quinta-feira, 4 de junho de 2020

Contos Africanos : Luandino Vieira - Vavó Xíxi... a chuva não caía (01)

Luaanda... Vavó Xíxi e Seu Neto Zeca Santos



Luandino Vieira



Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque∗ , os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas∗ arrumadas à toa. Assim, quando vavó adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a não querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva sair. Ora a manhã desse dia nasceu com as nuvens brancas — mangonheiras∗ no princípio; negras e malucas depois — a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu razão em vavó Xíxi: ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa∗ , a água ia vir mesmo. 

A chuva saiu duas vezes, nessa manhã.

Primeiro, um vento raivoso deu berrida∗ nas nuvens todas fazendo-lhes correr do mar para cima do Kuanza∗ . Depois, ao contrário, soprou-lhes do Kuanza para cima da cidade e do Mbengu∗ . Nos quintais e nas portas, as pessoas perguntavam saber se saía chuva mesmo ou se era ainda brincadeira como noutros dias atrasados, as nuvens reuniam para chover mas vinha o vento e enxotava. Vavó Xíxi tinha avisado, é verdade, e na sua sabedoria de mais velha custava falar mentira. Mas se ouvia só ar quente às cambalhotas com os papéis e folhas e lixo, pondo rolos de poeira pelas ruas. Na confusão, as mulheres adiantavam fechar janelas e portas, meter os monas∗ para dentro da cubata, pois esse vento assim traz azar e doença, são os feiticeiros que lhe põem.

Mas, cansado do jogo, o vento calou, ficou quieto. Durante algum tempo se sentiram só as folhas das mulembas∗ e mandioqueiras a tremer ainda com o balanço, e um pírulas∗ , triste, cantando a chuva que ia vir. Depois, pouco-pouco, os pingos da chuva começaram cair e nem cinco minutos que passaram todo o musseque cantava a cantiga d’água nos zincos, esse barulho que adiantou tapar os falares das pessoas, das mães gritando nos monandengues∗ para sair embora da rua, carros cuspindo lama na cara das cubatas, e só mesmo o falar grosso da trovoada é que lhe derrotava. E quando saiu o grande trovão em cima de musseque, tremendo as fracas paredes de pau-a-pique e despregando madeiras, papelões, luandos∗ , toda a gente fechou os olhos, assustada com o brilho azul do raio que nasceu no céu, grande teia d’aranha de fogo, as pessoas juraram depois as torres dos refletores tinham desaparecido no meio dela.

Com esse jeito choveu muito tempo.

Era meio-dia já quase quando começou ficar mais manso, mesmo com o céu arreganhador e feio, todo preto de nuvens. O musseque, nessa hora, parecia era uma sanzala no meio da lagoa, as ruas de chuva, as cubatas invadidas por essa água vermelha e suja correndo caminho do alcatrão que leva na Baixa ou ficando, teimosa, em cacimbas de nascer mosquitos e barulhos de rãs. Tinha mesmo cubatas caídas e as pessoas, para escapar morrer, estavam na rua com as imbambas∗ que salvaram. Só que os capins, aqueles que conseguiam espreitar no meio das lagoas, mostravam já as cabeças das folhas lavadas e brilhavam uma cor mais bonita para o céu ainda sem azul nem sol.

Na hora que Zeca Santos saltou, empurrando a porta de repente e escorregou no chão lamacento da cubata, vavó pôs um grito pequeno, de susto, com essa entrada de cipaio∗ . Zeca riu; vavó, assustada, refilou:

Ená∗ , menino!... Tem propósito! Agora pessoa de família é cão, não é? Licença já não pede, já não cumprimenta os mais velhos...

— Desculpa, vavó! É a pressa da chuva!

Vavó Xíxi muxoxou∗ na desculpa, continuou varrer a água no pequeno quintal. Tinha adiantado na cubata e encontrou tudo parecia era mar: as paredes deixavam escorregar barro derretido; as canas começavam aparecer; os zincos virando chapa de assar castanhas, os furos muitos. No chão, a água queria fazer lama e mesmo que vavó punha toda a vontade, nada que conseguia, voltava sempre. Viu bem o melhor era ficar quieta, sentou no caixote e, devagar, empurrou as massuícas∗ no sítio mais seco para fazer o fogo, adiantar cozinhar almoço. 

Lá fora, a chuva estava cair outra vez com força, grossa e pesada, em cima do musseque. Mas já não tinha mais trovão nem raio, só o barulho assim da água a correr e a cair em cima da outra água chamava as pessoas para dormir.

— Vavó?! Ouve ainda, vavó!...

A fala de Zeca era cautelosa, mansa, Nga∗ Xíxi levantou os olhos cheios de lágrimas do fumo da lenha molhada.

— Vamos comer é o quê? Fome é muita, vavó! De manhã não me deste meu matete∗ , Ontem pedi jantar, nada! Não posso viver assim...

Vavó Xíxi abanou a cabeça com devagar. A cara dela, magra e chupada de muitos cacimbos∗ , adiantou ficar com aquele feitio que as pessoas tinham receio, ia sair quissemo∗ , ia sair quissende∗ , vavó tinha fama...

Sukua’!∗ Então, você, menino, não tens mas é vergonha?... Ontem não te disse dinheiro ‘cabou? Não disse para o menino aceitar serviço mesmo de criado? Não lhe avisei? Diz só: não lhe avisei?...

— Mas, vavó!... Vê ainda!... Trabalho estou procurar todos os dias. Na Baixa ando, ando, ando — nada! No musseque...

— Cala-te a boca! Você pensa que eu não lhe conheço, enh? Pensa? Está bom, está bom, mas quem lhe cozinhou fui eu, não é!?

Tinha levantado, parecia as palavras punham-lhe mais força e juventude e ficou parada na frente do neto. A cabeça grande do menino toda encolhida, via-se ele estava procurar ainda uma desculpa melhor que todas desses dias, sempre que vavó adiantava xingar-lhe de mangonheiro ou suinguista∗ , só pensava em bailes e nem respeito mesmo no pai, longe, na prisão, ninguém mais que ganhava para a cubata, como é iam viver, agora que lhe despediram na bomba de gasolina porque você dormia tarde, menino?...

— Juro, vavó! Andei procurar trabalho...

— O menino foste no branco sô Souto, foste? Te avisei ainda para ir lá, se você trabalha lá, ele vai nos fiar almoço!... Foste?

Zeca Santos fechou a cara magra com as palavras da avó. Na barriga, o bicho da fome, raivoso, começou roer, falta de comida, dois dias já, de manhã só mesmo uma caneca de café parecia era água, mais nada. Vavó quase a chorar lhe sacudiu da esteira com a vassoura para ele ir embora procurar serviço na Baixa e quando Zeca saiu, ainda falava as palavras cheias de lágrimas, lamentando, a arrumar as coisas:

— Nem maquezo∗ nem nada! Aiuê∗ , minha vida! Esta vida está podre!...

Agora, recolhida no canto, continuava soprar o fogo; a lata de água fervia, mas nada que tinha para pôr lá dentro.

— Mas, vavó, vamos comer?

— Ih?! Vamos comer, vamos comer!... Vamos comer mas é tuji∗ ! Menino trouxeste dinheiro, trouxeste, para comprar as coisas de comer?... Todos dias nas farras, dinheiro que você ganhaste foi na camisa e agora vavó quero comer, vavó vamos comer é o quê?! Juízo, menino!

Continuou abanar o fogo com raiva, a lenha já estava arder muito bem, cheia de estalos, fazendo mesmo pouco fumo, mas vavó não podia ficar ainda calada.




continua página 08...



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*musseque — antigo bairro popular, urbano ou suburbano.
∗ cubata — habitação feita de restos de materiais de construção; barraco, casebre.
∗ mangonheiro — preguiçoso, lento; malandro, vadio.
∗ Baixa — parte baixa da cidade de Luanda; centro comercial.
∗ berrida — corrida.
* Dar barrida — dar uma corrida (em alguém); afugentar, afastar com violência; expulsar.
∗ Kuanza — principal rio de Angola; nasce no planalto do Bié e deságua ao sul de Luanda.
∗ Mbengu — rio de Angola, a norte de Luanda.
∗ mona — criança.
∗ mulemba — árvore de copa volumosa.
∗ pírulas — certo pássaro de coloração azul-clara, bico longo e canto vigoroso.
∗ monandengue — criança.
∗ luando — esteira de folhas utilizada para fazer cercas.
∗ imbamba — haveres, pertences.
∗ cipaio — policial africano do tempo colonial.
∗ ená — interjeição de admiração, equivalente a “eta”; exclamação de espanto.
∗ muxoxar — manifestar desprezo através de muxoxos.
∗ massuíca — pedras que servem de tripé para fazer fogo; trempe.
∗ Nga — forma abreviada de dizer Ngana, senhora.
∗ matete — papa de farinha de milho ou mandioca; mingau.
∗ cacimbo — período de tempo que corresponde è época seca do ano; bruma, névoa, orvalho.
∗ quissemo — zombaria.
∗ quissende — repreensão; ato de não aceitação; recusa.
∗ sukua’! — expressão que equivale aproximadamente a “boias!”.
* suinguista — farrista; bailarino.
∗ maquezo — cola (espécie de noz) e gengibre, mastigados para enganar a fome.
∗ aiuê — exclamação de dor, lamento ou embeveci mento.
∗ tuji — merda!

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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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Resenha - Luuanda






a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 3963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 



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