terça-feira, 30 de junho de 2026

Tchekhov - O enxoval

A dama do cachorrinho e outras histórias

Anton Tchekhov


O enxoval

     Na minha vida, vi muitas casas, grandes e pequenas, de pedra e de madeira, velhas e novas. Mas uma em particular gravou-se na minha memória. Essa, aliás, não é uma casa, é uma casinha. Uma casinha de um andar, com três janelas, terrivelmente parecida com uma velhinha pequena, corcunda e de touca. É rebocada e pintada de branco, coberta de telhas, com uma chaminé semidestruída. Está mergulhada na folhagem verde de amoreiras, acácias e álamos, plantados ali pelos avós e bisavós dos atuais proprietários. A casa não é visível atrás dessa verdura. A propósito, essa massa verde não a impede de ser uma casa urbana. Seu largo pátio está enfileirado, lado a lado, com outros pátios, também largos e verdes, formando a rua Moskóvskaia. Ninguém jamais passa de carro por essa rua, e é raro alguém andar a pé por ela.
     As persianas dessa casinha estão sempre fechadas: os moradores não necessitam de luz. A luz é dispensável para eles. As janelas nunca se abrem, porque os habitantes da casinha não gostam de ar fresco. Pessoas que vivem permanentemente entre amoreiras, acácias e bardanas são indiferentes à natureza. Somente aos veranistas das casas de campo é que Deus deu a capacidade de compreender a beleza da natureza; já o restante da humanidade atola-se em profunda ignorância. As pessoas não valorizam o que possuem. “Não conservamos o que é nosso” – costuma-se dizer. Mais do que isso: nós não amamos aquilo que é nosso. Em torno da casinha, há um paraíso terrestre, verde, cheio de pássaros alegres; já dentro da casinha, um horror! No verão, é tórrido e abafado; no inverno, quente como uma sauna, com um ar viciado e um enorme tédio...
     A primeira vez que visitei essa casinha foi há muito tempo, e eu tinha uma incumbência: viera para transmitir os cumprimentos do dono da casa, coronel Tchikamássov, a sua esposa e a sua filha. Lembro-me perfeitamente dessa minha primeira visita, e não poderia ser diferente.
     Imagine uma mulherzinha sem traquejo social, de uns quarenta anos, que olha para você com espanto e pavor no momento em que você passa do vestíbulo para a sala. Você é um “estranho”, uma visita, “um jovem rapaz” – e isso já é suficiente para despertar espanto e pavor. Você não tem na mão nem maça, nem machado, nem revólver; você está sorrindo amistosamente, mas é recebido com ansiedade.

– A quem eu tenho a honra e a satisfação de receber? – pergunta com voz trêmula a senhora de meia-idade, que você identifica como a senhora Tchikamássova. 

     Você diz o seu nome e explica o motivo de sua vinda. O pavor e o espanto são substituídos por um “ah!” estridente e alegre, acompanhado de um revirar de olhos. Esse “ah”, como um eco, é transmitido do vestíbulo para a sala de visitas, da sala de visitas para a sala de jantar e desta para a cozinha... assim chegando até a adega. Em pouco tempo, toda a casinha se enche de muitos tipos de “ah”, alegres e variados. Cinco minutos depois, você já está sentado na sala de jantar, num grande divã, macio e quente, ouvindo toda a rua Moskóvskaia exclamar “ah”.
     Sentia-se um cheiro de pó para traças e de uns sapatos novos, de pele de cabra, que estavam sobre a cadeira ao lado, enrolados num lenço. Nas janelas havia gerânios e retalhos de musselina. Nos retalhos, um monte de moscas de barriga cheia. Na parede pendia o retrato de um arcipreste, pintado a óleo, coberto por um vidro com um cantinho quebrado. Partindo do arcipreste, começava uma fileira de antepassados com fisionomias amarelo-limão, parecendo ciganos. Sobre a mesa estavam um dedal, um novelo de linha e um pé de meia não totalmente tecido; no chão havia moldes e uma blusinha preta com linhas de um colorido vivo. No quarto ao lado, duas velhinhas assustadas e apressadas apanhavam do chão moldes e retalhos...

– Está uma desordem terrível aqui, nos desculpe! – disse Tchikamássova.

     Ela conversava comigo e olhava confusa para a porta, atrás da qual as senhoras estavam catando os moldes. A porta, também de modo confuso, ora se entreabria, ora se fechava.

– O que você quer? – disse Tchikamássova em direção à porta.
Où est mon cravatte, lequel mon père m’avait envoyé de Koursk¹? perguntou de trás da porta uma voz feminina. 

[1] Onde está minha gravata, aquela que meu pai me mandou de Kursk?

Ah, est ce que, Marie, que²... Ah, será possível? Nous avons donc chez nous un homme très peu connu par nous³... Pergunte à Lukéria...

[2] Ah, Marie, é isso mesmo?
[3] Temos aqui um homem que nos é muito pouco conhecido.

“Mas como nós falamos bem francês!” – li nos olhos de Tchikamássova, que estava corada de satisfação.

     Logo depois, a porta se abriu e eu vi uma donzela alta e magra, de uns dezenove anos, com um vestido longo de musselina e um cinto dourado, do qual, me recordo, pendia um leque de madrepérola. Ela entrou, sentou-se e enrubesceu. Inicialmente enrubesceu seu nariz comprido, um pouquinho bexiguento; dali, o rubor caminhou para os olhos e, de lá, para as têmporas.

– Esta é a minha filha! – disse Tchikamássova com voz cantada. – E este, Mánetchka, é o jovem que...

     Eu me apresentei e expressei meu espanto pela enorme quantidade de moldes. Mãe e filha baixaram os olhos.

– No dia da Ascensão houve aqui uma feira – disse a mãe. – Nós sempre compramos uma grande quantidade de tecidos na feira, e depois passamos o ano inteiro costurando, até a próxima feira. Nunca entregamos a costura para outros fazerem. Meu Piotr Semiônytch não ganha muito e não podemos nos permitir luxos. Temos de costurar nós mesmas.
– Mas quem aqui usa tal quantidade de roupas? Pois vocês são só duas.
– Ah... Será que isso se pode usar? Não é para usar. Isso é o enxoval!
– Ah, maman, o que está dizendo! – disse a filha, corando. – Este senhor vai de fato pensar que... Eu nunca me casarei! Nunca!

     Ela disse isso, mas na palavra “casarei” seus olhinhos brilharam.
     Trouxeram chá, torradas, geleia, manteiga, depois serviram framboesas com creme. Às sete da noite, houve um jantar composto de seis pratos, e durante o jantar eu ouvi um bocejo alto no quarto ao lado. Olhei espantado para a porta: um bocejo assim só pode ser de homem.

– É o irmão de Piotr Semiônytch, Iegor Semiônytch... – esclareceu Tchikamássova, notando meu espanto. – Ele mora conosco desde o ano passado. Desculpe-o, ele não pode aparecer para o senhor. É meio selvagem... Fica confuso na presença de estranhos. Pretende ir para um mosteiro... Alguém o ofendeu no trabalho... E agora, por causa da mágoa...

     Depois do jantar, Tchikamássova mostrou uma epitrakhil, que Iegor Semiônytch bordara pessoalmente para dar de presente à igreja. Por um instante, Mánetchka despiu-se de sua timidez e mostrou-me uma bolsa para tabaco que ela havia bordado para o seu paizinho. Quando demonstrei estar surpreso com o seu trabalho, ela ficou toda vermelha e cochichou algo no ouvido da mãe. Esta ficou exultante e me propôs ir com ela ao depósito, onde vi uns cinco baús grandes e uma infinidade de caixas e baús pequenos.

– Isto... é o enxoval! – sussurrou a mãe. – Nós mesmas confeccionamos.

     Depois de ver esses sombrios baús, comecei a me despedir das hospitaleiras proprietárias. Exigiram que eu desse minha palavra de que voltaria algum dia.
     Tive oportunidade de cumprir o que prometera uns sete anos depois da minha primeira visita, quando fui enviado àquela cidadezinha como perito em um caso judiciário. Ao entrar na casinha, já minha conhecida, ouvi os mesmos “ah!”... Elas me reconheceram... Como não haveria de ser? Minha primeira visita fora um grande acontecimento na vida delas e, onde acontece pouca coisa, isso se recorda durante muito tempo... Quando entrei na sala de visitas, a mãe, ainda mais gorda e já com cabelos grisalhos, arrastava-se pelo chão e cortava um tecido azul-escuro; a filha estava sentada no divã, bordando. Os mesmos moldes, o mesmo cheiro de pó para traças, o mesmo retrato com o cantinho quebrado. Contudo, ocorreram mudanças. Ao lado do retrato do arcipreste, pendia o retrato de Piotr Semiônytch, e as duas senhoras estavam de luto. Piotr Semiônytch havia morrido uma semana depois de sua promoção a general.
     Começaram as recordações... A viúva do general derramou algumas lágrimas.

– É uma tristeza enorme para nós! – disse ela. – Piotr Semiônytch – o senhor conhece? – Já não está mais conosco. Eu e ela estamos órfãs e temos de cuidar de nós mesmas. Mas Iegor Semiônytch está vivo, e não podemos falar nada de bom sobre ele. Não o aceitaram no mosteiro, porque... bebe demais. E agora está bebendo ainda mais, de tristeza. Estou pensando em ir me queixar ao decano da nobreza. Imagine o senhor que várias vezes ele abriu os baús, pegou peças do enxoval de Mánetchka e deu para os romeiros. Aos poucos ele esvaziou dois baús! Se continuar assim, minha Mánetchka vai ficar completamente sem dote...
– Que a senhora está dizendo, maman! – disse Mánetchka embaraçada. – Só Deus sabe o que esse senhor vai pensar... Eu nunca, nunca vou me casar!

     Mánetchka olhou inspirada e com esperança para o teto, pelo visto não acreditando no que dizia.
     Pelo vestíbulo esgueirou-se uma pequena figura masculina, com uma calva profunda, casaco marrom e galochas em vez de botas, provocando um leve rumor, como um rato.

“Deve ser Iegor Semiônytch” – pensei.

     Dei uma olhada na mãe e na filha: ambas haviam envelhecido muito, estavam macilentas. A cabeça da mãe cobria-se de prata, a filha desbotara, murchara, e parecia que a mãe era mais velha do que a filha uns cinco anos no máximo.

– Pretendo ir procurar o decano da nobreza – disse a velha, esquecendo-se de que já havia dito isso. – Quero fazer uma queixa! Iegor Semiônytch tira tudo que confeccionamos e doa não sei a quem para salvar sua alma. Minha Mánetchka ficou sem seu enxoval!

     Mánetchka corou, mas dessa vez não disse nada.

– Será preciso fazer tudo de novo, mas Deus sabe que não somos ricaças, de modo algum! Nós duas estamos órfãs!
– Estamos órfãs! – repetiu Mánetchka.

     No ano passado, o destino novamente me atirou naquela casinha que eu conhecia. Entrei na sala de visitas e vi a velha Tchikamássova toda de preto, com crepes na roupa, sentada no divã, costurando algo. Ao seu lado estava um velhinho de casaco marrom e de galochas em vez de botas. Ao me ver, o velhinho levantou-se de um salto e correu para fora da sala... Em resposta ao meu cumprimento, a velhinha sorriu e disse:

Je suis charmée de vous revoir, monsieur4.

[4] É com grande prazer que o vejo novamente, senhor.

– O que a senhora está costurando? – perguntei, passado algum tempo.
– Uma camisa. Eu faço e levo para o padre esconder, senão Iegor Semiônytch carrega. Agora dou tudo para o padre esconder – disse ela, sussurrando.

     E, dando uma olhada para o retrato da filha sobre a mesa próxima, suspirou e disse:

– Como vê, estamos órfãos!

     Mas onde está a filha? Onde está Mánetchka? Não perguntei; não queria interrogar a velhinha vestida de luto profundo. Durante o tempo todo que passei na casinha, e também quando já estava de saída, Mánetchka não apareceu, e nem ao menos ouvi sua voz, ou seus passos leves, tímidos... Tudo ficou claro. Saí com um peso no coração...

Agosto de 1883.
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Leia também:
A morte do funcionário / O enxoval / Aniúta /    

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A Dama do Cachorrinho e Outras Histórias
Traduzido por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares
LP&M Pocket
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Anton Pavlovitch Tchekhov, nasceu em Taganrog, 29 de janeiro de 1860 — Badenweiler, 15 de julho de 1904, foi um médico, dramaturgo e escritor russo, considerado um dos maiores contistas de todos os tempos. Em sua carreira como dramaturgo criou quatro clássicos e seus contos têm sido aclamados por escritores e críticos. Tchekhov foi médico durante a maior parte de sua carreira literária, e em uma de suas cartas[4] ele escreve a respeito:
"A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante".

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (II. Lisavieta Smirdiáchtchaia)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
II
LISAVIETA SMIERDIÁCHTCHAIA
    
     Havia ali uma circunstância particular que impressionou profunda mente Gregório e acabou de fortificar nele uma suspeita desagradável e repugnante. Aquela Lisavieta Smierdiáchtchaia era uma moça de estatura muito pequena, "um pouco mais de 2 archini"; assim se lembravam dela com enternecimento, após sua morte, bondosas velhas de nossa cidade. Seu rosto de vinte anos, sadio, largo, vermelho, era completamente idiota, o olhar fixo e desagradável, se bem que plácido. Tanto no inverno quanto no verão andava sempre de pés descalços, vestida apenas de uma camisa de cânhamo. Seus cabelos quase negros, extraordinariamente espessos, frisados como uma lã amontoavam-se em sua cabeça à maneira de um enorme boné. Além disso estavam muitas vezes sujos de terra, de lama, entremeados de folhas, de raminhos, de cavacos, porque ela dormia sempre no chão e na lama. Seu pai, Iliá, pequeno burguês sem domicílio, arruinado e valetudinário, fortemente dado à bebida, permanecia desde muitos anos, na qualidade de operário, em casa dos mesmos senhores opulentos, igualmente burgueses de nossa cidade. A mãe de Lisavieta morrera desde muito tempo. Sempre doentio e mal-humorado, Iliá batia sem piedade em sua filha quando chegava ela em casa. Mas ali ia raramente, sendo acolhida por toda parte na cidade como uma débil mental sob a proteção de Deus. Os patrões de Iliá, o próprio Iliá e muitas pessoas caridosas, sobretudo entre os negociantes e as negociantes, tinham tentado por várias vezes vestir Lisavieta de uma maneira mais decente, fazendo-a usar no inverno uma peliça de carneiro e calçar botas; habitualmente sujeitava-se ela docilmente a isso, depois ia-se embora e, em alguma parte, de preferência sob o pórtico da igreja, despojava-se de tudo quanto lhe haviam dado — quer fosse um lenço, uma saia, uma peliça, botas —, abandonava tudo no lugar e lá se ia de pés descalços, vestida com sua camisa como antes. Aconteceu que um novo governador, inspecionando nossa cidade, sentiu-se ferido nos seus melhores sentimentos à vista de Lisavieta e, muito embora tivesse percebido que se tratava de uma inocente, como aliás o informaram, fez no entanto observar "que uma moça vagando em camisa infringia a decência e que aquilo devia cessar no futuro". Mas, depois que o governador partiu, deixaram Lisavieta como era. Por fim, seu pai morreu, tornando-se ela mais querida a todas as pessoas piedosas da cidade como órfã. Com efeito, todos pareciam amá-la; os próprios garotos não mexiam com ela nem a maltratavam; ora, entre nós, os garotos, sobretudo os colegiais, são uma raça agressiva. Entrava ela em casas desconhecidas e ninguém a expulsava; pelo contrário, todos a tratavam bem e lhe davam um meio copeque. As moedinhas que lhe davam, levava-as ela logo para metê-las em um tronco qualquer, na igreja ou na prisão. Se recebia, no mercado, um sequilho ou um pãozinho, não deixava de fazer presente dele ao primeiro menino que encontrasse, ou então detinha uma de nossas damas mais ricas para lhe oferecer; e esta o aceitava até mesmo com alegria. Ela própria não se nutria senão de pão preto e água. Entrava por vezes numa rica loja, sentava-se, tendo junto de si mercadorias de valor: dinheiro; jamais os proprietários desconfiavam dela, sabendo que não tomaria um copeque, mesmo se pusessem milhares de rublos a seu alcance e fossem esquecidos. Ia raramente à igreja, dormia sob os pórticos, ou num pomar qualquer, depois de ter pulado a cerca (ainda agora há entre nós muitas cercas em lugar de paiiçadas). Ia geralmente uma vez por semana à casa dos patrões de seu defunto pai, no inverno todos os dias, mas somente à noite, que ela passava no vestíbulo ou no estábulo. Causava espanto que pudesse ela suportar tal existência, mas estava a ela acostumada; se bem que de pequena estatura, tinha uma constituição excepcionalmente robusta. Certas pessoas da sociedade achavam que ela fazia tudo isso unicamente por orgulho, mas não havia motivo para tal; não sabia ela dizer uma palavra, por vezes somente mexia a língua e resmungava; que tinha de ver com isso o orgulho? Ora, numa noite de setembro, clara e quente, em que a lua era cheia, a uma hora já bastante tardia para nossos hábitos, um bando de cinco ou seis farristas, embriagados, voltava do clube para suas casas pelo caminho mais curto. Dos dois lados, a ruela que eles seguiam era bordada por uma cerca por trás da qual se estendiam os pomares das casas ribeirinhas; terminava num passadiço lançado sobre o longo pântano infecto que se batiza por vezes entre nós com o nome de rio. Perto da cerca, entre as urtigas e as barbanas, o nosso grupo percebeu Lisavieta adormecida. Aqueles cavalheiros embriagados pararam perto dela, explodiram em risadas e puseram-se a pilheriar da maneira mais cínica. Um filho de família imaginou de repente uma questão totalmente excêntrica, a respeito de um assunto impossível. "Pode-se", disse ele, "não importa quem, aceitar um tal monstro como uma mulher, etc." Todos decidiram, com nobre aversão, que não se podia. Mas Fiódor Pávlovitch, que fazia parte do bando, adiantou-se logo, declarou que se podia perfeitamente aceitá-la como mulher e que havia mesmo ali alguma coisa de picante no seu gênero, etc. Naquela época, comprazia-se ele com afetação no seu papel de palhaço, gostava de dar-se em espetáculo e divertir os ricos, como um verdadeiro farsante, malgrado a igualdade aparente. Com um crepe no chapéu, porque acabava de saber da morte de sua primeira mulher, levava então uma vida tão crapulosa que alguns, mesmo libertinos endurecidos, se sentiam constrangidos à sua vista. Aquela opinião paradoxal de Fiódor Pávlovitch provocou a hilaridade do bando; um deles começou mesmo a provocá-lo, os outros mostraram ainda mais aversão, mas sempre com uma viva alegria; por fim todos seguiram seu caminho. Posteriormente, jurou ele que se afastara com os outros; talvez dissesse a verdade, ninguém nunca soube de nada ao certo. Mas cinco ou seis meses mais tarde, a gravidez de Lisavieta excitava a indignação de toda a cidade e procurou-se descobrir quem pudera ultrajar a pobre criatura. Um boato terrível circulou em breve, acusando Fiódor Pávlovitch. Donde vinha ele? Do bando farrista não restava então na cidade senão um homem de idade madura, conselheiro de Estado, pai de filhas adultas, o qual nada teria contado, mesmo se se tivesse passado qualquer coisa; os outros tinham-se dispersado. Mas o boato persistente continuava a apontar Fiódor Pávlovitch. Ele não se deu por achado e desdenhou responder a lojistas e pequenos burgueses. Era orgulhoso então e não dirigia a palavra senão à sua sociedade de funcionários e de nobres, a quem tanto divertia. Foi então que Gregório tomou energicamente o partido de seu amo; não somente defendeu-o contra qualquer insinuação, mas discutiu bastante calorosamente a esse respeito e conseguiu mudar a opinião de muitos. "A culpa é dela mesma, daquela criatura", afirmava ele, e seu sedutor não era outro senão Karp, o Parafuso (assim se chamava um detento bastante perigoso, que se havia evadido da prisão da capital e se ocultara em nossa cidade). Esta conjetura pareceu plausível; foi lembrado que Karp vagueara por aquelas mesmas noites de outono e saqueara três pessoas. Mas essa aventura e esses rumores, longe de desviar as simpatias pela pobre idiota, valeram-lhe um redobramento de solicitude. Uma viúva bastante rica, a negociante Kondrátievna, decidiu recolhê-la em sua casa, no fim de abril, para que ela ali desse à luz. Vigiavam-na severamente. Apesar de tudo, uma noite, no dia mesmo de seu parto, Lisavieta fugiu da casa de sua protetora e foi cair no jardim de Fiódor Pávlovitch. Como pudera ela, no seu estado, transpor uma paliçada tão alta? Isso permaneceu um enigma. Uns asseguravam que a haviam carregado, outros viam naquilo uma intervenção sobrenatural. Tudo leva a crer que, aquilo se realizou de uma maneira engenhosa, mas natural, e que Lisavieta, habituada a penetrar através das sebes nos pomares, para neles passar a noite, trepou, apesar de seu estado, sobre a paliçada de Fiódor Pávlovitch, donde saltou, ferindo-se no jardim. Gregório correu a buscar sua mulher para os primeiros cuidados; ele mesmo foi à procura de uma velha parteira que morava bem perto. Salvou-se o menino, mas Lisavieta morreu ao romper do dia. Gregório pegou o recém-nascido, levou-o para o pavilhão e depositou-o sobre os joelhos de sua mulher: "Eis um filho de Deus, um órfão de que seremos os pais. É o pequeno morto que lhe envia. Nasceu de um filho de Satanás e duma justa. Cria-o e não chores mais doravante". Foi assim que Marfa ígnátievna criou o menino. Foi batizado pelo nome de Páviel, ao qual toda a gente ajuntou, e eles também, Fiódorovitch como nome patronímico. Fiódor Pávlovitch não fez objeção e achou mesmo a coisa divertida, negando porém energicamente aquela paternidade. Aprovaram-no por ter recolhido o órfão. Mais tarde, deu-lhe como nome de família Smierdiákov, de acordo com o sobrenome da mãe dele, Smierdiáchtchaia. Servia ele a Fiódor Pávlovitch como segundo criado e vivia, no começo de nossa narrativa, no pavilhão, ao lado do velho Gregório e da velha Marfa. Tinha o emprego de cozinheiro. Seria preciso consagrar-lhe um capítulo especial, mas tenho escrúpulo de reter por tanto tempo a atenção do leitor para simples criados e continuo esperando que se tratará muito naturalmente de Smierdiákov no curso da narrativa.

continua na página 104...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Tolstói - A Felicidade Conjugal (3b. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

3

continuando...

     Quando nos encontrámos de novo junto de Macha, que nos jurou que não tinha dormido e que tudo ouvira, tranquilizei-me e ele tentou retomar o seu tom de paternal proteção. Mas este ensaio não lhe surtiu efeito e não me enganou; tinha ainda viva na lembrança uma certa conversação que dois dias antes houvera entre ambos.
     Macha emitira a opinião de que um homem ama mais facilmente do que uma mulher e de que sabe também mais facilmente exprimir o seu amor. Resumira a sua ideia nestas palavras: 

— Um homem pode dizer que ama e uma mulher não. 
— E a mim parece-me que um homem não pode nem deve dizer que ama — replicara ele.

     Perguntei-lhe o motivo. 

— Porque isso será sempre uma mentira. Que significa a descoberta de que um homem ama? Como se lhe bastasse pronunciar esta palavra para que daí surgisse um não sei quê de extraordinário, um fenómeno qualquer, fazendo súbita explosão! Parece-me que essas pessoas que dizem solenemente: «Amo-a», ou eles próprios se enganam ou, pior ainda, enganam os outros. 
— Nesse caso, segundo a sua opinião, uma mulher saberá que a amam sem que lhe digam? — perguntou Macha. 
— Isso não sei; cada homem tem a sua maneira de falar. Mas há um sentimento que sabe fazer-se compreender. Quando leio romances, procuro sempre fantasiar com o aspecto embaraçado do tenente Crelski ou de Alfredo, quando dizem: «Leonor, amo-te!» e que pensam que, de súbito, se produzirá alguma coisa extraordinária, quando nenhuma alteração se nota em qualquer deles: rosto, olhar e o resto ficam na mesma.

     Neste gracejo, julguei discernir um sentido sério que podia referir-se a mim, mas Macha não permitia de bom grado que se profundassem os heróis de romance. 

— Sempre paradoxos! — exclamou. — Vamos, seja franco, nunca declarou o seu o seu amor a mulher alguma? 
— Nunca o fiz, nunca dobrei um joelho — respondera ele rindo — e nunca o farei.

«Sim, não precisa dizer que me ama», pensava eu, lembrando-me agora tão vivamente daquela conversação. «Ama-me e eu sei-o.» E todos os seus esforços para parecer indiferente não poderiam arrancar-me esta convicção.

     Durante toda a noite falou-me muito pouco; mas em cada uma das suas palavras, em cada um dos seus movimentos e dos seus olhares eu sentia o amor e não conservava dúvida alguma. A única coisa que me causava despeito e pesar era ver que ele julgava necessário ainda ocultar e fingir frieza, quando já tudo estava tão claro e quando poderíamos tão facilmente e tão simplesmente ser felizes, além mesmo do possível. Mas, por outro lado, atormentava-me como se fora um crime o ter saltado ao ginjal para me juntar a ele e parecia-me sempre que Sérgio deveria deixar de me estimar e mostrar algum ressentimento contra mim.
     Depois do chá, fui para o piano e ele seguiu-me. 

— Toque alguma coisa, Katia; há muito tempo que não a ouço — disse-me ao chegarmos ao salão. 
— Pois sim... Sérgio Mikailovitch!

     E de repente fitei-o, mergulhando os meus olhos nos dele. 

— Não está zangado comigo? 
— E porquê? 
— Por lhe não ter obedecido esta tarde — disse corando.

     Compreendeu-me, abanou a cabeça e sorriu. E este sorriso significava que desejaria ter-me repreendido, com efeito, mas que se não sentiria com forças. 

— Está acabado, não é assim? E estamos outra vez bons amigos? — disse eu sentando-me ao piano. 
— Assim o creio.

     Nesta grande sala, de teto muito alto, não havia senão duas velas no piano e o resto da casa ficava mergulhado numa meia obscuridade. Pelas janelas abertas descortinavam-se os aspetos luminosos de uma noite de verão. Por toda a parte reinava o mais perfeito sossego, que só era perturbado de vez em quando pelo ruído dos passos de Macha na sala contígua e pelo cavalo de Sérgio Mikailovitch que, preso por baixo de uma das janelas, rinchava e destruía as plantas com os cascos. Sentou-se atrás de mim, de modo que não o podia ver; mas no seio das trevas incompletas daquela sala, nos sons que a enchiam, no meu íntimo eu sentia a sua presença. Cada um dos seus olhares, dos seus movimentos, que entretanto não podia distinguir, penetrava e ressoava no meu coração. Toquei a sonata fantasia de Mozart, que Sérgio me trouxera e que tinha aprendido diante dele e para ele. Não pensava absolutamente no que tocava, mas parecia-me que o fazia bem e a seu contento. Compartilhava a alegria que ele sentia e, sem o ver, compreendia que os seus olhares estavam fitos em mim. Por um movimento completamente involuntário, enquanto os meus dedos continuavam a percorrer o teclado sem consciência do que faziam, olhei para ele; a sua cabeça destacava-se sobre o fundo luminoso da noite. Estava sentado, a fronte encostada à mão e contemplava-me atentamente com os seus olhos radiantes. Sorri surpreendendo este olhar e deixei de tocar. Sérgio sorriu também, inclinou a cabeça sobre as notas com ar de censura, como para me pedir que continuasse. Quando acabei, a lua, no ponto culminante da sua carreira, despedia vivos clarões e, a par da débil luz das velas, espalhava na sala, pelas janelas, jorros de uma outra claridade toda argentina que inundava o chão com os seus reflexos. Macha disse que ficara no mais belo trecho e que tinha tocado mal; Sérgio protestou que jamais o fizera tão bem como naquele dia, pondo-se em seguida a passear da sala para o salão, que estava às escuras, e de novo do salão para a sala e de cada vez contemplava-me sorrindo. Eu sorria também e mesmo sem motivo algum; tinha desejos de rir, tão feliz eu me sentia pelo que se havia passado nesse dia e mesmo naquele momento. Enquanto a porta me ocultava um instante, saltei ao pescoço de Macha e comecei a beijá-la no meu lugar predileto, no rechonchudo pescoço e por baixo do queixo; depois, desde que Sérgio reapareceu, retomei um aspetco sério e sustive a custo uma gargalhada. 

— O que sucedeu hoje à Katia? — perguntou-lhe Macha.

     Mas ele não respondeu e limitou-se a gracejar a meu respeito. Sabia bem o que me acontecia.

— Veja um pouco, que linda noite! — disse Sérgio do salão onde estava de pé, diante da janela que dava para o jardim.

     Fomos ter com ele e, efetivamente, era uma noite como não tornei a ver outra semelhante. A lua cheia brilhava por detrás de nós, por cima da casa, com um fulgor que nunca mais lhe encontrei; metade das sombras projetadas pelos telhados, pelos pilares e pelo toldo do terraço estendiam-se obliquamente sobre a areia das ruas e o grande oval de relva. Tudo o mais resplandecia de luz e estava coberto de um orvalho que prateava os reflexos da lua. Um largo caminho, todo orlado de flores, que atravessava, sobre uma das bordas, a sombra das dálias, verdadeira vereda luminosa e fresca onde cintilavam pedras angulosas, alongava-se pela atmosfera. Por detrás das árvores via-se brilhar os telhados da estufa das laranjeiras e do fundo do barranco elevava-se um nevoeiro que a cada instante se tornava mais ténue. Os maciços de lilás, já um pouco desguarnecidos, estavam iluminados até aos pés das hastes. Refrescados pelo orvalho, as flores podiam-se agora distinguir umas das outras. Nas alamedas, a sombra e a luz confundiam-se de tal maneira que não se imaginaria serem árvores e ruas, mas edifícios transparentes e agitados por brandas virações.
     À direita, na sombra da casa, tudo era negro, indistinto, quase medonho. Mas um pouco além sobressaía, mais resplandecente ainda sobre esta zona obscura, a coma fantástica de um choupo que, não sei por que estranho efeito, ficava muito perto e por cima da casa numa auréola de luz viva, em lugar de acabar nas profundidades longínquas daquele céu de um azul sombrio. 

— Vamos passear — disse eu.

     Macha consentiu, mas acrescentou que eu devia calçar galochas. 
     
— Não é necessário — respondi. — O Sérgio Mikailovitch dar-me-á o braço.

     Como se isto pudesse impedir-me de molhar os pés! Mas naquele momento, para cada um de nós três era admissível semelhante loucura e nada tinha de extraordinário. Nunca me tinha dado o braço e agora eu mesmo lhe tomei e ele não pareceu surpreendido. Descemos, os três, ao terraço. Todo aquele universo, aquele céu, aquele jardim, aquele ar que respirávamos não me pareciam os que eu havia sempre conhecido.
     Quando olhava na minha frente, na alameda onde entravamos, pareceu-me que não podia ir mais longe, que acabava ali o mundo possível e que tudo devia ali ficar fixado para sempre na sua beleza presente!
     Contudo, à medida que avançávamos, aquela muralha encantada, feita de pura beleza, afastava-se diante de nós, dava-nos passagem e tornava-me a encontrar então no meio de objetos familiares, jardim, árvores, caminhos, folhas secas. E era exatamente nestas ruas onde passeávamos e nos círculos luminosos alternados com outras esferas de trevas que atravessávamos que as folhas secas estalavam com ruído sob os nossos pés e que tenros raminhos me vinham afagar o rosto. Era realmente ele que, caminhando junto de mim com passos lentos e iguais, deixava apoiar no seu o meu braço com reserva e circunspeção. Era na verdade a lua no alto dos céus que nos iluminava por entre os ramos imóveis.
     Contemplei-o um momento. Não havia uma única tília que se elevasse na parte da alameda que atravessávamos e o seu rosto aparecia-me em plena claridade. Estava tão belo e parecia tão feliz...
     Sérgio pergunta-me: «Não tem medo?» e eu ouvia-o dizer: «Amo-te, querida Katia! Amo-te! Amo-te!» O seu olhar repetia-o e o seu braço também; e a luz e a sombra, e o ar e todas as coisas repetiam-no igualmente.
     Percorremos assim todo o jardim. Macha caminhava perto de nós, com passinho curto e respirando a custo, de tal modo se sentia fatigada. Disse que era tempo de voltar e fazia-me pena, grande pena, a pobre criatura. «Porque não sente ela o mesmo que nós?», pensei eu. «Porque não é toda a gente jovem, feliz? Como esta noite respira mocidade e ventura e nós também!»
     Voltamos para casa, mas Sérgio não nos deixou por muito tempo ainda. Macha esquecia-se de nos lembrar que era tarde; falávamos de tantas coisas diferentes, muito fúteis, é verdade, ficando sentados juntos uns dos outros, sem pensarmos sequer que fossem três horas da manhã. Os galos tinham soltado o seu terceiro canto quando ele partiu. Despediu-se de nós exatamente como de ordinário e sem nada dizer de particular. Mas eu sabia sem me restar dúvida que a partir daquele dia era meu e que não o podia mais perder. Desde que reconheci bem que o amava, contei tudo a Macha. Ficou alegre e comovida, mas a pobre mulher não pôde dormir aquela noite e eu fiquei bastante tempo, muito tempo ainda, a passear no terraço, a percorrer o jardim, procurando recordar-me de cada palavra, de cada facto, tornando a passar pelas alamedas onde junto havíamos passado. Não me deitei em toda a noite e, pela primeira vez na minha vida, vi nascer o sol e soube o que era a madrugada. Nunca mais tornei a ver uma noite semelhante nem manhã igual. Só perguntava a mim mesma porque não me dizia muito simplesmente que me amava. Porque, pensei eu, inventa ele tal ou qual dificuldade, porque se chama velho quando tudo é tão simples e tão belo? Porque perder assim um tempo precioso que talvez jamais voltará? Que diga pois que ama, que o diga em termos próprios, que aperte a minha mão na sua, que incline a cabeça e que diga: amo-te! Que todo ruborizado baixe os olhos diante de mim e então eu lhe direi tudo. Ou antes, nada lhe direi, estreitá-lo-ei nos meus braços e chorarei. Mas se me enganasse, se me não amasse? Este pensamento atravessou-me de repente o espírito.
     Receei o meu próprio sentimento. Deus sabe onde Sérgio me teria podido conduzir e já a recordação da sua confusão e da minha no ginjal¹ quando corri para junto dele me pesava, me oprimia o coração. Os olhos umedeceram-se de lágrimas e rezei. Perpassou-me pela mente, então, um estranho pensamento que me causou um grande alívio e fez renascer em mim a esperança. Resolvi começar as minhas devoções e escolher o dia do meu nascimento para me tornar sua noiva.

[1] A história do Ginjal perde-se na noite dos tempos… Foi, sem dúvida, um dos principais pontos estratégicos do concelho, de forte actividade industrial e comercial. Desde os princípios da segunda metade do século XIX, o Ginjal era já um importante aglomerado operário e industrial, com estaleiros navais de Hugo Parry; armazéns de vinhos, vinagres, aguardentes e azeite da Família Teotónio Pereira; oficinas de tanoaria; fábricas de conserva de peixe; empresa de recuperação de estanho; armazéns de isco e frigoríficos para apoio dos navios de pesca alto, o Grémio do Bacalhau; fábrica de cal; fábrica de manipulação de cortiça, entre outros estabelecimentos. Um cais de lenços brancos e até de lágrimas, quando os navios de pesca do bacalhau no Grémio partiam para mares distantes, de águas gélidas.

     Como e porquê? Como podia isso acontecer? Não sabia. Mas neste mesmo momento acreditei que seria assim. Entretanto já o dia ia alto e todos se levantavam quando recolhi ao meu quarto.

continua na página 31...
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Leia também...
3b. Quando nos encontrámos de novo junto de Mach / 4. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha /         
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

Espumas Flutuantes - Canção do Boêmio

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

CANÇÃO DO BOÊMIO
Recitativo da “Meia Hora de Cinismo” 
 
COMÉDIA DE COSTUMES ACADÊMICOS
Música de Emílio do Lago 

Que noite fria! Na deserta rua 
 Tremem de medo os lampiões sombrios. 
 Densa garoa faz fumar a lua 
 Ladram de tédio vinte cães vadios.

Nini formosa! por que assim fugiste? 
 Embalde o tempo à tua espera conto. 
 Não vês, não vês?... Meu coração é triste 
 Como um calouro quando leva ponto

A passos largos eu percorro a sala 
 Fumo um cigarro, que filei na escola... 
 Tudo no quarto de Nini me fala 
 Embalde fumo... tudo aqui me amola

Diz-me o relógio cinicando a um canto 
 “Onde está ela que não veio ainda?” 
 Diz-me a poltrona “por que tardas tanto? 
 Quero aquecer-te, rapariga linda.” 

Em vão a luz da crepitante vela 
 De Hugo clareia uma canção ardente; 
 Tens um idílio — em tua fronte bela... 
 Um ditirambo — no teu seio quente...

Pego o compêndio... inspiração sublime 
 Pra adormecer... inquietações tamanhas... 
 Violei à noite o domicílio, ó crime! 
 Onde dormia uma nação... de aranhas... 

Morrer de frio quando o peito é brasa... 
 Quando a paixão no coração se aninha!?... 
 Vós todos, todos, que dormis em casa, 
 Dizei se há dor, que se compare à minha!...

Nini! o horror deste sofrer pungente 
 Só teu sorriso neste mundo acalma... 
 Vem aquecer-me em teu olhar ardente... 
 Nini! tu és o cache-nez dest’alma.  

Deus do Boêmio!... São da mesma raça 
 As andorinhas e o meu anjo louro... 
 Fogem de mim se a primavera passa 
 e já nos campos não há flores de ouro... 

E tu fugiste, pressentindo o inverno, 
 Mensal inverno do viver boêmio... 
 Sem te lembrar que por um riso terno 
 Mesmo eu tomara a primavera a prêmio... 

No entanto ainda do Xerez fogoso 
 Duas garrafas guardo ali... Que minas
 Além de um lado o violão saudoso  
Guarda no seio inspirações divinas... 

Se tu viesses... de meus lábios tristes 
 Rompera o canto... Que esperança inglória!... 
 Ela esqueceu o que jurar-lhe vistes 
 Ó Paulicéia, ó Ponte grande, ó Glória!... 

Batem!... Que vejo! Ei-la afinal comigo... 
 Foram-se as trevas... fabricou-se a luz... 
 Nini! pequei... dá-me exemplar castigo! 
 Sejam teus braços... do martírio a cruz! 
São Paulo, junho de 1868


É TARDE! 
Olha-me, ó virgem, a fronte 
 Olha-me os olhos sem luz 
 A palidez do infortúnio 
 Por minhas faces transluz; 
 Olha, ó virgem — não te iludas — 
 Eu só tenho a lira e a cruz. 
 Junqueira Freire 

 É tarde! É muito tarde! 
 Mont’Alverne 

É tarde! É muito tarde! O templo é negro... 
 O fogo-santo já no altar não arde. 
 Vestal! não venhas tropeçar nas piras... 
 É tarde! É muito tarde! 

Treda noite! E minh’alma era o sacrário, 
 A lâmpada do amor velava entanto, 
 Virgem flor enfeitava a borda virgem 
 Do vaso sacrossanto;

Quando Ela veio — a negra feiticeira — 
 A libertina, lúgubre bacante, 
 Lascivo olhar, a trança desgrenhada, 
 A roupa gotejante. 

Foi minha crença — o vinho dessa orgia, 
 Foi minha vida — a chama que apagou-se, 
 Foi minha mocidade — o toro lúbrico, 
 Minh’alma — o tredo alcouce.

E tu, visão do céu! Vens tateando  
O abismo onde uma luz sequer não arde? 
 Ai! não vás resvalar no chão lodoso... 
 É tarde! É muito tarde! 

Ai! não queiras os restos do banquete! 
 Não queiras esse leito conspurcado! 
 Sabes? meu beijo te manchara os lábios 
 Num beijo profanado. 

A flor do lírio de celeste alvura 
 Quer da lucíola o pudico afago... 
 O cisne branco no arrufar das plumas 
 Quer o aljôfar do lago. 

É tarde! A rola meiga do deserto 
 Faz o ninho na moita perfumada... 
 Rola de amor! não vás ferir as asas 
 Na ruína gretada. 

Como o templo, que o crime encheu de espanto, 
 Ermo e fechado ao fustigar do norte, 
 Nas ruínas d’esta alma a raiva geme... 
 E cresce o cardo — a morte —. 

Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite! 
 Vós povoais-me a solidão sombria, 
 Quando nas trevas a tormenta ulula 
 Um uivo de agonia!... 

Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite! 
 Vós povoais-me a solidão sombria, 
 Quando nas trevas a tormenta ulula 
 Um uivo de agonia!... 

 ................................................................ 

É tarde! Estrela-d’alva! o lago é turvo. 
 Dançam fogos no pântano sombrio. 
 Pede a Deus que dos céus as cataratas 
 Façam do brejo — um rio! 

 Mas não!... Somente as vagas do sepulcro 
 Hão de apagar o fogo que em mim arde... 
 Perdoa-me, Senhora!... eu sei que morro... 
 É tarde! É muito tarde!... 
 Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1869

continua pag 81...
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Canção do Boêmio / A meu irmão Guilherme de Castro Alves /                                    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Marcel Proust - A Prisioneira (Para retornar às jovens passante)

em busca do tempo perdido

volume V
A Prisioneira

continuando...

      Para retornar às jovens passantes, Albertine jamais teria olhado para uma senhora idosa ou um velho com tanta fixidez ou, pelo contrário, com reserva e como se não os visse. Os maridos enganados que não sabem de nada, ainda assim sabem de tudo. Mas é necessário um dossiê mais materialmente documentado para estabelecer uma cena de ciúme. Além disso, se o ciúme nos ajuda a descobrir, na mulher que amamos, uma certa propensão a mentir, ele centuplica essa propensão quando a mulher já descobriu que somos ciumentos. Ela mente (nas mesmas proporções em que nunca nos mentiu antes), seja por piedade ou medo, ou se furta instintivamente por uma fuga simétrica às nossas investigações. Decerto existem amores em que, desde o começo, uma mulher leviana afetou ser virtuosa aos olhos do homem que a ama. Mas quantas outras compreendem dois períodos perfeitamente contrastantes! No primeiro, a mulher fala quase com facilidade, com simples atenuantes, sobre o seu gosto pelo prazer pela vida galante que ele lhe proporcionou, coisas essas que negará inteiramente a seguir, com a máxima energia, ao mesmo homem, mas porque o percebeu enciumado dela e a espiona-la. Ela chega a ter saudades do tempo daquelas primeiras confidências, mas cuja lembrança o tortura. Se a mulher ainda as fizesse lhe forneceria, quase por si mesma, o segredo das culpas que ele persegue inutilmente todos os dias. E depois, que entrega não provaria isso, que confiança, que amizade! Se ela não pode viver sem engana-lo, pelo menos o enganaria como amiga, relatando-lhe seus prazeres, associando-o a eles. E ele lamenta semelhante vida que os começos de seu amor pareciam esboçar, que a sua continuação tornou impossível, transformando esse amor em algo atrozmente doloroso, que tornará uma separação, conforme o caso, inevitável ou impossível.
     Às vezes a escrita em que eu decifrava as mentiras de Albertine, sem ser ideográfica, necessitava simplesmente ser lida às avessas; foi assim que naquela noite ela me lançara com ar negligente esta mensagem destinada a passar quase despercebida: 

- É possível que amanhã eu vá à casa dos Verdurin, não sei absolutamente se irei, não tenho muita vontade. - 

     Anagrama infantil desta confissão: "Amanhã irei à casa dos Verdurin, é absolutamente certo, pois dou muita importância a isso." Esta aparente hesitação significava uma vontade resolvida e tinha por finalidade diminuir a importância da visita pelo fato de me anuncia-la. Albertine sempre usava o tom dúbio para as resoluções irrevogáveis. A minha não o era menos: eu trabalharia para que a visita à Sra. Verdurin não se realizasse. Muitas vezes, o ciúme não passa de uma necessidade inquieta de tirania aplicada às coisas do amor. Sem dúvida eu herdara de meu pai esse brusco desejo arbitrário de ameaçar as criaturas que eu mais amava nas esperanças em que se embalavam com uma segurança que eu queria mostrar-lhes ser ilusória; quando eu via que Albertine havia combinado, à minha revelia, ocultando de mim, o plano de um passeio que eu teria feito tudo no mundo para torna-lo mais fácil e mais agradável se ela me houvesse confidenciado, eu dizia com negligência, para fazê-la tremer, que esperava sair nesse dia.
     Pus-me a sugerir a Albertine outros objetivos de passeio que teriam tornado impossível a visita aos Verdurin, em palavras carregadas de uma fingida indiferença sob a qual eu tentava disfarçar meu nervosismo. Mas ela já a havia despistado. E meu sentimento encontrava nela a força elétrica de uma vontade oposta que o repelia com vivacidade; nos olhos de Albertine, eu via essa força soltar suas faíscas. De resto, de que adiantava cuidar do que diziam as pupilas naquele instante? Como é que eu não havia percebido há muito que os olhos de Albertine pertenciam à família dos que (mesmo numa pessoa medíocre) parecem feitos de vários pedaços, por causa de todos os lugares onde ele deseja encontrar-se e ocultar que quer achar-se nesse dia? Olhos, por mentira sempre imóveis e passivos, mas dinâmicos, mensuráveis pelos metros e quilômetros que é preciso transpor para chegar ao local do encontro marcado, implacavelmente marcado, olhos que sorriem menos ainda ao prazer que os seduz do que se aureolam da tristeza e do desânimo de que talvez existam obstáculos para ir a esse encontro. Entre nossas próprias mãos, tais seres são criaturas em fuga. Para compreender as emoções que causam e que outros seres até mais belos não causam, e preciso calcular que eles estão, não imóveis, mas em movimento, e acrescentar à sua pessoa um sinal correspondente ao que em física é o sinal que indica velocidade.
     Se perturbamos o seu dia, eles nos confessam o prazer que nos tinham ocultado: "Queria tanto ir tomar chá às cinco horas com tal pessoa amiga!" Pois bem, se seis meses depois acabamos conhecendo a pessoa em questão, saberemos que nunca a moça, cujos projetos transtornáramos, e que, apanhada em flagrante nos confessara, para que a deixássemos livre, o chá que assim tomava com uma pessoa querida todos os dias à hora em que não a víamos, saberemos que essa pessoa nunca a recebeu, que elas jamais tomaram chá juntas, que a moça dizia viver muito presa exatamente por nossa culpa.
     Assim, a pessoa com quem ela confessara que ia tomar chá, com quem ela suplicara que a deixássemos tomar chá, essa pessoa, razão confessada pela necessidade, não era aquela mas outra, e não se tratava de chá mas de outra coisa! Outra coisa, o quê? Uma outra, quem? Ai de nós, os olhos fragmentados, tristes, partindo para longe, talvez permitissem medir as distâncias, mas não indicam as direções. Estende-se o campo infinito das possibilidades e se, por acaso, o real se apresentava diante de nós, estaria de tal modo tão fora dos possíveis que, num súbito aturdimento, cairíamos para trás, indo bater contra essa parede inesperada. O movimento e a fuga verificados nem sequer são indispensáveis, basta que os induzamos. Ela nos havia prometido uma carta, estávamos tranquilos, já não a amávamos. A carta não chegou, nenhum correio a trouxe, "que se passa?", a ansiedade renasce e com ela o amor. São principalmente tais seres que nos inspiram o amor, para nosso tormento. Pois cada nova ansiedade que sentimos por causa deles, rouba-lhes aos nossos olhos um pouco de sua personalidade. Estávamos resignados ao sofrimento, crendo amar fora de nós, e nos damos conta de que nosso amor é uma função da nossa tristeza, que nosso amor é talvez nossa tristeza, e que o objeto dele só em parte diminuta é a moça de cabeleira negra. Mas enfim, são principalmente tais seres que nos inspiram o amor. Na maioria das vezes, o amor não tem por objeto um corpo, a não ser quando nele se fundem uma emoção, o medo de perdê-lo, a incerteza de reencontrá-lo. Ora, esse tipo de ansiedade tem muita afinidade pelos corpos. Ela acrescenta-lhes uma qualidade que ultrapassa a própria beleza, o que é um dos motivos por que vemos homens, indiferentes às mulheres mais belas, amarem apaixonadamente algumas que nos parecem feias. A essas criaturas, a essas criaturas de fuga, sua natureza e a nossa inquietação emprestam asas. E até junto a nós o seu olhar parece dizer que vão alçar voo. A prova dessa beleza, que excede a beleza acrescentada pelas asas, é que, muitas vezes, para nós, uma mesma criatura é sucessivamente alada e sem asas. Basta recearmos perdê-la para esquecermos todas as outras. Certos de conservá-la, comparamo-la a essas outras, que logo preferimos a ela. E, como essas emoções e certezas podem alternar-se de uma semana para outra, uma criatura pode, numa semana, ver sacrificarem-lhe tudo o que lhe agradava, na semana seguinte ser sacrificada, e assim por diante durante muito tempo. O que seria incompreensível, se não soubéssemos pela experiência que todo homem tem de ter em sua vida, ao menos uma vez, deixado de amar, esquecido uma mulher, o pouco em si mesma que é uma criatura quando já não o é mais, ou não é ainda permeável às nossas emoções. E ficamos bem entendidos que o que dizemos dessas criaturas de fuga é igualmente verdadeiro para as criaturas em prisão, mulheres cativas que julgamos jamais poder possuir. Desse modo, os homens detestam as alcoviteiras, pois elas facilitam a fuga, fazem brilhar a tentação; mas, se amam uma mulher enclausurada, procuram de bom grado as alcoviteiras para fazê-las saírem de sua prisão e conduzi-las a eles. O motivo pelo qual as uniões com mulheres raptadas são menos duradouras que outras, é que o medo de não chegarmos a obtê-las ou a inquietação de vê-las fugir compõe todo o nosso amor e que, uma vez roubadas a seu marido, arrancadas a seu teatro, curadas da tentação de nos abandonar, numa palavra, dissociadas de nossa emoção, seja qual for, elas são apenas elas próprias, ou seja, quase nada e, tão longamente cobiçadas, são logo abandonadas por aquele mesmo que tanto temera ser abandonado por elas.
     Eu disse: "Mas como é que não adivinhei?" Mas não o adivinhara desde o primeiro dia em Balbec? Não adivinhara em Albertine uma dessas meninas sob cujo envoltório carnal palpitam mais criaturas ocultas, já não digo que num baralho ainda na caixa, que numa catedral fechada ou num teatro antes que entremos, porém mais do que na multidão imensa e renovada? Não apenas tantas criaturas, mas o desejo, a lembrança voluptuosa, a busca inquieta por tantas criaturas. Em Balbec, eu não ficara perturbado, pois nem sequer supusera que um dia haveria de seguir pistas mesmo falsas. Não importa, para mim aquilo dera a Albertine a plenitude de um ser cheio até as bordas pela superposição de tantas criaturas, de tantos desejos e de lembranças voluptuosas de criaturas. E agora que ela me dissera um dia:

- Srta. Vinteuil -, eu desejaria, não arrancar-lhe o vestido para ver seu corpo, mas, através do corpo, ver toda a sua agenda de recordações e de seus próximos e ardentes encontros marcados.

     Como as coisas provavelmente mais insignificantes assumem de repente um valor extraordinário quando uma criatura a quem amamos (ou a quem só falta aquela duplicidade para que a amemos) as esconde! Em si mesmo, o sofrimento não nos causa obrigatoriamente sentimentos de amor ou ódio pela pessoa que o provocou: um cirurgião que nos causa dor nos deixa indiferente. Mas uma mulher que nos afirmou durante algum tempo que éramos tudo para ela, sem que ela própria fosse tudo para nós, uma mulher que temos prazer em ver, beijar, em ter sobre os nossos joelhos, muito admirados ficamos ao descobrir, por uma súbita resistência, que não dispomos dela.
     A decepção acorda então às vezes em nós a lembrança esquecida de uma velha angústia, que no entanto sabemos não ter sido provocada por essa mulher, mas por outras cujas traições se escalonam sobre o nosso passado. E, além disso, como se tem a coragem de desejar viver, como se pode fazer um movimento para se preservar da morte num mundo em que o amor só é causado pela mentira e consiste apenas em nossa aspiração de ver acalmadas nossas dores pela criatura que nos fez sofrer? Para sair do acabrunhamento que sentimos ao descobrir essa mentira e essa resistência, há o triste remédio de procurar agir, contra a vontade dela, com a ajuda de pessoas que sentimos serem mais ligadas à sua vida do que nós próprios, sobre aquela que nos resiste e nos mente, usar de astúcia nós também, fazer nos detestar. Mas o sofrimento de um tal amor é desses que invencivelmente levam o enfermo a procurar, numa mudança de posição, um bem-estar enganoso. Tais meios de ação não nos faltam, ai de nós! E o horror desses amores, que somente a inquietude gerou, decorre de que viramos e reviramos sem cessar dentro em nós frases insignificantes; sem contar que raramente as criaturas pelas quais os sentimos nos agradam fisicamente de maneira completa, visto que não é o nosso gosto deliberado, mas o acaso de um minuto de angústia, minuto indefinidamente prolongado pela nossa fraqueza de caráter, a qual refaz todas as noites as experiências e se rebaixa aos calmantes, que fez a escolha por nós.
     Sem dúvida o meu amor por Albertine não era o mais miserável daqueles até onde, por falta de vontade, a gente pode decair, pois não era inteiramente platônico; ela concedia-me satisfações carnais, e além disso era inteligente. Porém tudo isto era supérfluo. O que me ocupava o espírito não era o que ela pudesse dizer de inteligente, mas certa frase que acordava em mim uma dúvida sobre seus atos. Eu tentava me lembrar se ela dissera isto ou aquilo, com que ar, em que momento, em resposta a que palavras, reconstituir toda a cena de seu diálogo comigo, em que momento ela quisera ir à casa dos Verdurin, que palavra minha dera o ar contrariado a seu rosto. Se se tratasse do mais importante acontecimento, eu não teria me dado a tanto trabalho para restabelecer a verdade, para lhe recompor a atmosfera e o colorido exatos. Tais inquietudes, é evidente, depois de terem atingido um grau em que nos são insuportáveis, conseguimos por vezes acalmá-las de todo por uma noite. A festa a que deve comparecer a amiga que amamos, e sobre cuja verdadeira natureza o nosso espírito vinha trabalhando há dias, somos também convidados a ela; nossa amiga só tem olhos e palavras para nós, levamo-la de volta para casa, e conhecemos então, dissipadas as inquietações, um sossego tão completo, tão reparador, como o que se observa por vezes no sono profundo que ocorre após as longas caminhadas. Mas, na maioria das vezes, apenas mudamos de inquietação. Uma das palavras da frase que devia nos acalmar põe nossas suspeitas em outra pista. E sem dúvida um repouso desses merece que o paguemos bem caro. Mas não teria sido mais simples não comprarmos nós mesmos, voluntariamente, a ansiedade, e mais caro ainda? Além disso, sabemos muito bem que, por mais profundos possam ser esses desafogos momentâneos, a inquietação ainda assim será mais forte. Muitas vezes até, ela é renovada pela frase cujo fim era nos trazer repouso. As exigências do nosso ciúme e a cegueira da nossa credulidade são maiores do que o podia imaginar a mulher que amamos. Quando, espontaneamente, ela nos jura que determinado homem só é um amigo, deixa-nos transtornados ao nos informar coisa de que não suspeitávamos que para ela tratava-se de um amigo. Enquanto nos conta, para mostrar sua sinceridade, de que modo eles tomaram juntos o chá naquela mesma tarde, a cada palavra que ela diz, o invisível, o insuspeitado adquire forma à nossa frente. Ela confessa que ele lhe pediu que se tornasse sua amante e nós sofremos o martírio de que ela tenha podido ouvir as suas propostas. Recusou-as, diz ela. Mas dali a pouco, lembrando-nos de seu relato, nós nos indagaremos se a recusa é de fato verdadeira, pois entre as diversas coisas que ela nos disse há aquela ausência de nexo lógico e necessário que, mais do que os fatos contados, é o sinal da verdade. E, além disso, ela usou daquela terrível entonação desdenhosa: 

- Eu lhe disse não, - de modo categórico que se encontra em todas as classes da sociedade quando uma mulher mente. Cumpre no entanto agradecer-lhe por haver recusado, encorajá-la pela nossa bondade a continuar no futuro a nos fazer confidências tão cruéis. Quando muito, fazemos uma objeção: 
- Mas se ele já fizera propostas, por que aceitou tomar chá em sua companhia? 
- Para que ele não se aborrecesse comigo nem dissesse que eu não fora amável.- E não temos coragem de lhe dizer que, se recusasse, teria sido talvez mais amável conosco.

     Aliás, Albertine me assustava declarando que eu tinha razão de dizer, para não prejudicá-la, que não era seu amante, pois na verdade, acrescentava, "o fato é que você não o é". Com efeito, eu talvez não fosse inteiramente seu amante, mas então seria necessário pensar que todas as coisas que fazíamos juntos, será que ela também as fazia com todos os homens de quem me jurava não ter sido amante? Querer conhecer a todo custo o que Albertine pensava, o que ela via, o que ela amava - como era estranho que eu sacrificasse tudo a tal necessidade, pois havia experimentado a mesma necessidade de saber, a respeito de Gilberte, nomes próprios e fatos que hoje me eram tão indiferentes! Eu percebia muito bem que em si mesmas as ações de Albertine já não tinham interesse. É curioso que um primeiro amor, se, pela fragilidade que deixa em nosso coração, abre caminho aos amores seguintes, não nos dê, ao menos pela identidade mesma dos sintomas e das dores, a maneira de curá-los. Além disso, há necessidade de se conhecer um fato? Pois, de um modo geral, não conhecemos logo a própria mentira e discrição dessas mulheres que têm algo a esconder? Existe aí alguma possibilidade de erro? Elas acham que é uma virtude ficarem caladas, ao passo que gostaríamos tanto de fazê-las falar. E sentimos que elas afirmaram a seu cúmplice:- Nunca digo nada. Não é por mim que se há de saber alguma coisa, eu nunca digo nada.
     Damos a nossa fortuna, a nossa vida, por uma criatura, e no entanto sabemos muito bem que, com dez anos de intervalo, mais cedo ou mais tarde, negaríamos a essa criatura tal fortuna, preferiríamos conservar a vida. Pois já então essa criatura estaria desligada de nós, sozinha, isto é, seria nula. O que nos une às criaturas são essas mil raízes, esses fios inumeráveis que formam as lembranças do sarau da véspera, as esperanças da vesperal do dia seguinte; é essa trama contínua de hábitos de que não podemos nos livrar. Da mesma forma que existem os avarentos que economizam por generosidade, nós somos pródigos que gastamos por avareza, e é menos a uma criatura que sacrificamos nossa vida, do que a tudo o que ela pôde prender a si mesma de nossas horas, de nossos dias, daquilo em comparação do que a nossa vida ainda não vivida, a vida relativamente futura, nos parece uma vida mais longínqua, mais desligada, menos íntima e menos nossa. Necessário seria desfazermo-nos desses laços que de fato têm muito mais importância que a pessoa, mas cujo efeito é criar em nós deveres momentâneos para com ela, deveres que nos levam a não ter coragem de deixá-la por medo de sermos mal interpretados, ao passo que mais tarde ousaríamos, pois, livre de nós, ela não seria mais nós e a verdade é que só criamos deveres para nós mesmos (ainda que estes possam, por uma aparente contradição, nos levar ao suicídio).

continua na página 40...
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Volume 2
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A Prisioneira (Prefácio)
A Prisioneira (Para retornar às jovens passante) 
A Prisioneira (Se eu não amava Albertine)

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap IV - Só esperava uma oportunidade)

em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Quarto

Brusca reviravolta para Albertine. - Desolação pela madrugada. - Vou imediatamente para Paris com Albertine.  
 

    Só esperava uma oportunidade para a ruptura definitiva. E, uma noite, como mamãe partisse no dia seguinte para Combray, onde ia assistir uma irmã de sua mãe em sua última enfermidade, deixando-me para que aproveitasse os ares marinhos, como o teria desejado a minha avó, eu lhe anunciara que irrevogavelmente estava decidido a não casar com Albertine e em breve ia deixar de vê-la. Estava contente de ter podido, com estas palavras, dar uma satisfação à minha mãe na véspera de sua partida. Ela não me ocultara que isto havia sido de fato uma satisfação bem grande. Precisava também explicar-me com Albertine. Como voltasse com ela da Raspeliere, tendo os fiéis descido, uns em Saint-Mars-le-Vêtu, outros em Saint-Pierre-des lfs, outros ainda em Doncieres, sentindo-me especialmente feliz e desligado dela, decidira-me, agora que só havia nós dois no vagão, a abordar finalmente o assunto. Aliás, a verdade é que aquela dentre as moças de Balbec que eu amava, embora ausente naquela ocasião como suas amigas, mas que ia voltar (agradava-me estar com todas, pois cada uma delas tinha, para mim, como no primeiro dia, algo da essência das outras, como se pertencesse a uma raça à parte), era Andrée. Visto que ela ia chegar de novo a Balbec dentro de alguns dias, certamente viria logo me visitar, e então, para estar livre, não casar com ela se não quisesse, para poder ir a Veneza e, no entanto, daqui até lá, tê-la todinha para mim, o meio que adotaria seria não dar a entender que me aproximava demais dela e, desde a sua chegada, quando estivéssemos conversando, lhe diria: - Que pena que eu não a tenha visto algumas semanas antes! Eu a teria amado; agora, meu coração já está preso. Mas isto não quer dizer nada, nós nos veremos amiúde, pois estou entristecido com meu outro amor, e você me ajudará a consolar-me. - Sorria interiormente ao pensar nessa conversação, pois, assim, daria a Andrée a ilusão de que não a amava de verdade; desse modo, ela não ficaria cansada de mim e eu aproveitaria alegre e suavemente a sua ternura. Mas tudo isso só tornava mais necessário falar afinal seriamente com Albertine, para não agir de forma indelicada, e, visto estar resolvido a me dedicar à sua amiga, era preciso que ela, Albertine, soubesse perfeitamente que eu não a amava. Era preciso dizer-lhe imediatamente, pois Andrée podia chegar a qualquer momento. Porém, como nos aproximássemos de Parville, senti que não teríamos tempo nessa noite e que era preferível deixar para o dia seguinte o que agora estava irrevogavelmente decidido. Portanto, contentei-me em lhe falar do jantar que tivéramos na casa dos Verdurin. No momento em que repunha a sua capa, tendo o trem acabado de deixar Incarville, última estação antes de Parville, ela me disse: 

- Então amanhã, de novo Verdurin, não se esqueça que é você quem vai me buscar. -

     Não pude evitar dizer com bastante secura: 

- Sim, a menos que eu "largue", pois começo a achar esta vida verdadeiramente idiota. Em todo caso, se formos, para que o meu tempo na Raspeliere não seja inteiramente perdido, será necessário que pense em pedir à Sra. Verdurin algo que muito possa interessar-me, ser um objeto de estudo e me dar prazer, pois de fato tive pouco prazer este ano em Balbec. 
 - Isto não é gentil para comigo, mas não lhe quero mal porque sinto que você está nervoso. Qual seria esse prazer? 
- Que a Sra. Verdurin faça tocar para mim peças de um compositor cuja obra conhece muito bem. Eu também conheço uma, porém creio que há outras e eu teria necessidade de saber se foram editadas, se são diversas das primeiras. 
- Que compositor? 
- Minha queridinha, quando eu te disser que se chama Vinteuil, ficarás mais adiantada? - Podemos ter desenvolvido todas as ideias possíveis, que a verdade nunca penetra nelas, e é de fora, quando menos se espera, que ela nos dá sua tremenda picada e nos fere para sempre. 
- Você não sabe como me diverte - respondeu Albertine erguendo-se, pois o trem ia parar. - Não só isto me diz muito mais do que você poderia pensar, mas mesmo sem a Sra. Verdurin poderei lhe dar todas as informações que quiser. Lembra-se que falei de uma amiga mais velha, que me serviu de mãe e de irmã, e com quem passei em Trieste os meus melhores anos e que, aliás, devo reencontrar dentro de algumas semanas em Cherburgo, de onde viajaremos juntas (é meio barroco, mas você sabe como amo o mar); pois bem, essa amiga (oh, não é absolutamente o tipo de mulher que você poderia imaginar!), veja que coisa extraordinária, é justamente a melhor amiga da filha desse Vinteuil, e eu conheço quase tanto a filha de Vinteuil. Nunca as chamo senão de minhas duas irmãs mais velhas. Não me sinto constrangida em mostrar que sua pequena Albertine poderá lhe ser útil nesses assuntos de música, de que você diz, aliás com razão, que não entendo nada. -

     A essas palavras, pronunciadas quando chegávamos à estação de Parville, tão longe de Combray e de Montjouvain, tanto tempo depois da morte de Vinteuil, uma imagem se agitava em meu coração, uma imagem mantida em reserva durante tantos anos que, mesmo se tivesse podido adivinhar o seu poder nocivo ao armazená-la outrora, acharia que, com o passar do tempo, ela o tivesse perdido inteiramente; conservada viva no fundo de mim como Orestes, cuja morte os deuses haviam impedido, a fim de que, no dia marcado, regressasse à sua terra para punir o assassinato de Agamenon - para meu suplício, talvez para meu castigo, quem sabe, de ter deixado morrer a minha avó; surgindo de súbito do fundo da noite onde parecia sepultada para sempre e ferindo, como um Vingador, a fim de inaugurar-me uma vida terrível, nova e merecida, talvez também para expor a meus olhos as funestas consequências que as más ações engendram indefinidamente, não apenas para aqueles que as cometeram, mas para aqueles que não acreditaram, que só fizeram contemplar um espetáculo curioso e divertido, como eu, ai de mim, naquele distante entardecer em Montjouvain, escondido atrás de um arbusto, onde (como quando escutara complacentemente a narrativa dos amores de Swann) havia deixado que se abrisse perigosamente em mim a via funesta do Saber, destinada a ser dolorosa. E nesse mesmo tempo da minha maior dor, tive uma sensação quase orgulhosa, quase alegre, como a de um homem a quem o choque recebido faria dar tamanho salto que ele alcançasse um ponto a que nenhum esforço o poderia ter levantado. Albertine, amiga da Srta. Vinteuil e da amiga desta, praticante profissional do safismo, era, junto do que eu imaginara nas maiores dúvidas, o que é, para o pequeno acústico da Exposição de 1889, de que mal se esperava pudesse ir de uma casa a outra, o telefone que voa sobre as ruas, as cidades, os campos, os mares, ligando países. Era uma terra incógnita terrível aonde eu fora aterrissar, uma nova fase de sofrimentos insuspeitados que se abria. E, entretanto, esse dilúvio da realidade que nos submerge, se é enorme em face de nossas tímidas e ínfimas suposições, era pressentido por elas. Era sem dúvida algo como o que eu acabava de saber, era algo como a amizade de Albertine e da Srta. Vinteuil, algo que meu espírito não teria sabido inventar, mas que eu obscuramente apreendia quando me inquietava tanto ao ver Albertine junto de Andrée. Muitas vezes, é unicamente por falta de espírito criador que não se vai muito longe no sofrimento. E a mais terrível realidade nos concede, ao mesmo tempo que o sofrimento, a alegria de uma bela descoberta, porque só faz doar uma forma clara e nova ao que ruminávamos há muito sem desconfiar.
     O trem havia parado em Parville, e como éramos os seus únicos passageiros, foi com uma voz amolentada pela sensação de inutilidade da tarefa, pelo mesmo hábito que no entanto o fazia cumpri-la, inspirando-lhe a um tempo a exatidão e a indolência, e mais ainda, o desejo de dormir, que o empregado gritou:

- Parville! -

     Albertine, sentada à minha frente e vendo que chegara a seu destino, deu alguns passos do fundo do vagão onde estávamos e abriu a portinhola. Mas este movimento, que ela assim fazia para descer, me dilacerava intoleravelmente o coração, como se, ao contrário da posição independente do meu corpo, que a dois passos dele parecia ocupar o de Albertine, tal separação espacial, que um desenhista verídico seria forçado a figurar entre nós, não passasse de uma aparência, e como se, para quem quisesse redesenhar as coisas conforme a realidade verdadeira, fosse preciso agora colocar Albertine, não a certa distância de mim, mas dentro de mim. Ela me fazia tanto mal ao se afastar que, agarrando-a, puxei-a desesperadamente pelo braço. 
- Seria materialmente impossível - perguntei - que você fosse dormir esta noite em Balbec? 
- Materialmente, não. Mas estou caindo de sono. 
- Você me faria um imenso favor... 
 - Pois seja, embora eu não compreenda; por que não me falou mais cedo? De qualquer modo, fico. -  

     Minha mãe dormia quando, depois de ter mandado que dessem a Albertine um quarto situado em outro andar, voltei para o meu. Sentei-me junto à janela, reprimindo os soluços para que não me ouvisse minha mãe, que só estava separada de mim por um delgado tabique. Nem sequer pensara em fechar os postigos, pois, num dado instante, erguendo os olhos, vi à minha frente, no céu, aquele mesmo clarão de um vermelho tinto que se via no restaurante de Rivebelle, num estudo que Elstir fizera de um sol poente. Lembrei-me da exaltação que me provocara, quando a vira do trem no dia da minha primeira chegada a Balbec, essa mesma imagem de uma tarde que não precedia a noite, mas um novo dia. Porém, agora, nenhum dia mais seria novo para mim, nem mais me despertaria o desejo de uma felicidade desconhecida, e somente prolongaria meus sofrimentos até que eu não tivesse mais forças para suportá-los. A verdade daquilo que Cottard me havia dito no cassino de Parvillefi [ou Incarville] já não me apresentava dúvidas. O que eu temera, e vagamente suspeitara havia muito tempo em Albertine, o que meu instinto deduzia de todo o seu ser, e aquilo que meus raciocínios, dirigidos pelo meu desejo, tinham me feito pouco a pouco negar, era verdade! Por trás de Albertine, eu já não via as montanhas azuladas do mar, mas o quarto de Montjouvain em que ela caía nos braços da Srta. Vinteuil com aquele riso que ela fazia ouvir como o som ignorado do seu prazer. Pois, linda como era Albertine, como podia ser que a Srta. Vinteuil, com os gostos que tinha, não lhe pedisse para satisfazê-los? E a prova de que Albertine não ficara chocada com isso e havia consentido é que não tinham brigado e a sua intimidade não cessara de aumentar. E aquele gracioso movimento de Albertine, ao pousar o queixo no ombro de Rosemonde, olhando-a a sorrir e depondo-lhe um beijo no pescoço, esse movimento que me lembrara a Srta. Vinteuil e para cuja interpretação eu todavia hesitara em admitir que uma mesma linha traçada por um gesto resultasse obrigatoriamente de uma mesma tendência, quem sabe se Albertine simplesmente não o aprendera com a Srta. Vinteuil? Pouco a pouco o céu apagado se iluminava. Eu que até então nunca havia despertado sem sorrir para as coisas mais humildes, para a taça de café com leite, o ruído da chuva, o estrondo do vento, senti que o dia que estava para nascer em alguns instantes, e todos os dias que se seguiriam, nunca mais me haveriam de trazer a esperança de uma felicidade desconhecida, e sim o prolongamento de meu martírio. Aferrava-me à vida ainda; sabia que nada mais tinha a esperar dela que não fosse cruel. Corri para o elevador, apesar da hora indevida, para chamar o ascensorista, que preenchia as funções de vigia noturno, e lhe pedi que fosse ao quarto de Albertine dizer-lhe que eu tinha algo de importante para lhe comunicar, caso ela pudesse receber-me. 

 - A senhorita prefere vir ela própria - veio ele me responder. - Estará aqui num instante. - De fato, em breve Albertine entrou de robe de chambre. 
 - Albertine - disse-lhe bem baixinho, recomendando que não elevasse a voz para não acordar minha mãe, de quem estávamos separados por esse tabique cuja delgadez, hoje importuna e que obrigava a sussurrar, parecia outrora, quando ali tão bem se pintaram as intenções de minha avó, uma espécie de diafaneidade musical -, estou envergonhado por incomodá-la. Eis do que se trata. Para que você compreenda, é preciso que lhe diga uma coisa que você não sabe. Quando vim para cá, deixei uma mulher com quem deveria me casar, que estava prestes a abandonar tudo por mim. Devia seguir de viagem esta manhã e, desde uma semana, todos os dias eu me perguntava se teria coragem de não lhe telegrafar dizendo que voltava. Tive essa coragem, mas sentia-me tão infeliz que achei que me mataria. Por isso é que perguntei ontem à noite se não poderia vir dormir em Balbec. Se eu tivesse que morrer, gostaria de lhe dizer adeus. - E dei livre curso às lágrimas, que minha ficção tornava naturais. 
- Meu pobrezinho, se eu tivesse sabido, teria passado a noite a seu lado -exclamou Albertine, a cujo espírito nem mesmo ocorreu a idéia de que eu talvez desposasse a tal mulher, desvanecendo-se desse modo a oportunidade de que ela própria fizesse um "bom casamento", de tanto que ela se sentia sinceramente comovida com um pesar cuja causa eu não podia ocultar lhe, mas não a realidade e a força - Além disso - continuou ela -, ontem, durante todo o trajeto desde a Raspeliere, bem que havia sentido que você estava triste e nervoso, receava alguma coisa. - Na verdade, o meu desgosto só começara em Parville, e o nervosismo bem diferente, mas que por felicidade Albertine confundia com ele, provinha do tédio de viver ainda alguns dias com ela. Albertine acrescentou: - Não o deixo mais, vou ficar aqui o tempo todo. - Oferecia-me justamente - e só ela podia oferecê-lo o único remédio contra o veneno que me queimava, aliás homogêneo a ele; um suave, o outro cruel, ambos igualmente derivavam de Albertine. Nesse momento Albertine meu mal livrava-me de sofrimentos, me deixava ela, a Albertine remédio enternecido como um convalescente. Mas eu pensava que ela em breve ia partir de Balbec para Cherburgo e de lá para Trieste. Seus hábitos de outrora iriam renascer. Antes de tudo o que eu desejava era impedir Albertine de tomar o barco, tratar de conduzi-la à Paris. Decerto, de Paris, mais facilmente ainda que de Balbec, ela poderia, se o quisesse, ir para Trieste, mas em Paris nós veríamos; talvez eu pudesse pedir à Sra. de Guermantes para indiretamente agir sobre a amiga da Srta. Vinteuil, no sentido de que esta não ficasse em Trieste, para fazê-la aceitar um emprego alhures, talvez na casa do príncipe de ***, que eu havia encontrado na casa da Sra. de Villeparisis e na da própria Sra. de Guermantes. E este, mesmo que Albertine quisesse ir à sua casa para visitar a amiga, poderia, avisado pela Sra. de Guermantes, impedir que se encontrassem. Com certeza, poderia eu refletir que em Paris, se Albertine possuía esses gostos, acharia muitas outras pessoas com quem satisfazê-los. Porém cada movimento de ciúme é particular e traz a marca da criatura desta vez a amiga da Srta. Vinteuil que o suscitou. Era a amiga da Srta. Vinteuil que continuava sendo a minha grande preocupação. A paixão misteriosa com que antigamente havia pensado na Áustria, porque era o país de origem de Albertine (seu tio ali fora conselheiro da embaixada), de modo que sua singularidade geográfica, a raça que o habitava, seus monumentos suas paisagens, podia eu considerá-los, tais como num atlas ou numa coleção de quadros, no sorriso e nas maneiras de Albertine -, essa paixão misteriosa eu a sentia ainda, mas, por uma troca de sinais, no domínio do horror. Sim, era dali que Albertine provinha. Era ali que, em cada residência, ela estava segura de encontrar, fosse a amiga da Srta. Vinteuil, fossem outras. Iriam renascer os hábitos da infância, iriam reunir-se dentro de três meses para o Natal, depois para o Ano-Novo, datas que já me eram tristes por si mesmas, pela recordação inconsciente da mágoa que nelas sentira, quando outrora me separavam de Gilberte durante todo o tempo das férias de Natal. Após longos jantares, depois dos réveíllons, quando todos estariam alegres, animados, Albertine ia tomar, com suas amigas de lá, as mesmas atitudes que eu vira assumir com Andrée, quando a amizade de Albertine por ela era inocente, quem sabe? talvez as atitudes que tinham aproximado, diante de mim, a Srta. Vinteuil perseguida por sua amiga, em Montjouvain. Á Srta. Vinteuil, agora, enquanto sua amiga a acariciava antes de cair sobre ela, eu emprestava o rosto afogueado de Albertine, da Albertine que eu ouvi lançar, fugindo, e depois se abandonando, o seu riso estranho e profundo. Que era, diante do sofrimento que sentia, o ciúme que um dia havia sentido, quando Saint-Loup encontrara a mim e Albertine em Doncieres e onde ela lhe fizera provocações? E também aquele que experimentara ao pensar no iniciador desconhecido a quem eu devera os primeiros beijos que ela me dera em Paris, no dia em que eu esperava a carta da Srta. de Stermaria? Aquele outro ciúme, provocado por Saint-Loup ou por um jovem qualquer, nada valia. Em tal caso, poderia no máximo temer um rival contra quem eu tivesse de arrebatá-la. Mas aqui o rival não era meu semelhante, suas armas eram diferentes, eu não podia lutar no mesmo terreno, dar a Albertine os mesmos gozos, nem sequer concebê-los com exatidão. Em muitos momentos da nossa vida trocaríamos todo o futuro por um poder em si mesmo insignificante. Outrora, eu teria renunciado a todas as vantagens da vida para conhecer a Sra. Blatin, porque ela era uma amiga da Sra. Swann. Hoje, para que Albertine não fosse a Trieste, eu teria suportado todos os sofrimentos e, se isso não fosse bastante, lhes teria infligido, tê-la-ia isolado, sequestrado, tomado o pouco dinheiro que ela possuía para que a penúria a impedisse materialmente de fazer a viagem. Como outrora, quando queria ir a Balbec, o que me impelia a partir era o desejo de uma igreja persa, de um temporal pela madrugada, o que agora me dilacerava o coração, ao pensar que Albertine talvez fosse a Trieste, era que ela passaria ali a noite de Natal com a amiga da Srta. Vinteuil; pois a imaginação, quando muda de natureza e se transforma em sensibilidade, não dispõe para tanto de maior número de imagens simultâneas. Se me dissessem que ela não se encontrava naquele momento em Cherburgo ou em Trieste, que não poderia ver Albertine, como teria eu chorado de alegria e de doçura! Como teria mudado minha vida e seu futuro! E, no entanto, eu bem sabia que era arbitrária essa localização do meu ciúme, que, se Albertine possuía esses gostos, poderia satisfazê-los com outras. Aliás, quem sabe se até essas mesmas jovens, podendo encontrá-la em outro local, não torturariam elas tanto o meu coração? Era de Trieste, daquele mundo ignorado onde eu sentia que Albertine passava bem, onde estavam suas lembranças, suas amizades, seus amores de infância, que se exalava aquela atmosfera hostil, inexplicável, como a que se evolava outrora até o meu quarto de Combray, da sala de jantar em que eu ouvia conversar e rir com estranhos, dentre o ruído dos talheres, mamãe, que não viria dar-me boa-noite; como a que enchera para Swann, as casas em que Odette ia procurar, em festas, prazeres inconcebíveis. Não era mais como uma terra deliciosa, onde a raça é pensativa, os ocasos dourados, os carrilhões tristes, que agora eu imaginava Trieste, mas como uma cidade maldita que eu desejaria mandar queimar de imediato e suprimir do mundo real. Aquela cidade estava afundada no meu coração como aguilhão permanente. Deixar Albertine partir em breve para Cherburgo e Trieste causava-me horror. E até mesmo ficar em Balbec. Pois agora que a revelação da intimidade de minha amiga com a Srta. Vinteuil se fazia uma quase certeza, parecia-me que, em todos os momentos em que Albertine não estivesse comigo (e havia dias inteiros em que, por causa de sua tia, não podia vê-la), ela se entregaria às primas de Bloch, talvez a outras. A idéia de que naquela mesma noite ele poderia ver as primas de Bloch me deixava louco. Assim, depois que me disse que não me largaria durante uns dias, respondi: 
- Mas é que eu desejaria voltar a Paris. Não viria comigo? E não gostaria de vir morar um pouquinho conosco em Paris? -

     Era necessário impedi-la, a todo custo, de estar sozinha, pelo menos durante alguns dias, conservá-la junto a mim para assegurar-me de que ela não pudesse ver a amiga da Srta. Vinteuil. Isto, na verdade, equivaleria a morar sozinha comigo, pois minha mãe, aproveitando-se de uma viagem de inspeção que meu pai ia fazer, impusera-se como um dever obedecer a uma vontade de minha avó, que desejaria que ela fosse passar alguns dias em Combray junto de uma de suas irmãs. Mamãe não gostava da tia porque esta não fora para a minha avó, tão carinhosa com ela, a irmã que deveria ter sido. Assim, depois de crescidas, as crianças lembram-se, rancorosas, dos que foram maus com elas. Porém mamãe, transformada em minha avó, era incapaz de rancor; a vida de sua mãe era para ela como uma pura e inocente infância onde ia aspirar aquelas lembranças cuja doçura ou amargor regulavam suas ações com uns e outros. Minha tia teria podido fornecer a mamãe certos detalhes inestimáveis, porém agora dificilmente o faria, pois achava-se muito enferma (dizia-se que era um câncer), e minha mãe censurava-se por não ter ido mais cedo, para acompanhar meu pai, e nisso não via senão mais um motivo para fazer o que sua mãe teria feito; e, assim como ela, ia, no aniversário do pai de minha avó, o qual fora tão ruim pai, depositar sobre seu túmulo as flores que minha avó costumava levar. Assim, junto ao túmulo que ia se entreabrir, desejava minha mãe levar as suaves conversas que minha tia não viera oferecer à minha avó. Enquanto estivesse em Combray, minha mãe se ocuparia de certos trabalhos que minha avó sempre desejara, mas somente se fossem executados sob a supervisão de sua filha. Assim, eles ainda não tinham sido principiados, pois não queria mamãe, deixando Paris antes de meu pai, fazer-lhe sentir demasiado o peso de um luto ao qual ele se associava, mas que não podia afligi-lo tanto quanto a ela. 

- Ah, isto não será possível por agora - respondeu Albertine. - Além disso, que necessidade tem você de voltar tão depressa a Paris, visto que essa dama já partiu? 
- Porque estarei mais tranquilo num lugar onde a conheci, em vez de Balbec, que ela nunca viu e a que tomei horror. -

     Terá Albertine compreendido mais tarde que essa outra mulher não existia, e que se naquela noite eu quisera morrer de verdade fora porque ela me revelara, estouvadamente, que tinha ligações com a amiga da Srta. Vinteuil? É possível. Há momentos em que isso me parece provável. Em todo caso, naquela manhã, acreditou na existência dessa mulher. 

- Mas você deveria casar com essa senhora, meu pequeno - disse ela. - Seria feliz e ela certamente o seria também. -

     Respondi que a ideia de que poderia fazer feliz aquela mulher, de fato, quase estivera a ponto de me decidir; ultimamente, depois de receber uma grande herança que me permitiria dar muito luxo e distrações à minha mulher, estivera a ponto de aceitar o sacrifício daquela a quem amava. Inebriado pela gratidão que me inspirava a gentileza de Albertine, tão próxima do atroz sofrimento que ela me causara, assim como prometeríamos de bom grado uma fortuna ao garçom do café que nos serve um sexto cálice de aguardente, disse-lhe que minha mulher teria um auto e um iate; que, sob esse aspecto, já que Albertine gostava tanto de passear de auto e de iate, era uma pena que não fosse ela a quem eu amava; que eu teria sido o marido perfeito para ela, mas que se haveria de dar um jeito, que talvez a gente pudesse encontrar-se de forma agradável. Apesar de tudo, como na própria embriaguez a gente evita interpelar os passantes, com receio dos golpes, abstive-me de cometer a imprudência que teria cometido no tempo de Gilberte, dizendo que era a ela, Albertine, que eu amava. 

- Você vê, estive prestes a casar com ela. Mas não ousei fazê-lo, todavia, e não desejaria obrigar uma jovem a viver junto de alguém tão doente e aborrecido. 
- Mas você está louco, todos desejariam viver com você, olhe como todo mundo o procura. Só se fala de você na casa da Sra. Verdurin, e me disseram que se dá o mesmo na mais alta sociedade. Portanto, essa senhora não foi justa com você, para lhe dar essa impressão de dúvida a seu próprio respeito. Vejo que se trata de uma malvada, detesto-a; ah! se eu estivesse em seu lugar... 
- Nada disso, ela é muito gentil, gentil demais. Quanto aos Verdurin e aos outros, rio-me deles. Fora aquela a quem amo e à qual, de resto, renunciei, só ligo para a minha pequena Albertine; somente ela, ficando muito tempo comigo, pelo menos nos primeiros dias -acrescentei, para não assustá-la e poder pedir-lhe muito nesses dias -, é que poderá consolar-me um pouco. - Só vagamente aludi a uma possibilidade de casamento, dizendo que era irrealizável porque nossos temperamentos não combinavam. Contra minha própria vontade, sempre perseguido em meu ciúme pelas lembranças das relações de Saint-Loup com "Rachel-quando-do-Senhor" e de Swann com Odette, estava muito inclinado a crer que, no momento em que amava, não podia ser amado, e que só o interesse podia unir a mim uma mulher. Certamente era uma loucura julgar Albertine por Odette e Rachel. Porém não se tratava dela, mas de mim; eram os sentimentos que eu pudesse inspirar que o meu ciúme me fazia subestimar em excesso. E desse julgamento, talvez errôneo, nasceram sem dúvida muitas desgraças que iriam se abater sobre nós.
 - Então recusa o meu convite para Paris? 
- Minha tia não há de querer que eu parta neste momento. Além disso, mesmo que eu possa mais tarde, não será esquisito que eu entre assim em sua casa? Em Paris, vão logo descobrir que não sou sua prima. 
 - Pois bem, diremos que somos meio noivos. Que diferença faz, já que você sabe que não é verdade? -

     O pescoço de Albertine, que lhe saía inteiro da camisa, era forte, dourado, de intensa granulação. Beijei-a tão puramente como se tivesse beijado minha mãe para acalmar um desgosto de criança que julgasse então jamais poder arrancar do peito. Albertine deixou-me para ir vestir-se. Aliás, o seu devotamento já principiava a diminuir; agora há pouco me dissera que não me deixaria um segundo sequer. (E eu bem sentia que sua resolução não duraria, visto que eu receava, caso permanecêssemos em Balbec, que ela fosse ter naquela mesma noite, sem mim, com as primas de Bloch.) Ora, ela vinha agora me dizer que desejava passar em Maineville e que voltaria para me ver à tarde. Não se recolhera na véspera à noite, poderia haver correspondência para ela, além do que a sua tia podia estar inquieta. Eu havia respondido: 

- Se é só por isso, a gente podia mandar o ascensorista dizer à sua tia que você está aqui e pegar suas cartas. -

     E, desejosa de se mostrar gentil, porém contrariada por estar sendo reprimida, franzira a testa e depois, de súbito, disse amavelmente: 

 - É isto mesmo e mandara o ascensorista.

     Não fazia um momento que Albertine me deixara, quando o ascensorista veio bater de leve. Eu não esperava que, enquanto conversava com Albertine, tivesse ele tido tempo de ir a Maineville e voltar. Vinha me dizer que Albertine escrevera um bilhete à sua tia e que podia, se eu o quisesse, ir a Paris no mesmo dia. Aliás, fizera mal em dar o recado oralmente, pois, apesar da hora matinal, o gerente já estava a par de tudo e, transtornado, vinha perguntar-me se eu estava descontente com alguma coisa, se de fato ia partir, se não poderia esperar ao menos alguns dias, já que o vento hoje estava muito receoso (de recear). Eu não queria lhe explicar que desejava a todo custo que Albertine já não estivesse em Balbec quando as primas de Bloch fossem dar o seu passeio, principalmente na ausência de Andrée, a única que poderia protegê-la, e que Balbec era como um desses lugares em que um doente, que ali não mais respira, decido mesmo que deva morrer no caminho, não passar a noite seguinte. Além do mais, eu ia ter de lutar contra rogos do mesmo gênero, primeiro no hotel, onde Marie Gineste e Céleste Albaret tinham os olhos vermelhos. (Aliás, Marie fazia ouvir o soluço apressado de uma torrente; Céleste, mais frágil, recomendava-lhe calma; porém, tendo Marie murmurado os únicos versos que conhecia: Ici-bas tous les filas meurent. Céleste não pôde se conter, e um lençol de lágrimas se espalhou pelo seu rosto cor de lilás; penso, aliás, que me esqueceram na mesma noite.)
     A seguir, no trenzinho local, apesar de todas as minhas precauções para não ser visto, encontrei o Sr. de Cambremer que, à vista de minhas malas, empalideceu, pois contava comigo para dali a dois dias; exasperou-me querendo me convencer de que minhas sufocações deviam se à mudança de tempo e que outubro seria um mês excelente para elas, e me perguntou se, de qualquer modo, não poderia "adiar a minha partida por oito dias", expressão cuja estupidez só não me deixou enfurecido talvez porque me fazia mal a sua proposta. E, enquanto ele me falava no vagão, a cada parada eu temia ver aparecer, mais terrível que Herimbald ou Guiscard, o Sr. de Crécy, implorando para ser convidado, ou, mais temível ainda, a Sra. Verdurin, fazendo questão de me convidar. Mas isto só devia acontecer dentro de algumas horas. Eu ainda não chegara a tanto. Só precisava fazer face às queixas desesperadas do gerente. Mandei-o embora, pois receava que, mesmo sussurrando, acabasse ele por acordar mamãe. Fiquei sozinho no quarto, aquele mesmo quarto de teto por demais alto, onde me sentira tão infeliz na minha primeira chegada, onde pensara com tanta ternura na Srta. de Stermaria e havia espiado a passagem de Albertine e suas amigas como aves de arribação paradas na praia, onde a possuíra com tanta indiferença quando a mandara buscar pelo ascensorista, onde conhecera a bondade de minha avó e depois soubera que ela estava morta; aqueles postigos ao pé dos quais caía a luz da manhã, eu os abrira a primeira vez para avistar os primeiros contrafortes do mar (esses postigos que Albertine me fazia fechar para que não nos vissem aos beijos). Eu tomava melhor consciência de minhas próprias transformações confrontando-as com a identidade das coisas. Entretanto, habituamo-nos a elas como às pessoas, e, quando subitamente nos lembramos do significado diverso que elas comportam e, depois que tiverem perdido todo significado, dos acontecimentos bem diferentes dos de hoje que enquadraram, a diversidade dos atos realizados sob o mesmo teto, entre as mesmas bibliotecas envidraçadas, e a mudança no coração e na vida que semelhante diversidade implica, parecem ainda acrescidas pela permanência imutável do cenário, reforçado pela unidade do lugar. Duas ou três vezes, durante um momento, tive a idéia de que o mundo onde estavam esse quarto e essas bibliotecas, e no qual Albertine era coisa tão pouca, consistisse talvez num mundo intelectual, que era a única realidade, e meu desgosto, algo como aquilo que é causado pela leitura de um romance e de que somente um louco poderia fazer um sofrimento durável e permanente que se prolongasse por toda a sua vida; que talvez bastasse um pequeno movimento de minha vontade para alcançar esse mundo real e nele penetrar, ultrapassando a minha dor como um círculo de papel que se fura, e não mais me preocupar com o que fizera Albertine, assim como não nos preocupamos com os atos da heroína imaginária de um romance depois que terminamos a leitura. Além disso, as amantes a quem mais amei jamais coincidiram com o meu amor por elas. Esse amor era verdadeiro, visto que eu subordinava todas as coisas à função de vê-las, de guardá-las só para mim, já que soluçava se as tinha esperado uma noite. Mas elas mais possuíam a propriedade de despertar esse amor, de levá-lo ao paroxismo, do que serem a sua imagem. Quando as via, quando as ouvia, nada encontrava nelas que se parecesse ao meu amor e pudesse explicá-lo. No entanto, minha única alegria era vê-las, minha única ansiedade, esperá-las. Dir-se-ia que uma virtude, sem qualquer relação com elas, lhes fora acessoriamente acrescentada pela natureza, e que essa virtude, essa força similielétrica, tinha por efeito excitar em mim o meu amor, isto é, dirigir todas as minhas ações e provocar todos os meus sofrimentos. Porém a beleza, a inteligência ou a bondade dessas mulheres eram inteiramente distintas de tudo isso. Como por uma corrente elétrica que nos move, fui sacudido pelos meus amores, vivi-os e senti-os; nunca pude chegar a vê-los ou a pensá-los. Inclino-me até a crer que nesses amores (ponho de lado aliás o prazer físico que os acompanha em geral, mas que não basta para constituí-los), sob a aparência da mulher, é a essas forças invisíveis, de que ela está acessoriamente acompanhada, que nós nos dirigimos como à obscuras divindades. É delas, cuja benevolência nos é necessária, que buscamos o contato, sem nele encontrar um prazer positivo. Com essas deusas, a mulher põe-nos em relação, sem fazer mais que isso. Como oferendas, prometemos jóias, viagens, pronunciamos fórmulas que significam que adoramos, e fórmulas opostas que significam sermos indiferentes. Dispusemos de todo o nosso poder para alcançar um novo encontro, mas que seja concedido sem tédio. Ora, seria pela própria mulher, se ela não estivesse complementada com essas forças ocultas, que faríamos tanto esforço que, quando ela partisse, não saberíamos dizer como estava vestida e nos aperceberíamos de que nem sequer a tínhamos olhado? Como é enganador o sentido da vista! Um corpo humano, até mesmo amado como o de Albertine, nos parece a alguns metros, a poucos centímetros, bem distante de nós. Da mesma forma a alma que nele está. Unicamente, se alguma coisa muda violentamente o lugar dessa alma em relação a nós, mostrando-nos que ela ama a outros seres e não a nós, então, pelas batidas do nosso coração deslocado, sentimos que, não a alguns passos de nós, mas dentro de nós, é que estava a criatura amada. Em nós, nas regiões mais ou menos superficiais. Mas as palavras: "Esta amiga é a Srta. Vinteuil" tinham sido o Sésamo, que eu seria incapaz de achar por mim mesmo, que fizeram entrar Albertine nas profundezas do meu coração dilacerado. E a porta que se fechara sobre ela, poderia eu procurá-la durante cem anos sem saber como reabri-la. Essas palavras, deixara de ouvi-las por um momento, enquanto Albertine estava junto a mim, ainda há pouco. E, beijando-a como beijava minha mãe em Combray para acalmar a minha angústia, quase acreditava na inocência de Albertine ou, pelo menos, não pensava continuamente na descoberta que fizera acerca de seu vício. Mas agora que estava sozinho, as palavras ressoavam de novo como esses ruídos internos do ouvido que ouvimos logo que alguém deixa de nos falar. Agora, seu vício não apresentava dúvidas para mim. A luz do sol que ia se erguer, modificando as coisas a meu redor, me fez de novo tomar, como que me deslocando um momento em relação a ela, consciência mais cruel ainda do meu sofrimento. Eu jamais vira principiar uma manhã tão linda nem tão dolorosa. Pensando em todas as paisagens indiferentes que iam iluminar-se e que ainda na véspera só teriam me dado o desejo de as visitar, não pude conter um soluço quando, num gesto de ofertório, mecanicamente concluído, e que me pareceu simbolizar o sacrifício sangrento que ia ter de fazer de toda alegria, a cada manhã, até o fim da minha vida, renovação solenemente celebrada em cada aurora de minha mágoa cotidiana e do sangue de minha chaga, o ovo de ouro do sol, como que propulsado pela ruptura de equilíbrio que, no momento da coagulação, traria uma mudança de densidade, farpado de chamas como nos quadros, rompeu de um salto a cortina atrás da qual o sentíamos desde um instante, fremente e prestes a entrar em cena, e da qual apagou, sob ondas de luz, a púrpura misteriosa e condensada. Ouvi-me a chorar a mim mesmo. Mas nesse momento, contra toda expectativa, a porta se abriu e, o coração batendo, pareceu-me ver a minha avó diante de mim, como numa dessas aparições que eu já tivera, mas só dormindo. Então tudo aquilo não passava de um sonho? Ai de mim! Estava bem desperto. 

 - Achas que me pareço com tua pobre avó - me disse mamãe (pois era ela) com doçura, como para acalmar o meu assombro, confessando de resto aquela semelhança, com um belo sorriso de orgulho modesto que jamais conhecera a coqueteria. Seus cabelos em desordem, onde as mechas grisalhas não estavam escondidas e serpenteavam em torno de seus olhos inquietos, de suas faces envelhecidas, o próprio chambre de minha avó que ela usava, tudo isso me impedira, por um instante, de reconhecê-la, fazendo-me duvidar se dormia ou se minha avó havia ressuscitado. Fazia já muito tempo que minha mãe se assemelhava bem mais à minha avó do que à jovem e risonha mamãe que minha infância conhecera. Mas eu não pensara mais nisso. Assim, quando ficamos lendo por muito tempo, distraídos, não percebemos o passar das horas e, de repente, vemos a nosso redor o sol, inevitavelmente levado a passar pelas mesmas fases, lembrar, a ponto de equivocar-nos, o sol que ali existia na véspera à mesma hora, e despertar a seu redor as mesmas harmonias, as mesmas correspondências que preparam o ocaso. Foi sorrindo que minha mãe me fez ver o meu erro, pois era-lhe doce ter tal semelhança com a mãe. 
- Eu vim - disse ela porque, ao dormir, me parecia ouvir alguém que chorava. Isso me acordou. Mas o que houve que não está deitado? E tens os olhos cheios de lágrimas. Que está acontecendo? -

     Segurei-lhe a cabeça entre os braços: 

- Mamãe, ouve, receio não ter te falado amavelmente de Albertine; o que te disse era injusto. 
- E o que tem isso? - disse mamãe; e, percebendo o sol nascente, sorriu com tristeza pensando na mãe; e para que eu não perdesse o fruto de um espetáculo que minha avó lastimava que eu não contemplasse nunca, apontou-me a janela. Mas, por detrás da praia de Balbec, do mar, do nascer do sol que mamãe me mostrava, eu via, com os movimentos de desespero que não lhe escapavam, o quarto de Montjouvain, onde Albertine, rósea, enroscada como uma grande gata, o nariz rebelde, tomara o lugar da amiga da Srta. Vinteuil e dizia, nos assomos de seu riso voluptuoso: 
- Pois bem! Se nos virem, será melhor. Então eu não ousaria escarrar nesse macaco velho? -

     Era esta a cena que eu via por detrás da que se estendia pela janela e que não era, sobre a outra, mais que um véu sombrio, superposto como um reflexo. Ela própria parecia um efeito quase irreal, como uma vista pintada. À nossa frente, na saliência dos rochedos de Parville, o bosquezinho onde havíamos feito o "jogo do anel" fazia cair em declive até o mar, sob o verniz da água, todo dourado ainda, o tabuleiro de suas folhagens, como na hora em que muitas vezes, no fim do dia, quando ali eu tinha ido dormir uma sesta com Albertine, nos levantáramos ao ver o sol descambando. Na desordem das névoas da noite, que ainda arrastavam os farrapos róseos e azuis sobre as águas atulhadas dos destroços nacarados da aurora, passavam barcos sorrindo à luz oblíqua que amarelava suas velas e a ponta dos gurupés como quando regressavam à tardinha: cena imaginária, tiritante e deserta, pura evocação do poente que não repousava, como a noite, na sequência das horas do dia que eu tinha o hábito de ver preceder-lhe, desligada, interpolada, mais inconsistente ainda que a imagem horrível de Montjouvain que ela não lograva anular, encobrir, esconder poética e baldada imagem da lembrança e do sonho. 

- Mas vejamos - disse minha mãe -, não me disseste nenhum mal dela, falaste até que ela te aborrecia um pouco, que estavas contente por teres desistido da ideia de te casares com ela. Não é motivo para chorar desse jeito. Pensa que tua mamãe vai partir hoje e ficará desolada por deixar o seu lobinho nesse estado. Tanto mais, meu pobrezinho, que não tenho tempo para te consolar. Pois, por mais que minhas coisas já estejam prontas, a gente nunca dispõe de tempo num dia de partida. 
- Não é isso.

     E então, calculando o futuro, pesando bem a minha vontade, compreendendo que aquela ternura de Albertine pela amiga da Srta. Vinteuil, e durante tanto tempo, não podia ter sido inocente, que Albertine já fora iniciada e, tanto quanto o indicavam os seus gestos, nascera aliás com a predisposição ao vício que minhas inquietações tantas vezes tinham pressentido, ao qual jamais deveria ter deixado de se entregar (ao qual se entregava talvez naquele instante, aproveitando um momento em que eu não estava presente), disse à minha mãe, sabendo a mágoa que lhe causava, que ela não demonstrou e que só se traiu por aquele ar de séria preocupação que tinha quando comparava a gravidade de me causar desgosto ou de me fazer mal. Aquele ar que tivera em Combray pela primeira vez, quando se resignara a passar a noite junto a mim, aquele ar que nesse momento se parecia extraordinariamente ao de minha avó quando me permitia beber conhaque, disse à minha mãe: 

- Sei do desgosto que vou te causar. Primeiro, em vez de ficar aqui como querias, vou partir ao mesmo tempo que tu. Mas isto ainda não é nada. Não me sinto bem aqui, prefiro voltar. Mas escuta, não te aborreça demais. Eis o que ocorre: enganei-me, enganei-te de boa-fé ontem, refleti a noite inteira. É necessário absolutamente, e decidamo-lo de imediato, porque eu bem o reconheço agora, porque não mudarei mais e porque não poderia viver sem isso, é absolutamente necessário que eu me case com Albertine.

continua na página 237...
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Sodoma e Gomorra (Cap IV - Só esperava uma oportunidade)
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