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sexta-feira, 2 de março de 2018

23.O Estrangeiro: Tinha os olhos cheios de lágrimas - Albert Camus

Albert Camus


SEGUNDA PARTE

Capítulo 5

23. 

     MAS POUCO DEPOIS levantou bruscamente a cabeça e olhou-me de frente: "Porque recusa as minhas visitas?" Respondi que não tinha fé. Quis saber se tinha a certeza e eu respondi que não valia a pena fazer-me essa pergunta. Deixou-se cair para trás e encostou-se à parede, as mãos postas em cima das coxas. Quase sem ter o ar de me falar, observou que às vezes nos julgávamos certos de alguma coisa quando, na realidade, não tínhamos certeza nenhuma. Eu não dizia nada. Olhou-me e interrogou-me: "Qual é a sua opinião a este respeito?" Repliquei que era possível. Em todo o caso, eu não estava talvez certo do que realmente me interessava, mas estava certo do que não me interessava. E justamente, este assunto era dos que não me interessavam. Afastou os olhos e, sempre sem mudar de posição, perguntou-me se eu não falava assim por excesso de desespero. Expliquei-lhe que não me sentia desesperado. Tinha apenas medo, como era natural. "Deus o ajudará, afirmou então. Todos os que conheci no seu caso se voltavam para ele". Reconheci que estavam no seu direito. Isso provava também que tinham tempo. Quanto a mim, que ninguém me ajudasse e justamente faltava-me tempo para me interessar pelo que não me interessava.
     Neste momento, esboçou com as mãos um gesto de irritação, mas levantou-se e arranjou as pregas da sotaina. Quando acabou, dirigiu-me a palavra. tratando-me por "meu amigo": se me falava desta forma, não era por eu ser um condenado à morte, na sua opinião, todos nós éramos condenados à morte. Mas eu interrompi-o, dizendo que não era a mesma coisa e que, de qualquer modo, não me consolava com isso. "Decerto, aprovou ele. Mas se não morrer agora, morrerá mais tarde: Voltará a pôr-se o mesmo problema. Como irá abordar a terrível prova?" Respondi que a abordaria exatamente como agora. Ouvindo isto levantou-se e fitou-me nos olhos: Era uma experiência que eu bem conhecia. Realizava-a muitas vezes com Manuel ou com Celeste e, em geral, eram eles quem desviavam os olhos. Percebi logo que o capelão também a conhecia perfeitamente: o olhar não lhe tremia. E a voz também não lhe tremia, quando disse:

     "Não tem então nenhuma esperança e consegue viver com o pensamento de que vai morrer inteiramente?" "Sim", respondi eu. 

     Baixou então a cabeça e voltou a sentar-se. Disse que me lamentava. Achava que tal atitude era impossível de suportar. Quanto a mim, começava a estar cansado. Desviei-me por minha vez e fui pôr-me debaixo da claraboia. Estava encostado à parede. Sem o seguir com muita atenção, percebi que recomeçava a interrogar-me. Falava com uma voz inquieta e apressada. Compreendi que estava emocionado e escutei-o melhor.
     Dizia-me ter a certeza de que o meu recurso seria aceito, mas que levava aos ombros o peso de um pecado de que devia desembaraçar-me. Na opinião dele, a justiça dos homens não era nada e a justiça de Deus era tudo. Observei que fora a primeira que me condenara. Respondeu-me que ela nem por isso me lavara do meu pecado. Disse-lhe então que não sabia muito bem o que era um pecado. Tinham-me apenas dito que era culpado. Se estava culpado, ia pagá-lo e nada mais me podiam pedir. Neste momento levantou-se e eu pensei que, nesta cela tão estreita, se quisesse mover-se, não tinha por onde escolher: Só podia era sentar-se.
     Eu olhava para o chão. O padre deu um passo para mim e deteve-se, como se não ousasse avançar: Olhava o céu através das grades. "Está enganado, meu filho, disse ele, poderiam pedir-lhe ainda mais. E talvez lhe peçam.


- Mas o quê?
- Poderiam pedir-lhe para ver.
- Ver o quê?"

     O padre olhou em sua volta e respondeu, com uma voz subitamente muito fatigada:

"Sei que todas estas pedras suam dor. Mas, no fundo do coração, sei também que os mais miseráveis de vós viram sair da obscuridade uma face divina. É esta face que lhe pedem para ver".

     Animei-me um pouco. Disse-lhe que olhava estas paredes há meses e meses. Não havia nada no mundo que eu conhecesse melhor. Talvez, de fato, há muito tempo, eu houvesse procurado nelas uma face. Mas essa face tinha a cor do céu e a chama do desejo: era a de Maria. Procurara-a em vão. Agora, acabara-se. E, em qualquer caso, nunca vira esse suor surgir da pedra.
     O capelão olhou-me com uma espécie de tristeza. Eu estava agora completamente encostado à parede. O dia escorria-me pela testa. Disse algumas palavras que não percebi e pediu-me, muito depressa, se podia abraçar-me: "Não", respondi. Voltou-se de costas e dirigiu-se para a parede, sobre a qual passou lentamente a mão. "Gosta assim tanto desta terra?" Não respondi nada.
     Deixou-se ficar voltado muito tempo. A sua presença pesava-me e irritava-me. Ia dizer-lhe para se ir embora, quando, virando-se para mim, exclamou de repente: "Não, não posso acreditá-lo. Tenho a certeza de que já lhe aconteceu desejar uma outra vida". Respondi-lhe que com certeza, mas isso era o mesmo do que desejar ser rico, nadar muito depressa ou ter uma boca mais bem feita. Era da mesma ordem. Mas ele deteve-me e quis saber como imaginava eu essa outra vida. Repliquei: "Uma vida onde me pudesse lembrar desta vida,". E disse-lhe que já bastava. Queria continuar a falar destas coisas, mas eu avancei para ele e expliquei-lhe pela última vez que já não tinha muito tempo à minha frente. Não queria perdê-lo com discussões. Tentou mudar de assunto, perguntando-me por que motivo eu o tratava por "senhor", e não por "meu pai". Isto enervou-me e respondi que ele não era meu pai: e estava do lado dos outros.

"Não, meu filho, disse ele pondo-me a mão no ombro. Estou ao seu lado, mas não o pode saber, porque o seu coração está cego. Rezarei por si". Então, não sei porquê, qualquer coisa rebentou dentro de mim. Pus-me a gritar em altos berros e insultei-o e disse-Lhe para não rezar e que, mesmo que houvesse um Inferno não me importava, pois era melhor ser queimado no fogo do que desaparecer. Agarrara-o pela gola da sotaina. Atirava para cima dele todo o fundo do meu coração com impulsos de alegria e de cólera. Tinha um ar tão confiante, não tinha? Mas nenhuma das suas certezas valia um cabelo de mulher. Nem sequer tinha a certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu, parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava. Sim, não sabia mais nada do que isto. Mas ao menos segurava esta verdade, tanto como esta verdade me segurava a mim. Tinha tido razão, tinha ainda razão, teria sempre razão. Vivera de uma dada maneira e poderia ter vivido de outra dada maneira. Fizera isto e não fizera aquilo. Não fizera uma coisa e fizera outra. E depois? Era como se durante este tempo todo tivesse estado à espera deste minuto... e dessa madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância e eu sabia bem porquê.

     Também ele, sabia porquê. Do fundo do meu futuro, durante toda esta vida absurda que eu levara, subira até mim através dos anos que ainda não tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro igualava na sua passagem tudo o que me propunham nos anos, não mais reais, em que eu vivia. Que me importava a morte dos outros, o amor de uma mãe, que me importava o seu Deus, as vidas que se escolhem, os destinos que se elegem já que um só destino podia eleger-me a mim próprio e, comigo, milhares de privilegiados que, diziam como ele, ser meus irmãos? Compreendia, compreendia o que eu queria dizer? Toda a gente era privilegiada. Só havia privilegiados. Também os outros seriam um dia condenados. Também ele seria um dia condenado. Que importava se, acusado de um crime, era executado por não ter chorado no enterro da minha mãe? O cão de Salamano valia tanto como a mulher dele. A mulher autômato era tão culpada como a Parisiense que não se casara ou como Maria, que queria que eu casasse com ela. Que importava que fosse meu amigo, ao mesmo título que Celeste,-:: valia mais do que ele? Que importava que oferecesse hoje a sua boca a um novo Meursault? Compreendia, compreendia ele este condenado? E que do fundo do meu futuro... quase atabafava, ao gritar estas coisas. Mas já me arrancavam o padre das mãos, já os guardas me ameaçavam. Foi ele, no entanto, quem os acalmou. Olhou-me uns instantes em silêncio. Tinha os olhos cheios de lágrimas. Voltou-se e foi-se embora.
     Sentia-me agora outra vez calmo. Estava estafado e deixei-me cair sobre a cama. Julgo que dormi, pois acordei com estrelas por sobre a minha cabeça. Subiam até mim ruídos do campo.
Cheiros da noite da terra e do sol refrescavam-me as fontes. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram apitos. Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me era para sempre indiferente. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um "noivo", porque é que fingira recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.


Fim...
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A Constatação do Absurdo
Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.
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Camus, Albert, 1913-1960.
              O Estrangeiro
Título Original L'Étranger
Tradução de António Quadros
Edição Livros do Brasil
Lisboa
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Leia também:
23.O Estrangeiro: Tinha os olhos cheios de lágrimas - Albert Camus

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

22.O Estrangeiro: O meu coração faria o resto - Albert Camus

Albert Camus


SEGUNDA PARTE

Capítulo 5

22. 

      RECUSEI-ME, pela terceira vez, a receber o capelão. Não tenho nada a dizer-lhe, não me apetece falar, tenho muito tempo para o ver. O que neste momento me interessa, é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída. Mudaram-me de cela. Desta, quando me estendo na cama, vejo o céu, apenas o céu. Os meus dias inteiros, passo-os a olhar na sua face, o declínio das cores que conduz o dia à noite. Deitado, ponho as mãos debaixo da cabeça e espero. Já não sei quantas vezes perguntei a mim próprio se havia exemplos de condenados à morte que tivessem escapado ao mecanismo implacável, desaparecido antes da execução e fugido ao cordão de polícias.
     Censurava-me por não ter prestado atenção suficiente às histórias de execuções. Devíamos interessar-nos sempre por estas questões.. Nunca se sabe o que pode acontecer. Lera, como toda a gente, reportagens sobre o assunto. Mas havia com certeza livros especializados, que nunca tivera a curiosidade de consultar. Talvez aí eu pudesse ter achado narrativas de evasões. Poderia ter sabido que, pelo menos num caso, a roda se tinha detido e que, nesta irresistível precipitação, o acaso e a sorte, uma única vez, haviam desempenhado um papel. Uma única vez! Por um lado, creio bem que isto me chegaria. O meu coração faria o resto. Os jornais falam muitas vezes de uma dívida para com a sociedade. Para eles, era preciso pagá-la. Mas isto não diz nada à imaginação. O que contaria, seria uma possibilidade de fuga, um salto para fora do rito implacável, uma louca corrida, com todas as probabilidades da esperança. A esperança, possivelmente, seria ser abatido em plena corrida, por uma bala. Mas, bem vistas as coisas, nada me permitia este luxo, tudo me proibia, a engrenagem reconquistava-me.
     Apesar da minha boa vontade, eu não era capaz de aceitar esta certeza insolente. Por que afinal de contas, existia uma ridícula desproporção entre o julgamento que a fundamentara e o seu imperturbável desenvolvimento, a partir do instante em que a sentença fora pronunciada. O facto de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite, o facto de que podia ter sido outra completamente diferente, de que fora resolvida por homens que mudam de roupa de baixo e de que fora dada em nome de uma noção tão imprecisa como o povo francês (ou alemão, ou chinês), tudo isto me parecia tirar seriedade a uma decisão tão grave. Era obrigado a reconhecer, no entanto que, a partir do instante em que fora tomada, os seus efeitos se tornavam tão certos, tão sérios como a presença desta parede ao longo da qual eu me estendia.
     Lembrei-me nestes momentos de uma história que a mãe costumava contar-me, a respeito do meu pai. Eu nunca o conhecera. Tudo o que sabia de preciso a respeito deste homem, era talvez o que a minha mãe então me dizia: fora assistir á execução de um assassino. A ideia de ir punha-o doente. Mas não deixara de ir, e à volta vomitara durante quase todo o dia. Isto desgostava-me dele. Agora, porém, compreendia-o, a reação era tão natural... Como não percebera eu que não havia nada mais importante do que uma execução capital e que, sob um determinado ponto de vista, era mesmo a única coisa verdadeiramente interessante para um homem?! Se por acaso saísse da prisão, iria assistir a todas as execuções capitais. Fazia mal, julgo eu, em pensar nesta possibilidade. Pois à ideia de me ver livre uma destas manhãs, atrás de um cordão de polícias e do outro lado, à ideia de ser o espectador que veio assistir, uma onda de alegria envenenada me subia ao coração. Mas não era razoável. Andava mal em abandonar-me a estas suposições porque, uns instantes depois, vinha-me um frio tão horrível, que tinha que me encolher debaixo dos cobertores e batia os dentes sem conseguir dominar-me.
     Evidentemente, nem sempre nos podemos manter razoáveis. Outras vezes, por exemplo, fazia projetos de lei. Reformava os castigos a aplicar. Observara já que o essencial era dar ao condenado uma oportunidade. Para as coisas correrem melhor, bastava uma sobre mil. Parecia-me, por conseguinte, que se podia obter um composto químico cuja absorção mataria o paciente nove vezes em dez. Este estaria a par de tal possibilidade. Porque, pensando bem, considerando as coisas com calma, verificava que o que havia de defeituoso na guilhotina era não existir nenhuma possibilidade de salvação, absolutamente nenhuma. A morte do paciente, em suma, era decidida de uma vez para sempre. Era um caso arrumado,. uma combinação que não mais se podia desfazer, um acordo resolvido e sobre o qual não se podia voltar atrás.
     Se, por exceção, o maquinismo falhava, recomeçava-se do princípio. Como consequência, o aborrecido é que isto levava o condenado a desejar o bom funcionamento da máquina. Digo que é o lado defeituoso da coisa. O que, num determinado sentido, é verdade. Mas por outro lado, via-me obrigado a reconhecer que residia aí todo o segredo da boa organização. Numa palavra, o condenado sentia-se obrigado a colaborar moralmente. Era do seu interesse que tudo marchasse sem empenos. Via-me também obrigado a verificar que até aqui tinha tido sobre todos estes problemas, ideias que não eram certas.
     Julguei durante muito tempo - não sei porquê - que para ir à guilhotina era preciso subir uns degraus. Creio que por causa da Revolução de 1789, quer dizer, por causa de tudo quanto me ensinaram ou me mostraram em semelhante matéria. Mas veio-me à ideia numa destas manhãs, a fotografia de uma execução retumbante, publicada nos jornais da época. Na realidade a máquina estava simplesmente no chão. Era muito mais estreita do que eu julgava. É engraçado como não me lembrei disto há mais tempo. Na fotografia, a máquina impressionara-me como uma obra de precisão, brilhante e acabada. Exageramos sempre as coisas que não conhecemos. Verifiquei, o contrário, que era tudo muito simples: a máquina estava ao mesmo nível do que o homem que para ela se dirige. Vai ter com ela, precisamente como iria ter com uma pessoa. Sob um dado aspecto, também isto era aborrecido. A imaginação poderia agarrar-se à subida ao cadafalso, à ascensão para o céu. Enquanto aqui, o maquinismo mais uma vez esmagava tudo: era-se morto discretamente, talvez com um pouco de vergonha, mas com muita precisão.
     Havia duas coisas que nunca me saíam da cabeça: a madrugada da execução e o recurso da sentença. Não deixava, no entanto, de discutir comigo mesmo e de tentar pensar noutras coisas. Estendia-me, olhava através da janela, procurava interessar-me pelo que via. O céu tornava-se verde, a noite chegava. Voltava a fazer um esforço para mudar o curso dos meus pensamentos. Punha-me a escutar o coração. Não era capaz de imaginar que este barulho compassado que me acompanhava há tanto tempo podia um dia cessar. Nunca tive verdadeira imaginação. Mas tentava imaginar, não obstante, o segundo em que o batimento do coração já se me não prolongaria na cabeça. Em vão. A madrugada e o recurso não me abandonavam. Acabava por chegar à conclusão que o mais razoável era ainda não me tentar dominar.
     Sabia que vinham de madrugada. Ocupei as minhas noites, em suma, a esperar por esta madrugada. Nunca gostei que me surpreendessem. Quando me acontece alguma coisa, prefiro estar presente: Eis porque, no final, acabei por dormir um pouco de dia, enquanto, durante toda a noite, esperava pacientemente que a luz nascesse no negro do céu.
     O mais difícil, era a flora duvidosa em que eles geralmente operavam. Depois da meia-noite, esperava e escutava. Nunca a minha orelha sentiu tantos ruídos e distinguiu sons tão ténues. Aliás posso afirmar que, de certo modo, tive sorte durante todo este período, pois nunca cheguei a ouvir passos. A mãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz. Mesmo na prisão continuava a concordar com ela, quando o céu se coloria e que um novo dia entrava na minha cela. Porque, logo que ouvisse passos, o meu coração era capaz de rebentar. Mesmo se o mínimo som me atirasse de encontro à porta, mesmo se, a orelha colada à madeira, eu esperasse desvairadamente até ouvir a minha própria respiração, assustado por a achar tão rouca, e se, tal a agonia de um cão, ao fim desse período o meu coração rebentasse, tinha ganho ao menos mais vinte e quatro horas.
     Durante todo o dia, podia pensar no recurso da sentença. Julgo que tirei o melhor partido possível desta ideia. Calculava os meus efeitos e obtinha assim destas reflexões o melhor dos rendimentos.
     Começava sempre pela suposição mais pessimista: o recurso é rejeitado. "Pois bem, morrerei". Mais cedo do que os outros, mas sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que morrer aos trinta, aos setenta anos tanto faz, pois em qualquer dos casos outros homens e outras mulheres viverão, e isto durante milhares de anos. No fim de contas isto era claro como a água. Hoje ou daqui a vinte anos, era à mesma eu que morria. Neste momento, o que me incomodava um pouco no meu raciocínio era esse frémito terrível que me percorria, ao pensar nesses vinte anos para a frente. O que tinha a fazer, era abafar esta sensação, imaginando o que seriam os meus pensamentos daqui a vinte anos, quando chegasse outra vez à hora da morte. Desde o momento que se morre, é evidente que não importa como e quando. Portanto - e o difícil era não perder de vista o que este "portanto" representava no meu raciocínio - portanto, o melhor era aceitar a rejeição do meu recurso.
     Neste momento, apenas neste momento, conquistava, por assim dizer o direito, dava a mim mesmo licença de abordar a segunda hipótese: a de anularem a sentença capital. O maçador, era que tinha de tornar menos fogoso esse impulso do sangue e do corpo que me picava os olhos e me comunicava uma alegria insensata. Era preciso que me aplicasse a reduzir esse grito, a vencê-lo pela lógica. Era preciso que eu estivesse natural, mesmo nesta hipótese, para tornar mais plausível a minha resignação na primeira hipótese. Quando o conseguia, ganhara uma hora de calma. E isto era importante.
     Foi num momento assim que mais uma vez me recusei a receber o padre da prisão. Estava estendido e adivinhava a chegada da noite de verão a uma certa tonalidade loira do céu. Acabava de rejeitar o recurso e podia sentir as ondas do sangue circularem regularmente no meu corpo. Não tinha necessidade nenhuma de receber o capelão. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei em Maria. Há muitos dias que não me escrevia. Pus-me a pensar, e disse de mim para mim que ela talvez se tivesse cansado de ser a amante de um condenado à morte. Veio-me à cabeça que ela era capaz de estar doente ou de ter morrido, o que pertencia à ordem das coisas. Como o poderia eu saber, aliás, já que, além dos nossos corpos agora separados, nada nos ligava, nada nos lembrava um ao outro. A partir desse momento, a recordação de maria passaria a ser-me indiferente. Morto, deixava de interessar. Afigurava-se-me normal esta atitude, assim como compreendia muito bem que as pessoas me esquecessem depois da minha morte. Já não tinham nada a fazer comigo. Nem sequer podia dizer que me custava pensar em semelhante possibilidade. Não há, no fundo, nenhuma ideia a que não nos habituemos.
     Foi neste instante preciso que o capelão entrou na minha cela. Quando o vi, senti um pequeno estremecimento. Ele deu por isso e disse-me para não ter medo. Redargui que, habitualmente, o capelão vinha noutra altura. Respondeu-me que era uma visita amigável, que nada tinha a ver com o meu recurso, a respeito do qual nada sabia: Sentou-se na minha cama e convidou-me a ir para o pé dele. Recusei-me. Achei que tinha, no entanto, um ar muito doce.
     Ficou uns momentos sentado, os cotovelos sobre os joelhos, a cabeça baixa, a olhar para as mãos. Estas eram finas e musculosas, lembravam-me dois animais ágeis: Esfregou-as lentamente: uma contra a outra. Depois assim ficou, sempre de cabeça baixa, durante tanto tempo que, por instantes, tive a impressão de o ter esquecido.

continua...
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A Constatação do Absurdo
Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.
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Camus, Albert, 1913-1960.
              O Estrangeiro
Título Original L'Étranger
Tradução de António Quadros
Edição Livros do Brasil
Lisboa
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Leia também:
22.O Estrangeiro: O meu coração faria o resto - Albert Camus
23.O Estrangeiro: Tinha os olhos cheios de lágrimas - Albert Camus

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

21.O Estrangeiro: "É certo que matei" - Albert Camus

Albert Camus


SEGUNDA PARTE


Capítulo 4


21. "É certo que matei"



  À TARDE, os grandes ventiladores continuavam a agitar a atmosfera espessa da sala, como os leques multicolores dos jurados continuavam a ser abanados na mesma direção. O discurso do meu advogado parecia não ter fim. Num momento dado, no entanto, ouvi-o dizer: "É certo que matei". Depois prosseguiu no mesmo tom, dizendo "eu", cada vez que falava de mim. Eu estava muito admirado. Debrucei-me para um dos polícias e perguntei-Lhe porquê. Mandou-me calar e, instantes depois, acrescentou: "Todos os advogados fazem o mesmo". Mas a mim, parecia-me que isso era afastar-me ainda um pouco mais do caso, reduzir-me a zero e, de um certo ponto de vista, substituir-se à minha pessoa. O certo é que eu, no fim de contas, estava já muito longe deste tribunal. O meu advogado, aliás, pareceu-me ridículo. Depois de ter falado rapidamente da provocação, pôs-se igualmente a falar da minha alma. Mas creio que tinha muito menos talento do que o procurador. "Também eu, afirmou, me debrucei sobre esta alma, mas ao contrário do eminente representante do Ministério Público, encontrei alguma coisa e posso dizer que li como num livro aberto". Lera que eu era um bom homem, um trabalhador metódico, infatigável, fiel à casa que me empregava, amado por todos, comparticipando das misérias dos outros. Para ele, eu era um filho modelo, que sustentara a mãe até mais não poder. Finalmente, esperara que uma casa de recolhimento desse à velha senhora o conforto que os meus meios não permitiam oferecer-lhe. "Muito me espanto, acrescentou, que tenham feito tanto barulho em volta desse asilo. Porque afinal, se fosse preciso dar uma prova da utilidade e da grandeza destas instituições, teríamos que acentuar que são subvencionadas pelo próprio Estado". 

Não falou, porém, no enterro e eu senti que isto era uma lacuna da defesa. Mas por causa de todas estas extensas frases, de todos estes dias e horas intermináveis durante os quais tanto se tinha falado da minha alma, tive a impressão que tudo se transformava como que numa água incolor que me causava vertigens. 

Para o fim, lembro-me unicamente de que na rua e através de todo o espaço das salas e das tribunas, enquanto o meu advogado continuava a falar, eu ouvia a buzina do vendedor de gelados. Assaltaram-me as recordações de uma vida que já não me pertencia, mas onde encontrara as mais pobres e as mais tenazes das minhas alegrias: odores do verão, do bairro que eu amava, um certo céu ao anoitecer, o riso e os vestidos de Maria. Tudo quanto neste lugar eu fazia de inútil subiu-me então à garganta e só tive uma pressa: acabar depressa com isto e voltar à minha cela, onde ia poder dormir. Mal ouvi o advogado gritar, para concluir, que os jurados não quereriam certamente condenar à morte um trabalhador honesto, perdido por um minuto de desvario, e pedir as circunstâncias atenuantes para um crime cujo remorso eterno, o mais severo dos castigos, eu trazia já comigo. O tribunal suspendeu a audiência e o advogado sentou-se, com um ar estafado. Mas os colegas foram nesta altura apertar-lhe a mão. 

Ouvi: 

"Esplêndido, meu caro". Um deles voltou-se mesmo para mim, como a pedir a minha opinião: "Hem?" Assenti, mas não era sincero, porque estava extremamente cansado. 

No entanto a hora declinava, lá fora, e o calor não era tão grande. A certos barulhos da rua que chegavam até mim, adivinhava já a doçura do fim de tarde. Estávamos ali, todos, à espera. E o que esperávamos todos juntos, na realidade só me dizia respeito a mim. Voltei a olhar para a sala. 

Estava tudo no mesmo estado do primeiro dia. 

Cruzei com os olhares do jornalista de cinzento e da mulher-autômato. Isto lembrou-me que, durante todo o processo, não olhara uma única vez para Maria. Não a esquecera, mas estivera muito ocupado. Estava entre Celeste e Raimundo. Fez-me um pequeno sinal, como se dissesse: "Enfim!" e vi surgir um sorriso, na sua cara ansiosa. Mas sentia-me com o coração fechado, e nem sequer fui capaz de lhe corresponder ao sorriso. 

Os juízes regressaram. Leram aos jurados, muito depressa, uma série de pontos principais do processo. Ouvi "culpado de crime"... "provocação"... "circunstâncias atenuantes". Os jurados saíram e levaram-me para a salinha onde já tinha estado à espera. O meu advogado veio ter comigo: estava muito eloquente e falou-me com mais confiança e mais cordialidade do que nunca. Pensava que tudo correria bem e que me sairia com alguns anos de prisão. Perguntei-lhe se havia probabilidades de derrogação, no caso de uma sentença desfavorável. Respondeu que não. A tática que seguira, fora a de não indispor o júri. Explicou-me que não se derroga um processo sem mais nem menos, por nada! Isto pareceu-me evidente e inclinei-me diante destas razões. Considerando friamente a coisa, era perfeitamente natural. Caso contrário, haveria uma sobrecarga de papeladas inúteis. "De todos os modos, disse-me o meu advogado, pode-se apelar. Mas estou convencido de que o desfecho será favorável". 

Esperamos muito tempo, julgo que bem uns três quartos de hora: Ao fim deste tempo, retiniu a campainha. O meu advogado deixou-me, dizendo: "O presidente do júri vai ler as respostas. Só o mandarão entrar quando a sentença for pronunciada". Ouviram-se portas a bater. Corriam pessoas por escadas abaixo, não sei se longe, se perto de onde eu estava. Depois escutei uma voz surda ler qualquer coisa na sala. Quando a campainha tocou e que a porta se abriu, subiu até mim o silêncio da sala, o silêncio e a singular sensação que experimentei quando olhei para o jovem jornalista e reparei que pela primeira vez afastava os olhos de mim. Não olhei para o lado de Maria. Não tive tempo, aliás, pois o presidente disse-me de um modo estranho que me cortariam a cabeça numa praça pública em nome do povo francês. Pareceu-me então reconhecer o sentimento que lia em todas as caras. Julgo que era a consideração. Os polícias mostravam-se muito amáveis comigo. O advogado pôs-me a mão num pulso. Já não conseguia pensar. Mas o presidente perguntou se eu queria declarar alguma coisa. Refleti. Disse: "Não". Foi então que me levaram.





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A Constatação do Absurdo

Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.


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Camus, Albert, 1913-1960.
              O Estrangeiro
Título Original L'Étranger
Tradução de António Quadros
Edição Livros do Brasil
Lisboa
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Leia também:

17.O Estrangeiro: A prisão - Albert Camus

18.O Estrangeiro: O meu interrogatório começou quase imediatamente - Albert Camus

19.O Estrangeiro: Tudo é verdade e nada é verdade - Albert Camus

20.O Estrangeiro: E como tal deverá ser castigado - Albert Camus

22.O Estrangeiro: O meu coração faria o resto - Albert Camus


1.O Estrangeiro: Hoje, minha mãe morreu - Albert Camus




sábado, 9 de dezembro de 2017

20.O Estrangeiro: E como tal deverá ser castigado - Albert Camus

Albert Camus


SEGUNDA PARTE


Capítulo 4


20. E como tal deverá ser castigado



  MESMO DO LUGAR DOS RÉUS, é sempre interessante ouvir falar de nós mesmos. Durante os arrazoados do procurador e do meu advogado, posso dizer que se falou muito de mim e talvez até mais de mim, que do meu crime. Eram aliás assim tão diferentes, estes discursos? O advogado levantava os braços e pleiteava culpado, mas com atenuantes. O procurador estendia as mãos e pleiteava culpado, mas sem atenuantes. No entanto, uma coisa me incomodava vagamente. Apesar das minhas preocupações, apetecia-me por vezes intervir e o meu advogado dizia-me então: "Cale-se, para seu bem é melhor que se cale". 

De algum modo, tinham todo o ar de tratar deste caso à margem da minha pessoa. Tudo se passava sem a minha intervenção. Jogava-se a minha sorte sem que me pedissem a opinião. De tempos a tempos, tinha vontade de interromper toda a gente e de dizer: "Mas quem é afinal o acusado? É importante ser o acusado. E tenho coisas a dizer!" Mas, pensando bem, não tinha nada a dizer. Devo reconhecer, aliás, que o interesse que se tem em ouvir as pessoas, não dura muito tempo. Por exemplo, o discurso do procurador depressa me fatigou. Apenas me impressionaram ou despertaram a atenção alguns fragmentos, gestos ou tiradas inteiras, mas desligadas do conjunto. 


O fundo do seu pensamento, se bem o compreendi, é que o meu crime fora premeditado. Pelo menos, tentou demonstrá-lo. Como ele próprio dizia: "Darei a prova do que afirmo, meus senhores, e dá-la-ei duplamente. Sob a crua claridade dos factos em primeiro lugar e em seguida sob a iluminação sombria que me será fornecida pelo perfil psicológico desta alma criminosa". Resumiu os fatos a partir da morte da minha mãe, Relembrou a minha insensibilidade, a minha ignorância da idade dela, o meu banho de mar, no dia seguinte, com uma mulher, o cinema, Fernandel e por fim o caso com Maria. Levei tempo a compreender nesse momento, porque dizia "a amante" e para mim, ela chamava-se Maria. Chegou, em seguida, à história de Raimundo. Achei que tinha uma maneira de ver as coisas bastante clara. O que dizia não deixava de ser plausível. Eu escrevera a carta de combinação com Raimundo para atrair a amante deste e a entregar aos maus tratos de um homem "de moralidade duvidosa". Provocara, na praia, os adversários de Raimundo. Este ficara ferido. Eu pedira-lhe o revólver. Voltara atrás para me servir dele, sozinho. Tal como projetara, dera depois cabo do Árabe. Disparara uma vez. Esperara. E, "para ter a certeza de que o trabalho ficara bem feito", disparara mais quatro tiros, calmamente, conscientemente, pela certa. "E aqui está, meus senhores, disse o advogado de acusação. Acabo de traçar o fio dos acontecimentos que levaram este homem a matar com pleno conhecimento de causa. Insisto neste ponto. Pois não se trata de um crime banal, de um ato impensado que poderia ser atenuado por certas circunstâncias. Este homem, meus senhores, é um homem inteligente. Ouviram-no falar, não é verdade? Sabe responder. Conhece o valor das palavras. E não se pode dizer que tenha agido sem dar pelo que estava a fazer". 

Eu ouvia, e percebia que me consideravam inteligente. Mas não compreendia por que motivo as qualidades de um homem vulgar podiam erguer-se esmagadoramente contra um culpado. Era isto, pelo menos, o que mais me impressionava e deixei de ouvir o procurador até ao momento em que o ouvi dizer: "Podemos dizer, em sua defesa, que este homem exprimiu algum arrependimento? Nunca, meus senhores. Nem uma só vez no decurso da instrução do processo, pareceu emocionado com o seu crime abominável". Nesse momento voltou-se para mim e apontou-me com o dedo, continuando a fulminar-me, sem que na realidade eu compreendesse muito bem porquê. Não posso deixar de reconhecer, sem dúvida, que ele tinha razão. Não me arrependia muito do que tinha feito. Mas espantava-me uma atitude tão encarniçada. Gostaria de lhe poder explicar cordialmente, quase com afeição, que nunca me arrependera verdadeiramente de nada. Estava sempre dominado pelo que ia acontecer, por hoje ou por amanhã. Mas evidentemente, no estado a que me haviam levado, não podia falar a ninguém neste tom. Não tinha o direito de me mostrar afetuoso, de ter boa vontade. E tentei continuar a escutar, pois o procurador começou a falar da minha alma. 

Dizia que se debruçara sobre ela e que nada encontrara, senhores jurados. Dizia que, em boa verdade, eu não tinha alma e que nada de humano, nem um único dos princípios morais que existem no coração dos homens, me era acessível. "Não poderíamos sem dúvida censurar-lhe uma coisa destas, acrescentou. O que ele não teria possibilidades de adquirir, não podemos queixar-nos de que lhe falte. Mas no que se refere a este caso, a verdade negativa da tolerância deve transformar-se na virtude menos fácil, mas mais elevada, da justiça. Sobretudo quando o vazio de um coração como o que descobrimos neste homem se torna num abismo onde a sociedade pode sucumbir". Foi então que começou a falar outra vez da minha atitude para com a mãe.

Repetiu o que já dissera durante os debates. Mas falou muito mais longamente nisto, do que a respeito do crime, tão longamente que, a certa altura, passei a sentir apenas o calor do dia. Até ao instante, pelo menos, em que o advogado de acusação se deteve e, depois de um momento de silêncio, continuou numa voz baixa e compenetrada: "Este mesmo tribunal, meus senhores, vai julgar amanhã o mais abominável dos crimes: o assassínio de um pai". Na opinião dele, a imaginação recuava diante deste atroz atentado. Ousava esperar que a justiça dos homens saberia castigar sem piedade. Mas não receava afirmar que o horror que esse crime lhe inspirava quase cedia diante da minha insensibilidade. Ainda na opinião dele, um homem que matava moralmente a mãe devia ser afastado da sociedade dos homens, exatamente como aquele que levantava uma mão criminosa contra o autor dos seus dias. Em todos os casos, o primeiro preparava os atos do segundo, anunciava-os de algum modo e legitimava-os. "Estou persuadido, meus senhores, acrescentou elevando a voz, de que não acharão o meu pensamento excessivamente audacioso, se lhes disser que o homem ali sentado naquele banco é igualmente culpado do crime que o tribunal vai julgar amanhã. E como tal deverá ser castigado". Aqui, o procurador enxugou a cara brilhante de suor. Disse por fim que o seu dever era doloroso, mas que o cumpriria firmemente. Declarou que eu nada tinha a fazer numa sociedade cujas regras mais essenciais desconhecia e que eu não podia apelar para o coração dos homens, cujas reações elementares ignorava. "Peço-vos a cabeça deste homem, disse, e é sem escrúpulos que vos dirijo este pedido. Pois no decurso da minha longa carreira, tem-me acontecido pedir várias penas de morte, mas nunca como hoje, eu senti este penoso dever tão compensado, equilibrado, iluminado pela consciência de um imperativo sagrado e pelo horror que tenho a esta fisionomia humana onde nada leio que não seja monstruoso". Quando o procurador se sentou, houve uns longos momentos de silêncio. Quanto a mim, sentia-me atordoado pelo calor e pelo espanto. O presidente tossiu um pouco e, em voz não muito alta, perguntou-me se eu queria acrescentar alguma coisa. Levantei-me e, como tinha vontade de falar, disse, aliás um pouco ao acaso, que não tinha tido intenção de matar o Árabe. O presidente respondeu que era uma afirmação, que até aqui não percebia lá muito bem o meu sistema de defesa e que gostaria, antes de ouvir o meu advogado, que eu especificasse os motivos que inspiraram o meu ato. Redargui rapidamente, misturando um pouco as palavras e consciente do ridículo, que fora por causa do sol. Houve risos na sala. O meu advogado encolheu os ombros e, logo a seguir, deram-lhe a palavra. Mas ele declarou que era tarde, que precisava de muito tempo e que pedia o adiamento até logo à tarde. O tribunal concordou.






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A Constatação do Absurdo

Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.


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Camus, Albert, 1913-1960.
              O Estrangeiro
Título Original L'Étranger
Tradução de António Quadros
Edição Livros do Brasil
Lisboa
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Leia também:

17.O Estrangeiro: A prisão - Albert Camus

18.O Estrangeiro: O meu interrogatório começou quase imediatamente - Albert Camus

19.O Estrangeiro: Tudo é verdade e nada é verdade - Albert Camus

21.O Estrangeiro: "É certo que matei" - Albert Camus

1.O Estrangeiro: Hoje, minha mãe morreu - Albert Camus




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

19.O Estrangeiro: Tudo é verdade e nada é verdade - Albert Camus

Albert Camus


SEGUNDA PARTE


Capítulo 3


19. Tudo é verdade e nada é verdade



  AO APARECER, O PORTEIRO olhou-me e depois afastou os olhos, respondendo às perguntas que lhe dirigiram. Disse que eu não tinha querido ver a minha mãe, que tinha fumado, que tinha dormido e que tinha tomado café com leite. Senti então que qualquer coisa se levantava na sala e compreendi pela primeira vez que era culpado. Pediram ao porteiro para repetir a história do café com leite e a do cigarro. O advogado de acusação olhou-me com um brilho irônico no olhar. Nesse momento, o meu advogado perguntou ao porteiro se não tinha fumado também um cigarro comigo. Mas o procurador reagiu violentamente contra esta pergunta: "Quem é aqui o criminoso e que métodos são estes, que consistem em denegrir as testemunhas de acusação para lhes diminuir depoimentos que nem por isso ficam menos esmagadores?!" 

Apesar de tudo, o presidente disse ao porteiro para responder à pergunta. O velho replicou, com um ar embaraçado: "Sei que não andei bem, mas não ousei recusar o cigarro que este senhor me ofereceu". Em última instância, perguntaram-me se queria acrescentar alguma coisa. "Nada", respondi, "a não ser que a testemunha fala verdade. É certo que lhe ofereci um cigarro". O porteiro olhou-me um pouco espantado e com uma espécie de gratidão. Hesitou e em seguída disse que fora ele, que me oferecera café com leite. O meu advogado triunfou ruidosamente e declarou que os jurados saberiam formar a sua opinião. Mas o procurador, gritando mais alto, disse: "Sim. Os senhores jurados saberão formar a sua opinião. E não deixarão de concluir que um estranho podia oferecer café, mas que um filho devia recusá-lo diante do corpo daquela que o deu à luz". O porteiro regressou ao seu lugar. 

Quando chegou a vez de Tomás Perez, um bedel teve que o ajudar a ocupar o lugar das testemunhas. Perez disse que conhecera sobretudo a minha mãe e que a mim, só me vira uma única vez, no dia do enterro. Perguntaram-lhe o que tinha eu feito nesse dia e ele respondeu: "Não sei se compreendem, mas eu estava com um grande desgosto. Por isso, não vi nada. O desgosto impedia-me de ver. Porque para mim, era um grande desgosto. Cheguei mesmo a desmaiar. Por isso, não pude ver este senhor". O advogado de acusação perguntou-lhe se, ao menos, me vira chorar. Perez respondeu que não.

O procurador disse por sua vez: "Os senhores jurados saberão formar a sua opinião". Mas nesta altura, o meu advogado zangou-se. Perguntou ao velho Perez, num tom que se me afigurou exagerado "se tinha visto que eu não estava a chorar". Perez disse: "Não". O público riu-se. E o meu advogado, arregaçando uma das mangas, disse num tom peremptório: "Eis aqui a imagem deste processo. Tudo é verdade e nada é verdade". O procurador mostrava uma fisionomia fechada e rabiscava com o lápis nos papéis que tinha em frente. 

Após cinco minutos de suspensão, durante os quais o meu advogado me disse que tudo corria pelo melhor, foi ouvido o Celeste, que era citado pela defesa: A defesa, era eu. 

Celeste deitava, de tempos a tempos, olhares na minha direção e rodava o panamá nas mãos. Trazia o fato novo que punha aos domingos, quando ia comigo às corridas de cavalos. Mas julgo que não conseguira pôr o colarinho, pois apenas um botão de metal lhe conservava a camisa fechada. 

Perguntaram-lhe se eu era seu cliente e ele respondeu: "Sim, mas era também meu amigo", o que pensava de mim, e ele respondeu que eu era um homem, o que queria dizer com isso, e ele declarou que toda a gente sabia o que isso queria dizer, se notara que eu era taciturno, e ele reconheceu apenas que eu não falava por falar. O advogado de acusação perguntou-lhe se eu pagava regularmente as minhas despesas. Celeste riu-se e declarou: "Isso era entre mim e ele". Perguntaram-lhe ainda o que pensava do meu crime. Pôs então as duas mãos na barra e via-se que preparara qualquer coisa. Disse: "Para mim, foi uma desgraça. Toda a gente sabe o que é uma desgraça. Pois bem, na minha opinião, foi uma desgraça". Ia continuar, mas o presidente disse que estava bem e que muito lhe agradecia. Celeste ficou um pouco atrapalhado. Mas declarou que queria dizer mais coisas. Pediram-lhe para ser breve. Voltou a repetir que era uma desgraça. E o presidente disse-lhe: "Está bem, estamos entendidos. Mas nós estamos aqui justamente para julgar as desgraças deste gênero. Muito obrigado". Como se tivesse chegado ao fim da sua ciência e da sua boa vontade, Celeste voltou-se então para mim. Parecia-me que tinha os olhos brilhantes e os lábios trémulos. Tinha o ar de perguntar a si mesmo o que poderia ainda fazer.

Quanto a mim, não disse nada, não esbocei um único gesto, mas foi a primeira vez na minha vida que tive vontade de beijar um homem. O presidente disse-lhe que se podia ir embora. Celeste foi sentar-se no seu lugar. Durante o resto da audiência ali se deixou ficar, um pouco inclinado para a frente, os cotovelos nos joelhos, o panamá nas mãos, escutando tudo o que se dizia. 

Chegou a vez de Maria. Pusera um chapéu e estava muito bonita. Mas gostava mais dela com os cabelos soltos. Do sítio onde estava, eu adivinhava-lhe o peso ligeiro dos seios e reconhecia-lhe o lábio inferior, sempre um pouco inchado. Parecia muito nervosa. Perguntaram-Lhe imediatamente há quanto tempo me conhecia. Indicou a época em que trabalhava lá no escritório. O presidente quis saber que relações tinha comigo. Disse que era minha amiga. A uma outra pergunta, respondeu que, de facto, fazia tenção de casar comigo. O procurador, que folheava o processo, perguntou-lhe bruscamente quando começara a nossa ligação. Maria indicou a data. O procurador observou com um ar indiferente que lhe parecia ser apenas um dia depois da morte da minha mãe. Depois disse, com uma certa ironia, que não queria insistir numa situação delicada, que compreendia perfeitamente os escrúpulos de Maria (e aqui o tom da sua voz endureceu), mas que o seu dever o impelia a elevar-se acima das conveniências. Pediu-lhe, por conseguinte, para resumir o dia em que se dera o nosso encontro. Maria não queria falar mas, em face da insistência do procurador, contou o nosso banho, a nossa ida ao cinema e o encontro em minha casa. O advogado de acusação disse que, em consequência das declarações de Maria durante a instrução do processo, consultara os programas dessa data. Acrescentou que a própria testemunha diria que filme tinham ido ver. Com uma voz trémula, Maria indicou que era um filme de Fernandel. Quando ela acabou, o silêncio na sala era completo. O procurador levantou-se então, muito sério e com uma voz que me pareceu autenticamente emocionada apontou o dedo para mim e articulou lentamente: "Meus senhores, um dia depois da morte da sua mãe, este homem tomava banhos de mar, iniciava relações com uma amante e ia rir às gargalhadas, num filme cômico.

Não tenho nada a acrescentar". Sentou-se, no meio do silêncio geral. De repente Maria começou a soluçar, exclamou que não era isso, que a obrigavam a dizer o contrário do que pensava, que me conhecia muito bem e que eu não tinha feito nada de mal. Mas, a um sinal do presidente, o bedel levou-a e a audiência prosseguiu. 

Depois disto, mal ouviram Masson declarar que eu era uma pessoa honesta, "direi mesmo mais, uma excelente pessoa". Mal escutaram Salamano, quando recordou que eu fora muito bom para o cão dele e quando respondeu a uma pergunta a meu respeito, dizendo que eu metera a minha mãe no asilo porque já não tinha nada a dizer-Lhe. "É preciso compreendê-lo, dizia Salamano, é preciso compreendê-lo". Mas ninguém parecia compreender-me. Levaram-no. 

Chegou depois a vez de Raimundo, que era a última testemunha. Raimundo fez-me um pequeno sinal e disse imediatamente que eu estava inocente. Mas o presidente lembrou-lhe que não lhe pediam apreciações, pediam-lhe factos. Convidou-o a esperar as perguntas e depois responder. Pediram-lhe que especificasse as suas relações com a vítima. 

Raimundo aproveitou para dizer que era a ele, que o Árabe assassinado odiava, desde que lhe esbofeteara a irmã. O presidente perguntou então se a vítima não tinha nenhuma razão para me odiar. Raimundo disse que a minha presença na praia fora um mero acaso. O procurador perguntou-lhe então porque é que, se assim era, a carta que estava na origem do drama, fora escrita para mim. Raimundo respondeu que fora também um acaso. O procurador retorquiu que o acaso tinha costas largas, nesta história toda. Quis saber se fora por acaso que eu não interviera quando Raimundo esbofeteara a amante, por acaso que servira de testemunha no comissariado, por acaso ainda que as minhas declarações nessa altura se tinham revelado sem fundamento sério. Para acabar, perguntou a Raimundo o que fazia na vida e, como este respondesse que era "lojista" o advogado de acusação declarou aos jurados que a testemunha exercia uma profissão mais do que duvidosa. Eu era seu cúmplice e amigo. Tratava-se de um drama crapuloso da pior espécie, agravado pelo facto de estarmos em presença de um monstro moral. Raimundo quis defender-se e o meu advogado protestou, mas disseram-lhes que deixassem o procurador acabar o que estava a dizer. Este disse: "Pouco tenho a acrescentar. O acusado era seu amigo?", perguntou a Raimundo. "Sim, respondeu este, era meu amigo". O advogado de acusação fez-me então a mesma pergunta e eu olhei para Raimundo, que não desviou os olhos. Respondi: "Sim". O procurador voltou-se então para o júri e declarou: "O mesmo homem que, um dia depois da mãe ter morrido, se entregava à mais vergonhosa devassidão, matou por razões fúteis e para liquidar um inqualificável caso crapuloso". 

Voltou então a sentar-se. Mas o meu advogado, a paciência esgotada, gritou levantando os braços, de tal forma que as mangas, caindo para trás, descobriram as pregas de uma camisa engomada: "Enfim, estão a acusá-lo de ter assassinado um homem ou de lhe ter morrido a mãe?" 

O público riu-se. Mas o procurador levantou-se outra vez, ajustou a toga e declarou que era preciso ter a ingenuidade do ilustre defensor para não sentir que entre as duas ordens de factos, havia uma relação profunda, patética, essencial. "Sim, exclamou ele com força, acuso este homem de ter assistido ao enterro da mãe com um coração de criminoso".

Esta declaração parece ter provocado um efeito considerável sobre o juri e sobre o público. O meu advogado encolheu os ombros e limpou o suor que lhe cobria a testa. Mas ele próprio parecia abalado e compreendi nesta altura que as coisas não iam muito bem para mim. 

Em seguida, tudo se passou muito depressa. A audiência foi suspensa. À saída do tribunal e ao subir para o carro, reconheci durante breves instantes o cheiro e o calor das tardes de verão. Na obscuridade da minha prisão rolante, reencontrei um a um, no fundo do meu cansaço, todos os ruídos familiares de uma cidade que eu amava e de uma certa hora em que tantas vezes me sentira contente. O pregão dos vendedores de jornais no ar já mais fresco, os últimos pássaros no largo, o grito dos vendedores de sanduíches, o queixume dos eléctricos nas curvas íngremes da cidade e este rumor do céu antes da noite tombar sobre o porto, tudo isto reconstituía aos meus olhos um cego itinerário que já conhecia muito antes de entrar para a prisão. Sim, era a hora em que, há muito, muito tempo, eu me sentia contente. O que então me aguardava, era sempre um sono ligeiro e sem sonhos. E no entanto alguma coisa se modificara, pois com a expectativa do dia seguinte, foi a minha cela, que reencontrei enfim. Como se os caminhos familiares traçados nas noites de verão pudessem conduzir, tanto às prisões, como aos sonos inocentes.




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A Constatação do Absurdo

Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.


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Camus, Albert, 1913-1960.
              O Estrangeiro
Título Original L'Étranger
Tradução de António Quadros
Edição Livros do Brasil
Lisboa
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