A ORDEM
A Ordem a muitos
É preciso distinguir entre a ordem dada a um indivíduo e a
que é dada simultaneamente a muitos.
Já na origem biológica da ordem existe essa diferença.
Alguns animais vivem isolados e recebem a ameaça dos seus
inimigos de forma individual. Outros vivem em bandos e são
ameaçados coletivamente. No primeiro caso o animal foge ou
se esconde sozinho. No segundo caso foge o bando todo. Um
animal que normalmente vive em bandos, mas que por casualidade é surpreendido sozinho pelo inimigo, procura fugir
e reintegrar-se no bando. A fuga individual e a fuga em massa
são diferentes a partir da própria base. O medo em massa de
um bando que foge é o mais antigo e, seria possível dizer, o
mais familiar de todos os estados de massa que se conhecem. É muito provável que a partir desse medo de massa tenha se derivado o sacrifício. Um leão que está perseguindo um bando de gazelas, todas fugindo juntas com medo dele, cessa sua perseguição assim que consegue agarrar um dos animais. Este animal é sua oferenda no sentido mais amplo da palavra. Ele proporciona tranquilidade aos demais companheiros do bando. Assim que o leão obtém o que quer e os demais animais percebem que isso acontece, o medo diminui. Da fuga de massa, eles tornam a entrar no estado normal do bando: cada animal pasta livremente e faz o que deseja. Se as gazelas tivessem religião, se o leão fosse o deus delas, elas poderiam, para saciar sua avidez, entregar-lhe por iniciativa própria uma gazela. Exatamente isto é o que acontece entre os homens: a partir do estado de medo de massa, deriva-se entre eles o sacrifício religioso. Graças a ele detêm-se a perseguição e a fome do poder perigoso durante um certo tempo.
A massa, em estado de medo, quer permanecer junta. No auge do seu perigo ela se sente protegida apenas quando sente a proximidade dos outros. Ela é massa principalmente pela direção comum da fuga. Um animal que escapa e que se locomove numa direção própria está mais exposto do que os demais. Além disso ele sente o perigo com maior intensidade porque está só: seu medo é muito maior. A direção comum dos animais que fogem poderia ser chamada sua "convicção"; o que os mantém unidos os empurra para a frente com maior vigor. Eles não sentem pânico enquanto não estejam abandonados, enquanto cada animal ao lado faça a mesma coisa e esteja realizando exatamente os mesmos movimentos. Esta fuga em massa, pelo movimento paralelo das patas, dos pescoços e das cabeças, assemelha-se ao que, entre os seres humanos, eu chamaria de massa palpitante ou rítmica.
Entretanto, assim que os animais estão cercados, a imagem se modifica. Uma direção comum de fuga já não é mais
possível. A fuga em massa se transforma agora em pânico:
cada animal procura salvar-se a si próprio e atrapalha o outro.
O anel em torno deles se contrai sempre mais. No massacre
que agora tem início, um animal é inimigo do outro, uma vez
que todos se bloqueiam mutuamente o caminho da salvação.
Mas voltemos à ordem propriamente dita. A ordem dada
a indivíduos, dissemos, é diferente da ordem dada a muitos.
Antes de fundamentar esta frase, é recomendável falar a respeito de sua exceção mais importante.
Um acúmulo artificial de muitos é o que se dá no exército. Nele anulam-se as espécies diferentes de ordens; justamente isto constitui sua essência. Que a ordem se dirija a indivíduos, sejam poucos ou muitos, aqui não faz diferença. Um exército existe somente se a ordem é equivalente e constante. Ela vem de cima e permanece estritamente isolada. Desta forma o exército nunca pode ser uma massa.
Um acúmulo artificial de muitos é o que se dá no exército. Nele anulam-se as espécies diferentes de ordens; justamente isto constitui sua essência. Que a ordem se dirija a indivíduos, sejam poucos ou muitos, aqui não faz diferença. Um exército existe somente se a ordem é equivalente e constante. Ela vem de cima e permanece estritamente isolada. Desta forma o exército nunca pode ser uma massa.
Porque na massa a ordem se expande horizontalmente
entre seus membros. No começo é possível que ela alcance um
indivíduo isolado, vinda de cima. Porém, como existem outros
iguais a ele a seu redor, ela se transmite também a eles. No
seu medo, o indivíduo se aproxima mais dessas pessoas. Imediatamente os demais passam a ser contagiados. Primeiro
alguns se colocam em movimento; pouco depois outros seguem esse exemplo, e logo todos estão se movimentando. Pela
expansão instantânea da mesma ordem, essas pessoas se transformaram em massa. Agora todos fogem juntos.
Uma vez que a ordem é imediatamente difundida, ela não deixa aguilhão ou espinho. Não existe tempo para que isso
aconteça; o que se teria convertido num elemento permanente
é imediatamente dissolvido. A ordem dada à massa não deixa
aguilhão. A ameaça, que leva à fuga em massa, se dissolve
precisamente nessa fuga.
É a situação de ordem isolada exclusivamente que nos
leva à formação do aguilhão-ordem. A ameaça, que comporta
uma ordem dada a um ser singular, não pode dissolver-se completamente. Qualquer pessoa que tenha cumprido uma ordem
sozinha conserva sua resistência como aguilhão, como espinho
dentro de si, um duro cristal de rancor. Somente consegue desfazer-se dele, dando ela mesma uma ordem idêntica. Seu aguilhão nada mais é do que o retrato fiel e oculto da ordem que
recebeu e que não pôde transmitir no mesmo momento. Somente na forma desse retrato fiel é que a pessoa consegue
libertar-se do aguilhão.
Uma ordem dada a muitos tem portanto um caráter muito
peculiar. Sua meta é transformar uma maioria numa massa
e, à medida que consegue fazer isso, não dá origem ao
medo. A "palavra de ordem" de um orador que impõe uma
direção aos homens reunidos tem exatamente esta função, e
pode ser considerada como uma ordem dada a muitos. Do
ponto de vista da massa, que gostaria de se formar rapidamente e manter-se como unidade, essas palavras de ordem são
úteis e indispensáveis. A arte do orador consiste em conseguir
resumir e expressar vigorosamente tudo o que deseja em palavras de ordem que ajudam a constituição e a manutenção da
massa. Ele gera a massa e a mantém viva através de uma ordem
superior. Depois de ter conseguido isso, não tem muita importância o que ele realmente irá exigir dela. O orador pode insultar e ameaçar um aglomerado de indivíduos isolados da maneira mais terrível; mesmo assim eles o amarão, se dessa maneira ele conseguir formá-los como massa.
continua ...
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Leia também:
Massa e Poder - A Ordem: A Ordem a muitos
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?
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