O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes
SEGUNDA PARTE
HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA
41. Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência
Em 1823, George Canning, cérebro do império britânico,
estava celebrando seus triunfos universais. O encarregado
de negócios da França teve de suportar a humilhação deste
brinde: “Vossa seja a glória do triunfo, seguida pelo desastre
e pela ruína; nosso seja o tráfico sem glória da indústria e
da prosperidade sempre crescente (...). A idade da cavalaria
passou, sucedida pela idade dos economistas e dos
calculistas”. Londres vivia o princípio de uma longa festa;
Napoleão tinha sido derrotado alguns anos antes, e a era da
pax britannica se abria sobre o mundo. Na América Latina, a
independência garantira perpetuidade ao poder dos donos
da terra e dos comerciantes enriquecidos nos grandes
portos de exportação, à custa da antecipada ruína dos
países nascentes. As antigas colônias espanholas, e
também o Brasil, eram mercados ávidos para os tecidos
ingleses e para as libras esterlinas a tantos por cento.
Canning não se enganara ao escrever, em 1824: “A coisa
está feita; o prego está pregado, a América espanhola é
livre; e se não negligenciarmos tristemente os nossos
assuntos, é inglesa”.
[1]
A
máquina a vapor, o tear mecânico e o
aperfeiçoamento da máquina de tecer tinham feito
amadurecer vertiginosamente a revolução industrial na
Inglaterra. Multiplicavam-se as fábricas e os bancos; os
motores de combustão interna haviam modernizado a
navegação e um sem-número de grandes navios rumavam
para os quatro pontos cardeais universalizando a expansão
industrial inglesa. A economia britânica pagava com tecidos
de algodão os couros do rio da Prata, o guano e o nitrato do
Peru, o cobre do Chile, o açúcar de Cuba, o café do Brasil.
As exportações industriais, os fretes, os seguros, os juros
dos empréstimos e os dividendos dos investimentos
alimentariam, ao longo do século XIX, a pujante
prosperidade da Inglaterra. Em verdade, antes das guerras
de independência os ingleses já controlavam boa parte do
comércio legal entre a Espanha e suas colônias, e haviam
lançado às costas da América Latina um caudaloso e
persistente fluxo de mercadorias de contrabando. O tráfico
de escravos proporcionava um anteparo eficaz para o
comércio clandestino, ainda que ao fim e ao cabo as
alfândegas também registrassem, em toda a América
Latina, uma esmagadora maioria de produtos que não
provinham da Espanha. Nos fatos, o monopólio espanhol
nunca existiu: “(...) a colônia já estava perdida para a
metrópole muito antes de 1810, e a revolução não
representou nada mais que um reconhecimento político de
semelhante estado de coisas”.
[2]
[2] KOSSOK, Manfred. El virreinato del Río de la Plata. Su estructura económico
social. Buenos Aires, 1959.
As tropas britânicas tinham conquistado Trinidad, no
Caribe, ao preço de uma só baixa, mas o comandante da
expedição, Sir Ralph Abercromby, estava convencido de que
não seriam fáceis outras conquistas militares na América
espanhola. Pouco depois, fracassaram as invasões inglesas
no rio da Prata. A derrota fortaleceu a opinião de
Abercromby sobre a ineficácia das expedições armadas e o
momento histórico dos diplomatas, mercadores e
banqueiros: uma nova ordem liberal nas colônias
espanholas ofereceria à Grã-Bretanha a oportunidade de
abocanhar as nove décimas partes do comércio da América
espanhola
[3]. A febre da independência fervia em terras
hispano-americanas. A partir de 1810, Londres aplicou uma
política serpejante e dúplice, cujas flutuações obedeceram à
necessidade de favorecer o comércio inglês, impedir que a
América Latina caísse nas mãos dos Estados Unidos ou da
França e prevenir uma possível infecção interna do
jacobinismo nos novos países que nasciam para a liberdade.
[3] FERNS, H. S. Gran Bretaña y Argentina en el siglo XIX. Buenos Aires, 1966.
Quando se constituiu a junta revolucionária em Buenos
Aires, em 25 de maio de 1810, uma salva de canhonaços
dos navios britânicos a saudou desde o rio. O capitão do
navio Mutine pronunciou, em nome de Sua Majestade, um
inflamado discurso: o júbilo invadia os corações britânicos. Buenos Aires levou apenas três dias para eliminar certas
proibições que dificultavam o comércio com estrangeiros;
doze dias depois, reduziu de 50 para 7,5 por cento os
impostos que incidiam sobre as vendas ao exterior de
couros e sebo. Tinham passado seis semanas desde 25 de
maio quando foi tornada sem efeito a proibição de exportar
ouro e prata em moedas, de modo que pudessem circular
em Londres sem inconvenientes. Em setembro de 1811, um
triunvirato substituiu a junta como autoridade governante:
foram novamente reduzidos, e em alguns casos abolidos, os
impostos de exportação e importação. A partir de 1813,
quando a Assembleia se declarou autoridade soberana, os
comerciantes estrangeiros ficaram desobrigados de vender
suas mercadorias através dos comerciantes nativos: “O
comércio, em verdade, tornou-se livre”
[4]. Já em 1812,
alguns comerciantes britânicos comunicaram ao Foreign
Office: “Conseguimos (...) substituir com êxito os tecidos
alemães e franceses”. Tinham substituído também a
produção dos tecedores argentinos, estrangulados pelo
porto livre-cambista. E o mesmo processo se registrou, com
variantes, em outras regiões da América Latina.
[4] Ibid.
De Yorkshire e Lancashire, dos Cheviots e Gales,
brotavam sem cessar artigos de algodão e de lã, de ferro e
de couro, de madeira e porcelana. Os teares de Manchester,
as ferrarias de Shaffield, as olarias de Worcester e
Staffordshire inundavam os mercados latino-americanos. O
livre-comércio enriquecia os portos que viviam da
exportação e elevava aos céus o nível de esbanjamento das
oligarquias ansiosas por desfrutar de todo o luxo que o
mundo oferecia, e arruinava as incipientes manufaturas
locais e frustrava a expansão do mercado interno. As
indústrias domésticas, precárias e de muito baixo nível
técnico, tinham surgido no mundo colonial apesar das proibições da metrópole, e experimentaram uma culminância, às vésperas
da independência,
em
consequência do afrouxamento dos laços opressores da
Espanha e das dificuldades de abastecimento que a guerra
europeia provocou. Nos primeiros anos do século XIX, as
oficinas estavam ressuscitando depois dos mortíferos
efeitos da decisão que o rei tomara em 1778, autorizando o
livre-comércio entre os portos da Espanha e da América.
Uma avalanche de mercadorias estrangeiras arrasara as
manufaturas têxteis e a produção colonial de cerâmica e
objetos de metal, e os artesãos não tiveram muitos anos
para se recuperar do golpe: a independência abriu
completamente as portas à livre concorrência da indústria já
desenvolvida da Europa. Os vaivéns posteriores nas
políticas aduaneiras dos governos da independência
gerariam sucessivas mortes e renascimentos das
manufaturas locais, sem a possibilidade de um
desenvolvimento sustentado no tempo.
continua na página 282...
____________________
____________________
Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Do rio, os navios de guerra britânicos saudavam a independência (1)
_____________________________
o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ?
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?