terça-feira, 14 de abril de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/I — A Alcunha

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     I — A alcunha: modo de formar nomes de família

             Mário era nesta época um interessante rapaz, de estatura mediana, espessos cabelos negros, fronte alta e inteligente, narinas abertas e apaixonadas, ar sincero e sereno, e em todo o rosto certa indefinível expressão de altivez, melancolia e inocência. O seu perfil, cujos lineamentos eram suaves sem que deixassem de ser firmes, possuía a doçura germânica de que a fisionomia francesa participa pela Alsácia e pela Lorena, e a completa carência de ângulos que tornava tão conhecidos os sicambros entre os romanos e que distingue a raça leonina da raça aquilina. Mário achava-se na quadra da vida em que o espírito dos homens pensativos é composto quase em proporções iguais de gravidade e singeleza. Posta uma situação grave, Mário possuía tudo o que era necessário para ficar inerte, ou para se tornar sublime, se dessem à chave mais uma volta. As suas maneiras eram reservadas, frias, polidas e pouco expansivas. Dotado de uma linda boca, de lábios purpurinos, de dentes alvos como poucos, corrigia-lhe o sorriso a expressão severa da fisionomia. Em certas ocasiões tornava-se um singular contraste aquela fronte casta e aquele sorriso voluptuoso. Mário tinha olhos pequenos, mas o olhar grande.
     No tempo em que em piores circunstâncias se achara, o mancebo notava que as raparigas se voltavam para trás quando ele passava, e deitava a fugir ou se escondia, profundamente contristado. Julgava que elas o fitavam para se rirem do seu usado traje, mas a verdade era que elas só se voltavam, porque o achavam gracioso e que continuavam o seu caminho com ele no pensamento.
     Este mundo equívoco entre ele e as lindas transeuntes viera por último a torná-lo insociável. De entre tantas, o mancebo não escolheu uma só, pela concludente razão de que de todas fugia. Assim viveu por muito tempo estupidamente, como dizia Courfeyrac.
     Courfeyrac dizia-lhe também: 

— Não aspires a tornar-te venerável (os dois amigos tratavam-se por tu, ao que entre mancebos facilmente se chega). Um conselho, meu caro. Não leias tanto nos livros e olha alguma coisa para as codornizes. As brejeiras têm bocadinhos de ouro, Mário! A força de lhes fugir e de corar, hás de vir a embrutecer-te.

Outras vezes Courfeyrac encontrava-se com ele e dizia-lhe: 

— Olá, padre!

     Quando Courfeyrac lhe jogava algum gracejo desta natureza, Mário durante oito dias ainda mais fugia de se encontrar com mulheres e muito principalmente com Courfeyrac.
     Duas mulheres, porém, encerrava a imensa criação, de quem Mário não fugia nem nas quais fazia reparo. Realmente, se alguém lhe dissesse que as duas criaturas de que falamos eram mulheres, o mancebo ficaria admiradíssimo. Uma era a velha barbada que lhe arrumava o quarto e de quem Courfeyrac dizia: 

— Mário, como vê que a criada usa barbas, corta as dele.

     A outra era uma rapariga, se o era, que ele via muitas vezes, mas para quem nunca olhava.
     Havia mais de um ano que Mário numa álea deserta do Luxemburgo, a que corre paralela ao parapeito da Pepinière, notava um homem e uma jovem quase sempre sentados juntos no mesmo banco, na extremidade mais solitária da álea do lado da rua de Oeste. Todas as vezes que o acaso, que dirige os passeios das pessoas pensativas, conduzia Mário àquela álea, o que acontecia quase todos os dias, encontrava ele ali sempre aquele par. O homem, que indicava ter sessenta anos, parecia triste e sério; a sua figura oferecia o robusto, mas cansado aspecto de um militar reformado. Se ele trouxesse ao peito alguma condecoração, Mário diria: «É algum antigo oficial». Tinha um ar de bondade, mas pouco animador, e o seu olhar nunca se fixava em ninguém. O seu traje consistia numas calças azuis, um casacão da mesma cor, um chapéu de abas largas, que ainda pareciam novos, uma gravata preta e uma camisa de quaker, quer dizer de deslumbrante brancura, mas de pano grosso. Um dia, uma costureirinha ao passar por ele disse: 

— Ora aqui está o que se chama um viúvo asseado!

     Este personagem tinha os cabelos, alvíssimos.
     Quando a jovem que o acompanhava veio pela primeira vez sentar-se com ele no banco, que parecia terem ambos adotado, inculcava ter treze ou catorze anos, e era tão magra, que quase se tornava feia, desajeitada, insignificante, mas possuidora de uns olhos que prometiam vir a ser extremamente belos. Fitava-os, porém, com uma ousadia que causava má impressão. Usava o traje ao mesmo tempo senil e infantil das recolhidas de um convento, que consistia num desairoso vestido de grosseiro merino preto. Pareciam ser pai e filha.
     Mário examinou durante dois ou três dias este homem idoso, que ainda se não podia chamar velho, e esta jovem, que ainda se não podia chamar mulher, e depois não tornou mais a fazer reparo neles, que pela sua parte parecia que nem sequer viam o mancebo, conversando ambos com perfeita serenidade e indiferença. A jovem tagarelava sempre jovialmente; o velho falava pouco e de quando em quando fitava na donzela uns olhos cheios de uma inefável paternidade.
     Mário, que contraíra maquinalmente o hábito de ir passear para esta álea, encontrava-os ali sempre.
     Eis como o caso se passava:
     O mancebo chegava pela extremidade da álea oposta ao banco em que eles se achavam, caminhava pela álea adiante, passava por eles, depois voltava até à extremidade por onde tinha vindo e recomeçava como da primeira vez. Repetia este movimento de vaivém cinco ou seis vezes por semana, sem que entre ele e os dois personagens sentados no banco se chegasse alguma vez a trocar uma saudação. Conquanto, porém, aquele velho e aquela jovem parecessem, ou talvez por isso mesmo que pareciam evitar os olhares, tinham, como era natural, excitado mais ou menos a curiosidade dos cinco ou seis estudantes que de tempos a tempos iam passear para a Pepinière, os estudiosos depois das suas aulas, e outros depois da sua partida de bilhar. Courfeyrac, que era um dos segundos, observara-os algum tempo; porém, como a jovem lhe parecesse feia, retirou-se apressadamente e com todo o cuidado. Deitara a fugir como um lacedemónio, dardejando-lhes uma alcunha. Impressionado somente do vestido da jovem e dos cabelos do velho, pusera à filha o nome de Mademoiselle Lanoire, ao pai o de Monsieur Leblanc, e em tal hora foi, que, como ninguém lhes sabia o verdadeiro nome, a alcunha pegou e os estudantes diziam: 

— Lá está Monsieur Leblanc sentado no seu banco!

     E Mário do mesmo modo que os outros, achava cômodo tratar também por senhor Leblanc aquele desconhecido personagem.
     Faremos pois como eles e adotaremos a alcunha para maior facilidade da nossa narrativa.
     Assim os viu Mário quase todos os dias e à mesma hora durante um ano. O velho agradava-lhe, mas achava a jovem desengraçada.

continua na página 527...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - I — A Alcunha
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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