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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

domingo, 4 de novembro de 2018

XXXIII – Mitologia dos Orixás: Oxalá [285] [503]

Oxalá

Reginaldo Prandi



Orixanlá cria a Terra


No começo, o mundo era todo pantanoso e cheio d'água, um lugar inóspito, sem nenhuma serventia. Acima dele havia o Céu, onde viviam Olorum e todos os orixás, que às vezes desciam para brincar nos pântanos insalubres. Desciam por teias de aranha penduradas no vazio. Ainda não havia terra firme, nem o homem existia.

Um dia Olorum chamou à sua presença Orixanlá, o Grande Orixá. Disse-lhe que queria terra firme lá embaixo e pediu-lhe que realizasse tal tarefa. Para a missão, deu-lhe uma concha marinha com terra, uma pomba e uma galinha com pés de cinco dedos. Orixanlá desceu ao pântano e depositou a terra da concha. Sobre a terra pôs a pomba e a galinha e ambas começaram a ciscar.

Foram assim espalhando a terra que viera na concha até que terra firme se formou por toda parte. Orixanlá voltou a Olorum e relatou-lhe o sucedido. Olorum enviou um camaleão para inspecionar a obra de Oxalá e ele não pode andar sobre o solo que ainda não era firme. O camaleão voltou dizendo que a Terra era ampla, mas ainda não era suficientemente seca.

Numa segunda viagem o camaleão trouxe a notícia de que a Terra era ampla e suficientemente sólida, podendo-se agora viver em sua superfície. O lugar mais tarde foi chamado de Ifé, que quer dizer ampla morada.

Depois Olorum mandou Orixanlá de volta à Terra para plantar árvores e dar alimentos e riquezas ao homem. E veio a chuva para regar as árvores.

Foi assim que tudo começou.

Foi ali, em Ifé, durante uma semana de quatro dias, que Orixá Nlá criou o mundo e tudo o que existe nele.

[285]





Obatalá cria o homem



Num tempo em que o mundo era apenas a imaginação de Olodumare, só existia o infinito firmamento e abaixo dele a imensidão do mar. Olorum, o Senhor do Céu, e Olocum, a Dona dos Oceanos, tinham a mesma idade e compartilhavam os segredos do que já existia e ainda existiria. Olorum e Olocum tiveram dois filhos: Orixalá, o primogênito, também chamado Obatalá, e Odudua, o mais novo.

Olorum-Olodumare encarregou Obatalá, o Senhor do Pano Branco, de criar o mundo. Deu-lhe poderes para isso. Obatalá foi consultar Orunmilá, que lhe recomendou fazer oferendas para ter sucesso na missão. Mas Obatalá não levou a sério as prescrições de Orunmilá, pois acreditava somente em seus próprios poderes. Odudua observava tudo atentamente e naquele dia também consultou Orunmilá.

Orunmilá assegurou a Odudua que se ele oferecesse os sacrifícios prescritos, seria o chefe do mundo que estava para ser criado. A oferenda consistia em quatrocentas mil correntes, uma galinha com pés de cinco dedos, um pombo e um camaleão, além de quatrocentos mil búzios. Odudua fez as oferendas.

Chegado o dia da criação do mundo, Obatalá se pôs a caminho até a fronteira do além, onde Exu é o guardião. Obatalá não fez as oferendas nesse lugar, como estava prescrito. Exu ficou muito magoado com a insolência e usou seus poderes para se vingar de Oxalá. Então uma grande sede começou a atormentar Obatalá.

Obatalá aproximou-se de uma palmeira e tocou seu tronco com seu comprido bastão. Da palmeira jorrou vinho em abundância e Obatalá bebeu do vinho até embriagar-se. Ficou completamente bêbado e adormeceu na estrada. Ninguém ousaria despertar Obatalá.

Odudua tudo acompanhava. Quando certificou-se do sono de Oxalá, Odudua apanhou o saco da criação que fora dado a Obatalá por Olorum. Odudua foi a Olodumare e lhe contou o ocorrido. Olodumare viu o saco da criação em poder de Odudua e confiou a ele a criação do mundo. Com as quatrocentas mil correntes Odudua fez uma só e por ela desceu até a superfície de ocum, o mar. Sobre as águas sem fim, abriu o saco da criação e deixou cair um montículo de terra. Soltou a galinha de cinco dedos e ela voou sobre o montículo, pondo-se a ciscá-lo. A galinha espalhou a terra na superfície da água. Odudua exclamou na sua língua: "Ilè nfé!", que é o mesmo que dizer "A Terra se expande!", frase que depois deu nome a cidade de Ifé, cidade que está exatamente no lugar onde Odudua fez o mundo. Em seguida Odudua apanhou o camaleão e fez com que ele caminhasse naquela superfície, demonstrando assim a firmeza do lugar. Obatalá continuava adormecido. Odudua partiu para a Terra para ser seu dono.

Então, Obatalá despertou e tomou conhecimento do ocorrido. Voltou a Olumare contando sua história. Olodumare disse: "O mundo já está criado. Perdeste uma grande oportunidade".

Para castigá-lo, Olomuare proibiu Obatalá de beber vinho-de-palma para sempre, ele e todos os seus descendentes. Mas a missão não estava completa e Olodumare deu outra dádiva a Obatalá: a criação de todos os seres vivos que habitariam a Terra. E assim Obatalá criou todos os seres vivos e criou o homem e criou a mulher. Obatalá modelou em barro os seres humanos e o sopro de Olodumare os animou. O mundo agora se completara. E todos louvaram Obatalá.

[286]




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Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

XXXII – Mitologia dos Orixás: Oxaguiã [278] [280]

Oxaguiã

Reginaldo Prandi



Oxaguiã inventa o pilão



Oxalá, rei de Ejigbô, vivia em guerra. ele tinha muitos nomes, uns o chamavam de Elemoxó, outros de Ajagunã, ou ainda Aquinjolê, filho de Oguiriniã.

Gostava de guerrear e de comer. Gostava de uma mesa farta. Comia caracois, canjica, pombos brancos, mas gostava mais de inhame amassado. Jamais se sentava para comer se faltasse inhame. Seus jantares estavam sempre atrasados, pois era muito demorado preparar o inhame.

Elejigbô, o rei de Ejigbô, estava assim sempre faminto, sempre castigando as cozinheiras, sempre chegando tarde para fazer a guerra.

Oxalá então consultou os babalaôs, fez suas oferendas a Exu e trouxe para a humanidade uma nova invenção. O rei de Ejigbô inventou o pilão e com o pilão ficou mais fácil preparar o inhame e Elejigbô pode se fartar e fazer todas as suas guerras.

Tão famoso ficou o rei por seu apetite pelo inhame que todos agora o chamam de “Orixá-Comedor-de-Inhame-Pilado”, o mesmo que Oxaguiã na língua do lugar.

[278]





Oxaguiã manda libertar o amigo preso injustamente



O filho de Oxalufã tornou-se um guerreiro forte e decidiu um dia conquistar um reino seu rei, Elejigbô. O rei tinha uma grande paixão, comer inhame pilado. E comia com gula, tanto que o chamavam Oxaguiã, que quer dizer “Oxalá-Comedor-de-Inhame- Pilado”.

Um dia Auoledjê, que era um grande babalaô, precisou partir de Ejigbô. antes disso, aconselhou Oxaguiã que fizesse oferendas, que tornariam o reino próspero. Assim, como previa Auoledjê, Ejigbô tornou-se uma grande cidade, rica e bem guardada pelos bravos soldados de Oxaguiã. O rei Elejigbô vivia em fausto entre seus súditos, por quem era chamado de “Kabiyesi”, que é o mesmo que Sua Majestade. Na intimidade os amigos o chamavam de “Comedor-de-Inhame-Pilado”, mas em público isso era uma heresia.

Anos mais tarde, Auoledjê retornou a Ejigbô. Ao adentrar a cidade, procurou logo por Oxaguiã. “Onde está o Comedor-de-Inhame-Pilado?”, perguntou. Os soldados, que não o conheciam, ficaram furiosos com tamanha insolência. Isso era jeito de se referir ao rei? Prenderam e maltrataram o desconhecido amigo de Kabiyesi.

Auoledjê ressentiu-se da humilhação. Com seus poderes mágicos, vingou-se. Durante sete anos todas as catástrofes conhecidas, e não faltando a seca, assolaram o reino de Oxaguiã.

Oxaguiã, desesperado, procurou os adivinhos. E pelo oráculo eles viram a prisão de Auoledjê. Um amigo do rei estava preso injustamente. Oxaguiã correu para a prisão para libertar o velho amigo. Oxaguiã libertou-o, mas o amigo, ainda ressentido, escondeu-se na mata. Elejigbô buscou o velho amigo, suplicando seu perdão. Auoledjê cedeu com uma condição: que nunca aquele povo se esquecesse dessa injustiça. Todos os anos o povo deveria flagelar-se, em memória do funesto acontecido.

Assim, todos os anos, o rei deveria mandar muitas pessoas à floresta cortar varetas. Os súditos divididos em dois grupos, tomariam as varas, simulariam golpes uns nos outros, sem parar, até que as varetas se quebrassem. Para que nunca se esquecessem daquela injustiça praticada contra o amigo de Oxaguiã. Assim foi feito e o reino de Oxaguiã voltou a tranquilidade e Oxaguiã foi o maior dos reis de Ejigbô. Quando ele foi para o Orum, transformado em orixá, seu culto não se esqueceu do velho amigo babalaô. Com as varetas de Oxaguiã, com os atoris, seus adeptos renovam sempre a memória da injustiça, para que ela não volte a acontecer.

[280]





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Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.



sexta-feira, 7 de abril de 2017

XXXI – Mitologia dos Orixás: Ori [274] [275]

Ori


Reginaldo Prandi



Ori faz o que os orixás não fazem



Orunmilá reuniu todos os deuses em sua casa e lhes fez a seguinte pergunta:

"Quem dentre os orixás pode acompanhar seu devoto numa viagem além dos mares e não voltar mais?"

Xangô respondeu que ele podia.

Então lhe foi perguntado o que ele faria depois de ter andado, andado e andado até as portas de Cossô, a cidade de seus pais. Onde iam preparar-lhe um amalá e oferecer-lhe uma gamela de farinha de inhame. Onde lhe dariam orobôs e um galo, um aquicó.

Xangô respondeu:

"Depois de me fartar, retornarei à minha casa".

Então foi dito a Xangô que ele não conseguiria acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares.


Aos que entravam pela porta e ali ficavam em pé, Ifá fez a pergunta:

"Quem dentre os orixás pode acompanhar seu devoto numa longa viagem além dos mares e não voltar mais?" 

Oiá respondeu que ela poderia.

Foi-lhe perguntado o que ela faria depois de caminhar uma longa distância, caminhar e caminhar e chegar a cidade de Irá, o lar de seus pais, onde lhe ofereceriam uma gorda cabra e lhe dariam um pote de cereal.

Oiá respondeu:

"Depois de comer até me satisfazer, voltarei para casa."

Foi dito a Oiá que ela não poderia acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares.


A todos os orixás reunidos por Orunmilá, Ifá fez a seguinte pergunta:

"Quem dentre os orixás pode acompanhar seu devoto numa longa viagem além dos mares e não voltar mais?"

Oxalá disse que ele poderia. Foi lhe perguntado então o que ele faria depois de caminhar uma longa distância, caminhar e caminhar e chegar à cidade de Ifom, o lar de seus pais, onde matariam duzentos igbins servidos com melão e vegetais.

Oxalá respondeu:

"Depois de comer até ficar saciado, voltarei para minha casa."

Foi dito a Oxalá que ele não poderia acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares.


A todos os deuses reunidos por Orunmilá, Ifá fez a seguinte pergunta:

Exu respondeu que ele podia acompanhar seu devoto numa longa viagem além dos mares e não mais voltar.

Então foi lhe perguntado:

"O que farás depois de caminhar uma longa distância, caminhar e caminhar, e chegar a cidade de Queto, o lar de teus pais, e ali te derem um galo e grande quantidade de azeite-de-dendê e aguardadente?"

Ele respondeu que, depois de se fartar, voltaria para sua casa.

Foi dito a Exu:

"Não, não poderias acompanhar teu devoto numa longa viagem além dos mares e não voltar."


A todos os deuses reunidos por Orunmmilá, Ifá fez a mesma pergunta:

"Quem dentre os orixás pode acompanhar seu devoto numa longa viagem além dos mares e não voltar mais?"

Ogum disse que ele sim poderia.

Foi lhe perguntado o que ele faria depois de caminhar uma longa distância, caminhar e caminhar e chegar à cidade de Irê, o lar de seus pais, onde haviam de lhe oferecer feijões-pretos cozidos e lhe matar um cachorro e um galo.

Ogum respondeu:

"Depois de me satisfazer, voltarei para minha casa, cantando alto e alegremente pelo caminho."

Foi dito a Ogum que ele não poderia acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares.


A todos os deuses reunidos por Orunmilá, Ifá fez a seguinte pergunta:

"Quem dentre os orixás pode acompanhar seu devoto numa longa viagem além dos mares e não voltar mais?"

Oxum disse que ela podia.

Foi lhe perguntado:

"O que farias depois de caminhar uma longa distância, caminhar e caminhar, e chegar à cidade de Ijimu, o lar de teus pais, onde te dariam cinco pratos de feijão-fradinho com camarão, tudo acompanhado de vegetais e cerveja de milho?"

Respondeu Oxum:

"Depois de me saciar, voltaria para minha casa."

E foi dito a Oxum que ela não poderia acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares.


A todos os orixás reunidos por Orunmilá, Ifá fez a pergunta:

"Quem dentre os orixás pode acompanhar seu devoto numa longa viagem além dos mares e não voltar mais?"

O próprio Orunmilá disse que ele poderia acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares.

Foi lhe perguntado:

"O que farás depois de caminhar uma longa distância, caminhar e caminhar e chegar à cidade de Igueti, o lar de teus pais, onde vão te oferecer dois ligeiros preás, dois peixes que nadam graciosamente, duas aves fêmeas com grandes fígados, duas cabras pesadas e prenhas, duas novilhas com grandes chifres? E onde vão te preparar inhame pilados, mingaus de farinhas brancas e a mais preciosa de todas as cervejas? E também te oferecer os mais saborosos obis e as melhores pimentas doces?"

"Depois de me fartar", respondeu Orunmilá, "voltarei para minha casa."

O sacerdote de Ifá ficou pasmo. Não conseguia dizer uma palavra sequer. Porque ele simplesmente não entendia essa parábola. Disse ele:

"Orunmilá, eu confesso minha incapacidade. Por favor, ilumina-me com tua sabedoria. Orunmilá, és o líder, eu sou o teu seguidor. Qual é a resposta para a pergunta sobre quem dentre os deuses pode acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares?"

Falou Orunmilá:

"A única resposta é... o Ori. Somente Ori pode acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares."


Disse Orunmilá:

"Quando morre um sacerdote de Ifá, dizem que seus apetrechos de adivinhação devem ser deixados numa corrente d'água. Quando morre um devoto de Xangô, dizem que suas ferramentas devem ser despachadas. Quando morre um devoto de Oxalá, dizem que sua parafernália deve ser enterrada."

Disse também Orunmilá:

"Mas, quando os seres humanos morrem, a cabeça nunca é separada do corpo para o enterro. Não. Lá está o Ori. Lá vai ele junto com o seu devoto. Somente o Ori pode acompanhar para sempre o seu devoto, a qualquer lugar."

Falou ainda Orunmilá:

"Pois o Ori é o único que pode acompanhar seu devoto numa viagem sem volta além dos mares."

[274]





Ori vence os orixás numa disputa



Havia uma mulher com muitos problemas. E nem tinha marido com quem se aconselhar. Foi então consultar o jogo de búzios para saber o que fazer. Foi dito a ela que fizesse uma oferenda para o Ori, a cabeça. Foi lhe dito para fazer um bori, devia dar comida à cabeça. 

À sua cabeça a mulher devia oferecer dois obis. Ela então pegou os dois obis e foi fazer a oferenda. No caminho passou por uma caravana de desesseis orixás. Xangô se dirigiu à mulher dizendo:

"Tu, mulher que estás passando, por que não nos cumprimentas?"

E ela respondeu:

"E por que deveria? Nem os conheço?"

Xangô não gostou da resposta insolente e arrancou os obis da mão da mulher. Um deles ele comeu. O outro deu para Oxalá. Então chegou Ori e perguntou:

"Quem tirou os obis da mulher que ia passando?"

"Fui eu," respondeu Xangô.

Ori xingou Xangô e a luta começou. Ori levantou Xangô nos braços e o lançou no ar em direção à cidade de Cossô. Orixá Ocô não gostou e avançou ferozmente contra Ori. Ori o atirou para os lados de Irauô. Depois arremessou Ifá para a cidade de Ado e Oiá para a cidade de Irá. Suspendeu Egungum no alto e o atirou para OJé. Xapanã foi catapultado para Egum, Legba para Iuorô e Oxalufã para Erim.

Nessas cidades eles ficaram por três anos e então voltaram a se reunir. Chamaram Ori e disseram que queriam retomar a luta. Ori disse que era uma bobagem, porque ele lhes tinha feito um grande bem. Cada um agora era cultuado naquela cidade para onde Ori aquele dia os lançara. As cidades os haviam adotado. Eles antes não eram nada, mas agora cada um tinha seu culto próprio, cada um numa cidade.

Eles concordaram e Ori mandou trazer comida. 

Comidas e bebidas foram ofertadas.

E eles disseram:

"Ori está nos saudando."

"Sim, ele está nos festejando."

Comeram e beberam e dançaram e todos se rejubilaram.

[275]





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Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.






sexta-feira, 23 de setembro de 2016

XXX – Mitologia dos Orixás: Ajalá[272] [273]

Ajalá


Reginaldo Prandi



Ajalá modela a cabeça do homem



Odudua criou o mundo, Obatalá criou o ser humano.

Obatalá fez o homem de lama, com corpo, peito, barriga, pernas, pés. Modelou as costas e os ombros, os braços e as mãos. Deu-lhe ossos, pele e musculatura. Fez os machos com pênis e as fêmeas com vagina, para que um penetrasse o outro e assim pudessem se juntar e reproduzir. Pôs na criatura coração, fígado e tudo o mais que está dentro dela, inclusive o sangue.

Olodumare pôs no homem a respiração e ele viveu.

Mas Obatalá se esqueceu de fazer a cabeça e Olodumare ordenou a Ajalá que completasse a obra criadora de Oxalá.

Assim, é Ajalá quem faz as cabeças dos homens e mulheres. Quando alguém está para nascer, vai à casa do oleiro de barro e as cozinha no forno. Se Ajalá está bem, faz cabeças boas. Se está bêbado, faz cabeças malcozidas, passadas do ponto, malformadas.

Cada um escolhe o ori que vai ter na Terra. Lá escolhe uma cabeça para si. Cada um escolhe seu ori. Deve ser esperto, para escolher cabeça boa. Cabeça ruim é destino ruim, cabeça boa é riqueza, vitória, prosperidade, tudo o que é bom.

[272]





Ajalá faz as cabeças de três amigos



Quando Orunmilá veio ao mundo, teve de escolher sua cabeça, seu ori, mas não soube como fazê-lo bem e se sentia infeliz. Então, quando chegou a vez de seu filho Ofuapê nascer, Orunmilá ficou preocupado com a escolha da cabeça e foi até um babalaô para saber como proceder.

Consultado o oráculo, foi dito que Ofuapê seria bem-sucedido na Terra, mas, antes que seu filho deixasse o Orum, teria que ser oferecido um sacrifício de mil búzios.

Ofuapê tinha dois amigos, Oriseecu, filho de Ogum, e Orilemerê, filho de Ijá. Ambos vinham com ele à Terra. Oriseecu e Orilemerê cansaram de esperar por Ofuapê e resolveram seguir sem ele para a casa de Ajalá, onde iam escolher a cabeça antes de nascerem. Chegando lá, não encontraram Ajalá.

Ajalá estava sumido por causa dos credores.

Ele bebia demais e fazia dívidas que não podia pagar. Sempre havia credores na porta de Ajalá. Por isso os amigos não encontraram Ajalá em casa, mas viram lá várias e belas cabeças sobre prateleiras, prontas para serem usadas, e tomaram para si duas das que mais lhes agradaram. Oriseecu e Orilemerê vieram para o mundo.

Ofuapê, que chegara logo após a saída dos dois, encontrou na casa de Ajalá uma velha sentada no chão. Era uma credora.

Ela esperava pelo pagamento de mil búzios que Ajalá lhe devia pela compra de cerveja de milho. Ofuapê lhe deu os búzios e a velha foi-se embora. Ajalá que se escondera e tudo observara, apareceu todo contente pela ação de Ofuapê.

Ele levou Ofuapê para dentro e lhe mostrou as cabeças que tanto encantavam os homens, mas o advertiu de que apenas a beleza da cabeça não garantia uma vida plena de sucessos. Por não saberem escolher suas cabeças, os seres humanos só atraíam infortúnio para si. Assim, Ofuapê escolheu a cabeça adequada e veio para a Terra, onde tornou-se um rico e bem-sucedido homem.

Oriseecu e Orilemerê ficaram intrigados com o sucesso de Ofuapê. Suas cabeças eram bonitas mas não eram boas e eles viviam em dificuldade, enquanto Ofuapê ficara rico e realizado.

Eles então se perguntavam:

“Não foi no mesmo lugar que pegamos nossas cabeças? Não sei onde meu amigo pegou a sua cabeça. Eu iria lá buscar a minha também, se soubesse onde é. Seria o mesmo lugar onde pegamos a nossa cabeça? Mas o destino dele é tão diferente do nosso! Se soubesse onde Ofuapê escolheu a sua cabeça, eu escolheria uma igualzinha para mim”.

[273]




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Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.





domingo, 7 de agosto de 2016

XXIX – Mitologia dos Orixás: Orunmilá - Ifá [253] [254]

Orunmilá - Ifá


Reginaldo Prandi



Orunmilá institui o oráculo



Naquele tempo não havia separação entre o Céu e a Terra. Foi quando Orunmilá teve oito filhos. O primeiro foi o rei de Ará, Alará. O segundo foi Ajeró, rei de Ijeró. O filho caçula foi Olouó, rei da cidade de Ouó. Havia paz e fartura na Terra.


Numa importante ocasião, quando Orunmilá celebrava um ritual, mandou chamar todos os seus filhos. Vieram os sete primeiros filhos de Orunmilá. Eles lhe prestaram homenagens, ofereceram-lhe sacrifícios, prostaram-se a seus pés batendo palmas, prostaram-se batendo paó, disseram as palavras de respeito. Menos Olouó.

Ele veio mas não deitou aos pés do pai, não fez oferendas, não o homenageou como devia. 

"Por que não demonstras respeito por teu pai?", perguntou Orunmilá.

Olouó respondeu que seu pai tinha sandálias de precioso material, mas que ele também as tinha; que o pai usava roupas dos mais finos tecidos, mas que ele também as usava; que seu pai tinha cetro e tinha coroa e que ele os tinha também. Que um homem que usa uma coroa não deve se prostar diante de outro, foi o que disse o filho ao pai.

Orunmilá se enfureceu, arrancou o cetro das mãos do filho e o atirou longe.

Orunmilá retirou-se para o Orum, o Céu, e a desgraça se abateu sobre o Aiê, a Terra: fome, caos, peste e confusão. Parou de chover, plantas não cresciam e animais não procriavam, todos estavam em desespero. Os homens ofereceram a Orunmilá toda sorte de sacrifícios, todos os cantos.

Orunmilá aceitou as oferendas, mas a paz entre o Céu e a Terra estava definitivamente rompida. Os filhos de Orunmilá o procuraram no Orum e lhe pediram para retornar ao Aiê.

Orunmilá entregou então a seus filhos dezesseis nozes de dendê e disse:

"Quando tiverem problemas e desejarem falar comigo, consultem este Ifá".

Orunmilá nunca mais veio ao Aiê, mas deixou o oráculo para que as pessoas possam recorrer a ele quando precisarem.

Os filhos de Orunmilá eram assim chamados:
Ocanrã, Ejiocô, Ogundá, Irosum, Oxé, Obará, Odi, Ejiobê, Osá, Ofum, Ouorim, Ejila-Xerobá, Icá, Oturopon, Ofuncanrã e Iretê. São estes os nomes dos odus. São estes os filhos de Orunmilá.

Cada odu conhece um segredo diferente. Um fala do nascimento, outro da morte, um fala dos negócios, outro da fartura, um fala das guerras, outro das perdas, um fala da amizade, outro da traição, um fala da família, outro da amizade, um fala do destino, outro da sorte. Cada odu conhece um segredo diferente. Desde então, quando alguém tem um problema, é o odu que indica o sacrifício apropriado.

Orunmilá disse:
"Quando tiverem problemas, consultem Ifá".

Orunmilá nunca mais veio ao Aiê, mas deixou o oráculo para que as pessoas possam recorrer a ele quando precisarem.

[253]



Ifá dá ao feiticeiro as lendas da adivinhação


Um feiticeiro passava por um grande dissabor: uma calamidade estava dizimando seus discípulos. Seu prestígio declinava a cada dia. O povo e o rei estavam alarmados. Com a anuência do rei, o feiticeiro partiu em longa peregrinação. Andava e andava em busca de solução.

Andou meses e meses sem nada encontrar.

Um dia, com o sol a pino, ele encontrou na estrada um velho que se vestia de branco. O velho convidou o feiticeiro a segui-lo. Juntos chegaram à casa do ancião. O velho ofereceu comida e bebida ao feiticeiro e então lhe apresentou suas mulheres.

Eram dezesseis e cada uma disse o seu nome:
"Gbê-meji", disse a primeira.
"Iecu-meji", disse a segunda.
"Gudá-meji", disse a terceira, e assim por diante todas se apresentaram:
Sas-meji, Ca-meji, Turuquepe-meji, Uoli-meji, Di-meji, Losso-meji, Uelé-meji, Abla-meji, Acalá-meji, Tula-meji, Leté-meji, Sé-meji e Fu-meji. Assim as dezesseis esposas eram chamadas na língua do povo mina.

O velho de branco disse ao feiticeiro que cada mulher sua tinha dezesseis filhos e que cada filho tinha, por sua vez, dezesseis filhos. Ele deu ao feiticeiro a história de cada um dos dezesseis filhos. Com o conhecimento das histórias o feiticeiro pode voltar à sua terra e solucionar todos os problemas de seu povo.

Ele foi o primeiro sacerdote de Ifá.

[254]


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Leia também:


XXVIII – Mitologia dos Orixás: Oraniã [249] [250]

XXX – Mitologia dos Orixás: Ajalá[272] [273]


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Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.



domingo, 5 de junho de 2016

XXVIII – Mitologia dos Orixás: Oraniã [249] [250]

Oraniã


Reginaldo Prandi



Oraniã nasce negro e branco e tem dois pais



Ogum venceu a guerra contra Ogotum. Do espólio da guerra trouxe sete escravas. Uma delas era Lacangê, mulher de rara beleza. Ogum amo-a em segredo, escondendo-a para si. Mas seus falsos amigos revelaram o segredo a seu pai Odudua. O pai ordenou a Ogum que trouxesse a escrava à sua presença. Encantado com ela, Odudua a fez sua esposa.

Nove meses depois, Lacangê teve um filho. O menino deixou a todos espantados. Do lado direito, tinha a pela negra, como a de Ogum; do lado esquerdo, a mesma pele alva de Odudua. Ogum e Odudua entreolharam-se, sem nada dizer. Esse menino recebeu o nome de Oraniã. Um dia foi um grande guerreiro, fundou o reino de Oió e foi pai de Xangô.


[249]





Oraniã cria a Terra


No começo só havia água sob o céu e nenhum ser vivente. Olodumare, Deus Supremo, Senhor de Todas as Coisas, criou primeiro sete príncipes e depois alguns artefatos. Em sete sacos pôs búzios, tecidos, pérolas, pedras preciosas. Criou um pano preto e nele embrulhou uma misteriosa substância. Criou uma galinha e uma corrente e sete barras de ferro. Na corrente pendurou os artefatos e os sete príncipes. Pela corrente desceu tudo pelas águas e do alto do Céu deixou cair uma semente. Da semente cresceu uma palmeira, e a palmeira abrigou os sete príncipes. Cada príncipe ganhou uma cidade para governar: Oloú ganhou o reino de Egbá. Onixabé, o reino de Savé. Orangum foi o soberano de Ilá. Oni o rei de Ifé. Ajerô recebeu Ijerô. Alaqueto reinou em Queto. Oraniã, o caçula, foi feito rei de Oió.

Antes de sair para suas cidades, os irmãos repartiram entre si o que lhes havia dado Olodumare. Os mais velhos ficaram com os búzios, o dinheiro, com as pedras preciosas e as joias, os tecidos preciosos e outras riquezas. O mais jovem, que era Oraniã, ficou com a galinha, as sete barras de ferro e o embrulho de pano preto. Quando Oraniã abriu o pano, deparou com uma escura e estranha substãncia, que jogou na água. a substância boiou na superfície e a galinha, voando sobre o montículo, pôs-se a ciscar a tal matéria. O montículo cresceu e cresceu e assim a Terra foi criada. Oraniã desceu à Terra e tomou posse dela. Mas os irmãos mais velhos viram a Terra e pretenderam tomar posse dela. Oraniã tomou suas sete barras de ferro como armas e com elas defendeu a Terra da cobiça dos irmãos. Oraniã venceu os irmãos e poupou suas vidas. Todos foram reis. todos deveram subserviência a Oraniã. 


Oraniã foi o grande rei de Oió e Oió, a capital de todas as cidades.

[250]




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Leia também:

XXVII – Mitologia dos Orixás: Odudua [245] [247]


XXIX – Mitologia dos Orixás: Orunmilá - Ifá [253] [254]


Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.




sábado, 2 de abril de 2016

XXVII – Mitologia dos Orixás: Odudua [245] [247]

Odudua


Reginaldo Prandi




Odudua briga com Obatalá e o céu e a Terra se separam


No princípio de tudo, quando não havia separação entre o Céu e a Terra, Obatalá e Odudua viviam juntos dentro de uma cabaça. Viviam extremamente apertados um contra o outro, Odudua embaixo e Obatalá em cima. Eles tinham sete anéis que pertenciam aos dois.

À noite eles colocavam seus anéis.

Aquele que dormia por cima sempre colocava quatro anéis e o que ficava por baixo colocava os três restantes. Um dia Odudua, deusa da Terra, quis dormir por cima para poder usar nos dedos quatro anéis. Obatalá, o deus do Céu, não aceitou.

Tal foi a luta que travaram os dois lá dentro que a cabaça acabou por se romper em duas metades. A parte inferior da cabaça, com Odudua, permaneceu embaixo, enquanto a parte superior, com Obatalá, ficou em cima, separando-se assim o Céu da Terra.

No início de tudo, Obatalá, deus do Céu, e Odudua, deusa da Terra, viviam juntos. A briga pelos anéis os separou e separou o Céu da Terra.

[245]





Odudua é encarregado de dotar os homens de cabeça


Quando Olodumare quis fazer o mundo, desceu com Obatalá para realizar a sua obra. No entusiasmo da Criação, Olofim fez coisas maravilhosas, como as árvores, as nuvens, o arco-íris e os pássaros, mas também teve fracassos e deixou coisas pela metade.

Os homens, por exemplo, foram feitos sem cabeça e a obra pareceu a Olofim imperfeita, inconclusa.

Incomodado com o desacerto, Olofim encarregou Odudua de fazer cabeças para os homens. Odudua fez as cabeças, mas as deixou com apenas um olho. Também não gostou do resultado Olodumare e encarregou Obatalá de colocar dois olhos onde estão agora. Foi ele que também deu aos homens uma boca, além de ter-lhe dado a voz e as palavras que saem dela. Os homens, então, passaram a ser como os conhecemos e tudo parecia bem.

Hoje, no entanto, toda a Criação de Olofim está ameaçada de destruição pela ação dos homens, pois alguma coisa neles não funciona bem. Não se sabe se foi por erro de Olofim, ou se foi por algum descuido de Odudua.

[247]


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Leia também:

XXVI – Mitologia dos Orixás: Ajê Xalugá [243] [244]

XXVIII – Mitologia dos Orixás: Oraniã [249] [250]


Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.




terça-feira, 5 de janeiro de 2016

XXVI – Mitologia dos Orixás: Ajê Xalugá [243] [244]

Ajê Xalugá


Reginaldo Prandi




Ajê Xalugá cega os homens e também perde a visão


Ajê Xalugá é a irmã mais nova de Iemanjá. Ambas são as filhas prediletas de Olocum. Quando a imensidão das águas foi criada, Olocum dividiu os mares com suas filhas e cada uma reinou numa diferente região do oceano. Eram nove as filhas de Olocum e por isso se diz são nove as Iemanjá. Dizem que Iemanjá é a mais velha Olocum e que Ajê Xalugá é a Olocum caçula, mas de fato ambas são irmãs apenas.

Olocum deu às suas filhas os mares e também todo o segredo que há neles. Mas nenhuma delas conhece os segredos todos, que são os segredos de Olocum.

Ajê Xalugá era, porém, muito curiosa e sempre ia bisbilhotar em todos os mares. Quando Olocum saía para o mundo, Ajê Xalugá fazia subir a maré e ia atrás cavalgando sobre as ondas. Ia disfarçada sobre as ondas, na forma de espuma borbulhante que brilhava ao sol tão intensamente. Tão intenso e atrativo era tal brilho que às vezes cegava as pessoas que olhavam.

Um dia Olocum disse à sua filha caçula:

“O que dás para os outros tu também terás, serás vista pelos outros como te mostrares. Este será o teu segredo, mas saiba que qualquer segredo é sempre perigoso. ”

Na próxima vez que Ajê Xalugá saiu nas ondas, acompanhando, disfarçada, as andanças de Olocum, seu brilho era ainda maior, porque maior era seu orgulho, agora detentora do segredo. Muitos homens e mulheres olhavam admirados o brilho intenso das ondas do mar e cada um com o brilho ficou cego.

Sim, o seu poder cegava os homens e as mulheres.

Mas quando Ajê Xalugá também perdeu a visão, ela entendeu o sentido do segredo. Iemanjá está sempre com ela, quando sai para passear nas ondas. Ela é a irmã mais nova de Iemanjá.

[243]




Ajê Xalugá faz seu amado próspero e rico


Ajê Xalugá vive no fundo do oceano, onde se senta num trono de coral, num belo sítio no profundo chão do mar. Toda a riqueza da terra não suplanta a riqueza do mar, pois tudo o que há na terra é levado para o mar e o que é próprio do mar na terra não existe.

Ali está Ajê Xalugá entre algas e cardumes e outras maravilhas do lugar. Às vezes sai sobre as ondas, seguindo Olocum em seus passeios. Quando as ondas avançam muito praia adentro, ela aproveita e desce à terra para distrair-se. Foi assim que certa vez ela conheceu um homem do mercado, um comerciante que vendia azeite-de-denê, e por ele logo se apaixonou. O comerciante também desejou Xalugá e pediu para com ela se casar. Não podendo viver fora da água, ela levou o seu amado para o fundo do mar e para sua tristeza ele se afogou, morreu.

Tempos depois noutra onda, voltou Ajê Xalugá à terra firme e foi mais uma vez visitar o mercado do lugar. De novo conheceu um mercador e ambos se apaixonaram. Não podendo dar-lhe amor, para não matá-lo, antes de retornar a seu trono submarino, ela o cobriu de riquezas, fazendo dele o homem mais importante do mercado. Há sempre prosperidade quando Ajê Xalugá vem visitar os homens que trabalham nos mercados.

O mar é o mais rico tesouro existente e tudo isso pertence a Ajê Xalugá.

Ajê Xalugá é a dona da riqueza. É ela quem pode dar prosperidade ao homem. E, do seu trono de coral na areia, Ajê Xalugá ajuda quem precisa e quem lhe oferece presentes no mar.

[244]



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Leia também:

XXV – Mitologia dos Orixás: Onilé [242]

XXVII – Mitologia dos Orixás: Odudua [245] [247]


Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.



terça-feira, 17 de novembro de 2015

XXV – Mitologia dos Orixás: Onilé [242]

Onilé


Reginaldo Prandi




Onilé ganha o governo da Terra



Onilé era a filha mais recatada e discreta de Olodumare. Vivia trancada em casa do pai e quase ninguém a via. Quase nem se sabia de sua existência. Quando os orixás seus irmãos se reuniam no palácio do grande pai para as grandes audiências em que Olodumare comunicava suas decisões, Onilé fazia um buraco no chão e se escondia, pois sabia que as reuniões sempre terminavam em festa, com muita música e dança ao ritmo dos atabaques. Onilé não se sentia bem no meio dos outros.


Um dia o grande deus mandou os seus arautos avisarem: haveria uma grande reunião no palácio e os orixás deviam comparecer ricamente vestidos, pois ele iria distribuir entre os filhos as riquezas do mundo e depois haveria muita comida, música e dança. Por todos os lugares os mensageiros gritaram essa ordem e todos se prepararam com esmero para o grande acontecimento.


Quando chegou por fim o grande dia, cada orixá dirigiu-se ao palácio na maior ostentação, cada um mais belamente vestido que o outro, pois este era o desejo de Olodumare. Iemanjá chegou vestida com a espuma do mar, os braços ornados de pulseiras de algas marinhas, a cabeça cingida por um diadema de corais e pérolas, o pescoço emoldurado por uma cascata de madrepérola. Oxóssi escolheu uma túnica de ramos macios, enfeitada de peles e plumas dos mais exóticos animais. Ossaim vestiu-se com um manto de folhas perfumadas. Ogum preferiu uma couraça de aço brilhante, enfeitada com tenras folhas de palmeira. Oxum escolheu cobrir-se de ouro, trazendo nos cabelos as águas verdes dos rios. As roupas de Oxumarê mostravam todas as cores, trazendo nas mãos os pingos frescos da chuva. Iansã escolheu para vestir-se um sibilante vento e adornou os cabelos com raios que colheu da tempestade. Xangô não fez por menos e cobriu-se com o trovão. Oxalá trazia o corpo envolto em fibras alvíssimas de algodão e a testa ostentando uma nobre pena vermelha de papagaio. E assim por diante. Não houve quem não usasse toda criatividade para apresentar-se ao grande pai com a roupa mais bonita. Nunca se vira antes tanta ostentação, tanta beleza, tanto luxo. Cada orixá que chegava ao palácio de Olodumare provocava um clamor de admiração, que se ouvia por todas as terras existentes. Os orixás encantaram o mundo com suas vestes. Menos Onilé. Onilé não se preocupou em vestir-se bem. Onilé não se interessou por nada. Onilé não se mostrou para ninguém. Onilé recolheu-se a uma funda cova que cavou no chão.


Quando todos os orixás haviam chegado, Olodumare mandou que fossem acomodados confortavelmente, sentados em esteiras dispostas ao redor do trono. Ele disse então à assembléia que todos eram bem-vindos. Que todos os filhos haviam cumprido seu desejo e que estavam tão bonitos que ele não saberia escolher qual seria o mais vistoso e belo. Tinha todas as riquezas do mundo para dar a eles, mas nem sabia como começar a distribuição. Olorum refletiu por um bom tempo e disse que seus próprios filhos tinham feito suas escolhas. Ao escolherem o que achavam o melhor da natureza, para com aquela riqueza se apresentar perante o pai, eles mesmos já tinham feito a divisão do mundo. Então Iemanjá ficava com o mar, Oxum com o ouro e os rios. A Oxóssi deu as matas e todos os seus bichos, reservando as folhas para Ossaim. Deu a Iansã o raio e a Xangô o trovão. Fez Oxalá dono de tudo o que é branco e puro, de tudo o que é o princípio, deu-lhe a criação do homem. Destinou a Oxumarê o arco-íris e a chuva. A Ogum deu o ferro e tudo o que se faz com ele, inclusive a guerra. E assim por diante. Confirmou Exu no cargo de mensageiro dos deuses, pois nenhum outro era capaz de se movimentar como ele. Mas como Exu se cobrira todo com búzios para a reunião, e como búzio era dinheiro, Olodumare também dava a ele o patronato dos mercados e o governo das trocas.


Olodumare deu assim a cada orixá um pedaço do mundo, uma parte da natureza, um governo particular. Dividiu de acordo com o gosto de cada um. E disse que a partir de então cada um seria o dono e governador daquela parte da natureza. Assim, sempre que um humano tivesse alguma necessidade relacionada com uma daquelas partes da natureza, deveria pagar uma prenda ao orixá que a possuísse. Pagaria em oferendas de comida, bebida ou outra coisa que fosse da predileção do orixá. Os orixás, que tudo tinham ouvido em silêncio, começaram a comemorar, cantando e dançando de júbilo. Mas Olorum-Olodumare levantou-se e pediu silêncio, pois a divisão do mundo ainda não estava concluída. Disse que faltava ainda a mais importante das atribuições. Que era preciso dar a um dos filhos o governo da Terra, o mundo no qual os humanos viviam e onde produziam as comidas, bebidas e tudo o mais que deveriam ofertar aos orixás. Disse que dava a Terra a quem se vestia da própria Terra. Quem seria?, perguntavam-se todos. “Onilé”, respondeu Olodumare. “Onilé?”, todos se espantaram. Como, se ela nem sequer viera à grande reunião? Nenhum dos presentes a vira até então. Nenhum sequer notara sua ausência. “Pois Onilé está entre nós”, disse Olodumare, e mandou que todos olhassem no fundo da cova, onde se abrigava, vestida de terra, a discreta e recatada filha. Ali estava Onilé, em sua roupa de terra. Onilé, a que também foi chamada Ilé, o país, o planeta. Olodumare disse que cada um que habitava a Terra pagasse tributo a Onilé, pois ela era a mãe de todos, o abrigo, a casa. A humanidade não sobreviveria sem Onilé. Afinal, onde ficava cada uma das riquezas que Olodumare partilha com os filhos orixás? “Tudo está na Terra”, disse Olodumare. “O mar e os rios, o ferro e o ouro, os animais e as plantas, tudo”, continuou. “Até mesmo o ar e o vento, a chuva e o arco-íris, tudo existe porque a Terra existe, assim como as coisas criadas para controlar os homens e os outros seres vivos que habitam o planeta, como a vida, a saúde, a doença e mesmo a morte.” Pois então, que cada um pagasse tributo a Onilé, foi a sentença final de Olodumare.


Onilé, orixá da Terra, receberia mais presentes que os outros. Deveria ter oferendas dos vivos e dos mortos, pois na Terra também repousam os corpos dos que já não vivem. Onilé, também chamada Aiê, a Terra, deveria ser propiciada sempre, para que o mundo dos humanos nunca fosse destruído. Todos os presentes aplaudiram as palavras de Olodumare. Todos os orixás aclamaram Onilé. Todos os humanos propiciaram a mãe Terra.


E então Olodumare retirou-se do mundo para sempre e deixou o governo de tudo por conta de seus filhos orixás.

[242]



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Leia também:


XXIV – Mitologia dos Orixás: Olocum [238] [239]

XXVI – Mitologia dos Orixás: Ajê Xalugá [243] [244]


Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

XXIV – Mitologia dos Orixás: Olocum [238] [239]

Olocum


Reginaldo Prandi




Olocum acolhe todos os rios e torna-se a rainha das águas


Olocum, a senhora do mar,

e Olossá, a senhora da lagoa,

andavam ambas muito preocupadas.

As águas já não eram suficientes para suprir

as necessidades do povo, que já padecia

da sede provocada pela longa seca.

Olocum e Olossá foram aos pés de Orunmilá,

que as aconselhou a fazer oferendas

para que a abundância das águas retornasse.

Era um sacrifício grande para ambas,

mas Olocum cumpriu o recomendado.

Olossá, porém, ofereceu seus sacrifícios incompletos.



E veio a chuva e choveu tanto que as águas já não cabiam

no curso dos rios.

Oxum, o rio, foi consultar Ifá

para saber que destino dar ao curso de suas águas.

Oxum foi orientada por Ifá

para procurar onde fosse bem recebida.

Assim, Oxum reuniu as águas do rio

e seguiu caminho.

Encontrou a lagoa, encontrou ossá,

e nela se precipitou,

mas as águas da lagoa transbordaram.

Deixou a lagoa e chegou ao mar, o ocum,

e ali derramou todas as suas águas

e o mar recebeu o rio Oxum sem transbordar.



Então todos os rios fizeram a mesma rota

e encaminharam suas águas para o mar, o ocum.

E Olossá teve que se conformar com o segundo posto.

Olocum fez corretamente o sacrifício.

Olocum é a rainha de todas as águas.

[238]






Olocum mostra sua força destruidora



O mundo foi criado por Olorum e sua mulher Olocum.

Eles tinham a mesma idade.

Da união de Olocum com Aiê, a Terra, nasceu Iemanjá.

Da união de Iemanjá e Aganju nasceram os outros deuses.

Mas Olorum separou-se de Olocum

e por longo tempo ambos brigaram

pelo poder de reinar na Terra.

Certa vez Olocum quis demosntrar seu poder.

Olocum invadiu a terra com suas águas

e destruiu parte da humanidade com essa catástrofe.

Só não foi pior porque Olorum, de onde estava,

estendeu uma corrente que descia à terra

e os homens subiram às montanhas,

salvando-se assim a espécie humana.

Os sobreviventes consultaram Ifá

e fizeram oferendas para apaziguar Olocum.

Com a corrente usada para salvar os homens,

Olorum ataou Olocum ao fundo do mar.

Lá está ela até hoje,

acompanhada de uma gigantesca serpente marinha,

que, na lua nova, segundo contam,

mostra sua cabeça fora d’água.



Olocum propôs um pacto a Olorum:

Olocum não teria mais poder na terra,

mas a cada dia faria os homens sentirem sua força,

que brota das profundezas do oceano.

O ser humano tinha que saber, tinha que sentir

que seu poder era de vida e morte.

Era o que queria Olocum e Olorum concordou.

Assim, a cada dia, quando alguém se afoga no mar,

Olocum recebe uma vida humana em sacrifício.

Todos temem o poder de Olocum.

Todos os dias, alguém se afoga no mar.

[239]



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Leia também:

XXIII – Mitologia dos Orixás: Iemanjá [220] [221]

XXV – Mitologia dos Orixás: Onilé [242]

Reginaldo Prandi, paulista de Potirendaba e professor titular de sociologia da Universidade de São Paulo, é autor de três dezenas de livros. Pela editora Hucitec publicou Os candomblés de São Paulo, pela Edusp, Um sopro do Espírito, e pela Cosac Naify, Os príncipes do destino. Dele, a Companhia das Letras publicou também Segredos guardados: orixás na alma brasileira; Morte nos búzios; Ifá, o Adivinho; Xangô, o Trovão; Oxumarê, o Arco-Íris; Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo; Minha querida assombração; Jogo de escolhas e Feliz Aniversário.



Prandi, Reginaldo. Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. - São Paulo: Companhia das Letras, 2001.