terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: A grande irritação - [b]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
A grande irritação 


     Mas, quando o Sr. Settembrini introduziu na conversa a palavra “justiça” e recomendou esse sublime princípio como meio preventivo contra catástrofes políticas, tanto externas como internas, evidenciou-se que o mesmo Naphta que acabava de julgar o espírito por demais elevado para que fosse possível e desejável a sua encarnação numa forma terrena punha agora em dúvida precisamente o espírito e se empenhava em denegri-lo. Justiça? Era ela uma ideia digna de adoração? Uma ideia divina? Uma ideia de primeira categoria? Deus e a natureza eram injustos, tinham favoritos, selecionavam segundo as suas simpatias, concediam perigosas distinções a um e preparavam a outro uma sorte fácil e banal. E o homem dotado de vontade? Para ele, a justiça era, de um lado, uma franqueza paralisante, a dúvida em si, e de outro, uma fanfarra que o chamava para atos inescrupulosos. Desde que o homem, para manter-se dentro da esfera da moral, tinha de corrigir esta “justiça” por aquela – onde ficavam a incondicionalidade e o radicalismo da ideia? Ademais, era-se “justo” para com um ou outro dos dois pontos de vista. O resto não passava de liberalismo, e com isso não se arranjava mais nada hoje em dia. Numa palavra, a justiça era um termo oco da retórica burguesa, e para chegar à ação era preciso saber de que justiça se tratava – daquela que desejava conceder a cada um o que lhe pertencia ou da outra que queria dar parte igual a todos.  
     Escolhemos a esmo, das discussões sem fim, um exemplo para demonstrar a maneira como Naphta trabalhava por perturbar a razão. No entanto, era ainda pior o modo como falava da ciência, na qual não acreditava. Não tinha fé na ciência – dizia – visto o homem ter plena liberdade de crer ou não crer nela. Essa era uma crença como qualquer outra, apenas mais tola e mais prejudicial. A própria palavra “ciência” era a expressão do mais estúpido realismo que não se envergonhava de aceitar e gastar como moeda sonante os reflexos mais que duvidosos que os objetos sofriam do intelecto humano, e de preparar com eles a mais lamentável e a mais insossa doutrina que já se impingiu à humanidade. Não constituía, porventura, o conceito de um mundo material existente por si só a mais ridícula de todas as autocontradições? Ora, a ciência natural moderna, como dogma, baseava-se exclusivamente no postulado metafísico, segundo o qual o tempo, o espaço e a causalidade – a saber, as formas de conhecimento dentro das quais se passam os fenômenos do mundo – eram condições reais, existentes independentemente do nosso conhecimento. Essa afirmação monista era o mais berrante desaforo que já foi pespegado ao espírito. Em linguagem monista, o tempo, o espaço e a causalidade chamavam-se evolução, e com isso estava-se à frente do dogma central da pseudo-religião livre-pensadora e ateística, por meio da qual se tencionava abolir o primeiro Livro de Moisés e opor a sabedoria esclarecedora a uma fábula estultificante, como se Haeckel tivesse estado presente no momento em que nascia a Terra. Empirismo? O éter universal era, acaso, exato? O átomo, essa graciosa brincadeira matemática em torno da “parcela menor e indivisível” – existia uma prova que o demonstrasse? A teoria do espaço e do tempo infinitos fundava-se certamente na experiência; ou talvez não? Com efeito, qualquer pessoa que soubesse pensar logicamente seria levada a experiências curiosas e a resultados divertidos com esse dogma do espaço e do tempo infinitos e reais; obteria precisamente o resultado: nada. Perceberia que o tal realismo era genuíno niilismo. Por quê? Pela simples razão de a relação entre qualquer grandeza e o infinito ser zero. No infinito não existia medida, e na eternidade não havia nem duração nem modificação. No espaço infinito, onde todas as distâncias seriam matematicamente iguais a zero, não era possível conceber nem sequer dois pontos situados um ao lado do outro, e ainda menos dois corpos, para não falar de um movimento. Ele, Naphta, fazia questão de constatar isso, para contrariar o atrevimento com que a ciência materialista apresentava os disparates astronômicos e o seu palavrório frívolo acerca do universo como se fossem conhecimentos absolutos. Coitada da humanidade, que, em face de uma exposição ostensiva de cifras vazias, deixou que lhe impingissem o sentimento da sua própria nulidade e admitiu que a privassem do sentido patético da sua importância! Talvez fosse ainda tolerável que a razão e o conhecimento humanos se mantivessem dentro da esfera terrena e nesse campo tratassem como reais as suas experiências na exploração do objetivo e do subjetivo. Mas quando ultrapassassem esses limites e estendessem a mão para o enigma eterno, dedicando se à chamada cosmologia ou cosmogonia, levariam a brincadeira um pouco longe, e a sua presunção chegaria ao cúmulo do grotesco. Que absurdo blasfemo querer calcular a “distância” entre um astro e a Terra em trilhões de quilômetros ou também em anos-luz e imaginar que por meio dessas mentiras matemáticas se pudesse abrir ao espírito humano a vista para o infinito e o terreno, quando, em realidade, o infinito nada, absolutamente nada tinha que ver com grandezas, e a eternidade, nada com a duração e com os lapsos de tempo. Pelo contrário, o infinito e a eternidade, longe de serem conceitos da ciência natural, representavam justamente a abolição daquilo que chamamos natureza. A ingenuidade de uma criança que tomasse as estrelas por buracos no dossel celeste, através dos quais penetrasse a claridade eterna, lhe parecia mil vezes preferível a toda aquela lengalenga oca, disparatada, presunçosa, que a ciência monista produzia com respeito ao “universo”.
     Settembrini perguntou se Naphta, por sua parte, partilhava dessa crença quanto às estrelas, ao que o jesuíta respondeu que se reservava o direito da humildade e da liberdade do ceticismo. Essas palavras davam mais um ensejo para formar uma ideia daquilo que ele entendia por “liberdade”, e deixavam entrever aonde conduziria esse conceito. Se ao menos o Sr. Settembrini não tivesse motivos ponderáveis para recear que Hans Castorp achasse essas coisas dignas de serem ouvidas!
     A malícia de Naphta ficava à espreita de oportunidade para descobrir as fraquezas do progresso dominador da natureza e para demonstrar que os seus pioneiros e campeões sofriam recaídas muito humanas no irracional. Os aviadores, dizia ele, eram na maioria uns indivíduos suspeitos, de pouco valor, e sobretudo muitíssimo supersticiosos. Costumavam levar consigo a bordo dos aviões mascotes ou uma gralha, cuspiam três vezes em todas as direções e calçavam as luvas dos seus predecessores afortunados. Tal insensatez primitiva era, porventura, compatível com a concepção do mundo em que se alicerçava a sua profissão?... A contradição que Naphta acabava de revelar divertia-o, causava-lhe prazer, de maneira que insistia nessa tecla por muito tempo. Mas todos esses exemplos não são senão casos isolados do sem-número de ditos hostis proferidos por Naphta. Abandonemo-los para contar fatos infelizmente muito reais.
     Certa tarde de fevereiro, os cavalheiros se reuniram para uma excursão a Monstein, localidade situada a uma hora e meia de trenó da sua morada habitual. O grupo era formado por Naphta, Settembrini, Hans Castorp, Ferge e Wehsal. Foram em dois trenós, cada qual tirado por um só cavalo. No primeiro embarcaram Hans Castorp e o humanista, no segundo Naphta, Ferge e Wehsal, que se instalou na boléia, ao lado do cocheiro. Todos estavam bem agasalhados. Às três horas partiram do domicílio dos externos. Os guizos soavam simpaticamente através da paisagem silenciosa sob a sua coberta de neve, enquanto os trenós seguiam ao longo da encosta direita, passando por Frauenkirch e Glaris, rumo ao sul. Nuvens carregadas de neve aproximavam-se rapidamente, vindas dessa mesma direção, de modo que pouco depois desapareceu todo o azul do céu, salvo uma estreita nesga atrás deles, por cima da cordilheira Rética. O frio era intenso. As montanhas estavam envoltas em bruma. A estrada que percorriam, essa plataforma angusta, sem balaustrada, construída entre a parede e o abismo, subia uma vertente íngreme, coberta de abetos. Os cavalos avançavam a passo. Frequentemente vinham a seu encontro desportistas com trenós, deslizando pela encosta, e que desmontavam para dar-lhes passagem. Por detrás das curvas ressoavam em delicada advertência guizos estranhos. Trenós puxados por dois cavalos atrelados um atrás do outro passavam por eles, sendo então preciso esquivar-se com muita cautela. Perto da meta da viagem descortinava-se uma linda vista sobre um trecho rochoso da estrada de Zügen. Defronte ao pequeno hotel de Monstein, que se chamava Kurhaus, desembrulharam-se dos cobertores e caminharam alguns passos para poder contemplar o Stulsergrat. A gigantesca escarpa, de três mil metros de altura, estava escondida na bruma. Só se via em alguma parte um pico alto como o céu, superterreno, por assim dizer, recordando um longínquo Valhala, sagrado e inacessível. Hans Castorp estava cheio de admiração por esse espetáculo e exortou os outros a partilhar com ele desse sentimento. Foi ele quem, tomado de uma sensação de humildade, pronunciou a palavra “inacessível”, dando com isso ao Sr. Settembrini uma oportunidade para observar que aquele cume já havia sido escalado. Era, aliás, uma coisa que quase não existia mais, essa da inacessibilidade e dos lugares em que o homem ainda não houvesse posto o pé. Naphta retrucou que isso era um pequeno exagero e uma gabolice. E citou o monte Everest, que por enquanto opunha uma negativa glacial à arrogância dos homens e parecia querer obstinar-se nessa reserva. O humanista mostrou-se agastado. O grupo voltou ao Kurhaus, à frente do qual se achavam além dos seus próprios trenós mais alguns outros, desatrelados.
     No primeiro andar havia quartos numerados, onde a gente podia hospedar-se. Era também ali que estava situada a sala de refeições, de aspecto rústico, bem aquecida. Os excursionistas encarregaram a hoteleira solícita de lhes trazer uma pequena refeição: café, mel, pão branco e bolo de peras, a especialidade do lugar. Mandaram servir vinho tinto aos cocheiros. As outras mesas estavam ocupadas por turistas suíços e holandeses.
     Gostaríamos de afirmar que em torno da mesa dos nossos cinco amigos o café quente, muito digno de elogios, houvesse originado uma conversa mais elevada. Mas isso seria inexato, uma vez que essa conversa era em realidade um solilóquio de Naphta, que a monopolizou depois de umas poucas palavras com que os outros haviam contribuído para ela, um monólogo pronunciado de forma bastante estranha, censurável do ponto de vista das convenções, visto o ex-jesuíta se dirigir exclusivamente a Hans Castorp, doutrinando-o com muita amabilidade, ao passo que voltava as costas a seu outro vizinho, que era o Sr. Settembrini, e também não prestava a menor atenção aos dois outros senhores.
     Seria difícil definir qual era o tema das suas improvisações, que Hans Castorp acompanhava sacudindo a cabeça em sinal de meia aprovação. Não havia, em realidade, um assunto único. A palestra vagava livremente pela esfera do espírito, roçando isto e aquilo, empenhada, essencialmente, em demonstrar, de forma desanimadora, a ambiguidade dos fenômenos espirituais da vida, bem como a natureza irisante e a debilidade combativa das grandes ideias derivadas deles. Esforçava-se por tornar evidente que o absoluto se apresentava neste mundo em roupas muitíssimo cambiantes.
     A rigor se poderia dizer que a sua conferência se ocupava do problema da liberdade, que ele tratava com o propósito de criar confusão. Entre outras coisas, mencionamos o Romantismo e o fascinante sentido duplo, inerente a esse movimento europeu de princípios do século XIX, em face do qual fracassariam conceitos como “reação” ou “revolução”, a não ser que se reunissem num conceito superior. Naturalmente era ridículo querer associar o conceito do “revolucionário” apenas ao progresso e ao esclarecimento vitorioso. O Romantismo europeu tinha sido, antes de mais nada, um movimento libertador, de caráter anticlassicista e antiacadêmico, dirigido contra o gosto da França antiga, contra a velha escola da razão, cujos paladinos eram ridicularizados como cabeças de perucas empoadas.
     E Naphta veio a falar das Guerras de Libertação, do entusiasmo fichteano, do levantamento delirante, poético, de um povo contra uma tirania insuportável, que, desgraçadamente (ah, ah!), era a encarnação da liberdade, quer dizer, das ideias da Revolução. Que coisa divertida! Cantando a altas vozes, o povo erguera o braço para esmagar a tirania revolucionária em prol da opressão reacionária dos príncipes; e isso tinha sido feito em nome da liberdade!
     Aí o jovem ouvinte podia notar a diferença ou talvez a oposição existente entre a liberdade exterior e a interior. E ao mesmo tempo achava-se diante da escabrosa questão de saber que forma de servidão era mais ou (ah, ah!) menos compatível com a honra de uma nação.
     Em última análise, a liberdade era um conceito do Romantismo antes do que da Época das Luzes, pois com aquele tinha em comum o entrelaçamento inextricável dos impulsos de expansão coletiva e do ensimesmamento apaixonadamente individualístico. A sede individualística de liberdade originara o culto histórico-romântico do nacional, culto esse que era belicoso e que o liberalismo humanitário tachava de sinistro, posto que ele mesmo nada fizesse senão pregar o individualismo, somente de maneira um pouco diversa. O individualismo era romântico-medieval na sua concepção da infinita, da cósmica importância do indivíduo; dela resultavam a doutrina da imortalidade da alma, a teoria geocêntrica e a astrologia. Por outro lado, era o individualismo um aspecto do humanismo de tendências liberalísticas, que inclinava para a anarquia e queria, em todo caso, proteger o querido indivíduo contra o destino de ser imolado à coletividade. Um e outro aspecto eram individualismo, e esse termo servia para muita coisa.
     Mas devia-se admitir que o entusiasmo libertador tinha produzido os mais brilhantes adversários da liberdade, os mais engenhosos campeões do passado, no combate ao progresso impiamente destrutor. Naphta citou Arndt, que amaldiçoara o industrialismo e enaltecera a nobreza; mencionou também Görres, o autor da Mística cristã. A mística, acaso, nada tinha que ver com a liberdade? Não fora ela antiescolástica, antidogmática, anticlerical? Embora fosse forçoso considerar a hierarquia uma potência libertadora, desde que opusera um dique à monarquia absoluta... A mística da última fase da Idade Média pusera à prova o seu caráter liberal como precursora da Reforma. Sim, da Reforma (ah, ah!), que, por sua vez, havia sido um amálgama indissolúvel de liberdade e de reação medieval...
     E a obra de Lutero? Ah, sim, esta obra tinha o mérito de patentear com a mais crua nitidez a natureza dúbia da própria ação, da ação em geral. Sabia o ouvinte de Naphta o que era uma ação? Uma ação fora, por exemplo, o assassínio do Conselheiro de Estado Kotzebue pelo estudante Sand. Que fora aquilo que, para empregar a linguagem da criminologia, pusera a arma na mão do jovem Sand? O amor à liberdade, naturalmente! Mas, diante de uma observação mais detida, manifestava-se que, em realidade, não tinha sido esse amor, senão o fanatismo moral e o ódio à estrangeirice frívola. Por outro lado estivera Kotzebue a serviço dos russos, isto é, a serviço da Santa Aliança, de maneira que Sand talvez, apesar de tudo, o tivesse apunhalado em prol da liberdade... O que, no entanto, também parecia improvável, em face da circunstância de haver jesuítas entre os seus amigos mais íntimos. Em suma, fosse o que fosse a ação, em todo caso era um meio pouco adequado para expressar-se com clareza e contribuía pouco para resolver os problemas espirituais. 

– Posso me permitir a pergunta: quando o senhor tenciona terminar com essas indecências?

     Quem perguntara assim era o Sr. Settembrini, e isso num tom muito veemente. Mantivera-se quieto na sua cadeira, tamborilando na mesa e torcendo os bigodes. Mas aquilo lhe enchia as medidas. Sua paciência estava esgotada. Empertigava-se, numa posição mais do que ereta, com o rosto empalidecido. Era como se, apesar de sentado, se colocasse nas pontas dos pés, de modo que apenas as coxas tocavam o assento. Com os olhos brilhantes encarava o inimigo que acabava de voltar-se para ele com fingida surpresa. 

– Como houve por bem o senhor expressar-se? – foi a pergunta com que Naphta protestou. 
– Eu houve por bem... – disse o italiano, engolindo em seco – eu hei por bem declarar que estou decidido a impedir que o senhor continue a importunar a juventude indefesa com suas palavras equívocas! 
– Convido o senhor a ponderar o que diz. 
– Senhor, dispenso tal convite. Estou acostumado a ponderar o que digo, e a minha expressão corresponde exatamente às circunstâncias, quando afirmo que o seu jeito de perturbar o espírito da juventude já de per si vacilante, de seduzi-la e de debilitar-lhe a moral, é uma infâmia e que palavras não são suficientes para castigá-lo devidamente...

     Ao pronunciar a palavra “infâmia”, Settembrini golpeou a mesa com a palma da mão. A seguir empurrou a cadeira para trás e levantou-se, dando dessa forma aos outros o sinal para imitá-lo. As pessoas que se achavam nas outras mesas observavam a cena com perplexidade; eram os holandeses, visto os suíços já terem partido.
     Todos os componentes do nosso grupo encontravam-se, pois, de pé, em atitude tensa, Hans Castorp e os dois adversários, e em frente deles Ferge e Wehsal. Todos os cinco estavam pálidos, com os olhos arregalados e as bocas crispadas. Não poderiam os três desinteressados ter feito uma tentativa para intervir num sentido conciliador, afrouxando a tensão por meio de uma piada e arranjando tudo mediante um apelo humano? Não fizeram tal tentativa. O seu estado de espírito opunha-se a isso. Quedavam-se de pé, trêmulos, e, sem querer, suas mãos se fechavam. O próprio A. K. Ferge, que declaradamente nada entendia de quaisquer coisas sublimes e de antemão renunciava a imaginar o alcance da querela – também ele estava convencido de que desta vez não havia lugar para transigências e que as pessoas que, elas mesmas fascinadas, presenciavam a contenda, nada podiam fazer senão deixar as coisas tomarem seu curso normal. Seu bigode hirsuto e bonachão subia e descia em movimentos rápidos.
     Reinava completo silêncio, de forma que se podia ouvir como Naphta rangia os dentes. Isso representava para Hans Castorp uma experiência semelhante àquela dos cabelos eriçados de Wiedemann. Pensara ele que “ranger os dentes” fosse somente uma locução e não um fato que se pudesse produzir. Mas, nesse momento, o rangido ressoava realmente através do silêncio, um ruído bastante desagradável, selvagem e fantástico, que, no entanto, dava a prova de um formidável domínio de si próprio; pois, longe de gritar, o jesuíta disse em voz baixa, apenas com uma quase risada ofegante: 

– Infâmia? Castigar? Será que os burros virtuosos se metem a dar coices? Levamos a polícia pedagógica da civilização a desembainhar a espada? Eis o que chamo um êxito, facilmente obtido, logo de início, como acrescento com desdém, visto que uma ironia leve foi suficiente para mobilizar a virtude vigilante! Quanto ao resto, senhor, virá a seu tempo. Inclusive o tal castigo, sim, senhor! Espero que os seus princípios sociais não o impeçam de saber o que me deve. Caso contrário, ver-me-ei forçado a pôr esses princípios à prova por meios que...

     Um gesto terminante de Settembrini fez com que Naphta continuasse: 

– Ah, já vejo que isso não será necessário. Eu estou no seu caminho, o senhor está no meu. Muito bem, liquidemos essa pequena diferença num lugar adequado. De momento só quero dizer uma coisa: o seu temor devoto pela ideologia escolástica da revolução jacobina vê um crime pedagógico na minha maneira de induzir a juventude a duvidar, de derrubar as categorias e de privar as ideias da dignidade acadêmica da virtude. Esse temor é por demais compreensível, pois a sua humanidade saiu de moda – tenha certeza disso – saiu de moda, acabou-se! Hoje em dia já não passa de um rabicho, uma sensaboria classicista, um ennui espiritual que faz bocejar, e que a nova revolução, a nossa, senhor, está a ponto de abolir. Quando, na nossa função de educadores, semeamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais imaginou o seu modesto espírito esclarecido, sabemos perfeitamente o que estamos fazendo. Unicamente do ceticismo radical, do caos moral nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Isso lhe digo para justificar-me e para instruí-lo. O resto pertence a um outro capítulo. O senhor terá notícias minhas. 
– Estou ansioso por recebê-las, senhor! – gritou Settembrini por trás de Naphta, que, abandonando a mesa, se encaminhava ao cabide para apanhar o seu casaco de pele. A seguir, o maçom deixou-se cair pesadamente na cadeira e apertou o coração com ambas as mãos.
Distruttore! Cane arrabiato! Bisogna ammazzarlo! – sibilou arfando. 

     Os outros continuavam de pé em torno da mesa. Os bigodes de Ferge prosseguiam subindo e descendo. Wehsal deixava pender obliquamente a mandíbula inferior. Hans Castorp arremedava o jeito do avô quando escorava o queixo no colarinho, porque sentia a nuca tremer. Todos estavam pensando no inesperado desfecho da sua excursão. Todos, sem exceção do Sr. Settembrini, pensavam também na circunstância feliz de terem alugado dois trenós em vez de um em comum, o que pelo menos facilitava o regresso. Mas que haveria depois? 

– Ele provocou o senhor para um duelo – disse Hans Castorp com o coração angustiado. 
– Com efeito – respondeu Settembrini, erguendo o olhar para o jovem que se achava de pé à sua frente. Mas logo o desviou dele e descansou a cabeça na mão. 
– O senhor aceita? – quis Wehsal saber. 
– Que pergunta! – retrucou Settembrini, lançando também a ele um rápido olhar. – Senhores – continuou então, levantando-se completamente controlado –, lastimo que o nosso passeio tenha chegado a este fim, mas, na vida que vivemos, todo homem deve andar preparado para essa espécie de incidentes. Teoricamente desaprovo o duelo. Por índole sou obediente à lei... Na prática, porém, o caso é diferente, e existem situações onde... existiam contrastes que... Numa palavra, estou à disposição desse cavalheiro. Ainda bem que na minha juventude pratiquei um pouco de esgrima. Algumas horas de treino hão de me devolver a agilidade do punho. Vamos embora! A respeito de tudo o mais a gente se porá de acordo. Acho que aquele senhor já terá dado ordem para atrelar.
   
continua pág 456...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

Moby Dick: 53 - O Gam

Moby Dick

Herman Melville

52 - O Gam

     A razão expressa pela qual Ahab não foi a bordo do baleeiro de que falávamos foi esta: o vento e o mar agouravam tempestades. Mas, mesmo que não tivesse sido este o caso, ele, afinal de contas, talvez não o fizesse – a julgar por sua conduta subsequente em ocasiões similares – se ocorresse que, no processo da saudação, recebesse uma resposta negativa à pergunta que fazia. Pois, como por fim se revelou, ele não dava importância à convivência, nem mesmo por cinco minutos, com um capitão desconhecido, a não ser que este pudesse contribuir com alguma informação sobre o que ele arrebatadamente buscava. Mas tudo isso pode ainda ser avaliado inadequadamente, se aqui não se disser alguma coisa sobre os costumes particulares dos navios baleeiros quando se encontram em águas estrangeiras, e em especial numa mesma zona de navegação.
     Quando dois estranhos, atravessando as áridas terras de Pine Barrens, no Estado de Nova York, ou as igualmente desoladas planícies de Salisbury, na Inglaterra, casualmente se encontram em tais agrestes inóspitos, eles não deixam, de maneira alguma, de fazer uma saudação mútua; e de parar por um momento para trocar notícias; e, talvez, de sentar um pouco e descansar conciliados: assim, seria ainda mais natural que, nas ilimitadas Pine Barrens e Salisbury do mar, dois navios baleeiros que se avistam nos confins do mundo – ao largo da isolada ilha de Fanning, ou das distantes King’s Mills; muito mais natural, repito, que em tais circunstâncias, os navios não apenas trocassem saudações, como tivessem um contato mais próximo, amistoso e sociável. E isso pareceria especialmente obrigatório no caso de duas embarcações que pertencessem ao mesmo porto, e cujos capitães, oficiais e não poucos marinheiros se conhecessem pessoalmente; e que, consequentemente, tivessem todos os tipos de diletos assuntos domésticos para conversar.
     Para o navio ausente há mais tempo, o que ainda está em início de viagem, talvez, traz cartas a bordo; de qualquer modo, este certamente terá alguns jornais um ou dois anos mais recentes do que o outro, nas suas tão surradas e compulsadas pastas. Para compensar a gentileza, o navio que está começando a viagem receberia as últimas notícias baleeiras sobre a zona de caça à qual se destina, informação de importância capital. E do mesmo modo tudo isso vale também para os navios baleeiros que se cruzam na mesma zona de caça, mesmo que ambos estejam há muito longe da pátria. Pois um deles pode ter recebido uma transferência de cartas de um terceiro navio, agora distante; e algumas dessas cartas podem ser destinadas a pessoas do navio encontrado. Além disso, trocariam notícias baleeiras e teriam uma conversa agradável. Pois não apenas esses homens contariam com toda a simpatia dos marinheiros, mas também com as solicitudes peculiares que surgem de uma mesma busca e privações e perigos mutuamente compartilhados.
     Tampouco a diferença de país faria grande diferença; isto é, desde que os dois grupos falassem a mesma língua, como é caso dos norte-americanos e dos ingleses. Ainda que, a bem da verdade, devido ao pequeno número de baleeiros ingleses, tais encontros não ocorram com muita frequência, e, quando ocorrem, é fácil haver um certo acanhamento entre os dois; pois o Inglês é um tanto reservado, e o Ianque não aprecia esse tipo de coisa em mais ninguém a não ser nele mesmo. Além disso, os baleeiros Ingleses, às vezes, demonstram um tipo de superioridade metropolitana em relação aos baleeiros Norte-Americanos, considerando o que vem de Nantucket, alto e magro, com sua tacanhice indescritível, uma espécie de caipira do mar. Mas seria difícil dizer em que consiste realmente essa superioridade dos baleeiros ingleses, visto que os Ianques matam, em conjunto, mais baleias em um dia do que os Ingleses todos em dez anos. Mas essa é uma fraqueza menor e inofensiva dos baleeiros Ingleses, que os de Nantucket não levam muito a sério; provavelmente porque sabem que também têm as suas próprias fraquezas.
     Assim, pois, vemos que de todas as embarcações que navegam no oceano os baleeiros são os que têm mais motivos para ser sociáveis – e, de fato, o são. Ao passo que alguns navios mercantes que cruzam as rotas no meio do Atlântico, às vezes, prosseguem sem trocar uma única palavra de reconhecimento, passando um pelo outro em alto-mar como dois dândis na Broadway; e, talvez, refestelando-se o tempo todo com críticas mordazes sobre a aparência do outro. Quanto aos navios de guerra, quando se encontram por acaso no mar, executam logo de início uma tal série de tolas mesuras e rapapés, uma tal agitação de bandeiras, que não parece haver muita sinceridade cordial, boa vontade ou amor fraternal nisso tudo. No que tange aos navios negreiros, ora, estes estão sempre com tanta pressa, que fogem uns dos outros o mais depressa possível. Quanto aos piratas, quando seus ossos cruzados se cruzam, a primeira saudação que fazem é– “Quantas caveiras?” –, do mesmo modo que os baleeiros fazem a saudação “Quantos barris?”. E, com a pergunta assim respondida, os piratas separam-se imediatamente, pois são todos canalhas de quatro costados e não lhes agrada ver tanta semelhança com a canalhice alheia.
     Mas veja o navio baleeiro, piedoso, honesto, humilde, hospitaleiro, sociável e simples! O que faz o baleeiro quando encontra outro baleeiro e o tempo é agradável? Faz um gam, uma coisa tão completamente desconhecida de outros navios, que nunca sequer ouviram esse nome; e, se, por acaso ouvissem, sorririam com superioridade e fariam gracejos sobre “jatos” e “caldeiras de gordura”, e outras exclamações jocosas. Por que será que os marinheiros mercantes, e também os piratas e marujos de navios de guerra e de navios negreiros, sentem tanto desdém pelos navios baleeiros? É uma pergunta difícil de responder. Pois, no caso dos piratas, por exemplo, eu gostaria de saber se há algum tipo de glória em sua profissão. Às vezes, terminam numa posição elevada incomum, de fato; mas só no alto de um cadafalso. E, além disso, quando um homem é elevado desse modo insólito, talvez não tenha fundamento o bastante para tanta superioridade. Portanto, devo concluir que o pirata, ao se vangloriar de estar acima do baleeiro, não encontra nessa asserção nenhuma base sólida para se sustentar.
     Mas o que é um gam? Você pode gastar o indicador percorrendo as colunas dos dicionários e jamais encontrar essa palavra. O Dr. Johnson nunca alcançou tal erudição; a arca de Noé Webster não a inclui. Não obstante, essa palavra expressiva é usada constantemente há muitos anos por cerca de quinze mil Ianques legítimos. É claro que necessita de uma definição e que deveria ser incorporada ao Léxico. Com este objetivo, vou defini-la com erudição.

GAM. Substantivo – Encontro social de dois (ou mais) navios baleeiros, em geral, nas zonas de caça; quando, depois da troca de saudações, as tripulações nos botes se visitam mutuamente: os dois capitães permanecendo temporariamente a bordo de um navio, e os dois primeiros imediatos no outro.

     Há mais um pormenor relacionado com o gam que não pode ser aqui esquecido. Todas as profissões têm os seus próprios detalhes peculiares; assim também é com a pesca das baleias. Num navio de guerra, de piratas ou de escravos, quando o capitão é levado de bote para algum lugar, sempre se senta na popa, ali, num assento confortável e acolchoado, e, com frequência, pilota ele mesmo com uma cana de leme muito bonita, decorada com laços e fitas alegres. Mas o bote baleeiro não tem assento na popa, nenhum tipo de sofá e nada de cana de leme. Que grande coisa seria se os capitães baleeiros fossem transportados pelas águas em sofás elegantes, como antigos conselheiros em cadeiras de rodas. Quanto à cana de leme, um baleeiro jamais admite tal efeminação; portanto, quando há um gam, a tripulação toda do bote deve sair do navio, e nesse grupo é o arpoador quem leva o leme do bote, o subordinado é então o timoneiro, e o capitão, sem lugar para se sentar, é transportado de pé, como um pinheiro, para a sua visita. Muitas vezes, percebe-se que, estando consciente de que os olhos de todo o mundo visível estão voltados para ele dos costados dos dois navios, esse ereto capitão atenta para a importância de sustentar sua dignidade, mantendo-se em pé. O que não é uma tarefa muito fácil; pois na popa também fica o enorme remo do piloto que, ao se mover, vez por outra, bate em suas costas, e o remo da frente retribui, dando-lhe pancadas nos joelhos. Preso dessa forma, pela frente e por trás, ele pode apenas se mexer para os lados, apoiando-se nas pernas esticadas; mas um balanço súbito e violento do bote pode fazê-lo tombar, pois a extensão da base não é nada sem a largura correspondente. Faça um simples ângulo bem aberto com duas varetas e veja como não consegue mantê-las em pé. Também não conviria, diante dos olhos cravados do mundo todo, não seria nada conveniente, repito, que esse capitão de pernas abertas fosse visto agarrando alguma coisa com as mãos, por menor que fosse, para se equilibrar; de fato, como sinal de seu autocontrole pleno e flutuante, ele em geral coloca as mãos no bolso da calça; mas talvez, por serem, em geral, mãos grandes e pesadas, ele ali as coloque como lastro. Ainda assim, há casos, de todo bem documentados, em que o capitão, num momento mais crítico, digamos, numa borrasca, pegou nos cabelos do remador mais próximo e ali se agarrou como a morte implacável.

Continua na página 235...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
53 - O Gam /    
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b)

Harper Lee

O Sol é para todos


Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB


SEGUNDA PARTE

28

      Eu disse isso mais para convencer a mim mesma do que a Jem, porque, quando começamos a andar, ouvi o som do qual ele tinha falado. Não era da minha fantasia. 

— É só o palerma do Cecil. Dessa vez não vai nos dar um susto. Não vamos deixar ele pensar que estamos nos apressando por medo — disse Jem, por fim.

     Diminuímos o passo. Perguntei a Jem como Cecil podia nos seguir naquela escuridão; eu achava que ele ia esbarrar com a gente por trás. 

— Consigo ver você, Scout — disse Jem. 
— Como? Eu não consigo ver você. 
— As marcas de gordura da sua fantasia estão brilhando. A sra. Crenshaw pintou a sua fantasia com aquelas coisas brilhantes para reluzirem sob os holofotes. Estou vendo você, o Cecil também deve estar, pelo menos o suficiente para manter a distância.

     Resolvi mostrar a Cecil que sabíamos que ele estava atrás de nós e estávamos prontos para enfrentá-lo. 

— Cecil Jacobs é uma galinha molhada! — berrei, virando para trás de repente.

     Paramos. Não houve resposta, a não ser o final de molhada ecoando no muro da escola. 

— Vou pegar ele. Ei! — disse Jem.

Ei, respondeu o muro da escola.

     Era pouco provável que Cecil se segurasse por tanto tempo. Quando ele inventava uma brincadeira, repetia sem parar, já devia ter pulado em cima de nós. Jem fez sinal para eu parar de novo. Perguntou baixinho: 

— Scout, você consegue tirar esse negócio? 
— Acho que sim, mas estou quase sem roupa por baixo. 
— Eu trouxe o seu vestido. 
— Não consigo vestir no escuro. 
— Tudo bem, deixa pra lá. 
— Jem, você está com medo? 
— Não, acho que estamos quase chegando na árvore. Mais alguns metros e chegamos na estrada. Então teremos a luz dos postes.

     Jem falava em um tom lento e inexpressivo, e fiquei pensando por quanto tempo ele ia tentar manter a farsa de Cecil. 

— Jem, acha que devemos cantar? 
— Não, fique bem quieta de novo, Scout.

     Seguíamos no mesmo passo. Jem sabia tanto quanto eu que, se corrêssemos, podíamos dar uma topada, tropeçar em pedras e ter outros inconvenientes. Além do mais, eu estava descalça. Vai ver que o som era do vento batendo nas árvores. Mas não estava ventando, nem havia árvores, só o grande carvalho.
     A pessoa que nos seguia arrastava os pés, como se usasse sapatos pesados. Quem quer que fosse, usava calças de algodão grosso; o que eu tinha achado que eram folhas de árvores era o ruído suave de algodão roçando em algodão, uíque, uíque a cada passo.
     Senti a areia ficar mais fria sob meus pés e soube que estávamos perto do grande carvalho. Jem apertou o alto da minha fantasia. Paramos e escutamos.
     Dessa vez, os pés arrastados continuaram andando. As calças roçavam suaves e firmes. Depois, pararam. Ele vinha correndo, correndo na nossa direção, e não eram passos de criança. 

— Corra, Scout, corra! Corra! — berrou Jem

     Dei um passo enorme e cambaleei: no escuro e sem poder estender os braços, perdi o equilíbrio. 

— Jem, Jem, me ajude, Jem!

     Alguma coisa amassou o arame da minha fantasia. Ouvi o barulho de metal batendo em metal, caí e fui rolando, tentando escapar da minha prisão de arame. De algum lugar próximo veio o som de luta, chutes, sapatos e corpos se arrastando contra a terra e as raízes. Alguém rolou para cima de mim e vi que era Jem. Rápido, ele se levantou e me puxou junto, mas, apesar de estar com a cabeça e os ombros livres, meus movimentos estavam tão restritos que não conseguimos ir muito longe.
     Estávamos quase na estrada quando senti a mão de Jem me soltar e ouvi ele cair de costas. Mais barulho de luta, depois alguma coisa estalou e Jem deu um grito.
     Corri na direção do grito dele e bati na barriga flácida de um homem. O dono da barriga fez uf! e tentou me segurar, mas meus braços estavam presos sob o arame. A barriga dele era macia, mas os braços eram duros como aço. Lentamente ele começou a apertar a minha garganta e me sufocar. Eu não conseguia me mexer. De repente, ele caiu para trás, se esparramou no chão e quase me levou junto. Pensei: Jem se levantou.
     Às vezes, a mente de uma pessoa funciona bem devagar. Atordoada, fiquei lá, sem dizer nada. Os sons de luta foram diminuindo, alguém respirava pesado e a noite voltou a ficar silenciosa.
     Silenciosa exceto pela respiração ofegante de um homem aos tropeços. Achei que ele tinha ido até a árvore e se apoiado nela. Ele tossia violentamente, uma tosse soluçante, que fazia os ossos tremerem.

— Jem?

     A única resposta foi a respiração pesada do homem. 

— Jem?

     Jem não respondeu.
     O homem começou a se mover como se estivesse procurando algo. Ouvi-o grunhir e arrastar uma coisa pesada pelo chão. Aos poucos, fui me dando conta de que havia quatro pessoas embaixo da árvore. 

— Atticus…?

     O homem andava pesado e desnorteado em direção à estrada.
     Fui até onde achei que ele estivesse e tateei o chão com os pés. Toquei em alguém. 

— Jem?

     Meus pés tocaram numa calça, numa fivela de cinto, em botões, em algo que não consegui identificar, num colarinho, num rosto. O rosto barbado me disse que não era Jem. Senti cheiro de uísque barato.
     Fui andando na direção que eu achava que era a estrada. Não tinha certeza, porque tinha dado várias voltas. Mas achei a estrada e olhei em direção ao poste. Um homem estava passando embaixo dele. Andava com os passos incertos de quem carregava alguma coisa muito pesada. Ia virar a esquina. Estava carregando Jem, cujo braço balançava de forma estranha à sua frente.
     Quando cheguei à esquina, o homem estava atravessando nosso jardim. Atticus ficou emoldurado pela luz da porta por um instante, desceu a escada e, junto com o homem, carregou Jem para dentro.
     Cheguei na porta da frente quando eles entravam pelo corredor. Tia Alexandra correu ao meu encontro. 

— Chame o dr. Reynolds! — disse Atticus, ríspido, do quarto de Jem. — Onde está Scout? 
— Está aqui — respondeu tia Alexandra, me puxando com ela até o telefone. Ela me apalpava, preocupada. 
— Estou bem, tia. É melhor você telefonar — eu disse.

     Ela tirou o fone do gancho e disse: 

— Eula May, me ligue com o dr. Reynolds, rápido! 
— Agnes, seu pai está em casa? Ah, meu Deus, aonde ele foi? Por favor, diga para ele vir aqui o mais rápido possível. Por favor, é urgente!

     Tia Alexandra não precisou se identificar, em Maycomb todo mundo conhecia a voz de todo mundo.
     Atticus saiu do quarto de Jem. Assim que tia Alexandra desligou, Atticus pegou o fone da mão dela. Bateu no gancho e disse: 

— Eula May, me ligue com o xerife, por favor. 
— Heck? Aqui é Atticus Finch. Alguém atacou meus filhos, Jem está ferido. No caminho da escola para casa. Tenho de ficar com meu filho. Por favor, vá ver se a pessoa ainda está por lá. Não creio que esteja, mas gostaria de vê-lo, se você o encontrar. Preciso desligar. Obrigado, Heck. 
— Atticus, Jem está morto? 
— Não, Scout. Irmã, cuide dela — pediu, saindo pelo corredor.

     As mãos de tia Alexandra tremiam enquanto ela tirava minha fantasia amassada e retorcida. 

— Está se sentindo bem, querida? — perguntou várias vezes enquanto me libertava.

     Foi um alívio tirar aquela roupa. Meus braços estavam começando a formigar e estavam cobertos de pequenas manchas vermelhas. Esfreguei-as e melhorou. 

— Tia, Jem morreu? 
— Não… não, querida, só está inconsciente. Só vamos saber o estado dele depois que o dr. Reynolds chegar. Jean Louise, o que aconteceu? 
— Não sei.

     Ela não insistiu. Trouxe uma roupa para mim e, se minha cabeça estivesse funcionando naquela hora, eu nunca a teria deixado esquecer: distraída, ela me levou o meu macacão. 

— Vista isso, querida — ela disse, me entregando a roupa que mais detestava.

     Foi rápido até o quarto de Jem, depois voltou, me deu um tapinha carinhoso e foi para o quarto de Jem outra vez.
     Um carro parou na frente da casa. Eu conhecia os passos do dr. Reynolds quase tão bem quanto os do meu pai. Ele tinha nos trazido ao mundo, Jem e eu, nos tratou de todas as doenças infantis conhecidas pelo homem, inclusive quando Jem caiu da casa na árvore, e nunca deixou de ser nosso amigo. O dr. Reynolds dizia que, se tivéssemos tendência a ter pústulas, furúnculos e coisas do gênero, nossa relação seria diferente, mas nós não acreditávamos.
     Ele entrou pela porta e exclamou: 

— Meu Deus. — Veio na minha direção, disse “você ainda está de pé” e virou as costas. Conhecia a casa toda e sabia que, se eu estava mal, Jem também estava.

     Séculos depois, o dr. Reynolds voltou: 

— Jem está morto? — perguntei. 
— Longe disso — ele respondeu, se agachando diante de mim. — Está com um galo na cabeça como você e com o braço quebrado. Scout, olhe para lá; não, sem virar a cabeça, mexa só os olhos. Olhe para longe. Ele teve uma fratura grave, acho que no cotovelo. Como se alguém tivesse tentado arrancar o braço dele… Agora, olhe para mim. 
— Então ele não morreu? 
— Nã-ã-ão! — o dr. Reynolds se levantou. — Não podemos fazer muito agora à noite além de deixá-lo confortável. Vamos ter que radiografar o braço, acho que vai ter de engessar por um tempo. Mas não se preocupe, ele vai ficar novo em folha. Meninos da idade dele se recuperam logo.

     Enquanto falava, o dr. Reynolds olhava bem para mim, tocando de leve o galo na minha testa. 

— Você não está se sentindo quebrada em nenhum lugar, está?

     Ri da piadinha dele. 

— Então, você não acha que Jem morreu? — insisti.

     Ele colocou o chapéu. 

— Claro que posso estar enganado, mas acho que está bem vivo. Tem todos os sinais vitais. Vá lá dar uma olhada nele e, quando eu voltar, nós nos reunimos para dar o diagnóstico.

     O dr. Reynolds tinha um andar jovem e rápido. Já o sr. Heck Tate, não. As pesadas botas dele castigaram o assoalho da varanda. Ele abriu a porta, desajeitado, e entrou perguntando a mesma coisa que o dr. Reynolds: 

— Você está bem, Scout? 
— Está. Vou ver o Jem. Atticus está lá com ele. 
— Vou com você — disse o sr. Tate.

     Tia Alexandra tinha colocado uma toalha em cima do abajur de Jem e o quarto estava na penumbra. Jem estava deitado e tinha uma marca feia no rosto. O braço esquerdo estava afastado do corpo e o cotovelo estava meio dobrado, mas na direção errada. Jem estava de cenho franzido. 

— Jem…?

     Atticus respondeu por ele: 

— Ele não pode ouvir você, Scout, está apagado como uma luz. Estava voltando à consciência, mas o dr. Reynolds tirou-o do ar novamente. 
— Sei — eu disse, dando um passo atrás.

     O quarto de Jem era grande e quadrado. Tia Alexandra estava numa cadeira de balanço ao lado da lareira. O homem que tinha levado Jem para casa estava num canto, encostado na parede. Era um camponês que eu não conhecia. Devia ter ido ver o desfile e estava por perto quando tudo aconteceu. Provavelmente ouviu os gritos e foi correndo ajudar.
     Atticus estava ao lado da cama de Jem.
     O sr. Heck estava parado na porta, com o chapéu na mão e uma lanterna saindo do bolso da calça. Usava uniforme de xerife. 

— Entre, Heck — disse papai. — Descobriu alguma coisa? Não entendo como alguém pode ser tão desprezível a ponto de fazer uma coisa dessas. Espero que você o encontre.
    
     O sr. Tate fungou. Olhou rapidamente para o homem no canto, cumprimentou-o com a cabeça e olhou em volta, para Jem, tia Alexandra, depois Atticus. 

— Sente-se, sr. Finch — ele disse, afável.

     Atticus convidou: 

— Vamos todos nos sentar. Fique com aquela cadeira, Heck. Vou pegar outra na sala.

     O sr. Tate sentou-se na cadeira da escrivaninha de Jem. Esperou Atticus voltar da sala e se acomodar. Fiquei pensando por que papai não tinha levado uma cadeira para o homem que estava no canto, mas ele conhecia as pessoas do campo melhor do que eu. Atticus tinha alguns clientes que eram do campo; amarravam seus cavalos orelhudos embaixo dos cinamomos do quintal e Atticus se reunia com eles na escada dos fundos. Aquele homem devia se sentir mais à vontade como estava. 

— Sr. Finch, vou dizer o que achei — disse o sr. Tate. — Um vestido de menina… está lá no carro. É seu, Scout? 
— Sim, senhor, se for cor-de-rosa, bordado com casinhas de abelha — respondi.

     O sr. Tate parecia estar no banco de testemunhas. Gostava de falar as coisas do jeito dele, sem ser interrompido pela defesa ou pela acusação, e às vezes isso demorava. 

— Encontrei também uns pedaços de pano marrons esquisitos… 
— Eram da minha fantasia, sr. Tate.

     O sr. Tate passou as mãos pelas coxas, esfregou o braço esquerdo e observou a cornija da lareira de Jem, depois a lareira. Passou os dedos pelo nariz comprido. 

— O que foi, Heck? — perguntou Atticus.

     O sr. Heck levou a mão ao pescoço e coçou-o. 

— Bob Ewell está estirado embaixo da árvore, com uma faca de cozinha enfiada nas costelas. Ele está morto, sr. Finch.

continua página 190...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) /  
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Grandes Saxofonistas do Jazz

Grandes Saxofonistas do Jazz!

(Parte 1)


O saxofone é um dos instrumentos mais marcantes do jazz, desde os anos 20, 30 até os dias de hoje. Neste vídeo temos alguns dos grandes e mais importantes saoxofnistas do jazz, sendo que a maioria deles, nesta seleção, se concentram na década de 50 e 60.







John Coltrane - A Love Supreme [Full Album] (1965)






60 anos 'A LOVE SUPREME'
a obra-prima de JOHN COLTRANE





História do Saxofone

História do Saxofone 

- Parte 1


Desde o nascimento do criador do saxofone, Adolph Sax, em 1814, até 1962 muitos acontecimentos marcaram a história. Documentário sobre a evolução do saxofone em mais de 100 anos. 
HISTÓRIA DO SAXOFONE - Parte 1





- Parte 2

Três grandes marcas surgem a partir da década de 60 para dar equilíbrio no mercado dominado pela Selmer e suas criações como o Balanced action e Mark VI. São Yamaha, Yanagisawa e JK. 🎷 HISTÓRIA do SAXOFONE - PARTE 2