quarta-feira, 13 de maio de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (5)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL
 
continuando...

     Entretanto há também homens de carne e osso no ambiente da mulher; sexualmente satisfeita, fria ou frustrada — salvo no caso muito raro de um amor completo, absoluto, exclusivo — ela empresta grande valor aos sufrágios deles. O olhar demasiado quotidiano do marido não consegue mais animar-lhe a imagem; ela tem necessidade de que olhos ainda cheios de mistérios a descubram ela própria como um mistério; é preciso uma consciência soberana em face dela para recolher-lhe as confidências, despertar as fotografias apagadas, fazer com que exista a covinha do canto da boca, esse bater de cílios que só a ela pertence; ela só é desejável, amável se a desejam, se a amam. Acomoda-se mais ou menos a seu casamento, mas são principalmente satisfações de vaidade que busca junto dos outros homens: convida-os a participarem do culto que rende a si mesma; seduz, agrada, contente com sonhar amores proibidos, com pensar: "Se eu quisesse..."; gosta mais de encantar numerosos admiradores do que se apegar profundamente a um deles; mais ardente, mais arisca do que uma moça, seu coquetismo pede aos homens que a confirmem na consciência de seu valor e de seu poder; é muitas vezes tanto mais ousada quanto ancorada em seu lar, e tendo conseguido conquistar um homem, joga sem grandes esperanças nem grandes riscos.  
     Acontece que, após um período de fidelidade mais ou menos longo, a mulher não se detenha mais nesses namoros e nesses coquetismos. Frequentemente é por rancor que se decide a enganar o marido. Adler pretende que a infidelidade da mulher é sempre uma vingança; é ir longe demais; mas o fato é que amiúde ela cede menos à sedução do amante do que a um desejo de desafiar o marido: "Não é o único homem no mundo — há outros a quem posso agradar — não sou sua escrava, acredita-se muito esperto e deixa-se enganar". É possível que o marido insultado conserve aos olhos da mulher uma importância primordial; assim como a moça, por vezes, arranja um amante como revolta contra a mãe, como queixa contra os pais, para desobedecer-lhes, afirmar-se, uma mulher que seus próprios rancores prendem ao marido procura no amante um confidente, uma testemunha que contemple seu personagem de vítima, um cúmplice que a ajude a diminuir o marido? Fala-lhe deste sem cessar, a pretexto de entregá-lo a seu desprezo; se o amante não desempenha bem seu papel, ela se afasta dele aborrecida, seja para voltar ao marido, seja para procurar outro consolador. Mas é muitas vezes menos o rancor do que a decepção que a joga nos braços de um amante; não encontra o amor no casamento e resigna-se dificilmente a não conhecer jamais as volúpias e as alegrias cuja espera lhe encantou a juventude. O casamento, frustrando a mulher de toda satisfação erótica, denegando-lhe a liberdade e a singularidade de seus sentimentos, a conduz, através de uma dialética necessária e irônica, ao adultério.

   Educamo-las desde a infância para as empresas do amor, diz Montaigne; sua graça, seus adornos, sua ciência, sua palavra, toda a instrução que se lhes dá, visam tão somente a esse fim. Suas governantas só lhe apresentam a imagem do amor, ainda que apenas para desgostá-las dela...

     E acrescenta mais adiante:

   É portanto loucura tentar reprimir nas mulheres um desejo que lhes é tão picante e tão natural. 

     E Engels declara: 

   Com a monogamia aparecem de maneira permanente duas figuras sociais características: o amante da mulher e o cornudo. . . Ao lado da monogamia e do hetairismo, o adultério torna-se uma instituição social inelutável, prescrita, rigorosamente punida, mas impossível de ser suprimida.

     Se os amplexos conjugais excitaram a curiosidade da mulher sem lhe satisfazer os sentidos, como L'Ingénue libertine de Colette, ela procura terminar sua educação nos leitos alheios. Se o marido conseguiu despertar-lhe a sexualidade, não tendo um apego especial por ele, desejará gozar com outros os prazeres que ele lhe revelou.
     Moralistas indignaram-se com a preferência dada ao amante, e assinalei o esforço da literatura burguesa para reabilitar a figura do marido; mas é absurdo defendê-lo mostrando que constantemente aos olhos da sociedade — isto é, dos outros homens — tem ele mais valor do que o rival: o importante aqui é o que ele representa para a mulher. Ora, há dois traços essenciais que o tornam odioso. Primeiramente, é ele que assume o papel ingrato de iniciador. As exigências contraditórias da virgem que sonha, ao mesmo tempo, com ser violentada e respeitada, condenam-no quase necessariamente a um malogro; ela permanece fria para sempre nos braços dele; junto do amante não conhece ela as angústias do defloramento, nem as primeiras humilhações do pudor vencido; é-lhe poupado o trauma da surpresa; ela sabe mais ou menos o que a espera; mais sincera, menos suscetível, menos ingênua do que na noite de núpcias, não confunde mais o amor ideal com o apetite físico, o sentimento com a turvação dos sentidos: quando arranja um amante é exatamente um amante que quer. Essa lucidez é um aspecto da liberdade de sua escolha. Pois aí está a outra tara que pesa sobre o marido: ele em geral foi suportado, não eleito. Ou ela o aceitou resignada, ou ela lhe foi entregue pela família. E ainda que o tivesse desposado por amor, em se casando fez dele seu senhor; suas relações tornaram-se um dever e muitas vezes ele se apresentou a ela sob a figura de um tirano. Sem dúvida a escolha de um amante é limitada pelas circunstâncias, mas há nessa relação uma dimensão de liberdade; casar-se é uma obrigação, ter um amante um luxo; é porque ele a solicitou que a mulher cede; tem certeza, senão do amor, ao menos do desejo dele; não é para obedecer às leis que ele se executa. Tem ele também o privilégio de não desgastar suas seduções nem seu prestígio no roçar da vida quotidiana: permanece a distância: um outro. Por isso tem a mulher, em seus encontros, a impressão de sair de si, de atingir riquezas novas: ela sente-se outra. É sobretudo o que certas mulheres procuram numa ligação: ser ocupadas, surpreendidas, arrancadas de si mesmas pelo outro. Uma ruptura deixa nelas um sentimento desesperado de vazio. Janet (cf. Les Obsessions et la Psychasthénie) cita um caso dessas melancolias que nos mostram em profundidade o que a mulher procurava e encontrava no amante:

   Uma mulher de 39 anos, desesperada por ter sido abandonada por um escritor que durante cinco anos a tinha associado a seus trabalhos, escreve a Janet: "Ele tinha uma vida tão rica e era tão tirânico que eu não podia ocupar-me senão dele e não podia pensar em outra coisa".
   Outra, de 31 anos, ficara doente em consequência de uma ruptura com um amante que adorava. "Desejaria ser um tinteiro de sua escrivaninha para vê-lo e ouvi-lo", diz ela. E explica: "Sozinha eu me aborreço, meu marido não faz minha cabeça trabalhar suficientemente, não sabe nada, não me ensina nada, não me surpreende... só tem bom senso vulgar, caceteia-me". Do amante, ao contrário, escrevia: "É um homem surpreendente, nunca o vi perturbado um só minuto, comovido, alegre, relaxado; sempre senhor de si, zombeteiro, de uma frieza capaz de matar de tristeza. Ao lado disso, um topete, um sangue frio, uma finura de espírito, uma vivacidade de inteligência que me faziam perder a cabeça..."

     Há mulheres que só experimentam esse sentimento de plenitude e de excitação alegie nos primeiros momentos da ligação; se o amante não lhes dá prazer imediatamente — o que acontece frequentemente na primeira vez, já que os parceiros se encontram intimidados e inadaptados um ao outro — elas sentem rancor e repugnância contra ele; essas "Messalinas" multiplicara as experiências e passam de um amante a outro. Mas acontece também que a mulher esclarecida pelo malogro conjugal seja atraída então pelo homem que precisamente lhe convém e assim se crie entre ambos uma ligação duradoura. Muitas vezes ele lhe agradará por ser um tipo radicalmente oposto ao do marido. Foi sem dúvida o contraste, que Sainte-Beuve oferecia em relação a Victor Hugo, que seduziu Adèle. Stekel cita o caso seguinte:
  
   Mme P. H. está casada há oito anos com um sócio de um clube de atletismo. Vai a uma clínica ginecológica em virtude de uma ligeira salpingite, queixando-se de que o marido não a deixa sossegada... sente somente dores. O homem é rude e brutal. Ele acaba arranjando uma amante e a esposa fica feliz com isso. Quer divorciar-se e no escritório do advogado conhece um secretário que é exatamente o contrário do marido. É esbelto, frágil, mas muito amável e terno. Tornam-se íntimos; o homem procura seu amor, escreve-lhe muitas cartas cheias de ternura, tem mil gentilezas para com ela. Descobrem interesses espirituais comuns... O primeiro beijo faz que desapareça sua anestesia...  A potência relativamente fraca do homem acarreta os mais intensos orgasmos na mulher... Depois do divórcio, casaram--se e viveram muito felizes... Ele conseguia provocar o orgasmo com beijos e carícias. Era essa mesma mulher que o marido extremamente potente acusava de frieza!

     Nem todas as ligações acabam assim em conto de fadas. Tal como a moça, que sonha com um libertador que a arranque do lar paterno, a mulher espera que o amante a livre do jugo conjugal; é um tema amiúde explorado o do amante ardoroso que esfria e foge quando a amante começa a falar de casamento; muitas vezes ela se sente magoada pelas reticências dele e essas relações são por sua vez pervertidas pelo rancor e pela hostilidade. Ao se estabilizar, frequentemente, uma ligação acaba assumindo um caráter familiar e conjugal; nela se reencontram o tédio, o ciúme, a prudência, o ardil, todos os vícios da casamento. E a mulher sonha com outro homem que a tire dessa rotina.
     O adultério reveste aliás caracteres muito diferentes, segundo os costumes e as circunstâncias. A infidelidade conjugal apresenta-se ainda, em nossa civilização, em que as tradições patriarcais sobrevivem, como muito mais grave para a mulher do que para o homem:

   Iníqua avaliação dos vícios!, diz Montaigne. Encaramos e pesamos os vícios não de acordo com sua natureza mas segundo o nosso interesse, por isso assumem eles tantas formas desiguais. A aspereza de nossos juízes torna a aplicação das mulheres a esses vícios mais obstinada e viciosa do que comporta a realidade e as impele a consequências piores do que a causa.

     Vimos quais as razões originais dessa severidade: o adultério da mulher, introduzindo na família o filho de um estranho, comporta o risco de frustrar os herdeiros legítimos; o marido é o senhor, a mulher sua propriedade. As mudanças sociais, a prática do birth-control enfraqueceram bastante esses motivos. Mas a vontade de manter a mulher em estado de dependência perpetua as proibições de que a cercam ainda. Muitas vezes ela as interioriza; e fecha os olhos às estroinices conjugais sem que sua religião, moralidade e "virtude" lhe permitam encarar qualquer reciprocidade. O controle exercido pelo ambiente — em particular nas "cidadezinhas" do Velho como do Novo Mundo — é muito mais severo do que o que pesa sobre o marido: ele sai mais, viaja, toleram-se os seus erros com muito mais indulgência, ao passo que ela se arrisca a perder sua reputação e sua situação de mulher casada. Descreveram-se amiúde os ardis através dos quais a mulher consegue obviar a tais vigilâncias: conheço uma cidadezinha portuguesa de uma severidade à moda antiga, em que as jovens só saem acompanhadas pela sogra ou pela cunhada; mas o cabeleireiro aluga quartos localizados em cima de sua loja; entre a "permanente" e um toque de pente, os amantes se encontram apressadamente. Nas grandes cidades a mulher tem menor número de carcereiros: mas os encontros "de cinco a sete" que se praticavam outrora não permitiam, tampouco, os sentimentos ilegítimos desabrocharem com êxito. Rápido, clandestino, o adultério não cria relações humanas e livres; as mentiras que implica acabam denegando toda dignidade às relações conjugais.
     Em muitos meios, as mulheres conquistaram hoje parcialmente sua liberdade sexual. Mas é ainda, para elas, um problema difícil conciliar a vida conjugal com satisfações eróticas. Não implicando o casamento geralmente amor físico, pareceria razoável dissociar francamente um do outro. Admite-se que o homem possa ser excelente marido e no entanto volúvel: seus caprichos sexuais não o impedem, com efeito, de orientar amigavelmente com a mulher a empresa de uma vida comum; essa amizade será mesmo tanto mais pura, menos ambivalente, quanto menos represente uma prisão. Poder-se-ia admitir que seja a mesma coisa para a esposa; ela deseja muitas vezes partilhar a existência do marido, criar com ele um lar para os filhos e contudo conhecer outras carícias. São os compromissos de prudência e de hipocrisia que tornam o adultério degradante; um pacto de liberdade e de sinceridade aboliria uma das taras do casamento. Entretanto, é preciso reconhecer que hoje a fórmula irritante que inspirou a Francillon de Dumas Filho: "Para a mulher não é a mesma coisa", é parcialmente verdadeira. A diferença nada tem de natural. Pretende-se que a mulher tem menos necessidade sexual do que o homem: nada é menos certo; as mulheres recalcadas são esposas rabugentas, mães sádicas, donas de casa maníacas, criaturas infelizes e perigosas; mas ainda que seus desejos fossem mais raros não seria uma razão para achar supérfluo que os satisfizesse. A diferença vem do conjunto da situação erótica do homem e da mulher, tal qual a tradição e a sociedade a definem. Considera-se ainda o ato amoroso na mulher como um serviço prestado ao homem e que faz que este se apresente como seu senhor; vimos que ele pode sempre arranjar uma inferior, mas que ela se degrada entregando-se a um homem que não é de seu nível. Seu consentimento tem, em todo caso, o caráter de uma rendição, de uma queda. Uma mulher aceita de bom grado que o marido possua outras mulheres: sente-se até lisonjeada com isso; parece que Adèle Hugo viu, sem o lamentar, o marido fogoso orientar seu ardor para outros leitos; algumas mesmo, imitando a Pompadour, aceitam tornar-se alcoviteiras¹. Ao contrário, no amplexo, a mulher é transformada em objeto, em presa; afigura-se ao marido que ela se impregnou de um mane estranho, deixou de ser sua, roubaram-lhe. E o fato é que, na cama, a mulher muitas vezes sente-se, quer-se, e por conseguinte, é dominada; é verdade também que por causa do prestígio viril ela tende a aprovar, a imitar o homem que, tendo-a possuído, encarna a seus olhos o homem na sua totalidade. O marido irrita-se, não sem razão, de ouvir numa boca familiar o eco de um pensamento estranho; parece-lhe um pouco que ele é que foi possuído, violentado. Se Mme de Charrière rompeu com o jovem Benjamin Constant — que entre duas mulheres viris representava um papel feminino — foi porque não suportava senti-lo marcado pela influência detestada de Mme de Staël. Enquanto a mulher se faz escrava e reflexo do homem a quem se "entrega", deve reconhecer que suas infidelidades a arrancam mais radicalmente do marido do que infidelidades recíprocas.

[1] Falo aqui do casamento. Veremos que no amor a atitude do casal é invertida. 
     
     Se ela conserva sua integridade, pode entretanto temer que o marido se haja comprometido na consciência do amante. Uma mulher pode mesmo imaginar que deitando com um homem — embora uma só vez, às pressas, num sofá — adquire uma superioridade sobre a esposa legítima; com muito mais razão um homem que acredita possuir a amante considera que prega uma peça no marido dela. É por isso que em Tendresse, de Bataille, em Belle de Nuit de Kessel, a mulher tem o cuidado de escolher amantes de baixa condição: ela procura satisfações sexuais com eles, mas não quer dar-lhes ascendência sobre o marido respeitado. Em Condition Humaine, Malraux mostra-nos um casal em que marido e mulher fizeram um pacto de liberdade recíproca: entretanto, quando May conta a Kyo que dormiu com um camarada, ele sofre, pensando que esse homem imaginou tê-la "tido"; ele escolheu respeitar-lhe a independência porque sabe que nunca se tem ninguém; mas as ideias complacentes por outro acariciadas magoam-no e humilham-no através de May. A sociedade confunde a mulher livre com a mulher fácil; o próprio amante não reconhece de bom grado a liberdade de que se aproveita; prefere acreditar que a amante cedeu, deixou-se arrastar, que ele a conquistou, seduziu. Uma mulher orgulhosa pode suportar pessoalmente a vaidade do parceiro; mas ser-lhe-á odioso que um marido estimado suporte a arrogância dele. É muito difícil a uma mulher agir como uma igual ao homem quando essa igualdade não está universalmente reconhecida e concretamente realizada.
     Como quer que seja, adultério, amizades, vida mundana não constituem, na vida conjugal, senão divertimentos; podem ajudar a suportar seus constrangimentos mas não os destroem. São falsas evasões que não permitem em absoluto à mulher ser autenticamente dona de seu destino.

continua página 316...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (5)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

terça-feira, 12 de maio de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção VI)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção VI
Dos modos e substâncias
     
     Gostaria de perguntar aos filósofos que fundamentam tantos dos seus raciocínios na distinção entre substância e acidente, imaginando que temos de uma e outra ideias claras, se a ideia de substância provém das impressões de sensação ou das impressões de reflexão. Se ela nos é transmitida pelos sentidos, pergunto por qual e de que maneira. Se é percebida pelos olhos, deve ser uma cor; se pelos ouvidos, um som; se pelo paladar, um sabor, e assim por diante quanto aos outros sentidos. Mas creio que ninguém afirmará que a substância é uma cor, um som, ou um sabor. A ideia de substância deve portanto provir de uma impressão de reflexão, se ela na realidade existe. Ora as impressões de reflexão reduzem-se às nossas paixões e emoções, nenhuma das quais com certeza pode representar uma substância. Portanto não temos uma ideia de substância distinta da de urna colecção de qualidades particulares, nem queremos dizer outra coisa quando falamos ou raciocinamos sobre ela.
     A ideia de substância, assim como a de modo, não é senão uma coleção de ideias simples unidas pela imaginação, às quais se deu um nome determinado, que nos permite evocar, quer para nós próprios, quer para os outros, essa coleção. Mas a diferença entre estas ideias consiste em que as qualidades particulares que formam uma substância são usualmente relacionadas com algo desconhecido, a que se supõe serem inerentes; ou, não se aceitando esta ficção, supõe-se pelo menos que estas qualidades estão estreita e indissoluvelmente unidas pelas relações de contiguidade e causalidade. Em consequência disto, qualquer nova qualidade simples que descubramos ter a mesma conexão com as restantes, é imediatamente por nós incluída entre elas, embora não entrasse na nossa primeira concepção dessa substância. Assim a nossa ideia do ouro pode a princípio ser a cor amarela, o peso, a maleabilidade, a fusibilidade; mas quando descobrimos a sua solubilidade na aqua regia acrescentamos esta qualidade às outras e consideramo-la como pertencente a essa substância, exatamente como se a sua ideia tivesse desde o princípio feito parte da ideia composta. Sendo o princípio de união considerado o elemento principal da ideia complexa, ele permite a entrada de qualquer qualidade que se apresente posteriormente e abrange-a tal e qual como as outras que se apresentaram desde início.
     Que isto mesmo não pode dar-se com os modos, torna-se evidente considerando a natureza deles. As ideias simples, de que se formam os modos, ou representam qualidades que não estão unidas por contiguidade ou causalidade, mas se encontram dispersas em diferentes objetos; ou então, se as qualidades estão todas reunidas, o princípio unificador não é considerado o fundamento da ideia complexa. A ideia de uma dança exemplifica a primeira espécie de modos; a ideia de beleza é exemplo da segunda. É evidente a razão pela qual tais ideias complexas não podem receber nenhuma ideia nova, sem mudar o nome que distingue o modo.

continua na página 52...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Seção I / Seção II / Seção III / Seção IV / Seção V / Seção VI /      
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Já era noite agora)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Já era noite agora, quando trocava o calor do hotel que se tornara o meu lar pelo vagão onde embarcava com Albertine e onde o reflexo da lanterna na vidraça indicava, em certas paradas do trenzinho impulsivo, que tínhamos chegado a uma estação. Para não corrermos o risco de que Cottard não nos avistasse, e não tendo ouvido anunciar a estação, eu abria a portinhola, mas o que se precipitava no vagão não eram os fiéis, e sim o vento, a chuva, o frio. Na obscuridade, eu distinguia os campos, ouvia o mar, estávamos em plena campina. Albertine, antes que nos reuníssemos ao pequeno núcleo, olhava-se num espelhinho tirado de um nécessaire de ouro que trazia consigo. De fato, nas primeiras vezes, tendo a Sra. Verdurin feito com que ela subisse para o seu gabinete de toalete a fim de que se arrumasse para jantar, eu experimentara, no seio da profunda tranquilidade em que vivia desde algum tempo, um pequeno movimento de inquietação e ciúme ao ser obrigado a deixar Albertine ao pé da escada, e me sentira tão ansioso enquanto estava sozinho no salão em meio ao pequeno clã e perguntava a mim mesmo o que faria a minha amiga lá em cima, que, no dia seguinte, por telegrama, depois de pedir algumas indicações ao Sr. de Charlus sobre o que havia de mais elegante no gênero, encomendei à casa Cartier um nécessaire que era a alegria de Albertine e também a minha. Era para mim um penhor de calma e também da solicitude da minha amiga. Pois ela certamente adivinhara que eu não gostava que ficasse sem minha companhia na casa da Sra. Verdurin, e se arranjava para fazer no vagão toda a sua toalete anterior ao jantar. No número dos habitués da Sra. Verdurin, e o mais fiel de todos, contava-se agora e desde vários meses o Sr. de Charlus. Regularmente, três vezes por semana, os viajantes que estacionavam nas salas de espera ou na plataforma de Doncieres-Oeste viam passar aquele homem corpulento, de cabelos grisalhos e bigode preto, os lábios rubros de uma pintura que se notava menos no fim da estação que no verão, quando a luz intensa a fazia mais crua, e o calor, meio líquida. Enquanto se dirigia para o trenzinho, não podia deixar (só por hábito de conhecedor, visto que agora possuía um sentimento que o tornava casto ou, pelo menos, durante a maior parte do tempo, fiel) de lançar sobre os carregadores, os militares, os rapazes de uniforme de tênis um olhar furtivo, a um tempo inquisitorial e timorato, após o qual baixava logo as pálpebras sobre os olhos quase fechados, com a unção de um eclesiástico a desfiar o seu rosário, com a reserva de uma esposa votada ao seu único amor, ou de uma jovem bem-educada. Os fiéis tanto mais estavam convencidos de que ele não os vira, porque subia para um compartimento diverso do deles (como igualmente o fazia a princesa Sherbatoff), como homem que não sabe se ficariam satisfeitos ou não de serem vistos na sua companhia e que deixa a todos o direito de ir procurá-lo caso tenham vontade. Tal vontade não foi sentida nas primeiras vezes pelo doutor, que desejava deixássemos o barão a sós em seu compartimento. Dissimulando sua natureza vacilante desde que alcançara uma grande posição como médico, foi sorrindo, virando-se e olhando Ski por cima do pince-nez, que ele disse por malícia ou para surpreender de esguedelha a opinião dos companheiros: 

- Vocês compreendem, se eu estivesse sozinho, solteiro... mas, por causa de minha mulher, pergunto-me se posso deixá-lo viajar conosco depois do que o senhor me disse - sussurrou o doutor. 
- Que é que estás dizendo? - indagou a Sra. Cottard. 
- Nada, isto não é contigo, não é assunto para as mulheres - respondeu o doutor, piscando o olho, com uma majestosa satisfação de si mesmo, que ficava entre o ar sonso que mantinha ante os alunos e os enfermos, e a inquietação que outrora acompanhava suas tiradas na casa dos Verdurin, e continuou a falar em voz baixa.  

     A Sra. Cottard só percebeu as palavras "da confraria" e "lingüinha", e, como na linguagem do doutor a primeira designava a raça judaica e a segunda as pessoas que falam pelos cotovelos, a Sra. Cottard concluiu que o Sr. de Charlus devia ser um judeu tagarela. Não entendeu que mantivessem o barão à parte por causa disso, e julgou de seu dever de decana do clã exigir que não o deixassem a sós, e nos encaminhamos todos para o compartimento do Sr. de Charlus, guiados por Cottard, sempre perplexo. Do seu canto, onde lia um volume de Balzac, o Sr. de Charlus percebeu aquela hesitação; entretanto, não erguera os olhos. Mas, como os surdos mudos reconhecem, devido a uma corrente de ar insensível aos demais, que alguém está chegando por trás deles, o barão possuía, para ser advertido da frieza que sentiam a seu respeito, uma verdadeira hiperacuidade sensorial. Esta, como tem o hábito de fazer em todos os domínios, engendrara sofrimentos imaginários no espírito do Sr. de Charlus. Como esses nevropatas que, sentindo um leve frescor, induzem que deve haver uma janela aberta no andar de cima, enfurecem-se e entram a espirrar, o Sr. de Charlus, se uma pessoa mostrasse diante dele um ar preocupado, concluía que tinham repetido a essa pessoa uma frase que ele pronunciara a seu respeito. Mas nem sequer havia necessidade de que tivesse um ar distraído, ou sombrio, ou risonho: ele os inventava. Em compensação, a cordialidade mascarava-lhe facilmente as maledicências que ele desconhecia. Tendo adivinhado da primeira vez a hesitação de Cottard, se, para grande espanto dos fiéis, que não se julgavam percebidos ainda pelo leitor de olhos baixos, ele lhes estendeu a mão quando chegaram a distância conveniente, limitou-se, quanto a Cottard, a uma inclinação de todo o corpo, logo vivamente endireitado, sem apertar com a mão enluvada de couro da Suécia a mão que o doutor lhe estendera. 

- Fizemos questão absoluta de viajar em sua companhia, senhor, e não deixá-lo sozinho desse jeito no seu canto. É um grande prazer para nós - disse a Sra. Cottard bondosamente ao barão. 
- Fico muito honrado - enunciou o barão, inclinando-se com ar frio. 
- Fiquei muito contente ao saber que o senhor tinha escolhido definitivamente esta região para fixar aqui os seus tabern... - Ela ia dizer tabernáculos, mas essa palavra lhe pareceu hebraica e pouco delicada para um judeu que poderia ver nela uma alusão. Assim, conteve-se para escolher uma outra expressão que lhe fosse familiar, ou seja, uma expressão solene: para fixar aqui, eu queria dizer, os seus penares - (é verdade que essas divindades tampouco pertenciam à religião cristã, mas a uma que está extinta há tanto tempo que já não tem seguidores a quem receemos melindrar). - Infelizmente, nós, com a volta às aulas e o serviço hospitalar do doutor, nunca podemos fixar domicílio por muito tempo em um mesmo local. - E exibindo-lhe uma caixa: - Aliás, veja como nós, mulheres, somos menos felizes que o sexo forte; para ir tão pertinho como a casa dos nossos amigos Verdurin, somos obrigadas a levar conosco toda uma série de bagagens. -

     Durante todo esse tempo, eu olhava o volume de Balzac do barão. Não era uma brochura, comprada ao acaso como o volume de Bergotte que ele me emprestara no primeiro ano. Era um livro de sua biblioteca e, como tal, trazia a divisa: 

"Pertenço ao barão de Charlus", a qual por vezes era substituída, para mostrar o gosto dos Guermantes pelo estudo: In proeliis non semper e, ainda outra: Non sine labore
[Expressões latinas, respectivamente: "Nem sempre nos combates" e "Não foi adquirido sem trabalho (N. do T)]

     Porém, nós as veremos em breve substituídas por outras, para tentar agradar a Morel. A Sra. Cottard, ao cabo de um instante, adotou um assunto que achava tocar mais pessoalmente ao barão: 

- Não sei se o senhor é da minha opinião -disse ela -, mas tenho ideias muito liberais e, a meu ver, desde que sejam praticadas com sinceridade, todas as religiões são boas. Não sou como as pessoas a quem à vista de um... protestante deixa hidrófobas. 
- Ensinaram-me que a minha era a verdadeira - respondeu o Sr. de Charlus. -

"É um fanático", pensou a Sra. Cottard; "Swann, a não ser no fim, era mais tolerante; é verdade que se tratava de um convertido." Ora, pelo contrário, o Sr. de Charlus era não só cristão, como todos sabiam, mas também piedoso à maneira da Idade Média. Para ele, como para os escultores do século XIII, a Igreja cristã era, no sentido vivo do termo, povoada por uma multidão de seres tidos como perfeitamente reais: profetas, apóstolos, anjos, santas personagens de toda espécie, que cercavam o Verbo encarnado, sua mãe e, seu esposo, o Padre eterno, todos os mártires e doutores, tais como seu povo, em alto-relevo se apressa no pórtico ou enche a nave das catedrais. Entre todos eles, o Sr. de Charlus escolhera como patronos intercessores os arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel, com os quais tinha freqüentes conversações, a fim de que eles comunicassem suas preces ao Padre eterno, diante de cujo trono estão postados. Assim, o engano da Sra. Cottard muito me divertia.

     Para abandonarmos o terreno religioso, digamos que o doutor, que chegara a Paris com a magra bagagem de conselhos de uma mãe camponesa, e depois, absorvido pelos estudos quase puramente materiais, aos quais aqueles que desejam subir bastante na carreira médica são obrigados a se consagrar durante muitos anos, nunca se cultivara; adquirira mais autoridade, mas não experiência. Tomou ao pé da letra a palavra "honrado" e com isso ficou a um tempo satisfeito, pois era vaidoso, e aflito, pois era uma boa pessoa. 

- Esse pobre Charlus - disse ele de noite à mulher - deu-me pena quando disse que se sentia honrado em viajar conosco. Sente-se, pobre diabo, que ele não tem relações, que se humilha.  

     Mas dali a pouco, sem necessidade de serem guiados pela caridosa Sra. Cottard, os fiéis conseguiram dominar o constrangimento que todos haviam mais ou menos sentido a princípio por se acharem junto do Sr. de Charlus. Sem dúvida, na sua presença, conservavam sem cessar no espírito a lembrança das revelações de Ski e a ideia da estranheza sexual que estava inclusa em seu companheiro de viagem. Mas essa própria estranheza exercia sobre eles uma espécie de atração. Conferia, para eles, à conversa do barão, aliás notável mas em pontos que não podiam apreciar, um sabor que transformava a conversa mais interessante, até mesmo a de Brichot, em algo insosso. Por outro lado, desde o princípio, todos se mostraram satisfeitos ao reconhecer que ele era inteligente. 

- O gênio pode ser vizinho da loucura - enunciou o doutor e, se a princesa, ávida por instruir-se, insistia, ele nada mais dizia, já que esse axioma era tudo o que sabia sobre o gênio e, além disso, não lhe parecia tão demonstrado como tudo o que se referisse à febre tifoide e ao artritismo. E como se tornara orgulhoso e permanecera mal-educado: 
- Nada de perguntas, princesa, não me interrogue, estou à beira-mar para um descanso. Aliás, a senhora não me compreenderia, pois não sabe medicina. -

     E a princesa se calava, desculpando-se, achando Cottard um homem encantador e compreendendo que as celebridades nem sempre são abordáveis.
     Nesse primeiro período, tinham portanto achado o Sr. de Charlus inteligente, apesar de seu vício (ou aquilo que geralmente se chama desse modo). Agora, sem perceberem, era devido a esse vício que o achavam mais inteligente que os outros. As máximas mais simples que, habilmente provocado pelo universitário ou o escultor, o Sr. de Charlus enunciava acerca do amor, do ciúme, da beleza, por causa da experiência singular, secreta, refinada e monstruosa em que as havia haurido, assumiram para os fiéis aquele encanto do exotismo que uma psicologia, análoga à que nos tem oferecido o tempo todo a nossa literatura dramática, adquire numa peça da Rússia ou do Japão representada por artistas desses países. Arriscavam ainda, quando ele não estava ouvindo, um gracejo de mau gosto: 

- Oh! - cochichava o escultor, ao ver um jovem empregado de longos cílios de bailarina indiana e que o Sr. de Charlus não pudera evitar de encarar. - Se o barão se põe a namorar o fiscal, não estaremos perto de chegar, pois o trem irá de marcha a ré. Olhem só a forma como ele o encara; já não é num trenzinho de ferro que estamos, é num funicular. -

     Mas, no fundo, se o Sr. de Charlus não comparecia, ficavam quase decepcionados de viajar apenas entre pessoas comuns, e de não terem junto deles aquele personagem pintalgado, pançudo, semelhante a alguma caixa de proveniência exótica e suspeita, que deixa escapar o curioso odor de frutas, às quais o simples pensamento de provar nos causaria náuseas. Desse ponto de vista, os fiéis do sexo masculino tinham satisfações mais vivas, no curto pedaço do trajeto que se fazia entre Saint-Martin-du-Chêne, onde embarcava o Sr. de Charlus, e Doncieres, estação em que Morel se juntava a nós. Pois, enquanto o violinista não se achava presente (e se as senhoras e Albertine, formando grupo à parte para não incomodar a conversa, mantinham-se afastadas), o Sr. de Charlus, para não parecer que evitava certos assuntos, não se constrangia de falar daquilo "que se convencionou chamar os maus costumes". Albertine não podia constrangê-lo, pois estava sempre com as senhoras, por deferência de moça que não quer que sua presença restrinja a liberdade da conversa. Ora, eu suportava com facilidade o não tê-la a meu lado, com a condição, porém, de que permanecesse no mesmo vagão. Pois eu, que não mais sentia ciúme nem quase amor por ela, não pensava no que fazia Albertine nos dias em que não a via; em compensação, quando estava ali, um simples tabique que, a rigor, pudesse dissimular uma traição, era-me insuportável e, se ela ia com as senhoras para o compartimento vizinho, ao fim de um momento, sem poder ficar no mesmo lugar, arriscando-me a constranger o interlocutor, fosse Brichot, Cottard ou Charlus, e a quem não podia explicar o motivo de minha saída, eu me levantava, deixava-os ali e, para ver se não havia nada de anormal, passava para o outro lado.
     Até Doncieres, o Sr. de Charlus, sem medo de escandalizar, falava às vezes muito cruamente dos costumes que ele declarava, por sua conta, não achar nem bons nem maus. Fazia-o por habilidade, para mostrar sua largueza de espírito, persuadido como estava de que os seus não despertavam nenhuma suspeita entre os fiéis. Acreditava que havia no universo algumas pessoas que, conforme uma expressão que mais tarde se lhe tornou familiar, "tinham opinião assente a seu respeito". Mas ele imaginava que essas pessoas não passavam de três ou quatro e que não havia nenhuma delas no litoral da Normandia. Essa ilusão pode espantar, provindo de alguém tão fino, tão inquieto. Mesmo quanto aos que supunha mais ou menos informados, gabava-se de que o fossem apenas de modo vago, e tinha a pretensão, segundo alguém lhe dissesse tal ou qual coisa, de pôr essa pessoa fora das suposições de um interlocutor que, por polidez, fingia aceitar suas palavras. Mesmo desconfiando do que eu podia saber ou supor a seu respeito, pensava que essa opinião, que julgava ser muito mais antiga de minha parte do que o era na realidade, fosse geral, e que lhe bastava negar este ou aquele detalhe para ser acreditado, quando pelo contrário, se o conhecimento do conjunto precede sempre o dos detalhes, facilita infinitamente a investigação destes e, tendo destruído o poder de invisibilidade, já não permite ao dissimulador ocultar o que lhe agrada. Na verdade, quando o Sr. de Charlus, convidado para jantar por um certo fiel ou um certo amigo dos fiéis, fazia os mais complicados rodeios para incluir o nome de Morel em meio aos nomes de dez pessoas que citava, não suspeitava que aos motivos sempre diversos que dava do prazer ou da comodidade que sentiria aquela noite em ser convidado juntamente com ele, seus anfitriões, aparentando acreditá-lo piamente, substituíam todos os motivos por um só, sempre o mesmo, e que o barão julgava ignorado por eles, ou seja, que ele o amava. Da mesma forma, a Sra. Verdurin, parecendo sempre admitir totalmente os motivos meio artísticos, meio humanitários, que o Sr. de Charlus lhe dava acerca do interesse que tinha por Morel, não cessava de agradecer ao barão, emocionada, a tocante generosidade, dizia, que ele mostrava pelo violinista. Ora, qual seria o espanto do Sr. de Charlus se, num dia em que ele e Morel estavam atrasados e não haviam chegado pelo trem, ouvisse a Patroa dizer: 

- Só estamos esperando essas senhoritas. -

     Tanto mais estupefato ficaria o barão, pois que, não saindo de La Raspeliere, fazia ali o papel de capelão, de abade do repertório, e às vezes (quando Morel tinha quarenta e oito horas de licença), dormia lá dois dias seguidos. A Sra. Verdurin lhes dava então dois quartos com comunicação interna e, para deixá-los à vontade, dizia: 

- Se desejarem tocar música, não se acanhem; as paredes são como as de uma fortaleza, não há ninguém no andar dos senhores, e meu marido tem sono de pedra. -

     Nesses dias, o Sr. de Charlus substituía a princesa, indo pegar os novatos na estação; desculpava a Sra. Verdurin de não ter vindo por causa de um estado de saúde, que ele descrevia tão bem que os convidados entravam com uma cara de circunstância e soltavam uma exclamação de espanto ao encontrar a Patroa de pé e bem disposta, num vestido semidecotado. Pois o Sr. de Charlus, para a Sra. Verdurin, tornara-se momentaneamente o fiel dos fiéis, uma segunda princesa Sherbatoff. De sua posição mundana ela estava bem menos segura do que da posição da princesa, imaginando que, se esta só desejava freqüentar o pequeno núcleo, era por desprezo aos outros, e predileção por ele. Como semelhante ficção era própria dos Verdurin, que consideravam aborrecidos aqueles a quem não podiam freqüentar, era incrível que a Patroa pudesse julgar a princesa uma alma de aço que detestava a vida chique. Mas não desistia e estava certa de que era com sinceridade e pelo gosto das coisas intelectuais que a grande dama também não freqüentava os aborrecidos. Aliás, para os Verdurin, o número destes diminuía. A vida dos banhos de mar tirava a uma apresentação as conseqüências para o futuro que se poderia recear em Paris. Homens brilhantes que tinham ido sem a mulher a Balbec, o que facilitava tudo, davam os primeiros passos na Raspeliere e, de aborrecidos, tornavam-se requintados. Foi o caso do príncipe de Guermantes, a que todavia a ausência da princesa não teria decidido a ir "como solteiro" à casa dos Verdurin, se o ímã do dreyfusismo não fosse tão poderoso que o fizesse galgar de um só impulso as encostas que levam a Raspeliere, infelizmente num dia em que a Patroa havia saído. A Sra. Verdurin não estava bem certa de que ele e o Sr. de Charlus pertencessem à mesma sociedade. O barão afirmara que o duque de Guermantes era seu irmão, mas aquilo talvez fosse mentira de um aventureiro. Por mais elegante que ele se mostrasse, por mais amável, por mais "fiel" quanto aos Verdurin, a Patroa hesitava quase em convidá-lo com o príncipe de Guermantes. Consultou Ski e Brichot: 

- O barão e o príncipe de Guermantes; será que funciona? 
- Meu Deus, senhora, quanto a um dos dois creio que posso dizer... 
- Mas, um dos dois, de que pode me adiantar? - replicara a Sra. Verdurin, irritada. - Eu lhes pergunto se dará certo os dois juntos? 
- Ah, senhora, eis uma coisa que é bem difícil de saber. -

     A Sra. Verdurin não punha qualquer malícia naquilo. Estava certa dos costumes do barão, mas, quando se expressava desse modo, não pensava neles, mas simplesmente em saber se poderiam convidar juntos o príncipe e o Sr. de Charlus, se aquilo combinava. Não punha nenhuma intenção malévola no emprego dessas frases feitas e que os "pequenos clãs" artísticos favorecem. Para pavonear-se com o Sr. de Guermantes, desejava levá-lo, na tarde que se seguiria ao almoço, a uma festa de caridade na qual marinheiros da costa representariam uma aparelhagem. Mas, não tendo tempo de se ocupar de tudo, delegou suas funções ao fiel dos fiéis, ao barão. 

- O senhor compreende, não é necessário que eles fiquem imóveis feito mexilhões, é preciso que não deixem de ir e vir, para que se veja a confusão, não sei o nome disso tudo. Mas o senhor, que vai muitas vezes ao porto de Balbec-Plage, poderia muito bem mandar fazer um ensaio sem se cansar. O senhor deve ser muito mais entendido do que eu, Sr. de Charlus, em fazer funcionar os marujinhos. Mas, afinal, estamos tendo muito trabalho com o Sr. de Guermantes. Talvez seja um imbecil do Jockey. Oh, meu Deus, falei mal do Jockey e parece-me que me lembro que o senhor é sócio. Ei, barão, não me responde, será que é mesmo sócio? Não quer sair conosco? Veja, aqui está um livro que recebi, acho que pode lhe interessar. É de Roujon. O título é bonito: Entre os homens.

     De minha parte, estava muito satisfeito de que o Sr. de Charlus substituísse tantas vezes a princesa Sherbatoff, pois não me achava de bem com esta, por um motivo a um tempo insignificante e profundo. Um dia em que estava no trenzinho, como de costume cumulando de amabilidades a princesa Sherbatoff, vi embarcar a Sra. de Villeparisis. Com efeito, esta viera passar algumas semanas na casa da princesa de Luxemburgo, mas, preso à necessidade cotidiana de ver Albertine, eu jamais respondera aos múltiplos convites da marquesa e de sua régia anfitriã. Senti remorsos ao ver a amiga de minha avó e, por puro dever (sem deixar a princesa Sherbatoff), conversei com ela durante muito tempo. De resto, ignorava absolutamente que a Sra. de Villeparisis sabia perfeitamente quem era a minha vizinha, mas que não desejava conhecê-la. Na estação seguinte, a Sra. de Villeparisis deixou o vagão, e eu até me censurei por tê-la ajudado a descer; fui sentar-me ao lado da princesa. Porém dir-se-ia cataclismo freqüente nas pessoas cuja posição é pouco sólida e que temem que a gente haja ouvido falar mal delas e as despreze que ocorrera uma mudança. Mergulhada na sua Revue des Deux Mondes, a Sra. Sherbatoff mal respondeu com o canto da boca às minhas perguntas e acabou por me dizer que eu lhe causava uma enxaqueca. Eu nada entendia do meu crime. Quando disse adeus à princesa, o sorriso habitual não iluminou o seu rosto, uma seca saudação abaixou o seu queixo, ela nem sequer me estendeu a mão e desde aí nunca mais voltou a falar-me. Mas deve ter falado aos Verdurin e não sei para dizer o quê, pois sempre que eu perguntava a eles se não deveria fazer uma gentileza à princesa Sherbatoff, eles em coro se precipitavam: 

- Não! Não! Não! Sobretudo isso! Ela não gosta de amabilidades! -

     Não o faziam para me ver rompido com ela, mas a princesa conseguira que acreditassem ser insensível às amabilidades, uma alma inacessível às vaidades deste mundo. É preciso ter visto o político que passa por ser o mais íntegro, o mais intransigente, o mais inabordável desde que está no poder; é preciso tê-lo visto no tempo de sua desgraça, mendigar timidamente, com um sorriso radiante de apaixonado, o cumprimento altivo de um jornalista qualquer; é preciso ter visto o aprumo de Cottard (que seus novos clientes tomavam por uma barra de ferro), e saber de que despeitos amorosos, de que fracassos de esnobismo eram feitos a aparente altivez, o anti-esnobismo universalmente admitido da princesa Sherbatoff, para compreender que na humanidade a regra que comporta exceções, e claro que os duros são frágeis repelidos, e que os fortes, sem se preocuparem se são queridos ou não, são os únicos que possuem essa doçura que o vulgo toma por fraqueza. Ademais, não devo julgar severamente a princesa Sherbatoff. Seu caso é tão frequente!
     Um dia, no enterro de um Guermantes, um homem notável a meu lado me mostrou um senhor esbelto e dotado de um rosto bonito. 

- De todos os Guermantes - disse o meu vizinho -, este é o mais extraordinário, o mais singular. É o irmão do duque. -

     Respondi-lhe imprudentemente que se equivocava, que aquele senhor, sem qualquer parentesco com os Guermantes, se chamava Fournier-Sarloveze. O homem notável voltou-me as costas e daí em diante nunca mais me cumprimentou.

continua na página 206...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - Como na véspera)
Sodoma e Gomorra (Cap III - Já era noite agora)
Volume 6
Volume 7

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Um Químico Alemão Derrotou os Vencedores da Guerra do Pacífico (3)

 A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra


PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     35. Um Químico Alemão Derrotou os Vencedores da Guerra do Pacífico
          A história do salitre, seu apogeu e sua queda, é muito ilustrativa da ilusória duração das prosperidades latino americanas no mercado mundial: o sempre efêmero sopro das glórias e o peso sempre perdurável das catástrofes.
     Em meados do século passado, as negras profecias de Malthus pairavam sobre o Velho Mundo. A população europeia crescia vertiginosamente e era imprescindível conferir nova vida aos solos cansados, para que a produção de alimentos pudesse aumentar em proporção equivalente. O guano teve suas propriedades fertilizantes revelada nos laboratórios britânicos; a partir de 1840, desde a costa peruana, começou sua exportação em grande escala. Os alcatrazes e as gaivotas, alimentados pelos fabulosos cardumes de correntes que lambem as margens, tinham acumulado nas ilhas e ilhotas, desde tempos imemoriais, grandes montanhas de excrementos ricos em nitrogênio, amoníaco, fosfatos e sais alcalinos: o guano se conservava puro nas costas sem chuva do Peru [1]. Pouco depois do lançamento internacional do guano, a química agrícola descobriu que eram ainda maiores as propriedades nutritivas do salitre, e em 1850 já era muito intenso o seu emprego como adubo em campos europeus. As terras do velho continente dedicadas ao cultivo do trigo, empobrecidas pela erosão, recebiam avidamente os carregamentos de nitrato de soda provenientes das salitreiras peruanas de Tarapacá e, em seguida, da província boliviana de Antofagasta [2]. Graças ao salitre e ao guano, que jaziam nas costas do Pacífico “quase ao alcance dos barcos que vinham buscá-los” [3], o fantasma da fome se afastou da Europa
     A oligarquia de Lima, soberba e presunçosa como nenhuma outra, continuava enriquecendo à farta e acumulando símbolos de seu poder nos palácios e nos mausoléus de mármore de Carrara que a capital levantava em meio a desertos de areia. Antigamente, as grandes famílias limenhas tinham prosperado à custa da prata de Potosí, e agora passavam a viver da merda dos pássaros e do grumo branco e brilhante das salitreiras. O Peru acreditava que era independente, mas a Inglaterra ocupava o lugar da Espanha. “O país se sentiu rico”, escrevia Mariátegui, “o Estado usou sem medida o seu crédito, entregou-se ao desperdício, hipotecando seu futuro às finanças inglesas.” Em 1868, segundo Romero, os gastos e as dívidas do Estado já eram muito maiores do que o valor das vendas para o exterior. Os depósitos de guano serviam de garantia para os empréstimos britânicos, e a Europa jogava com os preços; a rapina dos exportadores fazia estragos: aquilo que a natureza havia acumulado nas ilhas ao longo de milênios era dilapidado em poucos anos. Entrementes, nos pampas salitreiros – conta Bermúdez –, os trabalhadores sobreviviam em choças “miseráveis de uma só peça que mal ultrapassavam a altura de um homem, feitas de pedras, caliça e barro”.
     A exploração do salitre rapidamente se estendeu até a província boliviana de Antofagasta, embora o negócio não fosse boliviano e sim peruano, e mais do que peruano, chileno. Quando o governo da Bolívia quis aplicar um imposto às salitreiras que operavam em seu território, os batalhões militares do Chile invadiram a província para nunca mais sair. Até aquela época, o deserto fizera o papel de zona de amortecimento para os conflitos entre Chile, Peru e Bolívia. O salitre desencadeou a luta. A guerra do Pacífico começou em 1879 e foi até 1883. As forças armadas chilenas, que já em 1879 tinham ocupado também os portos peruanos da região do salitre, Patillos, Iquique, Pisagua, Junín, entraram vitoriosas em Lima, e no dia seguinte a fortaleza de Callao se rendeu. A derrota provocou a mutilação e a sangria do Peru. A economia nacional perdeu seus dois principais recursos, paralisaram-se as forças produtivas, caiu a moeda, fechou-se o crédito exterior [4]. O colapso, advertia Mariátegui, não trouxe consigo uma liquidação do passado: a estrutura da economia colonial permaneceu invicta, embora lhe faltassem suas fontes de sustentação. A Bolívia, por sua vez, não se deu conta do que perdera com a guerra: a mina de cobre mais importante do mundo atual, Chuquicamata, localiza-se exatamente na província agora chilena de Antofagasta. Mas... e os vencedores?
     O salitre e o iodo somavam 5 por cento das rendas do Estado chileno em 1880; dez anos depois, mais de metade das receitas fiscais provinham da exportação de nitrato dos territórios conquistados. No mesmo período, triplicaram os investimentos ingleses no Chile: a região do salitre tornou se uma feitoria britânica [5]. Os ingleses se apossaram do salitre empregando procedimentos nada custosos. O governo do Peru expropriara as salitreiras em 1875, pagando com bônus; a guerra reduziu o valor desses papéis, cinco anos depois, à décima parte. Alguns aventureiros ousados, como John Thomas North e seu sócio Robert Harvey, aproveitaram-se da conjuntura. Enquanto chilenos, peruanos e bolivianos trocavam tiros no campo de batalha, os ingleses se apropriaram dos bônus graças aos créditos que lhes foram proporcionados, sem dificuldade alguma, pelo anco de Valparaíso e outros bancos chilenos. Por eles estavam lutando os soldados, embora não o soubessem. O governo chileno recompensou prontamente o sacrifício de North, Harvey, Inglis, James, Bush, Robertson e outros laboriosos homens de empresa: em 1881 determinou a devolução das salitreiras aos seus legítimos donos, isto quando já a metade dos bônus passara às mãos prodigiosas de especuladores britânicos. Para financiar esse saque não saíra da Inglaterra nem um único pêni.
     Ao abrir-se a década de 90, o Chile destinava à Inglaterra três quartas partes de suas exportações, e da Inglaterra recebia quase a metade de suas importações; sua dependência comercial era ainda maior do que aquela que, na mesma época, afetava a Índia. A guerra havia concedido ao Chile o monopólio mundial dos nitratos naturais, mas o rei do salitre era John Thomas North. Uma de suas empresas, a Liverpool Nitrate Company, pagava dividendos de 40 por cento. Esse personagem havia desembarcado no porto de Valparaíso, em 1866, com apenas dez libras esterlinas no bolso do velho traje coberto de pó; 30 anos depois, os príncipes e os duques, os políticos mais proeminentes e os grandes industriais sentavam-se à mesa de sua mansão londrina. North inventara para si um posto de coronel e se filiara, como correspondia a um cavalheiro de seu quilate, ao Partido Conservador e à Loja Maçônica de Kent. Lorde Dorchester, Lorde Randolph Churchill e o marquês de Stockpole participavam de suas festas extravagantes, nas quais North dançava fantasiado de Henrique VIII [6]. Enquanto isso, em seu distante reino do salitre, os obreiros chilenos não folgavam no domingo, trabalhavam até dezesseis horas diárias e recebiam salários com fichas que perdiam metade de seu valor nos armazéns das empresas.
     Entre 1886 e 1890, sob a presidência de José Manuel Balmaceda, o Estado chileno executou, conforme Ramírez Necochea, “os planos de progresso mais ambiciosos de sua história”. Balmaceda impulsionou o desenvolvimento de algumas indústrias, realizou importantes obras públicas, renovou a educação, tomou providências para romper o monopólio da empresa britânica de ferrovias em Tarapacá e contratou com a Alemanha o primeiro e único empréstimo que o Chile não recebeu da Inglaterra em todo o século passado. Em 1888, anunciou que era necessário nacionalizar os distritos salitreiros mediante a constituição de empresas chilenas, e se negou a vender aos ingleses as terras salitreiras de propriedade do Estado. Três anos depois sobreveio a guerra civil. North e seus colegas financiaram regiamente os rebeldes [7], e os barcos de guerra britânicos bloquearam o litoral do Chile, enquanto em Londres a imprensa bradava contra Balmaceda, “ditador da pior espécie”, “carniceiro”. Derrotado, Balmaceda se suicidou. O embaixador inglês informou ao Foreign Office: “A comunidade britânica não faz segredo de sua satisfação pela queda de Balmaceda, cujo triunfo, acredita-se, teria trazido sérios prejuízos para os interesses comerciais britânicos”. De imediato se apequenaram os investimentos estatais em estradas, ferrovias, colonização, educação e obras públicas, ao mesmo tempo em que as empresas britânicas ampliavam seus domínios.
     Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, dois terços da receita nacional do Chile provinham da exportação de nitratos, mas o pampa salitreiro estava mais amplo e alheio do que nunca. A prosperidade não tinha servido para desenvolver e diversificar o país, mas, ao contrário, só servira para acentuar suas deformações estruturais. O Chile funcionava como um apêndice da economia britânica: o mais importante abastecedor de adubos do mercado europeu não tinha direito a uma vida própria. E então um químico alemão, em seu laboratório, derrotou os generais que, tempos antes, haviam triunfado no campo de batalha. O aperfeiçoamento do processo Haber-Bosch para produzir nitratos, obtendo o nitrogênio do ar, derrubou definitivamente o salitre e provocou uma estrepitosa queda da economia chilena. A crise do salitre era a crise do Chile, profunda ferida, porque o Chile vivia do salitre e para o salitre – e o salitre estava em mãos estrangeiras.
     No resseco deserto de Tamarugal, onde os reflexos da terra podem queimar os olhos, fui testemunha do arrasamento de Tarapacá. Ali havia 120 usinas salitreiras na época do apogeu e agora resta apenas uma em funcionamento. No pampa não há umidade nem carunchos, de modo que não só foram vendidas as máquinas como sucata, mas também as tábuas de pinho de Oregon das melhores casas, as folhas de zinco e até parafusos e pregos em boas condições. Surgiram operários especializados em desmanchar povoados: eram os únicos que conseguiam trabalho nessas imensidões arrasadas e abandonadas. Vi os escombros e os buracos, os povoados fantasmas, as linhas mortas da Nitrate Railways, os fios mudos do telégrafo, os esqueletos das usinas salitreiras despedaçadas pelo bombardeio dos anos, as cruzes dos cemitérios batidas à noite pelo vento frio, os montes esbranquiçados da caliça que ia sobrando nas escavações. “Aqui corria o dinheiro e todos acreditavam que nunca acabaria”, contaram-me os aldeões sobreviventes. O passado parece um paraíso comparado com o presente, e até os domingos, que em 1889 não existiam para os trabalhadores e que logo foram conquistados pacificamente na luta sindical, são lembrados com todos os seus fulgores: “Cada domingo no pampa salitreiro”, contava-me um velho muito velho, “era para nós uma festa nacional, um novo 18 de setembro a cada semana”. Iquique, o maior porto do salitre, “porto de primeira” segundo seu slogan oficial, tinha sido o cenário de mais de uma matança de operários, mas seu teatro municipal, de estilo belle époque, recebia os melhores cantores da ópera europeia antes de Santiago.

continua na página 234...
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[1] SAMHA ER, Ernst. Sudamérica, biografía de un continente. Buenos Aires, 1946.
      As aves guaneiras são as mais valiosas do mundo, escrevia Robert Cushman Murphy muito depois do apogeu, “por seus rendimentos em dólares em cada digestão”. Estão acima, dizia, do rouxinol de Shakespeare que cantava na sacada de Julieta, acima da pomba que sobrevoou a Arca de Noé e, de resto, das tristes andorinhas de Bécquer. ROMERO, Emílio. Historia económica del Perú. Buenos Aires, 1949.
[2]  BERMÚDEZ, Óscar. Historia del salitre desde sus orígenes hasta la Guerra del Pacífico. Santiago de Chile, 1963.
[3] MARIÁTEQUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana. Montevideo, 1970.
[4] O Peru perdeu a província salitreira de Tarapacá e algumas importantes ilhas guaneiras, mas conservou as jazidas de guano da costa norte. O guano continuava sendo o principal fertilizante da agricultura peruana, até que, a partir de 1960, o auge da farinha de pescado aniquilou os alcatrazes e as gaivotas. As empresas pesqueiras, em sua maioria norte-americanas, arrasaram rapidamente os bancos de anchovinhas próximos da costa, para alimentar com farinha peruana os porcos e as aves dos Estados Unidos e da Europa, e os pássaros guaneiros passaram a perseguir os pescadores mar afora, cada vez mais longe. Sem resistência para o regresso, caíam no mar. Outros não iam, e assim era possível ver, em 1962 e 1963, bandos de alcatrazes procurando comida na principal avenida de Lima: quando já não podiam mais levantar voo, tombavam mortos nas ruas da cidade.
[5] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Historia del imperialismo en Chile. Santiago de Chile, 1960.
[6] RAMÍREZ NECOCHEA, Hernán. Balmaceda y la contrarrevolución de 1891. Santiago de Chile, 1969.
[7] O Senado encabeçava a oposição ao presidente, e era notória a atração de muitos de seus membros pelas libras esterlinas. O suborno de chilenos, segundo os ingleses, era “um costume do país”. Assim o definiu em 1897 o sócio de North, Robert Harvey, durante o processo que alguns pequenos acionistas entraram contra ele e outros diretores da The Nitrate Railways Co. Explicando o desembolso de 100 mil libras para subornos, disse Harvey: “A administração pública no Chile, como você sabe, é muito corrompida (...). Não digo que seja necessário subornar juízes, mas acredito que muitos membros do Senado, escassos de recursos, vão tirar algum benefício de parte desse dinheiro em troca de seus votos; e ele também serviu para impedir que o governo em absoluto se negasse a ouvir nossos protestos e reclamações (...).” RAMÍREZ NECOCHEA, op. cit.
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As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: Um Químico Alemão Derrotou os Vencedores da Guerra do Pacífico (3)
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o petróleo da Venezuela... o petróleo no pré-sal do Brasil... os minerais nas terras raras do Brasil... ?

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (IV.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

IV


     E o bando, pela planície rasa, toda branca de geada, sob o pálido sol de inverno, marchava, saindo da estrada, atravessando as plantações de beterraba.
     Na Fourche-aux-Boeufs, Etienne tomou o comando. Sem fazê-los parar, começou a gritar ordens e a organizar a marcha. Jeanlin corria na frente, emitindo com sua cometa uma música bárbara. Nas primeiras filas avançavam as mulheres, algumas armadas com paus, a de Maheu com um fulgor selvagem nos olhos, que pareciam procurar ao longe a cidade da justiça prometida; a Queimada, a mulher de Levaque e a filha de Mouque marchavam como soldados esfarrapados indo para a guerra. Em caso de encontro, queriam ver se os policiais ousariam bater nas mulheres. Em seguida vinham os homens, numa confusão de gado, formando uma retaguarda amplíssima, eriçada de barras de ferro, dominada por um único machado, o de Levaque, cujo gume reverberava ao sol. No centro, Etienne não perdia de vista Chaval, forçando-o a caminhar na sua frente, enquanto Maheu, atrás, sombrio, observava Catherine, única mulher entre aqueles homens, obstinando-se em marchar ao lado do amante, para impedir que lhe fizessem mal. Cabeças descobertas esguedelhavam-se ao vento; somente se ouvia o bater dos tamancos, semelhante a um tropel de gado solto, guiado apenas pelo toque selvagem de Jeanlin. 
     De repente, ouviu-se um novo grito: 

— Pão! Pão! Pão!

     Era meio-dia, a fome de seis semanas de greve despertava nos estômagos vazios, aguilhoada por essa marcha em campo aberto. As raras côdeas da manhã, as poucas castanhas da filha de Mouque já iam longe; e os estômagos gritavam, e esse sofrimento vinha aumentar a raiva contra os traidores. 

— Às minas! Nada de trabalho! Pão!

     Etienne, que em casa não quisera comer a sua parte, sentia no peito uma sensação insuportável de vazio, mas não se queixava. De tempos em tempos, apanhava seu cantil e tomava um gole de genebra, sentindo-se tão trêmulo, que julgava precisar daquilo para ir até o fim. Seu rosto se afogueava, uma chama iluminava seus olhos, mas a cabeça permanecia fria, pois ainda queria evitar estragos inúteis.
     Ao chegarem ao caminho de Joiselle, um britador de Vandame, que se reunira à turba por vingança contra seu patrão, levou os companheiros para a direita, gritando: 

— À Gaston-Marie! Vamos parar a bomba! Que as águas destruam a Jean-Bart!

     A multidão, arrastada, já se dirigia para lá, apesar dos protestos de Etienne, que lhes suplicava que deixassem o esgoto trabalhar. De que serviria destruir as galerias? Apesar de todo o seu ódio, isso era uma coisa que revoltava seu coração de operário. Maheu também achava injusto atacar uma máquina. Mas o britador continuava a lançar seu brado de vingança; foi preciso que Etienne gritasse mais forte: 

— À Mirou! Lá é que estão os traidores! À Mirou! À Mirou! Com um gesto fizera que a multidão entrasse no caminho da esquerda, enquanto Jeanlin, outra vez na vanguarda, tocava com mais força. Houve uma grande reviravolta, a Gaston-Marie, por ora, estava salva.

     E os quatro quilômetros que os separavam da Mirou foram vencidos em meia hora num passo acelerado, através da planície interminável. Este lado do canal era cortado por uma longa fita de gelo. Somente as árvores das margens, transformadas pela geada em candelabros gigantescos, rompiam a uniformidade monótona, que se prolongava e se perdia no céu do horizonte, como um mar. Uma ondulação do terreno ocultava Montsou e Marchiennes. Era a imensidade nua.
     Estavam chegando à mina quando viram um capataz colocar-se num passadiço da triagem para recebê-los. Todos conheciam muito bem o tio Quandieu, o decano dos contramestres de Montsou, um ancião com a pele e os cabelos muito brancos, que devia andar pelos setenta, um verdadeiro milagre de boa saúde nas minas. 

— Que é que vocês vêm fazer aqui, súcia de vadios? — gritou ele. O bando estacou. Esse não era um patrão, era um companheiro.

     Retinha-os o respeito por aquele velho operário. 

— Há homens trabalhando na mina — disse Etienne. — Manda-os saírem. 
— É verdade, há homens trabalhando, talvez umas seis dúzias, os outros tiveram medo de vocês, corja de biltres! — replicou o velho Quandieu. — Mas previno-os de que nenhum deles sairá, ou eu ajustarei contas com vocês!

     Houve exclamações, os homens empurraram, as mulheres avançaram. Descendo rapidamente do passadiço, o contramestre estava agora barrando a porta.
     Maheu decidiu intervir: 

— Velho, é o nosso direito. Como havemos de conseguir que a greve seja geral, se não forçarmos os companheiros a estarem do nosso lado?

     O velho permaneceu silencioso por um momento. Evidentemente sua ignorância em matéria de coalizão igualava a do britador. Finalmente, respondeu:

 — É o direito de vocês, não digo o contrário. Mas eu estou cumprindo ordens. Estou sozinho aqui. Os homens têm de trabalhar no fundo até as três horas, e trabalharão até as três horas.

     As últimas palavras foram abafadas pelas vaias. Ameaçaram-no com o punho, as mulheres berravam como loucas, soprando-lhe no rosto seu bafo quente. Mas ele mantinha-se firme, a cabeça erguida, em sua barbicha e seus cabelos de uma brancura de neve. E a coragem infundia-lhe tal vigor, que se podia ouvi-lo claramente, por cima da gritaria: 

— Vão para o inferno! Aqui não passam. Juro pelo sol que nos ilumina, prefiro morrer a deixar vocês tocarem nos cabos. Não empurrem, ou eu me atiro no poço na frente de todos. Houve um estremecimento e a turba recuou, amedrontada. Ele continuou: 
— Qual é o cachorro que não compreende isto? Eu não passo de um operário como vocês. Mandaram-me tomar conta disto aqui e eu tomo.

     A inteligência do velho Quandieu não ia mais longe, obstinado na sua teimosia do dever militar, o cérebro tapado, o olho míope pela tristeza negra de meio século de fundo de mina. Os companheiros olhavam-no, tocados, sentindo em si o eco do que lhes dizia, essa obediência de soldado, a fraternidade e a resignação no perigo. Acreditando que eles ainda hesitavam, repetiu: 

— Jogo-me no poço na frente de vocês!

     Um grande movimento fez girar o bando. Todos voltaram as costas e a correria recomeçou pela estrada reta, que se estendia pelo infinito, por entre as terras. De novo os gritos se elevavam: 

— À Madeleine! À Crèvecoeur! Nada de trabalho! Pão! Pão! No meio da multidão, no entusiasmo da marcha, houve uma algazarra. Era Chaval, diziam, que quisera aproveitar-se da história de Mirou para escapar. Etienne acabava de agarrá-lo por um braço, ameaçando-o de fazê-lo em pedaços ao menor sinal de traição. O outro debatia-se, protestando, enfurecido: 
— Então onde é que estamos? Não se é mais livre? Estou tiritando de frio há já uma hora, preciso lavar-me. Larga meu braço!

     Realmente, ele estava sentindo os efeitos do carvão grudado à pele, e seu suéter quase não o protegia do frio. 

— Caminha, ou somos nós que te lavaremos — respondeu Etienne. — Ninguém te mandou exagerar pedindo derramamento de sangue.

     Continuavam quase correndo; Etienne acabou por se voltar para Catherine, que ainda se mantinha ao lado do outro. Desesperava-o senti-la tão próxima, tão miserável, tiritando sob a velha jaqueta de homem, com as calças enlameadas. Devia estar morta de fadiga e contudo, não deixava de correr. 

— Tu podes ir embora — disse ele afinal.

     Catherine pareceu não entender. Seus olhos, ao encontrarem os de Etienne, brilharam somente com uma rápida chama de censura E não parou. Por que quereria que ela abandonasse seu homem? Chaval, na verdade, não era bom; até a espancava em certas ocasiões Mas era o seu homem, aquele que a possuíra primeiro. O que a enfurecia é que se atirassem mais de mil contra ele. Tê-lo-ia defendido, não por ternura, mas por orgulho. 

— Vai-te embora! — repetiu violentamente Maheu.

     A ordem do pai fez que diminuísse o passo. Tremia, as lágrimas enchiam-lhe as pálpebras. Depois, apesar do medo que sentia, voltou e tomou seu lugar, sempre correndo. Então deixaram-na.
     O bando atravessou a estrada de Joiselle, seguiu por um instante a de Cron, depois subiu para Cougny. Desse lado, chaminés de fábricas riscavam o horizonte plano, galpões de madeira, oficinas de tijolos, com portas enormes e cheias de poeira, desfilavam ao longo da estrada. Passaram sucessivamente pelas casas baixas de dois conjuntos habitacionais mineiros, o dos Cent-Quatre-Vingts, depois o dos Soixante-Seize. E de cada um deles, ao chamado da cometa, ao clamor lançado por todas as bocas, saíram famílias, homens, mulheres, crianças, também correndo, unindo-se à retaguarda dos companheiros. Quando chegaram diante da Madeleine eram bem uns mil e quinhentos. A estrada descia em declive suave, e a vaga marulhante dos grevistas teve de contornar o aterro, antes de se espalhar no pátio da mina.
     Nesse momento não deviam ser mais de duas horas. Mas os contramestres, advertidos, tinham apressado a subida, e, quando o bando chegou, a saída dos operários já estava terminando, tendo ficado no fundo da mina apenas uns vinte homens, que logo depois desembarcaram do elevador. Fugiram, tendo sido perseguidos a pedradas. Dois foram espancados, outro deixou a manga da jaqueta no local. Esta caça ao homem salvou o material: os cabos e as caldeiras não foram tocados. E já a vaga rolava em direção à mina vizinha.
     Esta, Crèvecoeur, encontrava-se a apenas quinhentos metros da Madeleine. O bando caiu novamente no meio da saída dos operários. Uma operadora de vagonetes foi apanhada e açoitada pelas mulheres, as calças rasgadas, as nádegas expostas diante dos homens, que riam. Os aprendizes recebiam tabefes, os britadores escaparam cheios de marcas azuis pelo corpo e o nariz sangrando. E nessa ferocidade crescente, nessa antiga necessidade de vingança cuja loucura fervia em todas as cabeças, os gritos continuavam, estrangulando-se, a morte aos traidores, o ódio ao trabalho mal pago, o rugido do estômago querendo pão. Puseram-se a cortar os cabos, mas a lima estava gasta, demorava muito, agora que estavam com a febre de seguir adiante, sempre adiante. Nas caldeiras uma torneira foi quebrada enquanto a água, jogada com grandes baldes nas fornalhas, fazia estourar as grelhas de ferro fundido.
     Fora falou-se em marchar sobre a Saint-Thomas. Esta era a mina mais disciplinada, a greve não a atingira; nela, cerca de setecentos homens deviam ter descido. Isto dava raiva, esperariam por eles armados de porretes em formação de batalha campal, para ver quem cairia primeiro. Mas correu o boato de que havia policiais em Saint-Thomas, os policiais da manhã, de quem tinham feito troça. Como sabiam? Ninguém podia responder. Não importa! Ficaram com medo e decidiram-se pela Feutry-Cantel. E a vertigem voltou a possuí-los, encontraram-se novamente na estrada, batendo tamancos, empolgados: à Feutry-Cantel! Os covardes de lá deviam ser, pelo menos, uns quatrocentos; iam se divertir à grande! Situada à distância de três quilômetros, a mina ficava oculta num vale, próxima do Scarpe. Já estavam subindo a ladeira dos Gessais, para além do caminho de Beaugnies, quando uma voz na multidão aventou a ideia de que talvez a cavalaria estivesse na Feutry-Cantel. Então, de uma ponta à outra da coluna, correu o murmúrio de que a cavalaria lá estava. Uma hesitação refreou o passo da marcha, o pânico começava a soprar naquela região adormecida pelo desemprego e que pareciam percorrer havia séculos. Por que não haviam encontrado os soldados? Esta impunidade os perturbava, misturando-se à ideia da repressão que sentiam aproximar-se.

continua na página 288...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.