quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (IX. Os sensuais)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
IX
OS SENSUAIS
 
     Gregório e Smierdiákov acorriam atrás de Dimítri. No vestíbulo, tinham lutado com ele, para impedi-lo de entrar (de conformidade com as instruções dadas por Fiódor Pávlovitch alguns dias antes).       Aproveitando-se do fato de ter Dimítri Fiódorovitch, ao penetrar na sala, parado um minuto para orientar-se, deu Gregório volta à mesa, fechou os dois batentes da porta do fundo, que dava para os aposentos interiores, e conservou-se diante dessa porta, de braços estendidos em cruz, pronto a defender-lhe a entrada até o derradeiro suspiro. Vendo isso, Dimítri rugiu mais do que gritou e precipitou-se contra Gregório.

— Então ela está aí! Foi lá que a esconderam! Para trás, patife!

     Quis afastar Gregório, mas este o repeliu. Louco de raiva, Dimítri ergueu a mão e golpeou Gregório com toda a sua força. O velho caiu como que ceifado e Dimítri, pulando por cima de seu corpo, forçou a porta. Smierdiákov, pálido e tremendo, ficara na outra extremidade da mesa, apertado contra Fiódor Pávlovitch.  

— Ela está aqui — gritou Dimítri Fiódorovitch. — Acabo de vê-la dirigir-se para esta casa, mas não pude alcançá-la. Onde está ela? Onde está ela?

     Aquele grito de "ela está aqui" causou uma impressão inexplicável em Fiódor Pávlovitch; todo o seu pavor desapareceu.

— Detenham-no, de tenham-no! — guinchou ele, precipitando-se no encalço de Dimítrí.

     Enquanto isso, Gregório havia-se levantado, mas ainda estava zonzo. Ivã Fiódorovitch e Aliócha correram para deter seu pai. No quarto vizinho, ouviu-se o barulho de um objeto que caía e se quebrava. Era um grande vaso de vidro (de pouco valor), sobre um pedestal de mármore em que Dimítri tropeçara ao passar.

— Socorro! — urrou o velho. 

     Ivã e Aliócha alcançaram-no e arrastaram-no à força para a sala de jantar. 

— Por que o persegue? Ele seria capaz de matá-lo! — exclamou com cólera Ivã Fiódorovitch. 
— Vânia, Aliócha! Ela está aqui, Grúchenhka; ele mesmo disse que a viu entrar. 

     Fiódor Pávlovitch perdia o fôlego. Não esperava Grúchenhka naquela ocasião e a notícia imprevista de sua presença perturbava sua razão. Estava todo tremente, como que perdera o espírito. 

— O senhor mesmo viu que ela não veio — gritou Ivã.
— Mas talvez pela outra entrada?
— Está fechada essa entrada, e o senhor tem a chave...

     Dimítri tornou a aparecer na sala de jantar. Naturalmente, havia encontrado aquela entrada fechada e era mesmo Fiódor Pávlovitch que tinha a chave dela em seu bolso. Todas as janelas estavam igualmente fechadas; Grúchenhka não pudera, pois, entrar nem sair por nenhuma via de acesso. 

— Detenham-no! — vociferou Fiódor Pávlovitch, assim que avistou Dimítri. — Roubou dinheiro no meu quarto de dormir! — arrancando-se dos braços de Ivã, lançou-se de novo contra Dimítri. Este ergueu as mãos e, agarrando o velho pelos dois únicos tufos de cabelo que lhe restavam nas têmporas, fê-lo dar uma pirueta e atirou-o violentamente no soalho. Deu- lhe ainda dois ou três golpes com o tacão no rosto, quando ele estava caído. O velho lançou um gemido agudo. Ivã, embora mais fraco que Dimítri, agarrou-o pelo braço e afastou-o do velho. Aliócha, ajudando-o com todas as suas forças, agarrara seu irmão pela frente. 
 
— Louco, tu o mataste! — gritou Ivã.
— Tem o que merece! — exclamou Dimítri, ofegante. — Se não o matei; voltarei. Vocês não o resguardarão.
— Dimítri, fora daqui agora mesmo! — gritou imperiosamente Aliócha.
— Alieksiéi! Só tenho confiança em ti; dize-me se Grúchenhka estava aqui há pouco ou não. Eu mesmo a vi costear a sebe e desaparecer nesta direção. Chamei-a, ela fugiu... 
— Juro-te que ela não estava aqui e que ninguém a esperava!
— Mas eu a vi... portanto ela... Saberei agora mesmo onde ela está... Adeus, Alieksiéi! Nem uma palavra a Esopo a respeito do dinheiro, mas vai imediatamente à casa de Catarina Ivânovna e dize lhe: "Ele me ordenou que a saudasse, precisamente que a saudasse e tornasse a saudar!" Descreve-lhe a cena.

     Enquanto isso, Ivã e Gregório tinham levantado e instalado o velho numa poltrona. Seu rosto estava ensanguentado, mas não perdera os sentidos. Parecia-lhe sempre que Grúchenhka se encontrava em alguma parte da casa. Dimítri lançou-lhe um olhar de ódio ao retirar-se. 

— Não me arrependo de ter derramado teu sangue! — exclamou ele. — Toma cuidado, velho, vigia teu sonho, porque eu também tenho um. Eu mesmo te maldigo e te renego para sempre...

     Lançou-se para fora da sala.

— Ela está aqui, ela está certamente aqui — estertorou o velho com uma voz mal perceptível, fazendo sinal a Smierdiátov. 
— Não, ela não está aqui, velho insensato — gritou com raiva Ivã. — Bem! ei-lo que desmaia! Água, um guardanapo! Apressa-te, Smierdiákov!

     Smierdiákov correu a buscar água. Depois que lhe tiraram a roupa, levaram o velho para o quarto de dormir e deitaram no na cama. Cercaram-lhe a cabeça com um guardanapo molhado. Enfraquecido pelo conhaque, pelas emoções violentas e pelos golpes, fechou ele os olhos e adormeceu assim que pousou a cabeça no travesseiro. 
     Ivã Fiódorovitch e Aliócha voltaram ao salão. Smierdiákov retirou os cacos do vaso partido. Gregório mantinha-se perto da mesa, sombrio, de cabeça baixa.

— Devias também molhar tua cabeça e deitar-te — disse-lhe Aliócha. — Nós cuidaremos dele; meu irmão golpeou-te violentamente a cabeça. 
— Ele o ousou! — proferiu Gregório, com ar sombrio. 
— Ousou também contra seu pai, não somente contra ti! — observou Ivã, com os lábios contraídos. 
— Lavei-o pequenino na gamela e ele ousou! — repetiu Gregório.
— Com os diabos! Se eu não o tivesse retido, tê-lo-ia matado. Pouco faltou a Esopo para morrer — murmurou Ivã a Aliócha.
— Que Deus o preserve! — exclamou Aliócha.
— Por quê? — continuou Ivã, no mesmo tom, com o rosto numa contração de ódio. — Que os répteis se devorem entre si, tal é seu destino!

     Aliócha estremeceu. 

— Bem entendido, não deixarei que se dê um assassinato, como fiz agora. Fica aqui, Aliócha, vou andar no pátio, começo a ter dor de cabeça.

     Aliócha foi para o quarto de dormir e ficou uma hora à cabeceira de seu pai, por trás do biombo. De súbito, o velho abriu os olhos e olhou-o muito tempo em silêncio, esforçando-se visivelmente por coordenar suas lembranças. Uma agitação extraordinária pintou-se em seu rosto. 

— Aliócha — cochichou ele, apreensivo —, onde está Ivã? 
— No pátio; está com dor de cabeça. De guarda a nós. 
— Dá-me o espelhinho que está ali.  

     Aliócha entregou-lhe um espelhinho oval, que se achava sobre a cômoda. O velho mirou-se nele. O nariz estava bastante inchado e, na testa, acima da sobrancelha esquerda, via-se uma equimose roxa.

 — Que diz Ivã? Aliócha, meu querido, meu único filho, tenho medo de Ivã; tenho mais medo dele do que do outro. Só de ti ê que não tenho medo. 
 — Não tenha medo tampouco de Ivã; ele se zanga, mas o defenderá. 
— Aliócha, e o outro? Correu para a casa de Grúchenhka? Meu anjo, dize-me a verdade: estava Grúchenhka ainda há pouco aqui ou não? 
— Ninguém a viu! É uma ilusão, ela não estava ali! 
— Mítia quer casar com ela, sabes? 
— Ela não quererá.
— Ela não quererá, ela não quererá a preço nenhum — exclamou o velho, fremente de alegria, como se nada lhe pudessem dizer de mais agradável no momento.

     No seu entusiasmo, agarrou a mão de Aliócha e a apertou contra seu coração. Lágrimas mesmo brilharam em seus olhos. 

— Toma essa imagem da Virgem de que falei ainda há pouco, leva-a contigo. E permito que voltes ao mosteiro... Estava brincando, não te zangues. A cabeça me dói, Aliócha... tranquiliza-me, sê meu bom anjo, dize a verdade!
— Sempre a mesma ideia, se ela veio ou não — disse tristemente Aliócha. 
— Não, não, acredito em ti. Mas vai à casa de Grúchenhka ou procura vê-la; pergunta-lhe o mais breve possível — penetra seu segredo — quem ela prefere, ele ou eu? Podes ou não? 
— Se a encontrar, perguntar-lhe-ei — murmurou Aliócha, confuso. 
— Não, ela não te dirá — interrompeu o velho —, é uma criança terrível. Começará por beijar-te, dizendo que é a ti que ela quer. É astuta e descarada, não, não podes ir à casa dela. 
— Com efeito, meu pai, não estaria absolutamente bem.
— Aonde te enviava ele, ainda há pouco, quando gritou: "Vai", ao retirar-se? 
 — À casa de Catarina Ivânovna. 
 — Para lhe pedir dinheiro? 
 — Não, para isso não. 
— Ele não tem dinheiro, nem 1 copeque. Escuta, Aliócha, refletirei durante a noite. Vai-te... talvez a encontres. Vem ver-me amanhã de manhã sem falta. Tenho alguma coisa para dizer-te. Virás? 
— Virei. 
 — Terás o ar de vir saber notícias de mim. Não digas a ninguém que te chamei. Nem uma palavra a Ivã.
— Está entendido. 
— Adeus, meu anjo. Tomaste minha defesa, ainda há pouco, não o esquecerei nunca. Dir-te-ei uma palavra amanhã... mas isto exige reflexão. 
— Como se sente agora? 
— Amanhã estarei de pé, completamente restabelecido, de perfeita saúde!... 

     No pátio, Aliócha encontrou Ivã sentado em um banco, perto do portão; anotava qualquer coisa a lápis no seu caderno. Aliócha informou-o de que o velho recuperara os sentidos e deixava que ele passasse a noite no mosteiro.

— Aliócha, sentiria grande prazer em ver-te amanhã de manhã — disse Ivã, num tom amável, de todo inesperado para Aliócha.
— Estarei amanhã em casa das senhoras Khokhlakovi, talvez também em casa de Catarina Ivânovna, se não a encontrar em casa agora. 
— Vais lá mesmo? É para "saudá-la, saudá-la" — pilheriou Ivã. 

     Aliócha perturbou-se.  

— Penso ter compreendido as exclamações de Dimítri e um pouco o que se passou. Ele pediu que fosse vê-la para dizer-lhe que ele... pois bem... numa palavra, para despedir-se. 
— Meu irmão, como terminará esse pesadelo para Dimítri e para nosso pai? — exclamou Aliócha.
— É difícil adivinhá-lo. Talvez dê tudo em nada. Aquela mulher é um monstro. Em todo caso, é preciso que o velho fique em casa e que Dimítri aqui não entre.
— Meu irmão, permite-me ainda uma pergunta. Pode dar-se que cada qual tenha o direito de julgar seus semelhantes e de decidir quem é digno de viver e quem não o é? 
— Que vem fazer aqui a apreciação dos méritos? O coração humano não se baseia sobre os méritos para resolver essa questão, mas sobre outros motivos bem mais naturais. Quanto ao direito, quem, pois, não tem o direito de desejar?  
— Não a morte de outrem. 
— E por que não a morte? De que serve mentir a si mesmo, quando todos vivem assim e sem dúvida não podem viver de outro modo? Pensas no que disse ainda há pouco, que "os dois répteis se devoram um ao outro"? Crês-me capaz, como Dimítri, de derramar o sangue de Esopo, de matá-lo, enfim? 
— Que dizes, Ivã? Jamais me veio tal idéia! E não creio que Dimítri... 
— Obrigado — disse Ivã, sorrindo. — Fica sabendo que o defenderei sempre. Mas, no caso particular, deixo o campo livre a meus desejos. Até amanhã. Não me julgues, não me olhes como a um celerado — acrescentou. 

     Apertaram-se as mãos mais cordialmente do que jamais o fizeram. Aliócha compreendeu que seu irmão se aproximava dele com um certo fim, intencionalmente.

continua na página 206...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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