contos e poesia no butekudu baitasar.
a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre!
li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
Segunda parte da trilogia não oficial de Antonioni sobre alienação, solidão e a incomunicabilidade entre as pessoas na sociedade moderna, as outras partes da trilogia são compostas por A Aventura e L'eclisse. O filme (La Notte - 1961) acompanha um dia na vida de um casal (interpretados por (Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau) infiel e sua relação em constante deterioração. que são convidados para passar uma noite em uma festa de amigos burgueses, durante a festa, o vazio e desgaste emocional existente entre o casal é intensificado.
Não esqueça de ativar as legendas.
Direção: Michelangelo Antonioni
Roteiristas: Michelangelo Antonioni Ennio Flaiano Tonino Guerra
Elenco: Marcello Mastroianni como Giovanni Pontano Jeanne Moreau como Lidia Pontano Monica Vitti como Valentina Gherardini Bernhard Wicki como Tommaso Garani Rosy Mazzacurati como Resy Maria Pia Luzi como A ninfomaníaca no hospital Guido A. Marsan como Senhor Fanti Vittorio Bertolini Vincenzo Corbella como Senhor Gherardini Ugo Fortunati como Cesarino Gitt Magrini como Senhoraa Gherardini Giorgio Negro como Roberto Roberta Speroni como Berenice Valentino Bompiani como Ele mesmo (não creditado) Roberto Danesi como Função indeterminada (não creditado) Umberto Eco como Um convidado da festa (não creditado) Giansiro Ferrata como Um convidado da festa (não creditado) Giorgio Gaslini como Ele mesmo (não creditado) Alceo Guatelli como Função indeterminada (não creditado) Odile Jean como Função indeterminada (não creditado) Ottiero Ottieri como Ele mesmo (não creditado) Salvatore Quasimodo como Ele mesmo (não creditado) Ettore Univelli como Função indeterminada (não creditado)
"O tema do matrimônio e suas intempéries já foi retratado diversas vezes pelo cinema. As diversas fases de um casamento e todas as questões que elas suscitam já foram examinadas por cineastas da melhor estirpe. Obras como Domicílio Conjugal, de François Truffaut e Cenas de Um Casamento, de Ingmar Bergman, são possivelmente dois dos melhores exemplos. Filme de importância equivalente sobre o mesmo tema é A Noite, segundo capítulo da aclamada Trilogia da Incomunicabilidade, de Michelangelo Antonioni. O italiano segue debruçando-se sobre os limites da comunicação humana e, dessa vez, ele constrói um filme menos nebuloso em sua proposta do que o primeiro da trilogia – A Aventura, mas não menos instigante e bem realizado. Antonioni está ainda mais afinado com o tema e mais habilidoso em trabalhá-lo." Marcelo Sobrinho
JN (1982) - Marcello Mastroianni no Brasil para o filme "Gabriela"
Marcello Mastroianni: o anti-galã do cinema italiano
Jeanne Moreau - (Paris, 23 de janeiro de 1928 – Paris, 31 de julho de 2017) foi uma atriz e cantorafrancesa.
Jeanne Moreau - Miles Davis - Louis Malle - Paris - 1958
A trilha sonora de Miles Davis para o filme é considerada por muitos inovadora, com o crítico de jazz Phil Johnson descrevendo-a como "o som de trompete mais solitário que você já ouvirá, e o modelo para a música sad-core desde então. Ouça e chore."
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”
continuando...
onde me acolhe o potente Peleu com benévolo espírito.
Teve-me grande afeição, como pai poderoso a filho único,
único herdeiro de infinita riqueza para ele acervada,
e cumulou-me de bens, sobre dar-me o comando de gentes,
pois sobre os Dólopes tive o governo, no extremo de Ftia.
Qual és, Aquiles divino, nesta hora, por mim foste feito,
por mim, com terna afeição. Ninguém mais ao teu lado querias,
tanto como hóspede, fora, ou à mesa, nos nossos banquetes,
té que em meus joelhos, alfim, te pusesse, e cortasse os assados
em pedacinhos, com o que te saciasses e vinho te desse.
Não poucas vezes, de vinho, no peito molhaste-me a túnica,
que borrifavas por cima de mim, com capricho de criança.
Por tua causa vê só que trabalhos sofri, que de incômodos!
Considerando que os deuses um filho me haviam negado,
como se filho me fosses, Aquiles divino, criei-te,
para que um dia amparar-me pudesses da ruína e do opróbrio.
“Vamos, Aquiles, o orgulho domina; aspereza tão grande
não fica bem para ti, pois se deixam dobrar até os deuses,
com terem mais dignidade, poder superior e virtude.
Apesar disso, conseguem os homens obter-lhes as graças
com libações e gordura queimada, com preces e vítima,
se, porventura, cometem qualquer infração ou pecado.
Pois são as Preces, nascidas do Crônida Zeus poderoso,
coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso e desviado,
as quais se afanam no encalço da Culpa, tentando alcançá-la.
Esta é, porém, vigorosa e de pés mui velozes; por isso
a todas elas se adianta, causando, onde quer que se encontre,
dano aos mortais, ao que as Preces procuram, depois, dar remédio.
Quem, a estas filhas de Zeus, ao chegarem, demonstra respeito,
delas obtém só vantagens, por serem seus votos ouvidos.
Mas se, obstinados, os homens ouvidos, acaso, lhes negam,
as Preces, logo, a Zeus Crônida sobem e, instantes, suplicam
que sempre a Culpa os torture e que tenham, com o dano, o castigo.
Por isso, Aquiles, concede a essas filhas de Zeus o devido
acatamento, que heróis valorosos já têm conquistado.
Se não te houvesse Agamémnone dons ofertado, além de outros
que te promete, mas ainda insistisse em mostrar-se zangado,
não te viria exortar, certamente, a suster a tua cólera
para ajudar os Acaios, embora careçam de auxílio.
Dá-te, porém, muitas coisas, e dons mais valiosos promete,
e te mandou, com pedido, em seu nome, os varões mais conspícuos
do acampamento, escolhendo os Argivos que mais estimavas.
Não menosprezes, portanto, seus passos e quanto disseram,
que, antes, a tua atitude nós todos assaz a exculpávamos.¹
“As próprias gestas de heróis das idades corridas nos dizem
que, quando, acaso, ficavam possuídos de cólera grande,
eram sensíveis a brindes, dobrando-se à força suasória.
Ora, meus caros amigos, me ocorre contar-vos um caso
nada recente, bem velho, tal como se deu, em verdade.
De certa vez os Curetes e os fortes Etólios, à volta de
Calidona lutavam, causando recíproco estrago.
Estes, lutando em defesa da bela cidade; os Curetes,
só desejosos de que Ares entrar as muralhas lhes desse.
Foi provocada a contenda por Ártemis do trono de ouro,
que se indignara por não ter de Eneu recebido as primícias
dos agros pingues, quando este ofertou hecatombes aos deuses
todos do Olimpo, excetuando-se a filha de Zeus, tão somente,
ou por descuido, ou de caso pensado, o que a fez irritar-se.
Por isso, pois, agastada, a donzela que flechas dispara,
um javali de alvos dentes, selvagem, envia contra ele,
que, destruidor habitual, as culturas de Eneu danifica.
Árvores grandes fazia tombar pelo solo e, com elas,
suas raízes, no tempo em que a flor prometia sementes.
Foi por Meléagro, filho de Eneu, o animal, então, morto,
pós haver feito reunir caçadores de muitas cidades
e seus mastins; impossível a poucos seria vencê-lo,
tão grande ele era, pois muitos já à pira funesta mandara.
Entre os Etólios galhardos e os homens Curetes valentes
a deusa, então, suscitou clamorosa contenda, por causa
da pele hirsuta do grande javardo e da enorme cabeça.
“Enquanto o forte Meléagro esteve a lutar, o Destino
para os Curetes foi sempre contrário, pois fora dos muros,
ainda que em número grande, lhes era impossível manter-se.
Mas, quando o peito do herói foi tomado pela ira que a muitos
outros, também, já turvara, dotados, embora, de siso,
contra Alteia, sua mãe, irritado ficou o guerreiro,
foi para junto da esposa legítima, a bela Cleópatra,
filha da filha de Eveno, Marpessa, dos belos artelhos,
e do grande Idas, o herói mais robusto de quantos outrora
na terra extensa viveram, que até contra Febo tomara
do arco, por causa da noiva estimada, de artelhos venustos.
A esta, por isso, no belo palácio, o apelido de Alcíone
os próprios pais lhe puseram, porque o sofrimento dessa ave
à mãe coubera, também, que profundos lamentos soltava,
quando se vira raptada por Febo, o frecheiro infalível.
Junto da esposa, agastado, deixou-se ficar, por motivo
das maldições de sua mãe, que do irmão tendo a morte sentido,
aos deuses todos do Olimpo, sem pausa, orações dirigia.
Vezes sem conta à alma Terra com a mão percutiu, invocando
o nome de Hades escuro e Perséfone, a deusa tremenda,
posta de joelhos e o seio banhado de lágrimas quentes,
para que o filho fizessem morrer. Pelas duras Erínias,
que andam nas trevas, desde o Érebo, foi, logo, a súplica ouvida.
“Em torno às portas, entanto, o barulho e o clamor recrudescem;
as torres foram forçadas. Os velhos Etólios, nessa hora,
e os sacerdotes sagrados de mais reverência lhe pedem
que a defendê-los se ponha, ofertando-lhe muitos presentes.
Em Calidona aprazível, lhe dizem, um campo escolhesse,
onde terreno mais fértil achasse, podendo cinquenta
jeiras, ao todo, marcar; para vinha, do chão a metade;
a outra metade, sem árvores, só de terreno lavrável.
O velho Eneu picador também fez insistentes pedidos.
De pé, no umbral do aposento de teto elevado, sacode
as folhas firmes da porta, a chamar pelo nome do filho.
Muito, também, as irmãs lhe pediram e a mãe veneranda.
Mais firmemente, porém, se negava Meléagro. Pedem-lhe
os companheiros, com muita insistência, e os mais caros amigos.
O coração no imo do peito, porém, ninguém pôde abalar-lhe,
antes de o fogo lhe haver atingido o aposento e os Curetes
às altas torres subido e iniciado a conquista dos muros.
Foi nesse instante que a esposa do herói, de cintura bem-feita,
por entre choro lhe exora, fazendo relato completo
dos sofrimentos dos homens, se viesse a cair a cidade:
da morte vil e cruel que teriam, do incêndio das casas,
a servidão em que iriam ficar as mulheres e as crianças.
À relação desses males, alfim, comovido se mostra.
Sem mais detença correu a envergar a armadura brilhante.
Dessa maneira, afastou dos Etólios o dia funesto,
por próprio impulso levado. Sem paga os livrou do perigo,
pois dos presentes de grande valia nenhum lhe foi dado.
“Essa maneira de ver, caro amigo, não deve ser tua.
Nenhum demônio te instigue. Seria, sem dúvida, inglório
ir em defesa das naus incendiadas. Aceita os presentes
que te ofertaram. Os Gregos ter-te-ão como um deus do alto Olimpo.
Pois se enfrentasses a guerra homicida sem dádivas grandes,
honra menor te coubera, ainda mesmo que o imigo afastasses.”
Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, em resposta, o seguinte:
“Velho Fenice, nutrido por Zeus, de tais honras não curo;
são dispensáveis. Confio, isso sim, nos favores do Crônida,
que me farão demorar junto às naves recurvas, enquanto
sopro no peito tiver e os joelhos puderem mover-se.
Ora outra coisa te quero dizer; guarda-a bem no imo peito:
o coração não me venhas turvar com lamentos e queixas,
para ao Atrida agradares. Não deves amá-lo desta arte,
se não quiseres em ódio mudar a afeição que te voto.
Fica-te bem retribuir com ofensa a quem vier a ofender-me.
Vem partilhar do comando comigo; iguais honras te caibam.
Estes dirão a resposta. Aqui, pois, permanece, e ao macio
leito recolhe-te. Logo que a Aurora surgir, pensaremos
no que convém escolher; se ficar, se voltar para a pátria.”
Com o sobrecenho, depois, sem falar, fez a Pátroclo aceno
para que o leito mandasse aprontar, de Fenice, que, logo,
os outros dois no retorno pensassem, Ajaz Telamônio,
de forma igual à de um deus, proferiu as seguintes palavras:
“Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso,
vamos! Não creio que nosso propósito alcance algum êxito
por esta via. Ora cumpre, sem perda de tempo, a resposta
comunicar aos Argivos, embora bem ruim ela seja,
que eles, por certo, ainda estão reunidos, à espera. O Pelida,
de ira selvagem, somente inundou o magnânimo peito.
Homem cruel, que não preza a amizade dos fidos consócios,
essa com que o distinguíamos, junto de nossos navios!
Sem compaixão! É comum aceitar-se o resgate, até mesmo
pelo assassínio do irmão, pela morte do filho querido.
Fica o ofensor no país, quando multa adequada se acorda,
pois o ofendido refreia no peito a paixão excruciante
com receber os presentes. Rancor implacável e duro
no coração te puseram os deuses por causa, tão somente,
de uma cativa. No entanto, te damos sete outras, belíssimas,
e muitas dádivas mais. Assossega, portanto, o teu peito,
e tua casa respeita; encontramo-nos sob este teto
por comissão dos Acaios. Julgávamos, todos, te fôssemos
os mais prezados amigos no grande arraial dos Argivos.”
Disse-lhe Aquiles, dos rápidos pés, em resposta, o seguinte:
“Dominador poderoso de povos, Ajaz Telamônio!
Com quase todas as tuas palavras meu peito concorda.
O coração, porém, sinto indignar-se ao lembrar-me do insulto
que me atirou Agamémnone, em face do exército Aquivo,
como se eu fosse adventício de todo o valor destituído.
Ora fazei-vos de volta, e a resposta, que dei, transmiti-lhe.
Não tomarei decisão de tornar para a guerra cruenta,
antes que Heitor, o divino, de Príamo sábio nascido,
chegue até perto das tendas e naus dos heroicos Mirmídones,
e, a dizimar os guerreiros Aquivos, as naus incendeie.
Mas quero crer que aqui perto da tenda em que me acho e da nave
de cor escura há de Heitor valoroso refrear seus propósitos.”
Isso disse ele. Então, todos, tomando dos copos, libaram
junto das naus, regressando; servia Odisseu como guia.
Pátroclo, então, disse às servas e a seus companheiros que fossem
o leito cômodo, logo, aprontar para o velho Fenice.
Obedientes às ordens, o leito aprontaram, forrando-o
com velo e colcha macia e coberta de linho finíssimo.
O velho ilustre deitou-se, aguardando a chegada da Aurora.
Deita-se Aquiles, também, no recesso da tenda bem-feita,
com uma jovem ao lado, que havia trazido de Lesbo,
filha do grande Forbante, Diomeda de faces rosadas.
Pátroclo, no lado oposto, também se deitou, tendo ao lado
Ífis, de bela cintura, que Aquiles divino lhe dera
quando a cidade de Enieu valoroso, a alta Esciro, saqueara.
Logo que os dois emissários chegaram à tenda do Atrida,
viram-se pelos Argivos cercados, que, alçando-se prestes,
com taças de ouro os saudavam, ansiosos por tudo saberem.²
Foi o primeiro a falar Agamémnone, rei poderoso:
“Dize-me logo, Odisseu meritíssimo, glória da Acaia,
se ele consente em livrar os navios do fogo inimigo,
ou se se nega, por ter ainda o peito tomado pela ira?”
Disse-lhe, então, em resposta, Odisseu sofredor de trabalhos:
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso.
não só persiste na cólera, como se mostra tomado
pelo furor, recusando os presentes e tuas propostas.
Acha que deves, com os outros Argivos, pensar na maneira
de as naus e o exército Acaio salvar do perigo iminente.
Sim, chegou mesmo a ameaçar de que, logo que a Aurora se eleve,
há de puxar para as ondas as naves de boa coberta.
Acrescentou que aconselha aos demais que se façam de volta
para o torrão de nascença, que o termo jamais acharemos
de Ílio escarpada, que a mão protetora, sobre ela, Zeus, grande,
de voz potente, estendeu, reforçando a coragem do povo.
Meus companheiros, aqui, poderão confirmar o que digo,
o Telamônio e os arautos dotados de grande prudência.
O venerando Fenice ficou, a conselho de Aquiles,
para partir, juntamente com ele, amanhã muito cedo,
caso deseje, que contra a vontade, não há de levá-lo.”
Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram,
estupefatos perante a violência de suas palavras.
Por muito tempo em silêncio mantêm-se os turvados Aquivos,
té que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa:
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso!
Antes nenhuma proposta tivesses ao grande Pelida
apresentado, nem feito tão grandes promessas. Se já era
insuportável, tornou-se ainda mais insolente com isso.
Não mais devemos com ele ocupar-nos, quer volte, realmente,
quer se decida a ficar. Há de, alfim, reingressar nos combates,
quando lhe o peito ordenar ou algum deus o incitar a fazê-lo.
Satisfaçamos, primeiro, o desejo, com vinho e alimentos,
para irmos, logo, dormir, que isso as forças restaura e a coragem.
E, quando a Aurora, de dedos de rosa, surgir no horizonte,
a postos põe, junto às naves, os homens e os carros de guerra,
e para a luta os incita; tu próprio lhes sê alto exemplo.”
Todos os chefes presentes romperam em francos aplausos
de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.
As libações completadas, às tendas, depois, se acolheram,
onde gozaram, deitados, dos gratos presentes do Sono
A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
________________ [1] Versos 496 a 523, traduzidos de forma clássica.
Esta passagem do Canto IX da Ilíada (conhecida como a "Alegoria das Preces", ou Litai) é uma das joias filosóficas e retóricas mais fascinantes de toda a poesia homérica. Nela, o velho Fênix tenta dobrar o orgulho irredutível de Aquiles. Nesse trecho, Fênix, o velho mestre e figura paterna de Aquiles, tenta persuadir o herói a abandonar sua ira implacável contra Agamemnon e a aceitar os presentes de reconciliação tr azidos pela embaixada grega. * O Mito das Preces (Litai) e da Culpa (Até) - A Culpa (Até): É descrita como vigorosa, rápida e de pés ligeiros.Ela se adianta e espalha o mal e o dano entre os homens.Representa a impulsividade, a arrogância (hubris) ou o erro que irrompe de forma súbita. - As Preces (Litai):São filhas de Zeus, mas são retratadas de forma paradoxal — "coxas, de pele enrugada e de olhar indeciso". Elas caminham devagar, arquejando no encalço da Culpa, tentando reparar o estrago. Fênix está argumentando que o erro e o conflito (representados pelo atrito entre Agamemnon e Aquiles) são inevitáveis na condição humana.No entanto, o que define a grandeza de um herói não é a infalibilidade, mas sim a capacidade de ceder ao remédio da reconciliação. - Se o homem acolhe as Preces (as ofertas de paz e pedido de perdão), ele é abençoado. - Se o homem é obstinado e orgulhoso, recusando-as, as Preces recorrem ao próprio Zeus, fazendo com que a Culpa (Até) retorne para esmagar o transgressor com o castigo. Fênix está, na prática, fazendo um alerta profético: a recusa cega de Aquiles em aceitar os presentes e perdoar o comandante grego deixará de ser uma defesa de sua honra e passará a ser uma desmedida (hubris), o que acabará por atrair a desgraça sobre os próprios gregos e sobre o próprio Aquiles (culminando na morte de Pátroclo).
[2] A resposta de Aquiles, contida neste trecho, marca o clímax e o fracasso absoluto da Embaixada a Aquiles.
Enquanto Ájax Telamônio (que fala logo antes desse trecho) tenta apelar para a solidariedade de Aquiles com os companheiros em sofrimento, Aquiles demonstra que sua ferida é, acima de tudo, narcísica e profunda: o insulto público de Agamemnon fferiu sua honra (timé) de forma irreparável diante de todo o exército.
* A Resposta Irredutível e a Estética da Honra - O orgulho ferido: Aquiles admite que o raciocínio de Ájax faz sentido, mas o rancor ("o coração... sinto indignar-se") é mais forte. Ele não aceita ser tratado como um pária ("como se eu fosse adventício de todo o valor destituído").
- O limite traçado por Aquiles: Ele cede apenas parcialmente à pressão dos amigos, estabelecendo uma linha vermelha tática e psicológica. Ele não voltará a lutar agora, mas impõe uma condição quase fatal para os gregos: só entrará no combate se Heitor e os troianos avançarem a ponto de incendiar as frotas dos mirmidões e ameaçar suas próprias tendas.
* A Ironia Trágica
- Ao desejar que Heitor avance até as naus para só então agir, Aquiles está, sem saber, selando o destino de seu melhor amigo, Pátroclo (que aparece logo depois mandando preparar a cama para Fênix).
- É justamente quando os troianos chegam às naus e começam a incendiá-las que Pátroclo pedirá a armadura de Aquiles emprestada para conter o inimigo — o que resultará na morte de Pátroclo pelas mãos de Heitor, o evento que finalmente trará Aquiles de volta à guerra sedento de vingança. * A Calmaria Doméstica em Contraste com a Crise Épica
É fascinante notar a transição cinematográfica que Homero faz no final do trecho: - De um lado, temos a alta política, a guerra iminente e a diplomacia frustrada entre os maiores heróis da Hélade.
- De outro, o texto desce para o interior das tendas, mostrando os detalhes cotidianos e humanos daquela noite de trégua tensa: Pátroclo preparando o leito para o velho Fênix, e os heróis recolhendo-se com suas companheiras cativas (como Diomeda e Ífis). Esse contraste realça a tragédia — o silêncio e o repouso antes da tempestade devastadora que o Canto XVI trará.
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”
continuando...
Pede e deseja que a Aurora divina depressa apareça,
e, ameaçador, já promete cortar os aplustres das naves,
a estas destruir pelo fogo voraz, e os guerreiros Aquivos,
pela fumaça estonteados, matar junto às naves simétricas.
Grande receio de mim se apodera, que os deuses permitam
que essas ameaças se cumpram, se acaso assentou o Destino
que longe de Argos fecunda morramos, nos campos de Troia.
Vamos, levanta-te, caso tenciones salvar os Aquivos,
ainda que tarde, da grande pressão dos guerreiros Troianos.
Grande aflição tu, também, hás de ter, que é impossível remédio
para a desgraça passada encontrar. Antes pensa no modo
como se possam livrar os Acaios do dia funesto.
Lembra-te, caro, de quanto te disse Peleu no momento
em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamémnone:
‘Filho querido, Hera e Atena te deem força ingente, no caso
de o desejarem; mas seja teu firme propósito o orgulho
na alma refrear. É melhor que te mostres em tudo mais brando.
A Ira, fautora de males, de ti sempre afasta que possam
moços e velhos Aqueus conceder-te atenção respeitosa.’
Esse, o conselho do velho, de que te esqueceste. Refreia
a ira que tua alma consome. Agamémnone manda ofertar-te
dons preciosíssimos, caso aplacares a cólera grande.
Se te encontrares disposto a escutar-me, dir-te-ei tudo quanto
ele, hoje mesmo, na tenda nos disse que havia de dar-te:
“Trípodes sete, sem uso de fogo, dez áureos talentos,
vinte caldeiras brilhantes e doze cavalos robustos
acostumados a prêmios ganhar, campeões de corrida.
Fora impossível dizer que de campos aráveis carece,
ou do ouro muito apreciado, o indivíduo que vier a possuí-los,
tal a importância dos prêmios que os fortes corcéis lhe ganharam.
Dá-te, outrossim, sete escravas prendadas, trazidas de Lesbo,
quando tu próprio aquela ilha arrasaste; ficaram para ele,
por serem todas formosas acima das outras mulheres.
Tuas serão; mais ainda: acrescenta a Briseide, formosa,
que te tirara, fazendo, de grado, uma jura solene
de nunca ter ao seu leito subido, nem com ela deitado,
como é de costume, ó Pelida! varões a mulheres se unirem.
Isso dar-te-á desde já; mas se os deuses eternos, um dia,
nos permitirem tomar a cidade altanada de Príamo,
hás de presente ficar quando a presa os Aqueus dividirmos,
e de ouro e bronze a mancheias prover teu navio bojudo.
Vinte mulheres Troianas, também, ficarão à tua escolha,
as mais formosas depois da mais bela de todas, Helena.
Se para os campos ubérrimos de Argos de Acaia voltarmos,
genro hás de ser-lhe; honrar-te-á, sem fazer distinção, como a Orestes,
seu filho amado, que vive cercado de grande opulência.
Três filhas tem em seu bem-construído palácio: Crisótemis,
Ifianassa e Laódice. Aquela que for de teu gosto,
sem que te vejas forçado a pagar dote algum, para casa
podes levar de Peleu. Preciosíssimos dons te oferece
e em tanta cópia, tal como jamais alcançou filha alguma.
Sete cidades também te dará, populosas e belas:
Hira de prados ervosos, Enope e, também, Cardamila,
Feras divina, a dos prados famosos e pingues, Anteia,
Pédaso, célebre por suas vinhas, e Epeia risonha,
todas marinhas, não longe da Pilo de solo arenoso.
Muitos senhores de gado infinito e de armentos vistosos
nelas demoram, que, certo, honrar-te-ão qual um deus do alto Olimpo,
e que, ao teu cetro submissos, tributos dar-te-ão copiosíssimos.
Tudo isso, disse, dar-te-á, se acalmares tua cólera grande,
mas, se no peito só abrigas rancor contra o Atrida Agamémnone
e seus presentes, apiada-te ao menos da grande apertura
de todo o exército. Qual um dos deuses serás venerado
pelos Aqueus e hás de glória infinita alcançar entre todos.
Ora te fora possível prender esse Heitor, que funesta
raiva conduz para perto de ti e se diz, jactancioso,
muito mais forte que quantos Aqueus nossas naus conduziram.”¹
Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, em resposta, o seguinte:
“Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso,
é necessário dizer-vos, agora, com toda a clareza,
meu pensamento e a intenção em que me acho de em prática pô-lo,
para evitar que aturdir não me venham de todos os lados.
Tal como do Hades as portas, repulsa me causa a pessoa
que na alma esconde o que pensa e outra coisa na voz manifesta.
Ora pretendo falar como julgo ser mais proveitoso.
Nem Agamémnone, certo, nem outro qualquer dos Aquivos,
conseguirá convencer-me, pois graça nenhuma me veio
de meu esforço incessante ao lutar contra os nossos imigos.
Tanto ao ocioso, que ao mais esforçado, iguais prêmios são dados;
as mesmas honras se outorgam ao fraco e ao herói mais galhardo.
Morre da mesma maneira o inativo e o esforçado guerreiro.
Vede! Nenhuma vantagem me veio de tantos trabalhos,
a pôr em risco a existência nos mais temerosos combates.
Tal como aos filhos implumes costumava levar a avezinha
grato alimento depois de o encontrar, sem que em si mesma pense:
de igual maneira tenho eu muitas noites insones passado
e dias cheios de sangue no horror dos combates, lutando
contra inimigos, somente por causa de suas mulheres.
Com minhas naus destruí doze grandes e fortes cidades,
e onze por terra, asseguro-o, nos plainos fecundos de Troia
De todas elas voltei carregado de espólio magnífico,
que, sempre, ao filho de Atreu, Agamémnone, era uso, levava,
o qual soía ficar para trás, junto às céleres naves.
Disso, bem pouco entre nós dividia; ficava com tudo,
do que, depois, presenteava os heróis mais distintos e os chefes.
Estes, ainda conservam seus prêmios; eu, só dos Aquivos
fui despojado; tirou-me a querida consorte. Pois goze-a!
durma com ela! Qual foi o motivo de Aqueus e Troianos
digladiarem? Por que tanta gente reuniu Agamémnone
e para cá transportou? Não por causa de Helena formosa?
Ou, porventura, entre os homens, somente os Atridas demonstram
ter às esposas afeto? Qualquer indivíduo de senso
e bem-nascido, à consorte demonstra afeição, como o faço,
que a minha muito adorava, apesar de ser presa de guerra.
Ora que veio enganar-me, tirando-me o prêmio devido,
não julgue nunca poder convencer-me, pois bem o conheço;
mas, juntamente contigo, Odisseu, e os demais comandantes,
pense no modo de as naves livrar da voragem do fogo.
Sem meu auxílio já pôde fazer muitas coisas grandiosas;
sim, conseguiu construir esse muro e, ainda mais, protegido
por fosso largo e profundo, provido de fortes estacas.
Mas nem assim pode a força deter desse Heitor homicida.
Enquanto parte eu tomava nas lutas, ao lado dos outros,
nunca ele quis combater muito longe dos muros de Troia.
Té às Portas Ceias chegava e à figueira que perto lhe fica,
onde, uma vez, me esperou; por bem pouco escapou de meu ímpeto.
Ora que nada me induz a lutar contra Heitor, o divino,
cedo, amanhã sacrifícios farei a Zeus grande e aos eternos,
e deitarei meus navios nas ondas, depois de providos.
Tu próprio, certo, hás de ver, se o quiseres e se isso te importa
pelo Helesponto piscoso, bem cedo, eles todos partirem
e, neles, homens alegres, à força de remo impelindo-os.
E se Posido, que a terra sacode, nos der ventos prósperos,
no solo fértil de Ftia estaremos no dia terceiro.
Quando, por minha desgraça, parti, lá deixei bens inúmeros,
que aumentarei com o que levo, muito ouro e, também, bronze rubro,
ferro brilhante e formosas escravas de bela cintura,
quanto ganhei nas partilhas. O que ele, o possante Agamémnone,
me tinha dado, valendo-se agora da força, tomou-me.
Publicamente lhe faze um relato completo de tudo
quanto te disse, porque outros Acaios, também, se revoltem,
caso ele tenha intenção de enganar mais alguém entre os Dânaos,
com sua usual imprudência. Contudo, não teve coragem,
esse cachorro, de olhar-me, apesar de despido de brio.
Cooperação é impossível haver, por palavras ou obras,
pois me enganou e ofendeu. Não me venha enganar novamente
com seus discursos inúteis. Já basta! Sozinho, acompanhe
o seu destino funesto; do senso o privou Zeus potente.
São-me seus brindes odiosos e abaixo do mínimo preço.
Ainda que o décuplo viesse ofertar-me e até mesmo outro tanto,
quanto possui no presente e o que possa ganhar em futuro,
as coisas todas que afluem para Orcómeno ou para a famosa
Tebas Egípcia, onde as casas pejadas de bens sempre se acham,
e que cem portas ostenta, cada uma das quais dá passagem
a combatentes duzentos, seus carros de guerra e cavalos;
ainda que mais me ofertasse que a poeira ou que a areia das praias,
nem mesmo assim poderia a vontade dobrar-me, Agamémnone,
sem que, primeiro, té o fim, tal ofensa pesada me pague.
Com a donzela do Atrida jamais firmarei sacras núpcias,
mesmo que fosse dotada de encantos, como a áurea Afrodite,
e à de olhos glaucos, Atena, igualar-se em trabalhos de preço
não a quisera esposar. Entre os moços Acaios deve ele
genro escolher que lhe seja condigno e de igual importância.
Se eu conseguir, com a ajuda dos deuses, voltar para a pátria,
há de Peleu, por sem dúvida, esposa saber escolher-me.
Muitas donzelas Acaias em Ftia se encontram, e na Hélade,
filhas de grandes heróis, defensores de nossas cidades.
Da que me for mais do agrado, farei minha fiel companheira.
O coração generoso já mostra desejos, há muito,
de que legítima esposa, afinal, a escolher me resolva,
para gozar das riquezas que o velho Peleu tem em casa.
A minha vida, sem dúvida, vale bem mais do que quanto
dizem que Troia possuía, a cidade de belo traçado,
antes, em tempo de paz, sem que houvessem chegado os Aquivos
e dos tesouros que dentro se encontram da pétrea soleira
de Febo Apolo, o frecheiro esplendente, na rocha de Pito.
Arrebanhar bois tardonhos e ovelhas vistosas é fácil,
trípodes belas comprar ou cabeças de louros ginetes;
mas a alma humana, uma vez escapada do encerro dos dentes,
não mais se deixa prender, sem podermos, de novo, ganhá-la.
Tétis, a deusa dos pés argentinos, de quem fui nascido,
já me falou sobre o dúplice Fado que à Morte há de dar-me;
se continuar a lutar ao redor da cidade de Troia,
não voltarei mais à pátria, mas glória hei de ter sempiterna;
se para casa voltar, para o grato torrão de nascença,
da fama excelsa hei de ver-me privado, mas vida mui longa
conseguirei, sem que o temor da Morte mui cedo me alcance.
A todos vós quero dar o conselho, também, de embarcardes
e para a pátria seguirdes; jamais podereis ver o termo
de Ílio escarpada, que a mão protetora sobre ela Zeus grande,
de voz potente, estendeu, reforçando a coragem do povo.
Ide, entretanto, anunciar aos mais nobres guerreiros Aquivos
minha resposta — que é esse o dever dos anciões do conselho —,
para que possam pensar noutro plano de mais eficiência,
que lhes permita salvar os navios e os homens que se acham
junto das naves recurvas, que o que eles, agora, tentaram,
é impraticável; não tenho intenção de afrouxar do propósito.
Deixe-se, entanto, Fenice ficar entre nós esta noite,
para que possa, amanhã, retornar para a pátria, se acaso
for do seu gosto; a ninguém levarei contra a própria vontade.”
Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram,
estupefatos perante a violência de sua resposta,
té que, chorando, a falar começou o ginete Fenice,
pois tinha muito receio que às naus algum mal sucedesse:
“Se, nobre Aquiles, de fato, pretendes voltar para a pátria,
e te recusas, de todo, a livrar os navios Acaios
do voraz fogo, uma vez que ainda a cólera o peito te inflama,
como é possível, meu filho, pensares que eu possa ter vida
longe de ti? Por Peleu fui mandado seguir-te, no dia
em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamémnone,
ainda na infância, igualmente inexperto nas guerras penosas
e nos discursos das ágoras, onde os heróis se enaltecem.
Sua intenção foi que viesse contido, porque te ensinasse
como dizer bons discursos e grandes ações pôr em prática.
Por isso tudo, meu filho, sem ti continuar não desejo,
ainda que um deus, em pessoa, me viesse fazer a promessa
de me tirar a velhice e, de novo, o vigor restituir-me
da mocidade que na Hélade tinha, de belas mulheres,
quando fugi, por brigar com meu pai, filho de Ormeno, Amíntor,
que ódio me tinha por causa da amante de belos cabelos.
A essa, afeição dedicava, esquecendo a consorte legítima,
que me era mãe e vivia a pedir-me, abraçando-me os joelhos,
que à bela escrava eu me unisse, porque esta voltasse ódio ao velho.
Obedeci-lhe, alcançando o almejado. Meu pai, quando o soube,
amaldiçoou-me, e chamou contra mim as odiosas Erínias,
para que nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe,
de mim nascido; atenderam-lhe a súplica os deuses eternos,
Hades, o deus subterrâneo, e Perséfone, deusa terrível.
Tive o desígnio de a vida tirar-lhe com bronze afiado;
mas a ira um deus me acalmou, dando-me azo, a que, então, refletisse
na triste fama com que passaria a viver entre o povo,
se ‘parricida’ ao meu nome juntasse entre os homens da Acaia.
O coração, no imo peito, não quis que, por tempo mais longo,
me demorasse na casa em que odioso ao meu pai me tornara,
ainda que muitos parentes e primos assaz se esforçassem
à minha volta, com o fim de evitar que deixasse o palácio.
Muitas ovelhas vistosas e bois que se arrastam tardonhos
sacrificaram, e infindos cevados de flórido lardo,
que, para assarem, passavam por cima da chama de Hefesto.
Quantos pichéis de bom vinho do velho infeliz não beberam?
Por nove noites seguidas dormiram alguns ao meu lado,
a se alternarem na guarda e mantendo dois fogos constantes,
um, junto ao pórtico, dentro do pátio de cerca bem-feita,
e no vestíb’lo, o segundo, defronte da porta do quarto.
Mas, quando a décima noite, afinal, tenebrosa nos chega,
uma das sólidas portas do quarto arrombar, enfim, pude,
e do aposento esgueirar-me, saltando o cercado do pátio,
sem que o advertissem os guardas nem mesmo as serventes da casa.
Daí, fugitivo, percorro toda a Hélade de amplas estradas,
té dar no solo fecundo de Ftia, nutriz de rebanhos,²
A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
________________ [1] Trata-se do discurso de Odisseu (Ulisses) quando este, liderando a embaixada enviada por Agamémnone, tenta convencer Aquiles (o Pelida) a depor sua ira (mênis), aceitar os ricos presentes de reconciliação e retornar ao combate para salvar os aqueus (gregos) que sofrem grandes perdas nas mãos de Heitor e dos troianos. A Embaixada a Aquiles: O texto reproduz as palavras exatas que Agamémnone prometera dar a Aquiles para aplacar seu orgulho ferido — uma compensação monumental que incluía: - Riquezas materiais: Trípodes, talentos de ouro, caldeiras e doze cavalos corredores vitoriosos. - Espólios e prisioneiros: Sete escravas de Lesbo e a própria Briseide (com o solene juramento de que Aquiles jamais havia tocado nela). - Futuras riquezas em Troia: A promessa de uma parte avantajada do tesouro quando a cidade de Príamo finalmente caísse, incluindo vinte mulheres troianas à sua escolha. - Aliança familiar e terras: A mão de uma das filhas de Agamémnone (Crisótemis, Ifianassa ou Laódice) em casamento, sem exigência de dote, além da posse de sete cidades costeiras ricas e populosas próximas a Pilos. O Apelo Final: O mensageiro apela ao brio e à compaixão de Aquiles pelos companheiros gregos sitiados, lembrando-lhe também a glória imorredoura que ganharia se derrotasse o herói troiano Heitor. Para compreender a profundidade deste discurso, vale a pena analisar o seu contexto, o significado dos presentes e a dimensão trágica da recusa de Aquiles. * O Contexto Dramático - A Crise dos Aqueus: O exército grego está à beira da ruína. Sem Aquiles em campo — que se retirara ofendido e furioso após Agamémnone lhe ter tomado a cativa Briseide no Canto I —, os troianos, liderados por Heitor, romperam as fortificações e ameaçam incendiar os navios gregos. - A Desesperação de Agamémnone: Vendo a iminência de uma derrota catastrófica, Agamémnone reconhece finalmente o seu erro (a até, a cegueira ou loucura temporária enviada pelos deuses) e concorda em ceder, enviando uma embaixada composta por Odisseu, Fénix e Ájax para oferecer uma reparação monumental a Aquiles. * A Oferta Exorbitante A lista de bens lida por Odisseu (que reproduz as palavras de Agamémnone) é expressivamente exagerada para os padrões da Idade do Bronze ou mesmo da época homérica. Ela simboliza não só a riqueza material, mas a honra (timé) que Agamémnone tenta devolver a Aquiles: - Riquezas imediatas: Os tripodes, os talentos de ouro e as caldeiras eram os tesouros de prestígio da aristocracia heroica. Os cavalos rápidos (campeões de corrida) eram particularmente valiosos para heróis que combatiam em carros de guerra. - A devolução de Briseide: O juramento solene de que Briseide nunca fora tocada por Agamémnone serve para restaurar a integridade física e simbólica de Aquiles, cuja honra fora maculada publicamente.
- A promessa do futuro e o poder político: Oferecer uma filha em casamento sem dote, ligando Aquiles à família real de Micenas, e doar sete cidades costeiras ricas equivalia a transformá-lo num rei com domínios vastos e vassalos próprios. * O Dilema de Aquiles e a Rejeição Apesar da grandeza espantosa da oferta, a resposta imediata de Aquiles no Canto IX é de recusa implacável. O Choque de Valores: Aquiles percebe que nenhum tesouro material pode compensar a humilhação pública que sofreu nem o tempo de vida que perderá. Ele vive o famoso dilema do geras (a honra expressa em espólios) e o seu destino profetizado: - Se ficar em Troia a combater, ganhará glória imortal (kleos asthiton), mas morrerá jovem. - Se regressar a casa para a Fítia, terá uma vida longa e pacífica, mas o seu nome cairá no esquecimento. A Irreversibilidade da Ira: Para Aquiles, as palavras de Agamémnone chegam tarde demais. A sua cólera (mênis) transcende a política ou a ganância; tornou-se uma questão existencial de princípio e de revolta contra a injustiça do próprio comando aqueu.
[2] Este belíssimo trecho dá continuidade ao Canto IX da Ilíada, mudando o foco para o discurso de Fénix, o velho mestre, aia e figura paterna de Aquiles. Enquanto Odisseu apelou à razão e às vantagens materiais da oferta de Agamémnone, Fénix recorre à emoção, à culpa e à biografia pessoal, tentando dobrar o coração irredutível do herói através da força do afeto. Principais Aspetos do Discurso de Fénix: * O Vínculo Afetivo e o Dever Moral: Fénix lembra a Aquiles que foi encarregado por Peleu (pai de Aquiles) de o acompanhar a Troia ainda em criança, para o ensinar a ser um orador de excelência e um homem de ação. Por esse motivo, Fénix afirma categoricamente que não conseguiria viver sem Aquiles, recusando-se a abandoná-lo, mesmo que os deuses lhe rejuvenescessem e lhe devolvessem a mocidade. * A História Pessoal de Fénix (O Exílio): Para ilustrar a profundidade da lealdade e a gravidade de uma ofensa familiar, Fénix revela a sua própria tragédia: - Conta como brigou com o seu pai, Amíntor, por causa da concubina deste (a pedido da própria mãe de Fénix, que desejava afastar a rival). - Devido a isso, foi amaldiçoado pelo pai e votado a nunca ter descendência ("nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe"). - Este paralelo é subtil e poderoso: Fénix, que foi rejeitado e exilado pelo próprio pai, encontrou em Aquiles o filho que nunca pôde criar, tornando-se o seu verdadeiro pai adotivo. * A Fuga e o Refúgio em Fítia: O relato detalha a sua fuga dramática de casa, a resistência dos familiares para o impedir de partir, e como acabou por chegar ao reino de Peleu, onde foi acolhido de braços abertos. A confissão de Fénix é uma das passagens mais humanas de toda a Ilíada. Mostra que a guerra de Troia não é apenas feita de ferro, sangue e glória, mas também de laços de profunda dependência afetiva. Apesar de toda esta carga emocional e da confissão de amor paternal, Aquiles continuará, para já, irredutível na sua decisão de não voltar ao combate imediato, demonstrando a dimensão absoluta e trágica da sua cólera.
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia.
Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos
Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles
junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por
Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles,
que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”
Por esse modo os Troianos velavam. No entanto, os Aquivos
pensam na Fuga, somente, comparsa do Medo gelado.
Té mesmo os mais destemidos guerreiros a dor os abate.
Como o oceano piscoso batido por ventos furiosos,
Zéfiro e Bóreas, no tempo em que sopram do lado da Trácia,
subitamente, fazendo que as ondas escuras se empolem,
acavaladas, e de algas a areia da praia revestem:
o coração dos Acaios, assim, se encontrava agitado.
O grande filho de Atreu, cujo peito a aflição consumia,
foi procurar os arautos de voz harmoniosa e lhes disse
que, pelos nomes, chamassem para a ágora os fortes guerreiros,
mas sem gritar. Dava exemplo ele próprio, também, esforçando-se.
Cheios de mágoa, assentaram-se. O Atrida levanta-se logo,
a derramar muitas lágrimas, como de fonte profunda
se precipita água escura de cima de penha altanada.
Vira-se para os Aqueus, a gemer fundamente, e lhes fala:
“Vós, conselheiros e guias dos homens Argivos, ouvi-me!
O grande Crônida, Zeus, em desgraça terrível me enleia,
ele, o maldoso, que havia asselado, antes disto, a promessa
de eu retornar para a pátria, depois de destruir Ílio forte.
Presentemente resolve enganar-me, ordenando que volte
sem glória alguma, para Argos, depois de perder tanta gente.
Isso, por certo, há de ser agradável a Zeus poderoso,
que já destruiu muitos muros e grandes e fortes cidades,
e há de arrasar muitas mais, pois imenso é o poder de seu braço.
Ora façamos conforme o aconselho; obedeçam-me todos:
para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves,
pois é impossível tomar a cidade espaçosa dos Teucros.”
Isso disse ele; calados e quedos os outros ficaram.
Por muito tempo em silêncio mantêm-se os turvados Aquivos,
é que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa:
A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
________________
[1] Este belo trecho da Ilíada (tradicionalmente situado no Canto IX, no qual os aqueus enfrentam um momento de profunda desesperança após reveses na guerra) apresenta um dos momentos mais dramáticos e reveladores da relação entre líderes, deuses e guerreiros na épica homérica.
* O Desespero dos Aqueus e a Comparação Homérica
A passagem começa contrapondo a vigília dos troianos ao pânico que consome os gregos (aqui chamados de Aquivos ou Acaios).
- O símile do oceano agitado: Para descrever a agitação no coração dos gregos, Homero recorre a uma de suas comparações mais expressivas da natureza. Os ventos violentos (Zéfiro e Bóreas) que agitam o mar piscoso e empurram as ondas e as algas espelham perfeitamente a mente coletiva dos aqueus: desordenada, revolta e instigada por forças externas maiores (neste caso, a pressão da derrota e a vontade divina). - A vulnerabilidade dos heróis: É marcante ver que "até mesmo os mais destemidos guerreiros a dor os abate" e que o poderoso Agamenon (o filho de Atreu / o Atrida) chora copiosamente, comparado a uma "fonte profunda" de água escura que despenca de um penhasco. Na epopeia, o pranto dos reis não é sinal de fraqueza vergonhosa, mas a expressão legítima de uma dor trágica diante de um fardo intransponível. * A Culpa Divina e a Proposta de Fuga de Agamenon Agamenon encarna o peso da responsabilidade e a angústia da liderança sob o desígnio dos deuses: - A ilusão do favor divino: O rei culpa Zeus (o grande Crônida), acusando-o de trair sua promessa de glória e retorno vitorioso após a queda de Troia (Ílio). - O teste ou o desespero real: Agamenon propõe abertamente a retirada geral ("para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves"). Embora por vezes se discuta se essa rendição inicial é um teste retórico para medir o ânimo das tropas, o texto transmite uma atmosfera de genuína prostração e exaustão física e mental após anos de cerco infrutífero. * A Coragem e a Oposição de Diomedes O silêncio mortal que se segue ao discurso de Agamenon é quebrado pela voz firme de Diomedes (filho de Tideu), um dos maiores heróis aqueus, cuja intervenção marca uma reviravolta moral no trecho: - Franqueza e autoridade: Diomedes desafia a ordem estabelecida com ousadia, relembrando Agamenon de que, embora tenha recebido de Zeus o cetro do comando supremo, faltou-lhe a virtude mais essencial de um líder em tempos de crise: a coragem (alkē). - A defesa do Kleos (Glória): Diomedes rejeita categoricamente a covardia e o retorno sem honra. Ele desafia Agamenon a ir embora se quiser, afirmando que ele e Esténelo (seu aliado) permanecerão lutando até destruir Troia, mesmo que todos os outros fujam. - A reação do exército: A resposta de Diomedes funciona como um catalisador psicológico. A "grita estrondosa" de assentimento dos Aqueus mostra que o exército precisava resgatar sua dignidade guerreira, trocando o desespero paralisante pelo brio heroico. Este trecho ilustra magistralmente a tensão central da Ilíada: a fragilidade humana diante do destino e da vontade dos deuses, contraposta à ética inflexível da honra heroica. Enquanto Agamenon cede ao peso das circunstâncias e pensa na desistência, Diomedes ergue-se como o baluarte da resistência, reafirmando que o verdadeiro guerreiro homérico prefere perecer a aceitar uma vida sem glória.
[2] Este trecho complementa perfeitamente a leitura do Canto IX da Ilíada, transportando-nos para uma das cenas mais famosas e humanas da epopeia: a Embaixada a Aquiles. Enquanto a primeira passagem mostrava o pânico e o desespero do exército grego, este trecho revela a intimidade, a hospitalidade e a gravidade diplomática que ocorrem na tenda de Aquiles (o divino Pelida). A análise desta passagem desdobra-se nos seguintes aspectos fundamentais: * O Banquete Heroico e a Hospitalidade (Xenia) Antes que qualquer palavra sobre guerra e política seja trocada, Homero segue rigorosamente o código arcaico da hospitalidade (xenia): os hóspedes devem ser recebidos, alimentados e purificados antes de apresentarem suas demandas. - O papel de Pátroclo: A figura de Pátroclo é central aqui. Ele atua como o braço direito leal, executando as ordens de Aquiles com presteza ("obedecendo ao amigo dileto"). A descrição minuciosa do abate, do corte das carnes (lombos de cabra, ovelha e o dorso de porco selvagem) e do preparo do fogo nos oferece um vislumbre fascinante dos rituais culinários da nobreza micênica. - O Sagrado e o Profano: O ato de espalhar "sal divino" e de Pátroclo lançar as primícias ao fogo como oferenda aos deuses lembra que o banquete é também um ato religioso. A ordem social é mantida através do compartilhamento da comida e da bebida (cratera de vinho forte). * A Quebra do Silêncio e a Retórica de Odisseu Com o apetite saciado, o tom muda. Há um sinal sutil entre Fenice e Ajaz, e Odisseu (o divo Odisseu), conhecido por sua astúcia e eloqüência, toma a palavra para cumprir a missão mais difícil de sua vida: convencer Aquiles a retornar à batalha. - Diplomacia e bajulação refinada: Odisseu começa reconhecendo a generosidade da mesa de Aquiles ("De lautos banquetes, de fato, não temos tido carência"), criando um ambiente de cortesia antes de expor a verdadeira urgência. - O senso de iminência do perigo: Odisseu expõe a vulnerabilidade extrema dos aqueus. Os troianos avançaram, acamparam perto dos navios, queimam fogueiras e contam com o favor direto de Zeus (manifestado pelos trovões à direita). - O apelo à responsabilidade de Aquiles: A fala de Odisseu prepara o terreno para o alerta definitivo: se Aquiles não vestir sua armadura e não usar sua força, a frota grega será destruída, selando o fracasso total da expedição. Enquanto no primeiro trecho Agamenon chorava e queria fugir, e Diomedes exigia bravura solitária, aqui percebe-se o momento de virada diplomática. Os líderes gregos engolem o orgulho e vão até a tenda daquele que haviam ofendido (Aquiles), implorando por sua ajuda. Este trecho é a calmaria tensa que antecede a famosa e intransigente recusa de Aquiles, marcando o ápice do conflito psicológico e do orgulho ferido que movem a tragédia homérica.