terça-feira, 29 de setembro de 2026

Dante: A Divina Comédia - Canto III

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

INFERNO

Canto III (Prosa)

Os poetas atravessam a porta do Inferno, no alto da qual lê-se a sentença que revela aos ingressantes a realidade da pena eterna e da justiça divina. No vestíbulo do Inferno, veem-se os pusilânimes ou indolentes. Virgílio diz a Dante que os condenados desse lugar não merecem nem a honra nem a infâmia. Dante os vê perseguirem uma bandeira que nunca para e serem atacados por vespas e moscas. Ele reconhece um entre eles, aquele que cometeu a “grande renúncia”. Virgílio e Dante chegam, então, à margem de um dos rios do Inferno, o Aqueronte. Ali fica o barqueiro Caronte, que transporta as almas para a outra margem. Dante vê as almas embarcarem na barca do Inferno e ouve Virgílio explicar a Caronte a presença dele ali, uma alma viva. De repente um terremoto sacode a terra, seguido de um poderoso relâmpago. Dante perde os sentidos e, misteriosamente, atravessa o rio infernal.

     [1] Por mim se vai pela cidade dolente 
          Por mim se vai à eterna dor 
          Por mim se vai entre as perdidas gentes 
          A Justiça move-me maiormente 
          A divina potestade me fez, e 
          O sumo saber e o primeiro amor também 
          Diante de mim as coisas não foram criadas 
          Pois são eternas, e eterna, duro 
          Deixai toda esperança vós que entrais.
     [10] Estas palavras eu as vi escritas em tinta escuríssima no alto de uma porta, o que me levou a dizer:

– Mestre, o sentido dessas palavras me angustia.

     E ele me respondeu, lucidamente:

– Aqui convém perder todo o medo, toda covardia deve morrer aqui. Estamos no sítio de que lhe falei, onde tu verás as almas punidas que perderam a noção da verdade.

     E depois que, com expressão tranquila, tocou sua mão na minha, senti me confortado e adentrei o mundo carregado de mistérios.
     [22] Ali suspiros, prantos e outros gemidos ressoavam pelo ar onde o brilho das estrelas não chega, o que me fez chorar. Línguas diferentes, falas grotescas, palavras de dor, rasgos de ira, gritos e vozes roucas, além do som de palmas percutindo o próprio corpo, produziam um tumulto incessante naquela atmosfera fosca como a de uma tempestade de areia. Minha cabeça enchia-se de dúvidas, por isso perguntei:

– Mestre, o que é isso que estou ouvindo? E que gentes são estas cuja dor parece abatê-las?

     Ele respondeu:

– Esta triste condição é daqueles cujas tristes almas vivem sem infâmia ou honra. No meio delas está o coro de anjos que nem se rebelaram nem foram fiéis a Deus, que só foram fiéis a si mesmos. Os céus os expulsaram para não se diminuírem com sua presença, nem o profundo Inferno os recebe, como recebe os anjos rebeldes que alguma glória ao menos tiveram.

     E eu:

– Mestre, e o que é tão penoso a ponto de fazê-los lamentar de modo tão forte?

     Respondeu:

– Dir-te-ei rapidamente. Eles nem têm esperança de morrer. Tão obscura e mesquinha foi sua vida que invejam qualquer outro destino diferente do deles. O mundo os ignora e são desdenhados pela misericórdia e pela justiça divinas. Não falemos deles, mas olha e passa.

     [52] E eu, olhando, vi uma bandeira que dava voltas tão rapidamente que mal se firmava, atrás da qual ia uma longa fila de almas, tão longa como jamais acreditaria ver um dia. Tanta gente como jamais suporia ser a morte capaz de levar. Depois disso reconheci uma sombra entre a multidão, sombra daquele que, por covardia, perpetrou a grande renúncia.¹ 

[1] Possível referência ao papa Celestino V, que abdicou ao cetro papal em 1294, cinco meses depois de eleito.

     [61] Subitamente compreendi e tive certeza de que aquele era o bando dos condenados que desagradaram a Deus e aos inimigos dele. Esses desgraçados, que vivos de fato jamais foram, andavam nus e eram picados por moscas e vespas que havia ali. Do rosto deles irrigava sangue, que, misturado às lágrimas, escorria até seus pés, onde era recolhido por vermes nojentos. Depois, olhei mais além e vi uma multidão à margem de um grande rio. Por essa razão, pedi:

– Mestre, permita-me que eu saiba quem são aqueles e por que motivo parecem tão ansiosos para atravessar o rio, como enxergo daqui sob um fiozinho de luz.

     E ele a mim:

– Sobre isso tu entenderás melhor quando tocarmos os pés na triste margem do Aqueronte.

     Então, com os olhos envergonhados e voltados para baixo, temendo que minha pergunta o aborrecesse, parei de falar até chegar ao rio.
     [82] Lá, vem em nossa direção, num barco, um velho de barba e cabelos brancos gritando:

– Miseráveis de vós, almas depravadas! Perdei a esperança de voltar a ver o céu, eu venho para vos levar até a outra margem, ao sítio das trevas eternas, ao calor e ao gelo. E tu, alma viva, sai do meio dos mortos. – Mas depois de perceber que eu não me movia, disse: – Por outro caminho, por outros portos verás a praia, não por aqui, para isso outro barco mais leve te levará.

     E o guia disse a ele:

– Calma, Caronte, pois quem isso quis é aquele que está lá onde se pode tudo o que se quer, e cessa de indagar.

     Aquietaram-se então as faces peludas do barqueiro do pântano turvo, que tinha círculos de fogo em volta dos olhos.
     [100] Mas aquelas almas que estavam cansadas e nuas mudaram a cor e passaram a tiritar os dentes logo que entenderam as cruas palavras que trocávamos. Blasfemavam contra Deus e seus pais, contra a espécie humana, o lugar, o tempo e o sêmen dos seus antepassados e o seu nascimento. Depois recuaram e juntaram-se chorando muito próximas à malvada margem que espera todo aquele que não é temente a Deus. O demônio Caronte, de olhos de brasa, acena a eles e recolhe a todos, batendo com os remos naqueles que se demoram. Como no outono, quando as folhas são levadas umas após as outras até os galhos verem a terra tomada de suas vestes, igualmente os pobres descendentes de Adão precipitam-se um a um daquela margem igual aos pássaros que atendem ao aceno de seu adestrador. Assim eles vão sobre a onda negra, e, depois de deixarem a margem, uma nova fileira de almas nessa mesma praia se ajunta.
     [121] – Meu filho – disse o mestre amavelmente –, aqueles que morrem sob a ira de Deus aqui vêm de todos os lugares e prontos estão para atravessar o rio, e tanto a justiça divina os estimula que o temor deles se transforma em desejo. Aqui, então, não passam almas vivas, por isso Caronte se irrita, e é isso que o fez dizer o que ouviste da boca dele.
     Terminada a travessia, a negra região tremeu tão forte que o susto ainda me faz a testa empapar-se de suor. Deu-se então na terra lacrimosa uma forte ventania, com relâmpagos avermelhados, o que me fez perder os sentidos.
     [136] E caí como cai alguém morto de sono.

continua na página....35


Canto III (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

Chegam os Poetas à porta do Inferno, na qual estão escritas terríveis palavras. Entram e no vestíbulo encontram as almas dos ignavos, que não foram fiéis a Deus nem rebeldes. Seguindo o caminho, chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caron, que passa as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.

     “Por mim se vai das dores à morada,
“Por mim se vai ao padecer eterno,
3        “Por mim se vai à gente condenada. 
     “Moveu Justiça o Autor meu sempiterno, 
“Formado fui por divinal possança,
6        “Sabedoria suma e amor supremo. 
     “No existir, ser nenhum a mim se avança, 
“Não sendo eterno, e eu eternal perduro: 
9        Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!” 
     Estas palavras, em letreiro escuro, 
Eu vi, por cima de uma porta escrito. 
12      “Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é duro”. 
     Tornou Virgílio, no lugar perito: 
— “Aqui deixar convém toda suspeita; 
15      Todo ignóbil sentir seja proscrito. 
     “Eis a estância, que eu disse, às dores feita, 
Onde hás de ver atormentada gente, 
18      Que da razão à perda está sujeita”. 
     Pela mão me travando diligente, 
Com ledo gesto e coração me erguia, 
21      E aos mistérios guiou-me incontinenti. 
     Por esse ar sem estrelas irrompia 
Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:
24      Também meu pranto, de os ouvir, corria. 
     Línguas várias, discursos insofridos, 
Lamentos, vozes roucas, de ira os brados, 
27      Rumor de mãos, de punhos estorcidos, 
     Nesses ares, pra sempre enevoados, 
Retumbavam girando e semelhando 
30      Areais por tufão atormentados. 
     A mente aquele horror me perturbando, 
Disse a Virgílio: — “Ó Mestre, que ouço agora? 
33      “Quem são esses, que a dor está prostrando?” — 
     “Deste mísero modo” — tornou — “chora 
Quem viveu sem jamais ter merecido 
36      Nem louvor, nem censura infamadora. 
     “De anjos mesquinhos coro é-lhes unido, 
Que rebeldes a Deus não se mostraram, 
39      Nem fiéis, por si sós havendo sido”, 
     “Desdouro aos céus, os céus os desterraram; 
Nem o profundo inferno os recebera, 
42      De os ter consigo os maus se gloriaram”. 
     — “Que dor tão viva deles se apodera, 
Que aos carpidos motivo dá tão forte?” — 
45      “Serei breve em dizer-to” — me assevera. — 
     “Não lhes é dado nunca esperar morte; 
É tão vil seu viver nessa desgraça, 
48      Que invejam de outros toda e qualquer sorte. 
     “No mundo o nome seu não deixou traça; 
A Clemência, a Justiça os desdenharam. 
51      Mais deles não falemos: olha e passa”. 
     Bandeira então meus olhos divisaram, 
Que, a tremular, tão rápida corria, 
54      Que avessa a toda pausa a imaginaram. 
     E após, tão basta multidão seguia, 
Que, destruído houvesse tanta gente 
57      A morte, acreditado eu não teria. 
     Alguns já distinguira: eis, de repente, 
Olhando, a sombra conheci daquele
60      Que a grã renúncia fez ignobilmente. 
     Soube logo, o que ao certo me revele, 
Que era a seita das almas aviltadas, 
63      Que os maus odeiam e que Deus repele. 
     Nunca tiveram vida as desgraçadas; 
Sempre, nuas, estando, as torturavam 
66      De vespas e tavões as ferroadas. 
     Os rostos seus as lágrimas regavam, 
Misturadas de sangue: aos pés caindo, 
69      A imundos vermes o repasto davam. 
     De um largo rio à margem dirigindo 
A vista, de almas divisei cardume. — 
72      “Mestre, declara, aos rogos me anuindo, 
     “Que turba é essa” — eu disse — “e qual costume 
Tanto a passar a torna pressurosa, 
75      Se bem discirno ao duvidoso lume?” 
     Tornou-me: — “Explicação minuciosa 
Darei, quando tivermos atingido 
78      Do Aqueronte a ribeira temerosa”. 
     Então, baixos os olhos e corrido 
Fui, de importuno a culpa receando, 
81      Té o rio, em silêncio recolhido. 
     Eis vejo a nós em barca se acercando, 
De cãs coberto um velho — “Ó condenados, 
84      Ai de vós! — alta grita levantando. 
     “O céu nunca vereis, desesperados: 
Por mim à treva eterna, na outra riva, 
87      Sereis ao fogo, ao gelo transportados. 
     “E tu que estás aqui, ó alma viva, 
De entre estes que são mortos, já te ausenta!” 
90      Como não lhe obedeço à voz esquiva, 
     “Por outra via irás” — ele acrescenta — 
“Ao porto, onde acharás fácil transporte; 
93      Lá passarás em barca menos lenta”. 
     “Não te agastes, Caronte! Desta sorte 
Se quer lá onde” — disse-lhe o meu Guia —
96      “Quem pode ordena. E nada mais te importe”. 
     Sereno, ouvido, o gesto se fazia 
Da lívida lagoa ao nauta idoso, 
99      Que em círculos de fogo olhos volvia. 
     Às desnudadas almas doloroso 
O gesto descorou; dentes rangeram 
102    Logo em lhe ouvindo o vozear raivoso. 
     Blasfemaram de Deus e maldisseram 
A espécie humana, a pátria, o tempo, a origem 
105    Da origem sua, os pais de quem nasceram. 
     Todas no pranto acerbo, em que se afligem, 
Se acolhem juntas ao lugar tremendo, 
108    Dos maus destinos, que se não corrigem. 
     Caronte, os ígneos olhos revolvendo, 
Lhes acenava e a todos recebia: 
111    Remo em punho, as tardias vai batendo. 
     Como no outono a rama principia 
As flores a perder té ser despida, 
114    Dando à terra o que à terra pertencia, 
     Assim de Adão a prole pervertida, 
Da praia um após outro se enviavam, 
117    Qual ave dos reclamos atraída. 
     Sobre as túrbidas águas navegavam; 
E pojado não tinham no outro lado, 
120    Mais turbas já no oposto se apinhavam. 
     “Aqui meu filho” — disse o Mestre amado — 
“concorrem quantos há colhido a morte, 
123    De toda a terra, tendo a Deus irado. 
     “O rio prontos buscam desta sorte, 
De Deus tanto a justiça os punge e excita, 
126    Tornando-se o temor anelo forte! 
     “Alma inocente aqui jamais transita, 
E, se Caronte contra ti se assanha,
129    Patente a causa está, que tanto o irrita”. 
     Assim falava; a lúrida campanha 
Tremeu e foi tão forte o movimento, 
132    Que do medo o suor ainda me banha. 
     Da terra lacrimosa rompeu vento, 
Que um clarão respirou avermelhado; 
Tolhido então de todo o sentimento, 
136    Caí, qual homem que é do sono entrado.

continua na página... 41
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— 37. De anjos etc., que não tomaram posição na luta entre os fiéis e os rebeldes a Deus. 
— 59-60. Daquele etc., Celestino V que renunciou ao papado, tendo por sucessor Bonifácio VIII, inimigo de Dante e do seu partido. 
— 136. Caí etc. Dante perdendo os sentidos, atravessa o Aqueronte, sem saber de que modo.  
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A Divina Comédia
Inferno
Canto I / Canto II / Canto III /   

Guitarristas - Carlos Santana

Europa


Carlos Santana (nascido em Autlán de Navarro, Jalisco, México, 1947) é um artista, compositor, vocalista mexicano ganhador de vários prêmios Grammy e um daqueles e daquelas guitarristas que estão naquelas listas de maiores de todos os tempos.

- Europa (Earth's Cry, Heaven's Smile) - Live at Montreux 2011




Santana - Soul Sacrifice - Woodstock ao vivo/1969 





Santana - Full Concert | Live at Tanglewood (1970)

Vivencie a apresentação ao vivo de Santana em Tanglewood, em 1970 — um show completo. Aproveitando o embalo de sua lendária atuação em Woodstock, Carlos Santana e sua banda estavam redefinindo o rock com uma fusão inovadora de ritmos latinos, blues, jazz e uma energia psicodélica avassaladora. Este show em Tanglewood é a prova cabal de por que Santana se tornou uma das atrações ao vivo mais empolgantes daquela época.

🔥 The Band — Santana (1970)
🎸 Carlos Santana – Guitarra, Vocais
🎹 Gregg Rolie – Teclados, Vocais
🎵 David Brown – Baixo
🥁 Michael Shrieve – Bateria
🥁 José “Chepito” Areas – Timbais, Percussão
🥁 Mike Carabello – Congas, Percussão




Santana & Gato Barbieri "Europa" (live, 1977)




George Benson and Carlos Santana - Breezin




Santana ao vivo no Woodstock Music and Arts Fair, 16/08/1969 
(repertório quase completo)



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01. Mark Knopfler / 02. Lita Ford / 03. Carlos Santana /       

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: O bombardeio do Fundo Monetário Internacional (4)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA DA ESPOLIAÇÃO
     
51. O bombardeio do Fundo Monetário Internacional facilita o desembarque dos conquistadores
          
          Dois dos ministros do governo que depuseram na comissão parlamentar sobre a desnacionalização do Brasil reconheceram que as medidas adotadas no governo de Castelo Branco, permitindo o fluxo direto do crédito externo para as empresas, tinham deixado em inferioridade de condições as fábricas de capital nacional. Ambos se referiam à célebre Instrução 289, de princípios de 1965: as empresas estrangeiras obtinham empréstimos no exterior a 7 ou 8 por cento, com um tipo especial de câmbio que o governo garantia no caso de desvalorização do cruzeiro, enquanto as empresas nacionais deviam pagar juros de 50 por cento pelos créditos que laboriosamente conseguiam dentro do país. O inventor da medida, Roberto Campos, assim a explicou: “Obviamente, o mundo é desigual. Há quem nasça inteligente e há quem nasça tolo. Há quem nasça atleta e há quem nasça aleijado. O mundo se compõe de pequenas e grandes empresas. Uns morrem cedo, na plenitude da vida; outros se arrastam, criminosamente, numa longa existência inútil. Há uma desigualdade básica fundamental na natureza humana, na condição das coisas. Disto não escapa o mecanismo do crédito. Postular que as empresas nacionais devam ter o mesmo acesso que as empresas estrangeiras têm ao crédito estrangeiro é simplesmente desconhecer as realidades básicas da economia (...)”¹. De acordo com os termos deste breve e suculento Manifesto Capitalista, a lei da selva é o código que naturalmente rege a vida humana, e a injustiça não existe, pois aquilo que conhecemos por injustiça não é senão a expressão da cruel harmonia do universo: os países pobres são pobres porque... são pobres; o destino está escrito nos astros e só nascemos para cumpri-lo: uns, condenados a obedecer; outros, distinguidos para mandar. Uns entrando com o pescoço e outros com a corda. O autor foi o artífice da política do Fundo Monetário Internacional no Brasil.

[1] Depoimento do ministro Roberto Campos, no informe da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre as transações efetuadas entre empresas nacionais e estrangeiras. Versão datilografada. Câmara dos Deputados. Brasília, 6 de setembro de 1968.
     Pouco depois, Campos publicou uma curiosa interpretação das atitudes nacionalistas do governo do Peru. Segundo ele, a expropriação da Standard Oil pelo governo do general Velasco Alvarado foi apenas uma “exibição de masculinidade”. O nacionalismo, escreveu, não tem outro objeto senão satisfazer a primitiva necessidade de ódio do ser humano. Mas, acrescentou, “o orgulho não gera investimentos, não aumenta o caudal de capitais”. Jornal O Globo, 25 de fevereiro de 1969.

     Como nos demais países da América Latina, a prática das receitas do Fundo Monetário Internacional serviu para que os conquistadores estrangeiros entrassem pisando terra arrasada. Desde fins da década de 50, a recessão econômica, a instabilidade monetária, a redução do crédito e o decréscimo do poder aquisitivo do mercado interno contribuíram fortemente para dobrar a indústria nacional e ajoelhá-la aos pés das corporações imperialistas. Sob pretexto da mágica estabilização monetária, o Fundo Monetário Internacional, que com segundas intenções confunde a febre com a enfermidade e a inflação com a crise das estruturas em vigência, impõe na América Latina uma política que agrava os desequilíbrios em lugar de atenuá-los. Liberaliza o comércio, proibindo os câmbios múltiplos e os convênios de troca, obriga ao aperto dos créditos internos até a asfixia, congela os salários e esmorece a atividade estatal. Agrega ao programa as fortes desvalorizações monetárias, teoricamente destinadas a devolver à moeda o seu valor real e a estimular as exportações. Na verdade, as desvalorizações só estimulam a concentração interna de capitais em benefício das classes dominantes, e propiciam a absorção das empresas nacionais por parte dos que chegam de fora com um punhado de dólares nas maletas.
     Em toda a América Latina, o sistema produz muito menos do que necessita consumir, e a inflação decorre desta impotência estrutural. Mas o FMI não ataca as causas da oferta insuficiente do aparato produtivo e lança suas cargas de cavalaria contra as consequências, esmagando ainda mais a mesquinha capacidade de consumo do mercado interno: uma demanda excessiva, nestas terras de famintos, seria a culpada pela inflação. Suas fórmulas não apenas fracassaram na estabilização e no desenvolvimento, como também intensificaram o estrangulamento externo dos países, aumentaram a miséria das grandes massas despossuídas, agravando as tensões sociais, e precipitaram a desnacionalização econômica e financeira, ao influxo dos sagrados mandamentos da liberdade de comércio, da liberdade de concorrência e da liberdade de movimento dos capitais. Os Estados Unidos, que empregam um vasto sistema protecionista – taxas, quotas, subsídios internos –, jamais mereceram a menor observação do FMI. Em troca, com a América Latina o FMI tem sido inflexível: para isto nasceu. Desde que o Chile aceitou a primeira de suas missões, em 1954, os conselhos do FMI se estenderam por todas as partes, e a maioria dos governos segue hoje em dia, cegamente, essas orientações. A terapêutica piora o enfermo para poder ministrar a droga dos empréstimos e dos investimentos. O FMI proporciona empréstimos ou dá a imprescindível luz verde para que outros os proporcionem. Nascido nos Estados Unidos, com sede nos Estados Unidos e a serviço dos Estados Unidos, o Fundo opera, de fato, como um inspetor internacional, e sem sua aprovação a banca norte-americana não afrouxa os cordões da bolsa; o Banco Mundial, a Agência para o Desenvolvimento Internacional e outros organismos filantrópicos de alcance universal também condicionam seus créditos à assinatura e ao cumprimento das Cartas de Intenções dos governos perante o onipotente organismo. Todos os países latino-americanos reunidos não somam a metade dos votos que os Estados Unidos detém para orientar a política desse supremo artífice do equilíbrio monetário do mundo: o FMI foi criado para institucionalizar o predomínio financeiro de Wall Street no planeta inteiro, quando em fins da Segunda Guerra o dólar inaugurou sua hegemonia como moeda internacional. Nunca foi infiel ao amo.¹

[1] LICHTENSZTEJN, Samuel & COURIEL, Alberto. El FMI y la crisis económica nacional. Montevideo, 1967; e TRÍAS, Vivian. La crisis del Imperio. Montevideo, 1970.

     A burguesia nacional latino-americana tem, decerto, vocação rentista, e não opôs barreiras consideráveis à avalanche estrangeira sobre a indústria, mas também é certo que as corporações imperialistas valeram-se de toda uma gama de métodos de arrasamento. O bombardeio prévio do FMI facilitou a penetração. Assim foram conquistadas empresas, com um simples telefonema, depois de uma brusca queda nas cotações da Bolsa, em troca de um pouco de oxigênio traduzido em ações, ou então executando alguma dívida por abastecimentos ou pelo uso de patentes, marcas ou inovações técnicas. As dívidas, multiplicadas pelas desvalorizações monetárias que obrigam as empresas locais a pagar mais moeda nacional por seus compromissos em dólares, convertem-se numa armadilha mortal. A dependência no fornecimento de tecnologia custa caro: o know-how das corporações inclui uma grande perícia na arte de devorar o próximo. Há menos de três anos, um dos últimos moicanos da indústria nacional brasileira declarava a um jornal carioca: “A experiência demonstra que o produto da venda de uma empresa nacional muitas vezes nem chega ao Brasil, e fica rendendo juros no mercado financeiro do país comprador”¹. Os credores foram pagos com as instalações e as máquinas dos devedores. Os números do Banco Central do Brasil indicam que não menos da quinta parte dos novos investimentos industriais em 1965, 1966 e 1967 correspondem, na verdade, à conversão das dívidas não pagas em investimentos.

[1] GASPARIAN, Fernando. In: Correio da Manhã, 1o de maio de 1968.

     À chantagem financeira e tecnológica soma-se a concorrência desleal e livre do forte contra o fraco. Como as filiais das grandes corporações multinacionais integram uma estrutura mundial, podem dar-se ao luxo de perder dinheiro durante um ano ou dois, ou o tempo que for necessário. Então baixam os preços e se sentam para esperar a rendição do acossado. Os bancos colaboram no cerco; a empresa nacional não é tão solvente como parecia: negam-lhe os víveres. Encurralada, a empresa logo vai levantar a bandeira branca. O capitalista local se torna sócio minoritário ou funcionário de seus vencedores. Ou conquista a mais ambicionada das sortes: cobra o resgate de seus bens em ações da matriz estrangeira e termina seus dias regiamente, vivendo de rendas.
     A propósito do dumping de preços, é ilustrativa a história da captura de uma fábrica brasileira de fitas adesivas, a Adesite, pela poderosa Union Carbide. A Scotch, conhecida empresa com sede em Minnesota e tentáculos universais, começou a vender no mercado brasileiro suas próprias fitas adesivas, com um preço progressivamente menor. As vendas da Adesite iam baixando. Os bancos lhe cortaram o crédito. A Scotch continuava baixando seus preços: caíram 30 por cento, depois 40 por cento. E então apareceu em cena a Union Carbide: comprou a fábrica brasileira a preço de desespero. Posteriormente, a Union Carbide e a Scotch se entenderam, dividindo o mercado nacional em duas partes: repartiram o Brasil, metade para cada uma. E de comum acordo elevaram o preço das fitas adesivas em 50 por cento. Era a digestão. A lei antitruste dos velhos tempos de Vargas tinha sido derrogada anos antes.
     A própria Organização dos Estados Americanos reconhece¹ que a abundância de recursos financeiros das filiais norte-americanas, “em momentos de muito escassa liquidez para as empresas nacionais, propiciou que, em certas ocasiões, algumas dessas empresas nacionais fossem compradas por interesses estrangeiros”. A penúria de recursos financeiros, aguçada pelo aperto do crédito interno imposto pelo FMI, afoga as empresas locais. No entanto, o mesmo documento da OEA informa que nada menos de 95,7 por cento dos fundos requeridos pelas empresas norte-americanas para seu normal funcionamento e desenvolvimento na América Latina provêm de fontes latino-americanas, na forma de créditos, empréstimos e lucros reinvestidos. Essa proporção é de 80 por cento no caso das indústrias manufatureiras.

[1] SECRETARÍA GENERAL DE LA OEA, op. cit.

continua na página 356...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
A Estrutura Contemporânea da Espoliação
O bombardeio do Fundo Monetário Internacional (4)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

“O meu Deus é um Deus ferido”

Tomáš Halík

“O meu Deus é um Deus ferido”, do padre checo Tomáš Halík, que a Paulinas Editora lançou nas livrarias recentemente, é uma «profunda reflexão sobre o «evangelho de Tomé» (Jo 20,19-29)» que tem como pano de fundo «a miséria social e a pobreza espiritual». «Estes problemas, precisamente, são a «chagas» de Cristo que é preciso tocar. “Se os ignoramos – diz o nosso autor –, não temos o direito de proclamar: “Meu Senhor e meu Deus”», refere a nota de apresentação do volume.
O sacerdote e filósofo Tomás Halik (n. 1948) tornou-se conhecido pelo seu empenho num diálogo construtivo com não-crentes e crentes de outras tradições religiosas, tendo por esse motivo recebido, em 2014, o Prémio Templeton, no valor de 1,3 milhões de euros, um dos maiores do mundo atribuídos a pessoas individuais. Entre as suas obras incluem-se “Paciência com Deus” (“Melhor Livro Europeu de Teologia de 2009/10”) e “A noite do confessor”, publicadas em Portugal pela mesma editora. 
Em 1978, na clandestinidade, foi ordenado sacerdote e tornou-se um dos assessores mais próximos do cardeal Tomášek, figura emblemática da chamada “Igreja do Silêncio”. Após a queda do comunismo, foi nomeado conselheiro do presidente Václav Havel e, posteriormente, secretário da Conferência Episcopal Checa. 
Do livro, e que foi originalmente publicado em 2008, apresentamos a transcrição do primeiro capítulo, intitulado “A porta dos feridos”. 

“A porta dos feridos”

     Tomé, um dos Doze, a quem chamavam o Gêmeo, não estava com eles quando Jesus veio. Diziam-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor!» Mas ele respondeu-lhes: «Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito.» Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro de casa e Tomé com eles. Estando as portas fechadas, Jesus veio, pôs-se no meio deles e disse: «A paz seja convosco!» Depois, disse a Tomé: «Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.» Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste. Felizes os que creem sem terem visto! (Jo 20,24-29)
     
Li este Evangelho até ao fim, retirei-me do ambão e fui novamente ocupar o meu lugar. Era de manhãzinha e a catedral de Madrasta [Índia] estava ainda mergulhada na penumbra, silenciosa e quase vazia. A Índia estendia-se diante de mim como um multicolor tapete de flores, ornado e guarnecido de muitos lugares sagrados – ali estava eu, a caminho de Bodh Gaya, o lugar da iluminação de Buda, de Sarnat, onde o “Iluminado” fez o primeiro discurso aos seus discípulos, de Varanasi, nas margens do Ganges, o destino mais sagrado de peregrinação dos Hindus, de Mathura, a cidade natal de Krishna –, mas aqui em Madrasta, no coração do cristianismo local, onde desde sempre foi venerado o túmulo do apóstolo Tomé, padroeiro das Índias, senti-me realmente, por um instante, como em casa – graças também ao texto já familiar.
     Nesse momento, ainda captei e entendi a perícope recitada do Evangelho de S. João como sempre antes a percebera e como habitualmente é interpretada: Jesus, pela sua aparição, livrou de todas as dúvidas o apóstolo cético, sobre a realidade da sua ressurreição; do «incrédulo Tomé» fez-se, de súbito, o crente.
     Nesse momento, eu ainda não pressentia que, graças a um evento, o texto se iria abrir, outra vez, para mim, e falar-me de um modo inteiramente diferente e mais profundo – e que, até findar o dia, o maior mistério da fé cristã mostrar-se-me-ia a uma nova luz: a ressurreição de Jesus e sua divindade. E mais ainda: Esta nova perspectiva conduziu-me, a pouco e pouco, a um certo caminho da espiritualidade de que, até agora, nada sabia. Mostrou-me «a porta para o incrédulo Tomé» – “a porta dos feridos”.
     A fé cristã consiste em estabelecer uma relação constante entre o Evangelho e a nossa vida; consiste na coragem de «entrar nesta história». Trata-se de tentar redescobrir, de forma sempre nova e mais profunda, o sentido das narrativas bíblicas, com base nas próprias experiências de vida, deixar atuar as possantes e fortes imagens do Evangelho para que elas, gradualmente, iluminem, interpretem e transformem o fluxo da nossa vida pessoal.
     Muitos acontecimentos, vivências, ideias e intuições do instante precisam do seu tempo para em nós amadurecerem e darem fruto. Doze anos se passaram desde a minha peregrinação à Índia. Estou novamente sentado, neste momento, no silêncio e na solidão do eremitério, no meio da floresta, em plena Renânia. Após uma tempestade noturna, o cume da montanha está todo coberto de uma névoa densa, através da qual só lentamente e a custo abrem caminho os primeiros raios da manhã; nuvens baixas cobrem todo o vale em redor. Começo, pois, no meio da nuvem, a escrever este livro, outra tentativa de «dar razão da minha esperança».

     «Deus morreu – fomos nós que o matámos, vós e eu!» Quantas vezes já citei este veredicto fatal de Nietzsche, tirado de “A gaia ciência”, em que «o louco» (o único a quem é permitido proferir verdades incômodas) anuncia “aos que não acreditam em Deus” o seu diagnóstico do mundo; dá a conhecer ao mundo que ele perdeu a base das suas anteriores certezas metafísicas e morais. Noutro livro de Nietzsche, pode encontrar-se também uma passagem, mas menos conhecida e menos citada, a descrição da morte dos deuses antigos: quando o Deus dos Judeus se proclamou como o único Deus, todos os deuses, segundo se conta, prorromperam num riso tão sarcástico que, perante esta arrogante tolice, morreram de riso.
     «A religião está de volta»: ouvimos hoje, muitas vezes, de todos os cantos do nosso mundo. As opiniões diferem apenas sobre se isso é bom ou mau – e talvez também a propósito de onde, quem, ou o que é que, realmente, está de volta. Regressa o único Deus, «o Deus de Abraão, Isaac, Jacob e Jesus», em que acreditam judeus, cristãos e muçulmanos, ou antes, o «Deus dos filósofos», o Ser Supremo – a invenção do Iluminismo, o adorno das proclamações e preâmbulos políticos das Constituições? Regressa um Deus que, serenamente, pode responder aos corações humanos ressequidos e cura as feridas, ou um deus da guerra e da vingança que, ao invés, causa dores e agravos? Ou deveremos, antes, alegrar-nos com a nova chegada dos ídolos antigos, trocistas, sarcásticos?
     Conta-se acerca de S. Martinho que, um dia, Satanás lhe apareceu até sob a figura de Cristo. Mas o santo não se deixou enganar: «Onde estão as tuas chagas?», perguntou.
     Com toda a abertura espiritual, confesso que não sou partidário da simpática «tolerância sem limites», que é, antes, uma expressão de indiferença e de preguiça intelectual, se é que não desiste mesmo do esforço de um cuidadoso discernimento e «separação dos espíritos». Não será, pois, ingénuo e perigoso ignorar que há também «imagens de Deus» destrutivas, e que até nas mais venerandas tradições dormitam símbolos, doutrinas e histórias que facilmente se podem refundir e moldar em armas em vez de arados? As religiões, como tudo o que é grande e existencial na vida, têm os seus riscos e perigos. Por isso, com o apóstolo Tomé e S. Martinho, a todos os que, após a «morte de Deus» ou o colapso dos ídolos irónicos, se candidatam ao trono vago, suplico: «Mostrai-me, primeiro, as vossas chagas!» Já não acredito em «religiões sem chagas».

     Sim, esforço-me, já há anos, por estudar e compreender, com apreço e abertura, os mais diversos caminhos religiosos. Percorri uma boa parte do mundo, e o que consegui ver e conhecer não me autoriza a permanecer na lógica elementar do «ou-ou» (se dois homens são de opinião diferente, então um deles, pelo menos, estará enganado). Tenho a consciência de que, quando alguém diz e pensa algo diferente de mim, isso se pode dever apenas a que ele vê as coisas a partir de outro ponto de vista, de outra perspectiva, de outra tradição ou experiência; que ele se expressa numa outra «linguagem» – que, portanto, a disparidade das nossas conceções e afirmações não desmente nem rebate forçosamente a sua ou a minha pretensão à verdade; de igual modo, tal divergência também não porá em causa a sua ou a minha honestidade e sinceridade. Sou, ao mesmo tempo, consciente de que este conhecimento não tem necessariamente de levar a um relativismo cómodo e resignado («cada um tem a sua verdade»), mas, antes, a um esforço de, pelo diálogo recíproco, pela troca de experiências, alargar os horizontes pessoais, sempre necessariamente limitados, e, nesse diálogo com o outro, aprender igualmente a conhecer-se a si mesmo.
     Aprendi a respeitar as muitas e distintas sendas pelas quais os seres humanos tentam penetrar no derradeiro mistério da vida. Creio que esse «mistério supremo» excede infinitamente todas as representações e todos os nomes que nós, homens, a ele associamos. Sim, creio em um só Deus, Pai de “todos” nós, do qual nenhum homem individual nem nenhuma das «instituições religiosas» ou os seus representantes detêm o «monopólio»; confio e tenho a esperança de que Ele é a foz ou confluência definitiva também dos rios mais meândricos e tortuosos; que para ele se dirigem, ao fim e ao cabo (para lá de todas as fronteiras entre diferentes sistemas e culturas religiosas), os caminhos de todos os que, guiados pela luz das suas tradições, da sua ânsia de verdade, da sua consciência moral e do seu conhecimento, sinceramente, buscam e veneram o mistério último da vida.
     Não sou nem o omnisciente nem o omnividente – não me cabe emitir juízos definitivos e infalíveis sobre os outros e sobre a sua fé pessoal, porque não posso perscrutar os seus corações e também não enxergo o último fim e a meta da sua peregrinação. Mas ninguém pode arrebatar-me a esperança de que «o Deus dos outros» seja, em última instância, também o «meu Deus»; porque o Deus em que acredito é igualmente o Deus daqueles que não conhecem o Nome, com que eu o invoco.
     Todavia, de um só fôlego, acrescento e confesso: “para mim”, não há outro caminho, não há outra porta para Ele, exceto aquela que é aberta por uma mão chagada e um coração trespassado. Não posso clamar «“meu” Senhor e “meu” Deus», se não vir a ferida que chega ao coração. Se «credere» (crer) deriva de «cor dare» (dar o coração), então, devo confessar que o meu coração e a minha fé pertencem apenas ao Deus que pode mostrar as suas chagas.
     A minha fé e o meu amor são uma só coisa, e ninguém pode arrebatar-me o amor ao Crucificado, pois ele é a resposta ao seu amor por mim: «Que é que poderá separar-me do amor de Cristo?» Do amor que se legitima pelas suas chagas. Não estou em condições de proferir as palavras «meu Deus», se não vir as suas chagas! Mesmo em face da mais refulgente visão religiosa teria, provavelmente – pese a toda a franqueza – a minha dúvida, se não se trataria de uma ilusão, da projeção dos meus desejos, ou até do próprio Anti-cristo – se ela não apresentar «as cicatrizes dos cravos». O meu Deus é um Deus ferido.
     Se alguém achar contraditório o que acabei de professar, então eu admito que também sinto isso: é esta a verdadeira tensão da minha fé. Cheio de esperança e de confiança, volto-me para Deus que, generoso e liberal, aceita a diferença dos seus filhos, e cujo seio está aberto numa vastidão que nos é incompreensível. No entanto, isto significa, ao mesmo tempo, que não posso saber com «certeza» onde residem os limites de tal amplidão, e não posso pressupor, com ingenuidade, que ela simplesmente «tudo» abarca. Devo preservar o respeito, perante o outro ou, pelo menos, perante a honestidade e a sinceridade do seu ato de fé; se, porém, hei de dedicar-me de alma e coração a alguma coisa, devo indagar os seus frutos.
     Na religião, tal como nas outras esferas importantes da vida, há valores essenciais, preciosos e insubstituíveis, mas também outros que apenas se fazem passar por tais – poderiam igualmente ser ervas daninhas e plantas venenosas. E ao contrário do que muitos pensaram e ainda hoje pensam, não há campos (a saber, os nossos) em que cresça apenas um boa colheita, e outros, dos quais podemos de antemão dizer que neles nada de bom irá crescer. Na Bíblia, encontramos tanto a interpelação para examinarmos «de quem é o espírito» que nos é oferecido, como o aviso de que é extraordinariamente difícil a distinção entre «o joio e o trigo»; no fim de contas, tal tarefa é para nós, mortais, insolúvel e sobrepuja a nossa capacidade de juízo.
     Que posso, pois, fazer? Expor «ao teste de S. Martinho» a minha fé e o que me é proposto para a fé. Não acredito em deuses nem em religiões que dançam neste mundo sem serem afetados pelas suas feridas – sem arranhaduras, sem cicatrizes, sem queimaduras –, que assim exponham, prazenteiramente, na atual feira das religiões, apenas a sua radiosa gentileza.
     A minha fé só pode alijar o fardo da dúvida e experimentar a certeza íntima e a tranquilidade do estar-em-casa, se percorrer o íngreme e difícil «caminho da cruz», quando se orientar para Deus através da estreita “porta das chagas de Cristo”; se caminhar pela porta dos pobres, pela porta dos feridos, que os ricos, os saciados e os seguros de si mesmos, os conhecedores e «os videntes», «os sãos», «os justos», «os sábios e os precavidos» não conseguem transpor, tal como um camelo não passa pelo fundo de uma agulha.

     O apóstolo Tomé, à vista do Ressuscitado, terá sido realmente liberto, para sempre, de todas as suas dúvidas, ou, pelo contrário, ter-lhe-á Jesus mostrado, “pelas suas chagas”, o único lugar em que aquele que busca e o que duvida podem efetivamente “tocar Deus”? Foi este o pensamento que aquele dia em Madrasta me sugeriu.
     O meu colega indiano, padre católico e professor de Estudos da Religião na Universidade de Madrasta, levou-me, na tarde quente desse mesmo dia, ao lugar onde o apóstolo Tomé, segundo a lenda, foi torturado até à morte, e, depois, a um orfanato católico, à distância apenas de alguns passos.
     Nas minhas viagens à Ásia, África e América do Sul, antes e depois, fitei, de muito perto, a miséria. Conheço, graças à minha prática clínica e ao uso do confessionário, a pobreza moral, o sofrimento oculto dos corações e os recessos sombrios dos destinos humanos. Visitei «o monte do Calvário da nossa época», os campos de concentração do nacional-socialismo e do comunismo, Hiroshima e o Ground Zero, em Manhattan, lugares onde, na imaginação e na ideia, continua a estar viva a memória da violência criminosa, que ali foi perpetrada – mas nunca esquecerei o orfanato de Madrasta.
     Em berços, que mais faziam lembrar gaiolas de aves, jaziam criancinhas abandonadas com barrigas inchadas pela fome, pequenos esqueletos, revestidos apenas de uma pele negra, muitas vezes inflamada; nos corredores, que pareciam intermináveis, miravam-me, em toda a parte, os seus olhos febris e estendiam-me as palmas das mãos cor-de-rosa. O ar cortou-me a respiração, no meio do fedor e do choro senti um mal-estar psíquico, físico e moral; vi-me sufocado e tolhido por um sentimento de impotência e de intensa vergonha, que, às vezes, se experimenta em face de quem sofre, só porque temos uma pele saudável, uma barriga cheia, uma cama limpa e um teto sobre a cabeça. Receoso, quis sair dali (e não apenas dali), tão depressa quanto possível, com os olhos e o coração aferrolhados e ausentes; lembrei-me novamente das palavras de Ivan Karamazov, que queria «devolver» a Deus o «bilhete de entrada» para um mundo onde as crianças sofrem.
     Mas justamente naquele momento irrompeu em mim, vinda das profundezas, a frase: «Toca nas chagas!» E ainda: «Chega cá o teu dedo! Olha as minhas mãos e estende a tua e põe-na no meu lado.»
     De repente, abriu-se-me de novo a história do apóstolo Tomé, tirada do Evangelho de João, que eu lera, na missa da manhã, junto do túmulo do «padroeiro dos céticos». Jesus identificou-se com todos os pequeninos e com os que sofrem – assim todas as feridas dolorosas, todo o sofrimento do mundo e da humanidade, são «as chagas de Cristo». Crer em Cristo, poder dizer «meu Senhor e meu Deus», só posso fazê-lo se tocar nestas suas feridas, de que também o nosso mundo está, hoje, cheio. Caso contrário, só em vão e sem sentido clamarei «Senhor, Senhor!».
     Decerto, nenhum de nós se deve considerar como o Messias, que poderia curar todas as feridas do mundo; de resto, nem sequer Ele o fez durante o tempo terreno da sua atividade – e também não intentou isso. Devemos até resistir à tentação que, frequentemente, arrebata e arrasta para a “magia” dos esforços revolucionários de fazer «das pedras pães». Mesmo que honestamente tentemos fazer tudo o que está nas nossas forças e possibilidades, só conseguimos remar um pouco contra as ondas iminentes do oceano da miséria, que demole uma parte cada vez maior do nosso continente. Apesar de tudo, não devemos fugir das feridas do mundo e virar-lhes as costas, temos, ao menos, de “vê-las e tocar” nelas, e deixarmo-nos “agarrar” por elas. Se eu ficasse indiferente, insensível, incólume perante elas – como poderia, então, confessar a fé e o amor a Deus, que não vejo? Por que então, efetivamente, não o veria!
     Ali, em Madrasta, tornou-se-me, para sempre, óbvio o seguinte: não tenho o direito de professar a fé em Deus, se não tomar a sério o sofrimento dos meus próximos e vizinhos. Uma fé que prefere fechar os olhos perante a dor humana é apenas uma ilusão ou ópio; perante tais tipos de religião, Freud e Marx tiveram razão com a sua crítica!
     Mas uma coisa é ainda muito importante: Na percepção da dor que há no mundo, não podemos centrar-nos apenas nos «problemas sociais», mesmo que este tipo de sofrimento brade, com razão, à consciência moral do mundo e de cada um de nós, e a sua voz não deva deixar de se ouvir. Mas nem por um só instante nos é permitido pensar que «levaremos a cabo» esta tarefa vital, se contribuirmos para as atividades caritativas em África, se dermos uma esmola a um mendigo ou se, nas escolhas de programas políticos, votarmos com acentos sociais, embora isto seja deveras importante. Mas não basta: há ainda muitas outras dores ocultas no íntimo dos homens, à nossa volta. E também não damos pelas feridas ainda abertas e por sarar em nós próprios: se as reconhecermos, e também à sua cura, contribuímos igualmente para a «cura do mundo»; é este até, por vezes, um pressuposto necessário para nos apercebermos, com sensibilidade, da dor dos outros e podermos ajudá-los.

     Naquela tarde, em Madrasta, outra coisa ainda chamou a minha atenção: possivelmente, as dúvidas do apóstolo Tomé eram de um tipo muito diferente das que nós – netos da época cientificista e positivista – padecemos de vez em quando e que, apressados, projetamos nesta história; o Apóstolo não era, provavelmente, um «materialista» lerdo e pesadão, incapaz de se abrir ao mistério que não conseguia «apreender».
     Tomé era um homem disposto a seguir o seu Mestre até ao fim mais acerbo e difícil; lembremo-nos de como ele reagiu às palavras de Jesus quando, na altura, se tratava de ir ter com Lázaro: «Vamos, e morramos com Ele!» Tomou a sério a cruz, e a notícia sobre a ressurreição afigurou-se-lhe talvez como um «happy-end» demasiado fácil para a história da paixão de Jesus. Talvez por isso se tenha recusado a aderir à alegria dos outros Apóstolos; e quis, por conseguinte, ver as chagas de Jesus. Quis ver se «a ressurreição» não esvaziava a cruz– só então pôde pronunciar o seu «creio». Terá, porventura, o «incrédulo Tomé» captado, no fim de contas, o sentido do evento pascal mais profundamente do que os outros?
     «A incredulidade de Tomé é mais útil à nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditam», escreveu o papa S. Gregório Magno, na homilia sobre este texto evangélico.

     Jesus aproxima-se de Tomé e mostra-lhe as suas chagas: vê, o sofrimento – seja ele qual for – não se apagou nem foi esquecido! As feridas permanecem feridas. Mas aquele que «tomou sobre si as nossas doenças» transpôs também, na obediência, as portas do inferno e da morte, e doravante (in compreensivelmente) está aqui conosco. Mostrou-nos assim que «o amor tudo suporta»; que «nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor, nem as torrentes o podem submergir», porque «forte como a morte é o amor» – e até mais forte do que ela. O amor, à luz deste evento, surge como um valor que não devemos remeter para a esfera do sentimentalismo; indica uma força – a única força que sobrevive à própria morte e que, com as mãos trespassadas, arromba as suas portas.
     A ressurreição não é, pois, nenhum «happy-end», mas um convite e um desafio: não devemos e não podemos capitular perante o fogo do sofrimento, mesmo se agora não conseguimos extingui-lo. Frente ao mal, não podemos comportar-nos como se a última palavra houvesse de lhe pertencer. Não tenhamos medo «de acreditar no amor», mesmo onde, segundo todos os critérios do mundo, ele perde. Tenhamos a coragem de apostar na loucura da cruz contra «a sabedoria deste mundo»!
     Talvez Jesus, ao reacender a fé de Tomé pelo toque nas chagas, tenha querido que ele dissesse justamente o que para mim, como que atingido por um raio, se tornou claro no orfanato de Madrasta: Onde tu tocares no sofrimento humano– e talvez só aí! – ficas a saber que eu estou vivo, que «Eu sou». Encontras-me por toda a parte onde os homens sofrem. Não fujas de mim em nenhum destes encontros. Não tenhas medo! Não sejas incrédulo, mas crê!
     Deus, o Senhor da Antiga Aliança, apareceu a Moisés na sarça-ardente; o seu Filho unigénito, nosso Senhor e Deus, aparece no fogo do sofrimento, na cruz; e só entendemos a sua voz, quando tomamos sobre nós a nossa cruz e estamos preparados também para carregar com o fardo dos outros; só então as cicatrizes do mundo – as suas cicatrizes – se tornam para nós uma interpelação.

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Halík, Tomáš. O Meu Deus é um Deus ferido. Ao tocar nas feridas do mundo, tocamos em Deus. Ed. Paulinas. 2015. páginas 240.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Émile Zola - Germinal: Sétima Parte - (I.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sétima Parte

I

     O tiroteio de Montsou repercutiu até em Paris com um eco formidável. Durante quatro dias, todos os jornais da oposição, indignados, publicaram nas suas primeiras páginas narrativas atrozes: vinte e cinco feridos, catorze mortos, entre eles duas crianças e três mulheres, e mais os prisioneiros. Levaque transformara-se numa espécie de herói, atribuíam-lhe uma resposta de uma grandeza antiga ao juiz de instrução. O império, ferido nas próprias carnes por aquelas poucas balas, fingia a calma do todo poderoso, sem dar-se conta da gravidade da sua ferida. Era simplesmente um choque lamentável, coisa vaga e distante, na região carbonífera, muito longe do centro de gravitação, que era Paris. Tudo seria esquecido em pouco tempo, a companhia recebera ordem de abafar o problema e de acabar com a greve, cuja irritante duração se transformava em perigo social.
     Por isso, na quarta-feira de manhã, chegaram a Montsou três administradores. A pequena cidade, que não ousara até então regozijar-se com o massacre, de coração oprimido, respirou, enfim, saboreando a alegria de se ver salva. Justamente nesse dia o tempo estava esplêndido, com um sol radioso, um dos primeiros sóis de fevereiro, cuja tepidez faz que os brotos dos lilases desabrochem. Todas as persianas da administração foram descidas, o vasto edifício parecia reviver e dali começaram a sair os boatos mais animadores; dizia-se que os administradores, muito chocados com a catástrofe, tinham vindo para abrir seus braços paternais aos desesperados mineiros. Agora que o golpe fora dado, sem dúvida mais violento do que eles queriam, prodigalizavam-se na sua missão de salvadores, decretavam medidas tardias e excelentes. Primeiro despediram os belgas, fazendo grande alarde dessa concessão extrema aos seus operários; depois suspenderam a ocupação militar das minas, que grevistas esmagados já não ameaçavam; foram eles também que obtiveram silêncio acerca da sentinela da Voreux que desaparecera: tinha-se esquadrinhado a região sem encontrar o fuzil ou o cadáver ficou decidido que o soldado seria declarado desertor, ainda que houvesse a suspeita de um crime. Em tudo esses senhores se esforçaram para atenuar os acontecimentos, tremendo de medo do futuro, julgando perigoso confessar a irrefreável selvageria de uma multidão, desencadeada pelos alicerces caducos do velho mundo. E além do mais, esse trabalho de conciliação não os impedia de conduzir a bom termo os assuntos puramente administrativos: Deneulin já fora visto entrando na administração para encontrar-se com o Sr. Hennebeau. As conversações para a compra de Vandame continuavam, afirmava-se que ele ia aceitar as ofertas dos administradores.
     Mas o que sobretudo agitou a região foram os enormes cartazes amarelos que esses senhores mandaram afixar nas paredes; liam-se neles estas poucas linhas em letras garrafais: "Operários de Montsou, não queremos que os desmandos praticados nos últimos dias privem com seus tristes efeitos os meios de subsistência dos operários sensatos e de boa vontade. Por isso, na segunda-feira, de manhã, abriremos novamente todas as minas, e, quando o trabalho já estiver em curso, examinaremos com cuidado e benevolência as situações que poderiam ser melhoradas. Faremos, enfim, tudo o que for possível e justo." Numa manhã, os dez mil mineiros desfilaram diante desses cartazes. Nenhum falava, muitos abanavam a cabeça, outros iam-se, arrastando os pés, sem que um músculo do rosto se tivesse movido. 
     Até então, o conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante obstinara-se na sua resistência desesperada. Parecia que o sangue dos companheiros, que tingira o lodo da mina, impedia o caminho aos demais. Apenas uns dez haviam descido: Pierron e outros vendidos iguais a ele, que os demais, com ar sombrio, viam partir e voltar, sem um gesto ou ameaça. O cartaz afixado na igreja foi acolhido com surda desconfiança; nele não se falava das carteiras de trabalho que tinham sido devolvidas. A companhia voltaria a empregar os despedidos? O medo de represálias e a ideia fraternal de protestar contra a demissão dos mais comprometidos faziam que todos fincassem pé na obstinação. Tudo aquilo era muito equívoco, o melhor era esperar para ver, voltariam ao trabalho quando esses senhores resolvessem explicar-se com franqueza. Um silêncio esmagava o casario baixo, a própria fome já não tinha importância todos podiam morrer desde que a morte violenta voejara sobre suas casas.
     Um lar principalmente, o dos Maheu, conservava-se negro e mudo, afundado na sua dor. Desde que tinha acompanhado o marido ao cemitério, a mulher não abria a boca. Depois da batalha, permitira que Etienne trouxesse para casa Catherine, enlameada e semimorta e quando a despia diante do rapaz, para a deitar, pensou por um instante que também a filha lhe voltava com uma bala na barriga, porque a camiseta tinha grandes manchas de sangue. Mas compreendeu logo: era, enfim, o sangue da puberdade que corria, devido ao choque daquele dia abominável. Que sorte a deles! Que belo presente aquele sangue! Poder fazer filhos para serem mortos pelos policiais... E não dirigiu a palavra a Catherine, como, aliás, não falou com Etienne. Este voltou a dormir com Jeanlin, arriscando ser preso, tomado de tal repugnância à ideia de voltar para as trevas de Réquillart, que preferia a prisão. Os arrepios o sacudiam, era o horror da noite após todas aquelas mortes, o medo inconfessado do soldadinho que jazia sob as rochas. De resto, imaginava a prisão como um refúgio no meio do tormento da sua derrota; mas a polícia nem sequer o procurou, passava horas horríveis, sem saber em que esfalfar seu corpo. E, além de tudo isso, a viúva às vezes os encarava, a ele e à filha, com ar rancoroso, como se estivesse perguntando o que estavam fazendo na casa dela.
     Voltaram a roncar amontoados. O velho Boa-Morte ocupava a cama que pertencera às duas crianças, que dormiam com Catherine, agora que não existia mais a pobre Alzire para aninhar sua corcunda nas costas da irmã mais velha. Era ao deitar-se que a mãe sentia o vazio da casa, no frio do seu leito, agora tão largo. Em vão apertava-se de encontro a Estelle, isso não substituía o seu homem. E chorava em silêncio, horas a fio. Depois, os dias começaram a decorrer como antes: sempre sem pão, não tendo contudo a sorte de morrerem de uma vez por todas; coisas apanhadas a esmo que prestavam aos miseráveis o mau serviço de fazê-los durar. Nada havia mudado na sua existência, só havia de menos o seu homem.
     Na tarde do quinto dia, Etienne, a quem aquela mulher silenciosa causava desespero, deixou a sala e caminhou lentamente ao longo da rua calçada da aldeia. A inação, que lhe era tão pesada, levava-o contínuos passeios, de braços caídos, cabeça baixa, torturado pelo mesmo pensamento. Vagava assim havia meia hora, quando sentiu, a cúmulo do constrangimento, que seus companheiros se punham às portas para o verem. O pouco que sobrava da sua popularidade fora-se com o vento da fuzilaria, já não conseguia passar entre eles ter de suportar olhares cheios de rancor. Quando ergueu a cabeça, figuras ameaçadoras o observavam, as mulheres entreabriam pequenas cortinas das janelas. E sob aquela acusação, muda ainda, sob a cólera contida daqueles olhos enormes, dilatados pela fome e pelas lágrimas, não sabia o que fazer, nem sabia andar. Às suas costas, a surda censura ia num crescendo. Presa de tal medo de ouvir todo o conjunto habitacional saindo à rua para lhe gritar sua miséria, voltou para casa, todo trêmulo.
     Mas no lar dos Maheu a cena que o esperava acabou de arrasá-lo. O velho Boa-Morte estava ao lado do fogão apagado, pregado na sua cadeira desde que dois vizinhos, no dia da matança, tinham-no encontrado por terra, com a bengala quebrada, derrubado como uma velha árvore fulminada. E, enquanto Lénore e Henri, para enganar o estômago, raspavam com ruído ensurdecedor uma velha panela, onde na véspera tinham cozinhado algumas couves, a mulher de Maheu, muito ereta, após ter pousado Estelle sobre a mesa, ameaçava Catherine com o punho. 

— Repete, diabo! Repete o que acabas de dizer!

     Catherine tinha falado de sua intenção de voltar a trabalhar na Voreux. A ideia de não ganhar seu pão, de ser apenas tolerada na casa da mãe como um animal incômodo e inútil, tomava-se cada dia mais insuportável. E, se não fosse o temor de receber uns tabefes de Chaval, já na terça-feira teria descido. Gaguejando, insistiu: 

— Que queres? Não se pode viver sem fazer nada. Ao menos teríamos pão.

     A outra interrompeu-a: 

— Escuta, o primeiro de vocês que voltar ao trabalho, eu mato... Era só o que faltava! Assassinar o pai e continuar explorando os filhos! Chega! Antes prefiro ver todos vocês levados de pés juntos, como o que já foi.

     E o seu longo silêncio explodiu furiosamente numa torrente de palavras. Que bela soma lhe traria Catherine! Apenas trinta soldos, aos quais se poderiam adicionar vinte se os patrões quisessem dar algum serviço ao bandido do Jeanlin. Cinquenta soldos e sete bocas a alimentar! Os pequenos só prestavam para comer. Quanto ao avô, devia estar com algum parafuso no cérebro frouxo por causa da queda, porque parecia um idiota, ou então sofrera um abalo vendo os soldados atirarem nos companheiros. 

— Não é verdade, velho? acabaram com a sua casca. De nada lhe vale ter as mãos ainda fortes, está liquidado.

     Boa-Morte olhava-a com seus olhos baços, sem compreender Ficava horas com o olhar perdido, só sabia cuspir num prato cheio de cinza, que punham ao seu lado, por asseio. 

— E nem ao menos pagaram a sua pensão — prosseguiu ela. — Estou certa de que vão suspendê-la, por causa das nossas ideias... Não, chega! Já disse que não quero mais nada desses desgraçados! 
— Mas eles — arriscou Catherine — prometem no cartaz... 
— Queres deixar-me em paz com esse tal cartaz? Outra arapuca para nos apanhar e destruir. Agora que nos furaram à bala podem bancar os bonzinhos para nós. 
— Mas então, para onde iremos, mamãe? Não poderemos ficar aqui no conjunto habitacional, com certeza.

     A mulher fez um gesto incompreensível e terrível. Para onde iriam? Não sabia, nem queria pensar nisso para não ficar louca. Iriam por aí, para qualquer parte. E, como o barulho da panela estava ficando insuportável, jogou-se sobre Lénore e Henri e espancou-os. Uma queda de Estelle, que tinha engatinhado, aumentou a algazarra. A mãe acalmou-a com um tabefe: que felicidade se tivesse morrido! E começou a falar de Alzire, desejando aos outros a fortuna dela. Depois, bruscamente, explodiu em soluços, com a cabeça apoiada na parede.
     Etienne, em pé, não ousara intervir. Sua presença na casa já passava despercebida, as próprias crianças se afastavam dele, cheias de desconfiança. Mas as lágrimas daquelas desgraçadas dilaceraram-lhe o coração e murmurou: 

— Vamos! vamos! coragem! sairemos dessa...

     Ela pareceu não o ouvir lamentando-se num queixume baixo e contínuo: 

— Ah, quanta miséria! Como é possível? Antes de todos esses horrores ainda se podia aguentar. Comíamos pão seco mas estávamos todos juntos... O que aconteceu depois, meu Deus! Que fizemos nós para receber tal castigo, uns já debaixo da terra, os outros querendo ir? É bem verdade que mais parecíamos bestas de carga e não havia justiça na partilha, nós sempre apanhando e aumentando a fortuna dos ricos, sem qualquer esperança de um dia gozar das boas coisas da vida. A alegria de viver desaparece do não há mais esperança. Claro, isso não podia durar, era preciso respirar um pouco... Mas se ao menos a gente soubesse o que ia acontecer! Então é possível tamanha infelicidade só porque se quer justiça?

     Os suspiros faziam-na estremecer, sua voz estava embargada por uma imensa tristeza. 

— Depois, sempre aparecem os malandros que prometem que tudo vai entrar nos eixos, basta a gente querer... E perde-se a cabeça, o que já existe é causa de tanto sofrimento que se pede aquilo que não existe. Eu cheguei a sonhar como uma idiota, planejava uma vida de paz em comum; confesso que andava com a cabeça nas nuvens. E no fim cai-se outra vez na lama, partindo o lombo... Não era verdade, lá em cima não havia nada daquilo que se imaginou. O que havia era mais miséria, isso sim! Miséria à vontade, e tiros ainda por cima...

     Etienne escutava essa lamentação e a cada lágrima sentia remorso. Não sabia o que dizer para acalmar a mulher, toda quebrada com a terrível queda do alto do seu ideal. Ela voltara para o meio da peça e encarava-o; e tratou-o por tu, num último grito de raiva: 

— E tu também estás planejando voltar ao trabalho, depois de nos ter afundado a todos? Não te censuro nada, mas, se estivesse no teu lugar, já teria morrido de desgosto por ter feito tanto mal aos companheiros.

     Ele quis responder, mas apenas encolheu os ombros, desesperado: para que dar explicações que a mulher, na sua dor, não compreenderia? E, arrasado pelo sofrimento, saiu, retomando a caminhada sem destino.

continua na página 380...
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Sétima Parte - (I.a) /     
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.