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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Um som de trovão

Ray Bradbury


Um Som de Trovão, de Ray Bradbury, é um conto de ficção científica que explora as consequências imprevisíveis das viagens no tempo. Na história, um grupo de caçadores paga para voltar à pré-história e caçar um dinossauro, mas uma pequena infração às regras – o pisar em uma simples borboleta – desencadeia mudanças drásticas no futuro. Com uma narrativa tensa e envolvente, Bradbury introduz o conceito do “Efeito Borboleta”, mostrando como pequenas ações podem ter impactos imensos. O conto é um clássico da literatura especulativa, combinando aventura, reflexão e uma atmosfera de suspense crescente.


                                          Um Som de Trovão (Ray Bradbury)

SAFARIS NO TEMPO, INC.
SAFARIS PARA QUALQUER ANO DO PASSADO
VOCÊ DIZ QUE ANIMAL.
NÓS O LEVAMOS LÁ.
VOCÊ O ABATE.

     Uma flegma quente acumulou-se na garganta de Eckels; engoliu e empurrou-a para baixo. Os músculos ao redor de sua boca forma­ram um sorriso enquanto ele estendeu sua mão lentamente pelo ar, e naquela mão, balançava-se um cheque de dez mil dólares, para o ho­mem atrás da escrivaninha.

— Este safári garante que eu volte vivo?
— Não garantimos nada — falou o funcionário — exceto os dinos­sauros. — Voltou-se. — Este é o Sr. Travis, seu Guia, no safári ao pas­sado. Ele vai dizer-lhe o que e aonde atirar. Se ele disser para não ati­rar, não se atira. Se desobedecer às instruções, há uma pesada multa de mais de dez mil dólares, mais um possível processo do governo, quando voltar.

     Eckels olhou, através do amplo escritório, numa completa con­fusão disforme, de fios entrelaçados e caixas de aço zumbindo, para uma aurora que agora reluzia laranja, então prateada, e então, azul. Havia um som como uma descomunal pira queimando todo o Tempo, todos os anos e todos os calendários, todas as horas empilhadas e incendiadas.
     Um toque da mão e esta queima, instantaneamente, se reverteria lindamente. Eckels lembrou-se literalmente das palavras da propagan­da. De carvões e cinzas, da poeira e das brasas, como salamandras douradas, os velhos tempos, os anos jovens, podem saltar; rosas sua­vizando o ar; cabelo branco enegrecendo-se, rugas desaparecendo; tu­do ,voltando totalmente à origem, fugir à morte, precipitar-se para o começo de tudo, o sol nascendo nos céus ocidentais, e pondo-se glo­riosamente no leste, luas devorando-se a si mesmas no sentido oposto ao costumeiro, e tudo se sobrepondo, como caixas chinesas, coelhos em cartolas, tudo e todos retornando à morte viva, a morte da se­mente, a morte verde, ao tempo de antes do começo. O toque da mão poderia fazê-lo, o mero toque da mão.

— Inacreditável. — Eckels respirava, com a luz da Máquina sobre seu rosto fino. — Uma verdadeira Máquina do Tempo. — Abanou a cabeça. — É de fazer pensar. Se a eleição tivesse ido mal ontem, eu poderia estar agora me afastando dos resultados. Felizmente Keith ganhou. Será um bom presidente para os Estados Unidos.
— Sim — falou o homem por trás da mesa. — Temos sorte. Se Deutscher tivesse ganho, teríamos a pior ditadura. Há sempre um homem anti-tudo, um militarista, um anti-Cristo, anti-humano, anti-intelectual. O povo nos requisitou, sabe, como que brincando, mas a sério. Diziam que se Deutscher se tornasse presidente, queriam vi­ver em 1492. Claro, não é o nosso negócio conduzir Fugas, mas orga­nizar Safáris. De qualquer maneira, Keth é o presidente, agora. Tudo com que precisa preocupar-se agora é...
— Caçar meu dinossauro — Eckels acabou para ele.
— Um Tyranossaurus rex. O Lagarto Tirano, o monstro mais ina­creditável de toda a história. Assine este termo. O que quer que aconteça com você, não somos responsáveis. Esses dinossauros são muito vorazes.

     Eckels animou-se, nervoso. 

— Tentando assustar-me!
— Francamente, sim. Não queremos que vá alguém que entre em pânico ao primeiro tiro. Seis lideres de safári foram mortos no ano passado, e uma dúzia de caçadores. Estamos aqui para dar-lhe a maior emoção que um caçador de verdade jamais almejou. Mandá-lo de volta sessenta milhões de anos, para pegar a maior caça de to­dos os tempos. Seu cheque ainda está aqui. Pode rasgá-lo.

O Sr. Eckels olhou para o cheque. Seus dedos retorceram-se.

— Boa-sorte — falou o homem atrás da escrivaninha. — Sr. Tra­vis, ele é todo seu.
Moveram-se silenciosamente, atravessando a sala, levando suas armas com eles, em direção à Máquina, rumo ao metal prateado e às luzes gritantes.

     Primeiro, um dia e então uma noite e então um dia e então uma noite, e então era dia-noite-dia-noite-dia. Uma semana, um mês, um ano. uma década! 2055 a.D., 2019 a.D., 1999! 1957! Partida! A máquina rugia. Puseram suas máscaras de oxigênio e testaram os intercomunica­dores.
     Eckels inclinou-se no assento estofado, rosto pálido, maxilar enrijecido. Sentia o tremor em seus braços, olhou para baixo e achou suas mãos firmes no novo rifle. Haviam quatro outros homens na Máquinas. Travis, o líder do Safári, seu assistente, Lesperance, e mais dois outros caçadores, Billings e Kramer. Sentavam-se olhando uns para os outros, e os anos ardiam à volta deles.

— Estas armas podem dar conta de um dinossauro? — Eckels sentiu sua boca dizendo.
— Se os acertar direito — disse Travis pelo rádio do capacete. — Alguns dinossauros têm dois cérebros, um na cabeça e outro no fim da espinha. Ficamos longe destes. É abusar da sorte. Atire as duas primeiras vezes nos olhos, se puder, e cegue-os, e volte a atirar no cérebro.

     A Máquina bramia. O Tempo era um filme passado ao contrá­rio. Os sóis voavam e dez milhões de luas, atrás deles. 

— Pense só — disse Eckels. — Todos os caçadores que jamais viveram nos inveja­riam hoje. Isto faz a África parecer com o Illinois.

     A Máquina desacelerou; seu grito caiu para um sussurro. A Má­quina parou.
     O sol parou no céu.
     A névoa que envolvera a Máquina dissipou-se e estavam num tempo antigo, muito antigo mes

— Cristo ainda não nasceu — disse Travis. — Moisés ainda não foi à montanha, para falar com Deus. As pirâmides ainda estão na terra, esperando para serem recortadas e montadas. Lembrem-se disso. Ale­xandre; César; Napoleão; Hitler; nenhum deles existe.

     O homem fez que sim.

— Aquilo. — Apontou o Sr. Travis — é a selva de sessenta milhões dois mil e cinqüenta e cinco anos antes do presidente Keith.

     Mostrou o caminho de metal que cruzava o verde selvagem, so­bre um amplo pântano, por entre fetos e palmeiras.

— E aquele — disse — é o Caminho, colocado por Safáris no Tem­po, para seu uso. Flutua a seis polegadas acima da terra. Não toca se­não no máximo uma grama, flor ou árvore. É um metal antigravitacional. Seu propósito é evitar que vocês toquem, de qualquer manei­ra que seja, este mundo do passado. Fiquem no Caminho. Não saiam dele. Repito. Não saiam. Por qualquer razão que seja! Se caírem, se­rão multados. E não disparem em nenhum animal que não aprove­mos.
— Por quê? — perguntou Eckels.

     Sentaram-se, na floresta antiga. Gritos distantes de pássaros vie­ram com o vento, e o cheiro de alcatrão e de um velho oceano salga­do, grama úmida, e flores da cor de sangue.

— Não queremos mudar o Futuro. Não pertencemos ao Passado. O governo não gosta de nós aqui. Temos que pagar muita propina para garantir nossa licença. A Máquina do Tempo é um negócio ex­tremamente delicado. Sem saber, poderíamos matar um animal im­portante, um pequeno pássaro, uma barata; mesmo uma flor, assim destruindo um elo importante, numa espécie em evolução.
— Isso não fica muito claro, — falou Eckels.
— Está bem — continuou Travis, — suponhamos que acidental­mente matemos um rato, aqui. Isso quer dizer que todos as futuras famílias deste rato, em particular, serão destruídas, certo?
— Certo.
— E todas as famílias das famílias, daquele rato! Com um pisão de seu pé, você aniquila primeiro um, então uma dúzia, então mil, um milhão, um bilhão de ratos, possivelmente!
— Então estarão mortos; e daí?
— E daí? — Travis torceu o nariz. — Bem, e as raposas que preci­sariam daqueles ratos para sobreviver? Para cada dez ratos a menos, morre uma raposa. Para cada dez raposas a menos, um leão morre de fome. Para cada leão a menos, insetos, abutres, infinitos bilhões de formas de vida são lançados ao caos e à destruição. Eventualmente, tudo recai no seguinte: cinqüenta e nove milhões de anos depois, um troglodita, um, de uma dúzia no mundo inteiro, vai caçar javalis ou tigres de dentes de sabre para comer. Mas você, amigo, pisou em todos os tigres daquela região. Pisando num só rato. Assim o troglodita morre de fome. E este homem das cavernas, note bem, não é qualquer um dispensável, não senhor! Ele é toda uma nação futura. Dele, teriam saído dez filhos. E destes, mais cem, e assim por diante, até a civilização. Destruindo este único homem, destrói-se uma raça, um povo, toda uma história. É comparável a matar um neto de Adão. O pisão de seu pé, num rato, poderia principiar um terremoto, cujos efeitos poderiam abalar nossa terra e destinos pelo Tempo afo­ra, até seus alicerces. Com a morte daquele troglodita, um bilhão de outros ainda não nascidos são mortos no útero. Talvez Roma nunca se erga sobre suas sete colinas. Talvez a Europa fique para sempre uma floresta espessa, e apenas a Ásia cresça, forte e saudável. Pise num rato e esmagará as Pirâmides. Pise num rato e deixará sua mar­ca, como um Grand Canyon, pela Eternidade. A rainha Elizabete poderá nunca nascer. Washington poderá não cruzar o Delaware, po­derá nunca haver Estados Unidos. Portanto, seja cuidadoso. Fique no caminho. Nunca pise fora!
— Percebo — comentou Eckels. — Então não poderíamos nem tocar a grama?
— Exato. Esmagar certas plantas poderia causar somas infinitesi­mais. Um erro mínimo seria multiplicado por sessenta milhões de anos, desmesuradamente. Claro, talvez nossa teoria esteja errada. Tal­vez o Tempo não possa ser alterado por nós. Ou talvez só possa ser alterado de maneiras sutis. Um rato morto aqui causa um desequilí­brio dos insetos ali, uma desproporção populacional mais tarde, uma colheita má mais adiante, uma depressão, fome, e finalmente uma mudança no temperamento social em países remotos. Algo muito mais sutil, como isso. Talvez algo ainda muito mais sutil. Talvez ape­nas uma respiração, um sussurro, um cabelo, um pólen no ar, uma mudança tão levezinha que se olhasse atentamente, não notaria. Quem sabe? Quem pode dizer que realmente sabe? Não sabemos. Estamos só adivinhando. Mas até que tenhamos certeza, se nossos passeios pelo Tempo podem fazer um barulhão ou um barulhinho na História, seremos cuidadosos.. Esta Máquina, este Caminho, suas rou­pas e corpo, foram esterilizados, como sabem, antes da viagem. Usa­mos estes capacetes de oxigênio de modo que não possamos introdu­zir bactérias nesta atmosfera primitiva.
— Como sabemos que animais abater?
— Estão marcados com tinta vermelha — explicou Travis. — Ho­je, antes da viagem, mandamos Lesperance aqui com a Máquina. Ele veio a esta época em particular e seguiu certos animais.
— Estudando-os?
— Isso — falou Lesperance. — Sigo-os por toda sua vida, obser­vando quais vivem mais. Quantas vezes se acasalam. Poucas vezes. A sua vida é curta. Quando vejo que algum vai morrer com uma árvore caindo em cima dele, ou um que se afoga num poço de alcatrão, ano­to a hora, minuto, e segundos exatos. Disparo um revólver de tinta. Deixa uma marca vermelha em seus flancos. Não podemos nos enga­nar. Então correlaciono com a chegada ao Caminho, de modo que encontremos o monstro a não mais de dois minutos de sua morte, inevitável. Desta forma, matamos apenas animais sem futuro, que nunca vão se acasalar de novo. Vê como somos cuidadosos?
— Mas se esta manhã você voltou no tempo, deve ter cruzado conosco mesmos, nosso safári! Como nos saímos? Tivemos sucesso? Conseguimos voltar todos... vivos?
Travis e Lesperance entreolharam-se.
— Isso seria um paradoxo, — falou este último. — O tempo não permite esse tipo de confusão; um homem encontrando a si mesmo. Quando há o risco de tais situações, o tempo desvia-se. Como um avião passando por um vácuo. Sentiu a Máquina pular antes de pararmos? Éramos nós passando por nós mesmos, a caminho do Futuro. Não vimos nada. Não há meio de dizer se esta expedição teve suces­so; se pegamos nosso monstro, ou se todos nós, isto é, o senhor, Sr. Eckels, saiu vivo.

     Eckels sorriu, palidamente.

— Parem com essa conversa — interrompeu Travis. — Todos de pé!

     Estavam prontos para deixar a Máquina.
     A selva era alta, a selva era larga, e a selva era todo o mundo, pa­ra sempre. Sons como música, e sons como tendas voando, encheram o ar, e eram pterodátilos planando com cavernosas asas cinzentas, morcegos gigantescos de delírio e febre noturna. Eckels, equilibrado no estreito Caminho, apontou seu rifle, bem-humorado.

— Pare! — falou Travis. — Não aponte nem mesmo por brinca­deira, idiota! Se a arma dispara...

     Eckels enrubesceu. 

— Aonde está nosso Tyranossaurus?

     Lesperance checou seu relógio de pulso. 

— Logo à frente. Vamos estar no caminho dele em sessenta segundos. Atenção para a tinta vermelha! Não atire até que eu mande. Fique no caminho. Fique no Caminho!

     Moveram-se adiante, pelo vento da manhã.

— Estranho — murmurou Eckels. — Lá adiante, daqui a sessenta milhões de anos, fim das eleições. Keith presidente. Todos celebran­do. E aqui estamos, perdidos num milhão de anos, e eles não existem ainda. As coisas que nos preocuparam por meses, por uma vida intei­ra, nem nasceram nem foram idealizadas, ainda.
— Soltar as travas, todos! — ordenou Travis. Você dá o primeiro tiro, Eckels, Billings o segundo, e Kramer o terceiro.
— Já cacei tigre, javali, búfalo, elefante, mas agora, isto é incomparável — disse Eckels. — Estou tremendo como uma criança.
— Ah — fez Travis. Todos pararam.

     Travis ergueu a mão. 

— À frente — falou, em voz baixa. — Na ne­blina. Lá está ele. Ali está Sua Majestade Real, agora.

     A selva era ampla, e cheia de gorjeios, farfalhares, murmúrios e suspiros.
     Subitamente, tudo cessou, como se alguém tivesse fechado a porta.
     Silêncio.
     Um som de trovão.
     Da neblina, a cem jardas, vinha o Tyranossaurus rex.

— É ele — cochichou Eckels, — é ele... —Psss!

     Ele veio sobre grandes pernas, oleosas, resilientes. Erguia-se a trinta pés, acima da metade das árvores, um grande deus do mal, do­brando suas delicadas garras de relojoeiro perto de seu peito oleoso, reptílico. Cada pata inferior era um pistão, mil libras de osso branco, mergulhadas em grossas cordas de músculos, revestidas por um brilho de uma pele pedregosa, como a malha de um terrível guerreiro. Cada coxa, uma tonelada de carne, marfim, e aço trançado. E da grande gaiola arquejante da parte superior do corpo, aqueles dois braços de­licados pendurados para a frente, braços que poderiam erguer e exami­nar os homens como brinquedos, enquanto se dobrava o pescoço de serpente. E a cabeça mesmo, uma tonelada de pedra esculpida, ergui­da com facilidade contra o céu. Sua boca escancarava-se, expondo uma cerca de dentes como dardos. Seus olhos rolavam, ovos de aves­truz, vazios de qualquer expressão, exceto fome. Fechava a boca num sorriso da morte. Corria, seus ossos pélvicos derrubando para os lados árvores e arbustos, seus pés, com garras, afundando-se na terra úmida, deixando marcas de seis polegadas de profundidade aonde quer que apoiasse seu peso. Corria com um passo deslizante de ballet, muito aprumado e equilibrado para suas dez toneladas. Movia-se, cansado, numa arena ensolarada, suas mãos lindamente reptilianas tateando o ar.

— Ora, vejam — Eckels torceu a boca. — Poderia esticar-se e pegar a lua.
— Pssst! — fez Travis, nervoso. — Ele ainda não nos viu.
— Não pode ser morto. — Eckels pronunciou seu veredito, quie­to, como se não pudesse haver discussão. Tinha avaliado a evidência, e era esta sua abalizada opinião. O rifle em sua mão parecia uma ar­ma de brinquedo. — Fomos loucos de ter vindo. Isto é impossível.
— Cale-se! — silvou Travis.
— Pesadelo.
— Dê meia volta — comandou Travis. — Vá em silêncio para a Máquina. Podemos reembolsar-lhe metade de sua passagem.
— Não percebia como seria grande, — falou Eckels. — Avaliei mal, foi isso. E agora, quero desistir.
— Ele nos viu!

     Lá está a tinta vermelha em seu peito!
     O Lagarto Tirano levantou-se. Sua carne de armadura rebrilhava como mil moedas verdes. As moedas, com uma crosta de lama, fer­viam. No lodo, pequenos insetos esperneavam, de modo que todo o corpo parecia retorcer-se e ondular, mesmo enquanto o monstro não se movia. Expirou. O cheiro de carne crua foi soprado pelos ermos.

— Deixe-me sair daqui — disse Eckels. — Nunca foi como isto, agora. Eu sempre estava certo de que poderia sair vivo. Eu tinha bons guias, bons safáris, e segurança. Desta vez, enganei-me. Encontrei algo que me supera, e reconheço. É demais para eu enfrentar.
— Não corra — falou Lesperance. — Dê a volta. Esconda-se na Máquina.
— Sim, — Eckels parecia entorpecido. Olhou para seus pés, como que tentando fazê-los mover-se. Deu um grunhido, incapaz.
— Eckels!

     Deu alguns passos, piscando, hesitante,

— Não por aí!

     O Monstro, ao primeiro movimento, impulsionou-se para a fren­te com um grito terrível. Cobriu cem jardas em seis segundos. Os rifles ergueram-se rapidamente e iluminaram-se, com o fogo. Um ven­daval da boca da besta engolfou-os na fedentina do lodo, e sangue envelhecido. O Monstro rugiu, dentes brilhando ao sol.
     Eckels, sem olhar para trás, caminhou cegamente para a borda do Caminho, sua arma carregada frouxamente em seus braços, saiu do caminho, e andou, inadvertidamente, pela floresta. Seus pés afun­daram em musgo verde. Suas pernas o carregavam, e ele se sentia só e afastado dos eventos lá atrás.
     Os rifles dispararam de novo. O som perdeu-se no grito e no tro­vão do lagarto. O grande volume da cauda do animal lançou-se para cima, e para o lado. Árvores explodiram em nuvens de folhas e ra­mos. O Monstro torceu suas mãos de joalheiro para acariciar os ho­mens, para dobrá-los ao meio, para esmagá-los, como frutinhas, para empurrá-los para seus dentes e sua garganta ruidosa. Seus olhos, quais rochedos, estavam ao nível dos homens. Viram-se espelhados. Dispararam nas pálpebras metálicas e na luminosa íris.
     Como um ídolo de pedra, como uma avalanche de montanha, o Tyranossaurus caiu. Trovejando, agarrou árvores, e puxou-as consigo. Agarrou e cortou o Caminho. Os homens precipitaram-se para trás, e para longe. O corpo abateu-se, dez toneladas de carne fria e pedra. Os rifles dispararam. O Monstro brandiu sua cauda blindada, crispou suas mandíbulas de serpente, e imobilizou-se. Uma fonte de sangue jorrava de sua garganta. Em algum lugar lá dentro, um saco de fluido estourou. Borbotões nauseantes inundaram os caçadores. Lá estavam vermelhos, brilhantes.
     O trovão dissipou-se.
     A selva estava silenciosa. Depois da avalanche, uma paz verde. Depois do pesadelo, o amanhecer.
     Billings e Kramer praguejavam pesadamente, com seus rifles ain­da fumegando.
     Na Máquina do Tempo, face abatida, Eckels tremia. Tinha con­seguido voltar ao caminho, e subira na Máquina.
     Travis chegou, olhou para Eckels, pegou gaze de algodão e, virou-se para os outros, que estavam sentados sobre o Caminho.

— Limpem-se.

     Limparam o sangue de seus capacetes. Começaram a resmungar, também. O Monstro jazia ali como uma montanha de carne. Dentro dele, podia-se ouvir os sopros e murmúrios, enquanto seus recessos iam morrendo, os órgãos parando de funcionar, líquidos circulando um último instante, de saco para a bolsa, para vesícula, tudo des­ligando-se, parando para sempre. Era como ficar perto de uma loco­motiva acidentada, ou uma escavadeira a vapor, no momento de des­ligar, com todas as válvulas sendo desativadas. Ossos estalavam; a tonelagem de sua própria carne, desequilibrada, peso morto, quebrava os delicados braços, do lado de baixo. A carne se assentava aos tre­mores.
     Outro estalido. Mais acima, um enorme galho de árvore partiu de sua pesada ancoragem, caiu. Golpeou certeiramente a fera morta.

— Pronto. — Lesperance verificou seu relógio. — Bem na hora. Essa era a grande árvore que deveria cair e matar este animal, origi­nalmente. — Olhou para os dois caçadores. — Querem tirar a foto de troféu?
— Quê?
— Não podemos levar o troféu para o Futuro. O corpo deve fi­car aqui, aonde deveria originalmente morrer, de modo que os inse­tos, pássaros, e bactérias possam devorá-lo, como devem. Tudo equi­librado. O corpo fica. Mas podemos tirar uma fotografia de vocês a seu lado.

     Os dois homens fizeram força para pensar, mas desistiram, aba­nando as cabeças.
     Deixaram-se guiar ao longo do Caminho de metal. Afundaram cansados, nos assentos da Máquina. Olharam de novo para o Monstro arruinado, o montículo em estagnação, aonde já estranhos pássaros reptilianos e insetos dourados estavam ocupados com a fumegante armadura.
     Um som no chão da Máquina do Tempo deixou-os tensos. Eckels estava lá, tremendo.

— Lamento muitíssimo — disse.
— Levante-se! — gritou Travis. Eckels levantou-se.
— Vá para o Caminho sozinho — falou Travis, com seu rifle apontado. Não vai voltar para a Máquina. Vamos deixá-lo aqui!

     Lesperance agarrou o braço de Travis. — Espere...

— Fique fora disto! — Travis desvencilhou-se de sua mão. — Este louco quase matou-nos. Mas isso não é tanto assim. Vejam seus sapa­tos! Vejam! Ele saiu do Caminho. Isso nos arruína! Seremos multa­dos! Milhares de dólares de seguro! Garantimos que ninguém deixa o Caminho, e ele o deixou. Ora, o louco! Terei de informar o Governo
Poderão cancelar nossa licença para viajar. Quem sabe o que ele fez ao Tempo, à História!
— Calma, tudo o que ele fez foi pisar em alguma sujeira.
— Como saber? — gritou Travis. — Não sabemos nada! É um mistério! Saia, Eckels!
Eckels mexeu em sua camisa. — Pago qualquer coisa. Mil dóla­res!

     Travis olhou para o talão de cheques de Eckels e cuspiu. 

— Saia. O Monstro está perto do Caminho. Afunde os braços até os cotove­los na boca dele. Então poderá voltar conosco.
— Isto é irrazoável!
— O Monstro está morto, seu idiota. As balas! As balas não po­dem ser deixadas para trás. Elas não pertencem ao Passado; poderão mudar alguma coisa. Aqui está a minha faca. Cave-as!

     A selva estava viva de novo, cheia de antigos tremores e do baru­lho dos pássaros. Eckels voltou-se lentamente para olhar o monte de carniça primordial, aquela montanha de pesadelos e terror. Depois de um longo tempo, como um sonâmbulo, arrastou-se ao longo do Caminho.
     Voltou, tremendo, cinco minutos depois, com seus braços enso­pados e vermelhos até os cotovelos. Estendeu as mãos. Cada uma se­gurava algumas balas de aço. Então caiu e ficou lá, imóvel.

— Você não precisava obrigá-lo a isso — comentou Lesperance.
— Não? É cedo ainda para dizer. — Travis tocou o corpo, com o pé. — Viverá. Da próxima vez não vai sair para caçar este tipo de ca­ça. OK. — Ergueu o polegar para Lesperance. — Dê a partida. Vamos para casa. 1492. 1776. 1812.

     Limparam suas mãos e faces. Trocaram de roupa. Eckels estava de pé de novo, mudo. Travis olhou para ele por dez minutos.

— Não olhe para mim, — exclamou Eckels. — Não fiz nada.
— Quem pode saber?
— Apenas saí do Caminho, foi tudo, um pouco de lama em meus sapatos; que quer que eu faça? Que me ajoelhe e reze?
— Talvez precisemos disso. Estou lhe avisando, Eckels! Posso matá-lo, ainda. Minha arma está engatilhada.
— Estou inocente. Não fiz nada! 1999. 2000. 2055.

     A Máquina parou.

— Saia — ordenou Travis.

     A sala lá estava, tal como quando saíram. Mas não exatamente a mesma. O mesmo homem atrás da mesma escrivaninha. Mas o mes­mo homem não parecia estar sentado exatamente atrás da mesma escrivaninha.
     Travis olhou em volta, depressa. 

— Tudo em ordem por aqui? — foi logo perguntando.
— Claro. Bem vindos ao lar!

     Travis não relaxou. Parecia estar olhando para os próprios áto­mos do ar, e para o modo pelo qual o sol entrava pela janela alta.

— OK, Eckels, saia. E nunca mais volte. Eckels não podia mover-se.
— Ouviu-me, — falou Travis. — Para o quê está olhando? Eckels ficou, cheirando o ar, e havia algo no ar, uma substância tão tênue, tão sutil, que apenas um fraco aviso de seus sentidos su­bliminares avisavam-lhe que estava ali. As cores, branco, cinza, azul, laranja, na parede, na mobília, no céu, pela janela, eram... eram... E havia uma sensação. Sua carne crispava-se. Ficou bebendo aquela estranheza com os poros de seu corpo. Em algum lugar, alguém devia estar soprando naqueles apitos que só os cães podem ouvir. Seu cor­po gritava silenciosamente, em resposta. Além deste aposento, além desta parede, além deste homem, que não era exatamente o mesmo homem que estava sentado àquela mesa, que não era bem a mesma mesa... estava todo um mundo de ruas e gente. Que espécie de mun­do era agora, não havia como dizer. Ele podia senti-los mover-se ali, além das paredes, quase, como peças de xadrez por um vento quen­te...
     Mas a coisa mais imediata era o anúncio pintado na parede do escritório, o mesmo que havia lido hoje ao entrar. De alguma forma, o anúncio havia mudado:

SEFARIS NU TENPO, INC.
SEFARIS PRA QUALQUER ANO PAÇADO.
CÊ DIS QUI ANIMAU.
NÔIS LEVAMOS CÊ LÃ.
CÊOABAT.

     Eckels sentiu-se caindo numa cadeira. Ficou mexendo, como louco, na lama em suas botas. Ergueu um pedaço de algo enlameado, tremendo. — Não, não pode ser, não uma coisinha assim, não!
     Embebida na lama, brilhando em verde e dourado e preto, havia uma borboleta, muito bela, e muito morta.

— Não uma coisa assim! Não uma borboleta! — gritou Eckels.

     Caiu ao chão, uma coisa exótica, pequena, que poderia desman­char equilíbrios e derrubar uma fila de dominós pequenos, e então grandes dominós, e então dominós gigantes, por todos os anos atra­vés do Tempo. A mente de Eckels turbilhonava. Não podia mudar as coisas. Matar uma borboleta não podia ser tão importante! Ou pode­ria?
Seu rosto estava frio. Sua boca hesitava, ao perguntar: — Quem... quem ganhou a eleição presidencial ontem?
O homem atrás da escrivaninha riu-se. — Está brincando? Sabe muito bem. Deutscher, claro! Quem mais? Não aquele maluco pusi­lânime do Keith. Temos um homem de ferro, agora, um homem de peito! — O funcionário parou. — O que há de errado?

     Eckels gemeu. Caiu de joelhos. Examinava a borboleta dourada com dedos trêmulos. 

— Não podemos — implorava ao mundo, a si mesmo, aos funcionários, à Máquina. — Não podemos levá-la de vol­ta, não podemos fazê-la viver de novo? Não podemos recomeçar? Não poderíamos...
     Não se moveu. Olhos fechados, esperou, abalado. Ouviu Travis ofegando, na sala; ouviu Travis apontar o rifle, destravá-lo.
     Houve um som de trovão.

Fim
________________
Leia também:
Ray Bradbury: 
- Um som de trovão
Italo Calvino: 
- O Homem que chamava Teresa        - A ovelha negra                - Consciência   
- O Príncipe Canário
Valdomiro Martins: 
Machado de Assis:
Julio Cortázar:
Las babas del diablo(a)
Clarice Lispector:
 - Tentação                           - Felicidade Clandestina                      - Uma amizade sincera    
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- Come, meu filho               - Perdoando Deus                                 - O ovo e a galinha
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- Os desastres de Sofia       - A criada                                                 - A mensagem
- A quinta história              - Encarnação involuntária                    - Duas histórias a meu modo

domingo, 28 de junho de 2026

Contos Africanos - Todos dependem da boca

Eu conto, tu contas, ele conta... 

Aldónio Gomes,

Estórias africanas (1999)


      Certo dia, a boca, com ar vaidoso, perguntou:

– Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante?

Os olhos responderam:

– O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas.
– Somos nós, porque ouvimos – disseram os ouvidos.
– Estão enganados. Nós é que somos mais importantes porque agarramos as coisas, disseram as mãos.

Mas o coração também tomou a palavra:

– Então e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo!
– E eu trago em mim os alimentos! – interveio a barriga.
– Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos.

Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas andaram... Mas a boca recusou comer. E continuou a recusar.

Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças... Então a boca voltou a perguntar:

– Afinal qual é o órgão mais importante no corpo?
– És tu boca, responderam todos em coro. Tu és o nosso rei!

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Comentando:
     "O conto popular de Moçambique conta uma história de competição. Quando os órgãos do corpo humano começam a brigar para decidir qual deles é o mais importante, todos passam a desvalorizar o papel dos seus "adversários" para sublinhar o seu.

     No final, a disputa tem um mau resultado: todos ficam sem comer e começam a se tornar cada vez mais fracos. A narrativa fala, então, sobre a necessidade de trabalhar em união e colaborar para um bem comum.

Outra questão que é realçada aqui é o valor do alimento. A boca acaba ganhando a discussão, já que a comida é essencial para manter a vida humana. Afinal, como costumamos dizer por aqui, saco vazio não para em pé".

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Leia também:

domingo, 7 de junho de 2026

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (1º de abril - O tempo acabou.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     1º de abril. 
          O tempo acabou. A vida está terminada. Eu realmente vou morrer hoje. Está calor fora das portas... quase sufocante... ou é que o meu peito já está se recusando a respirar? A minha pequena comédia já foi passada. A cortina está caindo.
     Ao ser aniquilado, deixarei de ser supérfluo...
     Akh, como aquele sol é brilhante! Esses raios poderosos exalam a eternidade...
     Adeus, Teréntievna!... Esta manhã, ao sentar-se junto à janela, ela caiu a chorar.... talvez por causa de mim... e talvez, porque ela mesma deve morrer em breve também. Eu a fiz prometer "não fazer mal" a Trésor.
     É difícil para mim escrever...... Eu larguei a minha caneta... É hora! A morte já se aproxima com crescente estrondo, como uma carruagem à noite na calçada: está aqui, está pairando ao meu redor, como aquele sopro tênue que fez os cabelos do profeta ficarem eretos na sua cabeça...
     Eu estou morrendo... Vive, vive.
     E que a vida jovem brinque
     Na entrada da cova,
     E a Natureza a indiferente
     Com feixe de beleza para sempre!
Ivan Turgueniev

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1º de abril - O tempo acabou /              
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

sábado, 6 de junho de 2026

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (31 de março - As coisas estão ruins.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     31 de março. 
          As coisas estão ruins. Eu escrevo estas linhas na cama. O tempo mudou repentinamente desde ontem. O dia está quente - quase um dia de verão. Tudo está descongelando, desmoronando, e correndo. Há um cheiro de terra lavrada no ar: um cheiro pesado, poderoso, opressivo. O vapor está subindo por toda parte. O sol está batendo, queimando bastante. Estou em mau estado. Sinto que estou em decomposição.
     Comecei a escrever um diário, e ao invés disso, o que eu fiz? Eu narrei um incidente da minha própria vida. Tenho balbuciado, lembranças adormecidas que me acordaram e me levaram embora. Escrevi com calma, em detalhes, como se ainda tivesse anos antes de mim; e agora, não há tempo para continuar. A morte, a morte está avançando. Já consigo ouvir o seu crescendo ameaçador. O tempo acabou.... O tempo acabou!...
      E onde está o mal? Faz alguma diferença o que eu disse? Na presença da morte, todas as últimas vaidades terrenas desaparecem. Sinto que estou me acalmando; estou me tornando mais simples, mais claro. Adquiri juízo, mas tarde demais!... É estranho! Estou crescendo imóvel - não é verdade, e, no entanto, estou tomado de pavor. Sim, estou dominado pelo pavor. Meia água sobre o abismo sem voz, bocejando, estremeço, me viro para o lado, com avidez de olhar em todas as direções. Cada objeto é duplamente querido para mim. Não consigo olhar para o meu pobre quarto, sem alegria, enquanto me despeço de cada pequena mancha nas minhas paredes! Adeus a vós mesmos pela última vez, olhos meus! A vida está se retirando; ela está fluindo de maneira uniforme e suave para longe de mim, como a margem dos olhares do viajante por mar. O rosto envelhecido e amarelo da minha governanta, preso num lenço escuro, o samovár sibilante sobre a mesa, o pote de gerânio em frente à janela, e tu, meu pobre cão, Trésor, a caneta com que eu indiquei estas linhas, minha própria mão, eu te vejo agora... aí estás, aí... É possível .... hoje talvez .... Eu não te verei mais? É doloroso para um ser vivo se separar da vida! Por que você bajula em mim, pobre cão? Por que encostas o teu peito na minha cama, aconchegando-te convulsivamente debaixo da tua cauda curta, e nunca me tiras os teus olhos tristes e bondosos? Tens pena de mim? Já sentes instintivamente que teu dono logo não existirá mais? Akh, se eu pudesse também passar em revista mentalmente todos os objetos do meu quarto! Eu sei que essas lembranças são alegres e insignificantes, mas eu não tenho outras. Vazio, vazio assustador! como disse Liza.
     Oh, meu Deus! Meu Deus! Aqui estou eu morrendo.... Meu coração capaz de amar, e pronto para amar, logo deixará de bater... E será que ele será silenciado para sempre, sem ter saboreado nem uma vez a felicidade, sem ter um único momento inchado sob o doce fardo da alegria? Ai de mim! é impossível, impossível, eu sei... Se pelo menos agora, antes da minha morte - e a morte, ainda assim, é uma coisa sagrada, pois eleva todo ser - se alguma voz encantadora, triste, amiga, cantasse sobre mim a canção de despedida da minha própria desgraça, talvez eu pudesse me reconciliar com ela. Mas morrer é estúpido, estúpido...
     Eu acredito que estou começando a delirar.
     Adeus à vida, adeus ao meu jardim, e a vocês, minhas tílias! Quando chegar o verão, vejam que não se esqueçam de se cobrir de flores de cima para baixo.... e que as pessoas boas se deitem na sua sombra perfumada, na grama fresca sob o murmúrio apático de suas folhas, levemente agitadas pela brisa. Adeus, adeus! Adeus a tudo, e para sempre!
     Adeus, Liza! Eu escrevi estas duas palavras - e quase ri. Essa exclamação parece ser livre. Parece que estou compondo um romance sentimental, e terminando em uma carta desesperada...
     Amanhã é o primeiro de abril. Pode ser que eu morra amanhã? Isso seria bastante indecoroso mesmo. No entanto, isso me convém...
     Como o médico tagarelou hoje...

continua em... 1º de abril
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29 de março - Uma geada leve / 30 de março - Uma geada / 31 de março - As coisas estão ruins. / 
1º de abril - O tempo acabou /              
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (30 de março - Uma geada)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     30 de março. Uma geada.
          Então, entrei no escritório de Kiríla Matvyéevitch. Eu daria um bom presente a qualquer um que pudesse me mostrar meu próprio rosto no momento em que aquele digno funcionário, enrolando apressadamente seu Bukhará de roupão em volta dele, se adiantasse para me encontrar com as mãos estendidas. Devo ter irradiado uma atmosfera de modesto triunfo, simpatia paternalista e magnanimidade sem limites... Senti que eu era algo da natureza de Scipio Africanus. Ozhógin estava visivelmente envergonhado e deprimido, evitou o meu olhar e se deslocou de pé em pé onde estava. Percebi também que ele falava de forma desnaturalmente alta, e ao mesmo tempo se expressava muito indefinidamente; indeterminada, mas com fervor, ele me pediu perdão, aludiu indiscriminadamente ao visitante falecido, acrescentou algumas observações gerais e indefinidas sobre o engano e a instabilidade das bênçãos terrenas, e de repente, tomando consciência de uma lágrima no olho, apressou-se a tomar uma pitada de rapé, provavelmente com o objetivo de me iludir quanto à causa que o fazia chorar... Ele usou rapé verde russo, e todo mundo sabe que aquela planta faz até mesmo homens velhos derramarem lágrimas, uma verruga que o olho humano espreita de forma tênue e sem sentido pelo espaço de vários minutos.
     É claro que tratei o velho com muita cautela, indagado após a saúde de sua esposa e filha, e ao mesmo tempo virei a conversa com arte sobre a interessante questão da rotação de culturas. Estava vestido como de costume; mas a sensação de decoro suave e condescendência suave que enchia meu peito, me proporcionou uma sensação festiva e fresca, como se eu estivesse usando um colete branco e um pano branco para o pescoço. Uma coisa me perturbou: a ideia de reencontrar Liza... Por fim, o próprio Ozhógin se propôs a me conduzir até sua esposa. Aquela mulher boa, mas estúpida, ao me contemplar, a princípio ficou assustadoramente envergonhada; mas seu cérebro foi incapaz de preservar uma e a mesma impressão por muito tempo juntos, e por isso ela rapidamente recuperou sua equanimidade. Finalmente eu vi Liza... Ela entrou na sala...
     Eu já esperava encontrar nela um pecador abominável e penitente, e já tinha transmitido antecipadamente ao meu rosto a expressão mais cordial e encorajadora... Por que eu deveria mentir? Eu realmente a amava e tinha sede da felicidade de perdoá-la, de estender minha mão para ela; mas, para meu indizível espanto, em resposta ao meu significativa reverência, ela riu friamente, comentou descuidadamente: "Ah? então é você?" e imediatamente se afastou de mim. Seu riso me pareceu forçado, é verdade, e, em todo caso, não se adaptava ao seu rosto terrivelmente emaciado... Mas, mesmo assim, eu não esperava tal recepção... Eu a encarei com espanto... Que mudança tinha acontecido nela! Entre a antiga criança e esta mulher não havia nada em comum. Ela parecia ter ficado mais alta, ter se desenhado mais reta; todos os seus traços, especialmente os lábios, pareciam ter tido um contorno mais definido... seu olhar tinha se tornado mais profundo, mais firme, mais escuro. Sentei-me com os Ozhógins até o jantar; ela se levantou, saiu da sala e voltou a se apresentar, respondeu calmamente às perguntas e, deliberadamente, não me deu atenção. Pude ver que ela desejava fazer-me sentir que eu não era digno nem da sua ira, embora eu tivesse chegado perto de matar o seu amante. Por fim, perdi a paciência: uma dica maliciosa partiu-se dos meus lábios... Ela estremeceu, ousou olhar rápido para mim, levantou-se e, caminhando até a janela, disse com uma voz que tremia um pouco: "Você pode dizer o que quiser, mas deve saber que eu amo aquele homem e sempre o amarei, e não o considere culpado para comigo no menor grau, pelo contrário...". Sua voz quebrou com um tilintar, ela pausou... tentou se controlar, mas não conseguia, e rompeu em lágrimas e saiu da sala... O mais velho Ozhógins ficou confuso... Apertei a mão com os dois, suspirei, lancei um olhar para cima e fui embora.
     Estou muito fraco, resta pouco tempo para mim, não estou em condições de descrever com minha minuciosidade anterior essa nova série de meditações torturadoras, intenções firmes e outros frutos do chamado conflito interior, que começou em mim após a renovação do meu convívio com os Ozhógins. Não duvidava que Liza ainda amava e amaria o Príncipe por muito tempo.... mas, sendo um homem domesticado agora pelas circunstâncias e que se resignou ao seu destino, eu nem sonhava com o seu amor: Eu só desejava sua amizade, queria ganhar sua confiança, seu respeito, que, segundo afirmações de pessoas experientes, é considerado como a base mais confiável para a felicidade no casamento... Infelizmente, eu havia perdido de vista uma circunstância bastante importante - a de que Liza me odiava desde o dia do duelo. Eu aprendi isso tarde demais.
     Comecei a frequentar a casa dos Ozhógins a partir de então. Kiríla Matvyéevitch era mais cordial comigo e me acariciava mais do que nunca. Tenho até motivos para pensar que na época ele me teria dado sua filha com prazer, embora eu não fosse um par invejável: a opinião pública o condenou e a Liza, e, por outro lado, me lançou aos ares. O tratamento que Liza deu a mim não mudou: ela manteve silêncio a maior parte do tempo, obedeceu quando foi convidada a comer, não mostrou sinais externos de dor, mas, mesmo assim, desperdiçou-se como uma vela. Devo fazer justiça a Kiríla Matvyéevitch: ele a poupou de todas as maneiras possíveis; a velha Madame Ozhógin apenas se levantou enquanto olhava para sua pobre filha. Havia apenas um homem que Liza não evitava, embora ela não falasse muito com ele, a saber, Bizmyónkoff. Os velhos Ozhógins o trataram com severidade, mesmo que grosseiramente; não puderam perdoá-lo por ter agido como segundo; mas ele continuou a vir à casa deles, como se não notasse o desfavor deles. Comigo ele era muito frio, e - estranho dizer!- eu sentia medo dele, por assim dizer. Este estado de coisas durou cerca de quinze dias. Por fim, depois de uma noite sem dormir, decidi ter uma conversa com Liza, para lhe expor o meu coração; para lhe dizer que, apesar do passado, apesar de todo tipo de boatos e fofocas, eu deveria me considerar feliz demais se ela me favorecesse com a mão, me devolvesse a sua confiança. Eu realmente, sem brincadeira, imaginava que eu estava exibindo, como dizem os compêndios da literatura, um exemplo inédito de magnanimidade, e que ela daria seu consentimento por pura estupefação. Em todo caso, eu queria esclarecer a situação com ela, e fugir, definitivamente, do meu estado de incerteza.
     Atrás da casa dos Ozhógins havia um jardim bastante espaçoso, terminando em uma talhadia de tília, negligenciada e superpovoada. No meio desta talhadia ergueu-se uma velha árvore ao estilo chinês; uma cerca de tábua separou o jardim de um beco sem saída. Liza às vezes passeava horas a fio sozinha neste jardim. Kiríla Matvyéevitch sabia disso e tinha dado ordens para que não fosse incomodada, e vigiava-a: "Que a dor dela se canse", disse ele. Quando ela não foi encontrada na casa, bastava tocar uma pequena campainha no alpendre na hora do jantar, e ela se apresentava imediatamente, com a mesma taciturna obcecada nos lábios e no olhar, e uma espécie de folha amarrotada na mão. Então, um dia, observando que ela não estava na casa, fingi que estava me preparando para partir, me despedi de Kiríla Matvyéevitch, coloquei meu chapéu, e saí da ante-sala para o pátio, e do pátio para a rua, mas instantaneamente, com extraordinária rapidez, escorreguei de volta pelo portão e passei pela cozinha para o jardim. Por sorte, ninguém me viu. Sem parar muito para pensar, entrei no bosque com passos apressados. Diante de mim, no caminho, estava Liza. Meu coração começou a bater violentamente no meu peito. Parei curto, suspirei fundo, e estava a ponto de me aproximar dela, quando de repente, sem me virar, ela levantou a mão e começou a ouvir... Por trás das árvores, na direção do beco cego, duas batidas soaram claramente, como se alguém estivesse batendo na cerca. Liza bateu palmas, um leve rangido da porta do postigo tornou-se audível, e Bizmyónkoff emergiu da talhadia. Eu prontamente me escondi atrás de uma árvore. Liza virou-se silenciosamente para ele... Silenciosamente ele puxou o braço dela através do dele, e ambos caminharam suavemente ao longo do caminho. Eu os olhava com espanto. Eles pararam, olharam em volta deles, desapareceram atrás dos arbustos, apareceram novamente, e finalmente entraram nos arbusto. Esta árvore tinha forma circular, um pequeno edifício, com uma porta e uma pequena janela; no centro, uma velha mesa com uma única perna, coberta de fino musgo verde; dois divãs de tábuas desbotadas ficavam nos lados, a alguma distância das paredes úmidas e escuras. Aqui, em dias excepcionalmente quentes, e que uma vez por ano, e em épocas anteriores, tinham o hábito de tomar chá. A porta não fechava de forma alguma; a moldura já havia caído da janela há muito tempo e, pegando por um canto, balançou de luto, como a asa ferida de um pássaro. Eu me furtei até a árvore e olhei cautelosamente através de uma fenda da janela. Liza estava sentada em um dos pequenos divãs, com a cabeça inclinada; sua mão direita estava no colo; Bizmyónkoff estava segurando a esquerda em ambas as mãos. Ele estava olhando para ela com simpatia.

"Como você se sente hoje?" - perguntou-lhe ele, em voz baixa.

     E acrescentou: "Mesmo assim" - respondeu ela - "nem melhor nem pior" - "nem melhor nem pior" - "e acrescentou, levantando os olhos com desalento.
     Bizmyónkoff não respondeu.

"O que você acha", prosseguiu ela;-"Será que ele vai me escrever de novo?"
"Eu não acho, Lizavéta Kiríllovna!"

     Ela ficou em silêncio por um tempo.

"E, na verdade, sobre o que ele pode escrever? Ele me contou tudo em sua primeira carta. Eu não podia ser sua esposa; mas fui feliz... não por muito tempo.... Eu era feliz....".

     Bizmyónkoff baixou os olhos.

"Akh," - prosseguiu com animação;-"se você soubesse o quanto o Tchulkatúrin é repugnante para mim!.... Sempre me parece que eu posso ver ..... o sangue dele ... nas mãos daquele homem". (escrevi atrás da minha rachadura.) "Entretanto," - acrescentou ela pensativamente;-"quem sabe, - talvez não tivesse sido para aquele duelo..... Akh, quando o vi ferido, senti imediatamente que eu era toda dele".
"Tchulkatúrin te ama," -comentou Bizmyónkoff.
"O que me importa isso? Eu preciso do amor de alguém?...". Ela pausou, e acrescentou lentamente: ... "exceto o seu. Sim, meu amigo, o seu amor é indispensável para mim: sem você eu deveria ter perecido. Você me ajudou a suportar momentos terríveis....".

     Ela cessou..... Bizmyónkoff começou a acariciar sua mão com ternura paterna. "Não há ajuda para isso, não há ajuda para isso, Lizavéta Kiríllovna," - repetiu, várias vezes consecutivas.

"Sim, e agora," - disse ela, sem fazer barulho, - "acho que eu deveria morrer se não fosse por você". Só você me sustenta; além disso, me lembra.... Pois tu sabes tudo. Você se lembra como ele era bonito naquele dia?..... Mas perdoa-me: deve ser doloroso para ti.....".
"Fale, fale! O que você quer dizer com isso? Deus te abençoe!" -Bizmyónkoff a interrompeu. Ela apertou a mão dele.
"Você é muito gentil, Bizmyónkoff," - continuou ela:-"você é tão gentil quanto um anjo". O que eu devo fazer? Eu sinto que vou amá-lo até morrer. Eu o perdoei, eu lhe sou grata. Que Deus lhe conceda a felicidade! Que Deus lhe dê uma esposa conforme o seu próprio coração" - E seus olhos cheios de lágrimas - "Se ao menos ele não me esquece, se ao menos de vez em quando ele lembrará de sua Liza. Vamos sair," - acrescentou ela, após uma breve pausa.

     Bizmyónkoff levantou a mão para os lábios dele.

"Eu sei - ela começou com calor - que todos estão me culpando, todos estão jogando pedras em mim agora". Deixe-os! Mesmo assim, eu não trocaria minha infelicidade pela felicidade deles... não! não! não!... Ele não me amou por muito tempo, mas ele me amou! Ele nunca me enganou: ele não me disse que eu seria sua esposa; eu mesma nunca pensei em tal coisa. Só o pobre papai esperava por isso. E agora eu ainda não estou totalmente infeliz: resta-me a memória, e por mais terríveis que sejam as consequências... Estou sufocada aqui... foi aqui que eu o vi pela última vez... Vamos para o ar"...

     Eles se levantaram. Eu mal consegui saltar para o lado e me esconder atrás de uma tília grossa. Eles saíram da árvore e, até onde pude julgar pelo som dos seus passos, saíram para o bosque. Não sei quanto tempo fiquei ali parado, sem me mexer do local, absorto numa espécie de surpresa irracional, quando de repente o som dos passos se tornou audível novamente. Eu comecei e espreitei cautelosamente da minha emboscada. Bizmyónkoff e Liza estavam voltando pelo mesmo caminho. Ambos estavam muito agitados, especialmente Bizmyónkoff. Ele estava chorando, aparentemente. Liza parou, olhou para ele, e pronunciou as seguintes palavras com clareza: "Eu concordo, Bizmyónkoff. Eu não teria consentido, se você apenas quisesse me salvar, para me tirar de uma posição assustadora; mas você me ama, você sabe tudo - e você me ama; eu nunca encontrarei um amigo mais confiável e fiel. Eu serei tua esposa".
     Bizmyónkoff beijou a mão dela; ela sorriu tristemente para ele, e foi para a casa. Bizmyónkoff correu para a mata, e eu segui o meu caminho. Como Bizmyónkoff provavelmente havia dito a Liza exatamente o que eu pretendia dizer a ela, e como ela havia dado a ele exatamente a resposta que eu esperava ouvir dela, não havia necessidade de me incomodar mais. Quinze dias depois, ela casou com ele. Os velhos Ozhógins ficaram felizes em conseguir qualquer noivo.
     Bem, diga-me agora, eu não sou um homem supérfluo? Será que eu não fiz em todo esse caso o papel de um homem supérfluo? O papel do Príncipe... quanto a isso, não há nada a dizer; o papel de Bizmyónkoff também é compreensível... Mas eu? por que me envolvi nisso?... que estúpida quinta roda para a carroça que eu era!... Akh, isso é amargo, amargo!... Então agora, como dizem os estivadores do Volga: "Heave-ho! heave-ho!" - um dia a mais, depois outro, e nada mais será amargo ou doce para mim.

continua em... 31 de março 
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29 de março - Uma geada leve / 30 de março - Uma geada / 31 de março - As coisas estão ruins. /             
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (29 de março - Uma geada leve.)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     29 de março. Uma geada leve; ontem à noite houve um descongelamento.
 
          Ontem não consegui continuar com meu diário; como Póprishshtchin, eu deitava a maior parte do tempo na cama, e conversava com Teréntievna. Tem uma mulher pra você! Há 60 anos atrás ela perdeu seu primeiro noivo da peste, ela sobreviveu a todos os seus filhos, ela mesma é velha de forma imperdoável, bebe chá à vontade, está bem alimentada, bem vestida; mas sobre o que você acha que ela falou comigo ontem? Eu tinha pedido que a capa de um velho casaco de farda fosse dada a outra velha completamente desnudada para um colete (ela usa uma peça de peito em forma de colete).... A capa foi muito bem comida pelas traças, então por que ela não deveria tê-la? "Bem, me surpreende que eu seja sua governanta.... O-okh, meu querido paizinho, é um pecado para você fazer isso..... E eu não tenho cuidado de você?".... e assim por diante. A velha impiedosa me desgastou bastante com suas reprovações.... Mas vamos voltar à história.
     Então, eu sofri como um cão que teve a parte traseira do seu corpo atropelada por uma roda. Só então, - somente depois da minha expulsão da casa dos Ozhógins, - fiquei definitivamente consciente do prazer que um homem pode ter com a contemplação de sua própria infelicidade. Oh, homens! na realidade, vós sois uma raça miserável!... Bem, mas isso está na natureza de um comentário filosófico.... Passei meus dias em total solidão, e só na mais rotunda e até mesmo na base é que pude descobrir o que estava acontecendo na família Ozhógin, o que o Príncipe estava fazendo. Meu criado conheceu a tia-avó da esposa de seu cocheiro. Esse conhecido me deu um alívio, e meu servo rapidamente foi capaz, a partir de minhas dicas e dons, de adivinhar o que lhe cabia falar com seu mestre, quando ele estava tirando as botas deste último à noite. Às vezes, eu me encontrava na rua com algum membro da família Ozhógin, Bizmyónkoff, ou com o Príncipe.... Com o Príncipe e o Bizmyónkoff eu troquei reverências, mas não entrei em conversa. Vi Liza três vezes ao todo: uma vez com sua mãe, em uma loja de farinha de milho, uma vez em uma festa aberta com seu pai, sua mãe e o Príncipe; uma vez na igreja. Claro que não me atrevi a me aproximar dela, e só a olhei de longe. Na loja, ela estava ansiosa, mas alegre.... Ela estava pedindo algo para si mesma, e tentando usar faixas de fita. Sua mãe olhava para ela, com as mãos presas no estômago, o nariz erguido, e se entregava àquele sorriso estúpido e afetuoso que só é admissível para as mães carinhosas. Liza estava na festa com o Príncipe.... Jamais esquecerei aquele encontro! Os velhos Ozhógins estavam sentados no banco de trás e o Príncipe e Liza na frente. Ela estava mais pálida do que de costume; duas raias cor-de-rosa mal eram perceptíveis em suas bochechas. Ela estava meio virada em direção ao Príncipe; apoiando-se na mão direita estendida (ela segurava seu guarda-sol à esquerda), e inclinando a cabeça, ela olhava diretamente no rosto dele com seus olhos expressivos. Naquele momento ela estava se entregando totalmente a ele, confiando nele de forma irrevogável. Não tive oportunidade de olhar bem para o rosto dele mas me pareceu que ele também estava profundamente comovido.
     A terceira vez que eu a vi foi na igreja. Não haviam passado mais de dez dias desde o dia em que eu a encontrei na festa com o Príncipe, não mais de três semanas desde o meu duelo. O negócio em razão do qual o Príncipe tinha chegado a O*** já estava há muito terminado; mas ele ainda adiou sua partida; ele relatou em Petersburgo que estava doente. Na cidade, as pessoas esperavam todos os dias uma proposta formal de sua parte para Kiríla Matvyéevitch. Eu mesmo só estava esperando este último golpe, para me retirar para sempre. A cidade de O**** tinha se tornado repugnante para mim. Eu não podia ficar parado em casa, e de manhã à noite eu me arrastava pelos subúrbios. Num dia cinzento e molhado, quando voltava de um passeio que tinha sido cortado pela chuva, entrei na igreja. O culto da noite estava apenas começando, havia muito poucas pessoas presentes; olhei à minha volta, e de repente, perto de uma janela, descobri um perfil familiar. No início não o reconheci; aquele rosto pálido, aquele olhar extinto, aquelas bochechas afundadas - poderia ser a mesma Liza que eu havia visto duas semanas antes? Envolvida num manto, sem chapéu na cabeça, iluminada de um lado por um raio frio de luz, que caiu pela ampla janela de vidro branco, ela olhava fixamente para a ikonostásis, e, aparentemente, fazendo um esforço violento de oração, esforçando-se para fugir de algum tipo de rigidez abatida. Uma face gorda, vermelha, com capas amarelas no peito, estava de pé atrás dela, com as mãos presas atrás das costas, e olhando com surpresa sonolenta para sua amante. Eu tremia por toda parte; comecei a ir até ela, mas parei curto. Um presságio torturante agarrou meu peito. Liza nunca se mexeu até o final das vésperas. Toda a congregação partiu, um cantor começou a varrer a igreja, e ainda assim ela não se mexeu de seu lugar. A capa se aproximou dela, tocou sua bata, olhou em volta, passou a mão sobre o rosto e foi embora. Eu a acompanhei, à distância, até sua casa, depois voltei para casa.

"Ela está arruinada!". exclamei, ao entrar no meu quarto.

     Sendo um homem, não sei até hoje qual era então a natureza das minhas sensações. Lembro-me que, dobrando os braços, atirei-me ao divã, e rebentei os olhos no chão; mas não sabia por que, só que, em meio à minha dor, parecia estar satisfeito com algo... Eu não teria admitido isso, de forma alguma, se não estivesse escrevendo por mim mesmo.... Eu realmente tinha sido torturado por pressentimentos dolorosos, terríveis.... e, quem sabe, talvez eu devesse ter ficado desconcertado se eles não tivessem sido cumpridos. "Tal é o coração humano", exclamava um professor russo de meia-idade neste ponto, com uma voz expressiva, levantando no alto seu grosso indicador adornado com um anel canelado. Mas que nos importa a opinião de um professor russo com uma voz expressiva, e um anel canelado no dedo?
     Seja como for, meus pressentimentos se mostraram corretos. A notícia espalhou-se de repente pela cidade de que o príncipe havia se despedido, em conseqüência, nominalmente, de uma ordem de Petersburgo; que ele havia ido embora sem ter feito qualquer proposta de casamento, nem com Kiríla Matvyéevitch nem com sua esposa, e que Liza continuaria a chorar sua perfídia até o final de seus dias. A partida do príncipe havia sido totalmente inesperada, pois, tão tarde quanto na noite anterior, seu cocheiro, de acordo com as afirmações do meu criado, não havia suspeitado minimamente da intenção de seu amo. Esta notícia me lançou em uma febre. Vesti-me imediatamente, estava a ponto de correr para a casa dos Ozhógins; mas depois de pensar no assunto, concluí que seria decoroso esperar até o dia seguinte. Porém, não perdi nada por ficar em casa. Naquela noite, correu para me ver um certo Pandopipópulo, um grego em suas viagens, que acidentalmente ficou preso em O***, uma fofoca de primeira grandeza, que, mais do que qualquer outro, tinha se apaixonado por mim em meu duelo com o Príncipe. Ele nem sequer deu tempo ao meu servo para anunciá-lo, mas forçou bastante sua entrada no meu quarto, sacudiu-me vigorosamente pela mão, fez mil desculpas para sua conduta, chamou-me modelo de magnanimidade e destemor, retratou o Príncipe nas cores mais negras, não poupou os velhos Ozhógins, a quem o destino, na sua opinião, justamente castigou; deu um golpe em Liza também de passagem, e fugiu, depois de me beijar no ombro. Entre outras coisas, aprendi dele que o Príncipe, en vrai grand seigneur, na véspera de sua partida, tinha respondido friamente a uma delicada dica de Kiríla Matvyéevitch, que não tinha a intenção de enganar ninguém e não estava pensando em se casar; tinha se levantado, e fez sua reverência, e essa foi a última vez que o viram...
     No dia seguinte, eu me dirigi à casa dos Ozhógins. O criado de pés de olhos claros, na minha aparência, saltou do banco da ante-sala com uma rapidez relâmpago; ordenei-lhe que me anunciasse. O lacaio se apressou e voltou imediatamente: "Por favor, entre", disse ele; "Tenho ordens para o convidar a entrar." Entrei no escritório de Kiríla Matvyéevitch.... Até amanhã.

continua em... 30 de março 
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29 de março - Uma geada leve / 30 de março - Uma geada /          
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Turguêniev - Diário de um Homem Supérfluo (27 de março - O descongelamento continua)

DIÁRIO DE UM HOMEM SUPÉRFLUO 

Ivan Turgenev

     27 de março - O descongelamento continua.
 
          Os assuntos estavam no estado descrito acima: o Príncipe e Liza se amavam, os Ozhógins mais velhos esperavam para ver o que aconteceria; Bizmyónkoff também estava presente - nada mais podia ser dito dele; Eu estava flopando como um peixe no gelo, e vigiando o melhor que podia, - lembro-me que, naquela época, eu me encarregava de pelo menos não permitir que Liza perecesse no laço do sedutor, e em consequência disso, eu tinha começado a prestar especial atenção às servas e às "costas" fatais da entrada - embora, por outro lado, às vezes sonhava por noites inteiras juntos com a comovente magnanimidade com que, com o passar do tempo, estendia minha mão para a vítima iludida e lhe dizia: "O homem astuto te traiu; mas eu sou teu fiel amigo... esqueçamos o passado e sejamos felizes" - quando, de repente, uma alegre notícia foi espalhada por toda a cidade: o Marechal da Nobreza do condado pretendia dar uma grande festa em honra do respeitado visitante, em sua própria propriedade Gornostáevka, também chamada Gubnyakóva. Todas as hierarquias e poderes da cidade de O*** receberam convites, começando com o chefe de polícia e terminando com o farmacêutico, um alemão de cara espinhosa, com cruéis pretensões à habilidade de falar russo puramente, em consequência da qual ele estava constantemente usando expressões violentas com absoluta inaptidão, como, por exemplo: "O diabo me leva, sinto-me um belo companheiro afoito hoje"... Iniciaram-se preparações terríveis, como era de se esperar. Uma loja de cosméticos vendeu dezesseis frascos de pomada azul escuro, com a inscrição "à la jesmin", com o personagem russo denotando a dura pronúncia após o n. As jovens se abasteciam de batas duras, torturadas na cintura, e com promontórios na barriga; as mamas erguiam-se em suas próprias cabeças decorações formidáveis, sob o pretexto de que eram bonés; os pais, agitados, deitavam-se sem as pernas traseiras, como diz o ditado...
     Chegou, finalmente, o almejado dia. Eu estava entre os convidados. A distância da cidade até Gornostáevka foi contada em nove versos. Kiríla Matvyéevitch me ofereceu um lugar em sua carruagem; mas eu recusei.... Assim, as crianças castigadas, desejosas de se vingar bem de seus pais, recusam suas viandas favoritas à mesa. Além disso, senti que a minha presença iria envergonhar Liza. Bizmyónkoff tomou o meu lugar. O Príncipe saiu em sua própria berlinda, eu em uma chalaça miserável, que eu havia contratado a um preço exorbitante para esta ocasião festiva.
     Eu não vou descrever a festa. Tudo nela era como de costume: músicos com chifres notavelmente falsos na galeria; proprietários de terras flamejantes com famílias antiquadas; sorvete lilás, mingau viscoso; homens com botas remendadas e luvas de algodão tricotadas; leões provincianos com rostos convulsivamente distorcidos; e assim por diante, e assim por diante. E todo esse pequeno mundo circundava o Príncipe ao redor de seu sol. Perdido na multidão, despercebido até pelas donzelas de quarenta e oito, com espinhas nas sobrancelhas e flores azuis nos templos, eu continuava olhando incessantemente agora para o Príncipe, e agora para Liza. Ela estava muito encantadoramente vestida e muito bonita naquela noite. Eles só dançaram juntos duas vezes (ele dançou a mazurca com ela, isso é verdade!), mas, em todo caso, assim me pareceu, existia entre eles uma certa comunicação misteriosa e ininterrupta. Mesmo quando ele não estava olhando para ela, não estava falando com ela, ele parecia estar constantemente se dirigindo a ela, e só a ela; ele era bonito e brilhante, e encantador com os outros - só para ela. Ela estava evidentemente consciente de que era a rainha da festa - e amada; o seu rosto era simultaneamente irradiado de alegria infantil e orgulho inocente, e de repente foi iluminado por um sentimento diferente, mais profundo. Ela exalou uma atmosfera de felicidade. Eu observei tudo isso..... Não era a primeira vez que eu tinha a oportunidade de observá-los..... No início isso me doía muito, depois parecia me tocar, e finalmente me enfurecia. De repente senti-me notavelmente malicioso e, lembro-me, regozijei-me maravilhosamente com essa nova sensação, e até concebi um certo respeito por mim mesmo. "Vamos mostrar-lhes que ainda não perecemos!". Eu disse para mim mesmo. Quando os primeiros sons de convocação para a mazurca trovejaram, eu olhei calmamente, friamente, e com muita facilidade, aproximei-me de uma jovem de rosto longo, com um nariz vermelho e brilhante, uma boca estranhamente aberta, que parecia ter sido desengatada, e um pescoço sinuoso, que lembrava um cabo de um bastão, - aproximei-me dela, e estalando os meus calcanhares juntos, convidei-a para a dança. Ela usava um vestido rosa, que parecia ter se desbotado recentemente e não completamente; acima de sua cabeça tremia uma espécie de mosca melancólica desbotada em uma mola de latão muito grossa; e, ao todo, a jovem mulher estava impregnada, se é que se pode expressar assim, com uma espécie de tédio azedo e um mal-estar antiquado. Desde o início da noite, ela não havia se mexido de seu assento; ninguém havia pensado em convidá-la para dançar. Uma jovem de dezesseis anos, em falta de qualquer outro parceiro, estava a ponto de apelar para esse jovem, e já havia dado um passo em sua direção, mas havia se desentendido, olhado para si mesma, e se escondeu rapidamente no meio da multidão. Você pode imaginar com que alegre surpresa ela aceitou minha proposta!
     Eu a conduzi solenemente por todo o corredor, encontrei duas cadeiras, e me sentei com ela no círculo da mazurca, o décimo par, quase em frente ao Príncipe, a quem, é claro, tinha sido concedido o primeiro lugar. O Príncipe, como já disse, estava dançando com Liza. Nem eu nem a minha parceira estávamos acostumados com convites; consequentemente, tínhamos muito tempo para conversar. Verdade seja dita, minha dama não se distinguia pela capacidade de pronunciar palavras em discurso coerente: ela empregava mais a boca para a execução de um estranho sorriso para baixo, até então não visto por mim; ao mesmo tempo, ela virava os olhos para cima, como se alguma força invisível esticasse o rosto; mas eu não precisava da sua eloquência. Felizmente, eu me sentia cruel, e minha parceira não me inspirou timidez. Comecei a criticar tudo e todos no mundo, colocando uma ênfase especial nos chicoteadores - os raptores da capital, e os fanfarrões de Petersburgo - e me enfureci tanto que, finalmente, minha senhora foi deixando de sorrir, e, em vez de rebolar os olhos para cima, ela começou - com espanto, deve ter sido - a olhar de olhos cruzados, e de uma maneira tão estranha, para começar, como se ela tivesse percebido, pela primeira vez, que tinha um nariz no rosto; e meu próximo vizinho, um daqueles leões de quem falei acima, mais de uma vez me escaneou com um olhar, até se virou para mim com a expressão de um ator no palco que despertou numa terra desconhecida, tanto quanto para dizer: "Ainda estás aí?" Entretanto, enquanto eu cantava como um rouxinol, como diz o ditado, eu ainda continuava a observar o Príncipe e Liza. Eles eram constantemente convidados; mas eu sofria menos quando ambos estavam dançando; e mesmo quando estavam sentados lado a lado e conversando um com o outro, e sorrindo com aquele sorriso suave que se recusa a deixar o rosto de amantes felizes, - mesmo assim eu não me sentia tão magoado; mas quando Liza estava agitando pelo salão com uma dança galante, e o Príncipe, com seu lenço de tecido azul nos joelhos, pensativamente a seguia com os olhos, como se admirasse sua conquista, - então, oh, então eu experimentei torturas insuportáveis, e no meu vexame eu emitia comentários tão maliciosos, que as pupilas dos olhos da minha companheira reclinavam-se completamente de ambos os lados, no nariz dela!
     Enquanto isso, a mazurca estava chegando ao fim.... Eles começaram a executar a figura conhecida como "la confidente". Nessa figura a senhora se senta no centro do círculo, escolhe outra senhora para sua confidente e sussurra em seu ouvido o nome do cavalheiro com quem deseja dançar; o cavaleiro leva até ela os dançarinos, um a um, e a confidente os recusa até que, finalmente, o homem feliz que já foi designado faz sua aparição. Liza senta-se no centro do círculo, e escolhe a filha da anfitriã, uma daquelas jovens de quem se diz que são "Deus as abençoe". Em vão apresentou cerca de meia partitura de jovens (a filha da anfitriã os recusou a todos, com um sorriso agradável), e, finalmente, recorreu a mim. Algo inusitado aconteceu em mim naquele momento: Eu parecia piscar o olho com todo o meu corpo, e tentei declinar; no entanto, levantei-me e fui. O Príncipe me conduziu até Liza..... Ela nem olhou para mim; a filha da anfitriã balançou a cabeça em negação, o príncipe se voltou para mim, e, provavelmente pela expressão do meu rosto em forma de ganso, fez de mim um arco profundo. Essa reverência zombeteira, essa recusa, apresentada a mim pelo meu triunfante rival, seu sorriso negligente, a desatenção indiferente de Liza, - tudo isso provocou uma explosão da minha parte. Eu me aproximei do Príncipe e sussurrei em uma fúria frenética: "Eu acho que você está se permitindo zombar de mim?"
     O Príncipe me olhou com surpresa desdenhosa, novamente me pegou pela mão, e com o ar de me levar de volta ao meu lugar, respondeu friamente: "Eu?".

"Sim, você, você!" - Eu prossegui num sussurro, obedecendo-lhe, no entanto; isto é, seguindo-o até o meu lugar; - "você! Mas eu não pretendo permitir que nenhum Petersburgo frívolo comece..."

     O Príncipe sorriu com calma, quase com paternalismo, agarrou minha mão com força, sussurrou: 

"Eu te entendo; mas este não é o lugar certo; vamos conversar sobre isso", afastou-se de mim, aproximou-se de Bizmyónkoff e o levou até Liza. O pálido e mesquinho funcionário provou ser o cavaleiro escolhido. Liza se levantou para conhecê-lo.

     Quando me sentei ao lado do meu parceiro com a melancólica mosca na cabeça dela, senti-me quase um herói. Meu coração pulou violentamente dentro de mim, meu peito inchou nobremente sob minha camisa engomada - frente, minha respiração veio rápida e profunda - e de repente, eu olhei para o leão adjacente de uma maneira tão magnífica, que ele involuntariamente balançou a perna que estava voltada para mim. Tendo me livrado desse homem, passei os olhos pelo círculo dos dançarinos.... Parecia-me que dois ou três senhores me olhavam não sem assombro; mas, no geral, minha conversa com o Príncipe não havia sido notada.... Meu rival já estava sentado em sua cadeira, perfeitamente composto, e com o seu antigo sorriso no rosto. Bizmyónkoff levou Liza ao seu lugar. Ela acenou-lhe com um simpático aceno de cabeça e virou-se imediatamente para o Príncipe, como me pareceu, com certa ansiedade; mas ele riu em resposta, acenou graciosamente com a mão, e deve ter dito algo muito agradável para ela, pois ela se enxugava de prazer, soltou os olhos, e depois os repreendeu mais uma vez com carinhosa censura.
     O estado de espírito heroico que de repente se desenvolveu em mim não desapareceu até o fim da mazurca; mas eu não fiz mais besteiras, e não critiquei, e apenas lancei um olhar severo e sombrio de vez em quando para a minha senhora, que, evidentemente, começava a ter medo de mim, e foi reduzida a um estado de gaguez completo e piscou incessantemente, quando a conduzi ao reduto natural de sua mãe, uma mulher muito gorda, com um vestido vermelho. Tendo entregue a jovem assustada como se fosse minha amada, fui até a janela, apertei as mãos e esperei para ver o que iria acontecer. Esperei um bom tempo. O Príncipe estava constantemente cercado pelo anfitrião, -precisamente que, cercado, como a Inglaterra está cercada pelo mar, - sem mencionar os outros membros da família do Marechal da Nobreza, e os outros convidados; e, além disso, ele não podia, sem despertar surpresa universal, aproximar-se de um homem tão insignificante como eu, e entrar em conversa com ele. Essa minha insignificância, lembro-me, foi até uma fonte de deleite para mim, então. " Violinos!". Pensei, ao vê-lo voltar-se agora cortês para um, agora para outro personagem respeitado que buscava a honra de ser notado por ele, nem que fosse por "um piscar de olhos", como dizem os poetas:- " Violinos, meu caro amigo!.... Tu virás a mim por e por mim, porque eu te insultei".
     Finalmente o Príncipe, tendo-se livrado inteligentemente da multidão de seus adoradores, passou por mim, ousou olhar, não exatamente para a janela, nem ainda exatamente para o meu cabelo, estava a ponto de se afastar, e de repente parou, como se tivesse acabado de se lembrar de algo.

"Akh, sim!" - disse ele, dirigindo-se a mim com um sorriso;-"a propósito, tenho um pequeno assunto de negócios com você".

     Dois proprietários de terras, os mais persistentes de todos, que estavam seguindo obstinadamente o Príncipe, provavelmente pensaram que a "pequena questão de negócios" estava ligada ao serviço, e respeitosamente recuaram. O Príncipe colocou seu braço no meu, e me levou para um lado. Meu coração bateu no meu peito.

"Você," - começou ele, puxando a palavra você, e olhando para o meu queixo com uma expressão de desprezo que, estranhamente, estava se tornando infinitamente para o seu rosto fresco e bonito, - "você disse algo insolente para mim, creio eu".
"Eu disse o que pensava," - retorqui, levantando minha voz.
"Ssssh .... fala mais baixo," - comentou:-"homens de boa raça não gritam. Talvez você gostaria de brigar comigo"...
"Esse é o seu caso" - eu respondi, me preparando.
"Serei obrigado a te alertar," - disse ele descuidadamente, - "se você não retirar suas expressões....".
"Não tenho intenção de retirar nada," - respondi, com orgulho.
"A sério?" - comentou, não sem um sorriso de escárnio. - "Nesse caso," - prosseguiu, após uma breve pausa, - "terei a honra de lhe enviar o meu segundo amanhã".
"Muito bem, senhor" - disse eu, no tom mais indiferente que pude reunir.

     O Príncipe fez uma ligeira reverência.

"Não posso proibir que você me ache um homem frívolo", acrescentou, estreitando arrogantemente os olhos; - "mas é impossível que os príncipes N**** sejam iniciantes". Adeus ao presente, Sr..... Sr. Shtukatúrin".

     Ele rapidamente me virou as costas, e novamente se aproximou de seu anfitrião, que já havia começado a ficar agitado.

"Sr. Shtukatúrin"!.... Meu nome é Tchulkatúrin..... Não encontrei resposta para este último insulto dele, e só olhei atrás dele com uma raiva violenta. - "Adeus até amanhã", sussurrei, arrumando os dentes, e imediatamente persegui um oficial meu conhecido, o Capitão Koloberdyáeff dos uhlans, um homem desesperado, carinhoso e esplêndido, narrei-lhe em poucas palavras minha briga com o Príncipe, e pedi-lhe que fosse meu segundo. Ele, é claro, consentiu imediatamente, e eu vim para casa.

     Não consegui dormir a noite toda - de agitação, não de pusilanimidade. Eu não sou covarde. Pensei mesmo muito pouco sobre a possibilidade iminente de perder minha vida, esse bem mais precioso da Terra, segundo os alemães. Pensei apenas em Liza, nas minhas esperanças mortas, no que eu deveria fazer. "Devo eu tentar matar o Príncipe?" Eu me perguntei, e, claro, queria matá-lo, não por vingança, mas por um desejo do bem de Liza. "Mas ela não vai sobreviver a esse golpe", eu prossegui. "Não, será melhor deixá-lo me matar!"
     Confesso que também foi agradável para mim pensar que eu, um homem obscuro do país, tinha forçado um personagem tão importante a lutar um duelo comigo.
     Dawn me encontrou absorto nessas cogitações; e mais tarde, pela manhã, Koloberdyáeff se apresentou.

"Bem" - ele me perguntou, entrando ruidosamente no meu quarto - "e onde está o segundo do Príncipe?
"Por que, meu Deus!" - respondi com irritação, - "são apenas sete horas da manhã; presumo que o Príncipe ainda esteja dormindo profundamente".
"Nesse caso," - devolveu-me o irreprimível capitão de cavalaria, - "manda que me façam um chá". Estou com dor de cabeça por causa dos feitos de ontem à noite..... Eu nem me despi. Entretanto," - acrescentou com um bocejo, - "eu raramente me dispo de qualquer maneira".

     O chá foi servido a ele. Ele bebeu seis copos com rum, fumou quatro cachimbos, me disse que no dia anterior havia comprado para uma canção um cavalo que os cocheiros haviam desistido por ser um mau negocio, e pretendia rompê-lo amarrando um de seus membros anteriores, - e adormeceu, sem se despir, no sofá, com o cachimbo ainda na boca. Levantei-me e pus os papéis em ordem. Uma nota de convite de Liza, a única nota que tinha recebido dela, estava a ponto de colocar no meu peito, mas mudei de ideia, e joguei-a numa caixa. Koloberdyáeff estava roncando fraco, com a cabeça pendurada nas almofadas de couro.... Eu me lembro de ter pesquisado durante muito tempo o seu rosto desgrenhado, arrojado, despreocupado e bondoso. Às dez horas, meu criado anunciou a chegada de Bizmyónkoff. O Príncipe o havia selecionado para o seu segundo.
     Juntos despertamos o capitão adormecido. Ele se levantou, olhou para nós com olhos estúpidos de sono, e com uma voz rouca pediu vodka;- ele se recuperou, e depois de ter trocado saudações com Bizmyónkoff, saiu com ele para a sala ao lado para uma consulta. A conferência dos segundos não durou muito. Um quarto de hora depois ambos vieram até mim no meu quarto; Koloberdyáeff me anunciou que "lutaremos hoje, às três horas, com pistolas". Eu baixei minha cabeça silenciosamente, em sinal de consentimento. Bizmyónkoff imediatamente se despediu de nós, e foi embora. Ele estava um pouco pálido e agitado interiormente, como um homem que não está acostumado a esse tipo de atuação, mas era muito educado e frio. Eu parecia, de alguma forma, sentir vergonha em sua presença, e não ousava olhá-lo nos olhos.
     Koloberdyáeff começou a falar de seu cavalo novamente. Esta conversa foi muito a meu gosto. Tive medo que ele pudesse mencionar Liza. Mas meu bom capitão não era um escândalo e, mais do que isso, desprezava todas as mulheres, chamando-as, sabe Deus por quê, "salada". Às duas horas almoçamos, e às três já estávamos no campo de ação - naquele mesmo pomar de bétula onde eu já passeei com Liza, a alguns passos daquele penhasco.
     Nós fomos os primeiros a chegar. Mas o Príncipe e o Bizmyónkoff não nos fizeram esperar muito por eles. O Príncipe era, sem exageros, tão fresco quanto uma rosa; seus olhos castanhos olhavam com extrema afabilidade de baixo da viseira de seu boné militar. Fumava um cigarro de palha, e ao ver Koloberdyáeff, apertou a mão de forma cordial. Ele até se curvou muito charmosamente para mim. Eu, ao contrário, sentia-me consciente de que estava pálido, e minhas mãos, ao meu intenso vexame, tremiam levemente;... minha garganta estava seca... Nunca, até aquele momento, eu havia travado um duelo. "Ó Deus!"... Pensei; "se ao menos aquele cavalheiro zombeteiro não me toma por timidez a minha agitação!" Entreguei interiormente meus nervos a todos os demônios; mas ao olhar, finalmente, direto para o rosto do Príncipe, e ao apanhar em seus lábios um sorriso quase imperceptível, de repente fiquei inflado de raiva, e imediatamente recuperei minha equanimidade.
     Enquanto isso, nossos segundos tinham arranjado a barreira, tinham percorrido a distância, e carregado as pistolas. Koloberdyáeff fez a maior parte da parte ativa; Bizmyónkoff o vigiava principalmente. Foi um magnífico dia-quadrado, igual ao dia do passeio nunca esquecido. O azul denso do céu novamente espreitava o verde dourado das folhas. O sussurro deles parecia me excitar. O príncipe continuou a fumar seu charuto, enquanto encostava seu ombro no tronco de um tília....

"Sejam tão bons a ponto de tomar seus lugares, senhores; tudo está pronto" - disse Koloberdyáeff finalmente, entregando-nos as pistolas.

     O príncipe recuou alguns passos, parou, e virando a cabeça para trás sobre o ombro, perguntou-me: "E você ainda se recusa a retirar suas palavras?"... Tentei responder-lhe; mas minha voz falhou e me contentei com um movimento desdenhoso da mão. O Príncipe riu novamente, e tomou o seu lugar. Começamos a nos aproximar um do outro. Levantei minha pistola, e estava a ponto de mirar o peito do meu inimigo - naquele momento ele realmente era meu inimigo -, mas de repente levantei o cano, como se alguém tivesse jogado meu cotovelo, e atirei. O príncipe cambaleou, levantou a mão esquerda para a têmpora esquerda - uma fina corrente de sangue escorreu pela bochecha abaixo de sua luva branca de couro lavado. Bizmyónkoff voou até ele.

"Não é nada" - disse ele, tirando seu boné, que tinha sido perfurado; - "se não entrou na minha cabeça, isso significa que é apenas um arranhão".

     Ele tirou calmamente um lenço de batismo do bolso, e o colocou sobre seus cachos, que estavam molhados de sangue. Eu olhei para ele como se estivesse petrificado, e não me mexi do lugar.

"Por favor, vá para a barreira" - me disse Koloberdyáeff com severidade.

     Eu obedeci.

"O duelo vai continuar?" - acrescentou ele, dirigindo-se a Bizmyónkoff.

     Bizmyónkoff não lhe respondeu; mas o Príncipe, sem tirar o lenço da ferida, nem mesmo dar-se a si mesmo a satisfação de me provocar na barreira, respondeu com um sorriso: "O duelo está terminado", e disparou para o ar. Eu quase chorei de irritação e raiva. Aquele homem, pela sua magnanimidade, havia me pisoteado definitivamente na lama, havia me cortado a garganta. Eu queria protestar, queria exigir que ele disparasse contra mim; mas ele se aproximou de mim e me ofereceu sua mão: "Tudo está esquecido entre nós, não está?" - disse ele, em voz cordial.
     Eu dei uma olhada no seu rosto pálido, naquele lenço manchado de sangue, e perdendo totalmente a cabeça, corando de vergonha, aniquilado, apertei-lhe a mão...

"Senhores!" - ele acrescentou, dirigindo-se aos segundos:- "Espero que tudo isso permaneça em segredo?"
"Claro!"-exclamou Koloberdyáeff,-"mas, Príncipe, permita-me...."

     E ele mesmo amarrou sua cabeça.
     O Príncipe, ao partir, curvou-se mais uma vez para mim; mas Bizmyónkoff nem sequer me deu um olhar. Slain,-moralmente morto,-Eu voltei para casa com Koloberdyáeff.

"Mas o que te aflige" - perguntou-me o capitão. "Acalme-se; a ferida não é perigosa". Ele pode dançar até amanhã, se quiser. Ou você sente muito por não tê-lo matado? Nesse caso, você está errado; ele é um sujeito esplêndido".
"Por que ele me poupou?" - Finalmente murmurei.
"Oho! então é isso!" - retorquiu calmamente o capitão... "Okh, esses romancistas vão ser a minha morte!"

      Recuso-me positivamente a descrever minhas torturas no decorrer da noite que se seguiu a este duelo azarado. Meu orgulho sofreu inexpressivamente. Não foi a minha consciência que me atormentou; a consciência da minha estupidez me aniquilou. "Eu mesmo me dei o último golpe, o golpe final". Eu continuava repetindo enquanto caminhava no meu quarto com longos passos.... "O Príncipe ferido por mim e que me perdoa.... sim, Liza é dele agora. Nada pode salvá-la agora, nem detê-la à beira da perdição". Eu sabia muito bem que nosso duelo não poderia permanecer em segredo, apesar das palavras do Príncipe; em todo caso, não poderia permanecer em segredo para Liza. "O Príncipe não é tão estúpido" - sussurrei num frenesim - "a ponto de não tirar proveito disso"... E, no entanto, estava enganado: toda a cidade ouviu falar do duelo e de sua causa real,- no dia seguinte, é claro; mas não foi o Príncipe que balbuciou - pelo contrário; quando ele se apresentou a Liza com uma cabeça enfaixada e uma desculpa preparada com antecedência, ela já sabia de tudo... Se Bizmyónkoff havia traído a si mesmo, ou se a notícia a havia alcançado por outros caminhos, não posso dizer. E, afinal, é possível esconder alguma coisa em uma cidade pequena? Você pode imaginar como Liza tomou, como toda a família Ozhógin tomou! Quanto a mim, de repente me tornei objeto de indignação universal, de repugnância, um monstro, um homem loucamente ciumento, e um canibal. Meus poucos conhecidos renunciaram a mim, pois teriam renunciado a um leproso. As autoridades da cidade apelaram ao Príncipe com a proposta de me castigar de maneira severa e exemplar; apenas as persistentes e importunas súplicas do próprio Príncipe afastaram a calamidade que ameaçou minha cabeça. Este homem estava destinado a aniquilar-me de todas as maneiras. Pela sua magnanimidade, ele me calou como se estivesse com o meu caixão fechado. É desnecessário dizer que a casa dos Ozhógins foi imediatamente fechada para mim. Kiríla Matvyéevitch até me devolveu um lápis liso, que eu havia deixado em sua residência. Na realidade, ele foi precisamente o último homem que deveria ter ficado irritado comigo. Meu ciúme "louco", como lhe chamavam na cidade, tinha definido, elucidado, por assim dizer, as relações entre Liza e o Príncipe. Os próprios Ozhógins e os outros moradores começaram a olhar para ele quase à luz de um marido desposado. Na realidade, isso não poderia ter sido muito agradável para ele; mas ele gostava muito de Liza; e, além disso, naquela época, ainda não havia atingido seu objetivo... Com todo o tato de um homem inteligente do mundo, acomodou-se à sua nova posição, entrou imediatamente no espírito da sua nova parte, como diz o ditado....
     Mas eu!... Eu então desisti em desespero, no que me dizia respeito, e no que diz respeito ao meu futuro. Quando os sofrimentos chegam a tal ponto que fazem todo o nosso ser interior rachar e ranger como uma carroça sobrecarregada, eles devem deixar de ser ridículos.... Mas não! O riso não só acompanha as lágrimas até o fim, até a exaustão, até o ponto em que é impossível derramar mais nenhuma delas, - de jeito nenhum! ele ainda toca e ressoa num ponto em que a língua se torna burra e a própria lamentação morre... E então, em primeiro lugar, como não tenho a intenção de parecer absurdo até para mim mesmo, e em segundo lugar, como estou assustadoramente cansado, adiarei a continuação e, se Deus quiser, a conclusão da minha história para amanhã....

continua em... 29 de março 
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25 de março - Um dia branco de inverno / 26 de março - Um descongelamento / 27 de março - O descongelamento continua / 
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Ivan Sergeyevich Turgenev - (9 de novembro de 1818 – 3 de setembro de 1883) foi um romancista, contista, poeta, dramaturgo, tradutor e divulgador da literatura russa no Ocidente. Seu romance Pais e Filhos (1862) é considerado uma das principais obras da ficção do século XIX. Ao contrário de Tolstói e Dostoiévski, Turguêniev carecia de motivos religiosos em seus escritos, representando o aspecto mais social do movimento reformista. Ele era considerado agnóstico. Tolstói, mais do que Dostoiévski, pelo menos a princípio, até desprezava Turguêniev. Enquanto viajavam juntos em Paris, Tolstói escreveu em seu diário: "Turguêniev é um tédio." Dostoiévski parodia Turguêniev em seu romance Os Demônios (1872) através do personagem do vaidoso romancista Karmazinov, que está ansioso para se agradar à juventude radical. Em 3 de setembro de 1883, Turguêniev morreu de um abscesso espinhal, complicação do lipossarcoma metastático, em sua casa em Bougival, perto de Paris. Seus restos mortais foram levados para a Rússia e enterrados no Cemitério Volkovo em São Petersburgo. No leito de morte, ele implorou a Tolstói: "Meu amigo, volte à literatura!" Depois disso, Tolstói escreveu obras como A Morte de Ivan Ilyich e A Sonata de Kreutzer.