quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Eta Povo Pra Lutar

Zeca Pagodinho





Eta Povo Pra Lutar

Zeca Pagodinho


Eta povo pra lutar, vai gostar de trabalhar
Nunca vi tão disposto, nunca está de cara feia
Sempre traz escancarao
Um franco sorriso no rosto
Se rola uma "intera"
É o primeiro a pôr a mão no bolso
Se um vizinho ao lado está passando
Por má situação
Ele faz um mutirão e ajeita a situação


Então, por que que essa gente que tem
Não aprende a lição
Com esse povo que nada tem
Mas tem bom coração


Eta povo pra lutar...


Já com a face enrugada e a mão calejada
Lá vai ele pra batalha, e a Deus
pede saúde
Vive no fio da navalha


Então, por que que essa gente que tem...


(improvisos)
Eta povo guerreiro, faça chuva, faça sol
Esse povo tá sempre na luta
E a divisão é o lema desse povo
Salve o povo brasileiro!
Eta povo! Eta povo pra lutar!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Canción con todos


Mercedes Sosa




Canción con todos


(Armando Tejada Gómez - César Isella)

Salgo a caminar
por la cintura cósmica del sur.
Piso en la región
más vegetal del viento y de la luz.
Siento al caminar
toda la piel de América en mi piel
y anda en mi sangre un río
que libera en mi voz su caudal.

Sol de Alto Perú,
rostro Bolivia, estaño y soledad,
un verde Brasil,
besa mi Chile cobre y mineral.
Subo desde el sur
hacia la entraña América y total,
pura raíz de un grito
destinado a crecer y estallar.

Todas las voces, todas,
todas las manos, todas,
toda la sangre puede
ser canción en el viento.
Canta conmigo, canta,
hermano americano.
Libera tu esperanza
con un grito en la voz.



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

V - Contos Africanos


O ano que não começou
Valdomiro Martins
O homem de terno cinza desviou-se por entre as pessoas que caminhavam animadas. Entrou em casa. Tirou o casaco, o chapéu, pendurou-os no cabide. A mulher que o olhava pela janela, veio ao seu encontro.
— É verdade? — ela perguntou. — Vais dizer a eles?
O homem se afastou. Aproximou-se da janela, mirou as pessoas a caminharem apressadas, virou-se e disse:
— Ficarei apenas com as duas.
— E a lei? — ela segurou as mãos do homem. — Vais contrariar o Império?
O homem riu. Cruzou os braços.
— Eu e todo o Brasil — e serviu um copo de vinho. — Chame o José.
Tomou três longos goles de vinho. José aproximou-se. Seu pé direito arrastava-se a cada passo no piso de madeira. Perante o homem, ele parou com os olhos arregalados e ouvidos prontos às ordens iminentes.
— Pegue suas coisas e o Camilo também — disse o homem — Vão embora festejar suas liberdades!
José não discutiu, era hábito de uma vida seca, ignorante às decisões. Foi até a cozinha e, sob os olhares das cozinheiras, tomou o menino Camilo, de uns dez anos, pelo braço. Levou-o até o pequeno quarto, nos fundos da casa. José mandou que arrumasse sua trouxa.
— Vamos aonde? — perguntou Camilo.
José não respondeu. Continuou arrumando sua trouxa. Às vezes, parava como se esquecesse o que deveria levar. Havia uma calça e duas camisas. Olhou alguns minutos para as roupas e envolveu-as com o tecido marrom. Deu um grande nó e disse:
— Está pronto?
— Pra quê?
— O patrão mandou nós festejar a nossa liberdade.

Conversas alegres e passos rápidos tornavam-se comuns entre homens e mulheres de vestidos longos naquele início de noite. Era maio e os vidros das janelas embaçavam antes que as estrelas surgissem.
Os olhos de Camilo acompanhavam as pessoas que cruzavam seu caminho. José deslocava-se em passos lentos e angustiantes à medida que arrastava o pé descalço. Viram o velho de barba suja e calça rasgada que extraía do violão uma triste milonga. Ao lado, uma mulher negra de vestido branco, sujo de lama, suspendia um caixote de madeira. Aproximaram-se. José viu no interior duas moedas com a face do imperador. Perguntou à mulher para onde iam todas aquelas pessoas.
— É o baile da abolição — respondeu a mulher. — Vão lá! Dizem que a festa é pra nós. — E riu de maneira intensa e desdenhosa como uma feiticeira. José se irritou, ofendeu-se com a risada. Uma graça que nunca entenderia. Chamou Camilo, foram embora.
Os dois caminhavam. Camilo admirava-se cada vez mais, a cada vestido que via, até que um bêbado deu de encontro com José.
— Desculpe cavalheiro! — disse o homem numa voz alcoólica. — A partir de hoje, graças à princesa Isabel, sois um.
Camilo ria com as palavras balbuciadas e distorcidas do divertido homem, que o álcool parecia ter aguçado a vontade da fala:
— Tome, beba! — disse o bêbado, e pôs o gargalo da garrafa de uísque na boca de José, que a agarrou e pôs na boca numa necessidade voraz. Tomou três goles seguidos e devolveu ao homem, que gritou:
— Salve a princesa Isabel! Salve a Lei Áurea!
Depois, o homem caiu sentado e deitou no chão. Camilo pegou a garrafa que escorria o líquido no solo e depressa levou à boca. Antes que tomasse, José arrancou das mãos do menino e acabou com o restante.
Camilo se lembrava das palavras da mulher da caixa de madeira e as repetiu para José.
— A festa é pra nós — repetia em meio ao grande sorriso.
O uísque despertara uma grande fome em José, que logo ouviu também de Camilo que desejava comer alguma coisa. O menino então lhe sugeriu que fossem à festa. Quem sabe comeriam de graça? Não havia outra escolha. Talvez a ideia tivesse algum sentido e aquela mulher dissera a verdade, pensou José.
Da esquina eles avistavam o grande clube onde ainda muitas pessoas entravam. Aproximavam-se e José achava estranha a ausência de negros. Pararam junto à porta, dois homens de casaco preto recebiam os casais e famílias que entravam.
— Vá lá, Camilo — disse José. — Pergunte se é aqui a festa da liberdade.
Camilo aproximou-se dos homens que logo o interceptaram. Um deles perguntou:
— O que foi pretinho?
— É aqui a festa da aboli... Aboli... — e não conseguia completar a palavra.
— Abolição — o homem ajudou Camilo a soletrá-la corretamente.
Depois disse:
— É sim que se dia: festa da abolição.
Camilo sorriu e chamou José que se aproximou no seu ritmo penoso.
— Pára aí mesmo — disse o outro homem — Dêem meia-volta e vão embora!
José retraiu três passos enquanto Camilo permaneceu no mesmo lugar. O homem que havia o empurrado disse ao seu companheiro:
— Viu só! Mal saiu a lei, já pensam que são como nós.
— Senhor! Podemos entrar? — perguntou Camilo.
O homem agarrou-o pela gola do colete. Levou-o até onde o menino podia ver o interior do iluminado salão.
— Vês algum negro aí dentro? — disse a Camilo que olhava para todos os cantos do salão.
— Lá! — disse Camilo ao ver um negro de roupa branca que servia os convidados. — Veja, Senhor, tem mais dois ali!
Enquanto era levado para fora, Camilo ouviu:
— Tens razão. Mas eles vestem a roupa certa e fazem o que lhes cabe.
Enquanto o silêncio dominava José, que se sentava no chão à espera de Camilo, junto aos dois homens, Camilo disse:
— Posso vestir o que eles vestem e faze o que eles fazem.
Os homens riram numa vontade espontânea. Depois, o mesmo home que havia levado Camilo até perto do salão, levou-o através de um corredor de paredes altas.
Havia um silêncio. Escutavam-se alguns passos solitários na rua repleta de jornais e panfletos. José dormia no chão onde sua cabeça apoiava-se num monte de jornais amassados. Mãos pequenas o sacudiram. José abriu os olhos e viu Camilo que lhe disse:
— Tome José, trouxe da festa da abolição.
Eram salgados e doces que trouxera nos bolsos do colete e da calça.

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Valdomiro Martins nasceu em Bagé, município gaúcho que faz fronteira com o Uruguai, em 01 de julho de 1978. É funcionário público e formado em letras pela Universidade da Região da Campanha — URCAMP, onde estreitou seus laços com a literatura. Atualmente, faz especialização em Língua Portuguesa e leciona Literatura em curso pré-vestibular.

Guerrilha e solidão / Valdomiro Santos Martins. – Porto Alegre: Literalis, 2008. 88p.