Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Quinta Parte
III
Desde o raiar do dia que um frêmito tinha agitado os conjuntos
habitacionais mineiros, o frêmito que nesse momento se espalhava pelos
caminhos, por toda a região. No entanto, a marcha combinada não pudera
ser realizada em razão de uma notícia que corria de boca em boca: a tropa a
cavalo e os policiais vasculhavam a planície. Contava-se que eles tinham
chegado de Douai durante a noite, acusava-se Rasseneur de ter vendido os
camaradas, prevenindo o Sr. Hennebeau. Uma operadora de vagonetes
chegava a jurar que vira o criado levando o telegrama para ser expedido. Os
mineiros cerravam os punhos, espreitando os soldados por trás das suas
persianas, à tímida luz da madrugada.
Por volta das sete e meia, com o nascer do sol, circulou outro boato
que acalmou os impacientes. Era um rebate falso, um simples desfile
militar, coisa que vinha acontecendo desde o começo da greve, por ordem
do general e a pedido do prefeito de Lille. Os grevistas odiavam esta
autoridade, a quem acusavam de tê-los enganado com a promessa de uma
intervenção conciliadora e que se limitava a fazer que a tropa desfilasse por
Montsou de oito em oito dias, para mantê-los na linha. Assim, ao verem a
cavalaria e os policiais retomarem tranquilamente o caminho de
Marchiennes, depois de haver ensurdecido os conjuntos habitacionais com
os cascos dos seus cavalos sobre a terra batida, os mineiros zombaram de
um prefeito tão ingênuo, com seus soldados que davam as costas no
momento exato em que coisas iam pegar fogo. Até as nove horas
mantiveram-se calmos, pacatamente diante das casas, enquanto seguiam
com os olhos, estrada afora, as costas pacíficas dos últimos policiais. No
fundo dos seus grandes leitos, os burgueses de Montsou ainda dormiam a
sono solto. Na direção, acabavam de ver a Sra. Hennebeau partir de
carruagem, deixando sem dúvida o Sr. Hennebeau trabalhando, já que o
palacete, fechado e mudo, parecia deserto. Nenhuma mina estava guardada
militarmente, era a imprevidência fatal na hora do perigo, o erro natural das
catástrofes, tudo o que um governo pode cometer de faltas, quando o
essencial era prever qualquer eventualidade. Davam as nove quando os
mineiros se puseram finalmente a caminho de Vandame, para a ação
decidida de véspera na floresta.
Etienne compreendeu desde logo que não poderia contar, na Jean
Bart, com os três mil camaradas que tinham prometido ir. Muitos julgavam
que a manifestação fora adiada, e o pior era que dois ou três grupos, já a
caminho, iam comprometer a causa se ele não se pusesse, de qualquer
maneira, à sua frente. Uns cem homens haviam partido antes do amanhecer
e na certa tinham-se escondido sob as faias da floresta, à espera dos outros.
Suvarin, que o rapaz fora consultar, deu de ombros: dez latagões bem
dispostos fariam melhor trabalho que uma corja inteira. E tornou a
mergulhar na leitura de um livro aberto à sua frente, recusando tomar parte
na
manifestação. Aquilo ameaçava transformar-se outra vez em
sentimentalismo, quando bastaria incendiar Montsou, o que era bem
simples. Ao sair pelo lado da casa, Etienne percebeu Rasseneur muito
pálido, sentado defronte do fogão de ferro fundido, enquanto sua mulher,
enorme na sua eterna roupa negra, o invectivava com palavras cortantes
mas polidas.
Maheu foi de opinião que se devia manter a palavra empenhada.
Um compromisso desse era sagrado. No entanto, a noite arrefecera os
ânimos e ele, agora, temia uma desgraça e explicava que o dever deles era
irem para lá a fim de manter os companheiros na ordem. A mulher aprovou
com a cabeça. Etienne contemporizava, repetindo que era preciso agir
revolucionariamente, mas sem atentar contra a vida das pessoas. Antes de
partir, rejeitou a sua parte de um pão que lhe tinham dado de véspera com
uma garrafa de genebra, mas bebeu de um só gole três copinhos, para
combater o frio. E levou consigo um cantil cheio dela. Alzire cuidaria das
crianças. O velho Boa-Morte, com as pernas doloridas da caminhada da
véspera ficara de cama.
Por prudência, não foram juntos. Jeanlin já desaparecera havia
muito tempo. Marido e mulher seguiram lado a lado, atalhando por
Montsou, enquanto Etienne se dirigiu para a floresta, onde queria encontrar
se com os companheiros. No caminho encontrou um bando de mulheres,
entre as quais reconheceu a Queimada e a mulher de Levaque. Enquanto
caminhavam, comiam castanhas que a filha de Mouque trouxera, e até as
cascas devoravam, para permanecerem mais tempo de barriga cheia.
Na floresta ele não encontrou ninguém, todos já tinham partido para
a Jean-Bart. Então saiu desabalado e chegou diante da mina no momento
em que Levaque e uma centena de outros penetravam no pátio. Os mineiros
surgiam de todas as partes, os Maheu pela estrada real, as mulheres do meio
dos campos, todos dispersos, sem líderes, sem armas, correndo
naturalmente para ali como água que transborda e segue os declives.
Etienne percebeu Jeanlin instalado sobre um passadiço, como se fosse a um
espetáculo. Correu com todas as suas forças e entrou com os primeiros. Não
eram mais que trezentos.
Houve um momento de hesitação quando Deneulin surgiu no alto
da escada que conduzia à recebedoria.
— Que é que vocês querem? — perguntou ele com voz forte. Após
ter visto desaparecer a caleça, de onde as filhas lhe sorriam ainda, voltara à
mina, cheio de uma vaga apreensão. Mas tudo estava em ordem, os
operários tinham descido, a extração funcionava, o que o deixou novamente
tranquilo. Conversava com o capataz quando lhe disseram que os grevistas
se aproximavam. Dirigiu-se correndo para uma janela da triagem, e, diante
daquela onda enorme que invadia o pátio, teve a consciência imediata da
sua impotência. Como defender aquelas edificações abertas de todos os
lados? Apenas poderia reunir em torno de si uns vinte dos seus operários.
Estava perdido.
— Que é que vocês querem? — repetiu ele, lívido de cólera,
fazendo um esforço para aceitar corajosamente sua derrota.
Houve empurrões e grunhidos na multidão. Etienne avançou e
disse:
— Não viemos aqui para fazer-lhe mal, mas o trabalho tem que
parar em toda a região.
Deneulin não se conteve e chamou-o de imbecil.
— Então acreditam que me estão fazendo bem parando o trabalho
minha mina? É como se me disparassem um tiro pelas costas, à queima
roupa. Pois saibam que meus homens estão trabalhando e não subirão, a não
ser que vocês me assassinem primeiro!
Estas palavras violentas levantaram um clamor. Maheu teve de
segurar Levaque, que se atirava, ameaçador. Etienne continuou a
parlamentar, procurando convencer Deneulin da legitimidade de sua ação
revolucionária. Este, no entanto, respondia-lhe com o direito de trabalhar.
Aliás, recusava discutir semelhantes tolices; em sua casa era ele
quem mandava. Só lastimava não ter ali quatro policiais para varrer aquela
canalha.
— Perfeitamente, é minha culpa, mereço o que me está
acontecendo. Com gente como vocês, só a força. Não sei como é que o
governo pensa que pode comprá-los com concessões. Vocês o que farão é
pô-lo abaixo com as armas que ele lhes fornecer.
Etienne, furioso, ainda podia conter-se. Baixou a voz:
— Peço-lhe, meu senhor, dê ordem para que subam os mineiros.
Daqui por diante não respondo mais. pela conduta dos meus companheiros.
O senhor pode evitar uma desgraça.
— Não! Vão para o inferno! Eu o conheço? Você não trabalha para
mim, portanto não tem nada para discutir comigo. Só os salteadores é que
percorrem assim os campos para pilhar as casas.
Vociferações cobriram sua voz; as mulheres, sobretudo, insultavam
no. Ele continuou a desafiá-los, sentindo um alívio naquela franqueza que
desafogava seu coração autoritário. Já que, de qualquer jeito, a ruína era
certa, achava uma covardia as concessões inúteis. Mas o número de
revoltosos ia aumentando sempre, cerca de quinhentos já se atiravam para a
porta e ele ia ser destroçado se o seu capataz não o tivesse puxado
violentamente para trás.
— Por favor, Sr. Deneulin!... Isto vai ser uma carnificina. De que
serve fazer matar homens inutilmente?
Ele debateu-se e protestou com um último grito atirado à turba:
— Súcia de bandidos! Vocês pagarão por isso quando nós
voltarmos a ser os mais fortes!
Levaram-no. Um último ímpeto acabava de levar os que estavam na
frente da multidão para o início da escada, cujo corrimão foi torcido. Eram
as mulheres que empurravam, uivando, excitando os homens. A porta cedeu
em seguida, era uma porta sem fechadura, cerrada apenas com ferrolho. A
escada, porém, era muito estreita e a multidão, esmagada, não teria
conseguido entrar se a retaguarda dos assaltantes não tivesse resolvido
passar pelas outras aberturas. Desse momento em diante, a turba tomou
conta de tudo, invadindo o vestiário, a triagem e a casa das caldeiras. Em
menos de cinco minutos a mina inteira pertencia aos grevistas, que
percorreram os três andares em meio a um furor de gestos e gritos, levando
tudo pela frente no entusiasmo da sua vitória sobre o patrão que resistia.
Maheu, assustado, fora dos primeiros a arremeter, dizendo a Etienne:
— Cuidado! Não devem matá-lo!
Este já corria, mas, quando viu que Deneulin se tinha barricado na
sala dos contramestres, respondeu:
— E daí? Seria por acaso culpa nossa? Um louco desses... Contudo,
ele estava cheio de inquietação, ainda bastante calmo para ceder a um gesto
de cólera. Sofria também no seu orgulho de chefe, vendo que a turba
escapava à sua autoridade, extravasando para fora da fria execução da
vontade do povo, que era o que tinha planejado. Em vão pediu que se
mantivessem calmos, gritou que não deviam dar razões ao inimigo, com
atos de destruição inútil.
— Às caldeiras — berrava a Queimada. — Apaguemos as
fornalhas!
Levaque, que encontrara uma lima, agitava-a como um punhal,
dominava o tumulto com um grito terrível:
— Cortemos os cabos! Cortemos os cabos!
Em breve todos o seguiam. Apenas Etienne e Maheu continuavam a
protestar, aturdidos, falando inutilmente no meio da gritaria. Por fim, o
primeiro conseguiu fazer-se ouvir:
— Mas há gente lá no fundo, companheiros!
O alarido redobrou, todos falavam ao mesmo tempo.
— Pior para eles, não tinham que descer! Vai ser uma lição para
esses traidores! Isso mesmo! Isso mesmo! Que fiquem por lá! E, depois,
existem as escadas!...
Quando a e das escadas os tornou ainda mais decididos, Etienne
compreendeu que devia ceder. Temendo um desastre ainda maior,
precipitou-se para a máquina, querendo ao menos subir os elevadores, para
que os cabos, serrados por cima do poço, não os esmagassem com seu peso
enorme ao caírem sobre eles. O mecânico tinha desaparecido com os outros
trabalhadores da superfície. Segurou a barra de direção e começou a
manobrar, enquanto Levaque e outros dois subiam no vigamento de ferro
que sustinha as roldanas.
Etienne acabava de fixar os elevadores nos ferrolhos de segurança
quando se ouviu o ranger da lima cortando o aço. Fez-se um grande
silêncio, esse ruído pareceu encher toda a mina, a turba ergueu a cabeça e
escutou, presa de emoção. Maheu, na primeira fila, sentia-se invadir por
uma alegria feroz, como se os dentes da lima os fossem livrar da desgraça,
roendo o cabo de um desses buracos cheios de miséria, no qual nunca mais
se desceria.
A Queimada tinha desaparecido pela escada do vestiário, gritando
sempre:
— Apaguemos o fogo! Às caldeiras! Às caldeiras!
Algumas mulheres a seguiram. A de Maheu foi a primeira, para
impedir que quebrassem tudo, da mesma forma que seu marido tinha
tentado argumentar com os companheiros. Ela era a mais calma: podiam-se
exigir seus direitos, mas sem fazer estragos no que era dos outros. Quando
entrou na casa das caldeiras, as mulheres já estavam expulsando os dois
foguistas, e a Queimada, empunhando uma grande pá, acocorava-se diante
das fornalhas e as esvaziava violentamente, jogando o carvão incandescente
sobre o chão de tijolos, onde ele continuava a arder, soltando uma fumaça
negra. Havia dez fornalhas para os cinco geradores. Em breve, as outras
seguiam o exemplo da Queimada; a mulher de Levaque manobrando sua pá
com ambas as mãos e a filha de Mouque arregaçando as saias até as coxas
para não se incendiar, todas elas como que cobertas de sangue por causa dos
reflexos do fogo, suadas e desgrenhadas em torno daquela cozinha de
bruxas. Os montes de hulha cresciam, o calor ardente crestava a enorme
peça.
— Chega! — gritou a mulher de Maheu. — Esta joça já está
pegando fogo!
— Melhor! — respondeu a Queimada. — Vai ser um trabalho
completo... Eu tinha jurado que havia de fazê-los pagar pela morte do meu
homem!
Nesse momento ouviu-se a voz esganiçada de Jeanlin:
— Atenção! Eu vou apagar isso! Vou soltar tudo!
Fora um dos primeiros a entrar, imiscuindo-se na a turba, encantado
com a balbúrdia, procurando coisas para destruir. Teve então a ideia de abrir
as torneiras de descarga, para soltar o vapor. Os jatos partiram com a
violência de tiros, as cinco caldeiras esvaziaram-se com um sopro de
tempestade, assobiando com tal estrondo que os ouvidos sangraram. Tudo
desapareceu no meio do vapor, o carvão ficou branco, as mulheres eram
apenas sombras de gestos imprecisos. Só o menino permanecia visível,
subindo na galeria, por trás dos turbilhões de fumaça branca, encantado,
rindo alegremente por ter desencadeado aquele furacão.
Isso durou cerca de quinze mi Quando Etienne foi prevenido do que se tramava, veio correndo em
companhia de Maheu. Ele mesmo estava ficando possuído, arrebatado por
essa febre ardente de vingança. Mas nem por isso deixava de lutar,
conjurando os companheiros a manterem-se calmos, agora que os cabos
estavam cortados, as fornalhas apagadas e as caldeiras vazias, o que tornava
o trabalho impossível. Mas continuavam não o escutando, sua liderança ia
ser novamente contestada, quando se ouviu uma enorme vaia do lado de
fora, dirigida para uma portinhola onde desembocava o fosso das escadas.
— Abaixo os traidores! Sujos! Covardes! Abaixo! Abaixo! Era a
saída dos operários do fundo da mina que começava. Os primeiros,
ofuscados pela luminosidade, não sabiam o que fazer, pestanejando. Depois
davam alguns passos, tentando atingir a estrada e fugir.
— Abaixo os covardes! Abaixo os falsos irmãos!
Todo o bando de grevistas acorrera. Em menos de três minutos não
havia um só homem nas edificações; os quinhentos de Montsou formaram
duas fileiras, para obrigar a passarem entre elas aqueles de Vandame, que
tinham feito a traição de descer. E a cada novo mineiro que aparecia na
porta do fosso, com as roupas em farrapos e a lama negra do trabalho, as
vaias recrudesciam, ditos ferozes os recebiam: "Olha esse aí, tem três
polegadas de pernas e um cu enorme! E aquele lá, com o nariz roído pelas
putas do Volcan! E este outro, mija tanta remela pelos olhos que com ela se
poderiam fazer velas para dez catedrais! E este um grandalhão sem bunda,
comprido como a fome!" Uma operadora de vagonetes que surgiu
tropeçando, enorme, com os seios na barriga e a barriga no traseiro,
provocou uma tempestade de gargalhadas. Quiseram apalpá-la, os motejos
eram cada vez mais fortes, estavam ficando cruéis, os tabefes iam começar.
O desfile dos pobres-diabos continuava, todos tiritantes silenciosos às
injúrias, esperando os murros como animais acuados felizes quando podiam
enfim correr para fora da mina.
— Diabo! Afinal, quantos estão lá dentro? — perguntou Etienne.
Espantava-se de ver tanta gente saindo, irritava-se de constatar que
não se tratava de meia dúzia de operários, pressionados pela fome
intimidados pelos contramestres. Fora então enganado na floresta? A Jean
Bart, quase em peso, descera. Soltou uma exclamação e precipitou-se,
percebendo Chaval no umbral.
— Canalha! Foi para isso que nos fizeste vir?
Imprecações explodiram, houve um arranco em direção ao traidor.
E então? Na véspera tinha feito o juramento com eles e agora era
encontrado trabalhando, em companhia dos outros? Estava debochando
deles?
— Agarrem-no! Ao poço! Ao poço!
Chaval, lívido de medo, gaguejava, procurava explicar-se, mas
Etienne cortava-lhe a palavra, fora de si, possuído pela fúria da turba.
— Escolheste ser dos nossos, e serás. Vamos! em marcha, tratante.
Outro clamor cobriu sua voz. Catherine, por sua vez, aparecia,
ofuscada pelo sol claro, temendo por sua sorte no meio daqueles selvagens.
E, com as pernas arrebentadas pelos cento e dois lances de escada, as
palmas das mãos sangrando, ofegava, quando a mãe, ao vê-la, atirou-se
sobre ela com a mão levantada.
— Cadela, tu também! Enquanto tua mãe morre de fome, tu a trais
por esse cafajeste!
Maheu reteve-lhe o braço, impedindo a bofetada. Mas sacudiu a
filha, enfurecido como a mulher, censurando a sua conduta, ambos fora de
si, gritando mais alto que os outros.
Ao ver Catherine, Etienne ficou ainda mais exasperado. Repetiu:
— A caminho! Para as outras minas! E tu vens conosco, velhaco!
Chaval mal teve tempo de apanhar os tamancos no vestiário e de jogar o
suéter sobre os ombros enregelados. Todos o arrastavam, forçando-o a
correr no meio deles. Tonta, Catherine enfiava igualmente os tamancos,
abotoava no pescoço a velha jaqueta de homem com que se abrigava desde
o começo do frio. E saiu correndo atrás do amante, não queria deixá-lo um
só instante, porque certamente iam massacrá-lo.
Então, em dois minutos, a Jean-Bart esvaziou-se. Jeanlin, que
encontrara uma cometa, soprava-a emitindo sons roucos, como se estivesse
reunindo gado. As mulheres — a de Levaque, a Queimada a filha de
Mouque — arregaçavam as saias para correr, enquanto Levaque,
empunhando um machado, esgrimia-o como um bastão de tambor-mor. A
turba engrossava com novos companheiros que continuavam a chegar, eram
já quase mil, sem ordem, esparramando-se pela estrada em aluvião. Como o
portão de saída era muito estreito, botaram abaixo a cerca.
— Às minas! Abaixo os traidores! Nada de trabalho!
E, de repente, a Jean-Bart caiu num grande silêncio. A mina estava
deserta, não se ouvia uma respiração sequer. Deneulin saiu da sala dos
contramestres e, sozinho, proibindo com um gesto que o seguissem,
percorreu as instalações. Estava pálido, muito calmo. Primeiro, parou diante
do poço, levantou os olhos, examinou os cabos cortados: as pontas de aço
pendiam inúteis, os dentes da lima tinham deixado uma ferida viva, uma
chaga fresca que reluzia no negro da graxa. Em seguida foi até a máquina,
contemplou a biela imóvel, semelhante à articulação de um membro
colossal atingido pela paralisia; tocou o metal já frio e sentiu um
estremecimento como se estivesse tocando num cadáver. Depois desceu até
as caldeiras; caminhando lentamente diante das fornalhas apagadas. abertas
e inundadas, bateu com o pé nos geradores, que emitiram um som cavo. E
agora? Estava tudo terminado, sua ruína concluíra-se. Mesmo que
consertasse os cabos, que reacendesse as fornalhas, onde encontraria
operários? Mais quinze dias de greve e estaria falido. E nessa certeza da sua
bancarrota não mais conseguia odiar os bandidos de Montsou: via nisso a
cumplicidade de todos, a culpa geral, secular. Brutos, sim; mas brutos que
não sabiam ler e morriam de fome.
continua na página 254...
____________________
Terceira Parte - (I.a) No dia seguinte / Quarta Parte - (I.a) / Quarta Parte - (II.a) / Quarta Parte - (III.a) /
Quinta Parte - (II.a) / Quinta Parte - (II.b) / Quinta Parte - (III) /
____________________
O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário