quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 4 (III. O encontro com os colegiais)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


SEGUNDA PARTE
LIVRO IV
OS TUMULTOS
III
O ENCONTRO COM OS COLEGIAIS
 
 "Felizmente meu pai não me fez perguntas a respeito de Grúchenhka", dizia a si mesmo Aliócha, dirigindo-se para a casa da Senhora Khokhlakova. "Teria sido preciso contar-lhe o encontro de ontem com ela. "Pensava com pesar que, durante a noite, os adversários haviam retomado forças, que seus corações estavam de novo endurecidos. "Meu pai está irritado e cheio de maldade, continua ancorado em sua ideia. Dimítri também se reafirmou e deve ter um plano... É absolutamente preciso que o encontre hoje... "

     Mas as reflexões de Aliócha foram interrompidas por um incidente que o impressionou, malgrado sua pouca importância.
     Ao aproximar-se da Rua de São Miguel, paralela à Rua Grande, da qual só estava separada por um riacho (nossa cidade é cortada por ele), avistou lá embaixo, diante do passadiço, um pequeno grupo de colegiais, meninos de nove a doze anos no máximo. Voltavam para suas casas após as aulas, carregando suas sacolas a tiracolo ou amarradas nas costas por meio de correias; uns tinham apenas uma jaqueta, outros, sobretudos; alguns calçavam botas dessas pregueadas, com as quais gostam de exibir-se os meninos mimados por pais abastados. O grupo discutia com animação, parecia manter conselho.
     Aliócha interessava-se sempre pelas crianças que encontrava (era o caso em Moscou) e, muito embora preferisse os bebês de três anos, os escolares de dez e de onze lhe agradavam muito. Assim, malgrado sua preocupação, quis abordá-los, entrar em conversa com eles. Ao aproximar-se, observava-lhes os rostos vermelhos e notou que todos os meninos tinham uma pedra na mão e até mesmo duas. Do outro lado do riacho, a cerca de trinta passos, mantinha-se, encostado a uma paliçada, um escolar, com sua sacola sobre o quadril, parecendo ter no máximo uns dez anos, pálido, de ar doentio, com olhos negros que cintilavam. Esquadrinhava com o olhar os seis colegiais, seus camaradas, com os quais parecia estar brigado.
     Aliócha avançou e, dirigindo-se a um menino de cabelos cacheados, louro, corado, de jaqueta preta, observou, olhando-o:

— Quando eu tinha tua idade, carregava-se a sacola do lado esquerdo, a fim de alcançá-la com a mão direita; mas a tua está do lado direito, não deve ser cômodo. 

     Sem nenhuma premeditação, começara Aliócha com essa observação prática; um adulto não pode proceder de outra forma, se quer ganhar a confiança de uma criança e sobretudo dum grupo de crianças. Era preciso começar seriamente, praticamente, para ficar em pé de igualdade. Instintivamente, dava-se Aliócha conta disso.

— Ele é canhoto — respondeu logo outro menino de onze anos, de ar resoluto. 

     Os cinco outros fitavam Aliócha.

— Ele atira pedras com a mão esquerda — notou um terceiro. 

     No mesmo instante, foi lançada uma pedra contra o grupo, roçando pelo canhoto, mas foi perder-se adiante, embora atirada com habilidade e vigor. Fora lançada pelo menino colocado do outro lado do riacho.

— Duro com ele, acerta bem, Smúrov! — gritaram todos.

     O canhoto não se fez de rogado e retribuiu imediatamente; não teve êxito e sua pedra bateu no chão. O adversário ripostou com um seixo que atingiu Aliócha bastante rudemente no ombro. Via-se a trinta passos que aquele garoto tinha os bolsos de seu sobretudo cheios de pedras.

— Foi no senhor, no senhor; fez pontaria de propósito no senhor. Porque o senhor é um Karamázov — exclamaram os meninos, desatando a rir.
— Vamos, todos ao mesmo tempo contra ele, fogo! — Seis pedras voaram juntas. Atingindo na cabeça, o garoto caiu, mas para se levantar logo e responder com encarniçamento. Dos dois lados houve um bombardeio ininterrupto; muitos, no grupo, tinham também seus bolsos cheios de projéteis.  
— Mas como é isso? Não têm vergonha, meus amigos? Seis contra um! Vão matá-lo! — exclamou Aliócha.

     Correu para a frente, a fim de se expor aos projéteis, protegendo assim o garoto do outro lado do riacho. Três ou quatro pararam por um minuto. 

— Foi ele quem começou! — gritou com voz irritada um menino de blusa vermelha; é um bandido; ainda há pouco feriu na aula Krasótkin com seu canivete, correu sangue, Krasótkin não quis fazer queixa; é preciso dar uma surra nele... 
— Mas por quê? Precisam mesmo persegui-lo? 
— Ele atirou outra pedra nas costas do senhor. Ele o conhece — gritaram os meninos. — É contra o senhor que está fazendo pontaria agora. Vamos, todos de novo contra ele, não deixe de acertar, Smúrov!...  

     O bombardeio recomeçou, desta vez implacável. O garoto, sozinho, recebeu uma pedrada no peito; lançou um grito, pôs-se a chorar, fugiu pela subida para a Rua de São Miguel. No grupo vociferava-se: "Ah! ele teve medo, fugiu, aquele 'esfregão de tília'!" — O senhor ainda não sabe, Karamázov, como ele é ruim; seria pouco matá-lo — repetiu o menino de jaqueta, de olhos ardentes, e que parecia ser o mais velho.

— É um linguarudo? — perguntou Aliócha. 

     Os meninos trocaram olhares com ar zombeteiro. 

— O senhor vai pela Rua de São Miguel? — continuou o mesmo. — Então, alcance-o... Veja, parou de novo; espera e olha para o senhor. 
— Olha para o senhor, olha para o senhor! — repetiram os meninos.
— Pergunte-lhe então se ele gosta de um esfregão de tília desmanchado. Entendeu? Pergunte assim. 

     Houve então uma explosão geral de gargalhadas. Aliócha e os meninos cruzavam olhares.

— Não vá lá, ele o ferirá — gritou, solícito, Smúrov. 
— Meus amigos, não farei a ele a pergunta a respeito do esfregão de tília, porque é com isso que vocês o maltratam, mas me informarei com ele do motivo pelo qual vocês o odeiam tanto... 
— Informe se, informe-se — gritaram os meninos, rindo-se.

     Aliócha transpôs o passadiço e subiu a ladeira ao longo da paliçada, diretamente para o lado de seu agressor.

— Atenção — gritaram-lhe —, ele não tem medo do senhor e vai atingi-lo à traição, como fez com Krasótkin.

     O menino esperava-o imóvel. Chegando bem perto, encontrou-se Aliócha diante de um menino de nove anos, fraco, raquítico, de rosto oval, pálido, magro, com grandes olhos escuros que o olhavam cheios de ódio. Vestia um velho sobretudo bastante gasto e muito curto. Seus braços nus saíam de suas mangas. Havia um grande remendo no joelho direito de sua calça e, dissimulado com tinta, um buraco no seu sapato do pé direito, no lugar do dedo grande. Os bolsos do sobretudo estavam cheios de pedras. Aliócha parou a dois passos, olhando com ar interrogador. O garoto, adivinhando pelos olhos de Aliócha que não tinha este intenção de bater- lhe, retomou coragem e falou em primeiro lugar: 

— Eu estava sozinho contra seis... Hei de matá-los todos — disse ele, com olhar faiscante. 
— Uma pedrada deve ter-lhe feito bastante mal — observou Aliócha.  
— Mas eu acertei bem na cabeça de Smúrov! — replicou ele. 
— Disseram-me que você me conhecia e atirou-me a pedra de propósito — disse Aliócha. 

     O menino olhava-o com um olhar sombrio.

— Não o conheço. Você me conhece? — continuou Aliócha.
— Deixe-me tranquilo! — gritou, de súbito, o menino com voz irritada, mas sem sair de seu lugar, como na expectativa de alguma coisa, o olhar hostil. 
— Está bem, vou-me embora — disse Aliócha —, mas não o conheço e não quero importuná-lo. No entanto, seus colegas me disseram como deveria eu fazer. Adeus. 
— Seu fradeco! — gritou o garoto, acompanhando Aliocha com o mesmo olhar cheio de ódio e provocante; pôs-se na defensiva, acreditando que Aliocha iria lançar-se contra ele, mas aquele voltou-se, olhou-o e seguiu seu caminho. Não havia dado uns três passos quando recebeu nas costas o mais grosso dos seixos que enchiam o bolso do sobretudo. 
— Como? Por trás? É então verdade o que eles dizem, que você ataca como traidor? 

     Aliocha voltou-se; visado no rosto, teve tempo de prevenir-se e novo projétil atingiu-o no cotovelo. 

— Não tem vergonha? Que lhe fiz eu? — exclamou ele.

     O garoto esperava, silencioso e agressivo, persuadido de que, daquela vez, Aliocha lhe cairia em cima; vendo que sua vítima não se movia, ficou furioso como uma pequena fera e avançou. Antes que Aliocha tivesse podido fazer um movimento, o diabrete agarrou-lhe a mão esquerda e mordeu-lhe cruelmente um dedo. Aliocha lançou um grito de dor, esforçando-se por livrar-se. O garoto largou-o por fim, recuando para a distância anterior. A mordidela, perto da unha, era profunda, o sangue corria. Aliocha tirou seu lenço, enrolando com ele apertadamente sua mão ferida. Isto levou cerca de um minuto. Entretanto o menino esperava. Aliocha baixou sobre ele um olhar calmo. 

— Está bem — disse ele —, veja como me mordeu profundamente. Isto basta, creio. Agora, diga-me, que lhe fiz eu? 

     O menino fitou-o, surpreso.

— Não o conheço absolutamente e vejo-o pela primeira vez — prosseguiu Aliocha, com a mesma calma —, mas devo ter-lhe feito alguma coisa, do contrário não me teria você agredido por coisa nenhuma. Vamos, diga me, que lhe fiz eu e que culpa cometi para com você?

     Como resposta, o menino pôs-se a soluçar e fugiu. Aliocha seguiu-o lentamente pela Rua de São Miguel e avistou-o ainda por muito tempo, correndo e chorando, sem se voltar. Prometeu a si mesmo, desde que tivesse tempo, tornar a encontrá-lo, para esclarecer aquele enigma.
 continua na página 254...
_____________________
Leia também:
Livro 1
Livro 2
Livro 3 
Livro 4 
I. O Padre Fierapont / II. Alócha em casa de seu pai / III. O encontro com os colegiais /                                                 
___________________
Leia também: 
___________________ 
___________________
_______________

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário