domingo, 16 de julho de 2017

Autumn Leaves

Yenne Lee





quando você não sabe o que dizer... escute












Yves Montand - Les Feuilles Mortes








Yves Montand






Eric Clapton





The falling leaves drift by my window
The autumn leaves of red and gold
I see your lips, the summer kisses
The sunburned hands, I used to hold

Since you went away, the days grow long
And soon I'll hear old winter's song
But I miss you most of all, my darling
When autumn leaves start to fall

Since you went away, the days grow long
And soon I'll hear old winter's song
But I miss you most of all, my darling
When autumn leaves start to fall

Yes, I miss you most of all, my darling
When autumn leaves start to fall






Jon Faddis - trumpet






John Coltrane

Dom Casmurro: "A Senhora Saiu"


Machado de Assis

Dom Casmurro





CAPÍTULO XLVII
"A SENHORA SAIU”



— Está bom, acabou, disse eu finalmente; mas, explique-me só uma coisa, por que é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar? 

— Não foi por nada, respondeu Capitu, depois de alguma hesitação... Para que bulir nisso? 

— Diga sempre. Foi por causa do seminário? 

— Foi; ouvi dizer que lá dão pancada... Não? Eu também não creio. 

A explicação agradou-me; não tinha outra. Se, como penso, Capitu não disse a verdade, força é reconhecer que não podia dizê-la, e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que "a senhora saiu", quando a senhora não quer falar a ninguém. Há nessa cumplicidade um gosto particular; o pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas, não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas, e as costas com que elas descem... A verdade não saiu, ficou em casa, no coração de Capitu, cochilando o seu arrependimento. E eu não desci triste nem zangado; achei a criada galante, apetecível, melhor que a ama. 

As andorinhas vinham agora em sentido contrário, ou não seriam as mesmas. Nós é que éramos os mesmos; ali ficamos, somando as nossas ilusões, os nossos temores, começando já a somar as nossas saudades. 




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Texto de referência:

Obras Completas de Machado de Assis, vol. I,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1899.

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Dom Casmurro: Capítulo Primeiro DO TÍTULO


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Memórias Póstumas de Brás Cubas: Um Cubas!

Machado de Assis


Memórias Póstumas de Brás Cubas







CAPÍTULO XLIV / UM CUBAS!





Meu pai ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer que não morreu de outra coisa. Eram tantos os castelos que engenhara, tantos e tantíssimos os sonhos, que não podia vê-los assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A princípio não quis crê-lo. Um Cubas! um galho da árvore ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal convicção, que eu, já então informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a volúvel dama, para só contemplar aquele fenômeno, não raro, mas curioso: uma imaginação graduada em consciência. 

— Um Cubas! repetia-me ele na seguinte manhã, ao almoço. 

Não foi alegre o almoço; eu próprio estava a cair de sono. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossível; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia passageira, alguma obediência e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um despeitozinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranquila das auroras. 

Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo. Morreu daí a quatro meses, — acabrunhado, triste, com uma preocupação intensa e contínua, à semelhança de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve ainda meia hora de alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, — lembra-me bem, — vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentração de 1uz, que era, por assim dizer, o último lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum lugar alto, como aliás me cabia. 

— Um Cubas! 

Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem coisa nenhuma; tinha de morrer, morreu. 

— Um Cubas!





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Texto-fonte: 
Obra Completa, Machado de Assis, 
Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994. 


Publicado originalmente em folhetins, a partir de março de 1880, na Revista Brasileira.


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Memórias Póstumas de Brás Cubas: Prólogo e AO LEITOR



quarta-feira, 12 de julho de 2017

Eternamente tu mano

"YOLANDA"

Silvio Rodríguez y Pablo Milanés



Cuando te vi sabia que era cierto
Este temor de hallarme descubierto

Vamos viviendo
Viendo las horas
Que van muriendo









Yolanda


Esto no puede ser no mas que una cancion
Quisiera fuera una declaracion de amor
Romantica sin reparar en formas tales
Que ponga freno a lo que siento ahora a raudales
Te amo
Te amo
Eternamente te amo

Si me faltaras no voy a morirme
Si he de morir quiero que sea contigo
Mi soledad se siente acompañada
Por eso a veces se que necesito
Tu mano
Tu mano
Eternamente tu mano

Cuando te vi sabia que era cierto
Este temor de hallarme descubierto
Tu me desnudas con siete razones
Me abres el pecho siempre que me colmas
De amores
De amores
Eternamente de amores

Si alguna vez me siento derrotado
Renuncio a ver el sol cada mañana
Rezando el credo que me has enseñado
Miro tu cara y digo en la ventana
Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda
Eternamente Yolanda



Composición: Pablo Milanés




El tiempo pasa
Pablo Milanés




Años


El tiempo pasa
Nos vamos poniendo viejos
Yo el amor
No lo reflejo como ayer
En cada conversación
Cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo
De razón


Vamos viviendo
Viendo las horas
Que van muriendo
Las viejas discusiones
Se van perdiendo
Entre las razones
Porque años atrás
Tomar tú mano
Robarte un beso
Sin forzar el momento
Formaban parte de una verdad


Porque el tiempo pasa
Nos vamos poniendo viejos
Yo el amor
No lo reflejo como ayer
En cada conversación
Cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo
De razón


A todo dices que sí
A nada digo que no
Para poder construir
Esta tremenda armonía
Que pone viejo los corazones


Porque el tiempo pasa
Nos vamos poniendo viejos
Yo el amor
No lo reflejo como ayer
En cada conversación
Cada beso cada abrazo
Se impone siempre un pedazo
De razón



Composição: Pablo Milanés





El Amor De Mi Vida
Pablo Milanés









Los Caminos
Pablo Milanés








Donde Estaran Los Amigos De Ayer
Pablo Milanés



"Dejar la foto de Silvio ahí toda la cancion, es raro.......
Es porque el amigo de ayer es Silvio'



Cuánto Gané, Cuánto Perdí


Dónde estarán los amigos de ayer
La novia fiel que siempre dije amar.
Dónde andarán mi casa y su lugar
Mi carro de jugar, mi calle de correr.
Dónde andarán la prima que me amó
El rincón que escondió, mis secretos de ayer.

Cuánto gané, cuánto perdí,
Cuánto de niño pedí,
Cuánto de grande logré
Qué es lo que me ha hecho feliz
Qué cosa me ha de doler.

Si era vivir la infancia
Con el ansia de todo saber
Pues el saberlo todo y con nostalgia
Ver lo que se fue.

Dónde estarán, a un lado de mi piel
Los guardo bien y a veces brotarán
Y endulzaran un brusco acontecer
Llenándome de miel que muchos libarán.
Me lanzarán al viento
Y a mi tiempo me retornarán
Vendré feliz y fresco
Para siempre sé donde estarán.



Composição: Pablo Milanés









15.O Estrangeiro: O gatilho cedeu - Albert Camus

Albert Camus


Capítulo 6


15. O gatilho cedeu




NO DOMINGO, custou-me tanto a acordar, que foi preciso a Maria chamar-me e sacudir-me. Não comemos, porque queríamos tomar cedo o banho de mar. Sentia-me completamente vazio e doía-me um pouco a cabeça. O meu cigarro tinha um gosto amargo. Maria fez troça de mim porque dizia que eu estava com uma "cara de enterro". Pusera um vestido branco e soltara os cabelos. Disse-lhe que estava bonita e ela riu de contentamento. 

Ao sair, batemos à porta do Raimundo. Respondeu-nos que já vinha. Na rua, porque estava cansado e também porque não tínhamos aberto as persianas, o dia, já cheio de sol, bateu-me como uma verdadeira bofetada. Maria saltava de prazer e não parava de repetir que estava ótimo. Senti-me melhor e reparei que estava com fome. Disse-o a Maria, que me mostrou o seu saco de praia, onde pusera os nossos dois fatos de banho e uma toalha. Não havia nada a fazer, senão esperar, e ouvimos Raimundo fechar a porta. Trazia umas calças azuis e uma camisa branca, de mangas curtas. Mas pusera na cabeça um chapéu de palha, de que Maria se riu muito, e sob os pelos negros, tinha os braços muito brancos. Isto enojava-me um bocadinho. Ao descer, assobiava e tinha um ar muito contente. Disse-me: "Olá, pá", e tratou Maria por "Menina". 


Na véspera tínhamos ido ao comissariado e eu testemunhara que a mulher o "enganara". Saiu-se com um aviso e uma reprimenda. Não verificaram a minha informação. Diante da porta, falamos com Raimundo deste caso, e depois decidimo-nos a tomar o autocarro. A praia não era longe, mas assim iríamos mais depressa. Raimundo achava que o amigo ficaria contente por chegarmos tão cedo. Íamos partir quando Raimundo, de súbito , me fez um sinal para olhar em frente de mim. 

Reparei num grupo de Árabes encostados a um quiosque de tabacos. Olhavam-nos em silêncio, mas à maneira deles, como se fôssemos árvores mortas ou simplesmente pedras. Raimundo disse-me que "o tipo" era o segundo a contar da esquerda, e fez um ar preocupado. Acrescentou que, no entanto, o caso era agora história antiga. Maria não compreendia muito bem, e perguntou-nos o que se passava. Disse-lhe que eram uns Árabes, ressentidos contra Raimundo. Maria quis que nos fôssemos embora imediatamente. Raimundo endireitou-se e riu, dizendo para nos despacharmos. 

Fomos para a paragem dos autocarros, que ficava um pouco mais longe, e Raimundo anunciou que os Árabes não nos haviam seguido. Voltei-me para trás. Continuavam no mesmo lugar e olhavam com a mesma indiferença o sítio que acabávamos de deixar. Tomamos o autocarro. Raimundo, que parecia aliviado, não parava de gracejar em intenção de Maria. Senti que esta lhe agradava, mas vi - que ela não lhe respondia quase nunca. De tempos a tempos, Maria olhava-me e ria.

Descemos numa paragem dos arredores de Argel. A praia não ficava longe. Mas foi preciso atravessar um pequeno planalto que domina o mar e que desce em seguida para a praia. Estava coberto de pedras amareladas e de abróteas brancas, sob o azul já duro do céu. Maria divertia-se a espalhar as pétalas destas flores, batendo-lhes com o saco de praia. Marchamos entre filas de pequenas vivendas com cercas verdes ou brancas, algumas escondidas, com as suas varandas, entre os tamarizes, e outras, nuas e despojadas, no meio das pedras. Antes de chegar à borda do planalto, podia-se já ver o mar imóvel e, mais longo, um cabo maciço e sonolento na água clara. Subiu até nós, no ar calmo, um ligeiro barulho de motor. E vimos, muito longe, uma pequena canoa que avançava imperceptivelmente no mar brilhante. Maria agarrou em alguns estilhaços de rocha, Da encosta que descia para o mar, vimos que já estavam vários banhistas na praia. 

O amigo de Raimundo morava numa casita de madeira, no extremo da praia. A casa encostava-se à rocha e as traves que a sustinham à frente,. mergulhavam já na água. Raimundo apresentou-nos. O amigo - chamava-se Masson. Era um tipo alto, entroncado, com ombros largos, e a mulher dele era baixa, gorda e simpática, com um sotaque parisiense. Disse imediatamente para nos pormos à vontade e que tinha para o almoço uns peixes fritos que ele mesmo pescara de manhã. Disse-Lhe que achava a casa muito bonita, e ele informou-me que passava ali o sábado, o domingo, e todos os feriados. "Com a minha mulher, é claro", acrescentou. Justamente, esta e Maria riam-se de qualquer coisa. Pela primeira vez, pensei seriamente que me ia casar. 

Masson queria tomar banho, mas a mulher e Raimundo não queriam ir. Descemos os três e Maria atirou-se logo à água. Masson e eu, esperamos ainda um pouco. Masson falava muito devagar e notei que tinha o costume de completar tudo quanto dizia por um "e direi mesmo mais", mesmo quando, no fundo, nada acrescentava ao sentido da frase. A propósito de Maria, disse: "estupenda e, direi mesmo mais, encantadora". Depois, deixei de prestar atenção a este tique, pois ocupava-me agora em sentir que o sol me sabia bem. A areia começava-me á aquecer, sob os pés: Retardei mais um bocado a vontade que tinha de ir para a água, mas acabei por dizer a Masson:

"Vamos?" Mergulhei. Ele, entrou lentamente na água, e só mergulhou quando perdeu o pé. Nadava de bruços, bastante mal, de modo que o deixei para trás para ir ter com Maria. A água estava fria e era bom nadar. Afastei-me com Maria e sentíamos-nos os dois de acordo nos nossos gestos e no nosso contentamento. 

Ao largo, pusemo-nos a boiar de costas e, na minha cara voltada para o céu, o sol afastava os últimos véus de água que me escorriam para a boca. Vimos que Masson regressara à praia e se estendera ao sol. De longe, parecia enorme. Maria quis que nadássemos juntos. Coloquei-me por detrás dela, segurando-a pela cintura e ela avançava à força de braços, enquanto eu a ajudava batendo os pés. O pequeno barulho da água batida seguiu-nos ao longo da manhã, até que me senti cansado. Deixei então Maria e voltei para a praia, nadando compassadamente e respirando bem: Uma vez na praia, estendi-me de barriga para baixo ao pé de Masson e descansei a cara na areia. Disse-lhe que "era bom" e ele tinha a mesma opinião. Depois, Maria veio ter conosco, Voltei-me para a ver. Estava viscosa da água salgada e tinha os cabelos caídos para trás. Estendeu-se encostada a mim e os dois calores, o do corpo dela e o do sol, adormeceram-me um pouco. 

Maria sacudiu-me e disse-me que Masson já fora para casa e era preciso ir almoçar. Levantei-me imediatamente porque tinha fome, mas Maria disse-me que não voltara a beijá-la desde manhã. Era verdade, e também eu tinha vontade de a beijar. "Vem para a água", disse-me ela. Corremos e deixamo-nos cair nas primeiras ondas, Fizemos algumas braçadas e ela encostou-se a mim. Senti as pernas dela em volta das minhas e desejei-a. 

Quando voltamos, já Masson nos chamava. Disse que estava cheio de fome e o dono da casa declarou logo à mulher que eu lhe agradava: O pão era bom e devorei a minha porção de peixe. Depois, havia carne e batatas fritas. Comíamos sem falar. Masson bebia muito vinho e servia-me sem parar. Ao café, tinha a cabeça um pouco pesada e fumei muito. Masson, Raimundo e eu encaramos a hipótese de passar o mês de Agosto na praia, dividindo as despesas: Maria perguntou de repente: "Sabem que horas são? São onze e meia". Estávamos todos admirados, mas Masson disse que se tinha comido muito cedo, o que era natural, pois a hora do almoço era a hora em que se tinha fome. Não sei por que motivo Maria se riu tanto com isto. Julgo que bebera demais. Masson perguntou-me então se queria ir dar com ele um passeio pela praia. "A minha mulher dorme sempre a sesta depois de almoço. Eu, não gosto disso. Preciso de andar. Digo-lhe sempre que é melhor para a saúde. Mas no fim de contas, está no seu direito". Maria declarou que ficava, para ajudar a dona da casa a lavar a loiça. Esta disse que, para isso, era preciso pôr os homens na rua. Descemos os três. 

O sol caía quase a pique sobre a praia e o seu brilho no mar era insustentável. Já não estava ninguém na praia. Nas casas ao longo do planalto e que olhavam para o mar, ouvia-se o barulho de pratos e de talheres. Mal se respirava, neste calor de pedra que subia do chão. Para principiar, Raimundo e Masson falaram de coisas e pessoas que eu ignorava. Percebi que se conheciam há muito tempo e que, a certa altura, tinham mesmo vivido juntos. Dirigimo-nos para a água e andamos à beira do mar. Às vezes, uma onda mais comprida do que as outras, vinha molhar-nos os sapatos de borracha. Não pensava em nada, porque estava meio adormecido com todo este sol na minha cabeça descoberta.. A certa altura, Raimundo disse a Masson qualquer coisa que não consegui ouvir muito bem. Mas distingui ao mesmo tempo, no fim da praia e muito longe de nós, dois Árabes vestidos de azul, que vinham na nossa direção. Olhei para Raimundo, que me disse: "É ele". Continuamos a andar. Masson perguntou como é que eles nos podiam ter seguido até aqui. Pensei que nos tinham visto tomar o autocarro com um saco de praia, mas não disse nada. 

Os Árabes avançavam lentamente e estavam já muito mais perto. Não modificamos o nosso andamento, mas Raimundo disse: "Se houver pancada, tu, Masson, ficas com o segundo. Eu, encarrego-me do meu tipo. Tu, Meursault, se vier outro Árabe, é para ti". Respondi: "Está bem", e Masson meteu as mãos nas algibeiras. A areia a ferver parecia-me agora vermelha. Avançamos no mesmo passo para os Árabes. A distância entre nós foi diminuindo pouco a pouco: Quando não estávamos senão a alguns passos uns dos outros, os Árabes detiveram-se. Masson e eu começamos a andar mais devagar. Raimundo foi direito ao "seu tipo". Não percebi muito bem o que lhe disse, mas o outro fez menção de lhe dar uma cabeçada. Raimundo deu então o primeiro soco e logo a seguir chamou Masson. Masson dirigiu-se ao que Lhe fora destinado e deu-Lhe dois socos com toda a força. O outro caiu no mar, de barriga para baixo, a cara dentro de água e ficou assim alguns segundos, perto da cabeça dele, rebentavam à superfície bolhas de ar. Durante este tempo, Raimundo continuou a lutar e o outro tinha a cara cheia de sangue. Raimundo voltou-se para mim e disse: "Vais ver o que ele vai apanhar!" Gritei-lhe: "Atenção, o tipo tem uma navalha!" mas Raimundo tinha já o braço aberto e um golpe na boca. 

Masson deu um salto para a frente. Mas o outro Árabe levantara-se e colocara-se atrás do que estava armado. Não ousámos mexer-nos. Os Árabes recuaram lentamente, sem deixar de nos falar e de nos ameaçar com a navalha. Quando viram que a distância era suficiente, fugiam muito depressa, enquanto nós ficávamos ali pregados, ao sol, e Raimundo agarrava no braço a escorrer sangue. 

Masson disse imediatamente que conhecia um médico que passava os domingos no pequeno planalto. Raimundo quis ir sem demora tratar das feridas. Mas, cada vez que falava, o sangue borbulhava-Lhe na boca. Ajudando-o a andar, voltamos para casa o mais depressa possível. Aí, Raimundo disse que afinal as feridas eram superficiais e que podia ir já ao médico. Saiu com Masson e eu fiquei, para explicar às mulheres o que se tinha passado. A mulher de Masson chorava e Maria estava muito pálida. Era aborrecido, ter de Lhes explicar. Por fim, calei-me e pus-me a fumar, olhando para a paisagem do mar. 

Pela uma e meia, Raimundo e Masson voltaram. Raimundo trazia o braço ligado e adesivo no canto da boca. O médico dissera-Lhe que não fora nada de importante, mas estava com um ar sombrio. Masson tentou fazê-lo rir. Mas ele não dizia nada. A certa altura, disse que queria descer à praia, e eu perguntei-lhe onde ia. Respondeu que lhe apetecia apanhar ar. Masson e eu dissemos que o acompanhávamos. Então, encolerizou-se e insultou-nos. Masson declarou que não devíamos contrariá-lo. Apesar disso, fui com ele. 

Andamos muito tempo, ao longo da praia. O sol estava agora esmagador. Estilhaçava-se na praia e no mar. Tive a impressão de que Raimundo sabia onde ia, mas talvez estivesse enganado. Mesmo no fim da praia, chegamos a uma pequena fonte que corria para a areia, em direção ao mar, por detrás de um grande rochedo. Aí, encontramos os dois Árabes. Estavam deitados, com os seus trajes azuis e sujos. Tinham um ar calmo e quase beatífico. A nossa chegada não os incomodou. O que ferira Raimundo, olhava-o sem dizer uma palavra. O outro soprava numa flauta feita à mão e repetia nterminavelmente, olhando-nos de viés , as três notas que conseguia obter do instrumento. 

Durante todo este tempo, havia só o sol e este silêncio, com o leve ruído da nascente e das três notas musicais. Depois Raimundo levou a mão à algibeira de trás das calças, mas o outro não se moveu. Continuavam a fitar-se. Reparei que o que tocava flauta tinha os dedos dos pés muito afastados. Sem tirar os olhos do adversário, Raimundo perguntou-me: "Dou cabo dele?" Pensei que, se dissesse que não, ficaria excitado e dispararia com certeza. Disse unicamente: "O tipo ainda não disse nada. Disparar assim sem mais nem menos, não seria bonito". Ouviu-se ainda o leve ruído da água e da flauta, no coração do silêncio e do calor. Depois, Raimundo disse: "Então vou insultá-lo e quando ele responder ,dou cabo dele". Respondi: "Isso mesmo. Mas se o tipo não puxar da navalha, não podes atirar". Raimundo começou a enervar-se. O outro continuava a tocar e os dois observavam atentamente os gestos de Raimundo. "Não, disse eu a Raimundo. Vai-te a ele, homem a homem e dá-me o revólver. Se o outro intervém ou se puxa a navalha, mato-o". 

Quando Raimundo me deu o revólver, o sol refletiu-se na arma. Ficamos imóveis, como se tudo se houvesse fechado em nossa volta. Olhávamo-nos sem baixar os olhos e tudo aqui se detinha entre o mar, a areia, o sol, e o duplo silêncio da flauta e da água.

Pensei neste instante que disparar ou não disparar, era tudo o mesmo. Mas bruscamente, os Árabes começaram a recuar e desapareceram por detrás do rochedo. Raimundo e eu voltámos então para casa. Raimundo parecia estar melhor e falou no autocarro da volta. 

Acompanhei-o até casa e, enquanto ele subia a escada de madeira, eu fiquei no primeiro degrau, a cabeça cheia de sol, sem coragem para o esforço que era preciso fazer para subir as escadas de madeira e voltar a abordar as mulheres. Mas o calor era tão grande que me era igualmente penoso ficar assim imóvel, sob a chuva de luz que caía do céu. Ficar aqui ou partir, vinha a dar na mesma. Ao fim de alguns instantes, voltei para a praia e comecei a andar. 

Era o mesmo brilho avermelhado. Na areia, o mar ofegava com a respiração rápida e abafada das pequenas ondas que se sucediam umas às outras. Dirigia-me lentamente para os rochedos e sentia que a testa me inchava, sob o peso do sol. Todo este calor se apoiava contra mim, opondo-se ao meu avanço. E cada vez que sentia o sopro quente deste calor enorme na minha cara, cerrava os dentes, apertava os punhos nas algibeiras das calças, retesava-me todo para triunfar do sol e da embriaguez opaca que caía sobre mim. A cada espada de luz surgida da areia, de uma concha esbranquiçada ou de um vidro partido, os queixos crispavam-se-me. Andei assim durante muito tempo. 

Distinguia, de longe, a pequena massa sombria do rochedo, rodeado de uma auréola formada pela luz e pela poeira do mar. Pensava na nascente fresca que havia por detrás do rochedo. Desejava reencontrar o murmúrio da água que dela brotava, desejava fugir ao sol, ao esforço, às lágrimas da mulher, desejava enfim, reencontrar a sombra e o repouso. Mas quando cheguei mais perto, vi que o Árabe de Raimundo voltara ali. 

Estava só. Descansava de costas, as mãos debaixo da nuca, a cabeça nas sombras do rochedo e o resto do corpo ao sol. O seu trajo azul fumegava de calor. Fiquei um pouco admirado. Para mim, era história antiga, e viera para aqui sem pensar no caso. Logo que me viu, levantou-se e meteu a mão na algibeira. Eu, muito naturalmente, agarrei no revólver de Raimundo, dentro do casaco. Então, o Árabe deixou-se cair outra vez para trás, mas sem tirar a mão da algibeira.

Eu estava bastante longe dele, a uns dez metros de distância. Adivinhava-Lhe por instantes o olhar, entre as pálpebras semicerradas. Mas a maioria das vezes, a imagem dele dançava diante dos meus olhos, na atmosfera inflamada. O barulho das vagas era ainda mais preguiçoso do que ao meio-dia. Eram o mesmo sol e a mesma luz, que se prolongavam até este momento. Há já duas horas que o dia deitara a sua âncora neste oceano de metal fervente. No horizonte, passou um pequeno vapor. Adivinhei-lhe a mancha negra com o canto do olho, pois não cessava de fitar o Árabe. 

Pensei que me bastava voltar para trás e tudo ficaria resolvido. Mas atrás de mim, comprimia-se uma imensa praia vibrante de sol. Dei alguns passos para a nascente. O Árabe não se moveu. Apesar disso, estava ainda bastante longe. Parecia sorrir, talvez por causa das sombras que se lhe projetavam na cara. Esperei. A ardência do sol queimava-me as faces e senti o suor amontoar-se-me nas sobrancelhas. Era o mesmo sol do dia em que a minha mãe fora a enterrar e, como então, doía-me a testa, sobretudo a testa e todas as suas veias batiam ao mesmo tempo debaixo da pele. Por causa desta queimadura que já não podia suportar mais, fiz um movimento para a frente. Sabia que era estúpido, que não me iria desembaraçar do sol, simplesmente por dar um passo em frente. Mas dei um passo, um só passo em frente. E desta vez, sem se levantar, o Árabe tirou a navalha da algibeira e mostrou-ma ao sol. A luz refletiu-se no aço e era como uma longa lâmina faiscante que me atingisse a testa. No mesmo momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo e cobriu-as com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me nos olhos doridos. Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro espesso e fervente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão que segurava o revólver. O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou.

Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso. E era como se batesse quatro breves pancadas à porta da desgraça.




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A Constatação do Absurdo

Nascido e criado entre contrastes fundamentais, Albert Camus desde cedo aprendeu que a miséria engendra uma solidão que lhe é típica, uma austeridade toda sua, uma desconfiança da vida - mas a paisagem desperta uma rica sensualidade, uma eufórica sensação de onipotência, um orgulho desmedido de possuir a beleza inteiramente gratuita. Este aprendizado, feito a meio caminho entre a miséria e o sol, levou-o à consciência do que existe de mais trágico na condição humana: o absurdo, essa irremediável incompatibilidade entre as aspirações e a realidade.


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Camus, Albert, 1913-1960.
              O Estrangeiro
Título Original L'Étranger
Tradução de António Quadros
Edição Livros do Brasil
Lisboa
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Leia também:


16.O Estrangeiro:   Logo a seguir à minha prisão - Albert Camus


1.O Estrangeiro: Hoje, minha mãe morreu - Albert Camus