Edu Lobo & Marilia Medalha
Primeiro lugar do III Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record em 1967, "Ponteio" é uma composição de Edu Lobo e José Carlos Capinan, e interpretada por Edu Lobo junto com Marilia Medalha, o grupo vocal Momento Quatro e o apoio instrumental do Quarteto Novo.
contos e poesia no butekudu baitasar. a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre! li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Os joelhos dobrados sobre a terra
Becos sem saída - O velho ressuscitado!
II
baitasar
Supimpa saiu do Quartel de Operações
e Controle Contra e Extermínio dos Subversivos disposto a procurar o destino da
mãe e do pai emprestado. Do bugre e da irmã sabia o paradeiro e o delegado não
iria além do já feito. O estrago foi grande, mas tinha conserto. Depois daquela
conversa com o delegado Calçacurta a vigilância nele foi relaxada. O garoto do
delegado saiu do prédio sem guarda-costas. Ele sabia onde ir para vasculhar.
Tocou a campainha — Você...
— Vamos
continuar onde paramos?
— Entra.
— a mulher desvestida deu um passo atrás e o rapaz entrou. Andava descolorida
de roupas, lhe dizia que adorava aquelas ausências do marido. A pele branca, as
formas sem exageros, os pelos do monte encapelados — Ia depilar as entranhas.
— Eu
continuo... posso? — não respondeu, caminhava à sua frente lentamente. Não
olhava, mas sentia o olhar do ajudante manco do marido cravado nas suas carnes.
Sentia-se desvestida. Deitou na cama e entregou o pincel do Calçacurta. O
aprendiz cobriu com espuma os pelos da sua gula. Movimentos de delicadeza deixavam
o pincel escorregadio e a molhavam com os sabores da baba espumante. Alongava
os pelos com o pente do torturador em uma das mãos e uma pequena tesoura
cortava-os próximos a carne. Ficavam arrepiados. Raspou a virilha direita,
depois esquerda, desviava a lâmina pelos desvios e atalhos, até ficar
satisfeito com o alinhamento perfeito de curvas — Acabou?
— Ainda
não... — encaixou a cabeça entre as pernas de Clara, lambendo-a com
vulgaridade, com força, como alguém que se apodera e não compartilha esperanças.
Abriu as calças para libertar o outro prisioneiro. Tornou a enfiar a cabeça entre
as pernas de Clara, até o fundo — Pergunta se quero ser a sua puta...
— Quer
ser a minha puta?
— Eu
quero ser a sua putinha, sem-vergonha! — a batida do martelo ficava forte e o
prego rasgava as carnes do fundo
— Come
a sua puta! Meu Deus, que delícia!
O transgressor acordou do silêncio. A
mulher estava morrida em sono. Dormia deitada de bruços ao seu lado. Ergueu-se
e ficou espigado com suavidade. Recolheu-se para dentro de suas roupas, sussurrando
alguma coisa sobre todos serem loucos. Desceu nas sombras até o buraco
enterrado no chão. O porão dos arquivamentos pessoais do Calçacurta, com seu cartório
de aço. É uma sala sem aberturas com dezenas de arquivos guardando suas
histórias de terror, isolada do restante do subterrâneo. A sala vive vazia de
curiosos. Não sabia por onde começar, muitos arquivos e muitas pastas. Mesmo
que os arquivos da mãe e da irmã estejam ativos, passando nas mãos dos
interrogadores, acreditava que poderia encontrar alguma coisa para barganhar.
Começou pela letra M, mas nada encontrou em Maria ou Memória ou Manualdo. Foi
até a letra C de Cariciosa. Nada. Diabo, não sabia o nome de casada da irmã. Lembrou
que a mãe nunca desfez o casamento com o pai. Silva. Esse era o nome para procurar,
chegou na gaveta onde se encontra a letra S e começou sua procura — Santana,
Soares, Souza, Santos, Saraiva, Silveira, Sobrinho, Silva... achei.
Pegou a primeira pasta e leu em voz
alta — Ana Rosa Silva... não conheço. — passou para a pasta seguinte e a voz
ficou presa, como se escapada da garganta pudesse mudar a história, acabar com
a saudade, explicar a dor, confundir a angústia e conversar com o seu pai,
dizer adeus — Virgílio Silva, não pode ser... deve ser outro.
Abriu a pasta e lá estava o fantasma
do seu pai. Passou a ler os autos de interrogatório e qualificação do processo
por razões políticas. Arrastado dos meios ferroviários por envolvimentos
sindicais. Leu alguns trechos do relatório — O tal Virgílio, mas também
conhecido por Valter, Vini, Valtão e Venâncio, caiu chegando no ponto.
— Quem
mais caiu? — perguntava a autoridade do quartel
— A
amante... uma tal de Ana Rosa.
— É
soldado?
— Pelo
jeito, só deita com o negão.
— Por
que trouxeram a carga?
— Usamos
a carne dela pra fazer a língua do negão amolecer.
Pula alguns trechos do relatório,
descrição de crucificação que bem conhece — O tal negão ferroviário apresenta
desfiguramento total da cara.
— Senhor
Delegado, acho que o negão já era!
— Respira
mal e cospe mais sangue do que o doutor pode aparar.
— Parece
que não tem mais osso completo. — leu mais algumas linhas de observação do jovem
agente Calçacurta, tenho afirmado que os nossos homens precisam de um curso com
os gringos sobre essas modernas técnicas de tortura. Se quisermos ter sucesso
nessa guerra, temos que deixar num segundo plano esse desperdício de
informações que cada morto, por excesso de zelo da nossa gente, deixa de
fornecer. Tenho visto que as torturas psicológicas intercaladas com choques
elétricos desmontam a maioria das resistências. Sugiro um grupo de estudos para
que métodos científicos sejam estudados e usados com urgência. Não podemos
desperdiçar informações nesta guerra surda de interrogatórios. Vale lembrar que
estamos intensificando nossas ações repressivas e um número crescente de
subversivos tende a procurar ações armadas. O menino de ouro do delegado Calçacurta
não conseguia desviar os olhos daquele dossiê com a sentença de morte para o
seu pai — Pessoal, precisamos evitar desperdício... foram com muita força.
— Calçacurta,
aqui na senzala não tem medida.
— E
a Anastácia?
— Vocês
sabem como fazer...
— É
só dizer!
— Tirem
a pele e acabem com a tristeza dos dois.
— Com
marcas de enforcamento...
— Os
detalhamentos... deixo na sua decisão.
No final, leu aos sussurros os autos
médicos e o veredicto — Não resistiu e se provocou o suicídio. — parou de ler,
os olhos e dedos estavam em outros papéis amarelados. Pegou um envelope
endereçado a ele pelo irmão. Uma carta que nunca chegou. Leu aos goles, comia
os artigos e adjetivos, somente interessavam os verbos e sujeitos — Meu Deus, o
meu pai, não!
Queria sair correndo dali, mas antes de
abrir aquelas portas procurava por outra informação — O corpo foi enterrado
junto com a sua companheira Ana Rosa Silva, no cemitério municipal: indigentes.
— foi um tempo romântico, ainda enterravam os mortos torturados.
Pegou a pasta daquela mulher de nome
Ana Rosa e a do pai. Fechou todos os demais arquivos. Escondeu a papelada entre
o seu corpo e a roupa de polícia. Aqueles panos de polícia que reverenciava e
sentia colado ao corpo o deixavam com o sangue e as carnes desmanchadas, agora as
outras vidas que se foram e jamais poderão recomeçar eram as suas. Estava nele
o sangue de sofrimento do pai. Esse era o plano do Calçacurta, nada tinha de
confuso, tudo feito para presentear o aprendiz com o cadáver do pai. Estava
tenso. Cada movimento o prendia na rede de mortes tecida pelo delegado. Não
havia escapatória. Até mesmo a cama do andar acima foi preparada por ele. Nada
é ao acaso.
Não tinha mais nada além da escuridão
e sabia que mereceu. Fez tudo que foi ordenado e deixou ele mesmo pra trás,
sabe que merece. O guri que ele foi estava asfixiado pelas próprias mãos. Foi
além do mandado e rasgou as carnes que lhe chegaram aos gritos, suplicando que
não. Saberão que poderia ter gritado que não.
Precisava sair daquelas paredes. Abriu
à porta da sala dos arquivamentos, ninguém espreitava. Sai e fecha a passagem.
Caminhava pelo corredor estreito e longo, que o separava da escadaria para o
térreo. Os seus passos precisavam ser enérgicos e rápidos. Subiu as escadas.
Precisava sair... essa era a única chance da sua mãe e da irmã. A arrogância da
impunidade do Calçacurta lhe deixava com vigilância frouxa, pareceu que o
delegado lhe sabia cada passo antes de ser dado. Um jogo de mostrar e esconder.
Nas ruas, Supimpa tinha muito que
fazer e conversar e procurar.
Foi para o cemitério municipal, um
campo de covas rasas, e procurou os registros do sepultamento de um par de
indigentes no início do ano de 1969. Lá estava. Anotou a localização e se
preparou para visita aos dois mortos, a visita foi durante aquela madrugada. Enquanto
os vivos dormiam e os mortos passeavam pelas alamedas de pedra, Supimpa voltou
com a pá de escavar e os pesadelos que fizeram dele o que se permitiu ser. Seu
pai morreu por nada e ele viveu por nada. O seu caminhar de alma manca assustou
a lua cheia que puxou algumas nuvens para escondê-la, o negrume ficou completo.
No lugar marcado com xis em seu mapa, começou escavação. As entranhas daquelas
terras mortas se abriram para mostrar suas raízes de gordura e de acabamento. Exibiram-se
sem pressa. O homem escavador se desesperava. No início de maneira tímida e
desconfiada, mas na medida em que o tempo se passou e o suor lhe escorreu, semeando
a sua expiação, ele se aproximava do fim. Sua tensão não o fez mais confiante e
decidido. Depois de minutos de procura, parou sua colher de espalhar a terra.
Ela tocou o madeiro do ataúde e o vozerio da canalha torturadora fez silêncio. Não
conseguiam assustar com suas ameaças aquele filho. A lua cheia fugiu. O soldado
da vidinha sacana via o seu passado penetrado na terra. Começou retirando o
resto daquele chão com as mãos. As madeiras cederiam ao menor esforço de
destruí-las. Com nenhum esforço retirou a tampa e viram os dois colocados um
sobre o outro. A cabeça nos pés de um e os pés na cabeça do outro. Afastou os
ossos do pé de uma ossada que estavam sobre a cabeça do defunto, e lá está o
seu pai, com os dois dentes de ouro na frente e acima.
Sentou em silêncio. Não se
moveu, apenas ficaria ali. Ouvindo os passos do pai, sentindo os seus abraços
de vigor e cansaço, dias e noites de saudade e perguntas sem respostas. Enumerava
pelas lágrimas da memória tudo que lhe foi roubado. Aprendeu o esquecimento
daquele homem durante aqueles anos. Ele sempre soube que tudo podia acontecer,
mas doeu não poder guardar na memória nenhum gesto de adeus. As lembranças não
permitiam que o vazio da saudade se tornasse um coveiro da vida. Sentia o
abandono da despedida.
Era o menino Supimpa chorando.
Fechou o ataúde e rezou com os seus
joelhos dobrados sobre a terra.
Agora seu pai estava sepultado.
Escreveu na cruz de ferro sem número
— Aqui dormem Virgílio Silva e Ana Rosa Silva, mortos pelos torturadores da
ditadura militar. — é uma pena que os deuses não leiam pelo prazer de ler, para
encontrar a tolerância em si mesma, para se deixarem amar pelos olhos, em voz
alta: e escaparem do silêncio dos ignorantes, como forma de amarem a si e ao
simples. São estúpidos demais.
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Leia também:
38 - Ordens são ordens
40 - O perneta regressou
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domingo, 2 de setembro de 2012
Ordens são ordens
Becos sem saída - O velho ressuscitado!
I
baitasar
Nenhum deus é ingênuo,
todos buscam honra e glória, não têm comiseração, a sua compaixão é egoísta e paciente com as medalhas por seu bom comportamento,
frequentemente corrompem os bons costumes, não enxergam bem, volta e meia
cometem erros. São funcionários burocráticos do privado e do público com a
ambição do poder, têm ouvidos por tudo e olhos nas costas. Desconfiam do amor e
das pessoas benfeitoras que parecem cansadas com as tradições e os fazem
correr riscos desnecessários. Os deuses não leem, nem sabem falar de livros. Não contravêm, querem ser marcados por suas opiniões convenientes e oportunas. Até parece que
têm opiniões próprias
— Usam
o quê? — nenhum deus é ingênuo, busca honra e glória para si, não quer piedade
nem condolência. Mas é a impaciência humana que faz enjaular, separar, tomar
pela doma a alma - se a alma existe - a dignidade, se a dignidade existe. Eles
oferecem medalhas pelo bom comportamento. A jaula foi invenção máxima dos
deuses do dinheiro, o dinheiro é real, não tem medo de si mesmo, sente orgulho:
ninguém sobrevive ao dinheiro. Ele é divino.
O domador de animais, o dono do
dinheiro, é a poeira invisível que corrompe os costumes. O bugre pede pela
preta, ela pede pelo bugre. Mas não convencem as tradições, nem acalmam as
atitudes que sempre foram assim com seus ruídos e movimentos de ignorância. O enjaulador
só existe na batalha do inferno, precisa do inferno: a aridez dos costumes não o
consome. E pede que o povo acorde — Acordem! — esqueceu que já matou todos.
Esse enjaulador mancava
e não enxergava tão bem, mas mantinha um sorriso afável de serviçal e manhoso,
sem traços de descaramento. O manco domador se tornou um funcionário regulado
pela burocracia com a ambição do poder. Nunca foi o burocrata miserável, aquele
que tem ouvidos por tudo e zela pelos corpos que as intrigas sabem resfriar,
mantém o pé no pescoço das suas vítimas e aliados. E jamais se viu nele algum esforço
para parecer um mancador normal. Seu maior empenho pessoal foi decidir sentar -
nas escondidas - para mijar: acabou com a luta sobre o assento molhado a esmo.
Acabaram-se as discussões filosóficas com as mães, esposas e amantes. Desde
então, um momento de segredo às portas fechadas, segurança nacional, o homem desacostumava
seus homens de fazer o serviço em pé. Obrigou os subordinados a seguirem sua
doutrina. Jamais em pé: nem segurando com as mãos. Sempre sentado. Homem que é
homem não fica em pé, mas agachado. As tropas assim eram menos do circo e seu
povo, e mais do manco domador e às suas vontades — Esse é meu circo de
mata-cachorros. — ele não usava o vaso
de assento, usava o lavatório em pé, as escondidas. Seus deuses malditos eram todos
homens fortes, bonitos, mulheres corpulentas, preparadas para o nascimento de homens
corpulentos e mulheres aparelhadas, aprontados no tempo para a imposição das urgências.
Recriar deuses no poder: em seu círculo
íntimo de poder, repetia a exaustão
— Homens não amavam os
homens, mulheres não amavam as mulheres, homens não amavam as mulheres, a
tarefa de amar aos homens era das mulheres. — não têm vida própria, é recriado
por medos. E as pessoas benfeitoras parecem cansadas de saber das atrocidades e
maldades. Ignoram distraídas com as próprias desventuras. Acho que engordaram
demais. Escondidas. O silêncio dos ignorantes com dinheiro
prefere amansar a pimenta com açucaradas colheres de sopa. Os deixemos assim,
por enquanto, entretidos com o relaxamento da doçaria.
Imagino as almas marcadas pelos
signos da escrita, autografando e causando pensamentos, arrasando e dinamitando,
opondo-se com ideias, opiniões próprias, num debate de intenções e imagens, sonhos
bons e ruins, ilusões e desilusões. Tudo nem é tão bom, nem o nada é tão ruim. O
nada é uma atividade que tem muito ou tudo a ver com a subjetividade do leitor,
não só com o que o leitor sabe, senão também, com o que ele é existindo,
enquanto uma experiência, formação. O leitor é a leitura como algo que nos
forma ou deforma, que nos constitui e nos desafia naquilo que somos, ou que
pensamos ser... desejamos. O nada e a leitura, portanto, não é só um
passatempo, um mecanismo para fugir do mundo real e chegar ao porto do mundo
não real, não se reduz a um meio para adquirir conhecimentos, mas é algo que
nos faz ver o que somos. Seria uma relação entre alguém que lê e seu outro, o
texto, a pessoa, a situação, o objeto, ou seja, a relação com o texto. Esta
relação tem uma condição essencial, que não seja de apropriação senão de
escuta. Na escuta se está disposto a ouvir o que não se sabe, o que não se
quer, o que não se necessita, a perder o pé, a deixar-se arrastar por aquilo
que vem ao nosso encontro, quando escuto me aproximo de mim mesmo, no exato
instante que me deixo avizinhar do outro no seu texto, na sua fala e nas suas
intenções.
As leitoras das prateleiras. Vou para
os rejeitados. Sou como mercadoria. Negam minha pretensão de passar às mãos
restituídas de outra consciência, elas nem me pedem licença, vivem uma aflição
excessiva. Chegaram com o propósito de retirar os descartáveis, fazer um
inventário de salvação, manter os maus longe de si e dos demais. E assim,
começa o bem me quer mal me quer. Não somos nada além de livros recostados uns
aos outros. A prontidão não é apenas um sinal de alerta dos soldados, mas o
nosso jeito de repetir que isso, nunca mais, nunca mais. Penso em empreender
alguma das fugas narradas em
mim. Estou emburrado. Na verdade, não estou pronto, mas espicho
o olhar até a jaula mais próxima. O meu conteúdo de denúncias sem figuras e
cores não atraem. Estou envelhecido. Retorno à minha urgência. Acabou o exame da
minha substância, e não se comece a dizer que por presunção ou por desvio me
volto sobre mim mesmo. Decretam o final do meu ciclo de vida. Uma senhora me
detém em suas mãos e me lê em voz alta
─ Brasil
Nunca Mais. — ensaia me abrir para ler, mas fica apenas a volver em meias
voltas minhas folhas, desinteressada, quase escorrego e me vou ao chão — Isso
já acabou, quem não morreu já foi anistiado. — sou jogado na pilha dos
descartes, abandonado como tantos outros infames em cova rasa: descartados do acervo.
Minhas páginas se alvoroçam. O denunciado em mim está tão perto e as senhoras
me julgam desusado. A vida não se faz obsoleta. As histórias das fugas se tornaram
antiquadas. Não entendo esse desejo por uma amnésia coletiva. O espanto e a dor
vivida são transformados em doença da memória. Mas a agonia ainda existe, e
deveria envolver todos. Volto à história daqueles dias de chumbo
─ Atenção,
soldados! Sentido!
As suas vozes pequenas ainda doem e
podem ser ouvidas — Mamãe! Papai! Vovó! Por favor, não batam na mamãe!
— Larguem
o papai! — depois o choro, o silêncio e abandono, foram deixadas para trás. O tempo
não tem como ser medido, nunca tiveram a certeza que os homens maus não voltariam.
Os gêmeos saíram do galinheiro e recolheram as três crianças. Todos choravam abraçados
na sala televisiva. No escuro. Dormiram agarrados uns ao outros. Era a
esperança que aqueles homens os trariam de volta. Nunca voltaram.
No meio da noite foram acordados
pelos passos do medo. Era alguém camuflado, quase em silêncio, respirava
excitado, acelerado como um bêbado — O que vocês fazem aqui?
— Uns
homens maus levaram eles. — É verdade, Supimpa.
— Calma,
crianças... um por vez.
— Deixa
que eu conto...
— Ta
bem, ta bem, me conta — o detalhamento das crianças fez doer a traição. Sabia
que precisava agir rápido. O tempo fazia com que tudo ficasse cada vez mais
longe de solução. Vaporoso. Mas primeiro levar as crianças para lugar seguro. O
apito do guarda da noite o fez agir às pressas. Primeiro colocar as crianças em
segurança da polícia. As tratativas e preparativos foram rápidos. Quando
amanheceu saiu atrás do delegado Calçacurta. Foi até sua casa. Clara o recebe
em roupas de dormir que se deixa atravessar pela luz. Tem um acanhado sorriso
nos lábios. Ajeita os cabelos de maneira descuidada, mas sem aborrecimento. Repete
que o marido fazia bons dias não lhe aparecia, no fim, concede um levantar
conformado de ombros
— Não
vai entrar?
— Hoje,
não vai dar.
— Que
pena, nós poderíamos recomeçar onde paramos.
— Tenho
urgências de falar com o teu marido. — a mulher recomenda que ao avistar o
sumido lhe pedisse notícias. Não tinha muitas ideias para encontrar o seu
mentor. Decidiu por ir até a Adega. No caminho se perguntava o que haveria de
ter acontecido. As coisas estavam de pernas para o ar. Nada faziam sentido.
Aquela manhã não parecia existir. Tudo era um pesadelo, ele estava sendo
torturado. Não saber, não entender.
Quando chegou aos portões da Adega foi
impedido de entrar pelas sombras. Ali era o fim da linha que engolia em fornos,
fuzilaria ou nas águas dos sete mares. Campo de concentração e extermínio:
organizados na clandestinidade, onde a morte é a única possibilidade — O que
está acontecendo?
— Não
sei, apenas ordens: ordens são ordens.
— Porra
meu, eu preciso entrar!
— Não
vai dar. — o aprendiz de policial Supimpa tenta na medida da sua força entrar.
É atravessado por empurrões, dominado e levado ao porão. Entrou. Pronto, tinha
rompido com o mundo exterior, se tornou mais um desaparecido. Podia sentir a
presença da morte. Viu sua gente amassada pela humilhação e seduzida pelo medo.
Ali as palavras eram rasgadas da carne. Testemunhou Manualdo assinar papéis que
nem mesmo lhe deixaram ler. Mas ele sabia que eram coisas terríveis com respeito
ao torturado, a torturada, pessoas que deixaram de serem pessoas: apontavam a
formação de grupos e de atividades clandestinas. A irmã assinou papéis, contrato
de trabalho em que se comprometia a colaborar com os órgãos de segurança em
troca de sua liberdade e de dinheiro. Em um destes papéis - lido em sua
presença depois de assinado - ela declarava que seu irmão Lamparina era ligado
a grupos revolucionários. Ela estava reduzida a uma isca. Obedecia como uma
máquina, sem raciocínio e sem vontade própria. Filmaram a mocinha de calcinha e
sutiã para mostrar que as marcas em seu corpo eram conseqüências de um possível
atropelamento. Tudo tão infantil, tão amador... e a amnésia coletiva acredita —
Por que estão fazendo isso com a minha gente?
— Caíram
porque são subversivos.
— Isso
é alguma piada?
— Coisa
séria.
— Da
onde tiraram isso?
— Investigação.
— Minha
mãe odeia os comunistas!
— Tudo
disfarce. — foi levado para a sala do delegado Calçacurta. Estava escoltado por
três homens que não lhe dirigiam palavras nem olhares, enquanto subiam as escadas
até o consultório no primeiro andar. Encontrou o mentor sentado, atrás de sua
mesa nua de papéis, lhe ocorreu que aquele Calçacurta não sabia ler, mas não,
conheceu homens e mulheres analfabetos vestidos de uma imensa humanidade, esse
se despiu de qualquer lembrança de humanidade — Delegado, o que está
acontecendo?
— Isso
rapaz, não está no meu costume. — o aprendiz percebeu que o mestre estava lavando
as mãos. Descobria que estava sozinho, naquela simulação
— Começou
com esse tal de Manualdo.
— O
que ele fez?
— Se
meteu com gente da pesada.
— O
quê?
— Receptou
objeto que estamos monitorando. E tem mais, ele confessou que começou aquela
coisa de esburacar a praça. — começava a sentir o medo do jogo que lhe escapava
das mãos
— E
daí?
— E
daí, nada. Depois da coisa se movimentar e abrir as portas do inferno, você
sabe como funciona... não tem volta.
— E
a Maria Memória e o Ogum? — o delegado faz gesto de impaciência
— Esses
a gente não tem aqui.
— Ei,
ei, sem enrolação. E a minha mãe e o meu pai?
— Opa,
opa... o seu pai é outro.
— É,
mas foi esse cara o meu pai quando o Virgílio se mandou.
— De
qualquer jeito, eles não estão com a gente.
— História
mal contada. — tem uma coisa que o Supimpa aprendeu além de socar, o delegado Calçacurta
mente, mas não vai admitir. Muda o rumo da conversa
— E
a minha irmã e o Manualdo?
— O
que têm eles?
— Quando
vão sair?
— Esses
a gente precisa que eles assinem alguns papéis.
— O
que eles precisam assinar?
— Nada
demais, você sabe como é... vai depender deles.
— Deixa
comigo, eu os convenço a assinar.
— Não
dá, hoje faço acompanhamento da falação de outros presos. — ele sabe que os
papéis já foram assinados, agora precisam de tempo para que as feridas
cicatrizem. A conversa estava encerrada.
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39 - Os joelhos dobrados sobre a terra
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