volume V
A Prisioneira
continuando...
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Assim, da mesma forma que ver Veneza - Veneza, de quem eu sentia também a nostalgia naqueles dias primaveris e que o casamento com Albertine me impediria de conhecer - ver Veneza num panorama que Ski talvez tivesse declarado ser mais belo de tonalidade que a cidade real, em nada me teria substituído a viagem a Veneza, viagem cuja distância, determinada sem minha participação, parecia me indispensável transpor da mesma forma, por mais bonita que fosse a midinette que uma alcoviteira me obtivesse artificialmente, não poderia em nada substituir, para mim, aquela que, rebolando os quadris, passava naquele instante sob as árvores, rindo com uma amiga. A que eu pudesse ter encontrado num bordel, ainda que fosse mais bonita, não seria a mesma coisa, pois não olhamos para os olhos de uma garota que não conhecemos como o faríamos para uma plaqueta de opala ou de ágata. Sabemos que o pequeno raio de luz que os irisa ou os grãos de brilhante que os fazem cintilar são tudo o que podemos ver de um pensamento, de uma vontade, de uma memória, onde residem a casa de família que não conhecemos, os amigos queridos que invejamos. Chegara apossar-nos de tudo isso, que é tão difícil, tão arisco, é o que dá ao olhar o seu valor, muito mais do que a simples beleza material (pelo que se pode explicar que um rapaz desperte todo um romance na imaginação de uma mulher que ouviu dizer que ele era o príncipe de Gales, e que não lhe dê mais atenção ao saber que se enganou); encontrar a midinette no bordel é encontrá-la vazia dessa vida ignorada que a penetra, e que aspiramos possuir com ela, é nos aproximarmos de olhos que de fato se tornaram simples pedras preciosas, de um nariz cujo franzir é tão destituído de significado como o de uma flor. Não, essa midinette desconhecida que ali passava, e da qual me parecia tão indispensável, se eu quisesse continuar a crer na sua realidade, experimentar-lhe as resistências adaptando-lhes o meu procedimento, arriscando-me a ouvir desaforos, voltando à carga, obtendo um encontro, esperando-a à saída do emprego, conhecendo episódio por episódio tudo o que compunha a vida dessa garota, atravessando aquilo de que se formava para ela o prazer que eu procurava e a distância que seus hábitos diversos e sua vida especial colocavam entre mim e a atenção, o favor que eu queria atingir e captar quanto fazer uma longa viagem de trem se eu quisesse acreditar na realidade de Pisa, que eu veria e que não seria apenas um espetáculo de exposição universal. Mas as próprias semelhanças que existem entre o desejo e a viagem fizeram com que eu prometesse a mim mesmo penetrar um pouco mais fundo na natureza dessa força invisível mas tão poderosa como as crenças, ou como, no mundo físico, a pressão atmosférica, que erguia tão alto as cidades, as mulheres, enquanto eu não as conhecia, e que se ocultava debaixo delas logo que eu me aproximava, fazendo-as desabar repentinamente no terra-a-terra da mais trivial realidade. Mais adiante, uma outra mocinha estava de joelhos junto a sua bicicleta, consertando-a. Uma vez terminados os reparos, a jovem ciclista montou na bicicleta, mas sem cavalgá-la como o teria feito um homem. Por um momento a bicicleta balançou, e o jovem corpo parecia ter adquirido um véu, uma asa imensa, e logo vimos afastar-se a toda velocidade a jovem criatura meio humana, meio alada, anjo ou perl prosseguindo a sua viagem.
Eis do que exatamente me privava a presença de Albertine, a minha vida com Albertine. Do que me privava? Não deveria eu pensar do que, ao contrário, ela me gratificava?
Se Albertine não vivesse comigo, se ela fosse livre, eu teria imaginado, e com razão, todas essas
mulheres como objetos possíveis e prováveis do seu desejo, do seu prazer. Elas me apareceriam todas
como essas dançarinas que, num balé diabólico, representando as Tentações para uma pessoa, atiram
suas flechas no coração de outra. As midinettes, as moças, as atrizes, como as teria odiado! Objeto de
horror, seriam excluídas por mim da beleza do universo. O cativeiro de Albertine, permitindo-me não mais
sofrer por causa delas, restituía-as à beleza do mundo.
Inofensivas, tendo perdido o aguilhão que enfia no coração o ciúme; era-me permitido admirá-las,
afagá-las com o olhar, talvez mais intimamente em outro dia. Encerrando Albertine, eu ao mesmo tempo
devolvera ao universo todas aquelas asas reluzentes que sussurravam nas avenidas, nos bailes, nos
teatros, e que se tornavam tentadoras para mim porque ela já não podia sucumbir à sua tentação: Elas
compunham a beleza do mundo. Tinham feito antigamente a de Albertine. Porque a vira como um
pássaro misterioso, depois como uma grande atriz da praia, desejada, talvez conquistada, é que eu a
achara maravilhosa. Uma vez cativo em minha casa o pássaro que eu tinha visto uma tarde caminhar a
passos vagarosos sobre o molhe, cercado da congregação das outras jovens semelhantes à gaivotas
vindas não se sabe de onde, Albertine perdera todas as suas cores, com todas as chances que os outros
tinham de a possuir. Aos poucos perdera a sua beleza. Eram necessários passeios como este, em que eu
a imaginava sem mim, abordada por tal mulher ou tal rapaz, para que eu a revisse no esplendor da praia,
ainda que o meu ciúme estivesse num plano diverso do que o declínio dos prazeres de minha
imaginação. Mas, apesar desses bruscos sobressaltos em que, desejada por outros, ela se me tornava
bela outra vez, eu bem podia dividir sua temporada em minha casa em dois períodos: o primeiro, em que
ela era ainda, embora menos a cada dia, a reluzente atriz da praia; e o segundo, em que, transformada
na sombria prisioneira, reduzida a seu eu amortecido, eram-lhe precisos esses clarões, em que eu me
recordava do passado, para lhe restituir as cores.
Às vezes, nas horas em que ela me era mais indiferente, voltava-me a lembrança de um momento
longínquo em que, na praia, quando ainda não a conhecia, não longe de certa senhora com quem eu
estava em muito maus termos e com a qual agora estava quase seguro de que ela tivera relações,
Albertine desatava a rir, olhando-me de modo insolente. O mar, brunido e azul, sussurrava em torno; ao
sol da praia, Albertine, no meio de suas amigas, era a mais bela, era uma garota magnífica, que, no
quadro habitual de águas imensas, infligira-me aquela afronta, preciosa para a dama que a admirava. Tal
afronta era definitiva, pois a dama talvez voltasse a Balbec, talvez constatasse a ausência de Albertine na
praia luminosa e sussurrante. Ignorava, porém, que a moça vivia em minha casa, só para mim. As águas
imensas e azuis, o esquecimento das preferências que tinha por esta moça e que se dirigiam a outras,
haviam recaído sobre a afronta que me fizera Albertine, prendendo-a num deslumbrante e infrangível
escrínio. Então o ódio por aquela mulher me mordia o coração; também por Albertine, mas um ódio
mesclado de admiração pela bela jovem adulada, de maravilhosa cabeleira, e cujo estalar de riso na praia
era uma afronta. A vergonha, o ciúme, a recordação dos primeiros desejos e do quadro cintilante haviam
devolvido a Albertine a sua beleza, o seu valor de outrora. E assim alternava, com o tédio um tanto
pesado que eu sentia junto dela, um desejo fremente, cheio de imagens magníficas e saudades,
conforme ela estivesse a meu lado no quarto, ou eu lhe restituísse a liberdade em minha memória, no
molhe, em seus alegres trajes de praia, ao sabor dos instrumentos de música do mar. Albertine, ora saída
desse ambiente, possuída e sem grande valor, ora mergulhada nele, escapando-me num passado que eu
não poderia conhecer, ofendendo-me junto àquela senhora, junto da amiga, tanto quanto o salpico das
ondas ou a ofuscação do sol, Albertine recolocada na praia ou reposta no meu quarto, numa espécie de
amor anfíbio.
Além, um grupo numeroso jogava bola. Todas essas meninas tinham querido aproveitar o sol, pois
esses dias de fevereiro, mesmo quando são tão brilhantes, não duram até tarde, e o esplendor de sua luz
não atrasa a vinda de seu declínio. Antes que este chegasse, tivemos um pouco de penumbra, porque,
depois de descer até o Sena, onde Albertine admirou -e com sua presença me impediu de admirar os
reflexos de velas vermelhas sobre a água azul e invernal, uma casa de telhas acocorada ao longe como
uma única papoula no claro horizonte de que Saint-Coud parecia, mais longe ainda, a petrificação
fragmentária, friável e cheia de pregas, saltamos do carro e caminhamos por muito tempo. Durante
alguns momentos eu até lhe dava o braço, e parecia-me que o anel que o seu braço fazia sob o meu unia
numa só criatura nossas pessoas e ligava nossos destinos um ao outro. A nossos pés, nossas sombras
paralelas, mais juntas e aproximadas, formavam um desenho encantador. Sem dúvida já me parecia
maravilhoso em casa que Albertine morasse comigo, que fosse ela quem se estendesse em minha cama.
Mas era como a exportação para fora, em plena natureza, que diante daquele lago de Bois, de
que eu tanto gostava, ao pé das árvores, que fosse justamente a sua sombra, a sombra pura e
simplificada de sua perna, de seu busto, que o sol tivesse de pintar numa aquarela, ao lado da minha,
sobre a areia da alameda. E eu achava um encanto, mais imaterial sem dúvida, porém não menos íntimo,
na aproximação, na fusão de nossas sombras do que na de nossos corpos. Depois voltamos para o
carro. E este tomou por pequenas alamedas sinuosas onde as árvores de inverno, vestidas de heras e de
sarças, como ruínas, pareciam levar à casa de um mágico. Mal saímos de sua cobertura ensolarada,
encontramos, para deixar o Bois; o dia claro, tão claro ainda que eu julgava ter tempo de fazer tudo o que
desejava antes de jantar, quando, só alguns instantes depois, no momento em que nosso carro se
aproximava do Arco do Triunfo, foi com um brusco movimento de surpresa e pavor que avistei, sobre
Paris, a lua cheia e prematura, como o mostrador de um relógio parado que nos faz pensar que estamos
atrasados. Tínhamos dito ao cocheiro que voltasse para casa. Para Albertine, era também voltar para a
minha casa. A presença das mulheres que precisam nos deixar para regressar a casa, por mais amadas
que sejam, não nos dá essa paz que eu desfrutava na presença de Albertine, sentada no fundo do carro a
meu lado, presença que nos encaminhava; não ao vazio das horas em que se fica separado, mas à
reunião mais estável ainda e melhor definida dentro do meu lar, que também era o seu símbolo material
do meu poder sobre ela. É claro que, para possuir, é preciso ter desejado. Não passamos uma linha, uma
superfície, um volume, sem que nosso amor o ocupe. Mas Albertine não fora para mim, durante nosso
passeio, como Rachel o fora antigamente, uma poeira vã de carne e tecidos. A imaginação de meus
olhos, de meus lábios, de minhas mãos, tinha, em Balbec, tão solidamente construído e tão ternamente
cinzelado o seu corpo, que agora naquele carro, para tocar esse corpo, por contê-lo, eu não tinha
necessidade de me apertar contra Albertine, nem mesmo vê-la, bastava-me ouvi-la, e, se ela se calava,
sabê-la junto a mim; meus sentimentos retrançados envolviam-na inteirinha e, quando, chegando em
frente da casa, ela desceu com toda a naturalidade, eu parei um instante para dizer ao chofer que
voltasse para me buscar, mas meus olhares ainda a envolviam, enquanto ela desaparecia sob o arco, e
era sempre essa mesma calma inerte e doméstica o que eu desfrutava ao vê-la assim pesada, purpúrea,
opulenta e cativa, entrar naturalmente em casa comigo, como uma mulher que fosse minha, e, protegida
pelos muros, desaparecerem nossa casa.
Infelizmente, ela parecia sentir-se prisioneira e ser da opinião daquela Sra. de La Rochefoucauld,
que, como lhe perguntassem se não estava contente por viver numa residência tão bonita como
Liancourt, respondeu que "não existe uma bela prisão", a julgar pelo ar tristonho e cansado que exibiu
aquela noite durante o jantar, nós dois sozinhos no seu quarto. A princípio não reparei nisso; e eu é que
fiquei desolado ao pensar que, se não fosse Albertine (pois com ela eu teria de morrer de ciúmes num
hotel onde ela ficaria o dia todo em contato com tantas pessoas), poderia naquele instante estar jantando
em Veneza, numa daquelas pequenas salas de jantar de teto rebaixado como um porão de navio, e de
onde se vê o Grande Canal através de janelinhas arqueadas em molduras mouriscas.
Devo acrescentar que Albertine admirava muito, em nossa casa, um grande bronze de Barbedienne, que com muita razão Bloch achava extremamente feio. Tinha-a menos talvez de se admirar que eu o conservasse. Eu jamais buscara, como ele, fazer um conjunto de mobílias artísticas, compor peças, era preguiçoso demais para isso, muito indiferente ao que estivesse habituado a ter diante dos olhos. Já que o meu gosto não se preocupava, eu tinha o direito de não matizar os interiores. Apesar disso, poderia talvez me desfazer do bronze. Mas as coisas feias e extravagantes são utilíssimas, pois têm, junto às pessoas que não nos compreendem, que não têm o nosso gosto, e das quais podemos estar enamorados, um prestígio que não teria uma peça ilustre que não revela a sua beleza. Ora, as pessoas que não nos compreendem são justamente as únicas junto às quais pode nos ser útil usar de um prestígio diante de criaturas superiores apenas por sermos inteligentes. Por mais que Albertine principiasse a ter um certo gosto, ela ainda mostrava algum respeito por aquele bronze; e esse respeito se refletia sobre mim numa consideração que, vindo dela, importava-me infinitamente mais do que conservar um bronze um tanto desonroso, visto que amava Albertine.
Devo acrescentar que Albertine admirava muito, em nossa casa, um grande bronze de Barbedienne, que com muita razão Bloch achava extremamente feio. Tinha-a menos talvez de se admirar que eu o conservasse. Eu jamais buscara, como ele, fazer um conjunto de mobílias artísticas, compor peças, era preguiçoso demais para isso, muito indiferente ao que estivesse habituado a ter diante dos olhos. Já que o meu gosto não se preocupava, eu tinha o direito de não matizar os interiores. Apesar disso, poderia talvez me desfazer do bronze. Mas as coisas feias e extravagantes são utilíssimas, pois têm, junto às pessoas que não nos compreendem, que não têm o nosso gosto, e das quais podemos estar enamorados, um prestígio que não teria uma peça ilustre que não revela a sua beleza. Ora, as pessoas que não nos compreendem são justamente as únicas junto às quais pode nos ser útil usar de um prestígio diante de criaturas superiores apenas por sermos inteligentes. Por mais que Albertine principiasse a ter um certo gosto, ela ainda mostrava algum respeito por aquele bronze; e esse respeito se refletia sobre mim numa consideração que, vindo dela, importava-me infinitamente mais do que conservar um bronze um tanto desonroso, visto que amava Albertine.
Mas a ideia da minha escravidão cessou de repente de me pesar, e eu aspirava a prolongá-la
ainda mais, pois parecia-me perceber que Albertine sentia cruelmente a sua. Sem dúvida, cada vez que
eu lhe perguntava se não se aborrecia em minha casa, dizia-me sempre que não sabia onde poderia ser
mais feliz. Muitas vezes, porém, tais palavras eram desmentidas por um ar de nostalgia, de nervosismo.
Certamente, se ela tivesse os gostos que eu julgara que possuísse, esse impedimento de jamais satisfazê-los deveria ser tão irritante para ela como tranquilizador para mim; tranquilizador a ponto de que a hipótese de que a acusara injustamente teria me parecido a mais verossímil, se nela não encontrasse muita dificuldade em explicar aquele cuidado extraordinário que Albertine punha em nunca estar sozinha, nunca estar livre, em nunca parar um momento diante da porta ao entrar, em se fazer acompanhar ostensivamente, cada vez que ia telefonar, por alguém que pudesse me repetir as suas palavras, por Françoise, por Andrée, em me deixar sempre sozinho com esta última, sem dar a impressão que fosse de propósito quando tinham saído juntas, para que eu pudesse obter um relatório minucioso de sua saída. Com essa maravilhosa docilidade, contrastavam certos movimentos de impaciência, logo reprimidos, que me fizeram especular se Albertine não teria formado o projeto de romper as cadeias. Alguns fatos acessórios apoiavam minha suposição. Assim, um dia em que eu saíra sozinho, tendo encontrado Gisele perto de Passy, conversamos de uma coisa ou outra.
Certamente, se ela tivesse os gostos que eu julgara que possuísse, esse impedimento de jamais satisfazê-los deveria ser tão irritante para ela como tranquilizador para mim; tranquilizador a ponto de que a hipótese de que a acusara injustamente teria me parecido a mais verossímil, se nela não encontrasse muita dificuldade em explicar aquele cuidado extraordinário que Albertine punha em nunca estar sozinha, nunca estar livre, em nunca parar um momento diante da porta ao entrar, em se fazer acompanhar ostensivamente, cada vez que ia telefonar, por alguém que pudesse me repetir as suas palavras, por Françoise, por Andrée, em me deixar sempre sozinho com esta última, sem dar a impressão que fosse de propósito quando tinham saído juntas, para que eu pudesse obter um relatório minucioso de sua saída. Com essa maravilhosa docilidade, contrastavam certos movimentos de impaciência, logo reprimidos, que me fizeram especular se Albertine não teria formado o projeto de romper as cadeias. Alguns fatos acessórios apoiavam minha suposição. Assim, um dia em que eu saíra sozinho, tendo encontrado Gisele perto de Passy, conversamos de uma coisa ou outra.
Em pouco, muito feliz de poder informá-la, disse-lhe que via Albertine constantemente. Gisele me
perguntou onde poderia encontrá-la, pois tinha justamente uma coisa a lhe dizer.
- O que é?
- Coisas das amiguinhas dela.
- Que amiguinhas? Eu podia talvez lhe informar, o que não impediria que você a procurasse
depois.
- Oh, amigas de antigamente; não me recordo os seus nomes - respondeu Gisele com um ar vago,
batendo em retirada.
Deixou-me, julgando ter falado com tanta prudência que tudo só me poderia parecer bem claro.
Mas a mentira é tão pouco exigente, necessita de tão pouco para se manifestar! Se se tratasse de
amiguinhas de antigamente, de quem ela nem mesmo recordava os nomes, por que precisaria
justamente falar delas a Albertine? Este advérbio, bem parecido a uma expressão cara à Sra. Cottard:
"isso vem a calhar" - só podia aplicar-se a uma coisa especial, oportuna, talvez urgente, referindo-se a
pessoas determinadas. Aliás, nada como a forma de abrir a boca, como quando se vai bocejar, com um
ar vago ao me dizer (e quase recuando com o corpo, desde que dava marcha a ré a partir daquele
momento na nossa conversa):
- Ah, não sei, não me lembro dos seus nomes - para fazer de seu rosto e, combinado com ele, da
sua voz, um rosto de mentira, da mesma forma que o ar bem diverso, conciso, animado, indiscreto do
"tinha justamente", significava uma verdade. Nada mais perguntei a Gisele. De que adiantaria? Certo, ela
não mentia da mesma maneira que Albertine.
E evidentemente as mentiras desta me doíam mais. Porém havia entre elas um ponto comum, o próprio fato da mentira que, em certos casos, é uma evidência. Não da realidade que se oculta sob essa mentira. Sabemos que, embora cada assassino em particular pense ter, realizado tão bem o seu trabalho que nunca será descoberto, ele é quase sempre é capturado. Contrariamente, os mentirosos raramente são apanhados e, entre eles; mais especialmente as mulheres que amamos. Ignoramos aonde ela foi, o quê andou fazendo lá, mas, no momento mesmo em que ela fala, quando fala de outra coisa sob a qual está o que ela não diz, a mentira é logo descoberta. E o nosso ciúmes redobra, pois percebemos a mentira e não chegamos a conhecer a verdade. Em Albertine, a sensação da mentira era dada por diversas particularidades que já vimos no decorrer desta narrativa, mas principalmente pelo fato de que, ao mentir, o seu relato pecava ou por insuficiência, omissão, inverossimilhança, ou, ao contrário, por excesso de pequenos fatos destinados a torná-lo verossímil. O verossímil, apesar do que o mentiroso imagina, não é de modo algum a verdade. Quando, ao se ouvir alguma coisa verdadeira, escuta-se algo que é apenas verossímil, que o é talvez mais que a verdade, que o é talvez demais, o ouvido um tanto musical sente que não é exatamente aquilo, como se dá com um verso errado, ou uma palavra lida em voz alta por outra pessoa. O ouvido o sente e, se amamos, o coração se alarma. Por que não considerarmos então, quando mudamos toda a nossa vida por não sabermos se uma mulher passou pela rua de Berri ou pela rua Washington, por que não considerarmos que esses poucos metros de diferença, e a própria mulher, serão reduzidos a um centésimo milionésimo de seu tamanho (isto é, a uma grandeza que não podemos distinguir), para isso bastando-nos ter a prudência de ficar alguns anos sem ver tal mulher, e o que era um Gulliver, em bem maiores proporções, se tornará uma liliputiana que nenhum microscópio-ao menos o do coração, pois o da memória indiferente é mais poderoso e menos frágil-terá condições de perceber. Seja como for, se havia um ponto em comum -a própria mentira-entre as de Albertine e de Gisele, esta, contudo, não mentia da mesma forma que Albertine, tampouco da mesma maneira que Andrée, mas suas respectivas mentiras se encaixavam tão bem umas nas outras, apresentando sempre grande variedade, que o pequeno grupo exibia a solidez impenetrável de certas firmas comerciais, de livraria ou de imprensa por exemplo, onde o infeliz autor jamais há de chegar a saber, a despeito da diversidade das personalidades componentes, se está sendo logrado ou não. O diretor do jornal ou da revista mente com uma atitude de sinceridade tanto mais solene quanto precisa dissimular em várias ocasiões que faz exatamente a mesma coisa, e se entrega às mesmas práticas mercantis que condena em outros diretores de jornal ou de teatro, em outros editores, quando tomou partido, erguendo contra eles o estandarte da Sinceridade. O fato de ter proclamado (como chefe de um partido político, como qualquer coisa) ser atroz mentir, obriga na maioria das vezes a mentir mais que os outros, sem por isso abandonar a máscara solene, nem depor a tiara augusta da sinceridade. O sócio do "homem sincero" mente de outra forma e de modo mais ingênuo. Engana o autor como engana a mulher, com truques de vaudeville. O secretário da redação, homem honesto e grosseiro, mente com simplicidade, como o arquiteto que nos promete que nossa casa ficará pronta numa ocasião em que ela nem sequer estará começada. O redator-chefe, alma angélica, rodopia entre outros três, e, sem saber de que se trata, leva-lhes, por escrúpulo fraterno e carinhosa solidariedade, o auxílio precioso de uma palavra insuspeita.
E evidentemente as mentiras desta me doíam mais. Porém havia entre elas um ponto comum, o próprio fato da mentira que, em certos casos, é uma evidência. Não da realidade que se oculta sob essa mentira. Sabemos que, embora cada assassino em particular pense ter, realizado tão bem o seu trabalho que nunca será descoberto, ele é quase sempre é capturado. Contrariamente, os mentirosos raramente são apanhados e, entre eles; mais especialmente as mulheres que amamos. Ignoramos aonde ela foi, o quê andou fazendo lá, mas, no momento mesmo em que ela fala, quando fala de outra coisa sob a qual está o que ela não diz, a mentira é logo descoberta. E o nosso ciúmes redobra, pois percebemos a mentira e não chegamos a conhecer a verdade. Em Albertine, a sensação da mentira era dada por diversas particularidades que já vimos no decorrer desta narrativa, mas principalmente pelo fato de que, ao mentir, o seu relato pecava ou por insuficiência, omissão, inverossimilhança, ou, ao contrário, por excesso de pequenos fatos destinados a torná-lo verossímil. O verossímil, apesar do que o mentiroso imagina, não é de modo algum a verdade. Quando, ao se ouvir alguma coisa verdadeira, escuta-se algo que é apenas verossímil, que o é talvez mais que a verdade, que o é talvez demais, o ouvido um tanto musical sente que não é exatamente aquilo, como se dá com um verso errado, ou uma palavra lida em voz alta por outra pessoa. O ouvido o sente e, se amamos, o coração se alarma. Por que não considerarmos então, quando mudamos toda a nossa vida por não sabermos se uma mulher passou pela rua de Berri ou pela rua Washington, por que não considerarmos que esses poucos metros de diferença, e a própria mulher, serão reduzidos a um centésimo milionésimo de seu tamanho (isto é, a uma grandeza que não podemos distinguir), para isso bastando-nos ter a prudência de ficar alguns anos sem ver tal mulher, e o que era um Gulliver, em bem maiores proporções, se tornará uma liliputiana que nenhum microscópio-ao menos o do coração, pois o da memória indiferente é mais poderoso e menos frágil-terá condições de perceber. Seja como for, se havia um ponto em comum -a própria mentira-entre as de Albertine e de Gisele, esta, contudo, não mentia da mesma forma que Albertine, tampouco da mesma maneira que Andrée, mas suas respectivas mentiras se encaixavam tão bem umas nas outras, apresentando sempre grande variedade, que o pequeno grupo exibia a solidez impenetrável de certas firmas comerciais, de livraria ou de imprensa por exemplo, onde o infeliz autor jamais há de chegar a saber, a despeito da diversidade das personalidades componentes, se está sendo logrado ou não. O diretor do jornal ou da revista mente com uma atitude de sinceridade tanto mais solene quanto precisa dissimular em várias ocasiões que faz exatamente a mesma coisa, e se entrega às mesmas práticas mercantis que condena em outros diretores de jornal ou de teatro, em outros editores, quando tomou partido, erguendo contra eles o estandarte da Sinceridade. O fato de ter proclamado (como chefe de um partido político, como qualquer coisa) ser atroz mentir, obriga na maioria das vezes a mentir mais que os outros, sem por isso abandonar a máscara solene, nem depor a tiara augusta da sinceridade. O sócio do "homem sincero" mente de outra forma e de modo mais ingênuo. Engana o autor como engana a mulher, com truques de vaudeville. O secretário da redação, homem honesto e grosseiro, mente com simplicidade, como o arquiteto que nos promete que nossa casa ficará pronta numa ocasião em que ela nem sequer estará começada. O redator-chefe, alma angélica, rodopia entre outros três, e, sem saber de que se trata, leva-lhes, por escrúpulo fraterno e carinhosa solidariedade, o auxílio precioso de uma palavra insuspeita.
Estes quatro personagens vivem em constantes dissensões que a chegada do autor faz cessar.
Acima das rixas particulares, cada qual se lembra do grande dever militar devida em ajuda ao "corpo"
ameaçado. Sem o perceber, eu há muito vinha exercendo o papel desse autor diante do "pequeno
grupo". Se Gisele havia pensado, ao dizer "justamente", em determinada amiguinha de Albertine disposta
a viajar com ela desde que minha amiga, sob qualquer pretexto, deixasse-me, e em avisar Albertine de
que era chegada a hora, ou que em breve chegaria, teria preferido deixar-se fazer em pedaços a dizê-lo.
Então, era de todo inútil fazer-lhe perguntas.
Encontros como os de Gisele não eram os únicos a acentuar as minhas dúvidas. Por exemplo, eu
admirava as pinturas de Albertine. E estas, distrações comoventes da cativa, impressionaram-me tanto
que lhe dei meus parabéns.
- Não, são muito ruins, e eu nunca tive uma aula sequer de desenho.
- Mas certa noite, em Balbec, você me disse que tinha ficado para ter uma aula de desenho.
Lembrei-lhe o dia e falei que entendera logo que não se davam lições de desenho àquela hora.
Albertine enrubesceu.
- É verdade -disse -, eu não tomava lições de desenho, menti muito para você a princípio, isto eu
reconheço. Mas não minto mais. -
Eu tanto quisera saber quais eram as numerosas mentiras do princípio! Mas de antemão sabia
que suas confissões seriam novas mentiras. Assim, limitei-me a beijá-la. Perguntei-lhe apenas qual era
uma dessas mentiras. Respondeu:
- Por exemplo: sim, que o ar marinho me fazia mal. -
Deixei de insistir diante daquela má vontade.
continua na página 75...
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Leia também:
Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)A Prisioneira (Se minha vida com Albertine)
Por que é tão difícil ler EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, de Marcel Proust?
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