segunda-feira, 1 de junho de 2026

Tratado da Natureza Humana: Livro 1: Do Entendimento (Parte 2: Seção I)

Da origem das nossas ideias

Livro 1 
Do Entendimento

Parte 2
Das ideias de espaço e de tempo

Seção I
Da divisibilidade infinita 
das nossas ideias de espaço e de tempo
     
     Tudo o que tem ares de paradoxo e é contrário às primeiras e mais despreconcebidas noções da humanidade é muitas vezes avidamente aceite pelos filósofos, como se patenteasse a superioridade da sua ciência, capaz que seria de descobrir opiniões tão afastadas das concepções vulgares. Por outro lado, tudo o que, ao ser-nos proposto, provoca sur presa e admiração, proporciona ao espírito uma tal satisfação que este se compraz nessas emoções agradáveis e jamais se deixará convencer que o seu prazer não tem qualquer fundamento. Estas disposições dos filósofos e seus discípulos geram entre eles uma deferência mútua: os primeiros produzindo grande abundância de opiniões estranhas e inexplicáveis, e os segundos prontamente acreditando nelas. Não posso dar exemplo mais evidente desta mútua deferência do que a doutrina da divisibilidade infinita; é pelo exame desta que vou entrar no assunto das ideias de espaço e de tempo.
     É universalmente reconhecido que a capacidade do espírito é limitada e jamais pode alcançar uma concepção plena e adequada do infinito; e mesmo que tal não fosse reconhecido, seria suficientemente evidente pela mais clara observação e experiência. É igualmente óbvio que tudo o que pode dividir-se in infirútum, deve consistir num número infinito de partes e que não é possível limitar o número das partes sem ao mesmo tempo limitar a divisão. Quase não é necessária qualquer indução para daqui concluir que a ideia que formamos de qualquer qualidade finita não é infinitamente divisível, mas que por distinções e separações adequadas, podemos remeter esta ideia a ideias inferiores, que serão perfeitamente simples e indivisíveis. Ao rejeitarmos a capacidade infinita do espírito, supomos que ele pode chegar a um termo na divisão das suas ideias, e não é possível descobrir maneira de fugir à evidência desta conclusão.
     É pois certo que a imaginação atinge um mínimo e pode propor a si mesma uma ideia da qual não é capaz de conceber subdivisão nenhuma e que não podemos diminuir sem a aniquilar completamente. Quando me falam da milésima e da décima-milésima parte de um grão de areia, tenho uma ideia distinta destes números e das suas diferentes proporções; mas as imagens que formo no espírito para representar as coisas em si mesmas em nada diferem uma da outra, e não são inferiores a essa imagem pela qual represento o próprio grão de areia que, segundo se supõe, tanto as excede. Aquilo que é composto de partes pode dividir-se nessas partes, e o que é divisível é separável. Mas o que quer que imaginemos da coisa mesma, a ideia de um grão de areia não é nem divisível, nen1 separável em vinte, e muito menos em mil, dez mil ou um número infinito de ideias diferentes.
     As impressões dos sentidos estão no mesmo caso que as ideias da imaginação. Colocai uma mancha de tinta num papel, fixai o olhar nessa mancha e afastai-vos para uma distância tal que finalmente a percais de vista; está claro que no momento anterior a desvanecer-se a imagem ou impressão era perfeitamente indivisível. Não é por falta de raios luminosos a incidir nos nossos olhos que as partes diminutas de corpos distantes não produzem qualquer impressão sensível; é porque elas estão afastadas para além daquela distância à qual as suas impressões eram reduzidas a um mínimo e não eram susceptíveis de nova diminuição. Um microscópio ou telescópio, que as torna visíveis, não produz novos raios luminosos, mas apenas espalha os que sempre emanaram de lá; e por este meio dá partes às impressões, que a olho nu parecem simples e sem composição, ao mesmo tempo que faz avançar para um mínimo aquilo que antes era imperceptível.
     A partir daqui podemos descobrir o erro da opinião comum segundo a qual a capacidade da mente é limitada nos dois sentidos e a imaginação não pode formar uma ideia adequada daquilo que ultrapassa um certo grau de pequenez assim como de grandeza. Nada pode ser mais diminuto que certas ideias que formamos na fantasia e certas imagens que aparecem aos sentidos, visto que são ideias e imagens perfeitamente simples e indivisíveis. O único defeito dos nossos sentidos é que nos dão imagens desproporcionadas das coisas e representam-nos como diminuto e sem composição aquilo que na realidade é grande e com posto de grande número de partes. Nós não nos apercebemos deste erro; mas, considerando as impressões desses objetos diminutos, que aparecem aos nossos sentidos, iguais ou quase iguais aos objetos e descobrindo pela razão que há outros objetos imensamente mais diminutos, concluímos precipitadamente que estes são inferiores a qualquer ideia da nossa imaginação ou impressão dos nossos sen tidos. Contudo é certo que podemos formar ideias que não serão maiores do que o mais pequeno átomo dos espíritos animais de um inseto mil vezes menor do que uma pulga; e devemos antes concluir que a dificuldade está na ampliação das nossas concepções até ao ponto de formar uma noção precisa de uma pulga, ou mesmo de um inseto mil vezes menor do que uma pulga. Com efeito, para formar uma noção precisa destes animais, temos de ter uma ideia distinta que represente cada uma das suas partes; o que é completamente impossível, segundo o sistema da divisibilidade até ao infinito, e extremamente difícil segundo o sistema das partes indivisíveis ou átomos, em razão do imenso número e multiplicidade dessas partes.

continua na página 66...
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Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Seção I /  
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes 
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro 

Tradução do texto inglês intitulado 
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume, 
 segundo a edição da Oxford University Press, 
 Oxford, 1888