sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Odisseia: Parte I (Canto II.a)

Odisseia

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto II

A Assembleia em Ítaca e a partida de Telêmaco

     ““Junto com a Aurora, Telêmaco, convocando para a assembleia os itacenses, pede aos pretendentes que saiam da casa, e solicita um navio para viajar a Pilo e a Esparta, que não consegue. Recebendo um navio de Noémone e as provisões de sua ama Euricleia, parte escondido da mãe.” (Scholie H M S)


   Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
alça-se o filho do divo Odisseu de seu leito lavrado; 
veste-se e no ombro, depois, deita a espada de gume cortante; 
calça, a seguir, as formosas sandálias nos pés delicados 
e sai do quarto, no aspecto semelho a um dos deuses eternos. 
Manda aos arautos, de voz penetrante, que à praça convoquem, 
para a assembleia, os Aquivos de soltos cabelos nos ombros. 
Gritam, sem mora, o pregão; apressados aqueles concorrem. 
Quando ao chamado acudiram e todos se achavam reunidos,

veio, também, para a praça, na mão tendo a lança de bronze, 
mas só ele não ia; dois rápidos cães acompanham-lhe os passos. 
Palas Atena lhe infunde nos ombros a graça divina, 
de modo tal que os do povo o admiravam à sua passagem. 
Senta-se logo no posto do pai; os antigos lho cedem. 
Abre a assembleia, arengando aos presentes, Egípcio preclaro, 
que, pela idade encurvado, possui o saber da experiência. 
Um de seus filhos queridos com o divo Odisseu também fora 
para Ílio fértil, nutriz de corcéis, em navio bojudo. 
Ántifo, exímio lanceiro, que o fero Ciclope matara

na gruta côncava, dele fazendo o repasto postremo. 
Três filhos mais lhe restavam: um deles, Eurínomo, vive 
aos pretendentes em meio; os demais, nas lavouras do velho. 
Nunca deixava, porém, de chorar pela Morte daquele. 
Lágrimas, pois, a verter, por sua causa, arengando, assim fala: 
   “Ora, Itacentes, prestai atenção no que tenho a dizer-vos. 
Não mais tivemos sessão, nem ninguém convocou a assembleia 
dês que o divino Odisseu embarcou no navio bojudo. 
Quem, desta vez, nos convoca? E que causa premente o compele, 
quer seja um moço dos nossos, quer mesmo um dos homens mais velhos?

Nova terá recebido da vinda de exército imigo, 
do que pretende falar-nos, por ser o primeiro que o soube? 
Ou sobre a causa do povo tenciona, talvez, dizer algo? 
Nobre parece-me ser e de méritos grandes. Pudesse 
Zeus outorgar-lhe a obtenção do desígnio que volve na mente.” 
   Disse; o presságio foi causa de muito alegrar-se Telêmaco. P
or muito tempo não fica sentado; deseja falar-lhes; 
põe-se de pé, da assembleia no meio; na mão dá-lhe o cetro, 
logo, Pisénor, o arauto, que sabe prudentes conselhos. 
E dirigindo-se ao velho em primeiro lugar, lhe responde:

“Velho, distante não se acha o que dizes; em breve hás de vê-lo. 
Eu convoquei a assembleia, pois mais que ninguém me ressinto. 
Não recebi nova alguma da vinda de exército imigo, 
do que pretenda falar-vos, por ser o primeiro que o soube, 
nem sobre a causa do povo tenciono, também, dizer algo, 
mas a respeito das duas desgraças que em casa me pesam. 
Uma, consiste na Morte de meu pai ilustre, que outrora 
paternalmente benigno reinou sobre vós, os presentes; 
ora outra muito mais grave ocorreu, e que breve há de a casa 
completamente arruinar-me e destruir toda a minha fazenda.

A seu mau grado se vê minha mãe assediada e forçada 
por pretendentes que filhos se dizem dos nobres da terra, 
aos quais repugna buscar a morada de Icário, pai dela, 
a quem compete fixar os presentes por modo aprazível, 
para entregá-la a quem bem lhe aprouver e lhe seja do agrado. 
Mas, em vez disso, instalaram-se todos em nosso palácio, 
cabras e bois sacrificam e ovelhas de velo vistoso, 
banqueteando-se a rodo e gastando do rútilo vinho, 
desmesurados; as reses minguam, porque não achamos 
como Odisseu nenhum homem capaz de livrar-nos a casa

da maldição, porque tal não podemos e até no futuro 
fracos seremos, por certo, e sem meios de a tal nos opormos, 
ainda que, só os expulsara, se força nos membros tivesse. 
Incomportável é isso que fazem, nem é decoroso 
que minha casa se perca. Também deveríeis mostrar-vos 
todos contrários a isso, acatando os vizinhos de em torno, 
da redondeza habitantes. Temei o castigo dos deuses, 
não façam eles mudança, indignados com tais malefícios. 
Por Zeus Olímpico faço-vos este pedido, e por Têmis, 
que as assembleias dos homens dissolve, assim como os reúne:

tantos abusos, amigos, detende, e sozinho deixai-me 
com minha dor, a não ser que meu pai, Odisseu, o bondoso, 
haja algum mal praticado aos Aquivos de grevas bem-feitas 
para, em vingança, outros males agora intentardes fazer-me, 
dessa maneira a atiçá-los. Mor lucro, por certo, eu tivera 
se fosseis vós os que os bens e os rebanhos, assim, me pilhassem. 
Sim, se meus bens devorásseis, indenização obteria, 
pois com palavras iria através da cidade, a pedir-vos 
e reclamá-lo de todos, até que pudesse reavê-los. 
Ora com dor insanável o peito acabais de ferir-me.”

Isso disse ele, indignado; e, rompendo num pranto copioso, 
o cetro atira no chão. Todo o povo de dor é tomado. 
Quedos mantêm-se os presentes; ninguém a objetar se atrevia 
às expressões de Telêmaco, com palavras muito duras. 
Somente Antínoo lhe diz, em resposta, as seguintes palavras: 
   “Altiloquente Telêmaco e de ânimo altivo, que dizes, 
que nos ofende e que a todos será qual labéu desonroso? 
Os pretendentes não somos culpados, nós outros Aquivos; 
culpa a tua mãe, por demais entendida em processos escusos. 
Já se passaram três anos, e em breve mais um será feito,

desde que ilude o desejo que os nobres Acaios anima. 
Sabe manter esperanças em todos e a todos promete, 
bem como envia mensagens, mas outros desígnios medita. 
No mais recôndito soube engendrar o seguinte artifício: 
Tendo estendido no quarto uma tela sutil e assaz grande, 
pôs-se a tecer. A seguir nos engana com estas palavras: 
‘Jovens, porque já não vive Odisseu, me quereis como esposa. 
Mas não insteis sobres as núpcias, conquanto vos veja impacientes, 
té que termine este pano, não vá tanto fio estragar-se, 
para mortalha de Laertes herói, quando a Moira funesta

da Morte assaz dolorosa o colher e fizer extinguir-se. 
Que por qualquer das Aquivas jamais censurada me veja, 
por enterrar sem mortalha quem soube viver na opulência.’ 
Dessa maneira falou, convencendo-nos o ânimo altivo. 
Passa ela, então, a tecer uma tela mui grande, de dia: 
à luz dos fachos, porém, pela noite destece o trabalho. 
Três anos isso; com dolo consegue embair os Aquivos. 
Mas quando o quarto chegou, das sazões no decurso do estilo, 
fez-nos saber a artimanha uma serva de tudo inteirada. 
Dessa maneira a apanhamos, que o belo tecido esfazia,

tendo-se visto obrigada a acabar o trabalho, por força. 
Dos pretendentes, agora recebe a resposta, que na alma 
possas o alcance pesar-lhe e os Aquivos de tudo se inteirem: 
manda tua mãe do palácio sair e lhe dizer que case 
com quem o pai ordenar e a quem ela afeição não recuse. 
Se persistir, desse modo, a enganar por mais tempo os Aquivos, 
muito orgulhosa dos dons com que Atena abrindou a mancheias, 
não só de méritos de alma, senão de perícia em trabalhos, 
como de astúcia, por modo qual nunca soubemos das outras 
que em priscos tempos viveram, Aquivas de tranças bem-feitas,

Tiro, não só, mas Alcmena e Micena, do belo diadema, 
que não suportam confronto com o senso da nobre Penélope. 
Mas desta vez não pensou plano digno de ser elogiado, 
pois os seus bens e riquezas serão sem cessar consumidos 
por quanto tempo ficar nesse intento que os deuses celestes 
no coração lhe inspiraram. Se fama, com isso, ela adquire, 
tu, por teu lado, só perda consegues na muita fazenda. 
Sim, não sairemos daqui para os nossos domínios, ou de outrem, 
antes de vê-la casada com um dos Aqueus de sua escolha.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta:

“Não é possível, Antínoo, expulsar com violência de casa 
quem me deu vida e educou. Noutras terras meu pai ora se acha. 
É vivo ou morto? Difícil a Icário pagar me seria 
o equivalente exigido, se eu próprio, por gosto, a expulsasse. 
Males viria a sofrer de seu pai, como de divindades 
outras, porque minha mãe chamaria as odientas Erínias, 
se do palácio a tocasse; dos homens, também, a censura me alcançaria. 
Portanto, recuso-me a dar-lhe tal ordem. 
Se sois capazes, também, de sentir indignação por tais coisas, 
abandonar-me o palácio por outros mais gratos banquetes,

alternadamente a hospedar-vos e à custa de vossa fazenda. 
Mas, se julgardes melhor e mais cômodo assim continuardes 
impunemente a gastar os haveres de um homem somente, 
bem, prossegui, que implorar hei de aos deuses eternos do Olimpo. 
Zeus me dará, porventura, alcançar a vingança almejada, 
para que inultos venhais a morrer aqui dentro de casa.” 
   A essas palavras, Zeus grande, que ao longe discerne, lhe envia 
águias a par deslizando do cimo elevado de um monte. 
Ficam voando um momento, à mercê das correntes aéreas, 
junto uma da outra, mantendo estendidas e firmes as asas.

Mas, quando da ágora ao meio chegaram, alfim, tumultuária, 
eis que volteiam em círculo e batem as asas com força, 
a contemplar as cabeças de todos com torvo presságio. 
E ambas, então, arranhando-se o colo e a cabeça com as garras, 
pela direita saíram, por sobre as casas e a cidade. 
Todos ficaram tomados de pasmo ante a vista das aves, 
dentro do peito a volver que futuro os sinais sugeriam. 
Mas o guerreiro Haliterses Mastórida pôs-se a falar-lhes, 
dentre os equevos o mais competente, sem dúvida, na arte 
de conhecer os augúrios e ler pelo voo das aves.
 
Cheio de bons pensamentos, lhe diz, arengando, o seguinte: 
   “Ora, Itacenses, ouvi quanto passo prudente a dizer-vos. 
Aos pretendentes com mais insistência darei este aviso. 
Por cima deles já impende o perigo, porque muito tempo 
não ficará Odisseu afastado daqui: já bem perto 
ele se encontra, por certo, e maquina o extermínio de todos 
e o cruel exício, que dele, também, há de vir para muitos 
dos moradores desta ilha visível ao longe. Cuidemos, 
pois, de refrear esse abuso, a não ser que eles próprios resolvam 
não continuar, o que a todos de muita vantagem seria.

Não prognostico sem base nos fatos, mas bem experiente. 
Todas as coisas que outrora afirmei, estou certo, se deram 
sem discrepância, no ponto em que a Troia os Argivos se foram 
e, juntamente, Odisseu, o guerreiro de mente fecunda. 
Exp’rimentado em trabalhos, lhe disse, e com perda de todos 
os companheiros, volvidos vinte anos e desconhecido, 
regressaria ele a casa. Ora tudo, de acordo, se cumpre.” 
Disse-lhe Eurímaco, filho de Pólibo, então, em resposta: 
   “Velho, é melhor que interpretes oráculos para teus filhos! 
Vai para casa, não sejam colhidos por males futuros.

Muito melhor do que tu interpreto os sinais destes fatos. 
Aves sem-número voam debaixo do Sol luminoso, 
mas não são todas fatídicas. Morto é Odisseu, com certeza, 
longe daqui. Fora bom que com ele, também, perecesses, 
pois te pouparas, agora, de vir arengar profecias 
e de instigar mais Telêmaco, que já se encontra irritado. 
Só tens em mira pilhar para casa proventos mui pingues. 
Ora uma coisa te quero dizer, que, sem falta, se cumpre: 
Se, novamente, a este moço, com tua experiência vetusta 
e essa parlenda sem fim contra nós irritado puseres,

ele, em primeiro lugar, há de ter mais molesto gravame, 
pois coisa alguma consegue tentando a nós todos opor-se. 
Quanto a ti, velho, uma multa te impomos, porque no imo peito 
tenhas com que remoer-te; ser-te-á dissabor permanente. 
Mas a Telêmaco, em face de todos, darei um conselho: 
Faça com que sua mãe se recolha à morada de Icário, 
que cuidará de suas núpcias, bem como do dote opulento, 
como costumam fazer sempre os pais com suas filhas queridas. 
Mas, antes disso, não creio que possam abster-se os Aquivos 
de pretensão trabalhosa, porque nada medo nos causa, 

seja Telêmaco, embora nos fale com tanta eloquência, 
sejam quaisquer vaticínios vazios, que não nos importam, 
como esses, velho, que fazes; com isso mais ódios te aprestas. 
Sua fazenda será consumida sem paga nenhuma 
por quanto tempo julgar conveniente adiar essas núpcias. 
Prolongaremos, portanto, teimosos, a nossa compita 
por suas altas virtudes, sem que outras mulheres busquemos 
de condição como a nossa, com o fim de escolhermos esposa.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Isso é impossível, Eurímaco, e vós, pretendentes ilustres.

Novos pedidos não hei de fazer-vos nem volto a falar-vos, 
pois que os Aquivos o sabem, assim como os deuses eternos. 
Dai-me, porém, uma rápida nau, tripulada com vinte 
homens, que cortem comigo, em diversos sentidos, as águas, 
para que a Esparta me vá, como a Pilo de solo arenoso, 
em busca de informações de meu pai, que, de há muito, está ausente, 
quer mo refira um mortal, quer a voz que de Zeus se origina, 
que, sobretudo entre os homens, renome preexcelso concede. 
Caso me digam que ainda está vivo e que a volta medita, 
mesmo que muito me aflija, suporto a demora de um ano;

continua página 672...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a /    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

Reunião Dançante... Garajão 4

Garajão 4


a chegada no garajão
     a garrafa destilada na mão
                                    o vinil agarrado ao corpo pelo braço
       depois... passando de mão em mão  
        a gente queria mesmo era dançar
    Ma Baker a gata cruel,
          Daddy Cool legal
Sunny

o ano é 1976...
Boney M - Daddy Cool

uma batida grudenta que não pedia licença
direta, provocante
"Ela é louca como uma tola..."  
respondida pelas vozes multifacetadas: 
"... louca pelo papai legal".
Uma música que parecia
maior que a própria letra
não precisava de explicação
tinha som, imagem e atitude





O ano é 1977...
Boney M - Ma Baker

A canção fala de uma criminosa chamada Ma Baker - uma música em clima policial -, que é descrita ao longo da canção como a "gata mais cruel" de Chicago por sua insensibilidade.

Eu sou Levante suas mãos
a voz que ecoa no beco 
e me dê todo seu dinheiro
lembre, o destino pesa mais
A história da gata mais malvada
da velha cidade de Chicago.
a pior gatuna, uma febre
ela realmente os rebaixou
não teve nenhum coração
não, não, nenhum coração
oh, ela foi realmente resistente
deixou o apartamento do marido
ele não foi bom o bastante
um fraco
Ela levou seus meninos
porque eram menores e fortes,
um exército moldado no fogo da rua
um matriarca dura, fria e dominante
pensou nos quatro filhos
para controlar suas armas
nunca poderia chorar
soube como morrer
E quando um menino foi morto
os fez pagar
não teve nenhum coração







O ano é 1978...
Boney M - Sunny

Gratidão 
pela verdade que você me deixa ver
pelas prova que atravessam 
meu caminho de A até Z.
tão verdadeira, eu te amo
Essa é uma confissão direta,
intensa, cheia de alegria
que me faz respirar.
tão verdadeira, eu te amo
A vida pode ser rasgada, 
areia levada pelo vento,
mas se você segura minha minha mão 
uma rocha se forma.
tão verdadeira, eu te amo
Gratidão 
pelo sorriso que ilumina seu rosto
esse brilho que mostra com graça
você é minha faísca do fogo da natureza.
tão verdadeira, eu te amo
    Meu doce e completo desejo
  que me completa
tão verdadeira, eu te amo





uma divertida invenção com cenas musicais

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Garajão 01: Alone again / Ben / Soley Soley
Garajão 02: One Day In Your Life / Dance, Little Lady Dance / More Than A Woman
Garajão 03: Não se esqueça de mim / Os seus botões / Café da manhã
Garajão 04: Daddy Cool / Ma Baker / Sunny  

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ilíada: Homero (Canto II.d - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
 
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”

.continuando...

que das canções se esquecesse e, também, de pulsar o instrumento: 
pelo Gerênio Nestor, domador de cavalos, trazidos, 
esses, ao todo, perfazem noventa navios bojudos. 
   Os que na Arcádia moravam, nas faldas do monte Cilena, 
perto da campa de Epítio, guerreiro de prol todos eles; 
os de Feneu e de Orcómeno, zona em rebanhos mui rica, 
os de Estratia e de Ripa, bem como os de Enispa ventosa, 
de Mantineia formosa os guerreiros, da fértil Tegeia, 
os moradores de Estínfalo e quantos Parrásio habitavam, 
sob o comando do filho de Anceu, Agapénor, chegaram

em naus sessenta. Pejadas se achavam de ousados guerreiros,
homens da Arcádia eles todos, famosos no ofício da guerra. 
O poderoso Agamémnone, chefe de heróis, lhes cedera 
naus resistentes, que por sobre o mar cor de vinho trouxessem, 
pois ignoravam, de todo, os problemas das lidas marinhas. 
   Os de Buprásio, os guerreiros que na Élide sacra habitavam, 
desde a cidade de Hirmine até a sede postrema de Mírsino, 
que a pétrea Olênia limita, bem como a cidade de Alísio, 
com quatro chefes chegaram. Cada um conduzia dez naves 
de veloz curso, equipados com muitos Epeios famosos.

Uns, o comando recebem de Anfímaco e Tálpio; este, filho 
de Eurito, o grande; de Ctéato, aquele; ambos de Áctor nasceram. 
Diores, o filho do forte Amarinco, outro grupo comanda. 
O quarto, alfim, traz Políxeno, o herói de presença divina, 
filho de Agástenes, rei que de Áugias possante descende. 
   Os de Dulíquio habitantes e os homens das sacras Equínades, 
ilhas que se acham mui longe no mar, defrontando com a Élide, 
vêm por Megete mandados, no porte semelho a Ares forte, 
que de Fileu picador descendia, querido dos deuses, 
o qual, brigado com o pai, em Dulíquio assentou o palácio:

esses, perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Os Cefalênios magnânimos traz Odisseu astucioso, 
de Ítaca os homens, também, e os de Nérito, monte frondoso, 
de Crocileia os guerreiros, bem como os da pétrea Egilipe, 
os de Zacinto habitantes, de Samo e de seus arredores, 
do continente, e os que pastos possuem na terra fronteira: 
trá-los o divo Odisseu, no saber só a Zeus comparável: 
doze navios de casco vermelho ao seu mando obedecem. 
   Toante, de Andrêmone filho, os guerreiros da Etólia comanda, 
que nas cidades moravam de Oleno. Pilene e Pleurona,

em Calidona fragosa e onde Cálcide as ondas refletem. 
Visto já terem morrido os dois filhos de Eneu de alma grande, 
é o próprio Eneu, como o louro Meléagro, no Hades se acharem, 
fora-lhe dado o comando de todos os homens da Etólia: 
esses perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Idomeneu, de hasta invicta, nos homens de Creta imperava, 
que demoravam em Cnosso e em Gortina cingida por muros, 
Licto, Mileto e Licasto de solo calcário brilhante, 
em Rítio e Festo, também, ambas elas de aspecto magnífico, 
e outras das cem povoações que pela Ilha de Creta se encontram.

Idomeneu, de hasta invicta, o comando sobre estes exerce 
como Meríones forte, igual a Ares Eniálio homicida: 
esses, oitenta navios de negro costado equipavam. 
   O valoroso e membrudo Tlepólemo, de Héracles filho, 
nove navios comanda, pejados de Ródios pugnazes. 
Rodes era a ilha de origem, em três povoações dividida: 
Lindo, uma delas; Ialiso; e a terceira, Camiro fulgente. 
Nestes, o mando exercia Tlepólemo, de hasta invencível, 
filho da bela Astioqueia, que de Héracles forte o gerara, 
que a trouxe de Éfira, sita na margem do rio Seloente,

quando destruiu numerosas cidades de heróis distinguidos. 
Pós ter crescido Tlepólemo dentro da casa bem-feita, 
a morte ao tio materno do pai, a Licímnio, deu ele, 
que já alcançara a velhice e era de Ares aluno preclaro. 
Sem perder tempo, equipou várias naus, reuniu muita gente, 
para, desta arte, escapar, que o ameaçavam os filhos e netos 
de Héracles forte, de peito leonino, se acaso o encontrassem. 
Pós trabalhosa viagem, consegue chegar até Rodes. 
Três povoações fundou logo, segundo as famílias, benquistas 
todas de Zeus, que dos deuses o império detém e dos homens.

Fez-lhes chover abundantes riquezas o filho de Crono. 
   Trouxe Nireu da cidade de Sime três naves simétricas. 
De ser nascido de Aglaia, Nireu se orgulhava, e de Cáropo. 
Era Nireu o mais belo, debaixo dos muros de Troia, 
entre os do exército Acaio, se excluirmos o grande Pelida; 
mas era imbele; bem poucos heróis perfaziam-lhe o séquito. 
   Os de Nisiro habitantes, de Crápato e Caso, bem como 
os da cidade de Eurípilo, Cós, da ilha bela Calidna, 
vieram trazidos por Ántifo e Fídipo, filhos de Téssalo, 
rei poderoso e valente, que de Héracles forte nascera:

estes, em trinta navios dispostos em fila, embarcaram. 
Ora, menção seja feita dos de Argos Pelasga habitantes, 
dos do Alo e Alope, de Ftia, e de quantos Trequina cultivam, 
bem como os da Hélade, célebre pelas mulheres formosas, 
como Mirmídones todos nomeados, Helenos e Aquivos: 
destes, cinquenta navios Aquiles herói conduzira. 
Mas deslembrados agora se achavam dos prélios horríssonos, 
pois careciam de chefe que a todos guiasse às batalhas. 
O divo Aquiles, de céleres pés, junto às naves estava, 
a suspirar pela filha de Brises, de belas madeixas,

que de Lirnesso, com grande trabalho, trouxera cativa, 
quando a cidade destruiu e as muralhas altivas de Tebas, 
e de Minete e de Epístrofo a doce existência tirara, 
filhos de Evénor, o rei por Selépio famoso gerado. 
Ela o tornara inativo, mas breve haveria de alçar-se. 
   Os moradores de Fílace e Píraso, terra de flores, 
sacra a Deméter, de Itone que nutre rebanhos de ovelhas, 
os da marítima Antrona e os de Ptéleo de prados vistosos, 
Protesilau, quando vivo, o notável herói, comandava. 
A terra negra, porém, já acolhera em seu meio o guerreiro.

Ambas as faces, em Fílace, a esposa a arranhar deixou ele 
e, inacabado, o palácio; matou-o um guerreiro Dardânio, 
quando saltou do navio muito antes dos outros Acaios. 
Ainda que o chefe chorassem, sem guia os heróis não se achavam, 
pois instrução de Podarces lhes vinha, discípulo de Ares, 
de Íficlo filho, nascido de Fílaco, chefe opulento, 
que era legítimo irmão do magnânimo Protesilau, 
mas bem mais moço; nascido primeiro e mais forte era aquele, 
Protesilau! grande herói! Entretanto, sem chefe os seus homens 
não se encontravam; sua grande virtude, contudo, choravam.

Esses, perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Os moradores de Feras, ao lado do lago de Bébide, 
os da cidade bem-feita de Iaolco, de Gláfira e Beba, 
em onze naus, com Eumelo, nascido de Admeto, chegaram. 
Fora sua mãe a divina entre todas as jovens, Alceste, 
a mais formosa de quantas nasceram de Pélias guerreiro. 
   Os que lavravam Metone, bem como os heróis de Taumácia, 
de Melibeia, também, e Olizona de chão pedregoso, 
por Filoctetes trazidos chegaram, archeiro famoso, 
em sete naves, contendo cada uma cinquenta remeiros,

todos dotados de força e habituados ao tiro com o arco. 
Ele, entretanto, ficara a sofrer indizíveis tormentos 
na Ilha de Lemno divina, onde o haviam deixado os Acaios 
vítima de úlcera feita por dente de serpe nociva. 
Lá se encontrava, a gemer; mas em breve, ao redor de seus barcos, 
de Filoctetes haviam lembrar-se os Aquivos guerreiros. 
Ainda que o chefe chorassem, sem guia os heróis não se achavam, 
pois de Medonte, bastardo de Oileu, instrução recebiam, 
devastador de cidades, que o teve de Rena formosa. 
   Os moradores de Trica e de Itome de vários andares,

e os da cidade de Ecália, onde o mando exercia o grande Êurito, 
sob o comando dos filhos de Asclépio vieram, Macáone 
e Podalírio, ambos médicos e ambos, também, já famosos: 
esses, em trinta navios dispostos em fila, embarcaram. 
   Os da cidade de Ormênia, bem como os de Fonte Hipereia 
e os moradores de Astéria e os do cimo do branco Titânio, 
trá-lo Eurípilo, o filho preclaro de Evémone excelso: 
esses, perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Os moradores de Argissa e os guerreiros, também, de Girtone, 
bem como os de Orta e de Elone e os da branca cidade de Oloossona,

sob o comando do herói Polípetes intrépido vieram, 
filho do grande Pirítoo, de Zeus imortal descendente. 
Fora nascido, realmente, da bela e gentil Hipodâmia, 
no mesmo dia em que o pai castigara os hirsutos Centauros. 
Longe do Pélio os tocou, para o meio dos povos Etícios. 
Compartilhava do mando Leonteu, o discípulo de Ares, 
neto de Cene magnânimo e filho do grande Corono: 
esses, perfazem quarenta navios de casco anegrado. 
   Em vinte e dois barcos veio Guneu da cidade de Cifo, 
com os Eniênios guerreiros e heróis destemidos Perebos;

junto a Dodona moravam, região de muito áspero inverno; 
os que morada assentaram nos campos amenos do rio 
de Titareso, que ao claro Peneu vai levar suas águas, 
sem que, no entanto, se mesclem no curso argentino desse último; 
sim, sobrenadam naquele, tal como se de óleo elas fossem, 
pois são do Estige um dos braços, o rio da jura terrível. 
   Prótoo conduz os Magnetas, o filho do forte Tentrédone, 
que ao derredor do Peneio e do Pélio frondoso moravam. 
Esses, ao mando de Prótoo obedecem, o herói velocíssimo: 
todos, quarenta navios de casco anegrado perfazem.

Os condutores dos Dânaos, os chefes supremos, são estes. 
Musa, revela-me, agora, qual era o melhor dos guerreiros 
que com o Atrida vieram, bem como os mais fortes cavalos. 
   Entre os corcéis distinguiam-se as éguas de Eumelo, de Feras, 
filho de Admeto, velozes tal como se pássaros fossem. 
Eram de igual pelo as duas, bem como do mesmo tamanho. 
Por Febo Apolo, o frecheiro que vibra o arco argênteo, elas ambas 
foram criadas; consigo o terror das batalhas levavam. 
Entre os guerreiros, Ajaz Telamônio era o mais distinguido 
enquanto Aquiles esteve afastado, o mais forte de todos

e possuidor dos melhores cavalos; em tudo primava. 
Mas esse, agora, se achava nas naves recurvas e céleres, 
estomagado com o chefe de heróis, o possante Agamémnone, 
filho de Atreu. Junto à praia do mar sonoroso seus homens 
se divertiam no jogo dos discos, de flechas e lanças. 
Junto dos carros de guerra se achavam, também, os cavalos, 
que aipo palustre, inativos, pastavam, e o loto gostoso. 
Dentro das tendas, cobertos se achavam os carros, enquanto 
os heróis todos, sentidos com a ausência do chefe aguerrido, 
desorientados vagavam, mas sem combater, pelo campo.

Os outros Dânaos avançam qual fogo que o solo abrasasse. 
Tal como a Terra, que geme ao mostrar-se agastado Zeus grande, 
que como os raios se apraz, quando em torno a Tifeu a vergasta, 
entre os Arimos, local onde se acha Tifeu, é o que dizem: 
do mesmo modo estrondava com o peso dos pés o chão todo, 
quando os heróis avançavam, cortando, ligeiros, o campo. 
   Íris, de pés mais velozes que o vento, de Zeus por mandado, 
que a égide vibra, aos Troianos baixou com uma triste notícia. 
Esses, em frente ao palácio de Príamo estavam reunidos 
em assembleia, eles todos, os moços e os velhos da terra.

Íris, de rápidos pés, aproxima-se deles e fala, 
tendo imitado as feições de Polites, nascido de Príamo, 
que era o atalaia dos Teucros. Confiado nos pés ligeiríssimos, 
no alto do túmulo vinha postar-se o velho Esietes, 
sempre a espreitar o momento em que os Dânaos das naus se moviam. 
Íris, de rápidos pés, sob a forma aludida, lhes fala: 
   “Como se em paz estivéssemos, velho, te agradam discursos 
intermináveis: a guerra, no entanto, nos calca impiedosa. 
Certo, em muitíssimas pugnas achado me tenho presente, 
mas tais e tantos guerreiros, como esses, jamais tenho visto.

Mais semelhantes à areia do mar ou às folhas das matas, 
movem-se todos no plaino, visando a atacar nossos muros. 
Por isso, Heitor, recomendo-te agora que faças desta arte: 
muitos aliados se encontram na grande cidade de Príamo, 
de diferentes países, e línguas de vária estrutura. 
Que cada grupo receba instrução de seus guias nativos, 
que hão de saber coordená-los e à guerra, depois, conduzi-los.” 
Reconheceu, logo, Heitor que provinha de um deus o conselho; 
fez dissolver a assembleia: os guerreiros às armas correram; 
abrem-se todas as portas, porque se franqueasse a saída,

aos combatentes de pé e aos de carro era imenso o estrupido. 
   Há na planície uma excelsa coluna, fronteira à cidade, 
completamente isolada e visível de todos os lados, 
denominada Batieia por todos os homens terrenos, 
mas pelos deuses eternos, o túmulo da ágil Mirina. 
Lá, se puseram em ordem os Teucros e seus aliados. 
Sobre os Troianos Heitor comandava, o herói de elmo ondulante, 
filho de Príamo. Muitos guerreiros, dos mais distinguidos, 
com ele as armas empunham, de a pugna encetar desejosos. 
Sobre os Dardânios o mando exercia o nascido de Anquises

e da divina Afrodite, o guerreiro notável Eneias, 
pós haver no Ida selvoso a um mortal uma deusa se unido. 
Mas de Antenor os dois filhos, do mando, também, compartilham, 
ambos prudentes varões, Acamante e o notável Arquéloco. 
   Os de Zeleia habitantes, da falda contérmina do Ida, 
gente opulenta, que as águas escuras do Esepo bebiam, 
sob o comando se achavam de Pândaro, o filho notável 
do alto Licáone, o mesmo a quem Febo o arco dera em lembrança. 
   Os habitantes dos muros de Adresta, os do povo de Apeso, 
os de Pitieia e os que moram no monte escarpado de Téria,

ordens cumpriam de Adrasto e de Anfião, de couraça de linho, 
ambos de Mérope filhos, o herói de Percote, o mais sábio 
dos adivinhos. Opôs-se, em verdade, a que os filhos partissem 
para a campanha sangrenta; contudo nenhum quis ouvir-lhe 
os bons conselhos, que à lívida Morte o Destino os levava. 
   Os de Percote e os que as margens do Práctio cuidosos lavravam, 
os moradores de Sesto e de Abido, os da Arisba divina, 
vieram por Ásio trazidos, o Hirtácida, chefe eminente, 
de Hírtaco o filho notável, que veio de Arisba, em carruagem, 
desde o Seloente revolto, puxado por fulvos ginetes.

Os valorosos lanceiros Pelasgos Hipótoo comanda, 
esses que as casas construíram nos campos da fértil Larissa. 
Compartilhava do mando Pileu, de Ares forte discípulo, 
filho, também, do Teutâmida Leto, Pelasgo valente. 
Píroo e Acamante valentes conduzem os homens da Trácia, 
quantos guerreiros demoram nas margens do estuoso Helesponto. 
   Os heróis Cíconos fortes, Eufemo galhardo chefia, 
que de Trezeno provinha, a Zeus caro, nascido de Ceas. 
   Trouxe de longe, de Amídone, Piracme, os Peônios belazes, 
de arcos recurvos, que no Áxio demoram, de curso imponente, 

 o Áxio, o mais belo dos rios que, ufanos, se alargam na terra. 
   Os Paflagônios Pilêmenes trouxe, de peito veloso. 
Ênetos, sim, da região onde mulas selvagens se criam. 
Esses moravam em Cítoro, os campos lavravam de Sésamo, 
e do Partênio nas várzeas, magníficas casas construíram, 
em Crômnia e Egilo e na celsa Eritina, de solo vermelho. 
   Os Halizônios, Epístrofo e Odio de longe conduzem, 
lá da cidade de Alibe, onde prata em jazidas se encontra. 
   Os Mísios vieram trazidos por Crômis e o arúspice Enomo, 
cujo saber não o livrou de ser presa da lívida Morte;

vítima foi do Pelida de pés velocíssimos, quando 
no próprio rio privou da existência a outros muitos Troianos. 
Fórcis e Ascânio divino trouxeram da Ascânia longínqua 
Frígios guerreiros, que só desejavam entrar em combate. 
Ántifo e Mestle guerreiros o mando dos Meônios dividem. 
De Talamenes provinham, bem como da ninfa Gigeia. 
Esses, os chefes dos Meônios oriundos da fralda do Tmolo. 
Nastes os Cários comanda, guerreiros de bárbara língua, 
homens de Ftiro e Mileto, região montanhosa e de matas; 
os da corrente do Meandro e os dos picos do monte Micale

sob o comando chegaram de Anfímaco e Nastes guerreiros, 
Nastes e Anfímaco, os filhos preclaros do grande Momíone. 
Veio o primeiro com ouro bastante, qual moça enfeitada. 
Tolo! de nada serviu para a Morte o livrar dolorosa 
o ouro, que vítima foi, finalmente, do Eácida, quando 
no próprio rio o alcançou. Toma as joias Aquiles prudente. 
   Os Lícios, Glauco sem-par e Sarpédone exímio conduzem 
da terra Lícia longínqua, das margens do Xanto revolto. 

continua página 114...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d /           
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.
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Ilíada, de Homero - Canto II




Ilíada: Homero (Canto II.c - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
 
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”

.continuando...

Quem, sacrifícios a um deus; quem, a um outro, perfeitos, fazia, 
a suplicarem que de Ares sangrento e da Morte o salvassem. 
O próprio Atrida Agamémnone, chefe prestante, uma vítima 
sacrificou de cinco anos ao filho de Crono tortuoso. 
Para o conselho dos velhos fez vir os mais nobres Acaios: 
o velho Pílio Nestor em primeiro lugar; depois dele, 
Idomeneu, os Ajazes e o filho do grande Tideu; 
sexto, fez vir Odisseu, que de Zeus tinha o senso elevado. 
Vem Menelau sem convite, o guerreiro de voz retumbante, 
pois bem sabia os cuidados que na alma do irmão se agitavam.

Com bolos sacros nas mãos, ao redor do animal se postaram. 
Súplice a voz levantou Agamémnone, rei poderoso: 
   “Máximo Zeus poderoso, que no éter as nuvens cumulas, 
dá que não desça o Sol fúlgido, nem sobre nós venha a Noite, 
sem que eu atire por terra a cumeeira de Príamo, escura 
pela fuligem, e às chamas ardentes as portas entregue; 
sem que do peito de Heitor rasgue a túnica brônzea com minha 
lança, e em redor dele os sócios, também, veja todos de bruços, 
uns sobre os outros, na areia amontoados, mordendo o chão duro.” 
   Por esse modo, implorava; mas Zeus não lhe atende o pedido:

 o sacrifício aceitou, mas trabalhos sem conta lhe apresta. 
Tendo concluída a oração e espalhada a farinha do rito, 
as reses, postas a jeito, degolam, os couros lhes tiram, 
as coxas, cortam, peritos, e em dupla camada da própria 
graxa as envolvem, jogando por cima pedaços de músculos, 
que, depois disso, na lenha, de folhas privada, queimaram. 
Nas labaredas, enfim, espetadas, as vísceras tostam. 
Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas, 
logo o restante retalham, espetos enfiam nas postas, 
e cuidadosos as queimam, tirando-as, depois, dos espetos.

Findo todo esse trabalho, e o convívio, desta arte, aprontado, 
se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
pôs-se a falar o Gerênio Nestor, domador de cavalos: 
   “Filho de Atreu, gloriosíssimo, chefe de heróis, Agamémnone, 
não prossigamos com ocas palavras, nem fique mais tempo 
sem ser levada a bom termo esta empresa, que um deus nos destina. 
Faze que logo os arautos convoquem por todas as naves, 
em altos brados, as gentes aquivas, de túnicas brônzeas. 
Nós, entretanto, corramos ao longo das filas do exército,

para que logo espertemos em todos o ardor dos combates.” 
   Obedeceu-lhe ao conselho Agamémnone, rei poderoso. 
Manda, sem mora, aos arautos, de voz penetrante, que chamem 
para os combates os homens Aquivos, de soltos cabelos. 
Gritam, de fato, o pregão; apressados, aqueles concorrem. 
Os reis, alunos de Zeus, reunidos à volta do Atrida, 
os ordenavam prestantes, com Palas Atena a ajudá-los; 
a égide sacra e imortal empunhava, de preço infinito, 
da qual pendiam cem franjas, trabalho de fino traçado, 
de ouro sem mescla, valendo cada uma o que valem cem bois.

A sobraçá-la, irradiante, atravessa as fileiras Acaias, 
a estimular os guerreiros, fazendo acordar-lhes no peito 
o irresistível ardor de aos combates, sem pausa, entregarem-se. 
Para eles todos, realmente, mais doce era entrar nos combates 
do que voltar para a pátria querida nas côncavas naves. 
   Tal como o fogo voraz que se ateia em floresta densíssima 
pelas cumeadas de um monte, espalhando o fulgor a distância: 
do mesmo modo pelo éter o brilho até o Céu alcançava, 
das armaduras infindas, que, à marcha, ainda mais, esplendiam.
   Bem como bando infinito de seres alados, revoantes,

gansos ou gralhas ou cisnes dotados de longos pescoços, 
que no Ásio plaino se abate, ao redor do Caístro sinuoso, 
alegremente estadeando a plumagem de um lado para outro, 
té se assentarem com grande alarido, que o prado estremece: 
número infindo de heróis, desse modo, das naus e das tendas 
para a planície concorre do Xanto, de forma que o solo 
terrivelmente retumba ao passar dos heróis e cavalos. 
Nas veigas, pois, do Escamandro florido eles se acham, quais folhas 
primaveris, infinitas, e flores que nascem vivazes. 
Do mesmo modo que enxames de moscas, de número infindo,

pelos currais dos pastores volteiam, sem pausa nenhuma, 
na primavera, no tempo em que os jarros de leite transbordam: 
tantos guerreiros Aquivos, de coma flutuante, se viam 
pela planície dos Teucros, sedentos de a todos vencerem. 
   Tal como um hábil pastor facilmente põe ordem nos fatos 
esparramados de cabras, quando estas, no prado, se mesclam: 
os comandantes, assim, os guerreiros, cuidosos, dispunham 
para a batalha. No meio se achava Agamémnone, ao grande 
fulminador semelhante, no olhar e feitio do rosto, 
a Ares no talho do cinto e a Posido no peito fortíssimo.

Bem como o touro de grande manada, que a todos os outros 
bois sobre-excede, e após si vai levando, reunidas, as vacas:
tal aparência emprestou nesse dia Zeus grande a Agamémnone, 
para que fosse o primeiro entre tantos heróis excelentes. 
   Musas, que o Olimpo habitais, vinde agora, sem falhas, contar-me 
pois sois divinas e tudo sabeis; sois a tudo presentes; 
nós, nada vimos; somente da fama tivemos notícia — 
os nomes, sim, revelai-me, dos chefes supremos dos Dânaos. 
Da multidão não direi coisa alguma, nem mesmo os seus nomes, 
em que tivesse dez bocas e dez, também, línguas tivesse,

voz incansável e forte, e de bronze infrangível o peito, 
se vós, ó Musas, nascidas de Zeus portador da grande égide, 
não me quisésseis nomear os que os campos de Troia pisaram. 
Dos chefes, pois, dos navios, direi, do conjunto das naves. 
   Vieram trazidos, os homens da Beócia, por Lito valente, 
Arcesilau, Peneleu, Protoénor e Clônio fortíssimo, 
de Áulide pétrea habitante, dos campos da Hiria e de Esqueno, 
os de Eteono, de montes e selvas, de Escono e de Escolo, 
Téspio, também, Micalesso, de vastas campinas, e Graia; 
mais: os que à volta habitavam de Iléssio, de Eritras e de Harma;

os moradores, ainda, de Eleona, Peteona, Ocaleia, 
de Hila e Medeona, cidade de muros de forte estrutura, 
Copas, Eutrésis e Tisbe, onde pombas adejam ruidosas: 
de Coroneia os que moram na ervosa Haliarto vieram, 
os de Plateia habitantes, bem como os campônios de Glissa; 
os de Hipotebas, ainda, cidade de aspecto imponente, 
da sacra Onquesto, onde o bosque se encontra do divo Posido: 
de Arne, também, pampinosa, chegaram, da extensa Mideia, 
Nisa divina e de Antedo postrema, lugar fronteiriço: 
todos, armaram cinquenta navios, e cada um dos cascos

com cento e vinte guerreiros da Beócia se achava pejado. 
   Os moradores de Orcómeno Mínia e da fértil Asplédone 
vieram trazidos por Iálmeno e Ascálafo, filhos de Astíoque, 
na casa de Áctor, o filho de Azeu, e do deus Ares forte, 
que ao aposento do andar superior conseguiu esgueirar-se, 
onde, às ocultas, do leito partilha da virgem pudica: 
esses, em trinta navios dispostos em fila, embarcaram. 
   Aos moradores da Fócida, Epístrofo e Esquédio trouxeram, 
de Ífito filhos, magnânimo, e netos de Náubolo grande; 
de Ciparisso, também, de Pitão, região pedregosa,

Crisa divina e de Dáulide, assim como de Panopeia; 
vieram, também, de Anemória, os que vivem à volta do Hiâmpole, 
e os que nas margens do divo Cefisso as moradas construíram, 
bem como os que pelas fontes dele, ainda, em Lilaia, habitavam: 
todos, quarenta navios perfazem, de casco anegrado. 
Os comandantes, os homens Focenses, cuidosos, dispunham 
ao lado esquerdo dos Beócios, que juntos nos prélios entrassem. 
   O leste Ajaz, descendente de Oileu, trouxe os Lócrios pugnazes. 
De bem menor estatura que o Ajaz Telamônio era esse outro; 
sim, bem menor; cobre o corpo franzino com roupa de linho,

mas os Acaios vencia e os Helenos no jogo da lança. 
Os Lócrios, pois, de Opoenta e Caliaro vieram, de Cino, 
de Bessa e Escarfe, bem como de Augeia de amena paisagem, 
de Trônio e Tarfe, que se acham construídas nas margens do Boágrio: 
esses, quarenta navios de casco anegrado perfazem; 
vieram das terras que se acham além da ilha sacra de Eubeia. 
   Os corajosos Abantes chegaram, guerreiros de Eubeia, 
Cálcide, Erétria e Istieia, onde as uvas são sempre abundantes, 
Dio rochosa e Cerinto, que à beira do mar foi construída; 
Vieram, também, de Caristo os guerreiros, os homens de Estira, 

por Elefénor mandados, guerreiro que de Ares descende, 
o Calcodôncio valente, que rege os guerreiros Abantes, 
sim, os Abantes, que deixam crescer os cabelos na nuca, 
todos armados de lanças de freixos, vibrando sedentos 
de atravessar a couraça, que o corpo do imigo protege: 
esse, quarenta navios de casco anegrado perfazem. 
   Vieram, também, os guerreiros de Atenas, cidade bem-feita, 
gente do herói Erecteu de alma grande, nascido da terra 
e por Atena educado, a donzela do pai poderoso, 
no próprio templo magnífico, dentro dos muros de Atenas,

onde, anualmente, nas festas, os moços nativos procuram 
com sacrifícios de bois e de ovelhas torná-lo propício. 
Por Menesteu, de Peteu descendente, eram todos mandados. 
Homem nenhum, sobre a terra arrumar, tal como ele, sabia 
os combatentes de carro e os que lutam armados de escudo, 
com exceção de Nestor, por ser muito mais velho do que ele: 
esse, cinquenta navios de casco anegrado perfazem. 
   De Salamina Ajaz trouxe, também, doze naves simétricas, 
indo postá-las a par com as falanges dos homens de Atenas. 
   De Argos os homens, heróis de Tirinto, por muros cingida,

os moradores de Hermíone e Asina, no golfo profundo, 
os de Trezena, os de Eione e Epidauro, abundosa em vinhedos, 
bem como os moços Acaios guerreiros de Egina e Maseta, 
por Diomedes vieram trazidos, de voz poderosa, 
e por Esténelo, o filho do herói Capaneu valoroso. 
Como terceiro, guiava-os Euríalo, qual um dos deuses, 
que descendia do rei Mecisteu, o viril Talaiônida. 
Era, porém, de Diomedes, o forte, o comando supremo: 
esses, oitenta navios de casco anegrado perfazem. 
   Os moradores, também, de Micenas, de bela feitura,

 os da opulenta Corinto, os de Cleona, de casas bem-feitas, 
os que lavravam de Ornias a terra, os da bela Aretira, 
e os de Sicíone amena, onde Adrasto reinou, a princípio, 
os de Hiperésia, bem como os heróis de Gonoessa altanada, 
os de Pelene habitantes, os de Egio, também, moradores, 
e, finalmente, os de Egíalo e os da zona extensíssima de Hélice, 
em cem navios chegaram, trazidos pelo alto Agamémnone. 
O continente melhor esses formam, em número e brio. 
Cheio de orgulho, no meio das tropas, o bronze ardoroso 
ele envergava, entre os fortes guerreiros o mais distinguido,

por nobilíssimo ser e haver gente infinita trazido. 
   Os que moravam no vale escavado de Lacedemônia, 
dentro de Esparta, de Fáride e Messa, cidade de pombas; 
os habitantes, também, de Brísias e Augias amena, 
e os que em Amicla demoram e em Helo, cidade marítima, 
bem como os homens de Etilo e os que os muros de Laia habitavam, 
trá-los o irmão de Agamémnone, o herói Menelau de voz forte, 
dentro de naves sessenta; a de parte eles todos se armavam. 
No próprio ardor confiado, as fileiras o chefe percorre, 
a estimulá-los. Pedia-lhe o peito ardoroso vingar-se

dos sofrimentos passados por causa do rapto de Helena. 
Vieram de Pilo os guerreiros, bem como os de Arena agradável, 
os de Épi bem-construída e os de Trio, onde o Alfeu dá passagem, 
os de Anfigênia habitantes e os homens de Ciparessenta, 
os de Pteleu, de Elo forte e os de Dório, onde vieram as Musas 
o Trácio vate Tamíris buscar e o privarem do canto, 
quando da casa voltava do alto Eurito, nado na Ecália. 
Vangloriava-se, sim, de vencer em compita até mesmo 
as próprias Musas, as filhas de Zeus, se com ele cantassem. 
Elas, por isso, indignadas, da vista o privaram, fazendo

continua página 105...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica

Ilíada: Homero (Canto II.b - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
 
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”

.continuando...

 “Para essa bulha, covarde, e atenção presta aos ditos dos outros, 
que são melhores que tu, pois te mostras imbele e sem préstimo. 
Não vales nada na guerra, ou, sequer, nas reuniões dos Argivos. 
Reis não queiramos ser todos que, aqui, nos achamos reunidos. 
É mau que muitos comandem; um, só, tenha o posto supremo; 
um, seja o rei, justamente a quem Zeus, descendente de Crono, 
deu cetro e leis, para o mando no povo exercer inconteste.” 
   Como senhor, percorria ele as filas. Reflui novamente 
a multidão, que concorre das tendas e naves simétricas, 
tumultuando, tal como onda grande do mar ressoante 

vem sobre a praia quebrar-se, fazendo que o mar todo ecoe. 
   Todos, então, se sentaram calados, cada um no seu posto. 
Unicamente Tersites sem pausa a falar continuava, 
pois tinha sempre o bestunto repleto de frases ineptas, 
que contra os reis costumava atirar, sem propósito ou regra, 
contanto que provocasse dos nobres Argivos o riso. 
Era o mais feio de quantos no cerco de Troia se achavam. 
Pernas em arco, arrastava um dos pés; as espáduas, recurvas, 
se lhe caíam no peito e, por cima dos ombros, em ponta, 
o crânio informe se erguia, onde raros cabelos flutuavam.

Tanto Odisseu como o divo Pelida ódio grande lhe tinham, 
pois, de contínuo, os pungia. Mas ora insultava Agamémnone 
com voz de timbre estridente, com quem os guerreiros Acaios 
aborrecidos estavam e muito agastados no espírito. 
Em altos berros, portanto, a Agamémnone increpa insultuoso: 
“Por que resmungas, Atrida, e que mais, ainda, julgas faltar-te? 
As tuas tendas transbordam de bronze e de lindas escravas, 
todas a dedo escolhidas, que os homens Aqueus te ofertamos 
sempre em primeiro lugar, ao tomarmos alguma cidade. 
Ou, porventura, desejas mais ouro, que, acaso, um Troiano 

da alta cidade te traga, em resgate do filho querido 
que, porventura, eu prendesse, ou qualquer dos guerreiros Aquivos. 
Ou nova escrava ambicionas, que, à parte, sozinho, retenhas 
para saciar teus amores? Não fica decente a um monarca, 
que o mando exerce, lançar os Acaios em tantas desgraças. 
Bando covarde e imprestável de aquivas, não digo de Aquivos! 
Sim, para casa voguemos, deixando-o nos plainos de Troia, 
a digerir quantos dons lhe couberam por sorte. Que sinta 
se de vantagem lhe somos, ou não, nos perigos da guerra, 
já que o divino Pelida, que tão superior lhe é em tudo,

muito ofendeu: sua escrava tomou e dela, ora, se goza. 
Mas esse Aquiles mostrou ser pessoa sem fel; é indolente. 
Caso contrário, Agamémnone, o último ultraje fora esse.” 
   Por esse modo, Tersites o Atrida possante insultava. 
Mas sem demora o divino Odisseu veio pôr-se-lhe ao lado, 
e com terrível olhar, encarando-o, increpou-o desta arte: 
   “Néscio Tersites, conquanto orador de palavra fluente, 
cala essa boca, não queiras sozinho com reis abarbar-te. 
És o mais vil e insolente de quantos guerreiros vieram 
para lutar sob os muros de Troia, seguindo os Atridas.

Não queiras vir concionar tendo o nome de rei nessa boca, 
nem cumulá-lo de insultos, cuidando somente da fuga. 
Ainda ignoramos, ao certo, que fim há de ter isso tudo, 
se para os homens Acaios a volta será vantajosa. 
Cessa, portanto, de insultos lançar no pastor de guerreiros, 
o grande filho de Atreu, a quem muitos Argivos distinguem 
com copiosos presentes. Somente a ti coube insultá-lo. 
Vou revelar-te com toda a clareza o que vai realizar-se. 
Ao te encontrar novamente dizendo impropérios como esses 
não mais nos ombros de herói Odisseu continue a cabeça,

nem mais me orgulhe de ser designado por pai de Telêmaco, 
se sobre ti não puser logo as mãos, arrancando-te as vestes, 
o manto e a própria camisa e o que mais as vergonhas encobre, 
para enviar-te, depois, a chorar, para as rápidas naves, 
das reuniões expulsando-te com boa dose de açoites.” 
   Ao dizer isso, golpeou-o com o cetro nas costas e espáduas, 
o que o obrigou a encurvar-se, nadando-lhe os olhos em lágrimas. 
Incha-lhe, logo, nas costas sanguíneo vergão da pancada 
do cetro de ouro. Sentar-se foi ele a tremer, temeroso, 
apatetado, a enxugar, dolorido, dos olhos as lágrimas.

Riram-se todos do mísero, embora enfadados se achassem. 
Muitos dentre eles falavam, virando-se para o mais próximo: 
   “Que maravilha! Odisseu já se orgulha de inúmeros feitos, 
quer como bom conselheiro, quer quando os combates dirige. 
Mas esta ação, por sem dúvida, a todas as outras supera, 
pois obrigou a calar-se de vez esse vil maldizente. 
O coração temerário não mais quererá, com certeza, 
sobre a pessoa do rei atirar insultuosas palavras.” 
   A chusma assim se expressava. Odisseu, eversor de cidades, 
o cetro empunha, de pé. Sob a forma do arauto, ao seu lado,

a de olhos glaucos, Atena, ordenava silêncio às fileiras, 
para que todos os homens Acaios, de perto e de longe, 
suas palavras ouvissem e, após, orientar-se soubessem. 
Cheio de bons pensamentos lhe diz, arengando, o seguinte: 
   “Filho de Atreu, soberano, os guerreiros Aquivos desejam 
que ante o universo dos homens mortais infamado tu fiques. 
Não querem dar cumprimento às promessas com que se empenharam 
ao virem de Argos, nutriz de corcéis, sob o teu regimento: 
que voltariam somente depois de destruir Ílio forte. 
Como se fossem mulheres a quem falta o esposo, ou crianças,

uns para os outros se queixam, chorando o almejado retorno. 
Grande é, realmente, a fadiga, e o desejo da volta, explicável. 
Quem fica apenas um mês afastado da esposa querida, 
muito se queixa na nave provida de remos, se acaso 
as tempestades do inverno no mar o detêm agitado. 
Nós, entretanto, já vimos nove anos completos passarem, 
sempre detidos aqui. Não censuro, por isso, aos Acaios 
por se angustiarem nas naves recurvas. Mas é vergonhoso 
com mãos vazias voltarmos depois de demora tão longa. 
Caros amigos, paciência! Esperai mais um pouco, até vermos

 se de Calcante os augúrios nos saem verazes ou falsos. 
Sim, todos vós, que da Morte escapastes, ainda no espírito 
tendes presente a ocorrência, do que podeis dar testemunho. 
Ontem, parece, ou anteontem, se achavam reunidos em Áulide 
as naves todas que a Príamo e a Troia a desgraça trouxeram. 
Junto das aras sagradas, ao pé de uma fonte, nós todos 
às divindades do Olimpo hecatombes perfeitas fazíamos, 
sob a frescura de um plátano, donde fluía água límpida. 
Nisso, um prodígio nos veio: uma serpe com dorso sanguíneo, 
monstro terrível, que à luz fora enviado por Zeus poderoso.

Do supedâneo surgindo, do altar, subiu logo pela árvore, 
onde a ninhada se achava de um pássaro, míseros seres, 
sob as folhinhas ocultos, no ramo mais alto do plátano; 
oito eram eles; incluindo-se a mãe, que os gerou, nove ao todo. 
Por entre pios sentidos ali devorou todos eles 
e a própria mãe, que, gemente, esvoaçava ao redor dos filhinhos: 
o bote atira-lhe o monstro, apanhando-a por uma das asas. 
Mas, pós haver o dragão os filhotes e a mãe devorado, 
foi pelo deus, que o enviara, mudado num grande prodígio; 
petrificou-o ali mesmo o nascido de Crono tortuoso.

Quantos ao fato assistíamos, cheios de espanto ficamos. 
Mas, vaticínios Calcante começa ali mesmo a tecer-nos 
sobre o terrível prodígio, que em meio do ofício nos viera: 
‘Por que calados ficastes, Aquivos de soltos cabelos? 
Esse prodígio por Zeus grande e sábio nos foi enviado. 
Vai demorar; veio tarde; mas fama vai ter sempiterna. 
Do mesmo modo que o drago os filhotes matou e a mãe deles — 
oito eram eles, incluindo-se a mãe, que os gerou, nove ao todo — 
o mesmo número de anos devemos passar nesta guerra, 
mas no dezeno, haveremos de entrar a cidade espaçosa.’

Foi esse o seu vaticínio, que se há de cumprir sem demora. 
Por isso tudo, esforçados Acaios, ficai mais um pouco, 
té que possamos tomar a espaçosa cidade de Príamo.” 
   Dessa maneira concluiu, provocando estrondosos aplausos 
dos Aqueus todos, grevados, que as naves recurvas atroam; 
tão agradável lhes fora o discurso do divo Laertíada. 
O domador de cavalos, Nestor, de Gerena, lhes disse: 
   “Caso inaudito, que todos faleis como crianças ingênuas, 
que não possuem nenhuma experiência das coisas da guerra! 
Para onde as juras se foram, e os votos, que todos fizemos?

Sejam lançados ao fogo os desígnios e planos de todos, 
as libações impolutas e apertos de mão, que trocamos. 
Só com palavras sabemos brigar, sem que achemos caminho 
para as ações eficientes, pesar de aqui estarmos há muito. 
Como o costumas, Atrida, mantém teu propósito firme, 
e para os prélios terríveis conduze os guerreiros Argivos. 
Que este e outros poucos se percam, que têm por costume aos Acaios 
dar maus conselhos. Porém jamais hão de alcançar seus intentos, 
de retornarmos para Argos, sem termos obtido, primeiro, 
de Zeus potente a certeza se falso ou veraz prometeu-nos.

Sou de opinião, entretanto, que o filho potente de Crono 
nos falou certo no dia em que as naves entramos velozes 
para trazer a estas gentes de Troia o extermínio e a desgraça: 
fez-nos surgir um relâmpago à destra, sinal infalível. 
Por isso tudo, ninguém mais insista em voltar para a pátria, 
sem que, primeiro, haja ao leito subido de esposa Troiana 
e ressarcido os trabalhos e o choro por causa de Helena. 
Mas se houver quem ainda insista em voltar para a pátria querida, 
e ouse tocar no navio anegrado, de boa coberta, 
seja o primeiro a ser presa do Fado inditoso e da Morte.

Eia, senhor, aconselha-te bem, mas aceita outros planos, 
que não será de somenos valor o que passo a dizer-te: 
Teus homens todos, Atrida, por tribos divide e famílias 
que cada tribo se ajude e uns aos outros os membros de um grupo. 
Caso me aceites o alvitre, e os Acaios, também, te obedeçam, 
fácil será de saber qual dos chefes, qual dentre os do povo, 
fraco, ou de prol, se revela; que à parte eles todos combatem. 
Hás de, então, ver se a cidade resiste por causa dos deuses, 
ou por fraqueza dos homens, nas coisas da guerra inexpertos.” 
   Disse-lhe, então, em resposta Agamémnone, rei poderoso:

“Tornas, ó ancião, a vencer os Acaios com tua eloquência. 
Fosse do gosto de Zeus, e de Palas Atena, e de Apolo, 
dez conselheiros assim nas fileiras Acaias mostrarem-me! 
Em pouco tempo cairia a cidade potente de Príamo, 
por nossos braços vencida e por nós arrasada e saqueada. 
Mas sofrimentos me deu Zeus potente, nascido de Crono, 
com me lançar em litígios inúteis e vão falatório. 
Por causa, sim, de uma escrava, eu e Aquiles Peleio brigamos 
com termos ásperos, tendo partido de mim as ofensas. 
Mas se algum dia concordes ficarmos de novo, não há de

demorar muito a ruína de Troia, um momento que seja. 
Ide, no entanto, comer, porque logo encetemos a luta. 
Todos, as lanças agucem; a ponto os escudos preparem; 
Deem ração abundante aos cavalos de patas velozes 
e aos carros passem revista, pensando no próximo embate, 
pois todo o dia teremos de a luta manter espantosa. 
Pausa nenhuma há de haver, um momento sequer de repouso, 
enquanto a Noite não vier aplacar o furor dos guerreiros. 
Há de correr muito suor pelo bálteo dos altos escudos, 
e, do maneio da lança, hão de os braços tombar de cansados;

muito hão de suar os cavalos, do esforço de os carros puxarem. 
Mas se eu alguém vir do prélio sangrento afastado, querendo 
nas curvas naus ocultar-se, remédio nenhum, com certeza, 
há de livrá-lo de pasto tornar-se de cães e de abutres.” 
   Disse; os Argivos romperam em grande alarido, tal como 
quando vem onda quebrar-se, por Noto impelida, de encontro 
a promontório elevado; outras muitas, constantes, o cercam, 
que, pelos ventos, de todos os lados, ali são jogadas: 
em direção dos navios, desta arte, eles todos se espalham, 
fogo nas tendas acendem e logo ao repasto se entregam.

continua página 98...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c /          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.