terça-feira, 23 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (VII. Um seminarista ambicioso)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
VII
UM SEMINARISTA AMBICIOSO
    
     Aliócha conduziu o stáríets ao seu quarto de dormir e fê-lo sentar no leito. Era uma peça muito pequena, com o mobiliário indispensável; a cama de ferro estreita tinha apenas uma almofada de feltro à guisa de colchão. A um canto, sobre uma estante, perto dos ícones, repousavam a cruz e o Evangelho. O stáriets deixou-se cair, extenuado. Seus olhos brilhavam, resfolegava. Uma vez sentado olhou fixamente Aliócha, como se meditasse em alguma coisa. 

— Vai, meu caro, vai, Porfíri me basta, apressa-te. Têm necessidade de ti em casa do padre abade, servirás à mesa. 
— Permita-me ficar aqui — disse Aliócha, com voz suplicante. 
— És mais necessário lá. A paz não reina ali. Servirás e tornar-te-ás útil. Vêm os maus espíritos, recita uma oração. Fica sabendo, meu filho (o stáriets gostava de chamá-lo assim), que no futuro teu lugar não será aqui. Lembra-te disto, rapaz. Assim que Deus me tiver julgado digno de comparecer perante ele, deixa o mosteiro. Parte imediatamente.  

     Aliócha estremeceu. 

— Que tens? Teu lugar não é aqui no momento. Abençoo-te tendo em vista uma grande tarefa a cumprir no mundo. Peregrinarás muito tempo. Deveras casar-te, é preciso. Deveras suportar tudo até voltares. Haverá muito que fazer. Mas não duvido de ti. Eis por que te envio. Que o Cristo seja contigo! Guarda-o e ele te guardará. Experimentarás uma grande dor e ao mesmo tempo serás feliz. Tal é tua vocação: procurar a felicidade na dor. Trabalha, trabalha sem cessar. Lembra-te de minhas palavras, doravante, porque entreter-me-ei ainda contigo, mas meus dias e mesmo minhas horas estão contados.

     Viva agitação pintou-se no rosto de Aliócha. Seus lábios tremiam. 

— Que tens de novo? — sorriu docemente o stáriets. — Que os mundanos chorem seus mortos; aqui nos regozijamos quando um padre agoniza. Nós nos rejubilamos e rezamos por ele. Deixa-me. Tenho de rezar. Vai, despacha-te. Fica junto de teus irmãos, e não somente junto de um, mas de ambos.

     O stáriets ergueu a mão para abençoá-lo. Era impossível fazer objeções, muito embora Aliócha tivesse grande vontade de ficar. Queria também perguntar-lhe, estava mesmo com a pergunta nos lábios, o que significava aquela prosternação diante de seu irmão Dimítri, mas não ousou. Sabia que o stáriets lhe teria ele próprio explicado, se tivesse podido. Portanto, não o queria. Ora, aquela saudação até o chão havia enchido Aliócha de estupefação; havia naquilo um sentido misterioso. Misterioso e talvez terrível. Uma vez fora da cerca do eremitério, para chegar ao mosteiro no começo da refeição em casa do padre abade (devia servir à mesa), seu coração se fechou e teve de deter-se: parecia-lhe ouvir de novo as palavras do stáriets predizendo seu fim próximo. O que tinha predito o stáriets com tal exatidão devia cumprir-se sem nenhuma dúvida. Aliócha acreditava naquilo cegamente. Mas como ficaria sem ele, sem vê-lo, nem ouvi-lo? E aonde iria? Ordenavam-lhe que não chorasse e que deixasse o mosteiro. Senhor! Desde muito tempo não sentia Aliócha semelhante angústia. Atravessou rapidamente o bosque que separava o eremitério do mosteiro e, incapaz de suportar os pensamentos que o acabrunhavam, pôs-se a contemplar os pinheiros seculares que orlavam o caminho. O trajeto não era longo, quinhentos passos no máximo; não se podia encontrar ninguém àquela hora, mas à primeira volta avistou Rakítin. Este esperava alguém. 

— Seria a mim que esperavas? — perguntou Aliócha, quando o alcançou. 
— Justamente — respondeu Rakítin, sorrindo. — Apressas-te em ir à casa do padre abade. Sei; oferece um jantar. Desde o dia em que recebeu o bispo e o General Parkhátov — lembras-te? — não houve jantar igual. Lá não estarei, mas tu vais para lá, servirás os pratos. Dize-me, Aliócha, que significa esse sonho? Queria perguntar-te. 
— Que sonho? 
— Mas aquela prosternação diante de teu irmão Dimítri Fiódorovitch. Bateu até com a cabeça no chão!
— Falas do Padre Zósima? 
— Sim, dele. 
— A testa? 
— Ah! exprimi-me irreverentemente! Não tem importância. Pois bem, que significa aquele sonho? 
— Ignoro, Micha, o que ele significa! 
— Estava certo de que ele não to explicaria. Isto nada tem de espantoso, são sempre as mesmas santas frioleiras. Mas o truque foi jogado de propósito. Agora vão os beatos falar na cidade e espalhar na província: "Que significa esse sonho?" Na minha opinião, o velho é perspicaz; farejou um crime. Isso lá na tua casa está de feder. 

     Que crime?
     Rakítin queria evidentemente dizer alguma coisa.

— Será na tua família que ele ocorrerá, esse crime. Entre teus irmãos e teu rico papai. Eis por que o Padre Zósima bateu com a testa para qualquer eventualidade. Depois, que acontecerá? "Ah! Isto fora predito pelo santo eremita, ele profetizou." No entanto, que profecia há nisso de bater com a cabeça? Não, dirão, é um símbolo, uma alegoria, e Deus sabe o quê! Será divulgado e lembrado: ele adivinhou o crime, designou o criminoso. Os "inocentes" agem sempre assim; fazem sobre o botequim o sinal-da-cruz e atiram pedras no templo. Da mesma maneira o teu stáriets: para um sábio, pauladas, mas diante de um assassino curva a cabeça. 
— Que crime? Diante de qual assassino? Que é que estás contando? Aliócha ficou como que pregado no lugar. Rakítin também parou. 
— Que crime? Como se não o soubesses! Aposto que já pensaste nisso. A propósito, é curioso; escuta, Aliócha, tu dizes sempre a verdade, se bem que te assentes sempre entre duas cadeiras; pensaste nisso ou não? Responde. 
— Pensei nisso — respondeu Aliócha em voz baixa. Rakítin per turbou-se. 
— Como, também tu já pensaste nisso? — exclamou ele. 
— Eu... não é que tenha pensado precisamente nisso — murmurou Aliócha —, mas acabas de falar tão' estranhamente a esse respeito que me pareceu tê-lo pensado eu mesmo. 
— Estás vendo? (E como o exprimiste claramente!) Estás vendo? Hoje, ao veres teu pai e teu irmão Mítia, pensaste em um crime. Portanto, não me engano. 
— Espera, espera um pouco — interrompeu-o Aliócha, perturbado. — Donde tiras tudo isso? E, em primeiro lugar, por que isso tanto te interessa? 
— Duas perguntas diferentes, mas naturais. Responderei a cada uma separadamente. Donde tiro tudo isso? De nenhuma parte o teria tirado, se não tivesse compreendido hoje Dimítri Fiódorovitch, teu irmão, dum relance e totalmente, tal como ele é, segundo certa linha. Entre essas pessoas muito honestas, mas sensuais, há uma linha que não se deve transpor. De outro modo, golpeará seu pai até mesmo com uma faca. Ora, seu pai é um bêbedo e um debochado desenfreado, que jamais conheceu a medida em coisa alguma; nenhum dos dois se conterá, e pronto, eis todos dois no fosso. 
— Não, Micha, se é só isso, reconfortas-me. Isso não chegará a esse ponto. 
— Mas por que tremes tanto? Sabes por quê? Pode ele ser um homem honesto, Mítia (é estúpido, mas honesto), apenas é um sensual. Eis sua definição e o fundo de sua natureza. Foi seu pai quem lhe transmitiu sua abjeta sensualidade. A respeito de ti, somente, Aliócha, é que me espanto; como se dá que sejas virgem? És, no entanto, um Karamázov! Na família de vocês, a sensualidade chega até o frenesi. Ora, esses três seres sensuais espiam-se agora... de faca no bolso. Três deram cabeçadas, podes ser o quarto. 
— Enganas-te certamente a respeito daquela mulher. Dimítri a... despreza — disse Aliócha, fremente. 
— Grúchenhka? Não, irmão, ele não a despreza. Já que abandonou publicamente sua noiva por causa dela, não a despreza. Aqui, irmão, aqui há qualquer coisa que não compreendes agora. Que um homem se apaixone por uma beldade qualquer, por um corpo de mulher, até mesmo somente por uma parte desse corpo (um voluptuoso me compreenderia imediatamente), entregará por causa dela seus próprios filhos, venderá pai e mãe, a Rússia e a pátria; honesto, irá roubar; manso, assassinará; fiel, trairá. O cantor dos pés femininos, Púchkin, celebrou-os em versos; outros não os cantam, mas não podem olhá-los a sangue frio. Mas não há somente os pés... Aqui, irmão, o desprezo é impotente. Ele despreza Grúchenhka, mas não pode destacar-se dela. 
— Compreendo isso — disse, de repente, Aliócha. 
 — Deveras? E tu o compreendes, na verdade, para que o confesses desde a primeira palavra — declarou Rakítin com uma alegria maldosa. — Isso escapou-te por acaso. Nem por isso deixa a confissão de ser mais preciosa; por consequência, a sensualidade é para ti um assunto conhecido, já pensaste nela! Ah! o santinho! Tu és santo, Aliócha, convenho, mas és um santinho, e o diabo sabe em que é que já não pensaste, o diabo sabe o que já conheces! És virgem, mas já penetraste bastantes coisas, observo-te desde muito tempo. És tu mesmo um Karamázov, és um completo; portanto, a raça e a seleção significam alguma coisa. És sensual por teu pai e "inocente" por tua mãe. Por que tremes? Será verdade o que digo? Sabes? Grúchenhka me pediu: "Trá-lo aqui (isto é, tu) e eu lhe arrancarei a batina". E como tivesse insistido: "Trá-lo, trá-lo!", disse a mim mesmo: por que está ela tão curiosa dele? Sabes, ela também é uma mulher extraordinária! 
— Dir-lhe-ás que não irei, jura-o — disse Aliócha, com um sorriso constrangido. — Acaba, Mikhail, o que começaste, dir-te-ei em seguida o que penso. Para que acabar? Tudo é claro. Tudo isso, irmão, é uma velha canção. Se tu mesmo tens um temperamento sensual, que será de teu irmão Ivã, filho da mesma mãe? Porque também ele é um Karamázov. Ora, a natureza dos Karamázovi se resume assim: sensuais, ávidos no ganho e malucos! Teu irmão Ivã distrai-se agora escrevendo artigos de teologia por um cálculo estúpido que se ignora, sendo ele próprio ateu, e confessa essa baixeza. Além disso, está a ponto de conquistar a noiva de seu irmão Mítia e parece perto de seu fim. De que maneira? Com o consentimento do próprio Mítia, porque este lhe cede a noiva com o único fim de se desembaraçar dela e ir juntar-se a Grúchenhka. E tudo isso não obstante sua nobreza e seu desinteresse, nota-o. Tais indivíduos são os mais fatais. Como entendê-los, afinal? Tendo plena consciência de sua baixeza, comportam-se baixamente. Escuta agora: um velho barra o caminho a Mítia, seu próprio pai. Porque este está loucamente apaixonado por Grúchenhka, fica com a boca cheia de água somente ao vê-la. Foi unicamente por causa dela que provocou tal escândalo, somente porque Miusov tinha ousado chamá-la de criatura depravada. Está mais amoroso do que um gato. Antes, estava ela somente a seu serviço para certos negócios equívocos e nas suas tavernas; agora, depois de tê-la bem examinado, percebeu ele que ela lhe agradava, encarniça-se após ela e faz lhe propostas desonestas naturalmente; pois bem, o pai e o filho encontram-se nesta estrada. Mas Grúchenhka reserva-se, hesita ainda e mexe com os dois, examina qual é o mais vantajoso, porque se se pode arrancar muito dinheiro do pai, em compensação ele não se casará, tornar-se-á talvez avarento para o fim e fechará sua bolsa. Em semelhante caso, Mítia também tem seu valor; não tem dinheiro mas pode casar-se. Sim, é capaz disso! Abandonará sua noiva, uma beldade incomparável, Catarina Ivânovna, rica, nobre e filha de coronel, para se casar com Grúchenhka, outrora mantida por Samsonov, um velho comerciante, mujique de pravado e prefeito da cidade. De tudo isso, podem verdadeiramente resultar um conflito e um crime. Ora, é o que espera teu irmão Ivã. Dá ele assim um golpe duplo: toma posse de Catarina Ivânovna, pela qual morre de amores, e se apropria de seu dote de 60 000 rublos. Para um pobre diabo como ele, um pobretão, não é coisa de desdenhar, no começo. E nota bem! Não somente não ofenderá Mítia, mas este lhe será grato até a morte. Porque sei de boa fonte que, na última semana, achando-se Mítia embriagado num restaurante com ciganos, exclamou que era indigno de Catarina, sua noiva, mas que seu irmão Ivã era digno dela. A própria Catarina Ivânovna acabará não repelindo um homem encantador como Ivã Fiódorovitch; já hesita entre eles. Mas como pode esse Ivã seduzir-vos para que estejais todos em êxtase diante dele? Ri-se de vós. Estou extasiado, diz ele, e festejo às vossas custas. 
— Donde sabes tudo isso? Por que falas com tal segurança? — perguntou bruscamente Aliócha, franzindo o cenho. 
— Mas por que me interrogas, temendo de antemão a resposta? Isto significa que reconheces que disse a verdade. 
— Não gostas de Ivã. Ivã não se deixa seduzir pelo dinheiro. 
— Deveras? E a beleza de Catarina Ivânovna? Não se trata somente de dinheiro, muito embora 60 000 rublos sejam bastante atraentes.
— Ivã olha mais alto. Milhares de rublos não o deslumbrariam. Não é nem o dinheiro nem a tranquilidade que ele procura. Ivã procura talvez o sofrimento. 
— Que sonho é esse ainda? Ah! vós outros... os nobres! 

     Ora! Micha, sua alma é impetuosa. Seu espírito é cativo. Tem ele um grande pensamento ainda não resolvido. É daqueles que não têm necessidade de milhões, mas de resolver seu pensamento, 

— É um plágio. Alióeha, parafraseias o teu stárieis. Ora! Ivã propôs vos um enigma! — gritou com visível animosidade Rakítin, cujo rosto se alterou e cujos lábios se contraíram. — E um enigma estúpido, não há nele nada a adivinhar. Faze um pequeno esforço e compreenderás. Seu artigo é ridículo e inepto. Ouvi ainda há pouco sua absurda teoria: "Se não há imortalidade da alma, então não há virtude, o que quer dizer que tudo é permitido". Lembras-te de como teu irmão Mítia gritou: "Lembrar-me-ei disso!" É uma teoria sedutora para os tratantes... Mas estou insultando, é uma estupidez... não os tratantes, mas os fanfarrões da escola com "uma profundeza de pensamento insolúvel". É um falastraz e isto quer dizer simplesmente no fundo: "Boné branco e branco boné". Toda a sua teoria não passa duma infâmia! A humanidade encontra em si mesma a força de viver para a virtude, mesmo sem crer na imortalidade da alma! Tira-a do amor à liberdade, à igualdade e à fraternidade...

     Rakítin acalorara-se, tinha dificuldade em conter-se. Mas de repente parou, como se se lembrasse de alguma coisa. 

— Pois bem, basta! — disse ele, com um sorriso ainda mais forçado. — Por que ris? Pensas que sou um casca-grossa? 
— Não, nem mesmo tinha ideia de pensá-lo. És inteligente, mas... deixemos isso. Sorri por estupidez. Compreendo que possas acalorar-te, Micha. Adivinhei pelo teu arrebatamento que tu mesmo não és indiferente para com Catarina Ivânovna. Há muito tempo que duvidava disso, irmão. Eis por que não gostas de Ivã. Tens ciúmes dele. 
— E também do dinheiro dela? Vai até o fim. 
— Não, não falarei do dinheiro, não quero ofender-te. 
 — Creio-o, porque o disseste, mas que o diabo vos leve, a ti e a teu irmão Ivã! Nenhum de vós compreende que, mesmo posta de parte Catarina Ivânovna, ele é muito pouco simpático. Que razão terei para gostar dele, com a breca! Ele me faz a honra de injuriar-me, Não terei o direito de retribuir-lhe? 
— Jamais o ouvi dizer bem ou mal de ti. Não fala absolutamente de ti.
— Pois bem, contaram-me que anteontem, em casa de Catarina Ivânovna, disse boas de mim, tanto se interessava por este teu criado. Depois disso, ignoro qual irmão tem ciúme do outro. Houve ele por bem insinuar que, se eu não resignar à carreira de arkhimandrit e não largar a batina num futuro bem próximo, partirei para Petersburgo, entrarei para uma grande revista na qualidade de crítico, escreverei por uma dezena de anos e acabarei por tornar-me proprietário da revista. Publicá-la-ei então com orientação liberal e ateia, com uma tintura socialista, certo verniz mesmo de socialismo, mas tomando minhas precauções, isto é, nadando entre duas águas e ludibriando os imbecis. Sempre segundo o teu irmão, malgrado essa tintura de socialismo, colocarei minhas rendas em conta corrente, pondo-as no momento em circulação, sob a direção dum judeuzinho qualquer, até que eu consiga construir um grande imóvel em Petersburgo; meus escritórios ocuparão um andar e alugarei os outros. Designou mesmo o local da casa, perto da nova ponte de pedra que se projeta, parece, entre a Rua Litiéinaia e Travessa Vibórskaia... 
— Ah! Micha, isto se realizará talvez de ponta a ponta! — exclamou Alióeha, que não pôde conter um riso jovial. 
— E você também zomba, Alieksiéi Fiódorovitch? 
— Não, não, estou brincando, desculpa-me. Pensava em outra coisa bem diversa. Mas, dize-me, quem pôde comunicar-te tais detalhes, de quem os terias sabido? Porque não estavas em casa de Catarina Ivânovna, quando ele falava de ti. 
— É verdade, mas Dimítri Fiódorovitch ali se achava e ouvi-o repetir isso, isto é, escutei contra a minha vontade, oculto no quarto de dormir de Grúchenhka, donde não podia sair em sua presença. 
— Ah! sim, esquecia-me de que é tua parenta. 
— Minha parenta? Essa Gruchka seria minha parenta? — exclamou Rakítin, todo vermelho. — Perdeste a razão? Tens o cérebro desarranjado. 
— Como? Não é tua parenta? Ouvi dizer isto. 
— Onde pudeste ouvi-lo? Ah! Senhores Karamazovi, tomais ares de alta e velha nobreza, quando teu pai bancava o palhaço na mesa alheia e figurava por favor na cozinha. Admitamos, não passo de filho de pope, um vil plebeu, ao lado de vós, nobres, mas não me insulteis com tão alegre sem-cerimônia. Tenho também minha honra, Alieksiéi Fiódorovitch. Não posso ser parente de Gruchka, uma mulher pública, compreende pois! 

     Rakítin estava violentamente superexcitado. 

— Desculpa-me, pelo amor de Deus, não o teria nunca acreditado, aliás. É ela verdadeiramente... uma mulher pública? — Aliócha ficou completamente rubro. —Repito-te, disseram-me mesmo que era tua parenta. Vais muitas vezes à casa dela e tu mesmo me disseste que não tinhas ligação com ela... Jamais teria crido que a desprezasses tanto! Merece-o ela verdadeiramente?
— Se a frequento, tenho talvez minhas razões para isso, mas basta. Quanto ao parentesco, será antes teu irmão ou mesmo teu pai que a fará entrar na tua família e não na minha. Mas eis-nos chegados. Vai antes à cozinha... Ora! Que é que há? Que está acontecendo? Estaríamos atrasados? Mas não é possível que já tenham acabado de jantar! A menos que os Karamazovi não tenham feito das suas. Deve ser isto. Eis teu pai e Ivã Fiódorovitch que o segue. Fugiram da casa do padre abade. Eis o Padre Isidoro no patamar a gritar alguma coisa na direção deles. E teu pai, que grita, agitando os braços. Decerto está descompondo. Eis Miúsov que parte de caleça, não o vês correr? O proprietário Maksímov corre; é um verdadeiro escândalo,' o jantar não se realizou! Teriam eles batido no padre abade? Ou então foram surrados! Teriam bem merecido uma surra!... 

     Rakítin tinha razão de fazer essas exclamações. Ocorrera de fato um escândalo inaudito e inesperado. Tudo se passara "por inspiração do momento".

continua na página 86...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - A Felicidade Conjugal (1: Estávamos de luto por nossa mãe)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

1

     Estávamos de luto por nossa mãe; falecera no outono precedente e passámos todo o inverno no campo, sós, Macha, Sónia e eu.
     Macha era uma antiga amiga da casa; havia sido nossa preceptora, tinha-nos educado a todas e as minhas recordações, como a minha afeição por ela, iam tão longe quanto eu me lembrava de mim própria.
     Sónia era minha irmã mais nova.
     O inverno decorreu para nós sombrio e triste, na nossa velha casa de Pokrovski. O tempo foi frio, ventoso, a tal ponto que a neve se amontoara ainda para cima das janelas; estas estavam quase continuadamente cobertas de gelo e embaciadas, e não pudemos quase nunca durante toda a estação sair nem passear para parte alguma.
     Era raro que nos viessem ver, e mesmo aqueles que nos visitavam não traziam nem alegria nem distrações a nossa casa. Tinham todos uma fisionomia pesarosa, falavam baixo, como se tivessem medo de acordar alguém, não se riam, suspiravam e muitas vezes choravam ao contemplar-me, e sobretudo ao ver a minha pobre Sónia com o seu vestidinho preto. De qualquer modo, em casa, tudo respirava-se o ambiente da morte; a aflição, o horror do féretro pairavam no ar. O quarto da mamã continuava fechado e eu experimentava ao mesmo tempo um cruel mal-estar e uma invencível atração em lançar furtivamente uma vista de olhos sobre aquele frio e deserto aposento quando por ele passava para me ir deitar.
     Tinha nesta época dezessete anos, e no próprio ano da sua morte a mamã fizera tenção de ir viver na cidade para aí me desenvolver. A perda de minha mãe tinha sido para mim uma grande dor; mas devo confessar que a par deste desgosto, jovem e bela como todos me achavam, sentia um certo pesar em me ver condenada a vegetar um segundo inverno no campo, numa árida solidão. Mesmo antes do termo deste inverno, o sentimento de tédio, de isolamento, e para simplesmente o dizer, de enfado, avolumaram-se no meu íntimo a tal ponto que não saía mais do meu quarto, não abrindo o piano e não pegando sequer num livro. Quando Macha me convidava a ocupar-me disto ou daquilo, respondia-lhe: não quero, não posso; e no fundo da minha alma, perguntava-me uma voz: para que serve isso? Porque não faria eu qualquer coisa, visto que o melhor da minha vida se consumia em pura perda? Porquê? E a este porquê não havia em mim outra resposta senão lágrimas.
     Diziam-me que eu emagrecia e que me tinha tornado mais feia durante todo este tempo, mas não me preocupava de maneira alguma com isso. Para quê e por quem me poderia interessar? Parecia que a minha vida devia deslizar inteira neste deserto, no seio desta angústia sem apelação de onde, entregue aos meus únicos e próprios recursos, não me sentia nem com a força nem mesmo com o desejo de me arrancar.
     Macha, no fim do inverno, começou a inquietar-se a meu respeito e tomou a resolução, antes que acontecesse qualquer coisa, de me levar ao estrangeiro. Mas para isso era preciso dinheiro e nós mal sabíamos o que nos ficaria da herança de nossa mãe; todos os dias esperávamos o nosso tutor, que devia vir examinar o estado dos negócios.
     Até que finalmente ele chegou durante o mês de março.

— Graças a Deus — disse-me Macha um dia que eu vagueava como uma sombra por todos os cantos, ociosa, sem um pensamento no espírito, sem um desejo no coração. — Afinal Sérgio Mikailovitch mandou dizer que vinha jantar conosco. É preciso animares-te, minha querida Katia — acrescentou. — Que pensará ele de ti? Ama-as tanto a ambas!

     Sérgio Mikailovitch era nosso vizinho próximo e tinha sido o amigo de nosso defunto pai, apesar de ser muito mais novo do que ele. Além da mudança favorável que a sua chegada vinha imprimir aos nossos planos de vida, dando nos a possibilidade de deixar o campo, eu estava muito habituada desde a infância a amá-lo e a respeitá-lo para que Macha, aconselhando-me que me animasse, não tivesse adivinhado que se devia operar ainda uma outra mudança e que, de todos os meus conhecimentos, era aquele o único diante do qual me teria sido doloroso aparecer com desfavorável aspecto. Não só tinha uma antiga afeição por Sérgio Mikailovitch, como todos em casa, desde Macha e Sónia, que era sua afilhada, até ao último cocheiro; mas esta afeição tirava um caráter muito particular de uma palavra que a mamã pronunciara diante de mim. Dissera um dia que era um tal marido que me desejava. Naquele momento, semelhante ideia tinha-me parecido muito extraordinária e mesmo bastante desagradável; o herói com que eu fantasiava era completamente diferente. O meu ideal devia ser franzino, magro, pálido e melancólico. Sérgio Mikailovitch, pelo contrário, já não era novo; era alto, vigoroso e, tanto quanto podia imaginar, de génio muito amável. Todavia aquelas palavras da mamã haviam penetrado bastante na minha imaginação; havia seis anos, tinha os meus onze, que ele me tratava por tu, que brincava comigo, que me chamava a violetazinha, e desde então nunca perguntei a mim mesma, sem um certo receio, o que faria eu se, de repente, ele tivesse a fantasia de me querer desposar.
     Sérgio Mikailovitch chegou um pouco antes do jantar que Macha fizera aumentar com um prato de espinafres e um doce. Olhei pela janela no momento em que ele se aproximava de casa num pequeno trenó e, desde que virou a esquina, apressei-me em ir para o salão, não querendo deixar suspeitar de modo algum que o esperava. Mas sentindo movimento na antecâmara, e bem depressa a sua brilhante voz e os passos de Macha, esgotou-me a paciência e fui ao seu encontro. Conservava entre as suas a mão de Macha e falava num tom elevado e sorrindo. Desde que me viu, calou-se e contemplou-me por alguns instantes sem me saudar; fiquei muito embaraçada e senti-me corar.

— Ah, é possível que seja a menina Katia? — disse num tom simples e decidido desprendendo a mão e aproximando-se de mim. — É possível mudar-se tanto? Como tem crescido! Ontem uma violeta, hoje uma rosa desabrochada!

     Pegou-me na mão e apertou-a tanto, com tanta franqueza, que quase me magoou. Tinha pensado que me beijaria e inclinei-me; mas ele, tomando-me pela segunda vez a mão, fitou-me com o seu olhar firme e jovial.
     Havia seis anos que o não via. Tinha mudado muito, envelhecido, estava queimado e deixara crescer os bigodes, o que não lhe ficava muito bem; mas tinha sempre aquelas mesmas maneiras simples, aquela mesma fisionomia franca, honesta, de traços pronunciados, aqueles olhos cintilantes de espírito e aquele sorriso cheio de graça que se diria ser de criança.
     Ao cabo de cinco minutos, havia abandonado a atitude de uma simples visita e tomado a confiança de um íntimo em frente de todos nós, e mesmo diante de todos os que, pela sua solicitude servil a seu respeito, altamente testemunhavam a alegria que a sua chegada lhes fazia experimentar.
     Não se apresentou como um vizinho que vem a uma casa depois da morte de uma mãe, julgando necessário mostrar um rosto compassivo; esteve, pelo contrário, alegre, conversando, e não disse uma única palavra da mamã, tanto que começava a achar esta indiferença estranha e mesmo bastante inconveniente da parte de um homem que tão de perto convivia conosco. Mas bem depressa compreendi que não era indiferença o que havia no seu íntimo, mas que existia no seu pensamento uma intenção pela qual eu lhe devia estar reconhecida.
     À noite, Macha serviu-nos o chá no salão, no lugar habitual em que o tomávamos no tempo da mamã. Sónia e eu sentámo-nos junto dele; o velho Gregório trouxe a Sérgio um antigo cachimbo do papá que havia encontrado e ele, como noutros tempos, começou a andar pela sala de um lado para outro.

— Que terríveis mudanças nesta casa — disse subitamente, parando de passear.
— Sim — respondeu Macha com um suspiro; e tornando a tapar o samovar, encarou Sérgio Mikailovitch já quase a desfazer-se em lágrimas.
— Lembra-se com certeza de seu pai? — perguntou-me ele.
— Alguma coisa.
— Como seria bom para si tê-lo ainda hoje — disse Sérgio lentamente e dirigindo, pensativo, um vago olhar por cima da minha cabeça.

     E mais lentamente ainda acrescentou:

— Fui muito amigo de seu pai...

     Pareceu-me notar no mesmo instante que os seus olhos brilhavam com um vivo fulgor.

— E Deus arrebatou-nos também nossa mãe! — exclamou Macha.

      Depois, colocando muito depressa o guardanapo sobre a chaleira, puxou pelo lenço e pôs-se a chorar.

— Sim, que terríveis mudanças que há nesta casa.

     E a estas palavras Sérgio voltou-se.
     Um instante depois: 

— Katia Alexandrovna — disse elevando a voz — toque alguma coisa.

     Causou-me prazer este pedido feito em termos tão simples e tão amigavelmente imperiosos; levantei-me e acerquei-me dele.

— Olhe, toque isto — disse abrindo um livro de Beethoven no adágio da sonata Quase uma fantasia. — Vamos a ver como toca isso — continuou.

     E foi beber a sua chávena de chá para um dos cantos da sala.
     Não sei porquê, mas senti que me teria sido impossível recusar ou hesitar sob pretexto de que tocava mal; sentei-me, pelo contrário, com submissão diante do piano e comecei a tocar como pude, ainda que tivesse algum medo da sua apreciação, sabendo quanto ele era conhecedor e o gosto que tinha pela música. No tom deste adágio reinava um sentimento que me transportava, por uma espécie de reminiscência, para as nossas conversas antes do chá, e sob esta impressão toquei-o sofrivelmente, pareceu-me. Mas Sérgio não me quis deixar tocar o Scherzo.

— Não, não o tocaria bem — disse aproximando-se de mim. — Fique neste primeiro trecho, que não foi mau. Vejo que compreende a música.

     Este elogio, seguramente moderado, alegrou-me tanto que me senti ruborizar. Era uma coisa tão nova e tão agradável para mim que o amigo, o igual de meu pai, me falasse seriamente e não como a uma criança, como fazia outrora.
     Conversou a respeito de meu pai, contou-me quanto se estimavam um ao outro, como agradavelmente tinham vivido juntos no tempo em que eu não me ocupava senão de brinquedos e de livros de estudo; e nestas narrações, meu pai, pela primeira vez, apareceu-me o homem bom e simples que não havia conhecido até então. Perguntou-me também do que gostava, o que lia, o que contava fazer e dava-me conselhos. Não tinha já junto de mim o homem jovial que apreciava os gracejos e as brincadeiras, mas um homem sério, franco, amigo, por quem sentia ao mesmo tempo um involuntário respeito e simpatia.
     Era-me suave, agradável esta impressão e conjuntamente experimentava em mim uma certa e inconsciente alegria ao falar-lhe. Cada palavra que pronunciava deixava-me receosa; quereria tanto merecer eu mesma a sua afeição que, até ao presente, não me tinha sido concedida senão na qualidade de filha de meu pai.
     Depois de ter deitado Sónia, Macha veio ter conosco e queixou-se a Sérgio Mikailovitch da minha apatia, de que resultava nunca ter coisa alguma para dizer.

— Então a Katia não me contou o mais importante — respondeu ele sorrindo e meneando a cabeça com um certo ar de censura.
 
— Que teria eu para contar? — repliquei. — Que me aborrecia muito, mas isto há de passar. — E efetivamente parecia-me agora não só que passaria o meu enfado, mas que era já coisa decidida e que não mais voltaria.
— Não é positivamente por não saber suportar a solidão; é possível que seja na realidade uma senhora?
— Julgo bem que sim — respondi rindo.
— Não, não, é apenas uma menina má que só vive para ser admirada e que, desde que se acha isolada, se aborrece e nada acha bom; tudo ostentação, coisa alguma de proveitoso.
— Faz uma bela ideia a meu respeito — repliquei para dizer alguma coisa.
— Não — respondeu Sérgio depois de um momento de silêncio —; não é debalde que se assemelha a seu pai; há alguma coisa em si!

     E o seu olhar bom e atento veio de novo exercer o seu encanto sobre mim e encher-me de singular perturbação.
     Só neste momento notei que naquele rosto, que ao primeiro golpe de vista parecia alegre, sob aquele olhar que não pertencia senão a ele e em que não se julgaria primeiro ler senão a serenidade, pintava-se em seguida e sempre mais e mais vivamente um fundo de grande reflexão e um pouco de tristeza.

— Não deve nem pode aborrecer-se — disse ele ainda —, tem a música que sabe compreender, os livros, o estudo; tem diante de si uma vida inteira para a qual chegou o momento de se preparar a fim de não ter depois de que se queixar. Daqui a um ano, será já muito tarde.

     Falava-me assim como um pai ou um tio e compreendi que ele fazia um esforço contínuo para permanecer sempre ao meu nível. Isto ofendia-me alguma coisa por me julgar tanto abaixo dele e, por outro lado, era-me agradável que, por mim, Sérgio julgasse dever fazer aquele esforço.
     O resto da noite foi consagrado a uma conversação sobre negócios entre ele e Macha.

— E agora, boa noite, minha querida Katia — disse-me Sérgio levantando-se, aproximando-se de mim e pegando-me na mão.
— Quando nos tornaremos a ver? — perguntou Macha.
— Na primavera — respondeu ele continuando a conservar entre as suas a minha mão. — Agora vou a Danilovka; verei um pouco o que por lá se passa, arranjarei o que puder, depois passarei por Moscovo por causa dos meus negócios e ver-nos-emos este verão.
— Por que se afasta por tanto tempo? — disse eu muito tristemente.

     Com efeito, habituara-me já a vê-lo todos os dias, pelo que a sua ausência me causaria decerto grande desgosto e me provocaria de novo a minha melancolia. Provavelmente isto deixou-se adivinhar nos meus olhos e no tom da minha voz.

— Então, entretenha-se e expulse o spleen — disse-me Sérgio num modo que me pareceu muito tranquilo e muito frio. — Na primavera, cá voltarei — acrescentou largando-me a mão e sem me olhar.

     Na antecâmara, aonde o havíamos acompanhado, Sérgio, apressou-se a pôr as suas peles e, de novo, o seu olhar pareceu que me evitava.

«Não sei para que está com isso! É bem inútil!», disse eu comigo mesma; «será possível que ele pensasse causar-me já tanto prazer contemplando-me? É um excelente homem, realmente bom... E mais nada.»

     Entretanto, ficámos por muito tempo nessa noite, Macha e eu, sem dormir, falando sempre, não dele, mas do emprego do verão seguinte, do lugar onde passaríamos o inverno e o modo por que o faríamos. Assunto importante; e porquê? Para mim, parecia-me tão simples como evidente que a vida devia consistir em ser feliz e no futuro não me era possível fantasiar com outra coisa senão com a felicidade, como se de repente a nossa velha e sombria habitação de Pokrovski acabasse de se encher de vida e de luz...

continua na página 10...
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Leia também...
1. Estávamos de luto por nossa mãe
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

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Resenha:

FELICIDADE CONJUGAL, de Tolstói (maturidade e relacionamentos)



segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo V - Da Maturidade à Velhice (1)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO V
DA MATURIDADE À VELHICE
 


     A HISTÓRIA da mulher — pelo fato de se encontrar ainda encerrada em suas funções de fêmea — depende muito mais que a do homem de seu destino fisiológico. Todo período da vida feminina é calmo e monótono: mas as passagens de um estágio para outro são de uma perigosa brutalidade; evidenciam-se através de crises muito mais decisivas do que no homem: puberdade, iniciação sexual, menopausa. Enquanto ele envelhece de maneira contínua, a mulher é bruscamente despojada de sua feminilidade; perde, jovem ainda, o encanto erótico e a fecundidade de que tirava, aos olhos da sociedade e a seus próprios olhos, a justificação de sua existência e suas possibilidades de felicidade: cabe-lhe viver, privada de todo futuro, cerca de metade de sua vida de adulta.  
     "A idade perigosa" é caracterizada por certas perturbações orgânicas (cf. vol. I, cap. I), mas o que lhes dá importância é o valor simbólico de que se revestem. A crise é sentida de maneira muito menos aguda pelas mulheres que não apostaram particularmente na sua feminilidade; as que trabalham duramente — em seus lares ou fora deles — acolhem com alívio o desaparecimento da servidão menstrual; a camponesa, a mulher do operário, que uma nova gravidez ameaça sem cessar, sentem-se felizes quando veem enfim esse risco evitado. Nessa conjuntura, como em muitas outras, é menos do próprio corpo que provêm os incômodos da mulher que da consciência angustiada que deles tem. O drama, moral inicia-se antes que os fenômenos fisiológicos se declarem e termina quando eles já de há muito desapareceram.
     Muito antes da mutilação definitiva, a mulher sente-se obcecada pelo horror de envelhecer. O homem maduro acha-se empenhado cm empresas mais importantes que as do amor; seus ardores eróticos são menos vivos do que na mocidade; e como não lhe pedem as qualidades passivas de um objeto, as alterações de seu rosto e de seu corpo não arruínam suas possibilidades de sedução. Ao contrário, é geralmente por volta dos 35 anos que a mulher, tendo enfim superado suas inibições, atinge sua plena maturidade erótica: é então que seus desejos são mais violentos e que ela deseja mais asperamente satisfazê-los; muito mais do que o homem, ela apostou nos valores sexuais que detém; para reter o marido, para se assegurar proteções, é necessário que agrade na maior parte dos ofícios que exerce; não lhe permitiram ter algum domínio sobre o mundo, senão por intermédio do homem: que lhe acontecerá quando não tiver mais domínio sobre este? É o que se pergunta ansiosamente enquanto assiste impotente à degradação desse objeto de carne com o qual se confunde; luta, mas pintura, operações estéticas não podem senão prolongar sua juventude agonizante. Pode trapacear com o espelho, mas quando se esboça o processo fatal, irreversível, que vai destruir nela todo o edifício construído durante a puberdade, sente-se tocada pela própria fatalidade da morte.
     Poder-se-ia acreditar que é a mulher que mais ardentemente se embriagou de sua beleza, de sua mocidade, quem conhece os piores desatinos; mas não; a narcisista preocupa-se demais com sua pessoa para não ter previsto a inelutável decadência e organizado posições de retirada. Sofrerá por certo com sua mutilação: mas não será pelo menos surpreendida e adaptar-se-á bastante depressa. A mulher que se esqueceu, que se dedicou, que se sacrificou será muito mais desnorteada pela súbita revelação: "Tinha só uma vida por viver; eis meu quinhão, agora!" Para espanto dos que a cercam, produz-se nela então uma mudança radical: desalojada de seus retiros, aTrancada a seus projetos, acha-se colocada subitamente, sem ter para que apelar, em face de si mesma. Ultrapassado este marco contra o qual s? chocou sem esperar, parece-lhe que não faz senão sobreviver a si mesma; seu corpo será sem promessa; os sonhos, os desejos que não realizou permanecerão para sempre insatisfeitos; é nesta nova perspectiva que se volta para o passado; é chegado o momento de traçar um risco, de fazer as contas; é a hora do balanço. Ela se apavora com as estreitas limitações que a vida lhe infligiu. Em face dessa história breve e decepcionante que foi a sua, reencontra as condutas da adolescente no limiar de um futuro ainda inacessível: recusa sua finidade; opõe à pobreza de sua existência a riqueza nebulosa de sua personalidade. Pelo fato de que, sendo mulher, suportou mais ou menos passivamente seu destino, parece-lhe que lhe roubaram suas possibilidades, que a enganaram, que escorregou da juventude para a maturidade sem ter tomado consciência disso. Descobre que seu marido, meio e ocupações não eram dignos de si; sente-se incompreendida. Isola-se do meio a que se considera superior; encerra-se com o segredo que traz no coração e é a chave misteriosa de sua sorte; procura tornar a ponderar as possibilidades que não esgotou. Põe-se a escrever um diário íntimo; se encontra confidentes compreensivos, expande-se em conversas indefinidas; e rumina dias e noites suas queixas e seus ressentimentos. Como a moça que sonha com o que será seu futuro, ela evoca o que poderia ter sido o seu passado; revê as oportunidades que deixou escapar e forja belos romances retrospectivos. H. Deutsch cita o caso de uma mulher que rompera, muito jovem, um casamento infeliz e passara em seguida longos anos tranquila ao lado de um segundo marido; com 45 anos, pôs-se a lamentar dolorosamente o primeiro marido e abismar-se na melancolia. As preocupações da infância e da puberdade reavivam-se, a mulher remói indefinidamente a história de seus jovens anos e sentimentos adormecidos pelos pais, os irmãos, as irmãs, amigos de infância, exaltam-se novamente. Por vezes, entrega-se a uma melancolia sonhadora e passiva. Mas, o mais das vezes, tenta bruscamente salvar sua existência falhada. Essa personalidade que acaba de descobrir por contraste com a mesquinhez de seu destino, ela a exibe, louva-lhe os méritos, reclama imperiosamente que lhe façam justiça. Amadurecida pela experiência, pensa que é capaz enfim de se valorizar; gostaria de recomeçar. Antes de tudo, procura deter o tempo num esforço patético. Uma mulher maternal afirma que pode ainda conceber; procura apaixonadamente criar vida mais uma vez. Uma mulher sensual esforça-se por conquistar um novo amante. A coquete mostra-se, mais do que nunca, ávida de agradar. Declaram todas que nunca se sentiram tão jovens. Querem per suadir os outros de que a passagem do tempo não as atingiu efetivamente, põem-se a "vestir-se como jovens", adotam mímicas infantis. A mulher que envelhece sabe muito bem que se deixa de ser um objeto erótico não é somente porque sua carne não oferece mais ao homem riquezas frescas: é também porque seu passado, sua experiência fazem dela, queira ou não, uma pessoa; lutou, amou, quis, sofreu, gozou por sua conta: esta autonomia intimida-a; procura renegá-la; exagera sua feminilidade, enfeita-se, perfuma-se, faz-se toda encanto, graça, pura imanência; admira com um olhar ingênuo e entonações infantis o interlocutor masculino, evoca com volubilidade suas recordações de menina; ao invés de falar, cacareja, bate palmas, ri às gargalhadas. É com uma espécie de sinceridade que representa essa comédia. Pois o interesse novo que dedica a si mesma, o desejo de se arrancar às antigas rotinas e de partir novamente dão-lhe a impressão de que recomeça.
     Em verdade, não se trata de uma partida verdadeira; ela não descobre, no mundo, objetivos para os quais possa projetar-se num movimento livre e eficiente. Sua agitação assume uma forma excêntrica, incoerente e vã porque só se destina a com pensar simbolicamente os erros e malogros do passado. Entre outras coisas, a mulher esforçar-se-á por realizar, antes que seja tarde demais, todos os seus desejos de criança e de adolescente: uma volta ao piano, outra à escultura, ou a escrever, a viajar, aprende a esquiar ou línguas estrangeiras. Tudo o que recusara voluntariamente até então, ela resolve — antes que seja tarde demais — acolher. Confessa sua repugnância por um marido que tolerava antes e torna-se fria nos seus braços; ou, ao contrário, entrega-se a ardores que refreava; acabrunha o marido com exigências, retorna à prática da masturbação, abandonada desde a infância. As tendências homossexuais — que existem de um modo larvar em quase todas as mulheres — manifestam-se. Muitas vezes, o alvo dessas tendências transfere-as para a filha; mas por vezes, também, é em relação a uma amiga que nascem sentimentos insólitos. Em sua obra Sex, life and faith, Rom Landau conta a história seguinte, que lhe foi confiada pela interessada:

   Mme X. . . aproximava-se dos 50 anos; casada há vinte e cinco, mãe de três filhos adultos, ocupando uma posição proeminente nas organizações sociais e caritativas de sua cidade, encontrou em Londres uma mulher dez anos mais jovem e que, como ela, se dedicava a atividades sociais. Tornaram-se amigas e Mlle Y. . . ofereceu-lhe hospedagem para a viagem seguinte. Mme X... aceitou e, na segunda noite de sua estada, surpreendeu-se subitamente beijando apaixonada mente sua hospedeira: afirmou várias vezes não ter tido a menor ideia de como a coisa acontecera; passou a noite com a amiga e voltou para casa aterrorizada. Até então ignorava tudo da homossexualidade, não sabia sequer que "semelhante coisa" pudesse existir. Pensava em Mlle Y... com paixão e, pela primeira vez na vida, achou as carícias e o beijo quotidiano do marido pouco agradáveis. Resolveu rever a amiga para "tirar a limpo" as coisas e sua paixão aumentou ainda; essas relações enchiam-na de alegrias que jamais conhecera. Mas sentia-se atormentada pela ideia de ter cometido um pecado e consultou um médico, a fim de saber se havia uma "explicação científica" para seu estado e se este podia ser justificado por algum argumento moral.

      Neste caso, o sujeito cedeu a um impulso espontâneo e ficou ele próprio profundamente desnorteado. Mas, muitas vezes, é deliberadamente que a mulher procura viver os romances que não conheceu, que dentro em breve não poderá mais conhecer. Afasta-se do lar, já porque lhe parece indigno dela, e que deseja a solidão, já porque busca a aventura. Se a encontra, lança-se a ela avidamente. Assim ocorre nesta história narrada por Stekel:

   Mme B. Z. tinha 40 anos, três filhos e atrás de si vinte anos de vida conjugal, quando começou a pensar que era incompreendida, que malograra na vida; dedicou-se a diversas atividades novas e, entre outras, esquiar nas montanhas; aí encontrou um homem de 30 anos, de quem se tornou amante; mas, dentro em breve, ele se apaixonou pela filha de Mme B. Z.; ela consentiu em que se casassem, para guardar junto de si o amante; havia entre a mãe e a filha um amor homossexual inconfessado, mas muito vivo, que explica em parte a decisão. Entretanto, a situação logo se tornou intolerável, o amante deixando algumas vezes o leito da mãe durante a noite para ir ter com a filha. Mme B. Z. tentou suicidar-se. Foi então — tinha 46 anos — que se tratou com Stekel. Decidiu-se por uma ruptura e a filha, por seu turno, renunciou a seu projeto de casamento. Mme B. Z. voltou a ser então uma esposa exemplar e abismou-se na devoção.

     A mulher sobre quem pesa uma tradição de decência e de honestidade nem sempre chega aos atos. Mas seus sonhos povoam-se de fantasmas eróticos que ela também suscita durante a vigília; manifesta uma ternura exaltada e sensual pelos filhos, nutre acerca do filho obsessões incestuosas, apaixona-se secretamente por um rapaz após outro; como a adolescente, é obceca da por ideias de violação; conhece igualmente a vertigem da prostituição; nela também a ambivalência de seus desejos e te mores engendra uma ansiedade que por vezes provoca neuroses: escandaliza seus parentes com condutas estranhas que, na verdade, traduzem sua vida imaginária.
     A fronteira entre o imaginário e o real é ainda mais indecisa nesse período turvo do que na puberdade. Um dos traços mais marcados na mulher que envelhece é o sentimento de despersonalização que a faz perder todos os pontos de referência objetivos. As pessoas que, em plena saúde, viram a morte de muito perto, dizem ter experimentado uma curiosa impressão de desdobramento; quando a gente se sente consciência, atividade, liberdade, o objeto passivo cuja fatalidade se joga apresenta-se  necessariamente como um outro: não é meu eu que um automóvel atropela; não sou eu essa mulher velha que o espelho reflete. A mulher que "nunca se sentiu tão jovem" e que nunca se viu tão idosa, não consegue conciliar esses dois aspectos de si mesma; é em sonho que o tempo passa, que a duração a corrói. Assim, a realidade dissipa-se e se ameniza: ao mesmo tempo não se distingue muito bem da ilusão. A mulher confia em suas evidências interiores, mais do que nesse estranho mundo em que o tempo avança recuando, em que seu duplo não se parece mais com ela, em que os acontecimentos a traíram. Por isso, está ela predisposta aos êxtases, às iluminações, aos delírios. E como o amor é então mais do que nunca sua preocupação essencial, é normal que se entregue à ilusão de que é amada. Nove em dez dos erotômanos são mulheres, quase todas de 40 a 50 anos.
     Entretanto, não é dado a toda gente transpor tão ousadamente o muro da realidade. Frustradas mesmo em seus sonhos, muitas mulheres procuram auxílio junto de Deus, contra todo o amor humano; é no momento da menopausa que a coquete, a apaixonada, a devassa se faz devota; as vagas ideias de destino, de segredo, de personalidade incompreendida, que a mulher acaricia à beira de seu outono, encontram na religião uma unidade racional. A devota considera sua vida malograda como uma provação enviada pelo Senhor; sua alma hauriu na desgraça méritos excepcionais que lhe outorgam a graça singular de ser visitada por Deus; ela acreditará de bom grado que o céu lhe envia iluminações ou até — como Mme Krüdener — que a encarrega piedosamente de uma missão. Tendo mais ou menos perdido o sentido do real, a mulher é acessível a todas as sugestões durante essa crise: um mentor está bem colocado para assumir uma ascendência profunda sobre sua alma. Ela colherá também com entusiasmo autoridades mais contestadas; é uma presa de antemão designada às seitas religiosas, aos espíritos, aos profetas, aos curandeiros, a todos os charlatães. Isso não somente porque perdeu todo senso crítico, ao perder o contato com o mundo dado, mas ainda porque é ávida de uma verdade definitiva. Precisa de um remédio, de uma fórmula, da chave que bruscamente a salvará, salvando o universo. Despreza mais do que nunca uma lógica que evidentemente não poderia aplicar-se a seu caso singular; só lhe parecem convincentes os argumentos que lhe são especialmente destinados: as revelações, as inspirações, as mensagens, os sinais, e até os milagres põem-se a florescer ao redor dela. Suas descobertas levam-na por vezes aos caminhos da ação: lança-se a negócios, empresas, aventuras cuja ideia lhe foi insuflada por algum conselheiro ou alguma voz interior. Por vezes, limita-se a sagrar-se detentora da verdade e da sabedoria absoluta. Ativa ou contemplativa, sua atitude acompanha-se de exaltações febris. A crise da menopausa corta em dois, brutalmente, a vida feminina; é essa descontinuidade que dá à mulher a ilusão de uma "vida nova"; é outro tempo que se abre diante dela; aborda-o com o fervor da convertida, convertida ao amor, à vida, a Deus, à humanidade; nestas entidades, perde-se e magnifica-se. Morreu e ressuscitou, encara a terra com um olhar que desvendou os segredos do além e crê levantar voo para píacaros intatos.
     Mas a terra não muda; os cimos continuam inatingíveis; as mensagens recebidas — ainda que numa deslumbrante evidência — decifram-se mal; as luzes interiores apagam-se; sobra diante do espelho uma mulher que envelheceu de mais um dia desde a véspera. Aos momentos de fervor sucedem mornas horas de de pressão. O organismo indica esse ritmo, pois a diminuição hormônica é compensada por uma superatividade da hipófise; mas é principalmente a situação psicológica que comanda essa alternância. Porque a agitação, as ilusões, o fervor são apenas uma defesa contra a fatalidade do que foi. Novamente a angústia sufoca quem já tem a vida consumida sem que a morte a acolha. Em lugar de lutar contra o desespero, ela escolhe frequente mente intoxicar-se com ele. Remói queixas, saudades e recriminações; imagina maquinações tenebrosas da parte dos vizinhos e dos parentes; se tem uma irmã ou uma amiga de sua idade associada a sua vida, constroem por vezes, em conjunto, delírios de perseguição. Mas principalmente põe-se a alimentar contra o marido um ciúme mórbido: tem ciúme dos amigos, das irmãs, do trabalho dele; e, com ou sem razão, acusa alguma rival de ser responsável por todos esses males. É entre 50 e 55 anos que os casos patológicos de ciúmes são mais numerosos.

continua página 349...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo V - Da Maturidade à Velhice (1)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

domingo, 21 de junho de 2026

Cinema: Os Órfãos

Drama


O escritor Aleksei Bartenev retorna à cidade onde passou a infância com o desejo de reencontrar seus dois irmãos, de quem não se lembra mais. O rapaz perdeu os pais durante a Segunda Guerra Mundial, quando tinha apenas 1 ano de idade. O filme tem certo tom autobiográfico, já que o ator e diretor Nikolai Gubenko também perdeu os pais no início da guerra e passou a infância em um orfanato.


Os Órfãos 92 min /  Direção e roteiro: Nikolai Gubenko Música: Vladislav Panchenko Produção: Mosfilm
Data de lançamento : 20 de junho de 1977


"Crianças e guerra, não há confronto pior", disse Aleksandr Tvardovski . Também para os cineastas, considera Jacqueline Lajeunesse, que escreve: “raros são os que têm o talento para recriar o mundo da infância e ligá-lo ao mundo adulto com sobriedade efetiva. " O filme Nikolai Gubenko, continua ela, "é uma meditação séria e sensível sobre a infância, (...) uma denúncia constante das consequências monstruosas da guerra" e "crítica rápida, mas dura" do regime soviético da época. E, sem dúvida, “para exorcizar a sua dolorosa memória, Goubenko assumiu o papel de um educador inclinado à severidade, mas que, depois de espancar uma criança nas garras da raiva, não consegue conter as lágrimas."






Sinopse com dicas do filme, 
talvez seja melhor ler após assistir ao filme, 
apenas uma sugestão...


O filme começa com uma epígrafe citando o escritor Alexander Tvardovsky: “Crianças e guerra - não há mais horrível convergência de opostos no mundo”. O escritor Alexey Bartenev retorna à cidade onde passou a infância. Tendo crescido em um orfanato depois de perder seus pais durante a guerra - seu pai morreu na linha de frente e sua mãe se suicidou quando Alexey ainda era um bebê - ele embarca em uma missão para se reconectar com seu passado. Sua busca se concentra em encontrar seus dois irmãos, dos quais ele não se lembra. Por meio de registros arquivísticos, ele descobre o destino de seus irmãos. Sua irmã, Natasha, faleceu em 1947. Seus irmãos mais velhos foram adotados por famílias diferentes: Sergey Pogartsev se tornou um criminoso habitual e estava cumprindo sua terceira sentença de prisão quando Alexey o encontrou. Enquanto isso, Denis Kuskov, o irmão do meio, foi adotado por um alto funcionário do Partido e cresceu com relativo conforto, ao contrário do resto de sua família. Natasha já havia visitado Denis, mas teve uma recepção fria, cujos detalhes ela optou por não compartilhar com Alexey. Quando Alexey tentou conhecer o próprio Denis, Denis fingiu ignorar a conexão deles. Anos depois, já adulto, Denis admitiu que se lembrava de tudo e lamentou seu comportamento. O filme narra as memórias fragmentadas de Alexey de uma infância dura do pós-guerra em Odessa. As cenas incluem Alexey, fingindo ser mudo, se unindo a um grupo de crianças de rua e sua irmã Natasha para trocar um gramofone roubado por um pedaço de pão. Em outro episódio, as crianças tentam roubar comida de um apartamento distraindo uma mulher com uma galinha. Natasha oferece a diversão enquanto Alexey entra sorrateiramente no apartamento pela varanda. No entanto, um vizinho que é policial pega Alexey e o entrega a um abrigo estadual para órfãos. Determinada a ficar junto, Natasha se junta voluntariamente ao irmão no orfanato. O filme termina com uma narração lendo trechos do poema “Pelo infortúnio ou pela felicidade”, de Gennady Shpalikov, capturando o tom sombrio da história de Alexey e as cicatrizes duradouras da guerra e da perda.

Elenco:
Juozas Budraitis : Aleksei Bartenev
Aleksey Tcherstov : Alecha Bartenev (como Alyosha Cherstvov)
Aleksandr Kaliaguine : Denis KouskovGeorgi Burkov : Sergei
Janna Bolotova : Alya Konstantinovna
Yevgeny Evstigneyev : a vigília
Nikolai Goubenko : Grigoriy Albertovich Krivorutchko
Rolan Bykov : Gromov
Natalia Gundareva : Tassia
Zoia Yevseïeva : Valka Gandin
Boukhouti Zakariadze
: diretor da escola (como Bukhuti Zaqariadze)
Panteleymon Krymov : Sergey Makarovich (como Pantelejmon Krymov)
Viktor Filippov
: Filippov
Valentina Berezutskaya : Valyusha
Daniil Netrebin : Danya
Gogi Kavtaradze : professor de educação física
Lyudmila Shagalova : Nina Grigoryevna
Mikheil Kherkheulidze
: Velho
Nikolay Volkov : tio Kolya
Dmitry Bessonov
: Vadim Fedotovich
Olga Strogova : Natacha
Aleksandr Polyakov
: Sashka "Bolt" Polyakov
Andrei Boldin : ala do orfanato

A Morte e a Donzela / Vá e Veja / Elas por Elas / O Samurai Corvo Errante / O Caso Collini / Meu Vizinho Adolf /
O Vento Silencioso da Montanha / Eles Não Usam Black Tie / O Homem Que Copiava
Sonata de Outono / Música da Alma / No Fim do Arco-Íris / Vidas Secas / O som ao redor /
A Estrada da Vida / Fuga pela Fronteira / Os Invisíveis / Depois de Horas / Jovens Mães /
O Carteiro e o Poeta / Sonhos / 1900 / Dersu Uzala / Hamnet (Trailer) / Vinhas da Ira / O Leitor / A Surpresa /
Kagemusha: O Guerreiro das Sombras / Blow Up / Profissão: Repórter / Rebecca: A Mulher Inesquecível /
O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /
Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres / 1984
Amar não tem preço / João Sem Medo / Noel, Poeta da Vila / Os Órfãos /        

Carta a Meneceu

Epicuro

Sobre a felicidade


Meneceu, saudações.

     Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou, ou que já passou a hora de ser feliz.
     Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la.
     Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

     Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.
     Os deuses de fato existem e é evidente o conhecimento que temos deles; já a i magem que deles faz a maioria das pessoas, essa não existe: as pessoas não costumam preservar a noção que têm dos deuses. Ímpio não é quem rejeita os deuses em que a maioria crê, mas sim quem atribui aos deuses os falsos juízos dessa maioria.
     Com efeito, os juízos do povo a respeito dos deuses não se baseiam em noções inatas, mas em opiniões falsas. Daí a crença de que eles causam os maiores malefícios aos maus e os maiores benefícios aos bons. Irmanados pelas suas próprias virtudes, eles só aceitam a convivência com seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles.

     Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo o bem e todo o mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.
     Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo portanto quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera: aquilo que não nos perturba quando presente não deveria afligir-nos enquanto está sendo esperado.
     Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.
     O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; viver não é um fardo e não-viver não é um mal.

     Assim como opta pela comida mais saborosa e não pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.
     Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem não passa de um tolo, não só pelo que a vida tem de agradável para ambos, mas também porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda é aquele que diz: bom seria não ter nascido, mas uma vez nascido, transpor o mais depressa possível as portas do Hades.
     Se ele diz isso com plena convicção, por que não vai desta vida? Pois é livre para fazê-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi frívolo em falar de coisas que brincadeira não admitem.
     Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais.

     Consideremos também que, dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há alguns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que esta é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo.
     Uma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo, não tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a não ser o bem da alma e do corpo, estará satisfeito. De fato, só sentimos necessidade do prazer quando sofremos sua ausência; ao contrário, quando não sofremos, essa necessidade não se faz sentir.

     É por essa razão que afirmamos que o prazer é o início e o fim de uma vida feliz. Com efeito, nós o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em razão dele praticamos toda escolha ou recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distinção entre prazer e dor.
     Embora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: há ocasiões em que evitamos muitos prazeres, quando deles advêm efeitos o mais das vezes desagradáveis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos preferíveis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo.
     Portanto, todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas de vem ser evitadas. Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem.

     Consideramos ainda a autos suficiência um grande bem; não que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso não tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abundância os que menos dependem dela; tudo o que é natural é fácil de conseguir; difícil é tudo o que é inútil.
     Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.
     Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte.

     Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma.
     Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos.
     De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade.
     Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas.

     Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, já que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o louvor?
     Mais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperança do perdão dos deuses através das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino é uma necessidade inexorável.
     Entendendo que a sorte não é uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus não faz nada ao acaso), nem algo incerto, o sábio não crê que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o início de grandes bens e de grandes males. A seu ver, é preferível ser desafortunado e sábio, a ser afortunado e tolo; na prática, é melhor que um bom projeto não chegue a bom termo, do que chegue a ter êxito um projeto mau.

     Medita, pois, todas essas coisas e muitas outras a elas congêneres, dia e noite, contigo mesmo e com teus semelhantes, e nunca mais te sentirás perturbado, quer acordado, quer dormindo, mas viverás como um deus entre os homens. Porque não se assemelha absolutamente a um mortal o homem que vive entre bens imortais.

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Para Epicuro, o propósito da filosofia era alcançar uma vida feliz e tranquila, caracterizada pela ataraxia paz e liberdade do medo , pela aponia a ausência de dor e por viver uma vida autossuficiente cercada de amigos. Ensinou que o prazer e a dor são as medidas do que é bom e do que é mau, que a morte é o fim do corpo e da alma e não deve ser temida, que os deuses não recompensam nem punem os humanos, que o universo é infinito e eterno e os eventos no mundo baseiam-se, em última instância, nos movimentos e interações dos átomos que se movem no espaço vazio. Ele nos deixou apenas três cartas: a primeira, Carta a Heródoto, apresenta sua metafísica a segunda, Carta a Pítocles, explica fenômenos meteorológicos atômicos a terceira e mais importante, Carta a Meneceu, formula sua filosofia ética e é um verdadeiro manual de felicidade. A "Carta sobre a Felicidade" é uma obra que continua a ressoar na busca contemporânea pela felicidade. As lições de Epicuro sobre prazer equilibrado, tranquilidade e amizade oferecem um guia prático para aqueles que desejam viver uma vida mais significativa e feliz. A filosofia epicurista nos convida a refletir sobre nossos desejos e a buscar uma vida equilibrada, onde a verdadeira felicidade é encontrada na simplicidade e na sabedoria como conduzir a própria vida.