempo desde a partida do Jeroboão quando, após ter falado com um navio baleeiro, sua tripulação ficou seguramente a par da existência de Moby Dick, e dos grandes estragos que produzia. Assimilando avidamente os relatos, Gabriel preveniu seriamente o capitão contra um ataque à Baleia Branca, caso o monstro fosse encontrado; em sua tagarelice ensandecida, afirmou que a Baleia Branca era nada menos do que o Deus dos Shakers encarnado; dela tendo recebido a Bíblia. Mas, um ou dois anos depois, quando Moby Dick foi avistado do topo dos mastros, Macey, o primeiro imediato, ardendo de vontade de encontrar a baleia; e não sendo o próprio capitão avesso a permitir que aproveitasse a oportunidade, a despeito de todas as premonições e advertências do arcanjo, Macey conseguiu convencer cinco homens a tripular seu bote. Com eles, remou; e, depois de muita força e de muitos perigosos e malogrados assaltos, conseguiu por fim cravar-lhe um ferro. Enquanto isso, Gabriel, subindo ao mastaréu do sobrejoanete no topo do mastro, agitava um dos braços com gestos frenéticos e proferia vaticínios de súbita desgraça aos agressores sacrílegos de sua divindade. Ora, enquanto Macey, o imediato, estava de pé na proa do bote, e com a energia infatigável de sua tribo vociferava palavras selvagens contra a baleia, buscando a melhor oportunidade para sua lança suspensa, oh!, uma enorme sombra branca emergiu do mar; e um movimento rápido e agitado deixou os remadores quase sem ar. No momento seguinte, o imediato desafortunado, tão cheio de fúria, foi violentamente golpeado para o alto, e fazendo um longo arco em sua queda caiu no mar a uma distância de mais ou menos cinquenta jardas. Nenhuma lasca do bote foi danificada, como nenhum fio de cabelo dos remadores; mas o imediato afundou para sempre.
     Que se diga, entre parênteses, que dos tipos de acidente fatal na Pesca do Cachalote esse é tão frequente quanto qualquer outro. Às vezes, ninguém se machuca, exceto o homem que é aniquilado; mais amiúde, a proa do bote é arrancada, ou a prancha coxal, lugar onde fica o líder, é arrancada de seu lugar acompanhando o corpo. Mas a circunstância mais estranha de todas, que ocorreu mais de uma vez, é aquela em que o corpo recuperado não traz marcas de violência, mas o homem está morto.
     A tragédia toda, a queda do corpo de Macey, foi vista do navio com nitidez. Lançando um grito penetrante – “A âmbula! A âmbula!”, Gabriel fez com que a tripulação aterrorizada parasse de perseguir a baleia. Esse evento terrível investiu o arcanjo de ainda maior influência; pois seus discípulos crédulos acreditavam que ele o tinha especificamente prenunciado, em vez de ter proferido apenas uma profecia genérica, que qualquer um poderia ter feito e assim, por acaso, ter acertado num dos muitos alvos que a ampla margem permitia. Tornou-se o terror inominável do navio.
     Quando Mayhew terminou sua narrativa, Ahab fez-lhe tais perguntas que o capitão não pôde se abster de perguntar se tinha intenção de caçar a Baleia Branca, caso a oportunidade se lhe apresentasse. Ao que Ahab respondeu – “Sim”. De pronto, Gabriel se pôs de pé, fixou os olhos no velho e exclamou veementemente com o dedo apontado para baixo “Pensa, pensa no blasfemador – morto, lá embaixo! Cuidado com o fim do blasfemador!”.
     Ahab virou-se impassível; e então disse a Mayhew, “Capitão, acabo de me lembrar da minha mala de cartas; há uma carta para um dos teus oficiais, se não me engano. Starbuck, vai buscar a mala!”.
     Todos os navios baleeiros levam um grande número de cartas para diferentes navios, cuja entrega às pessoas às quais estão dirigidas depende de por acaso encontrá-las nos quatro oceanos. Assim, a maior parte das cartas nunca chega a seu destino; e muitas são recebidas somente depois de dois ou três ou mais anos.
     Logo Starbuck voltou com uma carta na mão. Estava terrivelmente amarrotada, úmida, coberta de um mortificado musgo verde e manchado por ter ficado no armário escuro da cabine. De tal carta, a própria Morte poderia ter sido o estafeta.

“Não consegues lê-la?”, gritou Ahab. “Dá-me aqui, homem. Sim, é apenas um garrancho apagado; – o que é isso?” Enquanto Ahab a examinava, Starbuck pegou o cabo de uma pá cortadora e com sua faca fendeu rapidamente a ponta, para ali colocar a carta e, desse modo, entregá-la ao bote, sem que esse tivesse que se aproximar do navio.

     Enquanto isso, Ahab, segurando a carta, murmurou, “Senhor Har –, sim, Senhor Harry – (uma letra de mulher – a esposa do homem, aposto) – sim– Senhor Harry Macey, navio Jeroboão; – ora, é para Macey, e ele está morto!”

“Coitado! Coitado! De sua esposa”, suspirou Mayhew; “mas entrega-me a carta!”.
“Não, guarda contigo!”, gritou Gabriel para Ahab; “em breve seguirás para lá.”
“Que as maldições te sufoquem!”, gritou Ahab. “Capitão Mayhew, prepara-te para recebê-la”, e tirando a missiva fatal das mãos de Starbuck prendeu-a na fenda do cabo e estendeu-a em direção ao bote. Mas assim que o fez, os remadores, na expectativa, largaram seus remos; o bote flutuou um pouco em direção à popa do navio; e de tal modo que, como por magia, a carta ficasse ao alcance da mão ávida de Gabriel. Ele a agarrou de pronto, tomou o facão do bote, e cravando nele a carta mandou-a assim carregada de volta ao navio. Faca e carta caíram aos pés de Ahab. Gabriel, então, berrou aos companheiros que remassem, e desse modo o bote amotinado disparou para longe do Pequod.

     Enquanto, depois desse interlúdio, os marinheiros retomavam o trabalho com a pele da baleia, coisas estranhas foram sugeridas acerca desse singularíssimo episódio.  

continua na página 346...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
68 - A manta / 69 - O funeral / 70 - A esfinge / 71 - A história de Jerobão /                               
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

domingo, 2 de agosto de 2026

MPB: Um dia de domingo

Um dia fantástico

Programa do Chacrinha...

O Primeiro Dueto de Tim Maia e Gal Costa durou 5 minutos e revolucionou a MPB Romântico Brasileiro

O conteúdo abaixo foi criado com IA. Não pretende substituir registros biográficos ou documentais, mas oferecer uma narrativa interpretativa, situada entre a história e a arte, que busca aproximar o espectador da dimensão humana, emocional e simbólica dos fatos. Os sons ou recursos visuais foram alterados ou totalmente gerados por IA.





Milhões de brasileiros e brasileiras ligaram a televisão e presenciaram Tim Maia e Gal Costa cantarem juntos ao vivo em um dueto lendário. Nos bastidores, o clima era tenso, a produção estava apreensiva e ninguém sabia se aquela parceria funcionaria fora do estúdio. Mas quando as luzes acenderam e as duas vozes se encontraram no palco, algo raro aconteceu — em poucos minutos, aquela apresentação mudaria para sempre a forma como o Brasil ouviria música romântica…


O vídeo abaixo é o registro desse domingo fantástico no Chacrinha!
Ah! Não é IA... kkkkk
Gal Costa e Tim Maia ao vivo no Chacrinha - Um dia de Domingo



"Um Dia de Domingo" foi composta por Michael Sullivan e Paulo Massadas.
A canção "Um Dia de Domingo" é uma obra da dupla de compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas. Foi gravada originalmente como um dueto por Tim Maia e Gal Costa no álbum Bem Bom, lançado em 1985. A ideia de reunir as duas vozes partiu do produtor Miguel Plopschi, mas a gravadora optou por gravar as partes separadamente devido à intensidade e personalidade imprevisível de Tim Maia. Para ajustar o tom à voz de Gal Costa, o arranjador Lincoln Olivetti regravou trechos e aumentou a velocidade da fita, elevando artificialmente o tom da cantora.
A música se tornou um sucesso, atingindo o número 1 em Portugal, e é lembrada como uma das baladas mais marcantes da década de 1980. Apesar de inicialmente ter sido criticada como comercial, consolidou a carreira de Gal Costa e apresentou Tim Maia a um público mais amplo. A letra da canção fala sobre momentos de emoção e contemplação, evocando a sensação de um domingo tranquilo e especial

Eu preciso te falar
Te encontrar de qualquer jeito
Pra sentar e conversar
Depois andar de encontro ao vento

Eu preciso respirar
O mesmo ar que te rodeia
E na pele quero ter
O mesmo sol que te bronzeia
Eu preciso te tocar
E outra vez te ver sorrindo
Te encontrar num sonho lindo

Já não dá mais pra viver
Um sentimento sem sentido
Eu preciso descobrir
A emoção de estar contigo
Ver o sol amanhecer
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo

Faz de conta que ainda é cedo

Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar a voz do coração

Eu preciso te falar
Te encontrar de qualquer jeito
Pra sentar e conversar
Depois andar de encontro ao vento

Eu preciso respirar
O mesmo ar que te rodeia
E na pele quero ter
O mesmo sol que te bronzeia
Eu preciso te tocar
E outra vez te ver sorrindo
Te encontrar num sonho lindo

Já não dá mais pra viver
Um sentimento sem sentido
Eu preciso descobrir
A emoção de estar contigo
Ver o sol amanhecer
E ver a vida acontecer
Como um dia de domingo

Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar a voz do coração

Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar a voz do coração

Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar a voz do coração

Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar a voz do coração

Compositores: Ivanilton De Souza Lima (Michael Sullivan), Paulo Cesar Guimaraes Massadas, Mihail Plopschi.


Gal lançou o seu primeiro trabalho em 1965, ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil. No icônico disco Tropicalia ou Panis et Circencis (o álbum "Tropicalia ou Panis et Circencis" é um marco da Tropicália, lançado em julho de 1968 pela Philips Records. O disco reúne artistas como Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé, com contribuições dos poetas José Capinam e Torquato Neto e arranjos do maestro Rogério Duprat. O álbum é conhecido por seu uso de colagens, efeitos de sonoplastia e fusão de características marcantes da cultura brasileira com tendências estrangeiras, como o rock e o concretismo. A capa foi criada por Rubens Gerchman, e a arte gráfica nas cores da bandeira brasileira ficou a cargo do artista plástico Rubens Gerchman. O álbum é considerado essencial para quem curte música brasileira e é uma referência para as gerações que vieram depois, de 1968), Gal cantou "Mamãe Coragem", "Parque Industrial" e "Enquanto Seu Lobo Não vem", antes de lançar em 1969 seu primeiro álbum solo, auto-intitulado. Gal Costa trouxe hits como "Baby" e "Divino Maravilhoso". Outros hits na sua voz incluem "Um Dia de Domingo", "Chuva de Prata", "Lágrimas Negras", "Vapor Barato" e mais. Com mais de 55 anos de carreira, Gal lançou 31 álbuns de estúdio e foi indicada 5 vezes ao Grammy Latino.


Mamãe, Coragem - Gal Costa




O primeiro disco de Tim Maia foi o álbum homônimo "Tim Maia", lançado em 1970 pela gravadora Polydor. O álbum "Tim Maia" marcou a estreia oficial do cantor e compositor brasileiro, sendo lançado em junho de 1970. As gravações ocorreram entre agosto de 1969 e maio de 1970, nos estúdios Scatena, em São Paulo, e CBD, no Rio de Janeiro. O disco foi muito bem recebido pelo público, alcançando excelentes vendas e consolidando o início da carreira de Tim Maia. Entre as faixas mais conhecidas estão "Azul da Cor do Mar", "Coroné Antônio Bento" e "Primavera (Vai Chuva)"








Guinga fala bem de vários Artistas Brasileiros e se emociona ao final




Não tenho medo da morte - Gilberto Gil




Um dia de domingo /