quinta-feira, 30 de abril de 2026

Espumas Flutuantes - Pelas sombras

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

PELAS SOMBRAS
Ao padre Francisco de Paula 
 C’est que je suis frappé du doute 
 C’est que l’étole de la foi 
 N’éclaire plus ma noire route: 
 Tout est abîme autour de moi!
La Morvonnais  
  
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos 
 Ladram na escuridão das Circes as cadelas... 
 As lívidas marés atiram, a meus olhos, 
 Cadáveres, que riem à face das estrelas!

Da garça do oceano as ensopadas penas 
 O mórbido suor enxugam-me da testa. 
 Na aresta do rochedo o pé se firma apenas... 
 No entanto ouço do abismo a rugidora festa!... 

Nas orlas de meu manto o vendaval s’enrola... 
 Como invisível destra açoita as faces minhas... 
 Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola... 
 “Quem foi?” perguntam rindo as solidões marinhas.

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante. 
 A treva me assoberba... Ó Deus! dá-me um clarão! 
 — 
 E uma Voz respondeu nas sombras triunfante: 
 “Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!” 

 ........................................................................ 

Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma 
 Pode a flama subir brilhante, loura, eterna; 
 Mas quando os vendavais, rugindo, passam n’alma, 
 Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada 
 Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva. 
 Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada 
 A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva. 

Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria! 
 Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara! 
 Na fronte do oceano — acende uma ardentia! 
 Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!

Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante — 
 Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!... 
 — 
 E uma Voz respondeu nas sombras triunfante: 
 “Acende, ó Viajor! a Fé no Coração!...” 
 Curralinho, 5 de junho de 1870  


ODE AO DOUS DE JULHO
Recitada no teatro de São Paulo  
 
Era no Dous de Julho. A pugna imensa 
 Travara-se nos serros da Bahia... 
 O anjo da morte pálido cosia 
 Uma vasta mortalha em Pirajá. 
 “Neste lençol tão largo, tão extenso, 
 “Como um pedaço roto do infinito... 
 O mundo perguntava erguendo um grito: 
 “Qual dos gigantes morto rolará?!... 

Debruçados do céu... a noite e os astros 
 Seguiam da peleja o incerto fado... 
 Era a tocha — o fuzil avermelhado! 
 Era o circo de Roma — o vasto chão! 
 Por palmas — o troar da artilharia! 
 Por feras — os canhões negros rugiam! 
 Por atletas — dous povos se batiam! 
 Enorme anfiteatro — era a amplidão! 

Não! Não eram dous povos, que abalavam 
 Naquele instante o solo ensanguentado... 
 Era o porvir — em frente do passado, 
 A liberdade — em frente à escravidão. 
 Era a luta das águias — e do abutre, 
 A revolta do pulso — contra os ferros, 
 O pugilato da razão — com os erros, 
 O duelo da treva — e do clarão!... 

No entanto a luta recrescia indômita... 
 As bandeiras — como águias eriçadas — 
 Se abismavam com as asas desdobradas 
 Na selva escura da fumaça atroz... 
 Tonto de espanto, cego de metralha 
 O arcanjo do triunfo vacilava... 
 E a glória desgrenhada acalentava 
 O cadáver sangrento dos heróis!...

 .............................................................. 
 .............................................................. 

Mas quando a branca estrela matutina 
 Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras 
 No verde leque das gentis palmeiras 
 Foram cantar os hinos do arrebol, 
 Lá do campo deserto da batalha 
 Uma voz se elevou clara e divina: 
 Eras tu — liberdade peregrina! 
 Esposa do porvir — noiva do sol!... 

Eras tu que com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra, 
 Livre sagravas a Colúmbia terra, 
 Sagravas livre a nova geração! 
 Tu que erguias, subida na pirâmide, 
 Formada pelos mortos do Cabrito, 
 Um pedaço de gládio — no infinito... 
 Um trapo de bandeira — n’amplidão!... 
 São Paulo, julho de 1868

continua pag 52...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração / Pelas sombras / A Duas Flores /                   
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL
 
continuando...

     Afirmou-se muitas vezes que a mulher se vestia para excitar o ciúme das outras mulheres: este ciúme é com efeito um sinal visível de triunfo; mas não é a única coisa visada. Através dos sufrágios de inveja ou admiração, a mulher busca uma afirmação absoluta de sua beleza, de sua elegância, de seu gosto: de si mesma. Veste-se para se mostrar: mostra-se para se fazer ser. Submete-se assim a uma dolorosa dependência; a dedicação da dona de casa é útil mas não é reconhecida; o esforço da coquete é vão, se não se inscreve em alguma consciência. Ela procura uma valorização definitiva de si mesma; é uma pretensão ao absoluto que torna sua busca tão exaustiva; condenado por uma só opinião, este chapéu não é bonito; um cumprimento a lisonjeia mas um desmentido a arruína; e como o absoluto só se manifesta por uma série indefinida de aparições, ela vencerá completamente; eis por que a coquete é tão suscetível; eis por que também certas mulheres bonitas e aduladas podem estar convencidas de que não são nem belas nem elegantes, que lhes falta precisamente a aprovação suprema de um juiz que não conhecem: visam um em si que é irrealizável. Raras são as coquetes soberbas que encarnam elas próprias as leis da elegância, que ninguém pode surpreender em erro porque são elas que definem, por decretos, o êxito e o malogro; essas, durante seu reinado, podem pensar-se como um êxito exemplar. A desgraça está em que esse êxito não serve para nada nem para ninguém.
     A toalete implica desde logo passeios e recepções, está nisso aliás seu destino original. A mulher passeia de salão em salão seu tailleur novo e convida outras mulheres para vê-la reinar em seu "interior". Em certos casos particularmente solenes o marido acompanha-a em suas "visitas"; porém mais frequentemente, é enquanto o marido trabalha que ela cumpre seus "deveres mundanos". Descreveu-se mil vezes o tédio implacável dessas reuniões. Ele provém do fato de que essas mulheres reunidas pelas "obrigações mundanas" nada têm a se comunicar. Nenhum interesse comum liga a mulher do advogado à mulher do médico — nem tampouco a do Dr. Dupont à do Dr. Durant. Não é de bom-tom, numa reunião, numa conversa de ordem geral falar das travessuras dos filhos ou das preocupações domésticas. Fica-se, portanto, limitada a considerações sobre o tempo, o último romance em voga, algumas ideias gerais tiradas dos maridos. O hábito do dia "de Madame" tende sempre mais a desaparecer; mas sob diversas formas a obrigação da "visita" sobrevive na França. As norte-americanas substituem de bom grado a conversa pelo bridge, o que só constitui uma vantagem para as mulheres que gostam desse jogo.
     Entretanto, a vida mundana reveste formas mais atraentes do que essa ociosa execução de um dever de polidez. Receber não é apenas acolher os outros em sua residência particular; é transformar esta em um recanto encantado; a manifestação mundana é ao mesmo tempo festa e poílatch. A dona de casa expõe seus tesouros: prataria, toalhas, cristais; enche de flores o lar: efêmeras, inúteis, as flores encarnam a gratuidade das festas que são despesas e luxo; desabrochadas nos vasos, condenadas a uma morte rápida, são fogo de artifício, incenso e mirra, libação, sacrifício. A mesa enche-se de pratos requintados, de vinhos preciosos. Trata-se, satisfazendo as necessidades dos convivas, de inventar dons graciosos que lhes previnem os desejos; a refeição transmuda-se em misteriosa cerimônia. V. Woolf acentua esse caráter neste trecho de Mrs Dalloway:

   Então começou pelas portas de vento o vaivém silencioso e encantador das criadinhas de avental e boné brancos, não serventes necessárias porém sacerdotisas de um mistério, da grande mistificação operada pelas donas de casa de Mayfair de uma hora e meia a duas. A um gesto de mão, o movimento da rua cessa e em seu lugar ergue-se essa ilusão enganadora: primeiramente, eis os alimentos oferecidos de graça, depois a mesa cobre-se sozinha de cristais e prataria, de cestos, de gamelas com frutos vermelhos; um véu de creme escuro esconde o peixe; frangos destrinchados nadam em caçarolas, o fogo flameja cerimonioso; e com o vinho e o café — dados de graça — alegres visões erguem-se ante os olhos sonhadores, os olhos que meditam docemente, aos quais a vida se apresenta musical, misteriosa...

     A mulher que preside tais mistérios está orgulhosa de se sentir criadora de um momento perfeito, dispensadora da felicidade, da alegria. É através dela que os convivas se encontram reunidos, que um acontecimento ocorre, ela é fonte gratuita de alegria, de harmonia.
     É exatamente o que sente Mrs. Dalloway:

   Mas suponhamos que Peter lhe diga: Bem! Bem! Mas suas noitadas, qual a razão delas? Tudo o que pode responder é isto (tanto pior se ninguém entende): São uma oferenda... Eis Fulano que mora em South Kennington, Beltrano que vive em Bayswater e Sicrano, diga mos no Mayfair. Ela tem sempre o sentimento da existência deles; ela se diz: Que pena! Que saudade! E ela se diz: Por que não os reunir? quem? E os reúne. É uma oferenda; é combinar, criar. Mas para quem?
   Uma oferenda pela alegria de oferecer, talvez. seu presente. Ela não tem outra coisa... Em todo caso é seu presente. Ela não tem outra coisa...
   Outra pessoa, qualquer uma, poderia ter estado ali, fazer tão bem. Entretanto era um pouco admirável, pensava. Fizera com que as sim fosse.

     Se há nessa homenagem prestada a outrem pura generosidade, a festa é realmente uma festa. Mas a rotina social dentro em pouco transforma o potlatch em instituição, o dom em obriga ção e a festa em rito. Enquanto saboreia o jantar, a convidada pensa que será preciso pagá-lo: queixa-se amiúde de ter sido bem recebida demais. "Os X... quiseram embasbacar-nos", diz com azedume ao marido. Contaram-me, entre outras coisas, que durante a última guerra os chás se tinham tornado, numa pequena cidade de Portugal, o mais caro dos potlatchs: em cada reunião devia a dona da casa servir uma variedade e uma quantidade de doces maiores do que na reunião precedente; o fardo tornou-se tao pesado que um dia as mulheres decidiram de comum acordo nada mais oferecer com o chá. A festa em tais circunstâncias perde seu caráter generoso e magnífico; é uma corveia entre outras; os acessórios que exprimem a festividade não passam de uma fonte de preocupações: é preciso tomar conta dos cristais, da toalha, medir o champanha e os doces; uma xícara quebra da, a seda de uma poltrona queimada são desastres; amanhã será preciso limpar, arrumar, pôr em ordem: a mulher teme esse excesso de trabalho. Sente essa múltipla dependência que define o destino da dona de casa; depende do soufflé, do assado, do açougueiro, da cozinheira, do criado extra; depende do marido que franze o sobrolho, quando alguma coisa falha; depende dos convidados que avaliam os móveis, os vinhos e julgam se a noitada foi um êxito ou não. Somente as mulheres generosas ou seguras de si passarão serenamente por tal prova. Um triunfo pode dar-lhes uma grande satisfação. Mas muitas assemelham--se nesse ponto a Mrs. Dalloway, a propósito de quem V. Woolf nos diz: "Embora gostando desses triunfos. . . de seu brilho e da excitação que dão, sentia-lhes também o vazio, o artifício". A mulher só pode realmente comprazer-se nisso se não lhe empresta grande importância; sem o quê, conhecerá os tormentos da vaidade nunca satisfeita. Há, de resto, poucas mulheres sufi cientemente ricas para encontrar no "mundanismo" um emprego para sua vida. As que a ele se consagram inteiramente tentam em geral não somente render um culto a si mesmas como ainda ultrapassar essa vida mundana com vistas a outros fins: os ver dadeiros "salões" têm um caráter literário ou político. Elas se esforçam através desse meio por adquirir ascendência sobre os homens e desempenhar um papel pessoal. Evadem-se de sua condição de mulher casada. Esta, em geral, não encontra satisfação nos prazeres, nos triunfos efêmeros que lhes dispensam raramente e que muitas vezes representam para elas uma fadiga tanto quanto uma distração. A vida mundana exige que ela "represente", que se exiba, mas não cria entre ela e outrem uma verdadeira comunicação. Não a tira de sua solidão.
     "É doloroso pensar, escreve Michelet, que a mulher, o ser relativo que só pode viver a dois, se ache mais amiúde só do que o homem. Ele encontra a sociedade por toda parte, cria relações novas para si. Ela não é nada sem a família. E a família acabrunha-a; todo o peso lhe cai em cima." E, com efeito, a mulher encarcerada, separada, não conhece as alegrias da camaradagem que implica no esforço em comum para alcançar certos objetivos; seu trabalho não ocupa o espírito, sua formação não lhe deu nem o gosto nem o hábito da independência e, no entanto, ela passa os dias na solidão; vimos que era uma das desgraças de que se queixava Sofia Tolstói. Seu casamento afastou-a amiúde do lar paterno, das amizades da juventude. Colette descreveu em Mes Apprentissages o desarraigamento de uma mulher casada transportada da província para Paris: não encontra apoio senão na longa correspondência que troca com a mãe; mas as cartas não substituem uma presença e ela não pode confessar suas decepções a Sido. Geralmente não há verdadeira intimidade entre a jovem mulher e sua família: nem sua mãe nem suas irmãs são suas amigas. Hoje, em virtude da crise de habitação, muitas jovens recém-casadas vivem com a família ou a família do marido; mas essas presenças impostas estão longe de constituir uma verdadeira companhia para elas.
     As amizades femininas que a mulher consegue conservar ou criar ser-lhe-ão preciosas; têm um caráter muito diferente das relações que os homens conhecem; estes comunicam entre si, como indivíduos, através das ideias, os projetos que lhes são pessoais; as mulheres, encerradas na generalidade de seu destino, acham-se unidas por uma espécie de cumplicidade imanente. O que primeiramente procuram, umas junto de outras, é a afirmação do universo que lhes é comum. Não discutem opiniões: trocam confidencias e receitas; ligam-se para criar uma espécie de contra-universo cujos valores superem os valores masculinos; reunidas, encontram força para sacudir suas cadeias; negam o domínio sexual do homem, confiando umas às outras sua frieza, zombando cinicamente dos apetites do macho ou de sua inabilidade; contestam também com ironia a superioridade moral e intelectual do marido e dos homens em geral. Confrontam suas experiências; gravidez, partos, doenças dos filhos, doenças pessoais, cui dados caseiros tornam-se os acontecimentos essenciais da história humana. Seu trabalho não é uma técnica: transmitindo-se receitas de cozinha, receitas caseiras, dão-lhes a dignidade de uma ciência secreta baseada em tradições orais. Por vezes, examinam juntas problemas morais. A "pequena correspondência" dos jornais femininos oferece uma boa amostra dessas trocas; não há como imaginar uma "correspondência amorosa" reservada aos homens; eles se encontram no mundo, que é o mundo deles; ao passo que as mulheres têm que definir, medir, explorar seus domínios; comunicam principalmente conselhos de beleza, receitas de cozinha e de tricô, pedem opiniões; através de seu gosto pela tagarelice e pela exibição sentimos, por vezes, surgirem verdadeiras angústias. A mulher sabe que o código masculino não é o seu, que o próprio homem espera que ela não o observará, posto que a impele a abortos, a adultérios, a erros, a traições, a mentiras que oficialmente condena. Ela pede, portanto, às outras mulheres, que a ajudem a definir uma espécie de "lei" de seu meio, um código moral propriamente feminino. Não é somente por maldade que as mulheres comentam e criticam tão longamente as condutas das amigas: para julgá-las e para se orientarem é-lhes necessária muito mais invenção moral do que aos homens.
     O que dá valor a tais relações é a verdade que comportam. Diante do homem, a mulher está sempre representando; mente, fingindo aceitar-se como o outro inessencial, mente erguendo, à frente dele, mediante mímicas, toaletes, frases preparadas, uma personagem imaginária; essa comédia exige uma constante tensão; perto do marido, perto do amante, toda mulher pensa mais ou menos: não sou eu mesma. O mundo masculino é duro, tem arestas afiadas, as vozes são demasiado sonoras, as luzes demasiado cruas, os contatos rudes. Perto das outras mulheres, a mulher fica atrás do cenário; forja suas armas, não combate; combina a toalete, inventa uma maquilagem, prepara seus ardis: arrasta-se de chinelos e roupão pelos bastidores antes de subir ao palco; gosta dessa atmosfera morna, doce, repousante. Colette (Le Képi) descreve assim os momentos que passava com sua amiga Marco:

   Confidências rápidas, divertimentos de reclusas, horas que por vezes se assemelham às de uma reunião, por vezes aos lazeres de uma convalescença.

     Comprazia-se em desempenhar o papel de conselheira junto da mulher mais idosa:

   Nas tardes quentes, sob o estore do balcão, Marco cuidava de suas roupas. Cozia mal, mas com cuidado e eu me envaidecia com os conselhos que lhe dava... "Não se deve colocar fita azul-celeste nas camisas, o cor-de-rosa é mais bonito na roupa e junto da pele." Não tardei em dar-lhe outros conselhos acerca do pó de arroz, da cor do batom, do traço duro e negro com que cercava o belo desenho de sua pálpebra. "Acha? não cedia. Acha?", dizia-me ela. Minha jovem autoridade Pegava do pente, abria uma pequena brecha graciosa na sua franja fofa, mostrava-me perita em dar brilho a seu olhar, em acender uma aurora vermelha no alto de suas faces, perto das têmporas.

     Mais adiante mostra-nos Marco preparando-se ansiosamente para defrontar-se com um rapaz que desejava conquistar:

   ... Queria enxugar os olhos molhados, eu a impedia. 
   — Deixa-me fazê-lo. 
   Com os polegares, ergui as pálpebras superiores a fim de que as duas lágrimas prestes a escorrer se reabsorvessem e a pintura dos cílios não fundisse ao seu contato. 
   — Bem. Espera, não terminou ainda. 
   Retoquei todos os traços. A boca tremia um pouco. Deixou-se retocar pacientemente, suspirando como se a pensasse. Para acabar, enchi-lhe o arminho com um pó de arroz mais rosado. vamos, nem uma nem outra. 
   —... Que quer que aconteça — disse-lhe — não chore. De jeito nenhum te deixes dominar pelas lágrimas. 
   ... Ela passou a mão entre a franja e a fronte. 
   — Eu devia ter comprado sábado último aquele vestido preto que vi no revendedor. . . Escuta, não poderias emprestar-me meias muito finas? Nesta hora, não tenho mais tempo. 
   — Mas naturalmente, naturalmente. 
   — Obrigada. Não achas que uma flor pode clarear o vestido? Não, nada de flor na blusa. É verdade que o perfume de íris não está mais na moda? Parece-me que teria uma porção de coisas para te perguntar, uma porção de coisas...

continua página 305...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção IV)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção IV
Da conexão ou associação das ideias


     Visto que a imaginação pode separar todas as ideias simples e uni-las de novo na forma que lhe aprouver, nada seria mais inexplicável do que as operações desta faculdade, se ela não fosse orientada por alguns princípios universais que a tornassem em certa medida uniforme em todos os tempos e lugares. Se as ideias fossem inteiramente soltas e desconexas, só o acaso as juntaria; e seria impossível que as mesmas ideias simples se agrupassem regularmente em ideias complexas (como correntemente sucede) sem estarem unidas por qualquer laço, qualquer qualidade associativa, mediante a qual uma ideia naturalmente introduz a outra. Este princípio de união entre as ideias não deve considerar-se uma conexão inseparável, pois tal conexão já foi excluída da imaginação; contudo não devemos concluir que sem ela, a mente é incapaz de juntar duas ideias, visto que nada há mais livre do que essa faculdade. Mas devemos apenas considerar este princípio de união como uma força suave que normalmente prevalece e é a causa que, entre outras coisas, produz a correspondência tão estreita das línguas entre si; a natureza de certo modo indicando a cada um as ideias simples que são mais apropriadas à união numa ideia complexa. As qualidades em que se origina esta associação e que desta maneira levam a mente de uma ideia para outra, são três: a semelhança, a contiguidade no tempo e no espaço e a relação de causa e feito.
     Julgo não ser muito necessário provar que estas qualidades produzem uma associação entre as ideias e que, ao aparecer uma ideia, naturalmente introduzem outra. Está claro que, no decorrer do nosso pensamento e na transformação constante das nossas ideias, a imaginação passa facilmente de uma ideia para qualquer outra que se lhe assemelhe, e que esta qualidade, por si só, constitui para a fantasia um laço e associação suficiente. É também evidente que, sendo os sentidos, ao mudarem os objetos, obrigados a mudarem-nos regularmente, tomando-os tal como se encontram contíguos uns aos outros, deve a imaginação, devido ao longo costume, adquirir o mesmo método de pensar, percorrendo as partes do espaço e do tempo ao conceber os seus objetos. Quanto à conexão que se opera pela relação de causa e efeito, a seguir teremos ocasião de a estudar a fundo, pelo que não insisto nela de momento. Basta notar que nenhuma relação produz na fantasia uma conexão mais forte, e faz uma ideia mais prontamente evocar outra, do que a relação de causa e efeito entre os seus objetos.
     Para compreendermos toda a extensão destas relações, é necessário considerar que dois objetos ficam ligados um ao outro na imaginação não apenas quando um deles é diretamente semelhante, contíguo ou causa do outro, mas ainda quando entre eles se interpõe um terceiro objeto que mantém com ambos qualquer destas relações. Pode levar-se longe esta conexão; contudo podemos ao mesmo tempo notar que cada deslocação enfraquece consideravelmente a relação. Os primos em quarto grau estão ligados por causalidade, se é que é lícito usar este termo, mas não tão intimamente como os irmãos e muito menos do que um filho aos seus pais. Em geral pode notar-se que todas as relações de consanguinidade dependem da relação de causa e efeito e consideram-se próximas ou remotas segundo o número de causas de ligação intercaladas entre as pessoas.
     Das três relações mencionadas acima, a de causalidade é a mais extensa. Dois objetos podem considerar-se nesta relação já quando um deles é causa de qualquer das ações ou movimentos do outro, já quando o primeiro é causa da existência do segundo. Com efeito, não sendo esta ação ou movimento senão o próprio objeto visto a determinada luz e continuando o objeto o mesmo em todas as suas diferentes situações, é fácil de imaginar como essa influência mútua dos objetos pode ligá-los na imaginação.
     Podemos ir mais longe e observar que dois objetos ficam ligados pela relação de causa e efeito, não só quando um deles produz no outro um movimento ou ação qualquer, mas ainda quando tem poder para produzi-lo. E podemos notar que esta é a origem de todas as relações de interesse e de dever pelas quais os homens se influenciam mutuamente na sociedade e ficam presos nos laços do governo e da subordinação. Patrão é o homem que, pela sua situação, originada na força ou num acordo, tem o poder de dirigir em certos pontos as ações doutro homem a quem chamamos servo. Juiz é um homem que nos casos de litígio pode, mediante a sua decisão, assegurar a posse ou propriedade de uma coisa qualquer a qualquer membro da sociedade. Quando uma pessoa é dotada de qualquer poder, nada mais é preciso para que este passe a ato do que o exercício da vontade; e este exercício considera-se possível em todos os casos, e provável em muitos deles, especialmente no caso da autoridade, em que a obediência do súb-dito é um prazer e uma vantagem para o superior.
     São estes portanto os princípios de união ou coesão das nossas ideias simples, os quais na imaginação preenchem o lugar dessa conexão inseparável por força da qual elas se unem na nossa memória. Há aqui uma espécie de atração, a qual veremos ter no mundo do espírito efeitos tão extraordinários como no mundo da natureza, e manifestar-se sob tantas e tão variadas formas como neste. Os seus efeitos são por toda a parte manifestos, mas as suas causas são na maioria dos casos desconhecidas e têm de se reduzir a qualidades originais da natureza humana, que não é minha pretensão explicar. O que mais se exige de um verdadeiro filósofo é que reprima o desejo imoderado de procurar causas e que, depois de ter estabelecido uma doutrina a partir de um número suficiente de experiências, se dê por satisfeito quando notar que um exame mais por menorizado o levaria a especulações obscuras e incertas. Neste caso a sua investigação seria mais bem empregada em examinar os efeitos do que as causas do seu princípio.
     Dentre os efeitos desta união ou associação de ideias, nenhuns há mais notáveis do que aquelas ideias complexas que são a matéria comum dos nossos pensamentos e raciocínio, e geralmente têm origem nalgum princípio de união entre as nossas ideias simples. Estas ideias complexas podem dividir-se em relações, modos e substâncias. Vamos examinar com brevidade cada uma delas por ordem, e acrescentaremos algumas considerações sobre as nossas ideias gerais e particulares, antes de deixarmos o presente assunto, que pode considerar-se como os elementos desta filosofia.

continua na página 48...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IV / Seção V /      
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Cinema: Wolfgang Amadeus Mozart

Mozart


"Minha vizinha gostava tanto de Mozart que atirou um tijolo na minha janela só para poder ouvi-lo melhor. É interessante notar que em Requiem KV626, 7:46 Dies Irae e 20:40 Confutatis são mais pesadas ​​e intensas do que qualquer outra música Heavy Metal já feita."






Coleção TEMPUS - Edição e Criação Original - IP - Todos os direitos reservados.
Wolfgang (A. Mozart) - 1991 - TV | 1991 | Filme biográfico | Österreich, Tschechische Republik Hauptdaten Projektdaten - Regie Juraj Georg Herz - Drehbuch - Zdenek Mahler.

Elenco:
Alexander Lutz: Wolfgang Amadeus Mozart
Jakub Trasak: Wolferl - Menino
Toni Böhm: Leopold Mozart
Hana Militká: Ana María Mozart
Jitka Havlícková: Nannerl Mozart
Magdalena Reifová: Konstanze Weber Mozart
Barbara Wussow: Aloisia Weber Lange
Miguel Herz-Kestranec: Joseph Lange
Milena Sajdková: Caecilia Weber
Radoslav Brzobohatý: Arbishop Jerónimo von Colloredo
Frantisek Nemec: Joseph Haydn
Boris Rösner: Antonio Salieri
Vlastimil Harapes: Conte Walsseg
August Schmölzer: Emmanuel Schikaneder
Therese Herz: Annerl Gottlieb
Barbora Hrzánová: Bäsle
Zora Jandová: Josefina Duskova
Zdenek Martínek: Casanova
Petr Cepek: Ignaz Born
Zdenek Havránek: Fígaro
Ludek Vele: Leporello


Mozart - Biografia




5 Fatos e Curiosidades sobre Mozart




Mozart – Requiem KV626



0:00 Introitus: Requiem aeternam
4:49 Kyrie eleison

Sequenz
7:14 Dies irae
8:56 Tuba mirum
12:40 Rex tremendae
15:00 Recordare
20:40 Confutatis
22:59 Lacrimosa

Offertorium
26:30 Domine Jesu
29:54 Versus: Hostias et preces
33:54 Sanctus
35:39 Benedictus 
40:55 Agnus Dei
43:56 Communio: Lux aeterna
49:30 Credits

Wolfgang Amadeus Mozart – Requiem KV 626
Bartosz Michałowski – conductor
Sylwia Olszyńska – soprano
Agata Schmidt – mezzo-soprano
Karol Kozłowski – tenor
Adam Kutny – baritone
Polish Sinfonia Iuventus Orchestra
Warsaw Philharmonic Choir
Gravado em Novembro 01, 2019 no Warsaw Philharmonic Concert Hall

Wolfgang Amadeus Mozart / O Estrangeiro /    

Boa noite, Poesia... O Amor

Vladimir Maiakovski


Chamado de "o poeta da Revolução", foi um poeta, dramaturgo e teórico russo, frequentemente citado como um dos maiores poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e T.S. Eliot, bem como "o maior poeta do futurismo".







Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.

Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.

Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.

Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
– Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Quanto ao meu ciúme)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Quanto ao meu ciúme, forçava-me a deixar Albertine o menos possível, embora soubesse que ela não o haveria de curar totalmente senão separando-me dela para sempre. Podia até senti-lo junto dela, mas então cuidava para que não se renovassem as circunstâncias que o tivessem despertado em mim. Foi assim que, num dia de bom tempo, saímos para almoçar em Rivebelle. As grandes portas envidraçadas do refeitório, daquele hall em forma de corredor que servia para os chás, estavam abertas de par em par para a relva dourada pelo sol e das quais o vasto restaurante luminoso parecia fazer parte. O garçom de rosto róseo, de cabelos negros revoltos como chamas, movia-se por toda aquela vasta extensão menos depressa que antigamente, pois não era mais simples garçom, mas um chefe de mesa; não obstante, devido a sua atividade natural, às vezes de longe, no refeitório, às vezes mais perto, porém do lado de fora, servindo à fregueses que tinham preferido almoçar no jardim, a gente o avistava ora aqui, ora ali, como estátuas sucessivas de um jovem deus corredor, umas no interior, aliás bem iluminado, de uma sala que se prolongava em grama verde, outras sob as folhagens, na claridade da vida ao ar livre. Por um instante, esteve ao nosso lado. Albertine respondeu distraidamente ao que eu lhe dizia. Ela o mirava com os olhos crescidos. Durante alguns minutos, senti que é possível estar junto da pessoa amada e todavia não tê-la consigo. Pareciam estar num tête-à-tête misterioso, tornado mudo pela minha presença, e talvez continuação de encontros antigos que eu não conhecia, ou apenas de um olhar que ele lhe lançara e do qual eu era o terceiro importuno e de quem se escondem. Mesmo quando, chamado com violência por seu patrão, ele se afastou, Albertine, embora continuasse a almoçar, já não parecia considerar o restaurante e os jardins senão como pista iluminada, onde aparecia aqui e ali, em cenários variados, o deus corredor de cabelos negros. Num momento, cheguei a perguntar-me se, para segui-lo, ela não iria me deixar sozinho na mesa. Porém nos dias seguintes comecei a esquecer para sempre essa impressão penosa, pois havia decidido jamais voltar a Rivebelle e fizera com que Albertine, que me assegurou ter ido ali pela primeira vez, me prometesse que não voltaria nunca mais. E neguei que o garçom de pés ágeis só tivesse olhos para ela, para que Albertine não julgasse que minha companhia a houvesse privado de um prazer. Aconteceu-me voltar por vezes a Rivebelle, porém só, e beber demais, como já o fizera. Esvaziando um último copo, eu contemplava uma rosácea pintada na parede branca e reportava a ela o prazer que experimentava. Somente ela, no mundo, existia para mim; eu a perseguia, a tocava e a perdia sucessivamente com meu olhar fugidio e era indiferente ao futuro, contentando-me com a rosácea como uma borboleta que gira ao redor de uma borboleta pousada, com a qual vai acabar a vida num ato de suprema volúpia. Ora, eu achava perigoso deixar que se instalasse em mim, mesmo sob uma forma leve, um mal que se assemelha a esses estados patológicos habituais a que não se costumam dar atenção, mas a que, se sobrevém o menor acidente, imprevisível e inevitável, bastam para lhe conferir logo uma extrema gravidade. O momento talvez fosse particularmente bem escolhido para renunciar a uma mulher, a quem nenhum sofrimento muito recente e muito vivo me obrigava a pedir esse bálsamo contra um mal que possuem aquelas que o provocaram. Eu me sentia tranqüilizado por esses mesmos passeios que, embora no momento só os considerasse como uma espera de um amanhã que, apesar do desejo que me inspirava, não deveria ser diferente da véspera, tinham o encanto de serem arrancados aos lugares onde até então se encontrava Albertine, e onde eu não estava com ela, na casa de sua tia, na casa das amigas. Encanto não de uma alegria positiva, mas apenas do apaziguamento de uma inquietação, e contudo bem intenso. Pois a alguns dias de distância, quando voltava a pensar na granja diante da qual tínhamos bebido cidra, ou simplesmente nos poucos passos que déramos defronte de Saint-Mars-le-Vêtu. Lembrando-me que Albertine caminhava a meu lado com sua touca, o sentimento de sua presença acrescentava de súbito uma certa virtude à imagem indiferente da igreja nova, que, no momento em que a fachada ensolarada vinha desse modo pousar por si mesma em minha lembrança, era como uma grande compressa calmante que houvesse aplicado ao meu coração. Eu deixava Albertine em Parville, mas para ir encontrá-la de tarde e estender-me a seu lado na praia e no escuro. Claro que não a via diariamente, e no entanto podia dizer comigo: "Se ela contasse o emprego de seu tempo, de sua vida, era ainda eu quem ocuparia o maior lugar"; e passávamos juntos longas horas seguidas que davam aos meus dias uma tão doca embriaguez que até quando, em Parville, ela saltava do auto que eu ia lhe enviar de novo uma hora depois, já não me sentia sozinho no carro, como se, antes de desembarcar, ela tivesse deixado flores ali. Poderia ter deixado de vê-la todos os dias; e seria feliz, pois sentia que o efeito calmante dessa felicidade podia prolongar-se por vários dias. Mas então ouvia Albertine, ao deixar-me, dizer à sua tia ou a uma amiga: 

- Então, amanhã às oito e meia. Não podemos chegar tarde, eles estarão prontos às oito e quinze. -  

     A conversação de uma mulher amada se parece a um solo que recobre uma água subterrânea e perigosa; a todo momento, sente-se por detrás das palavras a presença e o frio penetrante de um lençol invisível; percebe-se aqui e ao seu pérfido transudar, mas ele próprio permanece oculto. Tão logo ouvia a frase de Albertine, a minha calma ficava destruída. Desejava pedir para ir vê-la na manhã seguinte, a fim de impedi-la de comparecer a esse misterioso encontro das oito e meia de que se falara na minha frente em meias palavras. Sem dúvida, me obedeceria das primeiras vezes, lastimando, no entanto, ter de renunciar a seus projetos; depois teria descoberto minha necessidade permanente de estragá-los; e eu me transformaria naquele para quem se esconde tudo. E, além disso, é provável que essas festas das quais me via excluído consistissem em muito pouca coisa, e que era talvez por receio de que eu me encontrasse com uma certa convidada vulgar ou maçante que não me convidavam. Infelizmente, essa vida tão mesclada à de Albertine não exercia efeitos apenas sobre mim; ela me tranquilizava; porém causava à minha mãe inquietações cuja confissão a destruía. Como eu voltasse contente para casa, decidido a terminar de um dia para o outro uma existência cujo fim eu julgava depender exclusivamente da minha vontade, minha mãe me disse, ao ouvir-me dizer ao chofer que fosse buscar Albertine após o jantar: 

- Como gastas dinheiro! (Françoise, em seu linguajar simples e expressivo, dizia com mais força: "O dinheiro voa.") - Procura - continuou mamãe - não ficar como Charles de Sévigné, cuja mãe dizia: "Sua mão é um crisol onde o dinheiro se derrete." E depois, creio que de fato saíste bastante com Albertine. Asseguro-te que é exagerado, que até mesmo para ela pode parecer ridículo. Fico encantada que isso te distraia, não te peço que não a vejas mais, mas enfim que não seja impossível um ficar sem o outro. -

     Minha vida com Albertine, vida carente de grandes prazeres pelo menos de grandes prazeres percebidos; essa vida que eu tencionava mudar de um dia para o outro, escolhendo uma hora de calma, tornou-se-me de repente necessária por algum tempo, quando se achou ameaçada pelas palavras de mamãe. Disse à minha mãe que suas palavras acabavam de atrasar talvez de dois meses a decisão que pediam e que, sem elas, seria tomada antes do fim da semana. Mamãe pôs-se a rir (para não me deixar triste) do efeito instantâneo de seus conselhos, e prometeu-me não voltar a falar no assunto, para não impedir que renascesse a minha boa intenção. Mas, desde a morte de minha avó, cada vez que mamãe se deixava rir, o riso principiado estacava de súbito e terminava com uma expressão quase soluçante de sofrimento, ou devido ao remorso de, por um instante, ter podido esquecer, ou pela recrudescência com que esse esquecimento tão breve reavivara ainda mais a sua cruel preocupação. Mas, à que lhe causava a lembrança da minha avó, instalada em minha mãe como uma ideia fixa, senti que desta vez se acrescentava uma outra, relativa a mim, por causa de seus temores pelas consequências de minha intimidade com Albertine; intimidade que ela, no entanto, não se animava a estorvar devido ao que lhe acabara de dizer. Mas não pareceu persuadida de que eu não estava enganado. Lembrava-se durante quantos anos minha avó e ela não me haviam mais falado de meu trabalho e de uma norma de vida mais higiênica e que, dizia eu, só a agitação em que me punham as suas exortações bastava para me impedir de começá-la, e que, apesar de seu silêncio obediente, eu não havia seguido.
     Depois do jantar, o auto trazia de volta Albertine; ainda havia um pouco de claridade. O ar estava menos quente, mas, após um dia abrasador, nós dois sonhávamos com frescores ignorados. Então, a nossos olhos empobrecidos, a lua muito estreita apareceu, a princípio (como na noite em que eu fora à casa da princesa de Guermantes e Albertine me telefonara) como a leve e delgada casca, depois como o quarto fresco de uma fruta que uma faca invisível começasse a descascar no céu. Também às vezes, era eu quem ia buscar a minha amiga, então um pouco mais tarde; ela devia esperar-me diante das arcadas do mercado, em Maineville. Nos primeiros instantes, eu não a distinguia; já me inquietava que não devesse aparecer, que tivesse compreendido mal. Então, via-a, com sua blusa branca de pintas azuis, saltar para o meu lado, no carro, num leve pulo que mais parecia o de um animalzinho que de uma moça. E era ainda como uma cadelinha que ela principiava logo a me acariciar sem fim. Quando a noite descia completamente e, como dizia o gerente do hotel, o céu ficava todo semeado de estrelas, se não íamos passear na floresta com uma garrafa de champanha, sem nos preocuparmos com os passeantes que deambulavam ainda sobre o molhe fracamente iluminado, mas que nada poderiam vislumbrar a dois passos sobre a areia escura, ficávamos estendidos ao pé das dunas; aquele mesmo corpo, em cuja flexibilidade vivia toda a graça feminina, marinha e esportiva das moças que eu vira passar pela primeira vez diante do horizonte das ondas, mantinha-o apertado contra o meu, sob a mesma coberta, exatamente à beira do mar imóvel, visível por um trêmulo reflexo; e o escutávamos sem cansar e com o mesmo prazer, seja quando retinha sua respiração, suspensa por tempo bastante para que se julgasse estancado o refluxo, seja quando enfim exalava a nossos pés o murmúrio esperado e atrasado. Eu acabava por levar Albertine à Parville. Chegado diante de sua casa, era necessário interromper nossos beijos de medo que nos vissem; não tendo vontade de ir deitar-se, ela voltava comigo até Balbec, de onde a levava uma última vez até Parville; os motoristas desses primeiros tempos do automóvel eram pessoas que iam deitar-se a qualquer hora. E, de fato, eu só voltava para Balbec com a primeira umidade da manhã, dessa vez sozinho, mas envolto ainda pela presença de minha amiga, repleto de uma quantidade de beijos longa para se esgotar. Na minha mesa encontrava um telegrama ou um cartão-postal. Era de Albertine ainda! Ela os escrevera em Quetteholme, enquanto eu saíra sozinho de auto e para me dizer o que pensava de mim. Eu me deitava na cama relendo-os. Então percebia, acima das cortinas, o primeiro clarão do dia e dizia comigo que devíamos nos amar, apesar de tudo, pois tínhamos passado a noite aos beijos. Quando via Albertine no molhe, na manhã seguinte, sentia tanto medo de que ela me dissesse que não estava livre aquele dia, não podendo aquiescer aos meus pedidos para passearmos juntos, que atrasava esse pedido o mais que podia. Sentia-me tanto mais inquieto porque ela estava com um aspecto frio e preocupado; passavam pessoas que a conheciam; sem dúvida, havia ela formado, para a tarde, projetos dos quais eu estava excluído. Eu a olhava, olhava aquele corpo encantador, aquele rosto rosado de Albertine, erguendo à minha face o enigma de suas intenções, a decisão desconhecida que deveria fazer a felicidade ou a desgraça da minha tarde. Era todo um estado de espírito, todo um futuro de existência que assumira diante de mim a forma alegórica e fatal de uma moça. E, quando por fim me decidia, quando com o ar mais indiferente possível perguntava: 

- Vamos passear juntos daqui a pouco e de noite? e ela me respondia: 
- Com muito gosto -, então toda a brusca reviravolta, na figura rósea, da minha longa inquietude por uma quietude deliciosa, tornava-me ainda mais preciosas essas formas a que eu devia perpetuamente o bem-estar, o sossego que se experimenta depois que desaba um temporal. Eu repetia comigo mesmo: "Como ela é gentil, como é adorável!" numa exaltação menos fecunda do que a devida à embriaguez, apenas mais profunda que a da amizade, mas muito superior à da vida mundana. Só não contratávamos o automóvel quando havia jantar na casa dos Verdurin e nos dias em que, não estando Albertine livre para sair comigo, eu aproveitava para avisar as pessoas que queriam me ver de que permaneceria em Balbec. Nesses dias eu dava licença a Saint-Loup para que fosse me visitar; mas somente nesses dias. Pois, numa vez em que ele chegara de surpresa, eu teria preferido privar-me de ver Albertine do que arriscar-me a que ele a encontrasse e que ficasse comprometido o estado de calma feliz em que me achava desde algum tempo e que se renovasse o meu ciúme. E só havia sossegado depois que Saint Loup se fora. Assim, ele se limitava, com pesar mas escrupulosamente, a nunca vir a Balbec sem que o chamasse. Outrora, pensando com inveja nas horas que a Sra. de Guermantes passava com ele, quanto valor dava eu à sua presença! As criaturas não cessam de mudar de lugar em relação a nós. Na marcha insensível porém eterna do mundo, consideramo-las como imóveis num instante de visão, curto demais para que seja percebido o momento que as carrega. Porém, basta escolher na nossa memória duas imagens suas tomadas em instantes diversos, todavia bastante próximos, para que não tenham mudado, ao menos sensivelmente, e a diferença das duas imagens mede o deslocamento que operaram em relação a nós. Ele me inquietou horrivelmente ao falar dos Verdurin; receei que me pedisse para ser recebido em casa deles, o que seria suficiente, por causa do ciúme que eu não deixava de sentir, para estragar todo o prazer que ali encontrava com Albertine. Felizmente, porém, Robert me confessou, pelo contrário, que desejava acima de tudo não conhecê-los. 
- Não - disse ele -, acho exasperantes esses meios clericais. -

     A princípio não compreendi esse adjetivo "clerical" aplicado aos Verdurin, mas a continuação da frase de Saint-Loup esclareceu-me o seu pensamento, suas concessões às modas da linguagem, que a gente muita vez se espanta de ver empregadas pelos homens inteligentes. 

- São meios - disse ele onde se forma uma tribo, onde se fazem congregações e capelinhas. Não me dirás que não é uma pequena seita; tudo mel para quem pertence ao grupo, e nenhum desprezo bastante para as pessoas de fora. A questão não é, como para Hamlet, ser ou não ser, mas ser deles ou não ser deles. Tu és deles, o meu tio Charlus é deles. Que queres? Jamais gostei disso, a culpa não é minha. Fica entendido que a regra que eu impusera a Saint Loup, de só vir me visitar a meu chamado, eu a estabeleci estritamente para qualquer pessoa com quem aos poucos me relacionava na Raspeliere, em Féterne, em Montsurvent e arredores; e, quando avistava do hotel a fumaça do trem das três horas que, na anfractuosidade das falésias de Parville, deixava seu penacho estável que permanecia por muito tempo enganchado no flanco das verdes vertentes, não tinha nenhuma hesitação quanto ao visitante que vinha tomar chá comigo e que, à maneira de um deus, ainda estava oculto sob aquela nuvenzinha. Sou obrigado a confessar que esse visitante, previamente autorizado a vir por mim, não foi quase nunca Saniette, e muitas vezes censurei-me por isto. Mas a consciência que tinha Saniette de aborrecer (naturalmente ainda mais vindo fazer uma visita do que contando uma história) fazia com que, embora fosse mais instruído, mais inteligente e melhor pessoa que os outros, parecia impossível experimentar junto dele não só algum prazer como outra coisa que não um spleen quase intolerável e que estragava toda a nossa tarde. Provavelmente, se Saniette confessasse francamente esse tédio que receava causar, a gente não temeria tanto as suas visitas. O tédio é um dos males menos graves que temos de suportar; o seu talvez só existisse na imaginação dos outros, ou lhe fora inoculado por eles graças a uma espécie de sugestão, que encontrava pasto em sua agradável modéstia. Mas ele tanto se empenhava em não dar a perceber que não era procurado, que não tinha coragem de oferecer-se. Certamente estava correto em não proceder como as pessoas que ficam tão contentes em desfazer-se em cumprimentos nos lugares públicos que, não nos tendo visto desde muito e lobrigando-nos em um camarote com pessoas brilhantes a quem desconhecem, lançam-nos uma saudação furtiva e ruidosa, desculpando-se com a emoção e o prazer que sentiram ao ver-nos, ao constar que reatamos os prazeres sociais, que temos bom aspecto, etc. Mas Saniette, ao contrário, carecia muito de audácia. Poderia, na casa da Sra. Verdurin ou no trenzinho, dizer-me que sentiria muito prazer em ir visitar-me em Balbec, caso não me fosse incômodo. Tal proposta não teria me assustado. Pelo contrário, ela nada oferecia, mas com uma fisionomia torturada e um olhar tão indestrutível como um esmalte cozido, em cuja composição, porém, entrava, com um desejo palpitante de nos ver a menos que não achasse alguém mais divertido; a vontade de não deixar perceber esse desejo, dizia-me com ar desligado: 
- O senhor não sabe o que vai fazer nestes dias? Porque sem dúvida irei para perto de Balbec. Mas não tem importância, eu só estava perguntando por acaso. -

     Aquele ar não me enganava, e os signos inversos com ajuda dos quais exprimimos nossos sentimentos pelo seu oposto são de uma leitura tão clara, que é de perguntar-se como ainda existem pessoas que dizem, por exemplo: "Tenho tantos convites que não sei o que fazer", para dissimular que não são convidados. Porém, mais ainda, aquele ar desligado, possivelmente devido ao que entrava em sua turva composição, nos causava o que jamais teria podido fazer o temor ao tédio ou a confissão franca do desejo de nos ver, isto é, essa espécie de mal-estar, de repulsa, que, na ordem das relações de simples polidez social, é o equivalente ao que, no amor, é o oferecimento disfarçado, que faz a uma dama o amoroso a quem ela não ama, de vê-la no dia seguinte, enquanto, ao mesmo tempo, protesta que não faz questão disso, ou nem sequer esse oferecimento, mas uma atitude de falsa frieza. E logo emanava da pessoa de Saniette um não sei quê, fazendo com que a gente lhe respondesse com o ar mais afetuoso do mundo: 

- Não, infelizmente, esta semana, vou explicar-lhe... -

     E eu deixava que viessem, em vez de Saniette, pessoas que estavam longe de ter o seu valor, mas que não possuíam o seu olhar carregado de melancolia e sua boca encrespada da amargura inteira de todas as visitas que ele tinha vontade, calando-a, de fazer a uns e outros. Infelizmente, era bem raro que Saniette não encontrasse no "tortinho" o convidado que vinha me visitar, se é que este já não me dissera na casa dos Verdurin: 

- Não se esqueça de que vou visitá-lo na quinta-feira -, dia em que eu precisamente havia dito a Saniette que não estava livre. De modo que ele acabava por imaginar a vida como cheia de divertimentos organizados à sua revelia, se não mesmo contra ele. Por outro lado, como a gente nunca é completamente uno, aquele discreto exagerado era doentiamente indiscreto. A única vez em que por acaso veio visitar-me, contra a minha vontade, uma carta, não sei de quem, estava atirada sobre a mesa. Ao cabo de um momento, percebi que ele só distraidamente escutava o que lhe dizia. A carta, cuja procedência ele ignorava por completo, o fascinava, e eu julgava que a qualquer instante as suas pupilas esmaltadas iam saltar das órbitas para se unirem à carta sem importância, mas que sua curiosidade imantava. Dir-se-ia um pássaro que vai se lançar fatalmente ao encontro de uma serpente. Por fim, não pôde mais conter-se e primeiro mudou-a de lugar, como para pôr ordem no meu quarto. Não lhe bastando isso, pegou-a, virou-a, revirou-a, como se o fizesse maquinalmente. Uma outra forma de sua indiscrição era que, uma vez grudado na gente, não conseguia ir embora. Como me achasse adoentado naquele dia, pedi-lhe que tomasse o trem seguinte, que partia dentro de meia hora. Ela não duvidou de que eu estivesse mal, porém respondeu: 
- Ficarei uma hora e um quarto, depois partirei. -

     Depois, sofri de não lhe haver dito, de cada vez que o podia fazer, que viesse. Quem sabe? Talvez eu tivesse conjurado sua má sorte, e o houvessem convidado outros por quem imediatamente me largaria, de forma que meus convites teriam tido a dupla vantagem de lhe proporcionar alegria e de me desembaraçar dele. Nos dias seguintes aos quais eu havia recebido, naturalmente não esperava visitas, e o automóvel vinha nos buscar a mim e a Albertine. E, quando regressávamos, Aimé, no primeiro degrau da escada, não podia deixar de espiar, com olhos apaixonados, curiosos e glutões, que tipo de gorjeta eu dava ao chofer. Por mais que eu encerrasse a moeda ou a nota na mão fechada, os olhares de Aimé afastavam meus dedos. Desviava a cabeça após um segundo, pois era discreto, bem-educado, e até mesmo se contentava com benefícios relativamente pequenos. Mas o dinheiro recebido por outrem excitava nele uma curiosidade irreprimível, dando-lhe água na boca. Nesses curtos instantes, tinha o ar atento e febril de uma criança que lê um romance de Júlio Verne, ou de uma pessoa que janta tão longe de nós, num restaurante, e que, vendo que nos trincham um faisão, que ele próprio não quer ou não pode saborear, abandona por um instante seus pensamentos sérios para pregar na ave um olhar que o amor e a inveja tornam risonho. Assim ocorriam diariamente aqueles passeios de automóvel. Mas uma vez, quando eu subia pelo elevador, o ascensorista me disse: 

- Aquele cavalheiro esteve aqui, e deixou um recado para o senhor. -

     O ascensorista me disse tais palavras com voz absolutamente mudada, tossindo cuspindo me na cara. 

- Que resfriado que peguei! - acrescentou, como se eu não fosse capaz de percebê-lo por mim mesmo. -

     O doutor disse que é coqueluche e recomeçou a tossir e a cuspir em mim.

- Não se canse falando - disse-lhe eu com ar de bondade fingida.

     Temia pegar a coqueluche, a que, com minha tendência às sufocações, me seria bastante penosa. Mas ele empenhou todo o seu orgulho, como um virtuoso que não quer se confessar doente, em falar e cuspir o tempo todo. 

- Não, isso não quer dizer nada - disse ele (para você, talvez, pensei, mas não para mim). - Aliás, vou em breve de volta a Paris (tanto melhor, desde que não me passe a coqueluche antes). - Parece - continuou - que Paris é bem magnífica. Deve ser mais magnífica ainda do que aqui e em Monte-Carlo, embora alguns companheiros e mesmo fregueses, e até mordomos que iam a Monte-Carlo devido à estação, tenham me dito muitas vezes que Paris era menos magnífica que Monte-Carlo. Talvez estivessem enganados e, no entanto, para ser mordomia não se pode ser imbecil; para guardar todos os pedidos, reservar todas as mesas, é preciso ter uma cabeça! Disseram-me que era ainda mais terrível do que escrever peças e livros. -  
 
     Tínhamos quase chegado ao meu andar, quando o ascensorista me fez descer até embaixo, porque achou que o botão funcionava mal, e consertou-o num piscar de olhos. Disse-lhe que preferia subir a pé, o que queria dizer, e ocultar, que preferia não pegar coqueluche. Mas, com um acesso de tosse cordial e contagioso, ele me impeliu para o elevador. 

- Agora, não há mais perigo, consertei o botão. - 

     Vendo que ele não parava de falar, preferindo conhecer o nome do visitante e o recado que deixara, em vez do paralelo entre as belezas de Balbec, Paris e Monte-Carlo, disse-lhe (como a um tenor que nos importuna com Benjamin Godard: cante de preferência Debussy): 

- Mas quem foi que veio me visitar? 
- É o cavalheiro com quem o senhor saiu ontem. Vou buscar o seu cartão, que está com o porteiro. -

continua na página 191...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Quanto ao meu ciúme)
Sodoma e Gomorra (Cap III - Como na véspera)
Volume 6
Volume 7