Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Parte 1
1.
continuando...
Acontecera naquela manhã no Ministério, se é que se podia dizer que
algo assim tão nebuloso pudesse ser chamado de acontecimento.
Eram quase onze da manhã, e no Departamento de Documentação, onde
Winston trabalhava, já arrastavam as cadeiras para fora das estações de
trabalho para reuni-las no centro do salão, na frente da grande teletela, nos
preparativos para os Dois Minutos de Ódio. Winston estava a ponto de se
instalar em uma das fileiras centrais, quando de repente duas pessoas a
quem conhecia de vista mas com quem nunca trocara uma só palavra
entraram no aposento. Uma delas era uma garota com quem muitas vezes
cruzava nos corredores. Não sabia seu nome, porém sabia que trabalhava no
Departamento de Ficção. Supunha — já que a vira algumas vezes com as
mãos sujas de óleo e munida de uma chave inglesa — que tivesse uma
função de caráter mecânico em alguma das máquinas romanceadoras. Era
uma garota de ar provocador, de uns vinte e sete anos, abundante cabelo
preto, rosto sardento e movimentos bruscos, atléticos. Trazia uma faixa
estreita, escarlate, símbolo da Liga Juvenil Antissexo, enrolada na cintura por
cima do macacão, de modo a evidenciar sutilmente as formas harmoniosas
de seus quadris. Winston sentira aversão por ela desde o primeiríssimo
momento em que a vira. Sabia a razão. Era por causa da atmosfera de
quadras de hóquei, banhos frios, caminhadas comunitárias e mente
impoluta que, por alguma razão, a impregnava. Sentia aversão por quase
todas as mulheres, sobretudo as jovens e bonitas. Os adeptos mais fanáticos
do Partido, os devoradores de slogans, os espiões amadores e os farejadores
de inortodoxia eram sempre mulheres, sobretudo as jovens. Mas aquela
garota em especial lhe dava a impressão de ser mais perigosa do que a
maioria. Numa ocasião em que os dois haviam se cruzado no corredor ela lhe
dirigira um rápido olhar enviesado que parecera perfurar seu corpo e por um
instante o deixara tomado do mais profundo horror. Passara-lhe pela cabeça,
inclusive, que ela devia ser uma agente da Polícia das Ideias. Isso, na verdade,
era muito improvável. Mesmo assim ele continuava a sentir um desconforto
esquisito, uma mistura de medo e hostilidade, sempre que ela estava por
perto.
A outra pessoa era um homem chamado O’Brien, membro do Núcleo do
Partido e ocupante de um cargo tão importante e remoto que Winston fazia
apenas uma vaga ideia de qual fosse sua natureza. Por um momento, ao ver
o macacão negro de um membro do Núcleo do Partido se aproximar, o grupo
de pessoas que cercavam as cadeiras ficou em silêncio. O’Brien era um
homem grande, corpulento, de pescoço grosso e rosto rude, jocoso, brutal. A
despeito da aparência imponente, seu estilo não era desprovido de sedução.
Tinha um jeito de reposicionar os óculos no alto do nariz que era
curiosamente desarmante — de um modo impossível de definir,
curiosamente civilizado. Era um gesto que, caso ainda fosse possível alguém
pensar nestes termos, talvez lembrasse um nobre inglês do século XVIII
oferecendo a caixa de rapé. Winston cruzara O’Brien uma dúzia de vezes,
talvez, ao longo de um número quase igual de anos. Sentia-se intensamente
atraído por ele, e não apenas porque o contraste entre seus modos educados
e seu físico de combatente de elite o intrigasse. Era muito mais em razão de
uma crença secreta — talvez nem chegasse a ser crença, talvez fosse
apenas uma esperança —: a de que a ortodoxia política de O’Brien não era
impecável. Alguma coisa no rosto do outro o fazia acreditar piamente nisso.
E, de novo, talvez não fosse nem inortodoxia o que estava escrito naquele
rosto, mas tão só inteligência. Por isso ou por aquilo, O’Brien parecia ser uma
pessoa com quem se podia conversar, se por acaso fosse possível lograr a
teletela e ficar a sós com ele. Winston nunca fizera o menor esforço para
tirar sua dúvida a limpo: na verdade, não havia como fazê-lo. Naquele
momento O’Brien dirigiu os olhos para o relógio de pulso, viu que já eram
quase onze horas e, óbvio, resolveu ficar no Departamento de Documentação
até o término dos Dois Minutos de Ódio. Ocupou um assento na mesma
fileira em que estava Winston, a dois lugares de distância. Uma mulher
franzina, de cabelo ruivo, que trabalhava no cubículo vizinho ao de Winston,
estava sentada entre os dois. A garota de cabelo escuro estava logo atrás.
Pouco depois um guincho pavoroso, estridente, como o som produzido
por alguma máquina monstruosa girando sem lubrificação, escapou da vasta
teletela posicionada no fundo da sala. Era um barulho que mexia com os
nervos da pessoa e arrepiava os cabelos da nuca. O Ódio havia começado.
Como de costume, o rosto de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo,
surgira na tela. Ouviram-se assobios em vários pontos da plateia. A mulher
ruiva e franzina soltou um guincho em que medo e repugnância se fundiam.
Goldstein era o renegado e apóstata que um dia, muito tempo antes (quanto
tempo, exatamente, era coisa de que ninguém se lembrava), fora uma das
figuras destacadas do Partido, quase tão importante quanto o próprio Grande
Irmão, e que depois se entregara a atividades contrarrevolucionárias, fora
condenado à morte e em seguida fugira misteriosamente e sumira do mapa.
A programação de Dois Minutos de Ódio variava todos os dias, mas o principal
personagem era sempre Goldstein. Ele era o traidor original, o primeiro
conspurcador da pureza do Partido. Todos os crimes subsequentes contra o
Partido, todas as perfídias, sabotagens, heresias, todos os desvios eram
resultado direto de sua pregação. Desta ou daquela maneira ele continuava
vivo e maquinando seus conluios: talvez em algum lugar do outro lado do
mar, talvez até sob a proteção de seus benfeitores estrangeiros — era o que
se dizia ocasionalmente — em algum esconderijo na própria Oceânia.
O diafragma de Winston estava contraído. Ele era incapaz de olhar para o
rosto de Goldstein sem ser invadido por uma dolorosa combinação de
emoções. Era um rosto judaico chupado, envolto por uma vasta lanugem de
cabelo branco e munido de um pequeno cavanhaque — um rosto inteligente
e apesar disso, por alguma razão, inerentemente desprezível, com uma
espécie de tolice senil no longo nariz esguio, onde se equilibrava um par de
óculos já perto da ponta. Parecia a cara de uma ovelha, e a voz, também,
tinha uma qualidade algo ovina. Goldstein bradava seu discurso envenenado
de sempre sobre as doutrinas do Partido — um discurso tão exagerado e
perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo
suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela
sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele
próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado. Goldstein
atacava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata
celebração da paz com a Eurásia, defendia a liberdade de expressão, a
liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento,
gritava histericamente que a revolução fora traída — e tudo isso num rápido
discurso polissilábico que era uma espécie de paródia do estilo habitual dos
oradores do Partido, inclusive com palavras em Novafala: mais palavras em
Novafala, aliás, do que qualquer membro do Partido costumava usar na vida
real. E o tempo todo, para que ninguém alimentasse uma dúvida sequer
sobre a realidade encoberta pela lenga-lenga especiosa de Goldstein, por trás
de sua cabeça, na teletela, desfilavam as colunas intermináveis do exército
eurasiano — fileira após fileira de homens de aspecto sólido e fisionomias
asiáticas desprovidas de expressão, que emergiam na superfície da tela e
desapareciam, para ser substituídos por outros exatamente iguais. O rumor
abafado e ritmado das botas dos soldados formava o pano de fundo para a voz
de trombone de Goldstein.
Não fazia nem meio minuto que o Ódio havia começado e metade das
pessoas presentes no salão já começara a emitir exclamações incontroláveis
de fúria. Impossível tolerar a visão do rosto ovino repleto de empáfia na tela e
o poder aterrador do exército eurasiano logo atrás. Além disso, a visão ou
mesmo a ideia de Goldstein produziam automaticamente medo e ira. Ele era
um objeto de ódio ainda mais constante do que a Eurásia ou a Lestásia, já
que sempre que a Oceânia entrava em guerra com uma dessas potências,
costumava estar em paz com a outra. O estranho, porém, era que embora
Goldstein fosse odiado e desprezado por todos, embora todos os dias, e mil
vezes por dia, nos palanques, nas teletelas, nos jornais, nos livros, suas
teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, expostas ao escárnio
geral como o lixo lamentável que eram, apesar disso tudo, o ritmo de
crescimento de sua influência parecia nunca arrefecer. Sempre havia novos
trouxas à espera de ser seduzidos por ele. Não se passava um dia sem que
espiões e sabotadores agindo a seu serviço fossem desmascarados pela
Polícia das Ideias. Ele era o comandante de um vasto exército nas sombras,
uma rede clandestina de conspiradores dedicados à derrubada do Estado. A
Confraria, esse era seu suposto nome. Também circulavam histórias sobre
um livro terrível, um compêndio de todas as heresias, do qual Goldstein era o
autor e que circulava clandestinamente aqui e ali. Um livro sem título.
Quando queriam referir-se a ele, as pessoas diziam apenas o livro. Mas só se
tomava conhecimento dessas coisas por intermédio de boatos imprecisos.
Nem a Confraria nem o livro eram assuntos que um membro comum do
Partido estivesse inclinado a mencionar se pudesse evitá-lo.
Em seu segundo minuto, o Ódio virou desvario. As pessoas pulavam em
seus lugares, gritando com toda a força de seus pulmões no esforço de
afogar a exasperante voz estentórea que saía da tela. A mulher esguia e
ruiva adquirira uma tonalidade rosa-vivo, e sua boca se abria e se fechava
como a boca de um peixe fora d’água. Mesmo o rosto severo de O’Brien ficara
rubro. Ele estava sentado muito ereto na cadeira; seu peito vigoroso estufava
e estremecia como se estivesse enfrentando uma vaga. A garota de cabelo
escuro sentada atrás de Winston começara a gritar “Porco! Porco! Porco!”, e
de repente apanhou um pesado dicionário de Novafala e arremessou-o
contra a tela. O livro bateu no nariz de Goldstein e despencou: a voz,
inexorável, prosseguia. Num momento de lucidez, Winston constatou estar
berrando junto com os outros e percebeu que golpeava violentamente a trave
de sua cadeira com os calcanhares. O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio
não era o fato de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser
impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos, já não era
preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um
desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia
circular pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as
pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a berrar, rostos
deformados pela fúria. Mesmo assim, a raiva que as pessoas sentiam era
uma emoção abstrata, sem direção, que podia ser transferida de um objeto
para outro como a chama de um maçarico. Assim, em determinado instante
a fúria de Winston não estava nem um pouco voltada contra Goldstein, mas,
ao contrário, visava o Grande Irmão, o Partido e a Polícia das Ideias; e nesses
momentos seu coração se solidarizava com o herege solitário e ridicularizado
que aparecia na tela, único guardião da verdade e da saúde mental num
mundo de mentiras. Isso não o impedia de, no instante seguinte, irmanar-se
àqueles que o cercavam; quando isso acontecia, tudo o que era dito a
respeito de Goldstein lhe parecia verdadeiro. Nesses momentos, sua repulsa
secreta pelo Grande Irmão se transformava em veneração, e o Grande Irmão
adquiria uma estatura monumental, transformava-se num protetor
destemido, firme feito rocha para enfrentar as hordas da Ásia, e Goldstein, a
despeito de seu isolamento, de sua vulnerabilidade e da incerteza que
cercava inclusive sua existência, virava um mago sinistro, capaz de destruir
a estrutura da civilização com o mero poder de sua voz.
Em algumas ocasiões chegava a ser possível alterar o objeto do próprio
ódio por meio de um ato voluntário. De chofre, graças a um esforço violento
como aquele a que recorremos para erguer a cabeça do travesseiro durante
um pesadelo, Winston conseguia transferir seu ódio ao rosto que aparecia
na tela para a garota de cabelo escuro sentada logo atrás. Alucinações
vívidas, belas, passavam-lhe pela mente. Haveria de golpeá-la até a morte
com um cassetete de borracha. Haveria de amarrá-la nua a uma estaca e
depois alvejá-la com flechas, como são Sebastião. Haveria de violentá-la e no
momento do clímax cortaria sua garganta. De mais a mais, agora percebia
mais claramente que antes por que a odiava. Odiava-a porque era jovem e
bela e assexuada, porque queria ir para a cama com ela e nunca o faria,
porque em torno de sua adorável cintura flexível que parecia lhe pedir que a
envolvesse com o braço havia apenas a odiosa faixa escarlate, símbolo
agressivo de castidade.
O Ódio chegou ao clímax. A voz de Goldstein se transformara efetivamente num balido de ovelha e por um instante seu rosto assumiu um semblante de ovelha. Depois o semblante de ovelha se dissolveu e foi substituído pelo rosto de um soldado eurasiano que parecia avançar, imenso e terrível, metralhadora roncando, como se pretendesse saltar para fora da superfície da tela, de modo que algumas pessoas sentadas na primeira fila se inclinaram para trás nos assentos. No mesmo instante, porém, levando todos os presentes a suspirar aliviados, o personagem hostil desapareceu para dar lugar ao rosto do Grande Irmão, cabelo preto, bigode preto, cheio de força e misteriosa calma, e tão imenso que quase enchia a tela inteira. Ninguém ouvia o que o Grande Irmão estava dizendo. Eram apenas algumas palavras de estímulo, o tipo de palavras pronunciadas no fragor da batalha, impossíveis de distinguir isoladamente, mas que restauram a confiança pelo mero fato de serem ditas. Em seguida o rosto do Grande Irmão se esfumou outra vez e os três slogans do Partido, em letras maiúsculas, ocuparam seu lugar.
O Ódio chegou ao clímax. A voz de Goldstein se transformara efetivamente num balido de ovelha e por um instante seu rosto assumiu um semblante de ovelha. Depois o semblante de ovelha se dissolveu e foi substituído pelo rosto de um soldado eurasiano que parecia avançar, imenso e terrível, metralhadora roncando, como se pretendesse saltar para fora da superfície da tela, de modo que algumas pessoas sentadas na primeira fila se inclinaram para trás nos assentos. No mesmo instante, porém, levando todos os presentes a suspirar aliviados, o personagem hostil desapareceu para dar lugar ao rosto do Grande Irmão, cabelo preto, bigode preto, cheio de força e misteriosa calma, e tão imenso que quase enchia a tela inteira. Ninguém ouvia o que o Grande Irmão estava dizendo. Eram apenas algumas palavras de estímulo, o tipo de palavras pronunciadas no fragor da batalha, impossíveis de distinguir isoladamente, mas que restauram a confiança pelo mero fato de serem ditas. Em seguida o rosto do Grande Irmão se esfumou outra vez e os três slogans do Partido, em letras maiúsculas, ocuparam seu lugar.
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA
O rosto do Grande Irmão, contudo, deu a impressão de permanecer na tela por vários segundos mais, como se o impacto que causara nas retinas de todos os presentes fosse vívido demais para desaparecer imediatamente. A mulher esguia e ruiva se jogara para a frente, apoiando-se no encosto da cadeira diante dela. Com um murmúrio trêmulo que parecia dizer “Meu Salvador!”, estendeu os braços para a tela. Em seguida afundou o rosto nas mãos. Era visível que fazia uma oração.
Nesse momento todo o grupo ali presente prorrompeu num canto grave,
lento, ritmado, em que entoava “g-i!... g-i!... g-i!…” — uma e outra vez, muito
devagar, com uma longa pausa entre o “g” e o “i” —, um som grave, em
surdina, às vezes curiosamente feroz, em cujo segundo plano parecia ouvir
se o ruído de pés descalços golpeando o chão e o latejar de tantãs. Aquilo
continuou por uns trinta segundos. Tratava-se de um refrão ouvido com
frequência em momentos de emoção avassaladora. Em parte era uma
espécie de hino à sabedoria e à majestade do Grande Irmão, mas antes de
mais nada era um ato de auto-hipnose, um embotamento voluntário da
consciência por intermédio de um ruído rítmico. Winston teve a sensação de
gelar por dentro. Durante os Dois Minutos de Ódio ele não conseguia deixar
de se integrar ao delírio coletivo, porém aquela entonação sub-humana de “g
i!... g-i!...” sempre o deixava horrorizado. Claro que cantava com os outros:
impossível não fazê-lo. Dissimular os próprios sentimentos, manter a
expressão do rosto sob controle, fazer o que os outros fazem: tudo reações
instintivas. Mas houve um espaço de uns dois segundos durante o qual a
expressão de seus olhos talvez o tivesse traído. E foi exatamente nesse
instante que a coisa significativa aconteceu — se é que de fato aconteceu.
Por um instante seus olhos se encontraram com os de O’Brien. O’Brien
se erguera de seu assento. Tirara os óculos e estava recolocando-os no nariz
naquele seu gesto característico. Mas houve uma fração de segundo em que
os olhos dos dois se encontraram, e enquanto isso acontecia Winston
compreendeu — sim, compreendeu! — que O’Brien pensava o mesmo que ele.
Uma mensagem inequívoca fora transmitida. Era como se as duas mentes,
de Winston e O’Brien, tivessem se aberto e os pensamentos fluído de um
para o outro através dos olhos. “Estou com você”, O’Brien parecia estar
dizendo. “Sei exatamente o que está sentindo. Sei tudo sobre seu desprezo,
seu ódio, seu asco. Mas não se preocupe, estou com você!” Em seguida o
clarão de entendimento se dissipou e o rosto de O’Brien voltou a ser tão
impenetrável quanto os de todos os outros.
Isso fora tudo, e ele já não estava seguro quanto ao que acontecera.
Incidentes como aquele nunca tinham sequelas. Eles só serviam para
manter viva, nele, a fé, ou a esperança, de que outros além dele fossem
inimigos do Partido. Talvez, afinal, os boatos sobre a existência de vastas
conspirações clandestinas fossem verdadeiros — talvez a Confraria
realmente existisse! Era impossível, apesar da infinidade de prisões e
confissões e execuções, ter certeza de que a Confraria não passava de
invenção. Havia dias em que ele acreditava em sua existência, outros em que
não acreditava. Nada confirmava o fato, além de vislumbres passageiros que
talvez significassem alguma coisa, talvez não significassem nada:
fragmentos de conversa ouvidos de forma difusa, rabiscos pouco legíveis nas
paredes dos lavatórios — uma vez, inclusive, ao presenciar o encontro de
dois estranhos, um mínimo movimento de mãos que lhe parecera um sinal
de reconhecimento. Tudo não passava de hipótese: muito provavelmente
imaginara aquilo. Voltara para sua estação de trabalho sem tornar a olhar
para O’Brien. A ideia de levar adiante aquele contato passageiro nem lhe
passara pela cabeça. Teria sido perigoso ao extremo, mesmo que soubesse
como agir para fazê-lo. Por um segundo, dois segundos, ele e O’Brien haviam
trocado um olhar equívoco, e ponto final. Mas mesmo isso era um
acontecimento memorável na solidão cerrada em que eram obrigados a viver.
Winston saiu de seu torpor e endireitou o corpo na cadeira. Soltou um
arroto. O gim em seu estômago começava a subir.
Seus olhos voltaram a fitar a página. Constatou que durante o tempo em
que ficara ali sentado sentindo-se desamparado continuara a escrever, como
numa ação automática. E já não era a letra retraída e desajeitada de antes. A
pena deslizara voluptuosamente pelo papel macio, grafando em letras de
forma graúdas e nítidas:
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
vezes sem fim, enchendo metade de uma página.
Não conseguiu evitar uma fisgada de pânico. Um absurdo, já que
escrever aquelas palavras específicas não era mais perigoso do que o ato
inicial de começar um diário; por um momento, porém, teve a tentação de
arrancar as páginas inutilizadas e deixar todo o projeto de lado.
Não o fez, porém, porque sabia que era inútil. O fato de escrever ou deixar de escrever ABAIXO O GRANDE IRMÃO era irrelevante. Não fazia a menor diferença levar o diário adiante ou não. De toda maneira, a Polícia das Ideias haveria de apanhá-lo. Cometera — e teria cometido, mesmo que jamais houvesse aproximado a pena do papel — o crime essencial que englobava todos os outros. Pensamento-crime, eles o chamavam. O pensamento-crime não era uma coisa que se pudesse disfarçar para sempre. Você até conseguia se esquivar durante algum tempo, às vezes durante anos, só que mais cedo ou mais tarde, com toda a certeza, eles o agarrariam.
Não o fez, porém, porque sabia que era inútil. O fato de escrever ou deixar de escrever ABAIXO O GRANDE IRMÃO era irrelevante. Não fazia a menor diferença levar o diário adiante ou não. De toda maneira, a Polícia das Ideias haveria de apanhá-lo. Cometera — e teria cometido, mesmo que jamais houvesse aproximado a pena do papel — o crime essencial que englobava todos os outros. Pensamento-crime, eles o chamavam. O pensamento-crime não era uma coisa que se pudesse disfarçar para sempre. Você até conseguia se esquivar durante algum tempo, às vezes durante anos, só que mais cedo ou mais tarde, com toda a certeza, eles o agarrariam.
Era sempre à noite — as prisões invariavelmente aconteciam à noite. O
tranco súbito que arranca do sono, a mão brutal sacudindo o ombro, as luzes
ofuscando os olhos, o círculo de rostos impiedosos em torno da cama. Na
vasta maioria dos casos não havia julgamento, não havia registro de prisão.
As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. Seus
nomes eram removidos dos arquivos, todas as menções a qualquer coisa que
tivessem feito eram apagadas, suas existências anteriores eram negadas e
em seguida esquecidas. Você era cancelado, aniquilado. Vaporizado, esse o
termo costumeiro.
Por um momento, foi tomado por uma espécie de histeria. Começou a
escrever, em garranchos apressados e sem capricho:
vão me dar um tiro não me incomodo vão me dar um tiro na nuca não
me incomodo abaixo o grande irmão eles sempre atiram na nuca não me
incomodo abaixo o grande irmão...
Recostou-se outra vez na cadeira, um pouco envergonhado de si mesmo,
e largou a pena. No instante seguinte estremeceu com violência. Alguém
batia à porta.
Já!? Ficou ali sentado, imóvel feito um rato, na esperança inútil de que a
pessoa junto à porta fosse embora depois da primeira tentativa. Mas não,
bateram outra vez. O pior de tudo seria protelar. Seu coração batia como um
tambor, porém seu rosto provavelmente estava desprovido de expressão,
resultado de um longo hábito. Ergueu-se e se aproximou da porta arrastando
os pés.
continua na página 26...
_____________________
Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) / Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério)
_____________________
_____________________
George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário