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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Ressuscita-me!

Maiakovski 


Vladimir Vladimirovitch Maiakovski  (em russo: Владимир Владимирович Маяковский; Baghdati, Império Russo, 19 de julho de 1893 — Moscou, Rússia, 14 de abril de 1930), também chamado de "o poeta da Revolução", foi um poeta, dramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot, bem como "o maior poeta do futurismo".


talvez quem sabe ...




O Amor

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

– 1923, tradução de Haroldo de Campos


O Amor 
by Caetano Veloso
Gal Costa 






E Então Que Quereis?

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

(Tradução de E. Carrera Guerra)


E Então Que Quereis?
Mundo dos Poemas






Adultos

Os adultos fazem negócios.
Têm rublos nos bolsos.
Quer amor? Pois não!
Ei-lo por cem rublos!
E eu, sem casa e sem teto, com as mãos metidas nos bolsos rasgados, vagava assombrado.
À noite vestis os melhores trajes e ides descansar sobre viúvas ou casadas.
A mim Moscou me sufocava de abraços com seus infinitos anéis de praças.
Nos corações, no bate o pêndulo dos amantes.
Como se exaltam as duplas no leito do amor!
Eu, que sou a Praça da Paixão, surpreendo o pulsar selvagem do coração das capitais.
Desabotoado, o coração quase de fora, abria-me ao sol e aos jatos díágua.
Entrai com vossas paixões! Galgai-me com vossos amores!
Doravante não sou mais dono de meu coração!
Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe!
O coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração - em todas as partes palpita.
Oh! Quantas são as primaveras em vinte anos acesas nesta fornalha!
Uma tal carga acumulada torna-se simplesmente insuportável.
Insuportável não para o versos de veras.



Maiakovski sobre papel do poeta na Revolução Russa

Danilo Grangheia interpreta fragmentos do poema "Conversa sobre Poesia com o Fiscal de Rendas", texto de Vladimir Maiakovski sobre o papel do poeta na sociedade proletária.





Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.

(tradução: Augusto de Campos)



A FLAUTA VÉRTEBRA

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)


COMUMENTE É ASSIM

Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar. 
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.


o triângulo amoroso entre Maiakovski, Lilya Brik e Ossip Brik

"Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos — rodopiante carnaval —
dispersarão as folhas dos meus livros..."




NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI
- Eduardo Alves da Costa
- Por Ivan Lima



Abaixo o texto de Diana Gonçalves esclarecendo quem é quem ou quem não é quem que não escreveu o poema abaixo...

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI - POEMA COMPLETO
 
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.


Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

 
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
 
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
 
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
 
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

 
Nota do editor:  em negrito, o "fragmento" que corre o mundo, belíssimo, desse poema de Eduardo Alves da Costa. Acima, o poema inteiro.

O poeta Eduardo Alves da Costa garante que  Maiakóvski nada tem a ver com o tema, assim noticia a Folha de São Paulo, edição de 20.9.2003, na íntegra:

***
Comentários e entrevista com o autor Eduardo Alves da Costa:
 
"Um Maiakóvski no caminho
Prometo-lhes publicar o poema inteiro. Minha amiga Maria do Carmo Ferreira, acho que ela o tem. Agora lhes falo de um outro poema, a rigor um trecho de sermão, ou prédica, de um pastor luterano, alemão, da época do nazismo,  Martin Niemöller, ao que parece de 1933 (o poema). Encontrei, via www.google.com, os seguintes textos:
1º) Zuerst kamen sie für die Kommunisten, und ich war nicht Kommunist, und da hab ich nichts gesagt und nichts getan, und dann kamen sie für die Gewerkschaftler, und ich war kein Gewerkschaftler,und sie kamen für die Sozialdemokraten, und sie kamen für die Katholiken, und sie kamen für die Juden, und ich war keiner von denen, und dann kamen sie für mich, und da war keiner mehr, der schreien konnte.2º) Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar.
3º) Quand ils sont venus chercher les communistes, je n'ai pas bougé : je ne suis pas communiste. Alors, ils sont venus pour les syndicalistes et je n'étais pas syndicaliste; Et ils vinrent pour les Sociaux-Démocrates, et ils vinrent pour les catholiques, et ils vinrent pour les juifs, je n'étais aucun de ceux-là; Quand ils sont venus pour moi, il n'y avait plus personne pour faire le cercueil.4º) First they came for the Communists, and I didn’t speak up, because I wasn’t a Communist. Then they came for the Jews, and I didn’t speak up, because I wasn’t a Jew. Then they came for the Catholics, and I didn’t speak up, because I was a Protestant. Then they came for me, and by that time there was no one left to speak up for me.
 
Não entendo que o belíssimo poema de Eduardo Alves da Costa seja plágio de maneira alguma. Da mesma forma que A raposa e as uvas, de La Fontaine, não é plágio de Fedro, nem este plagia a Esopo. Todos visitam o tema, inclusive eu, emPsi, a Penúltima.
Como é que diz o velho Esclesiastes? Não há nada de novo sob o Sol, coisa assim. Parece que não há mesmo. O importante, certamente, é a recriação, a re-escritura, atualizando o tema ao hic et nunc - ao aqui e agora.
Consta que Brecht também teria visitado o texto de Niemöller. Maiakóvski,nãoMorto Maiakóvski em 1930, é até admissível que seja o contrário, Niemöller é que teria visitado o poeta russo. Mas, a rigor, toda a confusão com o nome deMaiakóvski, no poema de Eduardo Alves da Costa, decorreu, ao que parece, do título do poema -  No caminho com Maiakóvski -, que é também o título do livro em que foi publicado. Em suma, nem o russo visitou o alemão, nem o alemão teria visitado o russo. E Brecht? Estou procurando. Quem souber, por favor! Há este fragmento que guarda um certo parentesco:
 
"Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam - Isso é natural
Diante dos acontecimentos de cada dia,
Numa época em que corre o sangue
Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
A fim de que nada passe por imutável."
 
Bastante no rumo, não?
O poeta Eduardo Alves da Costa garante que  Maiakóvski nada tem a ver com o tema, assim noticia a Folha de São Paulo, edição de 20.9.2003, na íntegra:
 
Foi resolvida graças à novela das oito uma confusão de 30 anos. Escrito nos anos 60 pelo poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, 67, o poema "No Caminho, com Maiakóvski" era (quase) sempre creditado ao russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930).
Em "Mulheres Apaixonadas", Helena (Christiane Torloni) leu um trecho do poema, dando o crédito correto. Foi o suficiente para reavivar a polêmica -resolvida dois capítulos depois, em que a autoria de Costa foi reafirmada- e, de quebra, fazer surgir uma proposta de reeditar o poema, para aproveitar a exposição no horário nobre.
Livro combinado, a noite de autógrafos será na novela. "Pedi que apresse e me mande até o dia 10. Quero lançar aqui", diz Manoel Carlos, autor de "Mulheres". Eduardo Alves da Costa falou à coluna:
 
Folha - Você se arrepende de ter posto Maiakóvski no título?
Eduardo Alves da Costa - 
De maneira nenhuma! Tanto que vou usar o mesmo título para o livro que sai agora.

Folha - Durante mais de 30 anos acreditaram que o poema era dele. Isso não o incomoda?
Costa - 
Era uma enxurrada muito grande. Saiu em jornais com crédito para Maiakóvski. Fizeram até camisetas na época das Diretas-Já. Virou símbolo da luta contra o regime militar.

Folha - Como surgiu o engano?
Costa -
O poema saiu em jornais universitários, nos anos 70. O psicanalista Roberto Freire incluiu em um livro dele e deu crédito ao russo e me colocou como tradutor. Mas já encomendei da França a obra completa do Maiakóvski. Quando alguém me questionar, entrego os cinco volumes e mando achar o poema lá.

"Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada" Trecho do poema de Eduardo Alves da Costa atribuído ao russo Vladimir Maiakóvski.

fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/autoria1.html#costa
Foto: Dirce Carneiro - Carro Catedral - Bariloche - Argentina
EDUARDO ALVES DA COSTA E JORNAL DA POESIA
Enviado por DIANA GONÇALVES em 02/06/2016
Código do texto: T5655034
Classificação de conteúdo: seguro


sábado, 1 de junho de 2019

Boa dia, Mayakovsky... da blusa amarela

não é tempo de escrever sobre rosas





Balalaica
(como um balido abala
a balada do baile
de gala)

(com um balido abala)
abala (com um balido)
(a gala do baile)
louca a bala
laica



Este poema serve para perceber métodos de trabalho do poeta. Depois de escrito foi reduzido bastante (as palavras entre parênteses foram retiradas), segundo Boris Schnaidermann um exemplo da honestidade artesanal de Mayakovsky, que eliminou do poema determinado tipo de musicalidade, tornou-se mais adrupto, menos suave. Para Mayakovsky a poesia precisa ser trabalhada, escrita e reescrita.

Maiakovski, Vida e Obra, 2ª ed. Paz e Terra, 1978
Pg 37





Do veludo da minha voz
Vou mandar fazer minha calças pretas.
De três metros de meio-dia, uma blusa
                                              [amarela.
(............)
E vocês, mulheres, que amam a minha
                                     [carcaça, e você
menina, que não quer ver em mim senão
                                                 [ um irmão
atirem os seus sorrisos ao poeta,
que eu vou costurá-los, como se fossem
                                                    [flores,
na minha blusa amarela!


Um traço característico da personalidade gigantesca, egocêntrica e narcisista de Maiakovski: desfilar pelas ruas atraindo a atenção de todos, principalmente das mulheres, chocando os padrões estabelecidos, provocando indignação e fascínio. Seu  poema A Blusa Amarela é desta época.

Maiakovski, Vida e Obra, 2ª ed. Paz e Terra, 1978
Pg 39




terça-feira, 5 de setembro de 2017

poesia russa: maiakóvski

Blusa Fátua



Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
Pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
“Não viole o verde de as minhas primaveras!”
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
“No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!”

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!


( Maiakóvski – tradução: Augusto de Campos )





Dedução


Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.



(1922 – em Maiacovski – Antologia Poética – tradução E. Carrera Guerra, ed. Max Limonad/SP).





O Que Aconteceu Comigo


As esquadras acodem ao porto.
O trem corre para as estações.
Eu, mais depressa ainda,
vou a ti,
atraído, arrebatado,
pois que te amo.
Assim como se apeia
o avarento cavaleiro de Púchkin,
alegre por encafuar-se em seu sótão,
assim eu
regresso a ti, amada,
com o coração encantado de mim.
Ficais contentes de retornar à casa.
Ali vos livrais da sujeira,
raspando-vos, lavando-vos,
fazendo a barba.
Assim retorno eu a ti.
Por acaso,
indo a ti não volto à minha casa?
Gente terrena ao seio da terra volta.
Sempre volvemos à nossa meta final.
Assim eu,
em tua direção sempre me inclino
apenas nos separamos
mal acabamos de nos ver.



(1922 – em Maiacovski – Antologia Poética – tradução E. Carrera Guerra, ed. Max Limonad/SP).





domingo, 2 de abril de 2017

O Amor

Vladimir Maiakovski







O Amor
Gal Costa

Talvez
Quem sabe
Um dia
Por uma alameda
Do zoológico
Ela também chegará
Ela que também
Amava os animais
Entrará sorridente
Assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela é tão bonita
Que na certa
Eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Agora vamos alcançar
Tudo o que não
Podemos amar na vida
Com o estrelar
Das noites inumeráveis

Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro

Ressuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um buraco

Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra
A Terra
A Terra



Composição: Caetano Veloso / Ney Costa Santos / V. Mayakovsky






...
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
          numa alameda do zoo,
sorridente,
                 tal como agora está
                     no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
                              ultrapassará o enxame
de mil nadas,
                       que  dilaceravam o coração.
Então,
         de todo amor não terminado
seremos pagos
                       em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
                       nem que seja só porque te esperava
                                                          como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
                       nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
                        Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja escravo
de casamentos,
         concupiscência,
                                salários.
Para que o dia,
                          que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
                                         - Camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
Para viver
                livre dos nichos das casas.
Para que
               doravante
                            a família
                                          seja
o pai,
        pelo menos o Universo;
a mãe,
        pelo menos a Terra.














Fragmentos


1

Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
              despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
                                      no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
                                                     penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso


2

Passa da uma
                   você deve estar na cama
Você talvez
                 sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
                         Para que acordar-te
com o
        relâmpago
                       de mais um telegrama


3

O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano


4

Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo


5

Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.


(tradução: Augusto de Campos)








O poeta pede ao seu amor que lhe escreva


Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.







Tu


Entraste.
A sério, olhaste
a estatura,
o bramido
e simplesmente adivinhaste:
uma criança.
Tomaste,
arrancaste-me o coração
e simplesmente foste com ele jogar
como uma menina com sua bola.
E todas,
como se vissem um milagre,
senhoras e senhorias exclamaram:
- A esse amá-lo?
Se se atira em cima,
derruba a gente!
Ela, com certeza, é domadora!
Por certo, saiu duma jaula!
E eu de júbilo
esqueci o julgo.
Louco de alegria
saltava
como em casamento de índio,
tão leve,
tão bem me sentia.





sexta-feira, 29 de julho de 2016

Маяковский

Маяковский. Последняя любовь, последний выстрел. 2013. Особая Папка.




A Extraordinária Aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no Verão na Datcha












Gente é para brilhar

A tarde ardia em cem sóis
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava,
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato
E de manhã
outra vez
por toda a parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
¿Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!

E grito ao sol:
¿Parasita!
Você aí, a flanar pelos ares,
e eu aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!

E grito ao sol:
¿Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?

Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostra medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com a voz de baixo:
¿Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!

Lágrimas na ponta dos olhos
- o calor me fazia desvairar, eu lhe mostro
o samovar:
¿Pois bem,
sente-se, astro!

Quem me mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluía sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo
disso e daquilo,
como me cansa a Rosta²,
etc.
E o sol:
¿Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte as coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!¿
Conversamos até a noite
ou até o que, antes, eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos íntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro
estou batendo no seu ombro.
E o sol, por fim:
¿Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos, poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.

¿O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda a parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo a minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar para sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
Gente é pra brilhar
que tudo o mais vá pra o inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.











*



"Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar. Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha."



*



"Deus, que será de ti quando eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se me romper?)
A tua água (e se me corromper?)
Sou teu agasalho, teu afazer.
Vai comigo o significado teu."




*



"Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas."













Vladimir Vladimirovič Majakovskij - Documentário








quarta-feira, 30 de março de 2016

A Esperança



Mayakovsky


A esperança


Injeta sangue
                no meu coração,
                enche-me até o bordo as veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
                               não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
                                               mas para que este tamanho?
Para tal trabalho bastava uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu o farei de graça:
esfregar,
                lavar,
                               escovar,
                                               flanar,
                                                               montar guarda.
Posso, se vos agradar,
                                               servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastantes porteiros?
Eu era um tipo alegre,
                                               mas que fazer da alegria,           
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
                               se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
                                                               ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
                                               nas aflições,
                                                               pesares...
Chamai-me!
                Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
                                                               e alegorias,
malabares dar-vos-ei
                                               em versos.
Eu amei...
                               mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
                               Tanto pior...
                                               Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos...         Amo também os bichos —
                                                               vós os criais,
                                                                              em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
                               Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
                               um verdadeiro vira-latas!
e no entanto,
                               por ele,
                                               arrancaria meu próprio fígado:

“Toma, querido, sem cerimônia, come!”



__________________




Eu
     a esta terra
                       amo!
Talvez
           se possa esquecer
o lugar em que se cria a pança e papo,
mas a terra
                  junto com o qual
                                      sofreste fome
a essa
          é impossível esquecê-la
                                                jamais!




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A mim
        nem um vintém sequer
        os versos jamais me deram
jamais ganhei mobília
                      do ebanista.
E, salvo duma camisa sempre fresca,
sinceramente
          de nada preciso eu.




______________________



Dizem
         que em alguma parte
                    parece que no Brasil
          existe
                   um homem feliz.



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Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.



______________________


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
          numa alameda do zoo,
sorridente,
                 tal como agora está
                     no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
                              ultrapassará o enxame
de mil nadas,
                       que  dilaceravam o coração.
Então,
         de todo amor não terminado
seremos pagos
                       em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
                       nem que seja só porque te esperava
                                                          como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressuscita-me,
                       nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
                        Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja escravo
de casamentos,
         concupiscência,
                                salários.
Para que o dia,
                          que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
                                         - Camaradas!
atenta se volte a terra inteira.
Para viver
                livre dos nichos das casas.
Para que
               doravante
                            a família
                                          seja
o pai,
        pelo menos o Universo;
a mãe,
        pelo menos a Terra.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Mayakovsky


A voz do poeta

Sou poeta e ansiava o futuro... ressuscita-me!








MAïAKOVSKI, ELSA, ARAGON. Ils se sont rencontrés à Paris









A ESPERANÇA

Injeta sangue
                no meu coração,
                enche-me até o bordo as veias!
Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre,
sobre a terra
                               não vivi o meu bocado de amor.
Eu era gigante de porte,
                                               Mas para que este tamanho?
Para tal trabalho bastava uma polegada.
Com um toco de pena, eu rabiscava papel,
num canto do quarto, encolhido,
como um par de óculos dobrado dentro do estojo.
Mas tudo que quiserdes eu o farei de graça:
esfregar,
                lavar,
                               escovar,
                                               flanar,
                                                               montar guarda.
Posso, se vos agradar,
                                               servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastantes porteiros?
Eu era um tipo alegre,
                                               mas que fazer da alegria,           
quando a dor é um rio sem vau?
Em nossos dias,
                               se os dentes vos mostrarem
não é senão para vos morder
                                                               ou dilacerar.
O que quer que aconteça,
                                               nas aflições,
                                                               pesares...
Chamai-me!
                Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles
                                                               e alegorias,
malabares dar-vos-ei
                                               em versos.
Eu amei...
                               mas é melhor não mexer nisso.
Te sentes mal?
                               Tanto pior...
                                               Gosta-se, afinal, da própria dor.
Vejamos...         Amo também os bichos —
                                                               vós os criais,
                                                                              em vossos parques?
Pois, tomai-me para guarda dos bichos.
Gosto deles.
                               Basta-me ver um desses cães vadios,
como aquele de junto à padaria,
                               um verdadeiro vira-latas!
e no entanto,
                               por ele,
                                               arrancaria meu próprio fígado:

“Toma, querido, sem cerimônia, come!”




quarta-feira, 21 de março de 2012

O Amor

Gal Costa





Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
        numa alameda do zoo,
sorridente,
      tal como agora está
         no retrato sobre a mesa.










O Amor
Caetano Veloso
(Sobre um poema de Vladimir Maiakovski)

Talvez quem sabe um dia 
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará 
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está 
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita 
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá 
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis
Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta 
E ansiava o futuro
Ressuscita-me 
Lutando contra as misérias do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me 
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis
Ressuscita-me para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
Ressuscita-me 
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos o Universo
E a mãe
Seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra




O Amor

Maiakovski


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
        numa alameda do zoo,
sorridente,
      tal como agora está
         no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
      que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
  que dilaceravam o coração.
Então,
       de todo amor não terminado
seremos pagos
     em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
     nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
      nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
      Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
     concupiscência,
       salários.
Para que, maldizendo os leitos,
   saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
   que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
      livre dos nichos das casa.
Para que
   doravante
a família
     seja
o pai,
     pelo menos o Universo;
a mãe,
     pelo menos a Terra.


(1923)