domingo, 2 de agosto de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 2 - A nossa viagem para Petersburgo)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
2

     A nossa viagem para Petersburgo, a semana passada em Moscou, os parentes dele e os meus, a instalação no apartamento novo, a estrada, as novas cidades, os rostos novos — tudo isso passou como um sonho. Tudo isso era tão variado, novo, alegre, tudo isso aparecia tão cálida e intensamente iluminado pela sua presença, pelo seu amor, que a pacata vida de roça pareceu-me algo muito distante no tempo e insignificante. Para meu grande espanto, em lugar da altivez mundana e da frieza que eu esperara encontrar nas pessoas, todos me recebiam com um carinho tão sincero, com tamanha alegria (não só os parentes, mas também os estranhos) que, segundo parecia, todos eles só haviam pensado em mim e era só a mim que esperavam, para que eles mesmos também se sentissem bem. De maneira igualmente inesperada para mim, apareceram para meu marido muitos conhecidos mesmo no círculo da sociedade que me parecia mais elevado, e dos quais ele nunca me falara; e frequentemente era-me estranho e desagradável ouvir dele juízos severos sobre algumas dessas pessoas, que me pareciam tão bondosas.
     Eu não podia compreender por que ele os tratava tão secamente e por que evitava muitas relações que me pareciam lisonjeiras. No meu entender, quanto mais pessoas bondosas se conhecesse, melhor, e todos eram bondosos.

— Está vendo como nos instalaremos? — disse ele, antes de deixarmos a aldeia — Aqui, somos pequenos Cresos, e lá seremos nada ricos, e por isso devemos morar na cidade somente até a Semana Santa e não frequentar a sociedade, senão vamos encalacrar-nos; e também para ti eu não gostaria... 
— Para quê a sociedade? — respondia eu. — Vamos apenas visitar os parentes, frequentar teatros, assistir à ópera, ouvir boa música, e, antes da Páscoa, voltaremos para o campo.

     Mal chegamos a Petersburgo, porém, estes planos ficaram esquecidos. Encontrei-me de repente num mundo tão novo e feliz, fui envolvida por tantas alegrias, interesses tão novos surgiram diante de mim, que renunciei num átimo, ainda que inconscientemente, a todo o meu passado e a todos os projetos desse passado. “Aquilo foi tudo à toa, umas brincadeiras; ainda não começara; mas eis a vida de verdade! E o que mais vai acontecer?” — pensava eu. A inquietação e um começo de angústia, que me perturbavam na roça, desapareceram por completo, num instante, como que por milagre. O amor pelo marido tornou-se mais repousado, e ali nunca me acudiu à mente a pergunta de se ele me amava menos. Ademais, eu não podia duvidar de seu amor, qualquer pensamento meu era compreendido imediatamente, qualquer sentimento partilhado, qualquer vontade satisfeita por ele. A sua tranquilidade desaparecera ali ou não me irritava mais. Além disso, eu sentia que, além do seu amor por mim, ele também se extasiava comigo. Frequentemente, depois de uma visita, de travar relações com alguém ou de uma recepção em nossa casa, quando eu, tremendo interiormente, com medo de errar, cumpria a função de dona de casa, ele dizia: “Mas que menina! Que bonito! Não se atemorize. Palavra que está bom!”. E eu ficava muito contente. Pouco depois da nossa chegada, ele escrevera uma carta à mãe, e, quando me chamou para acrescentar umas linhas, não quis deixar ler o que escrevera, em consequência do que eu naturalmente o exigi e li. “A senhora não reconhecerá Macha — escrevia ele — e eu mesmo não a reconheço. De onde lhe vem esta simpática e graciosa confiança em si, esta afabilidade, e mesmo uma inteligência típica da sociedade, além do jeito amável? E tudo isso simples, agradável, bonachão. Todos estão entusiasmados com ela, e eu mesmo não me canso de extasiar-me, e, se fosse possível, amá-la-ia mais ainda.”

“Ah! Então, assim é que eu sou!” — pensei. E senti bem-estar e alegria, pareceu-me até que o amava ainda mais. O meu êxito junto a todas as nossas relações foi completamente inesperado para mim. De todos os lados me diziam ora que eu agradara particularmente ao titio, ora que a tia estava completamente louca por mim, um me dizia que em Petersburgo não havia mulheres como eu, uma outra me afirmava que me bastava querer para me tornar a mulher mais fina da sociedade. Sobretudo uma prima de meu marido, a princesa D., mulher da sociedade já entrada em anos, e que de repente se apaixonara por mim, dizia-me mais que todos coisas lisonjeiras, que me faziam girar a cabeça. Quando, da primeira vez, a prima convidou-me para um baile e pediu isso a meu marido, ele dirigiu-se a mim e, com um sorriso ladino, quase imperceptível, perguntou se eu queria ir. Acenei afirmativamente a cabeça e senti que corava.

— Parece uma criminosa confessando o que tem vontade de fazer — disse ele, com um riso bonachão. 
— Mas tu dizias que nós não podemos frequentar a sociedade, e também não gostas disso — respondi, sorrindo e dirigindo-lhe um olhar súplice. 
— Se tens muita vontade, vamos — disse ele. 
— É melhor ficar em casa, palavra. 
— Mas queres? Muito? — tornou ele a perguntar.

     Não respondi.

— A sociedade ainda não é grande mal — prosseguiu —, mas o que é ruim e feio são os desejos sociais insatisfeitos. Temos que ir sem falta, e iremos — concluiu decidido. 
— Para ser sincera contigo — retruquei —, eu desejava este baile mais que tudo no mundo.

     Fomos, e o prazer que experimentei superou todas as minhas expectativas. No baile, ainda mais que antes, tive a impressão de ser o centro, junto ao qual tudo se movimentava, que somente para mim estava iluminado aquele grande salão, tocava a música e se reunira toda aquela gente, que se extasiava comigo. Todos, a começar pelo cabeleireiro e pela empregada e acabando com os dançarinos e com os velhos que cruzavam o salão, pareciam dizer-me ou dar-me a entender que me amavam. A opinião geral que se formou a meu respeito nesse baile, e que me foi transmitida pela prima, consistia em que eu era de todo diferente das demais mulheres e que havia em mim algo peculiar, da roça, singelo e encantador. Este êxito lisonjeou-me tanto que eu disse francamente ao meu marido como gostaria de nesse ano ir ainda a uns dois ou três bailes, “e isso para me fartar bem deles”, acrescentei, com uma dose de fingimento íntimo.
     Meu marido concordou de bom grado e, nos primeiros tempos, acompanhou-me com evidente prazer, alegrando-se com os meus êxitos e, segundo parecia, completamente esquecido do que afirmara antes, ou tendo renunciado a isso.
     Ulteriormente, tornou-se claro que ele se aborrecia e achava penosa a vida que levávamos. Mas eu tinha mais em que pensar; mesmo notando às vezes o seu olhar atento e sério, fixado interrogativamente em mim, eu não lhe compreendia a significação. Estava tão ofuscada com este amor que eu, parecia-me, subitamente despertara em todos os estranhos, com este ar de elegância, de prazer e de novidade, que eu respirava ali pela primeira vez, a tal ponto desaparecera de súbito a influência moral dele, que me esmagava, era para mim tão agradável não só igualar-me a ele nesse mundo, mas até colocar-me acima dele, e por isso amá-lo ainda mais, de modo mais independente, que eu não conseguia compreender o que ele podia ver de desagradável para mim na vida em sociedade. Eu experimentava o sentimento novo para mim de orgulho e autossatisfação, quando, entrando num baile, via todos os olhos dirigidos para mim, e quando ele, como que se constrangendo de confessar perante a multidão a sua posse sobre mim, apressava-se a deixar-me e perdia-se na turba negra dos fraques. “Espere! — pensava eu com frequência, procurando com os olhos, no fundo do salão, o seu vulto não notado, às vezes expressando tédio — espere! — pensava — chegaremos em casa e compreenderás e verás para quem eu me esforcei em ser bonita e brilhante, e o que eu amo em tudo o que me rodeia esta noite.” Eu mesma tinha sinceramente a impressão de que os meus êxitos alegravam-me unicamente por causa dele, para que eu estivesse em condições de sacrificá-los por ele. A vida em sociedade, pensava eu, só podia tornar-se nociva se eu me sentisse atraída por algum dos homens que eu encontrava ali e assim despertasse o ciúme do meu marido; mas ele confiava tanto em mim, parecia tão tranquilo e indiferente, e eu via todos aqueles jovens tão insignificantes em comparação com ele, que mesmo o único, a meu ver, perigo da sociedade não me atemorizava. Mas, não obstante isso, a atenção de muitos homens que encontrava dava-me prazer, lisonjeava o meu amor-próprio, obrigava a pensar que havia certo mérito em meu amor pelo meu marido, e tornava a minha maneira de tratá-lo mais autoconfiante e como que mais descuidada.

— Eu te vi conversar muito animado com N. N. — disse eu de uma feita em que voltávamos de um baile, ameaçando-o com o dedo e nomeando uma das damas conhecidas de Petersburgo, com quem ele realmente conversara aquela noite. Eu dissera-o para sacudi-lo um pouco, pois estava particularmente silencioso e entediado. 
— Ah, para que falar assim? E ainda mais tu, Macha! — deixou ele escapar entre os dentes, com uma careta, que parecia causada por uma dor física. — Como isso não combina conosco! Deixa isso para os demais; estas relações falsas podem estragar as nossas verdadeiras, e eu ainda tenho a esperança de que voltemos às verdadeiras.

     Envergonhei-me e fiquei calada.

— Vão voltar essas relações, Macha? Qual é a tua impressão? — perguntou ele. 
— Elas nunca se estragaram, nem vão se estragar — disse eu, e era justamente a minha opinião na época. 
— Deus queira — disse ele —, pois já é tempo de voltarmos para o campo.

     Mas ele só me disse isso uma vez, o resto do tempo parecia-me sentir-se tão bem como eu, que experimentava tamanha alegria e contentamento. E se às vezes ele se aborrece — consolava-me eu —, também eu me entediei por sua causa na roça; e se as nossas relações chegaram a modificar-se um pouco, tudo voltará a ser como antes, logo que fiquemos a sós com Tatiana Siemiônovna, em nossa casa de Nikólskoie.
     Assim decorreu o inverno, imperceptivelmente para mim, e, contrariamente aos nossos planos, passamos em Petersburgo mesmo a Semana Santa. Na semana seguinte, quando já nos preparávamos para viajar, as malas feitas, meu marido, que estava comprando presentes e objetos para amenizar a vida na aldeia, encontrava-se num estado de ânimo particularmente carinhoso e alegre. A prima inesperadamente veio visitar-nos e pediu que ficássemos até sábado, a fim de ir à recepção da condessa R. Ela dizia que esta insistia muito na minha presença, que o príncipe M., então em Petersburgo, ainda no baile anterior manifestara a intenção de conhecer-me, somente por isso ia à recepção, e dizia que eu era a mulher mais bonitinha de toda a Rússia. A cidade inteira estaria lá, e, numa palavra, seria muito feio se eu não comparecesse.
     Meu marido estava então na outra ponta da sala de visitas, conversando com alguém.

— Então, virá, Marie? — perguntou a prima. 
— Nós queríamos voltar depois de amanhã para a roça — respondi vacilante, depois de dirigir um olhar ao meu marido. Os nossos olhos encontraram-se, ele virou apressadamente o rosto. 
— Vou convencê-lo a ficar — disse a prima — e nós vamos deixar todo mundo tonto no sábado. Certo? 
— Isso estragaria os nossos planos, e nós já fizemos as malas — respondi, começando a render-me. 
— Seria melhor que ela fosse esta noite saudar o príncipe — disse o meu marido da outra ponta da sala, num tom de irritação contida, que eu nunca lhe ouvira. 
— Ah! Ele está enciumado, é a primeira vez que vejo isso — riu a prima. — Mas não é por causa do príncipe, Sierguiéi Mikháilovitch, que eu a estou convencendo, é por causa de nós todos. Como a condessa R. insistiu em que ela viesse! 
— Depende dela — disse meu marido com frieza e saiu. 

     Vi que estava mais perturbado que de costume; isto me atormentou e eu não disse nada à prima. Apenas ela partiu, fui ter com o meu marido. Ele estava caminhando pensativo de um canto a outro e não me viu nem ouviu entrar na sala nas pontas dos pés.

“Ele já está imaginando a nossa querida casa de Nikólskoie — pensei, olhando para ele —, o café matinal na clara sala de visitas, os campos, os mujiques, os serões na sala de repouso e as misteriosas ceias noturnas. Não! — decidi comigo mesma — Vou trocar todos os bailes do mundo e a lisonja de todos os príncipes pela sua alegre perturbação, pelos seus suaves carinhos.” Quis dizer-lhe que não iria à recepção, que não tinha vontade, quando, de repente, ele se voltou e, vendo-me, ficou sombrio e mudou a expressão humilde e pensativa do rosto. Seu olhar tornou a expressar penetração, sabedoria e uma serenidade protetora. Não queria que eu visse nele uma pessoa comum; precisava apresentar se sempre perante mim como um semideus sobre um pedestal.

— O que queres, minha amiga? — perguntou, voltando-se descuidada e tranquilamente para mim.

     Não respondi. Fiquei magoada porque ele escondia-se de mim, porque não queria permanecer do jeito como eu o amava.

— Queres ir sábado à recepção? — perguntou-me. 
— Eu queria — respondi —, mas isso não te agrada. E além disso, as malas já estão feitas — acrescentei.

     Nunca ele me olhara com tamanha frieza, nunca falara comigo tão friamente.

— Não vou partir antes de terça-feira, e mandarei desfazer as malas — disse ele —, por isso podes ir, se tens vontade. Vai, por favor. Eu não vou partir.

     Tal como sempre nas ocasiões de perturbação, pôs-se a caminhar nervoso pelo quarto, sem olhar para mim.

— Decididamente, não te compreendo — disse eu, parada no mesmo lugar e seguindo-o com os olhos —, dizes que estás sempre tão calmo (ele jamais o dissera). Por que falas comigo de modo tão estranho? Estou pronta a sacrificar por ti este prazer, e tu me exiges, com um tom irônico que nunca usaste comigo, que eu vá. 
— E então?! Tu fazes sacrifício (deu uma entonação peculiar a essa frase), e eu faço sacrifício também, o que pode haver de melhor? A luta da grandeza de alma. Para que então felicidade conjugal?

     Era a primeira vez que eu lhe ouvia palavras tão exasperadamente zombeteiras. A sua zombaria não me envergonhou, mas ofendeu-me, e a exasperação não me assustou, mas comunicou-se a mim. Era ele quem me dizia isso, ele que sempre temera uma frase que pudesse prejudicar as nossas relações, ele que era sempre simples e franco? E por quê? Exatamente porque eu quisera sacrificar-lhe um prazer, no qual não podia ver nada de ruim, e porque um instante antes disso eu o compreendia e amava tanto. Trocaram-se os nossos papéis: ele evitava as palavras simples e diretas, enquanto eu as procurava.

— Tu mudaste muito — disse eu, depois de um suspiro. — Em que sou culpada diante de ti? Não é essa recepção e sim algo mais velho e diferente que tens contra mim no coração. Para quê a insinceridade? Não eras tu quem a temia tanto em outros tempos? Deves dizer francamente: o que tens contra mim? — “O que terá para dizer?” — pensei, lembrando envaidecida que não tinha nada a me censurar em todo aquele inverno.

     Fui para o centro do quarto, de modo que ele precisava passar perto de mim, e fiquei olhando para ele. “Vai aproximar-se, abraçar-me, e tudo estará acabado” — acudiu-me à mente e tive até pena de que não fosse mais necessário demonstrar-lhe que não tinha razão. Mas ele parou na extremidade do quarto e me olhou.

— Continuas não compreendendo? — perguntou.
— Não. 
— Neste caso, vou dizer-te uma coisa. Tenho nojo, pela primeira vez tenho nojo do que sinto e não posso deixar de sentir. — Deteve-se, aparentemente assustado com o som rude da sua voz. 
— E então? — perguntei, com lágrimas de indignação. 
— Tenho nojo porque o príncipe achou-te bonitinha e porque, por causa disso, corres ao encontro dele, esquecendo o marido, a ti mesma, a dignidade de mulher, e não queres compreender o que deve sentir em teu lugar o teu marido, se em ti mesma não existe sentimento de dignidade; pelo contrário, vens dizer ao marido que fazes sacrifício, isto é, “apresentar-me perante Sua Alteza é uma grande felicidade para mim, mas eu a sacrifico”.

     Quanto mais ele falava, mais se inflamava com o som da própria voz, que soava com um tom áspero, grosseiro, mordaz. Eu nunca o vira nem esperara ver desse jeito; o sangue afluiu-me ao coração, eu tinha medo, mas ao mesmo tempo perturbava-me um sentimento de vergonha imerecida e de amor-próprio ofendido, e vinha-me uma vontade de vingar-me do meu marido.

— Eu já o esperava há muito — disse —, fala, fala. 
— Não sei o que esperavas — prosseguiu ele —, quanto a mim, podia esperar o pior, vendo-te diariamente nessa lama e ociosidade, em meio ao luxo da sociedade estúpida; e acabei por compreender... Compreendi o seguinte: hoje, senti vergonha e dor como nunca; dor por mim, quando a tua amiga penetrou-me no coração com as suas mãos sujas e pôs-se a falar de ciúme, do meu ciúme, e por quem? Por um homem que nem eu nem tu conhecemos. E tu, como se fosse de propósito, não queres compreender-me e queres sacrificar-me o quê?... Tenho vergonha por ti, pela tua humilhação!... Uma sacrificada! — repetiu ele.

“Ah! Então é este o poder do marido — pensei. — Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa. Nisso é que consistem os direitos do marido, mas eu não me submeterei a eles.”

— Não, eu não sacrifico nada a ti — disse eu, sentindo dilatarem-se desmesuradamente as narinas e o sangue abandonar-me o rosto. — Vou sábado à recepção, vou sem falta. 
— E que Deus te conceda grande prazer, mas tudo está acabado entre nós dois! — gritou ele, já num acesso de incontido furor. — Mas tu não vais me atormentar mais. Fui um tolo porque... — começou novamente, mas tremeram-lhe os lábios, e ele conteve-se, com evidente esforço, de concluir o que começara.

     Eu temia-o e odiava-o nesse instante. Queria dizer-lhe muita coisa e vingar-me de todas as ofensas; mas, se abrisse a boca, cairia em pranto e me diminuiria perante ele. Calada, saí do quarto. Mas apenas deixei de ouvir seus passos, fiquei horrorizada com o que fizéramos.
     Tive medo, porque parecia romper-se para sempre aquela ligação, que era toda a minha felicidade, e quis voltar. “Mas estará ele suficientemente tranquilizado, para compreender-me, quando eu lhe estender em silêncio a mão e olhar para ele? — pensei. — Compreenderá a minha generosidade? E o que acontecerá se ele chamar a minha aflição de fingimento? Ou certo de estar com a razão, com um orgulho tranquilo, aceitar o meu arrependimento e me perdoar? E por que, por que ele, que eu tanto amei, ofendeu-me tão cruelmente?...”
     Dirigi-me não para ele, mas para o meu quarto, onde fiquei muito tempo sentada sozinha, chorando, lembrando horrorizada cada palavra da conversa que tivéramos, substituindo esses termos por outros, acrescentando palavras de bondade, e lembrando novamente, com horror e um sentimento de ofensa, tudo o que sucedera. Quando, à noitinha, saí para o chá e, na presença de S., que nos visitava, encontrei-me com meu marido, senti que, a partir desse dia, um abismo tinha se cavado entre nós. S. perguntou-me quando viajaríamos. Não tive tempo de lhe responder.

— Terça-feira — respondeu meu marido —, nós ainda iremos à recepção da condessa R. Tu vais mesmo, não é verdade? — disse, dirigindo-se a mim.

     Assustei-me com o som dessa voz singela e olhei timidamente para meu marido. Os seus olhos estavam fixos diretamente em mim, o olhar era mau e zombeteiro, a voz fria e regular.

— Sim — respondi.

     Mais tarde, quando ficamos a sós, aproximou-se de mim e estendeu-me a mão.

— Esquece, por favor, tudo o que eu te disse.

     Tomei-lhe a mão, um sorriso trêmulo apareceu-me no rosto, e lágrimas estavam prontas a escorrer-me dos olhos, mas ele retirou a mão e, como que temendo uma cena sentimental, sentou-se na poltrona, bastante afastado de mim. “Será possível que ele continue a julgar-se com a razão?”, pensei, e a explicação, que já tinha pronta, bem como o pedido de não ir àquela recepção detiveram-se sobre a minha língua.

— Temos que escrever a mamãe que adiamos a partida — disse ele —, senão, ficará preocupada. 
— E quando pretendes partir? — perguntei. 
— Terça-feira, depois da recepção — respondeu. 
— Espero que não seja por minha causa — disse eu, fitando-o nos olhos, mas os dele estavam somente olhando e não me diziam nada, como que toldados com algo. De súbito, seu rosto pareceu-me velho e desagradável. 

     Fomos à recepção, e relações boas, amistosas, pareciam novamente estabelecidas entre nós; mas essas relações eram de todo diferentes das anteriores.
     Na recepção, eu estava entre umas senhoras, quando o príncipe acercou-se de mim, de modo que eu tive de me levantar, a fim de conversar com ele. Levantando-me, procurei involuntariamente meu marido com os olhos e vi que, no outro canto da sala, ele me olhava, e que, nesse momento, virava a cabeça. De repente, senti tanta vergonha e mágoa que me confundi morbidamente, e um rubor cobriu-me o rosto e o pescoço, sob o olhar do príncipe. Mas eu tive de ficar ali de pé e ouvir o que ele me dizia, examinando-me de cima. A nossa conversa foi breve, ele não tinha um lugar para se sentar junto a mim, e provavelmente percebeu que eu me sentia muito constrangida. A conversa versou sobre o baile anterior, sobre o lugar em que eu passava o verão etc. Ao afastar-se de mim, manifestou o desejo de conhecer meu marido, e eu os vi conversando na outra extremidade do salão. O príncipe, provavelmente, disse algo a meu respeito, pois, em meio à conversa, sorriu e olhou na minha direção.
     Meu marido de repente corou, fez uma saudação profunda e afastou-se do príncipe. Corei também, tive vergonha da ideia que o príncipe faria de mim e, sobretudo, de meu marido. Tive a impressão de que todos notaram o meu embaraço, quando eu falava com ele, bem como a estranha conduta de meu marido; Deus sabe como podiam explicá-la; não estariam mesmo a par da minha conversa com ele? A prima acompanhou-me até nossa casa, e, pelo caminho, conversamos sobre meu marido. Não me contive e contei-lhe tudo o que sucedera entre nós por causa dessa infeliz recepção. Ela procurou acalmar-me, dizendo que era uma desavença insignificante e muito comum, que não deixaria vestígios; explicou-me também, do seu ponto de vista, o caráter de meu marido, achou que ele se tornara muito arredio e orgulhoso; concordei com ela, e tive a impressão de que eu mesma passara a compreendê-lo melhor, com mais tranquilidade.
     Mas depois, a sós com ele, este juízo a seu respeito ficou como um crime sobre a minha consciência, e eu senti que o abismo entre nós tornara-se ainda maior.

Continua na página 90...
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Primeira Parte:
Segunda Parte: 
1- Os dias, as semanas, dois meses de solitária vida / 2 - A nossa viagem para Petersburgo /
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

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