segunda-feira, 4 de maio de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/IV — Princípio de uma grave doença

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     IV — Princípio de uma grave doença

             No dia seguinte, à hora do costume, o mancebo tirou do armário o seu casaco novo, calças novas, chapéu e botas novas, e depois de vestir esta armadura completa e calçar umas luvas, o que nele era um artigo de luxo raras vezes visto, partiu para o Luxemburgo.
     No caminho encontrou Courfeyrac, e como fez que não o vira, Courfeyrac, quando se recolheu a casa, disse aos seus amigos: 

— Encontrei agora o chapéu e o casaco novo de Mário, levando-o a ele dentro. Sem dúvida ia fazer algum exame porque levava mesmo cara de parvo!

     Chegando ao Luxemburgo, Mário deu uma volta em redor do lago, pôs-se a observar os cisnes e depois ficou em demorada contemplação diante de uma estátua que tinha a cabeça coberta de musgo e um quadril decepado. Ao pé do lago estava um barrigudo burguês de quarenta anos, dizendo para um rapazinho de cinco anos, que trazia pela mão: 

— Foge dos excessos, meu filho; conserva-te a igual distância do despotismo e da anarquia.

     Mário aplicou o ouvido ao que o burguês dizia, em seguida deu outra volta em redor do lago e por fim dirigiu-se para a «sua álea», porém, lentamente e como que a custo. Dir-se-ia que uma força oculta o impelia e ao mesmo tempo o retinha. Ele, porém, de nada disto tinha consciência e julgava fazer o que fazia todos os dias.
     Desembocando na álea, avistou no extremo oposto e «no seu banco», o senhor Leblanc e a jovem, abotoou a casaca, puxou-a por todos os lados para que não fizesse rugas, examinou com certa complacência os lustrosos reflexos das calças e dirigiu-se para o banco. O seu andar era como o do soldado que se dispõe para o ataque, pelo menos caminhava com certo ar de conquista. Eu digo que ele se dirigiu para o banco como se dissesse que Aníbal marchou sobre Roma.
     No fim de contas, os seus movimentos eram todos maquinais: não interrompera de modo algum as habituais preocupações do seu espírito e dos seus trabalhos. Naquele momento pensava em que o Manual do Bacharelado era um livro estúpido, e que forçosamente fora redigido por verdadeiros e raros cretinos, para que ali se analisassem como obras-primas três tragédias de Racine e apenas uma comédia de Molière. Sentia nos ouvidos uma espécie de agudo assobio. Aproximando-se do banco, desfazia com a mão as rugas do fato e não afastava os olhos da jovem. Parecia-lhe vê-la preencher toda a extremidade da álea com vago clarão azulado.
     À medida que se aproximava, demorava cada vez mais o passo. Chegando a certa distância do banco, muito antes do fim da álea, parou, e não pôde saber como foi que voltou para trás. Nem sequer chegou a dizer a si mesmo que não ia até ao fim. A jovem mal o teria podido avistar de longe e ver a bela presença que lhe dava o seu fato novo. Entretanto, ele conservava-se muito direito, para apresentar bom aspecto, na suposição de que fosse notado por alguém que se lhe achasse pela parte de trás.
     Chegou afinal ao extremo oposto, depois voltou, mas então aproximou-se um pouco mais do banco. Chegou mesmo até à distância de três intervalos de árvores; mas ali sentiu não sei que impossibilidade de continuar a adiantar-se e hesitou. Julgara ter visto o rosto da jovem voltar-se para ele. Todavia fez um esforço viril e violento para suplantar a hesitação e continuou a avançar. Ao cabo de poucos segundos passava pela frente do banco, direito e firme, vermelho até às orelhas, sem olhar para a direita nem para a esquerda, e com a mão metida na abotoadura do casaco, como qualquer estadista. No momento em que passava sob a artilharia da praça sentiu palpitar o coração de um modo medonho. Como na véspera, a jovem tinha o seu vestido de damasco e o seu chapéu de tule. Mário ouviu uma voz inefável, que devia ser a «sua voz». Conversava tranquilamente. Era muito linda. Mário conhecia-a, apesar de não intentar vê-la. Ela, contudo, pensava o mancebo, não poderia deixar de ter esma e consideração por mim, se soubesse ser eu o verdadeiro autor da dissertação sobre Marcos Obregon de la Ronda, que Francisco de Neufchâteau pôs, como sendo sua, na frente da sua edição de Gil Braz
     Mário ultrapassou o banco, foi até à extremidade da álea, que ficava muito próxima, e voltou de novo, para passar ainda pela frente da jovem. Desta vez estava em extremo pálido. Mas afinal não experimentava senão uma sensação muito desagradável. Afastou-se do banco e da jovem; e mesmo voltando as costas, imaginava que ela o observava, e isto fazia-o tropeçar. 
     Não intentou mais aproximar-se do banco; parou no meio da álea e ali, coisa que nunca fizera, sentou-se, olhando de revés, e pensando, nas profundidades menos distintas do seu espírito, que no fim de tudo era difícil que as jovens de quem ele admirava o chapéu branco e o vestido preto, fossem absolutamente insensíveis às suas calças lustrosas e ao seu casaco novo.
     Passado um quarto de hora levantou-se, como se fosse recomeçar o passeio para o lado do banco, que parecia rodeado por uma auréola. Contudo ficou de pé e imóvel. Pela primeira vez, ao cabo de quinze meses, disse consigo que o sujeito que ali ia sentar-se todos os dias com a jovem, tinha já, decerto, reparado nele e provavelmente achado estranha a sua assiduidade.
     Pela primeira vez também achou que era de pouca reverência designar o desconhecido, mesmo no segredo do seu pensamento, pela alcunha de senhor Leblanc.
     Conservou-se assim por alguns instantes cabisbaixo, e fazendo desenhos na areia com uma varinha que tinha na mão.
     Depois voltou de repente pelo lado oposto ao banco, onde estavam o senhor Leblanc e a filha e regressou a casa.
     Naquele dia esqueceu-se de jantar. Só às oito horas da noite deu pelo esquecimento; e como era demasiadamente tarde para ir à rua de S. Jacques, disse para consigo: «Ora adeus!» E comeu um pedaço de pão.
     Não se deitou porém senão depois de ter escovado e dobrado o casaco com todo o cuidado.

continua na página 531...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - III — Efeitos da Primavera
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - IV — Princípio de uma grave doença
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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