segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Augusto dos Anjos - Solilóquio de um. Visionário

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


Solilóquio de um Visionário

Para desvirginar o labyrintho 
Do velho e metaphysico Mysterio, 
Comi meus olhos crus no cemitério, 
Numa anthropophagia de faminto!

A digestão desse manjar funereo 
Tornado sangue transformou-me o instincto 
De humanas impressões visuaes que eu sinto, 
Nas divinas visões do incola ethereo! 

Vestido de hydrogenio incandescente, 
Vaguei um século, improficuamente, 
Pelas monotonias sideraes. 

Subi talvez ás máximas alturas, 
Mas, si hoje volto assim, com a alma ás escuras, 
E' necessário que inda eu suba mais!


A um Carneiro Morto 

Misericordiosíssimo carneiro 
Esquartejado, a maldição de Pio 
Décimo caia em teu algoz sombrio 
E em todo aquelle que fôr seu herdeiro!

Maldito seja o mercador vadio 
Que te vender as carnes por dinheiro, 
Pois, tua lã aquece o mundo inteiro 
E guarda as carnes dos que estão com frio! 

Quando a faca rangeu no teu pescoço, 
Ao monstro que espremeu teu sangue grosso 
Teus olhos — fontes de perdão — perdoaram!

Oh! tu que no Perdão eu symboliso, 
Si fosses Deus, no Dia de Juizo, 
Talvez perdoasses os que te mataram! 


Vozes da Morte

Agora, sim! Vamos morrer, reunidos, 
Tamarindo de minha desventura, 
Tu, com o envelhecimento da nervura, 
Eu, com o envelhecimento dos tecidos! 

Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! 
E a podridão, meu velho! 
E essa futura Ultra-fatalidade de ossatura, 
A que nos acharemos reduzidos! 

Não morrerão, porém, tuas sementes! 
E assim, para o Futuro, em differentes 
Florestas, valles, selvas, glebas, trilhos, 

Na multiplicidade dos teus ramos, 
Pelo muito que em vida nos amamos, 
Depois da morte, inda teremos filhos!  
Continua na página 53...
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Leia também:
Budhismo Moderno / Mater Originalis / Ultimo Crédo / Solilóquio de um Visionário /          
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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