Max Weber
(1864-1920)
II
O espírito do capitalismo
continuando...
E a auri sacra fames de um barqueiro napolitano, o barcaiolo, e certamente dos
representantes asiáticos de semelhantes atividades, tanto quanto a dos artesãos dos países
do sul da Europa e da Ásia é, como cada um poderá verificar por si, muito mais intensa, e especialmente menos escrupulosa do que, digamos, a de um inglês em circunstâncias
similares.
O predomínio universal da absoluta falta de escrúpulos na ocupação de interesses egoístas
na obtenção do dinheiro tem sido uma característica daqueles países cujo desenvolvimento
burguês capitalista, medido pelos padrões ocidentais, permaneceu atrasado.
Como todo empregador sabe, à falta de consciência dos trabalhadores desses países por
exemplo da Itália se comparada com a Alemanha, foi e ainda é em certa medida o principal
obstáculo ao seu desenvolvimento capitalista. O capitalismo não pode se utilizar do
trabalho daqueles que praticam a doutrina da liberum arbitrium indisciplinado, e menos
ainda pode usar os homens de negócios que pareçam absolutamente inescrupulosos ao lidar
com outros, como aprendemos de Franklin. Por isso, a diferença não está no grau de
desenvolvimento de qualquer impulso de ganhar dinheiro. A auri sacra fames é tão velha
quanto a história do homem. Veremos, porém, que aqueles que a ela se entregam sem
reservas, como a um impulso descontrolado, como aquele capitão de mar holandês que
“atravessaria o inferno por lucro, mesmo que chamuscasse suas velas”, não são de fato os
representantes daquela atitude mental da qual deriva especificamente o espírito do moderno
capitalismo, como fenômeno de massa, que é o que interessa. Em todos os períodos
históricos, sempre que foi possível houve a aquisição cruel, desligada de qualquer norma
ética. Como a guerra e a pirataria, o comércio tem sido, muitas vezes, irrestrito em suas
relações com estrangeiros e com os externos ao grupo. A dupla ética permitiu o que era
proibido negociar entre irmãos.
A aquisição capitalista aventureira tem sido familiar em todos os tipos de sociedade
econômica que conheceram o comércio com o uso do dinheiro e que ofereciam
oportunidades mediante comenda, exploração de impostos, empréstimos de Estado,
financiamento de guerras, cortes ducais e cargos públicos. Do mesmo modo, a atitude
interior do aventureiro, que zomba de qualquer limitação ética, tem sido universal. A
implacabilidade absoluta e voluntária na aquisição tem muitas vezes estado estritamente
ligada à mais rígida conformidade com a tradição. De mais a mais, com o colapso do
tradicionalismo e a quase total extensão da livre empresa econômica, mesmo no interior do
grupo social, a novidade não foi, no geral, eticamente justificada e encorajada, mas apenas
tolerada como um fato. E tal fato tem sido tratado como eticamente indiferente ou como
repreensível, mas infelizmente inevitável. Isto não tem sido apenas a atitude normal de
todos os ensinamentos éticos mas, o que é mais importante, expresso também na ação
prática do homem médio dos tempos pré-capitalistas, pré-capitalistas no sentido de que a
utilização racional do capital em empresas estáveis e a organização racional capitalista do
trabalho não há viam ainda se tornado as forças dominantes na determinação da atividade
econômica. Ora foi justa mente essa atitude que constituiu um dos mais fortes obstáculos
internos encontrados por toda parte pela adaptação do homem às condições de uma
economia burguesa capitalista ordenada. O mais importante oponente contra o qual o espírito do capitalismo, entendido como um
padrão de vida definido e que clama por sanções éticas, teve de lutar, foi esse tipo de
atitude e reação contra as novas situações, que poderemos designar como tradicionalismo.
Também nesse caso, qualquer tentativa de definição final deve ser mantida em suspenso. Devemos, por outro lado, tentar dar um sentido provisório claro, citando alguns casos.
Começaremos por baixo, pelos trabalhadores.
Um dos meios técnicos de que os empregadores modernos lançam mão para garantir o maior volume possível de trabalho de seus homens é o sistema de pagamento por tarefa. Na agricultura, por exemplo, a colheita é um caso em que se requer a maior intensidade possível de trabalho, e, dada a possível instabilidade do tempo, a diferença entre bons lucros e grandes perdas pode depender da velocidade da colheita. Assim, o sistema de pagamento por tarefa é quase universal neste caso. E a medida que o interesse do empregador em acelerar a colheita aumenta com o aumentar dos resultados e da intensidade do trabalho, tem sido feita repetidamente a tentativa, aumentando o valor da tarefa dos trabalhadores, dando lhes assim a oportunidade de ganhar o que seria para eles altos salários e de interessá-los em aumentar sua eficiência. Mas com uma frequência surpreendente, foi encontrada uma dificuldade peculiar: o aumento do valor da tarefa resultou, muitas vezes, não no aumento mas no decréscimo do obtido no mesmo tempo, pois os trabalhadores reagiram não aumentando, mas diminuindo o volume de trabalho. Por exemplo, um homem que ganha 1 marco por acre ceifado, ceifa 2 e 1/2 acres por dia e ganha dois marcos e meio por dia; quando o valor da tarefa foi aumentado para 1,25 marcos por acre ceifado, não ceifou 3 acres, como poderia ter feito facilmente, ganhando 3,75 marcos, mas ceifou apenas 2 acres de modo a continuar ganhando os 2,5 marcos a que estava acostumado. A oportunidade de ganhar mais foi menos atraente do que trabalhar menos. Ele não se perguntava: quanto poderia ganhar em um dia se eu fizesse o maior trabalho possível? Em vez disso, perguntava se: quanto devo trabalhar para ganhar o salário, de 2,5 marcos que eu ganhava antes e que bastava para as minhas necessidades tradicionais?
Este é um exemplo do que queremos significar aqui por tradicionalismo. O homem não deseja “naturalmente” ganhar mais e mais dinheiro, mas viver simplesmente como foi acostumado a viver e ganhar o necessário para isso. Onde quer que o capitalismo moderno tenha começado sua ação de aumentar a produtividade do trabalho humano aumentando sua intensidade, tem encontrado a teimosíssima resistência desse traço orientador do trabalho pré-capitalista. E ainda hoje a encontra, e por mais atrasadas que sejam as forças de trabalho (do ponto de vista capitalista) com que tenha de lidar.
Para voltar ao nosso exemplo, outra possibilidade óbvia, visto que o apelo para o instinto aquisitivo através de maiores salários falhou, teria sido tentar a política oposta, para forçar o trabalhador, reduzindo o valor da tarefa, a trabalhar mais para ganhar o mesmo dinheiro que ganhava antes. Baixos salários e altos lucros, até nossos dias, parecem, para um observador superficial, estar relacionados; tudo o que é pago em salários parece envolver uma redução de lucros correspondente. Desde seu início, o capitalismo trilhou repetidas vezes esse caminho. Durante séculos foi artigo de fé que baixos salários eram produtivos, isto é, que aumentavam os resultados materiais do trabalho, tanto que, como veremos, em relação a isso Pieter de la Cour dizia há muito tempo, quase no espírito do antigo calvinismo, que as pessoas só trabalhavam porque e enquanto eram pobres.
Mas a eficácia desse método, aparentemente tão eficiente, tem seus limites. Obviamente, um excesso de mão de obra que possa ser empregada a baixo preço no mercado de trabalho é uma necessidade para o desenvolvimento do capitalismo. Mas, embora tão grande exército de reserva possa em certos casos favorecer a expansão quantitativa, ele desafia seu desenvolvimento qualitativo, especialmente para as empresas que fazem uso mais intensivo do trabalho. Baixos salários não são sinônimo de trabalho barato. De um ponto de vista puramente quantitativo, a eficiência do trabalho diminui com um salário que seja fisiologicamente insuficiente, que, a longo prazo, signifique a sobrevivência da inépcia.
O silesiano médio de nossos dias ceifa, quando exige o máximo de si, pouco mais que dois terços da terra que um pomeraniano ou um mecklemburguês, mais bem pagos e alimentados, e o polonês, quanto mais oriental for sua origem, produz progressivamente menos que o alemão. A política de baixos salários falha mesmo de um ponto de vista puramente comercial sempre que a questão de produzir bens que exijam qualquer tipo de trabalho especializado, ou o uso de maquinaria cara e facilmente danificável, ou, em geral, sempre que se requeira grande dose de atenção aguda ou de iniciativa. Nesses casos, os baixos salários não compensam, e seus efeitos são opostos ao que se pretendia. E isso não apenas porque é absolutamente indispensável um senso de responsabilidade, mas, em geral, também uma atitude, ao menos durante as horas de trabalho, livre de contínuos cálculos de como poder ganhar o salário habitual, com o maior conforto e o menor esforço possíveis. Ao contrário, o trabalho deve ser executado como se fosse um fim absoluto em si mesmo, como uma vocação. Contudo, tal atitude não é produto da natureza. Não pode ser estimulada apenas por baixos ou altos salários, mas só pode ser produzida por um longo e árduo processo educativo.
O capitalismo de hoje, por estar em posição de comando, pode recrutar suas forças de trabalho com certa facilidade. No passado, sempre foi um problema extremamente difícil. E mesmo hoje provavelmente não o conseguiria, não fosse o apoio de um poderoso aliado que, como veremos, já estava a seu lado no tempo de seu desenvolvimento. O que queremos dizer, poderá novamente ser esclarecido por um exemplo. O tipo de mão de obra retrógrada tradicional é, com muita frequência exemplificado pelas mulheres trabalhadoras, especialmente as não casadas. Uma queixa quase universal dos empregadores de moças, moças alemãs por exemplo, é a de que são quase completamente incapazes e desinteressadas em abandonar métodos de trabalho herdados ou mesmo aprendidos para aprender outros métodos mais eficientes e a eles se adaptar, de aprender e de concentrar sua inteligência, ou mesmo usá-la. Explicações da possibilidade de tornar o trabalho mais fácil, acima de tudo mais proveitoso para elas mesmas, esbarram geralmente numa total falta de compreensão. Aumentos de salário esbarram impotentes contra a muralha do hábito. Em geral ocorre o contrário, e esse é um ponto de muita importância do nosso ponto de vista, apenas com garotas que receberam uma formação religiosa, especialmente a pietista. Ouvimos com frequência, e as estatísticas confirmam que, de longe, as melhores chances de uma educação econômica são encontradas entre os membros desse grupo. A habilidade de concentração mental, tanto quanto o sentimento de dever, absolutamente essencial, em relação ao trabalho, são aqui muitas vezes combinados com uma economia rígida, que calcula a possibilidade de altos ganhos, um frio autocontrole e frugalidade que, aumentam enormemente o desempenho.
Um dos meios técnicos de que os empregadores modernos lançam mão para garantir o maior volume possível de trabalho de seus homens é o sistema de pagamento por tarefa. Na agricultura, por exemplo, a colheita é um caso em que se requer a maior intensidade possível de trabalho, e, dada a possível instabilidade do tempo, a diferença entre bons lucros e grandes perdas pode depender da velocidade da colheita. Assim, o sistema de pagamento por tarefa é quase universal neste caso. E a medida que o interesse do empregador em acelerar a colheita aumenta com o aumentar dos resultados e da intensidade do trabalho, tem sido feita repetidamente a tentativa, aumentando o valor da tarefa dos trabalhadores, dando lhes assim a oportunidade de ganhar o que seria para eles altos salários e de interessá-los em aumentar sua eficiência. Mas com uma frequência surpreendente, foi encontrada uma dificuldade peculiar: o aumento do valor da tarefa resultou, muitas vezes, não no aumento mas no decréscimo do obtido no mesmo tempo, pois os trabalhadores reagiram não aumentando, mas diminuindo o volume de trabalho. Por exemplo, um homem que ganha 1 marco por acre ceifado, ceifa 2 e 1/2 acres por dia e ganha dois marcos e meio por dia; quando o valor da tarefa foi aumentado para 1,25 marcos por acre ceifado, não ceifou 3 acres, como poderia ter feito facilmente, ganhando 3,75 marcos, mas ceifou apenas 2 acres de modo a continuar ganhando os 2,5 marcos a que estava acostumado. A oportunidade de ganhar mais foi menos atraente do que trabalhar menos. Ele não se perguntava: quanto poderia ganhar em um dia se eu fizesse o maior trabalho possível? Em vez disso, perguntava se: quanto devo trabalhar para ganhar o salário, de 2,5 marcos que eu ganhava antes e que bastava para as minhas necessidades tradicionais?
Este é um exemplo do que queremos significar aqui por tradicionalismo. O homem não deseja “naturalmente” ganhar mais e mais dinheiro, mas viver simplesmente como foi acostumado a viver e ganhar o necessário para isso. Onde quer que o capitalismo moderno tenha começado sua ação de aumentar a produtividade do trabalho humano aumentando sua intensidade, tem encontrado a teimosíssima resistência desse traço orientador do trabalho pré-capitalista. E ainda hoje a encontra, e por mais atrasadas que sejam as forças de trabalho (do ponto de vista capitalista) com que tenha de lidar.
Para voltar ao nosso exemplo, outra possibilidade óbvia, visto que o apelo para o instinto aquisitivo através de maiores salários falhou, teria sido tentar a política oposta, para forçar o trabalhador, reduzindo o valor da tarefa, a trabalhar mais para ganhar o mesmo dinheiro que ganhava antes. Baixos salários e altos lucros, até nossos dias, parecem, para um observador superficial, estar relacionados; tudo o que é pago em salários parece envolver uma redução de lucros correspondente. Desde seu início, o capitalismo trilhou repetidas vezes esse caminho. Durante séculos foi artigo de fé que baixos salários eram produtivos, isto é, que aumentavam os resultados materiais do trabalho, tanto que, como veremos, em relação a isso Pieter de la Cour dizia há muito tempo, quase no espírito do antigo calvinismo, que as pessoas só trabalhavam porque e enquanto eram pobres.
Mas a eficácia desse método, aparentemente tão eficiente, tem seus limites. Obviamente, um excesso de mão de obra que possa ser empregada a baixo preço no mercado de trabalho é uma necessidade para o desenvolvimento do capitalismo. Mas, embora tão grande exército de reserva possa em certos casos favorecer a expansão quantitativa, ele desafia seu desenvolvimento qualitativo, especialmente para as empresas que fazem uso mais intensivo do trabalho. Baixos salários não são sinônimo de trabalho barato. De um ponto de vista puramente quantitativo, a eficiência do trabalho diminui com um salário que seja fisiologicamente insuficiente, que, a longo prazo, signifique a sobrevivência da inépcia.
O silesiano médio de nossos dias ceifa, quando exige o máximo de si, pouco mais que dois terços da terra que um pomeraniano ou um mecklemburguês, mais bem pagos e alimentados, e o polonês, quanto mais oriental for sua origem, produz progressivamente menos que o alemão. A política de baixos salários falha mesmo de um ponto de vista puramente comercial sempre que a questão de produzir bens que exijam qualquer tipo de trabalho especializado, ou o uso de maquinaria cara e facilmente danificável, ou, em geral, sempre que se requeira grande dose de atenção aguda ou de iniciativa. Nesses casos, os baixos salários não compensam, e seus efeitos são opostos ao que se pretendia. E isso não apenas porque é absolutamente indispensável um senso de responsabilidade, mas, em geral, também uma atitude, ao menos durante as horas de trabalho, livre de contínuos cálculos de como poder ganhar o salário habitual, com o maior conforto e o menor esforço possíveis. Ao contrário, o trabalho deve ser executado como se fosse um fim absoluto em si mesmo, como uma vocação. Contudo, tal atitude não é produto da natureza. Não pode ser estimulada apenas por baixos ou altos salários, mas só pode ser produzida por um longo e árduo processo educativo.
O capitalismo de hoje, por estar em posição de comando, pode recrutar suas forças de trabalho com certa facilidade. No passado, sempre foi um problema extremamente difícil. E mesmo hoje provavelmente não o conseguiria, não fosse o apoio de um poderoso aliado que, como veremos, já estava a seu lado no tempo de seu desenvolvimento. O que queremos dizer, poderá novamente ser esclarecido por um exemplo. O tipo de mão de obra retrógrada tradicional é, com muita frequência exemplificado pelas mulheres trabalhadoras, especialmente as não casadas. Uma queixa quase universal dos empregadores de moças, moças alemãs por exemplo, é a de que são quase completamente incapazes e desinteressadas em abandonar métodos de trabalho herdados ou mesmo aprendidos para aprender outros métodos mais eficientes e a eles se adaptar, de aprender e de concentrar sua inteligência, ou mesmo usá-la. Explicações da possibilidade de tornar o trabalho mais fácil, acima de tudo mais proveitoso para elas mesmas, esbarram geralmente numa total falta de compreensão. Aumentos de salário esbarram impotentes contra a muralha do hábito. Em geral ocorre o contrário, e esse é um ponto de muita importância do nosso ponto de vista, apenas com garotas que receberam uma formação religiosa, especialmente a pietista. Ouvimos com frequência, e as estatísticas confirmam que, de longe, as melhores chances de uma educação econômica são encontradas entre os membros desse grupo. A habilidade de concentração mental, tanto quanto o sentimento de dever, absolutamente essencial, em relação ao trabalho, são aqui muitas vezes combinados com uma economia rígida, que calcula a possibilidade de altos ganhos, um frio autocontrole e frugalidade que, aumentam enormemente o desempenho.
Isto fornece o fundamento mais favorável para a concepção do trabalho como um fim em si
mesmo, como uma vocação necessária ao capitalismo: as oportunidades de superar o
tradicionalismo são maiores por conta da formação religiosa. Essa observação do
capitalismo atual sugere por si mesma a validade da indagação de como essa conexão entre
adaptabilidade ao capitalismo e fatores religiosos possa ter surgido nos momentos iniciais
de seu desenvolvimento. Que tais fatores estavam presentes então de forma muito
semelhante, pode ser inferido de numerosos fatos. Por exemplo, a segregação e a
perseguição sofrida pelos trabalhadores metodistas no século XVIII por parte de seus
camaradas foram não só nem principalmente o resultado de suas diferenças religiosas, pois
que a Inglaterra já vira outras, e bem mais estranhas. Deveram se, isto sim, como a
destruição de suas ferramentas repetidamente mencionada nos relatórios sugere, à sua
especial disposição para o trabalho, como diríamos hoje.
Voltemos contudo ao presente, e agora para o empresário, para esclarecer o significado do tradicionalismo no caso deste.
Voltemos contudo ao presente, e agora para o empresário, para esclarecer o significado do tradicionalismo no caso deste.
Sombart, na sua discussão sobre a gênese do capitalismo, fez a distinção entre satisfação
das necessidades e aquisição como sendo os dois grandes princípios orientadores da história
econômica. No primeiro caso, a obtenção dos bens necessários à satisfação das
necessidades pessoais, e no segundo, a luta para obter lucros sem os limites impostos pelas
necessidades, tem sido as finalidades controladoras da forma e da direção da atividade
econômica. Aquilo que ele chama de economia de necessidades parece, à primeira vista,
idêntico àquilo que é aqui descrito como tradicionalismo econômico. E pode ser esse o
caso, se o conceito de necessidades for limitado às necessidades tradicionais. Contudo, se
não for esse o caso, certo número de sistemas econômicos que podem ser considerados
capitalistas de acordo com a definição que Sombart nos oferece em outro ponto do seu
trabalho, deverão ser excluídos da categoria de economias aquisitivas e colocados entre as
economias de necessidade. A saber, empresas dirigidas por empreendedores particulares
utilizando capital (dinheiro ou bens com valor monetário) para obter lucro, comprando os
meios de produção e vendendo o produto, isto é, empresas indubitavelmente capitalistas
podem ao mesmo tempo ter um caráter, tradicionalista. Mesmo no curso da história da
economia moderna isso pão tem sido um mero caso esporádico, mas antes uma regra com
contínuas interrupções por parte das repetidas e sempre maus poderosas conquistas do
espírito do capitalismo. Certamente, a forma capitalista de uma empresa e o espírito pelo
qual ela se guia estão geralmente em uma relação de adequação, sem ser necessariamente
interdependentes. Apesar disso, usamos provisoriamente a expressão do espírito do
capitalismo (moderno) para designar a atitude que busca o lucro racional e
sistematicamente, da maneira que ilustramos com o exemplo de Benjamin Franklin. Isso,
contudo, se justifica pelo fato histórico de que aquela atitude mental tenha, de um lado,
encontrado sua mais apropriada expressão na empresa capitalista e, por outro lado, essa
tenha derivado do espírito do capitalismo sua força motivadora mais adequada.
Porém as duas coisas podem muito bem ocorrer separadamente. Benjamin Franklin estava imbuído do espírito do capitalismo no tempo em que seus negócios de tipografia não tinham forma diferente de qualquer empresa artesanal. E veremos que no início dos tempos modernos os empreendedores capitalistas não estavam entre a aristocracia comercial, e que eram os únicos ou os predominantes suportes da atitude que aqui chamamos de espírito do capitalismo.` Estavam muito mais nas camadas emergentes dos pequenos industriais de classe média. Mesmo no século XIX, seus representantes clássicos não eram os cavaleiros elegantes de Liverpool e de Hamburgo, com suas fortunas comerciais acumuladas durante gerações, mas os novos ricos auto construídos de Manchester e da Westphalia, que muitas vezes ascenderam de condições muito modestas. Já no século XVI a situação era semelhante; as indústrias que cresceram nesse tempo foram criadas principalmente por novos ricos.
Por exemplo, a administração de um banco, de um negócio atacadista de exportação, de um grande estabelecimento varejista ou de uma grande empresa que negocie com produtos feitos em casa, certamente só é possível na forma de empresa capitalista. E no entanto, todas podem ser dirigidas com espírito tradicionalista. De fato, os negócios de um grande banco emissor não podem ser dirigidos de outra maneira. O comércio exterior de épocas inteiras se baseou em monopólios e privilégios legais, de caráter estritamente tradicionalista. No comércio varejista e não estamos aqui falando de pequenos comerciantes sem capital que estão sempre implorando a ajuda do governo – a revolução que está pondo um fim no velho tradicionalismo está ainda em, plena marcha. Trata se do mesmo desenvolvimento que desbancou o velho sistema de produção, com o qual o sistema moderno de produção doméstica está relacionado apenas na forma. Como esta revolução ocorreu e qual o seu significado, apesar dessas coisas nos serem tão familiares, pode novamente ser aclarado por um exemplo concreto.
Porém as duas coisas podem muito bem ocorrer separadamente. Benjamin Franklin estava imbuído do espírito do capitalismo no tempo em que seus negócios de tipografia não tinham forma diferente de qualquer empresa artesanal. E veremos que no início dos tempos modernos os empreendedores capitalistas não estavam entre a aristocracia comercial, e que eram os únicos ou os predominantes suportes da atitude que aqui chamamos de espírito do capitalismo.` Estavam muito mais nas camadas emergentes dos pequenos industriais de classe média. Mesmo no século XIX, seus representantes clássicos não eram os cavaleiros elegantes de Liverpool e de Hamburgo, com suas fortunas comerciais acumuladas durante gerações, mas os novos ricos auto construídos de Manchester e da Westphalia, que muitas vezes ascenderam de condições muito modestas. Já no século XVI a situação era semelhante; as indústrias que cresceram nesse tempo foram criadas principalmente por novos ricos.
Por exemplo, a administração de um banco, de um negócio atacadista de exportação, de um grande estabelecimento varejista ou de uma grande empresa que negocie com produtos feitos em casa, certamente só é possível na forma de empresa capitalista. E no entanto, todas podem ser dirigidas com espírito tradicionalista. De fato, os negócios de um grande banco emissor não podem ser dirigidos de outra maneira. O comércio exterior de épocas inteiras se baseou em monopólios e privilégios legais, de caráter estritamente tradicionalista. No comércio varejista e não estamos aqui falando de pequenos comerciantes sem capital que estão sempre implorando a ajuda do governo – a revolução que está pondo um fim no velho tradicionalismo está ainda em, plena marcha. Trata se do mesmo desenvolvimento que desbancou o velho sistema de produção, com o qual o sistema moderno de produção doméstica está relacionado apenas na forma. Como esta revolução ocorreu e qual o seu significado, apesar dessas coisas nos serem tão familiares, pode novamente ser aclarado por um exemplo concreto.
Até meados do século passado, ao menos em muitos dos ramos da indústria têxtil do
continente,` a vida de um produtor era o que poderíamos hoje considerar muito confortável.
Podemos imaginar sua rotina como algo assim: os camponeses traziam seus tecidos,
frequentemente feitos (no caso do linho) total ou parcialmente com matéria prima
produzida por eles mesmos, para a cidade onde morava o produtor, e depois de cuidadosa
avaliação da qualidade, muitas vezes oficial, recebiam o preço habitual pela mercadoria. Os
clientes do produtor para mercados de alguma distância eram intermediários, que também
iam até ele, não atraídos por amostras, mas procurando a tradicional qualidade e
compravam a mercadoria do seu estoque ou, com antecedência, faziam pedidos que por sua
vez eram provavelmente repassados aos camponeses. A visita pessoal aos clientes ocorria,
se tanto, apenas a longos intervalos; a correspondência era suficiente, e por meio disso a
remessa de amostras lentamente ganhou terreno. O número de horas gastas no negócio era
muito modesto, talvez cinco ou seis por dia, e por vezes bem menos; maior durante a
estação, quando houvesse. Os ganhos eram moderados; o suficiente para levar uma vida
respeitável e, em tempos favoráveis, economizar um pouco. No geral, o relacionamento
entre competidores era relativamente bom, com amplo grau de concordância quanto aos
fundamentos do negócio. Longas visitas diárias à taverna, muitas vezes com fartura de
bebida, e um círculo congenial de amigos tornavam a vida confortável e prazerosa.
A forma de organização era, em todos os aspectos, capitalista; as atividades do
empreendedor tinham um caráter puramente comercial; o uso do capital investido no
negócio era indispensável, e finalmente, o aspecto objetivo do processo econômico, a
contabilidade, era racional. Mas se considerarmos o espírito que animava o empresário, tratava se de um negócio tradicionalista: tradicional o modo de vida, tradicional a margem
de lucro, tradicional a quantidade de trabalho, tradicional o modo de regular as relações
com o trabalho e o essencialmente tradicional círculo de clientes e modo de atrair novos.
Tudo isso dominava a conduta do negócio e, diríamos, estava na base do ethos desse grupo
de homens de negócio.
continua na página... 28
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Sumário
01. Introdução
03. O espírito do capitalismo (a) / 03. O espírito do capitalismo (b) /
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