quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Teatro Pedagógico: qual livro? o que quero ler na eternidade?

Parábolas de uma Professora


qual livro? o que quero ler na eternidade?


baitasar e paulo e marko



as palavras marcam as ideias das histórias feitas ou desfeitas com um timbre destacado ou irrelevante. eu continuava parada com a térmica na mão, no abrigo insignificante, calada, o palavrório ia e vinha, livre e desobediente, queria ouvir um desfecho com um final romântico. sou o meu espelho, a inflexão das minhas combinações acredita no desenlace poético, na virtude das palavras que revelam outras harmonias, arranjos com outras vontades. precisava ficar. sair seria deserção, Contraponha Cabayba, qual a utilidade do nosso trabalho?

queria possuir essa insistência suave e decidida da camila, ser assim, resistente ao ódio e a raiva das caras feias, vozes aterradoras anunciando o fim do mundo. pessoas derrotas pelo ódio e a impaciência. não me assustam, mas me causam uma profunda tristeza. não tenho medo do fim do meu corpo nem da indisciplina dele, como não me assustam as poesias e os romances, necessito a poesia e os romances

o marko, o paulo, a camila não buscam desacreditar qualquer reflexão, repetem que precisamos olhar de frente a cruz, enfrentar o sorriso fabricado, têxtil, o elogio hipócrita, afrontar a desumanidade de maneira radical, sem concessões, Ajudar essa gente se tornar gente.

a cabayba não parecia querer sair do seu cinismo e torpor natural. a zombaria e a indiferença marcavam suas ideias, tramavam suas palavras com um pequeno sorriso, disfarçado pelo rumorejo rouco da voz carcomida

Entendi. Estamos obrigados a educar o cidadão que a nossa sociedade precisa. E o que a sociedade necessita?

virou-se para mim. continuei calada, nos olhamos, recebi um sorriso afetuoso de acolhimento, a camila ao meu lado continuou

Precisamos médicos, engenheiros, advogados, professores, mas...

o marko sentou ao nosso lado, escutava camila, atento a cada palavra e inflexão da voz

Com licença, Camila...

essa voz reconheceria em qualquer lugar: abigail

... médicos, engenheiros, no meio dessa gente, feia, pobre, se não é impossível, é muito pouco provável.

não podemos negar nosso dna, podemos lutar, mas no primeiro descuido ele se manifesta firme e forte

Abigail, só um instante. Entendo o Camila, mas a questão é que já temos muitos médicos, engenheiros, advogados, veterinários, etc etc etc, essa gente precisa parar de fazer filhos. Pobre e a filharada só cria mais pobreza.

Não é verdade, Cabayba.

somente o marko para denunciar um pedacinho dessa história mal contada, No mundo dos pobres não têm médicos... ah, faltam condições de trabalho para os médicos, parte da verdade, Cabayba, precisamos de médicos que antes de entender de exames, entendam de gente... ah, mas existem médicos maravilhosos, parte da verdade, Cabayba, não há tantos médicos maravilhosos quanto necessitam os que não podem pagar. Essa é a questão, quais as características, conduta e qualidade de personalidade dessa mão de obra qualificada? O projeto da personalidade como produto da educação deve estar baseado nas exigências da procura da sociedade.

eu não sei das outras, mas eu gostaria de ficar escutando o marko, a reunião que precisamos é essa, o amálgama das ideias é a discussão das ideias, a prática e a discussão da prática, o que deu certo, o que não deu certo, o que precisamos mudar, buscar nas ideias as revoluções da prática. eu continuo fixada no mesmo lugar, ao lado do fogão, a térmica na mão

a cabayba levanta, deixa seu copo de iogurte vazio sobre a mesa, caminha até a porta do abrigo, faz uma careta, depois outra, mais uma das suas máscaras

Marko, educar quem não escuta e não quer ouvir? Brigam, xingam, gozam em nossa cara, levantam, saem, os palavrões, os xingamentos, o descontrole... não resisto mais, para mim, essa história acabou! E não tem final feliz para os miseráveis!

antes que a ofélia pudesse sair, o marko perguntou suave e direto

E o que lhes mostramos? Um copo de iogurte na mesa? Muitos crimes passionais seriam evitados se pudéssemos vigiar a solidão do próprio egoísmo.

a ofélia não respondeu, saiu sorrindo. fico para trás, desenterrando os meus sonhos da realidade sempre inacabada, incessantemente inconclusa. queria ter sido fecundada com a vida de uma filha, não sei por que não me dei esta vida, sou uma mulher frágil, oculta pela altura das árvores que plantei. não sou boazinha nem bruxinha. estou assustada com o último cigarro que fumei. venho decidindo parar, mas não será hoje. a práxis que poderá me fecundar, outra filha, outra mulher. sinto que não quero morrer, quero te amar. nossa pele macia sem as rugas que chegam mais tarde. as lambidas da tua língua molhada e quente. os avisos para ter cautela. o teu corpo aprendendo o meu, sumindo no meu. amo muito, tudo isso. delícia. adoro a sinfonia dos teus amares em mim. a tua boca me faz querer os teus beijos. necessito teu colo, mas há horas que, todavia, mais indigente e miserável me sinto. quando de pertinho, fico olhando tua boca e sinto crescendo aquela vontade de te devorar, mas se te procuro na aurora só vou te encontrar no crepúsculo, o apaixonamento do reencontro. queria que o amor fosse a obra-prima da minha vida

As ações na escola, Camila, não têm esse alcance histórico...

pronto, perdi alguma coisa, mas continuo em pé, a garrafa térmica na outra mão

... senão estaríamos formando jovens sem iniciativa crítica, criativa e humana, mas grandes ecos de declinações, códigos gramaticais, fórmulas matemáticas. Por graças, sabe-se lá do que, conseguimos sobreviver às inquietações críticas do cotidiano.

a cabayba retorna ao abrigo, pega o copo vazio e coloca na lixeira. agora, enfrenta o discurso do marko, em silêncio

A realidade é maior que a escola.

É isso, Samuel, caminhamos a reboque. Fazemos história contando as histórias.

A escola somos todos, precisamos reconhecer o que é necessário ensinar e educar.

Que grande novidade, Camila!

As duas têm razão, uma banalidade que não fazemos não é modernidade, a inovação seria escutar o aluno, indo além de pegar em sua mão.

continuo escutando, não quero atrapalhar, sei que é besteira, poderia contribuir, mas continuo na minha preguiça. o marko, físico esbelto, cabelos curtos, óculos sobre o nariz, estatura mediana, impõem-se nos gestos exatos. a voz perfeitamente modulada, cordial, sem nenhuma vaidade, sorriso bondoso. a energia da vida está mergulhada em seus sonhos que iluminam e incendeiam a sua volta. sinto que terei saudades do tempo em que conversamos sobre essa confusão que é viver

Marko, você acredita que a nossa vida social está se desenvolvendo e aperfeiçoando? E os nossos jovens?

a cabayba é um desafio constante, mas é preciso escutá-la, assim, podem-se confrontar ideias, concepções e práticas, penoso é acarear o silêncio que só espera o momento do bote, não se arrisca, quando muito mexerica

o marko se mantém serenamente firme e disposto no embate. os meus pensamentos se transportam das suas palavras. recordo acusações que a educação socialista tornaria a escola sem gosto, sem cores democráticas. vejo a mim e meus colegas, todos crescidos e educados nos preceitos mais significativos da academia: severos, conservadores e preconceituosos. afinal, quem uniformiza quem? desde quando decorar é ser feliz? quem deforma quem?

não tenho medo da morte, não quero ficar pelos cantos, tortinha. peço que me acabem num gesto de humanidade, libertem as dores da minha alma solidária. enterrem meu corpo balzaquiano com alguma novela balzaquiana. a leitura não será só um passatempo, me fará ver o que sou, escutar o que não sei, o que não quero ou necessito, o amor na plenitude, dona de mim

qual livro? o que quero ler na eternidade?
 



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Parábolas de uma Professora

sábado, 22 de agosto de 2015

Cadeira Vazia

Lupicínio Rodrigues



Cadeira Vazia

Entra, meu amor, fica à vontade
E diz com sinceridade o que desejas de mim
Entra, podes entrar, a casa é tua
Já te cansastes de viver na rua
E os teus sonhos chegaram ao fim

Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar esse dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
O teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia 


Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que sou teu paizinho
Que há tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu


Voltaste, estás bem, fico contente
Mas me encontraste muito diferente
Vou te falar de todo coração
Eu não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar podes comer meu pão




Composição: Lupicínio Rodrigues / Alcides Gonçalves


Elis Regina






Elza Soares





Marisa Gata Mansa





Nelson Goncalves





Jamelão




Fadista Mariza




Lupicínio Rodrigues











sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Teatro Pedagógico: sementes germinantes I

Parábolas de uma Professora



sementes germinantes


baitasar e paulo e marko



I



uma tarde perfeita, viver uma vida perfeita, outra quinta-feira, mas em outro lugar, Com licença, peço desculpas pelo atraso. é o paulo que se anuncia num atraso, interrompendo a reunião, Estava fazendo a releitura de um texto com alguns alunos, o tempo foi passando na sua medida, mas enfim, cheguei atrasado para a reunião.

o professor paulo tem um carisma muito grande, entre todos que de alguma maneira ou por alguma razão privam da sua palavra e suas reflexões sobre educação. começa por ser um velhinho de cabelos brancos e longos, um andar calmo e curtinho como se não tivesse pressa em chegar, o que parece lhe interessar é o percurso e o caminho percorrido. sua voz é tranquila e clara, não deixa dúvidas sobre a sua intenção ao falar, seus olhinhos parecem sempre em busca de tudo que possa ser visto e aprendido na intenção de unir a ação com o pensamento



Parabéns, professor! Já é muito difícil uma leitura de frases com estes alunos, imagine uma releitura, chamo isto de magia, o máximo da bruxaria nos dias de hoje. Enfim, temos o nosso mago!

observo a enferma ofélia, não é possível que eu fique calada frente a tamanho disparate! busco com o olhar o professor do corredor. não está! como o necessito. deus havia sido a minha mais importante carência, mas a ele necessito mais que a deus. não é possível que fique calada, sempre acreditei na possibilidade da construção de uma escola diferente, voltada para as práticas da conscientização, da inclusão, da autonomia, da participação, da auto-organização, da libertação, da alegria, da cidadania. enfim, a construção de uma escola verdadeiramente democrática. deixo paulo e marko sozinhos... calei e não encontro resposta, Professora ofélia, então é verdadeira a lenda que comenta ser uma escola vazia, sem suas crianças, um imenso casarão mal-assombrado. Só ficam as bruxas!

eis uma reunião que promete, a lia mostra sua capacidade de combate na ironia que brinca com o deboche, tudo é dito sem ingenuidade. eis as manobras das forças reacionárias e progressistas durante o combate ou na iminência dele, se posicionam, medem as forças, granjeiam aliados, agrupam-se. não existe lirismo neste combater nem sangramentos aparentes, as conseqüências estão depositadas no fazer ou deixar de fazer nas aulas, os seus efeitos se concretizam nas maneiras de ensinar arrogante para alguém ou nos desejos humildes de aprender junto

Querida professora, a mim parece importante chamar a atenção para quantas e tantas vezes sucumbimos frente às falas destrutivas e desesperançadas, que nos fragmentam e nos implodem em pequeninos pedaços voadores, transformando em poeira nossas tentativas íntimas. Nas muitas e mais tantas oportunidades em que isto acontece, não o sabemos se ocorre por intenção deliberada ou por não sabermos pensar e sentir diferente. guardamos silêncio para o enfrentamento final quando o bem vencerá definitivamente o mal. Eis o imobilismo na crença que haverá somente um embate e que todos os desgastes dos afrontamentos anteriores se dão sem razão. Ao assumir uma posição critica e não lírica deixamos de assumir os defeitos e dificuldades dos outros para estabelecer parcerias razoáveis de comprometimento com a esperança, dentro de uma práxis libertadora do outro em mim que retorna ao outro que está fora de mim.

é isso, concordo com o paulo, mas continuo calada, não há fadas ou benfeitores, todos e todas precisamos caminhar com as próprias pernas, errando ou acertando, mas nos basta o movimento para começar. parando vez que outra para estabelecer diálogos íntimos, produzindo alguns enfrentamentos pessoais, fixando regras de ação e deixando o coração livre para voar os maiores e melhores sentimentos da esperança, não se deixar vencer pela insônia do medo e ficar escondido. levantar da cômoda cadeira e retirar o disco do toca-disco, virar o vinil e tocar o lado b, movimento e reflexão, quanta sonoridade no vinil, nem tudo que é novo supera em qualidade o antigo, Não se opta pelo novo apenas como conseqüência da novidade, decide-se pelo novo através da reflexão que temos do velho e do desejo de fazer nascer diferente do antigo.

Concordo com você, lia. o professor paulo está solto e falante, não se preocupa com os olhares azedos ou vazios, Aquilo que é novo, a notícia ou a colheita, não nos embaraça tanto, quanto o novo que chega pelas idéias de fazer diferente. Não se diz querer o novo das ideias por astúcia ou ingenuidade, pois tanto uma como a outra farão da novidade mentiras diárias. Cresceremos com as ideias do novo fazer e pensar, na discussão permanente entre mim e o eu, entre o eu e o nós, entre o nós e o todo, entre o todo e o que repito que é meu, pois sempre retorno ao início que sou eu. Minha dor não é nova, mas meu sorriso está diferente. Estou refletido em mim mesmo, clareando e esclarecendo minhas próprias perguntas. Sou astuto, ingênuo ou progressista? Por ora, já me basta estar permanentemente atento, mesmo que sofrendo muito com o esforço, mas em movimento.

fico animada e penso que precisamos superar estes papéis mágicos e autoritários. precisamos de novos olhares sobre o nosso quê fazer na escola, sacudindo a poeira do tempo e descobrindo aos poucos um novo eu que já existia, permanecia escondido pela poeira da imperturbabilidade ingênua ou solércia medrosa, Professor paulo, por favor, sente-se. Vamos continuar. esse é o altíssimo, nosso diretor organizador

ele senta-se calmamente na fórmica verde e menos dura e menos fria e menos pedagógica, Se eu pudesse acabaria com a pedagogia. Pior que a possibilidade de matar as pessoas, é a maneira como transforma todos em bonecos de pau! a sala fica em silêncio, penso comigo mesma, chateada com meu descontrole, Calma, anita... sua idiota, isso é apenas parte da contenda. Não é uma traição. sinceramente, quero ficar quieta em meu cantinho. não sei se a pedagogia é uma traição - ou seu uso ou desuso. acredito que sua intencionalidade desvela as diferentes concepções de mundo que cada pedagogo carrega consigo... Anita, somos pedagogos do acaso?

não identifico quem me fez a pergunta, mas não posso voltar atrás em meu silêncio, Por acaso ou por intenção? O que é ser um pedagogo? Qual seu objeto de estudo? O que é afinal a pedagogia? Uma ciência pensada para dar conta de muitas ciências dentro de uma instituição chamada escola? paro para tomar fôlego, apenas isso, meu rumo já está tomado, Aí começa o emaranhado, o lio. Como podemos dar conta de todo o saber científico para ensiná-lo na escola? Criamos os programas, os conteúdos, os métodos, as estratégias... eis o começo da traição aos miseráveis. olho para o professor paulo. ele me sorri e enfia os dedos em sua barba branca. queria aquela paz. seus olhos me conduzem a continuar

Sei, através dos tempos, de acordo com os diferentes momentos históricos, tivemos construções importantes no campo da pedagogia no sentido de transformar as práticas coercitivas, disciplinadoras e autoritárias. Lembro de citar gramsci com sua pedagogia crítica, frenet com a escola nova, makarenko com a pedagogia socialista, paulo freire com a pedagogia libertadora. Outros de agora, outros que virão. Mas me interessa perguntar se eles foram traidores...

Foram traídos... me responde o professor do corredor


o meu coração se aperta e corre maluco, minhas palavras voam em sua direção, O que pensas deles? pergunto com os olhos brilhando, quero envolvê-lo em meus braços, mas preciso me contentar com essa pequena peça de oratória

Todos eles pensaram uma nova escola a partir da utopia da construção de uma sociedade baseada em princípios solidários, onde a pedagogia estaria a serviço da construção desse ideário. 


minha provocação foi aceita, O que deu errado?

Olhamos para o mundo, mas basta olhar para a áfrica e américa latina, veremos a fome, as favelas, as desigualdades extremas e, talvez, tenhamos alguma resposta. As pessoas não estão preocupadas com justiça social, estão treinando recursos humanos para as grandes corporações, amestradores de mentes e adestradoras de corações. Essas pessoas não estão interessadas em direitos e deveres buscam privilégios.

Mas que feio professor... generalizar tanto assim. a ofélia não vai nos afastar da discussão com suas provocações. não deixo que ele se aparte da discussão

O que não deu certo?

o professor do corredor para e responde com outra pergunta, O que poderá dar certo? Uma pedagogia da esperança? Uma pedagogia do possível? O que é possível fazer em uma sociedade onde se duvida da possibilidade de pensar em solidariedade e, principalmente, como construir os conceitos de justiça e ética nesta sociedade dominada pelo consumismo e individualismo? Não queremos melhorar como pessoas, queremos ter mais qualquer coisa.

Concordo, mas não basta fazermos a leitura da realidade e dos saberes existentes em determinada comunidade. Até onde precisamos ir?

Ao céu e ao inferno, precisamos compreender como quem interpreta a sua própria realidade. Não há outra saída que não seja estar junto das pessoas mais humildes. Falar, escutar, dialogar, aceitar, meter a colher, mudar nosso modo de vê-los, deixar que nos ensinem e nos toquem. Fazer diferente. Não para teorizar em relatos de seminários, mas para mudar a nossa vida. Pensando assim, a pedagogia não é uma traição, é uma ferramenta de mudança. Desde que assim o façamos, ou melhor, desde que assim a entendemos, mas tudo isso exige disciplina e método dialético, com toda certeza.

O abismo nos espera, professor?

E nós, a quem esperamos? Um cavaleiro inexistente, o último voo do flamingo? Por quanto tempo iremos resistir partidos ao meio?

Quem sabe...

paro meus devaneios
 




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Histórias de avoinha: A vida num termina. Nem a poesia


Ensaio 60B – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar



O sinhô Conde quer mais vinho?

E não acabou?

a siá cobra chamô o raposa e pediu mais do vinho. A casa tava um rebuliço, ninguém era de ninguém. Tinha os descuidado, os bêbado, os metido assanhado qui precisava se cuidado sem pestanejá. Com esses o raposa num tinha paciência. Tinha tumbém os qui acordava do desmaio melado sem sabê onde tava

Claro que não acabou, os dois riu alto em desatino, aquele riso seguia desatando os pano qui escondia a desvergonha. Umas qui otra num tinha delírio, muitas otra tinha; um qui otro tinha o brio da fidalguia, otros num tinha. A casa tava cheia com todo tipo de vida

o bode oiô pru conde com feitio de severidade e reclamô dos abuso, Não se pode ter tudo, conde. bobagem bobagem, essa asneira só pode nascer em cabeça de bode. o conde não controla tudo. o que é meu, eu controlo. e caso o conde chegue no humaitá. e daí? resolve fazer uma surpresa, chega de mansinho no quarto da negra rita. e daí? ela está na cama toda gemendo com o negro tamanco enfiado nas pernas. os dois apanham até o couro rasgar fundo; depois da salmora e da cura, cada um vai espiar os pecados no trabalho duro do campo. e, se o conde não vai no lugar de dormir da Rita, mas segue para o quarto do casal? cuidado bode, a imaginação pode fazer o amigo virar assombração. a sinhá casta está na cama sendo enfiada, vê o conde e grita por socorro. o desgraçado é um homem morto. é um negro. então, não é homem, mas vai precisar levar um corretivo mais sério que uma surra. dizem que o varão do negro têm mais força e melhor aparência que a varinha do conde. fantasia, bode. e a sinhá casta? o que tem ela? qual o castigo? nem o padre nem as rezas podem curar a sujeira feita. e se não é um negro? como assim, não estou entendendo. a sinhá casta está nos meus braços. o bode? sim, nos braços do bode. duvido. será que o conde trocaria a nossa amizade, por ela, que o conde já não quer? o bode que não se atreva. não se pode ter tudo em tudo, conde.

as mão do siô da hora brincava com munta travessura, o coração tava aos pulo, cada pouco mais impacientado. As vista ia e vinha nas menina. Num tava doente, mais fervia com o desassossego das vontade. A muié da casa grande havia de perdoá, mais tumbém, caso num perdoava, ele num queria e num tinha jeito de evitá os desatino da sem-vergonhice. A muié maria e a puta cobra pediu pru raposa tocá mais forte

Mais forte! Mais forte!

pulô no colo do bode e grudô a boca na boca do conde, O que o sinhô da Hora procura?

o conde agarrô as anca da cavalariça. As duas mão prendeu com força um lado e otro da cobra. Sentiu os dedo enfiado nas carne da muié cobra, carne de bicho pru caçadô arrancá a cabeça e comê. A glória e o fiasco. Todo caçadô pode num dizê, mais tem medo de mais do baruio do fracasso. O silêncio. Os bico rosado piquinino demorando pra endurecê. A carne como uma galinha-morta. A pelagem dos braço tumbém sem arrebitá. Ela oiô nas vista do bode, continuava na sela, tava rindo, O sinhô da Hora sabe quantas vezes agarraram o meu rabinho?

Não.

foi uma resposta seca e curta, num queria sabê, num era assunto daquela hora

Opa! Epa! Eia cavalinho, empina no meu rabinho. Assim. Mais forte!

cada fome tem o seu tamanho, cada encenação a sua plateia desanimada qui comprô os meió lugá pra tê as vista dilatada, os pensamento qui num aquieta, o corpo qui num controla as vontade, Hoje, acho que nem Maria Cobra me faz endurecer.

Mas o sinhô da Hora não está atrás do meu rabinho, não é?

ele num respondeu, acho meió calculá as palavra qui devia soltá, Afinal, toda razão tem uma razão que vem antes. mas conde, mais dia menos dia, vai chegar o tempo de confessar as manchas do vinho. bode, confissão é para os fracos, feito é feito e feito vai ficar. o conde precisa desvendar um enigma. enigma? por que o conde precisa de tanta montaria vagabunda e vinho barato se tem uma sinhá tão nobre e respeitosa na humaitá? é coisa de homem, bode. aposto que a sinhá até chupa pelo canudinho. bode! é só ensinar, conde. bode, esse mundo é falso, nada fará diferença mesmo, eu não quero direitos, foda-se essa porra dos direitos! o que o conde quer, então? eu quero privilégios, seu idiota!

Não vi a neguinha Pardal nem a indiazinha Tico-tico. Eu suponho que estão nos seus afazeres na casa.

Não, sinhô da Hora.

Estão sangrando, é isso?

a camaleoa acariciava o rosto do conde com os bico piquinino desisnteressado, sentada no colo desinteressado do bode, Elas estão no resguardo.

Adoeceram?

as vista do siô da hora entristeceu, num era padecimento de invencionice. Ficô mais fraco. Oiava pras parede tão feia e véia, tão descolorida. Teve um causo de munta alegria com as duas moça. A garganta parece qui lhe secô. Gostô de fazê uso dos serviço qui a piquinina preta e a da cô de cuia sabia oferecê

Não!

a dona das minina bateu com os nó dos dedo na madêra e cuspiu no chão. Procurava fazê o espanto das palavra mau dita do siô da hora, fez força pra empurrá aquele desconjuro pras lonjura, Toc toc toc, esconjura Satanás!

fez o siná de cuiz e credo trêis veiz, pai fiô e santo, amém, pai fiô e santo, amém, pai fiô e santo, amém. O mau agôro num pode deixá de sê afastado pra num embaciá as coisa boa da casa. Vai jogado fora. Ela aprendeu qui num é bão desafiá só pra tê desafiado

Mas então, o que aconteceu?

o raposa parô a babação na gaita, a cadela poesia aquietô-se, dobrô a cabeça nas pata piquinina e acomodô a barriga no chão da terra. Arrastô as duas orêia inté a terra do chão. O rabo piquinino bailançando. Ali, na confraria das vagabunda, a ordem era num pará o bailado dos rabo. Os óio da poesia esbugaiado. Ela e o raposa num se metia nos assunto de apadrinhamento no céu ou no inferno. A loja tinha dona qui gostava de cuidá e mandá. Inté a poesia sabia qui bem meió fazia quando num se metia. Chegava abrí a boca e arreganhá os dente, mais era só fingimento de brabeza. Sabe-se lá ou cá se a poesia pensa. Num aparentá sê o causo de pensá com os dente arregaçado, mais se algum macho fortão encontrá no caminho a poesia com os dente afiado é bão tomá o cuidado de pensá, no causo do metido sabê pensá

tumbém acho, às veiz, é preciso recebê ajuda pra desmanchá os nó das viajada na vida, otras veiz, pode acontecê qui no lugá da ajuda ocê pode recebê atraso, mais num se aborreça com o estorvo, tudo se encontra no arremate dos caminho: as estrada e os caminhante. A poesia deve tê a sua razão quando arreganha os dente ou bailança o rabo. Num é vaidade, mais pode sê. Ela num tem juízo ou justiça, num pensa quando morde, só morde. Num é maldade, mais pode sê. O caminho acabado do andante, depois do último suspiro, no fim das conta feita, pode num tê a brilhatura esperada, mais se oiá a estrada caminhada vai vê qui tá justo as meia de lã, as mão no bolso, os passeio a esmo. Um pouco mais aqui, otro pouco menos ali, mais as conta feita da vida vivida, os passo dado, os riso, os choro, é a sua própria estrada inventada. Ela dá no qui dá pelo gosto do caminhante. Ou pode num dá

a poesia deitada parecia querê avisá qui a vida num fica velha nem dá pra tocá com o dedo, num tem cô e tá sempre manchada de vinho como um pé de vento, chuva e sol; a vida num termina, muda o caminhante

É coisa mais simples, sinhô Conde.

Pois fale, mulher de Deus!

antes da resposta, cuspiu no chão otra veiz. Desceu as mão inté a cintura do cinto. Soltô o aperto do cercado. O rêio caiu no chão. E ali, ficô. Num tinha precisão do uso de ataque ou defesa. Com a força dos dedo piquinino fez o siô da hora deitá as costa no chão. Depois voltô atenção nas calça. Tirô os botão das casa qui deu pra tirá, os qui num deu ela arrancô. Tudo feito sem tirá as vista do bode assustado, O sinhô Conde está me escutando?

Claro claro, continue. Não pare, por favor.

Quando entrou na casa o noticiário que o sinhô da Hora, Conde Humaitá, foi visto nas esquinas da Villa, chamei as duas meninas e recomendei resguardo. Deveriam esperar a visita do altíssimo.

E se eu não venho?

ela encoieu os ombro. Num era desdém nem desfeita. Fechô as vista. Bebeu a água com gosto de vinho. As mão num parava de apertá e soltá, subí e descê. Largava e agarrava o quarto todo, a respiração acelerada, as carne do conde continuava morta, Paciência e fé em Deus, sinhô da Hora, é tudo que precisamos ter na vida.

pra quase tudo, latiu a poesia; pra quase nada, gemeu a gaita do raposa

o conde mais o bode abriu junto o riso da satisfação, Entendeu, bode? o que tem para entender, conde? o bode é muito simplório. por que? isso isso é um privilégio! Tava escancarado na cara do bode, no rosto do conde, o espanto de um e o contentamento dotro, mais os dois com os cuidado de atenção. Os privilégio. Os pensamento encontraram o espasmo amendrontado da carne, Bode, quem será que discursará no meu enterro? não sei, conde. o seu será um soterramento silencioso. quem pode saber? quero o andar de cima. não tem diferença, conde. seu idiota, você é que não faz diferença na Villa, nenhuma, daqui cem anos quando contarem essa história, se é que irão contar, você e a bosta da gosma desta barata se arrastando pelo chão não terão feito nenhuma diferença.

o conde parô sua falação, o bode num quis retrucá a retrucação deseducada e odienta do conde. Achô qui num devia fazê mais ódio, num queria fazê do mesmo jeito pra sê da superioridade. Ele qui ficasse com seu caixão no andá de cima, Sem problemas, conde. o que foi, agora? fique com a parte de cima, a carne morta é comida tanto lá como aqui. suma daqui, sua gosma de barata, vá aprender tirar proveito da boa vontade das meninas!

um já esperava tanta consideração, o otro nunca teve mais atenção qui o oiá qui qué passá, e depois qui passa nem obrigado dá, Essa decisão cuidadora da sinhá Maria merece uma recompensa, conde. eu concordo, bode. o cuidado das moça foi comovente. o que o bode sugere? moedas o conde já deu. é tudo muito bem pago. precisa ser um conforto diferente e com distinção de incomum. não consigo pensar em nada.

o amô do siô da hora num se derramava em verso nem abria as vista do sono pru sonho, gostava de dizê qui carregava o amô nos bolso, Então, bode? não me ocorre nada. por mim, usava e mais nada. um passeio? não acho prudente. um almoço em um dos salões da Villa? nem pensar, bode! Depois de cismá uma suposição atrás da otra, as tolerante e as vexativa, o siô da hora sorriu pra muié das mão mandingada, primêro anunciô qui ficô encantado com a paciência e a fé qui as muié da casa colocô nele, depois proclamô, Amanhã, ordeno que o escravo Josino traga algumas estampas de tecido fino para as meninas e para sinhâ Maria Cobra, escolham no seu gosto.

O sinhô Conde é um homem respeitador, um homem com letra versal. Dá gosto acudir homem de tanta bondade.

E as meninas? Não virão?

a voz lhe saiu como uma cantoria qui fez o corpo se balançá degenerado, manho, sutil e silencioso, Claro que sim, já lhe servimos o prato principal, antes... um tira-gosto, dançava no conde, esfregava no bode, procurava o feitio do corpo a corpo, uma das mão no varão, Mas espere enquanto arranco mais um gosto doce, tava tentada em fazê ele esperá

o bode num lhe deixô continuá, fez movimento de levantá. Tava assustado. Aquilo era pecado. O conde deu uma sacudidura no galinha-morta. O bode num esperava. O conde fez o bode engolí as palavra qui ia sê dita. Beijô a cobra com toda língua qui podia tê. Parecia querê afogá as duas, a maria e a cobra

Ei! Calma, sinhô da Hora!

empurrô a língua de fogo do conde e lhe apertô, ele fez cara de sofrimento, sorriu, entre um espasmo e otro. Num queria gemê nem suspirá, seria um siná de inferioridade, resolveu usá o entretetimento das palavra, É para isso que servem as putas, meu bem...

ela apertô as mão e soltô, E qual é essa serventia, Conde Humaitá?

Servir o que as esposas não devem aceitar.

o conde humaitá passô as mão na barriga da muié bailante, subiu inté os dois pontinho róseo e apertô as ponta piquinina, Ai. Mordeu, Ai. Lambeu, Ai. Babô-se. A otra mão tava enfiada nos pelo. Puxava, Ai. Enrolava, Ai. Desenrolava. Deitô na cama do quarto. O conde oiô o bode qui oiô de volta, nem um nem o otro sabia dizê como foi qui eles chegô inté ali

O que foi meu amigo?

ele respondeu do jeito mais doce qui num tinha o costume de falá, A sinhá Maria Cobra não perdeu o encantamento.

ela fungô fundo, ajustô a respiração e separô as palavra uma das otra, elas parecia tá grudando no céu da boca, Ser cuidada é muito gostoso e tentador, mas eu tenho um negócio para cuidar, fechô as vista pra sentí o calô do quarto, o chêro de ranço, passô as mão na capa da cobertura da cama. Tudo desarrumado. Aquele hôme desarranjava seu dia e noite. A tempestade no corpo, as carga e descarga, os relâmpago, o conde, o bode, as dúvida. O gosto pelo bão acolhimento tinha o seu preço. Gosto e desgosto andava junto. A vida e a morte tricotando as trama da Villa. A fome do hôme é enfiá o seu jeito de sê hôme nas maria, comê as cobra sem cuidá do paladá nem do olfato, num tem nada apurado em sê hôme, Vou lhe mandá as meninas.

A Maria Cobra é que sabe o melhor para os seus negócios, aceitô a desistência daquela muié qui enfezava as suas vontade, mais num tirô o brinquedo das mão da cobra. A muié faz tudo. Ela largô. E levantô. Num era a mercadoria, num era a afeição. O siô da hora lhe segurô o braço, A vontade com as meninas passô, quero uma mulher.

ela num saiu nem desistiu de saí, ele continuô segurando o braço da maria cobra. As vista do conde comendo as vista da maria, inté qui a cobra deitô na capa desarrumada da cama, mais lhe avisô, Isso vai lhe custá mais que o Conde Humaitá costuma carregá nos bolsos.

o conde num pareceu dá importância, pagava o preço qui fô pra sentí as carne viva. Avançô a boca inté a boca da cobra, as mão do bode subia e descia as curva da maria. Um desvincava a forma dos fio da indecência, o otro alisava. A muié parecia um arco de dô com o ventre erguido. O conde sorriu. O bode gemeu. Era o lugá e o tempo certo, O sinhô é muito guloso.

a poesia tava jogada na terra, recostada. Num durumia. Num podia, queria tocá na vida. Queria prová o gosto e sentí o chêro. Queria tomá do vinho, num podia. A vida num tem sono, num tem gosto, num tem carne, num tem chêro. A vida num termina nem a poesia




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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Poemas del Alma

Federico García Lorca




Si mis manos pudieran deshojar


Yo pronuncio tu nombre
En las noches oscuras
Cuando vienen los astros
A beber en la luna
Y duermen los ramajes
De las frondas ocultas.
Y yo me siento hueco
De pasión y de música.
Loco reloj que canta
Muertas horas antiguas.

Yo pronuncio tu nombre,
En esta noche oscura,
Y tu nombre me suena
Más lejano que nunca.
Más lejano que todas las estrellas
Y más doliente que la mansa lluvia.

¿Te querré como entonces
Alguna vez? ¿Qué culpa
Tiene mi corazón?
Si la niebla se esfuma
¿Qué otra pasión me espera?
¿Será tranquila y pura?
¡¡Si mis dedos pudieran
Deshojar a la luna!!





El silencio


Oye, hijo mío, el silencio.
Es un silencio ondulado,
un silencio,
donde resbalan valles y ecos
y que inclina las frentes
hacia el suelo.






Pueblo


Sobre el monte pelado
un calvario.
Agua clara
y olivos centenarios.
Por las callejas
hombres embozados,
y en las torres
veletas girando.
Eternamente
girando.
¡Oh pueblo perdido,
en la Andalucía del llanto!





Romance de la luna


La luna vino a la fragua
con su polisón de nardos.
El niño la mira mira.
El niño la está mirando.

En el aire conmovido
mueve la luna sus brazos
y enseña, lúbrica y pura,
sus senos de duro estaño.

Huye luna, luna, luna.
Si vinieran los gitanos,
harían con tu corazón
collares y anillos blancos.

Niño déjame que baile.
Cuando vengan los gitanos,
te encontrarán sobre el yunque
con los ojillos cerrados.

Huye luna, luna, luna,
que ya siento sus caballos.
Niño déjame, no pises,
mi blancor almidonado.

El jinete se acercaba
tocando el tambor del llano.
Dentro de la fragua el niño,
tiene los ojos cerrados.

Por el olivar venían,
bronce y sueño, los gitanos.
Las cabezas levantadas
y los ojos entornados.

¡Cómo canta la zumaya,
ay como canta en el árbol!
Por el cielo va la luna
con el niño de la mano.

Dentro de la fragua lloran,
dando gritos, los gitanos.
El aire la vela, vela.
el aire la está velando.




Cuerpo presente


La piedra es una frente donde los sueños gimen
sin tener agua curva ni cipreses helados,
La piedra es una espalda para llevar al tiempo
con árboles de lágrimas y cintas y planetas.

Yo he visto lluvias grises hacia las olas
levantando sus tiernos brazos acribillados,
para no ser cazadas por la piedra tendida
que desata sus miembros sin empapar la sangre.

Porque la piedra coge simientes y nublados,
esqueletos de alondras y lobos de penumbra;
pero no da sonidos, ni cristales, ni fuego,
sino plazas y plazas y otras plazas sin muros.

Ya está sobre la piedra Ignacio el bien nacido.
Ya se acabó; ¿que pasa? Contemplad su figura:
la muerte le ha cubierto de pálidos azufres
y le ha puesto cabeza de oscuro minotauro.

Ya se acabó. La lluvia penetra por su boca.
El aire como loco deja su pecho hundido,
y el Amor, empapado con lágrimas de nieve,
se calienta en la cumbre de las ganaderías.

¿Qué dicen? Un silencio con hedores reposa.
Estamos con un cuerpo presente que se esfuma,
con una forma clara que tuvo ruiseñores
y la vemos llenarse de agujeros sin fondo.

¿Quién arruga el sudario? ¡No es verdad lo que dice!
Aquí no canta nadie, ni llora en el rincón,
ni pica las espuelas, ni espanta la serpiente:
aquí no quiero más que los ojos redondos
para ver ese cuerpo sin posible descanso.

Yo quiero ver aquí los hombres de voz dura.
Los que doman caballos y dominan los ríos:
los hombres que les suena el esqueleto y cantan
con una boca llena de sol y pedernales.

Aquí quiero yo verlos. Delante de la piedra.
Delante de este cuerpo con las riendas quebradas.
Yo quiero que me enseñen donde está la salida
para este capitán atado por la muerte.

Yo quiero que me enseñen un llanto como un río
que tenga dulces nieblas y profundas orillas,
para llevar el cuerpo de Ignacio y que se pierda
sin escuchar el doble resuello de los toros.

Que se pierda en la plaza redonda de la luna
que finge cuando niña doliente res inmóvil;
que se pierda en la noche sin canto de los peces
y en la maleza blanca del humo congelado.

No quiero que le tapen la cara con pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.
Vete Ignacio: No sientas el caliente bramido.
Duerme, vuela, reposa: ¡También se muere el mar!