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terça-feira, 28 de abril de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/III — Efeitos da Primavera

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     III — Efeitos da Primavera

             Certo dia, estando o ar tépido, o Luxemburgo inundado de sombra e sol, o céu puro como se os anjos o vessem lavado pela manhã cedo, os passarinhos soltando os seus costumados gorjeios na espessura dos castanheiros, Mário tinha aberto toda a sua alma à natureza, e, alheado de tudo, vivia e respirava. Nesse dia, passando próximo do célebre banco, a jovem ergueu os olhos para ele e os dois olhares encontraram-se. 
     Que havia desta vez no olhar da jovem? Nem Mário o poderia dizer. Não havia nada e havia tudo. Foi um estranho relâmpago aquele.
     Ela baixou os olhos e ele continuou o seu caminho.
     O que o mancebo acabava de ver não era o simples e ingênuo olhar de uma criança, era uma misteriosa voragem que se tinha entreaberto e repentinamente fechado.
     Há um dia na vida das donzelas em que todas assim olham. Desgraçado então daquele sobre quem esse olhar se fita!
     Esse primeiro olhar de uma alma que ainda se não conhece a si mesma é como a aurora no céu. É o despontar de um mistério esplendoroso. Não há palavras que traduzam o perigoso encanto desse inesperado clarão que se derrama, improvisando luz em trevas adoráveis e que se compõem de toda a inocência do presente e de toda a paixão do futuro. É uma espécie de ternura indecisa que se revela ao acaso e que espera. É um laço que arma sem o saber a inocência e em que sem querer e sem o esperar apanha os corações. É uma virgem com olhar de mulher.
     Raro acontece que no coração daquele sobre quem esse olhar se fita não se desenvolva o gérmen de uma melancolia profunda. Nesse raio de luz fatalmente celeste, que melhor do que os mais estudados olhares da coquete possui o mágico poder de fazer subitamente desabrochar no recôndito de uma alma essa misteriosa flor cheia de olores e venenos, chamada amor, encerram-se todas as purezas e canduras.
     À noite, ao recolher-se ao seu modesto albergue, Mário deitou os olhos à roupa que trazia, e pela primeira vez reparou que tinha a indecência, a inconveniência, a inaudita estupidez de ir passear para o Luxemburgo com o seu trajo «ordinário», quer dizer, com um chapéu amassado, umas botas que pareciam as de um carrejão, umas calças pretas, porém, já todas coçadas nos joelhos, e um casaco preto, também já todo russo nos cotovelos.

continua na página 529...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - III — Efeitos da Primavera
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/II — Lux facta est

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     II — Lux facta est

             Precisamente no segundo ano, no ponto desta história a que o leitor chegou, sucedeu que Mário sem que mesmo soubesse porquê, interrompeu aquele hábito de ir ao Luxemburgo, estando perto de seis meses sem pôr os pés no seu caminho repleto de árvores favorito. Um dia, enfim, voltou ali; era uma serena manhã de verão e Mário sentia-se alegre, como sucede quando o tempo está agradável. Parecia-lhe que tinha no coração o canto de todas as aves que ouvia e todas as porções de folhagem do arvoredo.
     Foi direito à «sua álea», e quando chegou ao fim, avistou ainda no mesmo banco, o par já conhecido. Quando se aproximou viu que o homem era o mesmo que dantes; a pequena é que lhe pareceu mudada. A jovem que agora via, era uma alta e bela criatura, tendo todas as formas mais encantadoras da mulher no momento preciso em que elas se combinam ainda com as mais ingênuas graças da criança; momento fugitivo e puro, que só se pode traduzir pelas duas palavras: quinze anos. Tinha admiráveis cabelos castanhos escuros com certos cambiantes doirados, uma fronte que parecia de mármore, faces que se diriam compostas de folhas de rosas, mas um tanto pálidas, uma alvura transparente, uma boca primorosa, donde o sorriso saía como uma claridade e a palavra como uma música, uma cabeça que Rafael teria dado a Maria, sobre um pescoço que Jean Goujon teria dado a Vênus. Enfim, para que nada faltasse àquela encantadora fisionomia, o nariz não era belo, era bonito; nem reto nem curvo, nem italiano nem grego; era o nariz parisiense, com o não sei quê de espirituoso, de fino, de irregular e de puro, que desespera os pintores e encanta os poetas.
     Quando Mário passou por diante dela não pôde ver-lhe os olhos, que conservava constantemente baixos. Apenas lhe viu as compridas pestanas castanhas, carregadas de sombra e de pudor.
     Isto não impedia que a linda criança se sorrisse ouvindo o que lhe dizia o homem dos cabelos brancos; e não havia nada tão arrebatador como aquele fresco sorriso com os olhos baixos.
     No primeiro momento, Mário julgou que era outra filha do mesmo homem, uma irmã, sem dúvida, da primeira. Mas quando o invariável itinerário do passeio o fez passar segunda vez junto do banco e a examinou com mais atenção, reconheceu ser a mesma. Em seis meses tornara-se a menina quase uma senhora; eis toda a diferença. Não há fenômeno mais frequente do que este. Há um momento em que as meninas desabrocham num abrir e fechar de olhos, e em que de repente se tornam rosas. Ontem deixaram-se crianças, hoje acham-se inquietadoras.
     Aquela não só tinha crescido, mas tinha-se idealizado. Como três dias de abril são suficientes a certas árvores para se cobrirem de flores, assim seis meses lhe bastaram para ela se cobrir de beleza. Também tinha chegado o seu abril.
     Veem-se às vezes pessoas que, pobres e mesquinhas, parecem despertar passando subitamente da indigência ao fausto, principiando a fazer despesas de toda a qualidade, tornando-se de repente salientes, pródigas e magnificentes. É o efeito de alguma grande pensão, cujo primeiro prazo se venceu ontem. Do mesmo modo a donzela chegara também ao termo do seu semestre.
     Já não era a recolhida de outrora com o seu chapéu de pelica, o seu vestido de merino, os seus sapatos de rapaz de escola e as suas mãos vermelhas; com a beleza viera-lhe o gosto; era uma jovem bem trajada com uma espécie de simples, rica e despretensiosa elegância. Trazia um vestido de damasco preto, um mantelete da mesma fazenda e um chapelinho de crepe branco. Adivinhava-se-lhe através das alvas luvas a delicadeza daquela mão que brincava com o cabo de uma sombrinha de marfim chinês, e desenhava-lhe o borzeguim de seda a pequenez do pé. Quem por ela passava sentia um penetrante olor de juventude exalando-se-lhe da roupa.
     Quanto ao velho que a acompanhava, em nada tinha mudado.
     Da segunda vez que Mário passou por diante da jovem, esta levantou as pálpebras e deixou ver uns profundos olhos azuis celestes, mas a expressão do seu olhar era ainda simplesmente a do olhar de uma criança. Olhou para Mário com a mesma indiferença com que olharia para o gaiatozinho, que andava a brincar debaixo dos sicómoros, ou para o vaso de mármore que assombrava o banco em que ela se achava; e Mário continuou também o seu passeio com o pensamento noutra coisa.
     Passou depois mais quatro ou cinco vezes próximo dela, mas sem ao menos lhe deitar os olhos.
     Nos dias que se seguiram voltou, como de costume, ao Luxemburgo; como de costume, lá encontrou o «pai e a filha», porém não mais fez reparo neles. Tanto pensava na jovem agora que ela era bela, como quando ela era feia. Continuava a passar próximo do banco em que ela ia sentar-se, porque era esse o seu costume.


continua na página 528...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - II — Lux facta est
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

terça-feira, 14 de abril de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - Conjunção de duas estrelas/I — A Alcunha

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Sexto — Conjunção De Duas Estrelas

     I — A alcunha: modo de formar nomes de família

             Mário era nesta época um interessante rapaz, de estatura mediana, espessos cabelos negros, fronte alta e inteligente, narinas abertas e apaixonadas, ar sincero e sereno, e em todo o rosto certa indefinível expressão de altivez, melancolia e inocência. O seu perfil, cujos lineamentos eram suaves sem que deixassem de ser firmes, possuía a doçura germânica de que a fisionomia francesa participa pela Alsácia e pela Lorena, e a completa carência de ângulos que tornava tão conhecidos os sicambros entre os romanos e que distingue a raça leonina da raça aquilina. Mário achava-se na quadra da vida em que o espírito dos homens pensativos é composto quase em proporções iguais de gravidade e singeleza. Posta uma situação grave, Mário possuía tudo o que era necessário para ficar inerte, ou para se tornar sublime, se dessem à chave mais uma volta. As suas maneiras eram reservadas, frias, polidas e pouco expansivas. Dotado de uma linda boca, de lábios purpurinos, de dentes alvos como poucos, corrigia-lhe o sorriso a expressão severa da fisionomia. Em certas ocasiões tornava-se um singular contraste aquela fronte casta e aquele sorriso voluptuoso. Mário tinha olhos pequenos, mas o olhar grande.
     No tempo em que em piores circunstâncias se achara, o mancebo notava que as raparigas se voltavam para trás quando ele passava, e deitava a fugir ou se escondia, profundamente contristado. Julgava que elas o fitavam para se rirem do seu usado traje, mas a verdade era que elas só se voltavam, porque o achavam gracioso e que continuavam o seu caminho com ele no pensamento.
     Este mundo equívoco entre ele e as lindas transeuntes viera por último a torná-lo insociável. De entre tantas, o mancebo não escolheu uma só, pela concludente razão de que de todas fugia. Assim viveu por muito tempo estupidamente, como dizia Courfeyrac.
     Courfeyrac dizia-lhe também: 

— Não aspires a tornar-te venerável (os dois amigos tratavam-se por tu, ao que entre mancebos facilmente se chega). Um conselho, meu caro. Não leias tanto nos livros e olha alguma coisa para as codornizes. As brejeiras têm bocadinhos de ouro, Mário! A força de lhes fugir e de corar, hás de vir a embrutecer-te.

Outras vezes Courfeyrac encontrava-se com ele e dizia-lhe: 

— Olá, padre!

     Quando Courfeyrac lhe jogava algum gracejo desta natureza, Mário durante oito dias ainda mais fugia de se encontrar com mulheres e muito principalmente com Courfeyrac.
     Duas mulheres, porém, encerrava a imensa criação, de quem Mário não fugia nem nas quais fazia reparo. Realmente, se alguém lhe dissesse que as duas criaturas de que falamos eram mulheres, o mancebo ficaria admiradíssimo. Uma era a velha barbada que lhe arrumava o quarto e de quem Courfeyrac dizia: 

— Mário, como vê que a criada usa barbas, corta as dele.

     A outra era uma rapariga, se o era, que ele via muitas vezes, mas para quem nunca olhava.
     Havia mais de um ano que Mário numa álea deserta do Luxemburgo, a que corre paralela ao parapeito da Pepinière, notava um homem e uma jovem quase sempre sentados juntos no mesmo banco, na extremidade mais solitária da álea do lado da rua de Oeste. Todas as vezes que o acaso, que dirige os passeios das pessoas pensativas, conduzia Mário àquela álea, o que acontecia quase todos os dias, encontrava ele ali sempre aquele par. O homem, que indicava ter sessenta anos, parecia triste e sério; a sua figura oferecia o robusto, mas cansado aspecto de um militar reformado. Se ele trouxesse ao peito alguma condecoração, Mário diria: «É algum antigo oficial». Tinha um ar de bondade, mas pouco animador, e o seu olhar nunca se fixava em ninguém. O seu traje consistia numas calças azuis, um casacão da mesma cor, um chapéu de abas largas, que ainda pareciam novos, uma gravata preta e uma camisa de quaker, quer dizer de deslumbrante brancura, mas de pano grosso. Um dia, uma costureirinha ao passar por ele disse: 

— Ora aqui está o que se chama um viúvo asseado!

     Este personagem tinha os cabelos, alvíssimos.
     Quando a jovem que o acompanhava veio pela primeira vez sentar-se com ele no banco, que parecia terem ambos adotado, inculcava ter treze ou catorze anos, e era tão magra, que quase se tornava feia, desajeitada, insignificante, mas possuidora de uns olhos que prometiam vir a ser extremamente belos. Fitava-os, porém, com uma ousadia que causava má impressão. Usava o traje ao mesmo tempo senil e infantil das recolhidas de um convento, que consistia num desairoso vestido de grosseiro merino preto. Pareciam ser pai e filha.
     Mário examinou durante dois ou três dias este homem idoso, que ainda se não podia chamar velho, e esta jovem, que ainda se não podia chamar mulher, e depois não tornou mais a fazer reparo neles, que pela sua parte parecia que nem sequer viam o mancebo, conversando ambos com perfeita serenidade e indiferença. A jovem tagarelava sempre jovialmente; o velho falava pouco e de quando em quando fitava na donzela uns olhos cheios de uma inefável paternidade.
     Mário, que contraíra maquinalmente o hábito de ir passear para esta álea, encontrava-os ali sempre.
     Eis como o caso se passava:
     O mancebo chegava pela extremidade da álea oposta ao banco em que eles se achavam, caminhava pela álea adiante, passava por eles, depois voltava até à extremidade por onde tinha vindo e recomeçava como da primeira vez. Repetia este movimento de vaivém cinco ou seis vezes por semana, sem que entre ele e os dois personagens sentados no banco se chegasse alguma vez a trocar uma saudação. Conquanto, porém, aquele velho e aquela jovem parecessem, ou talvez por isso mesmo que pareciam evitar os olhares, tinham, como era natural, excitado mais ou menos a curiosidade dos cinco ou seis estudantes que de tempos a tempos iam passear para a Pepinière, os estudiosos depois das suas aulas, e outros depois da sua partida de bilhar. Courfeyrac, que era um dos segundos, observara-os algum tempo; porém, como a jovem lhe parecesse feia, retirou-se apressadamente e com todo o cuidado. Deitara a fugir como um lacedemónio, dardejando-lhes uma alcunha. Impressionado somente do vestido da jovem e dos cabelos do velho, pusera à filha o nome de Mademoiselle Lanoire, ao pai o de Monsieur Leblanc, e em tal hora foi, que, como ninguém lhes sabia o verdadeiro nome, a alcunha pegou e os estudantes diziam: 

— Lá está Monsieur Leblanc sentado no seu banco!

     E Mário do mesmo modo que os outros, achava cômodo tratar também por senhor Leblanc aquele desconhecido personagem.
     Faremos pois como eles e adotaremos a alcunha para maior facilidade da nossa narrativa.
     Assim os viu Mário quase todos os dias e à mesma hora durante um ano. O velho agradava-lhe, mas achava a jovem desengraçada.

continua na página 527...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Sexto - I — A Alcunha
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / VI — O substituto

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     VI — O substituto

             Quis o acaso que o regimento de que Teodulo era tenente, viesse destacado para Paris, o que deu ocasião a uma segunda ideia da tia Gillenormand.
     Da primeira vez lembrara-lhe mandar espiar Mário por Teodulo; da segunda resolveu fazer suceder Teodulo a Mário.
     No caso em que o avô viesse a sentir uma vaga necessidade de um rosto jovem em casa, pois às ruínas são às vezes agradáveis estes raios de aurora, era necessário tratar de arranjar outro Mário. Seja, disse ela consigo, é uma simples errata, como as que se veem nos livros. Em vez de Mário, lê-se Teodulo.
     Um sobrinho é quase um neto; na falta de um advogado, serve mesmo um lanceiro.
     Um dia de manhã, indo Gillenormand a principiar a ler a Quotidiana, ou coisa semelhante, entrou sua filha e disse-lhe com o tom de voz mais meigo que pôde, pois tratava-se do seu favorito: 

— Meu pai, Teodulo vem hoje apresentar-lhe os seus respeitos. 
— Quem é Teodulo? 
— É o seu sobrinho. 
— Ah! — exclamou o avô.

     E continuou a ler, sem se tornar a lembrar de tal sobrinho, que era para aí um Teodulo qualquer, e não tardou a agastar-se seriamente, o que lhe sucedia todas as vezes que lia. É que «a folha» que ele tinha na mão, realista já se vê anunciava para o outro dia sem reserva nenhuma um dos acontecimentos quotidianos do Paris de então: «Que os estudantes da Faculdade de Direito e de Medicina deviam reunir-se na praça do Panteon ao meio-dia para deliberarem. Tratava-se de uma das questões da ocasião: da artilharia da guarda nacional, e de um conflito entre a guarda nacional e «a milícia cívica», por causa de umas peças assestadas no pátio do Louvre». Os estudantes, pois, deviam deliberar a esse respeito. Não era preciso tanto para exaltar o senhor Gillenormand.
     Lembrou-se de Mário, que era estudante, e que provavelmente iria como os outros «deliberar ao meio-dia na praça do Panteon».
     Quando ele estava nesta cogitação dolorosa, entrou Teodulo, vestido à paisana, discretamente introduzido pela filha de Gillenormand.
     O lanceiro fizera o seguinte cálculo: «O druida não tem tudo em rendas vitalícias. Por isso vale a pena disfarçar-me em paisano de tempos a tempos». 

— Aqui tem seu sobrinho Teodulo — disse a filha de Gillenormand a seu pai em voz alta.

     E acrescentava em voz baixa para o tenente: 

— Aprova tudo.

     E retirou-se.
     O tenente, pouco acostumado a entrevistas tão veneráveis, balbuciou com alguma timidez: 

— Bons dias, meu tio — e fez uma cortesia mista, composta do esboço involuntário e maquinal da continência militar, terminada por uma saudação burguesa. 
— Ah, és tu! Está bem, senta-te — disse o avô.

     Dito isto, esqueceu-se completamente do lanceiro.
     Teodulo sentou-se e Gillenormand levantou-se e pôs-se a passear de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos, falando em voz alta e apertando nos dedos hirtos os dois relógios de algibeira que costumava trazer consigo. 

— Corja de fedelhos! Convocarem-se para a praça do Panteon! Só com uma tranca! Criançalhos que ainda têm os cueiros atrás da porta! Se lhes apertassem o nariz ainda deitavam leite! E vão deliberar amanhã ao meio-dia! A que tempos chegamos! A que tempos chegamos! Está bem de ver que caminhamos para o abismo! Foi para onde nos conduziram os descamisados! Artilharia cívica! Deliberar sobre a artilharia cívica! Irem fazer de meninos bonitos por causa das surriadas da guarda nacional! E com quem eles vão misturar-se! Vejam até onde pode levar o jacobinismo! Aposto tudo quanto quiserem, um milhão contra um real, que não hão de encontrar lá outra gente senão homens que já estiveram presos ou nas galés. Republicanos e forçados é tudo gente da mesma estofa, e por isso se dão perfeitamente. Carnot dizia: «Para onde queres que eu vá, traidor?» E Fouché respondia: «Para onde quiseres, pedaço de asno!» Aí está o que são os republicanos. 
— É exato — disse Teodulo.

     Gillenormand voltou a cabeça um quase nada, viu Teodulo e continuou: 

— Quando me lembro que aquele tratante teve a pouca vergonha de se fazer carbonário! Para que saíste de minha casa? Para te ires fazer republicano. Puh! Primeiro, o povo não quer lá saber da tua república, não quer nada com ela, porque tem juízo, porque sabe que sempre tem havido reis, porque sabe que o povo, afinal de contas, é sempre o povo, e por isso está-se nas tintas para a tua república; ouves, pacóvio! Há maior descaramento? Namoriscar-se do Père Duchêne, fazer fosquinhas à guilhotina, cantar romanzas e tocar guitarra debaixo das janelas de 93, dá mesmo vontade de cuspir na cara a estes rapazelhos, por serem tão pedaços de asnos! E então são-no todos. Não escapa um só. Basta respirar o ar que passa na rua para se tornarem insensatos. O século dezenove é um veneno. Qualquer velhaco que deixe crescer a barba de bode julga-se um tratante de marca e manda tratar das bombas os parentes velhos. É republicano, é romântico. Que vem a ser isto de romântico? Fazem favor de me dizer o que isto é? Todas as tolices possíveis. Há um ano andava tudo à Hernâni. Sabem-me dizer o que vem cá a ser Hernâni! Antíteses! Coisas abomináveis que nem em francês se acham escritas. E ainda por cima ralham de mandarem pôr peças no pátio do Louvre! É para ver como são os salteadores do tempo de agora. 
— Tem razão, meu tio — disse Teodulo.

     Gillenormand continuou: 

— Peças no pátio do Museu! Para quê? Que me queres tu, canhão? Querem metralhar o Apoio de Belveder? Que têm que ver os cartuxos com a Vénus de Medíeis? Oh! Estes rapazes de agora são tudo uma corja de patifes! E esse borra-botas desse Benjamin Constant, que eles trazem nas palminhas? E os que não são celerados são uns patetas. Fazem tudo o que podem para se tornarem feios; andam mal trajados, têm medo das mulheres, quando se juntam com elas têm uns modos de pelintras que fazem estourar de riso as raparigas; palavra de honra que se lhes podia chamar os pobres envergonhados do amor! São disformes e estúpidos. Repetem os equívocos de Tiercelin e de Potier, trazem casacas-sacos, coletes de lacaio, camisas de pano grosseiro, calças de pano grosso, botas grossas, e a ramagem parece-se com a plumagem. Usam de uma algaraviada tão baixa como quem a emprega. E todos estes criançalhos têm opiniões políticas! Para bem, havia de ser severamente punido ter opiniões políticas. Fabricam sistemas, refazem a sociedade, destroem a monarquia, derrubam todas as leis, põem o celeiro no lugar da adega e o meu porteiro no lugar do rei, remexem a Europa toda, reedificam o mundo e têm por grande fortuna ver as pernas às lavadeiras ao subirem para os carros! Ah, Mário, grande maroto! Ir vociferar para o meio de uma praça pública! Discutir, debater, tomar medidas! Eles chamam a isto tomar medidas! Santo nome de Deus! A desordem cada vez se agourenta mais e se torna mais tola! Já vi o caos, agora vejo mas é um esterquilínio. Estudantes a deliberarem sobre a guarda nacional! Isto nem entre os Ogibbewas ou os Cadodachos! Os selvagens que andam completamente nus, com a cabeça enfeitada como um volante de vaqueta e de clava na mão, são menos brutos do que estes bacharéis. Uma súcia de pobretões sem eira nem beira... de onde saem os sábios! E deliberam e raciocinam! Está o mundo a acabar! Somos chegados com toda a certeza ao fim deste miserável globo terráqueo. Faltava um soluço final; dá-o a França. Deliberai, meus tratantes! Isto há de dar-se enquanto eles forem ler os jornais para debaixo das arcadas do Odeon. Custa-lhes tal leitura um soldo, e nela sacrificam o seu bom-senso, a sua inteligência e o seu espírito. Todos os jornais trazem a peste consigo, todos, sem mesmo exceptuar a Bandeira Branca! No fundo, Martainville era um jacobino. Ah, justo céu! Podes-te gabar de que fizeste afligir bem teu avô! 
— Isso é evidente — atalhou Teodulo.

     E, aproveitando a ocasião em que Gillenormand tomava a respiração, o lanceiro acrescentou magistralmente: 

— Para bem, não havia de haver mais jornal nenhum senão o Monitor, e um único livro, o Anuário Militar.

     Gillenormand prosseguiu: 

— É como com o tal seu Sieyèa, um regicida que vem a acabar senador! Pois é onde eles vão bater. Andam para aí a atordoar-se com o tu, cidadão isto, cidadão aquilo, para afinal virem a fazer-se tratar por senhor conde. Senhor conde do que eu agora não digo! O filósofo Sieyès! Bem fiz eu ao menos, que nunca dei mais importância às filosofias de todos estes filósofos do que aos óculos do palhaço de Tivoli! Um dia vi passar os senadores pelo cais Malaquias, de mantos de veludo roxo, semeados de abelhas, e com chapéu à Henrique IV. Metiam medo. Pareciam os macacos da corte do tigre. Cidadãos, declaro-vos que o vosso progresso é uma loucura, a vossa humanidade um devaneio, a vossa revolução um crime, a vossa república um monstro, que a vossa nova França donzela sai do lupanar e assevero-vos a todos, quem quer que sejais, publicistas ou economistas, legistas ou mais conhecedores de liberdade, igualdade e fraternidade do que o gume da guilhotina. É o que lhes digo, meus ricos! 

— Lá isso é assim! — exclamou o tenente. — Não há nada mais verdadeiro.

     Gillenormand interrompeu um gesto que ia a fazer, voltou-se, fitou os olhos nos do lanceiro e disse a Teodulo: 

— És um parvo.

continua na página 525...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - VI — O substituto 
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OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / V — Pobreza, boa vizinha da miséria

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     V — Pobreza, boa vizinha da miséria

             Mário sentia grande predileção por esse velho cândido, que se via lentamente surpreendido pela indigência, o que lhe causava pouco a pouco um certo espanto sem contudo se entristecer.
     Mário encontrava Courfeyrac e procurava Mabeuf. Isto era contudo raro; sucedia, quando muito, uma ou duas vezes no mês.
     Mário gostava de dar longos passeios solitários pelos boulevards exteriores, ou pelo campo de Marte ou pelas ruas menos frequentadas do Luxemburgo. As vezes passava uma tarde inteira a olhar para uma horta, para os canteiros de cebolas, a ver esgaravatar as galinhas ou um cavalo a mover a roda de uma nora. Os que passavam contemplavam-no maravilhados e alguns achavam-lhe um aspecto suspeito e até sinistro. E ele não era mais do que um mancebo pobre, meditando ao acaso.
     Foi num desses passeios que ele descobriu o casebre Gorbeau, e como o tentasse o isolamento do lugar e o baixo preço da casa, alugou-a, sendo conhecido nela só pelo nome de senhor Mário.
     Alguns dos antigos generais ou dos antigos camaradas de seu pai, depois que souberam quem ele era, convidaram-no a ir visitá-los e Mário não recusava, porque eram ocasiões de falar de seu pai. Deste modo ia de tempos a tempos visitar o conde de Pajol, o general Bellavesne, o general Fririon, que estavam nos Inválidos. Tocava-se, cantava-se, e Mário nessas noites vestia o seu conjunto de casaco e calças dos dias solenes. Porém nunca ia a tais reuniões nem a tais bailes senão quando tudo estava coberto de geada, porque não podia pagar o aluguel de uma carruagem e queria chegar com as botas como espelhos.
     Nas horas de amargura, dizia ele algumas vezes: 

— Os homens são de tal modo organizados, que numa sala poder-se-á estar enlameado em toda a parte, menos nas botas. Numa sala ninguém nos exige, para sermos recebidos, senão uma coisa irrepreensível. Não é a consciência, são as botas.

     Todas as paixões, a não ser as do coração, se dissipam com o hábito da meditação. Foi assim que as febres políticas de Mário se desvaneceram A revolução de 1830 concorrera também para isso, satisfazendo-o e pacificando-o. Ficava o mesmo, menos, porém, quanto às suas iras, porque tinha ainda as mesmas opiniões, apenas algum tanto modificadas. Em rigor, o mancebo não tinha opiniões, tinha simpatias. De que partido era ele? Do partido da humanidade. De entre a humanidade, porém, escolhia a França; de entre a nação, o povo; de entre o povo, a mulher. Era para ela que a sua compaixão tendia principalmente. Atualmente preferia uma ideia a um fato, um poeta a um herói e ainda admirava mais um livro como Job do que um acontecimento como Marengo. Além disto, quando após um dia de meditação, voltava à noite pelos boulevards, e por entre os ramos das árvores divisava o espaço sem fundo, os clarões sem nome, o abismo, a escuridão, o mistério, tudo o que simplesmente é humano lhe parecia bem pequeno.
     Ele supunha ter, e talvez tivesse efetivamente, atingido a realidade da vida e da filosofia humana, chegando por fim a não contemplar senão o céu, única coisa que a verdade pode ver do fundo do seu poço.
     Todavia, isto não obstava a que ele multiplicasse os seus planos, combinações, castelos no ar e projetos de futuro. No estado de abstração em que andava, quem lhe tivesse devassado o que dentro dele se passava ficaria maravilhado da pureza daquela alma.
     Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consciência dos outros, julgaríamos com mais segurança um homem pelo que ele devaneia do que pelo que ele pensa. O pensamento é dominado pela vontade, o devaneio não. O devaneio, que é absolutamente espontâneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso espírito. Não há coisa que mais direta e profundamente saia do fundo da nossa alma do que as nossas aspirações irrefletidas e desmesuradas para esplendores do destino. Nestas aspirações é que se pode descobrir o verdadeiro carácter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras são o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o incógnito e o impossível, conforme a sua natureza.
     Por meados do ano de 1831, a velha que o servia, contou a Mário que iam ser postos na rua os seus mesquinhos vizinhos Jondrette. Mário, que quase era hóspede em casa, mal sabia que tinha vizinhos. 

— Porque os põem na rua? — perguntou ele. 
— Por não pagarem a renda, de que já devem dois meses. 
— E a quanto montam os alugueres vencidos? 
— A vinte francos — respondeu a velha. 
— Pegue lá — disse-lhe o mancebo. — Aí tem vinte e cinco francos. Pague o aluguel dessa pobre gente, dê-lhe os cinco francos e não diga que sou eu.

continua na página 521...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - V — Pobreza, boa vizinha da miséria / 
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

segunda-feira, 16 de março de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / IV — O senhor Mabeuf

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     IV — O senhor Mabeuf 

             Na ocasião em que o senhor Mabeuf dissera a Mário: — Certamente, aprovo as opiniões políticas —, exprimia o verdadeiro estado do seu espírito. Todas as opiniões políticas lhe eram indiferentes e aprovava-as todas sem distinção, para que elas o deixassem tranquilo, pelo mesmo modo que os gregos chamavam às Fúrias «belas, bondosas e encantadoras» Euménides.
     O senhor Mabeuf tinha por opinião política a apaixonada afeição às plantas, e sobretudo aos livros. Possuía como toda a gente a sua determinação em ista, sem a qual ninguém teria podido viver naquele tempo; mas não era nem realista, nem bonapartista, nem cartista, nem orleanista, nem anarquista; era alfarrabista.
     Não compreendia que os homens se ocupassem a odiar-se por causa de ninharias como a Carta, a democracia, a legitimidade, a monarquia, a república, etc., quando havia no mundo toda a espécie de musgos, de ervas e de arbustos que eles podiam contemplar, e montões de in-fólios e até de livros em formato de 32, que podiam folhear. O senhor Mabeuf tinha o maior cuidado em não ser inútil; ter livros não o impedia de ler, ser botânico, não o privava de ser jardineiro. Quando conhecera Pontmercy, o que determinara a simpatia entre eles fora que o coronel faria pelas flores o que ele fazia pelos frutos.
     O senhor Mabeuf tinha chegado a produzir peras de semente, tão saborosas como as de S. Germano; é de uma destas combinações que nasceu, segundo parece, a ameixa amarela de Outono, tão célebre hoje, e não menos perfumada do que a de Verão. Ouvia missa mais por doçura de carácter do que por devoção e porque, gostando da presença dos homens, mas odiando o seu ruído, só na igreja os achava reunidos e silenciosos.
     Conhecendo que era preciso ser alguma coisa, adotara a vida de sacristão. Enquanto ao mais, nunca conseguira amar tanto uma mulher como uma cebola de túlipa, ou estimar mais um homem do que os caracteres elzeverianos. Tinha já passado havia muito tempo os sessenta anos quando um dia lhe perguntaram: 

— Nunca se casou? 
— Não me lembra — disse ele.

     Quando lhe sucedia algumas vezes — a quem não sucede isto? — dizer: «Se eu fosse rico» Não era nunca mirando uma bonita rapariga, como Gillenormand fazia, mas quando contemplava um alfarrábio. Vivia só com uma velha governanta. Era um tanto gotoso nas mãos, e quando dormia, os seus velhos dedos, pela força do reumatismo, curvavam-se todos nas dobras dos lençóis. Coligira e publicara Uma Flora dos arrabaldes de Cauferefz com gravuras coloridas, obra assaz estimada, de que ele possuía as chapas, e que por si mesmo vendia. Todos os dias batiam duas ou três vezes à sua porta, na rua Mezières, por este motivo. Obtinha assim os seus dois mil francos por ano; o que resumia toda a sua fortuna. Ainda que pobre, tivera o talento de juntar, à força de paciência, de privações e de tempo, uma colecção preciosa de exemplares raros em todos os gêneros. Nunca saía de casa sem levar um livro debaixo do braço, mas voltava sempre trazendo dois. A única decoração das quatro salas do rés-do-chão que, com um jardinzinho, compunham a sua habitação, consistia em herbários emoldurados e gravuras de velhos mestres. A presença de um sabre ou de uma espingarda gelava-o. Nunca na sua vida se aproximara de uma peça de artilharia, nem mesmo nos Inválidos. Tinha um estômago sofrível, um irmão cura, os cabelos todos brancos, completa falta de dentes tanto na boca como no espírito, tremura em todo o corpo, pronunciado acento picardo, riso infantil, a maior facilidade em se assustar, e o todo de um velho cordeiro. Para juntar a tudo isto, não tinha outra amizade ou relações entre os vivos, senão um velho livreiro da porta S. Jacques, chamado Royol. O seu grande sonho era naturalizar o anil em França. 
     A sua governanta era também uma das variedades da inocência. A pobre e excelente velha conservara-se solteira. O seu gato, chamado Sultão, que teria podido miar o miserere de Allegri na capela Sistina, preenchera-lhe o coração e absorvera-lhe toda a quantidade de paixão de que era susceptível. Nenhum dos seus sonhos chegara até ao homem. Não pudera nunca ultrapassar o seu gato; e tinha barbas como ele. Passava o tempo, ao domingo, depois da missa, a contar a roupa que possuía na sua caixa, e a estender sobre a cama diferentes cortes de vestido, que comprava e nunca fazia. Sabia ler. O senhor Mabeuf pusera-lhe o apelido de tia Plufarco.
     Mabeuf simpatizava com Mário, porque, sendo moço e de uma índole meiga, lhe aquecia a velhice sem assustar a timidez. A mocidade com doçura produz nos velhos o efeito do sol sem vento.
     Quando Mário estava saturado de glória militar, de pólvora, de marchas e contramarchas, e de todas as prodigiosas batalhas em que seu pai dera e recebera tão grandes cutiladas, e ia visitar Mabeuf, este falava-lhe do herói debaixo do ponto de vista das flores.
     Em 1830 morrera-lhe o irmão, abade, e quase imediatamente, como quando vem chegando a noite, se lhe toldara o horizonte de cerrada escuridão. Com a falência de certo banqueiro perdeu uns dez mil francos, que era a quanto subiam todos os seus haveres e os que herdara de seu irmão. A revolução de Julho produziu uma crise no comércio de livros. Em tempos críticos a primeira coisa que deixa de se vender é uma Flora. Por conseguinte, o consumo da Flora dos arredores de Cauferetz cessou de súbito. Passavam-se semanas sem se vender um só exemplar. Às vezes, Mabeuf estremecia a um toque de campainha, cuidando que seria algum comprador. A tia Plutarco, porém, chegava-se a ele e dizia-lhe tristemente: «É o aguadeiro». Em suma, um dia, Mabeuf deixou a rua de Mezières, abdicou das funções de sacristão, renunciou a S. Sulpício, vendeu uma parte, não dos seus livros, mas das estampas que era o que menos apreciava e foi estabelecer-se numa casinha do boulevard Montparnasse, onde, todavia, morou apenas três meses, por duas razões: a primeira porque o andar térreo e o jardim custavam trezentos francos, e ele não ousava gastar mais do que duzentos para renda de casa; a segunda, porque ficava próximo à escola de tiro de Fatou, e por consequência a cada instante estava a ouvir tiros de pistola, o que se lhe tornava insuportável.
     Pegou, pois, na sua Flora, nas chapas, nos seus ervários, carteiras e livros, e foi estabelecer-se ao pé da Salpêtrière, numa espécie de choupana da aldeia de Austerlitz, onde, por cinquenta escudos anuais, tinha três salas e um jardim, murado por uma sebe e com poço. Aproveitou-se desta mudança para vender quase todos os seus móveis. No dia em que deu entrada na sua nova morada, andou sempre muito alegre e foi ele próprio que pregou os pregos para as gravuras e ervários, gastando o resto do dia em tirar as ervas ao jardim. A noite, vendo a tia Plutarco com ar triste e modo pensativo, bateu-lhe no ombro e disse-lhe, sorrindo: «O anil temos nós!»
     Só duas pessoas, o livreiro da porta de S. Jacques e Mário, tinham permissão de visitá-lo na sua choupana de Austerlitz, nome bombástico que, a falar a verdade, lhe era sumamente desagradável.
     Como acabamos de indicar, os cérebros absorvidos numa ciência ou numa mania, ou, o que frequentes vezes se dá, em ambas as coisas juntamente, apenas lentamente se tornam permeáveis às coisas da vida. Até do próprio destino andam remotos. Resulta, portanto, destas concentrações numa possibilidade, que, se fosse razoável, pareceria filosofia. Declina o indivíduo, desce, exaure-se, abate-se, quase sem dar por tal. Acaba isto sempre, é verdade, por um despertar, porém tardio. No entanto, parece que se conserva neutro na luta que se trava entre a sua boa e má sorte. É ele o objeto da luta e olha para ela com indiferença.
     Foi assim que por entre a escuridão que se operava em torno de Mabeuf, e desvanecendo-se todas as suas esperanças uma após outra, ele ficara sereno, algum tanto pueril, porém profundamente. Os hábitos do seu espírito tinham o movimento oscilatório de uma pêndula.
     Uma vez que uma ilusão lhe desse corda, trabalhava por muito tempo, mesmo depois de ter acabado a ilusão. Um relógio não para repentinamente na ocasião em que perdemos a chave dele.
     Mabeuf tinha prazeres inocentes. Eram prazeres pouco custosos e inesperados; o menor acaso os ocasionava.
     Um dia, a tia Plutarco lia um romance em voz alta a um canto do quarto, parecendo-lhe que assim compreendia melhor o que lia. Ler em voz alta é afirmar cada um a si mesmo o que lê. Há pessoas que leem em voz tão alta que parecem estar a asseverar a si mesmas debaixo de palavra de honra aquilo que leem.
     A tia Plutarco lia pois com essa energia o romance que tinha na mão e Mabeuf ouvia sem a escutar.
     No decurso da sua leitura, tratando-se nela de um oficial de dragões e de uma bela, chegou à seguinte frase: 

«...A bela boudha e o dragão...»

     Neste ponto interrompeu-se para limpar os óculos. 

— Boudha e o Dragão — repetiu Mabeuf a meia voz. — É isso, não há dúvida; houve um dragão que do fundo do seu antro lançava chamas pela boca, as quais incendiavam o céu. Já muitas estrelas haviam sido queimadas por este monstro, que de mais a mais tinha garras de tigre. Então Boudha foi ao antro dele e conseguiu converter o dragão. É um bom livro esse que está a ler, tia Phutarco. Não há lenda mais bonita.

     Em seguida embrenhou-se em profunda meditação.

continua na página 519...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - IV — O senhor Mabeuf  
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira