segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Moby Dick: 71 - A história do Jerobão

Moby Dick

Herman Melville

71 - A história do Jerobão

     De mãos dadas, navio e brisa avançavam; mas a brisa era mais rápida, e o Pequod logo começou a balançar.
     Dentro em pouco, vistos pelo binóculo, os botes e os topos de mastro guarnecidos provaram ser de um navio baleeiro. Mas como estava muito distante a barlavento, e correndo a velas cheias, aparentemente de passagem para outra zona de pesca, o Pequod não conseguia alcançá-lo. Assim, o sinal foi dado para ver que resposta receberiam.
     Seja dito que, à semelhança dos navios de guerra, os navios da Frota Baleeira Norte-Americana têm cada qual seu sinal particular; uma vez que todos os sinais estão reunidos num livro junto aos nomes dos respectivos navios, todos os capitães dispõem de um exemplar. Dessa forma, os comandantes baleeiros são capazes de reconhecer uns aos outros no oceano, mesmo a grandes distâncias, e com não pouca facilidade.
     O sinal do Pequod foi por fim respondido por um sinal do estranho; o qual provou ser o Jeroboão, de Nantucket. Ajustando as vergas, ele reduziu a vela, colocou-se de atravessado a sotavento do Pequod e prontamente arriou um bote; este logo se aproximou; mas enquanto a escada estava sendo armada por ordens de Starbuck para receber o capitão visitante, o estranho em questão acenou da popa de seu bote em sinal de que o procedimento era inteiramente desnecessário. Descobriu-se que uma epidemia maligna havia acometido o Jeroboão, e que Mayhew, seu capitão, receava contaminar a tripulação do Pequod. Pois, embora ele próprio e a tripulação do bote não estivessem doentes, e embora seu navio estivesse a uma distância de meio tiro de rifle, e um mar e uma atmosfera incorruptíveis rolassem e fluíssem entre ambos; ainda assim, sustentando conscientemente a quarentena de terra, recusou-se peremptoriamente a travar contato direto com o Pequod.
     Mas isso de modo algum lhes obstou o diálogo. Impondo a distância de algumas jardas entre si e o navio, o bote do Jeroboão às vezes se valendo dos remos manteve-se paralelo ao Pequod, enquanto este avançava com dificuldade (pois naquele momento havia pouca brisa), com a gávea para trás; ainda que, às vezes pelo súbito assalto de uma grande onda que rolasse, o bote fosse empurrado para a frente; no entanto, logo retomava a posição. Expostos a isso e a outras ocasionais interrupções semelhantes, os dois grupos mantiveram a conversa; mas não sem outra interrupção, esta de natureza bem diversa.
     Puxando um remo no bote do Jeroboão, havia um homem de aspecto peculiar, mesmo para aquela selvagem vida baleeira, em que singularidades constroem totalidades. Era um jovem, baixo e franzino, com o rosto manchado de sardas e o cabelo excessivamente amarelo. Um casaco comprido, de um castanho desbotado e cortado de modo cabalístico, o vestia; suas mangas longas apareciam enroladas nos punhos. Um delírio profundo, fixo e fanático transparecia em seus olhos.
     Tão logo esse vulto foi avistado, Stubb exclamou – “É ele! É ele! – o bufão de casaco comprido; era a respeito dele que a tripulação do Town Ho falava!” Stubb referia-se a uma estranha história do Jeroboão, e de um certo homem de sua tripulação, sabida havia algum tempo, de quando o Town-Ho e o Pequod se encontraram. Segundo esse relato e o que se soube mais tarde, parece que o bufão em questão havia conquistado grande influência sobre quase todos os tripulantes do Jeroboão. A história era a seguinte:
     Ele havia sido originalmente criado no seio da louca comunidade dos Shakers de Neskyeuna, onde fora um conhecido profeta; em suas doidas reuniões secretas havia descido várias vezes do céu por meio de um alçapão, anunciando a abertura da sétima âmbula, que guardava no bolso do colete; mas que em lugar de conter pólvora, se supunha estar cheia de láudano. Tendo sido tomado por uma estranha fantasia apostólica, foi de Neskyeuna a Nantucket, onde, com a astúcia própria da loucura, assumiu uma aparência razoável e correta e ofereceu-se como novato para a viagem do Jeroboão. Contrataram-no; mas assim que o navio se afastou da terra sua loucura veio à tona. Anunciou-se como o arcanjo Gabriel e ordenou que o capitão saltasse ao mar. Publicou um manifesto, no qual se declarava libertador das ilhas do mar e vigário-geral de toda a Oceânica. A seriedade inabalável com que declarou estas coisas; – o jogo ousado e sombrio de sua imaginação insone e agitada, e todos os terrores sobrenaturais do delírio real uniram-se para que, aos olhos da maioria da tripulação ignara, esse Gabriel fosse investido de uma atmosfera de santidade. Afora isso, temiam-no. Uma vez que um homem desses não trouxesse benefícios para o navio, especialmente porque se recusava a trabalhar, a não ser quando queria, o capitão incrédulo logo tentou se livrar dele; mas, ao ser informado de que o capitão tinha a intenção de desembarcá-lo no primeiro porto que aparecesse, o arcanjo sem demora abriu todos os seus lacres e âmbulas – que levariam o navio e os marinheiros à perdição total, caso o plano fosse levado a cabo. Tão eficaz foi seu poder sobre seus discípulos da tripulação, que um grupo deles se dirigiu ao capitão, para dizer-lhe que se Gabriel fosse expulso do navio nenhum marinheiro restaria a bordo. Por isso, o capitão foi forçado a desistir do plano. Também não permitiriam que Gabriel fosse maltratado, não importando o que dissesse ou fizesse; de tal modo que Gabriel passou a ter liberdade total no navio. A consequência disso foi que o arcanjo não se importou mais com o capitão e seus imediatos; e, depois que se deflagrou a epidemia, seu poder aumentou mais do que nunca; declarou que a praga, como era chamada, estava unicamente sob suas ordens; e que não cessaria caso ele não o desejasse. Os marinheiros, uns pobres coitados em sua maioria, se encolhiam, quando não se curvavam diante de sua presença; em obediência às suas instruções, por vezes rendiam-lhe homenagens como se fosse um deus. Essas coisas parecem incríveis; apesar de espantosas, são verdadeiras. Nem é a história do fanatismo tão surpreendente pela autossugestão excessiva do próprio fanático, quanto por seu poder excessivo de enganar e atormentar sem misericórdia tantas pessoas. Mas é hora de voltarmos ao Pequod. 

“Não temo a tua epidemia, homem”, disse Ahab da amurada ao Capitão Mayhew, que estava de pé na popa do bote; “vem a bordo”.

     Mas Gabriel ficou de pé.

“Pensa, pensa na febre, amarela e biliosa! Cuidado com a praga terrível!” 
“Gabriel, Gabriel!”, gritou o capitão Mayhew, “Deves também –” Mas naquele momento uma onda impetuosa atirou o bote para longe, e a espuma afogou-lhe todas as palavras. 
“Viste a Baleia Branca?”, perguntou Ahab, quando o bote descaiu para trás. 
“Pensa, pensa no teu bote baleeiro, avariado e afundado! Atenção à cauda terrível!” 
“Vou dizer mais uma vez, Gabriel, que –”, mas o bote foi lançado para a frente de novo como se puxado por demônios. Por alguns instantes nada foi dito, enquanto corria uma sucessão de ondas rebeldes, que por um desses fortuitos caprichos do mar faziam o bote tombar, em vez de seguir adiante. Enquanto isso, a cabeça pendurada do Cachalote sacudia violentamente, e notou-se que Gabriel a olhava com um temor bem maior do que sua natureza de arcanjo lhe permitia.

     Quando esse interlúdio findou, o Capitão Mayhew deu início a uma terrível história sobre Moby Dick; não, porém, sem as interrupções frequentes de Gabriel, sempre que seu nome fosse mencionado, e do mar enfurecido, que parecia ter-se aliado a ele.
     Não havia decorrido muito tempo desde a partida do Jeroboão quando, após ter falado com um navio baleeiro, sua tripulação ficou seguramente a par da existência de Moby Dick, e dos grandes estragos que produzia. Assimilando avidamente os relatos, Gabriel preveniu seriamente o capitão contra um ataque à Baleia Branca, caso o monstro fosse encontrado; em sua tagarelice ensandecida, afirmou que a Baleia Branca era nada menos do que o Deus dos Shakers encarnado; dela tendo recebido a Bíblia. Mas, um ou dois anos depois, quando Moby Dick foi avistado do topo dos mastros, Macey, o primeiro imediato, ardendo de vontade de encontrar a baleia; e não sendo o próprio capitão avesso a permitir que aproveitasse a oportunidade, a despeito de todas as premonições e advertências do arcanjo, Macey conseguiu convencer cinco homens a tripular seu bote. Com eles, remou; e, depois de muita força e de muitos perigosos e malogrados assaltos, conseguiu por fim cravar-lhe um ferro. Enquanto isso, Gabriel, subindo ao mastaréu do sobrejoanete no topo do mastro, agitava um dos braços com gestos frenéticos e proferia vaticínios de súbita desgraça aos agressores sacrílegos de sua divindade. Ora, enquanto Macey, o imediato, estava de pé na proa do bote, e com a energia infatigável de sua tribo vociferava palavras selvagens contra a baleia, buscando a melhor oportunidade para sua lança suspensa, oh!, uma enorme sombra branca emergiu do mar; e um movimento rápido e agitado deixou os remadores quase sem ar. No momento seguinte, o imediato desafortunado, tão cheio de fúria, foi violentamente golpeado para o alto, e fazendo um longo arco em sua queda caiu no mar a uma distância de mais ou menos cinquenta jardas. Nenhuma lasca do bote foi danificada, como nenhum fio de cabelo dos remadores; mas o imediato afundou para sempre.
     Que se diga, entre parênteses, que dos tipos de acidente fatal na Pesca do Cachalote esse é tão frequente quanto qualquer outro. Às vezes, ninguém se machuca, exceto o homem que é aniquilado; mais amiúde, a proa do bote é arrancada, ou a prancha coxal, lugar onde fica o líder, é arrancada de seu lugar acompanhando o corpo. Mas a circunstância mais estranha de todas, que ocorreu mais de uma vez, é aquela em que o corpo recuperado não traz marcas de violência, mas o homem está morto.
     A tragédia toda, a queda do corpo de Macey, foi vista do navio com nitidez. Lançando um grito penetrante – “A âmbula! A âmbula!”, Gabriel fez com que a tripulação aterrorizada parasse de perseguir a baleia. Esse evento terrível investiu o arcanjo de ainda maior influência; pois seus discípulos crédulos acreditavam que ele o tinha especificamente prenunciado, em vez de ter proferido apenas uma profecia genérica, que qualquer um poderia ter feito e assim, por acaso, ter acertado num dos muitos alvos que a ampla margem permitia. Tornou-se o terror inominável do navio.
     Quando Mayhew terminou sua narrativa, Ahab fez-lhe tais perguntas que o capitão não pôde se abster de perguntar se tinha intenção de caçar a Baleia Branca, caso a oportunidade se lhe apresentasse. Ao que Ahab respondeu – “Sim”. De pronto, Gabriel se pôs de pé, fixou os olhos no velho e exclamou veementemente com o dedo apontado para baixo “Pensa, pensa no blasfemador – morto, lá embaixo! Cuidado com o fim do blasfemador!”.
     Ahab virou-se impassível; e então disse a Mayhew, “Capitão, acabo de me lembrar da minha mala de cartas; há uma carta para um dos teus oficiais, se não me engano. Starbuck, vai buscar a mala!”.
     Todos os navios baleeiros levam um grande número de cartas para diferentes navios, cuja entrega às pessoas às quais estão dirigidas depende de por acaso encontrá-las nos quatro oceanos. Assim, a maior parte das cartas nunca chega a seu destino; e muitas são recebidas somente depois de dois ou três ou mais anos.
     Logo Starbuck voltou com uma carta na mão. Estava terrivelmente amarrotada, úmida, coberta de um mortificado musgo verde e manchado por ter ficado no armário escuro da cabine. De tal carta, a própria Morte poderia ter sido o estafeta.

“Não consegues lê-la?”, gritou Ahab. “Dá-me aqui, homem. Sim, é apenas um garrancho apagado; – o que é isso?” Enquanto Ahab a examinava, Starbuck pegou o cabo de uma pá cortadora e com sua faca fendeu rapidamente a ponta, para ali colocar a carta e, desse modo, entregá-la ao bote, sem que esse tivesse que se aproximar do navio.

     Enquanto isso, Ahab, segurando a carta, murmurou, “Senhor Har –, sim, Senhor Harry – (uma letra de mulher – a esposa do homem, aposto) – sim– Senhor Harry Macey, navio Jeroboão; – ora, é para Macey, e ele está morto!”

“Coitado! Coitado! De sua esposa”, suspirou Mayhew; “mas entrega-me a carta!”.
“Não, guarda contigo!”, gritou Gabriel para Ahab; “em breve seguirás para lá.”
“Que as maldições te sufoquem!”, gritou Ahab. “Capitão Mayhew, prepara-te para recebê-la”, e tirando a missiva fatal das mãos de Starbuck prendeu-a na fenda do cabo e estendeu-a em direção ao bote. Mas assim que o fez, os remadores, na expectativa, largaram seus remos; o bote flutuou um pouco em direção à popa do navio; e de tal modo que, como por magia, a carta ficasse ao alcance da mão ávida de Gabriel. Ele a agarrou de pronto, tomou o facão do bote, e cravando nele a carta mandou-a assim carregada de volta ao navio. Faca e carta caíram aos pés de Ahab. Gabriel, então, berrou aos companheiros que remassem, e desse modo o bote amotinado disparou para longe do Pequod.

     Enquanto, depois desse interlúdio, os marinheiros retomavam o trabalho com a pele da baleia, coisas estranhas foram sugeridas acerca desse singularíssimo episódio.  

continua na página 346...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
68 - A manta / 69 - O funeral / 70 - A esfinge / 71 - A história de Jerobão /                               
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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