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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Teatro Pedagógico: cotidiano

Parábolas de uma Professora



cotidiano

baitasar e paulo e marko




e o cotidiano se vem inexorável

Eu quero saber, Aguinaldo.

Sim... Cabayba.

Quando o xerox do abrigo estará funcionando novamente? Já que o computador nem se pensa em consertar, certo?

Xerox é abaixamento mental, por favor!

E os vidros das salas de aula que estão quebrados, quando os vidros serão trocados? Vai-se esperar terminar as chuvas do outono? O inverno está vindo. Em dias de chuva ou muito frio é um caos! Temos que afastar as classes das janelas, é uma balbúrdia, uma algazarra de crianças, e elas não querem mais nada, é o motivo que esperam para as conversas, o arrastar de classes, cadeiras, empurra aqui, empurra dali, é tudo muito chato!

E os que não estão quebrados serão limpos? Aguinaldo, uma limpeza nos vidros deixaria as salas mais claras e convidativas para o ato de aprender.


Como é difícil dar aula assim. Sem condições.

Que tal um jato de água com a mangueira dos bombeiros? Essas funcionárias não podem, de vez em quando, passar um paninho nas janelas?

Passam o dia sem fazer nada. Encostadas. Escondidas. Pena que não são minhas empregadas...

Espero que o ônibus para o passeio ao zoológico já esteja locado, os bilhetes já voltaram com as autorizações dos responsáveis. E, gurias, o tal passeio para aquele parque das águas vai ou não sair? Onde é mesmo o tal parque? E se chover?

Alguém já lembrou das lâmpadas que não alumiam?

Aquele passeio que tem cavalo, charrete, boi, vaca, mato, lago... Não contem comigo. Não entro no ônibus nem amarrada. É suicídio! Sol e mosquito o dia todo. Procura aluno daqui, encontra aluna dali. É um inferno! Programa de índio!

Enquanto não limpam as janelas, não daria para trocar as lâmpadas que estão queimadas na minha sala?

Não temos lâmpadas queimadas nos corredores, mas sumiram!

Vê se pode, estão roubando as lâmpadas, coisa de marginal!

E as cortinas das salas ninguém vai dar um jeitinho de lavar ou trocar? Aquelas mais rasgadas até poderiam ser trocadas!

Alguém sabe se os vales já chegaram?

Professor, não temos mais vales. O colega está desinformado mesmo! Não temos mais vale alimentação. O valor dos vales sai no contra-cheque que já deve estar depositado em nossa conta.

Não. agora temos o TRI...

Aguinaldo! Afinal, como funciona a escala de uso da sala de vídeo? Toda vez que vou me inscrever está agendada, nunca consigo que meus alunos vejam os desenhos do Walt...

Percebeste que na maioria das vezes são sempre os mesmos professores que fazem uso da sala?

E o laboratório de informática como vai ser usado este ano? Os computadores funcionam?

Funcionam, lá de vez em quando... já que na maioria dos horários o laboratório está cobrindo falta de professor.

Ou não funcionam...

Vamos ter estagiárias este ano?

Deus salve as estagiárias! Sem elas, a escola teria que parar.

Aguinaldo! Queria colocar para discussão no grupo uma coisa muito chata que vem se repetindo e que eu peço em todas as reuniões que não aconteça, mas sempre se repete a história do quadro de giz ficar cheio de tarefas no último período. O que custa apagar o quadro de giz e deixá-lo pronto para o seu uso no turno da tarde?

Realmente, é um saco chegar na sala de aula e encontrar as tarefas da manhã todas no quadro de giz. Quando não são palavrões e desenhos obscenos.

Mas nós, da manhã, também encontramos o quadro cheio com as tarefas da tarde anterior.

Não. Não. Isso é sobra da noite. É coisa da EJA.

Neste próximo feriado, gurias, vamos ou não fazer uma ponte? O feriado é quinta-feira, mas que tal pagarmos a sexta-feira num sábado e emendarmos tudo?

Eu queria saber dos critérios da escola para pagar o passeio de algumas turmas. Até hoje só consegui sair uma vez com meus alunos.

Os alunos ajudam com o que podem? E os que não tem condição a escola paga a diferença?

Queria saber se já chegaram as bolas e as cordas de sisal para as aulas de educação física. Este ano é melhor separar material para os professores volantes, que estão sempre nos pedindo bolas, cordas, redes de voleibol.

É só uma questão de separar um material para o uso dos volantes, sem estresse.

Temos professores volantes que vão substituir as aulas de matemática ou arte-educação, por exemplo, e levam os alunos para o pátio, para jogarem bola. Como se as aulas de educação física se resumissem em jogar bola e pular corda.

Mas vocês da educação física bem que gostam de um joguinho de bola!

Aguinaldo, algumas das gurias da limpeza bem que poderiam, vez que outra, dar uma passadinha na sala de educação física e fazer uma limpeza na poeira e, também, varrer o chão, passar uma cera cheirosinha.

Não me venham com cera, tenho alergia!

Elas me dizem que até tentam, mas é tanta bola jogada pelo chão, joguinhos espalhados, rede de voleibol atirada num canto, cadernos de chamada, apito, bombas de encher bola, bolas velhas e furadas misturadas com as novas, e por aí vai...

Por falar em limpeza, por favor, os banheiros estão horríveis!

Esta gurizada não tem nenhuma educação, os papéis ficam jogados pelo chão, água em abundância pelas torneiras, vasos sanitários entupidos...

Cabayba, estou me referindo aos banheiros dos professores, as colegas bem que poderiam dar uma mãozinha colocando os papéis no cesto, acionando a descarga, evitando fazer pipi no assento do vaso sanitário, fechando a porta ao saírem, não esquecer a chave da porta na bolsa ou bolso. Na correria da incontinência é o maior sufoco sair atrás de uma chave que ninguém viu, etc, etc...

Deus, por favor! Uma chave para cada professora!


Quem vem de preto amanhã?

Aguinaldo! Quando irão construir o muro em volta da escola?

olho para cabayba. eu não lembro de nenhuma discussão sobre algo tão mediévico, estamos esquecendo as questões sociais e as suas fomes, cavaleiros da távola redonda ou quadrada ou triangular e seus muros não irão fazer a justiça social, nem melhorar os conceitos pedagógicos enrolados e amarrados nas camisas de força seletivas dos conteúdos a serem ministrados, das provas a serem vencidas e dos bois a serem abatidos por dia letivo, nem irão apagar da memória a escola fria e indiferente

Muro?

lia pergunta surpresa

Ora, o muro da escola, parede forte que circunda um recinto ou separa um lugar do outro, usado muito como defesa para os forte-apache, nossa proteção.

eis uma explicação didática desnecessária

Ah, eu entendi... É mais ou menos como um lugar cerrado para guardar colmeias de alunos, nossos pequenos operários e nossas pequenas operárias, aprendizes de fazedores de mel, vivendo no entorno da rainha e do zangão, sem nenhuma consciência de si.

Não entendi a razão do deboche.

Não é cinismo. Apenas, estou tentando didaticamente aprender a necessidade do isolamento antropológico da escola, através de muros pedagógicos tão altos. Medo da ocupação? A necessidade da construção de tal muro talvez se explique pela oportunidade de fazer bons negócios com o dinheiro público, criando regras pessoais em que todos perdem um pouquinho e alguns ganham muito, cada um a sua fração.

tanto quanto eu, a lia não consegue assimilar a ideia da necessidade de muros, não é prioridade, queremos antes entender que a sua construção não seja para proteger a sociedade da escola, evitando uma contaminação conservadora por contato ou assimilação dos conteúdos

Não se trata de isolamento, mas não há como negar a violência que vem se apoderando de todos os espaços e já está batendo à porta das escolas.

meu deus, entendi, temos medo que os excluídos das ruas queiram entrar na nossa escola. afinal, não seria justo, sermos invadidas por essa horda de bárbaros, filhos de gengis kan. existe a possibilidade de ocorrência simultânea, numa mesma área geográfica, crescem como musgos, talvez devamos rezar para umas excluírem as outras

Sugiro, então, que se construa junto com os muros um fosso bem fundo, com muita água e, também, com alguns jacarés ou piranhas nadando e montando guarda. Acho que assim todos estaremos mais seguros.

Não podemos esquecer da ponte levadiça.

A esquerdalha está brincando com algo muito sério, fazem pilhéria com a segurança de todos dentro da escola.

quanta ingenuidade, quanto desperdício de energia e recursos. vou sugerir que sejam construídos muros com finalidades mais específicas, por exemplo, o muro das lamentações. teríamos um muro lamentante para a nossa nênia pedagógica secular; ou ainda, um muro de arrimo construído usualmente em talude, que suporta e retém um volume de terra ou de alunos; talvez, venha a ser necessário construir um muro de testa, pequena parede construída junto à boca de saída de bueiro ou de comporta, para proteger contra desmoronamento ou correnteza ou uma tentativa de ocupação de alunos em busca de liberdade e humanidade, teremos o muro dos berros uivantes, façam muros em torno dos feios, mal cuidados e puídos da vida, construam muros em torno das deficiências das pernas ou dos olhos, ou dos ouvidos, os mudos, os desassossegados, os desbraçados

Quando faremos o planejamento do trabalho a ser realizado? É tarefa só do professor referência ou será uma tarefa do coletivo como um todo?

Quê planejamento? O planejamento da construção do muro?

Não sei, gurias e guris. Estou chegado na escola, fui remanejada e quero saber como fazem para encontrar, coincidir, os planejamentos com as avaliações. Quando estivermos no conselho de classe e indicarmos um aluno para uma turma de progressão qual critério utilizado, e o caminho contrário, sair da turma de progressão para o seu ano-ciclo, ocorrerá seguindo que planejamento?

Turma de progressão? Isso não tem mais não.

Vai ocorrer, não se apresse.

Quando nos reunimos para fazer tudo isso?

Nas reuniões pedagógicas semanais!

E hoje o que foi ou está sendo?

Hoje é mais claramente uma reunião administrativa, nas reuniões pedagógicas a Camila toma o timão da reunião e só vai...

Para onde?



os sentidos que mais uso são os olhos e os ouvidos. aprenderia mais com a boca lacrada. devia permanecer fechada, como se estivesse doente, com feridas na bochecha. aprendi


fazemos cartazes bonitos para as mães enquanto as portas da biblioteca se fecham para ela e seus filhos e filhas, para que se preenchem papéis burocráticos no vazio de outras partes na escola, A biblioteca não vai abrir, Como posso devolver esse livro e retirar outro e ler e sorrir e chorar, O que acontece, A biblioteca está às escuras e os livros esperando, Esperamos por quem, Por alguém, lá dentro só tem livros, O que é biblioteca, Onde é a biblioteca, Não sei


vem chegando as férias, bem devagarinho, nem se percebe, tanta é a má vontade dela se oferecer e se deixar tocar, parece com preguiça, Professor Abá, o senhor sabe que os meus netos estudam aqui no turno da manhã, eles têm entre oito e treze anos, diz a dona dos cabelos espumando na cor do leite, nossa conselheirista dos conselhos. tem uma maneira doce de escutar, usa os olhos, adoro conversar com ela, Conheço dois, foram meus alunos ano passado. sinto que ele a trata com deferência especial. o respeito de se saber na frente de uma pessoa que sabe muito, São crianças muito queridas, continua, mas a percebo com um olhar triste, Tudo bem com eles na escola, ele pergunta, Até hoje, sim, mas não sei como vão reagir a tudo que vem por aí. a tristeza tomava conta de seu corpo que se dobrava a força da mão, amassada como uma bola de papel, pronta para o cesto, acabada para o entulho inútil, O que há com eles, É com a mãe deles, professor, O que está acontecendo, Apareceu um caroço nas costas da minha nora e os médicos descobriram que é câncer. Ela reuniu os filhos e contou tudo, nada escondeu, vai precisar fazer uma cirurgia. Os médicos não dizem se vai ficar curada, tudo é incerto, tão de repente. Vivi tantos anos com boa saúde, criei meus filhos, com o amor do pai deles, estou velha e continuo disposta de corpo e mente, a alma é que vem claudicando, mas é minha nora que precisa de muita saúde, precisa da chance que tive de criar meus filhos, Quem sabe descobriram o tumor a tempo... com um bom médico e esta cirurgia, ela tenha uma boa chance. eis mais um desconhecedor dos caminhos difíceis do povo quando busca consertar sua saúde desarranjada, morre-se da diarréia. os contos de fadas não funcionam na vida real da periferia, Professor, um bom médico e uma cirurgia imediata só pagando, é muito dinheiro, não tenho nem para os meus óculos. Minha nora tem que esperar o agendamento e torcer que não demore, diz numa resignação triste, impotente para encontrar a solução que precisa


os safados que roubam o nosso dinheiro da saúde, da educação, da moradia, da segurança, da previdência são os primeiros a serem atendidos com o dinheiro roubado da nossa vida, com a nossa morte. não nos basta escrever ou ler para sair do sufoco, muito menos solidariedade piegas, confessada culpada e oferecida em sacrifício por alguma divindade, precisamos da nossa vida. estamos como terra pouco produtiva pela estiagem de pasto e água, secas, rachadas, torrões cansados dos números entre mortos e feridos. não basta adubar, somos de carne e muito osso, gente de verdade desossando. chega de morrer fora de hora, por acidente do descuido, e ainda, ficar repetindo, Sou muito agradecida. basta de conviver com a morte, miséria e esmorecimento, O meu pai foi fazer exame do coração, e não sei como, descobriram alguma coisa diferente na tal de próstata. é o desabafo de outro assustado com o desconhecido e sinistro percebido nos olhos de seu pai, O que é próstata, professor, É uma glândula dos indivíduos do sexo masculino, está situada na junção da bexiga com a uretra, eis nosso professor, sempre atento e solícito, Glândula o quê, Uretra fica aonde, Faz o quê essa tal uretra, Indivíduos do sexo masculino, pergunto, quero saber se é apenas neles. engraçado, colocam na cabeça que têm que nos ensinar a ler, fazer continhas, usar o computador, mas quando se encontram inesperadamente, sem querer, quase por descuido, com um assunto importante para nossas vidas e que desconhecemos, fazem uma cara de espanto. assustadora essa eja que se parece com a escola das crianças, é de assustar, me faz sentir culpada por ser tão pobre e miserável e não estar tão bem informada. acha que pensamos primeiro em sobreviver à fome e ao descaso para depois conservar viva a preocupação com nossa saúde e agradecidas pelo beijo de consolo na boca. parece julgar que sentimos o amor, a solidariedade, o sexo, de maneira diferente, já que a violência, o soco na cara, a cusparada, o descaso, aparece quase sempre se repetindo e se torna real nas nossas vidas através das suas fantasias de bondade e generosidade. quero gritar que também tenho muito tesão pelo homem que ainda não encontrei, o bom messias, o bom exemplo, ou da morte em algum templo, definitiva, Por quanto tempo ainda vamos viver no desencanto e desalento, esperando quem sabe, a vinda do Messias em seu pranto de dor, não sei, mas nos corações doloridos que se voltam à esperança e ao amor, o tempo finda a tolerância fabricada na ignorância, anestesiada por esta vida de negação


o novo pra mim é quando morro, Bom pessoal, não entendo muito, não é minha área, desconversando a hipocrisia, mais um, não entende nada sobre totalidade e todos. não sabe explicar e se diz um indivíduo do sexo masculino mais informatizado. não consegue nos fazer esquecer da escola que nos abandonou. desafio-o, Se dizem saber e têm medo de sair umas poucas linhas do não previsto e não esperado, o não combinado, por não sei quem, não sabem nada, Professor esquece isto, não dá bola, nós queremos o quadro cheio. Gosto de copiar. A gente quer aula. estou já meio desajeitada e inconformada com a incapacidade das pessoas superarem o medo das aparências e convencimentos, deste fazer e não fazer. eu tenho certeza que não fui convidada a opinar sobre o que deveriam ensinar. agora, o melhor que têm a fazer é aprender a escutar um pouco. não precisa escutar muito, nem quero que se assustem com muita mudança nas suas maneiras de não ver e pensar, menos metidos, Fico imaginando o que venho fazer aqui, já ouvi com outras palavras mais bonitas, que tudo o que se modifica e progride está fora daqui, Nunca disse a vocês ou a qualquer outro aluno: sou um dos homens mais bem informados. nosso professor não vê o que enxerga, o pior cego é aquele que não quer ver e lá vou eu dar a luz pra esse homem que não vê e que não sabe que não vê, mas acho que, na verdade, ele não sabe aprender. espero não estar perdendo meu tempo com este ausente, Professor, as pessoas não falam apenas com a boca, mas sentadas na cadeira, caminhando, olhando, até na maneira de respirar e suspirar, muitas vezes, o pensamento das pessoas chega antes da boca abrir. paro para respirar, encontro-me, aqui, também sentada, tantas pessoas juntas, todas esperando, algumas falando, todas ouvindo, talvez sonhando, esperando, enquanto vou olhando


seria constrangedor ler meus pensamentos e minhas intenções, com certeza não estou rezando o pai-nosso nem a ave-maria, estou pecando e desejando e olhando o homem da próxima, que afinal, não é tão próxima assim, aliás, nem conheço a próxima de nenhum que fuzilava com os olhos, como se os estivesse examinando nas suas impurezas. ajudam-me a pecar com seus andares e pêndulos, seus andares sutis para os lados, ao mesmo tempo em que avançam, não andam em círculos, mas não sabem o que fazer com nossos olhares de fêmeas predadoras. têm medo. fingem um constrangimento que não percebo nos seus andares de lugares para lugares. ainda não sabem do quanto queremos comê-los, se imaginam comedores. fodem, mas é com a nossa paciência. enquanto fujo em outras formas de pensar, o professor Abá continua tenteando com sua inocência programada, Tento explicar-lhes o que a professora de ciências poderia fazer com mais competência, mas vou comentar com vocês alguma coisa do que li na enciclopédia Barsa, alguém tem essa enciclopédia em casa, pergunta. silêncio


este professor definitivamente é muito bonzinho, um grande irmão, mas não entende nada da gente, é muito espontâneo e queridinho, não sabe que leva tempo para tirarmos da memória a escola que nos abandonou, leva tempo para acreditar que existe outra escola, uma escola que não abandona, Será que sabe o que está fazendo, Excreção e reprodução constituem duas funções biológicas básicas para as nossas vidas, assim, temos o aparelho urinário e os órgãos genitais, na espécie humana o aparelho urinário se constitui de dois rins, dois ureteres, bexiga urinária e a uretra, no homem os órgãos genitais compreendem o pênis, os testículos, o epidídimo, o escroto, o cordão espermático, as vesículas seminais e a próstata, Ufa,vou correr atrás dessa Barsa e pedir ajuda, essa deve ser boa, Até aqui, tudo bem, outra pergunta idiota. ele deve tá de brincadeira, A próstata é uma glândula localizada na base da bexiga do tamanho de uma ameixa e envolve a uretra, participando da formação do esperma, às vezes, a próstata aumenta de tamanho e, à proporção que o homem avança em idade, continua aumentando, Sim, e daí, ela aumenta até estourar, interrompe um de meus colegas, O que é esperma, professor, Gente, tive uma ideia. Por que não pesquisamos na Internet, nos propõe uma pesquisa através do computador, Acho que vai ser divertido descobrir o computadore, a internete e a apóstata, tudo ao mesmo tempo, ouço num comentário abafado, Agora, Já, Claro, entraremos em um site de busca atrás da palavra ‘próstata’. está entusiasmado com o seu achado, Como é que se escreve próstata, professor. enfim uma boa ideia, vamos estudar computador aprendendo sobre a próstata



a gente sempre tá torcendo, mas no dia do jogo é mais forte a angústia, é mais difícil desligar o radinho, ele fica ligado todo dia no esporte, não se tem outra coisa pra fazer, então saímos pra passear, olhar as pessoas, namorar, ler gibi na beira do rio, tomar um chimarrão e ficar proseando


deixa a gente por aqui, na paz, tá sereno



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domingo, 1 de maio de 2016

Teatro Pedagógico: báskara

Parábolas de uma Professora



báskara

baitasar e paulo e marko




sinto uma vontade incontrolável de fumar, sinto uma vontade irresponsável de amar, nua de alma, transformando-me linda para deliciar o gosto do amor
Colegas, o que acham de fazermos um teatro com as turmas sobre o tema gerador... tipo os três porquinhos?
lia, em pé, tentava sugerir um jeito diferente, pelo menos aqui, de fazer pedagogia, pensa e acredita no fazer coletivo
Eu não vou deixar os meus conteúdos para me dedicar a essa coisa de teatrinho!
eis a serviçal da mesa dos conteúdos, layla, completamente colonizada pela idéia de necessitar possuir alguma coisa, mesmo que sejam os conteúdos de uma disciplina
Pronto! Neste ritmo vou virar fantoche em teatro de bonecos ou alguma bruxa bem feia e nariguda de um conto de fadas qualquer.
acemira sempre preocupada com o espelho e a mais leve possibilidade de ser associada com a feiúra da pobreza. nunca consegui conversar com a acemira sobre a feiúra e a pobreza da alma, na verdade, nunca me permiti pensá-la com alma, come da mesma maneira que é comida: atormentada, tirana e cruenta
Colegas, nós estamos desviando e saindo da pauta de discussão, nosso assunto agora é conselho de classe e a questão para debate é a participação ou não dos alunos nos conselhos.
o nosso diretor é um batalhador energético, mas muitas vezes o percebo caminhando sobre um fio de navalha, acreditando que irá manter-se em equilíbrio sem cortes e marcas profundas, neste jogo duro de interesses pessoais e corporativistas. não existem coletes salva-vidas para todos, mas queremos boiar, respirando e gritando, os gritos e o desamor pesam como chumbo, descobrimos já muito tarde para flutuar com dignidade
Aguinaldo, eu não tenho nada para escutar de alunos indisciplinados, que não dedicam um mínimo de seu tempo jovem para os estudos, eles é que precisam parar e escutar, ouvir com atenção, se possível com a tua participação, e talvez, eu disse talvez, no silêncio a que forem obrigados, escutem o que temos para lhes dizer.
cabayba procura não deixar dúvidas, não acredita em alunos, não conseguem construir um diálogo em sala de aula. duvida que irão fazê-lo nos conselhos de classes participativos, acredita em chamar os pais ou as mães, ou responsáveis irresponsáveis, para relatar num filme de chanchada todas as vulgaridades cometidas por estes pequenos infratores
Alguém aqui, já leu Paulo Freire e o seu conceito de educação ‘bancária’ e a doação do saber?
lia pergunta ao grupo questões esquecidas por um fazer automático, construído na rotina escravazista em guetos escolares diferenciados. um dia frio sem reflexões ou degustações de vinhos e com palavras breves sem o prerrequisito da paixão, a gramática tornada mais importante que o entusiasmo
Estou com sede, mas não quero cerveja nem água mineral. Eu quero a água que sai da bica e o suor que escorre das brincadeiras de dançar e brincar e aprender dentro da escola.
Como é possível fazer uma lambada assim gostosa pra gente se mexer?
Precisamos de várias vidas ao mesmo tempo e mais algumas que chegarão no andar da carruagem e das discussões que se fizerem e fizermos sobre os nossos atos insensatos e sensatos de educar com alegria, sorrisos, abraços, cantos, amor e esperança. educar em nós mesmas nossas crianças.
Mas enquanto esta alegria insensata não chega como vou vivendo?
Isso não é um remédio que você toma e pronto está curada do egoísmo ou do medo. Vai se vivendo das fantasias do sonho acordado ou dormido, caminhado ou parado. Você quer uma regra para viver? Lute por uma humanidade menos imbecilizada, mais solidária, amorosa... construída com todos e todas incluídas num mundão ou mundinho menos elitista, menos preconceituoso, menos autoritário e menos desigual: por la vida siempre.
Dia destes, eu tive um sonho e acordei aplaudindo em pé, junto com todos os professores da minha cidade cidadã, aos alunos da sensibilidade, criatividade, competência, senso crítico, dedicação, disciplina, sonoridade, alegria, amor e esperança em nós, eles tocavam violinos, mas poderiam tocar pandeiros, falavam com sua música, dança e malas de viagem que ainda acreditam e que sentem esperança que posso me humanizar.
Mas muitos deles e delas não sabem ler!
E o quê eles e elas não sabem ler? Vi meus alunos e alunas fazendo a leitura perfeita do corpo, nos seus diferentes ritmos e movimentos, vi e ouvi meus alunos e alunas fazendo a leitura musical perfeita, meus sentidos da audição se sentiram reconfortados com sua musicalidade. Meu óbito conservador estava diante de meus olhos umedecidos. Qual o final feliz? O que fazer? Voltar ao início não é mais possível, mas é o que sempre desejamos fazer nas adversidades e dificuldades, voltar e retornar como se fosse possível magicamente refazer a história.
Somos mutantes e ficamos virados de costas, para nós mesmos e nossas dores que são reais, para nos colocarmos frente a dores que são apenas virtuais, a leitura da contabilidade. Somos pessoas fracas, rezamos por uma vida fácil que nunca vem. Queremos ajudar, mas não podemos nos comprometer. Sabemos que estamos errando, mas dá muito trabalho avançar para além, recomeçar em outras formas de pensar e agir, pois a escola sempre fez assim, desta maneira, desumana e fria. Mentiras. Falta a ética na vida real que nos faça caminhar uma estrada de humanidade. Estamos presos em nossos próprios sonhos de consumo e obrigações cotidianas pessoais com a vida da contabilidade. Não dá para somente nos arrependermos precisamos caminhar em outra direção que a caminhada até hoje. Um mundo novo precisa ser forjado por uma sociedade menos desigual e mais humana, Cansamos do mundo das aparências em que vivemos, ou não?
Dia destes, caminhando pelas ruas em que jamais havia passado, encontrei um sujeito que se disse chamar Báskara. Ele me surpreendeu ao afirmar, Amigos, não levem tão a sério aqueles números e sinais e letras que lhes ofereci, vocês têm urgências humanas que não esperam.
Mas quem somos sem essas letras e signos?
Tudo bem, Paulo, façamos o tal de conselho de classe participativo e criativo, mas já aviso que não vou permitir insultos e ofensas.
E o dia letivo? E os números? E a gramática?
Estou me sentindo empurrado ladeira abaixo.
as concessões ocorrem, tanto a professora acemira quanto o transmutador botto apenas consentem, mas fixam limites em comportamentos que precisariam acontecer para serem reconstruídos na reflexão dialógica de todos. a educação que oferecemos não os desafia nem empurra, continuam com sua desabitada alma perguntando sobre o corpo, querendo entendê-lo para voar. pensam num voo ortodoxo como aves de rapina em sua tentativa de abater com as escravas garras presos indefesos, pequenas roedoras, mas educo em meu espírito pensamentos de beija-flor e rolinhas em paz, delicadas e sensíveis aos movimentos da vida em torno dos vivos, sou chamada de ingênua, mas acredito que amar se aprende amando
Alguém mais quer dar sua opinião?
não quero pertencer a casta daqueles e daquelas que se jactam de terem sido eleitos diretores ou diretoras de escola. pode ser medo. vejo-me impedida em minha incapacidade de deitar concessões à mesa de negociações. os interesses ora de um lado, ora de outro flanco, nunca se juntam do mesmo rumo, nem se encontram no meio do caminho, na metade da estrada, é um luta desigual. é um poder hormonal que se consome na anorexia inspirada pelo espelho deformado da estética de ter mais. admiro a luta daquelas que se atiram de corpo e alma na discussão pedagógica que participa, fala, escuta e ouve para argumentar e fazer. a práxis pedagógica misturada aos contos e lendas de amor com os manuscritos de allan poe
Espero que o Samuel deixe bem claro aos alunos que as insolências não podem superar a educação e o sentimento da boa convivência. Educação é o que esperamos!
e assim, caminha claudicante a humanidade escolar, ora de joelhos rezando para espiar pecados, ora pisando jardins floridos, como compreender o desejo de perdão nos mesmos joelhos que se dobram orando e que dançam de imediato ao clarim do saque das almas?

hoje, quase não vim à escola, nem sei se vim. ainda estou por aí, contando as estrelas, descalça, amando, enquanto castigo meu corpo aqui, parado e sentado, sem direito a queixumes. tenho que me disciplinar, já vai muito tempo perdido. terminar esses estudos e arrumar um bom emprego. ser feliz. sinto o cansaço que me vazia por dentro, é muito difícil de explicar, sei lá, acho que estou enfastiada de esperar, sonhar e esperar, Como é possível desejar tanto um homem que nem conheço? me sinto quase tocando esse homem invisível com as pontas de meus dedos, mas nunca o vi, homem não-sei-quem, sinto-o na chuva que molha meu corpo, Estou viva? vejo-o em sonhos coloridos de bocas mudas que apenas se abrem, homem não-sei-bem, Quem és? a resposta não escuto, apenas aproximo meus sentidos, interrogo meus arrepios e sigo-o aos assobios. sonho com a perfeição tua que busco no instante da magia, na carne que brilha úmida das minhas águas, linda e suave em olhos que choram ao vê-lo sem alegria. Imagino a procura do momento da perfeição minha e tua. O segredo da magia, dia após noite e noite depois dia, luta contra exércitos sem rosto, bocas sem gosto, brilha nos teus lábios, toque das mãos do amor sonhado, enquanto envelheço no festim de atos dessa orgia romanceira. Já não tenho minha alma vazia, Meu homem, tu tens as mãos, me dominas, Será tua submissão igual a minha? Duvido muito, sinto atropelos na fantasia dos corpos amantes, suplico na busca minha, dona felicidade bata em minha porta

trago minhas mãos para onde possa vê-las, Professor Abá, não acredito mais no meu time. ele voltou e o assunto só poderia ser jogo de bola, Por quê, pergunta como se na condição de homem não entendesse dos sentimentos que o outro lhe confessa. são todos um boçais incompetentes, fingem naturalidades na sua tirania, não me deixo tiranizar, quero apenas amar, Eu e o meu time sofremos muito. é triste ver alguém sofrendo por um time de bola, sendo humilhado, não conseguindo ser feliz, sangrando, é muita idiotice, Também, só perde, começou a provocação, Ô meu, não te chamei na conversa, reclama o alvo da provocação, O torcedor deve ficar quieto para o time brasileiro ganhar, se mete outro, O Brasil já venceu todos o time que joga contra ele, mais um que vem sem convite, Calma, pessoal, não façamos do futebol uma disputa da vida ou da morte, Mas 7 X 1? fala em paz e amor, não sabe no que está se metendo, ou será que sabe e está se fazendo, mais dúvidas, Então diz pra ele fica na dele e não encher o saco, grita o babaca da camiseta e da bola embaixo do braço, A Selesao Brasileira E penta campiam do mundo para mostrar para muinta gente que não acreditava no trabalho do treinador, leio ou decifro, gente burra. não quero disputa verbal e corporal, não entendo e nem faço questão de entender, um bando de loucos correndo pra lá e de volta pra cá, uma multidão de furiosos gritando e xingando, apanhando e correndo da polícia

não tenho conta de quantos domingos perdi sozinha em casa, esperando, olhando às paredes, chorando de raiva, por um homem que não amo, mas me aquece. é útil quando não tem jogo de bola. depois do jogo chega em casa e vai pra frente da televisão ver os golos, Esses homens põem a perder suas mulheres por causa do futebol, Não é culpa do futebol, Não chega ter ido ao estádio, reclamo,  me diz que não conseguiu ver direito no estádio, todo mundo levantou e tinha um baita negrão na sua frente, todo de vermelho, não viu nenhum dos golos, reclamo, me convida para ir junto ao estádio. fico horrorizada só de pensar em entrar no estádio e escutar palavrões, Boazuda, Gostosona, Vem sentar aqui em cima, e pior, já pensou se ninguém diz nada a gente entra é ignorada e ainda gritam a ordem, Senta logo, Olha o mijo. não me arrisco a ser humilhada de um jeito ou de outro, fico em casa, e sonho com ele que não se afasta e me leva para passear aos domingos, me dobra com carinhos, percorre minha umidade, descobre minha humanidade, continuo sozinha, O problema, professor, além da dor da derrota é ser obrigado a torcer contra o rival para que ele também perca, e ele não perde. outro colega que fala e se mostra como mais um sofrendo com o futebol, piormente é o mau humor, o desânimo, a bebida, Esquece futebol que eu existo, dá uma chance aos homens de amar e ao meu homem de me encontrar

tenho saudades dos meus domingos sem rádio, sem futebol, E porque tu tens que torcer contra, não basta torcer pelo teu time, pergunta o outro, já atraído pelo cheiro da bola rolando pelo gramado, um tapete verde estendido para as dores e misérias do mundo, Pô, professor, eles não podem ganhar e a gente perder, grita este que retorna à discussão, tenho vontade de pedir que fale mais baixo para não interromper meus sonhos, Por quê, pergunta mais alto, numa voz de vaqueiro tocando o gado, essa conversa vai longe, Eu me sinto obrigado a torcer contra, todo mundo faz assim, se não consigo vencer que eles percam. essa conversa tá me parecendo grito de guerra do tipo ‘matar ou morrer’, Mas não pode ser diferente, Diferente como, professor, diz o carinha da camiseta e da bola embaixo do sovaco fedido, Sei lá, o meu interesse é o meu clube, minha luta e torcida é para que ele vença, tenha um bom time, capaz de vencer e disputar as competições em que entra, o que acontece com os outros clubes não me interessa acompanhar com a mesma paixão e dedicação. não parece acreditar muito no que está dizendo, ninguém parecem dar crédito as suas palavras, Professor, escreve aqui comigo pra essa menina de Pernambuco, chama algum mais interessado no computador do que na conversa fantástica sobre a magia que arrasa com nossos ideais de boa convivência, transferindo nossos sonhos para as chuteiras de um outro alguém, A resposta é tua e não minha, Mas o caso é que o senhor escreve mais bonito e é o senhor que sabe mais, não é, responde o desligado da bola sem desmanchar seu jeito de sentir-se menos.

o pior cego é aquele que não quer ver, e esse professor, levado pela cegueira, acredita mesmo nestes homens, que aos domingos nos trocam por estádios de futebol, e sempre que têm um jogo para assistir ou ouvir, quando ficamos sozinhas e perdidas, jogadas e esperando o relógio dizer que o tempo passou, irão deixar de desejar, querer, cobiçar a derrota dos inimigos de papel jornal e satisfazerem-se apenas com a paixão pelo clube do coração. fica indiferente à minha solidão em dias de jogo. nem eu sei exatamente o espaço que ocupo, se o da simples espera ou de um objeto capaz de conter líquido ou sólido, um receptáculo humano. quanto mais escuto o professor mais acredito que ele não entende nada do nosso mundo, a nossa realidade não se transforma, é sólida na sua dureza e aspereza, líquida apenas na consumação da carne, nos seus fluidos da natureza, Escreve a palavra acreditar e tudo que possa significar esta tua paixão pelo teu time de futebol. nos olhamos sem entender nosso cego guia, Não tem outra coisa pra fazer, questiona a camiseta com a bola embaixo do braço, Sempre existem outras possibilidades, o que queres fazer, Dá pra jogar um joguinho no computador, eis um desafio premeditado, Não, esta chance não existe, responde sem dar a oportunidade da discussão, e continua, Nós não estamos aqui para jogar joguinhos, Estamos aqui pra quê, pergunta aquele da camiseta ainda com a bola embaixo do sovaco, Para torcermos pela vitória do teu time, respondo em atrevimento. sinto os olhares exigindo o meu silêncio num assunto que não me é destinado, Mundo de machos tolos, fêmeas submissas, embebidos e consumidas na culpa do pecado original, a minha personagem tem que representar a eterna espera, sem rosto, sem carne e sem dor, apenas esperando, ficando na torcida que tudo dê certo, Mas hoje não tem jogo, isto é bobagem, recebo uma resposta desatenta, E torcer pelo teu time e torcer contra os outros times são asneiras, pergunto ao que se aproxima da discussão, ressuscitei o interesse pela consideração da maldita bola. fico indignada comigo mesma por não ter resistido a uma boba provocação, sou assim, tenho a cor do sangue, A gente sempre tá torcendo, mas no dia do jogo é mais forte a angústia, é mais difícil desligar o radinho, ele fica ligado todo dia no futebol,  continua o recém chegado, Queria tanto a vitória do meu time, mas não adianta só a devoção dos torcedores porque os jogadores só pensam no dinheiro, diz em um estranho momento de lucidez o nosso camiseta e bola embaixo do braço, Acho até que não podem agir de outro modo, pois estamos vivendo de jeito oco, sem sentimentos e apenas com o dinheiro no pensamento, continua e não me atrevo a provocá-lo, Até no Natal só se fala em Papai Noel, nem ouço falar em Jesus Cristo, imaginem que o dinheiro consegue abafar aquele amor que Jesus veio dizer, como resistir, essa é aquela das havaianas, a verdadeira, Não conseguimos, por isso saímos como loucos e loucas as compras e nos endividamos para demonstrar nosso afeto, estamos aleijados, mas nossa mutilação não é física, Não conseguimos, torno a responder para mim mesma, num olhar triste e cheio de arrependimentos.
a mutilação é moral e do espírito, talvez, num relâmpago de tempestade e cura, percebam que no futebol, que pensamos ser levado ao extremo da paixão e da fé, a deformidade espiritual nos leva a rezar e pedir a vitória sobre o mesmo povo do mesmo deus. arrogância ou ignorância nos leva pensar que nossas preces têm mais força, energia e que merecem ser atendidas, por vezes, até são atendidas, Sonho com a vitória do meu time ouvindo o meu radinho todo o dia, falam dos jogadores, e o terço desfiado, Sei tudo que se passa no meu clube do coração escutando meu radinho, estou ficando velho escutando meu radinho, Eu que o diga, penso, sozinha entre todas, na minha vida, não posso escutar minhas músicas, pois atrapalham as entrevistas dos jogadores, dos bonitinhos, mas o volume do radinho ta lá a todo vapor. os caras passam o dia dizendo as mesmas coisas e perguntando as coisas mesmas, e não adianta mudar o entrevistador, a coisa da cantilena é a mesma, e a mesma conversa monótona quando o jogo vem pela televisão. o homem que já não é lá essas coisas vira uma coisa só, olho na telinha e ouvido no radinho. somos a carne que se desmancha e no meio a dor, grito e sofrimento que não descansa, Desliga o radinho e sai para jogar bola, Vamos passear, rir com os amigos, namorar, grito em desafio, quero ser ouvida, Não tem outra coisa pra fazer, pergunta a camiseta com a bola embaixo da manga



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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Teatro Pedagógico: currículo maluco

Parábolas de uma Professora



currículo maluco

baitasar e paulo e marko



terminei este outro cigarro, desisti de contá-los, dane-se a matemática dos cigarros. retorno para a reunião com uma vontade de nunca chegar. não sei por quanto tempo vão suportar esse meu entra e sai, talvez nem me cheguem a ver, sou translúcida, a luz me atravessa. não deixo meus pensamentos serem percebidos com nitidez, sou diáfana

Colegas! Nossa pauta sofreu um desvio natural, talvez necessário frente à demanda do nosso dia-a-dia, mas precisamos dar prosseguimento a pauta da reunião.

nosso diretor tenta recomeçar sua pauta, os seus assuntos administrativos, burocráticos ou pedagógicos, tanto faz como não faz, estou pronta para parar de fumar de qualquer jeito. apenas, espero o momento mais conveniente, os gestos já estão treinados, as lágrimas prontas

Pensei que já havíamos terminado!

exclama uma cabayba raivosa, atrás da máscara, cicatrizes do desamor? não sei,

É importante que façamos a discussão sobre os nossos conselhos de classe.

o professor aguinaldo não se intimida, nem mesmo lhe dirige o olhar, sabe os perigos que corre. não desconhece os cuidados que deve ter no lodo venenoso em que se move

O que temos para falar sobre os conselhos de classe?

Precisamos definir a participação dos alunos e como se dará. Iremos comunicar ou discutiremos com os alunos o fazer de todos na escola? Preciso desta decisão para preparar os meus alunos.

simeão, nosso orientador educaional, o soe, lembram? ele já está no picadeiro, quer saber se teremos um conselho de classe participativo ou apenas um programa de auditório

Conselho de classe participativo entre alunos e professores? Mais um campo de batalha, mais uma luta inútil...

layla não deixa qualquer dúvida sobre a sua posição neste debate de fazer conselhos participativos, não acredita neles e os acusa de serem responsáveis por discussões vazias, e muitas vezes ásperas, entre alunos e professores

A dignidade dos homens e mulheres é condição essencial, para todos que se pensam educadores populares e se dizem oradores de uma práxis libertadora, no estabelecer de uma condição de luta. Levar e se deixar levar, amar e se deixar amar, ensinar e se deixar aprender, num mundo que existe e precisa acordar, inclusive esta vida que eu quis e invento como se uma outra não fosse possível até esta acabar. Eu mesmo, educador, tenho que lutar e me libertar da opressão a que me submetem para continuar rezando e agradecendo por ser professor, para ir em frente sem muito pensar e dar conta da tarefa de transmitir meus conhecimentos, que não são apenas os conteúdos de um currículo já estabelecido e com tempo determinado para avançar.

Professor Paulo, eu é que me encontro destruído por estes pequenos bárbaros!

outra vez o botto, não quero resmungar ou parecer inacessível às suas dores e neuroses, quem não as tem? mas sua demência precoce de antenas e patas nervosas

Não preciso avaliar para reprovar, mas preciso avaliar para identificar meus equívocos de ensinador.

Quem deveria aprender com os erros de quem ensina sem olhar para baixo e para os lados?

Não quero pensar além da minha própria destruição!

Nossa, Botto! Não esqueça de nos incluir nesta pendência. Tudo é nossa culpa!

grita a layla, dedo erguido, olhar atrevido, boca entreaberta, pronta para o bote, clássica serpente que rasteja em terra firme até subir às árvores e se jogar em abraço mortal

Ninguém disse isso.

E se o currículo fosse repleto de amorosidade eu conseguiria ser aprovado ou teria que repetir anos e anos até me evadir?

Gurias, me perdoem, mas não me sinto destruída. Tudo bem que cansamos, vez que outra, mas me sinto em pleno vigor.

e que vigor. a professora acemira se mantém exuberante, dentro de uma massa corporal sólida, sua manta de beleza superficial. um desenho artístico de traço firme e rara perfeição, tudo isso envolvido por uma voz apaixonada, colorida, mas sem nenhum conteúdo da alma, apenas o egoísmo do belo, sem função outra que se exibir e levar as vantagens de pequenos delitos. seu alfabeto não é o da alegria, mas do servilismo e bajulação. ótima professora que optou pelo faz de conta. desistiu

Qual a dificuldade de nos reunirmos com os alunos e falarmos sobre o que achamos importante para as aulas e ouvirmos o que eles acham importante?

pergunta a guerreira lia, enquanto o paulo se recomeça

O provão final deste currículo novo teria como questões expositivas abraçar a todos e escolher alguém para dar um fraternal beijo. Explicitar a todos as razões de cada escolha, talvez nos colocasse em recuperação nesta questão do abraço ou do beijo. Não temos nos saído muito bem nestes conceitos de amorosidade, mas poderíamos ter outras chances na prova final, com outras questões além destas de apertar com os braços e inclinar-se a beijar. Olhar nos olhos uns dos outros, lendo a compreensão do distante e do imediato, oferecendo nossa alma. Questões afetivas importantes, como passear no recreio de mãos dadas, seriam levadas em consideração com um peso maior quando da avaliação específica de cada disciplina nas áreas humanas e exatas.

Escola estranha essa que valoriza o abraço, o beijo, o olhar e o caminhar de mãos dadas, em detrimento da matemática, gramática, bússolas e mapas. E os conteúdos?

As provas não seriam mais escritas, mas descritivas e expositivas, vivênciais. Qual a apertura?

Nenhuma! Apenas, perda de tempo. As aulas são nossa responsabilidade, nossa propriedade, somos a matriz da educação.

responde a inconformada cabayba

Como decorar um beijo ou colar um abraço? Faremos do mesmo modo provas e disputas com contadores e contadoras de histórias? Não poderemos esquecer de avaliar os contadores e as contadoras de piadas, os desenhistas e as desenhistas, aqueles e aquelas que gostam de dançar, jogar capoeira, encenar teatro como atores, atrizes, diretores e diretoras!

Não sei, toda vez que ouço esta expressão ‘matriz’, lembro imediatamente do rebanho de gado e as suas matrizes de reprodução, eleitos pela sua aparência, imponência e genética de proporcionar melhoria na raça, para o fim de atender melhor as exigências do mercado consumidor de carnes. Prefiro não ser rotulado. Não quero bretes!

eis o guerreiro samuel e a sua oratória, não se permite calar

Onde encontrar a professora nova e a professor novo capacitado para este currículo maluco? Como descobrir estes professores e estas professoras formadoras destes excêntricos, que na prática professarão nosso currículo doido e absurdo? Um currículo despertando devagarinho em uma outra consciência, mais elevada, dirigida para cima, procurando em um plano superior o próprio coração voador, amante das suas estrelas de dentro que nos banham também.

A falação descontrolada das formigas não é confiável, é medida pela capacidade de machucar e magoar as pessoas.

insiste o formicídeo botto, ficara tão estranho sem suas antenas, perdera a finura de sua cintura para uma obscena barriga, definitivamente não era mais o mesmo, piorava, agonizava

Estão sendo construídos por nós com estas qualidades, por nossos defeitos, frutos do nosso medo e intolerância e ignorância. São colocados como ouvintes permanentes do nosso discurso pedagógico, cheios de conteúdos mortos pela realidade avassaladora das tecnologias que não suportamos. Sugiro que façamos com eles a discussão sobre a morte. Aproveitando os conteúdos escolares que estão morrendo nos seus interesses e a nossa inaptidão de ressuscitá-los. Descobriremos a sua mortalidade. O nosso amor não se apresenta forte e suficiente para operar milagres.

lia continuava atenta e disposta, não recuava, gritava avançar ao som do clarim e se colocava à frente de todos, mostrava-se como exemplo, nossa lenda viva, mas eu não me animava. foram muitos anos de reuniões da dona catarse

Quanto discursos e quantas orações bem intencionadas se escutam no dia-a-dia das salas de aula, ditos sem nenhuma reflexão, exigindo a ação no mesmo sentido de alunos e alunas impedidas de qualquer reação? Calar a boca, fazer silêncio. Escutar o verbo e, fingindo-se reconhecido e reconhecida, dizer amém. Ouvir gritos e palavras de ordem de sentar, levantar, atentar, escrever, apagar, impossível rasurar, saúde, bom dia, boa tarde e boa noite. Quietos. Sentados, correndo, parados, pulando e saltando. Quietas. Brincando, bonecas, pular corda, casinha, docinho e beijinho. Professor maluco... vou esculhambar, sentar em cima, fazer explodir tua raiva, teu grito, um, dois, três, começa por mim, há, há, há, há, mais alto... há, há, há, há... Meu Deus! É um santo, nem se abalou. Começo de novo, até cair, e sento no chão meio sem graça, a velha é esperta e grita comigo, levo um susto, dois e mais um, descubro que avancei seus avisos de adversa. Nada fiz que valesse estar aqui até hoje, até ontem, minhas tentativas sempre foram cópias do que já havia sido instaurado.

Eu mesmo sou sua cópia carbono.

Não existo enquanto criatura se não penso o processo ligado essencialmente à ação, à consciência e à situação dos homens, e pelo qual se oculta ou se falsifica essa ligação. Continuo a existir como um corpo organizado que apresenta, em todas as suas partes ou em algumas delas, conformação de anormalidade. À tarde, aos poucos me cai nos ombros, me convida a prosseguir.

como sempre, a fala do professor paulo provocava um sentimento ambíguo nas pessoas que não o escutavam com o coração, rejeitar ou mudar, mas mudar para um mundo desconhecido era pedir muito. este homem ainda nos morre e nos deixa sem as respostas

Somos ocas e sem significado! Esta é nossa culpa!

Puxa, Lia... não somos tanto.

Somos menos...

A nossa culpa é permanecermos aquilo que nos tornamos por formação e negarmos a transformação do outro em nós, através deles que também somos e pertencemos. Somos nossos alunos que formamos a nossa imagem e semelhança, somos todos oprimidos e opressores da nossa existência, somos o castigo e a culpa e não acreditamos na salvação.

Querido Samuel, a ignorância está sempre acompanhando nossos alunos e alunas, eles e elas precisam acreditar mais em nós, seus educadores e suas educadoras, o conhecimento acumulado da humanidade é carregado em nossos neurônios privilegiados. Somos os seus sonhos, os fatos de seu tempo, o verbo da sua vida, o futuro que não para de chegar sem novidades, nossos alunos e nossas alunas fazem parte do nosso show pedagógico com direito de aplaudir no final. Suas buscas terminam aqui, no nosso entorno, bastam-lhes seguirem e acreditarem sem descrença que a escola e seus professores os levarão ao todo dia de cada pão nosso. Os dias nascem e terminam felizes. Não iremos falhar em prepará-los para a vida. A vida e a morte.

Você tem certeza, Acemira?

Para que procurarem na dor o conforto que não sentem quando estão perto?

Chamam minha oratória de cínica. Dizem a mim que o descaramento também é um pecado, não contemplado na tábua de Moisés, por certo, mas um dogma para os professores e professoras que teimam em se colocar como os missionários que irão movimentar em direção ao progresso dos alunos e das alunas os seus conhecimentos e sabedoria secular. Luta-se por uma ética cada vez menos corporativa. Sonho em vão.

Mas, Paulo, nós temos que saber mais que nossos alunos, o contrário seria, eles saberem mais e nós estarmos sentadas nos seus lugares, ouvindo e aprendendo do seu saber mais.

O teu saber mais em matemática ou português consegue levar os teus alunos ao prazer da descoberta dos números ou das relações possíveis dos tempos verbais... e tantas outras ainda não descobertas?

A matemática usa do raciocínio lógico, disciplina, absoluta concentração, seriedade, julgamentos lógicos e não sensitivos. Como desviar deste padrão lógico de ensinar e aprender?

Teu ensinamento lógico é parecido com o jeito de conhecer os lugares pelos cartões postais, não tem cheiro. Tem colorido, apenas o movimento das tuas mãos enquanto o seguras. Brilha sem jamais ofuscar. É uma fotografia. Bonita. Feia. Preto e branco. Colorida. Mas uma fotografia. Não tem movimento. Não tem voz. Só tem memória.

Uma arapuca de carne viva!

por que não falar com nossos alunos sobre os mistérios do amor, da dor, da alegria? qual a dificuldade de iniciar com poesia, Se ele, aquele homem do corredor, se confessasse por mim apaixonado, como voltaria à sala de aula? insisto nas dúvidas, mas certamente gostaria de cantar o amor e as paixões! grita minha alma, Por que os alunos e as alunas não têm o direito de falar sobre sentimentos? são bonecos de pau? não. agora, gostaria de interromper esta reunião e falar sobre este, que parece ser um vício em mim, um “vício condenável”, o amor... gostaria de deixar-me levar pela livre manifestação dos sentidos, pelo arrebatamento, pelos impulsos do corpo, pela indisciplina, pelo coração. deixar-me levar pelos mistérios do professor do corredor! levemo-nos todos pelo grito do coração e pela emoção do amor, falta-me a coragem das palavras dos poetas, a cuja palavra a escola não me ensinou e me fez calar. precisamos ser tolerantes para ultrapassarmos a sabedoria intelectual raivosa que nos impede de existir com ternura na nossa finitude incompleta. não possuímos os saberes inquestionáveis dos deuses astronautas e precisamos nos permitir conhecer as verdades das nossas crianças, dos nossos alunos, fazendo com que isto aconteça com coerência entre o nosso discurso e a prática cotidiana. necessitamos da energia espiritual que encaminha as soluções onde a ciência e a tecnologia não conseguiram ultrapassar os conceitos humanos de solidariedade

Comece por dialogar com seus alunos e propor atitudes diferentes frente a problemas iguais, que se repetem.



não estou muito bem, foi um dia triste e difícil de entender, a vida fica tão complicada de repente, ontem vibrava com as nossas possibilidades de aprender e ensinar, hoje choro a morte de mais um brasileirinho, meu sobrinho postiço. a gente ajudava a criar, não sabia e nem conhecia pai ou mãe. ninguém presta homenagem a todos os brasileirinhos e brasileirinhas que não conseguem chegar aos doze anos de vida e caem sob o peso de algum tipo de violência. hoje foi o Samuel, menino de onze anos, que havia trocado a sala de aula pelas ruas, pedia comida, ajuda e brincava. foi atropelado brincando de correr, zombava de morrer. a rua não é o lugar desses brasileirinhos e brasileirinhas, muito menos trabalhar para sobreviver aos onze anos. sei que pros bonitos de gravata o Samuel aparece como mais um número que mostra a nossa incapacidade de criar com alegria as nossas crianças, aparece como mais um número dos acidentes do trânsito, discutem se radar ou lombada. usam essa discussão para se elegerem na política, imagina querem meu voto, bom motorista, boa pessoa, não precisa de lombada ou radar, e se tiver não se incomoda, respeita. quem corre precisa ser multado, merece, e o outro Samuel que ainda sobrevive agradece, ele diz, Muito obrigado. tudo isso é uma merda, tento voltar para minha sala, minha turma, meus colegas, meus sonhos, acho que estou na contramão, tento lembrar de um poema que o professor abá leu e da história triste que carregava versos tão lindos. metida com as lembranças, que chegam de repente a se engraçar e não se vão sem antes o aconchego do silêncio, faço privação de falar, murmuro o poema, ‘Já é mais de uma hora você já deve estar na cama, Na noite corre a via-láctea como um rio de prata, Não me apresso com telegramas urgentes, Não mais tenho por que te acordar te atormentar, Como se diz o incidente está encerrado, A canoa do amor se quebrou na vida cotidiana, Nós estamos quites com você não há por que recordar, As dores as desgraças os erros recíprocos, Veja que silêncio existe sobre o universo, A noite cobriu o céu de tantas estrelas, Em horas como essa a gente se ergue a gente fala, Aos séculos à história ao universo...’ Queria gritar aos cantos do mundo a porcaria que tudo virou, Pessoal, hoje sugiro que escrevamos a palavra ‘acreditar’ no computador e também as coisas, os pensamentos, os sentimentos e as dúvidas que esta palavra provoca em todos nós. esse é homem de fé ingênua

faço um passeio pela sala e vou lendo meus colegas, querendo, bisbilhotando, vou decifrando, um a um. não estou com pressa de ir a qualquer lugar, o professor diz acreditar num mundo melhor, eu me contento com uma escola pelo menos mais reparada, melhorada, menos zangada, mais moleca. preciso acreditar que as pessoas olham e se importam, vou lendo meus amigos e colegas, Eu teio um a migo que mautrata das crianças dele quando a espoza dele sai pratrabalha acredito que ele não ama a crianças dele. acreditar que as palavras não se perdem no vento, acreditar no amor, Eu acrdito gue o natau é um avso de amor. acreditar na construção coletiva de ser eu e nós, Professor, tá bom assim, alguém pergunta, O que vocês acham, sentem-se com a tarefa cumprida, torna a perguntar. não ouço as respostas, estou olhando para minha tela do computador e sinto muita vontade de escrever e reescrever as frases dos meus colegas. vou tentando, acreditar, precisamos acima de tudo de pessoas olhadoras e, se envolvidas, confiar nas palavras que não se perdem ao vento, pois as promessas se tornam verdade. temos carecimento de sentir nos abraços que contemplam o momento, os sonhos que se tornam sem idade, fugir do silêncio sem angústia ou tormento de ansiedade. as palavras necessitam serenidade

somos a argila e a água dos tempos, embalsamados na orgia da vida, buscando encontros, façamos o brinde que nos aproxima, sejas bem-vinda, acreditamos no amor. nossos gestos recolhem e distribuem afetos, que se multiplicam e transformam o meu, o nosso mundo, precisamos continuar esta construção de todos e todas de ser e dizer com orgulho, Eu moro, trabalho, estudo aqui, os meus amores estão aqui, quero minha vida aqui, vamos construir junto o nosso jeito de ser gente com vida, acreditando. ufa, tudo dito e escrito num fôlego só, a viva força do grito, Na morte somos esperança, enquanto na vida nem lembrança, o que adiantam sonhos que não se alcançam, somos a carne que se desmancha, e no meio a dor, grito, sofrimento que não descansa...Adeus, Samuel



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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Teatro Pedagógico: arena e touros e toureiros

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arena e touros e toureiros


baitasar e paulo e marko




uma arena com touros arena sem touros e os toureiros, continuo em silêncio, sentada na fria e desconfortável fórmica verde. quanto é incômodo ficar todo esse tempo sentada, ouvindo e ouvindo palavras ocas, outras nem tanto, tantas sem significado. muitas que não entendi, mas gostei da música. não é a mesma coisa quando as palavras se importam. vou pedir para ir ao banheiro, acho que preciso fazer xixi, quem sabe dá tempo de fumar um cigarro e caminhar um pouquinho pelo pátio, curtindo um sol delicioso, Não pode, você acabou de vir do recreio, Vou chorar, Chora, então! Vou fazer um escândalo. Faz! isso não vai dar certo, outro pequeno disfarce, quem sabe faço uma cara fingida de urgência. sou capaz de usar o tal crachá só para escapar pelos corredores, Mas no recreio não dá vontade, Se não dá no recreio, não dá na sala de aula, é uma ordem

paro meus fingimentos para ouvir, queria tanto ouvir e escutar, não consigo, eu sei, meus preconceitos do corporativismo atávico, precisamos nos unir contra os poderososos da vez no poder, e o nosso poder imensurável da educação? preferimos apenas ensinar

Reuniões podem ser uma agressão ao organismo. Discutimos, nos olhamos, fazemos alianças, votamos e fica tudo como antes, tentando ouvir e escutar o mesmo botto, superou sua pequena crise e voltou, sua cabeça continuava aborrascada, queria e não queria ficar calado, escolhe falar e ir-se mal para casa, falando ou não, continuaria mal

É isso que acontece quando as coisas vêm prontas de cima... da rainha. E nos cabe trabalhar. As operárias trabalham. Todo esse papo-furado de vota ou não vota é perda de tempo e humor, sempre acabamos votando, a lia já declarara sua negação a nova regra de comportamento que surge do coletivo conformado dos professores. graças ao seu grito duvido que aconteça algo, outra reunião em que o que é decidido não funciona. ora nos parecemos formigas urbanas ora sem capacidade e vontade, insetos sociais

Colegas, não somos o resultado do pensamento coletivo, mas um pesadelo corporativo. Só conseguimos agir em grupo na defesa de nosso próprio corpo, não escapamos disso e a nossa rainha nos conhece. Mas somos nós que fazemos a rainha.

Nenhuma discussão dá garantia de sucesso e harmonia nas decisões.

a desirée saindo de sua neutralidade e, ainda, tentando entender tudo que aconteceu a partir de sua auto-propaganda: quero trabalhar e não me deixam

Aqui só temos é muito blá-blá-blá.

eis a ofélia já completamente indignada, mas contida por acemira

Desculpem, mas vejo diferente. Nossas discussões desnudam o fazer na sala de aula ou, como querem alguns, desnudam o desfazer, também.

lia mostrava nos olhos e no tom de sua voz o que era importante para ela nestas provocações verbais semanais

Piada! Ninguém sabe de ninguém em sala de aula, nem mesmo os alunos sabem, às vezes, pensam que sabem o que lhes está acontecendo.

Uma reunião com muita catarse, todas se parece muito, ano após ano

cabayba deixara escapar um grunhido de desprezo por todos e todas. não se imagina salvadora do mundo. ataca aos que não rezam sua cartilha coletivista. e relega o andar inferior do subsolo aos plebeus e escravos, a orbe popular. diz querer muito assistir as tais aulas conscientizadoras e humanizadoras com alguns de seus alunos mais abjetos e intransponíveis na arte de negar a vida, Queridas, a vida é um show de horror! Os alunos? Eles não sabem sentar na cadeira, sentam nas classes, não sabem chamar os colegas pelo nome, respeitam mais o tapa e o palavrão. Não sabem pedir licença, preferem empurrar e passar por cima. Não sabem copiar um texto do quadro-negro, não sabem o nome da professora, chamam de tia ou de bruxa. Não sabem fazer uma conta de cabeça, preferem a calculadora do celular. Não sabem dizer obrigado. Não sabem não sabem não sabem, só está faltando começarem a cuspir no chão. Chega?

acemira translúcida e eloquente se deixava esquecer dos ponteiros do tempo para ouvir os ataques, sentia-se forte e infinita, Perfeita a descrição do nosso aluno! Acrescentaria que a família abandona esses delinquentes aqui, deixa tudo com a escola e as professoras e vamos ver como é que fica! Criem nossos filhos e filhas! Assim fica fácil fazer filho. Bolsa família, bolsa isso, bolsa aquilo. Eu é que pago com o meu imposto essa festa toda!

bravo, gurias! grita silenciosamente botto. seus olhos brilham de medo. as antenas se tocam, batem palmas em ovação descontrolada. aquele que não indo fica, mas atormentado pela dúvida de um chamamento impossível de negar

A escola está virando depósito de ferro-novo que já se sabe como ficará quando metal velho, os sinais estão em toda parte, é só uma questão de observar, ter vontade de espiar a corrosão, cabayba não cansa nem se permite interromper

É o tal do salve-se quem puder!

Muito bem, Ofélia, grita quase que explosivamente botto, não estava só em seu desespero e desencontros, aplaudia em pé e gritava ‘olé, olé’, confundia a reunião com uma arena com touros. não era só mais uma formiga, mas o toureador com antenas. levava a espada junto ao pano tingido de vermelho, molhado de suor em patas tensas e trêmulas, sujas de giz, atiçava o touro com o olhar, a voz e a maneira arrogante de caminhar, como se ele, touro, não existisse e o perigo fosse uma invenção pedagógica. estava pronto para o golpe final, o touro seria morto mais uma vez, mas, hoje, por uma formiga doméstica louca e fantasma. parecia mais forte e bravo do que certamente era, mas apenas uma estocada e amanheceria no açougue. sua memória cantada em versos enquanto seu sangue pisoteado no chão da arena. misturado com a terra. escorrendo até o seu destino final: o matadouro. Os seus miolos e tendões transformados em lingüiça de açougue. seus músculos em churrasco ou virando charque. na próxima segunda-feira, ou terça, ou quarta, ou outro touro, na mesma arena ou outra arena, será morto porque sempre foi assim e continuará. nada muda na inconsciência doentia. o bem faz tudo certo como deve ser, como sempre foi, como é ensinado. na dúvida, os que não vierem até a arena serão castrados, terão seus testículos assados na brasa formando iguaria única servida com cachaça e com farofa. e dormirão pelas ruas. indiferentes ao nosso mundo. um outro mundo possível. um cheiro de carne queimada vagueia nas salas e corredores

chega de mortes!

bobagem, outras virão. sempre chegam

sorte ou azar? quem pode saber? o gado não ter nascido e crescido, criados no brasil em época de fartura nos engenhos de açúcar. um tempo onde havia proibição de abater reses. tempo em que se abatiam pretos. a força de trabalho do gado era mais importante que servir de alimento. e o quê mudou para os pretos? por sorte não serviram de alimento. o gado utilizado como elemento motor nos trapiches e engenhos puxando carros de lenha e açúcar. sorte das crianças e desempregados e desempregadas de hoje que trabalham nos engenhos e canaviais substituindo os touros, as vacas e os bois, não correm os riscos de irem levadas e jogadas em alguma praça de matadores ou açougueiros defendendo suas vidas contra algum toureador de conteúdos. claro, devem continuar nos cantos e recantos em que foram jogados. o carro de bois chegou a ser o meio de transportes preferencial no interior brasileiro, mas chegou o tempo do gado bovino na alimentação da população. e tudo mudou. criou-se o movimento pastoril que deu origem aos latifúndios e, também, ao papeleiro puxando o seu carrinho, Se ao touro fosse dado o direito de escolher entre morrer mansamente no abate de todos os dias, após um ruminar tranqüilo e sons de eeeia boi, 
no interior de imensos campos vazios ou em uma vida de enfrentar a morte de frente: atacando o matador, o toureador. mostrando inconformidade, valentia e ousadia, o que ele escolheria, não sei, O que você escolheria, me pergunta o touro, para mim, a solução se vem tarde, se mete o boi

desde muito, reclamamos dos nossos salários ou o desconhecimento de qualquer reconhecimento, mas continuamos negando ao gado a chance da consciência de si mesmo. ano após ano, queremos que o gado se descubra gado. deixamos para os oprimidos a luta da conscientização e toda a enxurrada de coisas desagradáveis. basta ensinar ler escrever as letras e os números. o resto não tem pressa. acreditamos que temos muitos amigos, um dia algum deles fala com outro amigo e outra amiga e decidem que eu sou velha e querida e mereço mais que recebi por toda minha vida: poder não é só regalia, mas pode ser maldição. e me aposento para começar a viver

Meu Deus, tenho que derrotar um touro por dia, durante duzentos dias por ano!

exclama ofélia, não sei se inconformada com os touros ou o número de dias ou se pela obrigação de abatê-los, pequenos ou grandes touros. não pode evitar, ela precisa sobreviver. eu não quero sobreviver assim. minha opção tem que ser pela sobrevivência de todos, não quero ficar agonizantemente atrapalhando o pátio, olhando de cabeça baixa o chão pouco lajeado e observando o sangue escuro que escorre misturado aos touros abatidos e moles pela imobilidade da morte anunciada, indiferentes a dor, o fedor de mijo, E o miolos, o que fiz com os miolos

Comigo, eles não têm moleza. Quero a tabuada na ponta da língua, celular não entra nas minhas aulas, chicle faço cuspir na hora e esta história de estou com sede e quero fazer xixi é uma vez só, na segunda vez o olhar tem que denunciar a verdade, se desconfiar do olhar e não me convencer da necessidade urgente, o abusado fica sentadinho. Até hoje, o desafio do olhar nunca falhou, layla discorria da sua prática e dos artifícios que foi encontrando e formatando ao longo dos anos para sobreviver a si mesma

falo com meu silêncio sobre o desafio de buscar nas práticas sociais nossa fonte de inspiração para o trabalho no cotidiano da escola, pois, nos colocará, frente a frente, com esta estrutura desnaturada, bárbara e cruel, e nos impulsionará a uma ação transformadora. conduzir alunos e alunas a compreenderem sua realidade através da relação dialética entre o “saber popular” e o “saber científico” nos leva a entender o mundo que nos cerca. também precisamos entender esse mundo. precisamos parar de repetir o que lemos em jornais sem nenhuma reflexão. quando buscamos a emancipação de nossos alunos e alunas, através da problematização de sua realidade e conceitos, também estaremos nos compreendendo enquanto sujeitos de construção desta realidade. preciso dizer ao professor do corredor que é preciso vislumbrar o “inédito” na nossa prática pedagógica, acreditar nele. só assim, a cada dia, estaremos concretizando nossos sonhos e construindo outros, Quero contribuir neste sonho coletivo, Como, Não posso calar! Não pode calar! Falar! Meu Deus, falar! Tem medo de falar, Estou apenas cansada, no intervalo de um jogo muito longo... de muitos anos

E agora... se o aluno colocar o crachá poderá ir ao banheiro?

questiona abigail, onde esta a importância disto? são apenas crianças querendo fazer xixi ou ficar bem longe de nós... do mesmo andar de todos os dias, do mesmo fazer de todos os instantes, têm tanto desdém quanto qualquer um de nós pelo monótono e enfadonho repetir-se. alunos e alunas amarrados ao professor ou professora por um ano letivo inteiro. não podem querer ou não querer, é assim e pronto. não importa se aprendo melhor com esse e não com aquele. aqui, isso não conta. adapate-se. a escola é adaptação

Depende! Não vou gastar crachá com aluno mentiroso, vai esperar o recreio, layla parecia saída de um convento militar, pronta para pôr a todos sob o regime da ordem unida pela oração

fico pensando nas etapas históricas da educação, as suas escolas, os seus professores, e percebo que não mudamos muito da educação medieval. Avançamos, mas ainda tratamos nossos alunos como objetos inanimados. atrapalhando-nos com sua tirania dissimulada de indisciplina e desamor. saio para fumar outro cigarro. sigo meus passos silenciosos, são pequenos infratores. escondo-me nas sombras, os rolos de fumaça me exibem, delatam meu esconderijo. acho que um dia deixaria de fumar se a causa for nobre e feliz para mim



hoje, o professor abá reuniu todos, brincamos de fazer e responder perguntas e chegamos a falar de política. ele parecia meio aborrecido com o mundo inteiro, pergunta se votamos no Lula, nunca terá certeza. tem que ficar meio aborrecidinho é com os aqueles professores e professoras tagarelas de estarem com saudades do tempo das provas e o poder de não passar a gente. tempo de dtaduras. um dia a escola do povo virá pra ficar. coitados destes professoraços quando perderem o provão da reprovação. sempre que acomodo a cabeça de pensar esses provões fico na pior. sensação de opressão, deprimida oprimida encolhida, toda recolhida num canto da sala de aula, esperando a sentença da morte, efeito dominó. infelizes do jeito que são, gritando e reprovando para dar acomodação na sala de aula, Será que nós... os sem saber mais, só aprendemos na adoração e devoção? eu queria mesmo era conversar com meus professores, vizinho pra vizinho, feito gente que conversa com gente e se ensina com os olhos ou com os gestos do corpo, escutando com o coração e não, apenas, com um dicionário nas mãos, Eu gostaria muito de saber o que eles falam entre eles sobre todos nós, Acho que eles não falam sobre a gente, não têm tempo a perder com coisas sem importância, devem estar agora conversando sobre a escola e o salário e o que fazer pra melhorá-lo, Aposto que falam sobre as coisas que governam nossas vidas, Bobagens, falam sobre bobagens. Pensam saídas que devemos fazer e pensar. Duvido demais disto tudo, acho que ficam falando e pensando neles mesmos, se mostrando no carro novo, na pintura nova da casa, reclamando do quanto gastam com o colégio dos filhos, exibindo suas fotografias das férias ou do feriadão, namorando alguns e blefando com outras, São apenas professores, Não mesmo, eles sabem muito mais que nós.

depois da conversação e do intervalo voltamos para trabalhar de verdade nos computadores. enquanto uns se conectavam a internet para conversar com o computador, alguns outros iam para o facebook, apenas para conversar entre eles, vários ficavam no fazedor de texto, brincando seriamente de escrever e aprender. não entendo porque o professor abá, sentado e assistindo a tudo, ficava sorrindo enquanto meus colegas e minhas colegas corriam de um a outro e mais alguém explicando, e muitas vezes, interferindo e fazendo e re-fazendo as palavras e as frases, era uma farra, não sei como alguém consegue aprender assim, mas aprendemos, e o professor sentado, nos observando e sorrindo. coitado, está aprendendo com a vida, é muita coisa no mesmo espaço de tempo, espero que não perca a ternura de ser professor e amigo, Como pode aprender assim tão rapidinho, Quem, Aquela coleguinha, lembra, pergunto, Havaianas, me perguntam, Acertaram em cheio



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domingo, 20 de dezembro de 2015

Teatro Pedagógico: o crachá

Parábolas de uma Professora



o crachá

baitasar e paulo e marko



olho acemira. a vejo no seu limite desumano de suportar nossas discussões sobre sonhos e utopias. não os quer porque não os acredita e não os vê. não quer mudanças, se compreende perfeita, seu mundo é perfeito, a extremidade marginal da sociedade é apenas uma questão de contorno. vizinhança e proximidade que procura evitar mantendo-se a distância. já faz muito suportando seus cheiros e gritos desumanos, não se espere dela alguma consciência social

Vamos encurtar tanta conversa e nenhuma ação, proponho votarmos a sugestão da Cabayba sobre o uso do crachá para os alunos que irão ao banheiro.

eis acemira buscando acelerar aquilo que não há de andar mais rápido, pois precisa da nossa reflexão e discussão, necessitamos debater, questionar, argumentar para dizer o sim ou o não. chega de democracia, ela repete nas esquinas da escola. as palavras traçam seus rumos depois de pronunciadas conforme a dimensão da vontade moral e crítica do ouvido do outro, daí aquele que ouve ter a obrigação de fazer ouvir aquilo que pensou ouvir e permitir ao outro como ouvinte discutir o seu palavreado e re-mostrar a todos o sentido do seu uso oral do nosso idioma, no que primeiro foi dito

Concordo, Aguinaldo! Temos uma proposta bem clara: o uso de crachá pelos alunos para irem até o banheiro.

nos momentos de retrocesso os vermes que se enojam se juntam. é inevitável. observem. o botto se mostrava cada vez mais desejando com ardor o fim da reunião, seus olhos denunciavam medo. o pavor que levava consigo da possibilidade que a qualquer momento lhe dessem uma fêmea para acasalar, sinal da sua morte eminente. sabia que era dia de reunião, mas também sabia por experiência e desespero que tudo pode mudar neste mundo, inclusive dar aula em um dia de reunião e sem alunos na escola. o mais seguro para ele e tantas outros era longe: em casa, se possível desligando o telefone. isto mesmo, sem telefone não poderia ser convocado, Faça-se esta votação, bobagem tanta discussão para decidir se aluno vai ou não usar crachá, queria gritar, mas se continha, não queria correr os riscos da notoriedade e chamar a atenção sobre ele mesmo, opta por se manter anônimo entre as operárias estéreis, em reverência a única rainha fértil possível no formigueiro, mas é tarde, as formigas planejam ao longe, sob seus pés, emergirão cortando tudo, as poderosas da terra agindo como pragas, higienizando as lideranças, criando colônias, dividindo as tarefas entre as castas

Vamos votar?

propõe layla. provocativa. parecia ler o desespero nos olhos do professor botto, entendia a sua dor de sorrir quando não se está com alegria, a felicidade não bate a sua porta, mas pode bater com a sua porta

Graças a Deus!

Votar o quê?

Não acredito.

o botto está no local onde se separam dois territórios: o do desespero e o da boa saúde dos pesadelos. levanta e sai mas volta e diz, em pé, as pernas abertas, a porta aberta, em voz bem alta e clara, Sou a favor do crachá para os alunos. todos silenciam e o olham sem entender, parece vivendo sua plena fase de pastoreio, cuja dieta inclui alimentos açucarados no néctar, na seiva de muitas plantas e em excreções das cochonilhas, pulgões e outros insetos homópteros. o toque e a carícia de suas antenas me deixa nervosa. é mais uma vítima das formigas sendo arrastada para o formigueiro por milhares de gigantes carnívoras. não sente o chão. é carregado, flutua por sobre seus pequenos corpos, está imobilizado e se deixa levar para o formigueiro, resignado com o seu destino, levantar todas as manhãs e seguir a sucessão de fatos e coisas que podem ou não ocorrer, mas que com certeza irão acontecer, constituem a sua vida de homem e professor, sendo considerados como resultantes de causas independentes de sua vontade, sorte, fado ou fortuna

Afinal, é banheiro ou pátio?

questiona lia

Não vejo nenhuma diferença! Vamos gurias e guris, votemos e façamos valer a nossa vontade. Eu voto pelo crachá!

Em quem? No professor ou no aluno?

Tá virando gozação.

Aguinaldo, você é o diretor... dá uma organizada ou sairemos daqui sem nada de concreto.

Ok, pessoal! Vamos ver se podemos ter uma idéia do que o grupo está pensando sobre esta história de crachá.

Antes, quero saber se a minha sugestão de um crachá para os professores do cafezinho e cigarro vai ser discutida.

Não vejo nenhum professor interrompendo e bagunçando no pátio para ser motivo de tal asneira!

Aguinaldo, vamos apurar um assunto por vez. Quem deseja o crachá de banheiro para os alunos?

Ei! Não vamos atropelar, sim? Este assunto não estava em pauta e, pelo ocorrido hoje, sugiro que na próxima reunião tratemos do crachá para os alunos, sim ou não, depois de discuti-lo na próxima semana.

Não acredito, Aguinaldo! O Samuel quer passar uma semana discutindo se vai haver crachá ou não? Por favor, pergunte a opinião de todos e vamos encerrar esta discussão absurda, aqui e agora! Pelo amor de Deus!

Todos concordam com a professora Acemira?

Por mim não existe esta discussão e nem crachá! Gostaria muito de saber da reação dos colegas se a escola católica, jesuítica, protestante ou ateísta de seus filhos apresentasse esta novidade: filhinhos do papai e da mamãe, a partir de hoje, andarão de crachá pendurado no pescoço para ir ao banheiro fazer xixi ou cocô, sim, porque não ouvi ninguém discriminar o xixi do cocô, tanto faz o objeto o que importa é a merda da intenção e a urgência da mijação, até porque pode acontecer de não dar tempo de colocar o colar discricionário.

Iriam ficar calados e aceitar. Quanto mais organizada a escola melhor. Teríamos pais sugerindo o crachá do cocô... e outro para o xixi.

A Lia é contra, alguém mais? A Abigail, Camila... temos doze votos no total contra o uso do crachá. Alguém está anotando os votos?

Eu estou!

Obrigado, Camila.

Aguinaldo!

Sim, Lia.

Eu, o professor Paulo e o professor Marko nos negamos votar uma proposta fascista, discriminatória, reacionária, como esta, que se transformada em realidade é mais um ato intimidante e opressor dos chefões do tráfico das letras, expressões numéricas e mapas.

Nada de novo! Quando a esquerda revolucionária perde no voto se levanta em armas, assim, nós, os reacionários, avançamos em cima do seu sectarismo que os isola e os faz perder contato com a realidade.

acemira usava de todo sarcasmo e veneno que lhe é tão peculiar. fazia-se parecer mais atraente do que realmente seria. as pessoas a olham, mas não a enxergam na verdade do egoísmo, da mentira, do seu interesse pessoal acima do coletivo humano. oculta a verdade dos fatos e os julga apenas a luz de seus interesses, é capaz de negar tudo que momentos antes preconizava como importante se os seus interesses pessoais assim julgarem ser necessário. parece simples e fácil amassar as pessoas, inverter os lados do mesmo laço, nunca oferecerá seus sentimentos, emoções e consciência

Em tempo algum perdemos contato com a realidade! O que as classes dominantes fazem é ficar imaginando, em todos os instantes da sua existência, maneiras de desestabilizar qualquer pensamento de esquerda que queira avançar além do permitido possível. Nunca permitirão qualquer avanço das esquerdas, seja a esquerda que for.

Meu Deus! Novamente, a tese da conspiração! Direita, esquerda, direita, esquerda, alto centro, pare, para, porra! Por favor, Aguinaldo!

Já sabemos que a Acemira é a favor, mais algum voto? A Cabayba, Ofélia, Botto, Layla... temos um total de quinze votos. Confere Camila?

interfere um aguinaldo já preocupado com o rumo da discussão, diferente do professor progressista atuante, que na linha de frente das discussões nos indicava o caminho do pensamento coletivo. o poder e suas responsabilidades amasia ou corrompem nossas utopias, dizemos que precisamos da governabilidade, as promessas serão atendidas no durante, naquilo que for possível, primeiro iremos canibalizar as outras intenções

Sim.

Alguém se abstêm?

Desirée, Fernanda Maura... seis votos.

Bom, de acordo com a votação: os alunos terão que usar crachá para irem ao banheiro. Mandaremos o serviço de reprografia elaborar os crachás para serem distribuídos aos professores e colocados nos alunos sempre que se deslocarem ao banheiro.

Quantas vezes dará pra usar o crachá?

Mais uma lei neste País da fome e dos sem ouvido que não será cumprida.

Não estou entendendo, Lia. Esta é uma decisão do grupo e todos deverão cumpri-la! Os seus três votos poderiam ter mudado o resultado, não votaram! Agora, querem melar tudo? Não consigo entendê-los.

busco o professor do corredor, necessito de poesia e vida... a lei não foi idéia minha! ele já não está. fugiu. e o resultado? somente um grande e profundo cansaço. mais uma vez me calo! mais uma vez se cala! leiamos depressa, sorrindo, os segredos de quem sabe amar...

Não tem quem me faça cumprir algo tão idiota e isquêmico. Ainda tenho o bom senso de avaliar o ridículo, o imoral e me impedir de infligi-lo ao nosso aluno e a mim mesma, não vou exigir e permitir algo tão humilhante para as minhas alunas, torno público aqui, meus alunos não usarão canga, não serão tratadas como junta de bois!

estar à toa na vida, sentada em um banco de praça esperando-a passar, decididamente não faz parte do cotidiano da lia, fugir dos confrontos não é conforto para sua alma pedagógica



as aulas têm acontecido de maneira monótona e iguais, acho que essa é a tal da rotina, precisamos, por agora, ter a firmeza sem variar de intento para avançar nas leituras que a Escola nos oferece, matar nossa sede com água e pão que também é comida e, no todo dia, transformar tudo em poesia, lambendo as feridas, Pra quê vai servir se eu sei lê, mas não gosto. e não entendem porque ela não é parecidinha com as gostosonas da televisão, os chinelos não são das havaianas, mas não são falsos, Será que não é o chinelo, me torturam, São os olhos, digo em desafio, O quê não conseguem ver, se afligem, Meu Deus, preciso de óculos, grito impune com a força dos pulmões, Será que ninguém vê que também preciso de óculos e não ver o que ninguém vê, me pergunto e pergunto a vocês, Onde estão os óculos, torno a ninguém, não respondem, Alguém tem para emprestar, estou em súplicas. escuto as batidas do meu coração, está agitado, louco, grito, Preciso de óculos, mandam no silêncio, Cala a boca e senta. ninguém quer enxergar, começo a resignar meus olhos e entulhar a estrada da voz, Não entendo, não escuto e não consigo enxergar, recomeço as súplicas, E ninguém tem pra emprestar uns óculos, minha dúvida e minha humildade se confundem, Meu Deus, não existem óculos mais, sou desespero, Vou ficar sem enxergar e não vou reconhecer o homem da minha vida na sua aparição, silêncio, Quem será o meu amor, me imagino entre homens que sonho os sabores, Adoro maracujá, grito já acordada, Castanha do Pará, sinto minha boca molhada e experimento mais, sinto o teu perfume sem o conhecer, ouço tua voz despedaçando meu corpo, estou pronta para reconhecê-lo. não sei onde estou, acordei e percebo que preciso dos óculos pra poder enxergar o que todos conseguem ver sem fazer nenhum esforço. com os olhos de vidro vou encontrá-lo

rendo-me ao perfume do pessegueiro em flor, vou seguindo seu rastro, tenho certeza de encontrá-lo pelo caminho, Professor, consegui meus óculos... Foi fácil. Estava em retorno ao mundo dos cegos que vêem, ouvindo suas palavras e sentido seu suor, estávamos reunidos no pátio a conversar e brincar uns com os outros, dizendo piadas, sonhando acordada, fazendo chiste, as notícias pareciam boas, Fiz como o senhor mandou, diz aquele que era cego e agora vê, deu-se à luz, ficou grávido pela luz que seduz, O que foi, esse que pergunta é o outro cego, Voltei ao posto de saúde, e lá, pedi o tal do vale óculos. Já mandei fazer e agora é só buscar, valeu. um aperto de mão sem promessas de votos ou cabrestos, submetendo com seus freios à vontade e o olhar, o desejo livre de sonhar e fazer a vida como se quer, Gente, às vezes eu fico assim, pensando e querendo dizer que é difícil e fácil, complicado e simples ficar junto ou sozinho, sair ou ficar em casa, ajudar ou passar, aprender a ler o bê-á-bá ou mobilizar e organizar a si e aos outros na libertação diária desta ignorância de não saber e não fazer ou decorar e não saber demais, fugindo do saber de menos. eis o discurso incompreensível do nosso professor nos atingindo em cheio, eu e meus colegas olhávamos tentando entender aquele seu falar meio alucinado, pra fora de si e além de todos nós. não temos tempo a perder precisamos aprender, e eu preciso encontrar meu homem da vida inteira, Pra quê vai servir, eu não sei lê os homens, me pergunto, enquanto os mesmos colegas não entendem porque ela não é parecidinha com as gostosonas da televisão, os chinelos são das havaianas, mas tenho certeza que são falsos, eu também sou adultera, Gente, as coisas não aparecem do nada. o começo de outro discurso platônico do nosso cego ingênuo, Aparecem, nos pergunta, mantemos o silêncio da certeza que não sabemos o que ele quer escutar, Vamos pensar juntos, nos convida. não estamos muito certos que esta conversa é necessária, Foi fácil conseguir os óculos, pergunta, Foi, diz alguém, Não foi, contradiz outro alguém. está ficando animado, Afinal, foi ou não foi, pergunta o cego que não é fingido, ele não fingia, mas fez aquela cara de quem não entendeu, o olhar querendo dizer outra coisa, na verdade, entendia e nos perdoava a ignorância, a incompreensão do sentimento da insatisfação

esta habilidade de persuadirem o nosso convencimento da realidade, me irrita, não me conhecem e nem aos meus colegas, imaginam a nossa realidade, sentem pena e cheios de compaixão vêm nos ensinar a ler e escrever. não enxergam o que vêem, Depois que o senhor disse o que eu tinha que fazer, e onde ir, pedir os óculos ficou fácil, Vamos continuar pensando. silêncio. acho que devia nos convidar a continuar falando, mas como ele é o professor vou me manter calada, vou guardar minhas observações para uma outra ocasião, mais clara na precisão da minha ajuda, Era impossível até ser dito por alguém que era possível, isso dito assim dá pra entender, Precisamos sempre de alguém para cuidar do nosso jardim, Professor, não tenho jardim. esta é a voz do futebol, uma voz que se confunde com o grito de gol, momento mágico, Desculpe, eu não entendi. nosso professor vive se desculpando, Eu não tenho jardim, é a resposta econômica que recebe, Mas porque não tens jardim, eis um cego que não cansa de pagar vale, satisfazendo o preço do mico, Não tenho nem casa, apenas um quartinho nos fundos, aliás, são muitos quartinhos, Será que ele entendeu agora, essa cochichando é a menina do rabo de cavalo, Eu tenho casa e jardim e um abacateiro imenso, bem no meio do pátio, está sempre carregadinho, Dizem que abacate engorda. o papo rola solto sobre casas e jardins, O que engorda é dinheiro no bolso, afirma convicto nosso colega dos óculos, Se tivesse dinheiro no bolso comprava o quartinho dos fundos e a casa da frente, desmanchava os fundos, plantava uma baliza de goleiro, um abacateiro pra engordar e muita grama, E os óculos, pergunta o professor abá, nos interrompendo, parecia ir a outra direção no mesmo sentido, Voltando, pessoal, foi dito que o antes impossível agora é possível, mas difícil, não sabíamos como resolver, precisávamos da solução, alguém necessitava enxergar. este professor precisa nos escutar mais para aprender a falar mais simples, ir direto ao assunto, Sim, aí eu fui marcar o exame e ir ao médico, mas aí eu não sabia onde pedir meus óculos e aí o senhor me disse, volta no posto e solicita os óculos e aí aconteceu assim. ficou fácil, ouvimos nosso colega dos óculos que enxerga e entendemos, mas deveria ser fácil desde o início. nosso professor parecia estar indignado com alguma urgência, talvez, com as palavras ditas ou as rasgadas ao não serem repetidas porque não foram declamadas, não sei, mas nada havia de novo, Pra quê vai servir, eu ainda não sei lê as entrelinhas, continuamos sem entender porque ela não é parecidinha com as gostosonas da televisão, os chinelos são havaianas, será que ela é falsa, eis a pergunta que faltava, duvidamos de nós, da nossa capacidade de resistir e lutar, Como podemos lutar, perguntam, Somos a matéria-prima e sobrevivência de outras pessoas, mas já não conseguimos enxergar além da fome, a gente faz tanta força que acaba deformada, derretida dentro da forma da empregada doméstica em casa letrada, alterados na forma de carpinteiro pela concordância verbal, reprovados como vigilante noturno pela matemática, Quem é a gente, Restos de comida


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