sexta-feira, 15 de maio de 2015

Obrigado, BB King


Lucille







Lucille

Esse som que você está ouvindo é da minha guitarra
que se chama Lucille, e eu sou muito louco pela Lucille
Lucille me tirou das plantações, Oh você pode dizer,
me trouxe fama
Eu não acho que eu poderia falar o suficiente sobre Lucille
As vezes, quando eu estou triste parece que Lucille tenta me ajudar
chama meu nome

Eu costumava a cantar espiritualmente e achava que isso era
o que eu realmente queria fazer. Mas de um jeito ou de outro
quando eu fui para o exército, eu peguei na Lucille e
comecei a cantar blues

Bem, agora enquanto eu pago meus pecados, talvez você não
saiba o que eu quero dizer quando digo pagando meus pecados, eu quero dizer quando
as coisas estão ruins para mim. Eu sempre posso, eu sempre posso,
você sabe, depender da Lucille

Meio difícil falar pra você, Eu acho que eu vou deixar
Lucille dizer algumas palavras então

Você sabe, eu duvido que você possa sentir como eu me sinto, mas
quando eu penso nas coisas que eu já passei
como, bem por instancia, se eu tivesse uma namorada e
ela abusasse de mim, e eu fosse pra casa à noite, talvez eu
sozinho, bem não talvez, eu sou sozinho, eu pegaria Lucille
e ela traz aqueles sons engraçados que soa bom pra
mim, você sabe. As vezes, eu chego ao lugar once eu
não posso dizer nada

Olhe para fora.

Às vezes eu acho que ela está chorando

Você sabe, se eu pudesse cantar pop tunes como o Frank Sinatra,
ou Sammy Davis Junior, eu não acho que ainda posso
porque Lucille não quer tocar nada alé de
blues. Eu acho que eu, eu acho que eu estou muito feliz sobre
isso. Porque não, ninguém canta pra mim como a Lucille
Cante, Lucille

Bem, eu vou deixar assim. Vá devagar, Lucille. Eu
gosto do jeito que Sammy canta e eu gosto do jeito que Frank
canta, mas eu posso ser um pouco Frank, Sammy, um pouco
Ray Charles, de fato, todas as pessoas com alma
nisso

Um pouco Mahalia Jackson aqui

Mais uma, Lucille!

Vá devagar agora

Você sabe, eu imagino que muitos de vocês querem saber, muitos
de vocês querem saber por que eu chamei minha guitarra Lucille. Lucille
praticamente salvou minha vida duas ou três vezes. Sem
brincadeira, ela realmente salvou

Lembro que uma vez, eu estava num acidente de carro, e
quando o carro parou de rodar, eu cai na
Lucille, ela me segurou, sério, ela me
segurou. Então essa foi a primeira vez que ela me salvou

O jeito, o jeito que eu cheguei ao nome Lucille, eu estava
em Twist, Arkansas, e eu sei que nenhum de vocês nunca ouviu
dessa, ouviu? E uma noite um dos caras começou um
rumor por lá, você sabe, eles começaram a brigar, voce
sabe o que eu quero dizer. E o cara que estava bravo com a
mulher dele, foi quando ela caiu nesse tanque de gas que estava
queimando para aquecer, o gás caiu no chão

E quando o gás se espalhou pelo chão, o prédio
começou a pegar fogo, e quase me queimou tentando salvar
Lucille. Oh eu, eu imagino que você ainda esteja se perguntando por que eu
a chamei de Lucille, a mulher que começou aquela briga naquela
noite se chamava Lucille

E que tem sido Lucille, desde então pra mim. Mais uma
agora Lucille

Soa bastante bom pra mim. Posso tocar mais uma?

Olhe para fora, Lucille.

Soa muito bem. Acho que vou tentar mais uma.
Certo!
Composição: B.B. King






The Thrill Is Gone







Eric Clapton & B.B King






Everyday I Have The Blues






Live in Africa








The Best








quinta-feira, 7 de maio de 2015

Histórias de avoinha: A revanche de siá Casta

Ensaio 49B – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar


O conde num respirô nem piscô pra dá sua replicação de obediência e agradecimento, inté pareceu gostá de fazê gosto, mostrá sua humilde servidão a importância do chamamento, sempre foi do palpite qui tem hora da valentia e otra da covardia, sem teimosia birrenta, Não quero de maneira nenhuma incomodar Vossa Excelência com minha visita de insignificância, a sala continuava escurecendo, cada assopro espantava o iluminamento, parecia qui os ânimo de assoprá as vela num acalmava. O desaluminá ficava maió de tamanho e mistério, mas lá estarei para ouvir seus conselhos, seguir seus passos de sabedoria e justiça, num corô de vergonha e se ficô acerejado num deu pra vê, quase lembrô de perguntá da necessidade de tanto negrume e escondição. Num quis lembrá, tem coisa qui num é bão lembrá.

É certo qui ele num tinha motivo nem atrevimento pra mostrá mais valô qui o governadô da província, bastava o sabô íntimo do convite público recebido e a inveja qui num via, mais sentia, Não se preocupe com as insignificâncias, sinhô Conde. Deixe que eu decida o tamanho da migalhice de cada um. Afinal, o cidadão tem um preço que faz de si e um valor que recebe dos outros, quase sempre a serventia é menor que a proteção, parô a conversa, esperô a colocação do pequeno mirante qui dois preto carregava, numa distância segura, pra tudo qui era lugá de aparição do governadô. Eles num podia se torná um estorvo nem criá uma espera demasiada, atento esperando um aviso, um gesto, um ruído, qualqué coisa. Os dois era entendido de meneio do governadô. Tinha veiz qui eles errava, otras eles salvava. Numa das veiz, eles errô quando o governadô fez o siná da cruz, teve qui repetí o siná de cima do terraço, toda corte precisô fazê. O siô padre qui tava do lado, num pode subí no palco e fez a reza debaixo pra cima. Mais já teve veiz qui o ruído dos vento preso no ventre saiu intempestiva e as ventosidade continuô saindo do mirante. É isso, a gente tá nesse mundo pra errá e acertá. Subiu os dois degrau. De fato, agora já oiava de cima o conde com uma presunção natural, quase involuntária, dessas qui acompanha a fidalguia qui nunca deve explicação, mais tem medo de deixá de sê superiô, credite mifioneto, essa gente qui nunca precisô tê amedrontamento, vive com medo de precisá dá esclarecimento, Vou lhe mostrar uma chibata matadora. Essa acaba com o negro mais desgraçado e desaforado, parô o discurso de novo, baixô a cabeça inté roçá o hálito do vinho no conde, sussurrô aborrecido, já cansado daquele feitio de usá a voz rouca e arrastada do demônio, essa chibata faz gosto de assuntar com o ladrão mais filho-da-puta, seja da cor que tenha.

Vô dizê o qui eu vi, ocê credite se tivé vontade de creditá, o siô conde num caiu das perna medrosa, mole e sem força, ali mesmo, na frente de todos aqueles convidado, assustado como guri cagado, porquanto o espritu do véio Ermo da Hora apareceu atrás do fiô. Agarrô o guri pelas cintura e segurô firme, num deixô ele perdê o respeito, o conde parecia desenho solto no vento. A noite quase terminô ali, ele num conseguia retorná as vista na direção do demônio. Sabia qui tinha o oiá assustado. Sacudiu a cabeça concordando, mais num disse palavra, num quis arriscá, elas ia saí com jeito de vigarice, tremida e espremida. Agarrô com força os dedo na mão, fechô os dedo. Botô toda força qui tinha nos dois punho fechado. Num ia caí em nenhuma armadilha. Ergueu as vista inté oiá na direção do governadô. Só então, o espritu do véio da Hora soltô a cintura do guri e deu dois passo de distância, sorriu com a missão cumprida e foi puxado pelas mão. Num respondeu logo, antes foi inté o fiô e sussurrô um qui otro recado da siá Casta. E desapareceu, de novo. Os aviso da siá Casta encheu as lembrança do conde, Vosmecê não esqueça que vence quem entrar na imaginação do outro, fazendo acreditar que a mentira é verdade, lembre que brincar de esconde-esconde com os olhos vendados é fácil, vosmecê só precisa ficar espionando.

Sinhô Governador, a voz do conde foi mais um suspiro qui uma resposta de concordância, mais, pelo menos, ela já tinha voltado, estou a mercê de Vossa Excelência, e tava mesmo, num era mentira. A siá num parava de avisá, Meu esposo, não seja imprudente. Todo cuidado é pouco com aqueles que fazem você duvidar de si mesmo. Não mostre o fundilho das calças. Cuidado com o costume de sentir grandeza em demasia, quando vosmecê se deparar com autoridade de maior grandeza não vai resistir a tentação de se submeter com mais facilidade que o recomendado.

Esses aconselhamento de siá é bão num tê esquecimento, mifioneto. Tome os cuidado necessário com as medida de grandeza e despojamento, nenhuma coisa nem otra; em demasia, só as prontidão da vida com bondade, num deixe de fazê cafuné com cautela e precisão inté o corpo ficá em chama. Ocê pode obedecê com doçura, mais sem escondê o seu valô, se proteja das depravação afetada dos mandão, eles tem os demônio nas entranha, tudo neles é antinatural, presta atenção qui inté algum banho de lágrima se parece um completo deslumbramento. Espera, um dia a panela destampa e os qui acha qui manda descobre qui é mandado

Lembre-se, meu caro Conde, o acanhado não se enfrenta do mesmo jeito que o inimigo apreciável. Espero o Conde, amanhã?

Era certamente impossível se recusá, mais o conde num se conteve de mostrá o seu lado cívico e bajuladô, Um convite de Vossa Excelência é uma ordem, nem terminô de dizê o qui disse e fez com a boca um abrimento de surpresa: uma luz iluminava a cabeça do mandão. Uma chance em mil do fato acontecê, mais aconteceu. Aquilo lhe obrigô lembrá do falecido pai qui também tinha sido iluminado e esclarecido sobre as coisa qui precisava sê feita na Villa. Uma iluminadura divina, concordô sem discussão. Os dois tinha o mesmo destino

Bobagens, sinhô Conde. Pare de repetir o que lhe ensinaram. Não me olhe assim, como se eu fosse um novelista intriguento, falso e tolo. Não estou lhe ordenando nada, é apenas um convite, continuava sorrindo com o gosto vago de quem pode tudo, uma fidalguia nobre e ardente pra si mesma, ou seja, o conde egoísta é só uma caricatura tolerável, uma forma engraçada; especial, só ele, o governadô. A palavra mais alta só do hôme no mirante, o sinhô Conde já ouviu as histórias do bandeirante Domingos Jorge Velho?

No salão num tinha murmúrio de afetação nem de susto. Nem desrepeito. Os hábito da reunião num tava se criando de novo, já vinha de muito tempo antes. Purgatório e renovação. Paciência e submissão. A presa nas garra do predadô. Um num tinha pressa, sabia qui podia escolhê a hora do banquete, o otro num sabia se já tava em carne viva. Num sabia se a dô qui sentia era da morte ou de sê comido. Entre eles os espritu qui num se solta das riqueza da fortuna: egoísta, cruel e intolerante; os nervo do conde volta ficá forte, solene e rigoroso, Claro, sinhô Governador, já ouvi muitas histórias desse grande homem. Devemos muito do que somos a ele!

O conde sabia qui era o brinquedo daquele salão, num ia fazê murmúrio de susto nem de afetação. Lá tava o sorriso misterioso no mirante com a iluminura divina, pronto pra lhe desafiá ou devorá, Pois consegui a chibata do velho Jorge, um acerto da sorte com a oração e o valor justo. O destino precisa ser ajudado para fazer justiça aos homens do bem. Esse foi um grande homem, um destemido que gostava de caçar os teimosos. Um bravo, sem nenhuma dúvida. Mas um Capitão descuidado que estragou muita mercadoria.

Um desbravador, foi a resposta uivada pelos demônio do salão. Um grito só. Um aviso. Eles tinha fervô e paixão pela memória do sujeito. O hôme pequeno continuava no seu terraço particulá, virô-se pro amontoado de gente boa da Villa, e fez um aceno, inté os assopro nas lanterna parô. Os assopradô teve qui engolí as ventania qui ia fazê. Num se sabe onde foi pará a ventilação qui num foi feita. As coisa qui tinha qui sê feita e num é feita, onde fica? Num se sabe onde fica, um dia mais ou menos elas aparece como mexerico ou um vento melancólico qui nunca teve uso, deselegante, inesperado e enche a parte qui ficô vazia, esperando a vida acontecê

Meus amigos, o tempo irá reservar um lugar de honra para esse grande homem, entre nossos heróis, o governadô parô o discurso e oiô direto nas vista do conde, o bandeirante matadô tava dentro da imaginação daqueles hôme, ele era o intruso, o recém-chegado qui gozava pouco respeito, nossas crianças precisam conhecer suas histórias, elas são a continuação do nosso jeito elevado e discreto de viver, a voz do hôme no platô encheu de gritos o salão, a Irmandade uivava a proclamação

Viva Domingos, o Velho!

Viva!

Outro viva para nossas crianças!

Viva!

É assim qui a fidalguia faz, cria uma roupa qui os preto tem qui usá pra toda vida, se num usá as coisa pode piorá. O siô conde levantô as mão e acompanhô os grito de viva! Aos pouco uma esperança de ódio foi se acendendo, Vosmecê carece beber um bom vinho e tagarelar mais por aqui... junto da nossa má influência, inté os assassino da milícia do véio Jorge deu gargalhada do convite do governadô

Eu aprendo rápido, sinhô Governador, mas foi muita sorte depois de tanto tempo encontrar tal relíquia, o siô conde conhecia as história do bandeirante matadô, num esquece qui na luta do medo contra a esperança vence quem entrá na imaginação do otro, num esquece qui o medo faz tudo pra ocê creditá qui a mentira é verdade. Inté ocê repetí qui num existe a verdade, é tudo mentira. Pensa com avoinha, se tudo é mentira, a mentira também num é verdade, truquice dessa gente, eles qué qui ocê credite na verdade qui eles jura qui é verdade, e qui avoinha amaldiçoa. A verdade dessa gente, é a verdade dos espritu ruim qui vive das trinta moeda da traição do qui é bão, do qui é de todos. Pode creditá qui tem gente assim, qui vive já morta. Esse siô véio Domingos, no seu tempo, montô a própria milícia e ficava com disposição pra atendê a meió oferta. Os branco tinha medo dele. Os índio pavô, degolava os índio. Esses num tinha lucro se prendia, então num prendia. Os preto tinha otro valô, mais o gosto de fazê eles sofrê ganhava do prazê do lucro. O dinhêro num compra tudo. Os preto qui ele num arrebentava era preso. Arrastava aos grunhido, grito e lágrima. Os qui se defendia morria com seus grito alucinado, Esse é o único destino decente para esses negros antinaturais, aqui, nesta colônia portuguesa, negro bom é o negro acorrentado, marcado com a minha chibata, nunca deixô de exigí participação nos saque. Uma milícia de hôme analfabeto e descalço qui meteu medo inté nos fazendêro e usinêro, quase acabô com os índio. E desconjuntô mais preto qui colocô de volta nas mão dos dono, Os amigos nem têm muito do que reclamar, cada negro que volta arrastado ou caminhando impede a fuga de outros dez, no mínimo, ou quem sabe, mais de cem, ele mais valia pros branco pelo terrô qui esparramava nos preto

Essa é de um tempo em que as coisas eram feitas para durarem...


Viva!

Naquele salão cheio de botas e riqueza, vazio de anjos, o conde num precisava se contorcê muito pra elogiá um matadô assanhado. Num tinha ningém, naquele salão, nem ele conhecia gente qui creditava na ingenuidade santa, lugá no céu pros mais sofrido. Sua gente creditá na otra porta, a vida eterna com mais conforto. O deus da Irmandade num se contenta com bagatela nem qualqué bocado repartido, ele é tudo, ele qué tudo, é o deus qui vence o mal, sem lástima, mágoa ou pena. É só frieza e indiferença, o bem é a Irmandade, o mal é os preto
os pobre
as puta, essa escória qui num tem salvação, num tem dente, num tem boniteza, num sabe escrevê nem falá, eles fede. Eles num precisa nem da água pra limpá os pecado, num sabe usá o sabão da vida eterna.

O siô conde oiava o salão desfigurado, ainda num sabia como era o começo de tudo, ele tava ali pra sê iniciado, mais sorriu, naquele salão num tava o fim de tudo. Ele havia de tê o qui siá Casta costurô com todo cuidado, desde a morte do pai, o conde Antão. Tava pronto o indiciamento do conde Afonso da Hora na Irmandade. Ele tava pronto. A siá Casta mesma cobiçô sê da Irmandade, chegô se oferecê pra esse começo solene e reservado, no lugá do pai, mais foi avisada qui na Irmandade num era lugá de muié. Foi rejeitada.

O siô da Hora foi a sua revanche.




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Leia também:


Depois da fama feita, deite na cama
Ensaio 48B – 2ª edição 1ª reimpressão


Histórias de avoinha: O mundo é assim, tem dono
Ensaio 50B – 2ª edição 1ª reimpressão

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Super-Homem, a Canção

Gilberto Gil









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Super-Homem, a Canção

Gilberto Gil


Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver

Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher

Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher


Composição: Gilberto Gil

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Aos mestres com Carinho


Acho que não precisa traduzir




Tenho uma declaração a fazer. É sobre o mestre. Bem, mestre... agradecemos muito tudo o que fez por nós. E gostaríamos que aceitasse uma pequena lembrança.




Memórias do aluno Mia Couto

LITERATURA E POESIA



(Trecho de uma palestra proferida por Mia Couto, intitulada ” Da cegueira colectiva à aprendizagem da insensibilidade”, em Maputo/2012)

Durante anos, fui professor. E quando digo isto há uma emoção fortíssima que me atravessa. Eu não sei se há profissão mais nobre do que a de ensinar. E digo ensinar porque existe uma diferença sensível entre ensinar e dar aulas. O professor no sentido de mestre é aquele que dá lições.

Os professores que mais me marcaram na vida foram os que me ensinaram coisas que estavam bem para além da matéria escolar. Não esqueço nunca um professor da escola primária que um dia leu, comovido, um texto escrito por ele mesmo. Logo na declaração da sua intenção nasceu o primeiro espanto: nós, os alunos, é que fazíamos redações, nós é que as líamos em voz alta para ele nos corrigir. Como é que aquele homem grande se sujeitava àquela inversão de papéis? Como é que aceitava fazer algo que só faz quem ainda está a aprender?

Lembro-me como se fosse hoje: o professor era um homem muito alto e seco e, nesse dia, ele subiu ao estrado da sala segurando, nos dedos trémulos, um caderno escolar. E era como se ele se transfigurasse num menino frágil, em flagrante prestação de provas. Parecia um mastro, solitário e desprotegido. Só a sua alma o podia salvar.

Depois, quando anunciou o título da redação veio a surpresa do tema que parecia quase infantil: o professor iria falar das mãos da sua mãe. Éramos crianças e estranhámos que um adulto (e ainda por cima com o estatuto dele) partilhasse connosco esse tipo de sentimento. Mas o que a seguir escutei foi bem mais do que um espanto: ele falava da sua progenitora como eu podia falar da minha própria mãe. Também eu conhecera essas mesmas mãos marcadas pelo trabalho, enrugadas pela dureza da vida, sem nunca conhecerem o bálsamo de nenhum cosmético. No final, o texto acabava sem nenhum artifício, sem nenhuma construção literária. Simplesmente, terminava assim, e eu cito de cor: “é isto que te quero dizer, mãe, dizer-te que me orgulho tanto das tuas mãos calejadas, dizer-te isso agora que não posso senão lembrar o carinho do teu eterno gesto.”

Havia qualquer coisa de profundamente verdadeiro, qualquer coisa diversa naquele texto que o demarcava dos outros textos do manual escolar. É que não surgia ali, em destacado, uma conclusão moral afixada como uma grande proclamação, uma espécie de bandeira hasteada. Aquele momento não foi uma aula. Foi uma lição que sucedeu do mesmo modo como vivemos as coisas mais profundas: aprendemos, sem saber que estamos aprendendo. Lembro este episódio como uma homenagem a todos os professores, a esses abnegados trabalhadores que todos os dias entregam tanto ao futuro deste país.




Aqueles dias de menina do colegial
de contar histórias
e de morder as unhas se foram








E de novo...


Lulu
To Sir With Love






Escolha o seu jeito de ver






O tempo passa...



Ao Mestre Com Carinho 2
1996

sábado, 2 de maio de 2015

Ocê já... algum desses? Tá esperando o quê?


5 livros para compreender a miséria humana




fevereiro 20, 2015 17:19






Veja também
O ato de colonizar está na mente
Saramago e nossos moinhos de vento
Democracia amputada




Autores como Fiódor Dostoievski, José Saramago, Graciliano Ramos, Victor Hugo e Paulina Chiziane escreveram obras fundamentais para entendermos tragédias que se abateram (e ainda se abatem) sobre a humanidade


Por Marcelo Hailer


A classificação de um produto cultural enquanto “clássico” não se dá à toa. Uma série de fatores estão envolvidos em torno da obra que fazem dela atemporal e fundamental para se compreender eventos, trágicos ou não, que aconteceram durante a história. No momento presente vivemos uma série de acontecimentos que são alvos de inúmeras análises – jornalísticas, sociológicas e históricas – tais como os novos conflitos de guerra, seca no Brasil, grupos políticos da extrema esquerda e direita que disputam a narrativa político-social e, claro, a concentração de riqueza e a miséria inerentes ao sistema capitalista.

Por mais que os temas acima citados sejam contemporâneos, eles são recorrentes na história do mund, seja no Ocidente, na Ásia ou na África. E todos eles já foram fontes de inspiração para obras primas que nos trazem algum entendimento das atitudes dos considerados “humanos” e que, inevitavelmente, levam à tragédia. Para tanto, selecionamos cinco autores e uma obra respectiva que trata de questões presentes no cotidiano, seja ele político, jornalístico ou social.


1 – Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski

Obra fundamental para quem deseja compreender e acompanhar os resultados de quando duas figuras ávidas pelo poder travam uma disputa na qual as pessoas são meramente instrumentos para tal objetivo. De acordo com especialistas na obra de Dostoiévski, Os Demônios é uma das poucas, senão a única obra do escritor russo que teve como ponto de partida uma tragédia real: o assassinato do estudante Ivanov por um grupo de niilistas liderados Nietcháiev, em 1869.

Todo o ambiente político de então é recriado por Doistoiévski de maneira magistral e, a partir dos personagens Kirilov, Chigalióv e Piotr Stiepánovitch, temos a representação do intelectual pessimista e dos fanatismos políticos perpetrados pelos grupos de Chigalióv e Stiepánovitch. Temas como fundamentalismo religioso, fanatismo político e terror se fazem presente nesta obra prima. As análises críticas sobre o humano e a sua busca pelo poder são de uma atualidade perturbadora. Para historiadores, ao construir as personagens de Chigalióv e Stiepánovitch, Dostoiévski foi profético a respeito dos horrores cometidos em nome de Hitler e Stálin.



2 – Os Miseráveis, de Victor Hugo

Esta obra monumental do escritor francês Victor Hugo é fundamental não apenas para se compreender a questão da miséria humana, mas também para quem deseja ter acesso a críticas e percepções do período revolucionário que resultou na fundação do Estado francês. Inúmeras críticas tecidas pelo escritor podem ser muito bem adaptadas e trazidas para o atual contexto político, principalmente quando pensamos na atual fase da Europa e dos novos movimentos revolucionários.

Os Miseráveis não chamou apenas a atenção, à época, por conta de seu teor crítico, mas, principalmente, por ter como protagonistas um presidiário (Jean ValJean), uma prostituta (Fantine) e uma criança explorada por adultos (Cosette). Tal escolha de personagens foi considerado um escândalo, pois, à época, os romances apenas retratavam o cotidiano da realeza e da burguesia.

A partir da narrativa de Jean, Fantine e Cosette, Victor Hugo mergulha na hipocrisia humana e como está dividida entre “ambiciosos” e “invejosos” e que tal divisão é parte da cultura e, portanto, presente desde a educação infantil. Ao mesmo tempo em que o autor desnuda a “sociedade de bem”, ele dá voz aos sujeitos subalternos que passam ao largo da Revolução Francesa.






3 – Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Considerada a obra mais importante do movimento realista da literatura brasileira, Vidas Secasnunca esteve tão atual, principalmente quando pensamos que nos dias atuais o que mudou foi o mapa geográfico da seca retratado na obra. Se antes eram exôdos rurais, hoje o Brasil vive na iminência de um êxodo urbano.

Empurrados pela seca, a família de Sinhá Vitória e Fabiano empenha uma jornada em busca de meios à sobrevivência. Na obra, o que chama atenção é que, a única personagem humanizada e com sentimentos é a cachorra Baleia e também é a única que possui um nome. As outras personagens são referidas pelos cargos que ocupam ou posição genética na família, tais como filho mais novo.

Vidas Secas é um mergulho profundo na miséria humana no que diz respeito a explorar o próximo em situações de calamidade, tal como a seca. O que impressiona é a crítica de Graciliano Ramos: profética e atual.








4 – O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Como será que Jesus Cristo narraria a sua trajetória se lhe fosse dada esta oportunidade? É o que faz o escritor José Saramago em O Evangelho segundo Jesus Cristo, onde o Messias é o narrador de sua própria história na qual mitos bíblicos e crenças religiosas são desconstruídos.

Em tempos onde fundamentalistas religiosos ocupam cargos de poder no Brasil e em outros países, resgatar a obra de Saramago é de fundamental importância, principalmente quando lembramos da memorável cena onde Cristo estabelece um diálogo com o Diabo e Deus e fica sabendo do provável acordo entre as duas imagens referências da religião.

Além de toda a crítica à moral religiosa, principalmente a católica, reler O Evangelho… é de suma importância para compreendermos que, entre laicos e fundamentalistas, o acordo político vem antes.









5 – Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane

Ventos do Apocalipse, ao lado de Neketcha – Uma história de poligamia, é considerada uma das obras mais controversas de Paulina Chiziane, onde a escritora moçambicana pesa a caneta para retratar os horrores da guerra de civil de Moçambique, que aconteceu entre 1977 e 1992 e onde a escritora atuou como voluntária para ajudar os feridos de guerra.

Na obra, Paulina Chiziane está mais interessada em discutir a relação e a destruição entre os irmãos moçambicanos do que as questões políticas. Ativista da revolução que libertou Moçambique da colonização portuguesa, Chiziane sempre declara que, à época, não se conformava que, depois de tanto lutar contra os colonizadores, moçambicanos iniciassem uma guerra contra… moçambicanos.

Com uma narrativa muito particular, Paulina Chiziane retrata os horrores da guerra civil que, segundo a autora, presenciou durante o conflito. Não existe bem ou mal, apenas guerra e miséria.








Ilustração de capa: Emile Bayard (A jovem Cosette)