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domingo, 16 de agosto de 2020

A Peste - Albert Camus 1ªParte (03)

Albert Camus


A Peste




Parte I


continuando...



Ao meio-dia, porém, a febre subira bruscamente a quarenta graus, o paciente delirava sem cessar e os vômitos tinham recomeçado. Os gânglios do pescoço eram dolorosos ao tato, e o doente parecia querer manter a cabeça o mais afastada possível do corpo. A mulher estava sentada aos pés da cama, segurando levemente os pés do doente. Olhava para Rieux.
— Ouça — disse ele -, é preciso isolá-lo e tentar um tratamento mais radical. vou telefonar para o hospital e vamos levá-lo de ambulância.

Duas horas depois, na ambulância, o médico e a mulher curvavam-se sobre o doente. Da boca, coberta de fungosidades, saíam fragmentos de palavras: “Os ratos”, dizia ele. Esverdeado, com lábios descorados, pálpebras pesadas, respiração entrecortada e breve, dilacerado pelos gânglios, abatido no fundo da maca, como se quisesse fechá-la em torno dele ou como se qualquer coisa, vinda do fundo da terra, o chamasse sem descanso, o porteiro sufocava sob um peso invisível. A mulher chorava.

— Não há mais esperança, doutor?

— Está morto — disse Rieux.

A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de outro, relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico. Nossos concidadãos — a partir de agora eles se davam conta disso nunca tinham pensado que nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmente designado para que os ratos morressem ao sol e os porteiros perecessem de doenças estranhas. Sob esse ponto de vista, era evidente que estavam errados e que suas ideias precisavam ser revistas. Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos, sem dúvida, teriam vencido. Mas outros concidadãos nossos, que nem sempre eram porteiros nem pobres, tiveram de seguir o caminho que Michel fora o primeiro a tomar. Foi a partir desse momento que começou o medo e com ele a reflexão.

Entretanto, antes de entrar nos detalhes desses novos acontecimentos, o narrador acha útil dar, sobre o período que acaba de ser descrito, a opinião de outra testemunha. Jean Tarrou, que já encontramos no início deste relato, fixara-se em Oran há algumas semanas e morava, desde então, em um grande hotel no centro. Parecia ser suficientemente próspero para viver dos seus rendimentos. Mas, embora a cidade se tivesse habituado a ele, pouco a pouco, ninguém sabia dizer de onde vinha, nem por que estava lá. Era encontrado em todos os lugares públicos. A partir do início da primavera, fora visto muitas vezes nas praias, nadando frequentemente e com um prazer manifesto. Bonachão, sempre sorridente, parecia ser amigo de todos os prazeres normais, sem ser escravo deles. Na realidade, o único hábito seu que conheciam era a convivência assídua com os bailarinos e músicos espanhóis, bastante numerosos na nossa cidade.

Seus apontamentos de certa forma constituem também uma espécie de crônica desse período difícil. Mas trata-se de uma crônica muito especial que parece obedecer a uma ideia preconcebida de insignificância. À primeira vista, poderíamos achar que Tarrou se empenhara em ver as coisas e os seres por um binóculo ao contrário. Na confusão geral, ele se empenhara, em suma, em ser o historiador do que não tem história. Pode-se sem dúvida deplorar esse preconceito e suspeitar uma certa dureza de coração. Nem por isso é menos verdade que os seus cadernos podem fornecer, para uma crônica desse período, grande quantidade de pormenores secundários que têm contudo importância; a sua própria singularidade impedirá que se julgue precipitadamente essa interessante personagem.

As primeiras notas de Tarrou datam de sua chegada a Oran. Mostram desde o princípio uma curiosa satisfação por se encontrar numa cidade em si tão feia. Encontra-se uma descrição pormenorizada dos dois leões de bronze que ornam a municipalidade, considerações benévolas sobre a ausência de árvores, as casas sem graça e o plano absurdo da cidade. Tarrou mistura, ainda, diálogos ouvidos nos bondes e nas ruas, sem acrescentar comentários, exceto um pouco mais tarde, em relação às conversas a respeito de um tal Camps. Tarrou assistira à conversa de dois condutores de bonde:

— Você conheceu o Camps — dizia um.

— Camps? Um alto, de bigode preto?

— Exatamente. Trabalhava no controle.

— Sim, isso mesmo.

— Pois bem, morreu.

— Ah! E quando foi isso?

— Depois da história dos ratos.

— Veja só! E que foi que ele teve?

— Não sei. Febre. Além disso, não era forte. Teve abscessos debaixo dos braços. Não resistiu.

— No entanto, parecia um homem como os outros.

— Não, tinha o peito fraco e tocava no orfeão. Soprar num pistom acaba com a pessoa.

— Ah! — terminou o segundo. — Quando se é doente, não se deve tocar um instrumento de sopro.

Depois dessas poucas indicações, Tarrou perguntava a si próprio por que razão Camps tinha entrado para o orfeão contra seu próprio interesse e quais eram as razões profundas que o tinham levado a arriscar a vida pelos desfiles dominicais.

Tarrou parecia, em seguida, ter sido favoravelmente impressionado por uma cena que se desenrolava muitas vezes na varanda que ficava em frente à sua janela. Na verdade, seu quarto dava para uma rua transversal, onde os gatos dormiam à sombra dos muros. Mas, todos os dias, depois do almoço, nas horas em que a cidade inteira cochilava no calor, um velhinho aparecia numa varanda do outro lado da rua. com os cabelos brancos e bem penteados, ereto e austero nas suas roupas de corte militar, chamava os gatos com um “bichano. . . bichano” ao mesmo tempo meigo e distante. Os gatos levantavam os olhos pálidos de sono, sem se perturbarem. O outro rasgava pedacinhos de papel e os jogava para a rua; os bichos, atraídos por essa chuva de borboletas brancas, avançavam para o meio da calçada, estendendo uma pata hesitante para os últimos pedaços de papel. O velhinho escarrava, então, sobre os gatos, com força e precisão. Se um dos escarros atingia o alvo, ele ria.

Por fim, Tarrou parecia ter sido definitivamente seduzido pelo caráter comercial da cidade, cuja aparência, animação e até prazeres pareciam comandados pelas necessidades do negócio. Essa singularidade (é o termo empregado nos cadernos) recebia a aprovação de Tarrou e uma de suas observações elogiosas chegava a terminar por esta exclamação: “Finalmente!” São os únicos pontos em que as notas do viajante, nessa data, parecem assumir um caráter pessoal. É difícil avaliar o seu significado e seriedade. Assim é que depois de ter relatado que a descoberta de um rato morto levara o caixa do hotel a cometer um erro na sua conta, Tarrou acrescentara, com uma letra menos nítida que de costume: “Pergunta: Como fazer para não se perder tempo? Resposta: Senti-lo em toda a sua extensão. Meios: Passar os dias na sala de espera de um dentista, numa cadeira desconfortável; viver as tardes de domingo na varanda, ouvir conferências numa língua que não se compreende; escolher os itinerários de trem mais longos e menos cômodos e viajar de pé, naturalmente; fazer fila nas bilheterias dos espetáculos e não ocupar o seu lugar, etc.” Mas de repente, após essas digressões de linguagem e de pensamento, os cadernos começam uma descrição detalhada dos bondes da nossa cidade, da sua forma de bote, da sua cor indecisa, da sua sujeira habitual, terminando essas considerações por um é notável!” que nada explica.

Eis em todo caso as explicações dadas por Tarrou sobre a história dos ratos:

“Hoje, o velhinho que mora em frente está perturbado. Já não há gatos. Desapareceram na verdade excitados pela grande quantidade de ratos mortos que se descobrem nas ruas. Na minha opinião é impossível que os gatos comam ratos mortos. Lembro-me de que os meus detestam isso. O que não impede que eles corram pelos porões e que o velhinho esteja perturbado. Está menos bem penteado, menos vigoroso. Percebe-se que ele está inquieto. Demorou-se um momento apenas e entrou. Só que, dessa vez, escarrara no vazio.

Na cidade, pararam um bonde hoje porque se descobriu um rato morto que, não se sabe como, chegara lá. Duas ou três mulheres desceram. Jogou-se fora o rato. O bonde voltou a funcionar.

No hotel, o vigia da noite, que é homem digno de confiança, disse-me que com todos esses ratos esperava uma desgraça. ‘Quando os ratos abandonam o navio. . .’ Disse-lhe que era verdade no caso dos navios, mas que nunca se tinha verificado isso com as cidades. No entanto, sua convicção persistia. Perguntei-lhe que desgraça, em sua opinião, se podia esperar. Não sabia. É impossível prever a desgraça. Mas não se admiraria se fosse um tremor de terra. Reconheci que era possível, e ele perguntou se isso não me inquietava.

‘A única coisa que me interessa’, respondi-lhe, ‘é encontrar a paz interior. ’

Ele me compreendeu perfeitamente.

No restaurante do hotel há uma família bastante interessante. O pai é um homem alto e magro, vestido de preto, de colarinho engomado. Tem o meio do crânio calvo e dois tufos de cabelos grisalhos à direita e à esquerda. Uns olhinhos redondos e duros, nariz fino, boca horizontal dão-lhe um ar de uma coruja bem-educada. É sempre o primeiro a chegar à porta do restaurante. Afasta-se, deixa passar a mulher, pequenina como um rato preto, e então entra, trazendo atrás um rapaz e uma mocinha vestidos como cachorros comportados. Ao chegar à mesa, espera a mulher sentar-se, senta-se, e os dois cachorrinhos podem finalmente empoleirar-se nas cadeiras. Trata a mulher e os filhos cerimoniosamente, dirige gracejos bem-educados à primeira e palavras terminantes aos herdeiros:

‘Nicole, está soberanamente antipática!’

‘A menina está prestes a chorar. É o que é preciso.’

Essa manhã, o rapaz estava todo agitado com a história dos ratos. Quis dizer qualquer coisa à mesa.

‘Não se fala de ratos à mesa, Philippe. Proíbo-o, daqui em diante, de pronunciar essa palavra.’

‘Seu pai tem razão’, disse a rata preta.

Os dois cãezinhos meteram os narizes nos pratos, e a coruja agradeceu com um sinal de cabeça, que não queria dizer muita coisa.

Apesar desse belo exemplo, na cidade fala-se muito dessa história de ratos. O jornal ocupou-se do caso. A crônica local, que é habitualmente muito variada, é agora totalmente ocupada por uma campanha contra a municipalidade: ‘compreenderam os nossos edis o perigo que podiam representar os cadáveres podres desses roedores?’ O diretor do hotel não consegue falar de outra coisa. Mas é também porque se sente envergonhado. Descobrir ratos no elevador de um hotel respeitável parece-lhe inconcebível. Para consolá-lo disse-lhe: ‘Mas acontece o mesmo a todos!’

‘Justamente’, respondeu-me, ‘somos agora como todos os outros.’

Foi ele que me falou dos primeiros casos dessa febre que começou a se tornar inquietante. Uma das camareiras do hotel foi atacada.

‘Mas, evidentemente, não é contagioso’, apressou-se a declarar.

Respondi-lhe que isso me era indiferente.

‘Ah, compreendo, o senhor é como eu, o senhor é fatalista. ’

Eu não tinha dito nada de semelhante e, aliás, não sou fatalista. E eu lhe disse isso.




continua pág 19...


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A Peste - Albert Camus 1ªParte (02)


quinta-feira, 30 de julho de 2020

A Peste - Albert Camus 1ªParte (02)

Albert Camus


A Peste




Parte I


continuando...



Parecia abatido e preocupado, esfregando o pescoço com um gesto maquinal. Rieux perguntou-lhe como ia de saúde. O porteiro não podia dizer, na verdade, que não ia bem. Simplesmente, não se sentia em forma. Em sua opinião, era o moral que estava um pouco abatido. Aqueles ratos tinham-no perturbado, e tudo ficaria melhor quando eles desaparecessem.

Mas no dia seguinte, 18 de abril, pela manhã, o médico, ao voltar com a mãe da estação, encontrou Michel com uma expressão ainda mais abatida: do porão ao sótão, uma dezena de ratos jazia nas escadas. Os caixotes do lixo das casas vizinhas estavam cheios deles. A mãe do médico tomou conhecimento da notícia sem se admirar.

— São coisas que acontecem. — Era uma senhora de cabelos prateados, de olhos negros e meigos. — Estou satisfeita por voltar a ver-te, Bernard. Os ratos nada podem contra isso.

Ele aprovava. Era verdade que, com ela, tudo lhe parecia sempre fácil.

Entretanto, Rieux telefonou ao serviço comunal de desratização, cujo diretor conhecia. Já ouvira falar desses ratos que vinham em bandos morrer ao ar livre? Mercier, o diretor, tinha ouvido falar nisso e, no seu próprio serviço, instalado próximo ao cais, tinham sido encontrados uns cinquenta. Perguntava a si próprio se a coisa teria importância. Rieux não podia decidir, mas pensava que se impunha uma intervenção do serviço de Mercier.

— Sim — disse Mercier -, com uma ordem. Se acha que vale realmente a pena, posso tentar obter essa ordem.

— Vale sempre a pena — respondeu Rieux.

Sua empregada acabava de lhe comunicar que tinham apanhado várias centenas de ratos mortos na fábrica onde o .marido trabalhava.

Foi mais ou menos nessa época que nossos concidadãos começaram a inquietar-se com o caso, pois, a partir do dia 18, as fábricas e os depósitos vomitaram centenas de cadáveres de ratos. Em alguns casos, foi necessário acabar de matar os bichos, pois sua agonia era demasiado longa. Mas desde os bairros exteriores até o centro da cidade, por toda parte onde o Dr. Rieux passava, por toda parte onde nossos concidadãos se reuniam, os ratos esperavam em montes, nas lixeiras ou junto às sarjetas, em longas filas. A imprensa da tarde ocupou-se do caso a partir desse dia e perguntou se a municipalidade se propunha ou não a agir e que medidas de urgência tencionava adotar para proteger seus munícipes dessa repugnante invasão. A municipalidade nada se tinha proposto e nada previra, mas começou por reunir-se em conselho para deliberar. Foi dada ordem ao serviço de desratização para recolher os ratos mortos todas as madrugadas. Em seguida, dois carros do serviço de desratização deveriam transportar os animais até o forno de incineração de lixo a fim de serem queimados.


Mas, nos dias que se seguiram, a situação agravou-se. O número de roedores apanhados ia crescendo, e a coleta era a cada manhã mais abundante. A partir do quarto dia, os ratos começaram a sair para morrer em grupos. Dos porões, das adegas, dos esgotos, subiam em longas filas titubeantes, para virem vacilar à luz, girar sobre si mesmos e morrer perto dos seres humanos. À noite, nos corredores ou nas ruelas, ouviam-se distintamente seus guinchos de agonia. De manhã, nos subúrbios, encontravam-se estendidos nas sarjetas com uma pequena flor de sangue nos focinhos pontiagudos; uns inchados e pútridos; outros, rígidos e com os bigodes ainda eriçados. Na própria cidade, eram encontrados em pequenos montes nos patamares ou nos pátios. Vinham, também, morrer isoladamente nos vestíbulos das repartições, nos recreios das escolas, por vezes nos terraços dos cafés. Nossos concidadãos, estupefatos, encontravam-nos nos locais mais frequentados da cidade. A Place d’Armes, as avenidas, La Promenade de Frontde- Mer apareciam conspurcados. Limpa dos animais mortos ao amanhecer, a cidade voltava a encontrá-los pouco a pouco, cada vez mais numerosos durante o dia. Nas calçadas também, ocorria a mais de um noctívago sentir sob os pés a massa elástica de um cadáver ainda fresco, Dir-se-ia que a própria terra onde estavam plantadas nossas casas se purgava dos seus humores, pois deixava subir à superfície furúnculos que, até então, a minavam interiormente. Imaginem só o espanto da nossa pequena cidade, até então tão tranquila, transtornada em alguns dias, como um homem saudável cujo sangue espesso se pusesse de repente em revolução!

As coisas foram tão longe que a Agência Ransdoc (informações, documentação, todas as informações sobre qualquer assunto) anunciou, na emissão radiofônica de informações gratuitas, seis mil, duzentos e trinta e um ratos apanhados e queimados, só no dia 25. Este número, que dava um sentido claro ao espetáculo cotidiano que a cidade tinha diante dos olhos, aumentou a agitação. Até então, as pessoas tinham apenas se queixado de um espetáculo um pouco repugnante. Compreendia-se agora que esse fenômeno, de que não se podia ainda avaliar a amplitude nem determinar a origem, tinha qualquer coisa de ameaçador. Só o velho espanhol asmático continuava a esfregar as mãos e a repetir com uma alegria senil:

— Eles estão saindo, estão saindo.

Entretanto, a 28 de abril, a Ransdoc anunciava uma coleta de aproximadamente oito mil ratos, e a ansiedade atingiu o auge. Exigiam-se medidas radicais, acusavam-se as autoridades, e alguns que tinham casa à beira-mar já falavam em retirar-se para lá. Mas no dia seguinte, a agência anunciou que o fenômeno cessara bruscamente e que o serviço de desratização apanhara apenas uma quantidade insignificante de ratos mortos. A cidade respirou.

Contudo, foi na mesma data, ao meio-dia, que o Dr. Rieux, ao parar o carro diante de casa, viu ao fundo da rua o porteiro, que caminhava com dificuldade, de cabeça baixa, com os braços e as pernas afastados, numa atitude de fantoche. O velho apoiava-se no braço de um padre, que o doutor reconheceu. Era o Padre Paneloux, um jesuíta erudito e militante que encontrara algumas vezes, e que era muito estimado na nossa cidade, mesmo por aqueles que são indiferentes em matéria de religião. Esperou-os. O velho Michel tinha os olhos brilhantes e a respiração ruidosa. Não se sentia muito bem e tinha saído para tomar ar, mas dores vivas no pescoço, nas axilas e nas virilhas tinham-no obrigado a voltar e a pedir auxílio ao Padre Paneloux.

— São uns inchaços — disse. — Devo ter feito algum esforço. com o braço fora da porta, o médico apalpou o pescoço que ele lhe estendia. Tinha-se formado uma espécie de nó.

— Deite-se e tire a temperatura. Venho vê-lo esta tarde.

Quando o porteiro partiu, o médico perguntou ao Padre Paneloux o que achava daquela história de ratos.

— Oh — respondeu o padre -, deve ser uma epidemia.

E os olhos sorriram por detrás dos óculos redondos.

Depois do almoço, Rieux relia o telegrama da casa de saúde que lhe anunciava a chegada de sua mulher quando o telefone tocou. Era um dos seus antigos clientes, empregado da Câmara, que o chamava. Sofrera durante muito tempo de um estreitamento da aorta e, como era pobre, Rieux tratara-o de graça.

— Sim — dizia ele -, sei que se lembra de mim. Mas é de outra pessoa que se trata. Venha depressa. Aconteceu alguma coisa em casa do meu vizinho.

Falava com voz cansada. Rieux pensou no porteiro e decidiu que o veria depois. Alguns minutos mais tarde, atravessava a porta de uma casa baixa da Rue Faidherbe, num bairro periférico. No meio da escada, fria e malcheirosa, encontrou Joseph Grand, o empregado da Câmara que vinha ao seu encontro. Era um homem dos seus cinquenta anos, de bigode amarelo, alto e curvado, com os ombros estreitos e os membros magros.

— Agora estou melhor — disse, ao chegar perto de Rieux -, mas julguei que ia morrer.

Assuou o nariz. No segundo e último andar, na porta da esquerda, Rieux leu, escrito com giz vermelho. “Entre. Eu me enforquei”.

Entraram. Uma corda estava pendurada por cima de uma cadeira caída, a mesa fora empurrada para um canto. Mas ela pendia no vazio.

— Desatei-o a tempo — dizia Grand, que parecia sempre rebuscar as palavras, embora falasse a linguagem mais simples. — Ia justamente sair, quando ouvi ruído. Ao ver a inscrição, como explicar-lhe?, julguei que se tratava de uma brincadeira. Mas ele soltou um gemido engraçado, até mesmo sinistro, se assim se pode dizer.

Coçou a cabeça.

— Na minha opinião, a operação deve ser dolorosa. Naturalmente, entrei.

Tinham empurrado uma porta e encontravam-se à entrada de um quarto claro, mas pobremente mobiliado. Um homenzinho gordo estava deitado no leito de cobre, Respirava fortemente e olhava-os com olhos congestionados. O médico deteve-se. Nos intervalos da respiração, parecia-lhe ouvir guinchos de ratos. Mas nada se mexia pelos cantos. Rieux aproximou-se do leito. O homem não tinha caído de muito alto, nem muito bruscamente, e as vértebras tinham resistido. Na verdade, um pouco de asfixia. Seria necessário fazer uma radiografia. O médico deu-lhe uma injeção de óleo canforado e disse que tudo estaria bem dentro de alguns dias.

— Obrigado, doutor — agradeceu o homem, com uma voz sufocada.

Rieux perguntou a Grand se tinha avisado o comissário, e o empregado ficou com um ar confuso.

— Não, não! Pensei que o mais urgente. . .

— Sem dúvida — interrompeu Rieux. — vou fazê-lo agora.

Nesse momento, porém, o doente agitou-se e ergueu-se no leito, protestando que estava melhor e que não valia a pena.

— Acalme-se — disse Rieux. — Não tem importância, acredite, mas é necessário que eu faça a minha declaração.

— Oh! — exclamou o outro.

E atirou-se para trás, chorando com soluços curtos. Grand, que há um momento cofiava o bigode, aproximou-se dele.

— Vamos, Sr. Cottard, tente compreender. Pode-se dizer que o doutor é responsável. Se, por exemplo, o senhor tivesse vontade de recomeçar. . .

Mas Cottard, entre lágrimas, disse que não recomeçaria, que fora apenas um momento de loucura e que só desejava que o deixassem em paz. Rieux redigia uma receita.

— Entendido. Deixemos isso. Voltarei dentro de dois ou três dias. Mas não faça bobagens.

No patamar, disse a Grand que era obrigado a fazer a declaração, mas que pediria ao comissário que só procedesse ao inquérito daí a dois dias.

— É preciso vigiá-lo esta noite. Ele tem família?

— Não a conheço. Mas posso vigiá-lo eu mesmo.

Abanava a cabeça. — Tampouco posso dizer que o conheço, note bem. Mas é preciso nos ajudarmos uns aos outros.

Nos corredores da casa, Rieux olhou maquinalmente para os cantos e perguntou a Grand se os ratos tinham desaparecido totalmente do seu bairro. O funcionário nada sabia. Tinham-lhe falado, na verdade, dessa história, mas ele não prestava atenção aos boatos do bairro.

— Tenho mais com que me preocupar — afirmou. Rieux já lhe apertava a mão. Tinha pressa de ver o porteiro antes de escrever à mulher.

Os vendedores dos jornais da tarde anunciavam que a invasão dos ratos tinha parado. Mas Rieux encontrou o seu doente meio deitado para fora do leito, com uma das mãos no ventre e a outra em volta do pescoço, vomitando, com grandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo. Após grandes esforços, sem fôlego, o porteiro voltou a deitar-se. A temperatura era de trinta e nove e meio, os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado, duas manchas escuras alastravam-se pelo flanco. Queixava-se agora de uma dor interna.

— Está ardendo — dizia ele -, esta porcaria está ardendo.

A boca fuliginosa obrigava-o a mastigar as palavras e voltava para o médico uns olhos protuberantes, dos quais a dor de cabeça fazia correr lágrimas. A mulher olhava com ansiedade para Rieux, que continuava mudo.

— Doutor — perguntou ela -, que é isto?

— Pode ser uma série de coisas. Mas não há ainda nada de certo. Até esta noite, dieta e depurativo. Deve tomar bastante líquido.

Precisamente, o porteiro sentia-se devorado pela sede. Ao voltar à casa, Rieux telefonou ao seu colega Ríchard, um dos médicos mais importantes da cidade.

— Não — dizia Richard -, não vi nada de extraordinário.

— Nem febre com inflamações locais?

— Ah! Sim, na verdade, dois casos de gânglios muito inflamados.

— Anormalmente?

— Sim — respondeu Richard -, o normal, você sabe. . .

A noite, de qualquer forma, o porteiro delirava e, com quarenta graus, queixava-se dos ratos. Rieux tentou um abscesso de fixação. Sob a queimadura da terebintina, o porteiro berrou: — Ah, são uns safados.

Os gânglios tinham aumentado, estavam duros e fibrosos ao tato. A mulher do porteiro afligia-se:

— Fique junto dele — ordenou o médico — e, se for necessário, pode me chamar.

No dia seguinte, 30 de abril, uma brisa já morna soprava sob um céu azul e úmido. Trazia um cheiro de flores que vinha dos bairros mais afastados. Nas ruas, os ruídos da manhã pareciam mais vivos, mais alegres do que habitualmente. Em toda a nossa pequena cidade, liberta da apreensão em que tinha vivido durante a semana, esse era o dia da renovação. O próprio Rieux, tranquilizado por uma carta da mulher, desceu até a casa do porteiro. E na verdade, de manhã, a febre caíra para trinta e oito graus. Enfraquecido, o doente sorria no leito.

— Está melhor, não é verdade, doutor? — perguntou a mulher.

— Vamos esperar um pouco
.




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A Peste - Albert Camus 1ªParte (03)


segunda-feira, 6 de julho de 2020

A Peste - Camus 1ªParte (01)

Albert Camus


A Peste






“II est aussi raisonnable de représetiter une espèce d’emprisonnement par une autre que de représenter n’importe quette chose qui existe réettement par quelque chose qui n’existe pas.” 
Daniel Defoe 


(Tradução para o francês de Albert Camus) 


(“É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro, quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe.”)




Parte I



Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crônica ocorreram em 194..., .em Oran. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam um pouco do comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.

A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. com seu aspecto tranquilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras cidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno.

Uma forma cômoda de travar conhecimento com uma cidade é procurar saber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenético e distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos. Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme sua própria expressão, em fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples, gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente, porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando, nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dos escritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ou instalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos não vão além das associações de boulomanes1, os banquetes das amicales2 e os ambientes em que se aposta alto no jogo de cartas.

Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que, em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há de mais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez em quando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhes modifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran, pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, uma cidade inteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira como se ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no que se convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois. Isso tampouco é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempo e de reflexão, somos obrigados a amar sem saber.

O que é mais original na nossa cidade é a dificuldade que se pode ter para morrer. Dificuldade, aliás, não é o termo exato: seria mais certo falar em desconforto. Nunca é agradável ficar doente, mas há cidades e países que nos amparam na doença e onde podemos, de certo modo, nos entregar. O doente precisa de carinho, gosta de se apoiar em alguma coisa. É bastante natural. Em Oran, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios que se tratam, a insignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres, tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só. O que dizer então daquele que vai morrer, apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor, enquanto, no mesmo minuto, toda uma população, ao telefone ou nos cafés, fala de letras de câmbio, de conhecimentos ou de descontos? Compreenderão o que há de desconfortável na morte, mesmo moderna, quando ela chega assim, num lugar seco.

Essas poucas indicações dão talvez uma ideia suficiente da nossa cidade. Aliás, é necessário não exagerar. O importante era ressaltar o aspecto banal da cidade e da vida. Mas os dias transcorrem sem dificuldades, desde que se tenham criado hábitos. A partir do momento em que nossa cidade favorece justamente os hábitos, pode-se dizer que tudo vai bem. Sob este aspecto, sem dúvida, a vida não é muito emocionante. Pelo menos, desconhece-se a desordem. E a nossa população franca, simpática e ativa sempre despertou no viajante uma estima considerável. Esta cidade sem pitoresco, sem vegetação e sem alma acaba parecendo repousante, e afinal adormece-se nela. Mas é justo acrescentar que está enxertada numa paisagem sem igual, no meio de um planalto nu, rodeada de colinas luminosas, diante de uma baía de desenho perfeito. Pode-se apenas lamentar que tenha sido construída de costas para essa baía e que, portanto, seja impossível ver o mar. É sempre preciso ir procurá-lo.

Agora, podemos admitir sem dificuldade que nada podia fazer prever aos nossos cidadãos os incidentes que se produziram na primavera desse ano e que foram, como compreendemos depois, os primeiros sinais dos acontecimentos graves cuja crônica nos propusemos fazer aqui. Esses fatos parecerão a alguns perfeitamente naturais e a outros, pelo contrário, inverossímeis. Mas, afinal, um cronista não pode levar em conta essas contradições. Sua tarefa é apenas dizer: “Isso aconteceu”, quando sabe que isso, na verdade, aconteceu; que isso interessou à vida de todo um povo, e que, portanto, há milhares de testemunhas que irão avaliar nos seus corações a verdade do que ele conta.

Aliás, o narrador, que se revelará no momento oportuno, não disporia de meios para lançar-se num empreendimento desse gênero se o acaso não o tivesse posto em condições de recolher um certo número de depoimentos e se a força das circunstâncias não o tivesse envolvido em tudo o que pretende relatar. É isso que o autoriza a agir como historiador. É claro que um historiador, mesmo que não passe de um amador, tem sempre documentos. O narrador desta história tem, portanto, os seus: em primeiro lugar, o seu testemunho; em seguida, o dos outros, já que, pelo seu papel, foi levado a recolher as confidências de todas as personagens desta crônica; e, finalmente, os textos que acabaram caindo em suas mãos. Pretende servir-se deles quando lhe parecer útil e utilizá-los como lhe aprouver. Propõe-se ainda. .. Mas é talvez tempo de abandonar os comentários e as precauções de linguagem para passar ao assunto em si. O relato dos primeiros dias exige certa minúcia.

Na manhã do dia 16 de abril, o Dr. Bernard Rieux saiu do consultório e tropeçou num rato morto, no meio do patamar. No momento, afastou o bicho sem prestar atenção e desceu a escada. Ao chegar à rua, porém, veio-lhe a ideia de que esse rato não estava no lugar devido e voltou para avisar o porteiro. Diante da reação do velho Michel sentiu melhor o que sua descoberta tinha de insólito. A presença desse rato morto parecera-lhe apenas estranha, enquanto para o porteiro constituía um escândalo. A posição deste último era aliás categórica: não havia ratos na casa. Por mais que o médico lhe garantisse que havia um no patamar do primeiro andar, provavelmente morto, a convicção de Michel permanecia firme. Não havia ratos na casa, e era necessário que tivessem trazido este de fora. Em resumo, tratava-se de uma brincadeira.

Nessa mesma noite, Bernard Rieux, de pé no corredor do prédio, procurava as chaves antes de subir para sua casa, quando viu surgir, do fundo obscuro do corredor, um rato enorme, de passo incerto e pelo molhado. O animal parou, pareceu procurar o equilíbrio, correu em direção ao médico, parou de novo, deu uma cambalhota com um pequeno guincho e parou, por fim, lançando sangue pela boca entreaberta. O médico contemplou-o por um momento e subiu.

Não era no rato que ele pensava. Aquele sangue fazia-o voltar à sua preocupação. Sua mulher, doente há um ano, devia partir no dia seguinte para uma temporada na montanha. Foi encontrá-la deitada no quarto, como lhe pedira que fizesse. Assim, preparava-se para o cansaço da viagem. Sorria.

— Sinto-me muito bem — dizia.

O médico olhou o rosto voltado para ele, à luz da lâmpada de cabeceira. Para Rieux, aos trinta anos e a despeito das marcas da doença, esse rosto era sempre o da mocidade devido talvez ao sorriso que dominava todo o resto.

— Veja se consegue dormir -disse. — A enfermeira vem às onze horas, e eu vou levá-las até o trem do meio-dia.

Beijou uma testa ligeiramente úmida. O sorriso acompanhou-o até a porta.

No dia seguinte, 17 de abril, às oito horas, o porteiro deteve o médico e acusou gracejadores de mau gosto de haverem posto três ratos mortos no meio do corredor. Deviam tê-los apanhado com grandes ratoeiras, pois estavam cheios de sangue. O porteiro ficara algum tempo à porta, segurando os ratos pelas patas, esperando que os culpados se traíssem por algum sarcasmo. Mas nada acontecera.

— Ah — dizia Michel -, esses eu acabo apanhando. Intrigado, Rieux decidiu começar sua: visitas pelos bairros exteriores onde moravam os clientes mais pobres. A coleta do lixo era feita muito mais tarde no local, e o automóvel, que corria ao longo das ruas retas e poeirentas do bairro, roçava os caixotes de detritos deixados à beira da calçada. Numa rua que percorria assim, o médico contou uma dúzia de ratos jogados sobre restos de legumes e trapos sujos.

Encontrou o primeiro doente na cama, num quarto que dava para a rua e que servia ao mesmo tempo de quarto e de sala de jantar. Era um velho espanhol de rosto duro e vincado. Tinha à frente, sobre a coberta, duas marmitas cheias de ervilhas. No momento em que o médico entrou, o doente, meio erguido no leito, inclinava-se para trás numa tentativa de recuperar seu fôlego penoso de velho asmático. A mulher trouxe uma bacia.

— Hem, doutor — disse ele durante a injeção -, eles estão saindo, já viu?

— É verdade — confirmou a mulher; — o vizinho apanhou três.

O velho esfregava as mãos.

— Começam a sair, veem-se em todas as latas de lixo. É a fome.

Rieux não teve dificuldade em constatar, em seguida, que todo o bairro falava dos ratos. Acabadas as visitas, voltou para casa.

— Há um telegrama para o senhor lá em cima informou Michel.

O médico perguntou-lhe se tinha visto novos ratos.

— Ah, não — disse o porteiro. — É que estou tomando conta, compreende, e esses safados não se atrevem.

O telegrama avisava Rieux da chegada de sua mãe no dia seguinte. Vinha ocupar-se da casa do filho durante a ausência da doente. Quando o médico entrou em casa, a enfermeira já estava lá. Rieux viu a mulher de pé, como de costume, já pintada.

— Está bem — disse -, muito bem.

Momentos depois, na estação, instalava-a no carro-leito. Ela percorreu com o olhar o compartimento.

— É caro demais para nós, não é verdade?

— É preciso — respondeu Rieux.

— Que história de ratos é essa?

— Não sei. É estranho, mas vai passar.

Depois, disse-lhe muito rapidamente que lhe pedia perdão, que devia ter olhado por ela e que se descuidara muito. Ela sacudia a cabeça, como para lhe dizer que se calasse. Mas Rieux acrescentou:

— Tudo correrá melhor quando voltar. Vamos recomeçar.

— Sim — concordou ela, com os olhos brilhantes -, vamos recomeçar.

Um instante depois, voltava-lhe as costas e olhava pela vidraça. Na plataforma, as pessoas apressavam-se aos empurrões. O guincho da locomotiva chegava até eles. O médico chamou a mulher pelo nome e quando ela se voltou, viu que o rosto estava coberto de lágrimas.

— Não — disse ele, carinhosamente.

Sob as lágrimas, voltou o sorriso, um pouco crispado. Ela respirou profundamente.

— Vá embora, tudo correrá bem.

Rieux abraçou-a e, na plataforma, nada via agora a não ser o seu sorriso.

— Cuide-se, por favor — pediu. Mas ela não podia ouvi-lo.

Perto da saída, Rieux encontrou o Sr. Othon, o juiz de instrução, que trazia pela mão o filho pequeno. O médico perguntou-lhe se ia viajar. Othon, alto e escuro, que parecia, em parte, o que se chamava outrora um homem de sociedade e, em parte, um coveiro, respondeu com uma voz amável, mas breve:

— Estou à espera da Sra. Othon, que foi apresentar seus respeitos à minha família.

A locomotiva apitou.

— Os ratos. . . — disse o juiz.

Rieux teve um movimento na direção do trem, mas voltou-se para a saída.

— Sim, não é nada.

Tudo o que guardou desse momento foi a passagem de um empregado que levava debaixo do braço um caixote cheio de ratos mortos.

Na tarde do mesmo dia, Rieux, no início de suas consultas, atendeu um rapaz que lhe disseram ser jornalista e que já viera de manhã. Chamava-se Raymond Rambert.

Baixo de estatura, ombros largos, rosto decidido, olhos claros e inteligentes, Rambert vestia roupa esporte e parecia à vontade na vida. Foi direto ao assunto. Fazia uma pesquisa para um grande jornal de Paris sobre as condições de vida dos árabes e queria informações sobre o seu estado sanitário. Rieux informou-o de que esse estado não era bom, mas quis saber, antes de ir mais longe, se o jornalista podia dizer a verdade.

— Certamente — disse o outro.

— Quero dizei, pode fazer a condenação total?

— Total, não, devo dizê-lo. Mas creio que essa condenação não teria fundamento. Com delicadeza, Rieux disse que na verdade semelhante condenação não teria fundamento, mas que, ao fazer essa pergunta, procurava apenas saber se o testemunho de Rambert podia ou não ser feito sem reservas.

— Só admito os testemunhos sem reservas. Não estou, pois, disposto a apoiar o seu com as minhas informações.

— É a linguagem de Saint-Just — disse o jornalista, sorrindo.

Sem elevar a voz, Rieux disse que não sabia nada disso, mas que era a linguagem de um homem cansado do mundo em que vivia, mas que amava, contudo, seus semelhantes e estava decidido a recusar, de sua parte, a injustiça das concessões. Rambert, com o pescoço enterrado nos ombros, olhava para o médico.

— Creio que o compreendo — disse por fim, levantando-se.

O médico acompanhou-o à porta.

— Agradeço-lhe por aceitar as coisas assim. Rambert pareceu impaciente.

— Sim, compreendo, perdoe-me o incômodo.

O médico apertou-lhe a mão e informou-o de que haveria uma curiosa reportagem a fazer sobre a quantidade de ratos mortos que se encontravam na cidade nesse momento.

— Ah! — exclamou Rambert. — Isso me interessa. As cinco horas, ao sair para novas visitas, o médico encontrou na escada um homem ainda novo, de silhueta pesada, de rosto maciço e cansado, riscado por sobrancelhas espessas. Tinha-o encontrado algumas vezes em casa dos bailarinos espanhóis que moravam no último andar de seu prédio. Jean Tarrou fumava com empenho um cigarro e contemplava as últimas convulsões de um rato que morria num degrau, a seus pés. Levantou para o médico um olhar calmo e um pouco fixo nos olhos cinzentos e acrescentou que aquela aparição de ratos era uma coisa bastante curiosa.

— É verdade — respondeu Rieux -, mas acaba por tornar-se irritante.

— Num sentido, doutor, só num sentido. Nunca vimos nada de semelhante, eis tudo, mas eu acho isso interessante, sim, positivamente interessante. — Tarrou passou a mão pelos cabelos, para atirá-los para trás, olhou de novo para o rato agora imóvel e depois sorriu para Rieux. — Mas, afinal, doutor, isso é sobretudo com o porteiro.

De fato, o médico encontrou o porteiro em frente à casa, encostado à parede, perto da entrada, com uma expressão de cansaço no rosto habitualmente congestionado.

— Bem sei — disse o velho Michel a Rieux, que lhe comunicava a nova descoberta. — Encontram-se agora aos grupos de dois e três. Mas é a mesma coisa nas outras casas.





continua pág 10...


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O que esperar de Albert Camus

sexta-feira, 2 de março de 2018

23.O Estrangeiro: Tinha os olhos cheios de lágrimas - Albert Camus

Albert Camus


SEGUNDA PARTE

Capítulo 5

23. 

     MAS POUCO DEPOIS levantou bruscamente a cabeça e olhou-me de frente: "Porque recusa as minhas visitas?" Respondi que não tinha fé. Quis saber se tinha a certeza e eu respondi que não valia a pena fazer-me essa pergunta. Deixou-se cair para trás e encostou-se à parede, as mãos postas em cima das coxas. Quase sem ter o ar de me falar, observou que às vezes nos julgávamos certos de alguma coisa quando, na realidade, não tínhamos certeza nenhuma. Eu não dizia nada. Olhou-me e interrogou-me: "Qual é a sua opinião a este respeito?" Repliquei que era possível. Em todo o caso, eu não estava talvez certo do que realmente me interessava, mas estava certo do que não me interessava. E justamente, este assunto era dos que não me interessavam. Afastou os olhos e, sempre sem mudar de posição, perguntou-me se eu não falava assim por excesso de desespero. Expliquei-lhe que não me sentia desesperado. Tinha apenas medo, como era natural. "Deus o ajudará, afirmou então. Todos os que conheci no seu caso se voltavam para ele". Reconheci que estavam no seu direito. Isso provava também que tinham tempo. Quanto a mim, que ninguém me ajudasse e justamente faltava-me tempo para me interessar pelo que não me interessava.
     Neste momento, esboçou com as mãos um gesto de irritação, mas levantou-se e arranjou as pregas da sotaina. Quando acabou, dirigiu-me a palavra. tratando-me por "meu amigo": se me falava desta forma, não era por eu ser um condenado à morte, na sua opinião, todos nós éramos condenados à morte. Mas eu interrompi-o, dizendo que não era a mesma coisa e que, de qualquer modo, não me consolava com isso. "Decerto, aprovou ele. Mas se não morrer agora, morrerá mais tarde: Voltará a pôr-se o mesmo problema. Como irá abordar a terrível prova?" Respondi que a abordaria exatamente como agora. Ouvindo isto levantou-se e fitou-me nos olhos: Era uma experiência que eu bem conhecia. Realizava-a muitas vezes com Manuel ou com Celeste e, em geral, eram eles quem desviavam os olhos. Percebi logo que o capelão também a conhecia perfeitamente: o olhar não lhe tremia. E a voz também não lhe tremia, quando disse:

     "Não tem então nenhuma esperança e consegue viver com o pensamento de que vai morrer inteiramente?" "Sim", respondi eu. 

     Baixou então a cabeça e voltou a sentar-se. Disse que me lamentava. Achava que tal atitude era impossível de suportar. Quanto a mim, começava a estar cansado. Desviei-me por minha vez e fui pôr-me debaixo da claraboia. Estava encostado à parede. Sem o seguir com muita atenção, percebi que recomeçava a interrogar-me. Falava com uma voz inquieta e apressada. Compreendi que estava emocionado e escutei-o melhor.
     Dizia-me ter a certeza de que o meu recurso seria aceito, mas que levava aos ombros o peso de um pecado de que devia desembaraçar-me. Na opinião dele, a justiça dos homens não era nada e a justiça de Deus era tudo. Observei que fora a primeira que me condenara. Respondeu-me que ela nem por isso me lavara do meu pecado. Disse-lhe então que não sabia muito bem o que era um pecado. Tinham-me apenas dito que era culpado. Se estava culpado, ia pagá-lo e nada mais me podiam pedir. Neste momento levantou-se e eu pensei que, nesta cela tão estreita, se quisesse mover-se, não tinha por onde escolher: Só podia era sentar-se.
     Eu olhava para o chão. O padre deu um passo para mim e deteve-se, como se não ousasse avançar: Olhava o céu através das grades. "Está enganado, meu filho, disse ele, poderiam pedir-lhe ainda mais. E talvez lhe peçam.


- Mas o quê?
- Poderiam pedir-lhe para ver.
- Ver o quê?"

     O padre olhou em sua volta e respondeu, com uma voz subitamente muito fatigada:

"Sei que todas estas pedras suam dor. Mas, no fundo do coração, sei também que os mais miseráveis de vós viram sair da obscuridade uma face divina. É esta face que lhe pedem para ver".

     Animei-me um pouco. Disse-lhe que olhava estas paredes há meses e meses. Não havia nada no mundo que eu conhecesse melhor. Talvez, de fato, há muito tempo, eu houvesse procurado nelas uma face. Mas essa face tinha a cor do céu e a chama do desejo: era a de Maria. Procurara-a em vão. Agora, acabara-se. E, em qualquer caso, nunca vira esse suor surgir da pedra.
     O capelão olhou-me com uma espécie de tristeza. Eu estava agora completamente encostado à parede. O dia escorria-me pela testa. Disse algumas palavras que não percebi e pediu-me, muito depressa, se podia abraçar-me: "Não", respondi. Voltou-se de costas e dirigiu-se para a parede, sobre a qual passou lentamente a mão. "Gosta assim tanto desta terra?" Não respondi nada.
     Deixou-se ficar voltado muito tempo. A sua presença pesava-me e irritava-me. Ia dizer-lhe para se ir embora, quando, virando-se para mim, exclamou de repente: "Não, não posso acreditá-lo. Tenho a certeza de que já lhe aconteceu desejar uma outra vida". Respondi-lhe que com certeza, mas isso era o mesmo do que desejar ser rico, nadar muito depressa ou ter uma boca mais bem feita. Era da mesma ordem. Mas ele deteve-me e quis saber como imaginava eu essa outra vida. Repliquei: "Uma vida onde me pudesse lembrar desta vida,". E disse-lhe que já bastava. Queria continuar a falar destas coisas, mas eu avancei para ele e expliquei-lhe pela última vez que já não tinha muito tempo à minha frente. Não queria perdê-lo com discussões. Tentou mudar de assunto, perguntando-me por que motivo eu o tratava por "senhor", e não por "meu pai". Isto enervou-me e respondi que ele não era meu pai: e estava do lado dos outros.

"Não, meu filho, disse ele pondo-me a mão no ombro. Estou ao seu lado, mas não o pode saber, porque o seu coração está cego. Rezarei por si". Então, não sei porquê, qualquer coisa rebentou dentro de mim. Pus-me a gritar em altos berros e insultei-o e disse-Lhe para não rezar e que, mesmo que houvesse um Inferno não me importava, pois era melhor ser queimado no fogo do que desaparecer. Agarrara-o pela gola da sotaina. Atirava para cima dele todo o fundo do meu coração com impulsos de alegria e de cólera. Tinha um ar tão confiante, não tinha? Mas nenhuma das suas certezas valia um cabelo de mulher. Nem sequer tinha a certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu, parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava. Sim, não sabia mais nada do que isto. Mas ao menos segurava esta verdade, tanto como esta verdade me segurava a mim. Tinha tido razão, tinha ainda razão, teria sempre razão. Vivera de uma dada maneira e poderia ter vivido de outra dada maneira. Fizera isto e não fizera aquilo. Não fizera uma coisa e fizera outra. E depois? Era como se durante este tempo todo tivesse estado à espera deste minuto... e dessa madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância e eu sabia bem porquê.

     Também ele, sabia porquê. Do fundo do meu futuro, durante toda esta vida absurda que eu levara, subira até mim através dos anos que ainda não tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro igualava na sua passagem tudo o que me propunham nos anos, não mais reais, em que eu vivia. Que me importava a morte dos outros, o amor de uma mãe, que me importava o seu Deus, as vidas que se escolhem, os destinos que se elegem já que um só destino podia eleger-me a mim próprio e, comigo, milhares de privilegiados que, diziam como ele, ser meus irmãos? Compreendia, compreendia o que eu queria dizer? Toda a gente era privilegiada. Só havia privilegiados. Também os outros seriam um dia condenados. Também ele seria um dia condenado. Que importava se, acusado de um crime, era executado por não ter chorado no enterro da minha mãe? O cão de Salamano valia tanto como a mulher dele. A mulher autômato era tão culpada como a Parisiense que não se casara ou como Maria, que queria que eu casasse com ela. Que importava que fosse meu amigo, ao mesmo título que Celeste,-:: valia mais do que ele? Que importava que oferecesse hoje a sua boca a um novo Meursault? Compreendia, compreendia ele este condenado? E que do fundo do meu futuro... quase atabafava, ao gritar estas coisas. Mas já me arrancavam o padre das mãos, já os guardas me ameaçavam. Foi ele, no entanto, quem os acalmou. Olhou-me uns instantes em silêncio. Tinha os olhos cheios de lágrimas. Voltou-se e foi-se embora.
     Sentia-me agora outra vez calmo. Estava estafado e deixei-me cair sobre a cama. Julgo que dormi, pois acordei com estrelas por sobre a minha cabeça. Subiam até mim ruídos do campo.
Cheiros da noite da terra e do sol refrescavam-me as fontes. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram apitos. Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me era para sempre indiferente. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei na minha mãe. Julguei ter compreendido porque é que, no fim de uma vida, arranjara um "noivo", porque é que fingira recomeçar. Também lá, em redor desse asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma treva melancólica. Tão perto da morte, a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo reviver. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar sobre ela. Também eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande cólera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por o sentir tão parecido comigo, tão fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.


Fim...
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A Constatação do Absurdo
Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.
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Camus, Albert, 1913-1960.
              O Estrangeiro
Título Original L'Étranger
Tradução de António Quadros
Edição Livros do Brasil
Lisboa
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Leia também:
23.O Estrangeiro: Tinha os olhos cheios de lágrimas - Albert Camus

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

22.O Estrangeiro: O meu coração faria o resto - Albert Camus

Albert Camus


SEGUNDA PARTE

Capítulo 5

22. 

      RECUSEI-ME, pela terceira vez, a receber o capelão. Não tenho nada a dizer-lhe, não me apetece falar, tenho muito tempo para o ver. O que neste momento me interessa, é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída. Mudaram-me de cela. Desta, quando me estendo na cama, vejo o céu, apenas o céu. Os meus dias inteiros, passo-os a olhar na sua face, o declínio das cores que conduz o dia à noite. Deitado, ponho as mãos debaixo da cabeça e espero. Já não sei quantas vezes perguntei a mim próprio se havia exemplos de condenados à morte que tivessem escapado ao mecanismo implacável, desaparecido antes da execução e fugido ao cordão de polícias.
     Censurava-me por não ter prestado atenção suficiente às histórias de execuções. Devíamos interessar-nos sempre por estas questões.. Nunca se sabe o que pode acontecer. Lera, como toda a gente, reportagens sobre o assunto. Mas havia com certeza livros especializados, que nunca tivera a curiosidade de consultar. Talvez aí eu pudesse ter achado narrativas de evasões. Poderia ter sabido que, pelo menos num caso, a roda se tinha detido e que, nesta irresistível precipitação, o acaso e a sorte, uma única vez, haviam desempenhado um papel. Uma única vez! Por um lado, creio bem que isto me chegaria. O meu coração faria o resto. Os jornais falam muitas vezes de uma dívida para com a sociedade. Para eles, era preciso pagá-la. Mas isto não diz nada à imaginação. O que contaria, seria uma possibilidade de fuga, um salto para fora do rito implacável, uma louca corrida, com todas as probabilidades da esperança. A esperança, possivelmente, seria ser abatido em plena corrida, por uma bala. Mas, bem vistas as coisas, nada me permitia este luxo, tudo me proibia, a engrenagem reconquistava-me.
     Apesar da minha boa vontade, eu não era capaz de aceitar esta certeza insolente. Por que afinal de contas, existia uma ridícula desproporção entre o julgamento que a fundamentara e o seu imperturbável desenvolvimento, a partir do instante em que a sentença fora pronunciada. O facto de a sentença ter sido lida, não às cinco da tarde, mas às oito horas da noite, o facto de que podia ter sido outra completamente diferente, de que fora resolvida por homens que mudam de roupa de baixo e de que fora dada em nome de uma noção tão imprecisa como o povo francês (ou alemão, ou chinês), tudo isto me parecia tirar seriedade a uma decisão tão grave. Era obrigado a reconhecer, no entanto que, a partir do instante em que fora tomada, os seus efeitos se tornavam tão certos, tão sérios como a presença desta parede ao longo da qual eu me estendia.
     Lembrei-me nestes momentos de uma história que a mãe costumava contar-me, a respeito do meu pai. Eu nunca o conhecera. Tudo o que sabia de preciso a respeito deste homem, era talvez o que a minha mãe então me dizia: fora assistir á execução de um assassino. A ideia de ir punha-o doente. Mas não deixara de ir, e à volta vomitara durante quase todo o dia. Isto desgostava-me dele. Agora, porém, compreendia-o, a reação era tão natural... Como não percebera eu que não havia nada mais importante do que uma execução capital e que, sob um determinado ponto de vista, era mesmo a única coisa verdadeiramente interessante para um homem?! Se por acaso saísse da prisão, iria assistir a todas as execuções capitais. Fazia mal, julgo eu, em pensar nesta possibilidade. Pois à ideia de me ver livre uma destas manhãs, atrás de um cordão de polícias e do outro lado, à ideia de ser o espectador que veio assistir, uma onda de alegria envenenada me subia ao coração. Mas não era razoável. Andava mal em abandonar-me a estas suposições porque, uns instantes depois, vinha-me um frio tão horrível, que tinha que me encolher debaixo dos cobertores e batia os dentes sem conseguir dominar-me.
     Evidentemente, nem sempre nos podemos manter razoáveis. Outras vezes, por exemplo, fazia projetos de lei. Reformava os castigos a aplicar. Observara já que o essencial era dar ao condenado uma oportunidade. Para as coisas correrem melhor, bastava uma sobre mil. Parecia-me, por conseguinte, que se podia obter um composto químico cuja absorção mataria o paciente nove vezes em dez. Este estaria a par de tal possibilidade. Porque, pensando bem, considerando as coisas com calma, verificava que o que havia de defeituoso na guilhotina era não existir nenhuma possibilidade de salvação, absolutamente nenhuma. A morte do paciente, em suma, era decidida de uma vez para sempre. Era um caso arrumado,. uma combinação que não mais se podia desfazer, um acordo resolvido e sobre o qual não se podia voltar atrás.
     Se, por exceção, o maquinismo falhava, recomeçava-se do princípio. Como consequência, o aborrecido é que isto levava o condenado a desejar o bom funcionamento da máquina. Digo que é o lado defeituoso da coisa. O que, num determinado sentido, é verdade. Mas por outro lado, via-me obrigado a reconhecer que residia aí todo o segredo da boa organização. Numa palavra, o condenado sentia-se obrigado a colaborar moralmente. Era do seu interesse que tudo marchasse sem empenos. Via-me também obrigado a verificar que até aqui tinha tido sobre todos estes problemas, ideias que não eram certas.
     Julguei durante muito tempo - não sei porquê - que para ir à guilhotina era preciso subir uns degraus. Creio que por causa da Revolução de 1789, quer dizer, por causa de tudo quanto me ensinaram ou me mostraram em semelhante matéria. Mas veio-me à ideia numa destas manhãs, a fotografia de uma execução retumbante, publicada nos jornais da época. Na realidade a máquina estava simplesmente no chão. Era muito mais estreita do que eu julgava. É engraçado como não me lembrei disto há mais tempo. Na fotografia, a máquina impressionara-me como uma obra de precisão, brilhante e acabada. Exageramos sempre as coisas que não conhecemos. Verifiquei, o contrário, que era tudo muito simples: a máquina estava ao mesmo nível do que o homem que para ela se dirige. Vai ter com ela, precisamente como iria ter com uma pessoa. Sob um dado aspecto, também isto era aborrecido. A imaginação poderia agarrar-se à subida ao cadafalso, à ascensão para o céu. Enquanto aqui, o maquinismo mais uma vez esmagava tudo: era-se morto discretamente, talvez com um pouco de vergonha, mas com muita precisão.
     Havia duas coisas que nunca me saíam da cabeça: a madrugada da execução e o recurso da sentença. Não deixava, no entanto, de discutir comigo mesmo e de tentar pensar noutras coisas. Estendia-me, olhava através da janela, procurava interessar-me pelo que via. O céu tornava-se verde, a noite chegava. Voltava a fazer um esforço para mudar o curso dos meus pensamentos. Punha-me a escutar o coração. Não era capaz de imaginar que este barulho compassado que me acompanhava há tanto tempo podia um dia cessar. Nunca tive verdadeira imaginação. Mas tentava imaginar, não obstante, o segundo em que o batimento do coração já se me não prolongaria na cabeça. Em vão. A madrugada e o recurso não me abandonavam. Acabava por chegar à conclusão que o mais razoável era ainda não me tentar dominar.
     Sabia que vinham de madrugada. Ocupei as minhas noites, em suma, a esperar por esta madrugada. Nunca gostei que me surpreendessem. Quando me acontece alguma coisa, prefiro estar presente: Eis porque, no final, acabei por dormir um pouco de dia, enquanto, durante toda a noite, esperava pacientemente que a luz nascesse no negro do céu.
     O mais difícil, era a flora duvidosa em que eles geralmente operavam. Depois da meia-noite, esperava e escutava. Nunca a minha orelha sentiu tantos ruídos e distinguiu sons tão ténues. Aliás posso afirmar que, de certo modo, tive sorte durante todo este período, pois nunca cheguei a ouvir passos. A mãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz. Mesmo na prisão continuava a concordar com ela, quando o céu se coloria e que um novo dia entrava na minha cela. Porque, logo que ouvisse passos, o meu coração era capaz de rebentar. Mesmo se o mínimo som me atirasse de encontro à porta, mesmo se, a orelha colada à madeira, eu esperasse desvairadamente até ouvir a minha própria respiração, assustado por a achar tão rouca, e se, tal a agonia de um cão, ao fim desse período o meu coração rebentasse, tinha ganho ao menos mais vinte e quatro horas.
     Durante todo o dia, podia pensar no recurso da sentença. Julgo que tirei o melhor partido possível desta ideia. Calculava os meus efeitos e obtinha assim destas reflexões o melhor dos rendimentos.
     Começava sempre pela suposição mais pessimista: o recurso é rejeitado. "Pois bem, morrerei". Mais cedo do que os outros, mas sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que morrer aos trinta, aos setenta anos tanto faz, pois em qualquer dos casos outros homens e outras mulheres viverão, e isto durante milhares de anos. No fim de contas isto era claro como a água. Hoje ou daqui a vinte anos, era à mesma eu que morria. Neste momento, o que me incomodava um pouco no meu raciocínio era esse frémito terrível que me percorria, ao pensar nesses vinte anos para a frente. O que tinha a fazer, era abafar esta sensação, imaginando o que seriam os meus pensamentos daqui a vinte anos, quando chegasse outra vez à hora da morte. Desde o momento que se morre, é evidente que não importa como e quando. Portanto - e o difícil era não perder de vista o que este "portanto" representava no meu raciocínio - portanto, o melhor era aceitar a rejeição do meu recurso.
     Neste momento, apenas neste momento, conquistava, por assim dizer o direito, dava a mim mesmo licença de abordar a segunda hipótese: a de anularem a sentença capital. O maçador, era que tinha de tornar menos fogoso esse impulso do sangue e do corpo que me picava os olhos e me comunicava uma alegria insensata. Era preciso que me aplicasse a reduzir esse grito, a vencê-lo pela lógica. Era preciso que eu estivesse natural, mesmo nesta hipótese, para tornar mais plausível a minha resignação na primeira hipótese. Quando o conseguia, ganhara uma hora de calma. E isto era importante.
     Foi num momento assim que mais uma vez me recusei a receber o padre da prisão. Estava estendido e adivinhava a chegada da noite de verão a uma certa tonalidade loira do céu. Acabava de rejeitar o recurso e podia sentir as ondas do sangue circularem regularmente no meu corpo. Não tinha necessidade nenhuma de receber o capelão. Pela primeira vez, há muito tempo, pensei em Maria. Há muitos dias que não me escrevia. Pus-me a pensar, e disse de mim para mim que ela talvez se tivesse cansado de ser a amante de um condenado à morte. Veio-me à cabeça que ela era capaz de estar doente ou de ter morrido, o que pertencia à ordem das coisas. Como o poderia eu saber, aliás, já que, além dos nossos corpos agora separados, nada nos ligava, nada nos lembrava um ao outro. A partir desse momento, a recordação de maria passaria a ser-me indiferente. Morto, deixava de interessar. Afigurava-se-me normal esta atitude, assim como compreendia muito bem que as pessoas me esquecessem depois da minha morte. Já não tinham nada a fazer comigo. Nem sequer podia dizer que me custava pensar em semelhante possibilidade. Não há, no fundo, nenhuma ideia a que não nos habituemos.
     Foi neste instante preciso que o capelão entrou na minha cela. Quando o vi, senti um pequeno estremecimento. Ele deu por isso e disse-me para não ter medo. Redargui que, habitualmente, o capelão vinha noutra altura. Respondeu-me que era uma visita amigável, que nada tinha a ver com o meu recurso, a respeito do qual nada sabia: Sentou-se na minha cama e convidou-me a ir para o pé dele. Recusei-me. Achei que tinha, no entanto, um ar muito doce.
     Ficou uns momentos sentado, os cotovelos sobre os joelhos, a cabeça baixa, a olhar para as mãos. Estas eram finas e musculosas, lembravam-me dois animais ágeis: Esfregou-as lentamente: uma contra a outra. Depois assim ficou, sempre de cabeça baixa, durante tanto tempo que, por instantes, tive a impressão de o ter esquecido.

continua...
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A Constatação do Absurdo
Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.
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Camus, Albert, 1913-1960.
              O Estrangeiro
Título Original L'Étranger
Tradução de António Quadros
Edição Livros do Brasil
Lisboa
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Leia também:
22.O Estrangeiro: O meu coração faria o resto - Albert Camus
23.O Estrangeiro: Tinha os olhos cheios de lágrimas - Albert Camus