segunda-feira, 4 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (III)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

III


     Desde o raiar do dia que um frêmito tinha agitado os conjuntos habitacionais mineiros, o frêmito que nesse momento se espalhava pelos caminhos, por toda a região. No entanto, a marcha combinada não pudera ser realizada em razão de uma notícia que corria de boca em boca: a tropa a cavalo e os policiais vasculhavam a planície. Contava-se que eles tinham chegado de Douai durante a noite, acusava-se Rasseneur de ter vendido os camaradas, prevenindo o Sr. Hennebeau. Uma operadora de vagonetes chegava a jurar que vira o criado levando o telegrama para ser expedido. Os mineiros cerravam os punhos, espreitando os soldados por trás das suas persianas, à tímida luz da madrugada.
     Por volta das sete e meia, com o nascer do sol, circulou outro boato que acalmou os impacientes. Era um rebate falso, um simples desfile militar, coisa que vinha acontecendo desde o começo da greve, por ordem do general e a pedido do prefeito de Lille. Os grevistas odiavam esta autoridade, a quem acusavam de tê-los enganado com a promessa de uma intervenção conciliadora e que se limitava a fazer que a tropa desfilasse por Montsou de oito em oito dias, para mantê-los na linha. Assim, ao verem a cavalaria e os policiais retomarem tranquilamente o caminho de Marchiennes, depois de haver ensurdecido os conjuntos habitacionais com os cascos dos seus cavalos sobre a terra batida, os mineiros zombaram de um prefeito tão ingênuo, com seus soldados que davam as costas no momento exato em que coisas iam pegar fogo. Até as nove horas mantiveram-se calmos, pacatamente diante das casas, enquanto seguiam com os olhos, estrada afora, as costas pacíficas dos últimos policiais. No fundo dos seus grandes leitos, os burgueses de Montsou ainda dormiam a sono solto. Na direção, acabavam de ver a Sra. Hennebeau partir de carruagem, deixando sem dúvida o Sr. Hennebeau trabalhando, já que o palacete, fechado e mudo, parecia deserto. Nenhuma mina estava guardada militarmente, era a imprevidência fatal na hora do perigo, o erro natural das catástrofes, tudo o que um governo pode cometer de faltas, quando o essencial era prever qualquer eventualidade. Davam as nove quando os mineiros se puseram finalmente a caminho de Vandame, para a ação decidida de véspera na floresta. 
     Etienne compreendeu desde logo que não poderia contar, na Jean Bart, com os três mil camaradas que tinham prometido ir. Muitos julgavam que a manifestação fora adiada, e o pior era que dois ou três grupos, já a caminho, iam comprometer a causa se ele não se pusesse, de qualquer maneira, à sua frente. Uns cem homens haviam partido antes do amanhecer e na certa tinham-se escondido sob as faias da floresta, à espera dos outros. Suvarin, que o rapaz fora consultar, deu de ombros: dez latagões bem dispostos fariam melhor trabalho que uma corja inteira. E tornou a mergulhar na leitura de um livro aberto à sua frente, recusando tomar parte na manifestação. Aquilo ameaçava transformar-se outra vez em sentimentalismo, quando bastaria incendiar Montsou, o que era bem simples. Ao sair pelo lado da casa, Etienne percebeu Rasseneur muito pálido, sentado defronte do fogão de ferro fundido, enquanto sua mulher, enorme na sua eterna roupa negra, o invectivava com palavras cortantes mas polidas.
     Maheu foi de opinião que se devia manter a palavra empenhada. Um compromisso desse era sagrado. No entanto, a noite arrefecera os ânimos e ele, agora, temia uma desgraça e explicava que o dever deles era irem para lá a fim de manter os companheiros na ordem. A mulher aprovou com a cabeça. Etienne contemporizava, repetindo que era preciso agir revolucionariamente, mas sem atentar contra a vida das pessoas. Antes de partir, rejeitou a sua parte de um pão que lhe tinham dado de véspera com uma garrafa de genebra, mas bebeu de um só gole três copinhos, para combater o frio. E levou consigo um cantil cheio dela. Alzire cuidaria das crianças. O velho Boa-Morte, com as pernas doloridas da caminhada da véspera ficara de cama.
     Por prudência, não foram juntos. Jeanlin já desaparecera havia muito tempo. Marido e mulher seguiram lado a lado, atalhando por Montsou, enquanto Etienne se dirigiu para a floresta, onde queria encontrar se com os companheiros. No caminho encontrou um bando de mulheres, entre as quais reconheceu a Queimada e a mulher de Levaque. Enquanto caminhavam, comiam castanhas que a filha de Mouque trouxera, e até as cascas devoravam, para permanecerem mais tempo de barriga cheia.
     Na floresta ele não encontrou ninguém, todos já tinham partido para a Jean-Bart. Então saiu desabalado e chegou diante da mina no momento em que Levaque e uma centena de outros penetravam no pátio. Os mineiros surgiam de todas as partes, os Maheu pela estrada real, as mulheres do meio dos campos, todos dispersos, sem líderes, sem armas, correndo naturalmente para ali como água que transborda e segue os declives. Etienne percebeu Jeanlin instalado sobre um passadiço, como se fosse a um espetáculo. Correu com todas as suas forças e entrou com os primeiros. Não eram mais que trezentos.
     Houve um momento de hesitação quando Deneulin surgiu no alto da escada que conduzia à recebedoria. 

— Que é que vocês querem? — perguntou ele com voz forte. Após ter visto desaparecer a caleça, de onde as filhas lhe sorriam ainda, voltara à mina, cheio de uma vaga apreensão. Mas tudo estava em ordem, os operários tinham descido, a extração funcionava, o que o deixou novamente tranquilo. Conversava com o capataz quando lhe disseram que os grevistas se aproximavam. Dirigiu-se correndo para uma janela da triagem, e, diante daquela onda enorme que invadia o pátio, teve a consciência imediata da sua impotência. Como defender aquelas edificações abertas de todos os lados? Apenas poderia reunir em torno de si uns vinte dos seus operários. Estava perdido. 
— Que é que vocês querem? — repetiu ele, lívido de cólera, fazendo um esforço para aceitar corajosamente sua derrota.

     Houve empurrões e grunhidos na multidão. Etienne avançou e disse: 

— Não viemos aqui para fazer-lhe mal, mas o trabalho tem que parar em toda a região.

     Deneulin não se conteve e chamou-o de imbecil. 

— Então acreditam que me estão fazendo bem parando o trabalho minha mina? É como se me disparassem um tiro pelas costas, à queima roupa. Pois saibam que meus homens estão trabalhando e não subirão, a não ser que vocês me assassinem primeiro!

     Estas palavras violentas levantaram um clamor. Maheu teve de segurar Levaque, que se atirava, ameaçador. Etienne continuou a parlamentar, procurando convencer Deneulin da legitimidade de sua ação revolucionária. Este, no entanto, respondia-lhe com o direito de trabalhar. Aliás, recusava discutir semelhantes tolices; em sua casa era ele quem mandava. Só lastimava não ter ali quatro policiais para varrer aquela canalha. 

— Perfeitamente, é minha culpa, mereço o que me está acontecendo. Com gente como vocês, só a força. Não sei como é que o governo pensa que pode comprá-los com concessões. Vocês o que farão é pô-lo abaixo com as armas que ele lhes fornecer.

     Etienne, furioso, ainda podia conter-se. Baixou a voz: 

— Peço-lhe, meu senhor, dê ordem para que subam os mineiros. Daqui por diante não respondo mais. pela conduta dos meus companheiros. O senhor pode evitar uma desgraça. 
— Não! Vão para o inferno! Eu o conheço? Você não trabalha para mim, portanto não tem nada para discutir comigo. Só os salteadores é que percorrem assim os campos para pilhar as casas.

     Vociferações cobriram sua voz; as mulheres, sobretudo, insultavam no. Ele continuou a desafiá-los, sentindo um alívio naquela franqueza que desafogava seu coração autoritário. Já que, de qualquer jeito, a ruína era certa, achava uma covardia as concessões inúteis. Mas o número de revoltosos ia aumentando sempre, cerca de quinhentos já se atiravam para a porta e ele ia ser destroçado se o seu capataz não o tivesse puxado violentamente para trás. 

— Por favor, Sr. Deneulin!... Isto vai ser uma carnificina. De que serve fazer matar homens inutilmente?

     Ele debateu-se e protestou com um último grito atirado à turba: 

— Súcia de bandidos! Vocês pagarão por isso quando nós voltarmos a ser os mais fortes!

     Levaram-no. Um último ímpeto acabava de levar os que estavam na frente da multidão para o início da escada, cujo corrimão foi torcido. Eram as mulheres que empurravam, uivando, excitando os homens. A porta cedeu em seguida, era uma porta sem fechadura, cerrada apenas com ferrolho. A escada, porém, era muito estreita e a multidão, esmagada, não teria conseguido entrar se a retaguarda dos assaltantes não tivesse resolvido passar pelas outras aberturas. Desse momento em diante, a turba tomou conta de tudo, invadindo o vestiário, a triagem e a casa das caldeiras. Em menos de cinco minutos a mina inteira pertencia aos grevistas, que percorreram os três andares em meio a um furor de gestos e gritos, levando tudo pela frente no entusiasmo da sua vitória sobre o patrão que resistia. Maheu, assustado, fora dos primeiros a arremeter, dizendo a Etienne: 

— Cuidado! Não devem matá-lo!

     Este já corria, mas, quando viu que Deneulin se tinha barricado na sala dos contramestres, respondeu: 

— E daí? Seria por acaso culpa nossa? Um louco desses... Contudo, ele estava cheio de inquietação, ainda bastante calmo para ceder a um gesto de cólera. Sofria também no seu orgulho de chefe, vendo que a turba escapava à sua autoridade, extravasando para fora da fria execução da vontade do povo, que era o que tinha planejado. Em vão pediu que se mantivessem calmos, gritou que não deviam dar razões ao inimigo, com atos de destruição inútil. 
— Às caldeiras — berrava a Queimada. — Apaguemos as fornalhas!

     Levaque, que encontrara uma lima, agitava-a como um punhal, dominava o tumulto com um grito terrível: 

— Cortemos os cabos! Cortemos os cabos!

     Em breve todos o seguiam. Apenas Etienne e Maheu continuavam a protestar, aturdidos, falando inutilmente no meio da gritaria. Por fim, o primeiro conseguiu fazer-se ouvir: 

— Mas há gente lá no fundo, companheiros!

     O alarido redobrou, todos falavam ao mesmo tempo. 

— Pior para eles, não tinham que descer! Vai ser uma lição para esses traidores! Isso mesmo! Isso mesmo! Que fiquem por lá! E, depois, existem as escadas!...

     Quando a e das escadas os tornou ainda mais decididos, Etienne compreendeu que devia ceder. Temendo um desastre ainda maior, precipitou-se para a máquina, querendo ao menos subir os elevadores, para que os cabos, serrados por cima do poço, não os esmagassem com seu peso enorme ao caírem sobre eles. O mecânico tinha desaparecido com os outros trabalhadores da superfície. Segurou a barra de direção e começou a manobrar, enquanto Levaque e outros dois subiam no vigamento de ferro que sustinha as roldanas.
     Etienne acabava de fixar os elevadores nos ferrolhos de segurança quando se ouviu o ranger da lima cortando o aço. Fez-se um grande silêncio, esse ruído pareceu encher toda a mina, a turba ergueu a cabeça e escutou, presa de emoção. Maheu, na primeira fila, sentia-se invadir por uma alegria feroz, como se os dentes da lima os fossem livrar da desgraça, roendo o cabo de um desses buracos cheios de miséria, no qual nunca mais se desceria.
     A Queimada tinha desaparecido pela escada do vestiário, gritando sempre: 

— Apaguemos o fogo! Às caldeiras! Às caldeiras!

     Algumas mulheres a seguiram. A de Maheu foi a primeira, para impedir que quebrassem tudo, da mesma forma que seu marido tinha tentado argumentar com os companheiros. Ela era a mais calma: podiam-se exigir seus direitos, mas sem fazer estragos no que era dos outros. Quando entrou na casa das caldeiras, as mulheres já estavam expulsando os dois foguistas, e a Queimada, empunhando uma grande pá, acocorava-se diante das fornalhas e as esvaziava violentamente, jogando o carvão incandescente sobre o chão de tijolos, onde ele continuava a arder, soltando uma fumaça negra. Havia dez fornalhas para os cinco geradores. Em breve, as outras seguiam o exemplo da Queimada; a mulher de Levaque manobrando sua pá com ambas as mãos e a filha de Mouque arregaçando as saias até as coxas para não se incendiar, todas elas como que cobertas de sangue por causa dos reflexos do fogo, suadas e desgrenhadas em torno daquela cozinha de bruxas. Os montes de hulha cresciam, o calor ardente crestava a enorme peça. 

— Chega! — gritou a mulher de Maheu. — Esta joça já está pegando fogo! 
— Melhor! — respondeu a Queimada. — Vai ser um trabalho completo... Eu tinha jurado que havia de fazê-los pagar pela morte do meu homem!

     Nesse momento ouviu-se a voz esganiçada de Jeanlin: 

— Atenção! Eu vou apagar isso! Vou soltar tudo!

     Fora um dos primeiros a entrar, imiscuindo-se na a turba, encantado com a balbúrdia, procurando coisas para destruir. Teve então a ideia de abrir as torneiras de descarga, para soltar o vapor. Os jatos partiram com a violência de tiros, as cinco caldeiras esvaziaram-se com um sopro de tempestade, assobiando com tal estrondo que os ouvidos sangraram. Tudo desapareceu no meio do vapor, o carvão ficou branco, as mulheres eram apenas sombras de gestos imprecisos. Só o menino permanecia visível, subindo na galeria, por trás dos turbilhões de fumaça branca, encantado, rindo alegremente por ter desencadeado aquele furacão.
     Isso durou cerca de quinze mi     Quando Etienne foi prevenido do que se tramava, veio correndo em companhia de Maheu. Ele mesmo estava ficando possuído, arrebatado por essa febre ardente de vingança. Mas nem por isso deixava de lutar, conjurando os companheiros a manterem-se calmos, agora que os cabos estavam cortados, as fornalhas apagadas e as caldeiras vazias, o que tornava o trabalho impossível. Mas continuavam não o escutando, sua liderança ia ser novamente contestada, quando se ouviu uma enorme vaia do lado de fora, dirigida para uma portinhola onde desembocava o fosso das escadas. 

— Abaixo os traidores! Sujos! Covardes! Abaixo! Abaixo! Era a saída dos operários do fundo da mina que começava. Os primeiros, ofuscados pela luminosidade, não sabiam o que fazer, pestanejando. Depois davam alguns passos, tentando atingir a estrada e fugir. 
— Abaixo os covardes! Abaixo os falsos irmãos!

     Todo o bando de grevistas acorrera. Em menos de três minutos não havia um só homem nas edificações; os quinhentos de Montsou formaram duas fileiras, para obrigar a passarem entre elas aqueles de Vandame, que tinham feito a traição de descer. E a cada novo mineiro que aparecia na porta do fosso, com as roupas em farrapos e a lama negra do trabalho, as vaias recrudesciam, ditos ferozes os recebiam: "Olha esse aí, tem três polegadas de pernas e um cu enorme! E aquele lá, com o nariz roído pelas putas do Volcan! E este outro, mija tanta remela pelos olhos que com ela se poderiam fazer velas para dez catedrais! E este um grandalhão sem bunda, comprido como a fome!" Uma operadora de vagonetes que surgiu tropeçando, enorme, com os seios na barriga e a barriga no traseiro, provocou uma tempestade de gargalhadas. Quiseram apalpá-la, os motejos eram cada vez mais fortes, estavam ficando cruéis, os tabefes iam começar. O desfile dos pobres-diabos continuava, todos tiritantes silenciosos às injúrias, esperando os murros como animais acuados felizes quando podiam enfim correr para fora da mina. 

— Diabo! Afinal, quantos estão lá dentro? — perguntou Etienne.

     Espantava-se de ver tanta gente saindo, irritava-se de constatar que não se tratava de meia dúzia de operários, pressionados pela fome intimidados pelos contramestres. Fora então enganado na floresta? A Jean Bart, quase em peso, descera. Soltou uma exclamação e precipitou-se, percebendo Chaval no umbral. 

— Canalha! Foi para isso que nos fizeste vir?

     Imprecações explodiram, houve um arranco em direção ao traidor. E então? Na véspera tinha feito o juramento com eles e agora era encontrado trabalhando, em companhia dos outros? Estava debochando deles? 

— Agarrem-no! Ao poço! Ao poço!

     Chaval, lívido de medo, gaguejava, procurava explicar-se, mas Etienne cortava-lhe a palavra, fora de si, possuído pela fúria da turba. 

— Escolheste ser dos nossos, e serás. Vamos! em marcha, tratante.

     Outro clamor cobriu sua voz. Catherine, por sua vez, aparecia, ofuscada pelo sol claro, temendo por sua sorte no meio daqueles selvagens. E, com as pernas arrebentadas pelos cento e dois lances de escada, as palmas das mãos sangrando, ofegava, quando a mãe, ao vê-la, atirou-se sobre ela com a mão levantada. 

— Cadela, tu também! Enquanto tua mãe morre de fome, tu a trais por esse cafajeste!

     Maheu reteve-lhe o braço, impedindo a bofetada. Mas sacudiu a filha, enfurecido como a mulher, censurando a sua conduta, ambos fora de si, gritando mais alto que os outros.
     Ao ver Catherine, Etienne ficou ainda mais exasperado. Repetiu: 

— A caminho! Para as outras minas! E tu vens conosco, velhaco! Chaval mal teve tempo de apanhar os tamancos no vestiário e de jogar o suéter sobre os ombros enregelados. Todos o arrastavam, forçando-o a correr no meio deles. Tonta, Catherine enfiava igualmente os tamancos, abotoava no pescoço a velha jaqueta de homem com que se abrigava desde o começo do frio. E saiu correndo atrás do amante, não queria deixá-lo um só instante, porque certamente iam massacrá-lo.

     Então, em dois minutos, a Jean-Bart esvaziou-se. Jeanlin, que encontrara uma cometa, soprava-a emitindo sons roucos, como se estivesse reunindo gado. As mulheres — a de Levaque, a Queimada a filha de Mouque — arregaçavam as saias para correr, enquanto Levaque, empunhando um machado, esgrimia-o como um bastão de tambor-mor. A turba engrossava com novos companheiros que continuavam a chegar, eram já quase mil, sem ordem, esparramando-se pela estrada em aluvião. Como o portão de saída era muito estreito, botaram abaixo a cerca. 

— Às minas! Abaixo os traidores! Nada de trabalho!

     E, de repente, a Jean-Bart caiu num grande silêncio. A mina estava deserta, não se ouvia uma respiração sequer. Deneulin saiu da sala dos contramestres e, sozinho, proibindo com um gesto que o seguissem, percorreu as instalações. Estava pálido, muito calmo. Primeiro, parou diante do poço, levantou os olhos, examinou os cabos cortados: as pontas de aço pendiam inúteis, os dentes da lima tinham deixado uma ferida viva, uma chaga fresca que reluzia no negro da graxa. Em seguida foi até a máquina, contemplou a biela imóvel, semelhante à articulação de um membro colossal atingido pela paralisia; tocou o metal já frio e sentiu um estremecimento como se estivesse tocando num cadáver. Depois desceu até as caldeiras; caminhando lentamente diante das fornalhas apagadas. abertas e inundadas, bateu com o pé nos geradores, que emitiram um som cavo. E agora? Estava tudo terminado, sua ruína concluíra-se. Mesmo que consertasse os cabos, que reacendesse as fornalhas, onde encontraria operários? Mais quinze dias de greve e estaria falido. E nessa certeza da sua bancarrota não mais conseguia odiar os bandidos de Montsou: via nisso a cumplicidade de todos, a culpa geral, secular. Brutos, sim; mas brutos que não sabiam ler e morriam de fome.

continua na página 254...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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