quinta-feira, 23 de abril de 2026

Cinema: Morangos Silvestres

Ingmar Bergman


''Quando fico preocupado ou triste, tento relaxar com as lembranças da minha infância, foi o que fiz essa noite''.

Morangos Silvestres é um clássico sueco de 1957 dirigido por Ingmar Bergman, que acompanha o professor idoso Isak Borg em uma viagem reflexiva sobre a vida e a existência. O elenco inclui Victor Sjöström, no que seria sua última aparição em um filme, como o personagem principal, e vários atores que são recorrentes nos filmes de Bergman, como Bibi Andersson, Ingrid Thulin, Gunnar Björnstrand e Max von Sydow. O cineasta escreveu o roteiro logo após a estreia de O Sétimo Selo (1957) enquanto estava hospitalizado em Estocolmo. O título original, em sueco, refere-se ao lugar (stället) onde se encontram morangos silvestres (smultron).



Para ver o filme clique AQUI.





"O Dr. Isak Borg (Victor Sjöström) é um professor idoso que aos 78 anos deve frequentar a Universidade de Lund para a celebração da sua nomeação com o doutor honoris causa. Na noite anterior à sua partida, o professor sofre um pesadelo em que se perde em um bairro deserto, onde encontra um carro fúnebre puxado a cavalo colidindo com um poste de luz. O veículo carrega um corpo que se parece com o de Isak, que estende a mão para segurar seu sósia, o que causa o fim do sonho. Ao acordar acordado, Borg decide fazer a viagem de carro em vez de avião, como sua governanta, Agda (Jullan Kindahl), havia combinado fazendo ambos brigarem. A esposa de seu filho Evald; Marianne (Ingrid Thulin); morava com ele há algumas semanas, decide acompanhá-lo até Lund."


Direção:
Ingmar Bergman

Roteirista:
Ingmar Bergman

Elenco:
Victor Sjöström - Dr. Eberhard Isak Borg
Bibi Andersson - Sara/Hitchhiker
Ingrid Thulin - Marianne Borg
Gunnar Björnstrand - Dr. Evald Borg
Jullan Kindahl - Agda
Folke Sundquist - Anders
Björn Bjelfvenstam - Viktor
Naima Wifstrand - Mrs. Borg - Mãe de Isak
Gunnel Broström - Berit Alman
Gertrud Fridh - Karin Borg - Esposa de Isak
Sif Ruud - Tia Olga
Gunnar Sjöberg - Sten Alman/O Examinador
Max von Sydow - Henrik Åkerman
Åke Fridell - Amante de Karin
Yngve Nordwall - Tio Aron
Per Sjöstrand - Sigfrid Borg
Gio Petré - Sigbritt Borg
Gunnel Lindblom - Charlotta Borg
Maud Hansson - Angelica Borg
Ann-Marie Wiman - Eva Åkerman
Eva Möller - Anna Borg
Lena Bergman - Kristina Borg
Monica Ehrling - Birgitta Borg
Else Fisher - Isak Borg's Mother
Peder Hellman - O Bebê de Sigbritt (não creditado)
Ulf Johansson - Mr. Borg - pai de Isak (não creditado)
Göran Lundquist - Benjamin Borg (não creditado)
Josef Norman - Professor Tiger (não creditado)
Gunnar Olsson - Bishop (não creditado)
Vendela Rudbäck - Elisabeth - Mrs. Borg's Housemaid (não creditado)
Per Skogsberg - Hagbart Borg (não creditado)
Helge Wulff - O Gerente (não creditado)


Barrabás / O Baile / Ladrões de bicicleta / Vlado - 30 anos depois / Morangos Silvestres /      


_________________________

Um clássico do cinema





Espumas Flutuantes - O coração

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O CORAÇÃO
  
O coração é o colibri dourado 
 Das veigas puras do jardim do céu. 
 Um — tem o mel da granadilha agreste, 
 Bebe os perfumes, que a bonina deu. 

O outro — voa em mais virentes balsas, 
 Pousa de um riso na rubente flor. 
 Vive do mel — a que se chama — crenças —, 
 Vive do aroma — que se diz — amor. — 

 Recife, 1865 


MURMÚRIOS DA TARDE 
Écoute! tout se tait; songe à ta bien aimée, 
 Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée, 
 Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux; 
 Ce soir, tout va fleurir: l’immortelle nature 
 Se remplit de parfums, d’amour et de murmure, 
 Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.¹ 
 Alfred de Musset Rosa! 

Rosa de amor purpúrea e bela. 
 Garrett 

Ontem à tarde, quando o sol morria, 
 A natureza era um poema santo. 
 De cada moita a escuridão saía, 
 De cada gruta rebentava um canto, 
 Ontem à tarde, quando o sol morria. 

Do céu azul na profundeza escura 
 Brilhava a estrela, como um fruto louro, 
 E qual a foice, que no chão fulgura, 
 Mostrava a lua o semicírc’lo d’ouro, 
 Do céu azul na profundeza escura. 

Larga harmonia embalsamava os ares! 
 Cantava o ninho — suspirava o lago... 
 E a verde pluma dos sutis palmares 
 Tinha das ondas o murmúrio vago... 
 Larga harmonia embalsamava os ares. 

Era dos seres a harmonia imensa 
 Vago concerto de saudade infinda! 
 “Sol — não me deixes” diz a vaga extensa. 
 “Aura — não fujas” diz a flor mais linda; 
 Era dos seres a harmonia imensa! 

“Leva-me! leva-me em teu seio amigo” 
 Dizia às nuvens o choroso orvalho, 
 “Rola que foges” diz o ninho antigo, 
 “Leva-me ainda para um novo galho... 
 “Leva-me! leva-me em teu seio amigo.” 

“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!” 
 “Inda um calor, antes que chegue o frio...
” E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio... 
 “Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!” 

E tu no entanto no jardim vagavas, 
 Rosa de amor, celestial Maria... 
 Ai! como esquiva sobre o chão pisavas, 
 Ai! como alegre a tua boca ria... 
 E tu no entanto no jardim vagavas. 

Eras a estrela transformada em virgem! 
 Eras um anjo, que se fez menina! 
 Tinhas das aves a celeste origem. 
 Tinhas da lua a palidez divina, 
 Eras a estrela transformada em virgem! 

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto. 
 Que bela rosa! que fragrância meiga! 
 Dir-se-ia um riso no jardim aberto, 
 Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga... 
 Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!... 

E eu, que escutava o conversar das flores, 
 Ouvi, que a rosa murmurava ardente: 
 “Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores, 
 “Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...” 
 E eu escutava o conversar das flores. 

“Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!” 
 Também então eu murmurei cismando... 
 “Minh’alma é rosa, que a geada esfria... 
 “Dá-lhe em teus seios um asilo brando... 
 “Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!...” 

 Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869 


[1] Escuta! Tudo está em silêncio; pensa em teu amado,
     Esta noite, sob as tílias, no dossel sombrio,
     O raio do sol poente deixa uma despedida mais doce;
     Esta noite, tudo florescerá: a natureza imortal
     Enche-se de perfumes, amor e murmúrios,
     Como o leito alegre de dois jovens esposos.


continua pag 52...
____________________

No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração /               
________________

Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO III
A   VIDA SOCIAL


     Se a toalete tem, para muitas mulheres, importância tão considerável é porque ela lhes entrega ilusoriamente, e ao mesmo tempo, o mundo e seu próprio eu. Um romance alemão, A Moça em Seda Artificial, de I. Keun, conta a paixão de uma moça pobre por um casaco de petigris; aprecia-lhe com sensualidade o calor acariciante, a ternura forrada; sob as peles preciosas é a si própria transfigurada que ama; possui enfim a beleza do mundo que nunca abraçara e o destino radioso que nunca fora o seu.

   E eis que vi um casaco suspenso a um gancho, uma pele tão mole, tão doce, tão terna, tão cinzenta, tão tímida; tinha vontade de beijá-la, a tal ponto a amava. Ela tinha um ar de consolo e de Todos os Santos e de segurança completa, como um céu. Era um petigris verdadeiro. Silenciosamente tirei o impermeável e enverguei o petigris. Essa pele era como um diamante para minha pele que a amava e o que se ama não se devolve quando se tem. Por dentro, um forro de crepe marroquino, pura seda, com bordados a mão. O casaco envolvia-me e falava mais do que eu ao coração de Hubert.. . Fico tão elegante com essa pele. É como um homem raro, que me tornaria preciosa através de seu amor por mim. Esse casaco me quer e eu o quero: nós nos possuímos.

     Sendo a mulher um objeto, compreende-se que a maneira pela qual se enfeita e se veste modifica seu valor intrínseco. Já não é mais pura futilidade se dá tamanha importância à meia de seda, às luvas, ao chapéu: sustentar sua posição é uma obrigação imperiosa. Nos Estados Unidos, uma enorme parte do orçamento da trabalhadora é consagrada aos cuidados com a beleza e os vestidos; na França, esse fardo é menos pesado; entretanto, a mulher é tanto mais respeitada quanto melhor "representa". Quanto maior sua necessidade de achar trabalho, mais lhe é útil ter um aspecto confortável: a elegância é uma arma, um cartaz, um motivo de respeito, uma carta de recomendação.
     É uma servidão; os valores que conferem, pagam-se; pagam-se tão caro que, por vezes, um inspetor de polícia surpreende nas grandes lojas uma mulher da sociedade ou uma atriz roubando perfumes, meias de seda, roupa branca. É para se vestir que muitas mulheres se prostituem ou arranjam quem "as ajude"''; e a toaleíe que lhes determina as necessidades de dinheiro. Andar bem vestida reclama também tempo e cuidados; é uma tarefa que é, por vezes, fonte de alegrias positivas: neste terreno também há descoberta de "tesouros escondidos", pechinchas, ardis, combinações, invenção; hábil, pode a mulher tornar-se até criadora. Os dias de exposição, de liquidações principalmente, são aventuras frenéticas. Um vestido novo é por si só uma festa. A maquilagem, o penteado são o sucedâneo de uma obra de arte. Hoje, mais do que outrora, a mulher conhece a alegria de modelar o corpo pelos esportes [1], a ginástica, os banhos, as massagens, os regimes; ela decide de seu peso, de sua linha, da cor de sua pele; a estética moderna permite-lhe integrar qualidades ativas em sua beleza: tem o direito a músculos exercitados, impede a invasão da gordura; na cultura física ela se afirma como uma pessoa; há, para ela, uma espécie de libertação da carne contingente; mas essa libertação retorna facilmente à dependência. A "estrela" de Hollywood triunfa sobre a natureza, mas reencontra-se como objeto passivo nas mãos do produtor.

[1] Parece entretanto, segundo inquéritos recentes, que na França os ginásios femininos se acham hoje quase desertos; foi principalmente em 1920-1940 que as francesas se entregaram à cultura física. Atualmente as dificuldades caseiras pesam demais sobre elas.

     Ao lado dessas vitórias em que a mulher pode com razão comprazer-se, o coquetismo implica — como os cuidados caseiros — uma luta contra o tempo; pois seu corpo é também um objeto que a duração rói. Colette Audry descreve esse combate simétrico desse corpo que, em sua casa, a mulher entrega à poeira (On joue perdant).

   Já não era mais a carne compacta da mocidade; ao longo dos braços e das coxas o desenho dos músculos acentuava-se sob a camada de gordura e de pele um pouco distendida. Inquieta, ela modificou novamente o emprego do tempo: o dia começaria com uma hora de ginástica e à noite, antes de se deitar, haveria um quarto de hora de massagem. Pôs-se a consultar manuais de medicina, jornais de modas, a controlar a cintura. Preparou sucos de frutas, purgou-se de quando em quando, lavou a louça com luvas de borracha. Suas duas preocupações fizeram-se uma só: rejuvenescer tão bem o corpo, polir tão bem a casa que chegaria, um dia, a um período de calma absoluta, a uma espécie de ponto morto... O mundo estaria parado, suspenso fora do envelhecimento e do desgaste... Tomava agora na piscina verdadeiras lições para melhorar o estilo e as revistas de beleza mantinham-na numa expectativa inquieta com receitas indefinidamente renovadas. Ginger Rogers confia-nos: "Dou, todas as manhãs, cem escovadelas em mim mesma, leva exatamente dois minutos e meio e tenho cabelos de seda". .. Como adelgaçar os tornozelos? Erga-se todos os dias trinta vezes nas pontas dos pés sem apoiar os calcanhares, o exercício exige apenas um minuto; que é um minuto por dia? De outra feita, era o banho de óleo para as unhas, o creme de limão para as mãos, morangos esmagados para as faces.

     Também aqui a rotina transforma em corveias os cuidados com a beleza, o trato das roupas e vestidos. O horror à degradação, que todo vir a ser vivo acarreta, suscita em certas mulheres frias ou frustradas o horror à própria vida: elas procuram conservar-se como outras conservam os móveis e as geleias; essa obstinação negativa torna-as inimigas de sua própria existência e hostis a outrem: as boas refeições deformam a linha, o vinho estraga a tez, sorrir demais enruga o rosto, o sol mancha a pele, o repouso engorda, o trabalho desgasta, o amor dá olheiras, os beijos inflamam as faces, as carícias deformam os seios, os abraços fazem a pele murchar, maternidade enfeia o rosto e o corpo; sabe-se quantas mães afastam com raiva o filho maravilhado com o vestido de baile. "Não me toques, estás com as mãos suadas, vais sujar-me"; a coquete opõe as mesmas advertências às atenções do marido ou do amante. Assim como se cobrem os móveis com capas de pano, ela gostaria de se subtrair aos homens, ao mundo, ao tempo. Mas todas essas precauções não impedem o aparecimento de cabelos brancos, de pés-de-galinha. Desde a mocidade, a mulher sabe que esse destino é inelutável. E apesar de toda a sua prudência, é vítima de acidentes: uma gota de vinho cai no vestido, um cigarro queima-o; então desaparece a criatura de luxo e festa que se pavoneava sorridente no salão: seu rosto toma o ar sério e duro da dona de casa; descobre-se repentinamente que sua toalete não era uma girândola, um fogo de artifício, um esplendor gratuito e perecível destinado a iluminar generosamente um instante: é uma riqueza, um capital, um investimento; custou sacrifícios, sua perda é um desastre irreparável. Manchas, rasgões, vestidos falhados, permanentes mal feitas são catástrofes ainda mais graves do que um assado queimado ou um vaso quebrado: porque a coquete não se alienou somente nas coisas, ela se quis coisa, e é sem intermediário que se sente em perigo no mundo. As relações que mantém com a costureira e a modista, suas impaciências, suas exigências revelam seu espírito de seriedade e de insegurança. O vestido bem feito cria nela a personagem de seu sonho; mas numa toalete sem viço, falhada, ela sente-se degradada.

   Do vestido dependia meu humor, minha atitude, a expressão de meu rosto, tudo. . . escreve Maria Bashkirtseff. E ainda: Ou cumpre passear nua ou vestir-se de acordo com o físico, o gosto e o caráter. Quando não me acho nessas condições, sinto-me desajeitada, vulgar e, por conseguinte, humilhada. Que acontece ao humor e ao espírito? Pensam nos trapos e a gente fica tola, aborrecida, não sabe onde se enfiar.

     Muitas mulheres preferem renunciar a uma festa a se apresentarem mal vestidas, ainda que não devam ser notadas.
     Entretanto, embora algumas afirmem: "Eu me visto só para mim mesma, vimos que o olhar de outrem se acha implicado no narcisismo. É quase que somente nos hospícios que as coquetes nutrem obstinadamente uma fé total em olhares ausentes; normalmente, elas reclamam testemunhas.

   Gostaria de agradar, que dissessem que sou bela e que Liova o visse e ouvisse... Para que serviria ser bela? Meu encantador pequeno Petia gosta de sua velha "niannia" como se amasse uma beleza e Liovotchka se teria acostumado ao rosto mais horrível... Tenho vontade de ondular meus cabelos. Ninguém o saberá_ mas nem por isso será menos delicioso. Que necessidade tenho de que me vejam? As fitas e os laços me agradam, gostaria de ter um novo cinto de couro e agora que escrevi isto tenho vontade de chorar, escreve Sofia Tolstoi, depois de dez anos de casada.

     O marido desobriga-se mal do que a mulher espera dele. Suas exigências são dúplices. Se a mulher é demasiado atraente, ele tem ciúme; entretanto, todo marido é mais ou menos o Rei Candaule; quer orgulhar-se da mulher; quer que seja elegante, bonita, "bem" pelo menos; sem o quê, dir-lhe-á agastado as palavras do Pai Ubu: "Estás bem feia, hoje! Será porque temos visitas?" No casamento, já o vimos, os valores eróticos e sociais conciliam-se mal. Esse antagonismo reflete-se aqui. A mulher que acentua seu encanto sexual conduz-se mal aos olhos do marido; ele censura ousadias que o seduziram numa estranha e essa censura mata nele todo desejo; se a mulher se veste com decência, ele a aprova, mas com frieza: não a acha bastante atraente e como que lhe censura de modo vago. Por causa disso, olha-a raramente por sua própria conta, é através de olhos alheios que a inspeciona. "Que dirão dela?" Prevê mal, porque atribui a outrem sua perspectiva de marido. Nada mais irritante para uma mulher do que o ver apreciar numa outra as atitudes que critica nela. Espontaneamente, de resto, está próximo demais dela para vê-la; ela tem para ele uma fisionomia imutável; ele não nota nem as novas toaletes nem as mudanças de penteado. Mesmo um marido amoroso ou um amante apaixonado são indiferentes à toalete da mulher. Se a amam ardentemente em sua nudez, os mais belos adornos não fazem senão mascará-la; eles a amarão malvestida, cansada tanto quanto brilhante. Se não mais a amam, os mais lisonjeiros vestidos serão sem promessas. A toalete pode ser um instrumento de conquista, mas não uma arma defensiva; sua arte consiste em criar miragens, oferece ao olhar um objeto imaginário: no amplexo carnal, na convivência quotidiana, toda miragem se dissipa; os sentimentos conjugais, como o amor físico, situam-se no terreno da realidade. Não é para o homem amado que a mulher se veste. Dorothy Parker, em uma de suas novelas, The lovely leave, descreve uma jovem mulher que, esperando com impaciência o marido que chega de licença, resolve fazer-se bela para recebê-lo: 

   Comprou um vestido novo; preto; êle gostava de vestidos pretos; simples, ele gostava de vestidos simples; e tão caro que não queria pensar no preço. . . 
— ... Gostas de meu vestido? 
— Sim! — disse ele. — Sempre gostei de você com esse vestido. 
   Foi como se ela se tivesse transformado num pedaço de pau. 
— Este vestido — respondeu ela, articulando com uma nitidez insultante — é novo em folha. Nunca o usei. Caso te interesse, comprei-o de propósito para esta circunstância. 
— Desculpa, querida. Naturalmente, vejo agora que não se assemelha absolutamente ao outro; é magnífico; gosto de você sempre de preto. 
— Em momentos como este — disse ela — quase desejo ter outro motivo para me vestir de preto. 

continua página 305...
_______________

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Vida Social (2)   
______________________

As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 1: Seção III)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 1
Das ideias, sua origem, composição, 
conexão, abstração, etc.

Seção III
Das ideias da memória e da imaginação


     Constatamos pela experiência que, quando uma impressão esteve presente na mente, volta lá a aparecer sob a forma de ideia, podendo isto acontecer de duas maneiras diferentes: ou ela, no seu novo aparecimento, conserva um grau considerável da vivacidade primitiva, sendo algo intermédio entre impressão e ideia; ou perde totalmente essa vivacidade e é uma ideia perfeita. As faculdades mediante as quais repetimos as nossas impressões de cada uma destas maneiras, chamam-se respectivamente MEMÓRIA e IMA GINAÇÃO. É imediatamente evidente que as ideias da memória são muito mais vivazes e mais fortes do que as da imaginação, e que a primeira destas faculdades pinta os seus objetos com cores mais nítidas do que as empregadas pela segunda. Quando recordamos um acontecimento passado, a ideia dele penetra na mente com força; enquanto que na imaginação a percepção é tênue e apagada e não é sem dificuldade que a mente a pode conservar, por tempo considerável, firme e uniforme. Aqui temos uma diferença sensível entre uma e outra espécie de ideias. Mas este assunto será desenvolvido mais adiante¹.

[1] Parte III, Secção V.

     Outra diferença, não menos evidente, entre estas duas espécies de ideias é a seguinte: embora nem as ideias da memória nem as da imaginação, nem as ideias vivazes nem as tênues possam aparecer na mente enquanto as impressões correspondentes não se anteciparem a preparar-lhes o caminho, contudo a imaginação não fica sujeita à mesma ordem e forma que as impressões originais; pelo contrário, a memória sob este aspecto fica de certo modo presa, sem qualquer poder de variação.     
     É evidente que a memória conserva a forma original na qual se apresentaram os seus objetos e que, sempre que nos afastamos dela, ao recordarmos alguma coisa, tal se deve a qualquer defeito ou imperfeição nessa faculdade. Pode talvez suceder que um historiador, com o fim de proceder mais adequadamente à sua narração, relate um acontecimento antes de outro que na realidade lhe é anterior; mas depois, se for rigoroso, dá-se conta desta desordem e assim repõe a ideia na sua posição correta. É idêntico o caso quando recordamos lugares e pessoas de que anteriormente tomamos conhecimento. O papel principal da memória consiste em reter não as ideias simples, mas sim a ordem e posição delas. Em suma, este princípio apoia-se num número tal de fenômenos correntes e comuns, que podemos dispensar-nos do esforço de insistir mais nele.
     Encontramos a mesma evidência para o nosso segundo princípio, o da liberdade que a imaginação tem para transpor e alterar as suas ideias. As fábulas que encontramos nos poemas e romances põem-no fora de toda a discussão. Nestes a natureza é inteiramente confundida pois só se fala de cavalos com asas, dragões de fogo e gigantes monstruosos. Esta liberdade da fantasia não parecerá estranha, considerando que todas as nossas ideias são copiadas das nossa impressões e que não há duas impressões que sejam perfeitamente inseparáveis. É desnecessário mencionar que isto é uma consequência evidente da divisão das ideias em simples e complexas. Sempre que a imaginação nota diferença entre as ideias, facilmente pode produzir uma separação.

continua na página 43...
______________

Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Seção I / Seção II / Seção III /   
___________________

4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - A fisionomia da região nos parecia toda mudada)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     A fisionomia da região nos parecia toda mudada, de tanto que a noção do espaço está longe de ser a que desempenha o maior papel na imagem topográfica que formamos de cada uma delas. Dissemos que a do tempo as afasta ainda mais. E ela também não será a única. Certos lugares que vemos sempre isolados nos parecem não ter medida comum com o resto, quase fora do mundo, como essas pessoas a quem conhecemos em períodos à parte da nossa vida, no regimento, na nossa infância, e que não relacionamos com coisa alguma. No primeiro ano da minha temporada em Balbec, existia uma elevação a que a Sra. de Villeparisis gostava de nos levar, porque dali só se via a água e os bosques, e que se chamava Beaumont. Como o caminho pelo qual ela mandava seguir para lá chegar, e que achava ser o mais bonito devido às velhas árvores, era o tempo todo em aclive, os cavalos do seu carro iam a passo e levavam muito tempo. Uma vez chegados ao alto, descíamos, passeávamos um pouco, voltávamos a subir para o carro, e regressávamos pelo mesmo caminho sem ter encontrado nenhuma aldeia, nenhum castelo. Eu sabia que Beaumont era algo de muito curioso, muito longínquo, muito altaneiro, e não tinha a mínima idéia da direção em que se encontrava, pois jamais tomara o caminho de Beaumont para ir a outro lugar; aliás, levava-se muito tempo de carro para chegar até lá. Evidentemente fazia parte do mesmo departamento (ou da mesma província) de Balbec, mas, para mim, estava situado num plano diverso, gozava de um privilégio especial de extraterritorialidade. Mas o automóvel, que não respeita nenhum mistério, depois de ter passado por Incarville, cujas casas eu ainda levava nos olhos, como descêssemos a costa pelo atalho que vai dar em Parville (Paterni villa), avistando o mar de um terrapleno onde estávamos, perguntei como se chamava aquele lugar e, antes mesmo que o chofer me respondesse, reconheci Beaumont, a cujo lado assim passava sem o saber de cada vez que tomava o trenzinho, pois ficava a dois minutos de Parville. Como um oficial de meu regimento, que teria me parecido uma criatura especial, por demais bonachão e simples para pertencer a uma grande família, já muito distante e misterioso para ser simplesmente de uma grande família, e do qual viesse a saber que era cunhado e primo de tais ou quais pessoas com quem eu jantava fora, assim Beaumont, de súbito ligado a locais de que o supunha tão diferente, perdeu seu mistério e assumiu seu posto na região, fazendo-me pensar com terror que Madame Bovary e a Sanseverina talvez me tivessem parecido criaturas semelhantes às outras se eu as tivesse encontrado em outra parte que não a atmosfera fechada de um romance. Pode parecer que meu amor pelas feéricas viagens de trem deveria impedir-me de compartilhar do encantamento de Albertine diante do automóvel que leva, mesmo um doente, aonde ele quer, e impede como eu o fizera até aqui que consideremos a localização como marca individual, a essência sem sucedâneo das belezas inamovíveis. E sem dúvida, o automóvel não fazia dessa localização, como outrora o trem de ferro, quando eu viera de Paris a Balbec, um objetivo subtraído às contingências da vida comum, quase ideais à partida, e que, continuando a sê-lo à chegada - à chegada nessa grande residência onde não mora ninguém e que leva apenas o nome da cidade: a estação -, tem o ar de prometer-lhe enfim o acesso como se fosse a sua materialização. Não, o automóvel não nos conduzia assim feericamente a uma cidade que víamos primeiro no conjunto que resume o seu nome, e com as ilusões do espectador na plateia. Ele nos fazia entrar nos bastidores da rua, parava para pedir uma informação a um habitante. Mas, como para compensar uma progressão tão familiar, temos os próprios titubeios do chofer, incerto quanto ao caminho, e que retrocede, e os ziguezagues da perspectiva, que fazem um castelo jogar os quatro-cantos com uma colina, uma igreja e o mar enquanto nos aproximamos dele, embora debalde se encolha sob sua folhagem secular; e esses círculos, cada vez mais próximos, que o automóvel descrevia em torno de uma cidade fascinada, que fugia em todos os sentidos para lhe escapar e sobre a qual, finalmente, avança direto, a pique, no fundo do vale, onde ela jaz por terra; de modo que essa localização, único ponto que o automóvel parece ter destituído do mistério dos trens expressos, dá pelo contrário a impressão de que o descobrimos, de que o determinamos nós mesmos como que a compasso, de nos ajudar a sentir, com mão mais amorosamente exploradora, com mais fina precisão, a verdadeira geometria, a bela "medida da terra". O que infelizmente eu ignorava naquela ocasião, e só vim a saber dois anos mais tarde, é que um dos fregueses do chofer era o Sr. de Charlus, e que Morel, encarregado de pagá-lo e guardando para si uma parte do dinheiro (fazendo o chofer triplicar e quintuplicar o número dos quilômetros), estava muito ligado a este (enquanto fingia não conhecê-lo diante dos outros) e utilizava o seu carro para corridas distantes. Se então eu soubesse disso, e que provinha daí a confiança que os Verdurin, sem o saberem, logo tiveram nesse chofer, tivessem sido evitados muitos dos aborrecimentos de minha vida em Paris, no ano seguinte, bem como diversas infelicidades relativas a Albertine; mas eu não o suspeitava em absoluto. Em si mesmos, os passeios do Sr. de Charlus de auto com Morel não me interessavam diretamente. Aliás, o mais das vezes limitavam-se a um almoço ou a um jantar num restaurante da costa, onde o Sr. de Charlus passava por um velho criado arruinado, e Morel, que tinha a missão de pagar as contas, por um bondoso fidalgo. Conto aqui uma dessas refeições, que pode dar uma idéia das outras. Era num restaurante de forma oblonga, em Saint-Mars-le-Vêtu. 

- Será que não poderiam levar isto daqui? - perguntou o Sr. de Charlus a Morel, como a um intermediário, e para não se dirigir diretamente aos garçons. Por "isto", ele designava três rosas murchas, com que um maitre d'hôtel bem-intencionado julgara dever decorar a mesa. 
- Sim. - disse Morel embaraçado. Não gosta de rosas? 
- Provaria, ao contrário, pelo pedido em questão, que as amo, já que não há rosas aqui (Morel pareceu surpreso), mas na verdade não gosto muito de rosas. Sou bastante sensível aos nomes; e, quando uma rosa é um pouco bonita, ficamos sabendo que ela se chama Baronesa de Rothschild ou Marechala Niel, o que nos deixa frios, Gosta dos nomes? Já encontrou belos títulos para seus pequenos trechos de concerto? 
- Há um deles que se chama Poema Triste. 
- É horrível - respondeu o Sr. de Charlus com voz aguda e estridente como uma bofetada. 
- Mas eu não tinha pedido champanha? - disse ele ao maitre d'hôtel, que julgara trazê-lo, colocando diante dos dois fregueses duas taças cheias de vinho espumante. 
- Mas, senhor... 
- Leve daqui este horror, que não tem nenhuma relação com o pior dos champanhas. É o vomitivo chamado cup, onde em geral se põem três morangos podres numa mistura de vinagre e água de Seltz... Sim continuou ele, virando-se para Morel o senhor parece ignorar o que seja um título. E até na interpretação daquilo que executa melhor, parece não perceber do lado mediúnico da coisa. 
- O senhor diz? - indagou Morel que, não tendo compreendido absolutamente nada do que o barão dissera, temia ficar privado de uma informação útil, como, por exemplo, um convite para almoçar.  

     Tendo o Sr. de Charlus desdenhado considerar "O senhor diz?" como uma pergunta, Morel, consequentemente, sem obter resposta, achou melhor mudar de conversa e dar-lhe um torneio sensual: 

- Olhe, é a lourinha que vende estas flores de que o senhor não gosta; mais uma que tem seguramente uma amiguinha. E a velha que janta na mesa do fundo, também. 
- Mas como sabes de tudo isso? - perguntou o Sr. de Charlus, maravilhado com a presciência de Morel. 
- Oh, em um segundo eu as adivinho. Se nós dois passeássemos no meio de uma multidão, o senhor veria que não me engano duas vezes. -

     E quem naquele momento houvesse olhado Morel, com seu ar de menina em meio à sua máscula beleza, teria compreendido a obscura adivinhação que não o apontava menos a certas mulheres do que elas a ele. Tinha vontade de suplantar Jupien, vagamente desejoso de acrescentar ao seu "fixo" os rendimentos que, segundo julgava, o coleteiro extraía do barão. 

- E, quanto aos gigolôs, ainda sou mais entendido, posso poupar-lhe todos os erros. Em breve, chegará à feira de Balbec, onde encontraremos muitas coisas. E em Paris, então! Aí é que o senhor haverá de se divertir. -

     Mas uma prudência hereditária de criado fê-lo dar um outro sentido à frase que já estava começando. De modo que o Sr. de Charlus julgou que se tratava sempre de moças. 

- Veja o senhor - disse Morel, desejoso de excitar, de um modo que achava menos comprometedor para si mesmo (embora na realidade fosse mais imoral), os sentidos do barão -, meu sonho seria encontrar uma moça bem pura, de me fazer amado por ela, e tirar-lhe a virgindade. -

     O Sr. de Charlus não pôde impedir-se de beliscar suavemente a orelha de Morel, mas acrescentou com ingenuidade: 

- Para que te serviria isto? Se lhe acabasses com a donzelice, serias obrigado a casar com ela. 
- Casar com ela? - exclamou Morel, que sentia que o barão estava "alto", ou então que não pensava no homem, afinal mais escrupuloso do que imaginava, com quem estava falando. - Casar? Uma ova! Prometeria, sim, mas logo que pequena operação fosse levada a cabo de modo satisfatório, abandonava-a na mesma noite. -

     O Sr. de Charlus tinha o hábito, quando uma ficção podia causar-lhe um momentâneo prazer sensual, de dar-lhe sua adesão, pronto para retirá-la inteiramente, instantes depois, quando o prazer se esgotasse. 

- Verdadeiramente farias isto? - indagou a Morel, rindo e apertando-o com mais força. 
- E como! - disse Morel, vendo que não desagradava ao barão se continuasse a lhe explicar sinceramente o que era de fato um de seus desejos. 
- É perigoso - disse o Sr. de Charlus. 
- Eu faria antecipadamente as minhas malas e sumiria sem deixar endereço. 
- E eu? - disse o barão. 
- Eu o levaria comigo, é claro - apressou-se a dizer Morel, que não pensara no que seria do Sr. de Charlus, o qual era o menor de seus cuidados. - Olhe, existe uma garota que agradaria muito para o caso, é uma costureirinha que possui sua loja no palacete do Senhor duque. 
- A filha de Jupien! - exclamou o barão, enquanto entrava o copeiro. - Oh, jamais! - acrescentou, ou porque a presença de um estranho o tivesse esfriado, ou porque, mesmo nessas espécies de missas negras, em que as pessoas se comprazem em achincalhar as coisas mais santas, ele não pudesse resolver-se a fazer entrar pessoas por quem nutria amizade. - Jupien é um bom homem, a mocinha é encantadora, seria horrível causar-lhes esse desgosto. -
  
     Morel sentiu que tinha ido longe demais e se calou. Mas seu olhar continuava, no vago, a fixar-se na moça, diante da qual quisera certa vez que eu o chamasse de "meu caro artista" e a quem encomendara um colete. Muito trabalhadora, a garota não tirava férias, mas depois eu soube que, enquanto o violinista estava nos arredores de Balbec, ela não cessava de pensar no seu belo rosto, enobrecido pelo fato de que, tendo visto Morel em minha companhia, ela o tomara por um "senhor". 

- Nunca ouvi Chopin tocar piano - disse o barão; - e no entanto poderia, pois tomava lições com Stamati, mas ele me proibiu de ir ouvir, na casa da minha tia Chimay, o mestre dos Noturnos. - Que asneira que ele fez! - exclamou Morel. 
- Pelo contrário - replicou vivamente o Sr. de Charlus com voz aguda. - Ele provava ser inteligente. Compreendera que eu era um "temperamento" e que sofreria a influência de Chopin. Isso não importa, porquanto abandonei a música bem jovem, como aliás tudo. E depois, a gente imagina um pouco - acrescentou com uma voz anasalada, vagarosa e lânguida; - sempre existe gente que ouviu, que nos dá uma ideia. Mas afinal Chopin era só um pretexto para voltar ao lado mediúnico que você negligencia.

     Observar-se-á que, após uma interpolação da linguagem vulgar, a do Sr. de Charlus se tornara bruscamente tão preciosa e altaneira como o era de hábito. É que a ideia de que Morel "largaria" sem remorsos uma moça violada fizera-o de súbito experimentar um prazer completo. Desde aí os seus sentidos se apaziguaram por algum tempo, e o sádico (este sim, verdadeiramente mediúnico), que durante alguns instantes substituíra o Sr. de Charlus, havia fugido e devolvera a palavra ao legítimo Sr. de Charlus, cheio de refinamento artístico, de sensibilidade e bondade. 

- Outro dia, você tocou a transcrição para piano do quarteto XV, o que já é absurdo, pois nada é menos pianistico. Ela é destinada para pessoas a quem as cordas por demais tensas do Surdo glorioso fazem mal aos ouvidos. Ora, justamente esse misticismo quase acre é que é divino. Em todo caso, o senhor o tocou muito mal, modificando todos os movimentos. É preciso tocar aquilo como se o senhor o estivesse compondo: o jovem Morel, acometido de uma surdez momentânea e de um gênio inexistente, permanece imóvel por um momento; depois, tomado do delírio sagrado, ele toca, ele compõe os primeiros compassos; então, esgotado por semelhante esforço de transe, ele se abate, deixando cair a bela mecha para agradar à Sra. Verdurin, e, mais ainda, assim dispõe de tempo para reconstituir a prodigiosa quantidade de massa cinzenta que gastou para a objetivação pitica; então, tendo recobrado as forças, tomado de nova e condoreira inspiração, lança-se para a sublime frase inesgotável que o virtuoso berlinense (cremos que o Sr. de Charlus designava desse modo a Mendelssohn) devia infatigavelmente imitar. É dessa maneira, a única e verdadeiramente transcendente e animadora, que o farei tocar em Paris. - Quando o Sr. de Charlus lhe dava conselhos desse gênero, Morel ficava muito mais assustado que ao ver o maitre d'hôtel levar suas rosas e seu cup desdenhados, pois se perguntava ansiosamente qual o efeito que aquilo produziria sobre a "classe". Mas não para demorar-se nessas reflexões, pois o Sr. de Charlus lhe dizia imperiosamente: 
- Pergunte ao maitre d'hôtel se ele não tem um bom cristão. 
- Boro cristão? Não compreendo. 
- Bem vê que tratamos de frutas, é uma pera. Esteja certo de que a Sra. de Cambremer a tem em sua casa, pois a comi dessa d'Escarbagnas, que ela é, também a tinha. O Sr. Thibaudier a envia e ela diz: "Eis um bom cristão que está lindo." 
- Não, eu não sabia. 
- Ali, vejo que o senhor não sabe nada. Se nem sequer leu Moliere... Pois bem, visto que não deve saber encomendar, mais que o resto, peça muito simplesmente uma pera que se colhe justo perto daqui, a Louise-Bonned'Avranches. 
[A sra. de Escarbagnas é personagem da comédia de Moliere, A Condessa de Escarbagnas. "Bom cristão" é nome dado a uma pera flamenga. (N. do T)
- A...? 
- Espere, já que é tão canhestro, vou eu mesmo pedir outras, que prefiro: Maitre d'hôtel, tem o senhor a Doyenné des Comices?

     Charlie, deveria ler a página sensacional que sobre essa pêra escreveu a duquesa Émilie de Clermont-Tonnerre. 

- Não, senhor; não tenho. 
- Tem o Triunfo de Jodoigne? 
- Não, senhor. 
- A Virginie-Dallet? A Passe-Colmar? Não? Pois bem, já que não tem nada, vamos embora. A duquesa d'Angoulême ainda não está madura; vamos, Charlie, partamos. - Infelizmente para o Sr. de Charlus, a sua falta de bom-senso, talvez a castidade das relações que provavelmente mantinha com Morel fizeram com que, desde essa época, se empenhasse em cumular o violinista de estranhas gentilezas que este não podia compreender, e às quais sua natureza, doida à sua moda, porém ingrata e mesquinha, só podia corresponder com uma secura ou uma violência sempre maiores, e que mergulhavam o Sr. de Charlus antes tão altivo, agora todo tímido em acessos de legítimo desespero. Veremos como nas menores coisas, Morel, que acreditava ter se transformado num Charlus mil vezes mais importante, compreendera de esguedelha, tomando-as ao pé da letra, as orgulhosas informações do barão quanto à aristocracia.

     Por ora, digamos simplesmente, enquanto Albertine me espera em Saint-Jean-de-la-Haise, que se havia uma coisa que Morel punha acima da nobreza (e isso, em princípio, era bastante nobre, sobretudo vindo de alguém cujo prazer era ir procurar menininhas despercebidamente com o chofer) era a sua reputação artística e o que poderiam pensar na classe de violino. Sem dúvida era feio, pois sentia o Sr. de Charlus todo dedicado à sua pessoa, que desse a impressão de renegá-lo, de zombar dele, da mesma maneira como, logo que lhe prometi guardar segredo sobre as funções de seu pai na casa de meu tio-avô, ele passara a tratar-me com altivez. Mas, por outro lado, seu nome de artista diplomado, Morel, parecia-lhe superior a um "nome". E quando o Sr. de Charlus, em seus devaneios de ternura platônica, queria fazer com que ele tomasse um título de sua família, Morel recusava energicamente. Quando Albertine achava mais prudente ficar em Saint-Jean-dela-Haise para pintar, eu tomava o auto e não era só a Gourville e a Féterne que podia ir, mas também a Saint-Mars-le-Vieux e até a Criquetot, antes de voltar para pegá-la. Fingindo estar ocupado com outra coisa que não ela, e ser obrigado a deixá-la por outros prazeres, só nela pensava. Muitas vezes não ia além da grande planície que domina Gourville, e, como esta se assemelha um pouco à que principia acima de Combray, na direção de Méséglise, eu, ainda que a uma enorme distância de Albertine, sentia-me alegre ao pensar que, se meus olhares não podiam chegar até ela, aquela poderosa e suave brisa marinha que passava a meu lado, alcançando muito mais do que eles, deveria baixar, sem ser detida por nada, até Quetteholme, para agitar os ramos das árvores que ocultavam Saint-Jean-dela-Haise sob sua folhagem, acariciando o rosto da minha amiga, e, assim, lançando um duplo elo entre nós dois. Naquele retiro indefinidamente aumentado, mas sem riscos, como nesses jogos em que duas crianças se encontram por instantes fora do alcance da voz e da vista uma da outra, e onde, mesmo estando afastadas, permanecem juntas. Eu regressava por esses caminhos de onde se avista o mar e onde, outrora, antes que ele aparecesse por entre os ramos, eu fechava os olhos para bem pensar que o que ia ver era mesmo o queixoso ancestral da terra, prosseguindo, como no tempo em que ainda não existiam seres vivos, em sua demente e imemorial agitação. Agora, essas estradas não eram para mim senão o meio de ir ao encontro de Albertine; quando as reconhecia tão iguais, sabendo até onde iriam em linha reta, onde fariam uma curva, eu me lembrava de que as seguira pensando na Srta. de Stermaria, e também que a mesma pressa de encontrar-me com Albertine, eu a tivera em Paris ao descer as ruas por onde passava a Sra. de Guermantes; assumiam, para mim, a profunda monotonia, a significação moral de uma espécie de linha que seguia o meu caráter. Era natural e, contudo, não era indiferente; lembravam-me que minha sorte consistia apenas em perseguir fantasmas, criaturas cuja realidade em boa parte estavam na minha imaginação; de fato, existem seres e fora o meu caso desde a juventude - para quem nada do que possui um valor fixo, verificável por outros, a fortuna, o sucesso, as altas posições, é levado em conta; o que lhes é necessário, são os fantasmas. Sacrificam tudo o mais, põem tudo em ação, fazem tudo servir para achar determinado fantasma. Mas este não tarda em se desvanecer; então correm atrás de outro, prontos para voltarem logo ao primeiro. Não era a primeira vez que eu procurava Albertine, a moça vista no primeiro ano diante do mar. É verdade que outras mulheres haviam sido intercaladas entre a Albertine amada da primeira vez e esta a quem quase não deixava no momento; outras mulheres, notadamente a duquesa de Guermantes. Mas, dirão, por que tantos cuidados a respeito de Gilberte, ter tanto trabalho por causa da Sra. de Guermantes, se, tornando-se amigo desta, fizera-o com o único fim de não mais pensar nela, mas somente em Albertine? Antes de morrer, Swann teria podido responder, ele que fora amador de fantasmas. De fantasmas perseguidos, esquecidos, de novo procurados, às vezes para uma só entrevista, e a fim de tocar numa vida irreal que logo se evolava, estavam cheias as estradas de Balbec. Pensando que suas árvores, pereiras, macieiras, tamargas, me sobreviveriam, parecia-me receber delas o conselho de me pôr enfim a trabalhar enquanto não soasse a hora do repouso eterno. Eu saltava do carro em Quetteholme, corria pela íngreme descida, cruzava o regato por uma tábua e encontrava Albertine que pintava diante da igreja toda em torreões, espinhosa e rubra, florescente como um roseiral. Só o tímpano era liso; e, à superfície ridente da pedra, afloravam anjos que continuavam, diante do casal do século XX, a celebrar, círios na mão, as cerimônias do século XIII. Era deles que Albertine procurava fazer o retrato em sua tela preparada e, imitando Elstir, dava grandes pinceladas, buscando obedecer ao nobre ritmo que tornava esses anjos, dissera-lhe o grande mestre, tão diferentes de todos os que conhecia. Depois ajuntava as suas coisas. Apoiados um no outro, subíamos a encosta, deixando a igrejinha, tão tranquila como se não nos tivesse visto, a escutar o perpétuo rumor do regato. Em breve o auto partia, fazia-nos tomar de regresso um caminho diverso do que seguíramos na ida. Passávamos por Marcouville l'OrgueiIleuse. Sobre sua igreja, metade nova, metade restaurada, o sol poente estendia sua pátina, tão linda como a dos séculos. Através dela, os grandes baixos-relevos pareciam ser vistos apenas sob uma camada fluida, meio líquida, meio luminosa; a Santa Virgem, Santa Isabel e São Joaquim nadavam ainda no impalpável remoinho quase em seco, à flor d'água ou à tona do sol. Numa cálida poeira surgiam as numerosas estátuas modernas, erguendo-se sobre colunas até meia altura dos véus dourados do poente. Defronte à igreja, um grande cipreste parecia estar dentro de uma espécie de recinto consagrado. Descíamos um instante para o contemplar e dávamos alguns passos. Tanto quanto de seus membros, tinha Albertine consciência de sua touca de palha da Itália e da écharpe de seda (que, para ela, não eram a sede das menores sensações de bem-estar), e delas recebia, enquanto ia ao redor da igreja, uma outra espécie de impulsão, traduzida por um contentamento inerte mas no qual eu encontrava graça; touca e écharpe que eram apenas uma parte recente, adventícia, de minha amiga, mas que já me era bastante cara e cujo rastro eu seguia com os olhos, ao longo do cipreste, no ar da tardinha. Ela própria não podia vê-lo, mas desconfiava que tais elegâncias faziam bem, pois me sorria harmonizando o porte da cabeça com o chapéu que a completava: 

- Não gosto, é restaurada - disse-me ela, mostrando a igreja e lembrando-se do que Elstir havia dito acerca da preciosa, da inimitável beleza das velhas pedras. Albertine sabia reconhecer de pronto uma restauração. A gente só podia assombrar-se com a segurança de gosto que ela já possuía em matéria de arquitetura, a par do gosto deplorável que conservava em música. Tanto quanto Elstir, eu não gostava dessa igreja, e foi sem me dar prazer que sua fachada veio postar se, ensolarada, aos meus olhos, e só desci a contemplá-la para ser agradável a Albertine. E achava, no entanto, que o grande impressionista estava em contradição consigo mesmo; por que esse fetichismo ligado ao valor arquitetônico objetivo, sem levar em conta a transfiguração da igreja no poente? 
- Não - disse Albertine -, decididamente não me agrada; gosto do seu nome de Orgueilleuse (orgulhosa). Mas o que será preciso indagar a Brichot é por que Saint-Mars se chama "le Vêtu". Iremos lá na próxima vez, não? - perguntava-me olhando-me com seus olhos negros, sobre os quais a touca estava abaixada como outrora a sua pequena boina. Seu véu flutuava.

     Eu voltava ao auto com ela, feliz por irmos juntos, no dia seguinte, a Saint-Mars, de que, naqueles dias ardentes em que só se pensava em banhos de mar, os dois antigos campanários de um rosa-salmão, com telhas em losango, ligeiramente inclinadas e como que palpitantes, pareciam velhos peixes agudos, imbricados de escamas, musgosos e arruivados, que, sem dar a impressão de se moverem, erguiam-se numa água transparente e azul. Para resumir, deixando Marcouville, bifurcávamos numa encruzilhada de caminhos, onde havia uma granja. Às vezes Albertine mandava parar e me pedia que fosse buscar sozinho, a fim de poder beber no carro, vinho Calvados ou cidra, que asseguravam não ser espumante e que nos borrifava por completo. Estávamos apertados um contra o outro. As pessoas da granja mal avistavam Albertine no auto fechado, e eu lhes devolvia as garrafas; partíamos novamente, como para continuar naquela nossa vida, essa vida de amantes que elas podiam achar que levávamos, e da qual essa parada para beber não passasse de um momento insignificante; suposição que teria parecido tanto menos inverossímil se nos vissem depois que Albertine houvesse bebido a sua garrafa de cidra; de fato, ela parecia então não mais poder suportar, entre nós dois, um intervalo que de hábito não a incomodava; sob sua saia de algodão, suas pernas apertavam-se contra as minhas, ela aproximava do meu rosto as suas faces que se tornavam pálidas, quentes e rubras nos pômulos, com algo de ardente e descorado como o têm as mulheres dos arrabaldes. Nesses momentos, quase tão depressa como de personalidade, ela mudava de voz, perdia a sua e assumia uma outra, enrouquecida, ousada, quase crapulosa. A tarde caía. Que prazer senti-la juntinho a mim, com sua écharpe e sua touca, lembrando-me que é sempre assim, lado a lado, que se encontram os que se amam! Talvez eu sentisse amor por Albertine, mas não tinha coragem de dá-lo a perceber, se bem que, se existisse em mim, não podia ser senão como uma verdade sem valor até que fosse possível verificá-la pela experiência; ora, isto me parecia irrealizável e fora dos planos da minha vida.

continua na página 191...
________________

Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap III - A fisionomia da região nos parecia toda mudada)
Volume 6
Volume 7

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: As Treze Colônias do Norte e a importância de não nascer importante (22)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     32. ARTEMIO CRUZ e a segunda morte de EMILIANO ZAPATA
          A apropriação privada da terra, na América Latina, sempre se antecipou ao seu cultivo útil. Os traços mais retrógrados do sistema de posse hoje em vigor não provêm das crises, mas nasceram durante os períodos de maior prosperidade; ao contrário, os períodos de depressão econômica apaziguaram a voracidade dos latifundiários na conquista de novas terras. No Brasil, por exemplo, a decadência do açúcar e o virtual desaparecimento do ouro e dos diamantes tornaram possível, entre 1820 e 1850, uma legislação que assegurava a propriedade da terra a quem a ocupasse e a fizesse produzir. Em 1850, a ascensão do café como novo “produto rei” determinou a sanção da Lei de Terras, cozinhada segundo o paladar de políticos e militares do regime oligárquico para negar a propriedade da terra a quem nela trabalhava, na medida em que iam se abrindo, para o sul e para o oeste, os gigantescos espaços interiores do país. Essa lei “foi reforçada e ratificada desde então por uma copiosíssima legislação que estabelecia a compra como única forma de acesso à terra, e criava um sistema cartorial de registro que tornava quase impraticável ao lavrador a legalização de sua possessão” [1].
     A legislação norte-americana da mesma época assumiu um objetivo oposto para promover a colonização interna dos Estados Unidos. Rangiam as carretas dos pioneiros que iam empurrando a fronteira, à custa da matança dos indígenas, para as terras virgens do Oeste: a Lei Lincoln de 1862, o Homested Act, assegurava a cada família a propriedade de lotes de 65 hectares. Cada beneficiário se comprometia a cultivar sua parcela por um período de cinco anos [2]. O domínio público foi colonizado com uma rapidez assombrosa; a população aumentava e se propagava como uma enorme mancha de azeite sobre o mapa. A terra acessível, fértil e quase gratuita atraía os camponeses europeus com um ímã irresistível: cruzavam o oceano e também os Apalaches rumo às pradarias abertas. Foram granjeiros livres, portanto, que ocuparam os novos territórios do Centro e do Oeste. Enquanto o país crescia em superfície e em população, criavam-se fontes de trabalho agrícola e, ao mesmo tempo, gerava-se um mercado interno com grande poder aquisitivo, a enorme massa de granjeiros proprietários, para sustentar a pujança do desenvolvimento industrial.
     Em troca, os trabalhadores rurais que, há mais de um século, alargaram com ímpeto a fronteira interior do rasil, não foram e nem são famílias de camponeses livres em busca de um pedaço de terra própria, como observa Ribeiro, mas trabalhadores braçais contratados para servir os latifundiários que, previamente, tomaram posse de grandes espaços vazios. Os desertos interiores nunca foram acessíveis à população rural. Os trabalhadores foram abrindo o país a golpes de facão, através da selva, mas em proveito alheio. A colonização significou uma ampliação das áreas do latifúndio. Entre 1950 e 1960, 65 latifúndios brasileiros absorveram uma quarta parte das novas terras incorporadas à agricultura. [3]
     Esses dois sistemas opostos de colonização interior mostram uma das diferenças mais importantes entre os modelos de desenvolvimento dos Estados Unidos e da América Latina. Por que o Norte é rico e o Sul é pobre? O rio Bravo assinala muito mais do que uma fronteira geográfica. O profundo desequilíbrio de nossos dias, que parece confirmar a profecia de Hegel sobre a inevitável guerra entre uma e outra América, nasceu da expansão imperialista dos Estados Unidos ou tem raízes mais antigas? Em verdade, já na matriz colonial o norte e o sul geraram sociedades nem um pouco parecidas e a serviço de fins distintos [4]. Os peregrinos do Mayflower não atravessaram o mar para conquistar tesouros legendários nem para explorar a mão de obra indígena, escassa no Norte, mas para se estabelecer com suas famílias e reproduzir no Novo Mundo o sistema de vida e de trabalho que praticavam na Europa. Não eram soldados da fortuna, mas pioneiros; não vinham para conquistar e sim para colonizar: fundaram “colônias de povoamento”. É certo que o processo posterior desenvolveu, ao sul da baía de Delaware, uma economia de plantações escravistas semelhante à que surgiu na América Latina, mas com a diferença de que nos Estados Unidos o centro de gravidade esteve desde o princípio radicado nas granjas e nas oficinas da Nova Inglaterra, de onde sairiam os exércitos vencedores da Guerra de Secessão no século XIX. Os colonos da Nova Inglaterra, núcleo original da civilização norte-americana, não atuaram nunca como agentes coloniais da acumulação capitalista europeia; desde o princípio viveram a serviço de seu próprio desenvolvimento e do desenvolvimento de sua nova terra. As treze colônias do norte serviram de desembocadura para o exército de camponeses e artesãos europeus que o desenvolvimento metropolitano ia lançando fora do mercado de trabalho. Trabalhadores livres formaram a base daquela nova sociedade deste lado do mar.
     Espanha e Portugal, em troca, contaram com uma grande abundância de mão de obra servil na América Latina. A escravidão dos indígenas foi sucedida pelo transplante em massa de escravos africanos. Ao longo dos séculos, houve sempre uma enorme legião de camponeses desempregados disponíveis para serem encaminhados aos centros de produção: as zonas florescentes sempre coexistiram com as decadentes, no ritmo dos apogeus e das quedas das exportações de metais preciosos ou açúcar, e as zonas de decadência abasteciam de mão de obra as zonas florescentes. Essa estrutura persiste até nossos dias, e também na atualidade implica um baixo nível dos salários, pela pressão que os desempregados exercem sobre o mercado de trabalho, e frustra o crescimento do mercado interno de consumo. De resto, distintamente dos puritanos do Norte, as classes dominantes da sociedade colonial latino-americana não se voltaram jamais para o desenvolvimento econômico interno. Terras-tenentes, mineradores e mercadores tinham nascido para cumprir outra função: abastecer a Europa de ouro, prata e alimentos. Os caminhos transportavam a carga numa só direção: até o porto e os mercados de ultramar. Esta é também a chave que explica a expansão dos Estados Unidos como unidade nacional e o fracionamento da América Latina: nossos centros de produção não estavam conectados entre si, formavam um leque com o vértice muito distante.
     As treze colônias do norte tiveram, pode-se dizer, a felicidade da desgraça. Sua experiência histórica mostrou a tremenda importância de não nascer importante. Porque ao norte da América não havia ouro, nem prata, nem civilizações indígenas com densas concentrações de população já organizada para o trabalho, e nem solos tropicais de fertilidade fabulosa na franja costeira que os peregrinos ingleses colonizaram. A natureza se mostrou avara, e também a história: faltavam os metais e a mão de obra escrava para arrancar os metais do ventre da terra. Foi uma sorte. Além disso, desde Maryland até a Nova Escócia, passando pela Nova Inglaterra, as colônias do norte, devido ao clima e às características dos solos, produziam exatamente o mesmo que a agricultura britânica, isto é, não ofereciam à metrópole, como adverte Bagú, uma produção complementar. [5]
     Muito diferente era a situação das Antilhas e das colônias ibéricas de terra firme. Das terras tropicais brotavam o açúcar, o tabaco, o algodão, o anil, a terebintina; uma pequena ilha do Caribe, do ponto de vista econômico, era mais importante para a Inglaterra do que as treze colônias matrizes dos Estados Unidos.
     Essas circunstâncias explicam a ascensão e a consolidação dos Estados Unidos como um sistema economicamente autônomo, que não drenava para fora a riqueza gerada em seu seio. Eram frouxos os laços que uniam as colônias à metrópole; em Barbados e na Jamaica, em troca, só se reinvestiam os capitais indispensáveis para repor escravos na medida em que iam faltando. Não foram fatores raciais, como se vê, os que decidiram o desenvolvimento de uns e o subdesenvolvimento de outros: as ilhas britânicas das Antilhas não tinham nenhum vínculo com a Espanha ou Portugal. A verdade é que a insignificância econômica das treze colônias permitiu a precoce diversificação de suas exportações e iluminou o impetuoso desenvolvimento das manufaturas. A industrialização norte-americana contou, desde antes da independência, com estímulos e proteções oficiais. A Inglaterra se mostrava tolerante, ao mesmo tempo em que proibia estritamente que suas ilhas antilhanas fabricassem até mesmo um alfinete.

continua na página 218...
____________________

[1] RIBEIRO, Darcy. Las Américas y la civilización, t.II: Los pueblos nuevos. buenos Aires, 1969.
[2] KIRKLAND, Edward C. Historia económica de Estados Unidos. México, 1941.
[3] FURTADO, Celso. Um projeto para o Brasil. Rio de Janeiro, 1969.
[4]  HANKE, Lewis et alii. Do the Americas Have a Common History? New York, 1964. Os autores dão asas à imaginação no afã de encontrar identidades entre os processos históricos do Norte e do Sul.
[5]  BAGÚ, op. cit.  

__________________
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: As Treze Colônias do Norte e a importância de não nascer importante (22)