contos e poesia no butekudu baitasar.
a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre!
li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran
SEGUNDO ATO
EPÍLOGO DITOSO (Ópera)
VITÓRIA
Música, maestro!
Orquestra dá acorde seco que introduz a ópera. Do fundo do palco vem
surgindo João Alegre, sentado ao volante de um conversível modelo anos 40. De
agora em diante, tudo será cantado.
JOÃO ALEGRE
Telegrama
Do Alabama
Pro senhor Max
Overseas
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz
TERESINHA
Chegou a confirmação
Da United coisa e tal
Que nos passa a concessão
Vara o náilon tropical
MAX
Então nós vamos montar
Em São Paulo um fabricão
TERESINHA
Depois vamos exportar
Fio de náilon pro Japão
MAX
Sei que o náilon tem valor
Mas começa a me enjoar
Tive ideia bem melhor
Nós vamos ramificar
TERESINHA
Já ramifiquei, ha há
Fiz acordo com a Shell
Coca-Cola, RCA
E vai ser sopa no mel
CORO
Que beleza
Que riqueza
Tá chovendo
Da matriz
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz
MAX
Que tal juntarmos
Esses capitais
Pra abrir um banco
Em Minas Gerais
TERESINHA
Que brilhante ideia, meu amor
Que plano original
Com fundos do exterior
Você fundar
Um banco nacional
CAPANGAS
E eu que jâ fui
Um pobre marginal
Sem documento
E sem moral
Hei de ser um bom profissional
Vou ser quase um doutor
Continuo da senhora
E do senhor
Bancário ou contador
CORO
Que sucesso
O progresso
Corta o mal
Pela raiz
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz
CHAVES
Irmão
Nem começar eu sei
Receio te inibir
MAX
Sua vontade é lei
É falar
É mandar
É exigir
CHAVES
É que
Num mundo tão cruel
Cheio de inveja e fel
Não lhe fará mal
Ter à mão
Proteção
Policial
Quer os meus préstimos?
MAX
Eu acho ótimo
BARRABÁS
Serve um acólito?
MAX
Também
Vou te empregar
LÜCIA
Eu não
Tenho com quem deixar
Meu filho que já vem
MAX
Barrabás é um par
Exemplar
Quer casar
BARRABÁS
E adoro neném
CORO
Maravilha
Que família
Dois pombinhos
E um petiz
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz
VITÓRIA
Só tenho um único
Breve reparo
A tão preclaro
Genro viril
É o esquecimento
Do sacramento
Afinal
Se casou
Só no civil
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Só no civil
Oh, oh, oh
Oh, oh, oh
Só no civil
MAX
Mas nesse ínterim
Mudei de crença
Já peço a bênção
No santo altar
VITÓRIA
Que maravilha
Não perco a filha
E um varão
Bonitão
Eu vou ganhar
Ah, ah, ah
Ah, ah, ah
Eu vou ganhar
Ah, ah, ah
Ah, ah, ah
Eu vou ganhar
DURAN
Minha filha, eu desejo pedir teu perdão
TERESINHA
Oh, meu pai, isso é bom demais! Finalmente! Até que
enfim!
DURAN
Não sei como fui pra você tão durão
Tão mandão, tão sem coração, tão malvado assim
MAX
Meu sogro, o senhor não sabe quanta alegria
Me dá, ao dizer que já se juntou aos nossos
DURAN
Só Deus sabe há quanto tempo eu tanto queria
Poder apertar esses ossos
CORO
Que alegria
Quem diria
Como os grandes
São gentis
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz
DURAN
Não quero ser
Nas suas costas um fardo
Porém
Talvez
Eu necessite um resguardo
MAX
Tua instituição
Tão tradicional
Vai ter um padrão
Moderno
Cristão e ocidental
PUTAS
Vamos participar
Dessa evolução
Vamos todas entrar
Na linha de produção
Vamos abandonar
O sexo artesanal
Vamos todas amar
Em escala industrial
GENI
O sol nasceu
No mar de Copacabana
Pra quem viveu
Só de café e banana
TODOS
Tem gilete, Kibon
Lanchonete, neon
Petróleo
Cinemascope, sapólio
Ban-lon
Shampoo, tevê
Cigarros longos e finos
Blindex fume
Já tem napalm e Kolinos
Tem cassete e rai-ban
Camionete e sedan
Que sonho
Corcel, Brasília, plutônio
Shazam
Que orgia
Que energia
Reina a paz
No meu país
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz
Black-out; fecha a cortina; orquestra continua.
EPÍLOGO DO EPÍLOGO
Foco de luz sobre João Alegre que vem ao proscênio, batucando na
caixinha de fósforos; a orquestra vai parando aos poucos...
João Alegre canta "O Malandro N." 2"
O malandro/Tá na greta
Na sarjeta/Do país
E quem passa/Acha graça
Na desgraça/Do infeliz
O malandro /Tá de coma
Hematoma/No nariz
E rasgando/Sua bunda
Uma funda/Cicatriz
O seu rosto/Tem mais mosca
Que a birosca/Do Mane
O malandro/É um presunto
De pé junto/E com chulé
O coitado/Foi encontrado
Mais furado/Que Jesus
E do estranho/Abdômen
Desse homem/Jorra pus
O seu peito/Putrefeito
Tá com jeito/De pirão
O seu sangue/Forma lagos
E os seus bagos/Estão no chão
O cadáver/Do indigente
É evidente/Que morreu
E no entanto/Ele se move
Como prova/O Galileu
João Alegre vai saindo, assobiando e batendo na caixinha de fósforos.
Fim _____________________
NOTA
O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.
Chico Buarque - Ópera do Malandro / Segundo Ato - Epílogo Ditoso (Ópera) __________________
Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran
SEGUNDO ATO
CENA 7
Entra em cena a passeata, comandada por João Alegre; Vitória caminha em direção à multidão
VITÓRIA
Muito bem, minha gente, vamos todos pra casa, vamos circular que a
passeata está suspensa. Estão me ouvindo? Acabou a passeata! Ei, pessoal! Não
tem mais passeata! Vocês estão surdos? Não tem passeata! Não tem. . .
A passeata atropela Vitória e segue em frente; Duran tenta socorrer Vitória
mas ê arrastado; Chaves dá um tiro para o alto, em vão, e se esconde; enfim,
Vitória levanta-se e vai ao proscênio
VITÓRIA
Luzes! Eu pedi luzes! Suspende o espetáculo! Luzes na plateia! Ei, vocês aí
em cima na técnica! Pára tudo! Acende a plateia!
Luzes na plateia; a passeata para
VITÓRIA
Mas que absurdo! Que palhaçada! Eu não saí de casa pra vir aqui passar
vexame! Quem é o responsável por essa bagunça? Eu vou me queixar no Jornal
Nacional. Que é que vocês estão pensando? Cadê o produtor?
DURAN/PRODUTOR
Estou aqui, dona Vitória, desculpe. Eu não sei como foi que isso aconteceu.
A senhora está bem?
VITÓRIA
Eu estou ótima, e a tua mãe? Exijo satisfações!
DURAN/PRODUTOR
Pois é, essa baderna não estava no roteiro aprovado por todos nós. . . Ô,
"seu" João Alegre, quer dar um pulinho aqui?
VITÓRIA
Seu sem-vergonha! Preto safado! Filho dum cão!
JOÃO ALEGRE
Sabe como é, dona? A senhora entende. . .
VITÓRIA
Eu não entendo nada!
JOÃO ALEGRE
A gente tá na onda do partido alto. Então, o puxador dá o mote e nego vai
tirando o que pintar na mentalidade, sacou? É uma jogada que dá um pé na
quadra e eu achei que no teatro ficava original. Mas não tive a intenção de ofender
a madame. . .
VITÓRIA
Tua intenção era me mandar daqui pro Miguel Couto!
JOÃO ALEGRE
Não, madame, nunca, de jeito nenhum! Foi só um improviso, sem maldade.
. .
DURAN/PRODUTOR
Dona Vitória, eu não sei o que dizer. Talvez o melhor fosse a gente
esquecer o incidente e recomeçar o final da peça do jeito que tava combinado.
VITÓRIA
Eu, por mim, ia embora imediatamente. Só continuo aqui por respeito a
esse público maravilhoso que pagou ingresso. . . Ô, você! Como é mesmo o nome
do crioulo? Vamos fazer um gran finale decente, mas tem que ser igualzinho ao
ensaio geral!
JOÃO ALEGRE
Ah, isso não dá, não senhora. O que tá feito, tá feito. Partideiro que se
respeita não volta a palavra atrás.
PASSEATA
Viva! Agüenta firme! Boa, João! Salve João Alegre!
VITÓRIA
Que é isso?
DURAN
Tá pensando que é malandro, rapaz?
VITÓRIA
Vai juntar o teu gado e recomeçar o happy end! É pra já!
JOÃO ALEGRE
Vou não senhora.
PASSEATA
Grande, João! É o maior!
JOÃO ALEGRE
Eu também tenho um nome pra zelar.
PASSEATA
É isso mesmo! Segura as pontas, João! Viva!
DURAN/PRODUTOR
Você não pode fazer isso, João. Afinal, teatro é cultura!
JOÃO ALEGRE
Vambora pra rua, pessoal!
PASSEATA
Vamos lá! Apoiado! Já ganhou! Viva o João!
DURAN/PRODUTOR
Está certo, João Alegre, você venceu. A carreira é sua e você tem todo o
direito de acabar com ela. Mas primeiro tem que me acompanhar ali na
administração, que é pra formalizar a rescisão do contrato.
JOÃO ALEGRE
Com todo o prazer, doutor. Pessoal, eu volto já!
DURAN/PRODUTOR
É uma pena. Com um futuro tão promissor. . .
VITÓRIA
Podia até estourar na Broadway. . .
DURAN/PRODUTOR
Ia levantar aquela verba na Funarte. . .
VITÓRIA
Ainda ia ganhar o Oscar!
(Saem Duran, Vitória e João Alegre)
INTERMEZZO Luzes gerais no palco e na plateia
LÚCIA (Entra)
Que é que tá acontecendo, hein?
TERESINHA
O autor se meteu a besta e resolveu embananar o happy end. Daí os
figurantes embarcaram na palhaçada. . .
BEN
Figurante é a mãe! Coadjuvante!
TERESINHA
Vamos, façam alguma coisa aí vocês! Tem que entreter o público!
MAX
Vamos, moçada! The show must go on!
SHIRLEY
Que é que eles tão querendo mais? Tô há quase três horas me esgoelando
neste palco!
JUSSARA
Eles tão pensando que são estrela, só porque ganham dez vezes mais que
a gente.
MIMI
Mas agora mixou. O João Alegre disse que, em peça dele, fodido é que fala
mais alto. Diz que, em letreiro de teatro dele, fodido vai ser estrelo e estrelo vai se
foder.
GENERAL
Disse, pois é. Mas quero ver o que é que ele vai dizer agora que estão
umedecendo a pata dele.
SHIRLEY
Ele aguenta firme. Pelo João Alegre eu ponho a mão na merda.
PHILLIP
Vou te contar. Enquanto artista depender de autor e produtor, tá ferrado!
DÓRIS
Eu digo mais. A melhor coisa que pode acontecer pra gente, mas a melhor
mesmo, coisa de sonho, coisa de Shangri-la, é ter um cara da TV Globo na plateia
e chamar a gente pra novela das oito.
JOHNNY
Sabe duma? Se eu fosse atacar de muamba pra valer, tava numa melhor.
FICHINHA
E eu? O que tô ganhando aqui num mês, puta de verdade fatura numa
noite, rodando a bolsa na Vieira Souto. Aliás, tô decidida. Vou ser puta no duro! Se
alguém aí na plateia se habilita, é só passar no camarim.
GENERAL
Muito me admira é o Barrabás. Como é que é, homem, se bandeou pro
lado dos ricos?
BARRABÁS
Te manca, General. Deixa eu me destacar aqui perto dos figurões.
JOHNNY
Belo espírito de solidariedade.
BARRABÁS
Daí eu pago uma lasanha na Fiorentina.
JOHNNY
Ah, bom.
GENI (Entra com duas bolsas grandes de palha)
Olá, todo mundo.
PHILLIP
Ô, Genival, chegue-se aos bons!
GENI
Quem é esse cara mesmo, hein? Ah, Teresinha, Lúcia, que bom encontrar
vocês!
PHILLIP
Ô, bichona, eu falei contigo!
GENERAL
Qual é, Geni? Não fala com a gente?
GENI
De onde é que eu conheço esses caras mesmo? É do Retiro dos Artistas
ou da TV Educativa? Mas, queridas, olha que barato essas bolsas italianas.
Qualquer butique de Ipanema tá vendendo a oitocentos contos! Eu faço por
quinhentos. . .
TERESINHA
Ai, que graça!
GENI
Tem também um soirée bem metido a antigo, ideal pra festa de entrega do
prêmio Molière!
LÚCIA
Esse é meu!
GENI
Olha só esses penduricalhos. . . Bem art-nouveau. . .
Entram Duran e Vitória.
Continua pág 138... _____________________
NOTA
O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.
Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran
SEGUNDO ATO
CENA 6
Luz geral na cadeia; a alguns passos da cela estão Duran e Chaves, este
com a pistola na mão
DURAN
Que é que tá esperando? Três, dois, um, já!
CHAVES
Espera aí. E a passeata?
DURAN
Primeiro executa o teu amigo. Aí a Vitória cuida da passeata.
CHAVES
Eu tenho o maior prazer em executar o meu amigo. Mas tem que
desmanchar a passeata antes.
DURAN
Que é isso, Chaves? Não confia em mim?
CHAVES
E tu? Não confia em mim?
DURAN
Não.
CHAVES
Então empatou zero a zero.
DURAN
Assim não dá, Chaves. Alguém tem que agir primeiro.
CHAVES
Eu tô com a arma engatada e na mira, Duran. (Aproxima-se de Max) Tu fica
ao meu lado. Na hora exata que esse esporro sossegar, tu me cutuca que eu dou
o teco.
Continua pág 133... _____________________
NOTA
O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.
Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran
SEGUNDO ATO
CENA 5
Cadeia; Max dentro da cela e Barrabás do lado de fora
BARRABÁS
Desta tu não escapa, hein?
MAX
Escapo sim.
BARRABÁS
Ah, é? E quem te safa?
MAX
Você, Barrabás. Você vai tomar a arma do inspetor, vai trancar todo mundo
no banheiro e vai embora comigo.
BARRABÁS
Ah sim, meu amor? Depois promete que casa comigo? Hein, coraçãozinho?
Também vai me levar pra Hollywood?
MAX
Não, muito melhor. Vou te levar pra Cuba. Já ouviu falar de Cuba? É o
paraíso, Barrabás. Muita praia, muito coqueiro, muito cassino, muita rumba, muita
mulher e ninguém precisa trabalhar. Eu tenho um camaradinha lá chamado
Fulgêncio. Imagina que o Fulgêncio me mandou um cartão postal contando que
agora ele é o mandachuva de lá. Quer dizer, Barrabás, que lá em Havana você é
amigo do amigo do rei.
BARRABÁS
Conta mais, conta mais que eu tô quase abrindo as pernas!
MAX
Para com isso, Barrabás! Eu sei que você não é mulher nem criança pra
cair em conversa fiada. Você é malandro, que eu sei! Muito mais malandro do que
eu! Basta dizer que arranjou emprego na polícia, logo você que tem uma folha
corrida mais suja que colchão de puta. Não precisa dizer mais nada, é só ver
quem tá de que lado da grade pra saber quem é mais malandro.
BARRABÁS
Obrigado.
MAX
Então, isso que eu falo do meu amigo Fulgêncio, isso não é nada, é só uma
sugestão dum belo lugar pra você passar o resto dos seus dias, fazendo pesca
submarina no Caribe. É só isso, e você não vai me soltar por causa disso. Você
vai me soltar porque eu te dou condições de ser feliz em Cuba, em Honolulu ou
em qualquer outro lugar do mundo. Em outras palavras, vou te dar todo o dinheiro
que tenho no cofre.
BARRABÁS
Cala a boca, Max. Assim você me ofende. Agora eu sou um homem de
bem. . . Quanto é que você tem no cofre?
MAX
Pra lá de cinco mil dólares. . . Escuta! É a voz da Teresinha. Vamos fazer
melhor, Barrabás. Eu digo à Teresinha pra te abrir o cofre. Você me solta e fica
garantido. Eu não vou te dar um golpe se a Teresinha ta contigo de refém. . .
Teresinha, meu amor!
TERESINHA (Entra)
Max, que bom te ver! Eu tava com tanto medo de chegar atrasada!
MAX
Você chegou na hora exata. Conhece o Barrabás, não é mesmo?
TERESINHA
Prazer. Sabe o que é, Max? A gente tá com o tempo apertado e eu trouxe
uns papéis pra você assinar.
MAX
Isso a gente vê amanhã, baby. Agora o Barrabás vai me soltar e você vai
dar a ele todo o dinheiro do cofre.
TERESINHA
Dinheiro do cofre?
MAX
Todinho. Vamos, Barrabás! Dá uma gravata no inspetor.
TERESINHA
Mas, querido, não tem dinheiro nenhum no cofre.
MAX
Não tem? Cê tá louca? Tinha mais de cinco mil dólares!
TERESINHA
Cinco mil cento e sete dólares e vinte e cinco cents. Mas agora a gente tá
devendo dezessete mil.
BARRABÁS
Adeus, Max.
MAX
Tá brincando. Devendo a quem?
TERESINHA
Aos bancos, é claro. Uma firma tem que estar sempre devendo a todos os
bancos. Tá tudo aqui no livro-caixa, meu amor, mas é meio complicado de explicar
e não vai dar tempo de você conferir. Mas pra ter uma ideia, só de advogados,
contabilidade e documentação, foram uns seis mil. E dez mil dólares eu dei de
entrada num conjunto de salas na Avenida Central. Uma beleza, Max. No oitavo
andar, com porteiro, elevador e ar refrigerado para os dias de calor. Você tem que
assinar aqui, aqui e aqui. Foi mais por isso que eu vim assim correndo, porque é
da maior urgência e mal deu pra eu me pintar. (Max vai assinando tudo sem
esboçar a menor reação) A firma precisava dum endereço comercial porque não
tinha graça timbrar no papel: MAXTERTEX Limitada, endereço cabana na praia.
Ah, as promissórias, que eu prometi levar a tua assinatura aos bancos amanhã
bem cedo. Os gerentes têm sido muito camaradas comigo, sabe, Max? Imagina
que eles me atenderam em dia de sábado! Agora só falta assinar
essa folha em branco que é pra me prevenir em caso de acidente grave ou
doença que te deixe impedido e que é prós nossos negócios não sofrerem solução
de continuidade e o dr. Sobral já me disse que espólio é um processo muito
demorado. . . Ah, que bom que deu tempo pra tudo! Fala de você agora, querido.
Max, eu nunca te vi calado assim! Diz o que é que você ta sentindo, por favor!
MAX
Eu estou sentindo medo, muito medo. (Cresce o barulho da passeata, como
uma canção selvagem)
TERESINHA
Bom, não é pra te consolar, mas quem hoje te condena à morte tá
condenado pra depois de amanhã. Papai, inspetor Chaves, a Lapa, as falcatruas,
todo esse mundo já tá morto e caindo aos pedaços.
MAX_
É, isso não me consola muito não. Tô com medo.
TERESINHA
Eles também tão com medo, Max. Precisava ver a cara da mamãe. Tá
ouvindo a multidão aí embaixo? Coitada da mãe, mas essa gente tá certa, tem
mesmo que desabafar. Ninguém aguenta mais esse clima, esse sufoco! Tá todo
mundo precisando duma coisa nova, mais aberta, mais limpa e arejada. Tá na
cara que tem que mudar tudo e já! Tem que abrir avenidas largas, tem que
levantar muitos arranha-céus, tem que inventar anúncios luminosos, e a
MAXTERTEX faz parte do grande projeto. Você devia se orgulhar, Max, porque
nisso tudo tem um pedaço do teu nome e um pouquinho do teu
espírito. . .
MAX
Que se foda o meu espírito. Quem tá com medo é o meu corpo. É deste
corpo aqui que eu gosto, gosto muito, adoro. Tô acostumado dentro dele e não
quero sair.
TERESINHA
Sangue novo! A nova civilização! É claro que os malandrinhos, os
bandidinhos e os que acham que sempre dá-se um jeitinho, esses vão apodrecer
debaixo da ponte. Mas nesse povo aí fora não dá só vagabundo e marginal, não.
E vai ter um lugar ao sol pra quem quiser lutar e souber vencer na vida. É daí que
vem o progresso, Max, do trabalho dessa gente e da nossa imaginação. Daqui a
uns anos, você vai ver só. Em cada sinal de trânsito, em cada farol de carro, em
cada nova sirene de fábrica vai ter um dedo da nossa firma. Você devia se
orgulhar, Max.
MAX
Este meu corpo tá inteirinho, tá cheiroso, tá com toda a vida, tá jogando
saúde pelo ladrão. A boca quer chupar mais manga, a garganta quer tomar mais
cerveja, o pau tá querendo foder e a cabeça quer pensar besteira. Depois ia
chegar um dia que o corpo ia parando de querer. Ia minguando a fome, a sede, o
tesão, ia dando preguiça de pensar, e as carnes se decompondo naturalmente,
devagar, na cama. Assim é que tinha que ser.
TERESINHA
E vai demorar meio século pra essa gente se juntar de novo e levantar a
voz. Porque a multidão não vai estar abafada, nem encurralada, nem tiranizada,
nem nada. Sabe o quê? A multidão vai estar é seduzida. Você devia se orgulhar.
MAX
Então, não é justo esmagar um corpo assim no meio do caminho.
Interromper um gesto, a digestão, interromper uma idéia, um programa, uma
música, o sangue correndo nas veias, e o corpo parar de chofre, ainda produzindo
saliva e esperma, e cheio de merda por dentro.
Orquestra ataca a introdução, abafando o barulho da passeata
TERESINHA
Acho que tá na hora, Max.
MAX
Acho que tá na hora.
Max e Teresinha cantam "Pedaço de Mim"
TERESINHA
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
MAX
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
TERESINHA
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que jâ morreu
MAX
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que jâ perdi
OS DOIS
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
A orquestra segue tocando, mas é abafada aos poucos pelo canto
barulhento da passeata.
continua pág 132 ...
_____________________
NOTA
O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.
Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran
SEGUNDO ATO
CENA 4
continuando...
GENI
Pois é, como eu ia dizendo, o Max conheceu uma putinha nova ontem e marcou encontro pra esta tarde. O Max é um cavalheiro muito distinto e é incapaz de faltar com a palavra. As mulheres também não faltam, é claro, todas elas adoram o Max. Por falar nisso, que menina sortuda a tua filha, hein, Vitória? Sabe, eu trouxe aqui um anel que é feito sob medida pra uma recém-casada. (Abre a chapeleira) É platina pura com um big solitário da índia.
VITÓRIA
Faz aí um cheque, Duran. São três contos, né?
GENI
Três? Isso faz muito tempo, meu anjo. Agora não pode ficar por menos de doze.
DURAN
O quê? Doze contos? De jeito nenhum!
VITÓRIA
Duran, o tempo tá correndo!
DURAN
Eu pago sete e fim.
GENI
É doze e fim.
CHAVES
Vamos, pessoal, vamos logo com isso!
GENI
Ah, Tigrão, eu também não me esqueci da tua filha. Coitada, ela era tarada pelo Max e ele chutou ela pra titia. Olha aqui, esses brincos vão cair lindamente numa solteirona. Bem discretos, são de marcassita. Pra você eu faço um preçinho especial: quinze contos.
CHAVES
Tá louco! Onde é que eu vou arranjar quinze contos?
GENI
Ah, Vitória, olha só esse xale. Todo bordado a mão. É da ilha da Madeira e bate com o solitário: doze contos, apenas. E pro Duran não ficar chateado, tem esse isqueiro Dupont, folheado a ouro. . .
DURAN
Eu não fumo!
GENI
Sai por dezesseis contos. Dezesseis com vinte e quatro, olha que graça, deu quarenta justinhos! Você, Tigrão, tem os quinze dos brincos, mais este chaveiro com uma figa de marfim, total: trinta e cinco contos, só porque é amigo. . .
CHAVES (Pula sobre Geni e torce-lhe o braço)
Diga já onde é que tá o Max, senão. . .
GENI
Avenida Atlântica, 120.
CHAVES
Tão vendo, seus idiotas? (Prepara-se para sair) Comigo não tem eu doce não!
GENI
Otário.
CHAVES
Como disse?
GENI
Otário.
CHAVES
Vai dizer que deu o endereço errado? Não, tu não é homem pra isso! Se o Max não tá lá nesse número, eu volto, te prendo e te mato!
GENI
Só que, quando voltar de Copacabana, às quatro e meia da tarde, com esse carnaval aí fora, você não vai ter tempo de prender ninguém. Você vai estar promovido a xerife no território do Acre! Bem, gente, eu vou andando. Agora sim, eu acredito nessa passeata. E eu não quero perder.
DURAN
Espera, Genival.
VITÓRIA
Você é burro mesmo, hein, inspetor? Puta que o pariu!
CHAVES
Genival, eu peço perdão, eu perdi o controle, desculpa!
GENI
Eu tô exausta de desculpas. Agora eu quero é quarenta contos do Duran e trinta e cinco do inspetor que aliás acabam de passar a cinquenta pra indenizar a ofensa física.
CHAVES
Mas eu não tenho esse dinheiro todo!
GENI
O teu amigo Duran empresta, né?
DURAN
Você tá me arruinando, Genival. Noventa contos é demais!
VITÓRIA
Duran, tá em cima da hora!
DURAN
Merda! (Assina o cheque)
VITÓRIA
Agora fala, Genival.
CHAVES
Pelo amor que tu tem a Cristo, fala!
GENI
Então o Max marcou encontro esta tarde com a menina. Aliás, não sei o que foi que ele viu naquela biscatinha. Mas enfim, ele é tão novidadeiro! E, ao mesmo tempo, o Max é muito metódico. O primeiro encontro com uma mulher tem que ser sempre no mesmo lugar. Diga-se de passagem que é um lugar maravilhoso. Muito bem decorado, espaçoso, confortável, cheio de tapetes, almofadas, coisa e tal. Enfim, a mulher passa horas inesquecíveis com o Max. Porque ele é insaciável. Dá uma, muda de cama, dá outra, muda de cama, ele não para quieto. E nessa agitação toda, consegue ser romântico, tão romântico. . .
CHAVES
Assim é foda!
DURAN
Toma o cheque e diz logo o endereço.
GENI (Guarda o cheque no peito, como se usasse sutiã)
Tão romântico! Mas tão romântico que me deu vontade de cantar. Vocês agora vão-se sentar direitinho pra assistir ao meu show.
CHAVES
Ai, meu saco, meus culhões, caralho. . .
VITÓRIA
Cala a boca, cretino, e senta aqui.
GENI
Ah, na hora do coro vocês cantam comigo, tá? Mas bem forte, inspetor, bem forte!
Orquestra ataca introdução
Geni canta "Geni e o Zepelim"
De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela jâ foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Foi assim desde menina
Das lésbicas, concubina
Dos pederastas, amásio
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques de ginásio
E também dá-se amiúde
Aos velhinhos sem saúde
E às viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E ê por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
COM CORO
Joga pedra na Geni
joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela ê boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo Mudei de ideia
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniquidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir
COM CORO
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela ê boa de cuspir
Ela dâ pra qualquer um
Maldita Geni
Mas, de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
COM CORO
Vai com ele, vai,
Geni
Vai com ele, vai,
Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dâ pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
COM CORO
joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Breque na orquestra.
GENI
Acabou.
DURAN
Ah, muito bem.
VITÓRIA
Bravos!
GENI
Não vão pedir bis?
VITÓRIA
Ah, Genival!
GENI
Inspetor, não vai pedir bis?
CHAVES
Bis.
GENI
É, mas hoje eu tô muito cansada pra dar bis. Vocês voltam amanhã, tá?
DURAN
O endereço, Genival!
GENI
É Rua do Catete, 194. A Renascença, Móveis e Decorações.
CHAVES
Tu tá gozando. ..
GENI
É isso mesmo. Ele tem cópia das chaves. Todo domingo, feriado e dia santo ele festeja uma mocinha naquela garçonnière lá.
Todos saem correndo, exceto Geni que senta-se na poltrona, toma um gole de conhaque e se abana com o cheque; cai a luz em resistência.
continua pág 125 ...
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NOTA
O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.
Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran
SEGUNDO ATO
CENA 4
continuando...
Entra Geni com a chapeleira
GENI
Olá, todo mundo. Vitória, me vê um conhaque urgente que eu estou com
uma angina no peito! (Estende-se na poltrona enquanto Vitória vai buscar a
garrafa)
DURAN
Ué, Genival, você não vai ao desfile?
GENI
Pra quê? Por vinte pratas que você nem vai pagar?
DURAN
Que é isso? Duvidando da minha honestidade?
GENI
Nunca, Duran. Mas por que é que você vai pagar por uma passeata que
não vai acontecer?
DURAN
Não vai acontecer? Já viu a multidão aí fora?
GENI
Que tumulto, hein? Eles vão ficar bem chateados quando você suspender a
passeata.
DURAN
Eu não vou suspender nada, de jeito nenhum. A não ser, é claro, que o
meu amigo Chaves cumpra com o seu dever.
GENI
Justamente. Acho que o Tigrão só não cumpre o dever se não quiser.
CHAVES
Que é que tu tá insinuando, ô, veado? Pensa que eu tô protegendo aquele
patife?
GENI
Eu não disse isso. . .
CHAVES
Sai da minha frente, vai, cai fora!
VITÓRIA
Calma, inspetor. Algo me diz que o Genival tem novidades pra nós.
DURAN
Você sabe do Max, Genival?
GENI
Esse conhaque caiu redondinho, Vitória.
CHAVES
Sabe do Max, porra? Fala duma vez!
GENI
Serve mais um, Vitória?
CHAVES
Ah, eu esgano este puto! (Avança sobre Geni)
VITÓRIA
Não faça isso, inspetor, que você estraga tudo! Fala, Genival, fica à
vontade.
GENI
Oh, inspetor, que lindas mãos! Posso ler?
CHAVES
Tu vai ler é uma caceta!
DURAN
Deixa ele ler, Chaves, ouve o que eu tô falando! Lê a mão dele, Genival,
que ele tá morrendo de curiosidade.
CHAVES
Vai, vai logo, lê essa bosta!
GENI
Ah, que emocionante. Um futuro grandioso! Muito poder nas suas mãos!
Quantas viagens! Oh, oh, oh que lindo! Um aviãozinho no céu azul. . . Nossa, que
aviãozão enorme! Xiiiiii. . .
CHAVES
O que foi?
GENI
Caiu.
CHAVES
Agora chega. Se tu sabe alguma coisa do Max, desembucha duma vez.
GENI
Pois é, o Max. . . Sujeito alinhado, o Max. Mulhereeeeengo! Lembra ontem
à tarde, quando eu deixei escapar pra vocês que o Max tava no puteiro dos
Arcos?
CHAVES
Mas hoje ele não tá em puteiro nenhum, que eu já revistei todos.
GENI
É claro que não tá. O Max jamais vai a puteiro em feriado nacional. Eu tava
falando de ontem.
DURAN
E você veio aqui pra falar de ontem, Genival?
GENI
Também. Eu ontem dei uma informação, sem querer mas dei, e vocês nem
agradeceram.
CHAVES
Ah, é? Pois não tem agradecimento nenhum. O Max fugiu da cadeia no
mesmo dia.
GENI
Bom, eu não tenho culpa se a polícia é incompetente. ..
CHAVES
Ah, Duran, ah, dona Vitória, vocês vão me desculpar mas agora eu
arrebento esse veado puto!
VITÓRIA
Inspetor, eu tenho certeza que o Genival tem outras coisas pra falar. Tô
vendo nos olhos dele.
DURAN
Quanto é o agradecimento por ontem, Genival?
GENI
Olha, era só dois contos. Mas agora que o inspetor me chamou de veado
puto eu vou ter que exigir uma indenização. Fica tudo por quatro contos e eu me
dou por satisfeita.
CHAVES
Se não é vedo, o que é que é? É machão?
GENI
Nem veado nem machão. Eu sou plurissexual.
DURAN
É melhor pagar logo, Chaves, senão aumenta.
CHAVES
Toma, porra!
GENI
Não, assim tão cru eu nem tenho jeito de receber.
CHAVES
O que tu quer mais?
GENI
Aceito desculpas.
CHAVES
Nunca! Não peço desculpa a veado por nada deste mundo!
GENI
Veado, não.
VITÓRIA
Por favor, inspetor.
DURAN
Deixa de besteira, Chaves. Pede desculpas.
CHAVES
Desculpa, porra!
GENI (Pega o dinheiro)
Dá mais um conhaque, querida?
VITÓRIA
Toma, Genival. Mas agora é melhor vender teu peixe, que já passa das
duas.
continua pág 119 ...
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NOTA
O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.
Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.
americanismo: da pirataria à modernização autoritária (e o que se pode seguir)
"A multidão vai estar é seduzida" — Teresinha Fernandes de Duran
SEGUNDO ATO
CENA 4
Casa de Duran; Duran e Vitória estão à janela, observando a multidão lá fora; continua o canto da cena anterior, acrescido de gritos e sussurros.
DURAN Estão todos esperando um aceno meu, Vitória! São dez mil cabeças, fora as perucas das nossas funcionárias. Sabe como é que estou me sentindo? Igualzinho ao Moisés na margem do mar Vermelho! Só fico puto que o que me custa duzentos contos, aquele judeu conseguiu de graça.
VITÓRIA Eu estou tão preocupada, Duran.
DURAN Que é isso, Vitória, tô só especulando. E eu sou lá maluco de gastar duzentos contos com vagabundo? O pagamento tá marcado pro final da passeata. Como não vai haver passeata...
VITÓRIA O que me apavora é o cheiro dessa gente. . . É um troço pegajoso. Já tomei cinco banhos de Shalimar e continua parecendo que sou eu que estou cheirando a povo.
DURAN Olha o Chaves chegando aí. E pela cara do desgraçado, vem de mão vazia. Olha, Vitória, em último caso, se a polícia não pegar o Max, é evidente que a gente suspende a passeata do mesmo jeito. Isso aí tá engrossando muito e pode dar complicação. Sem falar nos duzentos contos. Mas se o Chaves suspeitar que a gente tá vacilando, aí então é que ele faz corpo mole. Segura firme, Vitória!
Entra Chaves
DURAN E então? Exterminou o bandido? Parabéns, Chaves! Deve ter sido duro pra você. Mas eu gostei. Você foi pragmático! Ainda chega a senador. . .
CHAVES Muito bem, senhores. Acabo de descobrir que posso processar vocês dois por incitamento à baderna.
VITÓRIA Aceita um chá de camomila, inspetor?
CHAVES Camomila o cacete! Eu não posso permitir que uma minoria insignificante perturbe a ordem pública dessa maneira! Os senhores façam o favor de conter essa manifestação imediatamente!
DURAN Mas quem sou eu, Chaves? A polícia é você!
CHAVES Tu não quer solução pacífica? Tá bem. Eu prendo essas putas todas!
DURAN Prende mesmo, é fácil. Isso aí é realmente uma minoria insignificante. É tudo gente aprumada na vida, gente asseada, assalariada, umas proletárias de luxo. Mas se você prestar atenção à janela, vai notar que vem aí outro tipo de gente. Quem vai protestar na rua são os milhares de desempregados desta cidade, esses sim, com toneladas de motivos. Sem falar nos subempregados, nos engraxates, nos lambe-botas, nos vendedores de bugigangas. Vagabundo então, não pode ver aglomerado que vai logo se enfiando no meio. E se tanta gente imunda e miserável vai pra rua, por que não haverão de sair os aleijados? Ah, não, esses não vão perder a chance de exibir seus tocos à luz do dia. Junta os leprosos, os bêbados, os toxicômanos, e só aí a tua minoria já foi à merda. Mais os tuberculosos, os maleitosos, os sifilíticos, os epiléticos, os débeis mentais, os menores abandonados, os velhinhos desamparados, as bichas, os pretos e os curiosos, e se prepare pra prender noventa por cento da população do Rio de Janeiro! São um milhão e setecentos mil cadáveres pra boiar no rio da Guarda.
CHAVES Porra! Um milhão e setecentos mil presuntos é encomenda pra atacadista. Tu sempre encomendou no varejo, Duran.
DURAN Um momento, inspetor! Cuidado com o que diz! Denunciar criminosos é dever de todo cidadão honesto. Já não se pode dizer o mesmo de quem pratica a pena de morte ao arrepio da lei.
CHAVES Que é que tu quer dizer?
DURAN Minha maneira de contribuir para a redução da marginalidade é empregar mil quatrocentos e trinta e dois funcionários fixos. Além de outros dez mil que eu ajudo aqui e ali. Mas você não, você tá tingindo os subúrbios com o sangue dos mendigos e dos adversários. Não adianta, Chaves, você não me enquadra. A minha bíblia é a Constituição da República e as leis trabalhistas são o meu breviário. Você já ouviu falar em lei? Em Constituição?
CHAVES Eu não tô no banco dos réus pra ser julgado assim.
DURAN
Mas vai estar, inspetor, vai estar logo logo. E quem vai te julgar não sou eu não, vai ser esse povo aí fora. Você não lê jornal, lê? Pois fique sabendo que os alemães perderam as calças em Stalingrado. Os aliados já ocuparam o norte da África. Os ingleses e os americanos já desembarcaram em Nápoles, viu? Mussolini tá perigando. Enfim, pra teu governo, o nazi-fascismo tá no fim!
CHAVES Pra meu governo? E tu, como é que fica? Afinal, nós fomos colegas na Ação Integralista. . .
DURAN Mas você é casca-grossa mesmo. Continua fazendo uma confusão grosseira entre a filosofia integralista e a delinquência de alguns sádicos nazistas. Olha, Chaves, outro dia houve um levante no gueto de Varsóvia. Logo outros guetos vão-se levantar e, mais dia menos dia, todos os perseguidos nesta guerra vão exigir justiça. Os nazistas vão pagar caro por seus crimes. Haverá tribunais populares em todos os cantos do mundo. E o que é que te faz pensar que aqui no Brasil os criminosos vão ficar impunes? Hein? Como é que o Hitlerzinho da Lapa vai-se safar desta, hein? Calcule a indignação da opinião pública quando forem denunciadas as atrocidades cometidas por um certo inspetor Chaves, mais conhecido por Tigrão, o facínora. . .
CHAVES Não, Duran, por favor, chega!
DURAN Liquidou o bandido?
CHAVES Eu fiz o possível e o impossível!
DURAN Vais ter um nobre destino. Igualzinho à dona Maria Antonieta. A não ser, é claro, que você use a cabeça e me apresente a cabeça do teu amigo. Aí, quem sabe, dá-se um jeitinho, né? Mas acho que já nem dá tempo, inspetor.
CHAVES Me acredita, Duran! Botei todas as patrulhas pra caçar aquele desgraçado. Toda a força pública, bombeiro, cachorro, fuzileiro naval, DIP, tudo. Vasculhei os covins, fechei os cassinos, invadi as pensões, bloqueei as estradas, parei os trens, interditei o Santos Dumont, o serviço de barcas, e nada! A esta altura ele já deve estar longe. . . O país tem oito mil quilômetros de fronteira!
DURAN Pois é. Igualzinho à dona Maria Antonieta. Tribunais populares. . . Cabeças rolando. . . Aliás, os moleques de rua vão adorar bater umas peladas com o teu coco.
CHAVES Ai, meu Deus, a vida já não tem sentido pra mim! Duran, pelo amor que tu tem a Cristo, me atende um último desejo! Dona Vitória, pelo amor da tua filha, me escuta! Eu também tenho uma filha... Ela vai ficar desamparada no mundo. Promete que cuida dela, dona Vitória? Duran, tu emprega Lúcia num dos teus puteiros? Me promete isso e eu morro sossegado!
continua pág 115 ...
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NOTA
O texto da "Ópera do Malandro" ê baseado na "Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay, e na "Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho, Carlos Gregório e, posteriormente, Maurício Arraes. A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito nos valeram os filmes "Ópera dos Três Vinténs", de Pabst, e "Getúlio Vargas", de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort ("O Teatro e Sua Realidade"), as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Contamos ainda com a orientação do prof. Manoel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três "óperas". E o prof. Luiz Werneck Vianna contribuiu com observações muito esclarecedoras. Esta peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.
Chico Buarque - foi musicando o poema "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, encenado pelo grupo universitário TUCA, que Chico Buarque se revelou como compositor, dois anos antes do sucesso de "A Banda", "Roda Viva", sua primeira peça, teve uma carreira tumultuada: estreou no Rio, em 1967, com um sucesso que desgostou a muita gente; em São Paulo, os atores foram espancados durante o espetáculo e, em Porto Alegre, sequestraram a atriz Elizabeth Gasper. A peça acabou proibida pela censura.
Chico só voltou ao teatro em 1972. OU melhor: tentou voltar.. Depois de muito tempo e dinheiro gastos com ensaios e produção, "Calabar - O Elogio da Traição", teve sua encenação vetada. E a censura foi além: proibiu a imprensa de fazer qualquer referência à obra, aos autores e até ao próprio Calabar. Mas, transcrita em livro, a peça esgotou-se rapidamente.
No ano seguinte, outro sucesso de venda: "Fazendo Modelo - Uma Novela Pecuária". E, em 1975, apesar de inúmeros cortes, "Gota d'Água" chegou aos palcos de Rio e São Paulo, onde ficou por dois anos. Agora, aí está a "Ópera do Malandro", que estreou no Rio a 26 de julho de 1978, e que é mais uma prova do gênio de Chico Buarque de Hollanda.