quinta-feira, 28 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (V.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

V


     O Sr. Hennebeau fora à janela do seu gabinete para ver a partida da caleça que levava sua mulher para almoçar em Marchiennes. Por um instante, seu olhar seguira Négrel, que trotava ao lado da portinhola, depois foi sentar-se tranquilamente à sua mesa. A casa parecia vazia sem a presença buliçosa da mulher e do sobrinho. Justamente naquele dia era o cocheiro quem guiava a carruagem; Rose, a nova camareira, estava de licença até as cinco horas; só Hippolyte, o camareiro, permanecera, locomovendo-se à vontade pelas peças, e, naturalmente, a cozinheira, ocupada desde o amanhecer com suas panelas, toda entregue ao jantar que seus patrões dariam à noite. De modo que o Sr. Hennebeau planejara um dia de ande trabalho, na calma imensa da casa deserta.
     Lá pelas nove horas, Hippolyte, ainda que tivesse recebido ordem para não deixar ninguém entrar, tomou a liberdade de anunciar Dansaert que trazia notícias. Foi só então que o diretor soube da reunião da véspera, na floresta. E os detalhes eram a tal ponto pormenorizados que ele os escutou pensando nos amores do capataz com a mulher de Pierron, tão conhecidos, que duas ou três cartas anônimas por semana denunciavam os desregramentos do seu empregado: evidentemente o marido falara, aquela delação cheirava a travesseiro. Aproveitou a ocasião, deu a entender que sabia de tudo, mas apenas recomendou um pouco de prudência, para evitar escândalo. Assustado com aquelas acusações durante seu relatório, Dansaert negou, gaguejando desculpas, enquanto seu narigão confessava o crime, subitamente rubro. Mas não quis insistir, contente de se ver desculpado com tanta bonomia, porque, de ordinário, o diretor mostrava-se de uma severidade implacável de homem puro, quando algum empregado resolvia regalar-se com alguma moça bonita durante o trabalho. A conversa continuou sobre a greve; essa reunião da floresta não passava ainda de uma fanfarronada de baderneiros, não havia uma ameaça séria. Em todo o caso, certamente os conjuntos habitacionais mineiros não se mexeriam nos próximos dias, graças à impressão de medo e respeito que lhes fora inculcada pelo desfile militar da manhã.
     Quando o capataz partiu, o Sr. Hennebeau esteve a ponto de enviar um telegrama ao prefeito. Apenas o receio de dar provas de nervosismo o reteve. Já não se perdoava sua falta de faro, que o levara a dizer aos quatro ventos, e mesmo escrever à administração, que a greve não duraria mais do que uma quinzena. Para sua grande surpresa, ela se arrastava havia dois meses. Desesperava-se com isso, sentia-se humilhado, comprometido, forçado a imaginar algo brilhante, se queria voltar às boas graças dos administradores. Acabava de pedir-lhes instruções na eventualidade de alguma desordem. A resposta não vinha, esperava-a pelo correio da tarde. E perguntava-se se ainda estaria em tempo de enviar telegramas, pedindo a ocupação militar das minas, se essa fosse a opinião de Paris. Segundo ele, isso resultaria numa batalha, com sangue e mortos. Semelhante responsabilidade perturbava-o, apesar de sua habitual energia.
     Até as onze horas trabalhou sem ser incomodado, sem outro ruído na casa morta que o da escova de encerar que Hippolyte manejava, muito ao longe, numa peça do primeiro andar. Depois uma após a outra, recebeu duas mensagens, a primeira anunciando a invasão da Jean-Bart pelos grevistas de Montsou, a segunda falando dos cabos cortados, das fornalhas apagadas, de todos os estragos. Não podia compreender. Que tinham ido fazer os grevistas na concessão de Deneulin, em vez de atacarem uma mina da companhia? Aliás, que arrasassem Vandame à vontade, isso não fazia mais que ajudar o plano de conquista que tramava. Ao meio-dia almoçou sozinho na vasta sala, servido em silêncio pelo criado, do qual nem mesmo os passos ouvia. Esta solidão tornava ainda mais sombrias as suas preocupações. Sentiu o sangue gelando nas veias quando um contramestre, que viera correndo, foi introduzido e lhe contou a marcha do bando sobre a Mirou. Quase em seguida, quando acabava de tomar café, um telegrama lhe informou que a Madeleine e a Crèvecoeur também estavam ameaçadas. Desse momento em diante sentiu-se extremamente perplexo. Esperava o correio às duas horas: devia pedir tropas imediatamente? ou seria melhor esperar, para não agir antes de ter conhecimento das ordens da administração? Voltou ao gabinete, quis ler uma nota para o prefeito, que na véspera pedira a Négrel que redigisse, mas não conseguiu encontrá-la. Pensou que talvez o rapaz a tivesse deixado no seu quarto, onde muitas vezes escrevia durante a noite. E, sem tomar uma decisão, perseguido pela idéia da nota, subiu ao quarto do sobrinho para procurá-la.
     Ao entrar, o Sr. Hennebeau teve uma surpresa: o quarto não estava arrumado, sem dúvida por esquecimento ou preguiça de Hippolyte. Reinava ali um calor úmido, o calor abafado de uma noite inteira, aumentado pelo escapamento do calorífero que ficara aberto. Seu olfato foi açulado, quase sufocado com um perfume penetrante, que julgou ser o cheiro dos sais de banho, de que a bacia estava cheia. Uma grande desordem reinava na peça, roupas espalhadas, toalhas molhadas jogadas nos encostos das cadeiras, a cama descoberta, um lençol puxado, arrastando-se no tapete. Quando entrou, apenas lançou um olhar distraído a tudo aquilo, dirigindo-se para uma mesa coberta de papéis, em busca da nota desaparecida. Por duas vezes examinou os papéis, um por um, e decididamente o que buscava não estava entre eles. Onde diabo teria o desmiolado do Paul escondido o documento?
     E ao voltar para o centro do quarto, olhando por cima de cada móvel, percebeu, na cama descoberta, algo que brilhava como uma faísca. Aproximou-se maquinalmente e estendeu a mão. Era um pequeno frasco de ouro entre duas pregas do lençol. Imediatamente reconheceu-o como da Sra. Hennebeau, o frasco de éter do qual ela nunca se separava. Continuava sem compreender como aquele objeto viera parar na cama de Paul. Num átimo ele se transformara: estava horrivelmente pálido. Sua mulher tinha dormido ali. 

— Desculpe — murmurou Hippolyte da porta. — Como vi o senhor subir...

     O criado entrou, olhando espantado para a desordem da peça. 

— Meu Deus! É verdade que este quarto ainda não foi arrumado! Também, a Rose saiu, deixando tudo nas minhas costas..

     O Sr. Hennebeau escondia o frasco na mão, apertando-o com toda a força. 

— Quer alguma coisa? 
— Está aí outro homem... Veio da Crèvecoeur trazendo uma carta. 
— Está bem. Pode ir, e diga-lhe que me espere.

     Sua mulher tinha dormido ali! Correu o ferrolho da porta, abriu a mão e olhou o frasco, que lhe deixara um sinal vermelho na pele. E subitamente começou a compreender, a ver claro, aquela sujeira tinha lugar em sua casa havia meses. Lembrou-se da sua antiga suspeita, os ruídos leves contra as portas, os pés descalços caminhando de noite pela casa silenciosa. Era isso! Sua mulher subia para dormir ali...
     Caído sobre uma cadeira, em frente à cama que contemplava fixamente, permaneceu por algum tempo como se tivesse sido golpeado. Foi despertado por um barulho, alguém batia à porta, tentando abrir. Reconheceu a voz do criado: 

— Sr. Hennebeau... Ah! está fechado por dentro... 
— Que quer? 
— Parece que é urgente, os operários estão quebrando tudo. Há mais dois homens lá embaixo. Chegaram telegramas... 
— Deixe-me em paz! Já vou.

     A ideia de que Hippolyte teria descoberto o frasco, se tivesse arrumado o quarto de manhã, deixava-o gelado. Aliás, esse criado já devia saber: inúmeras vezes encontrara a cama ainda quente do adultério, cabelos da mulher caídos no travesseiro, manchas execrandas enodoando os lençóis. Se vinha a todo o momento importuná-lo, era por maldade.
     Quantas vezes não teria ficado com o ouvido colado à porta excitado com a devassidão dos patrões?
     O Sr. Hennebeau permaneceu imóvel, olhando para a cama. o longo passado de sofrimentos veio-lhe à memória, seu casamento com aquela mulher, o imediato mal-entendido, tanto físico como espiritual, os amantes que ela tivera sem que ele desconfiasse, aquele que tolerara por dez anos como se tolera uma perversão a uma doente. Depois, foi a chegada deles a Montsou, a louca esperança de curá-la, meses de languidez, de exílio modorrento, a aproximação da velhice, que enfim iria trazê-la de volta para ele. Mas surgia o sobrinho, esse Paul de quem ela se intitulava mãe, a quem falava do seu coração morto, enterrado em cinzas para todo o sempre. E ele, marido imbecil, nada via, na adoração por aquela mulher que era sua, que tantos homens tinham possuído e só ele não podia ter. Adorava-a com uma paixão vergonhosa, a ponto de cair de joelhos se ela resolvesse dar-lhe o resto dos outros. E o resto dos outros ela dava àquele rapaz.
     Nesse momento, um toque de campainha longínquo fez o Sr. Hennebeau estremecer. Reconheceu-o, era o toque que se dava, seguindo suas ordens, quando chegava o carteiro. Levantou-se, falou em voz alta, num assomo de vulgaridade que jorrava da garganta, escapando ao seu controle.

— Ah! Que um raio os parta! Pouco me importam os telegramas e as cartas dessa gente!

     Sentia-se invadido pelo ódio, necessitava de uma cloaca para nela enterrar toda essa imundície, esmagando-a com os pés. Aquela mulher era uma cadela! Procurava palavras indecorosas, para com elas emporcalhar a sua imagem. A repentina ideia do casamento entre Cécile e Paul, que ela arranjava com um sorriso tão inocente, acabou de exasperá-lo. Então nem sequer havia paixão, ou ciúme, em toda aquela sensualidade arrebatada? Na idade dela, já não devia ser mais do que um brinquedo perverso, a fixação no homem, uma recreação degustada como uma sobremesa a que estivesse acostumada. Acusava-a de tudo, quase inocentava o rapazinho que ela, com rejuvenescido apetite, mordera, como se morde o primeiro fruto verde, roubado na estrada. Quem mais devoraria, até onde desceria quando não houvesse mais sobrinhos condescendentes, bastante práticos para aceitarem em sua família, mesa, cama e mulher?
     Bateram timidamente na porta e Hippolyte disse, com medo, pelo buraco da fechadura: 

— O correio, Sr. Hennebeau... E está aí outra vez o Sr. Dansaert dizendo que se estão matando... 
— Inferno! Já vou!

     Que faria com eles? Expulsá-los quando voltassem de Marchiennes, como animais nojentos que não queria mais ter sob seu teto? Agarraria um pau e lhes gritaria que fossem espalhar longe dele o veneno de seu concubinato. Eram seus suspiros, seus hálitos confundidos que aumentavam o calor úmido daquele quarto; o cheiro penetrante que o sufocara era o cheiro de almíscar que exalava a pele de sua mulher, outro gosto depravado, uma necessidade carnal de perfumes violentos. Reconheceu então o calor, o cheiro de fornicação, o adultério vivendo nos vasos desarrumados, nas bacias ainda cheias, na desordem dos lençóis, dos móveis, da peça inteira, corrompida pelo vício. Um furor de impotência atirou-o para cima da cama aos murros, massacrou-a, amarfanhou os lugares onde via a marca dos dois corpos, furioso com as cobertas arrancadas, com os lençóis usados, moles e inertes sob seus golpes, como que também exaustos pela longa noite de amor.
     Mas de repente pareceu-lhe ouvir Hippolyte subindo outra vez. Envergonhado, parou.
     Ficou por um momento ainda ofegante, enxugando a testa, acalmando as batidas do coração. Em pé defronte de um espelho, contemplou seu rosto, tão descomposto que não chegava a reconhecê-lo. Depois, quando viu que voltava ao normal, por um supremo esforço de vontade, desceu.
     Embaixo, cinco mensageiros, sem contar Dansaert, esperavam. Todos traziam notícias de gravidade crescente sobre a marcha dos grevistas pelas minas. O capataz contou com detalhes os acontecimentos da Mirou, salva pelo valoroso comportamento do velho Quandieu. Ele escutava, balançava a cabeça, mas não sabia o que o outro estava dizendo; seu espírito ficara lá em cima, no quarto. Por fim disse que podiam ir, prometendo tomar medidas. Vendo-se outra vez só, sentado em frente à sua mesa, pareceu adormecer, a cabeça entre as mãos, os olhos abertos. A correspondência estava ah, sobre a mesa, e decidiu procurar a carta esperada, a resposta da administração, cujas linhas, a princípio, dançaram ante seus olhos Contudo, acabou por compreender que os administradores queriam uma reação; claro, não lhe ordenavam que piorasse as coisas, mas davam a entender que alguns choques apressariam o desenlace da greve, provocando uma repressão enérgica. Desse momento em diante não hesitou mais, enviou telegramas para toda parte, ao prefeito de Lille, ao quartel do exército de Douai, à polícia de Marchiennes. Era um alívio, agora podia encerrar-se em casa, fez até espalhar boatos de que estava com gota. E durante toda a tarde escondeu-se no seu gabinete, sem receber ninguém, lendo apenas os telegramas e cartas que continuavam a chover. Seguiu assim de longe o bando da Madeleine à Crèvecoeur, da Crèvecoeur à Victoire, da Victoire à Gaston-Marie. Por outro lado, chegavam-lhe informações sobre o desnorteamento dos policiais e da cavalaria, perdidos pela estrada, sempre saindo das minas que iam ser atacadas. Podiam matar se e destruir tudo, colocara novamente a cabeça entre as mãos, os dedos apertando os olhos, engolfados no grande silêncio da casa vazia, onde se ouvia apenas, e espaçadamente, o barulho das caçarolas da cozinheira preparando o jantar.
     O crepúsculo já escurecia a peça, eram cinco horas quando uma algazarra fez que o Sr. Hennebeau acordasse sobressaltado, saindo do torpor e da inércia em que se encontrava, sempre com os cotovelos fincados na mesa. Por um momento pensou que eram os dois miseráveis que voltavam. Mas o tumulto ia num crescendo, e ao aproximar-se da janela deu-se uma terrível explosão de vozes: 

— Pão! Pão! Pão!

     Eram os grevistas que invadiam Montsou, enquanto os policiais, acreditando em um ataque à Voreux, galopavam em sentido contrário para ocupar aquela mina.

continua na página 293...
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Quinta Parte - (V.a) /
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas / VII — Aventuras da letra U

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     VII — Aventuras da letra U entregue a conjecturas

             O isolamento, o desapego de tudo, o orgulho, a independência, o amor da natureza, a falta de atividade quotidiana e material, o viver íntimo, as secretas lutas da castidade, o êxtase benévolo em presença de todos os objetos da criação, haviam preparado Mário para essa posse chamada paixão. O culto que ele tributava a seu pai pouco a pouco convertera-se em religião, e, como toda a espécie de religião, retirara-se para o fundo da alma. Era, pois, necessário alguma coisa no primeiro plano. Veio o amor.
     Decorreu um mês, durante o qual Mário nem um só dia faltou no Luxemburgo. Chegada a hora, não havia forças que o retivessem.

— Está de serviço — dizia Courfeyrac.

     Mário vivia em sucessivos arrebatamentos, porque é caso averiguado que a donzela lhe fitava os olhos todas as vezes que podia.
     Mário, por último, viera a fazer-se ousado, aproximando-se o mais que podia do banco, sem, todavia, tornar a passar por diante dele, no que juntamente obedecia ao instinto da timidez e ao instinto da prudência dos namorados. Julgando útil, pois, não atrair a «atenção do pai», combinava as suas paragens por trás das árvores e dos pedestais das estátuas, com profundo maquiavelismo, de modo a tornar-se visível o mais que podia para a jovem e o menos possível ao velho que passava por seu pai. Às vezes permanecia imóvel por mais de meia hora à sombra de um Leónidas ou de um Espártaco, conforme os topava a jeito, segurando na mão um livro, por cima do qual iam os seus olhos meigamente fitar-se na donzela: ela voltava-se para o lado do mancebo com um sorriso vago que lhe expandia em graças o donairoso rosto, e ao mesmo tempo que natural e sossegadamente recreava os ouvidos do ancião com a meiguice das suas palavras, fazia estremecer o mancebo com a sensação que nele ia produzir o seu virginal e apaixonado olhar. Antigo manejo, de data imemorial, que Eva aprendeu no primeiro dia da existência do mundo e que todas as mulheres sabem desde o primeiro dia da sua vida! Com a boca respondia a um, com os olhos correspondia às mudas falas do coração do outro.
     Devemos porém acreditar que o senhor Leblanc viera, por último, a suspeitar de alguma coisa, porquanto às vezes, logo que Mário chegava, ele erguia-se e principiava a passear. Afinal, abandonara o costumado pouso dos seus passeios quotidianos e fora tomar posse do banco que ficava ao pé da estátua do Gladiador, na outra extremidade da rua, como para ver se Mário os seguiria. Mário, que não percebeu o ardil, cometeu, efetivamente, a falta de os seguir e, desde então, «o pai» principiou a ser menos exato nas regularidades dos seus passeios e a não trazer «a filha» quotidianamente como dantes, vindo algumas vezes só. Nesse caso, Mário não ficava. Outra falta.
     O mancebo, porém, não dava importância a estes sintomas. Da fase da timidez passara, por uma progressão natural, mas nem por isso menos fatal, à fase da cegueira. Só conhecia que o seu amor aumentava de dia a dia e que de noite não era outro o objeto constante dos seus sonhos. Para maior desgraça, sucedera-lhe uma aventura inesperada, que foi como um deitar pólvora no lume, um espessar-se mais a venda que já lhe tapava os olhos. Uma tarde, à luz crepuscular que lhe povoava o espaço de visões etéreas, encontrou no banco em que «o senhor Leblanc e sua filha» costumavam estar sentados, um lenço sem bordados nem lavores, mas branco, fino, que lhe pareceu rescender inefáveis aromas. Apoderou-se dele com transporte e viu que estava marcado com as iniciais U. F.; Mário nada sabia daquela graciosa jovem, nem a respeito da sua família, nem do seu nome, nem da sua morada; eram aquelas duas letras a primeira coisa que a respeito dela colhia, duas iniciais adoráveis, sobre as quais imediatamente começou a construir castelos movediços a qualquer empuxão da realidade. U, com certeza, era o nome de baptismo.

— Úrsula! — disse ele a sós consigo. — Que delicioso nome!

     E após haver beijado, aspirado, sorvido em sôfregos aulos os olores perfumados daquele tão simples, tão desornado lenço, colocou-o junto ao coração, junto à carne, de dia, e à noite sobre os lábios, para que mesmo dormindo lhe coassem bem dentro os eflúvios rescendentes daquela amorosa relíquia.

— Sinto a alma dela neste lenço! — exclamava ele.

     Aquele lenço tão apaixonadamente arrecadado pelo enamorado mancebo era do velho, que por inadvertência o deixara cair do bolso.
     Nos dias que se seguiram ao precioso achado, o mancebo aparecia sempre no Luxemburgo beijando o lenço e apertando-o contra o coração. A graciosa jovem não o percebia naquela linguagem muda da sua paixão e disso o advertia por meio de sinais imperceptíveis.

— Quanto pode o pudor! — dizia Mário.

continua na página 535...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - VII — Aventuras da letra U
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

Cantos à beira-mar - A lua brasileira

Maria Firmina dos Reis


Cantos à beira-mar

A lua brasileira 
Oferecida ao Ilmo. Sr. Dr. Adriano Manoel Soares. 
Tributo de amizade e gratidão

É tão meiga, tão fagueira, 
Minha lua brasileira! 
É tão doce, e feiticeira, 
Quando airosa vai nos céus; 
Quando sobre almos palmares, 
Ou sobre a face dos mares, 
Fixa nívea seus olhares, 
Que deslumbram os olhos meus...

Quando traça na campina 
Larga fila diamantina, 
Quando sobre a flor marina 
Derrama seu lindo albor; 
Quando esparge brandamente 
Por sobre a relva virente 
Seu fulgor alvinitente 
Seu melindroso esplendor...

Quando sobre a fina areia, 
Que a vaga beijar anseia, 
Molemente ela passeia, 
Desdobrando alvo lençol; 
Quando ao fim da tarde amena,
Ressurge pura e serena, 
Disputando nessa cena 
Primores co’o rubro sol...

Que eu sinto meu pobre peito 
Comovido, ao fim desfeito 
Por tanto encanto sujeito, 
Por tantos gozos – meu Deus, 
E eu vejo os anjinhos teus, 
Noutras nuvens, noutros céus 
Novos mundos construir.

Podem outros seus encantos 
Ver também – gozar seus prantos; 
Pode cantá-la em seus cantos 
Qualquer jovem trovador; 
Vendo-a bela sobre os montes, 
Ou retratada nas fontes, 
Surgindo nos horizontes 
C’roada de níveo albor.

Mimosa, pura; – mas bela 
Assim branca, assim singela, 
Como pálida donzela, 
Que geme na solidão; 
Assim leda, acetinada, 
Como flor na madrugada, 
Pelo rocio beijada, 
Beijada com devoção;

Assim em sua frescura, 
Com tão maga formosura, 
Percorrendo essa planura, 
De nossos formosos céus; 
Assim não. Assim somente 
Mimosa, pura, indolente 
A vemos nós... fado ingente 
Foi este que nos deu Deus.

Quem não ama vê-la assim 
Com a candidez do jasmim, 
Espargindo amor sem fim, 
Nas terras de Santa Cruz! 
Quem não ama entusiasmado 
Da noite o astro nevado, 
Que com o rosto prateado 
Tão meigamente seduz!...  

Quem não sente uma saudade, 
Vendo a lua em fresca tarde, 
Branca – em plena soledade 
Vagar nos campos dos céus!... 
Quem não tece com fervor, 
No peito em que mora a dor, 
Um hino sacro de amor, 
Um terno hino a seu Deus!...

Eu por mim amo-te, oh! bela, 
Que semelhas à donzela, 
Com roupas de fina tela, 
Com traços de lindo albor; 
Que vai pura aos pés do altar, 
Por doce extremo de amar, 
Ao terno amante jurar, 
Lealdade, fé – e amor.

Amor ver-te assim fagueira 
Minha lua brasileira, 
Qual menina feiticeira, 
Que promete, e foge e ri, 
E depois, sempre folgando 
Vem com beijinhos pagando 
Aquele, que a afagando 
De novo a chamara a si.

Assim tens meus tristes cantos, 
Soltos ao som dos meus prantos, 
Que me inspiram teus encantos, 
Da noite na solidão; 
A meiga lua querida, 
Melancólica, e sentida, 
Com tua face enternecida, 
Minha constante aflição.

continua na página 191...
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Cantos à beira-mar - Dedicatória / Minha terra / A lua brasileira /       
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (23 de março)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     23 de março
 
          Inverno novamente. A neve está caindo em grandes flocos.
     Supérfluo, supérfluo.... Essa é uma palavra capital que eu inventei. Quanto mais profundamente penetro em mim, mais atento perscruto toda a minha própria vida passada, mais convencido fico da estrita justiça dessa expressão. Supérfluo - precisamente isso. Essa palavra não é apropriada para outras pessoas..... As pessoas são más, boas, espertas, estúpidas, agradáveis e desagradáveis; mas supérfluas.... não. Ou seja, compreenda-me: o universo poderia dispensar também essas pessoas..... claro; mas a inutilidade não é sua principal qualidade, não é sua característica distintiva, e quando você está falando delas, a palavra "supérflua" não é a primeira que vem à sua língua. Mas eu .... de mim nada mais poderia ser dito: supérfluo - isso é tudo. A natureza não tinha, evidentemente, calculado sobre minha aparência e, em consequência disso, ela me tratou como uma convidada inesperada e sem limites. Não sem motivo, um grande amante do whist sueco, diz de mim, que minha mãe havia descartado. Falo de mim agora calmamente, sem nenhum descaramento..... Isso é coisa do passado! Durante todo o curso da minha vida encontrei constantemente meu lugar ocupado, possivelmente porque procurei meu lugar na direção errada. Eu era desconfiado, tímido, irritável, como todos os inválidos; além disso, provavelmente devido à vaidade supérflua, - ou por causa da organização deficiente da minha pessoa, - entre meus sentimentos e meus pensamentos e a expressão desses sentimentos e pensamentos existiu alguma barreira sem sentido, incompreensível e insuperável; e quando me decidi a superar esse impedimento pela força, a quebrar essa barreira, meus movimentos, a expressão do meu rosto, todo o meu ser assumiu o aspecto de tensão angustiada: Eu não só parecia, mas na verdade me tornei antinatural e afetado. Eu mesmo estava consciente disso e me apressei para me aposentar novamente em mim mesmo. Então um tumulto assustador surgiu dentro de mim. Analisei-me até o último fragmento; comparei-me com outras pessoas; recordei os menores olhares, os sorrisos, as palavras das pessoas diante das quais eu gostaria de me expandir; interpretei tudo do seu lado ruim, e ri maliciosamente das minhas pretensões de "ser como o resto do mundo", - e de repente, no meio das minhas gargalhadas, eu me descontraí completamente, caí num desânimo tolo, e então comecei tudo de novo; em uma palavra, corri como um esquilo em uma roda. Passaram-se dias inteiros nessa torturante e infrutífera labuta. Vem agora, dize-me, reza, a quem e para que serve tal homem? Por que isso aconteceu comigo, qual foi a causa desse minutinho de agitação sobre mim mesmo - quem sabe? Quem pode dizer?
     Eu me lembro, um dia eu estava saindo de Moscou com a diligência. A estrada estava boa, mas o caipira havia atrelado um cavalo a mais aos quatro cavalos. Este infeliz cavalo, quinto, totalmente desnecessário, amarrado de forma grosseira à ponta de uma corda grossa e curta, que implacavelmente serra seu rabo, esfrega sua cauda, faz com que ele corra da maneira mais antinatural, e transmite a todo o seu corpo a forma de uma vírgula, desperta sempre minha profunda compaixão. Comentei com o caipira que, aparentemente, o quinto cavalo poderia ser dispensado naquela ocasião..... Ele permaneceu em silêncio por algum tempo, sacudiu a parte de trás do pescoço, chicoteou o cavalo meia vintena de vezes consecutivas com seu chicote nas costas e sob sua barriga inchada - e disse, não sem um sorriso: 

"Bem, veja, ele se agarrou, isso é um fato! Para que diabos serve isso?"

     E eu, também, me agarrei... Mas a estação não está muito longe, eu acho.
     Supérflua.... Eu prometi provar a justiça da minha opinião, e vou cumprir a minha promessa. Não considero necessário mencionar mil detalhes, ocorrências e incidentes diários, que, além do mais, aos olhos de todo homem pensativo, podem servir como provas incontestáveis a meu favor - isto é, a favor do meu ponto de vista; é melhor para mim começar diretamente com um evento decididamente importante, após o qual, provavelmente, permanecerá sem dúvida a exatidão da palavra supérflua. Repito: não tenho intenção de entrar em detalhes, mas não posso passar em silêncio uma circunstância decididamente curiosa e digna de nota,-nomeadamente, a estranha maneira como meus amigos me tratavam (eu também tinha amigos) toda vez que eu tentava encontrá-los, ou mesmo aparecer para vê-los. Eles pareciam ficar inquietos; ao me encontrarem, ou sorriam de uma maneira não totalmente natural, não olhavam para os meus olhos, nem para os meus pés, como algumas pessoas fazem, mas principalmente para as minhas bochechas, expulsavam apressadamente: 

"Ah! Como vai, Tchulkatúrin!" (O destino tinha me favorecido com esse nome ou, "Ah! então aqui está Tchulkatúrin!" imediatamente se afastou, se afastou, e até permaneceu por algum tempo depois imóvel, como se estivessem tentando se lembrar de algo. 

     Percebi tudo isso, porque não sou deficiente na penetração e no dom da observação; no geral, não sou estúpido; pensamentos decididamente divertidos às vezes me vêm à cabeça até mesmo, não pensamentos comuns; mas, como sou um homem supérfluo com uma burrice dentro de mim, tenho medo de expressar meu pensamento, tanto mais que sei de antemão que o expressarei muito mal. Até me parece estranho, às vezes, que as pessoas possam falar, e tão simplesmente, tão livremente.... "Que calamidade!!", você pensa. Sou obrigado a dizer que minha língua muitas vezes me fazia comichão, apesar da minha burrice; e na verdade eu fazia palavras na minha juventude, mas nos anos mais maduros eu conseguia me conter quase sempre. Eu diria a mim mesmo em um tom mais baixo: 

"Veja aqui, agora, não será melhor para mim segurar minha língua por um tempo", e eu me acalmei.

     Somos todos especialistas em segurar a língua; nossas mulheres em particular têm essa capacidade: uma exaltada jovem russa mantém o silêncio tão vigorosamente que tal espetáculo é capaz de produzir um leve arrepio e suor frio mesmo em um homem que tenha sido avisado. Mas não é essa a questão, e não me cabe a mim criticar outras pessoas. Vou prosseguir com a história prometida.
     Há vários anos, graças a uma concorrência de circunstâncias triviais mas, para mim, muito importantes, consegui passar seis meses na cidade de O****. Esta cidade é construída inteiramente sobre uma declividade. Tem cerca de oitocentos habitantes, notavelmente pobres; as casinhas miseráveis são escandalosamente ruins; na rua principal, sob o manto de um pavimento, formidáveis lajes de pedra calcária não tingida de branco aqui e ali, em consequência das quais, até mesmo os camponeses conduzem em torno dela; no centro de uma praça espantosamente desarrumada sobe uma pequena estrutura amarelada, com buracos escuros, e nos buracos sentam homens com grandes chapéus com viseiras, e fingem estar envolvidos no comércio; ali, também, sobe um mastro listrado, notavelmente alto, e ao lado do mastro, por ordem, sob o comando das autoridades, uma carga de feno amarelo é mantida, e uma galinha do governo se aproxima. Em uma palavra, na cidade de O*** a existência é excelente.
     Durante os primeiros dias de minha estada naquela cidade eu quase perdi a cabeça com o inimigo. Devo dizer de mim mesmo que, embora seja um homem supérfluo, claro, não é de minha própria vontade; eu mesmo sou doentio, mas não posso suportar nada doentio... Não teria objeção à felicidade, tentei até me aproximar dela pela direita e pela esquerda.... E, portanto, não me surpreende que eu também possa me sentir entediado, como qualquer outro mortal. Encontrei-me na cidade de O*** em negócios ligados ao serviço do Governo....
     Teréntievna está absolutamente determinada a me matar. Aqui está um exemplo da nossa conversa:

Teréntievna. - O-okh, querido paizinho! por que você continua escrevendo? Não é saudável para você escrever.

I. - Mas eu estou entediado, Teréntievna.

Ela. - Mas beba um chá e deite-se.

I. Mas eu não sinto sono.

Ela. - Akh, querido paizinho! Por que você diz isso? O Senhor esteja com você! Deita-te agora, deita-te: é melhor para ti.

I. - Eu morrerei de qualquer maneira, Teréntievna.

Ela. - O Senhor me proíba e tenha piedade!... Bem, agora, você me ordena que faça chá?

I. - Não vou sobreviver esta semana, Teréntievna.

Ela. - Ii-i, querido paizinho! Por que você diz isso?... Então eu vou e preparo o samovár.

     Oh, criatura decrépita, amarela, desdentada! É possível que para você eu não seja um homem!

continua em... 24 de março 
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O médico acabou de me deixar / 21 de março / 22 de março / 23 de março /         
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Sonny Rollins - 7 de setembro de 1930 – 25 de maio de 2026

O Jazz está de luto!

Morreu dia 25 de maio, Sonny Rollins, o Colosso do Saxofone...

foi um saxofonista tenor de jazz americano, amplamente reconhecido como um dos músicos de jazz mais importantes e influentes, o último da era de ouro do bebop

Em uma carreira de sete décadas, Rollins gravou mais de sessenta álbuns como líder. Seu álbum de 1956, Saxophone Colossus, foi selecionado para preservação pelo National Recording Registry da Biblioteca do Congresso em 2016. Várias de suas composições, incluindo "St. Thomas", "Oleo", "Doxy" e "Airegin", tornaram-se clássicos do jazz. Rollins era frequentemente chamado de "o maior improvisador vivo". Rollins foi o último sobrevivente dos 57 músicos de jazz retratados na fotografia de 1958 A Great Day in Harlem.

Ao longo de sua carreira, Rollins foi apelidado de "colosso do saxofone". Ele recebeu um prêmio Grammy vitalício e foi homenageado com as Honrarias do Kennedy Center em 2011. Ele foi reconhecido como uma figura definidora do gênero jazz.

Rollins faleceu em sua casa em Woodstock, em 25 de maio de 2026, aos 95 anos. [1][117] No momento de sua morte, ele enfrentava vários problemas de saúde, incluindo fibrose pulmonar.







Sonny Rollins - Jazz à Vienne 2011




Aqui o trio sem piano
Sonny Rollins, Nalen 1959






Sonny Rollins - Saxophone Colossus é uma homenagem e um documentário magnífico sobre um dos "maiores improvisadores vivos do jazz", como Sonny Rollins é frequentemente chamado. A primeira parte do filme de Robert Mugge foi filmada em Nova York. Exemplos musicais e entrevistas se alternam, guiando os espectadores pelos 101 minutos do documentário com alguns dos mais renomados jornalistas de jazz (incluindo Ira Gitler, Garry Giddins e Francis Davis!). A segunda parte do filme apresenta a estreia mundial da composição de Rollins, "Concerto para Saxofone Tenor e Orquestra", com arranjos e orquestração de Heikki Sarmanto. Este filme de 1986 mostra um dos músicos de jazz mais estimados — nascido em 7 de novembro de 1930 — em ação e oferece uma visão do mundo de Rollins, onde, graças à preparação meticulosa e ao apoio de sua esposa, Lucille Rollins, ele se manteve consistentemente entre os melhores do jazz. A imprensa foi muito entusiasmada com o filme.





Sonny Rollins - Álbum Saxophone Colossus -1957



Sonny Rollins Quartet with John Coltrane - Tenor Madness


Músicos: Sonny Rollins, John Coltrane (saxofone tenor), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo), Philly Joe Jones (bateria)
Do álbum 'TENOR MADNESS' (Prestige Records)


Sonny Rollins - Kongsberg Jazzfestival, Norway
1971 - retornando do seu segundo período sabático




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Grandes saxofonistas do Jazz

John Coltrane / Sonny Rollins /