segunda-feira, 23 de março de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (VII.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

VII
 continuando...

     As mulheres deliravam; a de Maheu saindo da sua calma, presa da vertigem da fome; a de Levaque gritando; a velha Queimada, fora de si, agitando seus braços de bruxa; Philomene, sacudida por um acesso de tosse; e a filha de Mouque, num delírio, gritava palavras cheias de ternura para o orador.
     Dos homens, Maheu, conquistado, soltara um grito de cólera, entre Pierron, que tremia, e Levaque, que falava demais; os galhofeiros, Zacharie e o jovem Mouque, tentavam fazer graça, mas sentiam-se comovidos, admirados com o companheiro que pudera falar tanto tempo sem molhar a garganta. Mas era Jeanlin, encarapitado no monte de madeira, quem fazia mais estardalhaço, açulando Bébert e Lydie, agitando o cesto onde jazia Polônia. 
     O clamor era cada vez mais intenso. Etienne saboreava a embriaguez de sua popularidade. Era o seu poder que ele detinha ali, como que materializado naqueles três mil peitos, cujos corações fazia bater com uma palavra. Se Suvarin se tivesse dignado a vir, teria aplaudido suas ideias, à medida que as fosse reconhecendo, contente com os progressos anarquistas de seu discípulo, satisfeito com o programa, salvo o artigo sobre a instrução, um resto de tolice sentimental, já que a santa e salutar ignorância devia ser o banho de onde os homens surgiriam com nova têmpera. Quanto a Rasseneur, dava de ombros com desdém e cólera. 

— Tu vais deixar-me falar ou não? — gritou ele para Etienne. 

     Este saltou do tronco de árvore. 

— Fala, veremos se te escutam...

     Já Rasseneur o tinha substituído e pedia silêncio com um gesto. O barulho era cada vez maior; seu nome corria das primeiras fileiras, onde tinha sido reconhecido, às últimas, espalhadas por entre as faias. A multidão recusava-se a ouvi-lo, era um ídolo caído cuja vista bastava para enfurecer seus antigos fiéis. Sua elocução fácil, sua palavra cascateante e simpática, que por tanto tempo havia encantado, era chamada agora de tisana morna, para adormecer os covardes. Quis fazer o discurso de apaziguamento que trazia preparado sobre a impossibilidade de transformar o mundo mediante leis, sobre a necessidade de deixar à evolução social o tempo para amadurecer, mas ninguém lhe deu ouvidos; vaiaram-no, mandaram que se calasse; sua derrota do Bon-Joyeux agravou-se, tornou-se irremediável. Começaram a jogar punhados de musgo com gelo, uma mulher gritou com voz esganiçada: 

— Abaixo o traidor!

     Mas ele continuou explicando que a mina não podia ser propriedade dos mineiros, como é o tear do tecelão; declarou preferir a participação nos lucros, o operário interessado, transformado em filho da casa. 

— Abaixo o traidor! — repetiram mil vozes, enquanto as pedras começavam a voar.

     Nesse momento ele empalideceu e o desespero encheu seus olhos de lágrimas. Era o desmoronamento de sua existência, vinte anos de companheirismo ambicioso que afundavam sob a ingratidão das massas. Desceu do tronco com o coração despedaçado, sem forças para continuar. 

— Isso te faz rir? — balbuciou ele, dirigindo-se a Etienne triunfante. — Muito bem, desejo o mesmo para ti... Tua hora chegará, ouviste?

     E, como para eximir-se da responsabilidade nas desgraças que previa, fez um grande gesto e partiu sozinho através da campina muda e branca.
     A vaia continuava; todos ficaram surpresos ao verem em pé sobre o tronco o velho Boa-Morte, que falava sem levar em conta a gritaria. Até ali, Mouque e ele tinham-se conservado absortos, com aquele jeito deles, parecendo que estavam refletindo sobre coisas passadas. Sem dúvida entrara numa dessas crises repentinas de tagarelice, que às vezes mexiam tão violentamente com o seu passado fazendo que às lembranças viessem aos seus lábios aos borbotões e por horas a fio. Fizera-se um grande silêncio, todos escutavam aquele velho de uma palidez de espectro sob a lua. E, como ele contava coisas sem ligação imediata com o assunto em pauta, longas histórias que ninguém podia compreender, a emoção aumentou.
     Era da sua juventude que falava; narrava a morte dos seus dois tios esmagados na Voreux, a história da pneumonia que lhe carregara a mulher Mas a sua ideia central estava sempre presente no que dizia aquilo nunca andara bem e jamais andaria. Uma vez, tinham reunido quinhentos homens na floresta, porque o rei não queria diminuir a horas de trabalho. Em seguida, começou a contar a história de outra greve: vira tantas! Todas vinham desaguar sob tais árvores, aqui, no Plan-des-Dames, além, na Charbonnerie, ou mais longe ainda, no Saut-du-Loup. Em certas ocasiões fazia frio, em outras, calor. Uma noite chovera tanto que voltaram para casa sem poder falar. E os soldados do rei apareciam e as reuniões eram dispersadas a tiros. 

— Levantávamos a mão, assim, jurávamos não mais voltar à mina... Eu jurei muitas vezes, ah! se jurei!...

     A multidão escutava atônita, inquieta, quando Etienne, que acompanhava a cena, saltou para cima da árvore abatida e manteve o velho ao seu lado. Acabava de divisar Chaval entre os amigos da primeira fila. A ideia de que Catherine devia estar lá enchera-o de novo entusiasmo, da necessidade de ser aclamado diante dela.

— Camaradas, vocês ouviram bem o que ele disse. Aqui está um dos nossos anciãos, que falou dos seus sofrimentos e do que sofrerão nossos filhos, se não exterminarmos com os ladrões e os algozes.

     Foi terrível, nunca falara com tamanha violência. Com um braço ele segurava o velho Boa-Morte, empunhando-o como uma bandeira de miséria e de luto, clamando por vingança. Em frases rápidas referiu-se ao primeiro Maheu, citou toda aquela família gasta na mina, devorada pela companhia, continuando faminta após cem anos de trabalho. E, como contraponto, falou em seguida dos barrigas-cheias da administração, que suavam dinheiro, de toda a quadrilha de acionistas que, como manteúdos, viviam havia um século de não fazerem nada, apenas desfrutando dos corpos dos mineiros. Então não era horrível que toda uma população de mineiros, de pai para filho, rebentasse-se no fundo da terra, para que ministros pudessem receber seu dinheiro por baixo da mesa e gerações de fidalgos e burgueses dessem festas ou engordassem placidamente sentados junto à lareira? Estudara as doenças dos mineiros, citou todas com detalhes horripilantes: anemia, escrofulose, bronquite negra, asma sufocante, reumatismo que paralisa. Esses miseráveis, que serviam de pasto às máquinas, que eram encurralados como gado nos conjuntos habitacionais, as grande companhias absorviam aos poucos, regularizando assim a escravidão ameaçando arregimentar todos os trabalhadores de uma nação milhões de braços, para enriquecer um milhar de preguiçosos. Mas o mineiro não era mais o ignorantão, a besta esmagada nas entranhas da terra. Um verdadeiro exército brotava das profundezas das galerias, uma messe de cidadãos cuja semente germinava e faria estalar o chão num dia ensolarado. Saber-se-ia então se, no fim de quarenta anos de serviço, alguém se atreveria a oferecer cento e cinquenta francos de aposentadoria a um velho de sessenta anos que escarrava hulha e tinha as pernas minadas pela água dos veios. Sim! o trabalho acertaria suas contas com o capital, esse deus impessoal, desconhecido do operário, agachado em algum lugar, no mistério do seu tabernáculo, de onde sugava a vida dos mortos de fome que o alimentavam! Sim! iriam até ele, acabariam vendo sua cara à luz dos incêndios, afogariam em sangue esse porco imundo, esse ídolo monstruoso, empanturrado de carne humana!
     Calou-se, mas seu braço continuou estendido, apontando para o inimigo ao longe, não sabia onde ao certo, mas espalhado por toda a terra. Desta vez o clamor da multidão foi tão violento, que os burgueses de Montsou ouviram-no e olharam para os lados de Vandame, com medo de que fosse algum desabamento formidável. Os pássaros noturnos começaram a voar por cima do arvoredo, ao luar.
     Etienne quis concluir imediatamente: 

— Camaradas, qual é a decisão de vocês? Votam pela continuação da greve? 
— Sim! Sim! — gritaram todos. 
— E que medidas querem tomar? Nossa derrota é certa se alguns covardes decidirem trabalhar amanhã.

     As vozes voltaram num hausto de tempestade: 

— Morte aos covardes! 
— Vocês decidem então chamá-los ao dever, ao que foi jurado... Este é o plano que poderíamos pôr em prática: apresentarmo-nos nas minas e, com a nossa presença, trazer os traidores à ordem, mostrar à companhia que estamos todos de acordo e preferimos morrer a ceder. 
— É isso mesmo! Às minas! Às minas!

     Desde que começara a falar, Etienne procurava Catherine entre as cabeças pálidas que marulhavam à sua frente. Era certo que ela era. Mas Chaval continuava ali, dando de ombros e fingindo rir, devorado pela inveja, pronto a vender-se por um pouco daquela popularidade. 

— E se há espiões entre nós, camaradas, eles que tomem cuidado, nós já sabemos quem são... — continuou Etienne. — Sim, porque estou vendo mineiros de Vandame que não abandonaram o trabalho. 
— Isso é para mim? — perguntou Chaval com bravata. 
— É para aqueles a quem servir a carapuça... Mas, já que falas, devias compreender que aqueles que comem não deviam meter-se com os que têm fome. E tu trabalhas na Jean-Bart...

     Uma voz zombeteira o interrompeu: 

— Ele trabalha? Tem é uma mulher que trabalha para ele, isso sim...

     Chaval, de rosto afogueado, praguejou: 

— Vão para o inferno! Então é proibido trabalhar? 
— É! — gritou Etienne. — Quando os camaradas estão passando miséria para o bem de todos, é proibido ser egoísta e hipócrita e pôr-se do lado do patrão. Se a greve fosse geral, há muito tempo teríamos vencido... Então é correto que mesmo um único homem de Vandame se apresente ao trabalho enquanto Montsou está em greve? O grande golpe seria ter parado o trabalho em toda a região, tanto na mina de Deneulin como aqui, entendes? Só há traidores nos veios de Jean-Bart, todos vocês são uns traidores!

     Em torno de Chaval a turba estava ficando ameaçadora, punhos erguiam-se aos gritos de "Morra! Morra!", cada vez mais próximos; ele sentiu que o sangue lhe gelava nas veias, mas, no seu ódio a Etienne, na sua ânsia de vencê-lo, uma ideia fez que se aprumasse. 

— Escutem! Vão amanhã a Jean-Bart e vocês verão se eu trabalho!... Nós somos dos de vocês, mandaram-me aqui para dizer isto. É preciso apagar as caldeiras, é preciso que também os mecânicos entrem em greve. Tanto melhor se as bombas pararem, a água inundará as galerias e tudo irá para o inferno!

     Por sua vez ele foi furiosamente aplaudido, o próprio Etienne ficou ultrapassado. Sucediam-se os oradores no tronco da árvore, gesticulando no meio da gritaria, lançando propostas terríveis. Era o ataque de loucura da fé, a impaciência de uma seita religiosa que, cansada de esperar pelo milagre prometido, decidira-se finalmente a provocá-lo. As cabeças enfraquecidas pela fome enxergavam vermelho, sonhavam com incêndios e sangue em meio a uma glória de apoteose, de onde subia a felicidade universal. E a lua, tranquila banhava aquele mar agitado, a floresta imensa cingia com seu grande silêncio aquele grito de massacre. Só a relva gelada estalava sob os sapatos, enquanto as faias, eretas na sua força, com a delicada ramagem dos seus galhos negros, engastados no céu branco, não viam nem ouviam os seres miseráveis que se agitavam a seus pés.
     Todos se empurravam, a mulher de Maheu, de repente, encontrou se ao lado do marido, e ambos fora de si, arrebatados pela lenta exasperação que havia meses os minava, aprovavam Levaque, que exagerava, pedindo a cabeça dos engenheiros. Pierron tinha desaparecido. Boa-Morte e Mouque falavam ao mesmo tempo, diziam coisas vagas e violentas que ninguém compreendia. Por brincadeira, Zacharie pedia a demolição das igrejas, enquanto o jovem Mouque batia com o seu taco no chão, só para aumentar a barulheira. As mulheres pareciam possessas: a de Levaque, de mãos nos quadris, insultava Philomène, que ela acusava de ter rido; a filha de Mouque falava em descadeirar os policiais a pontapés em certo lugar; a Queimada, que acabava de espancar Lydie, ao encontrá-la sem cesto e sem salada, continuava a dar bofetões no vazio, em todos os patrões que ela gostaria de apanhar. Por um instante Jeanlin ficara assustado, quando Bébert lhe disse que soubera por um outro menino que a mulher de Rasseneur os vira roubando Polônia, mas, depois de decidir que iria furtivamente soltar o animal na porta do Avantage, gritou mais forte ainda, abrindo sua faca nova e brandindo-a para todos os lados, sentindo-se glorioso ao vê-la brilhar. 

— Camaradas! Camaradas! — repetia Etienne exausto, rouco, tentando obter um minuto de silêncio para se entenderem definitivamente.

     Por fim calaram para escutá-lo. 

— Camaradas! Amanhã de manhã na Jean-Bart. Está combinado? 
— Sim, sim, na Jean-Bart! Morram os traidores!

     O furacão daquelas três mil vozes encheu o céu, indo extinguir-se na claridade pura da lua.

continua na página 254...
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Quarta Parte - (VI.b) / Quarta Parte - (VII.a)Quarta Parte - (VII.b) /    
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / V — Pobreza, boa vizinha da miséria

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     V — Pobreza, boa vizinha da miséria

             Mário sentia grande predileção por esse velho cândido, que se via lentamente surpreendido pela indigência, o que lhe causava pouco a pouco um certo espanto sem contudo se entristecer.
     Mário encontrava Courfeyrac e procurava Mabeuf. Isto era contudo raro; sucedia, quando muito, uma ou duas vezes no mês.
     Mário gostava de dar longos passeios solitários pelos boulevards exteriores, ou pelo campo de Marte ou pelas ruas menos frequentadas do Luxemburgo. As vezes passava uma tarde inteira a olhar para uma horta, para os canteiros de cebolas, a ver esgaravatar as galinhas ou um cavalo a mover a roda de uma nora. Os que passavam contemplavam-no maravilhados e alguns achavam-lhe um aspecto suspeito e até sinistro. E ele não era mais do que um mancebo pobre, meditando ao acaso.
     Foi num desses passeios que ele descobriu o casebre Gorbeau, e como o tentasse o isolamento do lugar e o baixo preço da casa, alugou-a, sendo conhecido nela só pelo nome de senhor Mário.
     Alguns dos antigos generais ou dos antigos camaradas de seu pai, depois que souberam quem ele era, convidaram-no a ir visitá-los e Mário não recusava, porque eram ocasiões de falar de seu pai. Deste modo ia de tempos a tempos visitar o conde de Pajol, o general Bellavesne, o general Fririon, que estavam nos Inválidos. Tocava-se, cantava-se, e Mário nessas noites vestia o seu conjunto de casaco e calças dos dias solenes. Porém nunca ia a tais reuniões nem a tais bailes senão quando tudo estava coberto de geada, porque não podia pagar o aluguel de uma carruagem e queria chegar com as botas como espelhos.
     Nas horas de amargura, dizia ele algumas vezes: 

— Os homens são de tal modo organizados, que numa sala poder-se-á estar enlameado em toda a parte, menos nas botas. Numa sala ninguém nos exige, para sermos recebidos, senão uma coisa irrepreensível. Não é a consciência, são as botas.

     Todas as paixões, a não ser as do coração, se dissipam com o hábito da meditação. Foi assim que as febres políticas de Mário se desvaneceram A revolução de 1830 concorrera também para isso, satisfazendo-o e pacificando-o. Ficava o mesmo, menos, porém, quanto às suas iras, porque tinha ainda as mesmas opiniões, apenas algum tanto modificadas. Em rigor, o mancebo não tinha opiniões, tinha simpatias. De que partido era ele? Do partido da humanidade. De entre a humanidade, porém, escolhia a França; de entre a nação, o povo; de entre o povo, a mulher. Era para ela que a sua compaixão tendia principalmente. Atualmente preferia uma ideia a um fato, um poeta a um herói e ainda admirava mais um livro como Job do que um acontecimento como Marengo. Além disto, quando após um dia de meditação, voltava à noite pelos boulevards, e por entre os ramos das árvores divisava o espaço sem fundo, os clarões sem nome, o abismo, a escuridão, o mistério, tudo o que simplesmente é humano lhe parecia bem pequeno.
     Ele supunha ter, e talvez tivesse efetivamente, atingido a realidade da vida e da filosofia humana, chegando por fim a não contemplar senão o céu, única coisa que a verdade pode ver do fundo do seu poço.
     Todavia, isto não obstava a que ele multiplicasse os seus planos, combinações, castelos no ar e projetos de futuro. No estado de abstração em que andava, quem lhe tivesse devassado o que dentro dele se passava ficaria maravilhado da pureza daquela alma.
     Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consciência dos outros, julgaríamos com mais segurança um homem pelo que ele devaneia do que pelo que ele pensa. O pensamento é dominado pela vontade, o devaneio não. O devaneio, que é absolutamente espontâneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso espírito. Não há coisa que mais direta e profundamente saia do fundo da nossa alma do que as nossas aspirações irrefletidas e desmesuradas para esplendores do destino. Nestas aspirações é que se pode descobrir o verdadeiro carácter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras são o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o incógnito e o impossível, conforme a sua natureza.
     Por meados do ano de 1831, a velha que o servia, contou a Mário que iam ser postos na rua os seus mesquinhos vizinhos Jondrette. Mário, que quase era hóspede em casa, mal sabia que tinha vizinhos. 

— Porque os põem na rua? — perguntou ele. 
— Por não pagarem a renda, de que já devem dois meses. 
— E a quanto montam os alugueres vencidos? 
— A vinte francos — respondeu a velha. 
— Pegue lá — disse-lhe o mancebo. — Aí tem vinte e cinco francos. Pague o aluguel dessa pobre gente, dê-lhe os cinco francos e não diga que sou eu.

continua na página 521...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - V — Pobreza, boa vizinha da miséria 
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

domingo, 22 de março de 2026

MPB: Lindo lago do amor

Gonzaguinha


Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior nasceu em 22 de setembro de 1945, no Rio de Janeiro, filho legítimo de Luiz Gonzaga, o rei do baião, e Odaléia Guedes dos Santos, cantora do Dancing Brasil.

“Venho de Odaléia uma profissional daquelas que furam cartão e de vez em quando sobem no palco; ela cruzou com meu pai e de repente eu vim” (Gonzaguinha)






E bem que viu o bem-te-vi
A sabiá sabia já
A lua só olhou pro sol
A chuva abençoou

O vento diz: Ele é feliz
A águia quis saber
Por quê? Pour qui? Porquoi será?
O sapo entregou

Ele tomou um banho d'água fresca
No lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água
No lindo lago do amor

Ele tomou um banho d'água fresca
No lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água
No lindo lago do amor

E bem que viu o bem-te-vi
A sabiá sabia já
A lua só olhou pro sol
A chuva abençoou

O vento diz: Ele é feliz
A águia quis saber
Por quê? Pour qui? Porquoi será?
O sapo entregou

Ele tomou um banho d'água fresca
No lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água
No lindo lago do amor

Ele tomou um banho d'água fresca
No lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água
No lindo lago do amor

Ele tomou um banho d'água fresca
No lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água
No lindo lago do amor

Ele tomou um banho d'água fresca
No lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água
No lindo lago do amor

Ele tomou um banho d'água fresca
No lindo lago do amor
Maravilhosamente clara água
No lindo lago do amor

Composição: Gonzaguinha


A mãe morreu de tuberculose ainda muito moça, com apenas 22 anos de idade, deixando Gonzaguinha órfão aos dois anos, e o pai, não podendo cuidar do menino porque viajava por todo Brasil, entregou-o aos padrinhos.

“Dina (Leopoldina de Castro Xavier) e Xavier (Henrique Xavier), baiano do violão das calçadas de Copacabana, do pires na zona do mangue, morro de São Carlos foram eles que me criaram e por isso eu toco violão. (Gonzaguinha)


Com a Perna no Mundo - diz lá pra Dina que eu volto




As primeiras letras Gonzaguinha aprendeu numa escola local, mas as verdadeiras lições de vida recebeu pelas ladeiras do morro. Quando garoto, para conseguir algum dinheiro, carregava sacolas na feira.

Em 1961, Gonzaguinha, que estava completando 16 anos, foi morar com o pai em Cocotá. Xavier e Dina não podiam dar estudos para o garoto, que queria estudar economia.

Neste ano Gonzaguinha estudou muito, desde então jamais repetiu um ano, lia todos os jornais e guardava tudo num saco de estopa, ele dizia que esses jornais podiam ajudar ele nos estudos. Só depois de formado é que ele jogou tudo fora.

Trancado no quarto, estudava economia e tocava violão. Quando saía, ia para a praia jogar futebol, sua outra paixão. Como já fizera no morro de São Carlos, esquecia dos horários e nunca vinha almoçar.


Especial Gonzaguinha na TV





Das rodas de violão na casa do psiquiatra nasceu o M.A.U. (Movimento Artístico Universitário) e dele faziam partes nomes como Ivan Lins, Aldir Blanc, Paulo Emílio, César Costa Filho. “Éramos um Grupo com pretensões de romper as barreiras do mercado de trabalho, com a consciência de que os festivais não projetavam ninguém” (Ivan Lins). O MAU acabaria sugado pela TV Globo que em 1971 lançava o programa “Som livre exportação”.

Nos primeiros dois meses as coisas caminharam bem e o grupo fez grande sucesso. Passando esse período, na hora da renovação do contrato, a Globo só queria Ivan Lins, Gonzaguinha e César Costa Filho. No início eles procuraram manter-se unidos , “na base do ou assina todo mundo ou ninguém assina”. Passados os primeiros dias, as grandes somas envolvidas, as diferenças pessoais e outros fatores cindiram o grupo. O programa continuou por mais algumas semanas, comandado por Ivan Lins, que foi o que mais vacilou na defesa do grupo.

“Não era uma questão de eu ser mais ou menos forte que o Ivan. É uma questão estrutural. Só isso. A minha imagem de antipatia não permitia que as pessoas tentassem me cooptar. Isso me deixava muito distante. (Gonzaguinha)

Foi nessa época que se difundiu a imagem de Gonzaguinha como um artista agressivo, chegando um jornalista a chamá-lo de “cantor rancor”. Para o compositor, sua agressividade foi criada pelo sistema para ele vender mais.



Luiz Gonzaga e Gonzaguinha 
A vida do viajante (1979)




A mais importante dessas turnês talvez tenha sido com o show “Vida de Viajante”, ao lado do pai Luiz Gonzaga, em 1981. Não apenas um show, “Vida de Viajante” selou o reencontro de pai e filho, a intersecção de dois estilos, o Brasil sertanejo do baião encontrando o Brasil urbano das canções com compromisso social e uma só paixão – o palco.

Se “Todo artista tem de ir aonde o povo está”, lá estavam pai e filho deixando mágoas, desavenças, ressentimentos na poeira das estradas. Viajando juntos por quase um ano, mais do que se perdoaram – tornaram-se amigos. Não houve reconciliação, houve compreensão.

Fonte:


Lindo lago do amor /      

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (b)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos


          Há mitos, entretanto, nos quais se reconhece claramente a conexão dessa gura de luz com os amontoados de cadáveres, e não apenas daqueles de seus inimigos. O mais concentrado desses mitos provém de um povo sul-americano: os uitotos. Pode-se encontrá-lo na importante coletânea de K. Th. Preuss, à qual não se deu ainda a devida atenção. Segue-se, de forma abreviada e na medida de sua relação com o nosso assunto, a exposição desse mito.

     Um dia, duas moças que moravam com seu pai à beira de um rio viram na água uma bonita e minúscula cobra e tentaram, então, apanhá-la. A cobra escapava-lhes sempre, até que, a pedido delas, o pai teceu uma rede de malhas bem nas. Nela, capturaram o animalzinho e o trouxeram para casa. Puseram-no num pequeno vaso com água e ofereceram-lhe todo tipo de comida, mas ele rejeitava tudo. Somente quando, num sonho, o pai teve a ideia de alimentar a cobra com um amido especial é que ela começou a comer direito. Ficou gorda como um fio; depois, como a ponta de um dedo, e as moças colocaram-na então num vaso maior. O animal seguiu comendo o amido e ficou gordo feito um braço. Puseram-no, então, num pequeno lago. Ele comia com avidez cada vez maior o amido, e, na hora de ser alimentado, estava tão faminto que, juntamente com a comida, enfiava pela goela a mão e o braço da moça que lhe dava de comer. Logo estava grande feito uma árvore caída na água. Começou, então, a vir até a beira do lago e a devorar veados e outros animais, mas, ao chamado sedutor, vinha sempre deglutir a gigantesca quantidade de amido que as irmãs lhe preparavam. A cobra fez, então, uma cova sob as aldeias e tribos e começou a devorar os antepassados dos homens, os primeiros habitantes do mundo. “Querida, venha comer”, chamaram as moças certa vez, ao que a cobra surgiu, pegou o recipiente com o amido que uma das irmãs sustentava no braço e que se erguia até sua cabeça, engoliu a moça e a levou consigo.
     A outra irmã foi chorando contar ao pai, que decidiu vingar-se. Ele lambeu o tabaco, como se costuma fazer entre essa gente quando se decide matar uma criatura, embriagou-se e, em sonho, ocorreu-lhe um meio de vingar-se. Preparou amido para dar de comer à cobra, chamou-a — a ela, que tinha devorado sua filha — e disse-lhe: “Engula-me!”. Estava disposto a suportar tudo e, afim de matá-la, bebeu do recipiente de tabaco que trazia pendurado ao pescoço. Ao seu chamado, a cobra apareceu e apanhou o recipiente com amido que ele lhe estendia. O pai saltou-lhe, então, goela adentro e ali se sentou. “Eu o matei”, pensou a cobra, arrastando-o consigo para longe.
     Em seguida, devorou uma tribo inteira, e os homens apodreceram sobre o corpo do pai. Depois, pôs-se a engolir uma outra tribo, que apodreceu também sobre seu corpo. Sentado ali, o pai tinha de suportar o fedor dos homens decompondo-se. A cobra devorou todas as tribos ao longo do rio, aniquilando-as, de modo que não sobrou uma única sequer. O pai trouxera uma concha de casa, afim de, com ela, abrir a barriga da cobra, mas cortou-a e abriu-a só um pouquinho, ao que a cobra sentiu dores. Devorou, então, as tribos à beira de um outro rio. Os homens tinham medo e, em vez de sair para as plantações, cavam sempre em casa. Nem sequer era possível andar pela redondeza, pois a cova da cobra cava no meio do caminho; quando alguém voltava do campo, ela o apanhava e o levava consigo. As pessoas choravam e tinham medo que a cobra devorasse alguém, razão pela qual não saíam mais de casa. Só de sair da rede temiam já que a cobra tivesse ali a sua cova, apanhando-as e as arrastando consigo.
     Sobre o corpo do pai, os homens fediam e decompunham-se. Ele bebeu do suco de tabaco no recipiente e fez cortes no meio do ventre da cobra, causando lhe fortes dores. “O que há comigo? Engoli Deihoma, o ‘cortador’, e sinto dores”, disse ela, e soltou um grito.
     Foi-se, então, para uma outra tribo, ergueu-se da terra e apanhou a todos. As pessoas não podiam ir a parte alguma, e não se aproximavam do rio. Se iam buscar água no porto, a cobra as agarrava e arrastava consigo. Já ao pisarem no chão pela manhã, a cobra as apanhava e levava embora. O pai abria a barriga da cobra com a concha e ela gritava: “Como posso estar sentindo dores? Engoli Deihoma, o cortador, e é por isso que me dói”.
     Então, os espíritos protetores advertiram-no: “Deihoma, este não é ainda o porto do rio onde moras; sê cuidadoso com teus cortes. Teu porto está ainda bem distante daqui”. E, ao ouvir essas palavras, o pai parou com seus cortes. A cobra, por sua vez, voltou a alimentar-se dos povos que já tinha devorado anteriormente, e os apanhou de imediato. “Ela ainda não acabou! Que será de nós? Ela acabou com nossa gente”, diziam os habitantes das aldeias, que emagreciam cada vez mais, pois o que haveriam de comer?
     Os homens pereciam e apodreciam sobre o corpo de Deihoma. Enquanto isso, ele seguia bebendo de seu tabaco e cortando o ventre da cobra, sempre sentado em seu interior. Desde tempos imemoriais o desafortunado não comia coisa alguma, bebendo apenas o suco do tabaco. Afinal, o que haveria de comer? Bebia o suco e permanecia quieto em seu lugar, a despeito do fedor da putrefação.
     Não havia mais tribos; a cobra comera os corpos de todos os que viviam à beira do rio ao pé do céu, de modo que não restara mais ninguém. Seus espíritos protetores disseram então a Deihoma: “Deihoma, este é o porto do rio onde moras. Corta a cobra com força e, duas curvas à frente, estarás em casa”. Deihoma pôs-se então a cortar. “Corta, Deihoma, corta com força!”, exclamaram eles. No porto, Deihoma cortou o couro do ventre da cobra, rasgou-o e abriu-lhe o ventre, saltando para fora dela pela abertura.
     Uma vez do lado de fora, ele se sentou. Sua cabeça despelara-se inteira e ele estava careca. A cobra revolvia-se de um lado para o outro. Deihoma estava de volta, após o longo período de infelicidade no interior da cobra. Lavou-se inteiro em seu porto, chegou a sua cabana e tornou a ver suas filhas, que se alegraram com o retorno do pai.

     Na íntegra desse mito, que foi aqui consideravelmente resumido, descreve-se em nada menos que quinze passagens distintas o modo como, no interior da cobra, os homens apodrecem sobre o herói. Essa imagem premente possui algo de compulsório: ao lado do devorar, é a imagem que mais frequentemente se repete no mito. Deihoma mantém-se vivo bebendo de seu suco de tabaco. Sua calma e imperturbabilidade em meio à putrefação caracterizam o herói. Todos os homens do mundo poderiam apodrecer sobre sua cabeça — ele permaneceria sempre ali, sozinho em meio à podridão geral, ereto e voltado para sua meta. É, se assim se deseja, um herói inocente, pois não carrega em sua consciência nenhum dos que ali apodrecem. Mas suporta a podridão; está no meio dela. Esta não o abate; constitui, poder-se-ia dizer, aquilo que o mantém ereto. A densidade desse mito, onde tudo o que realmente importa desenrola-se no ventre da cobra, é incontestável: o mito é a própria verdade.
     O herói é aquele que, diante de situações perigosas, sobrevive sempre matando. Mas não é apenas o herói que sobrevive. Um fenômeno equivalente verifica-se na massa de sua própria gente, e precisamente quando esta sucumbiu já em sua totalidade.

continua página 385...
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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (b)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

sábado, 21 de março de 2026

Cinema: Nouvelle Vague

Nova Onda - filme experimental


A trajetória da condessa Elena é abruptamente interrompida quando ela para ajudar Roger, aparentemente foi forçado a sair da estrada por um caminhão, está na beira da estrada gravemente incapacitado. Roger oferece a mão a Elena, e Elena aceita a oferta (o "milagre das mãos vazias" emprestado do Diário de um Padre do Interior). Começa a série de trocas que compõem o relacionamento deles. A condessa decide levá-lo até sua mansão e cuidar dele. Os dois acabam se tornando amantes, mas o jeito manso dele a irrita. Em uma viagem de barco, ela deixa o homem se afogar, como se não estivesse vendo, e retoma sua vida. Um tempo depois, um homem idêntico com o outro aparece e alega ser irmão dele, e que sabe do crime. Para obter o silêncio dele, a condessa oferece a direção de uma das suas empresas e se torna amante dele.


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Dirigido por Jean-Luc Godard
Escrito por Jean-Luc Godard e Jacques Audiberti
Produzido por Alain Sarde

Elenco:
Alain Delon como Richard Lennox/Roger Lennox ("Lui")
Domiziana Giordano como Elena Torlato-Favrini ("Elle")
Jacques Dacqmine como PDG
Christophe Odent como Raoul Dorfman, o advogado
Roland Amstutz como Jules, o jardineiro
Laurence Côte como Cécile
Laurence Guerre como Della, secretária
Joseph Lisbona como Dr. Parker
Laure Killing como Dorothy Parker, esposa do médico
Véronique Muller como a primeira namorada de Raoul
Maria Pitarresi como a segunda namorada de Raoul
Jacques Viallette como diretor da fábrica
Brigitte Marvine como a jornalista do restaurante
Cécile Reigher como uma empregada
Pascal Sablier como o cliente iraniano
Violaine Barret como esposa do jardineiro
Steve Suissa como o garçom
Joe Sheridan como Robert, também conhecido como Bob, o gerente da companhia aérea
Belkacem Tatem como chefe dos garçons
Hubert Ravel como Laurent
Raphaël Delpard como Secretário de Estado
François Germond como agente imobili-ario

Data de lançamento:
23 de maio de 1990 (França)

Duração:
90 minutos


"Nouvelle Vague é um filme francês de Jean-Luc Godard em que uma mulher rica acolhe um homem misterioso após um encontro improvável, dando início a uma relação marcada por jogos de poder e inversões de papel. Com narrativa fragmentada, diálogos repletos de citações e belas composições visuais, mistura drama e reflexão poética. Apesar de dividir a crítica, é visto por muitos como uma obra intrigante e complexa, recomendada a quem aprecia o cinema reflexivo e experimental."



Diário dum Pároco de Aldeia | Diário de um Padre do Interior (1951) 
Trailer 
| Realizador: Robert Bresson




Godard disse que o filme é uma alegoria da história do cinema. Elena representa a indústria cinematográfica. Na primeira metade, Lennox representa o cinema e seus criadores que são tomados pela indústria e cultivados, mas deixados a perecer, ou quase perecer. O cinema renasce na figura da Nouvelle Vague francesa ("La Nouvelle Vague"), cujos cineastas chegaram armados com conhecimento da história do cinema, mas astutos o suficiente para manipular a indústria para seus próprios fins, salvando assim a indústria de sua própria ruína.