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terça-feira, 25 de março de 2014

Como curamos quem não está doente?

Teatro Pedagógico 10
baitasar
Nestes tempos de esquecimentos, comemorações de golpes contra a democracia, palavras obscenas de amor às torturas e desaparecimentos, eu quero comemorar os meus 50 anos de amor histórico. Entrei em março de 64, com 7 anos completos. Nunca mais sai da escola. Outras ficaram desaparecidas para sempre no universo em expansão. Estrelas esfriando sem corpos. O big bang enrugando o tempo e expandindo o espaço. Subi todos os degraus, um a um. Nas grandes empresas da educação privada seria alguma coisa parecida como ter vindo lá debaixo e vencido. Ralando os olhos, as mãos, os sapatos e a paciência. Corrigindo, explicando, conversando, sorrindo, algumas vezes chorando, amando, lendo e escrevendo. Acho que ainda estou em expansão como o universo. Expandindo e esfriando até o colapso.
Não vi nem senti o uso da palmatória, mas vi sem compreender os coturnos nos corredores; ouvi os murmúrios de professores, pequenos resmungos. E tenho a pálida lembrança de um ou outro que não retornou. Nunca foi dito nada. Hoje, eu sei, para muitos, eles desapareceram; para alguns, sumiram; e para outros, fugiram. Quando? Para onde? Nunca soube. Essas são algumas das tatuagens que tenho sob a pele. Lembranças infantis de um tempo duro e cinzento. Decidi que vou tatuar seus nomes e rostos sobre a pele. Quem sabe alguém os reconhece em mim? Não quero esquecer.
Argumentos teóricos são apenas sonhos? Direitos e desejos veementes são homens e mulheres que não se acovardaram? Sonhamos apenas com o que podemos acreditar? Mesmo sem entender? Nunca sonhei com Deus. É por que não acredito? Mas tenho muitos sonhos com a escola. Quem não submeteu à realidade adequada do relógio suas vontades inquietas? São pesadelos? Gramáticas, mapas, datas, heróis, bolas, tabuadas, células, indivíduos sem prazer no coletivo e fugindo dos compromissos solidários, sem tempo, silenciosos, condições de trabalho ruins, pó de giz, salários indignos, 60 horas, 25 anos, sala de aula, planos, avaliações, boletim escolar, sábados, pares zoológico, pais, mães, reuniões. Há falta de sonhos possíveis? O que dizer da fé e dos sonhos impossíveis?
Quero ser uma mulher voadora normal
—        Colegas!
Voltamos nossa atenção para o Aguinaldo. Levo o cantinho da unha do meu polegar direito à boca, sou uma roedora. Tento ser alguém normal sentada na fórmica, que não voa, chamando uma a uma, olhando cadernos com cópias do quadro de giz. Dando uma estrelinha, duas ou três, talvez. Deve existir alguma razão para colecionar certos e errados.
Nenhuma de nós quer transformar crianças em bonecos. Nem acredito que todas devam ser progressistas ou modernistas, ou pós-modernistas, ou, ou, ou, mas precisamos fazer o nosso trabalho da melhor maneira que sabemos, honestamente, sem fingimentos, com ética.
Minha atenção voa e pousa, sai e volta, se a minha intenção não está aqui, estou sendo desonesta? Sinto vontade de sair e fumar, tragar-me. Têm dias em que me sinto terrivelmente apaixonada, em outros sou um castelo na beira do mar. Quem guarda um beijo meu e vem me salvar, quem
—        Gostaria de trazer à reunião uma questão do nosso cotidiano. Os atrasos. O início do turno está muito difícil...
Tento me concentrar nos atrasos, mas meus segredos continuam apaixonados, colados em meu corpo
—        Não vejo maiores problemas. É simples, basta que alguém da equipe diretiva leve os alunos à sala de aula.
A bondade da Acemira. Depois, será a primeira reclamando a falta de apoio e abandono, Onde está o SOE? Onde está o SSE?, esquecida das suas boas intenções. Memória curta, cobertor curto.
Sinto meus músculos levemente amassados, doloridos, uma deliciosa preguiça deixa meu corpo sair de mim, ser outra que não reconheço
—        Acemira, pegar a turma e fazer o quê?
—        Dar aula, Aguinaldo. Afinal, somos todas professoras.
Sonho com as mãos mágicas que me enfeitiçam as vontades, fico sem as minhas vontades, tiras de mim o que nem eu mesma sabia que queria dar. Teus olhos me fazem mostrar o que nem mesmo sabia que queria mostrar, tua boca me faz pedir o que não sabia que queria pedir
—        Até seria possível, mas temos nossas tarefas no cotidiano da escola. E junto aos atrasos temos os afastamentos por saúde. A soma desta conta torna inviável o início do turno. Já tivemos que iniciar o turno da tarde sem sete ou oito professores.
Silêncio.
Fico em silêncio, também. Essa discussão não me interessa. Não falto, não chego atrasada. Não quero ser diretora da escola. Quero casar contigo. Reivindicar minha presença no teu mundo. Minha saúde não é de ferro e minha eternidade amadurece, enquanto vou me expandindo vou me esfriando. Quero tua boca, desejo teu beijo doce. Estou presa no cativeiro do cotidiano e das tuas escolhas
—        Puxa, Aguinaldo! Não dá pra exigir professor substituto?
Um suspiro invisível. Eu pareço invisível para você, meu amor
—        Ofélia, também é possível, mas não acredito nesta solução.
Um suspiro de espanto
—        Por que?
Ele para, a resposta parece que hesita, não quer sair e se comprometer
—        Ela inviabiliza nossos salários.
Silêncio
—        É?
—        Acredito que sim.
—        E a corrupção?
—        Também.
Resisto com todas as minhas forças para não ir procurar o professor do corredor. Assim como entrou, ele saiu. Em silêncio. Ele, como eu, também se cala. Abre seu armário e procura por algo que não está lá. Está aqui. Sou eu. Volta muito silenciosamente. Quase triste. Eu já sei da sua tristeza, Estou cansado da repetição, falta imaginação
—        Lélia, o raciocínio é simples. Se eu e você precisamos de outro professor para dividirmos as mesmas tarefas da nossa incumbência, deveríamos saber que esse novo colega entra na divisão do bolo que nos paga, ou finge que nos paga, ou diz que nos paga. Adianta sim, reclamar. Apontar erros mal-intencionados ou ingênuos, mas precisamos fazer a parte que nos cabe. Progressistas ou não, precisamos fazer nosso trabalho bem feito, o nosso melhor jeito.
Novo silêncio e já estou em teus braços. Corri como louca, mas cheguei. O que me resta são meus sonhos. Invento um modo de reinventar a dor, penso na possibilidade impossível, sei que te amo, duvido do teu amor
—        Aguinaldo, isso é conversinha do patrão. Você parece querendo enfiar o medo no ânimo da gente, o rabo entre nossas pernas.
—        É isso mesmo, você não falava assim antes da eleição. O que aconteceu? Quem mudou?
Estamos perto, mas não sentimos o que vemos. A realidade dos que estão fora
—        Não sei quem mudou mais. O fantástico é que tudo sempre muda. Todos os dias, a cada instante. Esse é o nosso caráter humano, a certeza da renovação. O trágico é que não mudamos a escola. O que posso dizer de mim mesmo? Descobri que sai do meu mundo particular da sala de aula, me deparei com o mundo da escola, necessidades administrativas, pedagógicas humanas. Preciso realizar as tarefas às quais me propus de maneira crítica, engajado no presente e no futuro. Não vejo ninguém impedindo meu trabalho.
Murmúrios
—        E as esquerdistas vão se calar? Quem ouve o Aguinaldo e cala, concorda que não queremos trabalhar. Na verdade, o que não se diz é que está cada vez mais difícil e complicado ensinar. Não querem aprender.
Não chego nem perto de um computador fora da escola. Meu peito incha com teu grito em silêncio. Eu mesma já morri muitas mortes. Apesar de tudo, o eterno recomeço. Sou teimosa, mas tem limite essa teimosia. Paro de te pensar. Pergunto-me se somos duas repetições de erros antigos, tentativas sem convicção. Bobagem, eu tenho convicção no meu amor. Em minha ideia de vida não deixo de me reviver e te conquistar. Meus sonhos me queimam enquanto fico jogada de costas na cama, olhando meu teto limpo e asseado. Suando, gemendo, escavoucando
—        Mas aprender o quê, Jacobina? Aprender que têm o direito de escutar calados para repetir o que ouvem? A palavra reforça um poder, o nosso. E uma servidão, a deles. — o Marko e suas perguntas invagina na rotina da escola a necessidade da concepção do mundo além do próprio umbigo
—        Como assim aprender o quê, Marko? Para começo dessa conversa, não consigo um mínimo de diálogo sereno sem as interrupções dos gritos, muitas vezes, obscenos. E não são os meus gritos. Eles não exercem o direito de escutar calados. Nem escutam!
Continuo por aqui, sofrendo. A vontade de fumar lateja em minhas têmporas. Meus dedos segurando um cigarro acesso, os pequenos rolos da fumação subindo suavemente. Dispersos. Quero me perder dentro do teu abraço apertado
—        Quem consegue fazer a chamada sem crises de gritos e pedidos de silêncio? O começo já é insuportável.
—        Mas Ofélia, a lista da chamada dos alunos não pode ser feita no final da aula? — a Lia fez a pergunta num tom muito baixo, parecendo mais uma reflexão para ela mesma que uma pergunta com intenção deliberada
—        Os cadernos da frequência são documentos oficiais que precisam credibilidade. Por isso, precisam ser preenchidos com cuidado. Por exemplo, podem determinar a reprovação por infrequência. Esse mesmo controle da frequência é usado para sabermos se os alunos cadastrados no programa Bolsa Família estão vindo à escola, ou não.
Uma intervenção técnica da Camila. Precisamos de anotações técnicas, mas acompanhadas de adendos apaixonados, éticos, críticos e inteligentes, para, quem sabe, um dia emergir um mundo diferente e possível, onde a palavra libertará o silêncio imposto e exigido da garganta
—        Talvez precisemos um pouquinho mais de sorte.
—        Não podemos contar com a sorte, arroubos de magia, explosões de inspiração no nosso cotidiano. Precisamos interferir com o pleno uso da nossa razão no conjunto das ações propostas.
Uma delícia, um cansaço. Sinto que é possível compor a letra e a música que será a nossa vida. Uma vida nova para diante
—        Isso, Arthur. A nossa escola. A escola do povo. Pode estar longe, pode estar perto, não apenas para ver, mas para fazer com ética e competência interessada, comprometimento e alegria, silêncios e cantorias, avanços e saudades. Uma, duas, três, dezenas, centenas, muita e muitas escolas com a cara dos eu povo...
—        Cara suja, ranhosa, banguela e...
—        Cuidado! Pense bem o que vai dizer.
Essa sou eu. Não pude evitar. A Acemira tem razão, o seu olhar me fez enrubescer
—        E pobre.
Fiquei desprotegida. Fiz o que condeno, pensei pelo outro. Coloquei os meus pensamentos na cabeça da Acemira. Mereci a chinelada. Fui salva pelo Marko, ele continuou conversando, afinal, era isso que fazíamos
—        A escola dialética. A escola sem mágoas ou caras de nojo, assustadas. A escola que não derrota, mas transforma. A escola dos fatos e da poesia. Das etnias. A escola histórica que não para e não trai. A escola dos amores da nossa vida. Exagerada na resistência à intolerância e ao mau humor. A escola das diferenças. A escola da Pátria imensa.
Silêncio.
O Marko aquietou a própria voz, sabia que a reação aos sonhos possíveis não espera o tempo de dormir, muito menos, o tempo de acordar. Estava pronto para escutar
—        Marko, essa escola eu quero conhecer!
Pronto, foi rápida no gatilho. Não foi ingênua. Eis Acemira, correndo, ombro a ombro. Sempre em defesa da família e dos bons costumes na pedagogia sem contradições, a intenção de habilitar e amestrar. A beleza insustentável do silêncio. O poder da palavra usado para decompor as inteligências em notas que aprovam ou reprovam. Libertam ou aprisionam
—        Professora, feche os olhos. Imagine outro jeito, outro feitio de educar. O desajeitamento lúdico, os jogos, as brincadeiras nos aproximam da beleza de estarmos juntos. Aprendendo. Consideramos que a criança deve brincar, mas estamos convencidos que para o divertimento deve haver um lugar separado. Acredite, raros são os momentos, dentro do nosso fazer pedagógico, que nos permitem tanta intensidade que as circunstâncias dos jogos e brincadeiras. Uma entrega que dificilmente haverá em outras atividades.
Nada impede que Neruda ou Saramago apareçam na matemática, num ambiente lúdico e cúmplice pelo encontro da minha vida com a vida do outro, esse é o encanto da vida, encontros.
—        Bobagem, pura bobagem! Minha mensagem educativa vem da minha formação acadêmica, bem específica. Fui treinada para ensinar os conteúdos disciplinares do currículo. Sei o que faço, não preciso ficar declamando versinhos. Os jovens é que não sabem o que estão fazendo na escola.
É verdade, os jovens não querem fazer parte deste pensamento cartesiano, um vírus herdado de muitas gerações, mas nós acreditamos que existe cura. Continuamos usando a vacina dos verbos, equações, datas, mapas e heróis, para curar quem não está doente.
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sexta-feira, 14 de março de 2014

Já desencarrilhei e louqueei

Teatro Pedagógico 09
baitasar
Para enfrentar uma escola de gritos e silêncios não basta falar da esperança, precisamos da ação com esperança. Incrível como o rock me devolveu a esperança justamente porque não era uma esperança, mas uma oportunidade de gritar e desaforar, sendo diferente do papai e da mamãe que depois me tornei
—        Muita conversa, muita teoria sobre dinossauros e seres invasores de corpos. Isso é fantasia muito boa como roteiro de cinema. Quero ver na prática com 25 pequenos demônios, queridos, amados que precisam ser alfabetizados. Pais ansiosos, estatísticas, choros, incapacidades, as ditas inclusões.
—        Ensinar a ler e escrever os pequenos? Moleza, Acemira. Quero ver construir o diálogo da consciência e da boniteza dos números no 6º, 7º ano, e por aí a fora.
Não sei se foi resmungo de indignação ou comentário provocador. Ninguém diz ou disse que é fácil, mas parece que só temos ouvidos para as lamúrias. Decido sair do meu silêncio e arriscar me contradizer
—        Não basta falarmos em esperança com fé ou sem fé na esperança, precisamos agir esperançosas. O Marko nos lembra de dois coletivos que precisam se reeducados como um só coletivo pedagógico. Como ter esperança na educação de um coletivo que não se enxerga agressor? Opera o poder na escola e se diz vítima?
Parei.
Preciso respirar e fechar os olhos. Minhas mãos tremem. O Paulo continua voltado para o fundão da sala, seus olhinhos sorriem. Ou quero pensar que aquele sorriso afetuoso é para mim. Procuro pelo Marko, ele me olha sério, por trás dos óculos de aro fino escondeu seu sorriso distante e enigmático. Descobri que além de respeito por mim mesma, dos meus alunos e alunas, quero o respeito dos dois
—        É bem assim, Anita. É urgente lutar por nossos sonhos. Uma educação que educa para a ruptura dos paradigmas cultiva decisões éticas por opção e não por imposição. Uma educação que educa com o coração encara o difícil e o fácil, frente a frente, sem medo de estar ao lado dos oprimidos, dos feios e das feias. Aliás, feios ou feias para quem?
—        Sem deixar de ser uma educação boa e gostosa para os adocicados com perfume importado, hein Paulo?
—        Não desistindo de transformar em poesia cada novo dia, Anita. Como? Invente a sua poesia. Reescreva a sua história. Eu acredito no carinho e na alegria para fazer uma educação interessada e criativa.
—        E quem acredita no silêncio e na disciplina? Faz isso tudo como?
Silêncio.
O silêncio é uma das nossas características marcantes. Até mesmo ótimas professoras têm seu dia não, no qual nada sai como deveria e a aula parece um umbral. Somos humanos. Também já dei muitas aulas que não convenceram nem a mim. Já desencarrilhei e louqueei. Sobrevivi. Todos sobreviveram. E a vida continua. O sol sempre retorna e continuamos interessadas e criativas
—        A amorosidade requer disciplina, entrega riscos e convive com silêncios, mas tudo isso precisa ser uma preocupação inventiva que não venha apenas da boca para fora. — o Arthur interrompeu o Paulo com a impetuosidade da sua juventude, fala sem alterar a voz, não olha para os lados, apenas diz o que não quer — Não queremos uma educação metafórica, queremos?
—        Quem sabe, Arthur, o que nos espera dessa educação feita com o coração, mas não apenas com o coração, seja aquela que não prega o medo, nem se apresente cansada com a vida.
Olho à nossa volta, uns conversam, outras fecham os olhos, bocejam, escrevem em seus cadernos de frequência, quase peço ao Paulo, Chega, Paulo. Basta de falar para ouvidos que não escutam. Não querem ou não conseguem ouvir além das queixas. Encontro o olhar do Paulo. Silêncio. Quando ele fala parece me dirigir seu afeto
—        Sendo necessário, caminhemos sozinhos os primeiros passos. Aproximando ou permitindo que se aproximem outros já não estaremos desacompanhados, mas tecendo a teia de fazer diferente, construindo outra história com os sabores intensos e coletivos da vida, longe dos choros desimaginativos e das reclamações áridas. O poder não está dentro da escola, mas a sua força opressora tem paredes fortes e mecânicas.
O Paulo para, a Lia está com a mão erguida e impaciente
—        Desculpe, Paulo, mas isso do poder dentro e fora da escola é muito importante. Eu demorei a perceber que me ensinaram a vida toda a ser espantalho. O poder fora da escola espera do nosso trabalho uma reprodução assexuada e fragmentada, para suprir as necessidades do emprego. Mais bonecos e bonecas de paus para mais consumo, mais produção, mais acúmulo de riqueza entre os donos dos bonecos de pau. Os espantalhos de palha vão continuar de braços abertos enxotando os passarinhos?
—        Lia, a escola não muda a sociedade.
—        Muito bem, professora Acemira. Concordo consigo. — essa sou eu — Mas a escola pode ajudar a desvelar alguns tons escondidos. A greve dos trabalhadores do transporte coletivo, por exemplo, sem julgar ou antecipar, nem neutralizar minha opinião, mas gostaria de fazer uma pergunta.
Minhas mãos continuavam tremendo. Senti vontade de roer as unhas. E a minha voz estava rouca, não sei, mas fiz a pergunta
—        Se o transporte público é uma concessão pública por que não se pode ver claramente a planilha de custos das empresas do transporte coletivo? Por que isso não é uma obrigação sistemática. Um dever? Por que precisamos do Ministério Público para ver números que interessam a todos e todas? — não estava mais tremendo, outros que tremam
—        Anita, Anita. São os lucros exorbitantes dos empresários!
—        Não sei, Samuel. Pode ser. Acho que é isso e outras coisas mais. Mas na escola não podemos provocar a discussão sobre o que acontece fora dos nossos muros de proteção?
Percebo o Marko e o Paulo me olhando. Depois olham para o Samuel com um pequeno sorriso nos lábios. A Cabayba não vai perder muito tempo para berrar que os comunistas estão às nossas portas. Entraram na escola, coitadas das criancinhas. Um coletivo cúmplice de mentes educadoras com a esperança de formar pensamentos e ações coletivas. Somos um time, mas não sei se um dia chegaremos a ser um coletivo
—        Que linda aula de matemática sobre planilhas, custeio, salários, lucros! Dar significado para os números.
Incluindo nas almas educadoras, que não se colocam antecipadamente contra qualquer atitude de pensar mudanças, a possibilidade de se educarem numa perspectiva diferente, no sentido da solidariedade amorosa, não no sentido da solidariedade ingênua, em que um afago, um sorriso, um olhar, irá acabar com o sofrimento e a dor da fome, que não é fome só de comida, falta de saúde, de moradia, de se ver e ser visto como ser humano da humanidade histórica. Precisamos nos educar na solidariedade participativa e libertadora, pensando nós mesmos e o mundo. Agindo entre nós e com nossos alunos no mundo. Refletir sobre os gritos e os silêncios que nos fazem passar de fora para dentro, penetrando e continuando em mudança. Fugindo da mistificação do real, a mastigação do social, olhar e enxugar
—        Não aceitar a cegueira fácil da acomodação e da resposta simples, dócil, ingênua e propensa a confiar que no fim tudo se ajeita.
—        Isso, Anita. Necessitamos contrariar conceitos seculares, que, ainda hoje, se arrastam entre nossos pés e vendam com tarjas invisíveis nossos olhos, quando aceitamos sussurros e insinuações estabelecendo que os pobres, que encontramos em nossas escolas, só o são pobres porque preferem pedir a trabalhar. Na hipótese de realmente acreditarmos nisso, pensamento mágico fascistoide que acusa os miseráveis de serem miseráveis porque desejam viver do lixo dos não miseráveis, sugiro que, como forma de protesto, os não miseráveis parem de produzir lixo. E passem a comer o próprio lixo no caso de se tornar impossível deixarem de produzir lixo. Até não sobrar mais nada. — foi a primeira vez que percebi no olhar e na voz do Paulo a cruel e desconcertante mágoa com a indiferença elitista, preconceituosa, autoritária e desigual — Precisamos enxergar o nosso entorno como nunca antes o fizemos e fazer perguntas simples a nós mesmos.
—        Calma, Paulo. A reunião nem mesmo começou e você já quer nos transformar em réus confessos.
O Paulo continuou como se a Acemira não o tivesse interrompido
—        Quantos quilômetros o papeleiro anda por dia puxando o seu carrinho, como se fosse o cavalo? Por certo, faz mais que eu e o meu carro, entre a escola dos sonhos e a minha casa. Quanto do lixo, resíduos das nossas casas, aquela mulher e a menina conseguem recolher por dia de trabalho, tocando o cavalo que puxa a carroça? Alguém precisa se ocupar dessas perguntas.
—        É disso que eu falo, Paulo. O consumo das vidas é tão intenso que obrigamos os catadores a se especializarem. Nos dias de hoje, temos os catadores de lata, outros só catam papelão, vidros quebrados ou não, temos também os catadores dos restos de comida.
O desprezado e apanhado no lixo deveriam ser destinados à reciclagem e aos animais. Galinhas. Porcos. O puxador da carroça. Mas o lixo que sai das nossas casas e vai para a lixeira é usado para alimentar gente, depois os animais. Se preferir não enxergar e não acreditar, como transformar essas mortes em opção pedagógica e material de reflexão didática?
Retorno dos meus delírios a tempo de continuar escutando o Marko
—        O coletivo é um organismo social vivo e, por isso mesmo, é trabalho social útil aos fundamentos de uma proposta educativa coletiva, onde cada um desempenha um papel no contexto da construção do todo, na perspectiva de que não é nem o melhor nem o pior, mas um componente humano importante e fundamental para a felicidade coletiva. Como organizar na escola um sistema de interligação coletiva? Como possibilitar que todos pertencentes a este universo não se percebam isoladamente? Como ter a exata noção do todo que fazemos parte? Distribuindo responsabilidades com disciplina, afeto, em uma permanente discussão coletiva que busca a liberdade. Desoprimindo, livramo-nos da opressão e da solidão.
Penso nas palavras do Marko e me pergunto sobre quem faria esse papel, os gestores da escola? Compreenderão esses personagens o papel que precisam desempenhar? Ah, esses sonhos enfiados em mim
—        Conheço sonhos que são reais nas tentativas individuais dos professores, alguns alunos, poucas escolas e suas comunidades, mas precisamos avançar para mais, muitas mais professoras, milhares de mais alunas, multiplicar nas escolas o pão e o vinho da esperança que brota em nossas pequenas ações do dia após dia. Gente colorida.
—        Lia, precisamos investir contra o egoísmo e o cinismo. Acolher os ingênuos para dizer-lhes que nos queiram bem, mas urge acordar e caminhar. Saboreio pequenos jornais escolares comandados por alunos e professores, a distribuição rotativa e coletiva das funções: fotógrafos, editores, digitadores, repórteres, colunistas.
—        Ai, o Paulo acorda! O Aguinaldo reclama que não tem papel e cotas de cópias para o jornal.
O velhinho olha Cabayba com a seriedade que a resposta lhe pede
—        Quem sabe, aprendamos dar nossas aulas sem as mágicas folhinhas xerográficas? Talvez possamos diminuir coletivamente o seu uso e possibilitar aumentar a cota do jornal da escola. Podemos ter pequenas hortas cultivadas pela enxada empunhada por alunos e alunas. Grupo de teatro, cinema, música, dança, vigílias literárias. Precisamos comprometer a todos com o ser mais, tendo mais humanidade. Semear e proteger a vida, inclusive dos cínicos. Chega de deixarmos que nos roubem quem queremos ser.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ensinação é ineficaz

Teatro Pedagógico 08
baitasar
A pedagogia antibiótica e meritória dos tecnocratas da ensinação é ineficaz para acabar com o analfabetismo porque acaba com o analfabeto. Sob o ponto de vista da pena de morte da libertação, ela é convincente e útil, mas não considera o analfabeto porque não enxerga que antes dos conteúdos e das linhas preenchidas está a amorosidade capaz de nos aliviar um pouco do egoísmo de saber e ter mais; não considera porque não repara que o tempo voador engole a permanência, qualquer que seja o precioso momento de estar junto. A permanência é a morte. O tempo engole a morte. Tudo vira poeira nas doses letais de renúncia ao condenado analfabeto, com 6 ou 60 anos, perdido da conscientização consigo mesmo e com o outro.
A pedagogia antibiótica não sabe o que fazer com os abraços e sorrisos da suavidade derretida que farão da memória um lugar gostoso para reaparecer
—        Paulo! Você é um obstinado com esse crédito de esperança no ser humano educador.
O Paulo está de costas para o general, olha diretamente para o Acácio. Parece dizer que o amor não é paz, nem é o silêncio, é o amor que se contradiz no outro e em si mesmo. A diversidade deveria ajudar o mundo a mudar
—        Querido Acácio. Fico pensando naqueles e naquelas desesperançadas por pura teimosia. Negam a própria existência e a construção do seu teatro histórico, têm medo de narrar e não querem registrar sua biografia. Não acreditam que podem formatar a sua própria fábula, se fogem. Não se acreditam e não permitem que os desesperançados se acreditem. Jogam suas cabeças no abismo da fatalidade e do destino, se proíbem de acreditar em si, nos outros, nas outras.
O que acontece hoje seria a reunião pedagógica que sempre sonhei e nunca tive? Estou sonhando? É só para mim essa realidade
—        E o que fazer com pessoas que se julgam maiores ou menores, conforme o tamanho que imaginam do outro à sua frente?
—        Lia, estamos jogados nas águas oceânicas da vida, alguns se deixam embalar até o naufrágio na primeira tempestade, que cedo ou tarde virá. Navegam na desesperança e na aposta imoral que os ventos não mudam, não circulam, não aumentam. Juram que os vagalhões não existem. Eles não existem, não se acreditam existindo, são frutos da imaginação. Por isso, também se impedem de sonhar.
—        Professor Paulo...
—        Apenas Paulo, meu querido Arthur. Caso seja necessário usar algum título, que seja professor, até porque tio ou tia, velho ou velha, são títulos que pressupõe outros relacionamentos que também existem. Não é o nosso caso. Mas se você sentir necessidade do título, não tem problema, muito ao contrário, sinto orgulho do título: professor, substantivo próprio de quem sente orgulho pelo que faz.
O Arthur é mais um jovem que começa sua estrada de ensinar e educar aos outros e a si mesmo, nesta escola
—        Professor se o desesperançado tem medo de encontrar a verdade nos pesadelos, ele tem medo das suas fantasias; então, suas ilusões se tornam opressoras ou oprimidas?
Vejo um sorriso maroto e disfarçado que o Paulo não se apressa em desmanchar para responder
—        Eis um coração e uma mente que me parece a Academia não destruiu. Arthur, os desesperançados teimam que a esperança não existe como um ato de mudança, como um fato do cotidiano, como uma xícara com chá de hortelã. A vida para os desesperançados está fora deles, está nas pessoas e nas coisas que podem comprar.
Acredito que o destino pode ser torcido e retorcido até a dor intensa da consciência ou ficar moralmente dominado pelos desatinos do medo. Esses pensamentos me trazem as conversas no banco de madeira, à sombra da mangueira, Não acreditamos no que fazemos porque o que fazemos não vai mudar nada, Jura, Não vai mudar nada do que sempre foi, Você não acredita que existe beleza no trabalho de educar com esperança na palavra do outro que nos educa, E você jura que existe o outro miserável que nos educa
Essa é a desesperança maliciosa e ordeira. Respondi angustiada, Você é muito triste, mesmo quando ri com suas gargalhadas; existimos nos educando juntos, nas histórias vividas ora com um, ora com outra, nada é igual o tempo todo
—        Tenho certeza que o Paulo, o mais esperançado, entre nós, e aquele ou aquela mais desesperançada nesta sala não ficaria surpresa ou atônito se lhes afirmasse que o coletivo dos professores não existe no sentido pedagógico. Pelo menos, nas escolas nas quais estive nestes trinta e tantos anos de reuniões, espasmos, espantos, crises, bolos de aniversário, almoços, piadas, reclamações, licenças, abandonos, risos e lágrimas. Raramente vi ou ouvi planejamento e sentido coletivo nas ações pedagógicas. Escutei muitos sonhos, presenciei muitas discussões e tentativas, que não passaram dos desejos de uns poucos e poucas. O que nos impede de existirmos como um coletivo de professores por certo não é a falta de espaço para discussões pedagógicas.
—        Isso não é verdade! Na minha outra escola não tem espaço para discussões pedagógicas.
—        Tá bem, Acemira. E qual é a tua contribuição para as discussões aqui? Mas o que dizer daquelas escolas que têm horários sistemáticos semanais, quinzenais ou mensais, para reuniões pedagógicas e não conseguem um sentido pedagógico coletivo? Aqui, não estou me referindo ao senso corporativista, sentido de classe, mas ao fazer e pensar educação coletivamente, incluindo, especialmente, funcionários, pais, mães, alunos e alunas. Eles têm o direito de nos dizer qual a educação que desejam, para si, para seus filhos e filhas, ou não têm?
Bem assim, oramos o discurso pedagógico do alto do púlpito catedrático para mostrar que somente os professores e as professoras entendem sobre educação escolar. E o mínimo que esperamos é que eles eduquem seus filhos e filhas para que possamos ensinar-lhes com nossos velhos métodos os conteúdos programáticos
—        Os pais não têm nada para nos dizer!
—        Será, Cabayba?
—        Quem está com o discurso da desesperança é você, Marko!
—        Cabayba, não é somente a esperança. Mas, por certo, ela é um sentido muito forte que me moveu e move, em mais de trinta anos de reuniões, na maioria, catarses de autoajuda ou autodestruição, negação do aluno que não se molda à nossa imagem e semelhança.
O melhor da aposentadoria será não participar das reuniões. Talvez tenha sentido esperar por outras, como esta, com o Paulo e o Marko juntos num poema pedagógico. Queria correr atrás de uns goles de chimarrão. Não saio. O Paulo vira-se todo, nos olha de frente
—        Querido Marko, invejo quem na sua esperança mobiliza a realidade à sua volta na busca da transformação. Não sou queixoso. Minha inveja não é invejosa, não é melancólica, á amorosa. Precisamos pensar e fazer com esperança. Não nos deixar invadir pela desesperança do mundo, do outro, e a nossa própria. O mundo a todo instante nos impõe desapontamentos, desencantos, frustrações, as desilusões do cotidiano. E apesar disto, homens e mulheres, jovens e velhos, criam com as mãos e coração o mundo da esperança, da igualdade social, do pensamento livre, da voz que não se cala, tagarela.
Eu sei, aprendi com você que não existe nada pior que a alma submetida ao silêncio pelo medo. A escola brilha de humanidade amorosa quando se mantém atenta à diversidade, às diferenças, para não criar guetos ou estufas, próxima do verdadeiro combate corpo a corpo. A escola ética e verdadeira é aquela que luta contra um mundo excludente e falso; não valoriza o ter mais, nem esconde as mentiras do consumo desnecessário e destrutivo que amaldiçoa a nossa necessidade ontológica de ser mais. Quero parte da escola que antes de pensar o que vai ensinar para suas avaliações cartesianas – aprovado/reprovada – discute o que existe, se transforma na fecundidade frágil entre o certo e o errado
—        E o destino?
—        Por certo, não é o destino, meu jovem. Qual é o seu nome?
—        Aécio.
—        Aécio, os atos e omissões de homens e mulheres que acreditam em si, em vós, e também em nós, renovam o fazer do cotidiano, pretendem incinerar a neutralidade estúpida, curta de inteligência, orelhuda, mal-intencionada.
Silêncio
—        Blá, blá, blá... somos o exército da salvação.
—      Com licença. Eu sou o Aécio, estagiário. Acho que poucos me conhecem. O professor Arthur, talvez um mais ou outros. Não sei se tenho direito de participar, afinal, sou o estagiário, mas gostaria de fazer uma ou duas observações sobre o comentário da professora: o exército da salvação...
—        Cabayba. O nome da professora é Cabayba, menino.
—   Ok, professora Cabayba. Peço desculpas, mas assim como poucos me conhecem, também não conheço a todos. Mas enfim, eu acho que é indispensável à esperança o coletivo. Não sei se as pessoas veem nos professores um exército de salvação que marcha, marcha e marcha, perde seus soldados, forma novos exércitos para marchar e marchar, também não sei, se nos vemos soldados dessa massa de seguidores tarefeiros, tampouco posso afirmar se individualmente conseguimos salvar nossa existência nesse contingente salvacionista. Nem tenho certeza da existência de um outro exército: a legião do extermínio. Mas acho que se os professores não se constituírem no coletivo, serão facilmente cooptados e aliciados pelo exército da desesperança, do desamor, do desânimo, das lamúrias, dos mal-intencionados. De modo caricatural pode-se dizer que se criam as condições para uma grande escola de gritos e silêncios.
Silêncio.
A ousadia da juventude é sempre bem-vinda. O garoto não parece assustado com aqueles olhos arregalados. Não o reconheci com os cabelos crespos presos num cocó, o bigodinho raladinho, os alunos de alguns anos atrás cresceram, esse voltou. Será que a esperança consegue afastar o cansaço? Como organizar um coletivo com visões de mundo tão diferentes
—        Aguinaldo, chega dessa conversa. Eu quero ver isso tudo na prática.
—        Na prática, Renata, só produzimos um imenso vazio. Eu perco minutos preciosos das minhas aulas falando sobre as maneiras, ou melhor, as nenhumas maneiras que têm. Falo, falo, falo, e nada. Entra por um lado e sai pelo outro.
Abro a boca para perguntar à Cabayba ou à Renata se elas já leram alguma coisa sobre educação bancária, mas me contenho, não quero contribuir para provocar o silêncio.
A Acemira não se conteve, aproveitou o meu silêncio
—        Chego a atingir os limites do aconselhamento: Quem não quer estudar, fique em casa! Não precisa vir!
Eis quando a ingenuidade deixa de ser inocente e passa a ser mal-intencionada.
Esperar que o vazio mal-intencionado venha a ser preenchido pela ingênua esperança que vem carregada pelos braços, suor e sangue dos outros é também querer ser virtuoso pela virtude do outro. Quando nos imaginamos em movimento, na verdade, estamos de braços cruzados. Uns goles de chá de maconha, por certo, nos deixariam os sentidos mais relaxados para acreditar, não apenas no que vemos, mas também naquilo que desconhecemos, que não se está enxergando. Uns goles de jazz, samba, ou bossa-nova, talvez nos devolvam sentidos adormecidos. Eu já preferi doses cavalares de rock.

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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A esperança das manhãs, tardes e noites perfeitas

Teatro Pedagógico 07
baitasar
Não basta o diploma para vivermos manhãs, tardes e noites perfeitas com esperança na vida, no mesmo lugar, duzentos dias
—        Com licença, peço desculpas pelo atraso. — é o Paulo que se anuncia vencido pelas horas, interrompendo a reunião que não começou — Estava fazendo uma releitura de um texto com os alunos da progressão do 3º ciclo, uma pequena novela de Balzac: Jesus Cristo em Flandres, o tempo foi passando na sua medida, desculpem o meu atraso e essa interrupção indevida.
O Paulo tem um carisma muito grande entre todos que de alguma maneira, por qualquer razão, escutam suas palavras. Um velhinho de cabelos brancos e longos, barba comprida e branca, com um andar calmo e curtinho, não parece com pressa de chegar, lhe interessa o caminho percorrido. A voz tranquila e clara não deixa dúvidas sobre suas intenções, os olhinhos parecem buscar desafios em tudo que possa ser visto e apreendido. Tem a intenção consciente de unir a ação com o pensamento
—        Parabéns, professor! Já é uma tragédia fazer qualquer leitura com esses alunos, imaginem o feito de uma releitura de Balzac... O máximo da bruxaria, pura magia. Enfim, temos o nosso bruxo, Balzac! — observo Ofélia de longe, fui sentar na última fileira da fórmica; o mais além que pude. Busco com o olhar o professor do corredor. Não está. Como o necessito. Deus havia sido a minha mais importante carência, mas a ele necessito mais que a Deus.
Retorno desse espasmo confessional no tempo de ouvir a Lia
—        ... sempre acreditei na possibilidade da construção de uma escola diferente, voltada para as práticas da conscientização, inclusão, autonomia, participação, auto-organização, libertação com alegria, cidadania...
—        Chega! Chega! Já conhecemos o discurso. Eu quero saber se tu estás satisfeita com o teu salário?
—        Não. Eu não disse que estava satisfeita, nem sabia que hoje era reunião do sindicato. Pensei que fosse pedagógica. Mas se a reunião é do sindicato não tem problema, vamos discutir os salários.
Bem... eis é uma reunião que promete. O combate da ironia que brinca com o deboche e não se deixam desviar, não existe ingenuidade. As manobras medem forças, granjeiam aliados, agrupam-se. Não existe lirismo nem sangramentos, as consequências estão depositadas no fazer ou deixar de fazer, tudo se concretiza na sala de aula: um ensino arrogante ou desejos de aprender junto. Todas as lutas são boas, a mim preocupam as lutas de ódio.
O Paulo retoma a palavra, eu paro minhas digressões. Quero ouvi-lo
—        Colegas... parece-me importante chamar atenção para quantas e quantas vezes sucumbimos frente a falas destrutivas e desesperançadas, que nos fragmentam, implodimos em pequeninos pedaços voadores transformados em poeira. As nossas tentativas íntimas. Nas tantas vezes em que isso acontece, não sabemos se é uma intenção deliberada ou não sabemos pensar e sentir diferente. Aguardamos o enfrentamento final quando o bem, que somos nós, vencerá o mal, que também somos. Eis o imobilismo na crença que haverá somente um embate, todos os desgastes e afrontamentos anteriores se dão sem razão. Ao assumir uma posição crítica e não lírica deixamos de assumir os defeitos e dificuldades dos outros para estabelecer parcerias razoáveis de comprometimento com a esperança. A práxis libertadora do outro em mim que retorna ao outro que está fora de mim.
É isso! Não existem fadas ou benfeitores. Precisamos caminhar com as próprias pernas no mundo injusto dos erros e acertos, mas nos basta por enquanto o movimento. Diálogos íntimos, enfrentamentos pessoais podem fixar regras de ação, deixando o coração livre para voar maiores e melhores sentimentos da esperança. É só não ficar vencida pela insônia do medo ou gemendo escondida a dor das próprias escolhas. Esses jovens tecnológicos que me perdoem, mas é tão bom levantar da cômoda cadeira, retirar o disco do toca-discos, virar o vinil e tocar o lado B, movimento e reflexão, quanta sonoridade no vinil. Nem tudo que é novo supera o antigo. Resolvo mudar o lado do vinil
—        Paulo, não se opta pelo novo apenas como consequência da novidade. Decide-se pelo novo através da reflexão que temos do velho e do desejo de fazer nascer diferente do antigo. — pronto me meti de pata a ganso
—        Isso mesmo, Anitinha, aquilo que é novo – a notícia ou a colheita – não nos embaraça tanto quanto o novo que chega pelas ideias de fazer diferente. Não se diz querer o novo das ideias, ou pelo menos não se deveria dizer, por astúcia ou ingenuidade, pois tanto uma como a outra farão da novidade mentiras diárias. Cresceremos com as ideias do novo fazer e do novo pensar, na discussão permanente entre mim e o eu, entre o eu e o nós, entre o nós e o todo, entre o todo e o que repito que é meu, pois sempre retorno ao início que sou eu. Minha dor não é nova, mas meu sorriso está diferente. Estou refletido em mim mesmo, clareando e esclarecendo minhas perguntas: Sou astuto, ingênuo ou progressista, por ora, já me basta responder que estou atento, sofrendo com o esforço, mas em movimento.
Sou energizada ao ouvi-lo, quanto aos demais não sei, o silêncio dá algumas pistas. Mas precisamos superar esses papéis mágicos ou autoritários com novos olhares sobre o nosso quê fazer na escola. Sacudir a poeira do tempo e descobrir aos poucos um novo eu que já existia, permanecia escondido na poeira da imperturbabilidade ingênua ou solércia medrosa
—        Professor Paulo, por favor, precisamos continuar nossa reunião.
O Paulo faz um pequeno gesto com uma das mãos, pede desculpas. Depois, senta calmamente na fórmica verde e menos dura e menos fria da sua cadeira pedagógica. E o que é a pedagogia? Uma ciência pensada para dar conta de muitas ciências dentro da escola. Aí começa o emaranhado, o lio. Como podemos dar conta de todo saber científico para ensiná-lo na escola? Criamos os programas, os conteúdos, os métodos, as estratégias... eis o começo da traição aos miseráveis. Ou não os queremos transformar em bonecos de pau?
Calma, sei que através dos tempos, de acordo com os diferentes exércitos históricos, tivemos construções importantes no campo da pedagogia no sentido de transformar as práticas coercitivas, disciplinadoras, autoritárias. Lembro Gramsci com sua pedagogia crítica, Frenet com a escola nova, Makarenko com a pedagogia socialista, Paulo Freire com a pedagogia libertadora. Teria outros e outras a recitar, mas me interessa perguntar, Quem foram os traídos, nós os conhecemos? Todos eles pensaram uma nova escola a partir da utopia da sociedade baseada em princípios solidários; a pedagogia estaria a serviço dessa sociedade. O que deu errado?
Olhamos para algumas partes do mundo, a Europa com seus imensos contingentes de desempregados e miseráveis, acreditem, é verdade! A África, a Ásia, a América Latina, e veremos a fome, as favelas, os guetos, as desigualdades extremas. O que não deu certo? Precisamos da pedagogia da esperança?
Mas para construir conceitos de justiça e ética, numa sociedade dominada pelo consumismo e individualismo, só ela não basta.  E não bastam as leituras da realidade, dos saberes existentes de determinadas comunidades, se não pudermos ou não quisermos compreender como quem interpreta a própria realidade. Não há outra saída, creio que não seja estar junto do povo. Falar. Dialogar. Aceitar. Meter a colher. Mudar nosso modo de vê-los. Deixar que nos ensinem e nos toquem. Queremos deixar de fabricar excluídos, ou não?
Fazer para mudar nossa vida, não para teorizar e apresentar relatos em seminários. Pensando assim, a pedagogia não é uma traição, é uma ferramenta de mudança desde que assim o façamos, ou melhor, desde que assim a entendamos, mas tudo isso exige disciplina e método... dialético, com toda certeza
—        Professor Aguinaldo, me permita uma pequena observação...
—        O que foi Marko? — durante meus lapsos filosóficos íntimos a vida contínua nada espera, parece que eu estava em um não lugar
—        O Paulo, na sua conversa com a professora Ofélia, me pareceu estar descrevendo a esperança...
—        Meu caro Marko, sua sutileza e perspicácia me fazem rever as palavras sobre a esperança no homem e na mulher, independentemente da maneira como se manifesta e se diz pertencente, querendo a humanidade que nos habita, permanentemente mobilizada pra recriar as condições humanas de ser mais. Esperar o que se deseja é o natural, a necessidade que transcende a biologia e vem se assentar em nossa condição humana.
—        E no desejo que existe na palavra e na reflexão que impregna nossa ação.

—        Exatamente, Marko. E é está palavra carregada como nossos desejos que aviva a práxis voltada para o humano que se quer sendo mais humana, recriadora das possibilidades e oportunidades que nos aproximam. Sonhar esperança é pensar a vida com um chá refrescante de hortelã na xícara em nossas mãos, quentinho e aconchegante, tomado delicada e decisivamente, sem esperar que amorne ou esfrie. A esperança do chá está em sua delicadeza e na sua maneira diferente de observar e influir na vida, na saúde da existência, na ausência de agressão. Não existe esperança nos fármacos tirânicos e imediatistas, ou pelo menos é uma esperança diferente, é a esperança que adia a morte. Não é a esperança na vida.

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TP 06 - As regras do mais forteTP 08 - Ensinação é ineficaz

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

As regras do mais forte

Teatro Pedagógico 06
baitasar
—      A reunião vai começar?
—      Vaaai!
—      Onde?
—      Na sala 14...
—      Por que na sala 14?
—      Sei lá, isso importa? — concordo com a Renata, não tem nenhuma relevância, os algarismos da sala e outros mínimos desprezíveis nos perdem com suas desimportâncias
—      É que sempre foi na sala 13...
A maioria permanece onde está. O abrigo é uma barriga gulosa, ninguém parece animado com a informação: a reunião vai começar!
Até que a Bela da tarde levanta, pendura sua bolsa no ombro esquerdo, ergue da mesa sua cota de provas e trabalhos para corrigir, e sai, depois sai a Mirra, o Antônio; a Lidiane para no portal do abrigo, lembra o óbvio
—      Gente... mais cedo começa, mais cedo acaba. — ninguém parece estar atento, a Lidiane guarda a trombeta e o toque da corneta cessa.
Outra reunião de calendário e eventos que não cativa nem os medíocres; avisos e lembretes que desanimam até as animadas.
Mudar sem mudar.
Mínguam os debates que polemizam ideias e propósitos. Não faltam opiniões, não desapareceram as vontades; a ausência do entrevero com falação de um lado, do outro, e do outro, mais outro, é enganadora, presume paz pelo silêncio.
Sobram ajustes e contratos: começamos bem depois e terminamos bem antes; um tempo em que é chique ser conservadorista das tradições antidemocráticas; ser reacionário é quase como ser uma criança mimada que cresceu individualista, discursos inflamados, vazios de solidariedade e exabundados de egoísmo. Uma criança que sempre teve o que pediu e o que não pediu. Não precisava pedir, não precisava nem desejar, bastava esperar. Desvendavam os mistérios da sua mente, Mamãe, como é que a senhora adivinhou, Papai, papai, o senhor não existe, crescido no tamanho, mas uma pessoa que não se permite nem o pequeno e insignificante (na avaliação chique) instrumento progressista: o diálogo. Adestrados na dialética que não escuta, não lê, mas sabe recitar as manchetes jornalísticas, sejam fatos ou não, verdadeiras ou não, as teorias chiques precisam encaixar na ambição indiferença mesquinhez dos discursos os seus fatos fingidos afogueados purulentos. É tudo a mesma coisa: desinformação e desamor, arrogância e vaidade, injustiça e ódio. A tristeza e a certeza que existem pessoas vivendo de insultos silenciosos ou evidentes vestidos com a roupa de todos os dias.
Existiu um tempo sem tempo para reuniões, uma maneira de não escutar, não deixar falar; é trágico quando não se reconhece a luta histórica desta conquista, o enfrentamento das ideias contra e a favor dos debates na escola. Eu sei, o tempo histórico está sempre em movimento, está sempre passando. O passado fica apenas na memória - e isso não é pouco - dos sobreviventes, depois, são histórias, nada mais que histórias. Outros exércitos chegam e fazem do tempo o seu próprio uso, mas o tempo sem tempo para reuniões que ninguém mais dá importância se existiu pode tornar-se de novo
—      Colegas, estou aguardando na sala 14. — o general anuncia o combate e vai posicionar sua trincheira. Esquece ou se finge surdo do murmúrio que deixa atrás de si. Cedo às obrigações do cotidiano e sento-me na fórmica verde e fria, silenciosa
—      A reunião vai...
—      Vaaai! — gritar é uma das contradições dos triunfos na sala de aula, a vitória de Pirro
—      Alguém viu minha bolsa?
—      Nãooo!
Seca como uma árvore macho sem flores, apenas folhas e raízes, a pedagogia se aproxima dos desprezados e humilhados. Continua julgando e culpando os rendidos da exclusão. O contrato continua vigente: julgar e culpar sob o frescor da sua sombra. Uma professora deveria ser a anunciadora de utopias enquanto aceita a realidade possível, e luta pelo encantamento que não imobiliza, mas educa à libertação, discute a aprendizagem da liberdade, desvela a prática da submissão
—      Vamos sentando, colegas. — no jogo temos os acomodados e incomodados, o general escreve a pauta da reunião no quadro de giz. As tecnologias na sala de aula ainda são o quadro e giz. A educação continua desimportante
—      Acemira, senta aqui. — Ofélia Cabayba Acemira forma uma só, um pequeno grupo capaz de trespassar o braço da vida sem um gesto de solidariedade. Caminham solitárias. Seu gosto é ocasional e calculista, se transforma em um não gostar geralmente vingativo no primeiro confronto com suas vontades. Para mim, bonecas de plástico
—      Gurias, o que temos hoje? — o olhar frio cai sobre o general escrevendo no quadro verde. Um comandante de costas para os seus soldados deveria estar em segurança, mas ninguém está protegido das traições e ambições das sentinelas ou dos generais
—      Espero que o general não venha com reunião comprida, dessas que discutimos o nada que leva a lugar nenhum. — um dos exércitos está pronto, armado até os dentes com a desinformação, o desinteresse, as premonições sobre o tempo, os apetites, os humores, cigarras formigas abelhas
—      Acemira, teus filhos continuam naquele colégio de padres? — intolerância foi o que vi no olhar da Acemira; acredita que a meiguice em demasia afeta a compatibilidade das ideias e propósitos, ela por certo, confia no medo para desacreditar outras vontades
—      Não é colégio de padres, Ofélia...  — para tudo existem os limites, mesmo para quem se sacrifica pelo prazer do sacrifício. Não é o caso da Acemira. A renúncia pelo bem-estar de alguém que não seja ela própria não faz parte do seu cardápio de serventias. São inutilidades que não reserva às amigas de hoje, possíveis inimigas amanhã
—      É o quê?
—      Jesuítas, é um colégio de jesuítas. — parece que Acemira não teve uma metade de turno com os alunos, muito fácil. Perde a paciência com sua aliada, mas retoma quase que imediatamente o controle de si mesma, sabe que o recrutamento é sempre um momento delicado. Ofélia não chega a perceber a desarmonia, muito menos a desafinação na voz da outra... continua sua autocomiseração
—      É um horror o que se gasta com o colégio das crianças: mensalidades, livros, uniformes, taxas, passeios, transporte escolar... uma loucura, uma loucura!
—      E o governo não faz nada, pior, distribui o nosso dinheiro pra essa gente que não quer nada com nada!
—      O absurdo dos absurdos são os livros. Com o preço de um livro de química poderia comprar dois ou três livros da Martha...
Sugiro que vendam os livros no final do ano – se os filhos passarem, é claro
—      Que livros? — pergunta a descuidada Cabayba.
Sua pergunta ficou no ar como a fumaça de um cigarro, sumindo aos pouquinhos, sem nenhuma importância aparente, até que sufoca e é preciso abrir uma janela
—      Por que não coloca seus filhos aqui na escola? Não seria preciso comprar os livros... — a pergunta do Marko chega como uma ventania inesperada, janelas e portas batendo, roupas escapando dos prendedores no varal, a poeira nos olhos. Ficam aturdidas e desorientadas por instantes. Quando ele se preparava para sentar nas fileiras duras da fórmica verde recebeu o contra-ataque. Insultos pra desqualificar, mas que não respondem a sua pergunta, Por que os filhos da maioria – ou seria minoria – dos professores não estudam na escola pública
—      Chegou o brincalhão!
—      É... o bobão útil!
—      O comunistinha e seus palavrões! — a fórmica verde e fria não conseguia esconder as feições do descaso e descontrole. O Marko não parece incomodado com a artilharia que desqualifica e não consegue ou não quer argumentar, elas preferem as armas de grosso calibre: elevar a voz para intimidar
—      Por que tanta raiva, professoras?
É um maluco. Não vale a pena insistir, penso em resumir. Isso não é apenas teimosia. Ofélia abre a boca para responder, mas Acemira é mais rápida. Essa é uma resposta que tem pronta, muitos anos atravessada na garganta, como um espinhaço inteiro do salmão do domingo que não conseguiu engolir

—      Não coloco meus filhos nessa mixórdia! Onde já se viu, o poste mijando no cachorro! Isso aqui é uma porcaria de escola! Não podemos reprovar! Todos passam do mesmo jeito. O folgado e o fraco precisam aprovar, e pronto! E o vestibular? E o português, a matemática? Não sabem ler, o que dirá escrever. Os números são outro mistério. A universidade não é para qualquer um... tenha dó! Cotas pra pobre que não tem onde cair morto! — ela parece ter acordado do seu torpor, está pronta para o duelo — Eu cuido dos meus filhos, os outros que cuidem dos seus, têm coisas que são o que são, outras só parecem o que não são. Essas crianças são insignificantes em todas as perspectivas, não contribuem para nada. Para nada, não é verdade, desculpe... contribuem com a bandidagem ou essa bolsa fome. Deixa pra lá, isso é um assunto menor.
Como uma pessoa com pensamento tão medíocre pode estar aqui, dando aulas. Fico estarrecida com a ignorância e o preconceito da Acemira, não me contenho. As veias do pescoço dilatam, minhas têmporas latejam
—      Por que você está aqui? — não é uma pergunta, é o grito das minhas histórias guerrilheiras com um efetivo de professores que parece nunca ser suficiente.
Acemira sorriu sem ânimo, não escondeu que não sofria
—      Estabilidade, queridinha. Não é pelo prestígio nem pelo renome, muito menos por este salário de merda! Apenas estabilidade... tire isso e esse mundo da escola pública que conhecemos acaba. Pelo menos do jeito que é.
Eis o grande mistério dos seres humanos que se vangloriam da diversidade de pensamento e comportamento, mas têm uma imensa dificuldade em produzir caminhos comuns com as diferentes maneiras do ser na vida e do querer viver. Acredito que as ideias e propósitos nazistas estão por aí, à disposição da sociedade, existiam antes do homem de bigodinho, bastou querer classificar as pessoas em seres inferiores e humanos superiores.
Ficamos em silêncio, talvez pensando num segredo que guardamos até mesmo de nós
—      Somos todas muito diferentes, Marko... mas me responda sinceramente, as crianças estão aprendendo? — a combinação de afirmações fáceis ou declarações difíceis precisa do valor da consciência dos propósitos e ideias, outro segredo que guardamos

—      Concordo, Acemira. Mas o que você quer ensinar? A quem você quer educar? — Marko interrompeu Acemira suave e decididamente. Deixo-a procurando o pensamento que rolava de sua cabeça enquanto pisava no esterco e ficava vazia de dizer o mais adequado, quentinho e terno das suas boas intenções. Não consigo mais acreditar como o Marko. Ele continuou conversando com seus olhos azuis — Somos todos diferentes, mas não conseguimos diferir do senso comum. Quanto mais normais e silenciosos, mais as loucuras permanecem escondidas. Submersas em águas calmas, ternas, sem luz, nada além daquela que permitimos com nosso olho enfermo: egoísta ou irreal. A pureza é o nosso pecado - até a pureza da cocaína mata; o medo das combinações com a vida é a nossa maior covardia - sim, as fraquezas podem ser maiores ou menores. Precisamos deixar de ter sempre razão - essa seria nossa maior virtude: escutar com o coração. Gosto de escutar tuas razões com o meu coração. — o Marko deveria escrever um livro de autoajuda sobre as certezas da solidão, o silêncio que nos faz mergulhar na indiferença, o fatalismo do fanatismo, o desbrio bizarro da neutralidade. Um livro fininho para não competir com os livros de química
—      Marko! — reconheço a voz da Abigail, olho para trás, está sentada ao lado do Adail e da Lélia — Vem sentar aqui. — acena com uma das mãos e oferece um pequeno sorriso
—      Com licença, senhoras. Vou sentar com o meu segundo exército, são todas guerrilheiras. Esfoladas de tanto sentarem no chão. Aprenderam que as crianças gostam do chão, é mais fácil para rolar e erguer as pernas e soltar um pum de felicidade.
Joga-se na trincheira com Samuel, Fernanda Maura, Elisa, Desirée, Lia, e mais na frente Camila aguarda as instruções do combate, tem as mãos cruzadas sobre o colo. Abigail, Adail e Lélia insistem, Aqui, Marko!
—      Vocês são terríveis, parecem crianças.
O professor Aguinaldo pede a palavra, bate suavemente as mãos para limpar o pó de giz, espirra uma, duas, três vezes, Tenho alergia do giz, outro espirro. Os olhos ficam avermelhados, a voz some
—      Muito bem, colegas. Vamos iniciar nossa reunião semanal.
É o destino de tudo que existe viver com as regras do mais forte.

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