sábado, 6 de junho de 2026

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (31 de março - As coisas estão ruins.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     30 de março. 
          As coisas estão ruins. Eu escrevo estas linhas na cama. O tempo mudou repentinamente desde ontem. O dia está quente - quase um dia de verão. Tudo está descongelando, desmoronando, e correndo. Há um cheiro de terra lavrada no ar: um cheiro pesado, poderoso, opressivo. O vapor está subindo por toda parte. O sol está batendo, queimando bastante. Estou em mau estado. Sinto que estou em decomposição.
     Comecei a escrever um diário, e ao invés disso, o que eu fiz? Eu narrei um incidente da minha própria vida. Tenho balbuciado, lembranças adormecidas que me acordaram e me levaram embora. Escrevi com calma, em detalhes, como se ainda tivesse anos antes de mim; e agora, não há tempo para continuar. A morte, a morte está avançando. Já consigo ouvir o seu crescendo ameaçador. O tempo acabou.... O tempo acabou!...
      E onde está o mal? Faz alguma diferença o que eu disse? Na presença da morte, todas as últimas vaidades terrenas desaparecem. Sinto que estou me acalmando; estou me tornando mais simples, mais claro. Adquiri juízo, mas tarde demais!... É estranho! Estou crescendo imóvel - não é verdade, e, no entanto, estou tomado de pavor. Sim, estou dominado pelo pavor. Meia água sobre o abismo sem voz, bocejando, estremeço, me viro para o lado, com avidez de olhar em todas as direções. Cada objeto é duplamente querido para mim. Não consigo olhar para o meu pobre quarto, sem alegria, enquanto me despeço de cada pequena mancha nas minhas paredes! Adeus a vós mesmos pela última vez, olhos meus! A vida está se retirando; ela está fluindo de maneira uniforme e suave para longe de mim, como a margem dos olhares do viajante por mar. O rosto envelhecido e amarelo da minha governanta, preso num lenço escuro, o samovár sibilante sobre a mesa, o pote de gerânio em frente à janela, e tu, meu pobre cão, Trésor, a caneta com que eu indiquei estas linhas, minha própria mão, eu te vejo agora... aí estás, aí... É possível .... hoje talvez .... Eu não te verei mais? É doloroso para um ser vivo se separar da vida! Por que você bajula em mim, pobre cão? Por que encostas o teu peito na minha cama, aconchegando-te convulsivamente debaixo da tua cauda curta, e nunca me tiras os teus olhos tristes e bondosos? Tens pena de mim? Já sentes instintivamente que teu dono logo não existirá mais? Akh, se eu pudesse também passar em revista mentalmente todos os objetos do meu quarto! Eu sei que essas lembranças são alegres e insignificantes, mas eu não tenho outras. Vazio, vazio assustador! como disse Liza.
     Oh, meu Deus! Meu Deus! Aqui estou eu morrendo.... Meu coração capaz de amar, e pronto para amar, logo deixará de bater... E será que ele será silenciado para sempre, sem ter saboreado nem uma vez a felicidade, sem ter um único momento inchado sob o doce fardo da alegria? Ai de mim! é impossível, impossível, eu sei... Se pelo menos agora, antes da minha morte - e a morte, ainda assim, é uma coisa sagrada, pois eleva todo ser - se alguma voz encantadora, triste, amiga, cantasse sobre mim a canção de despedida da minha própria desgraça, talvez eu pudesse me reconciliar com ela. Mas morrer é estúpido, estúpido...
     Eu acredito que estou começando a delirar.
     Adeus à vida, adeus ao meu jardim, e a vocês, minhas tílias! Quando chegar o verão, vejam que não se esqueçam de se cobrir de flores de cima para baixo.... e que as pessoas boas se deitem na sua sombra perfumada, na grama fresca sob o murmúrio apático de suas folhas, levemente agitadas pela brisa. Adeus, adeus! Adeus a tudo, e para sempre!
     Adeus, Liza! Eu escrevi estas duas palavras - e quase ri. Essa exclamação parece ser livre. Parece que estou compondo um romance sentimental, e terminando em uma carta desesperada...
     Amanhã é o primeiro de abril. Pode ser que eu morra amanhã? Isso seria bastante indecoroso mesmo. No entanto, isso me convém...
     Como o médico tagarelou hoje...

continua em... 1º de abril
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29 de março - Uma geada leve / 30 de março - Uma geada / 31 de março - As coisas estão ruins. /             
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção II)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção II
Da divisibilidade infinita do espaço e de tempo
     
     Onde quer que haja ideias que sejam representações adequadas de objetos, as relações, as contradições e as concordâncias das ideias são todas aplicáveis aos objetos; este é, conforme podemos observar em geral, o fundamento de todo o conhecimento humano. Ora as nossas ideias são representações adequadas das partes mais diminutas da extensão; e quaisquer que sejam as divisões e subdivisões pelas quais nós suponhamos atingir estas partes, elas jamais podem tornar-se inferiores a certas ideias que formamos. A consequência manifesta é que tudo o que parece impossível e contraditório quando se comparam estas ideias, tem de ser na realidade impossível e contraditório, sem qualquer desculpa ou fuga possível.
     Toda a coisa susceptível de divisão até ao infinito contém um número infinito de partes; se não, a divisão bem depressa seria interrompida pelas partes indivisíveis a que imediatamente chegaríamos. Se portanto uma extensão finita é divisível até ao infinito, não será contraditório supor que uma extensão finita contém um número infinito de partes; e vice versa, se é contraditório supor que uma extensão finita contém um número infinito de partes, nenhuma extensão finita pode ser divisível até ao infinito. Mas tendo em consideração as minhas ideias claras facilmente me convenço que esta segunda suposição é absurda. Tomo primeiro a menor ideia que possa formar de uma parte da extensão e, certo de que não há nada mais diminuto do que esta ideia, concluo que tudo quanto eu descubra me diante ela deve ser uma qualidade real da extensão. Depois repito esta ideia uma, duas, três vezes, etc., e descubro que a ideia composta de extensão, originada da sua repetição, aumenta sempre e torna-se dupla, tripla, quádrupla, etc., até se dilatar constituindo enfim uma massa considerável, maior ou menor, na proporção em que repito mais ou menos a mesma ideia. Quando suspendo a adição de partes, a ideia de extensão para de aumentar, e vejo claramente que, se continuasse a adição in infinitum, a ideia de extensão deveria também tornar-se infinita. De modo geral, concluo que a ideia de um número infinito de partes é individualmente a mesma que a ideia de uma extensão infinita; que nenhuma extensão finita é susceptível de conter um número infinito de partes; e que, por conseguinte, nenhuma extensão finita é divisível ao infinito¹.

[1] Têm-me objetado que a divisibilidade infinita supõe apenas um número infinito de partes proporcionais e não de partes alíquotas, e que um número infinito de partes proporcionais não forma uma extensão infinita. Mas esta distinção é inteiramente fútil. Quer estas partes se chamem alíquotas ou proporcionais, elas não podem ser inferiores àquelas partes diminutas que concebemos; e portanto não podem pela sua con junção formar uma extensão menor.

     Posso acrescentar outro argumento proposto por um autor conhecido², o qual me parece muito válido e belo. É evidente que a existência em si mesma pertence apenas à unidade e jamais pode ser atribuída ao número, a não ser em razão das unidades de que o número é formado. Pode dizer-se que vinte homens existem, mas apenas porque um, dois, três, quatro homens, e assim por diante, existem, e se se negar a existência dos últimos, desaparece naturalmente a dois primeiros. É portanto completamente absurdo supor a existência de qualquer número, negando ao mesmo tempo a existência· de unidades; e como a extensão é sempre um número, de acordo com a opinião comum dos metafisicas, e nunca se converte numa unidade ou quantidade indivisível, segue-se que a extensão não pode de forma alguma existir. E inútil responder que uma quantidade determinada de extensão é uma unidade, mas tal que admite um número infinito de frações e é inesgotável nas suas subdivisões; porque, pela mesma razão, estes vinte homens podem considerar-se como uma unidade. O globo terrestre todo, ou mesmo o universo inteiro pode considerar-se como uma unidade. O termo unidade é uma denominação puramente artificial que a mente pode aplicar a qualquer quantidade de objetos por ela reunidos; e uma tal unidade não pode existir isoladamente mais do que um número, sendo como é na realidade um verdadeiro número. Mas a unidade, que pode existir isoladamente e cuja existência é necessária à de todos os números, é doutro gênero e tem de ser perfeitamente indivisível e não susceptível de se reduzir a qualquer unidade inferior.

[2] Malezieu.

     Todo este raciocínio aplica-se ao tempo, juntamente com um argumento adicional que convirá notar. É propriedade inseparável do tempo, constituindo de certo modo a sua essência, que cada uma das suas partes se suceda a outra e que não haja duas dentre elas que, embora contíguas, possam jamais coexistir. Pela mesma razão que o ano de 1737 não pode coincidir com o ano corrente de 1738, cada momento tem de ser distinto e posterior ou anterior a outro. É pois certo que o tempo, tal como existe, deve compor-se de momentos indivisíveis. Com efeito, se no tempo jamais pudéssemos chegar ao fim da divisão e se cada momento, ao suceder a outro, não fosse perfeitamente simples e indivisível, haveria um número infinito de momentos coexistentes, ou partes do .tempo; o que, segundo penso, será considerado uma flagrante contradição.
     A divisibilidade infinita do espaço implica a do tempo, como evidencia a natureza do movimento. Se portanto esta é impossível, também aquela deve sê-lo.
     Não duvido de que os defensores mais obstinados da doutrina da divisibilidade infinita concordarão facilmente que estes argumentos constituem dificuldades e que não se lhes pode dar uma resposta perfeitamente clara e satisfatória. Mas podemos aqui observar que nada há mais absurdo do que este hábito de chamar dificuldade àquilo que se propõe como demonstração, tentando dessa forma anular-lhe a força e evidência. Nas demonstrações não é como nas probabilidades em que podem intervir dificuldades e em que um argumento pode contrabalançar outro e diminuir-lhe a autoridade. Uma demonstração, sendo justa, não admite dificuldade contrária; não sendo justa, é um puro sofisma e por conseguinte jamais pode constituir dificuldade. Ou é irresistível, ou não tem qualquer força. Portanto, falar de objecções e respostas e comparar argun1entos numa questão desta natureza ou é confessar que a razão humana não é senão um jogo de palavras, ou que a própria pessoa que assim fala não tem capacidade à altura de tais matérias. As demonstrações podem ser difíceis de compreender em virtude do carácter abstrato do assunto, mas uma vez que sejam compreendidas jamais podem ter dificuldades tais que enfraqueçam a sua autoridade.
     É certo, como provavelmente dirão os matemat1cos, que aqui há argumentos igualmente fortes para a visão oposta desta questão, e que a doutrina dos pontos indivisíveis também está sujeita a objeções irrespondíveis. Antes de examinar estes argumentos e objeções em pormenor, tomá-los-ei aqui globalmente, tentando provar já, pela apresentação de uma razão curta e incisiva, que é de todo impossível receberem qualquer fundamento legítimo.
     É máxima estabelecida da metafisica que tudo aquilo que o espírito claramente concebe encerra a ideia de existência possível ou, por outras palavras, nada do que imaginamos é absolutamente impossível. Podemos formar a ideia de uma montanha de ouro, e daí concluímos que tal montanha pode de fato existir. Não podemos formar a ideia de uma montanha sem um vale, e por isso consideramo-la impossível.
     Ora não há dúvida de que temos uma ideia da extensão; de contrário, por que falamos e raciocinamos sobre ela? É igualmente certo que esta ideia, tal como a concebe a imaginação, embora sendo divisível em partes ou ideias inferiores, não é infinitamente divisível nem consiste num número infinito de partes; porque isso ultrapassa a com preensão das nossas limitadas capacidades. Eis aqui pois uma ideia da extensão que consta de partes ou ideias inferiores, as quais são perfeitamente indivisíveis; por consequência esta ideia não implica contradição; por consequência pode existir na realidade uma extensão correspondente a esta ideia; e por consequência todos os argumentos usados contra a possibilidade dos pontos matemáticos são puros sofismas escolásticos, que não merecem a nossa atenção.
     Podemos levar estas consequências um pouco mais longe, concluindo que todas as pretensas demonstrações da infinita divisibilidade da extensão são igualmente sofisticas, pois não há dúvida de que estas demonstrações não podem ser legítimas sem que se prove a impossibilidade dos pontos matemáticos; e pretender isto é um evidente absurdo.

continua na página 70...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I / Seção II /     
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Por mais dura que fosse)

 em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

    Por mais dura que fosse a palavra "lacaio" aos ouvidos de Morel, cujo pai fora lacaio, mas justamente porque o fora, a explicação de todas as desventuras sociais pelo "ciúme", explicação simplista e absurda, mas que não se desgasta, e que, em determinada classe, "pega" sempre de modo tão infalível como os velhos truques junto ao público dos teatros, ou a ameaça do perigo clerical nas assembleias, encontrava nele um crédito quase tão forte como em Françoise ou nos criados da duquesa de Guermantes, para quem era a causa única dos males da humanidade. Não duvidou que seus camaradas tivessem tentado arrebatar-lhe o lugar e mais infeliz se sentia com aquele duelo calamitoso e, aliás, imaginário. 

- Oh, que desespero! - gritou Charlie. - Não sobreviverei a isto. Mas eles não devem vir vê lo antes de se encontrar com esse oficial? 
- Não sei, acho que sim. Mandei dizer a um deles que ficarei aqui esta noite e lhe darei as minhas instruções. 
- Espero que, até ele chegar, eu já possa ter feito o senhor recobrar a razão; permita-me apenas que permaneça a seu lado - pediu-lhe Morel com ternura. Era tudo o que o Sr. de Charlus desejava. Não cedeu logo. 
- O senhor faria mal em aplicar aqui o "quem muito ama, muito castiga" do provérbio, pois era ao senhor que eu amava muito, e pretendo castigar, mesmo após a nossa briga, aqueles que covardemente tentaram lhe fazer mal. Até agora, as suas insinuações indagativas, que ousavam me perguntar como é que um homem como eu podia ombrear-me com um gigolô de sua espécie, saído do nada, só respondi com a divisa de meus primos La Rochefoucauld: "É meu prazer." Eu mesmo lhe observei várias vezes que esse prazer era suscetível de tornar-se o meu maior prazer, sem que de sua arbitrária elevação resultasse um abaixamento para mim. -

     E, num movimento de orgulho quase louco, exclamou erguendo os braços: 

- Tantus ab uno splendor
[Do latim: "Tamanho esplendor [vindo] de um só." (N. do T)] 
- Condescender não é descer - acrescentou mais calmo, depois desse delírio de orgulho e alegria. - Espero ao menos que meus dois adversários, apesar de sua estirpe inegável, sejam de um sangue que eu possa fazer correr sem desonra. Sobre tal assunto, andei tomando algumas informações discretas que me deixaram tranqüilo. Se tem alguma gratidão por mim, deveria ao contrário sentir-se orgulhoso por ver que, por sua causa, retomo o temperamento belicoso de meus antepassados, dizendo como eles, no caso de um desfecho fatal: "A morte é vida para mim." -

     E o Sr. de Charlus dizia-o com sinceridade, não só por amor a Morel, mas também porque uma inclinação pelos combates, que ele ingenuamente acreditava herdar dos ancestrais, lhe dava tanta alegria à ideia de se bater que esse duelo, maquinado a princípio apenas para fazer com que Morel voltasse, fazia com que experimentasse agora uma certa mágoa em desistir dele. Jamais tivera uma questão qualquer sem se julgar logo valoroso e identificado ao ilustre conde de Guermantes, ainda que, em se tratando de outro, esse mesmo ato de marchar para o campo de honra lhe parecesse da última insignificância. 

- Creio que será muito bonito - disse-nos com sinceridade, salmodiando cada palavra. - Ver Sarah Bernhardt no L'Aiglon, que é isso? Cocô. Mounet-Sully, no Édipo? Cocô. No máximo ela alcança uma certa lividez de transfiguração, quando aquilo se passa nas Arenas de Nimes. Mas o que é isso ao lado dessa coisa inaudita, ver combater o próprio descendente do Condestável? -

     E a esta simples ideia, o Sr. de Charlus, não se contendo de alegria, pôs-se a dar golpes e contragolpes que lembravam Moliere, fazendo-nos aproximar prudentemente de nós os nossos copos e recear que os primeiros entrechoques de lâmina fossem ferir os adversários, o médico e as testemunhas. 

- Que espetáculo sugestivo não seria para um pintor! Você, que conhece o Sr. Elstir - disse me ele -, deveria trazê-lo. -

     Respondi que ele não se encontrava no litoral. O Sr. de Charlus insinuou que poderiam passar um telegrama. 

- Oh, digo isto por causa dele - acrescentou, diante do meu silêncio. - É sempre interessante para um mestre (e na minha opinião ele é um mestre) fixar um exemplo de semelhante revivescência étnica. E talvez não exista um por século.

     Mas, se o Sr. de Charlus se encantava à ideia de um combate que a princípio julgara totalmente fictício; Morel pensava com terror nos mexericos que, da banda do regimento, poderiam estender-se, graças ao rumor que o duelo provocaria, até o templo da rua Bergere. Vendo já a sua "classe" informada de tudo, fazia-se cada vez mais insistente junto ao Sr. de Charlus, o qual continuava a gesticular ante a embriagadora idéia de se bater. Suplicou ao barão que lhe permitisse não abandoná-lo até dois dias mais tarde, data suposta do duelo, para vigiá-lo e tentar fazê-lo escutar a voz da razão. Uma tão terna proposta triunfou das últimas hesitações do Sr. de Charlus, que disse que ia buscar encontrar uma saída, que dali a dois dias enviaria uma resolução definitiva. Desse modo, não resolvendo a questão de vez, o Sr. de Charlus sabia conservar Charlie durante pelo menos dois dias e aproveitaria a ocasião para dele obter compromissos para o futuro em troca de sua renúncia ao duelo, exercício, dizia, que o encantava por si mesmo e do qual não se privava sem pena. E nisto, aliás, era sincero, pois sempre tivera prazer em ir ao campo de honra quando se tratava de cruzar bordos ou de trocar balas com um adversário. Por fim Cottard chegou, muito atrasado, pois, encantado por servir de testemunha, porém mais emocionado ainda, fora obrigado a parar em todos os cafés ou granjas da estrada pedindo que lhe indicassem o "n° 100" ou o "local exato".
     Logo que chegou, o barão o conduziu a um aposento isolado, pois achava mais regulamentar que eu e Charlie não assistíssemos à entrevista e era mestre em definir um aposento qualquer a afetação provisória de sala do trono ou de deliberações.
     Uma vez a sós com Cottard, agradeceu-lhe calorosamente, mas demonstrou que parecia provável que as frases repetidas na realidade não tivessem sido ditas, e que, em tais condições, o doutor houvesse por bem avisar à segunda testemunha de que, salvo possíveis complicações, o incidente dava-se por encerrado. Afastando-se o perigo, Cottard mostrou-se desapontado. Por um momento, pensou mesmo em manifestar cólera, mas lembrou-se de que um de seus mestres, que fizera a mais bela carreira de seu tempo, tendo deixado de entrar para a Academia por apenas alguns votos, havia mostrado boa cara à má sorte e fora apertar a mão doutor concorrente eleito. Desse modo, o doutor evitou uma expressão de desafio, que não teria mudado coisa alguma, e depois de ter murmurado, ele, o mais medroso dos homens, que há certas coisas que não se pode deixar confessar, acrescentou que era melhor assim, que com esta solução ele ficava contente. O Sr. de Charlus, desejoso de provar sua gratidão ao doutor, da mesma forma que o senhor duque, seu irmão, ajeitaria a gola do paletó de meu pai, principalmente como uma duquesa teria abraçado uma plebeia, aproximou sua cadeira bem perto da do doutor, apesar do desagrado que este lhe inspirava. E não apenas sem prazer físico, mas vencendo uma repulsão física, como Guermantes e não como invertido, para dizer adeus ele ao doutor, pegou-lhe a mão e acariciou-a por um instante com uma bondade de dono que afaga o focinho de seu cavalo e lhe dá açúcar. Mas Cottard, que nunca deixara ver ao barão que nem mesmo tivesse ouvido os mais vagos rumores maliciosos acerca dos costumes deste, e nem por isso o deixava de considerar, em seu foro íntimo, como fazendo parte da classe dos "anormais" (a tal ponto que, com sua habitual impropriedade de termos e no tom mais sério, dizia de um criado de quarto do Sr. Verdurin: "Não é a amante do barão?"), personagens de que tinha pouca experiência, imaginou que essa carícia da mão era o imediato prelúdio de uma violação, para cuja realização visto que o duelo não passara de um pretexto ele fora atraído a uma cilada e levado pelo Sr. de Charlus àquele gabinete solitário onde ia ser agarrado à força. Não se atrevendo a deixar a cadeira, revirava os olhos de pavor, como se houvesse caído nas mãos de um selvagem do qual não tivesse certeza de que não se alimentava de carne humana. Por fim o Sr. de Charlus, largando-lhe a mão e querendo ser amável até o fim: 

- Vai tomar alguma coisa conosco, como se diz, o que antigamente se chamava um mazagrã ou um gloria, bebidas que agora só se encontram, como curiosidades arqueológicas, nas peças de Labiche e nos cafés de Doncieres. Um gloria seria bem adequado ao local, não? E às circunstâncias, que diz? 
- Sou presidente da liga antialcoólica - respondeu Cottard. - Bastaria que um medicastro provinciano passasse para que começassem a dizer que eu não dou o exemplo. Os homini sublime dedit coelumque tueri -acrescentou. 
[De Ovídio: "Ele deu ao homem um rosto voltado para o céu." (N. do T)]

     Embora isso nada tivesse a ver com o assunto, pois era bem pobre o seu estoque de citações latinas, bastando aliás para maravilhar os alunos. O Sr. de Charlus deu de ombros e reconduziu Cottard para junto de nós, depois de lhe haver pedido segredo sobre o que se passara, segredo que tanto mais lhe importava, pois que o motivo do duelo abortado era puramente imaginário, sendo preciso evitar que chegasse aos ouvidos do oficial arbitrariamente posto em questão. Enquanto nós quatro bebíamos, a Sra. Cottard, que esperava pelo marido do lado de fora, diante da porta, e que o Sr. de Charlus vira muito bem, sem se preocupar em mandar chamá-la, entrou e cumprimentou o barão, que lhe estendeu a mão como a uma camareira, sem se mexer do assento, em parte como um rei que recebe homenagens, em parte como um esnobe que não deseja que uma mulher pouco elegante se assente à sua mesa, em parte como egoísta que tem prazer em estar sozinho com os amigos e não quer ser importunado. Assim, a Sra. Cottard ficou de pé, falando ao Sr. de Charlus e a seu marido. Mas talvez porque a cortesia, o que "se tem a fazer", não seja privilégio exclusivo dos Guermantes, e pode subitamente iluminar e guiar os cérebros mais indecisos, ou porque, enganando muito a mulher, Cottard por momentos, numa espécie de compensação, sentisse necessidade de protegê-la contra quem lhe faltasse com o devido respeito, o doutor bruscamente franziu as sobrancelhas, o que eu jamais o vira fazer, e, sem consultar o Sr. de Charlus, como dono: 
- Vamos, Léontine, não fiques assim de pé; senta-te. 
- Mas não o incomodo? - indagou timidamente a Sra. Cottard ao barão, o qual, surpreendido com o tom do doutor, nada respondera. E, sem lhe dar tempo dessa vez, Cottard repetiu com autoridade: 
- Já te disse para sentares.

     Após um momento, a gente se dispersou, e então o Sr. de Charlus disse a Morel: 

- De toda esta história, que terminou melhor do que você merecia, concluo que não sabe se comportar e que, ao final de seu serviço militar, eu mesmo o levarei de volta a seu pai, como fez o arcanjo Rafael, enviado por Deus ao jovem Tobias. -

     E o barão se pôs a sorrir com ar de grandeza e uma alegria de que Morel, a quem a perspectiva de ser desse modo mandado de volta não agradava nada, parecia não compartir. Na embriaguez de se comparar ao arcanjo e Morel ao filho de Tobias, o Sr. de Charlus não pensava mais na finalidade de sua frase, que era tatear o terreno para saber se, como o desejava, Morel consentiria em voltar com ele a Paris. Embriagado pelo seu amor ou pelo amor-próprio, o barão não viu, ou fingiu não ver, a careta do violinista, pois, tendo deixado este sozinho no café, disse me com um sorriso orgulhoso: 

- Reparou, quando o comparei ao filho de Tobias, como ele delirava de alegria? É porque, como é muito inteligente, compreendeu logo que o Pai, junto ao qual ia viver de agora em diante, não era o seu pai carnal, que deve ser um horrendo criado de quarto com bigodes, mas seu pai espiritual, isto é, Eu. Que orgulho para ele! Com que altivez erguia a cabeça! Como se sentia alegre por ter compreendido! Estou certo de que vai repetir todos os dias: "ó, Deus, que destes o bem-aventurado arcanjo Rafael por guia a vosso servo Tobias em uma longa viagem, concedei a nós, vossos servidores, que sejamos sempre por ele protegidos e dotados de seu socorro." Não tenho nem mesmo necessidade - acrescentou o barão, muito convencido de que se assentaria um dia diante do trono de Deus - de lhe dizer que eu era o enviado celeste, ele o compreendeu por si mesmo e está mudo de felicidade! -

     E o Sr. de Charlus (a quem, pelo contrário, a felicidade não tirava a palavra), pouco se importando com alguns passeantes que viravam a cabeça para ele, julgando ter dado com um louco, gritou com todas as suas forças, erguendo os braços: 

- Aleluia!!!

     Esta reconciliação só pôs fim durante algum tempo aos tormentos do Sr. de Charlus; muitas vezes Morel, tendo partido em manobras longe demais para que o Sr. de Charlus pudesse ir vê-lo e enviar-me para lhe falar, escrevia ao barão cartas desesperadas e ternas, em que lhe assegurava que teria de matar-se, devido a uma coisa horrível que o punha na necessidade de ter vinte e cinco mil francos. Não dizia que coisa horrível era essa e, mesmo que o dissesse, sem dúvida era invenção. Quanto ao dinheiro, o Sr. de Charlus o teria enviado de boa vontade, se não sentisse que aquilo dava a Charlie condições de não precisar dele e também de ter os favores de outra pessoa. Assim, recusava, e seus telegramas tinham o tom seco e cortante de sua voz. Quando estava certo de seu efeito, desejava que Morel rompesse com ele para sempre, pois, persuadido de que o contrário é que haveria de ocorrer, dava-se conta de todos os inconvenientes que renasceriam dessa ligação inevitável. Mas, se não chegasse resposta alguma de Morel, ele deixava de dormir, não tinha mais nenhum momento de sossego, tão grande é de fato o número de coisas que vivemos sem as conhecer, e das realidades interiores e profundas que nos permanecem ocultas. Então, ele formulava todas as hipóteses acerca dessa enormidade que fazia com que Morel tivesse necessidade de vinte e cinco mil francos, dava-lhes todas as formas, ligava-lhes sucessivamente diversos nomes próprios. Creio que naqueles momentos o Sr. de Charlus (embora por essa época o seu esnobismo, diminuindo, já tivesse sido alcançado, senão ultrapassado, pela crescente curiosidade que o barão mostrava pelo povo) devia se lembrar com certa nostalgia dos graciosos turbilhões multicores das reuniões mundanas, em que as mulheres e os homens mais encantadores só o procuravam pelo prazer desinteressado que ele lhes dava, onde ninguém teria sonhado em "armar-lhe um golpe", inventar uma "coisa horrível", pela qual estariam prontos a matar-se caso não recebessem imediatamente vinte e cinco mil francos. Creio que então, e talvez porque, ainda assim, permanecera mais aferrado a Combray do que eu e houvesse enxertado a altivez feudal no orgulho alemão, devia julgar que não se é impunemente o amante sincero de um criado, que o povo não é exatamente a sociedade, que ele não inspirava confiança ao povo, como sempre ocorrera comigo.

     A estação seguinte do trenzinho, Maineville, lembra-me justamente um incidente relativo a Morel e ao Sr. de Charlus. Antes de falar nele, devo dizer que a chegada a Maineville (quando se levava até Balbec um recém-chegado elegante que, para não perturbar, preferia não se hospedar na Raspeliere) era ocasião de cenas menos penosas do que a que vou contar dentro de um instante. O recém-chegado, tendo suas bagagens miúdas no trem, em geral achava o Grande Hotel um tanto afastado, mas, como não havia antes de Balbec senão praiazinhas com vivendas desconfortáveis, resignava-se, de gosto pelo luxo e pelo bem-estar, ao longo trajeto, quando, no momento em que o trem estacionava em Maineville, via bruscamente erguer-se o Palace, que ele não podia suspeitar fosse uma casa de prostituição. 

- Mas não precisamos ir mais longe - dizia infalivelmente à Sra. Cottard, mulher conhecida como de espírito prático e boa conselheira. - Eis exatamente o que me serve. Para que continuar até Balbec, onde certamente não será melhor? Só pelo aspecto, acho que tem todo o conforto; Poderia perfeitamente mandar buscar a Sra. Verdurin, pois pretendo, em troca de suas gentilezas, dar algumas reuniões em sua homenagem. Ela não terá de andar tanto como se eu morasse em Balbec. Isto me parece perfeitamente adequado para ela, e para sua esposa, meu caro professor. Deve ter salões; convidaremos as senhoras. Cá entre nós, não compreendo por que, em vez de alugar La Raspeliere, a Sra. Verdurin não veio morar aqui. É muito mais sadio que nas velhas casas como La Raspeliere, que é forçosamente úmida, e aliás sem ser limpa; eles não têm água quente, a gente não pode lavar-se como queira. Maineville me parece bem mais agradável. A Sra. Verdurin, aqui, teria desempenhado perfeitamente o seu papel de dona-de-casa. Em todo caso, cada um com seu gosto; quanto a mim, vou fixar-me aqui. Senhora Cottard, não quer descer comigo? Despachemo-nos, o trem não vai demorar a partir. A senhora me guiaria até essa casa que será a sua e que já deve ter frequentado várias vezes. É um quadro que parece feito para a senhora. - Custava-nos muito fazê-lo calar-se e, sobretudo, impedi-lo de descer, pois o infeliz convidado, com a obstinação que muitas vezes provém das gafes, insistia, pegava as suas malas e não queria dar ouvidos a coisa alguma, até que lhe asseguravam que nem a Sra. Verdurin nem a Sra. Cottard jamais iriam vê-lo naquela casa. - Em todo caso, vou fixar domicílio ali. A Sra. Verdurin não terá mais do que me escrever.

     A lembrança relativa a Morel se refere a um incidente de caráter mais particular. Houve outros, porém contento-me aqui, à medida que o "tortinho" pára e o empregado grita Doncieres, Grattevast, Maineville, etc., em assinalar o que a praiazinha e a guarnição evocam. Já falei de Maineville (media villa) e da importância que ela adquiria devido àquela suntuosa casa de mulheres recentemente construída, não sem despertar os protestos inúteis das mães de família. Mas, antes de dizer em que Maineville tem alguma relação, na minha memória, com Morel e o Sr. de Charlus, tenho de apontar a desproporção (que mais tarde terei de esmiuçar) entre a importância que Morel atribuía a conservar livres determinadas horas e a insignificância das ocupações em que pretendia empregá-las, sendo que essa mesma desproporção ocorria em meio às explicações de outra natureza que dava ao Sr. de Charlus. Ele, que se fingia de desinteressado com o barão (e podia fazê-lo sem riscos, tendo em vista a generosidade de seu protetor), quando desejava ter a noite livre para dar uma aula, etc., não deixava de acrescentar a seu pretexto estas palavras ditas com um sorriso de cupidez: 

- E depois, isto pode me fazer ganhar quarenta francos. Não é nada. Permita-me ir, pois, como vê, é do meu interesse. Diabos, não tenho rendas como o senhor, preciso ir fazendo a minha situação, é o momento de ganhar uns trocados. -

     Ao desejar dar a sua aula, Morel não estava sendo de todo insincero. Por um lado, é falso que o dinheiro não tenha cor. Uma nova maneira de ganhá-lo devolve o brilho às moedas que o uso gastou. Se de fato ele havia saído para dar uma aula, é possível que dois luíses entregues na despedida por uma aluna tenham produzido sobre ele um efeito diverso de dois luíses caídos das mãos do Sr. de Charlus. Depois, o homem mais rico caminharia, por dois luíses, quilômetros que se transformam em léguas quando se é filho de um criado de quarto. Mas várias vezes, acerca da realidade da aula de violino, o Sr. de Charlus tinha dúvidas, tanto maiores, visto que o músico freqüentemente invocava pretextos de outro gênero, de natureza inteiramente desinteressada do ponto de vista material, e além disso absurdos. Assim, Morel não podia deixar de apresentar uma imagem de sua vida, mas voluntariamente, e também involuntariamente, de tal modo ensombrecida que somente certas partes se deixavam distinguir. Durante um mês ele se pôs à disposição do Sr. de Charlus, com a condição de ter as noites livres, pois desejava freqüentar assiduamente o curso de álgebra. Ir depois visitar o Sr. de Charlus? Ah, impossível, as aulas iam às vezes até muito tarde.

- Mesmo até depois das duas da manhã? - perguntava o barão. 
- Às vezes. 
- Mas a álgebra se aprende tão facilmente num livro.
- Até mais facilmente, pois não entendo grande coisa nas aulas. 
- Então? Aliás, a álgebra não vai te servir para nada. 
- Gosto disso. Dissipa a minha neurastenia. - 

"Não, não pode ser a álgebra que lhe faz pedir licenças noturnas", dizia consigo o Sr. de Charlus. "Estará ligado à polícia?"

     Em todo caso Morel, fossem quais fossem as objeções que lhe fizessem, reservava certas horas tardias, seja para a álgebra, seja para o violino. Uma vez não foi uma nem outra coisa, mas o príncipe de Guermantes, que, tendo vindo passar alguns dias na praia para visitar a duquesa de Luxemburgo, encontrou o músico, sem saber de quem se tratava e sem que Morel tampouco o conhecesse, e lhe ofereceu cinquenta francos para passarem a noite juntos na casa de mulheres em Maineville; prazer duplo para Morel, pelo dinheiro recebido do Sr. de Guermantes e pela volúpia de achar-se rodeado de mulheres cujos seios morenos se exibiam desnudos. Não sei como o Sr. de Charlus soube do local e do que se passava, mas não do nome do sedutor. Louco de ciúme, e a fim de conhecer este último, telegrafou a Jupien, que chegou dois dias depois, e, quando, no começo da semana seguinte, Morel anunciou que de novo estaria ausente, o barão perguntou a Jupien se ele se encarregaria de comprar a patroa do estabelecimento e conseguir que os escondessem, a ele e Jupien, para assistirem à cena. 

- Está entendido. Vou cuidar disso, seu tratante - respondeu Jupien ao barão.

     Não se pode compreender a que ponto essa inquietação agitava e, por isso mesmo, havia enriquecido momentaneamente o espírito do Sr. de Charlus. Assim, o amor provoca verdadeiras convulsões geológicas do pensamento. No do Sr. de Charlus, que ainda poucos dias antes se assemelhava a uma planície tão uniforme que, na maior distância, não se poderia perceber uma única ideia ao nível do solo, tinham-se bruscamente erguido, duras como pedras, um maciço de montanhas, mas de montanhas que fossem igualmente esculpidas, como se algum estatuário, em vez de transportar o mármore, o tivesse cinzelado no local e onde se retorciam, em grupos gigantes e titânicos, a Fúria, o Ciúme, a Curiosidade, a Inveja, o ódio; o Sofrimento, o Orgulho, o Receio e o Amor.
     Nesse meio tempo, chegara o dia em que Morel devia estar ausente. A missão de Jupien obtivera êxito. Ele e o barão deveriam chegar por volta das onze da noite e ficariam escondidos. Três ruas antes de chegar a essa esplêndida casa de prostituição (aonde vinha gente de todos os arredores elegantes), o Sr. de Charlus andava na ponta dos pés, dissimulava a voz, suplicava a Jupien que falasse mais baixo, de medo que Morel os ouvisse lá de dentro. Ora, logo que entrou a passo de gato no vestíbulo, o Sr. de Charlus, pouco habituado a esse tipo de lugares, encontrou se, para seu terror e estupefação, num local mais barulhento que a Bolsa de Valores ou a Sala dos Leilões. Era em vão que recomendava, às soubrettes que se apressavam a seu redor, que falassem mais baixo; e aliás a sua própria voz era abafada pelo barulho dos gritos e imprecações de uma velha "subpatroa" de peruca muito escura, com um rosto em que se estampava a gravidade de um notário ou de um padre espanhol, e que, a todo instante, soltava, com voz de trovão, fazendo alternativamente abrir e fechar as portas, como se regula a circulação dos carros: "Ponha o cavalheiro no 28, no quarto espanhol." "Já não se pode passar." "Abram a porta, estes cavalheiros perguntam pela Srta. Noémie. Ela os espera no salão persa."

continua na página 222...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Por mais dura que fosse)
Volume 6
Volume 7

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Cinema: Os Irmãos Karamazov - Parte 3

OS IRMÃOS KARAMAZOV 

- (URSS - 1969)

'Os Irmãos Karamazov' é um filme de drama soviético de 1969, dirigido por Kirill Lavrov, Ivan Pyryev e Mikhail Ulyanov. O filme é uma adaptação da obra de Dostoéievski e retrata a vida dos irmãos Karamazov na Rússia do século XIX, explorando temas de espiritualidade, amor, ambição e moralidade. O elenco principal inclui Mikhail Ulyanov, Kirill Lavrov e Lionella Pyryeva. O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 1970, representando a União Soviética.

Direção
Kirill Lavrov
Ivan Pyrev
Mikhail Ulyanov

Roteiristas
Fyodor Dostoevsky
Ivan Pyrev





Elenco
Mark Prudkin como Fyodor Pavlovich Karamazov
Mikhail Ulyanov como Dmitriy Karamazov
Kirill Lavrov como Ivan Karamazov
Andrey Myagkov como Alyosha Karamazov
Lionella Pyryeva como Agrafena 'Grushenka' Svetlova
Svetlana Korkoshko como Yekaterina Ivanovna Verkhovtseva
Valentin Nikulin como Pavel Smerdyakov
Pavel Pavlenko como Zosima
Andrei Abrikosov como Kuzma Samsonov
Gennadiy Yukhtin como Padre Paisiy
Anatoliy Adoskin como Nikolay Nelyudov - Juiz examinador
Rada Volshaninova como Gipsy
Tamara Nosova como Marya Kondratyevna
Nikita Podgorny como Mikhail Rakitin
Ivan Lapikov como Stepan 'Lyagavyy' Gorskiy
Varvara Popova como Matryona
Yevdokiya Urusova como Marfa Osipovna
Stanislav Chekan como filho de Samsonov
Aleksandra Danilova como Relative
Aleksandr Khvylya como Ferapont
Nikolai Ryzhov como Trifon Borisovich Plastunov
Nikolai Prokopovich como Mussyalovich
Evgeniy Teterin como Padre Iosif
Mark Pertsovskiy como Vrublyovskiy
Lyubov Korneva como Fedosya 'Fenya' Markovna
Sergei Kalinin como Sacerdote
Vladimir Osenev como Juiz
Nikolai Bubnov como Clerk
Viktor Filippov
Olga Gasparova como Maidservant
Georgiy Georgiu
Oleg Golubitsky
Grigore Grigoriu
Grigori Kirillov como Promotor
Viktor Kolpakov como Grigoriy
Nikolay Kutuzov como Monge Negro
Nikolay Parfyonov como Barman
Yuri Rodionov como Attorney
Ivan Savkin
V. Sokolov como gospodin v Sude
Georgiy Svetlani
Nikolay Svetlovidov como Maksimov
Ivan Vlasov como Pyotr Kalganov
Nikolay Sibeikin como Aparecendo (não creditado)


A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (V. Os "Stártsi")

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
V
OS 'STÁRTSI"
    
     O leitor imaginará talvez que o meu herói fosse um indivíduo doentio e extático, um pálido sonhador, macilento, atacado de tuberculose. Pelo contrário, Aliócha, que tinha então dezenove anos, era um jovem bem feito, de faces vermelhas, de olhar límpido, transbordante de saúde. Era mesmo bastante belo, de talhe esbelto, cabelos castanhos, rosto regular, embora um pouco alongado, olhos dum cinzento-escuro, brilhantes, ras gados, pensativo e parecendo bastante calmo. Dir-se-á talvez que faces vermelhas não impedem de ser fanático ou místico; ora, parece-me que Aliócha era, mais que qualquer outra pessoa, realista. Oh! bem decerto, no convento cria perfeitamente nos milagres, mas, na minha opinião, os milagres jamais perturbarão o realista. Não são eles que o levam a crer. Um verdadeiro realista, se é incrédulo, encontra sempre em si a força e faculdade de não crer mesmo no milagre e, se este último se apresenta como um fato incontestável, duvidará de seus sentidos em vez mesmo de admitir o fato. Se o admitir, será como um fato natural, mas desconhecido dele até então. No realista, a fé não nasce do milagre, mas o milagre da fé. Se o realista adquire a fé, deve necessariamente, em virtude de seu realismo, admitir também o milagre. O apóstolo Tome declarou que não acreditaria enquanto não visse; em seguida, diz: "Meu Senhor e meu Deus!" Fora o milagre que o obrigara a crer? Muito provavelmente não, mas ele acreditava unicamente porque desejava crer; talvez tivesse já a fé inteira nas dobras ocultas de seu coração, mesmo quando declarava: "Só acreditarei depois que tiver visto.
     Dir-se-á talvez que Áliócha era obtuso, pouco desenvolvido, que não terminara seus estudos. Este último fato é exato, mas seria bastante injusto dizer que fosse ele obtuso ou estúpido. Repito o que já disse: escolhera aquela via unicamente porque somente ela o atraia então e representava a ascensão ideal para a luz de sua alma desprendida das trevas. Além disso, era aquele rapaz da época mais recente, isto é, leal, ávido de verdade, procurando-a cora fé, e, uma vez encontrada, querendo dela participar com toda a força de sua alma, querendo realizações imediatas e pronto a tudo sacrificar com este fim, até mesmo sua vida. Entretanto, esses rapazes não compreendem, desgraçadamente, que sacrificar sua vida é a coisa mais fácil em muitos casos, ao passo que consagrar, por exemplo, cinco ou seis anos de sua bela mocidade ao estudo e à ciência — não fosse senão para decuplicar suas forças, a fim de servir à verdade e atingir o fim proposto — é um sacrifício que os ultrapassa. Aliócha só fizera escolher a via oposta a todas as outras, mas com a mesma sede de realização imediata. Logo que se convenceu, após sérias reflexões, de que Deus e a imortalidade existem, disse a si mesmo, naturalmente: "Quero viver para a imortalidade, não admito compromissos'*. Igualmente, se tivesse concluído que não há nem Deus nem imortalidade, ter-se-ia tornado imediatamente ateu e socialista (porque o socialismo não é apenas a questão operária ou do quarto Estado, mas é sobretudo a questão do ateísmo, de sua encarnação contemporânea, a questão da torre de Babel, que se construiu sem Deus, não para atingir os céus da terra, mas para abaixar os céus até a terra). Parecia estranho e impossível a Aliócha viver como antes. Está dito: "Abandona tudo quanto tens e segue-me, se queres ser perfeito". Aliócha dizia a si mesmo: "Não posso dar um lugar de "tudo' 2 rublos e em lugar de 'segue-me' ir somente à missa". Entre as re cordações de sua tenra infância, lembrava-se talvez de nosso mosteiro, aonde sua mãe talvez o levara para assistir aos ofícios. Talvez tivesse ali sofrido a influência dos raios oblíquos do sol poente diante da imagem para a qual o voltava sua mãe, a endemoniada. Chegou entre nós pensativo, unicamente para ver se se tratava aqui de tudo ou somente de 2 rublos, e encontrou no convento aquele stáriets.
     Era o stáriets Zósima, como já o expliquei acima; seria preciso dizer algumas palavras a propósito dos stártsi nos nossos mosteiros e lamento não ter, neste domínio, toda a competência necessária. Tentarei, no entanto, fazê-lo a grandes traços. Os especialistas competentes asseguram que a instituição dos stártsi apareceu nos mosteiros russos em época recente, há menos de um século, quando, em todo o Oriente ortodoxo, sobretudo no Sinai e no Monte Atos, existe ela desde bem mais de mil anos. Pretende-se que os stártsi existiam na Rússia em tempos bastante antigos, ou que deveriam ter existido, mas que, em consequência das calamidades que sobrevieram, o jugo tártaro, as perturbações, a interrupção das antigas relações com o Oriente, após a queda de Constantinopla, essa instituição se perdeu entre nós e os stártsi desapareceram. Foi ressuscitada por um dos maiores ascetas, Paísi Vielitchkóvski, e por seus discípulos, mas até o presente, após um século, existe ela em muito poucos conventos e foi mesmo, ou pouco faltou, alvo de perseguições, como uma inovação desconhecida na Rússia. Florescia sobretudo no famoso Eremitério de Kózilhskaia Optínaia, Ignoro quando e por quem foi ela implantada em nosso mosteiro, mas já se haviam sucedido ali três stártsi, dos quais Zósima era o último. Estava quase a sucumbir à fraqueza e às doenças e não se sabia por quem substituí-lo. Para nosso mosteiro, era essa uma séria questão, porque, até o presente, nada o havia distinguido; não possuía nem relíquias santas nem ícones miraculosos, ligando-se as tradições gloriosas à nossa história. Faltavam lhe igualmente os altos fatos históricos e os serviços prestados à pátria. Tornara-se florescente e famoso em toda a Rússia, graças a seus stártsi, que os peregrinos vinham em multidão ver e ouvir de todos os pontos da Rússia, a milhares de verstas. Que é um stáriets? O stáriets é aquele que absorve vossa alma e vossa vontade nas suas. Tendo escolhido um stáriets, vós abdicais de vossa vontade e lha entregais com toda a obediência, com inteira resignação. O penitente submete-se voluntariamente a essa prova, a essa dura aprendizagem, na esperança de, após um longo estágio, vencer-se a si mesmo, dominar-se a ponto de atingir, afinal, depois de ter obedecido toda a sua vida, a liberdade perfeita, isto é, a liberdade para consigo mesmo, e evitar a sorte daqueles que viveram sem se encontrar a si mesmos. Esta invenção, isto é, a instituição dos stártsi, não é teórica, mas tirada, no Oriente, de uma prática milenar. As obrigações para com o stáriets são bem diversas da "obediência** habitual que sempre existiu igualmente nos mosteiros russos. Lá, a confissão de todos os militantes ao stáriets é perpétua, e o elo que liga o confessor ao confessado, indissolúvel. Conta-se que, nos tempos antigos do cristianismo, um noviço, depois de haver deixado de cumprir um dever prescrito pelo seu stáriets, abandonou o mosteiro para dirigir-se a outro país, da Síria ao Egito. Ali, praticou atos sublimes e foi por fim julgado digno de sofrer o martírio pela fé. Já a Igreja ia enterrá-lo, reverenciando-o como um santo, quando o diácono proferiu: "Que os catecúmenos saiam!*', o caixão que continha o corpo do mártir foi arrancado de seu lugar e projetado fora do templo três vezes em seguida. Soube-se por fim que aquele santo mártir havia infringido a obediência e abandonado o seu stáriets e que, por consequência, não podia ser perdoado sem o consentimento deste último, malgrado sua vida sublime. Mas quando o stáriets, chamado, o desligou da obediência, pôde-se enterrá-lo sem dificuldade. Sem dúvida, não passa isso de uma antiga lenda, mas eis um fato recente. Um religioso cuidava de sua salvação no Monte Atos, ao qual queria de toda a sua alma, como um santuário e um retiro tranquilo, quando seu stáriets lhe ordenou,, de repente, que partisse para ir primeiro a Jerusalém, visitar os Lugares Santos,, depois voltar ao norte, na Sibéria. "Lá é que é teu lugar e não aqui.'* Consternado e desolado, o monge foi procurar o patriarca em Constantinopla e suplicou-lhe que o libertasse da obediência, mas o chefe da Igreja respondeu-lhe que não somente ele, patriarca, não podia desligá-lo, mas não havia nenhum poder no mundo capaz de fazê-lo, exceto o stáriets do qual ele dependia. Vê-se dessa forma que, em certos casos, os stártsi estão investidos duma autoridade sem limites e incompreensível. Eis por que, em muitos de nossos mosteiros, essa instituição foi a princípio quase perseguida. No entanto o povo testemunhou imediatamente grande veneração pelos stártsi. Por isso o povinho e as pessoas mais distintas vinham em multidão prosternar-se diante dos stártsi de nosso mosteiro e lhes confessavam suas dúvidas, seus pecados, seus sofrimentos, implorando conselhos e direções. Vendo o que, os adversários dos stártsi lhes censuravam, entre outras acusações, envilecerem arbitrariamente o sacramento da confissão, se bem que as confidencias ininterruptas do noviço ou dum leigo ao stáriets não tivessem de modo algum o caráter dum sacramento. Seja como for, a instituição dos stártsi manteve-se e implanta-se pouco a pouco nos mosteiros russos. É verdade que esse meio experimentado e já milenar de regeneração moral, que faz o homem passar da escravidão à liberdade, aperfeiçoando-o, pode também tornar-se uma arma de dois gumes: em lugar da humildade e do domínio de si mesmo, pode desenvolver um orgulho satânico e fazer um escravo em lugar de um homem livre.
     O stáriets Zósima tinha 65 anos; descendia duma família de proprietários; na sua mocidade servira no Exército como oficial, no Cáucaso. Sem dúvida, Aliócha ficou impressionado por certa qualidade especial da alma dele. Vivia na mesma cela do stáriets, que muito o amava e o mantinha a seu lado. Ê preciso notar que, vivendo no mosteiro, não estava Aliócha preso por nenhum laço; podia ir aonde bem quisesse, dias inteiros, e, se usava batina, era voluntariamente, para não se distinguir de ninguém no mosteiro. Talvez a imaginação juvenil de Aliócha tivesse sido muito impressionada pela força e pela glória que cercavam seu stáriets como uma auréola. A propósito do stáriets Zósima, muitos contavam que, à força de acolher, desde numerosos anos, todos aqueles que vinham expandir seu coração, ávidos de seus conselhos* e de suas consolações, havia, para o fim, adquirido grande perspicácia. Ao primeiro olhar lançado sobre um desconhecido, adivinhava o motivo de sua vinda, o que lhe era preciso e até mesmo o que lhe atormentava a consciência. O- penitente ficava espantado, confuso e por vezes mesmo apavorado por sentir-se penetrado, antes de ter proferido uma palavra. Aliócha notara que muitos daqueles que vinham pela primeira vez entreter-se em particular com o stáriets entravam em seu aposento com temor e inquietação; quase todos saíam radiantes e o rosto mais sombrio iluminava-se de satisfação. O que o surpreendia também é que o stáriets, longe de ser severo, parecia mesmo satisfeito. Os monges diziam dele que se ligava aos mais pecadores e os estimava na proporção de seus pecados. Mesmo para o fim de sua vida, contava o stáriets, entre os monges, inimigos e invejosos, mas seu numero diminuía, se bem que figurassem nele personalidades importantes do convento. Tal era um dos mais antigos religiosos, por demais taciturno e jejuador extraordinário. No entanto, a grande maioria era partidária do stáriets Zósima e muitos o amavam sinceramente, de todo o seu coração; alguns lhe eram mesmo ligados quase fanaticamente. Estes diziam, mas em voz baixa, que era um santo, decerto, e, prevendo seu fim próximo, aguardavam imediatos milagres que espalhariam grande glória sobre o mosteiro. Alieksiéi cria cegamente na força miraculosa do stáriets, da mesma maneira que acreditava no relato do caixão projetado fora da igreja. Entre as pessoas que levavam ao stáriets crianças ou parentes doentes, para que ele lhes impusesse as mãos ou rezasse uma oração em sua intenção, via Aliócha muitos voltarem em breve, por vezes no dia seguinte, para agradecer-lhe de joelhos o ter-lhes curado seus doentes. Havia cura ou somente melhoria natural do estado deles? Aliócha nem sequer fazia a si mesmo a pergunta, porque acreditava absolutamente na força espiritual de seu mestre e a glória dele era como o seu próprio triunfo. Batia-lhe o coração e ficava radiante, sobretudo quando o stáriets saía a ter com a multidão dos peregrinos que o esperavam nas portas do eremitério, pessoas do povo vindas de todos os pontos da Rússia pura vê-lo e receber sua bênção. Prosternavam-se diante dele, choravam, beijavam seus pés e o lugar onde ele se achava, lançando gritos; as mulheres estendiam para ele seus filhos; traziam possessos. O stáriets falava-lhes, fazia uma curta oração, dava-lhes sua bênção, depois mandava-os embora. Nos derradeiros tempos, a doença havia-o de tal modo enfraquecido que mal podia ele deixar sua cela e os peregrinos aguar-» davam sua saída para o mosteiro, por vezes dias inteiros. Aliócha não perguntava a si mesmo absolutamente por que eles o amavam tanto, por que se prosternavam diante dele com lágrimas de enternecimento, vendo seu rosto. Oh! Compreendia perfeitamente que para a alma resignada do simples povo russo, vergado sob o trabalho e o pesar, mas sobretudo sob a injustiça e o pecado contínuos — o seu e o do mundo — não há maior necessidade e consolo do que encontrar um santuário ou um santo, cair de joelhos, adorá-lo: "Se o pecado, a mentira, a tentação são nossa partilha, há no entanto em alguma parte do mundo um ser santo e sublime; possui a verdade, conhece-a; portanto, ela descerá um dia até nós e reinará sobre a terra inteira, como foi pro* metido". Aliócha sabia que é assim que o povo sente e até mesmo raciocina; compreendia isto, mas que o stáriets fosse precisamente esse santo, esse depositário da verdade divina aos olhos do povo, estava disso persuadido tanto quanto aqueles mujiques e aquelas mulheres doentes que lhe estendiam seus filhos. A convicção de que o stáriets, após sua morte, atrairia uma glória extraordinária para o mosteiro reinava na sua alma mais forte talvez do que entre os monges. Desde algum tempo, seu coração aquecia-se sempre mais à labareda dum profundo entusiasmo interior. Não o perturbava absolutamente nada ver no stáriets um indivíduo isolado: "Dá no mesmo, há no seu coração o mistério da renovação para todos, esse poder que instaurará por fim a verdade na terra e todos serão santos, amar-se-ão uns aos outros; não haverá mais nem ricos nem pobres, nem elevados nem humilhados; todos serão como os filhos de Deus e será isto o advento do reino do Cristo". Eis com que sonhava o coração de Aliócha.  
     Parece que impressionou fortemente a Aliócha a chegada de seus dois irmãos, que ele não conhecia absolutamente até então. Ligara-se mais a Dimítri, se bem que este tivesse chegado mais tarde. Quanto a Ivã, interessava-se muito por ele, mas os dois jovens permaneciam estranhos um ao outro e, no entanto, dois meses se haviam passado durante os quais viam-se bastante frequentemente. Aliócha era taciturno; além disso, parecia esperar não se sabia o que, ter vergonha de alguma coisa; muito embora tivesse notado no começo os olhares curiosos que lhe lançava seu irmão, cessou Ivã em breve de prestar-lhe atenção. Aliócha sentiu por isso alguma confusão. Atribuiu a indiferença de seu irmão à desigualdade de sua idade e de sua instrução. Mas tinha uma grande ideia. O pouco interesse que lhe testemunhava Ivã podia provir de uma causa que ele ignorava. Parecia este absorvido por algo de importante, como se visasse um alvo muito difícil, o que teria explicado sua distração a respeito dele. Alieksiéi perguntou igualmente a si mesmo senão havia naquilo o desprezo de um ateu sábio por um pobre noviço. Não podia sentir-se ofendido com tal desprezo, se é que ele existia, mas aguardava com um vago alarma, que ele próprio não explicava a si mesmo, no momento em que seu irmão queria aproximar-se dele. Seu irmão Dimítri falava de Ivã com o mais profundo respeito, num tom circunspecto. Contou a Aliócha os detalhes do importante negócio que havia aproximado estreitamente os dois mais velhos. O entusiasmo com que Dimítri falava de Ivã impressionava tanto mais Aliócha quanto, comparado a seu irmão, Dimítri era quase um ignorante; o contraste da personalidade deles e de seus caracteres era tão vivo que se teria dificilmente imaginado dois seres tão diferentes.
     Foi então que teve lugar a entrevista, ou antes, a reunião, na cela do stariets, de todos os membros daquela família mal harmonizada, reunião que exerceu influência extraordinária sobre Aliócha. O pretexto que a motivou era na realidade mentiroso. O desacordo entre Dimítri e seu pai, a respeito da herança de sua mãe e das contas da propriedade, atingia então seu auge. As relações tinham-se envenenado a ponto de tornar-se insuportáveis. Foi Fiódor Pávlovitch quem sugeriu, por brincadeira, que se reunissem todos na cela do stariets Zósima; sem recorrer à sua intervenção, poderiam eles entender-se mais decentemente, sendo capazes a dignidade e a pessoa do stariets de impor a reconciliação. Dimítri, que jamais estivera em casa dele e jamais o vira, pensou que quisessem amedrontá-lo daquela maneira; mas, como ele próprio se censurava secretamente de muitas explosões bastante bruscas em sua querela com seu pai, aceitou o desafio. É preciso notar que não residia, como Ivã, em casa de seu pai, mas na outra extremidade da cidade. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que morava então em nossa cidade, agarrou-se a essa ideia. Liberal dos anos 40 e 50, livre-pensador e ateu, tomou neste caso uma parte extraordinária, por tédio, talvez, ou para se divertir. Tomou-o subitamente a fantasia de ver o mosteiro e o "santo". Como seu antigo processo contra o mosteiro durasse ainda — o litígio tinha por objeto a delimitação de suas terras e certos direitos de pesca e de corte —, apressou-se em aproveitar essa ocasião, sob o pretexto de entender-se com o padre abade, a fim de dar por terminado aquele negócio amigavelmente. Um visitante animado de tão boas intenções podia ser recebido no mosteiro com mais atenções que um simples curioso. Estas considerações fizeram com que se insistisse junto ao stariets, o qual, desde algum tempo, não deixava mais sua cela e recusava mesmo, por causa de sua doença, receber os simples visitantes. Deu seu consentimento e foi marcado o dia. "Quem me encarregou de decidir entre eles?*', declarou ele somente a Aliócha, com um sorriso. 
     Ao saber dessa reunião, ficou Aliócha muito perturbado. Se algum dos adversários em luta podia tomar aquela entrevista a sério, era seguramente seu irmão Dimítri, e somente ele; os outros iriam com intenções frívolas e talvez ofensivas para o stariets. Aliócha o compreendia bem. Seu irmão Ivã e Miúsov para ali se dirigiam levados pela curiosidade e seu pai para fazer o papel de palhaço, se bem que guardando silêncio. Conhecia-o a fundo. Repito-o, aquele rapaz não era tão ingênuo como todos o acreditavam. Aguardava com ansiedade o dia marcado. Sem dúvida levava muito em questão ver cessar por fim o desacordo na sua família. Mas preocupava-se sobretudo com o stariets; tremia por ele, pela sua glória, temendo as ofensas, particularmente as finas zombarias de Miúsov e as reticências do erudito Ivã. Queria mesmo tentar prevenir o stariets, falar-lhe a respeito daqueles visitantes eventuais, mas refletiu e calou-se. Na véspera do dia marcado, mandou dizer a Dimítri que o amava muito e esperava dele o cumprimento de sua promessa. Dimítri, que procurou em vão lembrar-se de ter prometido alguma coisa, respondeu-lhe por carta que faria tudo para evitar uma baixeza. Embora cheio de respeito pelo stariets e por Ivã, via naquilo uma armadilha ou uma comédia indigna. "Entretanto, preferirei engolir minha língua a faltar ao respeito ao santo homem que veneras", dizia Dimítri, terminando sua carta. Aliócha nem por isso ficou reconfortado.
 
continua na página 29...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.