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domingo, 29 de junho de 2014

As mãos

Ensaio 05AB

baitasar

Naquela cama tem um menino, sobre o menino um moço, sobre o moço uma mulher. Helga acaricia o moço deitado em sua cama. Molhado. Desliza em seu corpo estendido uma tolha umedecendo com as águas de Sèzar. Suave e delicadamente. Beija os pés, depois os joelhos. As coxas. Sente pequenas sacudidelas da carne que ressuscita. Sorri. Os galhos daquela grande árvore balançam contra o vento. Agitam-se para resistir, gritam os descuidados. Blasfêmia. É o antegozo da calmaria, a dor antemão da espera. Os ajustes que provocam nas profundezas as raízes. O aviso de que seja o que estiver por vir, elas estão cravadas firmes em nossas entranhas. A ventania só as fará balançarem. Irá fazer voarem as folhas que precisam tombar para o nascimento dos brotos. Quando as ventanias se aproximam antevejo além da morte o aparecimento de outra vida na mesma vida.

Ela continua secando os galhos daquele moço de águas paradas e raízes fundas, esperando contagioso e aborrecido a ventania. Pede para que se vire. Ele obedece. Escorrega as mãos nas costas do moço. As unhas rasgam as resistências e a ventania agita os galhos mais tenros. Em uma das mãos a toalha desliza de sacanagem uma grande aventura. Uma toalha que obedece a mão engalfinhada naquela luta de atração e retração e retensão. A outra mão não para. Continua rasgando as costas do moço. Coitado, parece que foi açoitado. Cicatrizes sublimes. Profundos e invisíveis riscos em Sèzar. Inclina-se e beija-lhe a nuca. Um beijo molhado e perfumado como as águas da mulher. A árvore se agita. Os ventos circulam. A mulher sente quando a raiz se desinquieta e se enfia na terra procurando o alimento para os brotos.

Pede para que se revire. Ele volta.

Ela está erguida sobre o homem. Os joelhos dobrados. Um em cada lado do bosque. Olham-se. Sorriem. O moço não está mais assustado. Está sendo transformado. Um bom trabalho, diz e sorri para si mesma, quem sabe o começo de uma obra-prima. Quer encantar o menino com pequenos movimentos, enxotar a dor do moço. Oferecer o seu pequeno feitiço, sem decoro ou decência.

Ela lustra o próprio corpo. Os joelhos dobrados. A toalha raspando a pele. A alegria no coração. Não quer educar. Não quer ensinar. Quer ser a cura. Quer desejar. Não quer adoecer pela indiferença do não-desejo. Escolhe o arrombamento da quietude morta. Tem medo da prostração indiferente que se esconde em fazer da agitação o não desejo da paixão. Escolhe a dor de desejar. E se mostra.

O moço não lhe tira os olhos. Não fecha os olhos, tem medo da ausência. A ausência é a dor que não suporta. Desde menino foi ensinado não desejar, não querer muito. Aprendeu a ficar indiferente a dor. O inimigo está fora, nunca estará dentro dele. Enquanto conseguir manter uma distância confortável das paixões e das fantasias imagináticas a realidade será apenas realidade, se nublada ou ensolarada, tanto faz, não depende dele. Um menino conformista. Deseducado para o mundo que talvez não acabe.

Queria um pai para conversar. Pedir ajuda. Bobagem, um pai não fala dos seus romances clássicos nem dos enredos obscenos das suas novelas, talvez lhe indicasse livros. A educação dos livros. Ansiava as palavras, chegam mais rápido e mais perto do seu coração. Mas, ele mesmo, é um analfabeto radiouvinte. Não aprendeu a escutar as maravilhas e os decibéis da paixão desejosa. Os engasgos e a rouquidão das confissões. Conseguiu fugir do ódio, mas não escapou da dor na prostração indiferente. Tem muitos livros explicando o vaivém, simplificando a ereção. A mão. O objeto que está longe. A ejaculação. E a culpa.

Livros não esclarecem coisas mais simples, por exemplo, o que Sèzar faz com as mãos? Ele está estendido entre os joelhos dobrados da mulher. Sente o pequeno monte, os pelos crespos roçam o bojo da sua cavidade abdominal, um rochedo. Está grávido. Tem a vida dentro de si. Sente orgulho da cinta larga dos seus músculos. O envaidecimento da sua juventude. A prontidão espontânea. E não sabe o que fazer com as mãos. Nem sabe quando usar as mãos. Tem medo de usar as mãos com medo e se mostrar todo: das mãos aos pés um garotinho em cima da cama. Que também já esteve embaixo da cama. Os adultos fazem tantas coisas escondidas. Coisas secretas. Sussurram silêncios solitários. E em uma dessas coincidências da vida, no único dia que deveriam espionar embaixo da cama, esqueceram. E o menino está ali


Quer me tocar? pergunta num sussurro

Quero, responde de imediato, mas prefiro esperar. Escolheu a dor que faz esperar. Demorar.

Entra pela janela a vivacidade e o divertimento de contar as estrelas. Foi assim que aprendeu a contar


Eu contava as estrelas, confessa outro segredo.

Depois aprendeu as leituras com as estrelas, cada uma com um nome conhecido. No início dessa aventura de batizar cada uma das estrelas, pensou nos amigos. Uma estrela, um amigo. Não tinha tantos amigos. Não tinha nenhum amigo. Não iria funcionar

Por que o mocinho não me toca?

Ele não responde. Mas ela sabe que ele não iria desistir. Ficava horas deitado na escuridão do seu quarto observando as estrelas, procurando formas, fazendo contornos. Apontava o dedo para uma das estrelas e ligava os pontos, um a um. Desenhava cadeiras, mesas, quadros, bolas, mas o que mais admirava eram os seios que brilhavam pendurados no céu de estrelas. Muitos seios. Muitos. Tamanhos e formas infinitas. Um infindo da eternidade. Sinuosos, curvos, maiores, menores. O coração. Dois seios são um coração

O prazer precisa da dor para existir, esperar é um bom exercício de disciplina, ele tenta lhe explicar suas teorias

Ela para a toalha. É tão prática. Olha para o moço entre suas pernas. Está séria, querendo entender. Ele está sério, tentando adivinhar as letras que consegue desenhar. Não são tantas letras para tantas estrelas. Decide que precisa juntar as estrelas para usar todas. E assim, foi juntando estrelas até ter o seu nome entre as estrelas. Os exercícios da caligrafia com a ponta dos dedos na Via Láctea o atraiam bem mais que os exercícios com a ponta do lápis no papel.

Desvia o olhar do quadro de estrelas, tenta ensinar

Não é dor física, Helga. É a dor de tomar uma decisão.

A mulher lhe sorri. Disfarça que o compreende, elogia sua coragem para resistir àquele ataque de sacrifícios. Menino ou moço, não são muito diferentes, gostam de serem elogiados por sua coragem e estupidez 


Meu Deus, eu amo como ele respira, e depois?

Não foi feita para ficar esperando o sono chegar, ser dominada pela desistência, se for domada que seja pela exaustão do esforço para entender o moço. Não gosta der engabelada

Sèzar... você é feliz com essas suas teorias?

Ele não responde. Ela continua. Ela não para.

É contra sua vontade estar nessa cama?

Ele não responde. Quer as estrelas. Não quer palavras, prefere o palavreado das mãos, pelo menos por enquanto prefere o palavreado das mãos. A fantasia das mãos

Me dê as suas mãos.

Ele reponde... obedecendo.

Ela examina as mãos do menino

Hum... hum..., inclina-se até a sua mesinha da cabeceira. Abre a gavetinha com seus dedinhos, pega uma tesourinha


Achei.

Corta as unhas do menino. Bem curtinhas. Quase na carne.


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terça-feira, 24 de junho de 2014

As alucinações desatadas da jaula

Ensaio 04AB
baitasar
A ousadia da paixão foi uma demasia que Sèzar nunca permitiu aos seus excessos solitários ingovernáveis da vontade. Monólogos monótonos. Cinco contra um. Uma demasia. Covardia. Quase uma ditadura. Alucinações incontroláveis. Até que Helga desatou da jaula suas alucinações da carne. No seu devaneio sedutor noviço quis devorar os dias com chuva ou com sol. Não conseguia evitar a vontade de engolir as noites com estrelas e a escuridão do quarto. Quis comer Helga inteira, numa só mordida. Teve que aprender a esperar e ser comido.
Ela o fez confiar e desejar.
Mostrou como esparramar-se nas conversas com as vontades do corpo. A solidariedade com a outra vontade. Humilde, amoroso e corajoso. Nem todos têm essa coragem para aprender. Matam a vida. Sèzar sempre quis a vida, lastimava a falta da solidariedade com a vida e o egoísmo imaginário do ódio
—        Sèzar, as brincadeiras não são para sempre. — enrolou-se no lençol e foi ao banheiro. O noviço ficou deitado, olhando sua bela companhia caminhando, tornando-se uma ausência
—        E o que é para sempre? — perguntou àquela sua deusa heroica que lhe seduziu o desejo imaginário que tinha medo do real, ela continuava lhe tocando mesmo na ausência
—        Nada, Sèzar. Nada é para sempre. Com o tempo perdemos os movimentos peristálticos da paixão, nos tornamos azedos como limões mofados. — e calou-se. O silêncio no banheiro vinha como uma ausência que estava nele. Levantou. Em um breve instante duvidou que aquele quarto fosse real. Procurou o lençol para se enrolar. Sorriu de si mesmo. Um homem não se esconde, precisa se mostrar. Disfarces são as substâncias das mulheres. Ele queria se exibir. Aparentar-se homem. Caminhou até o banheiro e parou na porta
—        Eu sei, eu sei. Pelo menos, acho que sei. Cada coisa que desejo e deixo de fazer é um desaproveitamento do desejo... é eu sei, estou dizendo bobagens. — abriu os olhos para reconhecer a deusa do desejo, que nem mesmo os olhos conseguiam descrever nem preparar para o que viria. Ela estava sentada, olhando para ele. Sentiu que o olhar e a memória daquele olhar poderiam deixar uma etiqueta, um protocolo de lamentos e contentamentos — Tenho medo das grades do circo com seus altares e jaulas.
—        Tenho mais medo dos arrojos de heroísmo do ódio.
Até aquela tarde, ela procurava as brincadeiras do amor, ele caminhava a esmo devorando a solidão do refrigerador, das comidas congeladas. Não sabia se queriam o que viria
—        Sèzar... fecha a porta, por favor. — a intimidade pode ser obscena
—        Por que?
Helga ergue o queixo e o olha, é a sua vez de enfiar-se nele. Vendar seus olhos para alguns mistérios. A inteligência não precisa publicar todos os segredos. Reconhece a boniteza daquele amigo que se metamorfoseou em seu amante. Lembra que não foi sob a luz da lua cheia, nem a beira da praia encoberta no crepúsculo, nem na meia luz do cinema, que aconteceu o primeiro beijo. Não foi um beijo disfarçado de fingimento, foi bonito e intenso
—        Sèzar, a paixão não resiste à porta do banheiro aberta.
Ele sorri e dá um passo atrás, antes de fechar a porta, diz
—        Você tem razão, de novo. O que nunca existiu para nós, apenas não existiu para nós porque não foi visto. Não lembramos o que não existiu para nossos olhos. — fecha delicadamente a porta.
O fogo precisa ficar escondido da desatenção do mundo inventado sem desejo. A fogueira não sobrevive só do olhar do outro, nem apenas da intenção. A desordem está cheia de boas intenções, assim, como, os ordeiros estão afogados em más intenções. O beijo só é real no beijo, não é antes nem depois, mas é na lembrança que fica mais real que na realidade. É como é lembrado. Por isso, não morremos quando não somos esquecidos. Os amores incompletos que não desistem esperam o desejo de outros amantes, guardam na memória as lembranças das ausências. As lágrimas e os risos não são uma declaração de amor em vão porque o que não lembramos não existe mais, mesmo que exista, a menos que aconteça de novo. E os amores incompletos? Os amores incompletos não desistem até que desistem. Quando não queremos que algo exista, esquecemos. Então, não acontece mais. E os amores incompletos não são mais amores.
Por isso, no jogo seguinte, Sèzar voltou aos braços da TOC gremista. Cantou com o Daniel e o Gustavo a sua purificação
—        Esse amor descontrolado
            Nunca vou deixar de lado
            Eu te sigo onde for
            Eu te sigo tricolor!
Na Geral gremista tinha a avalanche, as bandeiras, a batucada furiosa, os gritos. Era preciso pular, berrar, esquecer os costumes da vida. Às vezes, dava para ver o jogo, e no gol vinha o êxtase. A avalanche da alegria, a encarnação do prazer. Era preciso estar atento ao deslizamento da torcida gremista. Não tinha como se esconder do prazer de descer correr as escadarias da geral até o limite físico do muro. Correndo e esperneando para esparramarem-se no útero gremista. Uma avalanche orgástica. O eco dos gritos que não faz caso do muro segue em frente, supera as grades, os tijolos, está lá dentro do gramado. Entre as ramas verdes e tenras florescendo pisoteadas, regadas pelos suores e lágrimas derramadas. O terreno majestoso das quatro linhas que separa homens e meninos, realidade e fantasia.
Ele espera deitado de costas na grama branca
—        Sèzar, estou pronta. — a porta se abre, novamente.
É preciso desafiar a própria alegria, reencontrar o conhecido. Não basta ser guerreiro, gritar insânias. A realidade não se curva aos personagens que parecem o que não são. Ela o convida para aceitar a vida, retirar os enfeites. Ele caminha dois passos atrás. A mulher entra no chuveiro e some na névoa inquieta e suave. Acena para o moço penetrar na bruma úmida e fértil da imaginação. Deslembrar todas as outras vidas que tem.
Não responde. Entra e fecha a porta. Mais dois passos à frente. A mão da moça revela-se através da cortina esfumaçada para pegar na sua mão. O moço inquieto e curioso atravessa o nevoeiro e toca em seus cabelos. Um pequeno amontoado de fios curtos e crespos. Beija dois pequenos povoados e arrebita os dois pequeninos bicos. A mão se solta das mãos da moça e sobe. Afrouxa os músculos da nuca, impondo sem incomodar. Decifrando o desejo. De vez em quando faz algum pedido estranho e avisa que perdeu o medo. É a mulher que ama o homem que exagera as voltas com os dedos. O arrebatamento o faz antecipar os próprios movimentos.
Abraça a mulher com paixão. Ela oferece a boca inteira. Canela e maçã. O gosto da Via Láctea dos sonhos. Está dobrado sobre os joelhos. Ela em pé, os dedos enfiados em seus cabelos. A boca molhada. Os beijos. O jasmim. O jardim. As reticências da língua esquiva e nervosa se enfiam. Ele reza sem queixas ou arrependimentos. Ela o acolhe inteira, molhada e atrevida
—        Que delícia... — agarra seus cabelos molhados e ajeita do seu jeito o menino.
Sèzar devora todas as águas. A boca louca e insatisfeita querendo outra vez estar livre para ele com seus beijos molhados. Adora aqueles costumes da vida.
Ele levanta desajeitado
—        Por onde andam teus olhos?
—        Estão onde está a luz da lua cheia.
Os joelhos adormecidos. A boca alagada. Ela desce a mão e lhe segura. Forte e decidida
—        Adoro!
Os beijos das duas bocas não afrouxam. Os músculos retesam. Helga dobra os joelhos e engole a insônia, o ar tristinho, a tevê na madrugada, as meias de lã, os chinelinhos de pelúcia, forrados, quentinhos. Repete que gosta daquela doçura, os versos de amor, o sabor picante que queima por inteiro. Não há trégua. Ela fincada até os joelhos nas águas cálidas. Ele em pé se oferece por inteiro. Sólido. Erguido. Os dedos enfiados em seus cabelos molhados. Esquece o medo, as dietas e as medidas. Lembra que pode abrir os olhos. Esquece e não abre os olhos. Lembra que aguenta gemer, avisar como é bom. Esquece-se de avisar. Tudo é bom. Na bruma apenas o zumbido insistente dos seus não gemidos, da sua não tristeza
—        Vou derramar o meu amor...
—        Bruxo, me espera.
Ela levanta. Atrevida. Pega em sua mão. Fecha o chuveiro. O silêncio das águas para. A mulher e o moço caminham do nevoeiro. Entram no quarto
—        Deita. — não é pedido, nem alguma ordem, é o desenho de um mapa
—        Estamos molhados... — ele nunca saiu do banheiro antes de secar o chão
—        Adoro!
O moço deita. Não fecha os olhos
—        Se você quiser pode fechar os olhos... é melhor para adivinhar.
—        Você é linda.
Ela não acredita em bobagens de menino
—        Quer que apague a luz? — a mulher continua em pé, ainda não subiu no gramado branco
—        Não. Eu escolho quando apago meus olhos. — é a sua resposta para a sua mulher. Sente-se um pouquinho dono dela. Um homem. Quer poder abrir os olhos e ver para lembrar ou fechar para adivinhar.
Ela quer lhe mostrar que o moço pode lembrar o que não vê
—        Feche os olhos... se quiser.

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quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Futebol nem é tão importante, mas a Festa

Ensaio 03AB
baitasar
No quarto há uma cama, sobre a cama um homem, sobre o homem um menino, sobre o menino o medo. Sèzar respira boca abaixo com o corpo retesado. Ensaia engolir o ar aos goles, o seu acanhado aperitivo da vida.
Pequenas bicadas. Afogando-se. Obstinado. Ele vai tentando respirar.
O telefone dispara o sinal sonoro de mais uma chamada. A terceira chamada. As duas primeiras deixou tocar até a exaustão do corneteiro. O anúncio é um toque de corneta. Gosta dos toques de corneta convocando homens para matar ou morrer. Atacar pela honra deles mesmos, seguindo a ordem da corneta. O corneteiro é anônimo. As jaquetas azuis em seus cavalos, as espadas, os fuzis, os gritos selvagens da carga de cavalaria. E a ordem para tocar
—        Atacaaaaaaaaaar!
Escolheu esse toque depois que Helga contou a história dos soldadinhos de chumbo desaparecidos. O exército perdido. O castigo do pai. A injustiça da sentença. O irmão delator. Uma memória infeliz para Helga, ele concorda. Mas não consegue evitar. Ou não quer.
Deixa o aviso anunciar o ataque uma, duas, três vezes, estende o braço do homem. O menino reconhece o número chamando. Afasta o nebulizador e atende
—        Não... não posso... Gustavo... não posso. —           desliga o telefone que fica sobre a cama. Aproxima o nebulizador — Nenhum pensamento... nenhum pensamento...
Não consegue a prudência de não pensar durante suas crises. Sente-se impuro. Ao lado do seu corpo afogado em ar puro. Os pulmões inflados. Os músculos retesados. O assovio congestionado. Não consegue se retirar dos pensamentos. Não consegue se retirar do seu corpo. Abandonar-se de raciocinar e julgar a si mesmo. Fluir na correnteza silenciosa da liberdade. Deixar os dois amigos na margem. Distantes e imóveis.
Amigos desde os tempos do colégio. Dois grandões e fortões modelados na Academia. E com anabólicos. A Academia é uma rotina de muito tempo. Os anabólicos foi um achado oportuno e rápido para aumentarem suas medidas. Cuidam das aparências. Sèzar avisou dos riscos. Desrespeitar os perigos é o modo de vida do Gustavo. Os três começaram a rotina dos treinos aos treze anos. Pesos, medidas, espelhos e dietas bombásticas. O professor desaconselhou. Deveriam esperar outras definições do corpo, como por exemplo, o crescimento. Do contrário, não ficariam do meu tamanho, é lógico, mas iriam perder alguns centímetros na corrida do tamanhão
—        O professor explicou que são muito sérias essas práticas inadequadas. Não precisamos ter pressa. — o Gustavo não queria entender, não queria ouvir. Sèzar sugeriu que votassem. Votaram. Ele perdeu por um voto. Os dois fortões venceram. Dois votos para iniciarem os treinos, imediatamente. Um voto para esperarem. Começaram. E ainda não pararam. Ele nunca começou. A cada vez que iria iniciar os treinos tinha uma crise de asma. Foi fazendo do seu jeito
—        Vou fazer do jeito dá... concordam? — os dois concordaram. Conversou com o professor na escola. Não gostava das aulas, mas gostava do papo. Fez do jeito que o professor o instruiu.
Hoje, ele não foi. Não respondeu ao chamado. A máscara dos músculos e a TOC gremista iriam esperar. Ele precisa da máscara do nebulizador.
Olha para o telefone e lembra os amigos. Sorri.
Anos antes, a intuição da sobrevivência em Sèzar aproximou os seus lamentos respiratórios ao amontoado corpóreo Daniel-Gustavo. Dois gorilas brancos, desde os tempos do colégio. Ídolos do esporte. Bons em tudo. O abismo de Sèzar era o mundo dos triunfos e vitórias dos músculos fortificados, garotas, festas, esportes e o espelho. Media-se e não tinha as aparências do nadador-salvador. Precisava de um exército inventado, se tornar atraente e decorativo para esse mundo imaginário.
Continuava morrendo de medo dos voos noturnos com festas, danças, bebidas, e lógico, definhava quando os objetos disputados eram garotas.
Precisava de um plano.
As garotas iriam esperar.
No fundo da sua escuridão desistente sempre nutriu esperanças com as garotas. Nas disputas solitárias dos cinco dedos contra um, tinha suas preferências fantásticas. Viagens entre linhas retas e curvas, más influências excitantes a quem se entregava. Vitórias breves. Queria mais. Sonhava com mais.
Precisava de um plano.
Uma coisa de cada vez. Primeiro precisava encontrar dois guarda-costas. Os dois gorilas brancos eram perfeitos. Duas montanhas que morriam de medo da matemática, física, química e biologia. Eram ótimos na educação física.
Sèzar nunca gostou de esportes. Nem mesmo quando menino. Ia aos parques infantis com o pai. Ele para ficar atento olhando as outras crianças. Recomendações severas da mãe. O pai para ficar atento olhando as outras mães. Cresceu com a convicção que as disputas de contato físico apenas reforçavam suas fraquezas. E diminuíam suas chances por alguma coisa. Qualquer coisa. Estava encarcerado e precisava de guarda-costas.
As aulas de jogar bola não ajudavam, só faziam o medo aumentar. As aulas da matemática o aproximaram do Daniel, depois foi a vez da física. Quando chegou a vez da química e da biologia, o Gustavo já fazia parte do pequeno grupo de estudos.
E chegou o dia, Sèzar ergueu-se sobre as próprias pernas e pediu para a mamãe sua primeira camisa de jogar bola. As mães sonham com pesadelos, é inevitável
—        Futebol, Sèzar? — descreveu todas as suas angústias, agonias e medos. Quatorze anos de vigílias e cuidados com o filho. Sèzar esperou silencioso o esgotamento daquele modelo de reprovação e contou a verdade pela metade. Meia verdade não chega a ser uma mentira inteira. Talvez uma meia mentira. Uma mentirinha. Temos pessoas em nossas vidas que aparentam não suportar toda à verdade. Sèzar achou melhor assim, e pronto
—        Mãe, estamos fundando a Torcida Organizada Gremista, a TOGremista!
—        O quê? — a primeira vitória, ela não disse o seu tradicional — Não! — pediu para ouvir mais, queria ouvir mais, avaliar melhor a história do filho
—        Mãe... eu e outros meninos da escola... — não podia dizer que os treinava para serem seus guarda-costas — ... estamos organizando a torcida jovem tricolor do colégio. Não serão apenas coisas do futebol, teremos encontros para estudar matemática, física, etc etc etc. É muito importante. — poderia ter acrescentado que apostava nesse projeto como o salvador da sua própria vida. A existência de um Sèzar homem crescido, forte e inventado por ele, não pelo jeito dos outros.
Assim, ele se tornou um vibrante organizador de amigos e amigas. Não precisavam ser grandões e fortões, mas com a paixão e a necessidade de sobreviver. Agora, era um deles. O líder. Com o devido tempo e treino, poderia ser transformado numa máquina de moer carne enquanto melhorava as aptidões da matemática em alguns, e da física em outros. Iriam se ajudar. Surpreender. Esse foi o começo da TOC, Torcida Organizada do Colégio. O Diretor da escola fez os rapazes tirarem o nome gremista, não queria disputas na escola  
—        Tudo bem, rapaziada. — parou para usar a bombinha salvadora — O azul tricolor será nosso reconhecimento. O farol a nos iluminar.
Funcionou todos esses anos.
Sèzar não era mais o garoto franzino. A TOC, o tempo e os amigos o fizeram um homem crescido com cabelos longos. Vermelhos. Gostava de escrever, mas escrever não era real. Então, sempre que o seu Grêmio jogava em Porto Alegre, ele e a TOC, mais velha e pesada que nos tempos de colégio, enfiavam suas camisetas tricolores, esticadas nos braços e peitorais, e iam à Geral.
Gritavam, xingavam e cantavam. Isso era anárquico. Subiam e desciam correndo as arquibancadas, isso era uma avalanche. Algumas vezes, saíram ignorando o resultado do jogo, isso era excitante. Sèzar começou a sentir que a TOC era real, ele não estava mais existindo em uma vida que parecia um acidente. Levava o futebol muito a sério
—        Futebol é uma coisa séria, mãe. Mas torcer é uma festa. — por isso, ficou animado com a ideia do presente para Helga, a camiseta tricolor e o abraço no estádio Olímpico. Não contava com o movimento da amiga. Agora, era o peão nas mãos da rainha.
A batida na porta. Chegou o dia do troco. Nebulizado. Prevenido.
É bom ter amigos que ajudam lomba acima. E ladeira abaixo, também. Caminhar no chão limpo, raso e liso é fácil, tem as suas dificuldades, mas não se compara quando você sobe a lomba das conquistas cobiçadas. Toda ajuda é bem-vinda, principalmente, se ninguém normal acredita em você. Eu quero ser escutado, mas Sèzar não, ele deseja apenas escrever
—        Helga, eu não quero ser lido somente por gente normal, polida, bem educada. E que Deus não me livre dos medíocres e pataqueiros. Você acredita em mim?
—        Não sei. Você parece o herói de si mesmo.
—        É a minha natureza não querer desagradar. Parece que se eu não agradar vou ganhar como castigo a falta de ar.
—        Por isso usa tantas máscaras. Vê se cresce.
São nos momentos em que tudo desaba e a descida se torna íngreme, resvaladiça, que a mão amiga é bem-vinda. Sèzar entendeu, mas sentiu que havia levado um tapa.
A banca ganha e paga.
Chegou o dia da banca pagar.
O ingresso para o grenal no bolso da calça. A barba por fazer, o boné preto com a aba mais larga que pode comprar. A camisa vermelha por cima da camisa preta.
Outra batida.
Lembra que precisa ter mais cuidado com suas brincadeiras e provocações.
Os óculos escuros imensos. A ideia é afundar atrás deles. Ficar imerso.
Abre a porta.
Ela está ali. Linda
—        Sèzar?
Sorri sem desfazer o disfarce. Um sorriso abstêmio. Nervoso
—        Estás pronto, Sèzar?
Novamente, não responde. Sai e fecha a porta
—        Vamos? — convida, finalmente
—        Gostei do boné e da barba. É para sempre?
Guarda a chave no bolso
—        O que é para sempre?
Ele pega Helga pelo braço. Saem para o estádio dos colorados. O Beira-Rio. Vão a pé até o Mercado Público. Ainda triste, com as cores do último incêndio. Em obras. Um lugar de histórias. Ali, no Centro Histórico da cidade pegam o ônibus dos colorados. É sua primeira vez num ônibus só com colorados. Mas parece tudo muito igual. Um exército gritando nomes mitológicos, cantando músicas de guerra. Convocatórias. Para ele é um passeio fúnebre de alguns minutos.
Descem do ônibus e caminham para o estádio. Estão perto. O boné enterrado até as orelhas. Enfiado nos olhos. Afogado na viseira escura e grande. Um véu de camuflagem. Vestia a sua burca
—        Tudo bem, Sèzar?
—        Isso não é real, não está acontecendo.
Ela pega em sua mão, ele está suando
—        Quer desistir? Tudo bem. — não se consegue massacrar até o fim, a menos que o instinto da vingança esteja reunido ao desejo da sobrevivência. Num caso deste, o melhor é não ficar por perto. Helga não quer vingança
—        Quero. Mas não vou desistir. — essa é o macho do pampa gaúcho. Morre, mas não dá um berro. É o seu jeito de ver e morrer. Um jeito egoísta.
Nos arredores do estádio cruzam com a TOC gremista, todos os amigos e amigas caminham agitados. Sem ele, desfalcados do sócio fundador. O seu líder. Sente que foi capturado, mas não pode pedir por socorro. Está amordaçado. Recorda o mesmo pavor do menino franzino e doente. Os passos gaguejam. Helga segura firme em sua mão e o beija.
O primeiro beijo.
Os rapazes passam por eles
—        Vi isso num filme. — ela diz.
Ele pergunta se o beijo foi real ou um disfarce
—        Isso foi uma avalanche.
O futebol nem é tão importante, mas a festa...
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quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Futebol nem é tão importante, mas os Personagens

Ensaio 02AB
baitasar
Helga foi coisa nenhuma desde que nasceu. Pelo menos, foi isso que aprendeu na escola. Era a única negra. E isso não foi pouca coisa. Rompeu o cordão de isolamento dos brancos na escola dos privativos. Entrou onde o povo da estrada das águas não entrava. Mas ela preferia a rua e as suas criaturas.
Conseguiu sobreviver à escola, graças às ruas. Mas só conseguiu isso depois que veio a faculdade, as lutas sociais, as manifestações de rua, o teatro na rua, e claro, com as conferências e palestras com seu analista psicanalista, longas horas de loucura branca no divã. Não queria ser salva de ser negra e moleca das ruas. Voltou para casa sozinha, um pouco espírita, outro tanto mística, histérica, à toa. Até descobrir que o seu desconchego foi decidido ainda na barriga da mãe. Não seria branca ou preta, gremista ou colorada, chimanga ou maragata
—        A culpa é das estrelas?
Sentava no colo da avó e se balançavam. Não seria nem isso nem aquilo, muito antes pelo contrário, seria todos ou ninguém
—        Quantas vezes me senti menino? — brincava de mocinho e bandido com os meninos, mas não era o mocinho ou o bandido. Escolhia ser o juiz para ordenar o enforcamento. Brincava de médica com as meninas, mas não era a doutora ou a paciente, gostava de ser a enfermeira para ajudar a cuidar vidas. Até o dia que a Inês, uma garotinha de seis anos, vomitou em seus pés. Ela estava mais doente que brincando. Neste dia, Helga desistiu de salvar vidas — Quantas vezes me senti menina?
Esqueceu-se de parecer normal. Os medos dormiram. Helga passou a experimentar fogões e carrinhos, panelas e tamborzinhos, bonecas e soldadinhos. O irmão perdeu um exército inteiro de soldadinhos de chumbo do pai. Helga foi acusada e condenada. Os soldadinhos foram do avô. A sentença do pai foi solene
—        Nunca mais pegue meus soldadinhos!
Voltou às saladinhas, sopinhas e bebês. Era só a sua menina que brincava e se divertia, o seu menino não brincava. Ou brincava camuflado de esconde-esconde.
Anos depois, em suas conferências psicanalíticas com aparições telepáticas, confessou para sua menina que gostaria de ter nascido menino e um ano antes do irmão. Isso ficou claro para Helga no dia em que seu irmão quis brincar com suas bonecas — Nascer antes teria feito muita diferença!
O chato do irmão é real. E gremista. Ela decidiu que também teria uma paixão: o vermelho. Aceitou o jogo daquelas forças supremas. Seria o espinho atravessado no pé do guri chato e abelhudo. Ninguém lhe explicou que os irmãos são chatos e abelhudos. Quando a felicidade dos colorados frustrava qualquer contentamento do irmão ela sorria e se deliciava — Adoro!
Enquanto o irmão rezava e fazia promessas pela derrota dos colorados, ela torcia fervorosamente pela infelicidade dos gremistas. Levava um crucifixo pendurado no pescoço, nos dias de jogos mordia e rezava com o a cruz na boca. No início pensou em jogar o seu deus contra o deus do irmão. E que os dois julgassem o caso, lá por cima. O mais forte iria vencer. Depois quando lhe ensinaram que o deus do irmão e o deus que a protegia do irmão era um só Deus. Único. Pai e Filho. Fodeu-se tudo. Não tinha chance. Sentiu-se desamparada. Sem forças para lutar um luta tão desigual. Um menina negra sem um deus só para ela, lutando contra um semideus.
Foi quando descobriu os orixás.
E no candomblé nunca mais foi a mesma. Foi feliz. Não queria o pai triste, mas não suportava os gritos do irmão de felicidade gremista — Odiava! — precisou aprender a distorcer os olhos.
Por essas e outras razões, sempre temos mais motivos e argumentos para odiar se não sabemos desaranhar os pensamentos mais escondidos dos nossos olhos. E ali está ela estendida sobre a cama. A camiseta azul. Gremista. O presente do Sèzar. Helga está sufocada por uma realidade que não é real. Só existe nas aparências. É só uma camiseta azul, mas não é só uma camiseta azul
—        Esse é o problema do mundo das aparências, as sombras não são disfarces nem são sombras, são as luzes. O brilho... o neon.
Quando ela respondeu à professora da primeira série, sobre o que gostaria de mudar no mundo, disse apenas
—        Se eu pudesse mudaria o nome do Brasil para Inter!
E no entanto, a camisa azul continuava estendida sobre a cama
—        É bonita... — sempre lembra que o pai foi gremista. Mas aquele ano fez muita diferença. O ano que não aconteceu antes do irmão. Um ano perdido.
Olha para o relógio. A hora marcada chega ao galope. Avoando como os cabelos avermelhados do Sèzar. Desveste suas roupas e vai para o banho. Gosta de caminhar nua. Goza com sinceridade aquele passeio sem importância até o chuveiro. Sente-se real sem as roupas. Não se distrai com as aparências. É ela que está ali, em carne e ossos. Mais carne do que ossos, bem sabem, mas é isso. Está bem assim.
Gira a torneira.
O primeiro jato a faz estremecer. Está fria. Regula a temperatura. A água morna a relaxa. Sente o perfume da água aliviando as tensões e retirando finas lâminas da sua casca. Gosta de sentir sua pele com as mãos, se perguntassem o nome de uma fruta que lembra como se toca, responderia — Um pêssego... um pêssego aveludado.
Gosta de se visitar.
Fecha os olhos para sentir as mãos se acomodando em suas curvas e desvios. Apertando e sorrindo. Outra vez. Um corpo se hospedando em suas mãos. Ela é duas. O amor e o pecado. Em silêncio. Leva a mão à boca. São doces os gostos e os beijos. Continua a se provocar com diabruras. A água quente. O leite quente. O chuveiro se parece com um casulo. A lagarta e a borboleta. O renascimento. Uma febre intensa. Está pronta.
Falta a camiseta azul.
Sai do chuveiro.
Enxuga-se demoradamente. Desafia o galope veloz do relógio.
Pronto. Está limpa e seca.
Veste a calcinha vermelha. Espia-se no espelho. Sorri.
Enfia-se numa calça jeans. Desbotada. Alguns rasgos. Charme de quem pode escolher andar rasgada, ou não. O charme é a escolha. Despojada das roupas certinhas. Mas precisa ter grife. Pedigree. As meias brancas e o tênis preto. As duas meias-taças vermelhas colocadas no peito. Firmes. Imponentes.
Pronta. Vestida para torcer.
Falta a camiseta azul. Lembra o pai melancólico com sua escolha pelo coloradismo. Sorriu para ele e vestiu a camiseta gremista
—        Nem doeu! — mas não se viu no espelho.
O Sèzar estava parado à porta. As mãos nos bolsos. Os olhos enfiados nela. Sorrindo. A boca abrindo sua alma
—        Estás pronta?
Ela está pronta, sempre está pronta.
Os colorados não se lembraram de abraçar o estádio velho, já vendido. Ou não quiseram. Despedidas doem. Apenas venderam as memórias. Tudo se vende no mundo do futebol. Parece que é assim, agora. É preciso apenas fazer o preço. Faltou acarinhar o velho estádio colorado. Por certo, houve razões. Agora não é mais possível mudarem as aparências desse esquecimento.
Os dois saem abraçados para abraçar o estádio dos gremistas. Mais um velho vendido. Transformado em lojas e bares. Um abraço de despedida e reencontro com as histórias-memórias. Um último abraço no velho pai.
Ele estará lá
—        Eu fui!

Gremistas ou colorados são alguma coisa que existe nas aparências de um desassossego que não enche barrigas, mas desafia os ponteiros do relógio.

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terça-feira, 10 de junho de 2014

A bolsa tiracolo

Ensaio 01AB

baitasar
O amor é difícil de prever. Impossível. Verdades e mentiras no desafio das cabras-cegas à beira do paraíso-abismo. Fantasmas do paraíso em queda-livre misturam-se aos anjos das más influências e as vovós rezam para que fiquem longe dos netinhos, as mamães juram promessas de abstinências ao álcool, para que os fantasmas com seus filhinhos sejam apenas os seus fantasmas da abstinência. Anjos da devassidão. Fantasmas da inocência. 

Prever é difícil. O apegado é danado e desobediente. Encapetado. Não tem lógica. Fantasmas e anjos são lógicos. Seres humanos é que são malucos. Ligam o nada a coisa nenhuma e morrem por isso. Juram-se. Somos uma ponte frágil de cordas. Passamos a existência experimentando de lá e cá. Fazendo filhos. Nunca quis filhos. E de repente, ali estão eles. Todos eles. Não sei de onde surgiram. 

Por quê? Você repete que não teve filhos e que não sabe se vai tê-los. Para que? Talvez para cuidarem da velhice. Isso se não esquecerem a velhice. Por que os ter? Apenas para encher as ruas com mais idiotas? Por certo, nada sei do amor. Nada. 

Deixo a resposta para os amantes.

Nas raras vezes, que tive suas coxas em minhas mãos, comi todo o amendoim. Adoro amendoim torrado. É impossível parar de comer. Bobagem, nada é impossível. Até eu posso ter filhos! Mesmo que amar para mim possa parecer esquisito e absurdo. Gosto das coisas esquisitas e absurdas. Parar de comer amendoim não é algo impossível, um dia eu paro. Nem que seja por esquecimento. Ou nojo de ter a boca marcada de cascas mastigadas. A ponta da unha roída procurando grãos enfiados nos vãos dos dentes. Enquanto avoinha gritava

—      Neinho, escova os dente. Os preto precisa dos dente.

A boca cheia. A fome imaginária. O pecado da gula. Gosto de me drogar com amendoins. A velhice se remedia com o cozinhado antigo. Eu não, empurro tudo com mais cerveja preta. O amendoim é encorpado no gosto, delicado no aroma.

Helga é negra. É bonita. Inteligente. Gosta mais de ouvir do que falar. Quando fala, ela olha nos olhos. Raros. Lindos. Um exército de arrebatamento e promessas. Uma cigana negra. A única que conheci. Toda negra. Culta. Tem a malandragem das ruas, a instrução dos livros e das casas de música dos brancos. Sinfônicas. Gosta do samba. É apaixonada por samba. Usa os brancos e a sinfônica. Completa. Gosta dos livros. Anda nas ruas. Os lugares onde o mundo lhe parece menos imundo são nos livros e no samba. Escuta Beethoven

—      Adoro a Nona Sinfonia... e você, Sèzar?

Sèzar não é negro. Mas é bonito. Não é lindo, essa é sua beleza. Tem uma cabeleira vermelha. Uma grande chama ardente soltando-se. Avoando. Não sabe quem lhe chamou assim, pela primeira vez, mas desde que lembra de escutar o mundo tem o apelido de Foguista. Não gosta de ler. Lê para escrever. Gosta de escrever. Quer escapar das futilidades e utilidades. É difícil, nunca está em paz com suas histórias. Insatisfeito com as palavras que ainda não encontrou.

Uma catadora de histórias. Um escrevinhador de enredos.

Um amor improvável para esses dias de impulsos violentos e sabores com a sutileza dos sacolés.

Ela lê.

Ele escreve.

Eu conto.

Ela é vermelha. Ele azul. Eu sou preto. Um anão preto.

Meus amigos do amor. Espíritos santos da paixão e da aventura. A carne e o desejo canonizados em um só corpo inviolável, perfeito e divino. O santuário da volúpia e da castidade. O começo da história que continua de outras vidas do início sem fim, sem início. Curvas que se aproximam e se afastam. O círculo das partidas e revoltas. Viagens e chegadas. Até o derradeiro suspiro do lápis não é o fim, apenas o enredo tomando fôlego para marcar as folhas brancas e castas do que não está nelas, mas no outro que escreve como o juiz que julga com o que tem por dentro, fantasmas e anjos. Um julgador é a criatura que se finge totalmente surda e cega. Uma esfinge. Um pulha mentiroso. Disfarçado de metáfora da verdade. Da única verdade que não existe, aquela que julga. Nem o papel julga a ponta do lápis.

A ponta do lápis quebrada não é a morte do lápis. Cada vez que a ponta se perde descascamos finas camadas que se enroscam do renascimento do lápis, até sua morte no papel. Deixamos finas lâminas descascadas em camadas que se enroscam em nossas mãos. A morte nas mãos. Um dia o pequeno toco é esquecido no canto dos tocos, os lápis inúteis. Abandonado. Um corpo velho e descamado. Pergunta-se da utilidade do corpo

—      Caminhar. Caminhar.

Helga não concorda. Reclama das bobagens. Pequenas confusões. Pequenos presentes. Perfumes baratos. Cheiros e gostos que jamais se esquecem

—      O corpo é um altar de sacrifícios.

Sèzar apenas sorri. Enche o copo com cerveja preta. Toma um gole e levanta enérgico

—      Já volto. — e sai.

Em outra noite, tempos de antes, bem antes, quis saber se ela estava disposta ao sacrifício. Não estava. Hoje, trouxe um presente estranho para Helga. Ele sabe, se fosse para um amigo não teria nada de estranho. Um presente para o altar de sacrifícios de Helga.

Voltou sem aviso.

Não eram marcados para visitas. Bastava a vontade. O desejo. E pronto. A batida discreta na porta. Outra batida. A espera ansiosa. Um sujeito sensível. Mais duas batidas. Sèzar parado à porta. Um pacote amassado embaixo do braço. Sovado pelo sovaco. As mãos nos bolsos da calça. A boca sorrindo. Repetindo uma, duas mil vezes, a mesma frase — É para você, Helga. — como se fosse necessário treinar a delicadeza. Sabia como seus lábios se abririam e deixariam escapar a alma solene do desejo. Queria mostrar-lhe um Sèzar diferente. Outra batida. Um Sèzar impaciente. Um Sèzar com preferências arbitrárias.

Abre a porta com o sorriso da criança enfeitiçada, tem o frescor da inocência deslumbrada por tudo e por nada. A felicidade descansada do cotidiano. Caminha até Sèzar, sobe na ponta dos pés, lhe dá um beijo na queixada

—      O fugido voltou... espero que com outros olhos. — revirou suas costas e retornou para sua cadeira de balanço, recordação útil que lhe restou da avó.
O rapaz não diz nada. Fica parado na porta. Está enfeitiçado. Olha Helga 
espreguiçando um passo após o outro, o quadril giboso flutuando, a cintura delgada, escavada como em um desenho de violão. O vaivém requebrado até sentar no berço de balanço

—      Não vai entrar? — um desafio ou um convite

—      Vou... claro... vou entrar.

Fechou a porta.

A voz destreinada não sabia o que insinuar. Quem sabe declamar-se em alguma poesia? Mas em qual língua? Ela conhece tantas. E o poeta? Quem Helga não teria lido e não soaria falso na sua boca? Não lembra nenhum. Pensa em dizer uma das suas poesias. Não, ele não é um poeta. Não é nada. Um teimoso, isso sim. Com certeza é um cabeçudo. Um granito. Uma entorse das bobagens da carne viva.

Senta no chão, na frente da garota balançando. O presente escondido dentro do embrulho. O pacote largado em seu colo. Alguns livros deitados no chão, ao lado da balança que embalança para frente e para trás

—      Interrompi suas leituras. — fez uma caricatura da voz, fingia estar envergonhado. Não estava envergonhado de nada, continuava fingindo

—      Não seja bobo, nós mulheres, lemos um livro de cada vez, ao contrário de vocês, não lemos três ou quatro livros. Terminamos uma história para começarmos outra.

Sèzar pega um dos livros no chão

—      E por que tantos livros espalhados no chão?

—      Esperam...

Ler várias histórias é apenas um jogo para confundir a solidão, espantar o bolor

—      De qualquer maneira peço desculpas ao senhor Abelaira, não tive a intenção de roubar a moça de tão ilustre companhia.

—      Mas deveria... — ela dobra as pernas e fica toda recolhida no balanço da avó — E qual a lembrança que fez o moço sair apressado e retornar ainda mais misterioso?
Perguntas diretas deixam Sèzar modelando-se ao som da pergunta

—      A minha urgência? — faz uma pequena pausa, precisa de tempo — Entregar-te este mimo. — largou no chão o livro do escritor português Abelaira. Pegou o embrulho amarrotado e embalsamado na sovaqueira

Helga adora presentes. Gosta de sair como uma caçadora de tesouros. Avencas não gostam de ventos, ela não é uma avenca. Adora surpresas, ser apanhada desprevenida pela delicadeza da lembrança.

Sèzar lhe estende os braços. As mãos oferecem o presente. Ela sai do colo da avó e senta ao lado dele. A avó fica se balançando

—      Abre... — ele pede — Abre...

Ela segura o pacote aquecido pelo abraço de Sèzar

—      O pacote tá quentinho.

Ele repete o pedido. Engole a própria vontade de revelar o que se esconde dentro do embrulho, não consegue disfarçar sua agitação. Ela rasga delicadamente a epiderme de celulose. O pacote é desfeito aos pedaços. O entusiasmo de Helga também

—      O que é isso?

—      Uma camiseta...

—      Do Grêmio? Sèzar... aqui, na aldeia, somos uma coisa ou outra. Estamos contra ou à favor. Maragato ou chimango. É uma coisa ou é outra. Colorados ou gremistas. Vermelho ou azul. Entre colorados e gremistas a rivalidade permite delicadezas, mas nada como vestir as cores de um ou do outro. Seria como pedir ao catalão, ao basco e ao galego para renegarem suas línguas regionais. Ou conseguir que árabes e judeus se entendam sobre Jerusalém e as areias do Oriente Médio. Ou obrigar os chineses saírem do Tibet para o Dalai Lama retornar às suas montanhas. Ou o cinema parar com as continuações do Homem-Aranha, Batman, Super-Homem. Ou mais improvável ainda, que parem de se matarem mundo afora. Ou sei lá, ache você outra comparação, mas gremista não veste a camiseta colorada nem colorado enfia a camiseta gremista. O que eu acho disso? Não escrevo histórias, só as leio.

Sèzar deita de costas, o assoalho frio lhe provoca um pequeno arrepio

—      Às vezes é preciso ousar e mudar a perspectiva, vestir a pele do outro.

—      Obrigada. — fechou o embrulho. Não estava desapontada, estava excitada. Homens são assim mesmo, vez que outra se empenham para incomodar. Gostam de cutucar a fera com vara curta. Depois quando a vara fica mole, choram como criancinhas.

Levantou. A fera queria testar o tamanho da vara.

Sèzar continuava deitado com as mãos sob sua cabeça.

Helga pede que espere.

Ele espera. Não tem o que fazer, precisa esperar.

Ela sai da sala dos livros e das visitas. Sèzar continua com as mãos por baixo da cabeleira vermelha. Não espera muito. Helga já está de volta. Quieta. Perigosamente quieta e silenciosa. Ele no chão. Deitado. Ela desiste de ficar em pé e senta no colo da avó. Balançando. Recostada. Um pequeno embrulho nas mãos e uma bolsa tiracolo. Dessas que ficam melhores penduradas no ombro que carregadas nas mãos. Não existem mulheres sem bolsa nem bolsas sem mulheres. Entrega o pequeno embrulho ao Foguista. O pacotinho se abre nas mãos de Sèzar

—      Uma pastel assado?

—      É... não vai comer? — não foi uma pergunta com espaço para o contraditório. Não está bem certo que deve morder. Olha a moça colorada nos olhos. Morde a isca com uma dentada desconfiada

—      O que é isto? – sua voz sai embolada

—      Um convite. — ou outro jeito confortável para desassossegar o moço gremista. Ela sorri.

É um bilhete. Sèzar pega o bilhete que está entre os dentes. Faz um movimento com a mão estendendo para Helga

—      Leia você mesmo. É seu. — foi a resposta colorada

—      Vale duas entradas para um jogo do Inter... no meio dos vermelhos? Eu sou gremista...

A mocinha colorada encolheu os ombros, aumentou o balanço da avó e fechou os olhos. Continuava sorrindo

—      Sèzar, você precisa ousar. Mudar a perspectiva e colorir a realidade que existe com outras cores.

O gremista em pé. Sério. A sala dos livros sorrindo. O Bolor estremecia sutilmente. Alguns livros não perdem a cara dos seus autores e continuam nos debochando, mesmo depois do tempo ter queimado o cozido

—      Não tenho nada vermelho. — a voz soou destreinada e desconfortável

—      Isso não é problema. — desencilhou a bolsa tiracolo. Abriu o fecho e retirou a camiseta colorada — Agora, já tem.

As cabras-cegas vermelhas e azuis deveriam caber em uma bolsa tiracolo.

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