segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino III

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 III

«Homem! por mais que a Idéa desintegres, 
Nessas perquisições que não têm pausa, 
Jamais, magro homem, saberás a causa 
De todos os phenómenos alegres!

Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas
A estéril terra, e a hyalina lâmpada ôca, 
Trazes, por perscrutar (oh! sciencia louca!) 
O conteúdo das lagrimas hediondas.

Negro e sem fim é esse em que te mergulhas 
Lugar do Cosmos, onde a dôr infrene 
E' feita como é feito o kerosene 
Nos recôncavos húmidos das hulhas! 

Porque, para que a Dor perscrutes, fora 
Mister que, não como és, em synthese, antes 
Fosses, a reflectir teus semelhantes, 
A própria humanidade soffredôra! 

A universal complexidade é que Ella 
Comprehende. E si, por vezes, se divide, 
Mesmo ainda assim, seu te do não reside 
No quociente isolado da parcella!  

Ah ! Como o ar immortal a Dôr não finda ! 
Das papillas nervosas que ha nos tactos 
Veio e vai desde os tempos mais transactos 
Para outros tempos que hão de vir ainda ! 

Como o machucamento das insomnias 
Te estraga, quando toda a estuada Idéa 
Dás ao soffrego estudo da nymphéa 
E de outras plantas dicotyledoneas!

A diaphana água alvissima e a hórrida áscua 
Que da ignea flamma bruta, estriada, espirra; 
A formação molecular da myrrha, 
O cordeiro symbolico da Paschoa;

As rebelladas cóleras que rugem 
No homem civilisado, e a elle se prendem 
Como ás pulseiras que os mascates vendem 
A adherencia teimosa da ferrugem; 

O orbe feraz que bastos tojos acres 
Produz; a rebellião que, na batalha, 
Deixa os homens deitados, sem mortalha, 
Na sangueira concreta dos massacres; 

Os sanguinolentissimos chicotes 
Da hemorrhagia; as nodoas mais espessas, 
O achatamento ignóbil das cabeças, 
Que ainda degrada os povos hottentótes; 

O Amor e a Fome. a fera ultriz que o fojo 
Entra, á espera que a mansa victima o entre, 
—Tudo que gera no materno ventre 
A causa physiologica do nojo;

As pálpebras inchadas na vigilia, 
As aves moças que perderam a aza, 
O fogão apagado de uma casa, 
Onde morreu o chefe da familia; 

O trem particular que um corpo arrasta 
Sinistramente pela via-férrea, 
A crystallisação da massa térrea, 
O tecido da roupa que se gasta; 

A água arbitrária que hiúlcos caules grossos 
Carrega e come; as negras fôrmas feias 
Dos arachnideos e das centopeias, 
O fogo-fatuo que illumina os ossos;  

As projecções flammivomas que offuscam, 
Como uma pincelada rembrandtesca, 
A sensação que uma coalhada fresca 
Transmitte ás mãos nervosas dos que a buscam;

0 antagonismo de Typhon e Osiris, 
O homem grande opprimiudo o homem pequeno, 
A lua falsa de um paraseleuo, 
A mentira meteórica do arco-iris;

Os terremotos que, abalando os solos. 
Lembram paióes de pólvora explodindo, 
A rotação dos fluidos produzindo 
A depressão gsológica dos pólos; 

O instincto de procrear, a anciã legitima 
Da alma, affrontando ovante aziagos riscos, 
O juramento dos guerreiros priscos 
Mettendo as mãos nas glândulas da victima; 

As differenciações que o psychoplásma 
Humano soffre na mania mystica, 
A pezada oppressão característica 
Dos 10 minutos de um accesso de asthma; 

E, (comquanto contra isto ódios regougues) 
A utilidade fúnebre da corda 
Que arrasta a rêz, depois que a rêz engorda, 
A' morte desgraçada dos açougues. 

Tudo isto que o terráqueo abysmo encerra 
Fôrma a complicação desse barulho 
Travado entre o dragão do humano orgulho 
E as forças inorgânicas da terra! 

Por descobrir tudo isto, embalde cansas! 
Ignoto é o germen dessa força activa 
Que engendra, em cada céllula passiva, 
A heterogeneidade das mudanças! 

Poeta, feto malsão, creado com os suecos 
De um leite máu, carnívoro asqueroso, 
Gerado no atavismo monstruoso 
Da alma desordenada dos malucos;  

Ultima das creatúras inferiores 
Governada por átomos mesquinhos, 
Teu pé mata a uberdade dos caminhos 
E esterilisa os ventres geradores!

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, 
Análogo é ao que, negro e a seu turno, 
Traz o ávido phyllóstomo nocturno 
Ao sangue dos mammiferos vorazes! 

Ah ! Por mais que, com o espirito, trabalhes 
A perfeição dos seres existentes, 
Has de mostrar a carie dos teus dentes 
Na anatomia horrenda dos detalhes!  

O Espaço-esta abstracção spencereana 
Que abrange as relações de co-existencia 
E' só ! Não tem nenhuma dependência 
Com as vertebras mortaes da espécie humana! 

As radiantes ellipses que as estrellas 
Traçam, e ao espectador falsas se antolham 
São verdades de luz que os homens olham 
Sem poder, no entretanto, comprehendel-as. 

Em vão, com a mão corrupta, outro ether pedes 
Que essa mão, de esqueléticas phalanges, 
Dentro dessa água que com a vista abranges, 
Também prova o principio de Archimedes! 

A fadiga feroz que te esbordôa 
Ha de deixar-te essa medonha marca, 
Que, nos corpos inchados de anasárca, 
Deixam os dedos de qualquer pessoa!  

Nem terás no trabalho que tiveste 
A misericordiosa toalha amiga, 
Que affaga os homens doentes de bexiga 
E enxuga, á noite, as pústulas da peste!

Quando chegar depois a hora tranquilla, 
Tu serás arrastado, na carreira, 
Como um cepo inconsciente de madeira 
Na evolução orgânica da argilia! 

Um dia comparado com um millenio 
Seja, pois, o teu ultimo Evangelho. 
E' a evolução do novo para o velho 
E do homogêneo para o heterogêneo! 

Adeus ! Fica-te ahi, com o abdômen largo 
A apodrecer!. E's poeira, e embalde vibras! 
O corvo que comer as tuas fibras 
Ha de achar nellas um sabor amargo!» 

Continua na página 40...
_________________________

Leia também:
  O Deus-Verme / As Scismas do Destino I /  As Scismas do Destino II / As Scismas do Destino III / As Scismas do Destino III / 
__________________________

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

Augusto dos Anjos: O Gênio da Matéria e a Metafísica do Espanto




domingo, 30 de agosto de 2026

Cinema: Os Cafajestes

Cinema Novo

o ano é 1962

Os cafajestes é uma filme brasileiro de 1962, do gênero drama, escrito e dirigido por Ruy Guerra. Teve participação no roteiro de Miguel Torres. Foi o primeiro filme dirigido por Ruy Guerra no Brasil. A atriz Norma Bengell protagonizou o primeiro nu frontal do cinema brasileiro neste filme. Em novembro de 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Foi listado por Jeanne O Santos, do Cinema em Cena, como "clássicos nacionais".

Sinopse: Ao saber que o pai rico está à beira da falência, o mimado Vavá convoca o amigo Jandir com um plano para arrumar dinheiro rápido: eles vão chantagear um tio de Vavá tirando fotos comprometedoras da amante dele, Leda.


Festival de Berlim 1962 (Alemanha) indicado ao Urso de Ouro.

Direção; 
Ruy Guerra

Roteiristas:
Ruy Guerra
Miguel Torres






Elenco:
Norma Bengell como Leda 
Hugo Carvana como Fotógrafo
Lucy de Carvalho como Vilma
Germana de Lamare como Garota do Forte
Marina Ferraz
Daniel Filho como Vavá
Glauce Rocha como Prostituta
Aline Silva como Garota do Cadillac
Fátima Sommer como Garota do Catecismo
Jece Valadão como Jandir


__________________

Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
11. Dante /  



Cena icônica com Norma Bengell, a mulher mais desejada do Brasil 
| Grandes Cenas: Os Cafajestes

Análise fílmica da cena "Nua na Praia" no filme "Os Cafajestes" (Ruy Guerra, 1962). Contém entrevista inédita com o cineasta Ruy Guerra e um depoimento da atriz Norma Bengell.






Provocações | Norma Bengel | 2010
Maravilhosa!




Cinema Novo Brasileiro




a consciência é essencial


Roda Viva | Norma Bengell | 1988



Cinema Documentário: Bossa Nova - O Brasil que a gente gostaria de ser

Coisa Mais Linda: Histórias e Casos da Bossa Nova


"Enquanto o Cinema Novo tentava nos mostrar o Brasil que não queremos ver, a Bossa Nossa tentava nos mostrar o Brasil que gostaríamos de ser." Cacá Diegues

"Coisa Mais Linda: Histórias e Casos da Bossa Nova" é um documentário que narra a história e os casos do movimento musical que se tornou um fenômeno cultural no Brasil, começando nos anos 50 e atingindo seu ápice em 1962. O filme é dirigido por Paulo Thiago e apresenta um painel histórico, musical e informativo sobre a Bossa Nova, incluindo entrevistas e apresentações exclusivas de artistas como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Johnny Alf e Leny Andrade. O documentário é uma obra que celebra a riqueza e a diversidade da música brasileira, destacando a Bossa Nova como um dos seus mais importantes e influentes movimentos.


Direção:
Paulo Thiago

Roteirista:
Paulo Thiago





Elenco:
Johnny Alf / Self
Leny Andrade / Self
Billy Blanco / Self
Ronaldo Boscoli / Self (cenas de arquivo)
Sérgio Cabral / Self
Elizeth Cardoso / Self (cenas de arquivo)
Oscar Castro-Neves / Self
Alaíde Costa / Self
Arthur da Távola / Self
Vinicius de Moraes / Self (cenas de arquivo)
Tárik de Souza / Self
Carlos Diegues / Self
João Donato / Self
Durval Ferreira / Self
Astrud Gilberto / Self (cenas de arquivo)
João Gilberto / Self (cenas de arquivo)
Antônio Carlos Jobim / Self (cenas de arquivo)
Paulo Jobim / Self
Joyce / Self
Nara Leão / Self (cenas de arquivo)
Carlos Lyra / Self
Kay Lyra / Self
Roberto Menescal / Self
Luís Carlos Miele / Self
Nelson Motta / Self
Iko Castro Neves / Self
Sérgio Ricardo / Self
Wanda Sá / Self
Silvinha Telles / Self (cenas de arquivo)
Otávio Terceiro / Self


________________

Mais cinema-documentário:

O Gênio da Geografia / João sem medo / Bossa Nova - O Brasil que a gente gostaria de ser / 


Sylvinha Telles 1960 - "Se é Tarde, Me Perdoa"



Bom dia, Groove de R&B e Soul dos anos 60 e 70

Marvin Gaye, Barry White, Sade,
Stevie Wonder, Aretha Franklin, Al Green



Feche os olhos e deixe a agulha tocar o disco (consegue escutar a agulha deslizando o disco?). Nesta manhã, voltamos à era de ouro do soul — com lendas eternas como Marvin Gaye, Diana Ross, Stevie Wonder, Smokey Robison.

Foi uma época em que o amor era cantado com o coração, em que cada batida trazia calor e cada letra contava uma história que se sentia lá no fundo da alma. De baladas intensas e envolventes a sons suaves para a calada da noite: estas são as músicas que definiram uma geração.

Então, diminua as luzes, relaxe e deixe o ritmo conduzir você por memórias de discos de vinil, transmissões de rádio na madrugada e emoções atemporais.


Marvin Gaye, Diana Ross, Stevie Wonder, Smokey Robinson





Um resumo sobre a música Missing You de Diana Ross dedicada a MARVIN GAYE




Diana Ross - Missing You 





The Supremes - Stop! In The Name Of Love 
o ano é 1965




Marvin Gaye Hitch Hike 
o ano é 1962





Cinema: Nise, o coração da loucura

Nise da Silveira, a revolução com amor, arte e loucura

o ano é 2015

O filme Nise: O Coração da Loucura (2015), dirigido por Roberto Berliner e protagonizado por Gloria Pires, retrata a trajetória da psiquiatra Nise da Silveira no contexto do sistema manicomial brasileiro da década de 1940. Para além de um drama histórico, a obra constitui material extremamente relevante para estudantes de Psicologia Jurídica, pois provoca reflexões profundas acerca da dignidade da pessoa humana, dos limites da intervenção estatal e da proteção jurídica das pessoas com transtornos mentais.
Pioneira da terapia ocupacional, a alagoana Nise da Silveira mudou os rumos dos tratamentos psiquiátricos no Brasil. Filha de uma pianista com um professor de matemática, ela se rebelou contra os métodos agressivos aplicados em pacientes com transtornos mentais, como o eletrochoque e o confinamento.
Ao sair da prisão (foi presa como comunista no Estado Novo de Getúlio Vargas, ficou presa mais de 400 dias), a doutora Nise da Silveira volta aos trabalhos num hospital psiquiátrico no subúrbio do Rio de Janeiro e se recusa a empregar o eletrochoque e a lobotomia no tratamento dos esquizofrênicos. Isolada pelos médicos, resta a ela assumir o abandonado Setor de Terapia Ocupacional, onde dá início a uma revolução regida por amor, arte e loucura.


Diretor:
Roberto Berliner

Roteiristas:
Flávia Castro
Mauricio Lissovsky
Maria Camargo
Chris Alcazar
Patrícia Andrade
Leonardo Rocha
Roberto Berliner







Elenco:
Glória Pires como                Dra. Nise da Silveira
Fabrício Boliveira como      Fernando Diniz
Simone Mazzer como          Adelina Gomes
Roney Villela como             Lúcio Noeman
Julio Adrião como             Carlos Pertuis
Claudio Jaborandy como   Emygdio de Barros
Zé Carlos Machado como    Dr. Nelson
Flávio Bauraqui como       Octávio Ignacio
Bernardo Marinho como   Raphael Domingues
Roberta Rodrigues como     Dona Ivone Lara
Augusto Madeira como      Lima
Georgiana Góes como         Marta
Fernando Eiras como         Mário Magalhães
Felipe Rocha como             Almir
Charles Fricks como           Mário Pedrosa
Michel Bercovitch como     Dr. César
Tadeu Aguiar como          Dr. Mourão
Perfeito Fortuna como       Aurélio
Zezeh Barbosa como         Carmem
Luciana Fregolente como   Eugênia
Pedro Kosovski como        Dr. Letier
Eliane Costa como             Leila
Zé Mário Farias como      Enfermeiro 
Nise da Silveira como a própria Nise (cenas de arquivo) (não creditado)

__________________

Parte 02:
Parte 03: 
Parte 04:
Parte 05:
06. O Poço e o Pêndulo / 07. Laura / 08. Cenas de um casamento / 09. Nise, o coração da loucura / 10. Os cafajestes /                 


Documentário: Dra. Nise da Silveira 1992




Quem é NISE DA SILVEIRA




sábado, 29 de agosto de 2026

Odisseia: Parte I (Canto IV.d)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto IV

Na Lacônia e a emboscada dos pretendentes

    “Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)

continuando...

Aproximando-se deles Noémone, filho de Frônio, 
e para Antínoo adiantando-se, faz-lhe a seguinte pergunta: 
   “Já saberemos, Antínoo, talvez, ou talvez o ignoremos, 
quando regressa de Pilo de solo arenoso, Telêmaco? 
Foi num navio que é meu, que ora falta me faz muito grande, 
para que a Élide extensa atravesse, onde tenho doze éguas 
com doze burros de mama, indomados, e bons para a carga. 
Era meu plano trazer um dos tais, para ver se o domava.” 
   Disse; admiraram-se os dois no mais íntimo, pois não pensavam, 
que tivesse ido Telêmaco a Pilo; no campo o julgavam,

entre os rebanhos, talvez, ou na casa, quiçá, do porqueiro. 
Disse-lhe Antínoo, nascido de Eupites, então em resposta: 
   “Ora me conta a verdade: em que dia embarcou e que moços 
o acompanharam? São de Ítaca todos, ou foi com seus servos 
e mercenários? De feito, podia assim ter procedido. 
Dize-me tudo de acordo com os fatos, a fim de que o saiba: 
se a teu mau grado e por força o navio levou de cor negra, 
ou se lhe deste por gosto, depois de pedir-te insistente.” 
Disse-lhe, então, em resposta, Noémone, filho de Frônio: 
“Dei-lhe de boa vontade. Quem doutra maneira faria,

se lhe pedisse um varão de tal porte com o peito angustiado 
como era o dele? Difícil seria negar-lhe tal coisa. 
Quanto aos rapazes que o seguem, distinguem-se todos no povo 
como os melhores. Levavam Mentor como chefe, segundo 
pude notar, ou um dos deuses, que a ele demais se assemelha. 
O que me espanta é ter visto o divino Mentor aqui mesmo 
ontem bem cedo, depois de já haver para Pilo embarcado.” 
   Para a morada do pai se retira, depois dessa fala. 
No ânimo altivo ficaram os dois irritados com isso. 
Os pretendentes suspendem os jogos e a eles se reúnem.

Diz-lhes Antínoo, nascido de Eupites, então, em resposta, 
mui pesaroso; escurece-lhe o peito rancor indomável, 
a extravasar-se. Lampejam-lhe os olhos quais chamas ardentes: 
   “Vede a que empresa audaciosa Telêmaco pôde dar cabo 
com essa viagem! Pensávamos todos que não na faria. 
Contra a vontade de tantos, consegue o rapaz escapar-nos, 
pôde aprontar um navio e escolher companheiros capazes. 
Isso é o princípio do mal que há de vir. Quem me dera que Zeus, 
antes de a idade viril alcançar, o privasse da força! 
Dai-me uma nave ligeira com vinte rapazes prestantes,

para cilada aprestarmos-lhe à volta da viagem, à espera 
bem na passagem que de Ítaca Samo escabrosa separa, 
para que a viagem em busca do pai desastrosa lhe seja.” 
   Isso falou. Os presentes aplaudem-no em peso, animando-o; 
pondo-se todos de pé, para casa do herói se dirigem. 
   Por muito tempo não fica sem ser sabedora Penélope 
dos pretendentes o plano que no íntimo, então, conceberam. 
Disse-lhe o arauto Medonte, que fora do pátio se achava, 
quando ele ouvira a conjura que os moços maldosos tramavam. 
Ei-lo que vai pela casa anunciar isso tudo a Penélope.

Mal a soleira pisou, lhe dirige a palavra a rainha: 
   “Os pretendentes ilustres, arauto, por que te enviaram? 
Foi, porventura, com o fim de que as servas do divo Odisseu 
parem com todo o trabalho e lhes ponham, sem mais, o banquete? 
Se requestado jamais me tivessem, nem mesmo aqui vindo! 
Fosse, de fato, esta a vez derradeira que todos comessem! 
Muito frequente aqui vindes; fazenda esbanjais, sem medida, 
bens do sensato Telêmaco. De vossos pais, porventura, 
nunca soubestes, no tempo em que ainda crianças seríeis, 
como Odisseu costumava com eles aqui fazer sempre?

Nunca nenhuma injustiça a ninguém praticou, nem palavras 
más para o povo, tal como costumam os divos monarcas, 
que má vontade para uns patenteiam, para outros afeto. 
Ele, ao contrário, jamais procedeu contra alguém com malícia, 
bem diferente de vós, cuja indigna conduta e desejos 
ficam patentes, ingratos que sois aos favores passados.” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Medonte, de sábios conselhos: 
“Fosse, ó rainha, esse mal o mais grave de quantos praticam! 
Bem mais terrível, ainda, e, sem dúvida, mais doloroso, 
os pretendentes maquinam, que Zeus há de obstar, com certeza,

pois planejaram com ferro aguçado matar a Telêmaco, 
quando de volta estiver, porque à Pilo sagrada e à divina 
Lacedemônia viajou, para novas do pai ver se alcança.” 
   Susta-lhe o coração, ao ouvi-lo; os joelhos fraquejam. 
Por muito tempo ficou sem poder enunciar coisa alguma; 
lágrimas enchem-lhe os olhos e a voz se lhe embarga sonora.¹ 
Só muito tempo depois conseguiu perguntar o seguinte: 
   “Dize-me, arauto, o motivo de ter o meu filho viajado. 
Necessidade não tinha de entrar nos navios velozes, 
de homens carruagens, que cortam a imensa amplitude das águas;

foi para que o próprio nome se afunde no olvido dos homens?” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Medonte, de sábios conselhos: 
“Eu mesmo ignoro qual deus o incitou, ou se a própria coragem 
o compeliu a viajar até Pilo, à procura de novas 
do pai querido, se se acha de volta, ou qual fim ele teve.” 
   Tendo assim dito, ao palácio do herói Odisseu ele volta. 
Incomportável angústia a envolveu, sem que força tivesse 
de na cadeira assentar-se, das muitas que havia na casa; 
mas na soleira do quarto bem-feito de chofre atirou-se, 
a se queixar grandemente. Ao redor, as criadas gemiam,

todas, quer fossem de idade, quer moças, que em casa se achavam. 
Por entre muitos suspiros, Penélope, alfim, lhes disse isto: 
   “Caras, ouvi-me os queixumes! O Olímpico mais infortúnios 
me propinou do que as quantas nasceram comigo e cresceram. 
Cedo meu nobre marido perdi, de coragem leonina, 
que era entre os Dânaos notável por grandes e raras virtudes, 
e cuja fama atingia toda a Hélade até o centro de Argos. 
As tempestades, agora, me o filho arrebatam de casa, 
sem glória alguma e sem que eu de sua ida informada estivesse. 
Empedernidas sois todas! Ninguém se lembrou no seu peito

de despertar-me da cama, conquanto de tudo cientes, 
quando meu filho subiu para o escuro navio bojudo. 
Caso eu tivesse sabido da viagem que então meditava, 
tê-lo-ia feito ficar, muito embora viajar desejasse, 
ou no palácio era força que então me deixasse sem vida. 
Uma qualquer dentre vós vá chamar o meu velho criado 
Dólio, presente que foi de meu pai, quando vim para casa, 
que ora se ocupa do trato do nosso pomar variado. 
Corra depressa a contar a Laertes o que ora se passa. 
Este, talvez, qualquer plano conceba no peito, saindo

para queixar-se aos do povo, que intentam privar da existência 
seu descendente e do nobre Odisseu, semelhante aos eternos.” 
   A ama querida, Euricleia, lhe disse o seguinte em resposta: 
“Filha querida, com bronze aguçado me fere aqui mesmo, 
ou no palácio me deixa; não posso ocultar-te o ocorrido. 
Fui sabedora de tudo e lhe aviei tudo o que ele me disse, 
pão e aprazível bebida. Tomou-me, porém, grande jura 
de coisa alguma contar-te antes que doze dias corressem, 
ou que sua falta sentisses, por novas ouvir que se fora, 
a fim de que não fanasses com lágrimas teu belo rosto.

Cuida, porém, de banhar-te e de roupa vestir muito limpa, 
para o aposento de cima dirige-te com as criadas, 
faze tuas preces a Atena, que é filha de Zeus poderoso, 
e tem poder de em futuro salvá-lo do negro Destino, 
mas não aflijas o velho que tão abatido se encontra, 
pois não presumo que os deuses bem-aventurados odeiem 
a descendência de Arcésio. Alguém há de ficar, com certeza, 
para mandar na alta casa e nos agros extensos e pingues.” 
   Tais argumentos fizeram-lhe o choro parar e os gemidos. 
Vai logo banho tomar, roupa limpa vestiu, sem demora,

e para o quarto de cima se foi juntamente com as servas. 
Em canistrel põe as molas e a Palas Atena suplica: 
   “Ouve-me, filha indomável do deus que a grande égide empunha! 
Se em algum tempo o solerte Odisseu em seu próprio palácio, 
em honra tua, queimou pingues coxas de bois e de ovelhas, 
disso recorda-te agora e não deixes perder-se meu filho; 
dos pretendentes o livra, maldosos e cheios de orgulho.” 
   Tendo isso dito, ululou. Foi ouvida sua prece por Palas. 
Os pretendentes na sala sombria levantam tumulto. 
Foi quando disse um qualquer desses moços de mente soberba:

“A requestada Penélope, certo, nas bodas se afana, 
sem suspeitar que fadamos seu filho ao Destino inamável.” 
   Isso disse ele, porque não sabia do que se passava. 
Foi quando Antínoo, tomando a palavra, falou o seguinte: 
   “Sois todos loucos! Deixai de arrogantes discursos agora, 
sem exceção; não vá alguém anunciar isso tudo lá dentro; 
mas, sem dizermos palavra, saiamos daqui, bem depressa, 
para pôr mãos ao projeto, que todos no peito formamos.” 
   Tendo isso dito, vinte homens escolhe, dos mais audaciosos, 
e para a célere nau se dirige, na beira da praia.

Primeiramente, arrastaram-na para o mar largo; após isso, 
fixam o mastro na nau de cor negra e, a seguir, neste, a vela, 
tendo aos toletes os remos prendido com estropos de couro, 
tudo de acordo com regras, e a cândida vela desprendem. 
Põem-lhes as armas a bordo os criados de espírito altivo. 
No fundo mar ancoraram, depois, para a terra saltando, 
onde cuidaram da ceia, esperando que a tarde chegasse. 
   Por esse tempo se achava deitada a prudente Penélope 
nos aposentos de cima, a enjeitar alimento e bebida, 
só preocupada em pensar se da Morte seu filho escapava,

ou se devia cair pela mão dos soberbos imigos. 
Tal como o leão, que se encontra indeciso no meio de gente, 
cheio de medo, ao sentir que lhe apertam o cerco doloso: 
vê-se Penélope, assim, té que o sono agradável lhe chega. 
Dorme assim, pois, reclinada, que o sono descanso lhe infunde. 
   A de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso: 
forma uma imagem de sonho, mulher parecendo na forma 
e com feições da nascida de Icário magnânimo, Iftima, 
que com Eumelo é casada, morando eles ambos em Feras. 
Essa visão ao palácio do divo Odisseu manda logo,

porque consolo levasse à tristeza da aflita Penélope 
e conseguisse pôr termo aos soluços e ao pranto copioso. 
Pela correia do fecho na câmara entrar pôde logo; 
paira-lhe sobre a cabeça e lhe diz as seguintes palavras: 
   “Dormes, Penélope, com o coração por tal modo angustiado? 
Não te consentem os deuses, que vivem feliz existência, 
tanto chorar e afligir-te; ao teu filho ainda está destinado 
vir de tornada, porquanto ele em nada ofendeu aos eternos.” 
   Disse-lhe, então, em resposta Penélope muito sensata, 
Dês da soleira do sono, imergida em torpor muito suave:

“Mana querida, a que vens até aqui? Pois não é teu costume 
vir visitar-me, em virtude da grande distância em que moras. 
Mandas-me, agora, que cesse de vez com suspiros e dores, 
tão numerosas, que o espírito e o peito atormentam sem pausa? 
Cedo meu nobre marido perdi, de coragem leonina, 
que era entre os Dânaos notável por grandes e raras virtudes, 
e cuja fama atingia toda a Hélade até o centro de Argos. 
Ora meu filho querido partiu no navio bojudo, 
ainda criança, ignorando os trabalhos e arengas nas praças. 
Por seu destino me aflijo ainda mais que por causa do esposo.

Tremo por ele e me inquieto; não vá acontecer-lhe algum dano, 
quer em viagem, quer mesmo entre as gentes onde ora se encontra. 
Muitos malvados contra ele planejam insídias sem conta, 
com intenção de matá-lo antes que ele reveja o palácio.” 
   O pouco claro fantasma de Iftima lhe disse, em resposta: 
“Ânimo! Cessa de tanto afligir com receios o peito. 
Serve-lhe de companhia a que todos os homens desejam 
ter ao seu lado qual deusa assistente — por ser poderosa — 
Palas Atena, que se compadece do teu sofrimento. 
Dela aqui venho o mandado, porque tudo, enfim, te contasse.”²

Disse-lhe, então, em resposta, Penélope muito sensata: 
“Se és uma deusa, de fato, e de um deus as palavras ouviste, 
vamos, então me revela o destino infeliz daquele outro, 
se ainda com vida se encontra e as delícias da luz ainda enxerga, 
ou se é já morto, talvez, e na de Hades estância demora?” 
   O pouco claro fantasma de Iftima lhe disse, em resposta: 
“Nada te posso dizer, com certeza, a respeito desse outro, 
se é vivo ou morto; de nada nos serve falar aereamente.” 
   Tendo isso dito, esvaeceu-se o fantasma, qual sopro do vento, 
pelo ferrolho da porta. A de Icário nascida desperta

logo do sono. Seu peito outra vez de alegria se aquece, 
por lhe ter vindo no escuro da noite visão tão luzente. 
Os pretendentes embarcam e as úmidas vias percorrem, 
a cogitar no mais íntimo como matar a Telêmaco. 
Bem na passagem do mar que separa de Samo escabrosa 
Ítaca, encontra-se uma ilha de pouca extensão, pedregosa, 
de nome Astéride. Porto aprazível, contudo, apresenta, 
com dupla entrada. Os Aquivos aí de emboscada ficaram. 

continua página 725...
__________________

Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a /                 
__________________

Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.

_______________

[1] A cena é decisiva: Penélope finalmente descobre o plano dos pretendentes contra Telêmaco, e o impacto emocional é enorme.
     Ela recebe ao arauto Medonte já tomada de inquietação, e sua fala é uma mistura de ironia, indignação e dor. Ela supõe que os pretendentes o enviaram para ordenar que as servas parem de trabalhar e preparem um banquete — uma crítica direta ao abuso que eles cometem na casa. Em seguida, explode: “Se requestado jamais me tivessem, nem mesmo aqui vindo! Fosse, de fato, esta a vez derradeira que todos comessem!” É um desejo de que aquela fosse a última refeição deles — um prenúncio da vingança futura de Odisseu. Ela lembra que os pretendentes consomem os bens de Telêmaco sem pudor. E faz uma comparação moral: Odisseu nunca foi injusto, nunca tratou mal o povo, ao contrário dos pretendentes, ingratos e desrespeitosos.
     Essa fala é um dos momentos em que Homero mostra a força moral de Penélope, que não é apenas uma figura passiva esperando o marido.
     Medonte, sempre sensato, responde com gravidade. Ele diz que, se o problema fosse apenas o banquete, seria pouco. O verdadeiro mal é muito pior: os pretendentes planejam matar Telêmaco com ferro aguçado quando ele voltar de Pilo e Esparta. Ele afirma que Zeus há de impedir, o que é uma forma de consolo, mas também um reconhecimento da gravidade da situação.
     A reação de Penélope é belíssima e muito homérica. O coração lhe susta — ela fica paralisada de choque. Os joelhos fraquejam — imagem típica da poesia épica para o colapso emocional. Por muito tempo não consegue falarLágrimas lhe enchem os olhos e a voz se lhe embarga. É o momento em que a dor de Penélope atinge o auge, preparando a entrada de Atena no sonho.

[2] Penélope está tomada de angústia porque ouviu falar da conspiração dos pretendentes contra Telêmaco. Ela cai no sono, e Atena, desejando confortá‑la, envia em sonho a figura de Iftima, filha de Icário, para acalmá-la.
O fantasma — na verdade uma forma assumida por Atena — pede que Penélope pare de se torturar com medo. Ela revela que Atena está ao lado de Penélope, protegendo-a, e que a deusa se compadece de sua dor. Ou seja: Vim enviada por ela, para te contar tudo.”
     É uma típica cena homérica de consolo divino, em que a deusa aparece por meio de um sonho para aliviar o coração do mortal.


Odisseia, de Homero - Canto 4 - Telêmaco em Esparta




Odisseia: Parte I (Canto IV.c)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto IV

Na Lacônia e a emboscada dos pretendentes

    “Telêmaco com Pisístrato, sendo recebido por Menelau, relata sobre os feitos dos pretendentes em Ítaca. Então, Menelau lhe conta sobre o retorno dos Helenos e da profecia de Proteu, pelo que soube da Morte de Agamémnone e da presença de Odisseu junto de Calipso.
Se forma um conselho dos pretendentes acerca do rapto de Telêmaco. Atena encoraja Penélope, descontente com a partida do filho, através de um sonho aparecendo semelhante à Iftima, irmã de Penélope.” (Scholie EM P Q V)

continuando...

Quando, porém, ele próprio voltar a fazer-te perguntas 
sob a figura em que o viste primeiro, a dormir sobre a areia, 
cede no emprego da força, liberta o ancião, ó guerreiro, 
e lhe pergunta qual deus contra ti se conserva indignado, 
e como possas voltar, navegando o oceano piscoso.’ 
   “Tendo isso dito, mergulha de novo no mar ondulante. 
Eu, por meu lado, voltei para as naus, que se achavam na praia. 
O coração me estuava no peito durante o percurso. 
Logo que a margem do mar alcancei, onde estava o navio, 
mando aprontar o jantar. Cai a Noite divina entrementes,

indo nós todos dormir pela praia, onde as ondas se quebram. 
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
pus-me a passear ao comprido da praia do mar de amplas vias, 
ardentemente a implorar aos divinos. Escolho três sócios 
dos da companhia, em quem mais nos perigos confiança depunha. 
Nesse entrementes, afunda Idoteia no seio das águas; 
trouxe de lá quatro peles de foca, no fundo colhidas, 
todas tiradas de fresco, que o pai iludir pretendia. 
Cava, em seguida, buracos ao longo da praia arenosa, 
onde se fica a esperar; perto dela nós outros nos pomos;

faz-nos deitar, e nos cobre com peles em número certo. 
Muito penoso nos era ficar de alcateia; terrível 
e insuportável odor trescalavam as focas do oceano, 
pois quem a par poderia deitar-se de um monstro marinho? 
Ela, porém, nos salvou, concebendo remédio eficiente: 
sob as narinas de todos ambrósia coloca, de aroma 
muito agradável, que o cheiro terrível dos monstros anula. 
O coração paciente, até vir a manhã lá ficamos. 
   “Eis que, reunidas, as focas das ondas emergem; por ordem 
deitam-se, logo em seguida, ao comprido da praia sonora.

Ao meio-dia o ancião sai das ondas, achando os nutridos 
corpos das focas; a todas revista e enumera por ordem, 
a principiar por nós quatro entre os monstros, sem que suspeitasse 
de que pudesse haver dolo. Por fim também ele deitou-se. 
Foi quando em grita o assaltamos, cingindo-lhe o corpo com os braços. 
Mas não se esquece o ancião de valer-se das artes dolosas: 
Toma, de início, a figura de um leão bem provido de juba, 
drago, depois, e pantera e, a seguir, javali portentoso, 
água corrente e, por fim, o feitio de uma árvore excelsa. 
Mais fortemente o agarramos, com ânimo firme e paciente.

Quando enfadado ficou o ancião, sabedor de artimanhas, 
pôs-se, por fim, a falar-me, fazendo a seguinte pergunta: 
   “‘Dize-me, filho de Atreu, qual dos deuses te foi conselheiro, 
para que, assim, me amarrasse por dolo? De que necessitas?’ 
   “Isso disse ele. Em resposta lhe dei as seguintes palavras: 
‘Velho, por que te esquivares com tantas perguntas? Bem sabes 
que há muito tempo me encontro detido nesta ilha, sem meio 
de sair dela; esmorece-me dentro do peito a coragem. 
Ora revela-me tudo, que os deuses o sabem sem falha, 
qual dos eternos me traz aqui preso e me impede o caminho,

e de que modo voltar, navegando o oceano piscoso.’ 
   “Isso lhe disse; em resposta me torna as seguintes palavras: 
‘Antes que houvesse nas naus embarcado, a Zeus grande que vibra 
a égide e às mais divindades, devias ter feito holocaustos, 
para que à pátria pudesses chegar pelo mar cor de vinho, 
pois isto não te pertence, rever os amigos e a casa 
bem-construída tornar, assim como a tua pátria querida, 
sem que, primeiro, outra vez, te dirijas às águas do Egito, 
no céu nascido, e hecatombes sagradas ali ofereças 
às divindades eternas, que moram no céu espaçoso.

Só depois disso obterás realizar o caminho almejado.’ 
   “Parte-se-me o coração, ao ouvi-lo dizer tais palavras, 
pois me ordenava vogar, outra vez, pelo mar nebuloso, 
para que o Egito alcançasse por longo e terrível caminho. 
Mas, apesar de tudo isso, lhe dei a resposta seguinte: 
   ‘Sem discrepância, ó ancião, cumprirei todos esses preceitos. 
Mas, por agora, me fala e responde conforme a verdade, 
se os Aqueus todos, incólumes, em seus navios voltaram, 
quantos deixei, com Nestor, ao partirmos das plagas troianas, 
ou se de Morte cruel pereceram a bordo das naves,

ou entre os braços de amigos, depois de acabada a campanha.’ 
   “Isso lhe disse; em resposta me torna as seguintes palavras: 
‘Por que perguntas, Atrida, tal coisa? Não te é vantajoso 
ter de tudo isso ciência, e dos meus pensamentos. Não creio 
que sem chorar demorasses se tudo saber conseguisses. 
Muitos no mar se afundaram, com vida outros muitos ficaram. 
Dos líderes dos Aqueus de couraça de bronze, morreram, 
quando de volta, só dois — estiveste presente na guerra — 
outro com vida ainda alhures se encontra no largo oceano. 
Com seus navios de remos compridos Ajaz foi ao fundo.

Primeiramente, Posido o lançou nos rochedos de Gira, 
pedra enormíssima, embora o deixasse escapar do naufrágio. 
Mas, salvar-se-ia assim mesmo, e apesar de que Palas o odiava, 
se não deixasse escapar termos feios e grande blasfêmia: 
que, contra as próprias deidades, fugira do abismo das águas. 
Ouve-lhe o grande impropério Posido de escuros cabelos; 
sem mais demora, tomando o tridente nas mãos vigorosas, 
lança-o com força na pedra de Gira, fendendo-a no meio: 
firme uma parte ficou; outra parte caiu dentro da água, 
sim, justamente onde Ajaz se assentava e dissera a blasfêmia;

a essa arrastou para o fundo revolto com grande procela. 
Dessa maneira morreu, tendo as ondas salgadas bebido. 
Té certo ponto Agamémnone pôde do Fado esquivar-se, 
na nau convexa. Foi Hera divina que assim o salvara. 
Mas, quando perto se achava do Cabo Maleia escarpado, 
eis que procela terrível o apanha, obrigando-o a empregar-se 
pelo domínio piscoso, a soltar sentidíssimas queixas. 
Desse local em diante o regresso correu sem perigos, 
por lhe soprarem os deuses monções, tendo à pátria chegado 
junto da ponta do campo onde a casa Tiestes construíra.

Primeiramente; ora reina na casa o Tiestíada Egisto. 
Com alegria pisou ele o solo da terra nativa; 
beija-a e abraça-a; é sua pátria. Sobre ela derrama copiosas 
e ardentes lágrimas, pelo prazer de a rever, de tornada. 
Viu-o o vigia, do ponto em que estava escondido, postado 
lá por Egisto traiçoeiro, que em paga promete entregar-lhe 
dois belos áureos talentos. De guarda o ano todo ficara; 
não lhe escapasse a chegada, lembrado da força impetuosa. 
Ei-lo que o vai revelar no palácio ao pastor de guerreiros. 
Quando isso soube, forjou, logo, Egisto malévolo plano;

vinte indivíduos escolhe no povo, dos mais audaciosos, 
e os deixa ocultos, mandando aprontar noutra parte um banquete. 
Por sua vez, com cavalos e carros, maldosos projetos 
a ruminar, convidou Agamémnone, rei poderoso, 
que, sem saber do fim próximo, leva e trucida, tal como 
na manjedoura uma rês é abatida, durante o banquete. 
Dos companheiros do Atrida nenhum escapar conseguiu, 
nem dos de Egisto, que todos tombaram na casa, sem vida.’ 
   “Parte-se-me o coração, ao ouvi-lo dizer tais palavras. 
Caio de bruços na areia da praia, a chorar, sem vontade
   
nem de com vida ficar, nem de os raios do Sol ver ainda. 
Mas, depois que me saciei de chorar e rolar pelo solo, 
disse-me o ancião infalível marinho as seguintes palavras: 
   “‘Filho de Atreu, não prossigas, assim, nesse choro sem pausa, 
pois que nenhum resultado tiramos com isso, mas trata 
logo de ver como possas a pátria alcançar novamente. 
Encontrá-lo-ás ainda vivo, talvez; ou quem sabe se Orestes 
já o imolou; para o enterro é possível com tempo chegares.’ 
   “Disse. Em meu peito se aquecem o viril coração novamente 
e o ânimo, embora abatidos se achassem por tantos trabalhos.

Mais uma vez o interrogo e lhe digo as palavras aladas: 
   “‘Desses já sei o destino; nomeia-me, agora, o terceiro, 
que inda com vida se encontra detido no largo oceano, 
ou mesmo morto. Desejo-o saber, muito embora me aflija.’ 
   “Isso lhe disse; em resposta me torna as seguintes palavras: 
‘É o de Laertes rebento, que em Ítaca tem a morada. 
Vi-o numa ilha afastada, a verter copiosíssimo pranto, 
em o palácio da ninfa Calipso, que à força o tem preso, 
sem que ele possa voltar para o caro torrão de nascença. 
Faltam-lhe naves providas de remos, assim como sócios,

que pelo dorso do mar extensíssimo possam levá-lo. 
Mas, quanto a ti, Menelau, descendente de Zeus, o Destino 
não determina morreres em Argos, nutriz de cavalos; 
para as campinas do Elísio, limite da terra, te enviam 
os imortais, onde está Radamanto, de louros cabelos, 
e onde a existência decorre feliz para todos os homens. 
Lá não cai neve, nem longo é o inverno, nem chove o ano todo, 
mas de contínuo o de Zéfiro sopro de ruído sonoro 
manda o oceano, que os homens com branda bafagem refresque, 
visto de Helena, marido tu seres e, assim, de Zeus genro.’¹

“Tendo isso dito, mergulha de novo no mar ondulante. 
Volto de novo aos navios e aos sócios de formas divinas. 
O coração me estuava no peito durante o percurso. 
Logo que a margem do mar alcancei, onde estava o navio, 
mando aprestar o jantar. Cai a Noite divina, entrementes, 
indo nós todos dormir pela praia, onde as ondas se quebram. 
Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
antes de tudo, arrastamos as naus para as ondas divinas; 
mastros, depois, levantamos e velas nas naves simétricas. 
Sobem, depois, os demais para bordo e se sentam nos bancos,

todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas. 
Volto de novo à corrente do Egito, do céu oriundo; 
fiz ancorar e ali mesmo aprestei hecatombes completas. 
Tendo assim, pois, aplacado dos deuses eternos a cólera, 
um cenotáfio a Agamémnone ergui, para lhe dar eviterna 
glória. Feito isso, embarcamos; os deuses eternos nos mandam 
ventos ponteiros, que à pátria querida, sem mais, nos trouxeram. 
   “Peço-te agora que fiques por tempo mais longo aqui em casa 
té que onze dias, ou mesmo mais um, resolvidos vejamos, 
pois depois disso te mando levar com presentes magníficos:

dou-te carruagem de fino lavor, três cavalos e, ainda, 
uma belíssima taça, com que libações ofereças 
aos imortais diariamente, tornando-me sempre lembrado.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Não me detenhas, Atrida, por tempo mais longo, em tua casa. 
Mesmo que um ano completo aceitasse ficar no palácio, 
não sentiria saudades de casa ou dos que me geraram, 
pois grandemente me enlevo em ouvir teus discursos e contos. 
Mas os meus sócios já estão começando a ficar enfadados 
na sacra Pilo, porque me deténs muito tempo em tua casa.

Quanto ao presente que a mim destinaste, que seja uma joia, 
porque cavalos para Ítaca não levarei; para o gozo 
próprio tos deixo aqui mesmo; em extensa planície dominas, 
onde há abundância de trevo e, também, junça e trigo bastante, 
bem como espelta e cevada, da branca, de espigas bonitas. 
Pistas extensas não temos em Ítaca, ou mesmo bons prados; 
pastos de cabra, isso sim, que as do poldro pastagens mais gratos. 
Sabes que as ilhas situadas no mar não têm prados de jeito 
para carruagens andar. Mais que todas é Ítaca imprópria.” 
   A essas palavras sorriu Menelau, de voz forte na guerra.

Acariciou-o com a mão e, falando, lhe disse o seguinte: 
   “Que és de bom sangue, meu caro, se vê pelo modo que falas. 
Outros presentes vou dar-te em lugar dos primeiros, que o posso. 
De quantas coisas preciosas em casa se encontram guardadas, 
quero ofertar-te a mais bela e de mais extremada valia. 
Dou-te uma taça de fino trabalho e de linhas bem-feitas, 
toda de prata, com bordas, porém, de ouro puro batidas, 
obra de Hefesto, presente de Fédimo, ousado guerreiro, 
rei dos Sidônios, no tempo em que estive em sua casa hospedado, 
quando da viagem de volta. Essa, agora, desejo ofertar-te.”

Dessa maneira, em colóquio, eles dois tais conceitos trocavam. 
Para o palácio do divo monarca vêm vindo os convivas, 
a conduzir as ovelhas e o vinho, que os homens reanimam; 
pães as esposas, ornadas de véus preciosos, enviavam. 
Azafamados assim no palácio cuidavam da festa. 
   Os pretendentes, em frente da casa do divo Odisseu, 
se divertiam, no entanto, jogando venáb’los e discos, 
no pavimento bem-feito, arrogantes, tal como eram sempre. 
Senta-se Eurímaco, a um deus semelhante, de par com Antínoo, 
dos pretendentes os chefes, mais fortes e belos que todos.² 

continua página 717...
__________________

Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /              
__________________

Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
________________

[1] Trecho lindíssimo da Odisseia, ainda dentro do relato de Menelau a Telêmaco.
     Menelau continua contando a Telêmaco como obteve notícias de Odisseu ao consultar Proteu, o Velho do Mar. Este trecho é justamente a parte em que Proteu revela o destino do terceiro guerreiro que Menelau queria saber — e esse terceiro é Odisseu.
     Menelau pergunta a Proteu sobre o terceiro herói cujo destino ainda desconhecia. Proteu revela que esse herói é Odisseu, filho de Laertes, ainda vivo, mas preso na ilha de Calipso, chorando e desejando voltar para Ítaca. Odisseu não tem navio nem companheiros para atravessar o mar — está completamente isolado. Proteu também profetiza o destino de Menelau: ele não morrerá em Argos, mas será levado pelos deuses ao Campo Elísio, onde a vida é eterna e suave, por ser marido de Helena e, portanto, genro de Zeus. Após ouvir isso, Menelau retorna aos navios, prepara sacrifícios, ergue um cenotáfio para Agamémnon e recebe ventos favoráveis que o levam de volta à pátria.
     A revelação sobre Odisseu é crucial: confirma que ele está vivo, mas impossibilitado de retornar — reforça o drama da espera de Penélope e Telêmaco.
     Calipso representa a tensão entre desejo e dever: Odisseu é amado pela ninfa, mas seu coração pertence à sua terra e à sua família.
     A profecia sobre Menelau contrasta com o sofrimento de Odisseu: enquanto o rei de Esparta terá um destino sereno e divino, Odisseu enfrenta provações intermináveis.
     O cenotáfio de Agamémnon mostra a preocupação de Menelau com a memória do irmão, reforçando o tema da glória póstuma.
     Esse trecho prepara o leitor para a libertação de Odisseu por ordem de Zeus, que acontecerá pouco depois. Também reforça a ideia de que o mundo dos heróis é regido por destino, honra e intervenção divina, e que cada um deles carrega uma marca única dos deuses.

[2] A cena pertence ao Canto IV da Odisseia, quando Menelau recebe Telêmaco em Esparta. Menelau reconhece a nobreza do jovem e lhe oferece um presente valioso antes de sua partida para Ítaca. 
     Menelau sorri e elogia Telêmaco, reconhecendo sua boa linhagem pelo modo como fala. Ele promete dar ao jovem um presente ainda melhor que o anterior: uma taça de prata com bordas de ouro, obra de Hefesto, recebida de Fédimo, rei dos sidônios. Enquanto conversam, os preparativos para o banquete prosseguem no palácio: convidados chegam trazendo ovelhas, vinho e pão.
     Logo depois, o texto muda para Ítaca, mostrando os pretendentes se divertindo e desperdiçando os bens de Odisseu enquanto esperam o banquete. Em Ítaca, os pretendentes continuam sua rotina arrogante, jogando dardos e discos diante da casa de Odisseu. Eurímaco e Antínoo, os líderes dos pretendentes, aparecem como figuras centrais, descritos como fortes e belos.
     O contraste entre Esparta (ordem, honra, hospitalidade) e Ítaca (desordem, abuso, arrogância dos pretendentes) prepara o leitor para o retorno de Odisseu e o acerto de contas que virá.