Mostrando postagens com marcador Chico Buarque. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chico Buarque. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Epílogo Ditoso (Ópera)

Ópera do malandro


Chico Buarque 
 

Ópera do malandro
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
 

"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran


SEGUNDO ATO

EPÍLOGO DITOSO (Ópera)


VITÓRIA 
 Música, maestro! 

Orquestra dá acorde seco que introduz a ópera. Do fundo do palco vem surgindo João Alegre, sentado ao volante de um conversível modelo anos 40. De agora em diante, tudo será cantado.

JOÃO ALEGRE 
 Telegrama 
 Do Alabama 
 Pro senhor Max 
 Overseas 
 Ai, meu Deus do céu 
 Me sinto tão feliz

TERESINHA 
 Chegou a confirmação 
 Da United coisa e tal 
 Que nos passa a concessão 
 Vara o náilon tropical

MAX 
 Então nós vamos montar 
 Em São Paulo um fabricão 

TERESINHA 
 Depois vamos exportar 
 Fio de náilon pro Japão 

MAX 
 Sei que o náilon tem valor 
 Mas começa a me enjoar 
 Tive ideia bem melhor 
 Nós vamos ramificar 

TERESINHA 
 Já ramifiquei, ha há 
 Fiz acordo com a Shell Coca-Cola, RCA 
 E vai ser sopa no mel 

CORO 
 Que beleza 
 Que riqueza 
 Tá chovendo 
 Da matriz 
 Ai, meu Deus do céu 
 Me sinto tão feliz 

MAX 
 Que tal juntarmos 
 Esses capitais 
 Pra abrir um banco 
 Em Minas Gerais

TERESINHA 
 Que brilhante ideia, meu amor 
 Que plano original 
 Com fundos do exterior 
 Você fundar 
 Um banco nacional 

CAPANGAS 
 E eu que jâ fui 
 Um pobre marginal 
 Sem documento 
 E sem moral 
 Hei de ser um bom profissional 
 Vou ser quase um doutor 
 Continuo da senhora 
 E do senhor Bancário ou contador 

CORO 
 Que sucesso 
 O progresso 
 Corta o mal 
 Pela raiz 
 Ai, meu Deus do céu 
 Me sinto tão feliz

CHAVES 
 Irmão 
 Nem começar eu sei 
 Receio te inibir 

MAX 
 Sua vontade é lei 
 É falar 
 É mandar 
 É exigir 

CHAVES 
 É que 
 Num mundo tão cruel 
 Cheio de inveja e fel 
 Não lhe fará mal 
 Ter à mão 
 Proteção Policial 
 Quer os meus préstimos?

MAX 
 Eu acho ótimo  

BARRABÁS 
 Serve um acólito? 

MAX 
 Também 
 Vou te empregar 

LÜCIA 
 Eu não 
 Tenho com quem deixar 
 Meu filho que já vem

MAX 
 Barrabás é um par 
 Exemplar 
 Quer casar 

BARRABÁS 
 E adoro neném

CORO 
 Maravilha 
 Que família 
 Dois pombinhos 
 E um petiz 
 Ai, meu Deus do céu 
 Me sinto tão feliz 

VITÓRIA 
 Só tenho um único 
 Breve reparo 
 A tão preclaro 
 Genro viril 
 É o esquecimento 
 Do sacramento 
 Afinal 
 Se casou 
 Só no civil 
 Oh, oh, oh 
 Oh, oh, oh 
 Só no civil 
 Oh, oh, oh 
 Oh, oh, oh 
 Só no civil 

MAX 
 Mas nesse ínterim 
 Mudei de crença 
 Já peço a bênção 
 No santo altar 

VITÓRIA 
 Que maravilha 
 Não perco a filha 
 E um varão 
 Bonitão 
 Eu vou ganhar 
 Ah, ah, ah 
 Ah, ah, ah 
 Eu vou ganhar 
 Ah, ah, ah 
 Ah, ah, ah 
 Eu vou ganhar 

DURAN 
 Minha filha, eu desejo pedir teu perdão 

TERESINHA 
 Oh, meu pai, isso é bom demais! Finalmente! Até que enfim! 

DURAN 
 Não sei como fui pra você tão durão 
 Tão mandão, tão sem coração, tão malvado assim 

MAX 
 Meu sogro, o senhor não sabe quanta alegria 
 Me dá, ao dizer que já se juntou aos nossos 

DURAN 
 Só Deus sabe há quanto tempo eu tanto queria 
 Poder apertar esses ossos

CORO 
 Que alegria 
 Quem diria 
 Como os grandes 
 São gentis 
 Ai, meu Deus do céu 
 Me sinto tão feliz 

DURAN 
 Não quero ser 
 Nas suas costas um fardo 
 Porém 
 Talvez 
 Eu necessite um resguardo 

MAX 
 Tua instituição 
 Tão tradicional 
 Vai ter um padrão 
 Moderno 
 Cristão e ocidental 

PUTAS 
 Vamos participar 
 Dessa evolução 
 Vamos todas entrar 
 Na linha de produção 
 Vamos abandonar 
 O sexo artesanal 
 Vamos todas amar 
 Em escala industrial 

GENI 
 O sol nasceu 
 No mar de Copacabana 
 Pra quem viveu 
 Só de café e banana

TODOS 
 Tem gilete, Kibon 
 Lanchonete, neon Petróleo 
 Cinemascope, sapólio 
 Ban-lon 
 Shampoo, tevê 
 Cigarros longos e finos 
 Blindex fume 
 Já tem napalm e Kolinos 
 Tem cassete e rai-ban 
 Camionete e sedan 
 Que sonho 
 Corcel, Brasília, plutônio 
 Shazam 
 Que orgia 
 Que energia 
 Reina a paz 
 No meu país 
Ai, meu Deus do céu 
 Me sinto tão feliz 

Black-out; fecha a cortina; orquestra continua. 

EPÍLOGO DO EPÍLOGO

Foco de luz sobre João Alegre que vem ao proscênio, batucando na caixinha de fósforos; a orquestra vai parando aos poucos...
João Alegre canta "O Malandro N." 2" 

 O malandro/Tá na greta 
 Na sarjeta/Do país 
 E quem passa/Acha graça 
 Na desgraça/Do infeliz 
 O malandro /Tá de coma 
 Hematoma/No nariz 
 E rasgando/Sua bunda 
 Uma funda/Cicatriz 
 O seu rosto/Tem mais mosca 
 Que a birosca/Do Mane 
 O malandro/É um presunto 
 De pé junto/E com chulé 
 O coitado/Foi encontrado 
 Mais furado/Que Jesus 
 E do estranho/Abdômen 
 Desse homem/Jorra pus 
 O seu peito/Putrefeito 
 Tá com jeito/De pirão 
 O seu sangue/Forma lagos 
 E os seus bagos/Estão no chão 
 O cadáver/Do indigente 
 É evidente/Que morreu 
 E no entanto/Ele se move 
 Como prova/O Galileu


João Alegre vai saindo, assobiando e batendo na caixinha de fósforos. 






Fim
_____________________

NOTA 

O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A  equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes. 

Chico Buarque Rio, junho de 1978

__________________

Leia também:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (prefácio e nota)
Chico Buarque - Ópera do Malandro (introdução)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 1
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Epílogo Ditoso (Ópera)
__________________

Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio  a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.

quarta-feira, 6 de março de 2024

Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 7

Ópera do malandro


Chico Buarque 
 

Ópera do malandro
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
 

"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran


SEGUNDO ATO

CENA 7

Entra em cena a passeata, comandada por João Alegre; Vitória caminha em direção à multidão  

VITÓRIA 
 Muito bem, minha gente, vamos todos pra casa, vamos circular que a passeata está suspensa. Estão me ouvindo? Acabou a passeata! Ei, pessoal! Não tem mais passeata! Vocês estão surdos? Não tem passeata! Não tem. . . 

A passeata atropela Vitória e segue em frente; Duran tenta socorrer Vitória mas ê arrastado; Chaves dá um tiro para o alto, em vão, e se esconde; enfim, Vitória levanta-se e vai ao proscênio 

VITÓRIA 
 Luzes! Eu pedi luzes! Suspende o espetáculo! Luzes na plateia! Ei, vocês aí em cima na técnica! Pára tudo! Acende a plateia! 

Luzes na plateia; a passeata para

VITÓRIA 
 Mas que absurdo! Que palhaçada! Eu não saí de casa pra vir aqui passar vexame! Quem é o responsável por essa bagunça? Eu vou me queixar no Jornal Nacional. Que é que vocês estão pensando? Cadê o produtor? 

DURAN/PRODUTOR 
 Estou aqui, dona Vitória, desculpe. Eu não sei como foi que isso aconteceu. A senhora está bem? 

VITÓRIA 
 Eu estou ótima, e a tua mãe? Exijo satisfações! 

DURAN/PRODUTOR 
 Pois é, essa baderna não estava no roteiro aprovado por todos nós. . . Ô, "seu" João Alegre, quer dar um pulinho aqui?

VITÓRIA 
Seu sem-vergonha! Preto safado! Filho dum cão! 

JOÃO ALEGRE 
 Sabe como é, dona? A senhora entende. . . 

VITÓRIA 
 Eu não entendo nada! 

JOÃO ALEGRE 
 A gente tá na onda do partido alto. Então, o puxador dá o mote e nego vai tirando o que pintar na mentalidade, sacou? É uma jogada que dá um pé na quadra e eu achei que no teatro ficava original. Mas não tive a intenção de ofender a madame. . . 

VITÓRIA 
 Tua intenção era me mandar daqui pro Miguel Couto! 

JOÃO ALEGRE 
 Não, madame, nunca, de jeito nenhum! Foi só um improviso, sem maldade. . . 

DURAN/PRODUTOR 
 Dona Vitória, eu não sei o que dizer. Talvez o melhor fosse a gente esquecer o incidente e recomeçar o final da peça do jeito que tava combinado. 

VITÓRIA 
 Eu, por mim, ia embora imediatamente. Só continuo aqui por respeito a esse público maravilhoso que pagou ingresso. . . Ô, você! Como é mesmo o nome do crioulo? Vamos fazer um gran finale decente, mas tem que ser igualzinho ao ensaio geral! 

JOÃO ALEGRE 
 Ah, isso não dá, não senhora. O que tá feito, tá feito. Partideiro que se respeita não volta a palavra atrás. 

PASSEATA 
 Viva! Agüenta firme! Boa, João! Salve João Alegre! 

VITÓRIA 
 Que é isso? 

DURAN 
 Tá pensando que é malandro, rapaz? 

VITÓRIA 
 Vai juntar o teu gado e recomeçar o happy end! É pra já!  

JOÃO ALEGRE 
 Vou não senhora. 

PASSEATA 
 Grande, João! É o maior! 

JOÃO ALEGRE 
 Eu também tenho um nome pra zelar. 

PASSEATA 
 É isso mesmo! Segura as pontas, João! Viva! 

DURAN/PRODUTOR 
 Você não pode fazer isso, João. Afinal, teatro é cultura! 

JOÃO ALEGRE 
 Vambora pra rua, pessoal! 

PASSEATA 
 Vamos lá! Apoiado! Já ganhou! Viva o João! 

DURAN/PRODUTOR 
 Está certo, João Alegre, você venceu. A carreira é sua e você tem todo o direito de acabar com ela. Mas primeiro tem que me acompanhar ali na administração, que é pra formalizar a rescisão do contrato. 

JOÃO ALEGRE 
 Com todo o prazer, doutor. Pessoal, eu volto já! 

DURAN/PRODUTOR 
 É uma pena. Com um futuro tão promissor. . . 

VITÓRIA 
 Podia até estourar na Broadway. . . 

DURAN/PRODUTOR 
 Ia levantar aquela verba na Funarte. . . 

VITÓRIA 
 Ainda ia ganhar o Oscar! 

(Saem Duran, Vitória e João Alegre

INTERMEZZO  Luzes gerais no palco e na plateia 

LÚCIA (Entra
 Que é que tá acontecendo, hein?  

TERESINHA 
 O autor se meteu a besta e resolveu embananar o happy end. Daí os figurantes embarcaram na palhaçada. . . 

BEN 
 Figurante é a mãe! Coadjuvante! 

TERESINHA 
 Vamos, façam alguma coisa aí vocês! Tem que entreter o público! MAX Vamos, moçada! The show must go on! 

SHIRLEY 
 Que é que eles tão querendo mais? Tô há quase três horas me esgoelando neste palco! 

JUSSARA 
 Eles tão pensando que são estrela, só porque ganham dez vezes mais que a gente. 

MIMI 
 Mas agora mixou. O João Alegre disse que, em peça dele, fodido é que fala mais alto. Diz que, em letreiro de teatro dele, fodido vai ser estrelo e estrelo vai se foder. 

GENERAL 
 Disse, pois é. Mas quero ver o que é que ele vai dizer agora que estão umedecendo a pata dele. 

SHIRLEY 
 Ele aguenta firme. Pelo João Alegre eu ponho a mão na merda. 

PHILLIP 
 Vou te contar. Enquanto artista depender de autor e produtor, tá ferrado! 

DÓRIS 
 Eu digo mais. A melhor coisa que pode acontecer pra gente, mas a melhor mesmo, coisa de sonho, coisa de Shangri-la, é ter um cara da TV Globo na plateia e chamar a gente pra novela das oito. 

JOHNNY 
 Sabe duma? Se eu fosse atacar de muamba pra valer, tava numa melhor. 

FICHINHA 
 E eu? O que tô ganhando aqui num mês, puta de verdade fatura numa noite, rodando a bolsa na Vieira Souto. Aliás, tô decidida. Vou ser puta no duro! Se alguém aí na plateia se habilita, é só passar no camarim. 

GENERAL 
 Muito me admira é o Barrabás. Como é que é, homem, se bandeou pro lado dos ricos? 

BARRABÁS 
 Te manca, General. Deixa eu me destacar aqui perto dos figurões. 

JOHNNY 
 Belo espírito de solidariedade. 

BARRABÁS 
 Daí eu pago uma lasanha na Fiorentina. 

JOHNNY 
 Ah, bom. 

GENI (Entra com duas bolsas grandes de palha
 Olá, todo mundo. 

PHILLIP 
 Ô, Genival, chegue-se aos bons! 

GENI 
 Quem é esse cara mesmo, hein? Ah, Teresinha, Lúcia, que bom encontrar vocês! PHILLIP Ô, bichona, eu falei contigo! 

GENERAL 
 Qual é, Geni? Não fala com a gente? 

GENI 
 De onde é que eu conheço esses caras mesmo? É do Retiro dos Artistas ou da TV Educativa? Mas, queridas, olha que barato essas bolsas italianas. Qualquer butique de Ipanema tá vendendo a oitocentos contos! Eu faço por quinhentos. . . 

TERESINHA 
 Ai, que graça! 

GENI 
 Tem também um soirée bem metido a antigo, ideal pra festa de entrega do prêmio Molière! 

LÚCIA 
 Esse é meu! 

 GENI 
 Olha só esses penduricalhos. . . Bem art-nouveau. . . 

 Entram Duran e Vitória.


Continua pág 138...
_____________________

NOTA 

O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A  equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes. 

Chico Buarque Rio, junho de 1978

__________________

Leia também:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (prefácio e nota)
Chico Buarque - Ópera do Malandro (introdução)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 1
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 7
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Epílogo Ditoso (Ópera)
__________________

Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio  a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 6

Ópera do malandro


Chico Buarque 
 

Ópera do malandro
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
 

"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran


SEGUNDO ATO

CENA 6

Luz geral na cadeia; a alguns passos da cela estão Duran e Chaves, este com a pistola na mão 

DURAN 
 Que é que tá esperando? Três, dois, um, já! 

CHAVES 
 Espera aí. E a passeata? 

DURAN 
 Primeiro executa o teu amigo. Aí a Vitória cuida da passeata. 

CHAVES 
 Eu tenho o maior prazer em executar o meu amigo. Mas tem que desmanchar a passeata antes. 

DURAN 
 Que é isso, Chaves? Não confia em mim? 

CHAVES 
 E tu? Não confia em mim? 

DURAN 
 Não. 

CHAVES 
 Então empatou zero a zero. 

DURAN 
 Assim não dá, Chaves. Alguém tem que agir primeiro. 

CHAVES 
 Eu tô com a arma engatada e na mira, Duran. (Aproxima-se de Max) Tu fica ao meu lado. Na hora exata que esse esporro sossegar, tu me cutuca que eu dou o teco. 

Continua pág 133...
_____________________

NOTA 

O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A  equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes. 

Chico Buarque Rio, junho de 1978

__________________

Leia também:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (prefácio e nota)
Chico Buarque - Ópera do Malandro (introdução)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 1
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 6
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 7
__________________


Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio  a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 5

Ópera do malandro


Chico Buarque 
 

Ópera do malandro
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
 

"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran


SEGUNDO ATO

CENA 5

Cadeia; Max dentro da cela e Barrabás do lado de fora

BARRABÁS 
 Desta tu não escapa, hein? 

MAX 
 Escapo sim. 

BARRABÁS 
 Ah, é? E quem te safa? 

MAX 
 Você, Barrabás. Você vai tomar a arma do inspetor, vai trancar todo mundo no banheiro e vai embora comigo. 

BARRABÁS 
 Ah sim, meu amor? Depois promete que casa comigo? Hein, coraçãozinho? Também vai me levar pra Hollywood? 

MAX 
 Não, muito melhor. Vou te levar pra Cuba. Já ouviu falar de Cuba? É o paraíso, Barrabás. Muita praia, muito coqueiro, muito cassino, muita rumba, muita mulher e ninguém precisa trabalhar. Eu tenho um camaradinha lá chamado Fulgêncio. Imagina que o Fulgêncio me mandou um cartão postal contando que agora ele é o mandachuva de lá. Quer dizer, Barrabás, que lá em Havana você é amigo do amigo do rei. 

BARRABÁS 
 Conta mais, conta mais que eu tô quase abrindo as pernas! 

MAX 
 Para com isso, Barrabás! Eu sei que você não é mulher nem criança pra cair em conversa fiada. Você é malandro, que eu sei! Muito mais malandro do que eu! Basta dizer que arranjou emprego na polícia, logo você que tem uma folha corrida mais suja que colchão de puta. Não precisa dizer mais nada, é só ver quem tá de que lado da grade pra saber quem é mais malandro. 

BARRABÁS 
 Obrigado. 

MAX 
 Então, isso que eu falo do meu amigo Fulgêncio, isso não é nada, é só uma sugestão dum belo lugar pra você passar o resto dos seus dias, fazendo pesca submarina no Caribe. É só isso, e você não vai me soltar por causa disso. Você vai me soltar porque eu te dou condições de ser feliz em Cuba, em Honolulu ou em qualquer outro lugar do mundo. Em outras palavras, vou te dar todo o dinheiro que tenho no cofre. 

BARRABÁS 
 Cala a boca, Max. Assim você me ofende. Agora eu sou um homem de bem. . . Quanto é que você tem no cofre? 

MAX 
 Pra lá de cinco mil dólares. . . Escuta! É a voz da Teresinha. Vamos fazer melhor, Barrabás. Eu digo à Teresinha pra te abrir o cofre. Você me solta e fica garantido. Eu não vou te dar um golpe se a Teresinha ta contigo de refém. . . Teresinha, meu amor! 

TERESINHA (Entra
 Max, que bom te ver! Eu tava com tanto medo de chegar atrasada! 

MAX 
 Você chegou na hora exata. Conhece o Barrabás, não é mesmo? 

TERESINHA 
 Prazer. Sabe o que é, Max? A gente tá com o tempo apertado e eu trouxe uns papéis pra você assinar. 

MAX 
 Isso a gente vê amanhã, baby. Agora o Barrabás vai me soltar e você vai dar a ele todo o dinheiro do cofre. 

TERESINHA 
 Dinheiro do cofre? 

MAX 
 Todinho. Vamos, Barrabás! Dá uma gravata no inspetor. 

TERESINHA 
 Mas, querido, não tem dinheiro nenhum no cofre. 

MAX 
 Não tem? Cê tá louca? Tinha mais de cinco mil dólares! 

TERESINHA 
 Cinco mil cento e sete dólares e vinte e cinco cents. Mas agora a gente tá devendo dezessete mil. 

BARRABÁS 
 Adeus, Max. 

MAX 
 Tá brincando. Devendo a quem? 

TERESINHA 
 Aos bancos, é claro. Uma firma tem que estar sempre devendo a todos os bancos. Tá tudo aqui no livro-caixa, meu amor, mas é meio complicado de explicar e não vai dar tempo de você conferir. Mas pra ter uma ideia, só de advogados, contabilidade e documentação, foram uns seis mil. E dez mil dólares eu dei de entrada num conjunto de salas na Avenida Central. Uma beleza, Max. No oitavo andar, com porteiro, elevador e ar refrigerado para os dias de calor. Você tem que assinar aqui, aqui e aqui. Foi mais por isso que eu vim assim correndo, porque é da maior urgência e mal deu pra eu me pintar. (Max vai assinando tudo sem esboçar a menor reação) A firma precisava dum endereço comercial porque não tinha graça timbrar no papel: MAXTERTEX Limitada, endereço cabana na praia. Ah, as promissórias, que eu prometi levar a tua assinatura aos bancos amanhã bem cedo. Os gerentes têm sido muito camaradas comigo, sabe, Max? Imagina que eles me atenderam em dia de sábado! Agora só falta assinar essa folha em branco que é pra me prevenir em caso de acidente grave ou doença que te deixe impedido e que é prós nossos negócios não sofrerem solução de continuidade e o dr. Sobral já me disse que espólio é um processo muito demorado. . . Ah, que bom que deu tempo pra tudo! Fala de você agora, querido. Max, eu nunca te vi calado assim! Diz o que é que você ta sentindo, por favor! 

MAX 
 Eu estou sentindo medo, muito medo. (Cresce o barulho da passeata, como uma canção selvagem)

TERESINHA 
 Bom, não é pra te consolar, mas quem hoje te condena à morte tá condenado pra depois de amanhã. Papai, inspetor Chaves, a Lapa, as falcatruas, todo esse mundo já tá morto e caindo aos pedaços. 

MAX_ 
 É, isso não me consola muito não. Tô com medo. 

TERESINHA 
 Eles também tão com medo, Max. Precisava ver a cara da mamãe. Tá ouvindo a multidão aí embaixo? Coitada da mãe, mas essa gente tá certa, tem mesmo que desabafar. Ninguém aguenta mais esse clima, esse sufoco! Tá todo mundo precisando duma coisa nova, mais aberta, mais limpa e arejada. Tá na cara que tem que mudar tudo e já! Tem que abrir avenidas largas, tem que levantar muitos arranha-céus, tem que inventar anúncios luminosos, e a MAXTERTEX faz parte do grande projeto. Você devia se orgulhar, Max, porque nisso tudo tem um pedaço do teu nome e um pouquinho do teu espírito. . . 

MAX 
 Que se foda o meu espírito. Quem tá com medo é o meu corpo. É deste corpo aqui que eu gosto, gosto muito, adoro. Tô acostumado dentro dele e não quero sair.

TERESINHA 
 Sangue novo! A nova civilização! É claro que os malandrinhos, os bandidinhos e os que acham que sempre dá-se um jeitinho, esses vão apodrecer debaixo da ponte. Mas nesse povo aí fora não dá só vagabundo e marginal, não. E vai ter um lugar ao sol pra quem quiser lutar e souber vencer na vida. É daí que vem o progresso, Max, do trabalho dessa gente e da nossa imaginação. Daqui a uns anos, você vai ver só. Em cada sinal de trânsito, em cada farol de carro, em cada nova sirene de fábrica vai ter um dedo da nossa firma. Você devia se orgulhar, Max. 

MAX 
 Este meu corpo tá inteirinho, tá cheiroso, tá com toda a vida, tá jogando saúde pelo ladrão. A boca quer chupar mais manga, a garganta quer tomar mais cerveja, o pau tá querendo foder e a cabeça quer pensar besteira. Depois ia chegar um dia que o corpo ia parando de querer. Ia minguando a fome, a sede, o tesão, ia dando preguiça de pensar, e as carnes se decompondo naturalmente, devagar, na cama. Assim é que tinha que ser. 

TERESINHA 
 E vai demorar meio século pra essa gente se juntar de novo e levantar a voz. Porque a multidão não vai estar abafada, nem encurralada, nem tiranizada, nem nada. Sabe o quê? A multidão vai estar é seduzida. Você devia se orgulhar. 

MAX 
 Então, não é justo esmagar um corpo assim no meio do caminho. Interromper um gesto, a digestão, interromper uma idéia, um programa, uma música, o sangue correndo nas veias, e o corpo parar de chofre, ainda produzindo saliva e esperma, e cheio de merda por dentro. Orquestra ataca a introdução, abafando o barulho da passeata 

TERESINHA 
 Acho que tá na hora, Max. 

MAX 
 Acho que tá na hora. 

 Max e Teresinha cantam "Pedaço de Mim"

TERESINHA 
 Oh, pedaço de mim 
 Oh, metade afastada de mim 
 Leva o teu olhar 
 Que a saudade é o pior tormento 
 É pior do que o esquecimento 
 É pior do que se entrevar 

MAX 
 Oh, pedaço de mim 
 Oh, metade exilada de mim 
 Leva os teus sinais 
 Que a saudade dói como um barco 
 Que aos poucos descreve um arco 
 E evita atracar no cais 

TERESINHA 
 Oh, pedaço de mim 
 Oh, metade arrancada de mim 
 Leva o vulto teu 
 Que a saudade é o revés de um parto 
 A saudade é arrumar o quarto 
 Do filho que jâ morreu 

MAX 
 Oh, pedaço de mim 
 Oh, metade amputada de mim 
 Leva o que há de ti 
 Que a saudade dói latejada 
 É assim como uma fisgada 
 No membro que jâ perdi 

OS DOIS 
 Oh, pedaço de mim 
 Oh, metade adorada de mim 
 Lava os olhos meus 
 Que a saudade é o pior castigo 
 E eu não quero levar comigo 
 A mortalha do amor 
 Adeus  


A orquestra segue tocando, mas é abafada aos poucos pelo canto barulhento da passeata.  






continua pág 132 ...

_____________________

NOTA 

O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A  equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes. 

Chico Buarque Rio, junho de 1978

__________________

Leia também:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (prefácio e nota)
Chico Buarque - Ópera do Malandro (introdução)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 1
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 5
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 6
__________________


Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio  a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4c)

Ópera do malandro


Chico Buarque 
 

Ópera do malandro
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
 

"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran


SEGUNDO ATO

CENA 4

continuando...

GENI 
Pois é, como eu ia dizendo, o Max conheceu uma putinha nova ontem e marcou encontro pra esta tarde. O Max é um cavalheiro muito distinto e é incapaz de faltar com a palavra. As mulheres também não faltam, é claro, todas elas adoram o Max. Por falar nisso, que menina sortuda a tua filha, hein, Vitória? Sabe, eu trouxe aqui um anel que é feito sob medida pra uma recém-casada. (Abre a chapeleira) É platina pura com um big solitário da índia.

VITÓRIA 
Faz aí um cheque, Duran. São três contos, né? 

GENI 
Três? Isso faz muito tempo, meu anjo. Agora não pode ficar por menos de doze. 

DURAN 
O quê? Doze contos? De jeito nenhum! 

VITÓRIA 
Duran, o tempo tá correndo! 

DURAN 
Eu pago sete e fim. 

GENI 
É doze e fim. 

CHAVES 
Vamos, pessoal, vamos logo com isso! 

GENI 
Ah, Tigrão, eu também não me esqueci da tua filha. Coitada, ela era tarada pelo Max e ele chutou ela pra titia. Olha aqui, esses brincos vão cair lindamente numa solteirona. Bem discretos, são de marcassita. Pra você eu faço um preçinho especial: quinze contos. 

CHAVES 
Tá louco! Onde é que eu vou arranjar quinze contos? 

GENI 
Ah, Vitória, olha só esse xale. Todo bordado a mão. É da ilha da Madeira e bate com o solitário: doze contos, apenas. E pro Duran não ficar chateado, tem esse isqueiro Dupont, folheado a ouro. . . 

DURAN 
Eu não fumo! 

GENI 
Sai por dezesseis contos. Dezesseis com vinte e quatro, olha que graça, deu quarenta justinhos! Você, Tigrão, tem os quinze dos brincos, mais este chaveiro com uma figa de marfim, total: trinta e cinco contos, só porque é amigo. . . 

CHAVES (Pula sobre Geni e torce-lhe o braço
Diga já onde é que tá o Max, senão. . . 

GENI 
Avenida Atlântica, 120. 

CHAVES 
Tão vendo, seus idiotas? (Prepara-se para sair) Comigo não tem eu doce não! 

GENI 
Otário. 

CHAVES 
Como disse? 

GENI 
Otário. 

CHAVES 
Vai dizer que deu o endereço errado? Não, tu não é homem pra isso! Se o Max não tá lá nesse número, eu volto, te prendo e te mato! 

GENI 
Só que, quando voltar de Copacabana, às quatro e meia da tarde, com esse carnaval aí fora, você não vai ter tempo de prender ninguém. Você vai estar promovido a xerife no território do Acre! Bem, gente, eu vou andando. Agora sim, eu acredito nessa passeata. E eu não quero perder. 

DURAN 
Espera, Genival. 

VITÓRIA 
Você é burro mesmo, hein, inspetor? Puta que o pariu! 

CHAVES 
Genival, eu peço perdão, eu perdi o controle, desculpa! 

GENI 
Eu tô exausta de desculpas. Agora eu quero é quarenta contos do Duran e trinta e cinco do inspetor que aliás acabam de passar a cinquenta pra indenizar a ofensa física. 

CHAVES 
Mas eu não tenho esse dinheiro todo! 

GENI 
O teu amigo Duran empresta, né? 

DURAN 
Você tá me arruinando, Genival. Noventa contos é demais! 

VITÓRIA 
Duran, tá em cima da hora! 

DURAN 
Merda! (Assina o cheque

VITÓRIA 
Agora fala, Genival. 

CHAVES 
Pelo amor que tu tem a Cristo, fala! 

GENI 
Então o Max marcou encontro esta tarde com a menina. Aliás, não sei o que foi que ele viu naquela biscatinha. Mas enfim, ele é tão novidadeiro! E, ao mesmo tempo, o Max é muito metódico. O primeiro encontro com uma mulher tem que ser sempre no mesmo lugar. Diga-se de passagem que é um lugar maravilhoso. Muito bem decorado, espaçoso, confortável, cheio de tapetes, almofadas, coisa e tal. Enfim, a mulher passa horas inesquecíveis com o Max. Porque ele é insaciável. Dá uma, muda de cama, dá outra, muda de cama, ele não para quieto. E nessa agitação toda, consegue ser romântico, tão romântico. . . 

CHAVES 
Assim é foda! 

DURAN 
Toma o cheque e diz logo o endereço. 

GENI (Guarda o cheque no peito, como se usasse sutiã
Tão romântico! Mas tão romântico que me deu vontade de cantar. Vocês agora vão-se sentar direitinho pra assistir ao meu show. 

CHAVES 
Ai, meu saco, meus culhões, caralho. . .

VITÓRIA 
Cala a boca, cretino, e senta aqui.

GENI 
Ah, na hora do coro vocês cantam comigo, tá? Mas bem forte, inspetor, bem forte!

Orquestra ataca introdução
Geni canta "Geni e o Zepelim"




De tudo que é nego torto 
Do mangue e do cais do porto 
Ela jâ foi namorada 
O seu corpo é dos errantes 
Dos cegos, dos retirantes 
É de quem não tem mais nada 
Foi assim desde menina 
Das lésbicas, concubina 
Dos pederastas, amásio 
É a rainha dos detentos 
Das loucas, dos lazarentos 
Dos moleques de ginásio 
E também dá-se amiúde 
Aos velhinhos sem saúde 
E às viúvas sem porvir 
Ela é um poço de bondade 
E ê por isso que a cidade 
Vive sempre a repetir 

COM CORO 
Joga pedra na Geni 
joga bosta na Geni 
Ela é feita pra apanhar 
Ela ê boa de cuspir 
Ela dá pra qualquer um 
Maldita Geni 

Um dia surgiu, brilhante 
Entre as nuvens, flutuante 
Um enorme zepelim 
Pairou sobre os edifícios 
Abriu dois mil orifícios 
Com dois mil canhões assim 
A cidade apavorada 
Se quedou paralisada 
Pronta pra virar geleia 
Mas do zepelim gigante 
Desceu o seu comandante 
Dizendo Mudei de ideia 
Quando vi nesta cidade 
Tanto horror e iniquidade 
Resolvi tudo explodir 
Mas posso evitar o drama 
Se aquela formosa dama 
Esta noite me servir 

COM CORO 
Essa dama era Geni 
Mas não pode ser Geni 
Ela é feita pra apanhar 
Ela ê boa de cuspir 
Ela dâ pra qualquer um 
Maldita Geni 

Mas, de fato, logo ela 
Tão coitada e tão singela 
Cativara o forasteiro 
O guerreiro tão vistoso 
Tão temido e poderoso 
Era dela, prisioneiro 
Acontece que a donzela 
e isso era segredo dela 
Também tinha seus caprichos 
E a deitar com homem tão nobre 
Tão cheirando a brilho e a cobre 
Preferia amar com os bichos 
Ao ouvir tal heresia 
A cidade em romaria 
Foi beijar a sua mão 
O prefeito de joelhos 
O bispo de olhos vermelhos 
E o banqueiro com um milhão 

COM CORO 
Vai com ele, vai, 
Geni 
Vai com ele, vai, 
Geni 
Você pode nos salvar 
Você vai nos redimir 
Você dâ pra qualquer um 
Bendita Geni 

Foram tantos os pedidos 
Tão sinceros, tão sentidos 
Que ela dominou seu asco 
Nessa noite lancinante 
Entregou-se a tal amante 
Como quem dá-se ao carrasco 
Ele fez tanta sujeira 
Lambuzou-se a noite inteira 
Até ficar saciado 
E nem bem amanhecia 
Partiu numa nuvem fria 
Com seu zepelim prateado 
Num suspiro aliviado 
Ela se virou de lado 
E tentou até sorrir 
Mas logo raiou o dia 
E a cidade em cantoria 
Não deixou ela dormir

COM CORO
 joga pedra na Geni 
Joga bosta na Geni 
Ela é feita pra apanhar 
Ela é boa de cuspir 
Ela dá pra qualquer um 
Maldita Geni


Breque na orquestra.


GENI 
Acabou. 

DURAN 
Ah, muito bem. 

VITÓRIA 
Bravos! 

GENI 
Não vão pedir bis? 

VITÓRIA 
Ah, Genival! 

GENI 
Inspetor, não vai pedir bis? 

CHAVES 
Bis. 

GENI 
É, mas hoje eu tô muito cansada pra dar bis. Vocês voltam amanhã, tá? 

DURAN 
O endereço, Genival! 

GENI 
É Rua do Catete, 194. A Renascença, Móveis e Decorações. 

CHAVES 
Tu tá gozando. .. 

GENI 
É isso mesmo. Ele tem cópia das chaves. Todo domingo, feriado e dia santo ele festeja uma mocinha naquela garçonnière lá. 

Todos saem correndo, exceto Geni que senta-se na poltrona, toma um gole de conhaque e se abana com o cheque; cai a luz em resistência.

continua pág 125 ...

_____________________

NOTA 

O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A  equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes. 

Chico Buarque Rio, junho de 1978

__________________

Leia também:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (prefácio e nota)
Chico Buarque - Ópera do Malandro (introdução)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 1
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 5
__________________


Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio  a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4b)

Ópera do malandro


Chico Buarque 
 

Ópera do malandro
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
 

"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran


SEGUNDO ATO

CENA 4

continuando...

Entra Geni com a chapeleira 


GENI 
Olá, todo mundo. Vitória, me vê um conhaque urgente que eu estou com uma angina no peito! (Estende-se na poltrona enquanto Vitória vai buscar a garrafa

DURAN 
Ué, Genival, você não vai ao desfile?

GENI 
Pra quê? Por vinte pratas que você nem vai pagar? 

DURAN 
Que é isso? Duvidando da minha honestidade? 

GENI
Nunca, Duran. Mas por que é que você vai pagar por uma passeata que não vai acontecer? 

DURAN 
Não vai acontecer? Já viu a multidão aí fora? 

GENI 
Que tumulto, hein? Eles vão ficar bem chateados quando você suspender a passeata. 

DURAN 
Eu não vou suspender nada, de jeito nenhum. A não ser, é claro, que o meu amigo Chaves cumpra com o seu dever. 

GENI 
Justamente. Acho que o Tigrão só não cumpre o dever se não quiser. 

CHAVES 
Que é que tu tá insinuando, ô, veado? Pensa que eu tô protegendo aquele patife? 

GENI 
Eu não disse isso. . . 

CHAVES 
Sai da minha frente, vai, cai fora! 

VITÓRIA 
Calma, inspetor. Algo me diz que o Genival tem novidades pra nós. 

DURAN 
Você sabe do Max, Genival? 

GENI 
Esse conhaque caiu redondinho, Vitória. 

CHAVES 
Sabe do Max, porra? Fala duma vez! 

GENI 
Serve mais um, Vitória? 

CHAVES 
Ah, eu esgano este puto! (Avança sobre Geni

VITÓRIA 
Não faça isso, inspetor, que você estraga tudo! Fala, Genival, fica à vontade. 

GENI 
Oh, inspetor, que lindas mãos! Posso ler? 

CHAVES 
Tu vai ler é uma caceta! 

DURAN 
Deixa ele ler, Chaves, ouve o que eu tô falando! Lê a mão dele, Genival, que ele tá morrendo de curiosidade. 

CHAVES 
Vai, vai logo, lê essa bosta! 

GENI 
Ah, que emocionante. Um futuro grandioso! Muito poder nas suas mãos! Quantas viagens! Oh, oh, oh que lindo! Um aviãozinho no céu azul. . . Nossa, que aviãozão enorme! Xiiiiii. . . 

CHAVES 
O que foi? 

GENI 
Caiu. 

CHAVES 
Agora chega. Se tu sabe alguma coisa do Max, desembucha duma vez. 

GENI 
Pois é, o Max. . . Sujeito alinhado, o Max. Mulhereeeeengo! Lembra ontem à tarde, quando eu deixei escapar pra vocês que o Max tava no puteiro dos Arcos? 

CHAVES
Mas hoje ele não tá em puteiro nenhum, que eu já revistei todos. 

GENI 
É claro que não tá. O Max jamais vai a puteiro em feriado nacional. Eu tava falando de ontem. 

DURAN 
E você veio aqui pra falar de ontem, Genival? 

GENI 
Também. Eu ontem dei uma informação, sem querer mas dei, e vocês nem agradeceram. 

CHAVES 
Ah, é? Pois não tem agradecimento nenhum. O Max fugiu da cadeia no mesmo dia. 

GENI 
Bom, eu não tenho culpa se a polícia é incompetente. .. 

 CHAVES 
Ah, Duran, ah, dona Vitória, vocês vão me desculpar mas agora eu arrebento esse veado puto! 

VITÓRIA 
Inspetor, eu tenho certeza que o Genival tem outras coisas pra falar. Tô vendo nos olhos dele. 

DURAN Quanto é o agradecimento por ontem, Genival? 

GENI 
Olha, era só dois contos. Mas agora que o inspetor me chamou de veado puto eu vou ter que exigir uma indenização. Fica tudo por quatro contos e eu me dou por satisfeita. 

CHAVES 
Se não é vedo, o que é que é? É machão? 

GENI 
Nem veado nem machão. Eu sou plurissexual. 

DURAN 
É melhor pagar logo, Chaves, senão aumenta. 

CHAVES 
Toma, porra! 

GENI 
Não, assim tão cru eu nem tenho jeito de receber. 

CHAVES 
O que tu quer mais? 

GENI 
Aceito desculpas. 

CHAVES 
Nunca! Não peço desculpa a veado por nada deste mundo! 

GENI 
Veado, não. 

VITÓRIA 
Por favor, inspetor. 

DURAN 
Deixa de besteira, Chaves. Pede desculpas. 

CHAVES 
Desculpa, porra! 

GENI (Pega o dinheiro
Dá mais um conhaque, querida? 

VITÓRIA 
Toma, Genival. Mas agora é melhor vender teu peixe, que já passa das duas.


continua pág 119 ...

_____________________

NOTA 

O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A  equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes. 

Chico Buarque Rio, junho de 1978


__________________

Leia também:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (prefácio e nota)
Chico Buarque - Ópera do Malandro (introdução)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 1
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4c)
__________________


Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio  a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4a)

 Ópera do malandro



Chico Buarque 
 

Ópera do malandro
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
 

"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran


SEGUNDO ATO

CENA 4


Casa de Duran; Duran e Vitória estão à janela, observando a multidão lá fora; continua o canto da cena anterior, acrescido de gritos e sussurros.


DURAN
Estão todos esperando um aceno meu, Vitória! São dez mil cabeças, fora as perucas das nossas funcionárias. Sabe como é que estou me sentindo? Igualzinho ao Moisés na margem do mar Vermelho! Só fico puto que o que me custa duzentos contos, aquele judeu conseguiu de graça.

VITÓRIA
Eu estou tão preocupada, Duran.

DURAN
Que é isso, Vitória, tô só especulando. E eu sou lá maluco de gastar duzentos contos com vagabundo? O pagamento tá marcado pro final da passeata. Como não vai haver passeata...

VITÓRIA
O que me apavora é o cheiro dessa gente. . . É um troço pegajoso. Já tomei cinco banhos de Shalimar e continua parecendo que sou eu que estou cheirando a povo.

DURAN
Olha o Chaves chegando aí. E pela cara do desgraçado, vem de mão vazia. Olha, Vitória, em último caso, se a polícia não pegar o Max, é evidente que a gente suspende a passeata do mesmo jeito. Isso aí tá engrossando muito e pode dar complicação. Sem falar nos duzentos contos. Mas se o Chaves suspeitar que a gente tá vacilando, aí então é que ele faz corpo mole. Segura firme, Vitória!

Entra Chaves

DURAN
E então? Exterminou o bandido? Parabéns, Chaves! Deve ter sido duro pra você. Mas eu gostei. Você foi pragmático! Ainda chega a senador. . .

CHAVES
Muito bem, senhores. Acabo de descobrir que posso processar vocês dois por incitamento à baderna.

VITÓRIA
Aceita um chá de camomila, inspetor?

CHAVES
Camomila o cacete! Eu não posso permitir que uma minoria insignificante perturbe a ordem pública dessa maneira! Os senhores façam o favor de conter essa manifestação imediatamente!

DURAN
Mas quem sou eu, Chaves? A polícia é você!

CHAVES
Tu não quer solução pacífica? Tá bem. Eu prendo essas putas todas!

DURAN
Prende mesmo, é fácil. Isso aí é realmente uma minoria insignificante. É tudo gente aprumada na vida, gente asseada, assalariada, umas proletárias de luxo. Mas se você prestar atenção à janela, vai notar que vem aí outro tipo de gente. Quem vai protestar na rua são os milhares de desempregados desta cidade, esses sim, com toneladas de motivos. Sem falar nos subempregados, nos engraxates, nos lambe-botas, nos vendedores de bugigangas. Vagabundo então, não pode ver aglomerado que vai logo se enfiando no meio. E se tanta gente imunda e miserável vai pra rua, por que não haverão de sair os aleijados? Ah, não, esses não vão perder a chance de exibir seus tocos à luz do dia. Junta os leprosos, os bêbados, os toxicômanos, e só aí a tua minoria já foi à merda. Mais os tuberculosos, os maleitosos, os sifilíticos, os epiléticos, os débeis mentais, os menores abandonados, os velhinhos desamparados, as bichas, os pretos e os curiosos, e se prepare pra prender noventa por cento da população do Rio de Janeiro! São um milhão e setecentos mil cadáveres pra boiar no rio da Guarda.

CHAVES
Porra! Um milhão e setecentos mil presuntos é encomenda pra atacadista. Tu sempre encomendou no varejo, Duran.

DURAN
Um momento, inspetor! Cuidado com o que diz! Denunciar criminosos é dever de todo cidadão honesto. Já não se pode dizer o mesmo de quem pratica a pena de morte ao arrepio da lei.

CHAVES
Que é que tu quer dizer?

DURAN
Minha maneira de contribuir para a redução da marginalidade é empregar mil quatrocentos e trinta e dois funcionários fixos. Além de outros dez mil que eu ajudo aqui e ali. Mas você não, você tá tingindo os subúrbios com o sangue dos mendigos e dos adversários. Não adianta, Chaves, você não me enquadra. A minha bíblia é a Constituição da República e as leis trabalhistas são o meu breviário. Você já ouviu falar em lei? Em Constituição?

CHAVES
Eu não tô no banco dos réus pra ser julgado assim.

DURAN 
Mas vai estar, inspetor, vai estar logo logo. E quem vai te julgar não sou eu não, vai ser esse povo aí fora. Você não lê jornal, lê? Pois fique sabendo que os alemães perderam as calças em Stalingrado. Os aliados já ocuparam o norte da África. Os ingleses e os americanos já desembarcaram em Nápoles, viu? Mussolini tá perigando. Enfim, pra teu governo, o nazi-fascismo tá no fim!

CHAVES
Pra meu governo? E tu, como é que fica? Afinal, nós fomos colegas na Ação Integralista. . .

DURAN
Mas você é casca-grossa mesmo. Continua fazendo uma confusão grosseira entre a filosofia integralista e a delinquência de alguns sádicos nazistas. Olha, Chaves, outro dia houve um levante no gueto de Varsóvia. Logo outros guetos vão-se levantar e, mais dia menos dia, todos os perseguidos nesta guerra vão exigir justiça. Os nazistas vão pagar caro por seus crimes. Haverá tribunais populares em todos os cantos do mundo. E o que é que te faz pensar que aqui no Brasil os criminosos vão ficar impunes? Hein? Como é que o Hitlerzinho da Lapa vai-se safar desta, hein? Calcule a indignação da opinião pública quando forem denunciadas as atrocidades cometidas por um certo inspetor Chaves, mais conhecido por Tigrão, o facínora. . .

CHAVES
Não, Duran, por favor, chega!

DURAN
Liquidou o bandido?

CHAVES
Eu fiz o possível e o impossível!

DURAN
Vais ter um nobre destino. Igualzinho à dona Maria Antonieta. A não ser, é claro, que você use a cabeça e me apresente a cabeça do teu amigo. Aí, quem sabe, dá-se um jeitinho, né? Mas acho que já nem dá tempo, inspetor.

CHAVES
Me acredita, Duran! Botei todas as patrulhas pra caçar aquele desgraçado. Toda a força pública, bombeiro, cachorro, fuzileiro naval, DIP, tudo. Vasculhei os covins, fechei os cassinos, invadi as pensões, bloqueei as estradas, parei os trens, interditei o Santos Dumont, o serviço de barcas, e nada! A esta altura ele já deve estar longe. . . O país tem oito mil quilômetros de fronteira!

DURAN
Pois é. Igualzinho à dona Maria Antonieta. Tribunais populares. . . Cabeças rolando. . . Aliás, os moleques de rua vão adorar bater umas peladas com o teu coco.

CHAVES
Ai, meu Deus, a vida já não tem sentido pra mim! Duran, pelo amor que tu tem a Cristo, me atende um último desejo! Dona Vitória, pelo amor da tua filha, me escuta! Eu também tenho uma filha... Ela vai ficar desamparada no mundo. Promete que cuida dela, dona Vitória? Duran, tu emprega Lúcia num dos teus puteiros? Me promete isso e eu morro sossegado!

continua pág 115 ...

_____________________

NOTA 

O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A  equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes. 

Chico Buarque Rio, junho de 1978


__________________

Leia também:

Chico Buarque - Ópera do Malandro (prefácio e nota)
Chico Buarque - Ópera do Malandro (introdução)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 1 (1b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 2 (2c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3b)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Primeiro Ato - Cena 3 (3c)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 1
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4a)
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Cena 4 (4b)
__________________


Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio  a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.