sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
             
          Mário não tinha perdido um só pormenor desta cena, e, contudo, na realidade nada tinha visto. Os olhos tinham-lhe ficado fixos na jovem, que ele, para assim dizer, abarcara toda com o coração, apenas ela entrou na mansarda. Durante todo o tempo que ela ali se detivera, o jovem vivera a vida do êxtase que suspende as percepções materiais, fazendo concentrar a alma toda num só ponto. Ele contemplava, não a jovem, mas aquela luz que trazia um mantelete de cem e um chapelinho de veludo. O jovem não ficaria mais deslumbrado do que ficou se naquela sala vesse entrado a estrela Sírio.
     Ao mesmo tempo que a graciosa jovem ia desatando a trouxa, desdobrando a roupa e os cobertores, e fazendo perguntas com bondade à doente e com enternecimento à pequena que se cortara, Mário observava-lhe todos os movimentos e tentava ouvir todas as palavras que ela proferia. Conhecia-lhe os olhos, a fronte, a beleza, a cintura, o andar, só não lhe conhecia o som da voz. Julgara uma ocasião no Luxemburgo que lhe ouvira algumas palavras, mas não tinha a certeza disso. De bom grado dava dez anos da sua vida para a ouvir falar, para poder levar na alma um bocado desta música. Tudo, porém, que a jovem dizia era abafado pelos lamentosos queixumes de Jondrette e pelos seus guinchos, com o que o transportado jovem muito se encolerizava. Mário fitava-lhe os olhos com a maior ternura. Não podia capacitar-se de que era, realmente, aquela criatura divina que ele divisava no meio daqueles imundos entes, naquela mansarda monstruosa. Parecia-lhe um colibri entre sapos.
     Quando ela saiu, o seu pensamento foi segui-la, não a perder de vista, acompanhá-la até saber onde ela morava, ou ao menos não a tornar a perder, depois de a haver encontrado tão miraculosamente. Saltou, pois, abaixo da cômoda e pegou no chapéu, mas, ao deitar a mão ao fecho da porta para sair, suspendeu-o uma reflexão. O corredor era comprido, a escada empinada, Jondrette falador, por isso o senhor Leblanc ainda de certo não se tinha medo na carruagem, e se ele no corredor ou na escada ou no limiar da porta se voltasse, avistá-lo-ia naquela casa, e decerto se assustaria e acharia modo de lhe escapar de novo, e lá ia outra vez tudo. Que fazer? Esperar um bocado? Mas, durante esse tempo de espera, podia a carruagem ir-se embora. Mário estava perplexo. Afinal, aventurou-se a sair do quarto.
     Como no corredor já não encontrasse ninguém, dirigiu-se para a escada, onde também não encontrou vivalma. Desceu, portanto, apressadamente, e chegou ao boulevard a tempo de ver um carro a voltar a esquina da Rua do Petit-Banquier e encaminhar-se para Paris.
     Mário precipitou-se naquela direção, e, chegado ao ângulo do boulevard, tornou a avistar o carro, que seguia rapidamente pela rua Mouffetard; já ia muito distante, tornando-se impossível apanhá-lo; mesmo que ele tentasse isso, deitando a correr com toda a força atrás dele, decerto o avistariam de dentro e o velho o conheceria. Neste momento, porém, singular e maravilhoso acaso, Mário avistou um cabriole de aluguer, que ia a passar pelo boulevard sem ninguém dentro. O único expediente, pois, que tinha a tomar era meter-se no cabriole e seguir o carro. Era uma coisa certa, eficaz e sem perigo.
     Mário fez sinal ao cocheiro para que parasse e gritou-lhe: 

— Por hora!

     Mário estava sem gravata, com o fato velho com que trabalhava, ao qual faltavam alguns botões, e uma camisa rota numa das pregas do peito.
     O cocheiro parou, piscou o olho e estendeu a mão para Mário, esfregando brandamente o índex com o polegar. 

— Que é? — perguntou Mário. 
— Pague adiantado — respondeu o cacheiro.

     O rapaz lembrou-se então de que não trazia consigo senão dezesseis soldos. 

— Quanto? — indagou. 
— Quarenta soldos. 
— Eu pago na volta.

     O cocheiro, por única resposta, pôs-se a assobiar a cantiga de La Palisse e fustigou os cavalos.
     Mário viu partir o cabriole com gesto desvairado. Por vinte e quatro soldos que lhe faltavam, perdia a sua alegria, a sua ventura, o seu amor, ficava outra vez nas trevas, tornava a cegar, depois de ter visto! Lembrou-se então amargamente, e, devemos dizê-lo, com profundo pesar, dos cinco francos que pela manhã dera à miserável rapariga, filha do seu vizinho Jondrette. Se ele ali tivesse esses cinco francos, estava salvo, renasceria, sairia dos limbos e das trevas, sairia do isolamento, do spleen, da viuvez, tornaria a atar o fio negro do seu destino àquele belo fio de ouro que há um instante lhe flutuara diante dos olhos, quebrando-se ainda outra vez!
     Mário entrou em casa no cúmulo do desespero.
     Pudera servir-lhe de lenitivo a lembrança, de que o senhor Leblanc prometera voltar de tarde e que então tomaria melhor as suas precauções para o seguir; o jovem, porém, alheado na sua contemplação, mal ouvira a promessa do velho.
     Na ocasião em que ia a subir a escada, avistou do outro lado do boulevard, junto da parede deserta da rua da Barreira dos Gobelinos, Jondrette, vestido com o sobretudo do «filantropo», a falar com um desses homens de aspecto pouco tranquilizador, a quem por convenção chamamos vagabundos das barreiras; homens de rostos equívocos e monólogos suspeitos, que têm ar de más intenções e que de ordinário dormem de dia, o que faz supor que trabalham de noite.
     Estes dois homens parados a conversar, apanhando a neve que caía em espessos flocos, formavam um grupo, que um agente de polícia com certeza se poria a observar, mas em que Mário mal fez reparo.
     Não obstante, porém, a grande preocupação que o agitava, não pôde deixar de notar que aquele vagabundo das barreiras com quem Jondrette estava a falar se parecia com um certo Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, que Courfeyrac uma vez lhe mostrara, e que passava no bairro por um perigoso passeante noturno. O leitor já no livro precedente viu o nome deste homem. O tal Panchaud, conhecido também pelo nome de Printanier ou Bigrenaille, veio depois a figurar em muitos processos criminais, o que o tornou célebre entre os gatunos. Neste tempo não passava de um famoso gatuno. Hoje apenas resta dele uma vaga tradição entre os salteadores e ratoneiros. Fazia escola pelos fins do último reinado. Ao cair da noite, à hora em que se formam os grupos falando em voz baixa, conversava-se a respeito dele na Force, na Cova dos Leões. Podia-se até, na prisão, justamente no sítio em que por baixo do caminho de circunvalação passava o cano das latrinas, por onde em 1843 conseguiram evadir-se, em pleno dia, trinta presos, podia-se ler, logo por cima, o seu nome — PANCHAUD — audaciosamente gravado por ele no muro de circunvalação, numa das suas tentativas de evasão.
     Em 1832 já a polícia o vigiava, porém ainda ele não tinha feito a sua estreia de um modo sério.

continua na página 571...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - X — Tarifa dos cabrioles de aluguer¹: dois francos por hora
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira
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[1] "Aluguer"... significa a cedência provisória do uso de um bem mediante pagamento, equivalente a aluguéis ou arrendamentos. A palavra "aluguer" refere-se à cedência temporária do uso ou usufruto de um bem, que pode ser um imóvel, veículo, objeto ou serviço, mediante pagamento de um valor previamente acordado, ou seja, trata-se de aluguel ou arrendamento. "Alugueres" é o plural de "aluguer" e é mais comum em Portugal e em contextos jurídicos. No Brasil, a forma equivalente é "aluguéis," plural de "aluguel," sendo a forma mais usada no português brasileiro. Ambas as formas são corretas gramaticalmente, mas a escolha depende da variante do português utilizada.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

George Orwell - 1984: Parte 2.4a (Winston olhou em volta)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

4.

     Winston olhou em volta da pequena sala de estar em cima da loja do Sr. Charrington. Ao lado da janela, a enorme cama estava feita, com cobertores maltrapilhos e um acolchoado sem capa. O relógio antiquado, com o frontispício de doze horas, estava a fazer tique-taque sob a lareira. No canto, na mesa dobrável, o peso de papel de vidro que ele havia comprado em sua última visita brilhava suavemente na semi-escuridão.
     Havia também um fogareiro batido de óleo, uma panela e dois copos, fornecidos pelo Sr. Charrington. Winston acendeu o queimador e colocou uma panela de água para ferver. Ele tinha trazido um envelope cheio de Café da Vitória e algumas pastilhas de sacarina. Os ponteiros do relógio diziam dezessete e vinte: eram realmente dezenove e vinte. Ela chegaria às dezenove e meia.
     Loucura, loucura, seu coração continuava dizendo: loucura consciente, gratuita, suicida. De todos os crimes que um membro do Partido podia cometer, este era o menos possível de se ocultar. Na verdade, a ideia tinha passado primeiro pela sua cabeça na forma de uma visão, o pisa-papéis de vidro espelhado pela superfície da mesinha. Como ele havia previsto, não tinha sido difícil para o Sr. Charrington alugar a sala. Ele estava obviamente contente com os poucos dólares que isso lhe traria. Nem parecia chocado ou ofendido ao saber quando ficou claro que Winston queria a sala com o propósito de uma relação amorosa. Em vez disso, ele olhou para nada e falou generalidades, com um ar tão delicado a ponto de dar a impressão de que havia se tornado parcialmente invisível. A privacidade, disse ele, era uma coisa muito valiosa. Todos queriam um lugar onde pudessem estar sozinhos ocasionalmente. E quando tinham um lugar assim, era apenas uma cortesia comum que qualquer outra pessoa que soubesse disso para guardasse seu conhecimento para si mesmo. Ele até mesmo acrescentou, parecendo quase desvanecer-se enquanto o fazia, que havia duas entradas para a casa, uma delas pelo do quintal, que dava em uma outra viela.
     Sob a janela, alguém estava cantando. Winston espreitou para fora, seguro pela proteção da cortina de musselina. O sol de junho ainda estava alto no céu, e uma mulher monstruosa, volumosa como uma coluna normanda, com antebraços vermelhos e um avental amarrado ao meio, estava tropeçando de um lado para o outro entre um tanque de lavar roupa e um varal no pátio ensolarado abaixo, fixando uma série de panos brancos que Winston identificou como fraldas para bebês. Sempre que sua boca não estava ocupada segurando grampos para a roupa, ela cantava em um poderoso contralto:

Era apenas uma fantasia sem esperança, 
que passou como um dia de Abril, 
Mas um olhar e uma palavra e os sonhos que despertam! 
Eles roubaram minha cervejinha!

     Essa música estava tomando conta de Londres há algumas semanas. Foi uma das inúmeras canções similares publicadas para o benefício dos proles por uma subseção do Departamento de Música. As palavras destas canções foram compostas sem qualquer intervenção humana com um instrumento conhecido como versificador. Mas a mulher cantava com tanta afinação que transformava o lixo horrível em um som quase agradável. Ele podia ouvir a mulher cantando e o raspar de seus sapatos nas lajes, e os gritos das crianças na rua, e em algum lugar distante um leve rugido do trânsito, e ainda assim a sala parecia curiosamente silenciosa, graças à ausência de uma teletela.
     Loucura, loucura, loucura!, ele pensou novamente. Era inconcebível que eles pudessem frequentar este lugar por mais de algumas semanas sem serem pegos. Mas a tentação de ter um esconderijo que fosse verdadeiramente seu, dentro de uma casa e perto, tinha sido demais para ambos. Durante algum tempo após sua visita ao campanário da igreja, havia sido impossível organizar outros encontros. O horário de trabalho havia sido drasticamente aumentado em antecipação à Semana do Ódio. Estava a mais de um mês de distância, mas os enormes e complexos preparativos que isso implicava estavam dando trabalho extra a todos. Finalmente, ambos conseguiram assegurar uma tarde livre no mesmo dia. Eles tinham concordado em voltar para a clareira na floresta. Na noite anterior, eles se encontraram brevemente na rua. Como sempre, Winston mal olhou para Julia enquanto eles se dirigiam um para o outro na multidão, mas pelo breve olhar que ele lhe deu, pareceu-lhe que ela estava mais pálida do que de costume.

“Está tudo acabado”, ela murmurou assim que julgou que era seguro falar. “Amanhã, quero dizer”.
“O quê”? 
“Amanhã à tarde. Eu não posso ir”. 
“Por que não”?
“Ah, a razão de sempre. Começou cedo desta vez”.

     Por um momento, ele ficou violentamente zangado. Durante o mês em que ele a conheceu, a natureza de seu desejo por ela havia mudado. No início, havia pouca sensualidade verdadeira nela. A primeira vez que fizeram amor foi simplesmente um ato de vontade. Mas após a segunda vez, foi diferente. O cheiro de seu cabelo, o gosto de sua boca, a sensação de sua pele parecia ter entrado dentro dele, ou no ar que o rodeava. Ela havia se tornado uma necessidade física, algo que ele não só queria, mas sentia que tinha o direito de fazer. Quando ela disse que não podia vir, ele tinha a sensação de que ela o estava enganando. Mas justamente neste momento a multidão os pressionou e suas mãos se encontraram acidentalmente. Ela apertou rapidamente as pontas de seus dedos, algo que parecia convidar não ao desejo, mas ao afeto. Ele percebeu que, quando se vivia com uma mulher, esta decepção deve ser um acontecimento normal e recorrente; e uma profunda ternura, como ele não havia sentido por ela antes, de repente se apoderou dele. Ele desejava que eles fossem um casal com dez anos de casamento. Ele desejava estar andando pelas ruas com ela como eles estavam fazendo agora, mas abertamente e sem medo, falan do de trivialidades e comprando bugigangas para a casa. Ele desejava acima de tudo que eles tivessem algum lugar onde pudessem estar sozinhos juntos sem sentir a obrigação de fazer amor toda vez que se encontrassem. Não foi realmente naquele momento, mas em algum momento do dia seguinte, que a ideia de alugar o quarto do Sr. Charrington lhe ocorreu. Quando ele o sugeriu a Julia, ela concordou com uma prontidão inesperada. Ambos sabiam que era uma loucura. Era como se estivessem intencionalmente andando para mais perto de seus túmulos. Enquanto esperava sentado na beira da cama, ele pensou novamente nos porões do Ministério do Amor. Era curioso como aquele horror predestinado se movia para dentro e para fora da consciência. Lá estava ele, fixado em tempos futuros, precedendo a morte com a certeza de que 99 precede 100. Não se podia evitá-lo, mas talvez se pudesse adiá-lo: e ainda assim, de vez em quando, por um ato consciente e voluntário, optou-se por encurtar o intervalo antes que acontecesse.
     Neste momento, houve um estalar rápido na escada. Julia irrompeu pela sala. Ela estava carregando uma mala para ferramentas de lona marrom grossa, como ele já a vira fazendo no Ministério. Ele avançou em sua direção para pegá-la em seus braços, mas ela se soltou rapidamente, em parte porque ela ainda estava segurando a bolsa de ferramentas.

“Meio segundo”, ela disse. “Quero mostrar o que eu trouxe. Você trouxe um pouco daquele Café da Vi tória péssimo? Eu achei que sim. Você pode jogá-lo fora, porque não vamos precisar dele. Veja aqui”.

     Ela caiu de joelhos, abriu a mala e tirou algumas chaves de fenda e um alicate que enchiam a parte superior. Abaixo havia uma série de pacotes de papel limpos. O primeiro pacote que ela passou para Winston teve uma sensação estranha e ao mesmo tempo vagamente familiar. Era preenchido com algum tipo de coisa pesada, parecida com areia, que afundava onde quer que se tocasse nele. 

“Isso não é açúcar?”, disse ele.
“Açúcar de verdade, não açúcar de sacarina. E aqui temos uma broa de pão branco, não aquela coisa ruim, e um pouco de geleia. E aqui tem uma lata de leite – mas olha! Estou orgulhosa mesmo desse aqui. Precisei embalar bem, porque –”.

     Mas ela nem precisou dizer o porquê de toda a embalagem. O cheiro já preenchia todo o quarto, um cheiro profundo e quente que parecia emanar do começo da sua infância, mas que ele parecia encontrar de vez em quando até agora, vindo de uma passagem antes de uma porta ser batida, se diluindo misteriosamente por uma rua cheia, sentido por alguns segundos e então perdido novamente. 

“É café”, ele disse. “Café de verdade”.
“É café do Partido Interno. Tenho um quilo inteiro aqui”, ela disse.
“Como você conseguiu obter todas essas coisas”?
“São coisas do Partido Interno. Não há nada que esses porcos não tenham, nada. Mas é claro que garçons, criados e outras pessoas pegam algumas coisas, e – olha, eu também tenho um pacote de chá”.

     Winston havia se agachado ao lado dela. Ele ras gou um canto do pacote. 

“É chá de verdade. Não folhas de amora silvestre”. 
“Tem bastante chá nos últimos tempos. Eles capturaram a Índia, ou algo assim”, disse ela vagamente. “Mas escute, querido. Eu quero que você se vire de costas por três minutos. Vá e sente-se do outro lado da cama. Não se aproxime muito da janela. E não vire as costas até eu avisar”. 

     Winston olhou abstraído através da cortina de musselina. No quintal, a mulher de braços vermelhos ainda estava marchando de um lado para o outro entre o tanque e o varal. Ela tirou mais dois grampos de sua boca e cantou com sentimento profundo:

Eles dizem que o tempo cura tudo, 
Dizem que você sempre pode esquecer, 
Mas os sorrisos e as lágrimas de todos os anos 
Anda fazem meu coração amolecer!
  
     Parecia que ela sabia de cor toda a canção. Sua voz flutuava para cima com o ar doce do verão, muito afinada, carregado de uma espécie de melancolia feliz. Tivemos a sensação de que ela teria ficado perfeitamente satisfeita, se a noite de junho tivesse sido interminável e o fornecimento de roupas inesgotáveis, para permanecer lá por mil anos, tirando fraldas e cantando porcarias. Pareceu-lhe um fato curioso que nunca havia ouvido um membro do Partido cantar sozinho e espontaneamente. Teria parecido até pouco ortodoxo, uma excentricidade perigosa, como falar consigo mesmo. Talvez fosse apenas quando as pessoas estavam em algum lugar perto do nível de fome que elas tinham algo para cantar.

“Você pode se virar agora”, disse Julia.
continua na página 303..
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Parte 1 
Parte 2 
Capítulo 4a (Winston olhou em volta)
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (3)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
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CAPÍTULO II
A AMOROSA
 
continuando...

     Um deus degradado não é um homem, é uma impostura; o amante não tem outra alternativa senão provar que é realmente esse rei adulado, ou denunciar-se como usurpador. A partir do momento em que não o adoram, cumpre espezinhá-lo. Em nome dessa glória com que aureolou o amado, a amorosa proíbe-lhe qualquer fraqueza; desilude-se e irrita-se se ele não se molda à imagem que ela colocou em seu lugar; se está fatigado, estonteado, se tem fome ou sede fora de propósito, se se engana, se se contradiz, ela decreta que ele está "abaixo de si mesmo" e lhe censura. Por esse viés, chega a censurar-lhe todas as iniciativas que ela própria não aprecia; julga o juiz e, para que ele mereça continuar seu senhor, denega-lhe a liberdade. O culto que lhe rende satisfaz-se por vezes melhor com a ausência do que com a presença. Há mulheres, já vimos, que se consagram a heróis mortos ou inacessíveis, a fim de nunca os confrontar com seres de carne e osso; estes fatalmente contradizem os sonhos. Daí os slogans desabusados: "Não se deve acreditar em príncipe encantado. Os homens não passam de pobres diabos". Não pareceriam anões, se não se lhes pedisse para ser gigantes.
     É uma das maldições que pesam sobre a mulher apaixonada: sua generosidade converte-se desde logo em exigência. Tendo-se alienado em outrem, quer também recuperar-se: é-lhe necessário anexar esse outro que detém o seu ser. Não se dá inteiramente a ele, mas é preciso que ele esteja inteiramente disponível para receber dignamente esse dom. Ela dedica-lhe todos os seus instantes: é preciso que a cada instante ele esteja presente; ela quer viver unicamente por ele, mas quer viver; ele deve consagrar-se a fazê-la viver.

   Amo-o por vezes bobamente e nesses momentos não compreendo por que não poderia, não fosse e não devesse ser para você um pensamento absorvente como você o é para mim, escreve Mme d'Agoult a Liszt.

     Ela tenta refrear o desejo espontâneo: ser tudo para ele. Depara-se com idêntico apelo na queixa de Mlle de Lespinasse:

   Deus meu! Se soubesse que são os dias, que é a vida privada do interesse e do prazer de vê-lo! Meu amigo, a dissipação, a ocupação, o movimento lhe bastam; eu, minha felicidade é você, e só você; não quereria viver se não devesse vê-lo e amá-lo em todos os momentos da vida.

     A princípio, a amorosa encantava-se com satisfazer o desejo do amante; depois — como o bombeiro lendário que por amor ao ofício provocava incêndio por toda parte — em não conseguindo, sente-se humilhada, inútil a ponto de o amante fingir ardores que não experimenta. Fazendo-se escrava, encontra ela o meio mais seguro de acorrentá-lo. Trata-se de mais uma mentira do amor, que muitos homens — Lawrence, Montherlant — denunciaram com rancor: apresenta-se como um dom quando é uma tirania. Benjamin Constant em Adolphe pintou asperamente os ferros com que prende o homem a generosa paixão de uma mulher. "Ela não calculava seus sacrifícios porque estava preocupada com me fazer aceitá-los", diz ele com crueldade, de Eléonore. A aceitação é efetivamente um compromisso que amarra o amante, sem que ele tenha sequer o benefício de se apresentar como aquele que dá; a mulher quer que ele acolha com gratidão os fardos com que o esmaga. E sua tirania é insaciável. O homem amoroso é autoritário, mas quando obtém o que desejava, fica satisfeito; ao passo que não há limites para a dedicação exigente da mulher. Um amante que tem confiança em sua amante admite sem desprazer que ela se ausente, que se ocupe longe dele; certo de que ela lhe pertence, prefere possuir uma liberdade a possuir uma coisa. Ao contrário, a ausência do amante é sempre uma tortura para a mulher; ele é um olhar, um juiz, ele a frustra desde que deite os olhos em outra coisa que não ela; rouba-lhe tudo o que vê: longe dele, ela sente-se despojada de si mesma e do mundo; mesmo sentado ao lado dela, lendo, escrevendo, ele a está abandonando, traindo. Ela detesta-lhe o sono. Baudelaíre se enternece ante a mulher adormecida: "Teus belos olhos estão lassos, pobre amante". Proust encanta-se com olhar Albertine dormir¹; o ciúme masculino é simplesmente a vontade de uma posse exclusiva. A bem-amada não pertence a ninguém quando o sono lhe devolve a candura desarmada da infância; para o homem essa certeza basta. Mas o deus, o senhor, não deve abandonar-se ao repouso da imanência; é com um olhar hostil que a mulher contempla essa transcendência fulminada; ela detesta-lhe a inércia animal, o corpo que não mais existe para ela e sim em si, abandonado a uma contingência que deve pagar com sua própria contingência.
[1] O fato de Albertine ser um Albert não modifica nada; aqui atitude de Proust é, em todo caso, uma atitude viril.

     Violette Leduc exprimiu, em Je hais les dormeurs, com força esse sentimento:

   Detesto os homens que dormem. Debruço-me sobre eles com minhas más intenções. Sua submissão exaspera-me. Odeio sua serenidade inconsciente, sua falsa anestesia, sua fisionomia de cego estudioso, sua embriaguez sensata, sua aplicação de incapaz... Fiquei de atalaia, esperei durante muito tempo a bolha rósea que sairia da boca de meu dorminhoco. Só reclamava dele uma bolha de presença. Não a tive... Vi que suas pálpebras de noite eram pálpebras de morto... Refugiava-me na alegria de suas pálpebras quando esse homem era intratável. O sono é duro quando de verdade. Roubou-me tudo. Detesto este meu homem dormindo, capaz de com inconsciência criar para si uma paz que me é estranha. Detesto sua fronte de mel... No fundo de si mesmo está a preocupar-se com seu repouso. Recapitula não sei quê... Tínhamos levantado voo. Queríamos deixar a terra utilizando nosso temperamento. Tínhamos decolado, subido, espiado, e esperado, cantarolado, chegado, gemido, ganho e perdido ao mesmo tempo. Era uma vagabundagem séria. Tínhamos descoberto uma nova espécie de nada. Agora dormes. Teu retraimento não é honesto... Se meu dorminhoco se mexe, minha mão toca, sem querer, a semente. É o celeiro com cinquenta sacos de grãos que é abafante, despótico. As bolsas íntimas de um homem que dorme caíram sobre a minha mão. . . Possuo os saquinhos de sementes. Tenho nas mãos os campos que serão lavrados, os vergéis que serão tratados, a força das águas que será transformada, as quatro tábuas que serão pregadas, os toldos que serão erguidos. Tenho nas mãos os frutos, as flores, os animais selecionados. Tenho na mão o bisturi, o podão, a sonda, o revólver, o fórceps e tudo isso não me enche a mão. A semente do mundo que dorme não é senão o supérfluo oscilante do prolongamento da alma. . . Odeio-te quando dormes.

     É preciso que o deus não adormeça, sem o quê, faz-se barro, carne; é preciso que não deixe de estar presente, sem o quê, sua criatura soçobra no nada. Para a mulher, o sono do homem é avareza e traição. O amante desperta por vezes a amante; é para possuí-la. Ela o desperta simplesmente para que ele não durma, não se afaste, pense somente nela, esteja presente, fechado no quarto, no leito, em seus braços — como Deus no tabernáculo. E o que a mulher deseja: é uma carcereira.
     E, no entanto, ela não consente realmente em que o homem não seja senão seu prisioneiro. É esse um dos paradoxos dolorosos do amor: cativo, o deus despoja-se de sua divindade. Destinando-lhe sua transcendência, a mulher salva-a: mas é preciso que ele a transporte para o mundo inteiro. Se dois amantes se abismam juntos no absoluto da paixão, toda liberdade se degrada em imanência: só a morte pode então trazer uma solução. É o sentido do mito de Tristão e Isolda. Dois amantes que se destinam exclusivamente um a outro, já estão mortos: morrem de tédio. Em Terres Étrangères, Marcel Arland descreveu a agonia de um amor que se devora a si mesmo. A mulher conhece esse perigo. Salvo nas crises de ciúme frenético, ela própria deseja que o homem seja projeto, ação. Não é mais um herói, se não realiza nenhuma façanha. O cavaleiro que parte para novas proezas ofende sua dama, mas ela o despreza se permanece sentado aos pés dela. Essa, a tortura do amor impossível; a mulher quer ter todo o homem, mas exige dele que supere todo dado cuja posse seja possível: não se tem uma liberdade; ela quer encerrar aqui um existente que é, segundo Heidegger, "um ser dos longes" e ela bem sabe que a tentativa é condenada. "Meu amigo, amo-o como se deve amar, com excesso, loucura, transporte e desespero", escreve Julie de Lespinasse. O amor idólatra, se lúcido, só pode ser desesperado. Porque a amante que pede ao amante que seja herói, gigante, semideus, reclama por não ser tudo para ele, quando só pode conhecer a felicidade com a condição de o conter inteiro dentro de si.

   A paixão da mulher, renúncia total a toda espécie de direitos próprios, postula precisamente que o mesmo sentimento, o mesmo desejo de renúncia não exista para o outro sexo, pois se ambos renunciassem a si 'mesmos por amor,' disso resultaria não sei bem quê, digamos talvez o horror ao vácuo? A mulher quer ser possuída... ela exige por tanto alguém que possua, que não se dê a si próprio, que não se abandone, mas que queira, ao contrário, enriquecer seu eu no amor. . . A mulher dá-se, o homem aumenta-se com ela. . . (Nietzsche, Gaia Ciência).

     Pelo menos, a mulher poderá encontrar sua alegria nesse enriquecimento que traz ao bem-amado; ela não é Tudo para ele, mas tentará acreditar-se indispensável; não há graus na necessidade. Se ele "não pode viver sem ela", ela se considera como o fundamento de sua preciosa existência, e disso aufere seu próprio valor. Põe sua alegria em servi-lo: mas é preciso que ele reconheça esse serviço com gratidão; o dom torna-se exigência, segundo a dialética comum da dedicação¹. E uma mulher de espirito escrupuloso interroga-se: é realmente de mim que ele precisa? O homem ama-a, deseja-a com uma ternura e um desejo singular: mas não teria por outra um sentimento igualmente singular? Muitas mulheres apaixonadas deixam-se iludir: querem ignorar que o geral se acha envolvido no singular, e o homem facilita-lhes essa ilusão porque antes de tudo a partilha; há constantemente em seu desejo, um arrebatamento que parece desafiar o tempo; no instante em que quer essa mulher ele a quer com paixão e somente a ela: e sem dúvida o instante é um absoluto, mas o absoluto de um instante. Iludida, a mulher passa para o eterno. Divinizada pelo amplexo do senhor, ela acredita ter sido sempre divina e destinada ao deus: ela somente. Mas o desejo masculino é tão fugaz quão imperioso; uma vez satisfeito, morre assaz depressa, ao passo que é, o mais das vezes, depois do amor que a mulher se torna sua prisioneira. É o tema de toda uma literatura fácil de canções triviais. "Um jovem passava, uma mulher cantava... um jovem cantava, uma mulher chorava." E o fato de um homem permanecer duradouramente apegado à mulher não significa que ela lhe seja necessária. É entretanto o que ela reclama: sua abdicação só a salva com a condição de lhe restituir seu império; não se pode fugir ao jogo da reciprocidade. É preciso pois que ela sofra, que ela minta a si mesma. Na maioria das vezes ela se agarra primeiramente à mentira. Imagina o amor do homem como a exata contrapartida do que ela lhe dedica; com má-fé toma o desejo por amor, a ereção por desejo, o amor por uma religião. Força o homem a mentir: tu me amas? Como ontem? Tu me amarás sempre? Habilmente, faz as perguntas no momento em que não há tempo para respostas matizadas e sinceras, ou então em que as circunstâncias as impedem; é durante o amplexo amoroso, no limiar de uma convalescença, entre soluços ou na plataforma de uma estação que ela interroga imperiosamente; faz troféus das respostas arrancadas e, na falta de respostas, faz os silêncios falarem. Toda amorosa verdadeira é mais ou menos paranóica. Lembro-me de uma amiga que, ante o silêncio prolongado de um amante longínquo, declarava: "Quando se quer romper, escreve-se para anunciar a ruptura"; e depois de ter recebido uma carta sem ambiguidade: "Quando se quer realmente romper, não se escreve". É muitas vezes muito difícil verificar onde começa o delírio patológico ante as confidencias recebidas. Descrita pela apaixonada, em pânico, a conduta de um homem apresenta-se sempre como extravagante: é um neurótico, um inconsistente, um recalcado, um masoquista, um sádico, um demônio, um covarde ou tudo isso junto; desafia as explicações psicológicas mais sutis. "X. me adora, é loucamente ciumento, desejaria que eu usasse uma mascara quando saio; mas é um ser tão estranho e que desconfia tanto do amor que, quando lhe bato à porta, me recebe no patamar e não me deixa sequer entrar." Ou então: "Z. me adorava. Mas era demasiado orgulhoso para pedir-me que fosse residir em Lião, onde mora: fui e instalei-me em casa dele. Ao fim de oito dias, sem uma briga, mandou-me embora. Tornei a vê-lo duas vezes. Na terceira vez que lhe telefonei, bateu o telefone no meio da conversa. É um neurótico". Essas histórias misteriosas esclarecem-se quando o homem explica: "Não a amava absolutamente", ou "Tinha-lhe amizade, mas não teria suportado viver com ela um mês". Sendo demasiado obstinada, a má-fé conduz ao hospício: um dos traços constantes da erotomania, está em que as condutas do amante se apresentam como enigmáticas e paradoxais; por esse desvio, o delírio da doente consegue sempre quebrar as resistências da realidade. Uma mulher nor mal acaba sempre sendo vencida pela verdade, e reconhecendo que não é mais amada. Mas, enquanto não é acuada a essa confissão, trapaceia sempre um pouco. Mesmo no amor recíproco há entre os sentimentos dos amantes uma diferença fundamental que ela se esforça por mascarar. Pois é naturalmente preciso que o homem possa justificar-se sem ela, posto que ela espera ser justificada por ele. Se ele lhe é necessário, é porque foge de sua liberdade; mas se assume a liberdade sem a qual não seria nem herói nem simplesmente homem, nada nem ninguém lhe seriam necessários. A dependência que a mulher aceita vem de sua fraqueza: como encontraria uma dependência recíproca naquele que ela ama em sua força?
     Uma alma apaixonadamente exigente não poderia encontrar sossego no amor porque visa um fim contraditório. Torturada, atormentada, arrisca-se a tornar-se um fardo para aquele de quem se sonhava escrava; não podendo ser indispensável, torna-se importuna, odiosa. É isso também uma tragédia muito comum. Mais sensata, menos intransigente, a amorosa resigna-se. Não é tudo, não é necessária: basta-lhe ser útil; outra ocuparia facilmente seu lugar: ela contenta-se com ser a que está presente, Reconhece sua servidão sem pedir reciprocidade. Pode então experimentar uma felicidade modesta; mas, mesmo dentro de tais limites, essa felicidade não será sem nuvens. Muito mais dolorosamente do que a esposa, a amorosa espera. Se a própria esposa é exclusivamente uma amorosa, as tarefas caseiras, a maternidade, suas ocupações, seus prazeres não têm valor nenhum a seus olhos: é a presença do esposo que a arranca ao limbo do tédio. "Quando não estás presente, parece-me que não vale sequer a pena olhar o dia; tudo que me acontece é então como uma morte, não passo mais de um pequeno vestido vazio jogado sobre uma cadeira", escreve Cécile Sauvage nos primeiros tempos de seu casamento¹. E vimos que muitas vezes é fora do casamento que nasce e desabrocha o amor-paixão. Um dos mais notáveis exemplos de uma vida inteira dedicada ao amor é o de Juliette Drouet: ela é apenas uma espera indefinida. "Cumpre sempre voltar ao mesmo ponto de partida, isto é, a esperá-lo sempre", escreve ela a Victor Hugo. "Eu o espero como um esquilo na gaiola." "Deus meu! Como é triste para uma natureza como a minha esperar desde um fim da vida até o outro.'' "Que dia! Pensei que não passasse, a tal ponto te esperei, e agora acho que passou depressa demais porquanto não te vi..." "Acho o dia infindável..." "Espero-o porque afinal prefiro ainda esperar, a crer que não virá mais." É verdade que Victor Hugo, depois de Juliette romper com seu rico protetor, Príncipe Demidoff, confinara-a em um pequeno apartamento e durante doze anos proibiu-a de sair sozinha, a fim de que não reatasse com nenhum de seus amigos de outrora. Mesmo quando a sorte daquela que se intitulava "sua pobre vítima enclaustrada" se amenizou, não deixou ela de ter o amante como única razão de viver e de vê-lo bem pouco. "Amo-te, meu Victor bem amado", escreve em 1841, "mas tenho o coração triste e cheio de amargura; vejo-te tão pouco, e o pouco que te vejo me pertences tão pouco, que todos esses poucos fazem um todo de tristeza que me enche o coração e o espírito." Ela sonha conciliar a independência com o amor. "Gostaria de ser independente e escrava a um tempo, independente por uma situação de que viva e escrava unicamente de meu amor." Mas tendo definitivamente malogrado em sua carreira de atriz, teve de resignar-se "de um fim de vida a outro" a ser apenas uma amante. Apesar de seus esforços para prestar serviço ao ídolo, suas horas eram demasiado vazias: as 17.000 cartas que escreveu a Hugo, ao ritmo de 300 a 400 por ano, testemunham-no. Entre as visitas do senhor não lhe restava senão matar o tempo. O pior horror na condição da mulher de harém é serem seus dias uns desertos de tédio: quando o homem não usa esse objeto que ela é para ele, ela não é absolutamente mais nada. A situação da amorosa é análoga: ela só quer ser essa mulher amada, nada mais tem valor a seus olhos. Para existir, é-lhe preciso portanto que o amante esteja a seu lado, se ocupe com ela; ela espera a chegada, o desejo, o despertar dele. E logo que ele a deixa, recomeça a esperar. É a maldição que pesa sobre a heroína de Back Street, de Fanny Hurst, sobre a de Intempéries, de R. Lehman, sacerdotisas e vítimas do amor puro. É a dura punição infligida a quem não tomou o próprio destino nas mãos.
[1] É diferente o caso quando a mulher encontra sua autonomia no casamento; então o amor entre os cônjuges pode ser uma livre troca de dois seres que se bastam.

continua página 430...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Massa e Poder - A Ordem: A inversão

Elias Canetti

A ORDEM

     A inversão

          "Pois o alimento que o homem comer neste mundo há de comer ele no outro". Esta frase enigmática e inquietante se encontra no Shatapatha-Brahmana, um dos antigos tratados de sacrifício dos hindus. Mais inquietante ainda é o relato que aparece neste mesmo tratado. Trata-se da excursão do vidente Bhrigu ao além.
     Bhrigu, um santo, era filho do deus Varuna; ele tinha adquirido uma grande sabedoria brâmane e isto lhe tinha subido à cabeça. Tornou-se arrogante e colocou-se acima do próprio deus seu pai. Este lhe quis demonstrar o quão pouco sabia e lhe recomendou visitar, uma depois da outra, as diferentes regiões celestes: Leste, Sul, Oeste e Norte. Deveria prestar o máximo de atenção a tudo quanto visse e, no regresso, contar-lhe tudo o que tinha presenciado.
     "Primeiro, ou seja, no Leste, Bhrigu viu homens que arrancavam a machadadas os membros de outros homens, um depois do outro, e os repartiam entre si dizendo: 'Isto pertence a você, isto pertence a mim'. Quando Bhrigu viu isso ficou espantado e as pessoas que esquartejavam os outros lhe deram como explicação o fato de que as vítimas tinham feito o mesmo com eles no mundo dos vivos e que eles agora nada mais faziam do que proceder da mesma forma.
     "Depois disso Bhrigu iniciou sua viagem para o Sul, e lá viu homens que cortavam os membros de outros homens, um depois do outro, e os repartiam entre si dizendo: 'Isto pertence a você, isto pertence a mim'. Quando perguntou o motivo, Bhrigu tornou a ouvir a mesma resposta: os que agora estavam sendo cortados tinham feito a mesma coisa no outro mundo com os que agora os cortavam. No Oeste, depois disso, Bhrigu viu pessoas que, caladas, devoravam outras pessoas, as quais, também caladas, se deixavam devorar. Exatamente desta forma eles tinham se comportado no outro mundo com os que os devoravam. No Norte, viu novamente homens que aos gritos devoravam outros homens que também gritavam, exatamente como estes tinham feito com aqueles no outro mundo.
     "Depois do seu retorno, Bhrigu foi convidado por seu pai Varuna a recitar sua lição como um aluno na escola. Mas Bhrigu disse: 'O que devo dizer? Não existe lição alguma!' Ele tinha visto coisas por demais pavorosas e tudo lhe parecia sem sentido.
     "Então Varuna soube que Bhrigu tinha visto essas coisas e lhe explicou: 'Os homens do Leste, que arrancavam com machados os membros de outros, eram árvores. Os homens do Sul, que cortavam os membros de outros, eram bois e vacas. Os homens do Oeste, que calados devoravam homens calados, eram ervas. Os homens do Norte, que gritando devoravam outros homens, eram as águas'."
     Para todos estes casos ele conhecia um remédio. Mediante determinados sacrifícios, que indicou ao filho, podiam evitar-se as consequências, no além, das próprias ações.
     Noutro tratado de sacrifícios, o Jaiminiya-Brahmana, a mesma história de Bhrigu é contada de forma algo diferente. Ele não percorre as várias direções cardeais, mas vai de um mundo para outro. Em vez das quatro cenas que foram narradas, existem apenas três. Primeiro Bhrigu vê árvores, que assumiram formas humanas no além, e agora cortam homens em pedaços e os devoram. Depois Bhrigu vê um homem que devora outro que grita. A este respeito dá-se uma explicação: "O gado que foi sacrificado e comido aqui assumiu no além uma figura humana e agora faz ao homem o que este lhe fez antes". Finalmente, ele vê um homem devorando outro que não diz coisa alguma. O arroz e a cevada assumiram forma humana e retribuem agora o que sofreram antes.
     Também aqui são indicados determinados sacrifícios. Quem os realiza corretamente escapa do destino de ser devorado no além pelas árvores, pelo gado ou pelo arroz e a cevada. Mas o que aqui nos interessa não são os antídotos contra o destino. O importante é a ideia popular que se oculta por trás do disfarce sacerdotal. O que fazemos aqui nos é feito no além. Não são instituídos servidores especiais de justiça para executar este castigo; pelo contrário, cada qual castiga seu próprio inimigo. Também não se trata de ações quaisquer, mas sim do próprio ato de comer. "Assim como neste mundo os homens comem animais e os consomem, da mesma forma, os animais no outro mundo comem os homens e os consomem".
     Esta frase de um outro Brahmana, semelhante ao que colocamos no início deste capítulo, encontra uma estranha confirmação no Código de Manu. Lá explica-se que não é pecado comer carne, porque este é o comportamento natural das criaturas. Mas promete-se uma recompensa especial a quem se abstiver da carne. A palavra em sânscrito para designar a carne, mamsa, se explica pela decomposição de suas sílabas: mam significa "a mim", sa significa "ele"; mamsa quer dizer "a mim-ele"; "a mim" "ele" lá no além irá comer, ele cuja carne eu comi aqui; isto é o que os sábios explicam como a "carnalidade da carne". Nisto consiste a natureza-carne da carne; este é o verdadeiro sentido da palavra carne.
     A inversão é reduzida aqui à mais concisa de todas as fórmulas, e é captada na imagem da carne. Eu a como, ela me come. A segunda parte, a consequência do que eu fiz, é então precisamente a palavra que designa a carne. O animal que nós comemos lembra-se de quem o comeu. A morte não acabou com este animal. Sua alma continua vivendo, e no além ela se trans ma em homem. Este aguarda então pacientemente a morte do seu devorador. Assim que este morre e chega ao além, a situação primitiva se inverte, transformando-se no oposto. A vítima encontra seu devorador, agarra-o, corta-o e come-o.
     A relação que tudo isso tem com nossa concepção da ordem e do aguilhão é evidente. Entretanto tudo foi levado a tais extremos, tudo se transforma em algo tão concreto que se começa a ter medo. Em vez de acontecer nesta vida, a inversão ocorre no outro mundo. Em vez da ordem, que apenas ameaça com a morte e que assim consegue por extorsão todos os tipos de serviço, trata-se realmente de morte em sua forma mais extrema, na qual o morto é devorado.
     Segundo nossa maneira de ver, que já não encara seriamente a existência no além, o aguilhão que a ameaça de morte provoca continua existindo enquanto a vítima vive. Se ela irá conseguir uma inversão é sempre algo duvidoso; de qualquer forma a vítima tentará consegui-la. Finalmente, o homem é governado por seus aguilhões, sua fisionomia interna é de terminada por eles; conseguindo ou não libertar-se deles, eles são o seu destino. Segundo a concepção hindu, para a qual o além é uma premissa segura, o aguilhão como núcleo duro da alma continua existindo no além, mesmo depois da morte; a inversão ocorre de qualquer maneira, ela se converte na atividade propriamente dita da existência no além. Faz-se exatamente o que nos foi feito, e somos nós mesmos que o fazemos.
     O fato de a mudança de aparência não constituir um obstáculo parece ser uma característica especial. Já não é o animal que comemos que nos agarra no além e que nos retalha: é um homem com a alma desse animal. Externamente a criatura se modificou completamente, mas o aguilhão continua sendo invariavelmente o mesmo. Nas visões de horror que são presenciadas por Bhrigu em sua viagem, o aguilhão aparece como o tema principal da alma; seria inclusive possível dizer que esta é formada inteiramente por aguilhões. A essência propriamente dita do aguilhão, do qual tanto se falou nesta análise da ordem, sua absoluta imutabilidade e a precisão da inversão à qual ele aspira encontram nesta crença hindu do devorado que deve devorar por sua vez sua expressão mais conclusiva.

continua na página 184...
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Massa e Poder - A Ordem: A inversão
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem respostas te incomodam?

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

MPB: É preciso saber viver

Titãs


A canção "É Preciso Saber Viver" foi regravada pelos Titãs em 1998 ( música composta por Erasmo Carlos e Roberto Carlos - originalmente gravada pela dupla Os Vips no álbum As 14 Mais – Vol XXII e, mais tarde, regravada pelo próprio Roberto em 1974 no álbum Roberto Carlos.), sendo uma das mais tocadas nas rádios brasileiras, ganhou destaque em várias cidades, incluindo São Paulo, Florianópolis, Porto Alegre, Curitiba e Santos. No Brasil em geral, foi a quarta mais tocada. A música também foi indicada ao Prêmio Multishow de Música Brasileira 1999 na categoria Música do Ano e Melhor Clipe.


Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver

Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver

Toda pedra no caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver

É preciso saber viver
É preciso saber viver
É preciso saber viver
Saber viver






Márcio e Ronaldo Antonucci (OS VIPS) - "É preciso saber viver"




Os Vips - É Preciso Saber Viver






Wanderléa, Erasmo e Roberto Carlos - É preciso saber viver
Clipe do filme: Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa




Cinema: Roberto Carlos e O diamante cor-de-rosa

Uma estatueta comprada em um antiquário em Tóquio pode levar à descoberta de um grande tesouro.

Direção:
Roberto Farias

Roteiristas:
Berilo Faccio
Roberto Farias





Elenco:
Roberto Carlos
Erasmo Carlos
Wanderléa
José Lewgoy
Paulo Porto
Marly de Fátima
António Abreu
Takaesiro Aisaka
Olga Hamada
Hisako Iasaka
Joaquim Inoue
Hana Kruman
Teruo Nakatami
Glauce Rocha (narração)
Jorge Saito
Shigeru Sakai
Mário S. Takamine
Toshie Yatape

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Deus me proteja / Vem pra cá / Leva / Trem das Onze / Romaria / De janeiro a janeiro / É preciso saber viver /