quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Mocidade e Morte)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MOCIDADE E MORTE 
 
                   E perto avisto o porto
Immenso, nebuloso e sempre noite
            Chamado — Eternidade. — 
                                          LAURINDO. 
 
Laeciate ogni speranza, vol ch'entrate.
                                              DANTE.

           _________________

Oh! eu quero viver, beber perfumes 
 Na flor silvestre, que embalsama os ares; 
 Ver minh'alma adejar pelo infinito, 
 Qual branca vela n'amplidão dos mares. 
 No seio da mulher ha tanto aroma... 
 Nos seus beijos de fogo ha tanta vida... 
 — Árabe errante, vou dormir á tarde 
 A' sombra fresca da palmeira erguida. 

Mas uma voz responde-me sombria: 
 Terás o somno sob a lagea fria. 

Morrer... quando este mundo é um paraiso, 
 E a alma um cysne de douradas plumas: 
 Não! o seio da amante é um lago virgem... 
 Quero boiar á tona das espumas.
 Vem! formosa mulher — camelia pallida, 
 Que banharam de pranto as alvoradas, 
 Minh'alma é a borboleta, que espaneja 
 O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrível, 
 Com gargalhar sarcástico: — impossível!

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. 
 Vejo além um futuro radiante: 
 Avante! — brada-me o talento n'alma 
 E o echo ao longe me repete — avante! — 
 O futuro... o futuro... no seu seio... 
 Entre louros e bênçãos dorme a gloria! 
 Após — um nome do universo n'alma, 
 Um nome escripto no Pantheon da historia. 

E a mesma voz repete funerária: 
 Teu Pantheon — a pedra mortuaria! 

Morrer — é ver extincto dentre as nevoas 
 O phanal, que nos guia na tormenta: 
 Condemnado,— escutar dobres de sino, — 
Voz da morte, que a morte lhe lamenta — 
 Ai! morrer — é trocar astros por cirios, 
 Leito macio por esquife immundo, 
 Trocar os beijos da mulher — no visco 
 Da larva errante no sepulcro fundo. 

Ver tudo findo... só na lousa um nome, 
 Que o viandante a perpassar consome. 

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito 
 Um mal terrível me devora a vida: 
 Triste Ahasverus, que no fim da estrada, 
 Só tem por braços uma cruz erguida. 
 Sou o cypreste, qu'inda mesmo flórido, 
 Sombra de morte no ramal encerra! 
 Vivo — que vaga sobre o chão da morte, 
 Morto — entre os vivos a vagar na terra. 

Do sepulcro escutando triste grito 
 Sempre, sempre bradando-me: maldito! — 

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência, 
 Quando a sede e o desejo em nós palpita... 
 Levei aos lábios o dourado pomo, 
 Mordi no fruto podre do Asphaltita. 
 No triclinio da vida — novo Tantalo — 
 O vinho do viver ante mim passa... 
 Sou dos convivas da legenda Hebraica, 
 O stylete de Deus quebra-me a taça. 

E' que até minha sombra é inexorável, 
 Morrer ! morrer! soluça-me implacável. 

Adeus, pallida amante dos meus sonhos! 
 Adeus, vida! Adeus, gloria! amor! anhelos! 
 Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga 
 Os prantos de meu pae nos teus cabellos. 
 Fora louco esperar! fria rajada 
 Sinto que do viver me extingue a lampa... 
 Resta-me agora por futuro — a terra, 
 Por gloria — nada, por amor — a campa.

Adeus!... arrasta-me uma voz sombria 
 Já me foge a razão na noite fria!... 

1864

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     Espumas Fluctuantes, Edição original: VII. 
     Pbl. em S. Paulo, por volta de 1868-69, s°b o titulo "O Phtysico" (titulo que encontrei no índice das poesias que deviam formar os Dramas d'alma — Poesias de Castro Alves — Bahia — e que depois se chamaram Espumas Fluctuantes, manuscripto do Poeta cm. por D. Adelaide de Castro Alves Guimarães) apenas com uma alteração no texto, na 7* estância, v. 6, que diz: 
"Já da tremula vida extingue a lampa..." 
     Isto consta de um livro manuscripto de poesias de Castro Alves, que colleccionou Joaquim Polycarpo Aranha Júnior, contemporâneo e admirador do Poeta, e que as transcrevia á medida que eram publicadas nos jornaes do tempo, segundo me informa Alberto Faria. Alem desta, ahi se encontram "As três irmãs do Poeta"; "Ode ao 2 de julho"; "Quem dá aos pobres empresta a Deus"; "Gonzaga" (Epílogo de um drama); "A Maciel Pinheiro"; "Um dia Pygmalião o estatuario..." (Ao actor Joaquim Augusto); "Vozes d'Africa"; "Hebréa (a uma judia)"; "Perseverando"; "Pedro Ivo"; "Dalila"; "O laço de fita"; "E tarde"; "Adeus"; "As duas ilhas"; "Bôa-noite"; "Basta de covardia! A hora sôa" (Adeus meu canto); "A Bôa Vista"; "A Bailada do Desesperado"; "Fatalidade", o "Phantasma e a Canção", "O derradeiro amor de Byron"; "Rezas"; "Anceios" (Devaneios, ou ****, ou, definitivamente, "Pensamento de Amor") ; "O Século"; "O Navio Negreiro". A propósito de cada uma indicarei as raras variantes. Esse titulo "O Phtysico", depois felizmente substituído, denuncia, já em 1864, se não a certeza, as apprehensões de Castro Alves, sobre a doença que o ameaçava.
     1) Mordi no fruto podre do Asphaltita (estância 6* v. 4). Nas margens do Lago Asphaltita ou Mar Morto ha duas espécies vegetaes, cujos frutos receberam o nome de pomos de Sodoma: uma asclepiadacea, Calotropis procera, dá frutos amarellos, do tamanho de uma pequena laranja, cheios de uma paina sedosa, que se pode tecer; a outra, solanacea, Solaneum sodomeum, o limão de Lot, dos Árabes, fruto enganador, de conteúdo escuro e granuloso, como areia, acre, como cinza. Talvez seja este o da tradição, que chamou Castro Alves — o fruto podre do Asphaltita.

continua página 64...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte /    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921


3º Ciclo de Conferências - "O adeus de Castro Alves"





A ORGIA DOS DUENDES 
 Bernardo Guimarães 

...

IV 
 Do batuque infernal, que não finda, 
 Turbilhona o fatal rodopio; 
 Mais veloz, mais veloz, mais ainda 
 Ferve a dança como um corrupio.  

Mas eis que no mais quente da festa 
Um rebenque estalando se ouviu, 
Galopando através da floresta 
Magro espectro sinistro surgiu  

Hediondo esqueleto aos arrancos 
Chocalhava nas abas da sela; 
Era a Morte, que vinha de tranco 
Amontada numa égua amarela.  

O terrível rebenque zunindo 
A nojenta canalha enxotava; 
E à esquerda e à direita zurzindo 
Com voz rouca desta arte bradava:  

"Fora, fora! esqueletos poentos, 
Lobisomes, e bruxas mirradas! 
Para a cova esses ossos nojentos! 
Para o inferno essas almas danadas!” 

Um estouro rebenta nas selvas, 
Que recendem com cheiro de enxofre; 
E na terra por baixo das relvas 
Toda a súcia sumiu-se de chofre.  

V 
 E aos primeiros albores do dia 
 Nem ao menos se viam vestígios 
 Da nefanda, asquerosa folia, 
 Dessa noite de horrendos prodígios.  

E nos ramos saltavam as aves 
Gorjeando canoros queixumes, 
E brincavam as auras suaves 
Entre as flores colhendo perfumes.  

E na sombra daquele arvoredo, 
Que inda há pouco viu tantos horrores, 
Passeando sozinha e sem medo 
Linda virgem cismava de amores.



A POLCA 
(A Uma Virgem)
Vitoriano Palhares





O ADEUS DE TERESA
Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
Adeus eu disse-lhe a tremer coa fala...

E ela, corando, murmurou-me: adeus.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
Adeus lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: adeus!

Passaram tempos... séclos de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
. . . Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse -- Voltarei!... descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: adeus!

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz dEla e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! . . . Ela me olhou branca . . . surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: adeus!

São Paulo, 1868

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