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sábado, 27 de junho de 2026

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Entre hoje e amanhã

fazer 70 anos muda tudo? não sei... e receber 2 milhões de visitas?

"serve uma história aí."

parece uma marca inexpressiva, neste tempo de likes e bets, mas para um buteku de contos e poesias - com ritmo próprio para ler e publicar, às vezes, acho que não foi feito muito, é a preguiça, um desconforto, a saúde fraquejando, mas aí vem o lampejo: a resistência, a teimosia, um lugar onde se pode voltar devagar, sem pressa, um lugar que serve palavras que não monetizam, o prazer de servir a leitura - é uma marca para se comemorar...

... e seguir em frente... por aqui, livros que li e amei, livros que fui publicando e lendo, livros que fui lendo e publicando, um segredo dos leitores e das leitoras para você: nada supera a cobiça de infiltrar-se numa livraria para descobrir o que ler... sinta-se tentado ou tentada na livraria, o cheiro da palavra fresca no balcão, reconheço sorrindo esse vício, abrir a porta e me deixar entrar, ficar ou apenas passar - faça isso antes que elas se mudem para algum desvio no shopping -, tocar a lombada, sentir a respiração do título, cada estante promete um segredo que pode ser desvendado, um ritual, uma tentação clandestina, é bom conversar com o livreiro, pedir sugestões para a livreira, faça  perceberem que alguém sentou, leu e ficou um pouco, e não voltou por acaso, mas para contar um caso, e, aos livreiros e livreiras: obrigado por não terem desistido desse balcão!



Como é trabalhar numa livraria?




escrever 

repetir 
pensar 
as mãos brincando no papel 
esvoaçando o colorido da doidice 
o lápis 
a borracha 
os caprichos 
os enredos 
o ritmo das palavras 
as emoções saltitando
e então, o silêncio  
observo o traço que hesita 
a ideia que se esconde atrás da vírgula
o papel respira 
a mão insiste 
o verso nasce torto 
e no tropeço há música e borrão 
caminho e risco 
inventando o mundo mais uma vez
e o leitor?
é o cúmplice silencioso
o outro par de mãos que completa o gesto
aparece mesmo quando não é nomeado
e recolhe das migalhas 
o pensamento escapando entre as linhas
escuta o ritmo sugerido
preenche os espaços em branco com a própria memória
dança junto com as palavras soltas no ar
é o lugar onde o poema termina 
onde o texto respira
onde o texto vive.


explicando melhor...


___________________

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sábado, 9 de maio de 2026

um mulherão e cinco homens (2)

um mulherão e cinco homens (2)

baitasar


as mães desacordam antes do sol, um desadormecer cansado, é preciso preparar o café com um sorriso apressado, muitas tarefas de cuidar e educar, Vocês não me peguem nada que não seja de vocês, o lugar de comer é em casa. Não esqueçam a merenda!

plantava sementes enquanto partes de si mesma ficava pelo caminho, um mulherão e cinco homens

a vozearia dos guris se espalhava, mauro, rogério, ricardo, rubem, o Milton já se fora para a fábrica de balanças Santo Antônio, saia nas madrugadas da manhã e voltava já noite adiantada, nós, os quatro filhos, ficávamos com a Elci, como tantos filhos e filhas, naqueles dias era assim, esse mulherão carregava sonhos que ficaram pelo caminho, fingimentos verdadeiros e verdades inventadas, rotinas de palavras doces, passos acelerados entre o tanque das roupas imundas da filharada e a cozinha da comida amorosa, no caminho, gestos escondidos nas sombras do silêncio

aquela fortaleza invisível continua planejando nossas vidas, correndo pelos nossos caminhos, mulher corajosa, amorosa, determinada, suportando nossas partes de esperança em silêncio, não reclamava, uma peregrinação sem tréguas para cumprir no tempo das horas essa combinação silenciosa de entrega e desassombro, cuidando da febre e dos medos, entre sua angústia e cansaço, não desistiu

não aceitou deixar seus filhos num calabouço com pão, água e sem escola, queria mais, não desistiu, Vocês vão pra escola, e pronto! Não quero escutar queixas da professora, entenderam? Quando saírem da escola vão saber que valeu a pena.

nunca, durante esse tempo de guri, me perguntei como se impunha forçar ombros e pernas para alicerçar e escorar nossa pequena família de homem e guris, uma tarefa cumprida no dia-a-dia, de domingo à domingo, exigindo de si mesma mais e mais, cada vez mais

nunca foi um ensaio, sempre foi para valer, muitas vezes, com lágrimas e olhar desenxabido

o tempo do nosso desmame era inevitável, tínhamos sentimentos amontoados e desencontrados, cada um no seu tempo e do seu jeito, desgrudando sem soltar, sem mau humor, gritarias, choro ou culpa, em silêncio, uma outra vida cheia de surpresas vivendo do jeito que dá, o abraço no lugar do colo

continuo me permitindo sentir saudade, o amor que tenho e o beijo doce na boca alimentam lembranças de contentamento, mesmo que o tempo da tristeza não passe, preciso chegar em casa, esquecer sem esquecimento e sempre com a necessidade da proximidade do perfume do café passado, o aroma do pão fresco, o leite derramando na fervura, sentindo a ventania do nosso amor que ela transformava em brisa

sim, ela continua em nós

te amo, mãe

___________

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um mulherão e cinco homens (2)

domingo, 2 de novembro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (11)

um professor bagunceirinho (11)

baitasar

   começo o ritual diário da chamada, o registro histórico das presenças no início de mais um dia letivo, os nomes flutuando na memória, alguns se escondendo na rotina que emerge, o registro que o tempo determina, cada nome uma história, uma presença marcada; lógico, o livro das presenças aberto ainda não revela a jornada traçada, é apenas o registro do presente tornado passado, a formalidade de um ritual importante sobre quem está presente ou ausente, um fio que conecta alunos e alunas, o testemunho da continuidade, preservando o tempo, guardando nomes enquanto a rotina se estrutura, cada nome é uma palavra, cada presença uma janela de possibilidades, cada falta uma digital da história que esvazia a escola
   o case sobre a mesa
   hoje, a curiosidade se parece com uma chama que arde serena e sem véu, os olhares viajando fagueiros e delicados, as perguntas contidas, represadas e inquietas, não querem atrapalhar mais que o necessário, buscam por respostas urgentes às suas perguntas, acho que aprendem a crescer – estufando o aprendizado do adiamento e da tardança – , minha voz se espalha sozinha, no brilho dos olhos o desejo, talvez de tocar estrelas, buscar o novo, é visivelmente um fogo intenso e controlado
   está mais descomplicado e sossegado acomodar a turma em seus lugares, a bisbilhotice com o estojo preto e imenso do sax estabelece um acordo entre essa criançada interessante e interessada, querem as respostas sobre o caso do estojo, um mistério a ser desvendado
   termino a chamada sem nenhuma interrupção, eu mesmo não acredito, surpresa, continuam em silêncio, as bocas abertas caladas, o inesperado dançando em redor, aquele mundo se curvando ao novo encanto, um segredo irá emergir do estojo
   e se o espanto, apesar de inesperado, não trazer maravilhamento ou alegria, é um risco, cheguei com o estojo sem anúncio ou convite, e se essa tal admiração se mostrar sem brilho ou luz que acalente seus corações, não tenho plano B, o eco destas dúvidas se repetindo, uma sombra silente assusta, desvia o curso, perturba a paz, reinventa a confusão, A surpresa que traz, não traz o que faz, repeti para mim, antes de guardar o caderno estojo da chamada

Professor...

O que foi, Ana?

   olho sobre o estojo, está sentada na primeira fórmica verde, colada na minha mesa, os olhos negros estalados atrás daquela bolsa imensa, o cabelo crespo empoderando autonomia, os fios sem definição, as pontas repicadas, bastante volume e com formato redondo, tanta beleza humana diferente em cada uma dessas crianças

Vai demorar?

   minha risada surge enquanto percebo o brilho da que desconhece, onde perguntas florescem com pressa, quer diminuir a distância, o mistério alentando o encontro, vai começar o vaivém das perguntas, o tropeço doce que tenta entender o que não é seu, a tela em branco, a dúvida que convida caminharmos juntos até descobrirmos que talvez o segredo não seja possuir a verdade, mas abrir a possibilidade da surpresa e do encantamento

O que vai demorar, Ana?

   a resposta vem rápida, sabe que estou bordejando sobre o prato principal – que para mim era o acessório acidental –, O senhor abrir esse troço e mostrar o que tem dentro...
   confesso que ainda não sei bem o que estou fazendo, e incoerente, a minha resposta segue o raciocínio do planejamento, não está errada, mas eu acabei de colocar um bode na sala, Não, não vai demorar. Mas antes temos algumas tarefas para fazer. Assim, que terminarmos eu mostro o que tem dentro do estojo.
   um desassossego instantâneo se estabelece na turma, o vento que não para, a ebulição do mar revolto sem lua, pensamentos acelerados, sem repouso, a tensão, a dor, um fôlego intenso busca o inalcançado, incerto, ansioso, passos se aproximam, Felipe, senta no seu lugar!

Eu posso olhar de pertinho?

Não. Olhem dos seus lugares por enquanto...

   sei que o desejo não cabe em diques, tampouco é contido com gritos e ameaças, ele atravessa frestas e fissuras, gritos servem apenas para desgastar todos, ensinam apenas a submissão ao mais forte ou àquela que grita mais alto

Ah, professor! Mostra o que tem dentro desse caixão!

   o desejo encontra rotas novas, contorna barreiras, transforma o medo em mapa

Calma, Graziela...

   olho a turma, a curiosidade mostra sua semente que insiste em nascer, um vento que arrebola a pele do silêncio confortável, arrancando as pétalas do repouso, uma a uma, bem me quer mal me quer, bem me quer mal me quer, acende uma fogueira na barriga da noite, as faíscas das labaredas não pedem licença ao tamborilar suave do desassossego, o peito inquieto não se cala, sem dor, sem alívio, é apenas um pressentimento, uma curiosidade que transforma a sala em uma caverna que não se aquieta com as sombras, onde cada criança guarda uma hipótese é o coração aprendendo ouvir o sussurro que ainda não sabe falar, o novo escondido que faz gemer, empurra para dentro do sonho a curiosidade, não é fuga, é vida em movimento

Está bem... está bem! Vou abrir a caixa da surpresa. Mas ninguém vai escapar das tarefas de hoje!

   a válvula se abrindo, empurrando as tarefas ensaiadas e pensadas para algum canto da sala, e junto, a prudência e a ordem, a contenção para manter o equilíbrio se rompe, procura o curso livre, gritos de alegria, a vitória conquistada pela insistência, ecos que não se acabam, a luta persistente que insiste, chama, segue em frente, ensaia voos, sorrisos e lágrimas fecundam sonhos, geram ventos, a esperança tece a vitória que renasce na dança, faz a sala estremecer de tanto querer, levantam e gritam sua vitória, não há tempo nem muro que os contenha, nem esse professor pode ou quer conter essa alegria que nos chama, a vida insiste em vencer

Então, façam silêncio e sentem em seus lugares!

   o silêncio chega rápido, as cadeiras de fórmica verde são ocupadas de imediato, já não me espanto, esperam pelo segredo a ser sussurrado, o instante mudo, um espaço silencioso para enxergar, a calma instantânea onde quase tudo se revela, uma possível verdade oculta a ser revelada, o detalhe esquecido, observo meus alunos e alunas, percebo que a curiosidade e a coragem estão me permitindo aprender o momento para descobrir que o que é oculto precisa curiosidade para ser desvendado, o rio dos pensamentos sempre procura o curso da liberdade, a repressão não é morada segura
   pego o estojo sobre a fórmica verde da minha mesa
um professor bagunceirinho (11)

domingo, 26 de outubro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (10)

um professor bagunceirinho (10)

baitasar

   segunda-feira, terceira semana, as duas primeiras semanas foram intensas nos desafios e contradições entre meu discurso e minha prática, escondido atrás da segurança do costume desde antes, não sabia como mudar meu comportamento copista dos planos de aula sugeridos pelas colegas, legitimamente apontadas como alfabetizadoras, o tempo é o senhor da razão, paciente e sereno, silencioso e com passos lentos, desvendando segredos e curando dores, não há pressa nem mentira que vença o tempo
   ia clareando um desconforto na medida que pensava outras possibilidades daquela prática que já houve e está havendo por mim, virei um repetidor doido para fazer diferente, Mas por onde começar e fazer diferente?
   acordo como nas outras manhãs, os planos e estratégias para formar crianças alfabetizadas estão prontos, tudo certinho, não dá errado mesmo quando o inesperado se mostra sorrindo ou chorando, às vezes, gritando, a vida é imprevisível, e na escola é como um vento que não se espera, pode entrar forte ou suave, com risos ou lágrimas se misturando, cada olhar uma história diferente, um segredo, um contínuo enredo de emoção e razão, uma viagem do tempo no coração
   não tenho o direito de ser incompetente e preciso lutar comigo mesmo para não ser incoerente, uma responsabilidade pessoal e coletiva com a educação popular, a conscientização crítica e a ação transformadora que valoriza a construção do conhecimento e da justiça social; tenho claro, para mim, a exigência da competência é uma forma de respeitar a outra  – o outro  – e o processo dialógico, é uma luta para garantir que o meu discurso esteja junto a minha prática pedagógica, uma ética de compromisso, reflexão crítica e integridade emancipadora solidária
   o primeiro compromisso é com a pontualidade, a correria da higiene, café, lanche e torcer para que o fusca branco não me deixe na mão, saio e fecho a porta, jogo a mochila e a térmica com chá no banco de trás, entro no carro e dou partida no motor, o dia está começando bem 
   mas algumas coisa continuam inevitáveis, abro a porta do fusca e saio  – deixo o motor funcionando e porta aberta  –, preciso ir ao banheiro, o desconforto dos últimos anos com minha próstata tornou-me mais humilde, entro em casa apressado, levanto o assento estofado do vaso sanitário – e no limite do meu controle  –, encho o cabungo com o meu mijadeiro
   três biópsias da próstata, trinta e seis pedacinhos retirados para exames laboratoriais, exames de toque, PSA altíssimo, desconforto e medo, até chegarmos ao diagnóstico: hiperplasia prostática; por enquanto, respiro mais aliviado, um diagnóstico que diminui em muito qualquer agressão mais desastrosa e improrrogável, um diagnóstico necessário para uma medicação adequada, mas é preciso seguir cauteloso e atento
   a descarga, a higiene, a lavação das mãos, o relógio esgotando o tempo, e sem planejar ou mesmo pensar, vou até o quarto e pego o case com meu sax
   o case é um estojo preto com alça, usado para guardar e transportar, devidamente protegido e desmontado em três partes, o sax, alguém já me disse, Esse tal de case mais parece um caixão funerário, pode ser, desperta curiosidade, mas enfim, estou com ele em uma das mãos, caminhando até o fusca, a porta aberta, inclino para frente o meu banco, coloco o estojo com o sax no banco de trás, esse carregamento não estava previsto, Tu tá enlouquecendo, professor, penso com um breve sorriso
   uma manhã ensolarada, céu de brigadeiro, limpo de nuvens, seguro e tranquilo, ideal para voar, mas também, prenúncio de mais um dia quente,  como tantos outros em março, aqui em Porto Alegre; o bairro silencioso, exceto pelo barulho nos trilhos do trensurb – o trem metropolitano de superfície que corta a região metropolitana da capital –, nenhum vento cortante nas ruas vazias, uma rotina monótona e simples a que estava acostumado, a vida escolar me espera
   passo pela porta, verifico mentalmente tudo que carrego, os planos de aula, o lanche, o chá e o case, abro o cadeado e afasto o portão, entro no fusca, o motor ligado, e a dúvida surge, Devo levar o sax? E a porta... eu fechei? Não lembro, tudo sendo feito no automático.
   uma regra simples, mas rígida, Fechar a porta, não posso ficar com essa dúvida, Bobagem, claro que fechei, eu sempre fecho, posso deixar para trás essa incerteza, Claro que devo ter fechado, mas o medo escondido nas sombras é real, não sei explicar direito essa desatenção; ao mesmo tempo, a ideia de voltar para verificar me parece absurda, um pequeno esquecimento do já feito
   respiro fundo, tento me convencer que não há motivo para voltar, a dúvida persiste, um buraco aberto na casa, a porta da frente, Porra, Marko! Deixa pra lá!
   a incerteza consumindo esses minúsculos segundos, olho para trás, abro a porta do fusca, e volto, a porta está fechada, sempre está, repito para mim que havia feito a coisa certa entre a decisão e a dúvida
   saio com o fusca, desço e fecho o portão, entro apressado e dirijo para a escola, sem pressa, as regras do trânsito precisam ser obedecidas estando atrasado ou não – de novo a coerência tentando caminhar junto –, chego e estaciono no pátio destinado aos professores, pego meus planos, o chá e o case imprevisto
   coloco o polegar no relógio-ponto, registro minha entrada na escola, tudo no último minuto antes do atraso, respiro aliviado, cheguei no tempo exato, mas sem tempo para cumprimentos – sempre em frente –, vou direto para o pátio encontrar a turma E
   as perguntas óbvias e os olhares surpresos precisam de explicação, Explico tudo na nossa sala de aula, continuo me perguntando por que eu trouxe essa confusão para mim, não deveria ter sucumbido ao impulso do sax com certeza, vou ter mais dificuldades que vantagens, é muito discutível essa atitude de me arriscar sem um plano, ir além do conhecimento, uma rebelião, espero que isso tudo se torne uma obra de arte, O que preciso esperar para que aconteça algo diferente? Quem é esse guardião do tempo e da mudança?
   sou um velho professor conhecido por ser antigo, gosto da fronteira entre o imaginário e o real, já gostei mais de observar as estrelas e a lua com um telescópio amador, ficar encantado com o céu que se ilumina com uma aurora diferente e mantém o fluxo das horas, dias e anos nessa luz, o eco de todas as eras, sei que não é uma questão de esperar, é difícil compreender que o tempo carrega em si a mudança, revela o que já sou, mas não mudei, gosto da imagem suave da ampulheta, a areia escorrendo lentamente, cada grão e cada escolha, um momento, uma oportunidade, não sei se ainda tenho disposição para tanta mudança, entro na sala de aula com muitas dúvidas do que esperar e também fazer, não sei como fazer minha própria transformação, abrir as portas para um mundo diferente, um outro jeito e o case na mão
um professor bagunceirinho (10)

domingo, 19 de outubro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (9)

um professor bagunceirinho (9)

baitasar

   estou mais confiante, saio vitaminado da nossa sala do café, água e conversas sobre letras – e também, conversas aleatórias sobre ensinar a pensar certo através do conteúdo e itinerários –, falação educativa em acentos mais confortáveis que a fórmica verde, e como aprendi que não há espaço sem tempo – são inseparáveis –, estou me perguntando se aproveitei-me do tempo finito do recreio de forma produtiva e apropriada
   preciso transitar de um não-lugar para um outro mundo sem fronteiras, reconhecendo meus limites do conhecimento em uma linha tênue entre o nada e o pleno, ambos desafiam minha compreensão e revelam a profundidade do mistério de ensinar e educar, Não se enganou a escola com as crianças que não floresceram?
   a professora Aninha saiu-se antes, Quero bisbilhotar o recreio, diz que assim fica mais perto e quanto mais perto, Fico mais confiante e eficiente, é preciso conhecer o aluno real para pensar certo, também caminho mais esperançoso pelo corredor até o pátio, um caminho mais leve, passos abertos e decididos, crianças riem, brilham, a escola, a escola é abrigo e porto seguro, caminho ao encontro do que sonhei, paro embaixo do cartaz com a letra D, aguardo em silêncio, correm, gritam, sem as crianças existiria uma escola menos esperançosa, aprender a conversar com elas é como aprender a conversar antes da prática, sentir o coração pulando incontrolável, tocando nossa sensibilidade, nem sempre uma conversa serena nem sempre amena, é verdade, mas, de qualquer maneira, não sei como se chama a tristeza de uma criança em silêncio

Crianças! Façam uma fila!

   a fila é tão comum, quase nunca paramos para observá-la com um pouco mais de atenção, esse mesmo zelo vigilante que usamos para não sermos ultrapassados quando estamos enfileirados
   o perfume das corridas escorrendo está no ar da fila que se forma depois do recreio, risos, gritos, o ritmo da dança é alegre, crianças chegando suadas, alarmadas e livres, escolho organizá-las pela desigualdade do tempo, Quem chega primeiro fica na frente, meu critério para uma estrutura militar organizada

Sou o professor Marko! Vou ficar com vocês até o final da aula de hoje, a fila parando de se mexer como uma minhoca assustada, como sei que elas não foram ao banheiro – que criança vai se permitir ir ao banheiro no recreio e perder a vez nas corridas e brincadeiras? –, eu pergunto, Vocês querem ir ao banheiro?

Siiimmm!!!

Tudo bem, mas vamos em fila e de maneira muito organizada, a fila para o banheiro se tornará um rotina cotidiana junto com os conteúdos curriculares que, por ora, desconheço

   cada criança, cada um de nós, cada turma e seu coletivo, carrega sua própria história de impaciências, uma sacola cheia de lembranças, expectativas variadas e lambanças estacionadas na monotonia da espera, na distância que não encurta nem aproxima os olhares, uma criança atrás da outra, olhos na nuca da criança da frente, em uma escola cinza todas vivem em filas
   depois da ordem dada, faço silêncio, espero pela tensão estática dos corpos alinhados – uma espera quase inútil e desnecessária, a fila é uma força ideológica, continuo esperando –, uma criança atrás da outra, a busca pelo silêncio ensurdecedor, cada criança com o seu lugar marcado para comer, respirar e pensar, presas a uma espera que disciplina e nunca termina
   um código tatuado no braço e o seu lugar marcado, uma sequência rígida que ordena a existência, o relógio da escola bate o mesmo segundo para todos, congela o tempo em uma corrida monótona esmagadora, olhos brilhantes esvaziando, encarando o vazio da nuca, é proibido ultrapassar o corpo à frente, um lugar onde ninguém se encontra, apenas marchamos, eu à frente delas, uma atrás da outra, ainda há espaço para gestos de inconformidade, sorrisos ou olhares que escapam, meu olhar é uma prisão invisível
   crianças estão na fila por anos, uma sucessão de sombras que não se reconhecem, qualquer som é censurado, um campo de batalha enfileirado com empurrões sutis, olhares cortantes e impacientes, o tempo que parece parado incomoda a agitação, provoca desânimo e afobação ao mesmo tempo, esse retorno do recreio é sempre um desafio, empurrar, gritar, sussurrar, faz parte deste repertório de impaciências, a sequência precisa ser restaurada na escola cinza, Crianças! Fiquem na sua posição! Silêncio!
   depois do banheiro, vamos para a sala de aula, o nosso território do diálogo controlado e sem intervenções externas, nosso provável ambiente de libertação e transformação para vidas mais justas, um espaço democrático possível de respeito e combinações, lá fora, o futuro sombrio das regras rígidas e injustiças tentando entrar pelas frestas e arestas
   antes de fazer a chamada dos seus nomes e registrar suas presenças, me apresento mais uma vez, esqueço de dizer que sou professor de educação física, faço a chamada, nome por nome, aproveito para anunciar que minha memória para lembrar nomes está passando por dificuldades, Prometo que vou me esforçar para lembrar seus nomes. Mas vou precisar que me ajudem, combinado?

Siiimmm!!!

antes de distribuir o material da professora Aninha, peço que levantem dos seus lugares e façamos um círculo, Uma roda...

   o barulho não é discreto nem pequeno, mas enfim, depois de muitas classes e cadeiras arrastadas, estamos em círculo, sugiro que possamos nos dar as mãos e sentarmos no chão – diversão garantida, uma pequena revolução, a vida em comum a serviço do conhecimento –, um comportamento libertador para mim, estou reaprendendo esses jeitos
   pergunto se conhecem a canção dos Dedinhos, não conhecem, mas escutaram a outra turma cantando, também querem cantar, cada dedo agora tem um apelido, então cantamos e dançamos com os dedos, cada dedo chamado e cantado dança com o mesmo dedo da outra mão
   a alegria de cantar nos aproximando
   em certo sentido, a música sendo agora um texto que precisamos ler e decorar ao mesmo tempo que cantamos, aprender a ler é também aprender a escutar, escutar minha voz, escutar a voz do outro, cada criança aprendendo ser dona da sua voz, cantamos juntos, nosso jeito de ver o mundo mudando, estou mudando, não sou o mesmo professor depois do recreio, não é uma tarefa fácil esse desaprender libertador através do diálogo esperançoso
   depois do canto e suas repetições, peço para repetirem seus nomes, cumprimento cada criança pelo nome, após a última reapresentação, pergunto, Quem sabe dizer com que letra começa o seu nome?
   a diversão está garantida, o itinerário desenhado, cada criança recebe de volta a folha da professora Aninha com a letra inicial do próprio nome para colorir, recortar e colar em um cartaz coletivo, um quebra-cabeça solidário de letras
   estou acostumado com a rotina da bagunça das corridas, pulos e jogos de bola, mas preciso ficar mais confortável entre cartolinas, tesouras, canetinhas coloridas e tubos de cola
   a semana avança assim, Qual a letrinha que aprendemos hoje? Qual a parte mais divertida da aula? E a mais chata, pergunto, as respostas vêm intensas e imediatas, um livrinho de letras de cada criança está se criando, dia-a-dia, página por página se montando, os moldes, as etiquetas com nomes, cartazes do alfabeto nas paredes, as músicas
   então, fiz o impensável, levei meu sax tenor para a sala de aula

um professor bagunceirinho (9)

domingo, 12 de outubro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (8)

um professor bagunceirinho (8)

baitasar

   desvio minha atenção da girafa, encaro a turma de vinte e cinco gigantes, entre seis e sete anos, ficamos em silêncio nos olhando, eles e elas a mim, eu a eles e elas, exploração e especulação mútuas, minhas mãos apoiadas em cima da fórmica verde, caderno de chamada fechado, observo essas crianças agigantadas, sou o professor Minimus, o mundo daquela sala de aula está de cabeça para baixo, o professor à beira de um colapso, um pesadelo desenfreado, O que fazer? Como fazer? Quem é mais irresponsável? Eu... por ter aceitado? A Rachel por ter pedido? A indiferença do prefeito... eleito com o voto desses mesmos pais e mães? Ah, o aprendizado do voto...
   as crianças estão gigantescas 
   eu, o professor, encolhi a tamanho liliputiano, estou desmontado, o mesmo professor, mas me enxergo com quinze centímetros de altura, uma girafa ciclópica me encarando, na minha frente, crianças com corpos de titãs e corações imprevisíveis
   o último educador disponível da escola e preciso ser uma esperança, pelo menos, para mim mesmo
   havia sido um estimado professor de educação física, agora, com a voz trêmula e corpo minúsculo, preciso dedicar meus últimos dias a alfabetizar crianças liliputianas nas catacumbas da sala de aula, a ilha da escola pública virou um brinquedo sem memória, parece que jamais existiu uma outra escola, ao menos, é como que tentam nos convencer
   sabia que um dia escaparia, mas não sabia como
   por agora, talvez fosse possível usar o alfabeto das plantas usado para me comunicar com abelhas mensageiras
   uma menina chamada Clara, com apenas seis anos, olhos brilhando como lampiões de gás, olha para baixo, as sobrancelhas franzidas, anuncia curiosa, Gente, o professor virou um bonequinho vivo em cima da mesa!
   a palavra professor ecoou como um trovão, as crianças liliputianas congelaram 
   eu pulei dentro da minha mochila, um gesto dramático e ágil, mas inútil, tarde demais, Clara, com uma delicadeza monstruosa, enfiou a mão na mochila, seus dedinhos crescidos entre meus livros, cadernos, lápis e borracha, dedos do tamanho de torres me pegaram como se eu fosse uma bolachinha recheada
eu tremia, minha voz não passava de um zumbido para seus ouvidos gigantes, foi então que Clara fez algo inesperado, sentou no chão cuidadosamente, pegou um giz e começou a desenhar círculo ao meu redor, como se estivesse traçando um mapa

O senhor é... real, perguntou entre sussurros e gritos

   apesar do medo, vi uma oportunidade, subi no giz e gritei a pleno pulmões, Você pode me ajudar?

Eu ajudo, respondeu

   ninguém vai acreditar, claro, mas naquela antiga sala de aula, escondida entre mesas e cadeiras de fórmica verde, existe uma pequena passagem com uma placa pregada em uma agulha, como um anúncio do que já existiu, "Escola Cidadã, turma aos domingos, onde conhecimento é maior que tamanho, é curiosidade esperançosa!"

Professor!

   olho para cima, procuro quem me chamou, Quem me chamou, silêncio, vejo suas mãos apoiadas nos seus cadernos abertos sobre a fórmica verde, lápis na mão, borracha, estojo com capetinhas coloridas
   eu tinha a girafa, e mais nada, somos nós, os humanos, que jogamos bombas e matamos, caçamos e jogamos as girafas nos zoológicos

Crianças, vocês sabem com que letrinha começa a palavra GIRAFA?

   silêncio
   imobilidade anônima, não há o alvoroço das mãos erguidas, o desejo de responder não se mostra, descubro a inutilidade do saber do apedeuta da alfabetização, ilegítimo e inautêntico
   continuo insistindo suave, consciente de ser um estorvo
   um suspiro de alívio quando o aviso para o intervalo do recreio interrompe minhas tentativas
   crianças correndo alegres pelo pátio
   professor voando pelos corredores em busca de socorro, sento ao lado da professora Ana Maria, eu e ela, dividimos o atendimento das duas turmas, depois do recreio ela irá ficar com a minha turma, eu ficarei com a turma que ela atendeu antes do recreio, trocaremos o atendimento das turmas, Aninha, minha aula não funcionou.

É mesmo? O que aconteceu?

   faço um rápido resumo, entre goles de água e café, dispomos de menos de quinze minutos de intervalo, Marko! A letra gê? Santo Deus, coitadinhas das crianças!
   não fico em silêncio, faço questão de me mostrar por inteiro, Não estou entendendo, Aninha. Por que tanto espanto?

Marko, a letra g tem possibilidades de escrita e som que não devem ser usadas antes do aeiou, por exemplo, as vogais, entendeu? Ela pode ser o ga, ge, gi, go, gu, mas também tem o gua, gue, gui... vou parando por aqui.
E o que eu faço? Fiquei sabendo hoje que faria dupla contigo, meu olhar deve estar muito suplicante, ela sorri, estende a mão com algumas folhas em branco, O que é isso, pergunto

   lembro do poema em linha reta, nunca conheci professor que não tivesse errado, todos e todas somos campeões do improviso, e tantas e tantas vezes me senti um parasita sujo, apesar de tudo, tenho tido tanta paciência, mesmo parecendo ridículo e absurdo entre tapetes e etiquetas, planejando e registrando aulas em casa, às vezes, isso me soa mesquinho e grotesco, outras tantas, submisso e arrogante, tenho colegas sofrendo enxovalhos e ficam calados, não querem parecer mais ridículos ainda, sinto o piscar nos olhos dos moços e moças enquanto estou pedindo emprestado algumas aulas, sofrendo a angústia das pequenas coisas ridículas descubro que tenho par neste mundo da escola, essa professora me sorri e confessa que já teve ato ridículo, sofreu enxovalho, tenho sorte de ouvir de alguém a voz humana, ainda há gente no mundo, descubro que fui ridículo sem ter traído

Depois do recreio, você vai ficar com a minha turma, certo?
Isso...
Então, distribui essas folhas em branco, uma folha para cada criança. Pede para elas desenharem e riscarem enquanto você observo elas segurando o lápis, é isso, deixa elas riscando, desenhando, pintando. Observa se elas sabem segurar o lápis. E faça as intervenções que achar necessárias.
Não sei... não estou confiante...
Marko, sem choradeira e pânico, recomeça onde parei. Continua introduzindo o som e a forma das letras, mas sem pressa. E insiste na brincadeira de reconhecer as letras iniciais do próprio nome. O desafio é relacionar som e grafia da letra inicial do nome, estimula a percepção dos sons.

   descubro que dei passos largos em direção ao ridículo e que estou traindo essas crianças, esse não sou eu, não é possível aprender em quinze minutos de recreio o conhecimento e a prática de anos alfabetizando, amorosidade sem competência educativa não trata com a seriedade que merece o sonho de juntos mudar o mundo, O que procuro, ainda que não encontre? E o que essas crianças buscam? Esperança? Aprender a compreender? Tenho o direito de fazer ou continuar um discurso incompreensível em nome do discurso acadêmico?
   não posso cair no simplismo, na tentação da meia verdade, nem negar que a simplicidade faz inteligível a beleza do mundo ético, não tenho o direito de cruzar os braços

Caso você ache viável, avance nas habilidades motoras com mais atividades de pintar e recortar...
Recortar o quê?
Pegue essas tesouras sem ponta, cola e cartolinas. Elas já estavam recortando e colando as letras do alfabeto, acho que minha boca aberta e olhar cismado provocou surpresa na professora Aninha, É só continuar... podem colorir também.

   o sinal
   acabou o recreio

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um professor bagunceirinho (8)

domingo, 5 de outubro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (7)

um professor bagunceirinho (7)

baitasar

     discurso pé-d’água sem nenhum planejamento, completo improviso, correndo os riscos da falta de clareza, confusão nas ideias e dificuldade de entendimento para a turma – os docentes, razão de existir da escola, e no caso da vila, razão de existir e resistir... a Escola Pública com qualidade e amorosidade, libertem-se e me libertem, crianças! –, provocando mal-entendidos, incompreensões didáticas

Professor, eu já fui no zoológico.
Com quem, Caroline?
Com meu pai e a minha mãe...
E você gostou?
Eu fiquei com pena deles, são tão tristes.

     a beleza e a sensibilidade das respostas das crianças, não serve para nada uma escola que não se deixa levar pela observação das suas crianças

É... eu entendo, Caroline. A ideia do zoológico, mesmo sendo bem-intencionada, nunca vai ser suficiente para copiar a liberdade na natureza.
É como estar preso no zoológico, né professor?

     é isso, os zoológicos mesmo com boas intenções de conservação e educação, realmente nunca poderão substituir a liberdade que os animais têm na natureza, eles podem proporcionar segurança e proteção contra ameaças humanas, mas não substituem o ambiente natural, a complexidade dos ecossistemas ou a liberdade de explorar e viver de acordo com seus instintos, a verdadeira liberdade para eles

Eu também já fui no zoológico e os animais vivem soltos. Não estão amarrados.
Muito bem, estou gostando dessa nossa conversa. Como é o teu nome, querida?
Ana...
Então, Ana. O que a Caroline disse é que os animais do zoológico vivem soltos como você disse, mas não podem sair de um lugar para outro. Não podem visitar outros animais diferentes deles. Não é como se estivessem livres na natureza.

     enquanto conversamos, faço uma varredura com o olhar pela sala, a maioria das crianças em silêncio, percebo que escutam com respeito às opiniões e emoções que estão surgindo, quero acreditar que estão construindo seu entendimento do mundo, percebem seus colegas mais falantes se sentindo valorizados e confiantes

Eu nunca fui no zoológico.
Nem eu...
Eu tenho pena...
É, eu sei, Ana. Mas é um refúgio seguro para os animais ameaçados.
Mas eles vivem presos.
Sim. É verdade, mas alguns foram tão caçados e maltratados pelos homens maus que colocamos esses animais no zoológico para não serem mortos.
Professor, em vez dos animais deveriam colocar no zoológicos esses homens maus.
Professor...
Fala, Graziela.
O meu pai também tá preso, perco minha naturalidade, nenhuma preparação prévia, o pensamento rápido congela, Também sinto pena dele. Meu pai diz que sente muita saudade. Os animais sentem saudade, também?, fico em silêncio, ela continua, não percebe meu embaraço, minha incapacidade de me reinventar, ela continua, Acho que devem sentir saudade.

     não estou preparado para sustentar essa conversa, nenhum discurso ou gesto me ocorre para lidar com esse momento de maneira saudável, preciso reconhecer meu limite, respiro fundo e silenciosamente, é isso, nenhum prática pedagógica é neutra, todas estão apoiadas no modo de perceber o mundo e interferir no mundo, a diferença entre escrever e desenhar letras

Voltei! Demorei, professor?

     o Felipe entra feito uma ventania, a pausa que eu preciso, ele me socorre sem saber, sinto vontade de abençoá-lo com um elogio – afinal, elogio de professor é sempre uma benção bem-vinda, né? –, mas não é o que faço, recorro aos velhos hábitos repetitivos, Já estava indo ver onde o moço estava. Vai pro teu lugar.

     olha direto para mim, abre a boca e desiste de dizer o que quer que fosse, comum e profundamente humano esse receio de se expressar por completo, ensaio sutil e inaudível, existe um pensamento ou uma emoção deixada de lado, guardada na desistência, motivada pelo medo de não ser compreendido, causar conflito – acho que não é o caso, estou sendo cínico, né? –, ou parecer delicado e frágil, ou simplesmente por achar que não vale a pena, seja lá o que for
     claro que esse silêncio não significa que o que seria dito perdeu o valor, mas permanece o peso cumulativo da frustração que amontoa, provoca mal-entendidos ou uma solidão emocional, não encontra espaço seguro para se abrir, dizer o que está sentindo e ser escutado com interesse
     ensaiar e calar, que palavras interessantes foram deixadas de serem ditas se não tivesse ficado no deixa pra lá

Professor, o que é veterinário?
Tem girafa no circo?

     aprendia longe das bolas, jogos e brincadeiras sobre o acúmulo silencioso das inquietações internas, dúvidas, dilemas, sentimentos não resolvidos, agora, na sala de aula, como se houvesse um espaço dentro de cada ser humano, jovem ou velho, imberbe ou longevo, onde perguntas se acumulam, esperando por atenção, compreensão ou coragem para serem enfrentadas
     entre tantas tarefas é preciso ficar atento na essência do silêncio, na tempestade das conversas, buscar a verdade da nossa eternidade, guiar estrelas a brilhar, revelar destinos desenfeitados e embelezá-los, vigilantes de si mesmos, atentos ao coração, desvendando sonhos e emoções, a jornada do existir é um aprendizado coletivo e solidário, um caminho sagrado, contagiante, festivo, seja na dor ou na alegria, atentos ao que nos move, nossos sentimentos, a luz que mora em cada pessoa, a verdade que nos conduz às perguntas sobre o sentido da vida, decisões passadas, futuro, sobre quem somos ou o que sentimos, não existem respostas fáceis
     no deixa pra lá, tudo se avoluma dando uma ideia de peso, pressão interna, mais perguntas, mais ansiedade, confusão, paralisia ou gritos – Chega! Silêncio! –, adiando sem esquecer, latentes, perguntas pedindo escuta e reflexão
     estamos constrangidos a ensinar no automático e desistir de educar, uma função mecânica focada apenas na transmissão de informações e habilidades superficiais, sem espaço ou disposição para enfrentar e sofrer com questões mais profundas, é um salve-se quem puder, uma rotina vazia que não alimenta o outro nem a nós mesmos, uma conexão que não vai além do conteúdo, evita os desafios mais profundos do viver
     parece que nestes dias de fast food, basta mastigar e engolir, rápido e funcional, não estamos interessados no aroma, textura e sabor, estamos nos consumindo sem reflexão, desistimos – ou fomos nos deixando convencer – do aroma e paladar de viver momentos, emoções, detalhes, a profundidade de existir, estamos distantes da essência, o aprendizado pela contemplação, a reflexão sobre o valor do tempo, que o significado ganhe espaço com autenticidade
     português e matemática não nos sustentam nem preenchem – adoro português, matemática nem tanto, mas reconheço e aprecio seus valores entre outros tantos que foram deixados de lado –, são usados para nos manterem sem vigor e arrumação para lidarmos com nossas questões mais profundas, ignorar perguntas não as apaga, apenas adia o convite para pararmos, ouvirmos e refletirmos


Professor...
Calma, crianças!

     estou diante de um desafio real, preciso organizar meus pensamentos e meu material – não tenho material, apenas a gravura de uma girafa, eventualmente, poderei usar bolas, cordas e jogos –, preciso estabelecer prioridades, focando no que é mais importante no momento – a girafa! –, evitar a multitarefa, uma coisa de cada vez, vinte e cinco crianças juntas, e ao mesmo tempo, continuar atento às perguntas, ao silêncio, evitar minhas distrações – como se fosse possível 

O que faço com essa girafa?

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um professor bagunceirinho (7)

domingo, 28 de setembro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (6)

um professor bagunceirinho (6)

baitasar

   dormir em paz, tomar um café com um sorriso, querendo dias melhores sem ficar para trás, na memória para sempre, viver em um dia por vez, querer o próximo que já está vindo, daí o caminho do sol aparece do nada, e tagarela não apareço sozinho, delícia a voz doce do agora, Quero continuar me apresentando, posso?
 
Podeeeee!!!!
 
   o tempo é tecido com fios de esperança e demora, tantas vidas cheias de vontade, ainda me tenho e me vejo com alegria, sonhos, espinhos espreitando essa busca por felicidade e paz, uma mistura de esperança e realidade, é simples, o dia que se passa se torna memória, olho o presente e vejo futuro sentado na minha frente, Grato. Vou continuar... sou o professor Marko, professor de educação física. Vocês sabem dizer o que é isso?
   o silêncio desconhecedor doce do agora ou do desinteresse, talvez seja apenas a mudez do desconhecimento ou vergonha do erro impedindo a autenticidade no agir, responder e desejo de agradar, evitar julgamentos e embaraços, superar esse medo exige aceitação e autocompaixão, Ninguém vai se arriscar responder?

O quê, professor?

Quem é que sabe?

Sabe o quê, professor?

O que é a educação física?
 
   sigilo, mudez e calmaria, até que uma menina ergue a mão, pergunto seu nome, Mariana, ela me responde

Muito bem, Mariana. Você sabe o que fazemos nas aulas de educação física?
 
A gente pula corda!
 
Joga bola, Muito bem, temos aqui mais uma voz, pergunto seu nome, João Carlos, responde
 
Muito bem! A Mariana e o João Carlos acertaram, mas é só pular corda ou jogar bola?

   silêncio, novamente, o silêncio que a dúvida trás, um vazio cheio de perguntas que se perdem, não há respostas para uma voz sem som, uma sombra do que pode ser, a incerteza que insiste em se esconder, o coração esperando passar o silêncio de duvidar das respostas, é um caminho sem mapas, uma floresta de sons e cheiros onde pulsam segredos

Professor, na escolinha de futebol é só jogar bola.
 
Mas, João... na escolinha não têm brincadeiras? Vocês não fazem corridas com bola e corridas sem a bola? Não pulam?

Ah! Isso tem também.
 
Então, nas aulas de educação física podemos correr, pular, brincar, jogar bola com os pés, mas também podemos jogar bola com as mãos.

Obaaa!

   percebo outra mão erguida se agitando no ar, um gesto ligeiro, cortando o espaço sutil e passageiro, dança e traça o que quer, uma palavra sem voz, o corpo é uma linguagem e aquela chama acena das janelas ensolaradas, a mão que se agita não quer só falar, descobre no gesto o que a alma quer ser, Professor, posso ir no banheiro?

Como é o teu nome?

Felipe, professor.

   está sentado no lado das janelas ensolaradas, o sol das manhãs, duas classes antes do fundão, os olhos inquietos, parece ter uma energia abundante, mãos desassossegadas que contam histórias no próprio agitar, desconfio das suas intenções, talvez seja riso, talvez seja dor, parece querer explorar um ambiente mais movimentado fora da sala de aula, uma ponte suspensa entre a quietude e a agitação, faço a pergunta de costume, um hábito adquirido ao longo dos anos, Felipe, você não pode esperar um pouquinho?

Tô apertado, professor, me convence, precisa ir ao banheiro, Tudo bem, querido. Vai... mas não esquece que é um pé lá e outro cá, outra recomendação costumeira, normas que o tempo repete, Não esqueça o casaco, vai esfriar, leva o lanche, vai que demora, olha para os dois lados, presta atenção, não fale de boca cheia, nem muito alto, seja gentil, mas firme também, nem todo conselho vem de quem convém, diga já volto, só para me acalmar

Eu também quero, outras duas mãos se agitam ansiosas, Calma, meninos. É um por vez.

   o guri sai apressado e fecha a porta, vou até a janela ensolarada, observo o danado pulando e fazendo caretas, caminho até a porta sem pressa, a turma sorrindo em silêncio, a expectativa submissa ao espanto e a promessa de punição, abro o portal da liberdade, tudo muito rápido, o brilho ensolarado em meus olhos, hesito, Onde está o danado, ele desvigora ao me escutar, Já passou a vontade de ir ao banheiro?
   resiste ao espanto, olha para mim, desiste de me enfrentar, está mudo e assustado, vira de costas e corre, preciso desmanchar meu sorriso antes de voltar e retornar ao púlpito, Então, crianças... o que mais fazemos na escola?

Fila, professor.

    um rito, quase uma oração, muitas vezes não há razão, um passo depois outro e ninguém pode furar nem empurrar, a vez esperando chegar, uma floresta de vontades, intimidades e tensão, na escola parece que ela dura a vida inteira, algumas filas andam, umas dormem ou esmorecem, outras se formam, têm as justas e as que enganam e dobram a esquina, a escola diz que a fila ensina e quem entra aceita a rotina da fila, uma promessa que um dia chega o fim da fila

Minha mãe disse que podemos voltar pra casa depois do almoço na escola.

   a fome não fala, mas diz tudo, pode andar nas ruas, sentada no chão, na fórmica verde, mora no estômago vazio, no nó da garganta, no prato de lata vazio que ronda a criança, espreita o indigente, bate à porta e entra sem ser convidada, isso é coisa antiga que veste a pele do desempregado, está no quintal sem espaço para nada, no preço da feira, na vida pequena  

Humm... e o que mais?

Estudar.

   fome também é mais do que pão, é fome de livro, de luz, um mundo mais justo em que o homem não sirva à fome, quem sente a fome de aprender não esquece e o corpo não se cala  

Isso! Muito bem! Como você se chama?

Grazi... Graziela.

Isso mesmo, Graziela. Na escola, vamos aprender a ler e escrever, descobrir as letrinhas e as palavras, olho as paredes daquela sala, procuro algum material de apoio, algum cartaz, gravuras, sei lá, algo em que possa me apoiar, uma muleta pedagógica, mas não encontro nada, as paredes estão nuas, até que viro, e ali está, atrás de mim, o meu socorro, Aqui está o nosso começo, suspiro aliviado, ao lado do quadro de giz, a gravura grande elegante, linda e feliz, deve ter sobrado da limpeza higiênica das paredes de um ano para o outro, Como não vi isso, me pergunto espantado, devo estar muito assustado, no pescoço está desenhada uma régua gigante, essa gravura com certeza foi usada para as medições do crescimento da criançada, o tamanho de cada uma no início e ao término do ano letivo, É isso... ela vai salvar a manhã!
   volto às crianças, pergunto se conhecem aquele animal

É uma girafaaa!!!

a resposta é imediata e animada, acabara de encontrar a minha tábua de salvação quando tudo parecia desmoronar e o chão teimava em fugir, ali estava ela, me agarrei para não afundar completamente, uma tábua simples, silenciosa, mas poderosa, sussurrando de propósito, Você tem a força que nem sabe que tem, uma chance para não desistir despertando, sempre existe algo que vale a pena guardar, ia continuar resistindo junto com essa criançada

O que vocês sabem sobre a girafa? Vocês sabem onde ela vive?

   as mãos erguidas são simultâneas e espontâneas, as vozes confiantes, Tem o pescoço comprido!

As pernas, também!

Ela mora no zoológico!

É boazinha!

   interrompo aquela euforia de revelações e exibições, Sim... podemos encontrá-la no zoológico, mas o lugar em que ela vive na natureza é bem longe daqui.

O zoológico não é a casa dela?

Ela vive presa no zoológico?

Como é que ela veio? Quem foi buscar a girafa?

   o rio caudaloso e veloz da curiosidade se movimenta no coração das vozes, parece saber que nunca tem frio na sua nascente pura e cristalina, desliza na penumbra, nas curvas, sedento de explorar, sonhos e desejos navegam suas águas, uma correnteza de perguntas, um influxo infinito de segredos a desvendar que se estão só na cabeça podem estar em lugar nenhum, redemoinho que transforma água viva em conhecimento, olho suas mãos erguidas impacientes, escuto suas vozes, faço uma pequena oração silenciosa, Nunca parem de correr inquietas e vorazes, é nessa correnteza que nossa humanidade se refaz.

Crianças... agora façam silêncio e prestem atenção. Vou tentar responder, depois da proposta fico calado, esperando, os corações desacelerando, as mãos abaixando, as vozes se aquietando, até que chega o silêncio, A girafa mora no zoológico por uma combinação de motivos. Alguns animais são ou foram tão caçados pelos homens maus que colocamos no zoológico aqueles animais que sobreviveram, um cuidado que pode parecer exagerado, mas é para não serem mortos. Muitos são levados ao zoológico para terem seus filhotes em lugar seguro e depois serem devolvidos à natureza. Outro motivo é que seu habitat, lugar onde viviam, está destruído. Têm aqueles que foram resgatados do tráfico de animais, sofreram maus tratos, não têm condições de retornar à natureza. Eu sei, é um jeito triste de conhecer melhor esses animais e ajudá-los. E claro, o zoológico também foi criado para oferecer entretenimento e lazer às pessoas.

E dá pra ir no zoológico?

Sim, esse é um passeio que sempre fazemos, mas precisa entrar na fila dos outros passeios.

domingo, 21 de setembro de 2025

crônica - um professor bagunceirinho (5)

um professor bagunceirinho (5)

baitasar

   entro na sala de aula semeando sorrisos, o sol intenso de verão brilhando nas janelas, os alarmes silenciosos acionados, as mãos úmidas e o sorriso excessivo, isso me deixa confuso, junto vem o exame das crianças, fazem rapidamente da cabeça aos pés, sorrindo e me convidando para entrar, sou um hóspede delas, ainda um estrangeiro, alguém a ser decifrado, mastigado e engolindo em pedacinhos ao longo do ano, um gemido oculto, Enfim, sós!
   pergunto-me, O que fiz da minha razão, não passou nem um minuto e a inquietação continua a molestar meu coração com tal intensidade que se espalha, emudece minha voz, percebo que perdi a leviandade própria da idade jovem, aprendera com os anos que tudo tem consequências, então, chegamos até aqui, frente a frente, só me resta aprender esse outro jeito com essas crianças 
   e quantas mais se perderam no caminho, não chegaram até aqui, seguem existindo sem existir, não fazem parte das estatísticas, mas a sala está cheia, vinte e cinco crianças, não posso perder nenhuma destas que chegaram até à escola, a paisagem da janela segue dourada, esparramo meu olhar, não existe mágica para borrifar consciência sobre a ignorância, cognição para se desistir do desconhecimento, convivência para se sair do interior do isolamento, razão em troca da incompreensão, mas posso acrescentar alegria ao medo, acolhimento ao abandono, amorosidade ao desinteresse, Minha turma e as tarefas até deixarem de ser. 
  estou em pé, levemente apoiado na minha mesa, aquela mesa maior, a mesa de fórmica verde do professor, pergunto se conhecem a música dos ‘Dedinhos’, Sim... Não... Sim... Não... 

Então, quem já sabe pode cantar junto. E quem não sabe vai aprender cantando junto. É bem fácil! Estão prontos? Vamos começar:

Alô, polegar!
Como vai, meu xará?
A família vai bem.
E a minha, também!
Como é bom... a gente se encontrar.
Alô, indicador!
Como vai, meu xará?
A família vai bem.
E a minha, também!
Como é bom a gente se encontrar...
Alô, dedo médio!
Como vai, meu xará?
A família vai bem.
E a minha, também!
Como é bom... a gente se encontrar.
Alô, anelar!
Como vai, meu xará?
A família vai bem.
E a minha, também!
Como é bom... a gente se encontrar.
Alô, dedo mingo!
Como vai, meu xará?
A família vai bem.
E a minha, também!
Como é bom... a gente se encontrar.
Alô, dona mão!
Como vai, minha xará?
A família vai bem.
E a minha, também!
Como é bom... a gente se encontrar.

   a alegria da convivência, o contentamento da compreensão, o sorriso de fazer parte, a coragem para aprender, apresentei meu cartão de visitas 
  começo a chamada, nome por nome, encantando-me, rosto por rosto, reconhecendo cada voz, descobrindo que não tem segredo para vivermos 150 anos, basta fazermos parte das memórias destas crianças 
  nossos olhos investigando, nossas vozes aprendendo, não estamos com pressa, é tudo novo, eu e eles, elas e eu, eles e elas, uma sala de cuidados, curiosidades, encantos e estimas, esperanças grandes e pequenas sentadas na fórmica verde, a sala de aula e o abrigo para tantos significados 
  termino a chamada, está feita, E agora Marko, o que fazer? 
  ainda não sei como começar o rebuliço da aprendizagem, essa escola está determinada em acolher as crianças – apesar da incompetência e o descaso do prefeito – e corrigir esse começo incerto, eu devo ser o rebuliço que resta à falta de alternativas, Será que sabia o tamanho do que me pedia, a resposta ainda ressoa em meus ouvidos, Só peço que fique com as duas turmas até a chegada da nova professora... – aqui estou de supetão e sem saber como iniciar esse começo –, Rachel, é como nascer um outro professor, Bobagem, você não nasceu professor, você se fez professor. 
  é isso, redescobrir a arte de sorrir, respeitar aqueles olhares em mim, essa é a vida que eu quis, solto uma risada escandalosa, as crianças me olham surpresas, Crianças, também podemos rir na sala de aula, cantar, conversar, brincar, até dançar, vamos aprender juntos e juntas quando precisamos fazer silêncio e quando podemos ser barulhentos. 
  assobios, gritos, pés batendo no chão, mãos barulhentas na fórmica verde, numa folha desenham um castelo e com cinco ou seis retas fazem um castelo, então é isso, estão mostrando como são barulhentos, preciso ir além dos meus limites e medos, Não deixa de ser uma oportunidade maravilhosa, Marko, esse sou eu me animando 
  abro minha caixa de ferramentas com os mais variados apetrechos, experiências que fui acumulando ao longo desses quarenta e tantos anos em sala de aula, levo o dedo indicador aos lábios 
  a gritaria, o espancamento do chão e da fórmica verde vai desanimando, o silêncio retornando sem gritos ou ameaças, preciso aproveitar esse armistício, Crianças! Vamos no conhecer? Eu começo, pode ser? 
  sinto o silêncio da curiosidade se apossando da turma, suas perguntas precisam respostas imediatas, uma pausa para a presença do desejo de saber, Silêncio, ufa! a curiosidade se refina, espera, permite dúvidas, as respostas são desconhecidas, é preciso contemplação e reflexão, explorar com mais clareza o que ainda está por se descobrir, a essência da curiosidade florescendo suavemente até o conhecimento e compreensão 

O meu nome é Marko, faço uma pausa proposital, continuo com a voz mais suave, Vocês podem me chamar ‘professor Marko’, ou ‘professor’, ou ‘Marko’. Não tenho preferências, um dos meninos sentado lá atrás, na fileira da parede, levanta a mão, pergunto seu nome 

Gustavo, professor. 

Muito bem, Gustavo. Você tem alguma pergunta? 

  ele desce a mão, mas não curva os olhos, Pode ser... professor Girafales? 
  gritos e mais assobios, percebo que o Chaves continua circulando em suas reprises, estão eufóricos com o velho e surrado apelido que me persegue, nenhuma novidade 

Gustavo, gostei muito da sua pergunta, ou do seu atrevimento, poderia ter dito, outro desafio está lançado, Não posso impedir os apelidos e não vejo problema, desde que não intimide ou aborreça alguém. Prestem atenção, se você ou vocês, abri os braços e endureci a voz, inventam um apelido para alguém e acham divertido, mas essa pessoa fica triste e aborrecida com esse apelido, vocês acham que é uma coisa boa?  

Nãoooo! 

Turma... os apelidos podem fortalecer a amizade, destacar carinhosamente um amigo ou amiga, deixar as pessoas mais descontraídas. Mas também podem provocar constrangimentos ou desconforto, alguns apelidos são capazes de deixar as pessoas tristes, sentirem-se desrespeitadas, criando mágoas, conflitos, destacando coisas no coleguinha ou na coleguinha que não gostam que falem ou que mostrem. Eu, particularmente, fico lisonjeado de ser comparado com um professor tão famoso e reconhecido. Mas eu não sou ele, eu sou o ‘professor Marko’ ou o ‘Marko’, professor de vocês. Acho que assim é mais legal, né?