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terça-feira, 12 de novembro de 2019

Assim seja, Amém

Gonzaguinha





A professora me repreendia:
"Quem não estuda não come merenda"
Mas lá em casa meu pai me acudia:
"Não há aquele que com que fome aprenda"
Então você se cala e calado chora
e chorando busca no que acreditar








Assim Seja, Amém
Gonzaguinha


'Inda me lembro quando mãe dizia:
"A paciência sempre é bom guardar"
Meu pai, então, do canto respondia:
"O nosso exemplo deve te bastar"


Minha mãe calava
E calada chorava
E chorando vinha me pegar
Me pegava e abraçava
E abraçando falava
Esta vida eu sei que um dia vai mudar


A professora me repreendia:
"Quem não estuda não come merenda"
Mas lá em casa meu pai me acudia:
"Não há aquele que com que fome aprenda"


Minha mãe calava
E calada chorava
E chorando vinha me pegar
Me pegava e abraçava
E abraçando falava
Esta vida eu sei que um dia vai mudar


E de ditado em ditado ouvindo
De dia em dia a vida encheu seu taco
Até parece que foi mesmo ontem
E ainda repito o dito dos retratos


Minha mãe calava
E calada chorava
E chorando vinha me pegar
Me pegava e abraçava
E abraçando falava
Esta vida eu sei que um dia vai mudar


O meu maior pede uma bicicleta
A mãe diz pra ter fé que Deus dará
Eu do meu canto digo: eu só fiz isso
Então, sentei aqui pra não cansar

Minha mulher se cala
E calada chora
E baixinho, pede para eu me acalmar
"A nós só resta a morte
Aos filhos toda a sorte
Esta vida eu sei que um dia vai mudar"


E quem quiser que invente outra história
Pois essa história eu já conheço bem
Acaba sempre de volta ao começo
É viciada nesse vai e vem


Então você se cala e calado chora
e chorando busca no que acreditar
e bem baixinho fala mas também só fala
essa vida sei que um dia vai mudar


Composição: Miltinho





Pequena Memória para um tempo sem Memória

Gonzaguinha





Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens









Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória
Gonzaguinha



Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
É um defeito que mata
São tantas lutas inglórias


São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens


São sementes espalhadas nesse chão
De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Dessa crença num enorme coração


Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas


Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
São braços esquecidos que fizeram os heróis


São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue


Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera, nunca alcança


Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará

Ê eu, não posso esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta




Comportamento Geral

Gonzaguinha





Você deve notar que não tem mais tutu
E dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
E dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
E dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
E esquecer que está desempregado







1990





Comportamento Geral
Gonzaguinha


Você deve notar que não tem mais tutu
E dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
E dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
E dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
E esquecer que está desempregado

Você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem teu carnaval

Você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem teu carnaval

Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: muito obrigado
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um fuscão no juízo final
E diploma de bem-comportado

Você merece
Você merece…

Você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem teu carnaval


Você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba e amanhã, seu Zé
Se acabarem teu carnaval


Você merece
Você merece
Tudo vai bem, tudo legal


E um fuscão no juízo final
Você merece
Você merece…


E diploma de bem-comportado
Você merece
Você merece…

E esqueça que está desempregado
Você merece
Você merece…


Tudo vai bem, tudo legal









quarta-feira, 10 de julho de 2019

Paulo... olá! boa sooorrrte! uma coragem indômita...

Cavaleiro Solitário

Gonzaguinha




Cavaleiros solitários
Caminham com sua estrela
E a fé no vaticano das visões
Inventam o próprio tempo e estações
Atraem as reações mais loucas












Atravessei a rua
Atravessei a vida
Acreditei que era perto e fui lá ver
Acreditei que era perto e fui...
Cavaleiro solitário
Caminha com sua estrela
E a fé no vaticano das visões
Inventa o próprio tempo e estações
Atrai as reações mais loucas
Pessoas diferentes são irmãs
Todos os seu companheiros são iguais
Iguais e diferentes e irmãos
Mil trovões, num encontro de titãs, ô, ô
Perdão oh minha amada
Eu nunca voltarei
Do mesmo modo
Como um dia eu sai
A vida não tem "replay"
Há muito eu sei
Fui tudo maravilhoso
Até a hora em que eu partir
Há muito tempo
Cavaleiro Solitário...

Eu quero
Eu quero ver
Eu quero ver a cruz
Eu quero ver a cruz vazia
Eu quero ver o som da alegria
Eu quero ver a cor da tua fantasia.

Eu quero
Eu quero ter
Eu quero a vida
Eu quero a vida inteira
Eu quero o som da brincadeira
Eu quero a cor da tua terça-feira.

O carnaval, o feriado nacional
Da vida em festa
Fenomenal, sensacional
Eu quero o sorriso
Liso, belo e preciso da loucura ocidental.




A morte de Paulo Henrique Amorim






sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Série Filho do Pai e Pai do Filho: Comportamento Geral

Gonzaguinha





a gente acreditava numas coisas que as pessoas não acreditavam a gente lutava por aquilo que a gente acreditava
eles não queriam, mas a gente fazia
como faria hoje se preciso fosse meu amor 










Comportamento Geral



Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: "Muito obrigado"
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com o teu Carnaval?

Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

E um Fuscão no juízo final
Você merece, você merece

E diploma de bem comportado
Você merece, você merece

Esqueça que está desempregado
Você merece, você merece

Tudo vai bem, tudo legal



Composição: Gonzaguinha












sábado, 3 de dezembro de 2016

Série Filho do Pai e Pai do Filho: A Triste Partida

Luiz Gonzaga





Já tamo em dezembro. Meu Deus, que é de nós? 
Assim fala o pobre do seco Nordeste, 
Com medo da peste, Da fome feroz 












A triste partida* - Patativa do Assaré**



Setembro passou, com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre do seco Nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz.

A treze do mês ele fez a experiença,
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá.
Mas nôta experiença com gosto se agarra,
Pensando na barra
Do alegre Natá.

Rompeu-se o Natá, porém barra não veio,
O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata, buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.

Sem chuva na terra descamba janêro,
Depois, feverêro,
E o mêrmo verão
Entonce o rocêro, pensando consigo,
Diz: isso é castigo!
Não chove mais não!

Apela pra maço, que é o mês preferido
Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva! tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando segui ôtra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.

Nós vamo a São Palo, que a coisa tá feia;
Por terras aleia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo,
Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece feliz fazendêro,
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.

Em riba do carro se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

O carro já corre no topo da serra.
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista, partido de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará!

No dia seguinte, já tudo enfadado,
E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, o coitado, falando saudoso,
Um fio choroso
Escrama, a dizê:

- De pena e sodade, papai, sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta: - Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

E a linda pequena, tremendo de medo:
- Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé de fulô!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

E assim vão dexando, com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Su.

Chegaro em São Paulo - sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente,
Tudo é diferente
Do caro torrão.

Trabaia dois ano, três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só veve devendo,
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.

Se arguma notícia das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

Do mundo afastado, sofrendo desprezo,
Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia vem dia,
E aquela famia
Não vorta mais não!

Distante da terra tão seca mas boa,
Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do su.







**Antônio Gonçalves da Silva, dito Patativa do Assaré, nasceu a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural, no município de Assaré, no Sul do Ceará. É o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Foi casado com D. Belinha, de cujo consórcio nasceram nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956, Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel. Patativa do Assaré era unanimidade no papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar onde chegou, tinha uma receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. "Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão", declamava.


 

domingo, 27 de novembro de 2016

Série Filho do Pai e Pai do Filho: E vamos à luta

Gonzaguinha




Eu ponho fé É na fé da moçada Que não foge da fera E enfrenta o leão










E Vamos À Luta



Eu acredito
É na rapaziada
Que segue em frente
E segura o rojão
Eu ponho fé
É na fé da moçada
Que não foge da fera
E enfrenta o leão
Eu vou à luta
É com essa juventude
Que não corre da raia
À troco de nada
Eu vou no bloco
Dessa mocidade
Que não tá na saudade
E constrói
A manhã desejada...(2x)

Aquele que sabe que é negro
O coro da gente
E segura a batida da vida
O ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco
De um jogo tão duro
E apesar dos pesares
Ainda se orgulha
De ser brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim
Pede uma cerva gelada
E agita na mesa
Uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira
Suada da luta
E faz a brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí...

Acredito
É na rapaziada
Que segue em frente
E segura o rojão
Eu ponho fé
É na fé da moçada
Que não foge da fera
E enfrenta o leão
Eu vou à luta
É com essa juventude
Que não corre da raia
À troco de nada
Eu vou no bloco
Dessa mocidade
Que não tá na saudade
E constrói
A manhã desejada...

Aquele que sabe que é negro
O coro da gente
E segura a batida da vida
O ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco
De um jogo tão duro
E apesar dos pesares
Ainda se orgulha
De ser brasileiro
Aquele que sai da batalha
Entra no botequim
Pede uma cerva gelada
E agita na mesa logo
Uma batucada
Aquele que manda o pagode
E sacode a poeira
Suada da luta
E faz a brincadeira
Pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí
Eu acredito
É na rapaziada!



Composição: Luiz Gonzaga