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domingo, 25 de dezembro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 29bs – luzes da ribalta

becos sem saída


(III) o descolocado
29bs – luzes da ribalta

baitasar


assim, duros como chumbo, outros dias e noites vieram, inevitáveis, alguns tensos, outros monótonos,  muitos intoleráveis, infindáveis noites medíocres, defeituosas, tensas, torturantes, silenciosas, num tempo onde não há mais garantias de nada, o marcha soldado cabeça de papel ganhou as ruas, ensandeceu os cabeça de papel

e o improvável aconteceu

virgílio silva e ana rosa silva desapareceram, ele e seu serviço de socorro à ferrovia não deixou nem um dente para trás, ela com seu fogo de lamparina também não deixou nada para trás, tornaram-se invisíveis

durante muitos dias, depois do sumiço da palpável e do papeleiro, memória se fez ausente, desmaiada no acordamento do dia, como se o seu espírito estivesse afastado dela, um corpo vazio e sem sentido, não ficava nem saia, esmagada, as mãos ossudas, as pernas estendidas, os lábios grossos sussurrando para o travesseiro, a vida continuava malvada e silenciosa para sempre

os miúdos puxando o carrinho, A gente pega garrafa vazia, ferro-velho, osso e vidro quebrado, a voz miúda com braços e pernas miúdas, a escola também tinha ficado para trás, meninos invisíveis

quando o sol rasgava a pele que cobria a noite, memória voltava a repetir que o seu virgílio estava encantado em alguma árvore, estava como as sementes no chão, sentia que algum espírito lhe assoprava, junto com os ventos que entravam no beco e empurravam as cortinas, que o seu homem havia encontrado o caminho para o quilombo do rei zumbi, esperava a estação de brotar do cio da terra a nação dos pretos, até lá, não lhe tinha ouvidos

nas horas de desmaiamento, parecia que ficava sem a própria alma, não entendia essa desaparição, uma dor desconhecida que parecia sem fim, sem cura, sem cicatrização, parecia que dormia, mas não dormia, sofrida da desconfiança dormida

numa manhã, acordada e  menos desconfiada, em outra sem alguma notícia de explicação da fugição, cheia de pesadelos com caveiras e vermes, chegou a desejar ter o corpo presente do virgílio desaparecido, assim, poderia enterrar essa desaparição e desenterrar o choro que não desapertava

ninguém se espante ou vire as costas para essa mulher, dor de desaparecimento é assim mesmo, mistura da esperança com o cansaço da espera inútil, a vida para de andar, precisa ser empurrada, o desejo do desfecho procura por uma explicação que não vem, o ponto final que nunca chega

uma desconfiança que jamais termina, Cruz e credo que a glória de Deus o tenha vivo!

no tempo do luto a mamada secou e a miúda passou a experimentar as variações do caldo de feijão até chegar aos grãos, Guria de apetite.

depois do tempo do luto a espera foi se acomodando sem a explicação da fugição, Por que não manda dizer nada, nenhuma resposta, a separação do vínculo conjugal foi o mais óbvio para todos

e diante dos olhos sonolentos da miúda e o cansaço dos guris, o negrão espadaúdo e abandonado pela ana passou a cuidar das carnes da maria memória e silva qualquer coisa

assumiu os compromissos do virgílio

memória convenceu os guris que era o melhor a fazer, precisava se desfazer das despesas, das contas de comer do armazém, A dona Carmem não vai esperar muito pelo pagamento do fiado, Mãinha, a gente vai mais longe com o carrinho, Meninos, toda família precisa de um chefe, Mãinha é a chefe, Nada disso, eu sou chefe da porta pra dentro. Ogum, agora, é o chefe da porta pra fora, O carrinho continua nosso, Pode ser, pode ser, mas depois da escola.

o espadáudo levanta antes do galo cantar e se joga com o carrinho para a central de alimentos, busca legumes e verduras, não reclama, vem antes do almoço com o arrecadado, depois se vai pela obra de tijolos, ainda procura um rumo de segurança noturno

memória se observa todas as manhãs em acordamento mais satisfeita, mais conformada, admira o seu pássaro engaiolado, pulando de poleiro em poleiro, submetido às vontades daquele esqueleto de arame, a mulher ileié está sem entender o seu pássaro engaiolado

virgílio deixou para trás os miúdos e os ganhos avulsos dos biscates, não trocou explicação, virou lembrança para ser esquecida

enquanto espera ogum, agora ajuizado de serviço, a roda vida parece que carrega o seu destino para cá, depois leva para lá, o negão volta com as costas curvadas e as mãos caladas, é o chefe da casa

é assim mesmo, o novo sempre vem vestido de velho

na vitrola, achada atirada pelo chão das ruas, presente do ogum, escuta a voz de joão dias

Vidas se acabam a sorrir
Luzes que se apagam, nada mais
É sonhar em vão, tentar aos outros iludir
Se o que se foi, pra nós não voltará jamais

Para que chorar o que passou?
Lamentar perdidas ilusões
Se o ideal que sempre nos acalentou
Renascerá em outros corações

Vidas que se acabam a sorrir
Luzes que se apagam, nada mais
É sonhar em vão, tentar aos outros iludir
Se o que se foi, pra nós não voltará jamais

Para que chorar o que passou?
Lamentar perdidas ilusões
Se o ideal que sempre nos acalentou
Renascerá em outros corações





Fim do Livro Um

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Leia também:

Livro Um:
becos sem saída (I) 01bs - as águas que vêm e vão
becos sem saída (I) 02bs - histórias desamarradas e borradas
becos sem saída (I) 03bs - sobre nós e histórias borradas
becos sem saída (I) 04bs - cacete pra todo lado!
becos sem saída (I) 05bs - as mãos amarradas
becos sem saída (I) 06bs - o vazio da botina
becos sem saída (I) 07bs - maria futuro
becos sem saída (I) 08bs - um lugar para voltar
becos sem saída (I) 09bs - e adianta saber?
becos sem saída (II) 10bs - sem emprego, sem utilidade
becos sem saída (II) 11bs - notícia ruim
becos sem saída (II) 12bs - fome é fome
becos sem saída (II) 13bs - os tempos eram assim...
becos sem saída (II) 14bs - um marido eficiente
becos sem saída (III) 26bs – o amuleto
becos sem saída (III) 27bs – Vamos comer?
becos sem saída (III) 29bs – luzes da ribalta

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 28bs – língua de vaca

becos sem saída


(III) o descolocado
28bs – língua de vaca

baitasar


os estômagos satisfeitos apertam e desapertam na medida em que a mesa esvazia e a panela é desocupada da tarefa de acolher o alimento fumegando, a dádiva da fome saciada

Tudo perfeito, vizinho.

aquilo que os olhos não veem não afeta o entusiasmo da gula, Obrigado, vizinha. Mas é tudo mérito da Maria, minha tarefa foi separar e manter o fogaréu, para conquistar o paladar as miudezas cheirosas da Maria.

foi um dia de muita conversa reticente, palavreado mole e preguiçoso, olhando o tempo se passando arrastado, sem pressa, como deve ser no domingo, um dia de descanso mesmo para as vontades contrariadas, os ditos e desditos recheando o vazio das vontades insatisfeitas, aparências, lembranças tristonhas do jamais feito antes do acostumado, o domingo à tarde se parece com uma festa com gostinho de quero mais, mas que acabou

uma vontade insatisfeita em que nunca chega a vez da boca

um descontentamento subversivo esperando a pergunta assombrada que por fim chegava, Estava tudo perfeito, vizinha. Mas me conta como fizeram tudo isso?

quando achava que aquele almoço já se perdia na memória dos dias que passariam engolindo tudo rápido, nas noites mal dormidas escorridas pelo ralo sem volta, ainda nas despedidas a tentativa de guardar outras lembranças que alimentam nossas vidas, os sabores da memória sinalizam o fracasso ou o sucesso do fim

A vizinha sabe que todo alimento fortalece o corpo e o errado age no sentido contrário. Então, o que fizemos foi escutar o passado já acontecido e não esquecido, o axé em favor das nossas vidas. Os sabores da ancestralidade. Quando a faca ou colher de pau cai no chão, alguma parte da louça se quebra ou o sal é derramado por descuido, precisamos reconhecer os sinais que mostram que o cozido precisa ser refeito.

a cozinha também é uma trincheira da voz silenciada dos personagens do enredo dos tambores, a feijoada é mais uma memória da resistência

E caiu ou se quebrou alguma coisa, vizinha?

a memória não precisa do rigor histórico de gente que só acredita se houver um documento afirmando que sim ou que não, contar também é desobedecer a disposição de esquecer

Nada disso aconteceu, vizinha. Foi tudo preparado pelas mãos sabidas e prudentes do Virgílio. 

Adoro feijão...

Aqui em casa não pode faltar o feijão, o pretinho que satisfaz. Os miúdos foram acostumados – logo depois da desmamada – ao caldo de feijão mastigado com a farinha de mandioca. Já experimentou fubá de milho, feijão e sal?

Claro, quem não provou, né?

Então, feijão na fervura da panela é alimento de sustento e precisa ser comido bem devagar.

Comer sem feijão é enganar a fome.

Isso mesmo! A vizinha já experimentou coco ralado e feijão preto cozidos juntos?

Não.

Ou então, o milho e o feijão cozidos juntos?

Não.

Comia muito feijão quando era miúda.

Eu comia feijão misturado com orelhas de porco, às vezes, tinha um ou outro cabelo. Não consigo nem lembrar da língua de vaca, rodela de chouriço, eu comia e vomitava.

Que horror, vizinha!

Mas já passou, vizinha... gostei do detalhe da hortelã, e também do alho, da pimenta-do-reino... tudo no ponto certo.

Obrigada.

Estava tudo uma maravilha!

A gratidão é nossa, acredite.

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domingo, 11 de dezembro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 27bs – Vamos comer?

becos sem saída


(III) o descolocado
27bs – Vamos comer?

baitasar



naquele aperto de mãos ela se derrama com força e abundância, sente o estremecimento das coxas e a soltura do coração, a profundeza do ferro, do mar e da terra, entreouve a ventania do sopro descontrolado do atrevimento, a natureza desobediente, selvagem, quase um desfalecimento das vontades puras, não era engano ou contemplação, era apetite – duvidava dela mesma, não era vulgar nem teimosa –, esse era um outro gosto, uma vontade cega que não houve até agora, estava pasma com ela mesma, Querida mãe Obà, afaste de nós pensamentos desvirtuados, os joelhos se dobram levemente, ninguém percebe, escute, ó querida e piedosa mãe, essas mãos podem fazer da mulher ilé olè engaiolada uma preta desmiolada pelos os abusos das carnes, sente que precisa rezar e pedir mais e mais perdão

Sejam bem-vindos! Virgílio ao seu dispor, fora socorrida pelo aplicado e produtivo sinhô da serra de ferro, o destino sempre nos deixa a escolha própria ou alheia, a liberdade da vontade tem seu preço

Muita gentileza vocês nos receberem.

memória não desviava o olhar, não queria, não ia durar o bastante, agradeceu por estar viva e em pé, contrariando a natureza, mas estava em uma encruzilhada, corria o risco de ser malcriada, sentia-se empurrada ao seu alvo, parecia zombaria de alguém, não sabia quem – ela mesma, talvez

Fiquem à vontade... entrem... entrem, por favor, seguia seus instintos, satisfeita consigo mesma 

a vontade sempre encontra um jeito para consolar ilusões comuns destinadas ao peso da existência fingida

Vamos para o terreiro da feijoada, sugere a hospedeira da comida feita

todos por um motivo ou outro estavam agradados, estavam destinados a essa colaboração, memória apenas desencantou essa tarefa, as pessoas precisam completar a sua obra, é como viver esse dever sem saber enquanto o espírito do tempo come o mingau da vida pelas beiradas, às vezes sem pressa  – outras, se apresenta insaciável e esfomeado

Dona Ana...

existem pessoas que não correm o risco de destruírem a si mesmas, apesar de tratadas com indiferença pelos negociantes da vida alheia que jogam para favorecerem seus privilégios

Sim, vizinho...

a vizinha do amuleto não parece ser destas pessoas que se veem pelas opiniões dos outros quer estejam afastadas ou próximas de si

Obrigado pela serrinha.

uma pessoa hipócrita apequena a sua tarefa, não é nenhuma liberdade ou ganha-pão, é o medo de servir-se ou servir a verdade à mesa das comidas

Ah, sim... não lembrava.

quem entende sua vida de fantoche se oferece a quem? ao desprezo que ri da esperança? a contemplação da infelicidade com um sorriso de escárnio? acorda para adormecer o outro para o seu próprio bem

Foi muito útil.

quando a verdade não é servida quem a adivinha sofre as consequências

Fico feliz.

Não me deixe esquecer de devolver.

Imagine... caso ainda precise pode ficar.

Obrigado, mais uma vez.

Muita gentileza vocês nos receberem.

Bem capaz... a Maria estava louca para conhecê-los. Ela está satisfeita consigo mesma, a vontade sempre encontra um jeito para consolar ilusões comuns destinadas ao peso da existência forçada, me comentou esses tempos que pelo silêncio não tinha criança na casa, o silêncio achatado está refeito

maria segue olhando tudo e guardando na memória, depois espalharia os boatos e a narrativa da feijoada pelas vizinhas que estivessem na sua sintonia com outros rádios velhos ou novos, mas desconfortáveis com a vida no beco

Alguém poderia ligar o rádio, sugere memória, precisa refazer a conversação

O que vocês querem escutar, pergunta virgílio, o mais perfeito anfitrião

Pode ser Cartola, Ataulfo Alves, sugere a mulher do amuleto, já mais relaxada, mas ainda com a mão no peito

Não sei, não, dona Ana...

Por quê, vizinho?

Por esses tempos só tocam esses cabeludos.

Gente o que são esses cabeludos? Vocês já ouviram essa... Quero que vá tudo pro inferno?

Achei!

gritou lamparino

Achou o quê, miúdo?

As rosas não falam.

Linda.

a ana do amuleto soltou a cantoria

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas
Que bobagem as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim

Vamos comer?

todos aceitam o convite da ansiosa dona da casa, o serviço da mesa é um lugar de confortos e certezas, Que nunca nos falte o conforto da comida!

Amém!

na cama, vez ou outra, presta serviços de utilidade ao virgílio e a ela mesma, mas isso de cozinhar e servir é a masmorra da mulher ilié, foi a vez do virgílio prestar serviço de utilidade




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becos sem saída (III) 26bs – o amuleto
becos sem saída (III) 27bs – Vamos comer?

domingo, 4 de dezembro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 26bs – o amuleto

becos sem saída


(III) o descolocado
26bs – o amuleto

baitasar

estão exatos nos minutos ajustados em combinação mútua, a necessidade do encontro das duas casas sendo satisfeita, uma casa pode se preparar sem contrapor-se à outra casa com suas próprias urgências e tardanças, não são casas opostas, quem sonha com ela não é um tolo, é de grande valor ter a sua própria casa, mas esse mundo mesquinho, aliciante e enganoso julga com preconceito – estimativas de valor a partir da sua lógica de apetites em torno de si mesmos – e finaliza tudo com a verdade: se não tem a sua própria casa é gentinha de segunda, um selo da fachada egoísta porque gentinha de primeira tem a sua casa própria, pior ainda para quem não tem casa emprestada e mora nas ruas, essa gente não é gente

as urgências das casas e das mãos

a cada vez que estendeu na mesa a toalha de plástico colorida em tons de marrom, vermelho e rosa, imaginou como deveria ser de préstimo ter mãos tão atrevidas ao alcance das vontades ardentes e perigosas, descabeladas de baixo para cima, enredadas com aquelas coisas indecentes e aflitas pelo gosto surgido sem falsidades nem objeções, uma outra língua para se conversar para além do bem ou do mal

iniciar pelas mãos, continuar com os gostos na língua até acender o fogaréu indecente brotado entre as pernas, invisível, uma queimação que não se vê, dentro para fora, o espírito transportado iluminando-se até alcançar o efeito do mais fraco ao mais forte, fascinada diante da casa com um olho só penetrada e não bastava, queria ver mais

não consegue esquecê-las e, por certo, a feijoada irá atiçar tantas vontades apimentadas, roga pelo perdão divino enquanto a ana dos bicos arretados lhe estende a mão, não sente nem oferece estreiteza naquela brandura de afrouxamento desinteressado

memória crava os olhos no peito dos bicos, a dona dos bicos parecia desencantada com aquele pingente de proteção, a mulher que visita percebe o olhar da mulher que recebe, um olhar infindo, extenso e gentil, é quando se abre sobre elas a mágica do encontro, viver o domingo para continuar vivendo, a ana dos bicos comenta, É meu amuleto da sorte.

sentia o impulso à boniteza, tirânico fervor, Lindos, foi a tradução em uma palavra sobre a perfeição, corrigindo-se, Lindo, mas nunca se derramaram para saciar a fome, tinha à sua frente um espelho, dava para sentir o seu lamento, Obrigada, vizinha.

a ana que visita agradece enquanto leva as mãos ao peito, instinto de medo ou suspeita de desconfiança, de qualquer maneira, a mulher sentiu aquele lamento como um hino de louvor que resulta inevitável porque são lindos, o amuleto e os peitos

É um cisne?

pergunta, mas se esquiva do verdadeiro alvo, a natureza do seu engano é intuitiva, não pergunta sobre o espelho, sobre o susto daquela boniteza

Não, vizinha... é uma cegonha.

uma tragédia antiga não deixa de ser tragédia, a máscara da dor não esconde a dor, a vontade não é uma feiticeira salvadora nem o susto suporta o absurdo em silêncio

Ah, uma cegonha... não entendi...

a artista ingênua e conveniente luta contra o talento, carrega o seu deserto de raiva sem laureis ou recompensas, os caminhos se cruzam em torno de si, parecem infinitos, destinados a essa colaboração de viver com um dever sem significação, Queremos muito ter filhos.

um amuleto moribundo não lançava ao mundo um recém-nascido, o sarcasmo dos pensamentos da memória não seria espalhado por todos os ventos, pelo menos, por agora, Cegonha é coisa que se fala pras criancinhas, mas não retruca

Ah! Aqui em casa, vizinha, não temos amuleto. Acertamos além da conta que podemos sustentar, é parecido com uma grande enxurrada onde a barragem não suporta a força das águas. O relâmpago não assusta nem não causa mais dano, não se preocupe tudo tem sua hora, deixe ele apenas embelezando seu peito.

a ana desconfiada pensa nessa gente de sorte que nem sabe de sorte, Estou pensando em trocar por um escaravelho.

enquanto um amuleto definha, memória tem o pressentimento que esse outro vai murchar, a mão que florescia atrevida desperta o aroma, queima, alevanta o  fogaréu, mas é só, definha insatisfeita com a tragédia de ser seca, Que querias tu mão delicada e enfeitada? Engravidar-me? Tenha paciência, sim, uma mão imitadora não é apenas uma mão imitadora, provoca choques como chispas de entendimento, uma trégua ao sopro da vida

Escaravelho? E o que é isso?

Um inseto...

Inseto?

Pendurado no pescoço ajuda que o amor seja para a vida toda, mas precisa ficar na altura do coração.

memória se parecia com uma mão imitadora e mascarada saqueando com avidez os jardins, pensando em si e na vizinha, cheia de compaixão, sem farejar o perigo, a vaidade sem cautelas, que ela se ajude na virilidade daquelas mãos descontentes consigo mesmas, apenas uma moda moral com seu tempo marcado para acabar-se

Ah... e se não funcionar como a cegonha?

a ana do escaravelho continua mais desconfiada, não se despoja da cisma, não podia em um único salto derrubar as dúvidas da vizinhança, Vizinhos são tiranos.

Não entendi, vizinha.

o que queria ela? enfeitar o peito com filhos ou amuletos? precisa afiar e limar sua vontade, expulsar os medos postiços, as palavras afetadas, hipócritas e mentirosas, acreditar no seu instinto de mulher, mãe ou não

Nada... esquece, vizinha... tudo bobagem, vira-se para o negralhão, o preto é maior e mais vigoroso no aperto da aproximação – ou teria sido ela que lhe apertou com mais entusiasmo? vai saber –, sente um calafrio e já pede o perdão divino, a proteção dos deuses, Bom dia, vizinho.

Bom dia, senhora

lembra sobre pecados e inferno, Não cobiçar a mulher do próximo, mas não tem nada escrito que não se pode cobiçar o negão da vizinha...



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domingo, 27 de novembro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 25bs – é domingo

becos sem saída



(III) o descolocado
25bs – é domingo

baitasar



nunca sejamos induzidos a seguir uma direção contrária à lei maior e se a recusa de ir não funcionar é preciso não deixar a vida parar enquanto as rezas procuram curar as feridas mais arrojadas

Ó mãe, vós que sois a seiva viva aonde as sementes germinam, abençoe o nosso pão de cada dia, fruto da vossa terra generosa e faça com que ele nunca falte em nossas mesas. Abençoe os quatro cantos da terra com vosso santo e divino amor, e faça de nós eternos aprendizes, sementes vivas da vossa verdade e do vosso infinito conhecimento.

Salve, salve, querida mãe Obá!

Akirô Obà Yê

terminada a reza, olha na sua volta, a sua casa está em ordem, pega seus balangandãs com alegria, adora aquelas pratas pendentes na cintura, regalos do virgílio ajuntados entre ferro-velho e vidro quebrado

Chegaram!

maria memória se aborrece com a sua rotina aos domingos, as mesmas bocas para alimentar que não ajudam com as panelas nem com os pratos e canecas, muito menos, com o ferramental das facas, garfos e colheres – viu em algum lugar, ou alguém lhe contou, que na índia as pessoas não usam garfos nem facas ou colheres, apenas, as mãos, achou boa a ideia – que ficaram jogados na bacia de assento até acabar seu pequeno conjunto de garfo, faca e colher, O que fariam, se perguntava enquanto adivinhava se comeriam com as mãos nuas e cruas ou lavariam a louça da bacia, É quase certo que comeriam com as mãos como na tal Índia!

cansou das adivinhações até que entediada, abatida e silenciosa enfiava as mãos na água e sabão, Preciso de ajuda aqui, Mãinha, isso é coisa de mulherzinha, Quem disse isso, Ó Maria... deixa os meninos. O Lamparino precisa de algum descanso, Hummm..., Agora, à tarde, vai ter um jogo importante na praça. O futebol é o futuro..., Hummm..., tá bem, então o painho ajuda, Eu preciso ir com o miúdo, É agora o tal jogo, Daqui mais um pouquinho, Hummm...

os outros dias são iguais aos domingos, o mais provável é nunca haver ventos fortes o suficiente empurrando os três para os serviços de mulherzinha, nenhuma ajudação na lavação de louça ou na bacia da roupa suja, tampouco, no ajeitamento e asseio da casa, Já me dou por satisfeita se a roupa encardida não ficar jogada no chão, dá de ombros, já está acostumada, mesmo porque dar de ombros é o que se permite dar nestes dias de sangramento desregrado e pau a pique

a velhice é uma fumaça desaparecendo lentamente, a vida se dissipando e não existe o mundo da fumaça dissipada, O Virgílio não tem mais apetite ou sou eu? Sou eu que não sou mais saborosa? Fiquei enjoativa? Eu me pergunto por que eu tenho vontade algumas vezes mais que em outras, e o Virgílio não parece mais ter o gosto que quero comer. Acho que estou degenerando em fumaça. Não consigo evitar, tenho mais necessidade de amigos do que inimigos, todo escravizado é inimigo do seu dono... não quero ser dona de ninguém.

mas esse domingo é diferente, Ai de quem não ajudar! As bundas pretas de vocês vão ganhar uma boas chineladas. Ouviram? Então? Estamos entendidos, Sim, mãinha, Venham comigo, vamos examinar o pátio – uma terrinha atrás da casa, nada muito grande ou espaçoso, um pedaço de terra nivelado, em cima dessa terra vazia se pode inventar uma casinha para um dos miúdos –, ela fiscaliza o chão de terra com duas ou três touceiras de capim ruim, Vou arrancar isso!

Não mãinha, as vozes dos miúdos saíram juntas e assustadas

Por quê, não?

as duas sombras miúdas não se mexiam enquanto a resposta saia na ponta da língua, Porque é atrás do mato que a cavalaria se esconde da polícia.

Não tem cavalaria ou polícia que me impeça de arrancar esse mato! - pronto, está vingada da louçaria na pia

procura formigas, esgana todas com seus pés descalços, nenhum remorso, virgílio está largado num canto, saboreando seu fumo de corda, coisa pouca, Bichos teimosos, brotam do chão, esmaga uma, duas, três, acaba com a trilha, esgana tudo, esparrama as formigas, olha para cima, procura moscas, está pronta para agarrá-las com suas mãos, Quando chega o verão é essa nojeira toda de moscas e à noite mosquitos.

virgílio observa do seu refúgio, entre um gole de fumaça e uma baforada cuspida, faz provocação, Maria, quem com ferro fere não sabe quanto dói, São apenas formigas e moscas.

a mesa está pronta, a lona verde-oliva esticada sobre suas cabeças, um pano de prato está colocado delicadamente sobre laranjas, pães, farofa, couve, Faltaram os bolinhos de abará e as bananas fritas... ficam para a próxima feijoada.

a miúda arrotando a mamada, Ai! Não morde a máinha, os miúdos sentados nas beiradas das cadeiras, limpos e lustrados, arrumadinhos e muito bem recomendados, prontos para serem exibidos, Não saiam daqui, entenderam, Sim, mãinha!

volta à janela, espera o movimento de lá para cá, o beco tem ficado deserto por esses dias, na parede o quadro do santo padre segue pendurado, ajeita um pequeno desvio que acredita ter visto, uma discreta inclinação à direita

vai até o altar do seu orixá Obà, faz reverência de reza à sua deusa guerreira, "Salve nossa amada e querida mãe Obà, Senhora mãe da terra! Diante da vossa bondade e da vossa luz, nós vos reverenciamos, querida mãe.

Pedimos, senhora mãe, que nos acumule de conhecimentos e nos torne radiantes, diante da vossa presença, do vosso amor e da vossa misericórdia.

Vós que sois mãe terrena por natureza, ampare-nos, sustente-nos, guie-nos, conduza-nos e envolva-nos em todos os sentidos, carnais e espirituais.

Traga-nos, ó mãe, luz radiante onde houver a escuridão por falta de fé. Traga-nos, querida mãe, o entendimento das coisas visíveis, proteja-nos com vossa ajuda justa e verdadeira. Paralise, ó mãe divina, o que estiver desvirtuado em nosso caminho, transformando-o em conhecimento puro. Faça de nós, ó mãe, vossos eternos filhos e filhas encantadas do plano de Deus, purificando os possíveis desvios de nossa personalidade.

Querida mãe Obà, que vossa natureza vegetal, vossas flores, frutos e todo vosso néctar e mel sejam um remédio para nossas vidas, absorvendo as energias negativas e transformando-as em positivas. Libere vossas essências e radiações energizadoras, querida mãe, para a cura, cicatrização, limpeza, purificação e potencialização da nossa mente, dos nossos familiares, das nossas casas e lugares de trabalho, mantendo as vibrações virtuosas e elevadas. Estimule-nos, ó divina mãe, na busca do conhecimento interior da verdade e da fé. Afaste de nós toda ironia, vícios e pensamentos desvirtuados.

Livre-nos de falsas verdades religiosas e de darmos mau uso ao raciocínio e ao conhecimento. Ative, ó mãe, com seu gesto seguro, nossa religiosidade. paralise e perdoe os excessos por nós cometidos, aquiete-nos, mãe querida, sustente-nos, conduza-nos, leve-nos em vossos braços firmes e seguros, para que nunca sejamos induzidos a seguir uma direção contrária à lei maior.

Ò mãe, vós que sois o sangue vivo onde as sementes germinam, abençoe o nosso pão de cada dia, fruto da vossa terra generosa, faça com que ele nunca falte em nossas mesas. Abençoe os quatro cantos da terra com vosso santo e divino amor, e faça de nós eternos aprendizes, sementes vivas da vossa verdade e do vosso infinito conhecimento."

Salve, salve, querida mãe Obà!

Akirô Obà Yê

é domingo...

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domingo, 20 de novembro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 24bs – a noite do sábado

becos sem saída


(III) o descolocado
24bs – a noite do sábado

baitasar


virgílio levantou da espreguiçadeira – uma cadeira de madeira doente que recolheu das ruas, trocou o pano sujo, desgastado e nojento por um pano vermelho, farto, generoso, robusto e vistoso – para esticar as pernas, deu alguns passos preguiçosos até despertar o corpo e se aproximou do cercado da futuro, brincou e fez beicinhos, estava esperançoso, recolhia o lábio sobre os dentes da queixada de baixo e estalava a língua, a miúda ria-se toda, Virgílio!

O que é, Maria?

memória limpava as orelhas e o rabo do porco, Limpa as patas...

Deixa pra mim.

quando acabou de limpar e lavar as patas, todo o resto estava pronto para ser jogado no caldeirão, Maria!

O que é, Virgílio?

Onde tá o latão?

Não sei... jogado por aí, Por aí onde, minha preta?

memória sentiu o aviso de aproximação, virgílio não tinha esses costumes de beijinhos, abraços e carinhos, aquele chamado de: Minha preta, lhe provocou um desconforto esperançoso, e mais certeza lhe deu que essa feijoada é comida da alma, Por aí... procura, sentou um pouquinho de nada pra respirar depois de tanta lavação e mamada

Achei!

É bem isso, viu? pra achar é preciso levantar a bunda da cadeira e procurar, ele não retrucou, outro aviso de achegamento

Agora é só começar a fervura dos bofes: banha, fígado, coração, toucinho e os miudeza mais pequena.

memória bateu a palma das mãos nas pernas e levantou enquanto a voz abaixou, A vizinha não vai gostar, Virgílio. Acho que não tinha necessidade de tanta exatidão nas partes do porco. Essa justeza todo só faz dar lucro pro açougueiro. Vou até a casinha...

o feijoeiro parou de mexer e remexer as águas do caldeirão, largou na pia a colher de pau, ele mesmo fez de um pau ajuntado da rua, só precisou de uma faca e paciência, resmungava sozinho na deserção da memória, Mas é claro que vai gostar. É alimento que já deu e dá sustento. Aprendi com painho que aprendeu do avôinho e assim foi...

E se ela perguntar, Virgílio, o feijoeiro assustado resmungava palavrão e reprovação, Cruzes, Maria! Chegando assim de mansinho até parece que gosta de alvoroçar as minha calmaria, memória não estava confortável naquela papel de enganação, às vezes se faz o bem, outras nem tão bem mesmo não querendo assim

Perguntar o quê? Sobre como temperamos nossa vida? Aposto que não pergunta.

E se perguntar das partes do porco que tem na feijoada, não estava satisfeita com aquele assentamento da enganação, já tinha discutido com o virgílio outras jeitos de fazer a feijoada sem mentirinha pequena ou grande

Caso ela pergunte, o que eu duvido muito, tu responde que não.

E por que tu não responde?

na verdade, nenhum dos dois se espantaria caso a vizinha nada perguntasse, parecia ser uma pessoa verdadeira, e pessoas assim não acreditam que as pessoas mentem, sabem que mentem, mas não acreditam, Deixa pra mim, eu sou o degenerado aqui em casa.

Vou aproveitar o sossego da Futuro e lavar o latão...

Quê latão?

O latão da feijoada...

Já coloquei quase tudo no latão.

Virgílio!, os dois se olhavam sem acreditar, como poderia algo bom nascer da mentira, a enganação egoísta de fazer ver e experimentar só a sua vontade não iria funcionar, Já estou arrependida, isso tudo parece uma feijoada de fachada.

O que foi, Maria? Calma...

a guerra fria se restabelecia, mesmo quando nada ou quase nada adianta, coisa nenhuma nem ninguém protege quem não se protege, nuvens carregadas de chuvas e relâmpagos dançam na atmosfera da casa, olhos de aguardente, a invencível água braba para um homem repleto de aguardente, Onde tu achou esse latão?

No pátio... eu lavei... eu já lavei...

Tu jura?!

Juro, e fez o sinal da cruz enquanto resmungava sua prece preferida, O que não mata cura...

passaram por mais essa pequena crise enquanto virgílio começava o fogo enredado com gravetinhos secos e pedrinhas de carvão, avivando o brazeiro com seu sopro, memória oferecendo a mamada para a miúda, Viva! Começou o fogo! Venha ver, minha filha, a miúda grudada na mamada não parecia ter apetite para a feijoada, Olhe o painho, minha filha.

Começamos a fervura hoje, desmanchando tudo na agitação do fogo.

para uma gente encharcada de miséria, não falar e não se mover é o que esperam os dono de tudo, montinhos de gente nas terras das umidades para serem vendidas ou usadas como descarrego sanitário, E temos lenha pra tanto tempo de fogo?

É isso ou usar o fogão a gás... ou não ter a feijoada...

Nem pensar, foi a palavra final da memória

as gentes das terras de baixo já convivem com mosquitos e as umidades do seu buraco de metro e meio de fundura por metro e meio de lado e frente, cal no fundo – ajuda desmanchar o estrume – e uma casinha com assento e espelho, é o jeito diferente das gentes povoarem aquelas terras, os dono de tudo descarregam suas porcarias no rio encanado que depois recolhem para matar a sede, a gentarada das terras de baixo é obrigada se contentar em enterrar suas águas sujas no buracos das casinhas, não podem desistir fácil da feijoada, Foi o que pensei.

mesmo assim, estão a mentir

esqueceram que se você mente em uma coisa mente em tudo mais, pelo menos, sabe como mentir em tudo mais

pegou a bacia do assento com as últimas miudezas espicaçadas, outras retalhadas ou desmembradas e jogou na água iniciando a sentir o calor do brazeiro, Acho que não temos lenha pra tanto tempo de fogaréu.

Se não tem, vai ter...

a comida da alma começava a noite do sábado, a culinária dos descendentes de escravizados pretos tem como especiaria central o feijão preto, partes do porco e farinha de mandioca, um lembrete do lar e da família na chaga aberta – e jamais fechada – da escravidão, infâmia que resiste desde o início da história humana até os dias de hoje, a propriedade de gente arrancada do seu lugar para serem compradas e vendidas sofrendo violência, sempre à disposição do dono, passando de pai para filho a propriedade de gente preta, um desenraizamento pelo chicote até o estranhamento do não pertencimento ao lugar, o desdém das rezas e das línguas de antes, pessoas perdidas da comida que reúne, ajunta e celebra a vida

E o rabo e as patas?

Deixa pra mim...

o olhar desconfiado e desaprovador da memória desafiava virgílio, O que tu vai fazer?

Já falei, é coisa pouca, na escassez é que essa gente das terras da beirada se criou e sobrevive, uma vida que continua apenas pela vontade de cada uma que não se deixa abater, O que tu vai fazer?

Nada além de cortar tudo em pedacinhos e colocar na fervura até parecer carne desfiada.

virgílio acredita que tudo tem razão de ser, se a feijoada já foi feita assim, é assim que precisa continuar a ser feita. É um ajuntamento do que aconteceu e não precisa mudar.

É bom mesmo não parecer o que é, ela só não quer confusão e mal-entendidos, no fim e ao cabo de tudo, ninguém sabe de ninguém nem falam de verdade as suas palavras mais secretas

a vontade racista associa a cor da pele com a condição de escravizado, selvagem, bárbaro, preguiçoso, idólatra, inteligência curta, canibal, promíscuo, salvo pelo aprendizado na servidão, assim nasce o racismo – a partir da escravidão dos negros e negras – no feitio e temperamento da villa

E pra temperar: um punhado de sal, pimentão, alho, cebolas, salsas, pimenta, talos e tomates...

E as patas?

As patas e o rabo estarão bem fininhas, ele se faz de desentendido, vão parecer costelinhas junto com tudo mais.

tudo acostuma, se não cabem todos

E a farinha de mandioca?

Calma, Maria.

E o óleo?

não conseguiu esconder seu tom de irritação com aquela pressa toda, Meu Deus, Maria! Calma... tudo a seu tempo.

Essa feijoada tem que dar certo!

Vai dar tudo certo, minha preta.

de novo o mesmo aviso de acercamento, a miúda depois da mamada e da bofada do jorro de ar pela boca dorme abastecida e tenra, Vou largar a miúda no cercado... em que posso ajudar? Não gosto de ficar só olhando, fico nervosa se não meto a mão na massa.

Coloca mais um pouco de água e sal.

Só isso? Tá bem assim?

Mais água... isso... mais um pouquinho... tá muito bom... enquanto levanta a fervura tu lava e eu descasco o aipim...

Vai cortar em rodelas fininhas?

Não vou cortar em rodelas fininhas, não é mocotó.

Ah é, confundi o cozido.

Vamos deixar o aipim descascado de molho até amanhã.

Mocotó... feijoada... que deliciosa mistura de sabores.

E cheiros... Maria!

O que foi, Virgílio?

pensava que tinha mais sorte que mais gente da rua, um teto, comida, cama e água, dois miúdos e uma miúda para contarem suas histórias, uma mulher com o mesmo rumo, nenhum dos dois tinha ganância, também não sobrava gratidão, eles sabiam que a vida podia ser diferente para eles, a polícia chegava gritando, empurrando a porta com os pés, espalhando chutes, pancadas, corpos pelo chão, entrava no beco para castigar nunca entrou para socorrer, as crianças choravam e aprendiam que na polícia não se podia confiar, as mulheres lamentavam

Onde está a serra de ferro?

Não sei e não imagino onde tá.

Que merda! Eu preciso dessa serra!

Pra quê?

Pra serrar o rabo... e as patas...

Tu ainda não aprontou a enganação, imaginava o som frenético da serrinha em cadenciados balanceios até que escapou um ai doloroso e profundo, a serra macabra indo e voltando, fatiando os pedaços das partes do porco

não acharam, é sempre assim, pelo menos, com memória e virgílio, aquilo que precisam não encontram, só vão achar a coisa perdida quando seu uso não é mais de utilidade – acham quase sempre nos desfrutes de brincadeira dos miúdos, nas coisas de passar o tempo da criancice

Tudo a seu tempo...

agora não tinha outra tarefa que produzir belas e apetitosas fatias do rabo e das patas, nas quais a sua destreza de serrar iria contrabalançar o nervosismo da enganação, Maria!

O que é, Virgílio?

Pede pra vizinha uma serrinha emprestada...

Eu não!

Maria, por favor.

a feijoada do domingo começava efetivamente a noite do sábado

E a couve... esquecemos da couve!


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domingo, 6 de novembro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 23bs – a carrocinha e os gravetos

becos sem saída


(III) o descolocado
23bs – a carrocinha e os gravetos

baitasar


memória coloca o feijão preto de molho, depois pega a sacola do açougue e acomoda ao lado das partes desmembradas, pega as duas orelhas de porco – com uma gilete vai limpando os cabelos que costumam trazer – e as joga na bacia do assento, depois o rabo, a linguiça de porco e a língua de vaca, a pata vai deixando de lado

virgílio olha para os muriquinhos, Restamos nós, coloca a mão na cabeça do supimpo, um mistério nada pequeno, deseja de coração que as coisas se passem bem com ele, o mais velho não recebe mais nenhum conforto do pai, apenas estima que ele seja bondoso, orgulhoso, e acima de tudo, que ele seja um valente, Esse precisa crescer forte, sem paparicos, o miúdo menor ainda tem tempo de brandura e cuidado.

Estão me escutando?

têm todo respeito pelo virgílio que eles possam ter, aprendem conforme o velho costume milenar: é na família onde começa a vida e o amor nunca acaba, virgílio deseja de todo coração que a vida se passe assim tão simples e protegida, mas sabe que não é bem assim, os miúdos em algum momento vão encontrar a dor amarga da violência e a tristeza do abandono, é a trilha de todo preto 

Sim, painho...

Louvado seja Deus, estão atentos...

elogiado seja o painho sem egoísmo e covardia, orgulhoso do privilégio de ser pai, tem vez que é estranho e descabido, outras é apenas um pai que reagindo aos desafios da vida sempre se aguenta bem, não vai desaparecer e se fazer esquecido

Eu e mãinha precisamos que os dois saiam agora já.

Já?!

Pra quê?

Pra ajuntá tudo que é galho e pau jogado no chão do beco e nas ruas da Villa. Hoje, o fogão de pedra vai ficar queimando lenha por muito tempo.

a mãos dos miúdos se retesaram da surpresa, a vontade foi retesar o peito estufado até o ar acabar, finalmente, serviço de gente grande, eles já tinham as unhas sujas da terra com seus soldadinhos de pedra e brincadeiras da polícia com a escravaria, agora iam ficar mais sujas com tarefa de gente grande

juntavam pedras de todos os tamanhos e moldes que pudessem enfiar nos bolsos, nos caminhos de ida e volta da escola, em casa as pedrinhas viravam seus exércitos, encenando lutas com tiros, explosões, prisões, seus exércitos sempre venciam, Eu tô aqui, Aqui onde, Junto do pelourinho, Onde, Aqui! Pode vir, vem sem medo, Eu sei, tô vendo a tua pulícia, Aqui é lugar onde o bom vive com o mau, Acho melhor não, O que foi, Aí vem mais pulícia, Cuidado que ela agarra qualquer um, Eu sei, mãinha já disse que eles agarra qualquer um, E o que mais ela disse, Nunca correr da pulícia porque o chicote entra pelas costas, Só isso, Nunca andar descalço, Então, vai ficar pra vê, Eu não, Então, se joga no chão e abaixa a cabeça, Não quero, Então, coloca as mãos na parede e abre as pernas! Fica quieto! Nenhum piu nem ai, A púliça atiça, Ela é da justiça, Não é não, ela é do desaforo, Sai do beco, Aqui não tem tesouro, Não adianta negar nem choramingar, Entra no beco, Não entro, Entra, piá de merda, Nesse mundo não há quem me mande, Não vai obedecer, Só sei obedecer São Bento Grande, Cuidado com a valentia. A pulícia só cumpre com a ordem dada, Corre, as pedrinhas voavam de um lado e outro, atiçadas pelos muriquinhos, miragem de uma fábula de palavras em um brincadeira de pedrinhas, um mundo de crianças feito para tirar de dentro os medos do possível, Aqui... quanto mais se apanha menos se obedece, Não esqueça que a justiça não pesa o que devia, Eu sei! Ela pesa mais de um lado do que do outro, Isso, Acertei, Acertou em quê, No capitão-do-mato, Gostei da mira, Esse mundo não tem dono, Não esqueça que a pulícia tem chefia, Onde tá essa chefia, Ali, Onde, Atrás da pedra grandona, Vou jogar, Joga se tu tem coragem, Joguei, Errou, Não errei não, Cuidado com o veneno, O coração é a proteção contra o veneno, Acho que tu precisa de ajuda, Vou pedir ajuda pra São Bento Pequeno, Não dá tempo, tá chegando o sargento da Capitania, Vamos lançar cavalaria com valentia, Cuidado, valentão, Minha cabeça é o meu guia contra o fardamento da delegacia, Não adianta o armamento, Vamos tocar cavalaria contra a tirania, Ele quer o documento, grita, empurra e atira, Se exceder no tratamento vai ter pancadaria, Cuidado, eu sou brabo, Pra quem é brabo e violento vamos tocar cavalaria!

Lamparino!

Supimpo!

Xiiii... é painho, deixa tudo no lugar, Tá bem, Depois a gente continua.

era uma tarefa razoável, útil e decente pelos caminhos da villa, os dois muriquinhos pareciam dois vulcões de fogo em lama encandecida derretidos, mas também conforme as memórias brincadas eles se chamavam soldados da cavalaria, a verdadeira cavalaria espiritual

Estão prontos?

Sim

O fogão de pedra vai ficar muito tempo com o brazeiro queimando lenha.

os dois soltaram nos bolsos algumas das pedrinhas da cavalaria, preto não tem vida branda, madura ou doce, tem é uma longa tensão e tormento para libertar sua vontade das hostilidades descomedidas e degeneradas

Tão esperando o quê?

Nada, já estamos indo, os dois se olham com cumplicidade fraca de vontade, excessivamente cuidadosos, temerosos de algum mal-entendido, Pergunta, Eu não, pergunta tu.

não é uma rebelião, apenas não sabem se já podem assumir uma outra posição, ninguém diz o que eles são nem qual pedacinho de tudo eles são, é uma descoberta acidentada de tudo que são ou já foram – o que foram já foi –, o que são está sendo, a cada momento uma descoberta nova

O que é isso, agora?

não tinham certeza se a curiosidade do painho era bem-intencionada ou impaciente, tem vez que ele é um conhecido-desconhecido, dava medo

Pergunta, Lamparino...

Eu não, tu pergunta.

como é difícil ser feliz e verdadeiro consigo mesmo, os dois estavam pálidos e murchos, a sensação do gosto não experimentado, um medo ruim e irritante da vontade não ser aprovada pelo painho

O que é, Lamparino?

o muriquinho piquinino olhou o mano, ele parecia mais infeliz e desgraçado que algum coitado apanhando, Nada, painho. O Supa tá imaginando coisas.

E o que ele tá imaginando?

o instinto do lamparino sussurrava, Seja leve e livre, mas a vontade se negava, O tombo é grande.

Diz, Lamparino...

até que a própria vontade se transforma em alguma coisa que vira realidade, deixa de ser sonho ou pesadelo

Podemos levar a carrocinha pra buscar os gravetos?

Nem pensar!

Painho, a gente conta o tempo que vai poder puxar o carrinho!

Puxar carrinho não é sonho, é embaraço! Esse dali, é o socorro do nosso ganha-pão quando tudo mais não dá certo. E tem a mãe de vocês me engolindo inteiro se eu deixar. Nem pensar.

os dois se foram vigiados pelo virgílio até colocarem os pés no beco, levavam uma corda para amarrar os gravetos e pendurar nas costas


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domingo, 23 de outubro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 22bs – o fanatismo não é salvador

becos sem saída


(III) o descolocado
22bs – o fanatismo não é salvador

baitasar


Os dois muriquinhos, aqui! Agora!

esse não foi um chamado de emergência, foi uma convocação com grito de pressa inadiável, não dava para fingimento embaçado ou aparecimento cauteloso, não dava para reclamar do berrante, também não dava para ficar com raiva ou sentir a injustiça daquilo tudo, não era quebranto nem falta de educação ou respeito, um raro chamamento do painho que pareciam labaredas fora da fogueira

lamparino e supimpo pararam a brincadeira com a cavalaria de pedrinhas, apareceram quase no mesmo instante em que o eco do chamativo gritado do virgílio ia sumindo, O que foi, painho? Sim, painho...

Posso saber a razão do gritedo?

não é pouca coisa continuar vivendo no beco, um lugar de muitos destinos parecidos onde não se espera mais do que viver, no beco a vida se agarra com força na própria vida enquanto é ferida de maneira estúpida, grosseira e deselegante pelo descaso da ociosidade das gente de bem, muito bem

Não é nada, Maria... é só uma conversa que quero ter com os dois moleques.

uma máscara descartável é sempre um desembaraço momentâneo, maria memória reconhecia as muitas máscaras daqueles três, ela acabara de colocar a miúda no cercado, um lugar de liberdade no regaço daquela casa, o seu quilombo, Se a guria acordar... os três vão dar atenção e cuidado pra Futuro. É melhor pra todos que essa conversinha ocorra de um jeito levinho e sem gritos.

Não se pode mais conversar aqui em casa?

memória reconhecia aqueles malabarismos, sentiu vontade de rir daquela choradeira inventada como remédio para seus avisos, chantagem dentro de um jogo de palavras, Claro que podem... e devem conversar, mas pra quê esse gritedo todo?

parece um vício – um gracioso e inevitável abuso no jeito de ver das gentes do deus por cima e da família habitual por tudo – negar as vidas descartáveis do beco, é preciso coragem para reconhecer o que sempre souberam: o beco é o gueto, não é voluntário nem deliberado viver em guetos, é indecente com os abandonados, é trágico carregar tanto abandono das outras pessoas, aquelas que carregam a família e deus nos seus estandartes, para que tenham coisas que não têm vontade nem sentido em si mesmas, coisa é coisa, gente é gente, mas parece que não é bem assim

na verdade, não é só abandono, também é ódio que só os covardes sentem, e são tão acovardados que não admitem o seu ódio, e rezam e oram e rezam e oram e gritam e cospem, não gostam da alegria barulhenta da vida, não conseguem entender a boniteza destoante da discordância e da semelhança, gostam de um deus que não canta com alegria, quer tudo igual do seu jeito, não fica agitado, e muito menos, fica espantado com tanto ódio concentrado nas vidas do beco

Tá bem... pode deixar, não vai acontecer de novo...

as vidas no beco não valem nada para essa gente de bem da villa, são vidas que só valem na medida da sua utilidade meritocrática, e mesmo assim, não mais que carniça para corvo

Parece que sou um cobra cascavel envenenada com o cheiro do próprio bafo, ela sabe que ninguém no beco é como quer, mas, muitas vezes, parece ser alguém menos que todos, uma mulher ninguém amarrada, sufocando, falando sozinha

O que é isso, Maria?

gente decadente, juízo de valores odientos contra as vidas do beco, é preciso apontar o dedo e denunciar por cada morto, por cada afetação perversa, o instinto decadente e desumano destes corvos

Eu vejo seus olhares, sinto o que pensam de mim, coloca uma das mãos na cintura, a outra aponta para os três, Não precisam dizer nada. Vocês não sabem, mas são uma multidão em casa.

para a villa, as gentes do beco precisam demonstrar que são boas porque para a família de deus – um reduto de histórias que se repetem, nunca acabam – não valem grande coisa, não são da villa, estão na villa, quando tanta gente sente ódio e medo com alegria e não escondem seu ódio, pelo contrário, sentem orgulho da mentira, o perigo é qualquer coisa – assunto, mercadoria ou pessoa – se transformar na coisa do ódio

Maria... não diz assim. Eu chamei os moleques pra pedir uma ajudinha com o fogão de pedra.

o fanatismo não é salvador, ele devora a razão, mastiga a lucidez e vomita o caos controlado – ele surge do caos, mas não é o caos, tem medo do caos exagerado, apenas o suficiente para ter o controle – sobre os instintos da alegria e amorosidade, é uma longa doença

Sei, tô me sentindo tão vigiada, até parece que tô entrando no mercado com a miúda pendurada.

o fanatismo é uma fumaça desaparecendo lentamente que insiste na vontade de permanecer fumaça, não quer se dissipar, não quer o mundo da fumaça dissipada

Eu não! Posso tá na ferrovia, na obra, na vigia ou puxando carrinho... quero que se fodam com seus olhares vigilantes!

Virgílio!

Foi tu que começou...

não parece que exista um jeito em nossas vidas que nos livre das mentiras e dos enganos, o fanático parece não saber que a castração é o resultado da sua luta contra a amorosidade e a alegria

Claro... eu...

E não foi... mas tudo bem... vou ter uma conversa com Lamparino e Supimpo.


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domingo, 16 de outubro de 2022

histórias davóinha: becos sem saída (III) 21bs – tudo bem picadinho

becos sem saída


(III) o descolocado
21bs – tudo bem picadinho

baitasar


o virgílio sem olhar atrás se foi nos passo seguro que sabe onde está levando e porque está indo, os passos fortes e rápidos, parecia saber como se mexer no meio daquela algazarra de gente pra lá e cá, saindo, entrando, perguntando, pechinchando, comprando, memória deu dois passo com a futuro pendurada e parou, não disse nada, não reclamou, só ficou ali parada, olhando o virgílio, doida pra vê até onde ele se ia sem dá falta das duas

ele se foi até o açougue, e só foi ali, nas carnes fatiadas do bicho sacrificado, quando ele parou para mostrar as partes que queria levar, que o virgílio olhou para trás e deu com a falta da memória, chamou uma vez, Maria, voltou dois passos, quase esbarrou em dois senhores distintos que também bisbilhotavam os preços das partes do porco, Vamos levar os pés também, O homem disse que não come os pés, O senhor tem serra de ferro, Tenho, Deixa pra mim, corto os pés em fatias, O senhor é que sabe, Vamos levar sim, Tá bom, O que as vistas não veem o coração não sente, E a boca não recusa, soltaram junto um riso cúmplice

Com licença, disse se dirigindo aos dois senhores, Pois não, respondeu o mais alto dos dois, Obrigado, olhava para os lados e chamava, Maria, Aqui, olhou na direção da resposta ao seu chamado, ali estavam as duas, Por que tá parada aí, mulher, ela não se apressou no ricochete do seu palavrório, esperou ele se chegar mais perto, escarcéu tem hora, lugar e motivo para fazer, no jeito de ver da memória, ali não era lugar nem hora para tanto, Eu e a Futuro não somos a carrocinha que tu vai na frente puxando, se quer andar comigo anda junto, Tá bem, tá bem, quanta frescura... tu não é cachorra sem dono, Como é? O que tu tá dizendo? Vai pentear macacos!

um olhava o outro com algum insulto mastigado na boca, ruminando as palavras, sabiam que era só desprender o nó da garganta, memória foi a primeira que se acalmou, Tu ainda não respondeu, virgílio afrouxou as pregas da garganta e arredondou o jeito de olhar, sabia que um precisava do outro, dois por um e um por dois, fora disso, é todos contra os dois, é muita gente contra, muita cisma e desconfiança, O que foi que eu não respondi?

os dois descobriam juntos que mais lhes convinha conversar que odiar as palavras do outro, Não adianta ficar birrenta com ele, Não adianta ficar cismado com ela, ele não estava por cima, ela não estava por baixo, não importa o resto, eles são gozdos e zombados assim que ficam longe do beco, a gente de bem da villa se sente no direito de pisar, desprezar ou diminuir os dois, um contágio de pai para o filho, mãe para a filha, ensinam o ódio e o medo aos pretos e pobres como se fosse uma coisa engraçada, uma doença a ser evitada

Tu não respondeu se encheu o carrinho, o virgílio sorriu, soltou as travas da falação olhando memória sem embaraço, sem atrapalhação, Ah! Isso, Maria! Foi melhor, e parou a resposta, não demorou-se por birra ou descontentamento, era só provocação, Fala logo, Virgílio!

não parece ter lógica o ajuntamento desses dois – e qual amigação tem o uso da razão? –, não tem explicação, não precisa explicação; e isso, afinal, é irrelevante, ele muito ignorante e tosco, ela muito criança e louca, não se deram tempo para reunirem informações sérias, ponderadas e racionais um do outro, foram cercados por um enxame de cochichos, risadinhas e encenações próprias de qualquer início amoroso

não faltaram insinuações e apelos, apertos e agarração secreta até que se evaporaram na asfixia das vontades do apego desnorteado, não esperaram pelo que já estava decidido e não tiraram o corpo fora, pelo contrário, se ofereceram um ao outro

Passei numa obra abandonada – eu já vinha vigiando a obra – e vi muito ferro velho jogado no chão. Recolhi o que deu pra enfiar na carreta.

Tava abandonada mesmo? O peso compensou?

Muito...

Então, e agora?

ele olha memória com um discreto sorriso nos lábios carnudos, Agora vamos olhar o que vai dar pra comprar pra feijoada.

as pupilas da memória incharam, as dores de um povo, o atabaque ruflando, Antes preciso dar mamada pra Futuro.

Aqui? Acho melhor não...

Onde?

Não sei, acha um lugar escondido.

memória olhou para os lados, apertou o beiço de baixo para cima, depois mirou o rostinho da miúda, não tinha tempo para perder com bobice, ela se virou e resmungou, Que lugar escondido nada, a miúda tá com fome e a mamada tá aqui. E se tu não quer ver sai da frente ou vira de costas... faz tempo que não vê mesmo nem se interessa de ver...

virgílio se virou para o açougue, Eu não vou esperar pra ver... tô indo no especular os preços.

Isso, vai. Vou sentar aqui, entre os chás e as ervas, disse já sentando em um caixote de madeira, a fome não tem vergonha na cara, mendiga com as mãos estendidas, o gemido do pelourinho ainda se espalha, a escravidão da fome continua nas quebradas da vida, a fumaça do bem nos olhos grita, É um povaréu desqualificado e preguiçoso que reclama de barriga cheia! Elemento vagabundo e perigoso... querem tudo de graça...

Virgílio!

ele se volta constrangido, Fala, Maria.

Como descascar do coração essa fome de querer outra vida?

virgílio mastigava o fumo de corda, procurava um lugar para cuspir fora, não achava, continuava mastigando, Não sei, Maria. Achei que a vida tava boa...

ela queria viver sem medo, viver com alegria, sabia explicar que flor de plástico não é flor, mas como dizer que seus olhos precisavam respirar, cansados da visão do cemitério, como explicar que seus olhos são fogueiras atentas multiplicando histórias, Virgílio! Espera!

O que foi?

Ainda não contei que a vizinha não come feijoada com as patas nem as orelhas do porco.

sem saber por quê abaixou a voz, os olhos quase fechados pareciam prontos para dormirem, Tu tá brincando...

memória pareceu sentir dor em um dos dentes de trás, desconfiou que seria preciso arrancá-lo, só não sabia como se fosse preciso, Não... e tem mais... também não come a buchada.

como estava cansado daquilo tudo, parecia ter levado uma surra, queria lavar o rosto e os sovacos, E ela não sabe que feijoada sem pata, sem orelha e sem buchada não é feijoada?

Eu tentei explicar, mas ela não quis ouvir.

Deixa pra mim, vai comer gato por lebre... por que tá me olhando assim?

Virgílio, o que a gente esconde não desaparece.

Não sou eu que quer enganar a vizinha, ela que quer ser enganada. Onde já se viu feijoada sem gosto de feijoada? Então não venha!

Calma, Virgílio...

Cuida da mamada da miúda... da feijoada cuido eu... ainda temos aquela serra de ferro, né?

ele sacudiu os ombros, Acho que sim, mas não sei onde tá...

Não tem importância, eu acho, O que tu vai fazer?

Vou serrar as patas, Pra quê?

Vai parecer que são costelihas do porco, E as orelhas? A buchada...

Tudo bem picadinho... fica com a miúda que eu vou no açougue.

deixou memória sentada com a miúda pendurada na mamada

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