segunda-feira, 4 de maio de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: O Subsolo também produz Golpes de Estado (2)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

As Fontes Subterrâneas do Poder

     34. O Subsolo também produz Golpes de Estado, Revoluções, Histórias de Espionagens e Aventuras na Floresta Amazônica
          No Brasil, as esplêndidas jazidas de ferro do vale do Paraopeba derrubaram dois presidentes, Jânio Quadros e João Goulart, antes que o marechal Castelo Branco, assaltante do poder em 1964, amavelmente as cedesse à Hanna Mining Co. Outro amigo anterior do embaixador dos Estados Unidos, o presidente Eurico Dutra (1946-51), concedera à Bethlehem Steel, alguns anos antes, os 40 milhões de toneladas de manganês do estado do Amapá, uma das maiores jazidas do mundo, em troca de 4 por cento para o Estado sobre as rendas da exportação; desde então, a Bethlehem está empurrando as montanhas para os Estados Unidos com tanto entusiasmo que se receia que, em quinze anos, o Brasil fique sem manganês para prover sua própria siderurgia. Além disso, de cada 100 dólares que a Bethlehem investe na extração de minerais, 88 correspondem a uma gentileza do governo brasileiro: as isenções de impostos em nome do “desenvolvimento da região”. A experiência do ouro perdido em Minas Gerais “ouro branco, ouro negro, ouro podre”, escreveu o poeta Manuel andeira –, como se sabe, não serviu para nada: o Brasil continua se desfazendo gratuitamente de suas fontes naturais de desenvolvimento [1]. Por sua parte, o ditador René Barrientos se apoderou da Bolívia em 1964 e, entre matança e matança de mineiros, outorgou à firma Philips Brothers a concessão da mina Matilde, que contém chumbo, prata e grandes quantidades de zinco com um teor doze vezes mais alto do que nas minas norte-americanas. A empresa foi autorizada a transportar zinco bruto, para elaborá-lo em suas refinarias no estrangeiro, pagando ao Estado nada menos do que 1,5 por cento do valor de venda do mineral [2]. No Peru, em 1968, perdeu-se misteriosamente a página 11 do convênio que o presidente Bellaúnde Terry tinha assinado aos pés de uma filial da Standard Oil, e o general Velasco Alvarado derrubou o presidente, tomou as rédeas do país e nacionalizou os poços e a refinaria da empresa. Na Venezuela, o grande lago de petróleo da Standard Oil e da Gulf, tem seu lugar a maior missão militar norte-americana da América Latina. Os frequentes golpes de Estado na Argentina acontecem antes e depois de cada licitação petrolífera. O cobre não era de modo algum alheio à desproporcionada ajuda militar que o Chile recebia do Pentágono até o triunfo eleitoral das forças de esquerda encabeçadas por Salvador Allende; as reservas norte-americanas de cobre tinham caído em mais de 60 por cento entre 1965 e 1969. Em 1964, em seu gabinete de Havana, Che Guevara me demonstrou que a Cuba de Batista não era só de açúcar: as grandes jazidas cubanas de níquel e manganês, na sua opinião, explicavam melhor a fúria cega do Império contra a revolução. Desde aquela conversação, as reservas de níquel dos Estados Unidos se reduziram à terça parte: a empresa norte-americana Nicro Nickel tinha sido nacionalizada e o presidente Johnson ameaçava os metalúrgicos franceses com um embargo às suas exportações para os Estados Unidos se comprassem o mineral de Cuba. 
     Os minerais tiveram muito a ver com a queda do governo do socialista Cheddi Jagan, que em fins de 1964 tinha obtido novamente a maioria de votos naquilo que então era a Guiana Inglesa. O país que hoje se chama Guiana é o quarto produtor mundial de bauxita e figura no terceiro lugar entre os produtores latino-americanos de manganês. A CIA desempenhou um papel decisivo na derrota de Jagan. Arnold Zander, o dirigente máximo da greve que serviu de provocação e pretexto para negar com trapaças a vitória eleitoral de Jagan, admitiu publicamente tempos depois que seu sindicato tinha recebido uma chuva de dólares de uma das fundações da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos [3]. O novo regime garantiu que não correriam perigo os interesses da Aluminium Company of America na Guiana: já sem sobressaltos, a empresa poderia continuar levando a bauxita e vendendo-a para si própria ao mesmo preço de 1938, ainda que desde então se tivesse multiplicado o preço do alumínio [4]. O negócio já não corria perigo. A bauxita do Arkansas vale o dobro da bauxita da Guiana. Os Estados Unidos dispõem de muito pouca bauxita em seu território; empregando matéria-prima alheia e muito barata, produzem quase a metade do alumínio que é elaborado no mundo.
     Para abastecer-se da maior parte dos minerais estratégicos considerados de valor crítico para seu potencial de guerra, os Estados Unidos dependem de fontes estrangeiras. “O motor de retropropulsão, a turbina de gás e os reatores nucleares têm hoje uma enorme influência sobre a demanda de materiais que só podem ser obtidos no exterior”, diz Magdoff neste sentido [5]. A imperiosa necessidade de minerais estratégicos, imprescindíveis para salvaguardar o poder militar e atômico dos Estados Unidos, aparece claramente vinculada à compra de terras na Amazônia brasileira, por meios geralmente fraudulentos. Na década de 60, numerosas empresas norte-americanas, conduzidas pela mão de aventureiros e contrabandistas profissionais, lançaram-se num rush febril sobre essa floresta gigantesca. Previamente, em virtude de acordo firmado em 1964, os aviões da Força Aérea dos Estados Unidos tinham sobrevoado e fotografado toda a região, empregando cintilômetros para detectar jazidas de minerais radioativos pela emissão de ondas de luz de intensidade variável, eletromagnetômetro para radiografar o subsolo rico em minerais não ferrosos, e magnetômetro para descobrir e medir o ferro. Os informes e as fotografias obtidas no levantamento da extensão e da profundidade das riquezas secretas da Amazônia foram colocados à disposição de empresas privadas interessadas no assunto, graças aos bons serviços da Geological Survey do governo dos Estados Unidos [6]. Na mesma região foi comprovada a existência de ouro, prata, diamantes, gipsita, hematita, magnetita, tântalo, tório, urânio, quartzo, cobre, manganês, chumbo, sulfato, potássio, bauxita, zinco, zircônio, cromo e mercúrio. Tão aberto é o céu da selva virgem do Mato Grosso até as planuras do sul de Goiás que, segundo delirava a revista Time em sua última edição latino americana de 1967, pode-se ver ao mesmo tempo o sol brilhante e meia dúzia de relâmpagos de diferentes tormentas. O governo ofereceu isenção de impostos e outras seduções para colonizar os espaços virgens desse universo mágico e selvagem. Segundo a Time, os capitalistas estrangeiros, antes de 1967, compraram a sete centavos o acre uma superfície maior do que a que somam os territórios de Connecticut, Rhode Island, Delaware, Massachusetts e New Hampshire. “Devemos manter as portas bem abertas ao investimento estrangeiro”, dizia o diretor da agência governamental para o desenvolvimento da Amazônia, “porque necessitamos mais do que aquilo que podemos obter.” Para justificar o levantamento aerofotogramétrico feito pela aviação norte-americana, o governo declarou antes que carecia de recursos. Na América Latina é normal: sempre se entregam os recursos em nome da falta de recursos.
     O Congresso brasileiro realizou uma investigação que culminou num alentado informe sobre o tema [7]. Enumeram-se nele casos de venda ou usurpação de terras de 20 milhões de hectares, estendidas de maneira tão curiosa que, segundo a comissão investigadora, “formam um cordão para isolar a Amazônia do resto do Brasil”. A “exploração clandestina de minerais muito valiosos” figura no informe como um dos principais interesses da ambição norte-americana de abrir uma nova fronteira dentro do Brasil. O depoimento do gabinete do Ministério do Exército, incluído no informe, salienta “o interesse do próprio governo norte-americano em manter sob seu controle uma vasta extensão de terra para ulterior utilização, seja para a exploração de minerais, particularmente os radioativos, seja como base de uma colonização dirigida”. O Conselho de Segurança Nacional se manifestou: “Causa suspeita o fato de que as áreas ocupadas, ou em vias de ocupação, por elementos estrangeiros, coincidam com regiões submetidas a campanhas de esterilização de mulheres brasileiras por estrangeiros”. De fato, segundo o jornal Correio da Manhã, “mais de vinte missões religiosas estrangeiras, sobretudo as da igreja protestante dos Estados Unidos, estão ocupando a Amazônia nos pontos mais ricos em minerais radioativos, ouro e diamantes (...). Difundem em grande escala diversos contraceptivos, como o dispositivo intrauterino, e ensinam inglês aos índios catequizados (...). Suas áreas estão cercadas por elementos armados e nelas ninguém pode entrar” [8]. Não é demais lembrar que a Amazônia é a zona de maior extensão entre todos os desertos do planeta habitáveis pelo homem. O controle da natalidade foi posto em prática nesse grandioso espaço vazio para evitar a concorrência demográfica dos raríssimos brasileiros que, em remotos rincões da floresta ou das imensas planícies, vivem e se reproduzem.
     O Congresso brasileiro realizou uma investigação que culminou num alentado informe sobre o tema [7]. Enumeram-se nele casos de venda ou usurpação de terras de 20 milhões de hectares, estendidas de maneira tão curiosa que, segundo a comissão investigadora, “formam um cordão para isolar a Amazônia do resto do Brasil”. A “exploração clandestina de minerais muito valiosos” figura no informe como um dos principais interesses da ambição norte-americana de abrir uma nova fronteira dentro do Brasil. O depoimento do gabinete do Ministério do Exército, incluído no informe, salienta “o interesse do próprio governo norte-americano em manter sob seu controle uma vasta extensão de terra para ulterior utilização, seja para a exploração de minerais, particularmente os radioativos, seja como base de uma colonização dirigida”. O Conselho de Segurança Nacional se manifestou: “Causa suspeita o fato de que as áreas ocupadas, ou em vias de ocupação, por elementos estrangeiros, coincidam com regiões submetidas a campanhas de esterilização de mulheres brasileiras por estrangeiros”. De fato, segundo o jornal Correio da Manhã, “mais de vinte missões religiosas estrangeiras, sobretudo as da igreja protestante dos Estados Unidos, estão ocupando a Amazônia nos pontos mais ricos em minerais radioativos, ouro e diamantes (...). Difundem em grande escala diversos contraceptivos, como o dispositivo intrauterino, e ensinam inglês aos índios catequizados (...). Suas áreas estão cercadas por elementos armados e nelas ninguém pode entrar” [8]. Não é demais lembrar que a Amazônia é a zona de maior extensão entre todos os desertos do planeta habitáveis pelo homem. O controle da natalidade foi posto em prática nesse grandioso espaço vazio para evitar a concorrência demográfica dos raríssimos brasileiros que, em remotos rincões da floresta ou das imensas planícies, vivem e se reproduzem.

continua na página 227...
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[1] O governo do México, por sua vez, constatou a tempo que o país, um dos principais exportadores mundiais de enxofre, estava se esvaziando. A Texas Gulf Sulphur Co. e a Pan American Sulfur tinham garantido que as reservas com que contavam suas concessões eram seis vezes mais abundantes do que em realidade o eram, e o governo, em 1965, resolveu limitar as vendas para o exterior.
[2]  ALMARAZ PAZ, Sergio. Réquiem para uma república. La Paz, 1969.
[3] JULIEN, op. cit.
[4] Arthur Davis, presidente da Aluminium Co. durante longo tempo, morreu em 1962 e legou 300 milhões de dólares a fundações de caridade, com a expressa condição de que gastassem os fundos fora do território dos Estados Unidos. Nem mesmo por esta via a Guiana pôde recuperar sequer uma parcela da riqueza que a empresa lhe usurpou. RENO, Philip. “Aluminium Profits and Caribbean People.” Monthly Review. New York, outubro de 1963. E do mesmo autor: “El drama de la Guayana Británica. Un pueblo desde la esclavitud a la lucha por el socialismo.” Monthly Review, seleções em castelhano. Buenos Aires, janeiro-fevereiro de 1965.
[5] MAGDOFF, op. cit.
[6] ALVES, Hermano. “Aerofotogrametria”. Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 8 de junho de 1967
[7] Informe da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a venda de terras brasileiras a pessoas físicas ou jurídicas estrangeiras. Brasília, 3 de junho de 1968.
[8Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 30 de junho de 1968.
[9] SCHILLING, Paulo R. Brasil para extranjeros. Montevideo, 1966.
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As Fontes Subterrâneas do Poder
Primeira Parte: O Subsolo também produz Golpes de Estado (2)
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o petróleo da Venezuela... o petróleo no pré-sal do Brasil... os minerais nas terras raras do Brasil... ?

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