domingo, 20 de setembro de 2015

Teatro Pedagógico: dedicatória

Parábolas de uma Professora




Dedicatória



Não saberia escrever, descrever ou dizer ao pé do ouvido, se as leituras que tenho vivas e explícitas no pensamento são e serão mais importantes que as outras leituras que me invadem o inconsciente e formam o meu caráter humano de maneira solidária, já não sei se o que escrevo é uma invenção minha ou se eu sou já, agora, uma mulher invenção do que li, estou lendo e ainda vou ler. Talvez, eu não consiga ser uma invenção nova nem de mim mesma, mas um resumo de tudo que tenha se aproximado e ficado ao alcance dos olhos, dos ouvidos, das mãos, do gosto possível de sentir com a boca e com a pele ou do perfume empoeirado de livros esquecidos em estantes abandonadas e solitárias. Ainda não me tornei uma referência bibliográfica e espero não vir a ser uma lista de livros e citações, todas memorizadas, prontas para serem lançadas pela boca em manchas de vômito. Minha esperança pessoal é que o resumo de mim mesma possa melhor ser aproveitado que a exposição abreviada que faço dos autores que li, e não decorei, felizmente, sobre a educação e sobre a esperança, enfim, sobre o ser humano envolvido com as suas ações no ato de educar com humanidade.
Mas confesso, ando com saudade  da humanidade e de deus. A mim não parece que ele esteja entre nós nem a humanidade que julgas sermos. Ele me faz falta. Basta de escutar ler ver e sentir o cheiro do enxofre que sai das bocas e babas escorridas com indiferença enquanto gritas morte morte morte ou viras o nariz ao outro lado, e esperas que se afoguem. E rezas por suas almas estilhaçadas. Afogadas. Gostas de rezar. Assim, finges que o santo és tu, mas caminhas com os pés manchados de sangue tanto que pisas nos vivos. Preocupado que estás com as vitórias. Tuas. O teu saco com trinta moedas. Estou com saudade de deus. Sou mais esse deus que você que não sai dos templos e igrejas. Não acreditas? Desafio que o chames para um encontro, eu estou pronta. E você, acha que estás pronta? Antes, precisa comprar mais algum espelho? E por favor, chega deste desdém que tudo é uma provação. Sejas explícito com os donos do deus rico egoísta desumano, e digas, claramente, com todas as letras de todas as línguas, só existe um deus e não tereis deus, nem o corpo de deus, não o entregaremos, novamente, para crucificar. Cansamos de carregar tua cruz de ouro com o nosso sangue, tereis apenas as formigas em tua boca que não iremos afastar. Nem as cigarras cantam em tua volta. E lutemos contra esse deus sem deus. Mentiroso. Estou com saudade do deus  que é mãe que chora e canta e dança e ri e ama a carne da celebração da vida que não precisa de defunto rei
o siô é santo
tudo é igual
no reino do pai
qui alegria
sentiu o defunto da maria
depois de morto
rei ele seria
Essa porção de folhas cosidas e enfeixadas é dedicada ao educador brasileiro Paulo Reglus Neves Freire e ao pai da educação socialista, o ucraniano Anton Semiónovitch Makarenko. 


Anita 

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Leia também:


Teatro Pedagógico: ensinar é acordar sonhos, aprender é transformar sonhos
Parábolas de uma Professora


sábado, 19 de setembro de 2015

Missa, Pastoral, Quilombos e Índios... em nome do Deus sem dividição

Republicando

Pedro Casaldáliga


"Em nome de um deus supostamente branco e colonizador, que nações cristãs têm adorado como se fosse o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, milhões de Negros vem sendo submetidos, durante séculos, à escravidão, ao desespero e a morte. No Brasil, na América, na África mãe, no Mundo.
Deportados, como 'peças', da ancestral Aruanda, encheram de mão de obra barata os canaviais e as minas e encheram as senzalas de indivíduos desaculturados, clandestinos, inviáveis. (Enchem ainda de sub-gente - para os brancos senhores e as brancas madames e a lei dos brancos - as cozinhas, os cais, os bordéis, as favelas, as baixadas, os xadrezes).
Mas um dia, uma noite, surgiram os Quilombos, e entre todos eles, o Sinai Negro de Palmares, e nasceu, de Palmares, o Moisés Negro, Zumbi. E a liberdade impossível e a identidade proibida floresceram, 'em nome do Deus de todos os nomes', 'que faz toda carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue'.
Vindos 'do fundo da terra', 'da carne do açoite', 'do exílio da vida', os Negros resolveram forçar 'os novos Albores' e reconquistar Palmares e voltar a Aruanda.
E estão aí, de pé, quebrando muitos grilhões - em casa, na rua, no trabalho, na igreja, fulgurantemente negros ao sol da Luta e da Esperança.
Para escândalo de muitos fariseus e para alívio de muitos arrependidos, a Missa dos Quilombos confessa, diante de Deus e da História, esta máxima culpa cristã.
Na música do negro Milton e de seus cantares e tocadores, oferece ao único Senhor 'o trabalho, as lutas, o martírio do Povo Negro de todos os tempos e de todos os lugares'.
E garante ao Povo Negro a Paz conquistada da Libertação. Pelos rios de sangue negro, derramado no mundo. Pelo sangue do Homem 'sem figura humana', sacrificado pelos poderes do Império e do Templo, mas ressuscitado da Ignomínia e da Morte pelo Espírito de Deus, seu Pai.
Como toda verdadeira Missa, a Missa dos Quilombos é pascal: celebra a Morte e a Ressurreição do Povo Negro, na Morte e Ressurreição do Cristo.
Pedro Tierra e eu, já emprestamos nossa palavra, iradamente fraterna, à Causa dos Povos Indígenas, com a 'Missa da Terra sem males', emprestamos agora a mesma palavra à Causa do Povo Negro, com esta Missa dos Quilombos.
Está na hora de cantar o Quilombo que vem vindo: está na hora de celebrar a Missa dos Quilombos, em rebelde esperança, com todos 'os negros da África, os Afros da América, os Negros do Mundo, na Aliança com todos os Pobres da Terra". 



Invocação à Mariama
Dom Hélder Câmara








"Louvação à Mariama" e "Marcha Final de Banzo e Esperança"








  Missa dos Quilombos - Milton Nascimento










A de Ó (Estamos Chegando)

Milton Nascimento




Estamos chegando do fundo da terra,
estamos chegando do ventre da noite,
da carne do açoite nós somos,
viemos lembrar.

Estamos chegando da morte dos mares,
estamos chegando dos turvos porões,
herdeiros do banzo nós somos,
viemos chorar.

Estamos chegando dos pretos rosários,
estamos chegando dos nossos terreiros,
dos santos malditos nós somos,
viemos rezar.

Estamos chegando do chão da oficina,
estamos chegando do som e das formas,
da arte negada que somos,
viemos criar.

Estamos chegando do fundo do medo,
estamos chegando das surdas correntes,
um longo lamento nós somos,
viemos louvar.



A DE Ó


Estamos chegando dos rios fogões,
estamos chegando dos pobres bordéis,
da carne vendida que somos,
viemos amar.

Estamos chegando das velhas senzalas,
estamos chegando das novas favelas,
das margens do mundo nós somos,
viemos dançar.

Estamos chegando dos grandes estádios,
estamos chegando da escola de samba,
sambando a revolta chegamos,
viemos gingar.




A DE Ó


Estamos chegando do ventre de Minas,
estamos chegando dos tristes mocambos,
dos gritos calados nós somos,
viemos cobrar.

Estamos chegando da cruz dos engenhos,
estamos sangrando a cruz do batismo,
marcados a ferro nós fomos,
viemos gritar.

Estamos chegando do alto dos morros,
estamos chegando da lei da baixada,
das covas sem nome chegamos,
viemos clamar.

Estamos chegamos do chão dos quilombos,
estamos chegando no som dos tambores,
dos Novos Palmares nós somos,
viemos lutar.



A DE Ó


Composição: Milton Nascimento, Pedro Casaldáliga

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Missa dos Quilombos, Pastoral da Terra, Pastoral dos Índios... em nome do Deus sem dividição

Pedro Casaldáliga


"Em nome de um deus supostamente branco e colonizador, que nações cristãs têm adorado como se fosse o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, milhões de Negros vem sendo submetidos, durante séculos, à escravidão, ao desespero e a morte. No Brasil, na América, na África mãe, no Mundo.
Deportados, como 'peças', da ancestral Aruanda, encheram de mão de obra barata os canaviais e as minas e encheram as senzalas de indivíduos desaculturados, clandestinos, inviáveis. (Enchem ainda de sub-gente - para os brancos senhores e as brancas madames e a lei dos brancos - as cozinhas, os cais, os bordéis, as favelas, as baixadas, os xadrezes).
Mas um dia, uma noite, surgiram os Quilombos, e entre todos eles, o Sinai Negro de Palmares, e nasceu, de Palmares, o Moisés Negro, Zumbi. E a liberdade impossível e a identidade proibida floresceram, 'em nome do Deus de todos os nomes', 'que faz toda carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue'.
Vindos 'do fundo da terra', 'da carne do açoite', 'do exílio da vida', os Negros resolveram forçar 'os novos Albores' e reconquistar Palmares e voltar a Aruanda.
E estão aí, de pé, quebrando muitos grilhões - em casa, na rua, no trabalho, na igreja, fulgurantemente negros ao sol da Luta e da Esperança.
Para escândalo de muitos fariseus e para alívio de muitos arrependidos, a Missa dos Quilombos confessa, diante de Deus e da História, esta máxima culpa cristã.
Na música do negro Milton e de seus cantares e tocadores, oferece ao único Senhor 'o trabalho, as lutas, o martírio do Povo Negro de todos os tempos e de todos os lugares'.
E garante ao Povo Negro a Paz conquistada da Libertação. Pelos rios de sangue negro, derramado no mundo. Pelo sangue do Homem 'sem figura humana', sacrificado pelos poderes do Império e do Templo, mas ressuscitado da Ignomínia e da Morte pelo Espírito de Deus, seu Pai.
Como toda verdadeira Missa, a Missa dos Quilombos é pascal: celebra a Morte e a Ressurreição do Povo Negro, na Morte e Ressurreição do Cristo.
Pedro Tierra e eu, já emprestamos nossa palavra, iradamente fraterna, à Causa dos Povos Indígenas, com a 'Missa da Terra sem males', emprestamos agora a mesma palavra à Causa do Povo Negro, com esta Missa dos Quilombos.
Está na hora de cantar o Quilombo que vem vindo: está na hora de celebrar a Missa dos Quilombos, em rebelde esperança, com todos 'os negros da África, os Afros da América, os Negros do Mundo, na Aliança com todos os Pobres da Terra". 



Invocação à Mariama
Dom Hélder Câmara







"Louvação à Mariama" e "Marcha Final de Banzo e Esperança"




Missa dos Quilombos - Milton Nascimento




A de Ó (Estamos Chegando)

Milton Nascimento




Estamos chegando do funda da terra,
estamos chegando do ventre da noite,
da carne do açoite nós somos,
viemos lembrar.

Estamos chegando da morte dos mares,
estamos chegando dos turvos poróes,
herdeiros do banzo nós somos,
viemos chorar.

Estamos chegando dos pretos rosários,
estamos chegando dos nossos terreiros,
dos santos malditos nós somos,
viemos rezar.

Estamos chegando do chão da oficina,
estamos chegando do som e das formas,
da arte negada que somos,
viemos criar.

Estamos chegando do fundo do medo,
estamos chegando das surdas correntes,
um longo lamento nós somos,
viemos louvar.



A DE Ó


Estamos chegando dos rios fogões,
estamos chegando dos pobres bordéis,
da carne vendida que somos,
viemos amar.

Estamos chegando das velhas senzalas,
estamos chegando das novas favelas,
das margens do mundo nós somos,
viemos dançar.

Estamos chegando dos grandes estádios,
estamos chegando da escola de samba,
sambando a revolta chegamos,
viemos gingar.




A DE Ó


Estamos chegando do ventre de Minas,
estamos chegando dos tristes mocambos,
dos gritos calados nós somos,
viemos cobrar.

Estamos chegando da cruz dos engenhos,
estamos sangrando a cruz do batismo,
marcados a ferro nós fomos,
viemos gritar.

Estamos chegando do alto dos morros,
estamos chegando da lei da baixada,
das covas sem nome chegamos,
viemos clamar.

Estamos chegamos do chão dos quilombos,
estamos chegando no som dos tambores,
dos Novos Palmares nós somos,
viemos lutar.



A DE Ó


Composição: Milton Nascimento, Pedro Casaldáliga

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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Agostinho Neto (Angola)

Poetas da Língua Portuguesa (1)


Da Negação à Afirmação


A Renúncia Impossível


Negação




Não creio em mim
Não existo
Não quero eu não quero ser

Quero destruí-me
- Atirar-me de pontes elevadas
e deixar-me despedaçar
sobre as pedras duras das calçadas

Pulverizar o meu ser
desaparecer
não deixar sequer traço de passagem
pelo mundo.


Quero matar-me
e deixar que o não-eu
se aposse de mim.


Mais do que um simples suicídio
quero que esta minha morte
Seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
como se em vez de valor negativo
eu fosse Zero.


Quero ascender, subir
elevar-me até atingir o Zero
e desaparecer.
Deixai-me desaparecer!



Mas antes vou gritar
com toda a força dos meus pulmões
para que o mundo oiça:



- Fui eu quem renunciou à Vida!
Podeis a continuar a ocupar o meu lugar
vós os que mo roubastes



Aí tendes o mundo todo para vós
para mim nada quero
nem riqueza nem pobreza
nem alegria nem tristeza
nem vida nem morte
nada.



Não sou. Não existo. Nunca fui.
Renuncio-me
Atingi o Zero



E agora,
Vivei, cantai, chorai
casai-vos, matai-vos, embriagai-vos
dai sêmolas aos pobres.
Nada me pode interessar
que eu não sou
Atingi o Zero!



Não contem comigo
para vos servir às refeições
nem para cavar os diamantes
que vossas mulheres irão ostentar em salões
nem para cuidar das vossas plantações
de café e algodão
não contem com operários
para amamentar os vossos filhos sifilíticos
não contem com operários
de segunda categoria
para fazer o trabalho de que vos orgulhais
nem com soldados inconscientes
para gritar com o estômago vazio
vivas ao nosso trabalho de civilização
nem com lacaios
para vos tirarem os sapatos
de madrugada
quando regressardes de orgias nocturnas
nem com pretos medrosos
para vos oferecer vacas
e vender molho a tostão
nem com corpos de mulheres
para vos alimentar de prazeres
nos ócios da vossa abundância imoral.


Não contem comigo
Renuncio-me.
Eu atingi o Zero

Não existo. Nunca existi.
Não quero vida nem morte
Nada!

Podeis agora queimar
os letreiros medrosos
que às portas dos bars, hotéis e recintos públicos
gritam o vosso egoísmo
nas frases: “SÓ PARA BRANCOS” ou “ONLY TO COLOURED MEN”
Negros aqui .Brancos acolá.


Podeis acabar
com os miseráveis bairros de negros
que vos atrapalham a vaidade
Vivei satisfeitos sem “colour lines”
sem terdes que dizer aos fregueses negros
que os hotéis estão abarrotados
que não há mais mesas nos restaurantes.
Banhai-vos descansados
nas vossas praias e piscinas
que nunca houve negros no mundo
que sujassem as águas
ou os vossos nojentos preconceitos
com a sua escura presença.


podeis transformar em toureiros
ou em magarefes
os membros da Ku-klux-klan
para que matem a sua fome sanguinária
nas feridas dos touros que descem à arena.
Não há negros para linchar!



Porque hesitais agora!
Ao menos tendes oportunidade
para proclamardes democracias
com sinceridade



Podeis inventar uma nova História.
Inclusivamente podeis atribuir-vos a criação do mundo.
Tudo foi feito por vós
Ah!
que satisfação eu sinto
por ver-vos alegres no vosso orgulho
e loucos na vossa mania de superioridade.



Nunca houve negros!
A África foi construída só por vós
A América foi colonizada só por vós
A Europa não conhece civilizações africanas
Nunca um negros beijou uma branca
nem um negro foi linchado
nunca mataram pretos a golpes de cavalomarinho
para lhes possuírem as mulheres
nunca extorquiram propriedades a pretos
não tendes, nunca tivestes filhos com sangue negro
ó racistas de desbragada lubricidade
Fartai-vos agora dentro da moral.


Que satisfação eu sinto
por não terdes que falsear os padrões morais
para salvaguardar
o prestigio, a superioridade e o estômago
dos vossos filhos.




Ah!
O meu suicídio é uma novidade histórica
é um sádico prazer
de ver-vos bem instalados no vosso mundo
sem necessidade de jogos falsos.


Eu elevado até o Zero
eu transformado no Nada-historico
Eu no inicio dos Tempos
eu-Nada a confundir-me com vós-Tudo
sou o verdadeiro Cristo da Humanidade!


Não há nas ruas de Luanda
Negros descalços e sujos
a pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização
em Lourenço Marques
em Nova York, em Leopoldville
em Cape-Town
gritam pelas ruas
a foguetear alegria nos ares:



-Não há negros nas ruas!
Nunca houve.
Não há negros preguiçosos
a deixar os campos por cultivar
e renitentes à escravização
já não há negros para roubar.
Toda a riqueza representa agora o suor do rosto
e o suor do rosto é a poesia da vida.




Não existe música negra
Nunca houve batuques nas florestas do Congo
Quem falou em spirituals?

Vá de enchem os salões
de Debussy Struss Korsakoff.
Já não há selvagens na terra.
Viva a civilização dos homens superiores
sem manchas negróides
a perturbar-lhe a estética!



Nunca houve descobrimentos
a África foi criada com o mundo.



O que é a colonização?
O que são massacres de negros?
O que são os esbulhos de popriedade?
Coisas que ninguém conhece.



A história está errada
Nunca houve escravatura
nunca houve domínio de minorias
orgulhosas da sua força


Acabai com as cruzadas religiosas
A fé está espalhada por todo mundo
sobre a terra só há cristãos
vós sois todos cristãos.




Não há infiéis por converter
Escusai de imaginar mais infidelidades religiosas
para justificar
Repugnantes actos de barbarismo.

Não necessitais enviar mais missionários
a África
nem aos bairros de negros
Nunca houve feitiços
nem concepções religiosas diferentes
nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar.


Acabai tudo, tudo
e vós sois todos irmãos.
Podeis continuar com os vossos sistemas
socialistas ou capitalista
que isso não me interessa.
Explorai o proletariado
ou dai-lhe de comer
isso é convosco.

Continuai com os vossos sistemas políticos
ditaduras democracias.
Matai-vos uns aos outros
lutai pela glória
lutai pelo poder
criai minorias fortes
que protejam os seus comp…
apadrinhai os afilhados dos vossos amigos
criai mais castas
aburguesai as ideias
e tudo sem a complicação
de verdes intrusos
imiscuir-se na vossa querida
e defendida civilização
dos homens privilegiados.

Homens irmãos
dai-vos as mãos
gritai a vossa alegria de serdes sós
SÓS!
únicos habitantes da Terra.


Eu atingi o Zero!


Isto s implica extraordinariamente
a vossa ética.
Ao menos não percais agora
a ocasião de serdes honestos.



Se houver terramotos
Calamidades, cheias ou epidemias
ou terras a defender da invasão das águas
ou motores parados nas lamas a de selvas africanas
raios partam!
já não tereis de chamar-me
para acudir ás vossas desgraças
para reparar os vossos desastres
ou para carregar com a culpa das vossas incúrias.
Ide para o diabo!

Eu não existo
Palavra de honra que nunca existi.
Atingi o Zero
o Nada.
Abençoada a Hora
do meu super-suicidio
para vós
homens que construís sistemas morais
para enquadrar imoralidades

O sol brilha só para vós
a lua reflecte luz só para vós
nunca houve esclavagistas
nem massacres
Nem ocupações da África.

Como até a história
se transforma num Tratado Moral
sem necessidade de arranjos apressados!


Não existem os pretos dos cais e do caminho de
ferro.
Nos locais de trabalho nunca se ouviram cantos
dolentes
só há chiadeira do guindastes.
Nunca pisaram os caminhos do mato
carregados com quilos às costas
são os motores que se queimam sob as cargas

Ó pretos submissos humildes ou tímidos
Sem lugar nas cidades
ou nos escaninhos da honestidade
ou nos recantos da força
com a alma poisada no sinal menos,
polígamos declarados
dançarinos de batuques sensuais
sabei que subistes todos de valor
Atingistes o Zero
sois Nada
e salvastes o Homem.




Acabou-se o ódio de raças
e o trabalho de civilização
e a náusea de ver meninos negros
sentados na escola
ao lado dos meninos de olhos azuis
e as extorsões e compulsões
e as palmatoadas e torturas
para obrigar inocentes a confessar crimes
e os medos de revolta
e as complicadas demarches politicas
para iludir as almas simples.


Acabaram-se as complicações sociais!



Atingi o zero
Cheguei à hora do inicio do mundo
E resolvi não existir.

Cheguei ao Zero-Espaço
ao nada-tempo
ao Eu coincidente com vós-Tudo.


E o que é mais importante
Salvei o mundo.






Afirmação





Ah!


Faça-se luz no meu espírito
LUZ!


Calem–se as frases loucas
Desta renúncia impossível.



Eu–todos nunca me enganei
nunca coincidirei com o nada
não me deitarei nunca debaixo dos comboios



Não fui eu quem falou
da salvação do mundo
à custa da minha existência
da transformação do valor negativo em Zero
por meio do castigo ao inocente
em super – suicídio novidade histórica



Quem falou não fui eu
foi a minha loucura.



O meu lugar está marcado
no campo da luta
para conquista da vida perdida



Eu sou. Existo
As minha mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
Tenho direito ao meu pedaço de pão



Sou um valor positivo
da humanidade
e não abdico,
nunca abdicarei!



Seguirei com os homens livres
O meu caminho
para a liberdade e para a Vida.

Perdoem–me os cinco minutos de loucura
que vivi.




1949
Original dactilografado. Arquivado fls.204 a 209/210ª215

Do poema”Afirmação”, in Michel Laban , “Mário Pinto de Andrade – um intelectual na
política”, Da negação à Afirmação”,pp.87 – 99, Edições Colibri.



Te Recuerdo Amanda

Victor Jara






Te Recuerdo Amanda

Victor Jara



Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fabrica donde trabajaba Manuel

La sonrisa ancha, la lluvia en el pelo,
no importaba nada
ibas a encontrarte con el,
con el, con el, con el, con el

Son cinco minutos
la vida es eterna,
en cinco minutos

Suena la sirena,
de vuelta al trabajo
y tu caminando lo iluminas todo
los cinco minutos
te hacen florecer

Te recuerdo Amanda
la calle mojada
corriendo a la fabrica
donde trabajaba Manuel

La sonrisa ancha
la lluvia en el pelo
no importaba nada,
ibas a encontrarte con el,
con el, con el, con el, con el

Que partió a la sierra
que nunca hizo daño,
que partió a la sierra
y en cinco minutos,
quedó destrozado

Suenan las sirenas
de vuelta al trabajo
muchos no volvieron
tampoco Manuel

Te recuerdo Amanda,
la calle mojada
corriendo a la fábrica,
donde trabajaba Manuel.


Composição: Victor Jara






Luchín

Victor Jara


Frágil como un volantín
En los techos de Barrancas
Jugaba el niño Luchín
Con sus manitos moradas
Con la pelota de trapo,
Con el gato y con el perro,
El caballo lo miraba...
En el agua de sus ojos
Se bañaba el verde claro,
Gateaba a su corta edad
Con el potito embarrado,
Con la pelota de trapo,
Con el gato y con el perro,
El caballo lo miraba...
El caballo era otro juego
En aquel pequeño espacio
Y al animal parecía
Le gustaba ese trabajo,
Con la pelota de trapo,
Con el gato y con el perro,
Y con Luchito mojado...
Si hay niños como Luchín
Que comen tierra y gusanos
Abramos todas las jaulas
Pa'que vuelen como pájaros,
Con la pelota de trapo,
Con el gato y con el perro,
Y también con el caballo.



Composição: Victor Jara








Cuando Voy al Trabajo

Victor Jara




Cuando voy al trabajo

Pienso en ti

Por las calles del barrio

Pienso en ti

Cuando miro los rostros

Tras el vidrio empañado

Sin saber quienes son

Donde van




Pienso en ti

Mi vida pienso en ti

En ti compañera de mis días

Y del porvenir

De las horas amargas y la dicha

De poder vivir

Laborando el comienzo de una historia

Sin saber el fin




Cuando el turno termina

Y la tarde va

Estirando sus obras

Por el tijeral

Y al volver de la obra

Discutiendo entre amigos

Razonando cuestiones

Desde tiempo y destino




Pienso en ti

Mi vida pienso en ti

En ti compañera de mis días

Y del porvenir

De las horas amargas y la dicha

De poder vivir

Laborando el comienzo de una historia

Sin saber el fin




Cuando llego a la casa estas ahí

Y amarramos los sueños

lalararialarirarialalalarirara

laborando el comienzo de una historia

sin saber el fin


Composição: Victor Jara







Manifiesto


Yo no canto por cantar
ni por tener buena voz
canto porque la guitarra
tiene sentido y razon,
tiene corazon de tierra
y alas de palomita,
es como el agua bendita
santigua glorias y penas,
aqui se encajo mi canto
como dijera Violeta
guitarra trabajadora
con olor a primavera.

Que no es guitarra de ricos
ni cosa que se parezca
mi canto es de los andamios
para alcanzar las estrellas,
que el canto tiene sentido
cuando palpita en las venas
del que morira cantando
las verdades verdaderas,
no las lisonjas fugaces
ni las famas extranjeras
sino el canto de una alondra
hasta el fondo de la tierra.

Ahi donde llega todo
y donde todo comienza
canto que ha sido valiente
siempre sera cancion nueva.







Somos Cinco Mil



Poema Escrito por Víctor Jara poco antes de ser asesinado por Oficiales en el Estadio Chile en 1973


Estadio Chile

Victor Jara



Somos cinco mil aquí
en esta pequeña parte la ciudad.
Somos cinco mil.
¿Cuántos somos en total
en las ciudades y en todo el país?
Sólo aquí,
diez mil manos que siembran
y hacen andar las fábricas.
Cuánta humanidad
con hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura.

Seis de los nuestros se perdieron
en el espacio de las estrellas.
Uno muerto, un golpeado como jamás creí
se podría golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitarse
todos los temores,
uno saltando al vacío,
otro golpeándose la cabeza contra un muro
pero todos con la mirada fija en la muerte.
¡Qué espanto produce el rostro del fascismo!

Llevan a cabo sus planes con precisión artera
sin importarles nada.

La sangre para ellos son medallas.
La matanza es un acto de heroísmo.
¿Es este el mundo que creaste, Dios mío?
¿Para esto tus siete días de asombro y de trabajo?
En estas cuatro murallas sólo existe un número
que no progresa.
Que lentamente querrá más la muerte.

Pero de pronto me golpea la consciencia
y veo esta marea sin latido
y veo el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona
llena de dulzura.
¿Y México, Cuba y el mundo?
¡Qué griten esta ignominia!
Somos diez mil manos
menos que no producen.
¿Cuántos somos en toda la patria?
La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas.
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

Canto, qué mal me sabes
cuando tengo que cantar espanto.
Espanto como el que vivo
como el que muero, espanto.
De verme entre tantos y tantos
momentos de infinito
en que el silencio y el grito
son las metas de este canto.
Lo que veo nunca vi.
Lo que he sentido y lo que siento
harán brotar el momento...



Composição: Victor Jara



Cortometraje "Somos cinco mil"






Testimonio