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terça-feira, 5 de julho de 2022

Poemança Africana: António Nunes (Cabo Verde)

Poemança Africana - 37


língua portuguesa


o poeta do quotidiano



o “Poema de amanhã", é uma esperança-certeza, uma antevisão dum futuro melhor – a independência de Cabo Verde


Mamãi!
sonho que, um dia,
em vez dos campos sem nada,
do êxodo das gentes nos anos de estiagem
deixando terras, deixando enxadas, deixando tudo,
das casas de pedra solta fumegando do alto,
dos meninos espantalhos atirando fundas,
das lágrimas vertidas por aqueles que partem
e dos sonhos, aflorando, quando um barco passa,
dos gritos e maldições, dos ódios e vinganças,
dos braços musculados que se quedam inertes,
dos que estendem as mãos,
dos que olham sem esperança o dia que há-de vir

– Mamãi!
sonho que, um dia,
estas leiras de terra que se estendem,
quer sejam Mato Engenho, Dacabalaio ou Santana,
filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,
serão nossas.

E, então,
o barulho das máquinas cortando,
águas correndo por levadas enormes,
plantas a apontar,
trapiches pilando
cheiro de melaço estonteando, quente,
revigorando os sonhos e remoçando as ânsias
novas seivas brotarão da terra dura e seca,
vivificando os sonhos, vivificando as ânsias, vivificando a Vida!...





Ritmo de pilão

Bate, pilão, bate,
que o teu som é o mesmo
desde o tempo dos navios negreiros,
de morgados,
das casas-grandes,
e meninos ouvindo a negra escrava
contando histórias de florestas, de bichos, de encanta-
[das...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
e a casa-grande perdeu-se,
o branco deu aos negros cartas de alforria
mas eles ficaram presos a terra por raízes de suor...

Bate, pilão, bate
que o teu som é o mesmo
desde o tempo antigo
dos navios negreiros...

(Ai os sonhos perdidos lá longe!
Ai o grito saído do fundo de nos todos
ecoando nos vales e nos montes,
transpondo tudo...
Grito que nos ficou de traços de chicote,
da luta dia a dia,
e que em canções se reflecte, tristes...)

Bate, pilão, bate

que o teu som é o mesmo
e em nosso músculo está
nossa vida de hoje
feita de revoltas!

Bate, pilão, bate!...





Poema de longe

Acendo um cigarro
e ponho-me a olhar
as casas que se elevam pela encosta…

Longe,

o Sol morre numa lagoa de sangue…

Entristeço-me.

Meus sonhos tornaram-se em nada,
minhas ambições nunca passaram de planos,
meus enlevos de amor nunca passaram de ânsias.





Terra

Nha Chica, conte-me
aquela história
de meus irmãos
hoje perdidos
no mundo grande…

Nha Chica, eu sei:
anos de seca,
gentes morrendo,
casas sem telhas,
de porta em porta
olhos crescendo
barriga inchando,
um dia tombam
de olhos vidrados
por qualquer canto…

Lisboa, América,
Dakar ou Rio:
— dentro de nós
surge esta ideia
partir! partir!

Resignados,
os que ficaram
ficam esperando
que as nuvens toldem
que a chuva caia
que o chão fecunde
cobrindo os montes
cobrindo as várzeas…

Ah, anos fartos!
Milho, feijão,
pilão cohindo,
fumo no ar,
riso nos lábios,
grog, cigarros,
batuques, bailes
e casamentos…

Olho estes campos,
olho estes mares,
e sinto a Vida
prendida à terra,
feita de sonhos
que um dia esvaem-se
— mas surgem sempre…






Literatura Cabo-verdiana







___________________


António Nunes nasceu na cidade da Praia, capital da ilha de Santiago, Cabo Verde, a 9.12.1917 (e faleceu em Lisboa, a 14.5.1951, vítima de uma menigo-encefalite). Fixou-se em Lisboa, por volta de 1940, e nesta cidade conviveu assiduamente com o grupo neo-realista de que fazia parte o seu patrício Teixeira de Sousa, Manuel da Fonseca e Francisco José Tenreiro.
A sua estreia literária faz-se, em Cabo Verde, primeiro na imprensa, depois com o livro de poemas Devaneios, publicado em 1939, ao sabor ainda da estética anterior à Claridade. É aqui, em Lisboa, ao contacto com a nova geração neo-realista, que António Nunes se liberta dos cânones poéticos anteriores e envereda pela construção de um discurso poético social e autenticamente caboverdiano.
Estava-se no fim da Segunda Guerra Mundial e vivia-se em Cabo Verde a grande crise que viria a dar origem às fomes de 1943 e de 1947. De Lisboa, António Nunes integra a geração da Certeza, com o “Poema de Amanhã”, publicado no número 2 da folha dessa academia (Junho de 1944), considerado por Manuel Ferreira (1975) como “o ideário colectivo do grupo”.
Na sua fase ainda romântica António Nunes publicou o livro de poemas Devaneios (1938), que seriam, de facto, meros devaneios ou exercícios poéticos. Na fase posterior, de orientação neo-realista, publicou Poemas de Longe (1945).
Pedro da Silveira, poeta açoriano e estudioso da literatura cabo-verdiana, coadjuvado por Francisco José Tenreiro, pensou ainda em reunir todos os poemas de António Nunes da fase modernista. Poemas seria o título do livro e teria a seguinte organização: “iniciação”, com os poemas correspondentes a 1940-1942; “Poemas de Longe”, os aparecidos em caderno impresso sob esta designação; “Versos de Lisboa”, três poemas alheios à cabo-verdianidade; e “Outros Poemas”, contemporâneos ou posteriores ao Poemas de Longe. Contudo, por razões várias, o projecto não se concretizou.


segunda-feira, 16 de maio de 2022

Poemança Africana: Álvaro Macieira (Angola)

Poemança Africana - 36


língua portuguesa



Nunca saí de lá,
onde nós temos o nosso cordão umbilical
é como raiz que coexiste com a planta
eu sou a planta e minha raiz tá lá
portanto, vagueio pelo mundo
mas estou sempre ligado a minha terra natal




Poema para as próximas gerações

(Homenagem a poeta Alda do Espírito Santo)



Viste a Torre de Belém,
Além                       antes de nós

Atravessaste o Portal sul da igreja dos Jerónimos
Por nós                              antes de nós

Viste a Arte Românica e compreendeste a Gótica:
Monumentos, esculturas e pinturas
e literatura       Por nós       antes de nós

Viste o poder cego de uns quantos contra nós
Que somos tantos                 antes de nós

E nós contigo na mesma luta contra a opressão
uma multidão perene e translúcida no tempo colono
Por nós                              antes de nós

Deste-nos amor e dignidade humana
Travessias e memórias palpáveis sonhos certezas
na Casa dos estudantes do império da nossa Lisboa.
E abalaste o próprio império nas suas entranhas
Com tuas palavras e poesia sabor de mel do suor das roças de cacau 
do café e cheiro a chão molhado.
Por nós                                  antes de nós

E nos músculos Angolares da tua inigualável e imensa força telúrica, chuva torrencial
Disseste
Não à exploração de homens por homens entre homens
Por nós                                                  antes de nós

Porque sabias que o mundo cruzava-se em ti mesma
forte vento equatorial, pilar de todos os edifícios
Hemisférios da tua sapiência amadurecida em S. Tomé e Príncipe o mundo: 
húmus da terra verde tão amada.
E pedaços de liberdade por reconstituir     Por nós
antes de nós. Nossa Musa para sempre.





Vozes mudas do prazer


Tanto medo
De te entregares
nua e pura.

Tanto medo de sustentarmos
Desejos
Mudos e cristalinos.

Temos medo de nós.
Dos olhares perplexos dos outros
A questionar nossa sorte.

Tanto desejo.

E porque não aceitar
(sem complexos de culpa)
A ereção de meu corpo.

O gingar violento de tuas ancas
Ritmadas
No orgasmo
In (contido)
De meu peito
Em teus seios.





Séculos de amor


Aquele dia
Queria que fosse alegre
Como o canto das cigarras
ao sol.

Escutar a suave melodia
de teus impulsos , tuas palavras
Doces, doces como teus abraços.

Estacionou em cada esquina
Na cidade.
Toda a mocidade para esperar
Envelheci com a própria noite
Buzinas tocaram alarmadas
Meu corpo caiu na escuridão
Da saudade.

Esta minha sorte, meu caminho
Quanto desejo me inspiras.

Sou rochedo
Aguardando séculos de amor
Mesmo que minhas propostas
Não tenham as respostas
desejadas. Tu desejas?






FAIR PLAY com pintor e escritor Álvaro Macieira







Álvaro Macieira expõe "África Yetu-Ngassakidila"





_____________

Álvaro Macieira, jornalista, escritor, artista plástico, consultor cultural, nasceu a 13/5/ 1958 em Sanza-Pombo, (Pombo, Província do Uíge, Angola). Serviu às Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FPLA). Editou Cultura na Agência Angola Press. Começou no Jornal de Angola e no Correio da Semana. Colaborou para a Rádio Nacional de Angola, TPA – TV Pública e Tribuna Cultural da BBC de Londres. Foi assessor de Imprensa e Porta-voz em 1996 do Primeiro-ministro de Angola, Marcolino Moco. Membro da União dos Escritores Angolanos, publicou: Castro Soromenho: Cinco Depoimentos (1988),Cantos de Amor (1992), Séculos de Amor (2005, poesia) e Uanga ua Ngola – Subsídios para uma Biografia do escritor Órcar Ribas (no prelo). Preside o Conselho Fiscal da União dos Escritores Angolanos. Membro da União Nacional dos Artistas Plásticos. É um dos fundadores e ex-presidente da Associação dos Jornalistas Culturais de Angola. É membro honorário da Associação dos Jornalistas Económicos de Angola e um dos Vogais de Direção do Progresso Associação do Sambizanga, a única equipa de Futebol angolana que jogou no estádio do Maracaná (1980), Rio de Janeiro, Brasil. É Presidente da Mesa da Assembleia-geral da Associação dos Naturais e Amigos do Município de Sanza-Pombo. Foi Consultor na sede da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em Lisboa. Prêmio de Pintura EnsArte (2000). Em 2002 conquistou o Primeiro Prêmio de Pintura EnsArte, o maior das artes plásticas. Em 2002 recebeu o prêmio Melhor Pintor do Ano pela Revista Tropical e pela Televisão Pública de Angola. Fez 25 exposições individuais e participou em mais de 20 coletivas. Suas obras pictóricas estiveram em cidades como Paris, Abuja, Moscou, Washington, Berlim, Bona, Bremen e Hannover.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Poemança Africana: Tomaz Medeiros (São Tomé e Príncipe)

Poemança Africana - 35


língua portuguesa


Na sexta-feira de Paixão
sairei à rua
vestido de branco — de luto
o ritmo do meu tambor silenciado,
os fios do meu cabelo embranquecidos,
meu coito denunciado e o esperma esterilizado,
meus filhos de fome engravidados,
minha ânsia e meu querer amordaçados,
minhas estátuas de heróis dinamitadas
agora?
Tu não conheces a ilha mestiça,
dos filhos sem pais
que as negras da ilha passeiam na rua?





O Novo Canto da Mãe


Mãe:
Nós somos os teus filhos
Que sem vergonha
Quebraram as fronteiras do silêncio.
Os filhos sem manhãs
Que rasgaram as noites que cobriam
As carnes das tuas carnes.

Nós somos, Mãezinha,
os teus filhos,
Os pés descalços,
Esfomeados,
Os meninos das roças,
Do cais,
Os capitães d’areia,
Os meninos negros à margem da vida,
Que desperdiçaram o destino do teu ventre,
Que endireitaram os instantes
Que marcaram socalcos na terra firme,
Na profundidade das trevas da tua vida.
Nós somos, Mãezinha, os teus filhos,
Sexos que germinaram vida,

Forças que desfloraram a virgindade dos dogmas,
Fecundaram minérios de esperança,
Olhos, dinamites de amor,
Mãos que esfacelaram a espessura dos obós,
E em cujo silêncio verde
Germina a Certeza:

Mãezinha:
Nós somos os teus filhos.





POEMA


Na sexta-feira de Paixão
sairei à rua
vestido de branco — de luto.

Sairei à rua
com as minhas fantasias todas
com as minhas charruas todas
telefones
telefonias
buiques e cadilaques
colheres de alpaca
candeeiros de gás
máquinas de lavar roupa
aquecedores
e todo o meu progresso
suspenso
no fato que eu trago
pintado de branco.

Sairei à rua
e não tirarei os olhos da terra
nem rezarei orações preguiçosas.

Sairei à rua
om os meus sorrisos maduros
com todos os meus santos vencidos
para me rir às gargalhadas
do Deus morto, crucificado.

Na sexta-feira de Paixão
sairei à rua
vestido de branco — de luto.

Deixarei em casa
a minha família inteira
com os meus filósofos bantus
com os meus guerreiros balubas
cantando canções iorubas.

Deixarei as minhas forcas em casa
e não sairei à rua
mesmo que o sol me convide
se não for sexta-feira de Paixão





MEU CANTO EUROPA


Agora,
agora que todos os contactos estão feitos,
as linhas dos telefones sintonizadas,
as linhas dos morses ensurdecidas,
os mares dos barcos violados,
os lábios dos risos esfrangalhados,
os filhos incógnitos germinados,
os frutos do solo encarcerados,
os músculos definhados
e o símbolo da escravidão determinado.

Agora,
agora que todos os contactos estão feitos,
com a coreografia do meu sangue coagulada,
o ritmo do meu tambor silenciado,
os fios do meu cabelo embranquecidos,
meu coito denunciado e o esperma esterilizado,
meus filhos de fome engravidados,
minha ânsia e meu querer amordaçados,
minhas estátuas de heróis dinamitadas,
meu grito de paz com os chicotes abafado,
meus passos guiados como passos de besta,
e o raciocínio embotado e manietados,

Agora,
agora que me estampaste no rosto
os primores da tua civilização,
eu te pergunto, Europa,
eu te pergunto: AGORA?





UM SOCOPÉ PARA NICOLÁS GUILLÉN


Conheces tu
Nicolás Guillén
a ilha do nome santo?

Não? Tu não a conheces?
A ilha dos cafezais floridos
e dos cacaueiros balançando
como mamas de uma mulher virgem?

Bembon, Nicolás Guillén
Nicolás Guillén, bembom.

Tu não conheces a ilha mestiça,
dos filhos sem pais
que as negras da ilha passeiam na rua?

Tu não conheces a ilha-riqueza
onde a miséria caminha
nos passos da gente?

Bembon, Nicolás Guillén
Nicolás Guillén, bembom.

Oh! vem ver a minha ilha,
vem ver cá de cima,
da nossa Sierra Maestra.
Vem ver com a vontade toda,
na cova da mão cheia.

Aqui não há ianques, Nicolás Guillén,
nem os ritmos sangrentos dos teus canaviais.

Aqui ninguém fala de yes,
nem fuma charuto ou
tabaco estrangeiro.

(Qu'importa, Nicolás Guillén,
Nicolás Guillén, qu'importa?)

Conoces tu
La islã dei Golfo?

Bembom, bembom,
Nicolás, bembom.





Tomás Medeiros: Meu Canto Europa 
|Poesia São Tome e Príncipe 
|Recitar Poema Africano |Poeta Lusófono







Tomás Medeiros 
– Poeta e Médico Cego, já não volta a S. Tomé 
E tão perto do coração!






_________________________

Em Antônio Alves Tomaz Medeiros: (São Tomé, 5 de Novembro de 1931) vamos encontrar uma Poesia vinculada à sedimentação de uma consciência anticolonialista, que, mais do que a fala de cada poeta, ela se consubstancia na voz coletiva do são-tomense. Tomaz Medeiros foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império onde foi diretor da revista Mensagem. Foi co-fundador do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, (MLSTP). Lutou pela independência dos países de expressão portuguesa.



sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Poemança Africana: Carlos Schwartz (Guiné-Bissau)

  Poemança Africana - 33


língua portuguesa




Do Que Chora a Criança
(versão portuguesa)


Do que chora a criança?
É dor no seu corpo
Do que chora a criança?
É sangue que cansou de ver

Um pássaro grande chegou
Com ovos de fogo
0 pássaro grande veio
Com os ovos da morte

Caçadores desconhecidos
Enganados metralharam a tabanca
Caçadores, pretos como nós
Enganados metralharam a bolanha

Queimou-se o mato
Queimaram-se as casas
Perdurou a dor na nossa alma






Antes de Partir


Antes de partir
Encherei os meus olhos, a minha memória
Do verde (verde, verde!) do meu País
Para que quando tomado pela saudade
Verde seja a esperança
Do regresso breve
Antes de partir
Encherei os meus ouvidos, a minha memória
Do palpitar que esmorece, enquanto a noite
Cresce sobre a cidade e no campo
Feito o silêncio dos homens e dos rádis...






Canta Camarada


Canta camarada
Deixa que o teu sonho verdade
Flua límpido nos anseios da tua voz quente
Pois este é o teu dever, o teu direito.

Canta camarada
Que a recordação da tua dor
Seja como a terra revolvida
Em cada época, para a sementeira.

Canta camarada
Apenas alguns nomes, para que seja exaltado o anónimo
Apenas os mortos, porque os vivos
Ainda podem desmerecer da nossa gratidão.

Canta camarada
Pois é a única benesse
Que te reservaste na oferta da tua juventude
Em Holocausto no altar da revolução.






Na Kolonia 
· José Carlos Schwarz & Le Cobiana Djazz · Aliu Barry








Nó cana seta
- José Carlos Schwarz







Mindjeres di pano preto
- José Carlos Schwarz




Mindjeris de pano preto
Ka bo tchora pena

Si kontra bo pudi
Ora ke un son di nos fidi
Bo ba ta rasa
Pa tisinu no kasa

Pabia li ki no tchon
No ta bai nan te
Bolta di mundu
I rabu di pumba

Ma bo na limpa korson
Ku no sangi
Ki na kai na tchon

Composição: José Carlos Schwarz






[Documentario]
- A Voz do Povo (Parte 1)
José Carlos Schwarz








[Documentario]
- A Voz do Povo (Parte 2)
José Carlos Schwarz




______________________

José Carlos Schwarz (Bissau, 6 de Dezembro, 1949 – Havana, 27 de Maio, 1977) foi um poeta e músico da Guiné-Bissau. Ele é amplamente reconhecido como um dos mais importantes e notáveis músicos da Guiné-Bissau.


Combatente de Liberdade da Pátria, Herói Nacional, Poeta e Musico, Ícone da Musica Moderna Guineense. 

Ele escreveu em português e francês, porém cantava em crioulo. Em 1970 ele formou o "Cobiana Djazz", banda formada por um grupo de amigos. Após a independência da Guiné-Bissau, Schwarz tornou-se o diretor do Departamento de Artes e Cultura, e também o responsável pela política de infância guineense. Em 1977 iniciou sua carreira na Embaixada da Guiné-Bissau em Cuba. No dia 27 de Maio do mesmo ano, Schwarz morreu em acidente de avião próximo a Havana.



domingo, 12 de setembro de 2021

Poemança Africana: Alzira Cabral (Cabo Verde)

 Poesia Africana - 32


língua portuguesa




Mantenha



Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.

E mando mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos:

A cor que me deste!







(...)
é porque não sei (incrível !...)
se saberia
descrever-te com palavras
os contornos do meu amor.


(Silêncio, Alzira Cabral)






________________________

Biografia

Alzira Cabral nasceu em Cabo Verde (Bissau) em 1955. Sua obra encontra-se dispersa em revistas e uma seleção dos seus poemas foi publicada na antologia “Mirabilis de veias ao sol” (AAVV, 1991) que divulga a poesia pós-colonial de Cabo Verde, trazendo a público nomes novos como Paula Martins, Alzira Cabral, Arcília Barreto e Ana Júlia e outros já conhecidos, como Dina Salústio, Vera Duarte.

O poema Mantenha foi extraído da antologia “Poesia Africana de Língua Portuguesa”, organizado por Lívia Apa, Arlindo Barbeitos e Maria Alexandre Dáskalos. Lacerda Editores, RJ, 2003.


Poemas publicados em Mirabilis de veias ao sol:

Psicose

Como antes

Recado

Julgamento

Abram alas!

Silêncio

sábado, 17 de julho de 2021

Poemança Africana: Alice Palmira (Angola)

Poesia Africana - 31


língua portuguesa




Certo Olhar


Estimula
A natureza
Certo
Aberto
Afasta-se
Ao ritmo
Sedutor
Do amor
Sem cor
Sem fronteira
Com firmeza
Com conhecimento
Com confirmação
O teu certo olhar
Não abraça o pejo
E não é ausência
Mas desperta
A duração
Das coisas






Teu Nome

Sou feliz
Ao escrever
O teu nome
Poesio-te
Ouço o sussurro
Das tuas palavras
De amor que guardo
No meu peito
Em cada palavra
Existe um lugar
Partilhando a nossa
Vontade de amar
Ao longo do tempo
Idealizo-te
Vivo-te
Esperando o momento
Propício
Com o tempo leva tudo
Ouvindo a tua voz
De sexo a limpo





Sou Sacana 

Se a amargura do amor 
Me sacode 
Vou a banho 
Molho bem a cabeça 
Que é o responsável de tudo 
Sem confiança 
E sem modo 
Uiii sou sacana 
Não quero esta 
Amargura 
Entre as costelas 
E no sexo 
Não quero morrer 
De trombose 
Mas sim 
Quero essa 
Amargura 
Do amor por você





MINHA POESIA

Dá-me a tua luz
A verdade do olhar
Não é mal nenhum escrever meu nome
Não é mal nenhum escrever poesia
Não é mal nenhum escrever teu nome
Não é mal nenhum escrever teu gozo
Não é mal nenhum escrever liberdade
A paz
O amor
A bondade
A mansidão
A temperança
Dá-me a tua luz
A verdade do teu olhar
Onde vai a poesia?
Onde para a poesia?
Se a sinceridade e a poesia dói, isto é
Escrever um poema.






A MULEMBA DA ESPERANÇA

        A Mulemba do Huambo
É também a mulemba de renascer
E vim replantar o meu sentido ao pé de ti
Havemos de nos encontrar um dia para nos perdoar

        A mulemba da saudade
É também a mulemba do nosso ponto de encontro semanal
O homem vale o que vale pelas suas armas
Havemos de nos encontrar um dia para dar-nos kandandu

       A mulemba da esperança
É também a mulemba do regresso ao país, da qual nos
Sentamos a contemplar a paisagem para escrever a
Literatura e o jornalismo da nossa terra Angola
Havemos de nos encontrar um dia para dar-nos kandandu






Dormir no Chão


Narração Jorge Manuel Ramos




Alice Palmira nasceu em Brazzaville, República do Congo, a 7 de Julho de 1944, mas de nacionalidade angolana. Descendente de angolanos, aí fez os estudos primários e liceais. Para ajudar a família em dificuldades, teve que abandonar os seus estudos liceais para se matricular numa escola de dactilografia.

Foi secretária do Bureau Político do Partido Congolês do Trabalho. Trabalhou sucessivamente no Ministério do Trabalho, Previdência Social, Ministério da Indústria e na Direcção Geral do Trabalho da República do Congo.

Regressou a Angola em 1976 integrada na comitiva de António Agostinho Neto tendo sido redactora estagiária na Rádio Nacional de Angola e tradutora na Angodiplo, U.E.E. em Luanda.

Por razões pessoais abandona Angola e estabelece-se em Portugal onde vive desde 1982.
É membro e co-fundadora da União de Escritores Angolanos.

Publicou em Brazzaville em 1981, a obra poética "Liberté". Em 2005 publica em Luanda a obra "Mulemba da Saudade".

__________


VASCONCELOS, Adriano Botelho de, org. Todos os sonhos. Antologia da Poesia Moderna Angolana. Luanda: União dos Escritores Angolanos "Guaches da Vida", 2005. 593 p.




Através 

Não é através 
Da poesia 
Das histórias 
Das pesquisas 
Que é possível 
Humanizar 
A criatura 
Mas é através 
Da atitude 
Na vida 
Na observação 
E no dia-a-dia 
É ter sensação 
De gostar 
A natureza 
É através 
Da poesia 
A criatura precisa 
Dos atos de presença 
De diálogo 
Da procura 
Que dá origem 
À identidade 
Se torna mais 
Generosa 
E mais Solidária





Cabeça rapada


Irei a África
Os meus olhos lembram-se
O mufete com mandioca e
Feijão de óleo de palma

Irei cumprimentar a rainha
De cabeça rapada de joelhos
A África é um fogo de mata que conheço
Como os segundos dos meus minutos esfaimados

Não tenho, agora, de comum com África
O fogo que habita África, berço do meu ombro.





Nota de André Capilé retirada do blog Revista Modo de Usa & Co.


As comunidades linguísticas de origem bantu comportam um sem número de idiomas, com características mais ou menos aparentadas, criando um complexo emaranhado de significações que nem a violência dos processos de colonização conseguiu extinguir. Contudo, elementos de contaminação entre elas, as línguas nativas, e também a língua dos colonizadores, gerou em seu cerne uma série de variantes. Algumas delas saborosas; outras, nem tanto. Todavia, diante de determinados cenários, a linguagem comparece como efeito de resistência, rasurando espaços de enunciação que entregam corpos e cenários, não apenas como nuance de cor local, mas como registro de reconhecimento dos circuitos de ancestralidade – o que não quer dizer que sejam fenômenos apaziguadores.

Entre nós, falantes da língua brasileira, em muito devemos, também, a esses complexos linguísticos. Embora tenhamos apagado certos rastros de origem, são idiomas que espectram a nossa fala cotidiana. “Moleque”, por exemplo, do kimbundu “mulêke”, se dá como acepção: “garoto; rapaz; criado de servir” – embora o termo, sob certos aspectos, tenha sido ressemantizado, devemos, ainda, brigar com certas fixações nos dicionários. “Kandenge”, por exemplo, poderia hoje ser traduzido, no Brasil, como “de menor”? O mesmo serviria para “kafioto”?

O recente interesse pelas literaturas de expressão portuguesa em África gerou uma série de consequências interessantes no Brasil. Uma delas, e é uma hipótese em que não se pode contar certeza, renovou um olhar diferenciado para alguns segmentos das religiões de matriz africana, principalmente as de origem bantu – o candomblé de raiz Angola-Kongo. Talvez seja assunto para outro momento, embora ao ler “A mulemba da esperança”, poema de Alice Palmira, alguns desses caminhos se cruzem.

A escolha pela “mulemba” é muito significativa, a meu ver, por dois vetores: 1) árvore muito importante para a tradição bantu, por ser um lugar de encontro – principalmente dos guardiões dos clãs – é, também, um espaço de um processo de iniciação que só ocorre durante a noite – o que garante a enunciação mística da mulemba; 2) no Brasil, a figueira é uma das mais importantes árvores rituais no circuito das religiões de matriz africana. Nas raízes Angola-Kongo, a mulemba – ou Figueira – está intimamente ligada ao culto da ancestralidade e ao nkisi Kitembo [ou Kindembu] que é o rei da nação – assim como Oxóssi está para o Ketu e Besen está para os Fon. Kitembo é um nkisi ligado à atmosfera e o vento, também às estações do ano, o tempo cronológico e mitológico. Entre os elementos que o representam, há uma bandeira branca que serve como referência espacial para a chegada da caça, o registro de que naquele lugar há água, entre outras coisas. Nas casas de santo no Brasil é marca, também, de identidade ritual.

Outra palavra que vemos no poema é “kandandu”. A acepção direta desse termo signifca “abraço”. Contudo, há uma variante que liga a palavra a uma presença familiar. O termo “ka” é um artigo definido, “ndandu” comparece como “consanguinidade; parentesco” e, por extensão, “afinidade”; “o parente”, por assim dizer. O último termo, do qual tomo nota agora, é “Huambo”, uma província de Benguela. O termo chegou nessa forma como uma corruptela da língua portuguesa, antes funcionava como adjetivação para “mar grande”, ou, melhor dito: “wambu kalunga”.

Acredito que tanto conhecer as acepções duras dos vocábulos, quanto tomar a partida de possíveis ressemantizações desses mesmos termos, podem render, e muito, na leitura desse, e de outros, poemas africanos de expressão portuguesa.

Embora não vá mais me extender, cabe, a título de registro, que entre os poetas brasileiros vivos, e muito vivos, tenho visto Edimilson de Almeida Pereira fazer, com seu arsenal e repertório de linguagem, o uso mais significativo das nuances das línguas de matriz bantu. A nossa rotina, por aqui, é entender África sob perspectivas nagôs –admito o reducionismo generalista, contudo temos notícia dos itans e orikis, traduzidos por Risério e, também, reconfigurados por Ricardo Aleixo e, ainda, o próprio Edimilson com o seu belo Livro de Falas – talvez por conta dos orixás, e suas comidas votivas, estarem mais aclimatados em nosso imaginário, mas muito pouco se diz, e se faz, com e sobre a incidência bantu em nossos repertórios de leitura e escrita.

Uma anedota: imagino que um número considerável de pessoas tenha assistido o desenho Bambi, aquele de Walt Disney, ora pois: “Mbambi”: “Antílope maior que a Corça; Cervo; Veado”.


Kandandu.


terça-feira, 4 de maio de 2021

Poemança Africana: Francisco José Tenreiro (São Tomé e Príncipe)

  Poesia Africana - 30


língua portuguesa




CORAÇÃO


Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África

ao atravessar estes campos do trigo sem bocas
das ruas sem alegria com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos períodos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities
                                        [boulevards e baixa da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do
                                        [orçamento que não equilibra
do Benfica venceu Sporting ou não
ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra
para que nasçam flores roxas de paz
com fitas de veludo e caixões de pinho;
oh as longas páginas do jornal do mundo
são folhas enegrecidas de macabro clue
com mourarias de facas e guernicas de toureiros.
Em três linhas (sentidas saudades de África) –
Mac Gee cidadão da América e da democracia
Mac Gee cidadão Negro e da negritude
Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro
Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadei-
                                                                   [ra eléctrica
(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em
                                                     [África e sempre vivo
floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas
e também azuis e também verdes e também amarelas
na gama policroma da verdade do Negro
na inocência de Mac Gee) – ;
três linhas no jornal como falso cartão de pêsames.
Caminhos trilhados na Europa
de coração em África.
De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas
                                                                    [de Guillén
de coração em África com a impetuosidade viril de I tôo
                                                             [am América
de coração em áfrica com as árvores renascidas em
                        [todas estações nos belos poemas de Diop
de coração em África nos rios antigos que o Negro
                    [conheceu e no mistério do Chaka-Senghor
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em
                                                     [versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do
                                          [Congo de coração em África
de Coração em África ao meio-dia do dia de coração em
                                                                          [África
com o Sol sentado nas delícias do zênite
reduzindo a pontos as sombras dos Negros.
Amodorrando no próprio calor da reverberação os mos-
                                        [quitos da nocturna picadela.
De coração em África em noites de vigília escutando o
                                                     [olho mágico do rádio
e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.
De coração em África em todas as poesias gregárias ou
                                                    [escolares que zombam
e zumbem sob as folhas de couve da indiferença
mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios
                                                                        [garridos
e jogos de galinha branca vai até França
que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e
                                                                        [mulatas
de olhos rubros como carvões verdes acesos.
De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade
de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios
enquanto que à minha volta sussura olha o preto (que
          [bom) olha um negro (óptimo) olha um mulato
                     [(tanto faz) olha um moreno (ridículo)
e procuro no horizonte cerrado da beira-mar
cheiro de maresias distantes e areias distantes
com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa
                                                                      [da tarde
De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e
                                                          [sujo de beira-cais
vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata
                                     [perdida na carapinha alvinitente;
de coração em África com as mãos e o pés trambolhos
                                                                     [disformes
e deformados como os quadros de Portinari dos
                                                     [estivadores do mar
e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas
                                                    [das fomes de Pomar
vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a
                                                     [própria cor da pele
dos homens brancos amarelos negros ou às riscas
e o coração entristece à beira-mar da Europa
da Europa por mim trilhada de coração em África;
e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar
soluça a indignação que fez os homens escravos dos
                                                                         [homens
mulheres escravas de homens crianças escravas de
                               [homens negros escravos dos homens
e também aqueles que ninguém fala e eu Negro não
                                                                 [esqueço
como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu
                                                                           [sei lá
que são tantos e todos escravos entre si.
Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu
                                                                        [coração
de uma só vez (oh órgão feminino do homem)
de uma só vez para que possa pensar contigo em África
na esperança de que para o ano vem a monção torrencial
que alagará os campos ressequidos pela amargura da
          [metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki
na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de
                                    [Trigo para os meninos viciados
e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da
                                                                             [Terra
distribuíra o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;
na esperança de que às entranhas hiantes de um menino
                                                                       [antípoda
haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo
                             [que lhe mitigue a sede da existência.
Deixa-me coração louco
Deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela
                                                    [paleta viva de Rivera
E pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;
deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso
                                                            [sairão pombas
que como nuvens voarão os céus do mundo de coração
                                                                  [em África.






Canção do Mestiço



CANÇÃO DO MESTIÇO



Mestiço

Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.

Mestiço!

E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição.

Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
– mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.

Ah!
Mas eu não me danei...
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!...

Mestiço!

Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...








MÃOS



Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.
Mãos que na cera polida encontram o orgulho perdido do Benin.
Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro
e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:
plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim
e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.
Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,
mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva
para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres
adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças
o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.

Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra
o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.
Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.
Mãos correndo com o harmatan nuvens de gafanhotos livres
criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.
Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da ventura
e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária
e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!

Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.

Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas
Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização
Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos
Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados
Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens
Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:
Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!

Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!

Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é
dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.
Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã
criastes religião e arte, religião e amor.

Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!




A professora e pesquisadora Naduska Mário apresenta o poeta poeta santomense Francisco José Tenreiro.






CANTO DE OBÓ


O sol golpeia as costas do negro
e rios de suor ficam correndo.

Ardor!
 
O machim golpeia o pau
rios de seiva escorrendo

Ardor!

Os olhos do branco
como chicotes
ferem o mato que está gritando...

Só a água sussurante/calmo
corre prao mar
tal qual a alma da terra!






_______________


Francisco José Tenreiro - (1921-1963)

Nasceu na ilha de São Tomé donde partiu, ainda novo, para o Continente onde estudou em Lisboa. Foi professor no Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina.

Obras: Ilha do Nome Santo, "Novo Cancioneiro", Coimbra, 1942; Obra Poética de Francisco José Tenreiro, 1967; A Ilha de São Tomé-Estudo Geográfico, Lisboa, 1961


terça-feira, 2 de março de 2021

Poesia Africana: Campos D'Oliveira (Moçambique)

 Poesia Africana - 29


língua portuguesa




A UMA VIRGEM
(Improviso)

Motora dos meus martírios!
Causa da minha saudade!
Ingénua e casta deudade!
Minha terna inspiração!
Condoi-te da triste sorte
Do jovem que te ama tanto,
Que por ti verte agro pranto
Gerado no coração!

Rasga-me o peito, se queres,
E vê nele a intensa chama,
Que há três anos o inflama
Em cruas dores, sem fim...
De padecer já cansado
Vou sentindo a morte dura
Arrastar-me à sepultura,
E na flor da idade assim!...

E podes ser tão tirana,
Que possas ver indif´rente
D´anos de´nove somente
Morrer o teu trovador?!
Ai! Não! Alenta-me a vida,
Reprime esta dor infinda
Dando-me só, virgem linda,
O teu puro e casto amor!...




O PESCADOR DE MOÇAMBIQUE

— Eu nasci em Moçambique,
de pais humildes provim,
a cor negra que eles tinham
é a cor que tenho em mim;
sou pescador desde a infância,
e no mar sempre vaguei;
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei.

Antes que o sol se levante
eis que junto à praia estou;
se ao repouso marco as horas
à preguiça não as dou;
em frágil casquinha leve,
sempre longe do meu lar,
ando entregue ao vento e às ondas
sem a morte recear.

Ter contínuo a vida em risco
é triste coisa — sei que é!
mas do mar não teme as iras
quem em Deus depõe a fé;
é pequena a recompensa
da vida custosa assim;
mas se a forme não me mata
que me importa o resto a mim?

Vou da Cabeceira às praias,
atravesso Mussuril,
traje embora o céu d´escuro,
u todo seja d´anil;
de Lumbo visito as águas
e assim vou até S ancul,
chego depois ao mar-alto
sopre o note ou ruja o sul.

Só à noite a casca atraco
para o corpo repousar,
e ao pé da mulher que estimo
ledas horas ir passar:
da mulher doces carícias
também quer o pescador,
pois d´esta vida os pesares
faz quase esquecer o amor!

Sou pescador desde a infância
e no mar sempre vaguei;
a pesca me dá sustento,
nunca outro mister busquei;
e enquanto tiver os braços,
a pá e a casquinha ali,
viverei sempre contente
neste lidar que escolhi! —





_________________



José Pedro da Silva Campos d´Oliveira na Ilha de Moçambique. Poeta e contista.

Obra publicada: O mancebo e rovador Campos Oliveira (1985), org. de Manuel Ferreira.

Nasceu (Ilha de Moçambique, 1847 — 1911) foi um jornalista, poeta e prosador moçambicano. A sua poesia representa o o despertar da poesia moçambicana.

Filho de pai goês, viveu e estudou na Índia. Viveu em Nova Goa até 1867, regressando à Ilha de Moçambique para desempenhar vários cargos como funcionário público, inclusive como diretor do correio e escrivão da Capitania dos Portos.

Trabalhou como jornalista em diferentes publicações como O Ultramar, a Illustração Goana, Almanach Literário, Almanach de Lembranças Luso-Indiano e Almanach Popular em 1865.

Esteve envolvido na criação da primeira revista literária de Moçambique, a Revista Africana (editada entre 1885- 1887).

Obras:

A Uma Senhora Muito Feia
Charada


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Poesia Africana: António Baticã Ferreira (Guiné-Bissau)

   Poesia Africana - 28


língua portuguesa



Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração,
Em espírito demando o meu país natal,
E lembro aquela floresta africana,
Cheia de caça e de verdura;
Lembro as suas imensas árvores gigantes,
A folhagem verde ou amarela
Que nos perfuma






A FONTE


I


Eis-me perto da Fonte, muito perto.
Vejo brotar a água,
Uma água clara e límpida,
Boa, amável!

Eis a Fonte:
Fica perto de Badiopor.
Junto dela nasci:
Eis a Fonte da minha infância.

Sim, eu amo essa Fonte,
Admiro-a,
Brinco,
Eu e meus irmãos, à sua beira.

Fica, fica perto de Badiopor,
Desse lugar quase sagrado,
Desse lugar ensombrado;
Badiopor, fonte de nossas almas.

A sua água nos atrai,
E acarinha-nos.
Vemo-la noite e dia;

E a Fonte que está mais perto.

Olha: a água a brotar da nascente,
Como de fonte,
Como um regato!

(Sim, parece-se mais com um regato.)




II


Mais pequena ainda que a Fonte,
É a nascente onde tudo vem beber.
A nascente, nossos pais, amamo-la.
Nossa.

A nascente é fonte das árvores e das folhas.
Olhamos a nascente, o ribeiro,
Manancial de nossos pais.

É verdade:

Esta Fonte é mui antiga,

Nascente da Tradição,
Fonte da Historia; eis
O manancial do Reino,
Tão perto de Badiopor!

Bem me lembro:
Ha muito que ela se conserva no mesmo lugar,
Manando água cristalina.
Eis, eis a Fonte do Reino.

Ela protege-nos,
Ela é a alma das crianças;
Fonte do Reino, força nossa,
Ela é a nossa protectora.

As chaves do Reino onde estão?

Nessa Fonte,
Onde meus irmãos e eu vemos às vezes monstros
E trememos então de medo,
Ou choramos.

(Nós, filhos do Reino,
Nos, príncipes desse seu Reino.)



III


É verdade, como príncipes,
De tudo cantamos,

Nos, príncipes de Baboque
Bem amados,
Pelo sangue
Oriundos daquele Rei,

Daquele que é Rei dos Reis;
Nos que vimos do seu Reino,
De todos o mais poderoso e vasto,
Como o Reino de Baçarel.

(E Baçarel é um grande Reino,
Onde príncipes vêm a luz;
Baçarel, terra bem nobre,
Seu lugar de nascimento.)





O MAR


Olhai: o Mar tem influência singular
Sobre mim. Os animais aquáticos são tantos
Valia a pena persegui-los no mar alto;

Valia a pena vê-los saltar através das ondas.

O Mar, esse mundo que os homens não habitam,
É imenso, tão belo e tão perfeito!
O Mar tem influência singular
Sobre mim. Eu bem queria ir ver as ondas;

Valia a pena olhá-las a correr
Loucamente; valia a pena
Ver qual delas primeiro entrava na baía.

Ah!, o Mar vasto, no entanto, aqui nos fala
Sim, fala-nos interiormente,
E nos compreendemos a sua língua:
E uma língua que se entende.

(Ah!, que impressão nos faz o Mar!)





INFÂNCIA


Eu corria através dos bosques e das florestas
Eu corno o ruído vibrante de um bosque desvendado,
Eu via belos pássaros voando pelos campos
E parecia ser levado por seus cantos.

Subitamente, desviei os meus olhos
Para o alto mar e para os grandes celeiros
Cheios da colheita dos bravos camponeses
Que, terminando o dia, regressavam à noite entoando

Canções tradicionais das selvas africanas
Que lhes lembravam os ódios ardentes
Dos velhos. Subitamente, uma corça gritou
Fugindo na frente dos leões esfomeados.

Aos saltos, os leões perseguiram a corça
Derrubando as lianas e afugentando os pássaros.
A desgraçada atingiu a planície
E os dois reis breve a alcançaram



PAÍS NATAL


Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração,
Em espírito demando o meu país natal,
E lembro aquela floresta africana,
Cheia de caça e de verdura;
Lembro as suas imensas árvores gigantes,
A folhagem verde ou amarela
Que nos perfuma.
Revejo a minha infância,
Toda cheia de alegrias:
Eu corria pelo mato,
Espiava os animais selvagens,
Sem medo;
E olhava os lavradores nos campos,
E, no mar, os pescadores,
Que lutavam contra o vento, para agarrar o peixe,
E que eu, atento, seguia com o olhar:
Como gostava de os ver no oceano
Domar as vagas, que lhes queriam virar as barcas!
(Ah!, bem me lembro, bem me lembro do meu país natal!)



__________________________



António Baticã Ferreira nasceu em Texeira Pinto no Canchungo (Guiné-Bissau) no ano de 1939. Estudou em França onde concluiu o liceu.

Na Suíça formou-se em medicina na Universidade de Lausana. Sabe-se que exerceu medicina no Hospital de Santa Maria em Lisboa (Portugal), mas desconhece-se quanto tempo viveu em Portugal.

De acordo com Luís Graça (bloguer), Albano de Matos disse-lhe que conheceu António Baticã na Sociedade da Língua Portugues e que este ter-lhe-á publicado colectânea de poesia de nominada “Poesia & Ficção".

Em 1945 António Baticã Ferreira e Amílcar Cabral estavam ligados ao partido PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) na luta pela independência da Guiné-Bissau contra o domínio Português e com a denominada “poesia de combate” que incitava a luta pela libertação

No que diz respeito a musica cabo verdiana, Baticã também teve grande relevo, pois no período que antecedeu a libertação os seus escritos foram considerados com forma de expressão fizeram cultural na Guiné-Bissau.

A sua poesia está dispersa por diversas publicações francesas e portuguesas, nomeadamente La Tribune Internacional des Poètes, L’Afrique Nouvelle e La Croix; Poesia & Ficção, Diário Popular e Debate.


sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Poesia Africana: Ana Júlia Sança (Cabo Verde)

  Poesia Africana - 27


língua portuguesa



O drama começa no momento
em que nasce a ideia de "partir"
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos.

Perdeu o alento
Sua canção desfeita em lágrima
Sobre o farelo caído no chão






Emigrante


O drama começa no momento
em que nasce a ideia de "partir"
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos.

Emigrante!
Esta é a alcunha que te deram.

A tragédia que isso acarreta
consome anos de existência
aniquilando lentamente
castelos edificados de ilusões
que dos sonhos ainda restam.

Emigrante!
Fantasia dos que ficam

Am’’ricas
Alemanhas
Franças
e outros mundos sempre iguais...

Emigrante!

Suportar esse título tão honradamente
ter que comer o pão que o diabo amassou
ser sempre forasteiro em porta alheia...

Sim, emigrante!

Emigrante = sobrevivência
Gritos de alma
ambição amordaçada
desejos frustrados...

VITA BREVIS num copo de vinho
Esquecer as amarguras
Da "Terra Prometida"





Insólito


A luz que a chama me prende
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro trio do vento, enrijecendo o carácter
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra
E urgente e necessário que se combata o mal
E tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.




Cantiga Africana


"O ló kalunga uá mu bangele...”

Assim cantava Denxo,
Ao som do pilão
Cantiga que aprendera
Nas roças de S. Tomé.

"O ló kalunga uá mu bengele..."

Denxo cantava e soluçava
Ao compasso ritmado
Do pó batendo no pilão
Para milho, fazer cachupa

"Bangele-Lé Lelé..."

De balaio erguido na mão
Panela à espera do lume
Bolso sem um tostão
Denxo venteia seu milho

"Lé Lelé.."

Perdeu o alento
Sua canção desfeita em lágrima
Sobre o farelo caído no chão
Enquanto pensa no seu irmão
Que ficou na terra do café.





Seiva Eterna
         (A meu pai - Caetano Macedo)


Na minha fronte ausente
Só tu persistes
Na água que circunda
O vale de recordações
Em que me encerro
Na areia que queima os meus pés,
Na orla verdejante que entoa uma canção.
Os barcos que cruzam o meu pensamento
Voam como borboletas coloridas
Que ao relento vão pousar suavemente
Nos mastros que ostentam o meu olhar.
Neste recanto que não é de ninguém
As abelhas zumbem e giram à volta
Neste espaço ausente igual a mim.
Vejo ressurgir a tua imagem
No intervalo das folhagens
Meu olhar vago se desfaz no vácuo.
O sol incide sobre o meu corpo estático
Sinto-me renascer como um simples vertebrado
Sob o ruído das gaivotas
em busca de sobrevivência
Etu,
Como relíquia Vais permanecendo


________________


Ana Júlia Monteiro Macedo Sança, nasceu em Cabo Verde, na África de língua portuguesa.

Seu primeiro livro — Arco Vírus e Vibra Sóis foi publicado em 1985 pela editora Peregrinação.

Poetisa laureada, a Ana já ganhou prêmios em Itália, Portugal e Estados Unidos. É funcionária do Consulado-Geral de Portugal em Toronto (Canadá).


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Poesia Africana: Alexandre Dáskalos (Angola)

 Poesia Africana - 26


língua portuguesa





"Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica feito
Para o branco me dizer
'Obra de preto sem jeito'

Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!"





CARTA


Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo pra sofrer
Boca para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica feito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"

E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fio salta na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mão
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai pro mar
Larga a lavra deixa os bois
Morrem os bois... e depois?
Se é caçador de palancas
Se é caçador de Leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo, meu irmão.






QUE É S.TOMÉ


Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado.
Blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné

Eu fui S.Tomé!

Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...

Agora então volto,
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos de roça

Eu vi S.Tomé!

Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado,
cuidado! Cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o, té dá
galinhas ... e bois ...
e terras ... depois
Já tiras de graça
o milho da fubá
o leite, a ginguba
e bebes cachaça.

Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.

Que é S.Tomé!

Cabelo rapado.
Blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné



II


Este mente, aquele mente
outro mente ... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?

A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente
A minha boca não fala
a língua da minha gente.

Com vinte anos de contrato
nas roças de S. Tomé
só fiz quatro.

Voltei à terra que é minha
É minha? É ou não é?

Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado!
Vai o sono, vem o sono
Vai ó sono

quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas, acordei de repente.

Quero ficar acordado.

Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção,
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de S. Tomé?

Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mão
tudo quanto a gente come:

trinta vacas de fome,
galinhas ... de papelão
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça

Eu fui S.Tomé!

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné





RESIGNAÇÃO


I

Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné

Eu foi São Tomé!

Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...

Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça

Eu vi São Tomé!

Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.

Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.

Que é São Tomé?

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.



II

Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?

A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.

A minha boca não fala
a língua da minha gente.

Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.

Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?

Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.

Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.

Quero ficar acordado.

Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?

Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.

Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.

Eu foi São Tomé!

Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.

Aiuéé!






QUANDO EU MORRER







________________


ALEXANDRE DÁSKALOS, 

Poeta angolano, Alexandre Mendonça de Oliveira Dáskalos nasceu em Huambo, antiga Nova Lisboa (Angola), em 1924.

Fez a instrução primária e secundária no Huambo, antiga Nova Lisboa.

Em 1942 frequentou o liceu de Sá da Bandeira, atual cidade do Lubango, onde concluiu o 7º ano.

Pai da poetisa Maria Alexandre Dáskalos, fez os estudos na terra natal e, em 1942, conclui o 7.º ano, no liceu de Sá da Bandeira, atual cidade de Lubango.

Após terminar os estudos liceais, partiu para Lisboa, onde se licenciou em Medicina Veterinária, regressando em 1950 a Angola.

No ano em que concluiu os estudos secundários segue para Lisboa e matricula-se na Escola Superior de Medicina Veterinária, tendo-se licenciado cinco anos depois.

Em 1960, já muito doente foi para Portugal, onde faleceu no sanatório de Caramulo um ano depois.

Elemento importante do movimento Vamos Descobrir Angola e da Geração da Mensagem , o poeta publicou Poesias (1961) e Poesia de Alexandre Dáskalos (1975, edição póstuma) e colaborou em O Planálto e em Mensagem (Casa dos Estudantes do Império).

Muitos dos seus poemas foram musicados e traduzidos para diversas línguas.

Ainda nos anos 60, é publicado um opúsculo de quatro poemas seus na “coleção Bailundo”, dirigida pelo poeta Ernesto Lara Filho e Rebelo de Andrade.

Numa carta datada de 11 de Abril de 1961, dirigida a Ernesto Lara Filho, António Jacinto escrevia:. “(…) Alexandre Dáskalos foi infeliz porque morreu. Felicidade é viver. Um dia chamei à cabouqueira geração de sacrifício”.
“Geração sem estátua, sem placa na rua, sem magistério, mesmo sem livro ou até sem árvore plantada. Mas ainda sinto orgulho da geração a que pertenço, a que pertencemos. A geração que é brita ou asfalto, certa ou errada, no caminho, na estrada (…)”. Por conseguinte, discordo de Mário António, que questionando a unidade polifónica dessa geração, escrevia o seguinte: “É tudo ainda do domínio subconsciente, dentro de cuja imprecisão de limites(e só aí ) possível se tornava enxergar uma unidade. Unidade que parece-nos, no entanto, ter existido, mas muito pouco do ponto de vista literário, pois não teria sido um acaso esses jovens começarem a sentir-se integrados, na mesma altura, numa determinada circunstância de lugar e tempo”.
Fonte: gl.wikipedia.org/betogomes.sites.uol.com.br/www.sanzalangola.com/www.nexus.ao/www.infopedia.pt


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Poesia Africana: Manuela Margarido (São Tomé e Príncipe)

Poesia Africana - 25

língua portuguesa





"E preciso não perder
de vista as crianças que brincam

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!"






VÓS QUE OCUPAIS A NOSSA TERRA


E preciso não perder
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as árvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragédia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
máscaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?




V


A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.





ROÇA


A noite sangra
no mato,
ferida por uma aguda lança
de cólera.
A madrugada sangra
de outro modo:
é o sino da alvorada
que desperta o terreiro.
E o feito que começa
a destinar as tarefas
para mais um dia de trabalho.

A manhã sangra ainda:
salsas a bananeira
com um machim de prata;

capinas o mato
com um machim de raiva;
abres o coco
com um machim de esperança;
cortas o cacho de andim
corn um machim de certeza.

E à tarde regressas
a senzala;
a noite esculpe
os seus lábios frios
na tua pele
E sonhas na distância
uma vida mais livre,
que o teu gesto
há-de realizar.




ALTO COMO O SILÊNCIO


A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.












MANUELA MARGARIDO
(1925-2007)


Maria Manuela Conceição Carvalho Margarido (Roça Olímpia, Ilha do Príncipe, 1925 - Lisboa, 10 de Março de 2007) foi uma poetisa são-tomense.

Manuela Margarido cedo abraçou a causa do combate anti-colonialista, que a partir da década de 1950 se afirmou em África, e da independência do arquipélago. Em 1953, levanta a voz contra o massacre de Batepá, perpetrado pela repressão colonial portuguesa.

Denunciou com a sua poesia a repressão colonialista e a miséria em que viviam os são-tomenses nas roças do café e do cacau.

Estudou ciências religiosas, sociologia, etnologia e cinema na Sorbonne de Paris, onde esteve exilada. Foi embaixadora do seu país em Bruxelas e junto de várias organizações internacionais.

Em Lisboa, onde viveu, Manuela Margarido empenhou-se na divulgação da cultura do seu país, sendo considerada, a par de Alda Espírito Santo, Caetano da Costa Alegre e Francisco José Tenreiro, um dos principais nomes da poesia de São Tomé e Príncipe.




terça-feira, 4 de agosto de 2020

Poesia Africana: Josina Machel (Moçambique)

Poesia Africana - 24

língua portuguesa




"Fui presa quando tentava fugir de Moçambique. Fui presa em Victoria Falls na fronteira entre a Rodésia e a Zâmbia. A polícia rodesiana prendeu-me e enviou-me de novo para Lourenço Marques. a polícia rodesiana trabalhava em estreita colaboração com a polícia portuguesa. Éramos oito no nosso grupo, tanto rapazes como raparigas. A polícia portuguesa ameaçou-nos, interrogou-nos e bateu nos rapazes."






É NESTE MOMENTO


E neste momento
que devemo-nos preparar
p'ra enfrentar dificuldades

E neste momento
que devemos decidir
unir, lutar e avançar.

E neste momento
que devemos estar firmes
labutar e defender a nossa Pátria.

E neste momento
que devemos sentir com mágoa
o sangue derramado pelos nossos heróis.

É neste momento
que devemos estar conscientes
mais corajosos
p'ra lutar nunca vacilar.

E neste momento
que devemos ter em mente
e compreender a causa da nossa luta.

E neste momento
que devemos voluntariamente
entregarmo-nos à Revolução.






SEM TÍTULO


Tantos anos de opressão aturo
Torturas e maus tratos vejo
E sem nada por fazer, me calo.

De toda maneira sou explorado
Escravizado e oprimido também
Apesar de tudo isso me ensinas
A ouvir, ver e dizer: Obrigado!

Sou de há séculos teu servidor
Sofro, satisfaço teus desejos, em fim
Fazes de mim um cordeiro manso
E eu paciento esse horror.

Sou preso, algemado
Meu sacrifício é doloroso
E nem te arrepias sequer
Do teu cinismo maldoso

Procuras sempre acorrentar-me
Na minha palhota de capim
Mas o dia não tardará a chegar
Em que este pesadelo terá fim.






É neste momento
que devemo-nos preparar
p'ra enfrentar dificuldades.

É neste momento
que devemos decidir
unir, lutar, avançar.

É neste momento
que devemos estar firmes
labutar e defender a nossa Pátria.

É neste momento
que devemos estar conscientes
mais corajosos
p'ra lutar sem vacilar.

É neste momento
que devemos ter em mente
e compreender a causa da nossa luta.

É neste momento
que devemos voluntariamente
entregarmo-nos à Revolução.








Sangue moçambicano, derramado,
e vidas combatentes se perdem
Sangue moçambicano estruma a terra
nova geração revolucionária nasce.

Qual o motivo desta perca de sangue?
É a opressão e o massacre deste Povo humilde.

Este sangue é perdido pela justeza;
Do oprimido e massacrado povo
seus filhos lutam pela liberdade e dignidade humana.







JOSINA Abiathan Muthemba Machel nasceu em Moçambique, em 1945. Faleceu na Tanzânia em 1971.

Josina Machel (em solteira, Josina Muthemba) foi uma das jovens que na juventude fugiram de Moçambique para se integrarem na FRELIMO e lutarem pela independência do seu país. Em 1969, casou-se com Samora Machel, a quem deu um filho, morreu no dia 7 de Abril de 1971, vítima de doença. Com a independência de Moçambique, esta data foi consagrada como Dia da Mulher Moçambicana.

Josina é considerada modelo de inspiração do movimento de mulheres. Na luta pela libertação de Moçambique, desempenhou um papel muito importante. Foi uma das fundadoras do Destacamento Feminino, chefe da Seção dos Assuntos Sociais e chefe da Seção da Mulher no Departamento de Relações Exteriores da FRELIMO. Foi ela que impulsionou a criação do Centro Infantil de Nangade, em Cabo Delgado, onde elementos do Destacamento Feminino tomavam conta das crianças que ficavam órfãs ou cujos pais estavam ausentes, no combate da FRELIMO pela libertação nacional. (...)

Em homenagem às conquistas de Josina Machel, na década de 1980 foi batizada com o seu nome uma rua do bairro de Bangu, na cidade brasileira do Rio de Janeiro. Em Maputo, a principal escola secundária, o Liceu Salazar, foi renomeada Escola Secundária Josina Machel. Em 1977, o antigo hospital Maria Pia em Luanda, Angola, foi também rebatizado com o nome de Josina Machel, embora os dois nomes sejam usados ao letreiro que identifica o edifício.

Em 1956, Machel mudou-se para a capital de Moçambique para frequentar a escola secundária, onde se tornou activa politicamente em grupos de estudantes clandestinos, e onde acabou por se tornar membro de uma célula secreta da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).

Em 1963, com 18 anos, fugiu de Moçambique para se juntar à luta armada de libertação contra o regime colonial português. Após uma primeira tentativa falhada, que resultou na sua captura no Zimbabué e detenção por vários meses, em 1965, Machel conseguiu, numa segunda tentativa, alcançar a sede da FRELIMO na capital da Tanzânia, Dar es Salaam.

Em 1967, a FRELIMO oferece-lhe uma bolsa para estudar na Suiça, que rejeitou por querer viver de perto a luta anti-colonial.

Na FRELIMO foi uma das fundadoras e liderou o Destacamento Feminino - uma unidade dedicada ao treino militar e educação política. Em 1969, aos 24 anos, tornou-se chefe do Departamento de Assuntos Sociais e foi também chefe da Seção da Mulher no Departamento de Relações Exteriores da FRELIMO. Nesse mesmo ano, casou-se com Samora Machel, com quem teve um filho, Samora Machel Júnior.

Machel impulsionou a criação dos Centro Infantis de Niassa e de Nangade, em Cabo Delgado, onde elementos do Destacamento Feminino tomavam conta das crianças que ficavam órfãs ou cujos pais estavam ausentes devido ao combate da FRELIMO pela libertação nacional.

Machel morreu no dia 7 de Abril de 1971, num hospital na Tanzânia, vítima de doença.

Fonte: wikipedia


(Imagem: Reprodução delagoabayword)




"As flores que caem da árvore vêm preparar a terra
Para que as novas e mais belas flores cresçam na estação seguinte
A tua vida continua naqueles que continuam a Revolução."

Samora Machel



Fundação Mario Soares/Estúdio Kok Nam




Tráiler "VOCES DE MOZAMBIQUE"






VOZES DE MOÇAMBIQUE
Documentário de YANA CAMPOS ( 2010)



Documentário Vozes de Moçambique concluído em 2010, filmado em Moçambique e Brasil dirigido por Yana Campos, montado por Katherine Chediak graças ao apoio da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, da Caliban, do Nós da Comunicação, da Audio Rebel e da FACHA. Participou do CINE CUFA, FESTIVAL VISÕES PERIFÉRICAS, V ENCONTRO DE CINEMA NEGRO DO ZOZIMO BULBUL E EXIBIDO EM DIVERSAS ESCOLAS DA REDE ESTADUAL E MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO.


"Brasileiros são mesmo africanos"

Pauline Chiziane